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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 4

2 ADOLESCÊNCIA ........................................................................................ 5

3 FAMÍLIA, ADOLESCÊNCIA E TECNOLOGIAS DIGITAIS........................ 12

3.1 Bem-estar psicológico na adolescência ............................................. 16

4 AS RELAÇÕES ENTRE TECNOLOGIA E SOCIEDADE .......................... 19

4.1 Vício tecnológico: contextualizando nomofobia .................................. 20

4.2 Adolescência e o espaço virtual ......................................................... 24

4.3 Os comportamentos sociais específicos do uso continuado do aparelho


celular na fase da adolescência............................................................................. 27

5 A INTERNET SEGUNDO A PSICOPATOLOGIA ..................................... 29

6 PSICOTERAPIA ....................................................................................... 32

6.1 A contribuição da psicologia para possíveis intervenções no


comportamento social dos jovens a partir do uso do telefone celular .................... 33

6.2 Implicações humanas do uso da internet, jogos eletrônicos e celulares


35

7 DEPENDÊNCIA DA INTERNET ............................................................... 38

7.1 Classificação e tipologia ..................................................................... 45

7.2 Atividades sexuais na internet ............................................................ 46

7.3 Comunicação via internet ................................................................... 48

7.4 Compulsão à navegação .................................................................... 51

7.5 Jogos eletrônicos ............................................................................... 51

7.6 Jogos de azar ..................................................................................... 53

7.7 Fatores de risco da dependência da internet ..................................... 54

7.8 Consequências e benefícios da dependência da internet .................. 55

7.9 Dependência das redes sociais .......................................................... 57

7.10 Etiologia da dependência da internet .............................................. 61


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7.11 Dependência de internet e jogos eletrônicos .................................. 62

7.12 Dependência de internet em adolescentes ..................................... 64

7.13 Dependência de internet e habilidades sociais na adolescência .... 66

7.14 Os transtornos causados pelo uso excessivo da internet ............... 67

8 INTERVENÇÃO E TRATAMENTO EM DEPENDÊNCIA DE INTERNET . 70

8.1 Técnicas sugeridas ............................................................................ 80

9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................... 85

10 BIBLIOGRAFIA ...................................................................................... 91

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1 INTRODUÇÃO

Prezado aluno!
O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um
aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma
pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é
que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a
resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas
poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em
tempo hábil.
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa
disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das
avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que
lhe convier para isso.
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser
seguida e prazos definidos para as atividades.
Bons estudos!

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2 ADOLESCÊNCIA

Fonte: metrojornal.com

A adolescência possui algumas ambivalências quanto à definição de sua


extensão, por isso, a maioria dos teóricos a descrevem como fase intermediária entre
a infância e a fase adulta, ou como etapa de desenvolvimento, desencadeada pelo
surgimento das transformações orgânicas da puberdade que é encerrada através do
amadurecimento psicossocial.
Esta fase do desenvolvimento é bastante caracterizada por fatores como: as
chamadas crises de identidade pela transição da infância à maturidade juvenil; o início
da escolha profissional; a constante busca por autonomia; pelo ingresso na vida
sexual; pelos comuns conflitos familiares e de caráter emocional, as famosas
transformações orgânicas e inconstâncias hormonais, associadas a uma nova
compressão de mundo que se alia à necessidade da representação de novos papéis
e responsabilidades do jovem na sociedade, como sujeito desejante e portador de
conceitos próprios da realidade e ainda, principalmente pela reconstrução e
formatação da identidade.

Parece que a duração da adolescência pode ser razoavelmente definida em


termos de processos psicológicos, em face das limitações no emprego de
outros elementos. Segundo esta estrutura de referência, a adolescência
começa com as reações psicológicas do jovem a suas mudanças físicas da
puberdade e se prolonga até razoável resolução de sua identidade pessoal.
Para alguns, o processo de maturação sexual pode começar na primeira
década da vida e, para outros, jamais se conseguirá um firme senso de
identidade pessoal. Entretanto, para a maioria das pessoas jovens, estes
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eventos ocorrerão principalmente entre as idades de 11 e 20 anos, que
limitam a fase da adolescência. (CAMPOS, 1998; apud ALVES G; 2008).

Segundo Tiba (2005; apud ALVES G; 2008) as crianças hoje estão


adolescendo, cada vez mais cedo, e entrando na fase jovem - adulto ainda mais tarde.
Essas expansões para menos idade e mais idade são novidades psicológicas,
familiares, culturais, sociais. A maioria dessas crianças emancipadas para
adolescência, ainda nem passaram pela puberdade encontrando-se na faixa de 08 a
12 anos.
Estas “crianças” são bastante independentes e precoces para sua idade e
costumam imitar os adolescentes, consomem produtos usados por eles, acham as
outras crianças de sua idade “chatas” e se envolvem em pequenos grupos de
semelhantes com quem se comunicam intensamente via internet e celular,
argumentam com propriedade e possuem certo ar de dominador devido aos
constantes estímulos que vivenciam. (TIBA, 2005; apud ALVES G; 2008).
Para Papalia, Olds & Feldman (2006; apud ALVES G; 2008) a adolescência
dura aproximadamente 10 anos, dos 11 (onze) até pouco antes até depois dos 20
anos, considerando o fato de que seu início e término não podem ser claramente
definidos atualmente. No entanto, considera-se que o início do adolescer se dá com a
entrada na puberdade, processo que conduz a maturidade sexual ou fertilidade, ou
seja, a capacidade de reprodução.
O cuidado com um delinear do início e término da adolescência, pode ser
bastante relevante, e até o século XX, as crianças das culturas ocidentais se
deparavam com o mundo adulto, quando amadureciam fisicamente ou apenas quando
iniciavam um aprendizado vocacional, e hoje, o ingresso na idade adulta leva mais
tempo. E em virtude disso, devem-se levar em consideração o contexto que envolve
o amadurecimento do adolescente sempre que se fizer menção a sua durabilidade.
(TIBA, 2005; apud ALVES G; 2008).
Papalia, Olds & Feldman (2006; apud ALVES G; 2008) enfatizam que uma das
razões da puberdade começar mais cedo do que antes, pode estar ligada a entrada
na vida profissional que tende a ocorrer mais tarde, por causa da sociedade que
atualmente exige períodos mais longos de educação ou treinamento profissional para
que o jovem possa assumir responsabilidades adultas.

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Dá-se o nome de adolescência ou juventude à fase caracterizada pela
aquisição de conhecimentos necessários para o ingresso do jovem no mundo
do trabalho e de conhecimentos e valores para que ele constitua sua própria
família. A flexibilidade do critério, que nos pode levar a categorizar alguém
com vinte e cinco anos como adolescente e alguém com quinze como adulto
[...]. (BOCK; FURTADO & TEIXEIRA, 1999; apud ALVES G; 2008).

Campos (1998; apud ALVES G; 2008) esclarece que delimitar a adolescência


não é uma tarefa muito fácil, em razão dos fatores biológicos específicos, atuantes na
faixa etária, se somarem as determinantes sócio - culturais, advindas do ambiente em
que o fenômeno da adolescência ocorre.
Ou seja, o adolescente não apenas está vulnerável aos efeitos das
transformações biológicas corporais, mas, também as mudanças vividas no mundo
moderno, do progresso científico, da tecnologia, das comunicações, das novas
aspirações humanas e rápida evolução social, que se estabelecem em seu dia a dia
e compõem sua construção como sujeito.
E são estes aspectos que virão a determinar grande parte da identidade deste
jovem, e a maneira dele se posicionar diante da vida, de uma forma muito pessoal, e
indicarão o momento em que ele estará apto ou não para adentrar no estágio de jovem
adulto ou adulto.
Tiba (2005; apud ALVES G; 2008) menciona que assim como a infância
constitui-se por etapas, a adolescência possui as suas, tanto no sentido psicossocial
do adolescer, como no que se refere às mudanças biológicas, destacando-se entre
elas; a confusão pubertária, o estirão, menarca, mudança de voz e onipotência juvenil.
Para Campos (1998; apud ALVES G; 2008) o termo puberdade como derivado
de púbis, que diz respeito a cabelo. Assim, pubescente significa criar cabelos ou
tornar-se cabeludo. Entretanto, usualmente não é esta a qualificação que se deseja
empregar a este termo, mas sim, o simples fato do início do processo de maturação
sexual.
E esta maturação sexual caracteriza-se por fatores como: a ovulação nas
garotas, a espermatogênese no rapaz, as modificações no funcionamento das
glândulas endócrinas, o aparecimento das características secundárias nas jovens
como, o desenvolvimento dos seios que aparecem antes dos pêlos do púbis e pela
voz delas que se aprofunda um pouco durante o adolescer.

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Ao passo que, para os rapazes o primeiro indício de maturação sexual é notado
através do acelerado crescimento dos órgãos sexuais e também por características
secundárias como, a aparição de pêlos pubianos, a barba e a típica transformação da
voz, bem como o aumento da estatura. (CAMPOS, 1998; apud ALVES G; 2008).

As diferenças físicas e o início das possibilidades (através da menstruação e


da ejaculação) de uma vida sexual, absorvem metade do tempo das atenções
dos adolescentes. A estranheza de ver seu corpo dia a dia se modificando,
ora com novos pêlos, ora com espinhas, alongamento dos braços e pernas,
nariz e boca mais carnudos e sensuais, perdendo passo a passo todas as
características infantis para portar desajeitadamente um físico semi adulto,
além das expressões internas hormonais e sexuais bastante intensas, é difícil
inibitória para o jovem. (ZEKCER - org, 1985; apud ALVES G; 2008).

De acordo com Berger (2003; apud ALVES G; 2008) além de a adolescência


começar em meio as alterações físicas da puberdade, ela capacita o jovem a
transcender do pensamento concreto para o pensar abstrato e hipotético. Havendo
em paralelo, mudanças psicossociais voltadas aos pais, à nova independência com
amigos, nova intimidade com a compreensão de si. Sendo estas transformações
precursoras da vida adulta, no qual o tornar-se adulto, não é uma questão de
proporção de intelectualidade, mas sim, de maturidade social.

Mudanças cognitivas levam os adolescentes ao pensamento abstrato, a


refletir mais sobre “o que deveria ser”, “o que poderia ser”, do que sobre “o
que é”. Refletir sobre algo e fazer conjecturas a respeito do futuro deixam de
ser atitudes estranhas para eles, que se sentem cada vez mais inclinados a
especular e imaginar. Na medida em que fazem, suas emoções se
conectarem mais intimamente a seus pensamentos. (ELIAS; TOBIAS &
FRIEDLANDER, 2001; apud ALVES G; 2008).

Zagury (1996; apud ALVES G; 2008) pontua que em ambos os sexos ocorrem
um avanço no desenvolvimento intelectual em que se torna evidente o raciocínio
hipotético – dedutivo, que auxilia em generalizações mais rápidas e no entendimento
de conceitos abstratos. E em razão desta independência intelectual, surge certa
rebeldia, relativa a autoridades em geral, que pode ser facilmente justificada pela nova
habilidade de reflexão questionadora e formadora de opiniões.
Tiba (2005; apud ALVES G; 2008) afirma que, as características psicossociais,
não são como as biológicas que tem a época de emergir, mas, vão se determinando
à medida que o adolescente se depara com a resolução de conflitos. Sendo este, um
momento em que há o típico afastamento do jovem de sua família, devido ao seu
engajamento em inserir-se em grupos sociais.

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Fenwick & Smith (1996; apud ALVES G; 2008) vêm ao encontro desta ideia de
que os adolescentes à medida que amadurecem, vão se desinteressando pelas
atividades da família, dos programas de final de semana e querem ficar, cada vez
mais, com os amigos, ressaltam que esta fase pode ser bastante conflituosa. Pois,
apesar de haver pais que compreendem este processo, como uma atitude que marca
o fim da infância, o que de fato é real, existem aqueles que veem isso, como uma
ameaça a estrutura familiar, apesar de não haver nada de pessoal nesta “rejeição”, e
o adolescente estar simplesmente afrouxando os laços familiares, para ampliar à sua
maneira de interagir com o outro.

Essa desvinculação não é uma rejeição da família, mas uma resposta as


necessidades de desenvolvimento. Adolescentes jovens costumam-se
retirar-se para seus aposentos; parecem precisar ficar sozinhos para fugir das
demandas dos relacionamentos sociais, para recuperar a estabilidade
emocional e para refletir sobre questões de identidade (LARSON, 1997 apud
PAPALIA, OLDS & FELDMAN, 2006 ; apud ALVES G; 2008).

Esta postura do adolescente significa apenas, a busca por ascender na


aquisição e no andamento das inter-relações, pois, inicialmente na fase infantil seus
laços afetivos, amizades e sua forma de se relacionar eram basicamente
intermediadas e até mesmo definidas pelos pais.
Nesta etapa é chegada à hora da própria tomada de decisões, de conquistar
espaço e vínculos próprios, de selecionar e buscar integrar-se a grupos condizentes
com os novos ideais e expectativas que se fazem presentes. E é por isso, que neste
período há esse movimento de buscar tornar-se, ou até mesmo, “transformar-se” em
apto para compartilhar de determinados grupos escolhidos como ideais. O que torna
perfeitamente compreensível o porquê, das constantes mudanças radicais de
vestimentas, linguagem, gosto musical e de posturas diversas no dia-a-dia.
(FENWICK & SMITH, 1996; apud ALVES G; 2008).
Ao passo que, para Zagury (1996; apud ALVES G; 2008) o andamento do
desenvolvimento físico e externo dos adolescentes, segue em conjunto com as
modificações de nível social que os envolve, em que se estabelece a típica tendência
de imitação de vestimentas e atitudes por parte dos jovens, motivada pela busca de
pertencer a um determinado grupo social, ou se identificar com uma determinada
classe de pessoas.

No aspecto afetivo, o adolescente vive conflitos. Deseja libertar-se do adulto,


mas, ainda depende dele. Deseja ser aceito pelos amigos e pelos adultos. O
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grupo de 15 amigos é um importante referencial para o jovem, determinando
o vocabulário, as vestimentas e outros aspectos de seu comportamento.
Começa a estabelecer sua moral individual, que é referenciada à moral do
grupo. Os interesses do adolescente são diversos e mutáveis, sendo que a
estabilidade chega com a proximidade da idade adulta. (BOCK, FURTADO &
TEIXEIRA, 1999; apud ALVES G; 2008).

Carvalho, Salles & Guimarães (2003; apud ALVES G; 2008) evidenciam que
neste período de maturação psicológica, biológica e social, se estabelece a aquisição
de novas capacidades cognitivas, responsabilidades e a inserção do jovem em novos
papéis sociais, que se tornam mais evidentes.
E em função disso são afloradas exigências e expectativas de familiares,
amigos e da própria comunidade sobre o adolescente, que se exercidas sob
condições positivas e apropriadas, podem instigar o desenvolvimento gradual de
autonomia, que poderá vir a facilitar a apropriação da fase adulta deste jovem.
Hall (2001; apud ALVES G; 2008) descreve que atualmente a imagem de
cidadão vem se definindo por comportamentos mais conectados ao consumo, tendo
como alvo principal o público adolescente, os quais são intensamente instigados ao
consumismo e ao distanciamento dos reais apelos e desejos comunitários e a era
digital.
E em torno desta condição atual, os adolescentes vêm aderindo um
posicionamento mais reivindicatório e narcisista, que se dirige apenas a busca de
autossatisfação cuja extensão social não vai além de suas amizades.
Segundo Carvalho, Salles & Guimarães (2003; apud ALVES G; 2008) a
adolescência não se define apenas como transição entre a infância e a fase adulta,
mas, como uma das etapas de desenvolvimento.
Suas transformações corporais são causadoras de grande impacto na
formatação da compreensão da autoimagem corporal do adolescente, e podem ser
influenciadas por experiências anteriores, que o levaram a se compreender, como
uma pessoa atrativa ou não, forte ou fraca, masculina ou feminina, e a aderir uma
percepção de si mesmo em alguns casos contraditória a existente.
Portanto faz-se necessário advertir aos adultos, que estes possuem enorme
influência na construção de autoimagem e apropriação de identidade do adolescente.
E que muitas vezes aqueles que se intitulam adultos, é que acabam julgando os
adolescentes sem capacidade de autonomia ou de desenvolver orientações a partir

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de si mesmos, impedindo-os de deslanchar e apresentar suas próprias construções e
subjetividade. (CARVALHO, SALLES & GUIMARÃES, 2003; apud ALVES G; 2008).

Aborrecência é a adolescência tumultuada, que incomoda os pais.


Acostumados a lidar com filhos crianças, os pais agora têm que se
reorganizar perante os adolescentes, os pais também podem ser os
“aborrecentes” dos filhos. É necessário que os pais adolesçam
(rejuvenesçam) junto com seus filhos adolescentes (crescentes). (TIBA 2005
apud ALVES G; 2008).

Isto ocorre quando se cria antecipadamente estereótipos, negando-os o direito


de fala e pouco se levando em consideração o que eles têm a dizer, por entendê-los
como imaturos demais para a compreensão de algo, que muitas vezes, já está ao
alcance do seu entendimento, e acabam por inúmeras vezes, criando possivelmente
inconscientemente, caricaturas que são incorporadas por eles e passam a ser
aderidas como uma marca de auto reconhecimento, traduzidas em estigmas que
formam ou deformam sua identidade. (CARVALHO, SALLES & GUIMARÃES, 2003;
apud ALVES G; 2008).
Ao proporcionar ao jovem a capacidade de expressar seu ponto de vista, seja
de concordância ou desacordo, lhe é concedida à possibilidade do desenvolvimento
de sua autoconfiança, autoestima, responsabilidade, o que o ajuda a se descobrir por
meio do ato de defender suas ideias, seus próprios posicionamentos, pois, tais
escolhas e suposições exigirão deste, escolhas, reflexão, evidenciando suas crenças
e ideologias pessoais, de maneira que este jovem venha a diferenciar-se do coletivo
e venha a se definir como tal. (CARVALHO, SALLES & GUIMARÃES, 2003; apud
ALVES G; 2008).

“[...] O jovem estabelece sua identidade como um indivíduo enquanto mantém


suas antigas conexões com elementos significativos do passado, formando
novas ligações com os valores de um determinado grupo (O grupo pode ser
um grupo de colegas, um grupo étnico, um time, um culto, uma turma ou
algum grupo. O aspecto crucial é que todo adolescente de certo modo se
identifica com um grande número de indivíduos) ”. (BERGER, 2003, ; apud
ALVES G; 2008).

Portanto, pode-se concluir que os adolescentes possuem como referências,


adultos, colegas, pai, mãe, educador, irmãos mais velhos ou mais novos, que o
ajudam a se auto organizar, reconhecer e por fim localizar-se no contexto social,
psicológico e até mesmo biológico.

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Eles passam por inúmeras inconstâncias e desafios, que não se restringem
simplesmente ao abandono de atributos infantis, mas, dizem respeito a toda uma nova
posição existencial, ao experimentar das desconhecidas emoções, capacidades de
reflexão, interação social e sobretudo de reestruturação da concepção que possuem
de si, pautada em suas novas habilidades, as quais virão a definir sua autoimagem e
noção de identidade própria.

3 FAMÍLIA, ADOLESCÊNCIA E TECNOLOGIAS DIGITAIS

O ser humano, ao longo de toda a sua vida, é influenciado e influencia o seu


meio, cria laços familiares, profissionais e amistáveis, assim gerando a sua identidade,
buscando distinguir o que é certo ou errado. Porém, suas escolhas são feitas,
principalmente, sobre o embasamento familiar. Na adolescência, é que suas escolhas
são desenvolvidas, buscando seu espaço diante do mundo.
O atual conceito de família está ligado à afetividade como elemento principal;
através das relações de afeto, desenvolvemos as melhores capacidades, reativamos
habilidades natas, transformamos nossa personalidade e retificamos nossos traços
de caráter que precisam ser realinhados. Os pais têm o dever de educar e criar os
filhos sem negar-lhes a atenção necessária para a formação da personalidade
(CHALITA, 2001 apud SILVA T; SILVA L; 2017).

[...] a família tem a responsabilidade de formar o caráter, de educar para os


desafios da vida, de perpetuar valores éticos e morais. Os filhos se
espelhando nos pais e os pais desenvolvendo a cumplicidade com os filhos.
[...] A preparação para a vida, a formação da pessoa, a construção do ser são
responsabilidades da família. É essa a célula mãe da sociedade, em que os
conflitos necessários não destroem o ambiente saudável. (CHALITA, 2001,
apud MESCHIAL R; SIMONETTO K; 2015).

Os filhos, por muitas vezes, utilizam os exemplos familiares como espelho. O


ambiente familiar é de extrema influência na formação da identidade de cada ser,
portanto, os valores, os objetivos, os ensinamentos são adquiridos a partir do meio
em que a criança está inserida.
Segundo Lev Vygotsky (1986 apud SILVA T; SILVA L; 2017), na ausência do
outro, o homem não se constrói homem, pois, para ele, apenas as funções biológicas
e psicológicas elementares, não são suficientes para promover um ambiente de
aprendizado completo; necessitando assim do meio. Desse modo, a cognição superior
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do homem surge, ou é potencializada, apenas através da interposição de um elemento
intermediário, mediador, entre estímulos e respostas que são captadas e produzidas
por uma pessoa (OLIVEIRA, 1997 apud SILVA T; SILVA L; 2017).
Neste contexto, a família é um fator que determina o desenvolvimento do
indivíduo, operando uma forte influência desde a sua vida infantil para a adulta, sendo
também, responsável pelos primeiros contatos afetuosos. É na família que se
encontra todo o referencial de costumes, crenças e valores.
É nela que a criança inicia sua jornada de vida, desenvolve seus estágios de
aprendizagem piagetianos, dando continuidade na fase da adolescência, período este
que marca um estado de transição do indivíduo, evoluindo de um estado de intensa
dependência para uma condição de autonomia pessoal.
A adolescência pode se dizer que é um evento previsível, que apresenta grande
impacto na vida familiar, além de ser considerada como uma crise importante no
contexto da família. (KALINA, 1999, TALLÓN; cols, 1999 apud SILVA T; SILVA L;
2017). É uma fase marcada por mudanças evolutivas rápidas e intensas nos sistemas
biológicos, psicológicos e sociais. (MARTURANO, ELIAS; CAMPOS, 2004 apud
SILVA T; SILVA L; 2017).

[...] esse ciclo corresponde a um período de descobertas dos próprios limites,


de questionamentos dos valores, das normas familiares e de intensa adesão
aos valores e normas do grupo de amigos. Nessa medida, é um tempo de
rupturas e aprendizados, uma etapa caracterizada pela necessidade de
integração social, pela busca da autoafirmação e da independência individual
e pela definição da identidade sexual (SILVA; MATTOS, 2004, apud SILVA
T; SILVA L; 2017).

Sendo assim, a adolescência é uma fase em que o sujeito se encontra na busca


da identidade. Surge à necessidade de responder a diversas dúvidas, que levam os
adolescentes a agirem e pensarem com intuito de traçar planos e tomar decisões a
fim de encontrar o seu lugar na sociedade.
Entretanto, muitas vezes, devido a essas necessidades, o adolescente
apresenta reações impactantes em relação às autoridades em geral, principalmente
dos pais ou responsáveis, sendo uma etapa, na qual as regras costumam ser
questionadas ou negadas.

Nessa etapa do desenvolvimento, o indivíduo passa por momentos de


desequilíbrios e instabilidades extremas, sentindo-se muitas vezes inseguro,
confuso, angustiado, injustiçado, incompreendido por pais e professores, o
que pode acarretar problemas para os relacionamentos do adolescente com

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as pessoas mais próximas do seu convívio social. Entretanto, essa crise
desencadeada pela vivência da adolescência é de fundamental importância
para o desenvolvimento psicológico dos indivíduos. (DRUMMOND, 1998
apud PRATTA, 2007, apud SILVA T; SILVA L; 2017).

Dessa maneira, esse é um processo no qual o adolescente passa por grandes


transformações, principalmente no que se refere à comunicação no contexto familiar.
Por isso, é de grande importância à comunicação entre os pais e os filhos. A criação
de um ambiente onde possa existir uma partilha de emoções e opiniões de forma livre,
segura e respeitosa é de fundamental.
Para um adolescente, é importante que o seu ponto de vista seja valorizado,
pois ele está nesse conflito interno e na transição da fase infantil para a adulta.
Por esse motivo, o diálogo nessa etapa do desenvolvimento assume um papel
ainda mais importante, apesar de muitas vezes os adolescentes buscarem se fechar
em seu mundo próprio.
Devido a essa tendência à reclusão e à busca de refúgio na fantasia e no
devaneio, o diálogo com os membros da família, nessa etapa da vida, é essencial,
pois é justamente nesse período que eles mais necessitam da orientação e da
compreensão dos pais, sendo que todo o legado que a família transmitiu aos mesmos
desde a infância continua sendo relevante (DRUMMOND, 1998, apud SILVA T; SILVA
L; 2017).
A busca do adolescente por refúgio pode ser um indicativo de problemas,
vindos tanto, do meio extrafamiliar como do meio intrafamiliar. A família se enquadra
em um papel que auxilia a geração dos adolescentes nas diversas questões nas quais
estão inseridos, como por exemplo, a experiência vivida no mundo virtual, a partir do
uso de tecnologias digitais.
A família deve ficar atenta aos novos meios de comunicação, que alteram a
forma como a comunicação intrafamiliar vem sendo tratada. A literatura ressalta ainda
que o aumento desses conflitos geralmente está acompanhado de uma diminuição na
proximidade do convívio, principalmente em relação ao tempo que adolescentes e
pais passam juntos (STEINBERG; MORRIS, 2001, apud SILVA T; SILVA L; 2017).

[...] é importante que pais e mães atentem-se ao mundo frequentado por seus
filhos, seja ele real ou virtual. Acompanhar e encontrar, desde os primeiros
passos digitais dos filhos, oportunidades de tornar a tecnologia uma aliada no
estreitamento das relações familiares é mandatório para pais e mães que não
desejam viver em mundos totalmente diferentes dos seus filhos no futuro.
(Alves 2011 apud SILVA T; SILVA L; 2017).

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As tecnologias digitais usadas de forma inadequada e excessiva entram como
catalisação para alterar a forma como o convívio familiar é tratado. Elas abrem uma
lacuna nas relações familiares, deixando pais e filhos em mundos totalmente
diferentes. Para Velloso (2014 apud SILVA T; SILVA L; 2017), chamam-se de Novas
Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação às tecnologias e métodos para
comunicar surgidas no contexto da Revolução Informacional, considera-se que o
advento destas novas tecnologias (e a forma como foram utilizadas por governos,
empresas, indivíduos e setores sociais), possibilitou o surgimento da sociedade da
informação.
A forma de como essas tecnologias digitais foram inseridas no contexto familiar,
vem alterando o formato que a família se reúne, evidenciando que o diálogo e a
participação na vida dos adolescentes é bastante importante.
Segundo Dumazedier (1994 apud SILVA T; SILVA L; 2017), a conversação não
morreu, mas mudou, incluindo então um terceiro grupo, o dos atores, apresentadores
e estrelas da televisão, novos convidados da noite.
O rádio e, posteriormente, a televisão foram os primeiros meios de
comunicação a invadirem e alterarem o cotidiano e os hábitos familiares. Antes, as
famílias sentavam-se envolta da mesa e discutiam as atividades diárias. Após a
popularização desses meios, houve uma alteração do ambiente para as diárias
reuniões familiares, passando a se reunir ao redor da televisão, na sala de estar.
Com a entrada do Século XXI, houve grandes avanços nos meios de
comunicação e entretenimento. Inovações tecnológicas como smartphones, tablets,
aparelhos de MP3, ipods, netbooks etc, avanços nos meios televisivos como, por
exemplo, a TV digital aberta e a TV por assinatura também tiveram um enorme
crescimento. Entretanto, o principal avanço foi no ramo da internet de banda larga e
no acesso sem fio. Atualmente, nos grandes centros urbanos, pode-se ter acesso fácil
e ilimitado à rede mundial de computadores.
Nos lares, cada integrante tem dentro do seu aposento, inúmeros recursos
tecnológicos como televisores, notebooks, acesso fácil à internet, gadgets (dispositivo
aparelho portátil de vários segmentos, como celular, smartphone, MP3, MP4, tablet
etc.). Desse modo, cada membro da família passa mais tempo dentro do quarto,
permanecendo “conectado” com o mundo virtual. Principalmente, em se tratando dos
adolescentes, estes que são os mais propícios ao uso das tecnologias digitais.

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De acordo com uma entrevista concedida pelo jornal americano New York
Times, Steven Paul Jobs, criador da Apple, entre outros, declarou não permitir que os
filhos usassem aparelhos tecnológicos, mesmo sendo máquinas de sua própria
invenção, surpreendendo o entrevistador Nick Bilton (Jornalista britânico, especialista
na área da tecnologia).
Bilton (2010 apud SILVA T; SILVA L; 2017) relata que em várias entrevistas
feitas com os renomados líderes de potências mundiais na área da tecnologia digital,
eles apresentaram opiniões semelhantes à de Jobs.
Exemplos como Chris Anderson, Alex Constantinople e Evan Williams, que
mencionaram em entrevistas, os limites de tempo, o controle de todos os aparelhos
digitais, além das restrições impostas, compartilhando assim da mesma ideia, sob a
alegação dos riscos das tecnologias digitais, dentre os quais incluem exposição a
conteúdo prejudicial, como pornografia, bullying, vício nos aparelhos, problemas
sociais, cognitivos e afetivos.
Dessa maneira, podemos enfatizar a importância de negociar regras e limites
com os adolescentes. Porém, é fácil nos depararmos com o fato de que a maioria dos
responsáveis faz exatamente o contrário, permitindo que os adolescentes,
ultrapassem o tempo limite de uso das tecnologias digitais.
Hanaver (2005 apud SILVA T; SILVA L; 2017) afirma que as pessoas estão
deixando de sair de casa para se divertir com amigos e ficar em frente ao computador
teclando com outras pessoas. Portanto, atualmente, a tecnologia mais uma vez está
modificando o convívio familiar e social. Ela está sendo incluída como um fator
indispensável, participando de qualquer situação ou contexto em que as pessoas
estejam.
O mundo virtual vai progredindo e confundindo os seus limites com o mundo
real. As tecnologias digitais vão transformando os comportamentos e hábitos sociais
de todos que fazem o seu uso, sobretudo, dos adolescentes.

3.1 Bem-estar psicológico na adolescência

O conceito de bem-estar tem sido estudado pela Psicologia Positiva, que é uma
abordagem da psicologia que dá especial relevância às variáveis positivas do
comportamento humano (Cabral, 2011 apud MACHADO M; 2015).

16
Esta abordagem privilegia o estudo das emoções, valores e experiências
positivas do comportamento do ser humano, nomeadamente as experiências
subjetivas positivas (e.g. felicidade, optimismo, bem-estar, esperança); os traços
individuais positivos (e.g. coragem, perseverança, originalidade) e as virtudes cívicas
(e.g. civismo, altruísmo, responsabilidade) (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000;
Araújo, Cruz & Almeida, 2007 apud MACHADO M; 2015).
O início da investigação deste construto, a esta abordagem da psicologia se
deve. Na literatura existente o conceito de bem-estar é muitas vezes aplicado como
sinônimo de “satisfação com a vida‟, “felicidade‟, no entanto estes construtos são
diferentes entre si. Segundo Ryan e Deci (2001 apud MACHADO M; 2015), o construto
de “bem-estar‟ vincula-se a duas abordagens distintas: hedônica (ausência de dor,
sofrimento, obtenção máxima de prazer, felicidade) e eudaimónica (bem-estar ao nível
de um funcionamento psicológico positivo realização pessoal).
Enquanto a primeira se pauta pela ausência de afeto negativo, a segunda
passa por uma vivência humana completa (Ryan & Deci, 2001 apud MACHADO M;
2015). Schmutte e Ryff (1997; Fernandes, 2007) concluíram, no seu estudo, que a
personalidade é uma determinante para o bem-estar.
Enquanto a primeira se pauta pela ausência de afeto negativo, a segunda
passa por uma vivência humana completa (Ryan & Deci, 2001 apud MACHADO M;
2015). Schmutte e Ryff (1997; Fernandes, 2007 apud MACHADO M; 2015)
concluíram, no seu estudo, que a personalidade é uma determinante para o bem-
estar. Assim, o bem-estar tem sido estudado em duas linhas, por um lado o BES, por
outro o BEP.
A grande diferença entras as duas linhas é que o modelo de BES é
conceitualizado a partir da ideia de felicidade, que combina a satisfação geral com a
vida e o afeto positivo; e o modelo do BEP (bem-estar psicológico) considera a
felicidade, contudo contempla também dimensões psicológicas importantes para um
funcionamento psicológico positivo (Galinha & Pais-Ribeiro, 2005; Cabral, 2011 apud
MACHADO M; 2015).
Para Keys, Shmotkin & Ryff (2002 apud MACHADO M; 2015), o modelo de BES
apenas permite avaliar a felicidade sentida pelo indivíduo, enquanto que o BEP
permite analisar o sentimento de felicidade em vários domínios psicológicos e

17
identificar os recursos psicológicos que o indivíduo tem, ao nível das relações
interpessoais, aceitação de si, entre outros.
Modelo de Carol Ryff: o desenvolvimento do atual modelo desenvolvido
do BEP, comporta seis dimensões:
 Autonomia (capacidade de auto regulação e sentimento de
autodeterminação);
 Crescimento pessoal (sentimento de desenvolvimento contínuo e
abertura a experiências que tenham em vista a maximização do seu
potencial);
 Objetivos na vida (definição de propósitos de vida e auto-realização);
 Domínio sobre o meio (capacidade de gestão da sua vida e de situações
e exigências extrínsecas a si;
 Relações positivas com os outros (estabelecimento de relações
positivas com os outros);
 Aceitação de si (percepção e aceitação de aspectos do próprio
relacionados com características boas e menos boas) (Ryff, 1989; Ryff
& Keyes, 1995 apud MACHADO M; 2015).
Estas seis dimensões definem um funcionamento psicológico positivo, no
entanto não conduzem ao bem-estar, mas compreendem em si o bem-estar (Ryff,
1989). Ryff (1989 apud MACHADO M; 2015), através do modelo pretendeu
desenvolver o conceito de bem-estar psicológico numa perspectiva mais psicológica
atendendo aos indicadores de maturidade e equilíbrio psíquico. Neste modelo, o BEP
é definido como um construto multidimensional que abarca dimensões do
funcionamento psicológico positivo, na idade adulta e velhice (Fernandes, 2007 apud
MACHADO M; 2015).
Poucos são os estudos que investigam o BEP em adolescentes tendo em conta
o modelo de Carol Ryff, debruçando-se mais numa abordagem hedónica. Apesar do
modelo ter sido desenvolvido para a idade adulta, considera-se que as dimensões do
funcionamento psicológico positivo, como objetivos de vida, crescimento pessoal,
autonomia, sejam importantes para a compreensão do bem-estar na adolescência,
uma vez que se relacionam fortemente com a formação da identidade pessoal, tarefa
desenvolvimental considerada na fase da adolescência (Erikson, 1995 apud

18
MACHADO M; 2015), devendo assim ser consideradas em investigações com
adolescentes (Fernandes, 2007 apud MACHADO M; 2015).
Com esta lacuna existente na literatura, Fernandes (2007 apud MACHADO M;
2015) debruça-se sobre o BEP na adolescência através da validação da escala e
modelo de Carol Ryff.

4 AS RELAÇÕES ENTRE TECNOLOGIA E SOCIEDADE

Tecnologia e sociedade estão relacionadas reciprocamente. Enquanto que a


tecnologia modifica as relações sociais, as próprias relações sociais demandam de
novas tecnologias. Dentro dessa percepção, pode-se relacionar a diversas áreas de
mudanças sociais com relação à tecnologia.
Para Winner (2004 apud CARR, 2011 apud ZANCAN C; TONO C; 2018) “a
experiência da sociedade moderna mostrou que as tecnologias, não são meramente
auxílios, à atividade humana, mas também forças poderosas agindo para remodelar
essa atividade e seu significado”.
Karl Marx corroborou com a ideia de determinismo tecnológico quando disse
que: “O moinho de vento nos dá a sociedade com o senhor feudal; a máquina a vapor,
a sociedade com o capitalista industrial” (CARR, 2011 apud ZANCAN C; TONO C;
2018). Em oposição a essa ideia, Carr (2011 apud ZANCAN C; TONO C; 2018)
menciona os grupos que diminuem o poder da tecnologia crendo que os instrumentos
são componentes neutros, completamente servis aos anseios conscientes dos seus
usuários.
É essencial considerar sobre até que ponto a tecnologia está sendo utilizada
como instrumento para promover e elevar ao máximo os potenciais humanos e, em
que momento e sob que circunstâncias o homem torna-se escravizado pelo uso da
tecnologia, tornando-o alienado, submisso e com sua maneira de refletir e agir
transformada?
Para Sancho (1998 apud ZANCAN C; TONO C; 2018), “a interação do indivíduo
com as tecnologias tem transformado o mundo e o próprio indivíduo. Assim, pode-se
identificar que a relação entre ciência e tecnologia vai aos poucos modificando o
indivíduo e as sociedades; esta mudança ocorre independente da utilização que se
faça da tecnologia. Portanto, toda e qualquer tecnologia vai materializando um espaço

19
humano novo. A assimilação da tecnologia pela cultura acontece a partir de princípios
pré-fixados pelas sociedades.
Seguindo ainda com Sancho (1998 apud ZANCAN C; TONO C; 2018) pode-se
dizer que “a tecnologia constitui um novo tipo de sistema cultural que reestrutura o
mundo social e ao escolhermos as nossas tecnologias nos tornamos o que somos e
desta forma fazemos uma configuração do nosso futuro”.
Sendo assim, a tecnologia confere à ciência exatidão e domínio nos resultados
de seus descobrimentos, promovendo não só o relacionamento do indivíduo com o
mundo, como deixando que domine, controle e mude esse mundo.

Caso os gestores educacionais, responsáveis pelos processos de inclusão


digital dos espaços escolares fossem informados dos riscos do uso das
tecnologias nas diversas dimensões humanas, poderiam contribuir para que
não ficassem inertes a este fenômeno e promoveriam um processo de
mudança física, estrutural e de orientação para o uso da tecnologia por
crianças e adolescentes, de modo a prevenir efeitos prejudiciais (TONO,
2015).

4.1 Vício tecnológico: contextualizando nomofobia

O crescimento da inovação tecnológica demandou uma alteração no


comportamento e hábito da sociedade, considerando o ato de “estar conectado” a uma
condição fundamental para se incorporar a um mundo cada vez mais interativo, onde
a informação é uma significativa moeda de poder e troca (BORGES; JOIA, 2013 apud
OLIVEIRA T; 2018). Nesse sentido, computadores, internet e telefones celulares se
tornaram indispensáveis no dia a dia das pessoas, proporcionando uma comunicação
imediata e ágil para quem busca praticidade e autonomia (KING; NARDI; CARDOSO,
2014 apud OLIVEIRA T; 2018).
As tecnologias móveis podem modificar as dinâmicas sociais através de novas
formas de comunicação e participação (LYYTINEN; YOO, 2002 apud OLIVEIRA T;
2018). Nesse sentido, levando-se em consideração os constantes avanços
tecnológicos, os smartphones se tornaram indispensáveis, sendo crescente, segundo
Szpakow, Stryzhak e Prokopowicz (2011 apud OLIVEIRA T; 2018) e Krajewska-Kułak
et al. (2012 apud OLIVEIRA T; 2018), o aumento do seu uso na última década,
especialmente em crianças e adolescentes.

20
Assim, diante das suas inúmeras capacidades, os celulares facilitam a
comunicação instantânea, ajudam as pessoas a permanecerem conectadas em
qualquer lugar e a qualquer hora, além de proporcionar constante acesso à
informação (PARK et al., 2013 apud OLIVEIRA T; 2018).
A introdução de telefones celulares e novas tecnologias têm moldado a vida
diária, com aspectos positivos e negativos. Não só na vida pessoal e social, mas
também no âmbito profissional, o uso de smarthphones funcionam como ferramentas
facilitadoras e de fundamental importância para a realização das atividades, estando
cada vez mais incorporadas ao ambiente de trabalho.
Entretanto, apesar dos seus benefícios, o uso em excesso de smartphones
pode causar dependência, provocando alterações emocionais, bem como sintomas
físicos e psicológicos, tais como: aumento da ansiedade, taquicardia, alterações
respiratórias, tremores, transpiração, pânico, medo e depressão (KING et al., 2014
apud OLIVEIRA T; 2018).
A dependência do uso de computadores, internet e telefone celular pode ser
caracterizada, segundo King et al. (2014 apud OLIVEIRA T; 2018), como nomofobia,
que significa o medo moderno de ser incapaz de se comunicar através do smartphone
ou da internet. Nomofobia é, portando, a angústia ou medo do indivíduo ficar
impossibilitado de se comunicar pelas novas tecnologias, ou seja, a fobia de estar sem
o telefone celular, computador e/ou internet.
Nessa perspectiva, Yildirim e Correia (2015 apud OLIVEIRA T; 2018), também
definem nomofobia como sendo: O medo de não ser capaz de utilizar um aparelho ou
um telefone móvel e/ou os serviços oferecidos. Refere-se ao medo de não ser capaz
de se comunicar, perdendo a conexão que os smartphones permitem, não ser capaz
de acessar informações através dos smartphones, e a conveniência que os
smartphones oferecem.

O termo foi utilizado pela primeira vez na Inglaterra em 2008, referente a


abreviação das palavras inglesas “no mobile phone phobia”, que significa
“fobia de ficar sem telefone”. Originado de um estudo que investigava o nível
de ansiedade dos usuários de telefone celular, a pesquisa detectou que cerca
de 53% dos usuários sofriam de dependência crônica pelo uso do aparelho
(YILDIRIM; CORREIA, 2015; KING et al., apud OLIVEIRA T; 2018).

O estudo também revelou que os homens eram mais propensos a ter


nomofobia do que as mulheres, indicando sentimentos de ansiedade quando não era
possível usar o telefone.
21
Não obstante, após quatro anos, uma nova pesquisa realizada no mesmo país
identificou que o número de pessoas que sofriam de nomofobia havia aumentado de
53% para 66% (SECURENVOY, 2012 apud OLIVEIRA T; 2018).
Além disso, ao contrário da pesquisa anterior, o novo estudo descobriu que as
mulheres eram mais suscetíveis a nomofobia. Em relação à faixa etária, constatou-se
que jovens com idades entre 18-24 anos foram mais propensos a nomofobia, seguido
por usuários com idade entre 25-34 anos (BRAGAZZI; PUENTE, 2014; YILDIRIM;
CORREIA, 2015; KING et al., 2014 apud OLIVEIRA T; 2018).
Nessa perspectiva, Rosen et al. (2012 apud CHEEVER et al., 2014 apud
OLIVEIRA T; 2018) também detectaram que as pessoas mais jovens utilizam os
smartphones com maior frequência do que os indivíduos com maior idade.
Caracterizada pela ausência de uma comunicação face a face, o uso constante
dessas novas tecnologias também pode interferir nas interações sociais, causando
comportamentos confusos e sentimentos ruins, o que pode levar ao isolamento social,
um certo grau de alienação, problemas econômicos/financeiros e patologias físicas e
psicológicas, tais como: danos relacionados à radiação do campo eletromagnético,
acidentes de carro e a angústia ligada ao medo de não ser capaz de usar novos
dispositivos tecnológicos (BRAGAZZI; PUENTE, 2014 apud OLIVEIRA T; 2018).
Esse transtorno ou fobia social é descrito por Bragazzi e Puente (2014 apud
OLIVEIRA T; 2018) como um transtorno de ansiedade de evolução crônica, marcada
pelo alto nível de ansiedade em situações sociais que envolvem o contato interpessoal
e interações, que pode causar extrema ansiedade ou grande interferência na vida
diária de um indivíduo.
Conflitos familiares, perda do sono, problemas no trabalho, baixo desempenho
acadêmico e refeições ignoradas são algumas das principais consequências que
também estão associadas ao vício na internet (KARDEFELT-WINTHER, 2014 apud
OLIVEIRA T; 2018).
Diante disso, com base na Teoria Compensatória de Uso da Internet (CIUT) –
Compensatory Internet Use Theory -, Kardefelt-Winther (2014 apud OLIVEIRA T;
2018) argumenta que o uso em excesso da internet pode ser decorrente das pessoas
procurarem aliviar suas emoções negativas durante a sua utilização.

22
Conforme o autor, o uso demasiado da tecnologia pode ser visto como
resultado de um comportamento compensatório, que visa regular uma emoção
negativa, uma vez que tal vício geralmente ocorre porque as pessoas procuram
escapar dos problemas da vida real.
Nesse aspecto, Peres e King (2014) destacam:
A extensão desses problemas fica mais clara ao se perceber notícias dos casos ao
redor do mundo todo como, por exemplo, China, Espanha, Estados Unidos e Brasil.
Em um caso extremo na Tailândia, houve relato do suicídio de um menino de 12 anos
após ter sido proibido de utilizar a internet. Na China, uma pesquisa mostrou que 42%
das pessoas que utilizam a internet são dependentes dela, o que está levando à
elaboração de um manual de tratamento.
Diante disso, ao influenciar intensamente os comportamentos interpessoais e
sociais, Bragazzi e Puente (2014 apud OLIVEIRA T; 2018) apontam as principais
características relacionadas à nomofobia, especificamente voltado ao uso excessivo
do aparelho celular, tais como: usar regularmente o smartphone e gastar um tempo
considerável na sua utilização, sempre levar o carregador consigo devido ao medo de
ficar sem bateria, sentir-se ansioso ou nervoso quando o telefone não está próximo
ou sem conexão com a internet; manter o celular sempre ligado (24 horas por dia) e
dormir com o aparelho próximo a cama, olhar constantemente a tela do aparelho para
verificar se mensagens ou chamadas foram recebidas; preferir se comunicar usando
as novas tecnologias; e contrair dívidas e grande despesas devido ao uso do aparelho.
Yildirim e Correia (2015) encontraram quatro dimensões da nomofobia
em jovens universitários dos Estados Unidos, sendo elas:
 Incapacidade de se comunicar;
 Perda de conexão;
 Não ser capaz de acessar informações;
 Conveniência.
A primeira dimensão – incapacidade de se comunicar – está relacionada ao
sentimento de perda de comunicação rápida, não sendo capaz de contatar e também
ser encontrado pelas pessoas.
Por sua vez, a segunda dimensão – perda de conexão – refere-se à sensação
de perder a conectividade proporcionada pela onipresença do smartphone, sendo
“desconectado de uma identidade online”.

23
Em seguida, a terceira dimensão – não ser capaz de acessar informações –
reflete o incômodo decorrente da incapacidade de ter o acesso generalizado as
informações por meio dos celulares, não sendo possível recuperar e procurar
informações. Por fim, a quarta dimensão – conveniência – aborda o sentimento de
praticidade e comodidade proporcionada pelo aparelho aos usuários, o que garantia
uma maior usabilidade das ferramentas no cotidiano.
Em relação as consequências físicas que a nomofobia pode acarretar, Lee et
al. (2012 apud OLIVEIRA T; 2018) acreditam que devido ao uso repetitivo do punho
com a utilização excessiva do celular, lesões no pulso podem ser frequentes, fazendo-
se necessário, portanto, precauções ao usar esses aparelhos.
Por sua vez, Krajewska-Kułak et al. (2012 apud OLIVEIRA T; 2018) também
alertam que o uso exagerado do celular tem sido associado a fatores de risco para o
pescoço, ombro e dores lombar em adolescentes, além de problemas relacionados à
audição e visão.
Em tempos de conectividade, a mobilidade proporcionada pelo celular se torna
uma condição indispensável para o mundo moderno. Com base na crescente
quantidade de indícios que colocam em discussão os efeitos negativos do uso em
excesso do smartphone, diversos estudos passaram a analisar as causas e
consequências da utilização demasiada desses aparelhos, colocando em questão os
efeitos nocivos, que até então eram timidamente abordados na literatura.
Sendo assim, diante das particularidades voltadas às diferentes tecnologias
existentes, observa-se a necessidade de explorar os estudos específicos que
abordam o uso dos celulares e seus impactos no cotidiano dos seres humanos, bem
como seus desafios e perspectivas.

4.2 Adolescência e o espaço virtual

Nardon (2006 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012) explica que é na


adolescência, que o convívio social se amplia, com a participação nos diferentes
grupos, aos quais os adolescentes pertencem, como: escola, esportes, cursinhos,
lazer, entre outros. Porém, nem sempre é assim, o que deveria ser uma relação de
afetividade e encontro com grupos do mesmo interesse, fica em alguns casos à mercê
da era digital.

24
De acordo com Fonte (2008 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012),
quando o adolescente faz o acesso à internet não supervisionado, pode tornar-se mais
do que um meio de informações a conteúdos culturais, ou seja, pode vir a tornar-se
um fator desestruturante no processo sócio emocional deste adolescente.
Lévy (2000 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012) reconhece que há
dependentes na internet que passam horas em frente ao computador, participando de
salas de bate-papo, de jogos on-line ou até mesmo, “surfando interminavelmente de
página em página”.
Fonte (2008 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012) orienta que a
utilização da internet, faz com que o adolescente consiga fazer contatos pessoais que
fora deste meio não consegue, assim formando contatos “superficiais” e de “falsa
intimidade”, facilitando para o afastamento social.
Nardon (2006 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012) expõe que os
adolescentes, que estabelecem um bom relacionamento social, têm mais
possibilidades de construírem um bom desenvolvimento psicossocial. Sendo assim, o
uso contínuo da internet faz com que os adolescentes não se desenvolvam com
plenitude, podendo ter dificuldades relacionais na vida adulta.

Lévy diz que: “as potencialidades positivas da cibercultura em nada garantem


a paz ou a felicidade. Para, que se tornem mais humanos é preciso suscitar
a vigilância, pois o homem sozinho é inumano, na mesma medida de sua
humanidade”. Desta forma, um movimento de cautela em relação à internet
é importante para a segurança dos adolescentes, evitando assim a sua
dependência. (Lévy 2000 Gonçalves B. apud; 2002 apud GONÇALVES B;
NUERNBERG D; 2012).

De acordo com Fonte (2008 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012),


são vários os indícios que mostram a dependência do adolescente. Os principais são:
preocupação com a internet quando está off-line; necessidade contínua de usar a
internet; necessidade de usar a internet para fugir dos problemas, como insegurança,
culpa e ansiedade.
Mentir para as pessoas como forma de encobrir o uso da internet;
comprometimento social e motor; sensação de estar vivendo um sonho ao utilizar a
internet; duração de tempo maior que seis meses.

25
Leitão e Costa (2005 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012) orientam
que a internet faz gerar a sensação de poder tudo, até ignorar limites do mundo real,
já que os usuários podem manter o anonimato, o acesso fácil às informações e a
realização de diferentes atividades.
Além disso, as autoras descrevem três tipos de excesso no uso da internet: o
grande número de informações, a quantidade de horas que permanecem conectados
e a exposição excessiva da intimidade. São processos que o adolescente passa, e
em alguns casos, sem o contato com a família, pode levar a dependência.
Os benefícios encontrados na rede social são vários como: aumento do número
de informações, para utilização no meio escolar e em grupos de amigos, favorece o
contato indireto com pessoas com assuntos de seu interesse, aumenta o número de
amigos conforme (FONTE, 2008 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012).
A autora também descreve os malefícios encontrados na internet, como:
pornografias, conteúdos violentos, a possibilidade de encontrar pessoas pouco
convenientes.
Para Caetano e Colaboradores (2010 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D;
2012), os malefícios encontrados na internet são: o cyberbulliyng; que pode durar todo
o tempo, já que envolve a tecnologia e esta pode ser executada, através de
mensagens; perda da privacidade e o risco de ser encontrado; pois nos perfis estão
dados pessoais, recebimento de material pornográfico e/ou violento, ser vítima de
fraude, além dos vírus.
A internet é um meio de comunicação e por isso há a possibilidade de serem
encontradas informações com conteúdo como no mundo real, sejam eles positivos ou
negativos.
Nardon (2006 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012) salienta que
através do ciberespaço, o processo natural do adolescente ao convívio social, um dos
mais importantes para o desenvolvimento psicológico e social do adolescente, torna-
se virtual. É a partir disso, que profissionais da área devem estudar os aspectos da
dependência pelo espaço democrático que é a internet, e todos os meios que ela traz.
Leandro (2007 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012) explica que os
adolescentes adictos na internet vão necessitar de ajuda terapêutica. E o tratamento
em alguns casos, inclui o uso de medicamentos, parecido aos casos de vícios de
álcool e drogas, em que o paciente deve aceitar a dependência.

26
Ao uso contínuo da internet podem-se encontrar diversos tipos de problemas
psicológicos, como: timidez, pânico e fobia social, isolamento social, transtorno
afetivo, depressão.
Nessa etapa do desenvolvimento, se inicia o processo de relacionamentos
afetivos. (NARDON, 2006 apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012). Assim como
a sociedade contemporânea, os relacionamentos sociais entre os adolescentes estão
sempre passando por mudanças. Com tantas modificações, os adolescentes ficam
inseguros no momento da escolha de um relacionamento interpessoal. E é assim, que
se percebem sentimentos, como: timidez e vergonha.
Leitão e Costa (2005; apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012) ressaltam
um ponto em comum em sua pesquisa com psicoterapeutas que já atenderam ou
atendem pacientes com dependência na internet: “no atendimento de usuários da
internet, os psicoterapeutas depararam-se com uma descoberta: a Rede é, para
muitos pacientes, uma nova fonte de prazer e um agradável espaço de vida, no qual
se relacionam com outras pessoas”.
Porém, o comportamento dessas pessoas fica limitado ao uso excessivo da
internet, e sendo assim, como que se procede ao lado familiar, profissional, de lazer,
hobbies, entre outros, onde o convívio, o olhar nos olhos, os toques ficam? Eis uma
questão que deve ser levada em consideração pelo fato de o ser humano, como já
dizia Lévy (2000; apud GONÇALVES B; NUERNBERG D; 2012), “sozinho ser
inumano”.

4.3 Os comportamentos sociais específicos do uso continuado do aparelho


celular na fase da adolescência

Como resultados do crescimento incessante do dispêndio do aparelho celular,


existem no planeta, nos dias de hoje, mais de sete bilhões de aparelhos celulares,
sendo utilizados, quase se igualando ao número de seres humanos do mundo, de
acordo com estudo da União Internacional de Telecomunicações (UIT).
Outro fato importante é a atribuição que países emergentes como o Brasil
executam, neste contexto, conforme a União Internacional de Telecomunicações,
nestes países estão a grande maioria dos aparelhos celulares em uso por todo o
mundo.

27
Conforme a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), o Brasil
compilou em julho do ano de 2015, 281,45 milhões de aparelhos celulares com linhas
operantes na telefonia móvel e tele densidade de 137,65 admissões por 100
habitantes (ANATEL, 2015; apud PRESSI R; CARVALHO T; 2015).
Percebe-se, pois, que a comunicação tem tomado uma grande proporção na
população, ocasionando grandes influências nas relações pessoais, como
característica incontestável dos novos padrões comportamentais da
contemporaneidade. É preciso entender as vantagens que a tecnologia e a
informatização trazem, mas também é importante problematizar seu uso quando este
ocasiona perdas de interesse das relações do mundo real.
Alterando o tempo para realização das atividades do cotidiano das pessoas, o
que colabora para uma grande tendência à desordem. Frente a esses achados, é
possível observar que o uso do aparelho celular é maior pelos adolescentes do que
pelos adultos, além disso, a necessidade e os motivos da utilização também são
diferentes. Enquanto as relações com os pais sofrem consideráveis consequências;
entre os grupos de iguais de adolescentes, se intensificam.
Eles vivem um momento de separação e diferenciação dos pais, buscam por
independência e privacidade, desse modo, o aparelho celular oferece subsídios
fundamentais para essa conquista - que é de um ambiente não mais tão familiar
(WEIGELT, 2014; apud PRESSI R; CARVALHO T; 2015).
Depois que o telefone celular estabeleceu-se como um utensílio substancial
para descomplicar as premências habituais das pessoas, pesquisas sobre a interação
com o aparelho celular despertaram-se em diversos campos de estudos.
Investigações buscaram entender como a referida tecnologia vem introduzindo-se na
sociedade e evidenciando vertentes de comportamento (KING; NARDI, 2014; apud
PRESSI R; CARVALHO T; 2015).
Diante destas questões, verifica-se que a dimensão do aparelho celular na vida
dos adolescentes não é correspondente ao uso de uma pessoa adulta, ou seja, é bem
maior a constância do uso do telefone celular.
Além disso, são diversas as causas e razões dos adolescentes para fazer uso
do celular. Nesse caso, percebe-se que durante o tempo em que as associações se
acentuam entre o grupo análogo, o relacionamento com os pais e familiares sofre
sequelas significantes.

28
Nesta fase da adolescência, prevalece, entre os jovens, uma premência de
apartação e distinção em correspondência aos seus pais e familiares, e, nesse caso,
por emancipação e por uma vida privada, o telefone celular apresenta-se como
apetrecho essencial para a “supervivência” desses adolescentes nessa atmosfera não
mais familiar (CARDOSO; AMOROSINO; NARDI, 2014; apud PRESSI R; CARVALHO
T; 2015).
Os cenários mais visíveis e polêmicos para o uso do celular são no meio familiar
e na escola. Por um lado, os adolescentes não conseguem mais viver sem o aparelho
celular e, por outro lado, pais e professores não sabem como lidar com essa relação.
Os pais compreendem que o aparelho celular pode ser um meio de controle sobre o
dia dos filhos, assim como, uma alternativa de cuidado e proteção.

Nesse sentido, é indubitável uma atenção mais apurada nesse contexto, já


que o telefone celular tem se tornado uma grande importância na vida dos
adolescentes que gastam maior parte do seu tempo usando o dispositivo
(SOARES; CÂMARA, 2016 apud PRESSI R; CARVALHO T; 2015).

Essa é a nova realidade, sendo invadida pelas tecnologias de comunicação


grande parte dos adolescentes não sabem comportar-se quanto ao seu uso. O
aparelho celular implica na afinidade entre pessoas, mas também serve para afastá-
las. Para tudo na vida é preciso uma medida e é a partir da ausência do celular que a
utilização excessiva apresenta-se, podendo causar danos em vários campos
pessoais, sociais, familiares, profissionais, ambientais, escolares e acadêmicos.
A sociedade encontra-se no período das incertezas e alterações. A relação
humana poderia ser perdurável, seja em relacionamentos fraternos ou técnicos, mas
são irrelevantes como determinados objetos de uso. É o que verificamos na esfera
virtual: tudo é usado e descartado com simplicidade (SPEAR, 2016 apud PRESSI R;
CARVALHO T; 2015). É possível notar que o telefone celular toma grande parte da
vida dos jovens, o que interfere em seus vínculos familiares e sociais (SOARES;
CÂMARA, 2016 apud PRESSI R; CARVALHO T; 2015).

5 A INTERNET SEGUNDO A PSICOPATOLOGIA

Dependência de internet (DI) pode ser compreendida como a incapacidade de


controlar o uso impulsivo da internet, trazendo prejuízos na vida do indivíduo e dos

29
outros que o cercam. É incluso no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos
Mentais, 5ª edição (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, APA, 2013) como um
transtorno, visto como uma psicopatologia no DSM, pois a internet é uma tecnologia
recente e que está se alastrando rapidamente em todas as classes sociais e seus
respectivos efeitos ainda estão para surgir com maiores ou menores consequências
na vida dos indivíduos (YOUNG; ABREU, 2011; apud BERGMANN E; WAGNER M;
2015).
A DI pode causar um sofrimento intenso na vida pessoal e profissional do
indivíduo, quando o uso da internet se torna um vício. Tal uso descontrolado, de
acordo com Sá (2012 apud BERGMANN E; WAGNER M; 2015), pode trazer prejuízos
à vida afetiva do sujeito, pois faz com que não consiga se desligar do mundo virtual,
estimulando o isolamento social e possíveis dificuldades no estabelecimento de um
relacionamento.

A dependência de internet pode trazer prejuízos na vida do indivíduo em


diversas esferas de sua vida, seja em casa ou no trabalho, quando se torna
um comportamento compulsivo (SILVA ET AL., 2011 apud BERGMANN E;
WAGNER M; 2015).

Um dos tratamentos que vem apresentando bons resultados no tratamento de


dependências deste tipo vem a ser a terapia cognitivo-comportamental (TCC), a qual
enfoca o que o fator central da dependência de internet são as cognições mal
adaptativas e destaca a importância do gerenciamento do tempo on-line,
estabelecimento de objetivos pessoais, ampliação da rede social, além do
desenvolvimento das habilidades sociais e da assertividade (ABREU; GOES; VIEIRA;
CHWARTZMANN, 2008 apud BERGMANN E; WAGNER M; 2015).
Embora ainda seja escassa a literatura acerca da eficácia das psicoterapias
no tratamento da dependência de internet, a TCC vem sendo considerada por muitos
profissionais da área da saúde mental como a primeira escolha (PUJOL;
ALEXANDRE; SOKOLOVSKY; KARAM; SPRITZER, 2009 apud BERGMANN E;
WAGNER M; 2015).
Segundo Young e Abreu (2011 apud BERGMANN E; WAGNER M; 2015), a DI
pode estar relacionada a jogos on-line e a sites pornográficos. O sexo virtual está
relacionado a acessar cenas de sexo via computador, produzindo um orgasmo e
sensação de estar fazendo sexo, com a busca de prazer.

30
O ato de fazer sexo virtual não implica em ser uma alternativa para satisfazer
seus desejos, pois a grande maioria dos adeptos possui parceiros e até uma união
estável. Entretanto, o sexo com o parceiro pode não ser suficiente, ou até mesmo não
ser tão prazeroso como o sexo virtual.
Diante destas questões, homens ou mulheres dependentes desse
relacionamento virtual podem apresentar sérios problemas com seus cônjuges,
provocando ciúmes e, muitas vezes, desencadeando separações, visto que não
possuem mais controle sobre o vício e não conseguem abrir mão deste
comportamento patológico. O sexo via internet envolve muitas pessoas no mundo
inteiro e o mercado movimenta cifras grandiosas com os sites e vídeos pornográficos
acessados (PIROCCA, 2012 apud BERGMANN E; WAGNER M; 2015).
Os viciados em jogos via internet ficam incontáveis horas jogando, podendo se
privar de necessidades vitais como comer ou dormir para ficar jogando online. O vício
é mais forte que o indivíduo e, mesmo não querendo mais jogar, não consegue parar
e cria-se um estado de ansiedade, no qual o jogo pode ser comparado a uma droga;
o prazer do jogo não é igual ao da droga, mas também há uma necessidade de ter o
comportamento de jogar para aliviar o estado de ansiedade.

A dependência dos jogos é mais mental, enquanto para o dependente


químico, apresenta também uma dependência física (HENRIQUES;
CORREA, 2011 apud BERGMANN E; WAGNER M; 2015).

Os dependentes de internet precisam de tratamento psicológico para conseguir


livrar-se do vício e, um dos métodos utilizados pelos pais de dependentes, é proibir
ou limitar o uso da internet. Tal conduta não soluciona o problema, pois o indivíduo
vai buscar outra forma de utilizar a internet; ficar privado do vício gera uma grande
fonte de ansiedade (BALLONE; MOURA, 2008 apud BERGMANN E; WAGNER M;
2015). Um dos graves problemas constatados frente ao uso patológico da internet é a
compulsão diante de uma infinidade de produtos ou mercadorias via online.
Pessoas com alguns quadros clínicos podem apresentar tal comportamento,
como no transtorno bipolar de humor, patologia na qual o indivíduo oscila de humor e
tem picos de humor elevado, no qual pode existir a presença de algum tipo de
compulsão, como por exemplo, por compras, na qual é difícil resistir ao impulso de
fazer compras na internet, estimulado por promoções que acionam o comportamento

31
compulsivo (ABREU; KARAM.; GOES; SPRITZER, 2008 apud BERGMANN E;
WAGNER M; 2015).
Os prejuízos causados pela DI são psicológicos, emocionais e físicos, afetando
o desempenho acadêmico, os relacionamentos, a forma de pensar. De acordo com
Young e Abreu (2011 apud BERGMANN E; WAGNER M; 2015), como o usuário passa
por muitas horas a mais do que desejaria “navegando”, muitas vezes pode perder
compromissos acadêmicos, profissionais, sociais e/ou familiares. O prejuízo na área
social tem sido visto frequentemente, visto que o tempo gasto em frente à internet
pode desencadear problemas nas comunicações sociais, tendo por consequência,
conflitos em diversas área da vida.
É possível referir que problemas na convivência social, tais como o isolamento,
dificuldades em fazer amizades ou manter vínculos amorosos, sentimentos de
inferioridade e baixa autoestima, podem estar relacionados à busca de resolução
destas questões em frente a um computador. Dependência e compulsão por estar
conectados vêm a ser condutas que afetam todas as faixas etárias, tanto em adultos,
crianças, como em adolescentes, e merecem uma atenção especial por serem
comportamentos que trazem muito prejuízos e que, com o tratamento adequado,
podem ser reduzidos e suprimidos.

6 PSICOTERAPIA

A teoria psicológica mais utilizada para tratar o UPI (O uso patológico da


internet) é, segundo revisão realizada por Huang, Li e Tao (2010 apud FORTIM I;
2013), é a Comportamental Cognitiva. O objetivo é descobrir as cognições
distorcidas, permitindo ao indivíduo reestruturar suas cognições.
A segunda é a Terapia Motivacional, que permite a dependentes e seus
terapeutas definir metas para eliciar a mudança de comportamentos. Trata-se de um
estilo de aconselhamento diretivo que auxilia o paciente a compreender e resolver a
ambivalência com relação aos processos da dependência.
Também são apontadas a Terapia da Realidade, que é baseada em uma
teoria que acredita que as pessoas são responsáveis por suas vidas e pelo que fazem;
acreditando que os pacientes escolheram ser dependentes. Também é relatado o uso
da Psicoterapia Cognitiva Naikan, um método psicoterapêutico japonês que

32
combina meditação com a recuperação de memórias e reconstrução da vida trazendo
as noções de cura e mudanças no self.
Os autores ainda apontam que a modalidade de terapia em grupo parece ser a
predominante no tratamento de dependências. O processo de grupo parece favorecer
a identificação entre os membros. No UPI, diversos estudos relatam se utilizar desta
modalidade muitas vezes aos moldes dos programas de recuperação em 12 passos.
A terapia familiar é outra modalidade utilizada, uma vez que entre os fatores
etiológicos do UPI estão fatores familiares.
As terapias multimodais também aparecem nas pesquisas, onde os indivíduos
são submetidos a tratamentos que mesclam diversos formatos: terapia individual, de
grupo, terapia familiar; e também a técnicas diversas, como psicodrama, terapia
comportamental cognitiva, terapia motivacional e prontidão para mudança.

6.1 A contribuição da psicologia para possíveis intervenções no


comportamento social dos jovens a partir do uso do telefone celular

As inovações tecnológicas de comunicações, como o telefone celular, geram


transformações psicológicas na vida dos jovens, as quais proporcionam a nova
organização subjetiva. A constante ligação do sujeito com o telefone celular vem
revelando respostas boas e ruins, as quais precisam de avaliações constantes.
É possível observar uma contínua situação de conforto, segurança e bem-
estar de indivíduos que fazem uso do aparelho celular; em contrapartida, nota-se uma
dependência exagerada, ocasionando medo e angústia e outros sentimentos
relacionados quando esse indivíduo fica na ausência do uso do telefone celular
(CARDOSO; AMOROSINO; NARDI, 2014 apud PRESSI R; CARVALHO T; 2015).
No momento em que a sujeição decorre de forma comum é consentido
aproveitar as novidades tecnológicas de forma que o sujeito tenha o discernimento de
usá-la para o seu desenvolvimento profissional, nas relações pessoais, nos
relacionamentos sociais e outros.
A dependência ocorre a partir do comprometimento da vida laboral, coletiva e
pessoal deste sujeito; na qual se verifica a implicação indesejável, inicia-se com uma
definição de algo perigoso e nocivo (SPEAR, 2016 apud PRESSI R; CARVALHO T;
2015).

33
As indicações que podem decorrer num adolescente como algo positivo:
segurança, independência e conveniência, mas também pode fortalecer atos
disfuncionais: ansiedade, medo, dependência, angústia e sentimento de recusa,
causados quando da impossibilidade de estar conectado à internet móvel ou quando
não consegue falar pelo aparelho celular (RIBEIRO, 2017 apud PRESSI R;
CARVALHO T; 2015).
A atuação do psicólogo é de suma importância, principalmente na contribuição
da prevenção, mas não é uma situação fácil, pois o psicólogo deverá buscar
conhecimento e qualificação para esse tipo de demanda. O profissional poderá ajudar
o sujeito a ver seus problemas de outra forma, na intenção de promover mudanças,
auxiliando a família na questão de informações, como identificar os riscos, como agir
com adolescente neste ambiente.
É necessário que o psicólogo compreenda toda esta conjuntura em que os
adolescentes estão apegados, para entender de que jeito os jovens estão designados
pela semântica das intercorrências psicossociais no uso do telefone celular e com que
medida isso pode afetar cada um desses adolescentes (FUKUMITSU, 2014 apud
PRESSI R; CARVALHO T; 2015).
A atuação do psicólogo diante desse contexto é muito importante,
principalmente na contribuição aos atos disfuncionais do adolescente. Uma das
abordagens psicoterapêuticas que tem desenvolvido trabalhos na área é a Terapia
Cognitiva, derivada dos trabalhos de Aaron T. Beck.
Essa abordagem estuda a cognição que se refere aos pensamentos,
lembranças e emoções do paciente. Isso significa que o modo como a pessoa
interpreta as coisas é que determinará como ela irá agir e pensar.
A terapia cognitiva trabalha com pensamentos distorcidos, buscando uma
solução para esse problema. Ela se utiliza de técnicas para auxiliar o adolescente a
identificar seus pensamentos, desejos, carências, dificuldades, necessidades e
entender seu comportamento. O psicólogo auxilia o seu paciente a enxergar seus
sintomas alvo para, então, trabalhá-los, promovendo mudanças junto ao adolescente
(FUKUMITSU, 2014 apud PRESSI R; CARVALHO T; 2015).

34
O psicólogo poderá servir de ligação para dar oportunidade de diálogo entre as
gerações, contribuindo para evitar obstáculos e dificuldade provocados pelo silêncio
entre as famílias. O profissional se posicionará no empenho para que o adolescente
aproveite os resultados positivos do aparelho celular sem prejudicar seu
comportamento social (EISENSTEIN; ESTEFENON, 2011 apud PRESSI R;
CARVALHO T; 2015).

6.2 Implicações humanas do uso da internet, jogos eletrônicos e celulares

Com o advento da inclusão digital, esse bem-estar humano pode se tornar frágil
e vulnerável na medida em que acontece o mau uso do tempo livre, levando ao
sedentarismo e ao isolamento, à distorção de hábitos de sono, de alimentação e de
convívio familiar e social, agravando os danos ao usuário, cujas consequências
podem se a longo prazo.
Há argumentos de que, se bem orientado, este uso pode contribuir com a
aprendizagem, desenvolvendo capacidades como: concentração, memória, atenção,
visão espacial e raciocínio lógico, dentre outros benefícios. Entretanto, atualmente o
uso da internet, decorrente da dependência tecnológica e da compulsividade em
relação à utilização aparecem como questões que desafiam famílias, educadores,
pesquisadores, enfim, a sociedade.
Surge a necessidade de recorrer a estudos sobre as consequências do uso
excessivo da internet, especialmente do uso abusivo/compulsivo de jogos eletrônicos
e de celulares, por considerar pertinente a afirmação de Bianchetti (2001 apud
ZANCAN C; TONO C; 2018) de que “é necessário retomar e submeter a uma análise
crítica o equívoco que permeia a relação entre informação e conhecimento, a forma
como são concebidos os meios, a capacidade de apreendê-los/construí-los e a
destinação dada a eles”.
Desta forma é possível explicitar a contradição que subjaz e permeia a
apologizada sociedade do conhecimento. Os autores que defendem a existência e a
necessidade de se constituir esta sociedade ignoram ou procuram encobrir problemas
de diversas ordens.

35
Será necessário buscar, descobrir e analisar a existência de problemas
cognitivos e sociais/relacionais dos usuários excessivos de jogos eletrônicos on-line,
para que, a posteriori, as propostas para a prevenção deste fenômeno sejam
inteligíveis e consistentes, quando os usuários destes jogos são crianças e
adolescentes, em peculiar fase de desenvolvimento.
E quando o assunto é direitos fundamentais de proteção à criança e ao
adolescente, a legislação brasileira constitucional estabeleceu em seu Art. 227:
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e
ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à
dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária,
além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988).
Em consonância ao artigo supracitado, está também o Art. 4º do Estatuto
da Criança e do Adolescente – ECA, que prevê:
É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público
assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à
saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
Parágrafo único.
A garantia de prioridade compreende:
 Primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;
 Precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância
pública;
 Preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;
 Destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas
com a proteção à infância e à juventude (BRASIL, 1990 apud ZANCAN
C; TONO C; 2018).
No Código Civil do Brasil, Lei Nº 10.406 fica estabelecido que, as crianças e os
adolescentes devem ser instruídos, assistidos, orientados, monitorados no que tange
ao uso da internet, que a utilizem em casa, na escola, na casa de amigos, em lan
houses, ou em outros lugares, para qualquer finalidade, até que atinjam minimamente
a maioridade civil aos 18 anos de vida (BRASIL, 2002 apud ZANCAN C; TONO C;
2018).

36
Ainda, o Marco Civil da Internet no Brasil, em seu inciso XII do Art. 7º, adverte
que o usuário pode ter sua integridade afetada em todos estes aspectos, quando o
conteúdo e o tempo de uso da internet não forem equilibrados, responsáveis,
conscientes e seguros, e sem considerar as características físico-motoras,
perceptivas, sensoriais, intelectuais e mentais.
Segundo Tono (2015 apud ZANCAN C; TONO C; 2018), quando o modo de
acesso à internet está em desarmonia com outras atividades humanas, restringindo-
se à atividade sedentária e virtual, riscos e efeitos nocivos podem ocorrer danos para
os seus usuários, sobretudo quando existe descompasso do grau de maturidade e
discernimento desses em se tratando de crianças e adolescentes, pessoas em fase
especial de desenvolvimento biopsicossocial.
Nicholas Carr (2011 apud ZANCAN C; TONO C; 2018), autor da obra “O que a
internet está fazendo com os nossos cérebros: a geração superficial”, em suas
pesquisas científicas, comprovadas através de dados neurológicos, enfatiza os
prejuízos na capacidade de atenção, concentração e memória, causados pelo uso da
internet, as funções mentais que estão perdendo a batalha das células cerebrais da
“sobrevivência do mais ocupado” são aquelas que amparam o pensamento calmo,
linear – aquelas que usamos para percorrer uma narrativa extensa ou um argumento
elaborado, aquelas com as quais contamos para refletirmos sobre nossas
experiências ou contemplarmos um fenômeno externo ou interno (CARR, 2011 apud
ZANCAN C; TONO C; 2018).
Com isso, vale aqui o seguinte questionamento: Quanto aos efeitos produzidos
com o uso da internet, dos jogos eletrônicos on-line, celulares, e tecnologias em geral,
por crianças, adolescentes e jovens, será motivo de preocupação e mobilização da
sociedade, e estudado em caráter científico, somente quando os resultados forem
alarmantes e incontroláveis?
Nicolau Sevcenko (2001 apud ZANCAN C; TONO C; 2018) o problema é: no
ritmo em que as mudanças ocorrem, provavelmente nunca teremos tempo para parar
e refletir, nem para reconhecer o momento em que já for tarde demais.

37
7 DEPENDÊNCIA DA INTERNET

Na literatura são encontradas muitas definições e terminologias distintas para


caracterizar este fenômeno relativamente recente e emergente, tais como Internet
Addiction, Problematic Internet Use, Pathological Internet Use, Internet Addiction
Disorder, Compulsive Internet Use, Computer Mediated Communications Addicts,
Computer Junkies ou Internet Dependency. O que demonstra, a falta de consenso que
existe entre os profissionais e especialistas na definição do comportamento associado
ao uso excessivo de Internet.
Segundo Starcevic (2010 apud VELOSO Í; 2016) de entre os vários termos
apresentados o com maior domínio e aceitação entre a comunidade científica continua
a ser o Internet Addiction ou, em português, a Dependência da Internet (DI).
Importa referir que a Internet por si não é aditiva. É uma ferramenta de
comunicação que revolucionou a sociedade a vários níveis. O que leva à dependência
são os vários aplicativos e aplicações disponibilizadas na Internet (acarretando
imagens, sons, vídeos, resposta rápida e imediata) de forma aliciante e que promovem
o maior (e possível mau) uso, de forma repetida e motivando à constante busca por
prazer momentâneo (Young, Abreu e Cols, 2011; Young, 1996, 2004 apud VELOSO
Í; 2016), que por sua vez leva a consequentes comportamentos aditivos relativamente
ao uso de Internet.
Alguns autores procuraram definir DI numa ótica comportamental, não química
tendo como base comparativa as dependências às substâncias psicoativas (Pontes,
2013; Young, 1996 apud VELOSO Í; 2016); outros centraram-se mais nas
consequências que advenham do problema a nível psicológico, social, acadêmico ou
ocupacional (Beard e Wolf, 2001; Young, 1996, 2004 apud VELOSO Í; 2016), existindo
ainda aqueles que basearam-se no jogo patológico (que é por si considerado um
transtorno comportamental de hábitos e impulsos) para definir a DI (Young, 1996 apud
VELOSO Í; 2016), dado a existência de indicadores semelhantes para ambas as
dependências tais como, a tolerância em busca da satisfação, a abstinência quando
em privação ou redução do uso e a recaída após tentativas frustradas para deixar o
comportamento aditivo (Abreu et al., 2008; Castro, 2013; Goudriaan et al., 2004;
Pirocca, 2012; Raylu e Oei, 2002; Terra, 2015; Young, 2004 apud VELOSO Í; 2016).

38
Uma vez que durante um certo período o jogo patológico serviu de base
para as investigações que surgiram associadas à possibilidade de utilizadores
da Internet poderem desenvolver algum tipo de comportamento aditivo ou
dependência, realço, para melhor compreensão da DI, o seguinte:
O jogo patológico ou perturbação relacionada com o jogo é uma perturbação
mental progressiva e crônica que consiste na incapacidade de resistir e controlar os
impulsos para jogar ou apostar a dinheiro (APA, 1994 apud VELOSO Í; 2016) e uma
disrupção comportamental mal adaptativa com consequências adversas a nível
pessoal/individual, familiar, econômico, financeiro e social (Goudriaan et al., 2004;
Oliveira, Silveira e Silva, 2008 apud VELOSO Í; 2016).
Esta patologia foi incluída no Manual de Diagnóstico e Estatística das
Perturbações Mentais DSM – 5, e na Classificação Estatística Internacional de
doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID10) passando a ser classificado
como um transtorno comportamental, de hábitos e impulsos de frequentes e repetidos
episódios de jogo que dominam a vida do indivíduo em detrimento de outros valores.
A dependência da Internet inclusa no DSM já encarada e defendida por Young,
Abreu e Cols (2011 apud VELOSO Í; 2016) como sendo um transtorno psicológico e
comportamental legítimo que não envolve o uso de uma substância, tendo um carácter
impulsivo-compulsivo que leva o utilizador a enredar-se de forma contínua ou cada
vez mais frequente nas atividades em linha (ou online) independentemente de toda e
qualquer consequência negativa que possa colocar em causa o seu bem-estar físico,
social, espiritual, mental ou financeiro.
O uso problemático de Internet foi pela primeira vez mencionado como sendo
uma dependência através da Drª Kimberly Young (1996 apud VELOSO Í; 2016)
licenciada em psicologia, fundadora do 1º centro para tratamento da DI, denominado
“The Centre of Online Addiction Recovery” (Young, 2016; 2016 apud VELOSO Í; 2016)
e atual professora na Universidade Saint Bonaventure, nos Estados Unidos da
América , que ao avaliar 600 utilizadores da Internet em 1995 constatou que o uso
cada vez maior para motivos recreativos em detrimento dos motivos profissionais ou
acadêmicos, eram o que levava à DI, podendo o utilizador ficar até 15 horas
consecutivas (ou cerca de 40 horas semanais) conectado, aumentando assim o risco
de desenvolver dependência e repercussões negativas nas várias áreas do quotidiano
daqueles indivíduos.

39
Além deste estudo seguiram-se outros, dos quais destaca-se o desenvolvido
por Greenfield em 1998 (Greenfield, 2016 apud VELOSO Í; 2016) no qual foram
avaliados entre 17000 a 18000 utilizadores do sítio (site) da ABCNews.com e concluiu-
se que 6% da amostra apresentava características que se englobavam nos critérios
de DI ou “uso compulsivo da Internet” (como era denominado na altura) e faziam uso
semanal da Internet à volta de cerca de 40 a 80 horas, por motivos e finalidades que
variavam muito de pessoa para pessoa (como exemplos, fuga ou alteração de humor,
completar necessidades suprimidas na vida real, aceder a e-mail, pornografia,
compras online, ou outros).
Estas grandes descobertas ao longo das duas últimas décadas despertaram
grandes debates, discussões e sérias controvérsias entre os profissionais (Meneses,
2015; WHO, 2014; Young, Abreu e Cols, 2011 apud VELOSO Í; 2016) e é atualmente
alvo de vários estudos com diversos grupos populacionais a fim de se detectar e
caracterizar diferentes padrões de utilização da Internet, motivações, finalidades,
indicadores e critérios de diagnóstico da DI, tratamento, prevenção e controle.
Segundo Barak e Sadovsky (2008 apud Arruda A; 2016), as várias
caraterísticas da internet, tais como o anonimato, a invisibilidade, ou a possibilidade
de comunicar sem ser visto, a possibilidade de comunicar de forma síncrona ou
assíncrona, através de texto e/ou voz, a disponibilidade, a fácil acessibilidade, a
possibilidade de aceder a múltiplos canais, tornam este tipo de comunicação uma
experiência única.

Atualmente vivemos num mundo interligado, no qual a partilha de informação


é instantânea. O utilizador da internet desfruta do seu mundo próprio em que
a realidade se mistura com a fantasia e com a ficção (Mendonça, 2012 apud
Arruda A; 2016).

O fenômeno da dependência da internet, também conhecido por Internet


Addiction Disorder (Goldberg, 1996 apud Arruda A; 2016), constitui-se como um
problema generalizado entre indivíduos de vários países nas mais variadas
sociedades, requerendo por isso, uma maior atenção por parte dos clínicos (Liu e
Potenza, 2007 apud Arruda A; 2016 apud Arruda A; 2016).
A internet é uma ferramenta tecnológica que é utilizada como meio de
comunicação entre as pessoas. Todavia, este uso intenso da Internet começou a
apresentar resultados que indicam a ocorrência de modificações nos hábitos que
envolvem os relacionamentos interpessoais (Young, 2011 apud Arruda A; 2016).
40
Segundo Young (2011 apud Arruda A; 2016), os utilizadores dependentes da
internet são socialmente introspetivos e cedem à web como forma de obter
gratificação, não se importando com o consequente isolamento social.
O termo de Internet Addiction Disorder foi atribuído a Ivan Goldberg em 1996,
para identificar as pessoas que estariam a ter problemas em função do uso excessivo
da internet. Griffith (1995 apud Arruda A; 2016), descreve a dependência da internet
como uma dependência comportamental e não química, que envolve interações entre
o indivíduo e o computador.
Já Young (1996), descreve o fenômeno através de um modo análogo ao jogo
patológico como sendo uma perturbação de controle dos impulsos sem a presença de
uma substância. Beard e Wolf (2001 apud Arruda A; 2016) centraram-se mais nos
problemas criados ao nível psicológico, social, acadêmico e ocupacional na vida do
indivíduo decorrentes do uso excessivo da internet.
Griffiths (1995 apud Arruda A; 2016), também afirma que a dependência da
internet acarreta sintomas como dominância comportamental, alteração do humor,
tolerância, abstinência e conflitos. Tonioni et al. (2012 apud Arruda A; 2016) afirmam
que o uso excessivo da Internet, caracterizado pelo número de horas despendidas
online e o evitamento das interações sociais com pessoas conhecidas e reais, formam
um importante critério a ser avaliado na entrevista clínica que visa o diagnóstico da
dependência da internet.
Além disso, a associação entre a perda do interesse em comunicar com
pessoas reais e os sintomas psicológicos (e.g., ansiedade e depressão), são
relevantes na detecção destes pacientes.
De acordo com Souza (2002 apud Arruda A; 2016), torna-se relevante
compreender a forma como ocorre o processo pelo qual os indivíduos adotam
comportamentos para aceitar as novas ferramentas tecnológicas. Ainda segundo o
autor, também é importante identificar os fatores que influenciam na atitude e na
intenção para a utilização de ferramentas tecnológicas.
O uso intensivo da internet pode resultar em comportamentos associados à
angústia, sofrimento, incapacidade ou perda significativa da liberdade (Young, 2011
apud Arruda A; 2016).

41
O desenvolvimento da dependência da internet ocorre de forma silenciosa, pois
o indivíduo começa a incorporar novos hábitos na sua rotina sem se aperceber. O
isolamento social é uma das consequências do uso excessivo, ocorre gradualmente
e naturalmente (Sibilia, 2008 apud Arruda A; 2016).
A utilização excessiva da internet, foi descrita por Shapira (2003 apud Arruda
A; 2016), como sendo a incapacidade do indivíduo de controlar o seu próprio uso,
sendo que vivencia consequências negativas originadas por esta incapacidade, bem
como, as suas atividades quotidianas são prejudicadas negativamente.
Beard (2005 apud Arruda A; 2016) diz que, o indivíduo é dependente quando
certas áreas da sua vida estão a ser prejudicadas, tal como o seu estado psicológico
mental e emocional, desempenho acadêmico, ocupacional e as suas interações
sociais.
De acordo com Young (2011 apud Arruda A; 2016), o utilizador dependente da
internet tende a identificar a mesma como solução para os seus problemas. A
dependência da internet é apenas um dos tipos de dependência das quais o homem
pode ser afetado.
Young (2011 apud Arruda A; 2016) define a existência de dependência no ser
humano como uma compulsão que o indivíduo demonstra para realizar determinadas
atividades ou utilizar substâncias. De acordo com a autora, o que caracteriza este
comportamento são as consequências prejudiciais ao indivíduo que podem ser
verificadas nas áreas mentais, físicas, sociais, espirituais e financeiras.
A adoção deste tipo de comportamento em que é verificada a dependência é
extremamente prejudicial para o indivíduo. Conforme a abordagem apresentada por
Marlatt e Gordon (1985 apud Arruda A; 2016) este tipo de comportamento é adotado
como forma de lidar com os obstáculos impostos pela vida, controlar o stress do
quotidiano e até mesmo enfrentar algum trauma existente no passado.
De acordo com Caplan (2002 apud Arruda A; 2016), a dependência da internet
pode ser identificada como um subgrupo das dependências comportamentais. Assim,
a dependência da internet apresenta as seguintes características que são centrais
entre os utilizadores dependentes: Modificação do humor; Tolerância; Saliência;
Conflito; Recaída.

42
Dessa forma, a dependência da internet é definida no momento em que é
identificado que o indivíduo está a utilizar sistemas de informação conectados como
um mecanismo com o objetivo de escapar a sentimos perturbadores.
Em relação à tipologia, vários autores afirmam ser importante fazer uma
diferenciação entre dependência na internet e dependência da internet, ou seja,
enquanto na primeira à internet é apenas um meio para chegar a uma dependência
específica (e.g. pornografia), a segunda diz respeito a uma dependência da internet
no geral, por simplesmente já ser agradável estar online (Pontes, Patrão & Griffiths,
2014 apud Arruda A; 2016).
É relevante, também, ter em conta que há indivíduos que usam excessivamente
a internet, mas que não são dependentes desta (Pontes, Patrão & Griffiths, 2014 apud
Arruda A; 2016), segundo vários autores (Young, 1998; Kesici & Sahin, 2009 apud
Arruda A; 2016); estes indivíduos utilizam a internet com um propósito, sendo que se
conseguem controlar quando utilizam a internet e têm comportamentos ditos normais
quando são privados da internet.
Segundo Young (2011 apud Arruda A; 2016), a dependência da internet pode
ser classificada como leve, moderada ou grave. De acordo com o nível de
dependência que for identificada em cada indivíduo, os resultados podem representar
consequências para o desempenho acadêmico, profissional e também social do
utilizador dependente.
De acordo com Marques (2002 apud Arruda A; 2016), as vantagens
proporcionadas pela internet são também consideradas as grandes responsáveis pelo
crescente número de utilizadores e, também, pelo surgimento da dependência desta
ferramenta.
O advento da internet alterou de forma radical as condições convencionais de
produção e reprodução identitária, ao introduzir a possibilidade de desenvolver
interações sociais desmaterializadas e, nesse sentido, não sujeitas aos
constrangimentos cara a cara (Bargh et al, 2002 apud Arruda A; 2016).
Segundo Zhao et al., (2008 apud Arruda A; 2016), mesmo nas situações em
que a interação se desenvolve com recurso ao som e à imagem, ou seja, naquelas
em que um ou ambos os utilizadores comunicam através de uma webcam, o
anonimato pode ser preservado pela retenção de informação como o nome, o local de
residência ou a filiação institucional.

43
Young, Pistner, O’Mara e Buchanan (2000) identificaram cinco subtipos
de dependência da internet, sendo estes, os seguintes: Ciber-sexo; Ciber-
relacionamentos; Transação de ações e apostas online; Pesquisa de
informações; Jogos de PC.
A dependência apresenta características que podem ser divididas em dois
grupos compostos pela dependência física e pela dependência psicológica.
Segundo Young (2011 apud Arruda A; 2016) a dependência física é identificada
no momento em que o corpo do utilizador torna-se dependente de determinada
substância. Um exemplo deste tipo de dependência pode ser identificado no uso
abusivo de álcool ou de drogas.
Ainda que as substâncias responsáveis pela dependência proporcionem
prazer inicialmente, o consumo contínuo é motivado pela extrema necessidade de
eliminar a ansiedade provocada pela sua ausência. Este processo resulta em
utilizadores que adotam um comportamento compulsivo e cíclico na busca pelo prazer
proporcionado pela substância e pela superação das sensações desagradáveis
geradas pela ausência dela.
A dependência psicológica apresenta um contexto diferente no qual está
inserida a dependência da internet. Os seguintes sintomas podem ser observados nos
utilizadores deste segundo grupo de dependência: depressão, insónias,
irritabilidade. A grande diferença entre a dependência psicológica e a dependência
física é que, no segundo as perturbações comportamentais é que são os grandes
responsáveis pela manutenção da dependência. Neste caso não existe uma
necessidade física ou química para que o utilizador mantenha o seu comportamento
abusivo. A necessidade de satisfazer as suas necessidades também é identificada
por Schaumburg (1995 apud Arruda A; 2016) como justificação para o uso compulsivo.
A adoção destas condutas pode ocorrer de forma consciente ou inconsciente.
Além disso, o autor apresenta uma nova definição para caracterizar a existência
de dependência. De acordo com o autor, a existência de dependência pode ser
caracterizada no momento em que o indivíduo não está a ter um comportamento
dependente, mas deseja tê-lo. A característica de proporcionar prazer imediato para
o utilizador também é identificada na definição apresentada por Ribeiro e Laranjeira
(2012 apud Arruda A; 2016) como um fator essencial para o início do processo de
dependência.

44
Esta definição também é utilizada pelos autores ao analisar dependência de
drogas como a cocaína que inicialmente também possui um potencial indutor de
prazer imediato. Ao analisar as definições apresentadas por diferentes autores, é
possível identificar a existência de um comportamento em comum entre os utilizadores
dependentes. Defendem que a busca pelo prazer está sempre presente em
comportamentos de uso abusivo, que caracterizam uma situação de dependência.
Ao estudar o contexto existente entre os utilizadores dependentes da internet,
é possível identificar que a característica de obtenção de prazer imediato também está
associada a esta patologia.
Segundo Young (2011 apud Arruda A; 2016), o dependente da internet
apresenta características e alterações de comportamento que são motivadas pela
busca do prazer que é obtido no momento em que o utilizador se sente realizado com
a sua ligação à internet, através de um computador ou dispositivo móvel.

7.1 Classificação e tipologia

A DI pode ser classificada como generalizada ou específica. Segundo Davis


(2001 apud VELOSO Í; 2016) a generalizada diz respeito a um uso excessivo de
Internet de forma multidimensional (navegando em diversos sítios com finalidades
variadas) enquanto a específica implica a utilização da Internet para uma função ou
finalidade única e específica.
Young classificou inicialmente a DI segundo a seguinte tipologia (2009
apud VELOSO Í; 2016):
 Ciber sexuais – utilização compulsiva de conteúdo para adultos;
 Ciber relacionamentos – envolvimento excessivo e priorizado dos
relacionamentos virtuais;
 Compulsões na Internet – apostas, compras, outras;
 Sobrecarga de informação – navegar de forma compulsiva, informação
em demasia e de pouco valor científico ou factual;
 Computer addiction – videojogos, jogos em rede

45
Mais recentemente reagruparam e reclassificaram os diferentes subtipos
de dependência da Internet como sendo (Young, 2016 apud VELOSO Í; 2016):
 Screen Addiction – adição aos vários aparelhos tecnológicos
(computador, telemóveis smartphones, iPad’s, tablet’s);
 Sexting and Porn Addiction – ciber sexo, pornografia; trocas de
mensagens com intuito sexual; exposição a ambientes de risco como a
ciber - pedofilia;
 Internet Infidelity – relacionamentos virtuais que em muitos casos
passam a encontro presencial e envolvimento com o outro utilizador –
gerando infidelidade e traições;
 Internet Gambling – participar em jogos da fortuna ou azar online
realizando apostas a dinheiro;
 Internet Gaming Disorder – adição associado a videojogos em rede na
Internet; Social Media Addiction – vício e adição às redes sociais
diversas;
 Information Overload – excesso de pesquisa de informação, não
rastreando as mais factuais ou fidedignas.
Young (2009 apud VELOSO Í; 2016) afirma que quando 3 ou mais dos subtipos
de dependência da Internet acima mencionados são verificados num utilizador, isso
quererá dizer que a pessoa apresenta já um comportamento patológico em relação à
ferramenta e a relação com a Internet torna-se primordial na vida do dependente.

7.2 Atividades sexuais na internet

Na classificação de Young (1999a apud FORTIM I; 2013) a autora usa o termo


“cibersexo”. Nesta época a autora se referia a relacionamentos virtuais, principalmente
o uso dos chats por texto para conversas eróticas e consumo de pornografia.
Atualmente, com a conexão de banda larga e os inúmeros dispositivos que surgiram
(webcams, etc) as atividades sexuais pela internet foram se ampliando e hoje abarcam
um grande número de comportamentos possíveis (YOUNG, 2008 apud FORTIM I;
2013).

46
O impacto da internet na sexualidade humana pode ser sentido de diversas
maneiras. Döring (2009 apud FORTIM I; 2013), fez uma extensa revisão bibliográfica
- cobrindo 15 anos de pesquisa - sobre como esses impactos aconteceram.
A autora chama de “internet sexuality” ou de OSA (online sexual activities –
atividades sexuais online) os conteúdos e atividades relacionados às práticas sexuais
na internet. Ela classifica as atividades sexuais em seis áreas, mostrando como a
internet trouxe modificações, novas configurações e possibilidades de engajamento
em diferentes áreas do comportamento. São elas:
Pornografia
 Utilização da internet para acessar material comercial e não comercial,
bem como produzir, distribuir e discutir este material (texto, fotos, vídeos,
etc.)
Sex shops
 Uso da internet para obter brinquedos e produtos relacionados a sexo.
Trabalho sexual
 Uso para marketing das atividades tradicionais, como prostituição,
turismo sexual e para as novas formas de trabalho sexual online, tais
como shows via webcam. Este inclui uma interação em tempo real entre
cliente e profissional, seja on ou off-line. As interações são mediadas por
trocas financeiras.
Educação sexual
 Utilização para busca de informação sobre atividades sexuais, fóruns
onde os pares se aconselham, ou buscam aconselhamento profissional.
Contatos sexuais
 Uso para duas formas de contato: contatos individuais iniciados para
praticas exclusivamente online (cibersexo) e contatos que levam a
encontros off-line. Os encontros ocorrem sem trocas financeiras.
Subculturas sexuais
 Uso para encontrar indivíduos que mantêm preferências ou orientações
sexuais que não são as tradicionais, e que têm dificuldade em encontrar
pessoas parecidas. As atividades envolvem troca de informação,
suporte social, ativismo e visam reunir os indivíduos em grupos. Essas

47
minorias se utilizam de comunidades virtuais, websites, etc. para a
manutenção do grupo.
A possibilidade de se usar a internet para atividades sexuais, por suas
características específicas, parece ter grande potencial aditivo. Segundo Cooper
(2000 apud FORTIM I; 2013), a estimulação sexual na internet segue um padrão que
o autor chama de Triple A Engine: acessibility, anonimity e affordability (acessibilidade,
anonimato e acessibilidade econômica). Para os autores, estes são os três principais
padrões que levam os sujeitos a ficarem dependentes.
Além disso, Putnam e Maheu (2000 apud FORTIM I; 2013) acreditam que no
sexo virtual o reforçador do orgasmo é conseguido de maneira muito rápida e
acessível, fazendo que o sujeito sempre procure por ele.
Mas como diferenciar os dependentes de cibersexo dos dependentes de
sexo tradicionais?
Alguns autores entendem que não há uma discriminação relevante entre eles.
Cooper (2000 apud FORTIM I; 2013) acredita que existem usuários que já são
dependentes de sexo e que também se utilizam da internet, mantendo o mesmo
comportamento na vida off-line. Haveria uma população de risco, porém, que não
seria previamente dependente de sexo, mas que, devido às facilidades da internet,
acaba por se tornar dependente exclusivamente de material virtual. Young (2008 apud
FORTIM I; 2013) faz questão de diferenciar o diagnóstico de compulsão por cibersexo
do diagnóstico tradicional de compulsão sexual, dizendo que muitos dos dependentes
fazem o comportamento exclusivamente online e não tinham nenhum outro
diagnóstico de dependência sexual anterior a utilização da internet.

Uma das diferenças que podem ser apontadas é que na literatura o


dependente de cibersexo é apontado como alguém que desiste de ter
relações sexuais com o parceiro/ parceira (YOUNG, 2008), ao contrário dos
dependentes de sexo tradicionais, que mantêm uma vida sexual ativa junto
com seus parceiros e uma vida paralela (VIEIRA, 2006 apud apud FORTIM I;
2013).

7.3 Comunicação via internet

Uma das principais funções da internet é a comunicação. Young chama a este


tipo de adição de ciber-relacionamentos.

48
A comunicação pode ser de forma síncrona (instant messengers), assíncrona
(tais como e-mails), e mista (tais como as redes sociais, que apresentam ambas as
possibilidades).
Com a entrada das redes sociais, os relacionamentos estabelecidos na internet
não se configuram mais como apenas virtuais, como Young apontava no princípio da
popularização da internet. Eles se desenvolvem entrelaçados de forma intensa com
os relacionamentos off-line.
Nos primórdios da internet, e ainda em diversos ambientes encontrados ainda
hoje, a internet permite anonimato e muita interação por texto, além da possibilidade
de encontro de uma gama muito grande de sujeitos.
Levine (2000 apud FORTIM I; 2013) acredita que os relacionamentos
iniciados pela internet apresentam cinco componentes importantes:
 Proximidade e frequência de contato;
 Auto apresentação;
 Similaridade;
 Reciprocidade e;
 Expectativas e idealizações.
Essas características da comunicação virtual dão o tom e fazem com que esse
tipo de comunicação seja considerada como viciante por diversos usuários.
Algumas pesquisas mostraram que indivíduos solitários e deprimidos
desenvolvem a preferência por interações online (CAPLAN, 2003; LAVIN; YUEN;
WEINMAN et al., 2004; MILANI; OSUALDELLA; DI BLASIO, 2009; MORRISON;
GORE, 2010; NEO; SKORIC, 2009 apud FORTIM I; 2013).
Entretanto, outros autores discordam e acreditam que as relações
estabelecidas via internet são bastante semelhantes às off-line (CAMPBELL;
CUMMING; HUGHES, 2006; GROHOL, 1999; LEVINE, 2000; VAN ZALK; BRANJE;
DENISSEN et al., 2011 apud FORTIM I; 2013). Parece não haver diferenças
significativas no uso da internet para se comunicar entre homens e mulheres de
diversas idades (THAYER; RAY, 2006 apud FORTIM I; 2013).

49
Selfhout et al. (2009 apud FORTIM I; 2013) fazem uma breve revisão sobre os
principais atrativos da comunicação online. O autor mostra que suas características
de comunicação um para um, em tempo real, com formato privado, parecem facilitar
a comunicação e permitir um espaço para um bom treino de habilidades sociais para
os adolescentes, sendo um meio relativamente seguro para essas práticas.
O autor aponta também que, com o aumento da individualidade e a distância
física entre os indivíduos nos países industrializados, há menos oportunidades para
socialização, sendo que a internet facilita os contatos humanos (SELFHOUT;
BRANJE; DELSING et al., 2009 apud FORTIM I; 2013).
Acredita-se que a maior motivação para o uso de redes sociais é manter e
estabelecer relacionamentos construídos on e off-line. Além disso, muitos usuários
podem se utilizar dos perfis de forma egocêntrica, procurando mostrar-se do melhor
modo possível.
Ambas as possibilidades podem conter características aditivas. As mulheres
parecem se utilizar das redes sociais mais para se comunicar, enquanto os homens
procuram compensação social, aprendizagem e gratificações com relação a
identidade social (KUSS; GRIFFITHS, 2011 apud FORTIM I; 2013).
Além do computador, hoje os smartphones são utilizados para acessar a
internet, propiciando um contato constante com as redes sociais. A comunicação é
feita de modo on e off-line, simultaneamente, pois se atende ao celular conversando
com outras pessoas.

Encontrar companhia na internet também é um forte motivo para o uso. A


internet oferece a possibilidade de encontrar parceiros e amigos e é motivada
pela necessidade de companhia (MCMILLAN; MORRISON, 2006; apud
Fortim I. 2013).

Assim como os relacionamentos sexuais, os relacionamentos amorosos


também têm grandes mudanças com a entrada da internet. Diversas atividades
podem ser realizadas, como, por exemplo, a busca por um parceiro amoroso (DELA
COLETA; DELA COLETA; GUIMARÃES, 2008; DONNAMARIA; TERZIS, 2009); os
namoros virtuais (CORNWELL; LUNDGREN, 2001); o romance entre avatares em
mundos virtuais (CRAFT, 2012 apud FORTIM I; 2013).
Os relacionamentos amorosos off-line também foram impactados com o mundo
virtual. O controle das atividades online do parceiro parece afetar muitos casais e
trazer crises para os relacionamentos.
50
O ciúme e as brigas relacionadas ao uso das redes sociais se tornaram
frequentes (ELPHINSTON; NOLLER, 2011 apud FORTIM I; 2013). As concepções do
que considerar como “traição”, quando esta é mediada pelo computador ficam difíceis
de definir (YOUNG, 2004 apud FORTIM I; 2013).
As atividades relacionadas a conquista amorosa na internet são apontadas
como tendo grande capacidade aditiva. Muitas vezes, a conquista online também
envolve a busca de atividades sexuais.

7.4 Compulsão à navegação

A navegação é uma das formas mais antigas do uso da rede. A busca por
informações na internet parece ter grande potencial aditivo, e, portanto, Young
chamou a esta atividade viciante como “excesso de informação”. As buscas têm o
objetivo de procurar e adquirir informações, de forma ativa e com propósito. A
satisfação é grande quando se encontra a informação desejada (MCMILLAN;
MORRISON, 2006 apud FORTIM I; 2013).
A internet é o maior repositório de informações que a humanidade já teve. Além
da imensa quantidade de informação, a web tem como características o sistema de
hiperlinks, onde um website leva a outro, e outro, rumo a uma navegação infinita.
Navegar na internet é uma das principais atividades realizadas pelos usuários (VAS;
GOMBOR, 2009; YANG; TUNG, 2007 apud FORTIM I; 2013).
A diversidade de ideias, assuntos, atitudes e opiniões divulgadas na internet
mudam as perspectivas dos usuários constantemente (CHOU; CONDRON;
BELLAND, 2005 apud FORTIM I; 2013).
Entretanto, dentre as atividades consideradas como aditivas, a navegação
costuma ser apontada como uma das menos utilizadas pelos considerados
dependentes (CHAK; LEUNG, 2004 apud FORTIM I; 2013).

7.5 Jogos eletrônicos

Young havia classificado a compulsão a jogos eletrônicos como “Compulsões


do computador”. Entretanto, como os jogos mudaram desde então, preferiu-se
agrupar, na categoria Jogos Eletrônicos, todos os jogos que exigem como mediação

51
a internet, o que inclui o jogo patológico, classificado por ela em outro item. Foram
selecionados apenas os tipos de jogos mais frequentemente associados ao uso
patológico de internet.
MMOGs- Multimassive online games
Os jogos conhecidos como MMOGs (Multi Massive Online Games) e os
conhecidos como MMORPGs (Multi Massive Online Role Playing Games) são
apontados como uma atividade de potencial aditivo muito grande, desde a época dos
antigos jogos de texto, conhecidos como MUDs (Multi User Domain).
Atualmente, o jogo mais conhecido é o World off Warcraft (WoW), jogo com
tema sobre o universo de J.R.R. Tolkien, que conta com 11,4 milhões de jogadores
no mundo todo, segundo a Blizzard Entertainment (BLIZZARD, 2012 apud FORTIM I;
2013).
Mas existem diversos outros jogos online que também são jogados em rede,
com temáticas diversas. Esses jogos têm como características principais a imersão
em realidade virtual primorosamente simulada, o contato social intenso com outros
jogadores e sua permanência - independente do jogador, o mundo virtual continua
existindo (SNODGRASS; LACY; DENGAH II et al., 2011 apud FORTIM I; 2013).
Os games podem ser vistos como atividades que proporcionam uma regressão
à infância. Para Aboujaoude (2011 apud FORTIM I; 2013) o uso excessivo e a
dependência de jogos virtuais faz com que o jogador se sinta novamente na infância,
onde os erros são mais tolerados. Seria uma nostalgia das ações sem grandes
consequências, uma vez que nos jogos virtuais é possível “morrer” e “errar” inúmeras
vezes. O uso dos jogos traria uma infantilização dos adultos, que ficam muito tempo
ocupados com isso, deixando de lado atividades adultas e responsáveis. Isso também
implicaria em que eles deixam de ser modelos adultos para as crianças e jovens.
Snodgrass et al (2011 apud FORTIM I; 2013) entendem que a experiência que
o usuário tem no WoW seria similar a um “transe xamânico”, experiência de cura
conhecida em muitas culturas. Este transe, ou “vôo mágico”, como os autores se
referem, seria uma forma de lidar com stress e sentimentos negativos e teria efeitos
benéficos e positivos em muitos sujeitos. Entretanto, outros sujeitos abusariam deste
mecanismo, tornando-se assim dependentes desta experiência, que de benéfica
passaria a ser negativa.

52
Turkle (2011 apud FORTIM I; 2013) acredita que não há nada de errado com
os jogos de computador. Mas eles devem ser vistos como uma diversão, e não como
uma alternativa à vida. Para ela, jogos como World off Warcraft ou Civilization podem
proporcionar uma experiência similar aos de jogos de cassino: seu objetivo não é
ganhar, mas apenas estar lá. Assim como os viciados em jogos de azar, os jogadores
MMOGs apenas querem jogar, pois ficam confortáveis neste padrão.
Os jogadores investem em um novo padrão psíquico, pois os jogos são um
lugar onde as coisas acontecem de maneira diferente, mas sempre da mesma forma.
O jogo os deixa tão ocupados que não há espaço para mais nada.

7.6 Jogos de azar

Na língua inglesa, há uma diferenciação de termos quando se trata do assunto


“jogos”. O termo “gaming” fica reservado ao universo dos jogos eletrônicos e é
diferente da experiência conhecida como “gambling”, que se refere aos jogos de azar
e de apostas a dinheiro. Em português, entretanto, para ambos os casos traduz-se
como “jogo”.
Existem diversos trabalhos que se referem ao jogo patológico exercido
exclusivamente online. As pesquisas apontam que os motivos para tornar o jogo
online atrativo estão relacionados à sofisticação dos softwares de jogos; o sistema
integrado que permite acesso a dinheiro de forma digital; o realismo; o sistema de
apostas remoto e as competições entre os jogadores.
Também são apontados como facilitadores do jogo patológico pela internet os
seguintes pontos: a possibilidade de fazer as apostas de casa ou do trabalho,
simultaneamente a outras atividades; o acesso 24 horas por dia; possibilidade de jogar
de forma anônima; diminuição do preconceito social.
Os autores também apontam que o uso da internet para jogar é baixo,
comparado a outras formas, tais como cassinos e loterias (BRODA; LAPLANTE;
NELSON et al., 2008; GRIFFITHS, 1999; GRIFFITHS, 2003; GRIFFITHS; PARKE;
WOOD et al., 2010; GRIFFITHS; PARKE, 2010; LABRIE; KAPLAN; LAPLANTE et al.,
2008; LAPLANTE; SCHUMANN; LABRIE et al., 2008; NELSON; LAPLANTE; PELLER
et al., 2008 apud FORTIM I; 2013).

53
7.7 Fatores de risco da dependência da internet

Uma investigação desenvolvida por Young (1997 apud Arruda A; 2016), com o
objetivo de identificar as causas pelas quais os utilizadores eram atraídos para utilizar
a internet, obteve os seguintes resultados: 86% dos utilizadores afirmaram que
utilizavam intensamente a internet devido à possibilidade de anonimato, 63% devido
à acessibilidade, 58% devido à segurança e 3% devido ao uso fácil da ferramenta.
Serviços como as redes sociais, são das maiores causas do aumento da
utilização da internet. Segundo Silva (2009 apud Arruda A; 2016), a evolução da
tecnologia foi um fator que fez com que as redes sociais fossem utilizadas de forma
muito mais intensa.
A internet atua, também, como um mecanismo que modificou a forma como os
serviços eram prestados, alterou as formas de comunicação e de interação entre
pessoas e organizações.
Boyd e Ellison (2007 apud Arruda A; 2016) afirmam que as redes sociais são
serviços da internet, nos quais os utilizadores podem visualizar e interagir com as suas
listas de amigos, bem como podem interagir com as listas de amigos de outros
utilizadores através de um perfil público, ou semi-público num ambiente limitado. Os
utilizadores das redes sociais podem ser indivíduos, empresas ou até mesmo grupos
de indivíduos ou grupos de empresas.
Um estudo de Young (1997 apud Arruda A; 2016) analisou os conteúdos das
comunicações dos utilizadores da internet nos serviços de chat. Uma das
contribuições desta investigação foi a identificação das três áreas causadoras do uso
excessivo e que atuam como reforço e estímulo para a utilização da internet. Estas
áreas consistem na criação de uma persona, suporte social e realização sexual.
A criação de uma persona pode ser identificada nas situações em que o
indivíduo passa a agir com uma nova personalidade através da criação de apelidos.
Nesses casos, é possível ao utilizador alterar a sua idade, género, etnia e outras
características.
Ainda de acordo com Young (1997 apud Arruda A; 2016), a utilização de uma
nova persona origina um ambiente favorável para que o utilizador possa satisfazer
necessidades psicológicas que podem ser inadequadas. A nova personagem criada
pelo utilizador pode representar um papel negativo no funcionamento da vida real,
interpessoal e até mesmo familiar.
54
O suporte social é identificado na formação de um grupo social próprio que
detém regras próprias de convivência. O mundo físico não participa e a sociedade é
baseada na comunicação através do meio virtual.
Em alguns casos, os participantes destes grupos são indivíduos com
dificuldades de comunicação na vida real, e integram o grupo com o objetivo de
superar essas dificuldades. Deste modo, a facilidade proporcionada por um ambiente
como uma sala de chat, fazem com que os utilizadores sejam mais confiantes devido
às dificuldades que têm em estabelecer contatos na vida real.
Por último, a realização sexual é caracterizada pelos utilizadores que
identificam a possibilidade de satisfazer os seus desejos através do anonimato
proporcionado pela internet.
A idade e o género são fatores que podem influenciar a intensidade de
utilização de uma ferramenta. Neste sentido, Encinas e Gonzales (2009 apud Arruda
A; 2016), indicam que o desenvolvimento das novas tecnologias de informação é um
fenómeno relativamente recente, que afeta principalmente os jovens e adolescentes.
Quanto ao género, as mulheres demonstram uma maior tendência ao vício e
dependência.
Em contrapartida, os primeiros estudos relatam que a maioria de dependentes
da internet eram do sexo masculino (Scherer, 1997 apud Arruda A; 2016), sendo que
mais tarde, novos estudos encontraram evidência de que uma percentagem igual ou
maior de dependentes eram do sexo feminino (Leung, 2004 apud Arruda A; 2016).
Já Tsai et al. (2009 apud Arruda A; 2016), numa amostra de estudantes
universitários, concluíram que havia relação do gênero masculino, características de
personalidade neurótica e um deficiente suporte emocional.

7.8 Consequências e benefícios da dependência da internet

A utilização intensiva da internet produz alterações no comportamento dos


indivíduos que a utilizam.
Segundo Castells (1999 apud Arruda A; 2016), cada utilizador pode apresentar
reações diferentes em relação às alterações provocadas pelo uso da internet.
Todavia, é possível verificar a existência de prejuízo profissional, social ou emocional
por utilizadores dependentes desta tecnologia. Também se verifica que pessoas com

55
baixa autoestima, sentem-se inadequadas em várias situações do quotidiano, sendo
que nessas situações existe um estímulo adicional para o desenvolvimento de uma
identidade secreta online distinta da que utilizam no mundo real.
De acordo com Levy (1999 apud Arruda A; 2016), a desvinculação do utilizador
com a realidade ou mesmo a alienação social e cultural, são efeitos que podem ser
causados ou mesmo ampliados pelo uso excessivo da internet como ferramenta de
comunicação.
Entre as principais consequências do uso excessivo da internet, estão a perda
de sono e o comprometimento dos padrões de relaxamento e descanso noturnos. O
resultado deste processo de privação do sono resulta em fadiga excessiva
prejudicando o desempenho académico ou profissional (Greenfield, 1999 apud Arruda
A; 2016).
Young (2011 apud Arruda A; 2016), refere que as principais consequências
identificadas entre as pessoas que praticam o uso excessivo da internet são a baixa
produtividade acadêmica e profissional, insônias, dieta alimentar desequilibrada, falta
de controlo e problemas sociais.
De acordo com Reid e Reid (2007 apud Arruda A; 2016), os hábitos na
sociedade tendem a formar utilizadores cada vez mais dependentes ao procurarem o
afastamento social. A utilização da comunicação através do computador tira o lugar
da presença física, e o mundo virtual sobrepõe-se ao mundo real.
As investigações elaboradas por Young (2011 apud Arruda A; 2016), revelam
um quadro alarmante, em que a internet pode gerar compulsão, dependência e os
demais problemas pessoais e sociais causados pelo vício. Assim, o uso abusivo de
ferramentas tecnológicas como a internet, pode resultar em consequências
prejudiciais como o isolamento social, a solidão e a depressão.
Os cenários negativos não são regra, existem exceções. A investigação tem
sugerido que após investirem algum tempo na interação com os outros utilizadores
anónimos, em espaços públicos ou privados, muitos dos utilizadores céticos,
começam progressivamente a compreender que o seu comportamento no contexto
da internet reflete as suas atuais formas de estar, de pensar e de sentir (Barak & Suler,
2008 apud Arruda A; 2016).

56
É exatamente nesta linha de pensamento que Liu e Kuo (2007 apud Arruda A;
2016), apoiados nas suas investigações, declaram que as pessoas podem beneficiar
de efeitos positivos através da utilização da internet, através do preenchimento de
diferentes necessidades interpessoais sem que para tal sofram qualquer tipo de
consequência. Os mesmos autores defendem que uma utilização adequada da
internet pode melhorar a qualidade de vida e o bem-estar dos seus utilizadores.
Millher e Arnold (2001 apud Arruda A; 2016) corroboram esta ideia, ao
considerarem a internet como um palco de oportunidades disponibilizadas aos seus
utilizadores, a fim de que estes possam desenvolver múltiplas apresentações de si
mesmos (Schouten, 2007 apud Arruda A; 2016), partilhando as suas histórias com
diferentes públicos (Goffman, 1993) online de forma mais sincera que as
apresentações e partilhas realizadas com diferentes públicos na vida real.
Segundo Bem-Ze’ev (2004 apud Arruda A; 2016), a possibilidade de manter o
anonimato, para além de permitir fantasiar a apresentação de si, favorece a revelação
de detalhes mais íntimos por parte dos utilizadores, dado que estes percebem uma
menor vulnerabilidade e, desse modo, sentem-se mais livres para se expressarem.
Bem-Ze’ev (2004 apud Arruda A; 2016) defende que a possibilidade de
desenvolver interações sociais em diferentes palcos da internet, não sujeitos às
limitações e constrangimentos da vida real, veio possibilitar novas formas de
relacionamento capazes de promoverem numerosos benefícios na vida dos seus
utilizadores, melhorando a sua qualidade de vida e o seu bem-estar.

7.9 Dependência das redes sociais

Apesar de este parecer ser um fator comum, a dependência da internet pode


referir-se a comportamentos e atividades muito diferentes. Para Weiser (2001 apud
Arruda A; 2016) não faz sentido falar sobre dependência da internet de forma
generalizada e sim discriminar os diversos tipos de atividades, pois nem tudo o que é
realizado na internet gera dependência.
Czincz e Hechanova (2009 apud Arruda A; 2016) concordam, ao afirmar que
a maioria das investigações apoiam a ideia de que a dependência da internet está
relacionada com um conteúdo específico.

57
Algumas classificações foram propostas por Young (1999a apud Arruda A;
2016), Weisner (2001 apud Arruda A; 2016) eMottran e Flemming (2009 apud Arruda
A; 2016), com relação a finalidade com que se usa a internet.
Young (1999 apud Arruda A; 2016), classifica como subcategorias de
dependência da internet os seguintes usos:
 Dependência ao cibersexo, envolvendo uso compulsivo de sites de
cibersexo e pornografia;
 Dependência a ciber-relacionamentos, envolvendo relacionamentos
virtuais;
 Compulsões da rede, que envolvem atividades como jogos de azar
online, compras, leilões virtuais;
 Excesso de informação, que envolve compulsão a navegação na
internet;
 Dependência ao computador, envolvendo jogos no computador.
As redes sociais possibilitam muitas das atividades já descritas. Não se
configuram como atividades essencialmente novas, mas sim como agregadoras. O
Facebook, por exemplo, agrega serviços que antes eram dispersos: permite chat em
tempo real; publicações em texto, partilhar fotos, comentários em ambos os casos,
acesso a jogos, formação de grupos fechados para discussão de determinados
assuntos, partilha de informações e mensagens privadas aos usuários.
A única novidade trazida pelas redes sociais parece ser a forma agregadora de
encontrar as pessoas. Alguns autores já trabalham com o conceito de dependência
das redes sociais, mesmo reconhecendo que seu papel fundamental é manter a
comunicação com a rede social do utilizador (Kuss; Griffiths, 2011 apud Arruda A;
2016).
Dos vários subtipos da dependência da internet, optou-se por falar um pouco
sobre a dependência das redes sociais, visto que esta é uma dependência com cada
vez mais indivíduos afetados.
De acordo com Das e Sahoo (2011 apud Arruda A; 2016), as pessoas têm a
necessidade de pertencer a grupos, a formar comunidades, e de se expressar,
aderindo assim às redes sociais.

58
Mislove et al., (2007 apud Arruda A; 2016), defende que as redes sociais se
diferenciam da web, pois organizam-se em torno dos utilizadores e não do conteúdo,
o que leva à manutenção de relações sociais entre os utilizadores com interesses
semelhantes.
Ahmad (2011 apud Arruda A; 2016), equiparadamente a Mislove, defende que
nas redes sociais desenvolve-se uma comunidade social onde os utilizadores criam o
seu perfil online com dados, fotografias e outras informações, comunicando entre si,
e onde a atividade principal é a de publicar comentários, fotografias, notícias ou
qualquer outra informação.
Das e Sahoo (2011 apud Arruda A; 2016), afirmam que o conceito de
compulsividade é aplicável aos utilizadores das redes sociais, uma vez que é
consequência de um comportamento impulsivo retido, onde os utilizadores passam
horas nas redes sociais a falar com os seus amigos, a observar alterações e
atualizações do perfil de outros utilizadores, e aproveitam para comentar vídeos, fotos,
e alterar o seu próprio estado tornando-se, assim, um hábito compulsivo.
Os utilizadores das redes sociais sentem-se motivados para o uso destas, pois
estabelecem e mantêm relações na internet e fora dela (Kuss & Griffiths, 2011 apud
Arruda A; 2016), podendo existir uma dependência de ciber-relacionamento (Young,
1999).
Um estudo de Miranda et al., (2010 apud Arruda A; 2016) concluiu que os
estudantes do ensino superior acedem às redes sociais em média durante sete horas
por semana. Segundo a investigação do mesmo autor, estes utilizam as redes sociais
para manter o contato com os amigos.
Um estudo interessante de Chen e Marcus (2012 apud Arruda A; 2016),
apresentou conclusões sobre a personalidade dos utilizadores mais jovens das redes
sociais, onde os mais extrovertidos sentem-se mais à vontade para publicar
informação, enquanto que os jovens com um nível alto de alocentrismo (i.e., alguém
que foca os seus interesses na vida de outra pessoa) e baixa extroversão têm
tendência a publicar informação menos honesta, mas com mais regularidade.

59
Zhao (2008 apud Arruda A; 2016) refere que as redes sociais permitem aos
seus utilizadores apresentarem-se de formas diversificadas. Os utilizadores podem
exibir fotografias pessoais em álbuns especificamente criados, descrever os seus
interesses pessoais, bem como os seus passatempos favoritos e criar listas de amigos
e respetivas redes. Estas redes também permitem aos seus utilizadores interagir
mutualmente através da partilha de comentários ou imagens.
Goffman (1993 apud Arruda A; 2016), defende que por detrás das identidades
conhecidas escondem-se, muitas vezes, outros “eus” (Bargh et al., 2002 apud Arruda
A; 2016), devidamente domesticados pela sociedade e pela cultura dominante. De
acordo com Barak e Hen (2008 apud Arruda A; 2016), a comunicação mediada pela
internet produz um efeito de desinibição capaz de encetar consequências negativas e
positivas.
As consequências negativas, também designadas por desinibição tóxica (Suler,
2004), referem-se a expressões de agressão, difamação ou chantagem emocional.
Por outro lado, as consequências positivas, conhecidas por designação
benigna (Suler, 2004 apud Arruda A; 2016), incluem expressões de
autoconhecimento, auto compreensão, atividades proativas e expressão emocional.
Segundo Barak e Hen (2008 apud Arruda A; 2016), ainda a propósito dos
efeitos positivos da comunicação mediada pela internet, as pessoas, em diferentes
palcos da web, expressam-se mais livremente, transmitindo com maior liberdade, de
forma mais próxima do que no momento sentem e desejam, as suas formas de estar,
de pensar, as suas dúvidas, os seus medos e os seus desejos. Nesse sentido, é
possível admitir a realização de algumas das suas necessidades psicológicas e
sociais.
Segundo os mesmos autores, esta maior expressividade justifica-se pelo fato
da internet não estar condenada aos constrangimentos dos diversos palcos off-line
(família, local de trabalho, colegas, amigos, intimidade), em que as pessoas se sentem
obrigadas a filtrar, censurar e fabricar as suas ações, em resultado das normas sociais
e das ameaças, mais ou menos explícitas, de punições ou ridicularização, caso estas
não sejam cumpridas.

60
7.10 Etiologia da dependência da internet

A dependência da internet é cada vez mais abrangente e de intensidade


crescente. Atualmente ainda se sabe muito pouco sobre o que leva as pessoas a se
tornarem dependentes do mundo online (Young, Yue & Ying, 2011 apud Arruda A;
2016).
Segundo Young et al. (2011 apud Arruda A; 2016), é importante a criação de
modelos etiológicos pois estes contribuem para a identificação de futuras áreas de
investigação e apoiam os clínicos com métodos empíricos de avaliação e tratamento
aos seus clientes com dependência da internet.
A definição de dependência não tem consenso entre os autores, mantendo-se
um desafio. Young (2011 apud Arruda A; 2016), procurou defini-la sob a forma de uma
compulsão recorrente que leva o indivíduo a envolver-se em certas atividades ou
utilização de substâncias.
Independentemente de toda e qualquer consequência negativa que esta lhe
cause em termos do seu bem-estar físico, social, espiritual, mental e financeiro. Ainda
segundo Young (2011 apud Arruda A; 2016), os indivíduos tentam fugir aos seus
obstáculos e ao stress diário através de uma fuga a pseudos mecanismos de coping.
Esta noção vai de encontro à teoria que procura compreender o fenômeno da
dependência da Internet através da utilização da mesma como forma de
compensação das necessidades psicológicas do indivíduo. Neste sentido, estas
abordagens psicológicas sugerem que as pessoas utilizam a Internet de modo
excessivo para compensarem dificuldades sociais ou psicológicas, bem como os
défices no seu bem-estar pessoal em termos do dia a dia.
Em conformidade com esta ideia, os autores Smahel, Helpser, et al. (2012 apud
Arruda A; 2016) sugerem que os indivíduos que se encontram em maior situação de
vulnerabilidade psicológica, são os que se encontram em maior situação de risco para
virem a desenvolver dependência da Internet, pois esta poderá servir como uma forma
de compensar faltas, e proporcionar novas formas de lidar com os problemas
decorrentes da vida off-line.
Além disso, estes comportamentos têm um impacto negativo na vida das
pessoas, do mesmo modo que as dependências físicas o fazem, prejudicam
negativamente o casamento, produtividade no trabalho e o bem-estar pessoal, pois
os indivíduos acabam por ser consumidos por um comportamento particular
61
consumidos ao ponto de se tornarem dependentes (Young & Klausing, 2007 apud
Arruda A; 2016).
Pezoa-Jares et al. (2012 apud Arruda A; 2016) enfatizam a importância dos
fatores biológicos, psicológicos e ambientais para qualquer tipo de dependência. Por
isso, torna-se imprudente assumir que a Internet por si só causa dependência. Pelo
contrário, a dependência da Internet pode ser uma manifestação em determinadas
pessoas, cujo antessente biopsicossocial as torna mais predispostas.
Em suma, a dependência da Internet enquanto um tipo de dependência
psicológica, comportamental ou de processo, constitui-se por:
 Uma síndrome psicológica e comportamental reconhecida;
 Expressar-se num sujeito particular em relação a substâncias ou
processos específicos;
 Exibir semelhanças entre os sujeitos dependentes, independentemente
das suas circunstâncias específicas e dependência particular (Young &
Klausing, 2007 apud Arruda A; 2016).
Além disso, deverá ser contextualizada e compreendida no próprio contexto
biopsicossocial do indivíduo (Peszoa-Jares et al., 2012 apud Arruda A; 2016).

7.11 Dependência de internet e jogos eletrônicos

Segundo Meneses (2015 ZANCAN C; TONO C; 2018) boa parte da produção


científica, tanto na área da ciência médica e de vertentes de estudo da psicanálise, da
psicologia e da pedagogia, tem trabalhado com as categorias de dependência, adição
e vício para descrever a relação de usuários de videogame com seus jogos, na qual
se sobressai uma associação semântica entre os efeitos dos videogames e das
drogas de uso não farmacológico.
Segundo Abreu et al. (2008 ZANCAN C; TONO C; 2018), não existe um
consenso entre os pesquisadores quanto a melhor terminologia para se referir aos
indivíduos que apresentam intenso uso da internet e jogos eletrônicos, e que
apresentam prejuízos significativos em função desta relação.
Este mesmo autor menciona que a internet e os jogos eletrônicos se
transformam em instrumentos de uso amplo e irrestrito, passando a constituir um dos
maiores fenômenos mundiais dos últimos anos, cujo uso incorreto cria graves

62
problemas na vida cotidiana de seus usuários, até mesmo fatores que podem causar
algumas comorbidade psiquiátricas.
Lemos (2012 ZANCAN C; TONO C; 2018) argumenta que “pessoas mais
impulsivas, com baixa autoestima e/ou dificuldades de relacionar-se com outros
podem apresentar maior predisposição à dependência de jogos eletrônicos”. Outros
aspectos de risco incluem alguns traços de personalidade (principalmente
neuroticismo e hostilidade).
Pesquisadores ainda ressaltam que a história de vida do indivíduo, a procura
por uma catarse de conteúdo agressivo, fuga das responsabilidades do dia a dia pela
prática de jogos eletrônicos, socialização com outras pessoas no ambiente virtual e
busca de autossuficiência no universo virtual são elementos de risco para essa
dependência.
Araújo (2010 ZANCAN C; TONO C; 2018) aponta que o uso médio relatado
pelos usuários pesados é de 4 a 10 horas por dia durante a semana, aumentando
para 10 a 14 horas nos finais de semana. Isto representa algo em torno de 40 a 78
horas por semana de uso abusivo da Internet sem qualquer finalidade escolar ou para
fins profissionais, ficando clara a ausência de qualquer propósito específico agregador
de valor real.
Grande parte dos casos de dependência de Internet apresenta uma
comorbidade com quadros afetivos e ansiosos. O tempo despendido em jogos
eletrônicos foi inversamente proporcional à qualidade dos relacionamentos
interpessoais e diretamente proporcional aos sintomas de ansiedade social.
Os riscos e efeitos nocivos resultantes do uso desordenado e inadequado
geram impactos prejudiciais não somente nos aspectos cognitivos e na saúde física e
mental do usuário, mas também a sexualidade e os aspectos de relacionamento
humano.
Abreu et al. (2008 ZANCAN C; TONO C; 2018) aponta que a medicação para
essa dependência é bem análoga àquela praticada no tratamento desses
acometimentos e, também sugere terapia de apoio e de aconselhamento, apoio
familiar, entrevista motivacional e psicoterapia cognitivo-comportamental.
Para Young; Nabuco (2011 ZANCAN C; TONO C; 2018) as finalidades do
tratamento passam a ser a educação e a prevenção, para auxiliar no restabelecimento
de um padrão de uso moderado.

63
A utilização consciente e a autoconsciência são processos críticos pelo quais
essa transformação ocorre. O desempenho escolar do educando pode estar
intrinsicamente ligado ao resultado de suas experiências, tanto de sucesso ou de
fracasso, no decorrer de sua vida escolar.
Uma pesquisa realizada por Sherry et al. (2003 ZANCAN C; TONO C; 2018)
investigou as razões que levam os adolescentes a jogar no computador. Entre 535
adolescentes de 15-18 anos, no leste dos EUA, 68% deles tinham esses jogos como
o seu entretenimento diário. As razões foram: excitações, desafios e intenção de
vencer ou avançar fases. Além disso, desporto e jogos violentos foram mais atraentes
para os jovens do sexo masculino. Jogos de computador, em certa medida podem ser
úteis, mas jogar por longo período leva a várias complicações físicas e mentais.
Os jogadores que ficam por tempo excessivo podem relatar: inquietação,
preocupações, as tensões físicas são estimuladas por experiências virtuais. Há
sobrecarga do sistema nervoso simpático, este pode gradualmente tornar este
sistema sensível.
A restrição no tempo e no espaço constitui uma das fundamentais
peculiaridades num jogo, pois este é criado para que nele, possam ser verificados
alguns significados e caminhos que ficam e são limitados em tempo e espaço. Todo
jogo ocorre em um território anteriormente limitado, seja de forma material ou
imaginária.
Conforme Lopes (2016, p. 25 ZANCAN C; TONO C; 2018) o critério para
agrupar com características de jogabilidade semelhantes e a variedade leva à
definição de subgêneros: classes, ação, tiro, aventura, estratégia, baseada em turnos,
em tempo real, RPG, “estilo oriental’, “estilo ocidental”, esporte, simulação, tabuleiro
e quebra-cabeça Assim, as intercessões tecnológicas na conduta dos adolescentes
exigem acompanhamento permanente.

7.12 Dependência de internet em adolescentes

No que se refere à faixa etária, os adolescentes são os principais acometidos


pela DI. A adolescência é caracterizada pela imaturidade dos sistemas cerebrais
monoaminérgicos cortical frontal e subcortical, que faz com que a impulsividade seja

64
um traço comportamental transitório típico dessa etapa (Eijnden, Spijkerman,
Vermulst, Rooij, & Engels, 2010).
Esse dado pode explicar o fato de os adolescentes possuírem menos
habilidades em controlar o entusiasmo por algo que lhes desperta interesse, estando
mais vulneráveis ao uso patológico da internet (Ha et al., 2007). Cabe salientar que
os jovens habitualmente desconhecem as potenciais consequências adversas do uso
demasiado da internet (Tsitsika, Critselis, Janijian, Kormas, & Kafetzis, 2011).
Por isso, comportamentos compulsivos diante da internet frequentemente são
utilizados pelos adolescentes como estratégias para enfrentar eventos ou situações
desagradáveis, já que permitem momentaneamente que a pessoa "esqueça" os
problemas ou o estresse advindo de algum acontecimento e, devido ao prazer obtido,
os sujeitos passam a ter mais intensidade neste tipo de conduta (Young, 2007).
Ao entrarem em contato com atividades e emoções prazerosas proporcionadas
pela internet, os jovens criam um ciclo desadaptativo de convivência familiar,
permeado por fugas e esquivas às tentativas de controle dos pais. Os adolescentes
dependentes de internet, além de enfrentarem brigas familiares em função do
isolamento decorrente do transtorno, tendem a possuir menos amigos e menos
relações amorosas (Barossi, Meira, Goes, & Abreu, 2009; Kwon2011). Dessa forma,
entre os fatores associados a DI de internet em adolescentes, destaca-se o baixo
repertório de habilidades sociais.
No âmbito dos comportamentos aditivos, a dependência de internet constitui
uma nova patologia com prevalência considerável entre os jovens (Du, Jiang, &
Vance, 2010). Uma pesquisa transversal realizada com 2.017 escolares em uma
cidade da Grécia constatou que 15,2% desses apresentavam uso aditivo de internet
(Siomos et al., 2012).
Os autores Kaur e Sharma (2015) realizaram um estudo para verificar variáveis
sócio demográficas que possuíam associação com DI, e reportaram que este
transtorno esteve associado a maior tempo online por dia e à crença de que estar
online não traria prejuízos.
Foi constatado que as variáveis: estudar em escola particular; estar no ensino
fundamental; emprego dos pais e relacionamento familiar, não possuíam associação
significativa com DI nos adolescentes estudados.

65
7.13 Dependência de internet e habilidades sociais na adolescência

Em humanos, a interação social tem raízes instintivas e serve para que as


necessidades básicas sejam atingidas. Os padrões de interação social foram
trabalhados desde as primeiras civilizações e são incorporados às regras e normas
culturais, sendo transmitidos aos jovens a cada geração (Argyle, 1972 apud
TERROSO L; ARGIMON I; 2016).
Devido à interação social ser a base da vida em sociedade, as habilidades
sociais (HS) são comportamentos indispensáveis para que os indivíduos estabeleçam
relações elaboradas com os demais (Del Prette & Del Prette, 2010 apud TERROSO
L; ARGIMON I; 2016).
Não há um consenso acerca de uma definição para HS. De acordo com
Gresham (2009 apud TERROSO L; ARGIMON I; 2016), as HS são comportamentos
aprendidos e socialmente aceitáveis que permitem ao sujeito interagir, ou desviar, na
ocorrência de comportamentos que resultariam em interação social negativa.
Para Caballo (2003/2012 apud TERROSO L; ARGIMON I; 2016), as HS são
um conjunto de comportamentos emitidos por alguém em um contexto interpessoal.
Essas condutas devem expressar sentimentos, atitudes, desejos e opiniões de quem
as manifesta, e estar adequadas à situação, tendo potencial de resolver problemas
atuais e minimizar a possibilidade de danos no futuro.
Os autores Del Prette e Del Prette (2010 apud TERROSO L; ARGIMON I;
2016) consideram que um comportamento social deve ser considerado como
habilidade social quando contribui para a competência social em uma tarefa de
interação social.
Neste sentido, a competência social pode ser entendida como o
comportamento que manifesta um melhor resultado para equilibrar reforçadores ou
assegurar direitos reforçadores básicos (Del Prette & Del Prette, 1996; Del Prette, Del
Prette, & Mendes Barreto, 2012 apud TERROSO L; ARGIMON I; 2016).
Na adolescência, as HS são fundamentais para o ajuste social. Nessa etapa,
devido à importância dada à aceitação pelos pares, os comportamentos socialmente
hábeis são indispensáveis para a autoestima e bem-estar (Coronel, Levin, & Mejail,
2011; Silva & Murta, 2009 apud TERROSO L; ARGIMON I; 2016). Entre os prejuízos
associados a um baixo repertório de HS na adolescência destaca-se o

66
desenvolvimento de DI (Engelberg & Sjöberg, 2004; Morahan-Martin & Schumacher,
2003 apud TERROSO L; ARGIMON I; 2016).
Na perspectiva da relação entre HS e DI na adolescência, encontramos uma
relação bidirecional na literatura PSI. Há autores que argumentam que o déficit de HS
acaba causando a DI, pois indivíduos com baixo repertório de HS tendem a preferir a
interação social on-line, já que a internet pode servir como uma ferramenta de
proteção à ansiedade em socializar (Birnie & Horvath, 2002 apud TERROSO L;
ARGIMON I; 2016).
A internet proporciona uma zona de conforto através da sensação de
anonimato, fazendo com que esses adolescentes possam se expressar livremente,
ou até mesmo fingir ser outra pessoa. (Fioravanti, Dèttore, & Casale, 2012; Morahan-
Martin, 1999; Morahan-Martin & Schumacher, 2003 apud TERROSO L; ARGIMON I;
2016).
Em contrapartida, alguns pesquisadores apontam que a internet ocasiona um
déficit nas HS, uma vez que jovens que usam demasiadamente essa ferramenta
perdem competências emocionais que facilitam a adaptação em meio social
(Engelberg & Sjöberg, 2004; Kim, LaRose, & Peng, 2009 apud TERROSO L;
ARGIMON I; 2016).
Apesar das controvérsias, são evidentes a ampla vulnerabilidade dos
adolescentes a se tornarem dependentes de internet e a importância das HS como
fator de proteção a esse tipo de patologia (Bonetti, Campbell, & Gilmore, 2010;
Engelberg & Sjöberg, 2004 apud TERROSO L; ARGIMON I; 2016).

7.14 Os transtornos causados pelo uso excessivo da internet

TRANSTORNO DE DEPENDÊNCIA:
As alterações no cérebro são semelhantes às que ocorrem com os
dependentes químicos e a pessoa muitas vezes tenta sem sucesso ficar menos tempo
conectado e acaba deixando de fazer outras atividades e até mesmo de cumprir com
responsabilidades.

67
Essa dependência também pode ocorrer especificamente por jogos. Este
transtorno de dependência pode estar ligado a outros como o TOC, o Déficit de
Atenção e a Ansiedade e geralmente age em conjunto com a depressão e a baixa
autoestima.
O uso patológico dos videogames já é mencionado na quinta edição do Manual
Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais, espécie de cartilha da psiquiatria,
lançada em janeiro deste ano. A “dependência de internet” está a um passo de se
tornar a mais nova classificação psiquiátrica do século 21.
NOMOFOBIA:
É a angústia causada com a impossibilidade de se usar ou se comunicar
através de celulares e computadores. Surge um medo irracional e excessivo de ficar
sem o aparelho, uma espécie de abstinência.
SÍNDROME DO TOQUE FANTASMA:
É a sensação que o celular tocou sem ter realmente tocado. Parece algo
simples e muito comum, mas isso pode ser tornar repetitivo e muito constrangedor.
HIPOCONDRIA DIGITAL:
A pessoa começa a temer ter as doenças que vê na internet, procurando por
doenças, tirando conclusões erradas, se tratando de forma inadequada e sofrendo por
antecipação por coisas que talvez nem tenha.
DEPRESSÃO DAS REDES SOCIAIS:
É a depressão causada pela falta de interação ou aceitação nas redes ou ainda
pela comparação de sua vida com o que se vê, sempre positivo, da vida dos outros e
a falsa sensação de que todo mundo vive uma vida feliz, saudável e repleta de energia
e atividades.
ANSIEDADE:
Ansiedade por receber e-mails, por ser admirado e curtido, por saber de todas
as informações e notícias antes dos outros, por entrar a fundo em conteúdos diversos,
entre outros motivos que aumentam a ansiedade e o pensamento acelerado e
prejudicando cada vez mais o tempo e a qualidade do sono.
NÁUSEA VIRTUAL:
É a desorientação e até vertigem que algumas pessoas sentem ao interagir em
determinados ambientes digitais.

68
EFEITO GOOGLE:
É a tendência do cérebro em reter cada vez menos informações por saber que
as respostas estão ao alcance de alguns cliques.
PROBLEMAS FÍSICOS:
O excesso de luz e o tempo de exposição aos dispositivos podem causar
problemas de visão, dores de cabeça além de dores nos ombros, problemas posturais
e problemas de LER.
CONFUSÃO MENTAL:
Estudos, também realizados por médicos da Academia Americana de Pediatria,
mostram que o uso inadequado e excessivo das tecnologias, principalmente a
internet, está alterando o cérebro humano. Quem se expõe muito à rede pode ter
dificuldade para se concentrar, perder o foco, ter menor capacidade de compreensão
e redução da capacidade da memória.
SEM PENSAR:
Os usuários que não largam seus aparelhos dentro do ônibus, ao atravessar a
rua e até no momento de dormir, deitando com o celular embaixo do travesseiro,
boicotam a si próprios. Sem intervalos para aquietar a mente, ficam impossibilitados
de refletir sobre os acontecimentos do dia a dia e sobre a sua própria vida. A mente
de quem “surfa” é agitada.
DÉFICIT DE ATENÇÃO:
A leitura no papel permite maior aproveitamento do conteúdo. A geração digital
está adquirindo o costume de ler na tela dos tabletes e smartphones. O problema é
que o padrão de atenção exigido para decodificar e absorver as informações
virtualmente é mais ‘disperso’. O uso indiscriminado da tecnologia está levando a uma
explosão de crianças com déficit de atenção, que sentem maior dificuldade de ativar
outras funções mentais.
MAS TUDO ISTO É DEIXADO DE LADO COM AS SENSAÇÕES QUE OS
JOVENS SENTEM AOS SE DEIXAREM LEVAR HORAS E HORAS SEM PARAR
NA FRENTE DAS TELAS:
SENSAÇÃO DE PRAZER:
Toda atividade que se faz compulsivamente, até mesmo ler um livro com afinco
ou checara todo minuto o portal predileto, cria uma motivação bioquímica. Depois de
oito minutos, o corpo reage ao estímulo e começa a liberar dopamina, que dá a

69
sensação de prazer. O usuário passa a acessar as telas quando está entediado, como
forma de anestesiar sentimentos.
ILUSÃO DE COMPANHIA:
A tecnologia entra onde falham as relações sociais. Sherry Turkle, autora da
obra intitulada Alone together, afirma que, na vida contemporânea, “somos sozinhos,
mas receosos de desenvolver a intimidade”. Ao receber muitas ‘curtidas’, o usuário
desenvolve uma visão melhorada de si mesmo e cria uma perspectiva muito intensa
de conseguir controlar o próprio sucesso.

8 INTERVENÇÃO E TRATAMENTO EM DEPENDÊNCIA DE INTERNET

Não há ainda a recomendação de uma intervenção psicológica padrão para o


tratamento de dependência internet, porém encontra-se a Terapia Cognitivo
Comportamental aliada a intervenções motivacionais baseadas na Entrevista
Motivacional como as intervenções mais promissoras para a obtenção de melhores
resultados no tratamento. (YOUNG, 1999; ORZACK, 1999; WIELAND, 2005, BEARD,
2005; HALL e PARSON, 2001; ABREU, 2011 apud SILVA A; 2018).
Terapia cognitivo-comportamental (TCC), é bastante utilizada assim como a
terapia familiar, a terapia de grupo, o treino de aptidões sociais e o aconselhamento.
Durante os programas de tratamento os pacientes são instruídos a ficar em total
privação de computadores.
A terapia cognitivo-comportamental foi sugerida como o modo preferido de
tratamento para o uso compulsivo de Internet (Young, 2007 apud ALVES P; 2014) e
em média decorre num período de 3 a 4 meses. Tem-se mostrado um tratamento
eficaz, sendo baseado no princípio de que os pensamentos determinam os
sentimentos.
Assim, os pacientes são instruídos a identificar pensamentos que estejam a
desencadear sentimentos que conduzem aos comportamentos de dependência. São
utilizadas técnicas comportamentais na fase inicial da terapia, concentrando-se em
situações específicas, nas quais o controle dos impulsos ocorre de forma pouco
eficiente.
À medida que a terapia progride, o foco passa a ser cognitivo, sendo
identificadas as distorções que se desenvolvem sobre o uso da Internet. Contudo, os

70
tratamentos devem objetivar um uso controlado e moderado da Internet, e não a sua
total abstinência, já que nos tempos atuais é uma boa ferramenta (Young, 2009;
Brezing, et al., 2010; Young, et al., 2010 apud ALVES P; 2014).
Existe software destinado a evitar o uso inadequado e excessivo de Internet,
por exemplo, software como o WebSense, para monitorização em empresas, ou o Spy
Monkey de uso pessoal para controlar o tempo online.
O tratamento da dependência da Internet utilizando a TCC envolve os
seguintes aspetos:
estratégias de aprendizagem de gestão de tempo, reconhecimento dos
potenciais benefícios e prejuízos da utilização da Internet, identificação de princípios
que levam ao uso compulsivo da Internet (tais como aquilo que a própria Internet
oferece, estados emocionais, cognições disfuncionais e eventos da vida), aprender a
gerir emoções e a controlar impulsos relacionados com o uso da Internet (pode ser
obtido por meio de um relaxamento muscular e respiratório), melhorar a comunicação
interpessoal e as aptidões sociais, melhorar as competências para enfrentar certas
situações, além de se envolver em atividades alternativas (Huang, et al., 2010 apud
ALVES P; 2014).
As estratégias comportamentais de Young (1999 apud ALVES P; 2014) podem
estar presentes num plano de tratamento para a dependência de Internet. Incluem a
identificação do modelo de uso do paciente, estimulando-o a realizar atividades
neutras durante o tempo que somente utilizaria a Internet; uso de lembretes externos,
por exemplo um relógio com alarme, para indicar quando é a hora de fazer log-off;
estabelecer metas claras; utilização de cartões de confronto, apontando
consequências negativas do uso da Internet; formular uma lista com outras tarefas
que possam ser utilizadas como passatempo e, por fim, a abstinência (Flisher, 2010
apud ALVES P; 2014).
No tratamento de adolescentes com dependência de Internet é muito
importante conseguir envolver todos os familiares na recuperação do paciente.
Quando a dependência da Internet tem um impacto negativo na vida familiar, Young
aconselha a terapia familiar.
A compreensão da família quanto ao processo do tratamento é primordial para
que se consiga identificar os sinais de recaída e a importância da manutenção de

71
limites saudáveis para a utilização da Internet (Brezing, et al., 2010; Huang, et al.,
2010 apud ALVES P; 2014).
Terapia cognitivo comportamental no tratamento de dependência de
Internet
A Terapia Cognitivo-Comportamental é uma abordagem psicológica baseada
em evidências, pois seu fundador Aaron Beck, sempre preocupado com o rigor do
método científico, incentivava tanto seus clientes como pesquisadores, a testarem a
eficácia da terapia cognitiva (DE ANGELIS, 2007 apud SILVA A; 2018), tornando a
TCC uma das abordagens com eficácia mais validada cientificamente no tratamento
de diversos transtornos mentais, como depressão e ansiedade.
Segundo Machado (2009 apud SILVA A; 2018), alguns eixos norteadores
das terapias cognitivas são:
 A ênfase na função mediadora dos processos da cognição humana;
 O indivíduo é mobilizado pela interpretação que faz de um evento e não
pelo evento em si;
 O ser humano não é dissociado de seu contexto sócio histórico. A
interpretação desse contexto influi em suas emoções, pensamentos e
comportamentos;
 A cognição pode ser acompanhada, avaliada, investigada e medida;
 As mudanças psicoemocionais e comportamentais podem ser avaliadas
via acompanhamento dos processos de cognição;
 Os esquemas cognitivos possuem permeabilidade, amplitude,
flexibilidade e carga emocional.
As cognições não se resumem apenas ao pensamento, mas todos os
processos internos envolvidos em extrair sentido do ambiente. Esses processos
internos envolvem: atenção, percepção, aprendizagem, linguagem, memória,
resolução de problemas, raciocínio e, por fim, o pensamento. Pode-se notar, assim, a
amplitude dos processos cognitivos.
A TCC utiliza-se de técnicas que permeiam todas as formas de cognições, e
principalmente os pensamentos disfuncionais ou pensamentos automáticos. Os
Terapeutas cognitivos-comportamentais acreditam que, a tríade cognição, emoção e
comportamento estão interligadas, assim como uma engrenagem e que, ao modificar

72
o curso de uma das partes, modifica-se o curso das outras partes, pois existe uma
inter-relação entre eles.
Assim, o terapeuta cognitivo comportamental tem em suas não apenas técnicas
cognitivas, mas técnicas de regulação emocional (LEAHY, 2013 apud SILVA A; 2018)
e técnicas comportamentais (CABALLO, 2014 apud ALVES P; 2014). Kimberly Young,
precursora do tratamento de dependência de internet conclui que a TCC é eficaz na
redução dos sintomas relacionados à dependência (Young, 2007 apud SILVA A; 2018)
No Brasil, em São Paulo, existe a atuação em Terapia Cognitivo-
Comportamental no tratamento de dependência de Internet no Ambulatório dos
Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo,
sendo coordenado pelo Dr. Cristiano Nabuco de Abreu e, no Rio de Janeiro, há o
Grupo DELETE (Desintoxicação e Uso Consciente de Tecnologias), no Instituto de
Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, idealizado por Anna Lucia
Spear king, também da linha Cognitivo-Comportamental (KING, 2014 apud ALVES P;
2014)
Abreu e Goés (2011 apud ALVES P; 2014) oferecem um modelo estrutural
de tratamento para dependentes de Internet, abaixo descrito no quadro 3:

Fonte: cetcc.com
73
O modelo estruturado em psicoterapia cognitiva para tratamento de
dependência de internet (quadro 3) é utilizado no programa de dependentes de
internet do Ambulatório Integrado de Transtornos do Impulso (PRO – AMITI) do
Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (Dependência de Internet – Manual e guia de avaliação e
tratamento p. 203, 2011 apud ALVES P; 2014).
ESSE MODELO É FORMULADO PARA DEZOITO SEMANAS DE
TRATAMENTO E É CONSTITUÍDO DE TRÊS FASES:
 Fase inicial
 Fase Intermediária e;
 Fase Final, tendo em vista intervenções específicas do terapeuta para
cada fase.
OS OBJETIVOS DE CADA FASE E AS TÉCNICAS UTILIZADAS E
SUGERIDAS PARA O TRATAMENTO EM DEPENDÊNCIA DE INTERNET SERÃO
DESCRITAS A SEGUIR:
FASE INICIAL (1ª A 5ª SEMANA):
OBJETIVO:
 Avaliação inicial do grau de dependência de Internet;
 Construção de “Aliança Terapêutica” entre paciente e terapeuta.
(SAFRAN, 1998 apud SILVA A; 2018).
 Análise dos benefícios e custos proporcionados pelo acesso à internet.
 Exploração das implicações pessoais referentes ao uso de internet. (A
razão que me faz acessar a internet).
 Auxiliar os pacientes á estabelecerem uma relação de causa e efeito
entre emoção, pensamentos e comportamentos relacionados ao uso de
internet.
TÉCNICAS:
APLICAÇÃO DE INVENTÁRIOS:
Os inventários são de grande importância para que se possa medir o grau de
dependência de internet e de redes sociais, os graus de classificação desses
instrumentos estão entre GRAVE, MODERADO E LEVE.

74
Realiza-se a aplicação do IAT (Internet Addiction Test). (Young, 2010), MPAT
(Mobile Phone Addiction Test), FAT (Facebook Additction Test), WAAT (WhatsApp
Addiction Test) (KING, 2014 apud SILVA A; 2018).
MATERIAIS DE PSICOEDUCAÇÃO SOBRE O PROGRAMA (FOLHETOS,
VÍDEOS, PALESTRA INICIAL).
O processo de psicoeducação envolve usar situações, histórias, ilustrações e
exemplos envolvendo situações semelhantes ao que o paciente vive, culminando
assim em identificação. O terapeuta dá breves explicações sobre o tema e engaja os
pacientes a participarem do processo de aprendizagem, as ferramentas utilizadas
nesse processo podem ser vídeos, questionários, folhetos, revistas, livros ou palestras
curtas. É essencial que os pacientes obtenham informações que possam relacionar
ao comportamento disfuncional. (BECK, 1997 apud SILVA A; 2018).
ANÁLISE DE CUSTO-BENEFÍCIO
Essa técnica tem como objetivo a evocação de pensamentos automáticos e o
exame de evidências contra e a favor da validade do pensamento, levando o paciente
a avaliar as consequências positivas e negativas de suas crenças em relação ao
comportamento. No caso, o uso abusivo de internet. O paciente é orientado a fazer
uma lista de vantagens e desvantagens de seu comportamento ou crenças em relação
ao comportamento disfuncional. (LEAHY 2006 apud SILVA A; 2018).
APLICAÇÃO DE RPD (REGISTRO DE PENSAMENTOS DISFUNCIONAIS)
O RPD é utilizado para auxiliar o paciente a compreender a relação entre
pensamento, emoção e comportamento. Assim, identifica-se o pensamento
disfuncional e seus gatilhos, modificando-o e reduzindo os sintomas emocionais e
comportamentos disfuncionais. (POWELL et al, 2008 apud SILVA A; 2018).
FASE INTERMEDIÁRIA (6ª A 16ª SEMANA):
OBJETIVO:
 Aumentar conexão entre os elementos do grupo;
 Auxiliar os pacientes á relatarem necessidades emocionais não
respondidas ou atendidas que são encontradas apenas no mundo
virtual. (Abreu - Dependência de Internet – Manual e guia de avaliação
e tratamento pág. 204, 2011 apud SILVA A; 2018).
 Análise de padrões gerais disfuncionais relativos ao uso de internet.
 Identificação de gatilhos referentes ao uso de internet.

75
 Auxiliar os pacientes a visualizarem perspectivas de mudança e de
enfrentamento em relação ao uso abusivo de internet e aspectos
emocionais.
TÉCNICAS:
REGISTROS SEMANAIS CONTENDO: SITUAÇÕES DISPARADORAS DE
BUSCAS NA INTENET, HORAS GASTAS, PENSAMENTOS ASSOCIADOS E
SENTIMENTOS VIVENCIADOS (ABREU, 2011 apud SILVA A; 2018).
Essa técnica permite a identificação dos padrões comportamentais e facilitação
do diálogo sobre necessidades emocionais não respondias ou não atendidas que
culminam no comportamento de uso da internet.
As anotações do registro são apresentadas semanalmente em terapia de grupo
e a partir das discussões planeja-se formas de intervenções posteriores como
escreve:
Assim, a cada semana, um ou dois pacientes do grupo descrevem as situações
e as mesmas são trabalhadas pelo grupo de uma maneira geral, e, na sequência, são
objetos de técnicas específicas de intervenção terapêutica (reestruturação cognitiva,
treino assertivo, role play) (ABREU, 2011, apud Silva A, 2018 apud SILVA A; 2018).
REESTRUTURAÇÃO COGNITIVA
A reestruturação cognitiva consiste na identificação dos pensamentos
automáticos, crenças disfuncionais e as reações emocionais e comportamentais
relacionada à tais crenças e pensamentos. Após a identificação das distorções ensina-
se habilidades para modificação das cognições que deverão ser aplicadas ás
situações do mundo real (POWELL, 2008 apud SILVA A; 2018).
TREINAMENTO DE HABILIDADES SOCIAIS (THS)
O treinamento de habilidades sociais visa desenvolver e aperfeiçoar a
competência social nas relações interpessoais dos indivíduos, favorecendo interações
sociais satisfatórias. As intervenções em THS incluem habilidades de comunicação,
exposição de sentimentos negativos, resolução de problemas interpessoais e de
desempenho (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 1999 apud SILVA A; 2018).
LINHA DA VIDA (GONÇALVES, 1998 apud SILVA A; 2018)
Nessa técnica, o paciente registra os momentos mais significativos de sua vida
e a idade em que tais eventos ocorreram, podendo ser avaliados assim, aspectos
emocionais, comportamentais e formas de enfrentamento desadaptativas que foram

76
se repetindo ao longo do tempo, sugerindo-se então formas mais adaptativas de
enfrentamento (YOUNG e ABREU, 2011 apud SILVA A; 2018).
FASE FINAL
OBJETIVO:
 Acompanhamento das mudanças obtidas pelos pacientes durante o
tratamento
 Análise dos estilos de enfrentamento e habilidades sociais.
 Relato da experiência vivenciada nos encontros.
INTERVENÇÃO
 Atendimento à família (em caso de adolescentes) e pares românticos
(no caso dos adultos) para a avaliação de mudanças ou não no
comportamento do paciente durante o tratamento., pois acredita-se que
“as intervenções familiares são coadjuvantes para um bom prognóstico”
(BAROSSI, VAN ENK, GÓES e NABUCO DE ABREU, 2009 apud SILVA
A; 2018).
 Reaplicação dos inventários
 Identificação dos efeitos na redução do uso de internet (ABREU, 2011
apud SILVA A; 2018).
Questionários:
Os inventários e questionários são de grande importância para que se possa
medir o grau de dependência e optar por melhores formas de intervenção no
tratamento de dependência de Internet. Kimberly Young desenvolveu o Internet
Addiction Test (IAT), que consiste em vinte questões que podem classificar o uso de
internet entre grave, moderado e leve.
Orienta-se o paciente a responder as questões considerando apenas o uso
recreativo e não uso referente ao trabalho e estudos (Young, 2011 apud SILVA A;
2018 Os inventários e questionários são de grande importância). Com base no IAT
desenvolvido por Young, a psicoterapeuta cognitivo-comportamental Anna Lucia
Spear King e Colaboradores do Grupo DELETE desenvolveram a escala para avaliar
a dependência do telefone Telefone Celular (MPAT), escala para avaliar dependência
de Facebook (FAT) e a escala para avaliar a dependência de WhatsApp (WAAT)
(KING, 2014 apud SILVA A; 2018).

77
Em Londres no Hospital privado Capio Niggtingale é realizado tratamento
personalizado pelo médico Richard Graham para jovens dependentes em tecnologia.
O tratamento engloba um programa até 28 dias, estando apenas disponível para
pacientes do sistema de saúde privado do referido hospital.
O tratamento engloba três fases:
1ª Fase: Psicoterapia - tem como objetivo ajudar e tratar os problemas que o
paciente pode ter ao nível de relações pessoais.
2ª Fase: Off-line - nesta fase é trabalhada a relação que o paciente tem com a
tecnologia de forma a corrigi-la. Os jovens são também encorajados a desligá-la.
3ª Fase: Vida Real - a última fase, será aquela onde se estimula os jovens para
a prática de exercício físico e atividades com a família e amigos.
Uma outra abordagem no tratamento da dependência da Internet é a Terapia
da Realidade (TR). É baseada na teoria da escolha e na teoria do controle, que
pressupõem que as pessoas são responsáveis pelas suas vidas, pelos seus atos,
sentimentos e pensamentos. Segundo estas teorias, as pessoas não se tornam
viciadas em Internet, pelo contrário, elas escolhem ser viciadas em Internet.
Por meio desta terapia é reforçada a ideia de que qualquer indivíduo pode
mudar os seus atos e pensamentos, independentemente de como se sente. Assim, a
chave para a mudança de um comportamento reside na escolha de mudar atitudes e
pensamentos (Huang, et al., 2010 apud ALVES P; 2014 apud BIACIO E; 2017).
A Entrevista Motivacional (EM) é também utilizada para o tratamento da
dependência da Internet de forma diretiva, através de um aconselhamento centrado
no paciente de modo a levar à mudança de comportamento, explorando e resolvendo
a sua ambivalência.
A EM estimula o indivíduo a perceber que a responsabilidade e a capacidade
de mudança estão dentro dele. Dessa forma, não são oferecidas soluções ou
estratégias de mudança ao paciente, até que ele decida mudar (Brezing, 2010; Huang,
et al., 2010 apud ALVES P; 2014 apud BIACIO E; 2017).
Deve-se apostar no desenvolvimento de estudos longitudinais de forma a
estudar de que forma os traços de personalidade, a dinâmica familiar ou as
competências interpessoais, influenciam a maneira de usar a Internet. São também
necessários mais estudos de resultados, para determinar a eficácia de abordagens
terapêuticas especializadas no tratamento destas formas de dependência.

78
Em síntese, existem vários tipos de abordagens terapêuticas para ajudar as
pessoas que desenvolveram distúrbios de dependência da Internet a conseguirem
“recuperar” as suas vidas e as suas rotinas saudáveis. No entanto, o melhor mesmo
é apostar sempre na Prevenção.
Voltando ao tratamento por teoria cognitiva comportamental, vista assistir a
pessoa a retomar o domínio sobre sua vida, de suas escolhas e tempo, e não proibir
o acesso à internet. De mais a mais, o objetivo do tratamento é identificar e fazer com
que a pessoa vá além de aquilo que a levou a ampliar a dependência.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é aconselhada nesse tipo de
tratamento, pois é a principal escolha para os casos de distúrbios de controle por
impulso. Este modelo precisa da cooperação de sintonia entre paciente-terapeuta
para que emoções, pensamentos e ações não intervenham no processo (HODGINS
2008 apud LEMOS, 2014 apud BIACIO E; 2017).
A TCC versa em três fases, sendo a primeira para ensinar o paciente sobre os
mecanismos e os efeitos da internet. Na segunda fase, alcança uma averiguação dos
motivos desencadeantes da compulsão; diagnóstico do comportamento do paciente;
demarcação de atividades alternativas; monitoramento do tempo de uso e incentivar
convívio social (LEMOS, 2014 apud BIACIO E; 2017).
Na terceira, a fase de precaução de recaída estimulando o uso moderado da
internet. Outro procedimento de tratamento é a eletroacupuntura, na qual conexa à
TCC evidenciou frutos satisfatórios.
A eletroacupuntura está “relacionada com o aumento da velocidade de
discriminação cerebral e aumento na mobilização de recursos durante o
processamento da informação no cérebro” (LEMOS, 2014 apud BIACIO E; 2017).
Com relação aos sintomas associados à dependência de internet, ABREU et al
(2008) abordam que quadros depressivos se desenvolvem com desânimo, ideação
pessimista, retração social comprometendo o desempenho das atividades
profissionais, sociais e interpessoais e podem predispor o indivíduo a permanecer
conectado com mais frequência, pois essa atividade lhe exige menos esforço, ocupa
seu tempo e distrai do seu estado.

79
Na fobia social que impede o desempenho afetivo de atividades no contexto
externo, a dependência de internet pode levar o paciente encontrar na rede uma forma
exagerada/empobrecida de se ocupar ou de estabelecer vínculos que, por serem
virtuais causam menos ansiedade.
Os portadores de TDAH podem encontrar na internet um tipo de estimulo que
lhes permite focar atenção com mais facilidade em contraste com as atividades
cotidianas que lhes parecem confusas e perplexas.
Um tratamento estruturado de psicoterapia com técnicas da TCC pode ser
considerado uma contribuição importante no processo de intervenção, ainda que haja
poucos dados disponíveis sobre seus resultados. Para a proposta foram selecionados
os quatro sintomas acima identificados para sugestão de técnicas para intervenção
terapêutica.
Recomenda-se a seguir, algumas técnicas possíveis de serem utilizadas
no tratamento da depressão, fobia social, TDAH e ansiedade, sintomas
associados com a dependência da internet.

8.1 Técnicas sugeridas

Dentre as técnicas gerais descritas abaixo: verificação do humor,


psicoeducação para o transtorno, treinamento das habilidades sociais, registro de
pensamentos disfuncionais, reestruturação cognitiva, técnica de relaxamento
progressivo de Jacobson podem ser amplamente utilizadas para os sintomas
(depressão, fobia/isolamento social, TDAH, ansiedade e dependência da internet) e
as técnicas: desenvolvimento do inventário pessoal, técnica da linha da vida, diário
semanal e prevenção de recaídas são mais específicos e citados por YOUNG e
ABREU (2011 apud BIACIO E; 2017) no tratamento da própria dependência da
internet.
A escolha das técnicas gerais foi baseada na eficácia dos instrumentos na
prática clínica para outros transtornos psiquiátricos.
Verificação de humor: breve checagem do humor (utilizar uma medida
simplificada que varia de 0 a 100. Pergunta-se ao paciente: de 0 a 100, o quanto você
se sente triste agora? E repete-se para outros afetos relevantes) e aplicação de
inventários Beck de Depressão, Beck de Ansiedade, Beck de Desesperança. O exame

80
minucioso destes inventários pode demonstrar problemas que o paciente pode não
ter relatado verbalmente, podendo colocar em forma de gráfico os escores do teste
para tornar o progresso visível tanto para o profissional como para o paciente (BECK,
1997).
Psicoeducação sobre o transtorno:
É desejável dar ao paciente informações sobre o transtorno para que ele
comece a atribuir alguns dos problemas à patologia e por meio disso reduzir a
autocrítica (BECK, 1997 apud BIACIO E; 2017).
Treinamento das habilidades sociais:
Segundo CABALLO (1997 apud SILVA, 2002 apud BIACIO E; 2017), as
pessoas estão sempre empenhadas em alguma forma de comunicação interpessoal
e, ao serem habilidosos socialmente, são capazes de promover interações sociais
satisfatórias, apoiando na prevenção e redução das dificuldades psicológicas.
O treinamento inclui treino de assertividade (expressão apropriada de
sentimentos negativos), habilidades de comunicação, resolução de problemas
interpessoais, de cooperação e de desempenho (1999 apud SILVA, 2002 apud
BIACIO E; 2017).
Registro de Pensamentos Disfuncionais:
Contribui para ajudar o paciente a responder mais efetivamente a seus
pensamentos automáticos, identificando as emoções e reduzindo os sintomas,
ampliando a objetividade e facilitando que o paciente lembre-se de situações,
pensamentos e sentimentos ocorridos fora das sessões, útil para uma avaliação mais
realista (POWELL et al, 2008 apud BIACIO E; 2017).
Reestruturação cognitiva:
utilizada para definição dos problemas dos pacientes, ajudando-o a identificar
as crenças disfuncionais específicas associadas ao transtorno; as distorções
cognitivas mais comuns e a caracterização dos pensamentos automáticos; as reações
fisiológicas, emocionais e comportamentais consequentes aos pensamentos; que
comportamentos foram desenvolvidos para enfrentar as crenças disfuncionais; e
como as experiências anteriores têm contribuído na manutenção das crenças do
paciente (POWELL et al, 2008 apud BIACIO E; 2017).

81
Técnica de relaxamento progressivo de Jacobson:
Ajuda o paciente a controlar sintomas fisiológicos antes e durante as situações
temidas. Método dinâmico e ativo que permite ao paciente aprender suas percepções
sinestésicas, bem como detectar aumento ou redução das tensões musculares, pois
o corpo responde com tensão os pensamentos e as situações que provocam
ansiedade, depressão, insônia, dentre outros (BRASIO, 2003 apud BIACIO E; 2017).
Desenvolvimento do inventário pessoal:
Devem constar atividades antes realizadas e que foram desconsideradas após
a manifestação do problema, auxiliando o paciente na reflexão (passado x futuro)
percebendo o processo de tomada de decisão, conscientização de suas escolhas e
motivação para buscar atividades perdidas (YOUNG & ABREU, 2011 apud BIACIO E;
2017).
Técnica da linha da vida:
Registro contínuo de suas idades descrevendo períodos mais significativos,
aumentando a possibilidade de identificação de problemas emocionais, visualizando
a repetição dos mesmos ao longo da vida, compreendendo a razão pela qual o
problema pode se tornar um grande refúgio, podendo visualizar as perspectivas de
mudança. (YOUNG & ABREU, 2011 apud BIACIO E; 2017).
Diário semanal:
Registro de situações disparadoras de busca da internet, horas gastas,
pensamentos associados, sentimentos vivenciados, mapeando os comportamentos
decorrentes das necessidades não atendidas (YOUNG & ABREU, 2011 apud BIACIO
E; 2017).
Prevenção de recaída:
Ajuda o paciente a identificar gatilhos específicos para voltar a comportamentos
dependentes e também sinais de alerta que possam indicar uma recaída. Ao examinar
os comportamentos problemáticos o paciente percebe-se qual seria o uso saudável
para ele, além de processar seus sentimentos em relação a usar a internet. (YOUNG
& ABREU, 2011 apud BIACIO E; 2017).
Na prática da TCC, o conceito de tratamento para dependentes de internet
ainda está sendo expandido. Dois estudos realizados podem servir de referência de
trabalho, o de YOUNG (2011 apud BIACIO E; 2017) citados em vários artigos, onde
relata o atendimento de 114 indivíduos adultos e tratados durante 12 sessões,

82
avaliando as intervenções da TCC como uma forma eficaz de tratamento referindo a
diminuição dos sintomas relacionados à dependência da internet e, após seis meses,
os pacientes foram capazes de enfrentar os obstáculos de recuperação.
As sessões consistiam em manter um registro diário das atividades na Internet,
o ensino de habilidades de gerenciamento de tempo, confrontar distorções cognitivas
e racionalizações frequentes nos pacientes para justificar o uso da Internet
continuada. A maioria dos indivíduos foi capaz de controlar os seus sintomas pela
oitava sessão e melhora foi sustentada por seis meses de follow-up (ABOUJAOUDE,
2010 apud BIACIO E; 2017).
Em YOUNG E ABREU (2011 apud BIACIO E; 2017) são demonstradas
algumas estratégias de tratamento que já são aplicadas na terapia cognitivo-
comportamental:
 Prática de tempo oposto do uso da Internet (descobrir padrões de uso
de Internet do paciente e interromper esses padrões, sugerindo novos
horários),
 Utilizar rolhas externas (eventos ou atividades reais que levou o
paciente a fazer logoff),
 Metas conjunto (no que diz respeito à quantidade de tempo),
 Abster-se de uma aplicação particular (que o cliente é incapaz de
controlar),
 Usar cartões de lembrete (pistas que lembram o paciente dos custos da
dependência e benefícios de quebrá-lo),
 Desenvolver um inventário pessoal (mostra todas as atividades que o
paciente costumava se envolver ou não pode encontrar o tempo devido
à dependência),
 Introduzir um grupo de apoio (compensa a falta de apoio social).
 Participar de terapia de família (endereços problemas de
relacionamento na família). Mas ainda é importante a busca de
evidências clínicas dessas estratégias para avaliar a eficácia dessas
intervenções, que não foi referido no livro.
YOUNG E ABREU (2011), através dessa experiência puderam observar que a
tomada de consciência sobre o uso excessivo da internet foi essencial,
proporcionando a motivação no controle do uso, o desenvolvimento da capacidade de

83
se relacionar com outros membros do grupo, gerenciamento do tempo gasto nas
conexões, um movimento pequeno em reencontrar amigos antigos e reais, a procurar
de novas atividades no mundo real, observando também a melhora nas relações
familiares, conjugais, profissionais e acadêmicas, aquisição de uma comunicação
mais assertiva, recuperação da autoestima, aumento da auto eficácia.
Apontam também, que são necessários estudos com follow-up de longa
duração para que se esclareçam e apontem quais estratégias de intervenção podem
ser mais eficiente.
É complexo chegar à conclusão de que os resultados de uso excessivo da
internet têm um impacto global negativo na vida dos usuários. Um impacto negativo
pode ser definitivo considerando os prejuízos no desempenho profissional, nas rotinas
diárias e de saúde mental dos usuários.
Não é claro se a utilização excessiva da Internet é a causa ou a consequência
de problemas mentais. No geral, o risco do estado geral de saúde dos dependentes
da internet é maior que em usuários normais (ALAVI et al, 2011 apud BIACIO E; 2017).
Se a dependência da internet pode ser considerada como um transtorno
psiquiátrico, então a prevenção da dependência de Internet deve se tornar uma parte
essencial de um programa de saúde mental.

84
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