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1 O PAPEL DO COMITÊ PROGRAMÁTICO NA CONSTRUÇÃO DO

MECANISMO DE SUSTENTABILIDADE

1.1 Elementos que compõem o marco referencial

Os instrumentos utilizados para detectar os elementos que


comporiam o marco referencial estão baseados, primeiramente, em fontes
documentais que garantiram, de certa forma, uma visão mais objetiva da
realidade ou, pelo menos, mais fundamentada em fatos. E, em segundo
lugar, basearam-se em uma visão analítica por meio da qual se buscou ir a
fundo nesses fatos tentando desvendar associações, nexos, correlações
entre características das organizações negras ou de seus dirigentes e
possibilidade de se conseguir financiamento.
A principal fonte utilizada foi a base de dados do CEAFRO/2009 que
deu à luz um levantamento sobre as organizações negras e as iniciativas
do setor público focando questões raciais e de direitos humanos. Foi um
procedimento que buscou traçar um retrato da atual situação das
organizações negras nordestinas, incluindo, na foto, instituições religiosas
(afro-brasileiras e de outros credos) que atuam no campo das
desigualdades raciais e direitos humanos e órgãos governamentais que
desenvolvem projetos com essa mesma temática, seja no campo da
educação, da saúde, da cultura, da infância e da adolescência e assim por
diante. Nesse levantamento, incluem-se informações das organizações,
tanto do ponto de vista formal e jurídico como do operacional. Inclui-se,
também, um detalhamento das condições (de escolaridade, raciais, de
gênero, ocupacionais, e outras) de seus coordenadores e dos
representantes que responderam ao questionário. Identificam-se o público
e as prioridades relativas à atuação de cada uma.
Outra fonte foi o Relatório Anual de Desigualdades Raciais no Brasil;
2007-2008/LAESER/UFRJ (PAIXÃO e CARVANO, 2008) que traz minuciosa
análise acerca dos indicadores sociais relativos aos distintos grupos de cor
ou raça e sexo em todas as unidades da federação. Trata-se de um estudo
longitudinal rigoroso que articula informações de diferentes bases de
2
dados sobre as quais se aplica um denso aparato teórico para analisar as
desigualdades raciais no Brasil, considerando-se sete grandes setores da
vida social, a saber: evolução demográfica, perfil da mortalidade, acesso
ao sistema de ensino, dinâmica do mercado de trabalho, condição
material de vida dos grupos e acesso ao poder político.
Do Relatório Anual de Desigualdades, aproveitaram-se, apenas para
compor o Marco Referencial, as informações relativas à região Nordeste e,
mesmo assim, foram focalizados apenas aqueles elementos que estariam
dentro daquilo que foi acertado na reunião do Comitê como elementos
caracterizadores do Mecanismo (Fundação) em gestação.
Observatório Negro foi outra fonte importante, pois conserva, em
seu site, http://observatorionegro.zip.net/, preciosas informações acerca
das ações do movimento negro brasileiro nas questões relativas aos
direitos humanos, mostrando, de forma concreta, como as organizações
negras contribuem para construir a democracia no Brasil contemporâneo
Outras fontes que compuseram o presente documento são textos e
debates, muitos publicados na grande mídia, que ajudaram a compor a
conjuntura na qual se insere o próprio mecanismo de promoção de
equidade racial que se está construindo.
Dados os devidos esclarecimentos, passa-se à apresentação dos
elementos que entraram na composição do Marco Referencial.

Em que realidade (contexto) se constrói a futura Fundação


(mecanismo) de promoção da equidade racial no Nordeste?

Antes de dar a resposta, é preciso lembrar um fato importantíssimo:


a pedra fundamental que marca o nascimento desse mecanismo data do
final da primeira década do século XXI. São, portanto, os desafios e as
transformações deste século que o mecanismo terá de enfrentar. É nesse
mundo que pretende interferir, criando as condições de sustentabilidade
para a promoção da equidade racial de forma que o movimento negro e
suas organizações ampliem sua capacidade de intervenção, liderando a
construção de um Brasil mais igual, onde todos desfrutarão, sem exceção,
3
de cidadania plena. Enfim, é nesse mundo que se estabelecerão os
fundamentos para o fortalecimento de um afrobrasilfraterno, que engloba
negros, brancos, indígenas, estrangeiros, pessoas de todos os credos e
culturas.

Sustentabilidade: Conceito-chave

Destaca-se, nesse ato de fundação, exatamente o elemento que na


proposta representa o que ela tem de mais original, a saber: o fato de se
construir um mecanismo que propicie a sustentabilidade da causa da
equidade racial.
O peso, aqui, é no próprio conceito de sustentabilidade. Ele em si já
indica que não se pretende, em hipótese alguma, reproduzir o modelo de
financiamento vigente que tem transformado as ações do movimento
negro e de suas organizações em ações esporádicas, pontuais,
fragmentadas e excessivamente dependentes de recursos públicos quase
sempre escassos e de difícil acesso.
O conceito de sustentabilidade exigirá uma nova atitude, uma nova
forma de comportamento diante dos desafios impostos pelo mundo
contemporâneo (CLARO, 2008). Faz-se aqui um paralelo com aquilo que
especialistas, hoje, de diferentes matizes, falam da urgência de as nações
conceberem um desenvolvimento econômico sustentável, pois dele
depende a vida do planeta (LIMA, 2006 e FGS, 2009). Vê-se, assim, a
criação de uma Fundação (mecanismo) para a promoção da equidade
racial no Nordeste com essa mesma urgência e importância, pois disso
dependerá a permanência do Brasil nos patamares a que tem sido elevado
na mídia nacional e internacional (Folha de São Paulo, 2009). Poder estar
entre as cinco maiores economias do mundo e manter-se ali de forma
duradoura e sustentável, exigir-lhe-á, entre outras condições, que, em
termos políticos, tenha reduzido, quiçá eliminado, as desigualdades
raciais. E isso fica claro quando se examina o percurso das organizações
4
negras no Brasil e em especial as do Nordeste. Elas, com toda a
precariedade, com escassez de financiamento e de condições,
conseguiram, a duras penas, é claro, educar a nação brasileira tentando
romper barreiras, combatendo o racismo e inserindo aos poucos os afro-
brasileiros na sociedade que os excluía, conquistando direitos de
cidadania, e assim por diante. Ou seja, durante um século de incansável
luta, essas organizações conseguiram reunir um capital político, ainda
invisível para população brasileira no geral, e completamente
desconhecido para os meios de comunicação. Torná-lo visível e fortalecer
os atores que o construíram, bem como dar suporte a novos atores que
contribuirão para enriquecer ainda mais esse patrimônio, é um dos
elementos que compõem a idéia de sustentabilidade inserida na proposta
do mecanismo. É isso que faz pensá-lo como sendo um instrumento que
deverá criar condições para que o movimento negro esteja em lugares
que ainda não conseguiu penetrar, que consiga romper o silêncio do
quarto poder, hoje cada vez mais representado pela mídia, para que se
disponha a mostrar esse patrimônio que ajudou na construção dessa
imagem tão portentosa que o Brasil sustenta hoje. É urgente mostrar a
participação efetiva dos negros nesse cenário, não como coadjuvantes,
mas como protagonistas.

Sobre que realidade vivemos?

Destacado um dos conceitos sobre o qual a Fundação (mecanismo)


irá se fundamentar, vale desenvolver, a seguir, ideias que esclareçam
para que tipo de organizações se pensa a questão da sustentabilidade.
Quais são suas características? Como vêm sobrevivendo até então? 1

Para responder a essas questões, seguimos o levantamento do


CEAFRO pari passu, lembrando que abrangeu 192 organizações, divididas
entre organizações da sociedade civil, religiosas e um conjunto de
iniciativas, vinculadas a órgãos públicos que compreendem secretarias de

1 Ressalta-se aqui que as respostas a essas questões são de fundamental importância,


uma vez que elas deverão compor o material que o comitê deverá apresentar e discutir
com as organizações que participaram da primeira rodada de discussões com o CEAFRO.
3
estado, coordenações, departamentos, setores e outros, desenvolvendo
ações no campo das relações raciais, educação inter-étnica, e assim por
diante.
Como um bom número dessas organizações tem lastros, histórias
longas, parece oportuno começar por situá-las no tempo. Ainda que o
levantamento do CEAFRO tenha tido um caráter eminentemente
transversal, ou seja, buscou captar uma fotografia dessas organizações no
aqui e agora, ao se transformar o dado em gráfico revelou-se uma
surpreendente longevidade, que se queira ou não, há diferenças que não
podem passar desapercebidas, sobretudo, quando se tem a missão de
construir,com elas, as condições de equidade racial no ambiente em que
coexistem.

Tempo e experiência

Basta acompanhar a trajetória do gráfico abaixo para ver como as


organizações se estendem no tempo.

Gráfico 1: Distribuição das Organizações no Tempo


Fonte: CEAFRO, 2009

Como o objetivo aqui é ler de uma forma um pouco mais qualificada


a frieza do gráfico com seus números e suas curvas, introduzem-se
algumas informações que ajudam a esclarecer o que se diz acima acerca
da acumulação de um patrimônio negro que fica invisível, quando não se
explicitam os contextos em que essas organizações emergiram.
Como se pode ver, uma delas vem do século XIX e, pela referência
da data, nasceu em plena escravidão. Em seguida, surgem algumas na
Primeira República e outras em pleno Estado Novo, lembrando que o
governo ditatorial decretou o fim de todas as associações de cunho
3
político ou, mais precisamente, daquelas que tinham a estrutura de
partido político (FERNANDES, 1965). Foi nesse roldão que se fechou a
Frente Negra Brasileira, com sede em São Paulo, em 1931 (idem). As que
sobreviveram ao rolo compressor foram as que se mantiveram enquanto
associações de resistência da cultura negra ou de valorização do que, na
época, se chamava o “homem de cor”. (DAVIES, 2007 e SILVA, 2008)
Mas, observando-se atentamente o gráfico acima, pode-se se ver
que as organizações negras no Nordeste começam mesmo a se expandir
de 1974 a 1979. Apesar de se estar vivendo, naquele momento, uma
conjuntura sombria marcada por uma ditadura militar, foi ali que
apareceram os blocos afro-brasileiros, sobretudo, em Salvador, Bahia,
protestando nas ruas, com linguagem irreverente, construindo, entre
outras coisas, uma nova imagem do negro, com uma auto-estima nos
píncaros. E, ainda, 1979 foi um ano emblemático para o movimento negro
brasileiro; ali, começam a surgir as bases para a emergência, no cenário
nacional, do Movimento Negro Unificado, o MNU. Com a presença desse
ator político, a luta negra ganha outro aspecto em termos de intervenção
na cena social. Aos poucos, as organizações negras começam a
estabelecer as condições para se produzirem plataformas de luta contra o
racismo em nível nacional, algo que já fora tentado nos anos de 1950 com
os famosos Congressos do negro brasileiro muito bem registrados pelos
ativistas e intelectuais do Teatro Experimental do Negro (NASCIMENTO,
1981) 2. Só que a conjuntura, em 1950, era outra. O fim da década de
1970 é marcado por mobilizações contra o regime militar, em favor da
construção de uma democracia efetiva no Brasil (Fernandes, 2009). Ali,
naquele momento, as organizações negras entram com tudo no debate e
trazem para a cena nacional as experiências acumuladas na luta para a
construção da democracia racial; luta, diga-se de passagem, antes
travada, por essas organizações, de forma solitária, sem adesão de outros
atores sociais. Permanecia, no Brasil, a ideia de que a situação precária
em que viviam os negros era um problema dos negros, e não de falência
do Estado ou de ausência de políticas publicas. Fortalece-se, assim, no

2 NASCIMENTO. E L. Pan-Africanismo na América do Sul, Petrópolis: Vozes 1981


3
período, o seguinte entendimento: se o desejo é construir um Brasil
democrático, não dá para deixar os negros para trás.
Acompanhando um pouco mais a trajetória do gráfico acima,
observa-se, ainda, uma oscilação na emergência de organizações negras
entre 1982 e 1996. Os picos surgem em anos de eleições. O de 1982, a
volta das eleições democráticas nos estados, com o fim dos governadores
estaduais e de alguns prefeitos indicados pelo poder militar. Outro pico
aparece em 1986, antecipado pelo grande movimento nacional conhecido
pelo título de Diretas Já, vislumbrava a eleição direta para presidente da
República, o que só aconteceu quatro anos depois. O certo foi que, com as
eleições de 1986, o Brasil se preparava para mudar a Constituição que
será promulgada em 1988 e que coincidiu com o centenário da Abolição
da escravidão, momento em que se passou a limpo a história do Brasil.
Novos estudos e pesquisas não só reiteraram a desigualdade racial entre
negros e brancos como mostraram também outra imagem dos negros,
recuperando seu passado de luta, ou seja, mostrando o quanto esses
atores foram ativos em todos os momentos cruciais da história brasileira.
As organizações negras foram fundamentais para a construção do novo
estatuto em 1988. Há uma clara interferência do movimento negro sobre
os atores políticos responsáveis pela elaboração da nova carta
constitucional (FERNANDES, 2009). Pela primeira vez se introduz, na
Constituição, a descrição do racismo como um crime inafiançável. Foi
também nessa onda de mobilização que as organizações negras
conseguiram influenciar os constituintes para incluir artigos
constitucionais que permitiram, em futuro próximo, criar as condições
para o desenvolvimento posterior de ações e iniciativas públicas que iriam
sustentar políticas de ação afirmativa e equidade racial. Sem a pressão
das organizações negras, isso não teria acontecido (FERNANDES, 2009).
O outro pico aparece em 1990, com as eleições para os executivos
federal e estaduais, para as representações das câmaras (federal e
estaduais) e para o senado. Só que, naquele momento, tudo iria funcionar
dentro do novo estatuto constitucional. Na década de 1990, em termos
políticos, o Brasil vive momentos cruciais, incluindo o impeachment de
4
um presidente da República. Foi um movimento avassalador que teve a
participação de organizações negras. Observa-se, no gráfico acima, que,
entre 1993 e 1996, há um decréscimo na emergência de novas
organizações negras, retomando-se a partir daí um crescimento constante
até 2005, com uma pequena baixa em 2008, mas com aumento em 2009.
Lembrando-se que 20 de novembro de 1995 foi também uma data
emblemática para o movimento negro brasileiro, ano em que se deu a
Marcha de Zumbi dos Palmares, com as organizações negras impondo
novas regras, prazos mais delimitados para adoção de medidas mais
efetivas para a promoção da igualdade racial3. O embate com o executivo
federal e com os parlamentares ganhou, pela primeira vez, visibilidade
nacional. A participação efetiva de representantes das organizações
negras brasileiras na Conferência de Durban, na África do Sul, deu grande
impulso à luta e a essas organizações (DOMINGUES, 2007). Já não se
discutia mais o problema da equidade racial como se fosse um problema
desse ou daquele país, dessa ou daquela região; o debate se tornou
mundial. (ALVES, 2002) Novos temas são introduzidos nas pautas de luta
política das organizações que lutam pelo fim do racismo em todo o
mundo. Dentre esses temas, estão o das cotas, o das ações reparadoras, o
das ações afirmativas (VALENTE, 2005). Todos esses temas e muitos
outros adentram o século XXI.
O que acaba de ser dito acima é uma parte da conjuntura em que se
está construindo o presente mecanismo de promoção da equidade racial
no Nordeste. Observando o gráfico da trajetória das organizações negras
da região, fica claro que, a partir de 1996, elas vão se adensando. Não dá
para não ressaltar que o período considerado coincide com duas
administrações federais, nas quais o tema racial foi pautado nas agendas
políticas, tanto na gestão Fernando Henrique Cardoso quanto na atual
gestão Luis Inácio Lula da Silva. Na primeira gestão, a sociedade civil
começa a ter novas formas de se organizar que ficaram conhecidas pelas
siglas ONGs e OSCIPS. Na segunda gestão, esse modelo proliferou. As

3 Sobre os avanços da luta cf


http://www.leliagonzalez.org.br/material/Marcha_Zumbi_1995_divulgacaoUNEGRO-RS.pdf

5
organizações negras, como todas as outras organizações da sociedade
civil, irão se adaptar também a essas novas formas jurídicas. E, ainda, na
segunda gestão, há outro fenômeno que vai ocorrer, não em nível da
sociedade civil, mas, sim, no nível do próprio estado que passa a criar
instâncias focadas em temas de interesse da população negra. Em âmbito
federal, surge, com status de ministério, a Secretaria Especial de
Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República. Em estados e
municípios, surgem instâncias com o mesmo teor, sob a forma de
secretarias (PAIXÃO e CARVANO, 2008, FIPIR, 2006). Nesse bojo, serão
criados departamentos, conselhos, setores, todos voltados para assuntos
da população negra. Na tabela a baixo, essa distribuição fica bem
explícita:

TABELA 1
Distribuição das organizações de acordo com a natureza jurídica

Natureza jurídica n %
Associação ou
movimento 66 34,4
Organização do setor
público 51 26,6
ONG ou OSCIP 34 17,7
Outras 24 12,5
Instituição religiosa 16 8,3
Fundação 1 0,5
100,
Total 192 0
Fonte: CEAFRO, 2009

2
Como se pode ver, na tabela 1, existem outras denominações, como
associações e movimento. Isso reflete, claramente, a trajetória
apresentada anteriormente. O termo associação representa, grosso modo,
um fenômeno marcante nas décadas de 1950 e 1960, momento em que o
Brasil se urbanizava de uma forma global, embora esse fenômeno já
tivesse existido em São Paulo, Rio de Janeiro e em Porto Alegre, na
primeira metade da década de 1930, sua origem tem sempre algo em
comum que acontece nas sociedades em que aparecem (FERNANDES,
1965). Em geral, são espaços urbanos que crescem seja pelo aumento da
taxa de fertilidade ou pelo fenômeno migratório, o fato é que, nesses
espaços, passam a conviver grupos diferentes, de raças diferentes,
nacionalidades diferentes (idem). As associações, em todos esses
contextos funcionam como estratégia de sociabilidade, unindo pessoas
com características semelhantes. Foi daí que surgiram as associações
italianas, nipo-brasileiras, italianas, libanesas, judaicas e outras (idem). Em
geral, elas têm o caráter de clubes ou de grupos culturais. Funcionam em
sede própria ou alugada. Sobrevivem da mensalidade de seus sócios ou
de doações filantrópicas, ou então de festas, ou de alguma prestação de
serviço que lhes rende algum fundo. É claro que muitas dessas
associações, embora mantenham a mesma denominação das décadas de
1950 e 1960, se profissionalizaram, se transformaram, segundo as
exigências dos novos tempos.
No levantamento do CEAFRO, um pouco mais de um terço das
organizações (sessenta e seis) se identificaram como associações junto
com algumas outras que se denominavam de movimento negro. Esse é
também, no Brasil, um termo datado. Após os avanços do Movimento
Negro Unificado no final da década de 1970, que imprimiu no imaginário
brasileiro a existência de um movimento social organizado por negros, o
termo movimento sempre está associado à ação política, com recortes
partidários ou não (DOMINGUES, 2007). Em geral, é uma organização que
vive da contribuição dos militantes ou da venda de alguma produção
própria como jornais, revistas ou cartilhas. Dividem entre si os gastos
necessários para desenvolverem alguma atividade. Não veem a
4
formalização da organização como um fator importante de sua luta. Os
movimentos negros, nos dados registrados pelo CEAFRO, perfazem um
total de seis organizações: três se localizam em João Pessoa, uma em São
Luiz do Maranhão e duas em Fortaleza. Das seis, apenas uma delas se
identifica como Movimento Negro Unificado – MNU. Duas se auto-declaram
movimento hip hop. Outras duas se auto-denominam movimento negro
organizado e uma se identifica como um fórum do movimento negro
(FOREDONE). Esse pequeno número já mostra uma diversidade, não só de
objetivos, mas também geracional.
Com as associações, essa diversidade se multiplica no tempo e no
espaço. Em sua maioria, são associações culturais vinculadas a
manifestações populares, blocos de carnaval e expressões religiosas
(LIMA, 2009; RISÉRIOS, 1981). Em termos históricos, estão mais
arraigadas no tempo. Tudo isso, como se verá mais à frente, tem um peso
muito importante quando se analisa a questão de financiamento dessas
organizações.
Na tabela acima, aparece também um pequeno número de
organizações religiosas (8%), mas muito importante quando se considera
sua capacidade de mobilizar setores da população afro-brasileira.
Em segundo lugar, ainda na Tabela 1, com 26% de representação,
aparecem as organizações do setor público. Esse número mostra que, de
certa forma, a questão racial relativa aos afro-brasileiros adentrou a
referida esfera: estados, municípios e União buscam responder a
demandas postas pelos movimentos negros. Esse é um dos indicadores
aventado anteriormente que mostra uma mudança no cenário nacional
(PAIXÃO e CARVANO, op. cit). Mais à frente, quando for analisado o tempo
de existência desses setores públicos, ver-se-á que são bem datados. São
recentes. Sua proliferação está vinculada à ação das organizações,
sobretudo, no final da última década do século XX.
Em terceiro lugar, aparecem as OSCIPS e as ONGS, 17,7%, estas,
sim, produtos da segunda metade do século passado. Em termos jurídicos,
representam uma nova forma de reorganização da sociedade civil e terão
um papel muito importante na luta contra o racismo e a discriminação
5
racial. Com elas, se redefinem os modelos de financiamento. Surgem em
um contexto em que vigora um ideário político que preconiza que seu
papel ativo na execução de ações junto ao público (CALDAS, et al, 2009)
Sintetizando as informações da Tabela 1, fica claro que as
organizações de iniciativa da sociedade civil existem em número muito
maior do que as que estão vinculadas ao poder público. Das 192 que
fizeram parte do levantamento do CEAFRO, mais de 50% enquadram-se
nessa categoria. Supõe-se que esse número seja ainda muito maior, uma
vez que 12% delas não responderam à questão. Essa informação precisa
ser apurada em um segundo contato com as organizações, porque são
elas que estão no foco do mecanismo. O fortalecimento da promoção da
sustentabilidade da equidade racial afeta-as diretamente.

Tipos de organização e a sustentabilidade da equidade racial

Por que é importante se pensarem as organizações segundo suas


características? Por uma razão simples: para se conhecerem os tipos de
sustentabilidade que serão necessários no mecanismo para realmente
fortalecer essas organizações, sem que percam suas especificidades.
Apenas lembrando: o lema defendido pelo Comitê Programático é não
deixar ninguém para trás.
Para não repetir o que o CEAFRO já havia feito em termos de
apresentação dessas características em seu relatório técnico,
descrevendo-as em termos absolutos e percentuais, sob a forma de
tabelas e gráficos, pensou-se em desenvolver, no presente documento,
outro tipo de discussão que permite ao Comitê Programático discutir com
as organizações alguns aspectos fundamentais que poderão fazer parte
das estratégias a serem adotadas pelo mecanismo futuramente.
O método adotado para construir as reflexões que se seguem teve
como base algumas discussões anteriores do Comitê Programático nas
quais se perguntou como o mecanismo (Fundação) se comportaria face ao
financiamento das ações das organizações negras dados suas

6
especificidades, suas trajetórias, seus públicos, seus temas de
intervenção.
Entendeu-se que o melhor caminho para se pensarem estratégias
que atendam a essas demandas seria conhecer como se deram os
financiamentos até hoje. Que organizações negras do Nordeste são
financiadas? Algumas de suas características estariam associadas “ao ter
ou não ter” financiamento?
A definição dessas características foi buscada na fonte CEAFRO. Em
relação aos dirigentes, selecionaram-se: escolaridade, raça e sexo. Quanto
às organizações, privilegiaram-se: situação jurídica, situação legal,
financiamento, estado da federação, tempo de existência, público
atendido, área de atuação e formas de se divulgarem.
Dito isso, passa-se ao essencial. Quantas organizações recebem
financiamento e qual é a fonte de financiamento delas?
Como foi possível, ao Comitê Programático, ter acesso à base de
dados do CEAFRO, buscou-se responder as questões articulando
informações importantes para se compreender de que realidade se está
falando. Na tabela abaixo, tem-se uma visão geral de quem teve e de
quem não teve financiamento, de onde veio o financiamento (fonte
pública ou privada) e para que organização foi direcionado, segundo sua
natureza jurídica.

7
TABELA 2
Distribuição das organizações de acordo com as fontes de
financiamento e a natureza jurídica

Natureza jurídica
Organi
Fonte de Associa ONG Fun Instit zação Ou Tota
ção ou ou uição do
financiamento daç tra l
movim OSC religi setor
ento IP ão osa públic s
o
Não Tem 16 7 1 8 14 7 53
Público (Prefeitura,
Estado, Federal) 18 8 0 4 33 7 70
Empresa 1 1 0 0 0 1 3
Fundação
Internacional 1 2 0 0 2 0 5
Fundação Nacional 2 0 0 0 1 0 3
Organização
Religiosa 2 2 0 2 0 0 6
Mensalidades 7 2 0 1 0 2 12
Auto-Financiamento 6 4 0 0 0 0 10
Editais 2 2 0 0 0 2 6
Serviços 6 3 0 0 1 2 12
Doações 5 3 0 1 0 3 12
Total 66 34 1 16 51 24 192
Fonte: CEAFRO, 2009

Na Tabela 2, fica claro que quase 1/3 das organizações (28%) não
tem financiamento nenhum. Das 159 que declaram tê-lo, 36,4% recebem-
no do setor público e 36,6%, do setor privado. Em suma, é
metade/metade.
Entretanto, esse aparente equilíbrio se desfaz quando se leem os
dados de outra maneira. De qual? Focalizando em que tipo de organização
se concentra essa ou aquela fonte de financiamento. Para se entender de
uma forma mais sintetizada essa situação e suas fontes, agruparam-se as
varias fontes em três categorias, a saber: a) não tem financiamento, b)
tem financiamento vindo do setor público e c) tem financiamento vindo do
2
setor privado. Esclarece-se, entretanto, que o termo privado aqui
compreendeu, não apenas recursos que vieram de fundações
internacionais e empresas, mas também os que vieram de organizações
religiosas, das mensalidades, dos autofinanciamentos, das doações, das
prestações de serviço (artístico, cultural), arrecadações de festas, bingos e
outros. Com essa nova configuração, o quadro ficou da seguinte forma:

TABELA 3
Distribuição das organizações de acordo com as fontes de
financiamento (resumida) e a natureza jurídica

Natureza jurídica
Org
aniz
Associ
Fonte de ONG Fun Instit açã Tota
ação
ou uição o do Outr
financiamento ou daç l
OSC religi seto as
movi
IP ão osa r
mento
públ
ico
Não Tem 16 7 1 8 14 7 53
Setor público 18 8 0 4 33 7 70
Não público 32 19 4 4 0 10 69
Total 66 34 1 16 51 24 192
Fonte: CEAFRO, 2009

Como foi um rearranjo da tabela anterior, é claro que as proporções


permaneceram as mesmas. Entretanto, evidenciou-se que 47,3% dos
recursos que vêm do setor público ficaram nas organizações do próprio
setor público (33), apenas 22,8% desses recursos chegaram a ONGs e
Associações (ou seja, à sociedade civil). Isso é um elemento importante
para o Comitê Programático considerar, no momento em que se estiver
discutindo, com as organizações, as fontes de financiamento.
Outro aspecto que vale a pena o Comitê Programático discutir, na
construção do mecanismo, refere-se a algumas condições que hoje são
exigidas para que uma organização possa receber algum tipo de
financiamento; uma delas é o fato de estar ou não legalizada. Esse é um

2
tema polêmico, já foi tratado amplamente pelo Comitê. Houve registro de
que há organizações negras que não se preocupam com isso. Mas, mesmo
assim, considerou-se importante ver como essa distribuição se apresentou
no levantamento do CEAFRO. O gráfico abaixo apresenta claramente
essas proporções:

Gráfico 2: Distribuição das organizações segundo sua situação legal


Fonte: CEAFRO, 2009

Embora polêmico, o fato é que, no âmbito da sociedade civil, a


maioria das organizações está formalizada. Do total, 46% já se encontram
nessa condição e 16% estão em processo de formalização, somando 62%.
Esclarece-se que se considerou a resposta “em fase de formalização”
como uma atitude pró-ativa em relação a essa condição formal. Por isso,
essas duas informações foram agrupadas na categoria “formalizada” com
o objetivo de ver se essa atitude em direção à formalização trazia alguma
qualidade a mais para se compreender a disponibilidade de
financiamento. Foram feitos vários exercícios de correlação, mas todos
confirmaram que não existe associação entre formalização e
financiamento.

3
Perseguindo a linha inicial, buscou-se conhecer que áreas de
atuação das organizações atraem financiamento. Manteve-se a estrutura
da base de dados que organizou as categorias por ordem de importância.

TABELA 4
Ordem de importância das áreas de atuação das organizações
Ordem de
Área de atuação importância
1ª 2ª 3ª
Arte e Cultura 68 34 27
Educação 86 31 25
Meio ambiente 12 10 14
Emprego, trabalho e
renda 33 20 20
Saúde 18 10 15
DH e ações afirmativas 73 35 23
Informação 11 8 13
Outras 8 8 10
Fonte: CEAFRO, 2009

Educação, Direitos Humanos e Arte-Cultura se alternam nas três


ordenações de áreas prioritárias. Mas o que interessava era cruzar com o
financiamento, o que foi feito na tabela abaixo:
TABELA 5
Distribuição das organizações que possuem ou
não financiamento de acordo com a área de atuação
Possui
financiamento
Área de atuação Não Sim Total
Arte e cultura 14 54 68
Educação 25 61 86
Meio ambiente 1 11 12
Emprego, trabalho e
renda 10 23 33
Saúde 6 12 18
DH e ações afirmativas 15 58 73
Informação 2 9 11
Outras 3 5 8
2
Fonte: CEAFRO, 2009
Ao considerar os resultados da Tabela 5, não há dúvida de que
educação, direitos humanos e arte e cultura são as três áreas que atraem
financiamento. Podem ser algumas das vitrines do Mecanismo. Vale
analisar se elas não seriam um tipo de chamariz que ajudaria na
construção da visibilidade e da penetrabilidade do mecanismo (Fundação)
na sociedade.
Até aqui, se trabalhou com as informações que não traduziam as
diferenças entre essas organizações, pelo menos, buscou-se identificar
como se agrupavam apesar de se estar falando de 192 exemplares que se
espalham por um imenso território chamado Nordeste. Mas como o
próprio CEAFRO informa, a coleta entre os estados não foi equitativa, a
Bahia aparece com um número maior de organizações, em função de que
nesse estado houve um período maior de coleta de dados. A tabela abaixo
mostra essa discrepância.

TABELA 6
Distribuição das organizações de acordo com o estado da
federação

Estado n %
Bahia 61 31,8
Pernambuco 26 13,5
Alagoas 26 13,5
Ceará 18 9,4
Maranhão 15 7,8
Paraíba 14 7,3
Piauí 14 7,3
Sergipe 12 6,3
Rio Grande do
Norte 6 3,1
Total 192 100,0
Fonte: CEAFRO, 2009

Em função dessa situação, decidiu-se voltar ao tema da formalização


das organizações, tratado acima. A pergunta, agora, era saber como, em
cada estado, se encontraria a condição de as organizações estarem ou
2
não formalizadas. A Bahia, embora, apresentasse um maior número de
organizações em relação aos outros estados da federação, em termos
proporcionais, ficava em terceiro lugar quanto ao número organizações
formalizadas. À sua frente, estavam o Maranhão em primeiro lugar e
Pernambuco, em segundo. Diante dessa situação, fez-se a seguinte
questão: como o financiamento se distribuí segundo os estados da
federação? A resposta a essa questão aparece na tabela abaixo em
valores absolutos.

TABELA 7
Distribuição das organizações que possuem ou
não financiamento de acordo com o estado da federação

Possui
financiamento
Nã Total
Estado Sim % o % %
Bahia 51 10 61
Pernambuco 20 6 26
Alagoas 17 9 26
Maranhão 14 1 15
Ceará 11 7 18
Piauí 9 5 14
Rio Grande do
Norte 6 0 6
Paraíba 6 8 14
Sergipe 5 7 12
Total 139 53 192
Fonte: CEAFRO, 2009

Esta tabela indica que Paraíba e Sergipe são os estados que têm
mais organizações sem financiamento do que com financiamento. No
ranking, Bahia é o estado que tem o maior número de organizações
financiadas, seguido de Pernambuco, Alagoas e Maranhão. Entretanto este
último e o Rio Grande do Norte, também em número absolutos, são os
que têm o menor número de organizações não financiadas (uma e zero,

2
respectivamente). O gráfico abaixo reapresenta os dados em termos
percentuais, considerando os totais de organizações por estado.

Possui
financiamento
Estado Sim% Não% Total %
Rio Grande do Norte 100 0 100
Maranhão 0,93 0,07 100
Bahia 0,84 0,16 100
Pernanbuco 0,77 0,23 100
Alagoas 0,65 0,35 100
Piauí 0,64 0,36 100
Ceará 0,61 0,39 100
Paraíba 0,44 0,57 100
Sergipe 0,42 0,58 100
Total 0,72 0,28 100

Em termos percentuais, Rio Grande do Norte e Maranhão disparam.


A Bahia cai para terceiro lugar e Pernambuco fica em quarto. Mais à frente
será usada uma técnica que analisa se essas diferenças são de fato
significativas ou se existem outros fatores que interferindo na relação
entre “características da organização” e “ter ou não ter financiamento”.
Vistas algumas características das organizações e sua relação com o
tema financiamento, passa-se para as características dos dirigentes das
organizações. Antes disso, vale esclarecer alguns procedimentos. Na base
de dados do CEAFRO, fica claro que mais de uma pessoa da mesma
organização participou dos eventos de mobilização. Isso quer dizer que
quem está sendo identificado, nessa base de dados, é o indivíduo que
respondeu ao questionário. Entende-se, assim, que, pelo menos naquele
momento, ele respondia pela organização. Na sequência desse texto,
informa-se que a categoria dirigente está sendo tratada da mesma
maneira que foi pelo CEAFRO.
Interrogados sobre sua própria escolarização, esses sujeitos
permitiram construir o seguinte resultado.

3
Fonte: CEAFRO, 2009

Dos 192 sujeitos que responderam pela organização, 55% têm


ensino superior completo e um pouco mais da metade deles, 27%, têm
pós-graduação. O ensino médio completo vem em segundo lugar com
21%. Ainda que não se tenha informações para se analisar, em termos
longitudinais, se esses números significam uma tendência das
organizações em ter cada vez mais dirigentes com escolaridade em nível
superior, esse dado é importante para se pensar nas estratégias de
formação política dos atores, pois, em nível de escolaridade, os patamares
estão em ascensão.
Esse dado sugeriu uma nova pergunta: em quais organizações
estariam esses dirigentes com níveis de escolaridade mais altos? Como as
respostas dadas pelos dirigentes criaram um detalhamento muito grande
sobre a escolarização de cada um, para facilitar esse tipo de abordagem,
criaram-se duas categorias para classificar a experiência deles. Assim,
considerou-se ensino superior todos os respondentes que declaram ter
ensino superior completo ou alguma pós- graduação, lato ou stricto sensu.
Quem não se enquadrava nesse caso, foi colocado na categoria sem
ensino superior. O resultado segue-se conforme ilustra tabela abaixo:
2
TABELA 8
Distribuição das organizações de acordo com a
natureza jurídica e o nível de instrução do dirigente

Ensino não-
Natureza
superior Ensino superior
jurídica
n % n %
Sociedade
civil 79 56,4 61 43,6
Setor público 6 12,0 44 88,0
Fonte: CEAFRO, 2009

Fica claro que a diferença de escolaridade entre os dirigentes que


estão no setor público e os que estão nas organizações da sociedade civil
é grande e significativa (Qui-quadrado de Pearson: valor-p=0,000). Isso
talvez se explique pelo fato de que quem tem ensino superior completo
tenha mais chances de ser absorvido nas instituições públicas do que
aqueles que têm nível médio ou fundamental.
Outra característica marcante dos dirigentes é o que vários outros
estudos já mostraram, a saber: a predominância de mulheres nessas
organizações. O gráfico abaixo ilustra essa maioria.
Correlacionado com outros fatores, o sexo não apresentou nenhuma
diferença significativa seja em termos de se ter financiamento ou não ou
de se estar no serviço público ou nas organizações da sociedade civil.
A cor também não apresentou correlação significativa com essas
variáveis, embora fique clara a predominância de negros nessas
organizações como se pode ver nos dados abaixo:

2
Gráfico 6: Distribuição dos dirigentes das organizações de acordo com a
cor/raça
Fonte: CEAFRO, 2009

Negros (pretos e pardos) somam 85% dos dirigentes. Entendendo-se


o papel dessas organizações nas mudanças e conquistas no Brasil
contemporâneo, sobretudo no final do século XX e na primeira década do
século XXI, essa presença majoritária reforça algo dito ao longo deste
documento: a invisibilidade desse grupo precisa ser quebrada. O
mecanismo deverá criar estratégias de divulgação e visibilização desses
sujeitos porque, sem eles e suas organizações, o Brasil não conseguirá
manter-se no patamar internacional desejado.
A análise que se apresenta, a seguir, é muito mais para os membros
do Comitê discutirem a pertinência ou não de introduzi-la no
aprofundamento das estratégias que mecanismo (Fundação) poderá
adotar para a sustentabilidade da equidade racial. Como se levantou uma
série de variáveis que poderiam estar correlacionadas com “o ter ou não
ter financiamento”, buscou-se colocá-las todas juntas dentro de um
mesmo modelo para ver se alguma delas fazia diferença. O modelo usado
foi o da regressão logística. Ele permite modelar a probabilidade de um
4
evento ocorrer em função de outros fatores. Inicialmente, se pensou a
probabilidade de financiamento articulando todos os fatores relacionados
às características da organização. Chegou-se aos resultados abaixo:

TABELA 9
Modelo de regressão logística para o fato de as organizações
possuírem financiamento, de acordo com as características das
organizações

Significâ
Variável Exp () ncia
Estado
Maranhão 1,00 0,093
Paraíba 0,59 0,423
Pernambuco 1,99 0,175
Alagoas 1,27 0,637
Sergipe 0,40 0,219
Piauí 1,51 0,577
Rio Grande do
Norte 8 0,999
Ceará 1,01 0,985
Bahia 3,25 0,004
Tempo de
existência
Até 15 anos 1,00
Acima de 15 anos 3,30 0,003
Natureza jurídica
Sociedade civil 1,00
Setor público 1,44 0,442
Situação legal
Formalizada 1,00
Não formalizada 0,85 0,771
Fonte: CEAFRO, 2009

Esclarece-se que, no modelo acima, usou-se a condição dos estados,


o tempo de existência das organizações estruturadas em duas categorias
até quinze anos (gestão FHC 1996 e gestão Lula) e com mais de 15 anos,
a natureza jurídica e a situação legal.

2
As chances de as organizações terem financiamento são maiores
quando situadas na Bahia e quando têm mais 15 anos de existência.
Quando relacionadas às características dos dirigentes, a situação
fica da seguinte maneira.

TABELA 10
Modelo de regressão logística para o fato de as organizações
possuírem financiamento,
de acordo com as características dos dirigentes

Significâ
Variável Exp ( ) ncia
Cor/Raça
Preto 1,00
Pardo 1,17 0,686
Indígena 0,58 0,703
Branco 2,28 0,460
Sexo
Masculino 1,00
Feminino 1,52 0,128
Grau de
instrução
Ensino não-
superior 1,00
Ensino superior 1,94 0,018
Fonte: CEAFRO, 2009

As diferenças não são significativas, mas seu valor nominal informa


que, quando o dirigente de uma organização tem curso superior, a chance
dela ter financiamento e quase o dobro daquela em que não possui
dirigentes com essa mesma escolarização.
Com o intuito de explorar outras informações da base de dados do
CEAFRO, buscou-se reagrupar as organizações catalogadas de forma a
que esses grupos permitissem, ao Comitê Programático, conhecer mais
elementos sobre elas. Para tanto, aplicou-se um procedimento
denominado “análise de cluster” que é um modelo multivariado utilizado
para detectar grupos homogêneos nos dados, de modo que os elementos
2
(no caso, as organizações) pertencentes a um grupo (cluster) se
tornassem, ao mesmo tempo, os mais semelhantes possíveis entre si e
diferenciados dos restantes. O agrupamento das organizações foi feito
com base nas “similaridades” ou “distâncias”. O objetivo dessa análise é,
assim, descobrir, agrupamentos naturais de variáveis.
Essa análise é recomendada em casos onde ainda não se tem
nenhuma hipótese ou suposição, ainda se está na fase exploratória Para
isso, inicialmente se definiu como seria caracterizada a similaridade e a
dissimilaridade entre as organizações da base de dados CEAFRO, segundo
os valores observados nas variáveis definidas acima, a saber:
formalização, situação jurídica, tempo de existência, estado da federação,
financiamento. Assim definido, utilizou-se, na análise, o método
hierárquico divisivo que tem os seguintes passos: a observação parte de
um só grupo que inclui todas as organizações e, por meio de divisões
sucessivas e sistemáticas, as observações mais distantes são retiradas
desse grupo para formar outros grupos (clusters). É por isso que, nas
análises a seguir, encontrar-se-ão três grupos4 (clusters).

TABELA 11

Agrupam
PB PE AL SE PI RN CE BA MA
ento
16,7 32,0 28,6 27,3 66,7 12,5 36,2 69,2
1 ,0%
% % % % % % % %
58,3 32,0 38,1 55,6 45,5 43,8
2 ,0% 6,9% 7,7%
% % % % % %
25,0 36,0 33,3 44,4 27,3 33,3 43,8 56,9 23,1
3
% % % % % % % % %
100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
Total
% % % % % % % % %

Distribuição dos Clusters por estados da federação

Esta tabela deixa claro que organizações muito parecidas segundo


os valores das variáveis previamente definidas encontram-se distribuídas

4 conferir mo anexo as organizações que compõe cada grupo


3
em todos os estados, exceto em Sergipe e Rio Grande do Norte que não
tiveram organizações no agrupamento 1 e 2 respectivamente
Medindo-se as variáveis ao mesmo tempo, a distribuição nesses
grupos toma a seguinte configuração:

TABELA 12
Distribuição dos Clusters por estados da federação

Grupo 1 Grupo 2 Grupo 3


Variáveis
n % n % n %
Situação legal
Formalizada 55 100,0 26 57,8 71 100,0
Não formalizada 0 0,0 19 42,2 0 0,0
Natureza jurídica
Sociedade civil 47 85,5 44 97,8 43 60,6
Setor público 8 14,5 1 2,2 28 39,4
Financiamento
Não 0 0,0 34 75,6 10 14,1
Sim 55 100,0 11 24,4 61 85,9
Tempo de
existência
Até 15 anos 0 0,0 28 62,2 71 100,0
Acima de 15 anos 55 100,0 17 37,8 0 0,0

No grupo 1, há uma consistência quase absoluta nas semelhanças


apresentadas. As 55 organizações que o integram são formalizadas,
apenas oito pertencem ao setor publico, todas as outras são da sociedade
civil. Todas possuem financiamento e ainda todas têm mais de 15 anos de
existência.
No grupo 2, o único item que demonstra uma grande semelhança
entre as organizações que o compõem é o da natureza jurídica. Quase
todas, 98%, são da sociedade civil. Em termos de tempo de existência,
distanciam-se significativamente das do primeiro grupo, pois muito mais
da metade delas são organizações mais jovens, menos de 15 anos. E, em
comparação aos outros dois grupos são as que têm menos financiamento.

2
Quanto à formalização, a distância entre as que são formalizadas e as que
não o são atinge 16 pontos
No grupo 3, as organizações se assemelham-se quanto à
formalização. Todas, sem exceção, são formalizadas. Já a natureza jurídica
as diferencia bastante, mais da metade delas é da sociedade civil. Isso faz
com que o grupo se distancie dos outros dois, porque nele se concentra o
maior número de organizações vinculadas ao poder público. A maioria
delas, 90%, tem financiamento. São radicalmente dissimilares do grupo 1,
pois todas as organizações que o compõem têm menos de 15 anos de
existência.
Ainda que esse tipo de análise autorize apenas posições
exploratórias e nunca conclusivas, não deixa de chamar a atenção o fato
de que, dos três grupos, o que tem menor potencial de financiamento é o
grupo 2 que tem o maior número de organizações não formalizadas.
Coincidência ou não, é uma informação que não pode ser negligenciada
ao se discutirem as condições de sustentabilidade da futura Fundação.
Fica evidente também que a idade da organização não impediu de
aproximá-las quanto ao ter financiamento. Tanto as com mais de 15 anos
quanto as mais jovens se aproximam muito nesse campo. Mas não se
pode deixar de ressaltar que, entre as mais novas, 40% são organizações
do setor público, logo no item “ter financiamento” esse detalhe não pode
ser negligenciado.

Estratégias para se dar visibilidade as ações das organizações

O gráfico abaixo mostra que são variadas as formas de que as


organizações se servem para dar visibilidade a suas ações. Do tradicional
folder aos sites e boletins eletrônicos, mostra-se que se deu um salto
importante nas formas de conversar com o mundo.

Gráfico 7: Forma de divulgação do trabalho desenvolvido pelas


organizações
3
Considerando-se que o percentual do uso de boletins eletrônicos,
somado com os dos sites, chega-se a 78%, ou seja, é maior do que todas
as outras formas de divulgação, fica evidente que as novas tecnologias de
comunicação já penetraram parcelas significativas das organizações. E
avaliando o alcance que estas têm em relação ao público a ser atingido,
pode-se dizer que já está instalada uma postura qualitativamente
diferente relativas às formas de divulgação, pelo menos os instrumentos
novos utilizados visam atravessar a fronteira a ter uma visibilidade para
além do nível local e regional.
Buscou-se cruzar esses dados com a variável ter ou não ter
financiamento, mas em todos os casos os resultados não apresentaram
diferenças significativas, ou seja, tanto faz usar ou não usar esse ou
aquele veículo de comunicação, isso não altera as chances de se ter
financiamento.
Por fim, buscou-se integrar no presente documento uma informação
que não constou do levantamento do CEAFRO, mas que foram
identificadas no Relatório das Desigualdades Raciais 2006-2008 do
LAESER/UFRJ que trata da representação política dos negros nas câmaras
legislativas estaduais e federais, incluindo o senado.
De acordo com os dados apresentados no relatório, dos 513
deputados eleitos em 2006 (legislatura: 2007-2010), havia apenas onze
que se declaram pretos, sendo dez homens e uma mulher. Como pardos,
foram trinta e três homens e duas mulheres. O total de negros foi, assim,
de quarenta e seis deputados (PAIXÂO e CARVANO, 2008, p. 148). Mas o
que ainda mais grave nessa enorme subrepresentação foi a distribuição
por estados da federação. O Nordeste com um percentual de 70,4% de
indivíduos declarados como pretos e pardos, tinha respectivamente na
representação federal, cinco deputados declarados pretos e três, pardos,
ou seja, um total de oito que forma 5,3%. Quase igual à representação de
deputados negros da região sul, onde o percentual desse grupo na
composição racial da população é infinitamente menor da do Nordeste. O
percentual da região sul foi de 5,2%.
3
TABELA 13
Deputados Federais eleitos para a 53˚ legislatura (2007-2010)
segundo
características de cor ou raça hetero-atribuída e sexo, Brasil

Home
ns
Não
Branc Preto Pard Amare Indígen Tot
Região classifica
os s os los as al
dos
Norte 42 .. 3 .. .. 7 52
Nordeste 128 5 3 .. .. 6 142
Sudeste 139 5 17 2 .. .. 163
Sul 67 .. 4 2 .. .. 73
Centro-
Oeste 32 .. 6 .. .. .. 38
Brasil 408 10 33 4 .. 13 468

Mulhe
res
Não
Branc Preta Pard Amare Indígen Tot
Região classifica
as s as las as al
das
Norte 10 1 1 .. .. 1 13
Nordeste 7 .. .. .. 2 6
Sudeste 14 .. 1 .. .. 1 16
Sul 4 .. .. .. .. .. 4
Centro-
Oeste 3 .. .. .. .. .. 3
Brasil 38 1 2 .. .. 4 45
Fonte: LAESER, 2008

4
Com o senado foi mais discrepante ainda. O Nordeste não tem
nenhum senador homem declarado preto e só tem um pardo. Com as
mulheres, a mesma coisa, nenhuma preta e apenas três pardas

TABELA 14
Senadores eleitos para a 52a e 53a legislatura (2003-2010, 2007-
2015) segundo características de cor ou raça hetero-atribuída e
sexo, Brasil

Home
ns
Não
Branc Preto Pard Amare Indígen Tot
Região classific
os s os los as al
ados
Norte 17 .. 1 .. .. .. 18
Nordeste 23 .. 1 .. .. .. 24
Sudeste 11 1 1 .. .. .. 12
Sul 7 .. .. .. .. .. 8
Centro-Oeste 8 .. 1 .. .. .. 9
Brasil 66 1 4 .. .. .. 71

Mulher
es
Não
Branc Preta Pard Amare Indígen Tot
Região classific
as s as las as al
adas
Norte 3 .. 3 .. .. .. 6
Nordeste 3 .. 3 .. .. .. 6
Sudeste .. .. .. .. .. .. ..
Sul 1 .. 1 .. .. .. 2
Centro-Oeste 3 .. 3 .. .. .. 6
Brasil 10 .. 10 .. .. .. 20
Fonte: LAESER, 2008.

Esse dado precisa ser pensado na perspectiva da formação política


dos atores. Onde estar? Como fomentar o aumento significativo dessa
representação?
2
A desigualdade é visível dentro dos próprios partidos políticos. A
presença de deputados brancos é esmagadora em todos os partidos, sem
exceção. Os que se declaram pretos estão em alguns partidos. A maior
participação é no PT com 8,4% de pretos para 83, 1% de deputados auto-
declarados brancos. A desigualdade muda um pouco quando se passa
para os auto-declarados pardos, mas mesmo assim, onde eles estão mais
representados que é no PC do B (30.8%) e no PSOL (33,3%), esses valores
são duas vezes menores que o número de deputados brancos desses
mesmos partidos.

TABELA 15
Deputados Federais eleitos para 53˚ legislatura (2007-2010) por
partidos políticos
segundo características de cor ou raça hetero atribuída, Brasil
(em %)

Branc Pret Pard Amarel Indígen Não Tot


Partido os os os os as classificados al
PC do B 61,5 .. 30,8 .. .. 7,7 100
PDT 87,5 .. 4,2 .. .. 8,3 100
PFL 86,2 .. 4,6 3,1 .. 6,2 100
PL 91,3 4,3 .. .. .. 4,3 100
PMDB 93,3 1,1 3,4 1,1 .. 1,1 100
PP 80,5 .. 19,5 .. .. .. 100
PPS 81,8 .. 4,5 .. .. 13,6 100
PSB 96,3 .. .. .. .. 3,7 100
PSDB 92,4 .. 4,5 1,5 .. 1,5 100
PSOL 66,7 .. 33,3 .. .. .. 100
PT 83,1 8,4 7,2 .. .. 1,2 100
PTB 95,5 .. 4,5 .. .. .. 100
PV 84,6 .. 7,7 .. .. 7,7 100
Outros (*) 68,4 10,5 15,8 .. .. 5,3 100
Total 86,9 2,1 6,8 0,8 .. 3,3 100
(*) Outros = PAN, PHS, PMN, PSC, PT do B e PTC. O nome dos partidos corresponde
ao vigente no ano de 2006.
Fonte: LAESER, 2008

Essas foram as informações possíveis de serem trabalhadas, como


estão muito dispersas no texto vale uma síntese para que o comitê possa
ter uma visão mais global delas. Assim, com base nessas informações.
2
Termina-se esse documento fazendo o que se anunciou
anteriormente: um exercício, ou mais precisamente, uma brincadeira com
jogos de palavras para subsidiar as discussões sobre o nome que a
Fundação poderia ter, com base nas características que foram levantadas
pelo CEAFRO. Nas denominações que estão em anexo, pode-se ver que as
organizações do Nordeste na sua grande maioria tendem a reforça nas
suas denominações expressões que advém diretamente do universo
cultural afro-brasileiro. O termo “negro” aparece em 13 nomes de
organizações das 192, e mesmo assim, em alguma delas, associa-se ao
termo negro referencias africanas: “Grupo Afro-cultural – Coisa de Negro”
ou Mulheres Negras – Mãe Andreza”, “Bamidelê- Organização de Negros
da Paraíba” e assim por diante. Foi portanto nesse complexo jogo de
expressões em que os negros no Nordestes associam, na maioria dos
casos, referências africanas no nome de suas organizações, que se buscou
brincar com formações que introduzam o termo afrobrasil na composição.
Isso dá uma importante força à idéia de diáspora. Se o mecanismo
pretende mesmo buscar apoio internacional essas referencias com
poderão ajudar na construção de parcerias com os povos africanos e de
outras diásporas que recuperaram esse traço da africanidade.
Nesse jogo surgiram algumas palavras: que são reproduzidas a
seguir. Algumas já foram experimentadas nos documentos que se seguem
porque está cada vez mais difícil falar de “mecaniiiiiiiiismo” como a ele
costuma se referir um dos membros do comitê. São elas:

a) Afrobrasilfraterno
b) Afrobrasilfuturante
c) Afrobrasilplanetário
d) Afrobrasilmundigualitário
e) Afrobrasilgeraciovinteum
f) Afrobrasilpotencia XXI

4
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sociais, UNESCO, 2002

SILVA, J et al. Ações do Movimento Negro no Nordeste: um olhar dos


estudantes de biblioteconomia, www.unrio.br/ações_do_movimento, 2009.

SILVA, J. A União dos Homens de Cor: Aspectos do Movimento Negro


dos anos 40 e 50, Estudos Afro-Asiáticos, Ano 20, n 2, 2003, pp 215 –235.

VALENTE, A L. Ações Afirmativas, relações raciais e educação


básica, R.B.E., 2005, n 28, p 62-76.

6
ANEXO 1
Listas das Organizações Agrupadas pela análise dos Clusters

GRUPO 1

A. R. C. AFOXÉ ALAFIN OYÓ


ACONERUQ-MA
AMP - ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES DO POVOADO PALMEIRA DOS NEGROS
ASSOCIAÇÃO BEM CULTURAL E CARNAVALESCA ILÊOYÁ
ASSOCIAÇÃO COM. DOS PROD. RURAIS DO CATUZINHO
ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA QUILOMBOLA DOS PRODUTORES RURAIS DE CANGULA
ASSOCIAÇÃO CULTURAL BENEFICIENTE DOS AGENTES DE PASTORAL NEGROS
ASSOCIAÇÃO CULTURAL BLOCO AFRO ABIBIMÃ
ASSOCIAÇÃO CULTURAL BLOCO CARNAVALESCO ILÊ-AIYÊ
ASSOCIAÇÃO CULTURAL COMUNITÁRIA E CARNAVALESCA MUNDO NEGRO
ASSOCIAÇÃO CULTURAL IMPACTO SONORO
ASSOCIAÇÃO CULTURAL MARACATU AZ DE OURO
ASSOCIAÇÃO CULTURAL OS NEGÕES
ASSOCIAÇÃO CULTURAL, COMUNITÁRIA E CARNAVALESCA ARCA DO AXÉ
ASSOCIAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO TABULEIRO DOS NEGROS
BALÉ AFRO MAJÊ MOLÊ
CASA DA MULHER DO NORDESTE
CASSA DOS OLHOS DO TEMPO QUE FALA DA NAÇÃO ANGOLÃO PAQUETAN
CEAFRO - EDUCAÇÃO E PROFISSIONALIZAÇÃO PARA A IGUALDADE RACIAL E DE GÊNERO,
UM PROGRAMA DE EXTENSÃO DO CEAO - CENTRO DE ESTUDOS AFRO-ORIENTAIS DA UFBA
CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES - CUT
CENTRO CULTURAL BÁJÓ AYÓ
CENTRO DE CULTURA E PESQUISA AXÉ
CENTRO DE CULTURA NEGRA DO MARANHÃO
CENTRO DE DEFESA DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE PE. MARCOS PASSERINI
CENTRO DE EDUCAÇÃO E CULTURA POPULAR - CECUP
CENTRO DE EDUCAÇÃO POPULAR MAILDE ARAUJO - CEPOMA
CENTRO DE ESTUDOS AFRO-ORIENTAIS
CONSELHO DE DESENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE NEGRA DO ESTADO DA BAHIA

2
ESCOLA ESTADUAL MARIA AMÁLIA
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO
GRUPO AFRO CULTURAL COISA DE NEGO
GRUPO DE APOIO MÚTUO PÉ NO CHÃO
GRUPO DE CULTURA AFRO AFOXÉ
GRUPO DE DANÇA AFRO MATUNGOS - GDAM
GRUPO DE MULHERES NEGRAS "MÃE ANDREZA" - GMNMA
GRUPO UNIÃO ESPÍRITA SANTA BÁRBARA - GUESB
IFARADÁ - NÚCLEO DE PESQUISA AFRICANIDADES E AFRODESCENDÊNCIA
ILÊ AXÉ DAJÓ OBÁ OGODÔ
ILE AXE OBETOGUNDA
ILE AXE OMI ALADE OXUM
INSTITUTO COMO VER - OFFICINA AFFRO
INSTITUTO SÓCIO-CULTURAL E CARNAVALESCO IBÁSÓRÉ IJÁ BLOCÃO DA LIBERDADE
KOINOMIA PRESENÇA ECUMÊNICA E SERVIÇO
MACEIÓ VOLUNTÁRIO - MOVPAZ
MARACATÚ CARNAVAL DO LEÃO COROADO
MH2O - MOVIMENTO HIP HOP ORGANIZADO DO BRASIL
MUSEU AFRO-BRASILEIRO
NEAB/UFAL - NÚCLEO DE ESTUDOS AFRO-BRASILEIRO
NÚCLEO DE ESTUDOS AFRO-BRASILEIROS - NEAB/UFMA
PASTORAL AFROBRASILEIRA PARAÍBA
PRE-VESTIBULAR PARA NEGROS E CARENTES - PRENEC
REDE MANDACARU RN
SINDICATO DOS TRABALHADORES PÚBLICOS MUNICIPAL DE ALAGOINHAS - SINPA

GRUPO 2

AGENTES PASTORAL NEGROS - APN'S


ALOMOJU - GRUPO DE PESQUISADORAS NEGRAS DE PERNAMBUCO
ARTICULAÇÃO DA JUVENTUDE NEGRA DA PARAÍBA
ASA - AMIGOS ASSOCIADOS DE SANTA MARIA DA BOA VISTA
ASSOCIAÇÃO AFRO BRASILEIRA OFÁ-OMI
ASSOCIAÇÃO DOS ESTUDANTES AFRICANOS NO CEARÁ
ASSOCIAÇÃO DOS REMANESCENTES QUILOMBOLAS AGRICULTORES FAMILIARES
ASSOCIAÇÃO LUZ ORIENTE
ASSOCIAÇÃO NOSSA SENHORA DESATADORA DOS NÓS
ASSOCIAÇÃO QUILOMBOLA DO SERROTE
BLACKITUDE: VOZES NEGRAS DA BAHIA
CASA DE AXÉ CABANA DE OXOSSI
CENPAH
CENTRO DE EDUCAÇÃO E CULTURA DARUÊ MALUNGO
CENTRO DE RESGATE DA CULTURA POPULAR - CASA DA POETA
COLÉGIO AGUNS DEI - ORGANIZAÇÃO DAS ESCOLAS PARTICULARES PARA DIVULGAÇÃO DA CULTURA
COLETIVO ONICAS
COMPANHIA DE ARTE E CULTURA INTEGRADA - CACI
COMUNIDADE QUILOMBOLA
COORDENADORIA ECUMÊNICA DE SERVIÇOS - CESE
FAVELAFRO - MOVIMENTO HIP HOP ORGANIZADO DO MARANHÃO
FOREDONE / MOVIMENTO NEGRO DE PARAÍBA
FÓRUM ESTADUAL DE JUVENTUDE NEGRA DE SERGIPE
2
GRÊMIO RECREATIVO EDUCATIVO ESPORTIVO E CARNAVALESCO FURACÃO 2001
GRUPO AFRO BÉRIE-UNINDO FAMÍLIAS
GRUPO AFRO DE MULHERES BRASILEIRAS - GAMB
GRUPO CULTURAL ADIMÓ
GRUPO CULTURAL BELEZA AFRO INDÍGENA
GRUPO DE MULHERES DE TERREIRO ÍYALODE
ILE AXÉ ABASSÁ OLÉ BAMIRÉ
ILÊ AXÉ OIA MEGUÊ - 1º QUILOMBO URBANO DE PERNAMBUCO
ILÊ AXÉ OSMU - ADENITA
INSTITUTO DE CAPOEIRA MAURICE MERLEAU - PONTY
JUVENTUDE NEGRA BRASILEIRA
MARACATU DE BAQUE VIRADO NAÇÃO ENCANTO DA ALEGRIA
MNU - MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO
MOVIMENTO NEGRO DO VALMITRA DE FIGUEIREDO
MOVIMENTO NEGRO ORGANIZADO NA PARAÍBA (MNOPB)
MULHERES DESEMPREGADAS
NÚCLEO DE ESTUDANTES NEGROS (AS) NA UFPB
REDE DAS MULHERES DE TERREIRO DE PERNAMBUCO
REDE NACIONAL DE RELIGIOSIDADE AFRO BRASILEIRA E SAÚDE
SOCIEDADE DE ESTUDOS ÉTNICOS, POLÍTICOS, SOCIAIS E CULTURAIS "OMOLÁIYÉ"
TENDA ESPÍRITA DE UMBANDA S. JORGE GUERREIRO

GRUPO 3

AFRO GABINETE DE ARTICULAÇÃO INSTITUCIONAL E JURÍDICA - AGANJU


AHBT/BSA - ASSOCIAÇÃO DE HOMOSSEXUAIS, HETEROSSEXUAIS, BISSEXUAIS E TRAVESTIS BARRA
DE SANTO ANTÔNIO
ASSESSORIA DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA DIVERSIDADE HUMANA
ASSOCIAÇÃO BAIANA DE PESSOAS COM DOENÇAS FAZCIFORMES - ABADFAL
ASSOCIAÇÃO BENEFICIENTE, CULTURAL E EDUCATIVA ILÊ AKÊ EWÉ
ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA DA REGIÃO DO CATUZINHO
ASSOCIAÇÃO CULTURAL ASPIRAL DO REGGAE
ASSOCIAÇÃO CULTURAL E CARNAVALESCA AFOXÉ F. DE NANÁ
ASSOCIAÇÃO CULTURAL E CARNAVALESCA FILHO DE OMOLU
ASSOCIAÇÃO CULTURAL MARCOS GARVEY
ASSOCIAÇÃO DO REMANESCENTES DE QUILOMBOLAS DE GAMELEIRO
ASSOCIAÇÃO QUILOMBOLA DE NOVA DESCOBERTA
ASSOCIAÇÃO SAMBA JUNINO E DE RODA DO ESTADO DA BAHIA
ASSOCIAÇÃO TERRA DA LUZ
ASSOCIAÇÃO UNIVERSIDADE DA RECONSTRUÇÃO ANCESTRAL AMOROSA - UNIRAAM
ATITLDR QUILOMBOLA
ATO PERIFÉRICO
BAMIDELÊ - ORGANIZAÇÃO DE MULHERES NEGRAS NA PB
CENTRO CULTURAL E EDUCACIONAL MANDINGUEIROS DO AMANHÃ
CENTRO DE CULTURA E ESTUDOS ÉTNICOS - ANAJÔ
CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS AFRO-ALAGOANOS - "QUILOMBO"
CENTRO DE FORMAÇÃO PARA CIDADANIA AKONI
COORDENAÇÃO DE POLÍTICAS ESPECIAIS DE INCLUSÃO SOCIAL
COORDENADORA DE POLÍTICAS E PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL
COORDENADORIA DA PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL
DEPARTAMENTO DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL
DIRETORIA DA IGUALDADE RACIAL - PREFEITURA DO RECIFE
3
DIRETORIA DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE
FÓRUM DE ENTIDADES NEGRAS DA BAHIA
FUNDAÇÃO DE MULHERES BAKITA
GENTENOSSA FILMES
GRUMAQ - GRUPO DE MULHERES PRODUTORAS QUILOMBOLAS
GRUPO CULTURAL AFROCONDARTE
GRUPO CULTURAL AGBARA
GRUPO DE ARTE - EDUCAÇÃO, ESPORTE E CULTURA - GAEEC
GRUPO DE CULTURA AFRO IJEXÁ
GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISA TRABALHADORES LIUMES E ESCRAVOS DO CEARÁ:
DIFERENÇAS E IDENTIDADES
INSTITUTO DE EDUCAÇÃO E PESQUISA AFROMARANHENSE AGONTINMÊ
INSTITUTO KIMUNDO DE CULTURA AFRO BRASILEIRA
INSTITUTO KUTALA NLEEKE
INSTITUTO MÍDIA ÉTNICA
NÍCLEO DE ESTUDOS AFROBRASILEIROS DA UFPE
NÚCLEO DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA
NÚCLEO DE ESTUDOS AFRO-BRASILEIROS E INDÍGENA
NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISAS SOBRE A DIVERSIDADE ÉTNICA-RACIAL - NEDER
NÚCLEO DE RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA DA PMBA - NAFROPM
OBSERVATÓRIO NEGRO
ORGANIZAÇÃO CULTURAL RELIGIOSA DE MATRIZ AFRICANA ILÊ DE XANGO OGODÔ
PREFEITURA MUNICIPAL DE JOBOATÃO DOS GUARARAPES
PROGRAMA CONEXÕES DE SABERES-UFBA: DIÁLOGOS ENTRE A UNIVERSIDADE E AS COMU
POPULARES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS ÉTNICOS E AFRICANOS
QUILOMBO CULTURAL MALUNGUINHO
REDE DE JOVENS DE MATRIZ AFRICANA E TERREIROS DO RN
SECRETARIA DA ASSISTÊNCIA SOCIAL E CIDADANIA - SASC
SECRETARIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL
SECRETARIA DE CULTURA E TURISMO
SECRETARIA DE CULTURA, ESPORTE E LAZER - PREFEITURA MUNICIPAL DE ITUBERA
SECRETARIA DE DESENVOLIMENTO SOCIAL
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO / DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO /
NÚCLEO DE EDUCAÇÃO DA DIVERSIDADE E CIDADANIA
SECRETARIA DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE DO ESTADO DA BAHIA
SECRETARIA DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE DO ESTADO DA BAHIA
SECRETARIA DESENVOLVIMENTO E IGUALDADE
SECRETARIA ESTADUAL DA MULHER DE CIDADANIA E DIREITOS HUMANOS
SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO E DO ESPORTE
SECRETARIA MUNICIPAL DA INCLUSÃO RACIAL
SECRETARIA MUNICIPAL DE POLÍTICAS ESPECIAIS
SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE
UNIÃO DOS AFOXÉS DE PERNAMBUCO
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA - UFRB
VIALA MUKAJI SOCIEDADE DAS MULHERES NEGRAS DE PERNAMBUCO
WORLD LEARNING DO BRASIL - FORTALEZA

1.2 Marco Referencial - Dezembro 2009

Introdução
4
Na apresentação deste marco referencial que inaugura o nascimento
de uma Fundação (Mecanismo) cujo objetivo é o de promover a equidade
racial no Nordeste brasileiro, consideram-se, fundamentalmente, duas
dimensões: uma clara definição da realidade em que é construído e os
desafios que enfrentará face às transformações esperadas para o Brasil
nos próximos 20 anos.
A pedra fundamental que marca seu nascimento data do final da
primeira década do século XXI. São, portanto, os desafios e as
transformações deste século que o Mecanismo (Fundação) terá de
enfrentar. É nesse mundo que pretende interferir, criando as condições de
sustentabilidade para a promoção da equidade racial de forma que o
movimento negro e suas organizações ampliem sua capacidade de
intervenção, liderando a construção de um Brasil mais igual, onde todos
desfrutarão, sem exceção, de cidadania plena. Enfim, é nesse mundo que
se estabelecerão os fundamentos para o fortalecimento de um
afrobrasilfraterno, que engloba negros, brancos, indígenas, estrangeiros,
pessoas de todos os credos e culturas.
Destaca-se, nesse ato de fundação, exatamente o elemento que, na
proposta, representa o que ela tem de mais original, a saber: o fato de se
construir um mecanismo que propicie a sustentabilidade da causa da
equidade racial.
O peso aqui é no próprio conceito de sustentabilidade. Em si, já
indica que não se pretende, em hipótese alguma, reproduzir o modelo de
financiamento vigente que transforma as ações do movimento negro e de
suas organizações em ações esporádicas, pontuais, fragmentadas e
excessivamente dependentes de recursos públicos, quase sempre
escassos e de difícil acesso.
O conceito de sustentabilidade exigirá uma nova atitude, uma nova
forma de comportamento diante dos desafios impostos pelo mundo
contemporâneo. Faz-se aqui um paralelo com o que, hoje, especialistas de
diferentes matizes, falam da urgência de as nações conceberem um
desenvolvimento econômico sustentável, pois dele depende a vida do
3
planeta. Vê-se, assim, a criação de uma Fundação (Mecanismo) para a
promoção da equidade racial no Nordeste com essa mesma urgência e
importância, pois dessa sustentabilidade dependerá a permanência do
Brasil nos patamares em que se encontra na mídia nacional e
internacional. Estar entre as cinco maiores economias do mundo e se
manter ali, de forma duradoura e sustentável, exigir-lhe-á, entre outras
condições, que, em termos políticos, tenha reduzido, quiçá eliminado, as
desigualdades raciais. E isso fica claro, quando se examina o percurso das
organizações negras no Brasil , em especial as do Nordeste. Com toda a
precariedade, com escassez de financiamento e de condições,
conseguiram, a duras penas, é claro, educar a nação brasileira tentando
romper barreiras, combatendo o racismo e inserindo, aos poucos, os afro-
brasileiros na sociedade que os excluía, conquistando direitos de
cidadania e assim por diante. Ou seja, durante um século de incansável
luta, essas organizações conseguiram reunir um capital político, ainda
invisível para população brasileira no geral e completamente
desconhecido para os meios de comunicação. Torná-lo visível e fortalecer
os atores que o construíram, bem como dar suporte a novos atores que
contribuirão para enriquecer ainda mais esse patrimônio é um dos
elementos que compõem a idéia de sustentabilidade inserida na proposta
dessa nascente Fundação (Mecanismo). É isso que faz pensá-la, como
sendo um instrumento que deverá criar condições para que o movimento
negro esteja em lugares que ainda não conseguiu penetrar, que consiga
romper o silêncio do quarto poder, hoje cada vez mais representado pela
mídia, para que se disponha a mostrar esse patrimônio que ajudou na
construção dessa imagem tão portentosa que o Brasil exibe hoje. É
urgente mostrar a participação efetiva dos negros nesse cenário, não
como coadjuvantes, mas como protagonistas.
O Brasil que adentra o século XXI, embora tenha dado, na presente
década, passos significativos para mudar sua imagem de um país
perversamente desigual, precisa avançar muito mais na promoção da
referida equidade, em ritmos compatíveis com as exigências do mundo
contemporâneo.
3
A função primordial desse mecanismo nascente é fazer reconhecer o
capital político, representado pelos afro-brasileiros, nas conquistas
atingidas no país, sobretudo na segunda metade do século XX. Defenderá
em todos os fóruns nacionais e internacionais que, sem os negros e suas
organizações de luta, o Brasil jamais teria qualquer reconhecimento
internacional como sendo um país disposto a combater as desigualdades.
Isso se tornou possível porque organismos internacionais começaram a
perceber que os negros, a duras penas, se constituíram, no Brasil, em
atores políticos capazes de interferir no marco legal da sociedade impondo
um novo contrato social. Afro-brasileiros, de diferentes matizes e
organizações negras altamente ativas ascederam a fóruns internacionais,
denunciaram o racismo à brasileira e contribuíram, em nível mundial, para
produzir marcos legais que balizassem o combate ao racismo, não só no
Brasil, mas em outras partes do planeta.
Reitera-se, assim, neste documento inaugural, a imagem-força de
que um Brasil na liderança do século XXI depende fundamentalmente da
atuação das organizações afro-brasileiras, pois será delas e de seu
fortalecimento que será construída a sustentabilidade da causa da
equidade racial no Nordeste e no país como um todo.

Missão

A afrobrasilmundigualitário emerge da inspiração transformadora da


história de luta e de resistência das organizações negras do Nordeste
brasileiro. Nasce com o compromisso de construir novos parâmetros legais
e de fortalecer atores políticos com o objetivo de cumprir, efetivamente, a
equidade racial em todo território nacional no mais breve tempo possível.
Como parte central de sua missão, caberá, a essa Fundação, criar as
condições financeiras sólidas e consistentes que permitam a
sustentabilidade da causa da equidade racial de forma duradoura. Com
esses fins, a Fundação coloca-se como instrumento que busca romper as
barreiras que dificultam a emergência de uma nova ambiência que
favoreça a autonomia das organizações.
4
Composição

A Fundação (Mecanismo) atuará em torno de três eixos:

a) Eixo 1 Imagem e Inserção Política: Nesse eixo, atuará


em varias frentes. A primeira será junto à mídia como forma
de romper a barreira da invisibilidade das ações das
organizações negras. Dar visibilidade é uma ação
estratégica fundamental para se garantir o caráter
duradouro da sustentabilidade. A segunda compreende
uma ação direta nas instâncias políticas, de decisão.
Instâncias importantes porque é, por meio delas, que se
poderá interferir para efetivas mudanças dos marcos
regulatórios que criam barreiras e dificuldades para se
atingir, de fato, uma equidade racial no Brasil. Articulada às
duas anteriores, está a terceira ação que é a de investir nas
mudanças de atitude da sociedade brasileira em relação à
equidade racial necessária. A quarta será a busca
consistente de apoio internacional para a sua luta;
b) Eixo 2 Fortalecimento das Organizações Negras:
Aqui ,como indicado na formulação acima, significa
avançar nas estratégias de sustentabilidade das
organizações propriamente ditas. Nesse ponto, a Fundação
(Mecanismo) criará um corpo técnico capaz de produzir
formas inovadoras de captação de recursos, de identificar
no campo de ação empreendedores dispostos a investir na
causa da equidade racial no Nordeste, de promover
encontros permanentes com as organizações no sentido de
fortalecê-las de forma constante e, ainda, de incentivar a
emergência de novas iniciativas no meio afro-brasileiro;
c) Eixo 3 Formação Política dos Atores: A formação
política é indispensável. Será por meio dela que a Fundação
(Mecanismo) poderá planejar a médio prazo, preencher
2
uma das lacunas mais preocupantes da atual realidade
ampliando, de forma significativa,a representação de
mulheres e homens negros nas câmaras legislativas, nos
fóruns de decisão política.

Definidos os eixos, passa-se a uma proposta de como pode ser o


funcionamento dos mesmos. Esclarece-se, de imediato, que esses eixos,
embora apresentados um a um, não são separados nem podem funcionar
separadamente. A movimentação de um deles obriga a movimentação dos
outros dois obrigatoriamente. Estarão visceralmente vinculados no tempo
histórico e no ritmo. Pensa-se que venham a funcionar como peças
engrenadas, conectadas. Um não se sobrepõe ao outro, ou seja, não
formam hierarquia. A idéia central é a de que sejam compostos por atores
que possam dar conta de todas as ações pensadas para por em
funcionamento o mecanismo da equidade racial para o Nordeste.
A função dos eixos não substitui, de forma alguma, a estrutura que a
Fundação poderá vir a ter. Ao contrário, quanto mais definidos estiverem,
mais ajudarão na melhor composição dos atores coordenadores das
diversas instâncias que da Fundação.
Esclarece-se, também, que as sugestões quanto à forma de
funcionamento do mecanismo, que aparecem no presente marco
fundamental, são produtos do momento (da conjuntura) em que é criado.
Muitos conteúdos e novas ações podem e devem ser agregadas assim que
estiver funcionando. A ideia é fazer com que seja uma estrutura aberta na
qual outros eixos se agreguem, assim como outros conteúdos. Mas a
condição para que ele não perca sua integridade e sua missão de ser um
órgão sempre propenso a ações coletivas e democráticas é de que,
sempre que novas ideias forem agregadas, que elas não percam o elo, as
conexões, as ações acontecendo como verdadeiras engrenagens sociais.

3
Modo de Funcionamento do Mecanismo

Eixos que funcionam engrenados:

a) E1:
Imagem

4
Visibilidade
Mídia
Instâncias políticas
Marketing
Mudança de atitude
Articulação Internacional
Intervenção nos marcos regulatórios

b) E2:
Fortalecimento
Sustentabilidade
Captação de Recursos
Institucionalização
Incentivos a novas Experiências
c) E3:
Ator Político: Formação

2
2 AÇÕES E PROJETOS ESTRATÉGICOS

2.1 Mapeamento

Coordenação Executiva do CEAFRO: Vilma Reis


Coordenação Administrativo-Financeira: Iranildes Aquino

PESQUISADORAS/ES

Antônio Cosme Lima da Silva


Artemisa Odila Candé Monteiro
Cláudia Alexandra dos Santos
João Teixeira dos Santos
Luiz Chateaubriand
Maria Nazaré Mota de Lima (Coordenação)
Paulo Rogério Nunes

COLABORAÇÃO

Josafá Araújo
Lícia Barbosa
Marta Alencar
Vilma Reis

ARTICULADORES/AS

Lindivaldo Leite Junior - Pernambuco


Solange Rocha - Paraíba
4
Maria Batista - Sergipe
Arísia Barros e Vanda Menezes - Alagoas
Artemisa Odila Candé Monteiro - Piauí
Carlos Benedito da Silva (Carlão) e Valdira Barros - Maranhão
Elizabeth Lima da Silva - Rio Grande do Norte
Juliana Holanda - Ceará
Paulo Rogério Nunes e Iranildes Aquino – Bahia

2.1.1 Mapeamento de Políticas e Movimentos negros no Nordeste


do Brasil

Introdução

Este Relatório analisa informações sobre o Mapeamento de políticas


e movimentos negros, no Nordeste do Brasil, obtidas por meio de
levantamento realizado de junho a setembro de 2009, nos nove estados
da região, a partir de proposta aprovada pela Fundação Kellogg,
construída com base no Termo de Referência do mapeamento de políticas,
organizações, movimentos, lideranças, conhecimento e financiadores no
campo da equidade e inclusão racial no Nordeste.
A pesquisa teve caráter exploratório e não extensivo, na medida em
que foi realizada junto a sujeitos que a ela aderiram – mediante convite de
articulador/a local –, visando subsidiar a Fundação em sua política de
apoio às organizações que atuam no campo da equidade racial na região
Nordeste do Brasil.
Apesar de constituirem metade da população no Brasil, os negros,
historicamente, estiveram em situação de desvantagem, demonstrada
pelos conhecidos indicadores sociais na educação, saúde e, mundo do
trabalho, principalmente. Na região Nordeste, há maior concentração de
pretos e pardos (PNAD, 2008), portanto essas desigualdades estão mais
presentes nessa população, o que explica as desigualdades sociais
existentes na região, demandando ações específicas a ela destinadas.

2
No período mencionado, o CEAFRO realizou pesquisa de campo, com
base na metodologia abaixo descrita, da qual resultam nove Informes, um
por estado, e este Relatório que apresenta a síntese das informações
obtidas relativas aos nove estados.

Metodologia Utilizada

O Mapeamento identificou 191 organizações5 que atuam na defesa


dos direitos de pessoas negras/as, nos nove estados da região, utilizando
uma metodologia que incluiu as abordagens qualitativa e quantitativa. Os
seguintes instrumentos de coleta foram aplicados junto a representantes
das organizações pesquisadas e lideranças, convidados por um/a
articulador/a local: questionário, com questões fechadas e abertas,
entrevistas, grupo focal, reuniões e rodas de conversa. As informações
obtidas foram tratadas e analisadas por segmento – setor público e
sociedade civil –, e estão apresentadas neste documento, assim como nos
nove Informes, um por estado, como acordado.
Para obter as informações necessárias, os estados foram visitados
por uma dupla de pesquisadores/as, sendo que um dos pesquisadores foi
sempre a Coordenadora do Mapeamento, com o fim de assegurar a
unidade necessária ao trabalho de campo. Os encontros, em cada um dos

5 No caso, consideram-se organizações, genericamente, órgãos de promoção da


igualdade, núcleos de estudos sobre a temática, a exemplo dos NEABS, assim como
entidades do movimento negro, dentre grupos culturais, associações, conselhos, etc.,
atuando no combate ao racismo e/ou promoção da igualdade racial.
2
estados, duraram dois dias6, na capital, estendendo-se por algumas
cidades próximas, dentro do possível.
Escolhidos no âmbito das relações do CEAFRO, como pessoas-chave
para intermediar o trabalho, os/as articuladores/as tiveram papel
fundamental no Mapeamento, por seu conhecimento sobre as pessoas
convidadas e sobre as dinâmicas dos movimentos em seu estado. Sua
atuação permitiu a rápida identificação das organizações e lideranças,
facilitou a interlocução e sua colaboração se deu em todos os sentidos: na
coordenação local, nas providências de infra-estrutura, na assessoria à
equipe durante a pesquisa de campo. Participaram, ainda, como sujeitos
pesquisados.
Nos encontros e reuniões, os questionários eram respondidos por
todas as organizações presentes, após a apresentação dos objetivos do
Mapeamento, das organizações proponentes e também das organizações
convidadas. Foram feitas, dentro das possibilidades, visitas a quilombos,
terreiros, museus e outros espaços importantes, e as reuniões ocorreram
em diferentes espaços, todos significativos para a história de lutas e
conquistas em cada estado visitado. Algumas lideranças foram
entrevistadas, individualmente ou em dupla; em alguns casos, foi
realizado Grupo Focal, reunindo um número maior de lideranças (seis a
oito pessoas, por grupo).
O processo foi muito enriquecedor para as pessoas e organizações
envolvidas, extrapolando a função exclusiva de levantamento de
informações, pois agregou significados importantes:
articulação/rearticulação de grupos; socialização de informações;
discussões sobre o encaminhamento de questões diversas; debates sobre
formas de continuidade da luta contra o racismo e a favor da promoção de
políticas de igualdade racial, de gênero, sexualidade, regionalidade,
territorialidade, classe social. As falas foram gravadas e constam de Banco
de Dados do CEAFRO; também constam do acervo do CEAFRO algumas

6 Na Bahia, o Mapeamento durou 15 dias, pois não implicou em viagens, uma vez que
quase toda a equipe envolvida é residente em Salvador. Isso explica o número maior de
organizações daquele estado.
3
publicações, CDs, DVDs e outras peças de divulgação das organizações
pesquisadas.
Alguns fatores restritivos ao trabalho desenvolvido são aqui
sintetizados e ajudam a entender os resultados apresentados adiante:
realização de encontros somente nas capitais, embora incluindo
representação de alguns municípios do interior; tempo limitado de
realização da pesquisa, inclusive de campo. No total, foram levantadas
191 organizações, como mencionado, sendo que 300 pessoas,
aproximadamente, participaram dos encontros nos estados, de junho a
setembro de 2009.
Basicamente, as organizações identificadas foram: núcleos,
coordenações e assessorias existentes no setor público, aqui chamadas
órgãos de promoção da igualdade racial; núcleos existentes nas
universidades, geralmente NEABs – Núcleos de Estudos Afro-brasileiros ou
núcleos de Estudantes Negros/as; organizações do movimento social,
dentre ONGs, entidades do Movimento Negro, Conselhos de
Desenvolvimento da Comunidade Negra, Terreiros de Religiões de Matriz
Africana, Blocos Afro, Fóruns e Articulações de Entidades Negras, Grupos
de Hip-Hop, Associações de Capoeira, Grupos de jovens, Grupos de
mulheres e de LBGT que transversalizam a dimensão racial e outros.

Apresentação e Análise dos Dados

As informações obtidas por meio de questionário aplicado às


organizações serão analisadas, inicialmente, em relação às questões
fechadas e, em seguida, em relação às questões abertas.

Questões fechadas

A pesquisa identificou 191 organizações7 do movimento negro,


7 No caso, consideram-se organizações, genericamente, órgãos de promoção da
igualdade racial, núcleos de estudos sobre a temática, a exemplo dos NEABs, assim como
4
atuando na defesa dos direitos de pessoas negras nos nove estados da
região nordestina, com a seguinte distribuição espacial:
TABELA 1
Distribuição das organizações por estado. Nordeste, 2009

Número de Distribuição
Estado organizaçõe
s (%)
Bahia 60 31,4
Pernambuco 26 13,6
Alagoas 26 13,6
Ceará 18 9,4
Maranhão 15 7,9
Paraíba 14 7,3
Piauí 14 7,3
Sergipe 12 6,3
Rio Grande do Norte 6 3,1
Total 191 100
Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Os estados da Bahia, Pernambuco e Alagoas aparecem


concentrando a maioria das organizações do Nordeste (59%), sendo que
as localizadas no estado da Bahia respondem por quase um terço do total
(31%); os estados de Pernambuco e Alagoas8 representam quase 14%,
cada um. Contudo, constatou-se, nos encontros, que as organizações da
Bahia, Pernambuco e Maranhão são as que têm maior expressão e
influência regional.
As organizações foram classificadas como vinculadas ao setor
público ou à sociedade civil. Entre as instituições do setor público, estão
órgãos estaduais e municipais, escolas (incluindo faculdades e
universidades), outras organizações acadêmicas, fundações, conselhos e
comitês; entre as da sociedade civil, encontram-se associações,
movimentos, ong’s, oscip’s, fundações, instituições religiosas.
Considerando que um número expressivo de organizações respondeu
“Outros” à questão que as classifica e considerando os objetivos do
Mapeamento de identificar e localizar o máximo de organizações atuantes
no nordeste brasileiro, decidimos agrupá-las em setor público ou
entidades do movimento negro, grupos culturais, associações, conselhos, etc., atuando
no combate ao racismo e/ou na promoção da igualdade racial.
8 Em Alagoas, o Mapeamento fez parte de evento do Projeto Raízes de África, mediante
proposta da Articuladora no estado.
3
sociedade civil.
No geral, as organizações da sociedade civil respondem por 71% do
universo, e as do setor público por 29%, como se visualiza no Gráfico 1.

29%

71%

Setor Público Sociedade civil

Gráfico 1: Distribuição das organizações por tipo. Nordeste, 2009


Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

A participação das organizações do setor público, no conjunto dos


estados, varia entre o máximo de 42% do total, observado em Sergipe, até
a ausência, no estudo, das informações sobre a instância pública de
promoção da igualdade racial no Rio Grande do Norte, porque o
questionário, embora aplicado, não foi devolvido até então.

O resultado relativo a todos os estados pode ser observado na


Tabela seguinte:

TABELA 2
Distribuição das organizações por tipo e por estado.
Nordeste, 2009.
%
Setor Sociedade
Estado Total
Público civil
Bahia 33,3 66,7 100
Pernambuco 26,9 73,1 100
Alagoas 30,8 69,2 100
Ceará 27,8 72,2 100
Maranhão 13,3 86,7 100
Paraíba 28,6 71,4 100

2
Piauí 28,6 71,4 100
Sergipe 41,7 58,3 100
Rio Grande do
Norte 0,0 100,0 100
Total 28,8 71,2 100
Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

No que se refere à situação legal9, a grande maioria está formalizada


(63%) ou em processo de formalização (21%). Dessa maneira, há
empenho das organizações em cuidar de sua documentação, certamente
visando se adequar às exigências de participação em editais e outras
formas de acesso às fontes de financiamento (Gráfico 2).

1,5
100% 5,9
90% 8,1

80%
21,3
70%
60%
50%
40%
63,2
30%
20%
10%
0%

FORMALIZADA EM PROCESSO DE FORMALIZAÇÃO NÃO FORMALIZADA NÃO SABE OUTRA

Gráfico 2 Distribuição das organizações segundo a situação formal.


Nordeste, 2009
Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

As respostas sobre tempo de existência mostram o dinamismo e a


maturidade das organizações pesquisadas. A média de tempo de criação é
de 13 anos, sendo que metade delas tem mais de sete anos de existência.
O Maracatu Carnaval do Leão Coroado, fundado em 1863, em Olinda, é a
mais antiga entre as pesquisadas e 13 organizações não haviam
completado um ano de existência no momento da pesquisa.
As organizações da sociedade civil são mais antigas. A média é de
9 Para efeito dessa análise, considerou-se que todas as organizações do setor público são
formais.
2
14 anos; metade tem mais de nove anos de existência e seis existem há
menos de um ano. As do setor público são mais recentes, pois a média é
de 10 anos, metade tem até quatro anos de criadas e sete, entre as 55,
ainda não completaram um ano.
Em relação à dinâmica de criação das organizações pesquisadas, os
dados apresentam alguns picos (Gráfico 3) que refletem o impacto de
eventos como campanhas de visibilização dos 100 anos de (falsa)
abolição, Marcha Zumbi e realização da III Conferência Mundial de
Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância
Correlata, em Durban, África do Sul, 2001.

18
16
14
12
10
8
6
4
2
0
63

49

59

78

82

85

88

91

94

97

00

03

06

09
18

19

19

19

19

19

19

19

19

19

20

20

20

20

Setor Público Sociedade Civil Total

Gráfico 3: Número de organizações por ano de criação. Nordeste, 2009


Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

Áreas de atuação, público e ocupados nas organizações

No que se refere às áreas de atuação, há predominância para


educação (presente entre as três mais importantes áreas de atuação em
77% das organizações), direitos humanos e ação afirmativa (71%) e arte e
cultura (70%) (Gráfico 4). No primeiro caso, uma explicação possível é a
existência da Lei 10.639/03, que motiva a atuação na área; no segundo
caso, provavelmente, a intensificação das ações de combate ao racismo e
as políticas de cotas nas universidades; e, em relação à arte e cultura, é a
pujança da cultura negra que certamente influencia a emergência de

3
organizações com essa característica. Uma análise das questões abertas
também indica que a cultura é área forte na escolha das organizações.
Essas três áreas do Nordeste estão igualmente presentes entre as
de maior atuação nas organizações do setor público e nas da sociedade
civil, porém em intensidade e ordem hierárquica diferentes. As
organizações da sociedade civil atuam muito mais intensamente na área
de arte e cultura e as do setor público em direitos humanos e ação
afirmativa.

90,0

80,0
78,4 80,4 78,2
70,0
75,9 70,1 70,7
66,9
60,0 76,6
50,0
49,0
45,9
40,0
39,7
30,0

20,0 21,6 23,3 22,8


17,6 20,3 18,0 19,6 17,4
10,0 15,7
23,5 11,8 15,0 14,1
0,0
Setor público Sociedade Civil Total

Arte e Cultura Educação


Meio-Ambiente Emprego, Trabalho e Renda
Saúde Direitos humanos e Ações Afirmativas
Informação Outra

Gráfico 4: Porcentagem das áreas de atuação das organizações por tipo.


Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

As organizações pesquisadas foram instadas a informar os três


principais públicos com que trabalham. A população negra, de modo geral,
aparece como o público principal para 81% delas, seguida da infância e
adolescência (73%), da população quilombola e das mulheres negras,
presentes em metade das organizações. Os grupos indígenas (11%) e o
das lésbicas, gays, bi-sexuais e transgêneros, com 17%, são os menos
assinalados pelos/as respondentes (Gráfico 5).
Esse quadro não se altera em relação aos grupos menos assistidos
pelas organizações do setor público e da sociedade civil. Contudo, a
hierarquia resulta diferenciada em relação à infância e juventude e à
população quilombola. A infância e adolescência estão mais contempladas

3
por organizações da sociedade civil (82%), do que no setor público (47%),
chamando atenção o fato de que a sociedade toma a si a responsabilidade
de cuidar desses segmentos tão vulnerabilizados, enquanto o Estado atua
junto a esse público, mas não lidera os percentuais, como deveria.
Quanto à população quilombola, são as organizações do setor
público que a assumem mais intensamente (64%), enquanto nas
organizações da sociedade civil encontramos um percentual menor (43%).

3
90,0
80,0 81,581,5 81,1
80,0
70,0 72,6
60,0 64,4
50,0 50,3
46,7 51,1 45,4
40,0
50,3
30,0 50,0
20,0 13,3 10,8 11,4
20,0 17,7 18,3
10,0
15,9 17,7 17,2
0,0
Setor Público Sociedade Civil Total

População negra Infancia e juventude


Quilombolas Mulheres negras
Outro Lésbicas, gays, bi-sexuias e trangêneros
Índígenas

Gráfico 5: Público preferencial por tipo de organização. Nordeste, 2009


Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

Em relação ao número de pessoas atendidas anualmente, a média


foi calculada em 1.763, sendo que 20% das organizações atendem até 100
pessoas/ano e metade até 300 pessoas/ano. O Museu Afro-brasileiro, em
Salvador, com 30 mil pessoas/ano, é a instituição que declarou atender ao
número maior de pessoas; a organização que afirmou possuir o menor
público é a Mulheres Desempregadas, de Maceió, com 10 pessoas/ano.
O número de pessoas atendidas a cada ano é obviamente maior no
setor público (4,3 mil/ano) do que na sociedade civil (1,0 mil/ano), embora
as organizações da sociedade civil sejam em maior número. Esse fato é
previsível, vez que, para cada estado, há muitas organizações da
sociedade civil, enquanto o setor público possui um órgão de promoção da
igualdade, em algumas de suas secretarias municipais ou estaduais e
algumas universidades possuem, geralmente, apenas um ou dois núcleos
de estudos voltados para a questão racial.
Em média, as organizações ocupam 42 pessoas. Dez instituições
têm até quatro pessoas ocupadas e nove mais de 100. No conjunto dos
ocupados, 51% são mulheres, e 82%, negros10.
10 Os quesitos número de mulheres e homens e o de negros e brancos que atuam nas
organizações apresentam algumas discrepâncias que devem ser mencionadas. Em
primeiro lugar, o número total de mulheres e homens diverge do de negros e brancos, a
favor da distribuição por sexo na maioria das vezes. Nesse texto, consideramos o valor
mais elevado para a totalização da quantidade de pessoas atuando nas organizações.
Outro viés advém do fato de algumas organizações ligadas ao mundo dos espetáculos
terem contabilizado o número de pessoas que participam dos eventos, especialmente do
carnaval, no total de pessoas que atuam na organização. Nesse caso, alertamos para a
2
Aspectos da comunicação e da divulgação

É relativamente pequeno o número de organizações que possui


assessoria de imprensa (29%)11. A situação é mais precária entre as
classificadas como da sociedade civil, já que apenas 21% utilizam esse
tipo de profissional, contra metade das organizações do setor público.
Esse fato pode ser explicado pela baixa compreensão das organizações
sociais acerca da importância de organizarem ações de comunicação e
marketing, sobretudo com a contratação de especialistas na área. Já a
falta de compreensão é fruto da histórica concentração dos meios de
comunicação em poucos grupos familiares e da idéia errônea de que
comunicação é algo inacessível e demasiadamente caro, apesar do
crescimento de veículos alternativos, do barateamento das tecnologias de
comunicação e informação e da possibilidade de utilização das brechas na
própria estrutura oligárquica da mídia.
O uso de telefone, no entanto, é generalizado: 162 organizações têm
aparelhos12 sendo que 17 forneceram mais de um número. Contudo, o
número de fax é reduzido, apenas 53, dos quais 25 no setor público e 28
nas organizações da sociedade civil.
Outra forma de comunicação bastante difundida é o e-mail: 141
organizações informaram o endereço eletrônico, sendo 36 do setor público
e 105 da sociedade civil. Entretanto, apenas 50 organizações têm site: 20
são de instituições do setor público e 30 da sociedade civil.
Em relação às formas de divulgação, prevaleceu a utilização de
folders e folhetos por parte de 64% das organizações. Em segundo lugar,
os sites, blogs e outras formas de comunicação virtual, à exceção dos
boletins eletrônicos, são utilizados por mais da metade das organizações
(52%). Embora com importâncias relativas distintas, essas formas são
natureza dos resultados apresentados.
11 Oito organizações não responderam ao quesito.
12 Devemos destacar que muitas organizações não possuem número(s) de telefone fixo,
apenas de aparelhos celulares.
4
prevalecentes tanto em relação às organizações do setor público quanto
da sociedade civil (Tabela 3).

TABELA 3
Formas de divulgação utilizadas pelas organizações. Nordeste,
2009
%13
Setor Sociedade
Forma de
divulgação Público civil Total
Folder ou folhetos 68,5 61,5 63,5
Jornal ou periódico 22,2 17,0 18,5
Vídeos 22,2 34,8 31,2
Boletim eletrônico 29,6 25,2 26,5
Site, blog com.
virtual 59,3 48,9 51,9
Outras 27,8 37,0 34,4
Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

Esse quadro da comunicação das organizações está na origem da


avaliação feita no momento da pesquisa: mais de 2/5 dos/as respondentes
classificaram a situação atual da comunicação como regular, ruim ou
péssima. Embora as organizações do setor público tenham mais acesso à
comunicação, a avaliação é mais negativa exatamente nesse segmento,
como pode ser observado na tabela seguinte:

TABELA 4
Avaliação da situação atual da comunicação da organização.
Nordeste, 2009
%
Setor Sociedade
Avaliação Total
Público civil
Ótimo 4,3 21,8 16,9
Bom 42,6 39,5 40,4
Regular 38,3 26,1 29,5
Ruim 14,9 10,1 11,4
Péssimo 2,5 1,8
Total 100 100 100
13 Percentual das respostas válidas.

2
Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

Dirigentes das organizações

As informações sobre raça ou cor e sexo dos/as dirigentes revelam


predominância de pretos (76%) e pardos (19%), assim como de mulheres
negras (50%), sobretudo no setor público (62%); na sociedade civil, os
homens negros são maioria (52%) (Tabela 5). Aqui se vê uma inversão do
que ocorre na sociedade em geral, onde são os brancos e os homens que
se encontram nos postos de direção, até mesmo onde mulheres e negros
são maioria.

TABELA 5
Dirigentes das organizações por cor ou raça e sexo. Nordeste,
2009

Setor público Sociedade civil Total


Raça ou
Quant Distribuição Distribuiçã Quan Distribuiçã
cor e sexo Quant.
. (%) o (%) t. o (%)
Negros 50 90,9 126 96,9 176 95,1
Homem
negro 16 29,1 68 52,3 84 45,4
Mulher negra 34 61,8 58 44,6 92 49,7
Brancos 5 9,1 2 1,5 7 3,8
Mulher
branca 5 9,1 2 1,5 7 3,8
Indígenas 2 1,5 2 1,1
Homem
indígena 1 0,8 1 0,5
Mulher
indígena 1 0,8 1 0,5
Total 55 100 130 100 185 100
Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

A escolaridade dos/as dirigentes mostra percentual elevado com


nível superior, inclusive com pós-graduação. Isso é animador,
considerando-se a exclusão histórica e sistemática dos negros da
2
educação, até mesmo com proibição de ir à escola, no pós-abolição. As
ações afirmativas, sobretudo as cotas e programas de permanência,
provavelmente, contribuem para esse crescimento no nível de
escolaridade.
Contudo, o quadro resulta radicalmente diferenciado em função da
instância administrativa das organizações, devido ao contingente de
pessoas com elevada instrução nas organizações do setor público.
Enquanto a parcela com instrução igual ou maior que o curso superior
completo nas organizações da sociedade civil é de 42%, essa proporção
chega a 89% no setor público, como se percebe no gráfico seguinte. A
exigência de nível superior para cargos de direção no setor público pode
ser um dos fatores de influência para esse percentual encontrado, além do
próprio crescimento de escolaridade dos/as negros/as, já referido.

100%
20,0
90% 28,7
4,4
80% 50,0
17,0 7,9
70%
60% 18,5
17,0
50% 16,7 13,2
40%
26,7
30% 22,2 3,7 20,6
20% 5,6 1,6
9,6 2,2 6,9
10% 1,9
3,0 2,1
0%
Setor Público Sociedade Civil Total
Fundam ental incompleto Fundam ental completo Médio incom pleto
Médio com pleto Superior incom pleto Superior com pleto
Pos-graduação incom pleta Pós-graduação com pleta

Gráfico 6: Distribuição do grau de instrução dos/as dirigentes das


organizações. Nordeste, 2009
Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

Questões abertas

Neste item, analisamos as respostas a questões abertas do


questionário aplicado às organizações, quando foi solicitado que
expusessem seus objetivos, projetos em andamento, pontos fortes, pontos

3
frágeis, dificuldades, principais parcerias e fontes de financiamento. A
análise resulta da leitura atenta a essas respostas, relacionando-as ao
conteúdo das falas dos/as representantes das organizações presentes aos
encontros.

Objetivos das Organizações

Considerando o conjunto das organizações pesquisadas, de acordo


com os objetivos declarados no questionário aplicado, fica evidente sua
atuação diversa, com incidência em questões que passam pelo propósito
de “construção de uma sociedade mais democrática”. O combate ao
racismo e a promoção da igualdade racial traduzem-se na perspectiva de
atuar em áreas como profissionalização da juventude negra, arte,
educação, cultura, direitos de crianças e adolescentes, pesquisa e outros
(ver listas anexas de respostas).
As respostas mais frequentes dão conta do objetivo de proporcionar
acesso a atividades culturais, sobretudo a crianças e jovens, sendo que a
educação – profissionalização, formação, cursos, seminários – também
sobressaem nas respostas dadas, assim como pesquisa, ensino e
extensão.
As organizações da sociedade civil, nas respostas ao questionário,
referem-se a resgatar a identidade negra, conscientizar, levar informação
a crianças e jovens, promover a auto-estima, educar sem esquecer as
nossas raízes, tirar crianças e adolescentes da rua, mas também ser auto-
sustentável, articular ações com o poder público, formar educadores,
defender os direitos humanos, atuar no reconhecimento e valorização das
terras quilombolas, contribuir para a equidade racial e de gênero, manter
as tradições, desenvolver ações afirmativas em favor da pessoa negra,
enfim.
Já as organizações do setor público referem-se, contundentemente,
por exemplo, a “diminuir o déficit social, a fome, a miséria no seio das
comunidades afro-descendentes” como objetivo de sua existência na
estrutura de governo, criadas para articular as políticas governamentais.
3
Se, além das finalidades para que as organizações pesquisadas
foram criadas e/ou existem, consideram-se projetos que concretamente
realizam no momento da pesquisa, temos uma idéia acerca de como as
idealizações conseguem ser postas em prática, quando, mais uma vez, as
atividades de cultura e educação sobressaem, traduzidas em cursos,
seminários, capacitação, formação, temas recorrentes e valorizados no
processo de resistência negra no Brasil.

Projetos em Execução

Quando se focalizam os projetos que as organizações estão


executando, as respostas, em geral, variam de ações de cunho cultural e
valorização estética (dança, teatro, culinária etc.), passando por iniciativas
no campo da educação (Lei 10.639, cursos pré-vestibular e alfabetização
de adultos) e ações de mobilização, como campanhas, encontros e
seminários.
Chama atenção, no conjunto de respostas, a presença de respostas
que falam de projetos “em preparação”, posto que se trata de uma idéia
ainda não posta em prática, indicando que essas organizações não têm,
no momento, ações em curso, provavelmente, por falta de condições
efetivas de realização.
No Setor Público, ações de fortalecimento institucional, criação de
espaços de participação social (conselhos), formação de professores/as e
implementação da Lei 10.639/03 são os principais projetos em
andamento. No caso das Universidades, projetos de permanência de
estudantes cotistas e pesquisas acadêmicas são as principais referências.
Já na Sociedade Civil, são citadas, em especial, ações de arte e
cultura, ações educativas (formação profissional, Educação de Jovens e
Adultos, pré-vestibular etc.) e campanhas voltadas para a juventude
negra.
Quando perguntados sobre dificuldades que enfrentam, os/as
respondentes apontam a dificuldade em “obter recursos” como um grande
problema para a execução dos projetos. Conclui-se, portanto, que, apesar
4
do grande potencial das organizações, a quantidade de projetos em
andamento poderia ser maior e os projetos poderiam ser mais
significativos, caso existisse um apoio sistemático por parte dos órgãos
públicos, empresas e/ou agências de cooperação.

Dificuldades e pontos frágeis

Muitas são as dificuldades e/ou pontos frágeis das organizações


representadas nos Encontros do Mapeamento. Dentre as principais
dificuldades, confundindo-se com os pontos que os sujeitos pesquisados
consideram mais frágeis, estão a sustentabilidade e a formação política.
Com relação à sustentabilidade, às vezes as pessoas entrevistadas
se referiram explicitamente, usando esse termo, mas, outras vezes,
falaram ou assinalaram no questionário opções, como: recursos
financeiros, infra-estrutura; falta gente pra trabalhar, falta pessoal, falta
sede, faltam recursos humanos, faltam recursos materiais e
equipamentos. Associadas à formação política, encontramos a expressão
em si e outras, como: baixa ou pouca participação nas reuniões e frentes
de trabalho; não há aceitação para os temas desenvolvidos; há poucos
militantes.
Essas dificuldades, presentes no cotidiano do trabalho, relacionam-
se a outras que mencionam quando interrogados/as diretamente acerca
de parcerias e fontes de financiamento, por exemplo. As respostas
mostram a insuficiência de recursos financeiros, apontada diversas vezes
e de diversas formas, o que explica a incidência maior de respostas sobre
dificuldades de financiamento. Se mais acessível, o financiamento daria
certa sustentabilidade, a médio e longo prazo, a essas organizações, seja
no setor público, seja na sociedade civil.
Com efeito, os recursos a que as organizações têm acesso, quando o
têm, são provenientes dos cofres públicos, e o acesso se dá, geralmente,
através de editais e formas similares de concorrência. Para as
organizações da sociedade civil, maioria de acordo com este Mapeamento,
participar das concorrências, nos moldes em que acontecem, exige estar
3
legalizadas, implica em estar em dia com obrigações que também
demandam recursos, implica lidar com a burocracia (também citada como
uma dificuldade em questão aberta do questionário).
Esse investimento na busca de recursos nem sempre se coaduna
com a natureza de muitas das “pequenas” organizações e quase sempre
se constitui em transtorno, especialmente para grupos de jovens, de
dança, mulheres, capoeira, hip-hop, quilombolas. Paradoxalmente, o que
precisam para se desenvolver, atuar, crescer, pode significar um sacrifício,
inclusive das próprias ações que realizam, uma vez que muito do esforço
se volta pra conseguir recursos, às vezes em prejuízo das ações-fim.
Nesse sentido, a cooperação internacional faz falta, pois aparece muito
pouco entre as principais fontes de financiamento das ações realizadas
pelas organizações; o maior investidor é o governo federal, estadual e
municipal cujas exigências burocráticas são enormes.

Fontes de financiamento

Ao analisar as principais fontes de financiamento foram identificadas


iniciativas de autofinanciamento através de doações voluntárias dos/as
militantes, recursos públicos, cooperação internacional, iniciativa privada
e eventos para captação de recursos. Há, portanto, uma diversidade de
fontes, o que não significa que exista uma estratégia de sustentabilidade
definida.
Em geral, chama atenção o fato de poucas organizações da
sociedade civil apontarem a comercialização de produtos e/ou serviços
como forma de financiar suas ações e diminuir a dependência de agentes
externos, o que pode ser caracterizado como uma contradição pois, com
um grande número de organizações trabalhando com o segmento cultural,
a venda de CDs, DVDs, camisas, shows e demais produtos de
entretenimento seria uma alternativa financeira bastante viável, como já
fazem os blocos afro, na Bahia, por exemplo.
Outro aspecto interessante é a quantidade de organizações que
disseram não ter financiamento ou parceria alguma, o que nos leva a
3
afirmar que a causa da igualdade racial é um tema, de fato, com
dificuldade de financiamento, haja vista que a região Nordeste em si é
uma região que historicamente tem recebido significativos apoios para o
desenvolvimento e enfrentamento à pobreza e que, nos últimos anos, é a
região que mais cresce no Brasil.14
Ao analisar os principais financiadores no segmento sociedade civil,
registra-se uma incidência bastante significativa de respostas apontando o
governo municipal, estadual e federal, em especial, os órgãos de
promoção da igualdade racial dessas estruturas, todos com problemas de
recursos, eles próprios.
Já as organizações do setor público, são financiadas, em geral, pelo
próprio orçamento público, verbas “carimbadas” de programas do
Governo Federal, emendas parlamentares e, em menor nível, pela
cooperação internacional.

Resultados por Segmento

Sociedade civil

Os aspectos a seguir, em síntese, são as principais características


que podem ser apontadas como aquelas que se encontram presentes nas
organizações da sociedade civil, identificadas nesta pesquisa:

Visão diferenciada sobre a questão racial nos estados

Em virtude das diferenças regionais, tempo de organização do


Movimento Negro no estado e sua composição racial, as organizações

14 Segundo a Revista Exame (19/04/2007), desde 2001, a economia nordestina vem


crescendo a taxas superiores à média nacional, enquanto a média da região foi de 4,2%
nesse período; o país cresceu 2,3%. Se fosse um país isolado do resto do Brasil, o
Nordeste hoje teria um crescimento semelhante ao da Irlanda.
http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0891/economia/m0127107.html
3
consideradas como da sociedade civil possuem grande diversidade em
suas bandeiras políticas e prioridades.
Sendo assim, em alguns estados, como Bahia, Pernambuco e
Maranhão, o conhecimento sobre a questão racial já não mais se encontra
restrito ao grupo de militantes, há uma consciência negra mais forte e
mais visível; em outros estados, porém, como Ceará, Paraíba e Rio Grande
do Norte, o Movimento Negro se empenha prioritariamente no
reconhecimento de uma identidade negra, aspecto que em outros estados
já pode ser secundário.
Nesse último grupo de estados, apesar de haver um significativo
percentual de negros/as na população, a identidade negra é bastante
referida através de termos que cumprem um papel de camuflá-la, a
exemplo de moreno, mulato, etc. Na Paraíba, registrou-se fortemente o
apelo à necessidade de visibilização do Movimento Negro que, segundo
os/as pesquisados/as, é invisível para o resto do país.

Emergência de novos atores

Um dos aspectos que mais chamou atenção nas visitas feitas pela
equipe de pesquisa foi a crescente incorporação de novos atores políticos
ao Movimento Negro. São grupos que não fizeram parte da geração
anterior de militantes, mas que ,ao longo dos anos, foram assumindo mais
e mais a pauta política do anti-racismo em suas ações. É o caso do
Movimento Hip-Hop, dos/as religiosos de matriz africana e de outros
grupos culturais que sempre fizeram política negra, mas nem sempre
eram considerados enquanto tais ou que nem sempre se auto-percebiam
nesse lugar.
Assim, o hip-hop mostrou-se preocupado e/ou envolvido com a
formação política de seus membros, mas também da juventude negra e
não negra15. Por conta da intolerância religiosa, outros pela adesão de
ativistas do movimento negro a essas religiões e, ainda, pelas formas

15 Lembrando que o movimento, em si, já é político, mas percebemos o desejo e


identificamos mesmo ações especificas de formação política, para dentro e para fora do
movimento.
3
como a violência racial se mostra nas comunidades onde os terreiros se
inserem, pais/mães de santo demonstraram que sua ação não alcança
apenas os/as que estão dentro da religião ou que a procuram; os/as que
encontramos, participam de fóruns, conferências, atos públicos, e
interferem de várias maneiras na situação de desigualdade racial,
incorporando essas ações a sua prática religiosa.
Por outro lado, há também novas agremiações que se reivindicam
parte do movimento negro, mas que não possuem relação com o chamado
“movimento negro histórico”, como associações profissionais, ONGs,
grupos oriundos de partidos, do movimento sindical.
A pesquisa mostra que existem tensões e disputas, mas também
uma tendência de constituição de um novo “campo político negro”. Esse
campo delineia-se como composto pelo movimento negro mais tradicional,
mas também por núcleos partidários e sindicais, grupos de hip-hop e
juventude negra, agremiações profissionais (advogados/as negros,
comunicadores/as negros, etc.), ONGs com projetos/ações anti-racismo,
núcleos de estudantes e pesquisadores/as, religiosos (matriz africana,
cristãos negros/as – católicos/as), grupos culturais, em geral, e outros.

Questão geracional e rural/urbano

As diferenças etárias e a identidade territorial são aspectos que


emergem na pesquisa. No primeiro caso, são conflitos na disputa política
dentro do movimento ou até mesmo dentro das organizações
pesquisadas. Se, por um lado, os/as jovens acusam os/as ativistas mais
experientes de centralizar os debates e recursos, esses/as ativistas
afirmam que os jovens estão despolitizados e não os/as ouvem para dar
continuidade à luta anti-racismo. Ocorre que, em geral, existe pouco
diálogo entre as duas gerações, fazendo com que adotem diferentes
estratégias de ação que não são excludentes.
No caso das diferenças rural/urbano, é notório que o movimento
negro é majoritariamente urbano, mas percebe-se um avanço na
promoção da igualdade no campo, em especial, nas comunidades
3
quilombolas que são, cada vez mais, alvo de políticas públicas
governamentais, apesar de os militantes negros urbanos criticarem a
desracialização da luta quilombola, uma vez que essas políticas seriam
mais aceitáveis pelo poder público em virtude de tratar-se de programas
de assistência social básica, como saneamento básico, segurança
alimentar, saúde etc.

Liderança de mulheres negras

Contrastando com os dados da sociedade em geral, dentro das


organizações que pautam a luta anti-racismo, as mulheres ocupam um
papel de destaque, em especial na gestão pública, conforme dados
quantitativos já referidos. Esse fato deve relacionar-se ao movimento de
mulheres negras, que reivindica o fim das desigualdades nas relações de
gênero dentro do movimento negro e que vem ocupando mais espaços de
poder dentro desse campo político. Outro fator relevante é o aumento da
escolaridade dessas mulheres que, por sua vez, ficam mais aptas a
assumir cargos de direção em instituições do movimento e de órgãos de
promoção da igualdade.

Diversidade e predominância em expressões artístico-culturais

Identificamos que o principal foco do movimento negro na região


Nordeste é a realização de atividades de cunho artístico-cultural. Isso
talvez se explique pelo fato de que o campo da cultura foi um dos poucos
espaços onde foi permitido aos negros/as se colocarem através da
capoeira, da música, da dança e das demais manifestações artísticas.
Apesar de cumprir um papel histórico importante para denunciar o
racismo e disseminar a mensagem de consciência negra, a cultura
precisaria estar lado a lado com outras demandas que se apresentam
contemporaneamente, como: incidência em políticas públicas, disputa
pela opinião pública, desenvolvimento econômico, etc.

3
Busca de sustentabilidade e de formação política

As organizações pesquisadas, em sua maioria, reclamam das


dificuldades financeiras encontradas para manter o trabalho que
desenvolvem, pois alegam dificuldade de captação de recursos, fruto das
exigências dos editais públicos, da centralização dos recursos no Sul-
Sudeste e da dificuldade de compreensão da questão racial pelo
empresariado. Poucas organizações possuem uma estratégia de
sustentabilidade e a maioria não consegue manter um corpo de
funcionários dedicados à mobilização de recursos.
As organizações queixam-se de não terem uma estrutura para
formação política de seus quadros, principalmente os mais jovens. Com
um certo saudosismo da militância política dos anos 1980, afirmam que,
naquela época, a formação era um dos pilares do movimento e que esse
aspecto foi, com o tempo, minimizado dentro das organizações. Aliado a
isso, falta conhecimento sobre fontes de financiamento, sobre as formas
de captação de recursos e até mesmo sobre como se adequar às
exigências das fontes de financiamento.

Desenvolvimento econômico e empresariado

Questões relacionadas ao papel do empresariado foram observadas,


embora não tenha sido possível explorá-las com mais detalhes nas visitas
realizadas de apenas dois dias em cada estado.
Apesar de haver uma tendência, dentro do terceiro setor, em buscar
aproximações com o segmento empresarial progressista, visando
estabelecer parcerias de responsabilidade social, não foi identificado como
isso se reflete nas organizações pesquisadas. A presença dos movimentos
negros da região junto ao empresariado parece incipiente, até porque
falta aos financiadores empresariais uma conscientização acerca da
dimensão racial como determinante da pobreza em nosso país. O
movimento negro, tudo indica, não vê o segmento empresarial como

2
agente estratégico de mudanças sociais e falta diálogo entre os dois
segmentos.
Identificamos uma parceria, no estado de Alagoas, entre a ONG
Maria Mariá e a Federação das Indústrias do Estado de Alagoas, mas não
foi possível explorar como se dá, ou como foi estabelecida. A Associação
dos Coletivos de Empresários Negros (ANCEABRA), na Bahia, se fez
presente em um dos encontros, quando seu representante reclamou da
não valorização do aspecto ascensão social de negros/as, da dimensão
econômica, no combate ao racismo e na promoção da igualdade. Em
Pernambuco, durante o Mapeamento, um empresário negro foi contatado
por uma Consultora da Kellogg, a fim de ver as possibilidades de
contribuição mais sistemática à questão, mas não temos conhecimento
dos resultados do contato.

Setor público

Identificamos órgãos governamentais que implementam políticas de


igualdade racial em nível estadual e municipal. O aspecto mais criticado,
por parte dos pesquisados/as, ao avaliar o segmento de governo,
independente da instância administrativa, é o fato de o tema equidade
racial ainda não ter força para figurar como linha de ação estratégica fora
dos órgãos de promoção de igualdade.
A questão do combate ao racismo é invisibilizada na ação
estratégica dos governos. Não está na prioridade nem da administração
estadual nem da municipal e, portanto, não está prevista no orçamento.
“Há um esforço grande para fazer políticas, mas não há política”, analisa
Claudilene Silva, gerente do Núcleo de Cultura Afro-brasileira de Recife.
As principais questões enfrentadas pelos núcleos de promoção da
igualdade são: o racismo institucional, que impede a efetivação de
políticas públicas; ausência de uma política estratégica e coordenada de
ação governamental; falta de articulação entre as políticas, que se
constituem em ações isoladas e pontuais; falta de efetividade no
cumprimento da Lei 10.639/03, sobretudo porque a formação de
3
professores/as é tímida e não há recursos alocados para garantir a
implementação.
A falta de compreensão da questão racial e o racismo
institucionalizado são as principais causas da ineficácia das políticas de
igualdade racial e de combate ao racismo. Em geral, o enfrentamento às
iniquidades raciais não é prioridade das gestões cuja estratégia adotada é
“guetizar” os órgãos, conferindo-lhes, mesmo sem orçamento, toda a
responsabilidade por essa agenda política. Mesmo nas gestões
ideologicamente mais próximas ou mais sensibilizadas com a questão,
essa dificuldade foi apontada.

Racismo institucional e efetivação de políticas

Considerando as organizações entrevistadas que produzem e


disseminam conhecimento, embora o momento político seja favorável, o
avanço é lento e as ações ainda decorrem do esforço militante de
professores/pesquisadores/as, com pouco apoio da universidade,
enquanto instituição.
O principal entrave para o avanço ainda é o racismo institucional
dentro das universidades, o que dificulta desde a realização de projetos,
passando pela formação de parcerias e mesmo a obtenção de recursos
que são escassos.

Considerações Finais

Neste item, apresentamos uma síntese do que consideramos


particularmente relevante na pesquisa exploratória realizada, com base
nos Informes por estado (Ver anexo)16, elaborados logo após a visita a
cada um deles, e também com base nas análises de respostas contidas no
questionário aplicado, por organização.

16 Os Informes contêm caracterização da presença negra em cada estado, apresentam


dados de questões fechadas do questionário e relatam a visita de dois dias a cada
estado, quando foram identificadas organizações, lideranças e outros representantes das
organizações, os quais participaram de rodas de conversa e de entrevistas.
3
Foram identificadas, nos estados pesquisados, além de organizações
“independentes”, de natureza bastante heterogênea e com formas
diversificadas e graus diferentes de atuação, alguns coletivos que
congregam outras organizações – Fóruns e Articulações, estaduais ou
municipais, além dos já conhecidos em nível nacional, como CEN e
CONEN, também representados.
Os coletivos são organizações que dizem ter como objetivo
fortalecer o movimento negro e retomar uma articulação política, no
sentido de fazer frente às demandas inerentes ao racismo como apresenta
contemporaneamente. Na Bahia, especificamente, o Fórum de Entidades
Negras diz que foi criado para articular agremiações em torno do
Carnaval.
No geral, as demandas das organizações se referem, basicamente: à
luta contra a violência policial que atinge sobremaneira jovens negros; ao
enfrentamento da reação das elites contra os direitos de quilombolas e
contra as cotas raciais nas universidades e pela efetivação da lei
10.639/03, dentre outros. Toda conquista de direitos abala privilégios. O
Movimento e suas lideranças necessitam pensar estratégias renovadas
para combater formas também renovadas de manifestação do racismo.
Praticamente em todos os estados, observa-se a preocupação em dar
respostas a essas situações, continuar a luta e consolidar as políticas de
igualdade.
Dessa forma, a iniciativa de criar coletivos de organizações ou
rearticular os existentes parece caracterizar esse momento vivido
contemporaneamente pelas organizações.
Ao mesmo tempo, é expressiva a quantidade de organizações de
naturezas diversas, com os mais diversificados objetivos, mas sempre
atuando em condições inadequadas e precárias, do ponto de vista
financeiro e de infra-estrutura. A maior parte das organizações não-
governamentais e lideranças que atuam no movimento negro estão
ligadas ao campo artístico-cultural e buscam sustentabilidade para
cumprir suas metas.

4
Em todos os estados, há organizações diversas em sua natureza e
em estágios diferenciados; os movimentos, ações e políticas em curso
também se apresentam com uma diversidade evidente. Em alguns, como
Paraíba e Ceará, o movimento é muito mais invisibilizado do que pouco
representativo. Pernambuco, Bahia e Maranhão possuem organizações
mais consolidadas e em maior número do que no Rio Grande do Norte, por
exemplo, onde as desigualdades raciais ainda precisam de
reconhecimento e visibilidade.
Em termos das políticas de promoção da igualdade, os dados
confirmam que ainda é preciso fazer muito, pois a articulação e a
transversalização são bastante precárias; não se tem, ainda, uma
estratégia coordenada de ação governamental. Nas universidades, há
estudos e pesquisas que ainda não fortemente assumidos pelas
instituições acadêmicas, uma vez que, via de regra, resultam de esforços
individuais de professores/pesquisadores junto a alunos/orientandos. Em
ambos os casos, Governo e Universidade, o racismo institucional impede a
efetivação de ações, ainda pontuais e desarticuladas.
Identificamos que poucas organizações no Nordeste brasileiro
pensam a comunicação como ação estratégica para o enfrentamento ao
racismo. A maioria delas utiliza apenas a comunicação instrumental (site,
blog, panfletos, etc.), mas quase nunca se pensa na idéia do direito
humano à comunicação, na propriedade de meios, apesar dessa pauta
dentro dos movimentos sociais ter crescido bastante a partir de 2005, com
as mobilizações da Articulação Nacional pelo Direito à Comunicação.
Em Alagoas, a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial
(COJIRA), do Sindicato dos Jornalistas, possui uma coluna semanal em um
jornal de grande circulação); na Paraíba, um comunicador se articula com
os movimentos negros e divulga suas ações na internet; na Bahia, o
Instituto Mídia Étnica, formado por jovens comunicadores/as e que
possuem um portal de notícias, uma rede social e parcerias com
universidades para formação de estudantes de comunicação no que tange
à questão racial.

4
No geral, as organizações possuem apenas website/blog e divulgam
suas ações por meio digital, mas não utilizam os serviços de assessoria de
imprensa nem ocupam os espaços abertos dos jornais (carta do leitor,
seção de opinião e Ombudsman). A não ocupação de espaços na mídia
abre brechas para a hegemonia de segmentos contrários às políticas de
igualdade racial dentro da opinião pública.
A efetivação da Lei 10.639/03, estratégica na educação das relações
étnico-raciais, foi bastante referida, mas poucas ações consistentes foram
identificadas. Uma exceção foi a aprovação de uma lei no estado de
Pernambuco, determinando que toda formação de profissionais de
educação, em Recife pelo menos, é obrigada a incluir conteúdos relativos
à questão racial.
Os principais aspectos que consideramos característicos das
organizações pesquisadas encontram-se comentados no corpo do
Relatório e são:
Visão diferenciada sobre a questão racial nos estados:

a) Emergência de novos atores


b) Questão geracional e rural/urbano
c) Liderança de mulheres negras
d) Diversidade e predominância em expressões artístico-
culturais
e) Busca de sustentabilidade e de formação política
f) Desenvolvimento econômico e empresariado
g) Racismo institucional e efetivação de políticas

Por fim, chamamos atenção para a necessidade de se dar


continuidade ao Mapeamento, de modo a contemplar organizações
existentes nos estados, mas que não foi possível incluir, por diversas
razões, incorporando as estruturas existentes, nos governos, nas
universidades e nas organizações da sociedade civil, o que será produtivo
até mesmo para consolidar sua legitimação na luta anti-racismo, o que
ocorreu com o CEAFRO, ao participar deste trabalho.

2
2.1.2 Mapeamento de lideranças, conhecimento, políticas,
organizações, movimentos e financiadores no campo da equidade
racial e inclusão social no Nordeste brasileiro.

Antecedentes

A Fundação Kellogg (FK), com mais de 60 anos de trabalho no Brasil,


adotou recentemente uma nova programação, para um período de cinco
anos, que visa facilitar um conjunto de ações dirigidas à criação de
mecanismos sustentáveis que favoreçam uma maior equidade racial para
a inclusão social. Dessa forma, tem o intuito de fortalecer o engajamento
cívico e filantrópico em torno dessas questões na sociedade brasileira. A
Fundação Kellogg tem uma oportunidade única de contribuir, de forma
inovadora e criativa, para superar uma das barreiras principais para a
justiça social e o desenvolvimento no Nordeste do Brasil.
Porem, a FK acredita que, para atingir seus objetivos, é fundamental não
atuar isoladamente, mas, pelo contrário, estabelecer parcerias, convocar,
mobilizar e apoiar as organizações, movimentos e lideranças que atuam
com objetivos semelhantes no campo governamental, não-governamental
e empresarial. Para que isso aconteça, é preciso ter um conhecimento
profundo de quais são as políticas, lideranças e organizações que facilitam
processos relacionados a equidade racial, bem como as barreiras
estruturais que impedem uma maior equidade racial para a inclusão
social.

Objetivo

O objetivo destes Termos de Referencia (TR) é o de oferecer um


marco conceitual e operativo para a tarefa a ser desenvolvida por uma
equipe de trabalho para:

4
a) Identificar, descrever e analisar as políticas públicas de
equidade racial em cada um dos nove estados do Nordeste;
potencial, limitações, financiamento, contexto político
administrativo, articulações com políticas nacionais.
b) Identificar, descrever e analisar os principais movimentos
sociais e organizações não governamentais que atuam no
campo da equidade racial para a inclusão social nos nove
estados do Nordeste: breve histórico, situação atual,
fortalezas e fraquezas; articulações com outros movimentos
ou organizações.
c) Identificar, descrever e analisar os principais financiadores,
fundos e doadores atuantes no Nordeste, com particular
ênfase naqueles que tem foco em temas como equidade
racial, inclusão social, justiça social, direitos humanos e
desenvolvimento social e que têm como população alvo
mulheres e jovens afro-descendentes.
d) Identificar, descrever e analisar as principais lideranças
individuais (pessoas) atuantes na área de equidade racial
no campo privado, não-governamental e público.
e) Identificar, descrever e analisar as principais organizações
que geram e disseminam conhecimento (universidades,
ONGs, centros de pesquisa, think-tanks) na área de
equidade racial no Brasil.

Escopo do trabalho

O trabalho de pesquisa será feito durante um período de três meses,


a partir da assinatura de um contrato com o pesquisador responsável pela
equipe. A pesquisa consistirá em consulta a fontes secundárias,
entrevistas com informantes-chave e pesquisa bibliográfica e documental.
Será necessário viajar a cada um dos estados do Nordeste e
possivelmente a Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Após o trabalho de
campo, a equipe terá 30 dias para apresentar os relatórios finais. O tempo
total do trabalho não poderá exceder a quatro meses.

Produtos

Os produtos esperados do trabalho são informes específicos, por


cada uma das cinco áreas de trabalho de não mais de 10 páginas cada
um. Também será apresentado um sexto documento geral - de não mais
de 10 páginas - contendo um resumo executivo do conjunto do trabalho e
2
as conclusões gerais. Os informes serão entregues, com uma cópia
impressa de cada um e os correspondentes arquivos eletrônicos.
A propriedade intelectual será da entidade contratante (FUNDEP)
que, em acordo com os representantes da Fundação Kellogg, poderá ou
não disseminar os resultados da pesquisa. Caso os pesquisadores queiram
usar os resultados e os produtos da pesquisa para fins particulares,
deverão pedir uma autorização escrita das autoridades da FUNDEP.

Orçamento

A instituição interessada em executar o mapeamento deverá


apresentar uma proposta contendo o orçamento necessário para a
execução do trabalho.

3
2.1.3 Informe sobre políticas e movimentos negros – Alagoas,
Agosto 2009

Introdução

Entre os dias 06, 07 e 08 de julho de 2009, em Maceió, realizamos


cinco encontros para discutir as políticas de igualdade racial no estado de
Alagoas.
A primeira atividade aconteceu no Auditório do FIEA, como parte do
II Encontro Etnicidades do Estado de Alagoas, realizado pela ONG Maria
Mariá, em parceria com a Federação de Indústrias do Estado de Alagoas
(FIEA). Na oportunidade, apresentamos a proposta do Mapeamento para o
movimento social e organizações do Movimento Negro presentes. Ainda
neste dia, nos reunimos com lideranças locais não presentes ao Encontro
e articulamos outros momentos, a fim de dialogar com pessoas
representativas do “movimento negro histórico”, que não compareceram
ao evento.
No segundo dia, participamos do espaço da Conferência Livre de
Segurança Pública, que ocorreu no mesmo auditório, onde fomos
apresentados/as às organizações presentes. O terceiro encontro foi
3
realizado no NEAB/UFAL, quando fizemos um Grupo Focal com 2 membros
do NEAB, um do FENAL e 2 lideranças jovens do Jacintinho, considerado o
maior bairro negro de Maceió. Por fim, participamos de uma reunião do
FENAL, encerrando as atividades da visita. A seguir os principais pontos
identificados em relação a cada segmento pesquisado.

Informações a partir do questionário aplicado

Tipo de organização, situação jurídica e tempo de existência

A maioria das 26 organizações que preencheram o questionário está


concentrada no município de Maceió (16), mas houve presença também
das localidades de Igreja Nova (2), Penedo (2), Marechal Deodoro (1),
Monteirópolis (1), Rio Claro (1), Viçosa (1) e Olho D’água das Flores (1)
(Tabela 1, em anexo). As organizações do Setor Público correspondem a
31% e as do movimento social 69/%17. (Tabela 2, em anexo). Somente
uma organização declarou ser não formalizada; oito estão em processo de
formalização e seis são formalizadas. (Tabela 3, em anexo)
A média de existência das organizações pesquisadas é de 10 anos,
sendo que metade delas tem até quatro anos de existência e a mais
antiga possui 59 anos de existência18. Também no caso de Alagoas, os
dados da pesquisa mostram que nos últimos anos houve uma
intensificação no surgimento de organizações com ações na área racial,
embora o número ainda seja pequeno. As do Setor Público têm média de
tempo mais elevada (19 anos) que as demais. (Tabela 4, em anexo)

Quem atua nas organizações, público e áreas de atuação

17 Apenas uma organização não se classificou entre as alternativas propostas.


18 Trata-se da Escola Estadual Maria Amália.
3
A média de pessoas atuando nas organizações foi calculada em 58
pessoas por organização. O número é mais elevado no Setor Público (104
pessoas), devido ao número declarado pela Secretaria Estadual da Mulher,
Cidadania e Direitos Humanos (557 pessoas). As Associações ou
Movimentos têm em média 56 pessoas atuando, as Instituições Religiosas
34 e as ONG’s e OSCIP’s 21 pessoas (Tabela 5, em anexo). Os homens são
maioria (56%) nas posições de trabalho, e a distribuição racial revela uma
maioria negra (75,3%).
A população negra figura com 81% no que tange ao público
atendido, 62% Infância e juventude, e 54%, Quilombolas. O público de
indígenas foi o menos escolhido (8%), seguido de Lésbicas, gays, bi-
sexuais e transgêneros (19%). O número médio de atendimento ficou em
409 pessoas/ano, sendo que a média mais elevada pertence ao Setor
Público, com 615 pessoas, e ONG’s ou OSCIP’s, com 483 (Tabela 6, em
anexo).
Em relação às áreas de atuação, confirma-se a elevada escolha da
Educação, (81%), Arte e Cultura (73%) e Direitos Humanos e Ações
Afirmativas (46%). O menor interesse está nas áreas de Meio-ambiente
(27%), Saúde (19%), Informação (12%) e Outras (12%) (Tabela 7, em
anexo). Em termos médios, as organizações atendem anualmente a 409
pessoas. O maior número refere-se ao atendimento no Setor Público, com
625 pessoas/ano (Tabela 8, em anexo).

Políticas públicas e disseminação de conhecimento

Foram pesquisadas oito instituições do setor público alagoano: duas


escolas estaduais19, três secretarias estaduais20, uma secretaria municipal21
e dois núcleos de estudo, pesquisa e extensão22.

19 A Escola Estadual Maria Amália e a Escola Estadual Moreira e Silva.


20 A Secretaria Estadual de Educação e Esporte, a Secretaria Estadual da Mulher,
Cidadania e Direitos Humanos e a Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento
Social.
21 A Secretaria de Educação de Marechal Deodoro.
22 O NEAB/UFAL e o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Diversidade Étnico-Racial –
NEDER.
2
Ambas as escolas declararam desenvolver políticas de igualdade
racial na área de Educação (Lei 10.639/03 e/ou Lei 11.645/08). Uma
desenvolve também ações dirigidas ao acesso ao mercado de trabalho e,
a outra, políticas de combate ao racismo institucional. Em ambos os casos,
os recursos são originados do orçamento público e, embora não
reconheçam a existência de articulação com outras instâncias do setor
público, uma delas menciona ação articulada com uma secretaria
estadual.
Entre as secretarias que responderam ao questionário, uma delas
não declarou desenvolver políticas de igualdade racial: a Secretaria de
Educação de Marechal Deodoro. A Secretaria Estadual de Educação e
Esporte declarou desenvolver ações nas áreas de Educação das relações
etnicorraciais e políticas orientadas às comunidades quilombolas, com
recursos orçamentários e articuladas em nível ministerial e de outras
secretarias estaduais e municipais.
A Secretaria Estadual da Mulher, da Cidadania e Direitos Humanos
revelou desenvolver políticas de acesso ao mercado de trabalho, políticas
orientadas para as comunidades de terreiro e quilombolas, de fomento à
cultura negra, de combate ao racismo institucional e de articulação dos
movimentos sociais. A secretaria utiliza exclusivamente recursos
orçamentários e declara que essas ações estão articuladas tanto em nível
ministerial, quanto com as secretarias estaduais e com os municípios.
A Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social
declarou desenvolver ações e políticas articuladas em nível federal,
estadual e municipal, com recursos orçamentários e através de editais de
chamada pública do governo federal, nas áreas de acesso ao mercado de
trabalho, de fomento à cultura negra e de políticas para a comunidade
quilombola.
O NEAB/UFAL e o NEDER atuam nas áreas de estudo, pesquisa e
extensão, desenvolvendo políticas de igualdade racial, na área de
Educação O NEAB/UFAL declarou desenvolver ações nas áreas de acesso
ao mercado de trabalho, políticas para a comunidade quilombola e de
formação acadêmica e qualificação de estudantes cotistas com recursos
2
orçamentários. Segundo a organização, essas ações recebem apoio do
governo federal.
Além das ações na área de educação, o NEDER declara que atua nas
áreas de fomento à cultura negra e de combate ao racismo institucional,
com recursos orçamentários. Embora declarem desenvolver ações
articuladas, essas ocorrem apenas em nível estadual e municipal. Um
número elevado de organizações (11) declarou desenvolver atividades de
pesquisa23 (Tabela 9, em anexo). Nenhuma registrou a realização de
dissertações ou teses e apenas o NEAB publicou livros; a Igreja Batista do
Pinheiro revelou ter publicado duas revistas e uma cartilha; e a Associação
de Homossexuais, Heterossexuais, Bi-sexuais e Travestis de Barra de
Santo Antônio (AHBT/BSA) publicou duas cartilhas.

Informações geradas através de entrevista, roda de conversa e


grupo focal

Movimentos Sociais, Ong’s e Lideranças

A luta negra contemporânea em Alagoas inicia-se em 1979 com a


fundação da Associação Cultural Zumbi, formada por jovens amigos/as
que tinham como principal bandeira o tombamento da Serra da Barriga.
Em 1984, a organização teve sua primeira divisão, quando alguns
membros saíram para fundar o grupo Filhos de Zumbi, reivindicando que a

23 São as seguintes organizações: a Escola Estadual Maria Amália, a Associação de


Homossexuais, Heterossexuais, Bi-sexuais e Travestis de Barra de Santo Antônio
(AHBT/BSA), a Associação dos Moradores do Povoado Palmeiras dos Negros (AMP), a
Associação de Desenvolvimento Comunitário Tabuleiro dos Negros, a Associação Afro-
brasileira Ofá-Omi, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB/UFAL), o Colégio Agnus Dei
– Organização das Escolas Particulares para Divulgar a Cultura Negra, o Núcleo de
Estudos e Pesquisas sobre a Diversidade Étnico-racial (NEDER), a Secretaria Estadual da
Mulher, de Cidadania e Direitos Humanos, a Igreja Batista do Pinheiro (IBP) e o Grupo
União Espírita Santa Bárbara (GUESB).

3
organização tivesse um caráter mais comunitário24. Essa dicotomia entre o
ser cultural ou política será uma constante dentro do movimento negro
alagoano, até hoje.
O Movimento Negro tem uma forte tradição de articulação com
outros estados do país, por conta das visitas e do posterior de
tombamento da Serra da Barriga, onde se localizava o Quilombo dos
Palmares. Na década de 80, ativistas como Abdias do Nascimento, Lélia
Gonzáles, Kabengele Munanga, dentre outros, visitavam com frequência o
estado para conhecer a memória da luta quilombola; isso fez como que o
Movimento afro-alagoano tivesse um relativo destaque no cenário
nacional.
Esta visibilidade não foi, entretanto, suficiente para garantir uma
sustentabilidade das ações criadas pelos/as ativistas. Hoje, o Movimento
encontra-se em um momento de rearticulação, depois de uma fase de
crise política no início dos anos 2000, causada pela emergência de novas
lideranças, que não dialogam ou até criticam a geração anterior,
fundadora do movimento e atuante quando o racismo era mais
invisibilizado. A mudança deve-se também a aspectos da conjuntura
política de criação dos órgãos de promoção da equidade racial e
consequente ocupação de cargos/funções na administração pública,
causando certo enfraquecimento e/ou desarticulação no movimento social.
As entidades de Alagoas possuem uma peculiaridade, a de, em sua
maioria, não dependerem de recursos públicos ou da cooperação
internacional. Segundo relatos de ativistas, a maioria dos membros são
voluntários e, portanto, não são remunerados pelos serviços prestados à
comunidade. Trata-se de profissionais de diversas áreas que dedicam seu
tempo noturno, ou finais de semana, a ações de combate ao racismo. Se,
por um lado, essa característica confere ao movimento certa autonomia,
gera uma série de dificuldades, a exemplo de nenhuma organização do
movimento ter sede e a dedicação não ser exclusiva.
Dentre os movimentos identificados no estado, destacamos as
seguintes organizações: Fórum de Entidades Negras de Alagoas, que
24 Silva, Jefferson. Um Movimento Negro em Alagoas: A Asssociação Cultural Zumbi
(1979-1992).
3
possui 30 organizações filiadas, a Comissão de Jornalistas pela Igualdade
Racial (COJIRA) do Sindicato dos Jornalistas do Estado de Alagoas que, por
ser da área de comunicação, consegue dialogar com todas as entidades
dentro do Movimento Negro; e por fim, o Movimento Lésbico Dandara que
trabalha as questões de gênero e sexualidade sob o ponto de vista racial e
possui também projetos desportivos e comunitários, como um time de
futebol feminino.
Com relação ao FENAL, a articulação possui em sua Comissão
Executiva as seguintes organizações: Afoxé Omi Omoreuá, Banda de
Reggae Civilização Roots, Bumba Meu Boi Excalibur, Centro Cultural
Quilombo dos Palmares, Centro de Cultura e Cidadania Malungos do Ilê,
Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô, Centro de Educação Popular e
Cidadania Zumbi dos Palmares –(Cepec), Centro de Estudos e Pesquisas
Afro-Alagono Quilombo, Federação Alagoana de Capoeira (FALC), Grupo
Cultural Axé Zumbi, Movimento Lésbico Dandara, Muzenza Capoeira,
Núcleo de Apoio ao Desenvolvimento da Capoeira (NADEC), Núcleo de
Cultura Afro-Brasileira Iya Ogunté, ONG Maria Mariá, Orquestra de
Tambores, Pastoral da Negritude da Igreja Batista do Pinheiro, Ponto de
Cultura Guerreiros da Vila, União de Negros pela Igualdade (UNEGRO).
O FENAL é fruto da antiga Coordenação de Entidades Negras de
Alagoas, que cumpria esse papel de articular os movimentos na década de
80 e que foi extinta por problemas de divergências ideológicas. No
entendimento do coordenador do Fórum, Helcias Pereira, essa iniciativa de
agregar organizações é muito importante, pois promove o diálogo entre os
grupos e “Alagoas precisa de espaços como esse para os projetos se
conhecerem e trocarem experiências”.
Em relação à COJIRA, trata-se de uma articulação interligada aos
Sindicatos de Jornalistas de todo o Brasil. Em Alagoas, foi criada em
novembro de 2007 ligada ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais de
Alagoas (Sindjornal) e foi o primeiro coletivo no Nordeste. A missão da
COJIRA-AL25 é “Ampliar a discussão sobre as questões étnico-raciais nos
meios de comunicação e no espaço sindical; Promover a interlocução

25 www.cojira-al.blogspot.com.
3
entre os segmentos afros, meios de comunicação e sociedade e dar
visibilidade às ações político-culturais realizadas pelos segmentos afros”.
Uma ação da COJIRA de grande impacto é a Coluna Axé, publicada
todas as quintas no jornal Tribuna Independente, o terceiro jornal de maior
circulação em Alagoas. A Coluna Axé foi implantada no dia 13 de maio de
2008, ocupa meia página colorida no formato Standard, é preenchida com
editorial, notas informativas, curtas e fotos. Quando da apresentação do
projeto ao CEAFRO, esta coluna já estava em sua 59ª edição, constituindo-
se o principal espaço de comunicação dos movimentos negros alagoanos.
A editora da Coluna é a jovem jornalista Helciane Pereira, que também é
diretora do grupo ANAJÔ.
Destacamos também o trabalho da Ialorixá Mãe Vera, do Terreiro
Abasá de Angola Oyá Balé que, dentre várias atividades, coordena o
projeto “Orquestra de Tambores” e o Maracatu “Continuação de nossos
Ancestrais”, sempre desenvolvendo trabalhos com jovens, na prevenção
da criminalidade na comunidade do Vergel, umas das mais excluídas da
cidade. Mãe Vera atua como líder comunitária, dinamizadora cultural,
conselheira e até mesmo parteira, conforme relato no grupo. É importante
informar que a questão da intolerância religiosa é uma grande
preocupação dos movimentos negros alagoanos, uma vez que a
perseguição das religiões de matriz africana é fato antigo. Em 1912, por
exemplo, ocorreu um fato inédito no Brasil, a “Operação Xangô” ou
“Quebra de 1912”, quando as elites do estado, através da Polícia Militar,
destruíram mais de 30 terreiros de candomblé. Tia Marcelina, umas das
principais representantes do Candomblé, foi espancada e morta, e hoje é
considerada uma mártir da luta contra o preconceito religioso.
O Centro de Cultura e Estudos Étnicos ANAJÔ26, criado em 1988, é
outro grupo que merece referência. A organização aglutina diversas
lideranças de outras organizações e desenvolve um trabalho de
conscientização sobre a história e cultura afro-brasileira, em particular
sobre o legado do Quilombo dos Palmares. Essa organização, oriunda da
articulação das Agentes de Pastoral Negros (APNs), promove visitas à

26 http://anajoonline.spaces.live.com
3
Serra da Barriga, possibilitando a professores/as, pesquisadores/as e
estudantes conhecerem esse marco da história afro-brasileira. Nas visitas,
um/a professor/a conta a história do local, e da resistência negra no Brasil,
oportunizando uma vivência com a cultura afro-brasileira.
Uma característica marcante do Movimento Negro alagoano é que,
em sua maioria, trata-se de organizações culturais (grupos de capoeira,
maracatu, samba de roda etc) e, com exceção da União dos Negros pela
Igualdade (UNEGRO), não identificamos nenhuma entidade nacional do
Movimento Negro tradicional com representatividade no estado.
O movimento se materializa bastante através do Quilombo dos
Palmares, que fica na região metropolitana de Maceió. Quando inquirido
sobre a realização da Caminhada da Consciência Negra, tradicionalmente
realizada dia 20 de novembro em todo o Brasil, o coordenador do Fórum
de Entidades Negras de Alagoas (FENAL), Helcias Pereira, afirmou
categoricamente: “O que diferencia Alagoas dos outros estados é que nós
temos a Serra da Barriga”. Esse fato é emblemático, pois demonstra o
grande orgulho que os afro-alogoanos têm de hospedarem o importante
sítio histórico de Palmares. Apesar disso, há uma certa mitificação e
apropriação dos símbolos palmarinos pela elites; a estátua de Zumbi está
localizada em Pajuçara, e o aeroporto de Maceió traz o seu nome:
Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares.

Organizações Governamentais

O estado de Alagoas é pioneiro quanto à participação de militantes


negros na estrutura de governo: Zezito Araújo, ocupando a Secretaria de
Defesa e Proteção das Minorias e, Vanda Menezes, ocupando a Secretaria
da Mulher.
Hoje, as estruturas de promoção da igualdade racial no Governo do
Estado são: Superintendência de Políticas de Promoção da Cidadania e
Direitos Humanos da Secretaria da Mulher, ocupada pela Sra. Wedna
Miranda, e a Gerência de Educação Étnico-Racial da Secretaria da
Educação, coordenada pela Sra Irani Neves.
4
A Superintendência desenvolve políticas para as comunidades de
quilombos e população indígena. A principal ação do órgão, até o
momento, é o diagnóstico da situação dos 54 quilombos do estado, sendo
23 desses reconhecidos pelo Governo Federal. Os dados preliminares do
estudo apontam uma situação bastante precária, pois 99,9% não possuem
saneamento básico, 65% vivem em casas de adobe (taipa), 75% não
possuem postos de saúde, apenas 2% possuem escolas estaduais e 100%
não possuem espaços de lazer27.
Enquanto na esfera estadual a Gerência de Educação Étnico-Racial é
responsável pela implementação da Lei 10.639, regulamentada pela Lei
estadual nº 6.814/2007, de 02 de julho de 2007, na esfera municipal é o
NEDER, e ambos enfrentam problemas como este: “a primeira coisa que
corta no orçamento somos nós. Essa não é uma prioridade mesmo nesse
Governo”, afirma uma gestora. Desta forma, muitos professores/as ainda
não estão preparados para lidar com a temática no cotidiano da escola e
da sala de aula, não há investimento em material didático e nem em
profissionais para ministrar a formação dos educadores/as. Por outro lado,
o Fórum Permanente Educação e Diversidade Étnico-Racial, proposto pelo
MEC/SECAD parece atuante; reúne-se quinzenalmente e tem participação
de lideranças expressivas, comprometidas com a causa.
Na Secretaria de Estado da Assistência e Desenvolvimento Social
(SEADES) há um projeto de Segurança Alimentar - Fabricação de Produtos
Lácteos, Alimentação Alternativa, Processamento de Pescado -,
envolvendo a profissionalização de 1024 famílias em áreas rurais e
quilombolas.

Produção e disseminação de conhecimento

No NEAB/UFAL atuam Clara Suassuna (atual coordenadora), Ângela


Bahia, Zezito Araújo (Professor de História da África e fundador do Núcleo,
na década de 70), dentre outros. O NEAB, que possui uma relação muito

27 Dados da Secretaria de Estado da Mulher, Cidadania e Direitos Humanos, 2009.

3
boa com o Movimento Negro, publica a revista Kulé-Kulé (raízes, em
Banto), cuja edição mais recente traz o tema Religiosidade.
Um das principais conquistas do NEAB foi a aprovação das cotas
raciais na UFAL, com reserva de vagas para mulheres negras,
provavelmente fato inédito em todo o Brasil. Outra política, concebida e
posta em prática pelo Núcleo, refere-se à disciplina Saúde da População
Negra, no Curso de Medicina, e aos estudantes fazerem trabalhos de
extensão dentro dos quilombos. O Núcleo também abriga o projeto Afro
Atitude, do Governo Federal.
Ainda tratando-se do franco diálogo com os movimentos sociais, os
grupos de capoeira buscam no núcleo a formação política que precisam
para complementar o trabalho de conscientização que desenvolvem.
Entretanto, os/as pesquisadores/as queixam-se de que as condições para
o desenvolvimento do trabalho não são suficientes para atender à
demanda; nesse sentido, precisam de mais recursos humanos e apoio
institucional dentro e junto à Universidade.

Considerações Gerais

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)28,


Alagoas tem 68,8% de afro-descendentes e o PNUD (2005) o apontou
como o estado no qual os negros tinham o pior IDH, com índices piores
que os de países africanos pobres, como Guiné Equatorial (0,642) e
Namíbia (0,650), enquanto o IDH dos brancos é 17,7% maior que o dos
negros.29
Os movimentos negros do estado são constituídos, geralmente, por
voluntários, sem remuneração, e há uma forte ligação com o Quilombo
dos Palmares, que já se estende para outros quilombos, por meio de
pesquisa e ações outras em nível de governo e da Universidade. O NEAB,
bastante atuante, é aberto aos movimentos, que nele encontram espaço
para reunião e para discussão de problemas enfrentados, dentre outros
apoios e interlocuções.
28 Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD 2007)
29 Site< www.pnud.org.br > acessado em 15 de agosto de 2009.
3
As ações, independente do segmento, convergem para a Serra da
Barriga, dando singularidade aos projetos e ações desenvolvidas,
chegando a beirar um saudosismo que, felizmente, é quebrado pela
multiplicidade de ações que se espraiam para diversas outras áreas e se
concentram no compromisso de contribuir para alterar as condições de
qualidade de vida em outros quilombos existentes no estado. Chama
atenção, ainda, o movimento de rearticulação dos movimentos em torno
do FENAL, que pode se constituir em espaço de reaproximação entre
lideranças emergentes e lideranças já consagradas.

Tabelas Alagoas

Tabela 1
Localização das organizações. Alagoas, 2009

Número de Distribuição
Município
organizações (%)

Barra de Santo Antônio 1 3,8


Igreja Nova 2 7,7
Maceió 16 61,5
Marechal Deodoro 1 3,8
Monteirópolis 1 3,8
Olho D'agua das Flores 1 3,8
Penedo 2 7,7
Rio Claro 1 3,8
Viçosa 1 3,8
Total 26 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 2
2
Tipo de organização. Alagoas, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 10 38,5


ONG ou OSCIP 4 15,4
Instituição religiosa 2 7,7
Setor Público 8 30,8
Outros 2 7,7
Total 26 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 3
Situação legal das organizações segundo o tipo. Alagoas, 2009.

Situação legal
Em processo Não Organização Não sabe Total (1)
Tipo de organização
Formalizada de do Setor
formalização formalizada Público

Associação ou movimento 3 4 - - 3 10
ONG ou OSCIP 3 1 - - - 4
Instituição religiosa - 2 - - - 2
Setor Público - - - 8 - 8
Outros - 1 1 - - 2
Total (1) 6 8 1 8 3 26

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


Notas: (1) Algumas organizações não declararam sua condição legal ou seu tipo.

Tabela 4
100%
90%
80%
70%
60%
50%
40%
30%
2 20%
10%
0%
Associa
movim
Tempo médio de existência das organizações segundo o tipo. Alagoas, 2009

(Em anos)
Tempo médio Número de
Tipo Desvio padrão
de existência organizações

Associação ou movimento 8 8 6,479


ONG ou OSCIP 10 4 5,568
Instituição religiosa 8 2 7,071
Setor público 19 5 25,006
Outros 0 2 -
Total 10 21 13,345

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 5
Média de pessoas ocupadas por tipo de organização. Alagoas, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 56 8 47,434


ONG ou OSCIP 21 4 13,985
Instituição religiosa 34 2 1,414
Setor Público 104 6 222,000
Outros 5 1 3,485
Total 58 21 119,344

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 6
Principais áreas de atuação das organizações por tipo. Alagoas, 2009

Número de Associação ONG ou Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 26 10 4 2 8 2

Arte e Cultura 19 8 4 2 3 2
Educação 21 7 4 2 6 2
Meio-Ambiente 7 4 - - 2 1
Emprego, Trabalho e Renda 10 6 1 - 2 1
Saúde 5 5 - - - -
Dir. humanos /Ações Afirmativas 12 4 2 2 4 -
Informação 3 1 - - 2 -
Outra 3 1 1 - 1 -

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número divergentes de áreas de atuação.

2
Tabela 7
Publicos preferencias das organizações por tipo. Alagoas, 2009

Número de Associação ONG Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 26 10 4 2 8 2

Lésbicas, gays, bi-sexuias e trangêneros 5 2 - 2 1 -


Quilombolas 14 6 2 - 4 2
Mulheres negras 7 4 1 - 2 -
População negra 21 10 3 2 4 2
Índígenas 2 - - - 2 -
Infancia e juventude 16 5 3 2 6 -
Outro 6 2 - - 4 -

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número divergente de áreas de atuação.

Tabela 8
Número médio de pessoas atendidas no ano por tipo de organização. Alagoas, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 253 5 324,684


ONG ou OSCIP 483 3 325,320
Instituição religiosa 99 2 69,296
Setor Público 615 7 500,220
Outros 282 2 378,302
Total 409 19 404,204

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 9

2
Número de organizações que desenvolvem pesquisa. Alagoas, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 5 45,5


ONG ou OSCIP 1 9,1
Instituição religiosa - -
Setor Público 4 36,4
Outras 1 9,1
Total 11 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

2.1.4 Informe sobre políticas e movimentos negros – Bahia,


Novembro 2009

2
Introdução

A Bahia, cantada em versos e prosa como a “Terra da Felicidade”, é


o estado brasileiro, em termos proporcionais, com maior concentração de
população negra do país. Pode-se dizer, que do ponto de vista cultural,
também é o estado mais negro do Brasil. “Uma nação africana chamada
Bahia”, cantou o Ilê Aiyê, em 1994. A metáfora que utilizou “o mais belo
dos belos”, como é conhecido o Ilê, nos permite compreender que a Bahia,
e, em particular Salvador, com uma população de três milhões de
habitantes (PNAD, 2008) “respira” cultura negra. A capoeira, os blocos
afros, os afoxés, sambas de roda, a dança afro, as religiões de matriz
africana, a música reggae, o movimento hip hop e mais uma infinidade de
manifestações culturais, incorporadas aos modos de vida da maioria da
sua população, fazem de Salvador a cidade mais africana do mundo, fora
da África.
Não obstante essa riqueza e diversidade cultural, a Bahia também é
um dos estados onde as evidências do racismo institucionalizado se
manifestam de uma forma direta na condição de vida da sua população.
Violência policial, analfabetismo, assassinato da juventude negra,
desrespeito/intolerância religiosa e uma mídia que, cotidianamente, expõe
essa população em programas sensacionalistas. Além disso, ao longo da
sua história, pessoas negras, raramente, ocuparam ou ocupam espaços de
prestígio e poder no âmbito da sociedade baiana.

4
Mas, a Bahia também possui um dos movimentos sociais negros
mais atuantes do país. Retomando as lutas e reivindicações históricas da
população negra do período republicano, iniciadas em 1910, com a
Revolta dos Marinheiros ou Revolta da Chibata, liderada por João Cândido,
passando pelas ações realizadas via Imprensa Negra e Teatro do Negro e
Frente Negra Brasileira, na década de 1930, o Bloco Afro Ilê Ayiê, em
plena ditadura militar (1974), foi às ruas denunciar o racismo na
sociedade baiana, especialmente no carnaval. Afinal, os negros/as eram
impedidos de se filiar às agremiações carnavalescas de então,
propriedade exclusiva das elites brancas. Um ano após o lançamento do
Ilê Aiyê, A Tarde, principal jornal do estado e um dos porta-vozes dessa
elite, exibiu a manchete “Bloco Racista, Nota Destoante", criticando o
suposto racismo dos negros por se juntarem em um grupo a fim de
também desfilar nas ruas da cidade, durante a festa.
Em 1978, a luta e organização do Movimento Negro Baiano entra em
uma nova fase com o surgimento do Movimento Negro Unificado Contra a
Discriminação Racial (MNUCDR), em São Paulo; no mesmo ano, surge uma
articulação na Bahia, quase na clandestinidade, situação em que estavam
os comunistas perseguidos pelo regime na época. O MNUCDR, depois
MNU, reuniu os/as principais militantes e ativistas da luta antirracismo no
estado. Seus militantes, com uma impressionante capacidade de
mobilização e organização, foram capazes de denunciar, em nível
internacional, o racismo no Brasil, além de desmontar a ideologia da
democracia racial vigente.
Ao final da ditadura militar (1985), o Movimento Negro Baiano, como
outros movimentos sociais, ganham mais força. Articulando-se através dos
blocos afros, da capoeira, dos terreiros de candomblés e, mesmo
enfrentando fortes resistências por meio de setores na esquerda, nas
universidades, nos partidos políticos e sindicatos, intensificou sua atuação
e voltou a denunciar o racismo e a ideologia da democracia racial em
diversos setores da sociedade e hoje, além de lutar por ações afirmativas
e reparação, colocou na ordem do dia o tema do racismo institucional.

4
Salvador foi a primeira cidade do país a criar uma secretaria
municipal de promoção da igualdade, a SEMUR, em 2004, um ano após a
criação da SEPPIR. Em termos de governo estadual, também é a primeira,
com a criação da SEPROMI, em 2007, mostrando o a capacidade de luta e
mobilização do movimento social negro baiano.

Metodologia

Devido ao número de organizações e, pelo fato de o CEAFRO ter


como sede o local da pesquisa, realizamos mais encontros que nos demais
estados – sete -, envolvendo governo, movimentos sociais e
universidades. O primeiro encontro, realizado no dia 21/09, teve como
objetivo mobilizar os fóruns e articulações para divulgação do
Mapeamento. No dia 23/09, convocamos os núcleos e programas
universitários para discutir as ações de igualdade racial nas universidades;
no dia 28/09, fizemos um encontro com os movimentos sociais; no dia
01/10, fizemos, com apoio da Secretaria de Promoção da Igualdade
(SEPROMI), um encontro com gestores governamentais do Fórum de
Gestores de Promoção da Igualdade Racial (FPIR - BA); e, no dia 02/10,
mais uma rodada com as lideranças dos movimentos que não
compareceram na data anterior. Para concluir, realizamos duas Rodas de
Diálogo com as principais lideranças de diversos segmentos do movimento
negro, para identificar elementos qualitativos para a pesquisa.

Informações geradas através questionário

Tipo de Organização e Situação Jurídica

Na Bahia foram pesquisadas 60 organizações, das quais 44 no


município de Salvador, 5 no de Alagoinhas e 11 referentes a alguns entre
os mais de 400 municípios que formam o estado. Embora a maioria das
organizações (66%) baianas pertença à sociedade civil – incluindo, nessa
categoria, as Associações ou Movimentos, as Ongs e Oscips, as
2
Fundações, as Instituições religiosas e Outras –, cerca de um terço (34%)
delas está ligada ao setor público (Tabelas 1 e 2, em anexo).
Entre as organizações que declararam sua condição legal (56), 91%
ou estão formalizadas ou são instituições do Setor Público. Entre as 41
organizações da sociedade civil, 36 se declararam formalizadas e 4
encontram-se em processo de formalização de sua situação jurídica.
(Tabela 3, em anexo).

Tempo de existência

A média do tempo de existência das organizações pesquisadas é 12


anos, sendo que metade delas tem, pelo menos, 8 anos de existência. A
organização mais antiga é o Centro de Estudos Afro-orientais
(CEAO/UFBA), que existe há 50 anos. Entre as organizações criadas mais
recentemente, há menos de um ano, apenas a Fundação de Mulheres
Bakita, localizada em Salvador, é uma organização da sociedade civil. As
demais estão no interior do estado e são organizações ligadas ao setor
público, todas criadas durante o ano de 2009: Secretaria de
Desenvolvimento e Igualdade, em Juazeiro; Departamento de Promoção
da Igualdade Racial, em São Francisco do Conde; Diretoria de Promoção
da Igualdade, em Amélia Rodrigues; e Secretaria de Desenvolvimento
Social, em Serrinha. (Tabela 4, em anexo)

Quem atua nas organizações

A média de pessoas atuando nas organizações foi calculada em 38


indivíduos por instituição. A Associação Cultural Os Negões, com 400
pessoas, é a organização que declarou reunir o maior número. Em relação
ao tipo de organização, são as Associações ou Movimentos as que
possuem o número médio de pessoas atuando mais elevado, com 57
indivíduos, seguidas das Instituições Religiosas (49 pessoas); ONGs ou
OSCIPs (27); Outras (23); e Setor público (21). (Tabela 5, em anexo)

3
Os homens ocupam a maioria das posições de trabalho (54%), e a
distribuição racial das ocupações revela uma maioria negra que atinge
86% das pessoas com atuação nas organizações pesquisadas.

Áreas de atuação e público atendido

Em relação às áreas de atuação, registrou-se, de um lado, a elevada


importância dos Direitos Humanos e Ações Afirmativas, da Educação e, em
nível mais baixo, da Arte e Cultura, presentes entre os espaços mais
importantes de atuação (81%, 71% e 64%, respectivamente). De outro
lado, observou-se menor interesse pelas áreas de Meio ambiente (10%) e
Informação (14%). (Tabela 6, em anexo).
A população negra, de modo geral, a infância e juventude e a
população mulheres negras são os grupos mais presentes entre os
públicos das organizações (77%, 65% e 63%, respectivamente). Entre os
grupos populacionais menos atendidos, temos os Indígenas (5%),
Lésbicas, gays, bi-sexuais e transgêneros (12%) e Indígena (5%). (Tabela
7, em anexo).
Em termos médios, as organizações baianas atendem anualmente
cerca de 3 mil pessoas. A média mais elevada pertence ao Setor público,
com 7,7 mil pessoas por ano, seguida pelas Ongs e Oscips (3,2 mil) e das
Associações ou Movimentos, com 971 pessoas/ano. O Museu Afro-
brasileiro se destaca pelo atendimento de 30 mil pessoas/ano. (Tabela 8,
em anexo).

Políticas Públicas e Disseminação de Conhecimento

Foram pesquisadas 20 instituições do setor público na Bahia,


conforme listagem a seguir:

Organizações do Setor Público pesquisadas. Bahia, 2009

Nome Localização
Sindicato dos Trabalhadores Públicos Municipal de Alagoinhas
Alagoinhas – Sinpa
2
Departamento de Promoção da Igualdade Racial São Francisco
do Conde
Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer - Prefeitura Itubera
Municipal de Itubera.
Secretaria Municipal de Políticas Especiais Cruz das Almas
Secretaria de Cultura e Turismo Souto Soares
Diretoria de Promoção da Igualdade Amélia
Rodrigues
Coordenação de Políticas Especiais de Inclusão Social Vitória da
Conquista
Secretaria de Promoção da Igualdade do Estado da Bahia Salvador
Fundação Cultural Palmares Salvador
Centro de Estudos Afro-Orientais Salvador
Secretaria de Desenvolvimento Social Serrinha
Secretaria Municipal de Assistência Social Alagoinhas
Secretaria Desenvolvimento da Igualdade Juazeiro
Secretaria de Assistência Social Entre Rios
Museu Afro-Brasileiro Salvador
Ceafro - Educação para a Igualdade Racial e de Gênero Salvador
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – Ufrb Cruz das Almas
Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Salvador
Africanos
Programa Multidisciplinar Cultura e Sociedade - Ufba Salvador
Programa Conexões de Saberes - Ufba Salvador
Fonte: Pesquisa direta. Ceafro

O tempo médio de existência dessas organizações foi calculado em


9 anos. Elas ocupam, em média, 23 pessoas, e atuam, principalmente, nas
áreas de direitos humanos e ações afirmativas (19 instituições) e
Educação (15). As áreas de Meio ambiente (3), Informação (1) e Outras (2)
são as que recebem menor atenção das instituições públicas baianas.
São 17 as organizações que declararam desenvolver atividades de
pesquisa na Bahia30, a maioria organizações da sociedade civil, sendo que
7 são Associações ou Movimentos, 2 se classificaram como Outras e uma
como ONG ou OSCIP. As organizações do Setor Público são 7 (Tabela 9, em

30São as seguintes: Associação Cultural, Comunitária e Carnavalesca Arca Do Axé,


Associação Cultural Comunitária e Carnavalesca Mundo Negro, Grupo Cultural Agbara,
Associação Baiana de Pessoas com Doenças Fazciformes – ABADFAL, Fundação Cultural
Palmares, Afro Gabinete de Articulação Institucional e Jurídica – AGANJU, Instituto Sócio-
Cultural e Carnavalesco Ibásóré Ijá Blocão da Liberdade, Centro de Estudos Afro-Orientais
- CEAO, Blackitude: Vozes Negras da Bahia, Grêmio Recreativo Educativo Esportivo e
Carnavalesco Furacão 2001, Museu Afro-Brasileiro, Programa de Pós-Graduação em
Estudos Étnicos e Africanos - PósAfro, Programa Conexões de Saberes - UFBA: Diálogos
Entre a Universidade e as Comunidades Populares, Centro de Educação e Cultura Popular
– CECUP, Instituto Kimundo de Cultura Afro-Brasileira, CEAFRO - Educação e
Profissionalização para a Igualdade Racial e de Gênero, Universidade Federal do
Recôncavo da Bahia – UFRB.

2
anexo). Os temas mais pesquisados são História da África, Direitos
Humanos e Relações de Gênero, mencionadas como áreas de interesse
por 12 instituições, e os Estudos Culturais e a Educação, referidos por 11
organizações.
O interesse pela pesquisa está refletido em publicações. O número
de organizações que já publicaram livros são 5; revistas, 3; jornais e
cartilhas, 7. Além disso, sítios na internet, blogs, artigos e DVDs servem de
mídia de divulgação das organizações.

Informações geradas através rodas de conversa e entrevista

Organizações não governamentais

O estado possui um número expressivo de organizações do


Movimento Negro envolvendo blocos afros, agremiações políticas, ONGs,
associações religiosas e associações profissionais, que têm conseguido
êxito em suas proposições, sobretudo no que diz respeito à incidência
sobre a gestão pública, universidade e partidos políticos. Por exemplo, o
sistema de ações afirmativas proposto pelo movimento foi adotado nas
principais universidades do estado, como: Universidade Federal da Bahia,
Universidade do Estado da Bahia e Universidade Federal do Recôncavo.
Além disso, o fato de Salvador ter sido a primeira capital a implementar a
Lei 10.639 também se relaciona à atuação desse movimento. A
participação negra durante o Carnaval, a beleza e atuação todo o ano de
seus blocos afros e afoxés, a crescente movimentação durante o hoje
chamado “Novembro Negro” revelam que o movimento negro na Bahia
gera impactos consideráveis na sociedade.
No campo simbólico, é importante registrar a força do movimento ao
reivindicar o legado afro-brasileiro no patrimônio material da cidade, a
exemplo da implantação de esculturas de heróis negros - Zumbi dos
Palmares (Centro Histórico de Salvador), dos Heróis da Revolta dos Búzios
(Praça da Piedade) e Corredor Cultural do Curuzu.

3
Redes e fóruns aglutinam a maioria das entidades, como o Fórum de
Entidades Negras, composto pelo Ilê Aiyê, Muzenza, Malê Debalê,
ABADFAL, Agentes de Pastoral Negros (APNs), Cortejo Afro, Os Negões e
Centro Mário Gusmão; CONEN/BA, formada por Níger Okan, África 900,
Aspiral do Reggae, Agência Afro-Latina e Euro-Americana de Informação
(ALAI), Marcus Garvey, Baobá, Ogun de Ronda e Pagoleiros; Coletivo de
Entidades Negras (CEN), que organiza anualmente a Caminhada do Povo-
de-Santo, e a Associação de Preservação da Cultura Bantu (ACBANTU),
que concentra diversos terreiros de Candomblé, dentre outros. A Rede
Aiyê Hip Hop e o Fórum de Quilombos Educacionais encontram-se
desarticulados.
Um aspecto apontado pelas rodas de conversa foi a falta de conexão
inter-geracional pois, na avaliação dos/as participantes, os diálogos entre
jovens e segmento fundador do movimento negro na década de 70 ainda
são raros. Se, por um lado, os/as militantes mais velhos acusam os/as
mais jovens de terem pouca formação política, esses/as reclamam da falta
de participação nos espaços de decisão do movimento.
A questão da Segurança Pública surgiu nas entrevistas como o
assunto mais importante abordado pelo movimento negro baiano. A
violência que atinge as comunidades, a corrupção policial e a morte
sistemática de jovens negros, de 16 a 25 anos e sem passagem pela
polícia, preocupa os/as militantes, que acreditam se tratar de uma política
de extermínio da juventude negra. Outro aspecto bastante citado foi a
continuidade das políticas afirmativas nas universidades, sua eficácia e,
sobretudo, os próximos passos dessa conquista, uma vez que, atualmente,
aumentou o número de estudantes, em função do sistema de cotas, mas
preocupa o fato de alguns deles sequer reconhecerem a legitimidade do
processo. Entrevistados/as se mostram, ainda, preocupados com a
necessidade de se consolidar uma epistemologia e cosmovisão negra
dentro da universidade, através de pesquisas e/ou produções acadêmicas.
A necessidade da participação negra no desenvolvimento, na
economia, foi outro fator estratégico apontado nos encontros. No
entendimento de um dos participantes, os negros ainda entendem que
2
ganhar dinheiro é “imoral”, contentando-se com pequenas conquistas.
Apesar disso, ressaltamos algumas experiências de afro-empreendedores
baianos que são parte do movimento negro, destacando-se Clarindo Silva,
proprietário do Restaurante Cantina da Lua; Alaíde do Feijão, que também
atua no ramo gastronômico; Mário Nelson Carvalho (Vice-presidente do
Coletivo de Empreendores Afrodescendentes); Samuel Azevedo (Bar África
900); as estilistas Goya Lopes (Didara), Saraí (Ifá Veste) e Mônica Anjos,
dentre outros/as.
Grandes organizações se destacam no cenário nacional,
influenciando a criação de políticas, como o Instituto Steve Biko é o
primeiro pré-vestibular para afro-descendentes do Brasil. Criado em 1992,
a organização vem desenvolvendo diversas atividades no campo político e
educacional, que resultaram em políticas públicas para o combate às
desigualdades raciais. Dentre os principais projetos, destacam-se o Projeto
Mentes e Portas Abertas (POMPA), para formação de jovens líderes, e o
OGUNTEC, de fomento à Ciência e Tecnologia destinadas a estudantes
afro-descendentes, oriundos/as das escolas públicas estaduais. A meta da
organização é tornar-se uma Faculdade, até 2012. O modelo pensado pelo
Instituto Steve Biko foi replicado em todo o país.
Já o Ilê Aiyê foi o primeiro Bloco Afro do Brasil e uma das primeiras
organizações negras do estado. Criado em 1974, o grupo tinha como
objetivo denunciar o racismo no carnaval baiano que não permitia a
entrada de negros nos blocos de elite. Conhecido como “o mais belo dos
belos”, o Ilê, responsável pela reafricanização do Carnaval da Bahia
gerando, a partir de sua fundação, dezenas de outros grupos similares em
todo o país. Os principais projetos e eventos anuais são: Noite da Beleza
Negra, Semana da Mãe Preta, Noite do Wajeum. Além disso, mantém a
Escola Mãe Hilda, um grupo de percussão mirim (Band’Erê), Cozinha
Industrial e, mais recentemente, um estúdio musical profissional.
O CEAFRO, programa de Educação e Profissionalização para a
Igualdade Racial e de Gênero, vinculado ao Centro de Estudos Afro-
Orientais (CEAO), foi fundado em 1995, e hoje é referência nacional na
formação de professores/as para o combate ao racismo e sexismo,
3
pioneiro dentro da universidade. É também pioneiro na criação de
diretrizes curriculares da história africana e afro-brasileira, discutindo o
tema no ambiente escolar antes mesmo da Lei 10.639/03. O programa é
também um dos responsáveis pela implemantação do sistema de cotas da
Universidade Federal da Bahia, quando da coordenação do Comitê Pró-
Cotas. Destaca-se, ainda, pela experiência em projetos visando à garantia
de direitos das trabalhadoras domésticas.

Ações de governo

As ações governamentais no estado da Bahia têm início com a


criação da Secretaria Municipal da Reparação (SEMUR), em 2003, tendo
como gestora a professora Arany Santana, diretora do Bloco Afro Ilê Aiyê.
A SEMUR é, portanto, o mais antigo órgão de promoção da igualdade
racial da Bahia, tendo como precedente, em termos de diálogo movimento
negro-governo, o Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra,
criado em 1987 e efetivado em 1992.
A SEMUR, cujo atual gestor é o sociólogo Ailton Ferreira, tem como
principais projetos o Selo da Diversidade Étnico-Racial no Mercado de
Trabalho, que visa à redução da discriminação racial nas empresas,
iniciado em 2007, hoje em sua segunda edição, tendo entre os parceiros o
Instituto Brasileiro da Diversidade, a Associação Brasileira de Recursos
Humanos e o Instituto Íris; o projeto de Revitalização dos Terreiros de
Candomblé, fruto do Mapeamento realizado em parceria com o Centro de
Estudos Afro-Orientais (CEAO)31, que identificou 1150 terreiros em
Salvador; o Programa de Combate ao Racismo Institucional (PCRI),
realizando formação de servidores/as no tema. O projeto PCRI foi apoiado,
inicialmente, pelo PNUD e pelo DFID. É também da SEMUR a proposta de
criação de um Mapeamento de Empreendedores Afro-descendentes com
apoio do SEBRAE, mas ainda não iniciado.
A Secretaria de Promoção da Igualdade (SEPROMI) foi criada em
2007 e possui duas instâncias: a Superintendência de Políticas para

31 www.mapeamento.ceao.ufba.br
4
Mulheres e a Superintendência da Igualdade Racial. A atual secretária do
órgão é a socióloga Luiza Bairros, militante histórica do Movimento Negro
brasileiro. Algumas ações da Secretaria: Elaboração de Planos de
Desenvolvimento das Comunidades Quilombolas; Inclusão dessas
comunidades em programas de Infra-estrutura Social; Projetos de
Fortalecimento da Organização social e Econômica e Apoio à
Regularização Fundiária; Campanha de Enfrentamento à Violência Contra
a Mulher; Rede estadual de Atendimento à Mulher em Situação de
Violência; I Conferência Estadual de Políticas para as Mulheres; Criação do
Fórum de Gestoras municipais de políticas para as Mulheres. Além disso, é
responsável pela instituição do Comitê Técnico de Saúde da População
Negra, elaboração de Plano de Formação de Gestores/as Estaduais e pelo
Programa de Combate ao Racismo Institucional.
Em termos governamentais, existe grande esforço dos gestores/as
dessas secretarias para desenvolverem ações estratégicas, porém o
diálogo com os pares é ainda muito difícil. Isto porque gestores/as de
secretarias “fim” entendem que as secretarias “meio” devem assumir
todas as políticas públicas voltadas para a promoção da igualdade racial,
contradizendo o próprio conceito de secretaria de articulação, como é o
caso da SEMUR, SEPROMI e outras similares nos demais dos estados do
nordeste. Além disso, as condições de Orçamento e de infra-estrutura dos
órgãos de promoção da igualdade não atendem às demandas crescentes
da população negra, historicamente alijada da promoção dessas políticas.

Universidade

A Universidade Federal da Bahia (UFBA) abriga alguns


projetos/programas voltados para a discussão racial. Programas de
permanência de estudantes negros/as no ensino superior, como o
Conexões de Saberes/UFBA, primeiro Conexões a incorporar as ações
afirmativas, influenciando o programa em outras IFES (Instituições
Federais de Ensino Superior); o Afro Atitude; o Permanecer Milton Santos;
e o Uniafro, do CEAO.
3
O Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia
(CEAO), fundado em 1959, foi o primeiro núcleo de estudos sobre a cultura
negra do Brasil e a principal referência em pesquisa sobre as relações
raciais e africanidades no estado. O CEAO abriga o primeiro programa de
pós-graduação em estudos étnicos e africanos, o PósAfro; o Fábrica de
Idéias, o CEAFRO, que desenvolve políticas de gênero e raça, forma
profissionais para combate ao racismo e sexismo, dentre outras ações; e o
Museu Afro-Brasileiro, fundado em 1982 e em funcionamento na antiga
Faculdade de Medicina da Bahia.
Dentre os núcleos de estudantes negros/as nesta universidade, teve
importante papel o Núcleo de Estudantes Negros (NENU), durante o
processo de aprovação das ações afirmativas na UFBA.
A Universidade do Estado da Bahia (UNEB) foi a primeira
universidade do Nordeste brasileiro a adotar o sistema de cotas, na
administração da então reitora Ivete Sacramento. A Universidade possui
reitores e pró-reitores negros, e está em vias de criação de um programa
de pós-graduação para o estudo das relações raciais e africanidades.
A Universidade Federal do Recôncavo (UFRB), criada em 2005,
possui a coordenação de políticas afirmativas, atualmente dirigida pelo Dr.
Cláudio Orlando Nascimento, e uma Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e
Ações Afirmativas, dirigida pela Dra. Rita Dias.
Também em faculdades particulares há iniciativas voltadas para a questão
racial, como Faculdade Visconde de Cairu e UNIJORGE, com pós-graduação
lato sensu em desigualdades raciais e educação, dentre outras.
Em geral, uma das principais dificuldades das políticas afirmativas é
a falta de financiamento para as pesquisas relacionadas ao tema da
igualdade racial.

Mídia

Na Bahia, há iniciativas de combate ao racismo e promoção da


igualdade na Comunicação Social, como a do Instituto Mídia Étnica, uma
organização formada por jovens comunicadores/as, fundado em 2005, que
2
realiza palestras, assessoria e treinamentos para organizações negras,
discutindo o papel estratégico da mídia e divulgando o conceito de
Direitos Humanos à Comunicação. O Mídia Étnica possui também um
portal colaborativo para divulgação das ações da comunidade negra, o
Correio Nagô32, além de fazer parcerias com faculdades, realizando cursos
de extensão e disciplinas optativas, discutindo o racismo na mídia.
O jornal A Tarde possui o Blog Mundo Afro 33, criado em 2008, dentro
do processo de convergência de mídias do diário, visando a dar espaço
aos eventos e debates relativos à comunidade negra. Além disso, o jornal
publica, todo dia 20 de novembro, um caderno especial sobre o Dia da
Consciência Negra, contando com a colaboração de militantes, tanto na
produção de artigos quanto na concepção editorial.
O CMA Hip Hop possui um boletim semanal distribuído para todo o
país com notícias sobre a comunidade negra e mantém o programa
Evolução Hip Hop que, junto aos programas Tambores da Liberdade
(blocos afros), Rádio África (música africana) e No Balanço do Reggae,
compõem a chamada “Faixa Negra”, que vai ao ar, todos os sábados, na
Rádio Educadora.

Considerações Finais

O movimento negro encontra-se em uma “encruzilhada”, como foi


descrito por vários participantes da pesquisa no estado. Esse momento
pode ser traduzido como um ponto crucial no qual algumas escolhas têm
de ser feitas e os caminhos são muitos. Em encontro promovido pela
Makota Valdina apontam como razão, para isso, o fato de alguns ativistas
que fundaram o movimento terem falecido e a conjuntura atual, que exige
respostas rápidas para problemas complexos.
O retorno às comunidades e a solução do genocídio dos jovens
negros foram um dos aspectos apontados como necessários e urgentes.
Esse retorno está sendo proporcionado principalmente pelos movimentos
hip hop que, apesar de não fazerem parte de conceito clássico de
32 www.correionago.com.br
33 www.mundoafro.atarde.com.br
3
movimento negro, têm como referência a estética e o discurso da
negritude e africanidades, chegando facilmente à população jovem, com
suas mensagens de conscientização negra.
Há em curso um enfraquecimento sistemático das articulações
negras tradicionais, a exemplo de entidades como o Movimento Negro
Unificado (MNU), que já foi a grande referência em décadas anteriores,
como a de 1980, mas que agora não consegue aglutinar muitos ativistas,
os quais encontram-se “dispersos”, em ONGs, movimento hip hop, no
ativismo contra a intolerância religiosa e nas universidades, por exemplo.
Em contrapartida, o discurso preconizado pelo movimento negro daquela
época toma dimensão estadual, já fazendo parte inclusive do repertório do
poder público e de algumas empresas. A luta negra, portanto, teria
tomado uma dimensão maior e ficou fora do “controle” das antigas
lideranças, fato almejado por estes mesmos em determinado momento de
suas estratégias políticas, de acordo com alguns entrevistados.
Apesar dos avanços, o entendimento da maioria dos envolvidos é
que há muito a se fazer, principalmente na disputa pelo poder, de fato. O
movimento está em uma fase de transição entre um momento no qual
lutava por reconhecimento e um momento no qual necessita construir um
projeto de gestão do Estado e suas instituições. Esse “projeto” é sempre
apontado como necessário, mas o Movimento ainda não conseguiu atingir
os caminhos para sua efetivação, apesar do esforço e perseverança
demonstrados desde sempre.
É preciso também registrar as histórias de vidas e das políticas
criadas por ativistas do movimento negro, uma vez que a dispersão gera
falta de memória coletiva. Essa memória pode ser registrada através de
biografias, produções audiovisuais, museus etc. É preciso ampliar a
participação jovem nas esferas de decisão do movimento e o diálogo entre
todos os segmentos que reclamam da falta do diálogo com caráter
avaliativo, uma vez que os ativistas se encontram apenas para realizar
atividades em comum, com pouco espaço para uma reflexão mais
apurada sobre os caminhos da luta.

3
Por fim, podemos afirmar que a Bahia concentra importantes
instituições e iniciativas de promoção da igualdade racial no Nordeste, o
que é justificado, dentre outras razões, pelo número de afro-brasileiros e
pelo histórico de desigualdades abissais entre negros e brancos que
caracterizam o estado.

Tabelas Bahia

Tabela 1
Localização das organizações. Bahia, 2009

Número de Distribuição
Município
organizações (%)

ALAGOINHAS 5 8,3
AMÉLIA RODRIGUES 1 1,7
CAMAÇARI 1 1,7
CRUZ DAS ALMAS 2 3,3
ENTRE RIOS 1 1,7
ITUBERA 1 1,7
JUAZEIRO 1 1,7
SALVADOR 44 73,3
SÃO FRANCISCO DO CONDE 1 1,7
SERRINHA 1 1,7
SOUTO SOARES 1 1,7
VITÓRIA DA CONQUISTA 1 1,7
Total 60 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

2
Tabela 2
Tipo de organização. Bahia, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 21 35,0


ONG ou OSCIP 8 13,3
Fundação 1 1,7
Instituição religiosa 4 6,7
Setor público 20 33,3
Outros 6 10,0
Total 60 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 3
Situação jurídica das organizações segundo o tipo. Bahia, 2009.

Situação jurídica
Em processo Não Organização Total (1)
Tipo de organização
Formalizada de do Setor
formalização formalizada Público

Associação ou movimento 20 1 - - 21
ONG ou OSCIP 7 1 - - 8
Fundação - 1 - - 1
Instituição religiosa 4 - - - 4
Setor Público 1 - - 19 20
Outros 4 1 - 1 6
Total 36 4 0 20 60

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


Notas: (1) Algumas organizações não declararam sua condição legal ou seu tipo.

Tabela 4

2
Tempo médio de existência das organizações segundo o tipo. Bahia, 2009

(Em anos)
Tempo médio Número de
Tipo Desvio padrão
de existência organizações

Associação ou movimento 14 20 9,216


ONG ou OSCIP 19 8 14,111
Fundação - 1 .
Instituição religiosa 8 4 6,946
Setor público 9 18 13,322
Outros 10 6 6,125
Total 12 57 11,388

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 5
Média de pessoas ocupadas por tipo de organização. Bahia, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 57 19 88,832


ONG ou OSCIP 27 8 23,892
Instituição religiosa 49 4 38,810
Setor Público 23 16 24,044
Outros 27 6 22,498
Total 38 53 57,879

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 6

Principais áreas de atuação das organizações por tipo. Bahia, 2009

Número de Associação ONG ou Fundação Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação (1) ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 58 21 8 1 4 20 4

Arte e Cultura 37 18 4 1 4 9 1
Educação 41 15 7 - 3 15 1
Meio-Ambiente 6 2 1 - - 3
Emprego, Trabalho e Renda 21 10 2 1 1 7
Saúde 11 2 3 - - 6
Dir. humanos /Ações Afirmativas 47 13 7 1 3 19 4
Informação 8 4 3 - - 1
Outra 10 3 2 - 1 2 2

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram números divergentes de áreas de atuação.

Tabela 7

2
Publicos preferencias das organizações por tipo. Bahia, 2009

Número de Associação ONG Fundações Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação (1) ou ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 60 21 8 1 4 20 6

Lésbicas, gays, bi-sexuias e trangêneros 7 1 - - - 4 2


Quilombolas 34 13 4 - 3 14 -
Mulheres negras 38 17 3 1 3 12 2
População negra 46 16 8 1 2 15 4
Índígenas 3 1 1 - - 1 -
Infancia e juventude 39 17 6 1 4 7 4
Outro 7 3 1 - - 2 1

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram números divergente de áreas de atuação.

Tabela 8
Número médio de pessoas atendidas no ano por tipo de organização. Bahia, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 971 19 1456,964


ONG ou OSCIP 3.226 7 4244,521
Instituição religiosa 188 4 209,662
Setor Público 7.738 12 11358,520
Outros 860 5 684,105
Total 2.956 47 6543,885

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 9

2
Número de organizações que desenvolvem pesquisa. Bahia, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 7 41,2


ONG ou OSCIP 1 5,9
Setor Público 7 41,2
Outras 2 11,8
Total 17 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

2.1.5 Informe sobre políticas e movimentos negros – Ceará,


Setembro
2009

Introdução

Este relatório apresenta o resultado das atividades do Mapeamento


relativo ao estado do Ceará - políticas, organizações, movimentos,
lideranças, conhecimento -, decorrente de visita a Fortaleza, de 14 a 15 de
2
agosto de 2009. O estado apresenta, segundo o IBGE, uma população
total de 8.238 habitantes; destes, 3.427 residentes na Região
Metropolitana de Fortaleza, que compreende 13 municípios 34. No que
concerne a cor e raça, o Ceará apresenta uma população afrodescendente
que corresponde a 65,9% do total, ainda que deste percentual apenas
uma minoria, 2,4%, se autodeclare preta e 63,5% se autodeclarem pardos;
indígenas representam 0,4%; e brancos 33,7% da população total35.
A opção metodológica para a atividade de campo envolveu alguns
procedimentos: mobilização; rodas de conversa; reuniões setoriais;
entrevistas; visitas. Juliana Holanda foi escolhida como articuladora local,
dado o seu diálogo facilitado com o recém-criado organismo de promoção
da igualdade racial, a Coordenadoria de Políticas de Promoção da
Igualdade Racial (COPPIR), vinculada à Secretaria de Direitos Humanos
(SDH) da Prefeitura Municipal de Fortaleza, e pelo seu acesso às
organizações locais.
Enquanto militante negra, Juliana Holanda atua na área de cultura e
educação, a partir da ONG Travessia, fundada em março de 2003. Junto à
COPPIR, sua atividade é de produtora de eventos, responsável pela
realização da Terça Negra e do Novembro Negro: o primeiro evento
acontece semanalmente e, o segundo, anualmente; ambos visibilizam
diversas linguagens da cultura negra cearense e são realizados no Parque
da Criança, área pública localizada no centro de Fortaleza.
Jovem e dinâmica, Juliana foi escolhida pela facilidade de transitar
entre o movimento negro local, independente das possíveis divergências
entre organizações e, na medida em que é filha de uma militante
histórica, conhecida por todos, respeitadíssima e falecida recentemente,
este fato também influiu na sua escolha para articular os diversos grupos
que atuam na cidade/estado.

Informações geradas através questionário

34Fortaleza, Caucaia, Aquiraz, Pacatuba, Maranguape, Maracanaú, Eusébio, Guaiúba,


Itaitinga, Chorozinho, Pacajus, Horizonte e São Gonçalo do Amarante.
35http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos
/sinteseindicsociais2007/indic_sociais2007.pdf
3
Tipo de Organização e Situação Jurídica: À exceção da Organização
Cultural Religiosa de Matriz Africana Ilê de Xango Ogodô de Caucaia,
interior do Ceará, as demais 17 organizações pesquisadas estão
localizadas no município de Fortaleza. (Tabela 1, em anexo) A maioria,
como esperado, é constituída de organizações do movimento social -
Associações ou Movimentos, ONGs ou OSCIPs, Instituições Religiosas -,
enquanto o Setor Público responde por 31%, entre governo e
universidade36. (Tabela 2, em anexo) Apenas duas organizações
declararam não estar formalizadas, enquanto a maioria (13) declarou
estar formalizada, incluindo-se nesta categoria as instituições do setor
público; duas estão em processo de formalização. (Tabela 3, em anexo)
Tempo de existência: A média encontrada é 12 anos, sendo que
metade das organizações tem até cinco anos e meio de existência, e a
mais antiga existe há 73 anos37. As organizações do Setor Público têm
média de tempo de existência menos elevada (5 anos) que as demais.
(Tabela 4, em anexo)
Quem atua nas organizações: A média de pessoas atuando nas
organizações foi calculada em 110 pessoas. O número menos elevado está
no Setor Público, com 5 pessoas, o que sugere fragilidade e pouca
capacidade de atuação, característica dos órgãos de promoção da
igualdade racial, como um todo. (Tabela 5, em anexo) Os homens têm
pequena maioria (53%) nas posições de trabalho e a distribuição racial das
ocupações revela maioria negra, 76%.
Áreas de atuação e público atendido: Em relação às áreas de
atuação, registrou-se a elevada importância atribuída pelos respondentes
à Educação, 83% das organizações; Arte e Cultura (78%); e Direitos
Humanos e Ações Afirmativas (67%). (Tabelas 6, em anexo) Os negros/as
são o grupo populacional mais expressivo das organizações. Entre os
pesquisados, 83% afirmam ter negros/as, entre os seus públicos; pouco
mais da metade atendem à Infância e Juventude e, 44%, aos Quilombolas.
Entre os grupos populacionais com menores atenções, temos as Lésbicas,
gays, bi-sexuais transgêneros (6%). (Tabela 7, em anexo)
36 Duas organizações não se classificaram entre as alternativas propostas.
37 Trata-se da Associação Cultural Maracatu Az de Ouro.
3
Em termos médios, as organizações cearenses atendem anualmente
a 1.556 pessoas. A média mais elevada pertence ao Setor Público, com
12.000 pessoas (Tabela 8, em anexo), sendo que a média de pessoas
atuando para atendimento a esse público é de apenas 5 pessoas.
Políticas Públicas e Disseminação de Conhecimento: Foram
pesquisadas cinco instituições que se declararam do setor público no
Ceará: a COPPIR, a Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza, a
Escola Pública CMES Martha dos Martins Coelho Guilherme, a Secretaria
Municipal de Saúde e o Grupo de Estudos e Pesquisa Trabalhadores Livres
e Escravos do Ceará: diferenças e identidades. Em relação às políticas
públicas, duas organizações não declararam: a Escola Pública CMES
Martha dos Martins Coelho Guilherme e o Grupo de Estudos e Pesquisa
Trabalhadores Livres e Escravos do Ceará: diferenças e identidades. Todas
as demais revelaram desenvolver ações na área de Educação (Lei
10.639/03 e/ou Lei 11.645/08), a mais contemplada no estado. A COPPIR
também desenvolve ações nas comunidades de terreiro, políticas de
saúde da população negra e de combate ao racismo institucional, com
financiamento de fundações. Além das ações na área de educação, a
Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza também atua no fomento à
cultura negra, em ambos os casos com recursos orçamentários de
fundações internacionais.
A World Learning do Brasil – Fortaleza se identificou como instituição
pública e atua nas áreas de educação das relações étnicorraciais e de
combate ao racismo institucional, com financiamento internacional; a
Secretaria Municipal de Saúde, com recursos do orçamento, disse possuir
amplo leque de ações, atuando em todas as áreas inquiridas: educação,
acesso ao mercado de trabalho, políticas para as comunidades de terreiro,
políticas de fomento à cultura negra, para as comunidades quilombolas,
de combate ao racismo institucional e de saúde.
Apenas a World Learning do Brasil – Fortaleza declarou desenvolver
atividades de pesquisa no Ceará, na área dos estudos culturais, embora
não tenha apresentado os resultados (Tabela 9, em anexo).

2
Informações geradas através rodas de conversa e entrevistas

As organizações locais foram convocadas a participar dos encontros


através de convites por telefonemas e e-mails. No primeiro encontro,
realizado na manhã do dia 14 de agosto, na sede da COPPIR, a equipe do
Mapeamento se reuniu com Patrícia Bittencourt e Francisco Salviano Lobo,
técnicos da coordenação. O coordenador, Luiz Antonio Bernardo, não se
fez presente, uma vez que se encontrava em Natal, participando de um
encontro regional de Fóruns de Diversidade e Educação.
Na tarde desse mesmo dia, 14 de agosto, fizemos uma reunião no
Museu do Ceará, com a presença de 41 representantes de entidades de
movimento negro e outras instâncias do poder público, como saúde e
educação. Após a apresentação do espaço e das ações implementadas
pelo Museu do Ceará no âmbito de publicação38 e promoção de eventos
relacionados à divulgação de pesquisas em parceria com o movimento
negro, Paulo Vinícius, coordenador e pesquisador do Museu do Ceará,
passou a palavra a Nazaré Lima, que saudou os/as participantes e
apresentou a proposta de mapeamento. Em seguida, Antonio Nascimento
fez sua fala a respeito de como o Mapeamento se insere na programação
da Fundação Kellogg. Concluídas essas falas, abriu-se o debate, para
colocação de dúvidas, questionamentos e comentários em geral.
Os representantes das instituições seguiram fazendo a apresentação
pessoal e institucional, comentando suas atividades, dificuldades e
potencialidades nas ações de combate ao racismo e promoção de
igualdade racial. Após as falas de todas as organizações presentes, foi
aplicado o questionário.
Na manhã do dia 15 foram realizadas duas visitas, nas quais
lideranças foram entrevistadas. A primeira visita foi ao Quilombo Alto
Alegre, no município de Horizonte, a 40 km de Fortaleza. Na ocasião,

38 Ratts, Alecsandro (Alex) J. P.. Traços étnicos: espacialidades e culturas negras e


indígenas. Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, 2009. v.
1. 140 p./ Holanda, Cristina Rodrigues. Negros no Ceará – história, memória e etnicidade.
Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, 2009. v. 1. 239 p./
Palitot, Estevão Martins. Na Mata do Sabiá – contribuições sobre a presença indígena no
Ceará. Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, 2009. v. 1.
461 p
2
conhecemos a Escola do Quilombo, seu coordenador pedagógico, um
professor e alguns estudantes. Fizemos uma roda de conversa com essas
pessoas e entrevistamos Ana Silva, ex-presidente da Associação, uma
grande liderança da comunidade. Impressionante sua atuação, sua
trajetória de vida, as concepções que possui sobre relações raciais, de
gênero, sobre a vida na comunidade, cooperação no Quilombo, conflitos,
relação com o mundo de fora, a exemplo de autoridades, políticos,
intelectuais, dentre outros temas sobre os quais discorreu com bastante
propriedade. Em seguida, conhecemos a produção de mel existente,
quando foi explicado como funciona a produção e a comercialização.
A segunda visita foi feita ao Maracatu Nação Iracema, situado no
bairro Jardim Iracema. Aí também ficamos impressionados/as com as
atividades que realizam, o contexto de criação do Maracatu, resultado de
insatisfações quanto à participação política nos movimentos negros.
Mediante entrevista em roda composta por mulheres associadas, William
Augusto Pereira, seu atual dirigente, explica que o Maracatu foi fundado
por uma militante do movimento negro, sua sogra, hoje falecida, com a
intenção de se constituir em espaço de realização de atividades políticas,
voltadas ao combate ao racismo, agregando jovens e adultos do bairro e
adjacências. Para os rituais de natureza místico-religiosa, sempre
convidam integrantes de outros maracatus, uma vez que são católicos e
não membros de religiões afro-brasileiras. O seu filho, Cristiano Simão
Pereira, nos falou sobre como lidera a juventude negra vinculada ou não
ao Maracatu e discorreu sobre os problemas vivenciados, em termos de
educação, cultura e lazer, violência policial, etc.

Contextualização e cenário

Apesar da grande negação em torno do ser negro no Ceará, o


cenário social é marcado pela resistência negra, aspecto visível na cultura
cearense, sobretudo no que tange à memória. Um dos exemplos mais
emblemáticos, seja da negação, seja da resistência, é a constante
rememoração da interrupção do desembarque de africanos escravizados
3
nos portos cearenses, comandado por Francisco José do Nascimento, em
1881, como um fato marcante da história oficial do estado. O líder desse
movimento de resistência de jangadeiros ficou conhecido como Dragão do
Mar, que também é o nome do maior centro cultural da capital; sua
origem africana é comumente omitida pela história oficial.
Ainda considerando o campo da memória e seu entrecruzamento
com a cultura, são também emblemáticas as narrativas sobre resistência
negra, através dos maracatus; só em Fortaleza, nesse momento, há 40
Maracatus, com suas narrativas. No campo político, destacam-se duas
grandes fases.
A primeira fase está localizada entre o fim da década de 70 e início
dos anos 80, em que o Movimento Negro desponta junto aos outros
movimentos populares urbanos como os movimentos de bairro e das
pastorais. O Maracatu Nação Iracema é um bom exemplo dessa primeira
fase e a segunda mais antiga, nessa categoria. Embora tenha sido criado
em 1982, somente em 2002, após 20 anos de criação, obteve registro
jurídico como Associação Cultural e Educacional. No carnaval de 2009, a
agremiação carnavalesca desfilou com cerca de 450 integrantes. Este
Maracatu guarda, ainda, outra peculiaridade: nasce das discussões em
reuniões do movimento negro nos anos 70 e início de 80, afirmando-se
como entidade do movimento negro e tendo sua ação política vinculada à
cultura. Com isto, o Maracatu Nação Iracema difere da maioria dos
maracatus no Nordeste, que relacionam religiosidade e cultura.
Uma segunda fase, a dos dias atuais, é marcada pelo
reconhecimento de terras quilombolas, surgimento de um organismo de
promoção da igualdade e promoção de políticas públicas. Aqui, lembramos
a existência do Quilombo de Alto Alegre, entre outros, e da COPPIR, ambos
descritos adiante.
Ana conta que a comunidade teve início com a fuga do escravo
Negro Cazuza de um navio ancorado na Barra do Ceará, em Fortaleza, e
sua chegada a essa região. O certificado de reconhecimento concedido
pela Fundação Cultural Palmares em 2005 é resultado de um processo de
mobilização da comunidade iniciado no fim dos anos 90. A comunidade,
3
que sobrevive da agricultura familiar e da produção de mel, atualmente
tem como maior desafio manter-se articulada com outras comunidades,
com vistas a garantir direitos e benefícios de políticas públicas.
A Coordenadoria de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade
Racial (COPPIR) também está situada nessa segunda fase, criada em
dezembro de 2007, no âmbito da Secretaria de Direitos Humanos da
Prefeitura Municipal de Fortaleza.
Como afirma Anelice, professora da rede municipal, Sempre tivemos
essa preocupação de resgatar essa cultura histórica, pelo fato do Ceará
ter em Redenção a primeira cidade a libertar escravos. Temos também um
grande desafio, estamos acolhendo 50% de estudantes africanos – temos
uma cultura diversificada e diferente. Apesar da gente ter essa cultura de
negros parece que a gente estava desativando, esquecendo essas origens
e ainda não demos conta dessa grandiosidade em que estamos inseridos.

A configuração das organizações negras no ceará

Os movimentos negros do Ceará atuam principalmente no campo da


afirmação da identidade racial e da cultura negra, como é o caso do Afoxé
Kamutuê Alaxé (que significa cabeça de Deus, em Yorubá) iniciado há 3
anos. O afoxé planeja desfilar em 2010 com o tema “No Ceará tem disso:
Afoxé”. Atualmente existem 5 blocos e, até o final do ano, mais 2 blocos
se juntarão ao grupo, segundo Ivaldo Paixão, capitão da marinha
mercante e fundador da organização.
O Maracatu Nação Iracema, situado no Jardim Iracema, em sede
provisória, tendo como lideranças Maria Lúcia Simão Pereira e William
Augusto Pereira, desde a sua criação realiza ensaios, festas, desfiles
carnavalescos, coordena o Bloco Tambores de Abogun, promove debates
e seminários, além de coordenar cursos e veicular uma TV on-line, através
do seu website39.
A instituição apóia ainda a criação e manutenção de grupos de
juventude negra, como o grupo Juventude Negra Brasileira, liderado por

39 www.nacaoiracema.org.br acessado em agosto de 2008


3
Cristiano Simão (19 anos) que integra o Maracatu Nação Iracemae
defende a organização dos jovens da comunidade. Tendo participado,
como delegado, do último Encontro Nacional da Juventude Negra
(ENJUNE), alerta que “o movimento negro e a juventude negra precisam
de formação política para ter futuro”.
O Quilombo de Alto Alegre, no município de Horizonte, possui uma
liderança bastante atuante, Ana Silva, ex-Presidente da Associação dos
Remanescentes de Quilombos e Adjacências (Arqua) e hoje membro da
Diretoria, qualificando a articulação política com o governo e outras
instituições da sociedade.
Na área de educação, esta comunidade possui 2 escolas públicas
municipais, que recebem cerca de 600 estudantes, não só do Quilombo,
educando também outras crianças e jovens de áreas próximas a ele.
Nessas escolas, desenvolve-se uma proposta que nos pareceu bem
consistente de implementação da Lei 10.639/03. A sua concepção é do
Prof. Dr. Henrique Cunha Jr. que, além de atuar na Universidade Federal
do Ceará, como professor na área de Engenharia e Educação, é
reconhecido nacionalmente como militante do movimento negro; o
professor assessora a experiência e coordena a formação dos
professores/as.
O Samba de Rosas, representado por Adriana de Maria Coelho e
Jacinta (Jajá) Aquino, também foi apresentado durante o mapeamento. O
grupo trabalha com ritmos afro, dentre os quais samba e jongo e pesquisa
ritmos de terreiro, assim como lendas e mitos, todos utilizados em suas
apresentações.
A ONG Terra da Luz, representada por Roberto de Oliveira, diz
trabalhar com a questão cultural, de modo transversal, e faz a Caravana
da Consciência Negra, em 4 comunidades, tendo como principal objetivo
descentralizar as discussões sobre raça, ao visitar os bairros de Fortaleza
levando essa discussão. A ONG se referiu à capacitação de 800 jovens na
área de serviço e artesanato, além do trabalho na área de segurança
alimentar, através da distribuição de 230 kg de alimento na periferia e
comunidades quilombolas.
3
Do encontro participaram o MNU e a UNEGRO. O MNU, representado
por Vladimir Batista e Joelma Gentil, que também atuam como professores
na rede pública de educação. Para Joelma, “a maior dificuldade das
crianças não é linguística, mas de autoestima”. A ação da organização tem
se dado através da edição de 1 livro e da pesquisa e seleção de material
para mais 4: álbum de fotografias, poemas das crianças, encontros
fantásticos e releituras das práticas de crianças negras nos espaços
religiosos que frequentam.
Educação é também o campo preferencial, para José da Silva Neto,
representante da UNEGRO, que também preside o Grupo Afro Seara. A
UNEGRO trabalha com jovens junto às escolas “para a implementação da
10.639/03; a grande dificuldade é a falta de apoio e financiamento, além
do fato de não termos sede própria, diz ele”. Paulo Rogério, também
coordenador da UNEGRO, informa que a organização está também
envolvida no Fórum de Entidades Negras do Ceará (FENECE), há 3 anos, e
articula, junto ao Museu do Ceará, a produção de livros em torno da
discussão sobre políticas públicas e negritude.
O Movimento Hip Hop Organizado do Brasil (MNH²O) diz atuar em 28
periferias do Estado do Ceará, priorizando as seguintes áreas temáticas:
mulheres, desenvolvimento econômico e igualdade racial. Segundo Sátiro
Silvestre, representante da instituição, “a gente acha que o hip hop tem
que estar prioritariamente a favor da igualdade racial”.
Jovens africanos, da Associação de Estudantes Africanos, também
estiverem presentes. Benjamim da Silva Santa, guineense, secretário da
instituição, afirma que “a gente decidiu fazer essa associação para apoiar
estudantes africanos, mas a gente também quer chegar às periferias para
levar a cultura africana, queremos também fazer a Casa África Brasil, para
levar atividades culturais – música, poesia e dança – para o cearense e
tentar chegar a outros estados”.
Ainda em relação à juventude, apresentou-se a empresa Gente
Nossa Filmes, dirigida por Tamylka Viana e Deo Cardoso. Sócios na
produtora de audiovisual, eles têm o propósito de trazer o público negro
para o centro e produzir mídia estratégica sobre identidade negra na
2
criança cearense, além de formar essas crianças e produzir suas idéias.
“Pode me chamar de Nadí”, primeiro vídeo produzido pela dupla, já
concorre a festivais nacionais. Há projetos para a produção de longa
metragem, e a empresa também disputa editais de governo.
Marcelo de Ayrá representou o Ilê Axé Oxum Iansã, situado no
município de Caucaia, que além de trabalhar com comunidades
quilombolas, intenta mapear terreiros localmente: “há necessidade de
chegar mais aos terreiros, trazer para o fórum e ajudar”. Maria Saraiva da
Silva, mais conhecida como Socorro Saraiva, atua como professora na
rede municipal de educação e é catequista. Ela diz que desde 2002/2003
há, por parte da Igreja Católica, ações paroquiais com a finalidade de criar
uma casa de referência para o povo negro, ainda sem sucesso.
Na sua fala, Hilário Ferreira, que pesquisa história do negro no
Ceará, lembrou: “o Estado do Ceará tem uma questão ímpar: durante
muito tempo escutamos que não havia negros no Ceará. Quando entrei na
universidade percebi que ela era branca. Indo para o Seminário de
Estudantes Negros e Negras Universitários (SENUN), na Bahia, comecei a
entender as coisas. Meu curso é Ciências Sociais e meu mestrado é em
História. Hoje pesquiso esses temas, pesquiso cultura Bantu, embora seja
de axé, filho do Ilê Axé Ogunjá, comandado por Pai Balbino de Ogum,
vindo da nação jeje”.

Instituições Governamentais

Ceará não possui organismos de promoção da igualdade racial no


governo estadual, mas sim no governo municipal de Fortaleza, a COPPIR,
criada em dezembro de 2007, ligada ao Gabinete da Prefeita e
inicialmente comandada pelo vice-prefeito, José Carlos Veneranda. Nesse
primeiro ano, a ação esteve mais voltada para a divulgação da criação do
órgão e de sua agenda política.
Em julho de 2008, a COPPIR passou a integrar a estrutura da
Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, sob o comando de Luiz Antonio
Bernardo, que não vem da militância negra, mas é negro e respeitado por
3
sua trajetória política em organizações e partidos de esquerda. O corpo de
técnicos da COPPIR é composto por militantes das seguintes áreas:
mulheres negras, juventude negra, hip hop, meio ambiente e
Gays/Lésbicas.
A COPPIR promove encontros regulares para escuta da população
negra e militantes de organizações dos movimentos negros, para definir a
ação nas suas principais áreas de enfrentamento e atividades: SOS
racismo; Centro Temático Afro Cearense (CENTAC), que atua com
promoção de arte, cultura e educação; comemoração de datas e
momentos simbólicos para o movimento negro, como o mês da
consciência negra; acompanhamento do Fórum Cearense de Terreiros.
Entre as ações da COPPIR figuram a realização da I e II Conferência
de Promoção da Igualdade Racial; a realização da Terça Negra e
celebração do Mês da Consciência Negra; apoio a projetos de
comunidades e instituições; articulação interinstitucional, especialmente
no campo da saúde e educação; ações de educação em 160 escolas,
atingindo 10.000 estudantes; acompanhamento da criação da
coordenação de saúde da população negra; participação no Fórum
Estadual de Educação e Diversidade; ações relacionadas às terras
quilombolas; participação no Fórum Inter-governamental de Promoção da
Igualdade Racial do Nordeste (FIPIR/NE); articulação com a SEPPIR.

Produção e disseminação de conhecimento

O levantamento prévio de informações acerca do estado identificou


as seguintes instituições que produzem e divulgam conhecimento: o
Núcleo de Estudos Negros e o Programa de Pós-Graduação em Educação
Brasileira, ambos da Faculdade de Educação da Universidade Federal do
Ceará (UFC); o Núcleo Brasileiro, Latino-Americano e Caribenho de Estudos
em Relações Raciais, Gênero e Movimentos Sociais (NBLAC), também da
UFC, situados no campus do Cariri; o Núcleo das Africanidades Cearenses
(NACE), que mobiliza professores/as, pesquisadores/as, estudantes e
ativistas para estudos e educação para as relações raciais, além da
3
implementação da lei 10.639/03. Contudo, durante a visita, essas
organizações não compareceram às reuniões, ou não foram convocadas
pela mobilizadora. Sabemos que, no período, Henrique Cunha Júnior
estava fora da cidade, assim como Zelma, pesquisadora que conhecemos
em Natal, participando do encontro regional de Fóruns de Educação e
Diversidade.

Considerações Finais

Sobre o Ceará, prevalece o discurso de que a população indígena


seria a única não branca no estado. Não foi isso que constatamos na visita
realizada, posto que, ao longo do texto, mostramos uma série de
iniciativas de combate ao racismo e de promoção da igualdade racial,
mesmo que haja dificuldades em sua consolidação, fato que também se
verifica em outros estados.
Sendo assim, há avanços, como a criação de um organismo de
promoção de igualdade e da implementação de políticas públicas,
entretanto essa movimentação é recente e incipiente. Tanto na esfera dos
movimentos negros, quanto no governo e, ainda, nas relações entre esses,
há uma grande necessidade de discutir e implementar parcerias e
políticas públicas que efetivamente saiam do espaço do entretenimento,
deixem de ser ações pontuais e se convertam em políticas públicas.
A valorização da cultura afro-brasileira, mantendo a visibilidade da
herança africana com vistas à elevação da autoestima tem sido uma
estratégia recorrente nos movimentos negros do Ceará, em resposta a
uma grande demanda desses movimentos: o enfrentamento da
invisibilidade e da aniquilação. Apesar de vários grupos e militantes
usarem essa mesma estratégia, há pouco diálogo e articulação entre as
organizações e com universidades e governo.
Não há, também, indicativo de desenvolvimento de projetos ou
programas de longa duração, longo alcance ou ampla intervenção social
por parte das organizações. No entanto, as organizações existem, atuam
e, dessa forma, desconstroem a grande narrativa de que a população
3
negra sequer existe, quando as estatísticas mostram que ela se situa no
patamar de 65,9%.

Tabelas Ceará

Tabela 1
Localização das organizações.Ceará, 2009

Número de Distribuição
Município
organizações (%)

Caucaia 1 5,6
Fortaleza 17 94,4
Total 18 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 2
Tipo de organização. Ceará, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 6 33,3


ONG ou OSCIP 2 11,1
Instituição religiosa 1 5,6
Setor Público 5 27,8
Outros 4 22,2
Sub total 18 100
Não sabe ou não respondeu -
Total 18

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 3

3
Situação legal das organizações segundo o tipo. Ceará, 2009.

Situação legal
Em Não Organização Total (1)
Tipo de organização
Formalizada processo de do Setor

formalização formalizada Público

Associação ou movimento 4 1 1 - 6
ONG ou OSCIP 1 - 1 - 2
Instituição religiosa - 1 - - 1
Setor Público - - - 5 5
Outros 3 - - - 3
Total (1) 8 2 2 5 17

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


Notas: (1) Algumas organizações não declararam sua condição legal ou seu tipo.

Tabela 4
Tempo médio de existência das organizações segundo o tipo. Ceará, 2009

(Em anos)
Tempo médio Número de
Tipo Desvio padrão
de existência organizações

Associação ou movimento 20 6 28,160


ONG ou OSCIP 12 2 11,314
Instituição religiosa 8 1 -
Setor público 5 3 2,516
Outros 4 4 2,217
Total 12 16 18,191

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 5

2
Média de pessoas ocupadas por tipo de organização.Ceará, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 198 5 287,549


ONG ou OSCIP 294 2 404,465
Instituição religiosa 28 1 -
Setor Público 5 3 2,000
Outros 7 4 3,304
Total 125 15 220,878

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 6
Principais áreas de atuação das organizações por tipo. Ceará, 2009

Número de Associação ONG ou Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 18 6 2 1 5 4

Arte e Cultura 14 6 2 1 2 3
Educação 15 5 1 1 5 3
Meio-Ambiente 5 1 0 0 2 2
Emprego, Trabalho e Renda 5 2 2 0 0 1
Saúde 5 1 0 1 2 1
Dir. humanos /Ações Afirmativas 12 5 1 0 3 3
Informação 4 2 0 0 0 2
Outra 3 1 0 0 1 1

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número divergentes de áreas de atuação.

Tabela 7

2
Publicos preferencias das organizações por tipo. Ceará 2009

Número de Associação ONG Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 18 6 2 1 5 4

Lésbicas, gays, bi-sexuias e trangêneros 1 1 - - - -


Quilombolas 7 3 1 1 2 1
Mulheres negras 6 4 - 1 1 -
População negra 14 6 2 - 4 3
Índígenas 6 2 1 - 2 2
Infancia e juventude 10 4 2 1 1 2
Outro 4 2 - - 1 1

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número divergente de áreas de atuação.

Tabela 8
Número médio de pessoas atendidas no ano por tipo de organização. Ceará, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 362 5 333,233


ONG ou OSCIP 400 2 141,421
Instituição religiosa 100 1 .
Setor Público 12000 1 .
Outros 1200 2 1131,371
Total 1635 11 3507,038

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 9
Número de organizações que desenvolvem pesquisa. Ceará, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento - -
ONG ou OSCIP - -
Instituição religiosa - -
Setor Público - -
Outras 1 100,0
Total 1 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

2
2.1.6 Informe sobre políticas e movimentos negros – Maranhão,
Outubro 2009

Introdução

A bela e hospitaleira São Luís (MA) é uma das três Capitais-ilhas do


Brasil40. A ilha ou Capital do Reggae, como é conhecida pelos aficionados
do ritmo jamaicano, possui uma população de aproximadamente um
milhão de habitantes, sendo que desse contingente, 68,4%41, é constituída
de descendentes de africanos, o que a torna uma das cidades mais negras
do Brasil. O estado, segundo a PNAD (2005), tem aproximadamente
6.200,00042 habitantes, sendo que 74,3% dessa população é negra 43, 24,9
% branca, 0,7% indígena e amarela.
A negritude de São Luís, no entanto, não se expressa apenas no seu
contingente populacional, mas sim, porque a cidade “respira” cultura
negra. No vestuário, na musicalidade, na culinária, nas formas de
organizar a vida e, sobretudo, na religiosidade, os valores civilizatórios de
base africana estão presentes no dia a dia do povo ludovicense.44

40 As outras são Vitória (ES) e Florianópolis (SC).


41 Censo 2000
42 Tabela 8.1 - População total e respectiva distribuição percentual, por cor ou raça,
segundo as Grandes Regiões, Unidades da Federação e Regiões Metropolitanas – 2006.
Disponível em http://www.ibge.gov.br
/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/sinteseindicsociais2006/
indic_sociais2006.pdf
43 Pretos e pardos, segundo a classificação do IBGE.
44 Ludovicense é o natural de São Luís, o mesmo que são-luisense, conforme nos
informou Gisele Padilha, ativista do CCN e cantora oficial do Bloco Akomabu.
4
No que diz respeito à religiosidade, a festa consagrada a São
Benedito, o Santo Católico mais reverenciado pela população negra,
terminou por se transformar em homenagens a Averequete ou Verequete,
um dos Voduns mais cultuados no Tambor de Mina, uma das expressões
religiosas de matriz africana do estado. O Tambor de Crioula, que
aparentemente é apenas uma dança, por vezes ganha contornos
essencialmente religiosos. Uma graça alcançada, o nascimento de um
filho, a chegada de um parente ou amigo, e mais inúmeros
acontecimentos, são motivo para dançar um Tambor de Crioula. Na dança,
em louvor a São Benedito, a imagem do Santo é passada de mão em mão
entre as mulheres que dançam, trajando as suas longas e coloridas saias-
rodadas, acompanhadas pelo som dos enormes tambores (parelha)
tocados pelos homens. Tivemos o prazer de participar de uma dessas
celebrações45 na sede do CCN, o Centro de Cultura Negra do Maranhão, na
Rua dos Guaranis, s/nº - Barés - João Paulo, local onde realizamos a
primeira reunião.
O CCN, que este ano comemora 30 anos de existência46, tem
assentados na sua porta de entrada os Orixás que regem a entidade: Ode
Omoobà e Exu Zoutó. Com este ato, as lideranças negras do Maranhão
demonstram quanto o político e o religioso se inter-relacionam. Os versos
de Paulinho Akomabu, um dos compositores do bloco afro do CCN, dão
conta disso:
OMOOBÀ protegerá a fortaleza
EXU ZOUTO é guardião desse ilê
Centro de Cultura Negra
....................................................
E vai CCN é bandeira por educação
E vai 30 anos de conscientização
Continua essa luta de Zumbi,
Negro Cosme e Mãe Andreza
30 anos, dou parabéns a ti

45 O Tambor de Crioula do CCN foi oferecido por Ivan Rodrigues, ex-Coordenador da


entidade, em pagamento a uma promessa por motivos de doença, e ocorreu no dia 8 de
agosto, mês dedicado às comemorações a São Benedito; no segundo domingo do mês,
ápice das comemorações, acontece uma procissão em louvor ao Santo nas ruas da
cidade.
46 O CCN foi fundado em 19 de setembro de 1979.
4
47
CCN é uma beleza!

A professora Maria de Lourdes Siqueira, que depois de mais de 20


anos residindo na Bahia retornou a sua terra, atenta aos depoimentos que
ouve em nossa segunda reunião, comenta:
Estou impressionada com a quantidade de ações que vêm sendo
realizadas no Maranhão. Aqui, nós temos a riqueza de ter esse trabalho
enraizado e espalhado na base. É a cultura como dimensão política. Aqui,
a política e a cultura estão juntas. É pela cultura que o movimento se
articula. É incrível como nessa distância longa, o Maranhão consegue se
articular de forma impressionante... Eu acho que eu não voltei pra cá por
acaso!
Como todo território de maioria negra que foi submetido à
colonização, o Maranhão é profundamente marcado pelas desigualdades
sociorraciais. Estudos demonstram que a condição de vida da população
negra maranhense, sobretudo da Zona Rural, é extremamente precária,
coisa que não ocorre com a minoria branca que vive nesses espaços e que
sempre teve o poder de governar e influir na qualidade de vida dos
descendentes de africanos e indígenas habitantes desses territórios 48. Para
alterar essa realidade, diversas organizações negras do Maranhão vêm
realizando ações para combater o racismo, o preconceito racial,
reivindicando políticas públicas de promoção da igualdade racial por parte
dos governos.
Este informe objetiva apresentar um diagnóstico da problemática
racial no Estado do Maranhão, e em particular na sua capital São Luis, a
partir das informações levantadas nos dias 05, 06 e 07 de agosto de 2009,
junto a diversas lideranças, ativistas e organizações locais. O eixo das

47 No Maranhão a figura de Cosme Bento de Chagas, o Negro Cosme, um dos líderes da


Balaiada (1838-1841), de Mãe Andreza,, que dirigiu a Casa das Minas de 1914 a 1954,
são tão reverenciados quanto Zumbi, pelos ativistas negros do Maranhão.
48 PAIXÃO, Marcelo. Desenvolvimento humano da população negra: um enfoque
comparativo com os países africanos. In: Associação Latino-Americana de Estudos
Africanos e Asiáticos - ALADAA, 2000, Rio de Janeiro. Anais do X Congresso da Associação
Latino-Americana de Estudos Africanos e Asiáticos, 2000. v. 2. p. 1354-1365.

4
discussões foram as políticas de equidade racial e combate ao racismo,
através do governo, movimentos sociais, entidades civis e religiosas.
No Maranhão, fizemos 2 reuniões com os diversos segmentos do
Movimento Negro, visitas, encontros, conversas informais. Nos reunimos
na sede do CCN e também do Centro Cultural e Educacional
Mandingueiros do Amanhã, na Rua Portugal, 243 em Praia Grande. Além
disso, aplicamos um questionário, contando com o apoio de Carlos
Benedito Rodrigues da Silva (Carlão), Valdira Barros e Kleber Umbelino
Lopes Filho (Mestre Bamba)49, responsáveis por preparar a ambiência e
infra-estruturas necessárias para a realização do trabalho.

Informações geradas através questionário

Tipo de Organização e Situação Jurídica: A totalidade das 15


organizações pesquisadas no Maranhão está concentrada no município de
São Luis, sendo que a maioria delas (87%) pertence ao movimento social,
incluindo nessa categoria as Associações, os Movimentos, as Ongs e as
Oscips. O Setor Público responde por apenas 13% das instituições (Tabelas
1 e 2, em anexo). Encontrou-se um número elevado de instituições
formalizadas. Entre as 13 organizações da sociedade civil, dez se
declararam formalizadas, duas em processo de formalização e apenas
uma não regularizou sua situação jurídica (Tabela 3, em anexo).
Tempo de existência: A média do tempo de existência das
organizações pesquisadas é de 16 anos, sendo que metade delas tem
mais de 18 anos. A organização mais antiga, o Centro de Cultura Negra do
Maranhão, existe há 30 anos, e a mais recente, o Instituto de Educação e
49 Carlos Benedito Rodrigues é professor adjunto do Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais, do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal
do Maranhão. É Vice-Presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros e
Presidente do Centro de Estudos do Caribe no Brasil. Kleber Umbelino Lopes Filho (Mestre
Bamba) é Mestre de Capoeira e Diretor do Centro Cultural e Educacional Mandingueiros
do Amanhã, que trabalha com crianças e jovens; além disso, desenvolve trabalhos de
Capoeira junto a quilombolas. Valdira Barros é advogada, doutoranda em Políticas
Públicas na UFMA e assessora jurídica do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do
Adolescente Padre Marcos Passerini, organização não-governamental que realiza o
acompanhamento jurídico com as famílias dos meninos emasculados; 41 garotos foram
vitima dessa violência por um serial killer, nos estados do Maranhão e do Pará.

3
Pesquisa Afromaranhense Agontinmê, foi criado há 3 anos. Apenas uma
organização do setor público respondeu esta questão, o NEAB, ativo há 24
anos (Tabela 4, em anexo).
Quem atua nas organizações: Em relação à quantidade de pessoas
atuando nas organizações, registrou-se uma média relativamente baixa,
calculada em 35 indivíduos por instituição. A Associação Cultural Bloco
Afro Abibimã, com 120 pessoas, é a organização que reúne o maior
número. As Associações ou Movimentos têm em média 39 pessoas
atuando, as ONG’s ou OSCIP’s 32 e o Setor Público tem, em média, 12
pessoas (Tabela 5, em anexo). As mulheres ocupam a maioria (52%) das
posições de trabalho e a distribuição racial revela uma maioria negra, 83%
das pessoas com atuação.
Áreas de atuação e público atendido: Em relação às áreas de
atuação, registrou-se, a elevada importância dos Direitos Humanos e
Ações Afirmativas, da Educação e da Arte e Cultura, 80%, 73% e 67%,
respectivamente. O menor interesse ficou com Informação (13%) e Saúde
e Meio ambiente com 20% cada. (Tabela 6, em anexo). A População Negra
e a Infância e Juventude são os grupos populacionais mais frequentes nas
organizações (73%). Entre os grupos menos atendidos temos Indígenas e
Outros (Tabela 7, em anexo).
Em termos médios, as organizações atendem anualmente a cerca de
1,3 mil pessoas. A média mais elevada pertence às ONG’s ou OSCIP’s, com
1,5 mil pessoas por ano, seguidas pelas Associações ou Movimentos, com
1,3 mil/ano. (Tabela 8, em anexo)
Políticas Públicas e Disseminação de Conhecimento: Foram
pesquisadas duas instituições do setor público do Maranhão: o NEAB e o
Conselho Estadual da Política da Igualdade Étnico-racial.
O NEAB, com atuação nas áreas de Direitos Humanos e Ações
Afirmativas, Educação e Arte e Cultura, declarou desenvolver políticas de
igualdade racial na educação e ações afirmativas de acesso ao ensino
superior, com recursos do orçamento público. O Conselho Estadual da
Política da Igualdade Étnico-racial delibera sobre políticas públicas com
recursos orçamentários e articulações nas instâncias públicas e privadas.
3
São cinco as organizações que declararam desenvolver atividades
de pesquisa50, sendo uma instituição pública e as demais da sociedade
civil (Tabela 9, em anexo). Ao contrário do observado em outros estados
nordestinos, em que o interesse pela pesquisa não está ainda refletido em
publicações e produção de saberes acadêmicos, no Maranhão aparece
publicação de sete títulos de livros, duas revistas, cinco dissertações e um
número significativo de jornais e cartilhas, além de CDs e vídeos.
As áreas que despertam mais atenção como tema de pesquisa são
as relações raciais, os estudos culturais e os quilombos, mencionados por
quatro organizações como área de interesse; História da África e educação
anti-racismo, pesquisadas por três organizações; direitos humanos, por
duas; relação gênero e raça, por uma.
A Associação Cultural Bloco Afro Abibimã tem interesse nas áreas de
pesquisa sobre relações raciais, história da África, educação e estudos
culturais, já tendo realizado publicações de CDs e vídeos. A Aconeruq-Ma
pesquisa relações raciais, educação, direitos humanos e quilombos, tendo
publicado cartilhas. O NEAB/UFMA pesquisa relações raciais, educação,
gênero e raça, estudos culturais e quilombos, com 4 dissertações e um
livro. O Centro de Cultura Negra do Maranhão pesquisa relações raciais,
história da África, Educação, estudos culturais, direitos humanos e
quilombos, tendo publicado cinco livros, inúmeras revistas e jornais.
Finalmente, o Instituto Como Ver (Officina Affro) pesquisa história da
África, estudos culturais e quilombos, com uma dissertação e dois livros
publicados.

Informações geradas através rodas de conversa e entrevista

Em nossa primeira reunião, após as apresentações de Maria Nazaré


e Antonio Cosme (CEAFRO), e de Trícia Calmon (KELLOGG), que
expuseram os objetivos e porquês do mapeamento, os/as participantes
questionaram os objetivos da Kellogg, assim como discorreram sobre os

50 São as seguintes: a Associação Cultural Bloco Afro Abibimã, a Aconeruq-Ma, o


NEAB/UFMA, o Centro de Cultura Negra e o Instituto Como Ver - Officina Affro.

4
limites e possibilidades desse trabalho. Os itens mais discutidos, nessa
rodada de conversa, foram a mudança de foco da Fundação Kellogg, a
sustentabilidade do Movimento e os benefícios que um mapeamento como
esse pode trazer para o conjunto do Movimento Negro.

Organizações não governamentais

Assim como em outros estados da Federação, no Maranhão, as


ações que vêm sendo desenvolvidas para a valorização da história, da
memória, cultura, legado civilizatório e, dignidade da população negra,
resultam dos esforços dessa população, organizada de inúmeras e
diversificadas formas. São espaços religiosos, como o Tambor de Mina e o
Candomblé, rodas de capoeira, blocos afros, associações quilombolas,
dentre outras, que há mais de um século reivindicam políticas públicas do
Estado brasileiro, com vistas a, pelo menos, minimizar os efeitos de três
séculos de abandono, violência e perseguição.
Centro de Cultura Negra do Maranhão – CCN: O CCN é a organização
negra mais estruturada e mais importante do estado, segundo as pessoas
que participaram dos encontros. Isto porque quase todas as outras
organizações e movimentos sociais existentes surgiram a partir do CCN ou
por ele foram influenciados. Há 30 anos a organização mobiliza militantes
e profissionais para a organização política e cultural da população negra,
através de ações que visam fortalecer a resistência, a luta, a identidade
cultural e religiosa do povo negro do Maranhão. O CCN possui os seguintes
projetos:51
✔ Projeto CCN Vida de Negro, cujo objetivo é realizar o
levantamento das “Terras de Preto” ou “Terras de Quilombos” do
Maranhão, registrando formas de uso da terra, costumes e tradições
culturais e religiosas, bem como possibilitando a posterior intervenção
jurídica naquelas que se encontram com problemas fundiários, visando
à legalização e titulação de terras seculares dos quilombolas.

51 Plano operacional do Centro de Cultura Negra do Maranhão 2006 – 2010. São Luís, MA.
2007.
3
✔ Projeto CCN Quilombo: Resistência Negra (PQRN), que atua
em comunidades negras rurais com o objetivo de contribuir com o
processo de identidade racial e fortalecimento da auto-estima de
crianças, adolescentes, jovens, mulheres e lideranças, e ainda no
estabelecimento de uma pedagogia plurirracial com professoras/es e
alunas/os das escolas situadas nas comunidades quilombolas.
✔ Projeto CCN Sonho dos Erês, resultante da intervenção
ativa de adolescentes e jovens do entorno da sede da entidade na
busca de alternativas de inserção no mundo do trabalho e da
necessidade de construção de seus projetos de vida. Desenvolve
oficinas educativas, artísticas e culturais (Grafite, Confecção de
Instrumentos Afro e Estamparia em Tecido), resgatando a identidade
cultural e étnica, a autoestima e construindo com eles/as uma
consciência de luta contra o racismo.
✔ Projeto CCN Bloco Afro Akomabu, criado em 1984, como
mais um instrumento de luta no combate à discriminação racial,
através da preservação e valorização da riqueza cultural do povo
negro.
✔ Projeto CCN Grupo de dança afro Abanjá52, criado em
1985 a partir do desejo de algumas pessoas que já faziam parte do
Bloco AKOMABU de fortalecer a luta do movimento negro pela
valorização e preservação da cultura, através da dança afro.
✔ Projeto CCN Ato-Irê: Religiões Afro Brasileira e Saúde, com
ações de educação em saúde junto à comunidade de terreiros e casas
de culto afro-brasileiros, em São Luís e no Rio de Janeiro, na
perspectiva de melhoria da saúde desse segmento da população,
ressaltando a sabedoria ancestral praticada dentro desses espaços de
religião de matriz africana.
✔ Projeto Griot CCN, que visa à construção e implantação de
uma proposta pedagógica a ser adotada e implementada pelo poder
público através das Secretarias de Educação. Considerando a realidade
sócio-cultural das comunidades negras, desenvolve estudos e formação

52 ABANJÁ, na língua Yorubá, significa: "Na luta agora já”.


2
de professores/as de comunidades negras rurais quilombolas, para
implantação da cultura e história afro-brasileira nas atividades e no
currículo escolar.
✔ Cursinho CCN Pré-Vestibular Negro em Ação, para
preparação de negros e pessoas carentes para o ingresso na
Universidade, bem como incentivar seu desenvolvimento intelectual e
sua qualificação profissional.
✔ Projeto CCN Tambores Quilombolas, de qualificação
profissional de jovens e adolescentes quilombolas para que possam
desenvolver atividades de geração de renda em suas próprias
comunidades e possam manter viva a cultura e história de suas
comunidades.
✔ Programa CCN Formação e Participação, propiciando uma
cidadania efetiva, defesa de direitos e mudança de postura frente à
realidade cotidiana e à organização da vida econômica, social e
política.
✔ Projeto CCN Consciência Negra em Ação, direcionado a
militantes do movimento negro nos diversos espaços de atuação,
visando à construção da identidade étnica e cultural do povo negro e a
sua movimentação pela afirmação dos direitos humanos.
✔ Projeto CCN nas Comunidades, que atua nos bairros
populares de São Luís, visando à luta pela implantação de políticas
públicas que considerem as questões étnicas e os direitos da população
negra.
✔ Projeto CCN Saúde e Ambiente para a População Negra,
que busca garantir assistência integral à saúde dos negros e negras e
nova atitude do poder público frente aos problemas de saúde dessa
população, como preconiza a Constituição Federal: “Saúde é um direito
de todos e um dever do Estado”.

Centro Cultural e Educacional Mandingueiros do Amanhã: Grupo de


capoeira que desenvolve trabalhos com criança e jovens, visando a sua
inclusão social e elevação de autoestima, através de oficinas de capoeira,
3
percussão, confecção de instrumentos, formação em direitos humanos e
cidadania, apresentações culturais da Orquestra de Berimbaus e
conhecimento das manifestações da cultura negra do Maranhão, como o
Tambor de Crioula, Tambor de Mina, o Bumba-meu-boi e a Capoeira
Angola.
Centro de Formação para Cidadania Akoni: Organização não
governamental que tem como missão denunciar e combater todas as
formas de discriminação e preconceito étnico-racial, religioso, social e
sexual de populações excluídas, implementando ações que visem à
conquista da cidadania ampliada e à construção e/ou consolidação de uma
cultura igualitária. Atualmente desenvolve atividades ma área de
educação com adolescentes e jovens em situação de risco.
Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do
Maranhão - ACONERUQ-Ma: Desenvolve ações em prol da titulação
fundiária das áreas quilombolas do Município de Itapecuru-Mirim e ações
visando ao desenvolvimento sustentável desses territórios, com projetos
de geração de renda para as famílias por meio da implementação de
melhorias nos processos de industrialização e comercialização de
mandioca e do arroz produzidos no local.
Companhia Officina Affro do Maranhão: Originado de um
projeto de extensão da UFMA, no Departamento de Educação Física, a Cia
desenvolve projetos para a valorização da cultura afro-brasileira e contra o
racismo, preconceito e discriminação, através de montagem de
espetáculos, bloco de carnaval, arraial junino, oficinas de dança. música,
artesanato, fotografia, serigrafia, cursinho pré-vestibular.
Grupo de Mulheres Negras Mãe Andreza – GMNMA: Criado com
a missão de incentivar e fortalecer a organização das mulheres negras,
através da formação política, o grupo, fundado em 1986 nas estruturas do
CCN, vem estabelecendo parcerias com entidades, movimentos e
organização de mulheres negras e realizando oficinas de gênero e raça.
Desenvolve os Projetos Yaàlodè e Atitude Jovem; o primeiro, com
mulheres das áreas mais pobres de São Luís que são capacitadas e
qualificadas nos mais variados setores do mercado de trabalho; o
3
segundo, com adolescentes jovens multiplicadoras e modificadoras no
meio social em que vivem.
Instituto de Educação e Pesquisa Afromaranhense
Agontinmê: Criado em 2004, o Instituto desenvolve atividades de
formação de seus membros e colaboradores e em parceria com o Instituto
Inter-Americano de Cooperação Agrícola (IICA) e com o Ministério da
Agricultura, por meio da Secretaria de Agricultura do Estado do Maranhão.
Desenvolveu o projeto PRONAF Quilombola no município de Alcântara, que
possui cerca de cento e oitenta comunidades quilombolas.
Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente
Padre Marcos Passerini: Presta assessoria sócio-jurídica e pedagógica
para defesa de direitos e cidadania de crianças e adolescentes; assessora
Conselhos de Direitos e Tutelares; intervém para o enfrentamento da
violência sexual e doméstica; promove sensibilização e formação na
temática dos direitos de crianças e adolescentes; atua na prevenção e
combate ao trabalho infantil; efetua o monitoramento da política
socioeducativa; e propõe políticas públicas.
Grupo de Dança Afro Malungos – GDAM: Criado em 22 de
agosto de 1986, o GDAM tem por finalidade difundir a cultura afro-
maranhense, através de estudos, pesquisas, montagens de espetáculos,
realizações de cursos na área artística e oficinas de expressão corporal. É
composto por dançarinos, poetas, percussionistas, compositores, cantores,
produtores culturais e educadores. O seu trabalho é voltado
prioritariamente para a população afrodescendente, residente nas
periferias de São Luís (MA).
PVNC - Pré-Vestibular para Negros e Carentes: Atua no campo
da educação com ensino preparatório para os vestibulares das
Universidades Públicas e na produção de questionamentos, ações e
formulações para a democratização do direito à educação formal.
Coordenação Amazônica de Religiões Africanas e Ameríndias
- CARMAA/MA: Originária de Manaus/AM, desde 2001 realiza o Seminário
Fala Vodun - Formação da Construção da Identidade Afro-religiosa do

4
Tambor de Mina. Há um ano atua no MA com formação em direitos
humanos e ações de saúde nos terreiros.
FAVELAFRO - Movimento Hip Hop Organizado do Maranhão:
O Movimento Hip Hop Organizado do Brasil trabalha com geração de
emprego e renda para jovens de periferia, incubando pequenas empresas
de indústria cultural (gravadoras, estúdios, ateliês, produtoras de evento,
produtoras de áudio-visual, empresas de design, etc) todas de
propriedade coletiva.
O Movimento Negro do Maranhão é dos mais mobilizados e
organizados do Nordeste. Embora existam divergências, conceituais ou
ideológicas, e uma nítida insatisfação das lideranças emergentes em
relação aos mais antigos, no que diz respeito à concepção do que vem a
ser movimento negro, além de críticas quanto à necessidade de repasse
de informações, por parte dos mais antigos, o movimento tem tido a
capacidade de sentar e de pautar uma agenda comum em prol da causa.
Para Valdira Barros, por exemplo, o problema das diferenças é normal,
pois são diferenças que parecem impregnadas nas pessoas. Existe uma
diversidade de atores, opiniões e de estratégias diferentes que às vezes
dificultam o diálogo, mas esse é um desafio que vai demandar bom senso
de todos; colocar de lado as divergências passadas e pensar o daqui pra
frente, suspender essas divergências, este é o passo que precisamos dar
agora.
Enquanto uns acham que “as divergências são normais”, outros
admitem que “o surgimento de outras entidades ao invés de dividir,
somou!”. E há aqueles que afirmam:
Não está existindo o repasse de informações por certas lideranças
para o conjunto das organizações negras. Nunca fui do movimento negro,
entrei no movimento por causa da capoeira. Enquanto o movimento não
tiver essa essência de união, cada um deixar de olhar apenas para o seu
umbigo, não vamos passar os ensinamentos da capoeira a essa geração.
(Álvaro Souza, do Bloco Afro Netos de Nana)
O nível de mobilização, organização e reconhecimento do
movimento negro, no entanto, ainda não foi suficiente para resolver sérios
5
conflitos envolvendo a questão fundiária no Estado, seja com fazendeiros,
madeireiros, grileiros ou até com o próprio Governo Federal, como é o que
ocorre na Cidade de Alcântara.
Há duas décadas a população negra de Alcântara é vitima das
incursões do governo federal que, após desalojar mais de 300 famílias de
sua terra ancestral, implantou no local uma base de lançamento de
foguetes com tecnologia avançadíssima, enquanto, contraditoriamente a
isso, a maioria da população é vitima de analfabetismo, diarréia e de
doenças que poderiam ser evitadas apenas com ações sanitárias.
O remanejamento das populações de Alcântara, na maioria das
vezes para áreas afastadas do mar, além de ser uma violência, também
provocou insegurança alimentar e nutricional para esses Povos e
Comunidades Tradicionais que viviam do extrativismo e da pesca. Hoje,
com o acordo entre o Brasil e os Estados Unidos, a fim ampliar a base de
lançamento de foguetes no local, as populações são vitimas, mais uma
vez, de um processo de desenvolvimento tecnológico que visa tão
somente atender interesses norte americanos, não levando em conta a
forma de viver e de se organizar dessas comunidades tradicionais.

Ações de Governo

No Maranhão, ainda há muito por fazer para que tenhamos


igualdade racial na região. Assim como nos outros estados, os
movimentos sociais vêm fazendo a sua parte, restando aos governos fazer
a sua.
No estado, após sucessivos governos que historicamente deixaram
as populações negras à sua própria sorte, e que nada ou muito pouco
fizeram com fins de promover a inclusão social dessas populações, hoje
estão criando assessorias, comissões, gerências, departamentos,
coordenadorias, enfim, estruturas frágeis, desprovidas de dotação
orçamentária que atuam de forma isolada na estrutura do governo, sem
3
capacidade, assim, de atender as demandas históricas da população
negra.
No Maranhão, chama atenção o fato de o estado possuir o maior
número de municípios com organismos de promoção da igualdade racial
do Brasil. São mais de 60 que, de uma única vez, aderiram ao Fórum
Intergovernamental de Promoção da Igualdade Racial – FIPIR.53 O que a
principio poderia parecer algo positivo, choca, quando sabemos que essa
adesão se deu porque os prefeitos descobriram que poderiam elevar em
50% os repasses feitos pelo governo federal, através do PSF (Programa de
Saúde da Família), em áreas quilombolas e que possuam organismos de
promoção da igualdade racial.

Universidade núcleo de estudos Afro-Brasileiros - NEAB/UFMA

O pânico daqueles que estão nas Universidades é o nosso


conhecimento (Ribamar Nascimento, NEAB/UFMA; Hip Hop Favelados)
O NEAB/UFMA surgiu anos atrás, a partir de uma articulação de
pesquisadores das relações raciais. Sua primeira atividade foi a realização
de um colóquio sobre Vivências Religiosas Africanas no Caribe e América
Latina, que envolveu docentes, discentes e técnicos da UFMA. A partir de
então, o núcleo tem feito esforços no desenvolvimento de estudos e
pesquisas sobre a questão étnicorracial, tendo sido responsável direto
pela articulação que instituiu a política de cotas na UFMA, em 2007. Pelo
que foi possível perceber na visita ao estado, o NEAB/UFMA se encontra
em um momento de fragilidade quanto à atuação, hoje restrita a poucos
pesquisadores/as, segundo professor entrevistado.

Considerações Finais

Como vimos, o movimento é intenso no estado, com um número


elevado de organizações atuando junto a jovens, crianças, mulheres,
53 Os estados e municípios participantes do FIPIR têm prioridade na alocação dos
recursos oriundos dos programas desenvolvidos pela SEPPIR e os ministérios parceiros
em suas iniciativas.

3
quilombolas, religião, cultura, saúde, trabalho, educação... Lamentamos
não ter sido possível explorar, inclusive a ação desses movimentos no
interior do estado, embora se saiba que algumas organizações
identificadas em São Luís atuem no interior, sobretudo junto á população
das “terras de preto”.
Em relação à produção de conhecimento, sobressaem inúmeras
publicações, não só oriundas da Universidade, o que é muito bom, pois
significa que o movimento se incumbe de produzir e disseminar os
conhecimentos que gera, transmitindo-os a diferentes segmentos e,
assim, ampliando a consciência sobre as relações raciais no estado.
No que tange às políticas públicas, não foi possível dimensionar seu
alcance, apesar de várias tentativas; por outro lado, o NEAB/UFMA pode
vir a ampliar o levantamento realizado, conforme manifestou professor
desta universidade.

Tabelas Maranhão

Tabela 1
Localização das organizações. Maranhão, 2009

Número de Distribuição
Município
organizações (%)

São Luis 15 100,0

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 2

3
Tipo de organização. Maranhão, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 8 53,3


ONG ou OSCIP 4 26,7
Instituição religiosa - -
Setor Público 2 13,3
Outros 1
Total 15 100
Não sabe ou não respondeu

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 3
Situação jurídica das organizações segundo o tipo. Maranhão, 2009.

Situação jurídica
Em Não Organização Total (1)
Tipo de organização
Formalizada processo de do Setor
formalização formalizada Público

Associação ou movimento 8 - - - 8
ONG ou OSCIP 2 2 - - 4
Instituição religiosa - - - - 0
Setor Público - - - 2 2
Outros - - 1 - 1
Total 10 2 1 2 15

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


Notas: (1) Algumas organizações não declararam sua condição legal ou seu tipo.

Tabela 4

2
Tempo médio de existência das organizações segundo o tipo. Maranhão, 2009

(Em anos)
Tempo médio Número de
Tipo Desvio padrão
de existência organizações

Associação ou movimento 15 8 7,010


ONG ou OSCIP 19 3 14,364
Instituição religiosa - -
Setor público 24 1
Outros 7 1
Total 16 13 8,864

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 5
Média de pessoas ocupadas por tipo de organização. Maranhão, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 43 8 43,483


ONG ou OSCIP 32 4 27,585
Instituição religiosa - - -
Setor Público 12 1 -
Outros 8 1 -
Total 35 14 36,563

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 6

2
Principais áreas de atuação das organizações por tipo. Maranhão, 2009

Número de Associação ONG ou Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 15 8 4 - 2 1

Arte e Cultura 10 5 3 - 1 1
Educação 11 6 4 - 1 -
Meio-Ambiente 3 1 2 - - -
Emprego, Trabalho e Renda 8 3 4 - - 1
Saúde 3 1 2 - - -
Dir. humanos /Ações Afirmativas 12 7 3 - 1 1
Informação 2 1 1 - - -
Outra 2 2 0 - - -

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número divergentes de áreas de atuação.

Tabela 7
Publicos preferencias das organizações por tipo. Maranhão, 2009

Número de Associação ONG Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 15 8 4 - 2 1

Lésbicas, gays, bi-sexuias e trangêneros 3 1 2 - - -


Quilombolas 9 3 4 - 1 1
Mulheres negras 7 5 2 - - -
População negra 11 5 4 - 1 1
Índígenas 2 - 2 - - -
Infancia e juventude 11 5 4 - 1 1
Outro 2 - 2 - - -

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número divergente de áreas de atuação.

Tabela 8

2
Número médio de pessoas atendidas no ano por tipo de organização. Maranhão, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 869 8 1698,238


ONG ou OSCIP 1487 4 2079,716
Instituição religiosa - - -
Setor Público 200 1 -
Outros 5000 1 -
Total 1293 14 1955,093

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 9
Número de organizações que desenvolvem pesquisa. Maranhão, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 2 40,0


ONG ou OSCIP 2 40,0
Instituição religiosa - -
Setor Público 1 20,0
Total 5 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

2.1.7 Informe sobre políticas e movimentos negros – Paraíba,


Agosto 2009

2
A Paraíba existe

Eu sou paulista e estou aqui (na Paraíba) há seis meses, e a idéia


inicial que eu tinha era a de que na Paraíba só tinha branco, não
existia negro. Aí, quando eu vi que existia uma quantidade grande
de Comunidades Quilombolas... aí eu disse....ah! A coisa não é bem
assim! Eu fico contente em ver que essa discussão está bem mais
adiantada aqui, ao contrário da minha idéia inicial, e que ainda é a
de muita gente; essa idéia de que na Paraíba não tem negro! (Surya
Barros, professora da Universidade Federal da Paraíba)

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD, 2007)54


demonstra que na Paraíba 58,9% dos seus habitantes são pardos; 37,5%
brancos; 3,4% pretos e 0,2% amarelos ou indígenas. Mesmo diante desses
números, a idéia que geralmente se difunde é a de que no estado quase
não existe negro, fato esse que muitas vezes é utilizado como argumento
para a ausência de políticas públicas direcionadas para esse segmento da
população.
Diversas organizações e lideranças individuais vêm desenvolvendo
ações com vistas a combater o racismo e que promovam a igualdade
racial no estado. Desta forma, este informe tem como objetivo apresentar
um panorama da problemática racial no Estado da Paraíba e, em
particular, na sua capital, João Pessoa, a partir das informações levantadas
nos dias 19 e 20 de junho de 2009, junto a diversas lideranças, ativistas e
organizações governamentais e não governamentais locais. O trabalho
envolveu discussões sobre as políticas públicas de equidade racial e

54 Tabela 8.1 - População total e respectiva distribuição percentual, por cor ou raça,
segundo as Grandes Regiões, Unidades da Federação e Regiões Metropolitanas – 2006.
Disponível em
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/população/condicaodevida/indicadoresminimos/s
inteseindicsociais2007/indic_sociais2007.pdf. Acesso em 28/06/2009

2
combate ao racismo que estão sendo implementadas no estado. Temas
como identidade, ancestralidade e resistência, marcos conceituais das
abordagens protagonizadas pelo CEAFRO, centralizaram as nossas
análises.

Metodologia e Mobilização

Ao iniciar a pesquisa sobre o Movimento Negro na Paraíba, a


informação mais ressaltada era a de que este era muito dividido. Não se
unia! Cientes de que as divisões e disputas não são “privilégios” apenas
do movimento social negro, a nossa estratégia foi pensar uma
metodologia eficiente na geração de registros, mas também que
propiciasse uma interlocução entre os diversos segmentos que atuam na
campo do combate ao racismo e na promoção da equidade racial.
Para isso, num primeiro momento, fizemos um levantamento das
organizações locais que possuíam algum tipo de informação
disponibilizada na Internet e, em seguida, através de outras informações e
contatos locais, buscamos localizar um/a mobilizador/a capaz de dialogar
com a diversidade de opiniões e posicionamentos políticos do Movimento
Negro em cada estado.
Feito isso, a mobilizador/a no Estado ficou responsável por preparar
a ambiência e infra-estrutura necessárias para que a equipe do CEAFRO e
a representação da Fundação KELLOGG expusessem para o conjunto das
organizações, movimentos e lideranças os objetivos do nosso trabalho.
Reuniões por segmentos, gravação de entrevistas individuais e
grupais, assim como a aplicação de um questionário fizeram parte da
nossa metodologia do trabalho. Ela foi construída, portanto, de forma a
levantar informações sobre cada estado com que dialogamos,
disponibilizando-as para o grupo que as produziu. A partir dessa
metodologia, contamos com o decisivo apoio de Solange Rocha e Maria do
Socorro Pimentel, na mobilização local.55
55 Solange Rocha é historiadora com graduação e atuação na Universidade Federal da
Paraíba e pós-graduação (mestrado e doutorado) na Universidade Federal de
Pernambuco e uma das fundadoras da BAMIDELÊ – Organização de Mulheres Negras na
Paraíba. Já Maria do Socorro Pimentel é psicóloga da rede pública de ensino do município
3
Nos dois dias de atividades, participaram dos encontros vinte e seis
organizações, sendo vinte e duas não governamentais, entre movimentos
e universidade.
Desenvolvimento Humano e a Secretaria de Desenvolvimento
Social do Município

Compuseram a mesa de abertura, no primeiro dia, a secretária da


Secretaria de Desenvolvimento Humano – SEDH, Giucélia Araújo de
Figueiredo; Maria Nazaré Mota de Lima e Antonio Cosme Lima da Silva,
ambos representando o CEAFRO; uma das mobilizadoras, Solange Rocha;
e a consultora da Fundação KELLOGG, Trícia Calmon.
Na sua fala de boas vindas à nossa equipe, a secretária destacou
que um dos desafios da sua secretaria é criar o Conselho Estadual de
Promoção da Igualdade Racial, conforme compromisso assumido pelo
governador, com os movimentos sociais, na abertura da II Conferência
Estadual de Promoção da Igualdade Racial. Para isso, como também para
implementar as políticas de promoção da igualdade racial no estado,
afirmou que não dispensará a participação dos movimentos sociais.
“Todas as ações na temática da igualdade racial serão realizadas com a
participação da sociedade civil e por isso estou muito confiante que nós
vamos construir coisas a partir da discussão coletiva”. (Secretária da
SEDH)
Após as falas na Mesa de abertura, os grupos se apresentaram,
destacando as principais ações que realizam. A seguir apresentamos
algumas dessas organizações, sendo que dispomos de uma lista com os
contatos de todas as pessoas presentes aos encontros.

Informações a partir de questionário

Tipo de organização e situação jurídica: Foram encontradas na


Paraíba 16 organizações atuando na área racial. Elas estão concentradas

de João Pessoa; mestra em educação pela UFPB; militante do movimento negro com
atuação no Fórum de Educação de Negros e não Negros da Paraíba – FOREDUNE.

3
no município de João Pessoa, que reúne 86% delas. Guarabira e Santa Rita
possuem uma organização, cada. (Tabela 1, em anexo).
As organizações do movimento social - Associações ou Movimentos,
ONG’s ou OSCIP’s e Instituições Religiosas - são a maioria das instituições,
com o Setor Público respondendo por apenas quatro entre as quatorze
organizações que declararam sua natureza (Tabela 2, em anexo).
Em relação à situação jurídica, sete organizações se declararam
formalizadas, sendo que, entre estas, três são do setor público e, portanto,
formais por definição, três declararam-se em processo de formalização e
apenas duas não são formalizadas (Tabela 3, em anexo).
Tempo de existência: Embora o número de organizações ainda
seja pequeno na Paraíba, os dados da pesquisa sugerem que nos últimos
anos houve uma intensificação no surgimento de organizações com ações
na área racial. A média do tempo de existência das instituições
pesquisadas é de 12 anos, sendo que metade delas tem até nove anos de
existência e a mais antiga existe há 31 anos (Tabela 4, em anexo).
Quem atua nas organizações: As organizações são pequenas, o
número médio de pessoas atuando foi calculado em 13, sendo que a que
reuniu a maior quantidade de pessoas ocupadas contava com 35
indivíduos56 e a menor com apenas duas pessoas57 (Tabela 5, em anexo).
Em relação ao sexo dos ocupados nas organizações, observou-se
que as mulheres são maioria, ocupando 65% das posições de trabalho. A
distribuição racial mostra uma consistente maioria negra, com 90% das
pessoas com atuação.
Áreas de atuação e público atendido: Os pesquisados foram
instados a hierarquizar as três áreas de atuação mais importantes, os
grupos populacionais a quem se dirigiam e a estimarem o número de
pessoas atendidas anualmente.
Em relação às áreas de atuação, registrou-se a elevada importância
da Educação, presente entre os espaços de atuação mais importantes
para 71% das organizações; Arte e Cultura, para 50%; e Direitos Humanos

56 Trata-se da Pastoral Afro-brasileira da Paraíba, formada em 1982 com o nome Agentes


da Pastoral dos Negros – APNS.
57 Trata-se do Centro Cultural Bájó Ayó, formado em 1998 na cidade de Santa Rita.
3
e Ações Afirmativas e Informação, para 29% cada. O menor interesse se
situa nas áreas de Saúde (21%), Emprego, trabalho e renda (14%), Meio-
Ambiente (7%) e Outras (7%) (Tabela 6, em anexo).
A população negra é o grupo atendido mais expressivo (78%). A
seqüência de importância dos públicos traz a Infância e Juventude (71%) e
as Mulheres Negras (43%) em seguida (Tabela 7, em anexo). Contudo, as
ações das organizações paraibanas ainda atingem um público médio anual
restrito. Em termos médios, são atendidas anualmente apenas 203
pessoas (Tabela 8).
Políticas públicas e disseminação de conhecimento: Quatro
instituições do setor público responderam ao questionário: a Assessoria de
Políticas Públicas para a Diversidade Humana, criada em 2005, o Núcleo
de Estudantes Negros (as) da UFPB, a Secretaria do Estado do
Desenvolvimento Humano e o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e
Indígenas da cidade de Guarabira.
Em relação às políticas públicas, a Assessoria de Políticas Públicas
para a Diversidade Humana declarou desenvolvê-las na área de Educação
(Lei 10.639/03 e/ou Lei 11.645/08), políticas de fomento à cultura negra,
políticas direcionadas à comunidade quilombola e de combate ao racismo
institucional. Os recursos utilizados pela instituição provêm
exclusivamente do orçamento público.
A Secretaria do Estado do Desenvolvimento Humano atua nas áreas
de políticas de acesso ao mercado de trabalho, de apoio às comunidades
quilombolas, combate ao racismo institucional e outras, tendo citado os
programas CREAS; Peti; Juventude Cidadã; Trabalho com Idoso e o BCP. A
ação da Secretaria é financiada com recursos do orçamento público e de
fundações.
O Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígena não respondeu às
questões relacionadas às políticas públicas, origem dos recursos e
articulação institucional. Na percepção das duas instituições, existe
articulação entre as instituições públicas no estado da Paraíba,
especialmente em nível de ministérios, já que uma das organizações não
apontou articulações em nível estadual e a outra não apontou em nível
3
municipal.
Apenas duas organizações declararam desenvolver atividades de
pesquisa: o NEAB/UEPB, criado em 2007 com o objetivo de estimular a
pesquisa na área racial, formar professores na educação anti-racista e
discutir ações afirmativas na UEPB, e a Ong Instituto de Referência Étnica
(Tabela 9, em anexo).
Entre as áreas de interesse do NEAB/UEPB estão educação, questões
de gênero e raça, estudos culturais e quilombos. O núcleo declarou ter
publicado um livro. A Ong Instituto de Referência Étnica revelou interesses
em uma área ainda mais ampla, envolvendo as questões relativas às
relações raciais, educação, questões de gênero e raça, os estudos
culturais e os direitos humanos. A organização ainda não tem produção
divulgada.

Informações obtidas face a face

O conjunto das Organizações do Movimento Negro na Paraíba está


buscando sua unidade na diversidade, ao tempo em que procura se
articular nacionalmente. Neste sentido, um importante passo foi tomado
mo mês de abril de 2009, quando 25 entidades reunidas em assembléia
criaram uma articulação denominada de Movimento Negro da Paraíba
(MNPB), uma organização que congrega diversos segmentos
historicamente envolvidos na luta antirracista no estado.

Nós perdemos recentemente uma liderança que centralizava


muito nossas ações, que era o João Balula, o maior militante
da causa do povo negro paraibano. A partir do
desaparecimento dele, as entidades e lideranças começaram a
se rearticular, a repactuar as suas parcerias para tentar dar
uma sistematizada, um direcionamento mais exeqüível na luta
do Movimento Negro na Paraíba (Dalmo Oliveira/Coordenador
Geral da Associação Paraibana de Portadores de Anemias
Hereditárias). Com o desaparecimento do Balula nós
precisamos construir um novo momento para o Movimento
Negro. (Hélio Flores/Professor da UFPB)

3
Os 2 depoimentos ilustram uma referência constante a Balula,
liderança que faleceu recentemente, deixando o movimento sem uma
liderança forte como ele era considerado por representantes de todos os
segmentos.

Principais Organizações Não Governamentias

Bamidelê - Organização de Mulheres Negras na Paraíba:


Organização de feministas negras que atua em defesa dos direitos
humanos, com foco na saúde da população negra e educação com jovens
negros e mulheres adultas das zonas urbana e rural.
A Bamidelê iniciou, em 25 de julho, Dia da Mulher Negra e Afro-
Caribenha, uma Campanha de Promoção da Identidade Negra. A
campanha tem como objetivo contribuir para a afirmação da identidade
negra e ampliar o debate sobre as relações raciais na Paraíba. Para isso,
vem estabelecendo parcerias com as TVs e rádios locais para veiculação
dos Vts e spots da campanha. “Moreno não, pode me chamar de negro!”,
declara o cantor, compositor e atual secretário de Cultura de João Pessoa,
Chico César, um dos protagonistas do VT que irá ao ar, como parte da
campanha.
Movimento Negro Organizado Na Paraíba (MNOPB: Articulação
formada por diversas organizações e por um grupo de pessoas negras, a
maioria da área de educação que passaram a agir na denúncia do racismo
e da condição social dos negros no estado.
Associação Paraibana de Portadores de Anemias Hereditárias
- ASPPAH: O objetivo da ASPPAH é articular-se nacionalmente com a
Federação Nacional das Associações de Doença Falciforme-FENAFAL e vem
desenvolvendo ações para que o poder público, principalmente em João
Pessoa, implemente políticas públicas para pessoas com anemia
falciforme:

Com o apoio do Ministério da Saúde nós estamos pressionando


3
a Secretaria de Saúde do estado pra implementar a segunda
fase do teste do pezinho, que é o primeiro passo para termos
uma noção do problema aqui na Paraíba, porque sem o teste
do pezinho a gente não tem condições de ver o numero de
nascidos vivos com a doença. A gente imagina que aqui na
Paraíba seja em torno de uma criança para cada 1500 nascidas
vivas. E esta luta não tem sido fácil! (Dalmo Oliveira;
coordenador da ASPPAH e jornalista que mantém o blog<
http://movimentonegropb.blogspot.com/>)

Coordenação Estadual das Comunidades Negras e


Quilombolas da Paraíba (CECNEQ): A CECNEQ articula-se em nível
nacional e, em particular, no Nordeste, com os estados do Ceará,
Pernambuco e Piauí, por meio do Programa Brasil Quilombola, com
significativos avanços nessa área. No estado existem 35 Comunidades
Quilombolas, sendo que 28 delas já foram reconhecidas pelo Incra.
Instituto de Referência Étnica – IRÊ: Está em preparação, em
conjunto com o Núcleo de Estudantes Negros e Negras da UFPB, um
projeto de curso de formação política para militantes negros/as, fundado
em valores civilizatórios afro-brasileiros.
Pastoral Afro-brasileira Paraíba: Antiga APNs (Agentes de
Pastoral Negros), sua principal atividade era a articulação de jovens;
atualmente, atua especificamente com a escolarização (cursinho para
afros) e articulação de grupos de capoeira no estado. A entidade é
constituída de negros e negras que atuam no âmbito da igreja católica e
desenvolve diversos projetos em João Pessoa, sobretudo na área de
educação. Possui um cursinho pré-vestibular em duas paróquias de João
Pessoa e vem conseguindo um bom nível de aprovação de alunos negros
nas Universidades. Também trabalha apoiando estudantes africanos/as
que fazem curso na UFPB.

Centro Cultural Bájó Ayô: Surge a partir de reuniões do


movimento negro; as primeiras atividades foram voltadas ao público de
adolescentes e jovens negras na comunidade de Nova Trindade.
Atualmente ampliou o seu público, com projetos na área de educação.
Atua na área dos direitos da criança e do adolescente, jovens negras e
3
quilombolas, procurando difundir a cultura afro-brasileira, através da arte-
educação.
Grupo de Mulheres de Terreiro Íyalode: O grupo é constituído de
mulheres vinculadas a diferentes religiões de matriz africana. Criado
recentemente, uma das ações implementadas é um curso de língua
yorubá.
Fórum de Educação de Negros e não Negros da Paraíba -
Foredune - Surgido há quatro meses, envolvendo uma diversidade de
educadores e organizações, tem como principal missão pressionar os
governos no sentido de fazer valer a Lei 10.639/03 na Paraíba.

Movimentos de terreiros e juremeiros

Em diversas falas dos representantes das organizações locais, era


recorrente a preocupação diante do desrespeito para com as religiões de
matriz africana e da intolerância religiosa no estado. Diversas lideranças
manifestaram isso, inclusive, no dia 20 de junho, data em que
realizávamos o nosso segundo dia de reunião, aconteceu uma passeata de
religiosos na cidade de Alhandra, município próximo a João Pessoa. Os
Juremeiros da Paraíba pretendem tombar esse sítio, como berço mundial
da Jurema e denunciam as depredações feitas no local por segmentos
evangélicos, que cortam pés de Jurema, uma árvore sagrada. O evento foi
organizado pela Federação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema -
FCP UMCANJU, juntamente com sindicatos, universidades, CENARAB -
Centro Nacional de Articulação e Resistência Afro-brasileira, Sociedade
Yorubana, APAN - Associação Paraibana Amigos da Natureza, dentre outras
organizações e movimentos.
Diversas organizações religiosas desenvolvem importantes trabalhos
visando elevar a autoestima dos juremeiros e combater o preconceito
religioso na Paraíba. O Ilê Axé Xangô Agodô, por exemplo, desenvolve o
projeto Ofaxé, de alfabetização de adultos.
Atualmente, existem cinco federações religiosas, dentre as quais
destacamos duas: a) FICAB/PB – Federação Independente dos Cultos
4
Afro-Brasileiros na Paraíba, que há nove anos realiza um seminário
que congrega diversos terreiros e que tem como objetivo valorizar as
religiões de matrizes africanas e combater a intolerância religiosa. A FICAB
é dirigida por Mãe Renilda Bezerra de Albuquerque, a qual disputou um
cargo para a Câmara Municipal de João Pessoa, em 2008, pelo PSB, tendo
como um dos seus slogan de campanha “Fazer do terreiro uma extensão
do gabinete na Câmara Municipal de João Pessoa. b) Federação Cultural
de Umbanda, Candomblé e Jurema – FCP UMCANJU, que desenvolve
ações que promovam o respeito às religiões de origem africana, afro-
brasileiras e afro-indígenas.

Organizações Governamentais

No estado da Paraíba, praticamente, inexistem ações tanto do


governo municipal, como do estadual no sentido de combater o racismo e
promover a equidade racial. Em nível estadual, por exemplo, o único órgão
responsável para atuar em prol da comunidade negra fica alojado na
Secretária de Administração Penitenciária; trata-se do Conselho Estadual
de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra e que, segundo
uma entrevistada, “nunca funcionou”.
No âmbito municipal existe, na estrutura da Secretaria de
Desenvolvimento Social - SEDES, a Assessoria de Diversidade Humana,
que “tem como missão incluir e promover nas ações educativas e dos
Direitos Humanos reflexões sobre temas transversais em torno da
diversidade humana, que tratem das questões étnico-racial, da livre
orientação sexual - LGBT, da equidade de gênero, geracional e da
diversidade religiosa”58, missão incapaz de ser cumprida por uma
assessoria, tendo em vista que este tipo de órgão não tem estrutura,
poder de decisão nem dotação orçamentária para tal, conforme observou
uma liderança entrevistada.
Não obstante esse fato, essa assessoria foi capaz de pautar junto à
Secretaria de Educação Municipal a criação das diretrizes municipais para

58 http://www.joaopessoa.pb.gov.br/noticias/?n=10625. Acesso em 10/07/2009.


3
a implementação da Lei 10.639/03, que desde 2005 aguarda
regulamentação por parte do prefeito. Sobre a implementação da Lei
10.639/03, o professor da UEPB e Coordenador do Movimento Negro da
Paraíba – MNPB, Valdecy Chagas, informa:

Aqui a gente não tem ainda nenhuma experiência pública. O


Estado e nenhum município assumiram isso ainda! Mas a
gente tem experiências isoladas de professores, de escolas...
e, diga-se de passagem, com a intervenção das entidades
negras (...) às vezes um professor negro sozinho (...) ta lá
fazendo algo. A gente está exatamente, nesse ano de 2009,
abrindo esse diálogo com o Estado no sentido de que
possamos inscrever isso como uma política de Estado, ou seja,
o fazer lá na sala de aula não seja resultado da vontade de um
professor ou outro, mas que se inscreva como política pública
e que as secretarias de educação estadual e municipal dotem
as escolas de material didático.

Universidade

Alguns professores vêm desenvolvendo projetos que valorizam a


questão racial e incluem a participação da população negra na UFPB,
dentre eles podemos destacar: professora Solange Rocha que, atualmente,
desenvolve projetos de pesquisa envolvendo temas relacionados à
escravidão e políticas de ações afirmativas. É autora do livro Gente Negra
na Paraíba Oitocentista: população, família e parentesco espiritual,
publicado pela Editora da UNESP; professor Antonio Novaes, um dos
responsáveis pela elaboração e sistematização da proposta de cotas na
UFPB; também atua em uma linha de pesquisa intitulada Educação em
Saúde, a qual estuda doenças prevalentes na população negra em áreas
remanescentes de quilombos e também em centros urbanos, procurando
fazer uma interface entre religiosidade e saúde, gênero, raça e
sexualidade; o professor Hélio Flores, que desenvolve o projeto: Fontes
para o Estudo e o Ensino de História da África Contemporânea e da
Cultura Afro-brasileira, que tem como objeto de estudo as produções de
escritores, poetas, artistas e políticos africanos e afro-brasileiros.
A proposta de sistema de cotas elaborado pela Pró-reitoria de
3
Graduação da UFPB contou com apoio dos movimentos sociais negros e,
infelizmente, foi rejeitada pelo Conselho Universitário. O projeto previa
50% das vagas para os estudantes das escolas públicas e, desse total,
20% seriam destinadas à população negra, 5% para deficientes, 5% para
quilombolas e 2,5% para indígenas.
Os estudantes negros se articulam através do Núcleo de Estudantes
Negros e Negras da UFPB, cujo principal objetivo é “possibilitar a inserção
consistente e consciente dos estudantes negros/as nos embates
referentes à questão da equidade racial. Atualmente estão tentando, junto
com a ONG IRÊ - Instituto de Referência Étnica, implementar um curso de
formação política para militantes negros e negras, baseado em conceitos e
metodologia “afrocêntrico, quilombista e em valores civilizatórios afro-
brasileiros”.
Na Universidade Estadual da Paraíba, existe o NEABÍ - Núcleo de
Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas que, há cinco anos, vem trabalhando
com a formação de docentes numa perspectiva das relações étnico-raciais
e, há dois, implantou um Curso de Especialização em História, Cultura e
Literatura Afro-brasileiras e Africanas. Embora o NEABÍ atue de forma
muito positiva na UEPB, com temas relacionados à educação, relações
raciais e implementação da Lei 10.639/03, este núcleo existe de forma
informal; os professores encontram dificuldades, na atual gestão da UEPB,
para institucionalizá-lo.

Mídia, juventude e outros

Nesta seção apresentamos o que foi possível identificar sobre mídia,


lideranças, financiadores e juventude que também atuam no estado.
No que diz respeito à mídia, destacamos o excelente blog do
Movimento Negro da Paraíba,<http://movimentonegropb.blogspot.com/>,
editado pela coordenação de comunicação, sob responsabilidade do
jornalista Dalmo Oliveira (DRT-PB nº 0859). Este site traz informações
atualizadas sobre todos os fatos e eventos relacionados à questão racial
no estado.
3
Articulação de Juventude Negra - Realizou o seu estadual em
julho de 2007, com fins de participar do Encontro Nacional que ocorreu na
Cidade de Lauro de Freitas, na Bahia. No relatório do encontro na Paraíba,
reivindicam, sobretudo, políticas públicas que façam diminuir o alto grau
de vulnerabilidade social e de exclusão social a que estão submetidos
cotidianamente.
Nai Gomes - Artista plástico que vem fazendo exposições e
trabalhos que o movimento negro local considera muito importante para a
elevação da autoestima dos afroparaibanos.
Escurinho Badauê - Dirigente da Associação Cultural de Capoeira
Badauê; trabalha com temas ligados à música, dança, teatro, cinema,
oficinas e troca de informações sobre a arte da capoeira.
Cirandeiras de "Caiana dos Crioulos", cantadoras/cirandeiras da
Comunidade Quilombola localizada no município de Alagoa Grande/PB; o
grupo já gravou dois CDs e tem viajado pelo Brasil divulgando esse ritmo
musical.
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Parte superior do formulário
Parte inferior do formulário
Considerações Finais

A gente faz um monte de coisa aqui nesse estado, nessa


cidade, agora nós sempre fomos desarticulados do cenário
nacional. Nos documentos nacionais, nas articulações
nacionais, a gente não aparece; eu acho que essa foi uma
característica do Movimento Negro aqui, essa coisa de ficar na
pessoalidade. (Waldecy Chagas/Coordenador do Movimento
Negro da Paraíba)

Antes de irmos à Paraíba, a informação que tínhamos era a de que o


Movimento Negro locar era muito dividido. Depois de nossa visita ao
estado, concluímos que o movimento é atuante, mas falta unidade, e a
invisibilidade em relação às ações desenvolvidas é um fato. Professor
Hélio Flores, da UFPB, fez a seguinte afirmação em uma roda de conversa:

O Movimento negro paraibano é muito rico. É impressionante,


3
quando a gente começa a estudar, a conversar com as
pessoas, a gente percebe isso. Agora, na minha percepção,
falta mais unidade na ação! Juntar essas coisas que estão
sendo feitas aqui e acolá, para termos um fortalecimento; uma
unidade de ação.

Durante a execução desse trabalho no estado, tivemos o privilégio


de ter contato com o Movimento Negro paraibano e com algumas ações
que este vem desenvolvendo. Chama atenção o movimento no segmento
religioso, bastante intenso, assim como dentro da Universidade há
iniciativas importantes em relação à educação das relações étnico-raciais.
No campo governamental, ainda há muito por fazer. A criação de
organismos de promoção da Igualdade racial, apesar de já ser realidade
em centenas de municípios e nos principais estados da Federação, na
Paraíba parece ainda estar longe de acontecer. Nem mesmo os incentivos
e incursões da SEPPIR no estado, com a realização de duas conferências e
mais uma série de ações em parceria com outros ministérios, foram
capazes de sensibilizar os gestores locais para a adoção de tais medidas.
Foi uma experiência única ouvir falar sobre as questões até aqui
levantadas no que diz respeito à luta por equidade racial na Paraíba, a
partir dos homens e mulheres que fazem parte da diversidade do
movimento social negro local, que carece de visibilidade e maior
articulação.

Tabelas Paraíba

Tabela 1
Localização das organizações. Paraiba, 2009

Número de Distribuição
Município
organizações (%)

Guarabira 1 7,1
Santa Rita 1 7,1
João Pessoa 12 85,7
Total 14 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


3
Tabela 2
Tipo de organização. Paraiba, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 2 14,3


ONG ou OSCIP 4 28,6
Instituição religiosa 3 21,4
Setor Público 4 28,6
Outros 1 7,1
Total 14 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 3
Situação jurídica das organizações segundo o tipo. Paraiba, 2009.

Situação jurídica
Em processo Não Organização Não sabe Outra Total (1)
Tipo de organização
Formalizada de do Setor
formalização formalizada Público

Associação ou movimento - 1 1 - - - 2
ONG ou OSCIP 3 1 - - - - 4
Instituição religiosa 1 1 - - 1 - 3
Setor Público - - - 3 - 1 4
Outros - - 1 - - - 1
Total 4 3 2 3 1 1 14

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 4

3
Tempo médio de existência das organizações segundo o tipo. Paraiba, 2009

(Em anos)
Tempo médio Número de
Tipo Desvio padrão
de existência organizações

Associação ou movimento 23 2 11,314


ONG ou OSCIP 9 3 1,528
Instituição religiosa 17 3 14,000
Setor público 2 3 1,528
Outros 2 1 3,485
Total 12 12 10,616

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 5
Média de pessoas ocupadas por tipo de organização. Paraiba, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações
No médio de ocupados
Associação ou movimento 16 2 1,414
ONG ou OSCIP 6 3 4,041
Instituição religiosa 25 2 14,142
Setor Público 6 3 1,732
Outros 16 1 3,485
Total 13 11 9,246

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 6
Áreas de atuação das organizações por tipo. Paraiba, 2009

Número de Associação ONG ou Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 14 2 4 3 4 1

Arte e Cultura 7 2 3 - 1 1
Educação 10 2 4 1 3 -
Meio-Ambiente 1 - 1 - - -
Emprego, Trabalho e Renda 2 - - 1 - 1
Saúde 3 1 2 - - -
Dir. humanos /Ações Afirmativas 4 - 1 1 2 -
Informação 4 1 - - 3 -
Outra 1 - - - - 1

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número maior de áreas de atuação.

2
Tabela 7
Publicos preferencias das organizações por tipo. Paraiba, 2009

Número de Associação ONG Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 14 2 4 3 4 1

Lésbicas, gays, bi-sexuias e trangêneros 2 - - 1 1 -


Quilombolas 4 1 1 - 2 -
Mulheres negras 6 2 2 1 1 -
População negra 11 1 4 2 3 1
Índígenas 0 - - - - -
Infancia e juventude 10 1 4 2 2 1
Outro 2 - - 1 - 1

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número maior de áreas de atuação.

Tabela 8
Número médio de pessoas atendidas no ano por tipo de organização. Paraiba, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 130 2 98,99


ONG ou OSCIP 400 1 -
Instituição religiosa 180 2 169,71
Setor Público 200 1 -
Outros - - -
Total 203 6 133,52

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 9

2
Número de organizações que desenvolvem pesquisa. Paraiba, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento
ONG ou OSCIP 1 50,0
Instituição religiosa
Setor Público 1 50,0
Total 2 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

2.1.8 informe sobre políticas e movimentos negros- Pernambuco,


Agosto 2009

Introdução

O mapeamento nos estados do Nordeste foi iniciado por


Pernambuco e buscou compreender quem são e como atuam os grupos,

2
movimentos sociais, núcleos de estudos afro-brasileiros e órgãos de
governo, atentando para atuação da juventude e junto à mídia. Outro
propósito foi entender a dinâmica de articulação entre os diversos
organismos e pessoas que desenvolvem ações de combate ao racismo
e/ou promoção da igualdade racial, potencializando o diálogo entre
segmentos e orientações políticas distintas.
Durante dois dias, buscamos colher informações sobre as iniciativas
de combate ao racismo e de promoção da igualdade racial em
Pernambuco, através de diferentes fontes e diferentes procedimentos -
encontros informais, aplicação de questionário, entrevista, grupo focal,
rodas de conversa -, dialogando com lideranças e representantes de
organizações, articulados por um mobilizador local, que acompanhou o
trabalho em todos os seus momentos.
Este informe apresenta a síntese das informações obtidas, seja
antes ou durante os dias 17 e 18 de junho, na cidade do Recife, quando
foram realizadas três Rodas de Conversa: a primeira, com lideranças de
todos os segmentos; a segunda, com os movimentos sociais; a terceira,
com intelectuais /pesquisadores na temática. Além das Rodas de
Conversa, foi realizada uma entrevista com a diretora do órgão
responsável pela promoção de políticas no governo municipal e um Grupo
Focal, este último composto por lideranças locais que participaram da
primeira Roda de Conversa, mais uma liderança jovem contactada no
decorrer da visita.
O mobilizador, Lindivaldo Leite Junior, mais conhecido como Júnior
Afro, é ativista do Movimento Negro, ex-coordenador estadual do
Movimento Negro Unificado (MNU), do Programa de Combate ao Racismo
Institucional – PCRI, do Núcleo de Cultura Afro-brasileira e ex-diretor da
pasta Diretoria da Igualdade Racial na Prefeitura de Recife. Ogã da Casa
Raminho de Oxossi, integra a Articulação Negra de Pernambuco e é
Assessor da Secretaria de Cultura de Recife.

Informações a partir de questionário

3
Tipo de organização e situação jurídica

A maioria das organizações que preencheram o questionário está


concentrada no município de Recife (62%), mas houve presença também
de outras localidades da Região Metropolitana de Recife (38%), sendo que
Olinda representou 23% do total (Tabela 1, em anexo).
As organizações do movimento social, classificadas como
Associações ou Movimentos; ONG’s ou OSCIP’S; Instituições Religiosas são
a esmagadora maioria das instituições, com o Setor Público respondendo
por apenas sete, entre as vinte e seis organizações pesquisadas (Tabela 2,
em anexo).
Em relação à autodeclaração da situação jurídica, apenas duas
organizações se declararam não formalizadas; quatorze (54%)
formalizadas; cinco como organização do setor público e quatro (15%) em
processo de formalização. (Tabela 3, em anexo).

Tempo de existência

A média de tempo de existência das organizações pesquisadas é 19


anos. Os dados sugerem uma intensificação no ritmo de surgimento de
organizações ligadas à problemática racial nos últimos anos, pois a
metade delas tem até seis anos de existência. O Maracatu Carnaval do
Leão Coroado, fundado em 1863, é a organização mais antiga entre as
pesquisadas, enquanto duas instituições têm um ano de existência.

A presença desse Maracatu, entre as organizações classificadas


como do tipo “Outros”, faz dessa categoria a que possui a mais elevada
média de tempo de existência (74 anos). As Instituições Religiosas, o Setor
Público e as ONG’s ou OSCIP’s aparecem em sequência como mais antigas
(com médias de 31, 13 e 13 anos, respectivamente), em seguida, estão as
Associações ou Movimentos (média de 11 anos) como as menos antigas
(Tabela 4, em anexo).

2
Quem atua nas organizações

A média de pessoas atuando nas organizações 59 foi calculada em 23


indivíduos, sendo que duas delas declararam ter em seus quadros mais de
100 pessoas: Associação Quilombola do Serrote (70 mulheres e 50
homens) e Afoxé Alafin Oyó (60 mulheres e 40 homens). Entretanto, em
metade das organizações atuam até 12 pessoas, no momento da pesquisa
(Tabela 5, em anexo).
Em relação ao sexo, as mulheres são maioria, 63% das posições de
trabalho, revelando um protagonismo das mulheres no movimento negro,
uma vez que elas estão assumindo cada vez mais postos de direção e
revertendo a posição de subalternidade das mulheres negras no mercado
de trabalho tradicional. A distribuição racial mostra que 81% das pessoas
que atuam no movimento são negras.

Áreas de atuação e o público atendido

Os pesquisados foram instados a hierarquizar as três áreas de


atuação mais importantes. Os resultados indicam a presença mais elevada
em “Arte e Cultura”, apresentada como mais importante para 80,7% das
organizações (21 ocorrências), seguida de “Direitos Humanos e Ações
Afirmativas”, para 69,3% (18) e “Educação”, 65,3% (17) dentre as mais
mencionadas. De outro lado, “Emprego, trabalho e renda” e “Informação”
obtiveram a menção menos expressiva. (Tabela 6).
A população negra, como esperado, é o grupo populacional mais
expressivo das organizações. Cerca de quatro organizações em cada
grupo de cinco informaram que afro-descendentes são seu público alvo
(80,7%). Em sequência, temos as Mulheres Negras (73,1%) e a Infância e
Juventude (69,3%) (Tabela 7, em anexo).
Em termos médios, as organizações pernambucanas atendem
anualmente a cerca de mil pessoas. À exceção do Setor Público, cujas
ações atingem em média um número de pessoas estimado em cerca de
59 Nenhuma Instituição Religiosa informou o número de pessoas que atuam na
organização.
2
2,7 mil/ano, as ONG’s e OSCIP’S conseguem atender a uma quantidade
maior de pessoas que as autodeclaradas como associações e movimentos
(Tabela 8, em anexo).

Políticas públicas e disseminação de conhecimento

Responderam ao questionário, sete instituições do setor público em


Pernambuco, a saber: a Diretoria da Igualdade Racial da Prefeitura do
Recife, a Secretaria de Saúde de Olinda, o Núcleo da Cultura Afro-
brasileira, a Fundação Joaquim Nabuco, ALOMOJU – Grupo de
Pesquisadoras Negras de Pernambuco, Núcleo da Cultura Afro-brasileira e
o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da UFPE. No governo estadual, há um
órgão de promoção de políticas de igualdade racial, que não compareceu
aos encontros e, assim, não consta deste mapeamento.
A Diretoria da Igualdade Racial da Prefeitura do Recife declarou
atuar em diversas áreas, desenvolvendo atividades relacionadas à
educação das relações etnicorraciais, como a Lei 10.639/03 e/ou Lei
11.645/08, políticas para as comunidades de terreiro, fomento à cultura
negra, promoção de saúde e combate ao racismo institucional. O Núcleo
da Cultura Afro-brasileira nos espaços de fomento à cultura negra e
também de combate ao racismo institucional.
A Secretaria de Saúde de Olinda atua com políticas direcionadas às
comunidades de terreiro, saúde da população negra e também combate
ao racismo institucional. Em todos os casos, a principal fonte de
financiamento é o orçamento público e, no caso desta Secretaria, o
Ministério da Saúde.
A Fundação Joaquim Nabuco diz ter como missão institucional a
produção e difusão de conhecimentos, considerando o resgate e
preservação da memória, além da promoção de atividades científicas que
fomentem a compreensão e desenvolvimento da sociedade brasileira.
Prioritariamente sua ação se dá no Norte e do Nordeste do país, e suas
atividades são financiadas através do orçamento público federal. Essa
instituição articula-se principalmente com a Universidade Federal Rural de
3
Pernambuco (UFPE), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e com
a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Além do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da UFPE (formado pelos
Departamentos de Educação, Letras, Ciências Humanas e Ciências
Domésticas), o Alomoju, um grupo de pesquisadoras negras ainda em fase
de formação e constituição jurídica, promove políticas de integração de
estudantes afro-brasileiros, além de estender suas ações para as
comunidades locais. Houve, ainda, a presença da iniciativa privada, como
a Universidade Católica de Pernambuco, em fase de constituição de um
Núcleo de Estudos Afro-brasileiros nesta Universidade.
O número total de organismos que se dizem envolvidos no
desenvolvimento de pesquisas foi dez. As organizações do movimento
social respondem por sete instituições e o Setor Público por três (Tabela 9,
em anexo). As áreas de maior interesse foram a de relações raciais,
História da África, estudos culturais e direitos humanos, que atraem 70%
das organizações. Entre as publicações declaradas, estão três livros, duas
revistas, uma tese de doutorado, um CD e dois vídeos.

Informações obtidas face a face

As Rodas de Conversa iniciaram com a apresentação do CEAFRO,


seguida da apresentação do Mapeamento. Logo após, houve a
apresentação da Fundação Kellogg, focalizando como o Mapeamento se
relaciona a sua atual programação no Brasil. Neste momento, ficou
evidenciada a importância de cada pessoa e organização presente ao
encontro contribuir na construção do projeto de sustentabilidade da
questão racial no nordeste, demonstrando-se, ainda, a credibilidade,
parceria e confiança nos desafios propostos. Terminadas as falas dos
apresentadores/as, foi aberto o debate, para comentários, dúvidas,
questionamentos, etc.
A partir daí, já compreendendo as intenções, seja do CEAFRO, seja
da Fundação, todos/as se apresentaram e também à organização que
representam, destacando principais ações, conquistas e possíveis
3
dificuldades. No final, foram identificadas as lideranças a participarem de
momentos específicos de entrevista e grupo focal.
Os resultados obtidos através dos diálogos com as organizações que
compareceram aos encontros estão expostos nos itens a seguir,
focalizando as iniciativas do Movimento Social, Governo e Universidade.

Movimentos, Ong’s e lideranças

Dentre os principais movimentos identificados, destaca-se a


Articulação Negra de Pernambuco, que congrega diversas organizações
com atuação relevante, seja no combate ao racismo, seja na promoção de
políticas de igualdade racial.
A Articulação foi criada em 2004, a fim de organizar atividades para a
Marcha Zumbi +1060 e manteve-se enquanto rede, agregando 6
organizações e 15 militantes que atuam de modo independente. Sem
status jurídico ou regimento, conseguiu manter-se, inclusive como
mobilizadora para as conferências de promoção de igualdade racial.
Outra organização que merece destaque é o Observatório Negro,
também criado em 2004, a partir da articulação de militantes do
movimento negro e de direitos humanos. Suas atividades eram
inicialmente focadas na defesa e acompanhamento jurídico de vítimas do
racismo, denúncias relacionadas a mídias e livros didáticos de conteúdos
racistas. Segundo uma representante da organização, nos últimos anos,
passou a atuar também na formação de gestores/as públicos e sociedade
civil para o combate ao racismo e sexismo, em defesa dos direitos
humanos da população negra e contribuindo com o fortalecimento da
identidade de negras e negros como sujeitos políticos, tendo em vista a
construção de uma sociedade radicalmente democrática.
A maior parte das organizações não governamentais e lideranças
que atuam no movimento negro estão ligadas ao campo artístico-cultural.
Em segundo plano, aparece a ação nas áreas de educação e religiosidade.
De modo geral, as organizações presentes ao encontro buscam um

60 Realizada em 16 de novembro de 2005 em Brasília (DF)


3
financiador para suas atividades ou têm como meta prioritária o
desenvolvimento de projetos de sustentabilidade.
A sustentabilidade é apontada como um dos grandes problemas do
movimento social em Pernambuco. Segundo participantes do Grupo Focal,
muitos quadros políticos do movimento negro com boa formação estão
migrando para outros movimentos sociais por falta de condições
financeiras para desenvolver projetos.
Para Ana Paula Maravalho, ativista do Observatório Negro, "O
movimento negro não é alternativa de vida para as pessoas, os outros
movimentos são". Ainda para o grupo, o movimento social vem se
organizando de uma forma muito rica, faz interlocução nacional e
internacional, com a exceção do movimento negro apesar de ser um dos
mais antigos dos movimentos sociais no estado.
Ausência de formação política, mecanismos de sustentabilidade e
visibilidade foram apontados pelo grupo como os principais entraves ao
avanço do movimento negro em relação a outros movimentos sociais. A
fragmentação e divergências entre as organizações de movimento negro
também foram apontadas como entraves. Como avanços foram apontados
o crescimento da consciência de gênero, o protagonismo das mulheres
negras e as ações em torno da educação.
Identificamos também que a formação política para o segmento
“Juventude Negra” é prioridade, pois dará continuação às lutas sociais
atuais. “Não existe formação política para a juventude negra em
Pernambuco. Existe uma aglomeração por qualquer interesse, menos de
formação (...). A juventude “tem certo receio de participar de outros
espaços, pois não sabem dialogar e sentem-se excluídos” é como avalia
uma representante de movimentos de juventude negra.
A ausência desse projeto político é percebida como um desafio a ser
superado pelo Movimento Negro pernambucano, pois limita a ação política
em inúmeras instâncias, já que esse projeto deveria orientar uma tática
mais alinhada.
Um dado bastante relevante é que as mulheres negras e os terreiros
estão consolidados como sujeitos políticos dentro do raio de atuação de
3
Movimento Negro, apesar de a relação ser relativamente conflituosa;
alguns religiosos consideram que o movimento negro não os representa,
enquanto alguns/mas representantes do movimento negro consideram o
movimento religioso pouco politizado.

Organizações governamentais

Identificamos órgãos governamentais que implementam políticas de


igualdade racial em nível estadual e municipal. Apesar de o governo
estadual desenvolver há mais tempo a política de combate ao racismo,
hoje a política na Prefeitura Municipal de Recife nos pareceu mais
visibilizada. Há uma Diretoria de Igualdade Racial e um Núcleo de Cultura
Afro-brasileira, dentre outros, que têm em seus quadros militantes do
movimento negro, gerando maior representação e acesso na gestão
pública.
O Comitê de Promoção da Igualdade Racial (CEPPIR), ligado ao
gabinete do governador, é formado por representantes das secretarias
estaduais e é importante instância que elabora políticas de igualdade
racial no Governo de Pernambuco. Algumas lideranças criticaram o fato de
o movimento negro não ter sido sequer consultado sobre quem deveria
compor o Comitê.
O aspecto mais criticado, por parte dos entrevistados/as, ao avaliar
o segmento governamental, independente da instância administrativa, é o
fato do tema equidade racial ainda não ter força para figurar como linha
de ação estratégica fora dos órgãos de promoção de igualdade.
A questão do combate ao racismo é invisibilizada na ação
estratégica dos governos. Não está na prioridade da administração
estadual nem da municipal e, portanto, não está prevista no orçamento.
Na avaliação do coletivo, o movimento negro tem sido paciente com o
governo, pois ainda se propõe ao diálogo, porém existe um
3
enfraquecimento do movimento negro por causa dessa complacência. Até
mesmo ativistas que estão no governo reconhecem o fato na ineficácia do
poder público no que tange a políticas de combate ao racismo “Há um
esforço grande para fazer políticas, mas não há política” analisa uma
gestora de um dos órgãos representados nos encontros. De todo modo,
consideramos a importância da própria existência do Núcleo na estrutura
do governo, como mais um espaço de pressão para as políticas requeridas
pela população negra.
Há problemas nas políticas públicas de igualdade, porém há também
uma expectativa de que seja criada, ainda nessa gestão, uma Secretaria
Estadual de Igualdade Racial. Mesmo com essa perspectiva em curto
prazo, é consenso no movimento a necessidade de eleger quadros para
funções diretivas na máquina estatal. Segundo Ana Paula Maravalho, "Só
haverá avanços quando conseguirmos eleger os nossos para os cargos,
daqui pra frente".

Programa de combate ao racismo institucional

O Programa de Combate ao Racismo Institucional (PCRI) é um


programa implementado na Prefeitura do Recife, em parceria com o PNUD
e o DFID. O programa foi citado diversas vezes como exemplo de política
pública, apesar do descomprometimento de alguns gestores que não
compreendem a dimensão estratégica do combate ao racismo. Muitas
iniciativas em curso decorrem da sua ação, dentre elas a política de
formação de professores/as que, mediante legislação específica, incorpora
o tema história e cultura afro-brasileira e africana como obrigatório em
toda e qualquer formação continuada de professores/as no município.

Organizações que produzem e disseminam conhecimento

Considerando as organizações entrevistadas que produzem e


disseminam conhecimento, embora o momento político seja favorável, o
avanço é lento, pois as ações ainda decorrem do esforço militante de
3
professores/pesquisadores, com pouco apoio da universidade enquanto
instituição. Além do NEAB/UFPE, existe grande interesse de alguns
pesquisadores para criação de outros núcleos em suas faculdades,
inclusive particulares.
O principal entrave para o avanço ainda é o racismo institucional
dentro das universidades, que dificulta desde a realização de projetos,
passando pela formação de parcerias e mesmo a obtenção de recursos,
que são escassos.

Considerações Gerais

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)61,


Pernambuco possui 62,3% de negros em sua população, sendo 4,9% de
pretos e 58,3% de pardos. A capital, Recife, e sua região metropolitana,
registram 63,7% de negros (7,0% de pretos e 56,7% de pardos), 0,6 %
indígenas e 35,8% de brancos.
Em nossa visita ao estado, confirmamos que Pernambuco, de modo
geral, possui um movimento negro diversificado e atuante, nos três
segmentos analisados, embora as políticas, como em todo o país, estejam
aquém das necessidades identificadas por esses movimentos. Formação
política, sustentabilidade e articulação representam os principais
interesses dos grupos contactados, para o fortalecimento de sua ação
institucional e perspectiva de futuro.

Tabelas Pernambuco

Tabela 1

61 Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD, 2007)


3
Município das organizações. Pernambuco, 2009

Organizações
Município
Número Distribuição %

Cabo de Santo Agostinho 1 3,8


Jaboatão dos Guararapes 1 3,8
Olinda 6 23,1
Recife 16 61,5
Santa Maria 1 3,8
Santa Maria da Boa Vista 1 3,8
Total 26 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 2
Tipo de organização. Pernambuco, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 8 30,8


ONG ou OSCIP 6 23,1
Instituição religiosa 3 11,5
Setor Público 7 26,9
Outros 2 7,7
Total 26 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 3
Situação jurídica das organizações segundo o tipo. Pernsambuco, 2009.

Situação jurídica
Em processo Não Organização Outra Total
Tipo
Formalizada de do Setor
formalização formalizada Público

Associação ou movimento 6 1 1 - - 8
ONG ou OSCIP 4 1 - - 1 6
Instituição religiosa 2 - 1 - - 3
Setor Público 1 1 - 5 - 7
Outros 1 1 - - - 2
Total 14 4 2 5 1 26

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 4

2
Média de tempo de existência das organizações segundo o tipo. Pernambuco, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
idade organizações

Associação ou movimento 11 8 9,665


ONG ou OSCIP 13 6 10,289
Instituição religiosa 31 3 43,247
Setor Público 13 6 23,441
Outros 74 2 101,823
Total 19 25 32,597

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 5
Média de pessoas ocupadas por tipo de organização. Pernambuco, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 41 7 47,599


ONG ou OSCIP 14 6 4,262
Instituição religiosa (1) - - -
Setor Público 8 6 4,637
Outros 36 1 3,485
Total 23 20 30,990

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


Notas: (1) Nenhumas organização religiosa declarou o número de pessoas.

Tabela 6

2
Áreas de atuação das organizações por tipo. Pernambuco, 2009

Número de Associação ONG ou Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 26 8 6 3 7 2

Arte e Cultura 21 7 4 3 6 1
Educação 17 7 5 2 3 0
Meio-Ambiente 11 3 4 2 1 1
Emprego, Trabalho e Renda 9 3 4 1 1 0
Saúde 11 5 2 1 2 1
Direitos humanos e Ações
18 6 4 2 6 0
Afirmativas
Informação 10 5 2 1 1 1
Outra 2 - - 1 1 0

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número maior de áreas de atuação.

Tabela 7
Públicos preferências das organizações por tipo. Pernambuco, 2009

Número de Associação ONG Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 26 8 6 3 7 2

Lésbicas, gays, bi-sexuias e trangêneros 5 2 1 1 1 -


Quilombolas 13 4 3 2 4 -
Mulheres negras 19 8 5 1 5 -
População negra 21 7 4 1 7 2
Índígenas 7 2 1 3 1 -
Infancia e juventude 18 7 4 2 3 2
Outro 5 - 1 - 2 2

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número maior de áreas de atuação.

Tabela 8

2
Número médio de pessoas atendidas no ano por tipo de organização. Pernambuco, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 297 7 320,402


ONG ou OSCIP 955 4 940,975
Instituição religiosa 393 3 179,258
Setor Público 2709 4 4869,859
Outros 45 1 3,485
Total 945 19 2255,749

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 9
Número de organizações que desenvolvem pesquisa. Pernambuco, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 2 20,0


ONG ou OSCIP 4 40,0
Instituição religiosa 1 10,0
Setor Público 3 30,0
Total 10 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

2.1.9 Informe sobre políticas e movimentos negros – Piauí,


Setembro 2009
2
Introdução

Este relatório apresenta o resultado de um trabalho realizado entre


os dias 3 e 4 de agosto de 2009, em Teresina (PI), a partir de uma parceria
entre a Fundação Kellogg e o CEAFRO, objetivando mapear entidades
negras, produção de conhecimento, lideranças político-sociais e também
políticas governamentais de promoção da igualdade racial desenvolvidas
no estado.
A metodologia utilizada consistiu em dois momentos. No primeiro,
dia 3 de agosto, optamos por reunir as instituições governamentais na
sede da Fundação Cultural do Estado (FUNDAC), quando contamos com
presença de vários representantes, tais como: Instituto de Assistência
Técnica e Extensão Rural do Piauí (EMATER), através do projeto Ater no
Quilombo; Secretaria de Assistência Social e Cidadania - SASC;
Coordenação de Igualdade Racial, da Secretaria de Direitos Humanos;
Secretaria de Educação do Estado, através da Gerência de Inclusão e
Diversidade; e Secretária da Saúde do Piauí (SESAP).
No início da reunião, a representante do CEAFRO deu boas vindas
aos participantes, apresentou os presentes e justificou a escolha da
entidade pela Kellogg para conduzir o mapeamento no nordeste,
apresentando a proposta do mapeamento. Em seguida, a consultora da
Kellogg enfatizou a importância do mapeamento e os objetivos da
fundação em focar suas metas para a promoção da igualdade racial, como
condição para promoção do desenvolvimento no país. Dando continuidade
ao encontro, as instituições se apresentaram, relatando suas dificuldades
4
e potencialidades no campo da implementação das políticas públicas para
promoção da igualdade racial no estado.
A coordenadora da Igualdade Racial, Haldaci Regina, enfatizou a
falta de recursos para viabilização das questões raciais no estado, e
reafirmou o papel de articular as políticas públicas no governo, e entre
este e as entidades negras.
O segundo momento do encontro aconteceu no período da tarde,
com as lideranças negras. Desse encontro, participaram mais de 6
entidades, sendo uma do interior do estado. As entidades questionaram os
objetivos do mapeamento e reivindicaram uma representação no trabalho
da Fundação Kellogg. Uma das questões mais levantadas foi os benefícios
que o mapeamento poderia atrair para as entidades, e como será o
processo do seu gerenciamento em nível do estado.
No dia 4 de agosto pela manhã, houve apresentação das entidades,
que relataram suas potencialidades e fraquezas, principalmente a falta de
articulação entre entidades negras e seus representantes no governo do
estado. Além da carência de formação e capacitação dos membros,
reclamaram da ausência de solidariedade entre as entidades, que não
promovem palestras, seminários, a exemplo do Ifaradá, como forma de
auxiliar nas suas atividades.

Informações geradas através questionário

Tipo de Organização e Situação Jurídica: No Piauí, apenas uma


entre as 14 organizações que preencheram o questionário não está
localizada no município de Teresina, mas em Picos, no interior do estado.
(Tabela 1, em anexo)
As organizações do movimento social, incluindo as Associações ou
Movimentos, as ONGs ou OSCIPs e as Instituições Religiosas, são a
esmagadora maioria das instituições, com o Setor Público respondendo
por apenas 29% do total. (Tabela 2, em anexo)
Embora não existam organizações que tenham se autodeclarado não
formalizadas no Piauí, apenas quatro organizações da sociedade civil
3
revelaram ser formalizadas. Entre as demais, três não souberam informar
o status legal e outras três estavam em processo de formalização (Tabela
3, em anexo).
Tempo de existência: A média do tempo de existência das
organizações pesquisadas é de 11 anos, sendo que metade delas tem até
12 anos de existência; a mais antiga possui 21 anos; e a mais recente tem
quatro anos de fundada. (Tabela 4 em anexo)
Quem atua nas organizações: Em relação à quantidade de
pessoas atuando nas organizações, a média foi calculada em 26 pessoas
por instituição. O número mais elevado foi o de 40 pessoas, em duas
organizações: o Grupo Cultural Beleza Afro-Indígena e a Companhia de
Arte e Cultura Integrada (CACI) (Tabela 5, em anexo). As mulheres
respondem por 2/3 do total de pessoas atuando nas organizações e os
homens por 1/3. Em relação à distribuição racial, prevalece uma maioria
negra, 91% das pessoas com atuação.
Áreas de atuação e público atendido: Apenas uma organização
do setor público respondeu à questão sobre as três áreas de atuação mais
importantes tendo declarado a Educação, os Direitos Humanos e Ações
Afirmativas e Outras.
Em relação às áreas prioritárias de atuação, sobressai entre as
organizações da sociedade civil a Educação, presente entre os espaços de
atuação da totalidade das organizações, seguida da Arte e Cultura e dos
Direitos Humanos e Ações Afirmativas, que estão na área de atuação de
78% delas. O menor interesse ficou com Informação (11%) e Outras (11%)
(Tabela 6, em anexo).
A população negra e a infância e juventude são os grupos
populacionais mais expressivos nas organizações: 64% das organizações
pesquisadas têm essas populações entre os públicos. O atendimento da
metade das instituições dirige-se também para as mulheres negras, sendo
menor entre, Lésbicas, gays, bi-sexuais e transgêneros (14%), Indígenas
(14%) e Outros (14%) (Tabela 7, em anexo). Em termos médios, o
atendimento anual é de 760 pessoas (Tabela 8, em anexo).

3
Políticas Públicas e Disseminação de Conhecimento: Detectou-
se quatro organizações do setor público no Piauí: Núcleo de Pesquisa
Africanidades e Afrodescendência (IFARADÁ), Fundação Cultural do Piauí
(FUNDAC), Secretaria de Assistência Social e Cidadania (SASC) e a
Coordenadoria de Direitos Humanos e Juventude.
Contudo, quatro organizações declararam desenvolver pesquisa: o
Grupo Cultural Afrocondarte, o Ifaradá (Núcleo de Pesquisa Africanidades e
Afrodescendência), a CACI (Companhia de Arte e Cultura Integrada) e o
Grupo Cultural Beleza Afro Indígena (Tabela 9, em anexo).
O Grupo Cultural Afrocondarte atua em pesquisa na área de História
da África, gênero/raça e estudos culturais. As demais organizações
declaram desenvolver atividades de pesquisa em todas as áreas
relacionadas à questão racial.
Informações geradas através rodas de conversa e entrevista

Piauí é um dos nove estados da região nordeste e tem uma certa


particularidade no tocante à formação social. Segundo dados do IBGE, a
população piauiense apresenta na sua composição 75.6%62 de pessoas
negras, o que caracteriza um percentual significativo, revelando traços
permanentes do processo de formação histórico-social, com influências
presentes na identidade desta população, embora ainda se discuta a
existência ou não da participação negra na formação identitária do estado.
Neste sentido, a percepção da existência dessa população está refletida
na luta e formação de várias entidades do movimento negro na capital e
interior do estado.
Contemporaneamente, os movimentos negros são oriundos de
sindicatos, associações de bairro, grupos da juventude da igreja católica,
organizações partidárias, etc., e liderados por afro-descendentes que
sentiram a necessidade de apresentar suas próprias reivindicações, em
um nível mais politizado e mais organizado, a fim de enfrentar o racismo,
numa sociedade que se afirma democrática racialmente. A filiação
partidária de membros da militância negra antecedeu à criação das

62Fonte: IBGE, microdados PNAD 2006.


4
entidades negras. Cabe ressaltar que existe um forte liame entre o PT e o
Coisa de Nêgo (Grupo do movimento negro), uma ligação histórica, o que
se reflete na maior incidência dos integrantes do Coisa de Nêgo para
cargos no atual governo do PT no estado.

A configuração das entidades negras no Piauí

No Piauí, por considerável espaço de tempo, inexistiu debate sobre a


questão racial negra, consequência do escamoteamento da real situação
do negro na sociedade piauiense, o que teria dificultado e/ou impedido a
formação de movimentos identitários negros.
Desta forma, então, podemos destacar a década de 1990 como
marco da consolidação das organizações negras no Piauí. Alguns grupos
e/ou entidades, como o IFARADÁ-UFPI, atuam e participam em linhas de
pesquisa na Universidade, na elaboração de projetos de intervenção social
e na implementação de políticas publicas de inclusão social. Por outro
lado, há grupos como Coisa de Nêgo e Afro-Afoxá, que desempenham as
duas atividades em paralelo: a de pesquisa e a de valorização da cultura
negra, através do canto e da dança.
Na capital existem mais de 15 entidades que discutem a temática
das relações etnicorraciais nos vários campos: cultura, política, pesquisa,
religião, juventude e artes. Dentre estes grupos, temos: O Centro Afro-
Cultural Coisa de Nêgo (1983), Grupo Afro-Cultural Maravir (1992), Núcleo
de Pesquisa sobre Africanidades e Afrodescendência – Ifaradá (1993),
Coletivo de Mulheres Negras do Piauí (1994), Grupo de Hip Hip Questão
Ideológica - QI (1994), Grupo Afro-Cultural Afoxá (1996), Grupo de Dança
Beleza Afro- Indígena – BAI (1997), MNU - Seção Piauí (1999), Grupo de
Capoeira Raízes do Brasil (1999).
A partir do início do século atual, surgiram as seguintes entidades:
Grupo Hip Hop (2002), Coletivo de Mulheres Negras Esperança Garcia
(2003), Grupo Hip Hop Mp3 - Movimento pela Paz na Periferia (2003),
Agentes de Pastoral Negros (APN) (2003), Grupo Cultural Afro Ijexá (2004),
Companhia de Arte e Cultura Integrada (2004), Grupo de Cultura Afro Aba
3
(2004), Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro da Universidade Estadual do
Piauí (NEPA), em 2005, Tenda Espírita Santa Bárbara (2005), Santuário
Sagrado Pai João de Aruanda (2006) e Tumbanda de São Jorge (2007).
Outros grupos que surgiram em nível de Capoeira são: Grupo de Capoeira
– Legião Brasileira, Grupo Afro Oxaguian, Grupo de Capoeira Muzenza,
Grupo de Capoeira – Escravos Brancos, Grupo de Capoeira Ginga Piauí,
Grupo de Capoeira – Cordão de Ouro.
Existem cerca de 04 entidades do movimento negro organizado no
interior do Estado: 2 na cidade de Picos, região sudeste do Estado (OCN –
Organização Cor Negra (2006) e Grupo Cultural Adimó (2005); 1 no
município de Queimada Nova, também na região sudeste (Coordenação
Estadual de Comunidades Negras Rurais Quilombolas – 2005); e 1 na
cidade de Floriano, região sul do estado.
Todos esses grupos surgiram após a criação do Grupo Afro-Cultural
Coisa de Nêgo, a partir de 1990, e elegeram como foco para as suas ações
a revalorização da cultura negra no Estado do Piauí, pautada em diversas
formas de valorização da ancestralidade africana. Apesar de produzirem e
veicularem um discurso negro, eles têm grande capilaridade social e
transitam entre variadas manifestações artísticas e culturais.

Potencialidades e fraquezas das entidades dos movimentos


negros no estado

O denominado Grupo Afro-Cultural Coisa de Nêgo teve, como seus


mentores pessoas oriundas da militância do Partido dos Trabalhadores e,
principalmente, da Associação da Juventude Operária Católica (JOC). Esse
grupo foi criado em 1983, quando negros e negras de diferentes
organizações de movimentos sociais começaram a se encontrar, para
discutir e tentar encaminhar os problemas sócio-raciais no Estado.
Influenciados por grupos de outros estados, a exemplo de Ilé Aiyê/BA e
Akomabu/MA, o Coisa de Nêgo passou a utilizar a estratégia de
valorização da cultura afro-brasileira, visando à elevação da autoestima do
3
negro e da negra e a posterior consolidação de uma identidade
convergente. O Grupo destaca-se mediante apresentações artísticas e
musicais e já tem presença garantida nos desfiles de carnaval de Teresina.
Importantes personalidades afro, como a deputada federal Francisca
Trindade, falecida em 200363, vincularam-se, estreitamente, ao Grupo. A
atual presidente da Fundação Cultural do Estado do Piauí (FUNDAC), Sônia
Terra, também é destaque neste Grupo, assim como Lúcia Araújo
(Coordenadora de Programa Permanente de Convivência com o semi-
árido) Ruimar Batista, Gilvano Quadros (Coordenação do Memorial Zumbi
dos Palmares), Francisca Nascimento, Haldaci Regina (Coordenação da
Promoção da Igualdade Racial) Assunção Aguiar (Coordenação Estadual
das Comunidades Negras Rurais), entre outros. Apesar de possuir a
maioria dos seus membros no atual governo do estado, o grupo se
encontra atualmente sem sede para desenvolvimento de suas atividades.
O Coletivo de Mulheres Negras Esperança Garcia constitui uma das
importantes representações das mulheres negras no estado do Piauí. É
uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos, conduzida por
mulheres negras de diferentes formações escolares e posições sociais,
cuja ênfase recai sobre mulheres, adolescentes e meninas negras do
estado do Piauí. Criado em abril de 1994, o Coletivo de Mulheres Negras
Esperança Garcia tem como objetivo revalorizar a história da cultura afro-
brasileira, bem como a elaboração de políticas de ação afirmativa para a
população negra e, em especial, para as mulheres. Compõe, também, a
sua agenda, o desenvolvimento de programas educacionais,
profissionalizantes, para mulheres negras e não-negras à margem do
contexto econômico e social, através de parcerias com o estado, município
e a iniciativa privada. Trata-se de uma entidade de intervenção social a
partir de uma perspectiva de melhoria das condições de vida da
população feminina negra, de ampliação da democracia e de
desenvolvimento de caráter sustentável para mulheres negras, bem como
a sua preparação para o enfrentamento do racismo e do sexismo vigentes
63Membro e fundadora do grupo Afro-Cultural Coisa de Nêgo, e uma das mais
destacadas deputadas federais no estado. Morre aos 37 anos, vítima de aneurisma
cerebral, em 2004.

3
na sociedade piauiense e brasileira. Ela tem assento no Conselho
Municipal de Defesa dos Direitos da Mulher, tendo contribuído para a
criação da 1ª Delegacia Especializada em Atendimento às Mulheres
Vítimas de Violência Doméstica. Apesar de todos os esforços para seu
funcionamento, a organização não conta com nenhum apoio financeiro.
O Grupo Afro-Cultural Afoxá tem um trabalho voltado para os
âmbitos artístico e cultural. O grupo nasceu em 1996, no bairro Angelim I,
comunidade Santa Rosa de Lima, em Teresina, fruto do anseio de um
grupo de jovens da igreja católica, que pretendia participar da
comemoração do Dia Nacional da Juventude, que acontecia no dia 28 de
setembro, apresentando uma coreografia afro. À época ele era composto
por seis jovens, sendo cinco moças e um rapaz. O objetivo primeiro
consistia na integração comunitária, visando preencher os finais de
semana e, assim, conter a ociosidade da população juvenil. Após a
exibição da coreografia, em 28 de setembro de 1996, surgiu a vontade de
prosseguir com o grupo, atribuindo-se-lhe, então, a denominação “Grupo
de Dança Afro Afoxá”, nome de origem africana, yorubá, que significa
encantamento.
A partir de 1997, o grupo incluiu a percussão como forma de
enriquecimento das coreografias, ampliando, também, a constituição para
nove pessoas, dos quais três, exclusivamente, para atuação no
desenvolvimento da musicalidade percussiva. Nesse período, o grupo
dedicou-se à pesquisa da dança relacionada diretamente à prática
religiosa de matriz africana, envolvendo-se com praticantes de umbanda,
os quais ministravam cursos formativos de cunho teórico e ofereciam
subsídios escritos, fotografados e filmados para o embasamento da
pesquisa do grupo.
Com o aperfeiçoamento do trabalho, o Afoxá passou a ser convidado
para realizar oficinas, debates, palestras, e até mesmo para desenvolver,
metodologicamente, temas que há algum tempo seriam impossíveis de
compor a agenda de certas instâncias, como, por exemplo, a parceria com
a igreja católica, através da arquidiocese, para a realização de oficinas
para catequistas, sob o tema: “A dança afro como metodologia
4
catequética”. O trabalho capacitou 250 catequistas em toda a
arquidiocese de Teresina.
Desde então, o grupo tem realizado, sistematicamente, oficinas de
dança e percussão, na capital e no interior, incluindo três características
(afro primitivo, afro guerreiro e afro contemporâneo) voltadas para vários
segmentos sociais, especialmente compostos de adolescentes e jovens.
Anualmente, o grupo desenvolve, também, oficinas básicas de culinária
afro, pintura em tecido, macramê, bijuterias, acessórios para decorar
bolsas e roupas, aproveitando recursos naturais, como sementes, bambus
e madeiras. Por ser esta uma atividade prioritária, o Afoxá incluiu-se no
Programa do Governo Federal – Consórcio da Juventude, em parceria com
o Ministério de Trabalho, no período de 2004/2005, com o objetivo de
capacitar 50 jovens distribuídos em cinco áreas temáticas, ou seja,
culinária, dança, percussão, artesanato e beleza. O trabalho desenvolvido
tem reforçado a integração do grupo e sua inserção na comunidade. A
capacidade técnica do grupo tem sido reconhecida por diversos parceiros
do movimento social e popular, estando o Afoxá presente nos principais
eventos em defesa dos direitos humanos e da inclusão social. No
momento, o grupo não tem sede própria para a realização das suas
oficinas, além de não contar com financiamentos para a manutenção das
produções artísticas.
Os Agentes de Pastoral Negros (APNs) são negros ligados à igreja
católica, que desenvolvem trabalhos sociais e estimulam um diálogo inter-
religioso com as matrizes africanas, através do culto ecumênico, assim
como projetos de intervenção social nos bairros da periferia.
O Grupo Cultural Adimó64, fundada em Picos, cidade do sudoeste do
estado, em 2005, só se institucionalizou em 2007. É uma entidade do
movimento negro de caráter cultural, político, social e esportivo, sem fins
lucrativos, que trabalha o resgate da cultura negra na promoção nos seus
diversos âmbitos, bem como a valorização da autoestima das crianças e
adolescentes para a promoção de igualdade racial. O grupo realiza várias
atividades na região, tais como oficinas de tranças afro, dança, pintura,

64 Significa criança, na língua africana do povo Sauili.


3
além de promover palestras, seminários e debates sobre a questão racial.
Atualmente, o grupo conta com um blog, onde publica todas as suas
atividades.
O Grupo Cultural Beleza Afro-Indígena (BAI), fundado em 27 de
março de 1997, no bairro Santo Antônio, zona sul de Teresina, busca a
valorização da cultura negra e indígena através da música e da dança e é
formado por jovens e adolescentes a partir dos 12 anos de idade. Busca,
através de suas ações sócio-culturais, possibilitar a jovens e adolescentes
o acesso à cultura, autoconhecimento e percepção da realidade, onde
negros e negras possam firmar suas identidades através da vivência
cultural, além de possibilitar um espaço de organização e formação de
jovens e adolescentes, favorecendo sua participação na reflexão sobre as
questões raciais.
O grupo tem como principais objetivos a criação de um atelier de
desenho, corte/costura e construção de bijuterias e acessórios. Uma das
dificuldades do grupo é a obtenção de um centro cultural para a realização
dos ensaios e o funcionamento de curso de informática.
O Grupo de Cultura Afro Ijexá65, criado em 2004, tem com objetivo
combater o racismo através do resgate da cultura negra, tendo como foco
a beleza negra, através da música, dança e valorização dos cultos afros.
Ele também trabalha com a confecção de figurino, bijuterias e acessórios,
percussão etc, tendo como público-alvo crianças, adolescentes, jovens e
adultos. O grupo estabelece uma relação próxima com as religiões de
matrizes africanas, visando mostrar as danças dos orixás como forma de
resistência cultural.
A Companhia de Arte e Cultura Integrada (CACI) foi fundada em
2004, objetivando propiciar aos adolescentes o acesso à formação sócio-
cultural, através da integração de música, dança, teatro e leitura sócio-
educativa; a companhia também contribui para a valorização da cultura
nordestina piauiense.
O Grupo Cultural Maravir teve seu início em 1991, em uma oficina de
Percussão do Projeto Pé de Moleque, do Movimento Nacional de Meninos e
65 Ijexá é um toque de tambor para Oxum, cuja mística inspira e rege os trabalhos do
grupo.
3
Meninas de Rua. Entretanto, só em 1992 o grupo se tornou oficial. O
Maravir é formado por jovens e adultos de ambos os sexos e centraliza
suas ações na valorização da cultura negra, através da dança, percussão,
musicalidade. Também promove palestras, oficinas de formação sobre a
identidade negra dos seus membros.
Vale assinalar que quatros entidades (Beleza Afro-Indígena, Ijexá,
Companhia de Arte e Cultura Integrada e Grupo Cultural Maravir)
decidiram formar a Associação de Incentivo e Resgate da Cultura e
Cidadania (AIRCC), como forma de fortalecer suas ações, já que todos
trabalham com a mesma finalidade (apresentações culturais, musicalidade
e percussão). Segundo os integrantes, o mais importante nessa
associação é que o trabalho dos quatro grupos fecha o circulo sócio-
cultural dentro das comunidades nas quais estão inseridos.

Instituições governamentais

No campo institucional, após o direcionamento das políticas públicas


para a equidade, criou-se na Secretaria de Assistência Social e Cidadania –
SASC, a Coordenação da Pessoa Negra, em 2003, no início do governo do
PT, de Wellington Dias. O objetivo da coordenação era articular as políticas
públicas governamentais para a promoção da igualdade racial, com o
movimento negro. Cabe enfatizar que, no início do segundo mandato do
governo Wellington, foi criada a Coordenadoria de Direitos Humanos e da
Juventude, que reuniu as coordenações que tratavam das temáticas da
diversidade, como relações etnicorraciais, livre orientação sexual,
juventude, gênero e diversidade religiosa. A Coordenação da Pessoa Negra
transformou-se em Coordenação de Promoção da Igualdade Racial, com a
Diretoria de Diversidade Cultural e Religiosa e Diretoria de Assuntos
Quilombolas.
A criação da Coordenação da Pessoa Negra está, assim, vinculada à
já referida política de implementação de políticas de inclusão social para
negros/as piauienses, e à militância negra como elo de articulação entre o
governo e a sociedade civil, isto é, uma espécie de porta-voz do povo
3
negro no poder, em todas as dimensões: políticas, sociais, econômicas,
simbólicas e culturais.
Assim, o processo de organização da I Conferência Estadual de
Promoção da Igualdade Racial, realizada em 24 e 25 de fevereiro de 2005,
sob o tema “Estado e Sociedade Promovendo a Igualdade Racial”, definiu
as diretrizes para as políticas públicas de promoção da igualdade racial e
possibilitou o estabelecimento de uma agenda de trabalho continuado,
para a elaboração de Planos Estaduais de Promoção da Igualdade Racial.
Seu propósito declarado é planejar políticas públicas de promoção da
igualdade racial, através da formulação, coordenação e acompanhamento
da implementação do Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial
junto aos municípios e organismos nacionais, públicos e privados.
Este plano pretende garantir a implementação de políticas públicas
à luz do mapa da condição de vida, acesso aos bens públicos, situação
fundiária, perfil econômico, desenvolvimento socioeconômico nos eixos do
empreendedorismo, trabalho e geração de renda, política nacional de
saúde, segurança pública, cultura e religiosidade de matriz afro-brasileira.
Infelizmente, o plano não sai do papel, visto que a coordenação conta
apenas com 3 mil reais por mês do orçamento do governo para promoção
de igualdade racial, quantia insuficiente para suas demandas.
A Fundação Cultural do Estado do Piauí – FUNDAC, é presidida por
Sonia Dias, militante do movimento negro – Grupo Afro-cultural Coisa de
Nêgo - desde o primeiro mandato. Neste período, a fundação direcionou a
política cultural para a promoção das tradições populares e também das
manifestações afro-brasileiras, tendo, inclusive, criado o Memorial Zumbi
dos Palmares, como elemento de referência desse objetivo, em parceria
com o movimento negro. Faz parte dessa iniciativa também a criação do
Selo Etnia, que premiava empresas cuja iniciativa de valorização do negro
era reconhecida. Foram criados também os cadernos étnicos, premiação
de trabalhos escritos com temática voltada para a questão racial. Houve,
também, outras iniciativas, como a realização da Festa Lua Tribal, da qual
participavam os grupos de cultura afro, artistas e terreiros de Umbanda;

3
por fim, a Festa dos Folguedos que, tradicionalmente, é realizado como
forma de valorização das tradições locais.
Mesmo com essas atividades traçadas pela FUNDAC, as cobranças
das entidades negras estavam direcionadas à Secretária da Cultura que,
como militante do movimento negro, deveria pautar-se pelas questões
relacionadas à cultura negra, por esta nunca haver constituído prioridade
de outros governos. Essa atitude gerou mal-estar junto à Presidente da
Fundação Cultural do Estado, já que ela havia estabelecido um plano de
desenvolvimento cultural que englobava todas as expressões culturais do
estado, como forma de incluir também a cultura negra. Parcela do
movimento negro cortou relações com a Fundação Cultural.
No âmbito da educação, a Secretaria de Educação e Cultura – SEDUC
criou a Gerência de Inclusão e Diversidade, cujo objetivo é discutir na
educação temas como relações etnicorraciais e de gênero, educação do
campo, educação contextualizada no semi-árido e integração com
programas sociais. Nesta gerência, há a Coordenação de Educação e
Diversidade, que tem o propósito de elaborar propostas de combate à
discriminação e ao preconceito de todas as formas, além de
implementação da Lei 10.639/03, por meio desta formação de
professores/as e aquisição de material didático. Este é um processo ainda
em construção, tendo avançado pouco.
Dentro das políticas públicas, destaca-se o Instituto de Assistência
Técnica e Extensão Rural do Piauí (EMATER), que abraçou a causa das
comunidades quilombolas, com a criação do Projeto ATER no Quilombo
que, entre outras coisas, realizou o mapeamento das potencialidades de
desenvolvimento de 22 comunidades quilombolas da região sudeste do
estado, abrangendo 24 municípios e culminando com a criação e
implantação dos projetos de desenvolvimento sustentável em algumas
destas comunidades.
Em relação à universidade, o Núcleo de Pesquisas sobre
Africanidades e Afrodescendência – IFARADÀ (em iorubá - resistência pelo
conhecimento) – ligado à Universidade Federal do Piauí, desenvolve
algumas atividades e projetos envolvendo a questão etnicorracial. As
3
atividades desenvolvidas pelo Núcleo são nas áreas de ensino, pesquisa e
extensão. Ao longo dos anos, foram desenvolvidos projetos de iniciação
científica, monografias de conclusão de curso de especialização,
dissertações, teses e trabalhos de pós-doutorado.
O núcleo IFARADÁ mantém como objetivos a discussão, investigação
e divulgação de trabalhos originais concernentes às Africanidades e
Afrodescendência, propondo-se a assessorar diretamente os diversos
cursos da Universidade Federal do Piauí, em suas atividades de ensino,
pesquisa e extensão e de outras instituições, referentes à temática de
estudo do Núcleo.
De 2006 a 2007 foi desenvolvido o projeto que visou trabalhar, na
perspectiva de integração, com projetos de pesquisa, de ensino e de
extensão, nos eixos de formação de profissionais da Educação e de
promoção da permanência de estudantes afrodescendentes na Educação
Superior, para propiciar a produção e a socialização de conhecimentos
científicos na área da cultura, da história e da educação afrodescendente,
contribuindo na formação de discentes e de profissionais docentes
capacitados para intervir no processo de ensino dirigidas à implementação
da Lei 10.639/2003. Atualmente, o Núcleo está sem projetos financiados.

Outras Iniciativas

Destacamos ainda existência do Blog Afropiauiense na mídia local


(sistema meio norte - portal meio.com), que veicula diariamente conteúdo
local e nacional, voltado para a informação e o debate em torno das
questões relacionadas à população afrodescendente do Piauí. A iniciativa
do Afropiauiense surgiu quando seu idealizador (Edilson Nascimento)
trabalhava em uma empresa de comunicação de Teresina, conhecida por
TV Clube de Teresina. Esta emissora, filiada à Rede Globo, mantém um
site, e foi nesse espaço que surgiu o projeto para a divulgação de notícias
voltadas para a temática africana.
Edílson Nascimento era membro do Ìfaradá e foi nesta instituição
que ele teve os primeiros contatos com a questão racial, adquiriu
3
experiências, desenvolvendo duas pesquisas voltadas para a negritude,
uma na área da educação: A escola e a questão do negro: a procura de
uma pedagogia voltada para a negritude; e outra no curso de
comunicação social: TV por preto e branco: o afrodescendente como
repórter e apresentador de televisão em Teresina, PI.
“Depois da publicação deste último trabalho, sem justificativa
convincente, a TV Clube me demitiu, processei essa emissora e passei
então a viver apenas das atividades como professor, até que em um dos
contratos firmados com instituições de ensino, mantive um contato com os
editores do Portal de Notícias Meio Norte, que demonstraram interesse em
divulgar o meu blog afro e, a partir de então, comecei a divulgar notícias
neste espaço. Já estou nesta empresa há quase um ano e o meu vínculo
com ela não é remunerado, permaneço me mantendo com as aulas que
ministro durante o dia e a noite. Minha vida é uma verdadeira correria
para dar conta de tudo, planejar e ministrar aulas, durante os fins de
semana e madrugadas, corrigir provas, preencher fichas e atualizar o meu
blog na internet – não é fácil. Ser negro jornalista é um desafio. Olha que
o meu grande sonho é ser repórter de TV, tentei várias vezes e não
consegui, por puro racismo das instituições jornalísticas! Recebi até
comentários racistas a esse respeito, tipo “em uma empresa que
administro jamais contratarei um repórter negro”. (Edílson Nascimento,
agosto de 2009)
No campo da cultura juvenil, há uma cena Hip Hop muito forte no
Piauí. Em Teresina, a Associação Piauiense de Hip Hop Questão Ideológica
realiza um trabalho com base na cultura do movimento hip hop. Além da
discussão em torno da questão racial, oferece oportunidade de inclusão
para a população negra, através de várias atividades de formação e
profissionalização; oficina de Dj, de Break, de estética negra e de grafite,
além de curso pré-vestibular. Com sede cedida, o Questão Ideológica
oferece oportunidade pra os grupos de rap e outros grupos gravarem cds
em seu estúdio, produzir videoclipes, obter conhecimento em software
livre, utilizando a internet no telecentro existente. O grupo tem blog,
clipes musicais, estúdio e realiza palestras. Seu líder, Lamartine,
3
rearticulou o movimento hip hop no estado quando da realização do
Encontro Nacional da Juventude Negra (ENJUNE), em 2007.

Considerações finais

O movimento negro no Piauí conseguiu inúmeras conquistas com


seu processo de luta e organização. A visibilidade do negro hoje é
diferente de 20 anos atrás, embora esteja bem longe das aspirações do
povo negro. A criação da Coordenadoria de Direitos Humanos e da
Juventude (CDHJ), da Gerência de Inclusão e Diversidade GID/SEDUC, da
Delegacia de Combate as Práticas Discriminatórias, do Memorial Zumbi
dos Palmares e, indiretamente, da organização das comunidades de
terreiro e quilombolas, são inegáveis conquistas desta luta cotidiana.
Hoje, em todo o Brasil, o movimento negro precisa se reinventar, e
no Piauí não é diferente. O deslocamento de uma parte da militância para
dentro da estrutura governamental enfraqueceu a organização das
entidades do movimento. Isso precisa ser avaliado e corrigido, para que se
tomem novos rumos no processo de luta, sobretudo agora que há uma
demanda por democracia e participação no âmbito da definição e
implementação das políticas públicas governamentais. O movimento
precisa retomar o protagonismo da sua ação enquanto movimento
organizado, pois só assim a sua história permanecerá viva.

Tabelas Piauí

Tabela 1

3
Localização das organizações. Piauí, 2009

Número de Distribuição
Município
organizações (%)

Picos 1 7,1
Teresina 13 92,9
Total 14

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 2
Tipo de organização. Piauí, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 5 35,7


ONG ou OSCIP 2 14,3
Instituição religiosa 2 14,3
Setor Público 4 28,6
Outros 1 7,1
Total 14 100,0

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 3
Situação legal das organizações segundo o tipo. Piauí, 2009.

Situação legal
Em processo Não sabe Total (1)
Tipo de organização
Formalizada de
formalização

Associação ou movimento 3 2 3
ONG ou OSCIP 1 1 2
Instituição religiosa 1 1 2
Setor Público 4 4
Outros 0 1 1
Total (1) 8 3 3 14

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


Notas: (1) Algumas organizações não declararam sua condição legal ou seu tipo.

Tabela 4

2
Tempo médio de existência das organizações segundo o tipo. Piauí, 2009

(Em anos)
Tempo médio Número de
Tipo Desvio padrão
de existência organizações

Associação ou movimento 11 5 6,041


ONG ou OSCIP 3 2 1,414
Instituição religiosa 20 2 1,414
Setor público 11 2 7,071
Total 11 11 6,997

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 5
Número médio de pessoas ocupadas por tipo de organização. Piauí, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 29 5 13,416


ONG ou OSCIP 28 2 19,799
Instituição religiosa 20 2 18,385
Setor Público 25 2 7,071
Outros 21 1
Total 26 12 12,255

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 6
Principais áreas de atuação das organizações por tipo. Piauí, 2009

Número de Associação ONG ou Instituição Setor


Áreas de Atuação ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 11 5 3 3

Arte e Cultura 8 4 2 2
Educação 11 5 3 2 1
Meio-Ambiente 2 2
Emprego, Trabalho e Renda 7 3 2 2
Saúde 3 3
Dir. humanos /Ações Afirmativas 9 3 2 3 1
Informação 1 1
Outra 2 1 1

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número divergentes de áreas de atuação.

Tabela 7

2
Publicos preferencias das organizações por tipo. Piauí, 2009

Número de Associação ONG Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 14 5 2 2 4 1

Lésbicas, gays, bi-sexuias e trangêneros 2 1 1


Quilombolas 4 1 1 2
Mulheres negras 7 2 2 1 2
População negra 9 3 1 2 2 1
Índígenas 2 1 1
Infancia e juventude 9 4 2 2 1
Outro 2 1 1

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número divergente de áreas de atuação.

Tabela 8
Número médio de pessoas atendidas no ano por tipo de organização. Piauí, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 377 5 631,027


ONG ou OSCIP 1300 2 1697,056
Instituição religiosa 120 1
Setor Público 1750 2 1767,767
Outros 250 1
Total 760 11 1074,4451

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

2.1.10 Informe sobre políticas e movimentos negros - Rio Grande


do Norte, Outubro 2009
2
Introdução

Nos encontros realizados com representantes das entidades e


organizações negras de Natal, quando a pauta foi o contingente
populacional e a cultura negra do Rio Grande do Norte, algumas lideranças
atribuíram ao folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) o fato de o
estado ser conhecido nacionalmente como aquele onde a presença negra
e indígena é quase insignificante.
Segundo a PNAD 2005, a população do Rio Grande do Norte é de
3.008.273 habitantes; de acordo com a classificação do IBGE, 63% da
população se declaram pardos; 36,9% brancos; 2,4% pretos e 0,1%
indígenas. Com base nos escritos do citado folclorista, é recorrente afirmar
que no estado não existem negros ou índios. Os dados, no entanto, negam
a idéia da inexistência de negros, e a própria denominação dos nascidos
no estado é resultado da influência indígena na região: “potiguar”.
Dessa forma, há um aspecto tão sério quanto a reivindicação de
políticas públicas de promoção da igualdade racial e combate ao racismo
no Rio Grande do Norte: existe um caminho a percorrer para que as
populações negras e indígenas sejam reconhecidas como parte integrante
da formação sociocultural do estado.
A negação da própria existência dos negros e negras, segundo
entrevistados, dificulta o seu processo identitário, embora seja marcante a
presença das culturas negras no estado. A capoeira, o boi calembá, o
congo, assim como os quilombos e as religiões de matrizes africanas
expressam uma cultura negra viva e pulsante, mesmo com a existência de

2
uma ideologia que tenta negar a existência das influências afro-
ameríndias.
Com o intuito de nos aproximar dessa realidade e de conhecer as
principais ações desenvolvidas pelas organizações para promover a
equidade racial e combater o racismo, nos reunimos em 11 e 12 de agosto
de 2009, na sede da COEPPIR - Coordenadoria de Políticas Promoção da
Igualdade Racial, órgão ligado à Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania
do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, localizada na Rua Coronel
Estevam, 1172, Alecrim – Natal-RN, com lideranças e representações de
organizações negras, levantando informações para compor o
Mapeamento. Em todos os momentos, apresentamos a proposta do
trabalho que seria realizado, aplicamos questionários, dialogamos com
representantes de organizações e os/as entrevistamos.
A responsável pela mobilização foi Elisabeth Lima da Silva,
coordenadora da COEPPIR, que tanto convidou as diversas organizações e
lideranças como providenciou espaço e estrutura para a realização do
trabalho.

Informações geradas através questionário

Tipo de Organização e Situação Jurídica: Apenas seis


organizações devolveram o questionário no Rio Grande do Norte, das
quais quatro estão no município de Natal, uma em Ielmo Marinho e outra
em Macau, no interior do estado. Metade das instituições são Associações
ou Movimento, uma é ONG ou OSCIP e o Ile Axe Obetogunda se reconhece
como instituição religiosa e ONG, de modo que todas são organizações do
movimento social. (Tabelas 1 e 2, em anexo) A COEPPIR,
inexplicavelmente, não devolveu o questionário preenchido e nem o
encaminhou, até o momento.
Não houve organizações que se declarassem não formalizadas no
Rio Grande do Norte. Metade está formalizada e a outra metade em
processo de formalização da sua situação jurídica. (Tabela 3, em anexo)

3
Tempo de existência: A média do tempo de existência das
organizações pesquisadas é de 17 anos, sendo que metade delas tem até
18 anos de fundada. A organização mais antiga, o Ilê Axé Dajó Obá Ogodô,
tem 31 anos de fundação, e a mais recente, a Rede de Jovens de Matriz
Africana e Terreiros do RN, foi criada no presente ano (Tabela 4, em
anexo).
Quem atua nas organizações: Em relação à quantidade de
pessoas que atuam nas organizações, a média foi calculada em 73
pessoas. A Associação Quilombola de Nova Descoberta é a que possui
mais, com 180 indivíduos. (Tabela 5, em anexo) As mulheres respondem
por dois terços do pessoal, os homens por 1/3 e a distribuição racial das
ocupações revela uma maioria negra, que atinge 95% das posições de
trabalho66.
Áreas de atuação e público atendido: Os pesquisados foram
instados a hierarquizar as três áreas de atuação mais importantes, os
grupos populacionais a quem dirigem suas ações e a estimarem o número
de pessoas atendidas anualmente. Em relação às áreas de atuação,
registrou-se, de um lado, maior escolha de Direitos Humanos e Ações
Afirmativas; Emprego, Trabalho e Renda; e Outras áreas, por quatro das
seis organizações pesquisadas. De outro lado, nenhuma declarou atuar
prioritariamente na importante área da Educação, bem como na Saúde e
Informação. (Tabela 6, em anexo)
Lésbicas, gays, bi-sexuais e transgêneros e Infância e Juventude
estão presentes entre os grupos populacionais atendidos em quatro das
organizações que responderam ao quesito. (Tabela 7, em anexo) A
População Quilombola, as Mulheres Negras e os Indígenas não foram
públicos apontados pelas organizações.
Em termos médios, as organizações atendem anualmente a 5443
pessoas. Apenas a Rede Mandacaru RN declarou atender a 20 mil pessoas
por ano, em oposição ao Ile Axe Omi Alade Oxum, cujo público anual é de
35 pessoas. (Tabela 8, em anexo)

66 Apenas quatro organizações declararam o número de pessoas que nelas atuam.


3
Políticas Públicas e Disseminação de Conhecimento: Duas
organizações atuam nas áreas de estudo, pesquisa e extensão,
desenvolvendo políticas de igualdade racial no Rio Grande do Norte: o Ile
Axe Obetogunda e a Rede Mandacaru RN. (Tabela 9, em anexo) O Ile Axe
Obetogunda exerce atividades na área de Educação. A Rede Mandacaru
RN atua nas áreas de Relações Raciais, Educação, Estudos Culturais,
Direitos Humanos e Economia Solidária, tendo publicado três livros, uma
tese, cartilha, jornal e CD.

Informações obtidas através rodas de conversa e entrevista

No Rio Grande do Norte, fizemos três reuniões, uma visita a uma


comunidade cigana, a um terreiro, uma escola e participamos do
lançamento do Plano Nacional das Diretrizes Curriculares Nacionais para
Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e
Cultura Afro-Brasileira e Africana, que ocorreu na Assembléia Legislativa,
no dia 12/09/2009.

Ações de Governo

A primeira reunião aconteceu no dia 11/08/2009, com


representantes do governo estadual, e contou com a participação de
professores/as, coordenadores/as e funcionários/as das secretarias
estaduais de Educação; Justiça e Cidadania; Assistência Social e Trabalho;
além da Fundação Cultural do Estado.
Os representantes do Governo Estadual, presentes à reunião,
afirmaram que servidores e gestores públicos, repetidas vezes, cometem
atos racistas em eventos promovidos pelo governo e que envolvem as
comunidades negras e indígenas. É, portanto, combate ao Racismo
Institucional, “a principal ação que deve ser implementada na
administração pública, a fim de sensibilizar os funcionários e gestores
públicos no trato das questões etnicorraciais”, segundo a coordenadora da
COEPPIR.
4
Em nível de Governo, além da criação da COEPPIR, em 2007,
também foi instituído o Fórum Permanente para a Educação das Relações
Étnico-Raciais, que tem conseguido dialogar com as secretarias de
Educação e a de Justiça e Cidadania, através de intermediações da
COEPPIR. Também o Governo Estadual instalou três Centros de Referência
de Assistência Social em áreas quilombolas e, a partir das secretarias
estaduais de desenvolvimento social, são desenvolvidos alguns programas
que visam combater a violação de direitos de populações na rua.
Na saúde, investimentos do Governo Federal, segundo Elizabateh
Silva, possibilitaram o processo de formação na temática Saúde Integral
da População Negra. Através da Secretaria de Trabalho, Habitação e
Assistência Social (SETHAS), o “Projeto Dignidade” busca eliminar todas as
formas de preconceito, discriminação e segregação social.
Uma ação de governo ocorrida durante a visita foi o lançamento do
Plano Nacional das Diretrizes Curriculares Nacionais. No evento, religiosos
de matriz africana tiveram participação importante, e um representante
do segmento no Fórum Estadual Permanente de Educação para as
Relações Etnicorraciais falou em nome da sociedade civil. Contratados
para fazer a recepção no evento, sua presença era marcante durante a
festa, nos bastidores, mas também na Mesa de autoridades, ao lado de
secretários de estado, representando o Fórum e falando em nome deste.
Esses religiosos, portanto, estão conseguindo adentrar espaços antes
negados, elevando a sua autoestima, ao tempo em que combatem a
intolerância religiosa, através de sua presença devidamente
“paramentada”, conforme afirmou Yá Luciene.

Outras Ações

A segunda reunião aconteceu no Jardim Progresso, bairro da


periferia de Natal, exclusivamente com uma comunidade de religiosos de
matriz africana da região. Foram cerca de 25 pessoas que expuseram a
realidade daquele bairro: “ Aqui a gente não tem uma escola pública

4
estadual ou municipal, não temos um posto de saúde, nem um posto
policial”, declara Yá Luciene, do Ile Axe Obetogundá.
Não obstante essa carência de serviços básicos, a comunidade
consegue se organizar e estabelecer parcerias. Uma delas, com a
secretaria estadual de educação, para oferta de Educação de Jovens e
Adultos, nos pareceu bastante interessante. Os espaços de culto são
utilizados para as aulas, e 15 alunos/as, todos/as evangélicos,
desobedeceram ao pastor de sua igreja e permaneceram estudando, no
terreiro, com sua professora, Yá Luciene.
Liderança importante no bairro, Yá Luciene é membro do Fórum
Permanente de Educação das Relações Etnicorraciais no estado. Diz a
professora e Yá do terreiro: “O EJA foi um grande incentivo pra nós. Uma
coisa que eu faço e que a secretaria nem sabe, é que além da educação
de jovens e adultos, nós aproveitamos esse projeto para alfabetizar as
crianças, e isso termina sendo um incentivo pras mães que estudam no
EJA”.
Integrante da Rede Mandacaru, o terreiro também possui parceria
com a secretaria de saúde - para prevenção às DSTs, via distribuição de
preservativos - e com o IBAMA – através de convênio recentemente
firmado para receber pescados apreendidos pelo órgão. Afirmam, no
entanto, que lhes falta um caminhão baú para a retirada do pescado,
doado à comunidade pelo IBAMA.
A Rede Mandacaru desenvolve trabalho de promoção dos Direitos
Humanos com diversas organizações dos movimentos sociais; inclusive, o
Terreiro mencionado faz parte desta rede, que nos pareceu fundamental
no apoio aos religiosos/as de matriz africana. Ouvimos de várias lideranças
que devem à Rede e à COEPPIR, ou melhor, à sua Coordenadora, Elizabeth
Silva, o apoio que vêm recebendo para realizar suas ações. Embora a
COEPPIR não disponha de estrutura material, pessoal e financeira para
atender às demandas da população negra local, através de Elizabeth,
religiosos/as participam de eventos, coordenaram a Conferência de
Igualdade Racial e conseguiram visibilizar as atividades sociais,
educacionais e culturais dos terreiros. Com isso, alcançaram maior
3
reconhecimento em suas comunidades, por parte das autoridades, da
população em geral.
Após a reunião no Terreiro, fizemos visitas a uma comunidade
cigana e passamos pela Favela da África, ou África, localizada no Bairro da
Redinha, habitada por uma população esmagadoramente negra. Hoje,
mesmo depois de um processo de urbanização implementado pelo
Programa Habitar Brasil, através do Governo Federal e da Prefeitura
Municipal de Natal, a comunidade ainda carece de diversos serviços
básicos de infraestrutura.
O contato com a realidade cigana nos permitiu fazer uma reflexão
quanto à chocante situação de vida daquela comunidade no estado. São
cerca de 80 pessoas, crianças, jovens, adultos e idosos que vivem em
duas pequenas casas e em condições extremamente insalubres,
desumanas. Vítimas de preconceitos e estereótipos, os ciganos/as estão
vivendo abaixo da linha de pobreza e possuem uma forma de organização
social que não permite serem reconhecidos, pois não estão em dia com a
documentação exigida, o que dificulta o seu acesso a programas de
transferência de renda do governo federal.
A partir desse contato com a comunidade cigana, tivemos a
oportunidade de visitar uma escola municipal, haja vista que existiam
denúncias de que uma criança cigana estava sendo impedida de estudar,
fato que o diretor da escola negou. Acompanhamos Elizabeth em sua ida à
escola para tentar resolver a situação e tomamos conhecimento de que,
apesar de a maioria dos ciganos/as ser criança e adolescente, apenas uma
delas frequenta a escola, e, mesmo assim, no momento da visita, estava
afastada das atividades escolares.
No segundo dia da visita, fizemos a terceira reunião; religiosos/as,
representantes de associações quilombolas, da juventude negra e dos
povos indígenas, que estavam participando de um evento, se fizeram
presentes.
Representantes da juventude negra, por exemplo, afirmaram não
contar com apoios institucionais, mas, através da arte-educação e do hip-
hop, dizem ter conseguido desenvolver ações de combate ao preconceito
3
e à discriminação que a população juvenil sofre no dia a dia, e que se
expressa, sobretudo, pela violência policial.

Considerações gerais

Ficou evidenciado, em conversas com diversas lideranças, que a


COEPPIR, através de Elizabeth, é responsável por boa parte das ações que
são desenvolvidas em Natal. É grande sua credibilidade junto aos líderes e
membros de terreiros, ciganos, jovens, secretários e politicos, como
testemunhamos na Assembleia Legislativa do Estado, por ocasião do
lançamento do Plano de Implementação das Diretrizes para Educação das
Relações Etnicorracias.
Assim como em outros estados, a COEPPIR não possui estrutura ou
recursos financeiros suficientes para atender às necessidades da
população; segundo as pessoas com quem conversamos, no entanto, tudo
que têm conseguido realizar decorre do empenho de Elizabeth ou do Frei,
liderança da Rede Mandacaru.
São poucas as organizações que conseguimos encontrar na capital
do Rio Grande do Norte, mas há grande esforço, principalmente dos
Terreiros, para minimizar os problemas relacionados à saúde, educação,
geração de renda, nas comunidades onde se situam, conforme vimos no
Terreiro visitado, sendo que há 14 outros que também se integram à
atividade de EJA, mas que não tivemos oportunidade de encontrar.

Tabelas Rio Grande do Norte


Tabela 1

3
Localização das organizações. Rio Grande do Norte, 2009

Número de Distribuição
Município
organizações (%)

Ielmo Marinho 1 16,7


Macau 1 16,7
Natal 4 66,7
Total 6 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 2
Tipo de organização. Rio Grande do Norte, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 3 50,0


ONG ou OSCIP 1 16,7
Instituição religiosa 1 16,7
Setor Público - -
Outros 1 16,7
Total 6 100
Não sabe ou não respondeu

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 3
Situação legal das organizações segundo o tipo. Rio Grande do Norte, 2009.

Situação legal
Em Não Organização Total
Tipo de organização
Formalizada processo de do Setor
formalização formalizada Público

Associação ou movimento 2 1 - - 3
ONG ou OSCIP 1 - - - 1
Instituição religiosa - 1 - - 1
Setor Público - - - - 0
Outros - 1 - - 1
Total (1) 3 3 0 0 6

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 4

2
Tempo médio de existência das organizações segundo o tipo. Rio Grande do Norte, 2009

(Em anos)
Tempo médio Número de Valor Valor
Tipo Desvio padrão Mediana
de existência organizações mínimo máximo

Associação ou movimento 11 3 17,098 3 0 31


ONG ou OSCIP 19 1 - 19 19 19
Instituição religiosa 30 1 - 30 30 30
Setor público - - -
Outros 17 1 - 17 17 17
Total 17 6 13,064 18 0 31

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 5
Média de pessoas ocupadas por tipo de organização. Rio Grande do Norte, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 95 2 120,208


ONG ou OSCIP - - -
Instituição religiosa 32 1 -
Setor Público - - -
Outros 70 1 -
Total 73 4 75,516

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 6
Principais áreas de atuação das organizações por tipo. Rio Grande do Norte,2009

Número de Associação ONG ou Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 6 3 1 1 1

Arte e Cultura 3 2 1
Educação 1
Meio-Ambiente 1 1
Emprego, Trabalho e Renda 4 3 1
Saúde
Dir. humanos /Ações Afirmativas 4 1 1 1 1
Informação
Outra 4 2 1 1

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número divergentes de áreas de atuação.

Tabela 7

2
Publicos preferencias das organizações por tipo.Rio Grande do Norte, 2009

Número de Associação ONG Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 5 2 1 1 1

Lésbicas, gays, bi-sexuias e trangêneros 4 2 1 1


Quilombolas
Mulheres negras
População negra 3 2 1
Índígenas
Infancia e juventude 4 1 1 1 1
Outro 2 1 1

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 8
Número médio de pessoas atendidas no ano por tipo de organização. Rio Grande do Norte, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 1090 2 1286,934


ONG ou OSCIP 20000 1
Instituição religiosa 35 1
Setor Público
Outros 5000 1
Total 5443 5 8380,071

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 9
Número de organizações que desenvolvem pesquisa. Rio Grande do Norte, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento
ONG ou OSCIP 1 50,0
Instituição religiosa
Setor Público
Outras 1 50,0
Total 2 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

2.1.11 Informe sobre políticas e movimentos negros – Sergipe,


Setembro 2009
2
Introdução

Segundo o IBGE, em Sergipe há 63% de pardos e 5% de pretos,


totalizando 68% de negros/as. Com relação aos municípios, além de
Aracaju, Laranjeiras e São Cristóvão possuem uma importância histórica
muito grande. São Cristóvão foi capital da capitania de Sergipe no período
colonial, possui uma marcante população negra, um rico acervo histórico e
é considerada a quarta cidade mais antiga do Brasil. Laranjeiras, por outro
lado, é conhecida como a “África Sergipana”, devido ao contingente de
afrodescendentes na sua população. Laranjeiras foi palco de tensões
raciais no século XIX, principalmente nos anos de 1835 e 1837. Abriga o
Museu Afro-brasileiro de Sergipe, que possui uma exposição permanente
de peças ligadas à cultura afro-brasileira. Apesar da importância do
Museu, ativistas criticam o fato de a maioria das peças remeterem apenas
ao período da escravidão, pontuando a necessidade de intercâmbio com
outros museus para a vinda de peças que valorizem o legado civilizatório
africano no Brasil.
São notáveis também as festas populares, como Corte do Inhame
Nagô, Combate do Lambe Sujo e Caboclinho; essa última revive a
memória das lutas entre os negros e índios. No campo religioso, destaca-
se o Terreiro Filhos de Obá, tombado pelo Governo do Estado e um dos
mais conhecidos de Sergipe.
A visita a esse estado foi articulada pela professora Maria Batista,
coordenadora do NEAB/UFSE. No dia 09 de julho, realizamos a primeira
reunião, quando entramos em contato com outros professores/as
vinculados ao Núcleo, ativistas, gestores/as públicos, além de uma
4
vereadora do município de Aracaju. Registramos a conversa, em áudio e
os/as participantes falaram sobre a dinâmica dos movimentos negros no
estado, as conquistas e dificuldades. Em seguida, aplicamos o
questionário. No segundo dia, realizamos um encontro na Secretaria de
Inclusão do Estado de Sergipe, dessa vez contando com mais
representantes governamentais e da sociedade civil, muitos dos quais não
haviam participado do primeiro encontro.
Ao todo, foram contactadas as seguintes organizações: Sociedade
Omoláiyé, Associação Abaô, Terreiro Filhos de Obá, Sociedade Omolaixé,
Ilê Axé Odê Mobire, CONEN, Associação Criliber - Criança e Liberdade,
Banda Guerreiros Revolucionários, NEAB-UFS, Associação de Capoeira
Merleau Ponty, Secretaria da Igualdade Racial de São Cristóvão, Secretaria
da Inclusão Racial de Laranjeiras, Secretaria da Igualdade Racial de Nossa
Senhora do Socorro, MNU, Grupo de Mulheres Produtoras Quilombolas
(GRUMAQ), Associação Luz do Oriente, Instituto Nacional da Tradição e
Cultura Afro-Brasileira (INTECAB), Núcleo da Educação da Diversidade e
Cidadania (NEDIC) e Coordenação de Políticas de Promoção da Igualdade
Racial de Sergipe (COPPIR).
Combinando informações resultantes da aplicação do questionário e
registro em áudio dos dois encontros, serão analisadas informações
relativas a: movimentos sociais e ONGs, Governo e Universidade.

Informações geradas através questionário

Tipo de Organização e Situação Jurídica: Em Sergipe, 12


instituições atuantes na questão racial responderam ao questionário. A
capital do estado participou com 42% das instituições, seguida dos
municípios de Laranjeiras (25%); São Cristóvão (17%), Nossa Senhora do
Socorro (8%) e Poço Redondo (8%) (Tabela 1, em anexo). O setor público
corresponde a 42% das organizações, sendo as demais constituídas por
associações ou movimento, ONG’s e OSCIP’s, instituições religiosas e
outras (Tabela 2, em anexo).

3
As 12 organizações informaram sobre a sua situação legal. Dentre
elas, 3 afirmaram estar formalizadas e 5 são do setor público e, nessa
condição, consideradas formalizadas por definição. Três afirmaram não
estar formalizadas e uma está em processo de formalização (Tabela 3, em
anexo).

Tempo de existência: A média de tempo de existência é de 8


anos67. O Ile Axé Abassá Olé Bamiré, de São Cristóvão, é a organização
mais antiga, com 57 anos, e 2 não completaram ainda um ano de
existência (Tabela 4, em anexo).
Quem atua nas organizações: A média de pessoas atuando nas
organizações foi calculada em 18 indivíduos (Tabela 5, em anexo). Em
relação ao sexo, as mulheres são maioria, com 78% das posições de
trabalho; em relação à distribuição racial, quase a totalidade das pessoas
ocupadas são negras (97%).
Áreas de atuação e público atendido: Em relação às áreas
principais de atuação, registrou-se, de um lado, a elevada importância da
educação (83%) e dos direitos humanos e ações afirmativas (83%) e, de
outro lado, o pequeno interesse pelas áreas de meio-ambiente (8%),
saúde (8%) e informação (8%) (Tabela 6, em anexo). As instituições do
Setor Público atuam intensamente nas áreas de direitos humanos e ações
afirmativas e educação (80% listaram essas áreas como uma das mais
importantes).
A população negra é grupo populacional atendido por 88% das
organizações. Em seguida, tem-se a Infância e juventude (75%) e as
Comunidades Quilombolas (63%). Entre os grupos populacionais com as
menores atenções, temos Lésbicas, gays, bi-sexuais e transgêneros (13%),
Outros (13%) e Indígenas (13%) (Tabela 7, em anexo). Em termos médios,
as organizações sergipanas atendem anualmente a 980 pessoas. A média
mais elevada pertence ao Setor Público, onde uma única organização
declarou atender a 2.000 pessoas anualmente68 (Tabela 8, em anexo).

67 Três organizações não declararam o tempo de existência.


68 Trata-se do Núcleo de Educação da Diversidade e Cidadania da Secretaria da Educação
do Estado.
2
Políticas Públicas e Disseminação de Conhecimento: Foram
pesquisadas 5 organizações que se declararam do setor público sergipano:
CRAS Quilombola Serra da Guia, de Poço Redondo; a Coordenadoria da
Promoção da Igualdade Racial, de São Cristóvão; a Secretaria Municipal da
Inclusão Racial, de Laranjeiras, Prefeitura Municipal de Nossa Senhora do
Socorro e o Núcleo de Educação da Diversidade e Cidadania, da Secretaria
de Educação do Estado, em Aracaju.
A CRAS Quilombola Serra da Guia declarou desenvolver políticas de
Educação das relações etnicorraciais, políticas para a comunidade dos
terreiros, de fomento à cultura, políticas dirigidas às comunidades
quilombolas, políticas de saúde para a população negra e de combate ao
racismo institucional. Essas ações são financiadas com recursos
orçamentários e são integradas em nível ministerial.
A Secretaria Municipal da Inclusão Racial, de Laranjeiras, desenvolve
políticas nas seguintes áreas: Educação das relações etnicorraciais,
políticas para a comunidade dos terreiros, políticas dirigidas às
comunidades quilombolas e na área de saúde, com recursos
orçamentários e integradas em nível estadual e municipal.
Já o Núcleo de Educação da Diversidade e Cidadania da Secretaria
de Educação do Estado atua com Educação das Relações Etnicorraciais e
com Políticas para as Comunidades Quilombolas. Dispõe apenas de
recursos orçamentários e revelou que suas ações são integradas com as
demais instâncias de poder. Lamentavelmente, a Coordenadoria da
Promoção da Igualdade Racial não respondeu a essas questões.
Três organizações declararam desenvolver atividades de pesquisa
em Sergipe: o Instituto de Capoeira Maurice Merleau Ponty, o Fórum
Estadual de Juventude Negra de Sergipe e os Amigos da Cultura
Mussuguense (Tabela 9, em anexo).
O Instituto de Capoeira Maurice Merleau Ponty foi criado em 2009,
com interesse em pesquisas nas áreas de Relações Raciais, História da
África, Educação Anti-Racismo, Gênero e Raça, Cultura e Direitos
Humanos, não dispondo ainda de produção. O Fórum Estadual de
Juventude Negra de Sergipe foi criado em 2007 e o Núcleo de Estudos
4
Afro-Brasileiros da UEPB, também criado em 2007, possui interesse em
pesquisas nas áreas de Relações Raciais, História da África, Educação
Anti-Racismo, Gênero e Raça, Cultura, Direitos Humanos e Quilombos.
Essa instituição também não declarou produção. Finalmente, Amigos da
Cultura Mussuguense, de Laranjeiras, revela interesses em Estudos
Culturais e em Quilombos.

Informações geradas através entrevista e roda de conversa

Movimento Social e ONG´s

O moderno movimento negro em Sergipe começou com a fundação


da União de Negros de Aracaju (UNA), na década de 70. Naquele
momento, ainda durante a ditadura militar, os movimentos negros
começavam a se rearticular depois de mais de 40 anos do fim da Frente
Negra Brasileira, a principal organização de afro-brasileiros antes da era
Vargas. Em 1986, a UNA avaliou que era necessário estruturar-se em
torno do formato legal de ONG, para melhorar sua sustentabilidade. Sendo
assim, foi criada, neste mesmo ano, a Sociedade Afro-Sergipana de
Estudos e Cidadania (SACI). A SACI tornou-se, a partir daí, a principal
organização negra do estado, em termos de volume de ações e de
articulação política.
Depois de optar pela institucionalização, aproveitando o boom do
terceiro setor no Brasil, a SACI tornou-se conhecida nacionalmente. Porém,
devido a uma conjuntura que reduziu sistematicamente os apoios aos
movimentos sociais e por divergências ideológicas, a ONG acabou se
dissolvendo. Segundo José Pedro, responsável pela Coordenação de
Igualdade Racial do Estado de Sergipe (COPPIR) e um dos dirigentes da
SACI, na época, “a organização ficou dependente de verbas internacionais
e não resistiu”. Essa fragilidade foi confirmada por outros participantes do
encontro, ao tempo em que confirmaram a importância política daquela
organização para o movimento negro sergipano, devido a sua capacidade
de intervenção nas políticas públicas e de aglutinação.
3
Após o fim da SACI, os/as ativistas começaram a realizar projetos
dentro de organizações ligadas a outros movimentos, que incorporaram os
projetos que estavam sendo desenvolvidos pela organização. O
movimento começa, então, a se fragmentar, tornando-se mais debilitado,
tanto em termos de recursos como de articulação política.
Em nossa visita, não foram identificadas iniciativas do movimento
social tão importantes como a SACI, no estado. Atualmente, a ênfase
dirige-se para quilombos e movimento contra a intolerância religiosa.
Segundo a Fundação Cultural Palmares, Sergipe possui 36
comunidades quilombolas. O programa Sergipe Quilombola, do governo
estadual, está realizando um diagnóstico da situação desses territórios e,
só em 2008, a primeira comunidade foi reconhecida pelo INCRA, a Lagoa
dos Campinhos, que possui 101 famílias. Em se tratando de quilombo
urbano, a Fundação reconheceu, em 2007, a comunidade Maloca, formada
por 70 famílias.
Ficou uma impressão de que os religiosos vêm assumindo a pauta
dos movimentos negros e que há insatisfação em relação ao movimento
negro tradicional, no que diz respeito à cooptação política. Acreditam que
os terreiros ainda não incorporam o discurso do movimento negro e,
segundo uma entrevistada, “A prática da questão racial nos terreiros é
praticamente inexistente”. “Chega o povo de santo ser massa de manobra
na mão das pessoas, por falta de conhecimento”, afirmou uma Ialorixá.
Formada em comunicação, ela tem um espaço semanal na Rádio
Educadora sobre as questões relacionadas às religiões de matriz africana.
Os terreiros de Sergipe são organizados nas seguintes articulações:
Sociedade Organizada das Religiões de Matriz Africana (SORMARESE);
INTERCAB; Coordenação Nacional dos Afro-Religiosos (CENARAB), que tem
assento na CONEN e no Conselho das Ialorixás.
Segundo entrevistados, a liderança mais antiga dentro do
movimento social em Sergipe é o militante Severo D’Acelino 69, diretor da
Casa de Cultura Afro Sergipana, fundador do Movimento Negro

69 Infelizmente não foi possível encontrar Severo D´Acelino, nos dois dias em que
estivemos em Sergipe. Mais informações sobre o ativista no site
http://jornalnago.blogspot.com
3
contemporâneo de Sergipe. D’Acelino é também poeta, dramaturgo, ator,
compositor, contista, pesquisador, conferencista e coreógrafo.
A Associação Abaô de Arte Educação e Cultura Negra existe há 15
anos, tem parceiros como o Grupo Omolaê, IPAESE (Escola de Surdos),
Centro de Criatividade e trabalha com capoeira, discussões sobre
religiosidade, apresentação de filmes, discussões sobre a temática racial
em escolas, além de ser um Ponto de Cultura.
O Grupo de Mulheres Produtoras Quilombolas (GRUMAQ) trabalha
com produção, em estilo cooperativa, de artesanatos, crochê, tapeçaria,
na comunidade quilombola Mussuca, em Laranjeiras. A organização foi
impulsionada pela antiga SACI, que fomentou a criação do grupo. São as
próprias mulheres quilombolas que produzem e distribuem os artesanatos.

Governo

Participaram dos encontros 3 três órgãos governamentais de


promoção da igualdade racial. No âmbito estadual, a COPPIR, vinculada à
Secretaria Estadual do Trabalho. O coordenador da COPPIR é um ex-
dirigente da Saci, José Pedro Neto. A COPPIR foi criada em julho de 2007
com o objetivo de elaborar políticas públicas de igualdade racial. Uma das
metas é criar o Conselho de Promoção da Igualdade Racial (CEPIR), como
anunciado na última conferência pelo Secretário do Trabalho, José Macedo
Sobral. Uma das principais ações realizadas foi a Conferência Estadual de
Promoção da Igualdade Racial, este ano, que reuniu 250 pessoas que
discutiram os temas Terra, Educação, Cultura, Trabalho e Renda, Saúde e
Prevenção à Violência. Na avaliação de Pedro Neto, a estrutura deficiente
dificulta as ações. “Fico apenas eu em uma sala, com um computador e
internet”, revelou.
Os dois outros órgãos foram o Comitê Estadual de Comunidades
Quilombolas, que dialoga com o INCRA no sentido de outorgar titulação de
terras para as comunidades quilombolas, e o Fórum Permanente de
Diversidade Étnico-Racial na Educação. A coordenadora do Fórum, Sônia
Oliveira, é oriunda do movimento negro e trabalha na Secretaria de
3
Inclusão e Assistência Social, sendo responsável pela política para os
Terreiros. Sônia também é coordenadora do OMOLÁIYÉ, que desenvolve
projetos de igualdade racial e combate à intolerância religiosa.
O Núcleo de Educação e Cidadania (NEDIC), coordenado pela Sra.
Maria da Conceição, vem implementando, com dificuldades, a Lei 10.639
no estado. Um dos pontos críticos é que as técnicas do Núcleo admitem
não ter conhecimento acerca da temática com que trabalham.
Os gestores/as das secretarias presentes avaliaram a possibilidade
de criar, em nível estadual, o Fórum de Políticas de Promoção Racial
(FPIR), que seria um espaço de formação e articulação dos gestores/as
para uma melhor eficácia nos diálogos com os demais órgãos.
Givalda Maria Santos, secretária Municipal de Inclusão Racial de
Laranjeiras e liderança comunitária do Quilombo de Mussuca, é a
presidente do Partido dos Trabalhadores na cidade, ex-secretária da
Cultura e, a pedido da prefeita, solicitou a criação da Secretaria de
Inclusão para desenvolver políticas para as comunidades negras da
cidade. Givalda ressalta as dificuldades que enfrenta para desenvolver a
política de igualdade racial, devido à falta de infra-estrutura: “Tenho uma
sala com um computador e só agora colocaram um telefone”. A secretária
é também ativista do MNU, apesar de a organização “não permitir que
seus membros ocupem cargos públicos”.
João Bosco, militante do Partido Comunista, é o gestor da pasta de
promoção da igualdade racial da cidade de Socorro. Falou de sua intenção
de realizar ações necessárias com este enfoque, mas também da condição
de classe social, considerada por ele como até mais importante que o
pertencimento racial.
Rosângela Santana é uma das defensoras da igualdade racial dentro
da Câmara de Vereadores de Aracaju e realizou, recentemente, um
seminário com lideranças negras e indígenas.
Universidade

O NEAB/UFS é coordenado, como mencionado, por Maria Batista


Lima, doutora em educação pela PUC-RJ e que parece ter uma relação
3
próxima com os movimentos negros da região. Em 2005, segundo
pesquisa do próprio NEAB, 80% dos estudantes da Universidade Federal
de Sergipe eram contra as cotas mas, apesar da resistência de muitos
setores da Universidade, em 2008 foi aprovado o sistema. A iniciativa
contou com o protagonismo do NEAB, que participou do Programa de
Ações Afirmativas (PAFFF), instância criada para elaborar os critérios de
admissão dos estudantes.
São professores atuantes no Núcleo: Maria Batista (Educação), Paulo
Neves (Sociologia), Frank Nilton Marcon (Sociologia), Hippolyte Brice
Sogbossi, beninense e ex-coordenador do NEAB, Wellington Bomfim, que
também participa do Grupo ABAÔ de Capoeira Angola, que é um Ponto de
Cultura. Identificamos um Curso de Pós-Graduação em Africanidades na
Faculdade Pio X, em Aracaju, no qual a Ialorixá Maria Angélica Oliveira
leciona.

Considerações Gerais

Em nossa visita ficou evidenciado que o Movimento Negro em


Sergipe vivencia um momento de rearticulação, com inserção de novos
agentes políticos dentro da agenda de promoção da igualdade racial. Se,
por um lado, essa entrada de novos/as agentes tem ampliado o raio de
ação do movimento tradicional, hoje fragilizado, após a extinção da SACI,
por outro provoca mais divergência na condução das políticas.
O estado possui sítios históricos e culturais muito importantes para a
cultura afro-brasileira, mas são pouco conhecidos e aproveitados, como o
caso do Museu Afro mais antigo do Brasil e das cidades históricas de
Laranjeiras e São Cristóvão.
Alguns/mas quilombolas de Mussuca estão cursando a universidade,
sendo que Givalda, liderança política e secretária do órgão de promoção
da igualdade racial de Laranjeiras, já concluiu a graduação e tenta a pós-
graduação strito sensu, e já cumpriu todos os créditos como aluna
especial no mestrado em educação da UFS.

3
Há organismos de promoção da igualdade racial na administração
pública, mas esses não possuem pessoal ou infra-estrutura para realizar
as ações ou articular com outros órgãos para que o façam. O uso das
mídias é outra fragilidade identificada. Não foram identificados portais ou
jornais impressos regulares voltados para a questão racial, evidenciando a
necessidade de criação de mecanismos de comunicação do Movimento
Negro, pois a ausência de veículos dessa natureza inviabiliza a troca de
informações entre as iniciativas, além de prejudicar a visibilidade das
ações em curso.
É evidente o descontentamento dos/as militantes mais antigos em
relação à prática política de novos/as ativistas, que alguns afirmam não
possuir uma formação política adequada, sobretudo os que atuam nessas
duas áreas: religião e quilombos. Por outro lado, novos/as ativistas
acusam o movimento tradicional de não dialogar com as bases nos
segmentos comunitários.

Tabelas Sergipe

Tabela 1
Localização das organizações. Sergipe, 2009

Número de Distribuição
Município
organizações (%)

Aracaju 5 41,7
Laranjeiras 3 25,0
Nossa Senhora do Socorro 1 8,3
Poço Redondo 1 8,3
São Cristovão 2 16,7
Total 12 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

2
Tabela 2
Tipo de organização. Sergipe, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 3 25,0


ONG ou OSCIP 3 25,0
Instituição religiosa 0 0,0
Setor Público 5 41,7
Outros 1 8,3
Total 12 100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 3
Situação legal das organizações segundo o tipo. Sergipe, 2009.

Situação legal
Em processo Não Organização Total (1)
Tipo de organização
Formalizada de do Setor
formalização formalizada Público

Associação ou movimento 1 2 3
ONG ou OSCIP 2 1 3
Instituição religiosa 0
Setor Público 5 5
Outros 1 0 1
Total (1) 3 1 3 5 12

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


Notas: (1) Algumas organizações não declararam sua condição legal ou seu tipo.

Tabela 4

4
Tempo médio de existência das organizações segundo o tipo. Sergipe, 2009

(Em anos)
Tempo médio Número de
Tipo Desvio padrão
de existência organizações

Associação ou movimento 4 2 2,83


ONG ou OSCIP 2 3 1,52
Instituição religiosa - - -
Setor público 1 3 1,73
Outros 57 1 .
Total 8 9 18,43

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 5
Média de pessoas ocupadas por tipo de organização. Sergipe, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 46 2 20,51


ONG ou OSCIP 18 3 9,00
Instituição religiosa
Setor Público 4 4 3,59
Outros
Total 18 9 19,01

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 6

Principais áreas de atuação das organizações por tipo. Sergipe, 2009

Número de Associação ONG ou Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 12 3 3 5 1

Arte e Cultura 8 2 3 2 1
Educação 10 2 3 4 1
Meio-Ambiente 1 2
Emprego, Trabalho e Renda 6 2 1 2
Saúde 1 1 1
Dir. humanos /Ações Afirmativas 10 3 3 4
Informação 1 1
Outra

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número divergentes de áreas de atuação.

2
Tabela 7

Publicos preferencias das organizações por tipo. Sergipe, 2009

Número de Associação ONG Instituição Setor Outros


Áreas de Atuação ou ou
Organizações Movimento OSCIP Religiosa Público

Total de Organizações 8 3 3 5

Lésbicas, gays, bi-sexuias e trangêneros 1 1


Quilombolas 5 2 1 2
Mulheres negras 4 1 2 1
População negra 7 2 2 2
Índígenas 1 1
Infancia e juventude 6 3 3
Outro 1 1

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta


NOTA (1) Algumas organizações indicaram um número divergente de áreas de atuação.

Tabela 8
Número médio de pessoas atendidas no ano por tipo de organização. Sergipe, 2009

Média de Número de
Tipo Desvio padrão
pessoas organizações

Associação ou movimento 1150 2 1202,08


ONG ou OSCIP 300 2 282,84
Instituição religiosa - - -
Setor Público 2000 1 0,00
Outros - - .
Total 980 5 941,81

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Tabela 9

4
Número de organizações que desenvolvem pesquisa. Alagoas, 2009

Organizações
Tipo
Número Distribuição %

Associação ou movimento 2 66,7


ONG ou OSCIP 1 33,3
Instituição religiosa
Setor Público
Total 3

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta