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Dlrcçlo

Samira Yousuol Orrrrr;rnrlelll Sumário


Benjamin Abtlrrlrr,lrrrrlur
Preparação do toxlo
8
Sueli Carnpoplorro '1. lntrodução ^aitê
Projeto gráflco/mlolo
Antônio do Anrarul llot:hn d,s personagens-
-
*
Arto.flnal
Bené Etiene Ardnntry
z. o laz'de-conta
Joseval de Souza Forrrnrrtlrrrr
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-

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I
.. gos Pellegrini, ?3; trgnáoio de Loyola Bran'
ãão, l§; Íoão Autônio, ?8; Jooé J. Ysiga, 79;
) Lva Luft, 80; Lygia Fagundes Tellos, 81;
úur"o, Rey, 82; Marilene Felinto, 83; Ivloa-
') cyr J. Scliar, 84; Renatci PonrBeu, 85' Inhoduç6o
, E7
6. Vocabulário crítico
90
7. Bibliografiâ cômentada

Este livro deve ser tomado como uma introd,ução aa


estudo da personagem, pois dirige-se a um púbtrieo que
analisa, produz e transforma textos de ficção. Na verdadq
este é um livro que se destina a um público especial, que
tem no Íexto um instrumento de ptazet, conhecimefito s
trabalho, mas que se encontra no inÍcio das reflexõEs
acerca das especificidades da narrativa.
Considerando esse fato decisivo para o encanrinha-
m,ento da discussão, e levando em conta que esta obra faz
parte de uma série que aborda outros asppctos da tesda
da literatura, procurei cercar algumas questões a -respeito
da personagem, dando ao livro a forma que eu irnogtqlva
pertinente e que buscava encontraÍ em cada estudo a r.ç§.
peito do assunto, no início de minha vida uulvqrsiüúriâ,
Assumindo uma postura até certo pont§ 4iddtfue o
i
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I

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correndo todos os riscos Iatais que ossa po§tuüe pCIde acar-
I
,t retar, â obra procura adequar-se às r,rpcçgsúdedÉg dos lei'
toÍes que não são especialislas. mas ÊEüd,idâtos a, ainru-
i lando o isolamento da questâo peüsomsg§m e flagrendo
,t osses habitantes da ficgão no soll ffifl,n9o do existêncla: o
tcxto. Aqur, ó preciso quê s§ psolôra0n, a palavre to:xto
#
!l
cobre duas manifcstaçõcs dc naturcza clil'crcntc: it !icç.art Sendo uma obra de introdr.rçr1«t. fica clara a necessi_
literária, a prosa dc I'icçiio que matr:rializa csses scrcs, e o dade de complementaçir<l pclos lcitorcs, na medicla
de seu
texÍo t:rítico quc, cont seus instrunlclltos cspecíficos, pcr- interesse, através da corrvivôncia corrr as grancles
obras de
segue a natureza desses seres. ficção e os grandcs criadorcs dc
lrerr,rnalens, bem como
Os capítulos que constituem essa obra, procuram com as possibilidadcs clc lcitura instigadas pelas diversas
orientar o leitor no sentido de refletir sobre a concepçào tendências críticas.
de personagem, sondando a sua variação ncl decorrer cle
um percurso literário que engloba a cliversidade da pro-
dução e a tradição crítica que a enfrenta. Cabe ao se-
gundo capítulo iniciar a reflexão, procurando desfazer os
compromissos rígidos cxistentcs cnttc as palavras "pessoa"
e "personagem"; ao terceiro, 1râçar unl rripirlo caminho
das várias perspectivas teóricas quc se tlcbruçam sobre a
questão da personagem; ao quarto, csboçâr ulgLrns proce-
dimentos de caracterizaçâo de personagcnt; c uo quinto
reservar a escritores brasileiros contcmp,rrânc()s Luna pa-
lavra a respeito de suas criaturas.
Quanto ao quinto capítulo, cabe aqui unr csclareci-
mento e um agradecimento. Essa reunião de dcpoirrrer-rtos
inéditos foi possível graças a gentil colaboraçzio dc cscri-
tores que, em .meio a suas inúmeras atividades, aclrauurr
um tempinho e se dispuseram a colaborar com esse livro,
concedendo à autora e aos ieitores a força clc seus tcstc-
munhos.
O reduzido vocabulário crítico e a bibliografirr conren-
tada não têm a pretensão de cercar todos os tcrnros cle to-
das as obras referentes à personagem, servinckr apcnas
como ponto de partida para os que iniciant 0s estudos do
problema. As obras aqui comentadas, conr raras cxce -
ções, não são livros dedicados exclusivanrcntc à pcrsona-
gem, mas estudos de teoria literária quc dedicanl um es-
paço a este componente da narrativa. Por csta razãcl,
aconselha-se que as obras sejam lidas na írrtcgra, a fim de
que o Ieitor possa estabelecer a rclaçuo elltrc () cstuckl cla
personagem e os outros itens I.rataijos ltelo eritico.
que acreditam separar com clareza a vida da ficção, mes_
mo que muitas vezes apreciem mais a ficção que a vida,
teriam algumas dificuldades para negar que já se surpre-
enderam chorando diante da morte de uma personagem.
o Í,az-de-conta Não há distanciamento leitor-texto que possa refreãr a
emoção sentida, por exemplo, quando em Grande sertão:
das personagens veredas nos defrontamos com Reinaldo-Diadorim morta.
E não se trata de uma emoção superficial, provocada ape_
nas pelo dado da surpresa: a releitura do romance não
impede que a emoção seja revivida. E é precisamente isso
que faz cessar o riso e aflorar as cismas. Afinal de contas,
diante do leitor hii apcnas "papcl pintailo com tinta,,.
Além disso, quc ()utra rnati.riu, cluc outrÍr n .tureza leveste
Personagens e pessoas esses seres clc I'icçao, csses ctlil'ícios dc pirlavnts que, por
obra c graçu da vidrr Í'iccirlnal, csltcllrirnr lr vida c l'ingen.r
- É
têm
provável que os leitores mais críticos, aqueles que
um contato menos ingênuo com a obra àe ficçào,
tirt-r contPlcl:u,clllo a Porrt, dc conquisÍar a int.rtalidailc?
E,ssa questiro nao ó simplcs. Nem cstc ó o prinrcirul
achem curioso e até engraçado q,re muitos leitores de ou o último livro que tenta rastrear os segreilos da pcrso_
Conan Doyle reservem um espaço de sua viagem turística nagem. Na tentativa de recolocar a questão da personagem
à visita a Baker Street, número 221 B, na esperança «le ali de forma a recuperar a tradição do estudo deste item da
encontrar os aposentos, o laboratório e os velhos livros narrativa e discutir aspectos de relevânci a paÍa os que se
de Sherlock Holmes. Esses amantes da ficção policial, que interessam por teoria Iiterária, começaremos pela trilha
leram e releram cada uma «las aventuras do herói, u.i._ mais prosaica: consultar um dicionário.
ditam realmente na existência de uma pessoa chamada O Novo dicionário Aurélio oferece a seguinte defi-
Sherlock Holmes, um ser humano muito especial, que viveu nição de personagem:
todas as apaixonantes peripécias relatadal por um ,,outro
ser humano", o caro Watson. Não encontrar esse número Personagem lDo ir. personnage.l S. Í. e m. I pessoa notá_
em Baker Street é uma decepção. Mas não tão forte que vel, eminente, impottante; personalidade, pessoa. 2. Cada
possa apagar a ilusão da existência de Holmes. para os um dos papéis que liguram numa peça teatral e que devem
leitores fiéts, isso não passa de mais um truque genial do ser encarnados por um atot ou uma atriz; Íigura dramática.
3. P. ext. Cada uma das pessoas que figuram em uma nar-
brilhante detetive.
ração, poema ou acontecimento. 4. p. ext. Ser humano
Mas não há motivo para riso. Ao menos não há mo_ representado em uma obra de arte: "A criança é um dos
tivo para esse riso de desdém, característico dos que nunca personagens mais bonitos do quadro" r.
tiveram dúvida de que Watson e Sherlock são apónas cria_
r Frnnrrnr, Aurélio Buarque de Holanda. Novo
ções de Conan Doyle. Curiosamente, esses mesmos leitores tlicionário da lín_
gua .portuguesa.Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1975.
l0

Esse verbete não ajuda


muito. Na verdade, ele 11
confunde que esclarece. para mais
gem, a palavra
.rpfi.* u palavra pcrsona_ pessoas' s :sirttdo modatidades
pessoa ( s ) foi utilizaO, "rii"'r'"!rt
expressão .,ser humano,, t.e , vezes e a ,ii!!i:""entam pró-
uma vez. l.ratando_se de
*::'#",5;:,1 Íi, "lq'" " ;;; ;;';"'ii
unr
cio,,á,;o cspeciar i- Essas poucat corr[ônr, rrgonr sinr, alguns
-lln,lr:
mentos que permitcm ele_
vo
expr icari .,
o ;;":I';' r:, X#'J','jl." j :'Xr*fl
.; fl:: questào personasenr
irriciirr ,,,r,,, ,.i.i"*,io. Ao discutir a
esse jogo metalingüístico-
simplista-"r'ro,,ro mais
uma vez
á;; ;É;;;;'i;:;l;,.il|11"' "' tr or cs I)r )ctrrirrrr sar ietttar
rr I (

,..-,,,orógica quá ,,l,au,


lffiiff.:T:i;,1;1 .urn .ru,.,, o o problema «Ja pers<lnagcnr ó,
lurtcs rlc Íuclo, unr
e personase,
-,.:,1iiüi'ii:r:';r.'
péis" e ,,figuras dramãJicas.,
incliquem ]lrriu"i, diferenças
;,:L;r; problcma lirrgüístico, pois
das palavras;
a ór;;;";;; r*itr cxisre l.ra
existentes entre pessoa,
a parrorug"nr, , farr" ,.Cada
a as personaqer
pessoas' rcgu lrdo moda-
n'ãi'fi ;t;',lJ{{{." "'4lr
'
uma Iid ades
que figuram em uma
_1Tj:r:":t
tecrmcnto" obriga o lcitor
narração, poema ou acon_
o .n.rrr. llr"r'rruçao. o poema Na aparente simplicidade
desses clois enuncia<ios
e o acontecimento como dem os núcleos resi_
espócie, de uma nrcsr
senclo fenômenos cle
uma mesma "rr.n.iui,
atguma coisa a resoeito
d, q;.r;;. i" quir".^os saber
E' textualmerrtc' a identi- d-" p.^à;;;;;;, iã...no,
ficar pessoa, frente a frente a construção de encarar
Mas, se um" n"rr.'i-,lj'Jlurcza' encontrou para dar forma
do te^tã, u rur"rru que
o autor
«lici às ,ua, c.iatoiur, ,í pinçar
q u e r ob rigaçà ..;llffi i'J;],. : independência, a autonomia
" seres a
e , ,,uiorli a.sses
",r" passemos
muito especializadas,
,
i:li,i I J:,,., :: H,:T; ficção. É somente sob de
lizatlo. q a um
urr ulcronarro
dici e specia_ dam.nto;;;;;;;";'J,',#',jiij,:'il?;,j:[:*:ft ,;:lf
No Diciontirio enc.lcloOértico remos, se útil e se necessário, :
vasculf,l. I .rirrencia
organizado por oswald
das
ciências da linguagent,
enquanto represenração da : z
Ducrot ;;;;;;;';.odorov, f!fr*us., de uma ,;iãrd.;_iJ, ,,
item que parece pertinente " há um rror ao texto.
transcreveruqri, poi, ajuda a
pensar o difícil problema
da relação p..rlirog"._pessoa.
"Uma leitura ingênua^dos
nagens e pessoas. Chegaram
livros de ficção coníunde
perso_ Reprodução e invenção
mesmo'a-e
fia s " de personagen
s,
do livro ("O que íazia Hamlet * ", à "- irlu"::;, ;:::: ::;
e x p Io r a n d o u Partindo da premissa de que
durante . a personagem é um habi-
do?"). Esquece-se que o probrema ""r" ,ro" de estu_ da pers;onagem
tante da reatidade ficcional,
o. qr";;;;;;, de que é feita
de tudo lingüistico, que não é antes e o espaço que habita
são diferente, Ou rnuie.l,
existe Íora das palavras, que e do espaço
a personagem ,,um é dos seres humanos, mas
ser de papel,,. tntrut")ro reconhecendo também que
relação entre personagem recusar toda essas
e
pessoa seria absurdo:
as per_ ,Dr*;-*akt
d iq u e tt e s, iii
^,,i i,& ii#i|., r,Ií:Tl;,,ií li i :,,;,,
Tr

;,*
n, 1. c t o p é.

^,,

t'
13
12

confundido com a pessoa. Papel e gradaçóes de branco


e
duas realidades mantêm um íntimo relacionamento, cabe que
inicialmente perguntar: preto, resultantes dà conquistas técnicas, são criaçóes
à fruUitlauO" humana inventou para representar' simular o
o De que forma o escritor, o criador da realidade real. A semelhaÍlça com o real reside no registro de
uma
ficcional passa da chamada realidade para esse ()utro uni- um determinado
imagem, flagrada num dado momento, sob
'r'erso capaz de sensibilizar o receptor? produto
Àrgíro ,oÚ d"t..rinadas condições de luz' Esse
o Que tipo de manipulação requcr csse processo ca- "
diz muito pouco, ou quase nada, da complexidade do
ser
paz de reproduzir e inventar sorÇs qtlc sc coltfltndelll, cnl as pessoas façam
humano reiratado. Talvez por essa razão
nível de recepção, com a conrplcxidadc c a força dtls seres
tanta força para aparentar e passar para a fotografia a
humanos? sor-
imagem que^fazem de si mesmas: cabelos penteados'
Ao colocar essas questõcs, caímtls tlcccssariamente no riso]leve-ar de seriedade, queixo erguido e outros aspectos
selecionados pela pessoa e pelo fotógrafo para compor
a
universo da linguagem, ou seja, tlas nraneiras que o homem
inventou para reproduzir e dcfinir suas relaçõcs com o irrug"- que ieri:, icgistracla. Os resultados c a reaÇão dos

mundo. Voltamos, portanto, nosso olhar àts forn'ras inven- fotoirataáo, cliantc clc suas ftlttls clcnrollstranr que não é
tadas pelo homem para representar, simular e criar a cha- fáciiconstruir a própria imagcnr para lazcr clc conta que
mada realidade. Nesse jogo, em que muitas vezes tomamos se é exatamente aquilo.
Basta olhar alguns retratos três por quatro' '9ui
o.u
por realidade o que é apenas linguagem (e há quem afirme
para pensar um pouco nos frágeis
que a linguagem e a vida são a mesma coisa), a persona- na vitrina dos fotógrafos,
limites que separam (se é que esses limites existem" ' )
a
gem não encontra espaço na dicotomi a ser reprtttlur.ido/
,eprodrção Íià aa e a simulação do real'
/ser inventaclo. Ela percorre as clobras e o viés dessa rela- realidade
ção e aí situa a sua existência.
Para começar a compreender a questão, vanltls partir
de uma forma de reprodução da realidade, a linguagem
fotográfica, normalmente aceita e vista como uma maneira
bastante "objetiva" de captar o real. Tomemos como excm-
plo clois "gêneros" de reprodução de imagem através da
iotografia: o retrato três por quatro, normalmente utilizado
em documentos, e os retratos de estrelas consagradas pelos
anos de ouro do cinema americano.
A foto três por quatro parece ser uma das maneiras i

mais objetivas de rcproduzir a imagem de uma pessoa'


I

Tanto é verdade que oficialmente elas garantcm a identi-


dade cla pessoa retratada. Elas sao as pessoas retratadas'
Ninguém duvida.
Entretanto essa "presença de uuta ausência", csse
testemunho irresponclível de uma existência não pode ser
t4

ainda uma
Mas, se as fotos para documentos guardam
proximiclade entre a pessoa retratada e a imagem resul-

tante, tomemos um áutro exemplo em


que o resultado
evidenciaumaÇomposição,umtrabalhodelinguagemem
conscientemente os recursos ofere-
ár. " ã,ografo utiiiza e combi-
Júo, p.to" "código f otográfico"' selecionando realidade'
nando os elementos nccessários para criar tutttt
pareÇa cstar apenas
ainda que, para um receptor ingônuo'
reprorluzinclo uma realiclade'

(" Whitey| ) vvttdtyt, rtlr uclumbia.


1941 .

Essas iluas fotos, feitas em


1941 por clois talentos()s
fotógrafos cla ópoca, vão
muito utern'à. urn simples c
espontâneo retrato de duas pessoas.
por eles O urrrnto escolhido
Hedv Lamarr, no caso de Clarence
-
Bull, e Marlene Dietrich, sob a perspectiva dc ,A.
Sinclnir
("Whitey".y Schafer L.
_ é trabathrd; .J;'o rccluinrc ctos
grandes artistas. No jogo de
.lu.o_.r.rrn, ij.ni.,, quc ncsses
casos contribui para dissimular
o real a finr clc captar uma
bcleza, uma presença qae cxtrapora
tr sirriprcs u.iverso dos
Clarence
que uma máscara:r' A
mortais, o fotógrafo esculpe quase de Cândido Portinari, datado de 1944 e intitulado Reli
fotolráfica, que tem -como ponto de
partida
rantes.
"-pãru" ut estrelas de
;;; ;, pessoas- ae rieay e Marlene' .Tut que elas repre-
cinema com toda u ;u'gu cultural
e e§tética
encontra na c"ombinatória cla luz' nos elementos
sentam,
o seu assunto'
;;;;-1",;grafo selecionouclcpara
registrar
unr mLindo nraravilhoso' dos
um momento a. tuptofão
pn' fiotty*nod c aviclatncnte consumidos
sonhos vendidos
pelos esPectadores'
,Nosdoiscasosanranipulaçãodosrecursosfotográfi.
de estúdio e mals a
cos (preparação da estrela, utilização
dois rostos
i"Lirlã",i" dá fotógrafo) impõe ao que.acaba por regrs-
receptor
;;;;;i;;"t, produzlclos por um filtromas ideais de beleza'
;;;; ";" p.rrou, de carne e osso' lugar de simplesmente
rlrn" . glo^orrr. Na verdade' nocria o.assun"l
registrar ima imagem, o fotógraio l-:^rq::
J"ã, através de recu.rsos fotográficos' é a representaçao
domundodosartista.squeencantavamopúblicojusta-
que nada tinha a
mente por pertencerem a um universo
pela crise que
ver com o cotidiano prosaico e endurecido
o mundo atravessava naquele momento' registro do
Portanto, p,aÍa essas .-f-qlgl, a exp-ressão
especiais' O fotógrafo
real eomaçaa assumir caracterísÍiç"os Seu ponto
õtil; uma image-m' Ele cLia uma,im-age'm'
"ã" são trabalhados para crtar
a.-pàtíio^ e seus inslrumentos
se'possa falar em persona-
ã-itlurao do real. Embora não
fictícios' é impossível
;";;, ;; sentido d" ;;;;t intti'u*tnt" hollywoodiana' im-
Cândido Portinari, Retirantes. 1944. MASP
não captar nessas ''ug"n' a mitologia
que o fotógrafo esculpe A força dos traços e a combinação das cores (no ori-
posta precisamente peía máscara t\['
comeÇa a ficar difícil
no lugar de um rosio mortal' E ai
ginal) arrancam o observador da postura de quem vô o
cle "imagem inventada"' registro de uma realidade, a fim de conduzi-lo diretarncnte
separar 'lguagçm 'eproduzida"
o homem inventou I à miséria humana expressa em cada milímetro do r;uaclro.
Ainda no rast;o das formas que
para "regist rat" a ttufiOuOt' 'u*o'
observar um desenho (.I, A paisagem endurecida, o réu povoado por avcs ilgouren-
tas, ci as figuras que se amontoam numa sinistr.a par(rclia de
lnt.c- 1 I'olo para álbum dc família constituenr unla cenil brasiloira
[uz um cstuJu bestante
3 Roland Barthes, no livro Mrtologrus' Garbo. Vale lr Pena conterlr' dc onde ó possível captar urn enredo c as pcrsonagens que
do rosto de Greta
,".tã"i. u respeito I

I
19

O fragmento escolhido para análise pertence ao ro-


dele participam. Um enredo trágico, flagrado pela sensibi- a
lidade de Portinari e transmitido por sua linguagem forte- mance O Areneu, de Raul P<lmpóia e sua escolha, neste
mente expressionista. Neste caso, mesmo o observador mais momento, prende-se ao fato de estarmos interessados em
ingênuo ê forçado, pelas técnicas utilizadas pelo pintor, a verificar as estratógias quc o autor utiliza para reinventar
enxergar, além do registro de um grupo de pessoas, perso- a realiclacle, tratrsptlrtartdo srta visiitl rlc nrutrtlo ao leitor e
nug"ni de uma tragédia num estágio muito mais próximo fazcrtritl-o, por cssa ilttsilo, l.cportar-sc à chanrada rcalidade'
\,
da morte que da vida. No prirnciro capítultl tlc 0 Á/crr(lt, rccolrhccido ro-
Assim sendo, é possível verificar nesse quadro que a lnance cle crítica sttcial articulacla a ;lartir clc tócnicas nãcl
idéia de reprodução e invenção- dp seres humanos combina- apenas realistas-naturalistas, mas tambóm cxprcssitlnistas
-se no processo artístico, pqr meio dos recursos de lingua- e impressionistas, encontra-se o trecho aqui destac'rdo para
gem de que dispóe o autor. {o -q-rgsmo tempo que Porti- clbservação. São seis parágrafos que formam uma unidade:
nari distorceu a realidade não reproduzindo mimeticamente momento em que o narrador caracteriza pela primeira vez
o mundo, conseguiu apontar de forma mais violentâ para o colégio Ateneu. Na verdade, rssa primeira caracterização
a realidade exterior ao quadro, justamente porque a cena, tlo colégio acaba funcionando como um pretexto para a
feita de cores e traÇos, reinventa e faz explodir múltiplos apresentação da personagem Aristarco, que desempenha'
ângulos dessa realidade. .à-o o espaço configurado pelo Ateneu, uma significativa
função no romance. Uma leitura desse trecho, parágrafo
por parágrafo, ajuda a perceber os recursos lingüísticos
"Ai, palavras, ai, Palavras, utilizados por Raul Pompéia para criar a realidade ficcional'
que estranha Potência a vossa!"
1." § Duas vezes Íora visitar o Ateneu antes da minha instalação'
Ató aqui, com o propósito de iniciar a discussão a

respeito das diferenças e semelhanças existentes entre pes- Esse primeiro parágrafo, composto por um período
ao
,oát a personagens, foram examinadas mensagens que utili- simples, funciona ao mesmo tempo como introdução
zam unicamente a linguagem visual. Nessas rápidas abor- fragmento escolhido e como elemento de ligação, como
dagens, Àão foi possível flagrar limites que separem com conexão, entre o que foi narrado antes e o que vai ser
nitidez a reprodução da invenção. Esses dois processos de narrado agora. Para o enfoque proposto aqui - verificar
como são construídas as personagens ele é importante
"registro" do real parecem misturar-se constantemente,. -'
pois, independentemente do restante do texto, informa ao
mesmo quando se acredita estar lidando com linguagens
icitor (poi meio da inclusão de um pronome possessivo'
consideradas objetivas, fiéis ao que está sendo captado'
"minha") que a narrativa é feita em primeira pcssoa' ou
Neste item, finalmente, o objeto de estudo será o texto
literário, concebido como o espaço em que' por meio de scja, o narrador é também personagem'
palavras, o autor vai erigindo os sercs que compõem o
universo da ficção.
il' 'r 5. cd. São Paulo, e:oca, 197'1 . p' 12, 13' 14
20
2t

2.'§ Ateneu era c Jrande colégio da época. AÍamado poí um A fim de dar continuidade à caÍacteÍizaçáo desse espa-
sisÍema de nutrido reclame, mantido por um cliretor que de ço, visualizado sob uma perspectiva temporal que, neces-
tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o sariamente, implica elementos sociais e culturais do momen-
ieitosamente de novidade, como os negociantes que liqui- to evocado, o narrador utiliza alguns recursos lingüísticos
dam para tecomeçar com artigos de última remessa; o que deslocam o foco da descrição para um outro objeto,
Ateneu desde muito tinha consolidado crédito na preÍerên- diretamente ligado a esse primeiro. No desenvolvimento do
cia dos pais, sem levar em conta a simpatia da meninada, segundo parágrafo, é possível flagrar, na construção sintá-
a cercar de aclamações o bombo yístoso dos anúncios. tica das frases, a estratégia de deslocamento que possibi-
lita passar para o primeiro plano um outro sujeito: o sujeito
Nesse segundo parágrafo começa a caracterização, pro- de um lazer que provoca, que é causa da existência e da
cesso utilizado pelo narrador para criar a ilusão da existôn- subsistêncra do colégio Ateneu, caracterizado como sujeito
cia de espaços e personagens. O objeto da caracterização do verbo "ser",
é flocalizado no início do parágrafo, por meio de uma sín- Os dois primeiros traços desses deslocamentos encon-
tese dos aspectos gue o narrador considera importantes: tram-se na utilização dos termos "afamado" e "mantido".
"Ateneu era o grande colégio da época". A_gimples deconF Do ponto de vista morfológico, esses dois termos podem
posição (a frase demonstra que clcmentos foram seleciona- ser analisados como particípio passado: "afamado", parti-
dos e de que mancira foram combinadcls pelo narraclor cípio passado de "afamar", verbo transitivo direto, empre-
para colclcar o leitor no ângulo cxato de sua visão: gado no sentido de "dar fama", "celebt\zar", "notabilizar";
o inicialmente, um substantivo, um nome próprio, "mantido", particípio passado de "manter", verbo transi-
individualiza e confere existência ao espaço evocado; tivo direto, empregado no sentido de "prover do necessário
para a subsistência".
o em seguida, reforçando essa existência, a utilização
do verbo "ser", na terceira pessoa do singular do pretérito Como se sabe, o emprego do particípio desacompa-
imperfeito do indicativo, confere ao substantivo Ateneu o rrlraclo dc auxiliar exprime fundamentalmente o estado
estatuto de sujeito da proposição; rcsultarrtc clc uma açao acabada. Além disso, o particípio
r finalmente, um predicativo do sujeito, formado pelo clos vclhos transitivos lent valor passivo. Portanto, ao utili-
adjetivo "grande" antecedido do artigo definido masculino zilr csscs tlois [crrnos, o narrador conseguc, ao mesmo tcru-
"o", mais o substantivo "colégio" seguido do adjunto adno- po, carilctcrizar uur cstacltl tltl sujcito "Atcncu" c apontar
minal "da época", atribui ao sujeito as qualidades que o a ação c o agcntc (luc l)r()vocalll csse cstatftl. Por nrcio
narrador quer transmitir. dcssa cstratégia lingüísticl, l'acilnrcntc vcrificiivcl pela aná-
lise gramatical, o sLrjcito do vcrbo "scr" lorna-sc passivo
Dessa forma, nessa síntese de caracterização, o leitor de uma ação que tem o scu ulll,nl( dcclarado: "afamado
enxerga sob a ótica do narrador não as características físi- por um sistema de nutrido rcclanrc"; "nrantido por um
cas do espaço evocado, mas "o grande colégio da época", direÍor que. . .". Em seguida, couÍ'irnrando essa lógica
uma entidade educacional destacada por sua inrportância, combinatória que desloca o foco da caractcrização de um
por sua maneira de ser num dado momento. sujeito do .ser para um sujeito do fazer, encontra-se a
24
2S

. referência à ascendência aristocrática (,.da conhe- belamente impunha como o retraimento fecundo do seu
cida família..."); espírito,
o referência a sua atuação como "renomado peda- - teremos esboçado, moralmente, materialmente,
o perÍil do ilustre diretor. Ent sunta, um personagem que, ao
gogo", por meio da enumeração exaustiva de sua lorrna printeiro exame, produzia-nos a impressãct tie um enÍermo,
de atuar; desta enfermidarle atroz e estrttnha: a obsessão da própria
r identificação da figura da personagem com o sistc- estátua. Como tardasse a estátua, Aristatco interinamente
ma publicitário por ela engendrado; satisÍazia-se com a afluência dos estudantes ricos para o
seu instituto. De Íato, os educandos do Ateneu significavam
o utilização de uma linguagem excessivanrcrrtc rctti- a lina llor da mocidade brasileira.
rica, carregada sintática e semanticamentc p()r lennos e
expressões que, ao mesmo tempo, csboçanr c cngordam
o
construção da figura física da personagl.m;
uma figura moldada na caricatura parasitu clc unr fazer
comercial, sustentado unicamentc pclas aparôncias;
o
declaração, pela primeira vez, do ser da personagem
("Aristarco todo era um anúncio"); o ser da personagem
o isomorfismo pcrsonagcnr-lirrguagcrrr canrctcrizacio- aparece, definido coerentemente com o que foi mostrado
ra, através dcl abuso cla caractcrizaçiio ltositiva, ironizada pelo narrador até aqui, corno uma mensagem de propagan-
pela remotivação dc ditatlos ("c nilo lrirvil conro rrilo acci- da, elaborada e veiculada com finalidades comerciais e
tar a farinha daqucla ntarca l)ara o pu() clo cspírito") e institucionais divuigação de imagem;
pela insistôncia dc iclcntificaçiro personagcm-propaganda. -
a levantamento dos traços que compõem a figura
4.' § Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar o pulso ao física, seguidos sistematicamente por uma parafernália de
homem. Não só as condecoraÇões gritavam-lhe do peito atributos excessivos, de elementos caracterizadores de uma
como Ltma courcça de grllos: Ateneu! Ateneul Aristarco aparôncia vultosa, impositiva, conseguida, como no pará-
todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram grafo anterior, âtravés da abundância da adjetivação, da
de um rei
- o autocrata excelso dos silabários; a pausa
hierática do andar deixava sentir o esÍorço, a cada passo,
remotivação de ditados e de outros recursos cal.acterísticos
da retórica da sedução publicitária;
que ele fazia para levar adiante, de empurrâo, o progresso
do ensino público; o olhar lulgurante, sob a crispação ás-
a síntese da figura física e moral da personagem: o
narrador declara a impressão causada pela figura da perso-
pera dos supercilios de monstro iaponês, penetrando de
nagem, resumida nos termos "enfermo", "obsessão da pró-
luz as almas circunstantes era a educação da inteligên-
cia; o queixo, severamente -escanhoado, de orelha a orelha,
pria estátua";
lembrava a lisura das consciências limpas a caÍacterização do sucesso do fazer da personagem,
moral. A própria estatura, na imobilidade - erc a educação
que atinge seus objetivos: seu público-alvo, definido como
do gesto, na
mudez do vulto, a simples estatura dizia clele: aqui está "a fina flor da mocidade brasileira".
um grande homem... nào vêem os côvados de Golias?!... 5.' § A irradiação da réclame alongava de tal modo os tentá-
Betorça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas culos através do paÍs, que não havia família de dinheiro,
maciças de fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os enriquecida pela setentrional borracha ou pela charqueada
lábios, fecho de prata sobre o silêncio de ouro, que tão do sul, que não reputasse um compromisso de honra com
a posteridade doméstica mandar dentre seus jovens, um,

f-B
27
26

perceber o requintado trabalho <1e linguagern desenvolvidtl


dols, Írés representantes abeberar-se à íonte espiritual do

Ateneu,
pelo autor a fim cle construir um mundo ficcional que
cspelha e aponta para uma realidade exterior ao lexto'
o atuação e participação da personagem num espaço rnà, qr. uui., ,1u. se ir[póe pela sua própria existência'
caracterizado e localizado social e culturalmente; A personagem que vai se clelineando aos olhos do
a personagem não mais nominal\zada, mas identiÍi- leitor, mtntacla unicame,te com os recursos oferecidos pelo
cada, confundida com o sistema publicitário
("4 irradiação código verbal, passa a ter uma existência que carrega em
da réclante alongava de tal modo os tentáculos " '" ); si toãa uma crítica ao sistema educacional vigente no final
o o narrador abandona a retórica excessiva, paródica c do Império. Nesses poucos parágrafos, o autor começa a
ironizada, e assume um tom crítico mais direto, não deixan- construir uma personagem que é, ao mesmo tempo, exten-
clo de filtrar uma referência ao afrancesamento através dtl são e concliçaá ae existência de um sisterrr educacional
emprego de um termo da língua francesa, "a réclatne"' calcado apenas nas aparências, na ilusão, na miragem des-
qrunaã ele já havia utilizado o termo português reclame' provida de consistôncia-
considerado arcaico na linguagem publicitária, e anúncio' Para conseguir cssc cl'eito, Raul Pompóin nittl cscolhe
substituto desse arcaísmol o fácil caminho «Ia exposição clc idéias, ou dc um rcalismo
oa permallôncia da irorria podc scr pcrcebiila na mimético que visa "copiar" o mundo' Ao contrário' ele
utilização cle um termo francôs em franco contraste com vai buscar nas características da linguagem, elemento signi-
a expressão "posteridade doméstica"; ticativo capaz de dar forma ao real, as características do
o introdução de um sujeito coletivo, "família de di- mundo inventado e retratado. O aspecto caricatural de
nheiro", mantenedor do sistema' Aristarco, e, por extensão, do próprio sistema educacional'
é conseguiclo através «la utilização de uma linguagem cari-
6." § Fiados nesta seleção apuradora, que é comum o erro caturesca. Antes mesmo do narrador afirmar que "Aris-
sensafo de iulgar melhores Íamilias as mais ricas' sucedia tarco todo era um anúncio", o leitor pode perceber a cada
que muitas, indiÍerentes mesmo e sorrindo do estardalhaÇo linha um abuso retórico proposital, que, sendo duplamente
da fama, lá mandavam os filhos' Assím entrei eu' irônico, vai chamando a atenção para a extravagante ma-
neira de ser da personagem e da linguagem, ambas produ-
.
encerramento da seqüôncia;
zidas pela acumulação de signos que apontam para o mun-
avaliação do sistema mantenedor da fama da per-
o do da fragilidade oca das aparências' Com um pouco mais
sonagem e do colégio, localizado num sujeito coletivo'
de ousadia, mas sem perder de vista o caráter profunda-
identificado como "famílias mais ricas"' mente literário .do teito, pode-se até afirmar que Raul
o ligação existente entre o personagem-narrador e
Pompéia, pela linguagem aóumulativa que vai construindo
os demais elementos da seqüência' a personagem e tudo que ela representa' consegue recupe-
rai alguns aspectos significativos de um determinado mo-
Na análise dos fragmentos escolhidos' mesmo sem mcnto clo capitalismo: acumulação e valorização da
apa-
remontar a tudo o que já se disse a respeito de Raul
Pompéia e seu signifióativo romance 0 Ateneu, é possível rôrrcia.
29

poesia lírica, épica e dramática r, esse


pensador grego levan_
tou alguns aspectos importantes, que
marcaram e marcam
até hoje o conceito de personag.. . ,ou
função na lite-
A personagem e a ratura.
Um aspecto relevante desses estudos é o que diz
tradição crítica respeito à s-emelhança existente entre personagem
conceito centrado na discutida, a ,uau, vezes
e pessoa,
compreendida,
rnimesis aristotélica. Durante
muito tempo, o termo mime_
sis foi traduzido como sendo ,,imitaçãà
do real,,, como
referência direta à elaboração de uma
semelhança ou ima-
gem da natureza. Essa concepção,
até certo ponto empo_
brecedora das afirmaçõ., .o,rii,lo, no discurso
aristotélico,
marcou por longo tempo as tentativas de
No princÍpio está Aristótetes caracterização e valoração da personagcm.
conceituação,

Tanto o conceito de personagem quanto a sua Na verdade, o que alguns críticos contemporâneos 2
função têm procurado demonstrar é que uma leitura
no discurso estão diretamente vinculados nao apenas mais apro_
à fundada e menos marcada do conceito
mobilidade criativa do fazer artístico, mas
especialmente
de arte, e, conse-
reflexão a respeito dos modos ir qüentemente, do conceito de mimesrs
de existêncir'. A" contidos na'poética,
desse fazer. pensar a questão da personagem
a*rii, revela o quanto Aristóteles estava preocupado
significa,
não só com
necessariamente, percorrer alguns caminhos
aquilo que é 'liryitado,l_ou,_:efietido-'l ,um poema,
trilhadãs pela mas
também com a próprla malgifê de qer
crítica no sentido de definir seu objeto e
buscar o instru_ do p_ogma e com
mental aciequado à análise e à fundamentação os meios utilizados pelo poeta para a
.fuUáraSuo- ;-s-ul
dos juízos obra.
acerca desse objeto.
Aristóteles aponta, entre outras coisas, para
foi dito e impresso, muitas vezes, que é inevitável pectos essenciais:
dois as_
iniciar uma reflexão teórica sem voltar o olhar
para a
Grécia antiga e para os pensadores que impulsionaram a a personagem como reflexo da pessoa humana;
o
conhecimento. No caso da p".ronug.-
de ficção, é tam_ . o a personagem como construção, cuja
existência obe_
bém nesse momento que se vai encontrar clcce às leis particulares que regem
o início de uma o texto.
tradição voltada para o conhecimento e
a reflexão dessa I Anrsrór'r:lrs. poética.
instância narrativa. Trad. Eudoro de Souza. Lisboa, Guima_
ríics.
s.<l-
Dos teóricos conhecidos, Aristóteles é o primeiro : Vcr Cosra LIpra, Luís.
a Eslruturalisnro e crítica da Iiteratura.
tocar nesse problema. Ao discutir as manifeitações I'clropolis_,.\,ozcs, 1973..-Ver tb.
Ilrr<xrxs, OIcanth.
Wrnnrnr.-l*., William K. &
da C rír ica I irerárr.". Li;il;,' É;nãoi,,o
hcili:rn, 197l. Calousrc_Gul_
\i

33
nheiros levam sempre a melhor sobre os poderosos ações e do desempenho coerente cla personagem
inimi_ em suas
gos, poderá entender perfeitamente o que
significa veros- emocionantes aventuras.
similhança interna.
Como a narrativa trallscorre clentro cla fórmula tradi_
o espectador quiser iulgar o filme através dos cional, o que seria absurtl«r, sc o parânrctr«r fossc a reali_
dados-plausíveis que a rearidade ãxterior
ao texto oferece, dade exterior à obra, torna-se cocrentc, t()rna_sc verossínril.
terá de admitir a falta total de veracidade, julgando_o
inteiramente absurdo. Como é possível aceitar
E, se o chapéu de Indiana não cai da cabcça mesmo nos
que, ãurante momentos mais críticos, isso fica por conta da verossi_
uma longa luta nas escarpas de um precipício
eÀ que todos milhança interna da obra.
os inimigos são derrotados, o herói saia intacto,
sem derru_ De Aristóteles e suas considerações sobre a tragédia
bar sequer o chapéu que traz na cabeça? Entretanto,
se e a epopéia passamos para Spielberg e sua versão espalha-
essa obra-prima da indústria cultural pode
ser questionada fatosa dos surrados heróis, provavelmente chocando
por uma série de fatores, certamente não àlgrn,
cl será pela ausên_
cia de verossimilhança. leitores. Agora vamos para uma outra personagem, desta
A personagcm Incliana Jones, vivida
pelo belo ator flarrison F-orcl, apesar «le todo vez da literatura brasileira, que também ajuda á entender
o aparato o conceito de verossimilhança interna de uma obra. Vamos
modernoso sustentado pelos efeitos cspeciais,
não deixa de espiar sob essa ótica a üossa lracema de José de Alencar.
ser o mesmo mocinlro dos filmcs de cowbolt, o
mesmo
herói das narrativas tradicionais, cheias cle obstáculos O ponto de partida do romance é um argumento histó_
a
serem transpostos, o mesmo mocinho romântico,
cujo des-
rico: a fundação do Ceará. Nem por isso ele vai ou deve
tino é vencer inimigos e conquistar o coração da mocinha. se comportar como um historiador. A personagem
trracema,
Ou seja, §eu.compor-ta1qqltg e o desfecho das ações por elemento que nos interessa neste momcnto, vai
sendo
ele protagonizad_es_ esr{q apoiad.os rtas,".ãiriã;ã.,'a" esculpida nâo por imitação a um índio real com
quem
encaminhamento da hiplória, da fábula, que neste,caso.é se pudesse tropeçar nas selvas brasileiras, mas
com a sele_
sufiôGnieménte itiãünãán[e, pxausrivur*rr. ção de informações fornecidas pelos cronistas e com um
rlrarcads ppr
traç-o.q, acumulapgs por uma tradição
narrativa despida de trabalho de criação de um romancista_poeta empenhado
eslranhamento. em resgatar, pela linguagem, uma criatura possível
de um
Indiana Jones é, desde o começo, reconhecido mundo selvagem ainda não dominado pela civilização:
como
mocinho, como o herói que vai vencer o mal. Além, muito além daquela serra, que ainda azula no
Ele é bonito,
é inteligente. é esperto, detém um saber _ é horizonte, nasceu lracema.
um arqueó-
logo e fala várias línguas _ e está revestido, lracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha
além disso os cabelos
tudo, do mito do super-homem. Como o espectador nais negras que a asa da graúna, e mais longos que seu

assimilou todos esses traços em outras narrativas, talhe de palmeira.
identi_ O {avo jati
fica de imediato o herói e espera que a narrativa tla nào era doce como seu sorriso; nem a
cumpra, baunilha rescendia no bosque como seu hálito períuntadct.
assim como a personagem, o seu conhecido
destino. Dessa Mais rápida gue a ema selvagem, a motena virgen t:orria
forma, as surpresas ficam por conta da articulação
das rr .scrÍilo e as matas do lpu, onde cantpettv;t sua (lrttlrrcirí)
34

tribo da grande naçâo tabajara. O pé grácil


e nu, mal ro.
çando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia
a terra Perseguindo a personagem
com as primeiras águas:,.
Os estudos empreendidos por Aristóteles serviram de
A personagem Iracema, desde o nome _ modelo, nunr certo sentido, à concepçào cJe personagem
lábios de que vigorou até meados do século XVIII, momento em
mel, de ira,,na língua tupi, ou reverberaçâo
de América _ que o conceiÍo de ntimesis flagrado no pensador grego e
até as ilações possíveis com a matriz Oã Novo
Mundo _ manipulado por seus interpretadores começa a ser com_
ela é a mãe de Moacir, cujo pai é o branco
Martim, ela é batido. Durante esse longo período, todos os tuóricos que
a selvagem penetrada pelo colonizador, ela morre
e deixa trataram de questões ligadas à arte, incluindo-se aí o pro_
um filho mestiço como sobrevivente e primeiro
de uma hlcma da personagem, foram influenciados pela visão aris-
raça parida e marcada pero sofrimento
deve ser rida lotólica c rtrais particularmcnte pela tese ótico-represen-
como verossímil. -,
lalivlr cnccrnrclir cnr srra lcoria.
José de Alencar recoÍre para a construção
dessa per_ Nrl irrício tlcssc pcrctrrso situl-se Horiicio, o poeta
e de todo o romance, a um processo tradutor
sonagem,
lrrlirr. r;rc cr) sril tl r' ltttt'tit'tt tlivulgu as iclóias aristoté-
"da lenda, do argumcnto histórico, que aionta ;;"
;;; liclrs c rcitcr':r lrs suirs Jrroposiçõcs. No 1;uc diz rcspcito à
aportuguesamcnto do índio, para suâ diruição
através de l)cfs()nirllcnl, Il()r'i'ici0 ussocirr (, lrspcct() dc cnLretcrrimcnto,
uma ótica ocidentaliz_acla, mas, ao contrário,
para o que se corrtirlo pcllr litcratura, a sua funçào pcclagt'rgica, c colt_
poderia chamar de "tupinizaÇâo" r; da riteratura. .rodas
as scgue collt isso cnl'atizar
o aspecto moral desses seres fictÊ
comparações, t9d3s as metáforas, todas as
imagens que vão cios. De certo modo, a concepção de personagem divul_
dapdo forma à pe-rSo1-3g.-., só ppde-1n
.sç.r_d^e-c.-o,q!!iqa.a.q, u gada pelo pensador latino contribui de forma significativa
pa.{!il da cul.iura.
lndíggná recuperada . ,eiru"ntaaa lelo para que se acentue o conceito de imitação propicrado pelo
escritor. Assim rônào, á cÀnsistêíôia, a pôesia
o:*; termo mime.vs para a reinstauração da finalidade utilita_
da personagem Iracema só podem ser julgadas "-; (se é que rista da arte, entrevista em Aristóteles.
alguma personagem po<Je ser julgada. . . por
) meio de uma Apegado às relações existentes entre a arte e a ética,
compreensão dessa atitude poética radical, Horácio concebe a personagem não apenas como repro-
desses recursos
tradutores de um mundo recriado por Alencar clução dos seres vivos, mas como modelos a serem imitados,
e articulado
de forma a estabelecer um diálogo entre identificando personagem-homem e virtude e advogando
a História e suas
possibilidades. Invertendo a mão, o escritor para esses seres o estatuto de moralidade humana que
brasileiro faz
o texto falar a língua indígena numa dicção de supõe imitação. Ao dar ênfase a esse aspecto moralizante,
um mundo
possível, que só a literatura pode recuperar. ainda que suas reflexões tenham chamado a atenção para
o caráter de adequação e invenção dos seres fictícios, IIorá_
::
.*tsé de. Iraccnta. 12. ed. São paulo, Ática, 1981. p. 14.
1..1 cio contribuiu decisivamente para uma tradição empenha-
:-O_ ]:l-. ''rupinizaçào' eu tomo emprestado de Haroldo de
Campos.
da em Çoncebçr e avaliar a personagem a partir dos mo-
dclos humanos.
37

Seguindo o percurso, vamos encontrar tanto na Idade


Inglaterra, deixa entrever em seus prcfácios e principal-
Média quanto na Renascença o florc:;cimento da concepção
mente na obra Ensaio ,sobre u Jtoesia dranrática (1668)
de personagem herdada dos dois pensadores. A naturcza
uma concepção antrop«rrn(rrfica dc pcrsonagcm, bascada
da literatura produzida na Idade Média e o imperialisrr.ro
também nos conceitos aristotólicos c horaciantts,
dos princípios cristãos propiciam a identificação cla per-
sonagem com fonte de aprimoramento moral. A canção E ele não é o único. Seria possívcl trumcrar aqui vários
de gesta, como se sabe, ocupa-se das façanhas de um herói outros conceituados autores que, durante os sóculos XVI
que personifica uma ação coletiva, enraizada na mcm(tria e XVII, legaram à posteridade curiosos estudos da perso-
coletiva. O romancc medieval, por sua vez, está profunda- nagem como imagem de pessoa, rcvestida da moralizante
mente ligado à historiografia, espelhando a vivôncia cortôs conclição de vcrdadeiro retrato clo melhor clo ser humano.
e o idealismo guerreiro. Em f unção dessas narrativas e E, é essa concepção que vai continuar vigorando até mea-
das constantes formulações acerca da moralidade da arte. clos do século XVIII.
a personagem conserva na Idade Média o caráter de força
rcpre sentativu, cle ntoclclo humano ntoralizante, scrvindo
inteiramentc aos iclcais cristãos. Os novos ares dos séculos XVlll e XIX
O compr<trrrisso cstlrl'rclccirlo crrtrc l)c,sonagcnr c pes-
soa pcrclura, sob rrovos lruspícios, na Ilcnasccnça e nos A llarlir cla scgurrda rtrctuclo clo sóculo XVIII, a con-
cc;rçao rlc pcrsonugcnr hcrrlirtlu rlc Aristcrtclcs c I.loriicio
séculos que a ela se segucm. E Arislótelcs e Horácio siro
cnlr'lt cnl tlcclírrio, scrrtlo str[tsliLrrírllr Por urnir visijo 1-lsicolo-
os modelos Iitcralmente retomados para fundamentar essa I

gizantc qtrc crrtcrrtlc pcrsollitgclll cotuo it t.cprcscntltçã<t rlo


concepção e garantir a perpetuação crítica dcssc ponto clc
vista. No século XVI, o escritor inglês philip Sidney ( l-554- univcrso psicoltigico rlc scu criarlrlr. l:ssir lnuilarrça clc
pcrspectiva sc dír a purtir dc unra sóric dc circurrstâncias
-86), autor, entre outras obras, de A delesa tla poesia, um
dos primeiros ensaios de apreciação crítica da literatura que cercam o final do sóculo XVIII e praticamentc tockt
inglesa, cujo caráter polêmico vem justamente da exalta- o século XIX. E_ rresse.m-omento quç o sistema de valores
da estética clássica começa a declinar, perdendo a sua
ção da função do poeta na socicdade, procura deixar claro,
homogeneidade e a sua rigidez. ! tq4!_ém nesse momento
rastreando Aristóteles e Horácio, que as artes tôm valor
que o romance se desenvolve e se modifica, coincidindo
na medida qu. conduzem a uma ação virtuosa, e quÇ
q per§onagem"- deve ser a reprodução do rnelhor do ser
com a afirmação de um novo público o público bur-
guôs - por um gosto
caracterizado, entre outras coisas,
!q1nano. -, particular.
artístico
Essa concepção, extraída das considerações que o
Especialmente no século XVIII, o romance entrega-se
autor faz da poesia e clos poetas tlc sua época, que virtua-
ri análise das paixões e dos sentimentos humanos, à sátira
liza a personagem como um cntc scmelhante mas ainda
social e política e também às narrativas de intenções filo-
melhor que seu moclelo humano, encontra eco em outros
s(rficas. Com o advento do romantismo, chega a vcz clo
teóricos. No século XVII, o poeta e autor dramático inglês
romance psicológico, da confissão e da "análisc clc almas",
John Dryden. considerado o primeiro grande crítico da
tlo ronrance histór'ico, romallce cic crítica c anírlisc cla reali-
38 39

dade social. E é duralle_ q qegulda ryelade clo século XIX n ar3!J - g-]-{s-s.1c-_o_9_. qo*pÉcUl o X I X. Ao I ad o d as prolundas
qu-e o gênero-alcarrça s,eu..apogeu,*+efinanrJo-se enquanto análises empreendidas por escritores do porte de Marcel
çsÇ1.1turê g qltigufqndo_ as e4pgJiêqc-ias. humanas mais diver- Prousf, Virgínia Woolf, Kaika, Thomas Mann e James
sificadas. Àôs réalistas -e natura[stas goube perseguir a J oyce, gpçJg:_s.e*
_!iq-ê_.1! g,4! [i q,4!!v,a m od f i c a ç ã o n a concc p-
i

ex !jd[o monográfica dos .estudos científicos dos tempera- ção da escritura narrativa desenvolviàa por esses e outros
m-e.!-to*s" ç dos meios sociais, escrj[p";"çq, tt un qform açõq s, qu e correm p,ara lel as às
-*E-r"§*e_r- _
Coincidindo com o 3p-og911" {a narrativa,. 1em3nesca, grandes transformações do texto poético, coincidem com
estendem-se as pesquisas teóricas que procuram encontrar uma violenta reação contra o factualismo das indagações
na gênese da obra de arte, nas circunstâncias psicológicas biográficas e das pesquisas de fonte. Sistematizada por
e sociais que cercam o artista, os mistérios da criação e, várias tendências e objetivando um conhecimento das espe-
.conseqüentemente, a natureza e a função da personagem. cificidades da obra literária como um ser de linguagcm, a
Nesse sentido, os seres fictícios não mais são yistos como crítica respira novos ares.
imitação do mundo exterior, mas como projeção da maneira No que diz respeito especificamente ao romance e à
de ser do escritor. E ó por meio do cstudo dessas criaturas personagem de ficção, é somente com a obra Teoria do
produzidas por scres privilegiados quc ó possívcl detectar rottrctncc, de Gyôrgy Lukács, publicada em 1920, quc essas
e estudar algumas particularidatlcs do ssr 'tumano ainda qucstõcs sacl retomadas cm novas bases. Lukhcs, rclacio-
não sistematizadas pela Psicologia e pela Sociologia nas- rrarrd<l rl romancc cont a conccpçao clc rnundo burguôs,
centes. cncilra cssir Íornra narrativa c:crrno scndo o lugar dc con- :

Assim, a.personagem continua sendo vista como ser I'ront. cntrc () hcrrii pr.blerrriir.ico c . ulr"urtro ckl confor-
antropomórfico cuja medida de avaliação ainda é o ser rnismo c das colrvcrrçõcs. O hcrói probl.cmático, tarnbém
humano. Não existe a rigor, até esse momento, uma teoria dcnominado dcmoníaco, cstá ao mcsmo tempo em comu-
da prosa de ficção que possa estudar e entender â perso- nhão e em oposição ao mundo, encarnando-se num gênero
nagem em sua especificidade. Os estudos desenvolvidos literário, o romance, situado entre a tragédia e a poesia
1

durante esse longo período nada mais fazem que reproduzir lírica, de um lado, e a epopéia e o conto, de outro. Nesse
por prismas diversos a visão antropomórfica da persona- sentido, a forma interior do romance não é senào o per-
i
gem. *E-q5;1J-r.qd-tç.ão-.só vzu ser-alterada nas primeiras déca- curso desse ser que, a partir da submissão à realidade /
das do-séçClo_{X coql 4 sistematização da crítica li!e1áqi.a, despida de significação, chega à clara consciência de si
em suas diversas tendências, e com a reabertura do diálogo mesmo. ,?
I

acerca das especificidades da narrativa e de seus compo-


nentes.
A nova concepção de personagem instaurada por
Lukács, apesar de reavivar o diálogo a respeito da questão
e de fugir às repetições do legado aristotélico e horaciano,
A personagem sob as Iuzes do século XX submete a estrutura -dg rcmance, e conseqüentemente a
pcrsonagem, à intlUêUçia _deJerminanÍedas estruturas so-
A prosa de ficção sofre, no._sécul-q" XX- gran_de -meta. ciais. Com isso, apesar da nova ótica, -e_.personagem conti-
.rpor{gse, se compar.ada aos modelgs" nlira!i,v-9! que- se tor-
rrua sujeita ao modelo humano, não obstante as teorias a
40,,

:::i:j:: o::'ll já rerem avan,;a<Jo


1.1 q ui Iôn, er ros n a dire-
ção rja r'41
",dir;;;;,';':;';;,:l::;ittJ.o imunes à evoruçào
*ilr ,,l::,:1,
j:
,gr ,,,,' o,,.o crírico empcnha_se ff1?1":#lX'ij"'_1"
_ que as suas^ ações
a rmpressào de personagan,
no rranscorrer
apenas confirmem
^1r-Tu
ffi,::'':,:.."..,i,"r,:::":'p..rá,-ãi.ã;;"";;;";:;TiT,i";:
mance c à personapern,lp r;.-i,,-'Lii'rLL rrsauos c() ro-
quer surprcsr
-
Irao .cscrvando
l927,aoaraaen livrü
1927,apareceo ri,,.^- 1 -v
de lrLYqu'
fic.Cà1. Mais preclsamentc
rYiars precisamcntc emcrn
r"t[;::*tJ.l."'lilili:
".r,;,,^,,lrl, quat-
uàrj},l
'omancisra rlte not'el, de E. M.
r'".rt..,
a ind a s eãa i s u b d iv íd ;, ;:'r'
:H:ffill.",
outras
,r.g..lt
e críricn ,,t":Í:"":!
obras, imorralizori_..
oagens em t'lar __
q,., ;;;;;;';.",ã;l'l
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protundidade psi- alcançam o ause d,
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Peculiaridade
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."1,,"r,.;:"::"'j"u a averiguação da constitui,!d.o,rrrn.nlt'.1âo
par{effitrd;'r"t';t totais c' ao mesmo tempo, muiÍo
são multifuc"taã-ar,

e não mais po. ."r.r.t1.lL:1t ttT as demais partes cla obra,


,.*orrrii%*u,*;""ir'l'r'o';.f;:r".;t,:l;*:1,ru::;i::l
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i1,,?r, Tr ; r,. í.',ll L ll, :, T::, ::,1.:* [:.: :i;, í,.Jffi: escritorqs,pgqrp p..Tu1.:"3
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e- rcsurta avenguaçãq,da complexiaua_" lur"im abertas
:ilr'rtr,.jxã:l-"T,l "'* ''àrriricação conside- escrrtura dos grandes
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e porência da

que ó,segund
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a obra, podem
::;::; ;;.T3,HT:I * ;; Mas a esta alturr
narradores.
poderia
As. personag"r.,
.irr.,iri.]:;;
#i;, as e rectondas.
a, il;l',:]::t:i persuntar: "Apesar
iioiàs.sà,_, construíol, "ort.iuriç#
no que
tnovaÇões apresentadas
por F;.r;;;
unrca idóia ou quatirlaci". ãã redor de uma
diz respeito ,o;
o:l'to:urem, ele ainda não
"".ri*"r,;: ô definidas eni estaria paurado
,,""tjl1oi-1u ,"
enrre ficcionat_pessoa
na?,, Ou ;; ][u maneira: ,,Será que
huma_
"r,rjrrr" ."utr.rL "*irt.
49
42

alguma forma de escavar a rnaterialidade dos seres fictícios Já bem próximos da especificidade da personagem,
abstraindo inteiramente sua relação com o ser humano?" ainda não são Forster e Muir que vão se desvencilhar da
De fato a questão não é simples. O caminho que relação ser fictício-pe§soa, que marca essa longa tradição'
estamos tentando perseguir neste capítulo, entrecortado por A radicalização para uma concepção da Personagem como
rus-
atalhos e veredas, por labirintos críticos que de forma §ef d-g Jigguagem só Yai acontecer com os lormalistas
áúê iriciam, por volta de 1916, um
,rr, movimento de
alguma apontam para uma estrada principal (se ó que
reação ao estudo naturalista-biológico ou religioso-meta-
ela existe. . . ), parece se aproximar cada vez nrais da
concepção da narrativa como um universo organizado, físião da literatura. Filiado ao futurismo russo e à lingüís-
coerente e lógico, como uma mancira particular de forma- tica estrutural, o formalismo surpreende na décaJa de 30
lizar a realidade. Se em Forster essa concepção pode ser por sua oposição ao didatismo predominante na crítica
entrevista, outorgando à personagem um estatuto especí- iurru . poi tuu reação ao materialismo hrstórico marxista,
fico ainda que não inteiramente despido das injunções prescrito pelo partido.
humanas, fato idôntico vai acontecer com outros críticos Os estudos desenvolvidos pelos formalistas, os quais
da mesma época, como é o caso de Edwin Muir, poeta, só serão conhecidos no Ocidente por volta de 1955 com
romancista e crítico inglês que I'rblicou, em 1928, The a publicação do livro Fornrulismo russo, de Victor Erlich,
structure ol the novel. constituem, num certo sentido, uma verdadeira ciência da
Nessa obra, Muir analisa diversos aspectos da estru- literatura, contribuindo decisivamente para que a -o-b.:a qçj-q
tura romanesca, procurando separar a ficção, o romance, sn-çarada qomo a soma de todos os rçÇursos nela empre-
da vida. Perseguindo os princípios estruturais do romance, guáor, como um sistema de signos organizados de-modo
apresenta a personagem, não como representação do ho- ã imprimir a conformação e a significação dessa obra'
mem, mas como produto do enredo e da estrutura espe- E§-qq qqyu çoncepção d3 obra literária procura na
cífica do romance. Ao estudar, por exemplo, O morro dos organizaÇão lntrínseca de seu objeto o material e o proce-
ventos uivante,ç (Emily Brontê, 1847), que classifica como dimento construtivo qu,e conferem à obra seu estatuto de
rtm romance dranráÍico, dcmonstra que o tempo está encar- sistema- páiiiiulâi. .Nesse sentido, ao estudar as particula-
nado e articuladcl nas personagens, assim como o ritmo ridades da narrativa, o-s.- formalistas p""t9-oçllp--am--§9- çQIrl o-L
psicológico está determina«lo pela rapiclez Aasa@g$it'Ug elg-q1enlg-g..que q9!çqrrem-.para a composição do -texto ç
com "9s .pi-qr-qd!men19s (I!le orgqp.lzqm.çsse pqtg{al, dqlq.--
essa classificação romance dramático o,cffiiclfõpôt'
narrativas do tipo- Guerra e paz (Tolstoi,'
- l8#[ir,âêm que nrinanclo Íábula o conjunto de eventos.que pêtü-çip-an"da
o ritmo não é mais determinado pela intensiilhdÊÊda ação, obra de. t-iç-çãç., 9, t7a4a.g nodo.,como os ev-entos*.§ç.Jg!er-
existindo, ao contrário, uma regularidade fria, exterior às ligam.
personagens, de forma que sua transformação não mais De acordo com essa teoria, a personagem passa a ser
obedece aos movimentos inerentes à ação. NoS romances vista como um dos componentes da fábula, e só adquire
dramátic-.os, .ss Jreúis,.morrgl-1 num dade momento pre- sua cspecificidade de ser fictício na medida em que está l

deÍer-minado pelo destino. Nos outros, morrem acidental- strbntctida aos movimentos, às regras próprias cla trama')
mente, e o tempo ç-pptinua a correr. liinllrncntc, no sécuio XX e através da perspectiva dos

r
45

44 teoria literária
perspectiva, afirma que a existência de uma
e imanente de
formalistas, a concepção de personagem
se desprende das ;ú;i;, entendida áqui como funcionalformalistas - im-
o ser humano e passa a ser acordo com os termos impostos pelos
nruraru, de suas relições com -'
encaradacomoumserdelinguagem,ganhandoumafisio. pfúiur", proceder toda exegese, toclo comentário' dentro
ã;;- .rtuào descritivo q'" i" coloca no interior de uma
nomia PróPria-
Acontribuiçãodecisivaparaesseestudodaperso- p.oúie*ati.u estritamente semiológica ou- semiótica :;Ij-il
como um stgno
nagem desvinculada das relações com
o ser humano aparece Iignillcg -considerar, a priori, a personagem
vlsta que cons-
f.oít.q".ntemente, escollrer um ponto
(Morlologia de
ffiI publicação da obra Mo-rfologia :l:'ki da mensagem'
Wlaclimir Y' Propp irOi objeto, integrando-o no interior.
ao ,onij, em 1928, onde o fôrmalista "t,"' lingüísticos' Tal
âo corlt() farrtástico clefinida como um "cãmposto" de signos
iisss ró;o) dedica um longcr cstudo tem a vantasem de não
russo, explicitando a dimcnsào cla 1lr:rslrtragctn
sob o ân- ;;;;;il;r,o, segundo ó autor, uma tradiçuo crítica
sua funcionaliclarlc 1111 slslc rtit vcrbal compreen- aceitar a personagem como clada por
;;i;;. e por uma cultura centrada lra lttlçito
de "pcssoa humana"
dido pela narrativa' a um
- r tradicional da e, ao mesnlo tcnlpo, [()rlla a anírlisc lttlmogônca
A partir clessa rupturit conl it
vlslt(
como projeto quc accita tocias its conscqüôncias
mctodológicas \
tl
obra literírria, clctltctrttl quc coloca .[tlrnralismoda litera-
ri

da tcoria ncle implicaclas.


um vcrdadciro clivisor dc águas tlcntro
il

tura, os teóricos col.neçanl a cxplorar tlcsdc a década de A partir tlcssu vislto' apresenta a noção semiológica
da lite-
50 os caminhos abertos pelos foimalistas
russos na década ,lc pcrs,lnagctn ttittl conro um domínio exclusivo
sistema semiótico' It
l.atura, tnas como pertencente a qualquer
de20.RomanJakobson,Lévi-strauss,TzvetanTodotov, níveis
Discute os domínios diferentes e os diversos
de
Claude Bremond, Roland Barthes'
Julien Greim?s e ou'trls
e.da legi-
ll
pelos formalistas e encaml- anáIise, colocando a questão do !.91Qilanti-herói
exploram as teses oferecidas
direção exploratória de bilidade<]eumtextocomopontosquedivergemdesocie-
nham os estudos da narrativa na
dade para sociedade e de época para
ópoca'
suas possibilidades estruturais' grandes tipos
Tomando como ponto de partida três
Odesenvolvimentodessesestudosaporta'sobnomen-
claturas e teorias cliversificadas' numa
concepção semioló- de signos, visão pautada na divisão s9ryôn!i§!'-;!n!94-'e' 9
e semioticistas'
gica da person-gem. A título de exemplo'
esse respeito' e a irorírariio preconi'ada pelos semiólogos
sémiol:910": brrillpp;'liamon define três tipos de personagens:
;;l; , p.nu .onf"tir o texto "Pour un -statut
i'
du pa.ronnug"", de Philippe Hamon Nesse ensalo' a . FsyglqC(n§ "le-Íerenciais": são aquelas que reme-
p".Jorug"- ã estudada u p""p"ctiva semiológica' isto tem a um sentido pleno e fixo, comumente
chamadas de
'oú de signos' como p...nnug"n, históricas. Essa espécie de personagem está
e, .o*o um signo dentro de um sistema I
e rectlnlrc-
uma instância de linguagent' imobilizada por uma cultura, e sua apreensào
I

do leitor nessa
I

Para o autor, .falar de pcrsonagens como


se fossem cimento depãndem do grau de participação
e incoerente' Sob essa cultttra. Tal condição Ã"gu'u o efeito
do real c c«rntribui I

seres vivos é uma postura banal


i

de personagem scja tlcsignada ftcrrÍi'


I)ara quc cssa cspócie
7 Lifiérature, ó :86-110' 1972'
46

Como exemplos marcantes, considerem-se todas as perso- Personagem: invenção do autoÍ e da crítica
nagens de A ordem do dia, de Márcio Souza.
o P ersonggefs_*|1_gttt-bt_W.e3rao' : são as que f uncion am Ao chegarmos ao final deste capítulo, temos de reco_
como elemento de conexão e que só ganham sentido na nhecer que as posturas alinhavadas nesse percurso estão
relação com os outros elementos da narrativa, do discurso, relacionadas não apenas com as tentativas constantes
de
pois não remetem a nenhum signo exterior. Seria o caso, encontrar novos métodos para analisar e interpretar a obra
por exemplo, de Watson ao lado de Sherklck Holmes. Iiterária, mas também com a especificidadó., dos textos
o
Psy;cllag-gns "anrÍlorat": siro aquelas que só podem produzidos em determinadas épocas e que tem a ver
com
ser apreendidas completamente na rede de relações formada a mobilidade das diversas tendências que circunscrevem
pelo tecido da obra. Diadorim, de Grande sertão: veredas, esse fazer artístico.
poderia estar nesta categoria. Essa classificaçào, que per- Nesse sentido, uma abordagem atual da personagem
mite ainda enfrentar a personagem como participante das de ficção niro pode descartar as contribuições oferecidas
três categorias ao mesmo tempo, foi utilizada aqui apenas pcla Psicarriilisc, pclt Sociologia, pcla Scmititica e, princi_
como um exemplo da radicalização da teoria da persona- palmcnl.c, pcla 'l'coril l_itcriiria nrodcrna c:cntrada na espe-
gem, tomada como matéria do discurso e analisada sob os cificidarlc rkls tcxtos.
critérios fornecidos pela I-ingüística e pela Semiologia e/ou
Semiótica. A título também de exemplo do alcance e dos
A cssa ultura dos cstuclos críticos, o analista deve
corrsiclcrar a Ionga tradição do estudo da personagem
produtos teóricos dessa visão, seria pertinente conhecer a e,
scnl sLtl)crcstimar ou minimizar a função desse componente
cm relação aos outros que dão forma à narrativa, encontrar
Especialmente nas obras Sémantique structurale e Du
a sua especificidade na íntima relação existente entre essa
sens, Greimas substitui a designação personagem por ator,
e as demais instâncias do discurso literário. Na obra
referindo com esse termo a "unidade lexical do discurso",
L'univers du roman e, R. Bourneuf e R. Ouellett situam
cujo conteúdo sernântico .rnínilno é definido pelos semas
a personagem através da rede de relações que contribuem
(unidades de significação) : entidatlc figurativa, onirnado,
para a sua existência, incorporando elementos pertencentes
s1.rsçgptível de individuaJjí,QÇae, Alóm disso, Greimas dis-
a várias tendências críticas a fim de chegar a uma postura
tingue ator de acteníe, uma espécie de arquiator, conceito
didática mas não simplificadora do problema. O enfren_
situado num nível superior de abstração e que, por essa
tamento da questão se dá através do destaque das relações
razão, pode expressar-se em vários atores numa mesma
existentes entre as personagens, os lugares e os objetos
narrativa. Para Greimas, existem seis actantes: sujgltg, e
as relações existentes entre cada uma das personagens de
qQiçto_.!31y1rgdor, destinatário, opositor e adiuvante. E as
um romance.
relações estabelecidas entre os actantes, numa dada narra-
Demonstrando que as pcrsonagens de um romance
tiva, constituem o mod-elo actancial.
agctn umas sobrc as outras c revelam_se umas pclas outras,
8 Séntanlique structural e Paris, Laroussc, 1966; id. Da sens. Paris,
Seuil, 1970. I)Paris, Presses Un. dc Frlnce,
1972
4E 49

qs autores apontam quatro funções possíveis desempenha- Nessa passagem, ó possível perceber a função das
das pela personagem no universcl fictícirl criaclo pclo ro- personagens denominadas decorativas. Elas contribuem
mancista: elemento decorativo, agenla du açtio, p()rÍa-roz aqui para a caracterizaÇão de um dos núcleos de persona-
do aulor, ser fictício com lornu própria de cxistir, .çentir e gens do romance: a coletividade repÍesentada por brasi-
p7fçe_bq gt outfqs e o mundo. Ieiros que, pouco a pouco, o narrador vai descortinando
4 pet;pfgge-ry_!9m_ lunção decorativa, mas nem por como dominados, sem consciência de sua existência mise-
isso dispensável, §-gria aquê[a cónside]âciâ inútil à ação, rável, biologicamente acomodados. A compreensão das
aquela que não tem nenhuma significação particular, a que características desse núcleo só pode ser conseguida por
inexiste do ponto de vista psicológico. Apesar da expressão oposição a um outro, formado pelos portugueses que che-
"elemento decorativo" estar carregada de sentido pejora- gavam ao Brasil com o objetivo de enriquecer, e também
tivo e aparentemente descaracterizador, não é assim que pela tentativa de Aluísio Azevedo realízar, através dessa
deve ser entendida neste contexto. Como elemento deco' obra, um minucioso estudo das relações sociais implicadas
rqtivo a personagem, se está no romancc, «lesempenha uma no acúmulo de capital de um grupo ambicioso em franca
funçao. Ela podc constituir unl traço de cor local, ou utt.t oposição à pobreza e r\ ociosicladc ckl outro.
núrmsro indispcrrslivcl à aprcscnlaçiio dc unla ccna em Uma outra funçilo passír.'cl rlc scr dcscnrpcnhada pela
grupo. personagcm ó, scgundo os aut()res quc se apóiam em vários
No capítulo III da obra O cortiç'o, ao construir a cena outros críticos, a dc agenle tlq_açQo.
do por João
despertar desse núcleo habitacional dominado
Inicialmente, para desfazer as controvérsias em torno
Romão, personagem talhada a partir dos traçcls marcantes do termo ação, el,e,s". d_Ctin,em essa-. insIância.-da .narr,ativa
de um imigrante português em busca de ascensão, Aluísio jogo de lorças opostos au converg-en_tgs que
como sendo a:
Azevedo descarta qualquer possibilidade de individuali-
esÍão ern presença numa obra. Ou seja, qada momento da
zaçáo de uma personagem, para compor um quadro cole-
ação representa uma situação conflitual .*-qüe âi perio-
tivo, formado por um conjunto harmônico dos traços co- nagens perseguem-se, aiiam-se ou defrontam-se.
muns das várias personagens que formam esse núcleo.
Esse jogo de forças e as funções suscetíveis de combi-
(...) das portas surgiam cabeças congestionadas de sono; narem-sc em uma obra estão classificados a partir dos
ouviam-se amplos bocejos (...) trocavam-se de janela para
janela as primeiras palavras, os bons-dlas (...) destacavam' estudos dcsenvolvidos por E. Souriau e W. Propp, que
-se risos, sons de vozes que altercavam [...). De alguns permitem subcliviclir o agente da ação em seis categorias,
quartos saiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na nem semprc ncccssariamente encarnadas em uma perso-
parede, a gaiola do papagaio (...). Daí a pouco, em volta nagem:
das bicas era titn zunzum crescente; uma aglomeração
tumultuosa de macltos e Íêmeas (...). As mulheres preci-
o c3y@glgr tlu uçtio'. Ircrsonagcm que dá o primeiro
savam já prender as saias entre as coxas para não as impulso à ação; é o quc rcprcscntu a frlrça tenrhtica: podc
malhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pes- nascer de um desejo, dc unra rrcccssidadc ou de uma
coço ( ..). carênci a;
I

51

50 ao classificar a personagem
a seu autor. Por essa razão'
que possibilita a existência é necessário'' segundo observam
a oponente: personagem a torça como porta-voz do aut;;''uuto"t ;le L'uni-vers clu rotnan'
do confliio; força antagonista que tenta imPedir de forma pertinente ã'
á'"aotic1 rta Loiografia' a des-
temática de se deslocar; ultrapassar a reconstiüiçio super-
a análise
atração' fim visado' obje- Htiffi;t;.^"; titerãrias ou históricas e
o obieto d""ioan' força derepresenta o valor a ser .rveis cle apreensão invisí-
to de carência; elemlnto [" ficial das idéias para'"?*gir"".
,.i* tttu Primeira abordagem'
u
atingido; da ação; seJ-ticÍ'íçi"o' 'Çow Íar-
o destinatário: personagem ' beneficiário Ao encarar u pt"onuf"m como
-ê personacçm
é silu-am dgD-
de"sejado e que não
necessa- uu"tores
aquele que obtém t ói;; ma própria de existir"Ls á sua comple-
tro da especificidadt'-
;;'-tã"iãt*"til
.1àtt"nté o condutor da açãol ajuda ou impul- utilizados para apreendê-la'
o adiuvante' pt"onugtm auxiliar; ilaaoe ê""ij alcance a"il"à'ão"t
siona uma das outras forças;
intervém em uma
o órbitro, fuiz: personagem- que
uçao a fim de resolvê-la'
"onttituaí
de Souriau e Propp' de-
Sem menosprezar os estudos
Íunções como uma possibilidade
vemos encarar cssas seis
personagom em certas narra-
de enfrentar a questão da e outras espécies de nar-
tivas. A fotonovela, a ieteno'"ta p-ei:
tradicionais :o1poltam
rativa centraclas em fórmulas reducionismo nao
feitamente essa abordagem'
O mesmo
a menos que
se aplicaria u tonio"de Clarice Lis.pector' des-
"t tn'..u!llt-?t essa teoria
o analista estivesse ;;*ú;
e as particularidades do discurso
il;"j;;pecificidáde
em questão' de
uma outra função passível
Poil0:voz do autorseria visào' também
ser desempent'uou'itíu ;;;"g"*',,::tu ggpghgd"a e1n
discutível, buseia-'e'nutu
tongi tradição'
cqmo--a soma das expe-
rl,t;t*r'.J-i"ttátti" nqqr4tiva por u:r-l autor em sua obra'
plojetadas
iiências vividas -e -pti'ooug'm
iéntido, u seria um amálgama das
Nêisé
'oo-ãuiú e'au' de seu criador'
'i'tuulidãdes nenhuma obra de ficção
Entretanto *,no* rgqr?nce' I
ou uma autobiografia' Ela
se confunde to- uí"'uiôgrufiu
I

ou uma autobiografia do
é, quando muito,, u'* UiJg"fia autonomia com relação
I

total
possível, gunt'unoJ'p;t-issã

I
53

vai conduzindo o leitor por um mundo que parece estar


se criando à sua frente. Ainda que este capítulo não tenha
por objetivo discutir o papel do narrador, não há como
fugir desse elemento presente, sob divcrsas formas, em
A construção da todos os textos caracierizados como narrativas. Como
poclemos receber uma história sem a presença de um nar-
personagem rador'? Como podemos visualizar uma personagem, saber
quem ela é, como se materializa, sem um foco narrativo
que ilumine sua existência? Assim como não há cinema
sem câmera, não há narrativa sem narrador.
Para efcito do cstudo dos modos de caracterização da
pcrsonagcnl na ficçao, vanlos utilizar a classificaçã.o narra-
clor ent terccira pcssoa e narradrtr ertt ltrinteira pessoa, ex-
traindo daí as difercntcs possibilidades de construção de
Recursos de construção personagens, sem entrar em algumas questões específicas
de Teoria Literária que dizem respeito essencialmente ao
Como um bruxci c;uc vai dosarrdo 1.rilçocs quc se mis- narrador.
turam num mágicct caldeirão, cl escritrtr rcc()rrc aos arti-
Assint sendo, consideraremos que narra.dor pode
fícios oferecidos por um códigcl a fim de cngentlrar suas _o_
ap_rcsentar-se como um elemento não envolvido na história,
criaturas. Quer elas sejam tiradas de sua vivôncia real ou
portanto, uma verclacleira cârnera, ou como uma persona-
imagip_árig, dos sonhos* dg.s pqqadelos ou das mesquinharia_s
gcrrr cnvolvida dircta ou indirctanleute com os aconteci-
{9.c91idig_ng, a materialidade degseq;erqs só pod-e__se1 a!i1-
mcntos narrados. Dc acorr.lo com il postura clcsse narrador,
gida através de um jogo de linguagem qu,e torne tangível
ele Í'unciorurrii cilnro Lull Írolrlo rlc vistu capaz dc caracte-
a sua presença e sensíveis os seus movimentos.
rizar as personagcns.
Se o texto ó o produto fin_al dessa espécie de bruxaria,
ele é o único dado concreto c1pxz de fornecer os el-e"men-
tqs utilizados pelo escritor para dar consistsnci4 à sua
criação e estimular as reações do leitor. Nesse sentido, é O narrador é uma câmera
possível detectar numa narrativa as formas encontradas
pelo escritor para dar forma, para caracterizar as persona- No romance Os que bebem conn os cães, do piauiense
gens, sejam elas cncaradas como pura construçâo Iingüís- Assis Brasil, o leitor, grudado a essa câmera narrativa que
tico-literária ou espclho do scr lrumano. é o narrador em terceira pessoa, vive a curiosa experiência
de conhecer uma personagem, a quem raríssimas vezes é
Qualquer tentativa de sintetizar as manciras possí-
veis de caracterização de personagens esbarra necessaria- dada a palavra, de forma total e avassaladora. 0 espaço
habitado pela personagem, uma cela absolutamente escura,
mente na questão do narrador, esta instância narrativa que
que se abre de tempos em tempos para um pátio onde
54 55
7

prisioneiros banham-se e lavam suas roupas, é violado despertar para uma realidade impalpável, sua dolorosa con- S
apenas pelo poder dessa câmera capaz de clescortinar, pro- quista da consciência. a
gressivamente, as formas que vão materializando a per- Na verdade, esta foÍma de caracterizar a personageÍn, D
sonagem. recorrendo à peqspectiva univalente do narrador, não pode
A escuridào é ampla e envolvente. ser considerada em si mesma boa ou má. Não se pode B
O silêncio total, cortado apenas por aquele velho barulho afirmar, por exemplo, que em todas as narrâtivas em ter- l,
que patte de seus ouvidos. ceira pessoa o narrador não deixa a personagem "viver",
Sempre fora assim: quando em silêncio, en paz ou ex- destruindo a ilusão de vida no mundo que pretendeu criar. 1
pectativa, o zumbido voltava, ent duração enervante, direto Ou, ainda, que gssç--Íipo. ,de..caraçterizaçáo resulte sempre )
como a fala do policial: em personagens planas. I
- Deixa as mãos dele algemadas. O.fato da narrativa ser conduzida em terceira pessoa I
Áos poucos ia apalpando o tscuro da cela, o silêncio da nâo implica necessariamente pcrsonagens mal ou bem
escuridão, o zumbiclo do próprio corpo estava no chão Çonstruídas. No romance utilizado como excmplo, o tecurso
frio: não era cimento nem tiialo, terra -batida úmida, mas é pertinente e aponta para a verossimilhança interna da
7

não molhada ao ponto de ensopar sua roltpít os bracos obra. A personagem está restr.ita a um espaço mínimo, a
para trtis r/as c'oslirs, os pu/.sol^ trl.tlt:tttaclrts. - a
cela escura e o pátio, e não tem noção de quem é, de por
Ár-rs pouct.rs iit apalpittrtlo o t:lrao cont o Çorpo, de brtrcos,
que está ali e de quanto tempo encontra-se nessa situação.
o roslo qltase a tocar a areia: .ser]Íi;.i o clteiro da terra
A composição do espaço, o desenho do ambiente, a caÍac-
velha e usada, com cheiro de ntolo, cont
- utnadeterra
'cheiro terização da postura física da personagem e a utilização
urina sentia as paredes, mesmo sen,t vê-las
-
na escuridão: a opressão do cubículo estava en seu corpo,
do discurso indireto livre para expressar os pensamentos
em seus poros. e as emoções dessa criatura combinam-se de forma harmô-
A posição era incômoda: as mãos nas costas, o corpo nica, construindo progressivamente o saber da personagem
meio de lado, o rosto na areia Íriat. e do leitor.
A 4pr.esentação da personagem por um narrador que
Nesse trecho a personagem vai emergindo da escuri- está fora da história é um recurso muito antigo e muito
dão graças aos recursos de um narrador privilegiado, que, eficaz, dependendo da habilidade do escritor que o maneja.
na sua posição de observador não personificado, pode não Num certo sentido, g-g41.eftifíg"r-q .pfilneirq, uma manifes-
apenas mostrar os movimentos que a vão delineando, mas tação quase espontânea da tentativa dg .cri3r uma história
também dizer o que ela está sentindo e, mais adiante, o que deve ganhar a credibilidade do leitor: "Era uma vez
que está pensando. Sem se dar conta disso, o leitor se uma moça muito bonita, que se chamava..."; "Naquele
instala na ccla ao lado da pcrsonagcfit e, como observaclor tempo, os homens caminhavam por. . .". No Antigo Testa-
. de um parto doloroso, vai assistindo a seu nascimento, seu mento, assim como nas epopéias clássicas ou nos contos
d é po-§t a- ç u --c,-q-n A B ar -e-l q. m I s.m q,
e f ad a, Lpe rsonagem não -

. l Bn.tsrr-, Assis. Clcio clct Íerrctr; os que bebem como os cães. Rio mas por suas aventuras, pelo relato de srIA§ ações. E nem
de Janeiro, Nórdica, I984. p. 13. por issô deixa de ter consistência e ganhar credibilidade.
56

€ncrrnrra formas de acoptar 57


cursol r"rilTiJ,,llbilidoso re- intriga e do susoense, fornece
suas criarura, *+^.:ô.i::'3':,:ffi:: uma visão
o narrador do rexro sagrado, r;ü"::,;,:;*
,;;;;;;;" sonho ou à apari_
do.ganjsteri*" *r.ãa"; ,:;i"s dos
,o_:,fti.:r,
e pero ainneiro
costumes
Business,, e da
ção maravilhosa como formas a.-ãüíutiração lil:.ig:J"der qu"'ãu.íi..iru* o mundo
mitem representar a. intensidad. que per-
;.-'im confrito inÍerior, Sem concessões à. violência fácil, esse escritor
em princípi" ii;rJ;.i"ao instaura
l-1::nruo.rre
externa, de um foco. narratiuo purur"rte ,l.ur.e de uma pessoa' uma câmera privilegiadf
exterior. A utili- ;ft 1fi"ffi;fljã'"'""' -tio, d:. pistas forne:id-J;;ü
indireto Ii;;';;;; p"lff d"r..,li^l
naffação,
;X':""i2;':::;: aconrece em - 0s
alio;il i,ii:rl, ,,.ff
g1ssin a il;p",õ,
uma vez que rhe
"
i, íál.i'
"ir,:T .â'j:f'j
in giiis t i co qI e
" r
son asen s que t.an,i
que ele quer rerratar. rsio
t
Í, :,Tr:,,X:f *::
The gtass Àey, pubticada ":"ri;?;,;;;ã*..pro, na obra
::#*:;;;;;#';TJ;rffi;Xrí.#
que nâo poderia ,". em I93I J r;;r;;..nte
para o portuguôs sob o título traduzida
:X,,:H;]oro. "uf,iau
pela observação A ,noru'àe viaro.
Paul Madvig esÍaya só
na sala, parado de pé, diante
ianela, as mãos enfia.da. ,r" da
odJÃ"ã"r,"utçu, de cosúas
| constrói Íinge registros Xíi,,',r,l;jí;,u;::.unoo
através au t"ru ) rua
e "_rr9r-1 as personagens ","u,u da
Voltou_se lentamente
e disse;
o narrador
em.-lq{ceir.q pessoa simura - Oh, você por aqui.
Era um
um registro homem dt quarenta e
conríngs, focarizando cinco anos' alto como
crsos que interessam
a p.;;";;;;, ,ol .or.rros pre_
Beaumont, *r" Ned
ao andamenfo àu-tirtOria "o^
rialização dos seres que
a vivem.
e à mate_ ",:i:;:ii:i:t,'i:i:::i:"^zi:i":;,r:;;;:,''::*;
No romance ,o^yo,., pàr'"*.rpro.
Ihado do comportam^ento o registro cleta_ ;,yi;i':;;ii:'n::iiiir;::)y"{:,"i:,:';j:i;
das p.rrorr!ã, é rarefa,
regra, de um narrador via de Ned Beaumont íechou
regado de acumular
colocaáo roru ?liirtória
e encar_ u porru"
-'"""'
traços qu. f*.loiurn Me empreste algum d'inheiro."-"a,íiJ."".
da maneira de ser .orno indícios -
do botso inter;o do patetó uma
",j"'"s1.=ã",lr"rr.r,,ors ações com_
Através ;;;;;; traços, ",y:!;''*:i:::";. srande
f[:f'Í;i,::?"T;11'va - a perso- - Quanto quer?
oeícou.ii'a,ii;"rffi :I:'!-;,.,1,f#:.ffi #a.lf - Umas duas de cem.
nagem no desenrolar
clos
Essa récnica, banarizad,
.,acon,;;;.;;;í;. ;*j: ,rHX!,'',
deu'lhe uma de cem
e cinco de vinte, pergun-
;;i;^';;;;nce policial de - Dados?
fff,lxl3,,l'lil;;.':'*19: {; ,;!ü ;ffi;l' pà' ou,r,iJi Obrigado. _ Ned Beaumont
- Faz embolsou o dinheiro. _
r q o i, . àil; ;; .;; - muito tempo que você nao É.
;;l' :i?'l i,#il.:,,H.,,,1 ,á uma ganhadazinha,
li,..T,* ,lrZ"
o],rrr.
persuntou Madvis,
,"trrrai a ZnÍia, as mãos
5E 59

Não muito. . . um mês ou um mês e meio. Dalton Trevisan, um dos mais refinados contistas bra-
-Madvig sorriu. ,ii sileiros, utiliza freqüentemente gs-§a tég-1ica, dando a im-
muito tempo para Íicar perdendo.
- ÉNão .pressão,
pela sua diabólica escritura, de estar reinventando
-
para mim.
em sua voz2.
- SenÍia-se uma nota de irritação esse antigo instrumento de caracterizaçáo de personagens'
No conto "Duas rainhas", uma das trinta narrativas que
Nesse fragmento, extraído das primeiras páginas do J aparecem em Ceruilério de elef ante,§:J, as personagens Rosa
romance, o leitor começa a visualizar duas importantes e Augusta ganham a dimensão maldosa de grandes animais,
personagens. Essa visualizaçã,o, esse efeito de realidade vai acidentes geográficos e depósito ambulante de c.rmida. Essa
ganhando forma a partir da descrição minuciosa de traços imagem chega ao leitor por um narrador que vai puxando
que apontam para a figura física das personagens, para a um discurso repleto de metáforas, hipérboles, metonímias'
ndrninalização desses seres, para a minúcia dos gestos, diminutivos, contrastes semânticos irônicos e diálogos arti-
culados coln o intuito de compor figuras grotescas.
I

para as roupas e para a linguagem de cada um. A des-


crição, a narração e o diálogo funcionam como os movi- Duas gorduchinhas, íilhas de mae gorda e pai magro. Não
mentos de uma câmera capaz de acumular signos e comb! sendo gêmeas, usam vestido igual, de preÍerência encar'
ná-los de maneira a focalizar os traços que, construindo nado com bolinha. Sob o Íravesseito mil bombons, o soalho
cheio de papelzinho dourado.
essas instâncias narrativas, concrctiz-ando essa existôncia
Rosa tem o rosto salpicado de espinhas. Dois anos mais
com palavras, remetem a um extratexto, a um mundo refe-
moça, Augusta é engraçadinha, para quem gosta de goida.
rencial e, portanto, reconhecido pelo leitor. Três vezes noiva de sulelÍos cadavéricos, esfomeacios por
A delicadeza e a sutileza do estilo de Dashiell ,,1
aquela montanha de doçuras gelatinosas. Os amores des-
Hammett, em franco contraste com a grosseria do mundo feitos pela irmã.
que ele recria, permite que as personagens, ainda que foca- t...)
lizadas por um narrador em terceira pessoa, recebam um Duas pirâmides invertidas que andassem, largas no vér'
certo número de qualificaçóes e, no mesmo tempo, desnu- tice e Íininhas na base. Manchas roxas pelo corpo de se
chocarem nos moveis. Lamentam'se da estreiteza das por-
dem o seu fazer através de índices que contribuem para
tas. Sua conversa predileta sobre receita de bolo. Nos
a sua função no decorrer d.a intriga, do suspense, e per- aniversários, primeiras a sentarem-se à mesa ou, para lhes
mitem a decifração da simbologia social que elas encerram. dar passagem, todos têm de se levantar.
O acúmulo de índices através de um narrador em
terceira pcssoa nlo ú unr privilógio dos b«rns e dos maus t Aqui o narrador, diferentemente dos exemplos ante-
policiais lnas uma técnica de construçÀ9 de personage!s )
riores, não dissimula a sua presença. Ele não circula como
que permite muitas combinaçõres, dependendo sempre das uma câmera impessoal que, postada fora da história, finge
inlençÕe1 e_-$1lqbif rtjade dos escritore-s. l,
nào existir. Ao contrário: .e-!e é um ryIralg. !§!11tP pel-
I,
2Hruurrr, Dashiell. Á chavc da vidro. Trad Marcos Santarrita. :r'I'Rrvrs^N, Dalton. Cemitério de elelante.s Rio de Janeiro, Civi-
São Paulo, Brasiliense, 198.1. p. 8-9. liz;rçiio llrasileira, 1964.
61

60 arcando com a tarefa de


perspectiva da pg-rson4gem, que'
soal. Ao utilizar os diminutivo' - llortlttchinhas'
bolinha' \ "conhecer-se" ti" conhecimento' conduz os
t*p"Lu'
5omsdos à hipórbote rnit I " e presentificam as
ilo",li,,r',")ri"i'i''r'a - -
de tlol'urtt gelali'
traços e os atributos que a presentificam
bgmbons metaforas
às
-
17'16n1çnl1as
demais personagens
-,
nosa, pirâmides invertidas -'
e a outros recursos de lin- e ctla(ção de persona_
Se essa forma de c-aracterizaçáo
em contraste o valor semântico da dificuldad:
;õi,Ã; o ,urrudo' coloca defla- l g"n. fo, encarada do ponto de vista ::f::
das palavras u"'g* que estão sendo de conhecer-se ê exprtmtr
" l3nstruídas'
q" t:tt::lnnde ao volume sentada para um ser humano
grando um processo .«liscursivo então seremos levados a
com que são caracterizadas' para outrem esse conhecimento'
clas personagens e à ironia sempre em personagens
ganham..sua fornta e sua
pensar que esse recurso resulta
Essas rotunclas pelsonagcns dos. abismos insondáveis
trabalho de linguagem' densas, complexas, mais próximas
.^lrten.iu a partir de um meticuloso o moder-
protótipos do comporta- ilo ser huntano' t'omandá como meclicla r'Qluance
Elas não são apenas "gordas" ou catla vcz nttis cm distancial a
personagem
gor.das' t'" nn, .,rp",rh,ldtl
mento e da configu'uça?-àt p"t'oui :11j:* ,lo, arl.1u.,,rrits I'ixtls tltrc clclinritlttn o scr.[ictício'a comple-
teremos
do termo como slm-
o rlome .- Rosa' que remete ao uso ajrrtlir lr Irtultiplicar
cle feminilidade -- qLrc ltclrtrilir' (lrlc cssr: ''ttt'"t'
bolo banalizado dc itt"'' At fragilida<Ie' quc-lhc clá existência'
tnn"tg"tla' suúir'tre',-supcrittr' xirlatlc tlit pcrsotllrgcru c cla csc'itur.u
e Augusta
- ::l:i.1".,::
que Mas ttito Ú t'ttrta rcccita para a construção
de personagens
bons augúrios pÃtlutut clc utr 'liscurso narrattvo vai da pericia
nutis tlcrtsas: tutlo, tu*á '"'p'e'
-' cmpeuhado em depender
ãpãrr" õrr^ a ironia de um observatlor
Íazer da linguagem o seu instrumento
de impiedosa carac-
du cscritor, dc sua capacidade de selegl-g11 personagem' -9 -t"Pl]-:lt

os clcmentos que partiúpam da


arquitetura da
terização.
peÍsonagt"t
Não é a gordura que define as " ^:l:,T^"
l\iut o jogo de linguagem matrelra'
a atenção do leitor' por ela mesma
sibilina, que chama a atenção
lobre si mesma a fim de Apresentação da personagem
grotesca e
.rfiur, pára além da gordura' a configuraqão
mostradas' g pqt§g! agggl . gxpressa-.1 si mesma'-a- !gtê-
iiuiairoru das criaturai que vão sendo QqA.nC-o - .
formas: diário íntimo' romance
tiva p;d; a;**i. ãi"ttas um desses
.fir,ãr^r, mlmórias, monólogo interior' Cadaexpondo sua
discursos procura presentificar
a personagem'
APersonageméacâmera fqrqr-a-a.dirnrrylir a dlslQngiq.e-n1r9 o 9s!rit-9
interioridade de
em pr.!'- liuiuiOo1'. No artifício do diári.o, o emissor' a voz narra-
A conclução cla narrativa pgf 9T narrador
t 9p.t- o1' o" t t a f or m a' c ad
o rua cqpdição de "-o a p á gi n a
tte"a'i unión
-g,-rg]-õü*ffi ,'.q, nconr il, -d-;-;i.iyiQg--u+- -r"g
1t', ;ãaiou qo' se desenvolve' rla-
.

personaggm- en-volvicla os "acontecimentos" que estão


recursos selecionad'os
,'".;;;ã,0;;ã ';;id;;;;personagem nos momentos decisivos
íã;-i" +;;dôs' -po' qssc processo' os ;;;;ã; , existência dap"lo
clcfinir' construir os seres ficti
pelo escritor para descrever' tlc sua existência, o, menos nos momentos registrados
diretamente ao
iio, qu" dão a impressão de vicla chegam
Vemos tudo através da
ctlnro decisivos.
leitor atravé, ot uãu ftrsonagem'
63
62

dessa forma de caracterizar a personagem, flagrada na


N-o*rpg-qllçC.,ggl§-tpl-Al, assim como nas memórias,
o
ausência de pontuação, no volume de sintagmas que se
aparente mon g_logo -nqrrati-v-o- tem, d if eren tem ente do diário,
sucedem de forma a reproduzir um jorro de consciência
ai nd a que e s se de stin a t á rio n ã o e s te j a
Ugl -f9.-c-ep19-r--9-p "ry-r-il-q, que obedece a um mínimo de sintaxe, permite a confluên-
implicado nos acontecimentos' &I L"lo- 99§e rgcurso? a cia de conteúdos psíquicos díspares e a reprodução dos
c-?.Iag-Í g-{i-Zeç ã.S -dg*P gI§9! ?C-e g l um i émpo p as s ad o qu e.
é.
movimentos alógicos dos pensamentos apanhados em seu
re cupe r a-d. o_ pgl-a - 1r ?f I 41-LYa-"f:{0-c.lpn a co ln o um ?m a n e.
lr
a
cstado de nascimento e exPressão.
sutil, ügr-gr-e"!-e.>rt-o B,ar-a -r-nq§!rcr o."*presçnte e as nuances
Também na escritura de Virgínia Woolf e Marcel
da interioridade. Proust podem-se encontrar os monólogos de remi,riscência
ó_FôÍióír;gó. ll-terl9r é o-*p.-ç.qr§,o- $.9 c41açlerização de e antecipação, as passagens de impressões sensoriais, os
personagem que val mais longe na tentativa de..expressão ritos dc idcntificação personagem-narrador e até a elimi-
ãa inieiiorldade da p,ersonagem' O leitor se instala, por nirçllr trltltl rlo "ctt" trltrrativtl, como ílcontccc em algumas
assim dizer, no fluir dos "pensamentos" do ser fictício, no «rbras rlc llicurtklu Ollicr c l{otrtrc-(irillct, coln o claro in-
fluir de sua "consciência"' Das narrativas t:ontemporâneas, Irrito tlc rcvclltt rtivcis tltt vitlir Iltcntal dificilllrcntc cxplo-
o U/isses de James Joyce é a obra que tem merecido des- ririlos ou ;tprccrrsívcis lx)I outros ntcios. Alénr disso, essa
taque pela primorosa utilização desse recurso que permite, tú'cnicir possibilitl it itprcensito da interioridade da perso-
ao longo do romatrce, expor o fluir ca(ltico <Jo jorro da rlrgcnl, rlc l'«trnta it cxpor a maneira como a consciência
consciência das personagens, traduzindo a integridade de ;rcrccbc o munclo.
cada uma.
Sim porque ele nunca Íez uma coisa como essa antes
como pedir pra ter seu desieium na cama com um par A personagem é testemunha
de ovos desde o hotel City Arms quando ele costumava
fingir que estava de cama cam voz doente fazendo fita "Evidentemente, a convivência com Holmes não era diti-
para se lazer interessante para aquela velha bisca da se- cil. Ele tinha hábitos tranqüilos e regulares. Era raro vêJo
nhora Riordan que ele pensava que tinha ela no bolso e em pé depois das dez horas da noite, e invariavelmente iá
gue nunca deixou pra nós nem um vintém tudo pra missas havia íeito a seu pequeno almoço e saÍdo quando éu' me
para ela e para alma dela grande miserável que era com levantava da cama. As vezes passava o dia no laboratório
medo até de soltar 4 x. para seu espirito metilado me quimico, outras, na sala de dissecação, e ocasionalmente
contando com todos os achaques dela com aquela ("')a' em longos passelos, que pareciam levá-lo aos bairros mais
sórdidos da cidade. Nada era capaz de ultrapassar a sua
Essas são apcnas algumas linhas do longo monólogo energia quando tomado por um acesso de atividade, mas
cle quando em quando certa reação se operava nele, e por
de Molly Bloom, mulhcr de Leopold Bloom, que ocupa
dias a Íio eu o via estendido no soÍá da .sala de estar,
mais de cem páginas do final do tomance' A radicalização sem pronunciar uma palavra ou mover um ntúsculo, da
rnanhã à noiÍe. Nessas ocaslões eu lhe notava nos olhos
+Jovce, James. U/i.rre.r. Trad. Antônio Houaiss. Rio de Janeiro, rtlna expressão vaga e sonhadora que poderia ser atribuída
Civilização Brasileira, 1982. p. 791.
64

a,ovicio de algum narcótico,


se a temD
-J'
65 I

de toda a sua vida ,a. iÃ,p"iirz",;,,,::::,í:ri"r,iZ!Ír, Nas páginas que seguem não vou me deter em descrições
Nesse Íragmento de (Jm de pessoas (...)
Mas de Guilherme queria falar, e de uma
estudo em vez por todas, porque dele também me tocaram
:onas:m
princi-par, sr,..ro.r
Hoí;:: ;,:"vermetho, a per- singulares, e é proprio dos jovens ligarem_se
as Íelções
a um homem
*ilit_I;"1iffi#t1r::,",di;;:à;:,,iJ,ffi
- ., ie .caractey.izaçâo, que
illlffi ,t!ir;_;;;
:I mais velho e mais sábio, não só pelo Íascinio da palavra
e agudez da mente, mas também pela Íorma superÍicial
sonageÍn secundária
puru tu,Ãl';;;#r; ;-;;_ do corpo, gue se torna querida, como acontece
com a Íigura
de um pai, de quem se estudam os gesfos, os arruÍos,
ü;'J[,fSUJ:il:',,;:,'11'*r.,"",á'-'.,*;e,',nTT,i:h se espla o sorrlso _ sem que sombra alguma de luxúria
e

ô-r*a";, ffi#x.Ti;"; T,.:'#"1:;fiff#iH contamine este modo (talvez o único purÍssimo)


de amor
eE p3lig, aprqs.enleld_p. corporal.
convrncenre e -e_pe_rson-age|n pri*ipur de
leyando-ó-i.itqr.àln*.i*, maneira (.. .)
0", um prisma
tempo d'i§çrpto -e ru..i";;.";-&s**-do-prora- Era pois a aparência fisica de f rei Guilherme de tal porte
&ffi:" que atraia a atenção do observador mais distraido.
estatura superava a de um homem normal e era tão magro
Sua

. O discurso de Watson,
narrador e or que parecia mais alto. Tinha os olhos agudos
e penetrantes;
de- shertock, vai consrrrir;;, auxiliar
pela seleção de tracos ;;;;#:lrgem
rç-r§rencla aos hábitos, o nariz afilado e um tanto adunco conÍeria ao rosto a
expressão de alguém que vigia, salvo nos momentos
"-.;;;,,:::" a rra de
e pera in
i,.iJlll'j?,iir .n Ção oe açoÃ
siau,,rr" ãt"1, a
torpor, dos quais fararei. Também o queixo denunciava
nere
pt an ã e i' ii" uma vontade firme, mesmo se o rosÍo alongado e coberto
,,,,:,ffi l i: i:H;1" T',,i I il1 il'l,"J,iiiT; de eÍélides
pela ilusão ao ,.nirlll'
exclusiva' capaz ",
de presentificar, - como vi_Íreqüentemente
Hibérnia e Nortúmbria
nos nascidos entre
pudesse âs yezes exprimir
- incer-
i,' i,,i o uãl a;". ::i llllr,,', o.. r.i ãl teza e perplexidade. percebi com o tempo que o que parecia
a person asem-n a rr a dor
i'Í,#i l.j' :,,,,T ",,ã "
lr
I insegurança era ao contrário apenas curiosidade,
através da qual o Ieitor
ir; ;,
";
;;." : ",:T:. ; Íi, ilji::l
ti mas de
inÍcio eu pouco sabia dessa virtude, que acreditava.antes
recebe . il uma paixão da alma concupiscente, achando que
a alma
_ Essa postura na*ativa, "rr. o.o*rolJ:jr.::Tlr1r,?:
de personagens
"rr*,rrr, x{ racional não devia dela se nutrir, alimentando_se
tão-somen-
te da verdade, coisa que (pensava eu) iá se sabe desde
é tão explorado
pela tradição o inicio
s i:f*frffJ.á,,r," ute ..,,o uií",to
"...rri"irrroo
e.o a wiiiza
1
e
.

:ome da rosa' parodiando


a simpada a {( É possível observar nesse trecho os artifícios sedutores
d,e fazer "fi"r;i;-; empregados pelo narrador para distinguir a
natureza do
:::1.:r;ü;::,iffiTJ:TT*'j,,-,i;fl
secundária, ganha T':::;l:li* seu fazer recuperar a eiistência dJ um outro através
o interesse . u. grrçu, do leitor. do registro- escrito da dimensão que ele vai tentar res_
gatar. Ao mesmo -,
tempo, o leitor vai se afeiçoando, vai
ffi.""'B:fr
"!{n",í::i!:,";il",,:.T";.oi;,.r,uo.Hamircarde ( Eco, UmberLo.
O n<.tne da rosa. Tra<L Áurora Fornoni e Homero
Freitas de Andraclc. Rio de Jancir.o, úã"" fi'ártà.a,
1983. p. 25-6.
67

os
a sua própria cxisrôncia'
a sua independôncia' criando
de leituras'
e, ";::
ti
:: ; l'1 t.;;"';;;;:;;;s e abrintlo um mundo
d a nd o cre
" «1 i b iIi da 11
"
["* ffJJ :iJ
recebenoo- ;' :"-.1:
Mas, se
história. e recebendo
história, ^:-^r ,{os demais personagens
das 6emarS per:9nage1s^,:e " ::l'l1i;"" i: J[l"t:';:l H::il'',"JHll:
sando da personagem.J';;';;;;"rão,
"r,"J*,, c mais adiante peta
Por meto que l"nf*:T.$ffi"'T:i1';:";.;;;;';u'niluperoreceptor'
para a
dele mesmo'
;il;^;;" discurso indireto' Jm determinados
dos códigos utiliza'Jol 'momentos
recorrência ao discurso.:tl"': ;-";ro"m. cnflm, a dicção
dessas l"i";'It; não significa que a dimen-
recuper ar, a u- viabilização unicamente pela capacidade
0".Ài,",-, ll,'3;ri'i:?"Lt
t"J:'r':it'u* $;;n ào' g, uo oti,pelo sào da personagem 'ài"'ãii'a^ se a Cinderela dos
ãu ,."onugtt' ' toturiaraá pretendida int"'p"ii;;;; leitor'num determinado mo-
de análise "
mente, até circunsc traduzida
contos de fada poa" "' e
construtor' premiado d1,^comPortamento
mento como um ".;;;1" cnlrevisto pelos recur-
em outros tc'n'n urrr *í'"t'"fà crótico de
possibilidades de
construção t";';;'tt'";"sa Aurólia' protagonista
Resumindo as sos da Psicanírlisc' unta
O't"tttt' 1-".,ltt "t lida corno ou uma
valo-
a
'lue povoam Senhortt,clc Josó Ut
rn'"Ocl pensante feminino
rosa reprcsentantc au
personagens
ouart'r pcnsamos nas srlleoes' isso fica por \

,, oai õl-i t.'I;' I : :dlU"',.U I Xl J:"Hfi


i *,tiü:: astuta e viperina '*lllp'i"i"ta 9e texto e pela sua legrbi
pelo
t

u imprcssrro d" t*t"lll.T,;:,":,.;,,rrcrrc (las irtrintcras pos- conta dos índices to.n!.iao, \
(lercia métodos'
inttlriais c cltPl'lzc\ tocamos
cl. h.rncnr .o trluncltl,scus cria- iã"4" "tt""és de diversos
ou terceira pessoa' a
descri-
sihilidltlcs dt t*'tl"'ii,i..r'i.'.rru.,.riz.açt\. tlc A--nar-ração' em prlmeira dir-eto'
no jorron,lo por Zola' Balzac' de tÍaços' os cliscursos !
rrccessariatne_nte
l;;;; ça"o m-in99io.'a-o-u-'intÓtiça diálogos' e os monólogos
são
De Hornertl I
Rosa' o" i'oitettili';;'
dores.
Dostoiévski. stenorrai'
il;;;;" à' tl:i'::-'*aràcs indireto "t pelo escritor a fim de
técnicas escolhidas "'"ã*úl^'aas Depen-
ã,;ilri,i..,o..t::,-t"t:"',"'.lr^'1Ti:i,il:[T'"'i; it 'uu' criaturas de papel'
,"rtiüitrrt-" t*i"o"lu t-p'i'"ip1'rn,t..nt"
nos de sua perícia'
tores, chegam-
,1'",;ü:;;;,lo tspróprios
secretos movimentos
dendo de intffi'l
"di""'à' construindo essas criaturas'
para uma movimentos' 'uu' o
":.''::l:;";;;:-;.
crta c seus ele vai manipular e perma-
",t'r":'^.^,,r^r' , s.r, capacidadc de fogem ao seu'domínio
"' realidade.
da
cle um escritor' a que, ilepois de prontas' delírios que esse
; sensibilidade necem no mundo O]"'p"ru'át imlci^los
"n*,*u, qr:"rl
á -,,." fim:::,X;::il:'ff""tr';; ;ircurst possibilita aãs incontáveis
receptores'
a fixa-
xidade dos seres A dosagem ;t;;t poçóes lingüístico-literárias' pelo estilo
verbal' de sig- ietni"o' fatores ditados
.-.-,. r1êcq2 combinatória
palavras' llcssa co ção nesta cl' '"u"ttt em deter-
Nessc mundo dc da. narrativa
do autor ",ó ,:r;,;
vai tcr^o mundt'r
e decifr'ar p.t,,
"r,eti,, algu-
nos, o leitor vai "TtLü"t'^'' cle ressaca de Capitu' asstm { "
minados to*"ntl''àu
lt'i'int'íitcrírria' p.ssibilitam
Nn'''.nlhos I O"'"* ser tomadas
pio..t,."i'rr c'-Riohaldo' o
a stra existêntiu' leitor
I mas classificuçOtt g"n"tuliza«loras' 1l:-
como na "'Uigiiiàuát'4" de instrumento didático'
na sua dimensão
;;' ;" ;-" r"' .Í. f X: t, XX'i,.,1.,i:l: ?"'T;
'i*"uao'u
construção que'
"'' P í'Jti;
I
6r

ê.:gl_tjigç4q.. -d_p_ Bçr-sop qg.qnp obedece a dererminad a s


le!q, çqjas qista.§ sé..q texto poãe ioir".".. Se nos dispuser_
mos a verificar o processo de cónstrução
de personug.n,
de um determinado texto e, posteriorLente,
por compa_
ração, chegarmos às linhas
-.ri.r, que deflagram
cesso no conjunto da obra
obras de vários autores, temos que
"r;;;;_
do autor, ou num conjunto
de
De onde vêm
ter em mente que essa
,1ll..l^:ir: ditada pelos instrumintos fornecidos pôla
aná_
ESSES SErES?
rrse, pera perspectiva. crítica e pelas
teorias utilizádas pelo
analista. Isso é o óbvio e, up.rui de ser
dito com uma certa
eloqüência, pode parecer áispensável
tanto para o leitor
comum, que quer apenas desfrutar
a personagem, quanto
para o analista consciente de sua purtu.u
e dãs restriçOes
que o método pode representar.
Entretanto nem
y:tta;';';"i;;TJ;i,iTXT;;:H*:T:',í,1"i:,TÍl Os escritores respondem
gem munidos pelo jnstrumental
fornecido pela estilísticà,
pelo esrrururalismo, pela psicanáli;;, Este capítulo destina_se a satisfazer
a curiosidade dos
por qualquer outro referencial ,.Ori.ol;;i, Sociologia ou Ieitores. Quem convive com a literatura
e com outras artes,
á".editando estar como o teatro e o cinema, muitas vezes
diante. da última palavra em se apanha boquia_
maréria áà ãnafir. narrativa. berto perguntando de onde o artista,
Se todas essas perspectivas contrir;.; o c.laOor, tira suas
fr., ,*u leitura
da constru_ção da personagem, á+reç*isp-.!ifar personagens. Mesmo a narrativa
mais realista nâo consegue
atetto. pa-ra afastar do receptor a-forte impressão
parcial, não. ço_rrgn-do
o..!e:u-. garyter_ A" u_u certa magia,
i-;iilo de reduzir o
trabaltrq do .escritor e a sua aimersao'aoi'grithoes um certo poder inexplicável de que
é dotado o ser humãno
que o escolhem, com louváveis intenções, 'prru ,rãri"", que reinventa o mundo através das palavras,
,r,., objeto das imagens
de análise. e da combinação desses dois elementos.
. Saber que Guimarães Rosa percorria o sertão anotan_
do em seus surrados caderninhor'r,
e
dos sertanejos não é o bastante pr.""-rrOiiu, as vivências
.ri.rOer a magia de
suas narrativas, a força de suas
criaturas. Também não é
suficiente ter informaçõ"s a .erp"ito-ãas-visitas
aos bordéis masculinr de proust
t
e s cri t ura pro us i a
na :HT r::::': i:LT:1i:
dido. Contudo, para "";r:i'f#
r

os leitores de proust e de Guimarães


Rosa, o conhecimento do extrat.xto,
ttu, circunstâncias
sociais e pessoais que envolvem
a produção de ambos
"j;q,
70

7t
,lxl#[ç;,T:T.+i j:ü]^{l+::",ti.,1x::o"sensibi,i.
.';*;;;;;1';llffH,ff deste rapítulo, respondendo
de onde vêm su
ver merhor u ..u,,orll. Ti:"; A palâvra, de ag,i.a em diante, fica personagens.
com eas
É verdade <

HÍ,Í*lÍffi ljji:,:i:ouTiiT:::: li ",1.' d. escri,.r Antônio Torres


os escritore, "^i:-àr ilg"i'Y: ã;?#';ti;'"'r,i;
;:tt - ;; ;à1: .'Eles
vêm h.

pacata
;|*l[x'"T::#:"1{,',,':*",;;
t"tut tà'";Jlo'
t",,
e os problemas Etes vêm do r:!io^:j"ffi'*uu",u
Aparecem quando menos chamacra tnetrujria.
rua de cr:,'.:l'' p"' Trevisan n uma
de esrranh am.n,ot'l'0,1' ;;t;;lt:;J uma situação
o,
"rp"Iuros. RonrJam as nossas
noites, nos persegu.- por_rnuàruguAu,
vonrade ;;';;;l'o'é a fio. A princípio
rísica comum, o na sua figura sao rmagens vasas, feiçóes
.l,de a' lurunr-, ã" quem mal lros
versas de
r.rrour'io^ott "'i"iaã: ;:';"t"t'
rua e daí
que ele ouve con- sombrà oe umo,ffi;'ãuJ"o'p.",.u,. lem_
ele fique
'il;'*
iit'u.,' ;
s perSonâ$êns?
Talvez X;l#:'' quer res-
cos e sofás"r.oraial'
or, ,rr?^ultát .ot -íei;. ,l?lnffil: Convivo com
o' ttu"t
verossírnir,. _-*.*.,uo_se ::
i,luxT
rrarandl clo crjaclor :Jfl 'J'H['T :'ff;-::;:'"i
tiba. de O vampiro de Curi_ #1; ?h:, :[ seres reais que me serviram Jx
a" pã.iiã" pu.u'o"t de ponto
p..rol:rsll'r';J';rLi'- vamos poder saber
de onde vêm as r * o- q,i"";;
ug u
":,3';!: ;i:,,ffi :f :'";.JÍ'Á,1
tos, pois, .o.ro
ser pela análise
.r"'31:j afirrna e está
"â9 o. t.rr'r.i] i:T:[
próprià' p"'ni'^" nos impõe TÍ:
suas
o
rr," á" ri'"ã';;
:;"mesmo ;:,;'.,: ;:,o.?,5:' seu
a dizerfora dos rirr.'o' !."no.;tü;à: I;%l:'1;r:::J; Foi assirn com (J_m cão
o personage.. o obra interessa o uivando parct q lua: uma visita
autor não vale de poucas horas a um
e ,.rp.".r.lsü, que
.11'.tó.a amigo qu. ,.'"rJontrava
Talvezere tenh o contista"' numa clúrica psiqui:irrica internado
zão' se,"n'utto, ,.t" ni"-r.f. lr,r"
-_",,,.11]'
quase nura abalou profundanren," e que me
nr. ,.ol1 lu u gê'"'"-;;", " contribuiçâo .. .:"-1'n"'to -
a compreenruo .t u, uo J iÁl;
; il'i : l,l'oX,,r;,,,
personagens
.','uTltu ot""u" ;1rff;::'Nt:Ir,l1l
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enquanto narrador_personagem,
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.lugares. em ourros
ram gentitmenre eÍn ::11:t-1"'eos' alguns se empenha-
sarrstazer a curíosidad"
ffi ,f$;T
O"r,iuá."_ Com Essa terra história ó mais longa.
.a
duas viagens ao serrão Custou_me
a, raÀir. saber quem
";';;;,"
72 73

tinha sido o homem que, depois de muitas idas e vindas mento, uma postura do corpo, um olhar, um sentimento
no eixo Nordeste-São Paulo, acabou por se enforcar predominante, uma visão fugaz etc. Dificilmente ele se
no armador de urna rede. Mas todas as pessoas do lugar apresenta inteiro, coerente e completo.
se negavam a tocar no assunto. O romance, então, foi se Depois, com esses fragmentos, vou montando um ser;
fazendo à medida que eu ia percebendo que a negação dos recortando, recolhendo e colando daqui e dali.
fatos era o próprio fato, em relação à tragédia daquele Com pedaços da minha própria vivência e memória,
homem. Por falta de dados, a pessoa que eu buscava desa- busco um corpo. Transformando bocados de personagens
pareceu. Aí nasceu o personagem. de outros autores e obras, repenso. E, adaptando essas
Carta ao bispo foi escrito em homenagem a um primo partículas às contingências de minha estória, faço um tra-
meu, um grande amigo, político amador, que queria inserir balho artesanal, prazeroso e puramente intuitivo'
o nosso pobre lugarejo no mapa do mundo. Ele tomou Não existe regra, método ou tempo de duração. Trata-
veneno na casa do bispo de Juazeiro. Me contaram que, -se de um jogo entre o papel e eu. E o resultado pode vir
envenenado, ele andava por um corredor, deixando mar- a ser frustrante ou compensador; não importa. A emoção
cas de sangue as marcas das suas mf,sg nas paredes. está no imprevisível.
- para me ajudar a criar todo
Bastou esta cena
- o romance. Um Iembrete: não podemos reduzir personagens ao
Quanto yt Ádctts, vclho, que conta a saga de uma sistema ideológico que os abriga e sim, através desses seres,
família dc tlczoito irmàos, foi inspirado por velhos recortes dar forma artística (dramática) aos conflitos do homem.
de jornais sobrc a prisao, crn Salvador, clc uma moÇa do Exprimir suas aspirações, necessidades, contradições e
sertão acusada de um crime que nào cometcra. A imprensa complexidades. E assim mostrar o mundo (injusto) que
assumiu um papel de juiz e a condenava, provocando um nos cerca e revelar a profundidade das paixóes.
grande escândalo. Isso me chocou. Releio o que escrevi 111s achei professoral, talvez
Fina-lizando: quanto a mirn, o personagem surge com idealizando meu próprio -
trabalho e edulcoranr.lo minhas
uma lembrança, um fato, qualquer coisa que me toca, no dificuldades.
presente, ern relação a qualquer coisa que me tocou, pro- Fui eu mesmo que escrevi isto ou foi um personagem?
fundamente, no passado.

Domingos Pellegrini
Doc Comparato
"Observar e imaginar."
"De onde vêm esses seres?" Criar personagens é, no meu modo de ver, principal-
A criação de um personagem pode ser descrita como mente observar e imaginar.
sendo o abandono de todas cs certezas. Observo as pessoas interessantes ou seja, as que
No princípio o personagem se apresenta fragmentado me interessam vivamente por repulsa, -
atração ou qualquer
na minha imaginação. Conheço muito pouco dele: um envolvimento. Para criar ficção, aliás, não basta observar
tique, um comportamento particular perante um aconteci- só as pessoas, mas ser observador de tudo.
74

A observação informa de maneira viva, reveiaclora.


Uma coisa é aprender, no primeiro ano de escola, lgnácio de Loyola Brandão
que o
ano tem quatro estações. Outra coisa é sentir
u, quutro "De onde vêm
estações na vida -- a certa altura, até no próprio esses seres?,,
áo.po.
Para criar personagens parto, assim, da observação Vêm de mim. Sou.eu mesmo, uns quarenta
, por cento.
das pessoas seu comportamento, suas expressões. perso_
Tem vez que é bem mais: sessenta, seteita,
cem por cento.
nagem é -
basicamente açõo e signos (uma gravata, por rl
Depende da piração. Mas a maior parte
aas vezes vêm de
exemplo, a expressar clesde logo uma condição ãconômica). tudo que me rodeia, das pessoas que
estão à minha volta.
Assim também as ações têm de ser não ações quaisquer, De gente que vi, observei, convivi,
arr."uirr.i, amei. Dizia
mas ações expressivas. por exemplo, falar é uma àçao Hemingway (será que dizia mesmo?)
que o escritor não
bastante expressiva; mais ainda se flagrarmos as persona_ pode ter escrúpulos. Nem com os
outros, nem consigo
gens falando coisas reveladoras de suãs vidas, mesmo. Não se confunda falta de
suás idéias escrúpulos .orn _uu_
e emoções, suas relações com a história toda. -caratismo; são coisas Llistintas, no
caso literário. Se uma
Mas é tão ou mais importarrre flagrar também os pessoa pode forlrcccr daclos ricos para
um personagem,
gestos, mesmo os menores _ e até mais eibs, bem como por que não utilizá_la?
os olhares, tiques, roupas, clctalhcs _ que falam a seu Bebel foi tira«la de uma estrelinha
cla tevê Record
modo. Olhar nao tcnl ccrca. Cacoetc ó sinai. postura é que tinha sido Miss Luzes da Cidade,
um concurso promo_
signo. Roupa é conilição. Vocabuliirio é identidade. vido pela última Hora entre as .,beldades,,do
bairro. Juntei
Contudo a observaçâo, pelo menos no que me toca, a essa menina as características de uma
conhecida estre_
não é feita como um trabalho regular, como sentar linha da televisão paulista, famosa pelas
à belas pernas e
máquina para escrever. Faz-se a to-do momento, pelo sotaque francês. Inventei umas
alimen_ fàlas, certas situações,
tada pela curiosidade natural. provavelmente há pessoas idealizei outras com o conhecimento
qu. tinha dos basti_
mais observadoras e captadoras do que muitos escritores. dore;-da televisão, porque era um
dos sãtores que eu cobria
Acontece que o criador, além do quà observa, pode na últinta Hora,
ima- década de 70. E estava pronto
ginar. sonagem.
o per_
Além de compor personagens com pedaços, momentos Adelaide, do Não verás país nenhum,
. foi tirada de
ou informações de tipos observados, pLde_se contar com uma amiga dona de pensão, onde morei
as informações do estudo e as possibilid-ades nos princípios de
da imaginação. minha chegada a São paulo. A ela juntei
É possível criar para uma personagem desde um cacoete gente de minha
família, urna vizinha que era a Adelaide
até uma morte trágica, conforme o plano. dita e feita. Essa
mulher, quieta, tranqüila, recatada, .,dona_de_casa,,,
fiel
- Criando, é preciso ter um plano, mesmo que não se
tenha dele uma concepção consciente.
cumpridora dos dcvcrcs, lllorrcu um dia.
E o que apareceu
de caso, de romance, dc amor, dc fofocas! parece
Para que o resultado final seja bom, a criaçào de existiam duas mulhcrcs. Mas scrá que
que
personagens, apesar de sua aparente liberdade, existiam mesmo?
também Ou são os mitos populares? Deixo Lssa ambigüidade
deve obedecer ao plano geral. no
meu romance. Há uma, ou duas Adelaides?
I

76
77

O Souza leva uma carga minha. O meu lado acomo- depois esteve envolvida na clandestinidade, sofreu, acabou
dado, apático, o deixa pra Iá. Tirei-o também de um amigo se matando. Era uma belíssima menina, que freqüentava
inteligente e lúcido, mas pessimista. Para que lutar? Mistu- muito o teatro Oficina no começo dos anos 60, chegou
rei num liquidificador, onde botei alguns conceitos meus a namorar o Zé Celso. Espécie de paixão de todo mundo.
a respeito da classe média; omissa, reacionária, medrosa, Ela adquiriu no livro o rosto cle Jean Seberg, que era o
conservadora etc. Acrescentei lampejos de conscientização mito da minha geração. A personagem do incrível Acossa-
e lucidez estava pronto. do, de Godard, que tanto marcou a gente.
-
O personagem sem nome do Dentes ao sol foi inteira- Acabo de me lembrar que não f;.lei do José e da
mente baseado em dois pontos: 1) o meu medo de nunca Rosa, os dois do Zero. Sabe que tem muito estudante que
ter saído de Araraquara; passei a imaginar o que seria a me pergunta' Zero vem de Zé mais Ro, abreviatura de
minha vida lá, se eu tivesse ficado, consciente de que não Rosa? -
tinha tido coragem; 2) um amigo que realmente ficou e
Olha que é engraça«lo.
depois tentou até o suicídio.
Os dois foram uma rnisturada das mais loucas. punha
Disso resultou aquele homem que nunca procurou
fazer as coisas que sonhava. E passou a viver na terrível
o que vinha na cabeça, ssm preocupações tipo: combina
com o personagem? Está dentro da linha psicológica?
angústia do: "e se eu tivesse tentadq'?" Tentar e fracassar
Ajusta-se? Não cstá ficando ambíguo? Paradoxal? Contra-
não é problcma. O suicídio, o veneno lento, é a dúvida:
ditório? Acho que este meu "não importar" é que con-
teria dado certo?
duziu ao personagem (talvez) melhor acabado, mais
Anoto falas, frases, tiques, trejeitos, manias dos outros brasileiro, "real", típico, modelo do nosso homem em de-
e vou jogando nos personagens. Tento também me ver atra- terminado momento. Claro que falo de minha literatura,
vés deles, me autocriticar. Vivo com uma agendinha no não de toda a brasileira. Zé e Rosa foram colagens aluci-
bolso, anoto escondido. Senão esqueço. nantes, delirantes, pedaços, segmentos, fragmentos de tudo
Nos meus primeiros livros (Dentes ao sol, Bebel que que rodava vertiginosamente em torno de mim, no final
a cidade comeu e Pega ele, Silêncio), o personagem Ber- dos anos 60. Mandei ver. Com liberdade mesmo, sem
nardo (meu alter ego) é constante. Em Zero, ele já apa- pensar em estruturas, coerências, linhas, porque todo o
rece rápido, sentado em cima de uma saca de feijão. Meio país andava desestruturado. Andava? Houve até um crítico
decadente. Em Dentes ao sol, ele é criticado por uma que passou o tempo todo a perguntar: mas onde está o
pessoa da cidade de onde veio. eixo do livro'/ Mandei uma carta à revista Escrita dizendo
Em Bebel, há um instante em que a personagem vai que o eixo do livro poderia ser encontrado em qualquer
a um enterro. O enterro de uma atriz de teatro que mor- casa de auto-peças.
reu de acidente. A história da aÍriz, Ana Maria, veio no Zé e Rosa nasceram dc unr sem-número de histórias
livro seguinte e se chama "Túmulo de vidro". que eu tinha prontas na gavcta. Hist«irias, idóias, anotaçõcs
A personagem de "Camila numa semana" (conto do sobre personagens. Gente de São Paulo. Sempre escrevo
Pega ele, Silêncio) foi baseada numa menina que existiu numa agenda, depois datilografo e guardo em pastas. Um
realmente e tinha até esse nome. Estudante universitária, dia, apanhei as pastas e comecei a sacar situações e a
í
I

79

escrever, montar o livro. Não foi à toa que Zero demorou Eles vivem, tenha a ceÍteza. Vivem na vida e, depois,
nove anos a ficar pronto. Anotações e materiais guardados vivem no meu papel. Mas falar no processo de criação
a partir de 64. Sentei à mesa, firme, entre 67 e 69. Entre de cada um deles é rnaterial de longa conversa. Claro que,
69 e 73 fiquei editando, aparando, limando, empurrando, se eu não os amasse, não teriam o que têm em termos
cortando, tentando seguir aquele conselho de Hemingway de vida.
a um jovem que queria ser escritor: escreva como se esti-
vesse mandando um telegrama pago do seu próprio bolso.
Isto é, cada palavra sai cara. E todo mundo entende a José J. Veiga
linguagem econômica do telegrama, porque lhe diz respeito.
Era isto, síntese. E a história dizer 'respeito. Acho que a "Não tenho a máquina de Agatha Christie."
gente lucra ao ler biografias. Era bom o velho! Quando começo a escrever uma história, o andamento
já está pcnsado c anotado em uma espécie de roteiro, uma
Assim, é de mim e do que me rodeia que esses seres
folha ou duas dc papcl, raramcntc mais. São simples linhas
vêm. Nenhum extraterreno, todos reais, carne e osso. Se
numeradas, às vczcs mcrlos dc uma linha. Seguindo as
é que personagens podem ser carne e osso. Mas essa é outra
indicaçóes dessas linhas, vou cnvolvendo e armando a his-
história. rl

tória. Mas nesse desenvolvimento outras idéias podem sur- n

gir e alterar o curso inicialmente imaginado. A certa altura


dcsse trabalho, a parte já escrita começa a "viver" por
João Antônio conta própria e a fazer suas próprias exigências, que me
obrigam a me afastar do roteiro, seja em parte, seja no
"Eles vivem, tenha a certeza." I
todo.
Fácil compreender que o meu tipo de trabalho parte Terminada a primeira versão, escrita sem maior preo-
de uma realidade; é da vida que sugo meus personagens.
cupação com linguagem, eu a deixo "dormir" por alguns
Mas, para ser honesto, cada um deles merece uma longa
dias e vou tratar de outra coisa. Depois a retomo, com-
conversa sobre o processo específico de sua criação. Em- paro-a com o roteiro inicial, para ver se os seguidos se
bora dependendo muito do que a vida me dá em termos justificam; se aúar que não, restabeleço as partes abando-
de gentes, muita vez tenho trabalhado sobre o mais que nadas, depois passo tudo a limpo, reescrevendo sempre, e
me dá um clima, um tom, uma cor, um corpo de mulher chego a uma segunda versão. Afasto-me novamente por
ou uma lua enfurecida no céu. Um cachorro, uma criança, mais alguns dias, depois releio e reescrevo, agora me preo-
o vôo certeiro, incomum e elegantíssimo das gaivotas sobre cupando mais com a linguagem e catando do texto tudo
o mar, um poema de Dylan Thomas ou um texto de Mário o que entrou no primeiro lançamento. Faço tantas versóes
de Andrade, um samba de Nélson Cavaquinho ou de Ge- quanto aohar necessário, cada uma saindo menor que a
raldo Pereira, a lembrança de um cheiro e um calor lá anterior, porquc da scgr,rnda cm diante trabalho mais cor-
na infância, a visão de um Profeta do Aleijadinho creio tando que acrescentando; parágrafos inteiros desaparecem, 1

que todo esse mundo-espetáculo tem a ver com -a moti- dois ou três parágrafos são condensados em um ou em I

uma frase. Quando me dou por satisfeito, nem sei mais


I

vação dos meus personagens. I


I
t1

se porque venci o desafio ou porque o cansaço me


foi Muito delas me foi dado por vivência pessoal: coisas que
venceu. Às vezes me desespero, rasgo tudo e me sinto per- vi, ouvi, li, sonhei, percebi de passagem na rua, no super-
dido no mato sem cachorro. Mas começo de novo. mercado. Coisas que imaginei vagamente.
Os personagens, converso com eles desde quando estou Tudo isso se deposita no fundo de nossa mente coÍno
pensando na história, antes de começar a escrever. Fico uma espécie de sedimento de fundo de rio' No tempo em
conhecendo o máximo possível de cada um' isso mais para que nos dispomos a escrever, na asa do que se chama
minha orientação, para não atribuir a um comportamentos "inspiração", e que nunca brota por acaso, do nada,
e falas que não seriam próprios dele. Os nomes dos perso- presente do céu, acontece que por 'aiguma razào remexe-se
nagens são sempre um problema, porque: 1) não gosto nessa lama, nessa areia do fundo. Ernergem, en'ão, inteiras
de darJhes nomes muito comuns, que não ajudam a carac- ou fragmentadas, em geral bem fragmentadas, essas lem-
terizá-los; 2) náo posso dar-lhes nomes esquisitos, que branças <1e experiências, minhas ou alheias: nariz de um,
prejudicariam a credibilidade. Vou testando nomes que orelha cle outr<1, sofrimcntct cle um terceiro, alegria de um
invento ou que modifico, até chegar ao nome que "agarre" quarto. 'I'uclo enr caquinhtls, pcdacirrhos. O liccionista vai
em cada um. Não gosto de nomes-símSolos, nomes-cifras, então fclrmanclo unr paincl dc rnrlsaico' com esses pedaci-
que propõem charadas ao leitor. Exemplo: Riobaldo. nhos de ger.rtc, de humanidadc.
Quando a mensagem contida no nome é imediatamente Há, porém, um outro componente, que independe de
percebida, ótimo. É o caso de Akaky Akakyevich, de Gogol mim, que não foi fornecido por mim diretamente; nesse
("O capote"), o alfaiate, homem muito tímido e evidente- momento é que o escritor pode ser "visionário", espelho de
mente também gago. seu tempo, voz de seu povo; quando nele falam as angús-
Dizem que de tanto ver Agatha Christie escrever, o tias e esperanças de uma humanidade muito maior do que
marido dela ficou convencido de que escrever é muito fácil' a pequena e em geral desinteressante pessoa do escritor:
E contou como ela fazia: punha uma pilha de papel em é o inconsciente coletivo, emergindo.
branco do lado esquerdo da máquina; pegava uma folha,
metia na máquina, ia enchendo; quando acabava essa folha,
tirava da máquina e punha do lado direito; pegava outra Lygia Fagundes Telles
folha cia esquerda, enchia, passava para a direita; pegava
outra, enchia etc. Quando toda a pilha da esquerda tinha "O escritor tem que atuar como um vampiro'"
passado para a direita, estava pronto o livro. Eu tenho repetido isto: acho que o leitor gosta e
Que máquina prodigiosa ela devia ter! aceita um livro na medida em que se transporta, em que
se encontra no livrcl. Como eu também me identifico, me
apaixono muito pelos mcus pcrsonagens. acredito que isso
Lya LuÍt ajude a minl-ra aproxirrraçar) com o público' De qualquer
"Pedacinhos de gente, de humanidade. ' '''
forma, os personagclts lttc satisfazcnr nrais do qlle as pes-
Acredito no que se chama "inconsciente coletivo", e soas, porque têm vida, vícios e virtudes e, no entanto,
dele vem boa parte da matéria de minhas personagens. permanecem tão intactos que não admitem inierferências.
E3
I
1
(
sào aquela: que envelhecerarn
g2 I sonagens mais corrvincentes
;;;";';';;; oi,l:1i'"..;T:;
A medida que os os- personasens "--"- ncrs modificando,
persutto5w'^" y:::*:':[-11'?iJ^tia"l
t em nossa lcmbrança'
lu*rurorrYq'
personagcm'? Bcm,
esse ó um
Porque nós vamos rão ou uma
raploo' l'sar disrarce
nreciso escrever TT* que aproveitar i'"]ti";u;''ã"u*u o que
àté m"rmo 'ou u intruà'itü-átr"t'
qtt*"' o escritor tem que "",rJ.3,,1i?i.' p"t" e-" passe como criação
o momento, tnnou"tJ"ttiã maquilagem especiat
ã,ou, .o,,o ,,* l"'"3::: , #'+: ;f:Y':n às vezes é conttssao'
personagens com sangue
nas velas'
verdade, o autor
tamoeut ",1'':^i,'.-;,e
do seu sansue no -XÍ:tX
mistério da Não é fácil moldar
«le-oúá 'u^"iosa que nunca lograram
ti:
iâ ;' ;'; ;"u' i'^i
H;;;-;;. se alimentam Os perso- Há romancistas
criãção. Quando tt'tinã
u* livro' estou esvaída' aventura' nenhurir. os que.'
":" i3;#:tTd;,
#;;;t a próxima autores' sequel
nagens e eu entào *"t"tt'^u.-""tâ d" outros
làpttidlT:ntt, a mesm '
personagem
"Até usados' Outros u"* de espelhos' E tantos
e
.,.,,,.,,". p"ra.i"
como Se ",.. partindo pn'1' t" malabarismos
it"i"
Marcos ReY tantos fogenr a"t*tt qu" costuma irnpressionar
de linguagcm t t"'it.,'"""tl"t'
"Eles não vêm do
esPaço'"
dispara a ;-.;i,i;, ã tlá n"* t'le gcnialiclacle'
á"
Eu pertenço uu nuipt "'c'itu'e: :ot 'U
r
máq uin u tre esc rev e
il:: f ;.r,,H::: :: l; m x'#: ?tÍ: Marilene Felinto
::fr.':1i;5:T."",,:"*'L"
e'tu' pl::i* respirar' ricar
I*úta' Valorizo ,itl*#;"T:i:; "De onde vêm esses seres?"
de pé, circular' ru"' gera'lmente';a' pt'g'no o escrever me flagra como
Qualquer
flagradas num canto
'obre da sala'
;;t;;: que histórias.porque e ate o elenco de figu- iá vi certas crianças';;;; fun-
a sinopse de sua
''";'";;-t;redo" a história runt"l;';";? almofada' as màos
,unt.r' No meu w'Z' ii*à'ia1 le um
Lntrcti,las nu*u oslábios murmurando
tt'oo ^yisolô'
p"'"'ffit*' melhor num
cionanJo em nào ,.
::# qr""'i"tr"t. qualquer' Enternecido'
nasceu depois ou ::^1j"*u urrl, áií.rrro.
conto ou romance
quando isso. acontece'. baixinho um diátogo'JJ Ela sorrt'
você se apr.xima " ;;;**';;'"'" envergonhada'
responder:
Mas há i"t'unta Ieita 9[^t-lntarei escrevesse meio
1:^t::.ralava' levemente
"u
esses I"'!* e"t'" "*lmesmo oue
que' subitametrtc intt"oÁpiãu' íã0"" ninguém"'
de onde vêm
il,* .,;il' :;" j:n'.: i1,i::t'l: .'"'p.'nd"'í"]"-ot'
irritada, "1-.*' ali no canto
:n*:",m o *u"ll-ou"
rJelicado
se fiava silencioso
e de nin-
gordos' é preciso pes-
da sala cvapora I* "t:t ':tut-o: nada
i'.'i.:",,,"Jl,:: ;
::ffi?"i:l'*t#";;;;o-'"'' 'ui' . ""t"
profundo da memória'
cá-los no oceano
lite'atura' ttàtr basta
que a perso- e"e. s :,*:tjlfi;Xll;.il:
Nos caminho' tta criattça' ó uma exigôncia

nasem'i*pt"m"n't'1;':;
;; " :Tlltl',i",*T:;1"0: t A;::iii*'""r""';';;' po'" "
cm passos de sapato
com a pessoa que de realidade o";:;;']'l'g'"'"tra irritante o
loancma. ('onvrver criativitlade aí fica n""t '"^ in"vaclc cle realidade
Gente não se inventa; a que ela "uutt":;;;'
indispensável' talvez as per-
áã"totOgtuto' Por isso
por conta do talen;;

I
tq
85
84
--
sonagens e «le criar situações. Personagens e situaçóes é
canto da sala recanto sagrado onde o mundo se cons- que servem de suporte para tudo o mais, inclusive para as
trói a partir da -falta (nada/ninguém), nunca pela presença. idéias que o escritor eventualmente vincula e que, nao
Um personagem começa a existir a partir do que não fossem os personagens e as situaçites, transforrnariam sua
sou e preciso, com urgência, ser; a partir do que sou e rtão obra em ensaio ou reportagcnr. A irlrr,;ao pclo personageÍn
sei ou não encaro ser; a partir da nuvem nublada de mim é que faz o escritor. Uma atraçatl c1uc, afirlal, todtls lemos'
mesma, nuvem que vou cortando e recortando em infinitas Todos queremos scr pcrsol)agcns. Eu tlrcsnto () quero'
caras de mim, até que eu adormeça, até que tenha contado Quem escreveu esse depoinlcnto ltli utu l)crsonagcm chama-
todos os carneirinhos (que também são flocos de nuvem), do o escritor Moacyr Scliar, quc niio cxistc ua vicla real e
até que o sol brilhe por instantes no dia seguinte e depois que só desperta dc sua letargia cnl nlomcntos especiais,
tudo recomece a se formar no céu nublado que torrlarei como este, de jogar cont palavl'lls Para so apresentar, en-
a montar e desmontar em caras e bichos de mim mesma. fim, como persol)agcnl.
E um personagem é tudcl o que, em você, eu amo
porque não posso ser; tudo o que, de você, eu gostaria de
ter, tudo o que, em você, eu odeio porque não posso ser, Renato Pompeu
ou porque sou e você me faz ver. É você, enfim, apre-
sentável. Sou eu, cnfim, aprescntável. Você e eu resgatados "E,les parecem sair da máquina de escrever."
no moclelo do cluc dcvcria scr. Um personagem ó um filho Creio que cada escritor tem um modo diferente dos
nascendct (dc um sonho cgoísta'l) no canto da sala' Ou, outros autores de criar personagens. No meu caso, é preciso
então, é apenas um ponto rra almofada que, de mentirinha, lembrar que meus romances são muito mais à base de
foi virando lua, foi virando jantbo, foi virando ganso, foi reflexão do que de fabulação, o enredo em geral é muito
virando Beto, foi virando Vera e virou verdade. tênue e os personagens não parecem gente de carne e osso,
- são, isto sim, entes tendentes ao abstrato, que raciocinam.
São assim vozes da consciência e, dentro da consciên-
Moacyr J. Scliar cia, da consciência mais racional. Assim, o que move mes-
mo os personagens dos romancistas de fabulação, as pai-
"Os personagens vêm da imaginação do escritor." xões humanas, quase não aparecem em meus livros'
De muitos lugares, isto é certo. Da infância. Do dia-a- Embora inspirados em pessoas que conheci pessoal-
-dia. De um encontro casual na rua. De uma foto ou notícia mente cm cliferentes circunstâncias da vida, ou em mim
de jornal. Das páginas da História. De um sonho ou de mesmo, meus personagens não são essas pessoas que co-
um pesadelo. De uma associação cle idóias. De um desejo nheci. Antes, sito tt quc imagino que, no limite, essas pes-
de se auto-retratar (Flaubert: "Madame Bovary sou eu"). soas deveriam ponsar dc si mcsmas' sg as pessoas realmente
Mas isso se refere à origem mais remota. Em última fossem lógicas. Daí a cstrarlhcza quc mcus personagens
análise, os personagens de ficção vêm da imaginação do causam a certos leitores, pois cstes não se reconhecem na-
escritor. Não é a capacidade de bem retratar que faz um queles, dado que a maioria das pessoas não age segundo
escritor de ficção, mas sim a capacidade de imaginar per-
uma lógiga imanente, segundo um raciocínio,
mas levadas
por paixões.
, Meus- personagens, assim, nâo passam de abstrações,
de vozes da consciência. Essa cons"iência, sem
dúvida, é
a minha. É verdade que isso se dá mesmo .o*
or'"Éri_
tores de fabulação exuberante. Lembramos
Gustave Flaubert: .,Mme Bovary sou eü,,. Mas
a frase de Vocabulário crítico
vejo que {r
não respondi à pergunta sobre como crio meus personagens.
É porque não tenho a menor idéia sobre como os crio.
Não é deliberado nem consciente. Inspirados em
mim mes-
mo ou em outrâs pessoas, eles parecem sair da máquina
de escrever.

Adiuvante au Coadjuvante: pelsonagem secundária que


estál ao_ lado do protagonista ou dó antagonista qur,
como eles, pode estar individualizada ou não. O" aOiu_
vante pode também ser figurado por meio de um eie-
mento não humano: uma máquina, uma fada, um animal.
Antagonista: é o opositor, o protagonista às avessas, IVÍuitas
vezes, o antagonista é uma só personagem. Outras, pode
ser manifestado por um grupo de personagens, inàivi_
dualizadas ou representantes de um ceÍo grupo.
,
Ãrbitro, "/alz: personâgem que funciona como um elemento
decisivo dentro de um conflito, fazendo a balança pen-
der para o lado do protagonista ou do antagonista.
Ator e Actante: sob a perspectiva funcionalista, esses dois
termos substituem e recobrem a personagem, elemento
estrutural que participa'das etapas narratiías, construin_
do a fábula, guiando a matéria narrativa em torno de
i um esquema dinâmico, concentrando em si um feixe de
I signos em oposição ao feixe de signos'de outras per_
t sonagens.
I
Caricatura: personagem plana marcada por uma qualidade
I ou por uma idéia que, levada ao extromo, funeiona como
I
9l

Este é, sem clúvida, unr livrcl lurrdamental para quem se


propõe a estudar tl l)clsotlallcnr, pois rcúnc quatro ensaios
I 'l'c.ria da Literatura,
àe especialistas ont tlilcrcrrtcs lirc^s:
Filosàfia, Teatro c (linctrllt, pcrntitirlLlo t;ttc o leitor acom-
panhe uma tliscttsslio tlttt' vlti tlesr'lc tr cottccrittt ilc lite-

Bibliografia comentada .utu,"a1éasllitrtictrllrritllttlestltrsse.Itlsl.ictícitlsn0


romancc, Iltl Ielttt'o ('ll() t'illclllil'
I

t
caltros, Flaroldo clc. Mor!ol0gitt rlrt Mttt trttrtlrrtrt. Sittl Pau- i
lo, Perspectiva, 1973. I
Nesse rigoroso lr.ir[.rirllr., ():t.l()r rrliliz.-se tl.s cstuclos
dePropppararcltlizlrrtllllillt'itttrlrctlitllrr.ltlslttleMa_
..lrrrr1]t' tlc ser tlllla obla \
cunaínla-, dcnltlttslt.ittttltr tlttt'
caótica e malrlllI.lttl:t' ;ltt.sitlirllr lltlr ttttt :tsst;ciaIivismtl I
'lrsicolrlgisrtrrl' de
subjetivista tho u() 11oslo tl0 |ritttt'ito ü
I
seuautor'ótltttlttllrtltttlt.Iiettltlsltlttctttccstrtlturadade
Paris' Payot'
Basu, Françoise. Le'ç lemmes vit'toriennts' acordo com ()s lrt.ittt.rllitls tlt' ctle t.t.ttcilt 'stti 11tncris, clireta-
19',19. mente hauridtls ttlt lril',it':r l:rlrLrllrr' cxplicírveis à luz da
e a sociedade' a
Na trilha clas rclações ctrtrc t:r romance tipologia fttttc'iorllrl ptoppiitttit ( " ' )"' lisse livro deve
autorâalralisaactlrr<liçãodasrrrulheresnalnglaterrade ser inúuítlo rrir lrilrliolir;rli:t Ittíttilltir tlos quc se interessam
os romances
vittlriana c as personagcns que povoam por persollilllcll:' (' pt'llr ptosit brasilcira nroderna'
de E'lizabeth
Dickens, de Thackeray, dut irmãs Brontê' Cotul'',ru, Nclly. /'/rr',çittlrtilt tlrt r()tttotl' Paris, A' G' Nizet'
que as mulhe-
Gaskell, cle George Eiliot, demonstrando 1966.
ficção, são vistas no contexto de
res, na realidade e na Nessa intltortitttlc ()l)!ll, ll itutora dedica o capítulo 3'
unraideologiadominantequelhesimpõepapéisinfle- intitulatlo "l.cs t'lclttctlts ;lrin'raires du roman: I'irtrigue
xíveis. Vale a Pena conferir' e[ lcs pcrsor)llilg,cs", à rolaçatl existente entre "história"
BounNgur', R. & OurrET, R' L'univers
du roman' Par\s' a parrlr,,,,g.tlt. Allcsar clo «iiscurso entusiasmado e às
Presses Un. de Ftance, 1972' uer., n,r.,ii,, crtttltivtl, o leitor vai cncontrar desde uma
o leitor
No .upítrrlo 5, intitulado "Les personnages"' crítica a definiçao tlc lotttaltc0, relativizando a antiga e superada
"his-
e distinçào ctttrc lor-lna c conteúcio, até a definição de
vai encontrar uma abordagem informativa ç111111)lc1o cle acontecimentos ou de paixões
tória"
respeito dos vários aspectos que envolveT ":rr:-::U:-.1: -
de sua exrs- desenvolviclils llo [cn1po e que coloca em cena perso-
estudada aqui sob a perspectiva
;;;;;"g"*, nagens irnagirrirlios, llllts (ltlc l)arcccm dc carne c osso
tência e estruturação no romance' passando llclos cottccitos dc plrtt c <'rttttpktt (trama
A'; Pne'oo' Décio de A'; -,
CAN»loo, Antonio; RosBunnrn' bem urdicia que dii arcs dc vcrossinrilhança e legitrmi-
Gorvrts,PauloE.S,Apersonagemdeficção"SãoPaulo, dade à narratlva ) c llclas tnattelt as dc roalização do
PersPectiva, 1968'
92

núcleo dramático. Esse capítulo é bastante importante 93


para a reflexão sobre as relações que se estabelecem Reunião de vários ensaios, esse livro apóia_se basica_
entre a personagem e os demais elementos que compõem mente em resultados de uma pesquisa realizarJa no
um romance. Reci_
fe, nos anos de 1969 a 1970, por estudantes de Antro_
DaNZlNcEn, Mariles K. & JoHNsoN, W. Stacy. Introdução pologia da Universidadc Federal cle pcrnarnbuco e por
act estudo crítico da literatura. São paulo, Cultrix/ assistentes de pesquisa do Instituto Joaquim Nabuco
de
/Edusp, 1974. ôÍ Pesquisas Sociais. O projeto c a redação clos resultados,
Este livro pode servir como iniroclução geral ao estudo assim como a orientação, são de Gilberto Freyre, que
da personagem. É um comentário rápidã, superficial e teve por objetivo estabelecer as relações entre a inter_
sem muitas novidades, que procura discutir os cuidados pretação literária ou humanística do comportamento
hu_
que o crítico deve ter ao utilizar a palavra personagem mano e a interpretação cientificamente antropológica,
apresentando as formas de caracterização <lesse ao*po_ psicológica, ecol<igica e sclciológica ilesse comportamento.
nente da narrativa. O leitor iJeve estar atento para a lin_ GolouaNN, Lucicn. Á .v.t<.iolrtgitt rlo rortrttnn,. Rio de Ja_
guagem pouco criteriosa ,rtilizada pelos autores, apesar neiro, Paz e J'erra. I9(r7.
do livro se propor um estudo crítico, especializadô, da Ao analisar o roma!rcc. o autor aponta a homologia en_
literatura. tre sua estrutunl e a ila sociedacle, utilizando paia isso
ct alii. 7-erria du literatur,: lormalislas russos.
Erxe r{sAr.rNr os métc, los da Sociologiu Ilstruturalista Genética. Apro_
Porto Alegrc, Globo, 1971. veita de Lukhcs a cokrcaçiio cm paralelo cle valores
Nessa cdição, que conta com um prefácio esclarecedor "degradados" e r-'oloca crn relaçao jirléti., o
herói e o
de Boris Schnaiderman e apresentação e posfácio de universo afrclltlado.
Dionísio de Oliveira Toleclo, o leitor àispOe àe dezesseis LuxÁcs, Gy(irgy. 'l t,r»iu do rotttancc. Lisboa, presença,
importantes estudos ligados à problemática do formalis_
s.d.
mo, ao poema e à narração, podendo avaliar as teses e
Nessa obra, Lukiics aprol uncla os esluclos sobre
as contribuições dos formalistas. a natu_
reza, a gênese e os canrinhos cro ronrancc, rcracionancro
FoRSTER, E. M. Aspectos do rotnanr:e. porto Alegre, Globo, esse gênero com a concepçào cle munclo burguôs. A
1969. discussão acerca do herói aparece como um ponto
rele_
Obra marcante no que diz respeito ao estudo da per_ vante para o estudo da personagem.
sonagem e do romance. partindo do princípio
de que MutR, Edwin. A estruÍura d.o romance. porto Alegre, Glo_
a personagem é uma entre as outras partes do I
ao_uraa bo, s.d.
como tal, sofre as transformações próprias do gênero, ", i O autor se propõe estudar os princípios estrulurais tlo
o autor apresenta a famosa classificação: personagens romance, procuralrd. demonslrar a rclevância d. enreclo
llat e personagens round. e tentando definir a apreensão pelo leitor rl;rs r:af egorias
FnryRe, Gilberto. Heróis e vilões no romonce brasileiro. espaço-temporais. _Explica âs pcrson agelrs como se ndo
São Paulo, Cultrix/Edusp, 1979. produtos de determinaclo enredo c cie determinada estru_
tura romanesca.
i
'Éà ., -a ll

s' I
EsDaÇo o Íomanco
a'itônio Dimas

,-iiia. Wadimir. Morphotogie ctu conÍe. paris,


Seuit, Jl SEGoLTN, Fernando._ personagem
95

e
t ü!àT :??:Í.,:;;:;::;.lt::,;:y::17::);":,Í:íf;;:; t Partindo da concer
antipersonagem. São

L'étude
I.' étrr,-t- structurate
otet,^.. --- -,
typotosi""ir"álirí7'lt"riíri
et.dyr
vai encontra, . ..ãa"logia utilizada
I
;il; ;;é;, il;ff
ceito
Í:.' H$:l :',Í:"1';;:f_::T,i Jjl.
pelo autor para de funÇão narrariva. pr;pp,";;abalhando
d"
i sonagem-funÇão, sua evolução a per_
;:'::I;:::x'-"""'TTu::,*y_,13.,L1'*r.,iã.í*" ô
as personagens. É um livro
fundamántal dados os seus chegando à caracterizaçao
rrn'p".*nugem_estado e
<io p;;.i;;;;,o
aspectos inovadores e a sua nagem e daí a antipersonagem como perso_
repercussão. da narrativa moderna. É
ReIMoNo, Michel. I-e^roman um estudo curioso e muito
depuis la révolution. paris, lem feito, poi, up..r"nta uma
Armand Colin, 196g tipologia da personagem_narrativa
baseada nas suas ca_
Composta de duas partes racterísticas de ser da linguagem.
* (,[fis16i1s
du roman depuis
la révolution,' e ,ánthol"gi" StLvA, Vitor Manuel de
;;;;,qie e critique,, _, dguinl e. Teoria da literatura.
essa obra reúne 44 textos
de ara"itor., que se pronun_ São paulo, Martins FontÃ,
ln6:,.
ciaram sobre o romance (entre a respeito.rlr, p"rronug.m enconrram-se
Proust, Zola, Valery, Dujardin,
eles, Madame de StaêI, 1-, .l"i,.y":
capítulo 5, ..O no
t_uta.r, Cotdmann), que, roma',".,', ..r.pr..nãiãà .n,."
facilitando a consulta ú;Uliog.efi.u 249 e 348. De mancin as páginas
.'o- o""rro a esses ú"r,r*" ãiãàiirl ,,,o. Manuel
importantes cstudos, possibilitam parte de uma obscrvaçâo dc Roland
ao leitor visualizar o Banrsrs, R. rnrr«rd.ucrion i, i.;;;í;;' B;-rÃ., (contida em
caminho do romance moderno
ficção.
e da personagem de récits. Crmttttunit,uttotr.r, g, : I6. structurale des
paris, seui t, t rt 1g66.
i,."p'. t' h) ; r.s;;à.';"ir;r",,,
Scuotrs, Robert & KrtLoc,
Robert. Á natureza cla narra- nagem, ou pekt nrcnos sent "*. ot
!r7 It
tiva. São paulo, McGraw_Hill,
19,7i. menrc narratiúa, poi,;.a
agente, não ixiste verdadeira_ /ll
O capítulo 5 dessa obra, intiíuluao',,O t'unç.ao e o signilicado das ações
personagem na ocorrenrcs numa sinlagnuÍtica
narrativa", começa com uma norroiro'
a"p"nar*')rf-
citação tiraua de The art mordialmente da abibuição
ol fiction, de autoria do escrito; ou ,"i;;;r; dessas ações
;".;.; James. Nesse a uma personagem ou a
um agenle,,. Em seguida, discute
trecho, o escritor faz algumas de maneira rápida, mas bastait;;r;d;;
J
I
p".gonirrr. algumas afir_ uma postura
mações a respeito da relação
.*lrrãnr. *i re personagem teórica assumida contemporan.u..n,, - 1

e incidente. Com ba.se nessa designação e ao


cãm
" relação à I
citação, os autores comen_ conceit.;. ;;;;;;;;. I
lam a postura de H t
dade dà di,ti ; ç;;'J,T', j:,T::,:
cercando o probrema através
:'il,,';, #"*:,r,i; I
I
cro poder J"
de grandes escritores; Homero, "urr.t.riruçãn iI
ten, Virgílio,
láv""'ülrr.n, Jane Aus- I
VirgÍnia Woolf, É-u.r,--Oostoiévski 1

outros. e i
I
I