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\ToNto Jo^QUtM sEVEIìlNo

CONCLI¡SÃO Tais diretrizes referem-se a seminários realizados com fins CAPíTUIO III
didáticos denrro da programação de um curso. Nesse caso, abordam-se
temâs com encadeamento lógico. Em tais seminários, o professor atua TEORIA E PRATICA
no cronograma
apenas como supervisor e observador dos trabalhos; CIENTírICN
deve ser previsto um intervalo, desde que o período do seminário ul-
trapasse duas horas; cabe ainda ao coordenador entregar ao professor
observações de avaliação da participação dos vários elementos compo-
nentes do grupo.
Quanto ao modo práttco de realização do seminário, adota-se qual-
quer das técnicas do trabalho em grupo, sendo mais comuns as seguintes:
a) exposição introdutória, discussão em pequenos grupos; discussão
em pequenos grupos, discussão em plenário, síntese de conclusão;
b; erposição introdutória, discussão em pequenos grupos, discussão
do grupo coordenador observada pelo grupo observador dos parti-
cipantes, síntese de conclusão;
cl exposição introdutória, discussão em grupos formados horizontal-
mente, discussão em grupos formados verticalmente, síntese de con-
clusão;
d) exposição introdutória, revisão de leitura em plenário, discussão da
problemática também em plenário, síntese cle conclusão.

Finalmente) cumpre acrescentar uma observaçã.o. Embora se tenha


feito constante referência, ao se falar do seminário, à leitura de trechos,
c{e passagens de unidade, das obras dos autores, é necessário que o es-

tudante se ernpenhe na leitura da obra dos autores em sud totalidøde.


l eitura que pode ser feita por etapas, como sugere este capítulo, mas
que deve desdobrar-se sempre mais no conjunto da obra dos autores
estudados. Por outro lado, frise-se a exigência de se ler o próprio autor
na fonte original ou em tradução confiável.
100 AN-TôNro JoÀQUIM sEVË.tìtNo
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3.1. O MÉTODO COMO CAMINHO DO CONHECIMENTO


ceËNTiF¡C0

Quando observamos a prática científica concreta, o que nos aparece de


forma mais evidente é a aplicação de atividades de caráter operacional
récnico. Uma infinidade de aparelhos tecnológicos enchem os laborató-
rios, desenvolvem-se variados procedimentos de observação, de expe-
rimentação, de coleta de dados, de registros de fatos, de levantamento,
identificação e catalogação de documenlos históricos, de cálculos esta-
tísticos, de tabulação, de entrevistas, depoimentos, questionários etc.
Mas todo esse sofisticado arsenal de técnicas não é usado aleato-
riamente. Ao contrário, ele segue um cuidadoso plano de utilização, ou
seja, ele cumpre un roteiro preciso, ele se dá em função de um método.
A aplicação do instrumental tecnológico se dá em decorrência de um
processo metodológico, da prática do método de pesquisa que está sen-
clo usado.
No entanto, não basta seguir um me- .. ,: .,1..r " t,,:.,:.:-' .. , :::'a:t::::tl::: ,.1,.:::),
A ciência se faz quando
toclo e aplicar técnicas para se completar o peiquisadoraborda os
o entendimento do procedimento geral da fenomenos aplicando recurSos
técnicos, seguindo um metodo
ciência. Esse procedimento precisa ainda e apoiando-se em fundamentos
epistemológicos.
referir-se a um fundamento epistemológico
que sustenta e justifica a prípria metodo-
logia pratic ada. E que a ciência é sempre o
enlace de uma malha teórica com dados empíricos, é sempre uma arti-
culação do lógico com o real, do teórico com o empírico, do ideal com
o rea1. Toda modalidade de conhecimento realizado por nós implica
uma condição prévia, um pressuposto relacionado a nossa concepção
da relação sujeito/objeto. Qual a contribuição de cada polo desta rela-
ção: sujeito que conhece e objeto conhecido? São independentes um do
outro? Ou um depende do outro? Ou um se impõe ao outro? O resulta-
1 02 ANTONIo JoAQUIM sEVERÌNo
METoDoI,oGIA Do TRAI}ALHo clÈ,NTÍFIco
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ao contrá¡io, o que conhecemos é mais a expressão da subjetividade do o problema se formura então como a questão
pera causados fenô-
pesquisador do que o registro objetivo da realiclade? menos observados, qual a relação causal constante
entre eles. Aí entra
Mas an¡es de rrararmos dos paradigmas epistemológicos que fun- em ação novamente o poder lógico da nzão:
a razão,corn sua criativi-
damentam as práticas científicas, vamos nos aproximar um pouco mais dade, formula uma hipótese, ou seja, propõe
uma determ inad,arelação
da metodologia da investigação científica em geral. causal como explicação.
A ciência utiliza-se de um método que lhe é próprio, o método cien- Newton' após observar os corpos caírem, revantou a hipótese de que
tífico, elemento fundamental do processo do conhecimento realizado eles caíam em decorrência de uma aftaçã,o recíproca, intuindo que pode-
pela ciência para diferenciá-la não só do senso comum, mas também ria ser uma força de atração proporcional às massas
e às distâncias.
das demais modalidades de expressão cla subjetividade humana, como
a filosofia, a aÍte, a religião. Trara-se de um conjunto de procedimentos Hipórese: proposição explicativa provisória de relações
enrre fenômenos, a ser co'-
provada ou infirmada pela experimentação. E
lógicos e de técnicas operacionais que permitem o acesso às relações se confirmada, transformá-se na rei.

causais constantes entre os fenômenos. O método científico pode ser


representado pelo quadro na pâgina anrerior. Formulada a hipótese, o cientist a vorta ao campo
experimentar
para verifi cá,-Ia. É o momento da uerificação
Ao trabalhar com seu método, a primeira atividade do cientista é experimentar, do teste
da hipótese. Isolam-se, em condições raboraroriais,
a obseruação de fatos.Inicialmente, essa observação pode ser casual e as variáveis que se
espontânea) como, por exemplo: todos nós vemos cotidianamente os supõem em relação e observa-se o seu comportamento.
se confirmada
a hipótese, rem-se então a lei. Trata-se
objetos largados a si mesmos caírem no chão. Mas posso começar a de um princípio gerar que uni-
jogá-los no chão de maneira sistemática, planejada, organizada. o que fica uma série ilimitada de fatos: vários fatos
particulares se explicam
interessa é que sejam os mesmos fatos, eventualmente em circunstâncias mediante um único princípio que dá conra assim
de uma multipricida-
variadas. de de fatos.

Mas os fatos não se explicam por si sós.


Lei científica: enunciado de uma relação causal
Por mais que vejamos objetos caírem, não constante entre fenômenos ou ele-
mentos de um fenômeno. Reraçoes necessárìas,
naturais e invariáveis. Fórmura geral
coirseguimos observar por que eles caem! que sintetiza um conjunto de fatos naturais,
expressando uma relação funcional
constante entre variáveis. variáver: é todo
Aqui é preciso avançar uma consideração fato ou fenômeno qu. ,. ..r.onrra numa
relação com outros fatos, enquanto
submetido a um processo de variação, qualquer
complicadora: na realidade, "fatos brutos,' que seja o tipo de variação com relação
a alguma propriedade ou grau, a variação
não existem, propriamente falando; não dizem nada: quando ,,obser- de um fato se correlacionando com
auariaçãádo outro. Exempro: o calor dilatando
o metal.
vamos" fatos, já estamos "problemafizados", sentindo alguma dificul-
dade e já de posse de aigum esquema de percepção. Estamos querendo
Por outro lado, pode ocorrer ainda que
várias leis referentes a vários
exatamente saber por que tais fatos estão ocorrendo dessa maneira. por
setores de fenômenos têm a possibilidade
de, por sua vez, ser unificadas
isso, não basra uer, é necessário olhar, e para tanto já é preciso estar pro-
numa lei mais abrangente, que é a teoria.
Exprica assim, num níver mais
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METoDoLoGIA Do TRABALHo cIr-NTfrìco 105

si. Finalmente, várias teorias poderiam se resumir numa única teoriallei


Já quando, em função do conhecimenro de que todos os homens
que explicasse todo o funcionamento do universo: tal seria o sistema, são mortais, concluo que um determinado homem
que encontro vai
que não foi estabelecido aincla, mas que é desejado pelos cientistas. morre! esta conclusão é estabelecida por deduçao. Trata-se de uma pas_
sagem do universal para o particular e pata o singular.
De um princípio
Teoria: conjr-rnto de concepções, sistematicamente organizadas; síntese geral que se
geral, deduzimos outros menos gerais até fatos particurares.
propõe a explicar um conjunto de faros cujos subconjuntos foram explicados pelas leis.
Sistema: conjunto organizado cujas partes são interdependentes, obedecendo a um
único princípio, entendido esre como uma lei absolutamenre geral, uma proposição Dedução: procedimento lógico, raciocínio, pero qual pode
se tirar de uma ou de vá-
rias proposições (premissas) uma concrusão que delas
fundamental. d..orr. por força puramenre
lógica. A conclusão segue-se necessariamente das premissas.

Se observarmos agorao esquema da Figura 1 no sentido horizon- A ciência trabalha, pois, com raciocínios indutivos e com raciocí-
tal, veremos que o método científico se compõe de dois momentos: o nios dedutivos' Quando passa dos fatos às reis, mediante
hipóteses, está
momento experimental e o momento mdtemático. O método científico trabalhando com a indução; quando passâ das reis
às teorias ou destas
é um método experimental/matemático, notando-se que no momento aos fatos, está trabalhando com a dedução.
experimental está em curso a fase indutiua do método, enquanro, no o processo lógico-dedutivo está presenre na ciência sobrerudo na
momento matemático, a ciência se constrói em sua sua matemaúzação, pois a matemática é a
fase dedutiua. sua ringuagem por excerência
Indução e dedução são duas formas de raciocínio, isto é, procedi- e a matemática é uma linguagem lógico_dedutiva.
mentos racionais de argumentação ou de justificação de uma hipótese. Foi esse o método adotado pelos cientistas que rhes
permitiu cons-
No caso do raciocínio indutivo, da indução, ocorre um processo de truir uma imagem mecânica do mundo. o mundo naturar
é um con-
generalização pelo qual o cientista passa do particul ar para o universal. junto de partículas em movimento,
dotadas de energia, e que se rigam
De alguns fatos observados (fatos particulares), ele conclui que a rela- entre si de acordo com "leis fixas e imutáveis",
gerando assim uma total
ção identificada se aplica a todos os fatos da mesma espécie, mesmo regularidade do funcionamento do universo.
àqueles não observados (princípio universal). o que se consratou de Com esse método, a ciência teve pleno
uma amostra é estendido a toda a população de casos da mesma espé- êxito na era moderna. Esse sucesso explica_
cie. Assìm, após constatar que, até o momento, um determinado nú- tivo foi reforçado pelo seu poder em mani_
mero de homens morreram, chega-se à conclusão, por indução, de que pular o mundo mediante a técnica,por cuja
todos os homens são mortais! formação e desenvolvimento ela é arespon_
sável direta. A ciência se legitimou assim
Indução: procedimento lógico pelo qual se passa de alguns fatos particulares
a um por essa sua eficácia operatória, com qual
a
princípio geral. Trata-se de um processo de generalização, fundado no pressuposto
forneceu aos homens recursos reais eraborados
filosófico do dererminismo universal. pela indução, esrabelece-se uma para asustentação de
lei geral a
partir da repetição consratada de regularidades em vários casos particulares; sua existência material. A técnica serviu
da ob- de base para a indtistria, para a
servaÇão de reiteradas incidências de uma dererminada regularidade,
conclui-se pela revolução industrial, o que ampriou, sobremaneira,
o poder do homem
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3.2. OS F['NDAMENTOS TEóRICO-METODOLóGICOS DA CIÊNCIA A produção de conhecimenros científicos sobre o mundo natural,
com a aplicação do rnétodo experimental/matemático, possibilitou
Na modernidacle, a ciência tornou-se ins- a constituição das Ciências Narurais, formando assim o sistema das
tância hegemônica de conhecimento, ao se Ciências da Natureza. Esse método utiiiza-se de técnicas operacionais
propor como substituta da metafísica, área que complementam e aprimoram as condições de observação, de expe-
filosófica que pretendia ser um modo ver- rimentação e de mensuração, procedimentos que precisam ser realiza-
dadeiro e universal de se conhecer o real. dos de forma objetiva, sem influências deturpantes decorrentes de nossa
Mostrando que essa pretensão não se sus- subjetividade. Mas é bom observar que todo esse edifício pressupõe
tefltava) os modernos também conceberam fundamentos filosóficos, de cunho onrológico e de cunho epistemológi-
a ciência como sendo a (tnica modalidade de conhecimento válido, por- co. Isso quer dizer que, ao fazer ciência, o homem parte de uma deter-
tanto) também universal e verdadeiro. Por isso, a ideia deles é que tam- minada concepção acerca da natureza do real e acerca do seu modo de
bém só existiria um único método. conhecer. Essas "verdades" básicas não precisam ser demonstradas nem
Foi sob essa perspectiva de unicidade metodológica que se formou mesmo conscientemente aceitas pelo cientista, mas elas são pressupos-
e desenvolveu o sistema das Ciências Naturais. E foi também sob essa tas. A sistematização dessas posições de fundo são os assim chamados
inspiração que vingou a proposta de se criar o sistema das Ciências Hu- paradigmas - no caso do conhecimento, paradigmas epistemológicos.
manas) uma vez que também o homem e suas manifestações deveriam Para que o conhecimento produzido pela ciência tenha consistência, é
ser tratados como fenômenos idênticos aos demais fenômenos naturais. preciso admitir algumas verdades universais, ou seja, a ciência precisa
Com efeito, na visão dos inauguradores das ciências que tomavam o ho- apoiar-se em alguns pressupostos.
mem como objeto, ele é um ser natural como todos os demais (natura- Para a ciência, o real se esgota na ordem natural do universo físi-
lismo), submisso assim a leis de regulariclade (determinismo), acessível co, à qual tudo se reduz, incluindo o homem e a própria razão, que é
portanto aos procedimentos de observação e de experimentação (ex- razão natural. o homem se constitui então como um organismo vivo,
perimentalismo). Daí a ideia comteana de se criar uma "física social", regido pelas leis da natureza, tanto no plano individual como no social,
cujo objeto seria o homem, indivíduo ou sociedade. Conceber o real leis que determinam sua maneira de ser e de agir. Assim, os valores e
como sendo a natvreza é uma posição metafísica, ontológica, dizendo critérios de sua ação se encontram expressos na ptôprra natureza sob a
respeito ao modo de ser do mundo. É um pressuposto ontológico. Já su- forma de leis de funcionamento que se pode conhecer pelas várias ciên-
por que só podemos ter acesso a esse mundo mediante uma abordagem cias, aplicando-se o método científico, simultaneamente experimental e
experimental/matemática das manifestações fenomênicas é um pressu- matemático.
posto epistemológico.
DOs PARADTGMAS EptsrEMotóGtcos...Para os objetivos deste trabalho, va-
Determinismo universal: princípio segundo o qual todos os fenômenos da natureza
c;^ -;ñi;. ñên tÞ À?rÞrñlrel'nc c interlioarlôs cnrrc ci de ecorrio com leis orre exDres- mos tratar apenas dos paradigmas epistemológicos. O pressuposto epis-
1 08 A|-TôNro JoAeutM st'lvF-lì'lNo METoDoLoGIA Do TP.ABALHo cIE\"rfFIco 109

jeto no pfocesso de conhecimento. Cada modalidade de conhecimento gia experimental/matemática, e designou o


pfessupõe um tipo de relação entfe sujeito e objeto e, dependentemente paradigma epistemológico com os pressu-
dessa reiação, temos conclusões diferentes. Assim, está implicada no postos das ciências naturais como "positi-
conhecimento científico uma afirmaçáo prévia da parte que cabe a cada vismo".
um desses polos. Por isso, o pesquisador, ao construir seu conhecimen- O positivismo é uma expressão da filo-
to, está "aplicando" esse pressuposto epistemológico e' por coerência sofia moderna que, como o próprio nome
interna com ele, yarutiltzar fecursos metodológicos e técnicos pertinen- o diz, entende que o sujeito "põe" o conhe-
tes e compatíveis com o paradigma que catalisa esses pressupostos. Daí cimento a respeito do mundo, mas o faz a
l"i
se falar de referencial teórico-metodológico. partfu da experiência que tem da manifesta-
,.i''i.4;:Èiji.
No caso das pesquis as realízadas no âm- ção dos fenômenos. Entende que o mundo r',jirl:r,;i:li
:ì.t

bito das Ciências Naturais, há praticamente é aquilo que ele se mostra fenomenalmen- ;,,ã,Üi

rrm único paradrgma teórico-metodológico, te, a apreensão de seus fenômenos sendo


que é aquele representado pelo positivismo, feita através de uma experiência controla-
coetâneo à constituição da ciência. Mas no da, da qual são eliminadas as interferên-
caso da pesquisa em Ciências Humanas, cias qualitativas. Daí a única forma segura
além desse paradigma originário, constituí- de conhecimento ser aquela pratrcada pela
r:am-se paradigmas epistemológicos alter- ciência, que dispõe de instrumentos técni-
rlativos, donde se falar hoje de pluralismo cos aptos a superar as limitações subjetivas
paradigmático.Isso porque ao tentar com- da percepção.
preender/explicar cientificamente o que é o homem em sua especifici- A ciência, no sentido estrito em que a
dade, os pesquisadores se deram conta de que hâ vârtas possibilidades entendemos hoje, nasceu na modernidade,
de como se conceber a relação sujeito/objeto, podendo-se ter também quando se fez uma crítica cerrada ao mo-
vártas formas de compreensão/explicação do modo de ser do homem. do metafísico de pensar e de, supostamen-
Assim, no caso das Ciências Naturais, cujo modelo paradigmá- te, conhecer. Esse modo metafísico de co-
tico é a física clássica de Newton, fica implícita nossa capacidade de nhecer era fundado na crença de que nós
conhecer o mundo real mediante o entendimento prévio de que nossa podíamos, com as luzes da nossa razão, chegar à essência
das coisas,
razão aborda o real graças a seu equipamento de observação expe- dos entes e objetos. cada objeto tinha uma essência, uma
naturezapro-
rimentai e a seu equipamento lógico representado pela mensuração pria, imutável, responsável pela identidade específica desse
objeto. por
matemática. um processo epistêmico, a abstração, nós chegaríamos a essa essência,
A tradição filosófica apropriou-se da expressão "positivo", usada conjunto de características permanentes que reahzavama identidade
de
110 Jo-AeutM SEVERTNo
^\NTi)*-ro METODOLOGIÂ DO TRABALHO ()ENTí_i'rCO 11 ]

para conhecer a essência das coisas. Cabe ao conceito expressar men- entre os fenômenos, de tal modo que um determinado estado
do objeto
talmente essa essência,, e, à palavra ou termo, expressar simbolicamente é função constante de outro determinado estado.
o que se estabelece é
o conteúdo conceitual. uma relação funcional quantitatiua. por exemplo, quando se constata
Bsta era a concepção metafísica do real, que a cada grau de temperatura a que é submetida uma barra
d,emetal
que foi hegemônica nos longos períodos his- corresponde uma variação de tamanho dessa barra,está se dizendo que
tórico-culturais da Antiguidade e da Idade a drlatação do metal é função da remperatura. E a dllatação é medida
Média. Mas, a partir do Renascimento, os em centímetros e â temperatura em graus, grandezas puramente
mate-
modernos começaram a questionar essa ca- máticas. A ciência generaliza e conclui que toda vez que uma
barra de
pacidade, negando a possibilidade de nos- metal for submetida a uma variação de temperatura, ela sofrerá
uma
so acesso à essência das coisas. Chegaram à dilatação, em determinada proporção. Tem-se então uma lei científi-
conclusão de que só podemos conheceq de ca que expressa, dessa maneira, uma relação causal constante
entre os
fato, os fenômenos, nunca as essências. Ou fenômenos. As sensações subjetivas de calor e a visão da extensão
dos
seja, só podemos conhecer aquilo que é dado à experiência sensível que objetos são percepções qualitativas, vivenciadas subjetivamente.
nos revela um conjunto de relações entre os objetos, relações que pode-
mos mensurar com os recursos da matemática, mas nunca chegar a suas
eventuais essências. Nasce assim uma nova modalidade de conhecimento, 3.3. A FORMAçAO DAS CIÊNCIAS HUMANAS E OS NOVOS
o modo científico de conhecer, a ciência, que se instaura aplicando um PARADIGMAS EPISTEMOTÓGICOS
novo método próprio, adequado para apreender as relações fenomenais
e mensurá-las quantitativamente. É o método experimental-matem ático, com o do conhecimento científico para a expricação dos fe-
sucesso
cuja aplicação possibilitará ao homem ampliar e aprofundar seu conhe- nômenos naturais (astronômicos, físicos, biológicos)
e em decorrência
cimento da natureza, a tal ponto que passarâ a ter o poder de interferir dos seus pressuposros filosóficos, a ciência passou
a encarar também o
nos objetos, transformando-o pela técnica. A ciência é simultaneamente homem como objeto de seu conhecimento, a ser abordado
da mesma
um saber teórico (explica o real) e um poder prático (maneja o real pela forma que os outros fenômenos nâturais. o homem
seria um ser natu-
técnica). ral como todos os demais (naturalismo), submisso às
mesmas leis de
A ciência apreende seus objetos como fenômenos - ela se atém a regularidade (determinismo), acessível porranto
aos procedimentos de
essa fenomenalidade. Busca estabelecer relações de causa a efeito en- observação, experimentaçâo e mensuração (experimentalismo
e racio-
tre os fenômenos. Tem como pressuposto que o universo é um sistema nalismo). como pretendia comte, é possível e necessário
completo de regularidades e que, por isso, os fenômenos se compor-
- - constituir
uma física social, anâloga à física natural.
tam sempre da mesma maneira, eles seguem "leis", de tal modo que as Assim, ao longo da modernidade e, particularmente) a partir
do
mesmds cdusas þroduzem sempre os rnesmos efeitos, Mas o sentido da século XIX, foram se cônstituindo as ciências
Humanas, com a preren-
112 Ah*TôNro Jo.{eurM SEVERTNo
METoDoloGIA Do TRABALHo CIENTÍFICo i 1 3

naturais. Mas à medida que foram se desenvolvendo os estudos sobre os tural. Para paradigma, a sociedade humana e a cultura são como
esse
diferentes aspectos da fenomenalidade humana, os pesquisaclores come- um organismo, cujas partes funcionam para atender às necessidades do
çaram a perceber que não prevalecia o paradigma epistemológico único conjunto. Toda atividade social e cultural é funcional, ou seja, desempe-
representado pelo positívismo, ou seja, os pesquisadores se dão conta nha uma função determinada, Por isso, o papel das ciências Humanas
de que, no caso do estudo e conhecimento do homem, outros paradig- é o de identificar objetivamente essas relações funcionais, descrevendo
mas podem ser utilizaclos, com resultados igualmente satisfatórios no seus processos e explicitando suas articulações no interior da sociedade.
que concerne à eficácia explicativa. Rompe-se então o monolitismo do Para tanto, elas precisam ser estabelecidas a partir de uma abordagem
paradigma positivista e outros pressupostos epistemológicos são assu- empírica, com métodos apropriados.
midos para fundamentar o conhecimento do homem. Esta a razão de se O Estruturalismo é outra corrente epis-
falag na contemporaneidade, de um pluralismo epistemológico, ou seja, temológica, também inserida na tradição
há vár'ias possibilidades de se entender a rclação sujeito/objeto quando positivista, que muito marcou as Ciências
da experiência do conhecimento, configurando-se vártas perspectivas Humanas, tendo como referência funda-
epistemológicas. Por sua vez, essas novas posições epistemológicas car- mental a obra de Claude Lévi-Strauss. Na
regam consigo outros pressupostos ontológicos, ou seja, outras formas verdade, teve sua origem mais imediâta nos
de cosmovisão que sustentam as concepções acerca da relação sujeito/ trabalhos de linguística desenvolvidos por
objeto. Saussure, ao mostrar que a língua é de fato
Na sua gênese, as Ciências Humanas procuraram praticar a meto- um sistema de signos que funciona indepen-
dologia experimen taI/ matemâtica daciência, assumindo os pressupostos dentemente das intervenções eventuais dos
ontológicos e epistemológicos do Positivismo. Mas as peculiaridades do sujeitos. Esta ideia de que a estrutura é um microssistema anterior à
modo de ser humano foram mostrando a complexidade do fenômeno intervenção histórica dos sujeitos acabou se generali zando para todo
humano e a insuficiência da metodologia positivista para sua apreensão o âmbito da cultura, vista como um grande sistema de comuni cação,
e explicação. Por isso, mesmo sem abandonal a inspiração da tradição como um grande sistema de signos, portador de suas leis e regras gerais
positivista, foram enriquecendo-a e aprimorando-a. que definem, aprioristicamente, as ações dos sujeitos.
Desse modo, aS pesquisas em Ciências Assim, o grande pressuposto do Estruturalismo é que todo sistema
Humanas passaram a se realizar sob a refe- constitui um jogo de oposições, de presenças e ausências, formando
rência teórico-metodológica do Funciona- uma estrutura, constituindo uma estfutura e gerando uma interdepen_
lismo. O funcionalismo apoia-se no pressu- dência entre as partes, de tal forma que as alterações que
ocorrerem
posto da analogia que aproxima as relações num elemento acarretam alteração em cada um dos outros elementos
existentes entre os diversos órgãos de um do sistema, atingindo todo o conjunto.
organismo biológico e aquelas exisrentes o método estrutural assume a fenomenalidade empírica como ob-
rl 4 AN-|ONrO.jOAQUtM SEVERINO
METoDoLoGIA Do TRABALHo cIENTÍFIco 1 15

sua imanência, levando-se em conta sua inserção num sistema, sincro- objeto bem como toda afirmação da tradição, inclusive aquela da pró-
nicamente consideraclo como parte de um todo estruturado, no qual as pria ciência; positivamente,trata-se de ver todo o dado e de descrever o
relações pertencem a grupos de transformações, pertinentes a grupos de objeto, analisando-o em roda sua complexidade.
modelos correspondentes. Diretamente ligada à Fenomenologia, a Hermenêutica vai proBor
Mas a epistemologia contemporânea tem também uma tradição que todo conhecimento é necessariamente uma interpretação que o su-
subjetivista que, ao contrário datradição positivista, questiona a exces- ieito faz a partir das expressões simbólicas das produções humanas,
siva priorização do objeto na constituição do conhecimento verdadeiro. dos signos culturais. Mas, como metodologia da investigação, apoia-se
E propõe um outro modo de conceber a relação de reciprocidade entre igualmente em subsídios epistemológicos fornecidos pela psicanálise,
sujeito e objeto. É o caso da Fenomenologia, da Hermenêutica e da Ar- pela Dialética e pelo próprio Estruturalismo.
queogenedlogia. A investigação antropológica, subjacente às Ciências Humanas,
A Fenomenologia, nascida principalmente na obra de Husserl, vai conduzida sob a inspiração hermenêutica, pressupõe que toda a rca-
referir-se a uma experiência primeira do conhecimento (a experiência lidade da existência humana se manifesta expressa sob uma dimensão
eidética, momento da intuição originária), em que sujeito e objeto são simbólica. A realidade humana só se faz conhecer na trama da cultura,
plrros polos - noético/noemáticos - da relação, não sendo ainda ne- malha simbólica responsável pela especificidade do existir dos homens,
nhuma coisa ou entidade. Pura atividade fundante de tudo que vem tanto individual quanto coletivarnente. E, no âmbito cultural, a lingua-
depois. gem ocupa um lugar proeminente, uma vez que se trata de um sistema
Como paradigma epistemológico, a Fenomenologia parte da pres- simbólico voltado diretamente para essa expressão.
suposição de que todo conhecimenro Íatual (aquele clas ciências fáticas Por isso mesmo, a análise da linguagem, nas diferentes formas de
ou positivas) funda-se num conhecimenro originário (o das ciências ei- discurso, é, atividade central na pesquisa hermenêutica.
déticas) de natureza intuitiva, viabilizado pela condição intencional de Cabe dar especial destaque a uma ren-
nossa consciência subjetiva. Graças à intencionalidade da consciência, dência ligada à tradição subjetivista e que
podemos ter uma intuição eidética, apreendendo as coisas em sua con- vem tendo marcante presença nos dias
dição original de fenômenos puros, tais como aparecem e se revelam atuais, que pode ser designa da como Ar-
originariamente, suspensas todas as demais interveniências que ocor- queogenealogia, derivada que é de duas
rem na relaçã,o sujeito/objeto. o fenômeno se manifesta em sua origi- grandes perspecrivas da epistemologia con-
nariedade quando arelação sujeito/objero se "reduz" àrelação bipolar temporânea: a arqueologia e a genealogia. com efeito, alguns pensa-
noese/noema, pó1o noético/pólo noemático. dores atuais, assumindo uma posição extremamente crítica com rela-
A atitr-rde fenomenol6gica faz com que o método investigativo sob ção ao racionalismo iluminista da modernidade, estão defendendo uma
sua inspiração aplique algumas regras negativas e outras positivas. Ne- outra dimensão para nossa subjetividade, buscando desidentificá-Ia da
gativamente, trata-se de excluir ou suspender, a colocar entre parênte- racionalidade. Propõem substituir a economia da razão pela economia
ses, toda infiuência subjetiva, psicoiógica, toda teoria prévia sobre o do desejo, ou seja, prioúzar, inclusive na ordem do conhecimenro, ou-
tras dimensões que não aquela da lógica racional. Falam de uma des- diferenciadas cla simples sucessão e acumulação. As mudanças no seio da realidade
humana ocorrem seguindo uma lógica da contradição e não da identidade. A his-
territorialização do sujeito, querendo com isso ampliar os espaços da
tória se constitui por uma luta de contrários, movida por um permanente conflito,
subjetividade. Trata-se então de resgatar outras dimensões da vivência imanente à realidade.
humana, sLrpostamente negligenciadas pelos filósofos modernos, como Praxidade: os acontecimentos, os fenômenos da esfera humana, estão articulados
o sentimento, a paixão, a vitalidade, as energias instintivas. O homem entre si, na temporalidade e na espacialidade, e se desenvolvem através da prática,
sempre histórica e social, e que é a substância do existir humano.
não se definiria mais como animal racional mas como uma verdadeira
Cientificidade: toda explicação científica é necessariamente uma explicação que ex-
máquina desejante. plicita a regularidade dos nexos causais, articulando, entre si, todos os elementos da
Uma terceiratradição filosófica é aquela represenrada pela Dialé- fenomenalidade em estudo. Só que esta causalidade, para a perspectiva dialética, se
tica. Esta tendência vê a reciprocidade sujeito/objeto eminentemente expressa mediante um processo hisrórico-social, conduzido por uma dinâmica geral
pela atuação de forças polares contraditórias, sempre em conflito.
como uma interação social que vai se formando ao longo do tempo
Concreticidade: prevalece a empiricidade real dos fenômenos humanos, donde de-
histórico. Para esses pensadores, o conhecimento não pode ser enten-
corre a precedência das abordagens econômico-poiíticas, pois o que está em pauta é
dido isoladamente em relação à prâtica política dos homens, ou seja, a prâtíca real dos homens, no espaço social e no tempo histórico, práxis coletiva.
nunca é questão apenas de saber, mas também de poder. Daí priori-
zarem a práxis humana, a ação histórica e social, guiada por uma
intencionalidade que lhe dá um sentido, uma finalidade inrimamenre
relacionada com a transformação das condições de existência da so-
ciedade humana.
o paradigma dialético uma epistemologia que se baseia em alguns
é
presslrpostos que são considerados pertinentes à condição humana e às
condutas dos homens.

Totalidade: a inteligibilidade das partes pressupõe sua articulação com o todo; no


caso, o indivíduo não se explica isoladamenre da sociedade.

Historicidade: o instante não se entende separadamente da totalidade temporal do


3.4. MODALIDADES E METCIÐOLOGIAS DE PESQUISA
movimento, ou seja, cada mornento é articulação de um processo histórico mais
abrangente. CIENTÍFICA
complexidade: o real é simultaneamente Lrno e múltiplo (unidade e totalidade),
mr:ltipìicidade de partes, articulando-se tanto esrrutural quanto historicamente, de Como se viu, a ciência se constitui aplicando técnicas, seguindo um méto-
modo que cada fenômeno é sempre resultanre de múltiplas determinações que vão
do e apoiando-se em fundamentos epistemológicos. Tem assim elementos
além da simples acumulação, além do mero ajuntamento. um fluxo permanente de
tr ansformações. gerais que são comuns a todos os processos de conhecimento que preten-
Dialeticidade: o desenvolvimento histórico não é uma evolução 1inear, a história é da realizar, marcando toda atividade de pesquisa. Mas, além da possível
sempre um processo complexo em que as partes estão articuladas entre si de formas divisão entre Ciências Naturais e Ciências Humanas, ocorrem diferenças
1 1 8 ANTÕ^"rO JOÂQUIM SEVERTNO METoDoloGtA Do TRABALHo CIENTÍFIco 119

significativas no modo de se praticar a investigação científica, em decor- Quando se fala de pesquisa quantitativa ou qualitativa, e mesmo
rência da diversidade de perspectivas episternológicas que se podem ado- quando se fala de metodologia quantitativa ou qualitativa, apesar da
tar e de enfoques diferenciados que se podem assumir no trato com os liberdade de linguagem consagrada pelo uso acadêmico, não se está
cbjetos pesquisados e eventuais aspectos que se queira destacar. referindo a uma modalidade de metodologia em particular.Daí ser: pre-
Por essa razão,vârias são as modalidades de pesquisa que se podem ferível falar-se de abordagem quantitøtiua, de abordagem qualitatiua,
prattcar, o que implica coerência epistemológica, metodológica e técni- pois, com estas designações, cabe referir-se a coniuntos de metodolo-
ca) para o seu adequado desenvolvimento. gias, envolvendo, eventualmente, diversas referências epistemológicas.
São várias metodologias de pesquisa que podem adotar uma abordagem

3.4.'ã - P esquisa quantitativ a, p esquisa qualitativ a qualitativa, modo de dizer que faz referência mais a seus fundamentos
epistemológicos do que propriamente a especificidades metodológicas.
Uma primeira diferenciação que se pode fazer é aquela entre a pesquisa
quantitativa e a pesquisa qualitativa. Como vimos, a ciência nasce, no
início da era moderna, opondo-se à modalidade metafísica do conheci-
mento, fundada na pretensão do acesso racional à essência dos objetos
reais e afirmando a limitação de nosso conhecimento à fenomenalidade
do real. E esse conhecimento dos fenômenos, por sua vez, limitava-se
à expressão de uma relação funcional de causa a efeito que só podia
ser medida como uma função matemática. Por isso, toda lei científica
revestia-se de uma formulação matemática, exprimindo uma relação 3.4.2. Pesquisa etnográfica
quantitativa. Daí a característica original do método científico ser sua
configuração experimental-mate mâtica. A pesquisa etnográfica visa compreender, na sua cotidianidade, os pro-
Esse rnodelo de conhecimento científico, denominado positivista, cessosdo dia-a-dia em suas diversas modalidades. Trata-se de um mer-
adequou-se perfeitamente à apreensão e ao manejo do mundo físico, gulho no microssocial, olhado com uma lente de aumento. Aplica mé-
tornando-se assim paradigmâtico para a constituição das ciências, in- todos e técnicas compatíveis com a abordagem qualitativa. Utiliza-se do
clusive daquelas que pretendiam conhecer também o mundo humano. método etnográfico, descritivo por excelência.
Mas logo os cientistas se deram conta de que o conhecimento desse
mundo humano não poclia reduzir-se, impunemente, a esses parâmetros
e critérios. Qr,rando o homem era considerado como um objeto pura-
mente natural, seu conhecimento deixava escapar importantes aspectos
relacionados com sua condição específica de sujeito; mas, pàra. garantir
essa especificidade, o método experimental-matemático era ineftcaz.
METoDoLoGIA Do TRABALHo cIENTÍFIco 121

ö.4.3- Fesqwisa participante 3.4.5- Estudo de caso

Ii aquela em que o pesquisador, para realizar a observação dos fenôme- Pesquisa que se concentra no estudo de um caso particular, considerado
nos, companllha a vivência dos sujeitos pesquisados, participando, de representativo de um conjunto de casos análogos, por.ele significativa-
forma sistemática e permanente, ao longo do tempo da pesquisa, das mente representativo. A coleta dos dados e sua análise se dão da mesma
suas atividades. o
pesquisador coloca-se numa postura de identificação forma que nas pesquisas de campo, em geral.
com os pesquisados. Passa a interagir com eles em todas as situações, O caso escolhido para a pesquisa deve ser significativo e bem repre-
acompanhando todas as ações praticadas pelos sujeitos. observando as sentativo, de modo a ser apto a fundamentar uma generalízação para
manifestações dos sujeitos e as situações vividas, vai registrando descri- situações análogas, autorizando inferências. os dados devem ser cole-
tivamente todos os elementos observados bem como as análises e consi- tados e registrados com o necessário rigor e seguindo todos os procedi-
cierações que fizer ao longo dessa participação. mentos da pesquisa de campo. Devem ser trabalhados, mediante análise
rigorosa, e apresentados em relatórios qualificados.

,', : ,. . ,
tËt:
ANDRÉ, Marli E. D. A. de. Estudo de caso em þesquis;a e aualiaçào edncacional.
DEMO, Pedro. Pesquisa participãnte: saber pensar e intervir juntos. Brasília: Líber Brasíiia: Líber Livro, 2005
Livro,2004.
YIN, R. K. Estudo de caso. Porto Alegre: Bookman-Artmed,2001.

3.4.4. Fesquisa-ação 3.4.6- Análise de conteudo

A pesquisa ação é aquela que, além de compreender, visa intervir na si- É uma metodologia de tratamento e análise de informações constantes
ruação, corn vistas a modificâ-la. o conhecimento visado articula-se a de um documento, sob forma de discursos pronunciados em diferentes
uma finalidade inrencional de alteração da situação pesquisada. Assim, linguagens: escritos, orais, imagens, gestos. um conjunto de técnicas de
ao mesmo tempo que realiza um diagnóstico e a análise de uma determi- análise das comunicações. Trata-se de se compreender criticamente o
nada situação, a pesquisa-ação propõe ao conjunto de sujeitos envolvidos sentido manifesto ou oculto das comunicações.
mudanças que levem'a um aprimoramento das práticas analisadas. Envolve, portanto, a análise do conteúdo das mensagens, os
enunciados dos discursos, a busca do significado das mensagens. As lin-
guagens, a expressão verbal, os enunciados, são vistos como indicadores
significativos, indispensáveis para a compreensão dos problemas ligados
às práticas humanas e a seus componentes psicossociais. As mensagens
podem ser verbais (orais ou escritas), gestuais, figurativas, documentais.
Mr.t oDoLocrA Do TRABALHo clENTfFrco 123

sua perspectiva de abordagern se situa na interface


da Linguística gravações, documentos legais. Nestes casos, os conteúdos
e da Psicologia social. Mas enquanro a iinguística dos textos
esruda a ríngua, o ainda não tiveram nenhum rraramento analítico, são ainda
sistema da linguagem) a Anárise de conteúdo atua matéria-pri-
sobre a fara, sobre ma, a partir da qual o pesquisador vai desenvorver sua
o sintagma. Ela descreve, anaiisa e inrerpreta as investigação e
mensagens/enunciados análise.
de todas as formas de discurso, procurando ver o que
está por detrás
Jâ a pesquisa experimental tomao próprio objeto em sua concrerude
das palavras.
como fonte e o coloca em condições técnicas de observação e manipu-
Os discursos podem ser aqueles já dados nas diferentes
formas de lação experimental nas bancadas e pranchetas de um laboratório,
comunicação e interlocução bem como aqueies obtidos onde
a partir de per- são criadas condições adequadas para seu tratamento . paratanto)
guntas, via entrevistas e depoimentos. o pes-
quisador seleciona determinadas variáveis e testa suas relações
funcio_
nais, utilizando formas de controle. Modalidade plenamente
adequada
para as ciências Narurais, é mais complicada no âmbito
das ciências
Humanas, já que não se pode fazer manipulação das pessoas.
Na pesquisa de campo, o objeto/fonte é abordado em seu meio
ambiente próprio. A coleta dos dados é
'.efta nas condições narurais
em que os fenômenos ocorrem, sendo assim diretamente
- pesguisa bibli ográfi ca, pesquisa documentar, pesquisa
3 -Ie-V observados,
sem intervenção e manuseio por parte do pesquisador.
experimentat, pesqu¡sa cte carnpo Abrange desde
os levantamentos (surueys), que são mais descritivos,
até estudos mais
analíticos.
com referência à nattrreza das fontes utilizadas para
aabordagem e tra_
ramenro de seu objeto, a pesquisa pode ser
bibriográfica, de laboratório
e de carnpo. 3.4.8. Pesquisa exploratoria, pesquisa expticativa
A pesqwisa bibliográfica é aquera que se reariza
a partir do registro
disponível, decorrente de pesquisas anteriores, Quanto a seus objetivos, uma pesquisa pode ser explora tória,descriti'a
em documentos impres-
sos) como livros, arrigos, teses erc. utiliza-se ou explicativa.
de dados ou de categorias
teóricas já trabalhados por ourros pesquisadores A pesquisa exploratória busca apenas levantar informações sobre
e devidamenre regis-
trados' os textos ro'nam-se fontes dos temas um determinado objeto, derimitando assim um campo
de trabarho, ma-
a serem pesquisados. o peando as condições de manifestação desse objeto.
pesquisador trabalba a partir das contribuições Na verdade, era é
dos autores dos estudos
uma preparação para a pesquisa explicativa.
analíticos constantes dos textos.
No caso da pesquisa documentar, tem-se como A pesquisa explicatiua é aquera que, arém de registrar e anarisar
fonte documentos os fenômenos estudados, busca identificar suas
no sentido amplo, ou seja, não só de documentos
impressos, mas so-
câusar, ,.;" através da
aplicação do método experimental/matemâtico, seja
bretudo cie outros tipos de documentos, tais arravés da inter-
como jornais, fotos, filmes, pretação possibilitada pelos métodos qualitativos.
METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTfFICO 125

3.4.9- Técnicas de pesqwisa ENTREVISTAS ruÃo-olnervRS Por meio delas, colhem-se informações dos su-

jeitos a partir do seu discurso livre. O entrevistador mantém-se em escuta


As técnicas são os procedimentos operacionais que servem de media- atenta) registrando todas as informações e só intervindo discretamente pa-
ção pratica païa a realização das pesquisas. como tais, podem ser uri- ra, eventualmente, estimular o depoente. De preferência, deve praticar um
lizadas em pesquisas conduzidas mediante diferentes metodologias e diálogo descontraído, deixando o informante à vontade para expressar sem
fundadas em diferentes epistemologias. Mas, obviamente, precisam ser constrangimentos suas representações.
compatíveis com os métodos adotados e com os paradigmas epistemo-
lógicos adotados. ENTREVISTAS ESTRUTURADAS São aquelas em que as questões são direcionadas
e previamente estabelecidas, com determinada articulação interna. Apro-
DocuMENTAcno É toda forma de registro e sistematização de dados, in- xima-se mais do questionário, embora sem a impessoalidade deste. Com
formações, colocando-os em condições cle análise por parte do pesqui- questões bem diretivas, obtém, do universo de sujeitos, respostas também
sador. Pode ser tomada em três sentidos fundamentais: como técnica mais facilmente câtegorizâveís, sendo assim muito útil para o desenvolvi-
de coleta, de organização e conservação de documentos; como ciência mento de levantamentos sociais.
que elabora critérios para a coleta, organização, sistematização, con-
servação, difusão dos documentos; no context o da realização de uma HtsróRn DE vtDA Coleta as informações da vida pessoal de um ou vários
pesquisa, é a técnica de identifi cação, levantamento, exploração de informantes. Pode assumir formas variadas: autobiografia, memorial,
documentos fonres do objeto pesquisado e registro das informações crônicas, em que se possa expressar as trajetórias pessoais dos sujeitos.
retiradas nessas fontes e que serão utilizadas no desenvolvimento do
rrabalho. oBsERVAçÃo Étodo procedimento que permite acesso aos fenômenos es-
tudados. E etapa imprescindível em qualquer tipo ou modalidade de
Documento: em ciência, documento é todo objeto (livro,
iornal, estátua, escultura, pesquisa.
edifício, ferramenta, túmulo, monumento, foto, filme, vídeo, disco, cD etc.) que
se torna suporte material (pedra, madeíra, metal; papei etc.) de uma
informação
(oral, escrita, gestual, visual, sonora etc.) que nele é fixada mediante
técnicas espe- QUESïONÁRIO Conjunto de questões, sistematicamente articuladas, que se
ciais (escrítura, impressão, incrustação, pintura, escurtura, construção
etc.). Nes-
sa condição, transforma-se em fon¡e durável de informação
sobre os fenômenos
destinam a levantar informações escritas por parte dos sujeitos pesquisa-
pesq uisados.
dos, com vistas a conhecer a opinião dos mesmos sobre os assuntos em
estudo. As questões devem ser pertinentes ao objeto e claramente formu-
ENTREV|STA Técnica de coleta de informações sobre um determinado assun_ ladas, de modo a serem bem compreendidas pelos sujeitos. As quesrões
to, diretamente solicitadas aos sujeitos pesquisados. Trata-se, portanto,
de devem ser objetivas, de modo a suscitar resposras igualmente objetivas,
uma interação entre pesquisador e pesquisado. Muito utilizadanas pesqui- evitando provocar dúvidas, ambiguidades e respostas lacônicas.
sas da área das ciências Humanas. o pesquisador visa apreender o que os Podem ser questões fechadas ou questões abertas. No primeiro caso,
sujeitos pensam) sabem, representam f.azeme argumentam.
, as respostas serão escolhidas dentre as opções predefinidas pelo pes-
quisador; no segundo, o sujeito pode elaborar as respostas, com suas CAPíTULO IV
próprias palavras, a partir de sua elaboração pessoal.
De modo geral, o questionário deve ser previamente testado (pré-teste), A PESQUISA NA DINAMICA
mediante sua aplicação a um grupo pequeno, antes de sua aplicaç ão ao
DA VIDA UNIVERSITARIA
conjunto dos sujeitos a que se desrina, o que permite ao pesquisador
avaliar e, se for o caso, revisá-lo e ajustá-lo.

A ciência, como modalidade de conhecimenro, só se pro-


coNcLUtNDo,..
cessa como resultado de articulação do lógico com o real, do teórico
com o empírico. Não se reduz a um mero levantamento e exposição
de fatos ou â uma coleção cle dados. Estes precisam ser articulados me-
cliante uma leitura teórica. Só a teoria pode caracterizar como científi-
cos os dados empíricos. Mas, em compensação, ela só gera ciência se
estiver articulando dados empíricos.
Referências episremológicas são, pois, necessárias para à produção do
conhecimento científico; no entanto, elas não seriam fecundas para a
realização de uma abordagem significativa dos objetos se não dispu-
sessem de mediações técnico-metodológicas. Estas se constituem pelo
conjunto de recursos e instrumentos adequados para a exploração das
fontes mediante procedimentos operacionais. Com efeito, a construção
de conhecimento novo pela ciência, entendida como processo de saber,
só pode aconrecer mediante uma atividade de pesquisa especiahzad,a,
própria às várias ciências. Pesquisas que, além de categorial epistemo-
lógico preciso e rigoroso, exigem capacidade de domínio e de manuseio
de um conjunro de métodos e técnicas específicos de cada ciência que
sejam adequados aos objetos pesquisados.

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