Você está na página 1de 6

. ⁄ . ⁄ .

●  ●  , º  ● -  147

Noções sobre plasma térmico e suas


principais aplicações
  *

Resumo ● Este artigo tem como principal objetivo apresentar uma breve revisão sobre a tecnologia de
plasma térmico. Também são aqui abordados os tipos de t ochas geradoras de plasma, assim como as
principais aplicações tecnológicas deste processo.
Palavras-chave ● plasma térmico, tochas de plasma, gases ionizados.

Title ● Notions of Thermal Plasma and Its Main Uses


Abstract ● This article aims at presenting a short outline o f thermal plasma technolog y. We also deal with
the kinds of plasma generating torches, as well the main technological uses of this process.
Keywords ● thermal plasma, plasma torches, ionized gases

.  (MITCHNER & K RUGER, 1973). O estado de plasma,


porém, é freqüentemente designado como “o
O emprego de plasmas térmicos gerados por meio quarto estado da matéria” (sólido, líquido, gás
de tochas específicas (“tochas de plasma”) teve suas e plasma), pois estima-se que mais de 99% da
primeiras aplicações tecnológicas na década de 60, matéria conhecida do universo encontra-se em
e nos últimos vinte anos essa tecnologia tem-se tal estado (KETTANI & HOYAUX, 1973).
caracterizado como um dos processos eletrotér- A definição preliminar de plasma será restrita
micos industriais mais promissores, devido à aos plasmas gasosos, que consistem em uma mis-
gama de aplicações possíveis e por ser dos menos tura de elétrons, íons e partículas neutras, em
poluidores. neutralidade elétrica (equilíbrio entre as cargas
Apesar da sua importância e atualidade, a negativas e positivas – propriedade conhecida
tecnologia do plasma térmico é pouco conhecida como quase neutralidade) e com certo grau de
por grande parte dos profissionais da engenharia, condutividade elétrica, em contraste com um gás
motivo pelo qual este trabalho apresenta uma comum, devido à presença de cargas elétricas
breve revisão de seus fundamentos e aplicações. livres entre seus constituintes. Tais cargas são gera-
das mediante processos de ionização por descar-
.    gas elétricas, ou por processos de colisão em gases
em temperaturas elevadas (BOULOS et al., 1994).
O termo “plasma” foi pioneiramente empregado
na física, para um gás parcialmente ionizado, pelo .   
cientista americano Irving Langmuir em 1929
Os plasmas são categorizados como naturais ou
de laboratório, e cobrem uma grande faixa de
temperatura e pressão.
Data de recebimento para publicação: 19/12/2003.
Como exemplos de plasmas naturais citam-se:
Data de aceitação: 24/01/2004. corona solar, nebulosas, vento solar, aurora
* Mestre pela EP-USP, doutorando da EP-USP, professor da
Faculdade de Ciências E xatas e Tecnológ icas da USJT,
boreal, descarga elétrica atmosférica, centro do
pesquisado r do Centro de Pesquisa da USJT, onde o au tor Sol, chamas, ionosfera terrestre.
desenvolve atualmente pesquisa referente à modelagem e
simulação numérica de tochas de plasma térmico.
Com relação aos plasmas de laboratório, “ou
E-mail: p rof.celsofelipini@usjt.br. plasmas gerados pelo homem”, basicamente podem
148   ● Plasma térmico

ser estabelecidas três subcategorias: plasmas físi- definido como o raio que descreve uma
cos relacionados à fusão termonuclear, plasmas esfera de volume de dimensão mínima
térmicos e plasmas frios. para garantir o fenômeno de quase neu-
Este trabalho limita-se à abordagem do plas- tralidade (MITCHNER & KRUGER, 1973).
ma térmico. Uma vasta literatura sobre os outros
dois tipos pode ser obtida com facilidade.
.  
.    ()
Quando todas as propriedades referentes ao
.   plasma são funções unívocas da temperatura e
Conforme Eckert e Pfender (1967), a expressão essa for a mesma para todos os seus constituintes
termo “plasma térmico” é empregada para descre- e reações possíveis, o plasma é considerado em
ver os gases que se apresentam parcialmente Equilíbrio Termodinâmico Completo (ETC).
ionizados quando aquecidos a altas temperaturas Num plasma térmico de laboratório, porém,
(entre 5.000 e 50.000 K), em pressões próximas à a radiação observada é bem menor que a radia-
atmosférica. ção de corpo negro (não satisfazendo a Lei de
Em geral são produzidos por descargas elétri- Planck), pois este é opticamente transparente para
cas e caracterizam-se pela alta densidade e pela uma ampla faixa de comprimentos de onda.
proximidade entre as temperaturas dos elétrons Dessa maneira, a temperatura de radiação di-
e das partículas pesadas, isto é, o estado termo- fere significativamente da temperatura cinética
dinâmico do plasma aproxima-se do equilíbrio, de seus constituintes, ou das temperaturas de
ou, mais precisamente, do equilíbrio termodi- ionização e excitação. Além disto, o plasma de
nâmico local (ETL) (B OULOS, 1991). laboratório também sofre perdas irreversíveis de
Certas características típicas dos plasmas energia por condução, convecção e difusão, e,
térmicos diferenciam-nos de um gás comum portanto, a condição de ETC não pode ser obtida
(ECKERT & PFENDER, 1967): (B OULOS et al., 1994).
Para tornar viável o tratamento matemático
• a condutividade elétrica, que praticamen- dos plasmas térmicos de laboratório, é assumida
te inexiste num gás comum, apresenta-se a hipótese de Equilíbrio Termodinâmico Local
no plasma como uma função da tempera- (ETL), em que predominam os processos de coli-
tura; são e ocorre uma micro-reversibilidade entre estes
• a composição do plasma térmico (elétrons, processos.
íons e partículas neutras) é também função As condições necessárias para que um plasma
da temperatura, assim como suas proprie- térmico esteja em ETL são (C HEN, 1984):
dades térmicas e de transporte;
• a condutividade térmica do plasma é tam- • as diferentes espécies que constituem o
bém função da temperatura, podendo plasma obedecem a uma distribuição
apresentar valores bastante superiores ao maxwelliana de energia;
do mesmo gás na temperatura ambiente; • as colisões formam o mecanismo domi-
• prevalece a quase neutralidade no plasma nante na excitação das espécies (distribui-
(equilíbrio entre as cargas negativas e ção de Boltzmann), e a ionização segue a
positivas). Essa característica não é válida equação de Saha;
na região de contato entre o plasma e a • as variações espaciais das propriedades
parede do recipiente que o confina (região do plasma são suficientemente pequenas,
em que o plasma é denominado “plasma de maneira que as partículas migratórias
sheat”), cuja dimensão é da ordem de um entre regiões têm tempo suficiente para
comprimento de Debye, comprimento obter o equilíbrio.
. ⁄ . ⁄ . ●  ●  , º  ● -  149

Exemplos típicos de plasmas térmicos são O método de descargas de radiofreqüência e o


aqueles gerados por arcos voltaicos transferidos, método de passagem de ondas eletromagnéticas
por tochas de plasma, ou por descargas induzidas (“plasma de microondas”) não serão apresenta-
por radiofreqüência (RF). dos neste trabalho, mas encontram-se revisados
A maioria dos gases industriais pode ser uti- em excelentes textos, como, por exemplo, Boulos
lizada na geração de plasma térmico: argônio, et al., 1994, e Metaxas, 1996.
nitrogênio, ar, hidrogênio, amônia, cloro, oxi-
gênio, monóxido de carbono e muitos outros, .    
tornando esta tecnologia bastante flexível (S ZENTE A interação entre gás de trabalho e arcos elé-
et al., 2000). tricos de elevada intensidade é realizada por meio
das denominadas “tochas de plasma”.
.     Embora exista uma grande diversidade de
tochas em função de suas aplicações específicas, o
.  princípio operacional é o mesmo e está funda-
Conforme apresentado, o plasma térmico mentado na convecção forçada do gás através da
pode ser produzido por meio do fornecimento coluna do arco elétrico, estabelecida entre eletro-
de energia térmica ou elétrica a uma certa quan- dos (catodo e anodo) em corrente contínua ou
tidade de gás, tendo como mecanismos básicos o alternada. Na interação, o gás é aquecido e ioni-
aquecimento e a ionização do gás, o que provoca zado, deixando a tocha na forma de jato de plasma.
a liberação de elétrons dos átomos ou moléculas. A unidade de processo (Figura 1) consiste ba-
Diversas técnicas são empregadas para promo- sicamente em tocha, fonte de energia, unidade de
ver tais mecanismos e uma das mais utilizadas é controle, sistema de suprimento de gás, sistema
baseada na interação entre o gás a ser ionizado de suprimento de água para arrefecimento da
e arcos elétricos de elevada intensidade: os elé- tocha, transformador, retificador de campo mag-
trons da corrente colidem com os constituintes nético e sistemas de mecanização.
do gás e o processo gera um número adequado de As tochas a arco elétrico podem ser classifica-
portadores de carga elétrica, tornando o gás con- das sob diferentes aspectos (BOULOS et al, 1994),
dutor (BOUL OS, 1991; F AUCHAIS & VARDELLE, 1997). sendo a mais comum em relação ao tipo de arco:

Figura 1: Esquema da unidade de processo.


150   ● Plasma térmico

arco transferido e arco não transferido, conforme operam com tensões elétricas elevadas e grandes
figuras 2 e 3. vazões de gás.
Algumas características operacionais das
tochas utilizadas em reatores a plasma térmico são
apresentadas na tabela comparativa (Tabela 1),
extraída de Schröter (2001).

Tabela 1
Características operacionais de tochas de arco
transferido e de arco não transferido
Arco não Arco
transferido transferido
Co n s u m o d e g á s Alto Baixo
Inerte
Tipo de gás Reativo
(reativo)
Figura 2: Arco transferido. Eficiência da tocha 80% Alto (95%)

Nível de potência < 30M W < 40M W

Na tocha a arco não transferido (para aqueci- Corrente < 2.000A < 100.000A
mento de gases e deposição de materiais) o circui- Tensão < 6.000V < 1.000V
to elétrico fecha-se entre os eletrodos (catodo e
Recuperação de
anodo) na própria tocha, e o jato de plasma não Desejável Desnecessária
en er g ia
conduz corrente ao exterior desta.
Já na tocha a arco transferido (para corte e
fusão de metais) o circuito elétrico fecha-se entre o
catodo (na tocha) e a peça ou material a ser proces- .  
sado, que serve como anodo.
Em geral as tochas de arco transferido operam A utilização da tecnologia do plasma térmico
com correntes elétricas elevadas e baixas vazões de gerado por tochas de arco em processos indus-
gás, enquanto as tochas de arco não transferido triais é uma alternativa atraente para equipamen-
tos convencionais de combustão, de resistência
elétrica e de indução direta, devido às seguintes
características (BIANCHINI , 2000; ANGELES , 2003):
altas temperaturas do arco, elevada eficiência de
conversão de energia elétrica em térmica (pode
atingir 95% de eficiência), utilização de diversos
gases (oxidantes, neutros, redutores), elevada
entalpia do fluxo de plasma, elevada densidade
de potência, dimensões relativamente pequenas
comparadas às de outros equipamentos, alta
condutividade térmica do fluxo de plasma, flexi-
bilidade de temperaturas e velocidades, altos
gradientes de temperatura e velocidade.
Devido às suas características, o plasma tér-
Figura 3: Arco não transferido. mico tem sido empregado em diversas aplicações
. ⁄ . ⁄ . ●  ●  , º  ● -  151

relacionadas à metalurgia, meio ambiente e FAUCHAIS, P. & VARDELLE, A. “Thermal plasmas”. IEEE:
materiais avançados, e, entre elas, podem ser Transactions on Plasma Sc ience, Vol. 25, nº 6, dez embro
de 1997, pp. 1258-80.
destacadas (B OULOS, 1991; F AUCHAIS & VARDELLE,
KETTANI, M. A. & HOYAUX, M. F. Plasma eng ineering.
1997; SZENTE et al., 2000): corte de metais, Londres: London Butterworths, 1973.
soldagem, produção de aços especiais e de metais METAXAS, A. C. Foundations of electroheat: A unified
refratários, reciclagem de alumínio, esferoidi- approach. Londres: Wile y, 1996.
zação de partículas, deposição de partículas em MITCHNER, M. & KRUGER, C. H. Partially ionized gases.
Nova York: Wile y, 1973.
substratos, deposição de vapor químico, síntese
SCHRÖTER, R. A. Modelo de reator a plasma para
de pó fino, fusão de vidro, aquecimento de pro- tratamento de cinzas de incineração. Dissertação de
dutos, secagem, tratamento de lixo hospitalar, Mestrado. São Paulo: EP-USP, 2001.
destruição de materiais tóxicos, inertização de SZENTE, R. N. et al. Recuperação de materiais de lodos
materiais contaminados, tratamento de lodo galvânicos at ravés de plasma tér mico. São Paulo: IPT,
2000.
galvânico.

.  

Embora o uso de tochas de plasma em certas


aplicações como soldagem e corte de metais seja
bem conhecido há um bom tempo, o desenvol-
vimento desse processo nas demais aplicações
mencionadas é relativamente recente. Graças às
suas vantagens em relação a outros processos, as
pesquisas e desenvolvimentos neste campo estão
em pleno andamento, o que permite prever sua
implementação em novas aplicações nos próxi-
mos anos, principalmente nas áreas de materiais
avançados e meio ambiente.

Referências bibliográficas

ANGELES, P. J. P. Estudo de toc has de plasma através da


teoria da similaridade. Dissertação de Mestrado.
Campinas: IF-Unicamp, 2003.
BIANCHINI, R. C. Modelagem e simulação de processos a
plasma para tratamento de organo-clorados. Dissertação
de Mestrado. São Paulo: IF-USP, 2000.
BOULOS, M. I. “Thermal plasma processing”. IEEE:
Transactions on Plasma Sc ience, Vol. 19, nº 6, dez embro
de 1991, pp. 1078-89.
BOULOS, M. I.; FAUCHAIS, P. & PFENDER, E. The rmal
fundamentals and applications, Vol. 1. Nova York:
Plenum, 1994.
BUSSOLINI, M. Toc has a plasma: Carac terísticas básicas
par a projeto e construção. Tese de Dou torado. São Paulo:
IEE-USP, 2000.
CHEN, F. F. Int roduction to plasma physics and controlled
fusion. Nova York: Plenum, 1984.
ECKERT, E. R. G. & PFENDER, E. Advances in plasma
heat transfer. Universit y of Minnesota, 1967.
152   ● Plasma térmico

Você também pode gostar