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FONTE DAS MULHERES: MARCAS DE LISÍSTRATA DE ARISTÓFANES

NA NARRATIVA FÍLMICA

Rosana Araujo da Silva Amorim

Resumo: Literatura e cinema, como formas de expressão artística, têm dialogado de maneira cada
vez mais próxima. Ao pensar em uma nova versão para determinada obra, a recriação de um
determinado texto de saída, precisa deixar de lado a preocupação com a fidelidade, o novo texto, o
texto de chegada surge como uma nova releitura. A comunicação objetiva mostrar o filme “Fonte
das Mulheres” de Radu Mihaileanu como uma tradução intersemiótica da comédia grega
“Lisístrata” de Aristófanes. O estudo propõe uma analise tendo como base a linguagem, pois a
partir da linguagem é que se percebe a construção do outro. Através do discurso do outro se recria
um novo discurso como afirma Bakhtin. Na comédia, Lisístrata recomenda uma greve de amor com
o objetivo de por um fim às guerras entre atenienses e espartanos. O filme está centrado na greve de
sexo, insinuada pela jovem muçulmana Leila, com a intenção de propor um fim à exploração
feminina de uma pequena vila. Isso significa dizer que o processo da análise contrastiva entre texto
literário “Lisístrata” e o texto fílmico “A Fonte das Mulheres” mostra que a velha oposição,
livro/filme tende a transformar-se cada vez mais numa relação de semelhança.

Palavras-chave: Literatura; Cinema; Releitura.

Produção de filmes a partir da literatura

O processo de reflexão sobre uma tradução intersemiótica das diferentes artes


literatura/filme, é uma questão bastante discutida. Muitos estudiosos que se propõem a estudar
acerca das linguagens representativas de cada arte percebem que é provável que, como ocorre com a
literatura, o cinema, também deve encontrar sua própria linguagem, sem a preocupação em ser
mais literário ou menos literário, visto que lida-se aqui com outro sistema semiótico. Ao pensar em
uma nova versão para uma determinada obra, a recriação de um determinado texto de saída,
precisa-se deixar a preocupação com a fidelidade, o novo texto, o texto de chegada surge como uma
nova tradução. Esse projeto apresenta uma releitura da comédia grega “Lisístrata”, de Aristófanes
para uma linguagem cinematográfica no filme “A Fonte das Mulheres” de Radu Mihaileanu.

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Cada sistema semiótico lida com a linguagem do seu próprio modo, como por exemplo, na
comédia grega, Lisístrata propõe as outras mulheres que [...] todas juntas salvaremos a Grécia [...]
(ARISTÓFANES 1998, p.14)1. A personagem principal explica para as mulheres que a falta de
sexo fará com que os seus respectivos maridos retornem para casa e terminem com a guerra. Nesse
jogo proposto de sedução a trama é finalizada com a vitória das mulheres, ou seja, um acordo entre
as cidades de Atenas e Esparta. Aristófanes apresenta uma obra pacifista, nela percebe-se a
discussão de temas como a paz, as mulheres, democracia, amor à pátria e os problemas da guerra,
como afirma:
A comédia de Aristófanes, em certos aspectos, tem a função de uma imprensa de
oposição. Ao serviço de um ideal político (o conservadorismo, o respeito pelos
valores, que, ao tempo das guerras Medo-Persas, tinham feito furor em Atenas, mas
também o respeito pela vida humana, o horror a guerra, o sentimento muito forte dos
prazeres da vida) o autor denuncia tudo o que contrário ao interesse da cidade e ao
espírito humanista. (GRIMAL 1958, p. 61)2

No tocante ao filme “A Fonte das Mulheres”, quase todas as características da peça são
repetidas, no entanto em outro contexto, dentro de uma comunidade muçulmana. O filme apresenta
uma visão mais colorida do universo dessas mulheres. Assim, exposto o problema que envolve a
construção da linguagem literária e da linguagem fílmica, este ensaio se propõe a investigar o
processo de construção da linguagem na comédia grega “Lisístrata” de Aristófanes e do filme
“Fonte das Mulheres” do diretor Radu Mihaileanu a partir da seguinte indagação: como a relação da
linguagem da comédia grega “Lisístrata” e do filme “Fonte das Mulheres” é estabelecida?
Partindo da premissa que o filme apresenta um roteiro, ou seja, um viés literário, o filme “A
Fonte das Mulheres” do cineasta romeno radicado na França Radu Mihaileanu é uma adaptação da
comedia grega “Lisístrata” de Aristófanes. Ele está centrado na greve de sexo, proposta pela jovem
Leila, com a intenção de propor um fim à exploração feminina de uma pequena vila. Na comédia
grega “Lisístrata”, de Aristófanes a protagonista que é chamada Lisístrata lidera uma rebelião
semelhante com o objetivo de por um fim às guerras entre atenienses e espartanos.
Na perspectiva crítica, pretende-se investigar a interface literatura/cinema a partir da comédia
grega “Lisístrata” e de sua versão cinematográfica “A Fonte das Mulheres” a fim de observar como
ocorre a circulação e a recepção da literatura. Ao observar o conjunto de signos frequentes na
narrativa de Aristófanes, rearticulados na tradução fílmica do diretor Radu Mihaileanu, percebe-se,

1
ARISTÓFANES. Lisístrata. As nuvens. Trad. David Jardim Júnior. Rio de Janeiro: EDIOURO, 1988.
2
GRIMAL, Pierre. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1951.

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pelo corte semiológico, algumas ocorrências textuais e fílmicas e especula-se sobre a inter-relação
entre as duas formas narrativas. Isso significa dizer que o processo da análise contrastiva entre texto
literário “Lisístrata” e o texto fílmico “A Fonte das Mulheres” mostra que a velha oposição,
livro/filme tende a transformar-se cada vez mais numa relação de semelhança.
No tocante a essa nova visão apresentada no filme pode-se considerar a obra
cinematográfica como leitura crítica da obra literária, reforçando o seu valor de texto que faz
avançar sobre aquele em que foi baseado. Como afirma Bazin (1999, p. 82) 3“sinopses bem
desenvolvidas”.
É patente, nesse primeiro momento, observar as características predominantes nas
comédias, para tal exploração é preciso levar em conta as circunstâncias que estão em volta de uma
representação. Faz-se mister analisar os fatores sociais e matérias que compõem uma comédia,
como por exemplo, os fatores ideológicos que dominavam em uma polis. “O individuo só se realiza
como cidadão ideal, [...], na medida em que toda a sua vida é pautada pela intervenção política.”
(OLIVEIRA; SILVA, 1991, p.8)4.
Para tanto, precisa-se entender um pouco o texto fonte a comédia “Lisístrata”. É obra
aristofânica, datada de 411 a.C. e foi apresentada pela primeira vez no festival dionisíaco das
Lenéias, com 1320 versos, se baseia nesse resumo: A ateniense Lisístrata, que segundo a
pesquisadora Eva Cantarella, em La Calamidade ambigua. Condicion e Imagen de la Mujer en la
Antigüedad Griega e Romana, Lisístrata significa, “a que dissolve os exércitos” (CANTARELLA,
1996: 120-121)5, reúne-se com vizinhas e mulheres de diversas cidades gregas, inclusive Esparta,
visto que essa era a cidade inimiga de Atenas, com o objetivo de por um fim a guerra do
Peloponeso. Ela propõe uma greve de sexo que é, segundo os autores Oliveira e Silva (1991, p.8)
6
“[...] intervenção política no sentido de ação integrada na vida da comunidade,[...]”.
Ela expõe as razões pelas quais acredita que as mulheres são melhores que os homens para
resolver conflitos, um personagem denominado comissário afirma que o lugar das mulheres é
dentro de casa. Surge daí o conflito, Lisístrata explica ao Coro de Velhas os tremendos esforços que
tem de fazer para impedir que as mulheres entrincheiradas na acrópole escapem e se confraternizem

3
BAZIN, Andre. O cinema. São Paulo: Brasiliense. 1991.

4
OLIVEIRA F. ; SILVA M. F. O teatro de Aristófanes. Coimbra: Faculdade de Letras,1991.
5
CANTARELLA, Eva. La Calamidade ambigua. Condicion e Imagen de la Mujer en la Antigüedad Griega e Romana.
Clássicas, 1996.
6
OLIVEIRA F. ; SILVA M. F. O teatro de Aristófanes. Coimbra: Faculdade de Letras,1991.

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com o "inimigo". Depois de impedir diversas fugas, lê uma profecia que assegura a vitória às
mulheres, desde que se mantenham firmes em seu propósito.
Compreende-se, desse modo, que a vida da polis apareça como referente natural da
comédia, e que o autor assuma explicitamente, como finalidade da obra, a
intervenção social, isto é, que, para além de provocar o cômico, o autor intente
‘ensinar’ e ‘censurar’. Ou, por outras palavras ‘elogiar’ e ‘vituperar. (OLIVEIRA
E SILVA 1991, p.8)7

Surge então uma proposta de paz, pois em Esparta e nas demais cidades todos os maridos
estão na mesma situação. Todos se entendem e fazem as pazes. Os representantes de Esparta se
encontram com os representantes de Atenas, Lisístrata aparece, e intermedeia o acordo para a paz.
Atenienses e espartanos comemoram o fim da guerra.
O filme “Fonte das Mulheres“ (2011), com uma duração de 135 minutos” é uma fábula
moderna de uma pequena comunidade muçulmana entre o Norte da África e o Oriente Médio,
tradicionalmente machista. Eles vivem em um povoado sem água e sem energia elétrica e as
mulheres buscam água de uma nascente localizada no topo de uma montanha, sob o sol escaldante.
Elas fazem isso desde o início dos tempos, enquanto seus maridos, em sua maioria, ficam parados,
jogando conversa fora. A rebelião é liderada pela jovem liberal Leila, que propõe uma greve de
amor. Colocando a seguinte condição: Se os homens não carregarem água para a aldeia, não terão
nada de carinhos, abraços e sexo. A personagem principal era casada com um professor que decide
incentivá-la. No desfecho da trama, os homens decidem atender ao pedido das mulheres, e todos
juntos celebram a paz.
Pensando nessa relação de conformidade, entre a comédia clássica “Lisístrata” e o filme “A
Fonte das Mulheres”, as personagens principais (femininas) representam a mulher à frente do seu
tempo. Nas argumentações apresentadas, há uma preocupação com a narrativa, na comédia
“Lisístrata”, percebe-se a sutileza dos detalhes da narração, para serem perceptíveis ao leitor. Nesta
obra, Aristófanes denuncia a crise nas estruturas da Cidade-Estado, revelando uma organização
política e social, que leva as mulheres a transformarem a cidade, tendo em vista interesses
particulares. Todavia no cinema, o filme “A Fonte das Mulheres”, o diretor Radu Mihaileanu tendo
como referência uma vila mulçumana, tende a considerar o fato de este ser uma forma de expressão
artística mais realista, pois, ao invés de ter que narrar e descrever ambientes, paisagens, só precisa
mostrá-lo ao espectador.
Adorno enfatiza que:

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OLIVEIRA F. ; SILVA M. F. O teatro de Aristófanes. Coimbra: Faculdade de Letras,1991.

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Do mesmo modo que a fotografia tirou da pintura muitas de suas tarefas
tradicionais, reportagem e os meios da indústria cultural – sobretudo o cinema –
subtraíram muito do romance. O romance precisou concentrar-se naquilo que o
relato não dá conta. Só que, em contraste com a pintura, a linguagem lhe põe limites
na emancipação do objeto, pois esta ainda o constrange à ficção do relato: Joyce foi
consequente quando vinculou a rebelião do romance contra o realismo a uma
rebelião contra a linguagem discursiva. (ADORNO 1980,p.269)8

A relação da díade cinema-literatura apresenta-se de uma forma singular através das práticas
das transposições. O cinema com o uso de suas metodologias que incentivam e ampliam os planos
de percepção dos receptores, contribui para que a literatura conte com mais um aspecto narrativo,
sobretudo quando se pensam os roteiros.

A adaptação, também, deste ponto de vista, pode ser vista como uma orquestração
de discursos, talentos e trajetos, uma construção “híbrida”, mesclando mídia e
discursos, um exemplo do que Bazin na década de 1950 já chamava de cinema
“misturado” ou “impuro”. A originalidade completa não é possível nem desejável. E
se a “originalidade” na literatura é desvalorizada, a “ofensa” de “trair” essa
originalidade, através de, por exemplo, uma adaptação “infiel”, é muito menos
grave. (STAM 2006, p.23)9

Uma adaptação cinematográfica não é inferior ao texto fonte. Para Diniz (1999, p.13) o texto
“origem” poderá ser considerado como signo para o texto “alvo”. O estudo desse projeto de
pesquisa será destinado à teoria da intertextualidade proposta por Bakhtin. Pois ao invés de pensar
em fidelidade de um texto em relação ao outro, visto que o filme “Fonte das Mulheres” é uma
tradução intersemiótica da comédia grega “Lisístrata”. Este estudo propõe-se uma analise tendo
como base a linguagem, pois a partir da linguagem é que se percebe a construção do outro. Através
do discurso do outro se recria um novo discurso.

Um signo não existe apenas como parte de uma realidade; ele também reflete e
refrata uma outra. Ele pode distorcer e s s a r e a l i d a d e , s e r - l h e f i e l , o u
a p r e e n d ê - l a d e u m p o n t o d e v i s t a específico, etc. Todo signo está
sujeito aos critérios de avaliação ideológica (isto é: se é verdadeiro, falso,
correto, justificado, bom, etc.). O domínio do ideológico coincide com o domínio
dos signos: são mutuamente correspondentes. Ali onde o signo se encontra,
encontra-se também o ideológico. Tudo que é ideológico possui um valor semiótico.
(BAKHTIN 1972, p.21)10

8
ADORNO, Theodor. Posição do Narrador no Romance Contemporâneo. In “Os Pensadores”, São Paulo: Abril, 1980.
9
STAM, R. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. In: CORSEUIL, Anelise R. Film Beyond
Boundaries. Ilha do Desterro, nº 51, jul./ dez., 2006, p. 19-53.
10
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 13º ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2009.

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No tocante a peculiaridade do cinema, esse oferece um arsenal de signos, contemplado por
imagens (fotografia em movimento/ imagem em movimento bem como uma série de outros
“suportes” que viabilizam projetos criativos ao operador de incontestável requinte e infinitas
possibilidades. Ao pensar no caráter literário, nota-se que na inter-relação dos signos, mantém uma
intensa relação com a imagem, como por exemplo, às inscrições rupestres, encontradas nas
cavernas, verifica-se que os desenhos já se encontravam organizados numa estrutura narrativa
linear, constituindo um sistema de linguagem, com o objetivo de contar uma história. O advento da
escrita e, por conseguinte, a utilização de signos exige um novo esforço organizacional para a
composição de uma história ou unidade de sentido; justificado pelo fato de a imagem ter
possibilidades de construção narrativa de caráter sintético, enquanto a escrita, analítico.
Em suma, ao pensar nas linguagens, seria inadequado encarar o problema da relação cinema-
literatura de uma forma singular, com a atenção voltada somente para a prática das transposições.
Será necessário tentar fazer uma leitura do cinema e fazer uma observação da literatura, partindo do
jogo dialético de estruturas contrastantes capaz de superar as diferenças tradicionais entre essas
duas formas específicas.

“Lisístrata” e “A Fonte das Mulheres”: por trás da greve o amor

A partir da leitura da comédia grega “Lisístrata” e da adaptação cinematográfica “A Fonte


das Mulheres”, feita por Radu Mihaileanu, foi feito uma série de apontamentos acerca das duas
obras, a princípio com um olhar individualizado e, posteriormente, comparando as duas linguagens
artísticas, as semelhanças, diferenças e convergências. Essa análise foi feita em uma sequencia fixa,
tratando primeiro da comédia e, depois, do filme.
A primeira reflexão deteve-se no direcionamento que o diretor deu à adaptação e sua
temática. Pode-se perceber pela observação que apesar da releitura atualizada, acredita-se que, em
essência, o diretor manteve-se fiel ao conteúdo da comédia, pois aqui cabe ressaltar a importância
de um diretor. Ele que foi além de diretor, roteirista, produtor, diretor de arte e montagem dessa
obra cinematográfica, pois, afinal, ele é o autor da nova obra, resultado de uma releitura. É ele quem
conhece todos os detalhes do roteiro e tem previamente organizadas imagens para cada plano que
dará o significado à obra. Nos casos de adaptação, ainda, vai testar sua bagagem cultural e
conhecimento do autor e da sua obra que está sendo transposta para a nova roupagem. Com relação
à temática, as obras, tanto a literária como a cinematográfica, abordam a mesma essência: Amor à
cidadania, sentimento que busca uma zona de conforto, a paz.

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A teoria da intertextualidade de Kristeva (enraizada e traduzindo literalmente o “dialogismo”
de Bakhtin) e a teoria da “intertextualidade” de Genette, similarmente, enfatizam a
interminável permutação de textualidades, ao invés da “fidelidade” de um texto posterior a
um modelo anterior, e desta forma também causam impacto em nosso pensamento sobre
adaptação. A nivelação provocativa da hierarquia entre crítica literária e literatura de Roland
Barthes, do mesmo modo, funciona analogamente para resgatar a adaptação ao cinema como
uma forma de crítica ou “leitura” do romance, que não está necessariamente subordinada a
ele ou atuando como um parasita de sua fonte. (STAM 2006, p.21-22)11

Na teoria da intertextualidade formulada por Julia Kristeva em cima da teoria do dialogismo


concebida pelo formalista russo Bakhtin permite que a pertinência desse estudiosos dá-se pelo fato
de que a partir de suas concepções os conceitos de fonte, influência e originalidade se renovam.
Bakhtin se preocupa com a ideia de que o texto literário não possui apenas uma voz. Ele afirma que
nenhum discurso é neutro, na verdade, o texto é atravessa do por varias vozes, tanto direta quanto
indiretamente, ganhando pontos de vistas diferentes.
Sabe-se que, ao se encontrar diante de um texto literário, este possibilita uma quantidade
significativa, diria inesgotável de leituras, o que não significa qualquer tipo de leitura ou releitura.
Com efeito, efetiva-se na literatura um modelo dialógico, ou seja, isso pressupõe que é dada ao
leitor a possibilidade de ter várias interpretações de um texto. Ao leitor cabe assumi uma
característica heurística. É dada essa permissão de exercer uma atividade hermenêutica, de formar,
adentrar e tentar decifrar as teias textuais, já que:
[...] A atitude de Bakthin em relação ao autor literário como alguém que habita “território
inter-individual” sugeriu a desvalorização da “originalidade” artística. Já que as palavras,
incluindo as palavras literárias, sempre vêm “da boca de outrem”, a criação artística nunca é
ex nihilo, mas sim baseada em textos antecedentes.( STAM, 2006 p.23)12

No cinema, por sua vez, o telespectador vê-se um pouco limitado quando o assunto são
interpretações. A imagem, aliada à mensagem, tende a direcionar-se para uma única leitura. Por
outro lado, cada leitor escolhe um caminho coerente de leitura, capaz de gerar uma interpretação
significativa do conteúdo do texto original. Neste aspecto, percebe-se que as narrativas giram em
torno da greve de sexo proposta pelas mulheres, observa-se, também, a submissão das mulheres,
mesmo nos tempos atuais – no filme nota-se objetos que direcionam para os dias atuais, como por
exemplo, o celular. Assim como na comédia, o filme, mostra que as mulheres em determinadas
culturas são tratadas como objeto de pertencimento.
Percebe-se que não houve diferenciações entre o foco da narrativa literária e da narrativa
fílmica, as duas obras seguem um mesmo direcionamento, demonstrando que as estruturas
narrativas, apesar de se tratar de linguagens diferentes, convergem. Verifica-se também que tanto a
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STAM, R. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. In: CORSEUIL, Anelise R. Film
Beyond Boundaries. Ilha do Desterro, nº 51, jul./ dez., 2006, p. 19-53.
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ídem

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comédia, quanto o filme são carregados de subjetivismo, pois há algumas divergências em relação
ao conteúdo. A complexidade de uma obra literária ou de uma obra fílmica exige, às vezes, uma
leitura mais atenta. É necessário examinar minuciosamente o contexto, formular hipóteses,
especular sobre todos os possíveis significados para tentar obter alguma compreensão da obra. O
processo ativo de recepção e interpretação é essencial para a análise de um livro ou de um filme e
para o prazer que estes podem proporcionar. Jauss (apud ZILBERMAN 1989, p. 62.)13 afirma que
“a história das interpretações de uma obra é uma troca de experiências ou, se quisermos, um jogo de
perguntas e respostas”. As referências, entretanto, não se restringem aos aspectos estéticos das
obras, haja vista que no ato da leitura também entra em jogo a experiência de vida do leitor, porque
entre a leitura de uma obra e o efeito pretendido ocorre o processo da compreensão, exigindo do
leitor todo o seu conhecimento de mundo acumulado.
A teoria da recepção também reafirma, indiretamente, o respeito pela adaptação enquanto
forma. Para a teoria da recepção, um texto é um evento cujas indeterminações são
completadas e se tornam verdadeiras quando lido (ou assistido). Ao invés de ser mero
“retrato” de uma realidade pré-existente, tanto o romance como o filme são expressões
comunicativas, situadas socialmente e moldadas historicamente. Como o pós-estruturalismo,
a teoria da recepção também enfraquece a noção de um núcleo semiótico, um núcleo de
significado, atribuído às novelas, cujas adaptações presumidamente devem “capturar” ou
“trair”, desta forma abrindo espaço para a ideia de que a adaptação complementa as lacunas
de um texto literário. (,STAM, 2006 p.24-25)14

Em relação às construções semânticas nota-se que ambos, tanto o filme quanto a comédia,
tem a mesma função e organização das personagens dentro de uma narrativa. No geral, Reis (2003,
p.361)15 compreende “a personagem como signo, o que corresponde a acentuar sua condição de
unidade susceptível de delimitação no plano sintagmático e de integração numa rede de relações
paradigmáticas”, ou seja, pode-se localizá-la e identificá-la pelo nome, pelas suas características e
pela forma como elabora seus discursos. Tanto Leila, como Lisístrata apresentam discursos fortes,
uma linguagem imperativa. Isso permite também associar as personagens a ideais comportamentais,
contribuindo na confirmação da sua função dentro do texto e nas relações com outros personagens
da própria narrativa e de outras, estabelecendo ligações intertextuais.

13
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 1989.

14
STAM, R. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. In: CORSEUIL, Anelise R. Film
Beyond Boundaries. Ilha do Desterro, nº 51, jul./ dez., 2006, p. 19-53.

15
REIS, Carlos. O conhecimento da literatura – introdução aos estudos literários. Porto Alegre: Edipucrs, 2003.

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Por outro lado, os aspectos psicológicos das personagens criadas por Aristófanes e
reforçadas por Radu Mihaileanu são muito marcantes; são pessoas comuns, com uma visão objetiva
e otimista da vida, do mundo e das pessoas, apostando em um final feliz. Ambos fazem uma análise
profunda das contradições humanas pela criação de personagens imprevisíveis (evolutivas), ambas
mulheres que se conformavam com a condição social que lhes eram impostas, de repente por um
motivo cívico, decidem mudar as regras do jogo. Jogando com insinuações em que misturam a
ingenuidade e a malícia, a sinceridade e a hipocrisia; procedem a uma espécie de crítica humorada e
irônica das situações humanas, das relações entre as pessoas e dos padrões de comportamento.
O “dialogismo” bakthiniano se refere no sentido mais amplo, às infinitas e abertas
possibilidades geradas por todas as práticas discursivas da cultura, a matriz de expressões
comunicativas que “alcançam” o texto não apenas através de citações reconhecíveis mas
também através de um processo sutil de retransmissão textual. Qualquer texto que tenha
“dormido com” outro texto, como disse um gracejador pós-moderno, também dormiu com
todos os outros textos que o outro texto já dormiu. (STAM, 2006 p.28)16

Sabe-se que a organização dos acontecimentos são apresentados em uma sequência lógica e
coerente depende do elemento tempo. Observa-se que o tempo é intenso desde o começo até o fim.
O tempo está representado tanto em “Lisístrata” e em “A Fonte das Mulheres” como um tempo
cronológico . Ele ganha destaque, pois tudo se estrutura na sequência lógica das ações, que são
geradas em torno do conflito: Greve de amor. Trata-se, então, usualmente de descrever,
pausadamente todas as ações da obra, tanto a comédia como o filme, de caracterizar as personagens
de forma minuciosa, de estabelecer, em suma, conexões de continuidade entre esses vários
elementos que sucessivamente vão sendo apresentados.
A complexidade de uma obra literária ou de uma obra fílmica exige, às vezes, uma leitura
mais atenta. É necessário ter um olhar minucioso sobre o contexto, fazer interpretações, formular
hipóteses, especular sobre todos os possíveis significados para tentar obter alguma compreensão da
obra.
No que tange a escrita ela não está simplesmente acabada, até que o leitor exerça a sua ação
pessoal no fazer interpretativo pelo qual se cria o significado, porque, ao ler, descobre-se a parte
não formulada do texto. Quanto aos aspectos modernos de reprodução, os quais permitiram que as
manifestações artísticas se tornassem acessíveis a um número cada vez maior de pessoas, antes
restritos ao conhecimento e à contemplação de poucos, a arte cinematográfica coloca-se à
disposição das grandes massas.

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STAM, R. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. In: CORSEUIL, Anelise R. Film
Beyond Boundaries. Ilha do Desterro, nº 51, jul./ dez., 2006, p. 19-53.

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Referências

ADORNO, Theodor. Posição do Narrador no Romance Contemporâneo. In “Os Pensadores”, São


Paulo: Abril, 1980.

ARISTÓFANES. Lisístrata. As nuvens. Trad. David Jardim Júnior. Rio de Janeiro:


EDIOURO, 1988.

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 13º ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2009.

BAZIN, Andre. O cinema. São Paulo: Brasiliense. 1991

DINIZ, Thaís Flores Nogueira. Literatura e Cinema: da semiótica à tradução cultural. Ouro Preto:
Editora UFOP, 1999.

CAMPOS, H. A arte no horizonte do provável. São Paulo: Perspectiva, 1968. CARVALHAL, T. F.


Literatura Comparada. São Paulo: Ática, 2001.

CANTARELLA, Eva. La Calamidade ambigua. Condicion e Imagen de la Mujer en la Antigüedad


Griega e Romana. Clássicas, 1996.

GRIMAL, Pierre. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1951.

OLIVEIRA F. ; SILVA M. F. O teatro de Aristófanes. Coimbra: Faculdade de Letras,1991.


REIS, Carlos. O conhecimento da literatura – introdução aos estudos literários. Porto Alegre:
Edipucrs, 2003.

STAM, R. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. In: CORSEUIL,


Anelise R. Film Beyond Boundaries. Ilha do Desterro, nº 51, jul./ dez., 2006, p. 19-53.

ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 1989.

FONTE DAS MULHERES. Direção: Radu Mihaileanu. Produção: Luc Besson, Denis Carot,
Gaetan David. Distribuidora: Paris Filmes, 2011.DVD (aprox. 135min.), colorido, legendado.

Source women: Aristophanes' Lysistrata brands in film narrative

Astract: Literature and cinema, as forms of artistic expression, have dialogued with ever next.
When thinking of a new version for certain work, the recreation of a particular text output, must put
aside the concern with fidelity, the new text, the target text appears as a new rereading. The
communication aims to show the film "Women of Power" by Radu Mihaileanu intersemiotic as a
translation of the Greek comedy "Lysistrata" by Aristophanes. The study proposes an analysis based

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on the language, because language is from what is perceived to another building. Through the
discourse of the other is recreated as a new discourse Bakhtin says. In comedy, Lysistrata
recommends a strike of love in order to put an end to wars between the Athenians and Spartans. The
film is centered on sex strike, hinted at by young Muslim Leila, with the intention of proposing an
end to female exploitation of a small village. This means that the process of contrastive analysis
between literary text "Lysistrata" and the film text "Power of Women" shows that the old
opposition, book / film tends to become more and more a relationship of similarity.

Keywords: Literature, Cinema, rereading.

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Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos),Florianópolis, 2013. ISSN2179-510X

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