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V – Santos Populares? E porque não?

Junho. Mês dos Santos Populares. Por todo o país, arraiais, bailaricos, sardinha assada a pingar no pão, uns tintos a
mais ou umas cervejolas fresquinhas, gente e mais gente, alegria, festa, folia. Num sintomático paradoxo
civilizacional desta nossa terra de Portugal, o ambiente festivo e, em muitos casos, desregrado, contrasta com o
santo liturgicamente venerado. Santo António, São João Baptista, São Pedro e São Paulo, os santos mais populares
deste mês, foram homens que levaram uma vida abnegada e austera, ao ponto de terem dado completamente a sua
vida à causa do Evangelho. Os santos da era intertestamentária, aliás, foram coroados pelo martírio e o Martelo
medieval dos Hereges desejou-o. Quer isto dizer que eram santos tristes?

Certamente que não. João Baptista apesar de ser um homem austero, habituado ao deserto, que pregava a
conversão e o arrependimento, afirmou que Jesus era a sua alegria (cf. Jo 3,29). Também Pedro, homem rude e
primário, com uma série de episódios intempestivos, sentia alegria por servir Jesus e dar a vida pelo Reino (cf. Act
2,46; 5,41). São Paulo, homem vertical e inflexível, alegrava-se com os frutos do anúncio do Evangelho (cf. Fl 1,4-6) e
exortava assim os filipenses: Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos! (Fl 4,4). Santo António,
pregador eloquente e assaz defensor da doutrina, ao vestir o hábito franciscano, experimentou uma grande alegria
(Vida Segunda II,3) e, na hora da morte, depois de feita a confissão, deu em cantar hinos à Virgem Mãe (Vida
Primeira XV,11).

Todos eles experimentaram a alegria e viveram-na. No entanto, a sua alegria não era meramente exterior ou
expressão de uma simples emoção momentânea. Muito menos era um desregramento eufórico. Era, sim, um
autêntico fruto amoroso da relação íntima com Cristo. Era a alegria própria de quem sabe de onde vem e para onde
vai. Era a própria alegria encarnada nas suas existências. Por isso, não era uma alegria exuberante, mas também não
era passageira. Serena e interior, ardia no íntimo do coração e alentava a acção.

Diz o povo que um santo triste é um triste santo, mas um santo não pode ser triste, porque de contrário não vive no
Senhor, causa da autêntica alegria (cf. Gaudete in Domino nn. 22; 33). O papa Francisco recorda-nos isso mesmo, na
sua mais recente Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate. Nela, o Bispo de Roma chama atenção para alguns
aspectos que, por vezes, esquecemos ou não entendemos. Ao apresentar precisamente algumas características da
santidade no mundo actual, o Santo Padre refere-se à alegria e ao bom-humor, dizendo: «O que ficou dito até agora
não implica um espírito retraído, tristonho, amargo, melancólico ou um perfil sumido, sem energia. O santo é capaz
de viver com alegria e sentido de humor. Sem perder o realismo, ilumina os outros com um espírito positivo e rico de
esperança» (n. 122).

Isto não significa, no entanto, que a vida esteja isenta de problemas, desafios, dores e sofrimentos. Esta postura
seria irrealista e alienante. Significa antes que quem vive a partir de Cristo, à Luz do Mestre e nas suas peugadas,
procurando torná-Lo presente na vida, não perde o norte ou o sentido perante as dificuldades. Sofremos, sim, mas
somos capazes de olhar para a vida com esperança e dar testemunho dessa esperança através da serenidade que ela
nos concede. E isto é ser contracorrente, porque o mundo, e particularmente o Portugal contemporâneo, não
assume a vida com esperança.

Por outro lado, o contraste verifica-se também na comunhão que gera a alegria, pois a alegria beatífica não é
individualista ou consumista, não centra a pessoa em si própria, mas leva-a a partilhar com os próximos do
quotidiano. É uma alegria simples, mas generosa.

Um santo triste não é um santo, porque é incapaz de reconhecer a beleza das pequenas coisas, a presença do
Sublime na simplicidade, a glória da vida eterna no meio das tribulações presentes.

Porque não ser santo popular?

DC