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DOSSIÊ: MÉTODOS E EXPLICAÇÕES

DA POLÍTICA*

* Dossiê organizado a partir de mesa redonda reali-


zada no 30º Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu
- MG, outubro de 2006.

Artigos recebidos em dezembro/2006


Aprovados em janeiro/2007

RBCS Vol. 22 nº. 64 junho/2007


LEIS GERAIS, EXPLICAÇÕES
E MECANISMOS
Para onde vão nossas análises?

Eduardo Marques

O presente Dossiê inclui intervenções apre- nos modelos de análise que são mobilizados por
sentadas em mesa redonda sobre explicações na nossa produção científica. Na verdade, essa dis-
ciência política realizada durante o XXX Encontro cussão é muitas vezes substituída por falsas opo-
Anual da Anpocs. Os textos aqui incluídos dis- sições entre elementos necessariamente comple-
cutem métodos e explicações sobre a política, mentares para a produção do conhecimento.
enfocando sobretudo abordagens recentes, como Acredito que o problema tenha várias origens, e
os mecanismos institucionais e relacionais, o lugar embora conheça melhor o caso da ciência políti-
da história e a contribuição da antropologia da ca parece-me que também atinge as demais disci-
política. Embora essas quatro perspectivas variem plinas. Pretendo nesta apresentação estabelecer
substancialmente em termos de abrangência, têm alguns pontos preliminares. Não se trata de esgo-
todas exercido importante impacto sobre o desen- tar as questões destacadas, mas de diferenciar al-
volvimento de estudos sobre a política em perío- guns elementos presentes nesse debate.
do recente, tanto internacionalmente como no Em primeiro lugar, o espaço da discussão
Brasil. Apesar disso, ainda carecemos de publi- sobre método é, por vezes, ocupado entre nós
cações que as tenham sistematizado nos princi- por falsas dicotomias entre técnicas ou entre teo-
pais elementos e mecanismos mobilizados pelas ria e análise empírica. Com efeito, essa dicotomia
explicações. Contribuir para o preenchimento de ecoa oposições clássicas entre dedutivismo e
tal lacuna é o objetivo deste Dossiê. “testemunho das coisas” na história da ciência
A discussão sobre método é relativamente que o desenvolvimento do conhecimento e a sua
rara entre nós, visto que não temos tradição de análise recente pelas ciências sociais superaram
pensar em nossas explicações, nem tampouco ou reintegraram (Latour, 2005). A maior parte do
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ensino de metodologia em nossos cursos, por decisões com relação a ênfases. A utilização de
exemplo, oscila entre a apresentação dos para- uma estratégia baseada em um grande número
digmas teóricos de uma determinada disciplina e de casos com poucas variáveis (usualmente
o ensino das técnicas de pesquisa ali presentes. quantificadas) permite, na maior parte das vezes,
No que diz respeito às técnicas, além disso, uma capacidade de generalização elevada, mas,
somos até mesmo mobilizados para nos posi- por definição, leva o analista para longe dos
cionar em relação à superioridade de certas técni- detalhes e restringe o conjunto de elementos que
cas sobre outras, como, por exemplo, na falsa podem ser estudados conjuntamente (Przeworski
oposição entre quantitativo e qualitativo. Talvez e Teune, 1970). Por outro lado, estudos baseados
este seja o equívoco mais grave que se pode em casos estão muito mais interessados nos deta-
incorrer na matéria em pauta. Técnicas de lhes e tiram a sua capacidade de análise do entre-
pesquisa devem ser apenas aplicadas de forma laçamento e da ordem dos fenômenos e das va-
correta (sob o ponto de vista de seus elementos riáveis (Ragin, 1987), em troca de uma maior
técnicos) e apropriada para um certo objeto e um dificuldade de generalizar. A generalização e a
conjunto de perguntas e objetivos de pesquisa. As compreensão dos detalhes e da variabilidade dos
polêmicas abstratas e principistas sobre técnicas fenômenos somente podem ser alcançadas por
ou sobre estratégias analíticas são completamente meio da combinação dessas duas estratégias, tare-
desprovidas de sentido científico e servem apenas fa que é normalmente realizada com o trabalho
para ocultar conflitos de interesse e poder no cooperativo no interior da comunidade científica
interior da comunidade acadêmica e de suas insti- entre perspectivas diferentes.
tuições. Por vezes representam até mesmo uma Embora essas várias escolhas sejam impor-
defesa em relação a desconhecimentos e inca- tantes, a questão mais geral a que me referi ante-
pacidades. O avanço do conhecimento depende, riormente não se resume a elas, mas se encontra
diferentemente, da discussão de interpretações e nas estruturas da explicação, ou no maior ou
argumentos a respeito de fenômenos. menor controle dos pesquisadores sobre seus
Apesar disso, é verdade que enfrentamos próprios argumentos.
um problema localizado no que diz respeito às O ponto de partida de todo o conhecimen-
técnicas. A produção científica brasileira, em ge- to em ciências sociais é a idéia de que é possível
ral, e o ensino de ciências sociais, em particular, observar e interpretar as regularidades do mundo
apresentam uma lacuna significativa no campo social, sem que isso signifique a abolição das vari-
das técnicas de pesquisa, sejam elas quantitativas ações individuais. Isso pode parecer óbvio, mas
ou qualitativas, sejam exploratórias ou analíticas. representa uma primeira distinção com relação a
O problema é causado em parte por um círculo perspectivas céticas que defendem a impossibili-
vicioso, visto que poucos entre nós foram forma- dade de construirmos explicações em nossas
dos (quando estudantes) para ensinar esse assun- ciências. Além de assumirmos uma postura não
to, o que mantém as novas gerações de cientistas cética em relação ao conhecimento, entretanto,
sociais pouco conhecedoras das principais ferra- quase todos nós partimos de uma visão proba-
mentas técnicas existentes. bilística dos fenômenos no mundo social (Prze-
Uma outra falsa oposição presente com worski e Teune, 1970), incluindo autores que não
alguma freqüência entre nós diz respeito às abordam os seus fenômenos quantitativamente.
estratégias de pesquisa. Assim como no caso ante- Probabilístico tem aqui um sentido ontológico e
rior, a realização de investigações mediante estu- descreve o fato de que os fenômenos sociais sem-
dos de caso ou estudos de variáveis com grande pre variarão de um caso para outro. Nesse senti-
número de casos representa uma escolha impor- do, o tipo de explicação que podemos produzir é
tante entre estratégias de pesquisa, mas que deve diferente de grande parte das produzidas nas
apenas ser apropriada aos objetos estudados e às ciências físicas, em que a maioria dos fenômenos
perguntas que o trabalho pretende responder. é entendida como determinística, sendo possível
Como já fartamente discutido pela literatura inter- prever o comportamento futuro dos fenômenos
nacional, as escolhas analíticas representam incorrendo-se apenas em erros de medida. Na
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verdade, esse tipo de explicação era amplamente meno. As informações podem ser qualitativas ou
hegemônico sob o paradigma da física newtoni- quantitativas, mas, ao final, passam por alguma
ana, mas hoje nem mesmo nas chamadas ciências forma de quantificação. Quando as leis gerais
duras a determinação faz mais parte das expli- centram a sua atenção na existência de moti-
cações responsáveis pelos mais importantes vações e cognições, Tilly as considera um segun-
desenvolvimentos (Prigogine, 1996). De qualquer do tipo de explicação denominado “explicação
forma, no caso dos fenômenos sociais, as vari- por propensões”. Com grande freqüência, em
ações em relação ao previsto por um determina- ambos os casos os estudos mobilizam o que
do modelo explicativo não se devem apenas aos Mahoney (2001) chama de análise de correlação
erros de nossos “instrumentos de medida”, ou às em um sentido lato.
complexas multicausalidades do mundo social Um terceiro conjunto de explicações de
(King, Keohane e Verba, 1994), mas à variabili- grande generalidade incluiria as sistêmicas,
dade da ocorrência dos fenômenos no mundo segundo Tilly. Neste caso, as análises compre-
social (King, Keohane e Verba, 1994; Przeworski endem a ocorrência de um dado fenômeno a par-
e Teune, 1970). Isso ocorre mesmo quando há tir do lugar que ele ocupa em uma estrutura ou
acordo a respeito de explicações, para além das sistema com funcionamento preestabelecido pela
diferenças de perspectiva sociais e éticas que mar- teoria. O funcionamento dos fenômenos é con-
cam o conhecimento na área. Por todas essas siderado automático e autoregulado, sendo
razões, portanto, a construção de teorias de derivado de processos e eventos que ocorrem
médio alcance parece ser para nós a postura sem a necessidade direta de ação social ou atores.
analítica mais parcimoniosa, ao menos como Por fim, um quarto e amplo conjunto de
estratégia provisória de produção cumulativa do explicações mobiliza mecanismos e processos,
conhecimento em ciências sociais. indicando elementos singulares como causas e re-
A discussão detalhada desses pontos, entre- correndo a analogias explicativas parciais e loca-
tanto, nos levaria para longe de nosso argumen- lizadas. Os elementos mobilizados aqui estão
to. Para os objetivos deste debate, basta que esta- próximos da ação social e situam-se, portanto, em
beleçamos que a produção do conhecimento é um nível menos abstrato do que nos três tipos de
possível e que nossos fenômenos tem uma explicação anteriores. Mahoney ajuda a precisar
ontologia probabilística, comportando variações ainda mais o argumento, ao definir que um
em torno dos casos. Dado isso, uma das grandes “mecanismo causal é uma entidade não observa-
clivagens presentes no debate diz respeito ao es- da que, quando ativada, gera um resultado de
tatuto e às estratégias de nossas explicações. Esse interesse” (2001, p. 580). Essa definição parece-
ponto é analisado por vários autores de forma me bastante interessante, pois não apenas chama
dispersa, e em Tilly (2001) de maneira mais a atenção para a dimensão suficiente dos meca-
explícita. Embora a classificação que esse autor nismos (que os diferenciam de meras variáveis
propõe apresente alguns problemas, é bastante intervenientes), mas principalmente destaca o fato
útil como ponto de partida. de que “os mecanismos causais são relações pos-
Para Tilly, há basicamente quatro tipos de tuladas que o pesquisador imagina que existam”
explicação, além da perspectiva cética (que repre- (Idem, p. 581). Isso é de fundamental importân-
senta, de fato, a recusa da possibilidade de expli- cia, uma vez que remete à ontologia dos meca-
cações). Em primeiro lugar, as “leis gerais”, em nismos, indicando que eles não estão no mundo
que o esforço recai sobre a construção de gene- social, mas em nossas teorias. As explicações por
ralizações amplas baseadas em informações mecanismos, portanto, não intencionam descobrir
empíricas de grande envergadura. Neste caso, a a existência de um dado elemento da sociedade,
pesquisa é organizada metodologicamente como mas abrir a “caixa-preta” da causação de determi-
uma grande coleção de informações, controlando nados fenômenos, levando a uma melhor com-
as variações em torno do que seriam médias preensão das dinâmicas sociais.
estatísticas e apontando para as condições as- Tilly descreve três tipos de mecanismos:
sociadas à ocorrência de um determinado fenô- ambientais, cognitivos e relacionais. No primeiro
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caso, temos ações que se vinculam a carac- históricas comportam, focando para além da
terísticas dos contextos que influenciam a vida dimensão de cenário histórico e avançando na
social. Dentre esses, podemos incluir as institu- direção da especificação dos mecanismos históri-
ições, destacadas pelo neoinstitucionalismo, e o cos que cercam e influenciam as dinâmicas políti-
espaço ou o território, destacados pela geografia cas. O terceiro artigo, de minha autoria, discute os
e os estudos urbanos e regionais. Os mecanismos avanços recentes trazidos pelo estudo dos mecan-
cognitivos incluem as ações que se relacionam ismos relacionais enfocados pela análise de redes
com as percepções e os estados mentais dos indi- sociais, campo já bastante amplo internacional-
víduos e grupos sociais, englobando as várias mente, mas infelizmente pouco disseminado entre
explicações derivadas da teoria da escolha nós. Por fim, Karina Kuschnir explora a abor-
racional e suas aparentes violações, como o dagem da antropologia da política, problematizan-
devaneio e a compensação. A maior parte dos ele- do nossas representações sobre a política (dos
mentos classificados por Elster (1998) como pesquisadores e dos próprios atores políticos) e
mecanismos pode ser incluída nessa categoria. Por contribuindo para um melhor entendimento dos
fim temos os chamados mecanismos relacionais, mecanismos cognitivos tão caros a diversas
que, de alguma forma, mobilizam as relações tradições do estudo da política.
entre indivíduos, grupos e organizações, assim
como os padrões gerais formados por tais conjun-
tos de relações, conformando redes sociais. BIBLIOGRAFIA
Parece-me que a classificação de Tilly con-
funde a ambição das explicações (presente nos três ELSTER, J. (1998), “A plea for mechanisms”, in P.
primeiros conjuntos de explicação) com a localiza- Hedstrøm e R. Swedberg (orgs.), Social
ção do elemento causal (presente nos mecanis- mechanisms: an analytical approach to
mos). Assim, é possível que sustentemos que um social theory, Cambridge, Cambridge
determinado mecanismo é de tal forma importante University Press.
que ocorre sempre e, portanto, é o fundamento KING, G.; KEOHANE, R. & VERBA, S. (1994),
de uma lei geral. Nesse sentido, as explicações por Designing social inquiry: scientific
mecanismos, apesar de se localizarem em níveis de inference in qualitative research.
abstração inferior aos descritos pelo primeiro con- Princeton, Princeton University Press.
junto, podem almejar uma generalização elevada.
A força de sua classificação, entretanto, diz respeito LATOUR, B. (2005), Jamais fomos modernos. São
à proposição dos tipos de mecanismos, o que me Paulo, Editora 34.
parece bastante importante para organizarmos as MAHONEY, J. (2001), “Beyond correlation analy-
explicações que temos produzido. sis: recent innovations in theory and
Em nosso caso específico, se articulamos method”. Sociological Forum, 16 (3).
essa classificação com o que afirmei anteriormente
em relação às teorias de médio alcance, parece-me PRIGOGINE, I. (1996), O fim das certezas: tempo,
que a postura mais parcimoniosa a adotar está em caos e leis da natureza. São Paulo,
buscar os mecanismos e os processos de nível Editora da Unesp.
intermediário que explicam os fenômenos, em PRZEWORSKI, A. & TEUNE, H. (1970), The logic
uma estratégia ao mesmo tempo provisória e of comparative social inquiry. Malabr, R.
cumulativa de produção do conhecimento. Os tex- Krieger Pub. Company
tos que compõem este Dossiê partem desse ponto
RAGIN, C. (1987), The comparative method: mov-
de vista. Marta Arretche discute os principais ele-
ing beyond qualitative and quantitative
mentos mobilizados em um tipo de explicação
strategies. Berkeley, University of
ambiental, de natureza institucional, que tem sido
California Press.
objeto de intenso uso e debate nas últimas
décadas. Em seguida, Gilberto Hochman apresen- RAGIN, C. (2006), “How to lure analytic social sci-
ta os principais elementos que as abordagens ence out of the doldrums: some lessons
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form comparative research”. Interna-


tional Sociology, 21 (5).
TILLY, C. (2001), “Mechanisms in political
processes”. Annual Review of Political
Science, 4.
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DOSSIÊ: MÉTODOS E EXPLI- DOSSIER: METHODS AND PO- DOSSIER: MÉTHODES ET


CAÇÕES DA POLÍTICA LITICAL EXPLANATIONS EXPLICATIONS DE LA POLI-
TIQUE

Eduardo Cesar Leão Marques Eduardo Cesar Leão Marques Eduardo Cesar Leão Marques
Marta Arretche Marta Arretche Marta Arretche
Gilberto Hochman Gilberto Hochman Gilberto Hochman
Karina Kuschnir Karina Kuschnir Karina Kuschnir

Palavras-chave Keywords Mots-clés


Explicações; Mecanismos; Neo- Explanations, Mechanisms; Neo- Explications; Mécanismes; Néo-
institucionalismo, História, Redes institutionalism, History, Social institutionnalisme; Histoire; Ré-
sociais e Antropologia da política networks, Political anthropology seaux sociaux; Anthropologie de
la politique
Trata-se de um dossiê sobre método
no estudo da política. São discutidas This is a dossier on method in Il s’agit d’un dossier sur la méthode
metodologias crescentemente uti- studying politics. Prevailing method- dans l’étude de la politique. Des
lizadas em período recente, enfocan- ologies are discussed focusing ini- méthodologies de plus en plus
do-se inicialmente elementos rela- tially on elements relating to politi- employées dans la période récente
tivos à ontologia da política, aos cal ontology, processes analyzed, sont discutées. Nous nous attachons
processos analisados e ao próprio and the very explicative statute of initialement aux éléments relatifs à
estatuto explicativo das diferentes different perspectives. Afterwards, l’ontologie de la politique, aux
perspectivas. Posteriormente, são advances brought by neoinstitution- processus analysés et au propre statut
discutidos de maneira mais detalha- alist analysis, historical studies, explicatif des différentes perspectives.
da os avanços trazidos pela análise social network studies, and political Postérieurement, nous abordons de
neoinstitucionalista, pelos estudos anthropology are more carefully dis- manière plus détaillée les avancées
históricos, pela análise de redes soci- cussed. dues à l’analyse néoinstitutionnaliste,
ais e pela antropologia da política. par les études historiques, par
l’analyse de réseaux sociaux et par
l’anthropologie de la politique.

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