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SOCIOLOGIA DO DIREITO, ESPINHOS E FLORES: HOMENAGEM

RECEBIDA E EXPERIÊNCIA PESSOAL COMO PROFESSOR

Cláudio Souto 1

Sentimo-nos honrado, naturalmente, pela homenagem que se presta ao


Professor Miranda Rosa e a nós próprio na sessão de abertura do Seminário
“Sociologia Jurídica: Balanço e Perspectivas” (PUC - Rio, 2/4 de agosto de
2000). Honrado e também surpreso.
Surpreso porque, como sabem os participantes do Seminário, a
Sociologia do Direito levou anos para ser aceita nos meios jurídicos
brasileiros e, ainda hoje, a sua aceitação pode ser vista como tímida, se
comparada com a das demais disciplinas e matérias consideradas
“específicas” do mundo acadêmico dos juristas. Acresce, e muito acresce,
que os caminhos dessa aceitação foram de espinhos e não de flores.
Tivemos de habituar-nos à caminhada espinhosa e não a receber
flores. Daí a comovida surpresa com que acolhemos e agradecemos a
homenagem ora prestada. Ao mesmo tempo, conforme solicitado dos
participantes do Seminário, relataremos nossa experiência como professor da
disciplina.
Foi necessário à institucionalização da Sociologia Jurídica como
disciplina acadêmica que sofressemos o exílio voluntário de nossa própria
casa mater, a Faculdade de Direito do Recife. Essa Casa nós a amávamos,
mas ela não amava a Sociologia Jurídica. E era a Faculdade da nossa
formação de jovem, a Casa dos primeiros estudos universitários e dos nossos
sonhos de ser professor. Era também a Casa do Manifesto Liberal-Socialista
dos Estudantes da Faculdade de Direito do Recife ao povo do Brasil, de
1953.
Tudo fizemos para evitar o exílio. Em 1935 Gilberto Freyre – cujo
centenário ora se comemora – ministrou Curso de Introdução à Sociologia
Moderna na Faculdade abordando temas de Sociologia do Direito. Depois,
mas já em 1959, proferimos breve Curso de Sociologia Jurídica – a convite
dos estudantes da Casa, que se mostrariam a partir daí sempre sensíveis à
nova disciplina e sempre dispostos a apoiá-la. Mas não era ainda a
institucionalização disciplinar.

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Professor Titular Emérito de Sociologia do Direito da UFPE. Doutor em Direito (UFPE) e em
Sociologia (Uni. Bielefeld).
Nem aconteceria, na Faculdade, essa institucionalização, em 1963,
quando, provisoriamente na regência da então cadeira Direito
Constitucional, retomamos curso de Sociologia Jurídica, a convite do
Diretório Acadêmico e da Direção da Casa, com a duração de um semestre
escolar. Mas não houve espaço para esse curso no currículo acadêmico e
nem sequer no recinto da Faculdade: o curso teve de ser ministrado a céu
aberto no Parque 13 de maio, situado defronte da Faculdade ...
Tornara-se, pois, indispensável que a Sociologia Jurídica se
localizasse fora da Faculdade de Direito do Recife. Servíramos sete anos à
graduação dogmática da Faculdade na esperança da Sociologia Jurídica.
Contudo, diferentemente do pastor do clássico soneto 178 de Camões, não
vimos sentido racional em retardar por outros sete anos a introdução da
Sociologia do Direito na então Universidade do Recife, como disciplina
permanente. E, assim, a Faculdade perderia para a Divisão de Ciência do
Direito do Instituto de Ciências do Homem, também da Universidade do
Recife, recém-criado, funcionando em nível de pós-graduação desde 1963, a
iniciativa da institucionalização da Sociologia Jurídica como disciplina
universitária regular. E essa iniciativa de um Instituto de Pesquisas a formar
pesquisadores em Sociologia do Direito seria a inicial no país.
A inauguração dessa Divisão – inicialmente chamada de Secção – e
do Instituto ocorreu em 11 de agosto de 1963, no andar térreo do que seria o
Restaurante da futura Cidade Universitária do Recife, e o ato inaugural foi
decerto pitoresco, em sua solenidade simples. Do lado de fora do
Restaurante semi-construído – de que a Divisão ocuparia uma pequena sala
– relva, barro e bucólico gado das terras do Engenho do Meio. No interior,
em sala mais ampla, mesa coberta com toalha e flores, trazidas de casa por
Solange Souto para a inauguração. Pelo menos já não era o relento do
Parque 13 de maio ...
Compareceu à inauguração do Instituto de Ciências do Homem e da
Divisão de Ciência do Direito, Gilberto Freyre, que se dizia dirigiria o
Instituto mas que não chegou a fazê-lo. Gilberto usava capacete de
explorador, provavelmente por achá-lo compatível com aquele ambiente
campestre ... Também prestigiou a pequena solenidade o próprio Reitor João
Alfredo da Costa Lima, depois afastado pelo governo militar, o qual João
Alfredo gracejou que Gilberto estava trajado de colonialista ...
Quanto ao ensino permanente, em nível de graduação, da Sociologia
do Direito, ainda uma vez uma jovem Faculdade se anteciparia à tradicional
Faculdade de Direito do Recife: a então Faculdade de Direito da
Universidade Católica de Pernambuco que, a partir de 1964, passaria a
ministrar ininterruptamente a disciplina Sociologia Jurídica, em caráter nada

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menos que obrigatório – prevista formalmente essa disciplina desde 1962. E
também aqui era uma primeira experiência em nível nacional.
Reverenciamos neste ponto a Professora Mirian de Sá Pereira, que nos
substituiu nesse ensino, já de há muito, com tanta eficiência e sempre com
grande entusiasmo e dedicação.
Ligado à UNICAP, publicado em off-set por essa Universidade,
surgiria um primeiro livro nacional sistemático de Sociologia do Direito,
nosso Fundamentos da Sociologia Jurídica, de 1968. Contudo, seria o livro
de Miranda Rosa, Sociologia do Direito, editado inicialmente em 1970, o
que mais contribuiria para divulgar a Sociologia Jurídica no país.
Mas a pesquisa sócio-jurídica antecederia, em nosso país, o ensino
regular da Sociologia do Direito. É que já em 1960 se faria para o então
Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais do Recife – hoje Fundação
Joaquim Nabuco – pesquisa de campo para o estudo da receptividade social
a uma lei agrária proposta para o Estado de Pernambuco. Investigação essa
que tudo indica inaugurou a fase das pesquisas empíricas sobre direito no
país.
Ainda aí o caminho literalmente não foi de flores. O Instituto Joaquim
Nabuco era na época instituição pobre, com deficiência de verbas. A
pesquisa só contou com um auxiliar – Pedro Motta de Barros, então
estudante e hoje professor de Sociologia do Direito em São Paulo. E teve de
ser levada a cabo com o auxílio dos agentes do IBGE espalhados pelo
interior de Pernambuco, a amostra estatística implicando que o motorista do
Instituto e nós próprio viajássemos sozinhos pelo interior do Estado, muita
vez sertão a dentro ... Uma experiência de vida decerto marcante para quem
era, até então, apenas estudioso de aconchegante gabinete.
Depois de institucionalizada a disciplina Sociologia do Direito,
continuava a doer-nos não fosse lecionada na Faculdade de Direito do
Recife. Por várias vezes tentamos fosse introduzida, sobretudo
“conspirando” para isso com dois de seus Diretores mais receptivos, Rosa e
Silva e Mário Baptista. Especialmente este último tudo fez para a introdução
da disciplina. Em vão. Havia a barreira fria e diplomática da oposição de
professores da Casa, que viam a Sociologia do Direito como disciplina, não
jurídica, mas sociológica – e portanto uma estranha no tradicional ninho
dogmático da Faculdade. Como se não fora o direito um fenômeno social e
como se o conhecimento do direito se pudesse esgotar na interpretação e
sistematização de normas consideradas jurídicas pelo Estado. Mário
Baptista, que desejava inclusive um setor de pesquisas sócio-jurídicas na
Casa, em momento de desencanto nos confidenciou: “Querem deixar a
Faculdade na ignorância.”

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Já se vê que nosso amor por essa Casa – amor filial – era constante,
mas sem correspondência, no que diz respeito a afinidade em espírito
científico, com a grande maioria do corpo docente da época.
Em relação aos estudantes da Faculdade de diferentes momentos,
ocorria o oposto. Foram eles que, em belo movimento, conseguiram, mas
somente em 24 de outubro de 1985, introduzir a disciplina, como eletiva, no
currículo de graduação da Faculdade, com o título de “Teoria e Pesquisa em
Sociologia Jurídica.” Reverenciamos aqui, comovido, a então Bacharelanda
Ana Lúcia Bastos Falcão, do setor de pesquisas do Diretório Acadêmico,
que liderou esse movimento. E foram ainda os estudantes pós-graduados, à
frente Elias Dubard de Moura Rocha, que, em 13 de novembro de 1989,
teriam êxito em tornar obrigatória a disciplina, em nível de pós-graduação,
na Faculdade – disciplina que era ali optativa, nesse nível, desde 1974.
O nosso exílio tornara-se relativo: após dez anos de absoluto
afastamento, viria o ensino de Sociologia do Direito na própria Faculdade, já
agora por um quarto de século, quase sempre em sua pós-graduação. E o
exílio tivera afinal o efeito estimulante da convivência prolongada e
permanente com sociólogos e outros cientistas sociais.
A fase mais recente da institucionalização da disciplina no Brasil é a
que vivemos agora: a da sua obrigatoriedade para todos os cursos jurídicos
nacionais em virtude da Portaria nº1886, de 30 de dezembro de 1994, do
Ministério da Educação. Pelo que sabemos, deve-se essa fase sobretudo a
José Geraldo de Souza Júnior e a Paulo Luiz Neto Lôbo.
Esse novo momento – que acontecia 30 anos após a
institucionalização brasileira inicial da disciplina na graduação em Direito da
UNICAP e já então como disciplina obrigatória – , esse novo momento é
decerto de importância primordial, dado o fato de que a Sociologia Jurídica
continua imersa – e quase afogada – no oceano de uma quase totalidade de
conhecimentos dogmáticos do jurídico que são transmitidos durante o curso
profissional de Direito. Importa pois – e muito – a obrigatoriedade da
disciplina que, aliás, mesmo sendo obrigatória, corre o sério risco de não
fazer verão, pois é uma andorinha só ...
Vemos, assim, como muito preocupante, a recente notícia, transmitida
pelo Boletim nº 54 do Instituto Direito e Sociedade (IDES), de maio-junho
de 2000, notícia segundo a qual o MEC poderia tornar optativo o ensino da
Sociologia Jurídica. A confirmar-se, tal notícia teria, a nosso ver, sabor de
acentuado retrocesso. Seriam então novos e inesperados espinhos na rota
sócio-jurídica ...
Não é que a obrigatoriedade não tenha tido seus efeitos colaterais,
efeitos esses assinalados pela oportuna pesquisa de Luciano Oliveira e

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Eliane Botelho (Duas Reflexões sobre a Sociologia Jurídica, IDES, Rio de
Janeiro, maio de 2000). Havendo sido a Sociologia do Direito, até hoje, uma
andorinha solitária, semi-afogada no mar dogmático, não pôde formar e
recrutar professores especializados em quantidade e qualidade suficientes ao
bom atendimento de sua recentíssima obrigatoriedade. Acresce que sendo
disciplina não-profissionalizante parece menos atraente, em Cursos
profissionais como o de Direito, para os que se queiram dedicar à práxis da
profissão – práxis essa atuada pela grande maioria dos professores de
Direito. Na verdade essa práxis funciona sempre, mesmo quando não seja
uma técnica científica, no sentido substantivo da ciência ...
Esse o efeito colateral básico da obrigatoriedade: professores
despreparados em Sociologia do Direito porque de outras especialidades e
recrutados para cumprir a exigência do funcionamento obrigatório da
disciplina. Porém nada que a conscientização – para o que contribui
fortemente a pesquisa de Luciano e Eliane – e o tempo de maturação não
possam corrigir. Pensamos que se poderia afirmar: deficiência, por ora, com
a obrigatoriedade, deficiência maior sem o caráter obrigatório.
Todavia a andorinha solitária voando obrigatoriamente em céus
dogmáticos – que não lhe têm sido céus de brigadeiro – enfrenta um outro
possível efeito colateral: o de sua dogmatização, isto é, o da dogmatização
da Sociologia do Direito mesma. Quem aponta esse perigo, e se menciona
isso na pesquisa de Luciano e Eliane, é Horácio Wanderlei Rodrigues. E
decerto não é um perigo remoto, diante do mencionado despreparo
sociológico observável em professores de Sociologia Jurídica convocados
improvisadamente para cumprir-se a exigência da obrigatoriedade.
Mas esse possível efeito pode ser prevenido pela conscientização – a
fazer-se junto a professores e estudantes – de que, na atual fase, é preciso
“sociologizar” a Sociologia do Direito no Brasil. Por mais simpática,
atraente e academicamente popular que seja uma Sociologia Jurídica
“filosofizada”, “introdutorizada”( isto é, um tanto Introdução ao Estudo do
Direito) ou “ideologizada”. Esses tipos de Sociologia do Direito já são
certamente tradicionais em nossos meios acadêmicos e os mais divulgados e
aceitos. Talvez simplesmente porque correspondam, de certo modo, a um
familiar “déjà vu” em outros cursos e em outros lugares.
Contudo, se a andorinha não toma consciência de si própria como
andorinha e, portanto, de suas possibilidades e limites – se a Sociologia do
Direito não se conscientiza de si mesma como Sociologia – pode ser presa
fácil de perspectivas dogmáticas que procurariam moldá-la à sua imagem e
semelhança, como receia o Horácio ...

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Isso é todavia uma questão de momento. De futuro, a Sociologia do
Direito provavelmente transbordará de si própria, para constituir, com a
Antropologia Jurídica e outros saberes científico-sociais sobre o direito, uma
Ciência Social do Jurídico, saber jurídico, sim, mas científico-empírico, que
haverá de coexistir com uma ciência formal e uma ciência filosófica do
direito. Algo semelhante ao que já ocorre com a ciência econômica de hoje,
relativamente autônoma em relação a uma teoria sociológica geral do social.
Entretanto não basta “sociologizar” a Sociologia Jurídica. É preciso
ainda substantivá-la, dar-lhe um objeto tanto quanto possível preciso, para
que possa operar de maneira séria a nível de suas teses, inclusive de modo
causal. Por mais antipático e “démodé” que isso possa parecer. Pois
cientificamente – se quisermos algo de mais confiável – não bastam simples
correlações.
Tudo indica que não podemos continuar nos iludindo com modismos
infrutuosos. Se quisermos ser pós-modernistas, que o sejamos
cientificamente, afirmando a incerteza, a inexatidão, substantivas da ciência,
que é apenas probabilitária, não exata, mesmo em suas proposições
determinísticas. Mas não deveríamos, como sociólogos do direito, embarcar
em pós-modernismo literário ou filosófico que enfatize a forma e tudo aceite
como conteúdo, no desinteresse pela coerência, chegando a dispensar a
razão e decretanto a “morte do geral” ... Esse pluralismo irracionalista pode
ser artística ou filosoficamente criativo, mas decerto parece estéril do ponto
de vista científico-empírico, pois é difícil conceber-se ciência sem
racionalidade e coerência interna. Até o momento, pelo menos, uma tal
ciência não existe nos meios científicos.
Na verdade, a preocupação teórico-substantiva se situa para além de
meros formalismos e nominalismos estatais ou grupais. O próprio e
expressivo movimento jusalternativo brasileiro, a que se deve o inestimável
serviço, de pela primeira vez, contestar-se entre nós, com eficácia, o
imperialismo da Dogmática Jurídica, esse movimento mesmo não tem
usualmente escapado a um formalismo grupal.
Como dissemos alhures, a noção corrente do direito alternativo,
referindo-se ao grupal, se torna prisioneira de uma pespectiva tão formal
quanto a estatista, apenas mais abrangente porque referida a qualquer grupo
social desfavorecido e não só ao Estado (excetuados somente os grupos de
criminosos comuns). E esse formal chega igualmente ao formalismo porque
substitui o grupo estatal (grupo dos homens do poder oficial) por qualquer
grupo, como critério de justiça. O que é decisivo então é o que o grupo
entenda como justiça e como direito, seja o que for. O que é decisivo é a
forma “aceitação grupal”, que passa a substituir a forma “aceitação estatal”.

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Ora, claramente não bastam para remediar essa situação de deficiência
teórica – com nítidas conseqüências práticas – vagas referências gerais à
justiça, à ética, ao bem comum.
Mas a evidente deficiência teórica é internacional, pois as definições
do direito como fato social dos autores mais renomados de Sociologia
Jurídica, clássicos ou recentes, são definições acentuadamente formais,
quase sempre de um formalismo grupal, e excepcionalmente retomando
mesmo o formalismo estatal do conhecimento jurídico da tradição. São
definições tão formais que, não tendo um conteúdo definido, podem abrigar
conteúdos agudamente contraditórios, contrariando-se assim uma regra
fundamental da construção teórica em qualquer ciência substantiva.
O pior é que continuamos acriticamente influídos dessas indefinidas
definições ilustres, clássicas ou recentes, em nossa persistente situação de
intelectualmente colonizados. E essa influência, observável no citacionismo
de mestres estrangeiros, será, no que se refere a autores em moda, um dos
efeitos sutis e perversos da globalização.
Porém esse é o último espinho de que falaríamos nesta solenidade, em
um sentido de alerta e consciente do provérbio alemão de que não há rosa
sem espinhos ... O momento, na verdade, é mais para flores de que para
asperezas. Concluamos, portanto, com flores.
As flores são aqui o símbolo de presenças amenas, aliviantes, ao logo
do percurso. Essas presenças representam o afetivo, que, na vida do homem,
não importa menos que o intelectivo. São muitas, tais presenças suaves.
Deixamos de mencioná-las para não injustiçar as que fossem esquecidas.
Mas devemos tornar a agradecer a homenagem suavizante que
Luciano Oliveira e Eliane Botelho nos prestam – ele no seu amável espírito
crítico, ela na sua simpatia e dedicada competência. Ele um tanto suspeito
como antigo e caro aluno. Ambos muito generosos, em nosso caso.
Devemos ser grato também a Joaquim Falcão o ter aceito, apesar de
suas ocupações, saudar os dois homenageados – ele que foi, por um tempo
saudoso, muito estimado companheiro da caminhada sócio-jurídica do
Recife. Isso quando, havendo sido lastimavelmente extinto por uma reforma
universitária o Instituto de Ciências do Homem e sua Divisão de Ciência do
Direito, as atividades desta Divisão encontraram abrigo na Pós-Graduação
em Sociologia.
Precisamos, finalmente, agradecer a honra de havermos tido
companhia tão ilustre na homenagem, a do Professor Miranda Rosa. Pois
como Magistrado aberto não só para o social como para o sociológico, ele
antecipou de muitos anos essa pioneira Magistratura do Rio Grande do Sul,
que, com sua jusalternatividade, inaugurou um novo e mais humano

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momento dos juízes brasileiros. Bravo momento de um Amilton Bueno de
Carvalho e momento também do ensino de professores destemidos como
Edmundo Lima de Arruda Jr. e sua Katie Argüello.
Miranda Rosa compreendeu, e disse bem, que permanecíamos
“ancorado” no Recife. Esse “ancorar” no Recife não pode excluir porém a
nossa proximidade mental e social do Seminário, superada, pela afinidade e
pelo afeto, qualquer distância física do espaço terrestre – e aéreo ... Não
aprendemos da Sociologia que não coincidem necessariamente distância
física e distância social?
Terá sido na verdade a afetividade intuitiva que fez com que Ana
Lúcia Falcão – aquela Bacharelanda de 1985 – resumisse a tarefa básica da
Sociologia Jurídica em uma só e gratificante frase: “A única disciplina”
escreveu ela em carta, “que me faz crer na existência de um ‘Direito Justo’,
isto se é possível conceber um que não seja ‘justo’ ”.
Obrigado, pois, muito obrigado, do íntimo do coração, a todos que
aliviaram o percurso. E que os caminhos da Sociologia do Direito possam
ser cada vez menos de espinhos, e cada vez mais de flores. E cada vez mais
de descrição e de explicação tanto quanto possível despreconcebidas e
precisas da justiça e do direito como fenômenos sociais, endereçando-se
assim às filosofias e ideologias de libertação do homem dados menos
inseguros.