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TWKliek apresenta:

Sabrina Jeffries
Seduzir um Patife
Série Escola de Senhoritas 01

A nova série da aclamada autora Sabrina Jeffries apresenta às decididas alunas da Escola de
Senhoritas da senhora Harris, ricas herdeiras nada convencionais que são mais que um bom
partido para os patifes mais irresistíveis da alta sociedade londrina. Lady Amélia Plume tem
muitos admiradores. Que pena que todos sejam ou desavergonhados caça fortuna ou dandis
efeminados incapazes de lhe oferecer as exóticas aventuras que deseja. Mas os bailes no central
e luxuoso bairro londrino de Mayfair são mais interessantes desde a chegada do comandante
Lucas Winter, um americano com um sombrio passado e um ar irascível. Lucas é impetuoso,
arrogante... e escandalosamente enganador. Entretanto ela suspeita que o comandante só
esteja cortejando-a por um intrincado motivo oculto e sua intenção é descobrir qual, mesmo que
para isso tenha que fazer o impensável...

Disp em Esp: Elloras Digital


Envio do arquivo: Lisa de Weerd
Revisão Inicial: Dani Dp.
Revisão Final: Matias Jr.
Formatação: Greicy
TWKliek

Comentário da Revisora Dani: Amei o livro e para quem gosta, tem muitas cenas hots.

Comentário do Revisor Matias Jr.: Um ótimo histórico com mais uma daquelas "virgens"
terríveis que destroçam um pobre valentão... E pra variar, um "soldado tão imponentemente
forte"... que sucumbe as artimanhas de uma aventureira.

À maravilhosa Suse.
Não poderia ter feito sem você.

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Capítulo 1

Londres, junho de 1818

Querido primo Michael:


Sinto comunicar que durante as próximas semanas terei que me ausentar da escola já que
estarei em Londres, me encarregando de lady Amélia enquanto seu pai e madrasta se acham fora
da cidade. Agradecerei que não deixe de me enviar suas missivas. Precisarei de seus sábios
conselhos, posto que lady Amélia é uma moça extremamente esperta (atrever-me-ia a dizer que
quase tanto quanto eu), capaz de aprontar uma confusão antes que termine a temporada de
festas.
Sua,
Charlotte

Quem ia imaginar que as festas pudessem ser tão entediantes?


Lady Amélia Plume não, certamente. Quando chegou a Londres pela primeira vez
proveniente da pequena localidade costeira de Torquay, cada encontro social, cada baile, cada
noitada, resultou ser uma caixa de surpresas agradável.
Mas isso já fazia dois anos, antes que percebesse que todas as recepções eram iguais. E o
baile anual da primavera que organizava a viscondessa viúva de Kirkwood não era uma exceção, a
julgar pelo enxame de pessoas que Amélia esquadrinhou enquanto entrava no salão de festas
decorado com rosas. As mesmas pessoas insípidas de sempre: dandis efeminados, senhoras
fofoqueiras e jovenzinhas muito tolas. Nenhuma dama aventureira com um mínimo de decoro se
dignaria a ficar.
Infelizmente, havia prometido a lady Venetia Campbell, sua amiga escocesa, que assim o
faria. Pelo menos Venetia, que avistou a escassos metros, sabia como animar uma noite
entediante.
— Graças a Deus que veio! — exclamou Venetia enquanto se aproximava. — Estava
morrendo de tédio. Aqui não há ninguém que valha a pena.
— Ninguém? — inquiriu Amélia, exagerando sua decepção. — Nenhum embaixador nem
nenhum explorador recém-chegado do Pacífico? Nem sequer um cantor de ópera?
Venetia começou a rir.
— Me referia a algum homem interessante.
Para Venetia, isso significava um homem que transpirasse inteligência. Não que a jovem não
pudesse escolher o candidato que mais gostasse, inteligente ou não, entre o enxame de homens
ali presente; além de ser uma herdeira obscenamente rica, possuía o tipo de beleza que deixava os
homens loucos, com as tranças negras, a pele sedosa e os seios bastante... bastante volumosos.
Ao lado de Venetia, Amélia era abominavelmente normal: de estatura média e um tom de
pele nada destacável. Sua figura normal e comum jamais chegaria a inspirar rapsódias1, e sua
cabeleira castanha não decidia se era enrolada ou lisa.

1 Rapsódias: (1) Uma composição instrumental de forma livre composta de fragmentos de outras obras ou pedaços de
músicas folclóricas: As Rapsódias Húngaras e espanholas. (2) Fragmentos de um poema épico, é frequentemente recitado de forma
independente, especialmente a dos poemas homéricos foram recitados na Grécia antiga pelos bardos.

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Mas pelo menos tinha bastante volume, e o mantinha brilhante com uma pomada e uma
loção de madressilva de sua madrasta americana. Os olhos de Amélia não eram verdes de sereia
como os de Venetia, mas os homens os descreviam como vivazes e seus seios, normalmente,
conseguiam chamar atenção. Em resumo, Amélia também possuía sua cota de encantos
modestos... e de pretendentes modestos. Certo, à maioria dos homens só interessava seu dote
nada modesto e sua destacada posição como filha do conde de Tovey.
De todos os modos, ela não albergava intenções de casar com nenhum deles, nem com o
marquês de Pomeroy, um general reformado que estava atrás dela e de sua fortuna, nem com o
filho da anfitriã, o visconde Kirkwood, que lhe fez uma proposta no ano anterior.
Amélia aspirava a uma vida mais aventureira; queria percorrer a Turquia como lady Mary
Wortley Montagu, ou viver na Síria como a legendária lady Hester Stanhope.
— Bem, a verdade é que há sim uma pessoa aqui que ambas achamos interessante; refiro-
me ao primo americano de lorde Kirkwood — manifestou Venetia enquanto fazia gestos com a
cabeça para um ponto atrás de Amélia. — Parece que o comandante Lucas Winter está na
Inglaterra por uma missão com o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos.
Esperando encontrar um indivíduo curtido e com o cabelo grisalho, Amélia seguiu o olhar de
Venetia. Então, olhou-o fixamente. Por todos os Santos, como era possível que tivesse lhe
escapado semelhante espécime quando entrou?
O comandante Winter se sobressaía no lotado salão de baile como um falcão no meio de
pombos, embutido em um elegante uniforme com casaca azul com cós de galão de ouro e uma
larga faixa vermelha que acentuava a estreita cintura.
Em apenas observar sua figura, o coração de Amélia começou a pulsar mais rápido.
E não era só o uniforme. Seu cabelo, sem nenhum fio grisalho, era da mesma cor azeviche
que as botas lustradas, e o tom dourado da pele pelo sol fazia que os outros cavalheiros
parecessem positivamente anêmicos a seu lado. Tudo nele evocava dias transcorridos no mar, em
meio de batalhas no Mediterrâneo. Quantas aventuras deveria ter vivenciado!
— É o que chamo de homem — remarcou Venetia. — Os americanos sabem crescer altos e
bonitos, não acha? Embora, para meu gosto, seus traços sejam um pouco duros.
Verdade. A mandíbula daquele indivíduo era muito angular e o nariz estreito ficava longe de
poder considerar bonito. Além disso, com certeza qualquer cavalheiro inglês criticaria as
sobrancelhas tão cheias e indomáveis. Mas mesmo que sua aparência fosse outra, enquanto esse
homem luzisse esse olhar tão descarado e desafiante, continuaria parecendo tosco.
E fascinante.
— Ainda não pediu a nenhuma garota para dançar com ele. — Um brilho de malícia
apareceu nos olhos de Venetia. — Mas você adorará isto: dizem que viaja com um verdadeiro
arsenal. Se continua insultando nossos soldados, talvez tenha que recorrer a seu arsenal.
— Os insultou? — Maldição. Por ter chegado tarde, perdeu tudo.
— Disse a lorde Pomeroy que os americanos ganharam o último conflito conosco porque os
oficiais ingleses mostram mais interesse em passear que nas armas.
Amélia soltou uma gargalhada. Não custava nada imaginar como o general teria tomado
esse comentário; especialmente vindo de um homem como o comandante, que claramente via a
Inglaterra como território inimigo, mesmo que a guerra tivesse acabado três anos antes. Enquanto
o comandante Winter tomava um gole de champanha, dedicou-se a sondar o salão de baile com

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um ar de desenganada frieza, como se tratasse de um espião em uma missão de reconhecimento.
— É casado? — perguntou Amélia.
Venetia franziu o cenho.
— Agora que penso, ninguém comentou nada a respeito.
— Espero que não seja. — Amélia lançou outro olhar furtivo para ele. — Deve ser
extraordinariamente valente, para fazer frente aos velhos inimigos em seu próprio território.
— E, além disso, deve ter algo mais que um pau de madeira sob a saia xadrez — adicionou
Venetia, delatando seu sangue escocês.
Amélia a olhou com receio.
— Voltou a ler aquele livro sobre os contos do harém, não é?
— Asseguro que é realmente informativo. —Venetia baixou a voz até convertê-la em um
sussurro. — O que acha? Terá o comandante uma "espada" digna de ser venerada com a boca?
— Santo céu! Nem sequer eu sou tão desavergonhada para especular sobre a "espada" do
comandante.
Venetia começou a rir.
— Sua madrasta ficará encantada de ouvir isso.
Amélia também riu.
— Ai, minha pobre Dolly; já está o suficientemente desesperada comigo para que lhe dê
mais desgostos. Como odiava que seu falecido marido a levasse de um lado a outro pelo mundo
inteiro! Por isso não compreende que eu esteja tão disposta a me lançar à aventura ante a menor
oportunidade de viajar.
Desviou novamente o olhar para o comandante. Os fuzileiros americanos ficaram famosos
por lutar contra os piratas da antiga Barbária2, mas talvez ele fosse muito jovem para ter
intervindo nessas gloriosas batalhas.
Como Amélia faria para conseguir que os apresentassem e poder averiguar esse tipo de
detalhe? Lorde Kirkwood olhou na direção de Amélia e murmurou algo ao primo, que seguiu seu
olhar. Era a primeira vez que o americano olhava nessa direção, por isso lhe dirigiu um sorriso
cortês.
Mas ele não sorriu. Apertou os olhos e se limitou a contemplá-la com uma repentina
intensidade predatória, ato seguido, olhou para baixo descaradamente, percorrendo lentamente
seu vestido de seda da
China amarela com babados vermelhos. Em seguida seus olhos percorreram o caminho em
sentido contrário para novamente olhar seu rosto, e Amélia sentiu como suas faces ruborizavam
até ficar queimada.
Por todos os Santos! Que descaramento! Nenhum cavalheiro inglês ousaria olhá-la como se
a estivesse contemplando nua. Que intrigante... Um delicioso arrepio percorreu suas costas.
Então, o comandante colocou tudo a perder: saudou-a com um enérgico aceno de cabeça, e
em seguida voltou a centrar toda sua atenção no primo.

2 Berbéria ou Costa berberisca é o termo que os europeus utilizaram desde o século XVI até o XIX para se referirem às
regiões costeiras de Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia, ou seja, o atual Magreb, fora o Egito. O nome deriva dos berberes, então
chamados berberiscos. No Ocidente, o termo normalmente é usado para falar dos piratas da Barbária e dos comerciantes de
escravos que povoavam essas costas e baseavam nestas atividades sua economia e que supunham uma ameaça constante para as
embarcações comerciais e inclusive as cidades costeiras do Mediterrâneo.

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— Ora, ora. O que se pode deduzir desse proceder?
— E onde está sua madrasta nesta noite? — perguntou Venetia.
— Ela e papai foram para Torquay ontem— respondeu Amélia com ar ausente. Agora que
Dolly estava esperando o primeiro filho, seu pai adotou a determinação de mimá-la na campina
inglesa.
— Quase me obrigaram a ir com eles; felizmente, a senhora Harris aceitou vir à cidade para
cuidar de mim enquanto não requerem seus serviços na escola.
Amélia e Venetia se graduaram há dois anos na Escola de Senhoritas que era administrada
pela senhora Harris, que continuava mostrando um enorme afeto por suas pupilas - e o
sentimento era recíproco.
— Por isso as duas moças iam à escola uma vez ao mês para tomar chá e assistir as sessões
para senhoritas. Havia outro aspecto notável em relação à senhora Harris: sempre recebia uma
grande quantidade de informação de seu misterioso benfeitor, o primo Michael.
— Embora seja verdade que adoro à senhora Harris, eu não gostaria de tê-la como tutora —
se justificou Venetia. — Jamais permitirá um encontro em particular com nenhum cavalheiro.
— Com que cavalheiro Amélia pensa ter um encontro em particular? — proferiu uma voz
melancólica a suas costas.
Amélia soprou com desgosto. Tratava-se de lady Sarah Linley, outra antiga companheira da
escola. Amélia tentou ser gentil com ela, mas o pedantismo e o esnobismo de Sarah, a tola, lhe
causava uma aversão insuperável.
— Olá, Sarah. — Amélia tentou esboçar um sorriso cortês. — Precisamente, estávamos
falando da falta de homens que valham a pena esta noite.
— Como não? — exclamou Sarah. — Pois eu vejo vários; lorde Kirkwood, por exemplo.
— Pelo que ouvi dizer, tem intenção de casar com alguma rica herdeira — afirmou Venetia.
Sarah começou a brincar com um de seus cachos dourados.
— E eu sou uma rica herdeira, não é assim?
A filha do banqueiro também tinha feições requintadas, similares às de uma boneca de
porcelana. Que pena que não tivesse nada similar a um cérebro, dentro da bela cabecinha!
— Lorde Kirkwood jamais se mostraria interessado por você — espetou Venetia, sem
preocupar-se em ocultar seu desagrado pela antiga companheira de turma.
Por culpa das frequentes menções de Sarah sobre "esses asquerosos escoceses", as duas
jovens sempre estavam prontas para brigar.
— Ah, mas já o fez — atravessou Sarah, com voz condescendente. A seguir suspirou com um
acentuado dramatismo. — Infelizmente, a meus pais não parece certo. Papai chama lorde
Kirkwood de "nobre picareta" e anseia que me case com um comerciante de chá que tem muito
dinheiro. Só me deixaram assistir a esta festa porque sabiam que o comerciante também ia vir.
Podem imaginar isso? Eu! Casada com um comerciante de chá, quando poderia ser lady Kirkwood!
— Estou segura de que partirá o coração do visconde — soltou Venetia com sarcasmo.
— OH, mas a história não acaba aqui. — Sarah lançou um sorriso cheio de cumplicidade.
Amélia não desejava incentivá-la, mas Venetia não suportava a ideia de que Sarah soubesse
algo que ela não sabia.
— Seriamente? — animou Venetia.
Sarah se aproximou mais delas.

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— Prometam que não contarão a ninguém.
Venetia trocou um olhar fugaz com Amélia.
— Prometemos.
— A última vez que nos vimos, ele me entregou uma carta às escondidas, declarando suas
intenções.
Amélia quase não podia ocultar sua contrariedade. Tinha pensado que lorde Kirkwood era
um tipo inteligente, mas se realmente pretendia casar-se com Sarah, a Tola, então não lhe restava
dúvida de que esse homem estava totalmente louco... ou mais desesperado pelo dinheiro do que
aparentava.
— Escrevi uma carta de resposta. — Sarah adotou um ar trágico. — Mas esta carta está
destinada a permanecer em minha bolsa para sempre. Mamãe vigia o correio com receio, e me
ameaçou retirar todas as joias se dançar com lorde Kirkwood. — Desviou os olhos para o outro
lado da sala. - Mas não há nenhuma maneira de falar com ele por culpa do seu abominável primo.
As moças olharam para o comandante americano justo no momento em que este trocava
umas palavras com outros dois convidados. De repente os ânimos se acenderam no grupo, e lorde
Kirkwood precisou intervir para aplacar os cavalheiros.
Sarah suspirou.
— Cada vez que ele tenta aproximar-se de mim, o rufião do primo inicia um alvoroço com
alguém. E eu tampouco posso me aproximar dele descaradamente para lhe entregar a nota.
Alguém poderia ver, e sei que papai me mataria.
— Pois entregue a um criado - soltou Venetia com um tom beligerante.
— E se mamãe ficar sabendo? Ou e se o criado conta a alguém? Meus pais provavelmente
me trancariam em meu quarto ou me aplicariam algum castigo igualmente horrível.
— Poderia deixá-la em algum lugar onde ele não tenha problemas para encontrá-la —
sugeriu Amélia. — Como no escritório dele.
— Agora mesmo há um punhado de homens jogando cartas lá — explicou Sarah, com uma
careta petulante.
— Então deixa a carta sobre a cama dele — propôs Amélia, — ou melhor ainda, bem visível,
sobre o travesseiro. Nenhum criado se atreverá a retirá-la até que seu senhor a tenha visto.
Sarah a contemplou boquiaberta, e Venetia acrescentou, com um brilho malicioso nos olhos:
— Isso, Sarah, por que não sobe ao quarto dele e deixa a carta em sua cama?
— Sim, claro — balbuciou Sarah a contra gosto. — Vocês só querem é que me meta em uma
confusão para que assim possam ficar com lorde Kirkwood.
Amélia esteve a ponto de replicar que lorde Kirkwood havia tentado com ela antes de tentar
com Sarah, mas não podia ser tão cruel.
— Só digo que a casa é pequena, e há a escada de serviço, a que os criados usam-espetou
Amélia tensamente. — Poderia subir sigilosamente e deixar a carta antes que alguém repare em
sua ausência.
— Se é tão fácil, por que não faz você? — provocou-a Sarah. — Você é a que sempre sonha
com aventuras.
Amélia se dispunha a responder, mas subitamente ficou pensativa. Era verdade, adorava
aventuras. E subir com cautela, experimentar a fabulosa sensação de entrar silenciosamente no
quarto de lorde Kirkwood... por que não? Não pensava fazer isso por Sarah, é claro, mas só para

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averiguar se era capaz de conseguir.
Tampouco parecia que ia ocorrer nada excitante nessa noite. Além disso, provavelmente o
quarto do comandante ficasse também no andar superior. Poderia entrar e dar uma olhada ao
arsenal que Venetia mencionara.
— De acordo — respondeu Amélia. — Me dê a carta.
Sarah a olhou surpreendida, mas Venetia não pôde ficar quieta e objetou:
— Não seja ridícula. Não pode entrar no quarto de um homem.
— É a melhor maneira de nos assegurarmos de que lerá a carta de Sarah.
— É a melhor maneira de arruinar sua honra, se alguém a vê— espetou Venetia. — Pelo
amor de Deus! Por que não vai diretamente até ele e lhe entrega a carta diante de todos? Olhe, se
alguém a pegar, os falatórios deixarão sua reputação em pedacinhos.
— Se Amélia quiser me ajudar, por que não pode fazer? — protestou Sarah.
— Porque podem pegá-la, cabeça oca.
— Se me pegarem, me farei de desentendida — explicou Amélia. — Piscarei várias vezes
seguidas com cara de ingênua e simularei que me perdi enquanto procurava o toalete.
— Não funcionará. Nem todos acreditarão que é tão ingênua— a acautelou Venetia.
— Então, procurarei que não me peguem. — Amélia se virou para Sarah. — Me dê a carta.
Sarah afundou a mão na bolsa, pegou a carta e a depositou na mão de Amélia.
Ignorando os contínuos protestos de Venetia, Amélia guardou o envelope em sua bolsa e em
seguida se dirigiu com passo ágil para o vestíbulo. Talvez não fosse exatamente o tipo de aventura
exótica com a qual tanto sonhava, mas ao menos era melhor que nada. Agora só precisava
alcançar a porta que dava às escadas de serviço sem que ninguém a visse...
Teve sorte. As escadas ficavam perto do toalete, assim foi fácil escolher uma porta em lugar
da outra quando ninguém estava próximo. No andar superior, a sorte não a abandonou: a ala dos
quartos estava livre. Mas qual desses quartos era o de lorde Kirkwood? Com todos os sentidos
alerta se por acaso se aproximava algum criado, decidiu abrir as portas em uma rápida sucessão. A
primeira estadia cheirava a água de rosas, assim deduziu que devia ser a da viscondessa viúva; a
segunda devia ser a da criada da senhora. Justo quando Amélia ia abrir a porta que ficava do outro
lado do corredor, ouviu vozes provenientes das escadas. Com o pulso acelerado, meteu-se dentro
do quarto e fechou a porta.
Enquanto alguém passava pelo corredor, Amélia se dedicou a inspecionar o ambiente. Sem
lugar a dúvidas, se tratava do quarto de um homem. Um par de botas lustradas descansavam aos
pés da cama, e no respaldo de uma cadeira estava pendurado um cinturão que continha uma
espada com uma forma curiosa, embainhada. Lorde Kirkwood devia guardar sua espada em um
gabinete no andar inferior, então, este devia ser...
O quarto do comandante Winter.
Amélia se sentiu invadida por uma excitante sensação ao saber que estava fazendo algo
proibido. Agora teria a oportunidade de inspecionar seu arsenal. E descobrir mais coisas sobre
esse indivíduo... onde já esteve, aonde ia...
Se era ou não casado.
Com o pulso acelerado, aproximou-se da bacia que continha os utensílios de barbear e
começou a examiná-los. Como a maioria dos militares, o comandante era um homem
escrupulosamente ordenado; o pincel de barbear e o pente ofereciam um aspecto notavelmente

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limpo. E o mesmo acontecia com a mesinha que fazia as vezes de penteadeira, completamente
ordenada.
Não viu bagatelas, mas dentro de uma gaveta descobriu uma curiosa adaga com o cabo de
ébano. Deu uma rápida olhada ao armário; os trajes eram de boa qualidade, embora nada
sofisticados; distinguiu, além disso, botas e luvas de uso diário, e dois chapéus velhos de pele de
castor. Também achou mais armas de seu famoso arsenal: um estojo de pistola fechado com
chave, outra adaga e... Por todos os Santos! Um rifle! Mas nenhum detalhe que delatasse se tinha
esposa ou não. Que raiva.
Então notou as cartas esparramadas em cima da escrivaninha. Duvidou alguns instantes
enquanto se sentia invadida por uma crescente excitação. Seria capaz de fazer? Talvez isso fosse ir
muito longe. OH, mas precisamente esse era o motivo pelo qual devia fazê-lo. Não podia existir
uma aventura que não suportasse nenhum risco.
Correu para a escrivaninha e deu uma olhada aos papéis que coroavam a pilha. Uma carta da
Infantaria da Marinha ao cônsul americano outorgava ao comandante Lucas Winter permissão
para examinar os estaleiros de Deptford. Interessante, embora não fosse terrivelmente
informativa. Olhou o resto. Mais correspondência aborrecida; nenhuma carta amorosa. Então,
chegou à última folha e viu que continha uma curiosa lista de nomes com comentários rabiscados
ao lado. Senhora Dorothy Taylor, tinha marcado junto uma série de endereços na França, uma
data, e uma breve descrição. A entrada Senhorita Dorothy Jackson, não ia acompanhada de
nenhuma descrição, além de alguns endereços na França e a menção de um irmão. Senhora
Dorothy Winthrop - Por Deus, esse homem parecia mostrar uma obsessão pelas mulheres que se
chamavam Dorothy, - a seu lado só havia uma data e um endereço, junto com uma referência de
seu marido americano.
O último nome estava sublinhado duas vezes: Senhora Dorothy Smith. O sangue de Amélia
gelou. Antes de Dolly casar com papai, seu nome era Dolly - Dorothy - Smith. Engoliu em seco. Não,
isso não queria dizer nada.
Certamente em Londres deviam existir centenas de mulheres chamadas Dorothy Smith.
Mas à medida que repassava os comentários escritos ao lado da entrada da Senhora
Dorothy Smith, notou como lhe oprimia o coração:

270 Rué Sonne, Paris


Talvez com um companheiro em Rouen em novembro de 1815... Saiu de Calais em direção a
Plymouth só em fevereiro de 1816. Pele clara, olhos verdes, cabelo avermelhado, baixa.

Amélia continuou com os olhos cravados no pedaço de papel. A descrição encaixava com
Dolly. E Dolly esteve tanto em Paris como em Rouen antes de chegar a Plymouth em 1816, quando
papai se apaixonou perdidamente por ela e se casaram. "Talvez com um companheiro"... Claro
que tinha um companheiro! Seu falecido marido, um rico mercador.
Mas por que será que o comandante Winter estava interessado em Dolly? Claramente seu
nome era o que despertou seu interesse, assim era provável que nem sequer a conhecesse
pessoalmente. Virou a folha, e encontrou outras notas alarmantes:

Dorothy Frier, aliás, Dorothy Smith...

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Os anos coincidem, quando Frier fugiu dos Estados Unidos para evitar ser capturada.

Dolly? Tentando escapar? Mas de quem? e por quê? Amélia teve a desagradável impressão
de que a palavra "aliás" implicava conotações de pessoas malvadas.
E o fato de que o comandante Winter estivesse envolvido, significaria que o governo dos
Estados Unidos também estava metido nesse assunto? Talvez a Dorothy que o comandante
Winter perseguia foi uma espiã britânica. Mas a guerra terminou fazia alguns anos, a quem
importavam os espiões, agora? Além disso, de todos os modos não podia tratar-se da recatada
Dolly, que se encolhia quando a pessoas discutiam, que se esforçava por agradar Amélia e ao seu
pai, que se mostrou tão orgulhosa de casar com papai e de permitir que desfrutasse por completo
de sua fortuna quando poderia ter se casado facilmente com um rico...
Amélia sentiu uma desagradável pontada no estômago. E se Dolly conseguiu sua fortuna de
uma forma desonesta? Quando o pai viúvo de Amélia conheceu Dolly em Plymouth, os dois se
apaixonaram quase imediatamente. Dolly estava tão afligida, tão deprimida, que o pai de Amélia
só pensou em protegê-la. E quem não?
Dolly era de um aspecto genuinamente doce.
Mas foi a fortuna de Dolly o que realmente mudou suas vidas. Com o dinheiro de Dolly,
pagaram as cotas da exclusiva escola de Senhoritas da senhora Harris. Dolly também pôs seu
dinheiro a disposição de Amélia para que esta contasse com um substancioso dote e pudesse ir a
Londres. E o dinheiro de Dolly permitiu a papai voltar a impulsionar o trabalho das terras da
família, depois de anos de frugalidade.
Amélia rebuscou entre os papéis para achar mais informação, mas não encontrou. E agora o
que? Dolly jamais mencionou o sobrenome Frier, mas o certo era que tampouco havia contado
quase nada de seu passado. Era possível que Dolly tivesse tido outro tipo de vida? Dolly gostava de
jogar cartas, por acaso tinha sido uma jogadora compulsiva? Ou a esposa de um jogador, ou de um
trapaceiro?
Não, isso era totalmente ridículo. Dolly jamais participaria de nenhum plano perverso.
Carecia do temperamento necessário. Pelo amor de Deus, se nem sequer era capaz de negar a
Amélia o mínimo desejo, e começava a chorar desconsoladamente ante a morte de um peixinho
dourado. A ideia de que Dolly fizesse algo malvado lhe parecia absurda. Que sua vida recente
coincidisse com a dessa outra Dorothy Smith devia meramente a uma horrível série de
coincidências.
Mas certamente o comandante não opinaria do mesmo modo. Devia ser um desses
investigadores sem escrúpulos. Era possível que esse tipo soubesse algo sobre a vida de Dolly; isso
explicaria por que ficou observando Amélia tão fixamente no salão de baile.
Quanto tempo levaria até que o comandante decidisse ir a Devon para falar com papai? Ou
que tentasse arrastar Dolly de volta a América por algo que certamente ela era inocente? Amélia
precisava preveni-la, mas como? E sobre o que? Não sabia o que era que o comandante procurava;
Talvez não fosse nada. Nem mesmo estava certa de se ele havia estabelecido um vínculo entre
Dorothy Smith e Dolly. E preocupar Dolly agora, em seu delicado estado de saúde, não lhe parecia
conveniente. Além disso, não seria mais adequado averiguar o que esse homem procurava
primeiro?
Um ruído brusco a tirou de seus pensamentos. Era só um tronco na lareira, mas não

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obstante... devia escapar desse quarto. De repente, a estadia mostrou-se com um aspecto
distintivamente ameaçador, com essa espada inquietante em primeiro plano e as armas ocultas e
as anotações odiosas que apontavam para uma possível traição. Se o comandante a pegasse ali,
nenhuma desculpa serviria para convencê-lo.
Com supremo cuidado, voltou a colocar os papéis tal e como os encontrou, e ato seguido se
precipitou para a porta. Por sorte, o corredor estava deserto. Ainda precisava deixar a carta de
Sarah, uma tarefa que agora desejava terminar o mais cedo possível. Enquanto se dirigia para o
único quarto que restava por entrar, tirou a carta de Sarah da bolsa. Então iniciou uma luta para
fechar a bolsinha, por isso não se deu conta de que alguém subira as escadas até que era muito
tarde.
— Pode-se saber o que está fazendo aqui? — espetou uma voz masculina desconhecida com
um acento característico.
Amélia ofegou em choque. Instintivamente levou a carta e a bolsa às costas antes de
levantar o rosto com porte altivo. Frente a ela, viu o único homem que sabia que deveria evitar.
O comandante Lucas Winter.

Capítulo 2

Querida Charlotte:
Ser um pouco esperta nunca é demais. Entretanto, ficarei mais do que contente em lhe
oferecer meus conselhos, e se surgir algum problema, pode ter certeza de que estarei ao seu lado.
Não obstante, peço que me avise com a devida antecedência, já que certamente precisarei de
tempo para organizar qualquer viagem a Newgate.
Seu fiel servidor,
Michael

Lucas observou como a jovem empalidecia. Perfeito. Sabia que podia confiar em uma mulher
inglesa atemorizada. Quando subiu para buscar sua adaga, não esperava deparar-se com a
enteada da mulher que andava investigando.
Parecia óbvio que os inimigos não só passeavam pelo salão de baile, embutidos naqueles
uniformes com a casaca vermelha. E esse inimigo em particular ocultava algo nas costas.
— E então? — apressou ele. — O que está fazendo diante da porta do meu quarto?
Uma mudança de humor repentino aflorou no rosto da jovem, que começou a piscar sem
parar.
— Seu quarto? Mas se nem mesmo sei quem é você. Simplesmente estava procurando o
toalete.
O comandante soltou um retumbante bufo.
— Ora, na ala da família do segundo andar? Por que não me conta outra história? esta eu
não engulo.
Embora fosse até mais bonita assim de perto que quando a viu no salão de baile, por seu
porte irritado deduziu que devia tratar-se da típica menina mimada que ele tanto odiava.

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— Realmente, senhor, não sei por que ficou tão iracundo. Como eu iria saber que os quartos
da família ficam aqui? Olhe, agora mesmo volto para o salão de baile e...
— Mas antes me mostrará o que oculta nas costas - exigiu ele.
— Refere-se a minha bolsa? — adiantou ela com urgência, e a seguir lhe mostrou a bolsinha.
— E na outra mão?
— Nada que seja de sua incumbência — espetou ela. A mudança brusca de jovem petulante
a senhorita altiva, fez que os olhos se estreitassem, e imediatamente ela suavizou o tom. — É
pessoal.
Sem pensar duas vezes, o comandante deu um passo para frente e a segurou pelo braço.
— Talvez devêssemos continuar esta conversa no salão de baile.
— Não! — gritou ela enquanto tentava escapar de sua garra. Então, algo caiu no chão.
Amélia se inclinou para pegá-lo, mas ele impediu colocando o pé em cima. Irritada, levantou o
rosto e o olhou com olhos desafiadores. — Levante o pé agora mesmo!
Era possível que essa garota tivesse roubado alguma nota de seu quarto? Sem prestar
atenção a jovem indignada, recolheu o papel que pisara. Uma carta selada dirigida a lorde
Kirkwood.
Mil raios e mil centelhas. Só precisou dar uma rápida olhada às faces ruborizadas da jovem
para compreender do que se tratava; porém Kirkwood não mencionara que ela se sentia atraída
por ele. Maldita fosse essa moça por rondar por onde não devia. Agora que a insultou e pôs em
evidência, jamais conseguiria lhe surrupiar a verdade.
Apertou os dentes. Haveria outra oportunidade. O comandante mostrou a carta,
sustentando-a com uma mão.
— Creio que isto é seu, senhorita.
Amélia a pegou com desdém.
— Eu disse que era algo pessoal.
— Um soldado sempre tende a pensar o pior quando vê uma mulher vagando sozinha. Nos
Estados Unidos, uma mulher movendo-se furtivamente perto do quarto de um soldado não
costuma a albergar boas intenções. Ou, pelo menos, nenhuma intenção que seja respeitável.
O feroz rubor das faces de Amélia se tornou mais evidente.
— É essa a ideia que têm de pedir desculpas?
Mil raios e mil centelhas. Pelo que parecia, nessa noite não conseguia dizer nada certo para
ficar bem.
— Não, claro que não — se esforçou por falar com um tom cortês. — Peço-lhe perdão,
senhorita. Direi a meu primo que tentou proteger sua privacidade.
— Lorde Kirkwood é seu primo? — inquiriu ela, abrindo exageradamente os olhos em uma
tentativa de aparentar absoluta inocência.
— Devo me apresentar. Sou o comandante Lucas Winter.
— E eu sou lady Amélia Plume. — Ofereceu outro belo sorriso, o tipo de sorriso que poderia
meter qualquer homem em apuros. Mas não ele; não se deixaria seduzir tão facilmente até que
confirmasse que essa garota não estava envolvida nos assuntos de sua madrasta.
— Se não se importar, posso entregar a carta a meu primo. É o mínimo que posso fazer — se
ofereceu ele com uma evidente tensão.
— OH, não, já fez o suficiente — respondeu ela, fazendo alarde de uma grande acuidade,

13
enquanto ondeava a carta com a mão. — Acho que será melhor que acabe de fazer o que me
propunha. Eu mesma a deixarei no quarto de lorde Kirkwood, antes que atire em mim por me
julgar suspeita.
Seus comentários perspicazes não casavam absolutamente com a imagem de menina pouco
espevitada que exibiu a princípio. Mas claro, esse tipo de garotas ricas e bem relacionadas, eram
assim, beligerantes e inconstantes.
Ele sabia; foi criado entre elas.
A lembrança de seu passado nublou seu humor.
— Não se preocupe, lady Amélia, um pouco de sujeira na carta não afetará o interesse que
meu primo possa professar por sua fortuna.
— Esta carta não é minha; é de uma amiga - protestou ela.
— Entendo. — Ele abriu a porta do quarto do primo com um gesto triunfal. — Continue,
então; já pode deixar a carta de sua amiga. Esperarei aqui até que termine.
O comandante ficou de pé junto à porta, obrigando Amélia a passar muito perto dele para
entrar no quarto. Foi então quando pôde cheirar o aroma de seu perfume. Instantaneamente se
sentiu transportado a sua infância. Tratava-se indiscutivelmente do aroma de madressilva, como o
sabão que tanto parecia agradar às damas da localidade onde cresceu, na Virginia, antes que seu
pai decidisse mudar para Baltimore.
O embriagador aroma familiar fez que desejasse explodir e expressar em voz alta sua
enorme frustração. Levou mais de dois longos anos perseguindo Theodore e Dorothy Frier.
Enquanto outros fuzileiros retornaram a casa para gozar de paz, ele ficou sem lar e sem paz. E
ainda por cima, graças aos Frier, viu-se obrigado a retornar ao país que tanto odiava. Era uma
coisa a mais para jogar na cara deles, quando conseguisse pegá-los.
Quando lady Amélia acabou, ele se afastou para deixá-la sair e permitir que ela mesma
quem fechasse a porta. Não desejava voltar a se impregnar desse aroma, para lembrar tudo o que
perdeu... nem corroborar o terrivelmente atraente que era essa moça. Para sua estupefação, ao
invés de sair espavorida, ela se deteve diante dele e o olhou insolentemente aos olhos.
— Obrigada por permitir que eu completasse minha tarefa. Estou muito agradecida, senhor.
E por favor, não conte a ninguém... quero dizer, se alguém descobrisse que eu...
— O que quer é que não conte a ninguém sobre nosso breve encontro.
Ela o olhou com os belos olhos de cor chocolate.
— Seria muito atencioso, senhor. Realmente, ficaria extremamente agradecida.
Então ela queria que lhe fizesse um favor, é? Perfeito. Agora poderia tirar proveito da
situação.
— Não me agradeça tão rapidamente, senhorita. Espero algo em troca.
Amélia ficou tensa.
— Ah, realmente?
Provavelmente, despertaria suas suspeitas se perguntasse de repente tudo o que queria
saber, e a última coisa que desejava era que ela alertasse a madrasta. Não obstante, essa jovem
lhe ofereceu uma via para ficar mais perto dela e desse modo poder investigar o assunto com mais
discrição.
— Quero que me conceda a próxima valsa.
— U... uma valsa?

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— O homem pega uma mão da dama, com a outra mão rodeia...
— Eu sei o que é uma valsa - respondeu ela secamente.
— Então, quero uma em troca de meu silêncio.
Ela piscou, e imediatamente lhe proporcionou um sorriso arrebatador.
— Caramba, senhor comandante, está tentando me chantagear?
A atitude sedutora da garota o colocou em guarda.
— Pois, falando claramente, sim.
— Não é uma resposta muito diplomática, devo dizer.
— Sou um soldado, senhorita, não um cortesão. Uso tudo o que estiver a disposição para
conseguir o que quero. — Repassou-a lentamente de cima abaixo. — E tudo o que quero esta
noite é uma valsa.
Ela baixou os olhos com ar recatado.
— Se coloca assim, como posso me negar?
Amélia deu meia volta, e seu vestido, com o peso dos babados, se moldou a sua figura,
ressaltando as curvas do corpo antes que ela conseguisse arrumá-lo de novo. O comandante ficou
tenso. Quando foi a última vez que se deitou com uma mulher? Provavelmente em Paris. Mas
aquela prostituta francesa, com as faces meladas com muito ruge e o corpo sem assear, não
emanava os deliciosos encantos da criatura perfumada que caminhava graciosamente pelo
corredor diante dele.
Não podia afastar os olhos dela. Que Deus tivesse piedade dele.
Aquele sinuoso contorno poderia excitar qualquer homem. Disso já havia se dado conta,
inclusive no salão de baile. Antes de que ele conseguisse aplacar o fogo de suas veias, Amélia se
virou e lhe deu um sorriso encantador que iluminou todo seu rosto.
— Só para que saiba, senhor comandante: teria dançado com você, mesmo sem a
chantagem.
Então avançou até as escadas de serviço e desapareceu.
Durante alguns segundos, tudo o que o comandante pôde fazer foi olhar fixamente na
direção onde ela havia desaparecido. Ora, essa diabinha! Primeiro com seu primo, e depois com
ele. Estava seguro de que ela procurava algo... Esgrimiu uma careta de desgosto.
Maldição; talvez tivesse entrado em seu quarto.
Rapidamente, entrou no quarto e examinou tudo. Revisou as superfícies dos móveis,
procurou no carpete alguma amostra de cabelo, inclusive cheirou o ar. Nada parecia fora do lugar.
Até mesmo os papéis estavam tal e como ele os deixou. Apesar de achar que sentia o aroma de
madressilva, não podia estar seguro, com tantos vasos cheios de flores em toda parte.
Os criados de Kirkwood deviam vê-lo como um maldito senhor efeminado, como seus
senhores ingleses. Entretanto, duvidava que uma mulher de alta linhagem ousasse entrar no
quarto de um homem. Lady Amélia podia ser o suficientemente travessa para arriscar-se a entrar
no quarto de um pretendente para deixar uma carta sobre o travesseiro, mas jamais se atreveria a
bisbilhotar no quarto de um desconhecido.
A menos que soubesse a verdadeira razão pelo qual ele veio a Inglaterra - e não, não podia
saber - não se atreveria a fazer uma coisa assim. Além disso, nem sequer estava seguro de que
essa moça tivesse muito brilho.
Só era uma coquete. Genial, também se aproveitaria disso. Se ela procurava diversão, ele

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estaria mais que contente de satisfazê-la. Acaso havia outra forma melhor de surrupiar informação
dessa senhorita? Bom, isso se fosse capaz de flertar com ela em uma situação tão difícil. Malditos
casacas vermelhas! Sempre igual. Embora a guerra tivesse terminado, esses desgraçados não o
deixavam em paz. Deixaria que o atacassem. E no caso de que eles...
Tirou a adaga da gaveta. Deveria ter levado desde o inicio.
Escondeu-a dentro da grossa faixa, onde o vulto firme lhe deu segurança, e ato seguido se
dirigiu para as escadas. Antes de chegar no andar de baixo, dois casacas vermelhas se
aproximaram completamente ébrios.
— Cavalheiros.
O comandante os saudou com um brusco aceno de cabeça e se dispôs a prosseguir seu
caminho, mas os dois soldados impediram seu caminho. Procurou a adaga com a mão enquanto
notava como o sentimento de ódio se instalava novamente em seu estômago. "Tranquilo, só são
um par de imberbes, e ainda por cima bêbados", disse a si mesmo, mas isso não conseguiu
apaziguar a fúria que começava a crescer em seu interior.
Um dos indivíduos deu uma cotovelada ao outro.
— Olhe quem temos aqui. Mas se não é um desses americanos selvagens que fugiram
espavoridos de Bladensburgo enquanto nos dedicávamos a arrasar sua insignificante capital.
Mencionaram a batalha incorreta. A tropa americana escapou dos britânicos, mas não os
Fuzileiros Navais.
— Está enganado, senhor. — Lucas se esforçou por não perder a compostura. — Sou um dos
selvagens que se manteve firme ao lado do comodoro Barney. Mas claro, são muito jovens para
sequer saber do que falo. Provavelmente, naquela época, deviam estar escondidos em algum
quartel, mortos de medo — afirmou sem deixar de olhá-los com desprezo.
A expressão da cara dos dois soldados mudou de repente, e Lucas soube que conseguira
exaltar os ânimos de seus adversários. Um deles o segurou pelo braço direito.
— Escute, ianque insolente...
Com os instintos a flor da pele após tantos anos de batalhas, Lucas empunhou a adaga com a
mão esquerda e a colocou justo à altura das costelas do indivíduo.
— Será melhor que me solte, moço; a não ser que queira que risque um novo buraco em seu
corpo.
O outro soldado investiu com estupidez por causa de seu estado de embriaguez, e Lucas
cruzou o braço direito por cima do esquerdo para agarrar o homem pela garganta.
— Em frente, moleques, aposto o que quiserem que não podem comigo. — Apertou a mão
com força até que o soldado começou a asfixiar. — Não me provoquem.
Mas Lucas não necessitava nenhuma provocação. A mera visão de casacas vermelhas foi
suficiente para turvar sua mente; de novo se sentiu transportado aquele túnel claustrofóbico, e
ouviu os gritos de...
— Comandante Winter! Solte esses homens! — exclamou uma voz a suas costas.
Lucas só necessitou alguns segundos para acabar com a alucinação e recordar onde estava.
Então viu Kirkwood avançando pelo corredor com longos passos, com a expressão alarmada.
Tentou suprimir a raiva que ainda sentia e sorriu impassivelmente.
— Como não, primo!
Soltou o soldado que havia segurado pela garganta, mas teve que fazer um enorme esforço

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para embainhar a adaga. Sua respiração ainda era rápida e entrecortada.
— Só estava esclarecendo alguns pormenores, mas acho que agora já nos entendemos, não
é assim, moços?
O indivíduo que havia agarrado pela garganta desabou de joelhos, ofegando. O outro o
olhou boquiaberto.
— Este homem está louco... louco!
Lucas o contemplou com desdém.
— Vejamos se é capaz de não esquecer isso.
O soldado se ergueu e grunhiu:
— Alguém deveria lhe ensinar boas maneiras.
Lucas apoiou a mão no punho da adaga.
— Quando quiser. Ficarei encantado.
— Já chega! — ordenou Kirkwood em um tom preocupado. Então encarou o soldado. —
Fora de minha vista, antes que conte a minha mãe que ousou incomodar nosso convidado.
De repente, o indivíduo se intimidou. Enquanto se perdia pelo corredor, Kirkwood
contemplou o soldado que ainda ofegava no chão e ordenou a um criado que lhe trouxesse um
copo de água. Enquanto o servente se ocupava do homem, Kirkwood fez um gesto a Lucas para
que este o seguisse até o escritório. Assim que entraram na estadia, Kirkwood fechou a porta.
— Por todos os Santos, Winter, por acaso deseja não sair vivo daqui esta noite?
Lucas se serviu um pouco de brandy do decantador que Kirkwood tinha sobre a mesa.
— Acredite; esses dois energúmenos mal se mantinham em pé, assim, duvido que pudessem
matar alguém.
— É verdade. São mais conhecidos por suas habilidades nas mesas de jogo do que no campo
de batalha. Mas isso não significa que não se atreveriam a tentar.
— Você está certo — apontou Lucas calmamente, embora suas mãos haviam começado a
tremer tanto que custava sustentar o copo de brandy.
Agora que sua sede de sangue se aplacou, sentiu-se alarmado pelo tão perto esteve de
acabar com a vida desses dois soldados. Esse não era o motivo pelo qual se achava na Inglaterra.
Levou o copo até aos lábios e tomou um bom gole. Precisava sentir a queimação do licor em suas
vísceras para esquecer esse passado infernal. Que jogada tão cruel!
Que sua missão o tivesse conduzido até o lugar que mais odiava no mundo, o único lugar
onde não podia sentir-se cômodo.
Kirkwood o observou com cautela.
— Deveria ter tentado desencorajá-lo da ideia de usar o uniforme esta noite, mas como a
guerra acabou faz tanto tempo, pensei que cavalheiros como você e o resto de nossos soldados
saberiam se comportar com o devido respeito.
— Não posso falar por seus amigos soldados — espetou Lucas, — mas me custa horrores
aceitar que o passado, passado está. O que fizeram a meus homens e a mim, ultrapassa as regras
da guerra e o sentido comum da decência.
— Eu sei — esclareceu Kirkwood, — e se chegasse a saber que mamãe pensava convidar a
tantos oficiais, teria tentado evitar. Mas um grande número deles tem irmãs que são ricas
herdeiras, por isso a pobre mulher esperava que alguma das participantes...
— Está decidida a casá-lo, não? — interrompeu Lucas, desesperado para acabar com o

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assunto dos oficiais ingleses, desesperado para esquecer o perto que esteve de cometer um
assassinato. Uma vez, em uma situação difícil, Kirkwood ficou ao seu lado para ajudá-lo e isso
derivou em enormes problemas para o primo, mas em alguns temas estava claro que jamais
ficariam de acordo.
Kirkwood se negou a esquecer o assunto.
— Fazer inimigos aqui não o ajudará a conseguir seu objetivo. Ninguém irá querer te contar
nada sobre lady Tovey, se continuar arrumando brigas.
Lucas tomou outro gole de brandy.
— Olhe, de todos os modos, ninguém me contará nada de lady Tovey, porque não sou um
deles, e meu pai era um mercador, ou seja, um novo-rico.
— Bom, seja pelo motivo que for, seu comportamento afetará diretamente a sua via de
investigação.
— Não necessariamente. — Com um sorriso malicioso, Lucas pensou em lady Amélia.
Kirkwood o olhou fixamente.
— Aconteceu algo? Teve alguma informação?
— Terei informação depois de dançar uma valsa com lady Amélia.
— Alguém a apresentou a você?
— Não exatamente.— Lucas observou o rosto do primo atentamente.— A peguei no andar
superior, com uma carta para você.
A expressão de surpresa de Kirkwood parecia genuína.
— Para mim? Está seguro?
— Seu nome estava escrito no envelope e a deixou sobre seu travesseiro.
Kirkwood se mostrou vagamente contrariado.
— Pois não posso imaginar o porque.
— Não existe nada entre vocês dois?
— Mostrei meu interesse faz tempo, mas ela me rechaçou. Lady Amélia não sai com
qualquer um. Aterrissou tarde no campo das alianças matrimoniais e não parece ter pressa para se
casar.
Interessante. O comandante não teria definido lady Amélia como uma garota difícil, com seu
sorriso enganador e balanço de quadris.
— Por que diz que aterrissou tarde?
— E eu é que sei! Mas só teve a primeira temporada de festas depois de que o pai voltou a
casar.
Significava isso que talvez antes não tivesse o dinheiro necessário? Não, seu pai era um
maldito conde, pelo amor de Deus. Kirkwood necessitava de dinheiro e, não obstante, continuava
com um nível de vida muito superior ao do americano médio. A falta de dinheiro podia não ser o
motivo pelo qual lady Amélia se introduziu tarde nesses círculos sociais.
— Pois lady Amélia deve ter mudado de parecer sobre você - comentou o primo. - Eu mesmo
vi como depositava a carta sobre seu travesseiro.
Kirkwood sacudiu energicamente a cabeça.
— Francamente, estou desorientado. Segundo a senhorita Linley, essa garota expressou em
repetidas ocasiões que nem sequer sabe se deseja se casar.
— A senhorita Linley?

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— É uma das antigas companheiras de escola de lady Amélia, da prestigiosa Escola de
Senhoritas que é administrada pela senhora Harris. Em privado a chamamos de "Escola de Ricas
Herdeiras da senhora Harris". Creio que, em conjunto, as famílias de suas alunas provavelmente
possuem metade da Inglaterra. — Esboçou um sorriso apagado. — Minha mãe se dedicou a
convidar todas as moças que se graduaram nessa instituição. E a maioria delas aceitou o convite.
— E não se importam que esteja atrás de seu dinheiro? — perguntou Lucas, incrédulo.
Nunca conseguiria compreender esse sistema de matrimônios por conveniência dos ingleses.
Apesar dos americanos também o terem, a maioria o considerava antidemocrático, e esse
era o motivo pelo qual os da alta sociedade tentavam encobri-lo.
— A algumas das damas se importam, mas aceitaram vir para ter a oportunidade de
conhecer outros cavalheiros. Em troca, há outras damas que estão dispostas a aceitar à troca.
Como a senhorita Linley, herdeira de uma grande fortuna que morre de vontade de conseguir a
posição que eu posso lhe oferecer. Ou pelo menos isso é o que parece. Ainda não respondeu
minha carta. — Subitamente estreitou os olhos. — Poderia ser que lady Amélia tivesse deixado
uma carta da senhorita Linley?
— A verdade é que lady Amélia alegou que o fazia por uma amiga.
— Ora, ora. Talvez deva dar uma olhada... —Kirkwood se dirigiu para a porta, mas Lucas o
deteve.
— Não tão depressa. Primeiro, necessito que me apresente oficialmente a lady Amélia. Ela
aceitou dançar uma valsa comigo, e isso é o que penso fazer.
— Como conseguiu que te concedesse uma valsa?
— A ameacei.
Kirkwood o olhou com desconfiança.
— Espero que não a tenha ameaçado com sua adaga.
— Claro que não — repôs Lucas com irritação. — Sei como conduzir mulheres como ela.
— Se você diz... — Kirkwood avançou até a porta. — Vamos, o apresentarei a ela. Mas por
favor, procure não ofender essa moça, de acordo? Suas amigas são umas fofoqueiras obstinadas e
eu ainda tenho que me casar com uma delas.
Lucas depositou o copo sobre a mesa e seguiu o primo.
— Estou seguro de que um homem com sua inteligência e boas relações pode fazer algo
mais para conseguir dinheiro.
Kirkwood abriu a porta.
— Não com minha posição e não na Inglaterra. Aqui, o filho mais velho não pode esquecer
suas obrigações. Tenho duas irmãs e um irmão menor. Se me casar com uma rica herdeira, meus
irmãos ostentarão uma vida fácil; se não... - Lançou um prolongado suspiro enquanto cedia
caminho a Lucas.
Pobre tolo. Apesar de Kirkwood parecesse não se importar que sua futura esposa fosse tão
útil como o batente de mastro de um navio, Lucas não podia imaginar a possibilidade de recorrer
ao matrimônio para desculpar os problemas econômicos da família. Se alguma vez decidisse casar,
seria ele quem levaria a comida à mesa, não ela.
Felizmente, o vestíbulo estava deserto quando os dois se dirigiram para o salão de baile.
— E se não conseguir surrupiar nada de lady Amélia? — perguntou-lhe seu primo.
— Não se preocupe; conseguirei. — Até que ponto precisaria flertar frivolamente para obter

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a informação que precisava?
— E não seria mais fácil se deslocar até Devon e enfrentar a madrasta?
— Se lady Tovey for Dorothy Frier, estou seguro de que, no momento em que um soldado
americano puser os pés nas terras de seu marido solicitando falar com ela, suspeitará do que se
trata. É capaz de alertar Theodore Frier ou de escapar antes de que consiga que o mordomo me
deixe entrar. E desta vez, irão assegurar de que jamais os encontre.
— Só se ela for realmente a pessoa que pensa que é. Se estiver certo sobre ela, então essa
mulher terá cometido o sacrilégio da bigamia.
— Isso se ela e Frier estão legalmente casados, em primeiro lugar. É possível que se trate de
um matrimônio a partir do direito comum. Obviamente, ela se cansou de que ele a arrastasse de
um lugar a outro sem parar, porque perdi a pista depois de que se separassem na França. E que
melhor maneira de ocultar-se das autoridades que casando-se com um reputado lorde como o
conde de Tovey?
— Sim, mas...
— Se essa mulher não for quem procuro, então, por que convenceu Tovey de que a levasse
para fora da cidade no momento em que sua mãe começou a contar as amigas que ia receber a
visita de um primo americano?
Decidiu não correr nenhum risco, esse é o motivo. Comentou que essa mulher prefere o
campo à cidade; por que outra possibilidade se inclinaria uma fugitiva?
— E por isso enviou a enteada ao baile de minha mãe, para que você possa acossá-la? —
perguntou Kirkwood com ceticismo.
— Olhe — atravessou Lucas, notando que começava a se alterar. — Não sei o que pensa
essa mulher. Tudo o que sei é que essa lady Tovey é a única pista que resta. Não vou me arriscar
que alguém possa alertá-la ou que ela possa alertar Frier até que não esteja certo de que
encontrei a mulher que procuro. — Olhou Kirkwood com olhos ferozes. — E por que tantas
perguntas? Por acaso tem algum problema em me apresentar a essa caprichosa?
Kirkwood arqueou uma sobrancelha.
— Se for chamá-la assim, então sim. Não é uma miserável prostituta, sabe? a quem pode
insultar sem consideração...
— Ok, ok — o atalhou Lucas. — Pedirei que me conceda uma valsa sem que me apresente a
ela.
Ato seguido começou a afastar-se do primo.
— Droga! Quer esperar um momento? — gritou Kirkwood a suas costas, totalmente
exasperado. — Não disse que não irei apresentá-la. Só quero me assegurar de que irá se
comportar como um cavalheiro. Irá agir com educação e circunspeção?
— Serei a discrição em pessoa - entoou, arrastando cada uma das sílabas.
— Não sei por que, mas não me convenceu — suspirou Kirkwood. — Bom, talvez a sorte
fique de nosso lado, e averigue tudo o que precisa saber em um único encontro.
— Eu também espero. Porque quanto antes acabe com isto, mais cedo retornarei a meu lar
em Baltimore, longe de todos vocês, malditos ingleses.

Capítulo 3

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Querido primo:
Apesar de que espero não ter que me deslocar até Newgate no futuro, o certo é que só me
atrevo a confiar em você para sair graciosa desta situação. Bom, agora passemos a assuntos mais
sérios: acha que deveria animar à senhorita Linley a se casar com lorde Kirkwood, apesar dele
carecer de fortuna?
Lady Linley precisa de um marido inteligente para rebater sua falta de acuidade, e receio que
a escolha dos pais dela, os senhores Chambers, só sirva para consolidar mais - se for possível - a
necessidade da filha.
Sua parente preocupada,
Charlotte

Amélia passeava pelo banheiro agitada e com o pulso acelerado. O comandante Winter
conseguiu assustá-la de verdade. Céu santo! Ela só procurava um pouco de aventura, não sofrer
um ataque do coração. Além disso, se Dolly realmente estivesse metida em confusão, então não
gostaria de pensar em nenhum tipo de aventura. Se ela estivesse mesmo...
Só porque o comandante guardava numerosas referências sobre uma mulher com um nome
similar não significava necessariamente nada. E isso tampouco queria dizer que ele soubesse que
Amélia estava aparentada com uma tal Dorothy Smith. Deveria descobrir o que ele sabia, o que
resultava em mais encontros com ele. Amélia secou as mãos suarentas na saia do vestido. Podia
fazer isso. Acabava de sair graciosa da perigosa situação no andar superior.
Não importava se para isso teve que comportar-se como uma menina tola; ao menos
conseguiu enganá-lo. Se não, não teria pedido que lhe concedesse uma valsa.
"Sou um soldado, senhorita, não um cortesão. Uso tudo o que aparece para conseguir o que
quero. E tudo o que quero esta noite é uma valsa."
Por Deus, o indivíduo conseguiu fazer que uma chantagem soasse como uma possibilidade
realmente tentadora. Mas além de sua sedutora forma de falar, doce e pausada, ocultava-se uma
vontade de ferro. Não se tratava de um mero cavalheiro que ela pudesse controlar com um
simples sorriso aqui e palavras duras ali; era um oficial experiente, com uma inteligência mais que
óbvia. Como poderia uma verdadeira dama aventureira persuadi-lo para que lhe contasse seus
segredos?
Agir como uma imbecil poderia funcionar: os homens contavam algumas coisas às meninas
tolas que jamais se atreveriam a contar às espertas. Mas precisa de algo mais para confundi-lo.
Um monte de fantasias escandalosas que apareciam no contos do harém começaram a dar voltas
por sua cabeça. Amélia fez uma careta de desgosto. Não, isso não. Procurava aventura, não
arruinar sua honra. Entretanto, o comandante não se mostrou impávido quando ela flertou com
ele. Inclusive um fuzileiro receoso podia soltar a língua se uma bela mulher o deslumbrasse.
Um leve comichão de nervosismo se apropriou dela, mas o aplacou sem piedade. O que
estava acontecendo com ela? Sim, aquele homem exsudava um ar de perigo absolutamente
embriagador, mas até que não averiguasse se Dolly poderia ter sérios problemas, era melhor não
deixar-se seduzir.
Amélia se dirigiu à porta da sala privada, deteve-se diante do espelho para arrumar cachos e

21
beliscar as faces pálidas. Quando o comandante Winter viesse pela valsa, ela deveria agir como
uma perfeita senhorita ingênua, cheia de comentários inocentes e sorrisos, para conseguir que ele
relaxasse e revelasse tudo. Saiu do banheiro com um espírito de guerreira intrépida, mas em
seguida perdeu sua energia quando avistou o comandante junto a lorde Kirkwood e sua
preceptora. Seu pulso disparou por causa da repentina excitação. Que jovem aventureira
despreparada parecia! Se não ficasse esperta, jamais conseguiria saber o que precisava saber.
"Se esqueça de suas preocupações por Dolly. É uma espiã com uma missão. O americano
tem segredos que você deve descobrir pelo bem de seu país."
Amélia conseguiu se acalmar. Assim era melhor.
O anfitrião da festa a observou enquanto ela se aproximava do grupo.
— Ah, lady Amélia, precisamente estávamos falando de você com a senhora Harris. Eu
gostaria de lhe apresentar meu primo.
— Encantada — disse enquanto se esforçava para sorrir. Que nervoso! A dança seguinte era
uma valsa.
Lorde Kirkwood fez as apresentações pertinentes. Quando mencionou que a madrasta de
Amélia era americana, ela segurou o fôlego, mas o comandante simplesmente sorriu a modo de
resposta.
Em seguida pediu que lhe concedesse a valsa fazendo elogios de forma perfeitamente
apropriada. Se Amélia não soubesse que ele poderia estar investigando Dolly, teria se sentido
adulada. Por um momento, temeu que a senhora Harris, uma pequena mulher de trinta anos com
cabelos chamativos, protestasse, já que o comandante não havia causado exatamente a melhor
impressão. A viúva parecia estudar tanto lorde Kirkwood quanto o comandante Winter com certa
reticência. Mas, felizmente, limitou-se a dizer: "Espero que aproveite, Amélia", e a seguir se
abanou com brio.
Enquanto o comandante a guiava até a lotada pista de dança, Amélia notou que ele a olhava
insistentemente.
— É parente da senhora Harris? — perguntou por fim.
— Não. Era minha tutora na escola.
— Achei que às damas jovens geralmente fossem vigiadas por algum membro da família.
Tentava dizer algo com isso? Não estava certa.
— Sim, mas é que meus pais estão fora da cidade neste instante. — Amélia esperou para ver
a reação dele.
O comandante não mostrou nem surpresa nem preocupação, só uma curiosidade educada.
— Ah, sim?
— Meu papai e Dolly foram hoje para...
— Dolly? A madrasta americana que Kirkwood mencionou?
Maldição, se até então ele desconhecia que ela fosse parente de alguém que se chamava
Dorothy, agora já sabia. O que deveria responder? Ele poderia averiguar a verdade facilmente, e
se a pegasse mentindo sobre algo tão simples, poderia despertar suas suspeitas.
— Sim.
— Acredito que Dolly é o diminutivo de Dorothy, não?
Chegaram à pista de dança e Amélia o olhou enquanto esboçava um sorriso radiante.
— Sempre a chamamos Dolly. Acho que de fato, foi como a batizaram. Na Inglaterra há um

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sem-fim de mulheres que se chamam Dolly, sabe? E nem sempre se trata de um diminutivo de
Dorothy. Sem ir mais longe, na semana passada...
A valsa começou, e Amélia se sentiu aliviada ao não ter que prosseguir com seu estúpido
falatório. Senão, certamente ele teria surrupiado tudo o que desejava saber antes que ela tivesse
averiguado algo sobre ele. Enquanto o comandante segurava uma de suas mãos e deslizava a
outra por sua cintura, ela tentou relaxar. Os espiões sabiam se comportar com uma eficácia
imperturbável, e não tagarelando sem parar.
Então começaram a mover-se ao som da música e Amélia pôs toda sua atenção na valsa ao
invés de em seu estado nervoso. Mas isso só conseguiu piorar as coisas. Porque agora ela era
plenamente consciente dele; não só o via como um investigador. A diferença dos outros homens
que conhecera, sentia-se atraída pelo comandante. Seus ombros fortes se flexionavam sob os
dedos delicados dela, a mão a segurava pela cintura de uma forma íntima, e cheirava a brandy e a
aço, se isso fosse possível.
Os comentários das pessoas não eram nada errados: a valsa era uma dança muito íntima,
especialmente nesse cenário, sob a romântica e tênue luz que emanava dos candelabros Argand,
com as rosas de lady
Kirkwood perfumando o ar e a pequena orquestra enchendo a sala com a mais bela e
sensual...
— Como foi que sua família partiu sem você?
Felizmente, a pergunta conseguiu tirá-la de seus pusilânimes pensamentos de menina
sentimental. Então se deu conta de que, embora a pergunta fosse perfeitamente compreensível, o
tom que foi empregado pelo comandante parecia muito despreocupado.
Amélia procurou responder com o mesmo tom.
— OH, não queriam me privar desta diversão, me obrigando a abandonar a cidade
justamente no meio da temporada de festas. Mas papai preferia que Dolly fizesse repouso em
nosso imóvel no campo.
O comandante se mostrou surpreso.
— Repouso?
— Por acaso os americanos não fazem o mesmo? — repôs Amélia com uma desmedida
carga de inocência no olhar. — Na Inglaterra, quando uma mulher está grávida...
— Já sei o que quer dizer, fazer repouso. — Fez várias respirações profundas, como se
tentasse ficar calmo. — Só não sabia que os ingleses iam ao campo para repousar.
— A saúde de Dolly é muito frágil.
— Entendo — apontou com cepticismo. — É o primeiro filho?
— Sim. — Temendo que ele continuasse inquirindo mais, Amélia decidiu mudar de assunto.
— Dança muito bem, comandante Winter.
A verdade era que dançava com um soldado, com um absoluto controle de cada passo.
Nenhuma mulher teria problemas para seguir seu ritmo.
— Parece impressionada. Pensava que os americanos não sabiam dançar?
"Lembre-se, comporte-se como uma coquete tola", disse a si mesma.
— É obvio que não. O que me surpreende é que um soldado tão imponentemente forte
como você goste de dançar. — Amélia deslizou a mão por cima do vigoroso ombro
provocativamente, e em seguida se inclinou suficientemente para lhe oferecer uma panorâmica

23
privilegiada de seu amplo decote. Os homens sempre pareciam gostar disso.
O comandante cravou o olhar no decote e não o moveu dali.
— Antes costumava ir a algumas festas - respondeu, arrastando a voz.
Amélia se sentiu excitada pelo olhar insolente, e notou como os pelos que cobriam todo seu
corpo ficavam arrepiados. Era como se ao invés de exibir só a parte superior de seus seios, tivesse
mostrado muito mais.
Com muita dificuldade pôde manter o ritmo da respiração e dos passos da valsa.
Desejou que ele deixasse de olhá-la como se estivesse nua. Além do irritante calor que
provocava em todo o corpo, era quase impossível se concentrar na tarefa que ela mesma se
atribuiu. Só depois que ele parou de olhar seu decote e a olhou novamente aos olhos, foi capaz de
pensar em algo espirituoso.
— Ouvi que está mais interessado em pistolas do que em passeios — comentou enquanto
que o presenteava com um doce sorriso.
O comandante a observou com interesse.
— Antes, no andar superior, agiu como se não soubesse quem eu era.
Maldição. Voltou a trocar os pés pelas mãos.
— Ainda não havia relacionado você e o homem de quem todo mundo parece falar; não até
que nos apresentaram.
— Ah. — A expressão desconfiada não se apagou de seu rosto. Estudou-a com aqueles olhos
que se defendiam sob cílios incrivelmente longos e espessos. — E que mais ouviu sobre mim?
— Não muito. Ninguém parece saber nada. — Lançou um olhar coquete. — Embora todos
especulem sobre como é possível que um homem que claramente odeia tanto os ingleses se
atreva a vir a Inglaterra visitar o primo.
O comandante franziu o cenho.
— E o que os faz pensar que eu não gosto dos ingleses?
— Vamos, comandante Winter, não mostra nem um ápice de cordialidade com os
cavalheiros, e não dançou com nenhuma dama...
— Porque não tinha nada com que chantageá-las; não pelo fato de que sejam inglesas. — O
sorriso que dirigiu a ela poderia novamente ter acelerado o pulso... caso não continuasse
mostrando um olhar tão glacial como sempre.
— Então sua estadia na Inglaterra se deve somente a motivos sociais. — Só para provocá-lo,
Amélia acrescentou: — E lhe ocorreu apresentar-se em um baile cheio de oficiais ingleses com seu
uniforme porque pensava que isso o ajudaria a fazer amigos?
Um músculo se esticou na mandíbula do comandante enquanto fazia Amélia girar sobre a
pista com uma surpreendente mestria.
— De acordo. Admito-o. Não estou aqui só para visitar meu primo. Vim para intervir no
pacto que os britânicos estão a ponto de fechar com a Argélia.
Amélia sentiu que seu coração encolhia. O comandante não mencionou que andava atrás de
uma tal de Dorothy Frier ou Smith, o que significava que sua investigação era secreta. Isso não
podia ser bom. Mas ela se negava a jogar a toalha tão facilmente.
— E por que você? Não é um diplomata.
— Gozo de uma rica experiência como intermediário com os piratas da Barbária.
O pulso de Amélia voltou a acelerar.

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— Esteve com o tenente Decatur em Trípoli? — exclamou entusiasmada.
Ele a olhou com uma incredulidade evidente.
— Conhece essa história?
Maldito fosse sua imprudência. Mas por que ele teve que mencionar esse assunto,
precisamente esse tema, que ela achava tão extremamente fascinante?
Bom, uma tola poderia mostrar uma paixão por piratas, não?
— Todo mundo sabe o que aconteceu em Trípoli— assinalou vivamente. — Saiu na imprensa
com todo tipo de detalhes.
— Mas certamente não era mais que uma menina quando isso aconteceu.
— Sim, uma menina que se aborrecia muito em um povoado extremamente entediante.
Então, me dedicava a ler os jornais.
A verdade era que Amélia guardava um grande número de recortes de jornal sobre cada
combate dos americanos contra os piratas da Barbaria. Inclinando a cabeça como se fosse uma
menina tímida, acrescentou:
— Se houvessem lojas decentes na localidade, não teria me dedicado a uma tarefa tão
tediosa, mas só se pode aguentar até certo limite. — Piscou com flerte. — E quem não fica
deslumbrada, com uma boa história de corsários?
— Corsários desumanos que raptam homens, mulheres e crianças por dinheiro. Têm ideia...?
— Soltou um bufo de desprezo antes de prosseguir. — Não, claro que não. Para você os corsários
são um assunto de entretenimento.
— Tente viver em Torquay só com um pai mal-humorado como companhia e veremos com o
que o entretém — repôs ela com petulância.
— E sua madrasta? Não estava com você nessa época?
Amélia ficou tensa.
"Cuidado como responde", pensou.
— Dolly e papai só se casaram há poucos anos.
Era sensato acrescentar algo mais? Poderia então ele revelar por que estava interessado? Ou
o que ocorreria se lhe contasse algum dado falso? Talvez, a reação do comandante seria um bom
indicador se era de sua madrasta que ele estava atrás ou se tratava de outra Dolly.
Amélia deu um sorriso sutil.
— Conheceram-se em Devon. Inglaterra era a última parada de Dolly após sua viagem pelo
continente e seu navio da Itália...
— Itália? — interrompeu-a ele, claramente surpreso.
Enquanto um horrível temor se apoderava de seu estômago, ela se esforçou por continuar
falando em um tom tranquilo.
— Florença, se não lembro mau. Dolly visitou um sem-fim de lugares depois que o marido
americano faleceu. Esteve na Espanha, na Itália...
— Durante a guerra? — voltou a interrompê-la, arqueando ambas as sobrancelhas.
Maldição. Amélia não mentia muito bem. Não se atrevia a admitir que Dolly havia chegado a
Inglaterra depois da guerra, já que então as datas coincidiriam com muita precisão com as que o
comandante possuía sobre a tal Dorothy Smith quando esta partiu da França.
— OH, não... quero dizer, estava na Itália até o final da guerra, mas antes disso... bom, talvez
esteja equivocada quanto a Espanha. Poderia se tratar da Grécia... Não estou muito segura — deu

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um encolher de ombros. — Jamais consigo lembrar esses nomes de países estrangeiros, não lhe
ocorre o mesmo?
Ele apertou os dentes.
— Meu trabalho consiste em mantê-los a raia.
— Ah, sim, claro. — Amélia deu uma risadinha atordoada. — Viaja muito? Ao menos deve
ter estado em Trípoli, se teve experiência com os piratas da Barbária, a não ser que... ehhh... que
você fosse um desses malvados piratas.
— Tentou terminar a frase espirituosa com um sorriso zombador.
Podia imaginá-lo como um corsário: com o cabelo negro como o azeviche revolto pelo vento,
um brilhante aro dourado pendurando em uma orelha, o peito descoberto...
"Já chega. O que quer é provar se realmente veio a Inglaterra para se fazer de intermediário
em um tratado", admoestou a si mesma.
— Não estive em Trípoli com Decatur. Enviaram-me com os fuzileiros navais. Mas estive com
O'Bannon em Trípoli no ano seguinte, atravessando o deserto até Derna.
O comandante acompanhara o valente O'Bannon? Não podia acreditar! Estava dançando
com um homem que pisou no forte de Derna, que talvez tivesse libertado escravos e inclusive
entrado em algum harém... Maldição. Outra vez os pensamentos sobre essas histórias românticas.
Nada disso importava. Além disso, provavelmente o comandante mentia.
— Não é possível. Se só era um menino.
— Aos dezessete anos, um moço é mais homem que menino.
Amélia não pôde ocultar sua surpresa.
— Mas então agora deve ter...?
— Sim, sou muito mais velho— a interrompeu secamente. — Tenho quase trinta anos.
— Pois não os aparenta.
— Sim, mas os tenho — atravessou ele, com uma voz tão grave que ressonou dentro do
corpo de Amélia de uma forma mais sedutora que a música da valsa. — E se não acredita que
estive em Derna, posso lhe oferecer um sem-fim de detalhes.
Por alguns instantes, a curiosidade de Amélia se debateu com a prudência. Ao final, a
curiosidade ganhou a partida.
— Ah, sim? Me conte.
— Éramos quatrocentos homens temerários: cavalaria árabe, gregos, mercenários e um
punhado de fuzileiros americanos. Foram necessários cinquenta dias para atravessar o deserto. O
vento Khamsin varria a areia e provocava tormentas que eclipsavam o sol inclusive ao meio dia.
Quando ficamos sem mantimentos, os árabes sacrificaram alguns dos camelos da caravana, e
assim sobrevivemos até que alcançamos os navios com provisões atracados na costa próxima de
Derna.
— Experimentou carne de camelo? — exclamou ela, fascinada.
O comandante deu um encolher de ombros.
— Não tinha escolha. Todos estávamos meio mortos de fome.
— E, no entanto, conseguiram chegar ao forte e... forçaram a população a se render em
menos de duas horas! - relatou Amélia sem quase tomar fôlego.
A exposição deixou o comandante estupefato. Arqueou uma sobrancelha e a olhou com cara
de assombro.

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— Realmente prestava muita atenção a tudo o que lia no jornal, não é verdade?
Ela pestanejou. Novamente se animou mais do que deveria.
— OH, sim. prestava muita atenção, especialmente quando falavam da espada de mazapán.
O olhar do comandante se tornou depreciativo.
— Refere-se à espada de mameluco?
— Mameluco? — Amélia o olhou com impavidez, embora teve que morder a língua para não
perguntar se essa era a estranha espada que estava pendurada no quarto dele.
— Não foram dadas aos americanos réplicas das espadas feitas de mazapán?
— Não, eram espadas de verdade; afiadas e tudo. Se quiser, posso lhe mostrar a minha um
dia destes.
Ela desejou esbofeteá-lo por seu ar condescendente... e beijá-lo por se oferecer a lhe
mostrar a espada. Esse patife sabia como tentar uma mulher aventureira.
— A leva sempre com você, quando viaja? — perguntou, tentando dissimular sua crescente
excitação. — Por acaso acha que terá que subjugar o inimigo pela força?
O comandante desviou o olhar até depositá-lo nos lábios dela, e com uma voz mais rouca
respondeu:
— Se for necessário, sim.
Amélia notou que seu estômago começava a tremer como um pudim.
— Ainda estamos falando de espadas, comandante?
— Isso mesmo. — Uma faísca selvagem emanou do mais profundo de seus olhos. — De que
mais poderia falar com uma jovem dama inglesa?
As palavras escaparam dos lábios de Amélia antes que ela pudesse remediar.
— De sua esposa, por exemplo?
Era a típica pergunta que faria uma coquete tola. E ela só perguntou como parte de sua
investigação. Esse era o único motivo. De verdade.
O comandante piscou várias vezes seguidas.
— Não sou casado.
Amélia ignorou o delicioso calafrio que percorreu todo seu corpo.
— Bem, aos trinta anos já é um pouco velho para não estar casado, não acha?
— Estive muito ocupado nos últimos dez anos, senhorita. Antes da guerra contra a Inglaterra
era muito jovem para me casar, e enquanto durou a guerra, não tive tempo de fazer a corte a
nenhuma mulher.
— Mas faz tempo que acabou a guerra. O que têm feito desde então?
O olhar do comandante se tornou taciturno.
— Missões diplomáticas.
A valsa chegou a seu fim, e ele guiou Amélia até a borda da pista de dança.
— Onde? — apressou-o ela, esperando que o comandante revelasse seus motivos reais. —
Em algum lugar onde não pudesse achar esposa? Parece-me que...
Mas Amélia não continuou; calou-se repentinamente e conteve o fôlego quando avistou um
cavalheiro que abria caminho para eles entre a multidão.
— OH, não, é ele... — foi o que conseguiu dizer. Seu afã por obter informação ficou relegado
a um segundo plano ante a necessidade iminente de se proteger.
— Desculpe, mas preciso ir — proferiu Amélia precipitadamente enquanto se soltava do

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braço do comandante.
Desconcertado, ele a seguiu até a porta de vidro mais próxima que dava à galeria.
— Partir? Para onde?
— Preciso escapar do marquês! — sussurrou ela nervosa. — E por favor, não me siga. É
ostentosamente visível, comandante Winter, então será como um chamariz para mim.
Felizmente, ele atendeu seu pedido. Uma vez fora da sala, Amélia espiou através dos vidros
da porta. O comandante Winter havia sumido, mas o marquês de Pomeroy estava se dedicando a
varrer toda a área. Quando depositou seus afiados olhos azuis nos vidros da porta, ela estremeceu.
Descobriu um pilar próximo, e decidiu se ocultar atrás dele. Olhou a brecha entre o pilar e a
parede, através da qual só conseguia ver as portas de vidro.
— Perdi algo? — murmurou uma voz a suas costas.
O susto que Amélia levou foi enorme. Espantada, deu a volta e viu o comandante de pé, a
seu lado.
— Besta! Me deu um susto enorme! Mas posso saber o que pensa que está fazendo? —
admoestou-o sem poder se conter.
— Continuo com você. Saí pela outra porta. — Seus olhos a observaram com um brilho
inusitado. — Que pena que não pôde encontrar um pilar para se esconder no andar de cima, ou
poderia ter...
— Chist! — chiou Amélia.
Bem a tempo. Porque nesse preciso instante ambos ouviram como a porta de vidro era
aberta. Ela ficou visivelmente tensa quando ouviu a voz do marquês.
— Lady Amélia? Está aqui?
Amélia lançou um olhar intransigente ao comandante Winter. Como se quisesse protegê-la,
ele se aproximou dela, e um sorriso coroou os lábios de Amélia. A situação era bem excitante:
estar ali, escondida com o comandante...
Durante alguns segundos tudo ficou em silêncio, e Amélia pôde imaginar lorde Pomeroy
esquadrinhando cada canto da galeria com o semblante enraivecido. Quando ouviu os passos
sobre o chão de pedra, instintivamente se agarrou mais ao mármore gelado e procurou esconder
seu estado alterado. Não foi fácil, com o comandante a escassos centímetros. Ele havia colocado a
mão sobre sua cintura e a acariciava lentamente, com um toque de seda. Amélia engoliu com
dificuldade.
O comandante Winter cravou os olhos em sua garganta, e de novo apareceu aquela deliciosa
faísca selvagem em seus olhos. Mas a palavra vulgar que lorde Pomeroy lançou a meia voz,
quebrou a magia do momento. Enquanto Amélia continuava contendo a respiração, ouviu como
se afastavam os passos até que finalmente a porta se fechou.
— Importar-se-ia de me contar o que aconteceu? — inquiriu ele.
Amélia exalou o ar que tinha retido nos pulmões, inquieta ante a possibilidade de que
aquele indivíduo voltasse a aparecer e os encontrasse juntos.
— Nada, simplesmente é que não desejo falar com "lorde Pomposo"... quero dizer, Pomeroy.
— E quem é esse indivíduo? se não for muito perguntar...
— O homem com quem trocou algumas palavras sobre passeios e pistolas no início da festa.
— O general Paxton?
— Se ousa chamá-lo assim em vez de lorde Pomeroy, garanto que não terá nenhum receio

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em enchê-lo de balas.
— Pois o fiz. O chamei assim. — A lua iluminou os lábios do comandante enquanto esgrimia
um sorriso zombador. — E sim, se zangou. Uma velha raposa arrogante, não é?
Amélia o fulminou com um olhar depreciativo.
— Aqui, na Inglaterra, o consideramos um herói de guerra por derrotar Boney. Por isso o
príncipe lhe concedeu o título de marquês.
— Então, por que se oculta atrás de pilastras para evitá-lo?
Ela suspirou.
— Esse chato quer casar-se comigo, comigo e com minha fortuna.
— Por quê? Não dispõe de sua própria fortuna?
— Não. Outorgaram-lhe terras e o título, mas precisa mantê-los.
— E você não deseja se casar com um caça fortunas, não é?
A mão do comandante ainda descansava sobre sua cintura. Amélia sabia que deveria
separar-se dele, mas não se decidia a fazê-lo.
— Quem quer se casar com um caça fortunas?
Ele apoiou o braço no pilar, com expressão taciturna.
— Creio que isso quer dizer que não tenho nenhuma possibilidade com você?
— Não têm dinheiro?
— Tive. — Sua voz adotou subitamente um tom pesaroso. — Mas perdi tudo faz anos.
— Deveria ter sido mais cauteloso — comentou Amélia com aprumo, embora seu pulso
voltou a acelerar. Era possível que tivesse perdido por culpa de Dolly?
Os olhos do comandante se encheram de raiva.
— Com cautela tampouco teria conseguido nada. — Afastou a mão de sua cintura, deu meia
volta e começou a caminhar, como se pretendesse afastar-se dela.
Amélia o seguiu pela galeria. Precisava averiguar mais, o que significava que deveria mostrar
mais tato para não ofendê-lo.
— Entretanto, possui outras vantagens que podem rebater sua falta de fortuna, comandante
Winter.
— Ah, sim? — resmungou ele.
Amélia o olhou com olhos descaradamente provocadores.
— Que mulher resistiria a um fuzileiro bonito e forte como você, com um montão de
aventuras? Com suas maravilhosas histórias, poderia entreter uma mulher; isso é algo que outros
maridos insípidos não conseguiriam fazer nunca.
Ele se deteve para contemplá-la com um ceticismo patente.
— E você casaria com um homem simplesmente porque viveu um montão de aventuras?
— Pois claro que sim! Seria muito divertido. — Com um sorriso charmoso, ela continuou
percorrendo a galeria. — Especialmente, se meu marido me levasse nas aventuras.
— Então, por que não se casa com o general... com lorde Pomeroy?
— Santo céu! Mas se não é mais que um velhote! - exclamou ela de uma maneira vivaz.
— Bom, então com outro dos oficiais ingleses...
— A maioria deles só querem minha fortuna para assegurar uma boa aposentadoria. —
Embora parecesse triste, era verdade. — E os escassos oficiais aventureiros que há não procuram
esposa ou já estão casados. — Amélia se virou para ele e o olhou com porte altivo. — Inclusive os

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casados esperam que suas esposas fiquem em casa como boas garotas e que nunca saiam a
conhecer o mundo, enquanto eles navegam até as Índias Orientais ou até mais longe.
— Garanto, lady Amélia, você não gostaria nada de ver o mundo, se isso significasse passar
muitos dias trancada na claustrofóbica cabine de um navio ou montada sobre a garupa de um
camelo.
— O que se sente ao montar sobre um camelo? Podem esses animais correr como os cavalos,
ou é mas como ir ao trote? Podem realmente aguentar tantas horas sem água?
Ele a olhou fixamente.
— Os camelos são animais muito sujos, cheiram terrivelmente e são muito teimosos. Você
não gostaria de montar em um deles. E, certamente, você não gostaria de comer um exemplar.
Maldição. De novo Amélia se deixou levar por sua grande imaginação.
— Claro que não — respondeu com modéstia. — Acredito que a carne de camelo deva ser
muito dura.
— Dura e fibrosa. Não é um manjar para uma dama. —O comandante desviou os olhos e
contemplou os jardins que se estendiam a seus pés. — Suponho que adquiriu este interesse pela
aventura de sua madrasta?
Novamente ele tentava dirigir a conversa para Dolly. Devia suspeitar dela. Amélia avançou
até o corrimão da galeria e cravou o olhar nos arbustos para ocultar seu nervosismo.
— Por que diz isso?
O comandante se aproximou e se apoiou no corrimão.
— Estou seguro de que ela terá relatado suas próprias viagens pela França e...
— França não, comandante Winter. Disse Espanha, lembra? — Amélia podia sentir em seus
ouvidos o retumbar do acelerado pulsar de seu coração.
— É verdade. Durante a guerra. Tinha esquecido. — Ele a olhou aos olhos, inquisitivamente.
— Deve ser muito apegada a sua madrasta, se adotou seu amor pelas viagens.
— Não sei a que se refere. — Amélia estava tremendo. Obviamente, o comandante ia atrás
de sua Dolly. Até que não averiguasse o porquê, não sabia como responder as perguntas dele sem
prejudicar sua madrasta.
O mais prudente era mudar de assunto.
— Deduzo que, embora não esteja muito tempo casada com seu pai, compartilham seus
interesses. Quanto tempo estão casados?
— Comandante Winter— resmungou ela, desesperada para mudar de assunto. —Pensa
continuar aqui de pé, conversando a respeito de minha família, ou vai se decidir a me beijar?
Ele a olhou perplexo.
— Perdão? O que disse?
"Vamos, tente; precisa conseguir que deixe de pensar em Dolly", repetiu a si mesma.
Com o coração pulsando disparado, Amélia deslizou lentamente os dedos por cima do cós
dourado da casaca dele.
— Quando um homem segue uma jovem dama até a galeria e fala de seus pretendentes,
normalmente alberga outras intenções além de simplesmente conversar com ela. Estamos
sozinhos, sob um maravilhoso céu estrelado. Não poderia esperar outra oportunidade melhor. —
Amélia agarrou a mão do comandante e a colocou em sua cintura.
Ele não a afastou. Lançou um sonoro bufo e perguntou:

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— Que idade têm?
— Estou a ponto de cumprir os vinte e um anos.
— É muito jovem para mim — asseverou ele com a voz rouca.
— Bobagens. Lorde Kirkwood tem a mesma idade que você, e lorde Pomeroy passa dos
cinquenta. E, entretanto, isso não os privou de tentar — baixou a vista com recato, no que
esperou que fosse uma atitude provocante. — Mas claro, eu entendo... Não me acha atraente...
— Nenhum homem em seu juízo perfeito acharia que não é atraente — proferiu ele, — mas
isso não significa que esteja tão louco para beijá-la.
De repente, Amélia se sentiu invadida por um instinto imprudente.
— Então, terei que ser eu a beijá-lo.

Capítulo 4

Querida Charlotte:
Estou absolutamente de acordo com você. A consentida senhorita Linley precisa de um
marido com mão firme. Além disso, o senhor Chambers frequenta em segredo o tipo de
estabelecimentos que nenhum cavalheiro deveria visitar, o que é indício de uma definitiva falta de
caráter.
Seu primo dogmático,
Michael

Cada músculo do corpo do Lucas se esticou como uma corda. Que Deus o ajudasse. Amélia
ficou nas pontas dos pés e selou seus lábios com os dela. Por todos os demônios, essa garota era o
suficientemente jovem para ser... bom, no mínimo sua irmã menor.
Mas não beijava como uma irmã menor, disso não lhe restava a menor duvida. Tinha os
lábios mais tentadores que já havia provado. Sem esquecer o gracioso corpo tentador, que morria
de vontade em passar as mãos, centímetro a centímetro. Entretanto, antes que tivesse a
oportunidade de saborear o beijo, ela afastou os lábios e o olhou com um semblante
irritantemente arrogante.
O aborrecimento do comandante foi mais que visível. Essa moça era igual a qualquer outro
maldito inglês; divertia-se acossando-o, atormentando-o, pensando que poderia escapar graciosa
da situação porque ele não era mais que um simples plebeu americano, enquanto ela era uma
presunçosa inglesa. Mas foi ela quem começou o jogo, assim teria que ser ela a terminá-lo.
Apanhando-a pela cintura com ar possessivo, atraiu-a para si.
— Se essa foi sua ideia de um beijo, então agora entendo por que morre de vontades por
uma boa aventura. — A segurou pelo queixo, e bramou: — Isto, lady Amélia, é um beijo.
Apesar de Amélia ter ficado gelada, não tentou detê-lo, e o comandante se aproveitou.
Deslizou os lábios por cima dos dela, provando, saboreando, desfrutando. E depois, enquanto
acariciava as costas envoltas no vestido de seda, começou a abrir caminho dentro de sua boca
com a língua...
Ela sobressaltou-se, mas não lutou para se separar dele; só ficou olhando fixamente, com os

31
luminosos olhos cor de chocolate.
— O que está fazendo?
— Beijando-a.
Amélia corou.
— Sim, mas... disse... ou seja... que você...
— Assim beijam os selvagens americanos. — Amélia conseguira irritá-lo com sua reação. Já
que ela iniciou o flerte, deveria ter compreendido o que ele estava fazendo.
— Mas suponho que você não gosta que um soldado raso se atreva a beijá-la com a língua.
— Não... não disse isso — protestou ela.
— Perfeito. Então, não irá se importar se continuarmos onde paramos.
Sem lhe dar a oportunidade de resistir, voltou a beijá-la. Não sabia o que o deixava tão
ardente, se o visível sobressalto de Amélia ante sua insolência ou o fato de que ela só pretendera
provocá-lo; o certo era que não permitiria que uma petulante dama inglesa risse dele. Não nessa
noite, não quando se sentia tão agitado e furioso depois de seu encontro com os soldados.
Beijou-a do modo mais insolente que um soldado indesejável ousaria fazer, esperando que
Amélia o rechaçasse com o mesmo grau de ferocidade. Mas para sua surpresa, ela não só não
lutou, mas também não mostrou nenhum tipo de resistência quando ele tentou abrir seus lábios
com a língua.
Maldita fosse essa mulher. A sensação era deliciosa, como afundar-se em um melaço quente,
suave como a seda e tão perversamente doce que fez que sua raiva se transformasse em algo mais
perigoso. Embriagado, afundou a língua dentro da boca de Amélia, uma e outra vez.
Com cada golpe, ela se desfazia um pouco mais entre seus braços. Por Deus, essa mulher
poderia enlouquecer qualquer soldado que estivesse desesperado. Que lábios tão lascivos, tão
tenros como um pêssego... Seu suave perfume de madressilva o transportou novamente a seu lar;
por alguns segundos esqueceu que ela era inglesa, esqueceu de quem era enteada. Só ansiava
mais. Muito mais. Desejava conquistá-la, devorá-la.
Quando Amélia o rodeou pelo pescoço com o braço, apertando os suaves seios contra seu
torso, ele interpretou o movimento como um convite e começou a acariciar as costas dela com
ambas as mãos... em seguida foi descendo até alcançar os sinuosos quadris, logo voltou a subir até
as costelas e com os polegares começou a acariciar a parte baixa dos seios acima das costelas...
— Será melhor pararmos — murmurou ela lentamente. Tinha o rosto vermelho e a
respiração ofegante. — Alguém poderia dar-se conta de que nós dois desaparecemos do salão, e
se nos surpreendem aqui juntos, não duvidarão em me pontuar de garota fácil ou algo pior.
O comandante tentou assimilar suas palavras, logo a olhou com frieza.
— Este é o preço que paga pela aventura, bonita — bramou, lutando por conter a
necessidade imperiosa que sentia de carregá-la sobre os ombros, levá-la para baixo, ao jardim e
perder-se com ela entre os arbustos. Ela não parecia dar-se conta de que estava brincando com
fogo e lhe lançou um olhar beligerante.
— Se soubesse o preço que o fariam pagar se nos pegarem juntos, não agiria de um modo
tão ousado.
— A ousadia não tem nada que ver com o que sinto neste preciso instante.
Apesar da grande excitação que sentia, Amélia tentou escapar de seus braços; mas o
comandante não pensava soltá-la tão facilmente. O que ela acabava de insinuar, despertou sua

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curiosidade.
— Exatamente, que preço pensa que eles tentariam me fazer pagar? — perguntou enquanto
lutava para não deixar-se arrastar pela sede insaciável que sentia.
— Eles o obrigariam a se casar comigo. Um cavalheiro não pode beijar uma dama solteira a
menos que esteja cortejando-a. E não é isso o que está fazendo, não é?
As palavras "Não, Por Deus" estiveram a ponto de aflorar de sua boca, mas se conteve.
Deixou-se levar pela doce boca de Amélia, mas o que não queria era tropeçar com uma cretina
dama inglesa. Estava ali por uma questão de justiça, e não a conseguiria sem o apoio dessa mulher.
E que melhor maneira de obter sua ajuda que cortejando-a? Essa atitude podia lhe proporcionar o
álibi perfeito para conseguir seu propósito. Se jogasse bem suas cartas, ela inclusive o convidaria a
sua casa para conhecer seu pai e a madrasta.
O comandante desceu o olhar até os lábios vermelhos de Amélia e balbuciou:
— Essa poderia ser minha intenção.
Amélia piscou.
— Que intenção?
— Lhe fazer a corte.
Era um plano absolutamente seguro. Kirkwood havia comentado que essa dama não estava
interessada em casar, e ela mesma deu a entender. Além disso, lady Amélia não iria querer saber
nada dele depois que ele prendesse a madrasta dela e Theodore Frier, que é o que pensava fazer
quando tivesse certeza de que ela era a Dolly que procurava.
Amélia o observou confusa.
— Está dizendo que deseja me cortejar? Depois de um único beijo?
O comandante elevou a mão até acariciá-la na face, e em seguida deslizou o dedo polegar
pelo provocante lábio inferior.
— Mais de um beijo. E às vezes, isso é tudo o que é necessário.
— Seriamente? — Sua voz estava estranhamente frágil. — Pensei que estava na Inglaterra
por negócios.
— Negócios? — inquiriu ele com receio.
— O pacto com os argelinos.
— Ah, sim, claro. — Em certo modo, era verdade. Seus superiores consideraram que isso lhe
proporcionaria a desculpa perfeita para perseguir os Frier. — Mas isso não significa que não possa
procurar uma esposa enquanto me dedico aos negócios.
O comandante pareceu distinguir uma faísca de raiva em seus olhos, mas esta se desvaneceu
rapidamente. Provavelmente só havia imaginado. Por que motivo ela poderia estar zangada? As
mulheres como ela faziam coleção de pretendentes como se fossem joias. Lady Amélia não se
importaria de pendurar um pretendente mais ao pescoço.
— Então agora procura uma esposa. — Deslizou as mãos pela cintura do comandante, e
ficou paralisada de repente, quando notou a adaga. — O que é isto? — Introduziu a mão em sua
faixa, tirou a faca e ficou olhando com cara surpresa. — Sempre carrega uma adaga quando
corteja uma mulher?
— E você? Sempre revista seus pretendentes para averiguar se estão armados? — contra-
atacou ele, lhe arrebatando a arma com brutalidade e voltando a escondê-la entre a faixa.
Durante alguns instantes, Amélia não soube o que responder; em seguida deu um sorriso de

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cumplicidade mais na linha de menina cândida e sedutora do começo do que na mulher que ele
acabara de beijar.
— Claro que não, desconfiado; foi por acaso. Mas esse é exatamente o problema com você
na hora de me cortejar: desconhece as regras do jogo.
— Que regras? — grunhiu ele, irritado ante a abrupta mudança de personalidade de Amélia.
Desta vez, quando ela tentou afastá-lo, ele aceitou soltá-la.
— O que se considera de bom tom. — Amélia deu um sorriso zombador. — Na Inglaterra, ir
armado a um baile é considerado um ato de extrema má educação, comandante.
— Lucas — matizou ele tensamente, zangado ante seus estúpidos comentários sobre o
decoro depois de ter deixado que a beijasse ardentemente. — Me chame de Lucas. É meu nome
de batismo.
Ela baixou a vista com um gesto recatado.
— Ainda não estamos prometidos, senhor. E não é provável que tenhamos um compromisso
se continuar burlando as regras de conduta que seguimos aqui, na Inglaterra.
Ao diabo com as regras de conduta da alta sociedade inglesa! Ele só queria uma
oportunidade para descobrir o que precisava saber. Mas claro...
— Bom, poderia me ensinar como me comportar. Para não burlar as regras, quero dizer.
Sim, isso poderia funcionar. Não seria capaz de prosseguir com a investigação se ela não
desejasse vê-lo mais por causa de seu comportamento severo.
— Poderia me ensinar sobre como me comportar corretamente na sociedade. — Sem poder
ocultar o tom sarcástico de sua voz, acrescentou: — Converta-me em um pretendente digno de
você.
Um estranho brilho calculador emergiu dos olhos de Amélia.
— Parece uma ideia brilhante.
O comandante também esperava que assim fosse.
— Pois claro. Quem melhor do que você poderia me ensinar como me comportar? — A
única mulher capaz de guiá-lo até Dorothy Frier e dali até Theodore Frier.
— Exatamente. Quem melhor que eu? — Amélia piscou várias vezes seguidas a modo de
flerte. — Embora não estou totalmente segura se o esforço irá valer a pena para mim, quando
tenho outros cavalheiros interessados em me cortejar que já conhecem as regras pelas quais se
rege a sociedade inglesa.
O comandante apertou os dentes. Se essa moça esperava que ele rogasse pelo privilégio de
cortejá-la, era demais. Mas ele tinha algo que ela queria.
— Sim, mas nenhum desses tipos pode saciar sua sede por aventura com maravilhosas
histórias.
Amélia o olhou fixamente.
— Nisso têm razão.
— Mas é que, além disso, eu posso compartilhar minhas aventuras com você, se quiser.
O olhar dela se tornou mais desconfiado.
— Que tipo de aventuras? Seus beijos?
O comandante notou como se crispava cada músculo de seu corpo. Ao menos isso lhe
serviria de pagamento por ter que suportar lições de comportamento.
— Se for isso o que quer, bonita...

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Amélia fez olhos de coquete.
— Vamos ver. Se demonstrar que é digno de ser meu pretendente, então talvez esteja
interessada em algumas aventuras desse tipo.
Então essa pequena brincalhona desejava exercitar seus ardis com ele, não é? Perfeito; a
deixaria praticar tudo o que quisesse.
— Então, fechamos um trato. Você me dá lições de como me comportar em sociedade, e eu
em troca te ofereço aventuras... do tipo que desejar.
Amélia duvidou por alguns instantes, logo lançou um sorriso triunfal.
— De acordo. Não duvide em ir me visitar na casa de meu pai, aqui na cidade. Lorde
Kirkwood poderá lhe dar o endereço. — Dirigiu a vista para a porta de vidro. — E agora será
melhor que eu entre antes que alguém venha me buscar.
Quando ela começou a caminhar, ele se dispôs a segui-la. Então, ela voltou a deter-se.
— Não podemos entrar juntos, ou as pessoas irão pensar que...
— Que estávamos aqui fora, fazendo algo que não devíamos?
— Exatamente. — Amélia o observou com olhos sedutores meio entreabertos. — Esta será
sua primeira lição: ninguém nunca quer que outros pensem que esteve fazendo algo indevido.
— Nesse caso... — Sem mediar nenhuma palavra mais, ele começou a alisar a parte
posterior da saia com a mão.
Sobressaltada, Amélia deu um pulo e ruborizou.
— O que está fazendo?
— A sua saia estava suja, certamente por ter se apoiado no corrimão. E se não quer que
ninguém saiba que estávamos...
— Ah. — Amélia se apressou a limpar o vestido. — De agora em diante, me diga o que
preciso fazer, mas não tome a liberdade de agir por sua conta.
— De acordo. A próxima vez deixarei que você limpe sozinha o traseiro — concluiu ele, e
embora não o expressou em voz alta, pensou: — "Seu bonito traseiro, que eu tanto gostaria de
manusear".
Amélia começou a rir.
— Ah, e não deveria utilizar a palavra "traseiro" em público.
O comandante a olhou perplexo.
— Acaso prefere que diga bunda?
Ela deu um olhar cheio de recriminação.
— Não deve se referir a nenhuma parte do corpo de uma pessoa.
— Então não posso te oferecer uma mão? Ou segurar no braço? Ou...?
— Vamos, sabe perfeitamente a que me refiro.
— Não esteja tão segura. Segundo vocês, os ingleses, não sou mais que um selvagem.
— Inclusive os selvagens podem aprender a comportar-se.
— Se isso for o que eles desejam, claro.
Amélia arqueou uma sobrancelha.
— Pensei que era o que queria.
O comandante se esforçou para esboçar um sorriso.
— Sempre e quando não tentar me converter em um desses cavalheiros afetados ingleses.
— OH, duvido que isso seja possível — esclareceu ela, com uma voz que só podia definir-se

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como sarcástica. Mas justo quando ele se questionava esses repentinos arrebatamentos dela,
Amélia levantou a mão, moveu os dedos em sinal de despedida e adicionou: — Espero vê-lo em
breve... Lucas. Não poderei dormir pensando em nossa próxima aventura.
Ato seguido, Amélia deslizou rapidamente pela galeria, movendo os quadris com graça, e ele
ficou ali parado, contemplando-a com uma crescente excitação. Logo daria a essa pequena
espevitada uma aventura que não poderia esquecer; quando tivesse a oportunidade de ficar a sós
com ela em algum lugar onde pudesse fazer que se deitasse e...
Lucas murmurou um palavrão entre dentes.
"Não seja idiota", disse-se. Esse cortejo tinha por função extrair informação, nada mais.
Precisava deixá-la brincar e bater os cílios como uma tola coquete. Enquanto ela brincava de
domar um americano selvagem, ele se dedicaria a interrogá-la, não a fazer amor. Porque a única
coisa que importava era obter respostas.

Quando Amélia entrou no salão de festas, seu sorriso tolo se transformou em uma careta de
desgosto. Cortejá-la? Sim! A única coisa que esse patife pretendia era usar a desculpa do cortejo
para descobrir o que precisava saber a respeito de Dolly. Provavelmente, inclusive sonhava com a
possibilidade de que ela acabasse convidando-o ao imóvel que a família possuía em Torquay.
Embora parecesse impossível, Dolly era o foco de sua investigação. O comandante lhe fez muitas
perguntas diretas, tinha tentado encurralá-la várias vezes para lhe surrupiar informação.
E sua grosseira forma de cortejá-la? Como se atrevia esse animal a fingir que desejava fazer
a corte a uma mulher só para conseguir o que queria? Como se atrevia?
Bom, os dois podiam divertir-se com esse jogo. Enquanto o comandante tentava beijá-la à
espera de obter informações, ela o enganaria até que ele acabasse revelando por que estava atrás
de Dolly. Toda suspeita grotesca que esse indivíduo pudesse albergar não poderia estar apoiada
em nada substancial. E ela provaria isso, mesmo que tivesse que fingir ser uma coquete tola,
fazendo cara de coitada e pestanejando sem parar...
— Ficou todo este tempo lá fora? — perguntou uma voz feminina familiar a suas costas.
Amélia ficou imóvel, logo deu a volta e viu sua tutora.
— Sim, precisava de um pouco de ar fresco.
A senhora Harris parecia mais preocupada que zangada.
— Aquele sujeito não a incomodou, não é?
O coração de Amélia voltou a acelerar.
— Quem?
— Lorde Pomeroy. Vi que saiu atrás de você, mas antes que pudesse intervir, ele já estava de
volta; assim supus que soube lutar com ele sozinha.
— OH. — Amélia sorriu com cara de alívio. — Assim foi; me escondi para que não me visse.
A senhora Harris deu um suspiro.
— Graças a Deus. Como acompanhante, teria me sentido arrasada se esse sujeito tivesse
encostado em você. Mas não me dei conta de que ficou lá fora. Fiquei concentrada em uma
conversa e quando me dei conta...
— A senhora Harris ficou muda de repente, com o olhar fixo em um ponto situado à
esquerda de Amélia.

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Amélia deu a volta e... OH, não! Viu Lucas entrar no salão justamente pela porta contigua a
que Amélia entrara. Lucas notou que as duas mulheres estavam olhando-o; saudou-as com a
cabeça e continuou seu caminho, deixando Amélia com a obrigação de prestar contas a senhora
Harris. Com o penetrante olhar azul da preceptora cravado em seu rosto, Amélia espetou:
— Não é o que pensa.
— Estava com ele? Na galeria, sozinha?
— Sim, mas só estávamos conversando. Veio para assegurar que lorde Pomeroy não estava
me incomodando.
— Está segura? — A senhora Harris olhou Amélia fixamente. — Tome cuidado, pequena.
Quando um homem da idade do comandante Winter...
— Não é mais velho que você — protestou Amélia.
— Mas isso significa que sim é muito mais velho que você. E não deve esquecer que esse
indivíduo é um simples soldado, e em troca você é uma rica herdeira.
— Por isso certamente está atrás da minha fortuna, não é assim?
A senhora Harris ficou meditativa.
— É possível.
Amélia ficou visivelmente tensa. Deveria confessar tudo o que havia descoberto no quarto
do comandante? Provavelmente não. Consciente da responsabilidade que a senhora Harris tinha
em seu papel de tutora, o mais seguro era que a obrigasse a fazer as malas e ir ao campo com seu
pai e sua madrasta. Amélia não desejava alarmar Dolly desnecessariamente... ou fazer que seu pai
suspeitasse da esposa. O mais conveniente era não contar a ninguém o que sabia até que
dispusesse de mais informações.
— Duvido muito que o comandante Winter esteja interessado em minha fortuna — replicou
Amélia.
— Por que não? Não sabemos quase nada sobre ele; só que é parente de lorde Kirkwood.
Não sabemos de que família provém, nem se tem dinheiro...
— E, é obvio, seria conveniente saber todos esses detalhes, não é mesmo? — Claro, esses
detalhes poderiam ajudá-la a averiguar o que Lucas queria de Dolly.
— Você gosta dele? — perguntou a senhora Harris.
— Talvez sim.
O profundo suspiro que a acompanhante deu, fez que seu chamativo cabelo vermelho
balançasse como a copa de uma árvore açoitada pelo vento.
— Não sei por que, mas não me surpreende. É o tipo de homem que poderia atraí-la. — Sua
voz se tornou mais frágil. — Está nessa idade tão interessante que lhe permite exibir-se como um
tipo mundano sem ser ainda velho. Usa um imponente uniforme e vive uma vida fascinante, e é
exatamente o que qualquer jovenzinha acredita que quer. Até que essa jovenzinha o consegue.
Amélia esgrimiu uma careta tediosa.
— Ainda estamos falando do comandante?
A senhora Harris piscou, e logo pigarreou nervosa.
— Perdoe-me, querida. Às vezes tendo a deixar que minhas próprias experiências ilustrem
minhas percepções, não é verdade?
— Sim, às vezes sim— repôs Amélia, com um sorriso.
Não era que culpasse à senhora Harris. A filha do barão fugiu quando jovem com um oficial

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da cavalaria que resultou ser um pilantra, e após somente dois anos de casamento, o tipo gastou
até o último centavo de sua herança.
Felizmente, o oficial teve o acerto de morrer em um duelo, deixando à senhora Harris livre
para reorganizar sua vida. Mas a viúva se mostrou compreensivelmente precavida com os homens
após, tanto consigo mesma como com suas pupilas. A senhora Harris cravou a vista no outro
extremo da sala, onde Lucas estava se servindo uma taça de ponche.
— Então, você gosta do comandante americano, não é?
— Eu gosto de suas histórias a respeito das lutas contra os piratas da Barbária, e acho a
profissão dele terrivelmente fascinante.
O que Amélia não disse foi que seus beijos também a seduziam, tão apaixonados como os
que eram narrados nos contos do harém; como naquele sobre o corsário que raptou uma viúva
inglesa e a beijou de um modo tão subliminarmente apaixonado que...
Amélia lançou um bufo. Maldito fosse Lucas por recorrer a seus beijos de corsário para
seduzi-la. Não deveria pensar naqueles beijos. Eram meramente parte da estratégia dele, as
táticas de um patife, nada mais. Beijos fáceis de esquecer.
Como um cometa fugaz no meio do céu noturno. Ou como um eclipse de sol. Ou como o rio
Tamisa congelado, quando ela tinha dezesseis anos. Voltou a dar outro bufo. Maldito fosse esse
rufião por conquistá-la com seus beijos enganadores.
— Se eu gosto ou não dependerá do que possa aprender sobre ele. — Fixou os olhos nas
costas fortes e largas de Lucas e sorriu maliciosamente. — Tal e como uma sábia mulher que
conheço diz sempre: "A informação é mais valiosa que o ouro".
— Agrada-me ver que alguns de meus ensinamentos arraigaram em você — proclamou
orgulhosa a senhora Harris.
— Não se preocupe, garanto que aprendi todos seus ensinamentos. — Amélia afastou os
olhos de seu adversário. — E sei exatamente quem deveríamos consultar para averiguar coisas
sobre o comandante Winter.
— O primo Michael? — apontou a senhora Harris.
— OH, a verdade é que não tinha pensado nele, mas sim, deveria escrever a ele. Estava
pensando em lady Kirkwood. Quem melhor que um familiar direto desse indivíduo para revelar
seus segredos?
— Não sei se aceitará nos contar algo — remarcou a senhora Harris.
Amélia sorriu.
— Essa mulher está procurando uma rica herdeira para o filho, não? Nós também podemos
lhe oferecer informações valiosas, em troca.
A senhora Harris não pôde se segurar e deu uma gargalhada.
— É mais matreira do que acreditava.
— Tive uma boa professora. — Com uma risadinha travessa, Amélia apertou a mão de sua
acompanhante. — Vamos lá, vamos ver como ajeita as coisas com lady Kirkwood.
Apesar da senhora Harris esgrimir uma careta de cansaço, foi com Amélia em busca de lady
Kirkwood. Felizmente, acharam à viscondessa viúva de pé, sozinha, ao lado da orquestra. Quando
se aproximaram, lady Kirkwood sorriu cautelosamente.
— Senhora Harris, que alegria vê-la.
— Igualmente — respondeu a acompanhante. — Espero que não se importe, mas Amélia e

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eu desejamos lhe fazer algumas perguntas sobre seu parente, o comandante Winter.
— Hum, não estou certa de que possa ser de grande ajuda. Nossas famílias nunca foram
muito unidas.
— Que pena! — interveio Amélia — minha querida amiga, Sarah Linley, comentou que você
seria a pessoa mais adequada a se perguntar.
Lady Kirkwood suavizou-se enormemente.
— Ah, sim, a senhorita Linley. Que moça mais encantadora.
A senhora Harris pensou que era o momento de agir.
— E fiel admiradora de seu filho, pelo que ouvi.
Lady Kirkwood sabia perfeitamente como jogar nesse tipo de partida.
— E ele também a admira muito. — passou a mão por seu cabelo grisalho. — Espero que
transmitam o que acabo de dizer.
— Não resta a menor duvida — respondeu Amélia com afabilidade. — Ficará encantada ao
ouvir; inclusive diria mais, se sentirá muito feliz. E agora, falando do comandante Winter...
— Ah, sim. Meu primo. — Lady Kirkwood se inclinou para elas. — Bom, é um primo
longínquo. A mãe dele é descendente do quarto visconde de Kirkwood.
— E o pai? — inquiriu a senhora Harris.
— Por que querem saber? — contra-atacou lady Kirkwood.
— O comandante Winter mostrou certo interesse por lady Amélia.
Amélia conteve a respiração, rogando que lady Kirkwood não estivesse à par das propostas
que seu filho lhe fez no ano anterior. Se fosse assim, suas perguntas poderiam lhe parecer um
pouco estranhas. Pelo visto não sabia de nada, já que esgrimiu um sorriso inocente.
— Ah, sim? Devo lhes confessar que me surpreende. Não digo que lady Amélia não seja uma
jovenzinha adorável, perfeitamente capaz de atrair qualquer jovem, mas... — Suspirou. — O
comandante Winter não gosta muito dos ingleses. E não se preocupa em ocultar sua aversão.
— Suponho que a guerra é a culpada de seus preconceitos — refletiu a senhora Harris.
Lady Kirkwood sacudiu a cabeça.
— É mais que isso, embora não conheço a história inteira. Meu filho David sabe, mas ele não
contará. Parece ser que algo ocorreu ao comandante Winter quando estava na Inglaterra logo
após o final da guerra...
— Já esteve na Inglaterra antes? — perguntou Amélia.
— Sim, embora não estou certa do motivo. Creio que tinha algo a ver com o tratado de paz.
Sei que David o ajudou com sua passagem a América.
Que estranho. O que estaria fazendo um americano na Inglaterra, justamente depois da
guerra? Podia tratar-se de um espião? Ou o assunto tinha algo que ver com Dolly? Isso carecia
totalmente de sentido. Lorde Kirkwood jamais teria ajudado um espião.
Além disso, nessa época, Dolly ainda não havia chegado a Inglaterra, e era óbvio que Lucas
não sabia o que Dorothy perseguia até pouco tempo.
— Deixando de lado o que possa sentir por outras damas inglesas — continuou a senhora
Harris, — o certo é que mostrou um claro interesse por minha pupila. E esperava que você
pudesse me oferecer alguma informação sobre sua família e suas intenções.
— O pouco que sei é que a mãe dele provém de uma das famílias mais ricas de Richmond,
no estado da Virginia, e que seu pai era um simples marinheiro. — Lady Kirkwood as obsequiou

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com um sorriso fugaz.
— Parece que o pai era tão bonito que as mulheres se viravam quando ele passava, e assim
foi como conseguiu casar-se com a mãe do comandante Winter.
— E como obteve uma comissão, o comandante? — perguntou Amélia. — Graças às
poderosas influências da família de sua mãe?
— Não exatamente. Embora entendi que o comandante Winter foi criado em um ambiente
pobre (os marinheiros na América não ganham melhor que os daqui), a família conseguiu fazer
fortuna mais adiante. O pai abandonou a Infantaria da Marinha, quando o comandante Winter era
um moço, para montar uma empresa de armamento. Inventou um canhão especial para navios
que o fez rico. Quando o comandante Winter tinha dezesseis anos, seu pai possuía influencia
suficiente para conseguir uma comissão para o filho no corpo dos fuzileiros navais dos Estados
Unidos.
A senhora Harris parecia satisfeita.
— É filho único? Ou, pelo menos, o mais velho?
— Felizmente, é filho único. — A voz de lady Kirkwood se tornou desdenhosa. — Se fosse o
filho mais velho, teria que compartilhar a propriedade familiar com os irmãos. Esses americanos
estão loucos para permitir que todos os filhos herdem uma parte das terras. É irracional. Como
podem as famílias permanecerem fortes e unidas se dividirem seus bens?
Amélia teve que conter-se para não replicar a lady Kirkwood. Pessoalmente, sempre
considerou que o sistema inglês era injusto com as filhas e com os filhos menores.
— Então herdará a companhia do pai — deduziu a senhora Harris.
— Já o fez. Seus pais morreram faz três anos, enquanto ele estava fora do país.
A trágica notícia sacudiu Amélia dos pés à cabeça. Os pais do Lucas haviam morrido
enquanto ele estava ausente? Deve ter sido terrível para ele!
— Pobre homem — manifestou a senhora Harris com expressão afligida. — Suponho que
isso o obrigou a assumir as responsabilidades do negócio de seu pai. Por isso está aqui? Por algo
relacionado com a companhia de armas?
— Não, não... enviaram-no para que intervenha em um tratado. Ainda faz parte dos
fuzileiros de seu país. — Lady Kirkwood parecia um pouco confusa. — Creio que tem alguma
pessoa de confiança encarregada da empresa Baltimore Maritime...
Amélia ainda não se repôs da enorme tristeza que lhe causara a notícia da morte dos pais de
Lucas quando este só tinha... o que?, vinte e sete anos? Não podia ser mais velho, se isso ocorreu
três anos antes... três anos...
Três anos antes! Um desagradável calafrio percorreu por toda sua costa. Não foi então
quando Dolly partiu da América ao Canadá?
— E os pais morreram ao mesmo tempo? — perguntou Amélia com voz tremula, com medo
a considerar a horrível possibilidade que estava se forjando em sua mente.
— Sim.— Um repentino ar melancólico se apropriou das feições de lady Kirkwood. — Não sei
todos os detalhes, mas foi muito trágico.
Claramente, lady Kirkwood chegara ao limite dos segredos que desejava desvelar.
Entretanto, Amélia ainda queria averiguar uma coisa mais.
— Não foram assassinados, suponho...?
— Assassinados? É obvio que não! — exclamou lady Kirkwood. — Esses americanos podem

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ser bastante brutos, mas estou certa de que não se atrevem a ir por aí assassinando pessoas
absolutamente respeitáveis.
— Rogo que desculpe lady Amélia. — A senhora Harris se apressou a intervir. — Esta
jovenzinha tem uma imaginação transbordante.
— Foi o que percebi. Assassinados... Bom, e agora, se me desculparem, devo atender outros
convidados.
E desse modo, lady Kirkwood deu por concluída a conversa.
Assim que as duas mulheres se afastaram da viscondessa viúva, a senhora Harris admoestou
Amélia.
— Bem, jovenzinha, pode-se saber a que vem isso de assassinato? De verdade, Amélia...
— Sinto muito. Já me conhece; sempre tão dramática...
Amélia mal podia ocultar seu alívio. Graças a Deus Lucas não suspeitava que Dolly estivesse
envolvida na morte de seus pais. Isso seria terrível.
A senhora Harris esquadrinhou seu rosto, mas finalmente abandonou o assunto.
— Pelo menos, já sabemos que o comandante Winter não é um caça fortunas.
— Sim. — Mas na galeria lhe disse que havia perdido todo seu dinheiro. Mentira? Ou era
simplesmente que lady Kirkwood desconhecia esse detalhe? E isso tinha algo a ver com Dolly?
Provavelmente não; senão, certamente o comandante teria mencionado a Amélia em primeiro
lugar.
A senhora Harris voltou a observá-la com evidente preocupação.
— Não parece muito convencida.
— Uma mulher deve ser sempre cautelosa. Antes de ter algo com o comandante Winter,
quero confirmar se suas intenções são sérias. E logo poderei agir da forma que considere mais
conveniente.
— Uma decisão muito acertada, querida. - A senhora Harris sorriu satisfeita.
Já acreditava que agiria da forma que achasse mais conveniente... estava segura de que os
beijos interessados de Lucas Winter tinham por função unicamente distraí-la, para que ele
pudesse levar a cabo sua investigação secreta... Pois bem, antes que essa história chegasse ao fim,
Amélia pensava fazê-lo pagar bem caro por sua afronta.

Capítulo 5

Querido primo:
Que terrível isso sobre o senhor Chambers! Jamais teria imaginado. É uma pessoa com um
rosto tão afável. Pode-se saber de onde consegue esse tipo de informação? E o que suas fontes
opinam sobre o comandante Lucas Winter, o primo de lorde Kirkwood? mostrou certo interesse por
lady Amélia, o que me incomoda. Esse homem sim que tem um rosto pouco afável.
Sua sempre agradecida e boa amiga,
Charlotte

A lanterna no túnel apagou. Os gritos de Lucas foram abafados pelo estrondo dos passos na

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superfície, sobre sua cabeça. Ninguém podia ouvi-lo, nem vê-lo... Estava tudo tão escuro naquele
maldito túnel, e fazia tanto frio...
Deslocou-se engatinhando pela superfície imunda até que conseguiu alcançar a entrada do
poço; mas quando olhou para cima, descobriu que o acesso estava bloqueado por uma enorme laje.
Subiu com esforço e tentou mover o bloco, mas este não se moveu. Maldição! Com tanto ruído no
exterior, ninguém o ouvia.
Então soaram disparos de mosquete, amortecidos pelas pedras sobre ele. Não! Os casacas
vermelhas estavam disparando!
Ouviu gritos, gritos dilaceradores de homens que agonizavam; seus homens. Isto não deveria
estar acontecendo! Os casacas vermelhas não tinham nenhum direito de atirar, nenhum!
Desesperado, continuou escavando na terra com as mãos ensanguentadas, tentando deslocar a
laje, mas tudo foi inútil. Enquanto isso, seus homens eram massacrados ali na superfície...
Com a roupa em farrapos, o frio impregnou até os ossos, lhe causando tremores impossíveis
de controlar. O ar fétido lhe obstruiu a garganta, e começou a respirar com dificuldade. Quanto ar
restava? Quanto tempo poderia aguentar antes que essa loucura acabasse? Tentou pensar, mas os
gritos não paravam...

Lucas se ergueu da cama de repente, coberto por um suor frio, com o coração pulsando tão
descompasadamente em seus ouvidos que precisou de alguns instantes para lembrar que estava a
salvo. Não se achava sepultado, meio nu e morto de fome naquele escuro túnel, esperando a
morte.
Só havia ficado descoberto por causa da agitação, isso era tudo. E simplesmente porque só
usava os calções para dormir, ficou gelado. Não estava acontecendo nada. Nada. Sentou-se na
cama, apoiou os pés no chão e respirou profundamente, tentando apaziguar o ritmo do pulso
ainda disparado. Quando se acalmou, pegou a manta e a jogou por cima dos ombros, depois se
levantou e se dirigiu à janela, onde a escassa luz no horizonte anunciava o eminente amanhecer.
Entreabriu os olhos e tentou esquecer os fantasmas que povoavam sua mente.
Esses detestáveis pesadelos... Fazia muitos meses que não tinha um desses sonhos rudes; a
última vez foi durante a travessia do Canadá a França, quando teve que trancar-se na cabine
claustrofóbica de um navio. Aquela viagem o fez temer o pior: que jamais seria capaz de passar
semanas inteiras em alto mar. Um fuzileiro que começava a respirar com dificuldade logo após
embarcar era uma pessoa inútil em um navio.
Mas os pesadelos desapareceram na França, e Lucas albergou a esperança de...
Sem poder se segurar, deu um soco no suporte da janela. Só foi necessário ver alguns
casacas vermelhas no baile para que esses pesadelos retornassem. Por Deus, não suportava ficar
nesse maldito país nem um dia mais. Deu um último olhar ao céu que começava a encher-se de luz
enquanto passava os dedos pelo cabelo embaraçado. Dirigiu-se para a bacia e jogou água gelada
no rosto. As brasas na lareira estavam apagadas, por isso pensou que os criados não demorariam
para entrar no quarto para acender o fogo. Não valia a pena tentar voltar a dormir. Sentia-se
muito agitado; o que precisava era descarregar sua tensão com alguns golpes com a espada, ou
com uma saída para galopar, ou com uma boa distração com alguma mulher...
Mil raios e mil centelhas. De onde tirou essa ideia?
Sim, sabia: Amélia. A bela, coquete e enlouquecedora Amélia. A moça que desejava montar

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em um camelo e que possuía uma lasciva e doce boquinha que despertava as necessidades
urgentes que ele suprimira durante meses, durante todos esses meses solitários. Que pena que
fosse inglesa e a enteada da esposa de um estelionatário, mas o mero pensamento de se perder
naquele corpo sedoso...
Soprou com fúria. Como se essa mulher frívola, que nem mesmo o permitia cortejá-la sem
lições de comportamento, desejasse deitar com ele. Ela alegava que tinha sede de aventuras, mas
provavelmente voltaria atrás diante da primeira oportunidade que apresentasse.
Lucas contemplou o rosto no espelho, escurecido pela crescente barba sem fazer e pela falta
de sono. Por todos os demônios; certamente, ela desmaiaria se o visse agora. E já que sua
intenção era ir visitá-la nessa mesma manhã... Fez a barba e se vestiu com esmero. Não importava
se ela aceitou seu cortejo simplesmente porque estava entediada; Lucas precisava de informação.
E se isso requeria adotar um semblante de indivíduo civilizado e dançar ao som dela, faria isso,
mesmo que tivesse que manter os dentes serrados todo o tempo.
Uma hora mais tarde, Lucas descia as escadas até a sala de jantar. Surpreendeu-se ao ver o
primo na sala.
— Caramba! Sim que madrugou. — Lucas se dirigiu para a mesinha auxiliar, onde os criados
haviam disposto para ele fatias de pão fresco, queijo e frutas. — Acreditava que ninguém da
família tomava o café da manhã antes das dez.
— Ainda não fui dormir — murmurou Kirkwood.
Lucas observou o primo, que se escondia atrás de uma fumegante xícara de chá. Era verdade.
Kirkwood ainda usava o traje de festa.
— Os bailes duram tanto, aqui? — Acabou de encher o prato e em seguida se sentou a mesa,
no extremo oposto ao primo.
— Acabou as três. Mas depois fui ao clube. Retornei há pouco tempo.
— Ah, isso explica tudo. Eu não fiquei até o final. Retirei-me assim que lady Amélia saiu, por
volta da meia-noite.
— Já havia me dado conta.
O tom ácido do primo pôs Lucas à defensiva.
— Também vi que lady Amélia e a acompanhante falavam com minha mãe. — Kirkwood
descarregou todo o peso de seus olhos avermelhados sobre Lucas. — Parece acreditar que você
está procurando esposa. E que depositou suas esperanças em lady Amélia.
Procurando aplacar a irritação, Lucas se serviu um pouco de chá do bule situado no centro
da mesa.
— Já sabe como são as mulheres. Sempre acreditam no que mais lhes convém.
— Nem todas as mulheres. Não a senhora Harris, por exemplo. E não sem uma razão bem
fundada. — Olhou Lucas fixamente. — O que fez? Sei que você e lady Amélia desapareceram do
salão de baile durante bastante tempo, por isso creio que...
— Ande, vá dormir — resmungou Lucas. — Antes que comece a fantasiar com coisas que
não são de sua incumbência.
— Vá com cuidado, Winter. É nosso hóspede, mas...
— Mas você é o único aqui com direito a cortejar uma mulher por motivos impróprios, não?
Quando o primo fez cara de ofendido, Lucas acrescentou:
— Só se trata de um flerte, nada mais. E não pense que fui eu quem o iniciou, porque não é

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verdade. Foi ela. Assim se essa menina caprichosa deseja flertar com um selvagem americano, não
serei eu quem a detenha.
— E lançando um olhar desdenhoso a Kirkwood, adicionou: — Nem tampouco você.
Mas a expressão do primo suavizou.
— Menina caprichosa? Lady Amélia?
— Não se preocupe se me aproveito da cabecinha oca. — Envolveu uma fatia de queijo com
uma fatia de pão e a mordeu. — Garanto, cada vez que lady Amélia me chama de "soldado
imponentemente forte" e pisca coquetemente, tenho vontade de estrangulá-la.
Quando o primo engasgou, Lucas levantou a cabeça e viu que Kirkwood tinha os olhos
úmidos e brilhantes, e que fazia um esforço mais que evidente para não começar a rir.
— O que foi? — perguntou Lucas.
— Está falando de lady Amélia? Da filha do conde de Tovey...?
— Por que pergunta?
— OH, por nada. — Kirkwood não pôde se conter mais e deu uma retumbante gargalhada.
— Simplesmente, é que estou tentando imaginar aquela mulher piscando coquetemente e te
chamando de "soldado imponentemente forte".
Lucas esboçou uma careta de aborrecimento.
— Ouça... acha que estou mentindo?
— Não, é obvio que não— respondeu o primo, tentando recuperar a compostura, mas não
conseguiu e voltou a dar outra sonora gargalhada.
— Para sua informação, não sou um ogro.
— Não estou dizendo isso — afirmou Kirkwood em um tom mais calmo.
— As mulheres me consideram atraente, sabe? — grunhiu Lucas. — E às vezes flertam
comigo.
— Sim, inclusive cabecinhas ocas como lady Amélia. — Os olhos de seu primo delatavam
uma enorme vontade de rir.
— Claro, por que não?
Kirkwood elevou as mãos como se simulasse que se rendia.
— Isso mesmo é o que digo, por que não? — levantou-se da mesa. — Bom, vou dormir. O
deixo idealizando seu plano.
— Espera! Preciso que me diga onde vive lady Amélia.
Kirkwood se deteve na soleira da porta.
— Então é por isso que está com essa pinta de galã, não é? Sua intenção é ir visitar a
"menina caprichosa".
— Dentro de um par de horas — concretizou Lucas. — Quero dar a ela e à senhora Harris a
possibilidade de tomar o café da manhã tranquilas. Além disso, preciso polir minha espada antes
de ir.
— Acomodou-se na cadeira. — Prometi a lady Amélia que lhe mostraria minha espada de
mameluco. A pobre acredita que é feita de mazapãn3.
Kirkwood riu claramente divertido.
— Ah, é mesmo?

3 Marzipan é um confeito que consiste principalmente de açúcar e farinha de amêndoa.

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— De verdade, não sei como suporta essas estúpidas meninas ricas inglesas.
— É uma dura prova. — Seus olhos brilharam com um humor renovado. — Mas será melhor
que não se entretenha muito com essa espada. Não irá querer chegar tarde, não é?
— Tem razão. Espero encontrá-las antes que saiam às compras ou a fazer qualquer outra
frivolidade com a qual ocupem todo o dia. Irei polir a espada rapidamente e irei.
— Ou vá e deixe que seja lady Amélia a polir — brincou Kirkwood. — Assim aprenderá que
não é feita de mazapán.
Lucas imaginou aquela coquete esfregando sua espada, e uma imagem completamente
diferente se formou em sua mente.
— Olhe, se realmente acreditasse que lady Amélia poliria minha "espada", agora mesmo
estaria plantado diante da porta de sua casa.
O primo piscou, e logo o olhou com um patente desprezo.
— Sabe perfeitamente que não me referia a isso. Um cavalheiro não deveria pensar em tais
coisas com uma mulher, e muito menos expressá-las em voz alta.
— Então que sorte que não seja um cavalheiro. — Lucas tomou o conteúdo de sua xícara. —
Não se preocupe; não o direi a ela. Embora de todos os modos, não acho que ela entenderia.
— Quem sabe? Talvez ficasse surpreso — murmurou Kirkwood, e a seguir abandonou a sala.
Lucas o olhou com aparência irritada. Nada que Amélia fizesse o surpreenderia. Aquela
mulher era tão mutável como o vento. Mas não tinha importância. A única coisa que importava
era conseguir o que precisava dela; essa moça podia mudar cinquenta vezes em uma hora se
quisesse. Desta vez, Theodore Frier não escaparia.

Apesar de ter se deitado uma hora da manhã, Amélia levantou cedo. Normalmente, preferia
dormir até mais tarde, mas sua preocupação por Dolly foi a causa pela qual na manhã seguinte
apareceu na sala do café matinal na casa que seu pai tinha na cidade antes das oito. Teve uma
noite muito agitada, examinando mentalmente seus escassos dois anos com a madrasta, em busca
de pistas. E agora se perguntava se as acharia em seus cadernos de viagem. Tinha vários, cheios de
recortes e de desenhos e de um sem-fim de histórias que conseguiu que Dolly lhe contasse sobre
suas viagens. Até que Amélia pudesse viajar, esses cadernos eram tudo o que possuía.
Com passo firme se dirigiu para o escritório localizado ao lado da janela, onde estavam
empilhados todos seus cadernos, pegou o último e o olhou com interesse.
Não achou nada que lhe indicasse por que Lucas poderia estar interessado em Dolly.
Suspirou e inseriu no caderno um artigo que Venetia lhe entregou na noite anterior a
respeito de um desumano tipo conhecido como O Perseguidor Escocês que atacava os nobres
ingleses nas montanhas da Escócia. Pelo que parecia, odiava o pai de Venetia, lorde Duncannon, já
que sempre mencionava seu nome a suas vítimas, apesar que Venetia não saber o porquê. Depois,
Amélia se dedicou a transcrever a descrição de Lucas sobre sua incursão em Derna. Esse homem
conseguiu lhe transmitir a essência da experiência de um modo tão real, que quase podia sentir o
gosto da areia em sua boca. De verdade havia provado carne de camelo?
Olhou um dos recortes de jornal. Sem sombra de dúvida, um camelo devia ser um manjar
melhor que o que comia o paxá na Argélia. Uma de suas esposas havia tentado envenená-lo, mas
só conseguiu foi lhe provocar uma indigestão aguda.

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Provavelmente ele a obrigou a fazê-lo, com seu apetite insaciável. Talvez ela tenha se
cansado de contemplar como desfilavam as concubinas por seu quarto para fazer o que se
descrevia nos contos do harém:

Às cativas ensinavam a adorar o corpo do paxá, a excitá-lo com beijos por todo seu grosso
peito e enorme barriga. Continuando, instruíam-nas sobre como acariciar a "espada" que os
homens têm entre as pernas, primeiro com as mãos e depois com a boca.

As faces de Amélia se acenderam com rubor. A primeira vez que ela e Venetia leram essas
linhas, morreram de rir. Que barbaridade! Como podiam aquelas mulheres fazer isso sem rolar de
rir? Agora a ideia não parecia tão despropositada. Se um homem como... como Lucas, por
exemplo, estivesse deitado, nu, na sua frente e lhe pedisse que venerasse seu corpo...
— Vejo que hoje madrugou, querida - disse a senhora Harris da soleira da porta.
Amélia deu um pulo. Por Deus, essa mulher era tão hábil quanto Lucas quando se tratava de
dar sustos nas pessoas. Tentou esboçar um cândido sorriso nos lábios e deu a volta para saudar
sua tutora.
— E você também.
A senhora Harris se deslocou até a mesinha auxiliar.
— Pensei que o mais correto seria escrever ao primo Michael sobre o comandante Winter o
quanto antes possível. — Pegou um prato e o encheu com peras cosidas, língua fria e uma grossa
fatia de pão.
— Ninguém melhor que ele para averiguar esse tipo de informação, não é verdade? —
comentou Amélia. Inclusive até o primo Michael poderia esclarecer o que o comandante queria de
Dolly.
— Não sei como conseguiria sem o apoio dele.
O comentário despertou a curiosidade de Amélia.
— É verdade que deu o dinheiro necessário para montar a escola?
— Sim. — Depois de tomar assento a mesa, a senhora Harris se dedicou a passar uma
substanciosa quantidade de manteiga no pão. - Jamais poderia me permitir montar sozinha.
— E, entretanto, não o conhece. Não entendo, é seu primo. Por quê...?
— É o primo de meu falecido marido, querida, não o meu. E meu marido se mostrava
certamente evasivo sobre a família. — Comeu um pouco de pão, em seguida limpou os lábios com
a delicadeza de uma dama.
— Confesso que ainda não me dediquei a indagar sobre esse assunto com profundidade. O
primo Michael só me pediu um favor em troca de sua ajuda: que lhe permitisse permanecer no
anonimato. Disse que isso me ajudaria a me resguardar das más línguas. Não desejava arruinar
minha reputação, depois que meu marido - seu próprio primo-arruinou minha vida. Pensei que era
uma ideia muito acertada, assim aceitei sua condição.
— Seja quem for, goza de excelentes contatos. Se não, como conseguiria saber tantas
intrigas? A menos que... — Ocorreu a Amélia uma possibilidade deliciosa.
— Poderia tratar-se de um dos detetives da polícia metropolitana da delegacia de polícia em
Bow Street!
A senhora Harris se engasgou.

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— Mas que imaginação tão transbordante tem, menina! Não, não acredito que seja uma
figura tão romântica; mas suspeito que se trata de um homem de idade avançada, por sua
caligrafia. Tem um pulso muito frágil.
— Ou talvez só tenta enganá-la — especulou Amélia, mas a gargalhada que a senhora Harris
deu por resposta deixou claro que tampouco dava crédito a essa ideia.
Amélia e suas companheiras de classe haviam imaginado um sem-fim de histórias fantásticas
sobre o misterioso benfeitor da senhora Harris: um admirador secreto, um velho amor de
juventude, um rico sultão que bebia os ventos pela bela viúva de um país longínquo...
Golpes secos na porta da entrada tiraram Amélia de seu devaneio.
— Espera alguém?
— Não.
Quando John, o novo lacaio, chegou do vestíbulo para anunciar o comandante Lucas Winter,
as duas mulheres trocaram olhares de surpresa.
— Veio nos visitar a esta hora? - exclamou a senhora Harris.
— Sim, senhora. Diz que lady Amélia aceitou a lhe dar aulas.
Amélia pigarreou antes de falar.
— Huy! Esqueci por completo! — Quando a senhora Harris a olhou inquisitivamente, ela
respondeu: — Prometi que o ensinaria como comportar-se devidamente em sociedade.
— Então, devo indicar ao cavalheiro que entre? — perguntou John.
— É obvio — assentiu a senhora Harris com um sorriso. — A situação pode ser
extremamente interessante.
Só depois que o lacaio abandonou a sala, Amélia recordou que deixou seus cadernos de
viagem espalhados em cima da escrivaninha. Rapidamente, começou a ordená-los.
— O que está fazendo, querida? - inquiriu a senhora Harris.
— OH, só ordenando um pouco toda esta confusão.
Não podia explicar que, se o comandante visse seus cadernos, talvez pensasse que não era
uma menina tão tola e simplória como aparentava ser. Estava segura de que a senhora Harris não
veria com bons olhos essa absurda dissimulação de sua pupila.
A preceptora começou a rir.
— Não se preocupe, querida. Não se dará conta de que é um pouco desordenada... afinal de
contas, é um homem.
Antes de que Amélia acabasse de guardar os cadernos, John anunciou o visitante, e o
comandante entrou na sala. A senhora Harris se levantou para saudá-lo, e Amélia se virou
rapidamente para ele. Quando o viu, pensou que o coração fosse explodir de emoção. Que Deus a
ajudasse...
Deveria ser proibido que esse tipo de homem tão atraente circulasse livremente pelas
esferas da alta sociedade. Não era justo.
— Bom dia, comandante. — Amélia se adiantou para bloquear a visão da escrivaninha.
— Bom dia, senhoras — Lucas inclinou a cabeça cortesmente para ela e depois para a
senhora Harris. — Têm muito bom aspecto.
— E você também — respondeu Amélia.
Mais que bem, maldito trapaceiro... As feições de corsário que encaixavam deliciosamente
com o uniforme, também combinavam à perfeição com o casaco marrom escuro, as calças de

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montaria de veludo e as botas altas reluzentes. Depois de ter esquadrinhado seu armário, sabia
que esse era seu traje mais elegante, além do uniforme. Deveria sentir-se adulada... se não fosse
porque não lhe cabia a menor duvida de que o comandante escolheu o vestuário como parte de
sua estratégia para lhe surrupiar informações.
Esse pensamento a pôs em guarda.
— E o que o traz por aqui, excessivamente cedo, comandante?
A senhora Harris a olhou perplexa pelo comentário tão grosseiro, mas retornou à cadeira
que ocupava na mesa.
— O que tem de errado na hora? — perguntou ele com voz calma. — Estou de pé desde que
amanheceu.
— Parece-me muito bem, mas em Londres, ninguém vai de visita antes do meio-dia.
— Não sabia que os ingleses custassem tanto a levantar-se da cama.
— A senhora Harris e eu estamos levantadas, não? Simplesmente, não estamos prontas para
receber visitas. Deveria lembrar para a próxima vez.
— Asseguro que tentarei — acatou, apertando os dentes. Era evidente que Lucas não estava
acostumado a que lhe dessem lições de nenhum tipo.
Ela ocultou um sorriso. Faria que esse indivíduo se arrependesse do dia que decidiu travar
amizade com a filha do conde de Tovey. Assinalando a espada embainhada, Amélia disse:
— Pensei que ontem de noite tivéssemos concordado que não se apresentaria armado em
nenhum encontro social.
Lucas apoiou a mão no punho.
— É a espada de mameluco que prometi que lhe mostraria.
Um delicioso calafrio percorreu todo o corpo de Amélia. Muito bem, então o patife lhe
trouxe a única coisa capaz de despertar seu interesse. Mas isso não significava que ela fosse
prostrar-se a seus pés em sinal de agradecimento.
— Que delicadeza! — gorjeou Amélia com um tom frio, embora pôs tudo a perder ao
apressar-se a limpar o extremo oposto da mesa onde estava sentada a senhora Harris, saboreando
sua refeição. — Traga aqui, para que possa vê-la.
Lucas fez o que lhe ordenou. Desembainhou a espada e a depositou diante dela. Amélia
sentiu uma transbordante alegria quando pôde examiná-la atentamente, e imaginou o
comandante brandindo aquela maravilha no meio de uma batalha. O punho curvado de aço
dourado e prateado brilhava como uma jóia, inclusive sob a tênue luz matutina.
Mas foi o fio o que mais chamou sua atenção.
— O que é isto? — Assinalou os símbolos pretos de aspecto oriental gravados ao longo de
quase um metro de aço temperado.
— Não sei o que quer dizer todos, mas este daqui é a estrela de Damasco. — Apontou para
uma estrela de seis pontas. — Os ferreiros de espadas em Damasco usam dois triângulos
invertidos como sinal de seu grêmio.
— Posso tocar nos símbolos? — perguntou Amélia.
— Tome cuidado, querida — a acautelou a senhora Harris do outro extremo da mesa.
— Sim — adicionou ele. — Não vá se machucar. Não é uma espada ornamental.
— Já percebi. — Seus numerosos entalhes assim o testemunhavam. Amélia passou o dedo
por cima de cada uma delas, perguntando-se como se originaram. — A levou a Derna?

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— Não, meu governo só entregou a mameluco ao resto da guarnição depois que Hamet
entregou uma a O'Bannon.
— É incrível. — Ela continuou deslizando os dedos pelo fio. — Mantêm sua espada em um
excelente estado, comandante Winter.
— Faço o que posso — respondeu ele, de repente, visivelmente sobressaltado.
Amélia levantou os olhos e viu que o comandante tinha os olhos cravados na mão, com a
qual ela acariciava delicadamente o fio da espada, para cima e para baixo, e outra vez para cima. O
que lhe ocorria? Não ia danificar o aço tocando-o com tão supremo cuidado. A julgar pelo modo
em que a olhava sem quase piscar, parecia como se a espada fosse... Por todos os Santos!
"Continuando, instruíam-nos sobre como acariciar a espada que os homens têm entre as
pernas, primeiro com as mãos e depois com a boca."
Não, certamente ele não podia... não imaginava que ela...
Amélia se dispôs a retirar a mão, mas algo a deteve. O livro do harém dizia que um homem
se sentia bastante incômodo quando estava excitado. E só Deus sabia que isso era precisamente o
que ela queria: incomodar o comandante.
Decidida a medir essa possibilidade, voltou a acariciar a espada, desta vez com mais
atrevimento.
— É magnífica — exclamou ela em um tom exultante.
Ele ficou rígido e um músculo se esticou em sua mandíbula.
— Obrigado.
— Jamais vi uma peça de ourivesaria tão deliciosa. — Encantada com os resultados de seu
experimento, começou a esfregar a espada com mais vontade, para cima e para baixo.
O comandante levantou a mão para detê-la.
— Cuidado. Poderia se machucar. Esse fio é muito afiado.
— Estou vendo — sentenciou ela com flerte. Em seguida afastou a mão... só para depositá-la
sobre o punho e apertá-lo.
A respiração entrecortada dele era tão audível que Amélia sentiu vontade de se felicitar em
voz alta. Sem deixar de acariciar o punho, olhou para cima e disse:
— Permite-me poli-la?
Ele a olhou com os olhos descomunalmente abertos e, com o semblante acalorado,
conseguiu balbuciar:
— Polir m... espada?
— Sim, prometo que o farei com muita delicadeza. — Amélia sorriu candidamente, embora
notava que lhe era difícil respirar por causa do olhar felino do comandante. — Embora duvide que
pudesse danificá-la; parece tão imponente e tão dura...
— Não pode nem chegar a imaginar.
Lucas se sentou em uma cadeira totalmente rígido, e rapidamente se aproximou à mesa.
— Comandante Winter! — admoestou-o Amélia, tentando fingir-se ofendida. — Não é de
boa educação sentar-se antes que todas as damas estejam sentadas primeiro.
— Não pode culpar o comandante, Amélia — interveio a senhora Harris. — O deixou aí de pé
todo o tempo, depois do pobre ter cavalgado tanto para chegar até aqui.
A preceptora a observava com uma sobrancelha arqueada, mas Amélia estava desfrutando
muito e não tinha intenção de deter-se.

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— Bobagens, um pequeno passeio a cavalo não significa nada para um soldado
imponentemente forte como ele, não é assim, comandante Winter?
Lucas abriu a boca para mostrar seu desacordo, mas a senhora Harris voltou a intervir:
— Mostre a ele seus cadernos de viagem, querida. Com certeza ele os achará interessantes.
Amélia suspirou. Agora já não havia como ocultá-los. De todos os modos, não estava
disposta a jogar a toalha nesse jogo tão divertido... ainda não.

Capítulo 6

Querida Charlotte:
Deve saber que são poucos os homens com caráter que oferecem um rosto doce.
Infelizmente, as duras provas da vida deixam sequelas no rosto de uma pessoa. Não obstante,
verei o que posso descobrir sobre o comandante Winter. Se puder, tentarei conseguir informações
dos lábios selados de sua família.
Seu fiel servidor,
Michael

Como perdido no meio da névoa, Lucas ouviu a voz de Amélia.


— Provavelmente, o melhor será embainhar sua espada. Você o fará, senhor, ou prefere que
eu o faça?
Um suor frio começou a escorrer em sua testa. Por todos os Santos, sim, que lhe dessem um
minuto com essa pequena fogosa e embainharia sua espada tão rapidamente dentro dela, até o
fundo...
— Estou segura de que o comandante poderá embainhá-la mais tarde — espetou a senhora
Harris.
Amélia deu um olhar malicioso a preceptora, que inclusive Lucas conseguiu distinguir em seu
febril e sedento estado de luxúria. Teria jurado que a maldita mulher estava atormentando-o de
propósito. Mas como poderia uma virgem puritana converter uma conversa sobre uma espada de
mameluco em uma tortura sensual?
— Se não embainhá-la — apontou ela com uma duvidosa voz inocente, — então talvez eu
possa polir...
— Mencionou algo a respeito de cadernos de viagem? — conseguiu dizer o comandante. Se
essa dama pronunciasse mais uma única palavra a respeito de polir ou embainhar sua espada,
ficaria irremediavelmente a seus pés como um miserável cachorrinho no cio. — Eu adoraria vê-los.
Amélia lhe deu um sorriso frio.
— Oh, mas só se trata de um estúpido passatempo sem sentido. Garanto que um fuzileiro
imponentemente forte como você achará extremamente entediante.
— Eu diria que o fato de ser um fuzileiro imponentemente forte não tem nada a ver com isso
— argumentou a senhora Harris. Depois de lançar a pupila um olhar admoestador, a viúva se
levantou e se dirigiu a escrivaninha que Amélia parecia teimar em ocultar dos olhos do
comandante. Pegou entre as mãos uma pilha de livros encadernados de forma curiosa, levou-os
até a mesa e os depositou diante do comandante.

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Amélia se mostrou notoriamente agitada quando ele abriu o primeiro caderno, um montão
de folhas de papel grossas costuradas com fio e capturadas entre duas tampas de cartão fino.
Cada folha continha algum elemento grudado com cola: um recorte de jornal, uma entrada de
teatro, uma pluma... Mas entre os típicos objetos femininos - flores secas e esboços de reluzentes
vestidos de festa - Lucas descobriu mapas, artigos sobre batalhas, e esboços de personagens
pouco conhecidos.
Surpreendentemente, a menina caprichosa havia incluído até o mínimo detalhe em cada
entrada. Inclusive se dedicou a escrever seus próprios comentários a respeito dos artigos.
Então descobriu páginas e mais páginas sobre os piratas da Barbária: recortes de jornal
sobre suas incursões, testemunhos dos cativos, descrições de sua cultura... A maior parte da
informação estava relacionada com as batalhas navais, incluindo a incursão a Derna. Lady Amélia
inclusive escreveu a história que ele tinha relatado a noite passada!
Não restava a menor duvida. Essa moça era esquisita.
Lucas virou a página, e ficou estupefato quando viu um dos desenhos.
— De onde tirou isto?
— O chefe índio? Minha madrasta o desenhou — declarou ela cheia de orgulho.
O pulso de Lucas acelerou.
— Suas botas de pele felpudas revelam que pertence à tribo dos Maliseet. — Observou
Amélia com um olhar feroz. — E os Maliseet vivem em New Brunswick.
Amélia deixou de sorrir.
— Não é possível. Não há índios em Brunswick; os alemães jamais o permitiriam.
— Não, querida; o comandante se refere ao Canadá — esclareceu senhora Harris enquanto
se servia uma xícara de chá.
— Lamento ter que corrigi-la, mas Brunswick não fica no Canadá, e sim na Alemanha —
matizou Amélia com um tom arrogante.
— New Brunswick fica no Canadá — atravessou Lucas tensamente, negando-se a deixar que
ela emaranhasse o assunto. Poderia ser que uma mulher como Amélia, que havia reunido tanta
informação de jornais, tivesse tão pouca inteligência como aparentava. — A julgar por este
desenho, atrever-me-ia a dizer que sua madrasta esteve no Canadá.
— Seriamente acha isso? Provavelmente o único que fez foi copiar o desenho de um livro.
— Não sei, Amélia; é possível que sua madrasta tenha estado no Canadá. — A senhora Harris
lançou um olhar severo a pupila. — Viajou muito. Diria que esse foi o motivo pelo qual lorde Tovey
se apaixonou por ela, por isso e por...
— Comandante Winter! — interrompeu Amélia subitamente, — sinto muito, mas tínhamos
esquecido de suas lições por completo.
— Não se preocupe; temos tempo. — Lucas ansiava saber o que a senhora Harris estava a
ponto de dizer.
Mas Amélia não pensava permitir.
— Não, de verdade, não desejamos que esbanje seu prezado tempo. Além disso, faz um dia
muito bonito para ficar aqui dentro, falando sobre meus ridículos cadernos. Por que não vamos ao
jardim? Podemos conversar sobre as normas sociais enquanto contemplamos as magníficas rosas
de damasco.
Lucas a observou fixamente durante alguns longos segundos, mas ela se limitou a olhá-lo

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com aquele sorriso enigmático que ele não conseguia compreender.
— Se isso é o que quer... — Fez uma reverência à senhora Harris. — Lhe parece correto,
senhora?
— Vão em frente— repôs ela, apesar de a viúva contemplar a pupila como se subitamente
tivessem crescido enormes orelhas de burro em lady Amélia.
Ele ofereceu o braço a acompanhante, e o casal se dirigiu para o vestíbulo. Lucas percebeu
as numerosas habitações, os magníficos tapetes, as lareiras de mármore e as velas de cera de
abelha. As paredes da casa de seu primo não exibiam uma coleção de quadros tão interessante;
além disso, cheirava a velas de sebo. A família de Amélia possuía uma fortuna, disso estava seguro.
Mas tudo parecia novo, como se o tivessem adquirido fazia poucos anos. Se estava certo, e o
dinheiro para comprar tudo isso provinha de...
— Não vá tão rápido, Lucas!
Uma voz feminina conseguiu tirá-lo de suas abstrações, e então se deu conta de que havia
apertado tanto o passo que Amélia se viu obrigada a trotar para continuar a seu lado.
— Me perdoe, senhorita — espetou ele com um tom zangado enquanto que diminuía o
ritmo.
— Morre de vontade de contemplar nossas rosas? — burlou ela.
— Não resta a menor duvida — resmungou ele. — Que casa mais bonita. Tudo tem aspecto
de ser muito caro. — Foram para as escadas de serviço que conduziam ao jardim.
— Não é de se estranhar que os caças fortunas briguem por bater a sua porta. Faz muito
tempo que vive aqui?
Uma vez no jardim, Amélia começou a caminhar mais devagar.
— O suficiente. E tenho outra lição para você: considera-se terrivelmente de má educação
falar sobre dinheiro e sobre o preço das coisas. Estou segura de que inclusive os americanos
seguem essa regra.
— Foi você quem falou dos caçadores de fortunas, ontem de noite. — Apesar de ela o olhar
com desprezo, Lucas acrescentou: — Deveria praticar aquilo que prega.
Amélia elevou o queixo com aparência irada.
— E você deveria tomar estas lições seriamente, senhor, ou se não, não tomarei a trabalho
de instruí-lo.
— Garanto que as levo muito seriamente.
"Mais seriamente do que possa chegar a imaginar", pensou.
— Ah, sim? Com certeza está com sua adaga, ainda sabendo o que lhe contei ontem de noite.
Em Londres? Uma cidade em que virtualmente de cada rua partia um beco sombrio? Mas é
claro que estava armado! Mas havia ocultado a adaga em um lugar onde ela não pudesse vê-la.
— Não, senhora — mentiu, pensando que Amélia não se daria conta.
— Só diz para me contentar.
Jogando faíscas de ira pelos olhos, Lucas abriu o casaco de par em par.
— Vamos! Me reviste se quiser!
Amélia ficou contemplando seu peito com uma patente admiração. Como se fosse capaz de
ver através do colete, dedicou-se a repassar seu torso muito lentamente, de baixo a cima, até
depositar os olhos no rosto de um modo tão sensual que disparou o pulso de Lucas. Mil raios e mil
centelhas. Onde essa garota aprendeu a comportar-se de uma forma tão sedutora?

52
— Apesar de morrer de vontade de descobrir o imponentemente forte que é, Lucas, será
melhor que me contenha. — Desviou os olhos e a fixou em um ponto atrás dele. — E te aconselho
que volte a pôr bem o casaco, antes que a senhora Harris decida dar por concluída a lição de hoje.
Lucas olhou para onde ela havia olhado. Através de uma janela do andar superior da casa,
avistou a acompanhante sentada atrás de uma mesa, que sem parar de olhar para eles se
dedicava a escrever algo. Maldição. Isso dificultaria a possibilidade de beijar Amélia para obter o
que precisava.
Soltou o casaco para que este voltasse para a posição inicial.
— Suponho que isso de abrir o casaco é algo que não deveria fazer diante de uma dama?
— Assim é. — Amélia continuou passeando pela trilha do jardim. — Não se considera de
bom gosto.
— Nem sequer posso tirá-lo no salão de jogos? — Lucas se colocou a seu lado.
— Se houver alguma dama presente, não. — Ela o olhou diretamente aos olhos. — Joga
cartas?
— De vez em quando. Mas jamais me vi metido em nenhuma confusão por culpa do jogo, se
isso for o que a preocupa.
— Suponho que terá conhecido a um sem-fim de trapaceiros.
"Que comentário tão estranho", pensou ele. Lucas se deu conta de que ela estava
esquadrinhando sua cara atentamente.
— Não, não muitos, por quê?
Amélia pareceu aliviada.
— Ah, só por curiosidade; nada mais.
— Pensa que os americanos são mais propensos a fazer trapaças quando jogamos cartas,
não é?
— De verdade, não deve levar cada comentário inocente tão a sério, como se fosse uma
crítica feroz a seus patrícios — protestou ela.
— Por acaso estive fazendo isso?
— Ao menos ontem de noite, na festa, sim. Os soldados se mostravam claramente belicosos.
— Então, não deveriam falar sobre batalhas nas quais nem sequer intervieram.
— E você não deveria usar uma linguagem tão chula.
Lucas se conteve para não soltar uma resposta mordaz.
— Peço-lhes desculpas, senhorita. Passei quase a metade de minha vida entre soldados; às
vezes me esqueço de como devo agir diante de uma dama.
Amélia assentiu com a cabeça.
— Bom, o importante é que modifique sua conduta.
Zangado, lançou um bufo. Modificaria sua conduta por uma mulher inglesa quando as vacas
voassem.
— Não sei o que sua madrasta contou a respeito dos americanos, mas não acho que seja tão
terrível que um homem solte alguma grosseria de vez em quando.
— Isso não era absolutamente verdade, mas precisava dirigir a conversa para o campo que o
interessava.
— Dolly não mencionou nada a respeito.
Lucas acreditou que era o momento de arriscar-se.

53
— Kirkwood me disse que seus pais eram ingleses, não americanos.
Amélia acelerou o passo pela trilha.
— Sim, emigraram a seu país antes que eu nascesse.
A informação encaixava perfeitamente com os dados que ele tinha de Dorothy Frier.
— Onde cresceu?
— Não sei — respondeu ela tranquilamente. — Não costuma mencionar nada a respeito de
sua vida passada. Traz muitas lembranças do falecido marido, a quem queria muito.
— Quem era? — Quando ela o olhou perplexa, ele se apressou a dizer: — Talvez o tenha
conhecido.
— Chamava-se Obadiah Smith. Era o dono de uma empresa de importação em Boston.
Lucas franziu o cenho. Theodore Frier partiu de Baltimore em direção ao norte; uniu-se a
Dorothy em Rhinebeck, em Nova Iorque, não em Boston. Dali, os Frier cruzaram a fronteira até o
Canadá. Então... Dorothy Smith não era Dorothy Frier?
Ou simplesmente havia mentido a nova família?
— Não me soa familiar, mas claro, não conheço Boston. Está segura de que era lá onde vivia?
— Claro que estou segura. — Amélia ergueu o queixo com altivez. — E não tente me
convencer de que era Brunswick só porque as duas cidades começam por B. Sei que é Boston.
— De acordo — resmungou ele secamente. — E me diga, onde vivia, em Boston?
— Como quer que eu saiba?
— Pois então, quanto tempo viveu lá?
Ela diminuiu a marcha.
— Ouça, minha madrasta não me contou todos os detalhes de sua vida. De todos os modos,
por que está tão interessado nela?
Lucas devia ir com mais cuidado.
— Ah, por nada.
Amélia o olhou com uma carinha inocente e piscou várias vezes seguidas.
— Porque se sua ideia de fazer a corte é falar sobre minha aborrecida família, não acho que
faremos notáveis progressos.
— Tem razão. É verdade. — Apertando os dentes ante as novas amostras de flerte da
acompanhante, deteve-se para pegar um botão de uma das roseiras e logo o entregou a ela. —
Por favor, aceite minhas desculpas.
Com os olhos brilhantes, ela se deteve para cheirar o botão.
— Terá que pôr mais empenho em se desculpar como é devido. Se nosso jardineiro o
surpreende arrancando um botão de suas roseiras premiadas em tantos concursos, ele também te
arrancará alguma parte do corpo.
Lucas colocou o botão no cabelo de Amélia, e ao descer a mão aproveitou para acariciá-la na
face lentamente.
— Seu jardineiro não está aqui, bonita - insinuou com voz rouca.
Amélia suspirou lentamente enquanto o olhava nos olhos. De repente, Lucas se lembrou dos
beijos da noite anterior; um espectro tentador que fez que todo seu corpo se estremecesse de
prazer.
Quando ela lambeu os lábios, ele baixou a cabeça. Mas antes que pudesse beijá-la, Amélia
retrocedeu de um salto. Lançando um olhar furtivo para a janela do andar superior, murmurou:

54
— Tem razão, o jardineiro não está; mas a senhora Harris sim.
— Vocês, os ingleses, complicam tanto as coisas quando se trata de fazer a corte a uma
mulher... Na América se deixa suficiente margem de manobra para que os homens possam falar
com as mulheres.
As damas de companhia não estão a cada segundo com os olhos cravados no cangote do
pretendente.
— Há maneiras de evitar essa férrea vigilância.
Amélia depositou a mão sobre seu ombro, e Lucas notou que seu pulso acelerava
novamente.
— Poderia me levar para dar um passeio a cavalo, por exemplo. Então só precisarei levar um
rapaz dos estábulos comigo.
Dar um passeio a cavalo? Seria conveniente para seus planos?
Não achava que pudesse beijá-la montado em um quadrúpede e com um criado atrás deles.
Então lhe ocorreu outra ideia.
— Você gostaria de ver um genuíno navio dos piratas da Barbária?
O rosto de Amélia se iluminou.
— Você está falando sério?
— Sim. — Desse modo gozaria de numerosas possibilidades para ficar a sós com ela. — Nos
estaleiros reais de Deptford há um, e eu tenho permissão para entrar.
— Mas a senhora Harris terá que vir conosco - advertiu ela.
— Por quê? — Lucas a olhou com o cenho franzido.
— Teremos que ir em minha carruagem. É muito perigoso ir ao porto a cavalo, e não posso ir
sozinha com você em uma carruagem fechada.
Maldição. Lucas tinha imaginado que iriam a cavalo, acompanhados pelo criado, e que este
ficaria do lado de fora, esperando-os. Deveria ter imaginado. De todos os modos, um navio era
suficientemente espaçoso; talvez pudesse fazer algo uma vez que estivessem a bordo.
— De acordo. Iremos os três de excursão.

Capítulo 7

Querido primo:
Perdoe por escrever com tanta frequência, mas esta questão sobre o comandante Winter me
deixa realmente preocupada. Esse sujeito consegue que lady Amélia aja da forma mais estranha
que jamais vi: quando ele está presente, ela se comporta como uma verdadeira tola. E posso lhe
garantir que lady Amélia jamais se comportou como uma tola diante de nenhum homem.
Sua desesperada amiga,
Charlotte

Lucas ficou surpreso pela rapidez com que Amélia convenceu a dama de companhia a ir. As
damas trocaram de roupa, e em menos de uma hora os três partiram para os estaleiros reais de
Deptford.

55
— O que vamos ver é um xebec4, não é? — perguntou Amélia, que estava sentada frente a
ele, ao lado da senhora Harris.
Lucas a olhou assombrado.
— Como sabe?
— Uma vez vi um xebec inglês atracado em Torquay. Mais tarde soube que os franceses o
haviam afundado.
— Sim, o Arrow. Por isso a Infantaria de Marinha quer reparar este para seu próprio uso. Os
xebecs podem ser navios extremamente práticos.
— De onde o tiraram?
— Uma esquadra que retornava para casa o capturou perto das costas espanholas.
A senhora Harris levantou a mão embainhada em uma luva e a levou até o pescoço.
— Houve prisioneiros?
— Não. Naquele momento os piratas não estavam no navio.
— Graças a Deus — pronunciou Amélia serenamente.
Lucas lhe lançou um olhar de reprovação.
— Sim, claro. Pois os piratas da Barbária não mostram muitos melindres com seus cativos.
Os três ficaram em silêncio enquanto a carruagem passava diante de Saint James's Square, o
parque mais encantador de Londres. Lucas ansiava perguntar mais coisas a respeito da madrasta
dela, mas deveria agir com cautela diante da senhora Harris.
A cabecinha oca da Amélia poderia não dar-se conta de que ele a estava interrogando, mas
provavelmente a senhora Harris sim perceberia. Após um tempo, o fedor do Tamisa se filtrou
dentro da carruagem quando se aproximaram da ponte de Westminster. Amélia colou o rosto na
janela, empapando-se da panorâmica com uma expressão animada enquanto cruzavam o rio.
Lucas também olhou para o exterior e viu um abundante exército de mastros abaixo deles,
cada um lutando para manter seu lugar em um rio cheio de embarcações. As barcaças abriam
caminho ferozmente diante dos botes insignificantes, com os negociantes de pé, na proa, com a
cabeça levantada e a mandíbula rígida, como se tratasse de desdenhosas damas da alta sociedade
com o queixo erguido. Os esquifes deslizavam temerariamente diante dos pesados ferries, que a
sua vez se atreviam a cruzar a rota das imponentes fragatas, com os pilotos repreendendo os
remadores e os marinheiros sem parar.
Lucas se deu conta de que a senhora Harris ficou completamente rígida em seu assento, com
as mãos apertadas sobre a saia, como se fossem duas bolas de canhão.
— Está bem, senhora?
Ela o olhou sem piscar e tentou esboçar um sorriso.
— Sim, perfeitamente, obrigada.
Embora ele soubesse que não era verdade, pensou que o melhor era não pressioná-la,
especialmente quando Amélia parecia estar desfrutando muito.
— Que quantidade de navios! — suspirou Amélia. — Só em pensar nos lugares onde foram...
e nos lugares exóticos aos quais irão daqui...

4 Também escrito como zebec, veleiro Mediterrâneo usado na maior parte para negociações. Teria um longo gurupé
suspensos e mastro salientes. Também pode se referir a uma embarcação pequena, rápida dos séculos XVI ao XIX, usado quase que
exclusivamente no mar Mediterrâneo.

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Após ter visto tantos portos em sua vida, Lucas não compartilhava a mesma visão.
— Esteve alguma vez em um porto?
— Não, nem tampouco conheço ninguém que viaje ao estrangeiro. Vi um pequeno
embarcadouro em Plymouth, mas não se assemelha em nada a isto.
— Está se referindo ao ruidoso fervedouro de gentinha suja e pestilenta? - soltou ele.
Enquanto se afastavam do rio, Lucas cravou a vista no torvelinho de homens com jeito
desalinhado que emergia das ruas; as poucas mulheres que circulavam entre eles eram
claramente prostitutas cheias de ruge, flutuando no meio dessa nebulosa como se tratasse de um
bote salva-vidas.
Amélia o olhou de soslaio.
— Vejo uma grande quantidade de criaturas fascinantes e variadas, concentradas em uma
luta feroz por sobreviver, para ganhar a vida nos portos.
Lucas lançou um bufo.
— Se assim deseja definir... Eu os chamo marinheiros e tratantes, e a classe mais baixa de
ratos aquáticos.
— Acaso não corre nem um ápice de romantismo por suas veias, nenhum afã de aventura?
— A senhora Harris, que parecia ter relaxado agora que já haviam cruzado o Tamisa, esgrimiu um
sorriso.
— Se isto for o que você considera uma ideia romântica e cheia de aventuras, então não —
espetou ele. — Os navios só servem para levar às pessoas até onde querem ir; nada mais.
— Que descrição tão estranha, vindo de um homem que passou a vida no mar — contra-
atacou a senhora.
— Precisamente porque passei a vida no mar, não o considero uma aventura romântica.
— Entendo— continuou a senhora Harris, — mas jamais conseguirá convencer Amélia. A
primeira coisa que perguntou a madrasta quando a matriculou em minha escola foi se íamos
realizar excursões que valessem a pena.
"A madrasta a matriculou?"
— E quando foi isso? — Talvez conseguisse obter algum dado útil da senhora Harris, depois
de tudo. — Em qual idade terminam as garotas inglesas seus estudos?
— Bem, no caso de Amélia...
— Foi antes de minha apresentação na sociedade, é obvio. —Amélia bateu os cílios
efusivamente. — Não me diga que não é capaz de fazer os cálculos mentalmente, sem a ajuda da
senhora Harris.
Lucas ficou rígido e a olhou com evidente amostra de irritação. Essa moça era tão volúvel
como uma atriz. Era como ter duas pessoas diferentes em uma.
— Claro que sou capaz de fazê-lo.
— Uf, não sabe quão complicado pode chegar a ser a estreia de uma garota em sociedade;
precisa andar de uma certa maneira, e manter-se de pé com um determinado estilo... Como me
custou recordar todas as regras!
— Amélia continuou tagarelando sem parar.
— Pois se arranjou esplendidamente bem — apontou a senhora Harris, com cara de
estupefação ante os estúpidos comentários de sua pupila.
Amélia brincou com o laço do chapéu com um descarado flerte.

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— Uma garota precisa aprender tudo, se quiser se divertir na sociedade.
— Imagino — murmurou Lucas.
Quanto mais conhecia Amélia, mais o irritava essa faceta tão frívola da qual ela fazia alarde.
Essa moça era capaz de realizar comentários notavelmente inteligentes, como por exemplo, sobre
os xebecs, e no segundo seguinte tagarelar a respeito de qualquer tolice que lhe passasse pela
cabeça, com esse olhar ausente. Não a entendia.
Especialmente quando a acompanhante parecia tão surpresa quanto ele diante das absurdas
ocorrências da pupila. Era possível que Amélia estivesse tentando adotar o papel de menina tola?
E se assim fosse, por que fingia? Lucas ocupou seus pensamentos com essa questão durante o
resto do trajeto, enquanto ela continuava com o bate-papo sobre festas e leques e outras tolices
similares.
Mas a quem diabo importava o que significava cada sinal que se podia fazer com um leque?
Logo avistou o cais de Deptford. Tentando recuperar a Amélia inteligente, Lucas indicou pela
janela e atraiu sua atenção para uma fragata com a bandeira espanhola. Os estivadores estavam
absortos em descarregar uma pilha de tonéis.
— Devem ter começado a descarregar aquela beleza agora mesmo. Está carregada até as
bordas; note o seu casco, tão fundo na água.
Amélia seguiu seu olhar.
— O que acha que levam?
— Não sei. — Lucas falou de algo deliberadamente ridículo. — Algodão, talvez.
Ela esboçou uma careta de contrariedade.
— Por que alguém se dedicaria a importar algodão da Espanha, e além disso em barris?
Certamente se trata de vinho, ou talvez azeitonas.
— O que a faz pensar que é um navio espanhol? - perguntou ele serenamente.
— A bandeira, claro... — De repente, Amélia se deu conta de que estava delatando seus
amplos conhecimentos e lhe lançou um sorriso tolo. — Bom, creio que essa bandeira seja
espanhola. Mas posso estar enganada, e seja um navio francês que leva seda.
— Poderia ser — afirmou ele evitando comprometer-se. Sim, talvez ela fosse tão estúpida
como aparentava ser, embora começava a duvidar.
A carruagem se deteve.
— Chegamos. — Lucas saltou a terra e ajudou à senhora Harris a descer primeiro e logo
Amélia.
Suas mãos praticamente circundaram a estreita cintura de Amélia, e seu pulso acelerou
quando novamente cheirou o aroma de madressilva. Ela o olhou com os olhos brilhantes, e o
rubor se apoderou de suas faces.
Lucas a depositou no chão, freando a urgente necessidade que sentia de satisfazer seus
instintos. Por todos os demônios, como era bonita.
Em outras circunstâncias, teria considerado a possibilidade de cortejá-la de verdade. Lançou
um bufo. Não, isso não era possível. Não podia apaixonar-se por uma dama inglesa cujo
passatempo favorito era, provavelmente, esbanjar toda sua fortuna, uma fortuna que ele estava
quase certo que era roubada.
Lucas ofereceu o outro braço à senhora Harris.
— Aqui está a beleza — proclamou enquanto as guiava para o cais. — É aquela embarcação

58
preta, ancorada a uns cem metros do cais, com a vela latina.
— Como é pequena! — exclamou Amélia.
— Pois é grande para um xebec. Realmente é uma fragata xebec, mas a maré ainda está
muito baixa para que possa suportar muito peso. Por isso conta com tão poucos canhões. Daqui
não se vê, mas só tem trinta e quatro, quando a média em um navio de guerra é o dobro. Os
piratas confiam em sua manobra fácil e rapidez ao invés de nos canhões. Para capturá-la, a
Infantaria da Marinha teve que derrubar duas de suas velas com uma saraivada de projéteis.
Lucas observou Amélia.
— Gostaria de subir a bordo? Poderíamos ver o barco por dentro...
— Sim! — exclamou, enquanto a senhora Harris gritava: — Não!
Amélia olhou a dama de companhia com cara triste.
— OH, por favor, precisamos subir. Quero vê-la de perto.
Com os olhos cheios de horror, a senhora Harris se soltou do braço de Lucas e retrocedeu
alguns passos.
— Não... não penso... não subirei... nesse barco.
Amélia desviou os olhos para Lucas, e com semblante desiludido explicou:
— Havia esquecido. À senhora Harris não... gosta de navios. Nem a sensação de estar sobre
a água.
A julgar pela expressão de pânico da viúva, tratava-se de algo mais que uma simples aversão.
Se alguém podia reconhecer um medo irracional, esse era Lucas. Com o tom mais suave que pôde,
ele se atreveu a dizer:
— Mas posso subir com lady Amélia, se lhe parecer adequado, senhora Harris. Ficará bem,
aqui com o chofer.
— OH, sim, por favor! — Amélia se soltou do braço de Lucas e correu para o lado da dama.
— Morro de vontade de vê-lo.
— Mas querida, se te ocorrer algo, se uma tormenta...
— OH, vamos, mas se o céu está completamente limpo. Além disso, só está a poucos metros
da margem — interveio Lucas com um tom indulgente. — Não se preocupe; vigiarei para que não
aconteça nada a sua pupila. Cuidarei da dama como se tratasse de minha própria carne e próprio
sangue.
— Viu? Com um tipo tão forte a meu lado, não tenho nada a temer — cantarolou Amélia.
A senhora Harris observou Lucas, depois olhou para a pequena embarcação e logo a Amélia,
que por sua vez, a olhava com olhinhos suplicantes. Ao final a dama suspirou e assentiu.
— Bom, creio que não há nada a temer.
— OH, obrigada! — gritou Amélia enquanto espremia a mão da viúva carinhosamente.
Sem perder nem um instante, Amélia se pendurou outra vez ao braço de Lucas e os dois
foram em direção ao cais. A voz da senhora Harris soou a suas costas.
— Tome cuidado, Amélia! Já sabe que às vezes pode ser muito atrevida! Não se aproxime de
nenhum lugar que o comandante diga que é perigoso!
— Não se preocupe! Irei com cuidado! — gritou Amélia como resposta, esboçando um
amplo sorriso sob o chapéu. A senhora Harris ficou atrás deles, cada vez mais longe, com o
coração triste.
Lucas subiu ao bote que os levaria até o xebec. Logo ofereceu a mão a Amélia para que ela o

59
seguisse.
— Não se aproxime muito da beira, senão pode virar! — gritou a senhora Harris.
Piscando os olhos, Amélia ocupou um assento de frente a Lucas, mostrando um equilíbrio
digno de um marinheiro.
— Terei muito cuidado! — gritou ela.
Lucas se sentou e pegou os remos.
A senhora Harris continuava gritando quando começaram a se afastar do cais.
— E fica todo o momento no convés! Pode haver ratos no interior do navio!
— Não a ouço! — voltou a gritar Amélia. — Não se preocupe! Não demoraremos muito!
Sufocando uma gargalhada, Lucas remou para o xebec.
— Nota-se que não suporta a água.
Amélia assentiu.
— Quando pequena esteve a ponto de morrer afogada, e parece que ficou traumatizada.
Jamais se aproxima de nenhum bote; inclusive fica nervosa quando precisa cruzar uma ponte.
— Eu notei. — Sorriu ele. — Mas você não parece se assustar com os botes.
Ela jogou a cabeça atrás, irradiando uma felicidade genuína.
— De maneira alguma! eu adoro! eu adoro a água! Quando era uma menina, meu pai
costumava a me levar para pescar.
— Dá-me a impressão de que você e seu pai eram muito unidos.
— Tanto como uma menina pode ser de um homem que passa a maior parte do tempo
enterrado entre livros. — Olhou-o com uma evidente curiosidade. — E você?
— Poderia-se dizer que éramos unidos. Meu pai era o típico militar, como eu. Lutou na
Guerra da Independência.
— Qual Guerra da Independência?
Lucas arqueou uma sobrancelha.
— A guerra contra a Inglaterra.
Ela soltou uma gargalhada.
— Ah, claro. Essa. Havia esquecido.
— Pois acredite em mim, eu não — atravessou ele com uma marcada amargura.
O sorriso desapareceu do rosto de Amélia. Rapidamente desviou os olhos para a água, com
uma expressão pensativa.
— Foi assim que seu pai morreu? Na batalha?
— Não— respondeu ele tensamente. Não pensava contar como seu pai havia morrido; já era
suficientemente ruim que toda a população de Baltimore soubesse, e que ele não se inteirou até
que era muito tarde para poder evitar.
Haviam chegado ao xebec. Lucas convidou Amélia a subir primeiro pela escada de corda, e
logo a seguiu. Preferia ir atrás se por acaso ela perdesse o equilíbrio e viesse a cair, mas ela
mostrou a agilidade de um gato. De fato, deslizou tão rápido que Lucas não teve tempo de
entreter-se com a visão do tentador balanço de seus quadris nem dos tornozelos embainhados em
meias. Assim que Amélia alcançou o corrimão da embarcação, sentou-se nele, passou as pernas
por cima e desapareceu.
Lucas balbuciou um palavrão, e logo se apressou a subir até o corrimão.
— Maldita seja, Amélia; espere...

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— OH, Lucas! Isto é incrível! - exclamou ela.
Ele entrou no navio e olhou a seu redor. Realmente Amélia tinha razão. Diante de seus olhos
se abriam linhas de pranchas de madeira nítidas, perfeitas, quase delicadas; uma gazela, ali onde a
maioria dos navios de guerra eram elefantes.
— De todos os modos, preste bastante atenção por onde anda. Essas botas que usa
poderiam fazê-la cair; além disso, há remos e cordas por...
— Remos! É um veleiro.
— Sim, mas pode avançar mais rápido se usarem as velas e os remos ao mesmo tempo. Por
isso um xebec é capaz de atacar um navio de guerra armado com o dobro de canhões. Um xebec
não fica no mesmo lugar muito tempo, à espera de receber um tiro de canhão; porque se não,
voaria facilmente pelos ares. É muito leve para suportar esse tipo de assalto.
Amélia contemplou a coberta.
— Estou vendo. As placas de madeira não são de carvalho... ou pelo menos, não de carvalho
inglês. Poderiam ser de carvalho, já que é uma árvore muito comum no Mediterrâneo. Não
acredito que a madeira da oliveira seja o suficientemente resistente para...
— Não sou um perito no tipo de árvores que há na Argélia— a interrompeu ele, incapaz de
ocultar sua surpresa, — assim não estou certo, mas duvido.
Ela ficou tensa, e imediatamente lhe deu um sorriso tolo.
— Madeira de balsa? Flutua muito.
O retorno da Amélia tola não caiu nada bem ao Lucas.
— Pare! — rugiu ele.
— Parar o que?
— Não se faça de tola comigo.
— Como... como diz?
— Seu pestanejo e sorrisos de menina tola, e seus comentários ridículos. Você não é assim, e
ambos sabemos. Assim deixa já de se fazer de tola. Não é necessário fingir... já sei o que procura.

Capítulo 8

Querida Charlotte:
Começarei a averiguar tudo o que puder, embora, de todos os modos, deve lembrar que
conseguir informação sobre um cidadão americano é mais difícil. Por sorte, tenho um amigo que
ostenta um alto cargo na Infantaria da Marinha. É possível que possa me oferecer algum dado
relevante.
Como sempre, fico a sua inteira disposição,
Michael

— O... o que procuro? — O coração de Amélia começou a bater no peito com mais vontade
que as velas dos navios que ondeavam livremente ao vento. — Não sei a que se refere — declarou,
tentando recuperar a compostura.
Lucas a fulminou com um olhar frio como um iceberg.

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— Ouvi os comentários dos homens ingleses, os de seu círculo, sobre as mulheres. Todos
pensam que são umas cabecinhas ocas, e a verdade é que eles as preferem assim. Portanto,
pensam que só poderão conseguir um marido se comportarem-se como se fossem estúpidas.
Ela o olhou boquiaberta. Isso era o que ele pensava que ela procurava? Que estava tentando
fisgar um marido?
— Mas comigo não precisa se comportar desse modo — prosseguiu ele. — Eu gosto das
mulheres com cérebro; assim não tente me convencer que seu cérebro encolheu quando fez
quinze anos.
Aliviada, Amélia soltou um suspiro. Poderia aproveitar a explicação que ele acabava de dar.
Além disso, isso não significava que tivesse que deixar de flertar com ele.
— Dezoito. — Sorriu ela para ocultar a mentira. — Tinha dezoito anos quando comecei a
fingir que não tinha nada na cabeça.
Com o semblante satisfeito, Lucas lhe ofereceu o braço.
— Sabia. Ninguém com seus conhecimentos sobre bandeiras ou navios pode ser tão lerda
como aparentava.
— Obrigada pelo elogio.
Amélia deixou que ele a guiasse pelo navio. O deixou saborear o momento de triunfo. Desse
modo, talvez ele não se desse conta de que ela só recorreu à máscara de tola diante das perguntas
comprometedoras. Que pena que não pudesse lhe jogar na cara. Mas enquanto Lucas não
percebesse o muito que ela sabia, disporia de mais tempo a seu favor para interrogá-lo.
— Como tem permissão da Infantaria da Marinha para entrar no xebec? — inquiriu Amélia,
enquanto se dirigiam para o flanco do navio mais afastado da linha da costa. Passaram por vários
canhões montados sobre blocos de madeira antes de rodear o mastro principal. — Com certeza
não pensam que isso te servirá para fechar o pacto com os argelinos.
— Consideraram que poderia sugerir algumas modificações. A companhia de meu pai
desenhava canhões para navios.
— Desenhava?
Amélia queria incitá-lo a continuar falando.
— Agora que está morto, a companhia vai à deriva.
— E você não tem interesse em desenhar canhões?
Lucas sorriu com tristeza.
— A verdade é que não tenho destreza para esse tipo de trabalho. Enquanto meu pai se
dedicava a erigir sua companhia, eu estava longe, lutando contra os piratas da Barbária. E quando
retornei, tentei, lhe garanto, mas... — deu um encolher de ombros. — Prefiro disparar um canhão
do que fabricar um. Então explodiu a guerra contra Inglaterra, e eu...
— Optou por ir lutar outra vez.
Lucas arqueou uma sobrancelha.
— Sim, de fato sim.
— E embora agora não mais se dedica a lutar, porém segue lutando com vilões — se
aventurou a comentar Amélia.
Lucas lhe lançou um olhar intenso e afiado.
— A que se refere?
— Aos piratas, claro, e aos tratados.

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— Sim. — Sua expressão se tornou mais enigmática. — Negociar um tratado é uma batalha,
também.
— E quanto tempo está negociando esse tratado? Pensei que os britânicos haviam
derrotado à maioria dos piratas da Barbária na Argélia há um par de anos. Entretanto, se esta
fragata xebec apareceu perto da Espanha...
— Está fascinada com esses execráveis piratas.
Amélia não pensava permitir que ele mudasse de assunto.
— Estou fascinada com qualquer coisa que seja mais interessante que minha vida entediante.
Como seus tratados.
— E minhas aventuras. — Com os olhos escurecidos, Lucas a segurou pela mão e tentou
atraí-la para si para abraçá-la.
Enquanto seu pulso pulsava disparadamente, ela conseguiu escapar das garras dele.
— Aqui não! A senhora Harris poderia nos ver.
— Não pode. Do cais não se vê este lado da fragata.
Amélia sentiu que um delicioso calafrio percorria as costas toda. Apesar de Lucas só tentar
distraí-la para que não continuasse lhe fazendo perguntas, não pôde evitar não sentir-se tentada.
E o fato de estar em um cenário tão magnífico como esse, a bordo de um navio pirata, não fazia
mais que acrescentar outro grão de areia à romântica situação.
Ela desfez seus passos pelo convés.
— Entretanto, devemos nos limitar ao tipo adequado de aventuras.
— Como por exemplo?
— Chegar aqui com um bote do cais. A maravilhosa possibilidade de subir nesta preciosa
embarcação. — Esboçou um sorriso malicioso. — Conhecer a fundo o xebec.
Lucas a seguiu como um corsário perseguiria um bergantim5 no mar.
— Ora, pequenas aventuras que não suportem nenhum risco, não é?
Amélia reparou em uma escotilha próxima e se dirigiu para ela.
— Não acabou de me mostrar a fragata, e morro de vontade de vê-la por dentro.
— Pensei que sua acompanhante tivesse pedido que não abandonasse o convés — a
admoestou Lucas, embora sua voz mostrasse um tom estranho.
Ela chegou à escotilha e a abriu.
— Pois não a ouvi — repôs com um ar zombador. — Acho que ventava muito.
Lucas não sorriu.
— Fique quieta aí, Amélia — ordenou enquanto atravessava o convés em direção à escotilha.
— Não pense em descer por essa escada.
Ela olhou ao interior escuro.
— Vamos, Lucas, só quero...
Agarrando-a pelo braço, a afastou do buraco escuro.
— Não, não. Não irá descer.
— Por que não? — Amélia se virou para olhá-lo diretamente aos olhos, mas suas palavras

5 Bergantim é uma embarcação do tipo da galé, de um a dois mastros e velas redondas ou vela latina. Levava trinta remos
e era utilizado como elemento de ligação, exploração, como auxiliar de armadas ou em outros serviços do gênero. Era um navio
escolhido pelos reis, e grandes senhores, para sua utilização em cerimônias.

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morreram em seus lábios.
O rosto de Lucas estava tão branco como as velas do navio, e tinha os olhos fixos no buraco
escuro, como se este representasse as portas do próprio inferno.
— Lucas? — pronunciou ela em voz baixa.
Mas ele parecia não ouvi-la; continuava com os dedos cravados em seu braço, como se de
garras se tratasse.
— Lucas! — disse ela, elevando a voz. — Está me machucando!
Ele deu um pulo, e imediatamente a soltou.
— Não vamos descer. — Virou sobre os calcanhares e com passo acelerado se dirigiu para a
toldilla6. — Mas mostrarei o resto da coberta, se quiser.
Amélia o seguiu.
— Por que não quer descer?
— Olha, o que não quero é que você desça —espetou ele quando atravessava a porta sob a
toldilla.
Ela apertou o passo para segui-lo. Entraram em uma modesta cabine em forma de meio
círculo que provavelmente fazia as funções de cabine do capitão.
— Isso é uma mentira — soltou Amélia. Quando ele se virou com a rapidez de um torvelinho
para olhá-la, ela acrescentou: — Vi a expressão de terror em seu rosto. Parecia como se pensasse
que lá abaixo habitava o diabo em pessoa.
Lucas esticou a mandíbula.
— Tem muita imaginação.
— Garanto que não; está claro que você...
Ele se precipitou sobre ela e cortou suas palavras com um beijo apaixonado.
Quando se retirou, o sangue de Amélia fluía com rapidez e com fúria. Olhou-o surpreendida.
— Por que fez isso?
— Para que cale a boca. — Continuando, com os olhos faiscantes, a segurou pelo rosto com
suas poderosas mãos, e o chapéu que coroava a cabeça de Amélia caiu para trás. — Mas em troca,
este é para mim.
O beijo foi mais delicado que imperioso. E abrasador. E possessivo. Lucas se apoderou de
seus lábios como se lhe pertencessem, como se tivesse todo o direito do mundo a fazer com eles o
que o agradasse.
Amélia tentou lembrar a si mesmo que ele não era sincero, mas... Santo céu! Como beijava
esse homem! Conquistou sua boca com a segurança de um corsário, e introduziu a língua até o
fundo, daquela maneira tão íntima que lhe mostrou a noite passada, e em seguida repetiu o
movimento obsceno, com investidas atrevidas e descaradas.
Ela também o beijou, entrelaçando sua língua com a dele de um modo absolutamente
selvagem. Lucas tinha sabor de café e cheirava a mar, uma combinação irresistivelmente exótica.
Mas quando os beijos dele foram adotando um tom mais feroz, ela se afastou e virou a cabeça, em
uma tentativa de tomar ar... para continuar com a maravilhosa loucura. Foi então quando divisou

6 Cobertura parcial de alguns barcos na altura da borda desde o mastro da vela ao fim da popa.

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à senhora Harris através de uma vigia 7 aberta, passeando pela margem.
A senhora Harris não podia vê-los na cabine semi escura, mas Amélia não caiu em conta
desse detalhe, soltou um grito e escapou dos braços do Lucas. Tentando recuperar o controle de
seus impulsos mais perversos, decidiu lhe dar as costas e separar-se um pouco dele.
— Não te dei permissão para me beijar.
Com passo irado, ele voltou a rodeá-la com seus braços sem piedade; suas intenções eram
inequívocas.
— Deu-me permissão ontem de noite.
— Aquilo foi diferente.
No rosto de Lucas ficou estampada uma raiva incontida.
— Ah. É porque agora estamos completamente sós, e nenhum cavalheiro inglês pode vir
socorrê-la, protegê-la do selvagem americano, se este ultrapassar os limites?
Encurralou-a contra a parede da cabine, e antes que pudesse escapar, equilibrou-se sobre
ela e começou a manusear todo seu corpo.
— Disse que queria aventuras, e estou mais que encantado de poder lhe servir isso em uma
bandeja. — Aproximou mais seu rosto ao dela, com os olhos brilhantes. — Mas isso foi só uma
maneira de dizer, não é assim? Você só quer aquilo que pode controlar. E claro, não pode me
controlar.
Ela segurou seu olhar.
— Está seguro?
OH, não. Essa não era a resposta mais correta que deveria dar a um homem furioso, que
imaginava que ela e seus compatriotas só tentavam subjugá-lo. Mas o certo era que Lucas parecia
revelar mais dados quando se achava sob a influência de seu temperamento... ou de suas paixões.
Amélia afastou bruscamente o rosto e acrescentou:
— Pois me parece que o controlei suficientemente bem até agora.
Depois conteve a respiração, à espera de sua resposta, perguntando-se se tentar domar um
selvagem não era uma ideia disparatada.
Mas em vez de parecer zangado, Lucas ficou pensativo.
— Talvez tenha razão.
— Pois é claro que a tenho — insistiu ela.
Amélia esperava tudo menos a súbita reação do Lucas: de repente ele sorriu, e logo se
inclinou e colou a boca em sua orelha.
— A espada. Fez de propósito, não?
— Do que está falando?
— Esta manhã, em sua casa, quando começou a acariciar minha mameluco. Todos aqueles
comentários a respeito de quão dura era minha espada... durante todo o tempo sabia o efeito que
suas palavras maliciosas estavam exercendo sobre mim.
Amélia sentiu seu estômago encolhendo.
— Não sei a que se refere.
— Acariciou deliberadamente minha espada e falou sobre poli-la e embainhá-la, tudo para

7 Termo náutico para designar a janela, geralmente redonda e por isso também conhecida como "olho de boi" pelas
pessoas não acostumadas com os termos náuticos, situadas nas estruturas dos navios.

65
me excitar e depois me deixar naquele estado deplorável, sem nenhuma esperança de poder
encontrar alívio.
— Não seja ridíc...
— E eu reagi como qualquer outro homem. Da forma que você esperava que reagisse, não é
verdade? — Continuou respirando acaloradamente contra sua orelha, mas posto que Amélia não
podia ver seus olhos, não sabia se estava zangado ou... algo mais. Fosse o que fosse, o fato de
senti-lo tão perto e tão ameaçador — lhe provocava um agradável comichão na parte baixa do
ventre.
Amélia não se conteve e reagiu com descaramento. Virou o rosto para olhá-lo aos olhos e
argumentou:
— Olhe, se meus comentários o afetaram tanto, é porque tem uma mente depravada.
Os olhos do Lucas continuavam desprendendo um brilho ameaçador.
— Você começou o jogo, assim você é que é a depravada. - Levantou a mão para acariciar
seu cabelo. — É como a perversa Dalila, não? E, entretanto, juraria que jamais se deitou com
nenhum homem.
— Claro que não! — Tentou escapar dele, mas Lucas a reteve à força, presa contra a parede.
— Então, como sabia o que precisava fazer esta manhã, para conseguir que um homem se
prostrasse a seus pés sem sequer tocá-lo?
— Su... supus. Isso é tudo.
— Sim, supôs — espetou ele com ceticismo. Então a beijou na orelha, e em seguida começou
a lamber o lóbulo. Quando teve a audácia de molhar o buraco da orelha com sua língua, Amélia se
estremeceu de prazer.
Por todos os céus, quem pensaria que as orelhas pudessem ser tão sensíveis!
Depois começou a lhe mordiscar o pescoço, até chegar à garganta, e ali se deteve, para
beijar cada centímetro de sua pele.
— Vamos, Amélia, é muito inocente para saber esse tipo de coisa. Conte-me, como sabia o
que devia fazer? Sua madrasta a ensinou a...?
— Espere! — soltou ela entre risadas. A mera ideia de que Dolly lhe ensinasse como seduzir
um homem, parecia uma obscenidade.
Lucas a beijou no vão da garganta, e então começou a descer para os seios.
— Alguém te ensinou. E já que ela é viúva...?
— Li em um livro — confessou Amélia.
Ele se afastou para olhá-la aos olhos.
— Um livro?
Amélia notou que estava ruborizando.
— Sobre os haréns da Barbária. E o que acontece ali dentro.
Lucas arqueou uma de suas sobrancelhas.
— Refere-se a uma dessas ridículas coleções que algum desgraçado inglês decidiu reunir
para excitar alguns idiotas? Por que lê essa porcaria?
Amélia ergueu o queixo com altivez.
— Por curiosidade. De que outro modo supõe que uma jovem super protegida pode
aprender a verdade sobre... certos assuntos?
Lucas soltou uma gargalhada.

66
— Então, pensa que pode obter a verdade a partir de contos de um harém? A metade deles
são mentiras, e a outra metade, ásperos exageros.
Ver como ele ria dela só conseguiu enfurecê-la.
— Pois não falharam absolutamente na hora de narrar como excitar a "espada" de um
homem, a julgar pela facilidade que me resultou esta manhã contigo.
De repente, o rosto divertido do Lucas adotou um semblante sombrio.
— Tem razão. — inclinou-se para sua boca, mas então se retirou sem chegar a roçar seus
lábios.
— Assim sente curiosidade pelo que acontece em um harém, não é?
— Sim — admitiu ela com cautela.
— Então, sua curiosidade será saciada.
A asseveração tão contundente pôs Amélia à defensiva.
— O que quer dizer?
Com os olhos brilhantes, Lucas apoiou sua mão sobre a cintura de Amélia.
— Hoje se portou muito bem comigo. Foi muito generosa com as lições sobre as normas de
conduta; Disse que não devo dizer palavras malsoantes, nem abrir o casaco, nem me atrever a
sentar, se uma dama estiver de pé, mesmo quando você me provocou deliberadamente para... me
pôr em evidência.
A suave cadência de sua voz fez que Amélia sentisse um suave comichão, como se mil
mariposas revoassem em seu ventre.
Lucas deslizou a mão para suas costelas.
— E posto que nosso pacto consistia em que eu te ofereceria aventuras em troca de suas
lições, estou disposto a cumprir minha parte agora mesmo.
O coração de Amélia pulsava descontroladamente; teve que fazer um enorme esforço para
responder:
— Sinceramente, não se preocupe. Considero que o fato de ter me mostrado este navio é
mais que uma aventura...
— E pagar com tão pouco por todos seus cuidados? — prosseguiu ele, com um tom
definitivamente sarcástico. — Não, pequena, nem sonhe.
Sem prévio aviso, Lucas colocou sua mão sobre os seios de Amélia.
— Lucas! — Ela agarrou sua mão. — Pode-se saber o que pensa que está fazendo?
— Sente curiosidade pelo que os piratas da Barbária fazem a suas cativas, não é? Pois me
limito a lhe mostrar.
— Se pensa que permitirei que arruíne minha reputação...
— Não temos que ir tão longe, pequena. — Lucas coroou seus lábios com um sorriso
provocador. — Pode manter sua castidade e ainda assim provar o que experimenta uma cativa. —
Ato seguido, começou a mover a mão por cima dos seios, devagar, com uma grande sensualidade.
— Mas...
Lucas selou a boca de Amélia com um beijo. Beijou-a com todo o ardor e a intensidade de
um homem que devora seu último jantar. E ela não pôde resistir, do mesmo modo que a terra é
incapaz de resistir a magnética atração que sente pelo sol. Sobre tudo quando ele acariciou seus
seios com uma destreza tão deliciosa que conseguiu fazer pedacinhos em qualquer vestígio de
resistência.

67
Que Deus a ajudasse. Amélia imaginou essa cena centenas de vezes. Desde o momento em
que ficou consciente de que sentia prazer quando se acariciava em algumas parte do corpo,
pensando o que sentiria quando um homem as tocasse. Havia se tocado algumas vezes, o que só
conseguiu despertar mais seu apetite. Mas sabia que não deveria ansiar mais até que se casasse,
porque nenhum cavalheiro inglês ousaria tocá-la.
Talvez fosse esse o motivo que Lucas lhe parecia tão excitantemente perverso.
— Deixa que te ofereça uma aventura real — sussurrou ele com uma voz gutural, — e não
uma que precise ler.
Amélia se sentiu invadida por um amontoado de emoções ante a ideia de que ele a tocasse
de um modo mais íntimo do que o estava fazendo nesse momento. Sentia temor, excitação...
antecipação. OH, realmente estava se convertendo em uma vulgar desavergonhada.
Desavergonhada e perversa. Ali no navio, ele podia fazer com ela o que quisesse.
Especialmente agora que se afastaram da linha de visão da senhora Harris.
— Não acho que seja prudente - ela conseguiu dizer, com a voz entrecortada. Não obstante,
não fez nada para afastar a mão de Lucas.
— Por acaso pensa que qualquer aventura que valha a pena é prudente?
— Imagino que não.
Amélia quase não conseguia raciocinar, com a mão do Lucas acariciando-a, com sua quente
boca a beijando no pescoço... No final das contas... de verdade seria um ato tão desonroso,
participar de uma pequena... aventura... íntima?
Ela desviou o olhar para a vigia. Se gritasse, a senhora Harris certamente a resgataria, por
mais pânico que tivesse da água. Lucas deve ter tomado seu silêncio como um sinal de
consentimento, porque começou a desatar o xale que cobria a parte superior de seu vestido.
— Lucas, ainda não disse que estou de acordo...
— Mas está desejando. Posso ver em seus olhos. — O danado travesso, trapaceiro tão sagaz
sorriu. — Sei que você gosta de sentir que domina a situação. Assim quando me disser que pare,
pararei. A aventura acabará quando você quiser.
Lucas estava lhe oferecendo uma aventura segura. Ou a mais segura que ela poderia chegar
a sonhar. E se ele quebrasse as normas que acabava de estabelecer, ela brigaria com ele, com
unhas e dentes se fosse necessário, enquanto gritava para chamar a atenção da senhora Harris.
Como poderia perder?

Capítulo 9

Querido primo:
Viu o recorte de jornal que há anexo sobre o baile de ontem a noite? Nele é mencionado que
o comandante teve um comportamento ostensivamente desafortunado. Não percebi que esse
indivíduo tivesse emoções tão volúveis. Agora sim estou extremamente preocupada; Amélia não é
precisamente a pessoa mais sossegada do mundo.
Sua cordialmente,
Charlotte

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— De acordo. — Amélia rezou para que não estivesse ficando louca. — Me dê uma aventura.
Mostre como os piratas da Barbária tratam suas cativas.
Uma chama de desejo se acendeu nos olhos do Lucas antes de se inclinar novamente sobre a
boca de Amélia para imediatamente beijá-la com a língua, com investidas lentas e impudicas.
Então se separou dela.
— Dê a volta.
— Por quê?
Lucas fez uma careta de chateio.
— Para uma cativa, é muito insolente. Sabia?
Apesar de ela o olhar desconfiada, fez o que lhe ordenava. Mas quando notou que Lucas
amarrava seus pulsos com seu próprio xale, sentiu-se em pânico.
— Não disse que estou de acordo com...
— Preciso garantir que minha cativa não irá escapar — esclareceu Lucas com aquela
cadência tão lenta e sensual que sempre conseguia encantá-la. — Todo pirata da Barbária que se
preze o faria.
Amélia se sentiu irritada ante a excitação instantânea em seu estômago.
— Cuidado, Lucas — o acautelou, virando para olhá-lo. — Se arruinar minha reputação, juro
que o farei se arrepender de ter me conhecido.
— Disso não me cabe a menor duvida, bonita. Mas entre beijar e estragar a reputação existe
uma ampla margem para a aventura. — Lucas sorriu. — Além disso, não apertei muito o nó.
Cética, testou. Era verdade. Lucas deixou tão frouxo que ela poderia liberar-se com uma leve
resistência.
Se é que queria libertar-se, claro, e isso era algo que não queria. Porque a enorme excitação
que sentia ante ao simples pensamento de estar amarrada e a inteira disposição dele, provocava o
mesmo efeito que uma dose de láudano o faria.
Amélia se esforçou para lembrar a missão que havia atribuído a si mesma.
— Já fez isto antes? — perguntou, procurando não perder o controle da respiração
acelerada.
— A que se refere? — Lucas tirou as luvas com uma mestria tão implacável que teria enchido
de orgulho qualquer captor.
A pele de Amélia ficou toda arrepiada.
— Fazer cativa a uma mulher. — Manteve a serenidade no tom, apesar de recordar
perfeitamente as palavras "evitar ser capturada" nas notas que Lucas possuía sobre Dolly.
Ele a olhou perplexo.
— Perdoe-me, mas é a primeira vez que me faço passar por um pirata da Barbária. Por quê?
Por acaso o estou fazendo errado?
— Não. Parece muito convincente em seu papel de capturar uma mulher. — Esse foi o
comentário mais arriscado que Amélia se atreveu a fazer sobre a possível fuga de Dolly.
Lucas lhe deu um sorriso malicioso.
— Navego por águas desconhecidas. — Sua voz adotou um tom mais áspero. — Estive
navegando por águas inexploradas desde o momento em que a conheci, bonita.
Que hábil era esse homem com as metáforas! E quando Lucas jogou as luvas a um lado, um

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calafrio de antecipação percorreu toda a coluna vertebral de Amélia.
— Mas estou bastante seguro sobre como procederia um pirata — declarou enquanto
começava a desabotoar as fitas do corpete de Amélia. — Com certeza, iria querer inspecionar sua
mercadoria.
— Sua... sua mercadoria? — Amélia soltou uma gargalhada nervosa.
Lucas arqueou uma sobrancelha.
— Você queria que levasse a sério suas lições, não é? Pois agora deve levar a aventura a
sério.
Se ele soubesse com que grau de seriedade a estava afetando essa aventura...
— Em frente. O pirata vai examinar a mercadoria, que... pelo visto sou eu.
— Assim é; mas quero vê-la mais de perto.
Quando ele afundou a mão escandalosamente dentro de seu corpete para desabotoar os
laços superiores do espartilho e da blusa, ela conteve o fôlego. Depois ele desceu o vestido, o
espartilho e a camisa até deixar os seios descobertos e cravou seu olhar selvagem neles.
Santo céu! Era a primeira vez em sua vida que estava diante de um homem com os seios
expostos. Não sabia se sentia-se injuriada... ou encantada. A posição de ter as mãos amarradas as
costas a obrigava a arquear as costas, por isso seus seios se sobressaíam mais do espartilho, e
quando sua respiração começou a acelerar sem que ela pudesse evitar, os seios ficaram duros e
eretos, de uma forma que parecia tentar Lucas.
— Seria um tesouro perfeito para qualquer pirata da Barbária — murmurou ele com a voz
grave.
A franca admiração que se desprendia de seu tom conseguiu tentá-la, e a expressão
selvagem e carnal do rosto do comandante deixou claro que nesse momento ele só desejava uma
coisa dela. E não era nem seu dinheiro nem informação a respeito de Dolly.
Os homens olhavam Venetia desse modo, mas jamais a ela. Como o objeto de desejo de um
homem, ela sempre ficava relegada a um segundo plano. Mas nesse momento, Lucas a fazia sentir
como se ela fosse a primeira opção. Seus escassos restos de resistência acabaram dissipando, e
Amélia se perdeu na fantasia dele.
Agora era sua própria fantasia. Inclusive arqueou mais as costas para exibir mais os seios,
como convidando-o a que continuasse olhando-os, e se sentiu recompensada com a sede
ambiciosa que iluminou os olhos do Lucas.
— Mas um pirata não se contentaria com uma única inspeção, não. Inspecionaria a
mercadoria de diversos modos — proclamou ele com a voz rouca.
— Ah, sim? — Amélia respirou, então ruborizou ao escutar o tom provocante da própria voz.
Lucas também pareceu ouvi-lo, já que a olhou com olhos tão luxuriosamente ferozes que
conseguiu que Amélia estremecesse.
— Iria querer assegurar-se da qualidade da mercadoria apalpando-a com as próprias mãos.
Ato seguido, depositou ambas as mãos sobre seus seios... seus seios nus!
E foi maravilhoso.
Lucas deslizou uma mão até sua cintura para atraí-la mais para ele e começou a beijá-la
enlouquecidamente, pelo pescoço e pela garganta, enquanto que com a outra mão acariciava seus
seios e lhe provocava prazeres desconhecidos, indescritíveis. Amélia estava se deixando manusear
como uma vulgar prostituta, mas a sensação era tão agradável... tão deliciosa...

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Depois, Lucas começou a brincar com seu mamilo, massageando-o com o polegar, e ela se
arqueou ainda mais, até quase depositar todo o seio na forte mão dele; estava pronta para
continuar avançando na lição. Sim, era uma desavergonhada, mas não se importava. Excitava-se
com as carícias e o demonstrava abertamente, negando-se a rechaçar esse delicioso momento na
glória.
— Já tem suficiente aventura, bonita, ou quer mais?
Lucas lhe deu um beijo úmido e quente na parte superior e inchada do seio, e Amélia
conteve a respiração. Mais... Mais...
— Me deixe te ensinar... te chupar... — Então inclinou a cabeça, abriu a boca e a fechou ao
redor de seu seio.
Que Deus tivesse compaixão dela. Isso era indiscutivelmente mais... mais delicioso, mais
tentador... mais de tudo! Que coisas tão maravilhosas se podiam fazer com uma boca!
Lucas estava umedecendo o mamilo com lambidas sensuais com a língua, que lhe
provocavam uma excitação feroz por todo o corpo. Mmm... Que delícia!
Quando Lucas mordiscou o mamilo carinhosamente, Amélia pensou que fosse ficar louca de
prazer. Esticou os braços e as mãos, rodeadas por seu xale, com a segurança de que morreria de
prazer antes que ele tivesse acabado. Como faziam as mulheres espiãs? Como conseguiam usar
seus jogos sensuais como uma arma para conseguir informação, quando esses jogos constituíam
uma fonte tão significativa de... distração?
Lucas a transformou em uma estranha criatura carnal sem controle. Tudo acima de seu
umbigo tremia como um pudim; tudo abaixo de seu umbigo a abrasava. Como se ele
compreendesse o que ela estava sentindo nesse preciso instante, passou a mão por suas costas
para desabotoar o vestido, e em seguida deslizou a mão pela frente, para baixo, passando por
cima de seu ventre até chegar à união das pernas. Ante a surpresa de Amélia, ele se dedicou a
acariciar sem nenhuma dificuldade sua parte mais íntima por cima da regata.
Amélia ofegou por causa do roce tão inebriante.
— Tem... certeza de que um corsário sentiria a necessidade de examinar a cativa... aí
embaixo?
Lucas levantou a cabeça. Sua respiração, claramente audível, era úmida, acalorada.
— É claro que sim. Especialmente quando sua cativa foi tão má.
— Como? por que fui má? — perguntou ela com dificuldade.
— Está há dois dias acercando-se de mim. Faz só um par de horas, estava se divertindo
muito excitando minha "espada" para um encontro que pensava me negar. — Levou seus lábios
até a boca de Amélia, mas se deteve a escassos centímetros e acrescentou em um grave sussurro:
— Pois então, bonita. Vou te dar o prazer de provar minha "espada".
Em seguida voltou a beijá-la com arrojo, enchendo sua boca com desenfreadas investidas de
sua língua enquanto que com seus endiabrados dedos continuava lhe acariciando a parte mais
íntima.
A sensação foi tão vibrante que fez Amélia arquear mais as costas para colar-se a ele; ardia
em desejos de que Lucas lhe desse mais. Por todos os Santos, o que esse patife estava fazendo?
Os quentes dedos imitavam as cálidas investidas de sua língua, até que chegou um momento no
qual ela se sentiu empapada por uma vergonhosa umidade. Provavelmente ele também podia
notar. Se assim fosse, só conseguiu que ele a acariciasse mais descaradamente, até que notou

71
uma curiosa sensação entre suas pernas, como se suas partes mais íntimas estivessem mais
inflamadas; uma sensação que a fazia ondular sobre a mão do Lucas ritmicamente, sem poder
parar.
De repente, ele afastou a mão para acariciar outra vez os seios. Momentos antes, ela teria se
mostrado encantada, mas agora não; agora queria mais.
Amélia afastou a boca para suplicar.
— Lucas... por favor... por favor, quero que...
Apesar de não estar segura do que queria, sabia que ele podia lhe dar.
— O que? — murmurou ele com a boca colada a sua face. — O que quer?
- Não sei - suspirou Amélia, sentindo uma enorme vergonha.
— Eu sei o que quer. — Lambeu o lóbulo da orelha. — Quer prazer. Ou tal e como nós, os
ásperos americanos, dizemos, quer "gozar".
— Chame como quiser, mas eu quero — asseverou ela, olhando-o com olhos suplicantes.
Lucas aspirou ar lentamente.
— E eu também quero. Darei se você me der também.
Amélia o olhou confusa.
Lucas liberou seus pulsos do xale que a segurava, e logo se separou dela para desabotoar a
calça. Então foi quando ela notou a protuberância, uma enorme protuberância que se destacava
na parte superior da calça dele.
Amélia conteve a respiração enquanto ele desabotoava o calção. Com olhos sedentos,
devorando-a com o olhar como um corsário faria com sua cativa, Lucas murmurou:
— Chegou a hora de polir minha "espada", tal e como queria fazer, bonita. — Tirou-lhe as
luvas, então lhe agarrou uma mão, guiou-a até afundá-la dentro de seu calção e a fez fechar ao
redor de sua "espada". — Você me acaricia primeiro, e depois eu te acaricio.
Enquanto ela ficava quieta, com a mão dentro do calção, fascinada, mas envergonhada ao
mesmo tempo por sua própria curiosidade, Lucas deslizou a mão por dentro de seu vestido e
levantou a parte inferior da regata em direção ao espartilho, logo depositou outra vez a mão sobre
sua púbis.
A única diferença era que agora ele a tocava diretamente, não através de um tecido.
Lucas acariciou a pele sedosa, quente, excitada. Com a outra mão lhe ensinou como acariciá-
lo, como masturbá-lo com golpes firmes e prolongados.
— Mmm... Por Deus... sim... — ofegou ele quando Amélia conseguiu captar o ritmo, embora
custava a concentrar-se em agradá-lo quando ele a fazia enlouquecer com suas próprias carícias.
Ele se aproximou mais a ela enquanto ambos se acariciavam em simultâneo.
— Está tão deliciosamente úmida e doce... — sussurrou ao ouvido dela.
— E você... está tão... inchado — sussurrou ela, meio surpreendida. — E duro.
Lucas não pôde conter-se e deu uma gargalhada.
— Compreende agora... por que... excitou-me tanto antes? Com todo seu... palavreado a
respeito de polir minha... espada?
— Homem, também o entendi então — soltou ela.
— É uma Dalila virgem, que está aprendendo a torturar um homem a partir de livros
obscenos.
Amélia notou como seu rosto se inflamava, e abriu a boca para responder, mas outro som

72
proveniente do exterior conseguiu sufocar as urgentes necessidades de prazer que alagavam a
cabine.
— Amélia! — gritou uma voz do exterior. — Amélia, onde está? O que estão fazendo aí
dentro?
— Maldição! — rugiu ele. Os dois reconheceram a voz da senhora Harris.
Amélia tentou se afastar, mas ele a reteve.
— Ainda não terminamos - protestou Lucas.
— Devo responder, ou se não convencerá alguém que venha nos buscar.
Escapando de seus braços, Amélia foi em direção a vigia da parede curva que estava em
direção a costa. Assegurando-se de que sua cabeça preenchia por completo o marco da janela
enquanto que punha todo seu empenho em arrumar o traje, gritou:
— Estamos visitando a cabine do capitão!
A senhora Harris reparou em seu cabelo e franziu o cenho.
— Onde está seu chapéu?
Lucas se colocou atrás dela e murmurou:
— Diga que saiu voando com o vento.
Enquanto ela repetia a brilhante desculpa em uma voz sossegada, ele deslizou sua mão para
lhe acariciar o seio. Amélia quase teve um ataque por causa da sensação. Embora sabia que a
senhora Harris só podia ver seu rosto, havia algo terrivelmente exasperante no fato de ter sua
dama de companhia ali em frente, olhando-a fixamente, enquanto ele a tocava de um modo tão
perverso.
Exasperante e... Estranhamente excitante. Amélia apertou seu seio contra a mão de Lucas.
— Se desfaça dela, maldita seja! — ordenou ele. — Diga que estamos procurando seu
chapéu. — Com a outra mão, levantou a saia para prosseguir com as escandalosas carícias. — Diga
que desceremos a terra assim que o encontrarmos.
Ela capturou sua mão, mas isso só impulsionou Lucas a dirigir novamente a mão de Amélia
para o interior de seu calção para que acariciasse sua "espada". Sua espada brincalhona e
inflamada. Ela fechou a mão ao redor de seu pênis com força, pensando que com isso conseguiria
que ele se comportasse, mas ao invés disso, Lucas murmurou:
— Sim, assim... continue, bonita... não pare, por favor...
Foi esse "por favor" que fez que Amélia se decidisse. Sabia que o comandante engoliria um
prego antes de suplicar a uma mulher inglesa. Enquanto sentia seus próprios batimentos cardíacos
disparados em seus ouvidos, soltou a desculpa a dama, rogando que suas faces vermelhas não a
delatassem.
A senhora Harris gritou:
— Está bem, querida?
— OH, sim! Perfeitamente! — exclamou, desesperada para se afastar da vigia. Lucas estava
lhe fazendo as coisas mais perversas que se podiam imaginar, e a excitação que sentia em sua
parte mais íntima era muito deliciosa para ignorá-la. — É só que faz um pouco de calor aqui dentro.
Mas calor não era a palavra mais adequada. Ardor. Queimação. Queimava-se no meio das
chamas. Amélia pensou que morreria se não achasse alívio logo. Não aguardou para ver se a
senhora Harris aceitava seu conto. Afastando-se rapidamente da escotilha, soltou a "espada" de
Lucas e se virou para olhá-lo à cara. De novo ele se precipitou sobre ela, devorando sua boca

73
enquanto guiava outra vez a mão de Amélia para o interior de seu calção.
Então voltou a acariciá-la, mas desta vez de um modo mais desrespeitoso, até que introduziu
um dedo dentro de sua púbis. Dentro dela!
Amélia afastou alguns instantes a boca e murmurou:
— Lucas... não deveria...
— Chist, bonita — sussurrou ele enquanto banhava seu pescoço de beijos úmidos e ferozes.
— Só é meu dedo, nada mais. Mas deve me deixar... enlouquecê-la... como você está fazendo
comigo.
Ela se sentiu adulada pela confissão.
— De verdade? Estou te deixando louco? — conseguiu sussurrar, embora cada vez lhe
custasse mais articular as palavras.
— Já sabe que sim — ofegou ele. — Mais rápido... mais rápido... por favor, minha doce
Dalila...
Gostava de vê-lo suplicar. OH, sim. E adorou ver o modo em que seus beijos se tornaram
mais selvagens e mais agitados quando ela fez sua vontade. Para trás ficou o comandante
calculador e dominador. Em seu lugar havia agora um homem que necessitava uma mulher, que a
necessitava.
Este seria o momento oportuno para lhe surrupiar o que queria. Mas não podia. Não com
essa incrível pressão fazendo-se cada vez mais imperiosa em sua parte mais íntima... inchando-a...
arqueando-a... fazendo que sentisse a premente necessidade de explodir em um sonoro gemido,
que ia se formando em sua garganta...
Graças a Deus que Lucas o sufocou com sua boca, porque ela se sentia incapaz de detê-lo,
assim como se sentia incapaz de pôr freio à tormenta de prazer que envolvia sua púbis,
disparando o sangue por suas veias, enviando-a ao sétimo céu, onde nada existia, só o homem
que lhe proporcionava prazer... que a levava até o êxtase...
E momentos mais tarde, Lucas também pareceu alcançar esse prazer. Amélia viu que tirava
algo do bolso e que o colocava dentro do calção. Notou como lhe envolvia a mão com esse objeto
- um lenço, talvez?
— Antes de começar a ofegar e a pressionar seus lábios contra os dela. Então, um líquido
pegajoso se espalhou pelo pedaço de pano que rodeava sua mão.
Amélia aprendeu suficientes coisas a respeito da relação entre um homem e uma mulher
para saber que isso era sua semente. Uma satisfação feroz se apoderou dela. Ele também
conseguiu encontrar o prazer entre seus braços. Mas enquanto os dois procuravam repor-se das
transbordantes sensações que haviam experimentado, enquanto seus beijos ardentes davam
passo a um abraço mais cometido, a realidade do que ela acabava de fazer veio em cheio na cara.
Haviam... havia...
Que Deus a ajudasse. Desta vez fora muito longe. Ela apodreceria no inferno por uma
obscenidade de tal magnitude; não havia desculpa que valesse, nem sequer seu propósito. Seu
propósito... Sim! esqueceu-se de seu propósito no instante em que esse homem começou a
seduzi-la.
Amélia retirou a mão de seu calção e se separou de seus braços, procurando relaxar seu
pulso acelerado. E agora o que? Ele esperaria mais aventuras, agora que estavam íntimos até esse
ponto tão perigoso. E se de verdade ele pretendesse lhe fazer a corte, ela estaria mais que

74
contente de satisfazê-lo. Mas ele não estava cortejando-a. Maldição. Como qualquer outro
homem, unicamente perseguia seu próprio prazer. Olhou-o de soslaio e o pegou observando-a
com aquele olhar insolente tão típico dele. Provavelmente a tomou por uma moça fácil, e
considerava que isso era desculpa suficiente para satisfazer seu instinto básico enquanto fingia
cortejá-la.
Amélia tentou sufocar a raiva que lhe provocou tais pensamentos. Ela o procurou, com sua
maldita fascinação por todo o proibido. Mas não era tão néscia: uma aventura mais como essa e
acabaria com sua reputação em frangalhos. Não pensava arriscar em semear a vergonha em sua
família. Virando de costas, esmerou-se em arrumar o vestido, tentando não pensar nos deliciosos
calafrios que sentiu quando lhe beijou o pescoço, quando a contemplou meio nua... quando a
acariciou até levá-la ao orgasmo.
Amélia sufocou um suspiro. OH, realmente era uma desgraçada, uma perversa. Não, não
podiam continuar assim. Seus encontros privados deviam acabar. Não respondia por sua vontade
em lutar com a nova necessidade urgente de saciar sua paixão, e com a tarefa de descobrir
detalhes do segredo sobre o passado de Dolly ao mesmo tempo; o jogo era muito arriscado. Não
só para ela, mas também para Dolly.
Por alguma razão que lhe escapava, o comandante não utilizou seu encontro íntimo para
interrogá-la, mas isso não significava que não tentaria no futuro.
Então, a partir de agora, ela se encarregaria de manter o cortejo só em público.
Ele não deveria saber até que grau lhe afetavam suas aventuras, ou provavelmente não
descansaria até achar outra oportunidade para tirar vantagem de sua debilidade.
E isso só conduziria ao desastre.

Capítulo 10

Querida Charlotte:
Li o artigo da imprensa com enorme interesse. Atrever-me-ia a dizer, entretanto, que não
deve se preocupar com lady Amélia. Estou seguro de que essa moça poderá dirigir o comandante
Winter se este se mostrar inoportuno. Inoculou bem sua pupila - igual a ao resto das jovenzinhas
que passaram por sua escola - contra os patifes.
Cordialmente,
Michael

"Maldição! Mas o que foi que eu fiz?"


Enquanto a razão retornava a seu cérebro febril, Lucas soltou um bufo. Desta vez perdeu a
cabeça completamente. Colocou tudo a perder.
E a melhor prova disso era a forma como Amélia se separou dele: sem beijos carinhosos,
sem sorrisos de cumplicidade, sem abraços tenros. E ali estava ele, de pé, tentando recuperar o
fôlego, embriagado por seu aroma de madressilva e ainda sentindo seu gosto na língua, enquanto
ela se afastava. Não que a culpasse. A deixou de mãos atadas. Deu-lhe prazer. Obrigando-a que
desse prazer a ele. Por Deus! Inclusive esteve a ponto de fazer o impensável!

75
Mas que mais poderia fazer? Quando ela teimou em descer por aquelas escadas ao convés
inferior e foi testemunha de sua debilidade, ele perdeu a visão do mundo. Tentou encontrar uma
forma de mascarar a realidade, uma forma para que ela esquecesse o que acabava de presenciar.
E quando soube que Amélia levou a cabo a pequena tortura sensual deliberadamente com a
espada pela manhã, sentiu-se invadido por uma necessidade de fazê-la sua, de lhe demonstrar
que não podia provocá-lo nem zombar dele como indubitavelmente fazia com todo esse bando de
nobres ingleses efeminados.
E sim, a seduziu. E agora ela o faria pagar caro a afronta.
Depois de lançar a um lado seu lenço sujo, abotoou o calção e a calça com a eficiência veloz
que só se consegue após longos anos correndo ante a chamada ao dever. Olhou Amélia
furtivamente, mas ela parecia se negar a olhá-lo enquanto ajeitava o traje. Maldição, maldição, e
mil vezes mais maldição!
Amélia era jovem e inexperiente, e além disso era uma rica herdeira proveniente de uma
família aristocrática. Não se tratava de uma simples viúva com quem poderia se dedicar a brincar
de piratas e donzelas, amarrando-a e despindo-a para seu próprio prazer. Nem de uma prostituta
que podia encostar contra uma parede e manusear depois de pagar umas poucas moedas. Amélia
o castigaria pelo que fez. Mesmo que ela tivesse aceitado tudo, mesmo quando participou por
vontade própria, e lhe fez esquecer durante alguns instantes...
Lucas apertou os dentes. Ao invés de interrogá-la, dedicou-se a gozar com ela. Com sua
atitude conseguiu certamente enfurecer Amélia, o que significava que acabaram as possibilidades
de lhe surrupiar informações no futuro. Mas o pior era que não teria nenhum problema em repetir
o que acabava de fazer se ela permitisse. Porque esses momentos de intimidade com Amélia,
foram o mais próximo que esteve do paraíso nos últimos três anos.
Que Deus tivesse piedade dele.
Amélia o olhou, com a roupa de novo no lugar, e seu xale cobrindo os belos seios. Se não
fosse pelo tremor de suas mãos enquanto colocava as luvas que ele havia arrancado com tanta
vontade,
Lucas teria pensado que nada aconteceu entre eles.
— Foi uma aventura muito interessante - ela conseguiu dizer.
Uma aventura interessante? Isso era tudo o que podia dizer? Lucas a olhou com cautela.
— Está bem?
— Sim, como não estaria, depois de seus esforços... desmedidos?
Lucas suspirou lentamente. Os ingleses eram reservados, mas isto...
— Peço perdão.
— Por quê? Prometeu uma aventura, e isso foi o que me deu. Pronto.
Pronto? Isso era tudo? acabou?
Sorrindo friamente, Amélia se dedicou arrumar o cabelo.
Que bonita estava; jamais esteve tão desejável. Lucas sentiu vontade de voltar a encurralá-la
contra a parede e de fazer amor até conseguir que ela perdesse esse sorriso tão frio e vazio, de
despi-la, e emaranhar seu cabelo e acariciar todo seu corpo até ouvi-la ofegar e suspirar sob ele...
"Cuidado, Lucas, cuidado", disse a si mesmo. Por algum motivo milagroso, conseguiu
agarrar-se a uma corda e o melhor que podia fazer era tentar não soltar-se.
— Devemos retornar ao cais — proclamou ele, com a clara determinação de recuperar a

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compostura, assim como ela fez.
— Sim. — inclinou-se para recolher o chapéu com um ar tão desdenhoso para ele, que fez
que Lucas apertasse os dentes. — E a senhora Harris não deve inteirar-se jamais do que estivemos
fazendo.
— Por que não?
Amélia levantou o rosto e o olhou horrorizada.
— Não está pensando que devemos contar a ela?
— Não com todos os detalhes. Mas certamente inclusive vocês, os ingleses, atrevem-se a dar
algum beijo em um cortejo.
Era raiva o que pareceu ver na cara de Amélia? O rictus desapareceu tão rapidamente que
Lucas não podia estar seguro. Além disso, por que teria que estar furiosa por essa questão,
quando não ficou pela outra?
— Isto não é um cortejo formal. — amarrou o chapéu com uns movimentos bruscos. —
Assim, até que nossa relação não madure um pouco mais, preferiria que não conte nada à senhora
Harris.
Lucas apertou os olhos. Quanto mais prolongasse sua relação com Amélia, mais
oportunidades teria Dorothy de descobrir quem ele era realmente. Ela e Frier poderiam estar em
outro país quando lady Dalila permitisse o acesso de Lucas a seu círculo familiar.
— Então, definamos nossa relação de uma vez por todas. — Lucas tentou pôr o tom mais
despreocupado que pôde. — Não ficarei muito tempo na Inglaterra. Além disso, nem sequer
conheço seus pais. E está claro que sentimos uma atração muito forte um pelo outro. A verdade é
que provavelmente nos veremos obrigados a casar se continuarmos com este tipo de encontro.
— A verdade — contra-atacou ela com uma faísca de sarcasmo — é que não vejo por que
temos que nos precipitar. Só faz um dia que nos conhecemos, Lucas. Um cortejo breve costuma
durar uns seis meses, e um longo, entre um ou dois anos.
Seu tom ausente deixou Lucas gelado. Por acaso ela pretendia mantê-lo em suspense
durante várias semanas enquanto o fazia dançar ao som de sua música?
— Se acha que vou estender minha estadia na Inglaterra até...
— Não, claro que não. — Amélia levantou o queixo com uma repentina expressão imperiosa.
- Mas certamente não nos fará nenhum mal dedicar alguns dias a nos conhecer melhor antes de
revelarmos aos outros suas intenções.
Com a clara determinação de humilhá-la, começou a olhá-la lenta e avidamente, de cima
abaixo, por todo o corpo que esteve acariciando escassos minutos antes.
— Parece que já nos conhecemos o suficientemente bem, bonita.
Em vez do sobressalto que esperava provocar com tal comentário, Amélia lhe lançou um
olhar tão fulminante que Lucas ficou desorientado. Essa moça não era a gatinha calma e manhosa
que aparentava ser.
Embora parecesse estranho, ele gostou disso.
— Não me refiro a essa forma de nos conhecer, comandante Winter.
— Então, voltamos ao tratamento formal de comandante Winter, não? — provocou ele. — É
esse o tipo de amizade formal a que se refere?
— Sim, a adequada, uma relação em que se conversa ao invés de...
— Deixar-se levar pelo desejo? — Lucas baixou a voz até convertê-la em um rouco murmúrio.

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— Excitar um ao outro até gozar mutuamente?
Amélia esquadrinhou o rosto dele.
— O tipo de amizade em que as pessoas revelam mais de si mesmos que simplesmente seus
corpos. Em que compartilham seus temores, como por exemplo; por que ficam paralisados com
terror ante a visão de uma escotilha aberta que conduz às cabines que há sob o convés.
As palavras tiveram o mesmo efeito doloroso que uma pedrada na testa. Maldita fosse essa
garota e toda sua curiosidade.
— Quando pudermos compartilhar esse tipo de conversa tão pessoal — acrescentou Amélia
suavemente. — Quando puder ser honesto comigo, então, e só então, o apresentarei a meus pais.
Com um giro sobre os calcanhares, Amélia saiu da cabine.
Na carruagem, durante todo o trajeto de volta a casa, Amélia se arrependeu de suas palavras
tão impertinentes. Não era só o semblante taciturno e horrorizado que Lucas mostrou depois de
que ela as soltasse, nem o fato de que ele mal tivesse aberto a boca enquanto abandonavam o
xebec, nem a evidente tensão durante a curta travessia no bote, de retorno à margem.
Tratava-se do desagradável sentimento de que desta vez fora muito longe. Fossem quais
fossem os demônios que empurraram Lucas a reagir de um modo tão esquivo ante a escotilha
aberta, com certeza não se tratavam de meras tolices, e um homem com seu orgulho odiaria que
uma mulher se desse conta desse medo irracional, e ainda mais que pedisse que prestasse contas
diante dela.
O que aconteceria se a crueldade que ela demonstrou o impulsionasse a agir de uma forma
desumana? Por exemplo; arrastar Dolly a América à força com ele? Posto que ainda não o fez,
significava isso que não suspeitava que Dolly tivesse realizado nenhuma maldade? ou era
simplesmente porque existiam leis que não o permitiam agir desse modo? Ainda quando existisse
esse marco legal, não lhe restava a menor duvida de que Lucas era capaz de atuar indevidamente
se o ferisse onde mais doía: no orgulho.
Mas... Ela também tinha orgulho, droga! E cada vez que ele mencionava seu cortejo como se
verdadeiramente desejasse casar-se com ela, sentia vontade de esbofeteá-lo. Lucas simplesmente
tentava pressioná-la para que o levasse até Dolly. Que patife! Um monstro com duas caras! Pois
pensava mantê-lo assim, dançando a seu desejo até que tivesse a certeza de que não podia fazer
nenhum dano a sua madrasta.
— Os dois estão muito calados - comentou a senhora Harris, sentada ao lado de Amélia na
carruagem. — Esse navio não era o que esperavam?
Amélia esteve a ponto de dizer: "Certas partes surtiram uma enorme aversão ao
comandante Winter", mas uma olhada à expressão rígida de Lucas, fez que as palavras ficassem
atravessadas em sua garganta.
— Foi tudo bem.
— Lady Amélia o achou... sujo. — Lucas lhe lançou um olhar de recriminação.
Maldito fosse esse homem.
— Custa-me imaginar que um pouco de sujeira possa incomodar Amélia — repôs a senhora
Harris.
— Vê, comandante? — espetou ela com raiva. — Deveria ter me deixado descer ao andar
inferior como lhe pedi, ao invés de alegar que estaria muito sujo.
Quando ele a crivou com o olhar, a senhora Harris decidiu intervir.

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— Em uma situação como essa, a precaução é mais que apropriada. Estou segura de que lá
embaixo devia haver até ratos.
E embora Amélia não pareça se importar com a sujeira, não acredito que gostasse de ver
como alguns ratos brincariam com seus sapatos.
O comentário pareceu não aplacar Lucas.
— Terei em conta da próxima vez. Talvez deveríamos fazer algo menos perigoso... visitar um
museu ou sair para dar um passeio pelo parque a cavalo.
— Um passeio a cavalo parece perfeito — gorjeou Amélia com uma voz melosa. — Estou
certa de que à senhora Harris também gostará de ir.
— Parece bom amanhã? — propôs ele, embora o brilho gélido de seus olhos revelasse que
não gostava da ideia de incluir à viúva.
— De acordo — respondeu Amélia, lhe devolvendo o olhar beligerante.
— Não, querida, amanhã não. — A senhora Harris se virou para Amélia. — Esqueceu a
reunião com a Sociedade de Damas de Londres? A senhorita North conta contigo para apoiar sua
nova causa, e prometeu a ela que iria.
Louisa North era a filha de um visconde e que foi dama de companhia da princesa Charlotte.
Depois do desafortunado falecimento da princesa há um ano, Louisa se manteve ocupada
ajudando a preparar às pupilas da senhora Harris para sua apresentação na corte.
Mas recentemente Louisa enfocara seus esforços em uma série de reformas penitenciárias,
e esse era o propósito da reunião prevista para o dia seguinte. Depois de tudo o que Louisa fazia
pela Escola de Senhoritas da senhora Harris, Amélia aceitou satisfeita o convite à reunião. Não
podia agora voltar atrás e faltar a sua palavra.
— É verdade; havia esquecido. Devo ir a essa reunião - se desculpou Amélia.
— E no dia seguinte temos a recepção com as graduadas ao meio dia — recordou a senhora
Harris. — Tampouco pode faltar a esse encontro, posto que se celebrará em sua casa.
Amélia suspirou. Apesar de se sentir zangada com Lucas, ainda precisava passar um tempo
com ele para averiguar mais coisas sobre seus planos. Mas se começasse a cancelar suas
atividades sociais para ficar com ele, a senhora Harris poderia pensar que sua relação progredira
até tal ponto que seria capaz de escrever a seu pai ou a Dolly para contar.
Amélia preferia não se arriscar que retornassem a Londres antes do programado.
— Talvez pudéssemos sair de noite - insistiu Lucas tensamente.
— Amanhã de noite tenho um compromisso — objetou ela, embora imediatamente
acrescentou com semblante pensativo: — Mas não tenho nenhum plano para o dia seguinte,
depois da recepção na hora da refeição.
Lucas a observou com olhos calculadores.
— Então, me informarei de qual peça de teatro poderíamos ver.
— OH, os teatros estão fechados nessa noite — explicou a senhora Harris.
Lucas se derrubou no assento, com aspecto cansado.
— Devo lhes dizer que neste país não facilitam a um homem que corteja uma mulher.
Um silêncio incômodo alagou o espaço. Lucas acabava de realizar uma declaração formal de
suas intenções, apesar de ter lhe pedido que esperasse para fazê-lo. Amélia se esforçou por conter
sua ira. Lucas estava se vingando por seus comentários a respeito da escotilha e por sua negativa a
ficar outro dia com ele.

79
Estava obrigando-a a jogar em seu terreno, e isso só poderia acarretar problemas.
— Ora, ora! Como os americanos são francos! — exclamou a senhora Harris.
— E presunçosos — acrescentou Amélia. Agora teria de convencer sua acompanhante de
que ainda não havia nenhum motivo para escrever a papai e a Dolly e se referir sobre o cortejo.
— Já havíamos falado disso, e não me disse que não - atravessou Lucas.
Amélia podia sentir o olhar afiado da senhora Harris cravado nela.
— Tampouco disse que sim. Disse que poderia me cortejar, e que depois veríamos no que
daria. — Apertou os olhos.
— Além disso, também lembro que lhe pedi que demonstrasse discrição até que ambos
estivéssemos mais seguros... de nossas respectivas intenções.
Lucas a olhou diretamente aos olhos.
— Eu estou seguro sobre você.
"Mentiroso! Se nem sequer me quer!", pensou ela.
A senhora Harris depositou uma mão pacificadora sobre o braço de Amélia e argumentou:
— Comandante Winter, é óbvio que os americanos demonstram certa obstinação quando
perseguem um objetivo, mas os ingleses tendem a agir com mais cautela. Não nos jogamos de
cabeça quando se trata de decisões que podem ter uma repercussão tão importante para nosso
futuro.
— Não disponho de tempo para agir com cautela, senhora — apostilou ele. — A este passo,
verei Amélia uma vez por semana, e isso não é suficiente. Não sei se entende, mas logo terei que
partir de seu país.
— Ah, sim? — espetou Amélia. Agora seria ele quem se sentiria verdadeiramente incômodo.
— Que urgente negócio têm que levar a cabo depois? Está aqui em função de intermediar um
tratado. Por acaso seu governo não é capaz de lhe conceder todo o tempo que precise?
Um músculo se esticou na mandíbula do Lucas.
— Estou à espera de ser nomeado cônsul. Posto que não posso continuar no Corpo de
fuzileiros devido a certas dificuldades pessoais, eu não gostaria de deixar este trabalho pela
metade antes de me retirar.
Se ele não mordia a língua, ela tampouco o faria.
— Que tipo de dificuldades pessoais?
— Amélia! Isso que acaba de perguntar é de má educação — a admoestou sua antiga
preceptora em voz baixa.
Lucas a olhou fixamente aos olhos.
— O tipo de dificuldade que não me permite seguir vivendo em um navio durante meses.
Então Amélia viu claramente: Lucas não podia ficar nas cabines sob o convés. Certamente
isso provocaria sérias dificuldades a um fuzileiro. Enquanto ele desviava a vista para a janela,
olhando desdenhosamente para o cais, um sentimento de desassossego fez que Amélia se
arrependesse de suas palavras venenosas. Pobre Lucas, pobre diabo orgulhoso.
Como desejava poder levantar-se e beijar essas duras linhas de sua expressão tão rígida.
Agora compreendia por que ele levava tão a sério a missão de encontrar Dorothy Frier. Lucas
não podia proteger seu navio como se supunha que deveria fazer um fuzileiro, assim que se
dedicava a servir a seu país de outro modo. Embora, estava claro que lhe ofereceram uma
informação errônea a respeito de Dolly e, além disso, não deveria fingir que desejava cortejá-la

80
com o único fim de conseguir seu objetivo, pelo menos agora entendia a ferocidade de sua
tentativa.
— Reservarei a noite depois da recepção em minha casa, comandante — aceitou ela
suavemente. — Quando decidir o que faremos nessa noite, me comunique mediante uma nota.
Lucas a olhou fixamente, com olhos escurecidos e vulneráveis.
— Obrigado — respondeu bruscamente.
Durante um momento continuaram a viagem em silêncio, com o único ruído das rodas
chiando e o som dos cascos dos cavalos sobre a rua empedrada. De novo se aproximavam de Saint
James's Square.
Amélia se sentiu surpreendida ao dar-se conta da pouca vontade que tinha de despedir-se
dele. Mas os dois dias seguintes dariam a oportunidade ao primo Michael de averiguar mais
detalhe a respeito da missão de Lucas, e isso não podia mais que ajudá-la. Mas sentiria falta de
Lucas. A ele! Ao tipo mais irritante, mais enigmático e mais arrogante que conheceu.
E também o único que conseguiu disparar seu coração, o único que a fez sentir-se desejável.
Se finalmente descobrisse que Lucas não era mais que um patife ruim e desalmado, como
conseguiria suportar a enorme decepção?
De repente a senhora Harris ficou muito rígida a seu lado.
— OH, querida; tinha toda a razão do mundo: esse homem é a peste em pessoa.
Confusa, Amélia levantou a cabeça para olhá-la e descobriu à viúva observando pela janela,
então compreendeu a que se referia. Uma carruagem com uma coroa pintada em sua parte
superior estava estacionada duas portas mais abaixo de sua casa.
Justo o que necessitava para terminar o dia. Lorde Pomeroy.

Capítulo 11

Querido primo:
Obrigada, venerável senhor! Faço tudo o que posso para "inocular" a minhas pupilas, tal e
como você graciosamente expressou em sua carta. Nenhuma enfermidade é mais perigosa que um
marido infame, porque se uma mulher se contagia desse mal, adoecerá sem remédio durante o
resto de sua vida.
Sua amiga,
Charlotte

— Por favor, Lucas, não enfrente esse homem — Amélia implorou pouco depois, desejando
que a senhora Harris não tivesse reparado na carruagem de lorde Pomeroy estacionada na rua.
Agora se achavam nos estábulos, posto que Amélia insistira em que o chofer os levasse até
ali. Quão último desejava era que lorde Pomeroy as visse com o comandante. Amélia bloqueou a
passagem de Lucas quando este mostrou sua intenção de dirigir-se para a porta do estábulo.
— Lorde Pomeroy não tem nada a ver com você.
Lucas lhe lançou um olhar desafiante.
— Como não? A senhora Harris acaba de contar que esse tipo costuma passar o dia sentado

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em sua carruagem estacionada na porta de sua casa para intimidar seus pretendentes. E espera
que fique com os braços cruzados?
Apesar de Amélia se sentir adulada ante o inesperado afã protecionista de Lucas, pensou
que sua intervenção só conseguiria complicar as coisas.
— Deixou de fazê-lo quando meu pai se negou a contemplar a possibilidade de que me
casasse com ele. Provavelmente hoje só veio me visitar; devem ter lhe dito que não estava, e
decidiu esperar que voltasse. Isso é tudo.
— Ou — interveio a senhora Harris — como sabe que seu pai está fora da cidade, lorde
Pomeroy retornou a seus velhos hábitos. Especialmente depois de observar como o comandante a
enchia de tantos cuidados, ontem de noite.
Amélia lançou à senhora Harris um olhar de frustração. Sua acompanhante só estava
complicando mais as coisas.
Lucas parecia preparado para brigar.
— Então, alguém deveria recordar ao Pomeroy que seus cuidados não são bem recebidos. E
não só com palavras.
Afundou a mão no bolso das calças e tirou a adaga embainhada.
— Santo céu! — murmurou a senhora Harris.
— Disse que não a carregava! - disse Amélia.
— Pois menti. — Desembainhou a adaga calmamente. — Nenhum soldado decente se
atreve a sair do quartel desarmado.
Amélia deu uma olhada a seu redor e viu como os rapazes das quadras lhes davam olhadas
furtivas, com os olhos abertos como laranjas cravados na adaga do Lucas enquanto desatrelavam
os cavalos e começavam a escová-los.
— Não permitirei que use essa arma — advertiu ela.
Lucas olhou Amélia fixamente, soltando faíscas pelos olhos.
— Um militar como Pomeroy só compreende uma linguagem, uma linguagem que só outro
homem é capaz de explicar.
— É um general reformado. Acha que se limitará a se jogar ao chão e simular que está morto?
— Quando a opção é estar morto, o fará.
— Só conseguirá que me acosse mais. Interpretará como uma forma de me salvar de você.
Quando Lucas se limitou a guardar a adaga na parte dianteira das calças, visivelmente
proeminente, Amélia acrescentou:
— Não pode ameaçar um cavalheiro. Eles o prenderão. Não importa o motivo. E então, pode
me dizer do que terá servido seu gesto?
A mandíbula do Lucas se esticou visivelmente.
— Então me indique o que devo fazer. Porque não penso ir até que esteja seguro de que
ficará bem.
— Ficaremos bem, de verdade. Lorde "Pomposo" não é nada mais que um velho fanfarrão. A
única coisa que se atreve a fazer é lançar olhares desafiantes a meus pretendentes em sua
carruagem.
— Alguns homens são capazes de fazer o que for por dinheiro — lançou Lucas.
Amélia ficou pasmada ante essa feroz declaração. Estava falando dele mesmo? Ou de
alguém mais? Porque certamente não era só lorde Pomposo que conseguiu alterá-lo tanto. De

82
acordo. Deixaria que esse idiota agressivo atacasse lorde Pomposo. Provavelmente feriria o velho,
conseguiria que o prendessem, e desse modo desapareceriam os dois problemas que Amélia tinha.
Lorde Pomposo a deixaria em paz, e com Lucas no cárcere, Dolly estaria a salvo.
Exceto que não suportava imaginar o pobre comandante no cárcere. Não depois de ter
presenciado como este havia empalidecido quando olhou o buraco da escotilha. E, obviamente,
não depois que a acariciou de um modo tão íntimo. Para bem ou para mau, a batalha entre ela e
ele devia limitar-se a eles dois. Assim precisava sossegá-lo, acalmar seus temores. Esboçou um
sorriso aberto.
— De verdade, Lucas, estou segura de que lorde Pomeroy se cansará de sua tática quando
vir que não dá resultado.
Lucas apertou o punho.
— Não é um de seus nobres fleumáticos. Se não funcionar, adotará medidas mais drásticas.
— Como o que? Qualquer outra atuação provocaria um escândalo, e esse homem não irá
querer jogar pelo chão sua reputação como herói de guerra. Além disso, sabe que não me casarei
com ele sob nenhuma circunstância. E já que tem que contar com meu consentimento, e com o
beneplácito de meu pai para ter acesso a minha fortuna...
— Mas se sabe — a interrompeu Lucas, patentemente incômodo, — por que ronda perto de
sua casa ao invés de perseguir uma rica herdeira mais maleável?
— Porque não é só o dinheiro de Amélia que interessa esse indivíduo — matizou a senhora
Harris, — apesar do que ele diga.
Amélia a olhou com o cenho franzido.
— É verdade, e sabe, querida. A primeira vez que foi apresentada em sociedade, estava tão
encantada de poder escutar suas histórias a respeito da guerra que conseguiu que esse homem se
sentisse tão adulado por seu interesse que decidiu que você seria sua única dama.
— Sim — protestou ela— mas logo me dei conta de meu engano, e após deixei claro mais de
um milhão de vezes que meu interesse era meramente acadêmico. O que acontece é que pensa
que, como esta é minha segunda temporada e não tenho muitas ofertas de pretendentes
convenientes, finalmente acabarei claudicando. Com o tempo se dará conta de que se equivoca.
Lucas dirigiu seu olhar cético para a senhora Harris.
— O que pensa?
— Estou de acordo com Amélia. Apesar de que o ávido interesse que professa esse homem
pode resultar incômodo, duvido que atue de um modo mais ofensivo. Não se arriscaria a ser
objeto de um escândalo.
— Lorde Pomposo pode ser um general — acrescentou Amélia, — mas também é um
marquês, e é muito consciente de sua própria importância.
— De acordo — resmungou Lucas. — Sempre esqueço a importância que os ingleses
outorgam aos títulos nobiliários.
Pelo menos havia embainhado a adaga e guardado no bolso da calça.
— Além disso — prosseguiu Amélia, — de verdade pensa que meu pai me abandonaria em
Londres se pensasse que estava em perigo?
Lucas a olhou fixamente aos olhos.
— Não sei do que seu pai é capaz.
Referia-se a Dolly, Amélia estava segura disso, embora não conseguia compreender o que

83
queria dizer.
— Nunca deixará que ninguém me faça mal. Disso pode estar seguro. Assim já pode retornar
a casa dos Kirkwood. — Depositou sua mão sobre o braço do Lucas e acrescentou: — Vamos, o
acompanharei até a porta.
— A esperarei lá dentro — murmurou a senhora Harris.
Amélia deu um sorriso de agradecimento, contente de poder despedir-se a sós de Lucas.
Desejava lhe dizer um par de coisas que não poderia expressar diante de uma audiência. O casal
abandonou os estábulos, mas Lucas se deteve subitamente assim que atravessaram a soleira, com
um brilho premeditado nos olhos.
— Devo recuperar minha espada. Deixei-a na sala de estar.
Quando deu a volta com a intenção de seguir à senhora Harris, Amélia o agarrou pelo braço
e o levou em direção contrária.
— OH, não. Não precisa fazê-lo — disse ela entre risadas. — Só deseja ter a oportunidade de
cruzar com lorde Pomposo. — Lançou um olhar coquete. — Além disso, não te devolverei a
espada até que me permita deixá-la brilhando.
Os olhos do Lucas se escureceram.
— Maldita feiticeira. Essa é a razão pela qual Pomeroy deseja entrar em sua casa. Quer que
dê brilho a sua espada.
Amélia ruborizou.
— Bobagens. Esse tipo só vai atrás da minha fortuna. — Chegaram à grade. — E você, senhor,
o deixará em paz, e partirá a casa dos Kirkwood pelo beco que há atrás de minha casa para que ele
não o veja.
— Pois estava pensando em trocar algumas palavras amistosas com ele; de soldado para
soldado.
— Vamos, Lucas... — começou a dizer Amélia.
— Sem armas. Prometo.
— Não acredito. — Olhou-o fixamente. — Prometa que não falará com lorde Pomeroy.
Lucas esgrimiu um parco sorriso.
— E por que acha que cometeria tal tolice como te prometer o que me pede?
— Porque se não o fizer, me recusarei a vê-lo novamente. — Com sua mão lhe deu um leve
empurrão no peito. — E agora vá.
Lucas segurou sua mão sem lhe dar tempo de retirá-la.
— Prometo que não falarei com Pomeroy se você prometer que se esse tipo continuar te
importunando, deixará que eu arrume as coisas a minha maneira.
— Lhe dando um tiro? Provocando-o? Lutando contra ele?
— O que for necessário para conseguir que te deixe em paz.
Amélia teria se sentido adulada por seu interesse se não tivesse a suspeita do motivo que o
movia a agir dessa maneira. Provavelmente, Lucas tinha medo que lorde Pomeroy fizesse algo
precipitadamente que lhe dificultasse completar seus perniciosos planos.
Com essa triste certeza lhe flagelando o coração, Amélia tentou pôr um tom alegre.
— Prometo que se me encontrar em um grave perigo mortal, enviarei alguém para te buscar
para que liquide meus inimigos.
— Falo a sério, maldita seja. — Sua mão se fechou com mais força sobre a dela. — Prometa

84
isso de uma vez, seja condescendente comigo.
— Parece que fui muito condescendente contigo esta tarde.
Lucas deu uma gargalhada.
— Se tivesse sido condescendente comigo, bonita, não teria saído virgem daquele navio. Da
próxima vez não mostrarei tanta contenção cavalheiresca. — Com um olhar lascivo, levou a mão
de Amélia até os lábios e deu um beijo no centro de sua palma. Logo descobriu o pulso enluvado e
deu outro beijo sobre seu pulso acelerado. — Porque quando um homem deseja uma mulher, não
se detém até que consegue o que quer.
Ela conteve a respiração. Como teria gostado de poder acreditar nas intenções desse olhar
feroz, na intensidade de sua voz. Como desejava que se tratasse de um cortejo real, que Lucas
realmente desejasse casar com ela.
Mas quando ele falava de desejos, referia-se unicamente a seu corpo, nada mais. O cortejo
era simplesmente um meio para conseguir seu objetivo. Lucas esperava obter algo dessa farsa do
mesmo modo que lorde Pomeroy esperava conseguir sua fortuna. Lucas era só um pouco mais
hábil na hora de ocultar suas verdadeiras intenções. Tentou não deixar-se vencer pelo nó que se
formou na garganta. Assim que ele acabasse sua investigação, o cortejo teria seu fim, por isso não
deveria albergar nenhuma estúpida ideia romântica sobre a relação que havia nascido entre eles;
não se desejasse proteger seu coração.
Com um sorriso vago, Amélia afastou a mão.
— A senhora Harris está fazendo gestos para que entre — mentiu enquanto abria o portão.
— Obrigada por me mostrar o xebec.
Lucas repassou seu corpo de cima abaixo, com um olhar tão íntimo como uma carícia física.
— Obrigado por me mostrar isso tudo.
— Tome cuidado, Lucas, ou pode ser que você se veja forçado a me esperar sentado diante
de minha casa em uma carruagem — repôs ela com um tom claramente irado. Em seguida se virou
e se dirigiu com passo furioso para a casa.
Lucas a contemplou enquanto partia, com os batimentos do coração ressonando em seus
ouvidos. Humilhar-se esperando em uma carruagem que lady Dalila o consagrasse com seus
favores? De jeito nenhum!
Se alguma vez essa mulher se atrevesse a fechar a porta na cara, não ficaria ali plantado até
que ela mudasse de opinião. Nenhuma mulher valia tanto a pena para sofrer uma humilhação
similar, nem sequer lady Dalila. Exceto quando caminhava movendo os quadris desse modo tão
sensual. Ou quando o deixava beijar aquela boquinha tão tentadora. Ou acariciar os seios tão
apetecíveis e sedosos. Ou brincar com a doce perola que tinha entre as pernas até que começasse
a ofegar e conseguir deixar seu pênis tão duro que não era suficiente que o masturbasse para...
Lucas afastou a vista da silhueta de Amélia enquanto balbuciava uma grosseria. Realmente
essa garota era Dalila em pessoa! Poderia arrancar a força de um homem em apenas afastar-se
dele.
Procurou no bolso um lenço para secar o suor da testa, mas então lembrou que deixara o
pedaço de tecido sujo no navio. Deveria ter deixado seus pensamentos pecaminosos ali também,
porque quanto mais se inundava neles, mais absorto se sentia. E isso não era conveniente.
Não quando finalmente estava tão perto do final. Ao declarar suas intenções
deliberadamente diante da senhora Harris, garantiu uma de duas reações possíveis: ou a viúva

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apoiaria sua tentativa e animaria Amélia a incentivar seus pais a irem a Londres para lhes
apresentar o pretendente, ou, se a dama não estava a favor desse cortejo, escreveria para
expressar sua preocupação, e isso faria que eles retornassem a Londres rapidamente.
Então, se jogasse bem suas cartas, em breve conheceria lady Tovey. Não pensava deixar que
seu pênis febril arruinasse seu plano. Dirigiu-se para a casa de lorde Kirkwood, mas se deteve
quando passou pelo beco que desembocava na rua. Por todos os demônios do mundo, não fazia a
menor graça partir sabendo que o velho general estava ali fora esperando.
"Prometa que não falará com lorde Pomeroy."
Certo, embora isso não significava que não pudesse dar uma olhada de reconhecimento.
Abandonou o beco e entrou na rua, contornou a esquina justo no momento em que Pomeroy
descia precipitadamente os degraus da frente da porta principal dos Tovey. Provavelmente, o
general tentara visitar Amélia de novo sem êxito.
Enquanto Pomeroy cruzava a rua em direção a carruagem, Lucas observou seu rival pelas
costas. Para ser um cinquentão, conservava-se ágil, com um andar ligeiro e a postura ereta típica
dos soldados. Pelo que recordava do baile da noite anterior, esse tipo era o suficientemente
atraente para poder atrair qualquer mulher, apesar de sua papada e de seu nariz chato. Seu
cabelo grisalho tinha ainda volume, e sua fama como herói de guerra cobria outros defeitos que
pudesse ter. Certamente não lhe custaria nada encontrar esposa, assim, por que perseguia Amélia
com tanto empenho? Devia ser por algo mais que por sua fortuna. Continuou vigiando-o, para ver
se ia embora, para confirmar se Amélia tinha razão e Pomeroy só esteve esperando que
retornasse. Mas o marquês entrou na carruagem sem dar nenhuma ordem explícita ao chofer.
Lucas necessitou só de alguns minutos para compreender que esse tipo não pensava ir
embora.
Maldito idiota.
O que pretendia Pomeroy? Intimidar os outros pretendentes? De acordo. Esse desgraçado
não era o único que podia recorrer à tática da intimidação como parte de sua estratégia.
Prometeu a Amélia que não falaria com o general, mas não disse nada a respeito de deixar-se ver.
Lucas começou a passear pela rua tranquilamente, assobiando. Em questão de segundos, a
cara azeda de Pomeroy apareceu pela janela da carruagem. Lucas caminhou até a porta principal
da família Tovey e, fingindo não ver o general, que o estava crivando com um olhar envenenado,
enfiou a mão no bolso de suas calças e tirou sua adaga.
Sentou-se nos degraus e começou a afiar a faca com golpes lentos e precisos, limpando o fio
em sua bota de couro periodicamente. Seguiu assobiando placidamente, como se não tivesse
nada melhor para fazer enquanto o sol se ocultava no horizonte. Transcorreram alguns minutos e,
subitamente, levantou o olhar para cima e o cravou na carruagem. Lorde Pomeroy continuava
olhando-o, mas tinha aspecto de não estar totalmente cômodo. Quando os olhares dos dois
homens se encontraram, Lucas levou a mão até o chapéu deliberadamente, como se quisesse
saudar o general. Pomeroy franziu o cenho.
"Vamos, desgraçado; vejamos se atreve-se. Desça dessa condenada carruagem e
solucionaremos isto de uma vez por todas", pensou Lucas. Não lhe ocorria uma forma mais
satisfatória de engajar em uma luta feroz até a morte com um general inglês. Mas depois de olhar
Lucas com cara de poucos amigos, Pomeroy se retirou da janela. Apertando os dentes, Lucas
voltou para sua tarefa de afiar a adaga. Chas, chas, chas, chas... O movimento o ajudou a se

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acalmar, o que era positivo, porque só esperava uma mínima provocação para afundar a adaga
nas costelas de Pomeroy.
Não era só porque esse tipo era inglês, nem tampouco porque era general. Disse a si mesmo
que era porque as artimanhas de Pomeroy dificultavam seus próprios planos, embora no mais
recôndito de seu ser, sabia que isso era uma áspera mentira. O que acontecia era que não podia
suportar a ideia de ver outro homem rondando perto de Amélia, nem sequer um cavalo de
batalha velho e arrogante como Pomeroy.
Tentou afastar esse pensamento perturbador; procurou concentrar-se no trabalho de afiar a
adaga. Chas, chas, chas, chas... O movimento continuou inclusive quando finalmente a carruagem
de lorde Pomeroy iniciou o movimento e se perdeu na escuridão.

Capítulo 12

Querida Charlotte:
Por fim disponho da informação do comandante Winter que me solicitou. Anexo um relatório
detalhado, cortesia de meu amigo no comando da Infantaria da Marinha.
Seu serviçal primo,
Michael

— Talvez deveríamos colocar o sarcófago lá fora, na entrada, senhorita.


Amélia mal ouviu as palavras do lacaio. Uma semana antes, não teria duvidado em protestar
diante da mera ideia de que alguém modificasse algo da sala de música que papai e Dolly
permitiram que decorasse.
Uma semana antes, teria se mostrado encantada ante a oportunidade de poder se gabar dos
novos móveis de estilo egípcio diante de suas companheiras de escola.
Uma semana antes, não conhecia o Lucas.
Nos dois dias que transcorreram desde sua visita ao xebec, Lucas e Dolly dominaram seus
pensamentos. Por sorte convenceu à senhora Harris que não escrevesse a seu pai informando
sobre o cortejo até que a situação não estivesse mais clara, mas por quanto tempo conseguiria
conter sua dama de companhia? Agora, enquanto ela e a senhora Harris estavam finalizando os
preparativos para receber as antigas companheiras da escola na sala de música, não podia deixar
de refletir a respeito de tudo o que Dolly revelou desde que se conheceram: qualquer informação,
qualquer menção sobre seu passado, qualquer reação de sua madrasta...
Enquanto retiravam os tapetes do chão, recordou a expressão contrariada de Dolly a
primeira vez que viu como Amélia cobria o valioso tapete Axminster com uma toalha protetora.
Também recordou o dia em que, quando o mordomo tirou o muito caro jogo de chá Wedgwood
de basalto negro para substituir o que utilizavam diariamente, Dolly se mostrou muito surpresa
diante da ideia de dispor de mais de um jogo de chá. Ou os americanos eram muito menos
caprichosos com seu dinheiro que os ingleses... ou Dolly jamais gozou da boa vida que Amélia
imaginava que teve pelo fato de ter estado casada com um rico mercador.
Então, quando faltava uma hora para que chegassem suas amigas e pudessem iniciar a

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sessão mensal para senhoritas, um único pensamento monopolizava sua mente. E se Lucas tivesse
razão?
E se Dorothy Smith não fosse a pessoa que pensava?
— Chegou o correio? — perguntou ao lacaio.
— Não, senhora, ainda não — respondeu o criado.
— Ainda não escreveu a nota aos Kirkwood? — inquiriu a senhora Harris. No dia anterior,
Amélia e a senhora Harris haviam recebido um convite para jantar com o comandante Winter e
com os Kirkwood.
— Ainda não lhes explicou por que não posso ir hoje ao jantar na casa deles?
— Sim, nesta manhã entreguei a carta ao Hopkins para que a enviasse.
— Tem certeza de que não se incomoda que não a acompanhe? — insistiu a senhora Harris.
— Já havia prometido a minha amiga que...
— Não se preocupe. Tudo ficará bem; o lacaio me acompanhará na carruagem até a casa dos
Kirkwood. Só é um jantar familiar, nada formal. Com lady Kirkwood presente, ninguém achará
inapropriado.
— Então, por que está tão interessada para que chegue o correio?
— Ainda não recebemos notícias do primo Michael sobre o comandante Winter.
— Ah. — Um sorriso indulgente coroou os lábios da senhora Harris. — Não se preocupe;
meu primo nos dará noticias muito em breve, embora já me avisou de que necessitaria mais
tempo do que o habitual neste caso.
"Não disponho de tempo para agir com cautela, senhora."
Isso era o que Lucas havia dito à senhora Harris. E se o comandante não tinha tempo, Amélia
também. Como os espiões conseguiam informação vital enquanto, com uma serenidade
espantosa, fingiam não saber determinadas coisas? Ela era muito impaciente para poder
submeter-se a manobras tão lentas.
Não existia a menor duvida, como espiã teria sido péssima.
— Senhora? Afastamos o sarcófago? — insistiu o lacaio.
— Embora... aham... admiro muito essa peça tão singular, querida, a verdade é que ocupa
muito espaço — interveio a senhora Harris. — Ficará igualmente impressionante na entrada, não
acha? E as garotas poderão admirá-lo antes de entrar na sala de música.
— Está bem — aceitou Amélia com ar ausente.
Não prestou atenção aos lacaios, enquanto estes se dedicavam a tirar o sarcófago e a
colocar três cadeiras mais na estadia. Não ficaria tranquila até que tivesse a oportunidade de ver o
Lucas outra vez, embora a verdade era que se sentiria muito melhor se recebesse notícias do
primo Michael. Visivelmente nervosa, dirigiu-se para a janela para ver se havia sinais do carteiro.
Em vez disso, viu outra imagem que a exasperou.
— OH, não; está aqui novamente — murmurou enquanto que se afastava rapidamente da
janela.
— Lorde Pomeroy? — perguntou a senhora Harris.
— Sim. — Quando a senhora se aproximou da janela para olhar, Amélia disse: — Não deixe
que a veja! Isso só o animaria a bater na porta, para tentar ser recebido.
A senhora Harris esquadrinhou a rua escondida atrás do marco da janela.
— Pode-se saber onde está o comandante Winter quando o necessitamos?

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— Não diga isso; tudo isto é por culpa dele. Com sua grande demonstração de como afiava a
adaga, a única coisa que conseguiu foi afugentar lorde Pomposo momentaneamente. Mas quando
o marquês voltou ontem, fez antes de sua hora habitual e situou a carruagem mais perto da minha
casa.
— E o comandante Winter voltou a afugentá-lo.
Quando retornaram da reunião de Louisa, avistaram a carruagem de lorde Pomeroy
estacionada do outro lado da rua e Lucas sentado novamente nas escadas da casa dos Tovey.
Desta vez o comandante estava limpando uma pistola.
— Por todos os Santos, que homem chato — suspirou Amélia, — e desta vez, estacionou a
carruagem virtualmente quase em cima das escadas de nossa porta. Quem sabe o que fará hoje o
comandante para espantá-lo?
— Lustrar um canhão, talvez? — insinuou humoristicamente a senhora Harris.
Amélia lhe lançou um olhar afligido.
— Sim, ria, mas não me surpreenderia. Estão loucos, os dois.
Mas a senhora Harris desviou a atenção para outro assunto.
— Ah, por fim chegou o carteiro, querida.
Momentos mais tarde, um lacaio entrou com a correspondência. A senhora Harris olhou os
envelopes, pegou um e o ondeou no ar com um sorriso triunfal.
— Contém muitas folhas, o qual é um bom sinal.
Dirigiu-se a escrivaninha com passo veloz e abriu o selo com um abridor de cartas.
Depois de olhar a carta, ofereceu a Amélia a segunda folha.
— Envia-nos um relatório detalhado da parte de um amigo que tem no comando da
Infantaria da Marinha — explicou com os olhos brilhantes. — Mas resumindo, parece que nosso
comandante não é o que parece.
Amélia pegou o relatório com mãos tremulas, e imediatamente leu seu conteúdo enquanto
notava como seu estômago se agitava:

Segundo meus superiores, o comandante Lucas Winter está de serviço em uma missão
especial do Corpo dos fuzileiros navais para capturar um estelionatário e levá-lo de volta aos
Estados Unidos, onde será julgado. Ao final de nossa última guerra contra os Estados Unidos, um
cidadão britânico chamado Theodore Frier desviou 150.000 dólares da companhia Jones Shipping,
uma empresa fornecedora da Infantaria de Marinha americana. Parece que o indivíduo fugiu para
o Canadá com todo o dinheiro. Após, o comandante Winter esteve perseguindo Frier. Apesar de
Frier ter sido visto pela última vez na França, o comandante Winter tem motivos de sobra para
acreditar que agora se esconde na Inglaterra, e isso é precisamente o que o comandante Winter
está investigando.

A senhora Harris sorriu.


— Deveria se sentir adulada de que o comandante ocupe parte do tempo que teria que
dedicar as suas importantes obrigações a cortejá-la e defendê-la.
— Sim — bufou Amélia. Não podia revelar que o fato de cortejá-la e de defendê-la fazia
parte de suas importantes obrigações.
Porque Theodore Frier estava provavelmente relacionado com Dorothy Frier, aliás Dorothy

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Smith. Sua madrasta.
Amélia levou a folha de papel até o peito e a apertou, em uma vã tentativa de acalmar seu
coração exaltado. Dolly era amiga de um estelionatário. Não, provavelmente Lucas suspeitava de
algo mais grave sobre ela, ou se não, teria se deslocado a Torquay para interrogar Dolly. E não
teria mantido seu verdadeiro propósito em segredo. Era óbvio que ele não queria alarmar Dolly,
talvez porque pensasse que ela havia ajudado Theodore Frier, ou a escapar dos Estados Unidos, ou
intervindo diretamente na fraude.
Amélia estremeceu de medo. Era possível que Lucas considerasse Dolly cúmplice de
Theodore Frier? Dolly tinha chegado a Inglaterra com uma fortuna, não era isso uma estranha
coincidência?
Devia ser só isso; uma pura coincidência.
Mas, e se não fosse?
Mal podia respirar. Talvez o dono legítimo de seu dote fosse a empresa Jones Shipping, ou
inclusive a Infantaria da Marinha dos Estados Unidos. Por que outra razão teriam atribuído ao
Lucas investigar o caso? além de ser um oficial condecorado pelo Corpo de fuzileiros, tinha
conhecimento sobre navais graças à companhia de seu pai. Por isso o enviaram para que
capturasse Theodore Frier. E para que recuperasse o dinheiro, também.
Agora entendia muitas das coisas que Lucas dissera: o interesse que demonstrou pelo
Canadá, as perguntas a respeito de quando Dolly chegou a Inglaterra e de onde provinha, os
comentários sobre a herança de Amélia...
"Que casa mais bonita. Tudo tem aspecto de ser muito caro. Faz muito tempo que vive
aqui?"
"Alguns homens são capazes de fazer o que for por dinheiro."
Que Deus a ajudasse. E se Dolly estivesse envolvida no desfalque?
Não, não era possível. A doce e tímida Dolly? Impossível! Amélia leu o relatório outra vez
com atenção; nele não mencionava Dolly hora nenhuma. Entretanto, nas notas do comandante,
Dolly parecia ser o foco principal. Amélia lançou um bufo. Isso tinha uma óbvia explicação: Lucas,
tão teimoso e arrogante como era, não podia suportar que Frier escorregasse como um peixe
entre as mãos, assim se agarrou a Dorothy
Frier como a última possibilidade. Se estava perseguindo esse tipo desde o final da guerra,
certamente, devia sentir-se muito frustrado. Assim achou vários pontos em comum entre Dorothy
Frier e Dorothy Smith e assumiu que Dolly era a cúmplice de Theodore Frier.
Pois estava enganado. E isso mesmo era o que pensava lhe dizer no instante em que ficasse
a sós com ele.
"Mas você não sabe tudo o que ele sabe. E se tiver provas irrefutáveis?", disse a si mesma.
Muito bem, pediria ao Lucas que as mostrasse. Estava cansada de dançar ao som desse
maldito pesadelo. Quando o visse no jantar, pediria que lhe mostrasse todas as evidências que
apontavam Dolly, de modo que pudesse refutar cada uma delas. Então poderia expulsar esse
patife de sua vida para sempre.
— Está bem, querida? — preocupou-se a senhora Harris. — É evidente que estas notícias a
afetaram muito.
Amélia esteve a ponto de ser honesta com a senhora Harris e contar tudo o que sabia.
Certamente poderia confiar na discrição da viúva. Mas, e se toda essa história acabasse por não

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ser mais que um despropósito por parte do Lucas? Certamente, a partir de então a senhora Harris
olharia Dolly - e por conexão, toda a família - de um modo diferente.
Além disso, alarmada ante as intenções do Lucas, a senhora insistiria em escrever a seu pai e
Dolly, por mais que Amélia fosse contra. E Amélia se sentiria péssima se Dolly perdesse o filho que
estava esperando por uma história que podia acabar não sendo verdadeira. Não, o melhor que
podia fazer era ficar calada até que falasse com Lucas. Depois decidiria que ações devia tomar.
Se a evidência do comandante parecesse significativa, provavelmente teria que deslocar-se
até Torquay para discutir a situação com seu pai.
— Estou bem — respondeu à senhora Harris. — Só me sinto decepcionada por Lucas não ter
me contado nada.
A senhora Harris a rodeou com um braço.
— Faz só um par de dias que se conhecem. Não pode esperar que ele confie em você da
noite para o dia. Estas coisas requerem seu tempo.
— Eu sei. — O gesto maternal da senhora Harris lhe provocou um nó na garganta. Apoiou a
cabeça no peito da viúva, e em seguida tentou recuperar a compostura.
Estava ficando sem tempo. Claramente, Lucas mencionou a falta de tempo por algum motivo.
Será que o governo dos Estados Unidos estava pressionando-o para que capturasse Theodore Frier
o mais rápido possível? Ou simplesmente Lucas estava interessado em acelerar seu cortejo para
poder chegar o quanto antes até Dolly? Provavelmente se tratava do segundo motivo,
conhecendo Lucas e sua impaciência, a julgar por como se comportou no xebec.
Amélia entreabriu os olhos. E como ela se comportou! Agora se envergonhava do que fizera.
Agiu de um modo tão desavergonhado como ele, lançando-se sem contemplações a seus braços,
mesmo sabendo que o interesse que Lucas professava por ela era falso.
E, entretanto, não lhe pareceu falso. Quando sussurrou: "não pare, por favor..." ou "por
favor, minha doce Dalila...", pareceu muito - mas que muito - real.
Amélia ficou visivelmente rígida.
"Não se engane, Amélia. Se tivesse sido real, ele teria contado sobre Dolly. E não fez. E ainda
não havia feito."
Mas esta noite o faria.
A menos que visse Lucas antes, quando aparecesse com o fim de enfurecer Pomeroy como
parte de seu odioso plano para seduzi-la. Se fizesse isso, como o enfrentaria? Não, não teria a
possibilidade de fazer, com todas suas companheiras de turma cochichando e com a senhora
Harris observando-os. Além disso, as provas deveriam estar na casa dos Kirkwood.
Mesmo se Lucas aparecesse na sua casa, custaria muito manter a boca fechada e ocultar seu
aborrecimento. Dolly a cúmplice de um estelionatário? sim!
Amélia olhou à senhora Harris com uma careta de desgosto.
— Agora entendo perfeitamente seu cinismo quando se refere aos homens. Às vezes não
são mais que um estorvo.
A senhora Harris começou a rir.
— E como prova, só precisa dar uma olhada à porta de sua casa.
— Em um de meus recortes mencionava um paxá que foi envenenado pela esposa. Que
pena que eu não possa fazer o mesmo com lorde Pomposo.
De repente, Amélia sentiu uma imensa vontade de começar a rir como uma louca. Só

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imaginando seu pobre pai, envolvido com uma ladra por esposa e uma assassina por filha...
— Se lembro bem dessa notícia, foi o próprio paxá quem conseguiu o veneno para a esposa
— matizou a senhora Harris, — assim porque lembrou disso?
Amélia sorriu maliciosamente.
— Ah, mas embora o veneno só lhe provocou uma indigestão aguda, creio que fez que o
energúmeno reconsiderasse seu comportamento arrogante com ela, depois de passar algumas
horas em uma... purgação forçada.
— Aposto o que quiser que depois fez que executassem a mulher — suspirou a senhora
Harris com amargura.
Amélia só a ouviu pela metade. E se ela se atrevesse a...
Dirigiu-se à porta e chamou uma criada. Quando apareceu a pobre moça, ordenou:
— Diga ao cozinheiro que prepare uma bandeja com uma boa seleção de bolos e de
bolachas, um bule com chá bem forte, e um frasco de brandy. Sei que papai tem um pouco
guardado em algum lugar.
— Br... brandy? — conseguiu dizer a criada.
— Não é para mim, é para lorde Pomeroy. — A moça estava saindo, e Amélia acrescentou:
— Mas traga aqui a bandeja quando estiver preparada. Quero acrescentar algo, antes de oferecer
ao general. E diga ao cozinheiro que se apresse. Amélia queria que Pomeroy se fosse antes que
suas amigas chegassem.
Enquanto a criada desaparecia com passo apressado, Amélia se dirigiu à despensa que havia
no andar superior. A senhora Harris saiu atrás dela, com cara preocupada.
— Pode-se saber o que está planejando, Amélia?
— Vou dar um purgante a esse chato.
A viúva bufou.
— Não está pensando em...?
— Por que não? — Levantando a saia, Amélia correu escada acima, com a senhora Harris
pisando em seus calcanhares. — Desse modo ele pensará duas vezes antes de voltar a parar sua
carruagem diante da minha casa. E pelo menos não nos incomodará esta tarde, enquanto
tomamos o chá.
— Tem certeza de que funcionará? — perguntou a senhora quando chegaram a porta
seguinte. — Não incitará o marquês a agir de um modo mais drástico?
— Se quiser que te diga a verdade, nem me importa. — Amélia mostrou uma careta de
desalento. — Pelo menos hoje eu gostaria de não ter esse maldito floreiro plantado em nossa rua.
Imagina o que dirão minhas amigas se chegam e vêem, não um, mais dois homens empunhando
suas armas nas escadas de minha casa? Simplesmente me limito a convidar lorde Pomposo a ir
embora. Assim, se o comandante Winter passar por aqui, não se sentará diante da porta para polir
um canhão.
A senhora Harris duvidou alguns instantes antes de dirigir-se ao seu quarto.
— Então, eu tenho um purgante que fará que qualquer homem sinta a necessidade de sair
disparado em busca de uma privada depois de ingeri-lo.
Amélia começou a rir.
— Ora, ora! Senhora Harris, jamais teria pensado que fosse tão perversa.
A senhora Harris esboçou um sorriso divertido.

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— Não tem nem ideia de quão perversa posso chegar a ser, querida. Às vezes, a tentação de
fazer travessuras que sinto é tão forte como a que você possa sentir.
— Perfeito! — exclamou Amélia com alegria. — Nós, as damas aventureiras, sempre
estaremos unidas.
Antes que os mencionados cavalheiros aventureiros: Lucas e lorde Pomposo e... sim, o
misterioso Theodore Frier, as pisoteassem sem piedade.

Capítulo 13

Querido primo:
Lorde Pomeroy se converteu em um verdadeiro estorvo, por isso nos vimos obrigadas a
recorrer a medidas drásticas. O manterei informado dos resultados. Newgate ainda está no
horizonte.
Sua ousada amiga,
Charlotte

Lucas caminhava com passo elegante para a mansão dos Tovey, levando a arma de
intimidação do dia - seu rifle Springfield com baioneta - e todo o material necessário para limpá-la.
Começava a sentir-se cansado das tediosas manobras de batalha do general: avançar em
território inimigo e ficar quieto, à espera de que o adversário atacasse. O que Lucas não podia
fazer, se não quisesse quebrar a promessa que fizera a Amélia. Não obstante, não sabia até
quando poderia resistir. Cada vez que via o maldito general, seu sangue fervia.
De repente, uma carruagem desceu pela rua diante dele a uma velocidade vertiginosa. Era a
do Pomeroy, e parecia fugir apavorado da rua de Amélia, como se tivesse o diabo lhe pisando os
calcanhares. Lucas teve uma desagradável intuição. Que motivo podia ter sido a causa da fuga do
general antes que ele chegasse a seu posto de guarda?
Obteve a resposta quando chegou a rua de Amélia e encontrou uma cena de puro alvoroço
social. Os choferes gritavam, os rapazes dos estábulos se moviam com rapidez e os cavalos davam
patadas furiosas contra o chão enquanto várias carruagens reluzentes, adornadas com brasões,
detinham-se diante da casa de Amélia. Os lacaios uniformizados ajudavam às damas e a suas
criadas a descerem das carruagens.
A julgar pela aparência tão ostentosa das limusines e das vestimentas das jovens, devia
tratar-se das companheiras de turma de Amélia. Mil raios e mil centelhas, havia se esquecido. Ao
meio-dia haveria uma recepção na casa de Amélia.
Rapidamente compreendeu por que o general fugira tão rápido. Ver tantas jovenzinhas de
nobre linhagem juntas, todas ricas, todas nobres, e provavelmente todas virginais, conseguiria
fazer que qualquer homem saísse apavorado. Qualquer homem exceto Lucas. Ele veio vê-la, e
nenhum evento social o deteria. Porque Amélia não havia aceito seu convite para jantar na casa
dos Kirkwood nesta noite. Estava se questionando sobre o cortejo?
Estava castigando-o por tentar amedrontar o desgraçado do Pomeroy? Fosse qual fosse a
causa, pensava descobrir. Mas não queria ter um público de jovenzinhas como testemunhas da

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conversa, assim esperaria até que as amigas dela se acomodassem no interior, e depois pediria ao
mordomo que a avisasse que queria falar com ela em particular.
Quando a rua ficou limpa, aproximou-se da casa, subiu as escadas, e bateu na porta. Foi o
próprio mordomo quem abriu e a afabilidade de seu semblante lhe mostrou que reconhecia Lucas
como o homem que afugentou Pomeroy durante os dias anteriores.
Lucas sorriu.
— Agradeceria muito se dissesse a lady Amélia que o comandante Winter veio vê-la.
— Sinto muito, senhor, mas lady Amélia está ocupada neste momento.
— Eu sei. Só quero lhe dizer uma coisa. — Lucas ouviu as risadas provenientes do andar
superior. - Pelo menos diga a ela que estou aqui.
O mordomo assentiu e desapareceu escada acima. Lucas apoiou o rifle na porta e entrou no
vestíbulo.
Amélia era a cartada final. Nenhuma das outras pistas que seguiu até então para caçar os
Frier, resultaram frutíferas. Com o interesse de melhorar as relações entre os dois países, o
governo britânico não mostrou reparos em oferecer toda a informação que possuía a respeito dos
pais de Frier e de sua emigração aos Estados Unidos. Entretanto, negou-se a oferecer qualquer
informação sobre o conde de Tovey.
Tudo o que Lucas sabia era a data do casamento do conde. Apesar de encaixar
perfeitamente com a data dos movimentos de Dorothy Frier, realmente isso só provava que ela
poderia estar usando o nome Dorothy Smith, o que era algo que já sabia. Mas Lucas planejava
avançar mais em sua investigação nessa mesma noite, durante o jantar. Kirkwood prometeu que o
ajudaria; e se os dois se dedicassem a fazer perguntas a Amélia, a situação pareceria menos
suspeita. Mas primeiro precisava convencê-la a ir ao jantar. Por que demorava tanto esse maldito
mordomo?
Começava a impacientar-se quando o mordomo retornou.
— Por aqui, senhor. — Assinalou para as escadas.
Amélia pensava recebê-lo no andar de cima? Perfeito.
Seguiu o mordomo até o andar seguinte, atravessaram o longo corredor e passaram em
frente de um enorme sarcófago. Que ideias mais extravagantes Amélia tinha! A quem ocorreria
decorar uma casa com um ataúde de madeira desfigurado?
O mordomo se deteve frente a uma sala, da qual chegava um ruidoso bate-papo jovial, e
antes que Lucas se desse conta do que o mordomo pretendia fazer, este abriu a porta e anunciou:
— O comandante Lucas Winter.
Mil raios e mil centelhas. Justamente o que não queria... se ver obrigado a fazer um pedido
diante de uma comitiva que parecia com tanta vontade de se divertir como em uma despedida de
solteira. Mas agora estava entre a cruz e a espada.
— Comandante Winter! — exclamou Amélia com um afável sorriso, enquanto dava a volta e
deixava de ajudar às criadas que se dispunham a servir o chá.
Lucas se aventurou a entrar na sala.
— Hopkins, cuide do casaco e do chapéu do comandante. O senhor Winter ficará conosco —
proclamou Amélia.
— OH, não, não quero incomodar—balbuciou Lucas. Podia saber o que Amélia estava
planejando?

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Pelo menos devia haver uma dúzia de mulheres na sala, algumas delas sentadas
comodamente em um sofá de mogno com um par de esfinges douradas esculpidas nos braços,
outras sentadas em poltronas combinando com o sofá, e todas elas olhando-o com uma patente
curiosidade.
— Oh, mas não incomoda, comandante — interveio a senhora Harris. Com um olhar cordial,
fez gestos ao Lucas para que ocupasse a cadeira vazia que tinha a seu lado. — Fizemos uma
votação.
As damas pensaram que necessitávamos a perspectiva de um homem no tema de debate
que hoje nos ocupa.
Hui, hui, huuuuui... Quando uma mulher solicitava o ponto de vista de um homem, o que
realmente queria era que apoiasse seu próprio ponto de vista. Mas se agisse com precaução,
igualmente conseguiria que as amigas de Amélia lhe contassem algo a respeito de lady Tovey. E
sempre poderia encontrar um momento para falar com Amélia a sós, quando todas elas partissem.
Lucas entregou o casaco e o chapéu ao mordomo e se sentou na poltrona preta que a
senhora Harris havia indicado.
— Ficarei encantado de poder agradá-las, senhoritas, se tiver conhecimentos suficientes
sobre o assunto de seu debate.
Sua resposta provocou uma enxurrada de risadas que a senhora Harris silenciou com uma
palavra. Então, a senhora o apresentou a suas pupilas. A única dama que Lucas notou em
particular foi na senhorita
Sarah Linley, a mulher com quem Kirkwood pretendia casar. Lucas compreendeu o porquê:
era inquestionavelmente bela. Embora ele preferisse as morenas às loiras; além disso, essa garota
possuía esse ar frívolo e arrogante que tão bem encaixava com o modo de ser de Kirkwood, mas
que o tirava do sério; por sorte, Amélia não costumava fazer alarde dessas maneiras.
Mas parecia que hoje sim, que estava disposta a agir igual a suas companheiras.
— Que contente estamos de que tenha aceito intervir em nossa reunião, senhor — disse,
com as costas totalmente eretas enquanto ajudava às criadas. — Estávamos falando de...
Nesse momento, a porta se abriu e apareceu outra jovem com o semblante acalorado, que
se dirigiu diretamente a Amélia.
— Sinto muito chegar tarde. — Nem sequer reparou na presença de Lucas, quando ele se
levantou na outra ponta da sala. — Passei para visitar lady Byrne. Seu marido sabe tudo de todo
mundo, então, pensei que poderia me dar informação sobre esse comandante americano que a
senhora Harris disse que você...
— Senhorita North! — interrompeu Amélia enquanto com a cabeça fazia gestos para Lucas.
— Lhe apresento ao comandante Lucas Winter.
A senhorita North ficou visivelmente rígida, em seguida se virou lentamente para olhar Lucas,
que estava ali de pé, esforçando-se para sorrir.
— Comandante Winter — murmurou Amélia, — esta é minha boa amiga, Louisa North. Às
vezes ajuda à senhora Harris com nossas aulas.
— Quando não se dedica a investigar seus pretendentes — acrescentou ele.
As mulheres riram com dissimulação. Lucas não estava preocupado. Sabia que as poucas
pessoas que sabiam exatamente o que ele estava fazendo ali não dariam com a língua tão
facilmente. A diferença da pobre senhorita North. Apesar de suas faces estarem ruborizadas,

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olhou-o com a mesma audácia que Amélia o olhava.
— Me perdoe por minha falta de tato, senhor, mas normalmente não contamos com a
presença de nenhum cavalheiro em nossas reuniões.
— Não deve se desculpar. — Lucas não desejava incomodar nenhuma das amigas de Amélia.
Ofereceu a Louisa a cadeira que ele ocupava. — Sou eu o intruso nesta reunião.
Enquanto a senhorita North se acomodava, Lucas se deslocou até a lareira. Não acenderam
o fogo nessa aprazível tarde de junho, assim se apoiou no suporte, de onde gozava de uma vista
perfeita de toda a reunião.
Especialmente de sua ardilosa líder, lady Dalila; exceto que agora Amélia não se parecia em
nada a uma Dalila, absolutamente em nada. Com seu exuberante cabelo preso em um coque
apertado e o vestido cheio de babados, assemelhava-se muito às outras damas para seu gosto.
Lucas teve uma vontade enorme de ir até ela, agarrá-la entre seus braços, e beijar aquela boca tão
séria sem parar até que conseguisse lhe arrancar um sorriso.
Isso daria a suas amigas um assunto para conversa, com certeza.
Como se tivesse lido seus pensamentos, Amélia lhe lançou um olhar sombrio e logo se
sentou afetadamente na ponta de um sofá.
— De fato, Louisa, nosso querido comandante aceitou a nos dar sua opinião honesta sobre o
tema que hoje estamos debatendo.
Seu tom pôs Lucas em guarda. Por que se mostrava tão tensa hoje? Era porque estava
nervosa pela recepção? Fosse pelo motivo que fosse, não gostava nem um pouco; especialmente
quando Amélia lhe dirigia sorrisos tão glaciais como uma baforada de ar proveniente do Pólo
Norte.
— Verá, senhor, todas as aqui presente nos graduamos na Escola de Senhoritas da senhora
Harris. Uma vez ao mês nos reunimos para conversar a respeito do que consome nossas energias a
maior parte do tempo.
— A que se refere?
— Homens — proclamou uma das moças entre risinhos.
Mil raios e mil centelhas.
— E creio que, pelo mero fato de ser homem, isso me converte em um perito na matéria —
manifestou Lucas lentamente.
— Ah, mas não só homens — acrescentou uma mulher que se chamava lady Venetia, — mas
sim certo tipo de homens.
— Patifes e caça fortunas, para ser exata — matizou a senhorita North.
— Assim... nos diga, comandante Winter, considera-se um perito nessa matéria? — cravou
Amélia.
A sala mergulhou em um absoluto silêncio.
Lucas observou à senhorita North, que o olhava com hostilidade, logo a inescrutável lady
Venetia, e finalmente Amélia, cujos olhos castanhos despediam um brilho frio como o aço. Todos
seus instintos de batalha se ativaram. Era capaz de reconhecer uma emboscada a primeira vista. E
a última vez que se sentiu encurralado pelos ingleses, quase não saiu com vida.
Desta vez seria diferente.
Cruzando os braços, obsequiou todas elas com um sorriso de orelha a orelha.
— Depende do que entendam por ser um perito na matéria. Conheci alguns caça fortunas,

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assim como muitos patifes, mas não acho que me possa catalogar em nenhum desses dois grupos.
— Apertou os olhos e olhou diretamente Amélia. — Mas claro, não acredito que teria a ousadia de
insinuar isso, não é assim, senhorita?
— É obvio que essa não era sua intenção! — interveio a senhora Harris. Quando Amélia
abriu a boca para protestar, a viúva se apressou a dizer: — Um pouco de chá, comandante?
Estávamos a ponto de servir o chá quando anunciaram sua visita.
Amélia se sentou com porte beligerante, e lhe lançou um sorriso insolente.
— Obrigado, uma boa xícara de chá sempre cai bem.
A senhora Harris fez um sinal às criadas. Uma delas pegou rapidamente uma bandeja cheia
de pratos que continham bolos e outras guloseimas. Outra empurrou o carrinho com um jogo de
chá até o lugar onde Amélia estava sentada. Ela pegou o bule que destacava por sua forma tão
original e começou a servir chá nas xícaras.
— Pensei que os americanos não tomavam chá — comentou a senhorita Linley com um tom
presunçoso que casava perfeitamente com seu aspecto. — A madrasta de Amélia disse que os
americanos só bebem cidra e cerveja.
— Não disse isso, Sarah Linley. — Amélia passou os pratos e as xícaras às criadas, que
começaram às reparti-las. — Só disse que era difícil encontrar bom chá inglês por lá.
— Em Boston? — inquiriu ele. — Que estranho! — Embora certamente resultasse mais difícil
encontrar bom chá em Rhinebeck, onde Dorothy Frier esteve trabalhando como governanta, antes
de unir-se a Theodore Frier após fugir de Baltimore. Nem sequer o proprietário da casa onde ela
servia sabia a verdadeira razão pela qual ela escapou com o homem que apresentou como o
marido que vivia separado dela; o mesmo homem que mais tarde apresentou às autoridades
canadenses como seu novo marido, Theo Smith, que, pelo visto, converteu-se em seu falecido
marido, Obadiah Smith quando chegou a Inglaterra.
Lucas observou à insípida senhorita Linley.
— E que mais conta lady Tovey a respeito da América?
— OH, não muito — interveio lady Venetia. — É muito tímida, por isso quase terá que lhe
arrancar informação à força.
Dorothy Frier, tímida? A mulher cujas cartas ao marido, que vivia afastado dela, empurraram
um jovem trabalhador honrado a roubar uma fortuna de seu patrão e a fugir com ela? A mulher
que viajou por todo mundo, mentindo pelo marido e gastando dinheiro roubado? O mais provável
era que Dorothy preferisse ficar calada por medo de revelar dados.
— Dolly é uma mulher gentil por natureza — declarou Amélia, mostrando um desmesurado
interesse na tarefa que a ocupava: servir o chá. — Por isso os homens de avançada idade gostam
tanto de dançar com ela nas festas.
Dolly deixa que desabafem e lhe contem seus problemas, porque é muito doce e boa para
interrompê-los.
— Tem toda a razão do mundo - a apoiou a senhora Harris. — Quantas damas permitiriam
que se organizasse uma refeição em sua casa, se elas não pudessem estar presente para fiscalizar
tudo? E mais, lady Tovey escreveu perguntando se por acaso necessitávamos algo mais para a
recepção.
Então, essa mulher era afável com os velhos e com as jovens? Mas isso não provava nada.
Claro, como pensava que ela e Frier estavam a salvo, podia permitir-se mostrar sua cara mais

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afável.
Uma criada ofereceu a Lucas uma xícara de chá. Ele rechaçou o leite, mas aceitou o açúcar.
Enquanto tomava sorvos da bebida aromática, dedicou-se a escutar com avidez o que as jovens
contavam sobre a mulher que só conhecia por referências. Nem mesmo o patrão anterior de
Dorothy Frier lhe proporcionou detalhes suficientes a respeito de seu caráter.
— Assim é lady Tovey, verdadeiramente uma alma caridosa — dizia a senhorita North. —
Apesar de ser tão tímida para participar de um projeto como o meu, ofereceu um donativo mais
que generoso.
"É fácil ser generoso quando o dinheiro é de outro."
Como se compreendesse seus pensamentos, o que era impossível, Amélia olhou fixamente
Lucas e logo comentou com Louisa:
— Estou segura de que, além disso, sabe apreciar os outros tipos de esforços que Dolly
demonstra em seu projeto.
— Claro que sim. — A senhorita North parecia confusa. — Mas o que mais aprecio é a ajuda
econômica. A Sociedade de Damas de Londres necessita desses recursos.
— Eu sei — espetou Amélia em um tom incômodo. — O que quero dizer é que o dinheiro
não é o único que importa a...
— Acredito que o que a senhorita North tenta dizer — a interrompeu Lucas — é que o
dinheiro é sempre importante para as mulheres.
Não só para Dorothy Frier, mas também para sua própria mãe, por exemplo. Embora a mãe
do Lucas ter se destacado por sua gentileza e suas finas maneiras, sempre demonstrou um ávido
interesse pelo dinheiro.
Quando Amélia lhe lançou um olhar belicoso, ele acrescentou:
— Se o dinheiro não fosse importante, senhoritas, então não estariam hoje aqui reunidas,
conversando a respeito de como evitar que suas fortunas caiam nas mãos de algum ganancioso,
estou enganado?
Lucas teve a impressão de que a temperatura da sala baixou subitamente vários graus, mas
não pensava retratar-se do que acabava de dizer.
As damas olharam Amélia, obviamente esperando que as defendesse.
— Creio, comandante — disse ela com um tom marcadamente crispado — que não está
insinuando que as mulheres não têm nenhum direito a se defender dos patifes.
Lucas bebeu o conteúdo de sua xícara de chá.
— Só digo que se pensassem que o dinheiro é tão pouco importante, nenhuma de vocês
estaria hoje aqui.
— Assim, na sua opinião, somos mercenárias - soltou a senhorita North.
Sim, mas não estava tão louco para declarar em voz alta.
— A verdade, não entendo por que as ofuscam tanto com essa questão. Se sua fortuna pode
fazê-las felizes, vocês e a algum rapaz, por que se negam a casar com ele? Posso entender que um
homem seja muito orgulhoso para aceitar o dinheiro de sua esposa, mas por que uma mulher tem
que ser tão orgulhosa para negar-se a compartilhar seu dinheiro?
— Estou de acordo com você, comandante Winter — disse a senhorita Linley.
— OH, Sarah, cale-se! — espetou a senhorita North. — Não falaria desse modo se o homem
com quem quer casar não tivesse um título. - Logo olhou Lucas com evidente desprezo.

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— E suponho que a seguir irá sugerir que nos casemos com o primeiro patife que sejamos
capazes de caçar.
A senhora Harris depositou uma mão sobre o braço da moça.
— Estou segura de que o comandante não quis dizer isso, querida. — A senhora cravou seus
olhos azuis, que de repente tinham adotado um tom gélido, sobre Lucas. — Mas deve
compreender, senhor, que para nós é difícil discernir os motivos que movem um homem a desejar
casar com uma mulher, quando ela dispõe de uma fortuna e ele não tem nada. Tal e como disse
uma vez, alguns homens fariam tudo por dinheiro. Assim, como podemos adivinhar suas
verdadeiras intenções quando há dinheiro no meio?
As palavras da dama dispararam sua ira. Espectros das disputas de seus pais emergiram de
repente, para torturá-lo; discussões inacabáveis, emaranhando o amor e a fortuna de uma forma
tão angustiante que nem sequer seu pai se via capaz de separá-los. Esse foi o motivo pelo qual seu
pai se viu obrigado a trabalhar cada vez de forma mais dura, mais vertiginosa, com o único afã de
encher as ambições de sua mãe. Em suma, foi ela a que arrastou a seu pai a...
Não, não desejava pensar nisso agora. Não nesse preciso instante, rodeado de réplicas
jovens de sua mãe.
— Um homem não assume que uma mulher só está consciente de seu bolso, quando lhe
sorri, assim, por que assumem que um cavalheiro alberga intenções indignas quando lhes sorri?
— Talvez porque, muito frequentemente, essa é a pura e dura realidade? — lançou Amélia,
com os olhos faiscantes.
Mil raios e mil centelhas, agora ela estava se referindo, obviamente, a ele. Essa certeza só
conseguiu enfurecê-lo ainda mais, ainda sabendo que ela tinha uma boa razão para desconfiar
dele.
— Não, não é possível que uma dama bonita como você pense desse modo. — Ignorando a
crescente tensão entre as moças, depositou a xícara sobre o suporte da lareira.
— Acredite, lady Amélia, é possível que um homem se sinta atraído por você por seu físico
ou porque goste de seu aroma, ou talvez pelo que diz ou por sua forma de pensar, ao invés de ir
atrás de sua fortuna.
Um silêncio sepulcral se apropriou da sala. Muito tarde, deu-se conta de que suas palavras
podiam ser interpretadas como uma declaração pública do que sentia por ela. Pelo menos, assim
era como ela tinha tomado, a julgar pelo repentino rubor em suas faces.
Lady Venetia quebrou o silêncio com uma gargalhada.
— Parabéns, Amélia. Encontrou ao único homem em todo o universo a quem importa o que
pensa e opina uma mulher.
O comentário dissolveu a tensão. As outras damas também começaram a rir e a cochichar
sobre os homens e suas palhaçadas. Por todos os demônios, praticamente admitiu em público o
que sentia por ela, e em vez de mostrar-se adulada, Amélia parecia inclusive mais indignada que
antes. Que mosca a picou? Fosse o que fosse, devia ser o mesmo motivo que a levou a rechaçar o
convite para jantar na casa dos Kirkwood, e Lucas não pensava aceitar essa negativa. Havia
chegado o momento de falar com ela a sós.
Pegou a xícara vazia e olhou Amélia.
— Lady Amélia, posso tomar outra xícara de seu delicioso chá?
— Claro, comandante. — Ela levantou o bule, mas quando ele ficou ali parado, sem mover-

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se, com a xícara na mão, Amélia se levantou e se aproximou, olhando-o com desconfiança.
Lucas levou a xícara ao peito, com o que obrigou Amélia a inclinar-se para servi-lo, então
murmurou:
— Preciso falar contigo em particular.
— Agora não — respondeu ela, enquanto enchia a xícara.
— Sim, agora; só será um instante...
Ela se afastou sem deixar que Lucas terminasse a frase.
Contendo sua raiva, ele separou a xícara do prato e objetou:
— Não me oferece açúcar?
Amélia se sentou na cadeira.
— Pensei que gostasse dele amargo. — "Como seu coração", pareciam dizer seus olhos
brilhantes. Fez um gesto a uma criada, que se apressou a levar ao Lucas a terrina com o açúcar.
Genial. Se ela se negava a falar com ele em particular, ele faria tudo o possível para obrigá-la
a fazê-lo. Lentamente, repassou de cima abaixo aquele corpo que conheceu tão bem alguns dias
antes.
— Inclusive um soldado pode gostar de algo doce de vez em quando.
Duas das jovens presente riram como ratinhas, e Amélia ficou rígida, mas continuou sentada
e se virou para conversar com a mulher que estava ao lado. Enquanto a criada lhe oferecia a
terrina com o açúcar, Lucas percebeu o desenho do jogo de chá pela primeira vez. Cravou a vista
no bule, e logo começou a rir a gargalhadas.
Quando algumas damas o olharam com cara de surpresa, ele declarou:
— Só a lady Amélia ocorreria comprar um jogo de chá com as alças em forma de crocodilo.
Amélia ergueu o queixo com porte arrogante.
— É estilo egípcio, senhor, como o resto dos objetos que decoram a sala.
— Creio que não deveria me surpreender — soltou ele, — dada sua obsessão por tudo
aquilo que é exótico: os camelos, os xebecs, os mamelucos...
— O que é um mameluco? — perguntou lady Venetia.
Sem afastar o olhar de Amélia, Lucas respondeu:
— Uma espada. Lady Amélia disse que queria ver a minha no baile.
Quando algumas das garotas começaram a rir como tolas, e outras começaram a cochichar,
Lucas mostrou uma careta de satisfação. Parecia que algumas dessas damas compreenderam sua
brincadeira particular. Provavelmente leram os contos do harém de Amélia, e a julgar pelo rubor
dela, o livro devia mencionar algo a respeito da "espadas".
Abafando uma gargalhada, Lucas decidiu suavizar suas feições para parecer um menino
inocente.
— E eu fiquei encantado de poder satisfazê-la. Lady Amélia admirou minha espada, inclusive
se ofereceu para dar um brilho nela.
Lady Venetia se engasgou com o chá.
— Não sabia que as damas inglesas estivessem interessadas nesse tipo de coisas —
prosseguiu ele impassivelmente, — mas suponho que quando uma dama quer se divertir...
— Comandante Winter! — Amélia se levantou abruptamente. — Posso trocar umas palavras
com você no corredor?
— Agora? — perguntou ele com ar contrariado, incapaz de resistir a tentação.

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Os lábios de Amélia se esticaram até formar uma linha fina.
— Por favor.
Lucas assentiu com um golpe seco de cabeça. Depositou a xícara e o prato no suporte da
lareira e a seguiu até a porta. Antes de abandonar a estadia, virou-se para o resto das damas e
piscou um olho, depois do que todas riram. Ato seguido, saiu e fechou a porta.
Quando Lucas a olhou fixamente, ela parecia estar a ponto de lhe saltar na jugular.
— É o tipo mais arrogante, mais irritante...
— Por que não aceitou o convite de lady Kirkwood para esta noite?
Amélia piscou desconcertada.
— Como não? Se enviei minha resposta esta manhã, aceitando o convite.
— Pois ainda não havia chegado, quando sai há menos de uma hora.
Ela franziu o cenho e fez chamar Hopkins. Quando o mordomo apareceu diante do casal,
perguntou o que ocorreu com a mensagem que mandou entregar a lady Kirkwood.
— Dei a John, senhora, o novo lacaio.
— Essa nota não chegou a seu destino - espetou Lucas.
— Peço desculpas, senhor, mas hoje necessitamos de todos os lacaios aqui para preparar a
recepção, assim só o enviei faz um par de horas. Mas parece que encontrou um imprevisto pelo
caminho.
A desculpa pôs Lucas em guarda.
— Ah, sim? O que aconteceu?
— Uma anciã que torceu o tornozelo, acredito. John a ajudou a ir até o final da rua. Mas o
lacaio já retornou, se por acaso desejam falar com ele.
— Não, não será necessário — manifestou Lucas visivelmente tenso. Havia algo de estranho
em todo esse incidente, mas tinha a suspeita de que não conseguiria esclarecer.
Amélia aguardou a que o mordomo se retirasse antes de abrir a boca.
— Então, satisfeito?
Tentando relaxar a tensão, Lucas assentiu. Não estava habituado às formas dos ingleses nem
a seus serventes... essas coisas provavelmente aconteciam cada dia.
— Então, me diga — prosseguiu ela, — é esse o motivo pelo qual tentou afligir minhas
convidadas? Porque não respondi a sua missiva com suficiente rapidez?
Lucas não achou graça do desdenhoso tom de Amélia. Não gostava de ficar como um idiota.
— Esqueci por completo que hoje tinha uma reunião com suas companheiras de escola. E
garanto que não esperava que me incluíssem. Se tivesse um pouco de sentido comum, faria como
Pomeroy: sair correndo tão rápido quanto pudesse.
— Pois, oxalá o tivesse feito.
Amélia deu a volta para retornar à sala de música, mas Lucas a segurou pelo braço e a
obrigou a dar a volta.
— O que houve? por que está tão zangada comigo?
Ela cravou seu afiado olhar nos olhos de Lucas.
— Falaremos esta noite.
— Não, falaremos agora.
— Não com minhas amigas esperando aí dentro; provavelmente estarão com a orelha
colada à porta.

101
Lucas olhou para a porta com uma careta de aborrecimento; imediatamente, sem soltar seu
braço, a arrastou pelo corredor até que a obrigou a entrar em uma sala que resultou ser um
escritório, provavelmente de seu pai.
— Então falaremos aqui.
Amélia escapou de sua garra e o olhou com tanta raiva como se fosse um casaca vermelha
defendendo um vagão de provisões.
— Falaremos disso quando me der vontade, entendido?
— É sobre tentar intimidar Pomeroy? Porque é só me dizer claro e...
— Se me lembro bem, já deixei isso claro. Mas não, não é por isso. Compreendo que em sua
forma arrogante, particularmente incomoda, só tenta me proteger.
— Então, é pelo que aconteceu no xebec. Pensou bem e se arrepende do que nós...
—- Mas será que não tem nenhum pingo de decoro? — Com um olhar furtivo para a porta
aberta, Amélia se aproximou dele e baixou a voz.
— Não penso falar sobre este assunto aqui, quando minhas amigas ou a senhora Harris
podem aparecer a qualquer momento. Logo teremos a oportunidade de conversar.
Lhe dando as costas, Amélia se dirigiu para o corredor, mas ele a adiantou com um par de
pernadas. Rodeou-a pela cintura com seus enormes braços e a arrastou até a parede, onde ficava
fora da vista de possíveis olhos curiosos.
Amélia começou a lutar, mas ele sussurrou ao ouvido:
— Olhe, bonita, você e eu não terminamos.
— Por agora sim. — retorceu-se para olhá-lo à cara, com olhos furiosos. — E se pensa que
ficarei aqui impassível, enquanto amarra minhas mãos, com minhas amigas a escassos metros de...
— Amarrar suas mãos? — Lucas explodiu. — Talvez deveria recordar que desfrutou muito a
última vez que amarrei suas mãos.
Empurrando-a contra a parede, ele a beijou apaixonadamente, exigindo uma resposta e
mostrando-se exultante quando, depois de alguns segundos de resistência, ela cedeu. E quando
ela o rodeou pelo pescoço com os braços e se aconchegou a ele, Lucas desejou coroar seu triunfo
com um rugido.
Ao invés disso, beijou-a na boca com uma sede insaciável, com um ardor que o alarmou.
Porque de repente se deu conta de que esse era o motivo pelo qual viera. Não para assustar
Pomeroy, nem para averiguar alguma informação a respeito dos Frier. Veio por isso. Por ela.
Porque depois de dois dias sem ver seu radiante sorriso, sem escutar seus comentários mordazes,
sem sentir o seu cheiro embriagador de madressilva e sem provar essa maravilhosa boca lasciva,
ansiava estar com ela como um prisioneiro anseia a liberdade. Sem ser consciente de onde
estavam, deslizou a mão por seu corpo: os pequenos quadris tentadores, a cintura que cabia
perfeitamente em suas mãos, e os seios... OH, Deus, os seios... que agora acariciava com os
polegares, desejando lamber os mamilos e...
De repente, Amélia o agarrou pelo cabelo e tentou afastá-lo para forçá-lo a quebrar o beijo,
logo se separou dele. Enquanto o observava com os lábios arroxeados e com a respiração
entrecortada, uma estranha mescla de emoções emergiu em seu rosto: desejo, raiva, e... é claro,
arrependimento.
Mas rapidamente uma máscara cobriu suas belas feições.
— Espero que tenha apreciado bastante, Lucas — disse em um tom ameaçador. —Porque

102
este foi o último beijo que receberá de meus lábios.
Antes que ele pudesse reagir, Amélia escapou de seus braços e abandonou a sala. Com o
pênis tão duro que parecia que ia explodir, Lucas saiu ao corredor completamente rígido, bem a
tempo de ver como Amélia abria a porta da sala de música.
Ela se deteve na soleira da porta e exclamou:
— Sinto muito que deva partir tão cedo, comandante! Transmitirei suas desculpas às outras
damas.
Quando Amélia fechou a porta, Lucas pensou em ir atrás dela e colocá-la em evidencia
diante de todas as amigas como uma grande mentirosa. Mas, primeiro precisava se acalmar para
que desaparecesse a visível ereção antes de entrar na sala, e a ideia de passar o resto da tarde
sentado ali dentro, com Amélia o bombardeando com o olhar e com as outras garotas
cochichando a respeito dele, não lhe parecia nada atraente. Antes preferia ver-se as caras com dez
casacas vermelhas armados que com uma dessas malditas mulheres inglesas.
O mais sensato era retornar a casa dos Kirkwood e se preparar para o debate dessa noite.
Isso quando conseguisse controlar sua tremenda ereção.
Passeou pelo corredor até que achou que estava apresentável, então desceu as escadas de
dois em dois. A aventura do dia deixou uma coisa bem clara: precisava conseguir a essa mulher.
Não fazia nem ideia de como o faria; por um lado devia capturar aos Frier e levá-los aos Estados
Unidos, e por outro, precisava conquistar Amélia.
Não importava a ameaça de que esse havia sido seu último beijo, essa mulher acabaria
deitando-se com ele. Faria tudo o que fosse necessário para conseguir.

Capítulo 14

Querida Charlotte:
Lorde Pomeroy não é tão inofensivo como parece. Ouvi que durante a guerra adquiriu alguns
hábitos execráveis. Apesar de não poder confirmar o rumor, aconselho que fiquem alertas com
esse sujeito, tanto você quanto lady Amélia.
Seu preocupado primo,
Michael

"Deixa de se comportar de um modo tão ridículo. Não importa o que ponha esta noite",
recriminou-se Amélia enquanto trocava de roupa pela terceira vez.
Depois de tudo, já não precisava fingir que flertava com Lucas; pensava ir diretamente ao
ponto, exigir que lhe mostrasse as evidências, e logo decidir como agir. E entretanto... Enquanto a
paciente criada a ajudava a fechar o espartilho, Amélia se olhou ao espelho com porte cansado.
Desejava que Lucas se ardesse, sofresse, agonizasse por ela.
E se algum traje pudesse ajudá-la em seu propósito era este vestido de festa rosa com
finíssimos pontos de cetim. Só com o corpete, conseguiria excitar o pobre até a beira da loucura:
deixava exposta uma generosa parte de seu decote, muito generosa para uma donzela. Retorceu-
se para a esquerda e conteve a respiração enquanto o tecido elástico se adaptava a sua figura

103
como se tratasse de musselina úmida.
Esse era precisamente o motivo pelo que quase nunca usava esse objeto. Desde que Amélia
ganhou uma reputação de ser pouco feminina, tentava evitar indumentárias que pudessem
despertar o mais leve comentário a respeito de seu comportamento e que pudessem derivar em
rumores mais sérios a respeito de seu caráter. Mas depois do que descobriu sobre o propósito de
Lucas, e vendo seu comportamento nessa tarde - como se realmente estivesse apaixonado por ela
- desejava torturá-lo.
O desejo que professava Lucas de querer casar com ela podia não ser sincero, mas seu
desejo de seduzi-la era tão transparente como a água. Amélia podia sentir cada vez que ele a
beijava com aquela boca dissoluta e faminta, ou quando com as mãos tão impacientes e alerta a
acariciava na cintura, nos quadris... nos seios. Ele a desejava. E ela não pensava entregar-se a ele.
Assim, por que não mostrar o que ele estava perdendo por culpa de suas maquinações perversas?
Faria que ardesse de desejo, como ela ardeu durante as duas últimas noites, acariciando-se
com suas próprias mãos nos lugares que uma dama não deveria tocar, desfazendo-se ante o suave
tato de sua pele como uma donzela jamais deveria explorar. E o pior era a certeza de que não
conseguiria nada. Mal sabia como satisfazer a si mesma, e se negava a que ele voltasse a dar-lhe.
Lucas estragou a confortável vida de donzela que levou até então. Maldito fosse esse
homem.
— Sim, usarei este. — Olhou a sua criada de soslaio. — E aperta mais o espartilho. Quero
que meus seios fiquem tão elevados que praticamente possa comer sobre eles.
A criada parecia perturbada, mas fez o que sua senhora lhe ordenou: desabotoou o vestido
para apertar mais as nervuras do espartilho. Só quando a parte superior de seu seio pareceu
exibir-se de uma forma um tanto obscena, Amélia indicou que já era suficiente.
Enquanto a criada se esmerava nos últimos retoques, com as enormes pérolas que atraíam
toda a atenção para seu decote e o chapéu estilo Cambridge combinando com as plumas de
avestruz,
Amélia se preparou para seu duelo de morte com Lucas.
OH, se pudesse falar com a senhora Harris para acalmar os nervos... Mas fazia uma hora que
a viúva saíra para ir a seu compromisso. Quando Amélia se cobriu com sua pelerine e foi em
direção as escadas, já era quase a hora de partir.
Hopkins a esperava no patamar das escadas, com o semblante consternado.
— Senhora, temos um problema. Uma das rodas da carruagem quebrou, assim teremos que
trocá-la. O encarregado do estábulo diz que provavelmente demorará uma hora ou mais. Talvez
deveríamos enviar uma nota a lorde Kirkwood, solicitando que nos envie...
— OH, não. Não se preocupe. Pede uma carruagem de aluguel, e assunto resolvido.
— Mas senhora...
— Um lacaio me acompanhará. Estou segura de que ficarei perfeitamente bem. —
Especialmente agora que se livrou do chato do Pomeroy. — Prefiro não esperar.
Se tivesse que esperar um minuto mais, com a enorme tensão que sentia, imaginando as
palavras que diria a Lucas, provavelmente explodiria.
— Muito bem, senhora — assentiu Hopkins com uma careta de desaprovação.
Imediatamente fez chamar John, que saiu disparado em busca de um carro de aluguel.
Após alguns minutos, John retornara para escoltá-la até a rua e ajudá-la a subir em uma

104
enorme carruagem negra. Amélia nem sequer teve tempo para acomodar-se no assento; o veículo
começou a se movimentar tão bruscamente que a fez perder o equilíbrio e foi aterrissar em algo
decididamente muito musculoso para ser o assento de uma carruagem. Antes que pudesse reagir,
suas mãos ficaram presas a suas costas por um tecido de tato sedoso que não a permitia separá-
las.
Por um momento se sentiu alarmada, até que pensou que sabia quem era o artífice dessa
brincadeira tão pesada.
— Pare! Lucas! Esta noite não estou de humor para seus joguinhos, e além disso...
— Ora, ora. Vejo que cheguei a tempo de salvá-la — pronunciou uma voz grave que ela
reconheceu imediatamente. — Especialmente se dirige ao americano por seu nome de batismo.
Amélia se sentiu em pânico.
— Lorde Pomeroy? — Tentou afastar-se de seu regaço, mas não conseguiu. — Faça o favor
de me soltar agora mesmo!
Sem fazer caso de seus protestos e de suas tentativas por levantar-se, o general amarrou
seus pulsos mais firmemente e logo a empurrou para o assento que havia a seu lado com uma
força surpreendente. A investida a deixou sem ar por causa do espartilho extremamente apertado
que usava e enquanto se debatia para não desmaiar, ele levantou seus pés até seu regaço para
amarrar suas pernas.
Assim que Amélia recuperou o fôlego, começou a gritar.
— John, me ajude! Ajude-me!
— Perde tempo, minha doce dama. — Lorde Pomeroy apertou o lenço de seda ao redor de
seus tornozelos. — John esteve a meu serviço desde muito tempo antes que respondesse ao
anúncio de seu pai. Além disso, as janelas são muito grossas... Ninguém a ouvirá, com o ruído dos
cavalos. Esta limusine foi especialmente desenhada para fins militares, para proteger os
dignitários estrangeiros. É tão sólida como a rocha de Gibraltar.
O medo afetou Amélia. Então esse tipo planejou tudo. Provavelmente destroçou a roda de
sua carruagem, também. Que Deus a ajudasse.
Amélia quis lhe dar um chute, mas seu precioso traje de cetim, que tão graciosamente se
ajustou a seu corpo enquanto se olhava no espelho de seu quarto, agora irritantemente
emaranhava entre suas pernas, por isso só conseguiu fazer um torpe movimento com os sapatos.
Além disso, mal podia respirar. Que pena que ninguém tivesse advertido-a de que deveria vestir-
se para um sequestro!
O general confirmou que o lenço ao redor de seus tornozelos estava bem apertado com
tanta calma como tinha feito Lucas, mas o marquês não estava simulando que a raptava, e esses
eram nós de verdade, bem firmes.
— Falando de Gibraltar— comentou ele em um tom chocantemente cordial. — Sabe que
passei uma temporada lá? Com o amor que demonstra por tudo que é exótico, estou seguro de
que adoraria aquele lugar. Bom, iremos visitá-lo quando estivermos casados.
Logo ela lhe daria a pedra de Gibraltar! Como se atrevia a raptá-la como se tratasse de um
mero jogo de prazer?
— Não se sairá com a sua!
O general depositou os pés de Amélia no chão e logo levantou o rosto para olhá-la aos olhos.
— Já fiz.

105
Enquanto a carruagem irrompia em uma avenida melhor iluminada, a luz das luzes
emoldurou as feições desse indivíduo, iluminando a absoluta determinação em sua cara.
O pulso de Amélia pulsava disparadamente. De verdade pensava que poderia obrigá-la a
casar com ele? Precisava fazê-lo entender que isso era impossível antes que abandonassem a
capital, onde ainda estavam rodeados de pessoas que poderiam ajudá-la. E antes que fosse muito
tarde para salvar sua reputação.
— Senhor, este sequestro não lhe fará nenhum bem. Se me levar a Gretna Green à força e
me colocar diante de um padre, negarei a me casar com você.
— Bobagens. É uma mulher inteligente. Dada a escolha entre uma vida respeitável com um
herói de guerra que a adora, e um futuro minado pelo escândalo...
— Exato! O que há do escândalo? — inquiriu ela, preferindo não pensar na declaração de
que ele a adorava. — Sua atuação pode acabar com sua reputação irrepreensível.
Quando as pessoas souberem que sequestrou uma mulher contra sua vontade, lhe fecharão
todas as portas.
— O homem que salvou a Inglaterra de Boney? — gabou-se ele. — Além disso, quando
voltar a estar em contato com a sociedade, já estaremos respeitavelmente casados. E minha
atuação simplesmente será uma bela história romântica que circulará entre as mesas das salas de
jogo.
— Romântica, quando lhe disse mil vezes que não quero me casar com você?
Lorde Pomeroy ergueu seu queixo de bulldog.
— Se pensasse que realmente essa era sua vontade, não estaria fazendo isto. Mas quando
nos conhecemos se mostrou feliz com meus cuidados...
— Só porque achei que fosse um homem interessante com histórias interessantes!
O general sacudiu a cabeça com veemência.
— Vi como me olhava... ficava animada, excitada... desejava-me. Estive com muitas
mulheres, meu anjo. Sei perfeitamente quando uma mulher me quer.
— Quando quer estrangulá-lo, quer dizer.
Ele ignorou seu comentário.
— Não deixe que meus cabelos grisalhos a confundam. Estou tão ágil como um moço. —
Moveu repetidas vezes uma de suas sobrancelhas em uma tentativa de parecer gracioso, mas o
único que conseguiu foi parecer mais a um bulldog. — Sei como satisfazer uma mulher no leito.
Por Deus. Agora esse tipo se achava um Casanova.
— Não me resta a menor duvida de sua habilidade para ser um bom marido — repôs ela,
tentando procurar as palavras com tato. — Mas apesar do que possa imaginar, é impossível vê-lo
nesse papel, nem na cama nem em nenhum outro lugar.
Ele a olhou com estupor.
— Só diz isso porque aquelas arpías da escola da senhora Harris a encheram a cabeça com
falsas histórias sobre mim. Se soubesse até onde pode chegar essa mulher para separá-la de mim,
meu anjo, ficaria horrorizada. Esta manhã, sem ir mais longe... — calou-se um momento e franziu
o cenho. — Será melhor que não lhe conte isso até que esteja preparada para ouvir a verdade.
OH, não. Esse tipo pensava que a senhora Harris era a responsável por sua purgação. O que
devia fazer? contar a verdade? Dadas as circunstâncias, talvez não fosse o mais sensato.
— Não teria tão má impressão de mim — prosseguiu ele, — se essa mulher não a tivesse

106
doutrinado contra determinados tipos de homens.
— Refere-se a caça fortunas — afirmou ela com secura.
— Eu não sou um caça fortunas! — bramou ele, fazendo que Amélia chegasse para trás,
compungida. Logo soprou com crispação. — Sinto muito, mas considero que é importante deixar
este ponto claro. É obvio que seu dote será mais que bem-vindo, mas...
— Se meu pai permitir dispor dele — espetou ela.
— Ele permitirá, quando souber o acordo tão generoso com o qual quero servi-la. Minha
intenção é tratá-la como merece, meu anjo.
Se esse energúmeno a chamasse meu anjo outra vez, Amélia o trataria como ele merecia e
vomitaria por toda sua limusine especialmente desenhada. Lorde Pomeroy lhe deu uns tapinhas
no joelho, e ela deu um pulo, com cara de asco. A julgar pelo semblante do general, não gostou
absolutamente da reação de Amélia.
— Cedo ou tarde reconhecerá a conveniência de nossa união — declarou ele em um tom
gélido. — Porque nos casaremos. E a você não ocorrerá rechaçar os votos de matrimônio quando
chegarmos a Escócia.
O medo em seu estômago se transformou em terror. Amélia só conseguia pensar em uma
forma que poderia forçá-la a casar-se com ele.
— Não penso me casar com você! E se planeja me obrigar a fazê-lo me despojando de minha
virtude...
— Mas que tolice está dizendo! — Lorde Pomeroy encheu o peito, com afã de ganhar mais
destaque. — Não sou como seu tosco amiguinho americano, que se atreve a devanear com uma
mulher só dois dias após conhecê-la.
— Não, claro, você espera um tempo razoável antes de raptá-la — matizou ela com um
marcado sarcasmo. — Com certeza que o comandante Winter não se atreveria jamais a fazer tal
maldade. E não permitirá que saia com a sua. — Ao menos, isso era o que Amélia esperava. — O
alcançará antes que cheguemos a Escócia. Os Kirkwood me esperam para jantar. Quando virem
que não chego, ele começará a investigar...
— Não, não o fará. Ou pelo menos, não até que seja muito tarde. Assegurei-me disso
pessoalmente.
As palavras sinistras lhe provocaram uma sensação de pânico irrefreável na garganta. Como
uma louca, começou a lutar para livrar-se das amarras, mas tudo foi em vão; os lenços que a
seguravam estavam firmemente amarrados.
Ao ver que ficava tão nervosa, lorde Pomeroy adotou um ar mais solícito.
— Provavelmente gostará de um refrigério, posto que não teve oportunidade de jantar.
Trouxe provisões. Gostaria de um pouco de pão com queijo? Um pouco de vinho, talvez?
Claro, assim poderia se soltar...
— A verdade é que gostaria sim. Se me soltar as mãos...
— Sinto muito, mas não posso fazer isso — manifestou-se ele com o tom indulgente de um
pai para seu filho recalcitrante. Abriu um frasco que continha vinho. — Terei que alimentá-la.
O general levou o frasco até os lábios de Amélia, e ela duvidou, recordando o purgante.
Como se adivinhasse seus pensamentos, ele esboçou um sorriso paciente e tomou um gole.
— Viu? Perfeitamente seguro. Eu jamais lhe faria mal.
— Pois estas amarras indicam justamente o contrário. — Amélia tomou um gole do vinho

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doce e enjoativo.
— Se não se movesse tanto, meu anjo, as amarras não lhe fariam mal. As escolhi
cuidadosamente... um tecido suave para a pele suave de uma dama.
Lorde Pomeroy lhe deu mais vinho, e ela o bebeu com ânsia. Não havia se dado conta de
quão sedenta estava até esse momento. Ele sorriu com cara de aprovação.
— Pensei que você gostaria do vinho. As damas preferem bebidas doces.
"Inclusive um soldado pode gostar de algo doce de vez em quando."
O desespero se apropriou dela. Como desejava poder retirar as duras palavras que disse ao
Lucas nessa mesma tarde. Podia ser um patife, mas até esse momento, não a havia obrigado a
fazer nada que não quisesse.
E inclusive ela tinha parte de culpa de seu maquiavélico plano de cortejá-la. Se não o tivesse
animado a beijá-la na noite em que se conheceram, provavelmente ele não teria recorrido à
retorcida tática dos beijos para lhe surrupiar informação.
— Quer mais vinho? - perguntou lorde Pomeroy.
— Não. — Notava o peso da bebida no estômago. E por que ele estava tão seguro de que
Lucas não os perseguiria?
O marquês fechou o frasco e se dispôs a tomar outras provisões.
— Então, algo de comer, uma fatia de pão com manteiga?
— Só quero que me solte!
— Sei que é humilhante, mas lhe asseguro que farei tudo o que estiver em minhas mãos
para que fique cômoda durante a viagem.
— Cômoda! Se chama ter os pés e mãos amarrados como um porco estar cômoda...
— É só até que o láudano surta efeito — confessou ele.
Amélia ficou gelada.
— Láudano? — Quando lhe deu...? OH, não! Não, por favor...! — O vinho continha láudano?
Mas se vi como tomava um gole!
— É verdade, o que acontece é que sou menos suscetível aos efeitos do láudano que a
maioria das pessoas.
O pânico não a deixava respirar. Ou por acaso era o láudano, que lhe provocava essa horrível
sensação de asfixia? Jamais o provou. Como funcionava? Era essa sensação de calor desconhecido
em seu corpo? Ou as pálpebras pesadas?
De repente sentiu uma vontade enorme de dormir.
— Me... drogou...
— Não. Só lhe dei uma dose suficiente para sedá-la. Não tema, meu anjo; conheço
perfeitamente os efeitos do láudano. Me fizeram tomar isso para acalmar a dor, faz anos, quando
me feriram na batalha. Depois disso comecei a consumi-lo periodicamente.
Ela piscou.
— O drogaram... com ópio?
— Se prefere definir assim.
De repente, esse indivíduo lhe pareceu mais interessante. Não, no que estava pensando?
Essa maldita droga estava nublando a razão.
— Não é que prefira definir... assim... — Amélia sacudiu a cabeça em uma vã tentativa de
clarear as ideias. — O que estava dizendo?

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— Nada, querida.
Ele acariciou sua face. Ou simplesmente ela estava recordando quando Lucas...?
Amélia foi para trás, e quase caiu do assento.
— Não quero... não quero...
Lorde Pomeroy sorriu.
— Descanse, meu anjo. Se sentirá muito melhor depois. — Sua voz parecia provir de um
túnel. No meio de muitas sombras, Amélia viu como levantava seus pés e os depositava sobre seu
regaço, depois começou a desamarrar os nós do lenço que seguravam seus tornozelos. — E agora,
vejamos se posso fazer que fique mais cômoda.
E um sono pesado se apoderou dela.

Capítulo 15

Querido primo:
Aconteceu algo terrível. Estamos tentando manter em segredo até que saibamos algo mais,
mas sei que posso confiar em sua discrição. Lorde Pomeroy sequestrou a minha pobre pupila!
Sinto-me como a acompanhante mais desgraçada que existe sobre a face da Terra, por ter faltado
a minhas obrigações de um modo tão indesculpável.
Sua desesperada amiga,
Charlotte

— Pelo amor de Deus, Winter, acalme-se.


Lucas se deteve de seu inquieto perambular pela sala para lançar ao primo um olhar
exasperado.
— Está atrasada.
— As mulheres tendem a se atrasar — explicou Kirkwood. — Inclusive minha mãe não
desceu ainda.
— Sim, mas Amélia costuma ser pontual.
— Como pode estar tão seguro, se só faz uma semana que a conhece? — repreendeu seu
primo. — Creio que está progredindo em sua investigação.
— Não tanto como desejaria. - Lucas se sentou, mas rapidamente voltou a ficar de pé;
sentia-se muito agitado para ficar quieto.
— Bom, só espero que depois desta noite não precise mais de mim. — Kirkwood levantou os
pés e os depositou no divã. — Porque vou me casar.
Lucas se virou rapidamente para olhar o primo.
— O que? Quando?
— Dentro de alguns dias, espero; isso depende do tempo que leve para escapar com a
senhorita Linley a Gretna Green.
— O que é Gretna Green? — inquiriu Lucas.
— É o lugar onde um caça fortunas depravado como eu leva uma rica herdeira menor de
idade que não pode casar na Inglaterra sem o consentimento de seu pai. A localidade fica

109
justamente na fronteira com Escócia, onde não pode nem imaginar como é fácil tramitar uma
certidão de casamento. Já fiz os preparativos para escapar com a senhorita Linley amanhã. —
Olhou Lucas com o cenho franzido. — Antes de ir a falência.
Lucas lhe deu um olhar cheio de desdém.
— Ao menos você gosta da senhorita Linley, não é?
Kirkwood deu um encolher de ombros.
— É um pouco tolinha, mas poderei suportar se isso significa que ela irá me tirar da ruína em
que estou. Além disso, está muito obcecada com suas próprias tarefas para colocar o nariz nas
minhas, então, minha vida será só um pouco diferente da que levo agora, sempre e quando a
deixar ter todas as frivolidades e joias que ela deseje. — Sorriu ironicamente. — E não acredito
que o ato de consumar o matrimônio seja uma tarefa tão árdua, não te parece?
Lucas não respondeu. Não podia imaginar se casando com a altiva senhorita Linley, por mais
bonita que fosse. Provavelmente suas preocupações se limitariam arrumar o cabelo.
A diferença de Amélia, que só se preocuparia em fazê-lo perder o juízo.
Com um beijo após outro, o manteria excitado permanentemente. Apenas imaginá-la nua
em sua cama... Um lacaio entrou na sala e entregou ao Lucas uma folha de papel dobrada com seu
nome escrito nela.
— Desculpe, senhor, mas acabamos de encontrar esta nota no vestíbulo. Alguém deve tê-la
jogado por debaixo da porta enquanto os criados estavam ocupados em outros trabalhos.
O que não surpreendeu Lucas absolutamente, ao recordar como Kirkwood se viu obrigado a
prescindir da metade do pessoal depois de que seu pai perdeu toda sua fortuna jogando cartas.
Abriu a nota e a leu atentamente. Uma raiva incontrolável se apoderou dele.
— Não posso acreditar! A senhora Harris me faz saber que lady Amélia tem dor de cabeça e
que não poderá vir ao jantar. — Franziu o cenho e voltou a ler a nota. Havia algo estranho na
mensagem.
— Não é possível, mas se a vi há poucas horas e estava bem. Como pode ser que de repente
se ache tão indisposta para não ser capaz nem de escrever a nota ela mesma?
Kirkwood esgrimiu uma careta de cepticismo, e se acomodou no sofá.
— Já sabe como são as mulheres.
— Pois não acredito que lady Amélia seja capaz de fazer este tipo de tolices. E menos nesta
noite; disso estou seguro. Insistiu em falar comigo em privado, quando tivéssemos a oportunidade.
Kirkwood arqueou uma sobrancelha.
— Talvez tenha mudado de opinião.
— Não, ela não... — calou-se de repente. O beijo que lhe deu essa tarde, conseguiu que
Amélia se enfurecesse. Era possível que ela tivesse decidido não vê-lo por um maldito beijo?
Mil raios e mil centelhas. Não podia permitir que Amélia agisse desse modo, agora que
estava tão perto do final. Dirigiu-se à porta com passo irado.
— Vou falar com ela.
Kirkwood ficou de pé apressadamente.
— Nem sonhe!
Lucas saiu ao corredor.
— Esta tarde discutimos e ela não me deu nem a oportunidade de me desculpar, assim
agora farei que me escute. — Pediu que lhe trouxessem o chapéu. — Diga a sua mãe que não me

110
espere para jantar.
— Irei contigo! — espetou Kirkwood. Enquanto o lacaio também trazia seu chapéu, o jovem
visconde ordenou ao criado: — Diga a minha mãe que o comandante Winter e eu saímos para
procurar lady Amélia.
— Muito bem, senhor. Deseja o senhor que prepare a carruagem?
— Não, iremos andando — anunciou Lucas. Pelo menos o passeio ajudaria a se descontrair e
de passagem a apaziguar o crescente sentimento de angústia que se instalou em sua garganta.
Mas apesar de Lucas se dirigir à mansão dos Tovey com passo frenético, não conseguiu se acalmar.
A reação de Amélia lhe parecia um despropósito, entretanto, havia algo que não encaixava.
E fazia anos que aprendeu a não ignorar seus instintos.
Quando avistou a casa, não viu nenhuma luz acesa no andar superior. Se de verdade Amélia
tinha dor de cabeça, teria ido dormir, mas a senhora Harris deveria estar ainda acordada. Nem
eram as sete. O mordomo abriu a porta com presteza quando chamaram.
— Comandante Winter? Lorde Kirkwood? O que aconteceu? Aconteceu algo a minha
senhora? Está ferida?
Lucas trocou um olhar com o primo.
— Lady Amélia não está em casa, com dor de cabeça?
Hopkins parecia confuso.
— Não. Eu mesmo vi como subia em uma carruagem de aluguel faz quase uma hora, para ir
ao jantar com vocês, cavalheiros, e com lady Kirkwood.
Lucas sentiu uma desagradável pontada no estômago.
— Pois ela não chegou e, entretanto, o que chegou foi isto. — Mostrou a nota ao mordomo.
O homem a leu, e logo empalideceu.
— Esta não é a letra da senhora Harris. Além disso, a senhora Harris saiu faz duas horas;
havia marcado com uma amiga... — Olhou Lucas com cara alarmada. — Disse à senhora que não
saísse em uma carruagem de aluguel, mas ela me respondeu que não lhe aconteceria nada, que ia
com John...
— O lacaio que entregou a nota de lady Amélia esta manhã? — Finalmente, a nota de
Amélia chegara a casa dos Kirkwood, mas John levou seu tempo para entregá-la. Lucas tinha a
terrível suspeita de saber o motivo.
— Sim, John partiu com ela na carruagem de aluguel.
— Por que subiu lady Amélia em uma carruagem de aluguel? — perguntou Kirkwood.
— A senhora insistiu, senhor. Nossa carruagem tinha uma roda quebrada, por isso ofereci
enviar alguém a lhe avisar, lorde Kirkwood, para que nos enviasse sua carruagem, mas ela me
disse que não me preocupasse.
A história ia tomando cada vez uma aparência mais preocupante. Um lacaio lento, de
repente a necessidade de alugar uma carruagem, notas falsas... Algo grave estava acontecendo.
Lucas se esforçou para não perder a calma. Precisava reunir mais informação; se não, não
poderia ajudar Amélia.
— Essa carruagem de aluguel... Foi você quem saiu para buscá-la?
— Não, foi John.
Claro.
— Que aspecto tinha a carruagem?

111
— Não notei, senhor. Mas certamente poderemos alcançá-la se sairmos para procurar.
— Provavelmente a estas horas já esteja fora da cidade. Pomeroy viu a oportunidade de
sequestrar lady Amélia e não a deixou escapar - bramou Lucas entre dentes.
Enquanto o mordomo abria os olhos desmedidamente, Kirkwood lançou a Lucas um olhar
cético.
— Pode-se saber como diabo chegou a essa conclusão? Como acha que Pomeroy podia estar
à corrente de nosso jantar...?
— O lacaio. Esta manhã. Disse que se deteve para ajudar uma anciã a caminho à mansão dos
Kirkwood, quando ia entregar a nota de Amélia. Havia algo nessa história que não conseguiu me
convencer.
— Tentou abafar o pânico que subia por sua garganta. — Agora sei o que era: deveria ter
cruzado com o criado, quando vim para cá, mas não foi assim; portanto, John mentiu. O que
verdadeiramente fez foi levar a nota ao Pomeroy, para que este a lesse. Esse criado
provavelmente levava dias espiando lady Amélia.
— Poderia ser outra pessoa, e não Pomeroy. — Kirkwood se aventurou a sugerir.
Lucas sacudiu a cabeça energicamente.
— Pomeroy partiu precipitadamente quando cheguei aqui esta manhã. E a operação se
executou magistralmente, como se tratasse de uma manobra militar. Não só a sequestrou...
também se encarregou de deixar a nota para não levantar suspeitas até que ele estivesse fora de
nosso alcance. Mas não teve em conta um detalhe extremamente importante: que minha vaidade
me levaria a vir a procurá-la.
— Seu pânico se transformou em uma ira desmedida. — Além disso, o muito pérfido
escolheu uma noite em que a senhora Harris ia se ausentar da casa. Provavelmente contratou os
serviços do John há muitas semanas...
— Isso significa que John não protegerá a minha senhora. — Hopkins se deixou cair sobre a
cadeira situada ao lado da porta e afundou a cara entre suas mãos, completamente abatido. —
Tudo é por minha culpa. Deveria ter insistido para que a senhorita esperasse até que arrumassem
a roda da carruagem.
— Isso tampouco teria servido de nada. — Lucas apertou os punhos. — Pomeroy estava
decidido a fazê-la dele. Quando os alcançar, arrancarei a pele desse desgraçado em tiras.
Virou para a porta, mas seu primo o deteve com uma mão.
— Se estiver certo, então certamente pensa levá-la a Gretna Green.
— Se isso for o que precisa fazer para casar-se com ela, então o mais provável é que tenha
razão. — Lucas se desfez do aperto do primo. — E diferente de você, não se importa se ela quer
ou não casar com ele.
— Inclusive na Escócia, a mulher precisa dar seu consentimento, ou a cerimônia não é válida.
Lucas o olhou com o cenho franzido.
— Ambos sabemos que um homem pode forçar uma mulher de mil maneiras diferentes para
que esta dê seu consentimento.
Kirkwood ficou pálido.
— É verdade. E, se lady Amélia não aparecer antes do amanhecer, terá que casar com ele
para proteger sua reputação. É difícil ocultar este tipo de escândalo, e aos olhos da sociedade,
passar a noite com um homem significa o mesmo que deitar-se com ele.

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O estômago de Lucas se revolveu ante o pensamento de que Amélia tivesse que casar à
força com o desgraçado do Pomeroy. Cravou a vista no mordomo.
— Pode me emprestar uma montaria para ir procurá-la?
— Será melhor que use minha carruagem. — Kirkwood o guiou para a porta. — Poderá viajar
mais rápido e economizar forças para quando tiver que enfrentar Pomeroy.
— Mas você irá precisar da carruagem, se você e a senhorita Linley...
— Alugarei uma. — Kirkwood lançou ao mordomo um olhar furtivo, então esperou até que
estivessem fora da porta antes de acrescentar: — O brasão da limusine do visconde que te fará
tão bom serviço, só ajudaria o pai da senhorita Linley a seguir meu rastro. A menos que queira que
vá contigo.
Os dois desceram as escadas precipitadamente.
— Não é necessário. — Lucas começou a andar com passo rápido pela rua. — Alguém
precisa ficar para informar à senhora Harris e aos pais de Amélia sobre o que aconteceu.
Não disseram nenhuma só palavra mais enquanto percorriam a rua a toda velocidade. Mas
quando se aproximavam da casa dos Kirkwood e se dirigiam para as escadas da entrada, seu primo
não pôde resistir e comentou:
— Surpreende-me que queira fazer isto. Para você, o fato de que Amélia esteja em poder de
Pomeroy não supõe nada mais que uma vantagem, já que o casamento obrigará Tovey a retornar
a Londres. Poderia se aproveitar da crise para interrogar Dorothy Frier.
Lucas cravou os olhos no primo enquanto entravam na casa.
— Que tipo de soldado seria se ficasse impassível vendo como o desgraçado do Pomeroy
arruína a honra de uma mulher inocente?
Kirkwood esboçou uma careta de receio.
— Mas ela é inglesa. Por que se importa tanto o que possa lhe acontecer?
— Porque em parte sou responsável por sua desgraça. — Lucas pensava que se não tivesse
empurrado Pomeroy, se não tivesse o desafiado...
— Não fica mais remedeio que acreditar em suas palavras, embora suspeite que essa não é a
única razão pela qual deseja resgatá-la.
Ignorando o comentário do primo, Lucas se dirigiu a toda pressa para as escadas que
conduziam ao andar superior.
— Terei que ir armado.
Depois de ordenar que preparassem a carruagem, seu primo saiu disparado atrás dele
escada acima.
— Tome cuidado, Lucas. Não pode matar um herói de guerra inglês a sangue frio.
— Não se preocupe. Não penso dar a seu maldito país a satisfação de me pendurar. — Mas
tampouco pensava permitir que Pomeroy fizesse mal a Amélia.
Com Kirkwood seguindo-o de perto, Lucas entrou em seu quarto e pegou o estojo com a
pistola, logo, depois de meditar alguns instantes, pegou também a espada e o rifle.
— Se não os alcançar antes da manhã...
— Os alcançarei esta noite. Preciso fazê-lo. — Lucas abriu o estojo da pistola e se assegurou
de que dispunha da munição adequada.
— Mas e se não conseguir?
Lucas o olhou com o semblante desfigurado.

113
— Não permitirei que esse velhaco arruíne a honra de lady Amélia.
— Isso significa que...?
— Eu sei — o atalhou Lucas, - que alguém deverá casar com ela. — Saiu ao corredor e
desceu as escadas de dois em dois. — Se não estiver de volta amanhã, diga a todo mundo que ela
e eu fugimos.
Seu primo o seguiu em silêncio. Quando chegaram ao vestíbulo, Kirkwood disse:
— Espere, Winter. Precisará algo mais. — Saiu correndo para o escritório, e Lucas o seguiu.
Kirkwood tirou umas folhas de papel de uma gaveta e começou a escrever.
— Para escapar sem serem descobertos, a maioria dos casais que querem fugir, viajam de
dia e de noite sem pernoitar até chegar a Gretna Green, assim você terá que fazer o mesmo. Posto
que ninguém irá querer dar informação sobre um herói de guerra como Pomeroy a um
desconhecido, que ainda por cima é americano, aqui tem uma carta que te ajudará a aplanar o
caminho.
Enquanto assinava a carta e a marcava com seu selo, lançou ao Lucas um sorriso malicioso.
— Será mais fácil se fizer passar por um jovem nobre inglês, assim não duvide em usar meu
nome tantas vezes quantas achar conveniente.
— Obrigado. — Lucas pegou os papéis de Kirkwood e foi em direção a porta.
— Precisa de dinheiro? — perguntou Kirkwood.
Lucas se deteve em seco.
— Tenho suficiente. Obrigado pela generosidade que demonstrou sua mãe e você ao
permitir que me aloje em sua casa. Desde que cheguei, quase não gastei nada de meus honorários.
— Cravou a vista nos papéis que Kirkwood havia lhe entregue. — Primo, não sei... não sei como
poderei te agradecer tudo o que...
— Traga lady Amélia de volta. Com isso me considerarei pago de sobra. — E então
acrescentou, com os olhos brilhantes: — Além disso, quanto mais use meu título, mais me ajudará
a despistar o pai da senhorita Linley quando este saia atrás de mim amanhã.
— Boa sorte.
— Tome cuidado.
Com essas palavras ainda ressonando em seus ouvidos, Lucas saiu correndo para a
carruagem. Enquanto o veículo se deslocava a toda velocidade pelas escuras ruas de Londres, não
conseguiu apagar de sua cabeça a nefasta frase que seu primo havia pronunciado.
"Passar a noite com um homem significa o mesmo que deitar-se com ele."
Se trouxesse Amélia de volta sem que ela se casasse, a reputação da pobre moça estaria
arruinada para sempre. Jamais conseguiria casar, e a sociedade a consideraria uma pária, mesmo
que Pomeroy não a tocasse. Os pais de suas antigas companheiras de escola proibiriam suas filhas
de falar com ela, por temor que o escândalo fosse contagioso, e toda sua família teria que viver
com essa vergonha.
Lucas sabia algo sobre o fato de viver com vergonha, e estava absolutamente convencido de
que não desejava essa carga nem a seu pior inimigo. Talvez para a Amélia, tão amante da aventura,
isso não importasse absolutamente, mas o que ela certamente não suportaria seria fazer mal a sua
família. E não poder fazer nada para evitar isso. Por isso não podia permitir que ela caísse em
desgraça, não quando foi ele quem empurrou Pomeroy a agir desse modo tão ignominioso.
"Embora suspeite que essa não seja a única razão pela qual deseja resgatá-la."

114
Lucas apertou os punhos e os colocou sobre os joelhos. Não, essa não era a única razão. Não
podia suportar a ideia de imaginar Amélia nos braços de outro homem quando ela só podia ser...
Dele. Suspirou pesaroso. Definitivamente, perdeu o juízo se pensasse que Amélia poderia ser dele.
Sua amante, sua esposa. Compartilhar com ela o mesmo leito, sua vida, seu futuro. Embora ela
aceitasse se converter em sua esposa, quando descobrisse o que ele pretendia realmente, jamais
o perdoaria. E isso, em que situação o deixava?
Sem ela.
Essa possibilidade lhe provocou uma intensa dor no peito. Com a vista cravada na janela,
esforçou-se para não pensar nisso. De momento devia se concentrar em resgatá-la; mais tarde
consideraria as consequências de sua atuação.
Lucas só rogava a Deus que conseguisse encontrá-los antes que fosse muito tarde. Porque se
os alcançasse quando Amélia já estivesse casada com Pomeroy, não ficaria mais remedeio que
matar o homem.

Capítulo 16

Querida Charlotte:
Fico à espera de suas notícias com um enorme interesse, mas tenho a certeza de que você,
minha querida amiga, jamais agiria com negligência. Quero que saiba que, apesar das
circunstâncias, estou como sempre a sua disposição para ajudá-la em tudo o que puder.
Seu fiel servidor,
Michael

Amélia se sentia como água correndo por cima de uma rocha, fluída, mutável, seu estômago
revolto por causa da agitação, suas pálpebras tão pesadas... tão insuportavelmente pesadas. Era
outro de seus estranhos sonhos? Como o do camelo que se transformava em um crocodilo e
defendia um bule? Ou o sonho do xebec com Lucas em pé ao leme e Dolly algemada no mastro?
Não, isto parecia muito... mundano para ser um sonho. Notava o aroma de óleo rançoso e a
cebolas, misturado com uma fetidez a sebo queimado e a corpos não asseados.
Os fedores penetraram em seu sonho. Ainda precisou outro segundo para dar-se conta de
que alguém a estava levando nos braços por uma escada e ouvir um tumulto de vozes a seu redor.
Sentia a boca tão seca como uma bola de algodão. Engoliu, então abriu a boca para pedir água... E
a voltou a fechar. Beber era perigoso. Como chegou a essa conclusão?
Uma voz próxima murmurou:
— Não pode ir mais rápido? Não quero que acorde antes de que cheguemos ao quarto.
Amélia conhecia essa voz. E também reconheceu a voz que respondeu tão perto de sua
cabeça que lhe provocou uma intensa dor nas têmporas.
— Sinto muito, senhor, mas vou tão rápido como posso. A senhora deve pesar mais do que
aparenta.
Se a cabeça de Amélia não estivesse ainda girando como um carrossel, teria colocado os
pingos nos is com John por essa ofensa. E se pudesse saber por que seu lacaio a levava nos

115
braços... Porque já não era seu lacaio. Era o lacaio de lorde Pomeroy. Essa era a outra voz que
reconheceu.
— Malditos provincianos — resmungou lorde Pomeroy atrás deles. — Como se atreve esse
maldito hospedeiro... a negar-se a nos alugar um cavalo até amanhã pela manhã?
— O rapaz das quadras comentou que seu amo não quer correr riscos de noite. Por isso a
estalagem está tão cheia. Esse bandido, conhecido como O Açoite Escocês, foi visto muito perto
daqui.
— E suponho que pensa que deveria ter te ouvido quando passamos em frente a outra
estalagem faz um instante, não é? Deveríamos ter parado ali.
Um tenso silêncio foi a resposta.
Enquanto a densa névoa se dissipava em sua cabeça até converter-se em uma mera neblina,
Amélia começou a lembrar. O marquês a raptara. Queria levá-la a Gretna Green. Precisava escapar!
Mas ainda notava todo o corpo muito pesado. Sim, havia lhe subministrado láudano. E a amarrou.
Mas não se sentia como se estivesse amarrada. Entretanto, preferia não dar um salto e
tentar correr, não na escada. Além disso, não poderia escapulir de John, nem muito menos de
lorde Pomeroy. Quanto tempo esteve dormindo? Que horas eram? Com um enorme esforço,
conseguiu entreabrir os olhos o suficiente para ver as velas acesas pontuando o caminho através
da escuridão da escada. Graças a Deus que ainda era de noite. Escaparia de seus captores, e
retornaria a sua casa em Londres antes que a senhora Harris desse a voz de alarme.
Chegaram ao andar superior. Através da fina linha que se abria entre suas pálpebras, Amélia
divisou o hospedeiro, que os havia precedido e os esperava no quarto, ordenando aos criados a
dispor tudo.
— Aqui têm, senhor — disse o homem, enquanto John a levava até o interior do quarto. —
Sua esposa ficará muito cômoda aqui.
Esposa! Por um momento sentiu pânico, pensando que não só não recordava nada da
viagem por culpa da droga mas também nem mesmo recordava a cerimônia, mas logo repensou.
Lorde Pomeroy não estaria tão nervoso por tentar ir mais rápido se já estivesse casado com ela.
John a depositou na cama, e logo deu a volta. Amélia estirou os músculos. Agora estava
segura: não tinha nem os pés nem as mãos amarradas. E não usava a capa posta, por isso seu traje
tão escandalosamente ajustado ficava totalmente exposto.
Teve outro momento de pânico, ao recordar as palavras de lorde Pomeroy sobre tentar que
se sentisse mais cômoda na carruagem. Enquanto ela dormia, ele a desamarrou e tirou a capa. Fez
algo mais? A tocou? A manuseou? Desflorou? Não sabia. Por todos os Santos! Notava o corpo de
um modo estranho, completamente diferente. Era por culpa da droga? Ou por algo mais?
Esforçou-se para não perder a calma. Agora, a única coisa que importava era escapar.
Enquanto o marquês e John falavam com o hospedeiro e com os criados, Amélia estirou as pernas.
Já não as sentia tão pesadas, e o fato de que não estivesse amarrada era outro ponto a seu favor.
Lorde Pomeroy a submeteu a primeira vez de surpresa, mas nunca mais. Não quando
ficassem sozinhos. Entretanto, precisava de uma arma. Com os olhos entreabertos contemplou
tudo o que tinha mais perto. Só viu um travesseiro; não, isso não lhe serviria de nada, a menos
que esse maldito idiota decidisse deitar e ela pudesse asfixiá-lo sem piedade.
Virou a cabeça. Havia uma mesinha de noite a escassos centímetros, e sobre ela, um cântaro
de estanho. Não era ideal, mas como arma serviria.

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— Enviarei seu lacaio de volta com o jantar assim que estiver preparado, senhor — dizia o
hospedeiro, — e um pouco de caldo para sua pobre esposa doente. Garanto que ficará muito
cômoda em nossa...
— Muito bem, obrigado. — Impacientemente, lorde Pomeroy apressou o homem e os
criados para que saíssem do quarto, incluindo John.
Amélia fechou às pressas os olhos, e notou como lhe encolhia o coração quando ouviu que
ele passava o ferrolho à porta. Só precisava lhe dar um golpe certeiro para dispor de tempo
suficiente para voltar a abrir a porta.
— E agora, meu anjo — murmurou ele, — chegou o momento do refresco. Não queremos
que desperte antes do casamento, não é?
O coração de Amélia pulsava de forma disparada quando o ouviu rebuscar algo em sua
maldita bolsa de provisões. Era agora ou nunca, antes que John retornasse. Quando lorde
Pomeroy se inclinasse sobre ela para fazer que bebesse a poção, atiçaria um bom golpe na cabeça
com o cântaro.
Ouviu como se aproximava da cama, mas quando ela se preparava para atacá-lo, soaram
alguns golpes na porta.
— Quem é? — inquiriu Pomeroy.
— O jantar, senhor — uma voz abafada respondeu do outro lado da porta.
Não! Amélia queria gritar a viva voz. Como John podia ter retornado tão rápido?
Mas acabou. Já teve mais que suficiente. Abriu os olhos ao mesmo tempo que lorde
Pomeroy se dirigia para a porta. Teria que fazer de todos os modos; talvez não acharia outra
oportunidade.
As mãos do lacaio estariam ocupadas, sustentando a bandeja do jantar, e lorde Pomeroy
estaria concentrado em abrir a porta.
Entre o golpe que atiçaria a esse energúmeno e o grito que pensava soltar a seguir para
alertar às pessoas, talvez conseguisse sua liberdade. O marquês se veria em um grave apuro ao
tentar convencer o hospedeiro de que ela estava doente, quando a vissem de pé, brandindo um
cântaro e gritando como uma possessa. Quando escutou o ruído do ferrolho, Amélia aproveitou
para levantar da cama sem que ele a ouvisse e se aproximou silenciosamente por trás. Quando ele
abriu a porta, agarrou o cântaro e se colou à parede que havia ao lado direito do general para que
John não pudesse vê-la quando entrasse.
— Você! — bramou lorde Pomeroy. Ela ficou gelada.
O marquês retrocedeu, e então Amélia compreendeu o porquê. Lucas estava entrando,
empunhando uma espada que apontava diretamente à garganta de lorde Pomeroy.
Seu coração deu um tombo de alegria. Lucas veio resgatá-la! Apesar dos riscos, apesar do
que provavelmente isso significaria para seu plano. Ele veio salvá-la. Como ansiava jogar-se em seu
pescoço e enchê-lo de beijos!
— Onde está? — Lucas deu uma olhada atrás de lorde Pomeroy, à cama vazia.
— Muito tarde — proclamou o general, enquanto Lucas o obrigava a recuar para poder
fechar a porta sem tirar o olho de cima.
— Muito tarde? — sussurrou ela.
O marquês virou de repente a cabeça, e se mostrou surpreso quando a viu de pé, com o
cântaro na mão. Ao ouvir sua voz, a dura expressão de Lucas se transformou em alívio, mas não

117
afastou a vista de seu adversário.
— Está bem, Amélia?
— Sim. Não... Não sei. Me drogou com láudano, e acabei de acordar. Poderia ter feito algo
enquanto dormia.
— Eu jamais lhe faria mal! — Lorde Pomeroy fez um movimento como se quisesse ir para ela,
mas Lucas o obrigou a retroceder com a espada. O marquês olhou Lucas com rancor.
— E jamais me ocorreria abusar de uma mulher enquanto está adormecida.
— Então, por que disse que é muito tarde? — perguntou ela.
— É muito tarde para proteger sua reputação — respondeu ele com um tom irado. — A isso
me referia.
Amélia ergueu o queixo.
— Não é muito tarde. — Desviou a vista para a janela; ainda era de noite. — Só passaram-se
poucas horas. Se Lucas e eu partimos agora, teremos tempo de retornar a Londres antes que
alguém descubra sobre meu desaparecimento.
Um silêncio espectral alagou a estadia. Lorde Pomeroy tinha um aspecto claramente
incômodo, e Lucas pigarreou antes de lançar uma grosseria entre dentes.
— Sinto muito, Amélia. — Apesar de Lucas continuar com os olhos cravados em Pomeroy, de
seu tom de voz se desprendia um doloroso remorso. — Tentei alcançá-los antes, mas não conheço
bem esta rota, e precisei fazer várias paradas para perguntar por Pomeroy...
— O que está tentando me dizer? Vamos, fale! — apressou ela.
— Passaram-se dois dias desde que desapareceu.
— Dois dias! — Ela o olhou confusa. — Não é possível! Teria que ter... — Mas agora, muito
mais lúcida, separou os sonhos tão estranhos que teve do que recordava com algumas lacunas.
Obrigaram-na a beber mais de uma vez, a tiraram da carruagem várias vezes, havia
entreaberto os olhos na carruagem quando tudo estava muito iluminado para ser de noite...
— Viu? — disse lorde Pomeroy, com um tom apaziguador que só conseguiu enfurecê-la mais.
— Ficaria desonrada se retornássemos sem casar. A única forma de salvar sua reputação é
casando comigo.
— Me casar com você? — Ela avançou para ele, brandindo o cântaro enquanto a água
salpicava tudo a seu caminho. — Casar com você? Quando arruinou minha reputação? Maldito...!
—Encolerizada, atiçou em um braço com o cântaro. — Como se atreveu a me drogar durante dois
dias? — Logo o atiçou no outro braço. — Quem sabe o que terá feito comigo enquanto dormia!
O general levantou os braços para cobrir a cabeça.
— Não a toquei! Juro!
— Então, onde está minha capa? — espetou ela.
— Tirei só para que pudesse dormir mais comodamente, meu anjo...
— Não volte a me chamar assim! — Deu outro golpe no meio de seus braços cruzados,
enquanto as lágrimas começavam a empapar seu rosto. — Nunca fui seu anjo! — Com o rosto
cheio de lágrimas, voltou a lhe dar outro golpe.
— Jamais serei sua esposa! — As lágrimas seguiam deslizando por suas faces, e Amélia as
secou furiosamente com o dorso da mão. — Como pôde? Não tinha direito!
— Já chega, Amélia. — Lucas se aproximou por trás para segurá-la pela cintura com sua mão
livre. — Já chega; já se desafogou.

118
Enquanto a separava do marquês, ela lançou o cântaro em seu captor.
— Jamais o perdoarei por isso! Jamais!
Lucas apertou mais o braço ao redor de sua cintura, atraindo-a para ele, e relaxou o braço
que empunhava a espada enquanto começava a retroceder em direção à porta.
— Temos que ir.
— Não! Por favor! Esperem! — implorou lorde Pomeroy. Afastou as mãos de seu rosto para
mostrar suas feições avermelhadas e cabelos embaraçados. - Sei que agora está zangada, lady
Amélia, mas se não se casar comigo, jamais poderá voltar a andar entre as pessoas com a cabeça
erguida.
— Não me importa! — gritou ela. — Prefiro viver o resto de minha vida como uma solteirona
desonrada que me casar com você, senhor!
— Lady Amélia não terá que sofrer nenhuma desonra — atravessou Lucas com firmeza. —
Porque se casará comigo.
Por um instante, Amélia sentiu uma forte pressão no peito.
Ele se casaria com ela? Seriamente? Só para protegê-la do escândalo? Esse homem era uma
jóia! Então a realidade lhe atirou um duro golpe de repente. E se não o fazia para protegê-la? E se
pensava que isso o ajudaria a realizar progressos em sua investigação?
Amélia engoliu em seco. Não sabia o motivo; mas podia utilizar essa declaração para
assegurar-se de que lorde Pomeroy não tentaria raptá-la nunca mais.
— Sim — assentiu ela. — Me casarei com Lucas.
— Com um americano? — exclamou lorde Pomeroy escandalizado. — Pense bem no que vai
fazer!
O marquês se dispôs a avançar para eles, mas Lucas o deteve com sua espada.
— Se puser um dedo em cima de lady Amélia, o farei pagar isso muito caro. Mas de todos os
modos, não sairá ileso desta. Penso em levar até os tribunais...
— Não, não fará — interveio Amélia rapidamente, embora as ferozes palavras do Lucas
conseguiram deixá-la arrepiada. Talvez sim ele a queria, apesar de tudo. — Nenhum juiz aceitará a
palavra de um soldado americano contra um nobre inglês a respeito do que aconteceu. Lorde
Pomeroy tem o público ao seu lado. E se finalmente conseguisse que o julgassem, perderia o apoio
de seu governo. E minha família se veria consumida na vergonha. Assim esqueça dessa
possibilidade. E agora será melhor irmos.
— Não pode partir com ele — protestou lorde Pomeroy, lançando a Amélia um olhar de
indignação. — Esse tipo só quer sua fortuna, por acaso não vê?
— Pode ficar com minha fortuna, se isso for o que quer. — Amélia não percebeu que Lucas
ficou tenso de repente. — Antes de me casar com você, casaria com qualquer um, com qualquer
um, ouviu?
Lorde Pomeroy estava visivelmente consternado.
— Me dê uma oportunidade, só uma, para lhe demonstrar que posso fazê-la feliz. Sei que no
fundo me quer.
— Então, por que o convidei a tomar o purgante no dia que estava com a carruagem
estacionada diante de minha casa?
Amélia devia acabar de uma vez por todas com a alienação mental que demonstrava esse
indivíduo. Agir com tato e com evasivas não serviu de nada.

119
— Fui eu quem ordenou que lhe dessem isso, não a senhora Harris. Estava desesperada por
me livrar de você.
Quando o general a olhou confuso, ela sentiu pena por um momento, mas então recordou o
que esse desgraçado acabava de fazer e notou como se reafirmava em sua determinação de abrir
os olhos desse louco.
— Não sou um anjo. De verdade achou que escolheria um marido tão velho como meu pai
em vez de um jovem viril como o comandante? Que desejaria me casar com um homem que teria
que dedicar todos meus cuidados ao longo de sua iminente velhice? Um homem que tem que
tomar ópio para...?
— Já chega! — De repente lorde Pomeroy aparentou ter mais de cinquenta anos. Tentou
manter-se erguido com dignidade, embora seu cabelo desalinhado e seu casaco enrugado lhe
conferiam um aspecto miserável.
— Têm razão... Não é a mulher que pensava. Acreditava que tinha discernimento e um bom
coração, mas vejo que estava enganado.
— Ela é melhor do que você merece — murmurou Lucas entre dentes.
Por sorte, lorde Pomeroy não o ouviu.
— Faça o que a agrade, então, senhorita. Se case com um patife. Não os deterei.
— Não, terá que fazer algo mais que isso. — Lucas brandiu a espada. — Terá que manter a
boca bem fechada sobre toda esta história, entendeu? Quão único sabem é que lady Amélia e eu
fugimos. Meu primo se encarregou de difundir essa mentira por Londres, assim colabore. Se disser
algo diferente...
— Compreendo, senhor — cortou lorde Pomeroy nesse tom pomposo que Amélia tanto
odiava. — Não o contradirei.
— Perfeito. — Mas Lucas não baixou a espada. Em vez disso, soltou Amélia. — Abre a porta,
querida. E se assegure de que o corredor esteja vazio.
Ela se apressou a fazer o que ele pedia, mas quando abriu a porta, se encontrou com uma
pistola que apontava diretamente para seu peito. John havia retornado.
O lacaio lhe fez um gesto para que retrocedesse.
— Temos um problema, Lucas - disse Amélia lentamente.
— Solte a espada e se afaste de meu senhor — mandou John, logo apontou diretamente em
Lucas pelas costas. — A menos que deseje terminar seus dias aqui mesmo.
— Abaixa a pistola, John - ordenou lorde Pomeroy. — O comandante e lady Amélia já
estavam de saída.
John piscou.
— Mas senhor...
— Abaixa a pistola agora mesmo, John!
Quando John fez o que o marquês lhe ordenava, Lucas embainhou a espada.
— Obrigado, general. — precipitou-se para a porta, agarrando Amélia pelo braço para levá-la
com ele. — Uma decisão muito inteligente.
Os lábios de lorde Pomeroy se retorceram em uma careta de asco.
— Boa sorte, comandante. Necessitará, com uma esposa tão feroz como essa.
— Como se eu não soubesse — murmurou Lucas enquanto o casal se apressava a sair ao
corredor.

120
Já no corredor, Amélia escapou de seu braço e o adiantou pelas escadas com porte irado.
— Não se preocupe, senhor — espetou colérica. — Não o obrigarei a ter que suportar minha
presença nem um momento mais do que seja necessário. Assim que chegarmos a Londres...
— Acalme-se, bonita. — Haviam chegado ao patamar do andar inferior, e ele voltou a
deslizar o braço para rodeá-la pela cintura. — Só estava brincando.
— Mas eu não. Sei que só disse isso de se casar comigo para...
— Senhorita! Já está bem! — exclamou uma voz da soleira da porta. Era o hospedeiro, que a
olhava com cara de surpresa.
— Sua estalagem foi o cenário de uma cura milagrosa. — Enquanto Lucas a empurrava para
a porta, ela acrescentou com raiva evidente: — É incrível como pode melhorar a saúde de alguém
quando está com acorda no pescoço.
Uma carruagem apareceu diante da porta. Amélia quase não teve tempo de reconhecer o
brasão da família Kirkwood antes que Lucas a ajudasse a subir.
— A Gretna Green— ordenou ele ao chofer, e logo entrou atrás dela.
Quando a carruagem iniciou a marcha, ela se deixou cair no assento com uma raiva ainda
visível. Tudo o que queria nesse momento era encontrar uma estalagem sem Pomeroy à vista,
desfrutar de uma boa refeição e de um banho quente, e passar alguns minutos sem pensar no
terrível futuro que tinha pela frente.
Mas estava claro que Lucas não lhe permitiria gozar desse privilégio, ainda. Antes teria que
pôr todas as cartas sobre a mesa e esperar que ele reagisse com sentido comum, quando ela o
fizesse.
— Não tem sentido ir a Gretna Green, Lucas. Apesar do que disse a Pomeroy, não penso me
casar contigo.
Lucas lançou o chapéu no assento, e logo a olhou com o cenho franzido.
— Por que não?
— Porque sei a verdadeira razão pela qual quer se casar comigo.
Seu rosto viril ficou sombrio.
— Se acha que sua fortuna me importa o mínimo...
— Não. É por Dolly. — Amélia suspirou lentamente. — Sei por que está na Inglaterra. Por
isso queria falar contigo na casa dos Kirkwood. Está aqui para encontrar Dorothy e Theodore Frier.
Enquanto Lucas a olhava boquiaberto, ela cruzou os braços sobre o peito.
— E com honra ou sem ela, nego-me a deixar que se case comigo só para que possa
completar sua investigação.

Capítulo 17

Querido primo:
Preciso avisar aos pais de Amélia. Ainda não temos notícias dos North. E, para piorar a
situação, esse escândalo que irrompeu sobre a senhorita Linley e lorde Kirkwood. Suponho que não
deveria me surpreender, mas pensava que esse moço tinha mais juízo para ser capaz de fugir de
um modo tão precipitado depois que seu primo saiu em busca de lady Amélia. No que estaria

121
pensando esse menino?
Sua profundamente consternada amiga,
Charlotte

Enquanto Lucas mantinha o olhar fixo na boca desafiante de Amélia e em seu pequeno
queixo altivo e nos olhos resplandecente, pensou que jamais voltaria a reviver o indescritível gozo
e alívio que sentiu ao encontrá-la ilesa. De repente, a raiva se apoderou dele.
Não parou para pensar como descobriu sobre os Frier, nem desde quando sabia. Estava
muito furioso para isso.
— Então, acha que estou aqui por Dolly?
Amélia deve ter percebido o tom ameaçador de sua voz, porque ergueu o queixo ainda mais.
— E não é assim?
Lucas se inclinou para frente para desafiá-la com um olhar extremamente duro.
— Pensa que viajei dois dias, sem descansar a noite, sem dormir, sem comer, imaginando
que a qualquer momento poderia encontrá-la violada, por aquele desgraçado, por sua madrasta?
Porque pensava que isso me ajudaria a avançar em minha investigação?
Amélia piscou.
— Bom... sim. — Sua expressão suavizou. — Não me interprete mal, Lucas. Estou
extremamente agradecida por ter vindo me resgatar. Mas sei que em Londres só pretendia me
cortejar para descobrir mais coisas sobre minha madrasta. Assim não é necessário que continue
com esta farsa até o ponto de se casar comigo, pelo amor de Deus.
Sua declaração conseguiu fazer Lucas reconsiderar. Se ela sabia que o cortejo não era real,
então isso queria dizer que fazia tempo que sabia sobre a investigação. O que significava que ela,
também, esteve fingindo interesse por ele.
— O que é exatamente que acredita saber a respeito dos Frier? E desde quando sabe? —
perguntou ele com uma voz sepulcral. Estava claro que não podiam continuar falando se ele não
confirmasse esses pontos.
Amélia suspirou.
— Desde o momento em que te conheci.
Lucas ficou pensativo, então soltou uma grosseria em voz alta.
— Então na noite do baile entrou em meu quarto.
Claro, agora entendia. Por isso se comportou daquela maneira, para desviar sua atenção e
assim não descobrir que havia metido o nariz em seus papéis. E agora, Dorothy e Theodore Frier
deviam estar provavelmente a caminho da Índia ou Jamaica.
— Vi suas notas sobre todas as Dorothy — continuou ela, — e reconheci o nome que usava
Dolly antes de casar com papai. Alguns dos detalhes pareciam casar perfeitamente com ela, e
parecia que estava investigando-a, por isso decidi descobrir o motivo.
Lucas a olhou fixamente.
— Não disse a ela? Nem tampouco a seu pai?
— Não queria preocupá-los até que tivesse mais informações.
Ele deu um prolongado suspiro.
— Mas o dia do sequestro, descobri por... um amigo da senhora Harris por que procurava
Dolly. Ou melhor, uma mulher como ela.

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— Ah, sim? E o que contou esse amigo?
— Que a Infantaria da Marinha americana o encarregou de capturar um estelionatário
chamado Theodore Frier. E já que está procurando uma mulher que se chama Dorothy Frier, creio
que pensa que estão relacionados.
— Estão casados. — O melhor era contar a verdade... ou a maior parte dela. Definitivamente
não desejava que ela soubesse certos detalhes. — Theodore Frier foi um honrado trabalhador de
uma empresa naval durante cinco anos quando começou a roubar recursos da empresa. Para fazê-
lo, falsificou vários documentos, e ninguém no banco nem na companhia questionou sua
autoridade. Até que um dia Frier desapareceu.
Lucas desviou a vista para a janela e contemplou a desoladora paisagem do norte da
Inglaterra, escassamente iluminada pela tênue luz da alvorada que começava a despontar pelo
horizonte.
Procurou continuar com um tom comedido.
— Mais tarde descobri que Theodore Frier recebeu várias cartas de uma tal Dorothy Frier
meses antes. A última chegou justamente no dia em que ele desapareceu. Pelo que parece, esta
carta o agitou de tal maneira que pegou o dinheiro e fugiu para Rhinebeck. De lá, ele e Dorothy
fugiram ao Canadá. Ela o apresentou a todo mundo como seu marido, Theodore Smith.
— Mas veja, aí é onde se confunde. Minha Dolly é a viúva de Obadiah Smith.
Lucas voltou a olhá-la aos olhos.
— Isso é o que você diz.
— Dolly não é Dorothy Frier, lhe garanto. Ela jamais teria esse tipo de vida que você
descreve, e nunca aceitaria se envolver em uma fraude...
— Não? esteve no Canadá; você mesma admitiu, apesar de tentar encobrir. A data de sua
chegada a Inglaterra também coincide, parece com Dorothy, e chegou aqui com uma fortuna.
— Como sabia sobre a fort...? — Amélia ficou calada alguns instantes. — Não sabia, não é?
Não até que eu admiti.
— Estava praticamente seguro — respondeu ele.
Ela ergueu o queixo.
— Dolly recebeu essa fortuna de seu marido, que era um mercador.
— Em Boston, não é? Pois aposto o que quiser que se perguntar a ela verá como não sabe
nada sobre Boston. E não parece um pouco estranho que seu marido a levasse aos mesmos
lugares que Theodore levou a esposa? Uma mulher que encaixa com a descrição de Dorothy Frier...
— Não me importa o que diga! Não é Dolly! Minha madrasta é a criatura mais tímida que
existe sobre a face da Terra. Que tenha o mesmo nome que a esposa do delinquente que
persegue é só uma infeliz coincidência.
— Então me convença— espetou ele. — Diga a verdade a respeito dela. — De repente, Lucas
acreditou compreender tudo. — Desde o começo esteve contando mentiras para me despistar,
não é verdade?
— Não! Bom... a princípio algumas. Só para ver como reagia. Desse modo poderia averiguar
se ela era a mulher que estava procurando.
— Para que pudesse ir correndo a Devon e avisá-la, ajudá-la a escapar.
— Só se tivesse a certeza de que estava enganado. Por isso queria falar contigo na casa dos
Kirkwood, para esclarecer de uma vez por todas que ela não é a pessoa que busca.

123
Por isso Amélia se mostrou tão zangada durante a recepção com suas amigas, porque
finalmente compreendera que ele era seu inimigo.
E ele que pensava que era pelo que fizeram no xebec. Contrariado, lançou um bufo. Grande
imbecil! Realmente, lady Dalila fazia justiça a seu nome, usando seu pequeno e doce corpo para
enredá-lo dessa maneira enquanto ela tentava descobrir a verdade. Isso significava que os beijos e
as carícias que Amélia lhe dera eram falsos.
Ou talvez estivesse enganado? Amélia não era exatamente uma mentirosa muito experiente.
Não poderia manter seu papel de coquete tola por mais de um dia. E agora que caía em conta,
quando começaram a se acariciar no xebec, ela não mencionou Dolly nenhuma única vez.
O que poderia deduzir de tudo aquilo?
— Então, seus flertes, a forma em que aceitou meus cuidados... era só um pretexto para me
surrupiar informação. É isso que está dizendo?
— Você fez o mesmo. — A voz de Amélia se transformou em um sussurro grave quando ele
cravou os olhos na janela. — Não fiz nada que você não fizesse.
— Ah, mas meus beijos eram sinceros, bonita; cada um deles.
— Mentiroso. — Lançou um olhar feroz e a dor que Lucas viu nesses olhos o fizeram
compreender tudo o que precisava saber. — Todos seus malditos beijos foram fingidos.
— Estou aqui, não é assim? — declarou ele lentamente. — E contra as ideias descabeladas
que tenha metido na cabeça, não é por Dolly. Acredite, se quisesse beneficiar minha investigação,
teria ficado em Londres até que ela e seu pai tivessem aparecido, e finalmente poderia por minhas
mãos em alguém. Mas ao invés disso, saí atrás de você. E sabe por quê?
O lábio inferior de Amélia começou a tremer.
— Porquê?
Lucas soltou um bufo.
— Porque não podia suportar a ideia de que Pomeroy a violasse. Não quando,
principalmente, ele a sequestrou por minha culpa.
— Sua culpa? — Ela mostrou uma careta de desconcerto. — Por que pensa isso?
— Se não tivesse me sentado nas escadas de sua casa para provocá-lo todo dia, talvez ele
não tivesse tomado uma atitude tão drástica.
Um triste sorriso se desenhou nos bonitos lábios de Amélia.
— Eu acho que foi meu purgante que provocou o incidente.
— O que foi isso do purgante?
Quando ela explicou com evidentes sinais de estar envergonhada, ele explodiu em uma forte
gargalhada.
— Assim esse foi o motivo pelo qual ele saiu correndo de sua casa antes da recepção! Então,
aceito, bonita: a culpa é tua.
— Ele merecia!
— Sim, mas me recorde de jamais enfurecê-la. Entre a forma em que agita um cântaro como
se fosse uma clava e o modo que soluciona seus problemas com purgantes, não quero ser seu
inimigo.
Seu comentário fez Amélia recordar que ele poderia ser o inimigo de sua família.
— Então... realmente veio me buscar porque estava preocupado pelo que pudesse
acontecer comigo? — perguntou com os olhos cravados em suas mãos.

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— Não. — Quando ela levantou o rosto de repente e o olhou aos olhos, ele acrescentou
ferozmente: — Vim porque estava terrivelmente preocupado com você. E isso não tem nada a ver
com Dolly ou Theo Frier.
— Olhou-a fixamente. — E garanto que esse par tampouco tem algo a ver com o motivo pelo
qual a levo a Gretna Green. Casar com uma mulher para prosperar em uma investigação vai além
do que se espera que um homem faça por dever, inclusive para mim.
— Então, está agindo deste modo porque se sente culpado e pensa que deveria salvar minha
honra.
Lucas sacudiu a cabeça.
— Faço porque estou apaixonado por você.
Amélia conteve a respiração e abriu muito os olhos.
— Estou desde o dia em que a vi na casa dos Kirkwood. Tentei me convencer de que os
beijos e as carícias eram só uma tática para conseguir meu objetivo, mas quando ficamos sozinhos
no xebec, garanto que minha investigação não era o que monopolizava minha mente, acredite. E
aquele dia da recepção com suas amigas, quando me ameaçou dizendo que jamais voltaria a me
beijar outra vez, senti uma imensa vontade de te arrastar de volta até o escritório, te deitar no
chão e fazer amor sem parar até que admitisse que você também estava apaixonada por mim.
Lucas se inclinou para frente para pegar suas mãos.
— Que Deus me ajude se me engano, Amélia, mas estou seguro de que você também me
quer. O nosso não foi só um amontoado de mentiras, não é verdade?
— Não — suspirou ela.
— E se um homem como eu se deita com uma dama inglesa de nobre linhagem sem casar
com ela, provocará um escândalo terrível. Por todos os demônios, inclusive seriam capazes de me
enforcar. — Lhe deu um sorriso zombador. — Assim... não resta outra opção, não é?
— Como de costume— apontou ela com um tom irado, — não se inteira das normas pelas
quais se rege a sociedade inglesa. Agora que fiquei desonrada, ninguém se importará se deita com
uma dama inglesa de nobre linhagem.
Todos pensarão que estarei mais que encantada de me converter em sua amante.
— Não quero uma amante. — Quando ela tentou retirar as mãos, ele as reteve com mais
força. — Case comigo, Amélia.
— E o que acontecerá quando tentar levar minha madrasta de volta a América?
— Pensei que havia dito que era inocente.
— E é!
Lucas deu um encolher de ombros.
— Então não vejo onde está o problema. Me apresentará, esclareceremos toda esta questão,
e encerraremos o assunto. — Soltou as mãos de Amélia só para obrigá-la a sentar em seu regaço.
Quando ela o olhou com olhos surpresos, Lucas voltou a repetir-:Case comigo, Amélia.
— Não precisa...
Ele a interrompeu com um beijo, um longo beijo ardente, com a finalidade de desmoronar
todas suas objeções. Só quando a sentiu tremendo entre seus braços, afastou os lábios para
murmurar:
— Case comigo, bonita.
Quando Amélia o olhou indecisa durante um momento que pareceu interminável, ele se deu

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conta, com o coração em um punho, do importante que era sua resposta. Em parte porque
continuava sentindo-se responsável pelo sequestro. Obviamente, o general estava apaixonado por
ela. Se não tivesse se sentido ameaçado por Lucas, pela necessidade de salvá-la do Lucas, Pomeroy
provavelmente teria se limitado a seguir insistindo tanto quanto fosse necessário até convencê-la.
Mas o sentimento de culpa não era o único que motivou a proposta do Lucas. A verdade era
que nenhuma mulher nunca conseguiu atraí-lo de um modo tão irrefreável como ela o fez nesses
escassos dias. Jamais se sentiu tão cômodo conversando com uma mulher, ao lado de uma mulher.
E só Deus sabia que não mentia quando dizia que a desejava.
No momento em que Amélia se desse conta de que ele tinha razão a respeito de sua
madrasta, no momento em que ela descobrisse toda a verdade sobre o desfalque,
inevitavelmente haveria problemas, mas lutaria com essa questão mais tarde. Agora só desejava
convencê-la para que se convertesse em sua esposa.
— Me dê uma boa razão para me casar contigo — disse ela finalmente.
Pelo amor de Deus, Lucas já dera um punhado de razões. E se ela esperava uma declaração
de amor, ficaria esperando até o dia do juízo final. Não pensava entregar a chave para controlá-lo.
Mas ele sabia o que mais poderia oferecer para convencê-la.
— Porque posso te dar mais aventuras que nenhum outro homem que chegue a conhecer,
bonita.
Lucas soube que a convencera quando viu o brilho de excitação que apareceu subitamente
em seus olhos.
— Como sabe que ainda desejo aventuras? — perguntou ela contendo o fôlego. — Depois
da última, poderia ter decidido que não quero mais.
Ele começou a rir.
— Você? Renegar aventuras? Jamais. Esforça-se por uma boa aventura como um pirata da
Barbária se esforça por um tesouro.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Acha que me conhece muito bem, não é assim?
Lucas deslizou a mão pelo pescoço de Amélia e acariciou a nuca com o polegar enquanto se
inclinava para roçar os lábios com sua boca, brincando com eles, mas sem chegar a beijá-los.
Quando ele notou o pulso acelerado dela e pôde sentir a respiração entrecortada que emergia de
sua boca, murmurou:
— Sei como te excitar, e isso é suficiente. — Continuou brincando com seus lábios. — Assim,
o que decide, bonita? Aceitar a oportunidade de se casar comigo e descobrir um mundo de
aventuras? Ou ser uma covarde e viver uma vida aborrecida, como uma pobre solteirona trancada
em Torquay?
— Existe outra alternativa, sabia? — Amélia murmurou sobre os lábios de Lucas. — Poderia
me converter na amante de um explorador e...
Lucas apagou o absurdo com um beijo tão feroz quanto o ciúme que ela lhe provocou
deliberadamente. Deixou claro que a terceira alternativa não existia. Mas se por acaso ela não o
tivesse entendido, afastou os lábios dela para bramar:
— Casaremos. Ficou sem alternativas.
Amélia lhe deu um sorriso de auto satisfação que faria inclusive que a própria Dalila se
envergonhasse.

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— De acordo. Mas primeiro quero um banho quente, comer e dormir uma noite inteira.
— Terá depois do casamento.
Ela o olhou com receio.
— Se pensa que aguentarei outro dia sem...
— Outra hora, mais ou menos. Por que acha que Pomeroy estava tão furioso? Só faltava um
par de horas para chegar a Gretna Green.
Amélia o olhou boquiaberta.
— E não lhe darei a oportunidade de mudar de opinião e que venham atrás de você, então,
primeiro casaremos. Depois teremos tempo suficiente para tomar o café da manhã e tomarmos
banho e deitarmos.
A expressão de Amélia se suavizou quando se inclinou para acariciar a face do Lucas, com os
olhos cheios de lágrimas.
— Obrigada por vir me resgatar. Seja pelo motivo que for.
— Foi um prazer, bonita. — Lucas apertou os lábios sobre sua mão para beijá-la.
Mas quando ato seguido beijou o pulso e o braço, e continuou subindo por seu pescoço, ela
se levantou de seu regaço rindo e se acomodou no assento da frente.
— Não até que estejamos casados, senhor. E, definitivamente, não até que tenha me
banhado e comido. E possa tirar este maldito espartilho.
Lucas cravou a vista em seu generoso decote. Pela primeira vez notou o provocante vestido.
— É isso que usava quando Pomeroy a sequestrou?
Embora parecesse estranho, Amélia ruborizou.
— Usava uma capa por cima quando entrei na carruagem, mas sim, ia a casa dos Kirkwood
com este traje, por quê?
— Porque se tivesse aparecido no jantar vestida assim, bonita, não poderia manter uma
conversa contigo sem tentar forçá-la.
— Eu sei. — Amélia esboçou um sorriso sedutor. — Precisamente por isso o usava, queria
deixá-lo quente, muito quente.
Lucas não se surpreendeu com a confissão.
— Mil raios e mil centelhas, Dalila, acabará comigo.
Amélia lhe lançou um sorriso sedutor, jogou o cabelo solto para trás e mostrou um melhor
plano de seu generoso decote. E ele ficou quente. E continuou nesse estado durante o resto do
trajeto, até que chegaram a Gretna Green.

Capítulo 18

Querida Charlotte:
Duvido que a epidemia de fugas danifique a reputação da escola. Não acredito que alguém
proteste pelo casamento do Kirkwood; é um rapaz de bom berço. Mas o outro casal sim, pode dar
o que falar, isso se o comandante conseguir alcançar lady Amélia antes que o marquês se case com
ela.
Seu preocupado primo,

127
Michael

"Casaram-se em uma capela situada ao lado de uma estalagem em Gretna Green. A


cerimônia foi oficiada por um dos famosos ferreiros da localidade que serviam como padres,
conhecidos como os padres da bigorna.
Amélia tentou não pensar em seu ultrajoso aspecto, dentro do vestido de festa amarrotado
e em um espartilho tão justo que seus seios praticamente saíam pelo decote. Teve que pedir
emprestado alguns grampos para recolher o cabelo, já que havia perdido os seus durante as horas
que passou adormecida e drogada.
Mas o padre não pareceu se importar com seu aspecto - sem dúvida, vira infinidade de
noivas com um aspecto parecido por causa do longo trajeto para chegar até ali.
— E celebrou o casamento como se tratasse de um acontecimento do mais normal e
corrente. O que era verdade, infelizmente.
Com sua desmedida sede de aventura, a Amélia pareceu que todo o processo estava mais
organizado do que esperava. Primeiro tiveram que declarar sua intenção de casar, - Amélia
estremeceu ao pensar no modo que lorde Pomeroy teria tentado conseguir.
— Logo pronunciaram seus votos. Ela duvidou depois que o padre disse:
"Aceita este homem como marido, para viverem juntos no sagrado matrimônio? O
obedecerá, servirá, amará, honrará, e permanecerá junto a ele na enfermidade e a saúde, e
renunciando a todos outros, ser-lhe-á fiel até que a morte os separe?"
Estava louca ao casar com um homem que mal conhecia?
Então Lucas disse: "Amor?", naquele tom rouco e sensual que lhe arrepiava todo o pelo do
corpo, e Amélia não duvidou nem um momento mais.
— Sim — respondeu ela com firmeza.
Não houve longos sermões nem tomaram a Comunhão; nada que se assemelhasse ao usual
serviço nupcial da igreja anglicana. O certo era que quase não parecia com um casamento de
verdade. Até que o padre pediu que tirassem o anel, e Lucas colocou um de seus anéis na mão
esquerda de Amélia. O aro era muito grande para o dedo anelar de Amélia, então, o colocou no
dedo do meio.
O peso do anel agiu como um potente aviso de seu novo estado.
Nunca mais se questionaria como seria seu futuro, perguntando-se que país visitaria
primeiro e se chegaria ali em um navio de passageiros e mercadorias, ou em um navio rápido, ou
inclusive em um camelo. Seu futuro dependia agora inevitavelmente do homem que estava de pé
a seu lado, e quase não sabia nada dele, que Deus a ajudasse.
Mas Lucas foi salvá-la quando ninguém teria esperado, quando o fato de resgatá-la afetava
diretamente seus planos. Então certamente devia sentir algo por ela. Não amor, posto que ele não
havia mencionado essa possibilidade, mas um pouco de afeto, talvez? E, certamente, um
muitíssimo de... desejo. Isso era muito mais do que algumas mulheres obtinham de seus maridos.
É obvio, nenhuma delas precisava se preocupar se por acaso seu marido albergava a intenção de
colocar sua madrasta na prisão. Mas Lucas estava mais do que certo quando previamente disse: se
Dorothy for Dolly Frier e tiver participado do desfalque, merece ser capturada.
Se não for, então Amélia não tinha nada a temer.
Além disso, com Dolly ou sem Dolly, não podia pensar em nenhum outro homem com quem

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queria casar. Esse pensamento a ajudou a suportar o resto da cerimônia com mais serenidade.
Depois do casamento, o padre da bigorna se mostrou de um magnífico humor, e os apresentou a
várias pessoas na estalagem mais próxima enquanto ela e Lucas saboreavam um suntuoso café da
manhã.
Pelo visto, embora as cerimônias de casais que fugiram eram bastante comuns, o casamento
entre um soldado americano e a filha de um conde não eram nada frequentes.
O ar festivo que professavam os hóspedes era contagioso, assim apesar de Amélia se sentir
exausta, dedicou-se a contar várias histórias sobre Londres. Inclusive falou de Venetia, sua amiga
escocesa, e para sua surpresa, responderam que ouviram falar de lorde Duncannon e de seu
misterioso atormentador, o Açoite Escocês. Que pena que não pudessem contar nada sobre por
que o patife odiava o lorde.
Depois do café da manhã, Lucas alugou um quarto naquela mesma estalagem para passar a
noite.
— Partiremos para Londres amanhã — disse a Amélia. — Nós dois precisamos descansar.
Descansar? Sim! Os dois sabiam que ele não estava pensando precisamente em descansar.
Entretanto, quando subiram ao quarto, Lucas observou seus movimentos cansados e a
aconselhou que fosse dormir. Amélia insistiu em antes escrever a Dolly e ao pai para explicar o
que aconteceu, mas quando terminou a carta, não restava energia nem para tomar um banho.
Tentou manter-se firme de pé, enquanto Lucas começava a despi-la.
Amélia mal podia manter os olhos abertos enquanto ele a despojava de tudo menos da
blusa e anáguas.
— Talvez seja melhor que durma um pouco — balbuciou ela, enquanto ele a ajudava a deitar
na cama e a cobria com a eficiência impessoal de um criado. Amélia adormeceu antes que ele
apoiasse sua cabeça no travesseiro.
Horas mais tarde, Amélia despertou com o resplendor do sol da última hora da tarde que
penetrava através da janela. Dormira tão profundamente que precisou de um tempo para
recordar onde estava. Mas o casaco masculino pendurado em uma cadeira próxima e as botas
alinhadas com seus sapatos de festa ao lado da porta foram suficientes para recordar que já não
era lady Amélia. Agora era a senhora Lucas Winter.
Mas onde estava Lucas? virou-se para a lareira e viu seu novo marido meio deitado dentro
de uma enorme banheira de metal que antes não estava ali. Tinha os olhos fechados, e respirava
com calma, mas a água ainda desprendia vapor, por isso não devia fazer muito tempo que havia
adormecido.
Perfeito. Agora teria a oportunidade de averiguar se lorde Pomeroy lhe fez algo enquanto
estava sob os efeitos das drogas. Duvidava. Talvez tivesse acariciado-a, mas seu espartilho
permanecia intacto, ainda terrivelmente apertado, quando Lucas o tirou. Pomeroy teria que ter
afrouxado para poder manusear seus seios, e teria custado um enorme esforço voltar a deixá-lo
intacto.
Amélia engoliu em seco. Mas o problema não era se o marquês manuseou seus seios. Suas
anáguas tão finas teriam permitido a ele colocar... o que ele quisesse dentro. Drogada ou não, não
recordaria se tivesse feito isso? Não se sentiria diferente, dolorida ou com uma ligeira ardência ou
algo parecido? Só havia uma forma de estar segura. Levantou a blusa com cuidado como se não
quisesse despertar Lucas e examinou suas anáguas com supremo detalhe.

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Então suspirou aliviada e relaxou os ombros. Não havia nem rastro de sangue. Não era
possível que esse homem a tivesse desvirginado sem que sujasse suas anáguas, assim ainda era
casta. Não teria feito a menor graça deitar-se com seu novo marido sem ser virgem, mesmo que
não fosse por sua culpa. Esse tipo de coisa parecia incomodar os homens.
Então, escutou um estranho som; um tipo de chapinho rítmico. Lucas despertou? Amélia se
sentou na cama e o observou. Não, ainda continuava com os olhos fechados. Mas sua respiração
parecia ter mudado, e esse som... Deslizou da cama e se aproximou dele com sigilo até que pôde
ver que era seu braço o que se movia. Ritmicamente. Produzindo o chapinho rítmico que ela
estava ouvindo. Mas se não estava dormindo! Que patife! Em vez disso, estava... acariciando-se...
em suas partes mais íntimas.
Apesar do rubor que se apoderou de suas faces, Amélia se aproximou mais dele. Não tinha
vontade de perder o espetáculo. Infelizmente, não podia ver o que ocorria sob a superfície da
água coberta pela espuma do sabão. Mas se dedicou a observar a parte do corpo que se
sobressaía da água: ombros fortes, capazes de satisfazer a mulher mais exigente... braços
musculosos, um deles deliciosamente flexionado com cada golpe... e um peito divinamente
esculpido, coberto com pelo negro.
Mas Amélia se incomodou de não poder ver o resto desse maravilhoso corpo, assim pensou
que teria que remediar à situação.
— Desfrutando do banho, marido? — brincou ela.
Lucas se sobressaltou tão violentamente como um lacaio que tivesse sido pego dormindo.
— Pelo amor de Deus, Amélia! — Para surpresa dela, Lucas inclusive ruborizou quando
desviou rapidamente a vista para baixo para confirmar se sua "espada" estava adequadamente
oculta.
— Não volte a se aproximar tão silenciosamente de um homem.
— Estava decidido a iniciar a noite de núpcias sem mim, não é?
— O que faz acordada? — resmungou ele. — Supunha que dormiria durante um bom tempo.
Se não, não teria decidido tomar um banho. Pensei que seria melhor usar a água antes que
esfriasse.
Ela explodiu em uma sonora gargalhada.
— Sim, já vejo que estava fazendo um bom uso da água da banheira.
Finalmente ele se deu conta do que ela vira. Pigarreou inquieto.
— Só queria... acalmar minha sede. Para te facilitar as coisas mais tarde.
— Pois não se preocupe; não penso te interromper — respondeu ela com um tom divertido.
— Mas se levante um pouco. Quero te ver.
Ele piscou.
— Que o que?
— Ver como maneja sua "espada". Por que não? Agora estamos casados.
Lucas desviou o olhar para um lado e passou os dedos pelo cabelo molhado.
— É verdade. Tem razão — balbuciou para si mesmo, como se estivesse pensando em algum
plano. — Talvez não seja uma má ideia.
— Pode repetir, Lucas? É que não te ouvi.
Ele depositou novamente o olhar sobre ela. Enquanto a contemplava com a roupa interior,
seus olhos se escureceram até adotar um ar felino. Então seus lábios se curvaram em uma careta

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sensual que conseguiu que Amélia estremecesse.
— De acordo, pode olhar. — ergueu-se um pouco mais, e depositou os braços a ambos os
lados da banheira. — Mas minha espada necessitará que a anime um pouco, depois do susto que
me deu.
— Que tipo de animação? — Amélia murmurou.
Olhando-a com olhos mais ardentes que o fogo que chispava na lareira atrás dele, Lucas lhe
ordenou com uma voz gutural:
— Desabotoe a blusa.
— Ah, esse tipo de animação. — De repente pareceu que sentia dificuldade para respirar.
Isso sim era uma aventura. Ela fez o que ele mandou; desabotoou a blusa com calma, saboreando
o momento.
Quando havia desabotoado tudo, ele pediu em um tom rouco:
— Tire isso.
Amélia não necessitou que a incentivasse com nenhuma palavra mais. Sentindo-se
terrivelmente pecaminosa, tirou a blusa para deixar seus seios expostos. Mas o olhar faminto do
Lucas só conseguiu que ela quisesse mais dele.
— Disse que poderia te olhar - ela recordou.
Lucas se levantou abruptamente da água, e ela conteve a respiração. A próxima vez que
visse Venetia, poderia responder à pergunta da amiga sobre se o comandante tinha uma espada
digna de venerar. OH, sim, definitivamente sim.
Seu membro se sobressaía altivamente entre o matagal de pelo negro, tão gloriosamente
ereto como uma espada erguida no meio de uma batalha. Amélia ficou olhando com uma
curiosidade insaciável, maravilhando-se do comprida e grossa que era, e de como aumentava e
ficava mais grossa e mais intimidadora sob seu ávido olhar. E quando ele a segurou e começou a
manipulá-la com tanta facilidade como se estivesse brandindo sua verdadeira espada, ela
acrescentou o adjetivo "vigorosa" a suas qualidades.
— Muito bem, Dalila — murmurou ele, com a respiração cada vez mais acelerada. — Sua vez.
As anáguas. Tire... as anáguas.
Lançando o que esperava ser um sorriso provocador, Amélia começou a desabotoar as
anáguas com uma espantosa calma.
— Mais rápido, bonita — a apressou ele, com o tom de um comando dado por um oficial.
— Muito bem, meu comandante. O que você mandar, meu comandante. Agora mesmo, meu
comandante. - Deixou-as cair ao chão.
O repentino silêncio de Lucas poderia alarmá-la se não tivesse coincidido com os
movimentos mais rápidos e agitados de sua mão sobre sua "espada".
— Mmmm... — murmurou ele com a voz rouca, devorando-a com o olhar, admirando-a. —
Você sim que é uma deliciosa peça de ourivesaria.
De repente, Amélia sentiu uma grande vergonha, e soltou uma gargalhada nervosa.
— Se se atreve a dizer isso depois de vários dias que não me banho e tenho o cabelo tão
emaranhado que nem sequer eu o reconheço, então estou segura de que será um marido perfeito.
Sua mão deixou de se mover.
— Um marido realmente desconsiderado, por querer acelerar os acontecimentos. Deveria
vir se banhar, agora que a água está ainda quente.

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— Há espaço para os dois, não? Por que não nos banhamos juntos?
Uma expressão de alarme atravessou fugazmente o rosto de Lucas antes de assentir com a
cabeça.
— O que achar mais cômodo para você...
Ficou alguns segundos quieto, e logo se sentou de novo na banheira. Lucas estava agindo de
um modo bastante estranho para um homem em sua noite de núpcias. Mas claro, ela não tinha
nem ideia de como agiam os homens nessas circunstâncias. Talvez ficassem tão nervosos quanto
as mulheres.
Amélia entrou na banheira, virada para ele.
— Vire-se e se sente entre minhas pernas - pediu Lucas.
Ela obedeceu. A água ainda estava agradavelmente quente, e com os dois dentro da
banheira, o nível subiu quase até alcançar a borda.
Amélia deu um suspiro de prazer e inundou a cabeça; o movimento fez que a água
derramasse pela borda. Voltou a emergir e se apoiou no peito felpudo dele. O pênis ereto cravava
nas costas de Amélia, mas Lucas se limitou a pegar a barra de sabão e começou a lavar o cabelo
dela, massageando lentamente o couro cabeludo com as pontas dos dedos.
Quando soltou o sabão, ela pegou a barra e começou a ensaboar os ombros e as axilas.
Depois de lavar o cabelo, ele voltou a pegar a barra de sabão.
— Deixe que eu continue — murmurou com a boca junto a seu pescoço.
Ela aceitou. E foi maravilhoso, simplesmente maravilhoso.
Lucas começou por seus seios, ensaboando-os bem. Com os longos dedos fez maravilhas
com seus mamilos, que rapidamente ficaram duros como uma pedra. Beijou-lhe o cabelo, a orelha,
o ombro. Logo suas mãos estavam por toda parte, ensaboando as costas e logo a barriga.
Começou a passar a barra de sabão pelas pernas enquanto que com sua boca aberta percorria o
pescoço, beijando-a, chupando-a... lhe esquentando o sangue até que Amélia sentiu-se mais
quente que a água da banheira.
Acariciou as panturrilhas com ambas as mãos, subiu até os joelhos, as coxas... Lucas lançou
um suspiro profundo quando Amélia começou a acariciar a parte interior de suas coxas.
— Me toque, por favor, Dalila — murmurou, beijando-a com ferocidade no pescoço.
Os dedos cheios de sabão do Lucas se deslizaram entre as pernas de Amélia para acariciá-la,
primeiro com ternura, depois com irreverência. Ela respondeu acariciando suas coxas, encantada
ao sentir como seu pênis ficava ainda mais duro em contato com suas costas. Como represália,
Lucas introduziu um dedo dentro dela, acariciando-a com tanta efusão que Amélia começou a
ofegar.
Então ele se deteve abruptamente. Colocou ambas as mãos na borda da banheira, levantou-
se e saiu.
— Venha, vamos para a cama; ficaremos mais cômodos.
Ela riu enquanto se enxaguava para tirar o sabão.
— Pois aqui já parecia bom.
Lucas não se atreveu a olhá-la enquanto se secava com a toalha.
— Para você, será mais cômodo na cama.
— Seriamente? encontrou uma solução milagrosa para eliminar a dor durante o processo de
defloramento?

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Quando Lucas lhe lançou um olhar incômodo, ela se deu conta de que havia algo mais, em
seu estranho comportamento. E estava bastante segura de que sabia o motivo.
Amélia sentiu sua garganta seca e tensa.
— Pensa que Pomeroy me desvirginou, não é? Isso é o que o preocupa.
— Não... sim... bom, não sabemos realmente o que te fez, não é? — Afastando rapidamente
o olhar dela, Lucas envolveu a cintura com a toalha. — Pôde ter feito algo enquanto dormia.
Ela negou efusivamente com a cabeça.
— Recordaria.
Ele se apoiou na banheira.
— Pelo amor de Deus, Amélia, se nem sequer lembrava que ficou ausente dois dias.
— Não foi minha culpa! — protestou ela.
Ele se virou rapidamente e a olhou com cara de estupefação.
— É obvio que não foi sua culpa. Nada disto foi por sua culpa. Não tem nada a ver com isso!
Com o coração compungido, ela ficou de pé e saiu da banheira, então pegou uma toalha
com a qual cobriu todo o corpo.
— Tem muito a ver, se realmente se sente defraudado porque talvez não seja casta...
— Defraudado? — Lucas a olhou boquiaberto, e logo soltou um bufo. — Por Deus, mas que
imbecil que sou. Esse não é o motivo de... — aproximou-se dela e a rodeou com seus braços. —
Não me preocupa se é casta ou não. — Beijou-a na têmpora, na sobrancelha, no cabelo. — Só não
quero machucá-la.
Amélia se sentiu invadida por uma sensação de alívio.
— Mas isso é inevitável, se for casta. E se não sou...
— Se não for, não quero agravar mais. — Capturou a cabeça entre suas mãos e a olhou de
um modo tão tenro que Amélia sentiu uma forte pontada de dor no peito. — Esse homem
poderia... tê-la machucado por dentro, e eu poderia agravar se... — Suas feições mostraram puro
remorso. — Não posso suportar a ideia de que a drogou, de pensar que talvez te fez mal. Deveria
ter evitado. Jamais deveria ter passado por uma experiência tão atroz.
— Não me fez mal, Lucas. — Ela estampou um beijo sobre seus lábios. — Acho que saberia,
se tivesse feito. — desfez-se de seu abraço e se inclinou para recolher as anáguas. — Não há
sangue, vê?
— Algumas mulheres não sangram quando são desfloradas.
— Como sabe? Dedica-se a desflorar virgens frequentemente?
— Não! — Lucas reagiu com irritação ante o insulto. — Li em um livro.
— Um livro? — Amélia se sentiu melhor por um momento. Muito melhor. Inclusive sentiu
vontade de rir. Jogou a toalha que cobria seu corpo no chão e se aproximou, mostrando um
sorriso zombador. — Livros para descobrir coisas sobre as mulheres? Que curioso.
Lucas a comia com os olhos, e a toalha que ele atou ao redor da cintura não pôde ocultar o
vulto emergente.
— Era... uma revista médica...
— Sim! Desculpas — seguiu brincando ela enquanto ficava diante dele. Então segurou a
toalha que cobria as partes íntimas do Lucas e a jogou ao chão.
— Pois eu acho que se tratava de alguma dessas ridículas coleções de contos que algum
inglês decidiu reunir para excitar a...

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Lucas a obrigou a ficar quieta beijando-a com ferocidade na boca enquanto que com seus
braços a rodeava pela cintura e a atraía para ele com uma força desmedida. Amélia o rodeou pelo
pescoço com suas mãos e se entregou a ele com um delicioso abandono, enquanto ele se deliciava
com sua boca. Parecia ter passado muito tempo desde a última vez que se beijaram, não só umas
poucas horas, e desta vez ela desejava obter tudo o que fosse possível.
Lucas deu a entender que essa era também sua intenção, quando investiu com a língua até o
mais profundo de sua boca. Procuraria ser o mais paciente que pudesse com ela, mesmo que isso
o matasse de impaciência. Ainda se sentia inseguro sobre as liberdades que deveria tomar, sobre
até que ponto poderia pressioná-la, mas vendo a resposta tão entusiasta ante seu beijo,
possivelmente não teria que ir com tanto cuidado como temia.
Beijou-a nos lábios, nas pálpebras, no cabelo... o sedoso arbusto de cabelo que ele achava
tão delicioso.
— Me leve para cama. — Amélia murmurou contra sua face. — Por favor, esperei muito
tempo para descobrir o que se sente ao se deitar com um homem.
— Farei o que minha dama deseja — proclamou ele enquanto a levantava nos braços e a
levava até a cama.
Deixou-a sobre o leito, logo ficou alguns instantes imóvel só para deleitar-se com a visão
desse corpo divino. Contemplou o sorriso de gata em seus lábios, o pescoço de cisne com a pele
tão delicada que ele sonhava devorando, os seios docemente eretos que o fizeram perder o
sentido no xebec.
Saltou sobre a cama, e lhe afastou as pernas para ajoelhar-se entre elas enquanto
contemplava o liso ventre e a pele fina de suas coxas. E o que havia no meio delas, aberta,
esperando. Esperando por ele. Por um instante o terror se apoderou dele. Que responsabilidade
mais terrível... fazer justamente depois do que Pomeroy poderia ter lhe feito, e além disso,
tentando suavizar a passagem de Amélia de virgem a mulher.
Se não agisse com delicadeza...
— Lucas? — apressou-o ela com uma voz gutural que fez que suas pernas tremessem como
um pudim.
E o desejo foi mais forte que o terror. Lucas deslizou até os pés da cama, inclinou a cabeça
até onde estavam os atraentes cachos castanhos de sua púbis, ainda úmidos pelo banho, que
ocultavam o segundo par de lábios grossos que tanta vontade sentia de provar.
— O que está fazendo? — gritou ela, tentando juntar as pernas.
Lucas sorriu.
— Te oferecendo uma aventura, bonita. - Então afundou a boca em sua cálida púbis.
Amélia cheirava a sabão e a almíscar, uma essência capaz de deixar qualquer homem louco.
Lucas teve que fazer um esforço enorme para não afundar seu pênis dentro dela sem compaixão.
Mas não podia fazer. Não o faria. Depois do que Amélia teve que suportar, merecia um
tratamento melhor. E ele deu. Lambeu-a delicadamente, usando os dentes e os lábios para excitá-
la, maravilhando-se de como ela se retorcia e ofegava, como encurvava as costas com cada
arremesso de sua língua.
O aroma que emanava dela o excitou até um ponto doloroso, mas se conteve e continuou.
Só quando Lucas sentiu os espasmos de seu clímax na boca e a ouviu gritar seu nome, só
então ficou de joelhos e tirou vantagem de seu claro estado de alienação para afundar seu pesado

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membro lentamente dentro dela.
Amélia abriu os olhos como um par de laranjas.
— OH... você é tão...
De repente, Lucas topou com a barreira de sua inocência e se deteve.
— O que foi? — murmurou ela.
— Pelo que vejo, querida, tinha razão. Ainda é virgem. — Uma agradável sensação de alívio
o embriagou. Pomeroy não fez mal a ela.
E era casta. Sabia que isso não deveria importar; não que Amélia tivesse feito algo errado
para incitar aquele desgraçado a enchê-la com seus cuidados, mas Lucas teve que admitir que sim,
que importava um pouco. Não pôde evitar uma satisfatória sensação possessiva quando se deu
conta de que ele era o primeiro homem para ela, o único.
— Mas não será virgem por muito tempo. — Sem dar tempo para pensar ou preocupar-se,
Lucas abriu caminho dentro dela.
Amélia deu um grito de dor, e ele se sobressaltou, desejando que não tivesse que ser desse
modo, desejando que a sensação de estar dentro dela não fosse tão malditamente prazerosa.
Retirou-se um pouco, e o gemido de Amélia foi abafado com um arfar.
— Diga se a machucar muito e pararei — murmurou ele com a voz completamente rouca,
rezando para que fosse capaz de se deter.
— Nem sonhe. — Agarrou-o pelos ombros com o fim de evitar que Lucas se separasse dela. -
Dói, sim, mas quero descobrir o resto. Até o mínimo detalhe.
Lucas esquadrinhou seus olhos e viu que era sincera.
— Meu Deus, obrigado.
Mas quando continuou retirando-se, ela franziu o cenho.
— Disse que não pare — lhe recriminou, quase petulantemente.
— Mas é que é assim como funciona, bonita. Fora e dentro. Como o movimento da mão,
lembra?
— Ah, já entendo. Que tola que sou.
Lucas voltou a introduzir seu membro dentro dela, e gemeu de prazer.
— Uma tola encantadora, tentadora. Por Deus, é tão bom... dentro de você...
— Ah, sim? — inquiriu ela, com um sorriso de prazer. — Conte-me o que sente. O livro sobre
o harém não fornecia muitos detalhes.
Sem poder se conter, ele deu uma abrupta gargalhada.
— Claro, muito próprio de você... aprender a arte de fazer amor de um... livro. — Lucas
apoiou uma mão na cama para afastar o torso dela e com a outra acariciou seu seio, desejando ter
tido tempo para lambê-lo antes, também.
Um olhar inquieto apareceu no rosto de Amélia, que agora estava visivelmente sufocada.
— Lucas, o livro... bom... não ia além de certo limite. Não... não sei realmente o que preciso
fazer... o que deveria fazer.
Inclinando-se para beijar seu pescoço, sua garganta, sua face, Lucas incrementou suas
investidas.
— Faz o que gostar, bonita. O que te der mais prazer. O que a excitar.
— Ah. Como... como isto? — Amélia se moveu ritmicamente debaixo dele.
— Por Deus, sim — repôs ele com uma voz gutural; seu membro estava ficando mais duro a

135
cada momento. — Continua se movendo... assim...
— E talvez... — Com essa deliciosa boquinha, chupou e brincou com seu mamilo, e Lucas
ofegou. — Assim? — perguntou, com um sorriso tão sensual que ele quase se derreteu de prazer.
— Sim, minha querida Dalila... OH, sim...
Depois disso, nenhum dos dois foi capaz de articular nenhuma palavra mais. Lucas estava
lutando com todas suas forças para atrasar seu orgasmo, para esperar que ela pudesse alcançá-lo.
Mas cada minuto que passava era mais difícil aguentar, enquanto lhe esfregava os ombros,
brincava com seus mamilos, arqueava a pélvis contra ele até que ele se sentiu como se estivesse
penetrando-a até o mais profundo de seu ser. Com cada investida, ele tentava furar a parte dela
que era inglesa e rica e nobre, a parte que tanto desejava conquistar... a parte que temia que
jamais poderia possuir, por muito que se esforçasse...
— Agora me pertence, Dalila — exclamou, determinado a conseguir. Investiu sem parar,
sentindo como se aproximava o momento do orgasmo. — É minha esposa... para sempre...
— Meu marido — gritou ela, olhando-o aos olhos com toda a ferocidade de uma tigresa
reclamando seu macho. — Para sempre.
Sentindo-se muito perto do limite, Lucas deslocou a mão até sua púbis e acariciou o
pequeno ponto de prazer úmido, até que o corpo de Amélia ficou tão extremamente rígido e ela
cravou os dedos em seus ombros com uma força tão intensa como se também estivesse a ponto
de alcançar o orgasmo. Só então ele correu para dentro dela. E nesse breve e glorioso momento,
enquanto corria dentro dela, Lucas acreditou que Amélia poderia ser sua para sempre. Que os dois
poderiam conseguir que seu matrimônio perdurasse. Que a terrível solidão dos três últimos anos
poderia ter finalmente chegado ao fim.
Desabou-se sobre ela, sentindo como o coração ameaçava sair do peito pelo enorme poder
de sua satisfação. O poder de sua imensa alegria. Depois de um momento, ele se afastou a um
lado e ficou deitado olhando o teto, saboreando os pensamentos de seu perfeito futuro como
marido e mulher, deixando-se seduzir pela esperança.
Ambos precisavam um pouco de tempo para recuperar o fôlego, um pouco de tempo para
acalmar seus pulsos acelerados, enquanto o sol se ocultava atrás das cortinas do quarto, e o som
dos hóspedes que desciam em turba para jantar se filtrava pela fresta da porta.
Amélia o abraçou.
— Sim que era importante, não é?
A voz insegura de Amélia o fez titubear.
— O que?
— Que eu fosse virgem. Vi sua cara. Era importante.
Lucas se virou para ela e a envolveu com seus braços.
— O que importa a um homem não é tanto que sua esposa seja casta, mas que seja ele
quem a ensine tudo sobre o prazer. Não mentirei. Todo homem deseja isso. Mas eu o teria aceito
igualmente — se esforçou para sorrir. — Porque uma mulher que não pode recordar seu
defloramento é, sob toda intenção e propósito, tão casta como uma freira.
Amélia mostrou uma careta de incredulidade.
— E você, senhor? Era casto?
Ele piscou. Não era a pergunta que esperava.
— Sinto muito, querida, mas não.

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— Isso não é justo — assinalou ela.
— É verdade, mas assim funcionam as coisas neste mundo. E o mundo é bastante injusto.
— Disso já me dei conta - se lamentou Amélia.
Custou muito a Lucas não começar a rir. Sua esposa ficava tão adorável quando se zangava.
— Se te servir de consolo, foi a primeira vez que compartilhei o leito com alguém que
realmente me importa, alguém por quem estou profundamente apaixonado.
Com o rosto iluminado, Amélia se virou para olhá-lo aos olhos.
— De verdade?
— De verdade.
Ela o abraçou mais.
— Me alegro. E me alegro de que tenha sido você quem levou minha virgindade e não
Pomeroy. Porque existe outra razão pela qual um homem quer que sua esposa seja casta na noite
de núpcias... para estar seguro de que seu primeiro filho é de seu próprio sangue.
Ele ficou gelado. Mil raios e mil centelhas. Tinha tanta vontade de fazer amor com Amélia
que se esqueceu por completo dos filhos. Mas claro, o matrimônio e o leito marital, conduziam
devidamente a filhos. Por um instante, deleitou-se com uma doce visão dele e Amélia rodeados de
um par de garotinhas brincando de correr e rindo pelo jardim e um par de meninos fortes fazendo
navegar navios em miniatura no lago.
Seus filhos veriam sua carreira diplomática como uma aventura, da mesma forma que o
veria sua mãe. Exceto que ele não começaria essa carreira até que capturasse Frier e devolvesse o
dinheiro que esse homem havia roubado à Infantaria da Marinha. Um dinheiro que estava
proporcionando à família de Amélia uma vida cômoda e alegre.
Sua visão ideal se desvaneceu. Amélia jamais o perdoaria se arruinasse sua família enquanto
colocava as coisas em ordem. A convenceu a casar com ele apesar de seus temores, mas ela
estava completamente segura de que Dolly Smith não era Dorothy Frier. Quando soubesse de
toda a história e soubesse que sua madrasta era Dorothy Frier, não lhe daria seu apoio. Mas isso
não deveria importar. Estavam casados, e embora ela o odiasse, ele era responsável por ela,
responsável por seus filhos. Assim, simplesmente se limitaria a respeitar a lei, deixar as coisas
claras, agora que ela entrelaçou sua vida com a dele. Era sua esposa, e devia apoiá-lo mesmo que
não estivesse de acordo.
Teria que acatar as normas que ele ditasse.
Sim! Amélia jamais se resignaria a acatar as ordens que lhe ditassem. Essa mulher havia
demonstrado ter uma enorme determinação.
Lucas soltou um bufo.
— Mmmm? — perguntou Amélia meio adormecida.
— Nada, querida, dorme — murmurou ele.
— Mmmm.
Enquanto ela dormia placidamente, ele ficou contemplando seu cabelo úmido, que ao secar
frisava ligeiramente sobre os ombros. Quando seu membro começou a ficar duro outra vez, Lucas
jogou a cabeça para trás, contra o travesseiro.
Por Deus, Amélia o teria sempre subjugado como se fosse um cachorrinho no cio. Parecia
perigosa a atração que sentia por ela. Começou a notar a necessidade de estar com sua esposa
todas as horas, e não só na cama.

137
Isso não podia continuar assim. Nenhum homem podia ser o dono e senhor de sua casa
quando a esposa exercia um poder tão forte sobre ele. Seu pai foi um claro exemplo. Ficou
olhando o teto fixamente. De acordo. Aprenderia a conter a vontade que sentia de ficar com ela.
Desfrutaria do que Amélia pudesse lhe oferecer - OH, sim, com certeza que o faria, - mas iria com
muito cuidado.
Porque se se rendesse ante ela, se demonstrasse qualquer ponto de fraqueza, Amélia o faria
dançar ao som de sua música tão cruelmente que jamais conseguiria libertar-se desse jugo.
E isso era algo que definitivamente não poderia arriscar.

Capítulo 19

Querido primo:
Lorde e lady Tovey estão extremamente preocupados, e eu me sinto um pouco melhor. Me
senti tentada a lhes remeter a informação que me enviou sobre o comandante há alguns dias, mas
até que não saibamos com que homem terminou Amélia, não acho que deva trair sua confiança.
Sua ansiosa prima,
Charlotte

Alguma criada impertinente estava incomodando-a, retirando o cabelo do rosto e, por


conseguinte, obrigando-a a acordar. Agarrou a mão, mas ficou paralisada quando se deu conta de
que era grande e obviamente masculina.
Abriu os olhos e viu Lucas inclinado sobre ela, completamente vestido.
— Já é hora de partirmos, querida — murmurou com uma voz rouca.
Amélia ainda não havia se situado... por que ele estava ali, onde estavam, e que ela fazia nua
entre os lençóis?
Era a primeira vez que dormia nua, e também a primeira vez que o fazia na companhia de
um homem. Em qualquer outro momento, a situação teria parecido irresistivelmente excitante,
mas a janela atrás do Lucas mostrava que ainda era noite, e ela se sentia absolutamente exausta
depois da noite tão animada que teve.
Fechou os olhos e afundou a cabeça no travesseiro.
— Deixe-me dormir.
— Levante-se, Amélia — ordenou ele com um tom firme.
— Ainda não — murmurou ela.
— Dormirá na carruagem.
Amélia suspirou. O comandante Winter, madrugador intrépido, não a deixaria ficar na cama
a menos que ela adotasse medidas mais drásticas. Abriu os olhos, apoiou-se em um cotovelo para
que o lençol deslizasse provocativamente e deixasse entrever um de seus seios.
— E por que você não vem para a cama?
Lucas ficou quieto. Seus olhos tão escuros como os do diabo a devoraram com tal paixão que
conseguiram que Amélia estremecesse. A recordando que agora ele conhecia perfeitamente cada
linha e cavidade e curva de seu corpo... que ele a beijou e acariciou por toda parte durante a longa

138
noite cheia de aventuras.
— Também podemos fazê-lo na carruagem, Dalila. Agora vista-se. A estalagem está cheia, e
nunca conseguiremos que nos preparem a carruagem se não partirmos cedo.
Lucas lhe lançou um objeto de linho que resultou ser sua regata. Amélia recordava
vagamente que ele se dedicou a lavar sua roupa interior na banheira durante a noite e que
estendeu os objetos em um lugar perto da lareira para que secassem. A blusa cheirava a limpeza e
a calor que desprendia graças ao fogo tão agradável...
— Não, não — soltou ele quando viu que ela levava a blusa à face e voltava a acomodar-se
na cama, como uma menina pequena que se aferra a manta. — Precisamos chegar a Londres
antes o possível.
— Por quê? — balbuciou ela.
— Não quero que Pomeroy tenha tempo de difundir nenhum rumor incomodo. Não confio
nele.
— Não abrirá a boca. Se sentirá muito envergonhado.
— Tampouco pensava que pudesse chegar a raptá-la, não é? — Quando Amélia o olhou com
cara mal-humorada, Lucas acrescentou. — Além disso, seus pais devem estar tremendamente
preocupados com você.
Ela suspirou. Esse sim que era um argumento convincente. Sentou-se, esfregou os olhos para
despertar, e logo deu uma olhada ao quarto. Tudo estava em uma ordem perfeita, a banheira e as
toalhas molhadas haviam desaparecido, seu vestido sujo estava dobrado sobre uma cadeira, e sua
roupa interior e meias estavam secando, penduradas no respaldo de duas cadeiras de madeira
colocadas frente à lareira.
Claramente, custaria um pouco a se habituar a vida com um soldado.
— Quer um pouco de chá? — perguntou Lucas.
— Mmmm... sim, obrigada.
Observou-o enquanto lhe servia uma fumegante xícara de chá com um bule que havia em
uma mesinha perto da janela, logo dispôs o resto do refrigério em uma bandeja.
— É isto o café da manhã? — inquiriu ela, incrédula. Bom, viver com um soldado teria suas
compensações, depois de tudo.
— Seu café da manhã. — Lucas depositou a bandeja sobre sua saia. Tinha torradas com
manteiga, um ovo cozido, dois pedaços de bacon... — Eu já tomei o café da manhã.
Ela o olhou fascinada.
— Por todos os Santos, mas a que hora se levantou?
— Faz um par de horas.
— Mas se ainda é de noite! Está louco?
— Nestes últimos dias não dormi muito - respondeu ele, com um olhar evasivo.
— Isso é óbvio. — Ela tomou um sorvo de chá. — Só espero que não se dedique a despertar
cada dia antes que amanheça.
— Dependerá das circunstâncias— disse ele com evidentes amostra de tensão. — Mas já
pode ir acostumando à ideia de que durante nossa viagem de volta a Londres, o faremos.
Enquanto ela começava a tomar o café da manhã, Lucas se dirigiu para um armário, tirou um
traje de musselina e um casaco de lã de seu interior, e retornou a seu lado.
— Pode usar isto.

139
Seu porte tão sério e suas contínuas ordens estavam começando a incomodá-la.
— Sério, posso? — cantarolou ela sarcasticamente.
Lucas interpretou mal seu comentário.
— É seu tamanho. Prometi à esposa do hospedeiro que pagaria bem se encontrasse um
vestido de seu tamanho, e me disse que assim o faria. Mas não pude conseguir sapatos que
combinem, assim terá que usar os sapatos de festa que usava.
— De onde tirou o dinheiro para tantos gastos: o casamento, o quarto na estalagem, a roupa?
Lucas se sentiu insultado pela pergunta.
— Recebo um estipêndio, como qualquer soldado americano.
OH, não, agora ela feriu seu orgulho, e como sabia que o orgulho de um homem era uma
questão mais que delicada, tentou desculpar-se.
— Sinto muito, não pretendia...
— Posso me permitir manter a minha esposa, se isso for o que a preocupa.
— Não me cabe a menor duvida. — Amélia fez uma pausa, escolhendo as palavras
meticulosamente. — Mas a noite em que nos conhecemos, disse que havia perdido todo o
dinheiro da família. Assim não me culpe por ter pensado que seus recursos são bem... limitados?
Um músculo se esticou na mandíbula de Lucas.
— Só queria dizer que não possuo uma fortuna. Mas me arranjo muito bem.
Enquanto passava manteiga em uma torrada, Amélia tentou falar com o tom mais natural
que pôde para abordar esse tema tão difícil.
— Sempre podemos recorrer a minha fortuna...
— Não. — A raiva apareceu nas feições de seu marido. — Não vamos tocar em sua fortuna.
— Por que não?
Lucas lhe cravou um olhar incisivo e sombrio.
— Até que não esteja certo de como sua madrasta conseguiu o dinheiro, não vamos tocar
em seu dote. De momento, tudo o que sei é que cada centavo dessa fortuna pertence à Infantaria
da Marinha.
— Só se Dolly for culpada —protestou ela, depositando a torrada intacta sobre o prato.
— Se não for e o dinheiro é um legado legítimo de seu anterior marido, então depois
falaremos.
Amélia afastou a bandeja a um lado, abandonou a cama e colocou a regata.
— O que quer dizer com isso de, depois falaremos?
— Quando toda esta confusão dos Frier terminar, meu governo me oferecerá um posto de
trabalho com uma excelente remuneração, asseguro que ganharei mais que suficiente para
manter a minha família. Não precisarei de seu dinheiro.
Parecia a Amélia que estavam falando de uma questão muito delicada, mas considerou que
era melhor discutir nesse momento, imediatamente, enquanto os dois ainda podiam ser racionais,
em vez de mais tarde, quando não pudessem fazê-lo por causa de alguma crise grave.
Colocou as anáguas.
— Precise ou não, o dinheiro é seu, assim me parece ridículo que não queira usá-lo. —
Quando Lucas franziu o cenho, ela acrescentou com altivez:
— Não duvido que possa oferecer a sua esposa e a sua família uma vida confortável, mas
que mal pode te fazer usar meu dinheiro para pagar alguns caprichos?

140
— Garanto que poderá fazer isso com meu dinheiro, Amélia, assim não fale mais nisso.
Lucas pegou uma mochila que devia ter trazido consigo e tirou uma faca, que logo guardou
dentro de seu casaco. Com movimentos rápidos e irados, Amélia recolheu seus pertences.
— Como não falar mais nisso?
Lucas se deteve e a olhou com irritação.
— Porque estou dizendo. Sou seu marido, e em nossa casa mando eu. Ou não ensinam essas
coisas às damas inglesas?
— OH, ensinam isso muito bem — respondeu ela em um arrebatamento. — Por que acha
que não havia casado até agora?
Seu comentário pareceu sortir efeito. Lucas passou os dedos pelo cabelo e murmurou uma
grosseria.
— A única coisa que digo é que será melhor que aprenda a viver como se não dispusesse dos
recursos ilimitados aos quais está acostumada a ter sempre a sua disposição.
— Recursos ilimitados! — Irritada, Amélia se dirigiu para ele e lhe deu violentos golpezinhos
no peito com o dedo. — Precisa saber, Lucas Winter, que até que Dolly aparecesse em nossas
vidas, meu pai e eu quase não dispúnhamos de recursos nem para poder comer. Fui criada em
uma casa no campo; para nos manter, meu pai escrevia artigos para revistas de cavalheiros.
Quando eu tinha doze anos, meu avô morreu, e papai herdou suas terras, mas não herdou
dinheiro, simplesmente porque não havia. E enquanto papai passava o dia lendo livros sobre como
melhorar as colheitas e lutando para que as terras nos dessem de comer, eu me encarregava dos
trabalhos da casa de um modo tão frugal como uma menina de doze anos é capaz.
Voltou a lhe dar mais golpezinhos acusadores no peito.
— Assim, sei perfeitamente bem quanto vale um penny. Sei tudo sobre esquentar tijolos na
lareira para manter os pés quentes, porque não se pode permitir ter a lareira acesa durante toda a
noite. Sei mil maneiras diferentes de cozinhar os peixes que pescava em nosso lago, e também
posso te dizer exatamente como improvisar velas com juncos quando até mesmo as velas de sebo
resultam muito caras. E além disso...
Lucas segurou seu dedo acusador.
— Já chega - disse com brutalidade enquanto rodeava o dedo com sua mão. — Já entendi.
Mas ela não havia acabado.
— Acha que não me senti feliz quando Dolly apareceu com seu dinheiro e sua natureza
gentil e generosa e fez que minha vida fosse mais fácil? Quando me deu a oportunidade de deixar
para trás uma vida de trabalhos penosos e de miséria para poder sonhar com um verdadeiro
futuro em Londres? Quando ao invés de ler a respeito das aventuras que outros tiveram, eu
poderia ir a museus e a exposições e falar com um general como lorde Pomeroy em pessoa? Sim,
confesso. Fiquei encantada.
Com uma fúria desmedida, Amélia afastou o dedo que Lucas segurava.
— Mas poderia voltar a viver com escassos pennies em um segundo, se fosse necessário.
Acredite-me ou não, sei como sobreviver muito bem com muito pouco. E se pensa que o deixarei
me ditar como e quando tenho que gastar o dinheiro que caia em minhas mãos graças a nosso
matrimônio...
— Acalme-se, querida. — Ele estreitou a cabeça de Amélia entre suas mãos e lhe deu um
beijo fugaz nos lábios. — Acalme-se, peço-lhe, por favor. Desconhecia os problemas econômicos

141
de sua família. Pensei que...
— Que era uma menina tola e frívola que só se preocupa com joias e belas roupas, e que
gastará todo seu dinheiro até que o veja obrigado a se endividar.
Amélia o empurrou; a tentativa de Lucas para acalmar seu alterado temperamento com um
beijo não conseguiu aplacá-la.
Lucas franziu o cenho.
— Eu não disse isso.
— OH, sim, sim que o fez. Na recepção em minha casa. Disse que o dinheiro era a única coisa
que importa às mulheres.
— Maldita seja, Amélia, naquele dia estava furioso contigo porque acreditava que rechaçou
o convite para jantar comigo. Não pensava no que dizia.
Ficando de costas repentinamente, Lucas se esforçou para recolher as poucas coisas que
estavam espalhadas pelo quarto e começou a guardá-las na mochila.
— Pois parecia que dizia com muita convicção.
— Olhe, agora não temos tempo para este tipo de discussão — soltou ele com um tom
crispado. — Vista-se, e depois conversaremos na carruagem tudo o que você tiver vontade.
Amélia queria discutir a questão nesse preciso instante, mas sabia que ele tinha razão.
— Tudo bem. — depois de fulminá-lo com o olhar, começou a procurar seu espartilho até
que o encontrou, ato seguido o pôs. — Amarre os laços, por favor.
Lucas a olhou sem aproximar-se.
— Não é necessário que ponha o espartilho. Temos uma viagem muito longa pela frente.
Ficará mais cômoda sem ele.
— Ficarei mais cômoda usando o espartilho — contra-atacou ela. Então compreendeu por
que Lucas não queria que o pusesse. — Mas você não está pensando em se ficarei cômoda ou não,
equivoco-me?
Ele apagou a vela que havia sobre a mesa com um sopro.
— Não sei a que se refere.
— Não quer que coloque o espartilho porque não deseja que nada se interponha em suas
lascivas diversões. Mas se pensa que vou deixá-lo me tocar depois das coisas que me disse...
— Por Deus, mulher! — Lucas se virou irritado, com os olhos brilhantes como o gelo sob a
luz da lareira. — Por isso não havia me casado até agora. Porque não queria ter uma mulher me
exortando todo o dia com sua língua viperina. Olhe, já tive suficiente ouvindo minha mãe dizer
uma fileira de tolices parecidas, quando era pequeno. E asseguro que não preciso voltar a ouvi-las
na boca da minha esposa!
As duras palavras ficaram suspensas no ar entre eles, e nesse instante, tudo ganhou sentido.
Amélia deveria ter se dado conta antes, especialmente depois do que lady Kirkwood lhe contou
sobre a família de Lucas.
Agora compreendia tudo. Por que ele se mostrava tão suscetível com o tema do dinheiro.
Por que se mostrou tão desanimado não só com os ingleses, mas também com as damas da alta
sociedade. Por que jamais mencionava a mãe, embora tivesse falado do pai.
— Sua mãe provinha de uma família rica, não é verdade? — disse ela suavemente. — Gozava
de uma boa posição social, até que se casou com seu pai.
A julgar pela repentina palidez da cara do Lucas, havia descoberto o motivo da agitação de

142
seu marido.
— Não gostaria de falar da minha mãe agora - bramou ele. — Temos que ir.
— Mas Lucas, se se negar a me falar de sua família...
— Agora não, Amélia! — Recolheu o estojo da pistola. — Olhe, faça o que quiser com esse
maldito espartilho, não me importo. Enquanto você acaba de se vestir e de recolher suas coisas,
descerei para falar com o cocheiro que conduzirá a carruagem. — Indicou a mochila. — Ponha sua
roupa aí, com a minha. Se não estiver na porta principal dentro de quinze minutos, juro que
subirei para buscá-la e a levarei arrastada, sem me importar se está vestida ou não, entendido?
Em questão de segundos, a raiva voltou a apoderar-se dela.
— Sim, meu comandante. O que mandar, meu comandante — soltou Amélia, erguendo o
queixo com altivez.
— Perfeito — espetou ele. — Quinze minutos, Amélia.
E em seguida, saiu do quarto.
Mal a porta se fechou atrás dele, Amélia jogou o espartilho contra ela. Lucas já decidira por
ela sobre o que fazer com o maldito espartilho, não? Porque ela não poderia amarrá-lo sozinha.
Inclusive não sabia se conseguiria colocar o vestido sem ajuda...
Maldito arrogante! Com porte irado, dirigiu-se para onde estava sua roupa suja
cuidadosamente dobrada, a pegou com raiva e a enfiou de qualquer maneira na mochila. Se ele
pensava que podia lhe dar ordens como a um de seus soldados, e pronto! Não pensava suportar
esse tratamento!
Rodeou a cama com passo irado, agarrou as anáguas e as colocou. Deveria ter imaginado
que ele agiria como um tirano quando estivessem casados. Esse homem tinha sido uma besta
desde o primeiro dia que o conheceu na casa de lorde Kirkwood.
Tentou colocar o vestido, então ficou surpreendida. O traje tinha a abertura na frente, assim
não lhe custou nada fechá-lo. Além disso, embora estivesse apertado na cintura e o decote lhe
exaltasse excessivamente os seios, ficava muito bem. Seu pai nunca havia lhe comprado nada que
não ficasse ou muito grande ou muito pequeno nela, mas só poucas horas e em uma estalagem
perdida em um pequeno povoado escocês, Lucas conseguiu comprar um traje do seu tamanho.
Deixou-se cair na cama, com os olhos cheios de lágrimas. Que tirano e besta! Um tirano que
limpou seu sangue de virgem na noite passada com tanta ternura como se ela fosse um bebê.
Uma besta que lhe levou o café da manhã quando acordou, que lhe comprou roupa nova para que
não tivesse que usar uma roupa suja. Que cavalgou como um raio para o norte da Inglaterra para
salvá-la de um homem com quem certamente ninguém duvidaria que se casaria encantada.
Por Deus, seu marido era um quebra-cabeças complexo.
Secou as lágrimas dos olhos, levantou-se e relaxou os ombros. De acordo, Lucas era brusco e
mostrava o temperamento e uma forma de agir ditatorial que poderia acabar com a paciência de
um santo. Mas às vezes, debaixo daquela capa beligerante, ela entrevia um homem muito
atormentado, um homem que tinha boas intenções, mas que frequentemente agia com grosseria.
Um homem de quem gostava... quando não a tirava do sério com sua teimosia.
Estava claro, ou aprendia a viver com ele ou o matava com um tiro. E dado o número de
armas que ele costumava a carregar, dificilmente conseguiria o que queria se optasse pela
segunda alternativa. Amélia fechou os olhos. Existia uma terceira opção, uma que nenhum dos
dois havia considerado. Uma que realmente não era engraçado. Mas já que seu orgulho o levou a

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casar com ela, talvez ele preferiria essa opção. Se Dolly demonstrasse ser uma delinquente, pelo
menos essa alternativa faria as coisas mais suportáveis para todos.
Só precisava ver como ele reagiria quando a propusesse, porque isso demonstraria se seu
casamento poderia funcionar ou não. E se Lucas aceitasse a terceira opção, não haveria mais
escolha do que acatá-la. Ainda que lhe partisse o coração.

Capítulo 20

Querida Charlotte:
Procure não se preocupar tanto por sua pupila ou acabará ficando doente. Me deu a
impressão que Lady Amélia é uma moça com juízo. Não permitirá que nenhum homem abuse dela.
Seu fiel servidor,
Michael

Depois de como havia perdido a paciência na estalagem, Lucas estava preparado para
suportar uma enxurrada de recriminações, uma explosão de raiva ou, no mínimo, cara feia por
parte de sua nova esposa, na carruagem.
Mas Amélia permanecia sentada em silencio diante dele, envolta no casaco de lã que tinha
comprado, com a vista perdida na janela enquanto no céu cinza despontavam as primeiras luzes
da alvorada.
Com as pernas e os pés encolhidos, tinha um aspecto tão incrivelmente jovem que Lucas
sentiu uma forte pontada de dor na garganta. Ainda não completou vinte e um anos, e foi raptada,
drogada, e arrastada pela metade do território inglês em só alguns poucos dias. E se por acaso
tudo isso fosse pouco, teve que casar com um homem que mal conhecia só para proteger a honra.
A despojaram de sua inocência e pisotearam seu orgulho. Entretanto, ainda era capaz de
permanecer sentada pensativamente, como uma menina pequena ocupando o assento da janela,
esperando que seu papai chegasse.
Ou esperando que seu marido se convertesse em algo diferente do que era: um americano
selvagem. Um bruto desumano. Um homem que perdia a paciência só porque sua esposa lhe
oferecia sua fortuna.
Um idiota, que deveria desculpar-se por ser tão idiota. E que não tinha a menor ideia de
como fazê-lo sem fazê-la pensar que podia vencê-lo cada vez que brigassem.
— Maravilhoso, não é? — Amélia o surpreendeu com esse comentário inesperado.
Um nó se apropriou da garganta de Lucas.
— Sim, muito belo.
Dolorosamente belo. Inclusive sob a tênue luz desse dia cinza, o rosto de sua esposa
mostrava o brilho luminoso de um anjo de alabastro. Lucas teve que conter-se para não abraçá-la
e implorar que o perdoasse. Mas isso seria uma loucura. Se fizesse isso, só faltaria abrir seu peito e
mostrar a Amélia onde devia apontar para que cravasse a flecha no coração.
Não obstante, não suportava a ideia de que ela o visse como um ogro. Precisava demonstrar
que podia ser sensato, razoável. Não um áspero idiota.
— Amélia, quanto ao dinheiro...

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— Eu sei. Não quer minha fortuna.
— Não é que não queira. É que não é sua.
Ela lhe dedicou um olhar tranquilo, plácido.
— Isso é o que você diz. Em troca, eu acredito que está errado.
— O tempo dirá — declarou ele evasivamente. — Até o momento, não me disse nada que
prove que estou enganado.
— Terá a verdade quando falar com Dolly. — se envolveu mais no casaco. — E quando vir o
terrivelmente equivocado que está a respeito dela, decidiremos o que fazer com minha fortuna.
— Talvez o mais sensato seria guardá-la para nossos filhos.
Uma expressão enigmática se desenhou no rosto de Amélia.
— De verdade quer ter filhos?
Lucas ficou tenso.
— Tendo em conta que meu passatempo favorito me leva irremediavelmente até eles, não
tenho alternativa, não é?
— Isso não foi o que perguntei — disse ela suavemente.
Não. O que Amélia perguntou era se estava preparado para todas as responsabilidades do
casamento. Com um suspiro, ele desviou a vista para a janela.
— Sempre pensei que o matrimônio deveria incluir crianças, sim.
Amélia ficou em silencio durante um longo tempo.
— Esta manhã me ocorreu, Lucas, que... bom... não temos porque viver como um
matrimônio tradicional, se não quisermos.
Ele ficou paralisado, enquanto seu coração pulsava com mais força.
— O que quer dizer?
— Poderíamos ter vidas separadas. Os casais o fazem ocasionalmente. Poderia me deixar
aqui na Inglaterra enquanto você faz o que tiver vontade. Você não escolheu esta situação. Só
tentava fazer o correto, e o agradeço por isso. Mas não precisa ir tão longe como para... bom...
viver comigo e me manter. Poderia continuar com sua vida de solteiro sem se preocupar com sua
esposa ou com seus filhos.
Um lastro doloroso lhe oprimiu o peito. Acabavam de casar, e ela já pensava em terminar a
relação. E na típica forma de proceder da sociedade inglesa, lhe ocorreu uma solução diplomática
que não ofenderia nenhuma de suas amigas de bom berço.
Só a ele.
Lucas procurou responder com um tom tão pausado como o dela.
— E o que faria você?
— Não sei. Como mulher casada, disporia de uma maior liberdade. Poderia viajar. Ou
simplesmente viver em Londres.
— Entendo. — Lucas manteve os olhos fixos nas planícies desoladas que refletiam a
repentina tristeza que sentia. O que ela propunha fazia sentido. Certamente simplificaria sua
situação.
Desse modo, se tivesse que capturar Dorothy Frier para capturar Theodore Frier, não ficaria
preocupado com os sentimentos de Amélia a respeito dessa questão. Entretanto, o simples
pensamento de separar-se dela lhe provocou uma intensa dor de estômago. Maldita fosse.
— Suponho que isso é o que prefere. Liberdade para viver como quiser, para saborear tantas

145
aventuras como...
— Não. — Quando Lucas a olhou fixamente, ela ergueu o queixo. — Mas em troca, acredito
que é o que você quer. Não parece estar muito satisfeito em seu novo papel de marido.
Em outras palavras, ele se comportara como um ogro, e ela pretendia assegurar-se de que
ele não continuaria por esse caminho.
— Mudarei. Nego-me a te dar meu nome para logo depois abandoná-la. É minha esposa,
assunto resolvido.
De novo estava falando como um arrogante execrável, mas não se importava. A ideia de que
ela o abandonasse, lhe provocou uma dor terrível, e reagiu como qualquer homem que tivesse se
sentido encurralado: entrincheirado.
— Lucas, só digo...
— Eu me recuso a viver separado de você, droga!
— E eu me nego a suportar um marido que me despreza por obrigá-lo a casar comigo,
quando isso é algo que ele não escolheu.
Agora Lucas podia ver as lágrimas que escapavam de seus olhos, e essa visão lhe provocou
um nó na garganta.
— Não a desprezo, querida. E estou seguro de que já sabe que ninguém pode me obrigar a
fazer algo contra minha vontade. Não com alguém tão teimoso como eu.
Amélia tentou conter as lágrimas, como se pensasse que deixá-las cair seria um insulto para
seu orgulho. Lucas tentou imaginar sua mãe contendo as lágrimas, mas não pôde.
Esforçando-se para sorrir, ele procurou algo que dizer para reconfortá-la.
— Um homem não pode viver sozinho toda sua vida, sabe? Tal e como você me disse na
primeira noite que nos conhecemos, estou passando da idade de continuar com o papel de
solteiro interessante.
— Sim, praticamente está com um pé na cova.
— Felizmente, tenho uma pequena jóia como você que se ocupará de mim quando
envelhecer — prosseguiu ele, em uma clara tentativa de parecer engraçado.
— Não se eu o matar primeiro. — espetou ela. Mas seus olhos estavam secos, e seu tom
agora era bem mais zangado.
Lucas deu um suspiro de alívio. Amélia não ia abandoná-lo. E ele não se viu forçado a
suplicar ou a comportar-se de um modo rude para consegui-lo. Graças a Deus.
— De todos os modos — continuou ela, — se queremos viver como um casamento de
verdade, preciso saber algumas coisas.
— Levanto cedo, eu gosto dos ovos fritos, prefiro bacon ao presunto e...
— Não esse tipo de coisa. Refiro-me a coisas importantes.
— Como o que?
— Me fale de seus pais.
Lucas ergueu as costas. Deveria ter imaginado que ela não daria o braço a torcer tão
facilmente.
— É necessário?
Amélia se acomodou no assento e lhe lançou um sorriso fugaz.
— Eu te falei dos meus.
— Contou algo sobre seu pai, mas não disse nada a respeito de sua mãe.

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Ela deu um encolher de ombros.
— Isso é porque não cheguei a conhecê-la, nem ela nem a ninguém de sua família. Era órfã,
filha de um latifundiário, quando papai a conheceu. Morreu pouco depois que se casaram,
enquanto dava a luz. Dolly é o mais próximo a uma mãe que já tive.
Não era de estranhar que Amélia defendesse essa mulher com unhas e dentes.
— Mas não estávamos falando de mim. Fale de sua mãe.
Lucas lançou um suspiro e apoiou a cabeça no respaldo do assento.
— Não há muito que contar. Criou-se no seio de uma boa família na Virginia, com muito
dinheiro e com pais muito rígidos. Meu pai era um belo marinheiro que lutou para conseguir a
independência da América. Ela fugiu com ele porque queria escapar de sua vida tão rígida. Mas
mais tarde se deu conta de que preferia uma vida rígida com pais ricos que uma vida livre com um
marido pobre.
Amélia lhe deu um olhar solene.
— E você pensa que sou como ela.
— Pensei a princípio — admitiu ele, — quando piscava coquetemente e me chamava
"soldado imponentemente forte" a cada momento. O que, por certo, resultou ser uma maneira
muito efetiva de distrair minha atenção.
Seria uma espiã perfeita.
— De verdade? — Seu rosto se iluminou como se houvesse dito que pensava fazê-la rainha.
Então a luz de seus olhos se apagou. - Só diz porque não quer que falemos de seus pais.
Nesse momento, Lucas desejava tanto não ferir mais seu orgulho, que teria dito qualquer
coisa, mesmo que fosse mentira, para conseguir isso.
— Digo porque é verdade.
Ela suspirou.
— Mas em seguida se deu conta de que minha atuação de menina tola não era nada mais
que isso: uma máscara, lembra?
— Bom, não me dei conta imediatamente. E isso porque sou um homem que se dedica a
investigar, assim não é tão fácil que me enganem.
— Nem a mim tampouco. — Amélia o observou com uma firme determinação. — Diga a
verdade, Lucas. Ainda acha que sou como sua mãe?
— Não exatamente. — Ele sorriu levemente. — Me custa imaginar minha mãe atacando um
marquês com um cântaro. Mas... — ficou calado um momento, como se estivesse sopesando se
ser sincero era o mais apropriado neste momento.
— Mas?
Lucas duvidou, embora sabia que ela não o deixaria em paz até que lhe dissesse algo.
— Uma vez minha mãe ficou instalada em uma casa que tinha a metade do espaço de onde
ela cresceu, e se viu obrigada a ocupar-se de seu filho sem nenhuma ajuda, enquanto meu pai
passava a maior parte do tempo cuidando dos negócios, a aventura de seu casamento perdeu
interesse.
— Claro. Tampouco eu gostaria de me ocupar de meus filhos sozinha. Se o entendi bem, ela
deixou tudo por seu pai, e depois ele nunca estava ao lado dela.
— Porque meu pai estava se matando de trabalhar só para deixá-la contente — espetou
Lucas. — Desde o primeiro dia de casamento, ela começou a exigir mais dinheiro, mais vestidos,

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uma casa maior em um bairro mais fino, uma baixela mais bonita... todo esse tipo de coisas que
uma mulher banal deseja.
— Espero que não esteja insinuando que eu sou uma mulher banal.
Lucas esteve a ponto de responder algo indevido, mas fez uma pausa e observou o rictus
zangado da boquinha de sua esposa, seu queixo erguido, seu pescoço nu. Sim, Amélia havia se
deixado seduzir por todo aquele mobiliário de estilo egípcio, mas jamais a ouviu falar de nada que
desejasse comprar. Suas joias não lhe pareceram ostentosas, seus vestidos eram mais vistosos que
caros, as anáguas e meias eram de algodão. Apesar de não fazer muito que a conhecia, ela passou
todo o tempo em reuniões benéficas ou preparando uma recepção para as amigas, não fazendo
compras.
— Não — admitiu ele. — Não acho.
Sua resposta pareceu apaziguá-la, embora Amélia se agasalhou mais no casaco.
— Vê, Lucas? Não custa tanto ser razoável, não é?
Entretanto, ela ainda estava sentada longe dele, como um guaxinim encurralado preparado
para morder sua mão. De repente, Lucas não pôde suportar vê-la zangada com ele nem um
minuto mais. De acordo, provavelmente não era o homem mais fácil de se conviver, mas estavam
casados por algo mais que por razões práticas. Talvez tivesse chegado o momento de recordá-las.
Lucas se levantou de seu assento e se sentou ao lado de Amélia. Logo capturou o rosto dela
entre suas mãos.
— Posso ser um homem muito razoável, bonita, se tiver um bom incentivo.
Enquanto ela o olhava confusa, ele a beijou. Depois deslizou os dedos por seu cabelo,e tirou
os grampos que o sustentavam com tanto ardor como se sua vida dependesse disso. Quando pôs
uma mão dentro do casaco para acariciar os seios, surpreendeu-se ao encontrar menos capas de
tecido que de costume. Jogou a cabeça para trás e a olhou, divertido.
— Ao final, não colocou o espartilho.
— Não podia colocá-lo sozinha — repôs Amélia com um repentino mau humor. — Sabe
perfeitamente.
— Sinto muito, querida — se desculpou Lucas, com uma voz lenta e sensual.
— Não, não sente. Se fosse por você, viajaria nua.
- Pois agora que o diz... — Com os olhos brilhantes, abriu o casaco e se dispôs a desabotoar o
vestido.
Mas desta vez ela afastou suas mãos com um tapa.
— Ah, não, nem pensar. Logo iremos parar para trocar de cavalos, e não tenho vontade de
estar deitada nua debaixo de você quando chegar esse momento.
— De acordo. Podemos fazer isso vestidos.
— Não — atravessou ela, detendo a mão de Lucas, que rapidamente se dispunha a
desabotoar a calça.
— Já teve o suficiente de minha conduta varonil? — bramou ele.
— Ainda não acabou de me contar sobre seus pais.
Com um grunhido, voltou a apoiar as costas no assento.
— O que mais quer saber, pelo amor de Deus?
— Não sei como nem por que morreram.
Essa era a última coisa que desejava explicar. Entretanto, Amélia estava em todo seu direito

148
de saber, pelo fato de ser sua esposa.
Quando Lucas continuou mostrando-se indeciso, ela se adiantou.
— Lady Kirkwood disse que foi uma tragédia, mas não nos ofereceu mais detalhes...
— Meu pai se enforcou. — logo que essa terrível realidade escapou dos lábios, Lucas se
arrependeu de não poder conter-se. — Jogou uma corda por cima de uma viga de madeira em um
dos armazéns de sua companhia Baltimore Maritime e pulou da cadeira onde subiu.
Amélia conteve a respiração.
— Céu santo! Sinto muito, Lucas. Não tinha nem ideia... Lady Kirkwood não disse
absolutamente nada que pudesse deduzir essa atrocidade.
— Claro que não — se lamentou ele tensamente. — É o vergonhoso segredo da família.
Exceto que não foi um segredo... Um dos empregados da companhia o encontrou à manhã
seguinte, quando foi trabalhar.
— Uma enorme amargura se apropriou de sua garganta. — A notícia apareceu nos
periódicos de Baltimore, que se dedicaram a dar todo tipo de detalhes do evento.
Embora ele a observasse, parecia não vê-la.
— Não é que eu os lesse, não. Não estava ali. E quando fiquei sabendo, minha mãe também
estava morrendo, assim só soube o pouco que ela foi capaz de me contar em suas últimas horas.
Doía a garganta ao recordar seu ansioso retorno a Baltimore. Como entrou
precipitadamente em casa e se deu de cara com desconhecidos que eram os novos proprietários,
que havia adquirido a moradia antes que seu pai se suicidasse. Com amabilidade, indicaram como
chegar até o hospital onde se achava confinada sua mãe, infestado dos credores de seu pai, aos
quais ele conhecia pela primeira vez.
Rodeada de tantos abutres, sua mãe quase não se atrevia a falar.
— Do que morreu ela? — perguntou Amélia suavemente.
— De vergonha — suspirou ele. — Depois da morte de meu pai, minha mãe foi viver em uma
casa de aluguel e... ali adoeceu. Ao não receber minhas notícias, nenhuma resposta a suas cartas
urgentes onde implorava para que eu retornasse, pensou que estava morto, também, e acredito
que foi então quando decidiu que não valia a pena continuar vivendo. Não tinha a mim nem a meu
pai para que continuássemos nos ocupando dela, assim optou por morrer. Quando se inteirou que
eu estava vivo, já era muito tarde.
— Mas lady Kirkwood disse que ela morreu faz três anos. Não havia acabado a guerra, então?
Como é que você não...?
— Não estava ali? Boa pergunta.
Lucas voltou a suspirar. Cedo ou tarde, Amélia teria que saber sobre Dartmoor. Mas seria
capaz de contar sem revelar toda a verdade a respeito da morte de seu pai? Precisava tentar.
Porque pensava que era melhor não contar toda a verdade até que esclarecesse a confusão de sua
madrasta.
Voltou a desviar a vista para a janela, tentando pensar por onde começar.
Então, enquanto continuava com o olhar perdido nos campos cobertos de urze, perdido em
seus pensamentos, fixou-se no que estava vendo. Havia algo estranho... As nuvens se dissiparam,
e agora podia ver o sol, que aparecia... do lado incorreto.
— O que aconteceu, Lucas? — perguntou Amélia.
Com o coração pulsando rapidamente, ele respondeu:

149
— Estamos indo para oeste, para o interior da Escócia. Não pode ser.
— Talvez o cocheiro não te entendeu bem...
Lucas não acreditou que esse fosse o motivo. Colocando a cabeça para fora da janela, gritou:
— Ei, moço! deveríamos ir a Carlisle!
— Ah, sim, senhor—- respondeu o moço. Este caminho é mais curto.
— Não pode ser...
A carruagem deu uma repentina sacudida, que lançou Lucas ao outro extremo da carruagem.
Quando conseguiu recuperar o equilíbrio e voltou a colocar a cabeça pela janela, não pôde fazer
ouvir sua voz por causa do estrondo dos cascos dos cavalos, que agora corriam a grande
velocidade.
A situação parecia ruim, muito ruim. Consciente de que não dispunha de muito tempo, tirou
o estojo da pistola que havia guardado debaixo do assento e começou a carregar a arma.
— O que vai fazer? — perguntou ela, contendo a respiração.
— Subir lá em cima e conseguir que esse maldito rapaz me ouça.
— Está louco? Poderia morrer!
— Mas só será uma pequena aventura. — incorporou-se enquanto guardava a pistola
carregada na cintura.
— Não me parece divertido — resmungou ela, assustada.
Lucas se inclinou para sua esposa e lhe deu um beijo atropelado nos lábios.
— Não irá acontecer nada comigo. Não é a primeira vez que faço algo parecido. — Entregou-
lhe a faca embainhada. - Esconde em algum lugar sob sua roupa, só por via das dúvidas.
Tentou chegar à porta justo no momento que a carruagem diminuía a velocidade. Mal
tiveram tempo de se prepararem para resistir outra súbita sacudida, antes que o veículo se
detivesse em seco. Lucas se alarmou ante os gritos próximos e aos sons de vários homens que os
rodeavam. Amélia se inclinou para a outra janela, mas ele a obrigou a voltar para trás.
— Não deixe que a vejam até que não saibamos quem são - a repreendeu ele.
A porta da carruagem foi aberta bruscamente.
— Vamos, para fora! — ordenou uma voz em um tom nitidamente escocês. — E se querem
seguir vivinhos e abanando o rabo, não lhes ocorra fazer nenhum movimento estranho, entendido?
Lucas saiu lentamente com a intenção de ganhar tempo para sopesar a situação. Três
homens mascarados com um tecido matizado não tiravam o olho deles: um montado em um
cavalo e armado com uma pistola, e os outros dois de pé, apontando-o com um par de mosquetes.
O cocheiro traidor sustentava as rédeas dos cavalos.
— A senhora também — ordenou o tipo montado a cavalo, com uma voz mais educada que
o primeiro.
Lucas desejou dar um tiro nele ali mesmo. Mas sua pistola só continha uma bala; estaria
morto antes que pudesse voltar a carregá-la, e isso deixaria Amélia à inteira disposição desses
bandidos. Lutando para manter a calma pela segurança de sua esposa, deu a volta e a ajudou a
sair. Por sorte, Amélia teve tempo de esconder a faca debaixo da roupa. Mas em troca, não pôde
recolher o cabelo, por isso sua juba caía em uma bela cascata sobre os ombros como uma bonita
capa de veludo, lustrosa e ondulada e cheia de vitalidade. Parecia como se acabasse de fazer amor,
e ao ver que os três desgraçados a contemplavam com esse aspecto, Lucas teve vontade de matá-
los.

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"Tranquilo, menino, tranquilo. Não é o momento de mostrar seu temperamento", disse a si
mesmo.
O homem que estava mais perto deles comentou:
— Que dama! Bonita onde deve ser!
— Não estamos aqui para isso, Robbie — o admoestou o chefe do bando. — Assim será
melhor que se fixe só no que for necessário.
Com o coração pulsando disparadamente, Lucas deslizou o braço pela cintura de Amélia e a
atraiu para si.
— Darei todo o dinheiro que levamos se não nos fizerem mal e nos deixarem partir.
Robbie colocou o mosquete diante de sua cara.
— Solte à dama e mantenha o bico fechado.
Apertando os dentes, Lucas fez o que lhe mandavam.
O escocês sobre o cavalo assinalou Amélia.
— Você é amiga de Venetia Campbell, não é assim?
— Como...? — Amélia lançou um olhar acusador ao cocheiro. — Ouviu o que contei na
estalagem.
O moço deu um encolher de ombros.
— Todo mundo ouviu.
Amélia desviou o olhar até o líder.
— E creio que você é o bandido conhecido como O Açoite Escocês.
— Sim. — O tipo sorriu. — E você, senhora, será minha hóspede por um tempo.
Lucas ficou gelado.
— Um momento, maldito escocês, não pode levar... — calou-se quando Robbie cravou o
mosquete no seu peito.
— Neste território mando eu — repôs o patife. — E se por acaso lhe ocorre se fazer de galo
de briga e nos perseguir quando partirmos... — Fez um sinal a Robbie. — Assegure-se de que não
esteja armado. Ah, e reviste a carruagem, também.
Lucas grunhiu quando o escocês não só encontrou a pistola, mas também a espada e o rifle
debaixo do assento da carruagem. Só rezava para que não revistassem Amélia.
Robbie olhou o chefe com o cenho franzido.
— Este tipo estava armado até os dentes.
O Açoite não parecia muito contente.
— Por que anda tão armado?
— Sou um comandante do Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos.
— Por todos os demônios, Jamie. —O homem admoestou o cocheiro. — Não me disse que o
marido da dama era um oficial ianque. E o que vamos fazer com ele agora? Se o deixarmos aqui,
não descansará até que recupere à garota. Não é um desses cavalheiros ingleses que cruzariam os
braços e esperariam que as autoridades fizessem o trabalho.
— Eu digo que devemos matá-lo — interveio Robbie, apontando diretamente com o
mosquete o rosto de Lucas. — Não vale tanto como os problemas que nos causará...
— Nada de matar. — O Açoite balbuciou uma blasfêmia. — Teremos que levá-lo conosco,
também. — virou para o cocheiro. — Leve a carruagem até a estalagem French Horn em Carlisle.
Mais tarde irei para te dar instruções.

151
— Um momento — gritou Amélia. — O que pensam fazer conosco?
O Açoite lhe lançou um olhar glacial.
— Já pode começar a rezar para que lady Venetia seja tão boa amiga como diz. Porque o pai
dela é quem pagará seu resgate.

Capítulo 21

Querido primo:
Ainda não temos notícias de Amélia e de seu novo marido, quem quer que seja. Lorde Tovey
pressiona lady Kirkwood diariamente, pedindo informações, mas a dama não está demonstrando
ser de grande ajuda. Parece mais preocupada que a carruagem de seu filho aja retornado intacta
do que se o comandante Winter foi capaz de deter lorde Pomeroy. Nenhuma de suas fontes de
informação sabe algo sobre o desafortunado incidente?
Sua ansiosa amiga,
Charlotte

Amélia não podia acreditar que pelo simples fato de ter mencionado o nome de Venetia na
estalagem, nesse preciso instante ela e Lucas fossem prisioneiros de um bando de desalmados.
Por sua culpa, Lucas se via agora obrigado a caminhar colina acima, enquanto um escocês o
apontava pelas costas com um mosquete, e ela seguia o mesmo caminho montada em um cavalo
diante do famosíssimo bandido, conhecido como O Açoite Escocês.
A próxima vez que desejasse uma aventura, se asseguraria de especificar de que tipo. Isso de
a sequestrarem começava a lhe parecer tedioso.
— É absurdo capturar alguém por dinheiro e pedir a seus amigos que paguem o resgate. —
Amélia jogou na cara de seu captor. — O que aconteceu com lorde Duncannon que possa ser tão
grave para sequestrar alguém em seu nome?
— Cale-se! Não quero ouvir nenhuma palavra mais.
Amélia ficou muda, indignada, desejando que ela e Lucas conseguissem escapar mais tarde.
Pelo menos ainda tinha a faca. A escondeu na primeira parte do corpo que lhe ocorreu: dentro do
corpete. Chegaram ao topo da colina, e ela avistou um castelo em ruínas no pequeno vale que se
estendia a seus pés.
— Dirigimo-nos para lá? Para aquelas ruínas?
— Sim. Os moços dizem que esse lugar é assombrado, então não se aproximariam nem que
lhes pagassem. Muita podridão, acredito, mas não posso convencê-los com isso. — Fez uma pausa.
— E já que insiste em conversar, me digam algo que me seja útil: Lady Venetia é tão bela
como dizem os jornais de Londres?
Um sequestrador escocês que lia o jornal de Londres. Que estranho.
— Por que quer saber?
— Por nada.
Mas Amélia podia notar sua irritação. Talvez devesse animá-lo a revelar algum detalhe que a
ajudasse a desmascará-lo se conseguissem escapar.

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— Venetia é a mulher mais bonita que conheço. Os homens tropeçam os uns com os outros,
tentando casar com ela.
Ele ficou tenso.
— Então, por que contínua solteira?
— Creio que ainda não encontrou um homem que a agrade.
— Ou um homem que o pai dela goste - apontou ele com secura.
— Conhece o pai dela pessoalmente?
O Açoite deu um bufo.
— Bom, já chega de bate-papo. Será melhor que se preparem para uma longa estadia na
Escócia, ao invés de tentar me tirar alguma informação.
Ela suspirou. Era óbvio que precisava polir seus dotes de espiã.
Enquanto desciam pela ladeira íngreme da colina, Amélia divisou uma fileira de faias e
abetos nos limites do castelo, flanqueada por campos de aveia. Atravessaram-nos e depois
entraram em um pequeno bosque, abrindo caminho entre as árvores até que chegaram ao centro.
Pararam perto de uma fogueira extinta onde, pelo visto, os bandidos haviam passado a noite.
Depois de desmontar, seu captor a ajudou a descer do quadrúpede, e logo fez um gesto para
o Lucas.
— Amarrem o ianque pelos tornozelos e depois o amarrem a uma árvore. — Montou
novamente no cavalo. — Vou dar instruções ao Jamie e a organizar tudo para dispor de um lugar
mais permanente para nossos hóspedes.
— E a mulher? — perguntou Robbie. — A amarramos também?
— Ela não irá a nenhum lugar sem ele, não, uma fina dama inglesa como ela ficará quietinha.
Podem amarrar as mãos dela, se assim ficarem mais tranquilos; mas a amarrem pela frente, me
entenderam, moços?
— Olhou a seus homens fixamente. — Nem lhes ocorra tocá-la. Para mim será muito mais
valiosa se não lhe fizermos mal.
Com o coração em um punho, Amélia observou como o líder se perdia de vista, deixando a
seus seguidores com a missão de vigiar ela e Lucas enquanto se preparavam para depenar um par
de frangos graúdos.
O rapaz mais jovem a apontava com um mosquete enquanto Robbie obrigava Lucas a se
sentar, em seguida amarrou as mãos do Lucas juntas ao redor da árvore e suas pernas para frente.
Robbie se levantou e a olhou aos olhos.
— Agora é a sua vez.
Apresentou as mãos com porte irado, jurando que quando todo esse pesadelo terminasse,
pediria ao Lucas que a ensinasse como usar uma arma. Não pensava permitir que nenhum outro
patife voltasse a amarrá-la.
— Sente-se — grunhiu Robbie quando acabou.
Ela obedeceu, e ele se dirigiu para o outro extremo da fogueira apagada e depositou seu
mosquete no chão. Afastou as folhas caídas das árvores, desenterrou uma garrafa de um buraco
que havia no chão, e logo se sentou e começou a beber. Seu amigo se aproximou e também se
sentou, deixou a um lado o mosquete para pegar a garrafa e também bebeu um gole.
Lucas gritou:
— Malditos desgraçados, onde está sua hospitalidade? Não pensam me oferecer um gole?

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— Isto é um bom uísque escocês— respondeu Robbie. — Não penso esbanjá-lo oferecendo
a um ianque.
— Anda, Robbie — falou o outro tipo. — Se comportará melhor se estiver um pouco
embriagado. Com certeza um ianque não pode suportar muitos goles de nosso uísque.
Robbie riu com crueldade.
— É verdade. Bom, lhe dê um gole. — Enquanto seu amigo ficava de pé, disse: — Não,
espere... esse tipo só quer que se afaste das armas para poder te atacar. Envie à garota.
Com os batimentos do coração retumbando em seus ouvidos, Amélia esperou. Era melhor
que tomassem por uma garota abatida. Agora teria a oportunidade de entregar a faca ao Lucas.
Robbie a olhou com desprezo.
— Vamos, mulher, não me ouviu? Venha aqui e pegue a garrafa. Mesmo sendo uma dama
tão fina, pode fazê-lo, não?
Com porte ofendido, ela se levantou e foi recolher a garrafa com suas mãos atadas.
Enquanto se dirigia para Lucas, com a boca da garrafa exerceu pressão sobre seus seios e jogou o
casaco para trás, logo tentou empurrar para cima a faca embainhada que guardava em seu seio.
Quando se inclinou diante do Lucas para lhe oferecer a garrafa, a faca emergiu nitidamente de seu
esconderijo.
— Que lugar tão interessante para ocultar uma arma — murmurou Lucas.
Com as mãos amarradas, Amélia não podia segurar a garrafa e manipular a faca ao mesmo
tempo, assim sussurrou:
— Pegue-a!
Lucas a segurou com os dentes delicadamente e a olhou com os olhos brilhantes de desejo.
Teria o atiçado com a garrafa? Como lhe ocorria pensar nisso em um momento tão perigoso?
Assim que se livrou da faca, Amélia levou a garrafa mais perto do seio para poder ocultar a arma
embainhada debaixo dos dedos.
— Jogue-a em minhas mãos — sussurrou Lucas.
— Ei! — vociferou Robbie. — Está pensando em lhe dar todo o conteúdo da garrafa ou o que?
— Tem sede, isso é tudo — gritou ela por cima do ombro.
Seu pulso batia furiosamente quando soltou a faca. Enquanto Lucas se retorcia para tentar
agarrar a arma com suas mãos atadas, ela colocou o casaco outra vez em seu lugar.
— Vamos, já chega! — atravessou Robbie.
— Peguei — sussurrou Lucas. — Agora os distraia.
Ela se ergueu, deu a volta, e caminhou para os homens. Continuou caminhando até que
ficou longe o suficientemente para que os bandidos se vissem forçados a afastar a vista do Lucas
para olhá-la, então levou a garrafa aos lábios.
— Cavalheiros, espero que não me neguem o desejo de provar seu delicioso uísque.
Robbie começou a rir.
— Claro que não. Mas se for capaz de beber sem engasgar, juro que como o chapéu.
— De acordo. — Como gostava dos desafios. Tomou um gole, e ato seguido cuspiu a
beberagem e começou a tossir. Por Deus, como os homens podiam gostar dessa porcaria?
Enquanto Robbie ria a gosto, Amélia teve uma ideia: assegurando-se de que ambos os
homens a olhavam, derramou acidentalmente o uísque sobre o seio.
— Mecachis, mas que tia mais desajeitada! — espetou Robbie enquanto se levantava de um

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salto e lhe tomava a garrafa.
Ela olhou Lucas furtivamente. Conseguira desamarrar as mãos, e agora estava cortando as
cordas ao redor dos tornozelos.
Amélia piscou timidamente ao Robbie.
— Ai, estou toda molhada. — Começou a soltar os laços do casaco com as mãos atadas e se
encolheu como se tivesse frio. — Este uísque pegajoso destroçará minha pele delicada.
Robbie olhou o vestido de Amélia, que estava empapado e colava aos seios, e de repente
aumentou os olhos como um par de laranjas. Nesse momento, Amélia benzeu o inventor dos
corpetes apertados. Seu cupincha o repreendeu:
— Recorda o que o laird disse...
— Só estou olhando. Não acontecerá nada porque olho, não?
O laird. Laird significava "lorde" em escocês, quer dizer, senhor... O Açoite Escocês era um
nobre com terras?
— Pois então me deixe olhar também. — O jovem se levantou e se dirigiu para Amélia.
— Se um dos dois tiver a gentileza de secar o uísque — insinuou ela com uma voz
melancólica — ficaria muito grata...
— Eu secarei — se ofereceu Robbie, tirando um lenço.
Nesse instante, as costas dos dois bandidos, Lucas começou a avançar silenciosamente para
o mais jovem, com a faca erguida. Amélia o viu e conteve a respiração.
Então tudo aconteceu com uma grande rapidez. Se foi por culpa do olhar assustado de
Amélia, ou devido a uma reação instintiva do jovem escocês, a questão é que o bandido se virou
no momento em que Lucas pretendia lhe dar uma punhalada mortal, mas só conseguiu feri-lo no
ombro. Enquanto o moço lançava um grito de dor e Robbie girava a cara rapidamente, Amélia
pegou a garrafa que tinha entre as mãos e com ela o golpeou tão forte na cabeça que o recipiente
se quebrou em mil pedaços.
Mas embora o bandido tenha caído sobre seus joelhos, ainda tentou alcançar a pistola.
Lucas gritou:
— Corre, droga, corre!
Ela correu para o Lucas. Seu marido estava lutando com o outro escocês pelo controle da
faca. Então Lucas cravou o moço no ombro ferido e se desfez dele, a seguir a agarrou pelo braço e
os dois fugiram correndo.
Aterrorizada, Amélia correu ao lado de Lucas, embora seus sapatos de festa
proporcionassem um escasso amparo a seus pés. Atrás deles soou um disparo, mas eles
continuaram correndo, afastando a tapas os galhos das árvores, correndo pela floresta. Ao longe
Amélia viu a luz do sol. Já estavam quase nos confins do bosque.
Entre eles e o castelo em ruínas só havia um campo de aveia, mas Lucas não perdeu
velocidade nem inclusive quando a arrastou pelo campo. Embora os caules de aveia fossem altos,
não lhes proporcionavam proteção, e Amélia correu com todas suas forças; sabia que seus
captores logo chegariam ao campo que agora estava a ponto de deixar atrás.
Justo quando ela e Lucas alcançaram o castelo, Amélia escutou um ruído a sua direita e viu o
Açoite galopando colina abaixo como um possesso. Provavelmente ouviu o disparo, mas por sorte
não os viu. Ainda. O desespero se apoderou de Amélia quando ela e Lucas penetraram no castelo
em ruínas. Em torno deles, muros muito altos, desintegrando-se, elevavam-se para o céu. Não

155
havia teto, e enquanto inspecionavam o espaço, deram-se conta de que o lugar não era mais que
uma pilha de escombros ao ar livre.
— Ainda tem a faca? — perguntou, lhe mostrando as mãos atadas.
— Sim. — Lucas cortou a corda. — Não pensava que fosse uma arma tão eficaz contra
mosquetes e pistolas.
Ela deu um olhar furtivo através da beira do muro e lançou um grito abafado quando viu o
Açoite cavalgando em círculos ao redor de seus seguidores, que já haviam conseguido sair do
bosque. O homem que Lucas havia ferido segurava o braço lesado, mas isso não parecia frear
muito seu progresso.
— Precisamos fazer algo — sussurrou ela. — Se voltarem a nos agarrar, esse Robbie te
matará, com certeza.
Lucas deu uma olhada pela beira do muro também, e deu um salto para trás com o
semblante preocupado.
— Corre e busca ajuda. Posso retê-los para que você tenha tempo de...
— Não penso deixá-lo aqui! Eles irão matá-lo, Lucas!
— Se não a capturarem, poderá retornar com soldados.
— Sim, e quando chegarmos aqui, você estará mais que morto, e esses assassinos terão
desaparecido. — Amélia se afastou da parede para percorrer o interior em ruínas, procurando que
os escoceses não a vissem.
— Deve existir algum lugar onde possamos nos esconder.
— Droga, Amélia! — Lucas foi atrás dela, agarrou-a pelo braço e a obrigou a se virar e a olhá-
lo. — Deve ir! Não temos tempo para jogos.
— Se alguém tem que ficar, então essa será eu. Sou eu a pessoa que os interessa viva.
— Você não vai ficar. — Forçando-a para que desse a volta, empurrou-a para o buraco na
parede que conduzia aos campos.
Ao invés de prestar atenção, ela se dirigiu a uma lareira que ainda se erigia em pé.
— Talvez poderíamos nos esconder dentro desta lareira.
— Você não caberá. — Lucas avançou para ela. — E eu menos ainda.
Amélia se ajoelhou para olhar a lareira por dentro, e ao fazê-lo colocou a mão no dintel de
pedra. Um ruído seco a sobressaltou, como se algo se quebrasse. Talvez sim o castelo fosse
assombrado.
Então se deu conta de que um dos blocos laterais do dintel se moveu. Ficou olhando
boquiaberta durante um momento, e depois o empurrou um pouco mais. O enorme bloco se
moveu para ela. Na parte do chão estava obstruído por um montão de escombros, mas quando
Amélia deu uma olhada ao redor da borda, descobriu que ocultava um buraco de uns dois metros
de comprimento por um metro de largura.
— Um esconderijo para padres! — Amélia começou a afastar os escombros para um lado.
— O que é um esconderijo para padres? — perguntou Lucas enquanto se ajoelhava e
também começava a afastar os escombros com as mãos.
Ela se levantou, e desta vez foi capaz de empurrar o bloco o suficiente para entrar.
— Um esconderijo para padres, meu querido marido — disse Amélia triunfalmente— é onde
iremos nos esconder.

156
Capítulo 22

Querida Charlotte:
Perdoe por ter demorado tanto em lhe responder, mas não consegui descobrir nada sobre o
que aconteceu aos implicados no percalço. Falei com os amigos de lorde Kirkwood e com o cônsul
americano, mas ninguém sabe nada. É muito irritante.
Seu desconcertado primo,
Michael

— Lucas deu uma olhada ao claustrofóbico esconderijo e sacudiu a cabeça com firmeza.
— Eu não vou entrar aí dentro, não.
Amélia conseguira retirar o bloco de pedra. Virou-se e o olhou fixamente.
— É claro que entrará. É a única possibilidade que temos de escapar vivos desta.
— Muito bem. Você se esconde aí, e eu os entreterei para que pensem que foi embora. Não
vou correr o risco de que nós dois fiquemos presos dentro de...
— É impossível. Na parte interior há um puxador de ferro para fechar a abertura, e um
pequeno fecho que tão somente ao apertá-lo se abre.
— Faça o que te digo, Amélia. Se esconda aí dentro; enquanto isso, eu os distrairei.
Lucas tinha o semblante contorcido, e sua respiração era entrecortada. Se Amélia não
fechasse essas fauces do inferno, logo seria testemunha de como ele enlouqueceria angustiado,
tentando desesperadamente respirar. Lucas apoiou o ombro no bloco, mas quando ela se deu
conta de sua intenção de fechar a entrada, agarrou-o pelo casaco.
— Nem sonhe, Lucas Winter.
— Afaste o braço — ordenou ele.
Amélia sacudiu a cabeça energicamente.
— Terá que quebrá-lo. Porque não penso me esconder aí dentro enquanto eles o matam
sem que eu o ouça.
Maldita fosse sua esposa e sua teimosia!
— Não posso — resmungou ele com os dentes cerrados. —- Prefiro ficar aqui fora com a
oportunidade de lutar do que trancado aí dentro.
— Então nós dois juntos os enfrentaremos, porque não vou entrar sozinha.
Agora Lucas podia ouvir os sons de seus perseguidores sobre os escombros que circundavam
o lugar. Se não agisse com rapidez, logo descobririam sua esposa. E sem poder esquecer a imagem
de como aquele miserável chamado Robbie falou sobre ela e como a devorou com os olhos...
Lucas fechou os olhos e se meteu na boca do inferno. Não viu - embora sim escutou - como
ela arrastava o bloco para selar a entrada. Estava suando, e seu coração começou a pulsar
disparadamente. Manter os olhos fechados não o ajudava absolutamente. Ali dentro não podia ter
suficiente ar para respirar. Os dois morreriam asfixiados nesse asqueroso nicho, do mesmo modo
que ele quase se sufocou naquele maldito túnel...
— Chist! — murmurou ela junto a sua orelha.
Só então se deu conta de que deveria ter feito algum ruído - um suspiro, um gemido, algo. E

157
isso não era aceitável. Em um ato de vontade extraordinária, tentou escapar do terror que sentia.
Não podia desmoronar nesse momento. Se os descobrissem, teria que sair e lutar, para dar a
Amélia a oportunidade de correr.
E não poderia fazer isso se estivesse no chão enroscado como um novelo e tremendo,
tomado pelo medo. Conteve a respiração ao escutar as vozes próximas.
— Por todos os demônios! Não podem ter se esfumado!
Quando Lucas reconheceu a voz do líder do bando, abriu os olhos de par em par. E o que viu
foi uma absoluta escuridão. O pânico voltou a apoderar-se dele, e notou como começava a lhe
faltar o ar nos pulmões. Então Amélia se aproximou mais dele, e ele percebeu o medo de sua
esposa de que os descobrissem. Pelo bem dela, não podia perder o controle.
— Já te disse que este lugar estava assombrado — balbuciou Robbie do exterior da cela. —
Os fantasmas os engoliram.
— Nenhum maldito fantasma os engoliu — espetou o chefe. — Devem estar em algum lugar.
— Fez uma pausa. — Droga! — gritou, conseguindo que Amélia e Lucas se sobressaltassem. —
Estão nos campos?
Mal conseguiram ouvir a voz que respondeu:
— Não os vejo. Talvez tenham se deitado no chão, para se esconder.
— Espalhem-se! Varreremos os campos ao redor do castelo!
As vozes cessaram, mas isso foi ainda pior, porque agora Lucas podia ouvir o ruído das botas
sobre os escombros, como se tratasse do ruído dos corpos que se arrastavam pelo chão justo em
cima do túnel... Os corpos de seus homens, com os quais deveria ter estado, quem deveria ter
salvado. Sentiu-se novamente tomado pelo terror, e sua respiração era cada vez mais forte...
"Droga, homem, não pode se deixar vencer pelo medo. Não quando a vida de Amélia está
em jogo. Pensa em algo mais. Algo..."
Esforçou-se para escutar os ruídos além da cela, tentando seguir os passos dos bandidos. Se
ele e Amélia ficassem ali até o anoitecer, provavelmente poderiam escapar. Três homens não
poderiam vigiar toda a área de noite, e talvez nem tentariam... se não encontrassem seu
esconderijo logo, possivelmente iriam embora.
Mas a ideia de passar várias horas nessa cela abandonada da mão de Deus fez que seu terror
retornasse, seu coração se acelerasse, sua garganta ficasse bloqueada. Mil raios e mil centelhas,
como conseguiria? Nem sequer sabia quanto tempo restava a ele e a Amélia antes que acabasse o
ar. Mas o ar não parecia rarefeito. Obrigando-se a concentrar-se em algo mais para não pensar
nesse diminuto espaço claustrofóbico, gradualmente se deu conta de que percebia uma corrente
de ar proveniente de algum lugar.
Abruptamente, soltou Amélia para mover-se ao longo do perímetro da cela, passando as
mãos sistematicamente por todos os lados, de cima até embaixo. Quando encontrou um orifício
de ventilação com uma placa de ferro perfurada e cravada na pedra, apoiou-se na parede com
alívio. Pelo menos não morreriam asfixiados. Mas esse descobrimento ainda piorava mais a
situação, já que Lucas começou a pensar que poderiam ficar aí trancados durante semanas, sem
comida nem água. Precisava comprovar o mecanismo, assegurar-se de que a porta voltaria a abrir.
Não, ainda não.
— Não demorarão para retornar — sussurrou Lucas, enquanto sentia o enorme peso da
escuridão sobre todo seu ser.

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— Chist! Carinho, poderiam te ouvir — murmurou Amélia.
Só então Lucas se deu conta de que havia falado em voz alta.
— Ou falo ou começo a gritar — pigarreou ele. — Você escolhe.
Maldição, desejou não ter sido tão franco. Sentiu-se mortificado ante a ideia de que ela
conhecesse a tremenda magnitude de sua debilidade.
— Tenho outra ideia melhor — sussurrou ela. Chegou mais perto dele, então capturou o
rosto de seu marido entre suas mãos e começou a acariciá-lo... a beijá-lo.
Amélia estava tentando jogar um cabo para que ele, um homem a ponto de se afogar, o
pegasse, e Lucas desejava agarrar-se a esse cabo desesperadamente, perder-se dentro desse calor.
Mas a única coisa que o aterrava mais que essa escuridão infernal era a violenta necessidade que
sentia por ela. Se aceitasse agora, jamais seria capaz de resistir a essa mulher.
— Não. — Lucas respirou em cima dos lábios de sua esposa. — Estou bem, de verdade. Logo
passará. E temos que estar alerta se por acaso...
— Se por acaso nos encontram? Está tremendo como um pudim, e sua pele está suarenta.
Não aguentará cinco minutos mais, a menos que me permita tentar afastar sua mente da
escuridão.
— Darei um jeito de aguentar — respondeu ele, nervoso.
Ela pôs a mão entre suas pernas, onde seu pênis traidor se excitou ante o tato. Estirando-se
para pressionar sua boca contra a orelha do Lucas, Amélia acrescentou:
— E eu também darei um jeito. Não precisa fazer nada. Só me deixe adorá-lo.
Adorá-lo? De que diabo estava falando?
Então sentiu suas mãos nos botões da calça e compreendeu. Ou pensou que compreendia.
Mas como de costume, não conhecia absolutamente a sua esposa, já que depois de baixar a calça
e os calções, não o tocou com a mão, tal e como esperava. Não, ajoelhou-se diante dele e
começou a beijar seu membro. Que Deus tivesse piedade dele. Lucas não a ensinou a fazer isso.
Assim, ou Amélia foi bastante descarada com outro homem antes de deitar-se com ele, ou era
outra das habilidades que aprendeu desses malditos contos do harém.
Lucas apostou pela segunda possibilidade, já que ela estava beijando seu pênis em vez de
colocá-lo dentro da boca. Essa era provavelmente sua ideia de venerar o membro de um homem,
mas o certo era que estava deixando-o louco.
— Chupe — sussurrou ele, logo repreendeu a si mesmo por falar em voz alta. Fazia um
tempo que não ouvia ruído de botas, mas isso não significava que os bandidos não estivessem
rondando perto. Por sorte não teve que dizer nada mais. A boca de Amélia se fechou ao redor de
seu pênis, quente, sedosa e úmida, e Lucas pensou que fosse morrer de prazer. Adiantou suas
mãos na escuridão para agarrar sua cabeça e aproximá-la mais dele.
A boca de Amélia ao redor de seu membro provocava uma sensação terrivelmente agradável
para poder resistir. Sua língua... OH, Por Deus, sua língua o lambia, acariciava-o, o fazia estremecer
e agarrar-se a sua juba com fúria. Sua boca se movia ao longo de seu pênis com uma incerteza tão
doce que o fez sentir uma intensa pontada de dor no peito. O fato de saber que ela o fazia por...
por ele... para acalmá-lo... era mais excitante do que inclusive a língua sedosa e quente brincando
com seu pênis enquanto o sugava e sugava e...
Lucas recostou-se para se liberar da boca de Amélia, ajoelhou-se e a agarrou pelos ombros
para sustentá-la entre seus braços.

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— Lucas? — ela murmurou em cima de sua boca.
Ao diabo com o orgulho.
— Preciso estar dentro de você. Mas não sei se serei capaz de resistir muito...
— Pois então não resista— respondeu ela, lançando seus braços ao redor do pescoço do
Lucas.
Ele a empurrou contra a parede e levantou a saia. Elevou as pernas dela para que se
aferrasse com elas a sua cintura, encontrou o ponto mais doce e úmido dela e colocou o membro
através do orifício dos calções para empalá-la.
Amélia sufocou o feroz gemido do Lucas com seus lábios, beijando-o como nunca fez antes,
ferozmente, descaradamente. Lucas se afundou em sua boca com aroma a uísque, e permitiu que
o gosto e o tato dela afugentasse o terror que ainda sentia no mais profundo de suas vísceras.
Penetrou-a, e o terror diminuiu. Voltou a penetrá-la até o fundo, e o terror diminuiu mais.
Com cada investida, conseguia controlar mais seu medo, e cada doce beijo que lhe dava o ajudava
mais, até que começaram a mover-se em um ritmo perfeito, como se estivessem conspirando para
vencer os pesadelos que o atormentavam. E quando Lucas correu dentro dela e afundou seus
gemidos na erótica calidez de sua boca, a incrível sensação de bem-estar que se apoderou dele
eliminou o resto de seu medo.
Ficaram ofegando, beijando-se, acariciando-se. Na intimidade que lhes conferia a escuridão
completa, Lucas descobriu que os lóbulos das orelhas de Amélia eram incrivelmente sensíveis, que
um simples roce involuntário com o indicador sobre a parte interna de seu pulso podia acelerar o
pulso dela de uma forma selvagem, que ela parecia gostar das cócegas que sua barba por fazer
provocava na delicada pele do pescoço.
Amélia acariciou o cabelo atrás da orelha dele e logo sussurrou:
— Faz tempo que não ouço nada, e você?
— Não. — Lucas se calou para escutar, concentrando-se em suas habilidades como soldado:
a perturbação dos ritmos naturais como o vento e o canto dos pássaros e a vibração do chão. —
Não estão perto. Mas não foram muito longe.
— Então acho que será melhor não sairmos ainda — murmurou ela.
— Não até que caia a noite.
Amélia ficou em silencio durante um longo tempo, respirando em cima da face do Lucas.
— E como saberemos quando é de noite?
— Saberei. Os sons mudam. E a temperatura desta brisa que entra através da fenda irá
diminuir.
— OH, como me alegro que um de nós se fixe nesse tipo de detalhe.
— Se surpreenderia do muito que alguém pode aprender quando fica preso sob a terra... —
Se calou de repente quando se deu conta do que acabava de revelar.
— Me conte — murmurou ela. — Por favor. Se achar que não... bom...
- Que não me transtornará de novo?
Lucas fez uma pausa, logo se deu conta de que já não sentia tanto pânico. Ainda não gostava
desse espaço fechado e a escuridão, mas a brisa ajudava, e ter a esposa entre seus braços fazia a
situação quase suportável.
Quase.
Lucas deslizou os pés até sentar-se no chão, e a convidou a sentar-se também, logo apoiou

160
as costas na parede e fez que Amélia se acomodasse entre suas pernas. Quando ela ficou meio
deitada, com a face apoiada no rosto do Lucas, ele procurou infundir-se coragem para relatar sua
história.
— Meu navio foi capturado pelos ingleses no final da guerra. Fizeram-me prisioneiro e me
enviaram à prisão de Dartmoor.
— Em Devon? Não fica muito longe de onde eu vivia. É um lugar horrível.
— Eu sei. Por isso não estava em Baltimore quando meu pai se enforcou. Meus pais nem
sequer se inteiraram de que me tornei prisioneiro. Não receberam nenhuma de minhas cartas.
Meu pai foi à tumba acreditando que eu estava morto.
— Por isso se matou?
Lucas duvidou alguns instantes antes de responder com uma mentira.
— Sim. — O velho rancor voltou a despertar dentro dele. — Então minha mãe soube por um
dos primeiros prisioneiros que soltaram que eu poderia estar em Dartmoor, então, desesperada,
escreveu a Kirkwood. Foi ele quem seguiu minha pista, e logo convenceu os britânicos para que
me soltassem. — Apertou os dentes. — O tratado foi assinado em Ghent no mês de março,
entretanto não me soltaram até maio. Alguns prisioneiros ficaram retidos até julho.
— O que significa que você estava ali em abril.
— Sim. — Ele estremeceu.
— OH, Lucas —murmurou Amélia, com a voz dolorosamente suave. — Estava ali durante o
massacre.

Capítulo 23

Querido primo:
Lady Kirkwood finalmente admitiu aos Tovey algo impensável: o comandante Winter foi
prisioneiro em Dartmoor durante nossa última guerra. Dados os horríveis acontecimentos que
ocorreram naquele lugar, lorde Tovey tem agora ainda mais interesse em descobrir se sua filha se
casou com um indivíduo vingativo.
Sua preocupada prima,
Charlotte

Amélia não teve que escutar a resposta do Lucas; sabia. Com uma terrível sensação de pena
no estômago, sabia.
Entretanto, quando ele disse: "Sim, estava lá durante o massacre", não pôde evitar que as
lágrimas começassem a escorrer por suas faces. Porque finalmente compreendeu por que odiava
tanto os ingleses. E por que seria tão difícil para ele aceitá-la e aos seus.
Procurou manter a tristeza afastada de sua voz.
— Viu... viu o que aconteceu?
— Ouvi, e posso garantir que foi quase tão terrível quanto presenciar. — Abraçou-a tão forte
que Amélia quase não podia respirar. — Quando começou a refrega, eu estava fazendo guarda no
túnel que estávamos cavando para escapar. Os outros prisioneiros selaram apressadamente a

161
entrada com a laje para ocultá-lo, sem se dar conta de que eu ainda estava lá dentro. — Sua voz se
tornou mais amarga, fria. — Os casacas vermelhas estavam em cima de mim, matando sete de
meus companheiros americanos e mutilando outros sessenta, alguns deles morreram mais tarde.
Tudo o que pude fazer foi escutar os gritos.
— Céu santo! — Ela o beijou na face. — O jornal não disse nada sobre a existência de túneis.
— Os jornais britânicos mantiveram um grave mutismo sobre a metade das coisas que
aconteceram em Dartmoor. Sobre quantos dos meus morreram por causa do frio e da umidade; as
epidemias de varíola; os prisioneiros mortos de fome, procurando comida nos m... —Suspirou
abruptamente. — Não é uma história para uma dama.
— Não me importa. Quero ouvi-la. — Embora cada palavra partisse seu coração — Nos
jornais disseram que os prisioneiros estavam tentando escapar saltando a cerca quando os
soldados abriram fogo.
— E se isso fosse verdade, o que teria importado? Pelo amor de Deus, a guerra havia
acabado, e o tratado estava ratificado. Só um maldito assunto administrativo nos mantinha ainda
em Dartmoor, mas Shortland, o governador da prisão, decidiu nos assassinar! Aquele desgraçado
inglês prepotente...
Lucas se deteve, respirando com dificuldade. Então sua voz ficou mais inexorável.
— Aquele canalha alegou na investigação posterior que estávamos planejando causar
estragos nos arredores, mas isso era uma mentira. Só se sentia frustrado por nossa férrea
oposição.
— Esse homem confessou nos jornais que preferiria ter que fiscalizar dois mil prisioneiros
franceses do que a duzentos americanos.
— Nós o odiávamos, e ele nos odiava. — Seu corpo estremeceu de raiva atrás dela. — Não
importa o que Shortland alegasse, foi ele quem ordenou aos soldados que atirassem. Alguns
casacas vermelhas descarregaram seus mosquetes por cima das cabeças da multidão, mas o resto
deles agiram como animais, derrubando os prisioneiros como cães. Um dos mortos, um homem
de meu próprio navio...
Sua voz se quebrou. Quando voltou a falar, seu tom era tão duro e frio como os muros do
esconderijo para padres.
— Contaram-me que implorou que não o matassem, mas os casacas vermelhas
responderam: "Aqui não temos piedade de ninguém", e lhe colocaram uma bala na cabeça.
Amélia podia notar uma terrível aflição na garganta por ele.
— E enquanto isso acontecia, você estava preso no túnel?
— Durante dois dias.
Um calafrio a percorreu da cabeça aos pés.
— Como é possível que acontecesse uma coisa assim?
Quando ele deu um encolher de ombros, Amélia sentiu a fricção contra seu peito.
— A noite do massacre houve um tremendo caos. Os guardas precisaram de toda a manhã
seguinte para ajeitar a bagunça: meio-dia para limpar o sangue dos homens que haviam
assassinado e mutilado em tão somente três minutos. E quando deixaram sair os milhares de
prisioneiros de seus quartos, necessitaram horas para levar a cabo uma recontagem precisa.
— E ainda assim, esqueceram de você?
— Até que um de meus companheiros, desenquadrado pelo massacre, decidiu voltar a cavar

162
o túnel. Encontrou-me aturdido, sedento, meio morto de fome, e muito próximo à morte.
— OH, carinho. — Amélia o rodeou pelo pescoço com seus braços. — Que experiência tão
atroz!
O corpo do Lucas se sacudiu por causa de um calafrio.
— Tentei mover a laje, mas normalmente eram necessários dois homens para movê-la. Só
eu não podia movê-la. Logo me vi obrigado a apagar a lanterna, por medo de que consumisse
parte do ar respirável. Passei dois dias às escuras, me perguntando se ia morrer asfixiado, ou se os
ingleses viriam me encher de balas como com os homens que ouvi gritar...
Quando Lucas se deteve fatigado, ela apoiou sua cabeça contra a dele e chorou. Chorou por
ele e pelas crueldades que havia sofrido, pelos soldados assassinados no massacre, por seu pai
que morreu acreditando que estava morto, e inclusive por sua pobre mãe.
Chorou porque sabia que ele não podia fazê-lo, porque inclusive agora, depois de confessar-
se nessa cela escura, estava sentado rigidamente, sem rastro de umidade nas faces nem soluços
provenientes de sua garganta. Estava sentado como um soldado e sofria na escuridão, como
sofriam todos os soldados defendendo seu país.
— Chist, carinho, isso aconteceu faz muito tempo — murmurou ele. Roçou-lhe a face com os
lábios. — Vamos, pare de chorar.
Que ele tivesse que consolá-la em tal situação fez que Amélia sentisse ainda mais vontade
de chorar. Mas a dor patente no tom de seu marido lhe deu a entender que suas lágrimas o
incomodavam, e isso não era precisamente o que queria.
Enquanto lutava por conter suas emoções turbulentas, lhe acariciou o cabelo.
— Tudo vai ficar bem, agora tudo vai ficar bem. — Ele procurou acalmá-la.
— Não, não é verdade — soluçou ela. — Não pode ficar sob o convés de um navio, não tem
mais família e odeia os ingleses. Como pode dizer que tudo vai ficar bem?
Ele a abraçou com ternura.
— Não me importa se não posso voltar a descer às cabines de um navio, agora você é minha
família, e não odeio a todos os ingleses. Só os que vestem casacas vermelhas. — Esfregando
carinhosamente o nariz em sua face, acrescentou em um murmúrio: — Jamais poderia te odiar.
— Isso eu espero — sussurrou Amélia. Mas ainda existia muita amargura e raiva nele. Notou
em sua voz, sentiu em seus músculos tensos, enquanto lhe relatava a história.
Teriam que passar muitos anos antes que ele pudesse virar a página dessa atrocidade.
Seria seu marido capaz de viver satisfeito, com uma mulher inglesa? Se não pudesse...
Não, preferia não pensar nisso. Ele dissera que queria um matrimônio real, e ela lhe deu a
palavra. De algum modo, conseguiria que ele apagasse esse horroroso passado de sua mente. De
algum modo, conseguiria que a amasse.
As lágrimas queimavam seus olhos. Amor. OH, que sonho tão elusivo. Poderia amá-la algum
dia? Poderia fazê-lo? Porque agora ela se dava conta de que o amava. Esse sentimento foi
crescendo dentro dela durante dias, mas agora sabia. Amava-o tanto que doía o peito só de
pensar nisso. E lhe partiria o coração se ele não fosse capaz de amá-la.
Lutando contra as lágrimas, apoiou a cabeça no ombro do Lucas. Enquanto isso, ela tentaria
obter o máximo dele. Que mais poderia fazer?
— Escuta, carinho — murmurou Lucas. — Deveríamos tentar dormir enquanto podemos.
Quando conseguirmos sair deste maldito buraco, ainda ficará uma longa noite pela frente.

163
— Não sei se serei capaz de relaxar para poder dormir.
— Tenta. — Lucas abriu mais as pernas para que ela se acomodasse, logo fez que apoiasse a
cabeça em seu peito. — Mas primeiro me diga... O que é exatamente um esconderijo para padres?
— Quando o parlamento escocês decretou que ser católico era um crime, e os protestantes
fanáticos varreram as terras em busca de papistas para encerrá-los no cárcere, as famílias devotas
católicas ocultaram os padres em quartos especialmente desenhados como este. Embora custe
acreditar, também existem esconderijos para padres na Inglaterra, que datam da época isabelina.
— Acredito. Vocês ingleses adoram forçar seus inimigos a se esconder na escuridão. — Mas
o rancor em sua voz havia desaparecido, e seu corpo já não estava tenso.
Com um suspiro, ela se acomodou entre seus braços, deixando-se embalar por sua
apaziguadora calidez, sua opressão reconfortante. E enquanto o silêncio reinante se estendia,
finalmente conseguiu adormecer.
Lucas não teve tanta sorte. Ao falar do túnel despertou alguns de seus pesadelos mais
venenosos; sabia que jamais conseguiria sentir-se bem em um lugar fechado e completamente às
escuras. Pior ainda, ao falar do massacre reviveu alguns dolorosos momentos dos dias posteriores.
A investigação formal levada a cabo pelo governo britânico absolveu Shortland de qualquer
responsabilidade. Os soldados ingleses implicados também foram absolvidos, porque ninguém vira
quem havia disparado e quem não. Considerou-se que a história aconteceu por causa de um
trágico mal-entendido, e que os dois bandos tinham parte de culpa.
Mentira! Homens desarmados responsáveis por serem assassinados a sangue frio? Nem no
calor da batalha, nem por interesses bélicos. A sangue frio. E para que? Para nada.
O caso ainda clamava justiça.
Amélia se moveu entre seus braços, murmurando algo, e Lucas afastou as sombrias
lembranças de sua mente. Agora havia outras coisas mais importantes que o inquietavam.
Precisava pensar na melhor estratégia para escapar. Deviam retornar pelo caminho por onde
vieram ou pegar um atalho através dos campos até sair à estrada mais abaixo? O que os escoceses
pensariam que eles iam fazer?
Esses pensamentos o absorviam, embalavam-no. Depois de um momento, o cansaço de
vários dias e noites sem dormir se apoderou dele, e teve um sono irregular. O sonho começava
como sempre. Unicamente vestido com os farrapos da prisão, achava-se preso no túnel,
escutando os gritos, sufocando-se pela falta de ar, procurando desesperadamente sua faca,
rodeado sempre da mais absoluta escuridão...
Despertou ofegando e tremendo, mas desta vez Amélia estava a seu lado, acariciando-o com
ternura, murmurando palavras tranquilizadoras em sua orelha, beijando-o nas faces, na mandíbula,
na garganta. Ela o acalmou como um moço dos estábulos acalma um garanhão inquieto, e graças a
sua tenra ajuda, finalmente relaxou. Desta vez, quando adormeceu, caiu em um sono profundo e
sem pesadelos. Despertou sobre o frio chão de pedra. Amélia não estava a seu lado.
Espreguiçou-se de repente, sentindo um repentino ataque de pânico, até que viu - não
escutou, mas sim viu - sua silhueta imprecisa no marco da porta aberta, com a lua brilhando sobre
sua cabeça.
— O que está fazendo? — sussurrou ele enquanto se ajoelhava para arrastá-la até o interior
do esconderijo.
— Já anoiteceu. E tinha razão: se escutar atentamente, dá para saber quando o sol se põe.

164
Lucas a olhou boquiaberto. Dormiu o dia todo nesse buraco infernal? Surpreendente.
Ficou de pé e se moveu para a laje aberta e inspecionou as ruínas que se abriam ante seus
olhos com enorme cautela. Então deslizou até o exterior. Quando ela começou a avançar para ele,
Lucas sacudiu a cabeça.
— Fique aí. Se ouvir algo alarmante, feche a laje e espere até que possa escapar sozinha
mais tarde.
Lucas começou a esquadrinhar as ruínas com passos silenciosos. Quando chegou a borda do
muro, deteve-se para dar uma olhada na direção do bosque. Não viu sinal algum de fogo, embora
isso não o tranquilizasse.
Os bandidos podiam ter fugido por temor que Lucas e Amélia retornassem com soldados...
ou podiam ter se escondido em algum lugar fora das ruínas. Precisava correr o risco.
Possivelmente ele e Amélia não disporiam de outra oportunidade. Depois de examinar o céu
noturno para orientar-se e determinar que direção deviam tomar, retornou ao esconderijo para
padres, surpreso de que fosse capaz de entrar na cela sem sentir que lhe faltava o ar.
— Vamos. Mas primeiro preciso te dar algumas instruções.
— Não sei por que, mas não me surpreende — disse ela, com um sorriso suave.
— Não vi nem rastro dos escoceses, mas isso não significa que se foram. Assim quando
abandonarmos este esconderijo, não diremos nenhuma só palavra até que cheguemos à estrada.
Os sons são muitos mais audíveis de noite, e já passaremos suficientes apuros atravessando os
campos sem sermos vistos.
— De acordo.
Lucas tirou o casaco e o pôs em Amélia.
— Me dê a mão firmemente, e não solte a menos que eu ordene. Se te disser para correr,
corra e não olhe para trás, compreendido?
— Sim, meu comandante. As suas ordens, meu comandante.
— Falo sério. — Agarrou o rosto da esposa entre suas mãos. — Não se detenha para discutir
comigo nem tente me ajudar. Posso me arrumar sozinho. Mas aconteça o que acontecer, não
descansarei até que saiba que está a salvo.
Amélia suspirou, e Lucas lhe deu um doce beijo nos lábios; depois a tirou do esconderijo.
Movendo-se em silencio através dos campos em direção à colina, alcançaram a estrada sem
nenhum incidente e empreenderam a longa caminhada para Gretna Green. A lua iluminava o
caminho que pisavam; a estrada estava deserta. Não era estranho que os escoceses tivessem
escolhido atacar aquela rota. Caminharam quase uma milha em silencio antes que Lucas
considerasse que podiam falar sem perigo.
— Está bem? — perguntou suavemente.
— Sobreviverei — resmungou ela.
Então Lucas notou que Amélia coxeava.
— Aconteceu algo com seu pé? — perguntou alarmado.
— Nada que um decente par de sapatos não possa arrumar. Estes estão a ponto de
arrebentar. Parece que os sapatos de baile não foram desenhados para andar por meia Escócia.
Amaldiçoando-se por não ter pensado nessa questão antes, Lucas se deteve e lhe disse que
tirasse os sapatos. Desabotoou uma de suas botas, usou sua faca para cortar a ampla lingueta pela
metade, e colocou um pedaço de couro dentro de cada sapato, como uma palmilha. Talvez com

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essa capa extra, poderiam aguentar um pouco mais antes de arrebentar.
Quando Amélia colocou os sapatos outra vez e deu alguns passos, ele perguntou:
— Melhor?
— Muito melhor, obrigada. — Empreenderam a marcha estrada abaixo e ela se agarrou a
seu braço.— Sabe? Resulta um tipo muito útil, quando precisa escapar de bandidos e de
sequestradores. E já que parece que atraio aventuras onde vou, acredito que necessitarei de um
companheiro como você.
Lucas deu um suspiro.
— Espero que esteja brincando, porque mais algumas aventuras como estas e não chegarei
a envelhecer. — Lançou um olhar malicioso. — Não posso acreditar que ainda tenha vontade de
brincar, depois de tudo o que passou.
— Bom, ou rio ou começo a gritar, parafraseando certo comandante.
Lucas capturou a mão de Amélia entre as dele.
— Teve uma overdose de aventuras, não?
— Como? Não! Ninguém pode ter nunca uma overdose de aventuras.
Ele sacudiu a cabeça.
— Juro, carinho, que jamais conheci uma mulher como você, nem inglesa nem de nenhuma
outra nacionalidade.
— Espero que o diga como um elogio, comandante.
— Claro que sim. Fez um bom trabalho com aqueles escoceses, quando me passou a faca e
os distraiu, e todo o resto. Desejaria ter mais soldados como você sob meu comando.
Ela o olhou com o rosto iluminado.
— Então, não pareço com sua mãe, depois de tudo?
— Carinho, se minha mãe fosse feita prisioneira de um bando de escoceses, teria morrido
imediatamente de susto... Ou teria pedido a eles que aumentassem o resgate para que ela
pudesse conseguir uma parte do dinheiro. — Acariciou-lhe a mão. — Garanto, não se parece em
nada a minha mãe.
Caminharam um momento mais em silêncio. Então ela espremeu o braço dele
carinhosamente.
— Não sente falta dela?
Lucas ficou pensativo durante um momento.
— Às vezes, suponho. Minha mãe tinha o costume de cantar canções sentimentais enquanto
cozinhava. Como cozinheira era péssima, mas cantava muito bem... — Suspirou. — Parecia um
rouxinol. Mesmo um jantar de purê de milho acompanhado por um molho gorduroso era mais que
aceitável para um menino como eu se pudesse ouvir minha mãe cantar.
— Meu pai cantarola canções — apontou Amélia. — O problema é que não é capaz de seguir
uma melodia, assim que seu cantarolar parece mais o miar dos gatos quando se acasalam.
— Meu pai assobiava...
Durante o resto do trajeto até o povoado, continuaram conversando sobre suas famílias.
Ante a surpresa de Lucas, falar sobre seus pais o ajudou a reduzir o terrível pesar que sentiu
durante três longos anos. E foi mais fácil morder a língua quando Amélia lhe falou de Dolly.
Quando chegaram ao pequeno povoado adormecido de Gretna Green, a maioria das luzes
estavam apagadas. Apesar da hora, Lucas retornou à mesma estalagem da qual partiram para

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enfrentar o hospedeiro sobre seu cocheiro. O hospedeiro jurou e perjurou que não tinha nada a
ver com o assalto, que fazia só uma semana que havia contratado Jamie como cocheiro. Lucas
estava a ponto de amassar a cabeça dele contra a parede para lhe surrupiar alguma verdade,
quando uma voz familiar atrás dele vociferou:
— Que diabos ocorre aqui? Minha esposa e eu estamos tentando... Winter? É você?
Lucas se virou e viu seu primo, descendo pelas escadas da estalagem, e ficou olhando
boquiaberto... até que recordou que Kirkwood confessou sua intenção de fugir com a senhorita
Linley. Pelo visto, conseguira.
Kirkwood deixou de olhar Lucas para cravar a vista em Amélia, com uma evidente cara de
susto.
— Pelo amor de Deus, o que aconteceu? — Então deu uma olhada para o pátio vazio da
estalagem atrás deles, e seu susto se transformou em mau humor. — Que diabo fez com minha
maldita carruagem?

Capítulo 24

Querido primo:
Finalmente tenho notícias! Lorde Tovey recebeu uma carta confirmando que sua filha e o
comandante Winter estão a caminho de Londres, agora casados. Como eu gostaria de presenciar
esse encontro tão emotivo, mas me vejo obrigada a retornar à escola por causa de alguns assuntos
pendentes. Não obstante, assim que puder retornar a Londres, irei vê-los. Morro de vontade para
saber se minha querida Amélia está desfrutando de sua vida de casada.
Sua amiga agora mais aliviada,
Charlotte

Não demoraram para descobrir que a maldita carruagem de lorde Kirkwood estava em
Carlisle, na estalagem onde O Açoite Escocês ordenou que a deixassem. Ainda continha os
pertences de Lucas e Amélia, mas sua espada de mameluco estava cravada na parede do fundo da
carruagem, aguilhoando uma nota que dizia:

Digam a lorde Duncannon que nem sempre poderá escapar do Açoite Escocês. Não
descansarei até que recupere o que me deve, e quando o fizer, esse senhor se arrependerá do dia
que me negou o que com todo direito era meu.

O jovem Jamie havia desaparecido; pelo visto, O Açoite avisou o moço para que saísse
correndo uma vez que tivesse deixado a carruagem com a nota.
Assim Lucas e lorde Kirkwood passaram todo o dia conversando com as autoridades de
ambos os lados da fronteira antes que os dois casais pudessem partir para Londres na carruagem
de Kirkwood. Embora o fato de compartilhar a carruagem pareceu a Amélia e Lucas uma bênção
do céu a princípio, logo se converteu em um calvário. O constante falatório de Sarah afundou
Lucas em um silêncio ameaçador.

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Amélia tentou desviar o assunto sobre quantas variedades de joias pensava comprar Sarah,
mas todos seus esforços foram inúteis. Até mesmo lorde Kirkwood começou a mostrar sinais de
cansaço depois do primeiro dia, e Amélia não sabia se sentia pena dele ou o repreendia. Afinal, ele
deveria saber onde estava se metendo quando se casou com Sarah, a Tola, por sua fortuna.
Embora Amélia compreendesse as circunstâncias, pensava que tudo era culpa de Kirkwood, por
ter escolhido uma mulher tão frívola.
Mas se os dias de Amélia na carruagem se converteram em uma tortura, as noites nas
pousadas que achavam pelo caminho foram gloriosas. No caminho de volta a casa, viajaram como
pessoas civilizadas, a um ritmo tranquilo, pernoitando cada noite em uma estalagem. Assim que
cada dia, depois de jantar com lorde Kirkwood e Sarah, ela e Lucas se retiravam a seu quarto - e à
cama - antes o possível. Como se tratasse de um acordo tácito, não falavam nem de Dolly nem dos
Frier; o certo era que falavam muito pouco.
Falavam com seus corpos, OH, sim; com seus corpos sim, sentiam vontades de se expressar.
Amélia jamais teria sonhado que um homem pudesse dar tanto prazer a uma mulher de formas
tão diversas, ou que uma mulher descobrisse tantos segredos na pele de um homem. Embora às
vezes Lucas fazia amor com um afã quase desesperado, ela preferia não dar importância. Sabia
que seu marido estava preocupado pela situação com sua madrasta, mas logo descobriria que
Dolly era inocente. Então a nuvem sobre suas cabeças se dissiparia.
Entretanto, em sua última noite na estrada, foi impossível seguir evitando o assunto.
Enquanto ela e Lucas jaziam meio tombados na cama, com seus corpos nus entrelaçados, ele pôs
aquela expressão abstraída que tanto havia recorrido ultimamente. Ela o beijou no peito, e então
Lucas sorriu. Mas Amélia podia notar a tensão dentro dele enquanto seu marido tomava sua mão
esquerda e começava a brincar com seu anel.
— Comprarei um verdadeiro anel de casamento na cidade — anunciou ele.
— Pois eu prefiro este.
— Era do meu pai. Minha mãe deu a ele nos primeiros anos de casamento e ele o usou por
toda sua vida.
Amélia assimilou a confissão, pensando na devoção que seu pai professava a Dolly.
— Lucas?
— Mmm? — Ele acariciou o cabelo dela. — Por Deus, como gosto de seu cabelo, seu toque
sedoso, seu aroma, tudo. Tem o cabelo mais bonito que já vi em minha vida.
Pareceu uma declaração tão estranhamente íntima, provindo de seu taciturno marido, que
Amélia quase baixou a guarda. Mas decidiu incidir no assunto.
— Sei que tem vontade de que acabe toda esta história dos Frier. Mas me prometa que
falará com Dolly em particular, quando meu pai não estiver presente. Não quero que ele... não
acredito que ele...
— ...aceite que sua esposa é uma delinquente? — asseverou entre dentes.
— Não, não acredito que ele deva sair machucado por culpa de suas infundadas acusações -
contra-atacou ela.
Lucas deu um bufo de cansaço.
— Manterei em particular se puder. Mas só se me prometer que não falará com ela sobre
este assunto até que possa confrontá-la. Não quero que a previna; quero ver sua reação quando
ouvir o nome de Theodore Frier pela primeira vez. Deve-me isso, Amélia.

168
E era verdade, especialmente depois dele ter posto de lado seus próprios planos tão
galantemente para casar com ela.
— De acordo; enquanto você manter em particular.
Mais tarde naquela noite, Lucas teve um de seus sonhos correntes. Quando despertou com
seus gritos, ela o acalmou tão bem como pôde, mas reparou no fato de que seu marido não teve
nenhum pesadelo desde o dia que ficaram trancados no esconderijo para padres. O comentário
sobre Dolly fez disparar seus medos? E se fosse assim, por quê?
Enquanto se aproximavam de Londres no dia seguinte, o nervosismo de Amélia foi
crescendo gradualmente. Lucas estava tão solene como um padre, lorde Kirkwood parecia agitado,
e inclusive Sarah mantinha a boca fechada. Entre os pais furiosos de Sarah e os receosos pais de
Amélia, os quatro sabiam que não desfrutariam de boas-vindas cheias de alegria, como a maioria
dos casais esperaria.
Era quase hora de jantar quando os Kirkwood deixaram Amélia e Lucas diante da porta da
mansão dos Tovey, ansiosos para acabar o quanto antes com sua própria cerimônia de boas-
vindas. Quando Amélia se dispunha a segurar no enorme trinco, Lucas segurou sua mão. Seus
olhos sombrios desprenderam uma repentina chama cálida.
— Aconteça o que acontecer, lembre-se que agora estamos casados. É minha esposa, e isso
deve contar para alguma coisa.
Ela ergueu o queixo com arrogância.
— Espero que conte para mais que alguma coisa, tanto para mim como para você.
Lucas soltou um retumbante bufo, logo a atraiu para si para beijá-la com apaixonado
abandono que a desarmou por completo. Amélia se esqueceu de que estavam de pé na entrada
de sua casa, com provavelmente a metade dos vizinhos os espiando atrás das cortinas. Esqueceu
que seu pai e madrasta estavam lá dentro aguardando sua chegada com impaciência.
Esqueceu que não teve exatamente a intenção de casar com esse homem teimoso e
arrogante.
Quando Lucas a beijou com a doçura mais ardente de um amante, ela recordou só que o
amava. Assim que lhe devolveu o beijo, depositando todo seu coração nisso e rezando para que
um dia ele também a amasse.
Amélia não era a única que depositava todo seu coração. Agora que se aproximava o
momento da verdade, Lucas queria recordá-la uma vez mais que agora lhe pertencia, antes que o
inferno vindouro os consumisse em suas chamas. Porque se ele tivesse razão a respeito de Dolly
ser Dorothy Frier, então os sentimentos de Amélia por ele se veriam tristemente postos a prova.
E quando isso acontecesse, desejava tê-la integralmente em seu campo.
Assim Lucas não pareceu se importar quando o mordomo abriu a porta e os encontrou
fundidos em um apaixonado abraço. Já era hora de que todo mundo, incluindo o mordomo,
soubesse que Amélia era dele.
Enquanto Lucas a soltava lentamente, Hopkins gaguejou:
— OH... p... perdão, minha senhora... Ouvi... ouvi vozes e...
— Não foi nada, Hopkins. — Com um sorriso tenso, Amélia tomou a mão de Lucas. — E não
me chame minha senhora, já que tomei o nome de meu marido. Pode comunicar a papai e a Dolly
que chegamos?
Não foi necessário. No segundo em que Amélia e Lucas atravessaram a soleira, duas pessoas

169
saíram precipitadamente da sala de jantar e abraçaram Amélia com arrebatamento. Enquanto os
três se abraçavam, riam e choravam, Lucas se manteve afastado, observando-os. Então que esse
cavalheiro esvaído era o pai de Amélia. O que significava que a diminuta e delicada figura feminina
devia ser a madrasta de Amélia.
O pai de Amélia tinha mais aspecto de professor que de lorde, com seus óculos e as pontas
dos dedos manchados de tinta. A diferença de Pomeroy e inclusive de Kirkwood, lorde Tovey não
parecia muito preocupado pela aparência: seu fino cabelo castanho apontava para todas as
direções possíveis, e sua jaqueta, gravata e calças estavam tão enrugadas como os do Lucas após
vários dias de viagem. Mas Lucas pôde distinguir a semelhança familiar em seus olhos e no cabelo
ondulado, ambos da mesma cor marrom chocolate que ele achava tão atraente em Amélia.
E ali estava lady Tovey. Durante esses meses de busca, imaginou uma sedutora exultante,
com uma juba acobreada, e não uma diminuta mulher com aspecto de fada madrinha, com o
rosto sardento e com o cabelo quase laranja. Exasperou-o ver sua presa em carne e osso - se
realmente era sua presa. - Dolly não atuava como uma mulher perversa. De fato, foi ela quem
primeiro rompeu o abraço familiar para incluí-lo também no reencontro.
— E este é seu jovem marido, coração? — perguntou ela, mostrando claramente o afeto que
sentia por Amélia em cada uma de suas doces palavras.
— Sim! — exclamou Amélia, ruborizando-se ao dar-se conta de que o deixou abandonado.
Soltou-se de seu pai e se colocou ao lado de Lucas, logo deslizou a mão pela dobra do cotovelo de
seu marido. — Papai, Dolly, apresento-lhes meu marido, o comandante Lucas...
— Já sabemos quem é. — Lorde Tovey observou Lucas com um olhar receoso. — É o homem
que roubou minha filha.
Lucas apertou os olhos ante o ataque inesperado.
— Lorde Pomeroy roubou sua filha, senhor. Eu só a recuperei. E se não queriam que a
roubassem, não deveria tê-la deixado sozinha em Londres para que fosse vítima de tipos
desalmados como esse maldito caça fortunas.
Lorde Tovey parecia ofendido.
— Fiz o que minha filha me pediu.
— Um pedido que deveriam ter negado, com o Pomeroy a rondando.
Amélia apertou o braço de Lucas carinhosamente, e logo interveio:
— Perdoe as palavras de meu marido, papai. Como soldado, tende a mostrar-se muito
protetor comigo.
— E estamos muito agradecidos por isso, comandante. — Lady Tovey deu um passo para
frente para agarrar seu marido pelo braço. — Não teria suportado ver nossa doce Amélia casada
com aquele homem tão horrível.
Quando Dolly lançou a Lucas um olhar nervoso, ele compreendeu imediatamente por que
Amélia defendia aquela mulher com tanta ferocidade. Parecia como uma pequena menina
desamparada, e não a enganadora mulher feita e direita de trinta e dois anos como imaginou que
seria Dorothy Frier.
— Sim, papai — adicionou Amélia. — Recorda que se não fosse por Lucas, agora estaria
desonrada ou casada com lorde Pomeroy.
— Acredite, filha, esse é o único motivo que me contém para não me comportar de um
modo descortês. Isso, e o excelente relatório que a senhora Harris me deu do comandante.

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— E onde está a senhora Harris? — perguntou Amélia alegremente, tentando suavizar as
duras palavras de seu pai.
— Precisavam dela na escola — explicou lady Tovey. — Mas me pediu que transmitisse a
você e ao comandante Winter seu desejo de que amanhã passem para visitá-la.
— Não podem fazer isso — opinou lorde Tovey. — Temos que consultar o advogado a
respeito das condições do matrimônio. De fato, seu marido e eu deveríamos ir um momento a
meu escritório para...
— Ainda não, George — protestou lady Tovey. — Agora mesmo íamos sentar para jantar. A
pobre Amélia e o marido provavelmente não comeram, ainda, embora seja possível que antes
prefiram subir e mudar de roupa.— Sorriu ao Lucas. — Lady Kirkwood fez que trouxessem seus
pertences para cá quando soube que estavam de volta, assim encontrará toda sua bagagem no
andar superior, no quarto que há ao lado do de Amélia, se por acaso desejam se assear e ficarem
mais cômodos.
— Duvido que ele possa esperar tanto — esclareceu Amélia. — Pelo menos eu não posso.
Estamos famintos.
— Fez minha filha passar fome? — resmungou lorde Tovey, olhando Lucas com cara de
poucos amigos.
— Sua filha come quando tem vontade — espetou Lucas.
— Então, por que está faminta?
— Já chega, papai — interveio Amélia com uma risada forçada. — Garanto, se continuar
assim, meu marido quererá ir para América em menos de uma semana.
A alegação silenciou a seu pai, serenou sua madrasta, e provocou em Lucas dores na barriga.
Quando ele se fosse para América com sua madrasta presa, sua esposa também iria?
Ou ela ficaria na Inglaterra e o despediria com uma enxurrada de insultos?
De momento, Amélia estava tagarelando enquanto se dirigiam a sala de jantar. Lucas notou
que a esposa tendia a tagarelar sem parar quando estava nervosa, e essa noite não era nenhuma
exceção. Depois de entrar na estadia e ocupar seus assentos, ela começou a relatar
detalhadamente como ele a salvou de lorde Pomeroy. Narrou os acontecimentos de um modo
suficientemente divertido para arrancar um sorriso a seu sóbrio pai. Enquanto serviam a sopa,
relatou as desculpas que deu Pomeroy para raptá-la.
Durante o segundo prato, consistente em pescado, passou por cima a parte quando foi
drogada e saltou até o momento em que Lucas apareceu na estalagem para resgatá-la, e isso
pareceu suavizar muito o ressentimento de seu pai para seu marido. E Lucas, claro, agiu de um
modo parecido elogiando a esposa quando descreveu a sova de golpes que deu em Pomeroy com
o cântaro, o que fez rir o pai e sorrir a madrasta.
Pelo visto, os dois conheciam de sobra a vertente amazônica de Amélia.
Mas quando Amélia começou a descrever o casamento, lady Tovey começou a chorar
desconsoladamente.
— Dolly! — exclamou Amélia. — O que foi?
— Como teria gostado de assistir seu casamento! — balbuciou a mulher entre soluços. —
Com certeza foi uma noiva preciosa!
— E você não se engana — interveio Lucas precipitadamente, amedrontado ante os gemidos
da diminuta fada madrinha.

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— Tampouco fui grande coisa — afirmou Amélia, rindo. - Não usava o cabelo recolhido, e
meu traje parecia um asco. Parecia uma dessas pobres damas que chegaram a Inglaterra fugindo
da Revolução francesa.
— Para mim não — repôs Lucas. — Estava muito bonita. Sempre está bonita. — assim que
soltou essas palavras lisonjeiras, arrependeu-se de as ter pronunciado. O fariam parecer um tolo
romântico.
Mas pelo menos lady Tovey deixou de chorar, e a cara de mau humor de lorde Tovey
suavizou. E o enganador sorriso que Amélia lançou ao Lucas fez que tivesse vontade de saltar ao
outro lado da mesa e beijá-la com arrojo. Mil raios e mil centelhas. A situação estava matando-o.
Tudo o que queria nesse momento era agarrar sua mulher e partir da Inglaterra, esquecer de
Dorothy e Theodore Frier, esquecer de sua missão, esquecer de fazer justiça.
Mas não podia. E se permitisse que os sorrisos de sua esposa o tentassem até o ponto de
ignorar a tarefa pela qual veio a Inglaterra, isso queria dizer que estava acabado.
Havia chegado a hora de iniciar sua investigação. Prometera a Amélia que não comentaria
nada que pudesse alarmar lorde Tovey, mas isso não significava que não pudesse perguntar a lady
Tovey algumas perguntas maliciosas.
— Pelo que entendi é de Boston, lady Tovey — começou com um tom distendido,
esquadrinhando o rosto de Dolly.
Ela o olhou fixamente, subitamente receosa.
— Eu... bom... meu falecido marido era de Boston. — Agarrou a taça de vinho com a mão
tremula. — Vivemos lá enquanto estivemos casados. — Tomou um sorvo de vinho como se
tentasse acalmar-se, logo sorriu a Lucas.
— Esteve em Boston, comandante?
— Não, senhora. O mais perto que estive de Massachusetts foi quando visitei Rhinebeck, em
Nova Iorque.
Quando Dolly ficou pálida, ele sentiu uma pontada no estômago. Não foi o único que se deu
conta da reação de Dolly, já que Amélia pareceu igualmente surpreendida.
— E o que fazia em Rhinebeck? — aventurou-se a perguntar lady Tovey.
Lucas duvidou, perguntando-se até que ponto se atreveria a seguir em frente com essa
conversa delicada sem romper a promessa que fez a Amélia.
— Estive ali por uma missão que me atribuíram na Infantaria da Marinha.
— Que tipo de missão? — sussurrou a mulher, com os olhos descomunalmente abertos.
Lucas tomou um longo gole de vinho, mais agitado do que esperava. Uma coisa era apanhar
uma desavergonhada que convenceu seu amante para que roubasse uma fortuna da Infantaria da
Marinha, e outra bastante diferente era torturar uma pequena fada madrinha indefesa.
— Uma missão, diz? — interveio lorde Tovey. — É a mesma missão que mencionou a
senhora Harris? A investigação da fuga de um estelionatário?
Enquanto Lucas o olhava boquiaberto, lady Tovey sussurrou:
— Do que está falando, querido? A senhora Harris não disse nada a respeito de nenhum
estelionatário.
Lorde Tovey lançou a esposa um olhar indulgente.
— Eu sei, meu amor. Disse isso esta manhã, antes de partir. Explicou-me a verdadeira missão
que trouxe o comandante Winter até a Inglaterra. Você estava tão ocupada preparando tudo para

172
a chegada de Amélia que por isso não lhe contei.
— E como sabia, a senhora Harris? — Lucas lançou a sua esposa um olhar acusador.
— Não se lembra, Lucas? — disse Amélia visivelmente incômoda. — O primo da senhora
Harris obteve essa informação a partir de um conhecido na Infantaria da Marinha.
De acordo. Esqueceu-se disso. E, é obvio, a boa viúva Harris se encarregou de difundir a
informação. Era óbvio que lorde Tovey não fazia nem ideia da relevância desses dados, o que
significava que desconhecia por completo as atividades de sua esposa. Mas a julgar pelos traços
alterados de Dolly, ela estava começando a descobrir o motivo de Lucas estar ali.
Pelo visto, inclusive as fadas madrinhas podiam ter segredos sombrios.
— E então, comandante Winter? — Lorde Tovey se serviu um pedaço de rosbife. — É a
mesma investigação? O caso do desfalque de uma companhia naval?
Lucas escrutinou o rosto de Dolly.
— Sim. — Enquanto ela o olhava com uma crescente confusão nos olhos, ele acrescentou
deliberadamente. — Estou perseguindo um homem chamado Theodore Frier, e a sua
companheira.
— Companheira? — inquiriu lorde Tovey, sem dar-se conta da agitação de Dolly. — Então,
são dois fugitivos?
Lady Tovey se levantou abruptamente.
— Se me desculparem um momento...
Enquanto se precipitava para a porta, lorde Tovey se serviu de outro pedaço de rosbife.
— Perdoe minha esposa, comandante Winter — explicou o homem, — mas em seu estado,
o cheiro da comida às vezes lhe provoca náuseas.
Estava claro que ela se alterou. Lucas também se levantou.
— Pois eu também necessito... ehem... ir ao reservado. Se me desculparem...
Não era uma desculpa muito brilhante, mas não se importava. Não pensava deixar que
Dorothy Frier escapasse agora, se isso era o que pensava fazer. Mas Lucas ficou surpreso quando
encontrou lady Tovey perambulando pelo corredor. Apesar dela ter dado um pulo quando o viu,
colocou um dedo diante dos lábios e assinalou para uma porta ao outro lado do corredor.
Ele a seguiu até ali, com o coração pulsando disparadamente.
Dolly entrou na estadia depois dele e fechou a porta, então deu a volta e o olhou fixamente,
com uns olhos cheios de raiva.
— Sei o que quer, comandante Winter. Se é que realmente é comandante.
Sua rabugice o exasperou.
— Pois claro que sou comandante. Por que mentiria com uma coisa assim?
— Porque mentiu sobre muitas outras coisas — atravessou ela acaloradamente. — Sei que
essa história sobre o desfalque é falsa. Está aqui pelo dinheiro. — Esfregando as mãos
nervosamente, dirigiu-se para a lareira.
— Bom, posso lhe dar uma parte. Tenho joias avaliadas em cinco mil dólares, no mínimo. —
virou-se para ele, com lágrimas nos olhos. — Estou certa de que poderei conseguir o resto, se me
der um pouco de tempo.
Lucas a olhou boquiaberto, surpreso de que tudo tivesse sido tão fácil, apesar dela negar o
desfalque, mas isso devia ser uma simples tentativa de preservar seu orgulho.
— Assim admite que é Dorothy Frier?

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— É obvio que admito. Não sou tão ingênua; já sei o que houve. Casou com minha enteada
para conseguir sua fortuna, já que provavelmente pensou que não recuperaria seu dinheiro de
nenhum outro modo. — Seus olhos estavam cheios de lágrimas. — Você deveria ter vindo falar
comigo primeiro. Teria lhe dado qualquer coisa para que não dissesse nada sobre meu passado.
Ainda penso fazer isso, mas só se me jurar que irá para América e deixará minha pobre Amélia fora
de todo este assunto sujo. É fácil ver que ela já está meio apaixonada por você, assim deve ir antes
o possível, enquanto ela ainda é capaz de se recuperar do desengano amoroso.
— Não me casei com Amélia por dinheiro, droga! — resmungou ele.
Ela ergueu o queixo com altivez, apesar de tremer violentamente.
— Fingir que realmente está apaixonado por Amélia não servirá para obter mais dinheiro. Já
é suficientemente terrível que ela não saiba que se casou com um chantagista desalmado, mas...
— Amélia sabe tudo: por que estou aqui, quem é você, e o que fez.
— Fiz! — Dorothy o olhou com estupefação. — Não fiz nada!
— Então, por que está me oferecendo dinheiro, por que oculta seu passado...?
A porta da estadia foi aberta de par em par para revelar Amélia de pé, junto ao pai.
— Sinto muito, Dolly — disse ela suavemente. — Tentei... tentei que ficasse na sala de jantar,
mas a súbita reação de Lucas despertou suas suspeitas.
— Pode-se saber que diabos ocorre aqui? — espetou lorde Tovey. — Comandante Winter!
Exijo uma explicação por seu comportamento!
Durante um momento, pai e filha ficaram imóveis na porta. Lucas desejava contar tudo a
esse homem, mas havia prometido a Amélia que não o faria. E Dorothy estava claramente abatida.
Então Dolly levantou a vista e a fixou em sua enteada. Seus olhos eram agora suplicantes.
— O que foi exatamente que seu marido contou a respeito de mim, coração?
— Sobre Dorothy Frier, quer dizer? — matizou Amélia em um sussurro.
Dorothy piscou.
— Sim, sobre mim.
Quando o rosto de Amélia mostrou sua decepção, Dorothy se virou e olhou Lucas fixamente.
— Que mentira contou a ela? O que ela acha que fiz?
— Ela jamais acreditou que fez algo de errado — espetou Lucas quando viu como se
desvanecia a pouca esperança que ficava em Amélia. — Você foi quem quebrou o coração dela. Eu
sabia que era Dorothy Frier desde o começo, mas ela continuou insistindo que não podia ser a
esposa de Theodore Frier.
— Esposa! — A cara de Dorothy mostrava incredulidade. — Não era a esposa de Theo.
— Companheira, amante...
— Não era nada disso, desalmado! — Lady Tovey perdeu a paciência. — Era a irmã de
Theodore Frier!
Irmã? Por um momento, o mundo do Lucas começou a rachar.
Então se lembrou que aquela mulher provara ser uma mentirosa contumaz.
— Sim! Não eram, melhor dizendo, não são. Ninguém em Baltimore mencionou que ele
tivesse uma irmã, e seu patrono em Rhinebeck a descreveu como a esposa que vivia separada de
Theo.
— Isso é porque quando me apresentei para o trabalho de governanta, os Webb
expressaram que queriam uma mulher casada. Então mostrei um retrato do Theo e eu e disse que

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vivíamos separados. Essa parte era verdade... fazia muitos anos que não via Theo. Então um dia
ele apareceu em Rhinebeck para me dizer que deixara o jogo e obtido um trabalho em Baltimore.
Não podia confessar aos Webb que mentira!
— E ainda espera que agora acredite que diz a verdade.
— Sei que o faz — disse lorde Tovey em uma voz áspera. — Ela era virgem quando nos
casamos.
— George! — exclamou Dorothy enquanto ruborizava. — Não deveria contar esse tipo de
intimidades...
— Se o motivo é evitar que este patife te acuse de que sabe o que, contarei tudo o que for
necessário. — Lorde Tovey olhou Lucas com irreverência. — Juro por minha honra que minha
esposa era casta quando nos casamos.
Contou-me que Obadiah Smith era muito velho para consumar o matrimônio e eu acreditei.
- dirigiu-se para a esposa. - Do mesmo modo que agora acredito quando diz que esse Theodore
Frier é seu irmão.
— Já veremos o que diz Theo quando falar com ele. — Lucas fulminou Dorothy com um
olhar sombrio. — Onde está?
Tremendo, ela deslizou a mão até apoiar-se no braço de seu marido.
— Está em Lisieux, na França. Mas receio que não poderá falar com ele.
— Por que não?
— Porque está morto.

Capítulo 25

Querida Charlotte:
Soube que os dois casais de recém casados retornaram à cidade. Segundo os rumores, o novo
sogro de lorde Kirkwood aceitou a contra gosto os termos do contrato que o visconde exigiu.
Quanto ao comandante Winter, ninguém comentou nada a respeito da reação que teve seu novo
sogro.
Seu curioso primo,
Michael

— Morto?
Amélia olhou a madrasta boquiaberta, tão assombrada quanto Lucas. E ferida, também,
além de confusa. Era Dolly culpada de algo? Eram verdadeiras as alegações?
Lucas a observava com cara de incredulidade.
— Frier está morto — repetiu.
— De febre nos pulmões. — As palavras escaparam da boca de Dolly. - Caiu em um rio uma
noite de inverno que estava bêbado. Pegou uma febre nos pulmões e jamais se recuperou.
Lucas a olhou com o cenho franzido.
— Sim, que conveniente, não?
Dolly o olhou fixamente, com calma.

175
— É a verdade, pense o que quiser.
— O persegui por meia França, e nunca conheci ninguém que atestasse que Frier havia
morrido. O último lugar onde estiveram foi Rouen...
— Não, foi Lisieux. Abandonamos Rouen quando ainda ficavam dias a conta do pagamento
da casa alugada que ocupávamos. Ele sempre fazia o mesmo, mudava de lugar constantemente
para escapar dos que o perseguiam.
— Quer dizer, de mim e da Infantaria da Marinha dos Estados Unidos.
— Não! Fugia desses desalmados jogadores de Baltimore. Os que se zangaram tanto quando
ele ganhou uma grande soma de dinheiro em uma partida de cartas e que o acusaram de
trapacear. — Olhou Lucas com cara de ressentimento.
— As pessoas para quem você trabalha.
Enquanto lorde Tovey rodeava Dolly com seu braço protetor, Amélia lançou um bufo. Dolly
era o tipo de pessoa que acreditaria em qualquer conto inventado se quem ela apreciava contasse.
— Dolly — interveio Amélia antes que Lucas descarregasse sua fúria sobre a pobre mulher.
— Garanto que Lucas trabalha para a Marinha dos Estados Unidos. Tem cartas de recomendação,
nas que o apresentam como um delegado naval. E sei que os Kirkwood podem corroborar sua
história.
Lucas olhou Amélia com um patente mau humor.
— Ela sabe que digo a verdade. Só tenta encobrir a pista até Frier. — Quando desviou a vista
para Dolly, de novo se comportou como o comandante Winter: um militar em uma missão de
investigação.
— Se acreditasse que Theo ganhou o dinheiro honestamente, não teria permitido que fosse
por aí dizendo que era sua esposa. Não teriam mudado de nome, nem teria fugido ao Canadá...
— Theo me disse que os jogadores o perseguiriam até os confins da Terra para recuperar seu
dinheiro. E a verdade é que...
Ficou um momento contemplando suas mãos.
— Isso — espetou Lucas. — Pelo menos uma vez, conte algo que seja verdade.
Dolly começou a chorar, e apesar de Amélia compreender o porquê, também sabia que
Lucas interpretaria seu comportamento como o tipo de tática a qual sua mãe teria recorrido para
escapar.
— A deixe em paz — bramou lorde Tovey, afagando Dolly entre seus braços. — Ela contou o
que sabe.
— Não me contou nem a metade do que sabe — contra-atacou Lucas. — E, de momento, a
única coisa que fez foi me contar uma fileira de mentiras.
— Lucas, por favor... — Amélia tentou apaziguá-lo.
— Você também acha que a enganaram, não é verdade? — disse Lucas com um tom
alterado. — Chora, e toda a lógica se desvanece. Mas pensa, Amélia, se Frier realmente estiver
morto, e sua madrasta realmente acreditou que ganhou essa fortuna em uma partida de cartas,
então, por que mentiu a respeito de onde obteve os recursos? por que inventou o falecido marido
Obadiah Smith? por que mentiu a você e a seu pai...?
— Porque tinha medo de que Theo realmente tivesse feito trapaças! — explodiu Dolly, com
as lágrimas rolando por suas faces. — Não podia... não podia contar ao George... — Levantou a
cara e olhou o marido. — Sabia que se sentiria mal se confessasse que minha fortuna poderia

176
provir de um assunto turvo. E tampouco estava segura se isso era certo.
— Claro que não é certo! Maldita seja! — gritou Lucas.
— Não sabia! — exclamou Dolly. — Queria confiar em Theo. Eu estava sumida no desespero.
A esposa do senhor Webb adoeceu, e ele começou a beber mais da conta e... e a se exceder
comigo. Quando tentei partir, ele se negou a me dar uma carta de recomendação se abandonasse
a casa, e eu não tinha nenhum lugar para onde ir. O povoado era pequeno... me ameaçou dizendo
se asseguraria de que jamais conseguisse trabalho de novo. — estremeceu violentamente. —
Escrevi ao Theo para perguntar se poderia ir viver com ele, e me respondeu que sim. Mas o senhor
Webb ameaçou me denunciar por roubar a casa se eu fosse embora, assim escrevi outra vez ao
Theo para notificar que não poderia ir...
— E ele roubou uma fortuna. — Lucas a olhou com os olhos acesos. — Para você. Em vez de
simplesmente ir procurá-la e a tirar daquela casa. É isso o que está dizendo?
Ela suspirou.
— Não. Se for verdade que ele roubou esse dinheiro, então o fez por ele. Estou segura de
que se convenceu que estava fazendo por mim, mas o mais provável é que aproveitou a
oportunidade para ficar rico. Esse foi o motivo de nosso prévio afastamento. Quando nossos pais
morreram, meu irmão começou a levar uma má vida, então procurei trabalho como governanta e
não tive nenhuma relação com ele, até que ele me garantiu que se reformou e que queria que
vivêssemos juntos de novo, como uma família. Quando conseguiu esse trabalho, acreditei. Mas
Theo gostava de coisas caras...
— Como você — resmungou Lucas.
O coração de Amélia se encolheu enquanto observava a seu marido. Para Lucas, Dolly era
simplesmente outro exemplo de sua mãe.
— Suplicou ao Frier que fosse resgatá-la, não é verdade? Suplicou que lhe desse uma vida
melhor, e ele obedeceu - expôs Lucas com amargura.
— Já chega, comandante Winter — atalhou o pai de Amélia, esticando o braço ao redor da
cintura de Dolly. — Minha esposa não é nenhuma bruxa ambiciosa. A maior parte de seu dinheiro
destinou a minhas terras e ao dote de Amélia. Devolverei tanto quanto puder; isso se puder
provar suas acusações. Minhas terras só posso legar a meus herdeiros, não posso vendê-las, mas
se leiloar algumas coisas...
— George, não permitirei que venda tudo aquilo que aprecia... — começou a dizer Dolly.
— Chist, meu amor, fique tranquila. — Lorde Tovey a beijou na testa. — A única coisa que
me importa é você e a criança. E Amélia, é obvio, embora espere que seu novo marido ainda tenha
intenção de continuar com ela.
— Lançou a Lucas um olhar hostil. — Já que se casou como parte de sua investigação...
— Casei com ela para salvar sua honra — espetou Lucas, ostensivamente incômodo ante a
visão dos pais de Amélia tão afetados. — Além disso, o dinheiro não é o que importa. Quero...
queremos justiça. Theodore Frier, julgado, declarado culpado, e executado por seus delitos.
Enquanto Dolly se sobressaltou ante a palavra executado, Amélia ficou perplexa pelo ardor
que se desprendia da voz de Lucas. Por que ainda mostrava essa inabalável determinação de
capturar Frier? Lorde Tovey sentenciou:
— Minha esposa lhe disse que... está morto.
— Me perdoe que seja tão cético, senhor. Sua esposa nos contou tantas mentiras que só

177
uma prova fidedigna da morte desse indivíduo poderá me convencer. E duvido que a tenha.
Todos os olhos se cravaram em Dolly, que estava tremendo.
— Tenho... tenho uma certidão de óbito.
— Seu marido... OH, me desculpe, seu irmão — retificou Lucas em um tom sarcástico, — é
um estelionatário, senhora. Falsificar uma certidão de óbito não lhe custaria muito esforço.
— Se não acredita, então vá visitar seu tumulo em Lisieux — propôs Dolly.
— Qualquer um pode erigir uma lápide — falou Lucas.
— Um homem da localidade se encarregou de preparar seu corpo. Chama-se Lebeau. Estou
segura de que se for lá e falar com ele...
— Sim. E quando não encontrá-lo, dirão que talvez tenha ido viver em outro povoado. Ou
que morreu. Têm uma resposta para tudo, não é assim, Dorothy?
— O proíbo que chame assim minha esposa! — interveio lorde Tovey. — Agora é lady Tovey,
assim exijo que se dirija a ela com o devido respeito.
Amélia lançou um bufo enquanto pensava: "OH, papai. Essa é a última coisa que deveria
dizer a meu arrogante marido, se quer salvar Dolly".
O olhar de Lucas, tão frio como um bloco de gelo, poderia ter acovardado inclusive um
duque.
— Tentarei recordar esse conselho quando prendê-la e a levar de volta a América para que
possa repetir toda essa fileira de mentiras diante de meu governo em pessoa.
— Lucas não... — começou Amélia.
— Mas se ela não fez nada de errado! — protestou seu pai.
— Exceto mentir sobre o paradeiro de Frier. E se tiver que levá-la sob custódia para forçar
seu irmão a sair do esconderijo, asseguro que o farei.
— Maldito seja! Não vai levar a minha esposa a nenhum lugar. Está esperando um filho, e
ela é uma pessoa frágil. Não arriscarei perder outra esposa enquanto dá a luz. Especialmente
quando lhe contou tudo o que sabe!
Jogando faíscas pelos olhos, Lucas cruzou os braços.
— Podem provar?
Lorde Tovey não respondeu, porque não podia. Nem tampouco podia Amélia. E, entretanto,
estava absolutamente convencida de que Dolly só era culpada de ter acreditado cegamente no
irmão, da mesma forma que confiava às cegas em todo aquele por quem sentia afeto.
— Seja razoável, Lucas — atravessou Amélia.
Seu marido desviou a vista e a olhou fixamente, com olhos tão frios e distantes que ela
sentiu seu sangue gelar.
— Não vou permitir que Frier escape da justiça por causa da palavra da irmã dele.
Por que estava comportando-se de um modo tão visceral com esse assunto? Porque Frier
era inglês?
— Pelo menos investiga a história de Dolly antes de se inclinar por uma opção tão drástica
como levá-la a América. Vá a França, ver se... o tumulo de seu irmão está lá.
— E quando retornar, todos terão desaparecido, não? Você estará em algum lugar onde não
possa te encontrar, enquanto ela corre para avisar o irmão, seja onde for que se esconde.
— Como pode pensar que eu agiria de uma forma tão vil? — O coração de Amélia se partiu
quando viu que a observava com tanta desconfiança, depois de tudo o que passaram juntos.

178
— E se eu viajasse a França com você, comandante Winter? — ofereceu-se lorde Tovey. —
Dolly e Amélia poderiam ficar aqui enquanto você e eu procuramos provas das declarações de
minha esposa. Serei seu fiador por Dolly.
Logo, acrescentou no mesmo tom sarcástico que Lucas havia usado:
— Desse modo, se minha esposa grávida escapar, poderá me levar a América. O que lhe
parece? Satisfaria esta proposta suas ânsias de justiça?
Lucas ficou rígido.
— Mas isso não obstaculizaria a possibilidade de que ela escrevesse ao irmão para alertá-lo.
Pelo que entendi, esconde-se em um condado próximo...
— Não permitirei que leve minha esposa. Antes nos veremos nos tribunais.
— Não tente me intimidar, senhor — clamou Lucas em um tom implacável. — Ir aos
tribunais significaria que tudo isso apareceria irremediavelmente nos jornais, e você jamais se
arriscaria a montar um escândalo.
— Não me importa o escândalo. O que não quero é me arriscar a perder a minha esposa ou
o meu filho por culpa de sua justiça vingativa. — Olhou Lucas com olhos desafiantes. — E antes
que prossigamos com esta questão, espero que prove suas acusações sobre o irmão de minha
esposa.
— Sim, comandante Winter — interveio Dolly, com voz desesperada. — Segundo você, Theo
roubou o dinheiro, mas meu marido disse durante o jantar que o roubou da companhia Jones
Shipping, por isso é impossível que meu irmão tenha roubado esse dinheiro.
Lucas proferiu uma maldição entre dentes.
— Por que não? — perguntou Amélia, de repente atemorizada ante a suspeita de que sabia
a resposta.
— Porque a companhia em que Theo trabalhava não se chamava Jones Shipping — explicou
Dolly, — mas sim Baltimore Maritime.

Capítulo 26

Querido primo:
Espero que Amélia tenha se adaptado bem a sua nova vida de casada. Parece que o
comandante pode ser um homem difícil. Mas se existir alguma mulher capaz de fazer frente a seu
temperamento, essa é Amélia.
Sua devota amiga,
Charlotte

Mil raios e mil centelhas. Lucas estava prestes a concluir o trabalho sem que Amélia
averiguasse toda a verdade. Mas deveria ter adivinhado que a madrasta dela seria sua perdição.
Lucas suspirou devagar. Talvez Amélia não lembrasse o nome da companhia de seu pai. Alguma
vez o mencionou?
Quando desviou a vista para olhá-la e a viu paralisada, acusando-o com os olhos, seu
estômago se revolveu. Lembrava-se.

179
— Mentiu para mim — sussurrou Amélia, fulminando-o com o olhar.
— Não. Não lhe contei tudo, o que é diferente — se defendeu ele.
Ela avançou para o marido, com os olhos soltando faíscas.
— Pois é um detalhe bastante importante para ser omitido, não acha? Que seu pai se
enforcou não só porque pensou que você estava morto, mas sim porque o desfalque de Frier
destruiu sua companhia. — Seus olhos se abriram excessivamente. — Por isso a fortuna de sua
família desapareceu faz alguns anos, não é assim?
Ele assentiu lentamente.
— Não podia contar isso. Fazia parte da minha investigação...
— Mentira! — Suas belas faces avermelharam de raiva. — Não podia dizer isso porque então
teria que admitir que não é questão de cumprir com seu dever ou de capturar um fugitivo. Trata-
se de uma vingança em nome de seu pai.
— Trata-se de justiça! Droga! — Seu temperamento explodiu. — E esse é exatamente o
motivo pelo qual não lhe contei isso. Sabia que pensaria que não estava sendo justo, que estava
interessado em capturar essas pessoas por motivos pessoais.
— E não é assim? Na carta da Infantaria da Marinha era mencionada a empresa Jones
Shipping, por isso... como...?
— Jones Shipping esteve implicada — cortou Lucas. — Do mesmo modo que a Marinha e a
companhia de meu pai. — Lançou um sonoro bufo. — Jones Shipping assinou um contrato com a
Marinha para fornecer vários navios e reformar outros. Isso incluía milhares de canhões, por isso
Jones Shipping assinou outro contrato com Baltimore Maritime, para que esta última fornecesse
os canhões.
— Um enorme pedido que Theodore Frier fiscalizou, suponho — sussurrou ela.
— Um enorme pedido do qual Theodore Frier roubou todos os recursos metodicamente.
— E acusaram seu pai — adicionou ela, com seu típico olhar perdido.
— Sim — soprou Lucas. — Frier falsificou a assinatura de meu pai uma semana após outra,
subtraindo dinheiro da conta de Jones Shipping, e logo enviou os recursos roubados em um banco
em outro país.
— Theo sempre se destacou em contabilidade - o interrompeu Dolly.
Furioso, Lucas a fulminou com o olhar.
— Por isso meu pai o contratou. E porque causou uma excelente impressão a minha mãe,
com suas origens inglesas e suas finas maneiras. — Ignorou o claro remorso no rosto de Dolly
enquanto o ressentimento acumulado se apropriava de todo seu ser. - Assim jamais forneceu o
pedido de canhões, nem tampouco pagaram os honorários aos trabalhadores; em troca, as faturas
pelos materiais se amontoavam sem que ninguém soubesse nem ninguém as pagasse.
Lucas olhou Dolly fixamente.
— Então seu irmão desapareceu, deixando atrás dele uma montanha de obrigações
financeiras e a assinatura de meu pai nos documentos bancários. Então, a Infantaria da Marinha e
a companhia Jones Shipping foram para cima de meu pai, acreditando que ele e Frier haviam
planejado tudo juntos. Teve que leiloar tudo o que possuía, e quando fez todo o possível para
emendar a situação, se... se...
— Se enforcou — terminou Amélia suavemente.
O rosto de seu marido estava agora pálido.

180
— Sim. Depois do escândalo, minha mãe o desprezou por ter sido extorquido, e meu pai
pensava que eu estava morto. Não restava nenhuma ilusão na vida. Nenhuma.
Lorde Tovey parecia consternado.
— Teria herdado a companhia de seu pai se não tivesse sido pelo irmão de minha esposa.
Assim não é à Infantaria de Marinha americana a quem devemos esse dinheiro, nem sequer à
naval Jones Shipping, mas a você.
— Não me importa o dinheiro! — bramou Lucas. — Não quero nem um único maldito
centavo.
— Não, a única coisa quer é Theodore Frier.
— Exatamente. Isso é o que quero. Quero ver Frier enforcado igual a meu pai. Quero que
seja feita justiça, e depois do que fez a minha família, mereço essa justiça.
— É obvio — assentiu Amélia. — Inclusive merece se vingar. Mas contra ele, não contra
Dolly. Não pode enforcar um homem morto, Lucas.
— Só tenho a palavra de sua madrasta de que esse indivíduo está morto. — Lucas não queria
que Frier estivesse morto. Não podia suportar que esse desgraçado tivesse escapado da
humilhação de comparecer diante de um tribunal, da tortura de ser enforcado publicamente.
Maldição! Não era justo!
Amélia assinalou para sua madrasta.
— Vamos, Lucas, não pode acreditar que ela seja capaz de maquinar um plano para encobrir
o irmão...
— Ela provou que é mais do que capaz de mentir para protegê-lo, não? — O enfurecia ver
que sua esposa continuava defendendo a madrasta. — E se tiver que levá-la aos Estados Unidos
para provar que mente, eu o farei.
— Quer atormentá-la porque não pode atormentá-lo. Da única coisa que ela é culpada é de
ter sido tão iludida para confiar em seu pérfido irmão.
— E você é tão iludida para confiar nela, Amélia — grunhiu Lucas, ainda sabendo que as
palavras de sua esposa continham certa parte de verdade. — Inclusive você deveria admitir que
não é a pessoa mais apta na hora de julgar alguém. Pensava que Pomeroy era inofensivo.
Ela o olhou abatida.
— Tem razão... demonstrei não ser muito apta julgando às pessoas. — Sua voz diminuiu até
converter-se em um doloroso sussurro. — Afinal de contas, fui tão iludida para confiar em você.
Mas nunca mais. Nunca mais...
Quando deu a volta e se dirigiu para a porta, ele a olhou com estupefação. Nunca mais? Que
diabo queria dizer com isso? O que pensava fazer?
Lucas a seguiu, mas antes de abandonar a estadia se deteve diante de seu sogro.
— Continuaremos com esta questão amanhã pela manhã. Então terei preparadas minhas
provas, e espero ver a certidão de óbito que sua esposa assegura ter. — Quando lorde Tovey
assentiu com a cabeça, Lucas acrescentou: — Se sua esposa sumir esta noite, senhor, ou contatar
o irmão, responsabilizarei o senhor, ficou claro?
— Nós dois estaremos aqui amanhã pela manhã, lhe asseguro— concordou o conde com
uma visível rigidez.
Então Lucas saiu atrás da esposa.
Encontrou-a subindo as escadas, e trotou atrás dela para alcançá-la.

181
— Aonde vai?
— Ao meu quarto.
— Nosso quarto, quer dizer.
— Quero dizer, meu quarto. Farei que um criado leve as minhas coisas a meu antigo quarto.
— Não. — Teve que apertar o passo para continuar a seu lado; Amélia estava subindo as
escadas de um modo tão precipitado como se uma manada de lobos famintos a perseguisse. — O
que aconteceu não muda nada entre nós dois.
— Muda tudo. Não penso compartilhar o leito contigo até que entre em razão.
— Até que esteja de acordo contigo, quer dizer. — Seguiu-a no longo corredor até uma
porta situada no final. — Até que aceite dar tapinhas no ombro de sua madrasta e diga: "Obrigado
pela informação, senhora, e perdão por ter interrompido sua vida agradável".
— Se pensasse que simplesmente está cumprindo com seu dever, Lucas, não me
intrometeria. — Quando ele mostrou uma careta de incredulidade, lhe deu um olhar assassino. —
Mas não o faz simplesmente para cumprir com seu dever, e ambos sabemos.
Amélia entrou no quarto e se virou para fechar a porta na cara do marido, mas ele deslizou
um pé na abertura para evitar. Cheio de raiva, entrou no quarto à força, logo deu a volta e fechou
a porta atrás de si.
— Saia, por favor — sussurrou Amélia.
— Não até que esclareçamos isto. Quando nos casamos, aceitou que se sua madrasta fosse
Dorothy Frier, me deixaria confrontá-la do modo que considerasse mais conveniente.
— Eu não disse isso. Disse que se tivesse intervindo no desfalque, então merecia ser
capturada. Mas não o fez. Por isso não pode capturá-la.
— A questão é que viajou com Frier e gastou parte do dinheiro; ela é a única pessoa que
pode me levar até esse indivíduo.
— Está morto! E sabe disso! — As mãos de Amélia se fecharam em punhos de impotência.
— No fundo sabe.
Enquanto ele a olhava fixamente, lutando por ignorar o incômodo temor de que ela tivesse
razão, Amélia suavizou a voz.
— Mas se admitir que está morto, então não poderá aplicar a justiça que tanto deseja. E
permitirá que seu desejo de vingança o cegue e não te deixe ver a verdade.
— E você deixou que as alegações falsas de uma mulher com carinha de Santa te cegue e
não a deixe ver os fatos - trovejou ele.
— Que fatos? Tem alguma prova de que Frier está vivo?
Lucas apertou a mandíbula. Não, não tinha nenhuma prova. De fato, as evidências apoiavam
a história de Dorothy, porque não achou rastro do indivíduo depois de Rouen. Mas só porque Frier
deve ter se dado conta de que alguém o seguia e decidiu separar-se da irmã para confundir seus
perseguidores.
A menos que Dorothy não estivesse mentindo.
— Tal e como acreditava, não tem provas — proclamou ela suavemente.
— Droga. Não posso simplesmente encerrar a investigação me apoiando na palavra de uma
mulher que admitiu ter mentido...
— Exatamente, admitiu. Quão único não admitirá é o que você espera ouvir. Inclusive seu
próprio marido acred...

182
— Porque ou acredita ou aceita que sua esposa poderia estar encobrindo um delinquente, e
ele não vai aceitar essa possibilidade.
— E, entretanto, você não tem nenhum reparo em declarar que sua própria esposa é uma
ingênua. E o que é pior, que te enganará assim que lhe dê as costas.
— Não se trata de nós, Amélia — resmungou Lucas, apertando os dentes.
— Ah, não? — Ela se colocou diante dele. — Me casei contigo quando meus instintos me
diziam que estava louca, e sabe por quê?
— Porque não queria viver como uma solteirona desonrada em Torquay? — provocou ele.
— Se esse tivesse sido o motivo, teria casado com Pomeroy, que não albergava nenhuma
intenção de destruir a minha família. —Amélia o olhou com altivez. — Me casei contigo porque
confiava em você. Porque foi honrado e justo, e sabia que faria o correto com Dolly.
Seu lábio inferior tremia sem parar.
— Mas isso foi antes que me desse conta de que o ódio que consome seu coração é tão
poderoso que pode anular seus impulsos mais racionais.
— Racionais! Acha que é racional confiar na palavra de uma embusteira?
— Ninguém te pede que faça isso. Eu não peço que o faça. A única coisa que peço é que dê
uma oportunidade a sua história. Vá a França. Investigue para descobrir a verdade por outras vias.
Então, se não ficar convencido, e ainda quiser levar a minha família até os tribunais...
— Acatará minha decisão? — a interrompeu ele sarcasticamente.
— Sim, posto que então saberei que não está só tentando nos atingir porque não pode
atingir Theodore Frier.
Lucas conteve a respiração, incômodo ao ver que sua esposa podia interpretar com tanto
acerto seus pensamentos. A verdade era que já estava ruminando a proposta de lorde Tovey,
mesmo que só fosse para satisfazer sua convicção de que as alegações de Dorothy eram falsas.
Mas ver sua esposa suplicar, só conseguiu irritá-lo mais. Jurou que não permitiria que ela o
manipulasse como a um fantoche, e isso era precisamente o que ela estava tentando fazer agora.
— E se não for a França? Por quanto tempo pensa me castigar negando-se a deitar comigo?
Amélia lhe lançou um olhar cheio de desilusão.
— Se negar a confirmar a história de Dolly, então não só me negarei a me deitar contigo;
negarei tudo o que tenha a ver contigo. Pode fazer o que quiser, mas eu viverei com meu pai e
com Dolly, ajudando-os a sair do escândalo que você terá originado para desafogar de que esse
homem está morto e enterrado.
As palavras o golpearam com a força das ondas que batem o casco de um navio. Sua esposa
estava ameaçando abandona-lo. Depois de tudo o que passaram juntos, ainda era capaz de...
— Nem sonhe! — O pânico que abarcava seu peito era pior que o que sentiu no esconderijo
para padres. — Desafogue sua frustração se precisar, mas é minha esposa, e não permitirei que
me obrigue a agir como você quer por meio de ameaças absurdas.
— Não é nenhuma ameaça absurda. Não poderia viver com um homem se não sou capaz de
confiar nele.
Lucas lutou para ocultar o terror que provocou a declaração de Amélia.
— Se não se lembra, bonita — disse, lutando por manter um tom impassível, — nos votos de
nosso matrimônio não se incluía a palavra "confiança". Mas, em troca, lembro que o padre disse
algo sobre obediência da esposa ao marido.

183
— E é isso o que quer? Uma esposa que te obedeça cegamente, como os soldados que tem
sob seu comando? Que jamais expresse sua opinião, que nunca exija algo?
O que Lucas queria era que Amélia não o abandonasse. Mas estaria acabado se admitisse.
— Não importa o que quero, porque não conseguirei, não é certo? Você não poderia ser
uma esposa obediente nem que sua vida dependesse disso.
— E você não deseja uma obediência cega por parte de sua esposa, diga o que quiser.
De repente, Lucas viu a oportunidade de conseguir o que verdadeiramente queria... sem
manchar seu orgulho, e com a esposa onde queria tê-la.
— Por que não verificamos, querida? Se for minha esposa obediente por uma noite, irei a
França. Mas terá que fazer exatamente o que eu ordenar. Porque se você se recusar, se mostrar
sua típica insolência, então farei o que quiser com sua madrasta. E não quero ouvir nenhuma vez
mais essa tolice de viver separados, de acordo?
Que magnífica estratégia! Sua esposa não conseguiu se fazer de tola pusilânime mais de dois
dias, quando se conheceram; jamais conseguiria mostrar-se submissa, com uma obediência cega,
durante toda uma noite. Assim quando ela fracassasse, ele conseguiria o que queria, também.
E uma vez que, de qualquer maneira, ele teria aceito magnanimamente ir a França no dia
seguinte, não pareceria como se tivesse aceitado a suas demandas, mas sim o fazia em um ato de
generosidade. E uma vez determinado na França que estava certo a respeito de Theo Frier, Amélia
não se oporia quando recorresse a madrasta dela para fazer o homem sair de seu esconderijo.
Era um plano brilhante... se sua esposa aceitasse a provocação.
Por um momento, Lucas temeu que Amélia fosse dizer não. Ela estreitou os olhos para
esquadrinhar seu rosto. Então lhe deu um suspeito sorriso brilhante.
— Como quiser, meu querido marido. Quando começamos?

Capítulo 27

Querida Charlotte:
Têm bons motivos para se preocupar com lady Amélia e o marido. Um oficial da Infantaria da
Marinha dos Estados Unidos não pode tolerar uma esposa insolente, e de todas suas pupilas, lady
Amélia parece a mais disposta a agir com ousadia e descaramento.
Seu primo igualmente ousado,
Michael

— Podemos começar agora mesmo — proclamou Lucas.


Amélia assentiu com a cabeça.
De algo serviu passar as últimas noites esquentando o leito de seu marido. Sabia o que ele
gostava, e começou a aprender o que esperava dela. E uma esposa obediente não era o que Lucas
desejava, por mais que ele tentasse se convencer disso.
Chegara o momento de demonstrar isso a ele. Embora tentasse raciocinar com ele, seu
marido resistiria ante a provocação de perder a autoridade. Amélia não queria iniciar uma disputa
cada vez que surgisse um problema no qual não conseguissem estar de acordo. Nem tampouco

184
desejava contemplar impassivelmente como ele destruía o futuro deles como casal - assim como a
sua família - porque não podia virar a página do passado. Se agir como uma esposa obediente era
tudo o que precisava para que ele fosse a França, faria isso. Porque quando Lucas estivesse diante
do tumulo, quando tivesse falado com os aldeãos em Lisieux, como poderia ignorar os fatos?
Assim seria obediente essa noite, mesmo que isso a matasse. E a julgar pelo brilho no olhar
malicioso de seu marido, estava claro que ele não facilitaria nada. Lucas se dirigiu resolutamente
para a poltrona favorita de Amélia e se acomodou nela, a seguir assinalou para a bagagem que
haviam trazido da casa de lorde Kirkwood.
— Pode começar desfazendo as malas e colocando toda a roupa em seu lugar. — Enquanto
ela assentia e se dirigia às malas, ele adicionou: — Ah, e quero toda minha roupa perfeitamente
dobrada e ordenada. Nada de seu típico desalinho, entendido?
Amélia cerrou os dentes.
Durante as seguintes duas horas, Lucas se dedicou a grunhir sem parar, dando ordens como
um general costuma fazer com os soldados rasos, até que ela começou a questionar-se se era uma
insensata por ter se casado com um militar. Depois de desfazer as malas teve que realizar outros
trabalhos tediosos. Lucas ordenou a ela que lhe tirasse o casaco, o colete, a gravata e as botas; ela
o fez com a mesma eficiência acérrima que ele sempre mostrava.
Depois Lucas a mandou limpar e engraxar as botas, e Amélia teve que morder a língua. Ele
estava a tratando como uma criada, quando ambos sabiam que as esposas dos oficiais não faziam
esse tipo de tarefas de tão baixa categoria. Seu marido estava tentando submetê-la segundo sua
vontade, igual a um oficial submete a um soldado. Muito bem, o deixaria continuar com esse
joguinho absurdo. Muito em breve aprenderia que a força de vontade de uma mulher não tem
limites. Quando acabou com as botas e estas ficaram brilhantes como ouro, Lucas não parecia tão
ufano como a princípio. Sem dúvida, supôs que ela não aguentaria tanto com o bendito jogo de
ser obediente.
Olhou-a fixamente durante um longo tempo, e finalmente indicou a porta.
— Por culpa de sua madrasta, não pude terminar meu jantar. Desça à cozinha e arrume uma
bandeja com comida para saciar meu apetite, em seguida a traga para mim.
— Sim, marido — respondeu ela na mesma voz suave que usou durante toda a noite.
Desta vez seu tom fez que Lucas arqueasse uma sobrancelha.
— E não acrescente nenhum purgante.
— É obvio que não — respondeu Amélia enquanto se dirigia para a porta, embora a ideia lhe
pareceu certamente sugestiva.
Desceu pelas escadas de serviço para evitar encontrar com seus pais, mas quando chegou a
cozinha se dedicou a perambular com o fim de matar o tempo. Afinal, ele não havia ordenado que
se apressasse.
Na verdade, havia uma série de coisas que ele não foi nada específico. Talvez tivesse
chegado o momento de levar o jogo da obediência até o extremo. Quando retornou ao quarto
bastante tempo depois com uma bandeja com pão preto, salsichas e maçãs ao forno, seu marido,
agora com semblante exasperado, acomodou-se na cama.
Estava sentado, com as costas apoiadas na cabeceira, as pernas estiradas, os pés ainda com
meias, cruzados à altura dos tornozelos, e a camisa desabotoada.
— Tomou seu tempo, não é? — grunhiu Lucas.

185
— O pessoal da cozinha já havia se retirado — respondeu ela, como se essa desculpa
explicasse tudo.
Apesar da irritação evidente de seu marido, ela não se aproximou dele com a bandeja depois
de fechar a porta a suas costas. Em vez disso, ficou imóvel.
— E então? O que está esperando? — apressou ele.
Amélia ocultou um sorriso.
— Suas ordens. Não sei onde quer que deposite a bandeja.
Com uma careta de irritação, ele deu uns golpezinhos na mesinha a seu lado. Amélia o olhou
com cara submissa e avançou para o lugar que Lucas indicou, logo se inclinou para depositar a
bandeja, assegurando-se de lhe oferecer uma boa panorâmica de seu decote. Sentiu-se satisfeita
quando ouviu a respiração exaltada de seu marido. E sua satisfação só aumentou quando ele a
obrigou a se sentar em seu regaço.
Amélia se sentou erguida, olhando-o com os olhos inexpressivos de um soldado enquanto
ele se dedicava a estudá-la. Em seguida Lucas desviou o olhar até a bandeja, e sua exasperação
aumentou.
— Sabe que eu não gosto de salsichas nem pão preto.
— Disse comida. Não especificou o que queria.
— Por acaso uma esposa obediente não traria o que o marido gosta?
— Você exige obediência cega. Como não especificou que comida deveria trazer, peguei o
que estava mais à mão. — Ela sorriu com doçura. — Trouxe maçãs, que sei que você gosta.
— Tem razão. Assim... por que não me alimenta?
A rouca voz de seu marido lhe provocou um calafrio de desejo. Droga. Se enfocasse o jogo
pela via sensual, ela não atingiria seu objetivo.
Embora, pensando bem, também poderia usar essa via para conseguir vantagem.
— De acordo — murmurou, meneando o traseiro enquanto se inclinava para pegar o garfo.
— Não, com seus dedos — ordenou ele.
Sem dúvida, Lucas estava esperando que ela protestasse porque maçãs assadas não eram
precisamente a refeição mais apropriada para pegar com as mãos, ou pelo fato de que ele
pretendia comer em sua adorável cama. Mas Amélia não pensava lhe dar essa satisfação.
Esforçando-se para sorrir, pegou um pedaço de maçã, molhou na calda caramelizada que havia no
prato, e a levou até a boca do Lucas, gotejando.
Com a calda deslizando-se por seu queixo, ele comeu o pedaço de maçã, em seguida indicou
sua mandíbula.
— Me limpe.
— Vou procurar um guardanapo. — Amélia mostrou a intenção de se levantar do regaço
dele.
— Não, com sua boca — matizou ele, arrastando a voz.
Sua boca? Que perverso! Se lhe lambia o queixo, já sabia o que aconteceria a seguir.
Precisava achar um modo de frustrar a tentativa.
— Como desejar, marido — murmurou. Em seguida se inclinou e tentou tirar a calda da
mandíbula o arranhando com os dentes.
— Ai! — Lucas deu um pulo. Logo a olhou com o cenho franzido. — Posso saber que diabo
está fazendo?

186
— Disse que o limpasse com a boca.
— Sabe perfeitamente bem a que parte da boca me referia.
Ela ergueu o queixo com altivez.
— Jamais me atreveria a assumir que...
Lucas a interrompeu com um beijo e ela esteve a ponto de sucumbir, seduzida pelo gosto, o
tato e o aroma de seu marido. Mas se conteve e se obrigou a ficar rígida enquanto a boca do Lucas
brincava com a sua e tentava abrir caminho com sua língua dentro dos lábios selados.
— Me beije — bramou ele.
E Amélia o beijou, mas só com a boca. Manteve o corpo tão rígido como uma pedra, e as
mãos colocadas sobre os joelhos.
A princípio ele não pareceu notar sua atitude. Tentou lamber seus lábios com o mesmo
ardor de sempre e introduzir a língua até o fundo dessa boca tão sensual, enquanto que suas
mãos começavam a acariciar os quadris, a barriga, os seios que conhecia tão bem. Mas quando
Amélia continuou rígida, sentada e sem mover nem um dedo, Lucas se afastou para trás para olhá-
la fixamente.
— Eu disse para me beijar.
— Isso é o que estou fazendo.
— Mas não está me tocando.
— Ficaria encantada de tocá-lo se me indicasse o que devo tocar. E como. E quando.
— Então será assim, né? Se não te der ordens precisas, não irá fazer nada.
— Limito-me a ser uma obediente...
— Bobagens! — Ele a olhou fixamente durante um longo momento. — De acordo, não se
preocupe; a partir de agora te darei as ordens com o mínimo detalhe, porque sei que cedo ou
tarde irá se rebelar. Não poderá se conter.
Amélia se limitou a olhá-lo, sentindo-se mais determinada que nunca a continuar sua
campanha de resistência passiva.
— Levante-se e tire a roupa — mandou Lucas. — Ah, e caso pretenda interpretar mal a
palavra "roupa", a quero nua, entendido?
— Entendido — esclareceu ela enquanto se levantava.
Amélia começou a se despir lentamente, mas após alguns segundos seu marido antecipou
essa tática zombadora e murmurou:
— Rápido, bonita. Só tem um minuto.
Para desabotoar todos os laços e botões? Maldito fosse; estava claro que tentava acabar
com sua paciência. Amélia necessitou de cada segundo do tempo que seu marido havia concedido,
assim só quando acabou e ficou de pé vendo como Lucas se recreava contemplando-a, deu-se
conta de quão incômodo era estar completamente nua diante de um homem vestido. A última vez
que esteve nua diante dele, ele também estava nu. Agora a sensação era absolutamente diferente.
Agora se sentia como quando estiveram no xebec, quando ela brincava de ser a cativa dele.
Mas então tudo foi um jogo, com consequências menores que desta vez. Porque agora não era um
jogo.
Era uma guerra. E ainda não estava claro quem ia ganhar.
Lucas tomou seu tempo para contemplá-la, depositando um olhar lascivo sobre seus bonitos
seios, seu ventre tremulo, os cachos cada vez mais úmidos entre suas coxas. Ela teve que cravar os

187
dedos nas palmas das mãos para evitar se cobrir. Quando ele finalmente levantou os olhos e a
olhou nos olhos, Amélia pôde ler neles uma determinação de conquistá-la, de vencê-la, que
refletia suas próprias intenções.
— Recorda nossa noite de núpcias, quando queria ver como me masturbava? — perguntou
ele.
Ela assentiu, incômoda.
Lucas sorriu com todo o encanto pícaro de um sedutor nato.
— Pois agora é a sua vez. Quero ver como dá prazer a você mesma.
Que Deus a ajudasse. Quando compreendeu o que ele queria dizer, sentiu um crescente
sobressalto nas faces. Mas ela não podia... nunca havia... bom, sim que havia feito, mas não desse
modo. Se tocou na intimidade que conferia sua própria cama, sob os lençóis, furtivamente. Mas
em troca, o que ele pedia era... totalmente embaraçoso.
E ele sabia também, o maldito patife, já que seu sorriso aumentou.
— Agora, esposa. Ponha a mão entre suas pernas e acaricie suas partes mais íntimas, para
que eu possa me deleitar com a visão.
Amélia procurou desesperadamente um modo de interpretar mal o pedido, mas estava
muito sobressaltada para pensar com prudência. Sentindo um enorme rubor da cabeça aos pés,
fez o que ele ordenava. Sua parte intima já estava úmida e excitada, mas agora parecia explodir
contra seus dedos, tão violentamente que estava segura de que Lucas se daria conta. Mas não
havia maneira dele saber, porque não podia suportar a ideia de olhá-lo aos olhos enquanto ele a
contemplava.
Lucas se deu conta em seguida do que lhe acontecia.
— Olhe para mim, bonita — disse, nessa cadência lenta e sensual que sempre conseguia
arrepiar sua pele.
Amélia levantou a vista e se deu conta de que Lucas não estava olhando sua mão ocupada
mas sim seu rosto ruborizado.
— Com a outra mão, acaricie os seios — ele ordenou.
Quando ela obedeceu, ele não baixou a vista; continuou esquadrinhando seu rosto.
Então Amélia compreendeu o que ele pretendia. Era sua reação o que o interessava, Lucas
só desejava incomodá-la, perturbá-la. Embora talvez também quisesse ver como se deixava
arrastar pelo prazer e cedia o controle daquilo que ele ansiava ganhar para si.
Sim! Agora sabia como combatê-lo.
Amélia fez o que ele ordenou com exatidão, acariciando as pétalas de pele com avidez,
esfregando a pequena pérola rígida e atormentada com o dedo. Mas se concentrou em manter a
cabeça fria, embora para isso precisou de toda sua vontade. Obrigou-se a acariciar seu corpo de
uma forma mecânica, como se estivesse polindo ou lavando os dentes.
Não foi fácil, com o olhar dele escrutinando seu rosto, procurando sinais de debilidade,
indícios de que estava perdendo o controle. Mas o fato de contemplar o olhar ardoroso de seu
marido a ajudou a se acalmar e a distanciar-se da pressão que seus dedos exerciam em suas partes
mais íntimas. Após alguns instantes, o olhar de Lucas foi variando de matiz: continuava olhando-a
fixamente, mas agora seus olhos não só desprendiam desejo mas também raiva.
— Venha aqui, maldita seja!
— Como quiser, marido.

188
Amélia se aproximou da cama, procurando ocultar o sorriso de triunfo. Lucas podia lhe
ordenar um sem-fim de coisas, mas não podia lhe ordenar que sentisse prazer, e finalmente
parecia que ele começava a se dar conta.
— Me dispa — lhe ordenou.
— Como quiser, marido — repetiu ela com uma cadência monótona.
— E deixa de dizer isso — resmungou ele.
— Muito bem.
Ela se dispôs a despi-lo, mas resultou mais difícil do que esperava. Nem tanto pelo
inconveniente de ter que tirar a calça de um homem sentado - e com o membro excitado - mas
sim porque agora podia cheirá-lo e sentir sua respiração acelerada e quente nas faces.
Depois de tirar a calça, ele iniciou uma nova tortura. Começou a beijá-la e a tocá-la.
Enquanto Amélia se dedicava a desabotoar o calção, Lucas a beijou na face, na testa, na orelha.
Soltou seu cabelo que ainda estava preso em um coque, e começou a acariciá-lo, a manuseá-lo... a
esfregá-lo contra os seios dela, sem mostrar nem um ápice de piedade. E quando conseguiu deixar
os mamilos eretos, desejosos de uma carícia mais firme, começou a tocá-los... mas com um tato
tão extremamente sedoso que só conseguiu excitá-la, mas não satisfazê-la, até que ela esteve ao
limite de colocá-los ante sua boca e implorar que os lambesse.
Claro, isso era exatamente o que ele queria.
Pérfido. Malvado. Não, não permitiria que Lucas ganhasse. De maneira nenhuma.
Amélia tirou o calção, lutando para não pensar nas carícias. Mas não era tão fácil ignorar a
tremenda ereção, que apareceu diante de seus olhos impudicamente, reclamando toda sua
atenção.
Lucas a surpreendeu contemplando seu pênis, e lhe ordenou com uma voz grave:
— Me toque.
Ela levantou a vista e o olhou à cara, e a intensidade selvagem desses olhos escuros quase a
fizeram sucumbir de seu objetivo. Mas sua vontade era mais forte. Mantendo o olhar com uma
pasmosa moderação, deliberadamente procedeu a tocá-lo... no tornozelo.
Lucas lançou uma grosseria em voz alta.
— Sabe perfeitamente onde quero que me toque... — conteve-se. — Bom, não importa,
tenho uma ideia melhor. Sente-se no meu colo, de frente para mim.
Ela piscou, sem compreender exatamente o que o marido queria que fizesse, mas ele a
obrigou a ficar de joelhos a seu lado, então a agarrou pela cintura e a fez passar uma das pernas
por cima para que ficasse sentada escarranchada sobre ele, com as coxas justamente sobre sua
ereção.
— Ponha meu pênis dentro de você, justo aí onde estavam seus dedos — pigarreou ele, sem
deixar capacidade a nenhuma possível má interpretação.
Então era isso o que queria. Que interessante e diferente... e inquietante. É obvio. Esse
maldito patife sabia exatamente como tentá-la para que baixasse a guarda.
Seria capaz de fazer o que ele exigia sem sucumbir?
Podia. Precisava fazê-lo. Essa noite ela lutava pelo futuro dos dois como casal.
Amélia assentiu com um golpe seco de cabeça, com o que conseguiu aumentar a
exasperação no semblante de Lucas, embora não pareceu causar nenhum efeito em sua enorme
ereção. Tentou introduzir o membro dentro dela, o que custou muito porque seu marido estava

189
sentado com as costas apoiada na cabeceira da cama. Mas quando conseguiu meter o pênis
completamente dentro de si e se acomodou firmemente sobre ele, Lucas fechou os olhos com
aspecto de puro êxtase.
— Assim, bonita, muito bem. — Com os dedos brincou com seu púbis molhado. — Por Deus,
é tão bom estar dentro de você.
E Amélia também gostava da sensação, gostava tanto que a necessidade de mover-se contra,
lhe pareceu quase irresistível. Mas conseguiu se conter. Ficou sentada imóvel, procurando não
roçá-lo em nenhum outro ponto que não fosse onde estavam unidos.
Depois de um momento, seu marido abriu os olhos subitamente.
— Se mova, droga.
— Muito bem. — Ela colocou as mãos sobre suas coxas e começou a realizar círculos com o
quadril.
O olhar fulminante que Lucas lhe lançou teria conseguido acender fogo até mesmo em uma
geleira.
— Para cima e para baixo, Amélia.
Lutando para não rir, ela moveu as mãos para cima e para baixo, sobre suas coxas.
— Amélia... — avisou ele.
— Não é o que quer? — inquiriu ela inocentemente.
— Sabe perfeitamente que não. Quero que faça amor comigo.
— Então terá que ser mais específico em suas ordens — cantarolou ela. Estava se divertindo
muito. — Como tenho que fazer amor, exatamente? Que parte devo mover primeiro? Onde? Com
que frequência? Quando...?
— Maldita seja.
Lucas estreitou a cabeça de Amélia entre suas mãos e a beijou com um desespero tão
urgente que a sensação ressonou profundamente em suas vísceras. Entretanto, ela continuou
rígida, sem tocá-lo, sem se mover.
Ele afastou a boca da dela com indignação.
— Uma esposa obediente saberia o que quero dela.
— Ah, seria capaz de ler seus pensamentos? Que interessante! Não sabia que esse talento
viesse com a obediência. — Amélia lhe lançou um sorriso malicioso. — E você sabe perfeitamente
bem que uma esposa tola, que obedece às cegas, não estaria sentada sobre seu regaço a menos
que pedisse. Sentiria-se muito envergonhada. E muito nervosa, tentando não decepcioná-lo. De
fato, se eu fosse uma verdadeira esposa obediente...
Amélia começou a levantar-se, separando-se de seu membro, e Lucas a agarrou para que
não continuasse.
— Já chega — resmungou ele junto a sua orelha. — Já é suficiente. É uma maldita mulher
insolente e travessa. Me dê o que quero, Amélia.
— Uma esposa obediente? — sussurrou ela, enquanto seu marido começava a lhe lamber o
pescoço com uma suavidade aveludada que disparou seu pulso.
Lucas duvidou um instante, e logo soltou um bufo.
— Não. Você. Só você. Você é tudo o que eu quero.
Ela conteve a respiração, sem poder acreditar que vencera.
— E amanhã? O que acontecerá amanhã?

190
As mãos do Lucas deslizaram para acariciar seus seios, para esfregar os mamilos eretos de
novo, e sua boca cálida e tenra começou a lamber o lóbulo da orelha dela.
— Irei a França, de acordo? Mas agora só quero recuperar minha Dalila. — Impulsionou os
quadris para ela, e com as mãos acariciou febrilmente seus seios. — Por favor, bonita... quero
minha Dalila esta noite... porque a partir de amanhã ficarei muitos dias sem vê-la, sem tocá-la...
Isso foi tudo o que teve que dizer para conseguir que Amélia se movesse, o abraçasse
efusivamente e cobrisse seu rosto de beijos. Começou a mover-se ritmicamente contra ele,
deslizando-se para cima e para baixo, o golpeando com ardor.
Era a primeira vez que faziam amor nessa posição, mas a Amélia pareceu natural. A sensação
que lhe provocava era totalmente embriagadora; adorava senti-lo dentro dela e ao mesmo tempo
ter o controle, ser capaz de exercer pressão contra ele exatamente ali onde queria sentir o pênis
duro dentro dela.
— Sim... — pigarreou Lucas enquanto Amélia cavalgava sobre ele. — Sim, Dalila, sim... mais
rápido, bonita... mais rápido, mais rápido...
Ela obedeceu. Posto que tinha ganho, podia permitir-se ser generosa. E ele respondeu a sua
reação com todo o ardor que Amélia podia desejar: brincando com seus mamilos, lambendo sua
boca e lhe dando um prazer tão extraordinário que pensou que morreria de prazer.
Enquanto subia e descia sobre seu membro com um ritmo cada vez mais rápido, a tensão
que foi gerando dentro de seu ser começou a aumentar. Afastou os lábios dos dele.
— É isto o que quer? — perguntou, sentindo-se muito próxima de alcançar o orgasmo. — É
isto o que meu imponentemente forte soldado e marido quer?
— Sabe que sim — respondeu Lucas, com uma voz gutural. Lambeu o lóbulo de sua orelha,
logo procurou sua língua. — Quero você, preciosa... só você...
Amélia se aferrou a seu cabelo. Suas pernas doíam por causa da força de seus movimentos.
— Mas só... se fizer o que quer.
— Faz o que tiver vontade — respondeu ele, entreabrindo os olhos. — Faz o que quiser...
mas... não... mas não me deixe.
Ela sentiu um nó na garganta.
— Não te deixarei — ela prometeu.
— Se tentar, a seguirei... até os confins da Terra.
As palavras ferozes provocaram em Amélia um delicioso calafrio. Isso era o mais próximo a
uma declaração de amor que Lucas havia lhe dito, e se sentiu presa de uma imensa satisfação.
— Não terá que fazê-lo. Não o deixarei nunca, meu amor. — Beijou-o meigamente nos lábios,
nas pálpebras fechadas.
Quando Lucas escutou a palavra "amor", abriu os olhos subitamente para esquadrinhar o
rosto de sua esposa.
— Não descansará... até... que me veja caído e sangrando... prostrado a seus pés... não é
verdade?
Só Lucas podia interpretar a palavra "amor" como uma derrota. Embora ela apertou o púbis
com mais urgência, sentindo como a invadia a necessidade de explodir de prazer, olhou-o com
olhos rebeldes.
— Não descansarei... até... que me ame... como eu te amo.
A expressão de alegria que emergiu sobre os traços sombrios de seu marido foi tão poderosa

191
que nem sequer seu olhar taciturno pôde dissimulá-la.
— Que Deus tenha piedade de mim — grunhiu ele, — porque estou completamente seguro
de que... não parará até que consiga.
Então os dois se perderam entre seus corpos entrelaçados, movendo-se desesperadamente,
procurando encher suas necessidades e seu mútuo desejo e... o que ela tanto desejava... amor.
Enquanto Lucas derramava sua semente dentro dela e repetia em voz alta o nome de sua
esposa com todo o ardor de um devoto, com o desespero de um místico, ela se aferrou a ele com
força para que o amor que sentia pelo marido envolvesse aos dois, esperando que fosse suficiente,
jurando que conseguiria que fosse suficiente. Um momento depois dela desabar sobre ele, depois
que seus corações conseguiram retomar um ritmo mais comedido, enquanto ela permanecia
deitada e relaxada sobre o forte corpo do marido, repetiu o voto a si mesma.
Amava-o. E encontraria o modo de conseguir que ele a amasse.
Amélia se esticou e se acomodou entre os braços do Lucas, afundou a cabeça em seu peito e
lhe fez cócegas nos lábios com os cabelos.
Foi só mais tarde, no momento que sua respiração adotou completamente o ritmo normal e
esteve segura de que ele dormia, quando conseguiu reunir toda sua coragem para declarar de
novo, em um sussurro furtivo:
"Amo você, Lucas". Imediatamente, sucumbiu ao doce cansaço que a obrigava a fechar as
pálpebras.
Quando despertou, o sol penetrava através das delicadas cortinas, e Lucas não estava.
Levantou-se com uma sensação de pânico, amaldiçoando sua tendência a dormir como uma pedra.
Não era possível que seu marido tivesse partido sem se despedir dela! Mas depois de um exame
minucioso ao quarto, confirmou que não havia nem rastro da mochila do Lucas, nem de suas botas
nem de alguns outros objetos de roupa de seu marido.
Um temor intenso se apoderou dela, agarrou um robe, o jogou por cima dos ombros, e em
seguida desceu rapidamente as escadas. Encontrou Dolly sentada na sala onde costumavam tomar
o café da manhã, com a vista perdida na janela.
— Onde está Lucas? — perguntou Amélia.
Quando Dolly se virou para olhá-la, Amélia constatou que tinha os olhos vermelhos.
— Foi a França com seu pai. Não sabia?
— Sim, mas... — desabou em uma cadeira. Esperava que Lucas tivesse lhe dito algo antes de
partir, algo que lhe desse esperanças para poder acreditar no futuro dos dois como casal.
— George sugeriu que você e eu retornemos a Torquay e os esperássemos lá. A temporada
de festas está chegando ao fim, de todos os modos, e se ficar, terá que enfrentar às intrigas sobre
sua fuga. — Cravou a vista em suas mãos. — Deste modo, podemos anunciar que você e Lucas
estão de lua de mel. Ninguém precisa saber se está em Torquay. Além disso, se George precisar
organizar as coisas para vender a casa da cidade quando retornar... — Não pôde continuar;
começou a choramingar.
— OH, Dolly — se lamentou Amélia, esforçando-se para separar de sua mente seus próprios
problemas. Com grande rapidez se sentou ao lado da madrasta e a rodeou com o braço. — Tudo
ficará bem, você vai ver. Lucas jamais pedirá dinheiro a papai, eu lhe garanto. E na França achará a
prova de que seu irmão está morto, e com isso acabará todo este pesadelo.
— Acreditou em mim, quando falei sobre o Theo, não é verdade? — disse Dolly em um

192
sussurro lamentoso.
— É obvio, querida. É obvio que sim.
As lágrimas rolaram pelas faces de sua madrasta de novo.
— Não a culparia se não acreditasse, sabe? Vi as provas de seu marido e os artigos de jornal
e... — Deu um suspiro de desespero. — Theo era tão mau como seu marido alegou... um rufião,
um patife, um ladrão.
— Mas você não sabia — respondeu Amélia suavemente.
— Sim, sabia — protestou Dolly. — No fundo, suponho que sabia. Mas não queria aceitar.
Quando começou a soluçar sem poder se controlar, Amélia a abraçou com força e
murmurou palavras carinhosas, com o fim de acalmá-la, perguntando-se o que teria feito ela no
lugar de Dolly. Provavelmente teria machucado Theo Frier com um cântaro. E o desgraçado em
Rhinebeck, também.
Mas essa não era a forma de agir de Dolly. Sua madrasta sempre preferia pensar que as
pessoas eram boas, e quando isso não era possível, se afastava. Ou, no caso das pessoas que
amava, evitava a verdade. Dolly passou a vida afastando-se de determinadas situações e Theo
Frier se aproveitou disso. Depois, quando Dolly conseguiu se acalmar, separou-se da enteada.
— Me escute, coração; não permita que esta história se intrometa entre seu marido e você.
— Não se preocupe. Eu...
— Falo sério. — Um suave sorriso coroou seus lábios. — Não permitirei que o perca por mim.
Qualquer pessoa com olhos na cara pode ver que o comandante te adora.
Amélia notou como seu coração encolhia no peito. Se isso fosse verdade, seu marido tinha
uma forma muito estranha de demonstrar, indo a França precipitadamente sem nem mesmo lhe
dar um beijo de despedida.
— De verdade acha isso?
Dolly assentiu.
— Claro. Seu pai não o vê, mas isso é porque está zangado. — Seu rosto cheio de lágrimas se
iluminou com um pequeno sorriso. - Passou a metade da noite jurando que espancará o
comandante.
Amélia soltou uma gargalhada com uma nota de amargura.
— Não me surpreende absolutamente. Eu também passarei a metade dos dias jurando que
espancarei o comandante.
— E a outra metade...?
Ela sentiu um nó na garganta.
— A outra metade passarei desejando abraçá-lo com todas minhas forças, para que ele não
duvide de meu amor.
Dolly a olhou com doçura.
— Estou segura de que ele sabe, coração. E estou segura de que ele também a ama.
Amélia desejou que sua madrasta tivesse razão. Porque, se seu marido não a amasse, não
sabia como sobreviveria.

Capítulo 28

193
Querido primo:
O marido e o pai de Amélia foram para a França em uma missão que nem ela nem sua
madrasta desejam revelar. Isso levou a minha querida pupila a uma grande melancolia, o que me
indica que a pobre Amélia está apaixonada pelo comandante. Só desejo por seu bem que seja
correspondida. Tal e como eu mesma constatei em meu casamento, amar um homem que não te
ama só traz decepção.
Sua ansiosa prima,
Charlotte

"Amo você, Lucas."


Lucas esperava que essas palavras acabassem perdendo o feitiço que exerciam sobre ele.
Mas havia transcorrido uma semana desde que atravessou o canal da Mancha e percorreu a
mesma paisagem francesa de um mês antes, e as palavras continuavam consumindo-o. Brilhavam
com luz própria cada amanhecer, acompanhavam-no a cada passo que dava durante o dia, e de
noite penetravam em seus sonhos com o ímpeto de uma tempestade.
Emergiam em sua ajuda no meio de cada tumultuoso pesadelo.
A princípio tentou se convencer de que Amélia só as disse para manipulá-lo. Mas depois de
vários dias revivendo cada momento passado com sua esposa, acabou por não dar crédito a essa
possibilidade. Se é que realmente alguma vez chegou a acreditar nisso.
Amélia não era como sua mãe. Se fosse, teria dito que o amava na primeira vez que pensou
que poderia ganhar algo, como a primeira vez que se viu desonrada.
Em troca, pronunciou as palavras quando lhe implorou que tivesse piedade de sua madrasta.
Amélia não as teria dito depois de ter conseguido o que queria. Não as teria apregoado
enquanto faziam amor. Nem tampouco as teria sussurrado quando pensava que ele estava
dormindo.
Assim Lucas devia aceitar a verdade: ela o amava. Sua esposa, sua feiticeira Dalila, o amava.
E ao invés de retornar correndo a Inglaterra para jurar amor sem fim a ela, para mostrar sua
devoção sem limites, achava-se parado diante de uma tumba em Lisieux, com seu tosco sogro.
Durante a longa viajem, Lucas e lorde Tovey se dedicaram a conversar a respeito da carreira
militar do Lucas, de suas expectativas de se converter em cônsul, inclusive de quando esteve
prisioneiro em Dartmoor. Lucas escutou os progressos nas plantações de macieiras de lorde Tovey,
quantas ovelhas tiveram cria na primavera passada, e que lavradores se sobressaíram por seu bom
trabalho nas terras do conde. Da única coisa que não falaram foi sobre o tema que mais os
preocupava: suas esposas. Era como se temessem que, pelo simples fato de falar disso, a situação
pudesse tornar-se real. Mas agora estavam contemplando uma lápide que nenhum dos dois podia
ignorar. A inscrição dizia:

"Aqui jaz Theodore Frier


Amado irmão e amigo
Deus queira que encontre a paz
Que foi negada em vida"

194
Lucas leu com o coração em um punho. Amélia tinha razão quando assinalou que ele só
procurava vingança. Porque agora que via as palavras gravadas na laje, sua decepção era tão
desmesurada que se deu conta de que ansiava que Dorothy tivesse mentido.
— Parece autêntica — comentou lorde Tovey a seu lado.
— Sim. — Mas ambos sabiam que isso não significava nada.
— O que pensa fazer agora? Poderíamos procurar o tal Lebeau, o homem que preparou a
mortalha e o enterro. Pode ser que o encarregado do registro da paróquia desconheça seu
paradeiro, mas alguém deve saber.
A nota de desespero na voz de lorde Tovey deixou Lucas arrepiado. Esse homem estava
apavorado ante a ideia de perder a esposa, e Lucas sabia exatamente o que sentia.
— Também poderíamos falar com o farmacêutico da localidade — continuou lorde Tovey. —
Aqueles indivíduos na estalagem disseram que estará de volta ao anoitecer. É provável que saiba
algo mais sobre as mortes cotadas no registro da paróquia.
Lucas suspirou. Se o farmacêutico não sabia nada sobre o morto, certamente haveria outro
modo de encontrar Lebeau. E para que? Para que Lucas pudesse provar que Frier estava vivo?
Para assegurar-sede que o destino o privou do gosto de levar a cabo sua vingança? Ao final, tudo o
que certamente averiguaria era o que a essas alturas já sabia: nada irrebatível; um montão de
detalhes, mas nenhuma prova real.
Ao ver que Lucas não respondia, seu sogro o apressou.
— Me diga o que preciso fazer, comandante. Me atribua uma tarefa, ou ficarei louco
pensando no que pode fazer a minha Dolly.
Lucas ficou tenso, consternado ante essa demonstração de desespero. As compreendia
perfeitamente. Havia algumas coisas pelas quais valia a pena aplacar o orgulho e implorar...
redenção, piedade... a própria esposa. Lucas escrutinou o rosto abatido que chegou a conhecer
tão bem durante os últimos dias, as têmporas grisalhas e os atormentados olhos castanhos que
tanto recordavam aos de Amélia.
— Acredita que Frier está morto, não é assim?
A repentina esperança nos olhos de lorde Tovey teve um efeito tão mortífero que Lucas teve
que desviar a vista para o outro lado.
— Sim, mas o que eu acredito não é importante. O que conta é o que você acredita. E as
provas que seu governo esteja disposto a aceitar.
Lucas ficou em silencio durante um longo tempo, logo finalmente admitiu o que não se
atreveu a admitir até então.
— Aceitarão o que eu lhes diga, desde que recuperem o dinheiro. Se fizer uma réplica da
lápide, informo sobre o que descobri aqui, e lhes entrego a certidão de óbito, provavelmente
aceitarão minha palavra. Para eles, a única coisa que importa é o dinheiro.
— Está seguro? — pigarreou lorde Tovey.
— Sim. Quem mais se interessava em ver Frier julgado e pendurado era eu. Se proclamar
que está morto, aceitarão porque sabem a vontade que tinha de capturá-lo.
— Ah — replicou lorde Tovey, atribuindo a essa breve palavra uma rica carga de sentido.
Obviamente, compreendeu depois de uma semana o que Amélia reconheceu aquela noite em
Londres, que Lucas se movia por motivos próprios, não só pelo desfalque. Lucas procurava justiça,
para o pai e para ele. E finalmente se dava conta de que não ia consegui-la, pelo menos não com

195
Frier.
Durante a viagem, Lucas teve tempo de sobra para contrastar suas provas com as alegações
por escrito de lady Tovey. Determinados detalhes que até então havia ignorado emergiam agora
vivamente em sua memória. Como por exemplo, o comportamento evasivo do antigo patrono de
Dorothy quando Lucas lhe perguntou por que ela partiu. Ou a lista de bons relatórios que a mulher
deixou em seu caminho, em cada lugar onde viveram ela e o irmão.
Lucas estava tão decidido a vê-la como a uma pérfida manipuladora, que fez com que suas
provas encaixassem com seus desejos. Porque encaixava com o ódio que sentia. Porque essa
busca lhe proporcionou um motivo pelo qual viver, quando sua vida inteira foi um longo caminho
semeado de dor. Mas finalmente via a possibilidade de dispor de algo que não provocasse dor:
uma esposa que encaixava com sua forma de ser, que queria lhe dar filhos e compartilhar sua vida
com ele... que o amava.
Lucas sentiu um calafrio quando voltou a olhar o pai de sua esposa.
— Então, jura por sua honra, por tudo aquilo que mais ama, que acredita que sua esposa diz
a verdade?
Lorde Tovey o olhou fixamente, com olhos cansados.
— Seria um louco se não acreditasse. Passei dois anos conhecendo-a, descobrindo o que a
faz chorar e o que a faz rir. Dois anos de cafés da manhã e jantares juntos, dois anos memorizando
cada sarda de seu belo rosto... dois anos aprendendo quando mente e quando diz a verdade.
Lucas arqueou uma sobrancelha.
— Não sabia que tinha um irmão.
— Não, mas sabia que tinha um passado.
Lucas piscou. Aparentemente ele não era o único que se dedicou a ocultar informação
relevante.
— Apesar do que possa pensar — continuou lorde Tovey —minha esposa não é
particularmente adepta a mentiras. Depois de uma semana de casados, já sabia que o matrimônio
com Obadiah Smith era claramente uma invenção, já que nenhuma mulher que tivesse sido
casada poderia se mostrar constantemente surpreendida ante as intimidades de um matrimônio
como ficava minha pequena esposa. Após um mês, me dei conta de que havia um sombrio
segredo que a martirizava. Mas jamais a pressionei, porque sabia que ela me explicaria quando já
não tivesse medo de me perder se me contasse isso. — Sua voz tremeu. —Quando finalmente
aceitou que a amava tanto que não permitiria que nada nos separasse.
Lucas sentiu um incômodo nó na garganta.
— É tão romântico quanto Amélia. Que, por certo, jamais duvidou de sua esposa. Sempre
defendeu que Dolly era inocente, sem importar o que eu pensasse ou dissesse.
— Isso é porque Amélia ansiava desesperadamente uma mãe, e Dolly lhe ofereceu essa
possibilidade. E porque minha filha é incapaz de imaginar que alguém que ela ame possa traí-la
em nada mais que em alguma tolice superficial. Quando entrega sua confiança, faz de todo
coração, e custa muito destroçar essa confiança, uma vez que a depositou em alguém.
"Não poderia viver com um homem se não for capaz de confiar nele."
Poderia confiar nele, agora? Seria capaz de confiar nele no futuro?
Amélia havia lhe dito que se ele fosse a França e confirmasse a história de Dorothy, acataria
sua decisão sobre o que tivesse que fazer a seguir. Mas Lucas não era tão ingênuo. Se ele

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arrastasse o nome de sua família pela lama em uma vã tentativa de justiçar contra um homem que
talvez estivesse morto, ela jamais o perdoaria.
Isso faria migalhas a confiança que havia depositado nele, do mesmo modo que conseguiu
com suas evasivas. A perderia. E de repente se deu conta de que não estava disposto a aguentar
esse enorme sacrifício.
— Bom — disse finalmente, virando para a entrada do cemitério. — Acho que terminamos
por aqui. Parece que chegou a hora de voltar para casa.

Haviam transcorrido duas semanas desde que o pai e o marido de Amélia partiram para a
França, e ela estava farta de sua reclusão. Torquay não era uma localidade muito viva, que se
dissesse, mas em seu estado atual, o isolamento ainda se fazia mais insuportável. Com poucas
coisas com as quais ocupar o tempo, dispunha de muitas horas para preocupar-se com Lucas. A
única coisa positiva foi que ela e Dolly tiveram a oportunidade de passar muito tempo juntas.
Então, Amélia se deu conta do difícil que devia ter sido para Dolly enganar a todos, porque agora
que finalmente podia falar sem temor, não podia parar de falar. Contou a Amélia tudo referente a
seus pais, a sua infância na Nova Inglaterra, a sua horrível experiência como governanta em
Rhinebeck. Parecia tão aliviada que inclusive mostrava um estado de ânimo estranhamente
divertido, apesar da preocupação sobre o futuro ameaçador que pendia sobre suas cabeças. Era
óbvio que os segredos sobre seu passado a tinham martirizado durante muito tempo, e tirou um
enorme peso de cima quando pôde justificar-se. Assim talvez Lucas tivesse feito algo bom, apesar
de tudo. Sempre e quando não levasse Dolly presa a América.
Depois do que considerou um tempo conveniente para simular que estava de lua de mel,
Amélia reatou sua correspondência com Venetia. Desesperada para saber notícias de seu
ambiente, escreveu a amiga todos os dias, alegando que ela e Lucas decidiram passar alguns dias
no campo antes de retornar a Londres.
Pela senhora Harris, que sabia sobre a viagem de Lucas a França, inteirou-se que lorde
Pomeroy voltara para a cidade e praticamente não dissera nada sobre ela ou Lucas. Mas alguém
deu com a língua a respeito de sua perfídia, e enquanto alguns rechaçavam o rumor, outros
começavam a lhe dar as costas nas festas. O mais importante era que os pais se mostravam mais
precavidos com suas filhas quando o marquês estava perto, o que provocou em Amélia um
enorme consolo.
Entretanto, seguia sem receber notícias de Venetia. Pareceu estranho, dado que na primeira
carta que lhe enviou explicava com detalhes o encontro dela e Lucas com o Açoite Escocês. É obvio,
a imprensa londrina já havia se encarregado de difundir a notícia, acrescentando a descrição de
Kirkwood sobre o assunto e elogiando o comandante Winter e a sua esposa por sua fuga triunfal.
Mas Amélia desejava saber o que Venetia tinha a lhe contar em particular a respeito do Açoite
Escocês.
Assim quando finalmente recebeu uma carta da amiga um dia, a primeira hora da manhã,
Amélia a abriu com impaciência. Entretanto, a única coisa que o texto conseguiu foi acrescentar
mais perguntas:

E agora, querida amiga, falando sobre sua incrível experiência pelas terras escocesas,

197
confesso que não tinha nem ideia quando li os jornais de que eu tivesse algo a ver com seu
sequestro. Que terrível! Mas não sei o que quer dizer. Ainda não sei por que esse individuo que se
faz chamar de Açoite Escocês odeia tanto meu pai, e papai diz que ele tampouco sabe. Infelizmente,
sofre outra de suas dores crônicas, por isso demorei tanto em responder. E em seu estado atual,
não quero pressioná-lo sobre o assunto.
Mas pode ficar segura de que quando ele se recuperar, será a primeira coisa que farei.

A carta continuava lhe pedindo detalhes sobre a vida de casada. Amélia não soube se ria ou
se chorava, quando leu o parágrafo. Nem tampouco o que responder. Mas enquanto considerava
o que precisava fazer, um criado entrou correndo na sala de estar.
— Senhora! O senhor retornou! voltou!
Com o coração disparado, Amélia correu para o vestíbulo, onde chegou ao mesmo tempo
que Dolly, que se jogou ao pescoço do marido chorando de alegria. Lucas, em troca, não estava
presente.
— Papai? Onde está meu marido? — perguntou Amélia desconcertada.
Seu pai estava tão ocupado abraçando a esposa que nem sequer olhou a filha.
— Chegará esta noite. Disse que primeiro precisava solucionar um assunto.
O coração de Amélia se encolheu com temor.
— Algo sobre Dolly?
Seu pai desviou a vista para a filha.
— Não, carinho, não. Pelo que vejo, cheguei antes da carta que enviei da França. Mas tudo
saiu bem. — Cravou os olhos em Dolly com uma enorme ternura. — O comandante Winter decidiu
encerrar o assunto. Preparará um relatório completo sobre a morte de seu irmão para seu
governo. Conseguiremos reunir o resto do dinheiro roubado para devolvê-lo, e com isso
concluiremos este pesadelo.
Amélia se sentiu invadida por uma onda de alívio, tão profunda que seus joelhos começaram
a tremer como um pudim.
— Então, onde ele está?
— Foi à prisão de Dartmoor. Disse que queria vê-la agora que está vazia.
— E permitiu que ele fosse? — gritou Amélia. — Está louco? Pelo amor de Deus! Isso o fará
reviver novamente todos aqueles momentos angustiantes.
Sem perder nem um segundo, ordenou ao lacaio que lhe trouxesse a capa e o chapéu.
Seu pai a observou com evidentes sinais de alarme.
— Espera um momento, jovenzinha. Não acontecerá nada a seu marido. Há coisas que um
homem precisa fazer sozinho.
— É possível — espetou ela enquanto o lacaio a ajudava a colocar a capa. — Mas esta não é
uma delas.
— Amélia... — começou a dizer seu pai.
— Deixe que vá, George — interveio Dolly. — Dartmoor fica a poucas horas daqui, e se com
isso Amélia pode aliviar sua ansiedade, então será melhor que vá. — Apoiou a cabeça no peito do
marido. — Foi uma longa espera para nós duas, sabia?
O pai de Amélia relaxou as feições. Nunca podia resistir ante as petições de Dolly.
— O que você disser, meu amor. — Olhou atentamente a filha. — Atracamos no porto de

198
Plymouth, mas ele ainda estava tentando encontrar alguém que aceitasse levá-lo trinta milhas até
Princetown quando fui embora. Assim se for agora mesmo em minha carruagem, chegará lá pouco
depois dele. Leve um lacaio contigo.
— Obrigada, papai! — Amélia deu um beijo na face do pai.
Pouco depois partia para Princetown. Apesar de a prisão de Dartmoor ser em Devon, jamais
esteve ali. E duas horas mais tarde, enquanto a carruagem subia uma íngreme costa,
compreendeu o porquê. Porque ninguém com um pouco de juízo ousaria ir a um lugar que
transpirava desolação por todos os lados.
Embora se achasse no meio de uma das zonas mais agrestes da Inglaterra, os campos
rochosos, os arbustos infranqueáveis e os lodaçais desses páramos inóspitos eram legendários.
Tinha ouvido que normalmente a região estava coberta por uma espessa névoa, mas hoje o dia
estava claro, por isso pôde avistar os distantes muros de granito da prisão Dartmoor. Feia e
remota, a penitenciária era flanqueada por Princetown de um lado, um povoado cuja única função
era servir à prisão. A carruagem atravessou a localidade, e Amélia viu escassos sinais de vida.
Agora que todos os prisioneiros haviam partido, a cidade parecia adoecer.
Enquanto a carruagem seguia avançando para a prisão, sentiu uma aguda pontada de dor no
peito ao imaginar Lucas trancado nesse lugar tão cruel, açoitado continuamente pelo frio e
umidade, com nada mais que uma desagradável vista até onde o olho conseguia alcançar.
Imaginando seu marido ali, obrigado a obedecer ordens de homens tão arrogantes quanto ele, a
suportar humilhações mesquinhas infligidas aos prisioneiros de guerra, seu coração ainda se
encolheu mais. Mesmo que seu marido aceitasse esquecer sua vontade de vingança antes, o
simples fato de contemplar esse lugar voltaria a despertar nele a raiva incontrolável. Como seria
diferente?
Não foi difícil a Amélia encontrar Lucas, já que quando a carruagem subia o último lance da
estrada para a penitenciária, o viu parado diante do arco de pedra da entrada. Devia ter chegado
caminhando do povoado, porque não viu nenhuma carruagem perto. Se ele ouviu o ruído da
carruagem que se aproximava, não demonstrou, já que continuou sem alterar seu porte militar.
Tinha os braços cruzados atrás das costas, e os pés ligeiramente abertos, enquanto contemplava
impávido as portas de madeira fechadas.
Usava o uniforme, não o que usou no baile, mas um diferente, sem a faixa vermelha. Era
óbvio que estava um pouco grande, e com uma preocupação muito própria de uma esposa,
Amélia se perguntou se teria comido bem durante a viagem. Ou se teria dormido bem, já que no
trajeto até a França certamente teria se visto obrigado a dormir nos camarotes situados sob o
convés do navio.
Tinha um aspecto tão perdido que ela pensou que o melhor era preveni-lo antes de se
aproximar, assim o chamou pelo nome.
Lucas duvidou um instante, então se virou. Seu rosto refletia sua enorme surpresa.
— Amélia! O que faz aqui?
Ela se esforçou para sorrir, apesar de ao ver a má cara de seu marido, sentir vontade de
chorar.
— Pensei que não era o tipo de lugar mais adequado para que viesse sozinho.
Amélia se sentiu aliviada quando viu que ele retornava seu sorriso com outro, embora seu
rosto continuasse sem sinais de alegria.

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— Tinha medo de que enlouquecesse de novo nestes páramos, não é?
— Bem, tinha mais medo de que tivesse esquecido que tinha uma esposa — respondeu ela
com um tom animado, apesar do nó que oprimia sua garganta.
Lucas elevou os braços, e ela se abraçou a ele com impaciência, incapaz de opor resistência
inclusive quando ele a espremeu com tanta força que quase não podia respirar.
— Senti sua falta — murmurou Lucas através de seus cabelos. — Senti falta de você a cada
momento que estive longe.
— Vejo o muito que sentiu minha falta — brincou ela, engolindo as lágrimas. — Ao invés de
ir diretamente para casa, preferiu vir a esta horrorosa e velha prisão.
Lucas deu uma gargalhada. Logo foi para trás, mas não a soltou, só para contemplar as
portas da prisão com um braço ao redor da cintura de Amélia.
— Vim me despedir — esclareceu.
— Do que?
— De tudo. Da guerra, de meus pais. — Soltou um suspiro. — De minha vingança. Tinha
razão, sabia? Minha obsessão por capturar Frier não era porque procurasse justiça, mas sim
vingança. Mas não só contra ele. — Cravou os dedos na cintura de Amélia. — Contra os ingleses,
por esta... atrocidade. Por reter homens capturados mais tempo de que era devido, por mantê-los
afastados de suas famílias. Homens assassinados a sangue frio.
— Homens encerrados em túneis clandestinamente, asfixiando-se pela falta de ar —
adicionou ela.
Lucas assentiu.
— Para mim, Dartmoor marcou o princípio de meus problemas. Estava convencido de que,
se não fosse por esta prisão, teria sido capaz de retornar para casa e ajudar minha família. Frier
não poderia realizar o desfalque ou, se o tivesse feito, o teria caçado antes que tivesse tempo de
gastar o dinheiro, enquanto esse tipo ainda pudesse exonerar meu pai.
Uma expressão pensativa se apropriou de suas feições.
— Mas a verdade é que certamente teria estado em algum outro lugar depois que a guerra
terminou. Os fuzileiros retornaram a Argélia em 1815. E outros acontecimentos teriam me
mantido afastado de casa, especialmente porque jamais demonstrei muita vontade de estar perto
de meus pais, com suas brigas constantes. Dartmoor não marcou o início de meus problemas; só
foi outra tragédia da guerra.
Estremeceu com um repentino calafrio.
— Essa é a parte mais difícil de aceitar. Que não há ninguém a quem culpar, ninguém a
quem castigar.
— Nem mesmo Theodore Frier? — perguntou ela com um tom dúbio.
Lucas mostrou um parco sorriso.
— Nem sequer a ele. Além disso, já sabe; está morto.
Amélia se estreitou mais a seu peito, sentindo-se tão profundamente aliviada que seus
joelhos começaram a tremer.
— Ele está morto, e este lugar também. — Lucas contemplou o cadeado oxidado da porta
com porte ausente. — Esperava encontrar igual a quando estive aqui... casacas vermelhas
desfilando e prisioneiros com camisas amarelas muito grandes para seu tamanho. — Assinalou
para as ervas daninhas que cresciam entre as fendas das paredes da prisão abandonada. — O

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tempo corroe tudo, não é assim?
— Nem tudo — murmurou ela, logo reuniu forças para o que ia dizer: — O amor não.
Lucas suspirou.
— Não, o amor não. — Virando-se para ela, capturou suas faces entre suas mãos. — Por isso
vim hoje aqui, para me assegurar de que podia deixar tudo isto para trás, para ver se podia ser o
homem que necessita.
— E o que decidiu? — perguntou ela em um sussurro doloroso.
— Não resta outra alternativa. Amo você, Amélia. — Abrasou-a com os olhos, com um olhar
tenro e torturado ao mesmo tempo. — Não posso suportar viver nem um só dia sem você. Então,
se para estar contigo devo esquecer meu passado, asseguro que tentarei.
O coração de Amélia deu um pulo de alegria.
— Não peço que esqueça seu passado, meu amor. Só peço que não permita que arruíne seu
presente. — Deslizou os braços ao redor do pescoço do marido. — Ou nosso futuro.
— Não permitirei— prometeu ele, logo a beijou com todo o amor que ela podia desejar.
A tosse nervosa do chofer de seu pai os recordou que não estavam sozinhos, e ela se afastou
ruborizada.
— Será melhor irmos a algum lugar mais privado.
— Como por exemplo, o consulado de Marrocos? — perguntou ele.
Amélia o olhou perplexa.
— Entre a correspondência que estava acumulada quando retornamos da Escócia, havia
uma carta em que meu governo me oferecia a posição de cônsul americano. A li na manhã que
parti para a França com seu pai.
— Quer dizer... a manhã que partiu sem se despedir de mim? — recriminou ela com cara
irada.
Lucas mostrou uma careta zombadora.
— Sentia medo de acordá-la, medo de que ao vê-la em toda sua gloriosa nudez mudasse
minha decisão de ir. — A careta zombadora desapareceu. — Deveria ter me dado conta de que
meu firme propósito rachou no momento em que a surpreendi rondando fora de meu quarto,
quando tentou me seduzir batendo seus cílios e me chamando "soldado imponentemente forte".
Amélia deslizou as mãos sobre seus ombros.
— É que é um soldado imponentemente forte. Meu soldado imponentemente forte.
— Pois logo serei seu cônsul imponentemente forte. — Um brilho malicioso apareceu em
seus olhos. — Se à fastidiosa esposa que me tocou, a que se zanga quando tomo decisões sem
consultá-la, estiver de acordo. Por isso ainda não respondi à carta.
Com porte solene, ele escrutinou o rosto da esposa.
— Sei que você adora aventuras, querida. Mas depois de tudo o que passamos desde que
nos conhecemos, a vida em um país exótico pode ter perdido todo o encanto para você. As
condições podem ser bastante difíceis, e posto que seu dote ajudará a ressarcir o dinheiro que
Frier roubou, sua contribuição econômica será bem modesta. Não poderemos nos permitir...
— Lucas... — começou ela com um tom ameaçador. — Ia dizer que o único jogo de chá com
crocodilos que compraremos será o que encontre em algum bazar barato em Tanger.
Tanger! Só A palavra conjurou imagens deliciosas de mosaicos e huríes e expedições
perigosas pelo deserto.

201
— Poderei montar em um camelo?
Lucas sorriu.
— Se quiser... Raios e centelhas, carinho. Se aceitar viver comigo no Marrocos, asseguro que
não descansarei até que prove carne de camelo.
— Obrigada, mas acho que terei o suficiente montando sobre um desses animais. De acordo,
dou meu consentimento para que aceite o posto. Mas só com uma condição.
— Ah, sim? Qual? — perguntou ele enquanto arqueava uma sobrancelha.
— Que não espere que me comporte como uma esposa obediente.
Com uma gargalhada, Lucas a tomou pelo braço e a conduziu para a carruagem.
— Não acredito que pudesse viver contigo se fosse. A última vez quase acabou comigo.
— Sério? — Amélia deixou voar os pensamentos para imaginar o seu próximo encontro
sensual. — Nesse caso...
— OH, não. Não — resmungou ele enquanto a ajudava a subir à limusine. — Asseguro que
tinha razão nisso também, bonita. Não quero uma esposa obediente.
Ato seguido Lucas se sentou a seu lado, dentro da carruagem, e a rodeou com os braços.
— A única coisa que quero é uma mulher que me ame.
— Uf! Graças a Deus! Porque isso, meu querido marido, já tem.

Epílogo

Querido primo:
Na semana passada recebi um precioso presente da parte de minha querida Amélia Winter:
um bule em forma de camelo! Também me comunicou que está esperando seu segundo filho.
Diz que o comandante Winter está encantado... e que não tenta restringir muito seus
movimentos. Embora conhecendo nossa Amélia, estou segura de que, faça o que for o comandante,
ela sempre se sairá com a dela.
Sua amiga,
Charlotte

O sol estava se pondo no oeste do Tanger quando um ruído no vestíbulo do edifício que
ocupava o Consulado americano fez que Lucas desse a volta e fixasse a vista nas portas de estilo
francês de seu novo escritório.
Alguns segundos mais tarde, sua esposa e Isabel, sua filha com os olhos castanhos,
irrompiam na estadia, seguidas de perto pela jovem babá marroquina que o casal contratou,
depois de descobrir que Amélia estava de novo grávida, para que se ocupasse de sua filha.
— Ora, ora. Pode-se saber de onde vem, jovenzinha? — Lucas tentou pôr um semblante
sério, embora sua pequena e travessa filha começasse a rir com tanta energia que todos os cachos
castanhos que coroavam sua cabecinha começaram a mover-se graciosamente. — Não me diga
que voltou a se meter em alguma confusão.
— Confusão não, papai. Aventura! — exclamou Isabel.
Lucas não sabia se ria ou protestava. Seu pequeno anjo ainda não havia completado três

202
anos, e já balbuciava a palavra "aventura". Olhou a esposa, que sorria triunfalmente, e mostrou
uma careta zombadora.
— Pergunto-me quem é a responsável por nossa filha já saber pronunciar essa palavra... Só
imagina, por alguns instantes, se nossa filha já mostra tanta vontade de aventura a essa idade,
nosso filho provavelmente sairá de seu útero brandindo uma pistola.
— Mas se ainda não sabemos se será menino — indicou Amélia, com os olhos brilhantes
enquanto acariciava suavemente a barriga. — Dolly disse que notou os chutes do pequeno
Thomas no quinto mês, em troca, em sua segunda gravidez, com Georgina, notou mais tarde. Já
estou no quinto mês e ainda não senti nada, por isso pode ser que o bebê que espero seja outra
menina.
— Que Deus tenha piedade de nós, se assim for — brincou ele. — Se quase não posso com
as duas mulheres que já tenho em casa. — Olhou a filha e sorriu. — E então, princesa? O que acha
que acontecerá se mamãe te der uma irmãzinha?
— Mais aventura, papai! — gritou ela, vermelha de alegria.
Lucas deu uma gargalhada.
— Provavelmente. — Afundou as mãos nos bolsos da calça e a olhou com cara de grande
curiosidade. — E que tipo de aventura vocês tiveram esta tarde, enquanto papai assistia uma
audiência com o sultão? Foram pescar peixes na baía? Escreveram mensagens aos piratas?
Abateram um bandoleiro?
Isabel riu, e o doce som de sua risada infantil provocou em Lucas um indescritível regozijo no
peito.
— Papai é bobo — disse, levantando os braços.
Ele a observou com um olhar brincalhão.
— Então sou bobo, é? Já ensinarei a você, pequenina...
Então simulou que queria comer a orelha e ela riu ainda mais forte.
— Revistamos todas as habitações e fizemos uma lista do que precisaremos — explicou sua
esposa. — Este lugar é maravilhoso. Sabe seu governo quão valiosa é esta propriedade?
— Se não souber, me encarregarei de comunicá-los— respondeu Lucas enquanto continuava
fazendo cócegas em Isabel. — Então você gosta, não é?
— Se eu gosto? É magnífica! — exclamou Amélia com os olhos radiantes. — Há suficientes
quartos para que tenhamos tantos filhos quanto quisermos, e além disso, estamos em pleno
coração da cidade. Há pátios e fontes e...
— E isto. — Lucas assinalou para as portas de estilo francês. — Venha ver.
Pegou Isabel entre os braços e levou Amélia até o terraço do quarto piso, logo indicou o
horizonte.
— Quando está claro, como agora, pode-se ver Gibraltar daqui.
— Que lindo... — sussurrou Amélia, fascinada ante a vista que se estendia diante de seus
olhos: o porto buliçoso, as sombras azuladas do estreito de Gibraltar. Inclusive conseguia ver a
velha cidade!
Enquanto os três contemplavam a maravilhosa panorâmica, Lucas se sentiu invadido por
uma paz extraordinária. Jamais teria imaginado essa vida de sonho, com uma esposa adorável,
uma filha vivaz, e a ilusão de esperar a chegada de outro filho. Para trás ficou Dartmoor e o
mesmo acontecia com seus pesadelos. Não teve nenhum desde que abandonou a França três anos

203
atrás.
Inclusive agora podia tolerar, quando era necessário, entrar no camarote de um navio.
Embora tampouco a ideia o seduzisse. Sentia-se muito feliz com seu posto de cônsul;
adorava os períodos de tranquilidade marcados por momentos de surpresas inesperadas. E seu
estipêndio demonstrou ser mais que suficiente para cobrir suas necessidades. Podia-se dizer que
levavam uma vida mais que confortável. Não haviam encostado no dinheiro que seu sogro insistiu
em enviar cada mês em uma tentativa de ressarcir o que o irmão de sua esposa roubou. E Amélia
inclusive pôde permitir-se dispor não só de uma baixela exótica, mas também de tapetes exóticos,
visitas exóticas ao palácio do sultão e um exótico passeio a camelo.
E agora isto. Depois de três anos vivendo em casas bem modestas, ficaram sem fala quando
o sultão insistiu em legar ao Consulado americano esse magnífico palácio. Acabavam de mudar
nesse mesmo dia, e Amélia já pôs mãos à obra para convertê-lo em um verdadeiro lar.
Isabel começou a sacudir-se nervosamente entre os braços do pai; já havia perdido o
interesse pela vista espetacular.
— Desce, papai!
Amélia riu e levou a pequena até o interior da estadia. Logo a entregou à babá e deu
instruções para que preparasse o jantar e logo a deitasse. Quando Amélia retornou, Lucas a
rodeou meigamente pela cintura, e o casal voltou a admirar a vista. Depois de um momento, ela
começou a rir.
— Deveria escrever a lorde Pomeroy e dizer que agora posso ver Gibraltar quando quiser.
Pomeroy... Fazia muito tempo que Lucas não pensava no patife.
— O que sabe do general? Tem alguma notícia sobre ele?
— Finalmente encontrou uma esposa... Pode acreditar? Uma condessa italiana com uma
formidável fortuna. Estou certa de que serão muito felizes, sempre e quando não o incomode polir
sua pipa de ópio de vez em quando.
O comentário era mordaz, e Lucas desviou a vista para olhá-la. Ela o observava com os olhos
brilhantes. Usava uma de suas túnicas de um azul intenso, esses objetos que sempre conseguiam
excitar e acelerar o pulso de seu marido. A julgar por seu sorriso vivaz, sua sedutora esposa sabia
perfeitamente o efeito que a túnica exercia sobre ele, também.
— E falando de polir - murmurou ele enquanto a levava outra vez até o interior da estadia,
— estivemos tão ocupados com os preparativos da mudança durante estes últimos dias que minha
espada começou a oxidar.
Acredito que requer um pouco de atenção.
— Sério? — Amélia lhe lançou um olhar zombador. — Agora mesmo vou procurar um pano.
— Não necessita nenhum pano — replicou ele enquanto a abraçava com entusiasmo. —
Acho que com sua mão será mais que suficiente.
— Para uma espada tão deliciosa como a tua? Não acredito. Necessito um pano para polir e...
Lucas a cortou com um beijo tão ardente como o sol do deserto. Quando Amélia se separou
dele um pouco depois, ela sorria como só lady Dalila poderia sorrir.
— De acordo. Suponho que poderemos nos arrumar com minha mão. — Adotou uma
aparência sedutora. — Ou minha boca. Ou umas quantas coisas ideais para venerar uma arma tão
sublime como a sua.
— Parece que tem vontade de um pouco de aventura, não é? — murmurou ele enquanto

204
sua sublime arma reagia instantaneamente.
— Sempre. — Ela o levou para o novo quarto. — Quando se trata do homem que ama, uma
mulher sempre tem sede de aventura.

Fim

NOTA DA AUTORA

Na fase de documentação deste livro, compreendi quanto significativa foi a guerra de 1812
entre os Estados Unidos e Grã-Bretanha para que a primeira se sentisse uma nação, e não só como
uma colônia britânica que se rebelou. Quando li de primeira mão os relatos de como os
marinheiros americanos que foram capturados pelos britânicos se negaram a combater contra
seus patrícios, senti-me presa de um terrível desconsolo. Esses homens preferiram ser prisioneiros
de guerra antes que servir à Marinha britânica contra sua vontade. Muitos deles terminaram na
prisão de Dartmoor, onde tiveram que suportar os vexames dos ingleses sem sucumbir de suas
tenazes tentativas por escapar. A liberdade sempre foi um fator determinante para o ser humano,
não é verdade?
O massacre da prisão de Dartmoor é um fato histórico. A única mudança que adicionei a
minha novela foi o de utilizar uma pessoa presa em um túnel durante o arrepiante acontecimento.
Mas o resto do relato sobre Dartmoor, incluindo o fato de que o massacre ocorreu bastante
tempo depois de que a guerra tivesse acabado, é verdade. Até o dia de hoje, ninguém se pôs de
acordo sobre quem foi o culpado. Foi precisamente a absoluta falta de sentido dessa tragédia o
que partiu meu coração e me levou a incluí-la na novela. E apesar de que as tropas americanas
fugiram ante os britânicos na batalha de Bladensburgo, o Corpo da Marinha lutou até que seus
oficiais se viram obrigados a retirar-se. Muitos deles morreram ou foram capturados.
Além disso, foi a marcha até Derna o que proporcionou as linhas do hino da Infantaria da
Marinha americana: "Dos muros da Moctezuma até as costas de Trípoli". E sim, é verdade que
comeram carne de camelo!

RESENHA BIBLIOGRÁFICA

Sabrina Jeffries
Pseudônimos: Deborah Martín, Deborah Nicholas, Deborah Gonzáles.
Se ter uma vida cheia de aventuras a converte em romancista, então estava claro que esse
devia ser meu destino. Quando meus pais decidiram ser missionários na Tailândia (eu tinha sete
anos), toda minha vida mudou. Antes dos dezoito, tinha provado estranhos manjares como
cabeças de frango e de medusa, fui perseguida por um "filhotinho" de elefante, visto incontáveis
cobra e pítons, vacinada com todo tipo de injeções contra a raiva (sim, aquelas antigas no
estômago com aquelas longas agulhas), e visitado chuvosos bosques tropicais e plantações de
borracha.
Mas se o que se pergunta é como a filha de missionários acabou por converter-se em

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escritora de novela romântica, então deixe que explique. Quando está no quinto pinheiro, em um
país estrangeiro e com apenas seus incômodos irmãos como companhia, dedica-se a ler muito. E
quando digo "muito" quero dizer exatamente isso. Li quase tudo - clássicos, livros para meninos,
ficção científica, inclusive comics... mas, sobre tudo, li romances.
Aprendi com as novelas de Cherry Ame, progredi com Grace Livingston Hill e Emilie Loring,
graduei-me com Barbara Cartland, logo enganchei às difíceis matérias no instituto com minha
primeira novela de Rosmary Rogers. Tratei de deixar as novelas românticas durantes meus seis
anos de licenciatura, mas foi impossível. Woodiwiss e Lindsay chamavam a gritos.
Finalmente, deixei de lutar. Deixei meu doutorado em filologia inglesa e me rendi ao impulso
de escrever uma novela. e... aí o têm... acabava de nascer uma escritora de novelas românticas!
Agora vivo na Carolina do Norte com meu marido e meu filho. Escrevo livros a tempo
integral. Graças a minha vida aventureira tenho muito material para minhas novelas, de modo que
tenho em mente seguir fazendo isto por muito, muito tempo. Não é genial a vida?
Sabrina Jeffries é uma autora recentemente conhecida pelas leitoras de fala hispana. Em
Novembro de 2005 Rocha Editorial, sob seu selo Veludo, publicou o primeiro livro da série "A
Irmandade dos Bastardos Reais" titulado "Na Cama com o Príncipe". O sequencia desta série,
"Agradar ao Príncipe" esteve entre a lista dos 10 livros mais vendidos da Corte Inglesa" e seu
protagonista, Marcus, recebeu o prêmio K.I.S.S de melhor protagonista de novela histórica
outorgado pelos Romantic Time. Publicou já o último livro da Série: "Uma Noite com o príncipe".
Mas isto não é tudo. Eles confirmaram a aquisição dos direitos da série Lordes, assim poderemos
continuar desfrutando do trabalho desta autora que tão boa acolhida teve entre as leitoras.

** Essa tradução foi feita apenas para


leitura dos membros da Tiamat.
Muita gente está querendo ganhar fama e seguidores usando os livros feitos por nós.
Não retirem os créditos do livro ou do arquivo.
Respeite o grupo e as revisoras.

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