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Puberdade e adolescência: uma visão da

Psicanálise

Eliane Nascimento

Introdução

O termo "puberdade" origina-se do latim pubertate, que descreve um


conjunto de transformações psicofisiológicas no sujeito ligadas ao surgimento dos
caracteres sexuais secundários: pubis/pelo. Mudanças pubertárias promovem
modificações subjetivas e requerem do sujeito um novo trabalho psíquico.
Adolescer, do latim adolescere, significa atingir a adolescência, crescer,
desenvolver-se. (FERREIRA, 1986)

Quando os conceitos de puberdade e adolescência são referidos, é comum se


falar em crise. O que quer dizer crise? A palavra "crise" vem do grego krisis e tem
sua utilização bastante influenciada pela Medicina, sendo seu significado ligado à
ideia de julgamento, juízo, escolha. Ou seja, é o momento onde a enfermidade
em seu estado agudo define uma entre duas direções, o caminho da cura ou da
morte. Tomemos então o aspecto da crise como estado agudo, crítico. Mas
vejamos como se pode pensar esses conceitos através dos tempos.

O conceito de adolescência é relativamente recente, nasceu no Ocidente e é


visto de diferentes maneiras a partir da evolução e cultura da sociedade a que o
jovem pertence. (MANNONI, 1996) Algumas sociedades mais primitivas
vivenciavam, através de ritos de passagem ou rituais de iniciação, uma passagem
simbólica para demarcar uma fase que o jovem atravessava e com isto conquistava
um lugar no mundo dos adultos. Isso foi se perdendo e hoje nossas instituições
não parecem preparadas ou focadas nesse propósito, como é o caso dos atuais
modelos escolares.

No Brasil da atualidade, os jovens a partir de 10-12 anos já se intitulam de


pré-adolescentes e o termo "puberdade" encontra-se em franco desuso no meio
social. No entanto, podemos observar um encurtamento da infância e uma
chegada mais cedo ao momento intitulado como crise. Octave Mannoni (1986),
psicanalista francês, afirma que a crise da adolescência deve ser entendida como a
crise dos pais ou da família, porque nessa fase o jovem questiona os adultos e
estes se confrontam com suas próprias dificuldades e reminiscências da
adolescência.

Charles Melman e colaboradores (2009), psicanalista francês contemporâneo,


entende essa fase como a de uma vivência de crise na família e com o jovem, uma
vez que o adolescente não encontrou ainda lugar do seu gozos nesse momento de
grandes mudanças subjetivas. Veremos do que se trata.

Existe nessa fase uma metamorfose no real do corpo, ou seja, o pré-


adolescente habita um corpo que lhe é estranho e pouco familiar, em continuo
processo de mudança, em um crescimento corporal muito rápido e com alterações
significativas. Há um desintricamento imaginário desse real que passa pelos
órgãos e suas novas funções: os seios crescem, acontece a menarca na jovem, a
voz toma-se diferente nos meninos e os pelos aparecem. Os hormônios fazem
acontecer as diferenças corporais. Marca-se, assim, uma cisão com o corpo
infantil, ao qual o sujeito está referendado. Ocorrem, concomitante, um luto
pelo corpo infantil e um processo de mudança na autoimagem identificatória que
esse novo corpo possibilita. Luto também pela perda dos objetos parentais como
idealiyados, duplo luto, portanto. É uma fase em que se faz necessário um trabalho
de reorganização das identificações. Desse modo, processam-se não somente
identificações, mas também desidentificações que operam em nível dos ideais.

Sigmund Freud (1975i) aponta ser essa etapa semelhante a um novo momento do
despertar das pulsões 2 pelo real biológico, pela premência da sexualidade no
jovem. A fase da adolescência vai reativar os fantasmas que se instalaram no
início da vida a partir das primeiras relações de objetos, como Freud (1975e)
explica no seu texto "Projeto para uma Psicologia científica", apresentando as
primeiras relações de objeto do bebê com sua mãe. No período de latência, essas
relações deixaram marcas que permaneceram ocultas, vindo à tona na
adolescência. Fantasmas arcaicos são reativados e pensamos que podem ser
remontados à fase anterior ao Estádio do Espelho, proposto por Jacques
Lacan (1978), poiso que está em jogo é o corpo, porém, corpo enquanto imagem.

Pensa-se no corpo fragmentado, o esfacelamento, despedaçamento.


Então, poderemos entender o processo vivido pelos adolescentes, quando o
grupo opera como um elemento francamente especular. Cada um deles, na
vivência do processo, parece refletido no espelho do outro, as mesmas insígnias,
como se cada parte do corpo do outro o enviasse ao próprio corpo, em uma
integridade de imagem coletivizada. As roupas as marcas, a moda, a linguagem
permeada de gírias, reafirmam, assim, a necessidade de identificar -se pela e
através da imagem, maneiras de reafirmar a unidade egoica.

A adolescência e seus sintomas têm sido tema de estudos de


profissionais de diversas áreas no mundo inteiro, uma vez que é um
fenômeno presente em toda cultura, não apenas no Brasil. Sobre o assunto,
há vasta literatura na área médica, e também em outras áreas do
conhecimento. No entanto, com relação à Psicanálise, baseados em
pesquisas, podemos afirmar que há certa carência na produção sobre o tema.

Utilizando a Psicanálise como embasamento teórico, a pa rtir de Freud


são apresentados os elementos centrais para que se possa entender a
passagem pela puberdade e adolescência. O conceito de adolescência não
vem do campo da Psicanálise. Freud (1975i, p. 235), na sua obra Três
ensaios sobre a teoria da sexualidade, tratou dos aspectos relativos à
puberdade quando escreve: "O afeto de uma criança por seus pais é sem
dúvida o traço infantil mais importante que, após revivido na puberdade,
indica o caminho para sua escolha de um objeto, mas não é o único." (A
história aponta para a constância dos conceitos de infância e de vida adulta,
não importando a ideologia que possa permear a compreensão dessas duas
fases etárias da vida humana. Nas sociedades ditas primitivas, conforme
referido anteriormente, os ritos de passagem permitiam aos jovens púberes
acederem à posição de adulto).
Há uma relação entre puberdade/corpo/biológico. Com a puberdade,
efetuam-se mudanças no corpo. O púbere, ou pré-adolescente, como hoje os
jovens se nomeiam, habita um corpo em mudanças. Isto provoca
experiências de angústia frente ao seu corpo infantil e o desintricamento
imaginário desse real constituído de pelos, carne, músculos, sangue, espinha
e esperma. A puberdade, pois, se caracteriza por uma metamorfose no real
do corpo, em um contínuo processo de mudança, marcando uma cisão, como
sendo da ordem do estranho, o Unheimliche. (FREUD, 1975c) Freud aponta
como sendo um novo momento do despertar das pulsões pelo real biológico,
pela premência da sexualidade no jovem.

Assim, Freud (19750 não somente refere a puberdade como sendo um


novo período do despertar das pulsões pelo biológico, mas também aponta
para o abandono dos objetos quando as fantasias incestuosas são repudiadas,
denotando aí a marca do mecanismo do recalque, que afasta da consciê ncia
as representações que foram censuradas em função da passagem pelo
Complexo de Édipo. (FREUD, 1975f ) É, portanto, nessa fase chamada
adolescência que os jovens fazem novas escolhas objetais. No entanto, para
que esse processo se opere, é necessário que uma palavra interditora da
sexualidade infantil tenha sido colocada: a lei paterna da interdição do
incesto. Ao filho caberá então realizar a herança paterna, em razão da
historicidade edípica, durante a qual sabemos que o jovem poderá encontrar
saídas as mais diversas, pois é um momento de angústia. Em Freud (1975i,
p. 233) vamos encontrar: "[...] o complexo de Édipo é o complexo nuclear
das neuroses e constitui parte essencial do conteúdo delas. Ele representa o
ápice da sexualidade infantil, que, através de seus efeitos ulteriores, exerce
decisiva influência na sexualidade dos adultos."

Freud (1975i) descreve os momentos estruturantes da passagem


adolescente. O desenvolvimento sexual dos seres humanos se processa em
duas fases, esclarecia ele, sempre observando a questão central relativa ao
Complexo de Édipo e o período puberal, quando as catexias objetais
incestuosas teriam que ser desinvestidas. No texto "A dissolução do
complexo de Édipo", Freud acrescenta: "[...] as catexias de objeto são
substituídas por identificação.» (FREUD, 1975b. p. 221)

E o que vem a ser "catexias objetais incestuosas"? Freud (1975a) refere -


se à sua teoria acerca do Complexo de Édipo, o conceito mais importante
para a teoria psicanalítica, em torno do qual se pode pensar os des tinos do
sujeito. Foi definido por Freud (1975f ) como "recalque"3 das
representações sexuais incestuosas, mecanismo por ele descoberto que
alicerça toda a sua formulação teórica sobre os avatares psíquicos do
homem.

Trata-se da noção de que uma ideia incompatível com a consciência é


dela afastada pelo processo de recalque, em função do seu conteúdo sexual
incestuoso. Assim, ele descobre e sistematiza o funcionamento do que
chamou de inconsciente e estabelece a relação dessa ideia com a angústia de
castração. A essa passagem ele nomeou de Complexo de Édipo, ao qual se
dedicou a pesquisar ao longo do caminho de toda a sua construção teórica,
baseando-se no famoso texto da tragédia grega de Sófocles, chamado Édipo
rei, peça literária que faz parte de uma trilogia.

O Complexo de Castração (1905), formulado por Freud, esclarece que


as crianças pequenas atribuem a todos os sujeitos a posse de um pênis e
vivenciam ameaças à perda desse órgão: "[...] o efeito dessa ameaça de
castração é proporcional ao valor conferido ao órgão.» (FREUD, 1975i, p.
220) "Complexo centrado na fantasia de castração, a qual traz uma resposta
ao enigma que coloca à criança a diferença anatômica dos sexos (presença
ou ausência do pênis): esta diferença se atribui à ausência do pênis na
menina." (LAPLANCHE; PONTALIS, 1971, p. 6o)
Freud (1975a) anuncia também que a passagem pelo Complexo de
Édipo tem vicissitudes distintas para o menino e para a menina. A angústia
da castração é feita de um intrincado de fantasias e desejos relativos aos
objetos incestuosos que, em função do tabu do incesto, são abandonados
pelo mecanismo do recalque. Essa angústia também é demarcada pela
própria condição humana de incompletude, pela divisão entre os sexos, por
sua finitude e impotência.

A angústia a que nos referimos acompanha a criança desde tenra idade,


momento especial chamado por Freud (1975d, p. 180-182, grifo do autor) de
fase fálica, conforme esclarece:

Ela consiste no fato de, para ambos os sexos, entrar em


consideração apenas um órgão genital, ou seja, o masculino. O que está
presente, portanto, não é uma primazia dos órgãos genitais, mas uma
primazia do falo [...] o significado do complexo de castração só pode
ser corretamente apreciado se sua origem na fase da primazia fálica for
também levada em consideração.

A percepção da diferença anatômica é um momento especial porque a


criança, através da fantasia universal da existência do pênis, lhe dá um valor
fálico. Freud (1975h), em sua obra Totem e tabu, apresenta as mais originais
ideias a respeito. Ele também recorreu às suas experiências pessoais ao
afirmar que todo sujeito foi Édipo em algum momento da vida, referindo-se
ao enamoramento e à rivalidade para com os seus genitores. Para ele, os pais
são objeto de intensos investimentos amorosos e hostis, e mbora sejam
objetos interditados pela proibição do tabu do incesto e necessitem ser
abandonados pela premência da castração, além de que deverão sucumbir ao
recalque. Para o menino, essa passagem é vivida como a fantasia do medo
da perda do pênis. Os investimentos libidinais são abandonados e
substituídos por identificação com traços desse objeto, que significam a
internalização da lei representada pela introjeção da autoridade do pai.

Na menina, é a vivência de inveja do pênis que determina a marca da


castração e o que a leva ao abandono dos objetos incestuosos são as
identificações, segundo Freud. (1975g) Ele assim vai demarcar que é pelo
abandono dos objetos incestuosos, no recalque, que se dá a humanização do
homem e sua entrada na ordem, estabelecendo-se a abissal distância entre a
ordem da natureza e a ordem da cultura.

Ainda na obra Sexualidade feminina, Freud (1975g) fala da relação


prévia da menina com sua mãe e apresenta uma perspectiva mais completa
do Complexo de Édipo na menina, apontando para a dificuldade nessa
passagem.

Ao constatar a diferença anatômica entre os sexos, a menina sente


inveja do pênis, sentindo-se incompleta por não possuí-lo e atribui à mãe o
fato de não dispor dele. A partir daí, volta-se para o pai como novo objeto
de amor. Buscará o que julga não possuir, que em suas fantasias seria
receber um filho, na tentativa de se confrontar com a castração. Para a
mulher, com a realização de um desejo, desejo do pênis, é que ela,
supostamente, encontraria uma saída ou resolução para o Complexo de
Édipo. O desejo de um filho possibilitará à mulher o acesso ao sexo e à
maternidade. A castração, todavia, continuaria determinante.

Lacan (1999), no seminário As formações do inconsciente, apresenta


sua leitura sobre o Complexo de Édipo e esclarece que a castração é
concebida como uma lei, lei da interdição do incesto. Ele entende essa
passagem decorrendo em três tempos lógicos, onde quatro elementos estão
presentes, a saber: o lugar do pai, da mãe, do filho e do falo. Este último
representaria tanto a falta quanto o desejo, aquilo que ilusoriamente
completaria a falta.
Para Lacan (1999), o primeiro momento do Complexo de Édipo é o da
identificação do bebê ao falo, objeto de desejo da mãe, e o seu desejo é ser o
desejo da mãe. Constitui-se neste processo uma posição especial para o bebê
cujo drama é ser ou não ser o falo. A mãe é tomada por ele como tendo um
valor fálico.

No segundo momento, é destacado um terceiro elemento, o pai, que vai


cortar a célula narcísica, relação fechada entre a mãe e o seu bebê. O pai, ao
interditar a relação narcísica, passa a ocupar a posição de falo como objeto
de desejo da mãe, retirando do bebê a possibilidade de completá -la. Ocorre,
desde aí, o impedimento de que a mãe reintegre seu produto, o bebê,
alimentando a ilusão de completude, tampouco que ela seja objeto que
completaria a falta. (LACAN, 1999)

No terceiro e último momento, nem a mãe, nem o pai, nem mais o filho
podem representar o falo, pois estão submetidos à castração, e portanto, à lei de
interdição do incesto. Estão em uma linguagem e na cultura. É o que Lacan
(1999) vai chamar de "instalação da metáfora paterna”4 e "Nome do Pai”.

Pensamos que a puberdade e a adolescência revelam também sinais de


incremento do narcisismo, decorrentes do afastamento dos objetos ditos
incestuosos, e seus reflexos, como é comumente observável nos jovens nessa
fase: condutas de ensimesmamento, retraimento e isolamento, significativamente
presentes, efeitos do desprendimento das figuras parentais.

A entrada na adolescência, propiciada pela puberdade, permite ao jovem


exibir, ao olhar do outro, esse novo corpo cujos emblemas visíveis mostram não ser
mais o corpo de uma criança. É na fase da adolescência, no entanto, que são
reativados os fantasmas que se forjaram no início da vida e que, mantidos
submersos, são reatualizados, confrontados com a interdição do Édipo. Daí surge
a dimensão de angústia abordada anteriormente. Esses fantasmas arcaicos
podem ser remontados à fase anterior ao Estádio do Espelho trazido por Lacan
(1978), pois o que está em jogo é o corpo, este enquanto imagem identificatória.

Histórico do pensamento de psicanalistas


pós-freudianos sobre adolescência
Helene Deutsch (1 974) traz, em seu trabalho sobre adolescência e a
formação de grupos, um destaque em relação aos aspectos do predomínio
dos investimentos narcísicos egoicos em detrimento de verdadeiros
investimentos objetais. A adolescência, para a Psicanálise, é entendida como um
processo. Moisés Groisman e Juan Carlos Kusnetzoff (1984) a entendem,
porém, como um acontecimento natural e produto histórico da infância.
Paradigma do próprio crescimento e da maturidade, nesse período emerge o que
se manifestou ou não se manifestou na infância. Na criança, portanto, prepara-
se um novo nascimento: o aluvião dos instintos da puberdade.

Arminda Aberastury e Maurício Knobel (1985) percebem a adolescência


como um fenômeno específico do desenvolvimento, exteriorização dentro do
contexto sociocultural, com embasamento psicobiológico, o que lhe confere
universalidade.Domingos Infante (1992) informa que o adolescente se
defronta com um discurso que diz, a priori, o que é viável e inviável, certo e
errado. Essa situação gera culpas, definições precoces, vivências depressivas,
intolerâncias, tanto da parte do próprio adolescente quanto do seu meio
social e familiar.

Hugo Freda (1996) situa historicamente entre 1865 a 1880 o aparecimento do


termo "adolescência" em dicionário. Porém, o termo adolescens já era encontrado
nas comédias de Plutarco, no ano 193 a.C. Segundo Ferreira (1986, p. 48, grifo do
autor),

Adolescência vem do latim adolescentia e significa o período da vida


humana que sucede à infância, começa com a puberdade, e se
caracteriza por uma série de mudanças corporais e psicológicas [...]
período marcado por intensos processos conflituosos e persistentes
esforços de auto-afirmação [...].

Freda (1996) aponta ainda a questão da adolescência como um "fazer»


relacionado aos avatares da função do pai e a restituição desta figura em um
momento particular da história do homem. Considera a crise da adolescência como
a crise do pai. Ao se desligar deste, põe em evidência sua função: sem pai não há
desligamento possível, em uma referência ao Complexo de Édipo. É este o
momento que os jovens da atualidade estão vivendo, quando a função paterna
está em declínio, quando eclodem seus sintomas, queixas e sofrimentos
psíquicos.

Serge Cottet (1988) afirma que a adolescência recapitula e prolonga o


desenvolvimento que o indivíduo alcançou nos seus cinco primeiros anos,
apontando para a questão do objeto sexual parental, objeto incestuoso por
excelência, que é definitivamente abandonado e por isso toma-se um divisor
de águas entre as novas escolhas objetais que se dão nessa fase e os antigos
objetos interditados. Para um olhar mais atento, fica evidente que o eixo central
das identificações está em jogo nessa fase de grandes transformações.

Por sua importância, tomamos a referir que a adolescência revela sinais


de incremento da angústia pelo emergir de sintomas, decorrentes do
afastamento dos objetos ditos incestuosos e seus reflexos, como é bastante
comum observar nessa fase: depressão, hiperatividade, distúrbios de sono e
alimentares, comportamentos violentos de auto e heteroagressividade, dentre
outros tão presentes, que são efeitos das dificuldades de desprendimento das
figuras interditadas pelo Complexo de Édipo e suas vicissitudes.

Sonia Alberti, em seu texto sobre adolescência, afirma que a grande


questão da adolescência diz respeito à identidade sexual e às vicissitudes de
sua passagem pelo Édipo. É o que expressa:

[...] ao entrar na puberdade, o sujeito neurótico perdeu,


definitivamente, a crença cega em seu pai. Se por um lado isso lhe
dá uma capacidade crítica antes impossível, por outro lado, isso
exige que o Nome-do-Pai se represente de outra forma. Nome-do-
Pai necessário à estrutura do sujeito desejante. (ALBERT', 1996,
p. 234)

A referida psicanalista comenta ainda a esse respeito:

A adolescência tomou-se, com o passar dos anos, um traço


identificatório para os sujeitos humanos de determinada faixa
etária, razão pela qual o psicanalista deve, hoje em dia, procurar
saber algo sobre ela, mesmo que Freud e Lacan não tenham se
dedicado muito a este assunto. (ALBERTI, 1996, P. 43)

Jean-Jacques Rassial (1997) questiona em que medida o adolescente é


apenas consequência da infância ou uma entrada na vida adulta. Aponta
que é a partir do vazio do ser, da pretensão da lei do tabu do incesto e da
vacuidade do saber, que a adolescência inaugura um novo tempo. É o
segundo momento do encontro verdadeiro dos limites da onipotência
infantil, após a latência.
Há uma exacerbação dos investimentos no próprio eu, no movimento
evidente de pulsões narcísicas e uma nova relação com o tempo e a
questão da morte:

[...] que pode ser observado pelas ideias de grandeza, em que a


onipotência está visivelmente presente. Muitas vezes, os jovens chegam a
condutas de negação de dados de realidade, pela crença de que estariam a
salvo de situações de evidentes perigos fisicos, já citados, como a
atração que a velocidade e os esportes radicais exercem sobre os
adolescentes. [...] o adolescente está, portanto, no momento da
constatação da finitude e de toda angústia que isso possibilita,
pela própria marca da castração que aí se evidencia.
(NASCIMENTO, 2002, p. 68-69)

Rodolpho Ruffmo (2004) afirma que adolescência não é sinônimo de


juventude, mas um fenômeno determinado pela puberdade e que se manifesta sob
condições específicas da cultura em particular, fora dos quais ela não
ocorreria. É um fenômeno da modernidade que atinge o jovem do Ocidente, por
ocasião da eclosão da puberdade.

Retomamos Charles Melman e colaboradores (2009, p. 129-130), que traz


uma questão bem atual em relação à crise da adolescência na
contemporaneidade:

[...] se existe uma crise da adolescência, ela se situa, em princípio, no fato de


nós não sabermos o que dizer, que discurso sustentar para eles, que sabedoria
temos nós para lhes transmitir [...] Eu situaria, então, a questão do que se
chama a crise contemporânea dos adolescentes pelo lado da crise de nosso
discurso a seu respeito [...] o saber que conta é o saber imediatamente
verificável nas suas aplicações práticas [...] o saber fazer.

Todos os autores citados até o momento destacam os fenômenos de crise na


adolescência, que também envolvem, para além da família, o social, a escola, o
grupo de adolescentes. O jovem se confronta com o real de um corpo em suas
mudanças, com o advento da puberdade e as exigências que a sociedade lhe faz.
Veremos como Freud, em sua construção teórica psicanalítica, percebeu os
fenômenos relativos ao corpo.

A partir dos estudos desenvolvidos por Freud (1974) sobre a histeria, foi
possível entender formas de linguagem expressas pelo corpo, de maneira
radicalmente nova, através das conversões sintomáticas das pacientes. O
corpo, assim compreendido, também é um meio de expressão de conflitos
sintomáticos e de distúrbios, e pode estar sendo utilizado como metaforização,
ser decodificado e o seu sentido entrar no circuito da linguagem, apontando para
a verdadeira etiologia dos sintomas. Para os adolescentes, é de fundamental
importância uma abordagem que privilegie uma nova visão do corpo, não
somente junto a pacientes histéricas, mas também na passagem adolescente.

Como defende a psiquiatra Nancy Scheper-Hughes (1993), pode-se entender o


corpo desde diversas categorias, a saber:

1. O corpo existencial, como da ordem do subjetivo que constrói uma


realidade individual;

2. O corpo cultural, como da ordem do social, do simbólico, próprio à


cultura e à estrutura de relações sociais e suas representações na
linguagem;

3. O corpo político, como da ordem de um objeto que é visto como público,


pelo que seja capaz de produzir, de consumir, e podendo ser manipulado
pelo poder. A autora destaca como sendo possível o uso instrumental do
corpo pelas estruturas de poder.

Destacamos a contribuição trazida por Freud (1975i) em seu texto Três ensaios
sobre a teoria da sexualidade, quando aponta, decorrente de uma percepção
absolutamente nova, o corpo pulsional, sexual e libidinal, onde são investidas as
pulsões, propondo uma abordagem que privilegia um novo mapeamento da
sexualidade desse corpo.

Mas como o adolescente percebe seu corpo? Qual imagem tem dele? A fase da
puberdade/adolescência, conforme observamos, é marcada por intensas
modificações corporais. Como essas mudanças são vividas pelo jovem e como
são vistas pelo seu grupo? O que é mesmo um corpo?

Passemos então ao entendimento do corpo, não pela via da ciência, da arte,


mas segundo a perspectiva da teoria psicanalítica: o corpo se constrói. O estudo
acerca desta afirmativa foi sistematizado por Freud que, em 1905, em seu texto já
citado Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, nos diz que o corpo é a
sede das pulsões, ao descobrir as zonas erógenas. Corpo esse que é representado
e tem uma história particular e sexualizada; corpo enquanto local privilegiado de
excitabilidade, que ele descreveu como fonte da energia sexual e a esta nomeou
de libido. Destacou, ainda, que é a mãe que o erotiza nos cuidados com o bebê; e
que é ainda ela quem faz os seus mapeamentos, possibilitando que o bebê
organize o corpo e dele tome posse. O autor afirma:

A relação de uma criança com quem quer que seja responsável por seu
cuidado proporciona-lhe uma fonte infindável de excitação sexual e de
satisfação de suas zonas erógenas. Isto é essencialmente verdadeiro, já que a
pessoa que cuida dela, que, afinal de contas, em geral é a mãe, olha-a ela
mesma com sentimentos que se originam de sua própria vida sexual: ela a
acaricia, beija-a, embala-a e muito claramente a trata como o substitutivo
de um objeto sexual completo. Uma mãe provavelmente ficaria
horrorizada se lhe fosse dito que todos os seus sinais de afeição estavam
despertando os instintos sexuais do filho e preparando-os para sua
intensidade ulterior. (FREUD, 1975i, p. 229-230)

Ao tratar da sexualidade, Freud (1975i) revela a questão do circuito da


pulsão, que vai do corpo aos objetos e retoma ao eu, fazendo um movimento
narcísico.

Da releitura que faz de Freud, Lacan (1978) fala do corpo com seus orificios
e bordas e sobre a erotização da cobertura da pele, desse modo sendo observado
como um corpo pulsional, lugar e objeto de desejo e gozo. No bebê, no entanto, o
corpo é vivido como fragmentado e parcial. Para ser construído, necessita que
várias operações psíquicas se realizem. A construção se dá a partir do olhar e do
espelho — o semelhante, na relação com o agente que cuida do bebê,
normalmente a mãe. Nessa relação circulam significantes que marcam esse
corpo. Constrói-se um longo percurso até que alguém possa dizer: "meu corpo"
— o corpo próprio, para que ele seja constituído e constituinte para o sujeito.
Mas isto envolve um trabalho psíquico que não é natural, não é da ordem da
natureza; é necessário que o sujeito esteja articulado com a estrutura da
linguagem e nela estar inserido. Freud nomeou essa passagem de Complexo de
Édipo, e Lacan, de Metáfora Paterna.

Lacan (1978), ao sistematizar o Estádio do Espelho, ensinou a


importância da imagem que o Outro oferece como modelo antecipatório da
constituição da identidade. Modelo de identificação com a própria imagem que
fundamenta três dimensões, que definem, para a Psicanálise, a concepção do
homem como ser falante, especificadas a seguir.
1. A Dimensão Imaginária, marcada pelo mundo das imagens constitutivo do
próprio eu e não eu. A presença do outro/Outro;

2. A Dimensão Simbólica é a linguagem que afeta o corpo através dos discursos e


seus significantes privilegiados;

3. A Dimensão do Real, que trata do que é impossível de ser escrito,


está além da linguagem.

Para a Psicanálise, o que vem a ser um corpo?

O corpo biológico é sustentado por um esqueleto recoberto de feixes


musculares, que acomodam os órgãos que compõem os sistemas orgânicos.
Isto é o corpo da Medicina, da Biologia, da Ciência.

A construção do corpo, para a Psicanálise, é entendida como totalmente


subjetiva e imaginária. A relação que se desenvolve com ele é sempre
decorrente de imagem parcial, ilusória, imaginária. O corpo, afirma-se, é a
morada do sujeito. Todavia, de que corpo estamos falando? Para Lacan
(1978), podemos entender como:

1. Corpo imaginário, que é construído pelo infans como uma imagem


corporal unificada, diante dos objetos/corpos com os quais o bebê se
identifica, a partir de uma imagem especular do corpo do Outro,S em sua
vivência de fragmentação e incompletude. Essa imagem tem valor fálico;

2 Corpo simbólico, que é apenas um significante que está marcado pela


palavra e, portanto, situa-se na dimensão simbólica. Inconsciente, por ser
afetado pelo dizer antes mesmo de ter acesso ao sentido. O corpo não mais é
apenas da ordem da natureza, mas também da ordem da cultura. O corpo que
fala e é falado. Mas há algo que lhe falta: a marca da castração;

3. Corpo marcado pelo real. Pela partilha sexual, pela castração e pelo
gozo Corpo dividido pela dimensão inconsciente e pulsional, que o dirigem
para o encontro com a morte. Corpo que une vida e morte, Eros e Thánatos;
é apenas uma substância que goza. É o corpo implicado nos s intomas, nos
sonhos, nos sofrimentos e na angústia. Corpo que está inscrito como falta,
frente ao falo, símbolo de uma ausência na partilha sexual.

Passamos da fragmentação do "perverso polimorfo" — nomeado assim


por Freud (1975i) — para a imagem como constituição jubilatória de um
corpo, de um ideal de unidade, tanto do eu como imagem quanto da
constituição da própria subjetividade. Todavia, é uma ilusão de completude,
imagem criada à qual o sujeito se cola e se identifica: o ideal do Eu.

E se o corpo é construído, como se dá a relação do jovem com o seu


corpo? Essa base corpórea será sede dos significantes que determinarão o
sujeito: "Pedro", “Mariana". Essa marca é feita na própria carne e dela não
se pode claudicar. O corpo é corpo de linguagem. Nesse corpo são feitas as
próprias marcas: anda-se de tal maneira, fala-se de tal jeito, cortam-se os
cabelos, cobre-se o corpo com roupas, marcando um estilo e modas. E o
enfeitam com adereços. Também se fazem marcas (furam-se orelhas, faz-se
tatuagem, coloca-se piercing). Malha-se, fazem-se cirurgias estéticas, como
uma necessidade do sujeito de se apropriar de algo como seu e de exibi -lo
com suas insígnias. Marcas tão presentes no universo dos adolescentes.

Essas marcas explícitas, ao lado da maneira de sorrir o u chorar, por


exemplo, compõem o estilo do sujeito — estilo que é único. São também
uma apropriação imaginária de quem se é. Fruto de uma história parental,
cultural e edípica. Constroem-se a identidade simbólica e a identidade
sexual. Por sermos sujeitos falantes, Freud (1975d) estabeleceu a ordem
fálica à qual estamos todos sujeitados, não importando se corpo de homem
ou de mulher. O faloá não é o pênis. O corpo é da ordem do gozo. Os
significantes nos comandam, segundo a ordem simbólica ensinada por Laca n
(1978). O corpo encenado pelo fantasma é condição para o circuito do
desejo, da angústia e das formações sintomáticas na adolescência.

Lacan (1973) ensina que, nessa fase, a inscrição do significante, que o


Nome do Pai possibilita, é determinante para que o jovem possa se constituir
enquanto sujeito desejante e se confrontar com a própria castração.

O adolescente interroga a partir da sua verdade como sujeito, no


momento em que a pulsão sexual vai dar corpo a uma função fálica
privilegiada frente à escolha de novos objetos e experiências de gozo.

Portanto, o adolescente é chamado a responder sobre a ordem de sua


filiação, às questões quanto à identificação e se situar frente ao outro sexo.
A essas exigências subjetivas pulsionais responde com a angústia de corrente
dos fantasmas ligados à castração pela passagem edípica, pelo Nome do Pai.
É quando o adolescente pode apresentar uma multiplicidade de sintomas.

Hoje, em relação à época em que Freud viveu — quando havia a


presença de grandes casos de sintomas histéricos —, o que se observa é o
surgimento de novos sintomas, ditos da contemporaneidade: violência,
anorexia e bulimia, síndrome do pânico, toxicomanias e gravidez na
adolescência.

By Luciano.

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