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zando a complexa questão das identidades e das subculturas, no of homosexuality — other ways in which homosexual relations

contexto atual dos estudos culturais. Pelo contrário. Simples­ have been organized and understood, differentiated, named, and
mente, sustento que o homoerotismo não leva necessariamente left deliberately unnamed. We need to specify the particularity of
à constituição de uma identidade ou de uma subcultura especí­ various modes of homosexual behavior and the relationships be­
fica. Como bem assinala Jeffrey Weeks: tween those modes and particular configurations of sexual iden­
Much recent work stressed the vital importance of distinguishing tity.4
among behavior, role, and identity in any sociological or his­ No espaço cultural da Modernidade, marcado pelo
torical approach to the subject of homosexuality. Cross-cultural processo de secularização, esse suposto “eu autêntico” passa a
studies, as well as studies of schoolboy sex play, prison homo­ ocupar o antigo lugar de Deus, convertendo-se na instância
sexuality, and sex in public places, show that homosexual decisiva para a fundamentação do verdadeiro, do real (e/ou
behavior does not give rise automatically, or even necessarily, to natural) e do moral, “categories which correspond to the three
a homosexual identity. Homosexual roles and identities are main domains of knowledge in Western culture: the epistemo­
historically constructed.5 logical, the ontological, and the ethical”.5 O fato de os dife­
Essas considerações abrem duas perspectivas extremamente rentes movimentos libertários (feminista, negro ou gay, por
importantes para esse pequeno estudo. A primeira delas levaria exemplo), num primeiro momento, terem recorrido precisa­
a sublinhar o caráter histórico e contingente da própria noção de mente a essa noção de autenticidade, para fundamentar suas
identidade e do papel que esta desempenha na cultura ocidental. próprias reivindicações e lutas nos campos político e cultural,
A segunda diz respeito à convicção de que, num estudo como não deve levar a nenhuma forma de sacralização essencialista e
esse, não posso nem devo aplicar retrospectivamente as a-histórica da própria noção de identidade e do seu valor cul­
identidades gay (entendida aqui como a dos homens que se tural e político.
definem primariamente em função de um estilo de vida multidi­ Parto da premissa de que um livro é uma coletânea de
mensional, estruturado a partir de uma opção afetiva e/ou “marcas” deixadas por outros leitores anteriores a mim mesmo.
sexual homoerótica) e queer (marcada ainda, além disso, por Ele é marcado em relação a sistemas de classificação, na sua
uma opção cultural e política radical “centrada sobre a re- maioria, implícitos. Quando tomo o livro, estou predisposto,
significação dos valores e significações da cultura dominante”, mesmo que inconscientemente, a receber as marcas que são
conforme o pensamento de Dennis Allen) às experiências fixadas pela própria historicidade da obra. Desse modo, minha
homoeróticas configuradas no texto de Machado de Assis. O lei-tura nunca vai ser capaz de se livrar dessas marcas, minha
que cabe aqui é procurar entender outras formas históricas - leitura vai ser orientada inconscien-temente por essas “codi­
aqui, especificamente, discursivas e literárias - de apreensão e ficações” de sentido. Dessa maneira, fica a ressaltada a perso­
compreensão dessas experiências, através da “leitura” do texto nalidade dupla, quase espelhada, quase paradoxal da leitura.
literário, leitura e texto que estabelecem uma interlocução pecu­ Estou partindo da idéia, ainda que um tanto, simplista de que a
liar, o que pode ser “detectado" no que diz George Chauncey leitura é uma atividade ao mesmo tempo individual e social. É
* Jr.: individual porque nela se manifestam particularidades do leitor:
[...] we need to begin paying more attention to other social formas suas características intelectuais, sua memória, sua história; é so-

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ciai porque está sujeita às convenções linguísticas, ao contexto narrativa veicula. Nessa direção, reescrever a História da
social, à política, à ideologia. Isto posto, fico tranqüilo ao Literatura não significa "superar” posições antigas, mas rear-
afirmar que estou “lendo” e apenas isso. No entanto, ao fazê-lo ticular discursos, a partir de leituras que se desejam dinamiza­
proponho uma mudança de horizonte, no sentido que é doras. Para além do “sentido”, a leitura visa o historiográfico ,
desejado por Jauss, para as referências que daqui por diante em sua peculiaridade discursiva, no desejo de uma crítica
possam ser feitas sobre os textos que são lidos. Trata-se, na menos dogmática e mais operacional: uma contribuição
verdade, numa perspectiva mais ampla, de um exercício de interpretativa a mais para a História da Literatura.
raciocínio metodológico, com vistas a sustentar uma hipótese Aqui se coloca um primeiro ponto de sustentação teórico-
de trabalho: a reescrita da historiografia literária. Tal proposi­ metodológica da pesquisa. Acredito que se trata de uma questão
ção visa recuperar uma faceta fundamental da crítica literária, restrita ao campo das definições conceituais: o que é um texto
alimentada pelo prazer da leitura, que não abre mão do rigor, erótico? A pergunta se sustenta porque o olhar se dirige para
sem ceder às imposturas de um modismo em nada sério. A alguma coisa, no caso, um texto. Se o olhar pode ser erótico,
questão do homoerotismo aparece aqui, não como “tema” de algo dessa característica deve saltar a esse olhar porque está
fundo, mas como operador de uma leitura crítica de textos, na presente no próprio texto. Há, de cara, uma série de
busca da construção de um discurso historiográfico. Nesse dificuldades oriundas da complexidade de aspectos e dados, de
sentido, é fundamental lembrar de que o intuito do discurso é dimensões que a questão coloca; além, é claro, de problemas
constituir um terreno em cujo perímetro é possível decidir o (in) confessáveis que permeiam esse tipo desejado de texto. Os
que contará como “fato” e determinar qual o modo de com­ contornos do assunto, seus fios amarrados em pontos tão
preensão mais adequado de considerar esse mesmo “fato”. Não distintos e a necessidade de constante demonstração de
se pode esquecer de que a etimologia da palavra discurso, profundo conhecimento teórico para sobreviver no campo
derivada do latim discursere, sugere um movimento dinâmico, das ciências humanas, que privilegia a diversidade e a
aqui representado pelas leituras a que se submete o referido originalidade, contribuíram para que fossem feitos recoites
fato. Isso denota um certo caráter da reescrita historiográfica. cada vez mais re-dutores numa tradição literária que, desde
Ademais, o destaque para a marca discursiva dessa mesma es­ suas “origens” se faz efeito de uma leitura que produz
crita, reitera o valor da leitura como instrumento de constituição verdades ficcionais, na busca de uma sustentação consis­
do citado discurso historiográfico, numa dinâmica de atuali­ tente para um projeto identitário que continua em seu curso
zação de sentidos, nos moldes da recepção literária. O que de constituição. A questão não encontra uma resposta, mas
pretendo desenvolver não tem como objetivo uma desconstru- várias, e todas elas com sua parcela de importância, rele­
çâo de cânones ultrapassados. Vencendo os limites estreitos de vância e pertinência. O assunto, então, passa a ser abordado
uma “denegação” marcada por modismos rasteiros, ou pela a partir de determinados pontos de vista que, em certos
falácia de leituras fáceis, busco delinear os caminhos possíveis casos, chegam a criar o próprio objeto. Tanto é assim que
para uma mesma e constante questão: a historicidade do texto não se pode esquecer de que o texto erótico - esse que é lido
literário. É o que Hayden White chama de “ir e vir” nos pelo já mencionado olhar - se apresenta como uma repre­
movimentos e deslocamentos provocados pelo discurso que a sentação que depende da época, dos valores, dos grupos

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sociais, das particularidades do escritor, das características ocasionalmente usada em História para descrever laços sociais
da cultura em que foi concebida. entre pessoas do mesmo sexo; é um neologismo obviamente
Acredito que essa linha de raciocínio colabora para a formado por analogia a “homossexual” e, da mesma maneira,
elaboração da hipótese de trabalho que vai ser circunscrita ao significa, obviamente, a distinção que esse sintagma opera. Na
longo do próprio processo de investigação. Falo de uma litera­ realidade, o termo é aplicado a tais atividades como “união
tura normalmente ligada à produção feminina que, por circuns­ masculina”, o que pode ser caracterizado como discurso
tâncias histórico-contextuais sempre se vincula à constituição intensamente homofóbico. Trata-se de um neologismo meto­
seguida da sua expressão — de uma identidade sempre sufo­ dológico, oportuno e necessário para a veiculação do exercício
cada, recalcada, subliminar, marginal. A lista dos adjetivos de leitura a que me proponho. É na perspectiva desse "princí­
pode ser imensa e a Psicanálise pode nos auxiliar a desvendar pio” de leitura que a minha proposta se sustenta. Antes de ser
os mistérios que essa escrita historiográfica também encena. reduzida a um inventário crítico-interpretativo de uma literatura
Digo isso, porque esse “comportamento ambíguo” da meta- homoerótica - entendida como produção peculiar de um modo
linguagem, que institui o espaço do erótico no texto literário, de ver um mundo, legitimadora de uma temática peculiar -, esse
obrigou esse mesmo espaço a refugiar-se no domínio do discurso historiográfico explicita uma “leitura” da própria
implícito, do não dito, das entrelinhas, do sussurro que, com o História da Literatura, não mais submetida a um cânone, mas
tempo, passou a ser aceito quase como característica peculiares dinamizadora de outros(s) cânone(s), constituído(s) pelos
de um certo tipo de texto. rastros e vestígios que temas diferenciados vão deixando nos
Quando retomo a questão do “erotismo”, não o faço no textos. Em outras palavras, não procuro elementos homo-
sentido de sustentar a hipótese de que os textos aqui referidos eróticos nos textos, para ratificar a presença deles no cânone
podem ser tomados como “exemplos" dessa temática particular. que a História da Literatura (tradicional) consagra. Indo na
A referência ao erotismo, articulada a uma proposição da ordem direção oposta, desejo, com os traços e vestígios dessa
do historiográfico, supõe o entendimento de que é possível categoria, o homoerotismo, construir uma leitura outra da
sustentar um discurso que, historiograficamente, “realiza” a História da Literatura; quem sabe, até, instituindo um cânone
leitura do erótico, na perspectiva da historicidade do texto outro, menos moralista e inflexível.
literário. Em outras palavras, o homoerotismo, aqui. não se quer Uma ilustração aqui seria o conto de Machado de Assis
chancela identitária do texto como "produção" literária, mas, "Pílades e Orestes”, em que os protagonistas, Gonçalves e
antes de qualquer coisa, viés crítico que, a partir de certos Quintanilha, são os dois títeres do narrador na elaboração, in
“protocolos de leitura” estabelece um princípio anterior, o da absentia, do discurso homofóbico subliminar à própria
‘homossociabilidade”, o mesmo que foi considerado como narrativa. Em 1906, Machado de Assis publica Relíquias de
premissa de trabalho por Eve Kosofsky Sedgwick, no subtítulo casa velha, ao qual antepôs o soneto “A Carolina”, poema em
de seu livro Between Men: English Literature and Male Social que “canta” o amor conjugal. Um dos contos do volume — já
Desire, ou seja, uma espécie de processo discursivo-cultural referido — apresenta um enredo curioso: dois amigos, Quin­
que marca discriminações e paradoxos. Desejo homossocial tanilha e Gonçalves, que poderiam ser descritos como de classe
• masculino é um tipo de oximoro; “homossocial” é uma palavra média acomodada, nutrem um profundo e sólido afeto um pelo
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outro, numa verdadeira comunhão de vida, até que o primeiro momento mais eloqiiente desse “silêncio”, que percorre todo o
deles se enamora de uma parenta, Camila; depois de muita conto, é aquele em que Quintanilha expõe a Gonçalves seus
hesitação, Quintanilha conta ao amigo seu interesse pela moça planos de casamento com Camila:
e, diante da enigmática e fria reação de Gonçalves, conclui que - Você aprova, Gonçalves?
este também deveria amá-la; então, numa decisão súbita (mas Gonçalves empalideceu, - ou, pelo menos, ficou sério; nele a
eu diria em nada surpreendente, nos parâmetros discursivos seriedade confundia-se com a palidez. Mas, não; verdadeiramente
aqui considerados!), Quintanilha simplesmente desiste do ficou pálido.
casamento planejado em prol do companheiro, que vem - Aprova? repetiu Quintanilha.
efetivamente a casar-se com Camila. A união dos dois amigos é Após alguns segundos, Gonçalves ia abrir a boca para responder
descrita em termos “fortes”: mas fechou-a de novo, e fitou os olhos “em outrem”, como ele
A vida que viviam os dois, era a mais unida deste mundo. mesmo dizia de si, quando os estendia ao longe.’
Quintanilha acordava, pensava no outro, almoçava e ia ter com No emudecimento de Gonçalves e na incompreensão do
ele. Jantavam juntos, faziam alguma visita, passeavam ou próprio Quintanilha, tem-se o silenciamento não apenas de uma
acabavam a noite no teatro. fala, mas da própria experiência do mútuo afeto que ambos
viviam e que não tinham outra linguagem para se pensar e
A união dos dois era tal, que uma senhora chamava-lhes os expressar senão a da amizade. O narrador, por sua vez, dispõe
“casadinhos de fresco”, e um letrado, “Pílades e Orestes.”6 de alguns recursos expressivos a mais que suas personagens,
No entanto, essa relação tem um quê de melancolia e mas tampouco consegue nomear diretamente a singularidade da
sofrimento, não sendo totalmente simétrica: amizade de Quintanilha e Gonçalves. Desses recursos, dois são
Eles riam, naturalmente, mas o riso de Quintanilha trazia alguma particularmente significativos: a alusão à cultura greco-romana
coisa parecida com lágrimas: era, nos olhos, uma ternura úmida. e a comparação com o amor paterno. As duas estratégias — e,
Outra diferença é que o sentimento de Quintanilha tinha uma nota sobretudo, a primeira — desempenharam historicamente um
de entusiasmo, que absolutamente faltava ao de Gonçalves; mas, importante papel nos esforços para se pensar e dizer com
entusiasmo não se inventa. É claro que o segundo era mais capaz dignidade o homoerotismo.
de inspira-lo ao primeiro do que este a ele.7 No final do século XIX/início do século XX, os elementos
Por isso, diz-nos o narrador que Quintanilha não era homoeróticos das culturas antigas são tomados como verda­
inteiramente feliz e também que "uma pancadinha no ombro ou deiros modelos a partir dos quais se procura plasma’ uma nova
no ventre, com o fim de aprová-lo ou só acentuar a intimidade, linguagem que rompa o silenciamento da própria experiência,
era para derretê-lo de prazer. Contava o gesto e as circuns­ como vemos, com elegante ironia, nesse conto. Na ausência de
tâncias durante dois e três dias.”8 Dois aspectos chamam outro referencial cultural, volta-se ao passado, em busca de
imediatamente a atenção nesse conto de Machado de Assis. Em formas para se pensar o presente e eventualmente planejar o
primeiro lugar, o caráter inefável da relação entre Quintanilha e futuro. A alusão ao amor fraterno, por sua vez, é outro recurso,
Gonçalves, na apenas no discurso que o narrador dirige ao empregado com muita sutileza pelo narrador machadiano, nesse
leitor, mas, sobretudo, no discurso das próprias personagens. O mesmo sentido de procurar dizer o indizível. Tendo o cuidado

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de observar que os personagens “eram quase da mesma idade”, e naturalistas as que primeiro conseguirão dizer literariamente
assim justifica o narrador tão inesperada comparação: “A idéia o homoerotismo no arco temporal que pode ser aqui tomado em
da paternidade nascia das maneiras com que o primeiro tratava consideração. As configurações que lhe dão estão inequivoca­
o segundo; um pai não se desfaria mais em carinhos, cautelas e mente marcadas pelos seus respectivos códigos, como requinte
pensamentos”.10 ou abjeção, nos termos acima apontados. Nesse sentido,
Não obstante esses esforços por encontrar uma linguagem sublinhem-se o pioneirismo e a independência literária de
apta a enunciar a especificidade do afeto de Quintanilha e Machado de Assis, em sua maneira de perspectivar o homo­
Gonçalves, mantém-se, até o final do conto, o silenciamento da erotismo fundamentalmente como essa relação afetiva não
experiência dos dois amigos. Morto Quintanilha, o narrador nomeável que, no entanto, habita o espaço trivial da existência
pode tentar ainda, numa última ironia, tomar eloqüente o cotidiana de pessoas comuns, como se pode 1er.
próprio silêncio. “Orestes vive ainda, sem os remorsos do Ainda que não seja possível aqui desenvolver os dois
modelo grego. Pílades é agora o personagem mudo de Sófocles. tópicos acima delineados, não se pode negar a veracidade das
Orai por ele!” " Cabe mencionar de passagem que esse constatações apresentadas. Por um lado, a questão da lin­
silenciamento é de tal ordem, que ainda em 1959 um crítico do guagem narrativa se destaca, ressaltando o "espírito da leitura
porte de Astrojildo Pereira pôde analisar longamente o texto que se pretende fazer do conto de Machado de Assis. Por outro
machadiano em questão, sem se dar conta do caráter homo- lado, os desdobramentos críticos oriundos dessa mesma leitura
erótico da relação das duas personagens, que ele descreve como não deixam de reiterar a possibilidade de considerar o operador
“dois amigos como se fossem dois irmãos”, comparação essa “homoerotismo”, como não apenas possível, como também
que absolutamente não aparece no conto do escritor fluminense consistente. Em ambos os aspectos, o conto aqui apresentado se
e altera-lhe profundamente o alcance.12 oferece de maneira evidente à leitura pretendida, sem se
O segundo aspecto digno de nota a esse respeito, em incorrer nos riscos mencionados logo no início do artigo. De
Machado de Assis, e que se vincula estreitamente ao processo qualquer maneira, tomando o quadro de referência da crítica
de silenciamento que acabei de apontar, é o meio social em que literária finissecular, essa leitura não deixa de criar uma
se passa a história, uma classe média urbana com instrução su­ excelente oportunidade de exercitar o olhar crítico sobie a
perior e pacatos e comedidos hábitos burgueses Pelo menos no historicidade da obra literária, nos termos postulados por Jauss.
âmbito das literaturas de língua portuguesa do final do século Nesse sentido, o operador escolhido “interfere no espaço
XIX/início do século XX, trata-se, nesse particular, de uma imaginário criado pelo texto do conto, de maneira a consolidar
exceção. Em geral, o homoerotismo aparece configurado como a dinâmica da leitura do conto, numa perspectiva
índice de extremo refinamento ou revoltante aviltamento da historiográfica.
A História da Literatura se diz em fragmentos que podem
personagem, mas não como uma possibilidade de vida, entre
outras, para pessoas comuns provenientes dos estratos médios ser encontrados em várias obras, fragmentos que podem nos
da sociedade. Daí a ausência de uma linguagem socialmente falar de um “modo de ser” de uma identidade que a herança
aceita, que fosse apta a dar conta dos sentimentos de Quin­ positivista da História não dá conta de operar. Aqui se pode
tanilha e Gonçalves. Na verdade, são as estéticas decadentistas identificar o “efeito” que o princípio da homossociabilidade

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causa, a partir do momento em que acatamos esse protocolo de de real, de que fala Iser, se faz sentir de maneira definitiva e
leitura. E esse processo historiográfico que cria a oportunidade inquestionável.
de se falar de uma leitura homoerótica de textos literários que, Nesse sentido, estou destacando aqui a responsabilidade do
não necessariamente, lidam com o tema de maneira explícita. leitor nesse processo de identificação das assertivas feitas pelo
Nesse sentido, o escritor poderia ser “recolocado” na tradição texto. Digo isso porque nem mesmo uma biografia resiste ao
de sua literatura nacional, de uma maneira a renovar a enleio do imaginário, entregando-se à sedução de tomar o
vitalidade da leitura possibilitada por seus textos, ainda que a desejável em visível - ainda que isso implique em atropelar o
crítica tradicional não tenha deixado espaço para essas evidente. Na interpretação do texto literário, o espaço para
“variações sobre um mesmo tema”. projeções é infinitamente maior e se constitui como parte in­
A História da Literatura, nos termos em que a deseja o tegrante do processo de escrita da História da Literatura. Na
próprio Jauss, se faz a partir de um exercício de leitura, mas verdade, não só a polissemia intrínseca à literatura toma-se
aquela prenunciada por Stierle, quando fala da “invenção” de esquiva também à intencionalidade do escritor; mas também a
uma realidade imaginada a desdobrar a ultrapassada dicotomia distância no tempo e no.espaço, as diferenças culturais e
entre texto pragmático e texto poético. Em outras palavras, falo sociais, as idéias e perspectivas por vezes antagônicas à
aqui de uma leitura que se quer produtora não apenas e somente ambiência intelectual em que a obra foi gerada, constituem o
de sentidos diversificados para um texto literário. A leitura a interminável descampado onde vagueia o leitor em busca de um
que me refiro deseja operacionalizar os seus protocolos como sentido para o texto.
vetores de uma releitura da obra, em fun-ção de sua nova O enunciado ficcional é uma hipótese sujeita à comprova­
“colocação” numa série literária que sempre a tomou como um ção ou rejeição - parcial ou integral, como toda formulação
exemplo do canônico. Quando aponta para as opões necessárias hipotética. Não poder-se-ia localizar aí o exercício da historici­
para contrapor leitura pragmática de leitura ficcional para um dade da obra literária? A atitude do leitor deve ser como a do
texto, Stierle inaugura o espaço da leitura quase pragmática, a estrangeiro que constantemente se pergunta se o que está
que se dá o direito de intervir na própria história de leitura do entendendo é de fato o que dizem os nativos - ou seja, se sua
texto, na medida em que possibilita pensar no “universo” compreensão enquadra-se nas possibilidades lógicas de sentido
ficcional como uma dobra ficcional da própria realidade. Não de uma frase ou verso. O desrespeito à alteridade do mundo
se pode, então, ler os textos a partir de paradigmas tradici­ ficcional, fundada na sua realidade auto-referencial, incorre no
onais, para tentar renovar os sentidos possíveis anunciados risco de uma inteipretação tributária das fantasias do intérprete.
discursivamente pelo texto. Numa outra direção, a leitura Nessa direção, a referida escrita da História da Literatura
inaugura o espaço do imaginário como configurador de um resultaria viciada e viciosa.
discurso que pleiteia para si o status de plataforma para uma re- A referência aqui apontada reforça os raciocínios e
inserção do texto numa série outra, o que se constitui num fruto afirmações de Karlheinz Stierle, quando, em seu texto “Que
da própria leitura, operada pelos protocolos que esta exige significa a recepção dos textos ficcionais”, propõe e explicita a
como suportes, aqueles que transformam esse mesmo discurso sua teorização sobre uma leitura quase pragmática do texto
num exercício historiográfico de “atualização” da obra. O efeito ficcional. Em síntese, a idéia que me interessa aqui é a de que a

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ficção leva o leitor a. imaginariamente, considerar a concretude introduz nas variações imaginativas do ego. A metamorfose do
da realidade, sem a necessidade de um “referente” extrínseco ao mundo, segundo o jogo, também é a metamorfose lúdica do ego.1'
texto. Em outras palavras, a proposição de Stierle se baseia na O caráter implícito da narrativa de Machado de Assis
idéia de que, abolindo a dicotomia excludente entre texto ilustra bem a tese de Ricoeur. na leitura do discurso homo-
pragmático e texto poético, a leitura de textos ficcionais inau­ erótico da narrativa: o tema não se explicita, mas de uma
gura o espaço do quase pragmático: evitando a imediatez de um maneira ou de outra a referência aparece discursivamente
referente “externo", o texto ficcional “cria” o seu próprio constituída, contando com a participação ativa da subjetividade
referente, fazendo com que seja possível ler “quase pragmatica­ do leitor. Quando da triangulação amorosa entre Quintanilha e
mente” as suas proposições. Gonçalves e Camila, percebe-se a elaboração homofóbica
Uma interpretação é plausível tanto quanto evite preten­ subliminar do discurso do narrador:
sões totalizantes— ou melhor, avizinha-se da totalidade sem, Não se advinha todo o resto; basta saber o final. Nem se
contudo, esmagar na obra o espaço multifário para outras apro­ adivinha nem se crê; mas a alma humana é capaz de esforços
ximações. Visto em sua condição peculiar, a partir da perspec­ grandes, no bem como no mal. Quintanilha fez outro testamento
tiva não menos singular do leitor, o texto necessita ser legando tudo à prima, com a condição de desposar o amigo.
reconhecido primeiramente em sua temporalidade, distante do Camila não aceitou, mas ficou tão contente, quando o primo lhe
universo em que se concretiza sua leitura extemporânea. falou das lágrimas de Gonçalves, que aceitou Gonçalves e as
Interpretar deve começar pela tarefa de re-constituir as lágrimas. Então Quintanilha não achou melhor remédio que fazer
perguntas às quais, tanto do pronto de vista formal (literário), terceiro testamento legando tudo ao amigo.14
quanto sociocultural (histórico), o texto respondia em sua A questão do testamento e a troca de testamentário (que
época, numa espécie de arqueologia do horizonte original das acompanha o ritmo alucinado de uma “paixão” inconfessável,
expectativas que iluminaram sua criação. Assim, a leitura pode produzem no leitor uma sensação de estranhamento que pode
falar do leitor, às vezes, mais do que do próprio texto. Esse muito bem ser lida como a percepção da moralidade finisse-
processo revela os desejos (ainda que escusos e/ou denegados) cular ditando as “normas” de comportamento. O desejo latente
desse mesmo leitor na composição de sua leitura: seus rastros de “doar” tudo ao amigo faz com que Quintanilha legue tudo à
aparecem indeléveis na escrita da História, também. Como quer prima, para, depois da reação desta, legar tudo ao amigo,
Paul Ricoeur: definitivamente. Camila funciona como o vértice do triângulo,
[...] assim como o mundo do texto só é real na medida em que é a chancela burguesa da relação inefável entre os dois amigos,
fictício, da mesma forma devemos dizer que a subjetividade do “casadinhos de fresco”, nas palavras de uma personagem.
leitor só advém a ela mesma na medida em que é colocada em Como diz o narrador, “a alma humana é capaz de esforços
suspenso, irrealizada, potencializada, da mesma forma que o grandes, no bem e no mal”. Subrepticiamente, o discurso
mundo manifestado pelo texto. Em outras palavras, se a ficção é narrativo deixa entrever a pena da moral burguesa, vetando o
uma dimensão fundamental da referência do texto, não possui caráter homoerótico da relação entre Quintanilha e Gonçalves
menos que uma dimensão fundamental da subjetivi-dade do quando nela se intromete Camila, títere do narrador na referida
leitor. Só me encontro, como leitor, perdendo-me. A leitura me triangulação.

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Persigo a constituição de uma identidade cultural reme­
que penso ser possível recolocar questões de cunho historio-
tendo meu vetor de orientação para as relações entre as litera­
gráfico para a leitura do conto de Machado de Assis. Para além,
turas brasileira e portuguesa. Por um lado, o fator histórico
muito além, da representação de um momento, de um passus da
cultural é determinante, uma vez que o processo de constituição
vida nacional, a micro-análise do comportamento burguês
das identidades culturais apresenta traços comuns e diferenças
re\ ela algo que, guardadas as devidas proporções, jamais teria
que acabam por contribuir para a releitura sempre necessária
passado pela mente engenhosa e enigmática do bruxo do
das obras que a sustentam e representam. Sigo aqui os passos
Cosme Velho. Quem pode garantir?
de Octavio Paz quando, a propósito do erotismo, argumenta:
Tentando atar as duas pontas do fio, o que eu desejo está na
[...] desejo sexual é algo mais; e esse algo mais é o que constitui
idéia de que as possibilidades de leitura apontam para uma
sua própria essência. Esse algo se nutre da sexualidade, é
outra face da obra de Machado de Assis: uma erótica mascu­
natureza; e, ao mesmo tempo, a desnatureza [...] não se deixa
lina. Não desejo reduzir o estudo a um alinhamento com a
reduzir a um princípio; seu reino é o da singularidade irrepetível;
questão de gênero, em termos absolutos, como foi dito no
escapa continuadamente à razão e constitui um domínio
princípio. No entanto, tenho necessidade de operar com seus
ondulante, regido pela exceção e o capricho [...] não há diferença
conceitos, uma vez que estou questionando a plausibilidade ou
essencial entre erotismo e sexualidade: o erotismo é sexualidade
na° de Pensar numa escrita homoerótica como elemento que
socializada, submetida às necessidades do grupo, força vital
abra espaço para uma outra leitura da História da Literatura.
expropriada pela sociedade; é a forma de dominação social do
Ambas as relações de poder, entre gêneros e entre nacio­
instinto, irriga o corpo social sem expô-lo aos riscos destruidores
nalismo e imperialismo, por exemplo, estavam em crise
da inundação.15
altamente visível, quando da escrita dos textos em questão.
Como se pode deduzir, quando se fala de alguma coisa
Por isso, e porque a estruturação de laços de mesmo sexo
ligada à nossa experiência subjetiva, fala-se,inexoravelmente,
não pode, em qualquer situação histórica marcada por
de uma experiência mais ampla, nacional, poder-se-ia dizer. É
desigualdade e competição entre gêneros, ser um espaço de
de si mesmo que oleitor fala quando explicita suas constatações
regulamento intensivo que cruza virtualmente todo assunto
a partir dos protocolos de leitura por ele estabelecidos. No
de poder e gênero, é possível desenhar linhas para circuns­
entanto, esses mesmos protocolos se consolidam “na” leitura,
crever, dentro do próprio domínio da sexualidade, tudo o
como operadores de uma cultura que perpassa e (mesmo)
que poderia ser o conjunto das consequências de uma troca
ultrapassa a própria subjetividade do leitor. E claro que não
de discurso sexualizante.
quero “forçar” um posicionamento para Machado de Assis,
Uma compreensão virtual de qualquer aspecto de cultura
enquanto autor. No entanto, o silêncio de seu narrador, quando
Ocidental moderna deve ser, não meramente incompleta, mas
do silenciamento de evidências homoeróticas, reveladas pelo
transformada” em sua substância central num grau que não
próprio discurso, escapam do controle autoral (supostamente
incorpora uma análise crítica de definição do que seja
consciente), autorizando o leitor a engendrar sentidos outros
homoerotismo ou, antes, homossociabilidade erótica e deve
que acabam por revelar aspectos de sua própria subjetividade e
assumir que o lugar apropriado para tal análise crítica, para
da cultura que o circunscreve. E nesse “jogo” de articulações
começar, e o de uma relativa perspectiva de descentramento

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entre o que seja essencialmente erótico e relacionalmente histo- seu discurso narrativo-ficcional e as que acabam por dar voz ao
riográfico. As contradições que parecem muito ativas não são, discurso homofóbico (ainda que implícito), que as faz penetrar
por um lado principalmente, de caráter essencial para as no cânone.
interpretações literárias da passagem do século XIX para o No entanto, cada uma delas, por seu turno, oferece uma
século XX, que deveriam considerar importante a definição de segunda e uma terceira possibilidade operacional desse mesmo
homoerotismo como um assunto de relevância ativa, para uma discurso narrativo. Existe a triangulação do desejo que, meta­
proposta historiográfico-crítica distinta. Vejo isto, por outro foricamente, desloca o eixo de atenção do leitor menos avisado,
lado, como um assunto contínuo, de importância determinada por meio de mascaramentos narrativos e interferência de
na vida das literaturas brasileira e portuguesa pelo espectro de “esquemas” dramáticos, moral e socialmente aceitos, o que ex­
manifestações culturais, inclusive aquelas oriundas desse plica o veto burguês finissecular a esse mesmo desejo— exem­
mesmo princípio de homossociabilidade. plo claro de discurso homofóbico, herança naturalista. Não
A contradição entre perceber e escolher a homossociabili­ seria exagerado pensar ou considerar a questão da homofobia
dade, por um lado, como um assunto de limites, bordas, da própria crítica, para o contexto do final do século XIX, pois
fronteiras ou gêneros de transitividade e, por outro lado, como os exemplos são inúmeros e já referidos pelo próprio cânone
reflexo de um impulso de separatismo (necessariamente literário mais tradicional. O homoerotismo estaria sendo expli­
político, em cada gênero), não impede a visada historiográfica citado, então, caso seja aceito esse protocolo.
que me parece pertinente, pois, recuperando o horizonte de Outros textos explicitam um conjunto de rastros e vestígios
expectativas “original” das obras, ou melhor, de sua leitura, é que, articulados num discurso que leia esses mesmos elementos
possível estabelecer novos protocolos de leitura, que acabem como marcas de um certo homoerotismo, sugerem um "clima”
por se sustentar, apenas e somente, se estes forem veiculados dessa natureza, que estaria marcando a particularidade da
por discur-sos que privilegiem os já referidos paradigmas. Isso narrativa. Em síntese, a tematização, a sugestão e os meca­
nada mais é que a consolidação da marca da historicidade da nismos protocolares de leitura podem ser tomados aqui como os
obra literária. três eixos de sustentação da proposta de reescrita da historio­
A escrita de uma literatura homoerótica não poderia me grafia literária, na perspectiva da leitura do homoerotismo,
levar a repensar o caráter homofóbico que rege as leituras como discurso construído a paitir da operacionalização narra­
canônicas de suas respectivas obras? Penso assim porque o tiva do “princípio” da homossociabilidade. E esse princípio que
campo em que se inscreve essa investigação é também outro e, rege, aqui, a leitura de “Pílades e Orestes”. Não se trata de uma
nesse sentido, esse tipo de obra pode abrir espaço para a novela amorosa entre dois burgueses na cidade do Rio de
circunscrição metodológica de um outro cânone. Essas são Janeiro, finissecular: um romance “gay” avan! la lettre, para os
questões que me obrigam a uma parada estratégica. Essa padrões literários nacionais da época. Ao contrário, trata-se de
conclusão necessita, aqui, para ser consolidada, de uma última uma narrativa “tradicional”, em que, de maneira engenhosa,
observação reiterativa. Por razões diversas é possível afirmar ainda que não tenha sido por opção “consciente”, o narrador
que são também obras literárias homoeróticas, aquelas que acaba por desvelar um foco homofóbico intrínseco à descrição
í “tematizam” explicitamente o homoerotismo como operador de da relação afetiva entre dois amigos. O recurso à mitologia

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poderia então, am biguam ente, especularmente, referendar 14. MACHADO DE ASSIS, op. cit., pp. 137-38.
am bos os protocolos de leitura: o do narrador, sobre a situação 15. PAZ, Octávio. A dupla chama. Tradução de Wladyr Dupont.
sócio-cultural que serve de pano de fundo para a trama; e o do São Paulo: Siciliano, 1994, p. 35.
leitor, sujeito de um exercício de com posição discursiva que
desvela o inefável. Jogo especular de imagens discursivas que o
UFOP - ICHS
texto de M achado de A ssis oferece, sem falso pudor.
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Centro
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foureaux@barroco.com.br
1. COSTA, Jurandir Freire. A inocência e o vício. 2 ed. Rio de
Janeiro: Relume-Dumará, 1992, pp. 21-22.
2. Allen, Dennis. Homossexualité et littérature. Franco-ltalica,
serie contemporânea, 1994, Alessandria, n° 6, pp. 11-27.
3. WEEKS. Jeffrey. “Inverts. Perverts and Mary-Annes: Male
Prostitution and the Regulation of Homosexuality in England in the
Nineteenth and Early Twentieth Century”. In: DUBERMAN, Martin et
alii (eds.). Hidden from History: Reclaiming the Gay and Lesbian
Past. New York: Meridian, 1990, pp. 195-211.
4. CHAUNCEY JR., George. “Christian Brotherhood or Sexual
Perversion?: Homosexual Identities and the Construction of Sexual
Boundaries in the World War I Era”. In: DUBERMAN, Martin et alii
(eds.). Op. cit. 1990, p. 196.
5. DOLLIMORE, Jonathan. Sexual Dissidence: Augustine to
Wilde, Freud to Foucault. Oxford: Craledon Press, 1996, p. 39.
6. MACHADO DE ASSIS. Relíquias de casa velha. Rio de
Janeiro: São Paulo: Porto Alegre: W.M. Jackson, 1952, pp. 125-28.
7. Idem, p. 128.
8. Idem. p. 129.
9. Idem, p. 133.
10. Idem. p. 123.
11. Idem. p. 138.
12. Verificar PEREIRA, Astrojildo. Machado de Assis: ensaios e
apontamentos avulsos. Rio de Janeiro: São José, 1959, p. 211.
13. RICOEUR, Paul. Interpretação e ideologias. 2 ed. Tradução
de Hilton Japiassu. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983, pp. 58-59.

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