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d* elenrocracia direta. Contudo, EXPRESSÃO pOpUr,eg.
' tm t 844, cxilado em Paris, rrava sÃo pnur,o - 2oo9
çonÉto com o movimento ope-
i' r&io, com a economia política e,
, *Ufprecndcntcmente, rompe com
.ú idciar gue aré então defendia.
Copy'right @ 2009, by Editora Expressáo Popular

llevisão: Geraldo Martins de Azeuedo Filho e Ricardo Nascimento Barreiros


l)rojeto gráfico, câpa e diagramaçâo: ZAP Destgn
Ínrpressáo e acabame nto: Cromosete

Dados lntemacionais de Catalogação'na-Publicação (ClP)


Frederico, Celso
F872i O jovem Marx : 184.3-184r'- as origens da ontologia do ser
social/
Celso Frederico. -2.ed. - São Paulo : Expressão Popular,
2009.
216 p.

Indexado em GeoDados - http:/Álruw. geoda dos. ue m. br


lsBN 978-8$7743-109.0

1. Max, Karl, 1818-1883. 2. Filosofia mantista.


3. Ontologia. 4. Comunismo. 5. Materialismo. 6. Economia.
l. TÍtulo.

cDD 146.3
335.411
335.5
Bibliotecaria: Eliane M. S. Jovanovich CRB 911250

'lbdos os direitos reservados.


Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada
ou reproduzida sem a autorizaçáo da editora.
1

l" ediçáo: Cortez Editora, 1995


2* edição: junho de 2009
l" reimpressáo: junho de 2010

DITORA. EXPRESSÁO POPUTAR


I.]

Iìua Aboliçeo, 201 - Bela Vista


CEP 01319-010 - Sáo Paulo-SP
Fone/Fax: (l l) 3105-9500
vc ndes@exp ressaopopular. com. b r
\wi\v. expressao p op ular. co m. b r para José Paulo Netto
SUMARIO

MARX CONTRA HEGEL: A CRíTICA DO


Da crítica.da religião à crítica da política
ESTADO ... ..........4g
A crítica do Estado hegeliano... ..............
A crítica das mediaçoes ............ ....... 55
O Estado e a democracia........... . .
. ........ ........ .......... .....................76

ENCONTRO COM A ECONOMTA poLÍTtCA... .. ... :. ..................127


E:"n om ia por íti ca
*:Tl'-.^.Í:l:-9?
......'.......','..........' ;;;
A ONTOLOGIA MATERIALISTA
A atividade ... 169
MarxeHegel:areconciliaçãocomadialética.. ...............174
Marx e Feuerbach: a ruptura anunciada.....
._......... ............... .. ...... 1gg
CONCLUSÃO.

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tNTR0DUçÃ0

NBsrE FrNAL oo sÉcuLo zo, revisitar os rexros juvenis de Marx,


especialmenre aqueles escritos em 1g43-1g44, é revolver um
conjunto de ideias embrionárias que se presraram às mais diversas
interpretaçóes e usos.
A public ação dessas obras, a partir de 1927, enconrrou uma
atmosfera desfavorável. A herança da segunda Internacional
durante um longo período havia restringido o legado marxiano
a uma ciência econômica determinista totalmente impermeá-
vel à dialética. E o pensamento de Marx, assim concebido, foi
transformado num materialismo mecanicista próximo do positi-
vismo. Contra essa visáo levantaram-se, na décad a de 1920, sob
o impacto imediaro e o entusiasmo produzidos pela revoluçáo
de 1917, as inrervençóes de Korsch e Lukács. Ao pensamenro
mecanicista e determinista, eles opuseram o papel ativo e cria-
dor dos fatores subjetivos, fazendo do mar*irrrrb umã filosofia
da consciência próxima do idealismo hegeliah6 e distante do
materialismo. - 'Ì

Finalmente, a publicaçáo dos Manus*itos econômico-flosófns,


em 1932, coincide com a consolidaçáo do regime estalinista, ge-
rando, no plano teórico, a formul ação do "marxismoleninismo", a
ideologia oficial do Esrado soviético, que reve como bíblia o ensaio
de Stalin Materialismo dialético e materialismo histtírico,publicado
em 1938. Diante da monórona e ruidosa repetição de princípios
escolástícos simplificados, as ideias do jovem Marx ficaram rele-
gadas a um,silêncio consrrangedor.
. .
f'..-,

0 lovru MnRx
Crrso Fnroenrco

Nada mais natural, porrantor Qu€ a posterior redescoberta de uma mescla de continuidade e ruprura com relaçáo ao pensa-
dos textos marxianos pelos existencialistas e pelos católicos e sua mento de Hegel e Feuerbach, bem como de tenrativas do autor
utilizaçâo como arma de combate ideológico às inrerpretaçóes ca- p^radesembaraçar-se dessas infuências e propor o esboço de uma
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nonizadas. Tal conrraposiçáo fez-se todavia em bases equivocadas, reoria nova e absolutamenre original. A compreensáo desse esboço
elegendo como centro do pensamenro marxiano ideias que em teórico, portanto, pressupóe uma ampla discussáo no interior da
verdade pertenciam a Feuerbach, e com as quais Ìr{arx se debatera filosofia clássica alemá realizadapor Marx nesse seu primeiro en-
procurando delas se desvencilhar. contro com a Economia Política inglesa e o socialismo francês. As
Tempos depois, as obras juvenis, consideradas como parres "três fontes" do marxismo fazem sua nervosa estreia nas páginas
integrantes da evoluçáo da teoria social marxiana, passaram a ser indecisas dos Manuscritos econômico-flostifcos de 1844.
vítimas de uma interpretaçáo apologética tornando seu auror um Em 1843, Marx era um pensador jovem-hegeliano diretamente
"herói positivo": alguém sempre seguro do que queria e a todo influenciado por Feuerbach, que pretendia transformar a crítica
momenro marchando decidido paraa frente. Esse tipo de aborda- da religiáo em crítica da política. Mas em 1844 vamos encontrá-
g€Ín, aliás, fez-se normalmente acompanhar de uma leitura exrerna lo numa situaçáo ambígua: a aplicaçáo das ideias de Feuerbach,
decifradora dos textos por meio do recurso às citaçóes pertencenres agora dirigidas para a críttca da Economia Polírica, coexiste com
Marx.
às obras posteriores de uma nova visáo do mundo a destoar radicalmente do horizonre
o pensamenro do jovem Marx, apesar desses percalços, acabou contemplativo em que se inseria a filosofia daquele autor. A atitude
merecendo nas últimas décadas análises profundas de diversos perante Hegel, evidentemenre, é afetada pelo redirecionamenro
autores motivados pela polêmica intervençáo de Althusser, preren- dado à reflexão marxiana. A recusa in totum do mérodo dialético
dendo desqualificar as obras escritas anres de A ideologia alem,i. O em 1843 cede lugar, em 1844, a uma apropriaçáo crítica que apro-
que se pode depreender dessa celeuma é a dificuldade de fechar, xima Marx, em vários pontos, do pensamenro hegeliano.
de uma vez por rodas, aquelas páginas heterogêneas numa inter- Diversos intérpretes das obras juvenis de Marx acabaram fixan-
pretaçáo unívoca. E, também, a estranha força germinativa e a do-se em um ou ourro momenro desse período; LS43 ou 1844? A
arualidade sempre renovada daqueles fragmentados e inconclusos polêmica em torno do verdadeiro início da teoriaimarxiana passa
manuscritos juvenis. pela releitura dessas obras, exceçáo feita aos althusserianos que só
o eixo condutor de nossa exposiçáo está nas complexas rela- atribuem validade à produçáo marxiana posterior a A ideologia
çóes de Marx com Hegel e Feuerbach. Nelas passa o fo uermelho alemá: antes dela tudo se resumiria a uma ideologia humanista
responsável pela cosrura de ideias díspares, descoladas de seu estranha à análise científica. Eles, porranro, esráo dispensados
contexro de origem e reapropriadas criticamente para servirem da fascinante avenrura proposra por esses rexros, dispensados de
de fundamento a uma teoria original, destinada a ser a expressão regressar ao obscuro labirinto das origens. Desse modo, ingenua-
teórica mais articulada do movimento operário. O
fo uermelho mente, têm a ilusáo de estarem lendo urn autor que ascendeu à
que atravessa a trajetória de Marx nesses dois anos decisivos de ciência sem ter atrav€ssado pelo inferno da dúvida e pelo fogo do
sua vida intelectual conduz a um .dr"rrrrhado teórico composto combate c?m as questóes de sua época, de um auror que se bateu
0 iovitrl Manx Crrso FRroenrco

pela verdade sem nada aprender com seus interlocutores e, num Remoer os textos juvenis ds Mqx, portanto, náo é atividade
passe de mágica, sem se desalinhar, atracou incólume no novo d.iint.ressada de um arqueólogo dã sabeç de um historiador mi-
continente teórico, distante de tudo e de todos. O naveganre nucioso preocupado somente com a reconstituiçáo tecnicamente
nada com as tempestades, com os desvios de rota, com correta e desapaixonada de um capítulo encerrado na história
"pr.nà.tr
os combares: livre de seus adversários e de sua experiência (que das ideias. Ao contrário: esta é uma viagem ao tempo presente e,
de nada lhe serviu), lepidamenre desembaraçou-se do passado, portanto, obriga-nos a uma tomada de posiçáo sobre os impasses
deixando para trás os equívocos inconsequenres da juventude, po- teóricos em que estamos envolvidos. Essa viagem nunca termina e
dendo dessa forma renascer com uma nova identidade no asséptico sempre traz novidades, já que as ideias do jovem Marx continuam
continente da ciência pura. acenando para nós e polarizando os debates da atualidade.
Nas páginas que se seguem, procuramos aponrar lB44 como O caráter fragmentário dos manuscritos, como náo poderia
o ano da inflexáo ontol ógica no pensamento de Marx, feita no deixar de ser, convida os leitores a uma eterna montagem e remon-
confronto com Hegel e Feuerbach, nas leituras de Economia ragem de significados, ditados pelas modificaçóes introduzidas
Política e sob o impacto da descoberta do movimento operário incessantemente em nossa vida cultural e política. Também por
revolucionário na França. Nesse momento abre-se para o autor um isso o quebra-cabeça nunca se encerra.
caminho próprio apenas anunciado nos Manuscritos econômico- O próprio fato de estarmos analisando manuscritos, textos que
flosófcar.'a formulaçáo provisória de uma ontologia materialista. o autor náo publicou, e dos quais só sobraram fragmentos incom-
Mas tal caminho é compreensível apenas quando referido ao pletos, anuncia as dificuldades da leitura: o começo conhecido
conjunto das obras imediaramente anteriores: só assim podem-se nem sempre é o começo estabelecido pelo autor; páginas decisivas
compreender as indecisóes e as certezas, os recuos e os avanços de se perderam; a leitura, por causa disso, é muitas vezes interrompida
um auror pleno de inquietações, procurando firmar suas ideias em bruscamente e o leitor convidado a saltar païa outros assuntos; e,
meio às polêmicas de seu tempo e no confronto com os pensadores como náo há uma conclusáo, um ponto final definitivo encerrando
mais infuentes. a discussáo, aumenta a incerteza perante o provável desfecho da
Mas se as quesrões discutidas pelos jovens-hegelianos sáo pá- inconclusa e escorregadia obra. Diante disso, o leitbr inseguro pro-
ginas viradas na história do pensamento, polêmicas consumidas cura apegar-se a algumas ideias, tentando pôr oidem no conjunto
no próprio tempo em que foram travadas, o mesmo não acontece anárquico que está a sua frente. Mas essas ideias'orientadoras,
com as intervençóes de Marx. A cada novo momento elas são re- geralmente bastante divulgadas em citaçóes, fornecem apenas a
visitadas e parece que sua força germinativa continua inalrerada. ceÍteza transitória da familiaridade. E as coisas familiares, como
O novo temPo inaugurado pelos Manuscritos econômicoflostÍfcos diziaHegel, exatamente por serem familiares náo sáo conhecidas.
continua a rer vigência até mesmo para os adversários dessa obra As citaçóes do jovem Marx têm o péssimo hábito de se vingar da-
que, a pretexto de combatê-la, colocam-na no centro dos debares queles que as utilizam inadvertidamente, ao se deixarem desmen-
sobre o humanismo, o historicismg a ontologia etc., remas que tir, páginas a frente, por outras frases cujo sentido anteriormente
continuam dividindo as águas n.rtË final de século. enclausurapo se liberta e nos conta uma nova versáo.
0 ..rovnt M,rrr
Ceiso Fneornrco

Adorno, cerra \/ez, comparou os livros que possuem vida própria visando acompanhar o entrechoque de Marx com essas duas
com os gatos. Esses "animais domésticos bravos", dizele, "apresen- influências, iniciaremos a nossa pesciuisa com a disputa travada em
ram-se visíveis e disponíveis como uma posse, mas eles costumam rorno do legado hegeliano: esse é o ponto de partida da reflexáo
retrair-se". A comparação lembra imediatamente a escrita selvagem de todos os jovens-hegelianos que pensavam as questóes políticas
dos manuscritos de Marx em sua indomável vida própria. de seu tempo tendo como referência um determinado posiciona-
euem
gosra de livros e rem a felicidade de conviver com os pequenos e mento perante a obra de Hegel. Marx, entáo, via no pensamento
elegantes felinos sabe das surpresas de sua aparente domesticidade. de Feuerbach a principal referência para combater o Estado mo-
Quando l'oltamos para casa nos esperam atrás da porra, dáo rodeios narquista prussiano e os intelecruais que o justificavam em nome
e nos saúdam discretamente; depois, sobem na mesa, deitam-se em das ideias hegelianas. o caminho para romper o círculo de ferro,
cima do livro que estamos lendo e com as patas empurram a canera formado por uma realidade política opressiva e por ideólogos
para o cháo; quando senramos no computador para redigir um rex- apoiados no monumental sistema hegeliano, passâva por Feuer-
ro, eles logo se acomodam sobre o monitor e,ládo alto, seus olhos bach. Fetter-bach - literalmenre: "rio de fogo" era para Marx o
cruzam com os nossos e dáo a entender que estão acompanhando
-
caminho certo para realizar a travessia e atingir a outra margem,
com simparia o desenrolar do trabalho, e até parecem concordar a do reino da democracia e da liberdade: "e náo há outra via para
com nossas ideias. Mas, em seguida, dormem profundamente... De a verdade e a liberdade, excero aquela que leva através do rio de
repenre, sem sabermos por que, retraem-se, fazem traquinagens, fogo (Feuer-bach)".*
ficam ariscos e crispados, revelando, inesperadamenre, a animalida- No segundo capítulo, analisaremos a célebre Crítica do Es-
de selvagem recoberta pela aparenre familiaridade e comprovando, tado hegeliano, o manuscrito inconcluso redigido na cidade de
assim, que o familiar, por ser familiar, náo é conhecido. Os rexros Kreuznach, durante a lua de mel de nosso auror. Nas páginas desse
juvenis de Marx encaixam-se bem na comp araçâo de Adorno: neles texto, profundamenre influenciadas por Feuerbach, somos lança-
tudo parece conhecido e reconhecido pelo eco das ciraçóes, mas dos em meio a um duelo de giganres: a reproduçáo de parágrafos
as surpresas náo tardam por manifestar-se, fazendo ruir a precária inteiros da Filosofa do Direito de Hegel, a obra m+s conservadora
certeza das verdades domesticadas. de um velho filósofo reconciliado com a realida dç,,far-seseguir de
Perante um itinerârio tão intenso e conturbado como o per- comentários irritados e sarcásticos do seu jovern contestador, que
corrido por Marx em 1843 -1844 (entáo beirando os 25e.G anos de a considerava a
melhor justificaçáo do Estado moderno e, por isso
idade), a atitude mais prudente consiste em acompanhar as tentati- mesmo, a combatia com a força de sua irada indignaçáo.
vas, as idas e vindas desse autor ousado que tentava lançar as bases No capítulo seguinre, enfocaremos quarro artigos redigidos em
de um pensamenro original destinado a rer um impacto único em fins de 1843 e início de 1844. Dois deles saíram publicados nos
toda a história das ideias e, rambém, nas luras sociais do mundo
moderno. No plano reórico, essas tentadvas se realizaram em meio
a um complexo relacionamento de Marx com dois autores em tudo K. r\Íarx, "Lurher as arbiter benveen srauss and Feuerbach', in Loyd D. Easton e
H. Guddat (orgs.), wrìtings of the Toung Marx aid (New
diferentes e confliranres: Hegel e Ferérbach. 5":.
York,
on phirosophy society
Anchor Books, 196T,p.g5).
I
0 rcviu Maax
Crrso FniorRrco

Anaisfranco-alemães: "Aquesráo judaica', voltada para a polêmica Corrêa \feffort, Fernando Augusto Albuquerque Mourão, Maria
com o jovem-hegeliano Bruno Bauer, e '?\ crítica da filosofia do Aparecida Baccega e Dulcília Heletrã s.hroeder Buitoni.
Direito de Hegel (Inrroduçáo)', rexro que deveria servir de início (Jma pesquisa que consumiu ranto rempo nunca é feita dentro
paÍa um livro'sistematizador das ideias esboçadas nos Manuscritos de uma redoma a isolá-la dos demais momenros e das relaçóes do
de Kreuznach e que Marx, por raz6e.s que discutiremos, acabou náo cotidiano do autor.
escrevendo. Os ourros dois ensaios foram publicados em Auante! Enid Yatsuda Frederico, minha mulher, acompanhou cada
(Vorurirts!), com o título "Noras críticas ao arrigo: o rei da Prússia passo da elaboraçáo da pesquisa, leu os originais, corrigiu-os, fez
e a reforma social". tata-se de uma interessante polêmica com comentários valiosos e deu sugestóes precisas. Além disso, devo a
Ruge, na qual Marx, pela primeira vez, fala da necessidade da ela náo só as condiçóes para elaborar este trabalho em paz e com
revolução socialista. alegria, como também a motivaçáo e a orientação para explorar
Em seguida, no quarto capítulo, a pesquisa rrarará dos dois as questóes teóricas afins com a literatura.
textos escritos por Marx em 1844 no exílio parisiense: os seus Agradeço ao amigo Benedicto Arthur Sampaio com quem
extratos de leiruras dos economistas clássicos e os famos os Manus- há mais ou menos 15 anos tenho estudado e aprendido sobre a
critos econômico-flosófcos. Com eles Marx inicia os seus estudos dialética. Essa intensa convivência, acrescida por sua inigualável
de Economia Política, cujos resultados provisórios e insuficientes generosidade intelectual, conrribuiu de modo decisivo para o
seráo entáo discutidos. Mas, além desse assunro, o
último texro desenvolvimento de minha formaçáo teórica. As melhores pistas
tem uma seção dedicada a um "acerto de contas com a dialética", seguidas neste trabalho nasceram de seus comentários durante
momento de redefiniçáo de Marx peranre as ideias de Hegel e os estudos realizados em conjunto, de forma que quase sempre
Feuerbach. fico em dúvida se esrou desenvolvendo ideias minhas o,i d.l. .,
No quinto e último capítulo, cuidaremos desse reposiciona- também, já que começamos os nossos estudos com a Lógica de
mento, causa da inflexáo ontológica que irá, doravante, acompa- Hegel, se essas ideias estáo ou não em conformidade com o de-
nhar a trajetória intelectual de Marx. senvolvimento da Ideia...
Este livro reroma o essencial da nossa tese de livre-docência, Devo a José Paulo Netto, amigo hâ 12 anosje/companheiro
apresentada à Escola de Comunicaçóes e Artes da Universidade de de malogradas lutas político-partidárias, o inceniivo inicial para
Sáo Paulo em 1992. Da redaçáo original foram suprimidos, para esrudar as relaçóes entre marxismo e estética, graças a um curso
viabilizar editorialmente a publicação da rese, um exrenso capítulo por ele ministrado no longínquo ano de 1980. De lá paracá, remos
que tratava das concepçóes estéticas presentes nos Manuscritos conversado sobre esse e outros assÌrntos, e trocado ideias sobre o le-
econômico-flosófco.r de 184 4 e algumas passagens da conclusáo gado marxiano. Tirdo que escrevi desde entáo conrou com o apoio
que retomavam a discussáo sobre as incursóes estéticas de Hegel, entusiasmado de seu senso crítico e de sua invejável cultura.
Feuerbach e do jovem Marx. A primeira foi lida e comentada por
versáo deste trabalho
O texto original foi julgado pela seguinte banca examinadora, Pedro Vicente Costa Sobrinho e revista por Cybele de Moraes
a que agradeço as críticas e sugesróó: Ocravio Ianni, Francisco Amaro, amigos de todas as horas.
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0 .lovtu Mnnx

Agradeço também a Celso José Loge e José Paulo Bandeira da


Silveira pelo fornecimenro de apoio bibliográfico.
A D|SS0LUçÃ0 D0 HEGETIANISMO
Agradeço, enfim, a Borbagaro, Tieta e Ari que, ao modo de-
les, acompânharam a elaboraçáo deste trabalho e ensinaram-me
a desconfiar da plena inteligibilidade dos textos do jovem Marx,
sobre os quais escrevi, com fingida segurança, as páginas que se
seguem.
O LEGADO HEGELIANO
Sáo Paulo, 1995 Após a morre de Hegel, ocorrida em 1831, rravou-se uma acir-
rada polêmica sobre o significado de sua herança intelectual. Em
vários pontos desta haveria uma rensão, habilmenre conrornada
por Hegel, que tudo conciliava e manrinha precariamenre unido.
No calor do debate seus discípulos procuraram exasperar um ou
outro aspecto para, com isso, firmar uma interpretaçáo sobre a
atualidade da obra do mestre.
De um lado, posrava-se a ala conservadora, a direita hegeliana,
que enfatizava o sistema de Hegel como uma realidade consumada
e, através dele, procurava defender a monarquia prussiana. De
outro, formou-se a esquerda hegeliana, grupo heterogêneo onde se
incluía Marx, Engels, Ruge, Feuerbach, Cieszkówski, Hess, Bauer
e outros. A esquerda hegeliana rech açavao sistema filosófico geral
de Hegel e apegava-se ao método dialético deixado pelo filósofo.
Do método procurava tirar desdobramenros revplucionários para
o combate à monarquia prussiana. A esquerda hegeliana recorria
ao caráter negativo da dialética para argumenrar que o movimen-
to ininterrupto da Ideia nunca cessa e, portanto, em sua marcha
ascendente, superaria o presente, negaria o Estado prussiano mo-
nárquico, anunciaria os novos tempos.
uma posiçáo significativa é a de August von cieszkówski.
Hegel era censurado por esse auror por rer excluído de sua dialética
as preocupaçóes com o futuro. Para Cieszkówski a dialética hege-
I
t' liana, sem especular sobre o futuro, sem avançar para frente, estava
l
0 lovru MeRx Caso Fne oe nrco

incompleta. A própria totalidade, sem a inclusáo do porvir, náo era ficaram aquém do mestre, voltando-s_e para as ideias de Fichte.
uma verdadeira totalidade e permanecia insuficienre, defeituosa e O realismo hegeliano estaria mais próximo da dialética materia-
inacabadâ. E, parao jovem contestador, o conhecimento do futuro lista do que o moralismo abstrato dos utopistas. A centralidade
era possível por meio da emoçáo, do pensamento e, sobretudo, pela do presente, na dialética, náo exclui o futuro. Ela o cóntém sob
vontade, pela prtíxis. A referência à práxis, levantada pela primeira a forma de tendências, de possibilidades objetivas, ao passo que
vez entre os jovens-hegelianos por sugestáo de Cieszkówski,t seria o utopismo projeta arbitrariamente um dever-ser fabricado pela
retomada por Marx a partir de 1844. consciência volu ntarista.
Insensato pretender que alguma filosofia possa antecipar-se a seu mundo Lukács, entretanto, náo deixa de criticar a resignaçâo existente
presente (...). Compreender o que ê, é a tarefa da filosofia (...). 4 filosofia em Hegel, resignaçáo acentuada progressivamente com o passar
éo próprio tempo apreendido pelo pensamento.2 dos anos, levando o velho filósofo a enrijecer o presente a ponto
Foi movido por razóes metodológicas, e náo por mero con- de reprimir as possibilidades internas que acenam para o futuro e
servadorismo, que Hegel descartou a especulaçáo sobre o futuro. paÍa a ruptura com o existente. No limite, a "reconciliaçáo com a
O seu realismo metodológico desenvolveu-se por intermédio da realidade" leva a uma reacionária cristalizaçâo do presente como
crítica da razáo dualista de Kant e de toda e qualquer forma de um absoluto, a uma negaçáo da própria dialética.
pensamento que separe o quei do que deueria-ser, o ser do dever- No prefácio da mesma Filosofa do Direito, encontra-se tam-
ser. Seus críticos, entretanto, viram no apego ao presente uma bém a famosa e controvertida frase: "o racional é real; o real é
decorrência de seu conservadorismo, uma expressáo da "reconci- racional". Tal formulaçáo, obscura e enigmática, tornou-se logo
liaçáo com a realidade", uma capitulaçáo, própria de quem aceita um dos pontos-chave da polêmica entre os herdeiros da filosofia
a realidade existente ou, pelo menos, está conformado com ela. hegeliana interessados em estabelecer, de uma vez por todas, o seu
Uma avaliaçáo serena desse intrincado problema foi realizada verdadeiro signi Êcado.
por Lukács em 1926 no seu notável ensaio Moses Hess e os proble- A direita hegeliana priorizou o segundo momento da frase para
mas da dialética idealista. Aproximando as posiçóes de Hess e de justificar a racionalidade do real, entendida por eles como à socie-
Cieszkówski, Lukács defende a cenrralidade ontológica do presente dade e o Estado prussianos onde viviam. Os jovens;cbntestadores,
postulada por Hegel e rejeita o utopismo por considerar que ele por sua vez, preferiram enfatízar o racional para contrapô-lo às
conduz o pensamento a permanecer prisioneiro das antinomias. mazelas da realidade, para mostrar que o momento da racionali-
Para Lukács, os jovens-hegelianos, ao renrarem ultrapassar Hegel, dade ainda náo dnha chegado e que ele só se efetivaria mediante
a negaçáo do existente e toda a sua gritante irracionalidade. O
movimento da raziao em direçáo à realidade, portanto, exige a
Sobre Cieszkórvski, ver Shlomo Avineri, O pensamento político e social de Karl Marx
(Coimbra, Ed. Coimbra,lg78, cap. 5); e o clássico ensaio de G. Lukács, "Moses Hess superaçáo do presente: esse náo é, de forma alguma, o ponto fi-
e i problemi della dialertica idealistica", in Scritti politici giouanili (Bari,Laterza,1972). nal da história, mas um momento a ser necessariamente negado
Para uma visáo global do pensamento dos jovens-hegelianos, ver Charles Rihs, L'Ecole
des jeunes begeliens et les penseurs socìalistesfra{çais (Paris, Anrrophos, l97B).
pelo movimento da Ideia em sua marcha inexorável rumo à plena
G. F. Hegel, Filosofa del Derecho (Buenos Aires, Claridad, 1968, p. 35). racionalidadel
0 rov:lçr M,rnx
CeLso FneoiRrco 23

O pensamenro de Hegel, contudo, prerendia estar a salvo 1841, a cátedra que havia sido de Hegel na universidade de Ber-
da contradiçáo reivindicada pelos seus discípulos enrre sisrema
lim. com essa decisão pretendia-se poifi- à embaraçosa polêmica
e método e, também, da escolha unilateral entre a realidade da
sobre a racionalidade ou irracionalidade das instituiçóes exisrenres.
razáo e a raciohalidade do real. Hegel era bastanre caureloso com
schelling, que havia sido outrora amigo de Hegel, invest ia agora,
as possíveis consequências de suas ideias.3 Além disso, a tese da
com todo o peso de seu prestígio, na crítica ao racionalismo da
racionalidade do real precisa ser lida, coerenremenre com o, seu
filosofia hegeliana. segundo Schelling, Hegel não havia criado
mérodo, valendo-se da sutil diferença enrre o real, entendido como
um sistema filosófico próprio, limitando-se apenas a desenvolver
um processo, e o existente, um momento empírico e contingente unilateralmente o lado negarivo das ideia, d.... schelling.
(e, enquanro ral, falso) do fluxo do real.
Iniciava-se, desse modo, uma ofensiva de schelling e seus
Dentro desse espírito, Hegel afirmava a racionalidade do discípulos, conhecidos significativamente como,,o, poririvos,,,
Esrado moderno, que náo deveria ser confundido com a monar- conrra a própria razão dialética .5 A cruzada de schelling procurava
quia prussiana existente. Essa diferenciaçâo, contudo, escapou ao reforçar a rese do Estado crisráo, elaborada por stahl, desenvolvida
Marx de 1843. o tradutor da ediçáo francesa dos Manuscritos de com base na posiçáo de Lutero, que via no Estado um contrapeso
Krettznaclt, Kostas Papaioannou, náo se conteve no comentário às tendências pecaminosas do
homem. Radicalizando .rr" .rlr,ç"
do parágrafo 262, observando em nora de pé de página que Marx luterana, Stahl defendia o direito divino do monarca e o Estado,
identifica erroneamenre o curso racional da Ideia com o Estado como instrumentos existentes para servir ao reino de Deus.6
prussiano existente e, portanto, toda a sua crítica a Hegel "repousa
outro ponro de controvérsia enrre os discípulos de Hegel foi
sobre um mal entendido".a
- como se pode perceber por essas recenres modificaçóes ,ã
À filosofia hegeliana continuava sendo referência obrigatória "rrr-
biente político e intelectual a interpretação do verdadeiro papel
tanro para se justificar o Estado prussiano quanro para criticá-lo. -
da religiAo no pensamento do mesrre.
A ofensiva dos jovens-hegelianos visando desenvolver a dialética Enquanto os "velhos hegelianos", a ala direita, enfaúzavam o
para além do sistema do mesrre, para além da realidade existenre, caráter teológico do pensamenro de Hegel (procurando, assim,
logo enconrrou a sua resposra na decisáo do monarca Fred.erico ,, I
Guilherme IV de convidar Schelling para preencher, a parrir de
t Intelectuais de toda a E-uropa foram assisrir às aulas iniciais
de Schelling, atraídos pela
importância política e filosófica de um pensador apresentado
como o leiítimo sucessor
de Hegel. Entre eles, estavam Kierkegaard . Eng.lr. Este último,
o.go.l1 Heine, que foi aluno de Hegel na universidade de Berlim, assegurava que o indïgnado com os
ataques a Hegel' escreveu diversos artigos extremamente
filósoFoforçaua a obscuridade das exposiçóes que fazia em suas Ã1"r, curiosos, no, qúi, trânscreve
'elho poìqu. suas enotaçóes de sala de aula acrescidas de comenrários
temia as consequências de suas ideias revolucionárias, caso elas fossem.o.rrpr...rdid"r. mordazes ,oÈr. o professor.
Engels também descreve o fervilhante ambiente escolar durante
Heine conra que ume vez interpelou o professor, após uma das aulas, ,ol.n., âpresen-
irritado com taçóes de Schelling, faz observaçóes sobre a reaçáo d.os ",
aquilo que considerava "conservador" na equivalência hegelian a d,o ouvintes etc. (Cf. os ìrrigos
real e do racional. "Schelling contra Hegel" e "Diário de um
segundo ele, Hegel lhe observou, enráo, com um sorriso:;E ,. o sr. lesse ouvinreo, e rambém o ensaio 'schelling e
a frase assim: a revelaçáo", in Es.crilos de juuentud de Federico Engels, rrad.
o que é real deae ser
racional...?" cf, Leandro Konder, "Hegel e a práxis", in Temas de e org.'Wenceslao Roces
(México, Fondo de CuÌtura Económica, 19gl).
Ciências Humanas, tro 6, p. 10,1979.
6 Jean-Yvez celvez, o pensamento
K- Marx, critique de l'Etat hégehen(paris, de Karr Marx (porro, Livr. Tavares Martins, 1962,
unid Général d,Édirions, 1976, p.3rl). cap. II).
{
0 lovru Mrnx
CrLso Fneornrco

legitimar a ordem política existente), os iovens conresradores em- 'nárquico,


escreveu diversos artigos na Gazeta Renana em 1g42.
penhavam-se em afirmar a dominância do movimenro dialético, A crítica marxiana, resrrira ao universo polírico da afirmaçáo do
que tudo subordina em sua marcha ascendenre, inclusive a religiáo, Estado cristáo na prússia, baseava-se numa argumentaçáo clara-
momento superado, no interior do próprio sistema hegeliano, pela mente hegeliana: esse Estado, suposramenre religioso;' contradizia
filosofia. Os textos juvenis de Hegel sobre a religiáo iam mais longe a ideia da uniuersalidade do Estado ao privilegiar uma única
crença
ao combater a tese iluminista que identificava religiáo com "erro". e, também, a ideia da racionalidade do Estado, enrend.ida como
Nessa perspectiva estritamenre gnosiológica, trarava-se somente de realizaçáo da liberdade, que náo precisa dos dogmas para poder
evitar o erro, esse desvio do intelecto que se separou da verdade. existir.
Hegel, contrariamente, via a religiáo como um processo envolven- o golpe final conrra a religiáo, enrreranro, foi dado por
do toda a consciência do homem, como algo inevitável. Religiáo Feuerbach, ainda em 1841, na obra clássica A essência do cristianis-
é alienaçáo: um processo inerente ao homem dilacerado que se mo. Mas esse aurot ao contrário dos demais jovens-hegelianos, náo
separou de si mesmo e entregou aos céus os seus tesouros mais se preocupava mais em reromar o lado revolucionário da filosofia
preciosos. Com isso, ficava em aberto a possibilidade - táo cera de Hegel e muito menos em enrrar na disputa da exegese de seus
aos jovens-hegelianos - de o homem um dia superar a alien ação e textos. Como veremos a seguir, Feuerbach, desgarrando-se d.e seus
exigir de volta os resouros que lhes foram espoliados. pares, passou a criticar duramente toda a arquitetura lógica do
Mas a polêmica náo pârou aí. Em 1835-1836, David Friedrich pensamento hegeliano, rejeitando assim náo só o sistema como
Strauss escreveu A uida de Jesus, interpretando criticamenre os também o próprio método dialético.
Evangelhos e abrindo caminho parao ateísmo. Em l}4l, dando
sequência ao movimento contestador, Bruno Bauer, com a ajuda FEUERBACH
discreta de Marx, publicou um livro irreverente, produzindo um A primeira manifestaçáo da diferença radical a separar Feuer-
enorme impacto: A trombeta do juízo fnal contra Hegel, ateu e an- bach de Hegel está no próprio estilo de seus escritos. Hegel seguia
ticristo. Um ubimatum. Publicado originalmente sem a indicação o curso logicista de seu pensamento, submetendo o', textci ao mo-
do nome do autor, para estar a salvo de problemas com a censura, vimento ternário da dialética, que tudo esrrurura g hierarquiza na
A trombeta é um livro divertido e uma peça de cinismo incomum. sucessáo temporal. Feuerbach, ao contrário, produzia aforismos em
Bruno Bauer, pondo-se na pele de um indignado autor pietisra, um texto aparentemente leve, elegante, de uma beleza surpreendente
procurava advertir os fiéis: ao conrrário do que professavam os e cativante. se é possível resumir a ideia central de uma obra de
hegelianos de direita, Hegel era na verdade um areu perigoso, a Hegel em um único parágrafo, €ÍÌÌ Feuerbach, ao contrário, tudo
própria imagem do anticristo, fazendo-se passar por religioso para, é enigmático, aberto e recusa sínteses definitivas. suas imagens sáo
através desse artifício, divulgar sub-repticiamente uma filoso6a belas e fugidias, envolvendo o leitor e instigando-o como parece
maligna, subversiva e ateia.
-
ter sido o caso de Marx - a tentar apossar-se plenamente delas e
A discussáo sobre religiáo conroru também com a participaçáo extrapolar o seu significado para além do que a prudência de seu
direta de Marxr eue, conrra t.ntdïi.'a de divi nrzar o poder mo- autor aconse{haria, No prefácio da primeira ediçáo de seu livro
"
0lovrt'l Mrrx CrLsc Fniornico

nìais famoso, Á essência do cristianismo, Feuerbach adverte o Ieitor Aluno durante dois anos nos cursos de lógica ministrados por
"tendencioso ou náo tendencioso", lembrando que ele tem pela Hegel em Berlim, Feuerbach afastou-se náo só do anrigo mesrre
frente como também da vida urbana, ao recolher-se na pacata aldeia de
os pensamentos aforísticos e polèmicos do auror, em sue maioria casuais, Bruckberg. Num texto de autobiografia intelectual fez a seguinte
esparsos (...), mas de fbrma nenhuma (note-se bem!) completamente es- associaçáo:
gorados pelo simples motivo que o autor, evesso a todas as generalizaçóes Aprendi lógica em uma universidade alemã, mas só pude aprender ótica,

ncbuloses, como em todos os seus escritos, também neste perseguiu apenas :r arte de ver, em uma aldeia alemã (...). Aqui se respira o ar puro e são. A

unÌ tenÌÍÌ inteiramente determinado.T filosoÊa especulariva da Alemanha é uma amostra das funestas consequên-

Curiosamente, Feuerbach mantinha-se longe de qualquer cias da contaminaçáo atmosferica das cidades.

militância política direta e, por isso, os aPelos de Marx Para que Ecologis ta rtuant la lettre, buscava Feuerbach lançar as se-
participasse do movimento de resistência contra o Estado Prussia- mentes para uma filosofia alternativa ao racionalismo hegeliano,
no náo encontraram ressonância. Feuerbach permaneceu arredio que tivesse como ponto de partida a intuiçáo, a sensibilidade, o
e a insistência de Marx só atesta a sua impaciência revolucionária coraçáo, a experiência, o olhar, a contemplaçâo, a natureza. Esse
ao querer tirar da filosofia feuerbachiana consequências práticas projeto de construçáo de uma filosofia fundada no sentimento (e
que o autor, prudentemente, evitava. náo na raz-ao), que trabalhe com objetos reais e sensíveis (e náo
Um olhar sereno sobre a produçáo teórica de Feuerbachs é metafísicos ou teológicos), colidia diretamente com todo o ideá-
suficiente para mostrar quáo distante estavam suas ideias, que exal- rio hegeliano. Tal fato, sem dúvida, em muito contribuiu para a
ravam a contemplaçáo e os sentidos humanos, dos temas sociais e adesáo momentânea de Marx às suas ideias, bem como de sua
políticos que haviam cativado Hegel e o jovem Marx. rentativa de instrumentalizá-las para combater a filosofia hegeliana
do Direito.
O elemento central do pensamento feuerbachiano que
7 L. Feuerb.rch, A essência do cristianismo (Campinas, Papirus, 1988, p. 17). Num texto Marx, como leitor "tendencioso", por sua conta e risco, procurou
posterior. Feuerbach afirma que em seus escritos persegue um "estilo inteligente": apoderar-se para criticar a filosofia do Direito de Hegel é a teoria
aqrrele que deve "pressupor inteligência também no leiror", um leitor que "complera
o euror a seu modo", já que este náo deseja "expressar tudo" em conclusóes fechadas, da alienaçao. Aqui reside o cerne náo só da contestaçáo lançada
preferind..l deixar o senrido último das coisas em aberto pera provocar a imaginaçáo à dialédca hegeliana como também da crítica implacável à ilusáo
do leiror. Cf . Preleçoes sobre a essência da religiao (Campinas, Papirus, 1989, p. 286).
8 \'er, a propósiro: F. Engels, "Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã", in religiosa que conduziu Marx ao materialismo.
ì!{arx Ec Engels, Obras escolhidns (Rio de Janeiro, Ed. Vitória, 7963, n" 3); Rodolfo A teoria feuerbachiana da alienaçáo manifesta-se em diferentes
ì\{ondolio, "Feuerbach e Marx", in Estudos sobre Ìv[arx (Sáo Paulo, MesrreJou, 1967);
Alfred Schimidr, Feuerbach o la sensualidad emancipada (Madri, Taurus, 1975); momentos de sua obra. Em 1839, em sua Contribuição à crítica da
Agnes Heller, "Ludrvig Feuerbach redivivo", in Cntica de la llustración (Bxcelona,
Ed. Península, 1984); ì\Íanuel Cabada, El humanismo premarxista de L. Feuerbach
f losofa de Hegel, Feuerbach levanta-se contra o carâter abstrato e
(N{adri, Le Edirora Católica, 1975); J. A. Giannotti, i{. dialética contemplativa de alienado da fiiosoÊa de Hegel, que começa pelo conceito de ser,
Ludrvig Feuerb'rch', in Origens da dialética do trabalho (Sáo Paulo, Difusáo Europeia por um ser inicialmente indefinido precisando passar pela tortuosa
do Livi-o, 1966); B. A. Sampaio e C. Frederi$, "Feuerbach e as mediaçó esn, in Rr)*ta
ì'louos Rutnos (Sáo Paulo, Novos Rumos, no' 8-9, 1988). engrenagem das sucessivas mediaçóes para, assim, cumPrir as três
Ctrso Faiotnrco '
0 .'ov:v Mrnx

lado a esPeculaçáo'
etapas de sua evoluçáo e tornar-se, efetivamente' um ser real car- raciocínio, Feuerbach propóe que se ponhade
do homem e da
regado de determinaçóes. Condenando esse historicismo logicista o ser abstrato, Deus, e que se Parta do "i real'
a uma ontologia
de Hegel, Feuerbách pergunta-se: narureza. com essa infexáo, somos conduzidos
abstrato Para o concre-
Por que náo posso referir-me imediatamente ao real? Hegel começa pelo empirista que quer substituir o trânsito do
seres pela exigência de
ser, isto é, pelo conceito de ser, ou pelo ser abstrato. Por que náo Posso ,o, o pro..rro ãialético de constituiçáo dos
isto é, do
começar pelo próprio ser, isto é, pelo ser real?e pailir do concreto, daquilo que se opóe ao Pensamento'
anterior ao
Essa pergunta - num novo registro -
e a ProPosta de filosofar ,.r.*pírico dado de uma vez por todas, determinado,
anuncia um tema caro tanto ao seu formulador quanto ao iovem pensamento e' de resto, seu fundamento'
levanta a ree-
Marx: a necessidade de submeter a filosofia hegeliana a úma in- contra o pensamenro especulativo, Feuerbach
evidente e segura
uersáo materialista. Emdiversos momentos de sua obra, Feuerbach lidade imediata da natureza humana, realidade
náo precisaria do
voltou ao assunto: em si mesma, já plenamente determinada' Qu€
recurso logicista à" *.di"çáo para existir.
A nova filosofia por ele
O caminho seguido até aqui pela filosoÊa especulativa, do abstrato ao radical em busca
concrero, do ideal ao real, é um caminho int'ertido. Nesse caminho nunca proposra surge assim como uma antropologia
se chega à realidade verdadeira e objetiurt, mas somente à realizaçao de xns ã..r-" verdade imediata, sensível, náo derivada do pensamento'
e que de fato deveria orientá-lo. o acesso
à verdade prescindiria
p róprias a b-ttraço es (...).to
das mediaçóes tortuosas' das
A filosofia especulativa de Hegel é assim criticada por Partir dos jogos especulativos da dialética,

de um universal abstrato, de um ser indeterminado, de um Pen- fantasias do raciocínio teológico'


meio da intuiçáo
samento vago, a partir do qual o filósofo idealista vai construindo o homem d.eve procurar a verdade Por
ã *.rndo e náo pelos exercícios estéreis de
sensível aberta para
a realidade. Contra essa visáo fantasmagórica, Feuerbach propóe
de seus limites e que
a inversáo marerialista denunciadora de todo o edifício conceitual um pensamenro que gira em falso dentro
a realidade exterior e com
hegeliano como uma teologia disfarçada' um sistema alienado que permanece sempr..rn contradiçáo com
he-
os senrimenros ão praprio homem. Opondo-se ao pens4tnento
subverte as relaçóes reais entre o pensamento e a realidade. como
em seu casulo,
Hegel, afirma Feuerbach, parte do pensamento, do predicado geliano, idêntico ,i -.r-o, fechado lend^o
" em espirais ioncêntricas'
do ser para, daí, chegar ao ser. Portanto' em Hegel o pensamento simbolo a imagem do círurloque se move
"círculo de círculos", Feuerbach
é o sujeito e o ser é um predicado do pensamento. Ou ainda: a em circuito interno, como um
elipse, do corte do círculo
própria natureza é uma realidade derivada da ideia abstrata, de propóe para a sua filosofia a imagem da
o
um Deus oculto, anterior a rudo e a todos' que' como na teolo- p.r" rorça anômala da intuiçáo que interromPe Pensamento
gia, desponta como um criador. Contra essa forma alienada de abstrato e seu movimento circular'11
deseja uma ver-
A nova filosofia, guiada pela intuiçáo sensível,
dade sem conrradiçáo, uma verdade
imediata alheia ao intrincado
L. Feuerbach, Ìvlanifestes philosophiqres (Paris, PreJses Universiraires de France ' 1973,
r
P. r8).
l0
Id., ibid., p. ll3. ffi'rtt. I
fi
{
i
*
0.loveu l\tr.x
Crrso Fnrornrco

mo'imento de autoafirmaçáo do ser, tal como


aparece na sequên- A reivindicação do espaço, a glorifrcação da natureza e a
cia interminável de sucessivas figuras na
filosofia heeeliarâ, no exaltaçáo dos sentidos, ao contrário, acenam paÍaa permanência
incessante jogo de mediaçóes e negaçóes
condurindoï processo das coisas e para a convivência pacíÊ,ca. Na natu reza náo existe
de constituiçáo do real. Recusando remporalidade
formadora superação. As diferenças nunca sáo resolvidas, pois o espaço,
"
do real na filosofia de Hegel, bem como
tir".ri" conceitual que agindo como um anfitriáo receptivo e diplomático, ajeita e dis-
"
tudo agruPa e hierarq urza, Feuerbach situa-se
em relacáo ao seu tribui habilmente as diversas parres em seus respectivos lugares
adversário:
de forma que todos acabem se sentindo à vontade em seu canto.
Somente consrirui a forma de sua inruiçáo
e de seu mécodo, o tenrpo que
Estamos aqui diante de uma posiçáo respeitosa e conformista
-'rclui, e não, simultaneamenre,
também o espítço que tolera: seu sistema
que enaltece as diferenças e se propóe diplomaticamenre a man-
náo conhece senão subordinaaÍa e sucessáo,
e ignora tudo relari'o à coor-
ter inalterado o pluralismo dos seres particulares. O contrário,
,ienaçáo e coexisrência.r 2
portanto, da razâo dialética que, no decurso remporal, enrijece as
-L natureza semPre agrega à tendência monárquica do rempo o liberalismo
diferenças, transformando-as inicialmente em oposiçóes e, logo
do espaço.tj
a seguir, em contradiçóes, pârâ assim poder efetivar a negação
\o pensamenro sou um sujeito absoluto; considero
tudo exclusi'amente superadoÍa, a ruptura radical, a passagem para uma nova síntese,
como objero ou predicado do ser pensanre
que eu sou; sou inrolerante. Na para uma nova unidade.
aiividade dos senridos, ao conrrário, sou liberal;
permiro ao objero de ser A perspectiva espacial do pensamenro feuerbachiano inscreve
o que eu próprio sou: um sujeito, um ser real
que se manifesra.ì* a política no campo do liberalismo, embora o nosso auror náo
opondo-se ao desenvolvimenro remporal do
sisrema lógico Ít ouse abertamente extrair consequências políticas de sua crítica
hegeliano, Feuerbach refuta a prerensáo
monista de uma totalidade filosófica.
que rudo relaciona e transforma no fluxo
lógico de seu autodesen- Contra o império da razão que se realizano rempo, Feuerbach
vol'imento. E aproveita para fazer uma .p"ro*i-ação
de senddo t reivindica a necessidade de uma nova filosofia centrada na exalra-
entre o monisma do método e a morarquia,
o regime político que
o velho filósofo glorificara. o .rrátei morri*"J-orrárq,rico
I çáo do conhecimento imediato fornecido pelos sentidosir
do Í
' Somente é uerdadeiro e diuino o que nao tem necessidade de proba, o que é
tempo é visto, porranro, como uma manifestaçáo i
de tor"lìtarismo r imediatamente certo Por si mesmo, quefala porsi e conaence iniediatarnente,
e intolerância. Pela prim eiravez, surge
a identificaçáo enrre razão que arrasta imediatamente a afirmaçáo de sua existência, o que é claro
dialédca e totalirarismo, identificaçao qu.
seria retomada no século como o dia. Ora, somenre o sensível é claro como o dia. É somente lá,
20, não pelos adversários da monarquia, mas f
principalmenre pelos onde o sensível começa que chegam todas as dúuidas e todas as dis-
inimigos do marxismo. I ao fm
putas. O segredo do saber imediato é. a qualidade sensíuel.

I Tudo é mediatizado, diz a filosofia hegeliana. Mas algo só é verdade se

Id., ;rid., p.12. I cessa de ser urn mediado para tornar-se um imediaro (...). 4 verdade que
Id., iòid., p. t3. I
se mediatiza ê. aínda a verdade contaminada peh seu contrária. Começa-
Id., ìôid., p. t66.
se pelo contrário, mas, em seguida, ele é suprimido. Mas se é necessário

;l
CtLso Fn:o:ntco
32 . 0JovtuN|ARX

ext-erioridade que cerca o


suprimi-lo e negá-lo, por que começar Por e[e' em !'ez de começar ime- ela ranto noineia o mundo natural, a
diatamente por sua negaçáo?rt homem, como se refere à essência distintiva de um ser particu-
entendendo por
A crítica da.mediaçáo e da ideia hegeliana da verdade como re- lar. Feuerbach fica com o segundo significado,
natuÍeza preferencialment e a ndtt'trezã
lttím1nd' Esse sujeito' ao
sultado leva Feuerbach a um empirismo, e à exaltaçáo dos sentidos,
as suas objetivaçóes'
como o caminho para se obter uma verdade evidente, revelada de englobar ao mesmo temPo o indivíduo e
um sujeito que
uma vez por todas, sem o recurso da mediaçáo. Essa é a intenção or-r.,r, atributos, é portanto um sujeito-objeto,
inicial do filósofo, apesar de em algumas passagens ele recuar se aÊrma objetivando a sua essência.
com isso Feuerbach, que
hegeliana de ser
em suas formulaçóes ao constatar que o sensível não é imediato. em seus trabalhos sempre criticou a identidade
e pensamenro, acaba proporrdo uma
nova unidade. Dessa identi-
NÍas essa certamente náo é a única contradiçáo numa filosofia táo
conhecimento do
contraditória e inconclusa como a de Feuerbach. fi.rçao entre homem e nature za, decorre ser o
da própria natu-
Apesar das hesitaçóes e recuos, Feuerbach mantém firme a objeto-narureza o mesmo que o conhecimento
reza do sujeito-homem. Conhecer o seu
ob.ieto, Para o homem,
sua proposta de apresentar uma no\ra filosofia em tudo diferente
é auroconhecer-se. Eis a tarefa da nova
filosofia, no selr desejo de
da hegeliana. E assim procedendo, ele se insere no espírito dos
"jovens-hegelianos", os discípulos rebeldes interessados em suPerar substituir a reflexáo abstrata pela intuiçáo:
nele que aParece sua essên-
a filosofia do mestre. E por teu objeto que tu conheces o homem; é
e objetivo ("')
Como Hegel, Feuerbach tem a Pretensáo de reinventar a filo- cia: o objeto é a essência dele revelada, seu eu verdadeiro
os objetos mais distantes dos homens sáo
também revelaçóes da essência
sofia. Hegel, com se sabe, considerava todo o Pensamento anterior
humana. A Lua, ela também, o sol e as estrelas
gritam Para o homem: -
como algo a ser superado pela sua própria filosofia, como formas
imperfeitas a serem revolucionadas. Feuerbach, diferentemente conhece-te a ti mesmo'16
mistérios da filosoÊa
de Hegel, que construiu um sistema fechado, era mais afeito aos Contemplai a natureza, contemplai o homem! Os
estáo diante d'e vós. (...) natureza é, pois, o
fundamento do homem.lT
aforismos e iluminaçóes rePendnas. Por isso prefere sugerir, como "
éntre o ho-
anuncia o título de um de seus trabalhos, algumas Teses prouisórias Da identidade postulada entre homem e natureza,
a diferenç"'q:t sePara
parã a reforma da losafa. f mem e os seus predicados, Feuerbach retira
A reforma da filosofia tem como interlocutor direto e adver- o homem do Enquanto este permanece con6nado em seu
"rri*al. homem' ao ProPor-se
sário a ser vencido o pensamento de Hegel. Se esse Pensamento pequeno mundo, no círculo da finitude, o
indivíduo e
é alienado e está de cabeça para baixo (por considerar o Pensa- a si mesmo como objeto, torna-se simultaneamente
espécie, singularidade e universalidade. Ele,
portanto' carÍega a
mento sujeito) e dele deriva o objeto real, a inversáo feuerbachiana
homem é uma
propóe-se a colocar os pés no cháo e a redefinir os termos. ,rni r.rr"lidade dentro de si. Nesse sentido, nenhum
homem é
Trata-se entáo de basear-se no sujeito real, no hornem e na ilha ou, Para aprofundarmos a comParaçáo' nenhum
natureza. Mas naturezlt é uma palavra com duplo significado:
í
t 16 Id., ibid., p.62.
t5 t1 Id., ibid., p.l2ll
Id., ibid., p.182.
Cetso FntotnLco

vista as críticas que lhe foram dirigidas


por S-tirner' a sua ideia de
uË fÌo-'..;:r urË ostr:. Separâia de outras ostras pela semelhança uma indisfarçável
um gênero h,r-"no infinito, ilimitado, guarJa
su::a. j- :c,-sci3-cia L.umana. ao contrário, liga cada indivíduo Absoluto em Hegel. Mas para o
semelhança com o momento do
30 :Jnj'--:f. final da caminhada do
filósofo dialérico, o Absoluto é o resultado
J.e;i,::-::do -;sa fomulação na abertura do primeiro capítulo absoluto, é a consciência
Espírito. Para Feuerbach, o gênero, como
Ce -{ e::l-:::: io que' enquanto o
-sti;:/Iisrno, Feuerbach observa humana manifesta.
an-ral ::=-::iìa ;ida simples. o homem possui uma vida dupla: imediata da
Essa visáo estranhar QUe acredita na caPtaçáo
alé: d. ;t:a :li;=cia 3xterior, o homem possui uma vida interior, essência, nega o movimento de constituiçáo
do Absoluto exata-
prc-,=ni=:; :e s-': relâçáo com o gênero, com a essência humana. menre por acreditar que, com esse Procedimento,
desmancha-se
O :-,:in=::. i'z F=uerbach, pe.sa, conversa, fala consigo mesmo' a unidade original pJ" separaçáo entre o ser e os seus atributos'
enflaÍì:- o -:.:ir-:.Ì O procedimento d" filorofia dialética assemelha-se ao da religiáo:
::ã-o:,.,:= nenjiuma fu:cáo de gênero sem um outro indivíduo de seus Predicados' A filosofia
=3:: ambas violentam o ser ao separálo
::ia --:;?::rà-s : hornem pode .rercer a função de gênero do pensar, do o ser de seus predi-
de Hegel, pelo recurso da abstraçáo, separa
-.-.la; :o:=e :'rsar e falar sác' duas legítimas funçóes de gênero) sem predicados humanos
."dor; r.iigiáo, como alienaçáo' projeta os
-eCtt.:,-: -c j.
-:n ou:ro. O hc:rem é para si ao mesmo temPo EU e
TU; " Deus'
para fora do homem, na imagem de
' (a espécie'
:ie p:,:: i= -ol:,:ir no lugar do outro exatâmente Porque o seu gênero, a
Or., se cada indivíduo carrega consigo o universal
:-;a :..t<:l:.i. iã: sori:ente a sue indiyidualidade, é para ele objeto'ìS
a soma dos atributos), o que existe
entre os vários indivíduos que
J h::l::i.:,lr seu ser e 9or sua consciência, é infinito' O totalidade, iâ que cada
conÌpóem a espéciei como se comPõe a
an--al. ::-,:-:arl:nente, vive a dupia limitaçáo de seu ser restrito Assim' o con-
indivíduo a conrém, se cada um é um Absoluto?
qu:- pc,: s-i :es=to, o impeCe também de ter uma consciência da somatória dos
ceito de gênero humano resulta exclusivamente
ar-:-a, --::---=:sd. infinita: que é, no final das contas, consciência indivíduos narurais, numa universalidade
empírica apreendida
da --io;:--a:.:,â.n-:ude da consciência. A lagarta, diz Feuerbach,
pelaconsciência. , i i
^F..,'.rbach,aocolocaraessênciadohomemnogêhero,na
ter tua rd: e es:3ncia restrita a um tipo determinado de planta,
ser. se c,;:-ier :'ém desse pequeno horizonte. Sua consciência ê comunidade, ao fazerdo homem um ser
comunitário, cónsiderava-
lin*ada- lo:o, n:o é r'erdadeiramente consciência, mas instinto' Curiosamente' o
Se erroneamente um Precursor do comunismo.
)iá: ie::.: c.lns;ência, o animal desconhece a relig tâo, a forma jovem Mam deixou-se levar acriticamente pelo
conceito de gênero
lar:-sti;. p::a c--,:al se manifesta a universalidade da espécie hu- concreto do que o seu
humano, procurando ver nele algo mais
agosto de 1844 dirigida a
auror imaginara. Numa carta d. tt de
rn2-r, c :iF.-iro no interior do Ênito.
J c.-rce:o c; espécie, de gênero humano, que tanta influên- Feuerbach, ele dizïa
escritos ignoro se deliberadamente -
cia:rer;:'-r rc l{-:rx de L844,é central na filosofia de Feuerbach. um Funda-
o sr. deu nos seus -
Er-:cia I ttsso autor tenha recuado Plosteriormente, tendo em mento filosófico ao socialismo, e é com esse
espírito que os comunistas
t os homens
rapidamente corhpreenderam esses trabalhos- A unidade entre
CiLso Fntotntco
0 "cvrv lv4rnx

máxima de uns
e a humanidade, que repousa sobre as difèrences reais entre os homens, escândalos domésricos, divórcios e exploração
tt

^ outros
o conceito de gênero humano reconduzido do céu da abstraçáo para a .
Por
realidade rerresrre, o que é senáo o conceito de sociedade!) E, contra Feuerbach, Engels toma o partido de Hegel:
do.desen-
Náo há nada que se assemelhe à sociedade - com suas inrer- Em Hegel, a maldad.e é a forme que exprime a força propulsora
relaçóes materiais e seus conflitos de interesses volvimento histórico(...). Sáo precisamente as paixóes más dos homens' a
- na conceituação ro Progresso histórico
Feuerbachiana de gênero humano. A essência humana para Feuer- cobiça e a sede de domínio que servem de alavanca
bach é um conceiro ideal que náo rem exisrência fora da consciên- (...).Ainvestigaçãodopapelhistóricodamaldademorllé,porénr'uma
Pera ele, a história
cia, enquanro a sociedade é algo com existência independente das ideia que nem de longe passa pela mente de Feuerbach.
consciências individuais. é um domínio desagradável e inquietante'2o
Por outro lado, a interaçáo social é dada na filosofia feuerba- A luta contra o "verd.adeiro socialismo" levará Marx a, cada
chiana pelo intercâmbio amoroso de uma multidáo de indivíduos- vez mais, se afastar do culto abstrato do gênero
humano e dessas
geni'ricos, de semideuses satisfeitos consigo mesmos. Esse amor relaçóes amorosas que o integrariam. Na Ìv[iséria
daflosofa' com-
que "a história
que liga os homens entre si é, por sua vez, a base de uma nova bat.ndo Proudhon, dir, bem no espírito de Hegel,
filosofia convertida em religiáo, substituindo a adoraçáo de um caminha pelo seu lado mau"'
Deus disrante pela adoraçáo da humanidade abstrata consigo Mas a concepçáo de gênero humano, além das decorrências
conhecimento de
reconciliada. apontadas, fundamentam também a teoria do
encon-
Feuerbach. Nas páginas de Princípios da f losofa futuro,
do
A apologia do amor, proposta por Feuerbach, será o ponto
cle particia do "verdadeiro socialismo", corrente de pensamento tramos a seguinte declaraçáo:
do pensamento solitá-
lrolítico que se iniciou a parrir de 1844, tendo como figura mais A verdadeira dialética náo é um monólogo interior
exprcssiva Karl Grün. Marx e Engels, errÌ A ideologia alema e no rio consigo mesmo, ela é um diálogo entre o eu e o tu'l'
e paz com os sen-
Manifesto do Partido Comunista, criticaram duramente essa ver- A nova filosofia, pensando "em consonância
abstrato, que
tente nascida das ideias filosóficas de Feuerbach. ridos", objetiva romper com a solidáo do pensamento
Muiros anos depois, em seu Luduig Feuerbach e o fm do f- náo se relaciona com objetos reais e sensíveis.
E tambéçn;quet fugir
nas relacitona
que aPenas
losoJìa clríssica alemã, Engels criticou a visáo idílica e a-histórica da engrenagem desumana da lógica dialética'
na violência de uma sín-
clo anror como uma relaçáo natural sem mediaçáo, como se entre as parres para, em seguida, poder negá-las
dois amrrntes náo passasse toda a sociedade com os seus valores, tese. No universo amoroso de Feuerbach náo
há lugar Para negaçáo
intercsscs, critérios mutáveis de "beleza natural", preconceitos e superaçáo.Ne[e tudo é coabitaçáo e coexistência pacíÊca.
ctc. O ciìráter abstrato e atemporal do amor é contrastado com o h,* i+.gel, contrariamente, pôde instalar-se o monólogo da
de objetos
ttruttclo lrurguês no qual o congraçamenro geral cosruma desan- consciência solitária como consequência da ausência
tllrr c manifestar-se "sob a forma de guerras, Iitígios, processos,
t ï
í
ì F. Engels, oP. cit., P- 100. lit
t, i
ì'r C[. llltrc-Engels correspondance (Paris, [Éd. Sociales, 197i, t.ï., p.323). L. Feuerbach, Mçnifest* philosophíqttes, 0P' cir'' p' 199'
I
t; I
il
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0 "rovrM fu'|.\rx CtLso Fntorntco

reais e sensíveis, levando o filósofo a imaginar a identificação


a máo de alguém, diz Feuerbach, náo sentimos só a carne e o
abstrara enrre ser e náo ser. No diálogo feuerbachiano do eu corn
osso,
o ru, a separação enrre o ser - aquilo que é objeto da paixáo _ s (...) náo é somente o
mas sentimos por conrato também os sentimentos
o indiferente náò ser é definitiva e crucial. Aqui só existe o que é
é objeto dos sentidos, mas também o interior, náo Somente
exterior que
objeto da paixaa. o amor surge como "a verdadeira prova ontohgica ém o eu'26
carne, mas tamb ém o espírito, nío somente a coisa, mas
Camb
da existência de um objeto fora de nossa cabeça".22
euando não Segundo Agnes Heller, a verdade consensual é, inicialmente,
exisre na realidade o que exisre na representaçáo apaixonadr, o
homem sofre. A dor do amor é um "protesto estrondoso" contra a
,r* pÃr"ico "conceito cotidiano de verdade", de uso muito res-
como,
trito. Ele serve apenas para fazer coincidir juízos banais
ausência do outro, a ausência da realidade e da verdade exteriores, que o Sol está bri-
para citar o exemplo d" autora, alguém dïzer
do mesmo modo como comprova a
lhando e o outro concordar. A constataçáo comum
a dor da fome se reduz ao faro de que o esrômago náo contém objeto, que .,verd.ade,,. Mas há, em segundo lugar, a verdade que se realiza
revela-se fi-
no relacionamento amoroso enrre duas Pessoas. Aí
ele é para si mesmo seu próprio objeto, que as paredes vazias friccionam-se
uma contra a outra, em vez de friccionarem um alimento.23 particulares
nalmente a verdade da espécie, o encontro dos seres
A presença do objeto exterior antevisto pelo indivíduo através mostra-se
com a sua universalidade. Na relaçáo eu/tu, a verdade
da inruição sensír,-el rem sua prova final de existência, seu critério a existência de
de forma sensível, evidente, imediata, e descarta
de objeti'idade, seu pleno reconhecimento no consenso subjerivo
provas. Feuerbach, diz Heller,
fbrmado enrre o indivíduo e os seus pares. A verdade, para Feuer- a qual Adáo conltecett
entende literalmente abelaÊrase bíblica segundo
bach, é consenso, é entendimenro subjetivo que se generaliza para
Eva. O enconrro direto e sensual enrre o eu e o tu:
isso é precisamente
os homens em comunicacáo, é convicçáo mútua: entre
o conhecimento, isso é a verdade. Quando se estreita uma Pessoa
Duvido daquilo que eu sou o único a yer; só é certo aquilo que rambém e também a ela
os braços, reconhece-se nessa pessoa a humanidade -
o outro r,ê.24
próPria.:- . .í
(...) a comunidade do homem com o homem é o princípio e o crirério
Sacramentad.a pelo consenso dos indivíduos, Por3quilo.que
primeiros da verdade e da universalidade.25
esses seres particulares têm d,e universal, de essenci,al; a verdade
A verdade consensual que se oferece aos sentidos é, na antro- e essência'
acaba recebend.o a definiçáo sintética de realidade
pologia feuerbachiana, o revelar da essência humana objetivada. a filosofia a
Definição cerramenre conformista condenando
O objeto do conhecimento sensorial é sempre o conhecimento sobre "as coisas
Ser "o conhecimento do que é", ã debruçar-se
do próprio homem, de sua essência universal. em Feuerbach'
euando pegamos e os sere S como eles sã0". Dessa forma, a teoria,
"açáo de
reencontra e identiÊca-se com a etimologia da palavra:
Id., ibìd., p. 180.
contemPlar".
Id., ibid., pp. 129-180.
Id., ibid., p. 186.
Id., ibíd., P. 185.
ld., il)id., p. 185.
Agnes HelÌer, "Fpuerbach redivivo", in Citica da llusnacitín' op' cit" p' 121.
CtLso Fntointco '
0 rovtl Mrnx

mediaçáo' A
Empenhado em emancipar os sentidos de sua subordinação ra, mas de um modo que comporta de noYo a separaçáo e a
a verdade
à razáo, Feuerbach afasta-se da conceituaçáo hegeliana de que "a filosoÊa hegeliana falta a unidade imediam, a certeza imediata,

verdade é o todo", ou seja, é um processo de sucessivas negaçóes imediata.2s


Feuerbach, assim, repudia a abstraçáo como um recqrso
arti-
do dado imediato, as quais convergem, rÌo momento final, para a
coincidência entre aparência e essência. Verdade, aqui, náo é con- ficial que cinde a unidade imediata do ser e de sua essência PaÍa'
templaçáo complacenre, revelaçáo súbita da essência, iluminação no moÍnenro final da tríade dialética, tentar "reunir de viva força
repentina. Ela é, numa palavra, resultado. o que tinha separado de viva forçi'.2e
Marx, posteriormente, ao acertar suas contas com Feuer- o mesmo raciocínio reaparece quando Feuerbach estuda
aqui o
bach, volta à perspectiva hegeliana da verdade como totalidade uma segunda forma de alien açâo: a religiao. Também
buscat uma
in progress, náo se confundindo com os seus momenros empíricos pensamento teológico aliena o homem Para, depois,
"abstraí-
captáveis pela senso-percepçáo. Mas acrescenta, diferentemente de reconcili açâoimaginária entre o homem e a sua essência
Hegel e Feuerbach, que a verdade do pensamento e dos sentidos, da" em Deus. ,{
I

abs- I
paÍa se realizar, precisa saltar paÍa fora de seu casulo e interferir Contra essas duas formas fantasmagóricas do pensamento .1
il
{
e sua essência,
rrato, e contrário a qualquer divisáo entre o homem
I

na realidade, efetivar-se. Verdade, dirá entáo Marx na segunda das


Feuerbach levanta filosofia que "fala o idioma humano"' Essa
Teses sobre Feuerbach, e realidade efetiua e poder. Náo é atividade "..r" nos sentidos,
intelectual em seu monólogo interior e nem contemplaçáo benevo- filosofia que parre da imanência do homem e se apoia
em vários momentos, deparou-se com o fenômeno
religioso. Há
lente: é açao prática que se eferiva no confronro e na transformaçáo
dedicado
da realidade. um livro, entretanto, o mais conhecido de Feuerbach,
A teoria da alienaçáo de Feuerbach, como vimos, inicia-se inteiramente ao assunto. Trata-se de A essência do cristianismo'
geral, em
com a crítica à filosofia hegeliana que mistifica as relaçóes enrre o Nessa obra, Feuerbach, coerente com a sua orientaçáo
religiáo'
pensamenro e a realidade, espírito e natureza, ao fazer da realidade, nenhum momento discute a veracidade ou a falsidade da
da religiáo e
do mundo natural, uma mera alienaçáo da Ideia. Aceita, num primeiro momento, o significado cristáo,
é a essência
A inversáo materialista proposra - partir do sujeito real e na procura com base nisso decifrar o segredo oculto: leus
natureza - modifica radicalmente essa forma de pensar, classifi- humana objetiuada
recorrente
cada por ele como uma expressão da alienaçáo. Aqui, a alien açâo Feuerbach chega a essa ideia fundamentando-se na
religiáo' A
é resultante da abstraçao. Abstrair, etimologicamenre, quer dizer distinçáo enrre o homem e o animal. Só o homem tem
exclusivo
tirar para fora, extrair. É rr.rt. sentido que Feuerbach entende a diferença, portanro, é posta pela consciência, um atributo
gênero como
alienaçáo: d.o homelrl, o único ser caPaz de tomar o seu próprio
a limitaçáo de
Abstrair é pôr a essência da naturezafora da natureza, a essência do ho- objeto. Ao contrário do animal, condenado a viver
memfora do homem, a essência do pensamento fora do ato de pensar. Ao
fundar todo o seu sisrema nesses atos dqábsrraçáo, a filosofia de Hegel 28 Id., ibid., pp. 108-109.
alienou o homem de si mesma. Sem dúvida, identifica de novo o que sepa- 2e Id., ibid., p. 107.
0 .ravnr Manx Ctrso Fnrotntco

seu meio, o homem ascende à consciência de sua espécie, de sua e o ser valetambém para
Essa relaçáo elucidariva entre o objeto
universalidade, de sua infinitude. Por isso tem religião, rem essa uma caracterlstlca
o obieto religiosor ![ue apresenta, entretanto'
"consciência do infinito". estáo fora de nós, a religiáo
própria: enquânro os objetos sensoriais
Examinando as relaçóes do homem com a religião, do homem está dentro do homem, habita
em sua consciência' Polemizando
com o objeto religioso, Feuerbach retoma a ideia que havia orien- "a consciência de Deus é a auto-
novamente com Hegel, PaÍaquem
tado a sua crítica a Hegel: "o homem náo é senáo o seu objeto", a inversáo da proposiçáo:
consciência de D.,rJ', Feuerbach propóe
"atrás do objeto conheces o homem", "o objeto é a sua essência ,,a
consciência de Deus é a consciência
que o homem tem de si
revelada". Thl objeto, tal ser: mesmo, o conhecimento de Deus o
conhecimento que o homem
O homem nada é sem objeto. Grandes homens, homens exemplares que tem de si mesmo".34
nos revelaram a essência do homem, conÊrmaram essa tese com a sua Masoqueéareligiáo?AantroPologiadeFeuerbachavê
humano" e lembra
vida. Tinham apenas uma paixão fundamental dominante: a realizaçáo inicialmente como "o ,orrho do espírito
da meta que era o objetivo essencial de sua atividade. Mas o objeto com o
que ("')
ou no céu, mas sobre a terra
qual um sujeito se relaciona essencial e necessariamente nada mais é que no sonho náo nos encontramos no nada
a essência própria, objetiva desse sujeito (...). apenas náo enxergamos os objetos
reais à luz darealidade e da necessidade'
Por isso, toma o homem consciência de si mesmo através do objeto: a cons- masnobrilhoarrebatadordaimaginaçáoedaarbitrariedade.3'
ciência do objeto é a consciência que o homem tem de si mesmo. Arravés decifrar o signi-ficado desse "sonho
do espírito
Procurando
do seu obieto:
do objeto conheces o homem; nele a sua essência te aparece; o objero é a humano", Feuerbach avança na definiçáo
sua essência revelada, o seu EU verdadeiro, objetivo.30 Deuséaintimidaderevelada,opronunciamentodoEudohomem;a
A determinaçáo do sujeito por seu objeto conhece diversos exem- ocultas do homem' a
religiáo é uma revelaçáo solene das preciosidades
plos nos textos feuerbachianos: "o que lavra a terra é um camponês; a manifestaçáo pública dos
confissáo dos seus mais íntimos pensamentos'
quem tem a caça como objeto de sua atividade é um caçador; quem seus segredos de amor'36
o falcinante desafio
pesca peixes é um pescador".3r E os exemplos náo se restringem ao A identifi caçíoentre religiáo e sonho tÍãlz
ser humano: 'b objeto dos animais vegetarianos é a planta; é por esse da consciêÍ{cia humana' Ao
da interpretaçáodessas duas dimensóes
essência humana efetuada
objeto que eles se distinguem dos outros animais, os carnívoros".32 aponrar a religiáo como umaprojeçáa da
"Se Deus fosse objeto paÍa o pássaro seria objeto para ele apenas dos "mais íntimos frensamerìtos"'
pela consciência, como expressá;
que certamente se
como um ser alado (...). O ser supremo é parao pássaro exaramente F.,r.rb".h abriu o caminho para Freud, autor
entre o conceito de esência
o ser do pássaro."33 inspirou em suas ideias. O parentesco
inconsciente, revelado no sonho'
hu.mana,projetada em Deus, e o de

r0 L. Feuerbach, A essência do cristianismo, op. cit., p. 46.


rr L. Feuerbach, Manifestes philosophiques, op. ciç, p. 133. 14 Id., ibid., p.55.
3r Id., ibid., p.133. í 35 Id., ibid., p.31.
31 L. Feuerbach, A essência do cristianismo, op. cit., p. 60. 16 Id., ibid.l, P.56.
0 lovru Mnax Crrso FnroERrco

é uma pista teórica importanre para se enrender a filiaçáo feuerba_ é o c4minho Para "mostrâr o
 crítièa da alienaçáo religiosa
essência' o
chiana de Freud.37 resouro escondido no homem": a universalidade de sua
O que a religiáo, essa forma onírica de consciência, revela para c$âter infinito do gênero humano. A projeçáo efetivada na religiáo
Feuerbach é a essência objetivada do homem em Deus. o
I nada mais é do que uma forma de consciência, e a consciência,
transcendência é interpretado como um proresto do homem "p.lo conrra paraFeuerbach, e d.finida como "o ser-objeto-de-si-mesmo
de

um ser". Por meio da religiáo, o homem toma consciência de


a finitude e uma afirmação de sua universalidade. "Deus é onisciente si

porque conhece as mínimas coisas", diziaSão Tomás de Aquino. mesmo.


o saber de Deus é aquele que "náo considera em bloco , como ,tm Mas o problema principal é que o homem náo consegue reco-
só ntfo, os cabelos da cabeça humana, mas os conra e os conhece nhecer o obl.ro religìoso como a sua própria essência objetivada'
a todos um a um".38 o homem, enquanto indivíduo condenado a o predicado (a essência humana projetada) é a verdade do sujeito,
uma vida breve, é incapaz dessa sabedoria. Mas o que um homem mas este náo se reconhece mais. Na religiáo o homem
relaciona-se
náo
náo pode fazer, pode a espécie. Esse conhecimenro universal, protes- com a sua essência como se ela fosse uma outra essência que
tando contra a finitude, realiza-se no desenvolvimenro das ciências mais lhe pertence. E isso ocorre Porque a religiáo esvazia o
homem
e transfere para Deus toda a sua riqueza. o homem
naturais que, já no século 19, eram capazes de contar as estrelas do empobrece-se
céu, os ovos existentes no corpo do peixe, os músculos espalhados ao projetar a sLla essência em Deus e náo mais a reconhecer como
de sua
pelo corpo do animal etc. Por isso, observa Feuerbach, proprildade sua. E o que é pior: transforma-se em criatura
(...) a represenraçáo humana de Deus é a representaçáo que o indivíduo cúaçâo, em obra de sua obra:
e se
humano para si faz de sua espécie, que Deus como soma de tod"as as O homem - e este é o segredo da religiáo - objetiva a sua essência
em sujeito'
realidades e de todas as perfeiçóes nada mais é que a toralidade organi- faz novamenre um objeto desse ser objeti'ado, transformado
camente reconstituída para uso do indivíduo limirado, das propriedades em pessoa; ele se é objeto para si, mas como objeto de um objeto'
Pensa'
da espécie que se repartem enrre os homens e se realizam no decurso da de um outro ser.4o
história mundial.3e Veremos, no quarro e quinro capítulos, como toila a proble-
do jovem
mática da alienaçáo nos Manttsritls econômin-flosdflcai
Peter Gay, o biógrafo de Freud, fez, a próposito dos dois aurores, o seguinte comentário:
"Um herdeiro do Iluminismo do século l7 como Freud necessariamenre
Marx é uma apli.açáo direta da crítica da alienaçáo religiosa em
encontraria
muitos motivos de admiraçáo em Feuerbach (...). O ponro central de seu rrabalho Feuerbach.
sobre a religiáo (...) era fundamentalmente a destruiçáo de uma ilusao, uma ideologia, Por ora, interessa observar que essa crítica se insere nos
marcos
ademais, absolutamente perniciosa, Freud, que veio a se considerar como um destrui-
do ideário iluminista. Feuerbach limita-se a esclarecer, a chamat
*r d: ilusóes, julgou essa posrura profundamenre comparível consigo próprio". c[
Freld uma uida para o nosso tempo (Sáo paulo, companhia das Letrls, 'tlio, p. 4l). a atençáo dos homens que náo reconhecem nos tesouros
do céu
.
A dívida de Freud para Feuerbach é certamente maior do que e admirida pelo szu bii-
uma propri.dade extraviada a eles pertencente. Náo indo
além da
gr1fo. Freud, ao que consta, nunca reconheceu essa dívida em seus tr"b"lho, porque
talvez estivesse imbuído de um certo cientificismo receoso de admirir irrrpir"iao crítica esclarecedora que tem a Pretensáo de mudar as coisas aPenas
6losó6ca que orientava as suas pesquisas. "
J8
t
L. Feuerbach, Manifestes philosophiques, op. cit., p.\40.
39
Id. ibid., p. 141.
Crrso Fntotnrco
46 . 0LovruMnnx
/

com a força do pensamento, Feuerbach, mais uma vez, recusa-se gioso, em cuja obra a religiáo era um momento negado e superado
a
tirar conclusóes definitivas, permanecendo numa posiçáo ambígua l.lo p..tsamento racional da filosofia, úm Pensamento orgulhoso
peranre a religiáo. Está longe de querer trilhar os caminhos do ,obr.pottdo-se aos sentimentos humanos e enquadrando a religiáo
"ateísmo militante" pois, a rigor, náo se considerava ateu: como um momento inferior à refexáo filosófica. I
(Jm ateu legícimo, i.e., um areu no senrido vulgar é (...) aquele A fortuna crítica de Feuerbach também oscila entre uma in-
para o
qual os predicados da essência divina, como, p. ex., o amor, a sabedoria, rerpretaçáo que enfatizaa denúncia da alienaçáo religiosa, vendo
a jusriça, nada significam, mas náo aquele para o qual o sujeiro desses nela a responsável pela conversáo de Marx ao materialismo, e uma

predicados nada significa.ar ourra que vê nessa denúncia o resgate dos valores do cristianismo
Feuerbach fica assim no meio do caminho, náo tirando as con- desfigurados pela cristandade.
sequências últimas de suas ideias. Distancia-se de Nietzsche, pois Marx náo se PreocuPou com essa ambiguidade. No primeiro
embora negue Deus, quer preservar os valores cristáos. Distancia- parâgrafo da Introdução à crítica daftosofa do direito de Hegel, diz
se também do "arell legítimo", que enconrrou no Marquês de Sade qu., gr"ças à Feuerbach, "a críticada religiao chegou' no essencial,
a sua expressáo mais acabada.a2 Aceitando os atributos divinos * ,.,r fim, e a crítica da religi âo é o PressuPosto de toda crítica"'
sem aceitar contra o sujeito destes, Feuerbach nos apresenta a sua Evidentemente, Feuerbach náo concordava com essa afirmaçáo e
filosofia como um substituro, como uma forma de religiáo que conrinuou, durante toda a sua vida, insistindo na crítica à religiáo.
promove o culto do gênero humano, afirmando: "o que hoje é tido Marx, por sua vez, dando-a Por encerrada e considerando-a a base
por ateísmo será amanhá tido por relígião".43 da crítica em geral, estendeu-a Para o terreno da política. O pri-
ora, essa posiçáo amb ígua rorna problem âticaa interpretaçáo meiro momento desse desdobramento foi o ajuste de contas com
de seu pensamento sobre a religiáo. Curiosamenre, dá-se com ele a Filosofa do direito de Hegel. E o que veremos a seguir.

o mesmo tipo contraditório de recepçáo que acompanhou a obra


de seu adversário Hegel. Este foi visto ou como um pensador
:
teológico que faz derivar da Ideia toda a realidade, ou, enráo, na
,., i
tradiçáo de Kierkegaard, como um areu disfarçado dizendo-se reli-

4t Id., ibid., p.63.


42 O "divino Marquês", como é chamado por seus admiradores, levou aré o Êm a negaçáo
dos predicados da essência humana projetados em Deus e, como consequênci", pOd.
radicalizar o campo de açáo do indivíduo-mônada glorificado pelo liberalir-o. S"d.,
como Feuerbach, insere-se ne tradiçáo iluminista e liberal: o extremismo de sua po-
siçáo, entretanto, potencializou o ideal do "individualismo possessivo', que em nosso
século possibilitou o advento do fascismo. Cf, José Paulo Netro, "Sade e a conrraface
do liberalismo", in Democracia e transição socialista (Belo Horizonre, Oficina de Livros,
1990). O mesmo arrigo foi publicado anteriormen;€ com o título de "Vigência de Sade"
na Reuista Noaos Ramos (op. cit., n" 2, 1986). .t
43 L. Feuerbach, A essêncìa do nistianismo, op. cit., p.73.
MAffX GONTRA HEGEL:
A GRíTICA DO ESTADO

Una uotvtENTo DEcISIVo Ne form açío do pensamento de Ìr{arx


é o ano de 1843, quando se defrontou com a Filosofa do Direito
de Hegel.
Afastado de suas atividades jornalísticas, após o fechamento
da Gazeta RenAnA, procurou dar continuidade à luta entáo travac{;r
contra o Estado prussiano. Para isso, lançou-se à leitura do texto
hegeliano, tarefa que realizou durante sua lua de mel na cidade
de Kreuznach. O resultado final desse estudo está no m:.ìnuscrito
inconcluso, só publicado em 1927, conhecido por diferentes títu-
los Crítica do Estado hegeliano, segundo a traduçáo francesa de
Kostas Papaioannou, ou Crítica da flosofa do Direito de Hegel,
numa sofrível e incompleta traduçáo portuguesa, ou ainda, como
preferiu Della Volpe, Crírica da flosofa hegeliana do direito pti-
blico.aa Os estudiosos de Marx também se referem ao texto como
é'

Manuscritos de Kreuznach.
Ao leitor contemporâneo pode parecer.rtr"rrÉo ter o combate
ao Estado prussiano levado o jovem jornalista a um confronto
com a filosofia hegeliana, talvez a maior aventura intelectual de
toda a história do pensamento. E Marx, de fato, lançou-se a unì
encarniçado combate com o texto de Hegel, reproduzindo suas
passagens mais significadvas e fazendo, €fl seguida, comentários

44 CC K. Marx, Critíque dt l'Etat hégël;en (Paris, Union Général d'Éditions, 1976); Críti*t
daftosofa do Diri;to de Heget (Líboa, Presença, s/d); Critica detkf tosofa hcgeltuu ,!i
dirino publiqo (Roma, Riuniri, 1983).
50 . 0JovluMÂRX CiLso Fntorntco
/

sarcásricos às ideias do grande filósofo. Quando se rem em conra recém-saído de uma


com a impetuosidade de um jovem polemista
o ambiente intelectual da época, que só conferia dignidade a um prussiano' Os Ma-
experiência jornalística de luta contra o Estado
assunro se tratado em sua dimensáo filosófica especulativa, o ca-
nt)scritos de Kreuznnchformam um momento único na história da
minho percorrido por Marx torna-se compreensír-el. imaturO enfrentou,
Êlosofia, momento em que um pensador ainda
Por outro lado, Marx considerava a Filosafa do Direito de Hegel no seu
num combare decisivo, a obra de um filósofo consagrado,
como a mais refinada expressáo teórica do Btado moderno e, ponan- náo se intimidou
rnomento de mais extremado conservadorismo. E
to, para o jovem publicista, criticar a obra equivalia a criticar a própria com
com a estatura de seu adversário. Ao contrário, encarou-o
realidade que lhe servia de referência. Como Ì\,Íarx, conrrariamenre por meio
irreverência, seguindo o desenrolar de sua argumentaçáo
a Hegel, desconhecia ainda a Economia Polídca, esrava desarmado uma refutaçáo
de citaçóes do i.*,o que se faziamacomPanhar de
Para uma refutaçáo profunda das análises de seu adversário. TâIvez indignada e ferina.
por isso, curiosamente, acabou aceitando boa parte delas, bem como
O nosso autor, entretanto, encontrava-se num momento de
a caracterização feita da sociedade civil (enrendida como a esfera das
redefiniçáo de ideias. A crítica a Hegel é claramente influenciada
atividades e dos interesses pessoais e corporatiros) e do Estado (r'isto pouco
por Feuerbach, apesar de, mergulhado como estivera até
como a sede das atividades e interesses humanos unir-ersais).
na luta jornalística, náo poder aceitar o viés contemPlativo
 relação contraditória de Marx para com esse auror só é com- "rr,.,
da antropologia humanisra feuerbachiana. Desde o começo,
preensível se situada no conrexto inrelectual e político marcado
procurou apossar-se dessa antroPologia inovadora, instrumenta-
pela disputa em torno do legado hegeliano.4s
iir"rrdo-a e forçando desdobramentos que iam além das intençóes
de Marx
e da prudência de seu formulador. A admir açâo inicial
DÂ CRÍTICA DA RELIGIÁo À cnÍucA DA PoLÍTICA po, Ë..rerbach foi seguida de uma certa decepçáo pelo aPego
Contra a Filosofa do Direito de Hegel, que lhe parecia uma táo quieta
excessivo que este manifestava pela natureza - semPre
armacão lógica mistificadora da vida social, Marx levantou-se
e tolerante - e a recusa em adentrar-se no camPo. tumultuado
e

de 1843,
belicoso da política. Numa carra a Ruge, de 13 de março
encontramos o seguinte comentário: "os aforismod ãe Feuerbach'
45 a
Cf. Âuguste Cornu, Carlos Ìv[arx - Federico Engek (Buenos Âires, Plarina Stilcogree
l96i); Franz Mehring, Karl fu[arx uida e obra (Lisboa, Presença/\íarrins Fontes, l9ii, natureza e
2); ìvfa-ximilien Rubel, Karl Ìvíarx. Essai fu biograohie intellectuelle (Paris, Marcel Rirìè-
meu ver, náo têm senáo um defeito: remetem demais à
como
re, l97l); David ÌvÍclellan, De Hegel a Marx (Barcelona, A. Redondo ed., 1972), e, do muito pouco à polídc a".46 E a política iâ era comPreendida
ou seja,
o meio ad.q,rrJo para rransformar a filosofia em verdade,
mesmo autor, Marx y tos jouens hegelianos (Barce lona, ì!{arrinez Roca, 1969); Solange
ìvfercier-Josa, Pour lire Hege! etLíarx (Paris, Éd. Sociales, 1980); Nicolai Lápine, O
jorem l'[arx (Lisboa, Ed. Caminho, 1983); Ìvíario Rossi, La génesis del materialisno pararealizâ-la. Marx, portanto, ao querer ir além do materialismo
€D
naturalista de Feuerbach inclinava-se' ainda sem muita clareza'
histórico (Madrid, Alberto Corazón, 1971, vol. II); ìlÍario Dal Pra, La dìalíctica ot
ÌvIarx (Barcelona, Martínez Roca, l97l); Giuseppe Bedeschi, rtrftrx (Lisboa, Ed. ?0,
da consciên-
1989); Émile Bottigelli, A gênese do socia!ísmo cicnttfco (Sáo Paulo, \íandacaru, t9E9); direçáo ao idealismo, oLrseja, na retomada do atiuismo
ìvf ichael Lõwy, La teoría de lz reaolución n el jot'en ÌVarx (NÍexico, Siglo XX[, i. ed.,
1978); José Paulo Netto, 'A propósito da crítica de 1843", in Bc-riazlEnsaia (Sao Paulo,
cia presenre na trad.içáo hegeliana. Sem saber, lançou-se na busca
Escrira, n" 1l-12, 1983); B. A. sìmpaio e c. FrËderico, "Marx, 184i", in Reuisa Ì\'otos
Rumos (Sáo Paulo. Novos Rumos, n" 2, 1986).
TMoo-mg[6 correspondance (Paris, Éd' Sociales, 1971 t' I' p' 289)'
bZ . 0JovtuMABX CeLso Fntotnrco
/

de uma síntese filosófica que só seria completada posteriorrnenre da


dominanre que lhe servia de apoio (a hegeliana), por meio
com a descoberta do conceito materialista de práxis. por ora, revolucio-
as reromada da própria filosoÊa de Hegel, reinterpretada
duas orientaçóes conflitantes apenas expressam uma embaraçosa
nariamente, de acordo com as conveniências do presente' Mas,
situaçáo de impasse.
contrariamente a alguns jovens-hegelianos (Cieszków'ski, por
A encruzilhada teórica em que Marx se encontrava explica essa
exemplo), Marx descarta a inclusáo do futuro nas Preocupaçóes
relaçáo ambígua com Feuerbach, presente també- ,r", relaçóes
programáticas. Essa postura, bem no estilo realista e antiutópico
com o próprio Hegel. Apesar de todo o esforço para desmistificar
ã. Heg.l, que rejeitava toda antecipa çâo e toda projeçáo subjetiva
a Filosofa do Direito, Marx náo só se enredou nas ideias de
seu da consciência, é dirigida contra um movimento nascente que
adversário como também deu conrinuidade à luta dos jovens-hege- "o
ele desconhecia e sobre o qual formulou a seguinte definiçáo:
lianos para desenvolver, com base em Hegel, uma filosofia racional
comunismo é uma abstraçáo dogmática".
capaz de interferir na realidade e, dessa forma, realizar-se.
O objetivo a ser Perseguido pela crítica dos reformadores so-
Os impasses teóricos de Marx transparecem numa carta escrita
ciais deveria ser "a existência teórica do homem", Presente nos dois
a Ruge em serembro de 1843, no exaro momenro em que redigia
assuntos que monopolizavam a atençáo de seus comPatriotas: a
os Manttscritos de Kreuznach. Nessa carta anuncia ao amigo a
religiáo e a política. O primeiro desses temas iâhaviasido esgotado
decisão de mudar-se para Paris, observando que "com o ar daqui
po, F.,r.rbach; restava, portanto, a crítica da política' entendida
ganha-se uma mentalidade de escravo". Náo era, como em Feuer-
como crítica do Estado político. As duas esferas de preocupaçáo
bach, a poluiçáo atmosferica que incomodava Marx, mas o fato
sáo assim aproximadas: "da mesma forma que a religião é o resumo
político de náo existir liberdade de expressáo em seu país (',tudo dos combates teóricos da humanidade, o Estado político é o resumo
é reprimido pela força").
de seus combates práticos".
O projeto de continuar lutando conrra o Esrado prussiano e a A ideia de passar à crítica da política - campo em que
informaçáo de que Ruge idealizara criar em paris uma revista com entretanto' como con-
Feuerbach náo ousara entrar - é entendida,
essa finalidade serviram de pretexro para o nosso auror expor as
tinuaçáo da reforma da consciência presente na crítída à religiáo
dúvidas que assalravam a todos os jovens-hegelianos, bem corno as
feita por aquele autor: i
certezas ainda imaturas formadas em seu espírito. Marx observa na em dar ao mundo a
A reForma d,a consciência consiste simplesmente
carra que ele e os demais jovens-hegelianos ainda náo tinham uma
consciência de si mesmo, em tirálo do sono em que ele sonha consigo
ideia clara sobre o futuro - e interprera isso de modo favorável: mesmo, em explicar-lhe seuspróprios atos, Tudo a que visamos náo pode
"náo nos anrecipamos sobre o mundo de amanhá pelo pensamento
ser outra coisa senáo reduzir, como Feuerbach já tinha feito com sua
dogmático", ao contrário, "nós náo queremos encontrar o mundo crítica da religiáo, as questóes religiosas e políticas à sua forma humana
novo senáo através da crítica do velho". consciente de si mesma.
A referência ao papel em si mesmo revolucionário da crítica Precisamos entáo tomar por lema: reforma da consciência, náo pelos dog-
filosófica aproximava Marx do ideárto dos jovens-hegelianos, mas, mas pela análise da consciência mitificada e obscura a ela mesma'
empenhados entáo em confrontar-se com o status qul ea filosofia
seja sob fornla religiosa ou política. Será mostrado entáo que o mundo
Ciiso FRtctrrco
0.-r',!r,t i\l.rrx
/

possui uma coisa desde há muiro rempo em sonho, mas que para possuí-la A CRÍTICA DO ESTADO HEGELIANO
realmenre falte-lhe apenas a consciência clar;r.rl Vimos, anteriormente, as diferenças dé estilo que seParavam
A "reforma da consciência", como esses dois autores: o texto aberto e aforismático de
Feuerbach con-
se pode acompanhar nessa
citacáo, reroma a mesma imagem feuerbachiana do sonho que trastando com a estrutura fechada, sistem âticae ternária de Hegel,
projeta algo de vital para o homem, bem como a necessidade de, centrada semPre no autodesenvolvimento de uma única ideia.
valendo-se do sonho, despertar a consciência e rer-elar a verdade Dizíamos, entáo, possuir esta última dois lados: ao mesmo tempo
projetada e rransfigurada, a'erdade que se exrraviou ao separar-se em que obscurece a compreensáo de certas Passagens, permite
do homem. Como Feuerbach, Marx náo quer impor nada de fora, ao leitor familiari zado com a obra de Hegel entender ao menos
nenhum dogma, agindo, digamos assim, como um psicanalista o sentido global do texto. Por isso, é semPre possível resumir, em
empenhado em acompanhar o autodesenvolvimento de um ser poucas palavras, o geral do autor, Presente em cada
Pensamento
mediante uma análise imanente para, dessa forma, "explicar-lhe parágrafo, que tudo subordina e conduz numa encadeaçáo lógica
os seus próprios aros", tornálo consciente de si mesmo. que se quer presidida pela necessidade.
Essa intençáo náo supera o projeto iluminista de esclarecer a Na Filosofa do Direito há uma Passagem, reproduzida inte-
consciência e, com isso, mudar o mundo. Aplicado a um objeto gralmente pela leitura atenta de Marx, na qual o próprio Hegel
criado pela própria consciência, como a religiáo em Feuerbach, tal parece se encarregar de condensar o significado que acompanha
procedimenro apenas dá sequência à luta enre a razão e a desrazão, e estrutura o livro:
o conhecimento e o preconceiro, a iluminaçáo da consciência e o O desenvolvimenro imanenre de uma ciência ê a deduçao (ou derivaçáo:
obscurantismo da superstiçáo. Marx, conrudo, elege como objeto Ableitung) do contetido inteiro dessa ciência aparrír do simples conceito,

a ser desmisrificado náo um produto da consciência, mas um ser e apresenta a particularidade de tratar-se semPre de um único e mes-
material: o Estado, que sempre se faz acompanhar de uma pesada mo conceito. No começo - e precisamente porque é o começo - esse

e formal burocracia e de um rruculento e ameacador aparelho re- conceito é abstrato e, se Permanece o mesmo [no curso do desenvol-

pressivo. A crítica da política lancou-o num terrirório destoante do vimento], é enriquecendo-se das determinaçóes produzidas Por'sua
própria atividade: é dessa maneira que ele se dá um conteú-do concreto.
onirismo que circunscrevia a inflexáo feuerbachiana. A quimera da
religiáo, responsável pelo exílio da essência humana no além, cede Aqui [na filosofia do direito] esse conceito é o da vontaile. Também

agora lugar ao Estado político, enrendido como projeçáo ilusória o elemento fundamental da personalidade apareceu inicialmente' no

de um ser material. Direito imediato, como uma Personalidade abstrata; depois ela se
desenvolveu através das diversas formas da subjetividade, e agora - no
Preso à dupla influência de Feuerbach e Hegel, Marx desen-
volve a sua crírica da polídca, romando como ponro de partida a Direito absoluto, no Estado que é a objetivaçáo plenamente concreta

concepçáo hegeliana de Estado. da vontade - apresenra-se como a personalidade do Estado e como sua

c€rtezd de si mesma.as

Id., ibid., pp.297 a 300.


{s K. Marx, Critique fu I'État hégelien, op. cit., pp' 98-99.
ïrI
0 ;ovrn M,rrr
Crrso FREoenrco

/
Hegel, baseando-se assim emum único conceiro (o de vonra_
de), mostra os seus desdobramenros e espírito comunitário. No momento seguinte, entretanto, essa tota-
chega ao Esrado, o resultado
final da caminhada. E, para grande irriraçao lidade natural se aliena, fazendo romper a harmonia pela irrupçáo
de Marx, fez de urx
indivíduo, o monarca, a encarnaçáo racional das vontades particulares. A sociedade civil é, pois, inicialmenre, o
lnico do conceiro momento da dilaceração causada pela explosáo dos conflitantes in-
qe vontade.
como se pode observar, a Filosofa do Direitonos reresses individuais. No instante seguinte, entretanto, insinua-se a
apresenra urn
universal, um conceito gerar, inicialmente universalidade por intermédio da formaçáo dos interesses comuns
abstrato, qu. ,"gu. o
seu curso lógico, desenvolvendo-se, esparifando-se que se cristalizam nas corporaçóes e nas classes sociais. Com isso,
..r, ,.r", parti_ o terreno fica preparado para a apariçáo do Estado político que *.
cularidades para, assim, rearizar-se paiciarmenre
em seus diversos *ã
membros (família, sociedade civil) e, finalmenre, reintegra, €ÍrÌ sua universalidade, os interesses até entáo díspares
,.i.r,.fr"r_r. e antagônicos da sociedade civil, em que a vontade geral se torna 3
no Estado na pessoa do mon arca, um indivíduo
,".iorr'"l qu. consciente e se reconhece na figura do monerca. O Estado, portan- {
fl
i{
conrém, ao mesmo rempo, todas as particularidades ïn
reveladas e a
consciência delas, sendo, porranro, a auroconsciência to, é o local onde predominam os interesses universais encarnados t
da rearidade em um indivíduo singular. $
social' a superaçáo/conservaçáo de todos Ë
*
os interesses parriculares nt

numa unidade racionar e consciente. A FitosoJÇa O eixo da crítica de Marx pode ser assim resumido: Hegel â
ít
do bireitoé as_
sim a realização de um sirogismo no quar apresenta, errÌ sua Filosofa do Direito, a separaçáo entre a socie- H
]t
tt
o movimenro ternário d

completa-se harmoniosamenre: parte de dade civil e o Estado, mas, astuciosamente, procura passar a ideia #
ii
um universal que cede ,l
lugar a um particular para se atingir o singular. de que as duas esferas, em essência, estáo integradas. Como essa .ï
Afirmaçáo, nega_ s
pretensa integração é conseguida por um artifïcio lógico, Marx in- rt
;t
çáo, negaçáo da negação. :l
veste contra a própria dialética hegeliana, responsabilizando-a pela J
ii:J
Âqui, como nas demais obras de Heger, esramos
sempre diante t
de um movimento rernário. Na ciência da í mistificaçáo. Todo o desenrolar da argumentaçáo é visto, portanto,
lógica,por exemplo, ele
nos apresenra a doutrina do ser, a doutrina como uma derivaçáo, "um parêntese em relaçáo à lógica".
da essência e a dàutrina
do conceito. Na Encicbpédia d1 cihcias Já nesse primeiro momento sente-se a influência da 4rquitetura
fbsófcas, remos lJgi.", da crítica feuerbachiana a Hegel com base na denúncia do logicis-
filosofia da natureza e a filosofia do .rp,,iro.'A
Fibsofa
"
do õirrito,
"
mo abstrato de uma filosofia teológica que, virando aS costas para
Por sua vez, compreende: o direito abstrato, a moralidade,
a ética. O
conceito de vontade, que perpassa toda a o ser real, faz do pensamento (a Ideia) o criador da realidade. Da
obra, realiza-se finalmente na
ética por meio dos três momenros da vida mesma forma Marx critica Hegel, observando que na Filosofa do
sociar: a famíia,a sociedade
. o Estado político. Evidentemenre, Marx irá
Direito o ser real (a realidade empírica, os seres particulares) está
:M protesrar conrra esse
alienado, pois a sua razão de ser foi posta fora dele. É ro-.nte o
logicismo abstrato que roma a famíria e
a sociedade civil como dois
momenros de um silogismo lógico cuja conclusáo momento final (o Estado) que enfim revela o sentido verdadeiro
é o Btado.
De fato, a família surge para Hegel como a dos momentos,iniciais (família e sociedade civil). Vimos, páginas
figura inicial, a ma-
nifestaçáo ainda indeterminada atrás, segundo um comentário de Kostas Papaioannou, que Marx
. ,r",.rr"lfda vidã de um povo, do
aqui faz uma corlfusáo, talvez intencional, ao idendficar a Ideia - a
0 ,loveu MnRx

/
justificar o
A Lógica náo serve Para
qual se manifesra em suas esferas finitas e se reconhece plenamenre
serve Para justificar a lógica'ae
no Estado - com o próprio Estado. Este, em verdade, é apenas
NeoéseufdeHegellPensamentoquesèdesenvolveapartirdoobjeto;
o momento final e náo o obscuro princípio a movimenrar toda a que existe todo
a partir de um Pensamento
é o objeto que se desenvolve
realidade social.
ProntoeacabadonelemesmonaesferaabstratadaLógica,5o
Identificando Ideia e Estado, Marx acusa Hegel náo só de
Preocupadoemlivrar.sedesselogicismoP"Tpoderreteravbrdade
hege-
praticar um logicismo mistificador, como também de resvalar o Estado
particulares que haviam riio
,'*"'feridos Para
,dos seres
para um finalismo: o Estador QLr.e tudo conduz, serve-se dos seres propóe uma
da filosofia feuerbachiana,
liano, Marx, bem ,,o .,pí,ito
verdade empirista), .:-o o
particulares para se d.esenvolver e poder reconhecer-se em seu mo- caminho certo
ontologia materiali,." 1,,"
mento de efetivaçáo. Com isso, os seres particulares permanecem ao abstrato automediador
paÍaescapar às armadilhas f.rrr"ïento
esvaziados, alienados, e só ganham sentido enquanto degraus de
ao fazetpassar fu frente arealïzaçáo do significado
que tudo esvazia
acesso ao Estado. Família e sociedade civil surgem assim como
"pressupostos do Estado", como um "obscuro fundo natural onde
dosseresparticulares'Mas'aoProporcomocaminhodepesquisaa
para quem a
"úgr." da coisa", de Feuerbach
descoberta da "f"rt"-r.descortina à experiência ime-
se acende a luz do Estado". que se
verdade é sinônià de revelaçáo
Marx invesre, pois, contra o logicismo abstrato e, consequen-
diata. O caráter mediado
d",r.rdà e- aser descoberta no autodesen-
temente, conrra o esvaziamenro dos seres particulares (família e novo reaproxima Marx de Hegel e anuncia
volvimento da "coisd' - de abstrato do
sociedade civil), que só conseguem atingir sua verdade quando
disposiçáo de estender di"letita do camPo
a posterior "
integrados na universalidade do Estado. Assim, a sociedade civil social'
p.rrr"-.rrto lógico Para o coraçáo da matéria
não tem realidade ou personalidade próprias: ela é apenas um
Naquelemomento'contudo'p"dominavaainfluênciafeuer-que He-
momento do Estado. O Estado, porranro, é uma totalidade na Marx insiste em argumentar
bachiana, com base na qual radicados
qual os momenros do conceito atingem a realidade. os interesses Particulares
gel descreve a separaçao_entre rePresentados
Esse logicismo é acusado de embaralhar as relaçóes reais universais pretensamente
na sociedade civil e os fins da lógi-
existentes na vida social, condenando-a a tornar-se uma mera mas, utilizando-se do arìifício automediaclor
pelo Estado, r'
exemplifi caçáo de algo determinado fora dela, conceirualmenre, entre as duas esferas' '
ca, força uma integraçáo '
fabricar essa
na Santa Casa da Lógica. As categorias do pensamento, em vez o
somente -oiirrrro da lógica dialética permitiú
de reproduzirem o mundo real, acabam por constituí-lo, ao serem da-sociedade
ã concilia os interesses
visáo harmoniosa que unifica nâo ê a
transformadas no sujeito que tudo movimenta. Estamos, pois, na como veremos a seguir'
civil com o Estado político. Este,
presença de "um capítulo da Ciência da Lógica": mas um universal alie-
finalidade racional dos seres particulares,
Náo é a filosoÊa do Direito mas a Ciência da Lógica que consritui o
nado que a eles se opóe' u*
t"tt separado e hostil'
verdadeiro interesse. O trabalho filosó6co náo consiste em mosrrar que o
pensamento se encarna nas determinaçóes políticas, mas que as determi-
naçóes políticas existentes se volatilizam em pensamenros abstratos. Náo
49
H, ibid., p.79-
i0 Id., ibid-, P.73'
é aligicada coisa, é a coisa da Lógica q,rfcor,rtitui o elemento filosófico.
Catso FReoegtco

60 . 0Jov€MMARX
/ fi
íi
::

Idade Média, a formaçáo da \.ï


A integraçáo pretendida por Hegel só pode nascer como re- rornavam-se seres universais. Na
sulrado de um pensamento alienado que inverte as relações reais propriedade tornou a esfera privada uma esfera eminentemente
isso, o público e o privado alcançaram
um novo
ao transformar o ser (a família e a sociedade civil) em predicado (a potii.". com
Francesa se consagra
ideia de Estado) e o predicado em set em sujeito de todo o pro- ,ipo d. integraçáo. Somente após a Revoluçáo
a separaçáo enrre as esferas. A
atividade econômica emancipa-se
cesso. Ou, nas palavras de Marx:
autônoma' Agora' os
(...) o Estado político náo pode existir sem a base natural da família e sem entáo da r.g.rlamenraçáo estatal e torna-se
privados de
a base artiÊcial da sociedade civil; eles sáo para ele uma condition sine qua indivíduos podem perseguir livremente os seus fins
universal' Nesse contexto'
n1n, masem Hegel a condiçáo se transforma em seu contrário, o elemento costas para a comunidade e o interesse
a fratura entre o privado
determinante é posto como o elemento determinado e o elemento produ- observa Marx, configura-se plenamente
os meios e os fins, a sociedade
tor aparece como o produto de seu produto.tr e o público, a ..onoÃi a e apolí.i.",

Sem muito esforço, percebe-se aqui o eco da teoria feuerba- civil e o Estado.
Kreuznach insistem
chiana da alienaçáo, transposta da esfera onírica da religiáo para Todos os momentos dos Manuscritos de
entre a sociedade
o campo turbulento da vida social. Deus, a criaçáo fantástica na separaçáo - entendida como antagonismo -
e por ele disfarçada por
do sonho humano, surgia na religião como se fosse o criador do civil e o Estad.o, vislumbrada por Hegel,
meio de argumenros lógicos vazios de
conteúdo. O mesmo tema
homem. Feuerbach, como vimos, Procurou mostrar que Deus é a
reaparece num ourro texto de 1843,
A questao judaica' em que
essência humana alienada. O Estado moderno, produto dos seres do próprio indi-
particulares (família e sociedade civil), surge na teoria hegeliana Marx enfoca os efeitos da sepa raçâo no interior
(a vida econômica) e a esfera
como o criador asrucioso que dá vida aos seres particulares e deles r,íduo, dividido enrre a esfera privada

se vale para realizar a sua universalidade. Marx, apoiando-se em pública (sua inse rçâo na política)'
o abismo que ele
Feuerbach, interpreta o Estado hegeliano como a essência alienada
Hegel é assim criticaão por tentar disfarçar
do Estado com a sociedade
da sociedade civil. próprio descreveu ao rratar das relaçóes
de mediaçoes.entre
Mas a alienaçáo do Estado, seu desgarramento da sociedade civil. Esse d.isfarce consistiu na interposiçáo
o unryçrsal com o
civil, é vista como fruto de um Processo histórico. Recorrendo as duas esferas para conciliar, abstratamente'
;

ao próprio Hegel, Marx aceita a descriçáo que este faz do mundo particular.
^ - , um
N" Filosofa d.o Direitooselementos mediadores realizam
greco-romano como marcado pela indiferenciaçáo entre o social civil' a guerra
e o político. Excluindo os escravos e as mulheres, os demais indi-
movimento de máo dupla. A partir da sociedade
consciência de interesses
de todos conrra todos é subsdtuída pela
víduos, os cidadãos livres, Participavam diretamente da vida polí-
particulares comuns. Nesse contexto formam-se as corPoraçóes'
tica, náo havendo, Portanto, nada a seParar a vida privada da vida a missáo de introduzir
comunid.ades, municipalidades etc.' com
pública. O interesse universal - a res publica - era a preocupaçáo antes estava disperso'
natural de todos os indivíduos livres que, em assim procedendo, um princípio de universalidade no que
modo, a inserçáo dos
j atomizado e em conflito, preparando, ã.rr.
'f'
interesses parliculares l.ro ini.rior da
universalidade do Estado'
t' Ià, lblrl, pÁL
CtLso Fnrotntco
62 . 0LoveuMrRx

e da u.niversalidade empírica' do sujeito


Do outro lado, o próprio Estado forma o seu aParato' incluindo civil, da individualidade empírica
o "silogismo" enquanto "meio
as assembleias, câmaras, o poder executivo, ministerial, governa- e do predicado. Em suma, Hegel, considera
Pod,e-se dizer que é na sua
teoria
tivo, o aparelho'jurídico e Policial etc., em suma, o vasto corPo termo,,, como um mixtum compositttm.
o carácer transcendente e o
de funcionários encarregados de integrar no universal as esferas do silogismo que aparece à Ìuz do dia todo
de seu sistema. o meio termo é um
ferro-de-madeira' a
particulares e de ser, concomitantemente' um momento de par- dualismo místico
e a individualidade't2
ticularidade. oposiçáo mascarada enrre a universalidade
de dualismo iusta-
Marx, evidentemente, náo se convenceu com essa harmonia geral Náo deixa de ser estranha essa impuraçáo
da doutrina do silogismo'
construída pela diluiçáo do particular no universal e eÍLxergou con- menre a Hegel, feita com base na crítica
reunir as categorias da
flito e antagonismo onde Hegel Pretendia ver integraçáo. A refutação Desde Aristóteles, o silogismo servia Para
marxiana expressa-se de três modos convergentes: por meio da crítica uniuersalidade (congr.g".rdo todos
or.".*plares de uma espécie)'
i nd ivid.t"l) . da p ar
t i cu I ar i d a d e
à lógica hegeliana, eue habilmente procurava conciliar o inconciliá- da s ingu I ar i d. a d. e Go"rrr.rrrp la ndo o
as singula-
vel pelo artifïcio da interposiçáo de mediaçóes; pelos comentários elo naturalmente mediador entre
1q,r. Jp"., ha alguns..o
o recurso por excelência
sarcásticos sobre a burocracia, a Passagem mais conhecida e citada ridades atomizadas e o universal genérico,
dos Manuscritos de Kreuznach; e, finalmente, na discussáo sobre a para a suPeraçáo do dualismo)'
presença dos proprietários fundiários na CâmaraAlta, momento em ComHegeladoutrinadosilogismotornou.seaprópria
alterar suces-
que Marx se defronta com o embaraçoso tema da propriedade privada expressáodo movimento ternário ininterruPto a
sivamente a posiçáo aparentemente
rígida dos termos' Aquele
e suas relaçóes com o Estado. Veremos, em seguida, o modo como se
condenado a permanecer
desenvolvem esses três momentos da crítica. que, num" r.ì"çáo determinada parece
o singular' E assim
como o universal pode ,orrr"r-r. em seguida
A CRÍTICA DAS MEDIAçÓES sucessivamente.
..Dois precisamen-
É sobretudo no comentário do parágrafo 304 da Filosofa do extremos reais náo podem ser mediatizados
afirma Marx, ao mes-
Direito que ocorre a investida contra o conceito de mediaçáo, re porque eles sáo exrremos reais",53 1tSe"{9
a integraçáo
chave de toda a dialética hegeliana. *à ,.-po toda a doutrina do silogismo e, tambénì; parâgrafo
desua crítïéaao
Hegel, nessa passagem, Procurou mostrar que entre os dois social proposra por Hegel. Na r.q,rã.r.ia
poderia objetar suas ideias,
lem-
extremos da vida social, a saber, o monarca (a individualidade em- 304,Marx obri.,r" q.r-. "lg.rém
attaçío entre o Polo Norte
pírica) e a sociedade civil (a universalidade empírica), interpóem- brando o encontro dos ."rr.nìo, ou a
Mas
e o Polo sul, bem como entre
os sexos masculino e feminino'
se, como no silogismo lógico, instâncias mediadoras (no caso' as
essas oposiçóes, afirma Marx, Por
ocorrerem no interior de uma
assembleias legislativas e o poder governativo). Desqualificando a
de uma mesma entidade' sáo'
mediaçáo como princípio lógico e também as instâncias políticas mesma natureza, de um *t'*o ser'
que a realizartam, Marx faz a seguinte observaçáo:
O poder legislativo, o meio termo' é um rSixtum compositum'uma mistura 5z Id., ibid., p.2\6'
dos dois exrremos, do extremo do poder real e do extremo da sociedade t3 Id., ibid., P.ú4'
64 . 0Jovli,tMARX CtLso Fntotnrco ' 65

enquanro oposiçóes, falsas e abstratas. Elas seriam, como na lógica rrês comparaÇóes satíricas,
sendo a segunda- delas a única referência
Kreuznach:
de Hegel, apenas momentos de uma totalidade orgânica e, corno literária presenre nos Manuscritos de
médico que queria
momenros, passíveis de superaçáo somenre por força de um pro- Éahisrória do marid.o e da mulher que discurem e do
seguida, a mulher que interpor-
cesso que esvazia e abstrai os seres de suas dererminaçóes próprias. fazer-se de rnediador enrre eles, tendo, em
entre sua
A verdadeira contradiçáo, segundo afirma Marx, deve trabalhar se enrreo médico e o seu marido, e o marido, de interpor-se
com extremos reais: "os uerda,deiros extremos reais seriam o polo de uma noite de ueráo'
mulher e o médico. É .or.ro o 1eáo que, no Sonho
eu sOu Snug"' DO meSmo
e o náo polo, o sexo humano e o sexo não humano".54 exclama: "eU Sou Um leáO e eu náO s.u um leáO,
o snug da me-
um ser real náo pode se auromediar, pois isso, como pregava modo, cada exrremo é aqui tanto o leáo da oposiçáo como
Feuerbach, implica sua abstraçáo e alienaçâo. Seguindo esse ra- 'agora eu sou meio termo"'
diaçáo. Quando um dos extremos exclama:
ciocínio, Marx suprime a mediaçáo, enrijece a noçáo de ser, só têm aPenas o direito de
os ourros dois náo devem rocar nele, mas eles
anterior' como se vê'
admitindo oposiçáo entre seres de diferentes espécies. A verdadeira lutar com aquele que era um extremo no momento
oposiçáo deveria fundar-se na indiferente desigualdade ontológica: é uma sociedade cujo coraçáo é batalhador,
mas que tem muito medo de
se dispóem de tal
por isso, poderíamos argumenrat seguindo essa lógica dualisra, arranhóes para se bater realmente. Os dois ad,versários
um dos dois reapa-
que o contrário do operário náo é o burguês, mas um ourro ser modo que o terceiro a intervir recebe os golpes; depois,
náo chegam a nenhuma
qualquer de natureza diversa (os crustáceos, os pássaros, o Oceano rece como rerceiro, mas com um arranjo tal que
um homem que queria
Atlântico etc.). decisáo. Esse sistema de mediaçáo lembra ainda
A irredutibilidade, a rigid ez, o carâter fixo dos seres posru- adversário, mas precisava ao mesmo temPo
protegê-lo contra
bater em seu
lados por Marx, formam um vivo conrrasre com a flexibilidade, os golpes de outros adversários e, assim,
com essa dupla PreocuPaçáo' náo

a plasticidade e o dinamismo presenres na dialética hegeliana. chega a realizar seu intento'55


como far-
Esse contraste reflete-se diretamente na interpret açáo que ambos N.ga.rdo, Portanto, o silogismo e vendo a mediaçáo
'fazem a respeito dos exrremos. Em Hegel, o autodesenvolvimento
sa, como intervençáo indevidi como
um desajeita do apaziguador'
do conceito astuciosamente póe o rermo médio para permitir a ,.deixa-d.isso" trapalháo, Marx entende que o extrémg real só
um
ser' a essÇnbia diversa,
passagem, o cumprimento da trajetória, a supe raçã,o do limite pode ser, como vimos páginas atrás, o outro
apenas à setts distin-
de um ser determinado. A mediaçáo propóe-se como exrremo, o inteiramente outro. A oposiçáo diz respeito
assim, narlfraga no
o extremo manifesta-se como mediaçáo. Os termos sofrem uma tos e, como tal, náo pod. Ser suPerada. Marx,
Este, Permanecendo na
metamorfose, permitindo o movimenro superador. dualismo que prererrã.r, aribuir a Hegel.
se automediar
Em Marx, ao contrário, soa como absurdo lógico a existência perspecti'r rrràrrirta, trabalha com um ser ca.azde
ao náo ser' que se
de extremos chamados a desempenhar, alternadamente, o papel de e, assim, superar o seu limite. Um ser idêntico
nega, supera-se, segue em frente. o
extremo e o de termo mediador. A ironia de nosso autor contra essa jovem contestador, seguindo
lógico, uma
duplicidade leva- o a fazer, valendo-se do recurso da teatralizaçâo, o, i*ro, F'euerbach, vê o náo ser como um absurdo
de
,
t
't,

t4 Id., ibid., p.225. ffi-zz+.


ôô CrLso FneorRtco
t lor lrr MrRx

hege-
diluiçáo, um desvanecimenro, uma conrradiçáo fabricada espiritual da sociedade. Cabe a ela, segundo a terminologia
pelo "materialis-
inrelecro. o náo ser é mistifica
ção, é ferro-de-madeira: um objero lirna, defender o "espiritualismo" do Estãdo contra o
híbrido que não é uma coisa nem outra, um mixtum compositum, rno" existente no interior da sociedade civil'
uma consrruçáo falsa, estapafúrdia e sem qualidades
própri"r, qu. o segmento burocrático é também o que aPresenta as melhores
e' assim'
náo possui mais a dureza e o peso do metar, e nem
Fr"!itia"d.. condiçóes Para emancipar-se dos interesses particularistas
" Estado, vale
aleveza do material que habitava na árvore. poder d.di."r-r. pl.rr"rrrenre ao "espiritualismo" do
o dualismo do Marx de rg43 será superado, como veremos viável por-
dizer,à execuçáo àos seus fins universais. Isso se torna
destinada
posteriormenre, em suas obras maduras.
Já em 1844, o rermo que a burocracia é um ser particular, uma corPoraçáo,
e pôr-se
médio fará sua aparição revolucio nâriapor intermédio
do conceiro a superar os seus próprios interesses grupais mesquinhos
as funçóes
ainda mal desenvolvido de práxis, efetivando-se materialrnenre integralmenre a s.r,rço do interesse universal. Como
de
pelos instrumenros de trabalho interposros entre o
homem e a administrativas sáo de natureza objetiva, elas náo dependem
é no-
natureza. A práxis ou a "atividade empírica" seriam
t pãÍausarmos algum dom natural ou do acaso do nascimento: o indivíduo
testados pelo
os rermos de 1943, urrì ferro_de_madeira: um
mixtum compositum -."do tendo como critério o saber e a competência,
a proteçáo do
destinado a fundir ideia e matéria, ser e ação,projeto
subjeti'o exame de admissáo e pelos concursos. O salário e
e
pessoais
realidade objetiva. Estado têm como conrrapartida o sacrifício dos interesses
de
Rejeirando a medi açao como impostura lógica, Marx
encarre_ e egoístas, dos fins subjetivos neutralizados pelo desempenho
é o cumpri-
gou-se de desmascarála todas as vezes em que ela era
evocada para .r.n"" funçáo objetiva, cuja única satisfaçáo possível
franquear as barreiras que separavam o Estado da mento do dever.
sociedade civil.
E como em Hegel tudo é mediado, não falrou oporrunidade Recrutada pelo Estado, a burocr acía é controlada de
cima pela
para duplo
se fazer a denúncia da engrenagem lógica d.estinada
a esrrururar hierarqui, e, d. baixo, pelas corporações e comunas. Esse
controle impede o abuso do poder Por parte dos funcionários'
a
osmúltiplos elos a ligarem os interesses parriculares presentes
no o ar-
inrerior da sociedade civil com a universalidade impuìada
à esfera mistura enrre o poder que lhes foi confiado pelo Es3ado .e
de
esraral. A passagem mais conhecida e citada é aqu.l" que trata da bítrio pessoal. Além disso, a isençáo da burocracia' 5eu'papel
burocracia. mediadora enrre o poder do Estado e a sociedade, de
encontro do
composiçáo
Na Filosofa do Direito, Heger interpreta a burocracia como interesse particular com o universal, advém de sua
da classe mé-
uma mediaçáo, uma das diversas ponres que interligam
o poder social: o f"to de ela ser constituída da parte principal
o sentido
do Estado à sociedade civil. situada numa posiçáo
esiratégi ,^, rI^ dia, setor no qual se encontra a consciência do Direito,
a cultura o
configura-se como um seror particula, d.niro do
Estado,".o-o o do Estado, a inteligência e a cultur*. É principalmente
uma
Estado materializando-se em forma de corporação.
A buroc racia, fator que, segundo Hegel, impede a burocracia de tornar-se
assim, apresenta-se como formalismo do Estado,
como expressão nova aristocracia entregue à dominaçáo arbitrârïa.
da essência, do conteúdo estatal. E cqmo o Estado
é o espírito Os comeptários de Marx sobre a burocracia nos Manuscritos
idealizado da sociedade, a burocracia Ë*pr.rr" a própria d.e Kreuznori rrrpresentam um dos Poucos momentos em que ele
essência
68 0 lovru MnRx

CrLso Fnrotnrco

discutiu o rema. Mais tarde voltou


ao a$
vemente, elrÌ uma ou outr é apenas mais uma corporaçío: é, portanto, "a sociedade civil do
burocracia(cerebrizad,ar":,:;**:ï"*ï*:ïilftrr Estado", é o Estado querendo transformar-se em sociedade civil.
pela inrensa discussáo travada Iv{as enquanto corporaçáo ela também é o "Esrado da sociedade
em ,orrro do conceiio leninisra
partido e pela experiência do "socialismo de civil", a sociedade civil que aspira a rransformar-se em,Estado.
real,,), À{arx dedicou
pouco espaço a era, possivermenre Nos dois casos ela é um ser particular, uma corporaçáo em relaçáo
porque náo desenvorveu
teoria positiva sobre o Estado. por urna de hostilidade com as demais corporaçóes, nada mediando, pois
irro, as táo citadas passagens
sobre a burocracia só sáo compreensíveis é expressáo disfarçada dos antagonismos enrre sociedade civil e
no inrerior da perspecriva
reórica de rg43, rogo posra Estado.
d. I"do pelo nosso auror.
Nessa primeira incursáo Nessa relaçáo dualista e antagônica, o poder universal do
Estado transforma-se num negócio particular do soberano e de
ci a, em H.g.r, é u m
a *.0,;Ë;'ïi".if.ïïï:,::ï.ï ffi ; seus servidores "separados do povo", os burocratas. Marx, assim,
I

para encobrir a separaçáo entre .{


Estado e sociedade civir, itl

inreresse universar e o interesse enrre o contesta a posiçáo de Hegel sobre os funcionários como pessoas ï
particurar. Mas a utilizaçáo :i
recurso apenas atesrava o abismo desse encarregadas da defesa do "espiritualismo do Estado" conrra o d
ì
separando o conceiro hegeriano çJ

de Estado (momenro superior "materialismo da sociedade civil", como os articuladores da uni-


da rrid" sociar) e a sua existência
(expressáo da alienaçáo real dade da vida social.
da vida social). Em tal conrexro,
cracia nada pode mediar: ela, a buro_ Essa antítese espiritualismo-materialismo, resolvida no texro
ao contrário, é uma resultante
alienação política, é a expressão da hegeliano pela ação mediadora dos burocratas, é exasperada ao
clara da a_lienação da'ida
é mais uma prova de que púbrica, máximo na crítica marxiana. Para se explicar melhor o que aqui
enrre a sociedade civir e o
Estado existe está em jogo faz-se necessário decifrar o significado dessas obscuras
um abismo inrransponível.
segundo Marx, Heger náo apresenrou expressóes empregadas por Hegel. Segundo o arguro esclarecimen-
nenhum conteúcropró_
prio à burocracia ao descrevê-|"..-., rrrnc to de Kostas Papaioannou,56 a antítese espiritualismo-materialismo
^,- ï
format(como"o'rormaris-o'11o,ïïi:i:ï:,'.ï:::ilïï,ïï teria dois significados: :,
ii
't
em primeiro lugar, Ìi
Assim fazendo, admitia impricitamenre
que a burocracia é um ser
- ela realiza, na teoria hegelianado Estado, li
uma outra antinomia clássica da filosofia: aquela qud contrapóe o ii
inessencial, oco, uma mera i
forma de um conteúdo que rhe ;Ël
t:i

rior' Na trilha de Feuerbach, é exte_ uniuersal ao particular. Enquanto o universal (no caso, o Estado)
Marx reromou a teoria da arienaçáo ,l{
para classificar a burocracia é o reino da unidade, o particular (a sociedade civil) é o campo rtl
como um ser arienado, desgarrado
sua essên cia, vazio. O ser de conflitivo da dispersáo e da atomizaçáo.A centralizaç-ao burocrá- :$Í
real, verdadeiro, seria a sociedade
que projerou sua própria essência civil tica desponta aí como a guardiã do interesse geral ameaçado pelos fl
no Estado, separando_se lii
dela. jffl
o papel de mediaçáo atribuído por Heger particularismos alojados nas corporaçóes da sociedade civil;
à burocracia seria,
no fundo, urrÌ arriÍïcio-rógico
para renrar juntar o que, na
de, enconrra-se separado. Errqu"rrto rearida-
parte/o Estadà, a burocracia Í(' Cf. K. Papaioaqnou, "Hegel et Marx: I'interminable débar", ia K. Marx, Critique de
!'Etat hëgélien, op.. cít., pp.36-37.
I
70 . 0JovEMMARX CrLsc FneoEntco

//

-em segundo lugar, o par espiritualismo-materialismo expres- ao espírito cívico 9ue, no final das conta:s'
elcontra-se Presente'
sa também a oposiçáo filosófica entre a consciência (o saber, o co- civil:
atuante e vivo, apenas no interior da sociedade
nhecimento) e a inconsciência. O "materialismo" representaria aqui o segredo, o mistério, guardado no
interior
o espírito geral da burocracia é.

a inconsciência, a ignorância, o náo saber presente na sociedade da burocracia pela hierarquia, e no exterior da
burocracia pelo seu caráter
civil. Já o "espiritualismo", defendido pela burocracia, é composto do espírito político'
de corporaçáo fechada. Toda manifestaçáo púbtica
por uma "hierarquia do saber" convocada a arbitrar a vida social isro é, do espírico cívico, aParece à burocracia
como traição ao seu misté-
por decisáo do soberano. culto da autoridade é sua
rio. A autoridadeé o princípio de seu saber, e o
Marx retoma os dois momentos da antítese hegeliana para maneira de pensar. Mas no seio da burocracia
o espirintalisrno toÍn^-se
mostrar gr€, contrariamente às intençóes do autor, na vida real passiva' da' fé
vm nutterialìsmo grosseiro: é o materialismo da obediência
os termos mudam de posiçáo adquirindo um significado oposto rotineira das práticas
na auroridade, o materialism o mecânico da repetiçáo
ao pretendido. Na primeira acepçáo da antinomia, por exemplo, formais, dos princípios, das concepçóes e tradiçóes congeladas.'7
o "espiritualismo" (a universalidade) pretensamente defendido mostrando que
Desqualificando as prerensóes da burocracia,
pelos burocratas, os funcionários do universal, degrada-se num apôr panos quen-
ela náo Ja mediaçáo conciliadora predestinada
reles "materialismo": a burocracia na vida real representa-se a si res na vida social dividida e contenciosa,
Marx enfaúzao seu car*
mesma, ela é uma corporaçáo como as outras, QU€ se protege, civil' Desse modo'
ter de instrumento dirigido contra a sociedade
indisfarçâvel expressão
defende os seus privilégios e transforma os seus próprios fins em busca firmar a rese da burocracia como uma
fins do Estado. ÌvÍergulhada de corpo e alma no particularismo, da alienaçao, noduplo sentido de ser ela
um artifício caPenga com
Estado e a sociedade
na luta pela autossobrevivência, a burocracia comporta-se como pr.t.rrró.s a dissimular a separaçáo entre o
um poder à parte em nada parecido com a pretensa "classe qual tudo é prescrito
civil, e também por constituir-se num ser ao
universal". Por outro lado, passando paraa segundaacepçâo da de fora, um ser i.rprouido de conteúdo,
de finalidade própria, um
antinomia, o "espiritualismo" visto como saber e consciência é ser, em suma' que está irremediavelmente
alienado' i

uma impostura. O verdadeiro saber pressupóe liberdade de jul- ,.os burocraras sáo os jesuítas e os teólogos do Estado", diz
sua mis-
gamento e abertura perante o novo. Náo há portanto nenhum Marx insurgindo-se contra o "jesuitismo" daquele$;em
conhecimento digno do nome no cumprimento rotineiro das sáo de manipular a sociedade civil. O
antídoto à manipulaçáo é a
normas, no formalismo vazio, na rotina mecânica e na obediên- democracia que suprimirá a dominaçáo
despótica da monarquia e
cia passiva. A atividade burocrática é, privada de iniciativa, ela é o desnecessário burocrático composto por servidores sem
"p"r"ro
passividade, é inércia, é tudo aquilo próximo do "materialismo" alma, por autômatos travestidos de mediadores'
elementos
a que ela pretende se opor. Além disso, toda a ação da buroc racia um outro momento da contestaçáo de Marx aos
destina-se diretamente a manter a sociedade civil num estado de mediador., .rrtrã o Estado e a sociedade civil está na Passagem
fundiários
ignorância e passividade. em que Hegbl refere-se à presença dos proprietários
Na realidade, portanto, observa Marxyos termos da antinomia t.

hegeliana trocam de lugar e a buro.r"ã" revela-se um entrave i- K. Ìríarx' Cr;íqu, de I'Etat hégëlien' op' cít'' p'
143'
__.{
-fI I
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Cuso tntotntco
'1.

72 . 0JovEMMABX

MarxcriticaHegelPorsuadeferênciaparacomosproprie.
na Câmara Alta. Segundo o velho Êlósofo, os proprierários, acesso da sociedade
rurais . obr.i,na, com ironia, què o
à
semelhança dos burocratas, exerciam uma função eminentemenre
tários uma
acaso do nascimento' Por
política, pois eram predestinados a defender os interesses universais civil ao Estado faz-se, pois, pelo
com a qual se pretende corpprovar
do Estado contra os diversos particularismos presentes na socieda- determin açaonatural aleatória, com a
a racionalidade do Estado
e a sua harmoniosa articulaçáo
de civil. O traço distintivo dessa aristocracia fundiária, segundo de agentes mediadores'
sociedade civil garantida pela Presença
Hegel, provinha da instituiçáo do morgadio. Diz ele: Marx foi obrigado a
No andamenro de sua crítica, porém,
(...) a atitude dessa classe ao tomar essa posiçáo e essa importância política
informaçóes teóricas que entáo
enfrentar, manejando as Poucas
provém do fato de que sua fortuna é independente da fortuna pública, da econômico que náo o abando-
possuía, um tema t"tttti*lmente
insegurança da indústria, da sua cupidez, da variabilidade da propriedade sobre a propriedade' feita
naria jamais: a propried.ad.e. A,reflexáo
em geral. Do mesmo modo, ela é independente tanto do favor do governo
escritos recentes de Moses Hess'
sob a influêncà imediata dos
quanto da multidáo; ela é também protegida contra o livre-arbítrio dos
reve um efeito perturbador
na própria argumentaçâo de Marx'
indivíduos (que a compóem) porque os membros dessa classe que são do Estaáo enquanto uma alie-
Empenhado em comprov", " ,.r.
chamados a essa funçáo política sáo despojados do direito que possuem
naçáo da sociedade civil, como
uma esfera autônoma' "celestial"'
o
os outros cidadáos de dispor livremente de toda a sua propriedade e de a
pairando acima de todos e de
tudo, Marx acabou por perder
dividir segundo a igualdade do amor filial. Assim, a fortuna rorna-se um
Êodesuaargumentaçáo,confundindo-seecontradizendo-se'
bem hereditário inalienríuel, onerado pelo morgadio.ss que Per-
quando contrariando toda â argumentaçáo
A instituiçáo do morgadio, pois, ao reservar para o primogêni- "firÃo*, o morgadio "exprime a dominaçâo
passa o texto de 1843, Qü€
to, e somente para ele, a propriedade da terra, enquanto o impede
da propriedade privada abstrata
*br. o Estado político"'te o
de dispor livremente dela (já que a terra passará obrigatoriamente
Estado,assim'deixaabruptamentedeservistocomoumaenti-
para o próximo filho mais velho), faria desse segmento da socie- alienaçáo da sociedade civil ' PaÍa
dade vaziade conteúdo, uma
dade um setor independente em situaçáo privilegiada para cuidar caso'
como expressáo dos interesses privados,(lp
ser identificado
com isençáo dos interesses públicos, dos interesses universais repre- ''' {
os proPrietários fundiários)'
sentados pelo Estado, permanecendo equidistante tanto do "favor
Marx,enffetanto'náorompecomaPersPectivafeuerbachiana'
do governo" quanto da "multidáo", além de estar a salvo dos inte-
oquemudaaquiéapenasosujeito;agora.oEstadoPassaaser mais
particularistas de seus próprios membros. Os proprietários
resses
visto como rli.rr"d" d" propri.d"de privada e náo
fundiários, graças à herança obrigatória conferida pelo morgadio, ".rrêrr.i" civil' De qualquer modo'
como a essência alienad a daro.ià"ie
estariam, portanto, a salvo da tentaçáo do enriquecimento por da religiáo
Marx náo está mais se movendo na esfera nebulosa
meio do aparelho estatal, bem como da "insegurança" e "cupidez" ao Estado hegeliano
(como Feuerbach) e nem na crítica abstrata
próprias da "indústria" (isto é, da burguesia). Mannscritos de Kreuznach)'
(como em tbda a primeira Parte dos
j 't,
.t'
58 G. F. Hegel , Filosofa do Direito, citado por K. Mãrx in Critique |Ew rEtat hégélien, op. cit', p' 248'
cit., pp.232-233.
de bëgélien, op.
ffie de
74 . 0JovEMMABX CrLso Fneorntco

A partir daí, ele se defronra com um objero que reconhece ser reduzidaa ela mesma, encantâda.com sua própria autonomia e
material. E a alusáo a objetos mareriais, nas obras juvenis de Marx,
soberania".63
faz lembrar imediatamente o conhecido prefácio à Contribuiçtão O dualismo dessa formulaçáo choca-se diretamente com o
à crítica da Economia Política, em que ele evoca a sua militância monismo automediador da lógica hegeliana. Hegel entendia a
como jornalista da Gazeta RenanA, na qual, em 1842-1543 (pouco
filosofia do Direito como o resultado do autodesenvolvimento
antes de escrever sua crítica a Hegel), se viu pela primeira vez na
de um único conceito (a vontade), a princípio abstrato e vazio
de
vida na "obrigaçáo embaraçosa" de opinar sobre os "interesses conteúdo, eüe, no movimento incessante de suas determinaçóes,
materiais" (no caso, os artigos sobre o roubo de lenha, a divisão objetiva-se e reali za-se no Estado como vontade concreta e auto-
da propriedade imobiliá ria, asituaçáo dos camponeses do Mosela do
consciente. O encadeamento lógico das mediaçóes da filosofia
etc).
Direito é quebrado por Marx ao tomar a instituiçáo do morgadio
A "obrigação embaraçosa" impôs-se novamente ao jovem náo só como o fundamento último do Estado (e, portanto' como
filósofo na discussáo sobre o morgadio. Pretendendo enconrrar um limite de sua liberdade, de sua vontade), mas também, segundo
aí um ponto vulnerável na teoria hegeliana do Estado, mais uma
seu entendimento, na própria relação invertida que se estabelece
desventura da mediaçáo lógica, Marx avança em consideraçóes te- enrre o proprietário e a sua propriedade (relaçáo que o aliena,
o
merárias: o morgadio é definido como "a propriedade privada por escraviza, e lhe rouba a vontade livre). Aqui, diz Marx, a proprie-
excelência",60 "o superlativo da propriedade privada, a propriedade o
dade "tornou- se o sujeito davontade e a vontade náo é mais que
privada soberana",u' "^ pura propriedade privada".62 predicado da propriedade prïvadi' .64
Além disso, Marx, voltando à matriz teórica feuerbachiana, A referência àì rehçóes alienadas entre o sujeito e a proPriedade
afirma que nesse tipo de propriedade o sujeito (o proprietário) está longe de fornecer uma conceitu açâo rigorosa dessa última
permanece prisioneiro do seu objeto, isro é, o sujeito estâalienado e longe ia-bé- de contesrar com eficácia o edifício conceitual
do predicado. A propriedade surge assim como uma coisa exrer- o aparecimento de
-onàdo por Hegel. Entreranro, ela prenuncia
na, um fetiche: "o morgadio é a propriedade privada deificada, temas que seráo enfocados por Marx no ano seguinte' nos
Ma-
nuscritos econômico-ftosófcos. Atém disso, o emPe?hb em ampliar,
60 Id., ibid., p.245. por sua conta. ris.ã, a teoria da alienaçáo feurbachiana da religiáo
6r Id., ibid., p.249. p*r" as relaçóes entre sociedade civil e Estado, levou'Marx a ver
62 Id., ibid., p. 251. Náo há como deixar de inte rpretar esses afirmaçóes como uma ex- também como alienadas as relaçóes entre a propriedade fundiária
pressáo inrelectual da "miséria alemá": das condiçóes em que ocorreram a transiçáo
e o Estado. Daí para frente, na obra de Marx, a alienaçáo
acompa-
tardia de uma economia feudal para o capitalismo. É somente referindo-se ao erreso
alemáo que se pode entender essa identificaçáo ingênua de propriedade privada com o nhará a proprieã"d. privada como se fosse a sua fiel e inseparável
morgadio, um resquício das instituiçóes feudais, uma forma incomplera de proprieda-
de. A inalienabilidade da terra é a própria negação do conceito burguês de propriedade, companheira, o seu Par constante.
caracterizado pelo utendi et abutendi do direito romano. Posteriormente, Marx dirá
que e propriedade capitalista por excelência é o capiral, potência social abstrata, c^pez
de se espalhar em todos os cantos do planetaipoisificar-se nos meios de produção, 63
Id., ibid., 1ip. 251-2i2.
- í.
rrocar-se por qualquer tipo de mercadoria erc. .í
$
64
Id., ibid., p.!250.
'f,
4.
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a
!,
{

CELso Fatorntco
76 . 0 ;ove rur MnRx

o
OESTADOEADEMOCRACTA ideia do pai: ele é "o conservador, o provedor, o policial, Protetor'
isso, prossegue
Cortando os fios mediadores que Hegel colocara entre o o regente e o senhor da monarquia mundial". Por
Estado e a sociedade civil, Marx reiterou uma visáo dualisra o autor,
receber
que consagra a irremediável separaçáo entre as duas esferas. o homem náo tem necessidade do homem. Tudo o que ele deve
dele mesmo ou dos outros, recebe-o imediatamente de
Deus' Confia em
A identidade entre elas, proposta por Hegel, é comparada por
Assim, só por
Ìv{arx àquela que existe entre "dois exércitos inimigos". O Estado, Deus, náo no homem; dá graças a Deus e náo ao homem.
assim, está condenado a permanecer "estranho e exterior ao ser acidente o homem está ligado ao homem'66
Deus na
da sociedade civil". o papel do Estado na vida política é comparável ao de
uma crí-
Por outro lado, a breve referência à propriedade fundiária, religiáá, mas o seu significado último configura-se como
como vimos, levou Marx a intuir a existência de uma base material tica ainda incohs.i.rrt., "instintiva" e "prática" à esfera religiosa:
dizer que os ho-
a sustentar o aparelho estatal. A teoria feuerbachiana da alienaçáo, Para dar uma expli caçâo subjetiva do Estado, é preciso
reúnem-se pela única razâode que eles náo creem em
nenhum Deus'
chamada para reforçar a argumentaçáo marxiana, adentrou-se mens
sua
inesperadamente num território distante das preocupaçóes e dos que eles negam inconscientemente, instintivamente' Praticamente,
em Deus
horizontes do próprio Feuerbach. Marx, desse modo, confusamen- crença religiosa. Náo é a crença em Deus, mas a desconfiança
que fundou os Estador. É crença no homem como Deus do homem que
te indicava a direçáo a ser retomada em suas futuras pesquisas. "
Exceçáo feita a essa passagem sobre a propriedade privada, de explica subjetivamente a origem do Estado'
Estado, parâ consti-
resto destoante da argumentaçáo geral do texto, o Estado aparece As forças do homem separam-se e desenvolvem-se no
inÊnito; homens
sempre como a essência alienada da sociedade ciuil. Mas mesmo ruir, a partir de sua separaçáo e de sua nova uniáo, um ser
múltiplos, forças múltiplas fazem uma só força. o Estado é a soma de
essa ideia, como veremos a seguir, nada tem a ver com as tímidas
No Estado' os
incursóes de Feuerbach no campo da teoria política e, por outro todas as realidades, o Estado é a providência do homem'
o que eu náo
lado, extrapola as ideias filosóficas desse autor paramuito além de homens representam-se e completam-se uns aos outros -
entregug ao. acaso da
suas intençóes originais. posso ou sei, o outro pode. Náo existo Para mim'
abraçado Por um ser
Na obra de Feuerbach, lida entáo com entusiasmo por Marx, força da natureza; outros existem para mim, eu sotl
é o homem
há escassas referências ao Estado - tema aliás desimportante na universal, eu sou membro d.e um todo. O Estado autêndico
sem limites, o homem infinito, verdad.eiro, acabado,
divino' Só o Estado
nova filosofia proposta por ele.6t Duas passagens, ambas de 1842,
a si mesmo, o homem
merecem ser destacadas. é o homem, o Estado é o homem determinando-se

Nas páginas de Necessidade de uma reforma daflosofa, Feuer- referindo-se a si, o bomem absaluto'
O Estado é a realidade, mas ao mesmo tempo também a reFutaçáo da fé
bach contrapô s a religiao ao Estado. Na primeira, Deus encarna a
(.) o, homens estáo no Estado Porque eles estáo sem Deus no
religiosa.
65 Nas páginas seguinres reromo ideias desenvolvidas no rerto,'Ìv{arx: Estado, sociedade
e horizontes metodológicos na Crítica daflosfia do Direito". in Crítica Marxista,
civil
n" l, Sáo Paulo, Brasiliense, 1994, escrito por Énedicto Arthur Sampaio e Celso ffinifestesphílosopbiques(Paris,PressesUniversitairesdeFrance,l973,
Frederico. p. 100). I
CrLso FRtoenrc:

0 lovrrrr MlRx

estatal passa uma imagem positiva


do Estado' tlm
çáo da esfera
Estado, o Estado é o deus dos homens, por isso reivindica
justamente para negativista e crítica de
inequívoco contraste com a interpretaçáo
si o predicado.divino de "majestade"'67
M"r*.MasoEstadoparaFeuerbachésomenteumaimagem' (a
A segunda passagem encontra-se no parágrafo sexagésimo um predicado do su.ieito
ou melhor, um p..rr"á.nto abstrato,
sétimo das Teses prouisórias para a reforma da losofa: f sociedade civil). Por isso, também
se distancia da teoria hegeliana
O Esrado é a totalidade realizada, elaborada e explicitada da essêncir à semelhança do ter-
do Esrado como um universal-concreto 9ü€,
humana. No Esrado, as qualidades e as atividades essenciais do homern
ceiro momento do silogismo hegelian
o, realiza aPoteoticamente a
realizam-se nos "estados" particulares, para serem de novo reconduzidas e sintetiza todos os momentos
Ideia num ser que recuPera, suPera
à identidade na pessoa do chefe de Estado (...). O chefe de
Estado é o
anteriores. - estatal, vista
r

representante do homem universal'68 A extravagante anrropomorfizaçáo da esfera


Pelas citaçóes acima pode-se ver com clarezaos pontos que dis- contudo a salvo da
como simulacro de Deus, náo permaneceu
ranciam e aproximam Feuerbach de Hegel e Marx. Enquanto Para implicitamente Hegel por
influência de Hegel. Embor" .o.rr.rte
Hegel o Estado desponta como o terceiro momento do silogismo, náo admitir o Estado como terceiro
momento' como superaçáo'
em que a sociedade civil é, ao mesmo temPo' suPerada e ao manrer fixos apenas dois momentos
(ser/predicado; sociedade
"qì,r.I.
.o.rr.r,r"da mediante a sua inclusáo no interior de um ser que é um encamPar ideias de seu ad-
civil/Estado), Feuerbach termina Por
universal-concreto t pãraFeuerbach, ao contrário, o Estado
aParece do Estado: como
versário. De um lado, reitera " trrriu.rsalidade
como uma renrariva de realïzaçâo da consciência do ser genérico ,,consciência articuladora" da sociedade civil, a esfera estatal é o
do home-. É, porranro, ainda uma esfera subjetiva, uma projeçáo Por outro
polo que supera e harm onïzaos interesses Particularistas'
da essência hum ana, um pensamento abstrato, instintivo, un] feita, tal como em Hegel'
lado, a concili açâodos antagonismos é
sonho nascido do desejo de afirmaçâo da espécie, da necessidade um único indivíduo que é'
por uma identidade representada Por
imperiosa de despertar a solidariedade entre os seres humanos e' singular e um homem
ao mesmo rempo, ,r*ì individu"tid"d.
com isso, recusar, ainda que de forma esPontânea, a impostura universal: o chefe de Estado' ;
religiosa responsável pelo dilaceramento dos indivíduos' o militanrismo de Marx, sua aversáo à monar.quia Prussrana'
Há, portanto, dois momentos em Feuerbach: o primeiro, o da náo lhe permitia aproximar-se dessa
reflexáo lateral de Feuerbach'
sociedaJe civil, é marcado pela dispersáo dos indivíduos, ainda Estado, contudo, levou-o a dire-
A crítica à filosofi* h.g.li"na do
inconscientes dos fios solidários que a todos enlaçam. O Estado cionar, por conta própria, a teoria feuerbachiana
da religiáo como
corresponde ao segundo momento, aquele em que os homens Mas essa ousadia'
instrumento ..rrir*l de sua crítica a Hegel.
procuram desvencilhar-se do fardo da religiáo que os alienaraPaÍa totalmente das malhas da
como veremos, também náo o livrou
reconsriruir a comunidade, o reino da espécie humana reconciliada teoria hegeliana.
consigo mesma. Sem dúvida, essa tentativa de antropomorfiza- o ponto cencral da contestaçáo feuerbachiana a Hegel
eÍaaadmis-
como predicado' Seguindo
t sáo do ser como sujeito e do pensamento
o mesmo caminho Para a interpretaçâo
1'
Id., ibid., p. 101. esse enuncia{o, Marx propóe
Id., ibid., p.l?i.
0 iovru MaRx Cttso FReorntco . 81

da vida política: basear-se no ser real (a sociedade civil) e náo em seu afirmava em clara oposiçáo aos liberais que "nenhum elemento
conceito, sua longínqua finalidade, como pretendia Hegel. deve surgir no Estado como màssa inorgânica". Marx, desatando
Igualmenre, a censura feuerbachiana a Hegel por este só os elos mediadores postos por Hegel, os gráos de universalidade
conceder plena existência ao ser efetivado, ao universal-concrero inseridos nas corporaçóes, na burocracia etc., ficou obrigado a ver
e, por outro lado, considerar o ser particulaç finito, como um a sociedade civil como um ser exclusivamente particular, como
momento de alienaçáo a ser negado, foi seguida à risca por Marx. uma esfera essencialmente privada, oposta aos fins comunitários,
Só é verdadeiro o imediato, o finito; o universal é um pensamenro à vida política que se alienou ao evadir-se, passando com armas
alienado. Essa inversáo foi aplicada diretamenre à vida social: a e bagagens para o outro lado - o território inimigo, nebuloso e
sociedade civil é o momenro da particularidade, e o Esrado, o seu fantasmagórico onde reside o Estado.
predicado, é a ideia abstrara que se alienou; a sociedade civil é o Consagrando uma vez mais a separaçáo entre a vida social e
verdadeiro sujeito, o Estado é um objero alienado. a vida política, Marx concebe a sociedade civil como uma massa
O esquema crítico feuerbachiano, nascido para interpretar um inorgânica, como o campo onde reina fatalmente a guerra de to-
"sonho" - a religiáo como expressão da alienaçáo do ser-genérico dos contra todos. Essa atomizaçáo é brandida desafiadoramente
-,
é assim üansposto diretamenre para a crírica da política. O próprio contra Hegel, que considerava, desde o começo, a família como
Feuerbach, como vimos, não ousou ir táo longe, não conferiu às uma organizaçáo social primária a negar, desde o berço, qualquer
suas ideias uma tal dimensáo. Essa prudência, entreranto, em nada pretensáo de se exasperar a liberdade individual; e via, no segundo
inibiu Marx. Convicto de que a críticada religiáo já se concluíra, momento da sociedade civil, o da formaçáo das corporaçóes, a
voltou-se para a crítica da política, brandindo conrra Hegel o nú- negaçáo da dispersáo pela emergência de elementos comuns des-
cleo das ideias filosóficas de Feuerbach. tinados a preparar a integr ação na esfera universal do Estado.
O deslocamento da matr íz teórica de sua originária esfera A insólita pulveri zaçâo da sociedade civil nos Manuscritos de
onírica, a crítica da religiâo, para o campo bem material da vida Kreuznach colíde com as ideias do cauteloso Feuerbach que ad-
societária, trouxe consequências surpreendentes. Marx, assim mitia, como vimos, a presença de interesses comuns agrupando
procedendo, acabou náo só atomizando a sociedade civil como os membros da sociedade civil. Por outro lado, tal procedimento
também desmaterializando o Estado. levou Marx a desmaterializar o Estado. A vida política deste é
Na teoria hegeliana combatida por Marx, a sociedade civil, comparada, sem mais, à esfera celestial do imaginário religioso
graças à açáo das mediaçóes, via a sua aromizaçâo inicial superada no qual o homem se aliena ao separar-se de seu ser genérico Pro-
pela inclusáo de elementos comunitários, de germes de universa- jetado num Deus longínquo. Também o Estado é uma abstraçáo
lidade destinados a preparar o campo para a integraçáo na esfera da sociedade, um pensamento alienado desgarrado do ser real.
estatal. Como crítico do liberalismo e profundo conhecedor da Daí a desconcertante afirmaçáo de Marx: "a vida política é uma
Economia Política de seu rempo, Hegel náo podia aceitar a ima- vida aérea, o éter da sociedade civil",6e O Estado como um outro
gem da sociedade civil como o momento irreversível da pulveri-
zaçáo e de autonomia radical das vodtades individuais e, por isso, 6'e K. Marx; Çrítique de !'Etat hégélien, op. cit., p.207.
I
0 ;ovrv Mrar

auronomizado perdeu todos os vínculos com a sociedade e pode,-


agora, permanecer flutuando no ar. observar que a descriçáo dos burocratas como uma casta arrogante,

A equivalência entre a esfera onírica da religiáo e a vida política em relaçáo ao público, e serviçal, pará com os chefes, é sempre bem
levou a essa desconcerranre imagem do Esrado como vinda e citada por leitores, às voltas com a prepotência dos funcio-
alienaçáo,
como um ser abstrato flutuanre, o "éter da sociedad.e civil". nários administrativos, gu€, nesse momento, lembram do texto de
Náo se
rrara mais do Leviatá a sufocar os indivíduos, segundo Marx, comparam-no com a sua experiência pessoal e concluem
a imagem
consrruída pelo liberalismo, e muiro menos a despórica realidade pela completa adequaçáo e justeza do retrato traçado por ele. Mas
da monarquia prussiana que, com sua censura implacável, a questáo teórica fundamental permanece: se o Estado não é mais
impediu
Marx de continuar sua carreira de jornalista e, depois, com um universal alienado, mas um particular, a crítíca de Marx à bu-
seu
ameaçador aparelho repressivo e suas draconianas leis, rocracia perde totalmente a sua base de sustentaçáo. E como Marx
fez com que
ele se exilasse de sua pátria: o Estado nos Marutscritos nunca mais aprofundou a questáo, limitando-se a comentários
de Kreuz-
rtach é um ente desmarerial izado, flutuando sobre tópicos, como fica a relaçáo entre essas duas esferas particularistas
os indivíduos
atomizados da sociedade civil. - Estado e burocracia no interior da teoria marxista?
Esse resultado, enrreranto, guarda uma insuspeita
Em 1843, entretanto, Marx se debatia com a ideia de um Esta-
aÊnidade com
a teoria hegeliana do Estado. do abstrato. E contra esse ser fantasmagórico levantou a bandeira
como Feuerbach, ìvÍa.i manreve em
pé a ideia de universalidade do Estado, ráo cara ao auror da da democracia.
Filosofa
do Direito. A ruprura com Hegel só se rornou definitiva A reivindicaçáo de uma democracia radical propóe, curiosa-
quando
Marx formulou, muito rempo depois, a hipórese do Estado como mente, o fim do Estado e náo das classes sociais, já que Marx náo
um apa-relho material a serviço de uma classe. Nesse momento, se preocupou em esmiuçar as diferenças existentes no interior da
a so-
ciedade civil deixa de ser uma massa inorgânica conrrap sociedade civil. Nessa perspectiva, pôde afirmar: "o Estado é um
osta in totum
ao Estado: no seu interior a Economia Política passa a abstrato. Somente o povo é concreto".7o
conferirlhe
uma anatomia, estruturando os indivíduos em rorno dos tata-se aqui de uma clara inversáo de todo o edifício construí-
meios de
produçáo, formando as classes sociais e seus interesses antagônicos. do na Filosofa do Direito, em que o Estado surge co,rno.o momento
o Estado, enráo, passa a ser o local onde os interesses de no qual a realidade torna-se plenamente racional, momento de
rÀ" clas- superaçáo da alienaçáo da sociedade civil, de triunfo da univer-
se - interesses particulares, portanto
- impóem-se a rodos como se
salidade sobre os particularismos. A razáo, o universal, realiza-se
fossem os verdadeiros interesses universais. Esse Estado
não está em
nada "alienado" dos interesses particularistas que representa, nesse apoteótico momento final e atinge, na pessoa do monarca,
interes-
ses radicados no interior da sociedade civil. E nada sua expressáo visível. O monarca, um indivíduo singular de carne
tem d.e abstrato
e fantasmagórico como sugere o seu ameaçador e osso, desponta como a "soberania personificada", a consciência
aparelho repressivo
voltado conrra serores bem determinados da sociedade civii. do Estado, o depositário de seus fins últimos. Esse indivíduo
Superada a visáo dualista que separa Estado e sociedade corresporlde plenamente à categoria do típico na lógica dialética:
civil,
a análise da burocracia perde r.r, arç* explicativa. !
É irrteressante
" 70 Id., ibid., q; 103.
0 lovru IVlnnx
Crr-so Fnrornrco . 85

um exemplar excepcional que exlìti.\\,t,


r.r)tïÌo nenhum outro, a H:5= =s:i:-'-' .-l::i;o. de tbrma lrbstrlta e irrefletida, reaparecendo
universalidade de sua espécie ou, :.ìirr,l,r,
,,,rr r.r ri.,grlar que reve_ :t.a i J-'tl-' '-::: '.::rl:r.:.1-cOncreto' após concretizar-Se por meio
a verdade tttt.gcìrìr'r,, , t.' :--- :-*--:-:--.:*--S cr-rl.ni,fus durlnte a caminhada) é descartado
lt ït:"t-ente Ít
LuKacs certamente recordam
,".,ror., da Estética de u:-\ ---*-
*---:--r::.-- :!::.*achiana conro sinônimo de abstraçáo, de
-,-l:
!!-;

:iï,ï::' l,'l;,:;'f;Jl
' --
recurso mais apropriado para
rerl, bem como de sua aplicaçáo rìrì 1,1,,,1;;;
:*ffiï: .--
u-é.:* :
= -- :==.:"
i-i ::.ì:,J.o pensl meÍÌ to especulativo' O u n iversal-
-

.ì.rrrin.o. ,-,ì. --:-- r--: := ..::,:.;h é ume c.rtegoria irreal fabricada por
sL'r-g---
Marx, em 1843, estava infl de certeza imediata,
It i-.-:s--,;;s ,::'_.=. -.-'-i1.-rgrlS, algo desprovido
D a cn, q-u., como todo .*oJïïì: l:','

to"ttruída pelo
ì: iì;:::ï:tï'fr:5i:ï: *--.ls :,,-- -ç ;l;-:ì, = :j::.eire viste'
ì senso-percepçáo; no sistema
Pe ì'\.
I r,,,,', r,,, :1,..-,: -- :.c---=---:-:*-- *- .erie o resultado da maquinaçáo lógico-
::.ï11ïï:
as-iim com desdém esta teori
..pecularivo. Recusa a-:l'ì-'---
'1------ -:t= -- :c:--::iito alienedo, carente de conteúdo' Esse
élS::-: '
consciência, como "uma 0.,,o1 ::lìì,ì :i;ï::, ::.i"',ïÍ; --
as outras", podendo, abstratârïìeÍìtr.. ,1.,,
Jì, :,
;::: tit-ì: - ----. f t.l:-:--__J tì uflir-erS:ìi. nele projeta oS atributos dos
-
l.r , .^ì), "f,n*t c,est moi,,. E ,-r-.l ::_-*;----=- -::: i-.-ro. siPari.-Se O Ser de seuS predicados,
conclul com sarcasmo: :ìì:--:-r-: -. -::: :irma quÈ rì faza religiáo ao projetar os
i-Ç---_

pii, ì--. -:': --*-=-: -.:' irrgem 'jt Deus'


Dado que a subjetividade só é real c()rìì,r rrr.
tlue todo sujeito só é real
como indivíduo, a personalidade 0r,,.,.,.r.'_:'..''
'"' ' \\\ .' r'clÌl tornando-se uma pes- :---:-,-., ---: ,--::i-ì.S rnteric=Ìente' descarta esse universal-
soa. Bela conclusáo! Hegel também
Prrrl. r r ì , ,rrìr,lrir: fiS--'-- i --'
dado que o homem
individual é uma unidade, o gênero lrrr,rr
r,r,. .. rrr' único dlrél -: - --
-= ------rr-- ---o esr::.:i:itr de qualquer temPoralidade
Tì , I ,. homem.Tr
r,or trás dacrítica irreverente à. tì;lr\r
\ rì.ì rììonarca, imbuída de tinã- -
-1
ráo nobre missáo pela teoria hegelirì rì.ì.
lié- -
-- - :=.rì e .: lrri:citaçáo evidente da somatória
.. ì, , .. --rr.rìlrìÌi.lquestaoeplstemo_ sis-:'-:-- :--
t!-. oet runclo
t- r a .
roqlca orlentar o pensatììr.r\rr. ..it,
lr{arx. o eÀpirismo l- :-
LtL ---
-. : -: ::-iJ:Ct er::írica captada de modo ime-
n.ra"do de Feuerbach permitiu essc. r\.1 ,. , \-- -
d.ta- -- ::-:-
r:^-- ---.-i!- -ì:.. I esta, a consciência humana
-ï- ---'ìs.rs;-s:'
gênero hu-,oo
::ï:i: :'ì,lì, lïffïïJïï:,.,:,ï in..---_-_ ;_'.'* - -:j.icl. .:.::-nde o universal. o universal
-.

bem-humorada ^, i, \ . -- ì1*- ,.-;* ;^,,


;. e certeira à "reconr.ilr.r. .-: -::r:-j d,ei=.", i: cade indivíduo, ?comPanha
.l (o s::: - -
:'i ::_j:*iil:
r
n" n r ó s o ro, ìi,.ì' :,ì: .
:ï:1^r- : :_ ::,
um determinado tipo de relaçáo " ï:'
esr.qlr..,.,
ìd,, .;;;ü", .
o universal, reveladora da con LcepÇ'ìrt .t rli
i.li:rlética subjacenre à
argumentaçáo marxiana.
A realidade primeira, imediara. .\r,+\r..-.r
T-t1 u a singularidade'
rsse e o ponro de partid" d" ì_-1.
"o;;ïììììì,ì.ì ì\\ìPosta por Feuerbach
e seguida à risca por Mar,.. p- ;;;ì i:
r.\\\\r o universal (que em
t
100-101. i'
0 ;ovru llhax
Caso FnroEnrco

mens reinregrados, indivisos, integrais, são o fundamento último


conteúdo único que se extraviara na.esfe-ra celestial da política,
da nova ordem.
fica-se com a impressáo de que a democra cia ê a realizaçáo de
"oEstado é um abstraro. somente o povo é concreto."
Já vi_ um único sujeito. O "Grande Demos" surge como uma multidáo
mos as implicaçóes da primeira parre da sentença. Cabem agora
indiferenciada, o povo indiviso que constitui a sociedade civil
algumas palavras sobre essa visáo do povo.
homogênea.
concreto é o povo, concreto é o que náo se separou de si
Como a mediaçáo foi banida paÍasemPre, nada mais natural
mesmo, concreto é o que é dado de uma vez paÍa sempre como
que essa oscilação brusca entre o singular e o universal, entre o
verdadeiro e náo, tal qual em Hegel, como o resultado final de um
indivíduo infeliz, quando separado radicalmente da universali-
processo de especificaçáo. De novo, o empirismo faz-se presenre
dade (em Feuerbach, os predicados da espécie; em Marx, a vida
com toda a sua força.
política), e o uno-todo autossuficiente e felï2, quando, graças à
os leitores da "Introdu çáo" aos Grundrisse certamente devem
desalienaçáo, reapropria o universal. Sem as mediaçóes sociais,
se lembrar do discurso metodológico de ÌrÍarx a respeito do começo
sem o movimento de especificaçâo, a visáo marxiana da sociedade
da exposição na Economia Política. Por onde começar? Em prin-
civil náo consegue iluminar as diferenciaçóes internas, a formaçáo
cípio, a sociedade surge aos nossos olhos como uma "população",
de interesses comuns ou antagônicos, o surgimento das classes
mas essa imagem, diz Marx, "é uma abstraçáo, se deixo de lado,
sociais etc. Na noite da sociedade civil todos os gatos sáo pardos e
por exemplo, as classes de que se compó em".75 O dado imediato,
se juntam pela força da consciência subjetiva que faz reconhecer,
táo prezado por Feuerbach, só nos fornece, segundo se pode ler
em cada um, a espécie comum a todos.
dos comentários de Marx, uma representaçáo caótica do todo.
Dois anos mais tarde, quando da redaçáo das "Teses sobre
o concreto, diz a célebre frase, "é a síntese de múltiplas deter-
Feuerbach", Marx criticou duramente o empirismo feuerbachiano.
$ minaçóes, portanto, unidade do diverso". Essa visáo do concreto
f{ A nona tese guarda um indisfarçável sabor de autocrítica:
como resultado e náo como dado imediaro evidente é um divisor
,Èa O máximo a que pode chegar o materialismo contemplativo, isto é, aquele
,* de águas enrre o empirismo feuerbachiano do Marx de lB43 e a
f que náo concebe o sensorial como uma atividade prática, é contemplar os
defesa do método dialético feita 14 anos depois.
*
.tÂ.
diversos indivíduos soltos e a sociedade civil.76

Mas voltemos ao nosso tema. Com a democracia, a sociedade
;i.
Ë: civil enfim liberta-se da tutela do Estado político e rorna-se um **x
tt
si
$' sujeito. A irracionalidade do regime monárquico cede lugar ao
reino da plena racionalidade, fazendo com que forma e conteúdo
Vimos nas páginas anteriores que a crítica à Filosofa do Direito
se identifiquem. Mas como a sociedade civil é apresenrada, em sua
de Hegel foi feita com base na direta influência dos caminhos
oposiçáo ao Estado, como um ser indiferenciado, possuidor de um
abertos por Feuerbach e teve, na reivindicaçáo da democracia, um
I

75 K. Ìvíarx,Elementosfundamentales para la criticaüe L economia polxica (borrador)


76 K. Marx "Tesis sôbre Feuerbach", lz K. Marx e F. Engels, La ideologia alemana (Bar'
l8i7-1858 (Buenos Aires, Siglo XXI, 1971, p.2l).^
celona, Grijalbo, IllZ, p.6eeY
0 loven Mqnx
C:iso Fneornrco o 91

princípio positivo, uma proposta política alternativ" I *or"rqui. não somente,"humana") capaz de subverter as condiçóes sociais
glorificada pelo velho filósofo. de existência historicamente constituídas. Seguindo esse cami-
A transposiçáo do instrumenral feuerbachiano - elaborado nho, Marx, aos poucos, se livrará do empirismo na filosofia e seu
exclusivamente para dar conta da crítica à religiáo e às formas de correlato na polírica - a democracia. Falará, enráo, em dialética
pensamento teológico - paÍa o território nada "eréreo" da vida e comunismo.

política trouxe resultados desconcertantes. Além disso, algumas


vezes Marx inrroduz elementos que destoam do sentido geral do
texto ou, pelo menos, da parte que se conhece dessas anotações
inconclusas. Vimos um exemplo disso na discussáo travada sobre
a propriedade fundiária como um elemento material (até entáo
ausente) chamado às pressas para dar sustentaçáo a um Estado
abstrato, totalmente desligado da sociedade civil, flutuando no
ar. Mas mesmo aí continuamos em Feuerbach: o Estado ainda
é alienação, não mais da sociedade civil, é verdade, mas de uma
forma imperfeita de propriedade privada (o morgadio).
Suprimidas as mediaçóes, encontramos do outro lado a socie-
dade civil um aglomerado de indivíduos, uma multidáo indiferen-
ciada vivendo o mesmo estado de alienaçáo. Numa breve passagem
do texto, Marx critica a visáo hegeliana por reduzir tudo à "histó-
ria da substância abstrata da ldeia" e propóe, inversamenre, que se
veja a atividade dos homens como sujeito e náo como predicado
do Estado. Diz também que é preciso pensar o Estado como um
dos resultados da "vida popular". Aqui, novamente conrradizendo
o fio de toda a sua argumentaçáo, ele introduz abstraramente a
atiuidade (= vida) naquele dado feuerbachiano natural e a-histórico
(o homem). Chega a empregar ainda expressóes confusas como
"atividade humana" e "modos de existência sociais do homem".
Esses momentos acenam para o caminho a ser posteriormente
trilhado: a busca, entre os indivíduos aparentemente aromizados,
da intermediaçáo material que os unifica e faz movimentar conti-
nuamente a sociedade; a descoberta, no irgerior da indefinida'ïida
popular", da "atividade empírica", práiis, a atividade material (e
"
EMANCIPAçÃ0 PoLíilGA
EMANCIPAçÃO HUMANA

de
Eu ouruBRo DE 184J, Loco após ter redigido os Manusffitos
Paris' A
Kreuznaclt, Marx realizaseu projeto de mudar-se Para
decisiva em seu
mudança, como é sabido, acarretou uma inflexáo
Pensamento.
vivendo uma nova realidade, conheceu de Perto o vigoroso
vinha de
movimenro operário francês (um impacto Para quem
ainda era
uma Alemanha feudali zadaonde a classe trabalhadora
ideológico das
incipiente) e pôde acompanhar de perto o debate
infor-
.orr.rrr., socialistas revolucionárias. Até entáo, tinha vagas
maçóes sobre as novas ideias revolucionárias,
como escreveu no
"Prefácio" à Contribuição à crítica da Economia Política telembran-
1842-1843: "nesta
do os seus tempos de jornalista na Alemanha de
Renana) w
época (...), fez-s. o,r.,ri, na Rheinische ZeitunglGazeta
..o do socialismo e do comunismo francês, ligeiramente conta-
revolucioriário
minado de filoso fri'.77 No entanto, o movimento
En$els, effi 4 de
francês já. erauma importante realidade política.
inglês
novembro de 1843, escreveu um artigo Para o periódico
"na França há mais de meio
The New Moral world.afirmando que
outros reformis-
milháo de comunistas, sem contar os fourieístas e
Paris que
tas sociaisde tendência menos radical".Tt É também em

m,daEconorniaPolítica(SáoPaulo,ÀíartinsFontes,I977,p.24).
:8 juuentud
F. Engels, "Progresos de la reforma social en el
contin enÍe", in Esoitos de de

(México: Fondo de Cultura Econô-


frdriro Engetsirrad.. e org. por'Sí'enceslau Roces
mica, 1981, P.14il.
0 iovtr'r Mrnr
CEtso Fnroentco '

Marx inicia seus esrudos da Economia Política inglesa, medianre


da metafísica alem á, ê lá somente que egtáo a vida e a verdade"'80
traduçóes francesas dos clássicos dessa ciência. O desconhecimenro
Ou ainda:
dessa ciência, diga-se de passagem, havia deixado Marx numa visí-
(...)filósofo deve ser de sangue galo-germânico. (...) basta fazer da mã'e
vel situaçáo de desvantagem quando de suas críticas à Filosofa do "
uma francesa e do pai um alemáo. A inspiraçao do coraçaa (princípio Fe-
Direito de Hegel, bem como restringido drasticamente o alcance é francesa; a inspiraçáo
minino, sentido do sensível, sede do materialismo)
de seus comentários sobre a sociedade civil. O coraçã'o Faz
da cabeça(princípio masculino, sede do idealismo) é alemá.
As modificaçoes cruciais na reflexáo marxiana, acarretadas
revoluçóes, a cabeça reFormas; a cabeça póe as coisas em posição, o coraçáo
pelas novas influências) expressaram-se nitidamente nos famosos
as póe em mouimento.sr
tr[anuscritos econômico-f losófcos, escritos enrre abril. e agosto de uma síntese
nessa Procura de
O projeto da revista inseria-se
1844.
da filosofia clássica alemá e do materialismo francês. Tal síntese
Antes de escrever esse texro, Marx publicou dois ensaios nos
correspondia também às intençóes dos jovens-hegelianos de, a
Anais frrtnco-alemães e três artigos no Auante! (Vorwrirts), ambas
exemplo dos pensadores franceses, Passarem para o campo da
revistas de exilados alemáes. Essa nova fase, marcada por rupturas
açáo política. Marx, Por esse período, havia lido cuidadosamente
e continuidades com as ideias anteriormente expressas na crítica
os clássicos da Revoluçáo Francesa.
ao Estado hegeliano, merece um breve comentário.
A revista Anaisfranco-alemães teve um único número publicado
A QUESTÁO JUDAICA
em princípios de 1844, preparada durante o ano anterior, utilizando-
O ensaio 'A questáo judaica", publicado na revista' teve sua re-
se de uma ampla correspondência envolvendo Marx, Engels, Ruge,
daçáo iniciada em Kreuznach e foi concluído em Paris. Tratava-se de
Feuerbach e Baku nin.7e O título da public açao inspirou-se direta-
um tema de interesse da época, em que se cruzavam diversos assuntos
mente nas intençóes programáticas elaboradas por Feuerbach no
caros a Marx. A começar pelo Estado prussiano, gue, ao reafirmar
sentido de renovar a filosofia. Em suas Teses prouisórias para a refor-
seu caráter "cristáo", negava aos judeus igualdade de direitos Perante
ma daf losofa, Feuerbach investiu conrra Hegel por esre basear-se,
a lei.Bruno Bauer manifestara suas opinióes sobre o "siuttto'' ao ver
de forma unilateral, no pensamento abstraro e esquecer a realidade
no ateísmo a pré-condiçáo Para a emancipaçáopolíticados judeus' Se
imediata dos sentidos. Buscando uma síntese entre "pensamento" e
os judeus querem se emancipar, dizta, devem começar por emancipar-
"intuiçáo",), (<
((. L,
"cabeça" << - ,, a<
e "coraçáo"r
. . Í I rt
"passividade" e "atividade", Feuer-
se de sua própria religiáo; náo faz sentido o judeu cobrar'do
Estado
bach anunciou: "lâ, onde o princípio escolástico e sanguíneo do judaísmo'
uma postura laica, enquanto ele próprio náo abandonar o
sensualismo e do materialismo francês se une à fleuma escolástica
O tema desse modo enfocado ficava circunscrito à esfera re-
ligiosa. A intervençáo polêmica de Marx contra Bauer voltava-se

* 7e K. Marx, e A. Ruge, Los analesfranco-alemanes (Barcelona, Martínez Roca, 1970). Ver


rambém o clássico livro de A. Cornu, Carlos Marx - Federico Engels (Buenos Aires,
s L. Feuerbach.,,Manifestes philosaphiqur.s (Paris, Presses Universitaires de France ' 1973,
I Platina Stilcograf, 1965) especialmente o s.gnn{ romo, "Del libe.alismo democrático
, P. r77).
F al comunismo".
#, Id., ibid., p. 1n
{'
ç;

f'
B
Crrso Facornrco
0 .rovrrv MrRx

náo só contra o Estado prussiano, como também consriruía-se ernancip açíopolítica foi justamente "a.emancipaçáo da sociedade
em mais um capítulo da luta ideológica travada entre os jovens- burguesa frente à Política".8i
É d.rr,ro desse contexto que Marx analisa a reivindicaçáo
hegelianos. Além disso, discutir as relações entre Estado e religião
de
significava, para Marx, dar sequência à crítica do Estado moderno cle igualdade e liberdade pleiteadas pelos judeus e as opiniÇes

(tal como fora descrito por Hegel), ampliar a crítica feuerbachiana Br.rno Bauer. Nas condiçóes do atraso alemáo, observa, o Estado,
é um
à religiáo e, finalmente, enfrentar o decisivo tema da emancipação revestindo-se de uma religiáo particular (o cristianismo),
humana. Estado reológico. E a quesráo judaica nele situada necessariamen-
de
No plano teórico mais geral, "A questáo judaica" reafirma a te transforma-se numa questáo teológica: exPressa a oposiçáo
orientaçáo presente nos Manuscritos de Krettznach. Mas, ao sair da uma religiáo particular contra um Estado embasado em outra
de
crítica filosófica e passar para um tema político concreto, Marx foi religiáo particular. Na América do Norte as coisas se passam
forçado a ampliar o seu referencial teórico. Para isso, socorreu-se forÃ" diferente. Livre de qualquer vínculo religioso, o Estado aí
comport a-se politicamente. A crítica desse Estado nada tem
de
no ensaio de Moses Hess "Sobre a essência do dinheiro", enviado
para ser publicado nos Anaisfranco-alemaes. A influência de Hess,
teológica, é crítïca direta ao Estado político'
Essa referência a uma realidade diferente da alemá serve Para
como veremos mais a frente, trouxe um visível desnível nas for-
mulações de Marx. Como bem lembrou Michel Lôrvy, algumas Marx desmanchar o nó da argumentaçâo de Bauer, provando que
sua crítica ao judaísmo permanece restrita ao camPo meramente
ediçóes da obra separaram a parte escrita em Kreuznach daquela
redigida em Paris sob a nova influência de Hess.82 religioso. A ques tâo é outra: a emancipaçáo política, reivindicada
náo
O leitmotiu a conduzir o texto continua entretanto o mes- p.lor judeus alemáes e iâ alcançada pelos norte-americanos,
mo: após a Revoluçáo Francesa, cristalizou-se a irreconciliável à.,r. ser confundida com a emancipaçao humana, A emancipaçáo
viva
oposiçáo entre Estado e sociedade civil. Até esse momento, o política, em si mesma, náo suprime a religiáo que Permanece
feudalismo atribuía à sociedade civil um caráter diretamente e aruente. A existência de religiáo na América do Norte atesta
que ela náo está em oposiçáo substantiva ao Estado polític,o,
Ao
político, graças à açáo das ordens, guildas, corporaçóes etc. Com
contrário, afirma Marx,
ì

o advento da revoluçáo, os negócios do Estado transformaram-se :' t.


*r

(...) quando o homern se libera politicamente, ele o faz ihdiretamente' l


em negócios do povo, constituindo-se o Estado político como t

através de um meio,ainda que seja um meio necessdrio. E, por


fim, inclu- !
a esfera encarregada dos assuntos gerais. Consumou-se, assim, á.

Estado - isto sa
sive quando o homem se proclama ateu Por mediaçáo do
a separaçáo entre o "idealismo do Estado" (o interesse geral,
È

religiáo ï$
é, quand.o proclama o ateísmo do Estado -, continua sujeito à a
o assunto público) e o "materialismo da sociedade civil" (os modo indire- í
precisamente pelo fato d.e reconhecer-se a si mesmo só de
indivíduos egoístas entregues à sua vida privada). Com base do
to, arravés de um meio. A religiáo é precisamente o reconhecimento
nisso, desaparece o antigo carâter político da sociedade civil: a

8r K. Marx,
..La
cuêstión judia", in oME S/Obras de Marxy Engek (Barcelona, Grijalbo,
Er Ìv{. Lôrvy, La teoria de la reuolución en el jouen Mtrx (México, Siglo XXI, 5^ ed., L978,
1978, p. 199). i
P. 83).
0 rovtn Mrnx

homem de maneira indirera através de um mediador. o Estado e um ro, u'ma concepçáo negativa que vê na liberdade do outro náo a
mediador entre o homem e a liberdade do homem. Assim como Crisro é realízaçâo, rn", um limiteda liberdade individual. Os Direitos do
o mediador, a quem o homem atribui toda a sua divindade, todas as suas Homem, virando as costas parao ser genérico, tratam de fixar os
limitações religiosas, o Estado é o mediador ao qual o homem transfere roda direitos civis do homem egoísta entregue aos seus interessgs Par-
a sua terrenalidade, toda a sua esponraneidade humana.s{ ticulares na sociedade civil e indiferente à vida comunitâria. Para
A interpreraçáo feuerbachiana da religiáo é mantida integral- Ìr{arx, os Direitos do Homem (o direito à propriedade, a igualdade
menre por Marx: na figura de Cristo o indivíduo objetiva a sua jurídica etc.), serviram paraconsagrar "a dissoluçáo da sociedade
humanidade e, graças a essa intermediaçáo, pode reconhecer o seu burguesa em indiuíduos independentes",s5 em seres privados volta-
ser genérico alienado. O mesmo vale para o Estado, o inrermediá- dos exclusivamente Para os seus negócios, em membros atomizados
rio através do qual os indivíduos vislumbram a sua própria liber- da sociedade civil. Assim, de um lado, passou a existir o indivíduo
dade, as possibilidades infinitas do seu ser genérico. Esse Estado, egoísta que leva na sociedade burguesa uma vida contrária à sua
assim concebido, pode sobrepor-se aos particularismos religiosos natureza humana (já que vê o seu semelhante como meio Para
e conceder direitos iguais a todos. Como Cristo, o Estado passa a obter seus interesses privados e, com isso, degrada-se a si próprio) e,
simbolizar o homem universal. de outro, o cidadáo vivendo a sua condiçáo de ser social de forma
Nessa linha de raciocínio, Marx descarta a soluçáo dada à ilusória e imaginária no Estado político.
questáo judaica por Bruno Bauer. A emancipaçáo meramenre Nada adianta querer, como Bauer, a emancipaçáo política Para
política, referendada pelo Estado, tal como a prerende Bauer, é com ela superar a oposiçáo entre a religiáo judaica e o cidadáo.
vista por Marx como insuficiente. O que ele reivindic a agora ê. a Essa oposiçáo é falsa: obtendo plenos direitos de cidadania, o
emancipaçao ltumana. Com essa intençáo fazuma cerrada crítica judeu, como membro da sociedade civil, continuará separado do
aos Direitos do Homem, proclamados pela Revoluçáo Francesa, Estado. Náo termina aí nem a alienaçáo política nem a religiosa,
momento histórico da completa emancip açâo política pela auto- e, portanto, a emancip açâo humana náo se rcaliza. i

nomizaçáo do Estado, de um lado, e privatiz açâo dos indivíduos, A emancipaçáo humana, reclamada por Marx, é aquela. que
de outro. permite a absorçáo do cidadáo abstrato pelo homem individual,

Segundo afirmava Bauer, o judeu é incapaz de ascender aos que faz deste, em sua vida cotidiana, uffi ser genérico sôlidário com {l
üi
2)
I

Direitos do Homem porque, enquanto permanecer judeu, a de- os seus semelhantes. Isso náo se consegue com a emancipaçáo polí- ff i

fl I J

terminaçáo religiosa prevalecerá sobre a sua natureza humana, dca, que mantém o homem preso à condiçáo de indivíduo egoísta {l i
!

Ë
da sociedade civil, e sim com a suPressáo do Estado enquanto
ga
levando-o necessariamente ao isolamenro em relaçáo aos náo ju-
J
R
deus. Marx, ao contrário, insiste na rese segundo a qual os direiros momento de expressão da alienaçáo do homem: tÌ

humanos náo exprimem a identidade entre os homens, mas sim a Toda emancipaçáo consiste em reabsoraer o mundo humano, as situaçóes
separaçao do homem em relaçáo ao homem. Expressam, porran- e relaçóes, ng próprio homem. (...)
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84 Id., ibid., p. 185.
n' 3i Id., ibid., p. 200. .
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. 0 Jovll,t MAÂx Cetso Fseurnrco

somente quando o homem real, individuar reabsorva ern si


mesmo o judeus. M*q a questáo central é outra: a luta pelos direitos civis
abstraro cidadáo e, como homem individual, exista no níuel
de espécie náo resolve a.rrrrrr,rrrl alienaçáo humara. O judeu, effi sua
luta
em sua vida empírica, em seu rrabalho indir.idual, em suas relaçóes
in_ pela igualdade de direitos, apenas reafirma a sua permanência
dividuais; somenre quando, havendo reconhecido e organizado
as suas prr,iÃl"rista numa sociedade civil burguesa ainda separada. de
"forças próprias" como forças sociais, ját náo
separe de si a força social em ,r* Ert"do que se quer tolerante e liberal. A emancipaçâo política,
forma de força polírica; somenre enrão se terá cumprido a emancipação à
portanro, implica uma conservaçáo de interesses particularistas
eo
margem do interesse coletivo, mantendo a cisáo entre o homem
humana.86
Em seguida, Marx critica Bauer por enrender a quesráo judaica sociais
cidadáo. o mesmo vale, diríamos nós, para os movimentos
pelo ângulo estritamente religioso
de defesa das "minorias" surgidos na segunda metade do
e propóe, ,.,o-".rdo , proport. século
feuerbachiana, uma inversão materialista: explicar o
1,rã., ,ao 20. sáo movimentos progressisras, sem dúvida, mas náo resolvem
segundo a religiáo, mas, ao conrr ârio, explicar a religiáo pelo
pelas a reivind icaçâo maior da emancipaçáo humana, reclamada
condiçóes particulares de vida do judeu e por suapruíxiscorreqpon_
jovem Marx, ou da sociedade sem classes, ProPosta em suas obras
dente. Essas condiçóes seriam o interesse pessoal, o comér.io
. de maturidade.
adoraçáo do dinheiro como o "deus mundano" dos judeus. " necessidade da emancipaçáo humana esbarra na existência
Nesse A
sentido, diz Marx, os judeus ao seu modo já se emanciparam ao da
do Estado político enquanto órgáo ainda visto como separado
identificarem-se plenamenre com os valores do mundo burguês, "esfera celestial"' E,
sociedade civil. Esse Estado continua sendo uma
ao encarnarem, com seu espírito mercanrilista, o "judaísmo Manuscritos de Kreuznach, Marx é ambíguo ao referir-se
da como nos
sociedade civil", contaminando a todos, inclusive os católicos, no à base de sustentaçáo do Estado: "os seus PressuPostos,
sejam estes
culto ao dinheiro. o judeu é o protótipo do indivíduo egoísta da como cul-
materiais, como a propriedade privada etc.' ou espirituais,
sociedade burguesa e, por isso, observa Marx, há no judaismo perceber,
um rura e religiáo (...)'ato Nesse assunto decisivo, como se pode
elemento antissocial. A emancip açáo dos judeus é "a emancipaçáo 'A questão judaica" náo trouxe novidades substantivas.
da humanidade com relaçáo ao judaísmo".s7 uma sociedade que
Contudo, ao passar da crítica à religiáo Para a crítica à política,
Marx conclui o ,.* ensaio fazendo consideraçóes ;o!re b culto
impedisse a usura fariadesaparecer a figura do judeu, e sua
cons-
ciência religiosa "se dissolveria como uma nuvem no ar real que judaico ao dinheiro, consideraçóes essâs que refletem diretamente
respira a sociedade". 88 também
a recente influência do rexro de Moses Hess - autor que
As páginas de 'A questáo judaica" relegam para um plano havia recorrido à teoria feuerbachiana Para dar conta de
temas do
secundário o tema da emancipaçáo política. Evidentemenre, Marx
mundo proFano, e viu no dinheiro a essência alienada do homem'
considerava um avanço social a conquista dos direiros civis pelos
Seguindo essa pista, ìv{arx afirma:
o ciumento Deus de Israel, que náo tolera outro deus ao
seu
O dinheiro é
transforma
86 Id., ibid., pp.200-20t. lado. O dinheiro enr.ilece a rod.os os deuses dos homens e os
87 Id., ibid., p.203.
88 Id., ibid., p.203. 8e Id., ibid., p. 187.
i
0 lovrrrt Mrrx Criso tnictnrco

ffiï:ï,ï:,:::.: Ï H;; ; :'::'"ï


natural, o valor que o caracterizava. O dinheiro éa
:.,:ï.ï:. "ï
realidade do trabalho
;
planejava escrever com base na ree.laboraçáo dos Manttscritos
de Kreuznach.
Comparada a esse esboço' que segue Passo a passo a
sequência
humano e da existência humana alienadas; realidade disrante que domina dos capítulos da Filosofn do Direito, detxando-se
enredar.muitas
o homem e que o homem adora. "IrÌtroduçáo" apresentrr
vezes r"s *rlhas do texto hegeliano, a
suas ideias e
O Deus dos judeus tornou-se profano, converteu-se no Deus desre mundo. uma narrativa solta, própria de um autor seguro de
A letra de câmbio é o Deus real dos judeus. O seu deus náo é senáo essa disposto a apresentá-las ao público num tonÌ ProPositalmente Pan-
toda a
letra ilusória. (...) fl.iário. Sem dúrvida, é um dos textos mais bem escritos de
O que a religião judaica encerrava em abstraro - o desprezo.pela teoria, obra de Marx pela força de suas frases solenes, que
produzem um
encantados
pela arte, pela história e pelo homem como um fim em si mesmo - tudo efeito provocante e Perturbador, deixando os leitores
isso é o ponto de vista real, cortsciente, a virtude do homem de dinheiro.
com a ousadia intelectual do autor'
A própria relacáo da espécie - a relaçáo enrre homem e mulher erc. - Alguns estudiosos gosram de comparar a
"Introduçâo" com o
transforma-se em objeto de comércio! A mulher con\-erre-se em objero textos se Pretendem
ÌV{anifixo do Paúdo Comtmista. Defato, os dois
da crí-
de lucro.eo
progi"-áticos e afirmativos, indo além do exercício abstrato
A utilização da reoria da alienaçáo a esre objero marerial - o ,i.", geralmente cond.enado a uma postura negativista de resignada
dinheiro - fazseu ingresso no pensamenro de Mani e nos apresen- que náo ousa fazer autocrítica de seus próprios
limites' À
rejeição,
ta uma primeira abordagem do rema da reifcaçao como correlato comparaçào é correra, mas ficaria mais precisa
se acrescentássemos
e de
necessário dofetichismo. Pouco depois, nos Manuscritos econômico- qu. o li rro de 1848 é um manifesto em defesa do comunismo
gm partido chamado a realizar uma reyoluçáo classista, enqttanto
a
flosófcos, esse enfoque será reromado.
A teoria feuerbachiana da alienação, já estendida para a anâ- .,I.rtrod,rÇáo", embora também apresente um apelo revolucionário,
lise do morgadio (a propriedade fundiária como base material do feuerbachiana da
permanece ainda voltada para a problemâúca
Estado), ganha agora um novo campo de aplicação, com surpreen- numa espécie de nut-
.-*.r.iprçáo humana, constiruindo-se assim
dentes desdobramenros. nifesto hrr*arirtaa serviço da superaçáo social
da autoalienaçáo'
-ì l
em relaçáo
Politicamenre, isso já representa um Passo à frente j'

A CRÍTICA DA FILOSOFIA DO DIREITO às propostas de"A questáo judaica"; teoricamente' o texto reflete ì
fi
FI

DE HEGEL (TNTRODUçÁO) *, do pensamento marxiano em sua primeira fase f.i
"-iiguidades
O segundo ensaio publicado nos Annis franco-alemães e Os dois ensaios, aliás, aPresentam a mesma irregulari-
F,
parisiense. t
i

a "Crírica da Filosofia do Direito de Hegel (Introduçáo)", dade inrerna, o mesmo desequilíbrio: uma quebra
brusca marca
i,
abstrato; i
redigido enrre dezembro de 1843 e janeiro de 1844. tata-se, o discurso aré cerro ponro mantido no plano teórico l
$
ii
evidentemenre, da parte inicial da crítica da polít;ca qtre Marx começavam a ator-
subitamente Ês novas preocuPaçóes sociais que
ïi.ii
mentar o autqr o envolvem e o capruram, para, inesperadamente,
il
se fazerem Presentes nas páginas Ênais do texto' Íi
tt
sr

Íi
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105
Cttso Fntoentco

l.icvEM N4ARX

estas iá conheceram a revoluçáo


A "Introduçáo" insere-se abertamente no Programa revolucio- naçóes europeias' Enquanto de uma
burguesa e a resraur"çát, a
Alemanha vive o despotismo
nário dos ,lnais franco-alemaes: a ProPosta de aproximação entre uma burguesia frágil e incapaz
de
a filosofia elemá e o movimento político francês. Marx, no início
monarquia feudal izadae possui
a misé'ã alemá em 1843 '1844
ê'

romPer com o stíttLts quo' Negar


do ensaio. afirma a realizaçáo plena' na Alemanha, da crítica da ao distante ano de 1789'
Por isso'
religião. Tal crítica mostrou ao homem, em busca do Deus todo- vokar, na cronologia francesa, comédia'
a rePetir, sob.a forma de
a história da Alemanha estava
poderoso. que este, em verdade, é somente o "refl.exo de si mesmo", que' no P-a1ado' já romperam
com
a tragédia vivida pelos povos
a projeçáo fantástica da essência humana alienada. A crítica da ã" história sob a forma de
religiáo, diz Marx, quer que o homem "gire em torno de si mesmo
o ancien régime.A ideia a" ,.p..içao
e, ponanio, em torno de seu sol real", ao passo que a religiáo "náo
comédia,celebrizadapostt'io'-tt'teemOlBBrumáriodeLuís
é mais que o solilusório, pois se move ao redor do homem até que Bonaparte,aPaÍettt'pt["primeiraYeznaseguintePassagem:
Omodernoancienrégimejátníoémaisqueocomediatttedeumaorden.t
esre comece a mover-se ao redor de si mesmo".el
universalcujosuerdad.eirosheróismorreram.Ahistóriaéconscienciosae
\las o homem, r'isto por Feuerbach como um ser natural
atravessamuitasfases,enquantoconduzaocemitérioumavelhafrgura.A
imune às tempestades da história e da política, aParece Para Marx mundial é sua comédia'
última Fase formaçáo no nível da história
de uma
de forma diferente: "o ltomem n^o é um ser abstrato que Perma-
OsdeusesdaGréciajáhaviamsidotragicamenteferidosdemorteno
nece lora do mundo. O homem é o seu própri, mundo; Estado, comi-
que voltar a morrer
prometeu acorrentado de Esquilo; mas riveram
sociedade, que produzem a religião como consciência inuertida do da história? Para
de Luciano. Por que essa marcha
calTÌente nos Diálogos
mttndo, porque eles sáo vm mundo ao reués".')r
queaHumanidadepossaseParar-serindodeseupassado.Reivindicamos
Indo além de Feuerbach, Marx desloca-se Para o camPo da polí-
queospoderespolíticosnaAlemanhasáohistoricamenterisíueis.9a
tica, entendendo que "a luta contra a religíáo é, indiretamente' a luta
Entretanto'aoladodacomédiaalemá'expressagdlanacro-
cuntt'iz esse rnundoque lhe dá seu ãromt espiritual"; pot isso, "a crítica
do céu se rransforma assim em crítica da terra, a crttica da religiao em
nismoedoatraso'conviviaafilosofiadoDireitoedoEstadode
a modernidade dos países
Hegel, exPressand'o, contrariamente'
citica do Direito, a crítica dz rcologia em crítica da política".e3
euroPeus.EssafilosofiaaPareceaosolhosdeMarxt:1o,'apro-
Com tal guinada teórica, Marx confere à filosofia a tarefa de Alemanha", como a sua
"pós-história
longaçáo ideal da Históri" d"
desmascarar a alienaçáo em suas formas profanas e ProPóe-se a de Hegel e à contestaçáo
feuer-
no pensamenro". Graças à filosofia
enrend.er as relações enrre a realidade social da Alemanha e a filo- contemporâneos do presente
no
bachiana, os alemáes tornaram-se
sofia do direito e do Estado produzida nesse país' na história real'
plano das ideias' sem sê-los
,{. situaçáo social e política da Alemanha é entáo considerada como a exPressáo mats elabo-
A Filosofa d'o Direirc d'eHegel'
como um anacronismo vergonhoso quando comParada às demais moderno, é tomada agora
como
rada jamais feita sobre o Estado
Marx náo está
ffiil;i" r. pensar a siruaçáo contemporânea'
t
0 ..rc',:v IUrnr
Criso Fnrornrco

mais interessado, como em diversas passagens dos


Marzuscritos foi um.passado teórico representado pela Refornìa. A revoluçáo,
de Kreuznach, em conrrapor a descriçao hegeliana -:'-.-...r'
com a sofrível outrora, começou na cabeça do monge (Lutero): hoje, ela deve
realidade existente e, assim, de um lado, denunciar
a irraciona_ começar na cabeça do filósofo.
lidade dessa última e, de ourro, criticar a pretendida
deferência A peculiaridade de uma história marcada pela teoria vem
essa
interesseira do velho filósofo; interessa_lhe, agora,
reromar a rese somar-se uma questáo nova e decisiva a ser enfrenrad". É possível,
segundo a qual a filosofia hegeliana do Direito
é a mais aprofunda_ em 7844, a Alemanha realizar uma revoluçáo democrático-bur-
da caracterização do Esrado moderno, pois descobriu
r r.p"ração guesa nos moldes franceses de 1789? Para uma revoluçáo tornar-se
deste em relacáo à sociedade civil, .*bo.r, matreiramenre,
tenrasse possível, diz Marx, é preciso existir uma classe particular capaz de
dissimuláJa.
fazer valer seus interesses como se fossem os interesses universais.
A retomada da teoria feuerbachiana da alienação para
entender A burguesia francesa agiu assim em 1789, mas a evoluçáo social
a política sofre aqui um giro decisivo. A emancipação,
vale dizer, a da Alemanha gerou uma burguesi a frâgil e acovardada, incapaz
ultrapassagem da autoalienaçáo, não surqe mais
como resulrado da de pôr-se à frente do processo revolucionário. Além disso, a eman-
ação desmistificadora da consciência. o processo
emancipatório é cipaçáo política efetuada pela Revoluçáo Francesa, pensada para
entendido diretamenre como reuoluçao social, como
derrocada de a Alemanha dos tempos de Marx, parecia-lhe já insuficiente e
uma "violência material" pela ação de ourra "violência
material,,. anacrônica. Como nas páginas de '.A questáo judaica", náo basta
Nessa nova acepçáo,
a Marx a emancipaçáo política, isto é, a revoluçáo democrático-
("') a teoria con'erte-se em violência mareriai.
quando penerra nas massas. burguesa destinada a generalizar os direitos humanos, os direitos
A teoria é capaz de penetrar nas massas, enqiianro demons
tra ad /tominem; do indivíduo egoísta da sociedade civil; faz-se necessário, isto sim,
e demonstra ad horninen, enquanto se rad:caliza.
ser radical é romar a desencadear a emancipaçáo humana, obra de uma revoluçáo radi-
coisa pela raiz. E para o homem a raiz é o próprio
homem. Â prova evi_ cal ainda mal definida no texto, mas que se distancia da abstrata
dence do radicalismo da teoria alemã, ou seia,
de sua energia prática, é reivindicaçã.o da democracia, tal como aparece nos Manuscritos
que Parte da decidida superacáo positit'ada religiáo.
desembocava na doutrina de que o bomem é o
A crírica da religiáo de Kreuznach. I
ser supremo pttrtt o homem
Nesse intrincado contexto, Marx, pela primeira vez refere-se à
e' Portanto' no imperatiuo categírico de acal;tr com
todas as sitaacoes que
existência de uma classe na socied"d. ."p", a. pbt-se à frente das
fazem do homem um ser envirecido, escraviza,Jo,
abandonado, depreciado. outras na luta pela emancipaçáo política, realizando, no primeiro
Nada melhor para descrevê-las do que a exclarnaçáo
daquele francês ante momento, as tarefas de que a burguesia mostrou-se tncapaz e, em
o projeto de um imposro sobre os cachorros: pobres
cachorros! euerem seguida, abrir o caminho para a completa emancipaçáo humana:
rratálos como se fossem homenslet
o proletariado. Essa classe é apresentada, nos mesmos termos da
Ao chamar a filosofia para cumprir um papel revolucionário,
Filosofa do direito, como "uma classe da sociedade civil que náo é
Marx apoia-se na história alemá, cujo passado revolucionário
uma classç da sociedade civil", como um setor excluído e margi-
et Ii., ibìd., p- 217. ; nalizado; tlmbém é vista como uma classe uniaersal que adquiriu
{' um "caráter, universal por seus sofrimentos universais", capaz de
108 0 lovtrr,t Mlnx
CrLsc Fnroenrco

contagiar outros setores sociais fazendo-se


reconhecer como Conro nas Teses prouisórias para a reforma daflosofa de Feuer-
jeito revolucionário. A ideia de uma su-
classe universal (idenrificada
bach, a filosofia surge como cabeça, princípio masculino, viril,
por Hegel com a classe média, de onde
pror,êm os burocraras, arirno, sede do voluntarismo da consciência, que "póe as coisas
funcionários) é retomada por Mar* . os
ao proletariado, o em posiçáo", ilumina, esclarece, desmistifica, convence a todos
agenre da emancipaçáo. "pìi.ada
'h da necessidade da emancipaçáo. Mas a filosofia, para realizar-se,
cabeça dessa emancipaçáo é a firosofia,
seu coração o pro_ precisa ir ao encontro de uma base material;
lerariado". com essa frase Marx resume
o sentido do processo b) o proletariado é essa base material, o coraçáo, o "princípio
re'olucionário na Alemanha. A emancipação
rornou_se viável por fèminino", o elemento passivo, sensível, sofredor, carente. "O
contar com a presença recente de um coração,
o proletariado, pas- coraçáo faz revoluçóes", diziaFeuerbach. O proletário, acrescenta
sando agora a existir ao lado da cabeça,
afilosofia revolucionária Marx, é revolucionário por conta de "seus sofrimentos universais",
(que mosrrou' com Heger,
a separacáo entre Estado e sociedade
por simbolizar "a perda total do homem".
ci'il; com Feuerbach, a supremacia do homem
e a consequenre ne- Ao conferir primaziaao pensamento, a "lntroduçáo" permanece,
cessidade de superar a auroalienaçáo;
e, finalmenre, com o próprio pois, inserida na tradiçáo hegeliana. Alguns aurores gostam também
ìl'Iarx, a viabilidade de uma revoluçáo
radicar). de :rpontar uma certa semelhança com a posterior teoria leninista
conclui-se, com essa fórmula, o projeto dos
Anais franco_are_ sobre o papel dos intelectuais no processo revolucionário.e6
tnrtes, saído, como vimos, das
páginas de Feuerbach, e conc..rirrlo De qualquer modo, o encontro explosivo entre a filosofia revo-
pelas alteraçóes inrroduzidas por Marx:
lucionária e o proletariado assinala um momento novo na evoluçáo
a) a filosofia é a "energia prática", o
princípio ativo, a cabeça, do pensamento marxiano, até entáo confinado à esfera "crítica"
que rudo póe em movimento, ral como
i.on..bida pela Lrígica de estabelecida inicialmente por sua matriz jovem-hegeliana.
Hegel e pelos seus discípulos conrestadores,
os jo'ens_hegelianos Consciente da ineficácia da crítica enquanto crítica, Marx fala
que não conseguiam se desvencirhar totarmente
do p..,r""menro novamente em prríxis, expressáo utilizada duas vezes no texto. Tal
do mesrre, como é o caso de Feuerbach
e Marx. A revalo rízação utilização acusa e recente influência de Cieszkówski e Hess.que, à
da filosofia é feita agora a serviço da
revoluçáo social. ocupando época, divulgavam a ideia de práxis como o caminho da.realizaçâo
o lugar que ourrora perrencera ao monge (Lutero),
o filósofo dos da filosoÊa.
tempos modernos vem a público proclamar
solenemenre a inadiá_ Há, aqui, uma diferença em relaçáo ao andamento de ÍA ques- ::!
:
vel necessidade da emancipaçáo humana:
primeiro em face da táo judaica", no qual, seguindo à risca Feuerbach, Marx separava
religião (fonte originári" d" autoalienação); t*
d.poir, da alienaçáo ,iI
da sociedade civil frente ao Esrado (e
da consequenre cisão enrre o Jo 'Como N{arx, em 1844, Lenin em Quefazer? escreveu que o socialismo nesce no cérebro
homem e o cidadão); e, finalmenre, por
meio da revoluçáo social dos intelecruais e deve em seguida penetrar na classe operária, em virtude de uma'intro-
(dirigida por um proletariado duçáo de fora para dentro'; o partido desempenha aqui o mesmo papel que os Êlósofos
destinado a cumprir as rarefas da
ali. As próprias imagens se parecem: o 'raio' do pensamento revolucionário converte-se
revoluçáo democrático-burguesa
para, em seguià", d", sequência em Lenin em 'faísca'; imagem eloquente que supóe um centro de energia fulgurante,
à complera emancipação). - que incendeia a úma massa inerte, que lhe proporciona ã'base', a'matéria' para o fogo
i libertador". Cf M. Lôrvy, La teoria de la reuolución en el jouen Marx, op. cit., p.96.
CrLso Fntoentco
lr0 0 loverrr Mrrx

religiáo. Esten-
a "teoria" do "egoísmo" (o "princípio prático", o "tráfico sórdido", rnesmo" e náo mais ao redor do "so[ ilusório" da
de
enfim, as relaçóes alienadas do indivíduo enrregue exclusivemenre dendo essa crítica para a polírica, NIárx Prega a necessidade
"ser radical é tomar a coisa
à realizaçáo dos seus interesses privados no interior da sociedade urna revoluçáo radical, explicando que
civil, que recebem, na figura do judeu, sua expressáo máxima). pela raiz. E para o homem a raizé o próprio homem". se a raiz ê
de si mesn]o'
Ìt{arx, sob a influência de Cieszkówski e Hess, começava a afastar- o próprio homem, se o homem deve girar em torno
isso sSnifica que o homem continua sendo um
dado a priori, um
se de Feuerbach. A crítica final a esse auror (qn. vale, aliás, como
autocrítica, está na primeira das "Teses sobre Feuerbach", .m ,., .",,rral,apesar de NÍarx ter censurado implicitamente Feuer-
bach, no início d.a "Introduçáo", Por considerar o
homem "como
que Marx o censura por só "considerar autenticamente humano
o comportamento teórico" e, consequentemente, só entender a um ser abstrato, que permanece fora do nrundo", e ter afirmado,
genericamenre, q,r. 'o homem é o seu próprio mundo;
Estado,
prática em sua "sórdida forma judaica de manifestar-se". Por isso,
da
conclui, "Feuerbach náo compreende a importância da atividade Iocied"de (...)".A revoluçáo, entendida como um reencontro
busca
'revolucionária', da atividade'crítico-prática"'. origem (raiz), lembra a saga feuerbachiana do indivíduo que
Para Marx, contudo, nessa nova etapa da constituiçáo de sua a sua essência extraviada, o gênero que dele se separou.

teoria social, aberta pela redaçáo da "Crítica da filosofia do Direito Contra essa visáo, Ì\,Íarx dirigiu, um ano depois, a sexta de suas
de Hegel (Introduçáo)", práxis é sinônimo de açáo política revo- "Teses sobre Feuerbach ":
indivíduo'
lucionária, mas de açáo movida por uma ideia que lhe é exterior (...) essência humana náo é algo abstrato e imanente a cada
"
e que tudo conduz. E do próprio movimento do pensamenro que É, .- sua realidade, o conjunto das rehçóes sociais'
se vê, portanto'
brota a reivindicaçáo da emancipaçáo humana como "Llm impera- Feuerbach, eue náo entra na crítica dessa essência real,

tivo categórico", para retomarmos a expressáo idealista empregada obrigado:


relisioso
por Marx. 1) A prescindir do processo histórico, plasmando o sentimento
de persi e pressupond.o um indivíduo humano abstrato,
isolado' ,

Estamos, portanto, perante uma concepçáo dualista (cabeça/


"genérico",
coraçáo; filosofia/proletariado; ativismo/passividade; ou, se quiser- 2) A essência só pode conceber-se, Portanto, de um modo
z arurala muitos
mos lembrar dos Manuscritos de Krettznach: ferrolmadeira). Um como uma generalidade interna muda, que une de modo

terceiro elemento, agindo como mediadoç continua excluído. A indivíduos (...).ot


(ou
revoluçáo é proposta como simbiose entre pensamento e ser, filoso- Entender o homem como "o conjunto das relaçóes sociais"
fia e proletariado, sem necessidade de um partido ou de qualquer como um "nó de relaçóes", na bela expressáo de Saint-Exupéry)
da
outra organizaçáo mediadora. Tudo ocorre pela introjeçáo do é negar a imagem feuerbachiana (ainda residual nas páginas
pensamento emancipador numa matéria que é pura passividade. "Irrti=oduçáo") do indivíduo abstrato e isolado e de uma essência
logo
humana como generalidade muda. As relaçóes entre os homens
i1
li
Esse dualismo expressa a presença ainda determinante de !.
i
í j
Feuerbach em Marx. .s
i

&

A crítica da primeira forma de qlienação (a religiosa) levou, *.


e- K. Marx, "Teses sobre Feuerbach", in K' NÍarx e F' Engels, La ideología alentana
como vimos, ao convite para que o hornem "gire em torno de si ,.i
,;:..
(Barcelona; Grijalbo, 197 2, P - 667)'
_â:
0 l:,:,.r Mrnx
CErso Fnrornrco

deixaram de ser naturais para Marx. Ele náo falarâmais, em nome Ìr{arx e Ruge vinham se agravando desde a correspondência enrre
drt "multidáo" alienada, na democracia redenrora, como havia feito ambos imediatamenre anterior à criaçáo dos Anais f:rdnco-rtlemaes.
nos Manusc-ritos de Kreuznaclt, e nem no proletariado como urna o pessimismo de Ruge sobre as possibilidades de uma revoluçáo na
massa passiva, tlrl como no texto que acabamos de comentar. Prússia levou-o a aproximar-se do ideário liberal e à crença na educa-
Colocar em primeiro plano as relaçóes sociais significa romper
çáo e instruçáo como os melhores instrumenros para a emancipaçáo
definitivamenre com o humanismo naruralista de Feuerbach e humana. ì\Íarx, por outro lado, aposrava num projeto revolucionário
lançar luz sobre as mediaçóes materiais que esrrururam o inter- que, rapidarnente, transitou da perspectiva democrárico-radical para
câmbio enrre um homem e outro homem, e entre os homens e a o comunismo. O ardgo de Ruge no Auantelsaiu com o pseudônimo
natureza. de "um prussiano": mas como ele era saxão e Marx prussiano, ficou
uma suspeita sobre a verdadeira autoria. A pronra reação de Marx,
RÁZÁo PoLÍTTCA E RAZÁo soclal preocupado em dissipar dúvidas, serviulhe também de oportuni-
Além de 'A quesráo judaica" e da "crítica da filosoÊa do Di- dade para aprofundar suas incursóes no campo da política.
reito de Hegel (Introduçáo)", publicadas nos Anais Marx, entáo, voltou a reflerir sobre o Estado e os dilemas da
franco-alemães,
t\Íarx colaborou também no periódic o Auante! (Vonuarts) com emancipaçáo humana. Essa reflexáo, conrudo, será feita com base
dois artigos de crítica a Ruge e mais um terceiro, comentando na insurreicáo dos tecelóes da Silésia e consrirui-se na primeira
as rePercussóes de uma tentativa de assassinato do rei Frederico defesa aberta do socialismo e da necessidade de uma revolução
Guilherme IV.es para realizá-lo.
Este úlrimo, breve e sarcástico, guarda pouco interesse teó- o levante dos trabalhadores da Silésia
rico. Os estudiosos da trajetória inrelectual de NIarx, errì geral,
- esmagado pelas rropas
do exército - marca o início da revolta operária contra a arrasa-
conrenram-se em lembrâ-la como a última manifesraçáo antimo- da e feudalizante ordem burguesa da Prússia. O arrigo de Ruge
narquista, feita no exaro momento em que a aproxim açáo com o baseia-se num comentário sobre a greve, feito pelo jornal francês
movimento operário francês e as notícias sobre a revolta operária La Reforme, qtre, analisando a reaçáo do rei diante da greve - a
na Silésia (junho de 1844) rornaram visível a presenca da burguesia assinatura de decreros ampliando os serviços de assisrência social -,
como inimigo principal. pressentiu o início de reformas sociais significativas movidas pelo
Mais ricos, importanres e polêmicos, sáo os dois primeiros, "susto" e pelo "sentimento religioso". Discordando dessa análise, ,.
ri

que analisam um artigo de Ruge, editado na mesma revisra sob o ,:l:


Ruge afirmou gue, num país "apolírico" como a Alemanha, a Ji
pseudônimo de "um prussiano".ee As divergências políricas enrre miséria parcial dos disritos operários náo poderia ser vista ainda
como uma "coisa geral, pública", e sim como um acontecimento
K. r\Íarx, "Glosas sobre el úlrimo ejercício de dicción minisrerial de Federico Guilher- localizado. o rei, na verdade, entendera o levanre como um sim-
mo IV", in O,ltE S/Obras de Marxy Engels, op. cit.
ples resultadq da deficiência administrativa e da insuficiente assis-
K. fuÍarx, "Notas críticas al artículo: El rey de Prusia y la reforma social. Por un pru-
siano', in o,LíE 5lobras de Marx y Engrk. o textf d. nug- aparece no anexo dessa tência social, portanto, náo esrava iniciando reformas profundas
ediçáo, pp.439-442. t na estrutura sócial.
0 - ive r,r Mrnr
CErso Fnrornrco

Marx concorda com Ruge quando esre diz que o rei não agiu pois o seu poder acaba justamente quando começa a vida da so-
movido pelo susto, porém, acrescenta, "o levante náo foi dirigido ciedade burguesa com consequências que "brotam da natureza
contra o rei da Prússia, mas conrra a burguesia", e a oposição ao antissocial" dessa sociedade. Por isso, diz Marx, "se o Estado
rei, como político, "se encontra na política, no liberalir-o".r00 moderno quer acabar com a atual vida privada, teria'que acabar
Já nessa breve afirmação, ÌvÍarx introduz a ideia central do consigo mesmo, já que só existe por oposiçáo a ela".r0r
arrigo: a ditèrença enrre luta polítira (aquela volrada conrra um Reiterando a separaçáo entre Estado e sociedade civil, Marx
determinado poder de Estado) e luta social (a luta de classes enrre critica Ruge por acreditar que a "Íazã.o política" é a instância
o proletariado e a burguesia). de resoluçáo da miséria social na Alemanha. A raz'ao política,
Quanto ao pauperismo "localizado" da Prússia, Marx lem- afirma Marx, é "espiritualista", "pensa sem sair dos limites da
bra a Ruge o caso da Inglaterra, país "político" por excelência e, política".
também, país do pauperismo, no qual a miséria dos operários náo O segundo artigo de Marx, dando sequência ao primeiro,
estava restrira a uns poucos bairros, mas já havia se generalizado. centra-se na revolta dos trabalhadores da Silésia, contrapondo a
A Inglaterra, diz Marx, conheceu inicialmente uma açáo política razão social que presidiu o movimento ao círculo vicioso da razao
para pôr fim ao pauperismo, enrretanto esta logo se transformou política. Ruge havia observado que faltou ao movimento operário,
em repressão dirigida contra os pobres. A argumentaçáo de Marx, confinado à fábrica e ao bairro, uma "alma política". Marx refuta
pela primeira vez, apoia-se nos textos dos economistas que come- essa interpretaçáo observand.o que, apesar de ensaiar os primeiros
çava a ler. Passando da Inglaterra para a França, lembrou que ram- passos, o movimento operário em seu país jâ demonstrava uma
bém Napoleáo havia pretendido erradicar a pobreza utilizando-se maturidade teórica e uma consciência superiores ao da Inglaterra
de leis, antes de adotar medidas repressivas. Portanto, a lura das e da França. Na greve da Silésia, o proletariado já começara "gri-
sociedades mais "políticas" do que a Prússia contra a miséria náo tando sua oposiçáo contra a sociedade da propriedade privada":
foi enfrentada com as medidas administrativas e de assistência durante o levante, os operários não destruíram somente as máqui-
social que Ruge cobrava do rei. O Estado, afirma Marx, não nas e ferramentas - como no passado haviam feitb os.trabalha-
poderá nunca admitir que a raiz da pobreza é o próprio Estado, dores ingleses e franceses - mas também queimaram os livros de
da mesma forma que os partidos políticos só responsabilizam o contabilidade e os títulos de propriedade. Com isso, foram além
adversário que está dirigindo o Estado e nunca o Estado; mesmo do inimigo visível (o patráo), dirigindo-se contra o inimigo oculto
os políticos mais radicais atribuem as mazelas da sociedade a uma (o banqueiro).
forma cottcretlt de Estado e limitam-se a pedir a sua substituição Ì{as primeiras greves de Lyon, ao contrário, os trabalhadores
por outra sem questionar a essência do Estad.o. acreditavam perseguir fi ns meramente políticos, consideravam-se meros
Diante da miséria operária, o Estado ficará sempre restrico a soldados da repúblìca, quando na realidade eram soldados do socialismo.
tentar corrigir as falhas da administraçáo: sua arividade é formal, (...) sua azío política obscureceulhes araízda calamidade social e falseou

ioo Id., ìbìd., p.229. tor Id-, ibid., p.&37.


ììtt . 0J6yEMfulÀìr
C;Lso Fntorsrco

o conhecimenro de seu verdadeiro 6m; desse modo, sua raz,áo po[ítica rerritório da dominação, astuciosamente fVz o proletariado per-
eilgrznoil seu instinto social.toz
manecer atado ao círculo de ferro da alienante esfera política. E
continuando sua crítica à "obrusa atitude politizanre,,
Ruge, Marx concenrra-se na afirmaçáo deste, segundo
de extrai daí a seguinte conclusáo:
a qual os Náo é, portanto, de Forma alguma exagerado afirmar que, em todà a sua
levantes operários ocorridos no "isolamento dos
to-..r, rr.n,. l obra parisiense de L844, Marx está muito mais perto do anarquismo do
comunidade" destinam-se ao fracasso e *afo
que de qualquer forma de socialismo e que seu ensinamento futuro se con-
irracionalidade". Essa comunidade à quar R"g:iÏrãrlì:ïï::;
fundirá, em suma, com uma ética anarquista. Por paradoxal que pareça,
é a comunidade política, o Esrado:
Marx estabelece o fundamento teórico do anarquismo, num momento
Mas a comunidadede que se acha isolado o trabalhador é uma comunidacle
em que ele náo existia ainda, a náo ser enquanto doutrina romântica ou
com uma realidade e um conteúdo muiro distinros dos
da comunidadc simples reação individualista aos poderes estabelecidos.r04
poltica. Essa comunidade, da quar o separa sett próprio trabd/ho,é a própria Radicalmente diversa é a conclusáo tirada pelo filósofo hún-
uida, a vida física e espiriruar, a érica humana, o desfrure
humano, o ser
garo István Mészáros, um dos mais destacados e fiéis discípulos
hunutno. o ser humano é a uerdadeira corntrttitlade,
o qre hrí de c,ïtrrt no
de G. Lukács.
homem (.).tA reuoluç,ío) é um aro de proresro do homem conrra
a vida Preocupado com a perpetuaçáo de um Estado hipertrofiado
desumanizada, porque parte do ponto r{e uista do int{iuítluo
singr Ltr e red!,
nos países que viveram a experiência do "socialismo real" e cons-
porque a comunidrtde cuja
- a perda reage o indivíduo _ é a verdadeira
tatando que essa permanência contraria o ideário marxiano da ex-
comunidade do homem, o ser humano. Ao conrrário, a altn,t política d,e
tinçáo do Estado, escreveu um longo ensaio em 1982.10t A recusa
uma revolução consiste na tendência das classes poliricamenre
sem influên-
desse Estado, durante 70 anos, em dar qualquer passo no sentido
cia para suPerar seu iso/amento do Estado e d.a donittacrto.
Seu ponto de de sua autoextinçáo levou o autor a repensar a teoria socialista da
vista é o Estado, um todo absffato, cuja existência
deve- se ttnicamente à
transiçáo. E, nesse contexto político e teórico, voltou à polêmica
superaçáo da vida real, impensríuel sem uma oposição
organizadaenrre a
de Marx com Ruge, dando a ela uma valorizaçáo inédita entre os
ideia geral e a existência individuar do homem. porranro,
uma re'oruçáo estudiosos daquele autor.
com alma política organiza também, de acordo com
a narureza limimda
A valorizaçáo de um texto pouco conhecido do jovem Marx,
e desunida dessa alma, um círculo dominante
dentro da sociedade e de
elaborado na esteira do ajuste de contas com a teoria hegeliana
costas para ela.rol
do Estado, náo nos parece surpreendente se observarmos que há
o que concluir dessa oposiçáo radicar enrre emancipaçáo po-
uma certa semelhança formal entre o Estado descrito por Hegel
lítica e emancipaçáo humana?
na Filosofa do Direila e aquele vigente na Uniáo Soviética no
Um intérprere clássico de Marx, Ìv{aximilien Rubel, enfatiza
período estalinista. Organizando toda a atividade econômica,
a recusa marxiana em relacionar_se com o Estado.
Sendo esre o
M. Rubel, Karl lVíarx. Essai de biografe intellecruelle (Paris, Marcel Rivière, 1971,
ror Id., ibid., p.243. P. 98).
J
tor Id., ibid", p.244. i' I
10i
István Ìlíészáros, ïl rinnovamento dei marxismo e I'attualità srorica dell'offensiva
socialisra", in Problevi dcl Socialisma (ìt{ilano, no 23,1982).
F

i
118 0 loveu MaRx
Criso Fnrornrco

o Estado socialista passou a ocupar o lugar pertencente ourrora da nova sociabilidade a elas inerenres, abolir o poder político, vale
ao capital. Sua presença fërrea ern rodos os poros da sociedade dizer,o Estado enquanro insrrumenro áe dominaçáo política, e
acabou por atrelar esta à esfera estatal. Tudo se transformou em náo somente uma forma particular de Estado. Mészáros, ao rea-
assunto diretamente concernente ao Estado e a seus impenetráveis firmar o espírito do texto marxiano, enfariz a o caráter negatiuo da
mistérios; rudo virou assunro político, entendendo-se por política política. Marx, diz ele, foi claro ao dizer que "era imperativo sair
a
administraçáo pública centralizada e o planejamenro burocrático. do 'ponto de vista político' p^ra fazer uma verdadeira crítica do
A rransformaçáo do operário em funcionário público, sem alterar Estado".106 Ao "falso positi'ismo" de Hegel lembrando uma ex-
-
sua condiçáo, herdada do capitalismo, de tarefeiro separado do pressáo dos Manuscritos de Kreuznach-, empenhado em perperuar
planejamenro social da produçáo, reproduziu a aliena!áo desses o Estado como momento perene da super açãolconservação dos
"seres particulares", alienaçáo só superável, em tese, na interesses privados antagônicos, Marx, em toda a sua obra, opôs
esfera
estatal, a consciência da sociedade, única fonte do planejamenro uma definiçáo negatiua da política. Esra, enquanro açâo referida ao
da atividade humana. Mediado pelo Estado, o intercâmbio enrre Estado, é atividade substitutiva que"ctsur?a ospoderes decisionais
os indivíduos perdeu auronomia e estímulo, já que as decisóes, da sociedade em geÍal".107 Por isso, observa Mészáros,
em última instância, eram tomadas em cima, por uma lógica (...) o verdadeiro problema é, de conformidade com Marx, qual é a cate-
burocrática opaca, desenvolvendo-se mecanicamenre, à revelia dos goria realmente compreensiva: o político ou o social. A esfera da política,
agentes da produçáo. pelo modo como ela é constituída, não pode ajudar a substicuir a sua
Náo foi o Estado mas a própria sociedade civil que desapare- própria parcialidade a favor da aurêntica universalidade da sociedade,
ceu, ao ser subsumida integralmente aos imperativos misteriosos enquanto sobrepóe os seus próprios interesses sobre os dos indivíduos
de um poder estranho centralizador das iniciativas. o poder po- sociais, e arroga a si própria o poder de arbitrar interesses parciais em
lítico, confundindo-se com o poder econômico, a burocracia civil conflito em nome de sua própria usurpada universalidade.
e militar, o Partido etc., girava em torno de si mesmo, cuidando uma política substitutivista estava afastada do horizonte histórico no
de sua autoperpetuaçáo e, naturalmente, esquecendo-se do ideário interior do qual se desenvolveu a vida de Ìv{arx. Daí a sua firmeza na defi-
marxiano de extinçáo do Estado aceito pelos revolucionários de nição predominantemenre negativa da política (.). No modo como Marx
:

ì4
t917. a percebia, a contradiçáo enrre o social e o político era inconciliável.rO8 iri
i9

Essa aproximaçáo entre o Estado hegeliano e a sua caricatura, O proletariado, porranro, se agir apenas poliricamenre, isto é, {;
'it.
.$:
o Estado que vigorou no "socialismo real", serve de referên cia para se ficar restrito aos limites institucionais posros pelo Estado, estará :í
ì$
t,

explicarmos a valorizaçâo efetuada por Mésráros de um rexro juve, condenando-se a permanecer na ótica da parcialidade. Mas, ao iá

I
nil marxiano, táo pouco prestigiado na literatura especiahzada. contrário, se se guiar pela lógica social que recusa as artimanhas
'+

Apegando-se à orientaçáo original de Marx, Mészáros vê a


tomada do poder político apenas como um meio transitório para
a reahzaçáo do socialismo. A rigor, a revoluçáo visa basicamente
liberar as forças sociais conddas no munão do trabalho e, por meio
w
ror Id., ibid.,
106 Id., ibid,,
p. 65. .

p.57.
0 .lovrrrr Mnnx
r Crrso FnroERrco

da dominaçáo esraral e o círcuro vicioso a ela ligado,


poderá agir ras, democratizando-o, ampliando-g. A estrarégia institucional
como classe ttniuersal capaz de emancipar toda a socieàad..
de aceitaçáo das regras do jogo faz da democracia ampliada o
A expres sáo classe uniuersal, idenrificada por Hegel com caminho da transiçáo ao socialismo.rl0
a ar-
truísta burocracia e, portanto, com a existência do Estado
corno Mészáros, separando emancipaçáo humana e emaneipaçáo
um órgão que se autoperpetua, reaparece no jovem Marx
referida política, subordinando a última à primeira, vê-se diante da tarefa
ao proletariado, uma classe real (e náo uma não classe,
como a de alertar para os perigos do politicismo e, como consequência,
burocracia), um ser particular capaz de reali zar auniversalidade
ao repensar uma estratégia de transição socialista alternativa ao mo-
rranscender sua própria parcialidade e também aquela
inerente à delo estalinista e às projeçóes eurocomunisras, ambas confinadas
esfera estatal. o proletârio, aqui, é o oposto do judzu:
o homem rí- aos limites da emancip açâo política. O primado da emancip açâo
pico da sociedade burguesa voltado exclusivamenre para
o interessc humana reduz a atividade política ao seu papel subalterno de
privado. Segundo Mészâro.s, a apropriaçáo mar*iarra da expressáo
meio, de atividade negativa destinada a aurossuprimir-se quando
classe uniuersalnão implica somenre a influência
hegeliana, mas da consumaçáo dos fins emancipatórios. Nessa linha de raciocínio,
uma "profunda intuiçáo do caráter historicamenre original
do a atividade política institucional tem a sua dimensáo reduzida: a
antagonismo entre capital e trabalho".l0e (< /
"razáo . ltt
social" emancipatória traz. parao primeiro plano as ativida-
o proletariado, ao aceirar as regras do jogo político, enreda_se des não institucionais (os movimentos sociais autônomos, a açâo
no Estado burguês e em seu formalismo jurídico, que, perversa-
extraparlamentar etc.).
menre, enquadra os trabalhadores como proprietários privados
da Esse desdobramenro é fiel ao rexro marxiano e à concepçáo
mercadoria força de trabalho. Com isso, regride-s. p"rticula_ negatiua da política nele expressa. E é exaramenre por isso que
rismo inerente ao arcabouço legal que ordena e nivela "o
as diversas Maximilien Rubel enxerga na crítica do jovem Marx a Ruge o
"partes" da sociedade civil.
"fundamento do anarquismo". Resta saber se o texto de Marx, de
 reivindicaçáo do caráter negatiuo da política, feita por fato, valida essas leituras táo marcadas pelas preocupaçóes políticas
Marx, é puxada por Mészâro.s para os dias atuais. servindo-se
do presente. Parece-nos mais produtivo, contudo, voltarmos aos
dela, critica os descaminhos do "socialismo real", que trans- ._t

formou a política em administraçáo de coisas e pessoas, uma


atividade estatal inteiramenre positiua, autoperpetuadora e ma- A valorizaçáo do texto marxiano por Mészáros foi reromada, enrre nós, por J. Chasin
em dois interessantes artigos (Cf. "De mocracia política e emancipaçáo humene", in En- i
nipulatória. Mas critica também os teóricos do "eurocomunis- ìì
saios (São Paulo, Escrira, no 13, 1984); e "Poder polírico e represenrâçáo (três suposros ',i
mo", por confinarem a política (e com ela a classe operária) ao e uma hipótese constiruinre)", in Ensaios (op. cit.,n" 15-16, 1986). Aqui, essa retomada
I

E
fl
estrito camPo institucional. Para esses discípulos reformistas de insere-se numa outra realidade : aquela da difusáo das ideias eurocomunisras com sua Ê
i
conhecida tese da democracia como caminho narural de acesso ao socialismo. indo
Gramsci , fazer política consiste em relacionar-se com o Estado, contra a cortente, o autor reitera a oposiçáo entre emancipaçáo humana (centrada na
em procurar reformá-lo, afasrando dele os grupos monopolis- perspectiva do trabalho), e democracia (a "verdade parcìal e limitada da emancipaçáo").
Democracia, aqÌri, não é "valor universal" (como disse Carlos Nelson Coutinho num
célebre ensaio), a ser plenamente efetivada pelo socialismo, mas, eo conrrário, epenâs
roe Id., ibid., p.62. uma mediaçáo condenada a tornar-se supérflua com o desaparecimenro do Estado e
da política.
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CrLso Fnrornrco
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e
0 .lovrrvr Mlnx
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horizontes teóricos que circunscreveram as formulaçóes de Marx foi quebrada pela ideia ainda mal definida da sociedade civil como
a bur-
e deram a elas significados transirórios. palco onde o, i.r,.r.sses antagônicos entrè o proletariado e
Realmente, o texto contra Ruge repóe num patamar superior g,r.ri" se digladiam. A contradição, assim, Passa a se dar náo mais
a crítica da política, iniciada nos Manttsnitos de Kreuznach, como ãrrrr. o Estado abstrato, de um lado, e a sociedade civil atom\zada,
crírica da teoria hegeliana do Estado, e desenvolvida em'A quesrão de outro, mas no próprio interior da sociedade civil. Influenciado
a luta de
judaica" e na "Introduçáo" em torno de temas políticos atuais (a pelos historiadores da Revoluçáo Francesa, Marx descobre
classes como o elemento dinâmico a movimen taÍ arealidade
social
emancipaçáo dos judeus, a realizaçáo prática da filosofia, a revo-
"a sociedade
luçáo social nas condiçóes específicas da Prússia etc.). ou, como afirmou logo depois em A ideologia alema:
Num curro espaço de tempo, Marx foi modificando sua con- civil é o verdadeiro cenário de toda a história".
cepçáo sobre o Estado e a sociedade civil, cuja pretendida conrra- Contudo, a oposiçáo Estado/sociedade civil e também a ideia
diçáo insolúvel consistiu no seu ponro de partid a para conrrapor-se do Estado como um universal-alienado continuaram influen-
à teoria hegeliana. ciando a refexáo marxiana por mais um temP o, atê' a formulaçáo
O Estado, visto inicialmenre como uma esfera ceÌestial, local definitiva da visáo do aparelho estatal como um instrumento de
onde se exterioriza e se perde a essência humana, como uma enti- dominaçáo a serviço dos interesses Particulares radicados no seio
dade semelhante ao Cristo feuerbachiano, foi, progressivamenre, da sociedade civil.
ganhando um conteúdo material. A imagem de um ser abstrato Enquanto essa ideia náo se firmou claramente, a pretendida
("o éter da sociedade civil") desfez-se parcialmente a partir da des- oposiçáo fez nascer algumas ProPostas que rapidamente se suce-
coberta de um suporte material convivendo ao lado de um suporte d.r**r a democracia, como momento da desalienaçáo, quando a
espiritual ("cultura" e "religião"). Inicialmente era o morgadio, sociedade civil enfim se liberta da tutela do Estado tornando-se
depois a propriedade privada, o misterioso conreúdo material es- sujeito: o Grande Demo s (Manuscritos de Kreuznach); a emanci-
condido na esfera abstrata e etérea do Estado. De qualquer modo, piçâo humana., que, superando os limites da emancipação política,
a ausência de uma teoria positiva do Estado manreve essa imagem p.rmit. a absorçáo do cidadáo abstrato no homem concretg.e póe
de enridade abstrata, de universal-alienado conrraposto à comuni- fi- à oposiçáo entre o cidadáo (projeçáo fantástica {a vida gené-
dade humana, eu€ ressurge na polêmica com Ruge. rica) . o indi ríduo real ('A questáo judaica'); a reúolução social'
O contraponro ao Estado abstrato é a sociedade civil. Também fruto da aproximaçáo entre a "cabeça" e o "coraçáo", a filosofia
classe
aqui as modificaçóes logo se fizeram sentir. A aplicaçáo inicial da revolucio nâriae a sua base material, isto é, o proletariado,
capazde realizar a revoluçáo democrático-burguesa e' em
segui-
teoria da alienação à política levou, como vimos, Manr a estender
a relaçáo entre ser e predicado - base da refutação feuerbachiana à d", .o*pletar o processo emancipatório ("Crítica da filosofia do
lógica de Hegel - para as relaçóes entre a sociedade civil e o Estado. Direito de Hegel (Introduçáo)"); ou' Por último, o socialisrno, a
("Notas
Consequentemente, firmou-se a imagem da sociedade civil como ser construídp pela açâo revolucionária do proletariado
Por um
uma multidão de indivíduos atomizados; abstraídos de sua essência, críticas sobre o artigo: O rei da Prússia e areforma social'
deles separada e alojada na esfera .r,"r"l'Em seguida, essa imagem prussiano"). i
0 lovnl Mnnx
Crtso FREcrarco

Nessa veloz linha evolutiva, a polêmica conrra Ruge faz surgir burguês. De outro, a ausência da Economia Polític a faz da ativi-
o proletariado como "elemenro arivo de sua libertaçáo'f
A irrupção dade política uma açáo não embasada no mundo da produçáo: o
do ativismo proletário passa a ser, daí para frente,
uma incômoda trabalho náo é ainda a "protoforma" da práxis social, como dizia
companhia a destoar da forte presença da filosofia
conremprativa o mestre de Mészáros, G. Lukács, e, por isso, Marx corÌstrói uma
de Feuerbach no pensamenro do jovem fufarx.
imagem politicista do proletariado.
Mas, mesmo nesse momento de exasperaçáo porítica,
Marx A necessidade de superar essas deficiências levou-o a debruçar-
continua mantendo rigidamenre separados a comìnidade
porítica se sobre a Economia Política imediaramenre após a polêmica com
(Estado) e a comttnidade humana (o gênero
humano desencon- Ruge. Na nova etapa de sua formaçáo intelectual, o estudo da
trado do qual o indivíduo isolado ss aparrou pelo
seu próprio base material da sociedade capitalista foi acompanhado de uma
trabalho). E, assim fazendo, fala rro tr"brlho como
atividade que nova posiçáo perante os fantasmas de Hegel e Feuerbach, que,
separa o indivíduo do gênero, rema a ser desenvolvido
logo mais entretanto, continuaram a rondar, com sua insinuante presença,
nos Mantncritos econômico-flostifcos, nurn novo
e surpreendente os horizontes teóricos de nosso autor.
desdobramenro da teoria feuerbachiana da alienaçáo.
A manutençáo do "abismo" a separar Estado e sociedade
civil
rrouxe também, em seu bojo, a crítica da emancipaçáo
política fei_
ta em nome da emancipaçáo humana, o que, como
consequência,
produziu uma desqualifi cação da luta politica, aquela
lura referida
ao Estado e às formas de dominação. Isso nada
rem a ver com a
"ética anarquista", como pensa Rubel.
Mas também náo autoriza
a extrapolaçáo proposta por Més zá"ros. Encontramo-nos
ainda
num território no qual persiste, embora já debilit ada,
ainfluência
feuerbachiana, que fornece os conrornos teóricos
dentro dos quais
Marx se movimenta. por outro rado, as prirneiras leituras
da Eco_
nomia Política ainda eram insuficienres para iluminar
a esrrurura
da sociedade civil e o seu rela lclonamento orgânico (e
náo a sua
separaçáo) com o Estado. o proletariado, é
verdade, náo é mais a
base passiva para realizar a filosofia. Agora
ele desponra como um
ser ativo, um sujeito revolucionário. Mas
a ausência da Economia
Política, enrreranro, resrringe o alcance da reflexão
política. De um
lado, o ativismo proletário resume-se à açaopolítica
revolucio nária:
os trabalhadores não sáo vistos ainda .o*o seres
que, por meio
de sua atividade material, produzem pda a rique
za do mundo
EryC0NTR0 coM A
ECONOMIA POLíTICA

O pruuuRo ENCONTRo on Menx com a Economia Política está


Paris em 1 844 e
documentado nos dois manuscritos redigidos em
só publicados em 1 932: os Cadernos de Paris,
comPostos de extra-
Ricardo,
,o,, ,.g,.ridos de comenrários, de autores clássicos: smith,
dos
sry.rc. A leitura dessas obras serviu de base Para a redaçáo
em Poucos
famosos Manuscritos econômico-flosófcos,rrr escritos
e sistematizar os
meses, entre abril e agosto, objetivando ordenar
estudos realizados.
um in-
Náo cabe aqui, nos limites de nosso trabalho, fazer
avaliaçáo das
venrário dos temas enfocados por Marx ou uma
a discussáo
inúmeras polêmicas travadas e, muito merÌos' resenhar
dos textos de
em torno ào lo,re- Marx avivada após a publicaçáo

Ri-
Ijtü*re-"t " ,rad.uçáo cuidadosa dos dois manuscritos feita poç Jose-Maria
(Barcelona' Grijalbo'-l97tl
lla"-r, OUf 5/Obrar de Marx 7 Engels d. Cadernos d'e Paris ei, o segundo'
):,,1tï'Ï:de
iï:il;;ïí"Jí"*, o primeiro,.*,o
Manuscritos econômico-ftosafcos ou, simplesmente'
Ìúanuscritos' Por se tratar de

títulos, evidentemente, náo foram cunhados


escriros parcialment. ,..upá"dos, os
Por isso, pr.f.ri usar.as denominaçóes mais-convencionais' José Maria
pelo autor.
"E*t'"cto' lectura de Marx en 1844" e
Ripalda, entretanto' ,.f.,.-,t a eles como
de
.,Manuscriros de Paris". Além das traduçóes citadas' consultei também a de Bolívar
Marx, lz K. Marx, Cuadernos de París
Echeverría sobre os exrraros de leitura de
Eta' 1974)'Essa ediçáo contém um denso e es-
tNr;r;ir lectura de 1s441(México,
ao,slgundo texto' consultei
clarecedor prefácio de adolfo Sánchez Yázquez.Quanto
na coleçáo 10i 18: Engels-Mar:,_!:
as traduçóes de K. n^p"to""r"u, publicaàas
d,, I'irono*i, po,litique.(Paris, Union Générale
d'Éditions' 1972)'
ïrììir*'rì,iilru, (Paris, Sociales, 1968)' José Carlos Bruni
i i. n*tÈ BJttigeltt, Manuscri'tos de'1844 para a
o p.r,"g"êr o terceiro dos manuscritos econômico-ÊlosóÊcos
traduziu paÍa
Marx (Sáo Paulo' Abril' 1974)'
.J;;; "bt Ppnr"dorlr", no volume ded'icado a
t:
0 roveu M,rnx Cerso FseoEnrco . 129

Althusser.r12 A coerência com o procedimento até aqui adotado Alguns meses depois, no dia primeiro de janeiro de 1845,
obriga-nos a selecionar apenas os temas centrais para se entender Marx assinou um contraro com o ediior K. W. Leske PaÍa a
a evolução do pçnsamento marxiano. publicaçáo de um livro que deveria se intitular Crítica da política
o
próprio autor, aliás, encarregou-se de situar o movimenro e da Economia Política. A primeira parte da obra, concernente
à

seguido em seus estudos. Reportando-se aos Anais


franco-alemaes, política, seria comPosta pelas anotaçóes de 1843 contidas nos Mít'
-nuscritos
Marx disse que havia anunciado uma crítica do Direito e do Es- Kreuzndcbe, a segunda, abordando a economia, inclui-
de
tado, certamente baseada nos Manuscritos de Kreuznach. Mas, ao ria os Manuscritos econômico-flosófcos. Como se sabe' Marx náo
remexer nesse texto, percebeu a inconveniência de mistu rar a"crí- cumpriu o compromisso com o editor Leske que, impaciente com
tica tocante à especulação com a crítica das diversas matérias enrre as sucessivas protelaçóes, rescindiu o contrato dois anos depois'
si.tt3Tâl rratamento, numa drnica obra, só seria possível medianre o O acompanhamento da trajetória intelectual e política de
recurso de um "estilo aforismático", mas essa forma de exposiçáo, Marx nos anos 1843-1844 permite o entendimento das razóes que
táo ao gosro de Feuerbach, já lhe parecia uma "sisrema tizacão tornaram inviável a prometida obra: o encontro com o movimento
arbitrária". Por isso, noticiou Marx: operário francês, as incursóes na Economia Política e, principal-
(...) irei publicar numa série de folhetos independenres a crírica do ,ri.rr,., a redefiniçáo teórica marcada pela ruptura com Feuerbach
Direito, da Moral, Polírica erc., e por último tratarei de apresentar em 1845 e por um relacionamento diferente com o legado hege-
em uma obra única a coesáo do conjunro, a relaçáo das diversas par- liano. Essas influências fizeram com que Marx rapidamente se en-
tes entre si, e, finalmente, a crítica da elaboraçáo especulativa desse volvesse numa nova problem âtica e numa mudança de orientaçâo
jamais
mare rial.lra que o levou à posterior elabor açâo de O caPital e ao Projeto,
iniciado, de escrever um livro sobre a lógica dialética.
rrr Cf. Louis Os Cadernos de Paris e os Manustitos econômicr-flosófcos, prï-
Althusser, An,ílise critica da teoria marxista (Rio de Janeiro, Zahar,
1967). A bibliografia sobre o jovem Marx e as polêmicas rravadas em rorno da meira crítica da Economia Política, marcam uma ruPtura decisiva
interpretaçáo althusseriana sáo intermináveis. Por isso, preferi selecionar apenas
na evoluçáo intelectual de Marx. A redaçáo desses textos náo só
alguns títulos: A. S. Vázquez, Filosofa y economia en el jouen.N[arx (Barcelona,
Grijalbo, 1978); G. Lukács, II Gìouane Marx (Roma, Riuniri, l97g); H. Marcuse, fez conhecer o rumo dos estudos que iráo orientar, daí Parafrente'
a produçáo teórica de Marx, como também ajuda a entender
:\[aterialismo histórico e existêncitt (Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1968); G. os
IÍarkus, Teoria do conhecirnentl ilo jouem fu[arx (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974);
o
E. Mandel, A formaç,ío do pensdrnento econômico de Karl Marx (Rio de Janeiro, impasses teóricos em que se envolveu, levando-o a abandonar
Zahar, 1968); G. Bedechì, Alienación y fetichisml en el pensaníento de Marx
(Madrid, Alberto Corazón, 197il; I. ÌvÍészáros,.L[arx: a teorid da alienaç,ãa (Rio
compromisso assumido com o editor.
deJaneiro, Zahar, l98l). Entre os autores brasileiros ver: L. Konder, Marxismo e Há um momenro na reflexão marxiana de lB44 que nos interessa
da
de perto: a forte presença feuerbachiana nos bastidores da crítica
alienaçao (Rio de Janeiro, Civilizaçáo Brasileira, 19651;J. A. Giann oni, Origens da
dialética do tabalho (sao Paulo, Difusáo Europeia do Livro, lg66); Ruy Èausro,
fuíarx: Iógica k política (sáo Paulo, Brasiliense, z^ ed,.,l9gz); José paulo Nerro, E.ãrrorrria Polítila (ou "economia nacional", como era entáo chama-
Capitalismo e reifcaç,ão (São Paulo, Ciências Humanas, 1981); Gerd A. Bornheim,
da). Marx reconhece a influência recebida dos socialistas franceses'
Dialética. Teoria. Prtíxis (Porto Álegre-Rio de Janeiro, Globo, 19g3, 2" ed.).
Iri K. Marx, "Manuscriros de Paris" , ìn OME SlOb$s de Ìvtarx y Engels, op. cit., p. 303. ingleses e alemáes (entre esses últimos cita Nfleitling, Hess e Engels)'
rr{ quesrEo de realçar sua dívida para com Feuerbach:
Id., ibid., p. 303.
-ã, f",
Crrso Fnroentco 131
0 rovaut Mrnx

(...) são as decobertas de Feuerbach que verdadeiramente fundaram na Há uma Passagem em que Engels, discutindo
a crítica dessa ciência.

Alemanha a crítica positiva em geral e, portanto, também a crítica posiriva a relaçáo enrre preço e valor, que ná economia "tudo é colo-
"fir-" a fonte do preço,
da economia nacional.rr5 cado de cabeça paÍabaixo: o valor que é, à pardda,
é situado ,r" d.f.rrdência do seu produto. Essa
inversáo, sabe-se, é a
Sáo as ideias de Feuerbach que, umavez mais, conduzem a
essência da abstração (comParar Feuerbach sobre
esse Ponto)"'ttz
dámarche críticade Marx. Depois de estender a teoria feuerbachia-
de
na da alienaçáo religiosa para dar conta das relaçóes entre Estado Recusando a teoria do ualor, Engels acusa os economistas
da abstraçáo'
e sociedade civil, denunciar a dialética hegeliana e seus artifícios virarem a realidade de cabe çapanbaixo pelo recurso
empregara
lógicos, tecer consideraçóes sobre o morgadio, criticar, na esteira usando, assim, o mesmo argumento que Feuerbach
conrra a lógica de Hegel, e Marx, effi 1843, contra a
teoria do Es-
de Hess, o dinheiro como projeçáo alienada da essência humana,
e abstraçáo'
Marx, agora, adentra-se na Economia Política, á.rea totalmente tado desse autor. A identifi caçío entre teoria do ualor
estranha e desconhecida pela filosofia contemplativa de Feuerbach. aliás, foi feita, rempos depois, pelo sociólogo positivista Émile
Apoiando-se nesse autor, contudo, Marx lança-se num tema cen- Durkheim ao censurar os economistas Por se aterem à especulaçáo
à nossa percepçáo
tral para o desenvolvimento de sua teoria social: as relaçoes entre a abstrata em detrimento do fato empírico exPosto
Engels e
propriedade e o trabalho humano, chave Para a justificação teórica imediata; por náo partirem das "coisas para as ideias".
Marx, antes de aceitarem a teoria do valor e dela extraírem
suas
do comunismo. Adentrando-se nesse território, Marx Procurou
consequências revolucionárias (a mais-valia etc'),
também a critica-
desenvolver a sua novâ concePçáo teórica e política iâ esboçada
nos ensaios publicados nos Anais franco-alemaes. ,r* po, considerá-la uma abstraçáo construída pelo intelecto que
eles, contudo,
náo i"rt. da evidência do dado empírico. Mas Para
a abstraçáo em
A PRIMEIRA CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA não inreressava (como ao sociólogo francês) recusar
nome da construçáo de uma ciência social empírica
voltada Para o
O primeiro texto resumido por Marx nos Cadernos de Paris
estudo do fato social. A contestaçáo da teoria do
ualor baseava-se
foi o artigo de Engels "Esboço para uma crítica da Economia
na identificaçáo entre abstraçáo e alienaçáo, feita
numa'PersPectiva
Política". Publicado na revista Anais franco-alemáeg causou um
antropológica feuerbachiana interessada em efetuar
uma inversáo
profundo impacto em Marx, levando-o ao estudo dessa ciência.
Quinze anos depois, no preFácio da Contribuiçao à crítica da Eco' humanista e naruralista que se pretendia materialista.
a
nomia Política, Marx refere-se ao texto como um "genial esboço"tt6 Definida por Eng.l, .o-o a "ciência do enriquecimento",
e alienante
e, em O capital, cita-o diversas vezes. economia é acusada de ser um conhecimento alienado
construído para defender a propriedade privada e
ocultar a essência
Sem dúvida, Engels náo só iniciou Marx no estudo da Econo-
economistas
mia Política como também lhe forneceu elementos conceiruais para humana. A propriedade, esse fetiche adorado pelos
humano'
burgueser, rrd" mais é do que o produto do trabalho
ti

rr5 Id., ibid., p. 30>. ! Netto (org')'


r16 K. lrÍarx, Contribuiç,ão à crítica da Economia Polít;ca$eoPaulo, Martins Fontes, l97Z
FjrÌg.lt "E"b"to de uma crítica da Economia Política", inJosê Paulo
-fngrË Sociais").
Col. "Grandes Cientistas
p.2r). ísaopaqlo, Árica, 19g1, pp. G3-64,
132 0 .loyru Mrsx
CtLso Fstornrco

A economia, assim, é úofantasmagórica


como a firosofia es- os homens e estuda a produçáo social somenre considerada "sob
peculatira de Hegel, pois também
.orrr;ói um mundo às avessas, a ótica do lucro".rre Os críticos de Ricardo, como Say e Sismondi,
ao fazer do predicado (a propriedade
privada) um sujeito que
pressuposto de toda a reflexáo econômica. éo observa Marx, apenas combatem a "expressáo cínicd" de uma
E mais não por verdade econômica: "a humanidade se achafora e a inunanidade
de permanecer"iád*
coincidência Marx acusavl H5sel
no .,ponro de dentro da economia nacional".l20
vista da Economia política", d. fi.",
à positividade do O ponto de partida de Marx é o mesmo de Engels: a Eco-
mundo burguês. o ajuste de contas "f.rr"do
com a .,ciência do .n.iqueci-
mento" dava continuidade ao combare nomia Política fundamenra-se num fato que nío é explicado: a
conrra Hegel, levando propriedade privada. Evidenremenre, para os dois aurores já iden-
jovem conresrador a vasculhar justamente o
o subtérrâneo da socie- tificados com o ideário socialista da aboliçâo dapropriedade, esse
dade civil: as reraçóes econômicas
arienadas que susrenram a
priedade privada. o tema da propriedade, pro- tema tinha uma importância decisiva. Marx, eue entáo mantinha
já haviasurgido contato pessoal com Proudhon, viu-se na conringência de buscar
confusamenre nos Manuscritos de-Ioeuznacb, "rìár,
emque a instituiçáo uma fundamentaçáo que fosse além da formula jurídica abstrata
do morgadio era apontada como um
eremenro material perturba_ "a propriedade é um roubo". Além disso, toda a caracterizaçao
dor a conresrar a prerendida racionaridade
do Estad" rr.g.ìi"n". hegeliana da sociedade civil na Filosofa do Direito est^va baseada
Marx, agora,volta a enfrentar indiretamente
Heger ao lançar_se à nos ensinamentos da economia clássica. A incursáo nessa ciência,
crítica da economia crássica que fornecera
os insumos para o verho
filósofo expor a sua teoria sobre a sociedade portanto, permitia a Marx dar sequência ao combare a Hegel de
civir como o momenro modo diferente aos Manusritos de Kreuznaclt, sendo mais obje-
da alienação a ser superada no Estado
político. tivo, descendo às fontes, por ele até enrão desconhecidas, de seu
Mas a crítica definitiv a d.a E.orolia porítica
pressupunha adversário.
um conhecimento aprofundado dessa
disciprin" iu. o Na economia clássica a propriedade permanecia como um
aprendiz ainda não podia ter. por isso, lorr.,,,
a sua primeira incursão na
área lançou máo de eleme ntos pressuposto, um fato indiscutível, uma evidência aceita sem discus-
externos àsfronteiras da economia
sáo. Marx inicia a sua investida perguntando sobre a gênese desse
exercer a crític a a teoria feuerbachiana
::ï,ïder - da arienação pressuposto, sobre o porquê de sua existência. Seguindo o cami-
rellglosa.
nho aberto por Engels, explica a propriedade como decorrente da
A centralidade do homem na filosofia de
Feuerbach a é atividade de um sujeito que a Economia Política deliberadamente
principal referência para Marx criticar
a econom ia, a,.ciência do j

enriquecimenro", a aporogia cínic1 procurava ocultar: o trabalhador. Nessa nova perspecriva, o tra- ,ì,l
d" propriedade privada que balho deixa de ser visto como um mero "fator de produçâo" para
se vê obrigada a inverter a ordem
d", .ãir", . .,r,rpor
i1

acidenral a se tornar aquela advidade humana conrradirória a produzir, ao


realidade e real a abstraç ão".r8
Assim fazendo,vira as costas paÍa
I
Id., ibid., p.2(r4.Bolívar Echeverría, (K. Marx, Cuadernos de París [Notas de lecrura i
i'
K. Marx, "Exrracros de lecturas de Marx de 18441, op."it.l traduziu essa passâgem de forma diferenre: "(...) toda a produçáo é
en 1g44', in eME
-" 5/Obras
263.
op. cit., p. "" de Marxy Engek, considerada em referência ao comércio sórdido". iÈ

í' Id., ibid., p.268. ;f


,*
rl
Ig

rl
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t34 0 .tovtr',t Mrnx
CrLsl FnEoenrco r35

mesmo tempo' miséria parao trabalhador e riqueza mareriali zada um sujeito que à semelhança do homem religioso de Feuerbach
na propriedade privada. Esta, porranro, encontra
a sua origem no náo se reconhece mais na sua obra e aparece como se fosse a sua
trabalho humano, ou, para ser preciso, numa
forma oprrioï de rra_ criatura. O sujeito (o homem) tornou-se um objeto e o objeto (a
balho: "a propriedade privadaé o produro, result"do, .o.rsequência
propriedade), um sujeito. Ì
necessária do trabalho estranhado", ela "se
deriva analiticamente A Economia Política é a autoconsciência e o desenvolvimento
do trabalho estranhado, isto é, do homem esrranhado" r2r
desse objeto abstraído do sujeito. Em sua história ela acompanha
Marx, assim, chega à gênese da propriedade privada
por meio as fases da propriedade privada: desde o instante inicial, quando
de uma deduçao lógica e náo do ,..,rrro à expri
caçãohistórica, a riqueza era considerada "um estado exterior ao homem", até a
como fará posteriormente. Esse procedimento .,analítico,,
o con_ etapa moderna quando enfim admite, com Adam Smith, ser o
duz a um círculo vicioso: se a propriedade
privada provém do trabalho o princípio fundante de toda a riqueza concentrada na
trabalho estranhado, qual é a origem desse
úldmo? E d; a seguinte propriedade privada. Marx começa o terceiro manuscrito discor-
resposta:
rendo sobre os três momentos da história do desenvolvimento
("') o conceito de trabalho estranhatto (d,a uitla
estranhada) foi por nós da propriedade, visto sob o prisma de sua autoconsciência, a
enconrrado a partir da Economia Política como
resultado do movimento Economia Política:
da propriedade privada. Mas a anárise desse
conceito mosrra que a pro_ L) o mercantilismo via a riqueza como uma "essência objetiva
priedade priuada, embora apareça como fundamento
e causa do trabalho
para o homem" constituída pelo acúmulo de metais preciosos. As-
esrranhado, em realidade é uma consequência
deste; do mesmo modo sim concebida, consiste num elemenro determinado da natuÍeza,
que orìginalmente os deuses não sáo causa, mas
efeito da confusáo do exterior ao homem, independente do seu trabalho. Estamos aqui
entendimenro humano. 122
diante de uma noçáo incipiente e estreita da propriedade privada
o trabalho é assim entendido como a essência,como ..a essên_
que nos fornece uma visáo extremamente limitada da natureza (só
cia subjeri'a" da propriedade privada. o trabalho,
por,anro, é o alguns poucos de seus componentes sáo valorizados) e do próprio
sr'rjeito que cria toda a riqueza exisrenre
na proprieáade privada, homem (q,r. náo se objetiva por meio do trabalho criativo, mas
pela simples apropriação de uma riqueza exterior oferecida pela
r2r Id', ibid', p.358. Antes de prosseguir faz-se necessário um natuÍeza: sua alienaçáo primitiva é determinada por essa forma
esclarecimenro conceirual.
ìtíarx utiliza dois termos em alemáo para referir-se estreita de atividade). A propriedade, portanto, é aqui "uma essên-
à sicuaçìo do trabalho no mundo
capiralista: entàusserung (alienaçáo) e entfremdurg
Gr,r"ntamenro). por conta de cia objetiua para o homem", uma essência que náo lhe pertence: o
rraduçóes descuidadas, popularizou-se a expressáo ãtrabalho
alienado'. ÌvÍarx,
.Il:.9""" as duas expressóes indistintamenre, ora acenava para enrre- homem limita-se a recolheÍ, tÍazer para si, acumular uma riqueza
llijl:ï
orÌerença' À referência ao trabalho estranltado, visando ressaltar
uma suril
a oposiçao ."* o
operário e a sua criaçáo, que lhe aparece como
um poder i*econhecívei. t or,it,
exterior à sua existência;
Propor um dìsranciamento em relação à teoria feuerbachiana da alienaçao
f"r... 2) afsiocrAciA, dando um passo à frente, identificava a riqueza
ao mesmo rempo que realça a dominaçáo social
.ái'gìorr,
inscrira no processo áe prodirçao,
diferenciando-a, porranro, daquela arienaçáo
que é um produto *brrr".o, i
com a terra ç a agricultura. Mas a terra só se transforma em riqueza
da consciência misriÊcada.
irfiri,ir"r,
i graças ao trabalho humano, que desponta como "a essência subjetiva
t22 Id., ibid., , I
p. 35S. ,i
t( .i
t da riqueza", embora considerado em sua forma particular (trabalho
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0 ..r':'r:v Mrcx CrLso Farornrco

agrícola) e náo ainda como rrabalho humano em geral: a riqueza Ìv{as a economia, reconhecendo o homem como criador da
ainda depende mais da natureza do que do próprio uabalho criativo. propriedade privada, esforça-se paÍa oêultar esse fato e mistificar
A terra, por sua v.ez, é reconhecida como "uma realidade natural a realidade. Para isso, "o próprio homem passa a ser determinado
independente do homem, e náo como capital, isto é, um fator do pela propriedade privada, como em Lutero pela religiáo". Lutero,
próprio trabalho. o trabalho, ao conrrário, aparece muito mais portanto, náo aboliu a alienaçáo religiosa, apenas a transportou,
como um fator da rcrra".r3-ì t1 alienaçáo do trabalho permanece sem intermediários, para o interior do próprio homem. Da mesma
circunscrita à naruteza, se bem que a uma natureza mais ampla do forma, a Economia Política repôs a alienaç áo, fazendo do homem
que aquela concebida pelo mercantilismo. Por isso, a fisiocracia sig- a essência da propriedade privada, essência a ela submetida.
nificou um avanço, abrindo caminho para se reconhecer."o carircr Há uma passagem nos Cadernos de Paris em que Marx critica
geraldariqueza eo trabalbo, tomado em sua plenirude absoluta, isro Adam Smith numa angulaçáo diferente. Em suas leituras, copia
é, em sua abstracáo, será levado ao plano de princípio".tt+ e comenta uma frase daquele autor na qual a sociedade humana é
3) a Ecortomia Política, enfim, descobre o trabalho humano definida como "uma sociedade comerciante. Cada um de seus mem-
como o criador de roda a riqueza. Náo mais o rrabalho parricular bros é úm cotnerciante".126 O homem, observa Marx, surge aqui
e circunscriro, mas o trabalho humano em sua forma universal. como um ser egoísta que mantém relaçóes meramente mercantis
A essa nova concepçáo de trabalho corresponde a erapa em que a com a sua espécie, vendo em seu semelhante apenas um meio Para
alienação do homem atinge o ponro culminanre. a realizaçáo de seus mesquinhos interesses privados.
Dianre da descoberta de Âdam Smith, os anrigos economisras A Economia Política, entende Marx, contém uma antropologia
"aparecem como at/^oradores de ídolos, como católicoi'.Agora a rique- não explicitada. O egoísmo dos indivíduos náo é o produto de
za (apropriedade privada) deixa de ser vista como uma "circunsrân- uma sociedade determinada, aquela do trabalho alienado, mas é
cia exterior ao homem". Marx retoma a afirmaçáo de Engels que via considerado uma característica natural do gênero humano. Para
em A. smith o Lutero da Economia Polírica e acrescenra: combater essa visáo individualista do homem, Marx recorre à
Lutero reconheceu a religi,íl, a.fe como a essência do mundo exterior e, antropologia feuerbachiana. Vmos, no primeiro capítulo, a carta
portanro, enfrentou-se com o paganismo católico; suprimiu a religiosidade escrita a Feuerbach em 1l de agosto de 1844, no exato momento
externt, fazendo da religiosidade a essência interiordo homem; negou os em que redigia as partes finais dos Manuscritos econômico-flosófcos.
padres exreriores ao leigo, porque os transferiu para o seu coraçáo. Do Nessa carta afirmava ter sido ele, Feuerbach, quem havia ofere-
mesmo modo se suprime a riqueza exrerna e independente do homem cido "um fundamento filosófico ao socialismo" ao fornecer um
(...) *o incorporar-se a propriedade privada no próprio homem e esre a conceito de gênero humano que o missivista procu Íava identificar
reconhecer como sua própria essência.r:t indevidamente com a própria sociedade. Embora fosse totalmente
descabida essa identiÊcaçáo da visáo amorosa do gênero humano

l:3 Id., ibid., p.373.


rti Id.. ibid., p.373. K. IÍarx, "Ettracros de lecturas de Marx en 1844", in OME 5/Obras de Marx 7 Engels,
l]i Id., ibíd., p. 3, l. op. cit., p. 281.
0 lovma N4rp< Ctlsit FrEciitic,t - 139

(concebido como uma teia de relaçóes pessoais inrersubjetivas) e o produçáo burguesa, fazendo do trabalho humano (atividade livre
conceiro marxiano de sociedade (construído em rorno da proprie- . ,r.rit.rral) um trabalho abstrato (atlvidade alienada e Particula-
dade privada e de sua relaçáo conflitiva com o trabalho humano), rista); e, d.e outro, povoa a sociedade humana de objetos estranhos
é ela que serve defio condutor à crítica da Economia Política. à atividade dos produtores - podendo tais objetos ser venerados,
Contra a sociedatte tilercãnti/ descrita peios economistas, iVarx e transformados em fetiches.
opóe a comunidade /ttmtana. A primeira é o reino da alienaçáo e A reduçáo do trabalho humano às vicissitudes mercantis é cen-
do estranhamento, constituída por homens egoístas, que veem tral na argumentaçáo de Marx. O trabalho, visto pela Economia
seu relacionamento com a espécie como se fosse uma relaçáo co- Política exclusivamente como atividade lucrativa' como gerador
mercial. Essa sociedade do homem alienado é "a cariçatura de sua de valores de troca, leva à completa depreciaçáo do homem'
O ser
comunidade real, de sua verdadeira vida genérica".ir- A segunda, a humano, aliás, só interessa à Economia Política na qualidade de
produtor: "ela náo conhece outra forma de trabalha que a que
se
comunidade ltuntana, é aquela em que as relaçóes humanas náo es-
'f^t
táo alienadas e, portanto, podem se dar diretamenre como relaçóes po, dinheiro".rre Com isso, estabelece a cisáo entre o ltomem
pela
em que o indivíduo e a espécie convivem em harmonia. Nela, e o-operário. Aoposiçáo enrre homem e cidadáo, produzida
O ittercâmbio anro da arividade humana no seio da própria produçáo alienaçáo da sociedade civil na esfera estatal' ganha uma nova
quanto também dos produtos do /tonern é igual à atit'idade e espírito da roupagem e um novo conteúdo na Passagem da crítica à política
espécie, cuja existência real, conscienre e verdadeira é a arividade social e para a crítica da Economia Política.
o desfrute social. Como o ser humano é a uerdtdeira contunidade dos ho- Outro momento de forte Presença feuerbachiana no trato das
mens, os homens, acuando o próprio ser, crirtttt, produzem a comttnidade quesróes econômicas está nas referências ao dinheiro,
feïtas no
humana, a realidade social; e este náo é um poder geral e abstraro frenre terceiro dos Ìulanttscritos econômico-ftosófco.t e no extrato de leitura
ao indivíduo singular, mas o ser de cada indir'íduo, sua própria atividade, sobre James Mill nos Cadernos de Paris. Nessas Passagens
cruzam
sua própria vida, seu próprio espírito, sua própria riqueza.rrg ,.-", já tratados em ensaios anteriores: o dinheiro como aliena-
por Hess e q9ç serviu de
Tendo como referência esse ideal abstrato de comunidade çáo da essência humana, rese defendida
humana, Marx contrapÕe-se à sociedade mercantil, na qual a referência para Marx redigir a final de "A questáo judaica";
Parte
produçáo, vista por ele como produçáo do indivíduo, em vez a crítica ,r'rbj*..r,te ao conceito hegeliano de mediaçáo, tratada
de realizar a essência humana, destina-se à criaçáo de valores de nos Manuscritus de Kreuznach, em esPecial quando
da análise da
troca exigidos pela imposiçáo do mercado. A produçáo de obje- burocracia como ponre enrre o Estado e a sociedade civil.
tos visando basicamente o valor comercial (e náo o valor de uso, Diante de um tema crucial para a Economia Política, como
uma
entendido como expressáo das reais necessidades humanas), de o do dinheiro, Marx centra seus comentários valendo-se de
bem
um lado subordina toda a energia vital do homem aos critérios da posnrra filosófica exterior ao objeto em questáo. Ou, como
observou Adolfo Sánchez Yâzquez,
l:-
Id.. ibid., p.282. t-
lls
Id., ibià., p.282. r:e Id., ibid.ip. 315.
0 .;ovrr., Mrax
Crrso FnrorRrco . 141

o tratamento de Marx Parte agora da funçáo econômica do dinheiro bela. Porranro, náo sou
como feio, poisa consequência d.afeiura,sua repug-
intermediário no processo de circulação das mercadorias náo para
analisar - nância, fica aniquilada pelo dinheiro. (...) Enquanto o dinheiro me der
esra funçáo enquanro tal, mas para ver como é aferad.o o homem (...).'ro tudo o que um coração humano possa desejar, não disponho de todas
o
horror demonstrado pelo jovem Marx, quando se refere ao as qualidades humanas? Meu dinheiro não rransForma todas as minhas
comércio e à concorrência, aringe seu paroxismo nos comentários fraquezas em seu contrário?r3r
sobre o dinheiro. Graças à açáo deletéria do dinheiro, a convivência Além de potenciar e inverter as qualidades humanas, o di-
humana altera-se: deixa de manifesrar-se por meio de relaçóes nheiro também delas se apropria. tansferidas do homem para o
hu-
manas diretas para efetivar-se pela mediaçáo material enfeitiçada. mediadot essas qualidades marerializam-se num objeto exterior
Como mediador universal, o dinheiro é o "laço de todos os laços,, ao homem:
a unir o homem com outro homem, com a sociedade'e também O essencial do dinheiro é que a atiuidade ou movimento mediadores, o
com a narureza. Desconhecendo ainda a verdadeira mediaçáo ma_ ato humano, social, com que se complemenram mutuamente os produtos
terial inrerposta enrre os homens os meios de produção
- -, Marx do homem, se aliena e se converte em propriedade de uma coisa material,
concebe o dinheiro como uma criatura desgarrada do criador, fora do homem, do dinheiro.lll
perambulando pelo mundo para inverter e perverter as relaçóes o
dinheiro é um fetiche destinado a ocultar a atividade hu-
enrre os homens. como uma força social exrerna aos indivíduos, mana, a fonte verdadeira e esquecida de toda a riqueza. Mas Marx
o dinheiro é uma falsa mediaçáo, na verdade um "meio geral da também acena para uma outra imagem religiosa ao comparar o
separaçáo". Apossando-se das qualidades essenciais do homem, dinheiro com a figura divina e humana de Cristo: "Cristo é o
o dinheiro é descrito, com base em citaçóes literárias de Goethe Deus estranltado e o ltomem esÍranhado (...). O mesmo ocorre com
e Shakespeare, como uma força transcendental (demoníaca ou o dinheiro".r33
divina) tumultuadora da sociabilidade humana. Estamos no coraçáo da teoria feuerbachiana da alien açáo.
Inicialmenre ele manifest a a capacidade de ampliar fantas- Cristo é a essência humana projerada, a exterio rizaçâo das capa-
ticamente os poderes de seu possuidor. Incorporando-se a este, cidades humanas. Por isso, a adoraçáo de Cristo é a ado.raçáo do
transforma todas as qualidades humanas em seu cont rârio, esta- homem, de seu ser genérico. Mas o homem religioso não vê a si
belecendo "a confusão e inversão geral de todas as coisas": mesmo em Cristo, náo vê a sua espécie, já que a exterio rizaçáo
Eu, o dono do dinheiro, náo sou. senáo o que ele poe ao meu alcance, o de sua essência transforma-se em estranhamento, em náo reco-
que posso pagar, ou seja, o que ele pode comprar. sua força é a medida nhecimento do fato de ser a adoraçáo do objeto (Cristo) uma
exata da minha e, embora seja seu dono, náo tenho mais Faculdades nem veneraçáo inconsciente dos próprios atributos extraviados do
propriedades que as suas. Portanro, não é minha individualidade quem sujeito (o homem).
derermina o que sou e posso. Sou feio; mas posso comprar a mu1her mais
rJl
K. Marx, "Manuscriros de Paris": in OME 5/Obras de Ìu[arx y Engels, op. cit., p. 407.
132
K. Marx, "É*t."to, de lecturade Marx en [84,í", in oME Slobras de Ìv[arx y Engels,
r30 A- S. Vazquez, 'Economia y humanismo", in K. Ìy7arx, Cuadernos de parís [Notas de op. cit., p.276.
Iecrura de 1844J, op. cit., p.71. 'ï llJ
Id., ibid., p.277.
0 rovrur Mrnx
CrLsc Fniornrco

o mesmo ocorre com o dinheiro. valendo-se desse mediador, Como produto histórico, o comunismo acompanha o de-
'b homem, que deveria ser ele mesmo o mediador -lm-,rr,
do ho senvolvimento da propriedade privada. Trata-se, a rigor, de um
delega essa funçáo ao dinheiro. com isso, o vil
metirr subverre as único processo a envolver o movimento da propriedade privada,
relaçóes humanas reais, rompendo a unidade
originária do gênero o trabalho alienado, as teorias econômicas e, na contracorrente,
humano.
as ideias políticas emancipatórias. Marx destaca as três fases desse
A mediação, uma vez mais, revela-se uma impossibilidade
e Processo:
um esro^'o. No mundo da política, os burocraras fingem l) o comunismo
ser a grosseiro é a primeira tentativa efetiva de su-
mediacáo enrre os indivíduos atomizados da sociedade
civil e o peraçáo da propriedade privada. Vendo nesta um objeto nocivo
Estado. ìwarx, conresrando Hegel, demonsrrou ser
a mediaçáo e poderoso,procura negá-la por complero: todos devem ser pro-
um arriftcio lógico, um embuste, pois os burocraras represenram_
prietários de tudo. Com isso, a propriedade nao é efetivamente
se tão-somente a si mesmos, comportando-se como
uma corpo- suprimida, mas somente coletivizada. Da mesma forma, a condi-
ração fechada e hostil aos indivíduos. Além disso,
a burocracia çáo operâria nâo é abolida, mas estendida paÍa todos os membros
é um ser absrrato, sem contefido, Llma forma preenchida da sociedad.e. Instaura-se um ideal de pobreza implicando uma
por
um conreúdo (os interesses do Estado) que lhe é exterior. (Jn.r "abstrata negação de todo o mundo da cultura e a civilizaçáo, as-
ser, porranro, que é a própria expressão da alienaçáo.
Tâmbém sim como a volta à simplicidade antinatural de um hom em pobre
o dinheiro, fingindo mediar a sociabilidade humana, e sem necessidades (...;".tae
é um ser
alienado e alienante, interpondo-se enrre os homens
como ..o Ao lado dessa sociedade nivelada, composta de trabalhadores
laço de todos os laços", mas, na verdade, sendo apenas .,meio "sem necessidades", antepõe-se a comunidade, isto é, o "capitalista
o
geral da separ ação" que arom iza acomunidade humana
e rompe geral". A coletivizaçáo da propriedade privada náo é ainda a eman-
os elos de solidariedade, fazendo da vida humana
uma existência cipaçáo do homem: "a posse fïsica, imediata, parece-lhe o único
antissocial.
objetivo da vida e da existência".t37 A propriedade privada, agoÍa
o
comunismo desponta no horizonre teórico de Marx como estendida a todos, continua impondo-se ao homem e impedindo a
a superaçáo definitiva das formas degradadas de convivência efedva superação da alienaçáo. Exemplo disso é a proposta corre-
humana. Surge, concretamente, como resultante do lata da "comunidade de mulheres" como superaçáo do casamento.
processo
objeti'o contraditório que envolve a propriedade prirrada e o A mulher aqui deixa de ser propriedade particular de um único
trabalho estranhado. A relação enrre ,-bàr, diz Marx, ..uma homem paÍa converter-se em propriedade coletiva e comum. Ela,
é
relação enérgica e, por fim, autodestrutlur".r35 o
comunismo portanto, náo se emancipa. A relaçáo entre o homem e a mulher
irrompe como "a expressáo positiua da propriedade privada é vista por Marx como critério para "julgar o grau de cultura do
superada". homem em sua cotalidade". No comunismo grosseiro, a mulher

r'r{ Id., íbìd., p.277. t36 Id., ibid., p.376.


r-Ìi i
K. Ìr{arx, 'Ìt'Íanuscriros de paris', irt oME 5/obrorfu" Marx
y Engels, op. cit., p. 374. t37 Id., ibid., p.377.
0 loviu Mnnx Cii-so Fne ornrco . 145

sai do casamenro para a prosriruição geral, tornando-se objeto luçáo- da discórdia entre existência e essência, entre objetivaçáo e afirmaçáo
da
luxúria coletiva. Essa forma de comunismo não traza emancipaçáo de si mesmo, entre liberdade e necessidade, entre indivíduo e espécie. É a
e não supera a propriedade privada.r3s soluçáo do enigma da história e sabe disso.ra0
2) a segunda tentativa parasuperar a propriedade privada é Embora concebendo o comunismo como a plena realizaçâo
o
comunismo político em sua forma democrática ou despórica. Dialo_ do ideário humanista de Feuerbach, Marx apressa-se a esclarecer'
gando diretamente com algumas correnres que atuavam nos basti_ diferentemente desse autor, que a chave da emancipaçáo está
dores do movimenro operário francês, Marx náo se dá ao trabalho na economia e não na religiáo: "a alienação religiosa, enquanto
de citálas, o que torna difïcil identificar seus interlocurores. De religiosa, limita- se à consciência da intimidade humana; mas a
qualquer forma, a expressão "comunismo político" atualiza a opo- alienaçáo econômica é a da uida real (...)".t4t Por isso, todas as
siçáo enrre emancipaçáo política e emancipação humana e a crítica formas de alien açâo (religiosa, política etc.) estáo sustentadas
da primeira como uma forma insuficiente, ainda embaraçada na pela alien açâo econômica que tem o seu símbolo na propriedade
propriedade privada e no limitado universo do cidadão, incapaz privada. Para superar a alienaçáo é preciso abolir a ProPriedade
portanto de realizar a completa emancipação do homern;r3r privada: isso requer uma açao práticaem tudo diferente da crítica
3) a terceira e última forma é "o comunismo como superaçáo iluminista da religiáo, que esclarece o homem, mas náo muda
positiva da propriedade privada" e reaprop riação completa da a realidade.
essência alienada do ser humano. Marx fornece uma definição No desenrolar de sua argumenteçáo Marx faz consideraçóes
estritamente feuerbachiana: sobre a história humana como parte da história natural, afirmando
Esse comunismo é humanismo por ser naruralismo consumado e natura- que "para o homem sociali sa tudo o que se conuencionott cltamar de
lismo Por ser humanismo consumado. Ele é a uerdadeira soluçáo na lura história uniuersalnáo é outra coisa que a produçáo do homem pelo
entre o homem e a natureza, entre o homem e o homem, averdadeira so- trabalho humano (...)".tn' Subitamente, Marx introduz a produçáo,
a atividade humana material, o trabalho, como o elemento forma-
dor da história humana. A presença dessas duas novas dimensóes
"Ao criticar o comunismo tosco, lMarx] náo menciona nomes. (...). Trata-se, em
(a atividade e a história) rompe inesperadamente com a concepçáo
primeiro lugar das ideias dos discípulos de Babeuí encabeçados por Buonarrotti, dos
quais, em um escrito imediatamente posterior aos Manuscritos, ouseja, n'l sagradafa- feuerbachiana do gênero humano como uma entidade subjetiva
mília, se diz categoricamente: 'os babouuistas erammarerialisras roscos e incivilizadós'.
Mas é um fato que, Por aqueles anos existia uma série de sociedades secretas, como a e a-hisrórica.
dos 'trabalhadores igualitários' e a dos 'humanitários', que posrulavam a supressão do Na parte final deste capítulo iremos enfocar as implicaçóes
matrimônio e da família, assim como da cultura, ciência e belas arres", esclarece A. S.
Yázquez (op. cìt., pp. 123-124). do caráter ativo e histórico do gênero humano. Por ora cabe
I 3t)
Tentando identificar os interlocutores de Marx, A. S. Vázquez observa: "(..) o socialista observar somente gue, de acordo com essa nova concePçâo, a
utópico Cabet poderia Passar por um representante do comunismo democrático se se
Pensa nas instituiçóes democráticas que apresenre em sua descriçáo de sua sociedade
utópica; que Blanqui e outros dirigentes de sociedades secreres, com seu culto da vio-
lência, poderiam ser considerados na linha do comunismo'despórico', e, Ênalmenre, 1i0 K. Marxi "Manuscritos de Paris", in OME 5lObras de Marx 7 Engek, op. cit., p' 378'
que Dézamy, desde 1842, em seu Ctidigo da cçpnunidade, punha o acenro sobretudo 1{r Id., ibid., p.379.
numa sociedade sem Estado", (op. cit., p.lZDi! r'ir Id., ibid., p.387.
Cttso Fntotnrco '

crírica da relieiiro é posta explicitamenre num plano secundário. Antes de prosseguirmos, faz-se necessário um breve comentá-
Se o homem e a natureza sáo para Marx parres de um mesmo
rio sobre as implicaçóes teóricas contidas nessa primeira investida
processo, náo tem mais sentido preocupar-se nem com a exis_ na Economia Política.
tência de um ser superior alheio a tal processo, nem continuar A contraposiçáo das relaçóes existentes na sociedade burguesa,
persistindo no areísmo, a negação abstrata da alienação religiosa. tais conro eram descritas pelos economistas, à comunidade huma-
tr[arx, usando iì rerminologia de Hegel, que até enrão criricara na imaginária, uma extensáo do gênero humano concebido em
com veemência. rompe o dualismo de Feuerbach e o seu pró_ rermos feuerbachianos (e que serve, também, Para fundamentar a
prio, ao enren,ler o comunismo como um terceiro momento, reivindicação do comunismo), enquadra a críttca marxiana numa
con'Ìo a negaçao da negaçã0, um passo à frente que nega e supera
posrura moralista. A repulsa ética ao mundo burguês prejudicou a
a abstrata crítica religiosa em nome da emancipação prática do
avaliaçáo científica dos esforços da Economia Política Paraentender
gênero humano. o funcionamento da sociedade civil. Marx, assim, Procurando na
filosofia feuerbachiana elementos para fundamentar sua investida,
ECONON{IÂ E HUMANISNÍO: RECUOS E AVANçOS introduziu a "metafísica" na Economia Política, procedimento que
A primeira incursáo de Marx na Economia Polírica apresenra criticará em Proudhon, posteriormente, na Miséria daflosofa.
resu]tados surpreendentes. Vimos, anteriormente, alguns momen- Constatando a semelhança entre a igualdade origintíria em
tos centrais dessa investida. Inicialmente, a influência motivadora Proudhon e a essência genérica em Marx, Giannotti observou:
de Engels tanto na denúncia do caráter absrrato e mistificador da "diante da eclosáo da Economia Política, Marx teve um gesto
Economia Política quanto na proposta de submeter essa disciplina de retrocesso. tatou de restringir o âmbito do determinismo
à mesma in'ersáo humanista operada por Feuerbach em relação à instaurado pela nova ciência, lançando máo PaÍa isso do ideal de
lógica hegeliana. O recurso à Antropologia serviu para o primeiro humanidade abstrata, que nutria as esPeculaçóes sociais do século
propósito, isro é, mosrrar que a Economia Política, a "ciência do 18 e tinha em Feuerbach seu rePresentante mais avançado";t43 vale
enriquecimento", nada mais era que um conhecimento alienante dïzer: perante a intrincada trama de leis e relaçóes econômicas que
concebido para justificar a propriedade privada. Ao tomar a pro- enfeixam a sociedade civil burguesa, ele recuou Para "a sociabilida-
priedade como fundamento indiscutível, relegou para um plano de natural e mística de Feuerbach, espreitando todos os momentos
obscuro a sua "essência subjetiva": o trabalho humano nela estra- oportunos para denunciar as relaçóes econômicas como negaçáo
nhado. Nesse mundo às avessas, fazem sua apariçáo os indivíduos e decomposiçáo dessa essência imutável".laa
egoístas, mantendo relaçóes estritamente mercantis com o gênero regressivo da crítica filosófica marxiana aos desco-
O caráter
humano e o dinheiro, essa mediaçáo enfeitiçada pervertedora do brimentos científicos da economia clássica tem a sua confirmaçáo
intercâmbio entre os homens. A superaçáo desse esrado de coisas,
preparada pela própria evoluçáo da propriedade privada, é o co-
munismo, a definitiva ruprura com a p,ropriedade privada e seus
1{} J.À. Giann orri, Origens da dialética do trabalho, op' cit., p. 110.
efeitos delerérios na sociabilidade humâna. t'r{ Id., ibid., p. I ll.
0 lovru Mnnx C*so Fntotntco r49

na posrura ambígua perante a teorid do ualor.t4t O compromisso Esta só é real quando Parte dos sentidos".ra6 Ora, o valor náo
ê

ideológico com a ordem buiguesa náo impediu Ricardo de desco- dado aos nossos sentidos e, nem por isso, deixa de comandar
todo
brir que a troca de mercadorias é rea\tzada rendo como referência o o intercâmbio das mercadorias. Negando realidade ao valor -
a

valor, a medida a orientar as transaçóes, e que o valor é determina- "alma" invisível da mercadoria -, Marx Permaneceu na posição
do pelo trabalho humano incorporado nos objetos. A mercad.oria, regressiva de recusa a essa descoberta científica que ele interpretou'
como mais tarde descreveria Marx em O capital, é um objeto .q",ri,ro."damente, como uma mera apologia do trabalho alienado'
dialético: rem uma realidade sensível caprada pela nossa senso- e pôde'
Sã t.-pos depois admitiu a veracidade da teoria do ualor
é tro-
percepçáo e uma dimensáo abstrata e imperceptível (o valor); tem baseando-se nela, tirar implicaçóes revolucionárias: tudo
um ser e um náo ser, um corpo visível e uma alma. O valor só se cado e vendido pelo valor, inclusive a força de trabalho, a única
o seu
manifesta aos nossos olhos sob a forma de preço, a sua expressáo mercadoria que, ao ser posta em açáo, é capaz de reproduzir
monetária: sem essa etiqueta reveladora, um mistério indecifrável valor e gerar mais-valor Para o capitalista. A mais-valia, a grande
pela
habita o interior da mercadoria. A economia clássica ja havia le- descoberta científica de Marx, assim como o valor revelado
vantado o véu e feito a descoberra: valor é trabalho incorporado náo
economia clássica, náo sáo captados pela senso-Percepção,
sáo objetos sensíveis e, nem por isso, deixam de existir e
na mercadoria e, embora essa substância social náo seja perceptível serem
empiricamenre, é ela a medida a reger todo o intercâmbio. verdadeiros.
Dianre desse achado dos economistas ingleses, o jovem Marx Outro exemplo da intromissáo de conceitos retirados da fi-
permaneceu numa postura ora de recusa completa (nos Manus- losofia paÍa, de fora Para dentro, avaliar a Economia Política é a
critos econômico-fhsófn), ora de meia-aceitaçáo (nos comentários identific açâo, feita por Marx, entre trabalho abstato (o trabalho
sobre James Mill feito nos Cadernos de Pari), quando admitiu ser humano geral que, independentemente de sua Particularidade,
o valor gerado pelo trabalho na produçáo para, em seguida, recuaç é o criador do valor) e alienaçaa. Contrariamente ao que
Marx
chamou genericamente de trabalho humano' a atividade livre
afirmando que, ao chegar na esfera da circulaçáo, ele desvirrua-se do
pela influência maléfica da concorrência. homem que cria o valor de uso, do homem que projeta sua essência
uma
Podemos interpretar a posiçáo marxiana como uma direta no mundo material, o trabalho abstrato é visto por ele como
atividade que separa o homem de si mesmo, ã. ,,," essência'
decorrência da filosofia de Feuerbach que só conferia realidade É
aos objetos sensíveis e náo àqueles construídos pelo pensamenro como se ouvíssemos de novo Feuerbach: "abstraír épôr a essência
o
reflexivo. Marx, nesse ponto, segue à risca esse autor ao afirmar: do homem fora do homem": essa máxima, cunhada Para criticar
"os sentido.i (ver Feuerbach) têm que ser a base de toda ciência. aqui
caráter especulativo da filosofia hegeliana' Parece insinuar-se
Po-
na tentativa de invalidar o rePertório conceitual da Economia
lítica. O trabalho abstrato,exigido pelo desenvolvimento da grande
Cf. Auguste Cornu, "Marx, le rejer de la théorie de la laleur de Ricardo er la cririque indústria, na imposiçáo do caráter coletivo e social da produçáo' na
de lanotion de travail chez Hegel", in La Pensée, n" l9{, lg77.Háuma raduçao pãr-
tuguesa desse ensaio na antologia preparada por Vpsco de Magalhães Vilhena, fuíarx
e Hegel (Marx e o "ceso" Hegel), (Lisboa, Livros Hõrizonre, 1985). 146 K. Marx, "Mapuscritos de París" , in OME 5/Obras de MarxT Engels, op' cit'' p' 385'
0 ;ovru Mr,qx

divisáo das funçóes e tarefas etc., é conrraposro ao idílico trabalbo Inicialmente o homem toma Posse do objeto' tornando, assim,
httmano, expressáo idealizada da atividade do artesáo individual objetiva a sua vontade, agora inscrita numa matéria que lhe é
na fase pré-capitalista. exterior. Nesse momento, o indivíduo coloca a sua vontad'e no
Tema decisivo da crítica à Economia Polític a é o das relaçóes objeto e mantém com ele uma relaçao positiva. Maso aqui, "a
entre a propriedade privada e o trabalho. Marx aqui dá prosse- coisa é colocada como negativa e minha vontade nessa determi-
guimento, implicitamente, ao combate a Hegel e sua concepção naçáo êparticulãr".r4s Esse estado de indeterminaçáo resolve-se
de sociedade civil. com o reconhecimento jurídico da posse por meio do instituto
Quando se fala em propriedade, convém atinar sempre para os da propriedade. Consagrada juridicamente a Posse' a propriedade
dois sentidos da palavra, distintos e correlacionados,. subjacentes perde o caráter negativo de ser apenas o predicado da vontade de
ao texto de Marx. Inicialmenre, propriedade designa uma coisa seu possuidor e Passa a ter uma existência objetiva; além disso, o
material, um bem, uma posse reconhecida juridicamente. Mas possuidor supera a sua relaçáo particular com o objeto mediante
a palavra também rem o sentido usual de qualidade, atributo, o reconhecimento universal conferido pela sançáo jurídica que
caráter, determinaçâo. Os dois sentidos estáo presenres no jovem transformou a posse em ProPriedade do indivíduo. Com isso, a
Marx: a propriedade como uma matéria exrerior e, além disso, uontadeestá instituída e os indivíduos ganham uma personalidade
entendida como as qualidades humanas extraviadas. A propriedade jurídica, relacionando-se, daí para frente, segundo o reconheci-
tem, porranro, duas dimensóes interligadas: a objetiua e a subjetiua, mento mútuo (universal) da propriedade. A vontade fica assim
l#i
I ï; Nos Manuscritos econômico-f losófcos, Marx privilegia a dimensáo objetivada, posta fora dos sujeitos, alienada na ProPriedade, que
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lËr
subjetiva, valendo-se do trabalho como a "essência subjetiva" da surge como o elo marerial ligando os indivíduos e suas vontades
propriedade privada. Esse encaminhamento, oposro ao seguido p"rii.,rl"res, instituindo um contrato' a conciliaçâo formalizada
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em O capital, rrouxe resultados contraditórios. entre as partes pela mediaçáo de um elo material (a propriedade)
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No que diz respeito à continuidade da polêmica com Hegel, e de um reconhecimento universal.
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que concebia a propriedade como uma realidade objetiva, Marx coube a Lukács o mérito de ter mostrado que a teoria da aliena-
ff'
1Í. continuou combatendo em posição de desigualdade. Na Filosofa do çáo de Hegel é um desdobramenro da Economia Política, a ciência
$i
ï*í
É3t direito, o autodesenvolvimento do conceito de vontade encontra-se que expôs a alienaçáo do ser social nessa segunda natureza em que
s; dessa
#l com a posse, a propriedade e o contrato social. O direito "é o reino se transformou a sociedade burguesa. Mas Hegel, procedendo
da liberdade realizadi'.147 E a liberdade para se realizar, para se au- forma, estabelece uma duplicaç,ã, entre as categorias econômicas e
#i
#' todeterminar, precisa conhecer o seu objeto. A vontade racional, que o elemento jurídico. Por isso, afirma Lukács, acabou entendendo
*; se reconhece num objeto, é, portanto, o contrário do mero arbítrio náo só "a formulaçáo jurídica das categorias econômicas como algo
.#;
pessoal, o contrário do capricho subjetivo que reitera a todo rempo superior, na hierarquia de conceitos, ao meramente econômico' mas
a conrraposição enrre o indivíduo solipsista e o mundo exrerior. também cqmo algo cujo resultado, a forma jurídica, dá de si um

t47 G. F. Hegel, Filosofa del derecho (Buenos Aires: Claridad, 1968, j" ed., p. 46). r48 Id., ibid., P. p2.
0 lovnl Mrnx Crrso Fneoenrco

conreúdo novo'' r4e


Por outro lado, a crítica a Hegel, além de aponrar sociais fUndamentais estruturam-se em torno de uma mediaçáo
essa primaziadalógica sobre a realidade, náo teve dificuldades maio- material (os meios de produçáo).4 concepçáo marxiana de relações
res, após as descoberras científicas do
Marx rnaduro, de entender que deproduçao gtarda um indisfarçável parentesco com a concepçáo
aquele autor permanecia somenre na esfera da circul açâo,vendo
os hegeliana de propriedade'rtr
indivíduos na condiçáo de proprietários. por isso, aliás, pôde Hegel O jovem Marx, entretanto, seguiu um carminho inverso ao
dizer que "essa relação de vontade à vontade é o
próprio e verdadeiro de Hegel, encarando a propriedade privada náo como uma obje-
terreno em que tem existência a liberdade"rio A descoberta da mais_
tivaçáo da vontade, mas como o resultado do trabalho humano
valia, deslocando a discussáo paÍaa esfera da produção, revelou ser
estranhado. A propriedade, em vez de ser estudada como um fato
o contrato burguês náo a realização daliberdade, ÍÌÌês a condiçáo objetivo, foi enfocada no seu aspecto subjetivo, como decorrência
formal dissimuladora que permite a exploraçáo da força de trabalho. do trabalho humano, a "essência subjetiva" da propriedade pri-
o contrato de trabalho, por exemplo, é uma forma abstrata que es- vada. Em Hegel a propriedade era a materiali zaçâo da vontade, a
conde o fato de a jornada de trabalho se dividir em dois momenros:
objetivaçáo do sujeito, a realizaçáo da universalidade do homem
o trabalho necessário, quando se dá a reproduçáo do valor da força pela apropriaçáo de um objeto particular; em Marx, ao contrário,
de trabalho (salário) e o momenro seguinte, o do trabalho excedenre, a propriedade é a submissáo do mundo humano ao reino dos ob-
quando o operário passa a produzir mais-valia. jetos, a alienaçáo do sujeito, a perda da universalidade do gênero
Apesar dessas e de outras críticas que se possam dirigir a He- pela açâo dissolvente
humano - e sua consequente fragmentaçáo -
gel, náo se pode perder de vista a novidade revolucionária contida e antissocial da apropriaçáo privada.
nessa reflexáo filosófica feita com base na Economia política. O enfoque marxiano, entretanto, permitiu ver a contradiçáo
Na teoria hegeliana quem articula os indivíduos no interior da inscrita na propriedade privada, contradiçáo que exPressa o an-
sociedade civil náo é mais o reconhecimenro de cada um como tagonismo de classe da sociedade capitalista. A luta de classes foi
Pertencente ao gênero humano, náo é o amor, o encontro do eu e enfocada como uma decorrência da propriedade privada no livro
do tu, não é a consciência ou qualquer ouüo movimento centrado imediatamente posterior aos Manuscritos, A sagrada família:
na subjetividade. Hegel introduziu pela primeira vez nahistória O proletariado e a riqueza sáo opostos. Como tal constituem uma
do pensamento um elementt material a mediar as relaçoes entre totalidade. Ambos sáo produtos do mundo da propriedade privada' A
os indiuíduas, indivíduos que náo sáo mais vistos abstratamente
questáo é saber qual o lugar específico que cada um dos doiS ocupa nessa
como homens e, sim, como seres sociais, pessoas jurídicas, man- contradiçáo (...).
tendo relaçoes sociais. Quando Marx enfim se desembaraçou do
dualismo feuerbachiano pôde também visualizar que as relaçóes
rir Sobre o conceito de propriedade em Hegel, ver: B. A. Sampaio e C. Frederico,
"A socie-

dade civil em Hegel;, ii


Reuista Ìy'ouos Rumo-r (Sáo Paulo, Novos Rumos, no 3, 1986)' A
importânciâ da riediaçáo marerial enrre as vonrades, na filosoÊa hegeliana do Direito,
G. Lukács, El jouen Hegely los problemas de Ia sociedadcapitalista(Barcelona, Grijalbo, mostrada
.oào o embriáo da futuraconcepçáo marxiana de relaçóes de produçáo, Foi-me
1963), p.378. .í pelo amigo Benedicro Arthur Sampaio, a quem agradeço a indicaçáo e a generosidade
li0
G. F. Hegel, op. cit., pp.9I-92.
intelectual. i
0 iovlr',r fuÍiar CrLso FReoesrco

No seio conrradiciÌo, o proprietário prir-ado é, portanto, o parrido


clessa
O Marx maduro, desligando-se de Feuerbach, voltou a estudar
cottsÌruíldor, o prolerário o partido destruidor. Do primeiro emana
a açao a propriedade, não mais entendida co.ttô uma decorrência de sua
que manrém. a conrradicío, do se-s:undo a açáo que a descrói.ir:
essência subjetiva, o trabalho humano estranhado. Vinculando a
Nos zvlanuscritos econômico-f losrifcrr a lura de classes não propriedade à apropriaçáo, determinando-a, historicizando a sua
é
explicitada com a mesma força. Marx detém-se prioritariamente existência, Marx, paradoxalmente, aproximou-se da perspectiva
na consrataçáo do empobrecimento do trabalhador e do conconri-
hegeliana. A apropriação privada dos meios de produçáo, gênese
ranre aumenro da riqueza nas máos do burguês. com base nisso da propriedade privada, relaciona os indivíduos com base em
ele discorre sobre a situaçáo de penúria do operário, sua regressão
sua posiçáo de proprietários ou não proprietários desses meios
à condiçáo de animal como consequência do trabalho .r,r".,hrdo.
necessários à produçáo. As relaçóes sociais entre os indivíduos sáo
Essa é a parte mais conhecida do texto: a relacão entre o trabalho
e assim mediadas, como Hegel jâhavia primeiro descoberto' por
os seus prodtÊos, que escapam da máo do produror rornando-se a elc um terceiro elemento, um universal. Estamos enì pleno território
estranhos; a relaçáo enrre o traba/ho eo arc de produçao, na qual da dialética: dois seres particulares nunca se relacionam direta-
a
ati'idade aparece como estranha ao homem, corno uma atividade mente como imaginava Feuerbach; entre eles interpóe-se' como
exterior, forçada e sem finalidade; a relaçáo alienada entre o indi- mediaçáo, necessariamente, uffi universal: o que torna possível a
uíduo que a vida genérica, a vida produtiva, passa a
e o gênero, €rrì
ligaçáo entre todos. A propriedade privada no mundo burguês é
ser um simples meio para a realizaçáo de inreresses particulares e o esse universal que agruPa as Pessoas, é o ponto de encontro dos
indivíduo, desgarrado da espécie, deixa sua condição de ser social indivíduos, pois deles obteve - pela força ou pelo convencimento
ao lutar sozinho por sua sobrevivência; e, finalmente, a relação
- o reconhecimento geral, o consentimento que tornou possível
alienada do homem com o outro bomem. essaforma de convivência social. E - como em Hegel - a mediaçáo
Náo cabe aqui fazer uma exposicáo dessa divulgadíssima passa- é um elemento material que estrutura a sociabilidade humana.
gem sobre o trabalho esrranhado e nem aponrarmos a sua indisfar- A grande obra de Marx rrara da propriedade privada por ex-
çada filiaçáo à teoria feuerbachiana da alienacáo. Para os objetivos celência da sociedade moderna: O capital. Nela, contudo, o foco
deste estudo convém apenas lembrar, uma mais, Que a trans- da análise concentra-se no asPecto objetiuo da propriedade; como
posiçáo daquela reoria, formada para dar conta de um fenômeno
'ez
Hegel, a seu modo enviesad o, iâ o frzel:'. Como um valor que se
da consciência (a religiáo), para o domínio do trabalho humano na expande e como uma relaçáo social contraditória, o capital é uma
sociedade capitalisra, lancou o nosso jovem auror numa realidade força material objetiva, que impóe um determinado tipo de rela-
material composra por objetos e relaçóes concreras (a propriedade, cionamento entre os homens, é um universal que impregna todos
o trabalho, a lura de classes etc.). Com isso, aquela filosofia da cons- os poros da vida social, que tudo interliga e póe em movimento'
ciência por ele cultivada acabaria por dissipar-se cada vez mais no O jovem Marx, caminhando num sentido inverso, priorizan-
convívio com os fenômenos "duros" e reais da vida social. do o lado su$jetivo da propriedade privada, pôde, entretanto, ver
aspectos desconhecidos a seus interlocutores e tirar consequências
t
r5r K. ìçÍarx e F. Engels, A sagradafamília (sao paiilo, Ìt{oraes, 19g7, p.
t .
praucas tmeotatas. O diagnóstico da situaçáo do trabalho no
l'
37).
0 ;cveu fihsx
CtLso Fntotnrco ' 157

mundo capitalista levou-o a uma exasperaçáo do ponto de vista de Por trás dessa definiçáo está o empirismo sensualista de Feuer-
classe, aproximando-o, definitivamente, do movimento operário. bach com sua identificaçáo imediata entre abstraçáo e alienaçáo'
Esse diagnóstico, assim, pessou a orientar um desdobramenro Marx, a propósito, aÊrma:
polrrico disrante do horizonte teórico feuerbachiano que lhe ser- Um ser náo objetivo é uma quimera. (...).t* ser sem obieto é algo irreal,
vira de ponro de partida: para acabar com a alienaçáo náo basta imaterial, um ser da razão, isto é, imaginário, um produto da abstraçáo.
denunciar a religi ão é necessário desapropriar os exploradores, Ser sertsíuel, isto é, ser real, consiste em ser objeto dos sentidos, objeto
abolir a propriedade privada. realizar a revoluçáo social. sensíuel (...)tt*

Em assim procedendo, ì\Íarx também pôde dar um passo a fren- valor, vimos anteriormenre, náo é sensível, logo náo é um
o
o
te de Hegel. Este autor, ao identificar, como veremos mais em frente, ser objetivo. E o dinheiro, desprendendo-se do valor, torna-se
obj:tiuaça, com alienaçao, náo conseguiu extrair os desdobramenros objeto por excelência, como se nada de determinante estivesse
prádcos de sua propria teoria. Ao contrário, considerando o trabalho escondido atrás dele. Na verdade as coisas estáo de cabeç a PaÍa
assaiariado apenes como ume forma negatiuít de objetivação, ficou baixo: o dinheiro, objeto visível, é, inicialmente' aPenas um sinal
condenado a girar em falso na esfera da circulaçáo, vendo os homens do valor de troca, já que este, aPesar de náo ser sensível, está por
trás de tudo, comandando o intercâmbio mercantil. O dinheiro
é
apenas na condiçáo de proprietários, a propriedade como "o terreno
onde a liberdade está presente" e o contrato social burguês como o uma mercadoria, um objeto particular como outro qualquer. Na
momento do reconhecimento entre indir'íduos livres. A mediaçáo condiçáo de equivalente, contudo, torna-se a mercadoria univer-
marerial, de fato, é o enquadramento poderoso a congregar os indi- sal: ele, porranro, náo é o objeto por excelência, mas um índice,
víduos em suas relaçóes fundamentais e náo, como queria o jovem uma convençáo, uma abstraçáo, ufl signo do valor de troca, uma
Ìüar-ç, a expressáo da divisáo. Hegel, entretanto, sem sair da esfera da encarnacáo do trabalho humano abstrato'
circulaçáo, náo pôde enxergar o antagonismo inconciliár'el contido Resultado paradoxal: o jovem Marx, concebendo o dinheiro
em tal unificaçáo dos indivíduos. como um objeio auronomizado, vê nele uma das primeiras fontes
Outro momento da contraposiçáo entre a antropologia feuer- da teoria do fetichismo; mas, náo possuindo ainda um aParato
fa-
bachiana e a Economia Política, em prejuízo das descobertas conceitual mais desenvolvido, aceita essa autonomia e, assim
desras, pode ser encontrado nas referências feitas por Marx ao zendo, dá-lhe a aparência enFeitiçada como se ela fosse a própria
dinheiro. Afinal: o que é realmente esse ser endemoninhado que se realidade, sucumbindo assim ao fetiche do dinheiro.
intrometeu no intercâmbio dos homens, trazendo aquelas inversóes O dinheiro, entendido como o "objeto por excelência", o objeto
fanrásticas tão bem descritas pelo jovem Marx? dos objetos, o objeto absoluto, transforma-se no sujeito absoluto'
Nas páginas dos Manuscriras podemos ler a seguinte deÊniçáo: num Deus, no catalisador de todas as ProPriedades humanas,
o dinheiro, "enquanto possui a propriedade de comprar tudo, de que tudo absorve para se agigantar incessantemente. Conferind'o
realidade substantiva à aparência sensível, Marx, com a força
de
apropriar-se de todos os objetos, é o objeto por excelência".rt3

rtr K. ìlíarx,
*ì\Íanuscritos
de Paris", ìn OME 5/Obras de Marx y Engels, ap. cit., p. 406. ri.r Id., ibid., p.47?.
CtLso tnroentco
0.rovrur MnRx

é capital, pelo modo como se


suas imagens poéticas e com a argumentaçáo reforçada por belas
nheiro distingue-se do dinheiro que
insere no processo de circulaçáo.
Na forma simples da circulaçáo'
referências liteúrias, repro duz a antiga condenaçáo lançada pelo M-D-M; mas assume
um ,i-pt.s intermediário do movimento
senso comum, que, há séculos, Procura enxergar no dinheiro a
é
a ser: D-M-D" Aqui'
a forma de capital quando o circuito Passa
origem de todos os males que atormentam os seres humanos. e torna-se o início e o fim
ele deixa de ser Llm mero intermediário
O equívoco, entretanto, desvanece-se Por comPleto nas Pági- se repetirá incessantemente'
de um movimento de expansáo que
nas de O capiml. Liberto do compromisso juvenil de tudo referir as qualidades humanas em
à essência humana fundante, Marx pôde, entáo' analisar sem esse Nao lhe cabe o papel d. tr".rrformar
seu conrrário, .o-o aparecia nos
Manuscritos' o dinheiro' meta-
pré-conceito as funçóes do dinheiro na economia caPitalista. o como um valor que aumenta
morfoseado em ."pit"l, manifesta-se
dinheiro é, antes de tudo, uma mercadoria que desempenha o força de trabalho e cum-
o valor ao encontrar-se com a mercadoria
papel de equivalente na trans ação comercial. Nem sempre esse dinheiro-capital, portanto'
àquivalenre universal foi dinheiro: outras mercadorias como o pri, o papel de insaciável vampiro. o
da pesso" do trab"lhador (çe lhe é,
aliás, totalmente
,ruo r.
ouro, os metais preciosos ou o prosaico sal foram anteriormente "plrr* .tplo Íar amercadoria força
indiferente) ; Iimiia-se exclusivament. "
adotadas. De qualquer modo, o equivalente, seja ele qual for, do homem para trabalhar'
de trabalho, a capacidade abstrata
surge como uma expressáo do valor de troca das mercadorias. O levou
dinheiro é, assim, inicialmente' aPenas um signo
o movimento permanente em busca da valorizaçâo
comparaçáo:
Marx, em O capitaí, a estabelecer a seguinte
No desenvolvimento da economia ele assume também outras essa caça apaixonada ao valor é
Esse impulso de enriquecimento absoluto'
funçóes conexas: meio de circul açâo, meio de pagamento' moeda o capitalista
comum ao capitalisra entesourador, mas enquanto este é
e ao
universal etc. Náo importando de que ângulo seja enfocado, o racional' A expansáo incessante
enlouquecido, aquele é o entesourador
dinheiro nasce como uma mediaçáo necessária para viabilizar a salvar, tirar dinheiro
do valor, Por que luta o entesourador, procurando
permura enrre os homens. Nessa condiçáo básica, nem é preciso mais saga z o capitalista' lançando-o
da circulaçáo, obtém-na de maneira
,,.r* pr.r.nça física tornar possível a transaçáo: pode-se tra-
Para
continuamente na circulaçáo'155
duzir o preço da mercadoria em ouro, número de açóes, títulos' está no encontro
Todo o segredo, a sagacidade do capitalista,
unidades de referência criadas pelo governo etc' Com isso, a com a mercadoria força de
do dinheiro, rransformado em capital,
transaçáo é efetuada sem que os personagens envolvidos precisem produz mais-valia'
"sujar as máos" com o vil metal. Aliás, o avanço da informárica trabalho, a única 9ue, Posta em movimento'
Marx confundiu
Em 1844, desconhecendo ainda a mais-valia,
no mundo moderno restringe cada vez mais o uso do dinheiro, concebido' é o próprio
dinheiro com capital. O dinheiro, assim
substituindo-o primeiro pelos cheques e, depois, pelos cartóes de que se apropria das.pro-
Deus feuerbachiano, um enre abstrato
crédito, esses estranhos objetos que Possuem senhas secretas, Pas- Marx maduro' é o capital que
priedades humanas alienadas. No
sam por máquinas misteriosas, cumprindo' assim, sua funçáo
de
aos homens: mas
,,rrg. como'uma enddade fantástica antePosta
meiode circul açâo da forma mais abstrata e asséptica possível.
Ao realizar sua funçáo de mediaddr nas trocas' o dinheiro nada
tem de odioso ou perverso. Entretanto' o dinheiro que é apenas
di- ffi,o/(RiodeJaneiro,CivilizaçáoBrasileira,l968,v.|,pp.|72.|7ì.
0lcr:rr fu'lrnx
Crtsr Fsroenrco

ele, que parece o sujeito a comandar toda a vida social, nada nìais e, 6nalmente, por um viés antropologizante que vê no dinheiro
é do que trabalho acumulado. um objeto endemoninhado, capaz de fazer todas aquelas diabruras
Quando,.no rerceiro tomo de o capital, Marx volta ao assun- que o imaginário popular e a sensibilidade humanista dos grandes
ro, é para criricar os economistas burgueses que consideravarn escritores acostumaram-se a denunciar.
o capital como um fetiche: o capital autonomizado, rornava-se, Para criticar o mundo capitalista degradado, Marx toma
para eles, um sujeito, a prima donna do processo produrivo, e o como referência a comunidade humana utópica, na qual as rela-
trabalho humano, um mero coadjuvante. Essa mistificaçáo revela- çóes humanas sáo transparentes e diretas, dispensando qualquer
se na discussão sobre a "fórmula trinitáÍia", asantíssima trindade mediação. Ora, uma sociedade baseade na troca direta é uma
que os economistas invenraram para tentar explicar a origem da impossibilidade, é a imagem idílica, desbotada pelo tempo, de
riqueza. A primeira fonte da riqueza é o cítpital, coexisrindo com um mundo perdido, que o progresso deixou irremediavelmente
a t€rrít, um elemenro natural, gerador da "renda fundiária", e o para trás desde quando os homens resolveram escolher o sal como
trabalho assahriado, umacategoria própria do mundo capitalisra, medida para facilitar a permuta de mercadorias.
responsável pela criaçáo do salário, a renda do operário. O augc O anátema contra o dinheiro insere-se, finalmente, na recusa
do fetichismo é a apologia do capital que, ao realizar o movimenrn da mediaçáo, tanto na esfera da vida social, quanto no pensamento.
D-D', consegue, sem nenhuma mediação, dar cria, produzir juros, Como Feuerbach, Marx identifica mediaçáo e alienaçáo, recusan-
como uma án'ore a gerar frutos por si mesma. do a lógica dialética em nome de uma antropologia empirista.
Quanto ao dinheiro, ì\{arx tratou do tema náo só em O cítpi- Finalmente, a reivindicaçáo do comunismo é levantada como
tal, mas também nos Gntndrisse e nas Teorias da mais-ualia. Dc a soluçáo para pôr fim a todas as contradiçóes. A força redentora
novo recorreu às analogias que lembram o texto juvenil, mas agore do comunismo abole a propriedade privada, liberando o trabalho
aplicadas ao mundo material e náo somente à essência humana. e todas as capacidades atrofiadas do ser humano. Com a supressáo
O dinheiro deixa de ser a representacáo de Deus entre os homens. da base de todas as alienaçóes - a econômica -, âs demais formas
Como forma universal da riqueza, Marx assim o define: "o di- de alienaçáo sáo, enfim, dissolvidas e o homem pode reapropriar
nheiro é o Deus entre as mercadorias". O dinheiro não é mais um a sua essência. Marx assim projeta a realizaçáo do comunismo:
elemento enfeitiçado a potenciúizar as propriedades humanas, ffis "a positiva superaçáo da propriedade priuada, apropriando a vida
uma mercadoria particular eleita como a mercadoria universal; é humana, é superação positiva de toda alienaçáo, ou seja, o retorno
uma relaçáo social; cumpre diversos papéis na vida econômica etc. do homem da religiáo, da família, do Estado etc., à sua existência
Por isso, numa passagem de O capitã\, Marx corrige sua posiçáo ltumana, isto é, sociAl".t56 Eliminada, pois, a alienaçáo em todas as
flí anterior ao afirmar que o enigma do fetiche dinheiro "nada mais suas manifestaçóes, as relaçóes humanas passam a ser diretas e o
Ëi é do que o enigma do fetiche mercadoria".
.t- homem, tornando-se o mediador do homem, pode enfim dispen-
9l
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lsr
.t
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O anátema do jovem Marx ao dinheiro explica-se pelo des- sar as formas perversas de mediaçáo (dinheiro etc.).
.$! conhecimento de suas diversas funçóes no interior da economia
#i
ãi capitalista, pela confusáo qu. .rt"Ú.lece entre dinheiro e capital rió K. Ìvíarx, 'Manuscritos de Paris", ín OME SlObras de ÌvIarx y Engels, op. cit., p. 379.

j:
ffi,

&i
Citso tnrotnico '
0 .to":rr Mrrr

e rePostas pela marcha


poral de uma vida social indeterminada, marcada pela vigência relaçáo fecunda com as objetivaçóes postas
consciente' Por isso'
indefinida da propriedade privada e do trabalho estranhado. incessante de uma vida social enfim tornada
a natureza' com os
Dessa permanência no indeterminado reino da alienação só se pode fundar um novo relacionamento com
em tudo diferente
s:.ri no terceiro momento, com a revolucáo comunisra. No Marx ourros homens e com os seus próprios sentidos,
social
de 1844, diferentemente de Feuerbach, náo há nenhuma nostalgia da universalidade originári" .o.roída pelo desenvolvimeuto
somente nas
da unidade perdida em sua forma primitiva. O comunismo lhe e deixada inexoravelmente Para trás, sobrevivendo
corrente política
aparece como um momento novo, umà necessidade posta pelo manifestaçóes do "comunismo grosseiro", aquela
regressiv a tâo duramente criticada pelo
jovem Marx'
desenvolvimento da propriedade privada, mas que herda o desen-
volvimento social atineido até entáo peh humanidade. Por isso, a
enrancipaçáo humana abre uma nova perspectiva, entrevista por
ì\,[arx nas Formas de associaçáo operária que conhecera em Paris.
Quando os operários se associam, obsen'ou, fazem-no movidos
pela finalidade inicial de fazer propaganda das dourrinas revolu-
cionárias:
Ìt'Írrs com isso e ao mesmo tempo aproprian:-se de uma no\-a necessidade,

o clc-sejo de viver socialn'rente, e o que pals.-ii ser um meio. converte-se


em Êm (...). Fumar, beber, comer etc. já não sáo seu meio de contato, de
uniiro, mas basta-lhes a companhia, a associ:ção, a converse, cujo objerivo
volr:.r a ser a socied,rde; a frarernidade de tc.dos náo é entre eles uma frase
feir;r, m:rs reìlidade, e a nobrez,r do ser humano irradia desses corpos

en.ltrrecidos pelo trabalho.tis


O comunismo, como reapropriaçao direta, sem mediaçáo, da
vicla social pelo homem, é algo mais do que o mero reencontro
conì a universalidade primitiva de Feuerbach, como parece acre-
ditrr Giannotti, em sua argumentaçáo filosófica segura, que, náo
obstante o rigor, termina despolitizando a evoluçáo intelectual de
ì\ [.rrx.
Com o fim da propriedade privada, o homem passa a comPor-
ter-se efetivamente como sujeito ativo, capaz de estabelecer uma

I
K. \Í.rrx, "ìvÍanuscritos de Paris , in O,\[E 5/Õbra: ie fularx y Enge/s. op. cit., pp.39i'
J9o.
CtLso FntoeRrco
0 lovEtu Manx

f
7.
.T
T O projeto de emancip aç:ao que acompanhara a produçáo teó- o itiiierário do pensamento hegeliano, como vimos,.havia
Política frzeradas relaçóes
rica de Marx nos últimos anos ganha novos contornos. Vimos, no encampado a descrição que a Economia
t amorosas e igualitárias,
alienadas da socied"d. .i.,ril. As relaçóes
'n
ã
} capítulo referente aos Manuscritls de Kreuznaclt, a proposta da de-
se estilhaçaram'com o ad-
F

mocracia como o momento da desalienação que liberta a sociedade que habiravam na Família, subitamente
alienaçáo velado e revelado
*.
civil e seus indivíduos atomizados da tutela do Estado; depois, venro da sociedade civil, o momento da
vencer o dilaceramento' Hegel
9.

em 'A questáo judaica", a emancipação humana, contraposra à pelos economistas ingleses. Para
Estado político, o momento
emancip açâo meramente política, como um movimento capaz de acenapara um terceiro momento, o
a universalidade perdida' a
pôr fim à oposiçáo entre o homem e o cidadáo; na "Introdução" da racionalidade, que supera e conserva
rompida com o.adven-
à Crítica da flosofa do Direito de Hegel, Marx nos fala da revo- unidade vigente .r" ord* familiar natural
lembrar, náo deve ser
luçáo social realizada pelo encontro da filosofia (a "cabeça") com ro da sociedade civil. Esse Estado, convém
prussiana' Hegel,
o proletariado (o "coraçáo"); na polêmica com Ruge, a proposta confundido com o existenre, com a monarquia
impressáo ao leitor desavi-
de socialismo náo é mais comandada pela cabeça do filósofo: é o ardilosamenre, deixa passar essa falsa
sado e às autoridades de seu rempo.
Na verdade, o Estado político
resultado da açâo revolucionária do proletariado.
promete conciliar
Nos Manuscritos econômico-f losófcos o comunismo desponta hegeliano é um conceito cuja infinita paciência
numa síntese racional'
como uma proposta radical de reapropriaçáo da essência humana o antagonismo dos interesses particulares
Esse Estado, por náo ,. .orrf.rndir
com aquilo que efetivamente
perdida no particularismo alienado do mundo burguês: é a re-
existe, guarda muito de uma projeçáo
utópica' por mais horror
dençáo final da universalidade, daquilo que é comum a todos. A
"razâo social",levantada contra a"razã.o política" de Ruge, levou que a palavra utopia inspire a Hegel'
sem quartel à filosofia
Marx a falar em socialismo; o resgate da universalidade, o que é Feuerbach, por sua vez, na contestaçáo
novo movimento' Como
comum a todos os homens, leva-o agora a falar em czmunismo. A hegeliana, deu à t.o,i" da alienaçáo um
originária da indivi-
democracia, inicialmente, era vista como "o enigma resolvido de Hegel, ele parte também de uma integraçáo
da espécie humana' rompi-
todas as constituiçóes"; as mesmas exPressóes reaparecem Para dualidade e da universalidade, própria
que afasta a universalidade
recobrir um novo conteúdo: "o comunismo é o enigma resolvi- da no segundo momenro pela re[jiao,
primeira num fantástico ser
do da história". Sáo pequenas diferenças de nuanças gravitando da individualidad., ,r".rrformando a
que encerra a principal
em torno do ideário humanista de Feuerbach aplicado à esfera abstrato: Deus. A religiáo é o fenômeno
de Feuerbach' E
da política, mas sáo ilustrativas da evolução do Pensamento de dimensáo possível da "li.rr"çao no pensamento
momento a enriquecer
Marx. aqui ,ráo há, como em Hegel, um terceiro
a caminhada: a desalienaçáo é um
retorno comandado pela força
A nova forma assumida pelo projeto de emancipaçáo náo está
pelo esclarecimento que
mais radicada no sofrimento dos pobres, mas na atividade da da consciência, é uma tarefa cumprida
negaçáo da negaçáo' Por
classe operária, no trabalho estranhado. E a referência à atividade, rejeita o recurso de posicionar-se como
da teoria feuerba-
anunciando a ruptura com a filosofi"$ottt.*plativa de Feuerbach, ;
isso, Giannotti, comentando essa característica
\I
repóe as relaçóes com a dialética hegeliana num novo contexto.
I
t
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chiana da alienaçáo, observou com acerto:
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0 rovrlr Mrnx Ctlso FntoEntco '

o retorno da alienaçáo para a verdade do gênero humano náo instaura uma Marx parre também da universalidade originária da esp.écie
objetividade radicalmente diFerente. Sua dialética se desenvolve no plano humana, retoma literalmente toda a diËrenciaçáo feuerbachiana
do diálogo e da ambiguidade, numa constante alternância do ser-em-si c entre o homem e o animal, mas introduz um elemento novo' a
do ser-ourro, sem desembocar numa síntese propriamente superior. Excluí- atiuid.ad.e, tratada em 1844 de duas maneiras diferentes:
1) no
da, porém, a negatividade como supressáo dos contrários, o que resta da plano Êlosófico, sobre o qual falaremos no próximo capítulo,
dialérica hegeliana a náo ser o vago movimento de perda e recuperaçáo, .orrro práxis, a descoberta genial e revolucionária que permitiu
que a dialética crisrá do pecado original já explora ra?1t7 ao jovem auror fundar uma ontologia do ser social, garantindo,
No pensamento marxiano, contudo, a ideia feuerbachiana da com ela, um lugar único na história do Pensamento; 2) na crítica
universalidade da espécie e a necessidade do esclarecimenro para da Economia Política, a atividade, sob a forma de trabalho estra-
reverter a alienaçáo e recompor a unidade inata ao gênero humano nhado, emergiu, num contexto teórico ainda feuerbachiano, Para
casam-se, inesperadamente, com as teorias igualitárias que germi- denunciar a "ciência do enriquecimento", a "linguagem alienada"
navam no interior do movimento operário francês. O comunismo da propriedade privada.
aparece-lhe entáo como o terceiro momento que destrói a proprie- O mundo da alienaçáo identificado em 1843 com a sociedade
dade privada, podendo, com base nisso, redimir a universalidade civil e em \B44com a propriedade privada destrói a universalidade
degradada durante a vigência do trabalho estranhado. primitiva do gênero humano. A sepa taçâo entre Estado e sociedade
O itinerário da vida social inicia-se com o pressuposto da uni- .iuil foi produzida pela Revoluçáo Francesa' e a propriedade priva-
que
versalidade do gênero humano. Feuerbach, como vimos no primei- da é um resultado do trabalho estranhado. Mas quando e Por
ro capítulo, fundara a universalidade admitindo a identidade entre o trabalho humano tornou-se uma atividade estranhada? Marx'
o homem e a natureza, o homem e seus predicados. O homem, ao que em 1843-1844Ieraavidamente os historiadores da Revoluçáo
propor-se como objeto, transformou-se num ser universal, capaz, Francesa, náo se utiliza de uma interpret açáo histórica Para locali-
mesmo sozinho, de manter relaçóes de gênero consigo mesmo, zaÍ aorigem do estranhamento. Por isso, o mundo da propriedade
pensando ou falando com os seus botóes, enquanto o animal só privada é formado por um continuum que Parece Percorrer' sem
consegue relacionar-se com a sua espécie mediante a presença fí- relevantes, quase toda a história da humanidade, sem
"lt.r"çó.s das
sica de um semelhante. O homem, pelas características de seu ser, sofrer qualquer tr"nrfoi- açâo significativa. A particularidade
ao mesmo tempo individual e genérico, pode ter uma verdadeira distintas formaçóes sociais é borrada pela Perseverante Presença
consciência, infinita e universal, em tudo diferente da estreiteza da propriedade privada. A descoberta da particularidade, dos
do instinto do animal. E, exatamente por isso, o homem pôde contextos sociais significativos, que, circunscrevendo e explicando
inventar a religiáo, essa forma fantástica de alienaçáo que projeta as relaçóes sociais, histori cïza e determina as diferentes
formas
os seus predicados, a sua própria infinitude e universalidade, num possíveis de apropriaçáo e seus consequentes efeitos na articulaçáo
na
ser abstrato. àa socirbilidade dos homens. Esse Passo decisivo só será dado

ì Ideologia ale)ma, com a descoberta da categoria modo de produçao'

't l. I Ct*rr*", da dialética do trobolÊo, op. cit., p.253. q,r. pã, fi-, definirivamenre, à concepçáo antropológica atem-
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A ONTOLOGIA MATERIALISTA

ArÉr',r DÂs INcuRsóEs NA EcoNoMrA Política, os Manuscritos


econômico-f losóf cas também se propóem a fazer um "debate com
a dialética",oportunidade para Marx aceÍtaÍ as suas contas com
Hegel e Feuerbach. Posicionando-se criticamente frente a esses
autores, Marx pôde, enfim, encontrar o seu caminho. A apro-
priaçáo da teoria feuerbachiana da alienaçáo, como referência
para a crítica do mundo profano, é superada nas reflexóes de
Marx pela elaboraçáo, ainda incipiente, de uma visáo teórica
gue, daí para frente, acompanhará toda a sua trajetória. Segundo
István Ìr{észáros, estamos agora diante de um sistema in statu
nttscendi. De fato, Marx anuncia pela primeira vez um conjunto
de ideias que servirá de fio condutor de suas pesquisas. A teoria
social, aqui, fundamenta-se na ontologia: os futuros estudos de
Economia Política seráo realizados com base em uma'postura
que rejeita tanto o antropologismo empirista de Feuerbach
quanto o logicismo abstrato de Hegel. A ontologia marxiana
do ser social trabalhará fundamentalmente com categorias que
sáo "formas de ser, determinaçóes da existêncii'. A novidade
radical do pensamento marxiano faz sua apariçáo nas páginas
atormentadas desses manuscritos nos quais o jovem ensaísta se
dedica ao "acerto de contas com a dialétici' e, em assim fazendo,
aproxima-se criticamente do método hegeliano.
Curiosamente, essa nova influência vai coexistir com a forte e
discrepante presença de Feuerbach, cujos escritos eram considera-
l(
dos "os únicos desde a 'Fenomenologia' e a'Lógica' de Hegel
que começo de uma nova atitude relativamente a esse autor e à própria
encerram uma verdadeira revoluçáo teóri ca".t5e
dialética, o que implica, necessariamente, um distanciamento em
As influências simultâneas de dois autores que se excluerrì, relaçáo a Feuerbach. O trabalho de desmontagem do sistema hege-
em
tudo diferentes e inconciliáveis, sáo elucidativas ão imp"sse teórico liano empreendido de diversos modos pelos jovens-hegelianos tem
de Marx. A coabiru.çâo confliriva da dialética idealista objetiva
de prosseguimento nessa investida de Marx, investida que ao mesmo
Hegel com o sensualismo de Feuerbach explicam, em grande
par_ tempo critica e incorpora o método dialético, fazendo-o avançar
te' a dificuldade de leitura dos Manuscitos econômico-flosófcos além do sistema mistificante que o mantinha aprisionado.
e
prenunciam a necessidade de ruprura com Feuerbach (consumada Em três momentos decisivos de sua vida intelectual Marx
no ano seguinte). recorreu a Hegel. Em 1843, como vimos no segundo capítulo,
Como os demais jovens-hegelianos, Man< debatia-se com o legado enfrentaraa Filosofa do Direito, pois a considerava como a melhor
de Hegel, a referência central de toda a Êlosofia e política d" éjo.r, . .f /
justificaçáo |
teórica do Estado moderno. A impossibilidade de
tal como vimos no primeiro capítulo. O sistema hegeliano, com continuar exercendo a militância jornalística contra a monarquia
sua lógica inclusiva, nada deixava escapar. A tarefa de destruir esse
prussiana levou o nosso autor, durante sua estadia em Kreuznach,
monumento giganresco foi tentada por todos os seus discípulos de a estudar com afinco a teoria hegeliana do Estado e a crïticâ-la,
"esquerda", q,,e, no entanto, permaneciam enredados
nos labirintos do visando com isso dar prosseguimento à luta contra a monarquia.
sistema ou, como diz A ngradafamília, "nunca saíram do aconchego
Náo há nada de misterioso nesse primeiro confronto com Hegel.
da concepçáo hegeliana", debatendo-seinutilmente'tontra as barras Pouco antes de iniciar a redaçáo de O capital, Marx releu
e os muros de sua prisáo".160
como parecia impossível construir um a Ciência da Lógica, livro que trata do autodesenvolvimento do
sistema filosófico alternadvo com a mesma grandeza e imponência
Conceito, uma totalidade em permanente movimento. As resso-
do hegeliano, o combate acabou concenrrando-se no interior de sua nâncias das categorias de Hegel na obra maior de Marx, voltada
própria problemática. O jovem Engels, escrevendo em fins de 1g43, para a descoberta da "lei econômica do movimento da sociedade
chamou a atençáo para este fato: "jamais, desde que o
homem se ini- moderna", sáo evidentes a ponto de provocar o entusiasmo de
ciou no pensamento, existiu um sistema Êlosófico táo vasto como o Lenin, que propôs aos comunistas a tarefa de formar "uma socie-
de Hegel". E concluiu: "visro de fora, esse sisrema parecia inatacável, e
dade dos amigos materialistas da dialética hegeliana". Nos seus
o era; foi derrubado por denno, por obra dos próprios hegelianos',.r6r Cadernos flosóficos o revolucionário russo afirmou: "é completa-
Marx seguira até entáo o caminho aberro por Feuerbach. os mente impossível entender O capital de Marx, e em especial seu
comentários sobre a Fenomenologia do upírìto de Hegel indicam o primeiro capítulo, sem haver estudado e entendido a fundo toda
a Lógica de Hegel. Por consegui nte, faz meio século que nenhum
t5e K. Marx, "Manuscritos de Paris", dos marxistas entendeu Marx!".162 Essa presença de Hegel em
in OME S/Obras de Marxy Engels (Barcelona,
Grijalbo, 1978, p. 305).
t6o K. Ma* e F. Engels: A sagradafamíl;a (Sao paulo, Marx, por outro lado, trouxe, várias décadas depois, um indisfar-
rÍoraes, L9g7, p.93).
'6r F. Engels, "Progresos de la reforma social er;lel conrin ente" in Escritos jttuentttd.
tle
(ìVÍéxico, Fondo de Cultura Económica, 198í p. li6). 162 V. I. Lenin, Cuadernosflosofcos (Buenos Aires, Estudio, 1963, p.174).
112 0 lovEfur Manx
CeLso FnroEnrco r73

çável mal-estar entre os intérpretes althusserianos às voltas corn


Além disso, a Fenomenologia do espirito, como lembra Lukács,
as metamorfoses da forma-mercadoria, movimento descrito numa
centrava-se na categoria da alienaçáo, tema recorrente entre os
terminologia que, reconhecidamente, "flertava" com as categorias
jovens-hegelianos e de importância decisiva para Feuerbach e o
da dialética hegeliana.
próprio Marx.
os Manuscritoseconômico-f losófcos marcam o segundo en-
Segundo um outro intérprere, Hans-Georg Flickinger, Marx
conrro de Marx com Hegel, encontro caracterizado não mais pela
foi à Fenomenologia do espírito para buscar uma dialética fenome-
simples rejeiçáo, como em 1843, e nem pela madura apropriaçáo
nológica da autoconsciência fundante da autonomia e da razão
crítica feita por um autor seguro, presres a escrever sua obra defi-
humanas, posta como princípio pressuputto do conhecimento. Com
nitiva. Em 1844, Marx debatia-se com a necessidade de criticar a
esse referencial teórico, lançou-se na crítica do trabalho estranhado
Economia Política baseada em uma perspecriva teórica'própria. É
e da propriedade privada, momentos bloqueadores da autorrealiza-
desse momento a decisáo de enfrentar diretamenre a Fenomenolo-
çáo dos homens. Para Flickinge! o enrusiasmo de Marx pelo texto
gia do espírito. Q""l a razão da escolha dessa obra?
hegeliano impediu-o de perceber os problemas advindos dessa
Eis uma questáo difïcil paÍa os estudiosos dos diÍïceis texros
instrumentalização da fenomenologia dialética. E afirma:
juvenis marxianos. Lukács acredita ser a escolha da Fenomeno-
a tentativa marxiana pode ser entendida como dererminada por um entu-
logia do espírito motivada pela veneraçáo prestada ao livro pelos
siasmo excessivo no que diz respeito à exposiçáo hegeliana da autonomia
jovens-hegelianos. Contrariamen te à Filotofa do Direito (a- obra
humana, revitalizando apenas a crença nos ideais da revoluçáo burguesa.
conservadora do velho filósofo), o rexro em questáo represenra o
Para Marx, a condiçáo sine qua non da realizaçáo da liberdade estavâ no
período juvenil revolucionário, o que alimentava as pretensóes con-
necessário reconhecimento da força morriz do sujeito enquanto senltor de
testadoras de Bruno Bauer e Stirner. Marx, assim, estaria iniciando
si mesmo e do processo da constituiçao dessa relaçao reflexiua.l6a
o acerro de contas com a ala esquerda dos jovens-hegelianos a ser
Esse procedimento permitiulhe a bela descrição do trabalho
completado em A sagradafamília e em A ideologia alem,í.Indo à
estranhado, mas impediu-o de analisar a situaçáo como decorrente
fonte de seus adversários, Marx buscava demarcar a distância entre
do poder do capital, este sim o princípio pressítposto das refexóes
o grande filósofo e seus ruidosos epígonos, render homenagem à
do Marx maduro.
grandeza do pensamento hegeliano e, ao mesmo rempo, repensar
As interpretaçóes de Lukács e Hans-Georg Flickinger sáo
a dialética numa perspecriva materialista.163
corretas. Mas para o entendimento da evoluçáo intelectual do
De fato, segundo Marx afirma no rexro, os jovens-hegelianos
jovem Marx faz-se necessário enfatizar também que ele via a
náo se haviam preocupado com sua "máe" adialética hegeliana.
- Fenomenologia do espíritr como a "verdadeira matriz e segredo
Somente Feuerbach tinha transtornado *o germe da velha dialética
da filosofia hegeliana". A matriz nela presente é, sem dúvida, a
e da velha filosofia" numa perspecriva que, como já vimos, invia-
descoberta e a descriçáo da "expressáo abstrata, Iógica, especulatiua
bilizava a própria dialética.

-'' CfSJ-,ká.t 1/ giouane Marx(Roma, Riuniri, ,írr, r. ,rr1.


t64 Hans-Georg'Flickinger, Marx e Hegel. O porao de umaflosofa socìal (Porto Alegre,
L&PM, 1986, pp.70-71).
0 Lovru lvhnx CEtso Fnroenrco . 175

do processo da história"'r6t e o segredo oculto que o jovem Marx não forma uma classe, pois se encontre fora da sociedade civil, sem
pretende revelar é o fato de Hegel, pela primeira vez na história expressáo política possível, incapazdeagir:
da filosofia, ter concebido "a produçáo do homem por si mesmo, (...) Marx náo vê na miséria dos camponeses mais que seu aspecto passivo,

como um processo", de ter visto o homem como.sujeito pressuposto, suas necessidades, seus apuros e soFrimento. Por outro lado; a própria pa-
"como resultado de seu próprio trabalho".r66 A atençáo de Marx, lavra alem í (Leiden) que emprega constantemente a propósito dos pobres

portanto, vai concentrar-se na ideia de atividade, entendida, na significa, ao mesmo tempo, "sofrimento" e "passividade" e se emprega
linguagem da vida real, como trabalho, o meio pelo qual se realiza para designar todas as formas passivas de sofrimento: "suportar, tolerar,
a autoproduçáo do homem no interior da alienaçáo. sofrer" etc.t67

Como essa ideia de atividade náo constava até entáo do refe- Nos textos teóricos de 1843, movendo-se na órbita da filosofia
rencial teórico de Marx, torna-se necessária uma breve retomada de Feuerbach, Marx estava longe de conferir qualquer interesse
de seu pensamento no período anterior a 1844 para que possamos filosófico e político ao conceito de atividade. Quando, por exem-
entender a dimensáo radical da viragem teórica propiciada pela plo, nos Manuscritos de Kreuznach, deparou com as diferenciaçóes
leirura de Hegel e, também, essa tentativa de revelaçáo do segredo internas da sociedade civil, ele defendeu a ideia hegeliana segundo
guardado em sua teoria da alienaçáo. a qual houve um rompimento entre a estrutu raçâo das classes
sociais e sua representaçáo no Estado após a Revoluçáo Francesa,
AÁTIVIDADE transformando as diferenciaçóes sociais em simples diferenças na
Nos artigos de 1842-1843 para a Gazeta RenAna, Marx apro- vida privada, sem implicaçóes políticas maiores.
ximava-se do ideário dos "jovens-hegelianos", que separavam os Na nova sociedade a classe deixou de ser uma coletividade
assuntos espirituais pertencentes ao Estado (esfera da universalidade) que contém o indivíduo. Os critérios de pertencimento (dinheiro
dos interesses materiais da sociedade civil (os interesses particulares e instruçáo) tornaram-se, para o indivíduo) mera contingência,
dos diversos grupos), valorizando, evidentemente, a esfera universal que fez das classes uma "determinaçáo externa ao indivíduo, pois
representada pelo Estado. Entretanto, ao contrário de outros pensa- náo é inerente ao trabalho deste, nem se relaciona com ele como
Marx manifestava uma indisfarçável
dores dessa corrente filosófica, comunidade objetiva (...)".168
simpatia para com os pobres, fato sempre assinalado pelos seus Nessa concepçáo atomística da sociedade civil, em que o traba-
biógrafos. Enquanto os interesses privados dos ricos eram por ele lho náo é o elemento formador da vida social, a classe trabalhadora
considerados como atiuos (baseados no egoísmo), os interesses dos só aparece negativamente:
pobres situavam-se na esfera da passiuidade e da privaçáo ("interesses (...) a classe do trabalho concrero é menos uma classe da sociedade civil do

privados que sofrem"). Marx, portanto, por essa época, via os pobres que um terreno em que se baseiam e rnovem as esferas dessa sociedade.r6e
como indivíduos excluídos, pertencentes a um grupo que, a rigor,
t67
M. Lowy, La teoría de la reuolución en el jouem Marx (Mexico, Siglo XXI, 5' ed., 1978,
P.46).
rói K. Marx, "Manuscritos de Paris", in OME 5/Oft.ías de Marx y Engek, op. cit., p. 413.
168
K. Marx, Critiqrc de l'Etat hégélìen (Paris, Union Général d'Édition, 1976, p. 124).
t66 Id., ibid., p.417. t69
Id., ibid., p. 124.
0 ;cvtu Mnax Ceiso Fntotnrco 177

Essa'isáo da "classe do trabalho concreto" como um '.ter_ O ponto de partida de Marx,. o Hegel da Feno-
nesse tema, é
reno", isro é, uma matéria sem atividade, refletia as influências menologia do espírito, que havia colocãdo o conceito de atividade
feuerbachianas.. De fato, na filosofia de Feuerbach, o pensamenro no centro de sua filosofia. E defrontar-se com Hegel é pôr-se
se desdobra de um sujeiro; este, enquanro ser marerial, é ser pas- diante de um abismo: nunca fica totalmente claro para o leitor se
sivo que registra, experimenra e sofre a dererminação do mundo as categorias hegelianas emanam do puro Pensamento ou se elas
exterior. E quanto menos procurar interferir, mais próximo estará descolam da própria realidade.
ele da verdade, entendida como desvelamenro, revelaçáo que se Como para Hegel o pensamento é objetiuo e real, e tem uma
descortina à contemplaçáo paciente e complacenre. Vi*or, no existência quase material, o leitor é sempre levado a uma posiçáo
terceiro capítulo, como Ìt{arx,'na "Crítica da filosofia do Direito dubitativa sobre as relaçóes entre ser e Pensamento. Há momentos
de Hegel (Introduçáo)", arribuía toda a atividade à "cabeça", à em que Hegel é claramente idealista, fazendo derivar do pensa-
filosofia, enquanro ao prolerariado correspondia a imagem passiva mento toda a realidade. Noutros, entretanto, as categorias motrizes
l((-tt
oo coracao. do pensamento parecem reflexos fiéis daquilo que iâ estâ dado na
Ern is++, o conraro com o ativo movimento operário francês própria realidade material. Essa tensáo é permanente na dialética
trouxe a necessidade de um pensamenro alternativo à filosofia con- idealista objetiva de Hegel e se manifesta com toda força quando
templativa de Feuerbach. Refletir sobre a atividade passa a ser uma o tema em questáo é o trabalho. De que Hegel está realmente
orienração seguida por Marx e outros pensadores que confluíam falando: do conceito de trabalho ou do trabalho do conceito?r70
nessa direcão. E é exatamente sobre esse tema que Marx realiza Além disso, dentro da própria obra de Hegel, há diferenciaçóes
a ruprura original, dando ao seu pensamenro um perfil próprio e notáveis, como atesta a Fenomenologia do espíritz, marcadamente
uma posição única em roda a história da filosofia. idealista, ou as liçóes de lena, que nos mostram um jovem Hegel
os economistas ingleses já haviam apontado para o papel da surpreendentemente próximo do materialismo.rTr
atividade na formaçáo da riqueza. Com isso, a atividade, encendida
diretamenre como trabalho humano, ganhou uma dimensão terre- rio Veja-se, a propósito, Gwendoli neJarczyk, "Concept du travail er travail du concept"
na ignorada pela filosofia idealista. Mas essa dimensáo limitava-se in Archiues de Philosophie (Paris, no 48, l9B5). O mesmo artigo saiu em português na
revista Filosof a Política, (Porto Alegre , LEaPM, n. I, 1984). Na versáo brasileira, con-
a um momento transitório da vida social (a sociedade capitalista), rrariamenre á f.".,..r", as longas ciiaçóes de Hegel em alemáo náo estáo traduzidas.
momento glorificado e eternizado por seus ideólogos. Ì7r Náo é por aceso que os filósofos de orientaçáo marxista recorrem frequentemente a
.ss^ obìa juvenil de Hegel. NÍas aqui também náo há consenso. Lukács, Por exem-
Num outro contexto teórico, Moses Hess, distante da Econo- plo, arribui a ela um pafeldecisivona superação da antinomia entre "causalidade" e
;teleologia",
mia Política, procurou dar um esraturo central ao conc€ito de ari- graçes à pútica, entendida como trabalho humano' como utilizaçáo de
ferramentas. Esse, alijs, é o ponro de partida de toda ontologia do ser social de Lukács
vidade. Mas esre, enrendido numa ótica fichteana, circunscrevia-se que pretende ser uma conrinuaçáo da tradiçáo filosófica pela qual passam Hegel,
à dimensáo individual e espirirualista da consciência moral. Repre- M*r*. Engels - que vê no rrabalho a funçáo genética básica do autodesenvolvimento
humano tõf. C. Lukács, E! jouen Hegel y los problemas de la sociedad capinlista (op.
sentanre do movimenro fi losófi co-político "verdadeiro so cialismo", cit.). Jâ um auror contemporaneo, Habe.mas, recorre ao mesmo texto de Hegel para
Hess acreditava, como os iluminisras, gpe a emancipação humana formular, em sua primeira versáo, a teoria da ação instrumental e da açáo comuni-
cariva. Para Habeimas, o rrabalho, juntamente com a linguagem e a família seriam
se realizaria por meio do processo eduËacional. os elementos que originariamenre consrituiriam a sociabilidade humana em Hegel.
0 roviru Mrax
Crrso Fricrnrco . 179

Na Fenomenologia do espírito, a referência do Marx de


1g44, o civil e, com base nisso, construir. uma teoria que reproduzisse o
conceito de atividade ocupa um lugar de destaque. Nos
seus co_ autodesenvolvimento do ser social. D. q,t"lquer modo, o passo
mentários críticos dessa obra, nas páginas Ênais dos Manuscritos
de decisivo já tinha sido dado com a descoberta da atividade material
1844, Marx reroma a ideia hegeliana de atividade (melhor
dizendo, como responsável pela autoformaçâo do gênero humano.
de auroari'idade), vendo nela o próprio processo de
produção do O homem, de ser sensível, passivo e sofredor passa a ser visto
homem. Hegel, segundo Marx, "apesar de toda ,.r"
uê como o "ser automediador da natureza" que, por meio do trabalho,
no trabalho o ato pelo qual o homem se produz a si"brrr"iao,
mesrio,,; uo desprendeu-se da natureza, diferenciou-se dela, elevou-se acima de
homem real e, portanto, verdadeiro, aparece como um resultado
seus limites, e sobre ela passou a exercer uma açáo transformadora.
de seu próprio trabalho".rz2 com isso, Hegel teria dado
à ideia de Marx, assim, atribui uma prioridade ontohígica ao trabalho huma-
trabalho, presenre na Economia polírica inglesa sob uma
forma no, a atividade material nascida com a invençáo dos instrumentos
particular (restrita ao mundo burguês), uma dimensáo onrológica
de trabalho que medeiam o intercâmbio dos homens com a na-
,rtiuersal. Mas essa formulaçáo permaneceu abstrata: ..o
único u:,reza e dos homens entre si. E como esses instrumentos náo se
trabalho que ele (Hegel) reconhece é o trabalho espiritual,,.t73
encontram prontos na natureza, o homem se vê obrigado a, cada
A retomada crítica da atividade material assinala uma nova pos-
vez mais, fabricálos: inicia-se, assim, o interminável processo de
tura de Marx peranre a teoria da alienaçáo. Aré enráo, esta haviaìido
transformaçáo do ambiente natural e humano, a incessante criaçáo
insrrumentalizada para adaprar-se à denúncia da separaçáo
enrre o de mediaçóes postas pelo processo de trabalho.
Estado e a sociedade civil. A sociedade civil, conrudo, era vista
numa Com essa mediaçáo material, o homem introduz fnalidades
perspectiva abstrata que ignorava aesfera da produçáo, o subterrâneo
na natureza. O trabalho surge então para o jovem Marx como a
das relaçóes econômicas. Agora, com a eleraçáo da esfera
da produção primeira e mais importante forma de objetiuaçao do ser social. E
ao estaluto ontológico básico e estruturador da sociabilidade
humana, dessa forma inicial de objetivaçáo produz-se um duplo resultado:
Marx distancia-se simultaneamente de Hegel e Feuerbach.
Evidentemente, a ruprura com essas duas fortes influências per-
- de um lado, ocorre uma mudança profunda e irreversível no
mundo natural: a açáo negativa do trabalho tirou a natureza de
manece ainda emperrada pelo conhecimenro precário da Economia
sua posiçáo de indiferença, de paisagem distante e,muda, ao fazer
Política, não permidndo a Marx desvelar a anaromia da sociedade
dela um complemento, uma extensáo do mundo humano;
- de outro, ao mudar o mundo, o homem precisou adaptar-
ìtÍas, contrariamente à interpretaçáo de Lukács, Habermas náo se à nova realidade circundante e, como ele é o resultado de suas
vê hierarquia enrre
esses elementos e, muito menos, concede prioridade onrológica ao trabalhoii4,, ."r.- condiçóes de existência, mudadas esras, ele também se modifica.
gorias linguagem, instrumenro e família designam trê, mJdelos
básicos igualmenre
primirivos de relaçóes dialéticas: e represenreçáo simbólica, o processo O que é importante observar aqui é que o homem e a natureza
do irabalho e
a inreracáo que tem lugar com base na reciprocidade esrabeleceì náo sáo mais vistos como coisas separadas: a natureza não age sobre
uma mediaçáo enrre
o sujeico e o objeto, cada qual à sua maneir"' (J. Habermas, ..Trabalho
e interaçáo",
in Técnica c ciência como "ideologia"(Lisboa, Ed. Z0, lgSZ p. o homem "de fora" e nem o homem "de fora" modifica a natureza.
l2).
K. ÌvÍarx, "ÀÍanuscriros de Paris", op. cit., p. aV. No primeiro caso (a natureza determinando a vida humana), tería-
Ià., ibir!., p. 418. ,f
mos o mecanicismo (uma causaçáo física agindo sobre o homem
CrLso FRtornrco o

0 :ovtu M,rsx

como se fosse uma força externa); no segundo (o homem disran- nrentários sobre a Enciclopédia das ciências f losófcas. Nessa última

ciado que manipula a natureza), o fnalismo (o homem propondo obia, síntese de todo o sistema hegeliaho, a natureza despontava
arbitrariamente finalidades para o mundo exterior). como o segundo momentq aquele em que o Espírito sai de si e se
Na perspectiva monista do jovem Marx, há um rompimento aliena. Ìr{arx ironiza essa Passagem do sistema hegeliano, obser-
vando que a natureza é aí concebida de modo idealista' como um
com essas posiçóes que acenam para o distanciamento e a exte-
rioridade: as relaçóes dos homens com a narureza sáo vistas por nÌomento do pensamento abstrato, movido pelo "aborrecimento"
e pela "nostalgia de um conteúdo" (...).t'o
intermédio da mediação da atividade material.
Concebendo a natureza como o momento inicial, Marx segue
O dualismo feuerbachiano, sombra que acompanhara o jovem
Feuerbach em seu intento de inverter a teoria da alienaçáo. Mas
Marx, é deixado para trás juntamente com suas demais implica-
o fazvisando entender a história real dos homens. Náo estamos,
çóes teóricas. Marx, repondo o relacionamento entre o homem e
a natureza como um relacionamento mediado pela atividade inte-
portanto, acompanhando as aventuras de um Pensamento abstra-
lectual e material, em permanente automovimento, formula, pela to "entediado", que busca enfim encontrar-se com um conteúdo
real, como em Hegel, e nem perante a denúncia de um fenômeno
primeira vez, o germe de sua concepçáo monista e materialista da
vida social. Seguindo esse caminho chegará, alguns anos depois, a circunscrito à ârea daconsciência (a religiáo), como em Feuerbach'
Marx, agora, lança-se ao estudo da história humana, história con-
precisar o conjunto de elos sociais derivados da relaçáo ontológica
cebida ainda abstratamente, já que náo havia chegado à descoberta
primária. Em 1844, Marx enfaúza a atividade como princípio
da categoria modo de produçáo.
gerador da socialidade (o que apenas anuncia os estudos da trama
Conua a história abstrata do sistema hegeliano protagonizada pelo
das relaçóes sociais) e elege o sujeito pressuposto como ponto de
pensamento "entediado", Marx propóe a história real da autocriaçáo
partida (mas um sujeito ainda concebido individualmente e não
do homem pela atividade material, o trabalho. O trabalho, assim,
o sujeiro captado como uma totalidade).
surge como o promotor do processo de autocriaçáo, opondo-se àvisáo
De qualquer modo, nos Manuscritos econôrnico-f losófcos a
hegeliana, em que tudo é façanha do pensamento lógico:
nova concepção impóe-se como um divisor de águas entre, de
A Lógica - o dinheiro do espírito, o ualorespeculativo, menta/do homem e
um lado, a nascente ontologia materialista e, de outro, as sombras
da narurez a - é, aessência deste mundo que, tendo perdido todo interesse
da fenomenologia dialética de Hegel e o materialismo empirista
por sues próprias qualidades reais, converteu-se em irreal; é um pensamento
de Feuerbach, gue, náo obstante, ainda coexistem residualmente
estranhador
!ltt€, por conseguinte, deve fazer abstraçáo da natureza e do
com a nova postura. A luta de Marx para desenvolver seu próprio
homem real: o Pensamento abstrato.tTs
pensamento baseado nessas duas influências contraditórias é o
tema a ser tratado em seguida.
O caráter abstrato, alienado, do mundo aPresentado pela
filosofia hegelian a fez com que Marx' uma vez mais' recorresse à

MARX E HEGEL: A RECONCILIAçÁO COM A DIALÉTICA


Além do enfrentamento com a: Fenomenologia do espírito, l-{ K. Marx, op. cit., p. 430.
!-í Id., ibíd., p.415.
Marx, na obra que estamos analisando, tece alguns breves co- aì


":i

--, I
..r .oÊ
0 lovrn Mnnx

assim, revelar o segredo


analogia com o dinheiro. Equiparado a esse objeto enfeiriçado, o prisioneira do pensamento abstrato,. Para,
percurso lógico de Hegel também expressâ a abstraçaa das proprie- o.r'rlro na fenomenologia hegeliana:
e de seu resultado - a
dades humanas: um mundo irreal, vazío, despovoado, q,r. exilou o extraordinário da "Fenomenologia" de Hegel
e gerativo - consiste
de suas fronteiras os homens ativos e a natureza. Essa realidade dialética da negatividade como princípio motor
do homem Por si mesmo como
fantasmagórica é a característica de toda a filosofia hegeliana, portanto em haver concebido a produção
como estranhaçáo e
um a objetivaçáo como perda do objeto'
cuja matriz, segundo o jovem contestador, é a Fenomenologia da Processo,
percebida a essência do trabalho'
es?írito. Enfocando essa obra, Marx nos diz que ela apresenta um como superaçáo da estranhaçáo; uma vez
verdadeiro' aParece como
"duplo erro": o homem objetivo, o homem real e, Portanto'

1) mesmo quando fala da riqueza e do poder do Estado, enten- resultado de seu próprio trabalho'178

didos como "substância alienada da substância humana", Hegel, Aesseelogiosegue-seumacrítica:Hegel'reconhecendono


de realiz açâo do homem, retém apenas
o seu lado
na verdade, está tratando da "alienação do pensamento puro". A trabalho o aro
nível da economia clássica, pois
essência da alienaçáo, aquilo que precisa ser suPerado, "náo é a poshiuo,ficando, assim, no mesmo
estranhamento, base de
inumanidade com que o ser humano se objetiua em oposição con- ignora o lad,o negíttiuodo trabalho, o seu
desse enfoque' na
sigo mesmo"t76, mas a oposiçáo existente nas fronteiras internas toda a exploração ."pitalista. A parcialidade
como uma decorrência
do pensamento abstrato; obra de Hegel, é interpretada po, Mttx
necessária do fato de ela náo iisting.ri
r a objetiuação (as formas
2) consequentemente, embora Hegel reclame Para o homem o
Jealizando-se em seu fazer) da
mundo objetivo, a verdadeira essência humana é o espírito. Nessa pelas quais o homem se exterio rïra,
de objetivaçáo)'
contradiçáo entre o que é exigido (o mundo humano) e o que é alienação(uma forma particular e degradada
se confundindo
posto efetivamente em seu lugar (a figura abstrata do espírito), Na filosofia hegeli".r" a história real acaba
do Espírito'
Marx descobre o caráter crítico inconsciente da Fenomenologia do com o movimenro ãbrrr",o do autodesenvolvimento
com os seus próprios ob-
espírito. Esse caráter transparece nos trechos dedicados à "consciên- Fechado em si mesmo, relacionando-se
prescindir do mundo
cia infeli 2", à "consciência honrada", à luta entre "a consciência jetos, o "pensamento ensimesmado" Parece
um "escândalo"'
nobre e a vil" etc. Nesses momentos, observa Marx, encerram-se' ,."1t p"r" ele o objeto real, diz Marx' é
"de forma ainda alienada, os elementos críticos de âmbitos inteiros, Propondoumadialéticacentradaemobjetosreais,Marx
d,a objetiuaçao - aquele
como a religiáo, o poder do Estado, a vida burguesa etc.".177 separa claramente o momento positivo
essenciais e se reconhece
Assinalando essa contradiçáo, Marx caPta a tensáo nela ex- em que o homem exterioriz" r,r", forças
quando, pot
em suas obras do momenro negativo da alienaçao,
-
pressa entre a esfera do pensamento e a realidade ou, como diria
de sua objetivaçáo deixa de
Lukács, a tensáo irresoluta entre afaka e a uerdadeira ontoloeia de razkeshistóricas e sociair, o ,.rtrlrado
ser reconhecido. Assim, o primeiro
momento' o da obietivaçáo'
Hegel. E, com base nisso, procura libertar a ontologia materialista
daafirmaçâoontológicadohomem,ganhaumamaterialidade
r-6 Id., ibid., p.416.
t'7 r78 Id., ibid., p.417.
Id., ibid., p.417.
0 rov$,r Mlnx
Crtso Fstointco

inexistenre em Heger. Tal mareriaridade pressupóe


alreridade do mundo objetivo que, mesmo
a irredurírer Niészáros, náo pôde mais estabelecer a disrinçáo "entre qualquer
sendo ,..orh..to
consciência humana, a ela permanece p*r. atividade que se 'exterioriza' e suas úanifestaçóes 'alienadas', e
exterior, contrariamente
mística identidade entre sujeito/objeto da à como é inconcebível negar qualquer'exteriorizaçâo' sem negar a
dialéri.. 1,.g.ü.nr.
A essa teoria da objetividade como externalidade própria atividade, o conceito hegeliano de Atfhebung' náo pode
rin,.rr.l in._ ser senáo uma negaçáo abstrata, imaginária, da alienaçáo conlo
liminável do mundo real, em relaçáo à consciência
dos indivíduos, objetivaçáo em geral. Assim, Hegel, ao fim, atribui a mesnìa ca-
Marx acrescenra um segundo momento, aquele
d" ."*o racterística de absoluto e de universatidade à forma alienada da
o resulrado histórico e transitório da degradaçáo "li..r.fr",
ocasion"l, p.t, objetivaçáo e, portanto, anula conceitualmente a possibilidade de
propriedade privada. E somente a partir
desse momenro hisrori-
camenre datado, revelado e verado pela uma superaçáo real da alienaÇáo".rso
economia clássica, quc
a Essa identificaçáo hegeliana entre objetivaçáo e alienaçáo foi,
objerivaçáo deixou momentaneamente
de acompanhar o processo
de huma nização, tomando-se, dessa forma, náo obstante, aceita por diversos autores marxistas.l8l
sinônimo de aìienaçao
e estranhamento. com isso, o homem Além de separ ar a objetiuaçao da alienaçao, Marx estabelece
deixou de reconhecer-se
em suas obras, tendo a sua essência contraposta uma diferenciaçáo entre a alienaç ão (enttiusserung) e estranha-
e negada por sua
existência social. Marx é bem preciso nessa r mento (enttiusserttng); diferenci açâo raramente seguida Por seus
distinçãoï tradutores, que uniformizam os significados utilizando semPre o
o produto do trabarho é o trabalho fixado em
um objeto, converrido em
uma coisa, é a objetiuaçao do rrabarho. A rearizaçáo primeiro termo. A esse respeito, esclarece István Mészáros:
do trabarho é a sua
quando a ênfase recai sobre a "externalização" ou "objetivaçáo", Marx usa
objetivaçáo' No mundo da Economia Política,
essa realizaçáo do trabalho a palavra alienaçáo; quando quer ressaltar o fato de que o homem está
aParece como a perda para o trabalhado
r de sua realir/acle, a objetivaçáo
enconrrando oposiçáo por parre de um poder hostil em sua própria obra,
como perda do objen e escrauizaçao a ele,
a apropriaçáo como alienaçáo, ele emprega a palavra estranhamento.ls2
como estranhamento. l7e
O trabalho humano aparece, assim, em duas Da leitura crítica de Hegel, Marx, como vimos, trouxe Para
dimensóes:
tes de mais nada, a determinaçáo ontológica
é, an_ o centro de sua refexáo a atividade material dos homens. Nesse
fundamenral; mas, no
mundo da propriedade privada e da divlsáo
do trabalho, rorna-se Ì80
[. Mészáros, Mãrx: 4 teoria da alienaçáo (Rio de Janeiro, zahar,1981, pp' 84-8i).
o fundamenro de toda a alienaçáo. por e consciência de classe,livro publicado nove anos antes
náo distinguir objetivaçáo l,l I
Entre eles, o Lukács de Hìstórìa
de alienação, Hegel náo pôde aponrar dos fu[anttscritos econômico-f losófco,i. Na importante obra de Lukács, a superaçáo da
a forma d.grrd"d" do ua-
alienaçáo deve ria ser efetivada pela consciên.i" d. classe do proletariado, considerado
balho na sociedade burguesa. E justamente
Heger que, ao revelar messianicamente como um pensador coledvo capaz de reelizar a unidade entre sujeito
pela primeiravez o papel ontológico e objero.A superaçáo da alienaçáo, nessa perspectiva, confunde-se com a superaçáo
determinante da atiuidade,
d" p.óprla obj.ti.,id,,de. O materialismo, "q,ri, .ed.lugar a um idealismo alucinado
havia aberto o caminho para se pensar a
super açãoda alienaçáo. qrr. ."n..1" a objetividade e a externalidadì do real. Com base nessa obra genial e

Mas, ao equip aÍaÍ a alienaçáo com a obletivaçáo, equivocada, dilrerro, autores marxistas retomaram acriticamente a identificação entre
observa Iswán objetivaçao e alienaçáo, sendo acompanhados pelos Êlósofos existencialistas' que
acredita..am ser a alienaçáo um dado inerente à condiçáo humana e náo um produto
[d., ibid., p.349. hisrórico determinado a set superado pela prática revolucionária dos homens'
r82 [. Mészáros, op. cit., p. 281.
-.&....!."r:

CrLso Fsrotntco

sentido, vinculou o projero de emancipação humana


à esfera da tratar da
a natureza exterior. Mészáros captou bem essa questáo ao
produçáo. o mundo do trabalho com suas intrincadas
- e ainda superaçáo da alienaçáo , a Aufhebungproposta por Marx. Haveria
desconhecidas mediaçóes rornou-se, baseado nisso,
- a referência uma nítida distinçáo entre o que ele chamou de "mediaçóes de
central para a superaçáo positiva da alienaçáo.
segunda ordem" (a propriedade privada, a divisáo do trabalho etc.)
Tal superaçáo não é vista - jâ em ls44 como um
- rerorno e a "mediaçáo de primeira ordem" (a atividade produtiva). A supe-
ao passado, uma volta romântica à sociabilidade originária,
um raçáo das mediaçóes refere-se somente àquelas de segunda ordem e
regresso à natureza. A evoluçáo da vida social náo
é ,rL .rro a ser nunca ao próprio trabalho, a atividade ontológica fundamental:
corrigido, quando os homens olharem para trás e se conscienti_ formulado como
O ideal de uma "rranscendência positiva" da alienaçáo é
zarem de que a origem de seus males teve início com
o desenvol_ uma superaçáo sócio-histórica necessária das "mediaçóes" (propriedade
vimento das forças produtivas, a divisáo do trabalho,
a proprie_ priuada - trocd - diuisao do trabalha) que se interpóem entre o homem
dade privada etc. A superaçáo da alienaçáo náo é um
movimenro e a sua atividade e impedem que o homem se realize em seu trabalho,
regressivo, urrì salto paÍa trás, visando anular a história
real para no exercício de sÌras capacidades produtivas (criacivas), e na aProPriaçáo
reconsrituir um idílico estágio anterior de harmonia
quebrada humana dos produtos de sua atividad. (...). Em consequência' qualquer
pelo progresso social.
tentativa de superar a alienaçáo deve definir-se em relaçáo a esse absoluto,
A compreensáo marxiana da história como um processo neces_
precisa se opor à sua manifestaçáo numa forma alienada.'84
sário e ininterrupro de objetivaçóes, responsáveis peia
autocriaçáoe A centralidade do trabalho, em sua posiçáo estratégica de
autodesenvolvimento das capacidades humanas, desc aÍta
anostalgia primeira forma de objetivaçâo, abre perspectivas revolucionárias
de um rempo simples, quando os homens ainda náo havi"-
."pli.i- para o pensamento marxiano. A prim azia da atividade produtiva
tado as suas potencialidades e nem mergulhado no mundo
dilacera- no processo de autoform aç'ao do homem deixa claro, Para quem
do da alienaçáo. Nada é mais estranho ao pensamenro
de Marx que quiser ver, que o trabalho para Marx náo é uma mera "açâo instru-
esse romantismo anticapitalisra e seu culro a uma vida simples
de mental". Ele se toma, para os indivíduos tomados individualmente,
comunháo entre o homem e a natur eza. Aruprura com
a natureza essa atividade mecânica, inconsciente e desum anizadora. Náo
e o desenvolvimento das forças produtivas, ao contrário,
sáo, para importa: para o conjunto da sociedade as objetivaçóes alienadas
I{arx' o desenvolvimento das capacidades humanas, o processo dáo sequência ao desenvolvimento social e sáo elas que engendram
pelo qual o homem estendeu um conjunro de medi"çoe,
em seu as possibilidades de superaçáo do trabalho estranhado.
relacionamento com a natureza. A reivindicaçáo do
cornunismo náo A primazia ontológica da "mediaçáo de primeira ordem" reme-
implica a "perda do mundo objetivo produzido pelo homem,
uma te o processo de emancipaçío humana Parao interior do mundo
pobreza de volta à simplicidade antinatural, indiferenciada".rs3
do trabalho. Já o amesquinhamento da dimensáo ontológica
o que interessa a Marx é o desenvolvimento da natareza hu- do trabalho - considerado como "açáo instrumental", reduzido
mana e náo a identificaçáo simplória e "indiferenciada',
desra com indevidamente a uma "mediação de segunda ordem" - faz da

K. ìtÍarx, op. cít., p.425. t84 I. Mészáros , op. cit., pp.74-71.


,,..,-,-. t.

0 rovçla Mlnx CeLso Fneotnrco

emancipaçáo humana uma atividade da consciência, uma ação de 1844, embora sem referências críticas explícitas ao próprio Feuer-
promovida pelos intelectuais pequeno-burgueses e restrira à crírica bach.r85
da racionalidade e da técnica como manipulaçáo, da ciência como A afirmação ê um tanto exagerada: diante de um texto diftcil
forma de legitim açáo, da "açáo comunicariva" como chave de uma e contraditório como esse inconcluso manuscrito é temerário
emancipaçáo bem comporrada etc. Em qualquer dessas proposras fazer afirmaçóes táo taxativas; mas, por outro lado, a afirmaçáo
da moderna "crítica crítica", que transforma a teoria revolucio- náo deixa de ser pertinente: a rensáo entre a ontologia materialista
nária numa palatável kulturkritih, ocorre um descenrramento da aí proposta e a influência persistente e residual da filosofia con-
atividade ontológica fundamental e uma apressada despedida da templativa de Feuerbach atinge um tal paroxismo que, sob pena
classe operária. de inviabilizar a coerência da refexáo marxiana, tornava urgente
desembaraçar-se daquele materialismo passivo e paralisante. A
MARX E FEUERBACH: A RUPTURÁ ANUNCIADA ruptura com Feuerbach, portanto, está anunciada, mas ainda
o ajuste de contas com a dialética obrigou Marx a referir-se aguardando a oportunidade de sua efetiva consumaçáo.
diversas vezes a Feuerbach, o único entre os jovens-hegelianos a Segundo Marx fez questáo de enfatizar, a grandeza de Feuer-
manter uma "relaçáo crítica" com o pensamento hegeliano. A bach deve ser debitada às tês formulações críticas lançadas contra o
extrema simpatia com que Feuerbach é tratado nos Manuscritos pensamento hegeliano. Coube a Feuerbach o mérito de:
econômico-flosófcos e, logo depois, emA sagradafamília, expressa o l) ter demonstrado que a filosofia náo é mais que a religiáo transPosta em
reconhecimento de Marx para com o pensador que, pela primeira conceitos e desenvolvida pelo pensamento; que náo é senáo uma outra
vez, insistiu na necessidade de se fazer uma inversáo materialista forma e modo de existência da alienação do ser humano e, Portanto,
da filosofia de Hegel. Mas também aqui, como nos rexros anre- igualmente reprovável. I 86

riores, Marx apropria-se dos aforismos de Feuerbach com uma Ao equip aÍaÍ a religiáo com a filosofia especulativa de Hegel,
certa liberdade, atribuindolhes um alcance inimaginável para o interpretando ambas como formas de alienaçáo, Marx está se refe-
seu auror. E mais que isso: a apropriaçáo muitas vezes violenta o rindo às diversas passagens em que Feuerbach fez essa aproximaçáo
sentido original, conferindo-lhe uma entonação destoanre com como, por exemplo, no quinto parâgrafo dos Princípios da f losofa
o ideário feuerbachiano, mas afinada com os novos rumos do do futuro, em que se pode ler:
pensamento de Marx. a essência da Êlosofia especulativa náo é outra coisa qúe d essência de Deus

Esse procedimenro apaixonado de apropriaçáo transformadora racionalizada, realizada, atualizada. Afilosofia especulativa é a teologia
teve como resultado final a subsun çáo daantropologia feurbachia- uerdadeira, consequente e racional.rsT
na aos propósitos da nascenre ontologia materialista anunciada
no texto. Constatando a iminente ruprura entre os dois autores, r85 I. Mészáros, op. cit. p.213.
István Mészáros afi rmou: 18ó K. Marx, op. cit., p. 412 (As duas próximas citaçóes de Marx encontram-se nesta
quase todas as observaçóes feitas por Marx em suas mesma página.)
Teses sobre Feuerbach, t87 L. Fe uerbach, Manifestes philosoph;ques (Paris, Presses Universitaires de France ,1973,
nos primeiros meses de 1845, podem ser encontradas nos Manuscritos
P. r29).
CrLso FntoEn ::
0 irv:v Mnnx

A inversão materialista de Feuerbach propóe, no lugar da teo- a homem" rìo espíriro de sua teoria- A aÊrmaçâo é parcialmente
à de Feuer-
logia racionali zada, um pensamento que 'fale o idioma humano", correra se dirigida ao espírito da t.ori" marxiana e náo
bach. Fazendo essa atribuiçáo indevida, Marx Parece dar
razâo a
uma filosofia em "carne Investindo contra qualquer princí-
e osso".
pio abstrato que se desenvolve de costas para a realidade humana, Molière: "je prend mon bien ou je le trouve" (...) convém recordar,
e a carta en-
reivindica em seu lugar Lrma filosofia "qu. produz o pensamenro a propósito, a semelhança entre o texto em questáo
que lhe
retirando-o de seu oposto, da matéria, da essência, dos sentidos".r88 viada a Feuerbach em 11 de agosto de 1844: aquela caÍta
rende homenagem por ter fornecido um fundamento
filosófico ao
Essa proposta de um novo filosofar, feita em nome da emancipaçáo
Marx,
dos sentidos e numa ótica empirista, abriu, paÍa o jovem Marx, a comunismo com o SeLl conceito de gênero humano' e que
passagem para o materialismo. desvirtuando as coisas, queria igualar ao conceito de sociedade'
2) Haver fundado o verdadei ro materialisma e a ciência rerí|, ao converrer como já vimos no primeiro capítulo, Marx violentou o
signi-
a relaçáo social "do homem com o homem" no espírito fundamental da conceito feuerbachiano de gênero humano, forçando uma
em
teoria. ficaçáo que lhe era totalmente estranha. As relaçóes genéricas
Feuerbach realizam-se na consciência de cada um dos
indivíduos'
Afirmando ser Feuerbach o criador do "verdadeiro materialis-
no
mo", Marx deixa pressuposto que há uma diferença substantiva a Elas sáo relaçóes intersubjerivas, exemplificadas modelarmente
econômico-
separar o conrestador da dialética hegeliana daquele antigo ma- relacionamento amoroso. Nas páginas dos Manuscritos
relaçóes sociais sáo vistas como expressáo
terialismo, vigente nos séculos 17 e 18, ao qual dedicou, pouco fhsóf.cos,ao contrário, as
depois, uma das seçóes de r4 sagradafamília. Como essa diferença ,.1, ã", objetivaçóes postas pela atividade material humanizadora,
de sua
náo é explicitada, talvez se possadizer, correndo os riscos de uma ,.rporrráá pela autofor*açáo do homem, dos seus sentidos,
(no caso determinado
imputaçáo a posteriori, que, apesar dos pontos de semelhança e do consciência erc., seja do trabalho estranhado
mais nas
comum combate à religiáo, o materialismo humanista de Feuer- de uma sociedade em que os homens náo se reconhecem
ob.ietivaçóes). Nos dois casos o trabalho é visto
como uma
bach distancia-se do antigo materialismo por ver a religiáo náo suas
relacionando-os
como um erro, um desvio do intelecto em relaçáo à verdade, e, mediaçáo material interposta entre os indivíduos,
sim, como uma produçáo da consciência humana, um fenômeno entre si, dando uma estrutura çâo atoda vida social'
de
ideológico amplo, com causas materiais por ele desconhecidas, mas Evidentemenre o Marx de 1844 ttnha uma concePçáo
relaçóes sociais ainda marcadas pelo atomismo
feuerbachiano'
que envolvem profundamente a consciência dos indivíduos. Marx,
o tra-
tendo já percebido a determinaçâo social das ideias - tanto as reli- já que o fulcro de sua argumentaçáo era a relaçáo entre
vem se
giosas quanto as econômicas -, procurava aprofundar as intuiçóes 6rlh"dor individual e o capitalista. A essa concePçáo
escravo" da Feno-
feuerbachianas, tirando delas consequências sociais e políticas. somar a presença da "dialética do senhor e do
d.a espíritode Hegel, presente na descriçáo
do trabalho
Em seguida observa que a novidade do "verdadeiro materialis- menôlogia
a historicizaçâo
mo" estaria no fato de ter convertido a "relaçáo social de homem estranhado. Mas, aPesar dessa dupla influência,
do tra-
do gênero humano . ênfase na dimensáo ontológica
" uma PersPectiva
si L. Feuerbach, A essência do cristianismo (Campinas, Papirus, 1988, p. 28). balÈo já anunciam a necessidade de ascender a
0 lovtu Mrnx CrLso Faiornrco

totalizanre que consider e o ontos como a totalidade material, o Deste modo, Feuerbach concebe a negaçáo da negação como merít con'
conjunto das relaçóes sociais, e náo mais o trabalhador alienado tradiçáo da filosofia consigo mesma, como filosofia que volta a aÊrmar
tomaclo individualmente. Feuerbach, numa direçáo conrrária, a teologia (transcendência etc.) depois de havê-l:r negado e, Portanto,
enfocava a relaçáo homem a homem na perspecriva do diálogo contra si mesma.
intersubjetivo entre o "eu" e o "tu", que tanta influência teria, O ato assertivo, a afirmaçáo e conÊrmaçáo de si mesma contida na ne-

tempos depois, no existencialismo crisráo. gaçáo da negaçáo, resuha assim concebida como asserçáo inconfessada,
3) Haver oposto à negaçáo da negação, que se pretendia o absoluramenre carente de segurança de si mesma e, Por conseguinte' contaminada com
posicivo, outro positivo baseado em si mesmo e fundamenrado posiriva- seu contrário, vacilante e, portanto, necessitada de demonstraçáo em vez
mente por si mesmo. de demonsrrar-se por sua própria existência. A certeza da asserçáo sensível,

Segundo Feuerbach, o movimento rernário da dialética hege- baseada em si mesma, se lhe opóe entáo direta e imediatantente.leO
liana inicia-se com o infinito, a Ideia absrrata (a religiáo, a reolo- A citaçáo de Marx póe em relevo as duas concepçóes de posi-
gia), para ser negado no segundo mornenro (aquele do finito, do tividade com as quais vai dialogar.
sensível, do real, do particular) e, finalmenre, ser recuperado no Hegel, segundo Feuerbach, constitui a positividade utilizando-
terceiro momenro, o da filosofia, quando a teologia,
QUe havia sido
se do movimento de dupla negaçáo. O positivo, inicialmente,
negada, é reafirmada enquanro pensamento racional. desponta como negaçáo do abstrato, mas, no passo seguinte,
Contra essa confirmaçáo da teologia sob uma forma filosófica, na negaçáo da negaçáo, ele e a ldeia abstrata se reconhecem e se
Feuerbach propóe que se rome como ponro de parrida o segundo reconciliam formando uma positividade absoluta, uma síntese
momento (o particular, o finito, o sensível), rejeitando a univer- apoteótica do abstrato e do empírico, do pensamento e do ser.
salidade abstrata do início hegeliano, bem como o recurso da Feuerbach, por sua vez, diz Marx, interpreta a negaçáo da
mediaçáo na auroconstituiçáo dos seres. Náo é preciso insistir no negaçáo como um mero movimento do "pensamento que quer
tom pejorarivo atribuído à abstraçáo e à mediaçáo e nem na sua Superar-se com seus próprios meios" e, contra este' propóe como
contrapartida, a exaltaçáo empiricista do imediaro: "a singularida- ponto de partida o verdadeiro positivo, o segundo momento da
de e a individualidade", diz Feuerbach, "perrencem ao set a uni- dialética, dado imediatamente à senso-percepçáo, dispensando,
versalidade ao pensamenro". Estamos aqui em pleno nominalismo, portanto, o movimento automediador de constituiçáo do ser.
já que o universal náo existe fora do pensamenro, da consciência Perante essas duas posiçóes antagônicas, Marx acomPanha
dos sujeitos e, portanro, reduz-se à abstraçáo.tt, Feuerbach somente na crítica ao caráter especulativo e místico da
Marx, em meio a uma polêmica sem possibilidade de con- filosofia hegelian a, fazendo restriçóes à sua unilateralidade, que
ciliação, consrara a existência de duas concepçóes radicalmente deixa escapar o "segredo" escondido na dialética, ao jogar fora,
diferentes da positividade: junto cCIm aâguat"p a" teologia, a criança que ele quer que cresça
e se desenvolva:

rse Sobre essa questáo, ver Jaime Labastida, "Marx: tiência e economia política", in Temas
de Ciências Humanas (Sáo Paulo, Ciências Humanas, no 9, 1980)- leo K. I{arx, op. cit., pp. 412-413.
0 rovev Mrnx C:Lso Faeo:nrco

roralizante que considere o ontos como a totalidade material, o Deste modo, Feuerbach concebe a negaçáo da negaçáo como merd con-
conjunro das relaçóes sociais, e não mais o trabalhador alienado tradiçáo da Êlosofia consigo mesma, como filosofia que volta a afirmar
tomaclo individualmenre. Feuerbach, numa direçáo contrária, a teologia (transcendência etc.) depois de havê-la negado e' portanto'
enfocava a relaçáo homem a homem na perspectiva do diálogo contra si mesma.
intersubjetivo entre o "eu" e o "tu", que tanta influência teria, O ato assertivo, a afirmaçáo e confirmação de si mesma contida na ne-

tempos depois, no existencialismo cristáo. gaçáo da negaçáo, resuha assim concebida como esserçáo inconfessada,
3) Haver oPosto à negaçáo da negaçáo, que se pretendia o absoluramenre carente de segurança de si mesma e, Por conseguinte, contaminada com
posirivo, outro posicivo baseado em si mesmo e fundamenrado positiva- seu contrário, vacilante e, portanto, necessitada de demonstraçáo em vez
menre por si mesmo. de demonsrrar-se por sua própria exisrência. A certeza da asserçáo sensível,

Segundo Feuerbach, o movimento rernário da dialética hege- baseada em si mesma, se lhe opóe entáo direta e imediatamente.le0
liana inicia-se com o infinito, a Ideia absrrata (a religiáo, a teolo- A citaçáo de Marx põe em relevo as duas concepçóes de posi-
gia), para ser negado no segundo momenro (aquele do finito, do tividade com as quais vai dialogar.
sensível, do real, do particular) e, finalmenre, ser recuperado no Hegel, segundo Feuerbach, constitui a positividade utilizando-
terceiro momenro, o da filosofia, quando a teologiar
QU€ havia sido
se do movimento de dupla negaçáo. O positivo, inicialmente,
negada, é reafirmada enquanro pensamento racional. desponta como negaçáo do abstrato, mas' no passo seguinte,
Contra essa confirmaçáo da teologia sob uma forma filosófica, nâ negaçáo da negaçáo, ele e a Ideia abstrata se reconhecem e se
Feuerbach propõe que se rome como ponro de partida o segundo reconciliam formando uma positividade absoluta, uma síntese
momento (o particular, o finito, o sensível), rejeitando a univer- apoteótica do abstrato e do empírico, do pensamento e do ser.
salidade abstrata do início hegeliano, bem como o recurso da Feuerbach, por sua vez, diz Marx, interpreta a negação da
mediaçáo na auroconstituiçáo dos seres. Não é preciso insistir no negaçáo como um mero movimento do "pensamento que quer
tom pejorativo atribuíd.o à abstraçáo e à mediaçáo e nem na sua superar-Se com seus próprios meios" e, contra este' propóe como
contrapartida, a exaltaçáo empiricista do imediaro: "a singularida- ponto de partida o verdadeiro positivo, o segundo momento da
de e a individualidade", diz Feuerbach, "pertencem ao ser, a uni- dialética, dado imediatamente à senso-percepçáo, dispensando,
l'ersalidade ao pensamenro". Estamos aqui em pleno nominalismo, portanto, o movimento automediador de constituiçáo do ser.
já que o universal náo exisre fora do pensamenro, da consciência Perante essas duas posiçóes antagônicas, Marx acomPanha
dos sujeitos e, portanro, reduz-se à absração.ttn Feuerbach somente na crítica ao caráter especulativo e místico da
Marx, em meio a uma polêmica sem possibilidade de con- filosofia hegelian a, fazendo restriçóes à sua unilateralidade, que
ciliaçáo, consrara a existência de duas concepçóes radicalmente deixa escapar o "segredo" escondido na dialética, ao jogar fora,
diferentes da positividade: junto com aâguat"p a" teologia, a criança que ele quer que cresça
e se desenvolva:

rre Sobre essa questáo, verJaime Labastida, "Marx: tiência e economia polírica', in Temas
de Ciências Humanas (Sáo Paulo, Ciências Humanas, no 9, 1980).
0 rovru Mnnx

Mas Hegel concebia a negaçâo da negaçáo, enquanto implica uma relaçao em nada com o regresso feuerbachiano à integridade clo
se parece
vários séculos em
posiciva, como a única e verdadeira asserçáo e, enquanto implica uma homem liberto da religiáo. A história social dos
é considerada
relaçáo negativa, como o único ato verdadeiro e autônomo de todo ser. que a propried"d. prii"da dividiu os homens náo
a ser corrigido com a
Com isso náo fez senáo descobrir a expressáo ítbttratã, lógica, especulatiua [o, M"rx como um simples mai-entendido verdade, de um
do processo da história, mas que ainda náo se converteu na história re,l/ volta a uma sociabilidade originária: trata-se, na
da vontade indi-
do homem enquanto sujeito pressuposto; ela é apenas o ato da criaçao do desenvolvimento social necessário' feito à revelia
arrastando a
homem, a história de seu nascimento.tel vidual dos atores, mas que, como necessidade cega
subversivo de
Marx, assim, anuncia o projeto de aprofundar "a história real tod.os, criou enfim porribilidade do ato consciente
"
do homem", o que implica retomar a dialética numa perspecriva retomada d.a produçáo social por Parte dos trabalhadores.
Esse reenconrro do ser com sua essência, pela
própria impre-
diferente do idealismo hegeliano. Feuerbach é deixado para trás,
ressonância feuerba-
já que sua filosofia contemplativa em nada pode colaborar para cisão conceitual de sua formulaçáo, de clara
novidade marxiana
o estudo da autoformaçáo do homem pelo trabalho: nela não há chiana, tem levado muitos autores a dissolver a
isso, tentar
lugar para o ato de criaçáo, para a história. Toda a sua filosofia é na anrropologia humanista de Feuerbach. vamos' Por
os pontos de continuidade e de ruPtura
dessa
um contínuo vai-e-vem: do ser do homem à projeçáo fantástica de agoÍa.rirb.É.er
sua essência em Deus e, daí, paÍa o movimento desalienador de com a ontologia materialista de Marx'
"itropologia econô-
repúdio à religião e de reapropriaçáo da essência pelo homem. Esse A conceituaçáo marxiana de homem nos Manuscritos
o homem é visto
regresso triunfal, contudo, nada trouxe de novo, nada acrescentou mico-flosófcosparte diretamente de Feuerbach:
daquele
ao ser, apenas livrou-o da religiáo. inicialmerrt., d..rtro do espírito do humanismo naturalista
sobre a terra firme
E para Marx tratava-se agora de retomar a "história real do ho- autor, como um "ser real, corpóreo, assentado
forças da natur eza" '
mem", posta pelo trabalho material e, com tal base, propor a superaçáo e compacta, que respira e expande todas as
é, segundo afirmará
da fonte de toda alienaçáo. Para isso, fazia-se necessário aquele movi- Mas esse indivíduo ,rrt,,rr"l e passiuotambém
mento superador do presente que ele chamou d.e negaçáo da negaçáo, Marx, um ser atiuo.
Marx obser-
de superaçáo positiva da propriedade privada, de comunismo. Reproduzindo quase que literalmente Feuerbach,
e as plantas, é um
A reivindicaçáo do comunismo como negaçáo da negaçáo va inicialmente que o homem, como os animais
E explica:
marca, assim, a reaproximaçáo do jovem Marx com a dialéti- ser passiur, ."r.rrre, dependente e limitado'

ca. Náo estamos mais diante da reconciliaçáo do pensamento |rfoneéumanecessidademateriale'Poftanto'requerÚmandturezaex.


poder satisfazer-se e sossegar-se'
("') O sol
ensimesmado, mas de um terceiro momento realmente novo: a terior, um objetoexterior para
o objetoda planta ("')' ljt" tem um objeto fora de si náo é
ser que náo
superaçáo positiva da alienaçáo instaura um salto de qualidade e
um ser criado pela
na sociedade humana. Essa reapropriaçáo da vida social pelos ho- objetìvo (...) um ser sem objetoé algo irreal, imaterial,
produto da abstraçáo. ser sensíuel' isto
é'
mens conscientes, que agora se reconhecem em suas objetivaçóes, razio,isto é, imaginário, Llm
sensíuel, isto é' ter objetos
real, consisre em ser objeto dos sentidos, objeto
ê ser passiuo'
exreriores, objetos de seus sentidos. Ser sensível
I

ìer K. Ìüarx, op. cit., p. 413.


!

i
sensíveis
ll..tFr-4rqI

Crrso Fnrotntco
r96 0 ;ovru Mrnx

tem que se conÊrmar Por sua própria açáo, tanto t* "u


ser quanto em seu
O homem como ser objetivo sensível é, portanto, um ,.r'qtr. ltadece e,
que se aPresentam
como sente seu sofrimento, um ser apaixonado.re2 saber. Nem os objetos humanos sáo os objetos narurais
realidade direta'
Esramos em pleno sensualismo e atomismo feuerbachiano. Se imediaramenre, nem os sentidos humano s sã0, em sua
A natureza náo se
"ser real" é ser "objeto dos sentidos", o critério de realidade é dado objetiva, sensibilida de httmana, obietïvidade humana.
nem subjetivamente'"'4
de forma imediata aos nossos sentidos. Logo, um critério empírico enconrra adequada ao ser lilrmanonem objetiva
Com essa nova formul açâo altera-se totalmente o
relaciona-
(o trabalho ,tbstrato, por exemplo, náo é sensível, embora exista e seja
um ser
mento entre o homem e nature za. o homem náo
é mais
o elemenro que permite entender o ualor plasmado na mercadoria
,.afecçáo", e nela
pela advidade humana. O próprio valor também náo é "sensível" e de passivo, entregue à contemplaçáo da natureza
E nem os objetos
nem por isso deixa de ser objetivo em sua açáo reguladora do inter- apenas ,..orrh..endo a sua essência espelhada.
câmbio marerial entre os homens). Por outro lado, se ser objetivo é pt, .1. perseguidos estáo dados, imediatamente, nessa natureza
movimento da
ser objeto de outro ou para outrem, somos levados a uma concepçáo inalterável, sempre igual a si mesma, alheia ao
atomista de objetividade. A realidade tornou-se um particular que história.
para Marx o homem exteriori za-Se como um ser natural
exclui o universal. Na dialética, ao conrrário, seja a de Hegel ou do
ativo
Marx maduro, a realidade é o todo, o universal (sujeito e objeto). E, lt,mano, afirmando sua humanidade no relacionamento
conclui Marx'
como rotalidade náo tem nenhum objeto fora de si - sob pena
essa com o mundo natural. E agindo sobre a natureza,
,.o genético lhe
de deixar de ser o todo e transformar-se numa parte coexistindo ao homem tem sua gênese, a história; mas esse ato
mesmo. A história é
lado de ourra ela, seguindo o argumenm feuerbachiano endossado é consciente ., ..rq.r-"nto tal, se suPera a si
-, Essa capacidade de
pelo jovem Marx, náo e objetiva. a verd.adeira história natural do hÀ*.rrr".ret
a his-
superar-se confirm a o carâter mutável da essência humana,
Ao lado dessa conceituaçao puramente feuerbachiana, Marx
afirnra também que o homem é um ser atiuo. Como um ser apai- ,ori.id"de que acomPanha o fazer-se do homem'
de parcei-
xonAr/0, o homem vive intensamente os dois sentidos que Marx A nature za' poÍ o,rffo lado, perde a sua condiçáo
contemPlativo e
atribui à pairáo. Em primeiro lugar, paixáo é sofrimento, carência, ra silenciosa e .ú*pti.e à disposiçáo do olhar
este Persegue náo sáo
limite. E nisso Marx acompanha Feuerbach que considerava que desinteressad.o do hãmem. Os objetos que
sociais'
"um ser sem afecçáo é um náo ser". Mas a paixáo ) para Marx, somenre os objetos narurais mas, cada vez mais, objetos
para isso ele ,r.g", transforma a natur eza pelaatividade material'
diferentemrnte de Feuerbach, também é vista como "a aspiraçáo
os ob-
enérgica das faculdades humanas em direçáo a seu objeto".re3 colocando, mediaçóes Para, com elas' poder adequar
"rriÃ, Esse processo
Nesse novo sentido, paixáo é atiuidrtde, é movimento de dentro jetos naturais aos seus interesses sempre renovados'
exterioriza suas
para fora, é impulso inerente à realização do homem. O homem, interminável de objetivaçóes, pelo qual o homem
forças essenciais e distancia-se à" eza, foiresumido por Marx
afirma Marx, '.r",r'

r9l re'í K. Marx, op. cit., p- 422-


K. trÍarx, o). cit., pp. 421-422.
l9J
rei K. Marx, op. cit', PP.422-423'
K. i\Íarx, ar. cit., p.422.
0 lo'.:tr lvlrnx CiLso Fneoenrco

numa frase sintética: "a história da indústria (...) é o lit,ro abertu rarnente dado por toda a eternidade e consranremente igual a si
das fo rças ltunmnos essencil is".te6 mesmo", mas, ao contrário, "é um pioduto histórico, o resultad.o
Essas novas ideias expostas por Ìr{arx náo se'olram ainda da atividade de toda uma série de geraç5.r"res e, por isso,
conrra Feuerbach. É somenre em A ideologia alema, ao falar sobre até os objetos da "cerreza sensível" mais simples sáo dados
as relaçóes do homem com a natureza, que Marx irá ajustar as somente pelo desenvolvimenro social, a indústria e o intercâmbio
contas com esse autor e com a influência dele recebida em diversos comercial. Assim, é sabido que a cerejeira, como quase todas as
momentos dos Manuscritos econôntico-flosófcos: árvores frutíferas, foi transplantada para nossa regiáo há poucos
a) Marx refere-se aí a uma passagem dos Princípios da séculos por obra do comércio e, tão-somenre por meio dessa açáo
ftosoJìa
dofuntro em que Feuerbach desenvolve a rese segundo a qual o sff de uma determinada sociedade e de uma determinada época, foi
do homem (ou de qualquer ourro animal) é, simultaneamenre, a entregue à "certeza sensível" de Feuerbach.ree
sua essênrra. Assim, haveriir uma harmonia imediata do ser com Com essa redefiniçáo radical das relaçóes enrre o homem e a
a realidade natural circundante (as relacóes que conformam sua natureza, Marx explicitou suas diferenças com Feuerbach. Nos
existência). Ora, diz Mar\, essa posição conformista, satisfeita Manuscritos de L844, contudo, elas permaneceram amalgamadas
consigo mesma, encontra a sua refutaçáo viva e complera na si- num texto ambíguo, repleto de contradiçóes. Mas há uma pas-
tuaçáo vivida pelo proletariado: o ser dessa classe enconrra-se em sagem em que Marx aponra o abismo separando a anrropologia
contradiçáo grirante com sua essência. E isso náo é um acidenre, humanista de sua proposta de uma ontologia materialista:
uma fatalidade à qual os trabalhadores devem se resignar. Aliás, paixões etc. do homem não sáo somenre caracrerísricas [esrri-
as sensaçoes,
a própria açao prática dos trabalhadores revoltados demonsrra o tamente] antropológicas, mas afirmaçóes ontológicas da essência (natureza)
sentido de sua luta: colocar o seu ser em concordância com sua humana.loo
essência;re7 A reivindicaçáo de uma ontologia centrada nas objetivaçóes
b) além dessa contestacão básica, Marx volta-se para a concep- postas pelo trabalho humano indicam um caminho a seguir e a
çáo feuerbachiana de natureza, observando que ela permanece cir- necessidade de desvencilhar-se do materialismo empirista que en-
cunscrira à mera exterioridade, isto é, à natureza ainda não tocada, forma a antropologia feuerbachiana. Em A ideologia alema Marx
náo transformada pelo trabalho humano. Por isso, observa com dá o arremate final a essa necessidade ao observar: "à medida que
ironia, Feuerbach náo pode perceber que a verdadeira essência de Feuerbach é materialisra, náo aparece nele a história e à medida
sua consciência, o "mundo sensível" a rodeâ-lo, "náo é algo dire- que leva a história em consideracáo, não é materialista".2.r Essa
constataçáo, como dissemos, não é explicitada nos Manuscritos
i'\t' K. ìvÍarx, op. cit.. p. 384.
re- K. i\Íarx e F. Engels, La ideologia alemana (Barcelona, Pueblos Unidos/GrileI6o,1972,
pp. 45-46). Esra edição espanhola náo reproduz, justamente nesre ponro, alguns pará-
r'ìs K. Marx, op. cit., p. 47.
grafbs posteriormente descobertos e ecrescentados às ediçóes originais, que craram da
rô'r K. Marx, op. cit., p.47.
náo concordâncir entre a essêncía e o ser da classe operária. Por isso, recorri à ediçáo
francesa de 1968 das Éditions Sociales (pp. 74;75) e à rraduçáo brasileir-: de 7977, :00 K. Marx, "N{anuscritos de Paris", op. cit., p. 40i.
publicada pela Edirora Grijalbo (pp.62-63). :'rÌ K. Marx, La ifuologìa ã.lentana, op. cit., p. 49.
"
0 iol trut Mrnx

GONCLUSAO
ecotúnito-f lostifcas. Mas um ano antes' numa carta a Ruge, enr
13 de nÌaio de 1843, ÌtÍ,rrx já manifestava sue inquietaçáo e sua
esPeranca:
metls olhos: eles
os rriìrrismos dc Fetrerb,rch níro têm senao um deteito
11

remerem nruiro à n;rturez:r e Pouco à política- É.ntttt*tìto a única:rliança


verd,rde.:"1
que pode permitir à 6losoha de hoje tornàr-se
Em 1844, a reivindicrrçáo de um Pensamento Yerdadeiro que
de lado as antigas DE r 84J t t8q4, o FIO VEtu1ELHOda teoria revolucio náriade Marx
€xpressrì o aurodesenvolr-imento do ser social pôs
deslocou-se de uma posiçáo basicamente feuerbachiana para um
esperancas, prenunciando a inevitá\'el ruPtllra dir aliança
entre
novo patamar, no qual as infuências conflitantes de Feuerbach e
n.t.tr.r. . pàlí,i." Presente no pensamento de Feuerbach'
Hegel coexistiam ao lado da nova problemática aberta pelo contato
com a Economia Poiític a- achave da anatomia da sociedade civil,
apenas entrevista pelo jovem crítico. Em meio às rápidas mudanças
em ráo curro espaço de tempo, a teoria crítica do Marx jovem-
hegeliano transformou-se numa ontologia materialista incipiente
que orientolL os posteriores estudos de Economia Política' O
materialismo de Feuerbach e a dialética de Hegel passam Por uma
simbiose crítica, por um
Processo de síntese original, para servir
de fundamento orientador às pesquisas marxianas'
Os intérpretes, ao enfrentarem essavertiginosa evoluçáo em
seu pensamento, nem semPre discernem satisfatoriamente a ruP-
tura entre os dois momentos da evoluçáo intelectual do autor'
Tomam geralmenre em bloco a produçáo de 1843-1844 (o que de
certa forma é correto, já que estamos diante das metamorfoses de
um pensamento em um breve esPaço de tempo), mas, sintoma-
ticamente, acabam elegendo um ou outro momento como o de
nascimento da nova teoria e, assim, incorrem em contradiçáo'
Lukács, Por exemplo, procura aproximar o jovem Marx da
dialética h.g.lir.rr, .,'.rrdo como o Ponto comum dos dois auto-
res a centralidade conferida ao conceito de totalidade. Por isso
acredita erroneamenre que "desde o início" Marx já se afastara de
:rì: I.,PP. 289-290)' Feuerbach por este autor náo atribuir à totalidade um lugar cen-
i\larc-Engtk correpondancr (Peris, Éd. Sociales. 1971, t.
0lo,ie,,r Mnnx CrLso Faeoenrco

ual, já que sua filosofia era basicamenre empirisra.:'3 Mas quando esse asPecto ativo, mas submeteu a paixáo aos planos astuciosos
se dá esse afasramenro? Quando começa o começo? Náo é ainda da razáo, err€ faz os indivíduos se dèbatererrì e, assim, cumprirem
no rexro de L844, em que o vislumbre de uma mal percebida rora_ sem saber os objetivos por ela traçados nos bastidores.
lidade material coexistia com o empirismo feuerbachiano, e muiro Marx, discorrendo sobre o tema, o faz apropriando-se de dois
menos em 1843, quando a rotalidade era rechaçada. princípios caros a Feuerbach e Hegel: a passividade sofredora que
Apesar da reverência prestada aos Manuscrito-ç de I{reuznach, o primeiro atribui à matéria e o ativismo redentor que o segundo
estes em nada serviam a Lukács. Por isso, apega-se somente ao tex- conferia à consciência. Esses dois princípios, transfigurados, pre-
to de 1844, escolhendo os Manuscritos econômico-flosófcos como param o caminho para o posterior conceito de práxis, anunciado
ponro inicial para reinterprerar o legado marxiano e construir a na visáo do homem como um ser natural que é, ao mesmo tempo,
sua estética. passiuo, dependente e limitado, pois os objetos de seus impulsos
A dificuldade de compreensáo do itinerário do pensamenro encontram-se fora dele e dele sáo independentes; mas, também,
do jovem ìl'Íarx está radicada na interpretaçáo da profunda di- um ser atiuo, dotado de forças naturAis, faculdades e impulsos.2oa
mensáo operada pela ruprura de 1844, momento da descoberta Na base dessa descoberta está a investida na Fenomenologia
da Economia Política, do movimenro operário francês: fatores do espírito de Hegel e a inversáo materialista proposta por Marx.
que o levaram a refazer suas relações com Hegel e Feuerbach e, A compreensáo daí advinda da atividade como "atividade mate-
assim, abrir caminho paÍa repensar a realidade social sob o pris- ria|", como trabalho, como mediaçáo material entre o homem
ma da nascenre ontologia. O fo uermelho da teoria revolucionária e a natu Íeza, é um momento novo na história da filosofia, que
atravessou a filosofia daqueles dois autores, alinhavando ideias supera tanto o ativismo abstrato da consciência em Hegel quanto
díspares, deslocando-as do contexto originário e conferindo-lhes o pragmatismo ideológico da Economia Política inglesa. Segun-
novos significados. do observou István Mészáros, baseado nisso "o traballt , em sua
Nas páginas dos Mantrcritos econômico-flosófcos, essa transfi- 'forma sensível', assume sua significaçáo universal na filosofia de
guraçáo crítica surge na descriçáo do homem como um ser apai- Marx".2o5
xonado, entendendo-se a paixáo ao mesmo rempo como afecçao Tanto a paixáo quanto o trabalho sáo conceitos híbridos Pre-
e energia dirigida ao objeto exrerior. Inicialmenre, a paixáo havia nunciando a práxis. Em 1844 e nas Teses sobre Feuerbach a práxis
sido concebida na história do pensamenro como uma perturbaçáo recebe a designaçáo provisória de "atividade emp írrca" ou "ativida-
do espírito, como o resultado paralisanre de uma açao exterior que de sensível". tata-se de designaçóes mescladas exatamente porque
faz do homem um ser paciente, no senrido etimológico da palavra. expressam as duas influências presentes em Marx: "atividade" re-
O romantismo, reagindo a essa interpret açáo, quis ver na paixáo mete a Hegel e "empírica" ou "sensível" a Feuerbach. Referindo-se
a força responsável por toda a criaçáo humana. Hegel reromou

204 Cf. K. Marx, "Manuscriros de Paris", in OME 5/Obras de Marx y Engels, (Barcelona,
Cf. G. Lukács, Ontología do ser social. Os prinçípios ontológicosfundamentais de Marx Grijalbo, 1978, p. 421).
(Sáo Paulo, Ciências Humanas, 1979, p. L40).' 2ot l. Mészáros, Marx: a teoria da alirnaçao (Rio deJaneiro,Zahar,l98l, p. 83).
0 rovnl Mrrr CrLso Fntornrco

à atividade, Marx liberta-se de Feuerbach e reconcilia-se com He- da história natural, e a teoria ficou restrita à tarefa de "d.escobrir"
gel. r\Ías o caráter "sensír'el", "empírico" da atividade aproxima-o os rumos inevitáveis do processo histórico, predeterminados Por
do materillismo, por intermédio de Feuerbach. leis táo inflexíveis e ferreas quanro aquelas existentes na nattlreza;
Sob essas duas influências conf itantes Marx realiza a sua sín- uma vez conhecidas essas leis, à prática caberia o papel modesto
tese origin,rl. 'Atividade empírica" ressoa como uma fusão enrre o de realizar as etapas necessárias de um processo que se desenvolve
ativismo da consciência e os objetos empíricos, entre pensamenro mecanicamente. O materialismo histórico tornou-se, assim, uma
e matéria. Entretanto, o termo "empírico", de clara ressonância mera aplicaçáo do materialismo dialético à história humana.
feuerbachi;rna, sugere um materialismo hesitante, particularista, De outro lado, manifestaram-se diversos autores no sentido
ainda náo sistemático e universal. Mais tarde, Marx irá dedicar- de valorizar o aspecto ativo do marxismo em oposiçáo ao deter-
se ao estudo de uma totalidade material que náo se confunde minismo econômico. Para esses, o marxismo náo é uma ciência
mais com a particularidade empírica captável pelos sentidos. A pura, mas uma "filosofia da práxis". Desde Labriola, passando pelo
dialética niaterialisra, entáo, será a teoria racional do movimento jovem Lukács, Korsch, Gramsci, ÌvÍarcuse, Petrovic, Kosik etc.,
dos universais, distante, portanto, do materialismo sensualista de desenvolveu-se, de diferentes formas, a tentativa de reinterpretar
Feuerbach, uma teoria dos seres particulares apreendidos pela in- filosoficamente o marxismo. Nesse novo registro, procurava-se
ruicáo imediata, aos quais náo é conferida a qualidade de existirem dar ênfase ao caráter dialético em detrimento do materialismo,
independentemente da consciência que os contempla. o que se expressou, inicialmente, pela desconsideraçáo da natu-
Essa interpretaçáo da práxis como síntese entre matéria e Íeza, relegacla a um pano de fundo, apenas uma referência muda
consciência não é, evidentemente, pacífica. para se entender a história humana. Como pensamento dialéti-
De um lado, a tenrativa de transformar o marxismo numa ciên- co, o marxismo surgia aqui como unidade imediata de teoria e
cia quimicamente pura desenvoh,'eu-se a pardr de uma passagem de prática, cabendo a essa última o papel determinante: todo saber
Engels que identificava práxis com "experimentaçáo" e ''indústria". constitui-se como sua expressáo direta. Com isso, abandonava-se
Engels, dessa forma, abriu caminho involuntariamente para a cisáo o determinismo cego das leis narurais invadindo a história social
entre reoria e prática, fornecendo também elementos para que se e tirando do homem toda a iniciativa necessária para inventar o
consolidasse uma versáo caricata do "materialismo dialérico", o es- seu destino e propor finalidades ao desenvolvimento da sociedade
rudo reórico das leis gerais vigentes na natureza, na sociedade e no humana. Mas a desconsideraçáo da natureza trouxe consigo um
pensamento (portanto: a nova versáo da filosofia marxista, com suas voluntarismo exacerbado que autonomizava a aç-ao dos homens,
inevirár'eis três leis da dialética e demais simplificaçóes srosseiras); fazia tábula rasa das mediações materiais e propiciava um retorno
e, como exrensáo, o "materialismo histórico", o estudo da rea,lizaçâo à identidade entre sujeito e objeto nos moldes do idealismo hege-
daquelas leis no interior da vida social. Desvaneceu-se, desse modo, liano (esse é o caso típico do jovem Lukács).
a perspectiva unitária e ontológica do pensamento de ìr'íarx. A polêmica posta nesses termos está longe de querer encerrar-se.
A história dos homens tornou-se um momento da história na- Os defensores da "filosofia da práxis" argumentam, com razâo, contra
rural, já que o desenvolvimento social é regulado pelas mesmas leis o determinismo naturalista: a transferência das leis da dialética da na-
0 rc',.1 l\,lr.r

nr.reziì para a vida social, gerando. assinì, um faralismo imobilisn. Por A práxis, para usarmos a linguagem do i\larx náo dialético
ourro lado, os críticos da "filosoha da priris" demonstram, também de 1843, seria porranto vm rnixtum compositttm, um momento
com razáo, o abandono da perspecdva materialista. Timpanaro, a híbrido, um "ferro-de-madeira": como o silogismo hegeliano, ela
propósito, obsen'or-r: "(...) o recurso à príüs constitui com frequência parece ser fruto de um artiftcio lógico, uma esperreza do intelecto
um modo de não f"l"t, ou de falar pouco do materialismo".:ú6 interessado em acobertar as conrradiçóes. Em 1844, ao conrrário,
Na raiz desa interminál'elpolêmica encontra-se o caráter híbrido a superaçáo do dualismo e a volta às mediaçóes dialéticas recu-
do conceito de príxis a embaralhar a risáo dos litigantes. O equilíbrio sam o atft'ttut maniqueísta e integram os termos contrários como
entre o aspecto material e o espirirual que o consdruem é facilmente momentos consritutivos de uma unidade.
quebrado quando se enfatiza um dos lados em detrimento do ourro, Embora Marx se aproxime de Feuerbach ao defender o caráter
dando origem, respectivamente. ao determinismo naturalista ou ao sensível da realidade (forma embrionária e rosca de um materia-
romantismo idealista. Conscienre desse perigo, o próprio ìv'Íani, em lismo contaminado pelo empirismo), há uma clara reconciliaçáo
1844, encarregou-se de juntar as duas perspecdvas, consen-ando-as com Hegel na aceitaçáo do ativismo da consciência e na recusa da
e superando-as numa síntese dialédca que ele chamou de "naruralis- postura contemplativa. Aliás, o conceito de práxis guarda também
mo consequente" ou "humanismo". Essa posiçáo nova, diz ele, "se uma evidente analogia com a noçáo hegelian a de uontade liure, "a
diferencia ranto do idealismo quanto do materialismo e é, ao mesmo unidade de espírito teórico e espírito prático".?Ot) Em Hegel, como
to- yimos no quarto capítulo, a vonrade livre do homem vence a distân-
tempo, a verdade que abarca ambos" Ou ainda:
somenre no estado de sociedade o subletir-ismo e objetir-ismo, espiritua- cia e a oposiçáo dos objetos do mundo exterior por meio da posse; a
lismo e materialismo, atividade e passividade, perdem sua oposiçáo e, propriedade privada, como reconhecimento jurídico da posse, expri-
portanto, sua existência como antíteses.:ii me a materialização da vontade, a objetivaçáo do sujeito. Exprime,
Ertensão direra da definiçáo do homem como "o ser autome- portanto, a junçáo do elemento material, apropriado pelo sujeito,
diador da natureza", a práxis desloca-se para o centro da nascente com o reconhecimento referendado pela consciência de todos.
onrologia e afirma-se como conservacão-superadora da antiga A influência de Hegel, mais uma vez presenre, deve-se
essa
antinomia entre "o lado ativo", representado pela consciência na acrescentar a de outros autores, como Fichte, Cievzkówski e Hess,
filosofia idealista de Hegel, e o caráter sensível e material da rea- que também enformavam os horizontes teóricos do jovem Marx.
lidade empírica, ral como reivindicava Feuerbach. Mas a novidade trazida por este é a prodttçao da uida material, es-
boçada em 1844 e plenamenre explicitada em A ideologia alema.
Sebasriano Timpanaro, Pr,í-ris. rrttteri.;!isnto\- $tr:!ttítra.lisnto lBa.rcelona, Fontanella,
A partir daí a práxis ocupa o lugar cenrral no itinerário do
1973, pp. 52-53). Uma reromada dessa polé;nica entre nós enconrra-se na discussão jovem Marx, sob as designaçoes de "atividade real e concrera",
rravada entre Àdelmo Genro Filho e Caio Nalarro de Toledo. \'er, do primeiro,
"lnrroduçáo à crítica do dogmatismo-, in Teori; ü Políticd {Sáo Paulo, Ed. Brasil
"atividade empíric a", "at ividade revolucio nâria p rático - crítica" etc.
*O
Debares, no I, 1980); e, do segundo, anriengelsisrno: um compromisso contra o
marerialismo", in Teorid Ei Políticd, or. cit., no 2.
:0- K. N[arx, "Manuscriros de Paris", in O-\IE iObra; de líarx y Engek, op. cít., p. 421. roe Ver, a propósito. S. ÌvÍercier-Josa, "lJancrage hégélien de la notion marxiste de práxis
:,J S
Itl., ibid., p. 38"í. in Pour lire Hëgcl et tríarx (Paris, Ed. Sociales, 1980).
0lo',i,.t lrl:ir CrLso

Nas obras da maturidade, ela se bifurca e se concretiza para dar Parte do fascínio, sem dúvida, deve ser creditado ao aspecro
conta do estudo científico do mundo capitalista: iconoclasta de sua crírica à religiáo, crítica narrada em páginas de
o conceito.de práxis é substituído. de um ledo, pelo conceìro de pro- rara beleza, composra por aforismos e frases elegantes que carivam
duçíro como nìomento primordial de um processo, que compreendc a o leitor e o deixam à vontade para tirar das inconclusas asserrivas
disrribuiçáo e a circulaçáo; e de outro, pelo de luta de classes: o rernìo ir interpretacáo que melhor convier à sua imaginaçáo. Marx, como
prárica conrinua, em codo caso. a ser empregado como oposiçáo ao que é tentamos mostrar, náo resistiu a esse fascínio em seu estágio no
simplesmente pensado.Io "purgatório" feuerbachiano. Numa carra dirigida ao mesrre em l1
Em 1845 -1846, Hegel e Feuerbach passam a ter sua impor- de agosto de 1844, época da redaçáo dos Manusritos econômico-
rância relativizada na elaboraçáo do no\,'o patamar do vigoroso flosófcos, ainda confessava a "esrima excepcional e - permita-me
pensamento marxiano que entáo se inicia. Encerra-se o ciclo da a palavra -
o amor que tenho pelo senhor".
filosofia clássica alemá: a filosofia enquanto filosofia comeca a ser Já no ano seguinre, tendo atingido a ourra margem do "rio de
ultrapassada por um pensamento disposto a efetivar-se nos corn- fugo", Marx seguiu o seu caminho e parece rer esquecido as liçóes
bates da vida social. de Feuerbach. A trar-essia tinha-se cumprido e os dois persona-
Se o proletariado é o herdeiro da filosofia clássica alemá, Hegel gens separaram-se para sempre. Sabe-se que na velhice Feuerbach
e Feuerbach já cumpriram o seu papel e podem ser definitivamen- interessou-se pelas ideias do discípulo rebelde, leu o primeiro vo-
re esquecidos. Definitivamente? Difícil acreditar nessa hipótese lunre d'O capital e ingressou no parrido social-democrara. Marx,
quando se constata que esses dois grandes autores, como sombras, cada vez mais distante da paixáo juvenil, raras vezes referiu-se
conrinuaram perseguindo os caminhos de Marx. àquela filosofia conremplativa que ranro o sedu zira, mas depois
Feuerbach, por exemplo, havia exercido um fascínio especial lhe pareceu indiferenre, já que suas preocupaçóes políricas náo
em tr'Iarx, nos jovens-hegelianos e nas novas geraçóes de pensado- combinavam com a visão desinteressada da natureza. Em 1865
res. N,las o entusiasmo por Feuerbach, como bem observou Agnes N'Iarx teve a oportunidade de reler, 21 anos depois, um exemplar
Heller, é coisa de juventude: de A sagradaftmília e escreveu a Engels para declarar que eles náo
Feuerbach encontrou - de uma ou outra maneira - ao menos no século deviam sentir vergonha daquela obra juvenil, embora considerasse
19, um fertil solo no coraçáo da jut'entade, mas o coraçáo dos adultos se "cômico" o culto a Feuerbach.
separou dele. Da mesma maneira que todo pensador de importância se De qualquer forma, é difícit acreditar que a paixáo juvenil
viu obrigado uma vez aatÍavessar o "Feuer-Baclt", no pensâmento maduro náo tenha deixado nenhum vesdgio. "De tudo fica um pouco",
de todos eles cresceu a distância em relação a Feuerbach, a atitude crítica ensina Drummond: no plano dos sentimenros e também na vida
lrenre a ele, chegando com frequência até o desprezo.2t\ intelectual, as paixóes, corroídas pela ação do tempo sobrevivem
como resíduo e buscam formas novas de realizaçâo. Marx, talvez,
nunca se livrou totalmente de Feuerbach, como podemos entrever
Id., ibid., pp. 195-196.
nas hesitaçóes presentes na "rnrroduçáo" de 1857, quando a plena
Agnes Heller, "Ludrvig Feuerbach redivivoï, in Crítica de la ilustracitin (Barce\ont,
Península, 1984, p. 98.) adesáo ao mérodo dialético de Hegel é bloqueada pelas dúvidas
0 ..rovrv Manx

do empirismo, ou entáo, na recorrência a alguns temas feuerba- desta vez para aringir rambém.Marx e, principrrlmenre, Lenin.
A
chianos que o acompanharam por toda a vida, como a alienaçác,, bem da verdade, Marx sempre defendeu Hegel clessa associaçáo
o fetichismo etc. indevida que Pretendia dissolr,'er a realidad. dã, seres parriculares
Feuerbach, esquecido por Marx, vingou-se postumamenre nas profundezas gélidas do mar único da totalidircle, na
diluiçáo
projetando certas ideias nos pensadores do sécul o 20 9ue, para dos diversos, under a generítl principle, como disse cerra vez.
combater o marxismo, retomaram a associaçáo enrre totalidade e os modernos críticos da rotalidade, entreta.nto, continuam
totalitarismo, ou entáo, fornecendo pistas para as teorias alterna- repisando o antigo equívoco, ráo antigo, aliás, que o próprio
Hegel
tivas ao marxismo (a psicanálise freudiana erc.). E mais ainda: a em sua época jâ tinha estado às voltas com aqueles que viam
na
presença de Feuerbach esteve difusa enrre formas de pensamenro totalidade uma norma geral indiferenciada, um princípio geral,
românticas e revolucionárias, procurando competir com aquela um conceito vago e ameaçador. Na Estética, reproduziu e criticou
tradiçáo racionalista que reunia numa continuidade linear Hegel, uma passagem de Schiller: "trisre é o império do conceito: tem
Marx e Lenin. Segundo observou cerra vez A. Schimidr, se os mil formas mutáveis. Só fabrica, pobre e rario, uma única".2r?
esrudantes europeus em 1968 tivessem mais cultura, teriam saído Feuerbach, como vimos no primeiro capículo, r'olrou ao rema,
às ruas levando o retrato de Feuerbach ao lado dos de Marcuse usando como apoio uma citação de são Tomás cle Aquino: Deus
e Mao. Precursor de toda a moderna contraculrura, Feuerbach era sábio por conhecer os mínimos detalhes, "não considera
em
antecipou os temas da revoluçáo dos cosrumes e da ecologia, te- bloco, como ttm só tttfo, os cabelos da cabeça hurnana, mas os
mas que estáo por trás dos diversos movimentos alternatil'os do conta e os conhece todos um a um".
século 20. A totalidade de Hegel e a de Marx, a despeito de suas diferen-
Diferente foi o destino das relaçóes enrre i\,Íarx e Hegel. A ças essenciais, nunca eliminou o pluralismo dos diversos pela sua
contestaçáo global de 1843 foi sendo substituída por uma aproxi- submissáo forçada a uma generalidade indiferenciada: ao contrário,
maçáo cada vez maior, destinada a tornar-se um dos temas mais pretendia que no momento da integraçáo final todos se reconhecessem
difïceis para os estudiosos do legado marxiano. no universal sem prejuízo de suas diferenças específicas. o cadavez
Marx recorre, e náo por acaso, à Ciência da Lógica pouco anres mais atual projeto marxiano de emancipaçáo humana, do comunis-
de iniciar a redaçáo de O capita/. Voltava, assim, a percorrer os mo como negaçáo da negaçáo, nada tem a ver, diríamos nós, com a
caminhos do ser: náo mais o ser sensível e imediato da filosofia uniformizaçáo silenciosa e submissa de rodos peranre o formalismo
contemplativa de Feuerbach e nem aquele ser obscuro e místico impessoal de uma burocracia repressiva, como náo se cansaram de re-
de Hegel, puro pensamento objetivo. Para Marx, reromar à onto- petir os seus inimigos. A emancipaçáo humana, segundo Marx, acena
logia significava entregar-se à vida do objeto, a esre ser mediado, para uma sociedade entendida como uma toralidade autoconsciente
material, representado pela totalidade concreta e ativa, que se que superou as conmadiçóes e na qual os indivíduos se identificam e
autodesenvolve por suas próprias forças. se reconhecem na produção social coleriva.
A pecha de "rotalitária", lançada por Feuerbach à totalidade
espiritual de Hegel, foi de novo aèionada no século 20, só que G. F. Hegel, Estitica I. Á ideia e o idea! (Lisboa. Guimaráes Ed., 1972, 2^ ed., p. 34).
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