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PROGRAMA DE RESIDÊNCIA MULTIPROFISSIONAL EM CUIDADOS

CONTINUADOS INTEGRADOS – ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: ATENÇÃO À


SAÚDE DO IDOSO
JEAN PAULO BOM FERREIRA
Preceptora: Silvana Dorneles
Tutora: M.ª Irma Macário

UMA BREVE HISTÓRIA DO HOSPITAL SÃO JULIÃO

Portfólio N.º 02
MAIO/2020
1. TEMA E DESCRIÇÃO

Quem construiu a Tebas de sete portas?


Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída –
Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
Da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para suas habitantes? Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia. Sozinho?
César bateu os gauleses. Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada
Naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões
(Bertolt Brecht

Beltolt Brecht (1898-1956) foi, e ainda é, um dos maiores representantes da


dramaturgia e da poesia moderna. De origem alemã, abandonou os estudos em medicina para
servir como enfermeiro nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Entre o breve período das
Grandes Guerras do século XX, Brecht aproximou-se da Teoria Social de Marx e a tomou
como principal inspiração para produzir suas peças teatrais e poemas, assim como para
compreender a realidade do modo de produzir e reproduzir a vida, que podemos chamar de
capitalismo (FRAZÃO, 2018). Junto ao ingresso no Programa de Residência em Cuidados
Continuados Integrados – Área de Concentração em Atenção à Saúde do Idoso (PREMUS-
CCI) da Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, os e as profissionais
residentes ingressam também em uma instituição filantrópica executora e parceira desse
programa: o Hospital São Julião (HSJ). Para aqueles (as) que se pretendem compreender a
realidade social pela perspectiva marxiana, o fato de adentrar ao HSJ por meio do PREMUS-
CCI coloca uma questão central: qual a história do Hospital São Julião? Não é pretensão deste
trabalho realizar uma análise marxiana do HSJ, pelo menos não nesse momento de um
segundo portfólio, mas apenas sanar curiosidades sobre o processo, ou movimento histórico,
pelo qual o HSJ foi criado e passou até tornar-se o que é hoje: uma instituição hospitalar
referência no cuidado, na assistência em Saúde e no tratamento de Hanseníase e outras
enfermidades.

2. JUSTIFICATIVA

Pode se considerar a importância da história do Hospital São Julião ao observar a


escassez de publicações sobre o tema. Em breve pesquisa nas principais bases de dados de
publicações científicas e indexação de períodos científicos, como a Biblioteca Virtual em
Saúde (BVS) que apresenta apenas 4 artigos que fazem referência ao HSJ, mas sobre estudos
em dermatologia e oftalmologia, e não sobre especificamente a história do HSJ, o contexto
sócio-histórico da criação do hospital e o desenvolvimento do mesmo. Tal constatação
corrobora para a justificativa do tema, assim como o único livro encontrado com informações
históricas do HSJ é um livro-reportagem de Rocha e Alfen (s/d) que não possui ficha
catalográfica

3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

O Hospital São Julião é um hospital de filantrópico, conveniado ao Sistema Único de


Saúde em caráter de serviço de saúde complementar, ocupando a posição de hospital de
retaguarda da Rede de Urgência e Emergência de Campo Grande e Mato Grosso do Sul e
caracterizado como hospital de atenção secundária, ou seja, de atenção especializada à saúde e
de utilização de tecnologias leve-duras (Merhy, 2000).
O Programa de Residência Multiprofissional em Cuidados Continuados Integrados -
Área de concentração em Atenção à Saúde do Idoso (PREMUS-CCI), oferecido pela
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul em parceria com a Escola de Saúde Pública de
MS “David Jorge Nasser”, em parceria com o HSJ como instituição realizadora, oferece por
meio da Unidade de Cuidados Continuados Integrados (UCCI) “Don Aldo Rabino” atenção
multiprofissional a pacientes encaminhados de Hospitais que compõem a Rede de Urgência e
Emergência do SUS e que necessitam de algum tratamento e ou reabilitação em decorrência
de traumas ou doenças crônicas. Nesse sentido, o PREMUS-CCI e o HSJ/UCCI servem como
uma mediação para os pacientes que passam pela Rede de Urgência e Emergência e que
depois serão acompanhados pela Atenção Primária à Saúde (APS).
Já no UCCI, os pacientes além de receberem atenção das equipes multiprofissionais,
também são atendidos, direta e indiretamente, pela equipe médica, equipes de técnicos de
enfermagem, equipes de apoio (limpeza e higienização), terapeutas ocupacionais, dentistas,
fonoaudióloga, copeiras, cabelereiro e barbeiro, recepcionistas e outros setores
imprescindíveis como a Rouparia, Nutrição e Dietética, Manutenção, etc.
O HSJ foi inaugurado em 5 de agosto de 1941, pelo governo Vargas, como um asilo-
colônia, ou leprosário, como era chamado na época, atendendo incialmente 21 pacientes
levados ao leprosário segundo a promessa de uma suposta cura para a então chamada lepra
(Rocha e Alfen, s/d). Muitas das pessoas internadas foram levadas ao leprosário por
internação compulsória devido ao componente de segregação social da profilaxia da lepra que
havia na época (Cabral, 2013), alguns foram por livre e espontânea vontade, mas em busca do
tratamento/cura que lhes eram prometidos e que surgiu apenas em 1947, alguns anos depois
da criação do asilo-colônia. Ao final do ano de 1941, poucos meses após a inauguração, o
asilo-colônia São Julião já abrigava 117 pacientes (Rocha e Alfen, s/d). Inicialmente
A estrutura do hospital contava com 4 pavilhões acima, 3 abaixo, clínica, 2
enfermarias, cadeia, 4 casas para casais, refeitório e cozinha à lenha, administração,
portaria e parlatório (prédio que separava as visitas dos doentes não permitindo o
contato (ROCHA e ALFEN, s/d, p. 19).

O HSJ possui uma história triste, mas hoje quem o vê não imagina que já foi assim,
em outras palavras, o produto oculta o processo. A partir da década de 1970 e 1980 o HSJ
começou a mudar, principalmente pela então conhecida Operação Mato Grosso e com a ajuda
de muitos italianos e de freiras/padres e outros religiosos. O período da chegada da Operação
Mato Grosso pode ser considerado como a consolidação do período assistencialista do HSJ.
Algumas dessas pessoas que chegaram nessas décadas e nas anteriores ao hospital, como
pacientes (alguns, com alguma melhora e com o aprendizado do cotidiano, tornaram-se
cuidadores dos outros pacientes) e também funcionários ou voluntários continuaram morando
no hospital a mais de 30, 40 ou 50 anos. Muitos filhos/as desses funcionários hoje trabalham
no hospital. Muitos dos filhos dos pacientes internados que foram separados de seus pais e
encaminhados ao Educandário, instituição tutelar que abrigava os filhos dos pacientes,
posteriormente também trabalharam no HSJ e atualmente ainda é possível de se encontrar
algumas dessas pessoas trabalhando no hospital.
A Operação Mato Grosso foi um movimento de grande importância para a realização
de mudanças e melhorias estruturais do HSJ. Nesse período também foi criada a Associação
Assistencial de Recuperação dos Hansenianos (AARH), que atualmente pode ser considerada
como uma Organização Não Governamental (ONG).
Além da Operação Mato Grosso e da AARH, o período de redemocratização do Brasil
na mesma época, o Movimento Sanitário, a emblemática VIII Conferência Nacional de Saúde
realizada em 1986 e a nova Constituição de 1988 com a criação do SUS (Paim, 2009), todo
esse contexto sócio-histórico da época, contribuiu para a abertura e consolidação do período
da atenção à saúde propriamente dita oferecida pelo HSJ.
Nos dias de hoje a arquitetura do HSJ é toda horizontal (uma característica presente no
hospital desde sua criação), o que para a logística interna de organização do trabalho pode
gerar desvantagens, tanto logísticas como de segurança. O complexo estrutural do hospital
possui aproximadamente 65 construções que abrigam setores desde o Centro Cirúrgico,
Ambulatório, Laboratório, Farmácia, Nutrição e Dietética, Rouparia, Sapataria, Capela,
Centro de Convenções, Creche, Escola de Ensino Fundamental com quadra poliesportiva e
pista de atletismo, Terapia Ocupacional, Fisioterapia, unidades de internação, casas de
funcionários, plantações, almoxerifado, serralheri, etc. Toda essa estrutura, e obviamente
todos os trabalhadores, fazem do HSJ uma referência no tratamento de pacientes com
hanseníase e outras enfermidades, além da quase totalidade dos atendimentos realizados pelo
SUS.
Segue o poema intitulado Íntegro, que retrata um pouco sobre o sofrimento causado
pela hanseníase quando ainda não havia tratamento adequado e cura. O autor, Lino Villachá
(1936-1995), foi um dos pacientes que ali viveu até o fim de sua vida e que foi sepultado nas
dependências do HSJ, por assim desejar...
A maré da vida trouxe este monstro invisível que me persegue, noite e dia,
reduzindo-me a farrapo humano. Quando o quis afastar esmagou-me as mãos,
quando quis correr ceifou-me as pernas... Cercou-me os caminhos, mas sempre
encontrei uma brecha por onde passar com o que me resta e, ainda que eu seja nesse
mar de sofrimento apenas uma concha no fundo, farei desta dor uma pérola para o
mundo. Não quero gritar, não amaldiçoarei quem me humilhou ou teve pena de
mim. Meus amigos são a minha força. E a luz de Deus cobre-me de graça e me
enriquece de amor e fé. Por isso me sinto completo, mesmo faltando-me tudo...
(ROCHA e ALFEN, s/d, p. 05).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS E APLICABILIDADE DO APRENDIZADO

Ao ultrapassar o portal de entrada do HSJ, passando pela Vila da Amizade e o


caminho de eucaliptos que levam até a portaria e chancela do hospital, seguindo pelas ruas
estreitas e paisagem arborizada entre as estruturas, não é fácil para ninguém imaginar como de
fato ocorreu a constituição e desenvolvimento do hospital que se é nos dias de hoje. A história
do HSJ é marcada pelo estigma da lepra e ao leproso era destinada a morte civil ou social por
meio da segregação utilizada como profilaxia da doença (CABRAL, 2013). Esse cenário
mudou e muito nas últimas décadas, mas é preciso não esquecer, para jamais acontecer.

5. AVALIAÇÃO SOBRE O CONTEXTO GRUPAL, DA RESIDÊNCIA E AUTO-


AVALIAÇÃO

É possível considerar os três primeiros meses de Residência como o período de


adaptação. Adaptação de uma nova rotina de vida, de trabalho, de estudos e de relações. A
adaptação aqui não é entendida como mero ajustamento do comportamento aos estímulos
ambientais, mas como um movimento de desenvolvimento e aprendizagem de novas
competências que o ensino superior no geral deixa de oferecer, como também de superação de
comportamentos e concepções que para o momento atual não são necessários ou desejados.
Acredito que mesmo passando por esse período de adaptação, o movimento que ele
requer ainda se encontra fluindo. Ainda estou aprendendo a viver numa capital, a dar conta
das responsabilidades a mais que tenho. Ainda estou me adaptando à carga de trabalho, dos
procedimentos, técnicas, organização e comunicação que o fazer psicológico requer. Ainda
estou me adaptando novamente à rotina de estudos que a Residência exige. E também estou
me adaptando às novas relações que acompanham a Residência.
No geral estou satisfeito com o contexto grupal, principalmente da organização do
trabalho por meio de equipes multiprofissionais. E em relação a mim mesmo, reconhece a
necessidade de melhorar a organização da minha rotina de vida e de estudos.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CABRAL, D. Lepra, Medicina e Políticas de Saúde no Brasil (1894-1934). Editora


FIOCRUZ. Rio de Janeiro, 2013.

MERHY, E. E. Um ensaio sobre o médico e suas valises tecnológicas: contribuições para


compreender as reestruturações produtivas do setor Saúde. Revista Interface. Fev/2000.

PAIM, J. S. O que é o SUS. Editora FIOCRUZ. Rio de Janeiro, 2009.

ROCHA, D., ALFEN, C. Confissões para o Esquecimento. MIMEO, s/d.

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