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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
LINHA DE PESQUISA: ESTUDOS CULTURAIS DA EDUCAÇÃO

DISCIPLINA: Tópicos em Estudos Culturais da Educação: Estudos de Gênero e Feminismos: Contribuições para a Educação
CÓDIGO: 1303056 - CRÉDITOS: 4 - DIA/HORÁRIO: QUINTA-FEIRA, 18h às 22h
DOCENTES: Profa. Dra. Maria Eulina P. se Carvalho – mepcarv@gmail.com
Profa. Dra. Jeane Felix – jeanefelix@gmail.com

FEMINISMO: movimento social, teórico e político, que busca a igualdade – legal, social, cultural – entre mulheres e homens.

DESIGUALDADES DE GÊNERO:
• um relatório da ONU, de 1980, dizia que as mulheres executavam 2/3 do trabalho, recebiam 10% da renda e detinham 1% da
propriedade em todo o mundo;
• mulheres ganham menos pelo mesmo trabalho e não ascendem a cargos superiores;
• mulheres fazem mais trabalho doméstico e de cuidado infantil, mesmo quando trabalham fora de casa;
• mulheres profissionais obtêm menos reconhecimento e menos progresso na carreira;
• trabalhos tipicamente femininos como ensino infantil e enfermagem são menos remunerados do que trabalhos tipicamente masculinos
como construção e mineração;
• 2/3 das pessoas analfabetas do mundo são mulheres;
• meninas têm menos escolaridade do que meninos da mesma classe social, exceto em alguns países e grupos sociais;
• homens têm prioridade sobre as mulheres na prestação de serviços de saúde em muitos países;
• complicações no parto são a maior causa de morte de mulheres jovens em países em desenvolvimento;
• o risco de contrair Aids na relação sexual sem camisinha é de 2 a 4 vezes mais alto para as mulheres; mundialmente, metade das
pessoas vivendo com HIV são mulheres, muitas das quais foram infectadas pelos maridos ou em situação de exploração sexual;
• as mulheres sofrem violência sexual: são estupradas nas guerras, e espancadas, estupradas e assassinadas em suas casas;
• as mulheres e meninas sofrem exploração sexual: seus corpos são usados no trabalho sexual – na pornografia e na prostituição; no
cinema, TV e publicidade no mundo ocidental;
• em algumas culturas da África e Oriente Médio meninas sofrem mutilação genital e os corpos das mulheres são cobertos da cabeça aos
pés em nome da castidade;
• as mulheres são forçadas a gestar e parir, a fazer abortos e esterilização;
• em alguns países superpopulosos, as meninas são mais abandonadas em orfanatos e os fetos femininos são abortados;
• em alguns países, somente os homens fazem serviço militar e são mandados à guerra;
• os homens fazem os trabalhos mais perigosos (bombeiro, policial);
• os homens governam, majoritariamente, e as políticas públicas priorizam seus interesses;
• todos os homens se beneficiam dos privilégios patriarcais (do trabalho doméstico gratuito, do trabalho mal remunerado em escolas e
hospitais, dos cuidados e nutrição emocional fornecidos pelas mulheres).

Em suma, as mulheres têm status social inferior e menos vantagens do que os homens com a mesma classe social, raça/etnia, religião e nível
de escolaridade.

Políticas feministas: públicas/formais, nacionais e internacionais; não formais e informais, de ONG e grupos de mulheres (projetos e ações
educativas, protestos, marchas) – militância local e transnacional, coalizões.
Exemplos de agendas: mudar as representações sexistas na linguagem e na mídia; criar cultura, conhecimento, ética e teologia do ponto de
vista da mulher.

HISTÓRIA DO FEMINISMO

1ª onda: século IXX e primeiras décadas do século XX

O status legal das mulheres era idêntico ao das crianças.


Teoria da igualdade utilizada: baseada na filosofia política liberal (John Stuart Mill).

Lutas por direitos políticos e patrimoniais (esfera pública):


• ao voto (EEUU: 1920; Brasil: 1932; França e Japão: após II Guerra; Rússia: 1917; China: 1948);
• à propriedade e ao capital (herdar, contrair empréstimo, usufruir de bens de valor econômico);
• a iniciar um divórcio e ter a guarda dos/as filhos/as;
• a entrar na universidade, obter certificação médica, advogar e ser membro de júri.

Lutas pela propriedade do próprio corpo, contracepção legal/planejamento da gravidez (esfera privada).

2ª onda: 1970-2000

Antecedentes:
• 1949: publicação de O Segundo Sexo, por Simone de Beauvoir (crítica da mulher como o outro; negação da determinação biológica:
não se nasce mulher, torna-se mulher).
• Década de 1960: movimentos civis/juvenis/estudantis.

Lutas:
• por direitos legais, representação política, ingresso em profissões masculinas;
• contra violência sexual, prostituição, pornografia;
• contra representações sexistas das mulheres na mídia e produções culturais;
• contra assédio sexual de trabalhadoras e estudantes;
• por mudanças na linguagem, conhecimento e história para visibilizar as experiências e contribuições das mulheres.

Teorização: Visibilizar a estrutura, práticas e desigualdades da ordem social gendrada.


O gênero não se limita a identidades e atributos individuais, mas é imposto sobre os indivíduos, assim como as categorias de classe social e
raça.
O gendramento afeta os corpos e o comportamento sexual.
O gendramento divide o mundo social em dois conjuntos de gente, complementares, mas desiguais: mulheres e homens. Essa divisão binária
confere status legal, social e pessoal que suplanta as diferenças individuais e se entrelaça com outros status sociais principais, como raça,
etnia, classe, idade religião e orientação sexual.
Gênero é um sistema de poder: privilegia alguns grupos de pessoas e cria desvantagens para outros, em conjunção com outros sistemas de
poder (etnicorracial, classista, heterossexista).
Nós constantemente desempenhamos normas e expectativas de gênero em nossas interações com os outros, construindo e mantendo a ordem
social gendrada.
O gênero organiza os processos e práticas sociais: trabalho, família, política, direito, educação, medicina, defesa militar, religião e cultura.
Opera simultaneamente para conferir status e identidade individual e conformar o comportamento cotidiano, nas relações face-a-face, nas
práticas organizacionais, nas relações íntimas, nas autoavaliações. Os desviantes são estigmatizados, punidos e postos no ostracismo legal.
A ordem social gendrada é muito resistente ao desafio individual. Nós fazemos/construimos gênero desde que aprendemos a assumir nosso
lugar como membros dessa ordem, geralmente sem questionar ou refletir sobre ela; nossas práticas gendradas a constroem e mantêm.
Mudanças no comportamento gendrado ocorrem à medida que a ordem social muda.

Vertentes emergentes nas décadas de 1970:


• liberal
• marxista
• socialista
• pós-colonial
• asiática

Vertentes emergentes nas décadas de 1980:


• radical
• lesbiano
• psicanalítico
• do ponto de vista
Vertentes emergentes na década de 1990:
• multiétnica/multirracial
• estudos dos homens
• construcionismo
• pós-moderna
• teorias queer

Estas últimas vertentes desafiaram o conhecimento sobre sexo, sexualidade e gênero, e a dualidade e oposição entre macho-fêmea,
homossexual-heterossexual, mulheres-homens. Proclamaram múltiplos sexos, sexualidades, gêneros e expressões de masculinidade e
feminilidade. Questionaram: como fazemos gênero e assim mantemos as desigualdades?

3ª onda: 1990-
Jovens que cresceram com o feminismo, herdeiras/os dos currículos inclusivos de gênero e de um mundo político, econômico e social menos
segregado.
Assumem que a igualdade de gênero é a norma, que a agência das mulheres e a sexualidade feminina são formas de poder.
Incluem os homens como ativistas feministas.

Judith Lorber (2010) classifica os feminismos segundo suas teorias da desigualdade de gênero em:

FEMINISMOS REFORMISTAS (gender reform feminisms)


Os direitos humanos são direitos das mulheres e os direitos das mulheres são direitos humanos.
Reformar a ordem social: gendrada, porém mais igualitária.
• Vertentes: liberal, marxista, socialista, pós-colonial, asiático
• Foco: divisão sexual do trabalho reprodutivo/doméstico e produtivo, desvalorização do trabalho feminino, participação reduzida das
mulheres na vida pública (executivo, legislativo e judiciário).
• Teorização:
Lócus da desigualdade: estrutura da ordem social gendrada.
Visibilizou as práticas discriminatórias (formais e informais) no trabalho, na distribuição dos recursos econômicos e nas
responsabilidades familiares.
Critica a exageração das diferenças sexuais na educação infantil, que constrói diferenças de personalidade e atitude em meninos e
meninas para prepará-los para viverem vidas diferentes: homens como agentes do poder, chefes, trabalhadores, soldados, maridos e
pais autoritários; mulheres como ajudantes, secretárias, professoras, enfermeiras, mães dedicadas e esposas subservientes.
• Agenda política: Erradicar as práticas de discriminação das mulheres através de:
(1) Paridade de sexo, igual poder, prestígio e recursos econômicos para homens e mulheres nas esferas publica e privada. Ex: Ação
afirmativa no trabalho, na universidade; cotas para aumentar a participação das mulheres na política formal.
(2) Transversalidade de gênero para promover igual participação de homens e mulheres e igual reconhecimento e recompensa pelo
trabalho de ambos.
FERMINISMOS DE RESISTÊNCIA (gender resistance feminism)
As mulheres primeiro.
• Vertentes: radical, lesbiano, psicanalítico, do ponto de vista
Foco: patriarcado (sistema de opressão e exploração dos corpos, sexualidade, trabalho e emoções das mulheres).
Micro-desigualdades: ser ignorada ou interrompida, não obter reconhecimento pela competência ou bom desempenho, ser preterida na
ocupação de cargos de autoridade. Consciência de um ‘senso de superioridade’ dos homens nas micorrelações, e de que as irmãs (ou
companheiras) não tinham espaço nas irmandades masculinas. Incidentes sexistas triviais são como as partículas de poeira dos anéis de
Saturno: separadamente são minúsculas, mas quando se agregam formam um padrão bem visível (Mary Rowe).
• Teorização:
Lócus da desigualdade: patriarcado, cultura falocêntrica, androcêntrica (ocidental).
Os grupos de conscientização só de mulheres discutiam suas vivências comuns: o serviço sexual e emocional aos homens, as fofocas
sexuais dos homens, a falta de controle reprodutivo, o medo de abusos físicos e sexuais.
Crítica ao feminismo liberal: a igualdade tornaria as mulheres como os homens. O exame da ordem gendrada do ponto de vista das
mulheres visibiliza as práticas de controle dos homens sobre as mulheres.
Crítica à ideologia de gênero: valores e crenças que justificam a ordem social gendrada. A desvalorização e subordinação das mulheres
integram a ideologia e valores da cultura ocidental e as práticas institucionais cotidianas. Religião: a dominação masculina é a vontade
de Deus; o ser supremo é masculino. Ciência: a dominação masculina resulta de diferenças genéticas e hormonais. Direito: nega às
mulheres cidadania plena. Mídia, esportes e pornografia: encorajam os excessos do poder masculino (violência, estupro e exploração
sexual).
Crítica à violência sexual e à violência em geral. A exploração e violência sexuais (pornografia, estupro) são estratégias de controle de
todas as mulheres.
As vozes das mulheres, suas perspectivas, conhecimentos, visões do mundo, não são ouvidas.
Teoria do ponto de vista: a visão de mundo a partir de onde se está localizada/o fisicamente, mentalmente, emocionalmente e
socialmente – expandida para diversos grupos de homens e mulheres visando visibilizar seus valores e realizações.
• Agenda política: Paridade de sexo e transversalidade de gênero não são suficientes; é preciso transformar a ordem social gendrada a
partir das experiências, perspectivas, vozes das mulheres.
Subverter/inverter a estrutura de gênero: (1) proteção ao corpo e sexualidade das mulheres; (2) sobrevalorização das mulheres e
atributos femininos, sensibilidade emocional sobre a objetividade, nutrição sobre a agressão, maternagem sobre o mercado; (3)
criação de espaços só de mulheres na esfera pública (política, educação, religião, artes, cultura popular); (4) educar e empoderar as
mulheres para terem orgulho de seus corpos, valorizarem as capacidades de nutrir, apoiar emocionalmente e maternar (para
contrabalançar as avaliações negativas das mulheres), e se protegerem contra a violência sexual.
Os grupos de conscientização só de mulheres, as organizações alternativas e o separatismo lesbiano oferecem espaço para teorizar,
ensinar e criar cultura do ponto de vista das mulheres, mas não são capazes de transformar a ordem gendrada.
Campanhas contra assédio sexual, estupro, espancamento, incesto, pornografia e prostituição têm sido bem sucedidas, mas ao mesmo
tempo provocaram reações/retrocessos antifeministas.
FEMINISMOS REVOLUCIONÁRIOS (gender rebellion feminisms)
Um mundo sem gênero.
• Vertentes: multirracial/multiétnico, estudos feministas dos homens, construcionismo social, pós-modernismo e terceira onda
Foco: (re)produção da ordem social gendrada através do fazer gênero (gendramento) como indivíduo, nas interações, na família, no
trabalho, na produção cultural e do conhecimento.
• Teorização:
Lócus da desigualdade: permanece no foco nas múltiplas fontes de desigualdade (interseccionalidade, matriz de dominação), mas o
foco principal é a ordem binária de gênero.
Matriz de dominação: a ordem social gendrada não opõe apenas homens e mulheres, mas homens e homens; articula vários status
sociais (gênero, classe, raça/etnia, orientação sexual).
Existem afinidades entre homens e mulheres da mesma classe social ou do mesmo grupo etnicorracial, mas também entre mulheres em
situação de desvantagem social.
Os estudos dos homens por homens feministas e estudos gays aportam novas dimensões críticas.
O feminismo posmoderno e a teoria queer atacam diretamente a ordem binária de gênero ao multiplicar as categorias de gênero e
apagar as fronteiras entre mulher e homem, feminino e masculino, heterossexual e homossexual (queerizar o gênero).
A desconstrução feminista dos discursos que criam o conteúdo das normas sexuais e de gênero mostra como seu não questionamento
mantém a ordem heterossexista. Questionar as dualidades solapa a legitimidade e o favorecimento de um dos polos/grupos.
As identidades pessoais e as políticas de identidade de grupos estão constantemente mudando a abrindo espaço para a mudança
individual e social, para novos tipos de relação e múltiplas sexualidades.
O feminismo da terceira onda inclui o multiculturalismo e os homens feministas; brinca com o sexo, a sexualidade, o gênero, a
feminilidade; rejeita a vitimização das mulheres e o perigo do sexo heterossexual; exibe o poder feminino.
• Agenda política: o gênero pode ser desfeito – desgendrar a ordem social, desmantelar as categorias de gênero, criar uma ordem social
não-gendrada.
Estudos dos homens/homens feministas: conscientização do comportamento sexualmente opressor dos homens; crítica à violência nos
esportes profissionais; abrir mão dos privilégios patriarcais, compartilhar o trabalho doméstico e o cuidado das crianças, apoiar a luta
das mulheres por igualdade de salários e de posições de autoridade.
Feminismo posmoderno e teoria queer: desconstruir o binarismo, o heterossxismo, queerizar o gênero.
Feminismo da terceira onda: assume causas que transversalizam o gênero como o movimento pacifista, ambientalista, LGBT.

Continuidades, convergências e mudanças

Os feminismos reformistas construíram as bases teóricas da segunda onda do feminismo ao visibilizar os alicerces estruturais da ordem social
gendrada.
Sua política de paridade e transversalidade de gênero permanece necessária:
• na maioria dos países do mundo ainda não existe igualdade de status legal e representação política entre mulheres e homens e nem as
mulheres têm autonomia em suas escolhas reprodutivas, sexuais e maritais;
• segregação de gênero no local de trabalho e remuneração inferior do trabalho das mulheres ocorrem em todos os tipos de economias;
• a economia global explora o trabalho barato das mulheres pobres;
• a reestruturação nas economias em processo de industrialização e pós-industriais vem reduzindo os benefícios sociais para as mulheres
e crianças.

A agenda política dos feminismos reformistas se identifica com aquela de todos os grupos sociais subordinados. Já a agenda política dos
feminismos de resistência focaliza apenas as mulheres:
• proteção de seus corpos contra a gravidez não desejada, a esterilização, o aborto de fetos femininos, a mutilação genital, o estupro,
espancamento e assassinato;
• proteção da integridade sexual de mulheres e meninas contra prostituição forçada, exploração sexual em produções pornográficas e
clubes de strip tease, casamentos forçados;
• proteção de pessoas LGBT contra a discriminação e violência;
• criação de espaços físicos e comunidades culturais para as mulheres lésbicas se sentirem livres do assédio sexual e da dominação dos
homens, vivenciarem suas amizades e amores, e produzirem obras culturais que possam expressar seus modos diferentes de pensar e
sentir.

As teóricas feministas do ponto de vista argumentam que as experiências e perspectivas distintas das mulheres sobre a vida devem ser
incluídas na produção do conhecimento e na pesquisa científica: não apenas incluindo mulheres entre os sujeitos, mas fazendo perguntas de
uma perspectiva crítico-feminista, destacando nos dados e nas análises as vozes das mulheres e os pontos de vista daquelas marginalizadas e
silenciadas.
Os feminismos revolucionários partiram do foco na posição social e nos distintos pontos de vista para multiplicar as categorias de mulheres e
homens.
Os feminismos multirraciais/multiétnicos abordam as discriminações legais e sociais, passadas e presentes, que afetam as mulheres em
muitas sociedades, e a produção cultural, teológica e ética centrada na mulher.
Os estudos feministas dos homens analisam aspectos etnicorraciais e de classe das masculinidades, as hierarquias entre homens, e as
dinâmicas de poder e privilégio, sujeição e violência.
Traduzir a desestabilização da ordem de gênero em políticas e práxis é o desafio dos feminismos socioconstrucionistas, posmodernos e da
terceira onda: o que precisa ser feito em todas as instituições e organizações sociais para que cada voz possa ser ouvida e incluída na
produção do conhecimento e da cultura e nas decisões políticas.

FEMINISMO LIBERAL
Fontes da desigualdade de gênero: socialização gendrada das crianças; responsabilidade primária das mulheres pelo cuidado infantil e
trabalho doméstico; divisão sexual do trabalho assalariado; desvalorização e baixa remuneração dos trabalhos de mulher; teto de vidro
(acesso restrito a altos cargos); limites às escolhas reprodutivas.
Agenda política: criação e educação infantil não sexista, neutra quanto a gênero; ações afirmativas para incluir mulheres em trabalhos
masculinos e em cargos de autoridade; incluir mais mulheres na política através de normas de paridade e apoio financeiro; promover a
transversalidade de gênero nas leis e políticas para atender às necessidades das mulheres; compartilhamento do cuidado infantil em casa,
provisão de educação infantil (direta ou subsidiada), provisão de licença maternidade/paternidade, flexibilidade no emprego; serviços de
saúde reprodutiva legais, acessíveis e gratuitos.
Críticas: ênfase na igualdade entre mulheres e homens em detrimento das qualidades femininas positivas como a empatia e nutrição;
supervalorização do trabalho remunerado e carreira para as mulheres; pouca atenção às divisões entre mulheres – etnicorracial, de classe,
que implicam desvantagens adicionais; pouca atenção à violência sexual e estupro.
Contribuições: tornar a linguagem, a literatura infantil e a educação mais neutras quanto a gênero; visibilizar as discriminações de gênero,
formais e informais, e contrapor-se a seus efeitos através de mentoria e redes de mulheres e associações profissionais; militância em
organizações de direitos civis por ações afirmativas e ações jurídicas em prol de mulheres e homens em situação de desvantagem; aumento
do número de mulheres eleitas e ocupantes de cargos governamentais; mais creches nas empresas e licenças maternidade/paternidade;
legalização do aborto e reconhecimento dos direitos reprodutivos como direitos humanos.
Homens e mulheres têm de ser a mesma coisa para serem iguais?
FEMINISMO MARXISTA
Fontes da desigualdade de gênero: exploração das mulheres no trabalho doméstico/familiar não remunerado; uso das mulheres como
exército industrial de reserva; baixa remuneração da mulher trabalhadora.
Agenda política: trabalho assalariado permanente para as mulheres (esposas, donas de casa e mães assalariadas); benefícios como
assistência de saúde materna e infantil, salário maternidade e paternidade, creches e auxílios financeiros para as crianças; sindicalização
das mulheres trabalhadoras.
Crítica: pouca atenção à exploração etnicorracial; o trabalho assalariado permanente para as mulheres não as livra dos encargos
domésticos; os benefícios do Estado de Bem Estar Social atribuem às mulheres o papel primário de cuidadoras das crianças; a dependência
do marido é substituída por dependência do Estado.
Contribuições: reconhecimento da subordinação das mulheres como cidadãs de segunda classe; análise de gênero da exploração das
mulheres como trabalhadoras pagas e gratuitas nas economias capitalista, comunista e socialista (patriarcado público); reconhecimento da
reprodução biológica como trabalho; visibilização da necessidade e valor do trabalho doméstico/familiar/emocional para o funcionamento
da economia e para a reprodução social dos futuros trabalhadores; conceito de consciência de gênero (grupos de conscientização das
experiências pessoais comuns de opressão – consciousness raising).
As experiências de vida de homens e mulheres são e criam consciências diferentes; o cuidado das crianças pelas mulheres implica
reciprocidade e cooperação, responsabilidade pessoal e compartilhamento, contato físico e afeição; o trabalho doméstico/familiar não tem
fim, os outros sempre vêm primeiro, e as recompensas são subjetivas; no mundo impessoal e abstrato do trabalho industrial o trabalhador é
remunerado pelo tempo gasto e produto fabricado.
Novas teorizações: classe social racializada e gendrada.
FEMINISMO SOCIALISTA
Fontes da desigualdade de gênero: desigualdade complexa, interseções e padrões diferenciais de desvantagem econômica de raça/etnia,
classe e gênero; dupla e tripla opressão das mulheres de grupos etnicorraciais que sofrem discriminação econômica e cultural; escalas
salariais desiguais que desvalorizam as profissões e ocupações de cuidado e serviço, como a enfermagem e o ensino.
Agenda política: redistribuir responsabilidades na família, recursos econômicos e poder político; aumentar as oportunidades econômicas
para mulheres e homens em situação de desvantagem; valorizar os trabalhos de mulher (cuidado e serviços); compartilhar equitativamente
o trabalho doméstico/familiar; apoio governamental ao trabalho de cuidado na família; direitos universais à educação, assistência de saúde
e programas de renda mínima; acesso aberto ao poder político governamental e não-governamental.
Crítica: oferece uma crítica geral do capitalismo tardio e luta por igualdade econômica e social para todos em situação de desvantagem;
efeitos desiguais de gênero, raça/etnia, classe dentro dos grupos dividem as lealdades e minam a ação política unificada; teorias
generalizadas da desigualdade por vezes perdem o foco de gênero e enfraquecem a política feminista; as questões das mulheres são menos
focalizadas na ação política. Por exemplo, a luta por saúde universal gratuita, uma questão de todos, pode preceder a luta por creches,
considerada uma questão da mulher, assim, a desigualdade particular da mulher pode ficar em segundo plano na luta contra a desigualdade
complexa.
Contribuições: visibilizar os efeitos combinados das discriminações de gênero, classe e raça/etnia; conceitos de intersecionalidade (efeitos
interligados – o privilégio ou a desvantagem em um status aumenta ou diminui os outros status) e de desigualdade complexa para descrever
e analisar os padrões de desvantagem econômica, educacional e cultural; foco nas escalas salariais desiguais para trabalhos de homens e de
mulheres; análise dos custos para as mulheres do cuidado infantil e outras formas de trabalho doméstico.
Os interesses das mulheres não são incluídos nas políticas nacionais, de classe e etnicorraciais. Quando elas sofrem as desvantagens
acumuladas de classe, raça/etnia e gênero são cidadãs de segunda classe, mas suas múltiplas identidades podem atrapalhar a
política feminista unificada.
Distribuição e reconhecimento. Redistribuição de recursos e reconhecimento de distintas culturas etnicorraciais e status de classe.
Injustiça de gênero: as mães são exploradas, não reconhecidas quanto à importância do trabalho materno, estigmatizadas no
trabalho assalariado, cobradas e culpabilizadas.
Todos os homens e mulheres são cidadãos/cidadãs cuidadores/as.
FEMINISMO PÓS-COLONIAL E ASIÁTICO
(Feminismos do Sul ou do Terceiro Mundo)
Fontes da desigualdade de gênero: desmantelamento da economia de base tradicional das mulheres pela modernização e reestruturação;
exploração das trabalhadoras na economia global; não-escolarização das meninas; assistência de saúde materna e infantil precária;
exploração sexual; estruturas familiares e práticas culturais patriarcais prejudiciais às mulheres e meninas.
Agenda política: proteção dos recursos econômicos das mulheres nos programas de modernização; escolarização das meninas; serviços
comunitários de assistência à saúde, planejamento familiar, prevenção e tratamento da Aids; campanhas contra mutilação genital, trabalho
infantil e tráfico sexual; organização comunitária de mães; movimentos nacionais de mulheres; empoderamento das mulheres na política
nacional.
Crítica: ideias ocidentais de individualismo e modernização desestabilizam e enfraquecem as culturas tradicionais que, por sua vez, podem
ser opressivas para as mulheres; a advocacia feminista ocidental contra a mutilação genital alienou as feministas em países com seus
próprios programas de mudança; as feministas ocidentais não reconhecem as realizações dos movimentos nacionais de mulheres; a
globalização e exploração de mulheres em países em desenvolvimento aumentou as diferenças políticas entre feministas ocidentais e não-
ocidentais.
Contribuições: análises de gênero dos programas de modernização e reestruturação econômica; dados sobre exploração do trabalho de
mulheres e crianças; documentação da importância dos recursos econômicos para o status social das mulheres; leis contra o tráfico sexual
transnacional e a mutilação genital feminina; maior visibilidade das perspectivas feministas não-ocidentais; crescimento significativo da
participação e liderança política das mulheres.
Entre o imperialismo cultural ocidental (individualista e materialista) e o patriarcado tradicional (opressor das mulheres).
Recente advocacia de um ativismo transnacional em busca de coalizões que reconheçam diferenças, mas se unam em torno de
questões comuns de desigualdade de gênero: pobreza, educação, saúde, direitos reprodutivos, exploração sexual e Aids.
FEMINISMO RADICAL
Fontes da desigualdade de gênero: patriarcado, sistema de opressão dos homens sobre as mulheres; legitimação da opressão das mulheres
pela medicina, religião, ciência, direito e outras instituições sociais; controle e violência dos homens sobre as mulheres através de estupro
(inclusive marital), espancamento e assassinato; objetificação dos corpos das mulheres na publicidade, mídia e produção cultural;
exploração sexual na pornografia e prostituição; assédio sexual no trabalho, nas escolas e na rua.
Agenda política: valorização de todos os tipos de corpos de mulheres (protestos contra concursos de beleza), da sexualidade das mulheres e
das qualidades maternais; centros de atendimento e abrigos para mulheres estupradas e espancadas; proteção contra o tráfico sexual
internacional; orientações e penalidades contra o assédio sexual em locais de trabalho e escolas; campanhas anti-pornografia; campanhas
contra a misoginia na mídia.
Crítica: a desconfiança dos homens pela propensão à violência sexual ignora as diferenças entre eles; a valorização da maternidade aliena
as mulheres com carreiras; o argumento de que as relações heterossexuais são intrinsecamente exploradoras aliena as mulheres
heterossexuais; a minimização das diferenças e lealdades etnicorraciais apaga as diferenças entre as mulheres.
Contribuições: teoria do patriarcado como sistema que privilegia os homens e explora as mulheres sexualmente, emocionalmente e
fisicamente (homens subordinados a outros homens por status de classe e/ou raça/etnia, subordinam suas próprias mulheres, graças aos
privilégios patriarcais); reconhecimento da violência contra as mulheres como um meio de controle direto e indireto pelo medo;
identificação do assédio sexual como parte do continuum de violência contra as mulheres; mapeamento global do tráfico sexual de
mulheres e conscientização pública dos danos que causa às jovens mulheres vulneráveis; identificação do estupro das mulheres do inimigo
como uma arma de guerra; criação de centros de atendimento e abrigos para mulheres estupradas e espancadas; crítica da desvalorização
oculta das mulheres na ciência, medicina, direito e religião; criação dos departamentos acadêmicos de estudos das mulheres; conexão entre
a exploração ambiental e a exploração das mulheres no ecofeminismo.
Grupos de conscientização de mulheres: As mulheres são diferentes, mas valem tanto quanto ou mais do que os homens. O pessoal é
político. A irmandade é poderosa. Uma ordem social centrada na mulher é melhor para todos.
Crítica às sexualização do corpo da mulher: a cultura ocidental encoraja a agressividade nos homens e a exibição sexual nas
mulheres, portanto, estimula a violência dos homens contra as mulheres. Ver o movimento recente denominado ‘Marcha das Vadias’.
Objetividade, distância e controle emocional, frieza, agressividade, competitividade e realização individual são qualidades
‘masculinas’ valorizadas; empatia, nutrição, cooperação, reciprocidade, cuidado dos outros e atenção aos corpos, mentes e
emoções são qualidades ‘femininas’ desvalorizadas. As qualidades masculinas criam pobreza e guerras. Os valores importantes são
a intimidade, a persuasão, o calor humano, o cuidado e o compartilhamento, características que as mulheres desenvolvem em suas
experiências cotidianas cuidando das crianças e da casa. Os homens poderiam desenvolver estas características também se eles
cuidassem das crianças e pensassem como mães. Assim, eles estariam menos propensos à agressão, à violência e ao militarismo.
O ecofeminismo equipara a objetificação, exploração e violação das mulheres, dos animais e da terra (exploração dos recursos
naturais).
O feminismo espiritualista colocou as mulheres (seus ciclos de vida) no centro da prática religiosa e ressignificou a sexualidade
feminina, a gravidez, o parto, a menstruação e a menopausa (considerados pecados ou doenças na cultural patriarcal). Ver Wicca
(http://www.uniaowiccadobrasil.org.br/); Católicas pelo Direito de Decidir (http://www.catolicasonline.org.br/).
O movimento de saúde da mulher criticou a definição de normal (o corpo masculino, sendo o corpo feminino considerado desviante)
na pesquisa médica, a falta de atenção às necessidades das mulheres nas práticas de saúde, e a medicalizaçõa/tecnologização da
concepção, gravidez e parto. Ver Casa de Parto e Doulas (http://www.doulas.com.br/). Também criticou as cirurgias plásticas e
tratamentos cosméticos de objetificação sexual do corpo feminino. Reivindicou atenção de saúde holística e inspirou o movimento
mais geral de consumidores na medicina.
A ética feminista preconiza: cooperação e consenso (ao invés de hierarquia e autoritarismo), comunidades inclusivas, respeito ao
meio ambiente, atenção às necessidades e responsabilidade pelos outros (em lugar da ênfase nos direitos individuais).
FEMINISMO LESBIANO
Fontes da desigualdade de gênero: heterossexualidade opressiva, subordinação das mulheres nas relações emocionais; presunção de que
todas as pessoas são heterossexuais (heteronormatividade), reforçando o binarismo de gênero convencional; dominação masculina da
cultura (androcentrismo).
Agenda política: aceitação social da sexualidade, relacionamentos e maternidade lésbica; empoderamento das mulheres identificadas com
mulheres; dupla luta: por direitos das mulheres e direitos de homossexuais; movimento pró igualdade no casamento: para casais
heterossexuais e homossexuais.
Crítica: a expansão do lesbianismo para mulheres heterossexuais identificadas com mulheres enfraquece o movimento contra a
heterossexualidade opressiva; idealização das relações lésbicas como intrinsecamente nutritivas, igualitárias e harmoniosas; a divisão de
lealdade entre o ativismo feminista e homossexual cria necessidade de pontes políticas.
Contribuições: criação de uma teoria, pesquisa e produções culturais feministas-lesbianas; visibilização e valorização das mulheres lésbicas;
desconstrução crítica do amor romântico e das relações sexuais heterossexuais; expansão das perspectivas lésbicas para incluir a
comunidade e a cultura.
FEMINISMO PSICANALÍTICO
Fontes da desigualdade de gênero: estruturas de personalidade gendradas – homens com ‘egos seguros’ e mulheres com ‘egos permeáveis’;
o medo sublimado pelos homens de castração por mulheres fortes; dominação cultural pela perspectiva fálica (falocentrismo).
Agenda política: corrigir o viés masculino na teoria e prática psicanalítica; produzir cultura que mostre as emoções, sexualidade e conexão
com o corpo das mulheres; maternidade/paternidade compartilhada para desgendrar as personalidades das crianças.
Crítica: replica o foco de Freud na família nuclear heterossexual, sem fazer comparações com os efeitos da maternidade e paternidade em
famílias monoparentais e homoafetivas; despreza comparações de parentalidade entre países e grupos etnicorraciais; ignora culturas não
fálicas não ocidentais.
Contribuições: elaboração das implicações sociais da teoria freudiana do desenvolvimento da personalidade; ênfase na importância de
maior envolvimento dos pais no cuidado infantil; evidenciar a dominância do falo (símbolo do poder masculino) na cultura ocidental;
contrabalançar com produções culturais baseadas nas experiências das mulheres de seus corpos, sexualidades e emoções.
FEMINISMO DO PONTO DE VISTA
Fontes da desigualdade de gênero: negligência à perspectiva e às experiências das mulheres na produção do conhecimento; exclusão das
mulheres das ciências; viés masculino na pesquisa científica e social.
Agenda política: colocar as mulheres no centro da pesquisa nas ciências físicas e sociais, como pesquisadoras e sujeitos; colocar questões
de pesquisa do ponto de vista das mulheres; produzir conhecimento a partir de diversas perspectivas de mulheres.
Crítica: contra uma perspectiva unificada (os corpos e sexualidades das mulheres são muito variados); as localizações sociais das mulheres
diferem por classe social, raça/etnia e outros status, então suas perspectivas também diferem; algumas perspectivas de homens são
também marginalizadas.
Contribuições: reenquadrar as questões e prioridades de pesquisa para incluir as mulheres e outros sujeitos marginalizados; desafiar a
universalidade e neutralidade política dos fatos científicos; criar um paradigma feminista para a produção do conhecimento crítico do saber
convencional e consciente da localização social; salientar as perspectivas ou vozes das mulheres na produção do conhecimento e cultura.
FEMINISMO MULTIRRACIAL/MULTIÉTNICO
Fontes da desigualdade de gênero: a interseção de discriminações de raça/etnia, classe social e gênero; contínuos padrões de privilégio e
desvantagem econômica e educacional inseridos na estrutura social; desvalorização cultural de mulheres de grupos etnicorraciais
subordinados.
Agenda política: redistribuição do privilégio – acesso igual à educação, bons empregos e poder político; reconhecimento – produção de
conhecimento que reflita as perspectivas dos grupos subordinados; valorização das produções culturais das mulheres de várias origens
etnicorraciais.
Crítica: tradicionais culturas etnicorraciais patriarcais podem criar opressão adicional para as mulheres do grupo; a independência e
assertividade das mulheres podem ameaçar o ego e senso de masculinidade dos homens; a competição entre identidades etnicorraciais e de
gênero mina a consciência e o ativismo político feministas.
Contribuições: conceito de intersecionalidade – os efeitos combinados de status de raça/etnia, classe social e gênero na produção de uma
matriz de dominação; uma política de identidade complexa que inclui o gênero sem colocá-lo necessariamente em primeiro plano;
visibilizar múltiplos pontos de vista etnicorraciais na produção de conhecimento e cultura através da perspectiva crítica do ‘estranho (de
fora) dentro’; cultura, teologia e ética de mulheres (para contrabalançar a dominação masculina) com práticas femininas nutrientes nas
artes, rituais, liturgia e ética.
ESTUDOS FEMINISTAS DOS HOMENS
Fontes da desigualdade de gênero: masculinidade hegemônica - dominância do poder econômico e político e dos valores culturais dos
homens da elite; legitimação da violência dos homens e da exploração sexual das mulheres; socialização que encoraja a agressividade e a
não-emocionalidade dos meninos.
Agenda política: promover maior igualdade econômica, educacional e política; elevar o status de homens em situação de desvantagem,
incluindo homens gays e transgenero; responsabilizar os homens pelo controle do seu próprio comportamento violento.
Crítica: a política de mudança de valores e comportamento precisa vir dos próprios homens; homens feministas necessitam de um
movimento para contestar a hegemonia e privilégios patriarcais; a pesquisa e o ativismo devem aplicar a lente de gênero aos homens
hegemônicos em todas as áreas em que eles ainda dominam, especialmente a economia e a política.
Contribuições: conceito de hegemonia masculina; análise do gênero masculino como parte de um conjunto institucionalizado de relações
de dominação e subordinação, de âmbito nacional e internacional; reconhecimento da dominação dos homens sobre outros homens assim
como sobre as mulheres; identificação de várias masculinidades; condenação da guerra, pornografia, estupro e violência como aspectos do
gendramento dos homens.
Partiram de estudos marxistas (classe social) e gays e lésbicos (crítica à heteronormatividade).
Descrevem: as estruturas articuladas de poder que estabelecem o domínio de um grupo de homens e classificam os demais numa
hierarquia complexa de privilégio e desvantagem; as práticas que excluem as mulheres da competição com os homens e determinam
quais os homens que podem atingir posições de maior poder; as maneiras como os homens se envolvem na violência nas guerras,
terrorismo e esportes, algumas legitimadas (guerra e esportes) e outras deslegitimadas (estupro e violência contra as mulheres).
Utilizam as categorias de raça/etnia, classe social, religião, orientação sexual, mas focalizam o gênero. Os homens não formam um
grupo homogêneo, variam em poder e privilégio, mas todos os grupos de homens gozam da hegemonia masculina (dominância em
valores, conhecimento, cultura e política) e do privilégio patriarcal (vantagens sobre as mulheres do seu grupo).
A lógica da manutenção da ordem de gênero é a perpetuação da dominação e privilégios dos homens no poder e, por extensão, o
poder e privilégios de todos os homens.
Desenvolvem teoria, ativismo e programas educacionais.
FEMINISMO CONSTRUCIONISTA SOCIAL
Fontes da desigualdade de gênero: práticas e processos de gendramento na vida cotidiana; gendramento das crianças, gendramento dos
corpos e sexualidades; gendramento da divisão do trabalho na família; gendramento das organizações do trabalho; valores culturais
inseridos no gendramento e no gênero como status social.
Agenda política: visibilizar os processos de construção de gênero; minimizar o gendramento das crianças; contrabalançar o poder das
normas de gênero no trabalho e na família; abolir os binarismos de sexo, sexualidade e gênero; contestar as valorizações culturais dos
binários de gênero.
Crítica: mudar o comportamento gendrado não necessariamente muda as organizações gendradas; a igualdade legal de gênero não apaga o
sexismo, discriminação e misoginia informais; o gendramento na família e nas organizações de trabalho é tão intrincado que é necessária a
mudança simultânea; o gendramento é tão abrangente que o desgendramento necessita ser constante e em todos os níveis.
Contribuições: uma teoria de gênero que conecta processos de gendramento e estruturas sociais gendradas; evidenciar as maneiras em que
as diferenças sexuais supostamente naturais são socialmente construídas; mostrar como os corpos são socialmente gendrados; análise da
construção social da sexualidade e seu controle social; documentação de como a ordem social gendrada pode ser mudada através da
mudança dos processos e práticas gendradas.
Tem origem na psicologia social (interacionismo simbólico: como as pessoas constroem múltiplos significados e identidades nos
encontros diários). Analisa processos e práticas que produzem o gênero (aquilo que percebemos como diferenças entre homens e
mulheres) e a diferença (estereótipos de raça/etnia, classe, orientação sexual). A produção do gênero impõe divisões/categorias
sobre continuuns fisiológicos e comportamentais e usa marcadores visíveis (cor de pele, genitais), como sinais de características
comportamentais supostamente inatas/essenciais, assim como outros sinais de status social (roupas, adereços, penteados,
maneirismos). Diferenças evidentes entre pessoas do mesmo grupo e similaridades entre grupos são reprimidas e ignoradas.
Gênero é uma estrutura social que limita as escolhas e oportunidades das pessoas e que se alicerça na exploração pelos homens do
trabalho doméstico, sexual e emocional das mulheres. A divisão binária do trabalho e papéis de gênero na família e trabalho
assalariado exclui pessoas que desafiam os binarismo de sexo, sexualidade e gênero (intersexuais, transgeneros).
A mudança se dará através do desgendramento da ordem social.
FEMINISMO POSMODERNO E TEORIA QUEER
Fontes da desigualdade de gênero: crença na fixidez e inevitabilidade do gênero e da sexualidade; limites à ‘normalidade’ de gênero e
sexo; replicação cultural e individual do comportamento normativo de gênero e sexo.
Agenda política: questionamento constante do que é supostamente normal quanto ao gênero e à sexualidade; demonstração da fluidez das
fronteiras de gênero e sexo; queerizar, subverter as categorias binárias de gênero e sexo; luta pelos direitos LGBT.
Crítica: os conceitos pós-modernos de agência livre e queerização têm um escopo individualista estreito; pouca atenção é dada aos
controles estruturais e institucionais sobre o comportamento; a ênfase em atos individuais de transgressão não muda os limites de gênero.
Contribuições: conceito de performatividade – o gênero não existe sem apresentação de gênero; desconstrução – visibilizar as performances
de gênero e sexo naquilo que é considerado normal e natural; teoria queer – desafiar os binarismos de gênero, sexo e sexualidade com
múltiplas sexualidades e transgeneridade; visibilizar e tirar o estigma das diversas performances de gênero e sexualidade.
Gênero e sexualidade são performances (atuações); os indivíduos modificam suas apresentações de masculinidade e feminilidade de
acordo com seus próprios propósitos, usam o gênero como uma vestimenta.
Os estudos gays, lésbicos e da transgeneridade desenvolveram a teoria queer que focaliza ‘terceiros termos’: intersexualidade,
bissexualidade, transgeneridade. Adotam a política mais avançada de abolição da ordem social de gênero.
FEMINISMO DA TERCEIRA ONDA
Fontes da desigualdade de gênero: negligência da agência das meninas e jovens mulheres; perda da herança cultura das mulheres negras
fortes; ideias limitantes da sexualidade das mulheres.
Agenda política: apoiar movimentos de direitos reprodutivos, direitos LGBT, ambientalistas, pacifistas e por igualdade econômica; reviver a
herança das matriarcas negras; empoderar as meninas e sua cultura (música e artes) -> ‘grrr’.
Crítica: divisão entre feministas negras e brancas; ênfase na criação de identidades individuais distintas ao invés de grupos políticos; o
feminismo é dissolvido na perspectiva dos direitos humanos.
Contribuições: inclusão de homens e diversos grupos multiculturais no feminismo; expansão da política feminista para os movimentos
ambientalista, pacifista e por igualdade econômica; promoção da diversidade sexual (afrouxamento da heteronormatividade); criação da
cultura das meninas.
Filhas e netas do feminismo.
Reflete a orientação ao corpo do feminismo radical e as exibições de gênero do feminismo pós-moderno.

Desde o final da década de 1980, o foco dos feminismos passou a ser o gênero e não as mulheres. Os fundamentos de muitas áreas do
conhecimento foram questionados e desafiados a incluírem a questão do gênero. Os feminismos de resistência foram criticados:
• os problemas da unidade das mulheres;
• a perspectiva privilegiada do ponto de vista das mulheres;
• as fontes da identidade nas políticas de identidade.

Os feminismos revolucionários não aceitam a ordem social gendrada como um dado, imutável, a ser reformada – tratando homens e
mulheres como mais iguais, ou a ser resistida – valorizando as mulheres e criando conhecimento, cultura e comunidades de mulheres.
Questionam a unidade das categorias binárias de gênero, argumentando que elas são tão intersecionadas por outros status sociais que
mulheres e homens não podem ser considerados identidades homogêneas.
Questionam a estabilidade e necessidade de toda a ordem social gendrada.
Necessitam desenvolver novas práticas para as relações humanas no trabalho, vida familiar, intimidade, religião, ciências, artes, governo, na
vida cotidiana para assegurar igualdade de participação e de oportunidades para todas as pessoas de todos os grupos.

FONTE: Lorber, Judith (2010). Gender inequality: Feminist theories and politics. 4 ed. New York: Oxford University Press. 326 p.