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Psicopatologia Geral II

Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2. Ed. – Porto


Alegre: Artmed, 2008. 440p.

Aula 1 - Semiologia, Psicopatologia e Normalidade

A psicopatologia geral continua a se desenvolver como ciência e instrumento


privilegiado da clínica. Que ela permaneça e progrida como a principal disciplina de
fundamentação da psiquiatria e da psicologia clínica.

A semiologia é a base, o pilar fundamental da atividade médica. Saber observar


com cuidado, olhar e enxergar, ouvir e interpretar o que se diz, saber pensar,
desenvolver um raciocínio clínico crítico e acurado são as capacidades essenciais do
profissional de saúde.

Faz-se necessário, atualmente, concentrarmo-nos em ensinar mais o “como” do


que o conteúdo em si, mais os métodos de aquisição de conhecimento do que as novas
informações.

Poetas e romancistas são nossos preciosos aliados, e seu testemunho deve ser
altamente estimado, pois eles conhecem muitas coisas entre o céu e a terra
com que nossa sabedoria escolar não poderia ainda sonhar. Nossos mestres
conhecem a psique porque se abeberaram em fontes que nós, homens
comuns, ainda não tomamos acessíveis à ciência.
Freud (O delírio e os sonhos na Gradiva de Jensen, 1906).

O cientista organiza melhor, cria sistemas, hierarquias, enfim, “arma” uma


lógica para a natureza. Mas é do grande artista o privilégio da percepção mais fina, mais
profunda e contundente, daquilo que se passa no interior do homem, suas misérias e
grandezas.

Introdução Geral à semiologia

A semiologia é a ciências dos signos. É campo de grande importância para o


estudo da linguagem (semiologia linguística), da música (semiologia musical), das artes
em geral e de todos os campos de conhecimento e atividades humanas que incluam a
interação e a comunicação entre dois interlocutores por meio de um sistema de signos.
Entende-se por semiologia médica o estudo dos sintomas e dos sinais das
doenças, estudo que permite ao profissional de saúde identificar alterações físicas e
mentais, ordenar os fenômenos observados, formular diagnósticos e empreender
terapêuticas.

Semiologia psicopatológica é, por sua vez, o estudo dos sinais e sintomas dos
transtornos mentais.

O signo é o elemento nuclear da semiologia, é um tipo de sinal. Ex.: Fumaça é


um sinal de fogo. O signo é um sinal que sempre é provido de significação. Ex.: febre
pode ser signo de uma infecção.

Os signos de maior importância para a psicopatologia são os sinais


comportamentais objetivos, verificáveis pela observação direta do paciente, e os
sintomas, isto é, as vivências subjetivas relatadas pelos pacientes, suas queixas e
narrativas, aquilo que o sujeito experimenta e, de alguma forma, comunica a alguém.

Na prática clínica, os sinais e sintomas não ocorrem de forma aleatória; surgem


de certas associações mais ou menos frequentes. Definem-se, portanto, as síndromes
como agrupamentos relativamente constantes e estáveis de determinados sinais e
sintomas. Entretanto, ao se delimitar uma síndrome (como síndrome depressiva,
demencial, paranoide, etc.), não se trata ainda da definição e da identificação de causas
específicas e de uma natureza essencial do processo patológico. A síndrome é
puramente uma definição descritiva de um conjunto momentâneo e recorrente de sinais
e sintomas.

Definição de psicopatologia e ordenação de seus fenômenos

A psicopatologia pode ser definida como o conjunto de conhecimentos


referentes ao adoecimento mental do ser humano. É um conhecimento que se esforça
por ser sistemático, elucidativo e desmistificante.

O psicopatólogo não julga moralmente o seu objeto, busca apenas observar,


identificar e compreender os diversos elementos da doença mental. Como conhecimento
que visa ser científico, não inclui critérios de valor, nem aceita dogmas ou verdades a
priori.
Karl Jaspers (1883-1969), um dos principais autores da psicopatologia afirma:
“embora o objeto de estudo seja o homem na sua totalidade, os limites da ciência
psicopatológica consistem precisamente em que nunca se pode reduzir por completo o
ser humano a conceitos psicopatológicos”. Dito de outra forma, não se pode
compreender ou explicar tudo o que existe em um homem por meio de conceitos
psicopatológicos. Assim, diagnosticar Van Gogh como esquizofrênico (epilético,
maníaco-depressivo ou qualquer que seja o diagnóstico formulado), ao se fazer uma
análise psicopatológica de seu biografia, isso nunca explicará totalmente sua vida e sua
obra. Sempre resta algo que transcende à psicopatologia e mesmo à ciência,
permanecendo no domínio do mistério.

Classicamente, distinguem-se três tipos de fenômenos humanos para a


psicopatologia:

1) Fenômenos semelhantes observáveis em todas as pessoas (fome, sede


ou sono).

2) Fenômenos em parte semelhantes e em partes diferentes. São


fenômenos que o homem comum experimenta, mas apenas em parte são
semelhantes aos que o doente mental vivencia (tristeza, depressão grave).

3) Fenômenos qualitativamente novos, diferentes. São praticamente


próprios apenas a certas doenças e estados mentais (alucinações, delírios,
demências).

O conceito de normalidade em psicopatologia

O conceito de saúde e de normalidade em psicopatologia é questão de grande


controvérsia, a não ser em casos de alterações comportamentais e mentais de
intensidade acentuada e de longa duração. Os casos considerados limítrofes, nos quais a
delimitação entre comportamentos e formas de sentir normais e patológicas é bastante
difícil, trazem relevância à necessidade de delimitação do conceito de normalidade.

Há vários critérios de normalidade e anormalidade em medicina e


psicopatologia. A adoção de um ou de outro depende, entre outras coisas, de opções
filosóficas, ideológicas e pragmáticas do profissional. Os principais critérios de
normalidade utilizados em psicopatologia são:
1) Normalidade como ausência de doença. O primeiro critério que
geralmente se utiliza é o de saúde como ausência de sintomas, de sinais
ou de doenças.

2) Normalidade ideal. A normalidade aqui é tomada como uma certa


“utopia”. Depende, portanto, de critérios socioculturais e ideológicos
arbitrários, e, às vezes, dogmáticos e doutrinários.

3) Normalidade estatística. O normal passa a ser aquilo que se observa


com mais frequência. Os indivíduos que se situam estatisticamente fora
(ou no extremo) de uma curva de distribuição normal passam, por
exemplo, a ser considerados anormais ou doentes.

4) Normalidade como bem estar. A Organização Mundial de Saúde


definiu, em 1946, a saúde como completo bem estar físico, mental e
social, e não simplesmente como ausência de doença. Desta forma,
poucos se encaixariam na categoria “saudáveis”.

5) Normalidade funcional. O fenômeno é considerado patológico a partir


do momento em que é disfuncional, produz sofrimento para o próprio
indivíduo ou para o seu grupo social.

6) Normalidade como processo. Neste caso, consideram-se os aspectos


dinâmicos do desenvolvimento psicossocial, das estruturações e das
reestruturações ao longo do tempo, de crises, de mudanças próprias a
certos períodos etários (particularmente se aplica na psiquiatria infantil,
de adolescentes e geriátrica).

7) Normalidade subjetiva. A ênfase está na percepção subjetiva do


próprio indivíduo em relação ao seu estado de saúde. O ponto falho é que
sujeitos que se sentem “felizes e saudáveis” podem estar em fase
maníaca, apresentando algo de um transtorno mental grave.

8) Normalidade como liberdade. A doença mental neste caso é enxergada


como perda da liberdade existencial. Nesse caso, a saúde mental se
vincularia às possibilidades de transitar com graus distintos de liberdade
sobre o mundo e sobre o próprio destino.
Portanto, de modo geral, pode-se concluir que os critérios de normalidade e de
doença em psicopatologia variam consideravelmente em função dos fenômenos
específicos com os quais se trabalha e, também, de acordo com as opções filosóficas do
profissional. Além disso, em alguns casos, pode-se utilizar a associação de vários
critérios de normalidade ou doença, de acordo com o objetivo que se tem em mente. De
toda forma, essa é uma área da psicopatologia que exige postura permanentemente
crítica e reflexiva dos profissionais.