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educacao-infantil

Publicado em NOVA ESCOLA 27 de Maio | 2019

Educação Infantil

Campos de Experiência na prática:


como trabalhar “espaço, tempo,
quantidades, relações e
transformações” na Educação
Infantil
Quinto e último Campo de Experiência propõe a exploração e interação com
o mundo exterior, objetos e pessoas como forma de enriquecer o repertório
de conhecimento das crianças
Lucas Santana

No quinto Campo de Experiências da BNCC, as crianças exploram e interagem com o mundo


exterior, objetos e pessoas para ampliar seu repertório Crédito: Getty Images

Nas últimas semanas, NOVA ESCOLA voltou suas atenções para os Campos de Experiência da Base
Nacional Comum Curricular da Educação Infantil. Trouxemos, ao longo de uma série de matérias,
relatos de atividades desenvolvidas por educadores de todo o país com base nos conceitos e propostas
do novo documento da Educação.

Nesta série, iniciada com "O eu, o outro e o nós" e seguida por “Corpo, gestos e movimentos”, “Traços,
sons, cores e formas” e “Escuta, fala, pensamento e imaginação”, NOVA ESCOLA traz exemplos de
atividades que professores de todo o país estão desenvolvendo com bebês e crianças tendo como
base os Campos de Experiência. Também fomos buscar a análise de especialistas sobre os principais
tópicos dos campos – e que você pode complementar com curso sobre o tema e planos de
atividade produzidos pelo nosso Time de Autores.

CURSOS Grátis: Os Campos de Experiência na Educação Infantil

Para finalizar a série, nos dedicamos ao último Campo, “Espaço, tempo, quantidades, relações e
transformações”.

Conheça os 5 Campos de Experiência


Os 5 Campos de Experiência ocupam espaço importante do novo documento da Educação Infantil. São eles:

1 O eu, o outro e o nós

2 Corpo, gestos e movimentos

3 Traços, sons, cores e formas

4 Escuta, fala, pensamento e imaginação

5 Espaço, tempo, quantidades, relações e transformações

PLANOS DE AULA Veja planos de aula que incluem Campos de Experiência

Crédito: Getty Images

CAMPO DE EXPERIÊNCIA: ESPAÇO, TEMPO, QUANTIDADES, RELAÇÕES E


TRANSFORMAÇÕES

As crianças vivem inseridas em espaços e tempos de diferentes dimensões, em um mundo


constituído de fenômenos naturais e socioculturais. Desde muito pequenas, elas procuram se
situar em diversos espaços (rua, bairro, cidade etc.) e tempos (dia e noite; hoje, ontem e
amanhã etc.). Demonstram também curiosidade sobre o mundo físico (seu próprio corpo, os
fenômenos atmosféricos, os animais, as plantas, as transformações da natureza, os
diferentes tipos de materiais e as possibilidades de sua manipulação etc.) e o mundo
sociocultural (as relações de parentesco e sociais entre as pessoas que conhece; como vivem
e em que trabalham essas pessoas; quais suas tradições e seus costumes; a diversidade entre
elas etc.). Além disso, nessas experiências e em muitas outras, as crianças também se
deparam, frequentemente, com conhecimentos matemáticos (contagem, ordenação, relações
entre quantidades, dimensões, medidas, comparação de pesos e de comprimentos, avaliação
de distâncias, reconhecimento de formas geométricas, conhecimento e reconhecimento de
numerais cardinais e ordinais etc.) que igualmente aguçam a curiosidade. Portanto, a
Educação Infantil precisa promover experiências nas quais as crianças possam fazer
observações, manipular objetos, investigar e explorar seu entorno, levantar hipóteses e
consultar fontes de informação para buscar respostas às suas curiosidades e indagações.
Assim, a instituição escolar está criando oportunidades para que as crianças ampliem seus
conhecimentos do mundo físico e sociocultural e possam utilizá-los em seu cotidiano.

Trecho extraído do documento Base Nacional Comum Curricular

O quinto Campo de Experiência da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe que os educadores
estimulem nas crianças a exploração, a observação do meio e dos objetos. “É uma iniciação ao
conhecimento matemático, ao espírito científico, à atitude de descoberta e aprendizagem
permanente”, analisa a consultora e doutora em Educação pela PUC-Rio Andrea Ramal.

É também este campo que sugere que os pequenos devem ter os primeiros contatos com os
fenômenos socioculturais presentes no cotidiano das crianças. “Nesse campo as crianças serão
inseridas em espaços e tempos de diferentes dimensões de fenômenos naturais e socioculturais, ou
seja, os educadores devem promover experiências em que as crianças possam manipular, conhecer,
observar, investigar e explorar os conhecimentos do mundo físico e sociocultural”, explica a autora e
coordenadora pedagógica Aline Castro. Isso significa que bebês e crianças comecem a ter
conhecimento sobre relações humanas, família, parentesco, costumes, diversidade.

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Esse campo de experiência está profundamente ligado à curiosidade inata das crianças. “O professor
pode desenvolver temáticas com as crianças e aguçar ainda mais a sua curiosidade, pois elas já
interagem com tais conhecimentos o tempo todo em seus cotidianos”, aponta Kelly Lotz, especialista
em Arte, Educação e Tecnologias Contemporâneas pela Universidade de Brasília (UnB).

Reunimos, abaixo, propostas desenvolvidas por educadores da rede pública brasileira que têm como
base o Campo de Experiência “Espaço, tempo, quantidades, relações e transformações”. É sempre bom
lembrar que as atividades podem e devem se relacionar com mais de um campo de experiência
simultaneamente. Aqui, sugerimos propostas que têm preponderantemente o 5º Campo como norte.
Para ver as atividades, é só clicar no triângulo na barra cinza escuro para abrir e ler o texto. Confira:

A CAIXA MISTERIOSA

IDADE: Bebês (0 a 1 ano e 6 meses)

Peguei uma caixa e coloquei diversos brinquedos. Na parte superior da caixa, eu prendi
vários fios de modo que ficassem entrelaçados. A ideia era que as crianças tentariam
retirar os brinquedos da caixa e, por causa dos fios, alguns objetos sairiam com mais
facilidade e outros, não. Eu previ que, dependendo da idade, algumas crianças
conseguiriam pegar os brinquedos mais facilmente. Mas me surpreendi com o resultado:
quase todas as crianças conseguiram retirar os brinquedos da caixa. Com isso tive que
confeccionar um novo material com um nível maior de dificuldade para que eles
conseguissem alcançar os objetivos da atividade.
Ana Paula Souza Borges, Centro de Educação Infantil “Professora Odila Azevedo Marques
Paiva”, Extrema (MG)

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM TRABALHADOS

- Manipular materiais diversos e variados para comparar as diferenças e semelhanças


entre eles (EI01ET05);
- Explorar o ambiente pela ação e observação, manipulando, experimentando e fazendo
descobertas (EI01ET03).

APRENDIZADOS

De acordo com a BNCC temos sempre que respeitar a autonomia da criança então
estamos sempre em busca de atividades que venham de acordo com a necessidade delas.
Na minha turma de berçário tenho 25 bebês na faixa de (4 meses a 1 ano e 3 meses). Pude
perceber que quando levamos uma atividade para a sala, as próprias crianças acabam
mostrando qual será a próxima atividade, pois fica visível a necessidade de cada uma.

GELO PARA EXPLORAR O MUNDO

IDADE: Bebês (0 a 1 ano e 6 meses) e crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3


anos e 11 meses)

Pegamos várias forminhas de gelo e enchemos com chá e um pouco de açúcar.


Separamos pequenas flores e ervas como manjericão, alecrim e marcela que cultivamos
em um canteiro na escola. Depois de lavadas, as flores e ervas foram colocadas nos
compartimentos, juntamente com o chá. Nossa intenção era tornar a experiência mais
atrativa para as crianças na hora de sentir a temperatura e o sabor dos cubos de gelo –
aguçando a curiosidade dos pequenos.

Nossa expectativa era que as crianças levassem os cubinhos de gelo à boca e pudessem
sentir o gosto e o aroma dos chás. Na hora de desenformar os cubinhos, colocamos todos
numa bandeja e deixamos al alcance das crianças para que experimentassem os gelinhos.

Loen Cristy Lucatelli, E.M.E.I. Olga Machado Ronchetti

OBJETIVOS DE APRENDIZADO TRABALHADOS

- Explorar e descobrir as propriedades de objetos e materiais (odor, cor, sabor,


temperatura) (EI01ET01);
- Explorar relações de causa e efeito (transbordar, tingir, misturar, mover e remover etc.) na
interação com o mundo físico (EI01ET02);
- Explorar o ambiente pela ação e observação, manipulando, experimentando e fazendo
descobertas (EI01ET03).

APRENDIZADOS

Inicialmente, as crianças olharam para os cubinhos de chá com olhares de desconfiança.


Nós então incentivamos os bebês a tocar os objetos gelados. Alguns demonstraram gostar
da experiência, pegando e largando os cubinhos gelados; outros mostraram desconforto e
perdiam o interesse rapidamente. Nas primeiras vezes, quando as crianças perdiam o
interesse, confesso que fiquei um pouco frustrada. Mas ao analisar tudo, percebi que
muitas crianças ainda estavam se adaptando. Voltei depois de algum tempo a refazer a
atividade e aí deu tudo certo.

BANHO DE LAMA

IDADE: Crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses)

Levamos as crianças para brincar com terra. Ao remexer na terra, elas encontravam
bichinhos enterrados no solo, como besouros e minhocas. As crianças usaram pazinhas
para cavar buracos. Depois que os buracos estavam abertos, nós despejamos água no
buraco. Dessa mistura de terra e água fizemos o local perfeito para um “delicioso banho de
lama”.

Nesta atividade, o envolvimento da professora é fundamental. O que nós adultos julgamos


ser “sujeira”, para a criança é um mundo de possibilidades. Misturar materiais, sentir as
texturas da terra seca e molhada, a lama, os bolinhos que as crianças faziam com as
mãos, tudo era motivo para brincar.

Após terminar as brincadeiras com lama, usamos uma mangueira como ducha. Durante o
banho, nós trabalhamos as atividades de autonomia das crianças, em atos como lavar os
cabelos, esfregar o corpo com as mãos. Também foi um momento para explorar princípios
de autocuidado e sustentabilidade, como uso racional da água e tempo de uso do chuveiro.

Monalisa Martins de Oliveira Costa e Letícia Rodrigues da luz, Jardim de Infância Recanto
das Emas, Brasília (DF)

OBJETIVOS DE APRENDIZADO TRABALHADOS

- Observar e descrever mudanças em diferentes materiais, resultantes de ações sobre


eles, em experimentos envolvendo fenômenos naturais e artificiais (EI03ET02);
- Estabelecer relações de comparação entre objetos, observando suas propriedades
(EI03ET01);
- Classificar objetos e figuras de acordo com suas semelhanças e diferenças (EI03ET05).

APRENDIZADOS

Durante a atividade, percebemos que as crianças mais tímidas respeitaram seu tempo e
calmamente tocaram a terra e depois a lama. As crianças mais agitadas se libertaram,
pularam na lama, fizeram uma disputa de quem ficava mais lambuzado. Os “monstros de
lama” logo apareceram. A atividade gerou sons, gestos, risadas. E nós, como professoras,
passamos a fazer parte da brincadeira.

A atividade também foi um momento de respeitar o momento do outro, a relação que cada
criança criou com o espaço. Enquanto uns sentiram nojo e medo, outros demonstraram
alegria e euforia. Algumas crianças ficaram concentradas com seus potinhos, colheres e
montinhos de lama. As crianças se perceberam como parte desse meio ambiente,
afetando e sendo afetadas pelos elementos naturais.

Dentro da brincadeira, as noções de muito, pouco, mais e menos ganharam significado. O


corpo se torna um espaço para sentir: o frio da água que sai da torneira, a lama escorrendo
pelas pernas, os pés afundando nas poças.

Após o banho, deitamos todos na grama para apreciar as nuvens, o calor do sol e para
comer um espetinho de frutas. Ao ouvir as crianças após o banho, elas disseram “que foi
muito legal, o melhor dia de todos”.

EXPLORANDO E CONSTRUINDO COM MATERIAIS DE LARGO ALCANCE

IDADE: Crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses)

A atividade proposta acontece no momento em que as crianças estão no parquinho.


Disponibilizamos os materiais pré-selecionados – potes de diversos tamanhos, caixa de
ovos separadas pelo pessoal da merenda, pneus, tampinhas de garrafas plásticas, cones
de linhas, caixas de papelão. Colocamos os materiais em diferentes espaços do parque,
permitindo a livre exploração e observando a interação das crianças com os objetos.

A lista de materiais não estruturados é bem grande e não precisa ser disponibilizada de
uma só vez. Dependendo do número de alunos da turma, é possível disponibilizar entre 4 e
5 materiais de cada vez e depois ir trocando por outros. Antes de iniciar a atividade, é
importante conversar com as crianças e explicar o que irá acontecer – deixando claro quais
materiais estarão disponíveis para a exploração. É muito importante utilizar apenas objetos
que sejam seguros para manuseio das crianças.

Iara Felix, E.M.E.I Octávio Tegão, São Caetano do Sul (SP)

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM TRABALHADOS

- Coordenar suas habilidades manuais no atendimento adequado a seus interesses e


necessidades em situações diversas (EI03CG05);
- Estabelecer relações de comparação entre objetos, observando suas propriedades
(EI03ET01);
- Classificar objetos e figuras de acordo com suas semelhanças e diferenças (EI03ET05).

APRENDIZADOS

Proporcionar esta atividade para as crianças é sempre muito agradável e surpreendente.


Vê-las interagindo com os objetos e atribuindo diferentes significados a eles é no mínimo
encantador, pois revela sua criatividade e o desenvolvimento de sua apropriação cultural.

No início no ano, a turma não tinha tanto repertório para explorar o largo alcance, mas com
o passar do tempo e a repetição da atividade, foi possível notar um aumento do repertório
de brincadeiras, melhoria de suas narrativas e coordenação motora em geral.

Foi uma série de aprendizagens para as crianças e para mim, que pude perceber como a
repetição com intencionalidade e o sequenciamento de uma proposta pode ampliar o
repertório das crianças e auxiliar no seu desenvolvimento.