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Processo e Ideologia – Ovídio A.

Baptista da Silva

- Filosofias do Iluminismo – liberais e racionais -> Determinam que o Direito deve ser visto
como uma ciência, a exemplo da matemática. O Direito seria um sistema de conceitos,
destinado a durar pra sempre e desvinculado da história.
- Principal prejudicado com isso é o Direito Processual Civil -> Pois é o ramo jurídico mais
dinâmico, estando em constante contato com a realidade e com o meio social.
O Direito é uma ciência humana, cultural, logo, a lei não é imutável, visto que sempre está se
adequando à realidade/a cada momento histórico -> Autor destaca que, mesmo isso sendo
ÓBVIO, existem posições contrárias que serão ANALISADAS.

As instituições (universitárias e legislativas) exigem que o Direito seja visto dogmaticamente ->
Assim, o Dir. Processual Civil deve ser visto como um sistema de conceitos. Considerando que
a produção normativa é tarefa própria do Legislativo, isso tornaria o Judiciário irresponsável.
- Autor destaca que uma democracia participativa boa exige um Poder Judiciário forte e
atuante -> Principal problema do Judiciário é se adequar a esse modelo iluminista/racionalista.
- Ideologia -> Forma de pensamento baseada em critérios e valores anacrônicos, e, portanto,
inaplicáveis a novas realidades.

A primeira abordagem da Ideologia remete a Francis Bacon, o maior nome do racionalismo ->
Trata-se da Doutrina do ídolos. O pensamento humano seria influenciado por prejuízos (pré-
juízos), que seriam os ídolos:
* Ídolo da Tribo -> Decorre da própria natureza humana.
* Ídolo da Caverna -> Decorre do homem analisado individualmente, com suas deficiências e
aberrações; e também com as diferenças de impressões.
* Ídolo do Foro -> Decorre do homem em contato e se associando com os demais.
* Ídolo do Teatro -> Decorre das filosofias tradicionais, que são fábulas/mentiras.
- Caso o homem consiga se livrar da influência dos Ídolos, o mesmo consegue pensar de forma
pura, alcançando as verdades absolutas.
- Autor destaca premissa de que Bacon apoia-se na figura do Homem, tido como objeto
principal do Renascimento.

Vocábulo “Ideologia” só surge no século XVIII -> Mas, Doutrina dos Ídolos de Bacon
corresponde às ideologias, pois os ídolos (e as ideologias) são falsas/distorcidas visões da
realidade.
A noção de que, através de um pensamento puro e sem ídolos/ideologias se chegaria a
verdades absolutas, é compatível com o pressuposto RACIONALISTA -> O homem, apenas
através da razão, pode chegar a essência das coisas/da verdade.
Alguns autores questionam a utilidade da Ideologia e outros já chegaram a decretar o seu fim
-> IDEOLOGIA NÃO PRESTA, POIS SÓ É UMA VISÃO DISTORCIDA E FALSA DA REALIDADE.

Autor CRITICA MUITO FRANCIS FUKUYAMA -> Esse cara era um dos autores que acreditavam
que o fim do Regime Soviétio gerou o fim da história.
O fim da URSS teria feito com que o regime liberal democracia devesse ser aplicado em todo
mundo -> Democracia liberal seria mais participativa, aberta à pluralidade e com um livre
mercado global (capitalismo).
BOTA PRA FUDER NO FUKUYAMA -> Dizendo que essa visão dele é uma IDEOLOGIA tão
universal e abstrata quanto o Marxismo (seria o extremo contrário), sendo inaplicável.
Autor destaca que Fukuyama se dizia livre de ideologias e apenas adepto do sistema liberal ->
O que era mentira, na verdade ele estava SUBMERSO em uma ideologia equivocada.

Autor destaca 2 riscos ao se tratar das ideologias:


1) PONTO DE ARQUIMEDES -> Consiste em sempre achar que o opositor está maculado por
ideologias, que ele está vendo a realidade de forma falsa e distorcida; assim como que sempre
estamos rumando à verdade absoluta.
FUKUYAMA INCORREU NESSE ERRO -> Ele colocou um confilto entre Ideologia x Democracia
Liberal, como se esta democracia estivesse totalmente correta e fosse perfeita.
O conflito correto é: Ideologia x Racionalismo -> Apenas com um pensamento racional, sem
ideologias, se poderia chegar à essência/verdade das coisas.
IRONIA – aqueles que decretam o Fim da História ou Fim da Ideologia -> Acabam caindo nelas,
foi o que aconteceu com FUKUYAMA e com DANIEL BELL.

FUKUYAMA -> Tratava do Fim da História, que é a mesma coisa que Fim da Ideologia. Ele
muitas vezes confrontava seu pensamento x ideologia.
Sociedades liberais modernas -> Teriam acabado com impulsos dos Impérios de guerra,
escravidão e dependência.
Fukuyama acreditava que as idéias de liberdade e igualdade que motivaram as revoluções de
1776 e 1789 não eram espontâneas, mas sim IDEOLOGIAS criadas pelos escravos -> A principal
das ideologias, que mais contribuiu para o surgimento dos Estados Liberais, foi o Cristianismo.
- Críticas à Fukuyama:
* Liberalismo seria o regime do Escravo Conformado -> Escravo seria educado para mercado
econômico, mas não para buscar a própria liberdade.
* Compaixão não só pelos homens, mas também pelos animais superiores -> Autor faz crítica à
proteção de animais no Brasil pelo IBAMA, enquanto existem menores nas ruas.
* Fukuyama inspirava-se em Hegel, mas esse odiava o Liberalismo.
* Fukuyama pode ter usada errado a expressão hegeliana “Fim da História” -> Hegel poderia
ter usado o termo “fim”, no sentido de propósito ou finalidade, e não de término.

- Autor destaca necessidade de dar um CONCEITO de ideologia, para depois falar do conflito
Ideologia x Utopia, sob a ótica de KARL MANNHEIN.
- Ideologia e Utopia -> Ambas são formas de distorção da realidade, só que opostas.
- IDEOLOGIA E RACIONALISMO -> Ambos se aproximam à medida que o Racionalismo baseia-
se em um pensamento do homem apenas guiado pela razão, ou seja, sem
ideologias/distorções; como uma forma de se chegar à verdade absoluta.
- Essa VERDADE ABSOLUTA é meio impossível de alcançar -> O próprio BACON já afirmava que
era complicado alcançar, porque alguns Ídolos (os Tribais) decorriam da própria natureza
humana.

- Autor destaca também o necessário cuidado com as IDEOLOGIAS TOTAIS -> Geram um
relativismo e um historicismo, os quais fazem com que todas os pontos de vista tenham o
mesmo valor.
- CONSERVADORISMO -> Ele faz com que a pessoa sempre acredite que sua posição está
correta e que a do opositor é IDEOLÓGICA. É a NATURALIZAÇÃO DA REALIDADE PRÓPRIA, que
faz com o indivíduo sempre acredite estar certo.
- Ideologia possui diversos conceitos e sofre diversas críticas/rechaços de autores -> EAGLETON
E ZIZEK acreditam que a IDEOLOGIA DOMINANTE é conhecida e tratada com
descrédito/descaso pela população de cada país. (ZIZEK E LUKACS).

- KARL MANNHEIN utiliza alguns exemplos para explicar a “falsa consciência” das ideologias:
* Ideologia burocrática -> A visão do funcionário público é tão limitada/distorcida a atuar nos
termos da lei, que o mesmo esquece que, por trás dela, existem interesses sociais relevantes.
*Poderes/Classes conservadoras geralmente tendem a achar que apenas emitem
posicionamentos técnicos e a qualificar a parte oposta (muitas vezes dotada de postura
radical) como ideológicas -> Ex.: Conservadores da reforma agrária (grandes agricultores, mídia
etc.) afirmam que os radicais que buscam a reforma são munidos de postura ideológica.

- Uma importante Ideologia reside nas práticas que, apesar de terem sido válidas em
determinado período, deveriam ter sido abandonadas, por não se adaptarem às novas
realidades.
- Exemplo disso é o Sistema Judiciário -> Como as instituições processuais são influenciadas
pelo Racionalismo, as mesmas são afetadas por uma ideologia, uma vez que tal vertente
filosófica decorreu do Movimento do Iluminismo do século XVIII.

-MANNHEIM faz a distinção entre as 2 formas de distorção da realidade:


* Ideologia -> Geralmente voltada ao passado, querendo prolongá-lo. Tem caráter
conservador. Busca a manutenção do statu quo.
* Utopia -> Busca algo que seria futuramente desejável. Tem caráter revolucionário. Busca
romper com a ordem vigente.
- A utopia ocorre em qualquer situação histórica -> Uma vez que sempre existirão grupos
sociais destacando necessidades não-atendidas e desejadas.

- Processo Civil é afetado pelo paradigma do Racionalismo -> O Racionalismo busca


transformar o Direito em uma ciência exata e lógica, como a Matemática.
- Isso gera algumas expressões ideológicas:
* Filósofos como Montesquieu pregaram a separação dos poderes, fazendo com que toda a
produção normativa ficasse como encargo do Legislativo -> O legislador é um super-homem,
produzindo uma norma muito clara, que dispensaria a hermenêutica e a argumentação.
* O racionalismo é, na verdade, bastante autoritário, sendo muito mais tirânico do que
democrático -> Os liberais usam tese rousseauniana da “vontade geral”, para alegar que o
poder decorre do povo.
- PROBLEMA PRINCIPAL: Como o Racionalismo qualifica o Direito como uma ciência exata e
lógica, as decisões produzidas seriam certas ou erradas, que nem uma conta matemática ->
Claro que isso está errado, pois várias decisões distintas podem ser legítimas.
- Apesar de os filósofos modernos combatarem tal visão racionalista, o Direito Processual Civil
continua congelado -> juiz é visto como boca da lei (Montesquieu), processo é instrumento
para revelar vontade da lei (Chiovenda), a qual será revelada na decisão de última instância.

- Ideologia Racionalista presente no Processo Civil:


* Processo de Conhecimento com caráter declaratório -> Retira do magistrado o poder de
império que tinha o pretor romano, ao conceder a tutela interdital.
* Juiz fica quase neutro o tempo todo -> Apenas após ser revelada a “vontade da lei”, o mesmo
pode decidir e emitir um juízo de certeza (SONHO).
* Falta de confiança no magistrado -> Vem desde as revoluções liberais e conflito indivíduo x
Estado.
* Recursos são ridículos -> Cabe recurso de qualquer decisão, pois juízes não são considerados
confiáveis.
- CONCLUSÃO:
1) Ideologia racionalista é própria de um período histórico distinto e muito mais estático -> A
sociedade atual é dinâmica, não cabe ao Processo Civil ficar preso a tais paradigmas.
2) A ideologia racionalista está presente especialmente nos recursos, que, levados ao exagero,
criaram uma absoluta incerteza jurídica. Ciclo vicioso: Juízes não são confiáveis – Cabe Recurso
pra tudo / Recurso tiram legitimidade dos juízes – Juízes tornam-se meros servidores.