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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES


Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo
Curso: Pós-Graduação em Ciências da Comunicação

QUADRINHOS INSTITUCIONAIS E CONSCIENTIZAÇÃO: UM ESTUDO DE


CASO SOBRE A HISTÓRIA EM QUADRINHOS RECEPTAÇÃO É CRIME

Daniela S. Domingues Marino

O uso de histórias em quadrinhos na comunicação organizacional tem sido uma


alternativa escolhida por empresas como SEBRAE, O Boticário, CPTM, Avon, entre
outras, no intuito de transmitir mensagens internas ou conscientizar colaboradores sobre
determinados procedimentos. Na educação e na medicina, histórias em quadrinhos
também são usadas com o objetivo chamar a atenção dos leitores para questões
consideradas de utilidade pública. Prefeituras têm recorrido aos quadrinhos em
campanhas contra o mosquito da dengue e em Santos, uma história em quadrinhos foi
lançada pela prefeitura municipal para conscientizar a população sobre a receptação de
celulares roubados. Por meio do estudo de caso da história em quadrinhos Receptação é
Crime, lançada pela prefeitura municipal de Santos em parceria com o projeto Luan
Vive, e da pesquisa bibliográfica referente ao tema, o artigo visa relacionar o uso das
histórias em quadrinhos institucionais com as abordagens teóricas de autores sugeridos
pela professora Maria Aparecida Ferreri em sua disciplina no segundo semestre de
2016, dentro do programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação na Escola de
Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.

Tema: Quadrinhos Institucionais, Comunicação, Conscientização

Histórias em quadrinhos e a cultura de massa

Um dos maiores autores de quadrinhos do mundo, Will Eisner, afirmava que por
volta da década de 40, o típico leitor de quadrinhos era visto pela indústria cultural
americana como uma criança de dez anos do interior. Essa imagem, perpetuada ao
longo de décadas, tem suas raízes nos jornais americanos do fim do século XIX que
publicavam as tiras cômicas em seus suplementos dominicais cujo principal objetivo era
de atrair um público maior, composto por imigrantes que não falavam o inglês muito
bem:
Na última década do século XIX, Joseph Pulitzer e William
Randolph Hearst, os mais poderosos proprietários de jornais nos
Estados Unidos, brigavam pela conquista de um público maior.
Para atingirem uma massa semialfabetizada e também os
imigrantes, que tinham dificuldades com o inglês, criaram os
suplementos dominicais. A grande parte destes “sundays” era
formada por narrativas figuradas, bem ao estilo europeu. Foi
num destes suplementos que surgiu, em 1895, o personagem de
Richard Outcault, The Yellow kid (o garoto amarelo).
(GOIDANICH, 2011, prefácio)

É possível dizer que este tipo de narrativa figurada tenha tido origem na Europa,
por volta do século XX, quando artistas produziam imagens sacras em igrejas, formando
quadros onde o texto ficava fora da ação, porém, se voltarmos ainda mais no tempo, a
“paternidade” dos quadrinhos poderia ser atribuída às pinturas rupestres como as que
foram encontradas em Chauvet, no Sul da França, seguidas pelos desenhos egípcios e os
vasos gregos que já narravam pequenas histórias através de desenhos sequenciais.
O formato que conhecemos hoje, com quadros e balões de texto é fruto do
jornalismo moderno, mais precisamente das histórias de um garoto conhecido como
Yellow kid (Outcault, 1895) que, apesar ter surgido com o objetivo de entreter seus
leitores, em pouco tempo se tornou um veículo de crítica social e política ao fazer
alusão à imprensa sensacionalista norte-americana, tendência que foi observada em
muitas outras tiras que viriam depois (GOIDANICH, 2011).
No Brasil, a turma da Mônica, de Maurício de Sousa, há mais de 50 anos
desempenha um papel fundamental na alfabetização de crianças, mas seu alcance não se
resume apenas aos ciclos iniciais do ensino, já que os temas abordados são os mais
variados possíveis e vão desde ecologia e cidadania a questões filosóficas abordadas
pelo dinossauro Horácio em alusão a Sócrates, Platão e Aristóteles.
Tendo em vista que o senso comum sobre as histórias em quadrinhos serem
capazes de transmitir uma mensagem de maneira mais simplificada ainda persiste, é
compreensível que empresas, ONGs e instituições em geral recorram a elas na tentativa
de instruir seus colaboradores sobre determinados procedimentos ou conscientizar a
sociedade acerca de assuntos de interesse público.
Muito embora os estudos na área de neuropsicologia tenham provado que o
processo cognitivo envolvido em sua leitura seja mais complexo do que os processos de
leitura de textos e de imagens separadamente1, os resultados práticos desses estudos
ainda não alcançaram todos os âmbitos da sociedade, nem mesmo o ambiente escolar,
onde grande parte dos professores se limita às mesmas aplicações das histórias em

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quadrinhos, limitando-as a questões superficiais, ainda que os PCNs indiquem sua
utilização de forma mais ampla do que vem sendo feita.
Por isso, empresas especializadas em quadrinhos institucionais ou mesmo
agências de marketing, possuem uma grande variedade de produtos relacionados aos
quadrinhos que podem ser oferecidos às empresas com diferentes áreas de atuação. A
própria Turma da Mônica2 pode ser encontrada em títulos como: Lavar as mãos salva
vidas, Viajando com Segurança, Puericultura de A a Z, Acessibilidade, entre outros.

A vocação educativa dos quadrinhos

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Mais conhecida como gibi, a história em quadrinhos no Brasil recebeu este nome
em função de um personagem dos anos quarenta: Revista destinada a publicação de
histórias em quadrinhos e que significa ‘menino preto, negrinho’, tal qual o personagem
que figurava nas capas da revista. Sua popularidade foi tão grande, que o nome gibi
passou a designar qualquer revista do gênero.
Muito embora o gibi não tenha surgido com um propósito educativo, as tiras que
eram publicadas em periódicos como a revista Illustrada, na época do segundo império,
acabavam servindo a esse propósito na medida que os analfabetos, ou as pessoas pouco
letradas, conseguiam entender as ilustrações e a sequência narrativa de uma determinada
tira sem precisar recorrer aos textos.
Nesse sentido, as publicações buscavam ensinar ou influenciar o público sobre
assuntos diversos que variavam desde abolicionismo e alfabetização a noções de
higiene, dependendo da linha editorial de cada veículo.
Com a popularização do gênero, não só algumas de suas funções mudaram,
como também seus formatos, meios de apresentação e distribuição também passaram
por mudanças, atrelando ao conceito principal uma série de outros subgêneros com
abordagens e propósitos diferentes.

FIGURA 1 METÁFORA SOBRE GÊNEROS DE QUADRINHOS. FONTE: THIAGO SEII TAKAHASHI, 2015

Entretanto, ainda que os quadrinhos tenham sido associados à educação,


alfabetização e à infância ao longo das décadas, foi só a partir da década de 90 que seu
potencial instrucional passou a ser mais amplamente adotado em campanhas
institucionais.
Os quadrinhos têm sido utilizados por grandes corporações como SEBRAE, ABNT, Metrô SP,
Petrobrás, Telefonica, O Boticário, SENAI, Votorantim e outros. Existe no Brasiluma produção
regular e bem organizada e quadrinhos corporativos realizada por estúdios, autores e editoras
especializadas. Essas produções ocorrem, pelo menos, desde 1994. A maior parte desses
quadrinhos foram distribuídos dentro de empresas ou em ambientes mais restritos.

Em entrevista concedida ao site Universo HQ3, o artista Antônio Cedraz afirma


que a revistas em quadrinhos institucionais atingem um universo bem heterogêneo de
pessoas, de uma forma simples, agradável e divertida, sem perder a seriedade dos
assuntos abordados. De acordo com o autor da Turma do Xaxado, os quadrinhos
potencializam a assimilação da informação e atraem muito mais do que um folder ou
um informativo só com textos, pois oferecem entretenimento aos leitores.

Quadrinhos e conscientização na campanha Luan Vive

Tendo em vista o potencial dos quadrinhos na apreensão de certos conteúdos,


formatos como cartilhas e folders costumam ser usados não só por empresas, como
também organizações e órgãos públicos de saúde ou comunicação, no intuito de
informar e auxiliar no processo conscientização da população sobre diversos temas,
como a dengue, por exemplo.

FIGURA 2 EDIÇÃO ESPECIAL REVISTA DO SESINHO. FONTE : HTTPS://BR.PINTEREST.COM/PIN/437201076306526624/

Pensando nisso, a prefeitura municipal de


Santos, por meio da Secretaria de Comunicação e

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http://www.universohq.com/materias/empresas-no-brasil-investem-em-quadrinhos-para-funcionarios-e-
clientes/
Resultados, viabilizou o lançamento da história em quadrinhos Receptação é Crime em
novembro de 2016. O gibi e integra uma série de ações de conscientização para evitar a
compra de materiais suspeitos e a campanha foi organizada por Paulo Oshiro,
responsável pelo projeto Luan Vive.
Sete mil exemplares foram distribuídos nas escolas municipais, onde também
aconteceram palestras. Com arte de Clayton Inloco, o argumento de Fábio Tatsubô e
produção gráfica de Rodrigo Vieira, o gibi, no formato de folder, visa alertar crianças e
adultos sobre os riscos de comprar mercadorias de procedência incerta.
Paulo Oshiro, perdeu o filho de 18 anos em uma tentativa de assalto em uma
avenida movimentada de Santos no final de 2015. O jovem Luan foi surpreendido por
dois assaltantes que queriam levar o celular. 
Comunicação organizacional

As histórias em quadrinhos como conhecemos, nascem como produtos de uma


cultura de massa, ou seja, indissociáveis da área de comunicação. A comunicação
organizacional, por sua vez, tem sua origem nos conceitos de estudos culturais e
administração. Por isso, processos comunicacionais utilizados no âmbito social, são
naturalmente encontrados no âmbito corporativo.
O surgimento do campo acadêmico da comunicação é relativamente recente no
Brasil, por isso, estudos voltados à comunicação organizacional ainda estão se
consolidando no país, ao menos no que diz respeito à bibliografia produzida aqui. Ao
longo dos seis meses cursados na disciplina de Comunicação intercultural e Relações
Públicas: dimensões da comunicação nas organizações, no departamento de Relações
Públicas da ECA/USP, grande parte da bibliografia utilizada é estrangeira, porém, a
densidade do conteúdo oferecido por pesquisadores nacionais, é capaz de fornecer
embasamento necessário para que seja possível justificar a utilização de quadrinhos
institucionais no âmbito corporativo ou público.
Um dos argumentos possíveis para que se possa relacionar as histórias em
quadrinhos com a comunicação organizacional é justamente o fato de que o próprio
campo da comunicação, como apontam Mattelart e Neveu em Los Cultural Studies
(2002), está diretamente atrelado ao desejo de pesquisadores das ciências sociais em
buscar soluções para desigualdades observadas em diversas sociedades, ou seja, a
contrapartida social foi um fator significativo para o desenvolvimento de campos de
estudo relacionados à cultura e à comunicação.
A vocação da comunicação para a transdisciplinaridade, associando conceitos,
metodologias e práticas provenientes de campos diferentes, parece fazer ainda mais
sentido quando levamos em consideração autores tão caros aos estudos culturais, como
Néstor Canclini e Stuart Hall, que, entre outras coisas, nos lembram que contextos
diferentes, pedem abordagens diferentes para que possam ser interpretados.
Nesse sentido, a comunicação organizacional, por ter surgido a partir da
hibridização de outros campos como as ciências sociais aplicadas e a administração, é
favorecida pela transdiciplinaridade na medida em que pode recorrer a diversos
recursos, provenientes de áreas do conhecimento diferentes, como a psicologia e as
artes, no intuito de oferecer ferramentas para que os processos comunicacionais
favoreçam a apreensão de conteúdos pertinentes à convivência e ao desenvolvimento
dos indivíduos em um determinado ambiente, seja ele corporativo ou público.
As histórias em quadrinhos se tornaram a tal ponto um componente
central da cultura contemporânea, com uma bibliografia tão extensa,
que seria trivial insistir no que todos sabemos de sua aliança
inovadora, desde o final do sec. XIX, entre a cultura icônica e a
literária. Participam da arte e do jornalismo, são a literatura mais lida,
no ramo da indústria cultural que produz mais lucros. (...). Podemos
lembrar que as histórias em quadrinhos, ao gerar novas técnicas
narrativas, mediante a combinação original de tempo e imagem em
um relato de quadros descontínuos, contribuíram para mostrar a
potencialidade visual da escrita e do dramatismo que pode ser
condensado em imagens estáticas. (CANCLINI, 2000, p. 339)

Para Canclini, a importância da cultura de massa como fator de integração


cultural, capaz inclusive de promover tomada de decisões no que tange às políticas
públicas (CANCLINI, 1997), nos apontam que independentemente do tipo de atribuição
de valor que possa ser conferida às histórias em quadrinhos, seu papel cultural não deve
ser ignorado.

Conclusão