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Richard Foxe

VIAGEM AO CENTRO DO
CRISTIANISMO

© 2018-2019-2020

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SUMÁRIO

O problema central do cristianismo 3


Onde nasceu Jesus? 9
A virgindade de Maria: fato ou mito? 11
A Bíblia é a palavra de Deus? 13
A Bíblia e a origem do monoteismo 16
Elucidando os milagres de Cristo 20
O “Cristo pagão” 23
A doutrina original de Jesus 25
A mensagem secreta de Cristo 28
Jesus Cristo: hippie ou guerrilheiro? 31
Jesus ressuscitou dos mortos? 36
Nero e a perseguição aos cristãos 39
Cristianismo e irracionalidade 43
O culto aos santos é uma forma de politeísmo? 48
Uma carta de Madre Teresa 52
Qual a religião que Deus prefere? 54
Jesus era casado? 56
Porque não sou cristão 57
Morte e ressurreição do paganismo 63
O milagre da multiplicação dos prepúcios 66
A crucificação de Jesus e o enigma de Talpiot 69
A morte, Deus, a imortalidade 73
Os mártires na Antiga Roma 79
As raízes religiosas e culturais da Europa moderna 85
Ética e moral na Roma pagã 88
A verdadeira origem do Cristianismo 92
Os horrores da Inquisição 97
O Demônio 103
Doze perguntas que não querem calar 106
Matéria e Espírito: existe diferença? 111
Em nome do Pai, do Filho, e... 115
Inferno e Paraíso 119
Milagres do Paraíso 122
A verdadeira natureza de Deus 125
Universo Pessoal (Conto Metafísico) 130
Deus está no kommando 139
Significado e importância da conversão 143
Considerações sobre a existência de Deus 147
O ano em que nasceu Jesus 151
O triunfo do Cristianismo 153
O genocídio das bruxas nos séculos XV-XVI 157

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O PROBLEMA CENTRAL DO CRISTIANISMO

Todos os seguidores do cristianismo, sejam eles católicos ou protestantes, justificam a sua religião citando
passos do Novo Testamento onde está escrito que Jesus cumpriu certos milagres, que profetizou
determinados eventos e que disse isso ou aquilo, alegando que se trata de verdades absolutas nas quais temos
o dever de acreditar cegamente. E é justamente sobre as Escrituras que se rege aquela imensa construção
teológica que é doutrina cristã. Agora é evidente, e o leitor intelectualmente honesto não poderá que
concordar, que qualquer construção teórica, mesmo a mais elaborada e complexa, perde valor se os seus
alicerces não forem bem comprovados e isentos de dúvidas. Em outras palavras, é necessário saber até que
ponto os Evangelhos relatam uma verdade histórica ou se apenas refletem uma visão apologética e
catequética apta a reforçar a fé das primeiras comunidades cristãs: esse é o verdadeiro problema central do
cristianismo. No testo que segue será mostrada e explicada a gênese e a correta sequência dos livros que
compõem o N.T. buscando elucidar se e quando sofreram alterações significativas.

Antes de proceder, é oportuno lembrar que nenhum dos Evangelhos, na forma como os conhecemos hoje,
foi escrito por um único autor, assim como, por exemplo, Machado de Assis foi o único autor do “Dom
Casmurro”. Trata-se, ao contrário, de obras estratificadas, construídas ao longo de muitos anos (até séculos),
acrescentando progressivamente material oriundo de narrativas anedóticas e/ou obras pseudo-literárias nem
sempre fidedignas. De acordo com o estudioso David Donnini, a representação da origem do Novo
Testamento não vai além de um clichê apenas mitológico e lendário e a estrutura da estratificação que se
encontra nos textos evangélicos, pode ser sinteticamente resumida nas seguintes camadas:

a. tradições que remontam ao messianismo hebraico;


b. tradições que remontam às seitas chamadas hebraico-cristãs (entre as quais podemos pôr as
testemunhas de alguns seguidores de Jesus), que existiam originariamente em forma oral ou escrita
nos idiomas semíticos (aramaico e hebraico);
c. tradições orais nascidas com o ensino de S. Paulo, em oposição com os seguidores de Jesus;
d. tradições escritas produzidas pelos seguidores de S. Paulo, que operaram em ambientes romanos ou
helenístico e escreveram em grego;
e. correções e acréscimos feitos durante a obra progressiva de canonização feitas por pelos padres da
Igreja;
f. ulteriores correções e acréscimos, sucessivos às formulações teológicas saídas do Concílio de Niceia
no 4° século;
g. alterações sucessivas feitas, por exemplo, durante a tradução do grego antigo para os idiomas
modernos.

Todos os estudiosos concordam que o primeiríssimo Evangelho foi a “Tradição oral” transmitida pelas
comunidades cristãs de Jerusalém e das redondezas. Esses pequenos grupos, liderados por Tiago e Pedro,
mesmo seguindo a mensagem de Cristo, continuavam se considerando membros do judaísmo e respeitavam
os preceitos da Torah como, por exemplo, a circuncisão dos meninos. Entre eles não havia necessidade de
textos escritos pois, conforme as palavras de seu Mestre, a parúsia era tida como iminente: “E já está
próximo o fim de todas as coisas; portanto sede sóbrios e vigiai em oração” (1 Pedro 4:7). A Tradição
nunca foi, nem de longe, uma biografia do Salvador, sendo a sua função apenas a de divulgar a “boa-nova”,
a ressurreição de Cristo.

A partir do ano 40 d.C., tendo surgido a necessidade de gravar em forma escrita os atos e os ensinamentos
do Nazareno, autores ignotos recolheram, num só corpus, material relativo à pregação de Jesus. Nesse
corpus faltava, porém, tanto uma sucessão temporal dos eventos quanto uma construção narrativa, tornando
assim impossível qualquer tentativa posterior de esboçar o desenvolvimento psicológico e religioso de Jesus.
Esse novo texto, teorizado em ambientes acadêmicos alemães no início do século XIX e considerado apenas
hipotético, foi chamado “Fonte Q”, inicial da palavra alemã “Quelle” que significa fonte. A sucessiva
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descoberta, em 1945, dos manuscritos de Nag Hammadi e do Evangelho de Tomé, deu consistência a
hipótese da “Fonte Q”. Não são poucos os estudiosos atestando que a “Fonte Q” coincide, em seus traços
essenciais, com o Evangelho dos Hebreus cuja existência foi confirmada pelos Padres da Igreja no II, III e
IV século. Esses Padres, em seus escritos, reportam fragmentos do Evangelho dos Hebreus, mas com a
finalidade de confutá-los pois, de seus versículos, emergia uma figura histórica de Jesus bastante diferente
da imagem cada vez mais teológica e mitológica proposta pelos sucessivos Evangelhos canônicos.

Deixando de lato esse Evangelho, menosprezado e sucessivamente destruído pela Igreja, o primeiro texto
escrito falando de Jesus é a Primeira epístola de Paulo aos Tessalonicenses, datada do ano 49-50 d.C. Nela
aparece pela primeira vez a palavra evangelho (boa mensagem) assim como a testemunha escrita sobre a
morte e ressurreição do Redentor e a esperança da ressurreição dos que acreditam em Cristo (1 Tessal. 5:14).
O tema da ressurreição representa o núcleo central da pregação de Paulo de Tarso e será sucessivamente
englobado nos Evangelhos canônicos. Podemos afirmar com segurança que, se Saulo não tivesse existido,
não apenas não teríamos os Evangelhos, mas nem sequer o cristianismo no sentido de nova religião, mas
apenas como uma ulterior ramificação do judaísmo ortodoxo. Ao mesmo tempo, temos que admitir a
intuição realmente genial desse pregador que, para usar um termo moderno, utilizou técnicas de marketing
(as epístolas) para divulgar o seu pensamento. Assim como Ray Kroc soube enxergar o imenso potencial do
primeiro fast-food gerenciado pelos irmãos Mc Donalds, fazendo de um simples restaurante uma cadeia de
dimensão planetária, Paulo transformou uma crença limitada a pequenos grupos de israelitas numa religião
que em pouco tempo conquistou o mundo inteiro. Em sua empresa, Saulo foi facilitado pela essência da
mensagem evangélica que pode ser resumida em poucos simples elementos fundamentais: amor, salvação e
vida eterna, presentes também em outras religiões (por ex. no culto de Mitra), mas não em forma direta e
eficaz como no cristianismo.

Nem nas epístolas sucessivas aparecem detalhes significativos sobre a vida e a figura de Cristo: nenhum
detalhe biográfico, nenhuma frase por ele proferida, nada sobre José, nada sobre Maria, da qual nem sequer
diz o nome: “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a
lei” (Gálatas 4:4). Muito menos se fala em nascimento virginal, em Nazaré ou em Belém. Paulo limita-se a
reafirmar a morte na cruz e a ressurreição de Cristo no terceiro dia, um conceito já presente há séculos em
todos os principais mitos religiosos do Mediterrâneo (Átis, Osíris, Mitra, etc.). Saulo incorpora no nascente
cristianismo outro elemento típico do paganismo: o de Eucaristia, um ritual ancestral conhecido e praticado
tanto pelos Egípcios como pelos Gregos (mito de Dioniso). Ainda na Primeira epístola, Paulo de Tarso
introduz o conceito filosófico grego de alma (1 Tessal. 5:23) abrindo, destarte, o caminho para a
contaminação pagã do nascente cristianismo. Considere, o leitor, dois pontos fundamentais. Em primeiro
lugar, jamais um israelita (e Jesus era um israelita) teria convidado os seus discípulos a comer a sua carne e
beber o seu sangue pois aquele povo simplesmente abominava o sangue! Não apenas o Antigo Testamento
condena esse comportamento em Gênese 9:4 e Levítico 17:14, mas até no Novo Testamento lemos que
“Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do
sangue.” (Atos 15:20). Quanto à expressão “alma imortal” jamais aparece em parte alguma da Bíblia nos
originais hebraico e grego.

Vamos agora examinar os quatro Evangelhos tidos como autênticos pela Igreja cristã embora, na verdade, o
número total de Evangelhos passe de 80. Os canônicos apresentam uma característica comum bastante
importante: são todos escritos em grego e, portanto, a tese defendida pela Igreja segundo a qual os autores
teriam sido os próprios Apóstolos, não pode ser sustentada. Os Apóstolos, além de serem analfabetos, não
apenas desconheciam o grego, mas nem sequer falavam o hebraico, comunicando entre eles num dialeto
chamado aramaico. Outro fator relevante desses quatro textos é a escassez de conhecimentos relativos à
geografia, história e hábitos da antiga Palestina. Veja-se, por exemplo, o seguinte versículo: “Estes, pois,
dirigiram-se a Felipe, que era de Betsaida da Galileia...” (João 12:21) mas Betsaida se encontra na
Gaulanítide, não na Galiléia; e esse outro: “Ora João batizava também em Enom, junto a Salim,” (João
3:23), embora não exista nenhuma localidade com esse nome perto de Salim. Deduzimos, portanto, que os
verdadeiros autores não apenas não testemunharam os fatos relatados, mas nem sequer eram hebreus (e
muito menos Apóstolos). Outro elemento que reforça a tese de autores gregos são as prevenções de caráter

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antissemita introduzidas nos textos unicamente para inocentar os Romanos e jogar sobre os Judeus a culpa
de ter assassinado o Filho de Deus. João, a respeito dos Israelitas, afirma o seguinte: “Vós tendes por pai ao
diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai” (João 8:44). E, pior ainda, lemos que: “E, respondendo
todo o povo, disse: O seu sangue [de Cristo] caia sobre nós e sobre nossos filhos” (Matheus 27:25). Esse
versículo, falso, infamante e vergonhoso, formou a base jurídica, histórica e emocional de 2.000 anos de
perseguições e extermínios perpetrados contra os Judeus.

Como atestam muitos biblistas, inclusive o eminente Pe. John Meier, professor de Teologia na Universidade
de Notre Dame, em South Bend (USA), o primeiro Evangelho reconhecido historicamente é o de Marcos
(discípulo de Paulo de Tarso), escrito pouco depois do sítio de Jerusalém, no ano 70 d.C. Trata-se do testo
mais curto e relativamente sintético mas, ao mesmo tempo, o mais verdadeiro e o mais próximo aos eventos
que caracterizaram a vida de Jesus. Marcos inicia logo com a vida pública de Cristo que, no rio Jordão, é
batisado por João Batista. Devido esse ritual ser típico dos Essênios, é provável que João tenha pertencido
àquela comunidade e que o próprio Jesus tenha sido pelo menos um simpatizante. A propósito dos
manuscritos essênios de Qumram, papa Bento XVI declarou que: "Estamos impressionados com a devota
seriedade desses escritos: parece que João Batista, mas talvez também Jesus e a sua família, estivessem
próximos a essa comunidade. De qualquer forma, os manuscritos de Qumram apresentam muitos pontos de
contato com a pregação cristã. Não se pode excluir que João Batista tenha vivido por algum tempo nesta
comunidade recebendo, em parte, a sua formação religiosa". É também importante frisar que, na época em
que Marcos escrevia, o primitivo cristianismo não foi considerado tal pelos seguidores de Jesus que
continuaram se sentindo profundamente ligados à sua identidade hebraica.

No Evangelho de Marcos Jesus é crucificado e o texto termina com a presença de um jovem vestido de uma
roupa branca que anuncia a ressurreição de Cristo (Marcos 16:1-8). Os versículos sucessivos, que narram
das aparições, foram acrescentados sucessivamente, pois os mesmos não aparecem no Codex Vaticanus (325
d.C.) e no Codex Sinaiticus (370 d.C.), os mais antigos manuscritos existentes relativos ao N.T. Marcos é o
primeiro autor a falar de Maria, mas sem acenar à questão da virgindade. Nada se fala sobre a infância de
Jesus, anjos e outras criaturas espirituais; a cidade de Nazaré é mencionada apenas uma vez. Quanto a Jesus,
é apresentado como uma ser humano que não sofre a metamorfose semidivina comum aos outros
Evangelhos. Muito pelo contrário, Jesus não é nem onipotente nem onisciente, tanto que não sabe quando
chegará o dia do julgamento final: “Mas aquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu,
nem o Filho, senão o Pai” (Marcos, 14:32). Esse evangelista nega até a bondade absoluta de Cristo citando
as palavras do Mestre: “E Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus”
(Marcos 10:18).

Cerca de 10 anos depois, em torno do 80 d.C., dois autores, Mateus e Lucas redigiram, independentemente
um do outro, mais dois Evangelhos nos quais foram acrescentadas seções relativas à infância de Cristo e
novos elementos sobre a ressurreição e as aparições. Entretanto, as respectivas narrações divergem em
pontos importantes. Mateus insiste sobre o lado messiânico de Jesus enriquecendo o seu texto com o
cumprimento de profecias bíblicas; também, enfatiza a ação social e política de Cristo em prol dos pobres
relatando as palavras proferidas pelo Mestre no famoso Sermão da Montanha. Do ponto de vista teológico,
Lucas é o mais fantasioso dos evangelistas pois, em seu texto, os anjos aparecem em continuação. O seu
Jesus perde as conotações humanas de Marcos tornando-se um ser semidivino consciente dessa sua natureza.
Embora a Igreja considere o Evangelho de Marcos um simples extrato daquele de Mateus, a partir do século
XIX os filólogos concordam que Marcos foi umas das fontes utilizadas tanto por Mateus como por Lucas e,
efetivamente, a análise textual mostra como 95,3% dos versículos de Marcos se encontrem em Mateus e
82,3% em Lucas. Outras fontes usadas por esses dois evangelistas são, muito provavelmente, o Evangelho
dos Hebreus e o de Tomé.

O sucessivo Evangelho de João, redigido já no começo do II século, apresenta um cristianismo totalmente


diferente daquele dos sinópticos pois se baseia sobre um dos conceitos essenciais da filosofia grega, o de
Logos. A sua finalidade é provar a divindade do Cristo e o público-alvo não é mais constituído por pessoas
simples e humildes, mas por intelectuais de cultura grega; portanto, a linguagem popular grega (koiné) dos

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sinópticos é abandonada e substituída por outra mais alta. O desprezo em relação aos ricos e o enaltecimento
da pobreza desaparecem totalmente. Por outro lado, Jesus é representado como sendo uma entidade
completamente divina, preexistente ao mundo e despida de qualquer fraqueza humana tanto que, na hora da
morte, Jesus não exclama mais “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Marcos 15:34 e Mateus
27:46), mas profere a frase heroica e sobre-humana “Está consumado” (João 19:30).
Infelizmente não existem cópias originais desses quatro Evangelhos, a não ser os dois Codex citados antes, e
já a partir do segundo século os textos começaram a ser alterados. O próprio Orígenes, um dos Padres da
Igreja, atesta esse hábito de seus colegas, por ele justamente apelidados de “emendadores”. Tal prática
prosseguiu com outros eminentes Padres, como Eusébio, Crisóstomo, Agostinho, Jerônimo, etc. e foi
confirmada até pelo papa João Paulo II.

Quanto aos Atos, eles foram escritos com a intenção de demonstrar a inexistência de conflitos entre, de um
lado o cristianismo praticado pela Igreja de Jerusalém, liderada por Tiago e portadora de uma mensagem
messiânica de natureza ascética e, do outro, as igrejas helenísticas, fundadas por Paulo e defensoras do
universalismo da mensagem crística. Foi principalmente o conceito de “Reino de Deus” que gerou uma
fratura entre as duas linhas do cristianismo. Para os Apóstolos de Jerusalém Jesus havia sim pregado o
advento de um reino de origem divina, mas terreno, imediato e destinado à emancipação do povo de Israel
(Mateus 10:5-6). Paulo, reinterpretando as Escrituras, afirmava tratar-se de um reino ultraterreno e universal,
totalmente desligado do conceito tradicional de messianismo político/religioso. O contraste entre Paulo e
Tiago cresceu dramaticamente durante os anos e culminou com a tentativa de linchamento de Paulo no
templo (Atos 21:30-33). Os Atos, redigidos por um discípulo de Paulo, minimizam esse gravíssimo
contraste e justificam a atitude do “Apóstolo dos gentios” alegando que ele, graças às suas visões celestiais,
teria conhecido Cristo melhor que os legítimos Apóstolos.
O esquema seguinte mostra a sucessão cronológica dos textos do N.T. segundo a doutrina tradicional da
Igreja (à esquerda) e a sucessão cronológica segundo os resultado de estudos históricos e filológicos (à
direita):

1) Evangelho de Mateus 1) Epístolas de Paulo


2) Evangelho de Marcos 2) Evangelho de Marcos
3) Evangelho de Lucas 3) Evangelho de Mateus
4) Evangelho de João 4) Evangelho de Lucas
5) Atos 5) Atos
6) Epístolas de Paulo 6) Epístolas dos Apóstolos
7) Epístolas dos Apóstolos 7) Evangelho de João
8) Apocalipse 8) Apocalipse

Apesar dos livros serem os mesmos, a sequência é importante, pois mostra como a Igreja tentou, com
sucesso, de disfarçar a figura messiânica e nacionalista de Cristo, apresentando-o como um ser divino
consubstancial a Deus. No entanto, uma leitura atenta dos sinóticos revela a dissimulação e qualquer pessoa
de mente aberta pode facilmente se dar conta do projeto político de Jesus. Por exemplo, João narra que “E
achou Jesus um jumentinho, e assentou-se sobre ele, como está escrito: -Não temas, ó filha se Sião
[Jerusalém]; eis que o teu Rei vem assentado sobre o filho de uma jumenta” (João 12: 14-15). Jesus não se
assenta no jumento apenas para descansar as pernas, mas, sendo ele rabino e conhecendo perfeitamente as
Escrituras, quer que se cumpra a profecia que diz: “Alegrate demasiado, ó cidade filha de Sião; eis que o teu
rei vem a ti; ele é justo e traz a salvação; ele é humilde e vem montado sobre um burrico, um potro sagrado,
cria de jumenta” (Zacarias 9:9). Trata-se de um gesto cujo significado não pode ser equivocado: Jesus vem
como Rei e o povo o acolhe “Dizendo: bendito o Rei que vem em nome do Senhor;” (Lucas 19:38). Jesus
não apenas não nega a sua missão messiânica mas, aos fariseus que lhe pedem para repreender os seus
discípulos, ele responde dizendo que “Digo-vós que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão”
(Lucas 19:40).

Outro fato que confirma a intenção de Cristo de tornar-se rei é representado pela unção com óleo de nardo,
cerimônia à qual se submetiam os antigos reis de Israel (Ungido = Messias). Lemos que: “E estando ele em

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Betânia ... veio uma mulher, que trazia um vaso de alabastro, com unguento de nardo puro, de muito preço,
e quebrando o vaso, lho derramou sobre a cabeça” (Marcos 14:3). Também Mateus (26:6-13) confirma o
episódio que, em forma um pouco diferente, é relatado igualmente em Lucas (7:37-39) que fala apenas numa
“pecadora” sem dar nome aos bois. A Igreja justifica esses dois eventos, que na verdade se reduzem a um só,
como sendo apenas manifestações de devoção. Na verdade, foi uma cerimônia de unção realizada no intento
de oficializar a dignidade messiânica de Jesus, como descendente direto de Davi e futuro rei dos Judeus.
Observamos, inclusive, que as genealogias de Mateus e de Lucas, além de discordar, apontam Jesus como
descendente de Davi, mas esquecem o fator mais importante, ou seja, que Jesus, sendo filho do Espírito
Santo e não de José, nada tinha a ver com a estirpe do segundo rei de Israel.

Os antigos Romanos costumavam dizer que “Audentes fortuna iuvat” e, objetivamente, a sorte favoreceu
Paulo de Tarso muito além de seus próprios planos. Antes da “visão de Damasco” (ausente em suas
epístolas) foi um ferrenho perseguidor dos primeiros cristãos; em seguida soube desfrutar habilidosamente
de sua dupla nacionalidade apresentando-se aos Hebreus como sendo um fariseu rigoroso enquanto, para
ganhar os gentios, não hesitou a renegar a lei de Moisés. Alegando ter conhecido pessoalmente Cristo por
meio de êxtases sobrenaturais (Saulo tinha frequentes ataques de epilepsia) fundou várias comunidades na
Grécia que, aos poucos, acabaram se distanciando da legítima Igreja de Jerusalém. Quando, no ano 70 d.C.
as comunidades cristãs da Palestina foram varridas pelo exército de Vespasiano, as de Paulo, verdadeiro
“cidadão do mundo”, prosperaram gerando as bases do novo movimento cristão totalmente livre das
prescrições da Lei judaica. Objetivando conquistar à fé os vários povos pagãos do Império Romano, a
doutrina teve que eliminar ainda mais qualquer referência ao passado nacionalista e messiânico de Jesus,
apresentando-o como sendo um manso Redentor universal, filho de Deus e Deus ele mesmo.

A nova figura mística de Cristo foi formalizada no Primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.) e os textos
evangélicos divididos em duas categorias: os canônicos e os apócrifos [falsos]. Uns, como o Evangelho dos
Hebreus e o similar Evangelho dos Ebionitas foram destruídos, enquanto que os demais foram reeditados
para que se conformassem à doutrina estabelecida pelo Concílio. Os textos originais sofreram inúmeras
censuras e interpolações como, por exemplo, o “final de Marcos” que não aparece nos antigos códigos.
Temerosa que as falsificações fossem descobertas, durante mais de oito séculos seguidos a Igreja proibiu aos
fiéis a leitura e até a simples posse das Escrituras. Quem desobedecia era encaminhado ao tribunal da
Inquisição. A atividade falsificadora da Igreja católica continua até hoje graças ao fato que poucas pessoas
entendem o grego antigo e um número ainda menor tem interesse na leitura dos Evangelhos originais.
Seguem, entre muitos possíveis, dois exemplos; outros podem ser encontrados em meus artigos publicados
na minha escrivaninha. Os versículos transcritos nos dois parágrafo seguintes são do Novo Testamento dos
Gideões Internacionais (evangélicos) que mostram ter uma atitude mais honesta que seu irmãos católicos!

A Família de Jesus

Objetivando construir uma figura extraterrena de Cristo, a Igreja sempre negou que ele tivesse irmãos
carnais alegando a desculpa que na língua hebraica as palavras irmão e primo são usadas de forma ambígua.
Esquece, porém, que em grego as duas palavras usam termos diferentes: “adelphoi” significa irmão carnal
enquanto “anepsioi” significa primo. Como está escrito: “οὐχ οὗτός ἐστιν ὁ τοῦ τέκτονος υἱός; οὐχ ἡ μήτηρ
αὐτοῦ λέγεται Μαριὰμ καὶ οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ Ἰάκωβος καὶ Ἰωσὴφ καὶ Σίμων καὶ Ἰούδας?” que significa
“Não é este o filho do carpinteiro? E no se chama sua mãe Maria, e seus irmãos [carnais] Tiago, e José, e
Simão e Judas?” (Mateus 13:55) fica comprovado que Cristo tinha irmãos carnais e que Maria não era
virgem.

A Paixão de Cristo

Ainda hoje a Igreja católica insiste na afirmação que Jesus foi preso por um “destacamento de soldados”
aparentemente judeus. Entretanto, no texto original grego lemos que: “ὁ οὖν Ἰούδας λαβὼν τὴν σπεῖραν...”
que quer dizer: “Tendo pois Judas recebido a coorte...” (João 18:3). Não ha dúvida que se trate de uma
coorte romana pois, mais adiante, lemos que: “Ἡ οὖν σπεῖρα καὶ ὁ χιλίαρχος...” cuja tradução correta é a

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seguinte: “Então a coorte, e o tribuno,...” (João 18:12). A palavra χιλίαρχος (kiliarchos) significa
literalmente comandante de um grupo de mil soldados e a primeira coorte de cada legião era composta por
exatamente mil soldados. Como podemos acreditar que uma inteira coorte, liderada por um oficial superior,
tivesse sido enviada para prender apenas uma pessoa que nada fazia se não rezar pacificamente?

O teólogo evangélico austríaco Carl Samuel Schneider (1801-1882) disse que as falsificações sofridas pelos
Evangelhos começaram muito cedo e ainda continuam. A legitimidade do embuste e da mentira,
considerados como instrumentos de salvação, foi defendida por Paulo de Tarso: “Mas, se pela minha
mentira abundou mais a verdade...” (Romanos 3:7) e “Mas que importa? Contanto que Cristo seja
anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regojizo, e me regojizarei ainda.”
(Filipenses 1:18). Mais tarde, muitos Doutores da Igreja como João Crisóstomo e Orígenes, confirmaram a
legalidade da mentira. Então, com essas premissas e tendo na devida conta que todos os textos atualmente
conhecidos são transcrições de transcrições de transcrições que, durante os séculos sofreram ulteriores
modificações para que se adaptassem às necessidades catequísticas e teológica da Igreja, como se pode
afirmar que Jesus realmente disse ou fez o que lemos nos modernos Evangelhos?
Não seria melhor enfrentar com espírito aberto as críticas que boa parte dos filólogos dirigem à tradição
eclesial fundada sobre censuras, omissões, interpolações e traduções erradas? Afinal, como disse Cícero:
“Dubitando ad veritatem pervenimus”, ou seja, “É duvidando que alcançamos a verdade!”

Termino citando as palavras de padre Arturo Sosa, atual Superior-geral da Companhia de Jesus que, durante
uma entrevista, declarou o seguinte: “Antes de tudo, deveríamos começar uma bela reflexão sobre o que
Jesus realmente disse... naquela época, ninguém tinha um gravador para gravar as palavras. [...] Então é
verdade que ninguém pode mudar a palavra de Jesus, mas precisamos saber qual ela foi!”

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ONDE NASCEU JESUS?

No Mundo Antigo, o dia 25 de dezembro coincidia com um evento astronômico de notável importância: o
solstício de inverno. Para os nossos antepassados era uma data extremamente importante, pois um inverno
frio podia significar a morte de muitas pessoas.
Por isso, o dia em que as horas de luz voltavam a crescer era comemorado com todas as honras, pois era
como se o sol voltasse a renascer e já na Antiga Roma, séculos antes de Cristo, entre os dias 17 a 24 de
dezembro eram comemorados os Saturnais em honra de Saturno, deus da agricultura.

É portanto evidente como o dia 25 de dezembro passou a ser o natal de muitas divindades como, por
exemplo:

-o deus Tamuz na antiga Babilônia;


-o deus Horus no antigo Egito;
- o deus Mitra, também conhecido como o Salvador na Pérsia antiga e na Roma imperial;
- o deus Quetzalcóatl no México pré-colombiano.
- o deus Bacab, nascido de uma virgem, no Yucatan;
- o deus Sol Invictus no Império Romano;
- o deus Freyr, na Escandinávia;
- o deus Baco na Grécia antiga;
- o deus Adônis, na antiga Síria;
- o deus Ati na antiga Frígia, outro "Salvador" simbolizado por um cordeiro.

A constituição formal da festa litúrgica de Natal, como o aniversário do nascimento de Jesus e sua
localização no dia 25 de dezembro, foi estabelecida entre os Cristãos somente a partir do ano 336 d.C.
Ademais, como nos Evangelhos se fala textualmente que "Ora havia naquela mesma comarca pastores que
estavam no campo, e guardavam durante as vigílias da noite o seu rebanho” (Lucas 2:8)", é evidente que
isso teria sido impossível em pleno inverno. Portanto, de acordo com muitos estudiosos, o mês mais
provável para o nascimento de Jesus deve ter sido outubro.

Quanto ao massacre dos inocentes, não há nenhuma evidência contemporânea desse fato. O historiador
Flávio Josefo, que relata a vida de Herodes até nos mínimos detalhes (chegando até a narrar que ele
costumava pintar o cabelo) nada diz em relação a esse episódio.

A cidade em que nasceu Jesus

As Escrituras afirmam que Jesus teria nascido na cidade de Belém.


Segundo essa tradição, a partir da convergência de diferentes narrativas de Mateus e Lucas, que representam
as únicas fontes históricas relacionadas com o nascimento de Cristo, o local de nascimento teria sido Belém,
na Palestina.
Em contraste, os estudiosos seculares e até alguns cristãos contemporâneos negam o valor histórico das
narrações relativas à infância. Segundo esses estudiosos, a afirmação do nascimento em Belém não é um
fato histórico, mas um símbolo teológico do messianismo davídico de Jesus.

Muitos acreditam que o lugar de nascimento de Jesus seria a cidade onde ele foi criado ou outros locais da
Galileia, como, por exemplo Cafarnaum. Outros estudiosos, mesmo não especificando uma localidade exata,
excluíram ele ter nascido em Belém.
Se aceitarmos que Jesus era oriundo da Galileia, então não faria sentido os pais dele terem se deslocado a
Belém (que fica na Judeia) por causa do censo. Para os administradores romanos o que realmente importava
era saber o número exato de habitantes de uma região para poder determinar a carga tributária. Não teria

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sido de utilidade alguma computar as famílias que residiam fora de uma determinada província, isso iria só
gerar confusão nos cálculos.

Onde viveu Jesus?

De acordo com alguns estudiosos leigos modernos, o apelido teológico-messiânico de Nazareno seria, na
realidade, a pronúncia errada da palavra "nazireu". Portanto, o adjetivo nazareno não estaria relacionado a
um lugar geográfico e sim ao voto de estar a serviço de Deus por um tempo determinado ou por toda a vida.
Por outro lado o termo nazireu pode derivar da palavra hebraica netzer, que significa broto ou galho e,
portanto, com base em Is. 11,1 e Ger. 23,5 teria um significado messiânico.

Então, onde foi que realmente Jesus viveu?


Muitos autores acreditam que ele e seu pai viveram na cidade de Cafarnaum, tanto que, em apoio a esta tese,
é citada uma passagem do Evangelho de João em que Jesus pregou na sinagoga de Cafarnaum e seus
oponentes diziam que ele era o filho de José.

E o presépio?

O primeiro presépio do mundo teria sido montado em argila por São Francisco de Assis em 1223. Nesse
ano, em vez de festejar a noite de Natal na Igreja, como era seu hábito, o santo o fez na floresta de Greccio,
para onde mandou transportar uma manjedoura, um boi e um burro, para melhor explicar o Natal às pessoas
comuns, camponeses que não conseguiam entender a história do nascimento de Jesus.

No entanto, a tradição segundo a qual o Salvador teria nascido entre dois animais, não passa de um crasso
erro de tradução. Com efeito, o texto original grego "no meio de duas idades" foi traduzido em latim "in
medio duorum animalium" devido a semelhança entre o genitivo plural de zon (idades) e o genitivo plural de
zoon (animais).
Nesse caso, o verdadeiro jumento foi o tradutor!

10
A VIRGINDADE DE MARIA: FATO OU MITO?

Maria, a mãe de Jesus, nunca foi objeto de culto ou de veneração junto aos Apóstolos, muito menos foi
venerada por Paulo de Tarso que, em suas Epístolas (os mais antigos documentos do Novo Testamento),
sem sequer mencionar o nome Maria, considerou-a uma mulher igual às outras escrevendo simplesmente
que Jesus havia "nascido de uma mulher" (Gálatas 4,4). Jamais os Apóstolos ou Paulo afirmaram que a mãe
de Jesus fosse virgem.

Outra incongruência emerge do episódio da Anunciação.


Nos Evangelhos lemos que o anjo Gabriel informou tanto José como Maria do nascimento de um filho de
origem divina (Mateus 1,20); (Lucas 1,26). Entretanto, no momento em que Jesus começa a sua pregação,
Maria parece esquecer totalmente das palavras de Gabriel e, junto com outros filhos, tenta convencer Jesus a
voltar para casa: "Chegaram então seus irmãos e sua mãe; e, estando fora, mandaram-no chamar" (Marcos
3,31) achando que ele tivesse perdido o tino: "E, quando os seus viram isso, saíram para o prender; porque
diziam: está fora de si" (Marcos 3,21).

Tertuliano, um dos maiores apologistas cristãos, diante de um fato tão absurdo, acusa Maria de não ter
acreditado em Cristo (Tertuliano, De Carne Christi, 7). Tudo isso nos leva a cogitar que a Anunciação tenha
sido um fato inventado a posteriori. Inclusive, devido o anjo ter aparecido a Maria enquanto ela estava
sozinha, como foi que Lucas pôde descrever o encontro nos mínimos detalhes? Se Maria tivesse acreditado
na aparição e decorado as palavras de Gabriel, teria tido fé no filho dela, mas não foi assim.

O fato é que até o III século não apenas a virgindade de Maria era totalmente ignorada, mas todos os Padres
da Igreja como, por exemplo, Ireneu e Tertuliano, estavam convencidos do casamento efetivo e real entre
José e Maria. A divinização de Jesus, iniciada por Paulo e imposta pelo imperador Constantino durante o
Primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.) determinou um conjunto de implicações doutrinais que,
progressivamente, deram início ao culto mariano.

Devido Jesus, divinizado como Filho de Deus, ter sido gerado por uma mulher, foi mister atribuir a essa mãe
terrena uma série de atributos, se não divinos, pelo menos semidivinos.
O primeiro passo foi considerar a concepção de Cristo obra de Deus e não de um ser humano.
Isso justifica a introdução, nos Evangelhos de Lucas e Mateus, em torno do IV século, do episódio da
Anunciação, evento totalmente ignorado por Marcos e João, e considerado duvidoso por São Jerônimo,
eminente doutor da Igreja e tradutor em latim da Bíblia.

No intento de completar esse primeiro passo, durante o Concílio de Eféso (431 d.C.) Maria recebeu em
forma oficial o apelido de Teótoco, ou seja Mãe de Deus.
Os Evangelhos afirmam repetidamente que Jesus tinha irmãos e irmãs, e Paulo confirma esse fato em suas
Epístolas. No entanto, se Maria tivesse gerado outros filhos, a concepção mediante o Espírito Santo teria
sido duvidosa e Jesus-Deus teria compartilhado a sua divindade com os irmãos. Obviamente, para negar essa
hipótese, foi necessário proclamar a virgindade de Maria e afirmar que os irmãos de Jesus eram apenas
"primos". Foi assim que o Concílio de Latrão (649 d.C.) estabeleceu o dogma da virgindade absoluta de
Maria, dogma ainda hoje defendido pela Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa, mas rejeitado pelos
Protestantes.

A imagem da Nossa Senhora foi também arrematada e aperfeiçoada utilizando toda a simbologia da deusa
Isis, muito popular na parte oriental do Império e na cidade de Roma.
Todavia, ainda faltava um detalhe para completar a construção da figura sobrenatural da Nossa Senhora.
Tanto Tertuliano como Santo Agostinho observaram que o pecado original, cometido por Adão e Eva, havia
sido transmitido sexualmente a toda a humanidade. Evidentemente também Maria teria sido infectada por
essa culpa transmitindo-a, por sua vez, ao filho Jesus. Inclusive, se Maria tivesse sido concebida sem
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pecado, não teria tido a necessidade de apresentar a oferta ao Templo. Mas está escrito que: "E, cumprindo-
se os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor"
(Lucas 2,22).

Como foi resolvido o problema?


Simplesmente ignorando as palavras de Lucas e declarando que Maria fora concebida imaculada, ou seja,
isenta do pecado original. Esse artifício encontrou a forte oposição de eminentes teólogos como Bernardo de
Claraval, Tomás de Aquino, Boaventura, Alexandre de Hales e toda a ordem Dominicana, tanto que uns
monges, por esse motivo, acabaram sendo queimados na fogueira na cidade de Berna aos 31 de Maio de
1509.

Os mencionados opositores, conforme o pensamento de Santo Agostinho, reputavam que a transmissão do


pecado original ocorria unicamente mediante o ato sexual; destarte apenas Jesus teria nascido sem pecado,
mas não Maria. Mesmo assim, o papa Pio XI, em 1854, considerando si mesmo infalível e superior a
teólogos como Santo Agostinho, proclamou o dogma da Imaculada Conceição.

Enfim, podia uma figura mais parecida a uma deusa do que a um ser humano, ser corrompida pela morte?
Claro que não!
Foi assim que em 1950, papa Pio XII decretou mais um dogma, o da Assunção. Destarte, a Mãe de Deus,
logo que fechou os olhos, subiu ao céu entre coros de anjos antes de sofrer a decomposição da carne. Uma
boa carreira para uma mulher que, de acordo com os Evangelhos, nada era se não a mãe de uma família
numerosa que lhe causou não poucos sofrimentos.

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A BÍBLIA É A PALAVRA DE DEUS?

Todo qualquer texto, antigo ou moderno, pode ser interpretado em duas formas diferentes: ou no sentido
literal ou, se houver um, no sentido metafórico. É evidente que num livro de Química não existem
metáforas; por outro lado, “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, não relata eventos acontecidos de
verdade sendo apenas uma divertida metáfora contra o poder.
A mesma forma coerente de aproximação deveria ser adotada em relação à Bíblia. Todavia, tanto os
Israelitas quanto os Cristãos compartilham o mesmo estranho critério de aceitar ao pé da letra todos os
versículos que condizem com suas visões teológicas enquanto, ao contrário, afirmam serem apenas
“metáforas” aqueles trechos que entram em choque com a imagem de um Deus transcendente e
infinitamente misericordioso.

Deixando de lado as inúmeras contradições presentes no texto bíblico, as quais sugerem que esse livro, do
ponto de vista literário, nada é se não uma coletânea de contos -todos de autores desconhecidos- trasmitidos
verbalmente durante vários séculos, fica a pergunta inicial: a Bíblia é a palavra de Deus? Uma resposta
bastante convencedora foi dada recentemente pelo escritor italiano Mauro Biglino. O Professor Biglino é um
dos maiores filólogos italianos, historiador das religiões e, acima de tudo, tradutor do hebraico massorético
para o prestigioso grupo editorial "Edizioni San Paolo". Durante os últimos trinta anos estudou e traduziu
dezessete livros do Antigo Testamento ganhando, destarte, fama mundial de exímio filólogo esperto não
apenas de hebraico, mas também de grego e latim.

Segundo o Professor Biglino a Bíblia representa basicamente uma narração em parte histórica e em parte
mitológica protagonizada por um povo que travou inúmeras guerras de conquista, que ganhou e perdeu
batalhas, que foi deportado na Babilônia e que sempre viveu no aguardo de um Messias, ou seja, um líder
político-religioso que o livrasse do jugo de conquistadores mais poderosos.
Todas as versões modernas da Bíblia são traduções do texto massorético (em hebraico) baseado, por sua vez,
sobre antigos manuscritos que, como explica Biglino, eram caracterizados pela falta de vogais e de espaços
entre as palavras ou de outros sinais gráficos. Isso tornava os textos extremamente ambíguos e sujeitos ao
arbítrio do escriba. Por exemplo, como o leitor iria interpretar a sequência abaixo?

SLDDDVLHRMMRR

entre muitas possíveis, duas soluções são as seguintes: “O soldado da velha Roma morreu” ou “Ao sol do
dia devo olhar o meu amor e o ouro” a diferença é extrema. Casos parecidos ao do exemplo podem, com
certeza, ter ocorrido na compilação da Bíblia massorética que, objetivamente, apresenta discrepâncias tanto
em relação à versão em grego do III século a.C. (Septuaginta), como em relação ao texto dos Protestantes,
dos Ortodoxos, dos Coptos e dos Samaritanos, todos diferentes um do outro. Cada grupo religioso
interpretou as palavras da forma que mais lhe agradou e as divergências entre as várias Bíblias podem
ultrapassar o número de mil. Então, como pode ser sagrado um texto que foi emendado no passado e
continua sendo-o até nos dias de hoje pelos exegetas hebraicos que mudam livremente a versão massorética?

Mesmo assim, vamos fazer de conta que todas as versões sejam iguais. O que se pode dizer a respeito de
Deus? A resposta de Biglino é simples e categórica: a Bíblia não fala de Deus!
Com efeito, nas Bíblias que temos em casa encontramos a palavra Deus (singular) enquanto no texto
hebraico temos o vocábulo Elohim (plural) e quando nos deparamos com a palavra Senhor ou Eterno, em
hebraico é usado o nome Yahweh. A análise gramatical e sintática revelam, sem a menor dúvida, que
Elohim é o plural de El. Descobrimos, inclusive, que os Elohim eram seres em carne e ossos, mortais,
guerreiros e que se acasalavam com as mulheres dos homens (Gên. 6). Portanto não se tratava de deuses.
Pelo mesmo motivo o Deus da teologia não pode ser identificado com o chefe dos Elohim, chamado Elyon e
traduzido com a palavra Altíssimo, mas que na verdade significa “aquele que está em cima, superior” e teria

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sido mais correto e honesto traduzir com “chefe”. Afinal o próprio Elyon era um Elohim, extremamente
poderoso, mas mortal.

Quanto a Yahweh, ele era apenas um entre os Elohim e em Ex. 15,3 é definido “ish milchamah” que
significa “homem de guerra”. É portanto lógico deduzir que, em épocas muito remotas, o Oriente Médio
havia sido conquistado por um soberano (Elyon) que resolveu entregar o governo das províncias a seus
melhores generais (Elohim) e que um deles (Yahweh) foi encarregado de tomar conta da família de Jacó.
Mesmo assim, cegados pelos seus próprios dogmas, os monoteistas preferem identificar Elyon, os Elohim e
Yahweh com um único ser espiritual e transcendente chamado de Deus. Eles não se dão conta que essa
interpretação dogmática gera uma situação extremamente contraditória onde Deus (com o nome Elyon)
divide o território e entrega a si mesmo (Yahweh) uma parcela mínima dessas terras esquecendo-se do resto
da humanidade. Pior ainda, Deus (Yahweh) utiliza o seu povo para desencadear uma guerra de extermínio
contra outros povos que ele mesmo (com o nome de Elyon) havia esquecido de se auto-entregar quando
resolveu dividir o império entre os outros Elohim.

Que Yahweh fosse um indivíduo real dotado de grandes poderes aparece evidente desde o começo quando,
por exemplo, ele encontra Abrão em companhia de dois “anjos” (Gên 18) que, no texto original hebraico,
são chamados de Malakim e desenvolvem a função de assistentes e/ou oficiais subalternos. Esse detalhe
reforça a ideia que o dos Elohim fosse um vasto império organizado militarmente, tanto que Jacó fala em
”acampamentos” (Gên 32), sem contar que a lenda de conquistadores invencíveis ocupando a Mesopotâmia
já se encontrava nos antiquíssimos contos dos Sumérios onde ao Elyon bíblico corresponde o Anu sumérico.
Nem se pode esquecer o fato que já 2.000 anos antes da nossa era os povos do Oriente Médio sabiam de um
território governado por uma pessoa de nome YHW ou YW ou YWH cuja esposa se chamava Ashera e que
os Hebreus da Ilha de Elefantina, no Antigo Egito, muitos séculos depois ainda chamavam de Anat-Yahwu.

Mais detalhes sobre a natureza mortal dos Elohim podem ser obtidos analisando o Salmo 82 onde está
escrito que essas criaturas, apesar de viverem durante séculos, acabam morrendo igual as outras.
Naturalmente fica difícil para os monoteistas engolir esse Salmo com toda a sua realidade prosaica;
consequentemente tiveram que inventar o sofisma que nesse trecho a palavra Elhoim –com todos os
adjetivos, pronomes e dez verbos no plural- não significa Deus, mas Juízes. Isso embora na Bíblia existam
palavras oportunas para designar os juízes, ou seja, “felilim” (Ex 21,22) e “shofetim”, mas jamais Elhoim!
Apesar de sua natureza mortal, os Elohim eram imensamente superiores aos Adam (os homens) tanto que o
próprio Paulo de Tarso, séculos e séculos mais tarde, escreve: “Porque, ainda que haja também alguns que
se chamem deuses, quer no céu, quer na terra...” (1 Coríntios 8,5). É evidente que os deuses mencionados
por São Paulo (“theoi” em grego), correspondem aos Elohim do Antigo Testamento.

Quanto aos dez mandamentos é oportuno sublinhar que as proibições não eram dirigidas ao “próximo” em
geral e, muito menos, à toda a humanidade, como pretende o dogmatismo cristão, mas eram reservadas
exclusivamente aos Israelitas. A prova se encontra na definição da identidade das pessoas às quais as
ofensas eram dirigidas, fato comprovado pela presença da raiz “resh ayn” que significa amigo, companheiro,
camarada, compatriota. Portanto, as ordens e as proibições deviam ser entendidas como relativas aos
membros da comunidade liderada por Moisés. Em outras palavras, era entre eles que não se podia matar,
roubar, tomar a mulher, etc., mas tudo era lícito e até oportuno quando se tratava dos inimigos. Uma
confirmação desse conceito se deduz pelo mandamento “não matarás” que, em hebraico, seria “lo tirtzach” e
que foi traduzido com “não matarás”, mas que literalmente significa “não assassinarás”. Fica evidente que
entre matar e assassinar existe um abismo conceitual e seria estranho se um dos Elohim de nome Yahweh,
enquanto mandava que as pessoas não se matassem entre elas, ordenasse que os Hebreus vencedores não
poupassem a vida de velhos, mulheres e crianças. Em definitiva, os mandamentos eram apenas uma forma
de regimento interno apto a garantir um pouco de paz e de ordem dentro do grupo em marcha no deserto.

Também os Malakim (anjos) eram criaturas mortais, em carne e osso, que acompanhavam e auxiliavam
Yahweh, mas que nada tinham de espiritual e sentiam a necessidade de se alimentar, repousar e se defender.
Ocasionalmente eram tido como perigosos até pelas primeiras comunidades cristãs, tanto que as mulheres

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deviam esconder os cabelos durante as reuniõs para não despertar o apetite sexual dos “anjos” conforme os
ditames de Paulo de Tarso: “Portanto a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos
anjos” (1 Coríntios 11,10) que costumam se misturar ao povo, tanto que este autor recomenda o seguinte:
“Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos” (Hebreus
13,2).
Quanto à palavra Satã, não indicava o Príncipe das trevas, mas designava um cargo que era assumido pro
tempore por pessoas diferentes para exercer a função de Ministério Público.

E a Criação? Biglino explica que os Elhoim não criaram nada, pois o verbo “bara”, traduzido com “criar”,
na verdade quer dizer “intervir para modificar uma situação” e, dependendo das circunstâncias, pode
significar cortar, moldar, separar ou até engordar. Eles teriam apenas aprimorado o ambiente tornando-o
mais adequado às suas necessidades de governadores pondo um de seus Adam de confiança dentro de um
“gan-eden” que significa jardim protegido com uma cerca e localizado em éden e que é universalmente
conhecido como Paraíso terrestre.
Ademais, como foi possível Caim ter fundado nada menos que uma cidade se não tivesse tido muitos outros
seres humanos nas redondezas. É essa mais uma confirmação do fato que os Elohim não criaram os Adam,
pois eles já estavam presentes na Terra quando os Elohim, liderados por Elyon, a conquistaram. Portanto, se
Adão e Eva não deram origem à Humanidade, o conceito de pecado original perde totalmente o seu
significado e fica sem nexo o conceito de redenção operada mediante o sacrifício de Jesus Cristo.

Em conclusão, Biglino afirma que: “No Antigo Testamento não existe Deus e não existe nenhum culto
direcionado a Deus”. Existe apenas uma temerosa obediência dirigida a uma pessoa cujo nome é Yahweh,
pertencente ao grupo dos Elohim, seres mortais que jamais podem ser definidos deuses. Yahweh não deixou
alguma mensagem para a Humanidade, mas apenas para aquela tribo que ele mesmo liderou para conquistar
e dominar com as armas aqueles territórios que o seu superior Elyon não havia lhe entregue.
Diante desses esclarecimentos, e sem absolutamente querer por em dúvida a existência de um Ser supremo,
de um Grande Arquiteto do Universo, podemos ainda objetivamente afirmar que a Bíblia contêm realmente
a palavra de Deus?

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A BÍBLIA E A ORIGEM DO MONOTEISMO

Se alguém perguntasse a mil pessoas quem inventou o monoteismo, provavelmente todas mil iriam
responder que os primeiros monoteistas da História foram os Hebreus. Entretanto, esse antigo povo abraçou
o monoteismo apenas três ou quatro séculos antes da nossa era quando uma poderosa classe sacerdotal se
apossou do poder político/religioso fazendo da ortodoxia javista um dogma inflexível do qual, de acordo
com os Evangelhos, teria sido vítima o próprio Jesus.
Com efeito, toda a narração bíblica pode ser dividida em três fases: uma primeira "fase mitológica", que vai
da Criação até o fim da idade dos Patriarcas, na qual são reelaborados os contos da tradição babilônica
enriquecidos pela tradição nacional dos Hebreus. Uma segunda "fase épica", que vai da estadia no Egito até
Salomão, e que preenche uma lacuna na literatura épica nacional e, enfim, uma terceira "fase histórica"
posterior ao cisma político que viu o nascimento do Reino de Judas e do Reino de Israel.

Desde a "fase mitológica" não existem dúvidas a respeito do relacionamento exclusivo entre Javé e o seu
povo, e uma das provas mais contundentes do integralismo religioso do Hebreus se encontra num versículo
contido no Livro dos Jubileus, livro bem conhecido tanto pelos primeiros cristãos como pelos Essênios. Nele
lemos que: “E se em Israel um homem quisesse dar a filha ou a irmã a qualquer homem da estirpe dos
gentios, seja condenado à morte e apedrejado pois ele cometeu pecado e vergonha em Israel, e a mulher
seja queimada com o fogo, pois desonrou a casa do pai” (Livro dos Jubileus 30:7). Repare o leitor que, para
receber a punição, bastava apenas a intenção de violar a disposição divina, sem necessariamente pôr a ação
em prática. A inflexibilidade de Javé não conhece limites, e ele ordena que: "Se alguém for condenado à
morte, segundo as leis do Senhor, não poderá ser resgatado. Será morto!" (Levítico 27:29). Javé vai bem
além da severidade quando mostra de não desdenhar os sacrifícios humanos: “...aquele que vier saindo da
porta da minha casa ao meu encontro, quando eu retornar da vitória sobre os amonitas, será do Senhor, e
eu o oferecerei em holocausto” (Juízes 11:31).

O ciúme de Yahweh, embora evidente durante todas as três fases citadas, se manifesta com força redobrada
depois da volta dos Hebreus na Palestina, quando termina o Cativeiro Babilônico (538 a.C.). No entanto, se
formos analizar o Pentateuco e os livros considerados históricos (Josué, Juízes, Crônicas e Reis),
chegaremos à conclusão que deles não se pode sacar o conceito de monoteismo, crença que define a fé
absoluta na existência de um único deus. Muito pelo contrário, emerge apenas a monolatria dos Hebreus, ou
seja, a ação de cultuar somente um ser divino, embora seja admitida a existência de outros. Efetivamente, no
texto massorético da Bíblia, jamais aparece a palavra Deus, mas fala-se em Elhoim (plural de El) que
dominavam o mundo e dos quais Javé era apenas um, e dos menos importantes.

Existe um passo do A.T. onde se fala no repovoamento do Reino do Norte com essas palavras: “E o rei da
Assíria trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e Sefarvaim, e a fez habitar nas cidades de
Samaria, em lugar dos filhos de Israel; e eles tomaram a Samaria em herança, e habitaram nas suas
cidades. E sucedeu que, no princípio da sua habitação ali, não temeram ao Senhor; e o Senhor mandou
entre eles, leões, que mataram a alguns deles. Por isso falaram ao rei da Assíria, dizendo: A gente que
transportaste e fizeste habitar nas cidades de Samaria, não sabe o costume do Deus da terra; assim mandou
leões entre ela, e eis que a matam, porquanto não sabe o culto do Deus da terra. Então o rei da Assíria
mandou dizer: Levai ali um dos sacerdotes que transportastes de lá; e vá e habite lá, e ele lhes ensine o
costume do Deus da terra. Veio, pois, um dos sacerdotes que transportaram de Samaria, e habitou em Betel,
e lhes ensinou como deviam temer ao Senhor” (II Reis 17:24-28).

A leitura atenta desse passo demonstra que Javé é tido exclusivamente como sendo o deus daquela terra -um
deus antropomorfo do semiárido da Samaria- e não uma divindade universal pois, nesse caso, exigiria a
submissão de todos os povos. Trata-se, portanto, de um deus territorial, nada espiritual, que se contenta com
um culto local para retirar os seus leões. Efetivamente quando na Bíblia encontramos a palavra “Senhor”, no
texto original em hebráico a palavra é Yahweh (Javé), que seria um dos Elhoim, encarregado por Elyon -
divindade já conhecida pelos Fenícios e chefe dos Elhoim- de tomar conta apenas da família de Jacó e seus
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descendentes (Deut. 32:9). Por sinal, o nome Elyon, de regra traduzido com “Altíssimo”, significa
literalmente “superior”, indicando, destarte, a existência duma hierarquia de tipo militar entre os Elhoim. A
presença de outros Elhoim (deuses) é explicitada nas páginas do A.T. quando é citado repetidamente o nome
de Quemós, deus dos Moabitas, cuja realidade é também comprovada pela estela de Mesha onde aparecem,
pela primeira vez, os nomes de Javé e de Quemós.

Analogamente, Milkom é o Elhoim dos Amonitas, Astarte é a deusa dos Sidônios, Melcarte é o nume tutelar
de Tiro, Baal protege os Midianitas, etc. Tudo isso nos leva a excluir de forma categórica uma visão
religiosa monoteista, mas reforça a ideia de uma monolatria que admite a presença de outras divindades,
embora consideradas hostis a Israel.
Nenhum estudioso sério poderá negar que o versículo seguinte comprova a crença objetiva no deus Bel,
rival de Javé: “Eis que castigarei a divindade chamada de Bel na própria Babilônia e retirarei de dentro da
sua boca o que ele tragou; nenhuma nação jamais confiará qualquer pedido a Bel” (Jeremias 51:44). E o
que dizer desse outro: “Assim o Senhor Deus de Israel desapossou os Amorreus de diante do seu povo de
Israel; e os possuirias tu? Não possuirias tu aquilo que Quemós, teu deus, desapossasse de diante de ti?”
(Juízes 11:23-24). Quem pode negar que os Israelitas reconheciam a existência e os poderes de um deus
inimigo chamado Quemós?
Quanto aos Salmos, encontramos versículos exaltando a superioridade de Javé em relação aos outros
Elhoim: “Deus está na assembleia divina; julga no meio dos deuses…” (Salmos 82:1); “Porque o Senhor é
Deus grande, e Rei grande acima de todos os deuses” (Salmos 95:3); “Porque eu conheço que o Senhor é
grande e que o nosso Senhor está acima de todos os deuses” (Salmos 135:5). Fica portanto comprovado que
Javé não pretende ser cultuado pelas outras nações: ele exige somente que no território que lhe foi entregue
por Elyon seja respeitada a sua lei. Todavia esse Elohim não despreza a deferência dos outros povos, tanto
que lemos o seguinte: “O povo de Israel vai ver isso acontecer, e todos dirão: -O Senhor é grande, e o seu
poder vai além das fronteiras de Israel!” (Malaquias 1:5) e “...e toda a terra saberá que há Deus em Israel”
(I Samuel 17:46).

A insistência com a qual Javé reafirma em continuação o mandamento de não adorar outros Elhoim é
justificada pela atitude dos Israelitas a pular a cerca em busca de divindades estrangeiras, prática que
continua pelo menos até o regresso da Babilônia! Obviamente Yahweh, que não é o deus de toda a
humanidade, na esperança que os Hebreus se mantenham fieis ordena o massacre de todos os outros povos
da terra de Canaã: “Consumirás todos os povos que o Senhor teu Deus te entregar; os teus olhos não terão
piedade deles; e não servirás a seus deuses, pois isso te seria por laço” (Deut. 7:16). O verbo “consumir”
significa “exterminar”.
É compreensível que os teólogos antigos e modernos, no intento de mascarar a verdade, tenham afirmado
que esses outros deuses não passavam de ídolos de pedra, mas isso é simplesmente ridículo, pois significaria
que um Ser todo-poderoso, criador do Céu e da Terra, tinha ciúmes de inocentes simulacros inanimados.
Seria como se um marido chegasse a ameaçar de morte a esposa para que ela não se apaixone pelo retrato de
um homem imaginário. A verdade é que Javé, Elhoim de Jacó, teve que se contentar do que sobrou no
mercado dos povos do Oriente Médio e acabou se humilhando diante da chantagem de Jacó: “Então, em
Betel, Jacó fez o seguinte voto: -Se Deus estiver comigo e me guardar no caminho por onde eu andar,
cuidar de mim, provendo-me pão para comer e roupas para vestir, se eu voltar são e salvo para a casa de
meu pai, então Yahweh será o meu Deus! (Gênesis 28:20). Repare o leitor a repetição da partícula “se” cujo
significado é evidente: caso Javé não tivesse satisfeito os pedidos de Jacó, ele teria simplesmente escolhido
outro Elhoim!

A prova arqueológica da tese inicial (a monolatria) é confirmada também pelos achados da ilha Elefantina,
no extremo sul do Egito, onde estava situada uma pequena comunidade hebraica. Todos os anos era
celebrado o casamento entre Javé, filho de El, e a sua noiva, a deusa Anate, já venerada em Canaã.
Inclusive, o nome da deusa Anate aparece também no seguinte versículo: “Depois dele foi Sangar, filho de
Anate, que feriu a seiscentos homens dos filisteus com uma aguilhada de bois; e também ele libertou a
Israel” (Juízes 3:31). Na Jewish Encyclopedia temos a confirmação que “Anath is the name of a Canaanite

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deity”. Tudo isso confirma que os antigos Judeus conheciam e temiam várias outras divindades, embora
cultuassem unicamente o Elhoim de nome Yahweh.
Então por que, a partir do IV século a.C., com a volta de Babilônia, a visão teológica dos Hebreus mudou
radicalmente evoluindo na direção de um monoteismo intransigente?
Segundo o pensamento do estudioso italiano Domi Belloni, a resposta se encontra justamente na própria
Babilônia onde, durante todo periodo do cativeiro, os Hebreus, povo de pastores rudes e ignorantes,
entraram em contato com uma das maiores civilizações de todos os tempos. As bibliotecas do império mais
desenvolvido do mundo forneceram o material para enriquecer o A.T. com contos relativos ,por exemplo, ao
mito do Dilúvio Universal.

Na Babilônia os israelitas aprenderam disciplinas antes desconhecidas como astronomia, matemática,


geometria, literatura, medicina, etc. Foi assim que a pequena classe intelectual israelita começou a se elevar
culturalmente incorporando conceitos mais requintados de natureza político/religiosa como, por exemplo, a
necessidade de ter um deus nacional extremamente poderoso e capaz de motivar a ação de seus soldados
bem além da perspectiva de pilhagem. Esse deus já existia, e era o velho Helohim de nome Javé, cuja figura
necessitou ser depurada da contaminação com outras divindades cananéias: essas passaram a ser
consideradas ídolos de pedra ou até criaturas do mal. Depois disso, só faltava um motivo importante para
exaltar ainda mais Javé e a solução foi encontrada na criação do mito da escravidão no Egito e da dívida
contraída com Yahweh pela ajuda que ele forneceu na libertação dos israelitas da suposta escravidão.

Que se trate de um mito é comprovado pela total ausência, no imenso patrimônio arqueológico a nossa
disposição, de qualquer referência aos fatos narrados no Êxodo! É materialmente impossível que uma
população de cerca dois milhões de habitantes que permaneceu no Egito por mais de quatro séculos, não
tenha deixado o menor vestígio de sua presença naquela terra tão rica de material arqueológico. E como é
possível que as famosas pragas, em particular a morte dos primogênitos, não tenham inspirado um povo tão
sensível como o egípcio, sempre pronto a compor poemas e lamentações? O fato que na narração bíblica os
Egípcios, mesmo tendo um morto em cada família, não tivessem encontrado nada de melhor pra fazer se não
correr atrás dos fugitivos, demonstra que estamos lendo apenas um conto de literatura macabra. Restari,
inclusive, outro mistério a ser esclarecido: por que um povo que durante o êxodo pôde contar com uma força
militar de 603.000 homens (Números 1:46) bem armados, tendo em sua frente uma força de apenas 20mil
homens enfraquecidos pelas pústulas e sem cavalos (já eliminados com a quinta praga), desistiu do combate
preferindo se embrenhar numa estepe sem recursos?

Outro contrassenso na narração bíblica é a história de José, nomeado vice-rei numa nação onde jamais
existiram vice-reis, e cuja descendência se multiplicou por 3.000 em 430 de permanência, façanha, essa,
complicada também para a raça mais prolífica de coelhos. E, considerando esses quatro séculos de
permanência, como é possível que no A.T. não apareça absolutamente nada a respeito do conceito mais
importante da religiosidade dos Egípcios, ou seja, a crença numa vida no além? Seria também interessante
saber qual foi a religião praticada pelos Hebreus no antigo Egito, pois sabemos que, até a revelação no
Monte Horeb, nem Moisés nem o seu povo sabiam da existência de Yahweh que, oportunamente, se revela
naquela ocasião apresentando-se como o Elhoim de Abrão, de Isaque e de Jacó. É curioso observar que em
Horeb Javé permanece localizado dentro da sarça e, em seguida, da nuvem sendo, portanto, a sua extensão
limitada; essa, como nos ensinam os teólogos, é uma propriedade da matéria, não do espírito. Outra ridícula
absurdidade é a história das duas parteiras hebreias Sifrá e Puá que, sozinhas, teriam dado conta de mais de
um milhão de mulheres (Êxodo 1:8-21), mas que se recusam de provocar a morte dos meninos de seu povo
por elas “temerem a Deus”. A qual Deus se refere a Bíblia, se Javé ainda não havia se revelado? Isso nos
levaria a concluir que o primeiro povo monoteista da História foi, pelo menos no Egito, também o primeiro
povo ateu.

Na verdade, enquanto no templo de Elefantina os Hebreus ainda veneravam, junto com Javé, outra
divindade cananeia, na Grécia clássica o filósofo Sócrates afirmava que todas as virtudes tem sua origem em
Deus, e Pitágoras e Platão reconheciam um único Deus criador e senhor do Universo. Além disso, bem mais

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antigos que o monoteismo grego, devemos tomar em consideração o Atonismo egípcio (XIV século a.C.) e o
Masdeísmo dos Persas, fundado por Zoroastro 1.000 anos antes de Cristo.
Mesmo no âmbito do monoteismo, a diferença fundamental entre a religião hebraica e as outras é que
enquanto o Deus dos filósofos ou Áton apresentam aspectos que os aproximam bastante ao moderno
conceito de divindade totalmente espiritual, Javé mostra comportamentos e sentimentos humanos negativos
como, por exemplo, raiva, complacência, ciúme e até arrependimento pelos erros cometidos. Além disso,
Yahweh mostra de não ser nem onipotente e nem onisciente, sempre precisando de alguém que o informe
para estar a par das coisas: “Eles fizeram reis, mas não por mim; constituíram príncipes, mas eu não o
soube” (Oseias 8:4).
Mesmo assim, há uma característica comum entre Javé, Áton e a divindade concebida pelos antigos
filósofos: todas elas agem como Demiurgos no sentido de ordenar algo que já existe e, apesar da propaganda
cristã considerar Deus/Javé o ser que criou do nada céu e terra, já no final do século XVII foi descoberto que
verbo original (barah) usado para descrever a criação, não significa “criar do nada”, mas “modificar,
formar”. Esse conceito é confirmado pelos estudos de numerosos rabinos da Jewish Publication Society que,
em publicações oficiais, afirmam a Gênese narrar uma série de divisões onde Yahweh põe ordem em algo
que antes era caótico.

Ninguém nega que, a partir de um certo ponto da história, os Israelitas começaram a atribuir a Javé o
significado de um deus único, mas essa foi uma evolução teológica tardia.
Também o estudioso e escritor italiano Leo Zen considera que, mesmo aceitando a hipótese que Abrão tenha
realmente existido, ele foi apenas um anônimo chefe tribal que, sendo obrigado pelas circunstâncias a
migrar, “transformou a idolatria em monolatria, que nada tem a ver com o verdadeiro monoteismo. Abrão
não nega a existência de outros deuses, mas aceita o compromisso de venerar apenas um deles” em troca de
favores. Todavia, Leo Zen discorda de Domi Belloni a respeito da figura de Moisés que, para Zen, teria
realmente existido. Esse personagem teria sido um nobre egípcio, seguidor do monoteismo de Áton, que
liderou um pequeno grupo de semitas nômades, fornecendo a eles uma versão muito mais simplificada e
vulgarizada da imagem de um Deus universal cultuado pelos iniciados do antigo Egito.
Em conclusão, os Hebreus não inventam o monoteismo mas, no decorrer dos séculos, entrando em contato
com outras civilizações culturalmente mais avançadas, transformam aos poucos a figura de Javé fazendo
dele o Deus universal que todos conhecemos.

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ELUCIDANDO OS MILAGRES DE CRISTO

Antes de entrar no vivo da matéria, seria oportuno ter uma visão geral do conceito de milagre,
principalmente no contexto da tradição católica. O moderno Catecismo Católico (CC) reafirma um antigo
dogma tradicional, ou seja, que a função do milagre é de revelar a natureza, a autoridade e a potência de
quem o cumpre – que é sempre Deus – o qual age de forma autônoma e imperscrutável, eventualmente pela
intercessão de algum santo.

No entanto, o CC nada diz a respeito de milagres relatados em textos de outras religiões: simplesmente
ignora os fenômenos relativos a cultos como o moderno Judaísmo, o Hinduísmo, o Islamismo, o
Kardecismo, etc. Muito menos toma em consideração fatos extraordinários ocorridos a ateus e agnósticos
alegando que os milagres são manifestações do único e verdadeiro Deus cristão e servem para reforçar a fé.
Em síntese, o CC nega a existência de milagres externos ao âmbito do catolicismo. Destarte, outros eventos
inexplicáveis ou são falsos ou são obra do demônio.
Com efeito, para o CC os únicos milagres “verdadeiros” são aqueles operados pelo “Filho de Deus”, Jesus
Cristo, nos quais o cristão tem a obrigação absoluta de acreditar, obrigação que não se estende aos milagres
feitos pelos santos ou pelos profetas.
Portanto, somente os milagres de Jesus são considerados fatos históricos com significado transcendental e,
consequentemente, objetos de veneração.

Visando compreender e interpretar os milagres de Jesus é fundamental entender o contexto histórico e


cultural do mundo em que ele viveu.
Já antes de Cristo surgiram relatos de fatos mirabolantes. Por exemplo, em 181 a.C., em Roma, durante uma
violenta pestilência, caiu uma chuva de sangue nas cercanias dos templos dos deuses Marte e Concórdia
enquanto que a estátua de Juno começou a chorar. Cerca de um século depois, apareceram gotas de sangue
no tabernáculo dessa mesma divindade. Uma estátua de Apolo chorou por quatro dias seguidos na cidade
italiana de Cumas (famosa pela sua Sibila) em 130 d.C.
A estátua do deus Mercúrio, na cidade de Arezzo, suou no ano 93 a.C. e o mesmo ocorreu com a de Marte
quarenta anos depois.
No início do primeiro século, e não apenas na Palestina, os milagres (do latim miraculum, do verbo mirare,
“maravilhar-se”) se tornaram fatos cotidianos. No Mundo Antigo, principalmente na parte oriental do
Império Romano, mais próxima ao misticismo da Pérsia e da Índia, prevalecia uma mentalidade
supersticiosa e apocalíptica segundo a qual o sobrenatural e o maravilhoso eram a regra e não a exceção.

Em todo canto havia videntes, curadores, pajés e taumaturgos inspirados por alguma Divindade, aos quais
eram atribuídos milagres de vários tipos, inclusive a ressurreição. O famoso escritor romano Petrônio
resume o espírito de seu tempo afirmando, sarcasticamente, que, indo pela rua, era mais fácil se deparar com
um deus de que com um ser humano.
Todos podiam operar milagres, inclusive os próprios imperadores. Por exemplo, de acordo com os
historiadores Tácito, Suetónio e Dião Cássio, o imperador Vespasiano curou cegos e paralíticos passando
uma mistura de saliva e pó nas pálpebras dos doentes, exatamente como havia feito Jesus.
Também um filósofo neo-pitagórico, o asceta Apolônio de Tiana, em companhia de numerosos discípulos,
viajou do Oriente até Roma operando milagres e chegando, depois de sua morte física, a ressuscitar sendo,
por isso, apelidado de “Jesus pagão”.

Consequentemente, não nos surpreende o fato que, nesse clima de superstição generalizado, muitos dos
milagres atribuídos a Jesus tenham realmente ocorrido. Entretanto, não se trata de eventos sobrenaturais,
mas de remissões de doenças de tipo psicossomático tais como neurastenia, histeria, esquizofrenia, etc. A

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ciência moderna nos explica como, em determinada circunstâncias e sob forte pressão emocional, certas
doenças possam efetivamente ter um benefício objetivo.

É evidente que os Evangelhos amplificaram consideravelmente essas intervenções psicológicas de Jesus


tentando, por sinal, assimilá-las às ações do profeta Eliseu: “E veio ter com ele muito povo, que trazia coxos,
cegos, mudos, aleijados, e outros muitos, e os puseram aos pés de Jesus, e ele os sarou. De tal sorte, que a
multidão se maravilhou vendo os mudos a falar, os aleijados sãos, os coxos a andar, e os cegos a ver.”
(Mateus 15,30-31). Esses dois versículos apresentam uma improvável enxurrada de milagres que ultrapassa,
de muito, qualquer possibilidade real. Fica evidente como se trate de uma pura invenção mitológica.
Mas o que mais levanta suspeitas sobre os supostos milagres de Jesus é que esses são, basicamente, a
repetição de milagres mais antigos, não apenas relatados no Antigo Testamento, como também em
elementos do mundo pagão. Seguem três exemplos.

Os Evangelhos de Mateus, Marcos e João nos contam de como Jesus andou sobre as águas do Mar da
Galileia demonstrando, assim, que Deus Pai estava disposto a dividir o poder divino com seu filho Jesus.
Todavia, o tema de andar sobre as águas já era familiar a muitas outras culturas anteriores. Na mitologia
egípcia o deus Hórus caminhou sobre a água e o mesmo fez o gigante grego Órion. Além disso, nas
milenares tradições hinduístas e budistas aparecem relatos de pessoas andando sobre a água.

Vamos agora examinar o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. De acordo com Mateus e Lucas,
Jesus multiplicou cinco pães e dois peixes com os quais foram saciadas 5.000 pessoas e ainda sobraram doze
alcofas cheias. (Mateus 14,13-21). O escritor cristão Lactâncio, conselheiro do primeiro imperador romano
cristão, Constantino I, conta que o mesmo episódio havia sido narrado, uns séculos antes, pela Sibila Eritreia
na forma seguinte: um profeta “com cinco pães e dois peixes irá saciar 5.000 homens no deserto e,
recolhendo os sobejos, serão enchidas doze alcofas”. Das duas uma: ou a Sibila Eritreia, uma figura da
mitologia greco-romana, realizou uma verdadeira profecia cumprida por Jesus uns séculos depois, ou os
evangelistas gostaram tanto desse conto que o inseriram em seus textos. Devido ser realmente difícil
imaginar um profeta pagão, supostamente orientado pelo demônio, revelar detalhes sobre a vida futura de
seu pior inimigo, a segunda explicação é a mais racional.

Outro exemplo interessante é o da pesca milagrosa relatado por João: “Simão Pedro subiu e puxou a rede
para terra, cheia de cento e cinquenta e três (153) grandes peixes” (João 21,11).
Qual seriam a origem e o significado desse número?
Embora os cristãos tenham inventado explicações bastante fantasiosas para justificá-lo, Santo Agostinho
chegou à conclusão que é um “grande mistério” muito difícil de ser desvendado. No entanto, a origem do
153 fica explicada pela filosofia de Platão onde o número está relacionado com a Vesica Piscis (bexiga de
peixe), figura fundamental para toda a metafísica platônica. A razão entre 265 e 153 fica bem próxima ao
valor da raiz quadrada do número esotérico três.

Isso significa que Jesus nunca curou ninguém?


Antes de tudo temos que lembrar que o clima de exaltação e fanatismo da época favorecia a proliferação de
formas de histeria, geralmente de origem religiosa. Havia inúmeros casos de possessos, principalmente entre
as camadas mais pobres da população. Na verdade não passavam de indivíduos com problemas psíquicos
afetados por doenças como cegueira, mutismo, paralisias, etc. Em outras palavras, todos eles mostravam
formas de somatização a qual representa uma resposta física a um sofrimento psicológico extremo.

Jesus, que frequentando os terapeutas Essênios havia desenvolvido empatia e sensibilidade, conseguia entrar
em sintonia com esses doentes e, com simplicidade e sem necessitar de rituais, os convencia do perdão de
seus pecados livrando-os, destarte, de suas obsessões, de seus males misteriosos. Acrescenta-se, também,
que Jesus era dotado de um carisma descomunal e que, como explicou o filósofo alemão Ludwig Feuerbach,
toda vez que uma multidão fanatizada em busca de milagres se depara com um indivíduo dotado de grande
carisma, o milagre sempre acontece.

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No entanto, para que o milagre ocorresse, era fundamental que o doente e os outros presentes acreditassem
cegamente nos poderes curativos do taumaturgo. Caso essa condição não fosse satisfeita, Jesus falia. Por
isso lemos que: “E não fez ali muitas maravilhas, por causa da incredulidade deles” (Mateus 13,58). Por
outro lado, naquela época havia muitos outros curandeiros, rivais de Jesus, como atestado pelos evangelistas
Mateus, Marcos e nos Atos comprovando como o fanatismo religioso fosse bastante comum entre os Judeus.

Em tempos modernos milagres foram atribuídos ao luxurioso monge russo Grigoriy Rasputin, que se tornou
uma figura carismática na corte do Czar Nicholas. Esse homem teria salvado a vida do filho hemofílico do
Czar por meio de orações, mas é difícil acreditar numa intervenção sobrenatural operada por um sujeito tão
libertino e devasso.
Mais recentemente, na cidade de Dharamsala, onde vive o Dalai Lama, centenas de turistas afirmam terem
sido curados de doenças tidas como incuráveis.
Poucos anos atrás, muitas testemunhas atestam que as estátuas do deus-elefante Ganesh tomaram leite, e o
indiano Sai Baba adquiriu uma fama internacional conseguindo materializar objetos do nada.

O fato é que a ciência nega decididamente a existência dos milagres.


Afinal, alguém já viu uma criança Down retornar normal? Ou algum membro amputado voltou a crescer?
Se Deus fosse realmente onipotente e interferisse com o curso da história, nada impediria que ele curasse um
mongol ou ressuscitasse pessoas mortas, mas isso nunca aconteceu.
Até muitos cristãos, principalmente os modernistas, duvidam da teologia dos milagres. Para eles os milagres
de Jesus nunca aconteceram de verdade, sendo apenas símbolos da fé ou narrações alegóricas aptas e
demonstrar verdades espirituais mais complexas.

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O "CRISTO PAGÃO"

Não é essa a primeira vez que escrevo sobre o Paganismo mostrando como essa antiga religião, tida como
sinônimo de idolatria, falsidade e libertinagem, fosse na verdade bastante diferente do clichê imposto pela
tradição e pela mídia moderna. No meu ensaio intitulado "Morte e Ressurreição do Paganismo" explico
como a grandíssima maioria dos filósofos pagãos fosse rigidamente monoteísta; tais foram pensadores do
calibre de Pitágoras, Platão, Epiteto, Plotino, Marco Aurélio, etc. Nesse artigo irei apresentar mais um
personagem, um filósofo neo-pitagórico e professor de origem grega cujos ensinamentos influenciaram o
pensamento científico por séculos após a sua morte.
Trata-se de Apolônio de Tiana (15 d.C-100 d.C.) conhecido principalmente através da biografia do
historiador Flávio Filóstrato, mas também citado nas obras "A Vida de Pitágoras", de Porfírio, e "A Vida
Pitagórica", de Jâmblico. Todas as fontes concordam em referir que a vida de Apolônio de Tiana, profeta de
um culto místico fundado sobre a comunhão com Deus, foi dedicada à purificação e ao renascimento do
pensamento pagão no mais alto nível qualitativo e filosófico, e muitos elementos sugerem a existência, em
Apolônio, de vestígios daquela sabedoria eterna da qual Helena P. Blavatsky falava em seus escritos.

Apolônio foi justamente apelidado de "Cristo Pagão" e, sob muitos pontos de vista, podemos pensar nele
como num reformador do paganismo, sempre tentando orientar e iluminar a classe dominante da época. O
trabalho de Apolônio de Tiana não se limitou, de fato, à reforma e à renovação das comunidades de
iniciação, mas estendeu-se a um significado social preciso, focado na idéia de que o chefe do império devia
ser "um pastor fiel e prudente capaz de liderar o rebanho da humanidade".
Desde a juventude, Apolônio, tornou-se um vegetariano puro excluindo o vinho de suas refeições; ele
afirmava que a comida mais pura era aquela produzida a partir da terra e que a carne desgastava e perturbava
a alma. Esse filósofo costumava viajar descalço e vestia longos mantos de linho branco, igual aos dos
antigos Essênios da Palestina. Também doou todos os seus pertences aos necessitados dedicando quatro
anos ao estudo e à meditação sem nunca falar em público. Para completar, fez um voto de castidade que,
porém, nunca chegou a impor aos seus discípulos.

Após este período de preparação ascética para a jornada espiritual, começou suas viagens que o levaram a
conhecer e aprender os segredos dos magos da Babilônia e os mistérios dos Egípcios. Continuando a sua
peregrinação em todo o mundo viajou para a Índia, onde conheceu e frequentou os brâmanes e ascetas, e
hospedou-se em mosteiros budistas. Depois de deixar a Índia, Apolônio visitou outras regiões da Ásia
Menor onde entrou em contato com estudiosos e iniciados e, em seguida, viajou para a Grécia divulgando a
sua imensa sabedoria para os povos do Mediterrâneo.
Os sábios e ascetas indianos, com os quais viveu por um bom tempo, haviam lhe ensinado como ficar em
comunicação com eles, mesmo distante. Na verdade, ele tinha adquirido os poderes latentes (clarividência,
telepatia e ubiquidade) típicos dos sábios e dos grande iniciados. Na Grécia curou muitos doentes e deu
instruções sobre as terapias, mas, além das curas físicas, também dedicou-se às curas espirituais.

Durante as suas peregrinações foi a Roma, na Espanha, na África e na Sicília antes de voltar novamente em
Atenas já com 68 anos de idade.
O relacionamento entre Apolônio e os líderes romanos foi particularmente intenso e variado. Por um lado
ele foi amigo dos imperadores Vespasiano, Tito e Nerva que acataram, pelo menos em parte, os seus
conselhos sobre a melhor forma de governar; no entanto, seja Nero que Domiciano o acusaram de traição.
Apolônio deparou-se com a tirania anti-intelectual de Nero, que havia expulso todos os filósofos de Roma.
Corajosamente, ele continuou a dar palestras e reunir prosélitos afirmando que "nada, nos assuntos
humanos, pode aterrorizar o sábio". Devido ter afirmado que, no fundo, Nero não passava de um palhaço,
foi levado ao tribunal sob a acusação de impiedade. Todavia, no momento em que o acusador estava prestes
a ler a acusação, o papel ficou milagrosamente branco. "Vá aonde você quiser, pois você é forte demais para
ficar sob o meu poder", disse o acusador, que nada pôde fazer se não absolvê-lo da acusação.

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Uns anos depois, Apolônio teve outros problemas com o imperador Domiciano, figura arrogante e sombria.
Embora esse soberano o fizesse objeto de acusações e calúnias, Apolônio nunca perdeu uma ocasião para
denunciar a tirania desse opressor, sem medo pela sua própria segurança, sendo enfim levado ao tribunal sob
a falsa acusação de ter conspirado contra o imperador. Apolônio ouviu calmamente as acusações, recusando-
se de olhar nos olhos de Domiciano e preferindo dirigir o olhar para o céu. Com a mesma tranquilidade dos
grandes sábios, Apolônio defendeu-se e, repentinamente, desmaterializou-se desaparecendo do tribunal. No
mesmo dia, poucas horas depois, apareceu novamente na cidade de Pozzuoli, a mais de 200 quilômetros de
Roma.
Apolônio teve discípulos que o acompanhavam por toda parte, vestindo túnicas de linho branco igual ele.
Entre os seguidores mais importantes lembramos Caio Musônio Rufo, filósofo romano adepto do
estoicismo. Outros discípulos dignos de referência foram: Demétrio, o médico Dioscórides (fundador da
farmacognosia) e Menipo. De seus discípulos Apolônio exigiu uma conduta irrepreensível e a observância
de uns preceitos: "Não matem os seres que vivem; não comam carne, não sintam inveja, malícia e ódio;
sejam isentos de calúnia e ressentimento."

Apolônio tinha a capacidade de entrar em simbiose com a Natureza praticando uma pureza de vida e um
ascetismo exemplar que lhe permitiram operar milagres e dispensar curas espirituais. Tinha o dom de curar
qualquer tipo de doença e sabia prever os acontecimentos em detalhe, assim como produzir talismãs
poderosos para o benefício do bem e humanidade. Os poderes de Apolônio eram tais que Santo Justino
Mártir afirmou o seguinte: "Por que os talismãs de Apolônio tem poder, pois eles impedem, como se vê, a
fúria das tempestades, dos ventos violentos e dos ataques de animais selvagens, enquanto os milagres de
Nosso Senhor são preservados apenas pela tradição, os de Apolônio são mais numerosos e se manifestam
nos fatos presentes?".
Os cronistas da época narram que um dia ressuscitou uma jovem apenas tocando-a com suas mãos e
pronunciando algumas frases ininteligíveis.

A faculdade de operar milagres era gerada pelo contato constante com o seu Mestre interior, ou seja, a
Alma, podendo assim compreender a verdadeira essência de tudo o que está na Natureza.
Se a árvore é conhecida pelos seus frutos, os de Apolônio de Tiana estavam cheios de amor, altruísmo,
tolerância e sabedoria, tanto que ele foi considerado um dos maiores mensageiros divinos de todos os
tempos. Objetivamente, ele tentou ensinar aos homens a espiritualidade restaurando os cultos pagãos
purificando-os das práticas supersticiosas, e ensinando, ao mesmo tempo, os caminhos de uma vida pura
pela qual os homens podem alcançar a sabedoria e "fazer milagres".
Apolônio ensinou que o culto despido de ídolos e de símbolos era o mais verdadeiro e que cada religião
tinha em si uma parte da Verdade, mas que nenhuma podia ser considerada superior às outras.
Consequentemente, a autêntica intimidade com Deus se consegue com a pureza da meditação interior, sem
recorrer a sacrifícios ou práticas absurdas.

Madame Blavatsky disse que: "Assim como Buda e Jesus, Apolônio foi ferrenho inimigo de qualquer forma
pomposa de piedade exterior, de cerimônias religiosas inúteis e ostentosas e, acima de tudo, da hipocrisia.
Se estudarmos a questão sem viés, reconheceremos logo que a ética da Gautama Buda, Platão, Apolônio,
Jesus, Amônio Sacca, e seus discípulos se baseava na mesma filosofia mística. Todos eles adoraram um
Deus considerado ou como "Pai" pela humanidade que vive nele ou como Princípio Criativo, e todos eles
levaram uma vida santa. "

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A DOUTRINA ORIGINAL DE JESUS

Visando compreender o verdadeiro e profundo significado da doutrina de Cristo, é absolutamente necessário


investigar o contexto político, social e cultural da Palestina do I século, época durante a qual não apenas
Jesus, mas outros líderes políticos-religiosos realizaram sua pregação.

Já antes da conquista romana, os Judeus haviam sofrido o domínio de povos mais poderosos (Assírios,
Babilônios, Persas e Gregos) fato, esse, que acarretou um processo de decadência material e espiritual de
todo Israel. Para os Hebreus era inaceitável que a pátria -que havia sido entregue diretamente por Deus-
tivesse sido profanada por invasores considerados idólatras. A situação piorou ainda mais quando, no ano 63
a.C., a Palestina foi transformada em protetorado pelos Romanos os quais, em seguida, impuseram como rei
Herodes "o Grande", homem violento e detestado pela grandíssima maioria dos Israelitas.

Foi justamente nas primeiras décadas da Era Vulgar que vários pregadores messiânicos anunciaram a
iminência do Reino de Deus e a completa realização das promessas divinas, ou seja, a volta de um estado
independente e a queda do jugo romano. Entre eles, conforme lemos nos Atos, destacam-se Teudas e Judas:
“Porque antes destes dias levantou-se Teudas ... o qual foi morto. Depois deste levantou-se Judas, o galileu,
... mas também esse pereceu” (Atos 5:36-37). Também nos documentos Essênios descobertos a Qumran a
certeza da vinda iminente do Reino de Deus era atestada por longos textos incitando à luta armada contra os
“Kittim”, alcunha dada aos militares romanos. Entretanto essa seita, ao contrário dos Zelotes, achava que,
além da luta armada, fosse necessário restaurar a autêntica fé dos antepassados orando, fazendo penitências,
livrando-se dos bens materiais e mantendo a castidade.

De modo geral, com a parcial exceção dos membros das classes mais abastadas, existia a crença
generalizada de que em breve Yahweh teria enviado um líder, um verdadeiro “Filho de Deus” apto a
restabelecer a justiça social, o respeito da Lei de Moisés e a independência da nação. Esse homem,
descendente do rei Davi, teria sido o Messias (em hebraico Mashiach, em grego Christos) cuja figura já
havia sido preanunciada pelos Profetas. A palavra Mashiach significava, literalmente, o Ungido pois, na
antiga cerimônia de investidura real, o escolhido tinha sua testa ungida com óleo perfumado. O próprio
Jesus, pouco antes de ser preso, foi protagonista de uma cerimônia de unção em Betânia: “E, estando ele em
Betânia, assentado à mesa em casa de Simão, o leproso, veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro,
com unguento de nardo puro, de muito preço, e quebrando o vaso, lhe derramou sobre a cabeça” (Marcos
13:3).

É oportuno sublinhar, mais uma vez, que o “Reino de Deus” em seu significado original, era imaginado
como sendo uma comunidade terrena, guiada por Deus através do seu enviado, o Ungido, pertencente à
família do rei Davi. Tratava-se, portanto, de um reino terreno e político, embora teocrático e misticamente
sacralizado, no qual não haveria mais a arrogância dos ricos e o amor entre os irmãos teria triunfado. Fato
ainda mais importante, a instauração do reino de Deus não implicava o nascimento de uma nova religião,
mas tinha o seu alicerce sobre à antiga Lei estabelecida por Moisés –eventualmente aprimorada- e era
reservado exclusivamente às ovelhas perdidas da casa de Israel: “Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou,
dizendo: Não ireis pelo caminho das gentes [os pagãos], nem entrareis em cidades de samaritanos. Mas ide
antes às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 10:5-6).

Papel fundamental do Messias não era apenas a libertação de seu povo da dominação dos Romanos
(adoradores de falsos deuses), como também realizar a justiça social e a eliminação da miséria. Nesse
sentido Jesus pode realmente ser considerado, na História da cultura mediterrânea, como o primeiro líder de
um socialismo religioso, utópico e messiânico. Observamos que o núcleo de seu programa político e moral,
resumido no Sermão da Montanha, apresenta-se rico de conceitos já expressos pela comunidade dos
Essênios e é caracterizado pelo amor para com os pobres e os humildes, nos quais se reflete e se manifesta o
semblante de Deus: “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era
estrangeiro, e hospedastes-me. Era nu, e vestistes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.” (Mateus 25:35-36).
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É provável que o jovem Jesus tenha participado da Escola de Hillel, cujo mandamento mais importante era
justamente o seguinte: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que
este” (Mateus 12:31).

Entretanto, todo esse amor era reservado exclusivamente aos Judeus os quais jamais teriam aceito uma
postura tolerante em relação a seus piores inimigos: os ocupantes romanos! Quem tivesse se atrevido a
pronunciar uma só palavra de amor ou tivesse mostrado fraqueza ao lidar com esses idólatras, teria sido
imediatamente apedrejado pelo povo, até antes de ser degolado pelos Zelotes. E, de fato, era comum os
Zelotes, também apelidados de Sicários, apunhalar os colaboracionistas judeus aparecendo inesperadamente
e sumindo logo no nada como perfeitos guerrilheiros. Quando, em ocasião da revolta dos anos 66-70 d.C. as
legiões voltaram à Palestina, o establishment filo-romano (sacerdotes, nobres, ricos, mercantes, etc.) viram
os Romanos como salvadores e correram a se entregar aos inimigos.

Embora os Evangelhos apontem os Fariseus como o grupo mais comprometido com os Romanos, na
verdade quem controlava o Templo e, consequentemente, a cidade e o todo território, eram os Saduceus –
que desacreditavam na ressurreição. Devido eles terem a maioria no Sinédrio elegiam o Sumo Sacerdote
exercendo, destarde, o verdadeiro poder; os historiadores modernos acreditam que a convocação de Pedro e
João perante o Sinédrio foi ordenada pelos Saduceus e não pelos Fariseus (Atos 5:17-52). Quanto a esses
últimos, apesar das disputas acirradas com Jesus a respeito da Lei, a crença que eles tinham na ressurreição
fez com que houvesse uma parcial adesão à primeira comunidade cristã, como atesta o versículo seguinte:
“Alguns, porém, da seita dos fariseus, que tinham crido, se levantaram, dizendo que era mister circuncidiá-
los e mandar-lhes que guardassem a Lei de Moisés” (Atos 15:5). Resta o fato que o verdadeiro Jesus,
patriota messiânico, nada tinha a ver com o Jesus teológico inventado por Paulo de Tarso, um hippie
indiferente à situação política da nação e pregador da não-violência.

Ao contrário, Jesus lança sete maldições contra a hipocrisia dos escribas (Lucas 11:42-52), preconiza o
inferno para aqueles que desacreditam nele (Lucas 10:15 e 12:10), afirma que não veio para semear a paz,
mas para desenbainhar a espada (Mateus 10:34), chegando a ameaçar de morte violenta os inimigos que não
o aceitam como rei: “E quanto àqueles meu inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os
aqui, e matai-os diante de mim” (Lucas 19:27). Outra coisa que precisa esclarecer é se Jesus aprovava
realmente, mesmo que indiretamente, o tributo a César. Observamos que a aceitação do tributo presente nos
Evangelhos sinóticos pode ser desmentida por dois fatos: primeiro o Evangelho de João ignora totalmente
essa declaração de Jesus; em segundo lugar os próprios sinóticos acusam Jesus de sonegar o imposto com
essas palavras: “E começaram a acusá-lo, dizendo: Havemos achado este pervertendo a nossa nação,
proibindo dar o tributo a César, e dizendo que ele mesmo é o Cristo, o rei” (Lucas 23:2).
Esse da sonegação fiscal foi um tema constante em todos os Messias que precederam e seguiram Jesus e não
há dúvida alguma que para qualquer judeu da época a defesa do pagamento do tributo ao invasor teria sido
um pensamento abominável, a ser punido com a lapidação imediata. O que ainda hoje lemos nos Evangelhos
(Mateus 22:21) é necessariamente uma interpolação sucessiva, inserida para tornar Jesus aceitável aos olhos
dos Romanos e aos outros habitantes do Império.

Voltando à doutrina de Jesus, foi demonstrado que os ensinamentos nela contidos não são nada originais,
pois derivam dos Salmos, dos Profetas e dos Essênios. Esses preceitos morais pertenciam também à filosofia
pagã, principalmente àquela ensinada pelos Estoicos e pelos Cínicos. Muito provavelmente Jesus conhecia a
Escola cínica de Gadara na qual se pregava, mediante o seu escárnio anti-social, o desprezo pela riqueza e o
luxo, junto com o amor para os mais humildes e os oprimidos. Ecos desses ensinamentos de inclusão social
são encontrados no versículo onde Jesus diz: “Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o
crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram...” (Mateus 21:32), e no outro relativo à adultera: “E
disse-lhe Jesus: Nem eu te condeno; vai-te, e não peques mais” (João 8:11). Nem duas décadas depois,
Paulo de Tarso irá desmentir as palavras de seu mestre afirmando o seguinte: “Não erreis: nem os devassos,
nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os
avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus” (1 Corintios
6:10).

26
Outra atitude característica de Jesus é a hostilidade pervicaz em relação aos ricos os quais são condenados
de antemão não por seus pecados, mas por sua riqueza: “Mas ai de vós, ricos! Porque já tendes a vossa
consolação” (Lucas 6:24). E ao jovem que lhe pergunta o que deve fazer para ser salvo, ele responde:
“...Ainda te falta uma coisa; vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu;
vem, e segue-me” (Lucas 18:22); Jesus indica ao jovem o mesmo caminho seguido pelos Essênios que, antes
de serem aceitos na comunidade, tinham que se desfazer de seus bens e doar tudo aos pobres.

Em conclusão, a doutrina de Jesus, assim como relatada pelos Evangelhos sinóticos, mostra a visão de um
homem revolucionário, que contestava a hierarquia do Templo, os teólogos formalistas, o ritualismo vazio, a
hipocrisia dos sacerdotes, a prática puramente exterior da Lei e a falta de caridade do establishment político-
religioso de Israel. Por outro lado, Jesus estava em total sintonia com as camadas mais humildes da
sociedade, aquelas que não tiravam nenhum proveito da ocupação romana e que mais almejavam a
restauração de uma nação livre, independente e socialmente justa. Quem, ainda hoje afirma que Cristo foi
crucificado por blasfêmia, esquece que toda a sua pregação nada tinha a ver com essa acusação e que todos
os Profetas anteriores haviam agido da mesma forma que ele agiu. Inclusive a blasfêmia era punida com a
lapidação enquanto a crucificação era reservada aos crimes políticos!

Depois veio Paulo de Tarso que, no intento de divulgar uma figura politicamente neutra, alterou totalmente a
pregação de Jesus transformando um profeta messiânico, ou seja patriótico, numa figura pacifista, filho de
Deus –no sentido literal do termo- e Deus ele mesmo.
Foi assim que nasceu a religião católica, mas essa é outra história.

27
A MENSAGEM SECRETA DE CRISTO

Leia com atenção o versículo n° 7 do Evangelho de Tomé:


“Jesus disse: Afortunado é o leão que o homem comer e o leão se torna homem; e desgraçado é o homem
que o leão comer, e o homem se torna leão.”
Considere agora o versículo n° 10 do Evangelho de Felipe:
“A luz e as trevas, a vida e a morte, as coisas da direita e aquelas da esquerda, elas são irmãs entre si. Não
é possível que se separem. Por isso, nem os bons são bons nem os maus são maus; nem a vida é vida nem a
morte é morte. Por isso, cada coisa se determinará em seu princípio, no início. Aqueles que estão elevados
por sobre o mundo são indissolúveis, são eternos.”

Entendeu alguma coisa? Nada? No problem, isso apenas significa que você ainda não foi introduzido(a) à
mensagem secreta de Cristo, ou seja, à doutrina gnóstica.
No segundo século da nossa era, na cidade egípcia de Alexandria, os cultos teólogos distinguiam entre
“pístis”, a fé aceita imediatamente por simples adesão sentimental, e “gnosis”, que representa o raciocínio da
fé, o conhecimento das verdades religiosas finalizadas a uma aceitação racional da mesma. O alicerce do
gnosticismo é a filosofia de Platão e, antes do nascimento da corrente gnóstica do Cristianismo, o termo foi
também associado aos Mistérios greco-romanos. De acordo com a filosofia platônica, o processo da criação
nada é se não a cópia de “ideias” ou “imagens” existentes, antes da origem do tempo, na Mente de Deus.
Para os Gnósticos, esse conceito é expresso por meio do termo “emanação”: Deus, localizado no centro do
Universo não cria, mas emana, entidades chamadas Éons (faíscas divinas) cuja perfeição vai diminuindo na
medida em que se afastam dele assim como acontece com a luz que enfraquece quando se distancia da sua
fonte.

Deus não emana Éons singularmente, mas em pares ativo-passivo (ou masculino-feminino) complementares
que, juntos, constituem as Sigízas que, por sua vez, podem emanar outras Sigízias. Em sua totalidade as
Sigízias configuram o domínio divino do Pleroma (a região da Luz) e caracterizam em si os diversos
atributos de Deus. Das primeiras quatro Sigízias, totalmente espirituais, descendem os Éons inferiores até
chegar à Alma e à Matéria que constituem o ser humano terrestre. Infelizmente, a Alma, entrando em
contato com a Matéria, foi corrompida por ela caindo nas trevas e tornando-se escrava do mal, da dor e da
morte. Uma deterioração reforçada pelo olvido e pela ignorância da própria origem divina, mas que pode ser
revertida mediante a Gnose. Dependendo do grau de consciência existem três categorias de seres humanos.
Os Hílicos, escravos das paixões e das fraquezas da carne; os Psíquicos, ainda não totalmente perfeitos e os
Pneumáticos, que renegaram a matéria e optaram pelo espírito. Cristo exorta os seus discípulos a tomarem
consciência da origem divina de todos com essas palavras: “Jesus disse: Mas se não vos conhecerdes, então
vivereis na pobreza e sereis a pobreza.” (Tomé, 3).

Mas qual foi a origem do mal, de quem a culpa? Um estudo mais aprofundado da filosofia gnóstica revela
detalhes intrigantes. O terceiro Éon inferior, cujo nome é Sophia, teve a presunção de gerar sozinha sem a
ajuda do consorte. Como resultado, Sophia deu vida a um monstro, o primeiro arconte, o Demiurgo malvado
(identificado com Jahvé do Antigo Testamento). O Demiurgo criou o mundo da matéria e criou também o
homem tendo, como modelo, o Adão celeste (sempre presente na Mente de Deus), mas dessa vez preso
dentro de um corpo material. Em seguida, Sophia se arrependeu e Deus, visando o resgate da humanidade,
enviou Cristo formando uma nova Sigízia cujos dois Éons eram: Soter (Cristo, o Salvador) e a própria
Sophia (o Espírito Santo, a Noiva de Cristo). Então, para os Gnósticos, o Espírito Santo é expressão da
potência e da vontade de Deus, sem deixar de ser hipóstase (substância) dele. Em síntese, Cristo foi enviado
à Terra na forma de um homem (Jesus) para dar aos homens a Gnose necessária para que eles se libertassem
do mundo físico e retornassem ao mundo espiritual.

É óbvio que Jesus, sendo um Éon, era constituído de puro espírito; portanto não nasceu, não morreu e nem
sequer ressuscitou. Jesus apareceu repentinamente na Galileia na forma de um ser humano, mas sendo
28
intimamente uma entidade exclusivamente divina; o seu corpo, igual um avatar, não passa de mera
aparência. Consequentemente, morte e ressurreição representam eventos puramente simbólicos e o verbo
ressuscitar significa “acordar para uma nova vida”, sendo que todo homem deve, com a ajuda de Sophia (o
Espírito Santo) acordar e se conscientizar da sua origem divina. No entanto, o Pai, Cristo e o Espírito Santo
não são uma trindade, pois, como já foi explicado, seja Jesus que Sophia são Éons, emanações de Deus,
hipóstases do Pai. Até Paulo de Tarso parece duvidar da realidade material de Cristo quando afirma que:
“Mas [Cristo] aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens”
(Filipenses 2,7). Paulo usa a palavra “forma” e não substância: uma negação explícita da terrenidade de
Jesus.

Nos Evangelhos gnósticos, Cristo não age e não faz milagres, apenas transmite a sua sapiência soteriológica.
Todo versículo do texto de Tomé começa com a locução: “E Jesus disse…” reforçando o conceito que
Cristo desenvolveu exclusivamente a função de conselheiro espiritual que, com o exemplo de si mesmo e
com a revelação das verdades esquecidas pelos homens, fez com que os seres decaídos tivessem como
participar da Gnose, ou seja, do conhecimento salvífico. O percurso gnóstico de salvação decorre de forma
gradual e progressiva: conhecimento do bem; sua aceitação; contemplação; elevação mística; identificação
com Deus e, de consequência, domínio do universo cósmico. Temos agora os elementos necessários para
compreender o significado profundo e real dos dois versículos citados no começo desse trabalho. O
versículo sete significa que afortunado é o leão (o homem físico, o Hílico) se o homem espiritual (o
Pneumático) o domina e o anula; desaventurado é o homem espiritual que se deixa dominar pela sua
materialidade. Quanto ao versículo de Filipe, o significado é o seguinte. O texto visa sublinhar o pensamento
platônico da alma prisioneira da matéria, sujeita às forças do mal; as palavras vida, morte, direita e esquerda,
servem para reafirmar o conceito de opostos, típico da doutrina gnóstica.

As imagens, protótipos perfeitos das coisas (as idéias platônicas), têm suas verdadeiras existências,
indissolúveis e eternas, na Mente de Deus. Em seu conjunto a Gnose, mais que uma ascensão mística, é uma
atividade racional de introspecção e de meditação; o conhecimento (gnosis) torna-se necessário para
alcançar a salvação com o retorno em Deus, origem e fim de todas as coisas. No Evangelho da Verdade,
escrito em 180 d.C., lemos as seguintes palavras: “Portanto, quem possuir a Gnose, é um ser do alto. Se for
chamado, ouve, responde e se dirige para quem o chamou, para subir até Ele, pois sabe o motivo pelo qual
foi chamado”.
Do ponto de vista histórico, foi Marcião de Sínope que, no ano 140 d.C., divulgou o seu Evangelho gnóstico
na cidade de Roma. Esse Evangelho, destruído pela Igreja nascente, começava narrando que, na época de
Pilatos, o Salvador filho de Deus, havia descido do céu perto de Cafarnaum onde iniciou a sua pregação.
Toda a narração de Marcião é rica de referências a lugares geográficos, datas e personagens até então
desconhecidos. Anteriormente, sobre a vida de Jesus, circulavam apenas sentenças (logías) definidas “curtas
e lacônicas” e foi provavelmente graças às informações históricas e geográficas de Marcião que foram
escritos os quatro Evangelhos canônicos.

O Evangelho de Tomé, também conhecido como “O quinto Evangelho”, apresenta uma série de mais de cem
logías de Jesus que, em sua maioria, têm uma forma idêntica ou muito parecida aos versículos dos quatro
Evangelhos canônicos, embora outras mostrem significados diferentes. Desde a segunda metade do século
passado, os estudiosos tiveram que responder à seguinte importante pergunta: houve uma modificação de
tipo gnóstico dos Evangelhos canônicos ou foi uma interpretação contemporânea e independente de uma
fonte comum mais antiga? Já vimos que existiam as logías e, antes de dar uma resposta definitiva, devemos
considerar que o Evangelho de João, além das Epístolas de São Paulo, é rico de importantes elementos
gnósticos evidenciados desde o primeiro versículo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e
o Verbo era Deus.” (João 1,1). O Verbo é a “carne” de Cristo o seu corpo espiritual de Éon, pois se trata de
uma hipóstase de Deus. Observamos, incidentalmente, que não é por acaso que durante os trabalhos nas
lojas Maçônicas a Bíblia está aberta justamente em correspondência do início do Evangelho de João
significando que a tradição gnóstica representa, no Cristianismo, o ponto de contato mais direto com a
Maçonaria.

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Devido as numerosas correspondências entre passos dos Evangelhos gnósticos e os escritos de Paulo de
Tarso e de João, chegamos à conclusão que quando esses textos foram escritos (na metade do segundo
século) a interpretação gnóstica da mensagem de Cristo era ainda perfeitamente legítima. Com efeito, no
segundo século, o Cristianismo gnóstico teve um grande sucesso tanto em Roma como em Alexandria, mas
em seguida foi condenado como heresia e ferozmente perseguido pela Igreja “oficial”. Por qual motivo? A
razão foi eminentemente política. Os gnósticos tinham certeza que era possível alcançar o conhecimento
divino e a salvação mediante revelações pessoais, êxtases e visões, exatamente como acontecera com São
Paulo. Para eles quem recebia uma revelação diretamente de Deus possuía uma autoridade incontestável,
como os antigos Profetas e os Apóstolos. Portanto, para os gnósticos o homem Pneumático podia retornar ao
Pleroma sem necessitar de alguma intermediação e não, como asseverava a Igreja, por meio da estrutura
eclesial derivada dos Apóstolos e os seus sucessores, ou seja, os bispos.

Os defensores da ortodoxia, preocupados diante da possibilidade de perder o seu poder espiritual e político,
começaram a suprimir todos os documentos gnósticos que encontraram e desencadearam uma violenta
persecução logo após o Concílio de Niceia de 325 d.C. Como resultado, a doutrina gnóstica, que havia
prosperado até o início do quinto século, desapareceu rapidamente junto com os derradeiros vestígios do
Paganismo. Durante mais de quinze séculos, o pouco que se sabia do gnosticismo vinha de poucas citações e
comentários hostis da patrística. Felizmente, em 1945, nos arredores do vilarejo Nag Hammâdi, no Alto
Egito, foi descoberta uma biblioteca gnóstica em língua copta. Foi assim que textos importantíssimos como
os Evangelhos de Tomé e de Felipe foram recuperados e traduzidos.

A imagem de Jesus que esses livros nos transmitem é bastante diferente da que foi proposta pelo
Cristianismo tradicional: um Mestre de sapiência em lugar de um Messias bíblico, humanamente sábio e por
nada obsessionado pela síndrome culpa-pecado tão típica do catolicismo. Se trata, em suma, de Escrituras
isentas daquela atmosfera sobrecarregada de milagres e eventos sobrenaturais que faz dos Evangelhos
canônicos livros tão mitológicos e irracionais. Provavelmente, se o Cristianismo gnóstico tivesse
prevalecido, toda a história da Humanidade teria sido outra.

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JESUS CRISTO: HIPPIE OU GUERRILHEIRO?

Quem foi realmente Jesus? Um hippie manso e propalador da paz universal ou um profeta intencionado a
restaurar a liberdade de Israel? Um cordeiro desarmado no meio dos lobos ou um “meshiha” líder da Nação
assim como o foi o rei Davi? O Cristianismo nega firmemente qualquer tipo de ação política de Jesus mas,
ao mesmo tempo e de forma contraditória, lhe reconhece o título de Messias, o mais alto dos títulos entre os
Hebreus: o de libertador político de Israel! Talvez, a forma melhor para esclarecer essas dúvidas seja
analisar atentamente as últimas horas de vida de Jesus não de um ponto de vista doutrinal e dogmático, mas
aplicando o raciocínio e os critérios da objetividade histórica. De acordo com a tradição, os eventos da
paixão iniciam na noite de uma quinta-feira de Abril quando Jesus celebra a Páscoa judaica num Cenáculo
localizado em cima do Monte Sião, em Jerusalém. Em seguida Jesus, acompanhado por seus discípulos,
desce no vale do rio Cédron e alcança o sopé do Monte das Oliveiras num lugar chamado Getsêmani onde é
preso. A terceira etapa é no palácio do sumo sacerdote Caifás, mas antes o cortejo passa pela casa de seu
predecessor Anás. O processo dura a noite toda e termina quando o galo canta.

Na manhã da sexta-feira os sacerdotes levam Jesus até a Fortaleza Antônia, do outro lado da cidade, para ser
julgado por Pilatos. O Prefeito romano manda Jesus até o palacete de Herodes Antipas e ele, após um breve
interrogatório, o devolve a Pôncio Pilatos. Depois de ter sido sentenciado, Jesus é conduzido até ao Gólgota
onde é crucificado às nove horas da manhã. “E era a hora terceira, e o crucificaram” (Marcos 15,25).
Portanto, a partir do fim da Santa Ceia até o suplício final, transcorreram menos de doze horas, tempo breve
demais para que se realizassem todos os eventos relatados nos Evangelhos canônicos. Durante esse tempo
Jesus teria sofrido três diferentes processos: um no palácio do Sumo Sacerdote, um no Pretório e um no
Paço de Herodes, sem contar o interrogatório na casa de Anás. Além disso, temos que levar em conta as
distâncias entre os vários lugares, valores que podem ser calculados, em linha reta, utilizando um mapa da
cidade de Jerusalém, assim como ela era estruturada no primeiro século. Vamos examinar em detalhe o
cômputo das distâncias:

1) do Cenáculo ao Getsêmani: 1,80 Km


2) do Getsêmani à casa de Caifás: 1,48 Km
3) de Caifás a Pilatos: 1,07 Km
4) o trajeto Pilatos – Herodes – Pilatos: 1,18 Km
5) de Pilatos ao Gólgota: 0,50 Km
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Obtemos um total de, aproximadamente, 6 Km.
Mas essa é apenas a distância calculada em linha reta e não leva em consideração a tortuosidade das vielas,
os desníveis de uma cidade erguida nas encostas de uma montanha e a presença de inúmeros peregrinos que,
dormindo nas ruas, atrapalhavam a caminhada. A imagem seguinte mostra claramente os desníveis e os
percursos acidentados.

Ainda temos que levar em conta que Jesus estava atado, cansado e desmoralizado. Na verdade, todo o trajeto
deve ter levado um tempo bem mais longo. Assim, usando apenas o puro raciocínio, desconsiderando mitos
e ideologias, chegamos à conclusão que a narração contida nos Evangelhos não condiz com a realidade dos
fatos.

Vamos agora analisar outras graves incongruências que revelam quanto os textos evangélicos foram
manipulados durante os primeiros séculos. Consideramos, também, que não foram escritos pelos apóstolos,
pessoas analfabetas que, quando muito, falavam o aramaico e não o grego, idioma no qual os evangelhos
foram redigidos e, sucessivamente, traduzidos em latim.

Quem era Simão, o apóstolo chamado Pedro? Teria sido ele apenas um pobre pescador ou algo a mais?
Existe um trecho, nas traduções modernas do Evangelho, onde Jesus se dirige a Pedro dessa forma: “Feliz é
você, Simão, filho de Jonas!” (Mateus 16,17). No entanto, nas versões mais antigas como, por exemplo, no
“O Novo Testamento” (Os Gideões Internacionais, National Publishing Company, Philadelfia, 1979), Jesus
fala: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas“. Aparentemente não haveria diferença alguma entre Simão
bar Jonas (Simão filho de Jonas) e Simão Barjonas, pelo menos para todos aqueles que não compreendiam o
aramaico, ou seja, mais de 95% dos habitantes do Império Romano. É todavia de extrema importância
entender que, na língua falada na Palestina na época de Jesus, a palavra “barjona” significava combatente,
guerrilheiro. Portanto, a interpretação correta do texto não é Simão filho de Jonas, mas Simão o guerrilheiro.

Algo de parecido ocorre em outros versículos do Evangelho. Na versão moderna lemos o seguinte: “E a
André, e a Filipe, e a Bartolomeu, e a Mateus, e a Tomé, e a Tiago, filho de Alfeu, e a Tadeu, e a Simão, o
Canaanita” (Marcos 3,18), mas no Novo Testamento dos Gideões está escrito: “Simão o Zelote”. Os Zelotes
eram ferrenhos inimigos de Roma e o seu programa político era a expulsão dos romanos mediante a luta
armada. Não há dúvida alguma que Simão pertencia à facção dos Zelotes, fato isso confirmado tanto por
Mateus (10,4) que por Lucas (6,15). Quanto à expressão Simão o Canaanita, não quer dizer que ele era
oriundo da terra de Canaã, antiga denominação da região correspondente à área da atual da Palestina e do
Líbano, pois qualquer Judeu era também um Canaanita; na verdade indica que esse apelido, aparentemente
geográfico, na verdade deriva do vocábulo aramaico “qanana” e tem o mesmo significado que “barjona”,
ou seja, guerrilheiro, foragido, terrorista.

Apesar de o Cristianismo ter sempre propalado que Simão Pedro era apenas um pescador pacifista, as
próprias escrituras nos mostram, sem a menor possibilidade de dúvida, que ele era um guerrilheiro anti-
romano e que costumava carregar uma espada (provavelmente uma sica) e usá-la quando necessário. “Então
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Simão Pedro, que tinha uma espada, desembainhou-a, e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a
orelha direita” (João 18,10). Também Judas Tadeu, numa versão mais antiga do evangelho de Mateus é
chamado Ioudas zelotes; consequentemente, deduzimos que o nome verdadeiro era Judas, enquanto Tadeu,
em aramaico, era um apelido significando “valente”. Em outras palavras, Judas o guerrilheiro valente. O
mesmo vale para Judas Iscariotes, sendo que em hebraico a palavra “ish sicar” significa “homem do punhal,
sicário”. Até Papa Bento XVI, na sua homília de 26 de Agosto de 2012 confirmou que Judas era um zelote
decepcionado com Jesus devido ele não ter se tornado um Messias político.

Na verdade, não apenas Simão, mas também Tadeu e Judas eram zelotes, conforme lemos em Marcos
(3,17): “E a Tiago, filho de Zebedeu, e a João, irmão de Tiago, aos quais [Jesus] pôs o nome de Boanerges,
que significa: Filhos do Trovão“. Com certeza um apelido mais adequado para guerreiros ninja do que para
apóstolos mansos e não violentos, também porque a tradução correta é “Filhos da Ira”! Tiago e João, filhos
de Zebedeu, pedem a permissão de Jesus para atear fogo numa aldeia de Samaritanos que não os aceitou:
“Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma como Elias também fez?” (Lucas 10,54).
Vale a pena lembrar que os habitantes da Samaria não eram tão hostis aos Romanos quanto os outros
Hebreus e, por esse motivo, os zelotes os tratavam como colaboracionistas. Será que Jesus nada sabia da
orientação patriótica de seus seguidores? Afinal ele mesmo ordenou o seguinte: “E, o que não tem espada,
venda o seu vestido e compre-a” (Lucas 22,36). A exegese cristã alega que essa seria apenas uma metáfora,
mas nesse caso como se explica o fato que o próprio Pedro carregava uma arma? Pedro, o mais eminente dos
apóstolos, e não um simpatizante qualquer! Não seria mais plausível que Jesus representasse um ponto de
referência do jahvismo messiânico intencionado a derrubar o domínio romano na Palestina?

Objetivamente, a mensagem de Jesus, assim como ela se apresenta nos Evangelhos, não contempla o
nascimento de uma nova religião, mas continua fiel à antiga fé de Abrão e de Moisés e, portanto, dirigida
somente às ovelhas perdidas da casa de Israel. O versículo: “Jesus enviou esses doze, e lhes ordenou,
dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos” (Mateus 10,5)
mostra claramente que os apóstolos não deviam pregar junto aos gentios (os pagãos) sendo que o ideal
messiânico, cujo cunho era eminentemente étnico-religioso e político, não admitia que pudessem estar
envolvidos elementos não judeus.

Torna-se agora necessário responder a outra pergunta fundamental: por que Jesus foi crucificado? Tenho
certeza absoluta que 99,99% dos leitores, não apenas cristãos, como também adeptos de outras religiões,
agnósticos e até ateus, irão responder de forma unânime: “Jesus foi crucificado por ter blasfemado”.
Confesso que eu também, ao longo de toda a minha vida sempre tive essa convicção e nunca senti a
necessidade de aprofundar o assunto de tanto que essa resposta me parecia óbvia. Mas será que está correta?
Vamos então examinar nos detalhes os acontecimentos da Semana Santa começando pelo local onde Jesus
foi preso, ou seja, o Monte das Oliveiras.

Esse monte teria sido unicamente um lugar oportuno para orar, como narram os Evangelhos, ou um ponto de
observação avançado para organizar um ataque de surpresa contra a fortaleza Antônia, sede do comando
militar romano e residência de Pilatos? Com efeito, o Jardim do Getsêmani, no sopé do monte, fica
exatamente em frente à tal fortaleza, a cerca de 500 metros de distância, mas do outro lado do rio Cédron. A
História nos ensina que houve vários tentativos de golpe a partir do Monte das Oliveiras, seja antes de Jesus,
que depois. Por exemplo, durante o reinado de Nero, outro Messias conseguiu adunar cerca de 30.000
seguidores em cima desse monte, mas acabou sendo esmagado (Flávio Josefo, Guerra Judaica II–13,5).

Que o de Jesus e dos apóstolos não tenha sido apenas um pacífico culto noturno, mas pelo menos uma forma
de recognição armada, pode ser deduzido pelo fato que já durante a Santa Ceia Cristo havia exortado os seus
seguidores a procurar armas: “Disse-lhes pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o
alforje; e, o que não tem espada, venda o seu vestido e compre-a;” (Lucas 22,36). E não há dúvida alguma
que no Monte das Oliveiras não estava armado apenas um integrante do grupo: “E um dos que ali estavam
presentes, puxando uma espada, feriu o servo do sumo sacerdote, e cortou-lhe uma orelha.” (Marcos

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14,47), mas vários discípulos reagiram com violência tanto que, inicialmente, conseguiram rechaçar as
tropas: “Quando pois lhes disse: Sou eu, recuaram, e caíram por terra.” (João 18,6).

Outra questão de suma importância é saber quantos soldados participaram da captura de Jesus. Os
Evangelhos sinóticos tentam nos mostrar que Jesus haveria sido preso, por motivos eminentemente
religiosos, pelas guardas do Templo as quais obedeciam aos chefes do Sinédrio. Tanto Mateus, como
Marcos e Lucas falam numa “multidão” sem especificar e sem detalhar quem fazia parte daquela multidão.
No entanto, no quarto Evangelho, lemos o seguinte: “Tendo pois Judas recebido a coorte e oficiais dos
principais sacerdotes e fariseus…” (João 18,3). Portanto, além dos oficiais enviados pelos sacerdotes, estava
presente uma inteira coorte de soldados romanos. Uma coorte era uma unidade tática legionária composta
por 500/600 homens fortemente armados e perfeitamente treinados. Uma informação que deixa
simplesmente estarrecido o leitor atento aos detalhes do texto!

Como é possível que nada menos que 600 militares (se não mil) mais um número indefinido de guardas do
Templo tenham se deslocado, em plena noite, para prender o líder de uma dúzia de hippies inofensivos
intentos a rezar e, ainda por cima, por um crime que nada tinha a ver com o Direito Penal romano? Já o fato
de Judas ter entregue Jesus apontando-o com um beijo levanta outra suspeita. Os próprios Evangelhos
mostram como Jesus fosse bastante popular desde que havia entrado em Jerusalém uma semana antes.
Evidentemente não deveria ter sido difícil identificá-lo entre um pequeno grupo de indivíduos. Muito
provavelmente os partidários de Cristo no Monte das Oliveiras eram bem mais numerosos e potencialmente
perigosos, e isso justifica tanto o beijo como a presença daquela “multidão” e, acima de tudo, da coorte
romana.

Nós todos, nas aulas de religião ou de catecismo, fomos ensinados que as Autoridades de Israel levaram
Jesus diante de Pilatos devido os Judeus estarem proibidos de emitir sentenças de morte. Isso é só
parcialmente verdadeiro, no sentido que apenas os Romanos tinham o poder de crucificar ou decapitar com a
espada (jus gladii) os réus acusados de crimes políticos. Aos Judeus restava a prerrogativa de estrangular ou
apedrejar: portanto, não ocorria a permissão dos ocupantes para lapidar quem tivesse infringido as
prescrições da Lei de Moisés. Até degolar com um machado era consentido: “E disse Herodes: a João
[Batista] mandei eu degolar;” (Lucas 9,9). Provas da faculdade de emitir sentenças capitais se encontram no
Novo Testamento em pelo menos duas circunstâncias. Uma é o apedrejamento de São Estêvão: “E
apedrejaram Estêvão que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.” (Atos 8,59); outra é a
da mulher adúltera: “E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas.” (João 8,5). Não consta
que no primeiro exemplo o Sinédrio tenha pedido permissão aos Romanos e, muito menos, que no segundo
o populacho tenha solicitado a permissão não digo de Pilatos, mas, pelo menos, de um simples rabino.

Exatamente igual o que ocorre nos dias de hoje nas terras onde vigora a Sharia (lei islâmica), na antiga
Palestina qualquer cidadão podia apedrejar quem infringia a lei mosaica, sem ter que se preocupar com a
legislação romana. O próprio Jesus correu mais de uma vez o risco de ser linchado se não tivesse se afastado
rapidamente: “E, levantando-se, o expulsaram da cidade, e o levaram até o cume do monte em que a cidade
deles estava edificada, para dali o precipitarem.” (Lucas 4,29) ou “Então pegaram em pedras para lhe
atirarem; mas Jesus ocultou-se, e saiu do templo, passando pelo meio deles, e assim se retirou.” (João
9,59).

Fica portanto comprovado que o crime cometido por Jesus não foi a blasfêmia, mas um ato relacionado à
política. Inclusive, quando Jesus pronunciou essas palavras: “E disseram todos: Logo, és tu o Filho de
Deus? E ele lhes disse: Vós dizeis que sou eu.” (Lucas 23,70), não quis dizer que era Filho de Deus no
sentido literal da expressão. Para um povo rigidamente monoteísta como os Hebreus, essa afirmação teria
tido um significado histórico derivado do Antigo Testamento onde o apelido “Filho de Deus” significava
também Messias, ungido, e era aplicado aos soberanos e outros líderes e foi traduzido para o grego como
Christos. De consequência, ao se declarar Filho de Deus, Jesus mostrava possuir alguma forma de
investidura política, de origem divina, passível de ser interpretada como ameaça à autoridade de César que
também era apelidado de Divino, Filho de Deus, Deus e Deus dos deuses, e cujos títulos eram Senhor,

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Redentor, Libertador e Salvador do Mundo. Atribuir esses mesmos títulos a Jesus significava negá-los ao
imperador romano.

A afirmação que Pilatos teria se acovardado diante dos populares pedindo a crucificação de Jesus, mesmo
sabendo que ele era inocente, discorda totalmente com a imagem que a História nos deu do procurador
romano. O rei Agripa I considerava Pilatos “homem inflexível, cruel e desapiedado”, tanto que no ano 36
d.C. o legado da Síria e futuro imperador Vitélio o destituiu e o processou sob a acusação de crueldade. Os
fatos confirmam que Pilatos foi um homem arrogante e destemido, o qual jamais teria se deixado influenciar
diante de uma decisão tão importante como a crucificação de um judeu se Jesus não tivesse realmente tido
atitudes anti-romanas. Aliás, a legítima motivação da sentença fica comprovada pelo “titulum”, ou seja uma
placa de madeira pregada na cruz onde estava especificado o motivo jurídico da condenação: “Este é o rei
dos Judeus” (Lucas 23,38), prova indiscutível que Jesus fora condenado por um crime exclusivamente
político. Quanto à escolha entre Jesus e Barrabás, já mostramos no artigo “Quem era Barrabás?”
incongruências tais que nos induzem a acreditar que Jesus e Barrabás era a mesma pessoa. Por outro lado
por qual motivo Jesus teria sido levado ao Sinédrio no coração da noite para ser processado de uma forma
que contrastava com a Lei? Simplesmente por ter blasfemado? Nesse caso bastava encarcerá-lo e esperar
mais uns dias para realizar o processo conforme aos preceitos dos israelitas. Surpreendentemente os sumos
sacerdotes emitiram uma sentença de morte imediata, desrespeitando a Lei segundo a qual deviam passar
pelo menos 24 horas entre o depoimento das testemunhas e a condenação definitiva. Por que tanta pressa?
Pelo temor que o povo se levantasse em defesa de Jesus? Isso só pode significar que o ascendente de Cristo
sobre os Israelitas era bastante vigoroso e mais condizente com uma liderança política que não uma
puramente religiosa e, ainda por cima, pacifista.

No entanto, levando em conta o tempo excessivamente curto, apenas doze horas, entre a Santa Ceia e a
morte de Jesus temos que admitir que a parte “judaica” do processo nunca tenha ocorrido de verdade. Em
outras palavras, unicamente os Romanos prenderam, processaram e crucificaram Jesus. Obviamente quem o
denunciou foram justamente os sacerdotes e os escribas, temerosos que a popularidade e o carisma de Jesus
levassem parte da população a se levantar contra os dominadores. Essa hipótese encontra respaldo nas
palavras dos principais sacerdotes: “Se o deixarmos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-
nos-ão o nosso lugar e a nação” (João 12,48). Logo, restava apenas a solução proposta por Caifás: “Nem
considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação.” (João 12,50).
Essa atitude das autoridades religiosas fez com que a nação fosse temporariamente salva, pelo menos até o
ano 70 d.C. quando Jerusalém foi destruída pelas tropas de Vespasiano.

Resta esclarecer o motivo pelo qual os evangelistas alteraram a narração apresentando Jesus como um
manso profeta pacifista. Vimos que, na verdade, ele foi um veemente patriota anti-romano, cercado por
apóstolos que pertenciam à facção dos guerrilheiros zelotes. Até quando crucificado Jesus foi posto entre
dois elementos que a tradição continua apelidando de “ladrões”: “E crucificaram com ele dois salteadores,
um à sua direita, e outro à esquerda” (Marcos 15,27). Mas no texto grego os dois são chamados de “dio
lestas”, palavra que Flávio Josefo usa para denominar os rebeldes políticos, os zelotes. Tratava-se, portanto,
de dois terroristas envolvidos em atos de guerrilha anti-romana e, de consequência, crucificados por rebelião
armada.

Talvez, se aparecesse pelo menos uma cópia do antiquíssimo Evangelho dos Ebionitas, escrito em aramaico,
teríamos uma visão mais clara dos fatos ocorridos na Palestina de dois mil anos atrás. Infelizmente este
Evangelho sumiu (ou deram sumiço) e o que restou foi a versão de Paulo de Tarso, o verdadeiro fundador do
Cristianismo. Paulo, muito mais interessado em difundir o verbo de Jesus no mundo romano de que entre os
Judeus, não podia apresentar a figura de um Messias anti-romano justiçado por crimes políticos. Foi assim
que foram censurados todos os elementos que caracterizavam Jesus como patriota, criando, em seu lugar, a
imagem de um profeta não-violento, pregador de um reino ultraterreno de paz e amor universal. Uma figura,
essa, perfeita mente aceitável pelas outras populações do Império e pelos próprios habitantes de Roma.

35
JESUS RESSUSCITOU DOS MORTOS?

Também esse ano, mais uma vez os rituais da Semana Santa irão comemorar a morte e a ressurreição de
Cristo que, de acordo com a tradição, derramou o seu sangue para a salvação da humanidade. Para quem tem
fé, trata-se de eventos realmente acontecidos que nem de longe podem ser questionados, pois são verdades
sancionadas pelos dogmas da Igreja. Todavia, dum ponto de vista puramente cultural, é mais que legítimo
tentar investigar os fatos usando as ferramentas típicas do historiografia moderna.

Já vimos no início que os Evangelhos foram escritos muitos anos depois dos eventos neles relatados. Quanto
à pretensão de que entre os Manuscritos do Mar Morto (fragmentos 7Q4 e 7Q5) se encontrem partes de um
antigo evangelho original, apenas o jesuíta espanhol José O'Callaghan defende essa tese. Objetivamente, o
fragmento 7Q5, do tamanho de um selo postal, consta de apenas 12 letras espalhadas e, com a exceção do
estudioso Callaghan e poucos outros, a comunidade científica internacional afirma ser extremamente
duvidoso considerar essas letras pertencentes ao evangelho de Marcos; mais provavelmente trata-se de um
fragmento do Livro de Enoch. Inclusive, seria bastante estranho que um texto neotestamentário fosse
conservado num acervo dos Essênios que, como se sabe, jamais teriam aceito a visão trinitária do
cristianismo. Todavia, caso que a tese de Pe. O’Callagan fosse comprovada, quem iria quebrar a cara seria a
própria Igreja católica que negou de antemão qualquer relação entre a comunidade dos Essênios e os
primeiros cristãos.

Voltando ao assunto, sabe-se que as falsificações dos textos originais foram consideradas oportunas já pelo
próprio Paulo de Tarso: “Mas, se pela minha mentira abundou mais a verdade de Deus...” (Romanos 3:7).
Entenda: desde que servissem para a salvação, as mentiras eram lícitas! Por outro lado, temos o parecer de
não-cristãos, como Celso que, no II século, ficavam escandalizados diante da atitude dos cristãos
perpetuamente corrigindo e alterando seus livros sagrados. Até os próprios cristãos confirmaram essa
tendência: o erudito Orígenes de Alexandria observava que tanto os Judeus quanto os pagãos rejeitavam o
cristianismo alegando ser impossível determinar qual facção estivesse dizendo a verdade. Orígenes
mencionou explicitamente que as facções discordavam não apenas sobre os pormenores "mas também das
questões mais importantes" e temos as provas que as várias facções se acusavam reciprocamente de mexer
nos Evangelhos.

Encerramos agora essa premissa importante para responder à pergunta inicial: Jesus ressuscitou realmente
dos mortos? Segundo a tradição Cristo teria morrido na cruz, e ninguém contesta o fato dele ter sido
crucificado, embora a doutrina cristã afirme a condenação ter sido originada por motivações religiosas. Já
expliquei, que essa versão dos fatos é bastante ideológica e que Jesus foi crucificado por motivos
eminentemente políticos. Antes de ser levado ao Calvário, Jesus foi flagelado mas, apesar das imagens
chocantes de certos filmes hollywoodianos, quando a flagelação era feita como ato preliminar à crucificação,
o número de golpes não ia além de vinte, para que a vítima não morresse antes da hora, pois a finalidade do
suplício era proporcionar ao condenado uma agonia longa e dolorida que podia durar até uns dias seguidos.
Falando no suplício da cruz, Orígenes escreveu que os condenados “Às vezes vivem com extremo sofrimento
a noite toda e também o dia seguinte”.

No caso de Jesus ele não resistiu mais de que poucas horas, tanto que “Pilatos se maravilhou de que ele já
estivesse morto” (Marcos 16:44). Por qual motivo faleceu tão rapidamente? Não sabemos, mas pode ter sido
um caso de morte aparente, um estado caracterizado pela perda de consciência e sensibilidade, pela ausência
de movimentos respiratórios e de batimentos cardíacos. São eventos relativamente comuns bem conhecidos
pela medicina, e em todas as nações civilizadas vale a regra que ninguém pode ser sepultado antes de pelo
menos 24 horas depois que for constatada a morte clínica. Naturalmente, lá no Gólgota não havia equipes
médicas para certificar a morte dos condenados, mas mesmo que tivesse tido uma, poderia ter errado
36
clamorosamente assim como errou recentemente uma comissão que declaraou morta uma mulher
colombiana de 45 anos mas que voltou a respirar poucos minutos antes de ser enterrada viva! O Dr. Miguel
Angel Saavedra, de Cali, afirmou ter assinado a certidão de óbito após ter constatado que os aparelhos não
registravam nem a pressão arterial, nem a frequência cardíaca. Portanto nada impede de pensar que algo de
parecido tenha ocorrido com Jesus.

Não é nem ilógico e nem blasfemo supor que Cristo não tenha falecido na cruz tendo, ao contrário, se
recuperado durante umas semanas, tempo suficiente para se manifestar aos seus discípulos. Em seguida,
poderia ter morrido como consequência de uma septicemia. Quanto ao detalhe do soldado que furou o lado
de Jesus com uma lança, apenas o evangelista João o relata, mas já vimos quanto os textos originais foram
alterados principalmente durante os primeiros três séculos: esse detalhe foi acrescentado em seguida apenas
para que se realizassem duas profecias. Inclusive os historiadores nos informam que jamais os soldados
romanos com suas armas, curtas ou compridas, atingiam a caixa torácica mas eram treinados para furar as
partes moles do corpo, em particular o estômago, o fígado e os rins: isso para impedir que a ponta da arma
ficasse presa entre as costelas. Mas, mesmo que a ferida tenha sido infligida na maneira descrita nas
Escrituras, a direção do golpe e a sucessiva saída de "água" misturada com um pouco de sangue, parecem
indicar que se tratou de uma rudimental toracocentese. Essa punção da cavidade torárica teria favorecido a
retomada da circulação salvando a vida do condenado. Outra consideração, de grande importância, é a
seguinte. No Evangelho mais antigo e original, lemos que as mulheres, entrando no sepulcro, viram um
mancebo assentado à direita que lhes disse: "Não vos assusteis; buscais a Jesus Nazareno, que foi
crucificado; já ressuscitou, não está aqui..." (Marcos 16:6). O verbo usado no texto original em grego
(έγείρω) não significa ressuscitar, mas acordar, e com esse significado é encontrado outras vezes nos
Evangelhos.

De alguma forma sabemos de condenados que sobreviveram ao suplício da cruz, à cadeira elétrica, como o
jovem Willie Francis ou até ao pelotão de execução, como o ítalo-americano Amerigo Dumini, fuzilado na
África em 1941. Outro caso bem recente é o de Rosângela Almeida dos Santos. Essa mulher, de apenas 37
anos, foi declarada morta após duas paradas cardíacas num hospital da Bahia (janeiro 2018) e enterrada no
cemitério de Riachão das Neves. O túmulo foi violado pela família depois de vários moradores de casas
localizadas perto do cemitério municipal afiançarem que ouviram gritos: o corpo da mulher foi encontrado
ainda morno e revirado dentro do caixão. Então por que o mesmo não poderia ter ocorrido com Jesus? Os
próprios Evangelhos nos ajudam a esclarecer os fatos pois, quando falam do corpo de Jesus sendo deposto
da cruz, jamais usam a palavra "ptoma" que significa cadáver (como no caso de João Batista), mas usam o
vocábulo "soma" que quer dizer corpo de um ser ainda vivo.

A opinião comum, imposta pelos dogmas, é que Cristo, falecido numa sexta, teria ressuscitado três dias
depois; esse cálculo deriva do fato que o sepulcro foi encontrado vazio no domingo sucessivo. Se assim
fosse, ficaria muito mais difícil cogitar um caso de morte aparente que de regra duram, no máximo, em torno
de 24 horas. Mas a verdade é que, devido o rigoroso preceito do Shabbat, nenhum Judeu teria se dirigido a
um sepulcro durante o dia de sábado. Isso significa que o próprio Jesus, após ter se recuperado, poderia ter
saído do sepulcro com suas próprias forças.
Quanto ao ato da ressurreição, nada se fala nos Evangelhos pois ninguém viu acontecer esse evento. Os
cristãos apenas o deduzem com base no sepulcro vazio, mas isso significa apenas um túmulo sem ninguém
dentro e, tanto na Antiguidade como na Idade Média, não poucos autores sugeriram a hipótese de que o
cadáver tivesse sido removido por José de Arimateia com a conivência da Madalena e sem que os Apóstolos
tivesse conhecimento.

Outra coisa. Se os Evangelhos narrassem um fato realmente acontecido e não apenas imaginado, os relatos
seriam todos basicamente idênticos; todavia os textos discordam em relação a circunstâncias significativas e
existem contradições importantes como, por exemplo, o número de mulheres que foi ao sepulcro ou a
presença de anjos. Pior ainda, o professor Bart Ehrman, uma das maiores autoridades mundiais de estudos
bíblicos, descobriu que a narração da ressurreição nem sequer existe nos mais antigos manuscritos de
Marcos e foi acrescentada muitos anos depois. Existem também outros elementos que lançam sérias dúvidas

37
sobre a ressurreição. No Evangelho lemos que: “o lenço, que tinha estado sobre a sua cabeça [a de Jesus],
não estava com os lençóis, mas enrolado num lugar à parte” (João 20:7). Por qual motivo Jesus, depois de
ter ressuscitado teria se preocupado de enrolar o lenço apoiando-o num canto diferente do dos lençóis? Esse
parece ser mais um gesto feminino, o duma mulher que, por hábito, sentiu a necessidade de guardar o lenço
depois que o corpo havia sido removido do sepulcro. Outro fato estranho é o seguinte: “E acharam a pedra
revolvida do sepulcro” (Lucas 24:2). Será que Jesus, ou seja, Deus em pessoa precisa remover uma pedra
para sair de um sepulcro quando até os neutrinos atravessam as montanhas? O verdadeiro milagre teria sido
encontrar o sepulcro ainda lacrado, mas vazio! Por outro lado como podiam as duas Marias sozinhas rolar
uma pedra que havia sido selada (Mateus 28:66)? E elas não sabiam dos soldados controlando a sepultura
que teriam impedido o acesso? Afinal Jesus foi sepultado na véspera do sábado e ainda estamos no início do
domingo, portanto não passaram três dias (72 horas), mas apenas um dia e poucas horas.

Quanto às aparições do ressuscitado nos dias sucessivos, a confusão entre os evangelistas chega ao clímax.
Lucas afirma que Jesus apareceu aos dois de Emaús e aos Apóstolos em Jerusalém enquanto Marcos,
Mateus e João dizem que Cristo apareceu aos Apóstolos apenas na Galileia e nunca a Jerusalém. Os
evangelistas discordam também sobre a forma em que Jesus se manifestou aos discípulos: Mateus e Marcos
nada dizem de explícito a esse respeito, mas pelos textos parece se tratar de uma pessoa real. Lucas opta por
uma forma espiritualizada e, para João, às vezes ele é sólido e real, tanto que se alimenta com peixe frito e
Tomé põe seus dedos nas feridas; outras se comporta como um um fantasma que passa através das portas
fechadas e não pode ser facilmente reconhecido. Interessante observar as contradições de Lucas que,
enquanto em seu Evangelho as aparições se concentram num único dia, nos Atos duram nada menos que 40
dias seguidos! “Aos quais, também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis
provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias...” (Atos 1:3). Lucas se contradiz também quando
fala da ascensão que teria ocorrido, em seu Evangelho, em Betânia no mesmo dia da ressurreição: “E
aconteceu que, abençoando-os ele, se apartou deles e foi elevado ao céu” (Lucas 24:51), enquanto nos Atos
esse evento acontece 40 dias depois no Monte das Oliveiras: “Enquanto dizia isto, vendo-o eles, foi elevado
às alturas...” (Atos 1:9) e “Então voltaram para Jerusalém, do monte chamado das Oliveiras...” (Atos
1:12).

Já no II século o filósofo grego Celso observa, justamente, que se Jesus tivesse realmente voltado do mundo
dos mortos teria se apresentado em público, principalmente aos seus acusadores e aos juizes, mas isso não
ocorreu. Essa simples constatação deixou em apuros os Padres da Igreja que nunca souberam dar uma
explicação adequada e convencedora.
Ainda hoje os cristãos respondem a essas críticas pedindo que os céticos demonstrem que Jesus não
ressuscitou ignorando, destarte, que o ônus da prova cabe a quem apresenta uma hipótese e não a quem dela
duvida. Seria o mesmo de uma pessoa que, afirmando ter sido abduzida por um OVNI, pedisse à mídia de
fornecer provas para desmentir o seu relato.
Outra argumentação muito amada pela Igreja é que os numerosos cristãos jamais teriam aceito o martírio se
a ressurreição fosse apenas um evento imaginário. Deixando de lado o fato que naquela época em todo o
Mundo Antigo muitas divindades haviam ressuscitado e que portanto a ressurreição era considerada um
evento “comum”, o martírio em si atesta unicamente uma fé cega e destemida, mas não a verdade da
doutrina pela qual se sacrifica a própria vida. Caso contrário, o Comunismo, com seus inúmeros “mártires”,
deveria ser considerado uma ideologia portadora de uma verdade absoluta.

38
NERO E A PERSEGUIÇÃO AOS CRISTÃOS

Os fatos

Na noite entre 18 e 19 de Julho do ano 64 d.C. bem no centro de Roma, metrópole com quase dois milhões
de habitantes e capital do Império, eclodiu um incêndio que, durante nove dias seguidos, devorou 10 dos 14
bairros de Cidade Eterna. Embora as fontes antigas considerem o evento de natureza dolosa, é importante
lembrar que, naquela época, os incêndios eram corriqueiros nas grandes cidades sendo a madeira utilizada
como principal material de construção; além disso, numerosas chamas livres serviam para a iluminação, o
aquecimento dos ambientes e a preparação dos alimentos. A alarmante frequência dos incêndios fica
comprovada pela presença, em Roma, de sete quarteis abrigando, ao todo, 7.000 bombeiros cuja corporação
tinha também função de polícia urbana.

Os três mais importantes cronistas romanos: Tácito (56-117 d.C.), Suetônio (69-141 d.C.) e Dião Cássio
(155-229 d.C.) relatam, perplexos, a rapidez com a qual o fogo se alastrou em todas as direções sem seguir a
direção do vento; esses historiadores acharam surpreendente o fato que as chamas destruíram até edifícios de
pedra e que o incêndio se reacendia em áreas por onde já havia se manifestado. Esses três eventos,
aparentemente inexplicáveis, foram interpretados como a prova da origem criminal do evento. Na verdade, a
ciência moderna explica que nos incêndios de grandes proporções, como os causados pelos bombardeiros
Aliados sobre a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, na medida em que o oxigênio é consumido,
as chamas se deslocam em busca de outro oxigênio de forma aparentemente aleatória, independente da
direção do vento. Outrossim, as altas temperaturas podem consumir até as pedras, inclusive aquelas usadas
nos prédios públicos de Roma. Sabe-se, também, que as brasas debaixo da cinza possuem a capacidade de
reativar as chamas várias horas depois delas terem se apagado.

Os motivos pelos quais escritores como Tácito, Suetônio e Plínio o Jovem mostram hostilidade em relação a
Nero, chegando a levantar a suspeita dele ter sido o mandante do incêndio, derivam do fato que todos eles
tinham cargos importantes na administração de imperadores posteriores à dinastia Júlio-Claudiana,
apresentada como inepta e corrupta (o leitor confira lendo a Vidas dos Doze Césares de Suetônio).
Entretanto, historiadores modernos reavaliaram a administração de Nero chegando a excluir que ele tivesse
tido alguma responsabilidade no desastre; entre outras considerações, os autores modernos citam a narração
do próprio Tácito o qual afirma que Nero tomou, com procedimento de urgência, uma série de valiosas
providências aptas a amenizar os grandes problemas causados pelo desastre.

Os culpados

De acordo com Tácito (Annales XV,44), já nos primeiros dias depois da tragédia a população, devido a má
fama dessa nova seita, começou a culpar os cristãos. Segundo o historiador Gerhard Baudy, com base em
estudos anteriores de Carlo Pascal e Léon Herrmann, foram realmente os cristãos a atear fogo na cidade para
que se cumprisse uma antiga profecia egípcia segundo a qual o surgimento da estrela Sírio, da constelação
Canis Major, teria marcado a queda duma “cidade grande e malvada”. Mais recentemente, o estudioso
italiano Dimitri Landeschi reafirma a inocência de Nero e põe a responsabilidade da calamidade sobre um
grupo extremista da comunidade cristã de Roma que agiu com o suporte de uns senadores inimigos do
imperador. Esses seguidores de Cristo, imbuídos de conceitos apocalípticos, teriam proclamado
publicamente que o incêndio era um castigo divino pelos "pecados" dos romanos preanunciando, ao mesmo
tempo, o novo advento do Redentor.

Trata-se, contudo, de conjecturas despidas de qualquer fundamento concreto, e nenhum historiador sério e
competente pôde chegar a uma conclusão definitiva devido a falta de documentos originais. O único códice
que relata o famoso trecho de Tácito sobre Cristo, os cristãos e a perseguição supostamente ordenada por
Nero é o “Codex Laurentianus Mediceus MS 68 II” conservado a Florença e redigido no século XI, ou seja,
mais de mil anos depois da morte do escritor latino. Nos Annales (XV,44), Tácito fala expressamente de
uma “multidão” de cristãos sendo devorada pelas feras, crucificada e queimada viva. Entretanto, todos os
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outros códices de Patrologia grega e latina, escritos seja antes que depois do Laurentianus, mesmo relatando
as atitudes depravadas de Nero, nada dizem a respeito do massacre dos cristãos. Isso significa que autoráveis
Padres da Igreja como Clemente de Roma, Ireneu de Lyon, Eusébio de Cesaréia, Orígenes e Ambrósio de
Milão ignoram, em seus escritos, a persecução desencadeada por Nero.

Até Santo Agostinho de Hipona, em seu livro “De Civitate Dei” faz uma lista exaustiva dos acontecimentos
de Roma até o ano 410 d.C. sem sequer acenar à essa horrível perseguição. Para não falar no apóstolo João e
no evangelista Lucas (falecido em 93 d.C.) os quais, mesmo tendo vivido naquela época, nada falam a
respeito do martírio de tamanha “multidão”; enfim, nada aparece nos Atos, nas Epístolas e no Apocalipse.
Nem sequer os bispos Inácio de Antioquia e Policarpo de Esmirna, autores de importantes epístolas
entregues dois séculos depois ao apologista Eusébio, acenam à matança ordenada por Nero.
Mas o que nos deixa ainda mais desconfiados é o absoluto silêncio do historiador Flávio Josefo que,
encontrando-se em Roma justamentre no biênio 64-65 d.C. foi testemunha ocular duma das piores tragédias
do Mundo Antigo. Apesar de Flávio Josefo, autor da “Guerra Judáica”, ser um cronista extremamente atento
até aos pormenores ao ponto de nos contar que o rei Herodes tinha o costume de tingir seus cabelos, do
incêndio que destruiu a capital do maior império do mundo e da grande perseguição não narra absolutamente
nada em seus livros! Como explicar esse inacreditável lacuna se não admitindo uma censura sucessiva da
Igreja? Obviamente o Vaticano não podia permitir que um dos maiores cronistas da época mencionasse o
incêndio sem, ao mesmo tempo, contar do martírio duma “multidão” de cristãos: consequentemente,
resolveu eliminar os capítulos relativos ao desastre. Então de onde vem essa afirmação da Igreja a qual
sustenta, com absoluta segurança, que durante o reinado de Nero uma multidão de cristãos, acusada
injustamente, sofreu suplícios terrificantes?

Poderíamos considerar um capítulo, quase idêntico ao de Tácito, registrado pelo historiador cristão Sulpício
Severo (360-420 d.C.) na sua “Historia Sacra” (II:29) escrita no IV século e tida como uma coletânea de
fatos parcialmente inventados, embora bem redigidos. Mesmo com toda a nossa boa vontade, não podemos
deixar de observar que no relato de Sulpício Severo, além dele jamais nomear Jesus e Pilatos, falta qualquer
referência a Tácito, único, entre os cronistas imperiais, a descrever o evento sensacional ocorrido no século
I. Devido Sulpício ter vivido quase quatro séculos depois de Nero, uma pergunta legítima fica sem resposta:
de onde ele tirou essas informações se nenhum Apóstolo, Padre da Igreja ou apologista havia falado antes
desses eventos? Por isso deduzimos que as crônicas de Sulpício Severo, contidas no "Codex Vaticanus
Palatinus Lat. 825" também do século XI, foram adulteradas e os manuscritos originais destruídos.

Resta uma única fonte autorável: os Annales de Tácito e, mais exatamente, o citado Livro XV, parágrafo 44
onde ele escreve que: “Um boato acabrunhador atribuía a Nero a ordem de pôr fogo na cidade. Então, para
sufocar os boatos, Nero imaginou culpados e entregou às torturas mais horríveis esses homens detestados
pela sua má fama, que o povo apelidava de cristãos. Este nome vêm-lhes de Cristo, que sob o reinado de
Tibério, foi condenado ao suplício pelo procurador Pôncio Pilatos. Esta seita perniciosa, reprimida a
princípio, expandiu-se de novo, não somente na Judéia, onde tinha a sua origem, mas na própria cidade de
Roma”. Seria portanto o depoimento de Tácito a prova definitiva do martírio dos cristãos da primordial
Igreja romana?
A mentira

A resposta é não! Não porque nesse breve parágrafo é contido um erro que revela quanto o texto foi
adulterado (interpolado) por escribas cristãos da Idade Média. Tudo gira em torno da palavra “procurador”.
No evangelho de Lucas lemos o seguinte: “Anno autem quinto decimo imperii Tiberii Caesaris, procurante
Pontio Pilato Iudaeam…” que significa “No décimo quinto ano do império de Tibério César, sendo Pôncio
Pilatos procurador da Judéia...” (Lucas 3:1). Acontece, porém, que Pilatos não era Procurador e sim
“Praefectus” fato, isso, confirmado por uma descoberta efetuada por arqueologistas italianos, em 1961, na
cidade de Cesaréia, capital imperial da província da Judéia. Numa lápide, achada dentro do anfiteatro da
cidade, está gravada na pedra a seguinte inscrição: TIBERIEUM PONTIUS PILATUS PRAEFECTUS
IUDAEAE.

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Tácito, alto funcionário imperial, que já havia sido Procurador na Ásia e Cônsul em Roma, e que conhecia,
por experiência direta o significado dos títulos atribuídos aos funcionários públicos, jamais teria confundido
um Procurator com um Praefectus! Seria como se um moderno Governador no Brasil confundisse o cargo de
Prefeito com o de Presidente da Câmara dos Vereadores! Simplesmente impossível! Mas, como o
evangelista Lucas havia cometido esse erro, um ignoto escriba medieval, a mando de algum bispo poderoso,
resolveu interpolar o texto de Tácito imaginando que a fraude passasse despercebida. A Igreja católica,
quando se deu conta dessa incongruência, mandou que a palavra Procurator fosse sobstituída com a mais
genérica de Governador e umas modernas traduções chegam ao absurdo de inventar o ridículo título de
“Presidente”: “...sendo Pôncio Pilatos presidente da Judéia...” (Lucas 3:1).
Além disso, Tácito, em suas “Historiae” não fala uma palavra sequer sobre Jesus, Pôncio Pilatos, os
Apóstolos e a persecução. Destarte os Annales e as Historiae apresentam uma discrepância que só pode ser
explicada admitindo uma interpolação dos Annales.

A suspeita que se trate de uma interpolação encontra confirmação nos escritos de São Jerônimo de Estridão
(347-420 d.C.), sacerdote cristão, teólogo, historiador e Doutor da Igreja. Em seu livro “Commentarium in
Zachariam” (3:14) o santo fala que “Cornélio Tácito redigiu trinta manuscritos sobre as vidas dos Césares,
desde a morte de Augusto até a morte de Domiciano” atestando, implicitamente, que ele havia lido os
Annales de Tácito. Entretanto, no livro “De Viris Illustribus” escrito pelo próprio Jerônimo, no qual se
encontra a lista dos primeiros gloriosos fundadores do cristianismo, nada se fala a respeito das crucificações
de Nero sucessivas ao incêndio do ano 64 d.C. Como o livro “De Viris Illustribus” nos foi tramandado
mediante o “Códex MS 2 Q Neoboracensis” redigido na segunda metade do século IX, ou seja, cerca de 150
anos antes do “Codex Laurentianus Mediceus MS 68 II”, fica evidente que esse último sofreu um
interpolação na parte relativa ao parágrafo 44 dos Annales de Tácito.

Surge, nessa altura, um pergunta fundamental. Por qual motivo a Igreja falsificou o texto de Sulpício Severo
e o de Tácito na metade do século XI? Decerto não foi por motivos puramente apologéticos, pois naquela
época, a Igreja dominava toda a Europa e os povos pagãos haviam sumidos há vários séculos. A verdadeira
razão está na origem do Grande Cisma, iniciado já no século IX e que chegou ao clímax no ano 1.054. As
disputas entre a Igreja de Roma e a de Costantinopla não eram apenas de natureza teológica e doutrinal, mas
tinham a ver com a supremacia do bispo de Roma que, considerando-se legítimo herdeiro de São Pedro,
supostamente crucificado em Roma durante a perseguição de Nero, pretendia exercer o poder espiritual e
temporal sobre todas as Igrejas do ecúmeno cristão. No entanto, sem a grande perseguição, sem o martírio
de Pedro em Roma, como poderia o bispo da ex-capital imperial justificar a autoridade moral para se erguer
acima dos bispos das outras dioceses do Império? É a partir dessas consideraçõs que se compreende a
necessidade de forjar documentos aptos a comprovar a primazia da sede de Roma.

Mas afinal, Nero perseguitou alguém? Na verdade Suetônio fala sim de uma perseguição de Nero contra
“Cristãos” em Roma, mas fora do contexto do incêndio e sem mencionar Jesus, Pilatos e as crucificações.
Visando interpretar os escritos de Suetônio temos, porém, que lembrar outro fato histórico relevante, ou seja,
a revolta na Palestina iniciada no ano 66 d.C. dois anos depois do grande incêndio. Devido a grande maioria
dos (poucos) cristãos de Roma serem judeus, é bastante provável que uns deles tenham sido confundidos
com os judeus que estavam se levantando contra os romanos em todas as cidades do Império. É também
plausível que com a palavra “Cristãos” o historiador, que escrevia em latim, tenha se referido a grupos de
judeus simpáticos à causa dos revolucionarios os quais aguardavam a vinda de um Messias que os livrasse
do jugo romano. Como em latim Messias se traduz com o vocábulo (grego) Cristo, também o relato de
Suetônio fica esclarecido no sentido que quando o autor fala em cristãos, na verdade se refere a messianistas
judeus.

Entretanto, se alguém duvidar dessa explicação, simplesmente confira o "Epistolarum X96" que Plínio o
Jovem, governador da Bitínia, enviou ao imperador Trajano. Plínio cita sim o nome “Cristo” e a palavra
cristãos, mas omite o nome desse Messias chamando-o apenas de Cristo, não Jesus. De fato, na Bitínia não
existiam seguidores de Jesus, pois Deus em pessoa havia proibido os Apóstolos de converter os habitantes
daquela região: “E, passando pela Frígia e pela província da Galácia, foram impedidos pelo Espírito Santo

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de anunciar a palavra na Ásia. E, quando chegaram a Mísia, intentavam ir para Bitínia, mas o Espírito não
lhes permitiu” (Atos 16:6-7). O que havia naquela província eram Essênios messianistas que enfrentaram o
suplício, mas, por não reconhecer Jesus, não foram considerados mártires pela Igreja. Se realmente no
começo do II século houve um grande Messias, um Salvador, um “Cristo”, ele foi o combatente Simão bar
Kokhba que liderou a terceira revolta judaica contra o Império Romano, ocorrida de 132 a 135 d.C. O então
líder do Sinédrio de Jerusalém, Rabi Akiva, declarou: “Uma estrela surgiu de Yaacov Bar Koziva descende
de Yaacov: ele é o Mashiach [o Messias]” (Bamidbar 24:17).

Conclusões

Muito foi dito e escrito sobre o incêndio do ano 64 d.C. que destruiu boa parte de Roma e sobre o qual, em
tempos relativamente recentes, foram publicados romances e produzidos filmes mostrando uma perseguição
que jamais existiu. Os únicos fatos concretos dos quais temos uma relativa segurança são os seguintes:

1) O desastre foi acidental. Nem Nero, nem os cristãos estão relacionados com as causas do incêndio;
2) Nenhum historiador da época, com a exceção de Tácito, fala na perseguição;
3) Nenhum Padre da Igreja, nenhum Apóstolo, nenhum Evangelista relata o martírio dos cristãos durante o
reinado Nero;
4) O parágrafo de Tácito contem um erro crasso que só pode ser explicado como sendo uma interpolação de
época medieval.
5) São Pedro não foi martirizado, pelo menos não em Roma;
6) Pode ser que uns “Cristãos” tenham sido executados por ordem de Nero no âmbito da insurreição iniciada
na Palestina dois anos depois do desastre, mas sem crucificações, feras, fogueiras e, acima de tudo, não por
motivos eminentemente religiosos. Contudo, seria oportuno esclarecer que a palavra “Cristãos” podia se
referir tanto a messianistas judeus quanto a seguidores de Jesus. Como os textos originais não existem mais,
essa ambiguidade vai permanecer para sempre.

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CRISTIANISMO E IRRACIONALIDADE

Durante os últimos duzentos anos inúmeros cientistas, historiadores, filósofos, antropólogos e até cristãos
racionais demonstraram repetidamente que, desde os primeiros séculos da nossa era, a triunfante Igreja cristã
representou o pior inimigo e perseguidor da Ciência e da Razão. Até papa João Paulo II, em 1992, em
ocasião da reabilitação de Galileu Galilei reconheceu publicamente que, nesse sentido, a Igreja “tem muitas
culpas”. Mesmo assim, ainda circulam opúsculos e panfletos de apologética cristã como, por exemplo, os do
jesuíta obscurantista W. Duvivier o qual, na revista Permanência, afirma que: “A Igreja eficazmente
concorreu para a felicidade dos indivíduos e das sociedades; adquiriu também títulos ao reconhecimento
dos homens em razão dos benefícios de ordem intelectual, que lhes trouxe.”

Ao longo desse artigo veremos quantos “benefícios de ordem intelectual” e quanta “felicidade” o
cristianismo proporcionou aos seres humanos durante quinze séculos de absoluto e incontestado domínio.
Mostraremos como, ao contrário, a Igreja foi ferrenha inimiga da Ciência em geral e da Medicina em
particular gerando, com sua atitude ideológica, uma voragem cultural e científica que foi vagarosamente
preenchida a partir do Iluminismo, na segunda metade do século XVIII.
Já na pré-história a medicina começou a sua transição de magia para ciência e, além do emprego de plantas
medicinais, foram realizadas as primeiras operações incluindo a suturação de feridas e a cirurgia plástica.
Em pleno Neolítico era praticada a trepanação craniana e os achados arqueológicos mostram que, de regra,
era bem-sucedida. Tantos os Egípcios como os Etruscos foram pioneiros na odontologia realizando próteses
que ainda hoje suscitam a nossa admiração. Antigos papiros egípcios enfatizam a importância da limpeza e
da higiene opinião, essa, partilhada pelos Mesopotâmios.

Os Gregos e, ainda mais os Romanos, cuidavam bastante da saúde pública. Eles construíram e utilizaram
sanitários públicos, esgotos, aquedutos, cisternas de água e banhos quentes e frios. Na Roma imperial as
termas públicas, cuja entrada era quase de graça, eram frequentadas diariamente pela esmagadora maioria da
população. Naqueles estabelecimentos, homens e mulheres, livres e escravos, não apenas podiam tomar
banho quente e/ou frio, mas era possível praticar exercícios físicos, esportes e ter acesso a grandes
bibliotecas. Até onde chegou a civilização romana, entre as primeiras providências a serem tomadas pelos
antigos urbanistas estavam o aqueduto, o esgoto e as termas; tudo isso no intento de pôr em prática a sábia
locução do poeta romano Juvenal que dizia: “Mens sana in corpore sano”. O poeta queria lembrar àqueles
dentre os cidadãos que faziam orações tolas, que tudo que se deveria pedir numa oração era saúde física e
espiritual.

No Mundo Antigo surgiram várias escolas de medicina e se afirmaram os gênios que ainda hoje são
considerados os “pais” da medicina moderna, em particular, o grego Hipócrates (460-370 a.C) e o romano
Galeno (129-217 d.C.). Hipócrates foi o primeiro a afirmar que cada doença tinha causas naturais e não
sobrenaturais. O médico romano Aulo Cornélio Celso (25 a.C–50 d.C.) relatou detalhadamente a preparação
de numerosos medicamentos, incluindo um preparado anestésico de opióides; também descreveu muitos
procedimentos cirúrgicos praticados no primeiro século, como a remoção de catarata, o tratamento de pedras
na bexiga e a consolidação de fraturas. Celso sublinhou a importância da higiene e afirmou que era melhor
prevenir as doenças de que curá-las.

Durante toda a Antiguidade a população do Império Romano pôde desfrutar das termas sem limites. Além
disso, não havia cidade, grande ou pequena, que não recebesse água limpa e potável e não tivesse uma boa
rede de esgotos. Consequentemente as epidemias nunca tiveram efeitos tão devastadores como aqueles que
assolaram a Europa durante a Idade Média. Por exemplo, foi calculado que a Peste negra (1347-1353)
dizimou 75 milhões de pessoas, mais de um terço da população europeia. Essa e outras pandemias de peste
bubônica, espalhas peleas pulgas dos ratos, poderiam ter sido coibidas com a aplicação de simples normas
higiênicas, mas o Cristianismo abominava tudo o que estava relacionado à higiene. O que antes era
considerado um direito humano e uma virtude pessoal, passou a ser enxergado como um desafio às leis
divinas, um pecado capital. As cidades de época medieval eram verdadeiros lixeiros, povoadas por hordas de
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ratos que, coabitando com os seres humanos, transmitiram a doença. Quem levou a culpa pelo contágio
foram as bruxas e o Judeus, queimados a milhares nas cidades da Europa central.
Poucos decênios após a morte de Galeno, a Igreja cristã começou a substituir o conceito de medicina
científica com elementos sobrenaturais deduzidos das Escrituras. Os conhecimentos adquiridos durante
vários séculos de trabalho experimental foram abandonados e muitos livros queimados. Foi o próprio Paulo
de Tarso que recomendou essa prática e, com efeito, na cidade grega de Éfeso “muitos dos que seguiam
artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos” (Atos 19, 19). O termo
“artes mágicas” significava matemática e geometria e não bruxaria, tanto que até Eusébio bispo de Emesa
(295-359 d.C.), matemático e astrônomo, teve que fugir da cidade após ter sido acusado, pelos seus
ignorantes fiéis, de ser servidor do diabo.

A filosofa Hipátia, chefe da Escola Platônica em Alexanria foi esfolada viva e queimada no ano 415 d.C.
sob a acusação de ser uma bruxa quando, na verdade, foi um dos mais eminentes matemáticos do Mundo
Antigo. Infelizmente, no início do V século, estudar matemática significava tentar investigar a mente de
Deus, uma ação considerada blasfema. Em 391 d.C., sempre na cidade egípcia de Alexandria, o patriarca
Teófilo instigou uma tropa de monges exaltados a atacar e destruir totalmente o magnífico Serapeu,
santuário monumental considerado uma das maravilhas do Mundo Antigo. Naquela ocasião os cristãos não
apenas saquearam e assolaram os edifícios, mas atearam fogo na biblioteca composta por milhares de livros
contendo boa parte da Ciência da época.
Em todo o Império romano inúmeros livros científicos e filosóficos foram queimados ou “perdidos” e,
devido o pergaminho ser caro, os cristãos tiveram a brilhante idéia de raspar os textos pagãos para
reaproveitar as páginas. Famoso é o caso de sete tratados de Arquimedes (Palimpsesto de Arquimedes) que,
em 1229, foram reciclados como livros de orações e recuperados em 1906. Poemas de Cátulo foram
encontrados servindo como rolha em um barril de vinho de Mântua e, no século XIX, o diplomata britânico
Robert Curzon descobriu obras “perdidas” de Euclides e Platão usadas como vedação nos frascos de azeite
em um mosteiro copta. Como resultado do fanatismo religioso, os soberanos cristãos e os Papas
descuidaram tanto da higiene pública em Roma que a população da cidade caiu de 1,5 milhões de habitantes
durante o primeiro século a cerca de 20.000 no sexto século.

Com a perda progressiva e irreversível dos conhecimentos médicos, a Igreja impôs o dogma de que as
doenças podiam ter apenas duas causas: o pecado ou a possessão demoníaca. Cada pecado acarretava um
tipo de doença; por exemplo, os hereges eram acometidos por disenteria até morrer. A cura estava
exclusivamente no arrependimento, nas penitências e, acima de tudo, nas mãos de Deus. Qualquer tentativa
de obter a cura por meio da medicina foi considerada magia negra pois o médico estaria interferindo com a
santa vontade divina que havia causado ou permitido a doença. Afinal, o respaldo estava na própria Bíblia e,
entre as primeiras providências, a Igreja proibiu que os leigos, sob a ameaça de serem tratados como
criminais, praticassem a medicina reservando essa arte exclusivamente aos monges. Mas logo, no sínodo de
Clermont (1130), também os monges foram proibidos: apenas o clero secular manteve essa prerrogativa.
Trinta anos depois, o Concílio de Tours (1163) estabeleceu que todos os estudos de natureza física,
incluindo-se a medicina, deviam ser considerados pecaminosos e quem os praticasse estava agindo em
aliança com o demônio. Quem assistiu o filme “O Físico”, lançado no Brasil em 2014, sabe do que estamos
falando.
Outro resultado prático dessa atitude anticientífica foi a proibição de efetuar pesquisas médicas, e até os
antigos conhecimentos foram rapidamente banidos e esquecidos. Por exemplo, o médico grego Alcmeão de
Crotona cinco séculos antes da nossa era já havia identificado o cérebro como sede do pensamento, mas
2.000 anos depois as autoridades cristãs ainda impunham a crença que o cérebro era apenas uma glândula
deputada à secreção da fleuma. É verdade que a anatomia de cadáveres era tolerada em umas universidades
selecionadas, mas nada de valor foi aprendido devido à proibição da pesquisa; isso fez com que a medicina
se tornasse uma ciência morta, uma mera decoração de conceitos ultrapassados. Dissecções foram
efetivamente realizadas na famosa Escola Médica de Salerno (Itália) a qual, sem seguir à risca as prescrições
da Igreja, baseou suas noções principalmente sobre a experiência prática e sobre o estudo meio clandestino
de textos árabes e judaicos. Anatomistas independentes, como Leonardo da Vinci, tiveram que realizar seus
estudos em absoluto sigilo.

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Apesar do renome dessa Escola e de poucas outras, a medicina na Idade Média havia regredido em todos os
setores na Europa cristã. Os muçulmanos que entraram em contato com os cristãos, como o famoso
historiador Usamah ibn Munqidh, ficaram chocados com a crueza da medicina e da saúde pública no mundo
ocidental. Enquanto os muçulmanos tomavam banhos frequentes e ensinavam que era boa norma lavar as
mãos antes das refeições, os cristãos submeteram-se à superstição de que a higiene era um grave erro. Não
era considerado decoroso que um cristão removesse a sua honesta sujeira, pois o Padre da Igreja São
Gregório de Níssa (330-395 d.C.) havia ensinado que a vida humana não passava de “um monturo” e que,
consequentemente, devia ser considerado pecado qualquer ato que desse prazer ao corpo, não somente as
lavagens, mas até cheirar uma flor o admirar um lindo por-do-sol.

Durante toda a Idade Média, mas também em épocas sucessiva, o ideal cristão mais elevado, um verdadeiro
preceito, era manter uma existência hostil ao corpo e aos instintos naturais como a alimentação e a
sexualidade. Ao contrário, era tida como santa toda atitude que patologicamente renegasse qualquer forma
de prazer, ou seja, a abstinência, os jejuns, as lágrimas, a sujeira, a insônia forçada e todas as práticas
masoquísticas como o cilício e a flagelação. Santa Caterina de Siena (1347-1380) afirmou que as lavagens
do corpo não eram apropriadas para a “esposa de Cristo” e o místico espanhol São João de Ávila (1499-
1569) proclamou a sua repulsão para com o corpo, considerando-o “um lixeiro, algo de asqueroso”. A
loucura de certos ascetas chegou a ultrapassar os limites da imaginação mais perversa. Foi o caso de
Margarida de Alacoque (1647-1690), santificada por papa Pio IX, que, por penitência, tomava somente água
servida, comia pão com mofo, e costumava engolir as fezes de doentes acometidos pela diarréia. São
Francisco de Assis (1182-1226) se gabava de ter o corpo coberto de piolhos que considerava “seus irmãos”.
Não muito diferentes foram as místicas Santa Ângela de Foligno (1248-1309) que bebia a mesma água
usada para lavar os leprosos, e Santa Catarina de Gênova (1447-1510) que adorava lamber a sujeira dos
pobres engolindo, junto, fezes e piolhos.

Em geral, quem mais sofreu foram as mulheres. Segundo o ideal cristão, para elas era bem melhor morrer do
que pedir auxílio a um médico. Valia, para todas, o exemplo de Santa Gorgônia (375 d.C.) a qual, após ter
sido pisoteada por uma mula que quebrou-lhe uns ossos e esmagou órgãos internos, recusou que um médico
cuidasse dela, pois não achava isto decente. Segundo a lenda, foi esta modéstia que a curou. Para a
Associação Apostolado do Sagrado Coração de Jesus, essa santa ainda representa um modelo de virtude a
ser seguido pelas mulheres brasileiras! Quanto às cesarianas, praticadas com sucesso já na Antiga Roma e na
China, durante toda a era cristã foram (e objetivamente eram) consideradas mortais e, portanto, realizadas
muito raramente. Todavia, junto aos Árabes essa prática era relativamente comum e bem-sucedida.
No que diz respeito à vida sexual, o pagão Galeno havia sugerido que tanto as relações sexuais como a
masturbação eram hábitos saudáveis, idéia adotada também pelo médico persa Avicena (980-1037) retratado
no filme “O Físico”. O teólogo alemão Johann von Wesel (†1481), estudou e defendeu estas idéias, mas
acabou sendo condenado por heresia em Mainz em 1479 pela Inquisição e morreu dois anos mais tarde, sob
pena de prisão perpétua. Em geral na cristandade, a partir do ano 300 d.C. até o início do século XVIII,
todas as condições mentais graves foram entendidas como sintomas de possessão demoníaca. Posto que essa
e outras doenças eram tidas como sendo causadas por agentes sobrenaturais, também a cura tinha que ser
essencialmente sobrenatural. No entanto, caso se tornasse necessário, a tortura era considerada uma terapia
legítima. O médico holandês Johann Wier (1515–1588) criticou com força a caça às bruxas promovida pelas
autoridades católicas e civis e foi o primeiro a utilizar o termo doente mental para designar uma mulher
acusada de bruxaria; a Igreja o denunciou e proibiu a leitura de seus livros.

De modo geral qualquer tipo de investigação científica ou filosófica foi sujeita a penas severas,
especialmente depois que a Inquisição começou a operar na Europa. Pedro de Abano (1250-1316), médico
fisiologista italiano e cientista de fama internacional, foi acusado de praticar a magia pelo tribunal da
Inquisição e absolvido em 1306. Acusado de novo em 1315, morreu durante a instrução do seu processo
devido as torturas às quais foi submetido. Francesco Stabili (1269-1327), mais conhecido como Cecco de
Ascoli, foi poeta, médico, astrônomo e mineralogista de renome. Ele não teve a sorte de morrer na prisão
igual Pedro de Abano e acabou sendo queimado vivo em Florença aos setenta anos de idade. Um professor

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de medicina da Universidade de Bolonha, que costumava usar transplantes de pele em cirurgias plásticas, foi
acusado de ofender a religião. Qualquer forma de anestesia foi proibida sob a alegação que se Deus desejava
o nosso sofrimento, tínhamos que aceitá-lo sem procurar amenizá-lo; inclusive, foi considerado melhor, em
caso de gravidez ectópica, que a mulher grávida aceitasse a vontade de Deus e morresse, antes que se
submeter a qualquer procedimento cirúrgico.

Pouquíssimas eram as terapias permitidas e a mais comum era o exorcismo, para caçar os demônios do
corpo do doente; todavia, quando esse recurso se revelava insuficiente, eram preparadas misturas contendo
baratas, vísceras de sapo, escorpiões esmagados, urina, vômitos, lesmas e outras iguarias parecidas. Era
opinião comum que, tomando essas porcarias, os capetas que haviam causado a doença saíssem do corpo
assustados pelo gosto horrível do remédio. Quando uma epidemia atingia uma população, os devotos
cristãos se reuniam, de regra descalços, em igrejas para rezar ou organizavam procissões solenes como
durante a peste de Milão em 1631. Destarte aceleravam a propagação da infecção com as consequências que
bem podemos imaginar. Em algumas cidades francesas, durante a Semana Santa, as prostitutas locais eram
obrigadas a morar nas mesmas casas dos leprosos. Um autêntico ato de piedade e uma forma bastante eficaz
de profilaxia!

O estado lastimável da medicina na Europa ocidental melhorou na Renascença em virtude das trocas
culturais com estudiosos bizantinos. Muitos conhecimentos médicos de época clássica haviam sobrevivido
no Império bizantino devido a Igreja ortodoxa nunca ter exercido o poder político como na Europa; é por
esse motivo que ainda hoje a grande maioria dos termos usados na medicina moderna deriva da língua
grega. Na fase final da Renascença, o médico suíço Paracelso (1493-1541) chegou à conclusão que muitas
doenças eram originadas por entidades parecidas com minúsculas sementes que invadiam o corpo através do
ar, de alimentos e de bebidas. Agentes diferentes atacavam órgãos diferentes causando, assim, doenças
diferentes. Em essência, ele havia identificado corretamente o mecanismo pelo qual muitas doenças
infecciosas são comunicadas. No entanto, a Igreja se opôs ao método científico e hostilizou às descobertas
de Paracelso.

A primavera renascentista foi enfim varrida pela Reforma protestante e pela Contra-reforma católica. Lutero
enxergava qualquer argumentação lógica como perigosa para a Cristandade e declarou que “Para ser um
cristão é necessário arrancar o olho da Razão”, tida por ele como a “prostituta do demônio”. Calvino, por
sua vez, mandou queimar na fogueira o grande pioneiro da medicina Miguel Servet (1511-1553). A Contra-
reforma estabeleceu que a Igreja fosse a única entidade autorizada a permitir a prática da arte médica.
Durante todo o século XVII não houve algum avanço significativo tanto que, em muitos aspectos, as práticas
médicas dos povos indígenas da América do Sul eram mais eficazes que as da Europa. Os índios realizavam
trepanações e amputações, extirpavam tumores e usavam anestésicos; haviam desenvolvido próteses e
usavam mandíbulas de formigas como grampos em suturas.

Vagarosamente a situação começou a evoluir durante o século sucessivo, mas sem que a Igreja abrisse mão
de seu ferrenho controle sobre os estudos e as aplicações da medicina. Em 1798 o médico britânico Edward
Jenner desenvolveu uma vacina eficaz contra a varíola que logo foi adotada em muitas nações da Europa.
Mesmo assim, ainda em 1829, papa Leão XII afirmou que: “Qualquer pessoa resolva usar essa vacina deixa
de ser um filho de Deus: a varíola é um castigo enviado por Deus, portanto a vacinação é um desafio contra
o Céu!”. A nefasta influência do catolicismo ainda pode ser observada na Itália, nação dominada
culturalmente pela Igreja e pelo Vaticano. Esse País foi, entre os demais da Europa, o último a admitir o uso
da morfina para o tratamento da dor crônica. Ainda hoje o consumo per capita de alcalóides do ópio é mais
baixo que em nações como Alemanha, França, Grã-Bretanha e até Espanha e Portugal. Nos hospitais
italianos os médicos de formação católica desaconselham esse tipo de tratamento devido, intimamente,
acreditar que a dor e o sofrimento servem para purgar os pecados e ganhar o céu. Um tipo de pensamento
compartilhado por Madre Teresa de Calcutá, sempre prona a justificar a dor física (dos outros!) e a deixar
morrer os pobres em condições lastimáveis. Todavia, quando ela mesma ficou doente, não hesitou procurar a
melhor clínica particular dos Estados Unidos.

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Apesar das inúmeras evidências, não poucos apologistas continuam defendendo a tese que o Cristianismo
“concorreu para a felicidade dos indivíduos e das sociedades” alegando, entre outras mentiras, que a Igreja
teria rejeitado a escravidão. Na verdade o escravismo dominou o sistema de produção desde épocas remotas
e os Hebreus nada fizeram se não se adequar a esse sistema. O ensino da Bíblia é ainda mais aberrante pois
chega a permitir que um judeu possa vender a sua própria filha como escrava por finalidades sexuais “Se um
homem vender sua filha como escrava, ela não será liberta como os escravos homens” (Êxodo 21,7). Em
seguida Paulo de Tarso, contradizendo o ensinamento de Jesus, afirmou que os escravos devem se
conformar à sua condição “Foste chamado sendo servo (escravo)? Não te dê cuidado…” (Coríntios 7,20) e
ainda “Todos os servos (escravos) que estão debaixo do jugo estimem a seus senhores…” (Timóteo 6,1). É
evidente que com o respaldo das Escrituras, toda a Igreja antiga tenha obstaculado qualquer tentativa de
emancipação dos escravos.

Também os Doutores da Igreja dos séculos IV e V concordam sobre a legitimidade da escravidão: Santo
Ambrósio (340-397 d.C.) define a escravidão uma “dádiva de Deus” (Ambrósio, De paradiso 14,72)
enquanto Santo Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) afirma a escravidão ser justificada pela natural
desigualdade entre os homens (Agostinho, Ennarrationes in psalmos 124,7). Se nos primeiros dois séculos
da nossa era até os escravos podiam ter cargos oficiais na Igreja, a partir do ano 257 Papa Estêvão I proibiu
que eles pudessem ser padres ou bispos. Sucessivamente os Papas, que haviam se tornado grandes
latifundiários, utilizaram enormes quantidades de escravos para as lavras em suas terras e o mesmo fizeram
muitos antigos mostérios. A Igreja chegou ao ponto de inventar formas inéditas de trabalho escravo quando,
durante o IX Concílio de Toledo (655), decretou que todos os filhos ilegítimos (que não eram poucos!) dos
membros do clero, se tornassem escravos para sempre. Destarte a escravidão nunca foi condenada pela
Igreja que, com a desculpa da evangelização, permitiu e até incentivou a captura dos indígenas na África e
nas Américas. No Brasil, a nação mais católica do mundo, a escravidão só foi abolida em 1888, pouco mais
de cem anos atrás.

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O CULTO AOS SANTOS É UMA FORMA DE POLITEÍSMO?

Desde as origens, o Cristianismo desenvolveu a capacidade de incorporar e integrar formas comemorativas


preexistentes já dotadas de estrutura própria e solidamente enraizadas em suas respectivas comunidades.
Principalmente durante os primeiros três ou quatro séculos da Era Vulgar, a Igreja Católica assimilou vários
elementos do paganismo como procissões, vestimentas, rituais, orações e litanias traduzindo-os em eventos
litúrgicos. Esse percurso tornou-se necessário, se não obrigatório, para minimizar o trauma cultural gerado
pelo fim de uma religião que havia dominado a Europa e o mundo Mediterrâneo durante muitos séculos.
Visando substituir eficazmente os deuses do panteão pagão, além das muitas divindades mais ou menos
importantes, foi mister acrescentar também a figura de Ísis que dificilmente poderia ter ficado como deusa
ao lado do antigo Elohim de Israel (Javé). Portanto, para que esse processo se completasse com sucesso, o
catolicismo teve que abrir mão da rigidez monoteísta, imposta ao cristianismo primitivo pela raiz judaica,
inventando um culto dirigido à Virgem sendo, os santos (e as santas) incapazes de compensar dignamente
esse déficit. Foi assim que os vestígios da religião pagã se amalgamaram harmoniosamente com o conceito
de Deus trinitário gerando grande satisfação tanto entre os fiéis como entre os bispos cristãos. Afinal, como
diz a Bíblia “O que tem sido, isso é o que há de ser; e o que se tem feito, isso se tornará a fazer; nada há
que seja novo debaixo do sol.” (Eclesiastes 1:9).

A famosa escritora americana Barbara G. Walker escreveu que: "O cânon dos santos foi a técnica cristã
para preservar o politeísmo pagão que as pessoas queriam enquanto fingiam adorar a um Deus", e a
própria Enciclopédia Católica admite que: "Foi dito, com razão, que os Santos são os sucessores dos
Deuses". No processo de fabricação dos santos, entre muitos outros, os católicos se apossaram de deusas e
deuses como Ártemis (Santa Luzia), Brígida (Santa Brígida) e Dioniso (São Dionísio); de regra foram
mudados os nomes originais atribuindo a esses novos santos grandes façanhas históricas e poderes parecidos
aos dos semideuses homéricos. Além disso, os templos pagãos ou as "tumbas" de deuses foram
transformados em igrejas cristãs. Por exemplo, o túmulo de Dioniso/Baco foi transformado na igreja de São
Baco.

No entanto, Jesus, nos seus Evangelhos nunca falou de sacerdócio, nem de celibato, nem de papado nem,
muito menos, da veneração dos santos. Mais tarde, já no século XVI, os reformadores protestantes Zwingli e
Calvino consideraram o culto aos santos uma invenção humana, sem bases bíblicas e condenaram a
arrogância dos papas que haviam explorado esse culto irregular. Os protestantes continuam achando um
absurdo que um mortal possa decidir sobre a santidade de outro pois, isso, contrasta com o que lemos nas
Escrituras. Em particular: “Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de Um.”
(Hebreus 2:11); inclusive a Bíblia ensina que todos os crentes são santos (tanto os que vivem na terra como
os que morreram e estão agora na presença do Senhor), e isto porque foram santificados “pela oblação do
corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” (Hebreus 10:10). Naturalmente sem esquecer o que o próprio Jesus
mandou: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Lucas 4:8).
No intento de comprovar como a “fábrica dos santos”, situada no Vaticano, tenha servido basicamente para
difundir um culto finalizado a angariar lucrosas oferendas, segue um breve rol que, longe de ser exaustivo,
mostra a estridente contradição entre o comportamento de uns “santos de pau oco” e sua elevação aos
altares.

São Cirilo de Alexandria (370-444). Bispo de Alexandria do Egito, massacrou e expulsou milhares de
judeus da cidade. Foi o instigador do assassinato da filósofa pagã Hipácia, esfolada viva com conchas
pontiagudas e queimada por um grupo de monges parabolanos. Cirilo foi o proponente do culto mariano no
Concílio de Éfeso, amplamente difundido graças à distribuição de enormes quantias de dinheiro.

São Bernardo de Claraval (1090-1153). Fervente antissemita, foi o promotor da segunda cruzada; para
esse propósito, ele criou e promoveu várias ordens monásticas militares. É sua a tese segundo a qual: "O
soldado de Cristo pode matar com a consciência quieta; a morte dos pagãos redundará em sua glória, porque
significa a glória de Cristo".
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São Pio V Papa (1504-1572). Além de ser fortemente antissemita e ideador do gueto de Roma, organizou o
horrível massacre dos protestantes Valdenses na Calábria: quem se arrependia tinha o privilégio de ser
enforcado, degolado ou jogado do alto de uma torre; os outros foram todos queimados vivos: homens,
mulheres, velhos e crianças. Instituiu a Congregação dos Livros Proibidos reforçando ainda mais os poderes
da Inquisição. Condenou à fogueira os ilustres humanistas Pietro Carnesecchi e Aonio Paelario. Quanto ao
poeta e escritor satírico Niccolò Franco, ordenou que fosse torturado e enforcado devido ele ter tido a
ousadia de criticar o papa anterior, Pio IV.

São Carlos Borromeu (1538-1584). Lutou contra o protestantismo nos vales suíços, impondo estritamente
os ditames do Concílio de Trento. Em sua visita pastoral no Vale da Mesolcina (Suíça), mandou prender
mais de 150 calvinistas acusando-os de feitiçaria. Quase todos abandonaram a religião protestante após
terríveis seções de tortura, preferindo abjurar para salvar suas vidas; entretanto, doze mulheres e um reitor
foram condenados à fogueira na qual foram jogados de cabeça para baixo.

São Roberto Belarmino (1542-1621). Doutor da Igreja e grande inquisidor, ficou famoso pela condenação
de Galileu Galilei, a detenção de Tommaso Campanella e a queima de Giordano Bruno. Por essas louváveis
iniciativas faleceu em odor da santidade; o seu corpo foi dissecado em público e distribuído aos fiéis
dividido em pequenos pedaços de carne.

São João Bosco (1815-1888). Também conhecido com o apelido de "vingador". Ficou zangado contra a
Casa de Saboia, soberanos da Itália desde 1861, primeiro pela liberdade religiosa por eles concedida aos
Valdenses e, em seguida, pela supressão de algumas ordens religiosas. Por esses motivos anunciou a morte
iminente de vários familiares do rei Vitório Emanuel II e, quando alguém realmente morreu, João Bosco
começou a ser reverenciado como santo e profeta.

Padre Pio (1877-1968). Agitador político, no centro de inúmeras conspirações urdidas tanto por ele quanto
contra ele (seja dentro que fora da Igreja), conseguiu esquivar-se fraudulentamente, durante a guerra, do
serviço militar a ser prestado como enfermeiro. Costumava se queixar por doenças inexistentes para se
subtrair à obrigação de permanecer dentro de seu convento e, desobedecendo à regra, acabou vivendo
livremente onde mais lhe agradou. Foi considerado um elemento histérico com transtornos mentais e mania
de grandeza. Quem atestou isso foi Padre Agostino Gemelli, eminente cientista e fundador da Universidade
Católica do Sagrado Coração, de Milão. No relatório que Pe. Gemelli enviou ao Santo Padre em 1926
declarou que Padre Pio era: "um psicopata ignorante que praticava a automutilação procurando-se sozinho
as estígmates para se beneficiar da credulidade popular". Padre Pio costumava vender pedacinhos de tecido
impregnados com seu próprio sangue. A uma mulher que lhe pediu para interceder para curá-la do câncer,
respondeu assim: "É melhor que Jesus lhe vire e revire quanto ele quiser, porque Jesus gosta do seu
sofrimento".

Madre Teresa de Calcutá (1910-1997). Graças a uma astuta operação de marketing, foi considerada santa
quado ainda estava viva. Essa protetora dos pobres os forçou a viver seus últimos dias num hospital sem
qualquer conforto; apesar de ter recolhido ofertas bilionárias, obrigava os doentes a tomar banho com água
fria e costumava “reciclar” as agulhas das siringas. Em seus hospitais os analgésicos eram quase proibidos.
Especializada em batismos à beira da morte e na defesa da Igreja declarou que: "Se eu fosse forçada a
escolher entre Galileu e a Inquisição, escolheria a Inquisição". Quando faleceu, o seu patrimônio foi
avaliado em meio bilhão de dólares.

Sedenta se santos e de dinheiro, a Igreja católica chegou ao ponto de inventar figuras que jamais existiram
de verdade como, por exemplo:

Santa Praxedes e Santa Pudentiana. As notas biográficas sobre Praxedes e a irmã Pudentiana derivam
unicamente da uma coletânea de “Lendários” romanos compostos entre o V e o VI século. Ambos os nomes
foram removidos do Calendário Litúrgico em 1969.

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Santa Catarina de Alexandria. O nome dessa santa, antes desconhecido, aparece pela primeira vez em
textos escritos a partir do século VI, e só a partir do século IX o culto de Santa Catarina tornou-se bastante
popular. No final do século XVIII a historicidade da personagem começou a ser questionada não pelos
Iluministas, mas por Jean-Pierre Déforis, um sacerdote francês, benditino e famoso apologista; como
resultado da pesquisa de Pe. Déforis, a festa da santa foi logo abolida no Breviário de Paris. Um século
depois, Anna Jameson identificou muitas características comuns entre Santa Catarina de Alexandria e
Hipácia, a matemática pagã que sofreu o martírio em 415. A própria Igreja Católica expressou muitas vezes
suas dúvidas que culminaram com a exclusão do martirológio em 1969 por ordem de Paulo VI. Em seguida,
papa Bento XVI mandou que o nome da santa fosse reintegrado no Calendário Litúrgico. No entanto, a
permissão para celebrá-la, de qualquer forma, sempre permaneceu em vigor.

A dos santos é mais uma das inúmeras mentiras sobre as quais se rege o catolicismo que, para edificar e
manter o seu poder, não hesitou a alterar até as Escrituras. Segue um exemplo adequado à Semana Santa. Na
versão original em grego do Evangelho de Mateus (veja o site Biblehub.net) lemos o seguinte: “εἶχον δὲ
τότε δέσμιον ἐπίσημον λεγόμενον Βαραββᾶν. συνηγμένων οὖν αὐτῶν εἶπεν αὐτοῖς ὁ Πειλᾶτος Τίνα θέλετε
ἀπολύσω ὑμῖν, Βαραββᾶν ἢ Ἰησοῦν τὸν λεγόμενον Χριστόν”. Esses dois versículos foram traduzidos assim:
“E tinham então um preso bem conhecido, chamado Barabbás. Portanto, estando eles reunidos, disse-lhes
Pilatos: Qual quereis que vos solte? Barabbás, ou Jesus, chamado Cristo?” (Matheus 27:16-17). Mas isso
não corresponde à verdade, pois a tradução correta é a seguinte: “E tinham também um preso bem conhecido
chamado Jesus Filho do Pai. Portanto, estando eles reunidos, disse-lhes Pilatos: Qual quereis que vos
solte? Jesus Filho do Pai, ou Jesus, chamado Cristo?”. Com efeito, Barabbás não é nome de pessoa, mas
um título que significa “Filho do Pai”, ou seja, Filho de Deus pois, em aramaico, bar Abba quer dizer
exatamente isso. Para se convencer, o leitor pode considerar essas palavras proferidas por Jesus: “E disse:
Abba, Pai, todas as coisas te são possíveis...” (Marcos 14:36). Também foi censurado o nome de Jesus no
versículo 16.

Os católicos rebatem às acusações de idolatria explicando que os homens e as mulheres cujos nomes
aparecem no Livro dos Santos operaram pelo menos um milagre e que, portanto, agiram e agem com o
assentimento de Deus. Já falei, em outros artigos, que não acredito em milagres, pois eles simplesmente não
existem. Ao mesmo tempo reconheço que o meu ponto de vista pode ser considerado suspeito pelos
católicos. Prefiro, portanto, citar as palavras de João Crisóstomo, um dos mais importantes patronos do
cristianismo primitivo; esse religioso, já no V século, afirmou que antigamente “Os dons extraordinários do
Espírito eram concedidos até aos indignos, pois a Igreja necessitava de milagres; mas hoje nem os mais
dignos os recebem, pois a Igreja não precisa mais de milagres”. Acho oportuno citar também umas
considerações expressas por Pe. Alberto Maggi, teólogo, biblista católico e religioso da Ordem dos Servos
de Maria. Esse ilustre congressista dirige, desde 2005, o Centro de Estudos Bíblicos “Giovanni Vannucci”
na cidade de Montefeltro (Itália). A respeito dos milagres o pensamento de Pe. Maggi é o seguinte:

“O problema não é se acreditar ou não nos milagres, o problema é saber se os milagres existem ou não. Os
eventos que encontramos nos Evangelhos não pertencem ao gênero do milagre. Por milagre queremos dizer
uma intervenção extraordinária realizada na natureza e que é a favor do homem. Nos Evangelhos não há
nem o termo nem o conceito de milagre, no sentido de subversão e de superação das leis da natureza em
favor do homem.
O milagre é: eu não tenho minha mão, rezo e ela cresce. Um milagre que nunca aconteceu. A cura é: minha
mão está paralisada, em certas circunstâncias de emotividade e de oração, em todas as religiões, a mão
volta a ser saudável. Então as curas sim, são possíveis, mas os milagres não! Realmente existem lugares
onde há curas, como acontece em Lourdes. Porém, devemos ter cuidado quando falamos em milagres
operados por Deus, porque uma imagem errada de Deus não só não induz a fé, mas induz à repulsa de
Deus. Eu não duvido que em situações particulares de grande emoção religiosa, de grande oração, algumas
energias da vida podem ser despertadas em alguns indivíduos, energias que não apenas limitam o mal, mas
podem até mesmo apagá-lo.”

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Apesar das declarações dos religiosos mais esclarecidos, nas nações católicas os fieis continuam solicitando
milagres tanto em suas orações como durante inúmeras manifestações de idolatria envolvendo estátuas de
santos levadas em procissão. Nesse caso existe, pelo menos, uma vantagem ligada à afluência de turistas que
movimenta a economia de cidades grandes e pequenas mas, quando o assunto é a fé, emerge uma verdade
desmoralizante. A revista italiana “Famiglia Cristiana” publicou, em 2006, os resultados duma pesquisa
telefônica, realizada em uma amostra nacional de católicos praticantes, a qual estabeleceu que 70% dos
contatados costumam invocar a ajuda de um santo. Destes, 31% apelam para Padre Pio, 25% para Santo
Antônio, 9% para a Virgem Maria, 7% para São Francisco, 4% para Santa Rita e São José. E Jesus? Fica
com um miserável 2%, ganhando apenas de santos como São Januário de Benevento, São Roque, Madre
Teresa de Calcutá e Águeda de Catânia, todos com 1%. Pe. Tonino Lasconi, pároco de Fabriano, comentou
assim os resultados da sondagem: “O fato de Nossa Senhora e Jesus serem muito pouco invocados e que a
preferência seja para os santos, indica que não foi entendida a diferença entre as hierarquias; isso é o sinal
de que nossos cristãos são muito ignorantes, após anos de catequese e religião nas escolas públicas”.
Eu diria que toda essa ignorância foi proposital, pois é sobre ela que o catolicismo põe seus alicerces!

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UMA CARTA DE MADRE TERESA

Na época em que o Presidente Richard Nixon governava os Estados Unidos, o ultra-católico e conservador
Charles Humphrey Keating protagonizou um dos maiores escândalos financeiros de todos os tempos
enganando milhares de pequenos poupadores americanos que perderam todos seus bens. No auge de seu
sucesso, Mr. Keating fez uma doação de 250.000 dólares (que nem eram dele) à Madre Teresa a qual o
retribuiu invocando para ele a proteção divina e presenteando-o com um crucifixo.
Finalmente, em 1992, Mr. Keating foi processado pelo Estado da Califórnia e condenado a dez anos de
prisão. Durante a celebração do processo, Madre Teresa, sem explicar por qual motivo conhecia o réu,
tomou a iniciativa de escrever uma carta ao Juiz Lance Ito, aqui reproduzida:

“Ilustre Lance Ito:


Nós não nos envolvemos nem em negócios, nem em política e nem em tribunais. O nosso trabalho, como
Missionárias da Caridade, consiste em assistir generosa e gratuitamente os mais pobres entre os pobres. Eu
nada sei das atividades e dos negócios de Mr. Keating, e nem dos assuntos aos quais o senhor está se
dedicando. Apenas sei que ele sempre foi generoso e gentil com os pobres de Deus, e sempre disposto a
ajudar quando havia necessidade. Bem por esse motivo não quero esquecer dele num momento em que ele e
a sua família estão sofrendo. Jesus disse: “Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, é a mim que o
fazeis”. Mr. Keating fez muito para ajudar os pobres, e é por esse motivo que intercedo por ele. Cada vez
que, a pedido de alguém, falo com um juiz, sempre lhe digo a mesma coisa. Peço pra ele rezar, olhar no
fundo de seu coração, e fazer o mesmo que Jesus faria na mesma situação.
E isso o que agora peço ao senhor, Meritíssimo.
Expresso a minha gratidão orando para o senhor, para o seu trabalho, para a sua família e as pessoas com
quem trabalha junto.
Que Deus o abençoe.
M. Teresa”

O juiz não respondeu, mas o fez o Dr. Paul Turley que, como vice-procurador de Los Angeles, foi um dos
promotores no processo contra Keating. De sua iniciativa encaminhou essa resposta a Madre Teresa:

“Cara Madre Teresa:


Sou um dos procuradores do Condado de Los Angeles, e um dos representantes da Procuradoria-Geral no
processo contra o seu benfeitor Charles H. Keating. Li ao juiz Ito a carta que a senhora escreveu em defesa
de Mr. Keating, na qual admite desconhecer as suas atividades e as acusações criminais apresentadas
perante o juiz Ito. Lhe escrevo para fornecer um breve resumo dos crimes pelos quais Mr. Keating foi
condenado, para que possa entender de onde veio o dinheiro que Mr. Keating lhe doou, e para lhe sugerir
de cumprir o gesto moral e ético de devolver o dinheiro a seus legítimos proprietários.
Mr. Keating foi condenado por ter fraudado mais de 900.000 dólares a 17 pessoas que representam 17.000
cidadãos aos quais Mr. Keating tomou 252 milhões de dólares.
Mais detalhadamente, a fraude perpetrada por Mr. Keating consistiu numa série de declarações
fraudulentas a pessoas que compraram ações de sua sociedade. […]
As vítimas da fraude de Mr. Keating pertencem a um vasto leque da sociedade. Umas eram ricas e
instruídas, mas, na maioria, eram pessoas simples que pouco ou nada sabiam de alta finança.
Entre eles, até um pobre carpinteiro que nem sabe falar inglês e que, graças à fraude de Mr. Keating,
perdeu tudo o que havia poupado durante a vida.

O lema da sua organização é “Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, é a mim que o fazeis” e são
justamente os menores entre os irmãos os que Mr. Keating depenou sem piedade. […]
A senhora exorta o juiz –na hora de emitir a sentença de Charles Keating- a olhar no fundo de seu coração
e a fazer o que faria Jesus.

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Pois bem, eu desafio a senhora da mesma forma. Pergunte a si mesma o que faria Jesus de lhe doassem os
frutos de um crime, o que faria Jesus se estivesse na posse de dinheiro roubado, o que faria Jesus se um
ladrão o usasse para limpar a sua consciência.
Acredito que Jesus devolveria imediatamente os bens furtados a seus proprietários legítimos.
A senhora deveria fazer a mesma coisa.
Recebeu dinheiro de Mr. Keating o qual foi sentenciado por tê-lo furtado.
Não fique com aquele dinheiro. Devolva-o às pessoas que o ganharam com seu trabalho.
Se o deseja, posso fazer com que entre em contato diretamente com os legítimos proprietários dos bens que
agora se encontram na sua posse.

Cordiais saudações,
Paul W. Turley”

O Dr. Turley jamais recebeu uma resposta e o dinheiro nunca foi devolvido. A Ordem fundada por Madre
Teresa possui uma fortuna avaliada em meio bilhão de dólares.

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QUAL A RELIGIÃO QUE DEUS PREFERE?

É evidente que um católico irá responder que é o catolicismo. Um evangélico dirá que se trata do
protestantismo. Um budista afirmará ser o budismo, e um hindu o hinduísmo. Um muçulmano não terá a
menor dúvida que a mais legítima religião do mundo é o próprio Islã, pois o Alcorão foi ditado ao Profeta
Maomé pelo Anjo Gabriel em pessoa. Em suma, cada um dirá que a “sua” religião é aquela correta e que,
portanto, é aquela preferida por Deus.
Seria oportuno dirigir a pergunta inicial diretamente ao Ser Supremo, mas isso, obviamente, não é muito
viável. Entretanto, uma forma indireta para obter uma resposta pode se fundamentar sobre uma investigação
acerca dos relatos de pessoas que enfrentaram experiências de quase-morte (EQM). Trata-se de fenômenos
relatados por médicos e cientistas e publicados em livros que podem ser encontrados em livrarias ou até
baixados pela internet.

As EQM não são tão infrequentes, e um estudo do Instituto de Pesquisas Gallup de 1982 afirma que só nos
Estados Unidos pelo menos oito milhões de pessoas vivenciaram esse tipo de experiência. Do ponto de vista
estatístico, não há diferença entre indivíduos religiosos ou ateus: a probabilidade de ter uma EQM é a
mesma.
Basicamente, o que caracteriza as EQM são alguns elementos distintivos comuns, ou seja:
1) O indivíduo sai do corpo e enxerga os médicos tentando reanimá-lo;
2) O “espírito” da pessoa pode se deslocar livremente e encontrar parentes próximos ou distantes;
3) Em determinado momento o “espírito” entra num túnel escuro sendo, ocasionalmente, ajudado por seres
luminosos que o confortam;
4) Alcança um lugar maravilhoso inundado de paz e amor;
5) Dialoga, mas sem usar palavras, com um Ser luminoso diante do qual os fatos mais salientes da sua vida
aparecem de forma simultânea;
6) Em circunstância alguma o Ser de luz repreende ou condena o “espírito” o qual, diante da visão de sua
vida, sente satisfação em relação aos fatos positivos ou profunda vergonha quando ele ofendeu ou fez mal a
outra pessoa.

O aspecto mais intrigante desse tipo de experiência é que o único fator significativo sobre o qual insiste o
Ser Luminoso é o amor. Nunca se fala em religião, e sim em bondade e compreensão. Em seu livro “A luz
além da vida”, o médico e psiquiatra americano Raymond A. Moody escreve o seguinte:

“Um homem que entrevistei havia sido, no passado, um pastor bastante intransigente. Frequentemente, ele
me disse, ameaçava os fiéis que, se não tivessem interpretado a Bíblia da forma oportuna, teriam sido
condenados a queimar pela eternidade. Mas enquanto estava “morto”, o Ser de luz pediu que ele não
usasse mais aquela postura com os fiéis comunicando, não verbalmente, que essa postura deixava os fiéis
bem tristes. Quando voltou ao púlpito, esse pregador anunciou uma mensagem de amor e não mais de
terror”.

Outro relato bem interessante é o de uma pessoa que havia estudado num seminário:

“Mediante aquela visão entendi quão burro e presunçoso fui quando fiquei intransigente em relação à
teologia, olhando de cima para baixo quem não pertencesse à minha igreja ou não compartilhasse as
minhas ideias teológicas. Muitas pessoas que conheço vão estranhar quando descobrirem que o Senhor
nada se importa com a teologia! Quando muito a acha divertida! Na verdade, ele não tinha o menor
interesse com a minha religião, apenas queria saber o que eu tinha no coração e não na cabeça”.

O Dr. Moody, que realizou centenas e centenas de entrevistas, chegou à conclusão que:

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“Através dessa experiência, as pessoas compreendem que a religião não é uma questão de grupo “correto”
em contraposição a grupos “errados”. Quem passa por uma EQM fica com a certeza que a religião tem a
ver apenas com a capacidade de amar, despida de qualquer doutrina ou denominação”.

O Dr. Moody cita o depoimento de uma idosa que, desde a infância, havia sido uma luterana fervorosa, mas
que depois duma EQM tornou-se uma pessoa muito menos intransigente e mais alegre. A quem a
interrogava pedindo explicações, a senhora respondia que agora conhecia Deus e sabia que a Ele não
importava nada da doutrina da igreja e de outras coisas.
Pois bem, ninguém pretende afirmar que esse Ser de luz seja Deus, Jesus, Alá, Buda ou qualquer outra
Divindade, mas, se os relatos são verdadeiros ele seria um ser sagrado junto ao qual os “ressuscitados”,
como eles mesmos declararam, gostariam imensamente de passar a eternidade.
E, fato ainda mais importante, o Ser de Luz não se importa minimamente com a religião do “falecido” e nem
se ele é ateu, agnóstico ou descrente: o que realmente vale é a atitude interior, a vontade de operar o bem e
de amar as outras pessoas.

Devido a inexistência de provas a respeito da realidade objetiva desse Ser, uma explicação racional é que se
trate apenas da nossa consciência no estado mais puro e profundo. Uma consciência livre de
condicionamentos, de dogmas, de regras e de imposições sociais, expressão da essência profundamente
holística do ser humano. Por outro lado, muitos estudiosos confutaram a tese segundo a qual as EQM
representam uma forma de contato com outra dimensão ainda desconhecida. Há quem diga que são
reminiscências do nascimento, excesso de bicarbonatos no sangue, simples alucinações, efeitos de drogas
e/ou de medicamentos, falta de oxigênio, auto-engano do cérebro e outras teorias.

No entanto, cientistas sérios e competentes como Raymond Moody, David Raft, Jeffry Andersen, Glenn
Gabbard, Stuart Twemlow, Carl Becker, Martin Bauer, Tillman Rodabough, Bruce Greyson (diretor da
revista Journal of Near-Death Studies) e muitos outros conseguiram demolir todas as críticas chegando à
conclusão que as experiências são genuínas e não podem ser explicadas com os atuais conhecimentos
científicos.

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JESUS ERA CASADO?

De acordo com a tradição cristã, Jesus não teria tido uma esposa, embora os Evangelhos não afirmem
explicitamente que ele fosse solteiro.
No entanto, lendo os próprios Evangelhos, sabemos que Jesus foi apelidado muitas vezes de Rabi (professor,
mestre) tanto no Evangelho de Mateus: “E logo, aproximando-se de Jesus, disse: Eu te saúdo, Rabi; e
beijou-o.” (Mateus 26,49), como no de João: “Natanael respondeu, e disse: Rabi, tu és o Filho de Deus; tu
és o Rei de Israel.” (João 1,49).

Estranhamente, nas versões modernas dos Evangelhos de Marcos e Lucas, esse termo foi traduzido com a
palavra “Mestre”, todavia mestre é o mesmo significado que Rabi e sabe-se que entre os Israelitas vigorava a
Lei da Mishná segundo a qual “nenhum homem solteiro podia ser Mestre”. Aliás, o celibato era considerado
uma forma de imperfeição, tanto é que o bom e devoto cidadão tinha a obrigação moral de se casar e
procriar filhos para fortalecer a casa de Israel.
Também o próprio Jesus nunca pregou o celibato mas, ao contrário, declarou: “E disse: Portanto, deixará o
homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne.” (Mateus 19,5). Se Jesus tivesse
propagandeado o celibato, no contexto da sociedade hebraica o fato teria sido considerado tão relevante
como, pelo menos, a questão do repouso no dia de sábado e teria sido relatado nos textos. Evidentemente
Jesus se comportou como um judeu normal, respeitoso da Lei e da tradição judaica da época em que ele
viveu. Fica, portanto, comprovado que Jesus era casado.

Além disso, o Evangelho de Felipe, texto gnóstico encontrado em 1945 na localidade de Nag Hammadi
(Egito), nos versículos 32 e 55 afirma explicitamente que Jesus era casado e a sua esposa era Maria
Madalena: “Eram três que iam sempre junto com o Senhor: sua mãe Maria, sua irmã, e a Madalena que é
dita ser a consorte dele”. E ainda: “A consorte de Cristo é Maria Madalena. O Senhor amava Maria mais
que todos os discípulos e a beijava na boca”.
Então de onde surgiu a crença relativa ao celibato de Jesus?

Foi Paulo de Tarso o qual, no intento de transformar a figura de Jesus de messias jeovista, qual havia
objetivamente sido na realidade histórica, no Cristo “Filho de Deus” qual devia aparecer no quadro da sua
construção teológica, teve que mergulhá-lo num contexto de misticismo isento de referências terrenas, ou
seja uma família, uma esposa, filhos, irmãos, etc. Foi a partir dai que Jesus tornou-se solteiro. Essa imagem
de Jesus, progressivamente reforçada pela Igreja dos primeiros três séculos da nossa era, acabou
prevalecendo e ainda está de pé nos dias de hoje, baseada unicamente sobre considerações teológicas, mas
desprovida de qualquer evidência histórica e literária.

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PORQUE NÃO SOU CRISTÃO

Talvez, o título certo desse texto deveria ter sido o seguinte: “Porque não sou mais cristão” pois, além de ter
sido criado e educado num País católico, até os 22 anos de idade não apenas fui um fervente cristão e um
catequista esforçado, mas também dediquei muito tempo ao estudo da teologia moderna lendo livros que
pedia emprestados a um padre meu amigo.
Objetivamente, o fato duma pessoa ser católica, protestante, ortodoxa, judia, budista, etc. é, essencialmente,
um fator geográfico. A grandíssima maioria dos fieis seguem um certo credo pela simples razão de terem
nascido no âmbito duma determinada cultura. Muito raramente uma pessoa escolhe a sua religião, mas
simplesmente adota aquela que lhe foi transmitida pelos genitores e a segue acriticamente, um pouco por
medo de errar, um pouco por simples comodismo intelectual.
No meu caso tudo se desenvolveu num ambiente católico, do qual me desprendi por vários motivos que
passo e elencar, começando pelos motivos pessoais. Portanto, quem não estiver interessado em simples
anedotas, pode pular o parágrafo que segue.

Motivos pessoais

Nas famílias católicas, nos anos ’50 do século passado, era costume dar aos filhos as primeiras noções
religiosas já dentro de casa, antes da idade escolar. Quando se aproximava o Natal, sempre havia uma avó
por perto mostrando, orgulhosa, a estatueta do menino Jesus, pedindo para dar beijinhos e ensinando o sinal
da cruz. Nada além de inocentes palavras de carinho, um pouco come se fazia com a figura de Papai Noel,
com a diferença que, com o passar dos anos, os meninos descobriam que a do velhinho entregador de
presentes era uma simples figura lendária. Mas no caso de Cristo aprendemos logo que se tratava de uma
mensagem séria densa de consequências potencialmente terríveis.
As aulas de religião eram compulsórias e, além disso, era praticamente obrigatório participar do catequismo
na paróquia. Era simplesmente inimaginável que uma criança se ausentasse do catecismo, pois toda a família
teria sido apontada como grosseira, ímpia e inimiga de Deus. Casamento no civil, nem pensar. Em 1958 o
bispo da cidade italiana de Prato estigmatizou o comportamento de um casal que não havia celebrado o
casamento religioso, apelidando-os, durante a homilia dominical, de “públicos pecadores e concubinos”.
Uns dias depois o esposo foi agredido, xingado e espancado, enquanto a loja dele acabou perdendo mais da
metade dos fregueses.

Os padres e os catequistas nos aterrorizavam narrando, com requintes de sadismo, as imaginárias penas do
inferno que, para nós, eram tidas como absolutamente reais. Fiquei bastante traumatizado e ainda lembro as
imagens do texto de religião onde eram mostradas as torturas que aguardavam nós pecadores. Confesso que,
apesar de tantos anos, essas imagens ainda permanecem bem gravadas na minha mente e lembro do pavor
que causaram em mim.
Nem precisa explicar que o pecado pior era o onanismo: além de acarretar graves distúrbios físicos e
psíquicos, a masturbação, sendo pecado mortal, maculava a alma do menino que, de consequência, se
tornava pronto a ser lançado nas chamas do inferno. Obviamente é difícil imaginar que crianças sadias
conseguissem reprimir de forma inatural o que era uma simples função fisiológica. Os padres sabiam disso e
não perdiam a oportunidade para nos amedrontar. É evidente que para jovens ainda em desenvolvimento
psicossexual, esse conflito interior acabava gerando casos de complexos de culpa. Pois, como podia um
garoto ser tão insensível e egoista ao ponto de infligir novos sofrimentos ao coração imaculado de Jesus que
tanto havia sofrido para a nossa salvação? Nós tentávamos manter a castidade, mas era uma missão
impossível.

A lavagem cerebral continuou nos anos seguintes, nas escolas que, mesmo sendo públicas e, portanto
nominalmente laicas, eram impregnadas por uma pesada cultura clerical. Jamais nos ensinaram o
pensamento de filósofos como David Hume, Voltaire, Bertrand Russell, etc. dos quais desconheciamos até a
existência. Se, porventura, um aluno tivesse feito uma pergunta a um padre pedindo explicações sobre uma
das inúmeras contradições contidas nas Escrituras, a resposta ia ser sempre a mesma: “É um mistério divino:
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aceite-o sem questioná-lo”. A televisão só mostrava (e continua mostrando!) filmes religiosos, biografias de
santos, de papas e histórias de milagres fictícios. Só recentemente uns estudiosos livres de dogmas tiveram a
possibilidade de divulgar as suas ideias na TV, mas num contexto ainda hostil a essa forma de pensamento.
De forma geral, o ambiente onde cresci era tão impregnado de cristianismo que até os comunistas se
casavam na igreja, batizando e crismando os filhos, e empurrando as esposas na missa do domingo.

Motivos históricos

Mesmo no âmbito do Cristianismo, há importantes diferenças entre católicos e protestantes, e muitas vezes
me perguntei por qual razão as nações católicas (Espanha, Itália, Portugal, etc.) sempre foram mais atrasadas
do que as protestantes. A resposta é óbvia. Enquanto a ética protestante valoriza o sucesso econômico
pessoal, considerando-o um sinal de benevolência divina, no mundo católico o modelo a ser seguido é o
pauperismo.
Não é por acaso que nos Estados Unidos, onde os protestantes são maioria, o rico é tido como exemplo a ser
seguido e elogiado pelo seu dinamismo e coragem empresarial, tanto que a Disney em 1947 criou o
simpático personagem de Tio Patinhas, um clássico exemplo de “self-made-man” bem sucedido que
começou a sua carreira trabalhando braçalmente nas minas do Yukon. Ao contrário, o padroeiro da Itália é
Francisco de Assis, o mais pobre dos santos e dos púlpitos ouvia-se sempre o mesmo refrão: “Ai de vós,
ricos! Deem aos pobres!”. Quer dizer, deem à Igreja que, mesmo não sendo pobre, sabe o que fazer com o
vosso dinheiro.

Precisa reconhecer que, efetivamente, não todas as nações católicas perdem na comparação com as
protestantes. Por exemplo, a França, embora católica, é bastante rica e avançada. O mesmo vale para
Bélgica, Áustria e Irlanda. A situação da Itália é peculiar pois, além de ser católica, sofreu durante mais de
1.500 anos a influência nefasta do poder temporal da Igreja.
Diferente de Espanha e Portugal, a “bota” jamais teve um seu estado nacional e isso afeta ainda hoje o
carater nacional dos italianos, mais propensos a cuidar de seus negócios particulares que dos problemas de
interesse coletivo. Objetivamente, após a fundação do Reino de Itália, em 1861, os governos laicos que a
governaram conseguiram inculcar nos italianos sentimentos de patriotismo, honestidade, dedicação e
civismo mas, infelizmente, com o Tratado de Latrão, assinado em 1921 pelo governo de Mussolini, a Igreja
voltou a ter imensos privilégios que foram até reforçados durante os governos democratas-cristãos
sucessivos à queda do regime fascista.
Em síntese, os estragos causados pela Igreja católica na Itália podem ser resumidos assim:

1) Impediu, durante muitos séculos, a formação de um estado nacional deixando que a península fosse
invadida e dominada pelos exércitos de França, Espanha e Alemanha. Em várias circunstâncias o próprio
papa solicitou a intervenção militar de soberanos estrangeiros. Como iria reagir um brasileiro se o papa
pedisse à Argentina de invadir o Brasil?
2) Condicionou o desenvolvimento cultural, perseguindo o saber científico e filosófico (veja, por exemplo,
os casos de Galileu Galilei, Giordano Bruno, Tommaso Campanella, etc.).
3) Com a instituição em Roma do Santo Ofício (1542), toda a vida cultural da Itália acabou sendo sufocada e
o povo mantido na ignorância mais absoluta. Qualquer livro que tivesse a ousadia de questionar as verdades
impostas pela Igreja era sequestrado e queimado. Ás vezes até o próprio autor era queimado na estaca.
4) Enquanto no século XVIII o Iluminismo avançava na Europa, inclusive na França católica, na Itália
conseguiu se afirmar apenas timidamente no norte, longe da jurisdição dos Estados Pontifícios. O Sistema
Heliocêntrico só foi aceito em 1835. No Vaticano a pena de morte continuou vigorando formalmente até
2001.
5) Com a louvável exceção dos anos em que a Itália foi governada por partidos laicos (seja de direita que de
esquerda), durante a ditadura fascista a Igreja católica voltou a ter um papel de destaque na vida política e
cultural italiana, papel que não apenas não terminou com a queda do regime de Mussolini em 1945, mas
continua até hoje. Em 1946, quando a Assembleia Constituinte antifascista e republicana deliberou se na
nova Constituição devia ser mantido o Tratado de 1921, o então Partido comunista votou a favor. Temas
fundamentais como divórcio, eutanásia, liberdade de ensino, laicismo, testamento biológico, etc. sofrem

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constantemente a ingerência da CEI (Conferência Episcopal Italiana). Nesses últimos dez/quinze anos, a
posição do Vaticano em realação à questão da imigração clandestina, que tanto prejudica o povo italiano,
acabou coincidindo com a dos partidos de esquerda.

O marco deixado pelo domínio cultural católico na Itália é tão profundo e arraigado que nenhum partido
político, apesar do estado italiano pagar anualmente nove bilhões de euros ao Vaticano, tem a coragem de
denunciar esse escândalo. Muito pelo contrário, todos os vários líderes políticos, inclusive os de esquerda,
são católicos praticantes e frequentam a missa aos domingos. As emissoras de TV, públicas ou particulares,
dedicam espaço exagerado a seriados dedicados às biografias dos santos, às palavras de papa Francisco e a
debates sobre temas religiosos onde aos hóspedes laicos é permitido só formalmente a livre expressão de
suas ideias. Vários pensadores laicos (por exemplo os professores Mauro Biglino e Piergiorgio Odifreddi)
são frequentemente censurados chegando até a sofrer ameaças. Quem tiver a ousadia de negar publicamente
a vericidade das aparições de Lourdes, Fátima e Medugorje corre riscos reais de ser agredido. É difícil
encontrar nas livrarias cópias de livros contrários à religião e uns autores (por exemplo, Leo Zen) preferem
publicar usando pseudônimos para não sofrerem retaliações.

Motivos culturais

Um dos mitos mais radicados na mentalidade das pessoas é que, com o advento do Cristianismo, a sociedade
teria avançado em todas as direções, saindo de uma época de barbárie e gerando melhores condições de vida
para todos. Todavia, a História nos ensina que aconteceu o contrário.
Durante o Império Romano, a sociedade alcançou níveis de desenvolvimento consideráveis bem próximos
aos do mundo moderno. Todos tinham o suficiente para satisfazer as necessidade básicas. Havia água
potável encanada, um sistema de esgotos eficientes, sanitários públicos, termas quase de graça para a higiene
cotidiana, centenas de bibliotecas, escolas públicas, museus, teatros, ruas limpas, uma fantástica rede de
estradas interligando três continentes, um correio eficiente e, acima de tudo, uma medicina bastante
avançada capaz de aliviar muitos tipos de doenças. O médico Aulo Cornélio Celso relatou detalhadamente a
preparação de numerosos medicamentos, incluindo um preparado anestésico de opioides; também descreveu
muitos procedimentos cirúrgicos praticados no primeiro século, como a remoção de catarata, o tratamento de
pedras na bexiga e a consolidação de fraturas. Celso sublinhou a importância da higiene e afirmou que era
melhor prevenir as doenças de que curá-las.

Todo esse patrimônio de conhecimentos foi progressivamente perdido já antes da queda do Império, quando
o Cristianismo tornou-se o alicerce do poder político. É verdade que muitas destruições materiais vieram dos
bárbaros (que por sinal eram cristãos), mas quem conhece a História sabe que logo surgiram, na Europa
ocidental, os Reinos romanos-barbáricos que teriam sido aptos a absorver a cultura clássica. Não existem
motivos lógicos para que que isso não tenha ocorrido, assim como aconteceu quando os Árabes
conquistaram o Egito e a Síria. A verdade é que o poder da Igreja condicionou o ambiente cultural
começando a substituir o conceito de medicina científica com elementos sobrenaturais deduzidos das
Escrituras e toda a Ciência passou a ser considerada inútil ou até obra do demônio. Em 391 d.C., na cidade
egípcia de Alexandria, o patriarca Teófilo instigou uma tropa de monges exaltados a atacar e destruir
totalmente o magnífico Serapeu, santuário monumental considerado uma das maravilhas do Mundo Antigo.
Naquela ocasião os cristãos não apenas saquearam e assolaram o edifício, mas atearam fogo na biblioteca
composta por milhares de livros contendo boa parte da Ciência da época. Outro golpe contra o saber veio do
Edito de Constâncio II (356 d.C.) contra bruxos e adivinhos, seguido por outro do imperador Teodósio (385
d.C.) conta os que praticavam artes mágicas. Mas qual era o significado da palavra “magia”? No Codex
Theodosianus (9,16,5) se fala explicitamente “de maleficis et mathematicis et ceteris similibus”. Ou seja, a
geometria e a matemática passaram a ser consideradas obras do demônio e, portanto, perseguidas com
extrema dureza.

Os lindos templos erguidos durante a Idade de ouro da cultura greco-romana foram abatidos, as estátuas
despedaçadas, os obeliscos derrubados e uma onda de violência varreu todo o território do Império Romano.
Aos 8 de março de 415, em Alexandria, a eminente matemática e filósofa neoplatonista Hipátia foi

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sequestrada, esfolada viva e queimada pelo monges às ordens do Patriarca da cidade, o fanático São Cirilo,
proclamado santo e Doutor pela Igreja católica em 1882. O clima geral de ordem e tranquilidade que havia
caracterizado as cidades do Império Romano (onde os crimes eram raros, pois a Lei obrigava os cidadãos a
não saírem de casa armados) acabou e todos começaram a carregar armas. Os assassinados se tornaram
corriqueiros. Ao mesmo tempo, aquedutos e esgotos foram considerados inúteis e as maravilhosas termas
fechadas. Enquanto isso, no lado meridional do Mediterrâneo os Árabes preservaram boa parte da cultura
greco-romana, principalmente no que diz respeito à medicina. Esse povo é tido como prono ao integralismo
religioso e isso é verdade, mas poucos sabem que o Islã teve a sua origem na Bíblia e nos Evangelhos
apócrifos. Portanto, sem o Cristianismo, também a religião muçulmana não existiria.

Enquanto os muçulmanos tomavam banhos frequentes e ensinavam que era boa norma lavar as mãos antes
das refeições, os cristãos submeteram-se à superstição de que a higiene era um grave erro. Tomar banho era
considerado um abomínio. Em 1163 o Concílio de Tours estabeleceu que todos os estudos de natureza física,
incluindo-se a medicina, deviam ser considerados pecaminosos. Durante toda a Idade Média, mas também
em épocas sucessiva, o ideal cristão mais elevado, um verdadeiro preceito, era manter uma existência hostil
ao corpo e aos instintos naturais como a alimentação e a sexualidade. Ao contrário, eram tidas como sinal de
santidade as atitudes que patologicamente renegassem qualquer forma de prazer, ou seja, a abstinência, os
jejuns, as lágrimas, a sujeira, a insônia forçada e todas as práticas masoquísticas como o cilício e a
flagelação. Qualquer forma de anestesia foi proibida sob a alegação que se Deus desejava o nosso
sofrimento, tínhamos que aceitá-lo sem procurar amenizá-lo.

Do ponto de vista social erra quem afirma que o advento do Cristianismo significou o fim da escravidão, a
qual continuou, pelo menos no Brasil, até 1888. Ao contrário, a condição dos escravos piorou e a Bíblia
forneceu a base legal para justificar uma escravidão ainda pior daquela praticada no Mundo Antigo. Na
Europa cristã e no continente americano, a escravidão adquiriu um cunho racista, fato esse, simplesmente
inimaginável no Império Romano que teve até um imperador africano! Os Doutores da Igreja dos séculos IV
e V concordavam sobre a legitimidade da escravidão: Santo Ambrósio definiu a escravidão uma “dádiva de
Deus” (Ambrósio, De paradiso 14,72) enquanto Santo Agostinho de Hipona afirmava a escravidão ser
justificada pela natural desigualdade entre os homens (Agostinho, Ennarrationes in psalmos 124,7). As
mulheres, que em época romana haviam alcançado uma posição de paridade com o homem, foram
rebaixadas e consideradas instrumentos do demônio. Negar hoje essas verdades é como tentar esconder o sol
com a peneira!

Se alguém ainda duvidar dos incalculáveis prejuízos causados na Europa ocidental pela teocracia cristã,
compare o estilo de vida de França, Inglaterra, Espanha, etc. durante a Idade Média, com o do Império
Bizantino que, embora profundamente cristão, jamais tolerou que a Igreja se tornasse mais poderosa que o
próprio imperador. Muitos conhecimentos científicos e médicos de época clássica haviam sobrevivido
naquele Império no qual a filosofia neoplatônica pagã era ainda cultuada. O estado lastimável da medicina
na Europa ocidental melhorou na Renascença só em virtude das trocas culturais com estudiosos bizantinos, e
é por esse motivo que ainda hoje a grande maioria dos termos usados na medicina moderna deriva da língua
grega. Essa fase positiva durou até à Contrarreforma, quando uma capa de opressão e de terror voltou a
abafar a Europa ocidental.
O Cristianismo, religião totalizante, alcançou o totalitarismo quando tornou-se teocracia. Toda e Europa
ocidental sofreu a opressão dessa teocracia cristã a partir do V até o XVIII século, período durante o qual o
dogmatismo não apenas limitou o avanço dos conhecimentos científicos, mas também provocou a perda de
um imenso patrimônio cultural acumulado durante a Antiguidade. Surge, legítima, uma pergunta: como seria
o mundo de hoje se todo esse tempo e tantos conhecimentos não tivessem sido perdidos?

Motivos racionais

Quando alguém me pergunta porque não sou cristão, logo respondo dizendo que é ele(a) que deve explicar o
motivo pelo qual escolheu essa religião. Frequentemente a resposta não é racional e se fundamenta sobre o
que está escrito na Bíblia, principalmente no Novo Testamento.

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Nesse caso tento explicar que o problema é que os Evangelhos não são livros de História e nem crónicas de
uma época em que não existiam filmadoras e gravadores. Esses livros não foram escritos pelos Apóstolos,
pessoas analfabetas que não entendiam a língua grega. Ao contrário, trata-se de textos apologéticos
redigidos muitos anos depois da morte de Jesus sendo o mais antigo o de Marcos (discípulo de São Paulo)
escrito depois do ano 70 d.C. O Evangelho de Marcos, em grego, é sem dúvidas o mais sintético entre os
canônicos mas, ao mesmo tempo, o mais genuíno e retrata mais fielmente a vida real de Cristo. Nele Jesus,
que jamais é apresentado como sendo preexistente e idêntico a Deus, é chamado de “Mestre” e de “Rabi”;
quanto à expressão “Filho de Deus”, cansei de explicar que, junto aos Israelitas, era apenas um título de
distinção usado também pelos reis Davi e Herodes, que não deve ser tomado em seu significado literal.

No texto marcano os atos de Jesus são despidos de seu significado milagroso parecendo mais aqueles
atuados por um hábil curandeiro: “E, tirando-o à parte [um surdo], de entre a multidão, meteu-lhe os dedos
nos ouvidos; e, cuspindo, tocou-lhe na língua.” (Marcos 8:33); “E, tomando o cego pela mão, levou-o para
fora da aldeia; e, cuspindo-lhe nos olhos, e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa”
(Marcos 8:23). De acordo com o relato de Marcos, Jesus morre crucificado sendo o corpo posto no sepulcro;
o Evangelho termina com a presença de um desconhecido vestido de branco e as mulheres que fogem
assustadas. Quanto ao “Epílogo de Marcos” (Marcos 16:8-20) onde se fala na aparição à Maria Madalena,
aos discípulos e na Ascensão, foi acrescentado em épocas posteriores e não se trata de elementos originais
desse autor.
Nos sucessivos Evangelhos de Mateus e de Lucas, a figura de Cristo começa a receber atributos semidivinos
como, por exemplo, a concepção virginal de Maria, a infância descomunal, a realização de antigas profecias,
a perseguição de Herodes, a genealogia real de Jesus, e outras mitologias.

Quanto ao Evangelho de João, Jesus é finalmente divinizado tornando-se igual ao Pai. Trata-se de uma
evolução ulterior dos textos Sinóticos, cujo alicerce é um dos conceitos essenciais da filosofia helenística: o
de Logos. É uma visão distorcida da doutrina original de Cristo, oportunamente adaptada para que se
tornasse apetível aos gregos e aos romanos. O autor, dirigindo-se a um público culto e abastado, não
enaltece mais os pobres e nem estigmatiza a riqueza. Desaparece a linguagem simplória das parábolas
enquanto a descrição de Deus se torna abstrata e intelectualizada. A moderna bibliologia crítica estabeleceu
que esse Evangelho foi escrito durante o II século. Também esse livro foi redigido em grego, mas num estilo
bem mais culto adaquele dos Sinóticos.
Nos sucessivos Concílios de Florença (1442), de Trento (1546) e Vaticano I (1870) a Igreja católica emanou
o dogma da infalibilidade da Bíblia. Portanto, qualquer objeção de natureza crítico-histórica dos livros do
Antigo e do Novo Testamento foi e continua sendo inaceitável, apesar das inúmeras contradições,
incongruências e absurdos neles contidos. A doutrina da Igreja é, portanto, anticientífica e autoreferencial.

Diante dessas simples constatações, uns cristãos rebatem que inúmeros milagres comprovam a verdade das
Escrituras. Nesse caso costumo responder que os milagres simplesmente não existem.
Ninguém nega a realidade de umas pessoas curadas depois de uma romaria a um dos vários santuários
marianos: trata-se de fatos espontâneos, ainda não esclarecidos pela medicina, mas que pertencem ao âmbito
natural da biologia. A prova é que até doentes de câncer em fase terminal saram repentinamente sem
explicações aparentes. A frequência, medida estatisticamentente, é de um em cada 60.000 doentes e o fato
pode ocorrer em qualquer lugar do planeta, em casa, nos hospitais, entre povos que nada sabem de
cristianismo ou até entre os ateus. Ainda não se sabe por qual motivo o sistema imunológico recomeça a
funcionar, mas um dia a ciência ira esclarecer também esse fenômeno. Inclusive, esse tipo de “milagre” era
conhecido nos antigos santuários pagãos.
O que sabemos é que jamais foi registrado um fato realmente milagroso, como um braço amputado que
cresce de novo, uma criança Down que sara ou um anão que alcança a altura normal no espaço de uma noite.
Se realmente Deus agisse no mundo operando milagres, por qual motivo nunca se viu um avião despedaçado
se recompor e voltar a voar ou um Titanic prestes a afundar ser sustentado pela mão de Deus? Se houve
realmente milagres, eles foram ao contrário, pois Adolf Hitler escapou de mais de 40 atentados podendo,
destarte, planejar e realizar o assassinato de milhões de inocentes. Os cristãos afirmam que o ditador nazista
foi protegido pelo diabo, mas isso significaria admitir que o Demônio é mais poderoso que Deus!

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A atitude de negar a ação da Providência não implica necessariamente o ateismo, assim como é possível
acreditar num Grande Arquiteto do Universo mesmo recusando o Cristianismo e as outras religiões
reveladas. Essa postura, em filosofia, é chamada de Deísmo, e é também conhecida como Religião natural.
Trata-se duma visão filosófica sem dogmas, sem rituais e extremamente tolerante; basicamente uma teologia
fundada sobre a razão que todos podem aceitar principalmente se, como dizia David Hume, à existência de
Deus dermos o valor de probabilidade e não de verdade absoluta.
Existem também os cristãos que teimam em apresentar “provas” da existência de Deus, mas já o filósofo
alemão Immanuel Kant, mesmo acreditando em Deus, desmontou todas essas as provas.
Pessoalmente respeito quem acredita na religião cristã, desde que isso represente um puro ato de fé, sem a
pretensão de justificá-lo mediante textos apologéticos exibidos como se eles contivessem verdades
comprovadas. Nisso o meu pensamento é comparável ao do filósofo espanhol Miguel de Unamuno que
escreveu: “Mas, ai de nós, a própria Igreja se contaminou de racionalidade. Transformou a fé em teologia,
tentou dar fundamentos filosóficos à crença, e, com isso, abriu flanco às dúvidas e às críticas da Razão.
Mas provar racionalmente a imortalidade da alma, como tentaram tantos teólogos e filósofos, é puro
sofisma.”

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MORTE E RESSURREIÇÃO DO PAGANISMO

Seria muito interessante realizar uma enquete entre o público não especializado perguntando qual a imagem
mental que os entrevistados têm do Paganismo. Devido os principais veículos de informação histórica serem
o cinema, principalmente o de Hollywood, produtor de filmes como Ben Hur, Quo Vadis, Os últimos dias de
Pompéia, etc. para não falar nas novelas da Rede Record e outras fontes literárias condescendentes ao
Cristianismo, provavelmente todos iriam responder que os pagãos eram ruins, malvados, falsos, sádicos,
materialistas, despóticos e viciosos, ou seja, a quintessência do mal. E, acima de tudo, idólatras, portanto
inimigos de Deus.

Vamos começar confutando essa última asserção. Na verdade, como observa Voltaire, nunca existiu na face
da Terra um povo que afirmasse adorar os ídolos. As estátuas nos templos tinham apenas uma função
alegórica, análoga às imagens sagradas nas igrejas cristãs. Tanto os Romanos quanto os Gregos se
ajoelhavam e oravam diante das estátuas, ofereciam flores e queimavam incenso, as carregavam nas
procissões pedindo milagres e benevolência. Os cristãos santificaram esses rituais e nem por isso foram
apelidados de idólatras.
Tudo o que se pode dizer em relação aos pagãos é que eles eram politeístas, pelo menos a era a populaça, a
que seguia o paganismo exotérico, oferecido a todos. Ao lado de doze deuses maiores (seis deusas e seis
deuses), havia uma exuberância de divindades menores úteis para resolverem os vários problemas
cotidianos; existia até um deus, coitado, que protegia as latrinas. O Cristianismo substituiu essas figuras com
as dos santos, a serem suplicados em caso de necessidades específicas como doenças em várias partes do
corpo, dinheiro, amor e casamento, desemprego e até causas impossíveis.

No entanto, vale a pena lembrar que no Paganismo esotérico (os Mistérios) reservado a poucos, aos
iniciados era revelada e existência de um único Deus. Durante as cerimônias secretas não apenas não eram
praticados atos contra a moral (as famosas orgias tão caras aos produtores de Hollywood), mas, muito pelo
contrário, os iniciados recorriam a um conjunto de práticas ascéticas como o jejum, a flagelação ou a
raspagem da cabeça. No caso do Culto Dionisíaco, durante o inverno, as Bacantes, descalças e vestidas com
roupas leves, subiam às montanhas cobertas de neve para se entregarem a danças agitadas. Nos Mistérios de
Elêusis, depois de um dia de descanso e de purificações, decorriam as cerimônias no interior de um recinto,
denominado telestérion, durante as quais os fieis cantavam um hino cujas palavras eram as seguintes:
“Contemple a natureza divina, ilumine o teu espirito, governe o teu coração, caminhe em direção da
justiça; que o Deus do céu e da terra seja sempre presente diante de teus olhos: Ele é único e existe por si
mesmo.”

O filósofo pagão Epiteto, que havia vivido muito anos como escravo, proclamou o seguinte: “Deus me
criou, Deus vive dentro de mim; eu o carrego em todos os lugares. O meu dever é agradecer a Deus por
tudo, louvá-lo por tudo, e de nunca deixar de abençoá-lo até quando eu tiver vida!“. Outro filósofo, Plotino,
refere-se a Deus (o Uno) como primeira hipóstase, sendo que sua principal característica é a indivisibilidade:
“É em virtude do Uno (Unidade) que todas as coisas são coisas.” Também Marco Aurélio, o imperador
filósofo, mostra acreditar num só Deus, eterno e infinito: “A nossa alma é uma emanação da Divindade. Os
meus filhos, o meu corpo, os meus sentidos procedem todos de Deus“.
É verdade que tanto Marco Aurélio como outros pensadores da Antiguidade, com a finalidade de se
conformarem à linguagem da época, frequentemente falam nos deuses. Isso, porém, não deve nos enganar
pois os deuses, de acordo com o pensamento de Sócrates e de Platão, nada seriam se não daimónion, seres
intermédios entre Deus e o homem, cuja função era de guiar os mortais em suas ações direcionando-os para
o bem. Trata-se, portanto, de guias de origem divina ou até de formas de “consciência moral” que agem
mediante uma voz interior. O Cristianismo desnaturou esses seres transformando-os em demônios quando,
na verdade, teria sido muito mais honesto e correto chamá-los de “anjos da guarda”.

Os Mistérios tinham, como base de sua doutrina, a crença na imortalidade da alma, a qual era totalmente
ignorada pelos Hebreus, tanto que na Bíblia lemos: “O destino do homem é o mesmo do animal; o mesmo
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destino os aguarda. Assim como morre um, também morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego de vida; o
homem não tem vantagem alguma sobre o animal.” (Eclesiastes 3,19).
Os Saduceus, seita mencionada pelo historiador Flávio Josefo e tida por ele como elitária na sociedade da
antiga Judéia, afirmavam que Moisés nunca havia falado sobre a imortalidade da alma e não acreditavam na
ressurreição dos mortos. Foi Paulo de Tarso, profundo conhecedor e admirador dos Mistérios, que
introduziu no Cristianismo nascente o conceito de vida no além. Nesse sentido a nova religião incorporou
não apenas conceitos oriundos de outras religiões contemporâneas como o Mitraísmo, mas também
elementos típicos dos antigos Mistérios clássicos como, por exemplo, a eucaristia.

Talvez a principal característica da religiosidade pagã tenha sido a radical imanência divina; em outras
palavras a Divindade se encontra na própria natureza (e nos seres humanos), manifestando-se através dos
seus fenômenos. Essa relação pessoal entre os mortais e os deuses (ou Deus), comporta a total ausência de
dogmas ou estruturas religiosas padronizadas gerando, destarte, uma grande liberdade de culto. Com efeito,
os Antigos Romanos, conforme ao ideal pagão, foram extremamente tolerantes em relação aos outros cultos,
desde que não infringissem a Lei e reconhecessem ao imperador o valor simbólico de guia espiritual da
nação, de entidade especial protegida pelos deuses. O motivo pelo qual os cristãos se reuniam nas
catacumbas não era de se esconder das autoridades, mas de se afastar do mundo, de evitar até o menor
contato com o Paganismo, religião por eles considerada perversa e demoníaca. Uma atitude, essa, que
denota a intolerância típica de quem, achando-se único e legítimo representante de Deus, recusa diálogo e
confronto e se prepara para o dia em que, alcançada enfim uma posição dominante, terá o sagrado dever de
esmagar e exterminar seus oponentes satânicos.

A Igreja nos transmitiu uma imagem deformada e exagerada das perseguições sofridas pelas comunidades
cristãs. Se ouve perseguições nunca foi por motivos eminentemente religiosos. A verdade é que os cristãos
recusavam, por exemplo, o serviço militar, as festas pagãs, as procissões e o teatro, além de pregar que o
Deus deles era o único verdadeiro enquanto os outros não apenas eram falsos, mas deviam ser considerados
encarnações do mal absoluto. Consequentemente os adeptos das demais religiões eram tidos como pecadores
iníquos e pervertidos. É óbvio que os pagãos não gostaram nem um pouco de serem considerados filhos do
demônio e, por isso, revidaram. Mesmo assim as persecuções foram basicamente dirigidas contra a cúpula
responsável das estruturas financeiras da Igreja e poucas pessoas foram atingidas de forma direta, tanto que
o teólogo patrístico Orígenes afirma que o número de mártires cristãos “é pequeno e fácil de se contar”
(Orígenes – Contra Celsum 3,8).

Observamos que até o início do V século os cristãos eram numerosos apenas na parte oriental do Império,
mas quase não existiam na parte ocidental. A prova é que no Primeiro Concílio de Nicéia do ano 325, de 313
bispos presentes, apenas sete vinham da parte ocidental. O nível cultural desses bispos era tão baixo que um
autor contemporâneo, Sócrates Escolástico, os apelidou de “cretinos” (Historia Ecclesiastica 1,8). Até que a
Igreja cristã foi perseguida, nunca cessou de invocar a tolerância e a liberdade religiosa. Todavia, logo que
começou a receber o apoio dos imperadores, tornou-se cada vez mais intolerante e persecutória usando a
violência para aniquilar os antigos cultos pagãos, aplicando, ao pé da letra, as palavras da Bíblia: “Portanto,
exterminarás todos os povos que o Eterno, teu Deus, te entregar. Que teus olhos não tenham piedade
deles…” (Deuteronônio 7,16).
Já em 325 d.C. Constantino I, renegando o Edito da Tolerância de 313, havia desencadeado uma perseguição
contra os cristãos considerados hereges, como Nestório, Ário e os Montanistas. A primeira proibição efetiva
dos cultos pagãos foi decretada pelo imperador Teodósio I em 381 d.C.: o Cristianismo tornou-se religião
oficial do Estado e os outros cultos foram extintos com a força. Logo em seguida os cristãos foram
estimulados a saquear os templos e a converter os pagãos de forma compulsória. Quem não obedecia tinha
seus bens confiscados e podia ser condenado à morte.
Todo o Oriente Médio e a África do Norte foram varridos por uma onda de violência religiosa que atingiu
tanto as cidades como o interior: em 388 os monges atearam fogo na sinagoga de Calínico semeando o terror
nas aldeias da Síria. Bandos de monges exaltados, liderados por Scenute de Atripe, patrulhavam as cidades
do Alto Egito em busca de estatuetas pagãs. Essa onda de terrorismo religioso desmoralizou tanto os
derradeiros pagãos que um deles escreveu: “Se nós estamos vivos, então é a própria vida que está morta!”

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A situação ficou particularmente dramática na metrópole egípcia de Alexandria onde o bispo Teófilo
mandou incendiar a famosa biblioteca acervo de milhares de livros que continham toda a cultura da
Antiguidade. Bem pior foi a sorte da filósofa neoplatônica Hipátia, a primeira mulher documentada como
sendo matemática e astrônoma. Fanáticos monges Parabolani, às ordens de São Cirilo, a arrastaram pelas
ruas da cidade até uma igreja, onde foi cruelmente torturada, sendo esfolada viva e tendo os olhos
arrancados da cabeça. Agonizante, foi lançada a uma fogueira entre gritos de júbilo dos cristãos. Hipátia foi
martirizada em março de 415 e o seu assassino, logo proclamado santo, foi também declarado Doutor da
Igreja pelo papa Leão XIII em 1882.
Em 435 as medidas contra o paganismo foram reforçadas com pena de morte para quem continuasse
praticando rituais pagãos; também iniciaram as primeiras perseguições contra os Judeus.

Os Jogos Olímpicos foram extintos definitivamente em 394 e a Universidade de Atenas, a mais prestigiosa
instituição cultural do mundo antigo, foi suprimida em 529. Desde então os filósofos pagãos foram
obrigados ao silêncio. A ofensiva desencadeada pelo Cristianismo fez com que o Paganismo sumisse
rapidamente das cidades, mas essa antiga religião continuou sendo praticada no campo que, em latim, era
chamado pagus. Foi assim que surgiu a palavra pagão, uma expressão de desprezo análoga a vilão, rude,
plebeu. No entanto, devido o Paganismo afundar suas raízes na comunhão com a Natureza, tida como
sagrada e viva, uma certa forma de culto sobreviveu na Europa ocidental, embora mitigado e misturado com
elementos da religião cristã. As pessoas que teimavam em praticar esses cultos, principalmente mulheres, se
expunham ao grave perigo de serem acusadas de bruxaria e queimadas na fogueira. As perseguições foram
menos violentas no Império Bizantino, tanto que, como escreve Peter Brown, professor de História na
Princeton University, não era incomum encontrar pequenos fazendeiros ligados à antiga religião em pleno
século X.

Destarte, enquanto na Europa medieval os antigos filósofos gregos eram, com a exceção de Aristóteles,
desprezados e esquecidos, em Constantinopla era inda viva a herança de pensadores como Pitágoras e
Platão. Em particular, o filósofo e erudito neoplatônico Jorge Gemisto Pletão (1355-1452) auspiciava a
restauração do politeísmo grego, ao qual devia subordinar-se o cristianismo. Pletão transferiu-se em
Florença onde, com o auxílio de Cosme I de Médici, inaugurou a Academia Neoplatônica Florentina. As
melhores mentes da Renascença participaram dessa iniciativa e se dedicaram à tradução e ao estudo de
textos clássicos; entre eles lembramos o cardeal alemão Nicolau de Cusa, um dos primeiros filósofos do
humanismo renascentista, defensor da opinião que a Terra não é o centro do universo. A Academia
influenciou também muitos artistas da época como Sandro Botticelli, Leonado da Vinci, Pietro Perugino e
outros. A violenta ofensiva desencadeada pela Contrarreforma deu fim ao pensamento neoplatônico e não
poucos intelectuais acabaram sendo queimados. A vítima mais famosa foi Giordano Bruno, defensor do
panteísmo e da infinidade do universo.
O Neopaganismo ressurgiu na década de 1970 sendo caracterizado por enfatizar a sua conexão com temas
antigos do Paganismo em uma forma de continuidade histórica. No entanto, o aspecto mais saliente dessa
religião é a veneração da Natureza, considerada como Mãe bondosa de todos os seres viventes. Grupos que
praticam a Wicca tem sido acusados, pelos cristãos, de adorar o Demônio, mas isso não passa de uma
pérfida calúnia pois, na visão do wiccanos, Lúcifer e Satã simplesmente no existem.

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O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DOS PREPÚCIOS

A História Antiga e Medieval nos ensinam como o Cristianismo nasceu impregnado de superstições que
acabaram gerando opróbrios inaceitáveis para mentes livres e equilibradas. Mesmo assim, milhões de
cristãos, em particular os católicos, acreditaram piamente num monte de absurdos sem se dar conta de
quanto havia de ridículo em certas formas exteriores de sua fé.
Essa atitude irracional deve-se ao fato deles terem sofrido, geração após geração, uma profunda lavagem
cerebral iniciada na infância e prosseguida pelo resto da vida. Inclusive, até poucos séculos atrás, quem
tivesse negado os dogmas e o poder das relíquias teria sido submetido aos rigores da Inquisição.
Como regra geral, a Igreja Católica definiu a seguinte classificação de relíquias, cuja função era provar não
apenas a existência de Deus, mas também a veracidade da religião cristã.

- Primeira Classe, parte do corpo de um santo (ossos, unhas, cabelos, etc.);


- Segunda Classe, objetos pessoais de um santo (roupas, um cajado, os pregos da cruz, etc.);
- Terceira Classe, pedaços de tecido que tocaram no corpo do santo.

Entre as várias manifestações de obsessão pelo sobrenatural, é inegável que o cristianismo alcançou o
clímax da credulidade demencial e da superstição mais doentia na veneração das relíquias de todas as três
Classes, onde aparacem autênticas formas de fetichismo necrófilo.
Trata-se de uma tradição muito antiga e, já a partir do segundo Concílio de Niceia (787 d.C.), foi
estabelecido que nenhuma igreja podia ser consagrada sem relíquias: com efeito, relíquias ainda se
encontram nos altares das igrejas Católicas em todo o mundo. Tecnicamente, um altar não era realmente tal
enquanto não contivesse uma relíquia, ou seja, sangue, suor, ossos, lágrimas, cabelos, unhas das mão ou dos
pés de algum santo.
No intento de ganhar fama e riqueza, e atrair os romeiros, algumas igrejas juntaram acervos de centenas de
relíquias. Por exemplo, no século XVI, o arcebispo de Mainz gabava-se de possuir uma coleção de cerca de
9.000 objetos sagrados. Pouco importa se eram todas geringonças sem valor: a finalidade era de exibir
prestígio e poder e, acima de tudo, faturar!

Apesar dos Atos nunca mencionarem relíquias ligadas à vida de Jesus e de Maria, durante os primeiros
séculos do Cristianismo foram achadas praticamente todas as relíquias mencionadas na Bíblia, tipo: as cestas
utilizadas para a alimentação dos cinco mil, o saco que continha as 30 moedas de Judas Iscariotes, a espada
com a qual Pedro cortou a orelha do soldado, tendas fabricadas por Paulo de Tarso (ele vendia tendas ao
exército romano), e assim por diante. Foram até descobertos objetos não especificamente mencionados nas
Escrituras, mas que se presume tenham existido realmente como, por exemplo, a aliança de casamento de
Maria. A famosa catedral de Canterbury chegou a possuir nada menos que um pouco do barro que sobrou da
criação de Adão.

Na verdade, a grande onda de “descobertas” ocorreu de repente quando o Cristianismo tornou-se religião
aceita no Império Romano (313 d.C.). Santa Helena de Constantinopla, mãe do imperador Constantino,
viajou na Palestina onde, milagrosamente, conseguiu encontrar a cruz de Cristo, os restos dos Reis Magos, o
Santo Sepulcro e a casa onde Maria foi visitada pelo anjo Gabriel (em Nazaré). Façanhas simplesmente
absurdas, pois a Palestina havia sido varrida e saqueada bem duas vezes durante as Guerras Judaicas, nos
anos 70 d.C. e 135 d.C. Ademais, o imperador Adriano, cansado de tantas revoltas religiosas, resolveu
eliminar qualquer referência tanto ao judaísmo como ao cristianismo e mandou aplanar o monte Calvário e
reconstruir a cidade mais para o norte. Como resultado a planimetria de Jerusalém ficou bastante alterada
tornando impossível, três séculos depois, identificar a topografia exata dos lugares sagrados que foram
sucessivamente “inventados” por Santa Helena e, em seguida, pelos Templários.

Além das que acabamos de mencionar, outras relíquias notáveis foram as penas das asas do anjo Gabriel e as
crostas do pão da Última Ceia. Na cidade italiana de Loreto pode ser encontrada, inteirinha, a casa da

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Virgem, que foi transportada de Nazaré a Loreto pelos anjos, em pleno século XIII, para que não caísse não
mãos ímpias dos Muçulmanos.
Na cidade de Constantinopla, antes que os Turcos a conquistassem, era possível ver e venerar o machado
usado para construir a Arca, o trono de Salomão, o cajado de Moisés e fragmentos da Arca da Aliança. Na
Alemanha, era comum encontrar o leite da Virgem, muito embora Calvino tivesse observado que, para
produzir tanto leite assim, Maria devia ter sido ou uma vaca ou uma ama de leite. Pelo que se sabe, parece
que ninguém ficou desconfiado percebendo que, dependendo do lugar, às vezes os cabelos de Maria eram
loiros, outras perfeitamente da cor do ouro, outras vermelhos, marrons ou pretos.

A única verdadeira cruz de Cristo devia ter sido, obviamente, uma estrutura bastante complexa, pois existem
lascas de muitos tipos diferentes de madeira. Além disso, Jesus deve ter sido literalmente alfinetado à cruz,
já que podem ser encontradas dezenas de pregos da crucificação (todos legítimos!). A quantidade realmente
espantosa de fragmentos da “Verdadeira Cruz” é tamanha que o teólogo Erasmo de Roterdão (1466-1536)
chegou a dizer que, juntando todos esses fragmentos, teria sido possível construir um navio!

Durante os séculos foi se acumulando uma quantidade deslumbrante de objetos que ainda são considerados
autênticos e venerados pela Igreja católica. Entre eles, a coroa de espinhos (Saint Chapelle, Paris), a coluna
da flagelação (Igreja de Santa Praxedes, Roma), a pedra onde foi deposto o corpo de Jesus (Basílica do
Santo Sepulcro, Jerusalém), duas escadas usadas durante a deposição (uma a Roma e a outra a Jerusalém), a
lança que transpassou o coração de Cristo (Viena), o sangue dele (catedral de Mântua, Itália), e nada menos
que trinta Santos Sudários (tidos como autênticos), sendo o mais importante o de Turim, mas que a datação
efetuada com a prova do Carbono-14 revelou ser um falso do século XIV.

Essa lista continua com outras relíquias bem divertidas como: duas toalhas usadas por Jesus no rito Lava-pés
(uma em Latrão e outra a Acqs, na Alemanha), algumas fraldas do Menino Jesus (Aquisgrana, Alemanha), o
berço e a manjedoura (Santa Maria Maior, Roma), um cacho de cabelos e ampolas contendo o leite de Maria
(Messina, Itália). Na cidade italiana de Verona se encontram restos dos ramos e do jumento que carregou
Cristo, enquanto na cidade alemã de Colônia são religiosamente guardados pedaços de esterco desse animal
(onde acharam isso?). Na Áustria eram anualmente exibidas: as fraldas de Jesus, as sobras da refeição dos
5.000, umas crostas da Última Ceia, ampolas com o sangue dos Inocentes e uma choca de cabelos da
Madalena.

Na capela do castelo de Wittemberg (Alemanha) os romeiros podiam venerar fragmentos do corpo de


Lázaro, pele dos Inocentes (quem foi o sádico que a curtiu?), o polegar direito de Santa Ana, uns ossos de
São Paulo, um pouco de maná, gravetos da Sarça ardente e três ampolas do leite da Virgem. Um dos
personagens bíblicos que mais acendeu a fantasia macabra dos antigos caçadores de relíquias foi João
Batista. Dele existe: a cabeça decepada (Roma), um braço (Catedral de Siena, Itália), o queixo (Viterbo,
Itália), um dedo (Florença) e as cinzas (Gênova).

Mas a relíquia das relíquias, aquela que até um século atrás provocava autênticos delírios e orgasmos entre
as virgens freirinhas enclausuradas em seus mosteiros, foi o santíssimo prepúcio de Jesus. O paradeiro dessa
pelezinha, frágil e quase invisível, retirada do pênis de Cristo oito dias após o seu nascimento havia gerado
grande preocupação entre os Padres da Igreja.
Até que enfim o imperador Carlos Magno resolveu o problema revelando tê-la recebida diretamente de um
anjo. A partir daquele momento, a Europa cristã assistiu ao milagre da multiplicação dos prepúcios e,
atualmente, treze santuários reclamam a posse dessa divina relíquia.

Enquanto famosos teólogos debatiam se Cristo tivesse voltado ao céu com ou sem prepúcio, inúmeras
religiosas o escolheram como símbolo do noivado entre elas e o Salvador. Santa Caterina de Siena, durante
seus momentos místicos, mostrava orgulhosa ao seu confessor o prepúcio (recebido diretamente de Jesus)
enrolado em seu dedo. Naturalmente o sacerdote não via nada: apenas a santa, em seu delírio erótico, podia
enxergá-lo! Enfim, no ano de 1900, a cristandade inteira assistiu a um segundo fantástico “milagre”. A
Igreja católica, num raro momento de lucidez mental, acabou com o Santo Prepúcio removendo a

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comemoração da circuncisão do calendário romano. Também proibiu que, a partir daquele momento, se
falasse o se escrevesse sobre o tema. Quem desobedecer será excomungado ipso facto (Decreto n. 37 de
03/02/1900).
Estão avisados!

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A CRUCIFICAÇÃO DE JESUS E O ENIGMA DE TALPIOT

No texto intitulado “Jesus ressuscitou dos mortos?” publicado na minha escrivaninha no Recanto das Letras em
data 12/04/2017 expressei a dúvida, compartilhada por vários historiadores, que Jesus poderia não ter morrido
como efeito da crucificação. Embora para quem acredita –e não apenas para ele- essa proposição possa parecer
absurda e até blasfema, nesse novo artigo serão apresentados argumentos sólidos e racionais aptos a demonstrar
não que Jesus não morreu na cruz, mas que poderia ter tido chances concretas de sobreviviver. Embora as
probabilidades sejam, tudo somado, moderadas, existem elementos interessantes que vale a pena considerar e
analisar detalhadamente.

É de se pensar que a maioria das pessoas acredite impossível um ser humano continuar vivendo depois de ter
sido crucificado, mas o próprio historiador Flávio Josefo, em sua autobiografia, narra que um dia reconheceu
três de seus ex-companheiros de luta (zelotes) que haviam sido crucificados pelos romanos. Então pediu ao
general Tito, filho do imperador Vespasiano, para poupá-los e Tito mandou que os três fossem depostos da
cruz. Dois deles, no entanto, apesar do tratamento médico recebido, morreram, enquanto o terceiro sobreviveu.
Também Orígenes escreveu que os condenados “às vezes vivem com extremo sofrimento a noite toda e
também o dia seguinte”. Estes dois relatos mostram claramente que era possível sobreviver à crucificação, pelo
menos no caso em que o condenado fosse retirado da cruz depois de um tempo limitado, assim como aconteceu
com Jesus que permaneceu na cruz por cerca de seis horas. Seis horas pode parecer um tempo longo demais,
mas não se pode esquecer que a crucificação não era um suplício rápido como a decapitação. Ao contrário, era
uma tortura (mors turpissima crucis) destinada a durar vários dias seguidos e que, ocasionalmente, podia ser
abreviada por motivos diferentes, como no caso dos dois ladrões cujas pernas foram quebradas para acelerar a
morte.

A propósito dos “ladrões”, no texto original em grego lemos que “Kai syn auto staurousin dyo lestás...”
(Marcos 15:27) onde a palavra “lestás” foi traduzida em latim, por semelhança, com a palavra “latrones” de
onde o português ladrões. Na verdade esse vocábulo quer dizer “rebeldes” e vários filólogos acreditam que se
tratasse de dois zelotes, hipótese confirmada pelo fato que os Romanos costumavam crucificar os insurgentes,
não os salteadores. Os três foram crucificados num “lugar chamado Caveira, que em hebraico se chama
Gólgota” (João19:17), não no topo dum morro, mas numa pequena horta com um sepulcro particular: “E havia
um horto naquele lugar onde fora crucificado, e no horto um sepulcro novo” (João 20:41) pertencente a José
“um homem rico de Arimateia... que também era discípulo de Jesus” (Mateus 27:57). Isso significa que a
crucifixão não aconteceu diante de muitas pessoas, pois tratava-se de um terreno particular, cercado, onde havia
um horto e um cemitério, um lugar considerado impuro e por isso posto “fora da porta” (Hebreus 13:12).

Jesus foi crucificado às nove horas da manhã, pois lemos que “E era a hora terceira, e o crucificaram” (Marcos
15:25), numa sexta-feira, no dia 14 do mês de Nissan (março-abril), que também era o dia da preparação à
Páscoa judaica. Antes de ser levado ao Calvário, Jesus foi flagelado mas, apesar das imagens chocantes de
certos filmes hollywoodianos, quando a flagelação era executada como ato preliminar à crucificação, o número
de golpes jamais ia além de vinte, justamente para que o condenado não viesse a óbito antes da hora. Afirmar
que Cristo morreu por hemorragia externa é pura fantasia que contradiz à finalidade desse suplício, ou seja,
proporcionar uma longa agonia durante uns dias seguidos. Parece, inclusive, que o instrumento de tortura não
tenha tido uma verdadeira cruz, mas apenas um pau vertical fincado no chão e, de fato, nos textos originais em
grego se encontram as palavras “stauros” e “xylon”. O Critical Lexicon and Concordance to the English and
Greek New Testament explica que esses dois vocábulos indicam um madeiro sobre o qual os Romanos
pregavam os condenados. Com efeito está escrito: “...tirando-o do madeiro, o puseram na sepultura” (Atos
13:29). Realmente não existem provas que até a segunda metade do III século a cruz tenha feito parte do
simbolismo cristão; ela foi aceita em seguida devido ser também um dos símbolos de outras religiões pagãs
presentes no Império Romano como, por exemplo, o ankh dos Egípcios ou a cruz de Odin.

Cerca de seis horas depois de ter sido pregado na cruz, poucos instantes antes do suposto falecimento, Jesus
cita um versículo do Antigo Testamento e, ouvindo isso, “um deles, correndo, tomou uma esponja, e embebeu-
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a em vinagre, e, pondo-a numa cana, dava-lhe de beber” (Mateus 27:48). O estudioso britânico Hugh J.
Schonfield, um dos maiores especialistas do Novo Testamento, em seu livro intitulado The Passover Plot
(1965), avança a hipótese que a esponja tivesse preventivamente sido embebida com uma mistura de
substâncias anestésicas como ópio, beladona e haxixe facilmente encontradas na Palestina, um sistema utilizado
pelos médicos hebreus quando chamados para operar com procedimento de urgência fora de seus consultórios.
Os medicamentos contidos na esponja se misturavam com o líquido –nesse caso o vinagre- e eram rapidamente
absorvidos pela pessoa que, destarte, perdia logo os sentidos. Não se sabe quem ofereceu a bebida a Jesus, mas
com certeza não se tratou de um legionário romano pois, nesse caso, o evangelista o teria especificado.

Quanto ao detalhe do soldado que furou o lado de Jesus com uma lança, apenas um dos evangelistas o relata
com essas palavras: “Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água”
(João 20:34), mas não se entende como possa ter saído sangue de um corpo já sem vida. Inclusive os
historiadores nos informam que nunca os soldados romanos com suas armas, curtas ou compridas, atingiam a
caixa torácica mas eram treinados para furar as partes moles do corpo, em particular o estômago, o fígado e os
rins: isso para impedir que a ponta da arma ficasse presa entre as costelas. Mas, mesmo que a ferida tenha sido
infligida na maneira descrita no Evangelho de João, a direção do golpe e a sucessiva saída de "água" misturada
com um pouco de sangue, parecem indicar que se tratou de uma rudimental toracocentese. Essa punção da
cavidade torárica teria favorecido a retomada da circulação salvando a vida do condenado.

Existem elementos que lançam sérias dúvidas sobre a ressurreição. No Evangelho lemos que: “o lenço, que
tinha estado sobre a sua cabeça [a de Jesus], não estava com os lençóis, mas enrolado num lugar à parte” (João
20:7). Por qual motivo Jesus, depois de ter ressuscitado teria se preocupado de enrolar o lenço apoiando-o num
canto diferente do dos lençóis? Esse parece ser mais um gesto feminino, o duma mulher que, por hábito, sentiu
a necessidade de guardar o lenço depois que o corpo havia sido removido do sepulcro. Outro fato estranho é o
seguinte: “E acharam a pedra revolvida do sepulcro” (Lucas 24:2). Será que Jesus, ou seja, Deus em pessoa
precisa remover uma pedra para sair de um sepulcro quando até os neutrinos atravessam as montanhas? O
verdadeiro milagre teria sido encontrar o sepulcro ainda lacrado, mas vazio! Por outro lado como podiam as
duas Marias sozinhas rolar uma pedra que havia sido selada (Mateus 28:66)? E elas não sabiam dos soldados
controlando a sepultura que teriam impedido o acesso? Afinal Jesus foi sepultado na véspera do sábado e ainda
estamos no início do domingo, portanto não passaram três dias (72 horas), mas apenas um dia e poucas horas.

As Escrituras, no intento de enfatizar essa suposta morte do Messias, relatam uma série de milagres ocorridos
no mesmo instante em que Jesus teria falecido: “E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo”
(Mateus 27:51). Como podiam os evangelistas ter tido notícia de um evento ocorrido numa parte do templo na
qual podia entrar unicamente –e apenas em raras circunstâncias- o sumo sacerdote, aquele mesmo Caifás que
havia solicitado a condenação de Jesus? Mesmo que ele tivesse testemunhado esse fato prodigioso, jamais o
teria revelado endossando, destarte, a divindade de Cristo. Além de um forte terremoto que teria provocado a
quebra de umas partes do templo, o evangelista narra que “abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos
que dormiam foram ressuscitados; e, saindo dos sepulcros ... entraram na cidade santa, e apareceram a muitos”
(Mateus 27:53). O Evangelo de Nicodemo especifica que o número exato desses zumbis foi de 12.000, um fato
digno de aparecer num apocalíptico filme de terror, mas do qual não existe o menor registro histórico!

Estamos ainda na tarde da sexta-feira quando José de Arimateia se dirige a Pilatos pedindo que o corpo de
Jesus lhe seja entregue “E Pilatos se maravilhou de que já estivesse morto” (Marcos 16:44) mas, “tendo-se
certificado pelo centurião, deu o corpo a José” (Marcos 16:45). Essa resposta de Pilatos nos surpreende, sendo
que os cadáveres dos condenados à morte –principalmente os dos rebeldes políticos- não recebiam uma normal
sepultura, mas eram jogados numa fossa comum. Ainda mais surpreendente é a palavra grega que José usa para
indicar o corpo de Cristo “soma” (corpo vivo), mas Pilatos lhe entrega o “ptoma” (o cadáver) ou seja, José
solicita um corpo vivo e Pilatos, pensando que Jesus estivesse morto, lhe entrega um cadáver. Logo depois,
José e Nicodemos “tomaram o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis com as especiarias” (João 19:40)
inclusive “levando quase cem arráteis de um composto de mirra e aloés” (João 19:39). Cem arráteis
correspondem a 30 quilos, quantidade exagerada para um cadáver, mas justificável se usada com finalidades
curativas até o ferido se reestabelecer completamente. Efetivamente o aloé era o mais potente cicatrizante e

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desinfetante conhecido na época e ainda hoje é utilizado por suas propriedades antiinflamatórias,
antidoloríficas, anti-hemorrágicas e estimuladoras do sistema imunológico. Quanto à mirra, estudos modernos
evidenciaram que, além de desinfetante, é um excelente analgésico com a mesma ação dos canabinoides. Tudo
isso nos leva a cogitar que Jesus se encontrasse num estado de “morte aparente” talvez causada e/ou favorecida
por aquela bebida que lhe foi oferecida quando estava na cruz.

As Escrituras especificam que Cristo foi posto no sepulcro na tarde da sexta-feira. Mateus narra que, nessa
altura, os chefes dos sacerdotes se reúnem, junto com os Fariseus, na casa de Pilatos para que “o sepulcro seja
guardado com segurança até o terceiro dia, não se dê o caso que os seus discípulos vão de noite, e o furtem”
(Mateus 28:64) e o Prefeito atende esse pedido. Todavia, disso não se fala no evangelho de Marcos, que é o
mais antigo e original de todos, e nada dizem Lucas e João. Outra consideração, de grande importância, é a
seguinte. Sempre em Marcos, lemos que as mulheres, entrando no sepulcro, viram um mancebo assentado à
direita que lhes disse: "Não vos assusteis; buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado; já ressuscitou, não
está aqui..." (Marcos 16:6). O verbo usado no texto original em grego é a terceira pessoa singular do verbo
"egeiro" que não significa ressuscitar, mas acordar, e com esse significado é encontrado outras vezes nos
Evangelhos. Não é portanto absurdo imaginar que Jesus se encontrasse num estado de morte aparente e que,
graças também às terapias às quais foi logo submetido tenha se recuperado. Um caso bem recente de morte
aparente é o de Rosângela Almeida dos Santos, uma mulher de 37 anos declarada morta após duas paradas
cardíacas num hospital da Bahia (janeiro 2018) e enterrada no cemitério de Riachão das Neves. O túmulo foi
violado pela família depois de vários moradores de casas localizadas perto do cemitério municipal afiançarem
que ouviram gritos: o corpo da mulher foi efetivamente encontrado ainda morno e revirado dentro do caixão.

Não deve surpreender o fato que, às vezes, as pessoas consigam sobreviver a ferimentos graves e se
recuperarem em seguida. Sabemos de condenados à morte que saíram incólumes da fuzilação, do enforcamento
e até da cadeira elétrica. No dia 26 de janeiro de 1972, a aeromoça Vesna Vulovic, da companhia aérea
iugoslava JAT, estava trabalhando a bordo de um DC 9 quando, por motivos que nunca foram esclarecidos
totalmente, a aeronave explodiu e a jovem precipitou de uma altura de 10.116 metros, obviamente sem
paraquedas. Apesar dos gravíssimos ferimentos a moça não morreu e ainda está viva. Exemplos desse tipo são
inúmeros e, entre muitos, gostaria de relatar um bastante significativo. Num dia de outono de 1917 um jovem
sargento de artilharia do Exército Italiano foi atingido por uma bala de chumbo, de cerca de dois centímetros de
diâmetro, oriunda de um “shrapnel” disparado por um canhão austro-húngaro. O projétil, depois de ter furado o
capacete de aço, perfurou o topo do osso parietal, atravessou toda a massa cerebral, dilacerou a base craniana,
trenspassou a língua e acabou saindo pela parte inferior do queixo. Esse tipo de ferimento é considerado fatal e,
caso o paciente não morra na hora, entra num estado vegetativo pelo resto da vida. Entretanto, o militar italiano
não apenas sobreviveu, mas a recuperação foi extremamente rápida e completa. Terminada a guerra, ele casou-
se, teve uma filha e só veio a falecer em 1960. Esse sargento era meu avô.

Alguns autores, em apoio à tese da sobrevivência de Jesus, citam um trecho escrito pelo historiador romano
Suetônio em sua obra "Vidas dos doze Césares", onde se fala do imperador Cláudio que reinou do ano 41 d.C.
ao ano 54 d.C. Suetônio diz que o Imperador expulsou de Roma, em torno do ano 45-50 d.C. os Cristãos, que
continuamente geravam distúrbios sendo incentivados por um perturbador cujo nome era Chrestus. Como
Suetônio foi o chanceler do imperador Adriano (117-138 d.C.) e, portanto, responsável pelos Arquivos
Imperiais e pela Biblioteca Real, o seu relatório parece ser fidedigno. O teólogo alemão Peter Lampe, professor
de Estudos sobre o Novo Testamento junto à Universidade de Heidelberg, afirma que pelo menos até o início
do II século Jesus era chamado tanto de Chrestos como de Christos, sendo que essa segunda forma prevaleceu
na medida em que os cristãos ortodoxos ganharam importância em relação aos grupos gnósticos. Realmente,
nos Atos a palavra “cristãos” aparece três vezes, mas na versão original em grego do Codex Sinaiticus do IV
século, o termo exato é “chrestianoi”, ou seja, crestãos. Isso nos levaria a deduzir que Jesus liderou um grupo
de discípulos em Roma durante o reinado do imperador Cláudio? Difícil responder, mas é de se pensar.

Então, se Jesus não morreu una cruz e não ressuscitou, onde se encontraria a sua sepultura?
No dia 28 de março de 1980 em Talpiot, um bairro localizado cerca de 5 km ao sul de Jerusalém, durante as
escavações para a construção de um prédio residencial, foi descoberta uma tumba que remonta ao primeiro

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século da nossa era. Nela foram encontrados nove de dez ossários, três anônimos e seis mostrando inscrições
aptas a identificar os defuntos. Os nomes legíveis são os seguintes:

- Maria (mãe de Jesus);


- José (irmão de Jesus como consta em Marcos 6:3);
- Yehuda bar Yeshua que quer dizer Judas filho de Jesus;
- Mariamne/Mara. O nome Mariamne se encontra nos Atos de Felipe e se refere a Maria Madalena;
- Mateus, não o evangelista, mas o marido duma das mulheres sepultadas sem nome;

enfim, o mais importante de todos:

- Yeshua bar Yehosef cuja tradução é: Jesus filho de José.

Em 2002 foi finalmente encontrado o décimo ossuário contendo os restos de Tiago, irmão de Cristo. O artefato
havia sido removido da tumba de Talpiot e vendido separadamente por um comerciante árabe. Os céticos
afirmam que esse objeto nada teria a ver com o túmulo de Talpiot, sendo oriundo de outra localidade de Israel.
No entanto, em 2015, o geólogo Aryeh Shimron, após ter realizado 150 testes, descobriu que os vestígios
químicos do ossário de Tiago seriam os mesmos daqueles encontrados em Talpiot. Ninguém nega que todos os
nomes encontrados na tumba mencionada eram muito comuns na Palestina do I século, e vários deles, inclusive
o de Jesus, já haviam sido observados em outras sepulturas. Entretanto, essa foi a primeira vez que o grupo de
nomes apareceu no mesmo local indicando que essa tem fortes chances de ser a tumba legítima da família de
Cristo. Com efeito, uma análise estatística revela que a probabilidade de encontrar num só local esses nomes
varia de um máximo de 1/600 a um mínimo de 1/1.000.000. Consequentemente, a probabilidade que se trate de
uma simples coincidência é muito baixa: afirmar o contrário equivale a dizer que a vida no nosso planeta
apareceu por mero acaso.

Os católicos rebatem que uma família pobre como a de Jesus não teria tido condições de possuir uma tumba em
Jerusalém, mas não existem provas de que Jesus fosse indigente. Talvez ele o fosse por opção, mas não a
família pois José era um carpinteiro (tekton no original em grego) provavelmente dono de uma empresa e não
um trabalhador braçal. Que a família do Messias fosse relativamente abastada é comprovado pelo fato que
Jesus era um rabino alfabetizado e culto numa sociedade em que 98% das pessoas eram analfabetas. Além
disso, sabemos que tinha seguidores ricos, como José de Arimateia, que poderiam ter disponibilizado uma
tumba para toda a sua família.
Mais uma vez os católicos afirmam que as provas aduzidas pelos arqueólogos são fracas demais para afirmar
que a de Talpiot seria o túmulo de Jesus. Todavia eles esquecem que as provas da ressurreição de Cristo são
ainda mais fracas, para não dizer inexistentes.

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A MORTE, DEUS, A IMORTALIDADE

O grande filósofo espanhol Miguel de Unamuno, em seu livro intitulado “O sentimento trágico da vida”
(1913) enfrenta o problema da morte evidenciando como a ânsia de imortalidade represente um dos temas
dramaticamente centrais de toda a filosofia ocidental entendida não como ciência asséptica e puramente
especulativa, mas como reflexão da vida que envolve os sentimentos humanos mais íntimos e profundos.
Discordando de Aristóteles, para o qual o homem filosofa para livrar-se da ignorância, Unamuno afirma que
a filosofia está ao serviço da vida cumprindo a finalidade basilar de pensar vitalmente o destino comum. Em
outras palavras, meditar sobre o significado das nossas existências remete ao sentido da vida diante da
morte.

Unamuno, frequentemente rotulado de católico irracional, anti-intelectualista, ateu, pessismista,


irresponsável, etc., procede com essa reflexão: “Por que quero saber de onde venho e para onde vou, de
onde vem e para onde vai o que me rodeia, e que significa tudo isso? Porque não quero morrer de todo, e
quero saber se morrerei ou não definitivamente? Se não morro, que será de mim? E, se morro, já nada tem
sentido”. Essas poucas palavras sintetizam o pensamento filosófico desse autor existencialista dilacerado
pela impossibilidade de encontrar, se não uma certeza, pelo menos algum indício ao qual se agarrar, algo
que forneça uma resposta à sua ânsia de imortalidade, ânsia que, partindo dele, se estende à toda a
humanidade pois todos nós somos feitos de carne e de sangue. Em sua busca desesperada, na incansável
tentativa de “pensar mais”, Unamuno –que já havia se distanciado do racionalismo- persegue as possíveis
contribuições que a teologia e a ciência podem dar a sua questão, mas sem sucesso.

A fé primordial na ressurreição de Cristo -e, consequentemente, de todos os seres humanos- acabou sendo
transfigurada e descaracterizada pela Escolástica de Tomás de Aquino o qual transformou a vívida religião
cristã numa árida doutrina teológica. Esse processo de racionalização, em vez de fortalecer a fé, enfraqueceu
a teologia católica que, obviamente, foi atacada e desmontada com facilidade pelo pensamento moderno.
Destarte, tanto a questão da existência de Deus como a da imortalidade da alma não aguentaram os golpes
da crítica racional. Desiludido com a posição teológica tradicional, Unamuno tentou encontrar uma solução
ao problema da imortalidade dirigindo a atenção justamente àquela mesma ciência que havia derrubado a
teologia. Infelizmente, nem esse caminho forneceu a Unamuno a resposta que ele tanto almejava. O seu
desespero, que ele denomina “o sentimento trágico da vida”, emerge dramaticamente nessas palavras:
“Portanto, deve ficar assentado que a razão, a razão humana, dentro de seus limites, não só não prova
racionalmente que a alma é imortal e que a consciência humana será, na sequência dos tempos vindouros,
indestrutível, como, ao contrário, prova, dentro de seus limites, repito, que a consciência individual não
pode persistir depois da morte do organismo corporal de que depende”.

Unamuno deve ter pensado que, provavelmente, se fosse possível demonstrar a existência de Deus, o
problema da imortalidade seria resolvido. Provavelmente, mas não certamente, pelos seguintes motivos:

1) Os próprios antigos Hebreus, pelo menos até quatro ou cinco séculos antes da nossa era, mesmo
acreditando firmemente em Javé, desacreditavam numa vida no além. Para eles, em particular para a seita
dos Fariseus, Deus castigava ou recompensava nessa vida até a sétima geração. Quando Moisés fala ao povo
no Deuteronômio, nunca menciona a imortalidade, pondo as promessas e as ameaças de Deus num contexto
temporal limitado à vida terrena.

2) Para que a parte essencial do ser humano –o Eu- sobreviva é necessário postular a existência, além de
Deus, de um suporte imortal que a religião chama de alma. No entanto, esse conceito jamais aparece no
Antigo Testamento, sendo ligado não à revelação, mas à metafísica de Pitágoras e de Platão. Esses dois
eminentes filósofos ensinaram que no início existia o Tudo (o Uno inefável), uma mistura homogênea de
Espírito e de Matéria cuja diferenciação parcial deu origem ao Demiurgo, o arquiteto do Universo.

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Ainda hoje toda a teologia cristã se fundamenta sobre a firme distinção dessas duas categorias afirmando o
mundo, a matéria, ter sido produzido pela vontade criativa de Deus, feito de puro espírito. O problema surge
quando tentamos definir o que exatamente é a matéria. Declarar simplesmente que a matéria é tudo aquilo
que é sólido, igual uma parede de alvenaria, é pura tolice. Faz muitos anos que a Física moderna mostrou
como o que parece tal, na verdade é composto por objetos menores que os átomos, estruturas evanescentes
cujas características podem ser definidas unicamente mediante expressões matemáticas. Em outra spalavras,
o que aos nossos sentidos parece sólido é feito de algo tão impalpável quanto as equações e os números.
Então, diante da impossibilidade de definir de forma satisfatória a matéria, como podemos ter a ousadia de
definir o espírito como sendo algo oposto à matéria? Inclusive, o próprio Unamuno fez essa simples
reflexão: “Materialismo? Materialismo, dizem? Sem dúvida, mas isso porque nosso espírito também é
alguma espécie de matéria, ou não é nada”.

Mesmo assim, vamos averiguar se a própria Bíblia fornece argumentos convincentes sobre a existência de
Deus. Na Bíblia, em particular no Novo Testamento, se encontra o que os teólogos católicos chamam de
“História da Salvação” que, em extrema síntese, se resume em dois fatos. No começo Adão e Eva
desobedecem a uma ordem de Javé condenando, destarte, toda a futura humanidade. O pecado original,
igual um vírus, é transmitido sexualmente de geração em geração. Milhares de anos depois, o Pai manda o
Filho para ser crucificado e redimir toda a humanidade. Agora, em Gênesis 4:2 lemos que Abel era um
pastor e Caim um agricultor. Por outro lado a paleontologia, desmentindo as escrituras, nos ensina que o
Homo sapiens surgiu na África Oriental entre 190.000 e 160.000 anos atrás, e que até dez mil anos atrás a
maioria dos seres humanos vivia como caçadores-coletores, em pequenos grupos nômades. Acreditar que
Caim possa ter fundado nada menos que uma cidade numa época em que a agricultura era totalmente
desconhecida é tão absurdo quanto fantástico, assim como é ilusório cogitar que a lembrança desses eventos
tenha sido transmitida oralmente por mais de 150.000 anos seguidos.

Quanto à questão da Redenção é fácil mostrar que se trata de mais uma mitologia. Durante muitos séculos os
sapientes acreditaram que a Terra estivesse no centro dum sistema formado pelo sol, sete planetas e um
número reduzidos de estrelas fixas. Se assim fosse, faria até sentido postular o sacrifício de um Salvador
visando redimir a Humanidade de seu pecados. Mas hoje sabemos que a nossa galáxia contém cerca de 200-
400 bilhões de estrelas e que no Cosmo existem não menos de cem bilhões de galáxias. Embora ninguém
sabia ao certo, simples considerações estatísticas apontam para um número enorme de planetas povoados
por seres inteligentes. Mesmo imaginando, por exemplo, que exista vida inteligente em apenas um planeta
em cada dez galáxias, iremos obter o portentoso número de dez bilhões de planetas abrigando seres
“humanos”. Então, posto que esses seres nada tem a ver com Adão e Eva e com o pecado original, para eles
o sacrifício de Cristo teria sido totalmente inútil. Esses alienígenas, não tendo desobedecido a Deus,
viveriam eternamente em seus Jardins do Éden? Não, isso seria impossível, pois a ciência ensina que o
Universo vai ter um fim e todos seus habitantes vão morrer. Será que Deus, em sua infinita bondade, vai
mandar seu filho para ser crucificado dez bilhões de vezes em dez bilhões de planetas diferentes? Difícil de
se acreditar. Então, sendo onipotente, por qual motivo não criou apenas o nosso sistema solar sem gastar
energia para preencher o espaço com bilhões de inúteis galáxias?

Os católicos, no intento de demonstrar a veracidade da Revelação, apelam para os milagres afirmando que
eles comprovam o sobrenatural. Não precisa gastar muitas palavras para mostrar que os milagres não
existem. Ninguém jamais viu uma perna amputada crescer, uma criança Down se tornar normal, um avião
despedaçado se recompor segundos antes de precipitar, um prédio desabado se erguer de novo, um navio
afundado voltar à tona, e assim por diante. O que se pode constatar são as curas que, embora inexplicáveis à
luz dos nossos conhecimentos atuais, continuam acontecendo. Os defensores da intervenção divina, porém,
esquecem de dizer que as curas atingem também os ateus, aqueles que não ligam para a religião e até os
meliantes. São fenômenos naturais que um dia serão esclarecidos. Por outro lado, nem os teólogos, com seus
sofismas, conseguem no propósito de comprovar a existência da Divindade. Aliás, a própria Teologia é um
contrassenso pois teria a pretensão de tratar Deus como se fosse objeto de estudo, um micróbio a ser posto
sob as lentes de um microscópio. Como se pode imaginar de utilizar o raciocínio humano, por sua natureza
limitado e parcial, para investigar um ser que, por definição, é transcendente e inconhecível?

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Nenhuma religião –principalmente as reveladas- leva a um Deus demonstrável e evidente. A origem desses
conjuntos de ritos e orações jaz apenas no medo universal da morte e o resultado da busca, como era de se
esperar, sucumbe diante duma crítica rigorosa. Aliás, se o ser humano fosse imortal não haveria necessidade
de religião alguma. Mas é o temor, a incerteza aliada à dúvida, que constitui a fé -diz Unamuno- uma “fé
trágica” que nasce do embate entre a necessidade de crer e a razão que nega os absurdos da mitologia
religiosa. No raciocínio desse pensador, genuinamente liberal, a fé sem sombras de incertezas é a fé dos
ingênuos ou dos “estúpidos carvoeiros”; consequentemente o problema não tem solução e a constante
incerteza, refratária à fé cega, é o que caracteriza a condição humana. Unamuno chega à conclusão que “por
qualquer lado que se examine a coisa, sempre resulta que a razão se ergue diante de nosso anseio de
imortalidade pessoal e a contradiz. Porque, a rigor, a razão é inimiga da vida... Tudo o que é vital é
irracional e tudo o que é racional é antivital, porque a razão é essencialmente cética”.

O que nos resta a fazer se não crer cegamente, silenciando a razão que não quer calar? Deveríamos nos
conformar com o desespero existencial enfrentando estoicamente o nosso destino mortal, eventualmente
tentando satisfazer as nossas necessidades básicas, como aconselhou Epicuro? “A morte –afirma Epicuro-
não significa nada para nós: quando somos, a morte ainda não chegou e quando ela chega, não somos
mais”. Belas palavras, realmente dignas de um grande filósofo da Antiguidade, mas que não satisfazem a
nossa “fome de imortalidade” a qual continua intacta e voraz. Entretanto, um vislumbre de esperança existe
e o seu alicerce é um verdadeiro milagre. Aquele milagre -o maior de todos- que, como dizia David Hume,
quase ninguém observa justamente por estar constantemente diante dos nossos olhos. Trata-se da existência.
Quase todos já se perguntaram porque existimos. A maioria responde que foi Deus que nos criou. Mas essa é
uma não-resposta que apenas desloca para frente a pergunta. A pergunta sucessiva seria justamente a
seguinte: “E quem criou Deus?”. De regra a resposta dos dogmáticos é: “Deus existe desde sempre e é
incriado”. Nesse caso haveria realmente uma diferença substancial entre um Deus criador e incriado e um
Universo inteligente que existe desde sempre? Praticamente nenhuma.

A verdadeira questão não é saber quem criou o Universo o quem criou o criador. O fato é que, se formos
considerar as leis fundamentais da Física, segundo as quais nada se cria e nada se destrói, a única resposta
lógica é que nada deveria existir. A existência do Universo é um paradoxo sem explicação, um verdadeiro
“milagre”. A comunidade científica internacional concorda que tudo teve início com o Big Bang, a explosão
da singularidade primordial, microscópica, dentro da qual estava contida toda a massa do nosso Universo.
Repare o leitor que o advérbio “dentro” foi utilizado de forma imprópria, já que o próprio espaço –junto com
o tempo- nasceu no instante do Big Bang. Portanto a pergunta “o que existia fora (ou antes) do universo?”
não faz sentido. É objetivamente muito difícil imaginar o nascimento do Universo visualizando um ponto
que se expande no nada (que não é um espaço vazio e ilimitado!), mas é realmente isso o que aconteceu.
Vários cientistas acreditam na existência de infinitos universos paralelos, mas não existem provas para
sustentar essa hipótese.

Por que é essencial estabelecer se existe apenas um universo ou se existem muitos? O motivo reside no
Princípio Antrópico. Em breve, todas as principais constantes da Física, como a constante de estrutura fina, a
força gravitacional, a força eletromagnética, etc. foram finemente reguladas para que aparecesse a vida
orgânica. O físico Freeman Dyson disse que “O Universo sabia que estávamos chegando. O Universo não
se assemelha a um lance de dados aleatório. Parece pura e simplesmente proposital”. Mas se existissem
infinitos universos então, por pura chance, pelo menos um deles abrigaria a vida inteligente. Por outro lado,
um subconjunto do infinito é também infinito e isso significa que cada um de nós seria obrigado a reviver a
mesma vida infinitas vezes. Um perspectiva não muito atraente para quem teve que sofrer e padecer
perseguições e injustiças! Aparentemente, o Multiverso, além de não ser nada agradável de um ponto de
vista ético, não resolve o problema do Projeto Inteligente sendo que ainda permaneceria em pé a pergunta
“de onde vem o Multiverso?”. Há umas variações da definição do Princípio Antrópico e a mais intrigante é a
denominada de Princípio Antrópico Final, segundo a qual: O Universo tem como finalidade produzir seres
vivos, ou seres humanos.

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Sem entrar muito nos detalhes, é comprovado que a matéria seguiu um percurso evolutivo que, partindo das
partículas elementares (elétrons, fótons, prótons, etc.), formou sucessivamente os átomos, as moléculas, as
macromoléculas orgânicas, as células, as primeiras formas de vida, os animais, os mamíferos e, enfim, os
seres humanos: inteligentes, conscientes e em busca de uma ordem moral. Uma evolução que tornou-se
possível unicamente graças às Leis que caracterizam o nosso Universo. A questão é: essas Leis foram
escritas por um Demiurgo ou são consubstanciais à própria matéria? A resposta depende da visão
filosófica/religiosa de cada um, mas é oportuno saber que nenhum tipo de resposta pode ser comprovado
cientificamente. Todavia, mesmo tendo uma resposta, resta a saber o que vai acontecer depois da morte e,
como já vimos, nem a existência de um Deus seria garantia de imortalidade. Ainda falta alguma coisa, algo
que nos remete ao que estava “misturado” ao Big Bang, e é disso que estaremos tratando nos parágrafos que
seguem.

Miguel de Unamuno não se contenta com uma perspectiva de imortalidade abstrata e metafísica, mas quer
continuar vivendo tal como ele é, em carne e osso, sendo exatamente ele, corpo, alma e memória para
sempre, sem remissão das suas misérias e insuficiências numa possível glorificação celeste que, por sinal,
ele abomina. O filósofo expressa o seu anelo com essas palavras “O que desejo não é ser possuído por Deus,
mas possuí-lo, fazer-me Deus sem deixar de ser eu que agora lhe diz isso”. O ideal de Unamuno é a
perpetuação do Eu, mesmo que isso signifique a continuação da dor, mesmo que implique a permanência
numa espécie de purgatório eterno.
Será que no âmbito da metafísica religiosa o anseio de Unamuno teria chances concretas de se realizar?
Seria suficiente possuir uma “alma imortal” para continuar sendo o que somos nessa vida com todas as
nossas lembranças conscientes e inconscientes? Uma alma feita de quê? Uma alma puramente espiritual
prefabricada e guardada numa gaveta divina em meio a bilhões de outras desde o começo dos tempos? É
óbvio que se formos buscar a resposta no âmbito dos ditames da tradição cristã corremos o risco de voltar
àquela forma de idealismo religioso desprovido de bases racionais que não convenceu nem Unamuno nem
outros grandes pensadores.

Qual a serventia de almas feitas de espírito (seria o quê esse tal de espírito?), todas iguais e carecidas de
personalidades originais? Precisamos de algo diferente, adaptável e plasmável durante o curso da vida
humana, suscetível de ser customizado. Para isso vamos imaginar um éter plástico, inicialmente
indiferenciado –virgem- consubstancial à matéria, capaz de armazenar as informações individuais com o
mesmo rítmo com que elas são produzidas. Uma estrutura parecida a um pen drive que discretamente, ao
longo dos anos, grave segundo após segundo todos os nossos pensamentos, sonhos, sentimentos, sensações
físicas e psíquicas. Esse upload duraria a vida inteira, como se uma cópia do cérebro fosse salva num suporte
externo, igual se faz com o HD do computador. Enfim, quando o corpo perece, toda a informação contendo
o Eu é preservada e o indivíduo volta a operar autonomamente sem ter perdido nada da sua memória, da sua
personalidade original. Nessas alturas, livre de condicionamentos materiais, um novo universo pessoal é
projetado ao redor do Eu de acordo com as ambições da cada um: trata-se duma realidade virtual símil à dos
sonhos, mas percebida como absolutamente real. Destarte, quem idealizou um mundo caracterizado pelo
amor, justiça e tolerância, poderá viver nesse ambiente, enquanto quem privilegiou egoísmo, violência e
horror, terá que lidar com esses elementos, sem necessidade de julgamentos divinos, diabos e infernos. O
verdadeiro inferno estará dentro dele e dessa condição não terá como escapar.

Nessa nova dimensão será possível materializar ambientes, coisas e pessoas sem limites, incluindo os nossos
animais de estimação, possibilidade –essa- confirmada também pelo papa Francisco que, numa audiência
geral disse: “Um dia veremos novamente os nossos animais na eternidade de Cristo”. O neófito, começando
a interagir com a nova realidade –embora virtual- irá acumular inúmeras experiências aprimorando assim a
sua personalidade. Em seguida, esses “pen-drives” iniciarão a se agregar para experimentarem, juntos, novas
situações nas quais aprenderão a construir realidades compartilhadas cada vez mais complexas e
diversificadas. Analogamente ao que ocorre nas redes de computadores, cada Eu terá acesso ao “banco de
dados” dos outros; destarte será possível aprender qualquer idioma, arte, competência e habilidade sem ter
que estudar ou treinar (situação ideal para os preguiçosos!). As crianças falecidas nos primeiros anos de vida
se aproveitarão de experiências alheias para se tornarem adultas.

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Mas até que ponto tudo isso é possível? Trata-se duma tolice ou existe algum fundamento científico? Pois
bem, o famoso físico britânico Roger Penrose, com base nos estudos do médico Stuart Hameroff, chegou à
conclusão que nos microtúbulos cerebrais ocorrem fenômenos quânticos ainda não totalmente esclarecidos,
mas que podem conectar o nosso mundo com outras dimensões desconhecidas. Destarte, a consciência
quântica individual torna-se independente do corpo podendo sobreviver à morte física do cérebro numa
dimensão espaço-temporal diferente daquela onde estamos mergulhados. A existência do Eu seria, portanto,
infinita e imortal, pois as próprias leis da Física (lei de conservação da energia) garantem que nada pode
cancelar a informação quântica. A teoria de Penrose-Hameroff, admitindo uma consciência independente do
cérebro, explicaria também aqueles fenômenos denominados “Experiências de Quase-Morte” evidenciados,
pela primeira vez, pelo psiquiatra norte-americano Raymond Moody em seu best seller “Vida Depois da
Vida”. Em seu libro “The Light Beyond” o Dr. Moody relata o caso impressionante duma paciente de
setenta anos, cega desde os dezoito, que: “foi capaz de descrever, com detalhes vívidos, o que aconteceu,
enquanto os médicos tentavam ressuscitá-la de um ataque do coração. Ela conseguiu dar uma boa
descrição dos instrumentos que foram utilizados, e até mesmo de suas cores. E o mais surpreendente para
mim –diz o Dr. Moody- é que a maioria daqueles instrumentos sequer fora concebida na época em que ela
ainda podia ver, havia cerca de cinquenta anos”.

E Deus o que tem a ver com tudo isso? Parece não haver dúvida alguma que o processo evolutivo iniciado
no Universo bilhões de anos atrás teve como finalidade o surgimentos de seres sencientes e inteligentes.
Seria ilógico imaginar que todo esse imenso esforço de aprimoramento constante tivesse, como resultado
final, o sofrimento (a vida é sofrimento!) e a morte final de infinitos seres sencientes. O pensamento lógico
recusa essa hipótese tétrica e aterradora e nos leva a cogitar um destino diferente, coerente com um projeto
positivo e bem estruturado. Não é portanto ilógico imaginar que o Universo tenha sido planejado por uma
Inteligência superior mas, nesse caso, caímos novamente no paradoxo inicial: de onde vem esse ser? Pois
bem, o modelo teórico delineado nos parágrafos anteriores resolve também esse problema. Milhões de
bilhões de Eus, após terem alcançado o aperfeiçoamento pessoal, se unem numa imensa estrutura até formar
uma “massa crítica” cujas propriedades transcendem e ultrapassam a soma das propriedades dos Eus
individuais. Conforme dizia Hegel, uma alteração quantitativa sempre acarreta uma mudança a nível
qualitativo, assim como acontece em nossos cérebros. A superinteligência originada pela fusão de infindos
Eus extrapola a soma dos limites dos Eus individuais assumindo as características de um Deus.

Por sua vez, esse “Deus”, que contêm dentro de si todos os atributos humanos positivos como
conhecimento, inteligência, justiça, benevolência e amor, origina não um, mas “o” Universo físico no qual
se desenrola o projeto que leva, como produto final, à formação dele mesmo. Em outras palavras, Deus não
cria o Cosmo como ato de liberalidade, mas como necessidade para ele mesmo chegar a existir. É loucura
pensar num Criador que se cria sozinho? Seria loucura se esse processo se desenvolvesse num espaço-tempo
onde vigora o princípio da causalidade, mas não num contexto onde a variável temporal inexiste, ou seja, na
eternidade. Mesmo que essa interpretação pareça absurda, temos que nos acostumar ao fato que às vezes a
realidade transcende a intuição, e fenômenos físicos como a mecânica quântica mostram comportamentos
que fogem ao nosso pensamento racional derrubando até o nexo causa-efeito, o conceito de antes e depois.
Pelo menos a hipótese aqui ilustrada resolve a contradição inicial, a de um Universo que nasceu do nada, e
isso não é pouca coisa, assim como não é pouca coisa apresentar uma esperança laica e universal desligada
das religiões tradicionais.

Unamuno se questionava a respeito do que a razão tinha a dizer em relação à possibilidade de vida
perdurável depois da morte. Suas investigações sobre a filosofia de Platão, Aristóteles, Tomás, Hume, Kant,
sobre a razão monista e materialista, a psicologia comparada, a antropologia, a ciência da religião, acabaram
frustrando as tentativas de obter uma resposta unívoca e inequivocável. Por esse motivo Miguel de
Unamuno chegou ao fundo do abismo sem parar um instante de externar uma angústia interior que o
torturava: “Estremeço com a ideia de ter de me separar da minha carne, estremeço mais ainda com a ideia
de ter de me separar de todo o sensível e material, de toda substância”. Ele só encontrou a paz quando, em
prisão domiciliar por ter criticado a truculência das tropas do general golpista Francisco Franco, fechou os

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olhos numa gélida tarde do dezembro de 1936, quase quarenta anos antes que Raymond Moody publicasse o
seu livro “Vida Depois da Vida”, 58 anos antes que Hameroff e Penrose divulgassem os resultados de seus
estudos, e 82 anos antes que esse texto aparecesse no Recanto das Letras. Possa ele viver para sempre pois,
quem mais, quem menos, somos todos Miguel de Unamuno.

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OS MÁRTIRES NA ANTIGA ROMA

Qualquer pessoa que tenha sido educada no mundo Ocidental está familiarizada com as “terríveis
perseguições” sofridas por um número incontável de cristãos nos primeiros três séculos do Império Romano.
Em 1632, o cardeal Ginetti encarregou padre Girolamo Bruni, da congregação de São Felipe Néri, de
realizar uma investigação para apurar o número exato de cristãos martirizados na Antiga Roma. O padre
emérito executou a tarefa com diligência e o resultado foi espetacular: 64 milhões de mártires! Um valor
simplesmente absurdo se formos considerar que no Império havia apenas 50 milhões de habitantes,
entretanto esse número foi oficializado pela Igreja católica aos 10 de abril de 1668. Além disso, de acordo
com a tradição, os primeiros cristãos eram mansos e inocentes e, invariavelmente, enfrentavam os leões com
surpreendente letícia, sustentada por uma fé firme e inabalável. Ao contrário, os opressores pagãos eram
covardes, pervertidos, viciosos, brutais e impiedosos, chegando a matar os honestos cristãos sem razão, a
não ser por puro sadismo. Os textos de apologética afirmam que a estirpe dos cristãos só conseguiu
sobreviver à extinção total se escondendo -geração após geração- nas catacumbas (que na verdade eram
simples cemitérios afastados), igual toupeiras. Esses senhores, porém, esquecem de explicar que, na
verdade, as perseguições foram raras e intervaladas por longos periódos de calmaria total, tanto que o
cristianismo cresceu sem parar espalhandou-se em todas as províncias do Império.

Há algo de estranho e esquisito na história contada pela Igreja, algo que contrasta com o espírito de
tolerância mostrado pelos Romanos em relação a todos os cultos do Império. O famoso historiador britânico
Edward Gibbon escreveu, no século XVIII, que esse espírito encontrava respaldo na atitude romana para
com os Judeus pois, "de acordo com as máximas da tolerância universal, os Romanos protegiam uma
superstição que desprezavam". Não havia, portanto, um motivo plausível para que os cristãos não fossem
tolerados como os Judeus. Entretanto, diversamente de todas as outras religiões da época que conseguiam
conviver em harmonia entre si, os cristãos parecem ter provocado uma grande hostilidade tornando-se
notavelmente impopulares. Tácito, por volta de 110 d.C., escreveu que eles eram "notoriamente
depravados". Suetônio (70-160 d.C.) registrou que o imperador Cláudio os expulsou de Roma por causar
distúrbios contínuos. Até alguns líderes cristãos, como Cipriano, bispo de Cartago, afirmaram que os
cristãos mereciam o tratamento que estavam recebendo. Objetivamente os cristãos costumavam se estranhar
da realidade social da época proclamando que todas as outras divindades eram falsas e que deviam ser
abatidas. Além de recusar o serviço militar e a participação às festas religiosas e civis, consideravam Roma a
capital mundial do vício, digna de ser destruída com fogo e enxofre: “Caiu, caiu a grande Babilônia, e se
tornou morada de demônios, e coito de todo o espírito imundo, e coito de toda ave imunda e aborrecível”
(Apocalipse, 18:2). Sabe-se de soldados que, depois de terem se convertido desertaram do exército, como no
caso de Teodoro de Amásia que, além de trair, botou fogo no templo de Cibele e, por isso, foi devidamente
justiçado como incendiário. A Igreja o proclamou santo e mártir.

Hoje sabemos que as perseguições aos cristãos foram modestas, intermitentes, limitadas geograficamente e
jamais desencadeadas por motivos eminentemente religiosos. As autoridades procediam com extrema
cautela e, nas poucas cidades onde se pensava que os cristãos representassem uma ameaça, apenas alguns
dos suspeitos foram presos, mas nem todos foram indiciados. Dos acusados, somente uma fração foi
condenada, sendo a grande maioria dos apenados presa ou exilada, e muitos acabaram se beneficiando de
anistias. As penas capitais foram realmente poucas, tanto que o apologista cristão Orígenes (185-253 d.C.)
afirmou que o número de mártires “é pequeno e fácil de ser calculado”. Os rescritos imperiais sempre
recomendavam que os magistrados agissem com moderação evitando de acatar as acusações anônimas e
averiguando se as acusações tivessem fundamento. O bispo Eusébio de Cesaréia (265-339 d.C.) relata
numerosos casos de cristãos se recusando de responder às perguntas do juiz, de dizer seus nomes ou
inventando nomes falsos tirados do Antigo Testamento. Fontes históricas independentes narram que os
cristãos mais fanáticos suplicavam as autoridades para que os martirizassem enquanto que os próprios
magistrados imploravam que esses desvairados tivessem pena de si mesmos e desistissem de suas loucuras.
De alguma forma, as Autoridades romanas agiam com a finalidade de proteger os cristãos do fanatismo

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popular e, em 177 d.C., os soldados salvaram a comunidade cristã de Lion que estava prestes a ser linchada
pela população enfurecida.

A Igreja, além de ter manipulado e até inventado a biografia dos mártires (veja por exemplo o caso da
inexistente Catarina de Alexandria), utilizou o martírio como prova da veracidade da Revelação alegando
que jamais um fiel teria enfrentado as torturas e a morte se a sua religião não tivesse sido a única verdadeira.
Se os cristãos conseguiram aguentar a dor e os suplícios era porque eles eram amparados por uma prodigiosa
força sobrehumana advinda do Espírito Santo. Mas se esse raciocínio for verdadeiro para o Cristianismo,
então deve valer também para qualquer outra fé, inclusive para o Paganismo. Efetivamente, deixando de
lado o caso de Hipácia, virgem pagã martirizada em Alexandria do Egito aos 8 de Março de 415 d.C. -cuja
história tornou-se popular graças o filme “Alexandria” (2009) dirigido por Alejandro Amenábar e
interpretado por Raquel Weisz- ninguém jamais ouviu falar nas inúmeras pessoas que sofreram o martírio
por não terem largado a sua fé nas antigas divindades pagãs. Nas escolas, nas universidade e nos livros de
história, nada se fala a respeito desses outros mártires: eles simplesmente sumiram sem deixar rasto, assim
como –caso a Alemanha nazista tivesse vencido a guerra- nada se saberia hoje do holocausto de milhões de
Judeus.

Objetivamente têm razão aqueles que dizem que o Cristianismo dividiu em duas partes a história da
Humanidade. De fato, antes havia tolerância, saber, arte, filosofia e beleza. Depois veio o terror totalitário
que, com seu cortejo de ignorância e de medo, enturvou o mundo por mais de quinze séculos seguidos.
Ninguém está querendo culpar Jesus por essa catástrofe, afinal ele foi um homem sábio, idealista, imbuído
de patriotismo e de espírito inovador da religião israelita. O primeiro responsável foi Paulo de Tarso que,
sem sequer ter conhecido Cristo, desnaturou a mensagem de Jesus inventando uma nova religião
profundamente intolerante. A que segue é uma lista, necessariamente parcial, das principais perseguições
e/ou atos de violência perpetrados pelos cristãos desde o início da nossa Era até o fim do Império Romano
de Ocidente. Como a cronologia é relativa a anos da Era Vulgar, a notação d.C., sendo redundante, é
omitida.

Ano 54. Paulo de Tarso ataca pela primeira vez o culto de Ártemis (Diana) de Éfeso, cujos sacerdotes e
sacerdotisas tinham a obrigação de praticar a castidade. Quando, uns séculos depois, vieram as persecuções
contra os adeptos de Diana, cerca de 30.000 gregos foram crucificados devido eles terem se recusados de
abjurar o culto à deusa.

Ano 250. A seita gnóstica de Saturnino, devota de Cristo e fautora da ascese, da meditação e da pudicícia, é
perseguida e exterminada pelos cristãos dogmáticos.

Ano 301. Um pregador de nome Gregório, durante uma calamidade natural e explorando a superstição do rei
da Armênia Trídates III consegue convertê-lo. O rei ordena o massacre dos sacerdotes pagãos e a
transformação em igrejas dos templos das antigas divindades greco-romanas. Todas as bibliotecas armênias,
fundadas por soberanos helenísticos, são queimadas por serem "cofres de conhecimento demoníaco".

Ano 315. Inicia a perseguição aos seguidores das divindades clássicas. Em Dídimos, atual Turquia, por
ordem do general romano Materno Cinégio –por sua vez incitado pelos monges locais, é saqueado o oráculo
de Apolo e os sacerdotes torturados até a morte. Os pagãos do sagrado Monte Atos são detidos sob a falsa
acusação de traição e justiçados; todos os templos pagãos do local são destruídos.

Ano 330. O imperador Constantino I pilha os tesouros e as estátuas dos templos pagãos da Grécia para
decorar Constantinopla, a nova capital do Império. Enquanto isso, os cristãos saqueiam e ateiam fogo no
santuário do deus celto-romano Apolo de Bayeux onde os sacerdotes são linchados. Nenhum apologista
cristão censura esse Imperador por ele ter mandado assassinar a esposa e o filho.

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Ano 334. Um decreto imperial ordena o fechamento de todos os templos pagãos. Alguns deles são
profanados e transformadas em bordéis por desprezo à religião pagã. Muitos sacerdotes são executados.
Importantes bibliotecas em várias cidades do império são queimadas.

Ano 335. O imperador Constantino I saqueia vários templos pagãos na Ásia Menor e na Palestina e ordena a
execução por crucificação de "todos os magos e adivinhos". Destarte, todos os "oráculos e os acusados de
magia" são crucificados como culpados pela má colheita daquele ano. Os livros de geometria são proibidos
por serem considerados textos de magia. Sópatro de Apameia, filósofo neoplatônico defensor do paganismo
e da filosofia é martirizado. Esse ano marca o começo da caça às bruxas que vai continuar na Europa até a
última queima no século XVIII na França.

Ano 341. O novo imperador Constâncio persegue “todos os adivinhos e os helênicos [os pagãos]”. Muitos
são aprisionados e justiçados. Todos os templos são fechados. Dois anos depois um novo decreto institue a
pena de morte para os idólatras.

Ano 357. A deusa Vênus, também chamada de Luxfero, ou seja, "portadora de luz", torna-se Lúcifer;
Astarte, também chamada de Astarote, torna-se um demônio; a deusa Fortuna Mammona torna-se Mamon, o
diabo mencionado nos Evangelhos. Centenas de toneladas de estátuas gregas e romanas de valor e beleza
incomparáveis são jogadas nas fornalhas e transformadas em cal. Assim perde-se boa parte do patrimônio
artístico da Humanidade. Também o estudo dos astros é proibido.

Ano 359. Na cidade de Citópolis, na Palestina, os cristãos organizam o primeiro entre muitos campos de
concentração para a tortura e execução dos pagãos presos em qualquer parte do Império. O historiador
Amiano Marcelino escreve: “Dos lugares mais remotos do Império arrastaram incontáveis cidadãos de
todas as idades e classes sociais, acorrentados, e muitos deles morreram no caminho ou nas prisões locais.
Quem conseguiu sobreviver, acabou em Citópolis, uma cidade remota na Palestina, onde eles colocaram os
instrumentos de tortura e execuções”. Um cronista pagão escreve: “Se nós estamos vivos, então é a própria
vida que está morta”.

Ano 364. O imperador comilão Joviano manda queimar a famosa biblioteca de Antioquia e, aos 11 de
setembro, ordena a pena de morte para todos os pagãos que praticam o antigo culto dos deuses ancestrais ou
a adivinhação. Com três decretos sucessivos determina o confisco das propriedades dos templos pagãos,
punindo com a pena capital aqueles que se dedicam aos rituais pagãos, mesmo que sejam dentro de casa.
Poucas semanas depois Joviano falece de morte súbita provocada, parece, por uma violenta indigestão mas,
para os cristãos, dessa vez não se trata de um castigo divino...

Ano 370. O imperador Valente ordena uma tremenda perseguição contra os pagãos em toda a parte oriental
do império. Em Antáquia, entre muitos outros pagãos, são executados o ex-governador Fidustius, e os
sacerdotes Hilarius e Patricius enquanto milhares de inocentes são torturados ou mortos por terem
simplesmente se recusado de abjurar o culto tradicional. Numerosos livros são queimados nas praças das
cidades do Império do Oriente. Todos os amigos do falecido imperador Juliano (Orebasius, Sallustius,
Pegasius, etc.) são perseguidos. O filósofo Simónides é queimado vivo e o filósofo Máximus é decapitado.

Ano 372. O imperador Valente ordena ao governador da Ásia, Fisto, que extermine todos os gentios e
destrua suas obras. Inúmeras pessoas apavoradas começam a queimar suas livrarias para escapar do perigo.
Quem tem a coragem de resistir é entregue aos carrascos. As delações são muitas, o clima é de terror. É
inventado o termo pagão (de pagus = vilarejo) como forma de desprezo aos gentios. São Martino completa a
destruição dos templos da Galácia e até as representações teatrais são proibidas. Valente enfrenta os Godos
na batalha de Adrianópolis (378) onde, não querendo, por soberba, esperar a ajuda do imperador do
Ocidente Graciano, é derrotado e morto pelos bárbaros. A perseguição é suspensa: os cristãos choram, mas
os pagãos agradecem aos deuses.

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Ano 380. Em 27 de fevereiro, um édito do imperador Teodósio I proclama ser o cristianismo a única religião
de Roma, e proíbe todas as outras. Ele declara que os pagão são "repugnantes, hereges, estúpidos e cegos".
O bispo Ambrósio de Milão está autorizado a destruir todos os templos dos gentios. Em Constantinopla o
templo de Afrodite é transformado em bordel e os de Hélio e Ártemis em estábulos. Apesar desse monstro
pior que Nero haver ordenado o massacre de 7.000 habitantes de Salonica, os bajuladores cristãos da época
o glorificam com o apelido “Grande”.

Ano 388. Os monges ateiam fogo numa sinagoga a Raqqa e aterrorizam as aldeias da Síria. Outros
patrulham as cidades do Alto Egito em busca de ídolos. Na África do Norte os monges, armados com
porretes chamados de “Israel”, varrem o interior em busca de inimigos. Hordas de eremitas fanáticos vindos
do deserto invadem as cidades do Oriente Médio e do Egito, destruindo estátuas, altares, bibliotecas e
templos, e linchando os pagãos. O Patriarca de Alexandria Teófilo incita as massas cristãs levando-as a
realizar grandes perseguições contra os gentios e à destruição do Serapeu de Alexandria, a maior biblioteca
da Antiguidade (a cena é mostrada no filme de Amenábar). Todos os sacerdotes da Galácia são degolados.

Ano 392. O imperador Teodósio I proíbe todos os rituais não-cristãos e ordena uma nova perseguição em
larga escala contra os pagãos. Os Mistérios da Samotrácia são proibidos e os sacerdotes pagãos são
assassinados. Em Chipre, o bispo Epifânio manda destruir quase todos os templos da ilha e exterminar
milhares de pagãos. Os Mistérios locais da deusa Afrodite são censurados.

Ano 395. Dois novos decretos geram ulteriores perseguições contra os pagãos. Rufino, o eunuco primeiro-
ministro do imperador Flávio Arcádio, dirige suas hordas de Godos cristianizados, liderados por Alarico, na
Grécia. Estimulados por monges cristãos, esses bárbaros saqueiam e queimam muitas cidades, abatem ou
escravizam incontáveis pagãos helênicos e derrocam os antigos templos. Queimam o Santuário de Elêusis
com dentro os seus sacerdotes. Enquanto isso, o imperador ordena que o culto ao paganismo seja
considerado ato de alta traição. No ano 398, o IV Concílio de Cartago proibe a todos, inclusive aos bispos
cristãos, a leitura dos textos pagãos: inúmeros livros são incinerados em públicas fogueiras, exatamente
como na Alemanha nazista em 1933. Todo o saber da Antiguidade é banido.

Ano 401. Em Cartago, a população cristã lincha os pagãos e destrói templos e estátuas. Também em Gaza o
bispo São Porfírio ordena que seus seguidores linchem os pagãos e derrubem os nove templos ainda ativos
na cidade. O XV Concílio de Calcedônia ordena a excomunhão daqueles cristãos que mantenham boas
relações com seus parentes pagãos. Os piores inquisidores são proclamados santos.

Ano 408. Por decreto imperial fica proibida a posse de qualquer escultura pagã. São punidos aqueles juízes
que mostrem piedade para os pagãos. Em 409 é decretada a pena de morte para os astrólogos que também
são todos astrônomos, como a famosa matemática Hipácia de Alexandria.

Ano 415. A filósofa neoplatônica Hipácia é agredida por um grupo de monges parabolanos às ordens de São
Cirilo. Essa eminente cientista, virgem e mártir, é esfolada viva e suas carnes ainda palpitantes são queimada
na fogueira. Quem atesta esse crime é o historiador cristão Sócrates Escolástico. Contemporaneamente, na
África do Norte, os sacerdotes pagãos são crucificados ou queimados vivos. Em Constantinopla, o
governador Anatolius e outros pagãos são condenados a serem devorados pelos leões, mas como as feras
não os atacam, eles são crucificados. Estranhamente ninguém clama ao milagre e ninguém se converte
quando os animais não os abocanham, como supostamente acontecia com os mártires cristãos.

Ano 416. Os inquisidores exterminam os últimos pagãos da Bitínia e, no final do ano, são despedidos todos
os funcionários públicos que não se convertem ao cristianismo. No Ano 423 o imperador Teodósio II
proclama que a religião dos pagãos é “o culto do demônio”: aqueles que ainda a seguem ficam passíveis de
cárcere e de tortura.

Ano 435. Em 14 de novembro, um novo édito do imperador Teodósio II ordena a pena de morte para os
cristãos dissidentes e os pagãos do Império. Nessa altura, havia poucas conversões, porque as pessoas

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tolerantes tinham horror a tanta crueldade e a maioria das conversões era falsa, realizada apenas para salvar
a vida. Três anos depois, os pagãos, considerados responsáveis por uma epidemia de peste, são novamente
perseguidos.

Ano 440 até 450. Um enésimo edito imperial manda que todos os livros não cristãos sejam queimados.
Também a arte é banida, a não ser que seja usada como instrumento para divulgar a fé cristã.

Ano 457 até 491. Ocorrem perseguições esporádicas contra os pagãos na parte oriental do Império. Entre os
executados estão o doutor Jacobus e o filósofo Géssio. Severiano, Heréstio, Zósimo, Isidoro e outros são
torturados e encarcerados. O pregador cristão Conon e seus seguidores exterminam os derradeiros pagãos da
ilha de Imbros. Os últimos adoradores de Zeus são executados em Chipre.

Termina aqui a lista, muito resumida, dos crimes cometidos pela Igreja cristã no Império Romano cuja parte
Ocidental, a partir de 476, cessa de existir. Naturalmente as perseguições continuam na parte Oriental,
também conhecida como Império Bizantino onde a antiga religião é ainda praticada clandestinamente por
muitas pessoas. O panorama de devastação é sempre o mesmo, caracterizado pela destruição de templos,
estátuas, monumentos, livros, bibliotecas, etc. Infelizmente até os modernos livros de História narram que o
Império Romano acabou por causa das invasões barbáricas e isso é verdade no que diz respeito ao lado
político dessa antiga instituição política. No entanto, o aniquilamento de uma imensa cultura milenar
começou bem antes das invasões e foi perpetrado pelos próprios cristãos. Se, a partir de agora, na Europa
ocidental as perseguições se dirigem contra os “hereges”, no mundo bizantino as vítimas continuam sendo
principalmente os pagãos.
Em 528 o imperador Justiniano (casado com uma ex prostituta insaciável e lasciva) suprime a Academia, a
antiga Escola Filosófica de Atenas onde havia ensinado Platão. Terminam para sempre os Jogos Olímpicos e
todos os suspeitos de praticar “a bruxaria, a adivinhação, a magia e a idolatria” são executados mediante o
fogo, a crucificação ou o desmembramento com garras de aço. Tido em suma consideração pelos cristãos,
esse ambiciosíssimo Imperador fundou o seu poder sobre o massacre de 35.000 homens, mulheres e crianças
que manifestavam pacificamente no hipódromo de Costantinopla durante a Revolta de Nika. Uma figura
bem diferente dos antigos imperadores pagãos e, em particular, do mite e tolerante Julião (331-363) que
Voltaire retrata com essas palavras: “Sóbrio, casto, altruísta, valoroso e clemente”.

Enquanto a Igreja cristã foi preseguida nunca deixou de solicitar tolerância e liberdade religiosa, mas não
apenas conquistou o apoio dos imperadores tornou-se intolerante e perseguidora chegando a usar a violência
mais brutal para aniquiliar não apenas os pagãos, mas também os cristãos tidos como heréticos. Os crimes
mais repugnantes foram justificados com base em versículos do Antigo Testamento como, por exemplo,
“Matai velhos, mancebos e virgens, criancinhas e mulheres, até exterminá-los” (Ezequiel 9:6). Quanto às
conversões forçadas, a base doutrinal foi encontrada no próprio Evangelho onde diz: “E disse o Senhor aos
servos: Sai pelos caminhos e valados, e força-os a entrar, para que a minha casa se encha” (Lucas 14:23).
Como resultado, a populaça cristã foi deixada livre e até estimulada a atacar e destruir sinagogas e templos
com a certeza de pilhagem e de impunidade. Espiões disfarçados de pagãos foram designados para
denunciar aqueles que não simpatizavam com a causa cristã. Falsas testemunhas foram apresentadas e
aceitas sem problemas pelos tribunais partidários sendo, as confissões, extraídas com a ajuda da tortura.
Jovens e idosos foram induzidos a denunciar seus amigos e familiares, assim como aconteceria no regime
nazista alemão ou na Rússia de Stalin. Inúmeros inocentes foram executados e os mais sortudos apenas
encarcerados ou exilados. Em algumas províncias, presos, exilados e fugitivos da intolerância cristã
chegaram a totalizar mais da metade da população. As propriedades foram confiscadas, a Igreja começou a
ficar imensamente rica e senhora absoluta dos corpos, das mentes e das almas de milhões e milhões de
pessoas.

Moral da história: é a supressão violenta do paganismo no mundo Mediterrâneo que determina, muito mais
que os eventos políticos, o fim duma esplendorosa cultura milenar conhecida com o nome de Antiguidade. A

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partir daquele momento a Europa regride sob todos os aspectos e começa aquela fase que os historiadores
chamam de Idade Média ou, também, de Idade das Trevas.

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AS RAÍZES RELIGIOSAS E CULTURAIS DA EUROPA MODERNA

Se tem uma coisa que o Vaticano jamais conseguiu engolir é a ausência total, no texto da Constituição
Europeia de 2003, de qualquer referência às “raízes judaico-cristãs” da Europa.
Objetivamente, as "raízes cristãs" da Europa são uma realidade óbvia e incontestável, assim como o seria a
afirmação que, em sua maioria, os europeus têm pele branca ou que a Europa faz fronteira com o Oceano
Atlântico. Trata-se de fatos independentes da nossa vontade dos quais não faz sentido se vangloriar ou se
envergonhar, a não ser que sirvam para estabelecer um programa, um modelo cultural ou uma limitação.
Mencionar, por exemplo, as "raízes brancas" da população, além de supérfluo, soaria como uma indicação
de delimitação desejável ou orientação preferencial para o futuro. Analogamente, falar em “raízes cristãs”
poderia ser interpretado como vontade de coibir políticas laicas e/ou a difusão de outros credos diferentes.
Portanto, melhor não escrever nada ou, caso contrário, pelo menos acrescentar também uma referência às
origens greco-romanas da civilização ocidental, assim como sugeriu recentemente um famoso líder italiano
dum partido de centro-direita.

O eminente filósofo e semiólogo Umberto Eco observou, numa entrevista de 2007, que “A Europa surge
sobre raízes que não são apenas judaico-cristãs, mas também greco-romanas. À parte a história da arte ou
a função do imaginário mitológico em toda a poesia europeia, sem Platão e Aristóteles nem sequer a
teologia cristã teria existido; não é preciso recordar a presença do direito romano nas instituições
europeias, e o latim que se gostaria de introduzir novamente na missa foi inventado pelos pagãos e só se
tornou cristão por direito hereditário. Mas talvez essas coisas sejam esquecidas porque as raízes cristãs
têm um lobby poderosíssimo a apoiá-las, ao passo que as greco-romanas interessam apenas a alguns
professores do ensino médio”. E, realmente, o pensamento filosófico da Antiguidade pagã, com sua
densidade intelectual, é muito mais radicado e profundo do que as poucas palavras de Eco possam sintetizar,
tanto que os próprios termos filosofia e filósofo foram inventados por Pitágoras no VI século antes da nossa
era. Não é difícil constatar, mesmo mediante uma simples reconstrução esquemática, como a edificação da
filosofia ocidental não apenas tenha o seu fundamento no pensamento clássico (pagão), mas nele encontre a
formulação original de suas categorias fundamentais e de seu aparelho conceitual.

Com efeito, ninguém pode negar que a tradição pitagórica, com seus princípios lógicos e metafísicos bem
mais antigos que o cristianismo, tenha -durante dois mil e quinhentos anos seguidos- influenciado a ciência,
a literatura, a medicina, a jurisprudência, a arquitetura, a pintura e a escultura. Podemos afirmar, com
absoluta segurança, que Pitágoras constitui o alicerce de toda a nossa cultura contemporânea. Até Bertrand
Russell, o lógico britânico famoso pelo seu ceticismo, afirmou desconhecer “qualquer outro homem que
tenha tido tanta influência no âmbito do pensamento” e o seu colega e amigo, o matemático Alfred
Whitehead disse que toda a nossa tradição filosófica ocidental “consiste numa série de notas de rodapé a
Platão”, que foi o mais importante seguidor de Pitágoras. Sendo, enfim, que Aristóteles foi aluno de Platão,
eis que as “raízes pagãs” da Europa se tornam bem mais expressivas e qualitativamente diferentes daquelas
judaico-cristãs, de cunho messiânico, importadas, para não dizer contrabandeadas, das áridas estepes do
Oriente Médio.

Com o triunfo esmagador da religião cristã, a partir do fim do V século e durante boa parte da Idade Média,
qualquer ambição utópica teve, como ponto de referência, o fulcro próprio do Cristianismo marcado, por sua
vez, pelas etapas progressivas da afirmação do Reino de Deus, do início dos tempos até o Apocalipse final.
No entanto, é importante sublinhar que, na verdade, a metafísica de Pitágoras -milenarista mas, ao mesmo
tempo, isenta de implicações escatológicas- desconhece a noção de “Julgamento Final” privilegiando a
metempsicose com seus ciclos de purificações sucessivas atuadas, inclusive, mediante o estudo sendo, a
ignorância, considerada uma culpa. Num sentido culturalmente mais abrangente, toda a metafísica pitagórica
nada tem a ver com o conceito hiper-racional típico do mundo moderno caracterizado por uma linearidade
lógico-temporal irreversível filha, por sua vez, das escatologias monoteístas propaladas pelas religiões
abraâmicas. É justamente da secularização da concepção cristã da História, adicionada de uma boa dose de

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messianismo, que nascem as ideologias totalizantes e materialistas (em particular o marxismo, mas também
o capitalismo) baseadas sobre a convicção que o devir histórico represente a realidade última e que apenas
com o progresso material será possível alcançar a perfeição e a felicidade terrena, mesmo que isso implique
a implementação de violentos programas sociais.

Infelizmente, a transposição secular do aparelho dogmático da doutrina cristã, diametralmente oposta ao


pensamento pitagórico mas consagrada pelo pensamento de Santo Agostinho que admite o utilizo da tortura
e da pena capital para o “bem das almas”, irá estabelecer, em forma ainda mais assertiva e dramática, a base
secular dos totalitarismos do século XX. Pitágoras, porém, recusa a concepção linear da História preferindo
uma visão cíclica na qual não cabe um progresso ilimitado da tecnocracia e da engenharia social a serem
atuadas custe o que custar. Ao contrário, para esse filósofo o Universo é igual um imensa rede na qual todos
os entes e os eventos estão entrelaçados entre si sendo, o ser humano, não o senhor, mas apenas um aspecto
de toda a textura cósmica. Pitágoras afirma que “tudo está repleto de deuses” e, desse axioma, descende uma
visão sagrada segundo a qual tudo, na natureza, merece ser respeitado e não apenas a dimensão humana.
Consequentemente, do legado desse nobre pensador nascem temas surpreendentemente atuais como a paz, a
concórdia, a meditação, a sobriedade, a harmonia, o vegetarianismo, o respeito pelas criaturas viventes, etc.
Para comprovar que não se trata duma interpretação forçada de época contemporânea, basta ler o que
escreve o filósofo neoplatônico Porfírio de Tiro (IV século) quando compara as comunidades dos Essênios
com aquelas dos pitagóricos. Vigoravam, para ambas, regras de vida austera e reservada, consagrada à
meditação, aos rituais e ao estudo; o juramento de não revelar os segredos, refeições em comum, coesão e
solidariedade entre os membros do grupo, respeito pela vida, abstinência da violência, amor ao próximo,
adoração da Divindade, castidade, etc.

Um extudo sério e aprofundado das orígens da sapiência pagã, revela que, junto à metafísica platônica
nascem, no resto do mundo, movimentos filosóficos e espirituais de suma importância como, por exemplo, o
Confucionismo na China, o Budismo na Índia e o Zoroastrismo na Pérsia. Sempre no VI século, no norte da
Grécia (Trácia), aparece um novo movimento religioso, o Orfismo, caracterizado por dois elementos
basilares. Antes de tudo a crença na origem divina e na imortalidade da alma; em segundo lugar, a
necessidade de evitar a perda dessa imortalidade levando uma existência pura, respeitosa da Justiça e da Lei,
e lutando incessantemente para livrar o corpo das paixões, da cobiça e da concupiscência. Em prática, buscar
a luz do Bem, semear a bondade e se afastar da matéria em direção da Contemplação. Esse conceito de luta
moral e espiritual, capaz de elevar o homem além da dimensão material de sua existência, acabará
ultrapassando o âmbito do Orfismo vindo a ser o sustentáculo de toda a metafísica especulativa, de Platão a
Plotino. A própria Gnose, de derivação cristã, pode ser considerada a prossecução ideal do Orfismo e de
seus Mistérios. De fato, essa antiga sapiência esotérica e mistérica continuará homogênea e ininterrupta até a
intervenção violenta do cristianismo contra todas as doutrinas tidas como “pagãs” pois, para a nova religião,
o Bem em si não tem valor se não for oriundo de Cristo.

Sobre o conceito de imortalidade da alma (psyché), Platão afirma, em sua obra “Apologia de Sócrates”, que
a alma é a parte mais importante do ser humano, a sua essência, e que é imperativo fazer com que ela se
torne bondosa, porque é assim que nós obedecemos à vontade do Deus. Por outro lado, se a alma é eterna,
significa que existe desde sempre e todo o processo de aprendizado consiste na diuturna remembrança
(anamnési) da nossa verdadeira identidade até nos tornarmos cientes do que realmente somos. Destarte
Platão interpreta o imperativo délfico “Gnothi seautón” mais conhecido na sua tradução em latim de Santo
Ambrósio “Nosce te impsum” (Conhece a ti mesmo) que aparecia no pátio do Templo de Apolo em Delfos,
saqueado e totalmente destruído pelos cristãos em 390 d.C. Com efeito, o autoconhecimento tem sido a
direção privilegiada da pesquisa dos filósofos dos tempos antigos, como Lao Zi, Buda, os estudiosos das
Upanishads, Sócrates e até uns Profetas de Israel.
Hoje sabemos que na fachada do Templo de Apolo, além do mote “Gnothi seautón”, havia uma grande “E”
(épsilon) cujo significado foi esclarecido pelo historiador platônico Plutarco que, na última parte de sua
vida, foi sacerdote nesse mesmo templo. De acordo com ele, a “E” significaria “Ei” que, em grego, quer
dizer “Tu és” e, junto com o outro lema “Conhece a ti mesmo” formaria o conceito “Tu és o Ser que não
morre, o Ser Supremo de tudo o que existe, enquanto nós mortais somos apenas aparências do ser”.

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Plutarco, em seus livros, explica que “Toda a natureza é mortal [...] Ao contrário o Deus é. Por isso temos
que proclamar Tu és. Ele existe não no tempo, mas na eternidade imóvel, sem tempo, sem mudanças, e não
admite nem o antes e nem o depois, nem um futuro e nem um passado, nem velhice, nem juventude. Sendo
único, Ele abarca a eternidade em seu único presente, e o que existe nestas condições, não está realmente
adstrito nem ao passado e nem ao futuro, nem ao começo nem ao fim. É portanto assim que os seus fieis
devem cumprimentar o Deus dirigindo-se a ele com a locução Tu és”. Quem leu as “Confissões” de
Agostinho de Hipona e admira a forma brilhante com a qual esse santo definiu a eternidade (Praesens autem
si semper esset praesens nec in praeteritum transiret, non iam esset tempus, sed aeternitas), pode constatar
que esse conceito já se encontrava no pensamento do pagão Plutarco, que viveu três séculos antes de
Agostinho.
A tradição iniciada com Pitágoras e Platão continuou intacta durante toda a Antiguidade encontrando em
Plotino (III século) novo vigor num ambiente em que o Cristianismo já mostrava uma postura assertiva com
relação às outras religiões do Império Romano.

Plotino, fundador do Neoplatonismo junto com o filósofo Amônio Sacas, ensinou que existe um Ser
Supremo, totalmente transcendente o "Um" que, além de todas as categorias do ser e não-ser, representa a
primeira hipóstase, ou seja, a primeira realidade existente. O “Um” não pode ser definido mediante atributos
e nem podem ser atribuidos a Ele pensamentos, vontades ou qualquer outra atividade, muito menos o
finalismo. Plotino chega a negar até que o “Um” tenha uma consciência própria e dEle pode-se dizer apenas
uma coisa: que existe e nada mais do que isso. Então, como pode acontecer que todas as coisas sejam
geradas pelo “Um”? Decerto não por causa de sua vontade -como alegado pela tradição judaico-cristã-
porque um ato de vontade seria sinal de imperfeição (querer algo significa ter alguma necessidade, e isso vai
de encontro à perfeição). De acordo com Plotino, o Universo é gerado pelo “Um” por emanação espontânea,
assim como o Sol irradia a luz e o fogo emite calor. Por sua vez, do “Um” emana a Inteligência e da
Inteligência emana a Alma: estas são as três hipóstases, a resposta –por sinal bem mais elegante- da filosofia
neoplatônica à concepção trinitária cristã. Os modernos teólogos reconhecem que o formidável trabalho de
síntese entre a filosofia clássica e o pensamento cristão realizado por Tomas de Aquino, tenha seus
fundamentos mais em a Plotino que não em Aristóteles.

Tudo quanto exposto nos parágrafos anteriores comprova, como disse Umberto Eco, que, sem o suporte da
imensa construção conceitual realizada pelos grandes filósofos clássicos, a doutrina cristã nem sequer
existiria. E gera um sentimento de grande tristeza, se não até de revolta, constatar que ainda hoje a
dominante cultura cristã aponta (em livros, artigos, filmes e novelas) a cultura pagã como sendo bárbara,
grosseira, materialista, ignorante, hedonista e intolerante, exatamente o oposto do que foi na verdade. O
desprezo pela antiga sapiência clássica é patente naquelas Nações europeias ortodoxas (Grécia, Montenegro,
Sérvia, Bulgária e Romênia) onde, durante a missa do domingo, são lidos os preceitos contra a matemática,
a geometria, a ciência, a filosofia dos idólatras e, naturalmente, contra Platão! Se realmente um dia se tornar
necessário integrar a Constituição Europeia com alguma referência às suas legítimas raízes, então seria bem
mais justo e oportuno citar a origem greco-romana do pensamento Ocidental, gerador e garante daquela
Liberdade da qual nós todos beneficiamos cotidianamente.

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ÉTICA E MORAL NA ROMA PAGÃ

Antes de entrar no vivo do assunto, é oportuno esclarecer a diferença entre as duas palavras: Ética e Moral.
Uma definição de Moral pode ser a seguinte: “Preceitos e regras que governam as ações dos indivíduos,
segundo a justiça e a equidade natural”. Quanto à Ética, o dicionário nos fornece a indicação: “Segmento da
filosofia que se dedica à análise das razões que ocasionam, alteram ou orientam a maneira de agir do ser
humano, geralmente tendo em conta seus valores morais”. Em síntese, a Moral (comportamento regulado
pelas leis) é uma condição que se modifica com o passar do tempo e do espaço enquanto a Ética
(comportamento tido como correto do ponto de vista filosófico) é o conjunto de valores eternos e imutáveis
em sintonia com a Divindade. Se, por exemplo, a decência sempre foi inata em todos os povos do mundo, a
forma prática de vivenciá-la, o pudor, depende da época e do lugar. Hoje ninguém se escandaliza (pelo
menos no Ocidente) diante de uma moça vestindo uma minissaia mas, cem anos atrás, essa moda teria sido
um caso de polícia. Atualmente, a visão que quase todos temos sobre a Moral na Roma pagã é o resultado de
séculos de propaganda enganosa e maniqueista. De um lado havia os cristãos: limpos, honestos, pacíficos e
democráticos; do outro, os gentios: feios, arrogantes, sórdidos e violentos. Uma literatura de baixo quilate,
aliada com uma cinematografia totalmente parcial e ante-histórica, fizeram com que a palavra paganismo se
tornasse sinônimo de depravação, principalmente no que diz respeito aos costumes sexuais. O público,
assistindo filmes e novelas, aprendeu logo a reconhecer a arquétipo do pagão, quase invariavelmente
apresentado como sendo um vilão turvo, falso e covarde ao extremo. Entretanto, a realidade histórica é
totalmente diferente dos padrões de Hollywood ou das Redes televisivas do Brasil e, nesse texto, serão
apresentadas e explicadas as grandes virtudes éticas e morais da civilização que está à base de todo o
moderno mundo ocidental: a de Roma pagã.

No mundo romano a vida sexual das pessoas era sujeita a regras aparentemente contraditórias e estranhas à
nossa mentalidade moderna. Se, por um lado, o sexo era tido como uma dádiva dos deuses e, portanto, lícito
em quase todas suas formas nos ambientes oportunos (casa, postríbulo, etc.) ninguém podia se beijar em
lugares públicos, nem os casais, que estavam até proibidos de manter o mais inocente contato físico, como
andar de mãos dadas. No mundo clássico a nudez feminina não era apreciada e as mulheres romanas se
ofereciam a seus amantes rigorosamente penteadas e enfeitadas com vários adornos (gargantilhas,
braceletes, armilas, tornozeleiras, etc.) enquanto que nas estátuas e nas pinturas havia sempre algum
acessório cobrindo, pelo menos, os seios. Somente os deuses e os heróis eram representados nus, ou seja,
despidos dos instintos e de todas as formas mentais que podiam cobrir a verdadeira essência divina do ser
humano. Por sinal, nas estátuas dos guerreiros e dos atletas o pênis era exageradamente pequeno, quase
infantil, a significar a grandeza moral do personagem distante dos prazeres carnais. A própria palavra Eros
tem a mesma raiz que a palavra herói, sendo este último aquele que incorporava o amor puro, ou seja, a
força que o fazia ascender ao Olimpo depois de ter enfrentado os monstros escondidos nas profundezas da
alma humana. Destarte, os deuses romanos e gregos simbolizavam forças cósmicas retratadas em sua beleza
absoluta, em equilíbrio e em harmonia com a Natureza. Quando um antigo Romano (um Grego ou um
Egípcio) entrava num templo, sempre se deparava com imagens esplendorosas de beleza e triunfo que
apontavam o caminho da realização espiritual portadora, por sua vez, de glória, alegria e felicidade. Os
Antigos pagãos valorizaram sumamente a justiça, jamais a ignomínia, a traição e o perdão dos malfeitores;
eles viveram o reino de Júpiter na terra, sem cultivar em suas mentes a ilusão de que um dia ele iria descer
do Olimpo para salvá-los.

O alicerce da cultura romana, desde os tempos mais antigos, foi o respeito dos costumes (mores) dos
antepassados. “Mores” é o plural de “mos” de onde deriva a moderna palavra morigerado e representavam
as crenças e os ritos cuja função era agregar as várias camadas sociais num só corpo harmônico e funcional.
Em época imperial os “mores” adquiriram uma conotação ainda mais profunda de ideal social, virtudes
necessárias para a realização do bem coletivo e do próprio Estado visto não como aparelho de domínio e de
repressão, mas como expressão da coesão popular. Não é por nada que, nos lábaros, nas moedas, nos
edifícios público e nos templos, sempre aparecia o acrônimo S.P.Q.R. (Senatus PopulusQue Romanus) que

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significa O Senado e o Povo Romano, ainda utilizado como símbolo da moderna cidade de Roma. Na Roma
antiga a Lei, emanada pelo poder legislativo do Senado em nome e no interesse do “Populus”, era tida como
o princípio ético mais elevado, em oposição ao qual nem mesmo Júpiter, o maior de todos os deuses, podia
ir: isto porque Júpiter era a personificação da própria Lei e, por isso, não podia ir contra si mesmo. De forma
geral, e com as devidas exceções, o respeito pela Lei era tão incontestável que, apesar de seus fortes
sentimentos paternos, uma pública Autoridade não teria hesitado em punir o filho, mesmo quando a punição
tivesse sido a pena capital: é o caso do cônsul Tito Mânlio Torquato que baniu seu filho Décimo, acusado de
malversação, o qual acabou se suicidando pela vergonha. Pense agora o leitor se um político de hoje teria o
mesmo rigor moral do pagão Tito Mânlio ou se os corruptos, quando flagrados, costumam cometer
suicídio...

A palavra Mores deriva do grego “Moirai” que, na mitologia grega, eram as três irmãs que determinavam o
destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos e, do ponto de vista ético e moral, todos os preceitos
dos Antigos Romanos podiam ser sintetizados em cinco virtudes fundamentais: Fides, Majestas, Virtus,
Gravitas e, talvez a mais importante, Pietas.
Essa palavra não deve ser confundida com o moderno vocábulo “piedade”. Ela tinha mais os significados de
devoção, patriotismo, proteção e respeito pelos deuses, pela Pátria, pelos pais, pelos parentes, pelos
subalternos e até pelos escravos. Na começo da época republicana a Pietas se referia à família, à confiança e
ao respeito entre os cônjuges, em seguida passou a indicar a relação entre o homem e a divindade, no sentido
de dever moral na observância dos ritos (o Cultus) e de respeito aos deuses. Cícero dizia que "a piedade é
justiça dirigida aos deuses" e, como tal, requeria a observação cuidadosa dos rituais e a execução adequada
de acordo com as prescrições duma tradição milenar; por outro lado, a mesma palavra indicava também a
retidão da pessoa. Por esse motivo os cristãos, recusando-se de observar os ritos (mesmo que de maneira
puramente formal), eram considerados ímpios e inimigos não apenas dos deuses, mas de toda a humanidade.
A prática ritual da Roma antiga colocava o homem diretamente em relação com as forças divinas e o aparato
da Pietas se baseava principalmente no respeito pela palavra dada na interação com a divindade. O fiel era
forçado a fazer o que havia prometido em troca do que havia pedido e recebido; caso ele não cumprisse com
sua palavra o castigo divino iria atingi-lo inexoravelmente. Com esse sistema ritual os cidadãos tiveram que
se acostumar a uma correta postura de responsabilidade moral que, com o advento do cristianismo, tornou-se
desnecessária. Graças à política de perdão ilimitado obtida em troca de uma confissão, de umas jaculatórias
e de uma penitência simbólica, até os meliantes mais depravados se acostumaram a não ter que pagar -pelo
menos espiritualmente- por seus erros e crimes.

Ao contrário da moral cristã, que se contentava com a salvação individual do fiel sem se preocupar com a
dignidade pessoal e coletiva, a Pietas pagã estimulava o desenvolvimento espiritual do cidadão e a difusão
dos mais altos valores éticos do ser humano -aqueles que o sublimavam para a Ascensão Olímpica- para que
novas estrelas pudessem se acender na escuridão da noite mental. O filósofo empirista britânico David
Hume (1711-1776) sublinhou essa diferença citando o caso do general espartano Brásidas que, por ter
sacrificado a sua vida na batalha de Anfípolis (421 a.C.), recebeu a honra excepcional de ser enterrado no
interior das muralhas daquela cidade. Narra a lenda que o próprio Brásidas uma vez capturou um rato mas,
tendo sido mordido, o soltou dizendo que “Não existe nenhum ser que, mesmo sendo desprezível, tendo a
coragem de se defender não possa se salvar”. Com o ocaso da Antiguidade, os heróis pagãos foram
substituídos com os santos católicos. Em lugar de Hércules, Teseu, Hector, Rômulo, etc. surgiram Francisco,
Domingo, Catarina, Antônio e muitos outros. As portas do Céu, que antes se abriam seletivamente para
receber os intrépidos que haviam vencido monstros, derrubado tiranos, defendido a pátria, expulso
invasores, debelado epidemias, agora se escancaravam diante daqueles que haviam praticado a penitência, a
covardia, a humildade, a vil submissão e a obediência servil. Tudo isso enquanto o mundo precipitava numa
nova Era das Trevas, as mesmas que o último hierofante de Elêusis profetizou quando, em 396 d.C., a
multidão cristã, cheia de loucura mística, atacou o santuário para destruí-lo e pôr fim àqueles Mistérios
clássicos que haviam permitido aos homens de boa vontade de por em prática o aforismo “Conhece a ti
mesmo”.

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A Fides significava, lealdade, fé, e confiança recíproca entre os cidadãos, mas também verdade, honestidade
e a capacidade de confiar na palavra dada, sem contratos escritos ou testemunhas. Da palavra Fides derivou
a expressão “Bona Fides” (boa fé) que se tornou um termo legal, um importante princípio jurídico no qual se
presume que as pessoas agem com boas intenções na realização dos negócios. No direito romano, a fides era
extremamente importante, pois, como em todas as culturas antigas, os contratos verbais eram muito
frequentes no cotidiano. Destarte a boa fé permitia transações comerciais feitas com maior confiança.
Inclusive a Fides era também fundamental no relacionamento entre os cônjuges: caso a boa fé tivesse sido
traída, a pessoa lesada podia apresentar queixa contra a outra que não respeitou a boa fé. É interessante notar
que a Fides era representada como uma idosa de cabelos brancos, sendo entendida como mais velha que o
próprio Júpiter. Desta maneira pretendia-se transmitir a noção que a palavra dada, o compromisso, eram a
base mais antiga e segura da sociedade e da ordem política. Atualmente alguém se arriscaria a acreditar na
boa fé dum político, em suas promessas mesmo que proferidas de forma solene diante das câmeras da TV?

A Majestas indicava a dignidade do Estado como representante do povo e, de reflexo, o orgulho patriótico
de ser parte desse mesmo povo. Essa virtude, transitando das primeiras instituições republicanas ao império,
fez com que o próprio Imperador estivesse investido da mesma majestade dos antigos Pais da Pátria. Daí o
crime de lesa majestade, ou seja, crime contra o Estado para aqueles que, por exemplo, deturpavam obras
públicas, celebravam festas em dias de luto ou se recusavam a mostrar respeito para com o Imperador ou o
Senado; nesse caso as punições podiam ser graves, porque o crime era visto não apenas como ofensa a uma
pessoa física, mas como um agravo dirigido a toda a comunidade que os órgãos do governo romano apenas
representavam. Para os Cristãos, que –em oposição aos Romanos- se consideravam o “povo eleito”,
homenagear a figura do Imperador era tido como ato de apostasia, uma forma pecaminosa de venerar a
encarnação do mal absoluto e, consequentemente, inaceitável. Quando núcleos cada vez mais numerosos de
Cristãos não apenas se recusaram de jogar uns grãos de incenso sobre os altares dedicados à divindade
imperial, mas começaram a comparar o Estado romano à Grande Babilônia, à Grande Meretriz, iniciaram,
inevitavelmente, as perseguições que, nunca vou me cansar de repetir, jamais tiveram um caráter religioso
(os Romanos foram o povo mais tolerante do mundo!), mas exclusivamente político.

A Virtus vem da palavra latina “vir” que significa virilidade, e era a disposição da alma para o bem, a
capacidade de uma pessoa se sobressair em alguma coisa, de realizar um certo ato de maneira ideal, de ser
virtuoso como "forma perfeita de ser" vindo a constituir o ideal do verdadeiro homem romano. O poeta Caio
Lucílio afirmava que era Virtus saber o que é bom, mau, inútil, vergonhoso ou desonroso. Originalmente, a
palavra designava o valor do guerreiro ou do herói durante uma batalha, extendendo-se, em seguida, a outras
atividades. A Virtus era tal apenas se não fosse colocada ao serviço de objetivos pessoais, como a busca pelo
poder, mas pelo interesse da comunidade romana. A Virtus transmitia-se de pai para filho e os descendentes
de homens virtuosos eram moralmente obrigados a seguir os passos de seus pais e provar que eles mesmos
tinham Virtus. Então a partir do primeiro século a.C. surgiu a ideia de que essa virtude não era apenas
hereditária, mas também um liberto podia obtê-la com seus atos e superar os feitos dos ancestrais.
Sucessivamente, para os filósofos estoicos como Sêneca e Epiteto, a Virtus era interpretada como a atitude
justa e positiva em relação aos sofrimentos, às doenças e à morte. Era uma ética do dever resumida por
Epiteto no famoso lema "suporta e abstenha-te", que não deve ser entendido como um convite para suportar
a dor e abster-se dos prazeres, mas para ter a hombridade de acolher serenamente aquilo que o destino nos
reserva evitando o inútil envolvimento emocional.

Gravitas não deve ser confundida com a palavra moderna gravidade, mas resume todas as regras de conduta
do romano tradicional: respeito pela tradição, seriedade, dignidade, autoridade e autocontrole. Perante as
adversidades, um "bom romano” devia permanecer imperturbável, como Caio Múcio Cévola que, ameaçado
de tortura pelo rei etrusco Porsena caso não tivesse fornecido informações militares sobre Roma, colocou
sua mão direita no fogo com grande Gravitas, de modo que o rei, surpreendido por tanto valor, renunciou à
conquista de Roma.

Outro valor importante era o Cultus que consistia na correta execução dos rituais, única forma para
satisfazer aos deuses e obter seus favores, pouco importando o real sentimento dos fiéis. Com efeito, os

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deuses romanos não pediam para serem amados e nem que alguém se sacrificasse para eles. As doações
nunca visavam agradá-los de antemão. Somente depois de eventualmente terem recebido uma graça as
pessoas agradeciam com epígrafes ou estatuetas especificando que a Divindade havia se comportado bem
com o fiel e que, por isso, estava sendo recompensada com o dom de um objeto. O conceito de “bom
comportamento de Deus” causaria arrepios entre os adeptos das religiões monoteístas, onde o amor para
com Deus é o mesmo do escravo para o seu patrão pois, objetivamente, tudo o que Deus faz (ou se reputa
que faça) é bom, até mesmo uma catástrofe ou a morte dum familiar, porque Deus tem o direito de castigar
sem motivo, apenas para testar a fé. Para os antigos romanos, quando ocorria uma catástrofe natural, os
deuses ficavam tristes, e se uma batalha era perdida, eram culpados outros deuses devendo, no caso, serem
multiplicadas as ofertas. De alguma forma o castigo divino estava fora de cogitação. O homem não devia
apenas suportar os desastres com resignação, mas intervir e se esforçar para mudar o curso dos eventos.
Com o advento do Cristianismo, começaram a prevalecer sentimentos de fatalismo e de passividade total
que, juntos, serão entre as causas principais da queda do Império.

Em resumo, a sociedade romana, embora não isenta de vícios, pôde contar com uma classe política
composta, em sua grande maioria, de homens virtuosos (Viri) que, incorporando uma ética superior, se
dedicaram à administração da realidade social, tendo sempre em mente as necessidades da totalidade dos
componentes do Estado: os plebeus, os patrícios, os idosos, os órfãos e até os escravos. Neste processo, a
legislação e a construção do direito desempenharam um papel importante, uma vez que a Lei era o
denominador comum fundamental que unia as várias culturas conglobadas pelos Romanos. Eles nunca
impuseram sua religião oficial e suas tradições, permitindo, pelo contrário, o cultivo daquelas dos inúmeros
povos do Império.
Essa foi Roma, uma sociedade que fincava seus profundos alicerces no respeito da Lei e na meritocracia;
uma cultura onde o poder público, desdenhando ser mantido pelos cidadãos, não poupava esforços para
socorrer as classes mais humildes e garantir, àqueles que haviam conquistado o título de cidadão romano, os
direitos que lhe eram devidos. Até quando em Roma continuaram vigorando os antigos valores (os Mores) o
Estado conseguiu superar todas as crises políticas, militares e sociais garantindo o constante avanço do bem
coletivo. Quando, porém, as virtudes foram substituídas pela nova ideologia religiosa -intolerante e
totalizante- o fim não demorou muito para aniquilar o que, por mais de mil anos seguidos, havia sido o mais
fantástico Império de todos os tempos.

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A VERDADEIRA ORIGEM DO CRISTIANISMO

Quem pensa que Jesus tivesse a intenção de fundar uma nova religião pode estar enganado. São as própras
palavras de Cristo que iluminam a sua posição em realação à lei mosaica: “Não penseis que vim destruir a
Lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir.” (Mateus 5:17); “É, porém, mais fácil passar o céu e a
terra do que cair um til da Lei.” (Lucas 16:17). A absoluta ortodoxia de Jesus é confirmada pelo Evangelho
no versículo seguinte: “e rogaram-lhe que apenas os deixasse tocar a orla do seu manto; e todos os que a
tocaram ficaram curados” (Mateus 14:36). A interpretação desse passo confirma a vontade do Mestre de
cumprir o mandamento de Moisés expresso nas prescrições do Antigo Testamento: “Disse mais o Senhor a
Moisés: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes que façam para si franjas nas bordas das suas vestes, pelas
suas gerações; e que ponham nas franjas das bordas um cordão azul. Tê-lo-eis nas franjas, para que o
vejais, e vos lembreis de todos os mandamentos do Senhor, e os observeis; e para que não vos deixeis
arrastar à infidelidade pelo vosso coração ou pela vossa vista, como antes o fazíeis; para que vos lembreis
de todos os meus mandamentos, e os observeis, e sejais santos para com o vosso Deus.” (Números 37:40).
Consequentemente, a pequena comunidade fundada por Jesus não pretendia ser a base de um movimento
completamente novo, mas apenas uma corrente reformadora do Hebraísmo da época, que aguardava o
advento do Reino de Deus, ou seja, a libertação política de Israel do invasor romano e a instauração de um
reino terreno de paz, fraternidade e justiça social, conforme à vontade de Javé. Destarte, os discípulos de
Jerusalém, mesmo depois da morte de seu líder, jamais tentaram se afastar dos preceitos mosaicos e, até o
fim da Guerra Judaica (70 d.C.) continuaram se considerando israelitas ligados às tradições e ignorando
totalmente o significado da palavra “cristão”, pelo menos no sentido de nova religião.

O Prof. H. A. Wolfson, prestigioso historiador da universidade de Harvard e primeiro presidente do Centro


de Estudos Judaicos, explica que o Cristianismo inicial, fora da Palestina, sofreu um grande influxo de
“gentios de formação filosófica” e que “por trás da despretensiosa linguagem que as Escrituras gostam de
usar, estão ocultos os ensinamentos dos filósofos enunciados nos obscuros termos técnicos cunhados em
suas Academias”. Isso não é novidade, e já no fim do III século o filósofo neoplatônico Porfírio de Tiro,
discípulo de Plotino e opositor do cristianismo, afirmava que o monoteísmo cristão era um politeísmo
disfarçado porque, ao lado de Deus, havia os anjos (que Platão chamava de daimónios), que são seres
imortais e, portanto, divinos. Quanto à encarnação do filho de Deus era igualmente absurda: objetivamente,
se os cristãos acusavam os pagãos de acreditar que as divindades viviam nas estátuas, era tolice pensar que a
divindade morasse no ventre da virgem Maria. E como admitir que um filho de Deus pudesse sofrer? Entre
outras, Porfírio suscitou a seguinte pergunta “Baseia-se a fé cristã na pregação de Jesus ou nos conceitos
forjados por seus discípulos nas gerações posteriores à sua morte?” observando que “Foram seus
seguidores que abandonaram seus ensinamentos e introduziram por conta própria um novo modo, em que
Jesus (não o Deus único) era objeto de adoração e de culto”. Porfírio tocou fundo numa questão
perturbadora para a liderança cristã quando publicou essa sua tese no livro “Contra os Cristãos” composto
por 15 volumes que foi sucessivamente queimado publicamente na metade do IV século a mando do
Imperador; todas as cópias desse texto foram aniquiladas e o pouco que hoje se sabe é oriundo de citações
de outros Autores. Antes de tentar dar uma resposta à pergunta de Porfírio, é oportuno analisar os elementos
estranhos à legítima mensagem de Cristo, em particular o batismo e a confissão.

Muitos estudiosos repararam como o batismo, primeiro sacramento de iniciação ao cristianismo, fosse
totalmente desconhecido pela tradição judaica anterior. É verdade que tanto os Fariseus como os Essênios -
em conformidade com seus preceitos de pureza rigorosa, por sua vez derivados do sacerdócio babilônico-
realizavam diariamente inúmeros ritos de abluções purificadoras. Entretanto, não se pode admitir que se
tratasse de uma forma de iniciação como o batismo cristão que, sendo praticado apenas uma vez na vida,
tinha um significado de renascimento. Realmente nada semelhante é encontrado no Judaísmo que, quando
muito, conhecia complexos rituais de purificação lustral repetidos frequentemente, mas sem propósitos
iniciáticos. Vice-versa é amplamente comprovada a utilização de imersões rituais em piscinas como ato de
regeneração em ritos de iniciação nos templos do Antigo Egito. A imersão na água representava a descida de
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Osíris para o abismo enquanto a saída da água constituía o renascimento real. Nos “Textos dos Sarcófagos”
lemos: "no lago, recebi a coroa", sendo ela, nos antigos Mistérios, símbolo quase universal do renascimento
iniciático. Então de onde João Batista tirou esse conhecimento? Decerto não da tradição bíblica mas, mais
provavelmente, dos ensinamento dos Essênios, grupo ao qual havia pertencido.
Analogamente às considerações expostas sobre o batismo, também a instituição sacramental da confissão
cristã não encontra nenhum antecedente específico na religião judaica. Visando encontrar uma possível raiz
desse rito, mais uma vez temos que investigar os rituais nos templos do Egito onde era praticada a
“Justificação” durante a qual o adepto confessava suas culpas e recebia a absolvição pelos sacerdotes do
Templo de Osíris sendo, esse, o primeiro passo do percurso iniciático. O arqueólogo Ahmed Osman,
especialista em religiões, com base nos impressionantes paralelos entre o mito de Jesus e as histórias da
antiga religião egípcia -em particular o mito de Osíris- chegou à conclusão que os Evangelhos propõem a
representação de um Mistério que remonta ao Egito dos faraós.

Outros elementos que apontam para cerimoniais iniciáticos relativos aos antigos Mistérios pagãos, podem
ser encontrados, disfarçados, em versículos do Evangelho. Por exemplo, quando a Madalena entra no
sepulcro vazio de Cristo e se depara com dois anjos vestidos de branco perguntando-lhe o motivo do choro,
responde: “Porque tiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (João 20:13). Pois bem, essas palavras
são mais ou menos as mesmas proferidas por Ísis a respeito do esposo Osíris que havia sido assassinado pelo
irmão Set. Lamentações análogas eram pronunciadas nos Mistérios de Átis, deus da vegetação que, com sua
automutilação, morte e ressurreição, representava os frutos da terra, que morrem no inverno para brotar
novamente na primavera.
Até na liturgia católica há um elemento, o báculo, derivado do cajado (hekat) de Osíris e do faraó, e a
imagem original de Jesus como pastor nada teria a ver com o aspecto moralístico de sua pregação, sendo, na
verdade, uma representação tanto de Osíris como de Orfeu e até de Mitra. Vale também a pena lembrar a
praxe de inumar os papas (e só eles!) dentro de quatro revestimentos feitos com materiais diferentes
correspondentes aos quatro corpos subtis da tradição dos Egípcios que, oportunamente, sepultavam seus
faraós em quatro sarcófagos, um dentro do outro. Com efeito, a mais importante comunidade cristã dos
primeiros séculos não foi Roma, mas Alexandria -no Egito- e isso reforça a tese que a mensagem original de
Jesus foi profundamente adulterada por elementos extraídos das antigas religiões egípcias. No Egito foram
encontrados Evangelhos muito antigos, como os de Ossirinco, localidade relacionada com o mito do peixe
que havia engolido o falo de Osíris e, estranha coincidência, o primeiro símbolo do cristianismo foi
justamente um peixe.

Surge, agora, outra pergunta bastante intrigante: será que Jesus foi iniciado no Egito? Afinal as Escrituras
narram que ele e seus pais fugiram pra lá onde permaneceram um tempo até a morte de Herodes. E depois?
Onde Jesus transcorreu os seus primeiros 30 anos? Será que ele voltou ao Egito outras vezes? Pois é
evidente que lá devia ter algum ponto de apoio (parentes, uma comunidade, etc.). Inclusive, as tradições
apócrifas da Igreja copta e os Evangelhos da Infância falam em muitas localidades relacionadas à vida de
Cristo no vale do rio Nilo, sugerindo que a sagrada família teria passado um longo período em vários lugares
no Egito. Se a permanência do Mestre naquela região fosse comprovada, teríamos uma possível explicação
acerca dos ritos cristãos que não constam na antiga religião hebraica.
Outro elemento que sustenta a tese da influência egípcia sobre o nascente cristianismo é chrismon, um
símbolo não mais usado mas que todos conhecem. Trata-se do famoso monograma formado pelas letras
gregas X (chi) e P (ro), e que deve ser lido CR, as duas letras iniciais do nome Cristo; isso segundo a
tradição. Entretanto, poderia também derivar do Ankh, a cruz usada pelo culto egípcio para simbolizar a
vida, e é interessante notar que existem achados arqueológicos do II século mostrando o monograma de
Cristo apoiado sobre o barco solar do deus Râ bem ao lado dum Ankh (Museu Copto do Cairo, estela n.
7.730). Além disso, o discípulo de São Pacômio, fundador do monasticismo cenobita, foi batizado com o
nome Horsaesi que significa Hórus, filho de Ísis. Isso não deve nos surpreender, pois no cemitério
paleocristão de Terenuthis (70 km ao norte de Cairo) foi achada uma estela mostrando um cristão entre
Hórus e Anúbis. Lembramos, enfim, que junto às Igrejas Ortodoxa e Coptíca, São Cristóvão é retratado
como sendo um homem cinocéfalo, ou seja, com a cabeça de cão, igual a do deus Anúbis.

93
Mas se esses elementos iniciáticos não foram introduzidos por Jesus, então de onde surgiram? Os Apóstolos
eram pessoas humildes, ignorantes e, talvez com a exceção de Mateus e de Judas Iscariotes, basicamente
analfabetos. O único “apóstolo” culto foi Paulo de Tarso e toda a sua pregação foi fortemente caracterizada
por doutrinas de tipo helenístico que lhe permitiram de reinterpretar a mensagem original de Jesus. Nesse
sentido fica inadequado considerar Paulo como sendo o prosseguidor do movimento messiânico inicial
devendo, ao contrário, ser tido como o inventor do futuro Cristianismo. São Paulo continuou sim pregando o
Reino de Deus e a parúsia, mas num contexto totalmente diferente, universal, escatológico e completamente
desligado do problema da libertação política do povo de Israel. Embora os Atos tentem mostrar um
relacionamento pacífico entre Paulo de Tarso e os outros Apóstolos, uma leitura atenta das Epístolas revela
uma realidade tensa e dramática gerada pela tentativa (bem sucedida) de São Paulo de se afastar da Lei de
Moisés e transformar Jesus num ser divino, entrando em colisão com o conceito judaico de Messias. O
embate com Tiago, líder da comunidade hierosolimitana foi se acirrando progressivamente e acabou com a
tentativa de linchamento de Paulo no Templo de Jerusalém e a sua fuga definitiva da Palestina. Paulo era
oriundo da cidade de Tarso, importante centro comercial e intelectual cosmopolita. Em suas Epístolas, ele
mostra ter um profundo conhecimento da filosofia estoica e é extremamente provável que conhecesse a
fonte mais importante e evidente da conexão entre a antiga doutrina filosófica grega e a sapiência mistérica
do Egito e da Mesopotâmia: o Orfismo. A existência de uma alma individual e a sua imortalidade, a ideia de
um pecado original que determina o sofrimento de todos os seres humanos, a expectativa da recompensa
para os justos e da punição para os ímpios após a morte –todos elementos basilares da doutrina cristã- são
antecipados de vários séculos pelos Mistérios, em particular os do Orfismo.

Nos anos ’30 do século passado o estudioso católico italiano Vittorio Macchioro, depois de uma
aprofundada análise do Orfismo, suas origens, manifestações e difusão, atestou a sua influência sobre o
pitagorismo, as filosofias heraclitiana e platônica e, principalmente, o cristianismo paulino que, na visão do
Macchioro, teria o mesmo substrato mítico e teológico. Deve ser lembrado que Orfeu foi uma das poucas,
talvez a única, divindade pagã a não ser varrida pelo ódio propagandístico dos Padres da Igreja, que
adoravam exercitar suas habilidades dialéticas zombando das divindades anteriores. De fato, muitos Padres
indicaram em Orfeu uma prefiguração de Cristo que vence a morte; veja-se, por exemplo, Eusébio (Laudes
Constantini). Nem se pode esquecer de mencionar São Clemente, que elaborou uma exegese do mito de
Orfeu como símbolo do Logos crístico. Macchioro mostrou, de um lado, a clara descontinuidade entre o
Cristianismo e o Hebraísmo ortodoxo do Antigo Testamento e, do outro, a derivação órfico-mistérica da
cristologia paulina. Isso não seria novidade, pois o filósofo judeo-helenista Fílon de Alexandria já no I
século da nossa era apontou a origem pitagórica dos Essênios e, de consequência, a conexão entre essa seita
e o Orfismo. Objetivamente, o movimento dos Essênios nunca pertenceu legitimamente ao Hebraísmo
tradicional -que desconhecia os fenômenos religiosos de tipo monástico- sendo mais próximo às ágapes dos
Mistérios de Dioniso/Zagreu e à organização sectária dos pitagóricos que, como se sabe, levavam uma
austera vida em comum. Agora, se assumirmos que o Cristianismo possa ter sido, mesmo que não
completamente, originado nesses ambientes esotéricos judaicos dedicados a alguma forma local de Orfismo,
também encontraremos a explicação de porque os Ofitas (uma seita gnóstica, iniciatíca, do II século que
combinava elementos do culto à deusa Ísis, conceitos da mitologia oriental e aspectos da doutrina cristã) já
estavam presentes no cristianismo primitivo e se confundiam com ele.

O Orfismo era, sem dúvidas, uma religião soteriológica apta a consolar as pessoas humildes e oprimidas em
busca duma felicidade ultraterrena mas, por outro lado, respondia à necessidade de experimentar um
ascetismo ético que levava à libertação do mal: esses dois elementos tornaram o Orfismo extremamente
parecido ao Cristianismo. Seria todavia correto objetar que no Cristianismo falta totalmente o conceito de
metempsicose que está à base de todas as religiões mistéricas mencionadas até agora. Na verdade a ideia de
reencarnação (já elaborada na Índia nos Upanishads) não era completamente estranha ao Judaísmo, embora
não tenha sido um artigo de fé obrigatório. Em âmbito cristão o próprio São Clemente (Stromata 4:160) fala
de vidas "que se sucedem até nos levar à imortalidade" e acha que esta doutrina foi revelada diretamente por
via mística a São Paulo. Na visão desse “apóstolo dos gentios” Judaísmo e o Orfismo convergem no sentido
que o primeiro ensina que o pecado traz a morte, enquanto o Orfismo ensina que este pecado, ou seja a
morte, se encontra na carne e que, graças à comunhão com Deus, a morte pode ser vencida. A concordância

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entre Orfismo e paulinismo não poderia ser mais perfeita: ao Dioniso/Zagreu morto e ressuscitado por Zeus,
corresponde o Cristo morto e ressuscitado pelo Pai.
Além das referências citadas e das hipóteses eruditas, existe algo de mais “concreto” comprovando a
existência de um link entre Cristianismo primitivo e Orfismo? A resposta é positiva. Trata-se da "gema de
Berlim", parte da coleção Gerhard, encontrada no final do século XIX. É um objeto único, uma gema
representando um crucifixo encimado por uma lua crescente e sete estrelas com a inscrição "Orpheos
Bakchikos", provavelmente remontando ao II século. A autenticidade do objeto é claramente demonstrada
pelos sólidos argumentos do acadêmico Prof. Attilio Mastrocinque o qual explica que o manufato é cristão
sendo que o artista reconhecia no Cristo crucificado uma manifestação de Orfeu.

A estratégia apologética com a qual os cristãos enfrentaram o Orfismo consistia em mostrar como a tradição
grega apresentava continuidade com a tradição judaica e cristã segundo a qual Orfeu, que é o mais antigo
poeta, tornou-se estudante de Moisés através do poeta Museu. Acrescentamos, ainda, que a construção
mítica da história de Jesus histórico espelha o clichê das religiões mistéricas, onde um divino Soter
(salvador) derrota a morte. Este tema é típico das religiões pertencentes à tradição atlântica ocidental (veja-
se Julius Evola e René Guénon), cujas epifanias são Osíris, Adonis, Dioniso/Zagreus e o próprio Jesus dos
relatos evangélicos, principalmente os de Lucas e de João. A característica mais marcante destas divindades
mediterrâneas é a de replicar o ciclo de nascimento e morte do ano, com a ressurreição coincidindo com o
equinócio de primavera. A partir do III século e justamente em âmbito cristão, aparecem alguns detalhes do
desmembramento de Dioniso que favorecem uma leitura "sacrificial" do mito levando a uma óbvia analogia
com a morte de Jesus. Portanto, assim como o homem devia libertar-se da corrupção reunindo a sua natureza
dionisíaca em Dioniso/Zagreus, para Paulo de Tarso –em virtude do dualismo entre carne (Adão) e espírito-
o homem podia libertar-se renascendo de novo em Cristo. Destarte, como o cristão, de acordo com a palavra
do Evangelho, acredita na verdade histórica da paixão e ressurreição de Jesus e, realizando-a em si mesmo
obtém a vida eterna, da mesma forma o órfico atesta a realidade histórica do mito de Zagreus e, morrendo e
renascendo nele, atinge a beatitude. Outro elemento considerável nos permite assimilar Jesus com Dioniso:
esse último é o deus dos ciclos vitais, das festas, do vinho e, sobretudo, da intoxicação que funde o bebedor
com a deidade. E Cristo não afirma que: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o viticultor” (João 15:1)?
Logo, o poder do vinho é central em ambos os cultos e, assim como o Salvador irá instituir um sacramento
no qual o pão e o vinho se tornam o seu próprio corpo, no mito dionisíaco, o deus dará a duas de suas irmãs
a faculdade de transformar tudo em pão e vinho. Miguel de Jáuregui, professor de filologia grega da
Universidade de Madrid, resume o conceito com essa simples afirmação: “We can indeed suppose a direct
influence of Orphism on Christianity as the most probable explanation of some parallels, for which it is not
necessary to postulate an intermediary. The clearest case is that of the images about the fate of the soul after
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the death”. Palavras que, por sua vez, podem ser condensadas pela valiosa consideração de Macchioro: “O
Cristianismo, do ponto de vista moral é judaico, mas do ponto de vista religioso é grego”.

96
OS HORRORES DA INQUISIÇÃO

Esse novo texto representa a continuação ideal de um artigo anterior intitulado “Os Mártires na Antiga
Roma” no qual narrei a triste sorte daquelas mentes livres que se recusaram a abraçar a nova religião cristã
no Império Romano. Os fatos relatados no artigo citado chegam até o ano 528 d.C., quando o cristianíssimo
imperador Justiniano suprimiu, por decreto, a gloriosa Academia de Atenas onde haviam ensinado os
melhores filósofos da Antiguidade, começando por Platão. Uma lista parcial dos crimes da intolerância
cristã é tão longa que, mesmo sintetizando ao extremo, ocuparia dúzias e dúzias de páginas. Portanto,
visando não abusar da paciência do leitor, resolvi omitir muitos eventos importantes deixando em evidência
uns escolhidos quase que aleatoriamente.

Anos 532–562. O inquisidor Ioannis Asiacus, um monge fanático, lança uma primeira cruzada para
exterminar os pagãos da Ásia Menor. Em 546 centenas de Gentios são condenados à morte na cidade de
Constantinopla. O imperador Justiniano ordena que o inquisidor Amantius elimine os pagãos de Antioquia e
destrua todas as bibliotecas particulares. Seguidores do Elenismo são presos, torturados e executados nas
cidades de Atenas, Antioquia, Palmira e Constantinopla.

Ano 609. Novos massacres de Gentios na Inglaterra, Ilíria e Oriente Médio.

Anos 578–582. Os cristãos torturam e crucificam os pagãos em todas as províncias do Império Bizantino.
Em particular é atacado o templo de Zeus na cidade de Antioquia cujo sacerdote se suicida enquanto os
demais pagãos são presos e transferidos na capital. Depois de torturados são entregues aos leões para que
sejam devorados mas, como as feras não os atacaram, os condenados são todos crucificados e seus cadáveres
arrastados pelas ruas e deixados apodrecer nos lixeiros. Note o leitor que quando as feras não devoravam um
cristão, o fato era tido como prova da proteção divina!

Ano 590. Em toda a Europa Ocidental continuam sendo descobertas “conspirações pagãs”, duramente
reprimidas com crucificações, decapitações e empalamentos.

Ano 782. O imperador Carlos Magno ordena a decapitação de 4.500 Saxões por eles terem recusado o
batismo.

Mais ou menos a partir desse ano terminam as perseguições contra os pagãos que já haviam sido
exterminados ou forçados a se converterem ao cristianismo e começa a caça aos Judeus, tanto na Europa
como no Oriente Médio.

Ano 1096. Oitocentos Judeus são massacrados pelos católicos a Worms; mais 700 são eliminados na cidade
de Mainz, ambas na Alemanha. Dois anos mais tarde, 4.000 Húngaros são assassinados pelos Cruzados.

Ano 1099, 15 de Julho. 40.000 Judeus e Muçulmanos são degolados pelos Cruzados a Jerusalém.

Ano 1145. Cento e vinte Judeus assassinados na cidade de Colônia (Alemanha). Poucos meses depois, mais
cem Judeus perdem suas vidas a Sully e Ramerupt, na França.

Ano 1171. Dezoito Judeus são queimados vivos a Blois, na França.

Ano 1184. Visando reprimir o movimento dos Cátaros (cujos princípios morais são extremamente parecidos
aos dos Franciscanos), papa Lúcio III funda a Inquisição. É reconhecido o princípio que um processo possa
ser instaurado mesmo faltando testemunhas e com base em denúncias anônimas. Isso significa que qualquer
um pode ser investigado com base em simples suspeitas ou delações incontroladas. Começa uma era de
terror onde as vítimas são os próprios cristãos.

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Ano 1191. Cem Judeus são massacrados a Bray-sur-Seine (França).

Ano 1208. 20.000 Cátaros são exterminados pelos Cruzados na cidade francesa de Beziers; a matança não
distingue entre homens, mulheres, crianças e até recém-nascidos. Dois anos depois é a vez dos habitantes de
Agen, Albi, Castres, Fanjeaux, Gaillac, Lavaur, Mirepoix, Moissac, Montégut, Montferrand, Montrèal,
Pamiers, Puivert, Saint Antonin, e Termes que são degolados ou queimados na estaca. O genocídio dos
Cátaros prossegue em 1211 com a conquista de Lavaur onde 400 pessoas são queimadas vivas. Em 1219
mais 5000 Cátaros são exterminados a Marmande.

Ano 1278. 267 Judeus são enforcados em Londres e 200 Cátaros e Valdenses queimados em Verona.

Ano 1391. Cem Judeus são massacrados pelos católicos a Sevilha, na Espanha.

Ano 1397. Cem valdenses de Graz, na Áustria, são enforcados e queimados por ordem da Santa Inquisição.

Ano 1416. Trezentas mulheres acusadas de bruxaria são queimadas na estaca por ordem da Inquisição nos
arredores de Como, na Itália.

Ano 1485. Quarenta e nove pessoas justiçadas por ordem ad Inquisição a Guadalupe (Espanha). No mesmo
ano, quarenta e uma mulheres inocente são queimada vivas na cidade de Bormio (Itália)

Ano 1486. Quarenta e um Judeus impalados a Belalcazar, na Espanha por ordem da Inquisição.

Ano 1505. Quatorze mulheres acusadas de bruxaria mortas a Cavalese (Itália) por ordem do vigário do bispo
de Trento. No mesmo ano mais trinta pessoas são queimadas na estaca na cidade espanhola de Logrono.

Ano 1514. De novo na cidade de Bormio, mais trinta mulheres são queimada na fogueira. Quatro anos
depois, oitenta mulheres são queimadas no Vale Camonica por ordem da Inquisição.

Essa lista poderia continuar com muitas outras datas e outras inúmeras vítimas, principalmente na Itália,
Espanha e Alemanha, pelo menos até o ano de 1766 quando o estudante Jean-François Lefebvre
d'Ormesson, de apenas 19 anos, foi torturado e queimado vivo por não ter tirado o chapéu diante duma
procissão na cidade de Abbeville (França).
Anos mais tarde, em 1808, quando Napoleão invadiu a Espanha, os frades dominicanos em Madri,
pressionados pelos oficiais franceses, negaram a existência de câmaras de tortura; mesmo assim os soldados
as encontraram no porão do prédio que abrigava o convento onde descobriram também celas cheias de
prisioneiros de ambos os sexos, completamente nus e em parte enlouquecidos pelo indescritíveis
sofrimentos. Até mesmo as tropas de Napoleão, acostumadas à crueldade e ao sangue, não puderam tolerar
aquela horrenda visão digna do Inferno de Dante.

A História narra que vários Papas, a partir do século XIII, aperfeiçoaram e ampliaram os instrumentos
jurídicos que fizeram da Inquisição algo de muito parecido com as mais famigeradas polícias secretas do
século XX, ou seja, a Gestapo nazista e a NKDV stalinista. Os presos não gozavam de algum direito, a partir
do princípio da presunção de inocência; muito pelo contrário, o herege ou a bruxa eram considerados
culpados de antemão tendo os inquisidores a única função de extorquir confissões e arrancar os nomes de
supostos cúmplice com a finalidade de perpetuar o seu poder absoluto baseado no terror de massa. Com
efeito, em 1487, dois monges dominicanos, Johann Sprenger e Heinrich Kraemer, elaboraram um manual de
investigação, o Malleus Maleficarum (o martelo das bruxas), que era uma verdadeira "obra-prima" sobre
como realizar um julgamento injusto. O livro inicia com uma sentença peremptória: afirmar a existência dos
feiticeiros é católico, enquanto afirmar teimosamente o oposto é uma heresia. Mesmo que o Malleus pareça
indiferente sobre homens e mulheres que "fizeram um pacto com o diabo", é contra o sexo feminino que
mais se concentra a atenção dos dois monges. Basicamente o “manual” foi projetado para a descoberta e

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punição das bruxas e continha uma teoria completa da feitiçaria que, gabando-se de análise científica, era
uma de um estupidez perigosa e terrível. A morte na estaca derivava diretamente da interpretação de um
versículo do Antigo Testamento “Não permitirás que viva uma feiticeira” (Êxodo 22:18) e de outro do Novo
Testamento: “Quem não permanece em mim é lançado fora, como a vara, e seca; tais varas são recolhidas,
lançadas no fogo e queimadas” (João 15:6).

O Malleus, que teve 28 reedições, afirmava que as doenças desconhecidas ou incuráveis eram imputáveis
unicamente ao diabo e, portanto, à feitiçaria; acrescentava que a luxúria desenfreada e insaciável das
mulheres era a causa de sua fraqueza e por isso elas se entregavam com ardor aos demônios: obviamente as
mulheres que mais queriam satisfazer seus desejos carnais eram as mais infectadas e as mais perigosas. O
livro contêm descrições orgiásticas de todos os tipos, protagonizadas pelos diabos e suas seguidoras
humanas que, no intento de agradar aos capetas, estavam dispostas a qualquer tipo de perversão sexual.
Consequentemente as acusadas eram, antes de tudo, despidas totalmente e submetidas à depilação dos pelos
pubianos, para eliminar possíveis esconderijos para o diabo. Logo em seguida, os inquisidores explicavam
que se a acusada não tivesse confessado logo teria sido tratada como herege; caso tivesse admitido suas
culpas teria sido considerada uma bruxa; o resultado final era o mesmo: a fogueira. Para que a acusada
caísse nessa armadilha, o livro fornece esse conselho: "Prometa-lhe uma penalidade mínima se ela se
declarar culpada e, uma vez condenada, dar-lhe a sentença prometida e depois queimá-la; também deve
prometer de não condenar as bruxas que incriminem outras e depois chame outro inquisidor para fazê-lo".
A maioria das vítimas deste jogo diabólico eram pessoas fracas, mais vulneráveis e indefesas, e é triste dizer
que tudo isto acarretou a morte de centenas de milhares de mulheres e até de não poucas meninas.

Sprenger e Kraemer estabeleceram o princípio fundamental segundo o qual uma bruxa devia se auto-acusar
e, se não o fizesse voluntariamente, qualquer meio era permitido pois, sendo elas possuídas pelo diabo, não
tinham direitos e todos os procedimentos eram lícitos. As torturas eram de vários tipos: de regra se
começava esmagando os polegares das mãos, os dos pés e os ossos das pernas; em seguida elas eram
chicoteadas até sangrarem. Curiosamente, esses tormentos eram considerados apenas parte dos preliminares
e não foram classificados como "verdadeira tortura" que compreendia métodos ainda mais terríveis como a
“pera”, um artefato da mesma forma do fruto introduzido e sucessivamente expandido dentro da vagina, da
boca ou do ânus, ou a dilaceração dos seios. Bastante comum foi o uso do cavalete e o “strappado” -que
aparece numa cena do filme “Goya’s Ghosts”- e muitos outros, tanto que o Arcebispo de Colônia elaborou
uma Tarifa de Tortura que incluía 49 itens e os preços relativos que deviam ser pagos ao torturador pela
família da vítima. Os estupros das acusadas eram constantes e nenhum carrasco jamais foi punido por esse
crime. Caso uma ré chorasse, os inquisidores diziam que estava rindo deles, se desmaiava afirmavam que
havia adormecido com a ajuda do demônio. Enfim, para provar definitivamente a culpa, era necessário
encontrar o “ponto do diabo”, em outras palavras, um ponto particular no corpo da acusada que fosse
insensível à dor e que era minuciosamente procurado em qualquer parte do corpo, principalmente nos seios,
nas nádegas e na vagina. Para isso era necessário perfurar repetidamente a bruxa com uma longa agulha até
a pobre mulher não aguentar mais tanta dor e fingir que não estava sentindo nada. As seções de tortura eram
repetidas podendo, cada uma, continuar por mais de quarenta horas consecutivas. Quando uma bruxa era
trazida de volta à cela, o juiz tinha que se certificar de que sempre houvesse guardas que a vigiassem sendo
provável que o diabo a induzisse a cometer suicídio. Basicamente, o suicídio ou a simples tentativa, causado
por desespero ou por terror, era interpretado como uma inspiração do demônio e, portanto, como mais uma
prova de culpa.

A situação piorou ainda mais quando a Reforma protestante entrou em conflito com a Contrarrefoma
católica. Na segunda metade do século XVI tanto os católicos como os protestantes intensificaram a caça às
bruxas. Essa verdadeira psicose irá continuar por mais de um século, atingindo seu ápice durante a sangrenta
Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Entre 1587 e 1593 o arcebispo de Tréveris (Alemanha) executou 368
bruxas, ou seja, duas mulheres queimadas em cada três semanas. Mas a fúria do arcebispo ainda foi
moderada se comparada à do bispo de Genebra (Suíça) que, durante um período de apenas três meses,
condenou à fogueira nada menos que 500 bruxas. Entre 1623 e 1633 o príncipe e arcebispo de Bamberg
(Alemanha) queimou mais de 600 acusadas. Esse santo homem mandou construir, em 1627, a Drudenhaus

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(Casa das Bruxas) onde foram torturadas centenas de pessoas, entre elas o prefeito Johannes Junius que
tornou-se famoso pela bela carta escrita à filha antes de ser justiçado inocente. No início do século XVII,
900 pessoas foram queimadas vivas pelo príncipe e bispo de Würzburg, incluindo o seu próprio sobrinho,
dezenove sacerdotes e algumas crianças acusadas de ter tido relações sexuais com o diabo. No final do
século XVII a histeria coletiva havia se espalhado além do Oceano Atlântico, nas colônias puritanas da
Nova Inglaterra, onde foi celebrado o infame processo de Salém, retratado na peça de Arthur Miller.

Embora os apologistas, principalmente os católicos, tentem minimizar o número total de vítimas, a realidade
histórica contabiliza pelo menos 30.000 execuções, sem contar as milhares de vidas ceifadas nas “cruzadas
internas” contra os Cátaros, os Valdenses e outras menorias religiosas. Esse número, entretanto, é
subestimado devido à perda de documentos confiáveis relacionados à maioria dos processos ao longo do
tempo. A principal razão foi que, por medo de que os imensos arquivos inquisitoriais caíssem nas mãos dos
adversários da Igreja, muitos deles foram incendiados, como em Milão, Mântua, Benevento e todos os da
Sicília que continham os atos de milhares de julgamentos. Um dos poucos casos ainda bem documentado, e
tomado como exemplo das torturas, é o da pobre família Pappenheimer, exterminada na Baviera em 1600 (o
mesmo ano que, em Roma, foi queimado o filósofo Giordano Bruno). A família foi responsabilizada por
diversos crimes relacionados à feitiçaria, confessando atos como voar em uma tábua de madeira para
encontrar o demônio, fazer sexo com ele, e o assassinato de crianças para produzir um pó demoníaco, entre
vários outros. Eles acabaram por entregar os nomes de mais de quatrocentos supostos cúmplices; em
determinadas ocasiões, a tortura era tão dolorosa que eles mencionaram noventa e nove nomes ao mesmo
tempo para que as agressões cessassem. Os pais e os dois filhos mais velhos foram condenados a serem
executados junto com dois outros homens inocentes. Eles foram descarnados seis vezes com ferros em
brasas, e os seios arrancados da esposa foram esfregados nos rostos de seus filhos adultos; os ossos dos
homens foram quebrados, o pai foi submetido ao empalamento em uma lança e, finalmente, todos foram
queimados vivos em uma fogueira.

Quem se deu conta de quanto essa perseguições, baseadas fundamentalmente sobre o uso da tortura, foram
abomináveis e injustas, foi o padre jesuita alemão Friedrich Spee que, em 1631, publicou -em forma
anônima- um livro onde condenava os horrores perpetrados pela Inquisição. Em seu livro ele escreve o
seguinte: “Muitas pessoas que incitam veementemente a Inquisição contra os feiticeiros em suas cidades e
aldeias não estão cientes e não percebem ou prevêem que uma vez que tenham começado a solicitar a
tortura, toda pessoa torturada tem que denunciar muitas outras. Os julgamentos continuarão e, no final, as
denúncias chegarão inevitavelmente a eles e a suas famílias, porque, como eu adverti acima, não
terminarão os julgamentos até que todos sejam queimados”. É evidente que, se um sacerdote cristão chegou
a proferir essas palavras, significa que a máquina perversa da Inquisição, criada pela Igreja, era feita não
para ajudar a fazer justiça, como afirmam certos historiadores católicos, mas para espalhar um clima de
terror de massa, igual ou pior que os totalitarismos do século passado. De alguma forma o Malleus
Maleficarum, um verdadeiro concentrado de sadismo, perfídia e ignorância, continuou a vigorar durante
muito tempo chegando a representar um testemunho macabro dos horrores que os homens são capazes de
cometer quando a razão se apaga deixando espaço à ideologia religiosa.

É verdade que, nos séculos XV, XVI e XVII os tribunais civis condenaram mais pessoas do que aqueles
eclesiásticos, mas resta o fato que a responsabilidade moral e jurídica dos processos cabe à Inquisição,
emenação direta da Igreja, principalmente católica, mas também protestante. Então, como foi possível um
inteiro continente ter abdicado da razão para sucumbir aos fantasmas da histeria coletiva que punha o
problema da suposta ação do demônio ao centro da existência cotidiana? O fato é que o Cristianismo, sendo
basicamente uma religião totalizante, deixou espaço e estimulou o surgimento da forma mais extrema de
totalitarismo: aquele religioso. Durante toda a Antiguidade pagã houve muitas guerras, violências e
extermínios de inteiras populações, mas jamais se viu um tribunal perseguir um cidadão por motivos
eminentemente ideológicos pois, nesse sentido, o paganismo foi extremamente tolerante, sempre disposto a
aceitar novos credos, desde que a figura do Imperador recebesse a devida veneração.

100
Tudo mudou quando o Cristianismo apossou-se do poder e começou a mais extensiva lavagem cerebral de
toda a história da Humanidade. Mas não todos aceitaram de apagar o seu cérebro e quando, em 1553,
Calvino mandou queimar vivo o médico Miguel Servet, defensor do Antitrinitarismo, o humanista e teólogo
francês Sébastien Châteillon, escreveu as seguintes palavras “Matar um homem não é defender uma
doutrina, é matar um homem. Quando os genebrinos mataram Servet não defenderam uma doutrina,
mataram um ser humano. Não cabe ao magistrado defender uma doutrina. O que têm em comum a espada e
a doutrina? Se Servet tivesse tentado matar Calvino, o magistrado teria agido corretamente defendendo
Calvino. Mas como Servet havia combatido com escritos e com raciocínios, devia ser refutado com
raciocínios e escritos. Não se demonstra a própria fé queimando um homem, mas fazendo-se queimar para
ela”.

Quem experimentou o martírio pela fé foi o jovem estudante Pomponio Algieri, de Nola (Itália) que, tendo
simpatizado pela Reforma protestante, por ordem da Inquisição papal foi, aos 19 de Agosto de 1556,
mergulhado numa caldeira contendo óleo fervente, breu e terebentina. Foram quinze intermináveis minutos
de agonia durante os quais, apesar da dor terrificante, Pomponio não soltou nem um grito dizendo apenas:
"Receba, meu Deus, o teu servo e mártir".

Segue um poema de Augusto de Lima (1859-1934) intitulado "O Inquisidor"...

O grande Inquisidor escreve à luz de um círio:


corre de seu tinteiro o sangue do martírio.
Súbito, uma mulher acerca-se da mesa
e prostra-se: “Senhor! um dia a natureza
bradará por meu filho, a vítima inocente,
que amanhã vai ser posta à morte iniquamente!
Da sentença riscai, com generoso traço,
o confisco, o pregão [1], o anátema e o baraço [2];
e mandai demolir a forca que abre a cova
à decrépita mãe, à esposa ainda nova,
e a três filhos, Senhor, entes que Cristo adora!

A maldição não tisna, é certo, a luz da aurora,


e nem pode manchar a fronte encanecida,
que a tarde da velhice é a aurora da outra vida.
Como Xerxes punindo o mar com ferro em brasa,
em vão buscais cortar a inacessível asa
do pensamento: – o ideal é um lúcido oceano
e uma invencível águia o pensamento humano;
mas, se preciso for, em nome dele abjuro
a razão, a ciência, os astros, o futuro.”

Fez-se solene pausa; e com acento triste


fala o grande juiz: “Pois bem! mulher, feriste
a fibra paternal do Inquisidor austero;
volta tranquila ao lar, pois choraste, e não quero
espalhem os clarins da vil maledicência
que a justiça de Deus mais pode que a clemência.
Acolhi teu clamor humilde e o vão perdoo,
vai na paz de Jesus, por Ele te abençoo;
quanto a teu filho amado, ileso das mais penas,
há de ser, para exemplo, esquartejado apenas.”

101
NOTAS:

[1] Pregão – proclamação pública.


[2] Baraço – corda ou laço usados para estrangular.

102
O DEMÔNIO

De acordo com a doutrina cristã, a própria Bíblia atestaria a existência do demônio já no primeiro livro do
Antigo Testamento exatamente com estas palavras: “Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais
do campo, que o Senhor Deus tinha feito ” (Gên. 3:1). Mas o que justifica a legitimidade da equação
“serpente = diabo” que nos foi ensinada durante dois milhares de anos seguidos? Será porque esse animal
sabe falar? Se esse foi o motivo, então também a jumenta de Balaão sabia falar “Tornou a jumenta a
Balaão: Porventura não sou a tua jumenta, em que cavalgaste toda a tua vida até hoje? Porventura tem
sido o meu costume fazer assim para contigo?” (Num. 22:30). Ou será porque a cobra aconselhou Eva a
desobedecer ao principal e único mandamento estabelecido pelo Elohim senhor absoluto do jardim do Éden?
Outrossim, a atitude de dar maus conselhos, parece ser uma característica peculiar desse réptil já nas
literaturas de muito anteriores ao A.T. Afinal é justamente a cobra que causa a inevitabilidade da morte na
Epopeia de Gilgamesh, assim como também se observa num mito menor cretense. Se, por outro lado, junto
aos Israelitas a serpente tivesse sido considerada a encarnação de um ser inimigo de Javé, o versículo
seguinte não teria o menor sentido: “Então disse o Senhor a Moisés: Faze uma serpente de bronze, e põe-na
sobre uma haste; e será que todo mordido que olhar para ela viverá.” (Números 21:8). Pois, objetivamente,
seria absurdo Deus mandar erigir um monumento comemorando o seu maior arquirrival.

Tudo o que se pode deduzir do versículo Gên. 3:1 é apenas que esse animal é caracterizado por uma boa
dose de astúcia e de sabedoria, mas nada a ver com o diabo, figura espiritual do cristianismo, do qual não se
fala nem no Gênesis e nem em outros livros do Pentateuco. Inclusive, afinal das contas, a serpente bíblica –
apesar de tanta esperteza- não parece ser assim tão enganadora como afirma categoricamente a doutrina
cristã. Para o leitor se convencer basta analizar atentamente o diálogo entre os dois protagonistas: “E esta
disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? Respondeu a mulher à
serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do
jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais.” (Gên. 3:1-3). A própria
serpende replica a Eva com essas palavras: “Disse a serpente à mulher: Certamente não morrereis. Porque
Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus,
conhecendo o bem e o mal.” (Gê. 3:4-5). É evidente que não existe enganação pois, como sabemos, nem
Adão nem Eva morrem, mas são expulsos do jardim. Na verdade, quem mentiu foi Javé quando alertou que,
caso os dois tivessem apenas tocado no fruto, teriam morrido na hora, fato que objetivamente não acontece.

Os teólogos cristãos rebatem que a morte do primeiro casal veio em seguida, como consequência do que
passou a ser considerado o “pecado original”. Isso implicaria o fato que ambos, antes de serem caçados,
eram criaturas imortais. Mas a proposição é impossível, pois o próprio Javé ordena o seguinte: “Então disse
o Senhor Deus: Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Ora, não
suceda que estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente.” (Gên. 3:22)
e, para se certificar que os dois não voltem, “pôs ao oriente do jardim do Éden os querubins, e uma espada
flamejante que se volvia por todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida.” (Gên. 3:24). Esses
dois últimos versículos comprovam que nem Adão nem Eva gozavam da imortalidade e que Javé resolveu se
precaver para que essa possibilidade não viesse a se concretizar se, por ventura, os dois tivessem se
apossado também dos frutos da árvore da vida. Outrossim, aqueles que afirmam que quem tentou enganar a
Eva não podia ser um simples animal, com base no mesmo raciocínio, terão que admitir a impossibilidade
dum fruto possuir a propriedade intrínseca de dar o conhecimento do bem e do mal (e, muito menos, a
imortalidade!), pois somente Deus em pessoa tem essa prerrogativa.

Mesmo assim os Cristãos insistem em sua tese necessária para justificar e sustentar o mito da ação salvífica
do “Filho de Deus” cujo sacrifício, sem a existência de um “pecado original”, teria sido totalmente inútil.
Quanto ao nome próprio Satã, ele aparece uma única vez no A.T. quando “Então Satanás se levantou contra
Israel, e incitou Davi a numerar Israel” (1 Crôn. 21:1), mas é fácil demonstrar que se trata de uma grosseira
interpolação de época cristã sendo que esse versículo contradiz completamente outro passo da Bíblia onde
103
está escrito: “A ira do Senhor tornou a acender-se contra Israel, e o Senhor incitou a Davi contra eles,
dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá.” (2 Sam. 24:1). Inclusive, o nome satã (em hebraico, onde não há as
vogais, se escreve stn) não possui nenhum atributo específico de ser demoníaco, mas significa simplesmente
“acusador” como pode ser deduzido lendo esse trecho: “Ele me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual
estava diante do anjo do Senhor, e Satanás estava à sua mão direita, para se lhe opor. Mas o anjo do
Senhor disse a Satanás: Que o Senhor te repreenda, ó Satanás; sim, o Senhor, que escolheu Jerusalém, te
repreenda!” (Zacarias 3:1-2). Embora nas traduções da Bíblia o nome tenha a letra inicial “S” maiúscula,
como se fosse nome de pessoa, na verdade trata-se de nome comum, sendo precedido pelo determinativo;
portanto a tradução correta seria mesmo “acusador” que nada tem a ver com aquela figura espiritual
conhecida como Diabo!

Na tradição hebraica aparecem muitos outros oponentes de Javé como, por exemplo, Astarte, Belfagor,
Belzebu, Belial, Asmodeus, Moloch, Quemós, etc. que nada são se não os nomes dos outros Elhoim (plural
de El) que lutam pela posse da Palestina e do Oriente Médio. Não há nada de espiritual, nada de
trascendental na guerra travada entre Javé e os outros Elohim que, embora possantes e vingativos, não são
criaturas imortais, mas poderosos generais liderando as suas tropas. Muitas vezes Javé ordena o “herem” que
significa “destruição total” não apenas das cidades, mas também de todos seus habitantes: homens,
mulheres, velhos e até crianças. Ocasionalmente são poupadas as mulheres virgens, a partir dos três anos de
idade, para finalidades que o leitor pode facilmente imaginar. É óbvio que a arma mais importante do
Elohim Javé não é o amor, mas o terror. Como, do ponto de vista prático, para os Israelitas –que não
acreditavam numa vida no além- o que mais importava era ter um líder supremo que os ajudasse a
conquistar e povoar um território, frequentemente buscavam outro chefe que, talvez, oferecesse mais
vantagens e isso suscitava a ira de Javé que os punia de forma implacável. No A.T. jamais se fala em
“salvação” e Javé não se importa com “pecados originais”, nem promete redenções ou futuras ressurreições.
Cada sua palavra serve para incitar à próxima batalha, para direcionar a luta, para exterminar o maior
número possível de inimigos e não é por nada que é frequentemente apelidado de “Senhor dos Exércitos”
(Salmos 24:10).

Vamos enfim considerar o nome que simboliza o mal por antonomásia: Lúcifer, o mais medonho de todos, o
príncipe dos demônios que Dante, na Divina Comédia, põe bem no fundo do Inferno onde dilacera e devora
eternamente os piores dos traidores: os dos benfeitores, ou seja, Bruto e Cássio (que assassinaram Júlio
César) e Judas, que traiu Cristo. Etimologicamente o nome Lúcifer (em grego Phosphoros) significa
“portador de luz” e era usado para designar o planeta Vênus, que é o objeto mais luminoso no céu, a “estrela
da manhã”. Na Bíblia, tanto no A.T. como no N.T. o nome Lúcifer significa apenas Vênus ou até indica
Jesus Cristo, como poder ser constatado no versículo seguinte: “Et habemus firmiorem propheticum
sermonem: cui benefacitis attendentes quasi lucernæ lucenti in caliginoso donec dies elucescat, et Lucifer
oriatur in cordibus vestris.” (2 Pedro 1:19) cujo significado é: “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à
qual bem fazeis em estar atentos, como uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e a
estrela da alva [Cristo] apareça em vossos corações” ou nesse outro “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos
testificar estas coisas a favor das igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da
manhã.” (Apoc. 22:16). Como se pode ver, as traduções modernas evitam de usar o nome Lúcifer para
designar Jesus, no entanto fazem com que o nome “Estrela da alva” seja interpretado como o do Príncipe das
Trevas nesse passo do A.T. “Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! como foste lançado por
terra tu que prostravas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus
exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima
das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. Contudo levado serás ao Seol, ao mais profundo do
abismo.” (Isaías 14:12-15). O fato é que o profeta não fala no demônio e sim no rei Nabucodonosor que,
após ter arrasado Jerusalém, leva os Judeus a Babilônia como prisioneiros. Trata-se duma distorção em
óbvia má fé, mas que agora está bem consolidada na mitologia cristã, corroborada pela profecia de Ezequiel
(28) sobre a queda do rei de Tiro, usada com o mesma desonestidade intelectual.

Realmente, nos primeiros séculos da Igreja, o nome Lúcifer foi considerado um título de Cristo como, por
exemplo, no ino Carmen aurorae, ou como nome oportuno para crianças cristãs. Existe até um santo com

104
esse nome, Lúcifer Calaritano, bispo da cidade italiana de Cagliari (na Sardenha) que viveu no III século.
Mas, voltando ao demônio de modo geral, ocorre sublinhar que quando se fala nele no N.T. é sempre de
forma simbólica assim como a moderna locução “Fulano é um diabo!” significa apenas uma metáfora e não
se refere a um ser espiritual antitético a Deus encarnação do mal absoluto. Essa interpretação é comprovada
pelo fato que, além da total ausência de endemoninhados em todo o A.T., no N.T. não existem pessoas
possuídas pelo diabo, mas apenas pelos demônios que eram figuras populares e retóricas, usadas pelos
evangelistas no intento de representar doutrinas que, recebidas voluntariamente pelos homens, os tornavam
refratários aos ensinamentos de Jesus. Com essas pessoas Cristo nunca pratica exorcismos, mas os liberta
com apenas o poder da sua palavra “E todos se maravilharam a ponto de perguntarem entre si, dizendo:
Que é isto? Uma nova doutrina com autoridade! Pois ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe
obedecem!” (Marcos 1:27).

“É, portanto, bastante esquisito –observa o teólogo Pe. Alberto Maggi atual Diretor do Centro de estudos
bíblicos de Montefano- ver como a figura do diabo, irrelevante nas Escrituras, assumiu ao longo do tempo
dimensões exageradas na vida dos crentes, a tal ponto que muitos cristãos parecem acreditar mais na
onipresença do tentador que na do Salvador. Os cristãos fizeram muito mais danos e continuam
prejudicando com sua obsessão com o demônio do que aqueles que negam a sua existência. Basta pensam
no massacre de dezenas de milhares de mulheres torturadas e queimadas vivas por terem sido consideradas
culpadas de comércio carnal com o diabo enquanto, atualmente, temos inúmeras mulheres vítimas de
exorcistas autointitulados que, sob o pretexto de libertá-los do diabo, as submetem a todas as formas de
violência psíquica e física.”

Se chegamos a esse ponto, se os cristãos mantiveram seus olhos fechados durante quase mil anos, a
responsabilidade é exclusivamente da Igreja que foi sempre ferrenha inimiga da verdadeira cultura, até
daquela religiosa, tanto que o Concílio de Toulouse de 1229, além de criar a Inquisição, proibiu que os
leigos possuissem cópias da Bíblia. Para maior segurança, o sucessivo Concílio de Tarragona de 1234
ordenou que todas as Bíblias escritas em vulgar fossem queimadas. A prova que o obscurantismo cultuar
sempre representou o alicerce indispensável para o poder da Igreja católica é confirmado pelas palavras de
papa Pio IX (1792-1878) o qual chegou a afirmar que a instrução obrigatória devia ser considerada uma
“verdadeira tragédia”. Foi portanto nesse contexto de ignorância e superstição que a figura do demônio teve
como se desenvolver plantando a semente do terror entre milhões de cristãos muitos dos quais continuam
acreditando nele em detrimento da mensagem de esperança contida nas palavras de Jesus.

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DOZE PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR
ENTREVISTA DE MARIA CÂNDIDA VIEIRA

1. Se Deus é um só e deve ser seguido por todos e as entidades seguidas por outros povos como os
hindus (Vishnu ou Oxum) são demônios e falsos deuses, por que Ele não apareceu logo para todos os
povos em vez de, inicialmente, aparecer apenas para os hebreus? Desta forma, ele não impediria que
esses povos adorassem os deuses errados? E, sendo Onisciente e Onipotente, aparecer logo para
todos não seria fácil? Se Ele quer que todos sejam salvos, por que permitiu que, por séculos, povos
que só tiveram o azar de nascer em outros lugares, adorassem seres diabólicos?

Richard. No Antigo Testamento não existia o conceito de demônio. Os únicos inimigos de Javé
eram outros Elohim (plural de El) que, como ele, lideravam as tribos da Palestina e do Oriente Médio
e lutavam um contra o outro. Mas esses Elohim jamais foram considerados “falsos deuses”, apenas
cada povo tinha o seu com o qual havia estipulado um pacto, uma aliança. A prova se encontra em
várias parte da Bíblia, em particular, no versículo em que Jefté diz: “Não possuirias tu o território
daquele que Quemós, teu deus, desapossasse de diante de ti? assim possuiremos nós o território de
todos quantos o Senhor nosso Deus desapossar de diante de nós” (Juízes 11:24). Isso significa que
Javé (traduzido com Senhor) e Quemós são iguais e gozam dos mesmos poderes e dos mesmos
direitos, cada qual na área de sua competência. Em outro livro (2Reis 3:27), Messa oferece em
holocausto o seu filho primogênito a Quemós exatamente da mesma forma como os Israelitas faziam
com os seus rebentos para obedecer às ordens de Javé (Ezequiel 20:26). Em definitiva, o “deus” do
A.T. nada tem a ver com o Deus do Cristianismo, um ser puramente espiritual, bondoso e pai de toda
a Humanidade. Javé é um chefe militar, terrível, desapiedado, sanguinário e ciumento. O medo dele é
que os Hebreus o deixassem para se apoiar a outros Elohim mais poderosos que não faltavam
naquela região e, ocasionalmente, isso ocorreu de verdade.

2. O que o senhor pensa das famosas aparições de Nossa Senhora – Fátima, Guadalupe, Lourdes – e
do fato de só acontecerem em países católicos e da santa só aparecer para pessoas devotas e
ignorantes, facilmente manipuláveis?

Richard. Durante os primeiros dois séculos da nossa era, a Igreja havia desenvolvido o conceito de
Trindade formada exclusivamente por elementos de sexo masculino (o Pai, o Filho e o Espírito
Santo). No entanto, diante da religiosidade popular, que ainda tinha em grande consideração a deusa
Ísis, surgiu a necessidade de uma quarta figura de sexo feminino cujas características físicas e
espirituais a aproximassem o mais possível à antiga divindade egípcia. Foi assim que surgiu o mito
da Virgem Maria. As bases doutrinárias da suposta virgindade de Maria são simplesmente ridículas e
se baseiam sobre a falsificação de dois versículos do A.T. No primeiro lemos que “Portanto o
Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu
nome Emanuel.” (Isaías 7:14). Entretanto, no texto original hebraico a palavra usada é “almah” que
significa moça e não “betulah” que quer dizer virgem e, em lugar do verbo conceber, aparece o
adjetivo “grávida”. Portanto, a tradução correta é a seguinte: “Eis que uma moça grávida dará à luz
um filho”. Esse embuste é tão descarado que, a partir de 2017, nas Bíblias editadas pela Conferência
Episcopal Alemã, esse versículo foi finalmente traduzido de forma correta, explicando ao leitor que a
jovem grávida era Abi, esposa do rei Acaz (2Reis 18) e nada tinha a ver com a mãe de Jesus. Quanto
à virgindade após o parto, a Igreja se baseia sobre esse outro versículo: “E disse-me o Senhor: Esta
porta ficará fechada, não se abrirá, nem entrará por ela homem algum; porque o Senhor Deus de
Israel entrou por ela; por isso ficará fechada.” (Ezequiel 44:2), mas a porta da qual se fala é a porta
do santuário, não a vagina de Maria! Com relação às aparições, para não tediar o leitor, falarei o
mínimo começando pela de Lourdes, lembrando que o dogma da Imaculada, nascido de uma simples
crendice popular, foi proclamado no dia 8 de Dezembro de 1854 pelo papa reacionário Pio IX com
base numa enquete entre 665 prelados, mostrando assim que a verdade teológica não nasce da
106
avaliação de fatos objetivos, mas de um acordo entre as pessoas. Nem quatro anos depois, a Virgem
supostamente aparece dezoito vezes à jovem analfabeta Bernadette Soubirous que, depois de três
tentativas, consegue arrancar o nome da “Senhora” a qual finalmente afirma ser nada menos que a
“Imaculada Conceição” confirmando, destarte, o dogma papal. Isso sim que é sorte grande! Sobre
Fátima queria lembrar que quando os pastorinhos perguntam à senhora quando a Grande Guerra ia
terminar e ela responde “nesse mesmo ano”, era o 1917. Só que a guerra terminou em 1918! Além
disso, bem poucos conhecem o conteúdo duma carta que a vidente Lúcia escreveu, aos 5 de Junho de
1936, ao seu conselheiro espiritual Pe. José Bernardo Gonçalves: “Queria dizer, reverendíssimo
padre, que agora mais do que nunca tenho medo de ter me deixado iludir pela minha imaginação e
pode ser que eu fale comigo mesma quando, interiormente, penso que estou a falar com Deus. Ou
que eu seja vítima duma ilusão diabólica e que, assim, esteja a enganar você, reverendo padre, e a
santa Igreja”. De forma geral, a base das “aparições” são dois fenômenos psíquicos. A pareidolia, ou
seja, uma imagem vaga e aleatória sendo percebida como algo distinto e com significado, e a
apofenia, tendência psicótica em ver conexões incomuns entre eventos desligados e triviais. Ambos
os fenômenos se somam e se amplificam reciprocamente em pessoas de inteligência e cultura abaixo
da média, principalmente se essas já sofreram uma intensa doutrinação de tipo religioso.

3. Como explicar que Deus tenha feito tantas maravilhas, interferindo diretamente no destino e
história dos povos no passado, matando os primogênitos do Egito, abrindo o Mar Vermelho e hoje
ele não ajuda um desempregado a conseguir um emprego nem interfere diretamente no Oriente
Médio?

Richard. Essa das pragas do Egito é pura mitologia e nunca houve “milagres” que, por sinal,
nenhum antigo texto egípcio registrou. No caso, o único que realizou um milagre foi o próprio faraó
que conseguiu acossar os Israelitas com carros e cavalos quando esses animais já haviam sido todos
exterminados com a quinta praga: “Fez, pois, o Senhor isso no dia seguinte; e todo gado [cavalos,
jumentos, camelos, bois e ovelhas] dos egípcios morreu; porém do gado dos filhos de Israel não
morreu nenhum” (Êxodo 9:6). Quanto ao Mar Vermelho, a própria Bíblia fala no Yam Suf que nada
tem a ver com esse mar, mas significa “mar de juncos”; portanto os Hebreus atravessaram um
alagadiço, não um mar de verdade. Veja bem, os crentes cultuam a Bíblia como se se tratasse de um
livro único, mas na verdade existem muitas versões e todas diferentes: a dos Católicos é diferente da
dos Protestantes, que é diferente da dos Ortodoxos, que difere da dos Coptos a qual não coincide
com a dos Samaritanos e, muito menos, com a dos Hebreus. Para piorar ainda mais, todas as
traduções foram feitas com base teológica inventando conceitos inexistentes no texto original
massorético pois, na língua hebraica, simplesmente não existem termos indicando Deus (no sentido
de um ser universal e puramente espiritual), eternidade e o verbo “criar”, principalmente no sentido
de criar do nada. Então, como podemos admitir que o A.T. seja considerado um texto de teologia se
foi escrito num idioma desprovido dos termos identificativos dos conceitos fundamentais de qualquer
pensamento teológico como Deus, criação e eternidade?

4. O senhor não acha contraditório que tenhamos o livre arbítrio e, ao mesmo tempo, Deus tenha
planos para nós? As duas ideias não parecem contraditórias?

Richard. A respeito do livre arbítrio o meu pensamento coincide com o de Karl Popper que defende
a autonomia da mente e a sua ação causal com relação ao cérebro e às suas componentes genéticas.
Quanto aos “planos de Deus”, caso existam, só podem ser planos de ordem geral que não chegam a
determinar o desenrolar das ações individuais cotidianas e, portanto, o conceito de Providência seria
mais uma mitologia típica do Cristianismo. Uma vez Voltaire, falando sobre um caso em que uma
dona de um pardal havia rezado nove ave-marias em favor de seu referido passarinho (que acabou
sobrevivendo), o filósofo retrucou: "Eu acredito numa Providência geral, cara irmã, que estabeleceu
desde a eternidade a lei que governa todas as coisas, como a luz do sol, mas não creio que uma
Providência particular altere a economia do mundo por causa do vosso pardal". Mas mesmo
admitindo a existência duma divindade, a definição melhor que encontrei a respeito de Deus vem do

107
filósofo neoplatônico Plotino (204-270 d.C.). Segundo esse grande pensador, todas as coisas foram
geradas pelo Um (Deus) não por sua vontade –como no caso do Deus cristão- sendo que um ato de
vontade implica uma necessidade que, obviamente, contrastaria com o conceito de perfeição pois
quem quer alguma coisa é porque sente necessidade dela e se sente necessidade significa que não é
perfeito. O mundo, na filosofia de Plotino, veio do Um por geração espontânea, por irradiação, assim
como o Sol emana luz e calor. Em particular, do Um deriva a Inteligência e dessa a Alma. É evidente
que um Deus que não gerou os seres humanos mediante um ato de vontade consciente, muito menos
poderá ter “planos” para eles.

5. Como se explica que não haja ruínas de Sodoma e Gomorra, do Templo de Salomão, da Torre de
Babel nem registro da passagem dos hebreus pelo Egito?

Richard. Tudo isso se explica admitindo que a Bíblia é um conjunto de lendas, de mitologias e de
textos oriundos de culturas diferentes, principalmente as da Antiga Babilônia onde os Israelitas, povo
ignorante e sem cultura (nem sequer conheciam o significado da palavra “geometria”), aprenderam
os primeiros rudimentos de literatura, de arte, de astronomia, etc. Significativo é o caso da Torre de
Babel que nada era se não um imponente zigurate visto pelos Judeus cativos na Mesopotâmia.
Quanto à lenda de Sodoma e Gomorra, mais uma vez foi plagiado um texto acádico anterior no qual
Ninurta utiliza as “sete armas do terror” para reconquistar as cidades ocupadas por Nabu.

6. O que o senhor pensa sobre as epístolas de Paulo de Tarso e do que ele diz sobre as mulheres
deverem ser submissas e caladas e sobre os “efeminados não herdarem o reino dos céus”?

Richard. As Epístolas de Paulo de Tarso são os primeiros textos escritos do Cristianismo, anteriores
até aos Evangelhos. Nelas não se fala na infância de Jesus e o nome de Maria nem sequer é
mencionado. Cristo mostrou empatia para as mulheres em geral: “Porque João veio a vós no
caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram...” (Mateus 21:32),
e indulgência para com as adúlteras: “E disse-lhe Jesus: Nem eu te condeno; vai-te, e não peques
mais” (João 8:11). Mas para Paulo, a transgressão sexual se torna o pecado por antonomásia, como
pode deduzido lendo o seguinte versículo: “Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de
Cristo? Tomarei pois os membros de Cristo, e os farei membros de uma meretriz? De modo
nenhum.” (1Cor. 6:15). No seu verdadeiro delírio contra o corpo, considerado a sede do pecado,
Paulo afirma que o cristão deve “matar” a carne que significa “morte” e “ódio contra Deus”.
Consequentemente, o sexo é abominado e a mulher é considerada apenas uma entidade sexual e
perigosa; o casamento torna-se um mal necessário e melhor seria que todos fossem solteiros igual
ele. Segundo alguns estudiosos, essas palavras “Contudo queria que todos os homens fossem como
eu mesmo” (1 Cor. 7:7) pode significar que Paulo curtia a sexofobia ou até que era impotente.

7. Falaram muito para mim que eu receberia um emprego no tempo determinado por Deus, mas
reparei que, em países ateus como Noruega e Suécia, ninguém precisa orar e esperar pelo tempo de
Deus para conseguir um emprego? O que o senhor pensa sobre isso?

Richard. Penso que tem parcialmente razão porque nem o povo da Noruega nem o da Suécia são
totalmente ateus, embora o percentual seja muito alto. Agora, porém, vou lhe fazer uma pergunta:
“Quais nações na Europa ou na América são as mais desenvolvidas?” A resposta é as do norte, ou
seja, as nações protestantes. Enquanto a Contrarreforma católica reprimiu o impulso cultural do
Renascimento, o movimento protestante considerou a ignorância como filha do diabo, incentivou a
leitura e a interpretação pessoal das Escrituras e toda família acabou tendo em casa uma Bíblia que
era lida e debatida. Uma primeira consequência foi uma forte redução da taxa de analfabetismo e um
estímulo para ler mais e mais livros. Além disso, o protestante sentia o impulso moral para o dever, a
laboriosidade, a frugalidade, em oposição à moral católica que enaltecia a pobreza e a resignação
diante das prepotências dos poderosos. Foi assim que nasceu o espírito da democracia, primeiro na

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Inglaterra e, em seguida, nos Estados Unidos. Para o protestante a riqueza é um sinal da benevolência
do Senhor e, por isso, pode e deve ser conseguida desenvolvendo a indústria e o comércio.

8. Alguns tentam explicar o sofrimento pelo karma? Então, todas as pessoas morrendo de fome na
África têm de pagar o mesmo karma? E, em situações como a de Hiroshima e Nagasaki, podemos
dizer que todas as pessoas atingidas pela bomba atômica tinham um karma a pagar?

Richard. Essa do karma não faz o menor sentido e a sua observação já responde à pergunta.

9. Falam que homossexualidade é uma abominação aos olhos de Deus, um problema espiritual. Mas
outras espécies animais apresentam casos de homossexualidade, como golfinhos e leões. Isso
provaria que a homossexualidade é natural e não um pecado?

Richard. Embora a maioria dos animais sejam heterossexuais, um percentual significativo pratica a
homossexualidade, cerca o 18%. O motivo real ainda é desconhecido, mas decerto não se trata nem
de perversão, nem de doença, nem de erros genéricos, nem de livre escolha e, muito menos, de
pecado. Por outro lado, como se poderia estabelecer o que é perversão ou pecado? A moral é o
resultado de educação, de princípios e valores adquiridos que fazem a pessoa sentir que deve agir
numa determinada maneira. O verdadeiro pecado é impor aos outros –até com atos violentos- uma
visão restrita do mundo e, destarte, alimentar sentimentos de exclusão e discriminação em relação
àqueles que são diferentes ou pensam diferentemente. A homossexualidade é unicamente o modo de
ser de algumas pessoas que apenas seguem a sua própria natureza sem querer prejudicar ninguém.

10. Falam que Deus não dá uma cruz maior do que a pessoa pode carregar. Mas não parece cruel e
sádico deixar alguém sofrer até o limite? E por que tanta gente não aguenta e comete suicídio? Vale
salientar que o suicídio tem se tornado um problema de saúde pública, pois os casos só aumentam.

Richard. Como um Deus sádico não tem cabimento restam apenas duas possibilidades. Ou ele não
existe, ou não interfere nos eventos do mundo. Muitos cristãos imaginam Deus como um ser com
sentimentos humanos que, invisível, nos espreita em continuação e nos castiga se pecarmos. Essa
imagem de Deus, que pessoalmente não hesitaria a definir idólatra, encontra respaldo nos inúmeros
atos de devoção -romarias, promessas, orações repetidas até o infinito, castigos, etc.- que
caracterizam o comportamento dos pobres de espírito. Esse povo acredita que a estátua de uma
Virgem possua poderes mágicos e a ela se dirige com maior frequência que a Deus ou a Jesus.

11. Se Deus é onisciente, por que resolveu testar Jó, apostando com Satanás? A atitude de Deus nesta
parábola não parece mais própria da de uma pessoa irresponsável e insensível? Porém, muitos que
são confrontados com essa questão dizem que não podemos contestar Deus. O senhor pensa que
essas pessoas não querem admitir que Deus não exista ou talvez exista e não se importa com nosso
sofrimento?

Richard. Como você mesma falou, se trata apenas de uma parábola, ou seja de uma lenda sem o
menor fundamento histórico. Quanto à suposta onisciência de Deus, o filósofo David Hume explicou
que, mesmo admitindo a existência de uma ou mais divindades, podemos atribuir a ela(s) graus
finitos de poder, inteligência e bondade, enquanto pensar em atributos infinitos (onipresença,
onipotência, etc.) é um ato “sem fundamento racional”. Em outras palavras, a inferência analógica
vale apenas para as coisas humanas, mas não para um ser transcendente do qual nada sabemos.
Pensar de forma diferente significa cair no antropomorfismo. Imaginar um Deus que, apesar de
perfeito, interage continuamente com as pessoas e os eventos significa admitir que o projeto original
é falho e cheio de defeitos, assim como o seria um aparelho que necessitasse continuamente da
intervenção de seu projetista. Infelizmente os cristãos não conseguem enxergar essa contradição
lógica.

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12. O senhor acha que alguém se torna melhor depois que se converte? Muitas pessoas são ateias ou
agnósticas e têm bom caráter. Outras, cristãs, têm péssimo caráter. Claro que há cristãos bons. Mas
isso não provaria que o caráter independe da crença ou descrença em Deus?

Richard. Respondo fazendo minhas as palavras de Miguel de Unamuno: “Os homens que sustentam
que por não crerem no castigo eterno do inferno seriam maus, creio, em honra deles, que se
equivocam. Se deixaram de crer numa sanção além-túmulo não se tornariam piores por isso, mas
buscariam então outra justificativa ideal para a sua conduta. Aquele que sendo bom crê numa
ordem transcendente, não é bom tanto por crer nela, mas nela crê por ser bom.” Até papa Francisco,
em relação aos cristãos que frequentam cotidianamente a igreja mas odeiam os outros e se
comportam como hipócritas, na audiência geral do dia 02/01/2019 disse o seguinte: "É um
escândalo: melhor que eles nem entrem numa igreja. Bem melhor viver como um atéu."

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MATERIA E ESPÍRITO: EXISTE DIFERENÇA?

Tenho certeza que vários de meus colegas do Recanto das Letras gostariam de saber se professo alguma
religião ou se sou seguidor do ateísmo, e esse novo artigo visa justamente dar uma resposta a essa pergunta.
Uma resposta que vale também para mim mesmo, sendo útil para marcar um ponto firme na minha busca
pessoal da Verdade.
Começo afirmando que não sigo nenhuma religião, principalmente aquelas “reveladas” e, muito menos, as
abraâmicas que, como bem sabe quem acompanha os meus textos, reputo origem e causa das maiores
tragédias e desastres desses últimos dois mil anos de história, inclusive os totalitarismos. Isso, porém, não
significa que seja um materialista. Muito pelo contrário, considero a espiritualidade a expressão mais alta e
nobre do pensamento e, nesse meu pensar, estou em boa companhia. Entre muitos pensadores e filósofos
(Platão, Buda, Giordano Bruno, Unamuno, etc.) se destaca uma figura muito conhecida e decerto amada pela
grandíssima maioria do público lusófono: a poetisa Cecília Meireles que, apesar da profunda espiritualidade,
jamais aderiu a algum credo particular e até lutou contra o ensino religioso nas escolas públicas do Brasil.

Afirmo, portanto, de ser moderadamente Deísta acreditando na existência de algo que se põe à origem de
todas as coisas, algo que existe desde sempre o do qual originou o nosso Universo. Não sei dizer se essa
fonte é um Ser pessoal, mas duvido que o seja e, caso exista, gosto de imaginá-lo parecido ao “Um”
hipotizado por Plotino, um Absoluto indefinível por meio de simples atributos humanos que não interfere
em nossas vidas embora seja a origem de todas elas. Nesse sentido é até possível que, sendo plausível a
existência de um projeto segundo o qual tudo se encaixa até nos mínimos detalhes para que a matéria
informe se organize visando gerar a vida inteligente, o Absoluto possa representar não tanto o Alfa, quanto o
Ômega, o ponto final dum processo evolutivo coletivo e universal. É um conceito difícil de se explicar,
principalmente para a nossa cultura ocidental e cristã onde o tempo é considerado igual uma reta que vai do
início até o fim. Entretanto, esse estranho conceito que acabei de expor ficaria mais compreensível para as
filosofias orientais segundo as quais o tempo é circular, sem começo e sem fim e pode ser representado por
um “Ouroboros”, um símbolo que contém as ideias de movimento, continuidade, auto fecundação e, em
consequência, de eterno retorno.

O que vai ser de nós após a morte isso não sei, e ninguém sabe e quem afirma saber está mentindo. Posso
apenas raciocinar e considerar que a mera existência física, que sempre acaba com o horror da
decomposição, frequentemente é precedida por sofrimentos prolongados de uma maneira que contrasta com
a beleza, a perfeição e o explendor do Cosmo. Tudo isso resulta num paradoxo que só pode ser superado
admitindo a continuação da vida em outro plano mas, como não tenho elementos que comprovem essa
afirmação, ela permanece no campo da metafísica e deve ser vista apenas como mera hipótese, uma tênue
esperança. Entretanto, o ato de cogitar o prosseguimento da consciência em outra dimensão é, de uma certa
forma, uma fé, não tanto num Ser, mas na lógica e corresponde a admitir que o próprio Universo sabe o que
faz. Obviamente, com a palavra Universo me refiro não apenas ao Cosmo visível, mas ao Tudo que o
constitui, não acreditando numa criação do nada, mas na emanação oriunda duma hipóstase (como diria
Plotino) cujo atributo fundamental é a existência.

A carta que segue foi escrita pelo filósofo espanhol Miguel de Unamuno a um amigo chileno que lhe
perguntava qual fosse a sua religião. Como achei excelente a resposta de Unamuno, resolvi publicá-la sendo
que, em boa parte, a visão religiosa desse grande pensador, com algumas ressalvas, coincide com a minha.
As poucas diferenças derivam, entre outros elementos culturais, das descobertas científicas desconhecidas na
época em que a carta foi redigida (1907), quando ainda nada se sabia de galáxias, de Big Bang, de núcleo
atômico, de relatividade, de mecânica quântica, etc. Consequentemente, acho absurdo estabelecer uma
diferença escolástica entre matéria e espírito que, a meu ver, são apenas categorias da Filosofia. Como se
pode falar em “espírito puro” se ainda nem sabemos como é feita a matéria a qual, examinada em seus
componentes ultramicroscópicos, deixa de ser “material” para se tornar algo de impalpável que só pode ser
descrito mediante equações matemáticas que, afinal das contas, representam ideias (no sentido de Platão) ou
seja pensamento puro?
111
Outro ponto importante é que, enquanto Unamuno mostra “uma forte tendência ao cristianismo”, quem
escreve não sente nenhuma atração para uma fé que reputa ter sido construída durante os séculos juntando
elementos oriundos de religiões anteriores (em boa parte pagãs) e dogmas oportunos, assim como as
crianças fazem com os tijolinhos da Lego. Apesar desses pontos de vista diferentes, posso fazer minhas as
palavras de Unamuno e afirmar que: “minha religião é buscar a verdade na vida e a vida na verdade”.
Antes de deixar a palavra a Miguel de Unamuno, considero oportuno explicar ao leitor o significado da
expressão “petição de princípio” (petitio principii, em Latim) por ele usada na carta. Trata-se duma retórica
falaciosa que consiste em afirmar uma tese, que se pretende demonstrar verdadeira na conclusão do
argumento, já partindo do princípio que essa mesma conclusão seja verdadeira em uma das premissas. Por
exemplo, “A Bíblia diz a verdade pois é a palavra de Deus, e a Bíblia é a palavra de Deus pois diz a
verdade”. Nesse caso a falácia ocorreu duas vezes, uma dando suporte à outra, mas sempre colocando
conclusões nas premissas, de tal forma que nunca se demostra como válida conclusão alguma.

***

Escreve-me um amigo desde o Chile me dizendo que lá se encontrou com algumas pessoas que, referindo-se
aos meus escritos, lhe disseram: “Bem, de modo resumido, qual é a religião deste senhor Unamuno?”.
Pergunta análoga me foi dirigida aqui várias vezes. E vou ver se consigo, não respondê-la, coisa que não
pretendo, mas expor melhor o sentido desta pergunta. Tanto os indivíduos como os povos de espíritos
preguiçoso - e pode ocorrer preguiça espiritual junto a atividades de ordem econômica muito fecundas e de
outras ordens análogas - tendem ao dogmatismo, saibam-no ou não, queiram-no ou não, propondo-se a ele
ou não. A preguiça espiritual escapa da posição crítica ou cética.

Cética digo, mas tomando a voz do ceticismo em seu sentido etimológico e filosófico, porque cético não
quer dizer aquele que duvida, senão aquele que investiga ou vasculha, por oposição ao que afirma e crê
haver achado. Há quem esquadrinhe um problema e há quem nos dá uma fórmula, acertada ou não, como
solução dele. Na ordem da pura especulação filosófica, é uma precipitação pedir-se a alguém por soluções
prontas, sempre que tenha adiantado a exposição de um problema. Quando se faz um cálculo errado,
apagar o que foi feito e começar de novo significa um progresso relevante. Quando uma casa ameaça ruir
ou se faz completamente inabitável, o que se faz é derrubá-la, e não há mais o que pedir senão que se
edifique outra sobre ela. Cabe, sim, edificar a nova com materiais da velha, mas derrubando-a antes.
Entretanto, as pessoas podem se abrigar numa barraca, se não têm outra casa, ou dormir ao relento.

E é preciso não perder de vista que para a prática de nossa vida, raras vezes temos que esperar pelas
soluções científicas definitivas. Os homens viveram e vivem sobre hipóteses e explicações muito
descartáveis, e mesmo sem elas. Para castigar a um delinquente não definiram se ele tinha ou não livre-
arbítrio, assim como para espirrar ninguém reflete sobre o dano que lhe pode fazer o pequeno obstáculo na
garganta que lhe obriga ao espirro. Os homens que sustentam que por não crerem no castigo eterno do
inferno seriam maus, creio, em honra deles, que se equivocam. Se deixaram de crer numa sanção além-
túmulo não se tornariam piores por isso, mas buscariam então outra justificativa ideal para a sua conduta.
Aquele que sendo bom crê numa ordem transcendente, não é bom tanto por crer nela, mas nela crê por ser
bom. Proposição esta que haverá de parecer obscura ou enviesada, disto estou certo, aos inquisidores de
espírito preguiçoso.

Bem, me dirão, “Qual é a tua religião?”. E eu responderei: minha religião é buscar a verdade na vida e a
vida na verdade, mesmo sabendo que não hei de encontrá-las enquanto viva; minha religião é lutar
incessante e incansavelmente contra o mistério; minha religião é lutar contra Deus desde o alvorecer até o
cair da noite, como dizem que contra ele lutou Jacó. Não posso transigir com este negócio de
Inconhecível — ou Incognoscível, como escrevem os pedantes — nem aquilo de “daqui não passarás”.
Rechaço o eterno ignorabimus. E em todo caso, quero ascender ao inacessível.
“Sede perfeitos como vosso Pai que está no céu é perfeito”, disse-nos o Cristo, e semelhante idéia de
perfeição é, sem dúvida, inexequível. Mas nos impôs o inacessível como meta e termo de nossos esforços. E

112
isto ocorreu, dizem os teólogos, com a graça. E eu quero combater meu combate sem preocupar-me com a
vitória. Não há exércitos e até mesmo povos que vão na direção de uma derrota certa? Não elogiamos
aqueles que se deixaram matar lutando antes de render-se. Pois esta é minha religião.

Estes, os que me dirigem esta pergunta, querem que eu lhes dê um dogma, uma solução na qual possam
descansar o espírito da sua preguiça. E nem isto querem, apenas buscam classificar-me e meter-me em um
dos quadrados em que colocam os espíritos, dizendo de mim: é luterano, é calvinista, é católico, é ateu, é
racionalista, é místico, ou qualquer outra destas alcunhas, cujo sentido claro desconhecem, mas que os
dispensa de seguir pensando. E eu não quero me deixar classificar, porque eu, Miguel de Unamuno, como
qualquer outro homem que aspire à consciência plena, sou um espécime único. “Não há enfermidades,
apenas enfermos”, soem dizer alguns médicos, e eu digo que não há opiniões, apenas opinadores. Na ordem
religiosa não há quase nada que eu tenha racionalmente resolvido, e como não o fiz, não posso comunicar
logicamente, porque só é lógico e transmissível o que é racional. Tenho, sim, com efeito, com o coração e
com o sentimento, uma forte tendência ao cristianismo sem ater-me à dogmas especiais desta daquela
confissão cristã. Considero cristão todo aquele que invoca com respeito e amor o nome do Cristo, e me
repugnam os ortodoxos, sejam católicos ou protestantes — estes costumam ser tão intransigentes quanto
aqueles — que negam o cristianismo a quem não interpreta o Evangelho como eles. Conheço cristão
protestante que nega que os unitários sejam cristãos.

Confesso sinceramente que as supostas provas racionais — a ontológica, a cosmológica, a ética, etc. — da
existência de Deus não me demonstram nada; que quantas razões se queira dar de que existe um Deus me
parecem razões baseadas em paralogismos e petições de princípio. Nisto estou com Kant. E sinto, ao tratar
disto, não poder falar aos sapateiros em termos de sapataria. Ninguém conseguiu me convencer
racionalmente da existência de Deus, mas tampouco de sua não-existência; os raciocínios dos ateus me
parecem de uma superficialidade e futilidade ainda maiores do que os de seus contraditores. E, se creio em
Deus ou, pelo menos, creio crer Nele, é, sobretudo, porque quero que Deus exista, e depois, porque se
revela a mim, por via cordial, no Evangelho e através do Cristo e da História. É coisa de coração. O que
quer dizer que não estou convencido disto como o estou de que dois mais dois são quatro. Caso se tratasse
de algo que não mexesse com a paz da minha consciência e com o consolo de ter nascido, talvez não me
ocupasse do problema; mas como nele vai toda a minha vida interior e o estímulo de todas as minhas ações,
não posso contentar-me em dizer: não sei nem posso saber. Não sei, é certo; talvez não possa saber nunca,
mas “quero” saber. Quero-o, e basta. E passarei a vida lutando contra o mistério e ainda sem esperança de
nele penetrar, porque esta luta é meu alimento e meu consolo. Sim, meu consolo. Me acostumei a extrair
esperança do próprio desespero. E não gritem “Paradoxo!” os mentecaptos e os superficiais.

Não concebo a um homem culto sem esta preocupação, e espero muito pouca coisa na ordem da cultura — e
cultura não é o mesmo que civilização — daqueles que vivem desinteressados do problema religioso em seu
aspecto metafísico e somente o estudam em seu aspecto social ou político. Espero muito pouco para o
enriquecimento do tesouro espiritual do gênero humano daqueles homens ou daqueles povos que, por
preguiça mental, por superficialidade, por cientificismo, o pelo que seja, se apartam das grandes e eternas
inquietudes do coração. Não espero nada dos que dizem: “Não se deve pensar nisso! ”; espero ainda menos
dos que creem em um céu e em um inferno como aqueles em que acreditávamos na infância, e espero até
menos daqueles que afirmam com a gravidades do néscio: “Tudo isto não passa de fábulas e mitos; quem
morre é enterrado, e acabou”. Somente espero dos que ignoram, mas que não se resignam a ignorar; dos
que lutam sem descanso pela verdade e põem sua vida na própria luta mais que na vitória.
E o maior dos meus trabalhos tem sido sempre inquietar aos meus próximos, remover-lhes a quietude do
coração, angustiá-los, se puder. Já o disse em meu Vida de Dom Quixote e Sancho, que é a minha mais
extensa confissão a este respeito. Que eles busquem, como eu busco, que lutem, como luto eu, e, entre nós
todos, algum fiozinho de segredo arrancaremos de Deus, e, pelo menos, essa luta nos fará mais homens,
homens de mais espírito.

Para esta obra, obra religiosa, foi-me necessário  - em povos como estes povos de língua castelhana,
carcomidos de preguiça e de superficialidade de espírito, adormecidos na rotina do dogmatismo católico ou

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do dogmatismo livre-pensador ou cientificista -  parecer por vezes impudico e indecoroso, em outras duro e
agressivo, não poucas enrolado e paradoxal. Em nossa minguada literatura não se ouvia ninguém gritar
desde o fundo do coração, descompor-se, clamar. O grito era quase desconhecido. Os escritores temiam
fazer-se ridículos. Acontecia-lhes e lhes acontece o mesmo que àqueles que suportam à uma afronta no
meio da rua por temor ao ridículo de se verem com o chapéu no chão ou presos pela polícia. Eu, não;
quando senti vontade gritar, gritei. Jamais me conteve o decoro. E esta é uma das coisas que menos me
perdoam estes meus companheiros de ofício, tão comedidos, tão corretos, tão disciplinados até mesmo
quando pregam a incorreção e a indisciplina. Os anarquistas literários se preocupam, acima de tudo, com a
estilística e a sintaxe. E quando saem do tom o fazem afinadamente; seus desacordes conseguem ser
harmônicos.

Quando senti uma dor, gritei, e gritei em público. Os salmos que figuram em meu volume de Poesías não
são mais que gritos do coração, com os quais busquei fazer vibrar as cordas dolorosas dos corações dos
outros. Se não têm essas cordas, ou se as têm tão rígidas que não vibram, meu grito não ressoará nelas, e
declararão que isso não é poesia, pondo-se a examiná-los acusticamente. Também se pode estudar
acusticamente o grito que lança um homem quando vê seu filho de repente cair morto, e quem não tem nem
coração nem filhos, fica nisso. Estes salmos de minhas Poesías, com outras várias composições que ali
estão, são minha religião cantada, e não exposta logica e racionalmente. E a canto, bem ou mal, com a voz
e o ouvido que Deus me deu, porque não posso raciociná-la. E quem veja nestes meus versos raciocínio e
lógica, e método e exegese, mais do que vida, por neles não haver faunos, dríades, silvanos, nenúfares,
“absintos” (ou seja, losna), olhos glaucos e outras jóias mais ou menos modernistas, que lá permaneça com
os seus, pois não vou tocar-lhe o coração nem com arcos de violino ou martelos.

Do que fujo, repito, como da peste, é de que me classifiquem, e quero morrer ouvindo perguntar de mim os
folgados de espíritos: “E este senhor, que é? ” Os liberais ou progressistas tontos me terão por reacionário
e acaso por místico, sem saber, é claro, o que isto quer dizer, e os conservadores e reacionários tontos me
terão por uma espécie de anarquista espiritual, e uns e outros, por um pobre senhor desejoso de
singularizar-se e de passar por original e cuja cabeça é um pote de grilos. Mas ninguém deve se preocupar
do que dele pensam os tontos, sejam progressistas ou conservadores, liberais ou reacionários. E como o
homem é teimoso e não costuma querer se informar e tem o hábito de depois de lhe haverem pregado
sermões por quatro horas voltar aos passeios, os perguntões, se lêem isto, voltarão a me perguntar: “Bom;
mas que soluções trazes? ” E eu, para concluir, lhes direi que se querem soluções, corram para a loja da
frente, porque na minha não se vende semelhante artigo. Meu empenho foi, é e será, que aqueles que me
lêem, pensem e meditem nas coisas fundamentais, e nunca foi de dar-lhes pensamentos prontos. Eu busquei
sempre agitar e mais sugerir do que instruir. Se vendo pão, não é pão, mas levedura ou fermento.

Há amigos, e bons amigos, que me aconselham a deixar de lado este esforço e me recolher a fazer o que
chamam de obra objetiva, algo que seja, dizem, definitivo, algo de construção, algo duradouro. Querem
dizer algo dogmático. Declaro-me incapaz disto e reclamo minha liberdade, até mesmo de me contradizer,
se for o caso. Eu não sei se algo do que fiz ou que venha a fazer na seqüência haverá de perdurar por anos
ou por séculos após a minha morte; mas sei que se for dado um golpe num mar sem orla as ondas ao redor
prosseguirão sem cessar, mesmo que se enfraquecendo. Agitar é algo. Se por conta desta agitação vier
atrás de mim outro que faça algo duradouro, nele durará minha obra. É obra de misericórdia suprema
despertar o adormecido e sacudir o inerte, e é obra de suprema piedade religiosa buscar a verdade em tudo
e descobrir onde quer que seja o dolo, a necedade e a inépcia. Já sabe, pois, meu bom amigo o chileno o
que tem que responder a quem lhe pergunte qual é minha religião. Agora, bem; se for um destes
mentecaptos que creem que guardo ojeriza a um povo ou à uma pátria quando lhe cantei as verdades a
algum de seus filhos irreflexivos, o melhor que pode fazer é não lhes responder.”

Miguel de Unamuno - Salamanca, 6 de novembro de 1907.

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EM NOME DO PAI, DO FILHO E…

Alguns dias atrás, trocando mensagens com uma escritora do Recanto das Letras a propósito de
Paulo de Tarso, expliquei para ela que achei bastante singular o fato de São Paulo ter revelado elementos
fundamentais da mensagem de Cristo que não apenas contrastam com a tradição dos Apóstolos da Igreja de
Jerusalém, mas entram em contradição com as próprias palavras proferidas por Jesus. Afinal se Deus em
pessoa havia inspirado o Filho na escolha de seus seguidores (que ele teve a oportunidade de instruir durante
três anos consecutivos) não se entende por qual motivo um perseguidor das primeiras comunidades cristãs –
e que jamais conheceu pessoalmente o Mestre- deveria ser titular duma verdade mais profunda daquela que
havia sido revelada aos discípulos por Cristo em pessoa. A resposta da escritora foi a seguinte: “Passa pela
tua cabeça, Richard, a existência do Deus Espírito Santo; que atua em espírito na terra, usando as mentes
dos homens e mulheres, para desenvolver conhecimento e sabedoria nas pessoas?”. Como lhe devia uma
resposta, resolvi escrever mais um artigo onde pretendo expor a minha visão sobre o conceito de Espírito
Santo, terceira pessoa da famosa Trindade cristã.

Segundo a tradição, tudo começa com a Ascensão, evento narrado apenas no Evangelho de Lucas (24:51) e
nos Atos (1:9-11), que são do mesmo autor. Quanto relatado em Marcos –a partir do versículo 16:9 até o
fim- é uma interpolação tardia que não se encontra no Codex Vaticanus e nem no Codex Sinaiticus, ambos
da metade do quarto século e que representam os mais antigos manuscritos existentes do Antigo e do Novo
Testamento. Em outras palavras, tudo o que nos foi inculcado sobre os acontecimentos post mortem de Jesus
foi contado por uma única pessoa (Lucas) que, além de não ser testemunha ocular dos eventos, escrevia sob
a indicação de seu mentor (Paulo) que também jamais havia conhecido Cristo pessoalmente. Muitos
acreditam ingenuamente que Lucas foi um dos Apóstolos, mas se enganam redondamente pois ele nem
sequer era israelita sendo, além de médico, um profundo conhecedor da cultura e da língua grega que
encontrou Paulo de Tarso pela primeira vez a Antioquia. Por incrível que pareça, Lucas chega a se
contradizer de forma escancarada quando em seu Evangelho afirma que a Ascensão ocorreu no mesmo dia
da ressurreição enquanto, nos Atos, declara que a mesma aconteceu quarenta dia depois

Nesses últimos lemos que: “De repente veio do céu um ruído, como que de um vento impetuoso, e encheu
toda a casa onde estavam sentados. E lhes apareceram umas línguas como que de fogo, que se distribuíam,
e sobre cada um deles pousou uma. E todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras
línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem” (Atos 2:2-4). Essa suposta habilidade de falar
outras línguas é chamada de glossolalia cuja definição é a seguinte: “Fenômeno extático no qual um
indivíduo emite uma série de sons ou palavras cujo sentido seus ouvintes não podem apreender, senão com
o concurso de outra pessoa detentora do dom da interpretação”. Trata-se, basicamente, de palavras sem
sentido que, ocasionalmente, podem ser interpretadas como sendo idiomas desconhecidos. Entretanto, não
todos acreditaram nesse “milagre” tanto que “outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto.” (Atos
2:13) Pedro, pateticamente, responde: “estes homens não estão embriagados, como vós pensais, visto que é
apenas a terceira hora do dia” (Atos 2:15) admitindo, implicitamente, que eles costumavam beber, mas não
tão cedo assim. Entretanto, o próprio Paulo de Tarso admite a impossibilidade de entender essa fala pois
reconhece que: “Porque o que fala em língua não fala aos homens, mas a Deus; pois ninguém o entende;
porque em espírito fala mistérios.” E ainda: “Por isso, o que fala em língua, ore para que a possa
interpretar. Porque se eu orar em língua, o meu espírito ora, sim, mas o meu entendimento fica infrutífero.”
(1 Cor. 14:2 e 13-14). Até a Conferência Episcopal Italiana (CEI) admite que possa se tratar de “linguagem
extática” conhecida pela psiquiatria que a define como “criação de um vocabulário constituído por
neologismos e que utiliza uma sintaxe deformada”. Apesar de São Paulo ter profetizado que: “O amor
jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão;” (1 Cor. 13:8); esse
fenômeno singular continua sendo corriqueiro nas Igrejas Pentecostais.

Voltando ao assunto, observamos que a edição oficial da Bíblia da CEI, em relação ao verbete “Espírito
Santo”, se apoia nada menos que no livro do Gênesis, em particular no versículo onde está escrito que: “No
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princípio criou Deus os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo,
mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas.” (Gên. 1:1-2). Antes de proceder, seria oportuno
sublinhar, pela enésima vez, que o verbo original “bará” não significa criar do nada -tanto que Javé “cria”
também Israel, evidentemente não do nada- e todos os dicionários de hebraico alertam o estudioso a não
traduzir o verbo “bará” com “criar”, muito menos no sentido de criar do nada. Segue, portanto, que o pilar
fundamental de toda a teologia cristã, ou seja a criação do nada, não tem fundamento nas palavras do
Gênesis. Além disso, o primeiro versículo da Bíblia fala em águas que não se referem aos mares e aos
oceanos sendo que, em seguida, a narração continua assim: “Fez, pois, Deus o firmamento, e separou as
águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento.” (Gên. 1:7).
Exatamente como as antigas culturas do Oriente Médio e do Egito, os Israelitas acreditavam que houvesse
águas além das estrelas, as mesmas que em seguida foram utilizadas para o Dilúvio universal.

Quanto ao “espírito” que teria pairado sobre essas águas, os tradutores e os teólogos esqueceram
deliberadamente de especificar que a palavra original “ruach” aparece 400 vezes no A.T. tendo vários
significados, entre eles: espírito, vento, hálito e respiro. O que pairava sobre as águas nada era se não o
hálito, o respiro do Elohim Javé que, tido pelos antigos Hebreus como um ser extremamente poderoso, mas
concreto e material, só podia ser uma entidade única e absolutamente indivisível (e, acrescentamos, sem
filhos!). Ademais, o conceito de espírito foi desenvolvido muitos séculos depois pelos filósofos gregos e não
por um povo de pastores palestinenses que desconheciam até o significado da palavra “geometria”. Do ponto
de vista linguístico é importante notar que o vocábulo original “ruach” é feminino, sendo em seguida
traduzido em grego com “pneuma” (neutro) e, enfim, em latim com “espiritus” (masculino). A opinião que o
Espírito Santo fosse uma figura feminina era comum no Império Bizantino onde foi erguida a famosa
basílica Hagia Sophia (Santa Sofia, em português) que significa “Santa Sapiênça”. Para os cristãos
Gnósticos Deus, localizado no centro do Universo, não cria mas emana entidades chamadas Éons (faíscas
divinas) em pares ativo-passivo (ou masculino-feminino) complementares que, juntos, constituem as
Sigízas. Uma delas, a mais importante pela humanidade, teria sido formada por dois Éons: Soter (Cristo, o
Salvador) e Sophia (o Espírito Santo, a Noiva de Cristo).

Deixando de lado o problema do sexo do Espírito Santo, sabemos que: “Estando Maria, sua mãe, desposada
com José, antes de se ajuntarem, ela se achou ter concebido do Espírito Santo” (Mateus 1:18). Trata-se, por
enquanto, de uma figura totalmente imaterial mas que, em seguida, irá aparecer tanto como línguas de fogo
(Pentecoste) que como pomba imaculada (Batizado de Jesus), animal manso e emblema da paz. Entretanto,
o próprio Jesus anuncia a iminente vinda do Paráclito com essas palavras: “Quando vier o Ajudador, que eu
vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que do Pai procede, esse dará testemunho de mim; e
também vós dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio” (João 15:26-27). A expressão “que
do Pai procede”, aparentemente inofensiva, foi na verdade uma das principais causas do cisma entre as
Igrejas de Roma e a de Constantinopla ocorrido no ano 1054. Aconteceu que, tanto no Credo promulgado no
Primeiro Concílio de Niceia (325) como naquele redigido pelo Concílio de Constantinopla (381), o cristão
tinha a obrigação de acreditar no Espírito Santo que “procede do Pai”, dogma ainda aceito tanto pelos
Ortodoxos (Gregos e Russos) como pelos católicos Orientais (Coptos, Maronitas, Armênios, etc.). O
problema surgiu quando o Sínodo de Toledo (447), acatando uma dica de papa Leão I, modificou
ligeiramente o texto escrevendo que o Espírito Santo “procede do Pai e do Filho” (Filioque, em latim). Essa
alteração, inaceitável pelos cristãos do Oriente que o consideravam quase uma negação do monoteismo, foi
abolida no ano 809, mas logo reintroduzida no ano 1014 com o resultado que, em 1054, o papa Leão IX e o
patriarca de Constantinopla Miguel I acabaram se excomungando reciprocamente. De nada adiantou a
recente tentativa do então cardeal Joseph Ratzinger (futuro papa Bento XVI) de aplanar a disputa publicando
uma Declaração oficial (06/08/2000) onde aparece o Credo em latim sem a palavra “Filioque”: a divisão
entre as duas Igrejas, ocorrida quase mil anos atrás, continua permanecendo por insignificantes motivos
ideológicos dos quais nem o Vaticano se importa mais.

Até agora falamos na terceira pessoa da Trindade, mas a segunda?


Embora os modernos cristãos acreditem que Jesus foi logo reconhecido e venerado como Filho de Deus e
Deus ele mesmo, mais uma vez demonstram desconhecer os fundamentos históricos da teologia. Para os

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seus discípulos e para os seus familiares, Cristo era visto apenas como um ser humano, um homem
abençoado por Javé, o profeta anunciado por Moisés, o “servo” de Deus, um Messias, mas unicamente no
sentido original da palavra, que quer dizer “ungido”, guia político e espiritual do povo israelita. Nada mais
do que isso. Essa análise é confirmada pelo mais antigo dos Evangelhos, o de Marcos, no qual Jesus é
sempre apresentado como sendo um homem ciente da enorme diferença entre ele e Deus. Lemos, por
exemplo, que “E não podia fazer ali nenhum milagre” (Marcos 6:5) mostrando, destarte, de não ser
onipotente. Quanto ao fim dos tempos, o Mestre afirma que “Quanto, porém, ao dia e à hora, ninguém sabe,
nem os anjos no céu nem o Filho, senão o Pai” (Marcos 13:32) significando que ele não era onisciente e
nem infinitamente “bom” como se convêm a um deus: “Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom?
ninguém é bom, senão um que é Deus” (Marcos 10:18). Por sinal, sempre em relação ao Juízo final, Cristo
promete que “Em verdade vos digo que não passará esta geração, até que todas essas coisas aconteçam”
(Marcos 10:30). Durante vários anos a parúsia foi tida como iminente, sendo também reforçada pelas
palavras de Pedro: “Mas já está próximo o fim de todas as coisas” (1 Pedro 4:7) e “Pois ainda em bem
pouco tempo aquele que há de vir virá, e não tardará” (Hebreus 10:37) e de Tiago “Eis que o juiz está à
porta” (Tiago 5:9). Mas como Jesus não voltou, a Igreja teve que inventar mirabolantes elucubrações
teológicas para adiar a parúsia até um tempo indefinidamente distante.

Retornando ao tema principal, já nos evangelhos de Mateus e de Lucas Jesus começa a ser apresentado
como um ser quase divino e essa metamorfose chega a se completar no evangelho de João que identifica
Cristo com o Logos, o Verbo, existente antes da Criação. É evidente que essa definição não passa de poesia
metafórica, tanto que esse mesmo evangelista relata, de forma mais prosaica, as palavras do Mestre durante
a última ceia: “Se me amásseis, alegrar-vos-íeis de que eu vá para o Pai; porque o Pai é maior do que eu”
(João 14:28). Até São Paulo, primeiro artífice da divinização de Jesus, considerava o Filho subordenado ao
Pai e jamais idêntico ao Pai. Paulo de Tarso usa o nome grego “Theos” (Deus) quando se refere ao Pai e o
nome “Kyrios” (Senhor) quando fala de Jesus querendo reafirmar que considerava Cristo um ser divino, mas
sempre um pouco inferior a Deus. O versículo: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os
homens, Cristo Jesus, homem” (1 Timóteo 2:5) confirma que para Paulo existe uma clara diferença entre o
Pai (Deus-Criador) e o Filho (Senhor-Salvador).

O dogma trinitário das três pessoas foi formulado pela primeira vez pelo apologista Tertuliano (160-220
d.C.), tido como autor do famoso aforismo “credo quia absurdum” cujo significado não é apenas “creio
embora seja absurdo”, mas "creio porque é absurdo", ou seja, a verdadeira fé tem de se opor à razão. Como
resultado, a teologia cristã começou a abandonar o percurso da lógica e do bom senso obrigando a Igreja,
durante os séculos sucessivos, a inventar –e defender com com os poderes da Inquisição- dogmas cada vez
mais fantasmagóricos e irracionais criando, destarte, uma teologia que Jorge Luis Borges definiu “um ramo
da literatura fantástica”. Graças à invenção da Trindade, por um lado a nascente Igreja cristã conseguiu
incorporar à nova doutrina conceitos que eram muito populares seja entre as classes mais humildes
seguidoras do paganismo, seja entre os intelectuais seguidores das ideias contidas no neoplatonismo. O
sucesso foi enorme e, em breve tempo, o cristianismo tornou-se a religião dominante no Império Romano.
Entretanto, esse percurso acarretou o abandono da simples e genuína fé evangélica de Cristo e dos Apóstolos
substituída pela teologia doutrinal embutida de conceitos típicos da filosofia grega (hipóstase, substância,
essência, Logos, etc.) que tanto Jesus como os primeiros cristãos teriam considerado absolutamente
incompreensível.

Em conclusão, por qual motivo a teologia cristã atesta, com absoluta segurança, a existência da Trindade
composta por três pessoas denominadas respectivamente Pai, Filho e Espírito Santo? A Igreja responde que
os teólogos da Antiguidade e da Idade Média não podiam ter errado devido terem sido inspirados nada
menos que pelo... Espírito Santo! Esse é um perfeito exemplo do que a Lógica qualifica de “petição de
princípio”, ou seja, uma retórica falaciosa onde a verdade da conclusão é assumida já pelas premissas. Seria
oportuno que as pessoas, antes de acreditarem cegamente em qualquer dogma, refletissem e meditassem
sobre as seguintes sábias palavras de Buda:

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“Acredite não porque alguns manuscritos antigos lhe são mostrados, acredite não porque é o seu credo
nacional, acredite não porque isso lhe foi feito acreditar na sua infância, mas raciocine para encontrar a
Verdade, e depois de tê-la analisada, se descobrir que fará bem a um ou a todos, acredite, viva conforme
ela e ajude os outros a fazer o mesmo.”

118
INFERNO E PARAÍSO

O Inferno é uma noção presente em muitas culturas anteriores ao Cristianismo e é de regra


considerado um lugar de penas terrificantes caracterizadas pela presença de fogo, enxofre, frio e gelo
eternos. Atualmente, o Catecismo Católico (art. n° 1035) diz que: “A doutrina da Igreja afirma a existência
do Inferno e a sua eternidade. As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem
imediatamente, após a morte, aos infernos, onde sofrem as penas do Inferno, o fogo eterno.” Mas de onde
nasce esse conceito, basicamente inexistente no A.T.? Já na época de Cristo os Saduceus, ou seja o alto clero
do Templo de Jerusalém, afirmavam que Moisés jamais havia falado na imortalidade da alma e, muito
menos, na ressurreição dos mortos. O Inferno nasce, portanto, de forma progressiva com o desenvolvimento
e a sucessiva interpretação dos textos do Novo Testamento. Outrossim, as Epístolas de São Paulo, das quais
derivam os Evangelhos canônicos, ignoram esse lugar de eterno castigo. A base doutrinal do Inferno se
apoia em apenas dois versículos onde, em relação aos que praticam iniquidade, os anjos: “lançá-los-ão na
fornalha de fogo; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 13:42) e onde Cristo fala: “...Apartai-vos de
mim, malditos, para o fogo eterno...” (Mateus 25:41).

Entretanto, muitos teólogos e exegetas reputam que essas palavras não tinham sido proferidas por Jesus, mas
acrescentadas sucessivamente pela Igreja dos primeiros séculos intencionada a amedrontar os pagãos para
lograr mais conversões. A prova é que os Padres da Igreja quase não falam nesse castigo eterno e, para
Orígenes, Gregório de Níssa, Teodoro de Mopsuéstia, e outros doutores cristãos, as penas do Inferno não
deviam ser consideradas eternas, mas temporárias, como as do Purgatório. Eles reputavam que, com a volta
de Cristo (parúsia), toda a humanidade teria sido salva mediante a “restauração final” (apokatástasis) de
todos os seres viventes e do próprio cosmo envolvendo não apenas os apenados no Inferno, mas até os
próprios demônios (veja Orígenes em De Principiis). Infelizmente a tese desses eminentes Padres não foi
aceita pela hierarquia eclesiástica, ciente de que a ameaça dos tormentos eternos era a arma mais poderosa
para induzir terror e obter a obediência de seus rebanhos. Consequentemente, essa “pena perpétua” foi
constantemente confirmada por vários Concílios, a partir do IV Lateranense (1215) até o Vaticano II (1965).

Atualmente, muitos cristãos estão começando a recusar esse terror infantil com base num simples raciocínio:
como pode um Deus infinitamente bondoso, pai de todos os seres humanos, permitir que uns de seus filhos
queimem no fogo infernal pela eternidade? Assassinos hediondos como Hitler e Stalin, tendo suprimido
inúmeras vidas inocentes, irão experimentar o peso do remorso durante milhões ou até bilhões de anos, mas
deve chegar um momento em que, ao se conscientizar da imensa dor por eles provocada, irão se arrepender
sinceramente. O mal gerado pelos grande criminais da História, mesmo tendo proporções gigantescas, mas
finitas, não pode ser retribuído com um sofrimento infinito. Esse é um raciocínio bastante lógico mas a
Igreja, condicionada pelo seu próprio dogmatismo medieval, continua insistindo no princípio do fogo eterno
sem se dar conta que se trata de uma absurdidade, assim como é absurdo o dogma do “pecado original”,
ignorado por Jesus e seus Apóstolos, mas “descoberto” por Tertuliano e Santo Agostinho. Esse dogma
fundamental transformou toda a humanidade numa “massa maldita” onde até os bebês vinham à luz
condenados à morte eterna que podia ser evitada unicamente com o batizado imediato mas que, para Paulo
de Tarso, devia ser dado apenas aos adultos. Somente em seguida a Igreja se deu conta dessa
monstruosidade e, para obviar, inventou o limbo que continuou vigorando até o ano de 2007, quando papa
Bento XVI achou oportuno aboli-lo definitivamente.

Também a crença no Paraíso não vem nem do A.T. e nem das palavras dos Apóstolos, mas se fundamenta
sobre duas incertas referências evangélicas provavelmente interpoladas em épocas sucessivas. A primeira é:
“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino
que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 25:34), mas este versículo não se encontra nos
outros Evangelhos. A segunda é a seguinte: “Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás
comigo no paraíso” (Lucas 23:43), no entanto lemos que “Também os que com ele foram crucificados o
injuriavam” (Marcos 15:32). É oportuno lembrar que o de Marcos é o mais antigo e original dos sinóticos e,
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portanto, o mais fidedigno entre os canónicos. Se Marcos afirma que nenhum dos dois ladrões se
arrependeu, significa que o versículo de Lucas não passa de uma interpolação tardia. Por outro lado, como é
possível que um conceito tão basilar para a fé cristã seja totalmente ausente no A.T. e apareça quase que
sorrateiramente nas páginas do N.T.? A explicação é extremamente simples: trata-se, mais uma vez, de uma
invenção da Igreja cristã apta a enganar os fiéis.

Além disso, de acordo com a doutrina cristã da ressurreição da carne, iremos para o Paraíso com um corpo
material que, necessariamente, terá todos os atributos da matéria. Mas, posto que não precisaremos mais
comer, beber e –diferente dos Muçulmanos- fazer sexo (que pena!), o que faremos para enganar o tempo
durante toda a eternidade? A Igreja afirma que a contemplação do esplendor de Deus será suficiente para
nos dar felicidade e alegria, mas duvido que os beatos não se aborreçam depois de uns bilhões de anos
passados sem fazer praticamente nada a não ser cantar hinos e louvar incessantemente a Deus. Doutores da
Igreja como Tertuliano e Tomás de Aquino já haviam se posto esse problema e por isso resolveram
acrescentar uma delícia extra, ou seja, a visão dos apenados no fogo do Inferno. Conseguem os leitores
imaginar o prazer verdadeiramente sádico de quem terá que, eventualmente, assistir às penas eternas de
pessoas que na vida lhes foram queridas como um pai, uma mãe, um filho ou uma irmã? Para uma pessoa
normal esse espetáculo seria fonte de imensa tristeza, mas não para os alienados que acreditam nos absurdos
propalados pelo clero cristão. Lembro perfeitamente de quando, no ensino fundamental, o sacerdote que nos
dava aulas (compulsórias!) de religião explicava como o piso do Paraíso fosse feito de vidro para que as
almas boas tivessem como gozar contemplando os sofrimentos eternos dos réprobos no meio das labaredas.

Sempre a respeito do Paraíso, cabe outra reflexão importante: o que vai ser das crianças que morreram
quando ainda eram muito pequenas ou até antes de nascer? A doutrina cristã não tem dúvidas que elas irão
para o Céu, mas não explica como um ser que ainda não alcançou o estado de autoconsciência –que de regra
ocorre em torno do segundo ano de vida.- possa se relacionar com um ambiente que lhe é totalmente
desconhecido. Sabemos, pela psicologia, que o desenvolvimento está sujeito a influências internas e externas
e que a personalidade individual vai se moldando durante muitos anos de acordo com a qualidade e a
quantidade de experiências vividas. Mas quais experiências, boas ou ruins, poderão ser experimentadas num
ambiente onde nada acontece, onde é tudo estático e cristalizado, onde as pessoas não trabalham, não
estudam, não comem, não envelhecem, não competem, não namoram, etc.? Evidentemente no Paraíso não
pode haver dor e sofrimento que, todavia, são estímulos indispensáveis para um crescimento equilibrado.
Então como pode um simples embrião, que nem sequer possui um sistema nervoso e nem sabe que existe, se
tornar de repente um ser completamente maduro e desenvolvido? Um padre meu amigo me disse que Deus
dará a eles, milagrosamente, uma personalidade de adulto. Objetei que, nesse caso, seria uma personalidade
falsa, artificial, cheia de recordações inventadas iguais às que poderia ter um autômato, como o protagonista
do filme “Inteligência Artificial” de Steven Spielberg.

Até Miguel de Unamuno queria, num hipotético além, continuar sendo ele, em corpo, alma e memória para
todo o sempre. Esse grande filósofo insistia em dizer que queria continuar vivendo tal como ele era, com
seus defeitos psíquicos e físicos, em carne e osso, sem remissão das suas misérias e insuficiências numa
possível glorificação celeste. Unamuno achava que a glorificação ia ser a morte do Eu, e não a sua
perduração. A glória seria o fim da luta, da dor. Sem dor a vida não seria mais sua, mas dos anjos ou dos
ressuscitados, e ele abominava essa perspectiva.
Então como devemos encarar o problema? Uma primeira resposta, embora muito limitada, pode ser
encontrada no pensamento de Tomás de Aquino segundo o qual a infusão da alma racional dentro do
embrião ocorre quarenta dias depois da fecundação e que antes desse prazo a pequena aglomeração de
células embrionais deve ser considerada um vegetal ou um animal, mas não uma pessoa. Uma consequência
do ponto de vista de São Tomás Aquino é que o aborto seria absolutamente lícito se praticado nos primeiros
trinta e nove dias depois da concepção, quando o embrião ainda estaria desprovido de uma alma imortal.
Mesmo assim, temos que admitir que um embrião de quarenta dias está longe de possuir um Eu e não se
pode nem de longe imaginar qual seria o seu fado lá no Paraíso. Também não se entende por qual motivo a
Igreja é tão ferozmente contrária ao aborto se, como ela mesma garante, 100% dos fetos vai para o Céu. É
óbvio que, nascendo, uma parte deles, devido a liberdade de escolha garantida pelo livre arbítrio, acabará

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cometendo graves pecados e, por isso, irá para no Inferno. Então, se o objetivo final é a salvação, não é
melhor que o maior número possível de crianças morram antes de vir ao mundo? E não teria sido melhor
para todos se as mães de Hitler e de Stalin tivessem resolvido abortar?

Se uma solução, como a que me foi apresentada por aquele sacerdote, leva a paradoxos, significa que não
funciona e, por conseguinte, deve ser descartada. A única saída é deixar de acreditar no dogma da existência
das almas e imaginar que tudo o que se passa na nossa vida, do começo até o fim, seja gravado em algum
suporte ainda desconhecido, eventualmente pertencente à uma outra dimensão que comunicaria com a nossa
por meio de conexões psíquicas. Destarte, quando o corpo físico se dissolve, o Eu, com todas as
experiências e a memória completa dos eventos passados, será preservada da mesma forma com que um
filme pode sê-lo num pen drive. Aquelas criaturas que, seja pela idade insuficiente ou por algum outro
defeito (por exemplo anencefalia) não tenham alcançado o estado de autoconsciência, não tendo como se
desenvolver ulteriormente irão desaparecer. Mas os outros Eus poderão projetar os seus desejos conscientes
e inconscientes, materializando-os em universos pessoais virtuais, embora percebidos como absolutamente
reais. Isso sem limite algum, vivendo inúmeras experiências que os enriquecerão até à completa perfeição
humana. Enfim, terminada essa fase, os Eus se juntarão para constituir uma estrutura de nível superior com
características e propriedades que dificilmente podemos imaginar.
Infelizmente trata-se apenas duma hipótese que, por enquanto, não pode ser comprovada, mas pelo menos
funciona e não leva a paradoxo algum, sem contar que é independente de qualquer credo religioso e não
obriga ninguém a cumprir ritos ou a se entregar à Providência, sendo que o que não foi realizado nesse plano
o será no outro e quem escolheu o caminho do mal terá que lidar com o seu remorso implacável.

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MILAGRES DO PARAÍSO

“Milagres do Paraíso” é o título em portugues (no Brasil) do filme “Miracles from Heaven” baseado
no livro homônimo de Christy Beam e lançado em 2016. Basicamente, é narrada uma história verídica que
aconteceu entre 2008 e 2012 na cidade de Cleburne, no Texas. A trama é simples: Annabel Beam, uma
garotinha de dez anos de idade, começa a passar mal e, após uns diagnósticos superficiais, finalmente é
atendida, na cidade de Boston, pelo Dr. Nurko, o mais conceituado gastroenterologista pediátrico dos
Estados Unidos. O diagnóstico não é dos melhores: a menina sofre com uma doença motória intestinal que,
embora raramente mortal, provoca vômitos, fortes dores, diarreia e outros sérios transtornos. Necessita,
portanto, de tratamento intensivo e de cuidados caros e continuados. A origem da enfermidade não é clara,
mas parece ser originada por um defeito nos nervos intestinais. Enquanto o pai da menina insiste na
necessidade de não perder a fé, a mãe, desanimada diante de tanto sofrimento, começa a duvidar da bondade
de Deus.

Um dia, enquanto Annabel brinca com a irmã em cima duma árvore no quintal de casa, sem querer cai
dentro do tronco, que é oco, e precipita no interior da planta até alcançar o fundo nove metros abaixo. Perde
os sentidos e, umas horas depois é resgatada pelos bombeiros e levada de helicóptero ao hospital onde,
felizmente, constatam que não sofreu ferimentos significativos.
Em seguida, a menina começa rapidamente a melhorar dos sintomas intestinais e o Dr. Nurko confirma que,
do ponto de vista clínico, a pequena paciente está realmente bem. Enfim, a própria Annabel conta que,
enquanto se encontrava desfalecida dentro do tronco, teve uma experiência de quase morte (EQM) durante a
qual se achou num lindo jardim florido, subiu além das nuvens e “falou” com Deus que a tranquilizou
prometendo que iria sarar logo que retornasse na Terra.
O filme, cuja produção custou 13 milhões de dólares rendeu, em total, 73,9 milhões e foi um sucesso
comercial, mas os críticos apontaram a estrutura frágil e um pouco enfadonha da narração.

O significativo resultado comercial desse filme deve-se, basicamente, à forma como foi apresentado pelos
Evangélicos, ou seja, como prova definitiva que os milagres existem de verdade e acontecem com
frequência, principalmente, àquelas pessoas que tem fé e nunca deixam de acreditar na bondade da
Providência divina. Objetivamente é muito fácil se deixar envolver emocionalmente por um filme que,
embora relate fatos verídicos, necessita ser analisado e avaliado à luz do raciocínio e dos nossos
conhecimentos científicos atuais. Vamos, portanto, averiguar os acontecimentos começando pelo mais
importante: a cura da menina.

Antes de tudo é necessário saber que o nosso organismo é extraordinariamente complexo, sendo constituído
por bilhões de células cada uma contendo além de dez mil proteínas diferentes. Sem contar o microbiota
intestinal composto por 390 trilhões de microrganismos (bactérias, vírus e fungos), que é 1,3 vezes maior
que o total de todas as nossas células. Esse microbiota desenvolve um papel fundamental para o correto
funcionamento do que os médicos chamam de “eixo cérebro-intestinal”. No caso de Annabel, a pseudo
obstrução intestinal parecia estar relacionada com problemas de transmissão dos impulsos nervosos do
cérebro aos nervos intestinais e não é clara a dinâmica da cura que, como se viu, não foi instantânea, como
deveria ser esperado de um milagre.

Pode ser que o fator decisivo da cura tenha sido a pancada recebida, tanto que o próprio Dr. Nuko falou num
“reset” cerebral. Por outro lado a Ciência registra diariamente casos de remissão espontânea de doenças
graves, até de câncer terminais, com a probabilidade de um evento positivo em cada 60.000 pacientes. Essas
curas independem de crenças religiosas, orações, comportamento individual, moralidade, etc. Entre os
romeiros que buscam a terapia em lugares sagrados como Fátima, Lourdes, Medjugorje, etc. o percentual
das curas é estatisticamente menor daqueles que não participam dessas “Viagens da esperança”.

As curas ocorrem de forma totalmente aleatória, assim como acontece com os apostadores das loterias, mas
disso os religiosos não gostam de falar. A verdade é que, haja vista a complexidade do corpo humano,
122
muitos eventos até agora considerados impossíveis, tornam-se explicáveis de modo natural e não podem ser
considerados resultado da intervenção divina. Na medida em que a medicina progride, o que antes era visto
como um milagre, passa a ser avaliado como um fenômeno natural. Até agora essas curas espontâneas são
raras, mas a partir do momento em que o mecanismo for esclarecido, a medicina dará um grande passo pra
frente. Como disse Voltaire, milagre seria um homem decepado pegar a sua cabeça debaixo do braço e sair
andando ou, para usar uma imagem mais moderna, um avião despedaçado prestes a precipitar, se recompor e
continuar voando. Ninguém viu não digo um braço, mas nem sequer a falange dum dedo mínimo crescer de
novo ou uma criança Down voltar a ser normal. Em resumo, o que é impossível de acontecer jamais
aconteceu e o que ocorre de forma natural não pode ser considerado milagre.

Outro elemento que, no filme, sustenta a tese do milagre é a EQM. Entretanto, quando a mãe da mocinha
relata o fato durante a função do domingo, um membro da congregação afirma de não acreditar no evento.
Quem escreve não nega a possibilidade desses tipos de fenômenos e deles falei exaustivamente num capítulo
do meu livro “Viagem ao Centro do Cristianismo” publicado nessa escrivaninha. Todavia, não penso que se
trate de viagens no além mas, simplesmente, de um momento muito singular durante o qual a pessoa entra
em íntimo contato com a sua própria consciência. Inclusive essas experiências são relativamente frequentes
e não provam nada, envolvendo também pacientes que não acreditam em Deus. Não se trataria, portanto, da
alma que sai do corpo, mas de imagens e sensações produzidas pelo próprio cérebro fato, esse, que pode ser
comprovado experimentalmente reduzindo mecanicamente o afluxo de oxigênio ao sistema nervoso central.

Quanto ao problema da consciência, embora a grande maioria dos cientistas afirmem que ela inexiste sem
atividade elétrica cerebral (EEG plano), o famoso físico britânico Roger Penrose, tomando algumas
descobertas de Stuart Hameroff como ponto de partida, elaborou uma teoria da consciência humana segundo
a qual a consciência poderia ser o resultado de fenômenos quânticos ainda desconhecidos que ocorreriam
nos microtúbulos dos neurônios e seriam parte duma nova hipótese capaz de unificar a teoria da relatividade
de Einstein com a mecânica quântica. Embora essa possibilidade tenha sido negada pelo físico Max
Tegmark, sucessivamente, em janeiro de 2014, Penrose e Hameroff anunciaram a descoberta, efetuada por
Anirban Bandyopadhyay, do Instituto Nacional de Ciência de Materiais do Japão, da presença de reações
quânticas em microtúbulos neurais. Penrose, apesar de ser ateu e sem orientação religiosa hipotetiza, junto
com Hameroff, que a consciência quântica de todo ser vivo seja independente do corpo, podendo, destarte,
sobreviver à morte física do cérebro e permanecer no multiverso não em uma vida após a morte, mas na
existência infinita, porque a informação quântica -pela Lei de conservação da energia- não pode ser
destruída. Penrose e Hameroff propõem, com essa teoria da consciência quântica, explicar também as
EQMs, sem negar ou diminuir tais fatos e, ao mesmo tempo, não abandonar a racionalidade científica.

Todo seguidor, cristão ou não, de qualquer forma de Teísmo -doutrina que afirma a existência de um Deus
pessoal e a sua ação providencial no mundo- põe a Divindade ao centro de seus pensamentos afirmando que
o que realmente importa na vida é aceitar o amor desse Deus e retribuí-lo devidamente. Tenho certeza,
porém, que o verdadeiro motivo pelo qual centenas de milhões de pessoas professam algum credo religioso
é gerado simplesmente pelo medo da morte e duvido que, se os seres humanos não envelhecessem e não
morressem iriam se importar muito com Deus que passaria a ser apenas o objeto duma mera curiosidade
intelectual. Mas, como somos todos mortais e o sofrimento faz parte da nossa vida, a grande maioria das
pessoas sente a necessidade de acreditar num Ser que, além de garantir uma vida ultraterrena, nos socorre
quando estamos sofrendo. Dessa postura segue, necessariamente, a obrigatoriedade de acreditar nos
milagres. O milagre não apenas confirma a existência da Divindade, mas também mostra que ela é bondosa
e se importa com quem nela acredita e confia. Os teístas, em particular cristãos e muçulmanos, detestam
quem questiona os milagres pois essa atitude cética pode acabar gerando rachaduras no imenso edifício
doutrinal de suas respectivas religiões. Essas construções não passam de um castelo de cartas onde,
removida uma, as outras irão cair imediatamete.

Se isso ainda não aconteceu é porque a Igreja, desde que nasceu, inventou uma cola extremamente poderosa
apta a segurar as cartas impedindo que desmoronem quando sacudidas pela razão. O nome dessa cola é
Dogma e, durante mais de 1.500 anos seguidos foi imposta a suas ovelhas com o poder da Inquisição e da

123
violência. Hoje, que felizmente essa horrível instituição deixou de exercer o seu maléfico poder, a força das
religiões se sustenta de um lado sobre o conformismo social e o comodismo intelectual e, pelo outro, sobre a
apresentação de supostos milagres como o mostrado no filme “Milagres do Paraíso”. Entretanto, uma
análise objetiva e racional dos fatos mostra que os milagres não existem. Inclusive, estudos recentes
confirmaram que os “milagres eucarísticos”, que de regra consistem na aparição de gotas de sangue em
hóstias consagradas, na verdade são gerados pela bactéria Serratia marcescens que se nutre dos amidos
contidos na farinha e produz um pigmento vermelho da mesma cor do sangue humano.

124
A VERDADEIRA NATUREZA DE DEUS

Qual é a verdadeira natureza de Deus? É feito de espírito ou de algum tipo de matéria completamente
diferente daquela que conhecemos? É simples ou composto? Pensa? Tem sentimentos? Ou é algo que nem
sequer pode ser imaginado?
Para os teólogos cristãos a resposta é unívoca: trata-se de um ser puramente espiritual, totalmente
transcendente, bondoso criador do Universo e de tudo que é material (estrelas, planetas, o homem) ou
espiritual (os anjos, os demônios, as almas). E tem um filho. No Novo Testamento a palavra πνεῦμα
(pneuma) indica uma substância distinta e oposta a qualquer princípio material; destarte é reforçado ao
extremo o dualismo entre corpo e alma que chegam a representar dois polos antitéticos onde o corpo é tido
como prisão da alma. Como veremos na segunda parte do presente texto, conceitos parecidos, nascidos cerca
de 2.500 anos atrás em ambiente helenístico permaneceram intactos até a era contemporânea quando as
investigações da Física moderna mostraram que a matéria, considerada em suas componentes fundamentais,
perde o seu carater aparentemente concreto para se tornar um conjunto de partículas imateriais definidas
unicamente por equações matemáticas. Sendo que uma equação nada é se não a expressão gráfica de uma
lei, ou seja, dum pensamento, eis que a matéria se torna algo de vagamente espiritual anulando assim a
diferença entre as duas categorias filosóficas. Inclusive a que apelidamos de matéria sólida não existe comoo
tal, sendo ela apenas percepção dos sentidos que enviam constantemente, através dos nervos, impulsos
elétricos ao cérebro. O cérebro, por sua vez, elabora essas informações interpretando-as oportunamente e
projetando ao nosso redor a imagem de um mundo real, mas nada mudaria se, hipoteticamente, o cérebro
fosse removido do corpo e conectado a um potente computador gerador de impulsos eletroquímicos.
Mediante esse expediente seria possível viver experiências virtuais percebidas como sendo absolutamente
reais.

Voltando ao assunto inicial, é mister lembrar que já no início do século passado Miguel de Unamuno,
mesmo sem nada conhecer das investigações sucessivas, havia intuído que a diferença entre espírito e
matéria é ilusória, afirmando que: ''Materialismo? Materialismo, dizem? Sem dúvida, mas isso porque nosso
espírito também é alguma espécie de matéria, ou não é nada''. Tendo assim descartado a secular dicotomia
entre os dois opostos, Unamuno dá mais um passo para a frente e afirma o seguinte: “Que exista um ser
supremo, infinito, absoluto e eterno, cuja essência desconhecemos, e que tenha criado o Universo, ou que a
base material desse mesmo Universo, a sua matéria seja eterna, infinita e absoluta, os dois conceitos se
equivalem”. Haja vista as modernas descobertas, podemos afirmar que os dois conceitos não apenas se
equivalem mas, tendo sublimado a base sensível da matéria, podemos deduzir que os dois conceitos,
aparentemente opostos, são, na verdade, a mesma coisa. Destarte, a imagem de um Deus que cria matéria,
espaço e tempo a partir do nada, já ficou desmentida, por exemplo, pela Teoria das Cordas segundo a qual
algo de imaterial, impalpável e eterno (as Branas) existe desde sempre e delas podem originar inúmeros
universos. Por isso podemos tranquilamente apelidas as Branas com a palavra Deus, mesmo que isso seja de
escândalo para os ateus mas, afinal, quem se importa deles? Ainda mais tendo o respaldo de Albert Einstein
que disse: “Qualquer um que lide seriamente com a Ciência vai se convencer de que um tipo de espírito,
muito superior ao humano, se manifesta nas Leis do universo. Nesse sentido, a pesquisa científica leva a um
sentimento religioso particular, bem diferente da religiosidade das pessoas mais ingênuas”.

Infelizmente a Física dificilmente irá conseguir demonstrar a existência das Branas que, por enquanto,
representam apenas uma hipótese teórica, embora muito bem fundamentada do ponto de vista matemático.
No entanto, mesmo que um dia apareça outra visão mais convencedora, já está sendo demonstrado que a
teoria do Big Bang, apesar de correta, é apenas parte duma verdade mais abrangente e profunda. Então como
devemos interpretar esses novos dados experimentais? A resposta passa, necessariamente, através da
Filosofia. Surpreende, porém, constatar como ainda existam pessoas que tiveram suas mentes tão
obnubiladas pelo fanatismo religioso ao ponto de afirmar que a Filosofia é ateia. Parafraseando as palavras
do evangelista Lucas, desses insensatos só podemos dizer: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que
dizem”. Realmente eles desconhecem que o alicerce do próprio Cristianismo –que no começo era apenas fé
na palavra de Cristo, mas totalmente desprovido de sólidas base doutrinais- é, na verdade, o fruto do
125
pensamento de mentes excelsas como Platão, Aristóteles e Plotino, todos pagãos. Entretanto, não é que esses
tolos carreguem a culpa exclusiva de tanta ignorância. O fato é que a História sempre foi escrita pelos
vencedores e, a partir do fim do IV século da nossa era, quando o Cristianismo tornou-se a única religião
tolerada no Império Romano, qualquer outra forma de pensamento -mesmo de origem cristã, mas
independente e desligado da doutrina oficial- foi rigorosamente banido e até perseguido pela hierarquia
eclesial. Nos tempos modernos, apesar do fim da Inquisição, a Igreja sempre desconfiou do ensino e da
divulgação da espiritualidade oriunda de outras filosofias ou religiões tanto que a grandíssima maioria da
população as desconhece totalmente. Bem pior que os católicos, certas seitas protestantes, como por
exemplo os Evangélicos, não apenas rejeitam veementemente as experiências místicas das outras religiões,
mas as consideram como ações do próprio Demônio.

***

Nessa segunda parte será apresentada ao leitor a fantástica visão do maior de todos os filósofos
neoplatônicos, Plotino (205-270 E.V.), cuja obra, além de ser de uma profundidade vertiginosa, serviu como
pedestal para o desenvolvimento da doutrina dos Padres da Igreja na Antiguidade e, na Idade Média, da
teologia de Tomás de Aquino. A de Plotino é a derradeira manifestação do platonismo no Mundo Antigo,
mas de um platonismo enriquecido com elementos oriundos de outras fontes da filosofia grega como
Pitágoras, Parménides, os estoicos, Aristóteles, etc. cuja mistura produziu algo de original que foi muito
além da suma das contribuições individuais. Essa nova filosofia gira em torno da busca de uma Unidade, de
um princípio unitário fundador do ser onde a unidade está ontologicamente relacionada com a multiplicidade
e vice-versa. Para melhor entender esse conceito fundamental imagine, o leitor, um homem, uma mulher e
seus filhos constituindo uma primeira unidade, uma família. Mas também a família é elemento de uma
unidade maior que pode ser um condomínio, e depois um bairro, uma cidade, uma nação e assim por diante.
Pois bem, a unidade absoluta, formada pela somatória de todas as possíveis unidades de rango inferior
chama-se Um (ou Uno) e representa o princípio unitário extremo além do qual não pode existir mais nada.

Não tendo mais nada em comum com o resto da realidade, o Um não pode ser apropriadamente definido
pois, descrevê-lo, significaria dividi-lo em um sujeito que o descreve e num objeto descrito e, portanto, não
seria mais um, mas dois. Desse modo de raciocinar descende a "teologia negativa", um método que investiga
o Princípio (só parcialmente comparável a Deus) referindo a Ele apenas atributos mediante os quais se
afirma aquilo que o Um não é, não sendo possível defini-lo positivamente (senão indevidamente). Até
Unamuno, dezessete séculos depois, chegou à conclusão que “Querer definir Deus significa ter a pretensão
de limitá-lo dentro da nossa mente, ou seja, de matá-lo; no ato de defini-lo surge o nada”. De todas as
negações relativas ao Um, a mais significativa diz que "o Um não é ser": isso não implica que o Um seja um
não ser, mas indica que está além do ser, já que é superior a tudo o que existe. Por esse motivo Plotino não
usa a palavra Deus que, embora perfeito, é um ser. A negatividade do Um é, portanto, nada mais que a sua
superioridade absoluta. Para Plotino o Um é a primeira hipóstase, ou seja, a primeira realidade que existe e,
como tal, não pode conter alguma divisão ou multiplicidade sendo, destarte, acima de qualquer categoria do
ser. Inclusive, sendo o Um a primeira realidade, nem pode ser uma entidade que pensa, pois o pensamento
implicaria uma distinção entre o pensador e o objeto pensado e isso seria já uma forma de dualidade, em
contradição com o conceito de unicidade absoluta do Um. Da mesma forma não se pode atribuir ao Um uma
vontade consciente, que seria outra forma disfarçada de pensamento, e nem alguma forma de atividade,
muito menos a Providência e os milagres. A respeito dos milagres, até Voltaire -que era Deísta- havia
censurado a atitude ridícula dos crentes propensos a enxergar milagres em fatos naturais, muitas vezes
insignificantes (como a cura de um animal de estimação), esquecendo, ao mesmo tempo, de citar o único e
verdadeiro milagre que consiste na existência. Plotino consente, como já havia feito Platão, a apelidar o Uno
de Bem, mas negando, ao mesmo tempo, que ele possua uma natureza senciente ou uma qualquer forma de
consciência.

Sendo o Um diferente de qualquer outra coisa multíplice, que são todas finitas, então só pode ser infinito.
Também transcende o mundo das coisas, não tem forma e fica além não apenas da substância (nem se pode
afirmar que é espírito), mas também das ideias. Podemos unicamente dizer que dele originam todas as outras

126
coisas e mais nada; isso conforme à teologia negativa que encontra uma forte correspondência nas religiões
orientais como induísmo, budismo e taoismo.
Surgem, agora, duas perguntas fundamentais: por qual motivo do Um deriva a multiplicidade e porquê.
Segundo Plotino, o Um é tão abundante que, igual o Sol que emana a luz indiscriminadamente sem nunca se
esgotar ou diminuir, o Um, sendo sobreabundante, emana a multiplicidade mas, diferente do Deus cristão,
isso não decorre de um ato de vontade ou de liberdade, e sim de um processo automático consubstancial às
características do Um. Um simples exemplo pode servir a esclarecer o conceito. Imaginamos de pegar um
copo vazio de 100 ml e de derramar dentro dele a água contida numa garrafa de dois litros. É evidente que o
líquido em excesso acabará extravasando do copo não por um ato de vontade do mesmo, mas por pura
necessidade.
Quanto à segunda pergunta, Plotino afirma que o Um não cria pois, para criar seria necessário ter matéria a
disposição e, nesse caso, o Um se tornaria um simples Demiurgo e não um criador; em alternativa Ele
poderia criar do nada, mas isso estaria em contradição com o fato que o Um não pensa e não deseja pois
desejar uma coisa significa sentir necessidade dela e isso contrasta com o princípio de perfeição. Portanto a
multiplicidade surge do Um por um processo de Emanação espontânea.

Para Plotino o nada è uma aberração lógica, um contrassenso que, usando uma linguagem moderna, iria
ameaçar a existência do Um igual um buraco negro que, se aproximando ao Sol, pode até engoli-lo. O
processo de Emanação, por sua vez, é condicionado pela distância ontológica entre o Um e o que está sendo
emanado. Em outras palavras, quanto mais o produto da Emanação estiver perto do Um, mais guardará
dentro de si as genuínas características do Um, ou seja, a perfeição. É importante reafirmar que qualquer
Emanação não decorre de um ato de vontade ou de livre escolha, mas é um procedimento que deriva
necessária e espontaneamente da própria natureza do Um. Quanto ao mecanismo da Emanação, acontece
mediante uma forma de autocontemplação estática do Um: Ele, ao se contemplar, se divide –ma só
aparentemente- num sujeito contemplador e num objeto contemplado. Diferente da metafísica cristã, a de
Plotino não é dualista (a Divindade de um lado, o homem do outro), mas pressupõe a continuidade e, sendo
o mundo o resultado de um processo divino contínuo, representa um grau de emanação do Um, obviamente
muito menos perfeito, mas não totalmente estranho a Ele. Entretanto, não se trata de panteísmo porque a
multiplicidade é sim emanação do Um, mas não coincide com Ele, assim como o calor é gerado pela chama,
mas não é a chama, não coincide com ela.

Plotino admite vários graus de Emanação denominados hipóstases, realidades que subsistem por si sendo, a
segunda delas, o Intelecto universal, o Logos. Do Logos, que pensa a si mesmo como alma relacionada a um
mundo material, descende a Alma vital universal (o Pneuma, ou terceira hipóstase). Enfim, a Alma emana a
matéria que, sendo somente ilusória, não é uma hipóstase. Devido a matéria ser a emanação mais distante da
fonte (o Um), é a entidade mais corrupta e menos perfeita de todas as anteriores. Por esse motivo o mal é
específico da matéria, mas não se trata de um mal absoluto: o mal nada é se não a distância ontológica entre
a matéria e o Um e é sinônimo de imperfeição. Inclusive, como o tempo faz sentido somente se as coisas se
evolvem, o Um existe na eternidade fato, esse, que dois séculos depois será utilizado por Santo Agostinho na
sua construção teológica do Deus cristão.
Agora, é interessante saber quem seria, para Plotino, o paradigma do homem sábio, do homem ideal. A
resposta é: aquele que consegue sentir, dentro de si, a nostalgia pelo Um e que age para conseguir reunir-se
com Ele. Todavia, enquanto no Cristianismo, o conhecimento de Deus constitui uma experiência do coração,
na visão neoplatônica de Plotino, a aproximação ao divino é vista como uma meta a ser alcançada através da
reflexão filosófica e do exercício das virtudes; os rituais, as nênias, as orações devem ser descartadas sendo
pouco mais que formulas mágicas. De acordo com Plotino, a verdadeira e legítima oração é o conjunto
composto pelas elevações da mente e da alma, pelos exercícios filosóficos e pelas virtudes através das quais
a visão interior do Um se torna tão clara ao ponto de alcançar a consciência da identidade. Conseguido esse
estado, o divino deixa de ser um simples conceito mental para tornar-se experiência inefável gerando assim
o êxtase. O êxtase é o clímax das possibilidades humanas, um percurso inverso ao de Emanação; é o
objetivo natural da razão humana que, desejando reencontrar o Princípio do qual emana, consegue alcançá-
lo sem possuí-lo, mas deixando-se possuir por Ele. Plotino, um pagão, revelou ter conseguido alcançar o
êxtase apenas quatro vezes durante a vida.

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A metafísica de Plotino foi oposta à de Demócrito, o maior expoente do atomismo no sentido que, para
Plotino, os átomos não existem sendo, as coisas, tanto mais reais quanto mais próximas ao Um, do qual
todas derivam. Essa negação da teoria atômica pode, para nós modernos, parecer extravagante e
anticientífica. Entretanto, como foi explicado no início, até os átomos não são os verdadeiros tijolos do
universo material sendo, por sua vez, compostos por elementos muito mais imateriais que pertencem ao
domínio da matemática superior, ao mundo das ideias. A Física moderna descobriu que a matéria possui
uma natureza mais espiritual do que se havia imaginado e esse resultado reforça o pensamento plotiniano
também de um ponto de vista científico.
Analogamente, mas por outros motivos, a metafísica de Plotino se diferencia bastante da teologia cristã no
sentido de apresentar uma continuidade ontológica entre o Um e as coisas que dele derivam pelo processo de
Emanação. Sendo o mundo gerado, não criado a partir do nada, todas as coisa e, em particular os seres
humanos, preservam dentro de si algo de divino, embora de forma degradada. No entanto, o homem sempre
pode inverter a direção de sua atenção e, praticando a virtude, apontá-la para cima, na direção do que é
superior, refinando a reflexão e realizando a contemplação do Um. Semelhantemente, no Budismo, a
Verdade final é aprendida graças a uma extraordinária "visão" que consiste numa experiência na qual
"vemos" as coisas como elas realmente são e não como elas aparecem. Alcançar a iluminação significa ter
conseguido enxergar, através da teia enganosa de ilusão e de ignorância, a luz e a clareza emanadas pela
própria Verdade.

Já foi dito que essa experiência mística independe da fé, dos rituais e de conhecimentos esotéricos ou
exotéricos; também não depende da graça divina sendo as ideias de graça e de dom incompatíveis com o
conceito de Divindade segundo Plotino. Analogamente, o conceito de redenção, que ocupa uma posição
fundamental no Cristianismo, não tem valor algum para esse filósofo. Devido a ligação existente entre a
alma individual e o Um, o encontro pode ser realizado com base na razão e na força de vontade. O êxtase
não é conseguido por iniciativa divina –como no Cristianismo- mas é o divino que já se encontra dentro de
cada um de nós que permite alcançar a Divindade. Isso ocorre devido a nossa verdadeira pátria estar
localizada acima do mundo físico dos sentidos e, portanto, não há motivo algum para se ter orgulho do nosso
corpo: por isso Plotino abominava o dogma cristão da ressurreição dos corpos. O êxtase, como momento de
autocontemplação, é também o ato mediante o qual o Um gera a multiplicidade. A metafísica plotiniana
representou o início duma longa tradição neoplatônica que considerava o universo como sendo animado por
uma tensão de amor direcionada a alcançar Deus através do êxtase. A metafísica de Plotino foi, outrossim, o
alicerce da teologia cristã que adulterou oportunamente a sua estrutura original para que nela se encaixasse o
conceito de Trindade.

Vários autores modernos frisam a existência de significativas correspondências textuais entre as Enéadas
(coleção dos escritos de Plotino) e as Upanishads, principais escrituras do Induísmo que discutem meditação
e filosofia. Do ponto de vista puramente histórico é bem provável que, sendo Plotino aluno de Amônio Saca,
o filósofo fundador do Neoplatonismo, e sendo esse último provavelmente de origem indiana, tenha ocorrido
uma influência direta das Upanishads sobre o pensamento tanto de Amônio como, obviamente, de Plotino. É
também possível que os textos filosóficos indianos tenham chegado em ambiente helênico durante a
conquista de Alexandre Magno que invadiu a Índia em 336 a.E.V.
O ponto que mais aproxima a metafísica de Plotino à filosofia indiana é o forte paralelismo entre, do lado
hinduista, a união do atman (a consciência espiritual) com o Brahman (o Absoluto) e, do lado neoplatônico,
a viagem da alma em direção do Um onde irá encontrar a si mesma. Em ambos os casos torna-se necessária
a abolição da distinção entre sujeito e objeto, típica das Upanishads e que também representa o elemento
mais original do pensamento de Plotino. Outro ponto de contato é constituído pela irrealidade do mundo
material, tido como ilusório tanto nas Enéadas como nas Upanishads. Vários dos melhores poemas de
Cecília Meireles (*), estudiosa de Plotino e das Upanishads, englobam esses conceitos como, por exemplo, a
metáfora do espelho.
Embora muitos, julgando de forma superficial o Hinduísmo, afirmem se tratar de uma religião politeísta, na
verdade desconhecem o verdadeiro significado da multidão de divindades veneradas pelos hindus. Brahman,
sendo infinito exatamente como um Um de Plotino, possui infinitas manifestações, cada uma se

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manifestando de forma diferente: quem venera um desses inúmeros deuses, na verdade adora apenas
Brahman. Eis que está explicado o panteão induista que, como atestam os Rig Veda, é uma religião
absolutamente monoteista.

Em síntese, a metafísica de Plotino ensina como a finalidade última da consciência humana seja a beatitude
suprema alcançável por meio de um processo de elevação cujo objetivo é a união definitiva e eterna com o
Um. Consequentemente, todo o programa da vida está contido nesse aforismo de Plotino: “O nosso dever
não é estar isentos de culpas, mas de ser Deus”, não por um ato de soberba como se lê no Gênesis, mas
como resultado final de uma caminho de virtude, de ascensão espiritual, de contemplação e de fusão final
com o Absoluto.

(*) Ao amigo Rabindranath Tagore, o poeta mais importante da literatura bengali e cantor da beleza do
Absoluto e da sublimidade do Um, Cecília Meirels dedicou um poema do qual extrapolei esses belíssimos
versos:

Há tão profundo e tão vasto e tão lânguido encanto


nos teus poemas sagrados, pairando como luas
sobre o Mundo, que eu nunca soube, do teu canto,
se as palavras eram de Deus ou se eram tuas...

129
UNIVERSO PESSOAL

- Foi-se…
- Que essa santa alma possa descansar em paz… Amem!
- Quanto anos tinha?
- Quase noventa.
- Xiiiiiiii, teve sorte, né?!
- E foi rápido, nem sofreu.
- É, mas ele não aproveitou muito da vida.
- Era tão pobre assim?
- Que nada, tinha uma fortuna guardada no banco.
- Muié, você me deixa boquiaberta…
- E sabe quem vai herdar tudo isso?
- ....
- Aquela lambisgoia de Arlete.
- Jura?! Aquela papa-hóstias que vive mexericando?
- Sim senhora! Nos últimos anos paparicou bastante o veinho tanto que ele acabou se apaixonando por ela.
- E agora tá feita, podre de rica!
- Bem que o defunto podia ter se lembrado da gente, né?
- Pois é, afinal somos suas sobrinhas legítimas!
- Espero que o infeliz seja recebido como se deve pelo capeta em pessoa.
- É o que ele merece. Amem!

Enquanto isso, em outra dimensão, o defunto, na flor dos anos, se encontra, sozinho, no meio de um lindo
jardim.

- Hei, psiu…

O jovem se vira e se depara com um senhor de meia idade, grisalho, parecido com George Cloone, um de
seus atores preferidos.

- Você é um anjo?
- Tenho cara de anjo?
- Parece que não. Inclusive não vejo nem asas e nem uma longa veste branca…
- Com certeza! Prefiro até um terno sem gravata, mas que seja de Armani.
- Muito bom gosto, parabéns. Então o senhor é São Pedro?

O desconhecido não responde, mas, com um sorriso maroto, aponta o dedo na direção do céu.

- Minha nossa, mais importante que São Pedro só pode ser… Deus?!
- Em pessoa…
- E o que o Senhor queria de mim? –responde o recém-falecido meio acanhado.
- Nada de especial, apenas bater um bom papo pois gosto de conversar com os humanos.
- Obrigado, Senhor, isso me deixa bastante lisonjeado. Mas… não queria que perdesse muito do seu
precioso tempo só para bater boca comigo…
- Perder tempo? Imagina… temos a eternidade a nossa disposição. Aqui o tempo não conta.
- Posso fazer uma pergunta?
- Todas aquelas que desejar.
- Que lugar é esse?
- Você que sabe!
- Eu?!
- Sim, esse lugar foi gerado pela sua própria fantasia, pelos seus desejos conscientes e inconscientes.
130
- Ah, então não é um mundo real.
- É real pra você, isso é o que mais importa.
- Efetivamente parece um lugar bem bonito e agradável. Significa que estou no Paraíso?
- Se esse nome lhe agradar, pode chamá-lo de Paraíso.
- Mas, desculpe a curiosidade, e os malvados onde foram parar?
- Na sua opinião aonde deveriam estar os meliantes?
- No fundo do Inferno, oras!

Numa fração de segundo, Deus faz um gesto imperceptível com a ponta da mão e, diante do olhar
horrorizado do jovem, se materializa uma visão apocalíptica. Nas espiras abrasadas de um imenso e
medonho buraco negro, inúmeras figuras gritam e se desesperam lançando maldições e blasfêmias
terrificantes.

- Minha nossa, uma terrível punição… mas o Senhor não acabou de me explicar que tudo isso que estou
vendo é apenas uma realidade pessoal, puramente virtual?
- Confirmo o que disse.
- E o Inferno que acabei de ver agorinha?
- Mesma coisa…
- ….
- Não é esse o castigo que você acha justo para os criminosos?
- Acho sim!
- Então qual o problema se é real ou virtual? No seu universo isso é real. Tá satisfeito assim?

O nosso amigo, não sabendo bem o que responder, tenta disfarçar olhando o panorama e inventa outra
pergunta:

- Lá em distância enxergo umas montanhas cobertas de neve, mas estou estranhando a cor. Umas são cor de
rosa, outras verdes, outras bege… Como se explica isso?
- Aquela não é neve, é sorvete; todos os sabores que você mais gosta. Quer experimentar?
- Adoraria, mas ficam longe…
- Nem tanto quanto parece. Vamos, assim a gente conversa durante o caminho.
- Ainda lembro de quando comprei um picolé e tive uma forte dor de barriga. Parece que o sorvete estava
contaminado. Aqui posso confiar na qualidade, né?
- Naturalmente, tudo pasteurizado!
- A propósito, posso saber porque quando o Senhor fez o mundo criou também as bactérias, os vírus, os
parasitas e todas as outras moléstias?
- Na verdade eu não criei nada…

Diante dessa resposta o homem fica como paralisado.

- Falo sério. No início existia o Tudo, que logo se dividiu em duas partes: de um lado, uma quantidade
imensa de energia do tamanho de um átomo, do outro lado estava eu, matutando qual a forma melhor para
fazer com que esse objeto meio esquisito gerasse galáxias, estrelas, planetas, selvas, animais e, enfim, seres
pensantes. Tive que escrever e reescrever muitas vezes as equações até elas ficarem corretas para que essa
geringonça tomasse vida mas, enfim, consegui. Naturalmente, como sempre acontece com os projetos mais
ambiciosos, nem tudo pode parecer perfeito, mas, basicamente, funciona.
- Está de parabéns! Mas, se por exemplo não tivesse criado a tensão superficial da água, os mosquitos e as
muriçocas não teriam como depositar seus ovos e, portanto, não existiria malária, dengue, febre amarela, etc.
- Justo, mas também não teríamos os vegetais, pois a linfa, para correr dentro das plantas, necessita dessa
propriedade da água.
- Verdade, não tinha pensado nesse detalhe.
- Bom, prometo que, se fabricar outro universo, irei rever certas equações. Falou?
- O Senhor sabe ser bem espirituoso… O humor é outro de seus atributos?

131
- Não, essa virtude eu aprendi observado vocês humanos.

Mais uma vez o nosso amigo fica pasmo.

- Deus que aprende as coisas? Desde quando? Não deveria ser onisciente, omnipotente, todo-poderoso?
- Quem fala isso são os teólogos. Pessoalmente me acho apenas um excelente matemático e um exímio
arquiteto, um ser cuja inteligência fica um pouquinho acima da média… Hehehehe. Mas confesso que
muitas coisas fui aprendendo com o tempo.
- Mas afinal, por qual motivo fez o mundo?
- Ainda não entendeu?
- Não, desculpe a minha ignorância… Se puder esclarecer…

Tendo chegado aos pés das montanhas feitas de sorvete, Deus enche duas taças da deliciosa iguaria e oferece
uma ao jovem. Enquanto degustam vários sabores Deus pergunta:

- Me responda sinceramente: prefere aproveitar desse sorvete sozinho ou em boa companhia?


- Em companhia, é evidente.
- Idem! E também achei justo que inúmeros outros seres pudessem gozar de tanta abundância.
- Mas a vida é um vale de lágrimas, as pessoas sofrem terrivelmente. Por qual motivo o Senhor não escuta as
súplicas dos que o invocam a toda hora?
- Escuto sim, mas não posso fazer muita coisa… Afinal sou arquiteto, não doutor, psiquiatra o enfermeiro.
Para o alívio das dores já tem a ciência médica enquanto, para o conforto do espírito, existem inúmeras
religiões e filosofias: basta escolher uma...
- Mesmo assim o sofrimento pode ser enlouquecedor.
- Eu sei, mas um dia terá fim e, mesmo que possa parecer interminável, um belo dia acaba. Mas, em
compensação, a eternidade não acaba nunca!
- Então o corpo perece e a alma é imortal. Mas por qual motivo o Senhor não criou diretamente as almas
sem ter que passar pelo sofrimento do corpo?
- Calma, calma! Antes de tudo me diga uma coisa. Você já teve algum pen-drive?

Apesar de não entender a lógica, o jovem responde:

- Minhas sobrinhas têm e me explicaram o funcionamento.


- Veja bem e tente acompanhar o meu raciocínio. A que vocês humanos chamam de alma, na verdade é algo
de muito parecido com um pen-drive. Seria, digamos, um suporte onde ficam armazenadas todas as
informações geradas durante a vida, ou seja sentimentos, lembranças, emoções, desejos, e assim por diante.
Quando o corpo perece, a essência do ser humano é conservada e ele pode continuar a viver novamente, mas
com uma diferença fundamental…
- Qual?
- Que anteriormente a vida era dominada pela dura realidade material, enquanto agora são os sonhos e os
desejos que fazem a realidade. Portanto, se você sonhou com um mundo de paz e harmonia, terá paz e
harmonia. E quem cobiçou arrogância, violência e injustiça é isso que vai encontrar.
- OK, mas por qual motivo não fabricou diretamente as almas sem que a gente tivesse a necessidade de
experimentar a dor?
- E ia por o quê dentro desses "pen-drives"? Personalidades imaginárias, experiências mentirosas, falsas
lembranças? Você ia gostar de ser um homem totalmente artificial, mesmo que sensível, igual o robô do
filme Inteligência Artificial de Spielberg?
- Sinceramente não! Prefiro ser real, prefiro ter passado por doenças e mágoas, mas me sentir autêntico e
concreto. Mesmo assim, ainda permanece uma dúvida…
- Diga…
- O que acontece com os indivíduos que faleceram muito pequenos e quase não guardam lembranças nem
boas nem dolorosas, tipo as crianças mortas ainda antes de aprender a falar?

132
- Por que pergunta? Quer adotar uma? Se deseja colaborar poderá ajudar uma criança a se desenvolver e se
tornar adulta. Quer?
- Quem sabe, talvez mais pra frente… Antes preciso entender esse meu universo pessoal, saber como ele
funciona exatamente. Por exemplo, estou sozinho aqui?
- Mais uma vez isso depende de você. Se quiser a companhia de outros seres humanos a terá. No entanto…

O jovem fica no aguardo de uma resposta, mas, como Deus permanece calado, continua:

- No entanto?
- Mediante o seu desejo, a sua vontade, pode materializar qualquer objeto ou pessoa, mas saiba que serão
apenas seres virtuais, como nos sonhos, embora possam parecer bastante reais. Apesar dessa aptidão parecer
ser o máximo da realização pessoal, envolve um perigo sutil…
- Nossa, tá falando sério?
- Muito sério. Não são poucos os indivíduos que se instalaram em seu universo particular tornando-se
senhores de seu mundo apenas para saborear o prazer do poder, do dinheiro, da glória, do sexo...
- É proibido fazer sexo aqui?
- De jeito algum, mas acontece que essas pessoas se cristalizam, se fecharam aos outros e vão permanecer
por um tempo indefinido nesse meio-termo perdendo a oportunidade de interagir, de se integrar com outros
seres reais. Nada contra experimentar e gozar das coisas que foram negadas durante a vida terrena, desde
que não seja perdido de vista o percurso da evolução final.
- Então melhor eu procurar dividir esse meu universo com outras pessoas reais…
- Claro! Mas sem pressa e lembre-se que, nesse caso, não será mais o “seu” universo, será o "vosso"
universo, portanto deverá ser de agrado também aos outros convidados. Pode demorar bilhões de anos
(tempo aqui temos de sobra), mas um dia irá existir uma espécie de galáxia contendo todos os seres gerados
durante milênios. Eu estarei no centro dessa galáxia que, finalmente, será perfeita representando assim o
lógico desfecho do meu trabalho de arquiteto. Por enquanto vou lhe revelar outra surpresa agradável...
- Ou seja?

Deus começa a falar em inglês, russo, alemão, árabe e japonês e o nosso amigo não apenas entende tudo,
mas entra na conversa usando os mesmos diomas. Enfim perguna:

- Como é que consegui manter uma conversação em línguas que nunca estudei? É um milagre?
- Nada disso. A resposta é muito mais simples. Tudo o que você e bilhões de outros seres inteligentes
aprenderam durante suas vidas pode ser compartilhado, pois os “pen-drives” estão interconexos igual uma
imensa rede de computadores. Naturalmente você mesmo decide qual parte do seu saber pode se tornar
accessível aos outros. Se gosta de tocar piano e nunca estudou música, tocará perfeitamente, poderá pintar
igual Rafaelo ou Modigliani ou vasculhar os segredos da Física usando a sabença de Einstein. Se estiver a
fim de visitar a Antiga Roma, assim como ela era na época de César ou o Egito dos faraós, não haverá
problemas, pois as lembranças daqueles que viveram na época estão ao seu dispor. Poderá, por exemplo,
reviver a batalha de Waterloo vendo-a seja com os olhos de Napoleão que com os do Duque de Wellington.

- Nossa que legal! Fiquei bastante empolgado… Posso ter um pouco mais de sorvete?
- Fique à vontade e lembre-se que aqui ao lado temos um restaurante onde poderá saborear os pratos mais
gostosos que já foram inventados. E é tudo grátis… Até mais e, se precisar, me chame.

O jovem entra no local, enxerga uma mesinha onde está sentada uma menina muito graciosa e pergunta:

- Moça, está esperando alguém?


- Sim, estou esperando você…
- Faz muito tempo que me espera?
- Não, menos de duzentos anos. Vamos ordenar o almoço?
- Com muito prazer! Um Senhor lá fora acabou de me informar que nesse restaurante se come
divinamente…

133
- Se come e se bebe divinamente! Tin-tin!
- Tin-tin…

Após um almoço pantagruélico, o nosso amigo, a convite da menina, sobe num dos aposentos e permanece
em boa companhia durante uns anos até que, saciado também esse seu apetite carnal acumulado durante a
vida inteira, resolve dar uma voltinha a pé. Sai do hotel-restaurante e inicia a caminhar em direção de uma
bela lagoa próxima.

- Matou a fome? –pergunta Deus com sutil ironia.


- Desculpe meu Senhor, não tinha lhe visto.
- Claro que não me viu, pois, entre outras inúmeras virtudes, possuo também o dom da invisibilidade.
- Falando em virtudes, é verdade que o Senhor é infinitamente bondoso?
- Qual a sua opinião a esse respeito?
- Bem, diria que sim e, sem dúvidas, parece ser um excelente companheiro… Posso lhe chamar de você?
- Hummmm. Prefiro que me chame de doutor, pois tenho doutorado e pós-doutorado em todas as disciplinas
que existem no Universo, inclusive aquelas que ainda não foram inventadas.
- Tudo bem, doutor. Quanto a mim, apesar do meu imenso desejo em aprender sempre algo de novo, a vida
não me proporcionou a oportunidade de frequentar uma faculdade e…
- Como já lhe expliquei, aqui poderá realizar todos os seus desejos, e aprender qualquer disciplina com a
velocidade da luz.
- Ótimo, vai ser uma maravilha! Estava dizendo que, apesar de não ter estudado, custeei a faculdade das
minhas sobrinhas, tratando-as com amor e carinho, como se fossem minhas filhas.
- E é por isso que agora se encontra aqui e não recebendo lambadas daquele chifrudo que mora lá em baixo!
Hehehehehe.
- Muito lhe agradeço, doutor, mas falando em filhos, ainda não lhe perguntei como está o seu…
- Moço, de qual filho está falando? Como posso ter um se nunca quis me casar!

O nosso amigo fica simplesmente estarrecido.

- Como assim?! Estava perguntando como está seu filho Jesus.


- Ah, agora caiu a ficha. Acho que você está se referindo aquele hippie cabeludo que andou pregando na
Palestina e acabou apanhando tanto dos sacerdotes Judeus quanto dos Romanos.
- Ele mesmo, seu filho Jesus Cristo.
- Ele é meu filho tanto quanto você, em outras palavras, todo ser humano é meu filho.
- Mas ele não é apenas humano, também é divino!
- Por acaso eu lhe disse isso? Quem botou esta ideia na sua cabeça?
- Foram os padres, a Igreja, o papa, a tradição, os próprios Evangelhos. Enfim, ele mesmo declarou mais de
uma vez ser “Filho de Deus”. E Jesus não era capaz de mentir.
- Efetivamente ele era “Filho de Deus”, mas nunca foi meu filho, pelo menos no significado literal da
palavra.

O homem fica ainda mais perplexo.

- Respira fundo, jovem, e siga a minha explicação tintim por tintim. Pra começar, já estudou história e
literatura hebraica?
- Absolutamente não.
- Então, veja bem: a expressão hebraica “Benei Elohim”, traduzida geralmente como "Filhos de Deus", deve
ser entendida como a descrição de anjos ou seres humanos particularmente poderosos, incluindo soberanos
como David e até Herodes.
- Mas Jesus nunca foi rei, então…
- Então, no judaísmo, a expressão "Filho de Deus" era usada, ocasionalmente, no sentido de "Messias". No
Antigo Testamento a palavra "Messias" (que significa consagrado, libertador) aplicava-se a várias pessoas:
os reis, os juízes, bem como o sumo sacerdote, ou seja, um homem justo de quem o espírito de Deus se

134
apoderava, fazendo com que o ungido realizasse maravilhas e demonstrasse ao povo que a sua autoridade
procedia de Deus. Sendo que Jesus, além de exímio conhecedor das Escrituras, foi um Mestre
particularmente sábio e virtuoso, achou-se no direito de se auto-apelidar de “Filho de Deus”. Nesse sentido
ele agiu de forma coerente. O importante é não tomar essa expressão ao pé da letra, mas dar a ela a
interpretação correta. Entendeu agora?
- A sua explicação ficou muito clara, no entanto continuo com umas dúvidas…
- Pode perguntar!
- Se Jesus não era Deus, mas um simples profeta, embora o maior de todos, como fica a questão da
salvação?
- Você acredita que os humanos são todos filhos de Eva?
- Acho que sim.
- Portanto, se Eva pecou, a culpa dela irá se propagar de geração em geração até alguém se sacrificar para a
redenção de todos, é isso?
- Foi isso que me ensinaram.
- Agora, raciocine. Vamos supor que o tataravô de seu tataravô tivesse cometido alguma ação criminosa,
honestamente acharia justo que todos os seus descendentes fossem encarcerados por essa culpa?
- Claro que não, afinal a responsabilidade penal é individual.
- Isso mesmo! Inclusive a da Adão e Eva é apenas um lenda, uma mitologia que os Israelitas tomaram de
outras culturas anteriores.

O nosso amigo baixa um pouco a cabeça, como para pensar mais profundamente nas palavras que lhe foram
ditas.

- Espero, amigo, de não ter lhe causado espanto –pergunta Deus com um sorriso.
- Claro que não, mas me pegou totalmente de surpresa…
- Entendo, mas agora olhe essa lagoa, tá cheia de peixes. Que tal um bom peixinho frito?
- Aceito com prazer, obrigado.
- A propósito, já lhe contei que o meu signo é Peixes?
- E como pode ter um signo? Para ter um precisa ter nascido em um determinado momento.
- Verdade, mas no meu caso eu sou de todos os signos, portanto sou também dos Peixes.
- E o ascendente?
- Maionese...
- O que????
- Nada, estava apenas perguntando se, além do peixe frito, aceita um pouco de maionese. É da casa, é
genuina e de primeira.
- Muito obrigado, deve ser deliciosa.
- Lembre-se de um detalhe importante… Após uma conversa filosófica é sempre bom alimentar o corpo com
um bom prato de comida.
- Concordo em gênero, número e grau.
- Bom apetite!
- Obrigado, doutor, um prato realmente... "divino"!

- Doutor, aquele seu peixinho despertou o meu apetite, tinha um sabor de quero mais…
- Se quiser outro fique à vontade. No entanto, se posso lhe dar uma dica, guarde esse seu apetite para outras
iguarias. Aqui perto temos uma “caverna dos salames”, com pão francês bem quentinho e crocante, apenas
tirado do forno.
- Oba! Então vamos sem demora. Posso também ter um bom vinho?
- Branco ou tinto?
- Gostaria de tomar um Chianti.
- Com certeza. Também é um de meus vinhos preferidos.

Enquanto os dois experimentam vários tipos de iguarias, o nosso amigo pergunta:

135
- Doutor, sempre fiquei curioso ao extremo sobre um certo assunto.
- Ou seja?
- Os extraterrestres existem de verdade?
- Olha, no Universo temos mais de cem bilhões de galáxias sendo que cada uma abriga, no mínimo, cem
bilhões de estrelas. Consequentemente, se em média apenas uma estrela em cada mil tivesse um seu sistema
solar com um planeta em condições de hospedar a vida, calcule o número global de planetas aptos a
desenvolver a vida inteligente.
- Ah, doutor, tenha dor de mim, trata-se de um número enorme e eu nunca fui craque em matemática.
Gostava mais de filosofia…
- E aprendeu o que estudando essa disciplina?
- Aprendi que houve filósofos bons e outros malucos tipo, por exemplo, o alemão Ludwig Feuerbach. Pense
que ele chegou a afirmar que não foi o Senhor que criou os homens, mas foram eles que criaram Deus!
Hahahahaha.
- Por que tá debochando dele?
- Porque escreveu uma asneira, oras!
- E se lhe dissesse que ele tinha razão, e não apenas do ponto de vista antropológico e cultural?

Diante dessa resposta o pobre fica mudo e pasmo. O rosto dele perde a cor e sente-se como se a terra se
abrisse debaixo de seus pés. Após uns instantes de silêncio embaraçoso, o jovem cria coragem e fala:

- O doutor quis brincar comigo, testar a minha fé, né isso?


- Não costumo brincar com certos assuntos.
- Já me deixou abalado quando me disse que não criou o mundo mas que apenas escreveu as equações para
que a matéria informe tivesse as propriedades oportunas para originar a vida inteligente.
- Exatamente.
- Agora me vem com essa novidade afirmando que foram os homens que o criaram. Como pode ser verdade
uma coisa tão absurda? Seria como dizer que uma certa mulher pariu a parteira que a fez nascer. É a mesma
coisa, uma loucura sem nexo!
- Seria um absurdo numa dimensão onde o tempo se desloca unicamente numa só direção, procedendo do
passado em direção do futuro, ou seja movendo-se em cima de uma linha reta. Esse é o conceito ocidental de
tempo ontológico. Mas faça um esforço e imagine que o tempo seja circular.

E, assim dizendo, Deus, com um dedo molhado de Chianti, desenha uma circunferência em cima da mesa.

- Agora, meu amigo, diante dessa figura indique onde está o passado, o presente e o futuro.
- Realmente não há como; pois, nesse esquema, tudo fica relativo e não existe um passado ou um futuro
absoluto. Mas a minha mente ainda continua confusa…
- Sendo que estudou filosofia, deve conhecer o significado do holismo, ou seja que o “todo” é sempre maior
que a soma de suas partes.
- Sim, já ouvi falar…
- Por exemplo, o cérebro humano é composto por bilhões de neurônios, no entanto o cérebro possui uma
personalidade, um “eu” que nenhum neurônio ou pequeno grupo de neurônios possui.
- Sim, e daí?
- Lembra quando lhe expliquei que a alma se parece com um pen-drive com a possibilidade de armazenar
todas as informações e, acima de tudo, os sentimentos e as emoções coletados durante a vida?
- Lembro sim, doutor.
- O que acontece é que bilhões de bilhões de almas, analogamente aos neurônios, se juntam em torno de um
núcleo inicial (o tal do Arquiteto) formando uma super-estrutura caracterizada por uma super-inteligência e
outras propriedades surpreendentes. Em outras palavras, quando se chega a uma certa “massa crítica” a
super-estrutura dá um pulo quântico transformando-se numa entidade que antes não existia e essa entidade é
Deus. Claro?
- E depois?

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- Quando o atual Universo terminar, virando uma sopa insossa de fótons e neutrinos, ai eu junto os cacos, os
jogos numa singularidade menor que um elétron, escrevo as as equações e… “Fiat lux!”: eis que, de repente,
vamos ter…
- Um novo modelo de carro?!
- Aff! Amigo, “Fiat lux” é latim, significa “Seja a luz”, como tá escrito no Gênese ou, para usar uma
expressão mais moderna, podemos dizer Big Bang.
- Um novo Big Bang?
- Nãooooooooooooo!! Ai, que vontade de lhe dar um cascudo! Ainda não entendeu? É o primeiro e único
Big Bang, aquele que deu origem ao mundo onde você viveu.
- Ximaria, que coisa mais complicada, mas deixa resumir. O doutor está tanto no princípio como no fim e é
capaz de se gerar sozinho. Certo?
- Mais ou menos. Depois que o Universo começa a funcionar, as coisas procedem como você já as conhece.
De uma certa forma eu sou o alfa e o omega mas, para chegar a ser Deus no sentido pleno da palavra,
necessito da contribuição de inúmeros seres pensantes e sensíveis. É evidente como tudo isso funcione
unicamente se o tempo for circular; se fosse linear o mecanismo seria absolutamente impossível.
Obviamente tentei simplificar ao extremo, dando apenas os conceitos essenciais para que você entenda que
Deus não pode existir sem os seres humanos e vice-versa. Por isso, quando lhe digo que você faz parte de
mim, não falo apenas de um ponto de vista metafórico, mas estrutural, assim como um qualquer neurônio
que concorre à formação de um cérebro e faz parte dele.
- Essa sua explicação me deixou meio tonto, mas, por outro lado, a teoria do tempo circular me ajudou a
encontrar a resposta correta a uma pergunta que nunca saía da minha cabeça…
- Qual seria essa pergunta?
- Um velho amigo, meio maluco, quando queria pegar no meu pé, sempre me perguntava se nasceu primeiro
o ovo ou a galinha e eu ficava abestalhado sem saber o que responder.
- Ahahahahaha. Essa foi boa! Mas falando em ovos, aceita um de chocolate fino?
- Ah, muito obrigado, adoro chocolate.

Com um aceno quase imperceptível, Deus materializa um imenso ovo de chocolate e entrega ao homem um
martelo para que ele possa quebrá-lo. O nosso amigo fica sem palavras quando aparece a “surpresa”: um
carro esporte zero quilômetro, com uma linda moça sentada do lado do passageiro.

- Nossa, mas essa menina eu a conheço, é Mariana. Quando tinha vinte anos, vivia apaixonado atrás dela,
mas ela escolheu outro…

- Bom, agora divirta-se com o carro e a sua passageira, eu volto daqui a uns cem anos. Falou?!

Exatamente cem anos depois Deus aparece no mesmo lugar e pergunta:

- Tudo bem amigo? Curtiu bastante a surpresa?


- Adorei!
- E o chocolate?
- O melhor que já comi.
- Deveria estar bastante feliz agora…
- Sim, estou e agradeço de novo.
- Hummmm, será, mas lhe vejo um pouco perplexo...
- Bem, não posso dizer que esse universo pessoal não seja maravilhoso, no entanto sinto falta de alguma
coisa que não sei bem explicar…
- Tente, abra-se comigo!
- Sabe, doutor, mas é que, até agora, não consegui ter uma visão global da realidade. Aqui onde estamos, ou
seja no Paraíso…
- Nunca usei essa palavra até agora, disse apenas que, se isso lhe agradar, pode chamá-lo com esse nome.
- Tudo bem… A verdade é que me vieram na cabeça lembranças de muitas pessoas, fatos, acontecimentos e
acabei me sentindo culpado. Acredita?

137
- Esclareça melhor…
- O doutor não lê no meu pensamento?
- Nunca faria isso, aqui vigora o respeito absoluto da privacidade de cada qual. Sem contar que, num mundo
onde a sinceridade está na base das relações entre os seres sensíveis, a leitura do pensamento alheio torna-se
completamente inútil.
- Então, sei que nunca fiz mal a ninguém, que tive meus pequenos defeitos, mas como parar de pensar
naqueles que se sacrificaram para alcançar um ideal ou para ajudar quem sofre. Eu não fiz nada de
espetacular, doutor! Vivi a minha vidinha apenas procurando esquivar os problemas, pensando na minha
saúde, em ter um dinheiro guardado pra velhice, obedecendo às leis e tentando, nem sempre com sucesso,
respeitar os outros.
- Não sinta-se culpado por isso: só ocasionalmente a vida oferece a oportunidade de mostrar o lado melhor
das pessoas as quais, normalmente, não têm a obrigação de praticar atos de heroísmo. Afinal tinha razão
Bertold Brecht quando escreveu: “Miserável país aquele que precisa de heróis”.
- Eu sei, eu sei, mas mesmo assim tenho consciência de que inúmeros seres humanos tiveram a coragem de
dar um passo a mais doando-se aos outros, preocupando-se pelos outros e, principalmente…
- Principalmente?
- Amando-os!

O jovem baixa a cabeça e suspira profundamente enquanto Deus fica silencioso no aguardo de outras
palavras.

- Sei de pessoas que deram suas vidas para salvar um inocente e, quem sabe, dependendo das circunstâncias,
até eu teria criado a coragem para me sacrificar. Mas a grande maioria dos que admiro não precisou chegar a
tanto, apenas tiveram atitudes positivas em relação aos que sofrem. Como disse antes, o meu esporte
preferido foi me esquivar dos problemas assistindo de camarote aos dramas reais, assim como se assiste uma
novela.
- E, com uma palavra, como você iria sintetizar essa sua postura diante do problema do sofrimento?
- Egoismo!
- Ainda se sente egoísta?
- É como se de repente todas as peças de um imenso quebra-cabeça tivessem se encaixado… Agora
finalmente consigo enxergar a verdade. Antes ela estava escondida!
- A verdade não estava escondida, sempre esteve presente em seu coração, só que o seu egoismo abafava
essa luz interior.
- Sinto-me culpado por isso, e nem sei se mereço estar no Paraíso.
- Cabeção! Nunca falei que está! Quantas vezes tenho que repetir esse conceito?

O nosso amigo fica sério, pensa rapidamente e faz essa pergunta:

- Eu queria saber qual foi o destino daqueles homens e mulheres que estavam com o coração repleto de
amor.
- Sente falta deles?
- Sim, muita falta. Tanta, que as maravilhas que encontrei nesse lugar estão perdendo o seu sabor inicial.
- E gostaria de entrar em comunhão com essas pessoas?
- Queria sim!
- Então segure a minha mão.
- Pra onde vamos?
- Pro Paraíso, oras!
- Ah! Enfim esse lugar existe!
- Na verdade não é um lugar, é uma dimensão.
- E essa dimensão é feita de quê? Matéria ou energia?
- É feita de amor!

138
DEUS ESTÁ NO KOMMANDO

Leio num blog duma jornalista cristã: “Se o desânimo tomou conta de você e você pensa em abandonar o
barco, lembre-se: Deus está no controle de tudo. E se ele está no comando, é porque o barco está seguindo
para o caminho certo e você não deve desistir. [...] A carga sobre os seus ombros parece mais pesada do
que se pode aguentar, mas é nessa hora que você precisa se mostrar mais forte e retirar de dentro de suas
entranhas o suspiro exato para sair desse momento. Não há ninguém melhor do que Deus para te ajudar
nesta missão. [...] Deus não gosta de ver ninguém em sofrimento e tem um caminho de felicidade à sua
espera. Ele só quer que você confie nele, que navegue ao seu lado, enfrente a tempestade com a coragem de
um capitão do mar, siga com determinação até encontrar o caminho que ele tem guardado para você. E não
desistir jamais.”

Belas palavras, né? Pena que a verdade histórica aponta para uma realidade mensos poética e mais medonha.
Durante a Segunda Guerra Mundial cerca de oito milhões de pessoas perderam suas vidas nos campos de
concentração nazistas, entre elas 1,5 milhões de crianças absolutamente inocentes.
Surge, espontânea, uma pergunta: por que Deus permitiu tanta violência e tanto horror?
Muitos cristãos irão responder que Deus não tem culpa alguma, pois todo esse mal decorreu do “livre
arbítrio” que, no entanto, não passa de uma quimera pois ninguém pediu para nascer e muitos, conhecendo
de antemão o ambiente no qual teriam nascido e os sofrimentos que os esperavam, provavelmente teriam
recusado o nascimento. Afinal, como dizia Nietzsche, é a vida que decide pelo ser humano e não vice-versa.

Mais recentemente, o psicólogo estadunidense Roy Baumeister da Universidade Estadual da Florida


escreveu, na revista científica Perspectives on Psychological Science, que “No centro da questão do livre
arbítrio está o debate sobre as causas psicológicas da ação. Em outras palavras, se a pessoa é ou não é
uma entidade autônoma que escolhe genuinamente como agir entre uma infinidade de opções possível. Ou
se a pessoa é apenas mais um passo na cadeia de aleatoriedade, e por essa razão suas ações são nada mais
do que o produto inevitável de uma série de causas derivadas de eventos anteriores e ninguém em sua
posição poderia ter agido diferente".

No caso do Holocausto houve uma cadeia de comando que, partindo do chefe do Terceiro Reich, Adolf
Hitler, e passando por fanáticos da pureza racial como Heydrich, chegava até os comandantes dos campos da
morte e, mais em baixo, aos soldados das SS e até aos próprios prisioneiros que, organizados em pequenos
grupos denominados Sonderkommando, faziam o “trabalho sujo” nas câmaras de gás e nos fornos
crematórios antes deles mesmos serem eliminados pela máquina do extermínio. Não todas essas
engrenagens agiam por puro sadismo ou por convicção ideológica, e não poucos, como demonstrou o
próprio Adolf Eichmann durante o seu julgamento em Tel Aviv, simplesmente calaram a sua consciência
conformando-se à situação para mostrar eficiência e disciplina diante de seus superiores e/ou por admirar
incondicionadamente o líder supremo. Então é evidente que se Hitler não tivesse tomado o poder a Shoá não
teria acontecido. Se realmente Deus, sendo onisciente, conhece o futuro, por qual motivo permitiu todo esse
derramamento de sangue? Decerto as alternativas não lhe faltaram. Vejamos o que poderia ter sido feito:

• Hitler, quando líder, sofreu não menos de 15 atentados e nenhum deu certo; era suficiente que Deus tivesse
permitido que uma das bombas preparadas para o ditador explodisse na hora e no lugar certo para resolver o
problema, mas várias vezes o detonador falhou. Para um Ser todo-poderoso não teria sido um grande
milagre fazer com que pelo menos uma das espoletas defeituosas funcionasse devidamente. No atentado à
bomba de 20 de Julho de 1944, Hitler saiu com vida devido, no último instante, ter realizado a conferência
entre os seus oficiais numa cabana (e não num bunker) em consideração do clima quente. Mas se Deus
tivesse enviado uma pequena frente fria, o monstro não teria escapado.

139
• Durante a Primeira Guerra mundial, o cabo Hitler foi o único de seu batalhão a sobreviver a um intenso
bombardeio de artilharia; mesmo sem falecer, podia ter ficado mutilado de forma tal de exclui-lo para
sempre da cena política, mas saiu indene e, por isso, foi condecorado. Parece até que quem “estava no
comando” o tenha protegido. Aliás, Hitler sempre afirmou de gozar da proteção divina.

• Outra solução, ainda mais simples e incruenta, era fazer com que Hitler não tivesse sido gerado ou gerado
com um DNA diferente tendo, por exemplo dois cromossomos X: nesse caso teria sido uma mulher. Como
os cromossomos sexuais se unem de forma aleatória, esse teria sido um “milagre” até mais simples que
salvar a vida de um animal de estimação.

• Deus poderia até ter tocado o coração dos professores da Academia de Belas-Artes de Viena que, em 1907
e 1908 recusaram Hitler como estudante. Se o tivessem admitido, o mundo teria tido um péssimo pintor a
mais e um carrasco a menos. Mas “quem estava no comando” achou correta esta escolha.

Quanto ao digno parceiro do ditador alemão, o sanguinário Stalin, aos cinco anos de idade teve varíola,
chegando perto de falecer assim como aconteceu com muitas outras crianças do seu vilarejo; mais tarde foi
atropelado por uma carroça que lhe deturpou o braço esquerdo mas não o matou. Infelizmente sobreviveu a
outro atropelamento chegando a liderar a União Soviética onde provocou a morte de vinte ou trinta milhões
de seres humanos inocentes. Se Deus estava no comando, como foi que tudo isso pôde acontecer?

Durante os Julgamentos de Nuremberg, Severina Scmaglevskaya, supérstite di Auschwitz, contou que uma
noite foi acordada por gritos desumanos que continuaram durante várias horas. Como ela tinha um
conhecido que fazia parte do Sonderkommando do campo, no dia seguinte perguntou a ele o que havia
acontecido e ele explicou que, devido uma improvisa falta de gás venenoso (o Ziklon-B), muitas crianças
haviam sido arrancadas dos braços de suas mães e jogadas vivas dentro dos fornos crematórios.

Nessas alturas, sem faltar de respeito a quem fé, queria fazer ao leitor três simples perguntas:

1) Onde estava a Divina Providência naquela noite de terror?

2) O que estavam fazendo os Anjos da Guarda que nada viram e nada ouviram? Se esses anjos nada fizeram
para salvar as crianças de tanto sofrimento, qual a função deles: assistir impotentes a qualquer tipo de
atrocidade? Ou servem apenas para, ocasionalmente, fazer com que um menino não perca o ônibus que o
leva para a escola ou passe numa prova mesmo sem ter estudado?

3) Se você tivesse a possibilidade de encontrar uma daquelas mães que tiveram suas crianças queimadas
vivas num crematório, teria ainda a impudência de dizer pra ela que sempre “Deus está no comando” e que
há “um caminho de felicidade à sua espera”? Cuidado, porque ela poderia lhe responder que Deus, em vez
de “estar no comando” estava no (Sonder)kommando!

140
Em síntese, se Deus fosse um Ser pessoal e, portanto, “humanamente” sensível à dor de suas criaturas, em
particular das crianças (símbolo da inocência total), a dor não existiria. Mas a dor é apenas o momento
negativo da existência biológica. Se Deus fosse onipotente e, portanto, capaz de impedir a dor do mundo
permitindo o único polo positivo –prazeroso- da vida biológica, iria de encontro às leis que ele mesmo
criara: obviamente, nesse caso teria sido mais lógico não criá-las. Tudo quanto exposto até agora implica
apenas duas possibilidades: ou Deus não existe ou é um conceito muito mais abrangente daquilo proposto
pelas religiões e mais parecido com o elemento panteísta de Espinoza compartilhado também por Einstein.
Em ambos os casos, decerto Deus NÃO está no comando e a Providência é fruto da imaginação de quem
necessita duma divindade qualquer à qual se agarrar nos momentos de tristeza, de medo e de perigo. Os
religiosos dizem que o homem ama a Deus, mas na verdade ama apenas a si mesmo e garanto que se a dor e
a morte não existissem, ninguém se importaria com ritos, orações, sacramentos, missas e penitências.
Quanto à vida eterna, o filósofo britânico Bernard Willimas considerava a perspectiva duma vida infinita
como sendo um melancólico futuro de repetição infinita das mesmas experiências, um tédio insuportável
que tornaria a vida eterna simplesmente abominável.

Mas, voltando ao assunto, é fácil imaginar as objeções dos crentes: eles vão dizer que a Providência existe
de verdade e o fato é comprovado pelos milagres que continuam ocorrendo. Pois bem, se todos esses
milagres são tão frequentes assim, como se explica que não apenas nunca assisti um sequer, mas nunca ouvi
falar num verdadeiro milagre? E, quando digo “milagre” me refiro a um evento que quebre as regras da
física, da química ou da biologia. Por exemplo, alguém já viu uma perna amputada crescer de novo? Ou um
prédio desabado durante um terremoto se erguer novamente? Um navio afundado voltar sozinho à superficíe
do mar? Um anão crescer em poucas horas ou uma criança Down se tornar geneticamente normal?
Os religiosos contra-atacam afirmando que Deus não opera esse tipo de milagre justamente para nos deixar a
liberdade de acreditar ou não. A meu ver, não poderia existir desculpa mais estúpida do que essa. Por qual
estranho motivo uma pessoa qualquer deveria se sentir ofendida ou ameaçada se Deus, digamos em cada 50
anos, se manifestasse à Humanidade com um milagre espetacular? Ele nem precisaria reconstruir uma
cidade arrasada por um tsunami e ressuscitar todos aqueles que perderam suas vidas na catástrofe: bastaria
que alertasse, em sonho, alguns milhares de pessoas espalhadas pelo mundo. Essa seria não apenas a prova
que Deus existe, que nos ajuda por meio da sua Providência, mas também que a vida de todos não termina
com a morte e continua no além. As consequências positivas sobre a sociedade seriam fantásticas:
provavelmente a grande maioria dos meliantes deixaria de cometer crimes, dificilmente haveria guerras e
todos estaríamos mais dispostos a suportar os nossos sofrimentos cotidianos na perspectiva segura de uma
felicidade eterna e comprovada.

Na verdade, porém, o que os religiosos chamam de “milagres” são apenas curas que ocorrem de forma
aleatória mas seguindo uma estatística regular; por exemplo, a medicina ensina que um doente de câncer tem
uma probabilidade em cada 60.000 de sarar de forma espontânea e definitiva. Isso idependentemente de seu
credo religioso, de seu comportamento, de orações, bênçãos e outros rituais. Por enquanto o mecanismo de
cura permanece desconhecido, mas um dia será descoberto pela Ciência.
Gostaria, portanto, de citar três casos absolutamente verídicos aptos a desmentir a ação milagrosa da
Providência e mostrar ao leitor que certos fatos comprovam apenas a extrema resistência do corpo humano e
a sua capacidade descomunal de sobreviver a traumas considerados extremos. São casos que conheço muito
bem, pois estão ligados a pessoas da minha família.

O mais antigo se refere a meu avô que foi sargento de artilharia durante a Primeira Guerra Mundial. Durante
a ofensiva inimiga de 1917 um shrapnel explodiu sobre a sua bateria e ele teve o cérebro atravessado por
uma bola de chumbo que perfurou o osso frontal, a base craniana, o paladar e a língua. Com toda certeza
uma ferida mortal, pois é muito difícil alguém sobreviver a uma bala transpassando a cabeça. Mesmo assim
ele não morreu e nem ficou aleijado. O interessante é que meu avô vinha duma família socialista, era
anticlerical, nunca ia à igreja, não rezava e nunca o ouvi falar em religião. Acredito até que fosse ateu. Ainda
mais interessante é saber que dos 660.000 mil soldados italianos mortos naquela guerra a grande maioria,
oriunda do Sul, era católica praticante: isso significa que, objetivamente, meu avô apenas teve muita sorte
enquanto outros não foram tão afortunados quanto ele. Sorte, e nada mais do que isso.

141
Durante a Segunda Guerra Mundial, meu pai era motorista de caminhão na África do Norte. De noite, para
escapar do frio do deserto, ele e um sargento também motorista, costumavam escavar uma pequena
trincheira debaixo do motor, para ficar num ambiente morno e se abrigar aí até o sol nascer de novo.
Acontece que uma noite o caminhão foi atingido por uma bomba inimiga que matou o sargento e arrancou
uma perna de meu pai. Foi a Providência que escolheu? Se foi, fez a escolha errada porque, enquanto o
sargento era extremamente religioso, meu pai nunca se interessou por essas coisas e não ligava
minimamente para questões de igreja, santos, etc. Quando, conversando com ele, o assunto caía sobre
questões de fé, sempre mostrou ser extremamente cético e desligado. Como se não bastasse, em 1997, ele foi
levado ao hospital gravemente enfartado, ao ponto que os médicos nem queriam operar. Mas o chefe da
equipe resolveu tentar e a cirurgia cardíaca deu certinho, tanto que meu pai veio falecer com quase 95 anos
de idade. Ninguém, na família, pronunciou a palavra “milagre”, apenas todos reconheceram que ele era uma
pessoa forte e sortuda.

Poucos anos atrás, à esposa ainda relativamente nova de um de meus cunhados foi diagnosticado um câncer
de pele. Ela já havia sido operada pelo mesmo problema cerca de treze anos antes e o novo diagnóstico veio
de forma totalmente inesperada pois a medicina ensina que, depois de dez anos, é muito difícil que o mesmo
melanoma volte a atacar novamente. O marido, uma pessoa muito boa e devota, fez de tudo para salvar a
vida da amada e, como ambos eram bastante religiosos, nada foi poupado para invocar a ajuda da
Providência. Ele mandou rezar não sei quantas missas, fez inúmeras promessas, jejuou, fez romarias de
joelhos e doações a uma igreja; uns familiares organizaram círculos de oração enquanto o quarto da mulher
ficou tão repleto de imagens e estátuas de santos que mais parecia uma capela.
Mas tudo isso não adiantou. Ela continuou piorando ao ponto que um dia, não mais aguentando as dores,
arrancou todas as sondas para morrer o mais rápido possível. As últimas semanas de vida –se é que aquela
podia ser chamada de vida- foram horríveis e, enfim, os seus sofrimentos terminaram. Ela e o marido
confiaram totalmente em Deus, mas Ele, apesar de estar no comando, nada fez para pelo menos aliviar as
dores da pobre, cujos gritos ecoavam incessantes dia e noite.

Acredito que esses três casos que acabei de relatar sejam mais que suficientes para uma pessoa razoável e de
mente aberta chegar à conclusão que o que acontece em nossas vidas só depende do acaso, da sorte, das
circunstâncias históricas e de outras fatores imponderáveis, mas independe da vontade de um Ser que,
segundo os religiosos, estaria no comando mas que, na verdade, em nada interfere nas coisas desse mundo.
Aliás, intervir nos assuntos humanos iria significar não a perfeição da Divindade, mas a imperfeição duma
criação que necessita de reparos em continuação.

142
SIGNIFICADO E IMPORTÂNCIA DA CONVERSÃO

No Dicionário Aurélio lemos a seguinte definição de conversão:

“O ato de passar dum grupo religioso para outro, duma para outra seita ou religião”

E, realmente, é nesse sentido que as pessoas entendem o significado dessa palavra. Se diz, por exemplo, que
o imperador Constantino I converteu-se e tornou-se cristão recebendo o batismo pouco antes de falecer; que
os missionários loiolistas converteram muitos índios no Brasil; que um famoso ator hedonista e depravado
converteu-se e passou a frequentar a Assembleia de Deus. No entanto, no entendimento de muitas pessoas
esclarecidas, é mister investigar melhor esse vocábulo, passando a analisar o seu significado mais verdadeiro
e profundo. De qual forma? Vou explicar mediante um exemplo.

Uns dias atrás assisti o filme “Andando sobre as águas”, protagonizado pelo ator israelense Lior Louie
Ashkenazi cujo roteiro é o seguinte. Depois da morte de sua mulher, que cometeu suicídio, Eyal, um killer
do Mossad (o serviço secreto israelense), recebe a incumbência de achar e eliminar um ex-oficial nazista,
criminoso de guerra que ainda está vivo. Sua única pista é o neto do procurado, o jovem alemão Axel, que
visita Israel para encontrar sua irmã Pia. Inesperadamente, o agente se torna amigo dos dois irmãos e
começa a questionar seus valores. Enfim, Eyal consegue localizar o carrasco nazista em Berlim, mas se trata
de um velho de mais de 90 anos de idade, praticamente moribundo. Entretanto, em vez de cumprir a ordem
de seu superior, bramoso para que o Mossad chegue “antes de Deus”, o agente desiste de cumprir pela
enésima vez o seu papel de anjo da morte e, desobedecendo ao seu chefe, poupa a vida do velho que, porém,
é morto pelo próprio neto Axel. A partir daquele momento, repudiada a cultura de morte, a vida de Eyal não
será mais a mesma.

Bom, esse ato de Eyal é o que eu chamaria de conversão. Conversão não significa passar de um rito para
outro e nem passar do ateísmo ao cristianismo ou qualquer outra religião abraâmica. Uma sincera e profunda
conversão nada tem a ver com rituais, cultos, manifestações exteriores, dogmas, hierarquias e sacramentos.
Muito menos com atitudes histéricas e milagres imaginários! O ato da conversão envolve unicamente o lado
interior do ser humano, a sua consciência, a sua firme vontade de expulsar o mal de seu coração,
substituindo-o com o amor. Nesse sentido até um ateu pode se converter, mesmo continuando a não
acreditar em alguma Divindade.

Objetivamente, o conceito de Bem nunca foi monopólio de uma religião em particular. Os homens não
precisam de mandamentos explícitos revelados aos profetas, pois eles já estão gravados dentro de seus
corações desde a noite dos tempos, e quem afirma que as pessoas irreligiosas são ímpias, profere uma
grande mentira. É cem mil vezes melhor um ateu assumido, mas rico de valores éticos, respeitoso da vida e
da dignidade dos outros, do que um cristão hipócrita prono a ostentar apenas símbolos exteriores de uma fé
intolerante, um daqueles que não admitem opiniões divergentes das suas. Até papa Francisco, na primeira
Audiência Geral de 2019 declarou que: "As pessoas que vão à igreja, ficam lá todos os dias e depois vivem
odiando os outros e falando mal das pessoas são um escândalo: é melhor viver como um ateu do que dar
um contratestemunho de ser cristão." Felizmente existem não poucos cristãos que, em sintonia com o
pensamento do Santo Padre, valorizam justamente esse tipo de conversão. Mas muitos outros, intransigentes
ao extremo, ainda acham sacrossanta a famosa frase de São Cipriano: “Salus extra Ecclesiam non est”. Ou
seja, “Fora da Igreja não há salvação” e o inferno vai engolir todos aqueles que se recusam de acreditar no
cristianismo, independente de seus sentimentos e atitudes em relação ao próximo. Acredito que esses
indivíduos intolerantes são os que mais necessitam de uma urgente conversão!

Banir o mal do coração é apenas um primeiro passo indispensável para a conversão a qual pode e deve
continuar com a busca de um percurso que aproxime o ser humano ainda mais à fonte da vida, ao Absoluto.
Uma das formas mais nobres de progredir na conversão é aquela contida no Bhagavad Gita (B.G.), texto
143
clássico hinduísta na qual o próprio Krishna, expressão visível do Absoluto, explica ao amigo e discípulo
Arjuna os vários percursos para alcançar a perfeição espiritual, sem necessariamente seguir o caminho da
“renúncia” proposto pelo budismo, mas vivendo no mundo e oferecendo os frutos de sua conduta e de suas
ações não aos interesses pessoais, mas à Divindade, segundo os ditames da Karma-yoga, o yoga da ação. De
fato, o Karma-yoga é o caminho do "agir sem agir", do desapego dos frutos da ação; em outras palavras,
enquanto o indivíduo comum age impulsionado pela cobiça de ter (sucesso, renome, dinheiro, poder, etc.),
quem põe em prática esse tipo de yoga age sem ser impulsionado pelo desejo de receber alguma forma de
gratificação.

As que seguem são as exatas palavras que Krishna dirige ao príncipe Arjuna: “Não é por se abster de
realizar todas as ações que o homem pode libertar-se dos laços da ação e suas consequências. E nem a
simples renúncia de seus frutos pode elevar o homem à perfeição. Na verdade, ninguém pode permanecer,
nem por um momento completamente inativo. Todos são forçados a agir sob a influência dos Guna, os
fatores que constituem a natureza. Se um homem ficar parado, mesmo dominando seus órgãos da ação, mas
a sua mente ainda continuar sendo ligada aos objetos dos sentidos, ele se engana ou é um simulador” (B.G.
III, 4-6). E ainda: “Oh Arjuna, ao contrário, destaca-se quem é o dono de seus sentidos e de sua mente, e se
empenha no karma-yoga, usando os órgãos dos sentidos sem apego. Complete, portanto, as ações que são
necessárias apenas por dever e de acordo com o sua natureza, porque agir é melhor do que não agir. Até a
sua vida corporal não poderia ser mantida sem você agir. Este mundo está todo preso em si pelas restrições
e as consequências das ações, do karma. A única exceção a isso é a ação realizada com a intenção de
oferecê-la em sacrifício. Oh filho de Kunti [Arjuna], execute portanto as suas ações, cumprindo-as com o
espírito de oferecê-las em sacrifício.” (B.G. III, 6-9).

Quem pretende percorrer o caminho da perfeita conversão mediante esse tipo de yoga (seja bem claro que o
yoga não é algum tipo de ginástica) deverá deixar morrer o ego empírico, junto com todo o seu conteúdo de
posse e de aquisições, e envolver-se com o Princípio para fins universais, atuando nos diversos campos da
atividade humana: destarte, o adepto se tornará um instrumento da vontade divina. Krishna, no Bhagavad
Gita, incita continuamente o seu discípulo a buscar refúgio nele, para nele encontrar a sua verdadeira
identidade, e essa sua insistência é, sem dúvida, necessária devido a ação do Karma-yoga requer um impulso
saudável de dedicação completa, fidelidade e devoção à vontade do Ser universal. Krishna não se cansa de
reiterar o conceito que a nossa finalidade é a liberdade e o altruísmo que, segundo o Karma-yoga, será
alcançado mediante a ação. De fato, todos temos o direito e o dever de agir, de praticar o bem e, quando a
ideia de espalhar o Bem se tornará parte integrante do nosso ser, já não precisaremos buscar nada fora de
nós. Por outro lado, é fundamental esclarecer o conceito que jamais devemos procurar colher os frutos das
nossas ações: nós fazemos o bem porque é bom fazer o bem; aquele que faz o bem em vista de outro
propósito, mesmo que seja para ganhar o Céu, torna-se um escravo. Qualquer trabalho feito sob o estímulo
do egoísmo, em vez de nos libertar, nos tornará ainda mais escravos. Então, a única solução será renunciar
de antemão aos frutos da ação, de manter uma postura indiferente, de trabalhar sem se preocupar com os
resultados e, ainda mais, com o julgamento da sociedade.

Gandhi, como ferrenho seguidor dos preceitos do Bhagavad Gita, além de valorizar ao máximo o trabalho
braçal, considerava toda e qualquer entidade viva como parte do Absoluto e, nesta perspectiva, ferir,
ofender, prejudicar um ser significava fazer o mesmo a si e a Deus. Para ele, os seres mereciam apenas
respeito, amor e serviço; coerentemente, ele colocou em prática esses princípios rechaçando a
intocabilidade, as diferenças e a oposição entre as religiões e qualquer expressão ódio ou violência contra
outrem, inclusive contra aqueles que nos perseguem. Atualmente o Mahatma é considerado como o pai da
moderna tolerância religiosa, mas é oportuno esclarecer o seu pensamento analisando atentamente o que ele
escreveu: “Eu nao gosto da palavra tolerância, mas não consegui pensar num melhor termo. Tolerância
pode implicar a suposição da inferioridade de outras crenças em relação à nossa, enquanto a Ahimsa [não-
violência] nos ensina a oferecer o mesmo respeito às crenças religiosas dos outros conforme consentimos
para com a nossa própria, admitindo a imperfeição dela. Essa posição será prontamente aceita pelo
verdadeiro buscador da Verdade que siga a lei do amor. Se atingirmos a plena visão da verdade, não mais
seríamos meros buscadores, mas teríamos nos tornado um com Deus, pois a Verdade é Deus. Mas por

144
sermos apenas buscadores, continuamos nossa busca e somos conscientes da nossa imperfeição. E se somos
nós mesmos imperfeitos, a religião como concebida por nós deve ser imperfeita [...] sempre sujeita à
evolução e reinterpretação. [...] Se todas as fés concebidas pelo homem são imperfeitas, a questão do
mérito comparativo não pode surgir.”

De fato, as carnificinas infligidas ao mundo em nome da religião têm muito pouco a ver com a genuína
religião e, durante os séculos, as pessoas lutaram por doutrinas e dogmas provando que as “guerras
religiosas” são, na realidade, egoísmo enfurecido em larga escala. O filósofo indiano Swami Prabhavananda
(1893-1976), fundador da Vedanta Society of Southern California, disse: “Se você colocar Jesus, Buda e
Maomé juntos numa mesma sala, eles se abraçarão; mas, se colocar seus seguidores juntos, eles poderão
matar-se uns aos outros!”
Quem entendeu perfeitamente a importância da Ahimsa no âmbito da filosofia contida no Bhagavad Gita,
tendo-a estudada ao ponto dela ter influenciado toda a sua imensa produção poética, foi Cecília Meireles.
Grande admiradora de Gandhi, Cecília visitou a Índia em 1953 onde, entre outras coisas, se deparou com a
silenciosa humildade das mulheres indianas executando tarefas pesadas como, por exemplo, varrer as ruas,
seguindo o seu dever social e ritual (dharma) sem apego aos resultados e sem esperar recompensa alguma,
conforme as prescrições do B.G. III, 6-8. Em seu poema “Humildade”, a poetisa retrata justamente uma
dessas mulheres:

Varre o chão de cócoras.


Humilde.
Vergada.
Adolescente anciã.
Na palha, no pó
seu velho sari inscreve
mensagens ao sol
com o tênue galão dourado.
Prata nas narinas,
nas orelhas,
nos dedos,
nos pulsos.
Pulseiras nos pés.
Uma pobreza resplandecente.
Toda negra:
frágil escultura de carvão.
Toda negra:
e cheia de centelhas.
Varre seu próprio rastro.
Apanha as folhas do jardim
aos punhados,
primeiro;
uma
por
uma
por fim.
Depois desaparece,
tímida,
como um pássaro numa árvore.
Recolhe à sombra
suas luzes:
ouro,
prata,

145
azul.
E seu negrume.
O dia entrando em noite.
A vida sendo morte.
O som virando silêncio.

O significado desses versos nos quais se descreve uma varredora silenciosa que “varre seu próprio rastro”
e, enfim, desaparece silenciosa, é que o trabalho manual corresponde a um ritual, a fazer uma oferenda, a
executar um sacrifício. Inclusive, pelo menos no caso desse poema, a pobreza material é vista como sendo
uma atitude positiva, pois é aceita e vivenciada como oportunidade de ascensão espiritual por meio do
desapego pelas posses materiais que contribui para uma contemplação meditativa. Trata-se, obviamente,
daquela que a própria Meireles definiu de “pobreza voluntária”, típica dos ascetas cristãos da Idade Média.
A esse respeito, a estudiosa de Souza Corrêa escreve: “O desapego, uma atitude capaz de amansar os
desejos do Eu, surge não como uma aceitação integral, mas como a capacidade de se livrar daquilo que
não é fundamental para existir ou daquilo que te faz mal. As personalidades marcantes para Cecília
representavam o desapego, mas não significa que esses mestres eram sem emoções, inatingíveis ou
impassíveis para as dificuldades da vida.” Sempre segundo essa estudiosa, “uma visão essencialmente
cristã, na qual o indivíduo é julgado e conduzido ou à salvação ou à condenação, não correspondia às
expectativas de Cecília sobre seu fascínio natural pela relação entre vida e morte, por exemplo. Essa
dicotomia foi logo cedo abandonada pela autora, que encontrou em Tagore e Gandhi uma grande parceria
estética e espiritual”.

Em resumo, o Karma Yoga, de acordo com a opinião do místico indiano Swami Vivekananda (1863-1902),
“é um método ético e religioso cuja finalidade é de fazer com que o adepto possa conseguir a liberdade por
meio do altruísmo e das boas ações. Quem pratica essa forma de yoga não precisa seguir nenhuma doutrina
particular e nem ter a obrigação de acreditar em Deus, na alma ou em alguma especulação de ordem
metafísica. O seu objetivo primacial é de se livrar do egoismo e de se realizar mediante as suas próprias
forças”. Em outras palavras, o que realmente ocorre é um verdadeiro e profundo ato de conversão mediante
o qual “Alcança a paz o homem que, renunciando aos desejos, vive sem cobiça de possuir, sem morbosidade
e sem egoismo” (B.G. II, 71).

146
CONSIDERAÇÕS SOBRE A EXISTÊNCIA DE DEUS

Durante a sua longa história, a Humanidade tem procurado uma resposta à mais angustiante de todas
as perguntas: “A vida termina com a morte ou continua em outra dimensão?”. É evidente que essa resposta
fica subordenada a outra ainda mais intrigante: “Deus existe?” pois a existência dum qualquer tipo de
Divindade, pessoal ou não, seria quase uma garantia de vida no além; digo quase porque os antigos Hebreus,
mesmo acreditando cegamente na existência de Javé, achavam que tudo tivesse fim com a morte física. Já na
Antiguidade filósofos como Parmênides, Platão e Aristóteles procuraram demonstrar a existência de um Ser
supremo mediante o Argumento Ontológico e o mesmo fez Santo Agostinho, pelo qual esse Ser coincidia
com o próprio Deus cristão. Em seguida, na Idade Média, surgiram verdadeiras Provas ontológicas como as
de Anselmo de Aosta e de Tomás de Aquino, mais tarde reforçadas por pensadores como René Descartes,
Spinoza e Leibniz; no entanto, outros filósofos como David Hume e até Miguel de Unamuno reconheceram
que essas “provas” não passam de petições de princípio e não demonstram absolutamente nada. Portanto, a
única maneira para demonstrar a existência de Deus é procurar dados objetivos e científicos, principalmente
no campo da Cosmologia. Em outras palavras, se conseguirmos demonstrar que o Universo teve uma
origem, principalmente uma origem do nada, teremos resolvido a metade do problema.

Entre as várias hipóteses, a mais popular é a do Big Bang segundo a qual o universo se originou há cerca de
13,7 bilhões de anos a partir de uma violenta explosão que gerou espaço, tempo e toda a matéria. Tudo o que
existe hoje estava contido em um ponto, denominado “singularidade” sob condições de pressão, densidade e
temperatura teoricamente infinitas. A explosão foi seguida por uma expansão vertiginosa (chamada
“inflação”), durante a qual a matéria acelerou ultrapassando de muito a velocidade da luz; em seguida a
velocidade de expansão tornou-se bem mais vagarosa. Como este moto expansivo continua sendo observado
e é possível medir uma fraca radiação cósmica de fundo (comprovando a explosão inicial), temos a prova
que o modelo do Big Bang não é uma simples conjectura, mas representa um modelo confiável da origem do
Universo. O primeiro cientista a desenvolver esse modelo foi, em 1927, o padre jesuita Georges Lemaître
cuja descrição matemática estava de acordo com as equações escritas por Einstein do qual o padre belga era
colega e amigo. É interessante notar que, apesar de ser um padre católico, Lemaître jamais considerou a
Bíblia como fonte de ensinamento científico e, quando tornou-se presidente da Pontifícia Academia das
Ciências, a respeito da sua teoria da expansão ilimitada do Universo declarou: “Essa teoria fica totalmente
fora de qualquer questão metafísica ou religiosa. Ela deixa o materialista livre de negar qualquer Ser
transcendente ... Desencoraja o crente de qualquer tentativa de familiarizar com Deus.” Apesar desse
convite à prudência, em 1951, papa Pio XII utilizou os resultados de Lemaître para elaborar uma versão
moderna da antiga doutrina da “criação do nada” (ex nihilo) feita por um Deus transcendente. Em seus
últimos anos de vida, Lemaître tentou em vão de aconselhar o Papa de não pontificar sobre esses assuntos
distorcendo o significado puramente científico de suas descobertas cosmológicas.

Mais recentemente, entre os cientistas ganhou espaço uma nova teoria denominada Multiverso. Para que o
leitor possa ter uma ideia pelo menos intuitiva do nascimento do Multiverso, pense na formação de bolhas
de vapor numa panela de água fervente. Imagine as bolhas (que aparecem e depois se expandem com
velocidade acelerada) como pequenos universos gerados por flutuações quânticas. Algumas bolhas colapsam
e desaparecem, outras sobrevivem. Analogamente, em um universo primordial, devido às pequenas
inomogeneidades presentes, a força de atração gravitacional consegue agregar a matéria causando o seu
colapso com consequente formação de estrelas e galáxias. Nos inúmeros universos possíveis, as constantes
físicas fundamentais para que neles possa surgir a vida serão aleatórias e diferentes mas, devido o número
gigantesco desses universos, alguns deles –ou pelo menos um- terão a sorte de apresentar as condições
favoráveis à vida inteligente sem necessitar de um único “Universo bem-afinado” que, obviamente, estaria
ligado a alguma forma de projeto inteligente, defendido pelos teístas. O exponente mais importante da teoria
do Multiverso foi o britânico Stephen Hawking que, junto com o colega James Hartle publicou um trabalho
baseado sobre a mecânica quântica no qual se hipotetiza a existência de muitos universos coexistindo com o
nosso, cada um com suas próprias leis físicas, suas próprias constantes fundamentais e suas oportunas
147
dimensões espaço-temporais. Além disso, no conceito de Hartle e Hawking o Big Bang não derivaria duma
singularidade gravitacional inicial, mas de um "estado inicial sem fronteiras". Em outras palavras, o nosso
universo era originalmente composto por quatro dimensões espaciais, mas sem a dimensão temporal. Sendo
atemporal, não houve mudança por um tempo infinito. Mas quando, de acordo com o modelo Hartle-
Hawking, uma dessas dimensões -como efeito duma flutuação do falso vácuo do tipo quântico- se
transformou espontaneamente em uma dimensão temporal, o universo começou a se expandir. A
consequência mais significativa é que o universo é autosuficiente e auto-criado sem necessitar de um
Entidade criadora sobrenatural. Apesar de suas sólidas bases matemáticas, para muitos cientistas, essa
hipótese não passa de pseudociência faltando provas concretas que a sustentem; inclusive ela não supera o
conceito de falseabilidade proposto pelo filósofo da ciência Karl Popper na década de 1930.

Representação artística do Multiverso. Mas como pode haver espaço entre os vários universos se o espaço-
tempo fica confinado dentro de cada universo?

Mesmo assim, é oportuno sublinhar que o alicerce do modelo Hartle-Hawking é a famosa Teoria-M, a qual
afirma que tudo, matéria e campo, é formada por membranas, e que o universo flui através de onze
dimensões, ou seja, três dimensões espaciais (altura, largura, comprimento), uma temporal e sete dimensões
recurvadas, sendo a estas atribuídas outras propriedades, como massa e carga elétrica. Hawking, em seu
livro de 2010 intitulado “O Grande Projeto” (em co-autoria com Leonard Mlodinow), declara que “A
ciência mostra que o universo pode ser criado a partir do nada ... Não é necessário apelar a Deus ... A
criação espontânea é a razão pela qual há algo em vez de nada”. Entretanto um dos físicos e matemáticos
europeus mais importantes, Sir Roger Penrose, professor da Universidade de Oxford e colaborador de
Hawking no desenvolvimento da teoria do Big Bang, mesmo sendo declaradamente ateu desmentiu a teoria
da "não-existência de Deus". Durante uma entrevista radiofônica, Penrose descreveu o novo livro de
Hawking como "enganoso", acrescentando que a Teoria-M, usada por Hawking para demonstrar a futilidade
de Deus, "não é nem uma teoria, não é ciência, mas um conjunto de esperanças, ideias e aspirações”.
Outra afirmação de Hawking que merece ser aprofundada é a seguinte: “a ciência mostra que o universo
pode ser criado a partir do nada, com base nas leis da física”. Tudo bem, mas isso não resolve o problema,
apenas gera outras perguntas do tipo: “De onde vêm as leis naturais? E essas leis independem do universo
físico?”. Obviamente alguém poderia responder que as leis nasceram junto com o universo, mas se foi assim,
tais leis não poderiam explicar a gênese do universo sendo que elas não teriam existido até o momento em
que o universo foi gerado.

Antes de prosseguir, é oportuno esclarecer que, apesar da linguagem usada por Hawkings, o universo não
teria nascido no “nada” (ex nihilo) porque, nesse caso, somente um ato de vontade criativa de um Ser todo-
poderoso teria tido tanto poder. Na verdade sabemos que existem as flutuações quânticas do vácuo e de fato
o universo (ou os universos) poderia ter se originado como uma flutação do vácuo de acordo com o
148
Princípio de incerteza de Heisenberg, uma lei comprovada pela Física. Devemos, outrossim, considerar que
a que definimos “matéria” na verdade é uma substância que foge ao conceito experimentado pelos sentidos
sendo, no fundo, algo de extremamente imaterial que pode ser expresso unicamente por meio de fórmulas
matemáticas. Eis que a diferença entre lei e matéria desaparece deixando lugar unicamente a uma única
realidade que se encontra à base de tudo. Então tinha razão Plotino quando ensinava que a realidade
verdadeira é o Absoluto (o Um) e que o resto é apenas aparência? Surpreendentemente a metafísica de
Plotino, um neoplatônico que viveu no III século, fica extremamente parecida àquela ensinada pela Advaita
Vedanta, também conhecida como doutrina da não-dualidade, segundo a qual a única realidade objetiva é o
Brahman e que tudo o resto é apenas ilusão dos sentidos (maya). Isso significa que, no âmbito da não-
dualidade, é mister reconduzir tudo o que existe a uma única fonte que não discrimine entre matéria e
espírito que, na verdade, são a mesma coisa: algo de extremamente sutil e impalpável que, dependendo das
circunstâncias, pode ser massa, energia, luz, campos, e até a própria consciência tanto individual como
universal.

Voltando ao assunto inicial, falta ainda responder à pergunta “Deus existe?”. Por um lado teríamos que
imaginar um Deus pessoal e inteligente surgido do nada, mas nesse caso alguém poderia justamente
perguntar quem criou esse Deus: afirmar simplesmente que ele existe desde sempre é basicamente a mesma
coisa que admitir a existência eterna do universo. Por outro lado, o Um de Plotino ou o Brahman dos livros
sagrados do Hinduísmo, cuja origem não é explicada, necessitam, respectivamente, de suas hipóstases ou de
manifestações sensíveis para interagir com o mundo material. Ambas as soluções são insatisfatórias sendo
que o impasse vem da nossa forma de raciocínio na qual é aceita de modo acrítico a existência de um tempo
linear escatológico ensinado pela religião cristã. Entretanto, admitindo que o tempo seja circular, Deus não
seria nem o ponto de partida (o alfa), nem o ponto de chegada (o omega) de um processo evolutivo no qual a
presença de bilhões de consciências não representa um simples ato de amor, mas uma necessidade evolutiva.
Ciente de que seria bastante complicado resumir essa minha hipótese em poucas linhas, convido os leitores
interessados a ler o artigo intitulado Universos Pessoais, publicado na minha escrivaninha em data 24/03/19
onde, em forma de diálogo descontraído –e até divertido- entre um homem e Deus, enfrento e explico nos
detalhes essa linha de pensamento (o mesmo artigo se encontra no meu E-livro “Viagem ao centro do
Cristianismo”). Objetivamente, porém, é correto reconhecer que a existência de Deus não pode ser
comprovada pela Ciência e nem, muito menos, pela filosofia ou, pior, pela Revelação ou outras mitologias.
Acreditar numa Divindade criadora é exclusivamente um ato de fé. Consequentemente, devemos lidar com a
possibilidade que Deus não exista. Essa inexistência implicaria necessariamente o fim de tudo com a morte
física do indivíduo?

A resposta é não e surge de um raciocínio simples e lógico. Sabemos, pela Ciência, que a vida inteligente
necessita de um ambiente favorável denominado “Universo bem-afinado”. Vamos supor que os ateístas
tenham razão e que esse universo tenha aparecido por acaso entre bilhões de outros universos inidôneos ao
desenvolvimento da vida. O fato é que a vida existe, que nós estamos vivos e não vejo por qual motivo -sem
temo de cometer blasfemia- não se possa chamar de “Deus” o vázio quântico (se é que realmente existe) do
qual tudo teria tido origem. O que mais importa é que no nosso universo as constantes da Física e da
Química são reguladas até nos mínimos detalhes para que a matéria inorgânica evolua em direção da vida
humana. Não seria portanto ilógico admitir que as características desse nosso universo fossem tais de
permitir o prosseguimento da vida além da morte biológica. Já tive a oportunidade, em outro texto, de citar a
opinião de Roger Penrose segundo o qual a consciência seria o resultado dum efeito de tipo quântico dentro
do nosso cérebro. A tese de Penrose tem sido criticada de vários pontos de vista, seja filosófico que
científico, sendo que o cérebro foi considerado inadequado para a ocorrência de efeitos quânticos. Essa
última crítica, no entanto, foi superada pela descoberta de que vários mecanismos, do olfato à fotossíntese,
são influenciados pela mecânica quântica. Recentemente Penrose publicou um artigo na prestigiosa Physics
of Life Reviews, na qual ele relança sua teoria com base em novas evidências.

Escrito em conjunto com Stuart Hameroff, o artigo levanta a hipótese de que a consciência é baseada em
vibrações quânticas em microtúbulos dentro dos neurônios do cérebro. Essas vibrações não são apenas uma
hipótese, mas foram efetivamente observadas no cérebro durante experimentos executados no National

149
Institute for Materials Science no Japão. Roger Penrose também responde a seus críticos, argumentando que
todas as previsões feitas com base em sua teoria foram confirmadas por observações experimentais. Os dois
cientistas também observam que as vibrações quânticas dos microtúbulos podem estar relacionadas a certos
ritmos eletroencefalográficos até agora inexplicáveis, demonstrando sua influência nos processos cerebrais.
Penrose enfatiza que sua teoria pode estar de acordo tanto com aqueles que acreditam que o conhecimento é
um produto da evolução, como com aqueles que pensam que a consciência é uma propriedade do Universo e
preexistente à consciência humana. Além disso, a consciência quântica, que é imortal por definição, daria
conta das EQM (experiências de quase-morte), fenômenos normalmente relatados após o indivíduo ter sido
pronunciado clinicamente morto ou muito perto da morte.

Em definitiva, diante da pergunta “Deus existe”, a minha resposta é: “Não sei”, e ninguém o sabe. Quem
afirma de saber mente porque saber significa ter a possibilidade de comprovar e, como vimos, faltam as
provas objetivas. Há sim indícios interessantes, mas que não chegam a constituiu uma prova definitiva e
substancial. Infelizmente acho que nunca iremos ter uma certeza absoluta sobre a existência duma
Divindade e talvez seja melhor assim, de forma que cada qual tenha a liberdade de buscar a sua
espiritualidade como melhor lhe agradar. Também dessa vez gostaria de terminar o artigo citando um poema
de Cecília Meireles no qual o eu-lírico expressa a sua dúvida e a sua indeterminação –sublinhada pelas
numerosas reticências- a respeito duma hipotética vida no além. A poetisa se vê morta e sente-se acabada na
busca da eternidade e de Deus, mas não consegue dar uma resposta definitiva e convencedora a respeito
dessa pergunta fundamental; ela permanece flutuando numa condição de não-ser, suspensa entre alegria e
tristeza:

Panorama do Além

Não sei que tempo faz, nem se é noite ou se é dia.


Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei de nada.
Nem de ódio, nem amor. Tédio? Melancolia.
-Existência parada. Existência acabada.

Nem se pode saber do que outrora existia.


A cegueira no olhar. Toda a noite calada
no ouvido. Presa a voz. Gesto vão. Boca fria.
A alma, um deserto branco: -o luar triste na geada...

Silêncio. Eternidade. Infinito. Segredo.


Onde, as almas irmãs? Onde, Deus? Que degredo!
Ninguém.... O ermo atrás do ermo: - é a paisagem daqui.

Tudo opaco... E sem luz... E sem treva... O ar absorto...


Tudo em paz... Tudo só... Tudo irreal... Tudo morto...
Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri?

150
O ANO EM QUE NASCEU JESUS

Quando nasceu Jesus? Vamos começar pelo dia e pelo mês.

A data tradicional do dia 25 de dezembro é puramente mitológica. Nesse dia era celebrado também o
nascimento do Sol Invictus e de Mitra, mas já na Antiga Roma, séculos antes de Cristo, entre os dias 17 a 24
de dezembro eram comemorados os Saturnais em honra de Saturno, deus da agricultura. A constituição
formal da festa litúrgica do Natal, como aniversário do nascimento de Jesus e sua localização no dia 25 de
dezembro, foi estabelecida entre os Cristãos somente a partir do ano 336 d.C. Ademais, como nos
Evangelhos se fala textualmente de "pastores que estavam no campo, e guardavam durante as vigílias e as
noites o seu rebanho" (Lucas 2:8), é evidente que isso teria sido impossível em pleno inverno. Portanto, de
acordo com muitos estudiosos, o mês mais provável para o nascimento de Jesus deve ter sido outubro, no
outono.

E o ano? Para responder a essa pergunta temos unicamente poucos versículos, respectivamente: “E, tendo
nascido Jesus em Belém da Judéia, no tempo de rei Herodes...” (Mateus 2:1) e “Aconteceu naqueles dias
que saiu um decreto de parte de César Augusto, para que todo mundo se alistasse. E esse primeiro
alistamento foi feito sendo Quirino presidente (sic!) da Síria” (Lucas 2:1-2) dos quais se deduz que Jesus
teria nascido em Belém durante o reinado de Herodes. Acontece, porém, que o censo mencionado acima foi
ordenado pelo governador romano Publius Sulpicius Quirinius nas províncias da Síria e Judeia no anos 6
d.C. quando os territórios de Herodes Arquelau passaram sob administração romana direta. Sendo que
Herodes morreu no ano 4 a.C. é impossível que Jesus tenha ao mesmo tempo sofrido a perseguição de
Herodes e nascido uma segunda vez dez anos depois.
Quanto ao massacre dos inocentes (Mateus 2:16), não há nenhuma evidência contemporânea desse fato e o
historiador Flávio Josefo, que relata a vida de Herodes até nos mínimos detalhes, nada diz em relação a esse
episódio. Ainda mais significativo é que o próprio Lucas ignora totalmente essa barbaridade atribuída a
Herodes e, enquanto para Mateus a família de Jesus, alertada por um anjo, foge para o Egito e lá permanece
durante alguns anos, para Lucas ela reside tranquilamente em Belém durante seis semanas e, em seguida, vai
nada menos que a Jerusalém, cidade onde residia o rei malvadíssimo. Por outro lado, a narração mitológica
dos Reis Magos é importantíssima para demonstrar a messianidade de Cristo e o seu direito de se tornar rei
no lugar de Herodes que, por esse motivo, tenta matá-lo.

Atualmente, a grande maioria dos historiadores, incluindo muitos estudiosos cristãos competentes como
John Dominic Crossan (especialista em arqueologia bíblica) e o teólogo Rudolf Karl Bultmann, acredita que
Lucas -que muitas vezes não parece ser um historiador confiável- confundiu o único censo historicamente
realizado nesse período, o de 6 d.C., antecipando-o no nascimento de Cristo, durante o reinado de Herodes,
o Grande. Até os exegetas da École Biblique et Archéologique Française (curadores da Bíblia Católica em
Jerusalém) ao sublinhar, com relação ao censo, como "a cronologia do nascimento de Jesus fornecida por
Lucas não concorda com a de Mateus", apontam como Lucas, em Atos, enfatize a concomitância do censo
que ele citou no seu Evangelho com a primeira revolta antiromana liderada por Judas, o galileu, ocorrida em
6 d.C., com essas palavras: “Depois deste [Teudas] levantou-se Judas, o galileu, nos dias do alistamento...”
(Atos 6:37). Mas também os curadores e exegetas do "Novo Grande Comentário Bíblico" católico observam
que "Lucas, como também mostra em Atos 6:37, não tinha lembranças claras desse censo" e o teólogo e
sacerdote católico Raymond Brown afirma que essa narrativa é relatada apenas por Luca e "é baseada em
memórias confusas dos censos romanos", além de "duvidosa em quase todos os aspectos, apesar das
tentativas elaboradas dos estudiosos em defender a precisão de Lucas".

A maioria dos estudiosos modernos, leigos e cristãos, sustenta que o autor do Evangelho segundo Lucas
cometeu um erro ao relacionar o censo de Quirino, que ocorreu em 6-7 d.C., com os eventos do nascimento
de Jesus, colocado antes da morte de Herodes, o Grande (em 4 a.C.). Uma primeira explicação dessa falta de
precisão histórica decorre do fato que Lucas, como reconhecido até por estudiosos cristãos, além de não ter
151
sido um dos Apóstolos, nem sequer foi companheiro de viagem de Paulo "porque Lucas nos Atos mostra ter
pouca familiaridade com a teologia de Paulo e não conhece as epístolas". Ele nem sequer esteve na
Palestina e, em seu Evangelho, cometeu uma montanha de erros históricos, geográficos e culturais. Em
geral, conforme o pensamento do teólogo e padre católico Raymond Brown, os Evangelhos canônicos são
todos de autores desconhecidos que jamais foram testemunhas oculares da pregação de Cristo, fato que, para
o Evangelho segundo Lucas, é deduzido pelas próprias declarações do autor. Segundo vários estudiosos, o
erro foi causado pela necessidade de estabelecer o nascimento de Jesus em Belém unicamente para satisfazer
uma profecia do Antigo Testamento e essa é a segunda explicação.

Basicamente, todo o N.T. não representa um relato histórico de um fato mais ou menos real, mas é apenas
um texto apologético cuja função era de reforçar a fé entre as primeiras comunidades cristãs mostrando a
elas como os acontecimentos narrados eram basicamente a realização de profecias do A.T., muitas delas
usadas de forma enganosa. Vejamos alguns exemplos...

• O nascimento virginal e o nome de Jesus derivam de Isaías: “Pois sabei que o Eterno, o Senhor, ele mesmo
vos dará um sinal: Eis que a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o Nome dele será Emanuel, Deus
Conosco!” (Isaías 7:14). No texto massorético da Bíblia, se encontra a palavra “almah” que não significa
virgem, mas jovem moça, erro de tradução reconhecido até pela Conferência Episcopal da Alemanha. De
alguma forma o nome Jesus significa “Deus salva”.

• O lugar onde Jesus teria nascido vem do profeta Miquéias: “No entanto tu, Bete-Lechem, Belém, Casa do
Pão; Ephrathah, Efratá, Frutífera, embora pequena demais para figurar entre os milhares de Judá, sairá de ti
para mim aquele que será o governante sobre todo Israel, cujas origens são desde os dias da eternidade!”
(Miquéias 5:2).

• A “Fuga para o Egito”, evento imaginário e absolutamente inútil devido Cristo ter nascido dez anos depois
da morte de Herodes: “Quando Israel era menino, eu o amei muito, e do Egito chamei o meu filho” (Oséias
15:1).

• De novo o Massacre dos Inocentes. “Assim, pois, declara Yahweh: “Ah! Eis que um clamor se ouviu por
toda Ramá; lamentação, amargura e muito pranto: É Raquel chorando por seus filhos; e de nenhum modo se
deixa consolar, porque já não existem!” (Jeremias 31:15).

Inclusive grande parte da narração relativa à Paixão procede como se tivesse sido construída justamente para
que as profecias se cumprissem. Basta lembrar episódios como a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém
(Zacarias 9:9), a reação do povo (Salmo 117), as trinta moedas de Judas (Zacarias 15:11), a divisão dos
vestidos (Salmo 21), as ofensas dos soldados (Salmo 68), o fato de não terem quebrado as pernas de Cristo
(Êxodo 12:46), a duração da sepultura (Livro de Jó ) e a ressurreição (Salmo 15). Devido a Bíblia ser um
livro muito extenso, nela pode ser encontrado de tudo e não seria difícil encontrar versículos aptos a
construir profecias relativas a outros personagens históricos.

Enfim, é oportuno lembrar que os Evangelhos foram escritos, em grego, muitos anos depois da morte de
Jesus: o mais antigo, o de Marcos, foi redigido em torno do ano 70 d.C., os de Mateus e Lucas entre o 70 e o
ano 100 e o de João por volta do final do I século. Mas disso já falei amplamente no meu outro texto
intitulado “O Problema Central do Cristianismo”.

152
O TRIUNFO DO CRISTIANISMO

Faz mais de mil anos que as pessoas visualizam o triunfo do cristianismo nos últimos dois séculos (IV e V)
do Império Romano como um evento pacífico –jubiloso e libertador- caracterizado pela conversão em massa
de milhões de pagãos felizes de abandonar uma religão malvada, falsa e vazia em prol de outra que lhes
haveria garantido a vida eterna. Essa convicção está tão arraigada entre todas as camadas sociais que, com a
exceção de poucos eruditos em ambiente acadêmico, acabou tornando-se a única verdade conhecida e, como
tal, universalmente aceita sem questionamentos. Entrentanto, essa versão da história não passa de uma lenda
edulcorada construída pelos vencedores, e a função desse artigo é justamente mostrar ao leitor uma realidade
histórica bem diferente e muito mais sombria.
Em pouco mais de cinquenta anos, todo o saber que havia sido produzido e acumulado pelos antigos
Egípcios, pelos Gregos, os Etruscos, os Celtas e os Romanos foi literalmente varrido da face do Império com
um afinco e uma perseverança digna dos fanáticos do Estado Islámico. Um saber milenário foi banido e
substituído pelos dogmas deduzidos das Escrituras; os Autores clássicos foram encarados com desconfiança
e banidos das escolas; os livros queimados e a ignorância elevado ao rango de sabedoria. Até o teólogo
Orígenes, cansado de tanta arrogância, escreveu: “A estupidez de certos cristãos é mais pesada que a areia
do mar” (Homílias sobre o Gênesis, 9.2). Mas como foi que um império de mais de sessenta milhões de
habitantes e composto por povos e etnias diferentes chegou a esse trágico ponto?

Tudo começa no ano 313 d.C. quando, a Milão, se encontram Constantino I e o colega Licínio imperadores,
respectivamente, da parte ocidental e da parte oriental do Império Romano. Os dois soberanos assinam um
decreto, também conhecido como Édito de Milão no qual se afirma que todas as religiões possuem a mesma
dignidade, tornando assim lícita a atividade dos cristãos que, na época, representavam, em percentual,
apenas 7-10% da população das províncias romanas. Vale a pena ler a parte principal desse édito para
compreender que, formalmente, fora criado um clima de recíproca tolerância e paridade legal entre o
Cristianismo e os outros Cultos do Império que, lembramos, eram muitos e variados:

“Nós, Constantino e Licínio, imperadores, encontrando-nos em Milão para conferenciar a respeito do bem
e da segurança do império, decidimos que, entre tantas coisas benéficas à comunidade, o culto divino deve
ser a nossa primeira e principal preocupação. Pareceu-nos justo que todos, inclusive os cristãos, gozem da
liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência. Assim qualquer divindade que no céu mora será
propícia a nós e a todos nossos súditos. Decretamos, portanto, que, não obstante a existência de anteriores
instruções relativas aos cristãos, os que optarem pela religião de Cristo sejam autorizados a abraçá-la sem
estorvo ou empecilho, e que ninguém absolutamente os impeça ou moleste... . Observai, outrossim, que
também todos os demais terão garantia a livre e irrestrita prática de suas respectivas religiões, pois está de
acordo com a estrutura estatal e com a paz vigente que asseguremos a cada cidadão a liberdade de culto
segundo sua consciência e eleição; não pretendemos negar a consideração que merecem as religiões e seus
adeptos.”

Entretanto, seja Constantino I como os seus sucessores, começaram a favorecer descaradamente a Igreja
cristã em detrimento das outras religiões. O próprio Constantino, sem chegar a proibir formalmente os cultos
clássicos, emanou uma série de decretos restritivos como os que estão elencados abaixo:

- em 321 estabeleceu que todos os domingos se tornassem feriados nacionais;


- em 324 mandou fechar os templos pagãos proibindo rituais fundamentais como os sacrifícios de animais;
- em 325 convocou o Concílio de Niceia, inaugurando o cesaropapismo, um sistema no qual cabia ao chefe
de Estado a competência de regular a doutrina, a disciplina e a organização da sociedade cristã;
- em 326 proibiu que os judeus convertessem e circuncidassem os escravos.

Mas, acima de tudo, a Igreja foi isenta de qualquer tipo de imposto, praxe que, pelo menos na Itália,
continua ainda hoje. Além disso, os eclesiásticos, as freiras, os bispos e os lugares de culto cristão receberam
153
generosas liberalidades e as primeiras basílicas redundaram de ouro, prata, pérolas, sedas e mármores
preciosos. Posto que naqueles tempos a grande maioria dos súditos ainda não eram cristãos, de onde vinha
toda aquela riqueza? A resposta é simples: da depredação dos antigos templos pagãos. E como as estátuas
não podiam ser recicladas, acabaram sendo destruídas por uma plebe fanática e ignorante que agia
impunemente enquanto as autoridades faziam vista grossa. Afinal, cogitou Constantino, sem altares e sem
estátuas às quais oferecer os sacrifícios, os cultos não-cristãos teriam morrido de morte natural. Todavia, as
previsões desse soberano, que durante a vida havia cometido crimes hediondos, como o assassinato do
próprio filho e o da esposa (dizem que mandou fervê-la viva dentro duma banheira), não se realizaram com
a facilidade que ele havia imaginado e boa parte da população continuou acreditando em suas divindades
antigas de milhares de anos.

Essa situação de partidarismo camuflado de tolerância acabou definitivamente 67 anos depois, exatamente
em 380 d.C., com a emanação do Édito de Tessalônica decretado pelo devotíssimo imperador Teodósio I (o
mesmo que, em 388, mandou assassinar cerca de 10.000 cidadࣥãos de Tessalônica que haviam se rebelado)
no qual foi estabelecido que a única religião permitida era o cristianismo sendo as práticas politeístas
consideradas ilegais e os seus adeptos sujeitos a penas exemplares. A parte mais significativa desse decreto
imperial é aquela onde se diz que:

“Ordenamos que tenham o nome de cristãos católicos quem sigam esta norma, enquanto os demais os
julgamos dementes e loucos sobre os quais pesará a infâmia da heresia. Os seus locais de reunião não
receberão o nome de igrejas e serão objeto, primeiro da vingança divina, e depois serão castigados pela
nossa própria iniciativa que adotaremos seguindo a vontade celestial.”

O leitor atento poderá notar a diferença substancial entre os dois éditos e constatar que a tolerância formal
do primeiro havia sido substituída por uma intolerância despótica e ameaçadora no segundo. Os ditados
evangélicos “Amem os seus inimigos” (Mateus 5:43-44) e “A quem te esbofetear a face direita, oferece-lhe
também a outra” (Lucas 6:29) foram guardados numa gaveta e os cristãos se transformam, de supostas
vítimas, em amáveis perseguidores. Não por maldade, seja bem claro, mas por amor; e nem por represália,
mas para salvar as almas dos tolos que ainda teimavam em não reconhecer a religião do Salvador. Agostinho
justificou as violências mediante uma metáfora inspirada na parábola do banquete: “Então ordenou o senhor
ao seu servo: ‘Ide por vários caminhos e atalhos e os que encontrar obriga-os a entrar, para que a minha
casa fique repleta.” (Lucas 14:23); também quem não estivesse interessado devia ser empurrado a entrar na
casa do Senhor, custe o que custar. Agostinho afirmou que os bons cristãos eram como médicos que tentam
salvar a vida de um enfermo e que, portanto, não deviam deixar de executar a sua tarefa por compaixão,
mesmo que isso provocasse graves dores no paciente. Outros padres da Igreja compartilhavam as ideias de
S. Agostinho, e São Jerônimo, respaldado pelo arcebispo João Crisóstomo, declarou não ser crueldade
defender a honra de Deus. “Onde há o terror” disse S. Agostinho, “há salvação... oh, crueldade
misericordiosa”. Esses pensamentos representaram a base ideológica de mais de mil anos de opressão
teocrática, de perseguições e de violência.

Se, durante o reinado de Constantino I os templos foram saqueados e esvaziados de seus tesouros, a partir de
Teodósio a moderada indulgência manifestada pelo poder estadual em relação os pagãos foi substituída por
uma postura bem mais radical. Lá pelo fim do IV século ser adepto dos antigos Cultos podia acarretar
reações cada vez mais duras que iam do simples afastamento dos cargos públicos (magistratura, forças
armadas, burocracia, ensino, etc.) à confisca dos bens, à perda dos direitos civis, ao exilo e até à tortura e à
morte. Um caso que chocou o Mundo Antigo foi o da destruição do Serapeu, tido como o mais belo prédio
da Antiguidade e que abrigava boa parte dos livros oriundos da famosa biblioteca de Alexandria. De acordo
com o historiador cristão Rufino, em 392 d.C., uma multidão de fieis liderada pelo patriarca Teófilo invadiu
o templo e o destruiu totalmente enquanto dezenas de milhares de livros foram queimados: destarte, obras
únicas e raras foram perdidas para sempre. Em todo o Império as bibliotecas foram atacadas e despojadas de
seus volumes: primeiro as públicas, depois as particulares e houve muitos casos em que bandos de monges
fanáticos entravam nas casas de cidadãos comuns em busca de livros para serem queimados. Embora a
Igreja se gabe de ter preservado a cultura clássica, é oportuno lembrar que, em comparação com o Serapeu,

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as bibliotecas dos primeiros mosteiros medievais continham uma quantidade insignificante de livros, de um
mínimo de vinte a um máximo de quinhentos tratando quase exclusivamente temas cristãos. Ainda em 1338,
a maior biblioteca de toda a Europa, a da Sorbonne em Paris, contava com um acervo de apenas 1728
volumes. Recentemente foi calculado que de todas as obras da Antiguidade apenas 10% chegou aos nossos
dias e que da literatura latina somente 1% (um por cento) escapou à fúria destruidora dos cristãos. Nem
sempre os livros foram queimados, simplesmente foram deixados apodrecer nos porões dos mosteiros.

Muito piores foram as perseguições contra todos aqueles que se recusavam a abjurar a fé de seus
antepassados e das quais já falei exaustivamente no artigo intitulado “Os Mártires na Antiga Roma”
publicado nesse livro a pag. 79. Mesmo assim é importante sublinhar dois fatos fundamentais. O primeiro é
que as perseguições contra os cristãos foram bastante limitadas no tempo durando, em tudo, apenas treze
anos em três séculos de continuidade política imperial, sendo localizadas em algumas áreas geografícas
restritas e jamais tendo um caráter ideológico. Em outras palavras, os cristãos não foram perseguidos por
causa da sua fé, mas por terem se comportado como cidadãos insolentes e desobedientes; mesmo assim
nunca foram obrigados a abjurar. Em segundo lugar, existia, entre eles, muitos fanáticos que faziam o
possível para serem torturados e mortos na convicção que, destarte, teriam sido recebidos no Céu com todas
as honras, além de ter seus nomes gravados no Livro dos Mártires. A Igreja não exaltava quem cumpria boas
ações, mas enaltecia quem morria nas formas mais terrificantes: foi por isso que a figura do mártir tornou-se
um paradigma a ser seguido e, coerentemente, nos vários martirológios, emerge o fato que as autoridades
pagãs não queriam matar, mas eram os próprios cristãos que cobiçavam a morte. Narram as crônicas que,
principalmente nas províncias africanas, grupos de fanáticos iam até as residências das autoridades
suplicando para serem martirizados e que, diante da recusa dos oficiais, muitos deles acabavam se
suicidando. Quando enfim o Cristianismo tornou-se religião de estado e as perseguições cessaram, não
poucos fieis, considerando os sofrimentos físicos como um valioso passaporte para lavar os pecados e entrar
no paraíso, largaram as suas famílias e foram no deserto onde constituíram vastas comunidades.

Uma das mais medonha foi a dos monges Parabolanos que, liderados pelo bispo S. Cirilo –sobrinho de
Teófilo- aterrorizaram a cidade de Alexandria comportando-se como verdadeiros “esquadrões da morte”,
tornando-se responsáveis pelo massacre dos judeus da cidade. Em 415, um grupo de Parabolanos martirizou
a filósofa neoplatônica Hipácia que, acusada de ser uma bruxa, foi esfolada viva e teve seus olhos
arrancados. Outro digno companheiro de S. Cirilo foi o monge Shenute, fundador do “Mosteiro Branco”, no
Egito, que abrigava 2.200 monges e 1.800 freiras em condições não muito diferentes das dos GULAG de
época estaliniana; Shenute em pessoa costumava castigar violentemente os monges chegando até a provocar
a morte deles; quanto às freiras, a mínima infração era punida com o chicoteamento das plantas dos pés. Mas
provavelmente os piores de todos foram os Circumceliones que aterrorizaram boa parte da África do Norte
entre o IV e o V século. Armados com cacetes denominados “Israel” atacavam indiferentemente pagãos e
cristãos, laicos e religiosos que, frequentemente, eram castigados com o derramamento de chumbo derretido
nos olhos. Os monges foram também os mais ferrenhos inimigos da cultura clássica, dos livros e das
estátuas, tidas como abrigo dos demônios. Por isso a maioria delas, inclusive maravilhosas obras de arte, foi
despedaçada ou mutilada; em alternativa as estátuas eram “batizadas” com a gravação duma cruz na testa. O
tratamento reservado às estátuas (e às pessoas!) ilustra perfeitamente a imensa diferença entre a mentalidade
dos pagãos e a dos cristãos. De fato, para os romanos -que eram tolerantes- qualquer culto podia ser aceito e
todos se encontravam num plano de igual dignidade. Ao contrário, o Cristianismo dividiu a sociedade em
duas partes incompatíveis e inimigas: de um lado os seguidores de Deus, do outro os adeptos do diabo. A
prova é que enquanto na jurisprudência imperial clássica nunca existiu o conceito de “religio illicita”,
naquela cristã foi logo introduzido um preceito fortemente discriminatório, como acabamos de ver num
passo do “édito de intolerância” de Teodósio.

Embora os monges, com a exceção dos Parabolanos, não dependessem formalmente dos bispos, eram
todavia usados como força paramilitar para amedrontar, e se necessário punir, os recalcitrantes que não
abraçavam prontamente a nova fé. As bases teóricas da intolerância e da violência foram redigidas em forma
escrita por S. Agostinho, S. Crisóstomo e outros conceituados Padres da Igreja. “Há uma perseguição
injusta infligida pelos ímpios à Igreja de Cristo e há uma perseguição justa infligida aos ímpios pelas

155
Igrejas de Cristo. [...] A Igreja, portanto, persegue, movida pelo amor [...] isso para fazê-los arrepender,
[...] para distrair do erro, aqueles que caem no erro; ela finalmente persegue e prende seus inimigos, para
que eles voltem do erro e progridam na verdade” (S. Agostinho, Epístola 185, 2.11). A mensagem dos
Doutores da Igreja foi interpretada ao pé da letra por personagens famosos como Martinho de Tours, um dos
mais populares santos franceses, que arrasou não poucos templos na Gália, e por Bento de Núrcia que, nos
arredores de Monte Cassino, dedicou os seus esforços à destruição de inúmeros ídolos chegando até a
incendiar bosques tidos como sagrados pelos pagãos. Não é por acaso que os autores dos piores atos de
vandalismo tenham se tornado os santos mais famosos: com efeito, quem praticava esses atos era tido como
um cristão particularmente fervoroso, digno de receber os cargos mais importantes.

Não é difícil entender que, diante da brutalidade desencadeada tanto pelas autoridades imperiais como pelos
monges, milhares de cidadãos aterrorizados acabaram aceitando a conversão, pelo menos formal, mas
continuaram a praticar, em segredo -e correndo graves riscos- os seus cultos pagãos. Seria absurdo imaginar,
como pretende a Igreja, que mais de cinquenta milhões de romanos tenham mudado de opinião da noite pro
dia: realmente a velha religião era amada e praticada, tanto que, após o édito de Teodósio, foi decretada uma
sequência quase ininterrupta de leis ainda mais restritivas e ameaçadoras, sinal, isso, que o paganismo
continuava vivo na consciência dos homens, e quando falo em paganismo não me refiro unicamente ao
velho politeísmo, mas principalmente às religiões mais populares como o Culto de Mitra, o de Ísis, o do Sol
Invicto, o de Apolo (do qual era adepto até Constantino), etc. Quem continuou a desafiar abertamente as
autoridades foram os filósofos que, por esse motivo, sofreram terríveis perseguições feitas de humilhações,
torturas e morte. Um deles, chicoteado nas costas até sangrar, encheu uma mão com o seu próprio sangue e
dirigiu-se ao juiz com essas palavras: “Agora que devorou a carne humana, oh ciclope, beba também o
vinho”. Mas também a heroica resistência dos filósofos chegou ao seu fim quando, no ano 529, o imperador
Justiniano mandou fechar a mais ilustre Universidade de todo o Mundo Antigo, a famosa Academia de
Platão, considerada o último baluarte do paganismo. Um grupo de apenas sete filósofos, liderados pelo
escolarca Damáscio (cujo irmão havia sido torturado a Alexandria) deixaram Atenas, o berço do pensamento
ocidental, e desde então a cultura helênica morreu para sempre. O Cristianismo havia finalmente triunfado!

Nessas alturas uma pergunta que surge espontânea é a seguinte: “Por qual motivo não encontramos nada
disso nos livros, principalmente nos textos escolares?” A resposta é que a censura eclesiástica -a dos
vencedores- funcionou perfeitamente durante quase dois mil anos seguidos. Também boa parte do mundo
acadêmico moderno preferiu alinhar-se à realidade histórica ditada pelo clero, não apenas nas nações
católicas, mas também naquelas protestantes tanto que até na liberal Inglaterra do século XIX os “cientistas”
da Universidade de Oxford acreditavam piamente no dilúvio universal e achavam que o nosso planeta
tivesse sido criado aos 23 de outubro do ano 4004 a.C. Para não falar nas obras literárias de dúbio valor e na
péssima cinematografia que nelas se inspira. Somente nessas últimas décadas apareceram pesquisadores
independentes (e iluminados!) que, graças ao minucioso trabalho dos arqueólogos e dos filólogos,
conseguiram focalizar uma realidade bastante diferente daquela oficial defendida pelo cristianismo. Por
outro lado, quem pensa que os relatos sobre os atos de violência cometidos pelos cristãos tenham sido
registrados (ou inventados) pelos cronistas pagãos, se engana redondamente pois os autores cristãos da
época jamais tentaram esconder esses fatos mas, gabando-se deles, os apresentavam como atos de
misericórdia aptos a salvar as almas dos idólatras impenitentes.

156
O GENOCÍDIO DAS BRUXAS NOS SÉCULOS XV-XVII

Embora a grandíssima maioria da população tenha ouvido falar na “Caça às Bruxas”, quando se pergunta a
alguém sobre essa fase horrenda da história da Humanidade, quase sempre a resposta indica que se tratou de
um fenômeno típico da Idade Média. Na verdade, embora não faltem episódios importantes durante a “Idade
das Trevas”, a Caça propriamente dita –aquela que causou muitas dezenas de milhares de vítimas-
concentrou-se basicamente nos séculos XV, XVI e XVII continuando, em algumas nações do Norte e do
Leste da Europa, até o final do século XVIII. A última bruxa, Anna Goeldi, foi decapitada a Glarona, na
Suíça, em 1782, apenas sete anos antes da Revolução Francesa. Outra característica da Caça, pouco
conhecida, é aquela relativa ao sexo das bruxas: apesar de se tratar principalmente de mulheres (cerca 80%),
geralmente com mais de 50 anos de idade, muitas vezes os perseguidos eram homens tanto que, por
exemplo, na Islândia, Estônia e Rússia a grande maioria dos condenados foi de sexo masculino. Entretanto,
poucos sabem que, como veremos em seguida, não foram raros os casos de crianças presas e queimadas na
estaca, consequência da crendice que a bruxaria fosse hereditária.

Um dos motivos pelos quais as feiticeiras, conhecidas desde a Antiguidade e já citadas por autores clássicos
como Tito Lívio, Plínio, Petrônio, etc., não foram particularmente perseguidas na Alta Idade Média é que,
naquela época, ainda vigorava o processo de tipo acusatório (derivado do Direito Romano) presidido por um
juiz neutral ao qual o acusador devia apresentar uma acusação pública e juramentada, suportada por provas
certas e por testemunhas que podiam ser contestadas pelo acusado. Em outras palavras, o acusador
desenvolvia as funções que, atualmente, são prerrogativa do Ministério Público e, caso o réu tivesse
conseguido demonstrar a sua inocência, o acusador ia ser severamente punido com base na Lei do talião.
Mas a partir da metade do século XIII, o processo de tipo acusatório foi gradativamente substituído pelo
processo de tipo inquisitorial no qual o delator ficava totalmente isento de responsabilidade jurídica
podendo, de regra, lançar as suas acusações permanecendo anônimo. Além disso, os direitos do imputado
foram suprimidos e a bruxa era considerada culpada desde o início do julgamento, cabendo a ela o ônus de
demonstrar a sua inocência. Para piorar as coisas, a Igreja legitimou o uso da tortura e as confissões
extorquidas com os tormentos eram consideradas válidas e suficientes para decretar a condenação da mulher
(ou do homem). Nesse sentido, a fantasia perversa dos inquisidores não teve limites e é pelo menos estranho
-para não dizer abominável- que uma religião cujo alicerce deveria ter sido o amor e o perdão, acabou
gerando uma máquina infernal que, em termos de crueldade, foi bem além daquelas adotadas pelas piores
ditaduras da História. Enfim, quanto à religião, os juízes protestantes chegaram a ser até mais crueis que os
seus colegas católicos.

No que diz respeito aos tribunais aptos a esse tipo de julgamento, os mais importantes eram os eclesiásticos
(ou seja, a Inquisição propriamente dita) que tinham a tarefa primária de detectar e desmascarar os crimes de
bruxaria, formular as acusações e, enfim, entregar os réus aos tribunais leigos (seculares) para que fosse
materialmente realizado o processo, em outras palavras, o “trabalho sujo”. Isso por um motivo tão simples
quanto hipócrita: sendo os sacerdotes ministros de Deus na terra e, portanto, "santos e bons" por definição,
eles não podiam exercer violência contra ninguém, bruxas incluídas. Os tribunais seculares –compostos por
Magistrados civis- tiveram a possibilidade jurídica de localizar, prender e liderar os julgamentos dos
supostos culpados (obviamente com a aprovação dos inquisidores eclesiásticos), executando qualquer tipo
de tortura, seja aquela para extorquir as confissões, seja aquela que, como complemento do castigo, precedia
as execuções. Quanto à bruxa (ou o bruxo), se ela era inocente, certamente teria sido protegida por Deus e,
portanto, ia ter condições de suportar qualquer sofrimento, inclusive os mais brutais. Outro pressuposto
importante era que, se durante o processo a acusada permanecia calada era um sinal claro de que o diabo a
apoiava; se ela se atrevia a falar para negar e se defender ficava comprovada a sua cumplicidade com o
maligno. Frequentemente as mulheres, devido a intensidade da dor, desmaiavam, mas os notários escreviam
em seus relatos que as rés haviam adormecido pela ação de satanás que as protegia.

157
Diferente do que geralmente se acredita, é errado pensar que todas as perseguições dependessem
diretamente da Inquisição romana que, ocasionalmente, exerceu até uma função moderadora: de regra cada
estado e cada cidade dispunha da sua própria Inquisição local que tomava a iniciativa de desencadear a Caça
às bruxas. Também não foram poucos os casos em que, fomentada por uma populaça supersticiosa e
fanática, a perseguição acabava com o linchamento, sem processo, de pessoas tidas como feiticeiras. O
número de vítimas desses linchamentos é considerado significativo pelos historiadores, embora seja quase
impossível determinar o valor exato. As mulheres que mais sofreram foram aquelas que viviam nos
povoados onde muitas -na total ausência de médicos- exerciam a profissão de parteiras, curandeiras e
enfermeiras. A Igreja, que nos séculos anteriores, havia de regra feito vista grossa, começou a perseguir
essas pessoas pobres e humildes por motivos que serão esclarecidos nos parágrafos sucessivos. A ação dos
tribunais foi tão intensa que várias cidadezinhas da Alemanha ficaram sem mulheres ou com uma só como,
por exemplo, Rottenburg cujos habitantes se revoltaram em 1585 pela falta de mulheres. Nas cidades,
devido a presença de famílias abastadas, o esquema persecutório funcionava de forma diferente: os
inquisidores mandavam prender uma velha mendiga, escolhida entre as mais feias e/ou as mais
aborrecedoras, que devia servir apenas como “isca”. Submetida à tortura, essa desaventurada não apenas
confessava um crime inexistente mas, fato bem mais importante, entregava as suas supostas cúmplices, ou
seja, mulheres ricas cujos nomes haviam-lhe sido sugeridos pelos funcionários do tribunal. Destarte, toda a
corja ligada ao sistema (inquisidores, notários, carcereiros, torturadores, etc.) se beneficiava com a confisca
dos bens das vítimas que, segundo a Lei da época, deviam ser entregues ao próprio tribunal. Essa corrente de
delações induzidas pelas torturas continuava até que os inquisidores tivessem satisfeito a sua sede de
dinheiro, de poder e de sadismo!

Voltando às causas da Caça às bruxas, outro motivo relevante para explicar a recrudescência do fenômeno
persecutório se deve a fatores teológicos, em particular à importância crescente atribuída ao demônio que,
até a metade do século XIII, era considerado uma figura vaga com a qual o pecador teria eventualmente se
deparado depois da morte. Do ponto de vista histórico, um momento em que, pelo menos simbolicamente, o
problema da relação com o diabo mudou significativamente, pode ser localizado no ano 1326 quando o
então papa João XXII emanou a bula pontifícia Super illius specula na qual o pontífice estendeu o conceito
de heresia (que já havia produzido dezenas de milhares de vítimas) às práticas de magia e bruxaria,
entregando a repressão desses crimes aos inquisidores com a possibilidade de emitir sentenças capitais
mediante a fogueira. Pode-se dizer que, naquela época, começa a surgir uma formidável preocupação com a
função do diabo no mundo, função analisada nos grande tratados de escolástica segundo os quais a ação do
demônio na sociedade se fazia cada vez mais consistente e perigosa. Sempre no mesmo período (1324)
apareceu o primeiro tratado inquisitorial redigido pelo bispo de Toulouse Bernard Gui (o mesmo do
romance de Umberto Eco O Nome da Rosa). Estamos ainda numa época em que a perseguição dos hereges
prevalece sobre o problema da bruxaria e Bernard Gui, em toda a sua carreira de inquisidor emanou 930
sentenças: 42 execuções capitais, 307 de prisão perpétua, 139 absoluções e o resto penitências leves como,
por exemplo, costurar uma cruz nas roupas.

A ulterior involução repressora observada durante todo o século sucessivo se completa com a emanação, por
parte do papa Inocêncio VIII da bula intitulada Summis desiderantes affectibus (1484), popularmente
conhecida como “Bula contra os bruxos” na qual o pontífice relatava os crimes atribuídos aos bruxos e dava
plenos poderes à Inquisição para prender, torturar e punir todos aqueles que fossem suspeitos de “crime de
feitiçaria”, considerada uma forma particularmente perniciosa de heresia. Dois anos depois, os dominicanos
Heinrich Krämer e Jakob Sprenger publicaram o famigerado Malleus Maleficarum, o primeiro manual
inquisitorial dedicado exclusivamente à Caça às bruxas. Trata-se de um livro desvairado no qual, entre
outras, se encontra essa afirmação alucinante: “Donzelas solteiras de 8 a 10 anos, consagradas ao diabo por
suas mães, adquirem o poder de desencadear tempestades furiosas no mar e tempestades de granizo para
devastar as colheitas”. Consequentemente, essas mocinhas ficaram sujeitas ao rigor da Inquisição podendo,
inclusive, ser submetidas aos piores tormentos e condenadas à fogueira.

Os dois fatores até aqui analisados (processo injusto e centralidade do diabo em âmbito social) não são
suficientes para justificar a dimensão continental de um evento que, durante quase três séculos seguidos, deu

158
origem à mais espantosa perda de vidas humanas na Europa até às guerras napoleônicas. Para melhor
entender o fenômeno, temos ainda que levar em consideração os efeitos sobre a sociedade das grandes
epidemias de peste bubônica, das guerras religiosas e das revoltas dos camponeses numa fase caracterizada
pela escassez de alimentos. Essa histeria de massa (o poder do diabo desafiando cada vez mais
descaradamente o poder de Deus) foi originada por um evento que somente hoje podemos compreender:
uma grave e douradora mudança climática. De fato, um esfriamento geral, conhecido pelos especialistas
como Pequena Era Glacial, gerou uma consistente redução na produção de alimentos que, por sua vez,
acarretou um incremento na mortandade entre os recém-nascidos e ondas sucessivas de epidemias bovinas
que reduziram ainda mais a disponibilidade alimentar. Os culpados estavam diante dos olhos de todos: os
judeus e as bruxas, mas como os primeiros já haviam sido exterminados ou obrigados ao exilo na segunda
metade do século XIV, só restavam as feiticeiras tidas como responsáveis de infanticídios rituais e desastres
naturais. Como resultado do absurdo fanatismo religioso, que tinha o seu respaldo nas Escrituras, as bruxas
foram consideradas as aliadas terrenas de satanás ao qual se submetiam durante encontros noturnos
denominados sabás.

A lista que segue mostra o número total de bruxas queimadas na Europa; o leitor atento irá reparar que falta
o Portugal pois, nesses país, apesar de vários julgamentos, houve um número extremamante limitado de
sentenças capitais. Por outro lado, na península ibérica foram muitíssimas as execuções de marranos, ou
seja, judeus que, embora professando abertamente o cristianismo, continuavam supostamente fieis à sua
primitiva religião. Segundo autores modernos teria se tratado de uma forma precoz de antissemitismo mas,
como esse assunto foge do tema do presente artigo, essa questão não será abordada aqui. Seguem os dados
oficiais deduzidos dos arquivos, mas é mister levar em conta que inúmeras atas foram perdidas, roubadas e,
principalmente, destruídas pela própria Inquisição quando as tropas de Napoleão invadiram as nações
europeias. Naturalmente faltam todos os dados relativos aos linchamentos e, nos cálculos, não constam as
bruxas que faleciam durante as seções de tortura. Não é portanto exagerado considerar que o número total de
vítimas deve ter sido pelo menos o dobro do que resulta no final da lista. É ainda oportuno salientar que nem
sempre o crime de bruxaria era punido com a morte e, dependendo dos juízes, podiam ser infligidas penas
“menores” como: prisão perpétua, cegamento, marcação, arrancamento da língua, mutilações e exilo.

Pessoas condenadas à fogueira:

ITÁLIA 1.500 (das quais 300 na cidade de Como, no Norte)


ESPANHA 1.630 (1.600 no País Basco, a metade das quais eram meninas)
ESCANDINÁVIA 1.700
RÚSSIA 12
SUÍÇA 10.000 (até 92% das bruxas processadas)
FRANÇA 3.798 (das quais 2.700 na Lorena)
INGLATERRA 2.500
ESCÓCIA 1.500
HUNGRIA 450
LUXEMBURGO 358
ÁUSTRIA 900
BOÉMIA 1.000
HOLANDA 150 (primeira nação a abolir a Caça em 1609)
LIECHTENSTEIN 300 (com um população total de 3.000 habitantes)
ALEMANHA 30.000 (das quais 7.000 em Treviri e 900 em Wurzburg)

TOTAL 55.798

Chama logo a atenção da situação na Alemanha, com um número de mortes enormemente superior àquele
de outras nações. As possíveis explicações viriam do fato desse País ter sido teatro da Guerra dos Trinta
Anos travada entre católicos e protestantes, com acusações recíprocas de bruxaria. Outro fator importante foi

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a falta de um poder central moderador que permitiu aos vários inquisidores locais de aproveitar ao máximo
de seu poder ilimitado e feroz. Considerações análogas valem também para a Suíça. O exemplo de
Wurzburg é bastante emblemático, tanto que a ele é dedicada uma voz bem aprofundada na Wikipédia em
língua inglesa e espanhola; versões mais resumidas se encontram em árabe, francês, português e sueco,
enquanto nada se encontra na versão da catolicíssima Itália. A que segue é uma tradução livre, um pouco
resumida, dos textos em inglês e espanhol, que apresentam apenas leves diferenças.

O julgamento das bruxas em Wurtzburg, que ocorreu na Alemanha em 1626-1631, é um dos maiores
julgamentos e execuções em massa ocorridos na Europa durante a Guerra dos Trinta Anos. Na década de
1620, com a destruição do protestantismo na Boêmia e no Palatinado, foi retomada a reconquista católica da
Alemanha. Em 1629, com o Édito de Restituição, esse processo parecia ter sido completado. Aqueles
mesmos anos viram, pelo menos na Europa central, a pior de todas as perseguições às bruxas, o clímax da
loucura europeia. Muitos dos julgamentos de bruxas da década de 1620 se multiplicaram com a reconquista
católica. Em algumas áreas, o senhor ou bispo foi o instigador, em outras, os Jesuítas. Às vezes, comitês de
bruxas locais foram criados para promover o trabalho. Entre os príncipes-bispos, Philipp Adolf von
Ehrenberg, de Würzburg, foi particularmente ativo: em seu reinado que durou oito anos (1623-1631), ele
queimou 900 pessoas, incluindo seu próprio sobrinho, dezenove padres católicos e dezessete crianças entre
cinco e sete anos que teriam tido relação sexual com o demônio. [...] Também em Mainz, as fogueiras foram
reativadas. Em Colônia, os “Pais da Cidade” sempre haviam sido misericordiosos, para grande
aborrecimento do príncipe-arcebispo, mas em 1627 ele conseguiu pressionar a cidade e ela cedeu.
Naturalmente, a perseguição se intensificou mais violentamente em Bonn, a capital. Lá, executou o
chanceler e sua esposa, e a esposa do secretário do arcebispo; crianças de três e quatro anos de idade foram
acusadas de ter demônios como seus amantes, e estudantes e meninos de nascimento nobre foram queimados
na estaca.

Apenas um jesuíta, Friedrich Spee (1591-1635), foi radicalmente contra a perseguição. O padre ficou
persuadido devido à sua experiência como confessor de "bruxas" na grande perseguição em Würzburg. Essa
experiência deixou seus cabelos prematuramente brancos e o convenceu de que todas as confissões eram
inúteis porque baseadas apenas na tortura, e que nenhuma pessoa que havia sido queimada era culpada de
bruxaria ou de lidar com o diabo. Como ele não conseguia manifestar livremente os seus pensamentos -
porque, escreveu, temia o destino de Tanner [outro padre jesuíta que faleceu enquanto fugia dos suecos]-
redigiu um livro que deveria ter circulado como manuscrito, anonimamente. Todavia, um amigo entregou
uma cópia à cidade protestante de Hamelin, onde foi impresso em 1631 com o título Cautio Criminalis. Da
imensa maioria das vítimas não sobraram nem os nomes. A amostra que segue serve apenas para dar um
exemplo da variedade de pessoas que foram queimadas na diocese de Wurzburg:

- Três atores.
- Quatro proprietários.
- Três conselheiros da prefeitura de Würzburg.
- Quatorze vigários da catedral.
- A esposa do prefeito.
- A esposa e a filha do farmacêutico.
- Dois servidores de altar do coro da catedral.
- Góbel Bábelin, dezenove anos, "a garota mais bonita da cidade".
- A esposa, os dois filhos pequenos e a filha do conselheiro Stolzenberg.
- Baunach, "o mais rico comerciante de Würzburg”.
- Steinacher, "o burguês mais rico de Würzburg".
- Um menino de rua, de doze anos.
- Quatro mulheres e homens estrangeiros que foram encontrados dormindo no mercado.
- Uma menina de nove anos.
- Uma menina com menos de nove anos.
- A irmã dela, a mãe e a tia.
- Uma jovem de 24 anos.

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- Dois meninos de doze anos.
- Uma garota de quinze anos.
- O jovem herdeiro da casa de Rotenhahn, de nove anos.
- Um menino de dez anos.
- Um garoto de doze anos.

Não somente no caso que acaba de ser ilustrado, mas em toda a Europa a Inquisição podia prender, julgar e
assassinar meninas a partir dos oito anos de idade. Depois da sentença, as bruxas eram deixadas sozinhas
numa cela fétida onde, devastadas pelas horríveis torturas e incapacitadas a se defender, aguardavam o dia
da execução que, frequentemente, era adiado até coincidir com um feriado: isso para que um grande público
e as autoridade tivessem como assistir ao espetáculo macabro. Infelizmente, para as bruxas jovens ou ainda
atraentes, essa espera poderia se transformar em outro pesadelo. Grupos de homens, pagando uma propina
aos carcereiros, entravam nas celas para estuprar coletivamente as vítimas: a ação, não sendo tida como
pecaminosa, não precisava de confissão e penitência. Pelo contrário, o estupro era considerado um
suplemento ao sofrimento adicional que a bruxa merecia, tanto que, frequentemente, elas tinham suas carnes
arrancadas com pinças abrasadas logo antes de serem atadas à estaca. Um famoso caçador de bruxas, o
magistrado francês Nicholas Remy, decretou que as meninas com menos de dez anos de idade, filhas das
bruxas condenadas, fossem duramente chicoteadas enquanto assistiam compulsoriamente ao suplício de suas
mães.

Como foi possível que numa região culturalmente avançada como a Europa fosse perpetrado um hediondo
genocídio que durou mais de três séculos seguidos? Tratou-se de um delírio coletivo, duma monstruosidade
gerada pelo fato que a Igreja havia, mediante uma verdadeira lavagem cerebral, instilado na cabeça das
pessoas o convencimento que o mundo estava sendo invadido por espíritos malignos intencionados a
destruir a sociedade. De consequência, muitas mulheres, tidas pelo cristianismo como a parte mais fraca da
humanidade e responsáveis pelo pecado original, haviam cedido às seduções do demônio e acabaram se
unindo sexualmente com os satanás. Obviamente não faltaram mentes livres que contestavam tantas
absurdidades, mas tinham que esconder os seus sentimentos sendo que quem negava a existência da bruxaria
era considerado herege e queimado na estaca. Entretanto, na esmagadora maioria dos casos, as consciência
foram obnubiladas por uma visão da realidade que havia sido imposta, geração após geração, por uma
religião dogmática e totalizante e, portanto, potencialmente totalitária.

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