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Alberto, Orpheu, Álvaro: pontes

José Luiz Foureaux de Souza Júnior


(Universidade Federal de Ouro Preto / Universidade de Coimbra / Capes)

Este trabalho tem como objetivo construir pontes para ligar as relações de amizade de dois poetas

portugueses do final do século XIX: António Nobre e Alberto de Oliveira. O ponto de partida é a leitura da

correspondência de António Nobre (totalmente publicada). Nessa correspondência, aparecem indícios de

que em cartas escritas por seu amigo, Alberto de Oliveira, laços estreitos até de amizade íntima que vai além

do intercâmbio intelectual e literária entre ambos. A leitura é amparada pela perspectiva de “pacto

homosocial”, como apresentado por Eve Sedgwick Kosofski em seu livro Between men. O trabalho se encaixa

no âmbito alargado dos estudos de Literatura Comparada, sobretudo os circunscritos à Estética da Recepção,

o que corresponde a análise e renovação de exercício crítico de releitura a partir de gêneros literários

diversos como a epistolografia de escritores representativos.

Palavras-chave: Recepção; Leitura; Poesia; Homoerotismo; Literatura Portuguesa

A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser
transição e queda.
Friedrich Nietzsche, Assim falava Zaratustra

Considerei subscrever esta comunicação ao tema “O legado de Orpheu” por

acreditar que, de fato, a epistolografia exigiria um recorte muito estreito para as

possibilidades que vislumbro a partir do processo de investigação que venho

desenvolvendo e que envolve a correspondência de António Nobre e Alberto de Oliveira.

Na visada retrospectiva que proponho aqui, esta correspondência é o ponto de chegada de

minhas elucubrações. O ponto de partida é o conjunto de considerações que faço a partir

de um trecho de carta escrita por Fernando Pessoa, passando por considerações acerca de

abordagem panorâmica do conjunto de propostas da Revista Orpheu, em seu primeiro

número.

Orfeu, filho da musa Calíope e Apolo ou Eagro, rei da Trácia, poeta talentoso.

Quando tocava sua lira, os pássaros paravam de voar para escutar e os animais selvagens

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perdiam o medo, as árvores se curvavam para pegar os sons no vento. Um dos

argonautas, salvou os demais tripulantes quando seu canto silenciou as sereias.

Apaixonou-se por Eurídice. Casou-se com ela. Mas Eurídice era tão bonita que, pouco

tempo depois do casamento, atraiu um apicultor chamado Aristeu. Quando ela recusou

suas atenções, ele a perseguiu. Tentando escapar, ela caiu, pisou numa serpente que a

mordeu e morreu. Orfeu ficou transtornado de tristeza. Levando sua lira, foi até o mundo

inferior, para tentar trazê-la de volta. A canção pungente e emocionada de sua lira

convenceu o barqueiro Caronte a levá-lo vivo pelo rio Estige. A canção da lira adormeceu

Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões. Seu tom carinhoso aliviou os

tormentos dos condenados. Encontrou muitos monstros durante sua jornada e os encantou

com seu canto. Finalmente, Orfeu chegou ao trono de Hades. O rei dos mortos ficou

irritado ao ver que um ser vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de

Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua esposa, a deusa Perséfone, implorou-

lhe que atendesse o pedido de Orfeu. Assim, Hades atendeu seu desejo. Eurídice poderia

voltar com Orfeu ao mundo dos vivos, sob uma única condição: que ele não olhasse para

ela até que estivessem sob a luz do sol. Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para

fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração enquanto

caminhava, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele então quase no final do

tenebroso túnel olhou para se certificar de que Eurídice o acompanhava e não a viu. Hades

e Perséfone os seguiam e, como ficou estabelecido que ele não poderia olhar para Eurídice

até chegar ao fim do túnel, Hades a tomou novamente. Em desespero, Orfeu se tornou

amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo lembrar-se da

perda de sua amada. O Orfismo, comportamento ambíguo de aconselhar sem poder

usufruir do próprio conselho, vem daí, ao que parece. Orfeu morre sob a fúria das

Mênades que o mataram a golpes de dardo, jogando seu corpo no Hebro, aos pedaços e,

ainda assim, cantando. As nove musas reuniram os pedaços de Orfeu e o enterraram no

monte Olimpo. Na morte, Orfeu se uniu a Eurídice.

Uma lição, dentre outras, que fica do enredo do mito pode ser a da ideia de desejo

que persiste, mesmo em condições nada viáveis, o que reforça sua própria natureza. De

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índole instintual, o desejo não escolhe data e local, cor ou textura, preferência ou

circunstância. Ele está ali e, se a mão de Lacan não conduz a erro, é pela linguagem que ele

se manifesta de maneira mais contundente. Para além disso, é talvez na e pela linguagem

poética que essa contundência atinge foro de intransponibilidade. Há que ressaltar que, de

maneira genérica, estou considerando a carta como texto poético, em seu sentido mais

largo – o que é discutido por Sophia Angelides e Marie-Claire Grassi, por exemplo. Tópico

este que vou tomar como pressuposto, por questão de tempo.

Outra lição é a da sedução. Fenômeno ou processo – dependendo do

direcionamento que a utilização desse conceito segue – fica claro que o canto de Eurídice

seduz pela beleza, quebrando todas as resistências. Esta sedução, acaba por fazer com que

o poeta, por ansioso que estava, deixe de cumprir o que mandou a divindade e se vire

para, ele também seduzido pelo desejo, tentar ver sua amada. O vaticínio se cumpre. Ele

perde de vez a chance de voltar a viver com Eurídice. O encontro só acontece na morte, o

que pode causar certas diferenças interpretativas muito instigantes que também serei

obrigado a deixar de lado aqui.

Num e noutro caso, o relato do mito me leva a pensar no destino da revista Orpheu

como proposta estética de revolução, mudança, renovação. Para tanto, farei uma pequena

digressão sobre dois trechos de cartas que, a meu ver, ilustram o espírito anunciado pela

letra de Orpheu, em seu nascedouro. Atente-se para o fato de que se trata aqui de

apresentação sumária e introdutória, um projeto, que vem sendo desenvolvido e que

deseja encontrar satisfação em sua demanda.

Merecem ainda destaque duas expressões presentes no relato do mito. A primeira,

“trilha íngreme que levava para fora do escuro”, é expressão que pode remeter a uma

leitura do perímetro afetivo que circunda a correspondência entre António Nobre e

Alberto d’Oliveira – uma das consequências da abordagem aqui apresentada. Esse

perímetro só pode ser desenhado por conta da “abertura” que a revista propunha ensejar

no cenário cultural português, quando de seu aparecimento. A segunda expressão,

“comportamento ambíguo de aconselhar sem poder usufruir do próprio conselho” pode

remeter a uma análise do fim da revista, por todos os motivos que se lhe possam atribuir,

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sem destaque para nenhum. O caráter “ambíguo” marca de novo o direcionamento do

olhar homoerótico que é utilizado para ler os trechos de cartas aqui arrolados.

Momento 1

Mário de Sá-Carneiro se mata, em Paris, no dia 26 de Abril de 1916. Fernando Pessoa,

apesar disso, não desistiu do terceiro número de Orpheu. Em 4 de Setembro desse ano,

escreveu a Côrtes-Rodrigues que a revista deveria sair ainda nesse mês:

Vai sair Orpheu 3. É aí que, no fim do número, publico dois poemas ingleses meus,
muito indecentes, e, portanto, impublicáveis em Inglaterra. Outra colaboração do
número: Versos do Camilo Pessanha (a propósito não cite isto a ninguém), versos
inéditos do Sá-Carneiro, A Cena do Ódio do Almada-Negreiros (que está actualmente
homem de génio em absoluto, uma das grandes sensibilidades da literatura moderna),
prosa do Albino de Meneses (não sei se v. conhece) e, talvez, do Carlos Parreira, e uma
colaboração variada do meu velho e infeliz amigo Álvaro de Campos.
Orpheu 3 trará, também quatro hors-texte do mais célebre pintor avançado
português - Amadeu de Sousa Cardoso.
A revista deve sair por fins do mês presente. Para a mala que vem já lhe poderei
dar notícias mais detalhadas. (PESSOA, F., 1999: 220-221)

Neste trecho, desejo destacar a informação de que Fernando Pessoa tenciona publicar

o que ele chama de “dois poemas ingleses meus, muito indecentes”. Sabe-se que acabaram

por aparecer publicados alhures. Mas Álvaro de Campos, um de seus heterônimos, afirma

ser, ele mesmo um caso de “temperamento feminino” que conta “com uma inteligência

masculina”, em uma de suas páginas íntimas. Isto quer dizer alguma coisa. A frase

implícita, de sabor poético, não pode ser lida como simples retórica. Já em algumas Odes, o

engenheiro naval se considera “uma inversão sexual frustre”.

Interessante a afirmação de Pessoa. Por que os poemas são impublicáveis em

Inglaterra mas o podem ser em Portugal? Guardadas as devidas proporções, pensar o

contrário pareceria muito mais plausível. Pareceria, não fosse a afirmativa feita sob a égide

da revista Orpheu que, entre outras coisas, a seu modo, propunha a quebra de grilhões

estéticos, sociais e (até) morais, vindo a ensejar novos horizontes de expectativa para a

Literatura Portuguesa no início do século 20. A referência a Almada Negreiros aqui é, a

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meu ver, mais uma confirmação inconteste do espírito que animou a publicação. De

qualquer maneira, salta aos olhos a referência ao heterônimo: “meu velho e infeliz amigo”!

Álvaro de Campos revela certa avidez recalcada por evadir-se em seu desejo não

satisfeito como nos versos “Eu podia morrer triturado por um motor / Com o sentimento

de deliciosa entrega duma mulher possuída”. Na “Saudação a Walt Whitman”, em lugar

do acento social que Garcia Lorca teria empregado, o heterônimo atesta uma semelhança

entre seu desejo ainda indizível e o do “grande pederasta” saudado, revelando uma

“vontade (…) / De ser a cadela de todos os cães e eles não me bastam”. O requinte de

Campos é mais uma vez a chancela do recalcamento que o sufoca, e a outros sujeitos de

então.

Na voz poética de Álvaro de Campos, particularmente na “Ode Triunfal” e na “Ode

Marítima”, vemos encenada a emergência desse novo modelo de masculinidade,

estabelecida sobre a crise dos valores sociais e estéticos portugueses e europeus – haveria

melhor argumento para a “realização” do projeto órfico (em dois dos sentidos do termo)

que a revista protagoniza e leva à concretização nos números publicados? Nesses poemas,

se concentra um novo sujeito homoeroticamente manifesto: ele não quer ser mulher, como

em “Manicure”, de Sá-Carneiro, mas quer ver-se tomado, possuído pela força da

masculinidade, não representada por si mesmo, mas pelo mundo moderno. Mais uma vez,

o espírito vanguardista e revolucionário, para não dizer transgressivo da revista, se

explicita.

Momento 2

António Nobre escreve a Alberto d’Oliveira, em 24 de Outubro de 1890. Ele está a

caminho de Paris a bordo do navio Britannia. Vale lembrar que o estado de espírito de

Nobre não era dos melhores. Por um lado, havia sido reprovado por duas vezes seguidas

nos exames em Coimbra, não podendo conseguir aí o diploma de Bacharel em leis. Por

outro, a separação do “amigo mais querido” , que ficou em terras portuguesas, o que criou
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Coloco a expressão entre aspas, não porque alguém a tenha citado – e creio que tenha sido – mas porque é
usada aqui e ali, e por mim mesmo, para identificar Alberto de Oliveira.
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o horizonte de expectativas das cartas que trocaram. Desta carta, destaco a seguinte

passagem:

(...) sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de
Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo
Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado,
nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não
consinto que a tua pilinha-morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete.
(CASTILHO, G., 1982: 116)

O poeta faz, neste passo da carta, uma comparação entre o navio em que viaja e o

corpo de Alberto de Oliveira. Uma comparação reveladora. Para além disso, muito além

aliás, a carta apresenta uma série de três pares comparativos constituídos pelo poeta “da

torre”, envolvendo seu amigo e o navio em que viajava. O primeiro par aponta para a

coincidência entre o ano de nascimento de Alberto de Oliveira e o de inauguração do

Britannia, 1873 . São “gêmeos”, como diz Nobre, apesar de nacionalidades diferentes. Dada
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a particular oscilação de António Nobre em relação a seus sentimentos quando se trata dos

ingleses, de cara, evidencia-se a preferência pela própria identidade cultural, o que vai

ficar cada vez mais evidente nos pares comparativos seguintes.

Na primeira assertiva do segundo par comparativo, António Nobre opõe “o corpo de

Purinho, desengonçado e cor de leite” a “monstro do Britannia, sólido e negro”. Os

adjetivos em contraposição explícita revelam dobras semânticas insuspeitadas, quando

observados/lidos sob a o enfoque da lente do homoerotismo: “desengonçado” opõe-se a

“sólido”, deixando entrever a delicadeza do afeto que aproxima e une os dois poetas, não

sem deixar entrever a intimidade física entre eles. O sentido dicionarizado de

“desengonçado”, aqui, é abandonado para ceder espaço a uma acepção envolvida por

afeto, carinho, que ressalta, ainda uma vez, a delicadeza da relação já referida. Na

sequência, “cor de leite” opõe-se a “negro”. O cromatismo, em primeira instância, apela

para a dicotomia totalidade/nulidade se se considerar o pressuposto da Física, que


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NA verdade, trata-se do ano de naufrágio do navio que foi inaugurado dez anos antes. Pode ter sido uma
gralha na edição das cartas. Como não tive acesso ao original – dado que não constitui objeto primordial de
minha investigação – levo a cabo a informação obtida na internete:
http://en.wikipedia.org/wiki/SS_Britannia, acesso em 10/02/2015.

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apresenta o branco como a presença de todas as cores e o negro como a sua ausência. Daí

para a simbologia que as duas cores ensejam e sustentam é um passo: a pureza e a

sujidade, a inocência e o vício, o dia e a noite, o permitido e o condenado.

Num breve excurso a esta argumentação, cabe destacar a brancura referida pelo

poeta sem sua comparação. Isto porque, em outras alturas da correspondência, há

referência ao leite como líquido de celebração da amizade afetuosa partilhada por António

Nobre e Alberto de Oliveira: torna-se quase um ícone. Ora, se o caráter simbólico for aqui

(também) viável, seria aceitável associar a substância do leite como elo que traz à tona o

sêmen, muitas vezes identificado terminologicamente à mesma substância. Esta inferência

coloca-se a anos luz de distância de qualquer insinuação de sodomia/pederastia, como

variante (ainda que possível) do pacto homossocial estabelecido, mesmo que

inconscientemente. No diapasão desta nota, a Psicanálise dá o tom, fazendo com que a

plausibilidade da associação seja respaldada pelo axioma lacaniano que toma a linguagem

como modus operandi do inconsciente.

A segunda assertiva da mesma comparação aponta para outra dicotomia:

sagrado/profano. A “concha de pedra de Santo Ildefonso” é o par opositivo de “nalguma

babilónica oficina de Liverpool”. Ora, a “concha de pedra” opõe-se à “babilónica oficina”.

A primeira recebe, aconchega, acolhe; a segunda produz, apresenta, lança. O adjetivo

“babilónica” é o significante que dispara o discurso comparativo de oposição entre o

sagrado e o profano. De mais a mais, a mesma oposição serve para reforçar o caráter

afirmativo da valorização do relacionamento entre os dois poetas, conforme atestado nesta

correspondência. Uma vez mais, por vias transversas, o pacto homossocial é celebrado.

Por fim, o terceiro par comparativo. António Nobre renega a identificação completa

entre o navio e seu amigo: a “pilinha-morango” é oposta ao “vergalho”. Pila é substantivo

comum que pode ser sinônimo de pênis, sobretudo coloquialmente. Este significado

coloquial se aplica também a “vergalho”. O diminutivo do primeiro aprofunda o

sentimento carinhoso e delicado devotado pelo autor da carta a seu amigo. A força

fonética do segundo termo confirma a ideia representada pelo navio nas comparações

feitas por António Nobre.

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O “sabor” da comparação – no sentido barthesiano deste substantivo – não deixa de

ser sugestivo: assim, “morango” funciona como índice identificador, uma espécie de

predicativo do sujeito. Por um lado, a delicadeza da fruta que se revela no adocicado e no

líquido associados ao paladar e, por outro, a cor que identifica, indiretamente, a

“adolescência” de Alberto de Oliveira; ratificando, uma vez mais e definitivamente, a

delicadeza percebida, devotada e celebrada na/pela relação entre os dois poetas.

Ponto quase final

Uma pergunta caberia aqui: como associar estas linhas ao que representou a revista

Orpheu em seu tempo de aparecimento e seu legado? Acredito que a resposta pode ser

simples. O primeiro número da revista traz uma “introdução”, de autoria de Luis de

Montalvor que pode servir de ponte para a(s) outra(s) possível(is) resposta(s) à questão

final que coloco. No sentido de ser veículo de mudança, diz o autor do texto da

“Introdução” que a revista “propondo-se, vincula o direito de em primeiro lugar se

desassemelhar de outros meios, maneiras e formas de realisar arte, tendo por notavel

nosso volume de Beleza não ser incaracteristico ou fragmentado, como literarias que são

essas duas formas de fazer revista ou jornal.” Já aqui a nota da diferença na manifestação

de certo espírito iconoclasta é perceptíel.

Mais adiante, diz Montalvôr que “Puras e raras suas intenções como seu destino de

Beleza é o do:—Exilio! Bem propriamente, ORPHEU, é um exilio de temperamentos de

arte que a querem como a um segrêdo ou tormento…”. Nas reticências que fecham este

período e em seu conteúdo, percebe-se uma das notas que marcam os comentários acerca

dos trechos de carta aqui feitos – sobretudo ligadas aos termos “segredo” e “tormento”.

“Isto explica nossa ansiedade e nossa essencia!”, continua Montalvôr, reafirmando o que

eu já afirmei aqui.

De mais a mais, a julgar pelo que Fernando Pessoa diz acerca dos poemas que

desejou publicar no número 3 da revista e o que António Nobre exara nas linhas de uma

carta, já saudosa ainda que em princípio de viagem, o espírito de Orpheu, a revista, remete

ao incurável sofrimento de Orfeu, o mito, deixando os sujeitos alienados de seu desejo,

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mas ansiosos por sua satisfação. A expressão artística pode ser considerada um dos

instrumentos de concretização desta mesma satisfação.

De uma forma ou de outra, o que resulta como elemento estrutural para a resposta à

pergunta acima mencionada é o fato de que o caráter homoerótico que atormenta, tanto a

voz heterônima de Fernando Pessoa, quanto a agonia em êxtase da saudade de António

Nobre, no contexto da virada de século em Portugal, só se faz possível, acredito eu, com o

auxílio mais que luxuoso da publicação de Orpheu. As cartas, ao fim e ao cabo, funcionam

como uma das “pontes”, como prenunciado no título desta comunicação.

Sintomaticamente, a revista não enseja realizar todos os seus desejos, enquanto

expressão da busca de solução para impasses e dificuldades no âmbito da produção

artístico-cultural lusitana. O mito, de certa forma, sobrepõe-se à publicação. Esta falece…

números depois de publicada por primeira vez. O encontro de Orfeu e Eurídice deu-se,

segundo um dos relatos do mito, após a morte do poeta. Em certa medida, a liberdade e a

efetividade da discussão dos temas aqui expostos são o sinal do falecimento da publicação

em sua materialidade, mas da permanência em seu ideário e na herança cultural – no

sentido mais amplo deste termo – de suas proposições eternizadas, por exemplo, nos

trechos aqui apresentados, ainda que de maneira sumária.

BIBLIOGRAFIA FINAL
ANGELIDES, Sophia (2001). Carta e Literatura: correspondência entre Tchekhov e Gorki.
São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.
CASTILHO, Guilherme de (1982). António Nobre: correspondência. Lisboa: Imprensa
Nacional-Casa da moeda.
GRASSI, Marie-Claire (1982). Lire l’épistolaire. Paris: Dunod.
INÁCIO, Emerson da Cruz Inácio (2004). «Outros Barões assinalados: a emergência do
discurso gay na produção literária portuguesa contemporânea». In: VIII Congresso
Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Coimbra: Centro de Estudos Sociais:
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MONTALVÔR, Luis de (1915). «Introducção». In: Orpheu. Lisboa: Typographia do
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Alvim, p. 220-221. A Armando Côrtes-Rodrigues.
TIN, Emerson (org.) (2005). A arte de escrever cartas: Anônimo de Bolonha, Erasmo de
Rotterdam, Justo Lípsio. Campinas: Editora da UNICAMP.

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