Você está na página 1de 164

daquele dos anos 60, com grandes

mudanças no cenário universitário


brasileiro. Em 2009, a USP
comemorou 75 anos de criação,
a turma de 1968 participou de
Memórias da A68
traça um retrato
da turma de
É com grande satisfação
que apresentamos o livro
Memórias da A68, um
minucioso e curioso relato da
turma de formandos da ESALQ
46 anos da História da USP, Agronomia da Esalq 1968, capitaneado pelos colegas
tendo sido a única a legar dois Carlos Roberto Espindola, Sheila
diretores à ESALQ, os Professores
do período 1964 Zambello de Pinho e Sonia Maria
Julio Marcos Filho e o Prof. José a 1968. Composto Pessoa Pereira Bergamasco.
Roberto Postali Parra. a partir de relatos, Trata-se da turma que iniciou
Em 2001, nas comemorações do fotografias, recortes, o curso em 1964, um ano
Centenário da ESALQ, o então inesquecível para todos os
governador Geraldo Alckmin
guardados pessoais brasileiros e que, certamente,
referiu-se à ESALQ como a e documentos marcou a vida de um grupo de
melhor semente plantada nas diversos, pelos alunos jovens estudantes que iniciou
terras paulistas. As sementes da turma, retroage suas atividades na ESALQ e
lançadas em 1964 produziram que vivenciou aquele momento
grandes frutos e os A68 são reais
a uma Piracicaba histórico do Brasil. Daí a
construtores da história de sucesso saudosa, dos bondes propriedade do título. Para nós
da agricultura brasileira. e das ferrovias, dos leitores, mais do que um retrato da
No livro há uma menção de Lulu cinemas nas ruas e turma, é um relato de época, um
Santos e Nelson Mota de que registro histórico para os arquivos
“nada do que foi será de novo do
das serenatas, mesmo da ESALQ e da USP.
jeito que já foi um dia”. Todos os numa época tão O Memórias da A68 resgata, além
anos novas sementes são lançadas dura para o exercício dos relatos pessoais, a história
e esperamos que esses novos das liberdades política dos anos 60, a Piracicaba
profissionais espelhem-se nas daqueles tempos e da ESALQ da
realizações e sucessos dos A68.
democráticas. época (professores, funcionários
Obrigado pelos exemplos de e alunos), tudo registrado com
profissionalismo e por honrarem fotos e documentos dos “baús”
a ESALQ e o seu idealizador, Luiz dos A68, que resultou nesse rico
Vicente de Souza Queiroz! acervo de depoimentos, reflexões,
brincadeiras, frustrações, fotos de
Antonio Roque Dechen aulas e de festas de repúblicas.
Diretor da ESALQ e Hoje vivemos um cenário
Vice-Reitor Executivo de agronômico bem diferente
Administração da USP
Memórias da A68
traça um retrato
da turma de
É com grande satisfação
que apresentamos o livro
Memórias da A68, um
minucioso e curioso relato da
turma de formandos da ESALQ
daquele dos anos 60, com grandes
mudanças no cenário universitário
brasileiro. Em 2009, a USP
comemorou 75 anos de criação,
a turma de 1968 participou de
Agronomia da Esalq 1968, capitaneado pelos colegas 46 anos da História da USP,
Carlos Roberto Espindola, Sheila tendo sido a única a legar dois
do período 1964 Zambello de Pinho e Sonia Maria diretores à ESALQ, os Professores
a 1968. Composto Pessoa Pereira Bergamasco. Julio Marcos Filho e o Prof. José
a partir de relatos, Trata-se da turma que iniciou Roberto Postali Parra.
fotografias, recortes, o curso em 1964, um ano Em 2001, nas comemorações do
inesquecível para todos os Centenário da ESALQ, o então
guardados pessoais brasileiros e que, certamente, governador Geraldo Alckmin
e documentos marcou a vida de um grupo de referiu-se à ESALQ como a
diversos, pelos alunos jovens estudantes que iniciou melhor semente plantada nas
da turma, retroage suas atividades na ESALQ e terras paulistas. As sementes
que vivenciou aquele momento lançadas em 1964 produziram
a uma Piracicaba histórico do Brasil. Daí a grandes frutos e os A68 são reais
saudosa, dos bondes propriedade do título. Para nós construtores da história de sucesso
e das ferrovias, dos leitores, mais do que um retrato da da agricultura brasileira.
cinemas nas ruas e turma, é um relato de época, um No livro há uma menção de Lulu
registro histórico para os arquivos Santos e Nelson Mota de que
das serenatas, mesmo da ESALQ e da USP. “nada do que foi será de novo do
numa época tão O Memórias da A68 resgata, além jeito que já foi um dia”. Todos os
dura para o exercício dos relatos pessoais, a história anos novas sementes são lançadas
das liberdades política dos anos 60, a Piracicaba e esperamos que esses novos
daqueles tempos e da ESALQ da profissionais espelhem-se nas
democráticas. época (professores, funcionários realizações e sucessos dos A68.
e alunos), tudo registrado com Obrigado pelos exemplos de
fotos e documentos dos “baús” profissionalismo e por honrarem
dos A68, que resultou nesse rico a ESALQ e o seu idealizador, Luiz
acervo de depoimentos, reflexões, Vicente de Souza Queiroz!
brincadeiras, frustrações, fotos de
aulas e de festas de repúblicas. Antonio Roque Dechen
Hoje vivemos um cenário Diretor da ESALQ e
agronômico bem diferente Vice-Reitor Executivo de
Administração da USP
Memórias da 68

P i rac icaba
2010
Es77m Espindola, Carlos Roberto

Memórias da A68 / Carlos Roberto Espindola, Sheila Zambello de


Pinho, Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco. Campinas: Do Autor, 2010.

161 p.

1. Memórias – Alunos – Graduação – 1964-1968 – Escola Superior


de Agricultura “Luiz de Queiroz” - Piracicaba - SP. 2. Turma de Ouro da
Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – 1964-1968. I. Pinho,
Sheila Zambello de. II. Bergamasco, Sonia Maria Pessoa Pereira. III. Título.

CDU 378.046.2
À memória de LUIZ HIRATA,
covardemente subtraído do nosso mundo

Ao povo da cidade que nos acolheu,


em nome do valoroso jornalista e amante
piracicabano, CECÍLIO ELIAS NETO
“ Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia”
Lulu Santos & Nelson Motta
Organização
Carlos Roberto Espindola
Sheila Zambello de Pinho
Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco

Colaboração
Antonio Álvaro Massareto (Gadô)
Augusto Tulmann Neto (Gatão)
Carlos Alberto Ribeiro Gonçalves (Carioca)
Carlos Otávio Lourenço Jorge
Edézio Castelassi (Loira)
Geraldo Gomes dos Reis
Gilberto Flávio Souza Sulzbacher (Zé da Gaita)
Gilberto José Garcia
João Luiz Cardoso
João Nakagawa
Jorge Horii
José Albertoni (Bispo)
José Machado da Silva Neto (Machadão)
Manoel Baltasar Baptista da Costa (Carcaça)
Márcio João Scaléa (Pinduca)
Maria Alice de Lourdes Sousa Bueno
Sandra dos Santos Sevá Nogueira
Sumário
Convocatória, 9
Apresentação, 11
Retrato da nossa turma, 13
Do fundo do baú, 79
Palavras finais, 151
No apagar das luzes, 155
Convocatória

Q ueridos colegas, há 40 anos deixamos


nossa saudosa “Luiz de Queiroz”. Talvez os
cinco anos lá vividos não tenham grande significância temporal nos nos-
sos sessenta anos de vida. Mas, se voltarmos nossos olhares para aquele
momento, vamos perceber uma variedade de aspectos que tornaram este
período um dos mais marcantes de nossa existência.
Psicologicamente, é, para qualquer ser humano, o tempo de matura-
ção, da passagem da adolescência para a fase adulta, da afirmação pro-
fissional, onde os caminhos futuros são definidos.
Cultural e socialmente, a vivência esalqueana nos permitiu o con-
tato com novas realidades, o aprimoramento nas relações sociais, a
interação com os colegas, cada qual com sua visão de mundo e a troca
intensa na vida cotidiana das repúblicas, dos pensionatos e na própria
Escola. Saímos do seio de nossas famílias, de lugares diversos, para
usufruir de um convívio profundo que, sem dúvida alguma, marcou
indelevelmente nossas vidas.
A sólida formação profissional em um curso de agronomia de ca-
ráter intensivo reflete-se, até os dias de hoje, em nossas atividades em
quaisquer das áreas que vimos atuando ao longo desses 40 anos. Áreas
que, na grande maioria dos casos, foram definidas durante nossa pas-
sagem pela Esalq.
E, mais ainda, não podemos deixar de ressaltar o momento político
que vivenciamos na Universidade, que marcou fortemente nossa socie-
dade. Entramos na Esalq no período agitado que culminou com o golpe
militar de março de 64, quando foram tolhidas liberdades democráticas
de todos os cidadãos brasileiros e que nos afetou diretamente, já com a
proibição de nossa esperada passeata de calouros. Grande frustração e
pouco entendimento do que realmente significava aquela proibição. Só
no decorrer dos próximos anos nos foi possível compreender mudança
tão profunda. À medida que os anos de estudos iam avançando, a situ-

Memórias da A68 9
ação do nosso país ia se tornando mais complicada, com a polícia nas
ruas, movimentos sociais impedidos de promover quaisquer manifesta-
ções, com mortes, prisões, desaparecimentos, culminando com o AI-5, a
coincidir com o término de nosso curso.
Essa pequena reflexão induziu-nos ao ensejo de voltar nossos olhares
àquele tempo, a fim de deixarmos registradas nossas lembranças na forma
de um caderno de memórias. Cada um de nós guarda, com certeza, um pe-
queno patrimônio, relativo ao nosso tempo de Escola, tanto material (fotos,
por exemplo) como em forma de recordação vivida e vivenciada, aconche-
gada em nosso subconsciente. Nem ousamos falar dos bons (maravilhosos)
momentos de convívio intenso nessa ligeira retrospectiva, mas aí seria alon-
gar demais... Registremos isso em papel: que façamos o “nosso livro” o mais
rico e completo possível, onde cada um de nós possa colocar suas lembran-
ças, enviando seus depoimentos, reflexões, brincadeiras, frustrações, fotos
de aulas, de festas, de repúblicas, para montarmos essa nossa obra coletiva.

Com o nosso abraço e na esperança de


conseguirmos concretizar esse objetivo,

Espindola, Sheila e Sonia


Apresentação

A intenção foi prover cada colega forma-


do na Esalq no ano de 1968, que ousamos
autocognominar “Turma de Ouro” – nossa A68, com um livro ou asseme-
lhado, o qual resultou na presente obra, Memórias da A68, em decorrência
de uma (re)construção coletiva.
Infelizmente, a decisão dessa possível realização efetivou-se já em data
muito próxima à do nosso encontro, estipulada pela Associação dos Ex-
Alunos da Adealq, o que dificultou o aprimoramento que teria sido dese-
jável, tanto na formatação quanto no conteúdo.
Com relação ao conteúdo, muitas outras matérias (textos, recortes, foto-
grafias, filmes etc) poderiam ter sido inseridas, juntando-se àquelas que aqui
se encontram. Vários colegas relataram, verbalmente, passagens fantásticas
do registro de suas memórias do período esalqueano. Contudo, tais relatos
não foram devidamente registrados em texto, para um repasse impresso.
Lá pelo mês de junho de 2008, três desses colegas resolveram “detonar”
esse processo de construção coletiva, a partir de uma convocatória enviada
aos demais da A68, cujos correios eletrônicos foram disponibilizados pela
Adealq, ou pelo repasse de e-mails que alguns colegas forneceram.
Por essa razão, optou-se pela organização da presente obra iniciando
pelo referido documento, que convida os colegas a enviarem suas cola-
borações, após uma rápida divulgação sobre a importância da vida esal-
queana de cada um de nós, que, sem dúvida, refletiu-se, e ainda vem se
refletindo no nosso futuro.
Ressalte-se a contribuição eficaz e constante de alguns colegas, relacio-
nados como Colaboradores, para que este “acervo” pudesse ser viabilizado.
Que o resultado final se mostre em conformidade com a mesma filo-
sofia com que se pautava (cinicamente) o nosso jornalzinho PEOJOTA:
Pugnador – Objetivo – Justiceiro.

Os Organizadores

Memórias da A68 11
Retrato da nossa turma

N a composição das presentes Memórias, par-


timos do pressuposto de que, para compor
um Retrato da nossa turma que espelhasse, dentro do possível, um panorama
o mais próximo possível daquele por nós vivido no período esalqueano, have-
ria necessidade de se lançar mão de um conjunto de cenários que facilitassem
a rememoração de fatos voltados a momentos particulares envolvendo brin-
cadeiras do dia-a-dia entre os colegas, acontecimentos políticos, culturais e es-
portivos, peculiaridades da cidade ou as próprias aulas em sala ou no campo.
Chegamos até a cogitar em denominar as presentes considerações
como “Retrato da Nossa Época”, posto que tal retrato só é possível ser tra-
çado para determinado período de nossas vidas, com todas as suas pe-
culiaridades e nuanças. Todavia, os registros de uma época também po-
dem ser estabelecidos mediante personagens com suas vivências pessoais,
numa determinada comunidade. Assim sendo, optou-se pelo título acima
proposto, certamente menos abrangente e pretensioso.
Cada um de nós trouxera para esse convívio de cinco anos (1964 a
1968) os traços já bem delineados se suas personalidades, passando a inte-
ragir num ambiente completamente diferente do precedente. Mesmo para
os “da terra”, os nativos, como se costumava a eles se referir, a nova condição
veio trazer uma outra realidade, distinta da que viera experimentando em
suas casas, escolas ou grupos de amigos. Assim sendo, estávamos passando
por um verdadeiro cadinho, rico em poder transformador, em busca de
um produto final. É oportuno comentar que Piracicaba ainda tinha, em
1960, apenas pouco mais de 115 mil habitantes.
Porém, é conveniente ressaltar as transformações mundiais que vi-
nham operando, sendo que Rose Marie Muraro, na sua contribuição ao
livro “Leila Diniz”, da Heco Produções (2002), refere-se aos anos 60/70
como “os mais perturbadores e misteriosos do século XX”, acrescentando ain-
da que “tanto no Brasil como no resto do mundo, prepararam a cabeça de todos
nós para o século XXI”.

Memórias da A68 13
Vinha-se de uma glorificante euforia e orgulho nacionalista depois de di-
versos eventos que fecharam com chave de ouro a década anterior (anos 50),
tais como: o ingresso na era automobilística ; o campeonato internacional de
tênis em Wimbledon, batalhado pela nossa Maria Esther Bueno; a taça Jules
Rimet de futebol, conquistada na Suécia; a bossa nova, na música, e o fes-
tejado livro de Jorge Amado – Gabriela, Cravo e Canela. Culminava-se, em
1960, com a inauguração da nova capital no Planalto Central, a emblemática
Brasília, de concepção arquitetônica admirada pelo mundo inteiro.
No início da nova década a coisa começou a complicar, já a partir de
1961, com a posse do novo Presidente – Jânio Quadros, de gestos contra-
ditórios, entre o liberalismo e o extremo conservadorismo; assim, é que se
presenciou a condecoração de Ernesto “Che” Guevara
com a Grã Cruz da Ordem Nacional e, quase ao mes-
mo tempo, a proibição do uso de biquíni nas praias.
Porém o orgulho nacional adentrava a nova déca-
da ainda bastante altivo, garantido, por exemplo, pela
conquista da Palma de Ouro, em Cannes, com “O Pa-
gador de Promessas”, em 1962, assim como a difusão
mais explícita da bossa nova a partir do conserto no
Carnegie Hall, nos EUA. No ano seguinte (1963), que
antecedeu ao nosso ingresso na Esalq, o País tornou-
se notícia no mundo todo, pela beleza da mulher bra-
sileira, graças à conquista do troféu “Miss Universo”, pela gaúcha Ieda Maria
Vargas. Na música de protesto, ainda permitida e cultuada pela estudantada,
estreava o musical “Pobre Menina Rica”, no Rio de Janeiro, com as partici-
pações expressivas de Vinicius de Morais, Carlos Lyra e Nara Leão, inicial-
mente denominado “Trailer”. No meio estudantil as reuniões eram sempre
“regadas” a músicas críticas alusivas à política do País, tal como a “Canção
do Subdesenvolvido”, que circulava num compacto simples, posteriormente

14
proibido e considerado de alto teor subversivo. Mas o “festejo” mesmo, que
abarcava todas as classes sociais, engajadas ou não em assuntos políticos,
foi a conquista do “Bi-Campeonato de Futebol”, no Chile!
A sucessão presidencial tumultuada, com a renúncia decorrente das
anunciadas “forças ocultas”, envolveu, a curto prazo, comandos represen-
tados por Ranieri Mazilli, Café Filho e João Goulart, com o povo brasileiro
de certa forma atônito, mas explicitamente crítico, como apontavam os
meios de comunicação, nessa ocasião ainda sob liberdade da imprensa.
A um breve período sob o regime de Parlamentarismo, restabeleceu-se,
mediante plebiscito nacional, o Presidencialismo, sob o comando do gaú-
cho João Goulart e os órgãos de divulgação da época estampavam a nova
Primeira Dama, Maria Tereza, com sua beleza que sobrepujava até mesmo
o carisma de Jaqueline Kennedy.
A força sindical nacional conseguiu um mais que expressivo aumento
salarial,e sua força começou a incomodar por demais diversos segmentos
de classes sociais, em relação aos possíveis rumos de condução da políti-
ca brasileira, numa época de intensos confrontos ideológicos de caráter
internacional, ao qual estavam envolvidas questões radicais de esquerda,
direita, capitalismo, socialismo e comunismo.
A classe estudantil manifestava-se com frequência, mormente a par-
tir de seu órgão máximo de representação –a União Nacional dos Estu-
dantes (UNE), com sede no Rio de Janeiro, com inúmeros simpatizantes
agregados da classe artística, em que o teatro, por exemplo, tinha espaço
destacado, sempre de caráter muito crítico em relação à situação nacio-
nal. E a referida “Canção do Subdesenvolvido” era uma constante nas
reuniões estudantis:“O Brasil é uma terra de amores, alcatifada de flores,
onde a brisa fala amores, nas lindas tardes de abril... Mas um dia o gigante
despertou, e dele um anão se levantou. Era um país...subdesenvolvido! Subde-
senvolvido, subdesenvolvido... etc”.

Memórias da A68 15
Porém, bem na data de comemoração do aniversário da nossa colega
“Paior”, a Sonia, ou seja, na data fatídica de 31 de março de 1964, nós já esal-
queanos, ainda frescos, deu-se o golpe militar, em defesa às “liberdades nacio-
nais”, que, já de início, mostrou a que vinha, com a invasão da sede da UNE
pelo Movimento Anticomunista, destruindo toda a documentação do seu ar-
quivo, bem como o referido teatro, cuja crítica muito incomodava os novos di-
rigentes nacionais, a impor e justificar a “Marcha com Deus para a Família”...
Mas, para a gente, em Piracicaba, parece que nem tudo era tão grave as-
sim, pois os meios de comunicação ficaram sob forte vigilância, procurando
atenuar muitos comentários e alienar boa parte da população sobre a gra-
vidade dos fatos que passaram a ocorrer. Boa parte dessa história apenas foi
contada muito depois do nosso período esalqueano, fazendo que acabásse-
mos por recordar preferencialmente das coisas boas do nosso dia-a-dia. Mas
vale a pena transcrever a dúvida de Carlos Lyra, em seu livro recente: “Eu e a
Bossa: uma história da Bossa Nova” (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2008), a
respeito de “qual teria sido a maior ameaça: a ditadura militar, ou a mediocrida-
de que, aproveitando-se da ditadura, estabeleceu-se em todas as áreas da cultura?”
A partir da música, aquele compositor conta a história de uma época ou de
um período ao qual todos nós tivemos presença intensa com a nossa ainda
juventude em franco aprendizado e assimilação de conhecimentos.
De todas as formas de resgate histórico, a música se apresenta como
um poderoso elemento indicativo de mudanças, avanços e retrocessos
nas sociedades, como bem pondera Irineu Franco Perpetuo, ao analisar a
obra do pesquisador Maurício Monteiro –“A Construção do Gosto –Música
e Sociedade na Corte do Rio de Janeiro – 1808-1821”, em entrevista que a
“Folha de São Paulo” promoveu com o referido autor (Guia da Folha de 28
de novembro de 2008, p.30–33). Segundo o entrevistado, a música “tem
um poder metafísico que é agregador e dispersivo; ao mesmo tempo, expressa,
através da tonalidade, as sensibilidades e os afetos dos homens e das socieda-
des”. Vai ainda além: “Também penso que a música é um indicativo do estágio
tecnológico e organizacional da sociedade”. Além de tudo, conforme Haruki
Murakami, da nova geração de escritores japoneses,“a música não sofre a
ação do tempo tanto quanto as ideologias”.
Para o nosso período, a bossa nova, surgida em 1958/1959, estava ain-
da muito presente, principalmente após a sua consagração no Carnegie
Hall, em 1962 – mais um motivo a afagar o nosso ego –, mas já saindo do
“banquinho e violão”para uma música mais participativa, que viria ajudar
a consolidar o que veio a denominar-se MPB. Contudo, os “sons” das dé-
cadas passadas ainda estavam muito presentes nas nossas memórias e no

16
nosso dia-a-dia. É pertinente observar que a nossa comemoração de 40
anos coincidiu com os festejos de 50 anos da bossa nova e com os 200 anos
da vinda da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, época a partir da qual
o pesquisador atrás referido faz a sua análise na “Colonização pela música”,
segundo o título dado pelo colunista da “Folha”, Manuel da Costa Pinto.
Somava-se a tudo isso, a riqueza folclórica de Piracicaba (“lugar em que
o peixe para”), de natureza inquestionável, sobretudo nas manifestações fes-
tivas populares, bastando lembrar a Festa do Divino, os cantadores peritos
em “cururu” ou os criativos repentistas, ou ainda a festa junina do distrito
de Tupi, com a travessia de participantes descalços sobre brasas. Além disso,
eram de domínio público certas melodias eternizadas por todos os cantos
do Brasil, de autoria de músicos piracicabanos, dentre as quais a consagrada
Ave-Maria (Cai a tarde tristonha e serena...), de Erotides de Campos (1896–
1945), ou o Rio de Lágrimas (O Rio de Piracicaba vai jogar água pra fora...) e
outras tantas. Certamente, muitos de nós devem ter cantado: “Uma saudade,
que punge e mata, que sorte ingrata...”etc, eternizada pela voz do “Cobrinha”
(Ângelo Cobra), de Newton de A. Mello, considerada o hino da Cidade. O
site “MPB–Cifrantiga” acrescenta que Erotides de Campos ensinava Física e
Química na antiga Escola Normal “Sud Mennucci”.
Não foi à toa ou mera coincidência que a “Folha de São Paulo” de 19
de fevereiro de 2009 dedicou seu caderno “Turismo” integralmente a Pi-
racicaba, sob o mote “Já que tá que fique”, a primeira a receber tal honra-
ria daquele poderoso veículo mediático. Um mapa em layout contendo os
principais pontos de atração foi disponibilizado pelos organizadores da
matéria, facilitando a familiarização com a localidade.

Memórias da A68 17
Lugar de pessoas ilustres e influentes na política e na cultura, bastando
citar, no primeiro caso, Prudente de Moraes, que lá foi Vereador e Pre-
sidente da Câmara Municipal, sagrando-se o 1º presidente civil do País
(1877), tendo também “legado” seu sobrinho, o Senador Moraes Barros.
No segundo, além dos inúmeros músicos populares, como o insigne Ero-
tides de Campos, registre-se o notável músico erudito e maestro Ernst
Mahle, oriundo de Stuttgart (Alemanha), que aportou no País em 1951.
Estudou com o consagrado músico Koellreutter e casou-se com uma co-
lega (Maria Aparecida Romero Pinto) que estudava regência de coral com
o mesmo mestre, assentando residência em Piracicaba, onde instituíram
renomada Escola de Música, de grande repercussão nacional em suas ati-
vidades artísticas, com instalações primorosas na rua Santa Cruz, de onde
irradia muita cultura e arte na atualidade.
Especialmente por conta da agroindústria canavieira, a cidade vinha, já
há tempos, ganhando notoriedade nacional, devendo se registrar, por exem-
plo, que já desde 1920 lá eram produzidos equipamentos de porte para as
usinas, nas Oficinas Teixeira Mendes, como informa Beatriz Elias, no rico site
“Memorial Piracicaba”. Desse ramo familiar derivam nomes de consagrados
mestres da Esalq, tendo sido nosso professor de Geologia o Prof. Antonio
Carlos Teixeira Mendes –o Ito, que ministrava aulas teóricas lá no “Maraca-
nã”. A família Dedini conquistou prestígio crescente a partir da fundição de
ferro e bronze, produzindo equipamentos para a indústria sucro-alcooleira,
vindo a consolidar-se com a instituição do Grupo Dedini, englobando a
Metalúrgica, a Mausa, a Codistil, a Morlet, a Motocana e a Siderúrgica, hoje
já fragmentada em novos arranjos empresariais, como tem acontecido em
todo o País, em decorrência da atual realidade sócio-econômica.
Ainda se viajava de trem nessa época. A cidade dispunha de duas es-
tações: a da Estrada de Ferro Sorocabana (bem no centro, limitada pela
rua XV de Novembro e a avenida Armando Sales) e a da Cia Paulista de
Estradas de Ferro, lá no topo da rua Boa Morte, no bairro referido como
Paulista, hoje transformada em prazeroso centro de cultura, com instala-
ções devidamente adaptadas para essa finalidade.

18
Por outro lado, ainda não existia uma rodoviária, mas tão apenas mo-
destas “agências” improvisadas, para as viagens de ônibus, em geral pela
AVA ou pela Viação Piracicabana. Não dá para lembrar ao certo, se em
Piracicaba ou Campinas, na agência da AVA tinha uma enorme parede
desenhada com uma vaca holandesa, no pasto, vendo o ônibus da empresa
passar, exclamando: “É só AVA que passa...” Porém, já se assinalava clara-
mente para o poderio monopolizador do “petróleo”(Esso, Shell etc) em
conduzir os próprios destinos da Nação, com a supervalorização imposta
ao padrão estradas de rodagem, que veio acarretar a derrocada e o conse-
quente desmantelamento das ferrovias.
Poucos colegas dispunham de carro próprio, e a carona constituía uma
prática mais que usual. Quando se usava a Sorocabana, a gozação já se ins-
talava: “Se estamos na Noiva da Colina, o ‘rego da noiva’ deve ser aqui”, com re-
ferência a um trecho da avenida Armando Sales, próximo da estação, onde
o mal-cheiro exalava, por conta do Córrego Itapeva, recoberto pela pavi-
mentação, em um dos mandatos do Prefeito Luciano Guidotti, para melhor
adequação no traçado da avenida. Em certo trecho, lá em direção ao Clube
de Campo, deparava-se com a Curva do S, alvo especial das corridas de carro
pela cidade, ainda no nosso tempo, que ainda empresta certa graça no tra-
çado da Cidade, atualmente bastante revigorada, com seus mais de 360 mil
habitantes, a julgar pelos dados do censo do IBGE de 2007.
Entre muitos companheiros da gloriosa turma A68 o convívio já come-
çara até mesmo antes do ingresso pelo Vestibular. A partir do nosso quadro
de formatura é possível resgatar um punhado de estórias ou de fatos regis-
trados em fotografias, em recortes de jornais, em papéis diversos guardados,
em relatos atualizados ou naqueles que a memória possibilitou guardar, en-
volvendo nossos colegas ou professores, aulas, brincadeiras, gozações, bailes,
serenatas, bebedeiras etc. Certamente, essa rememoração acaba envolvendo
outros personagens extra-quadro de formatura, principalmente professores,
colegas de outras turmas ou pessoas da comunidade local.
Um artifício empregado para a confecção do “Retrato da Nossa Turma”
foi a “desmontagem” do nosso quadro oficial, dele retirando seus personagens

Memórias da A68 19
(nós) em momentos julgados propícios, desconfigurando, portanto, as posi-
ções originais de cada um em ordem alfabética. Concomitantemente, outros
personagens foram inseridos, para ilustrar determinadas situações. Com cer-
ta frequência, foi necessário recorrer-se a quadros de formatura de outras
turmas em que esses “personagens” apareciam. Com isso, nosso percurso his-
tórico inicia-se pelo A, do Achilles, indo até o W, do Wirley, buscando asso-
ciar pessoas, imagens, sons, cheiros, cores, fatos e sensações daquela época.
Muitos colegas já haviam ido para Piracicaba no ano anterior (1963),
para concluírem o Colegial ou para se prepararem para o ingresso na Esalq.
Em geral, era o “Cursinho do Torigói” o mais concorrido, que tinha esse
nome por conta daquela “fera” de professor de Física do Curso Luiz de Quei-
roz (este era o nome oficial), recém-formado também na “Gloriosa”. Chegou
a ser contratado pela Esalq (Fisiologia Vegetal), mas preferiu continuar a
ocupar-se do preparo de alunos para o Vestibular, parece que até os dias
atuais. A procura era tamanha,
que havia aulas em horários e
locais diferentes; um desses era
no Colégio Piracicabano, no
centro, à rua Boa Morte. Havia
também o cursinho promo-
vido com apoio da Esalq, que
distribuía, inclusive, bolsas a
alguns de seus alunos, após ri-
gorosa análise de mérito.
O Colegial, naquela época,
tinha o Curso Científico como
o mais apropriado aos postulantes ao ingresso na Agronomia. Na cidade,
o Instituto de Educação Sud Mennucci (antiga Escola Normal) tinha um
grande contingente de alunos nessa situação, vários dos quais vindos de
fora, para acumularem essas aulas com as do cursinho. Muitos outros pro-
vinham também do Colégio Piracicabano. Assim, muita camaradagem já
começara aí a se estabelecer entre os recém chegados e os “nativos”, como
o Scudeller, o Gil, o Jayr, o Macluf e o Orson, dentre vários outros.

20
Mas a “batalha” no cursinho era
muito mais intensiva e desgastante
para os aspirantes ao ingresso para
aqueles que haviam terminado o 3º
Ciclo tendo feito o Curso Normal,
voltado à formação de professores, sem uma base consistente
nas disciplinas das áreas das ciências exatas exigidas no Vesti-
bular. Tal era a situação, por exemplo, da Liginha, da Maria
Alice, da Lourdinha e da Carminha. Além do Colégio Pira-
cicabano, o Assunção (seria Assumpção?), na rua Boa Morte,
era um dos naturais fornecedores de postulantes à Agrono-
mia, mas os agricolões gostavam mesmo é da paquera com
as formosas e tenras colegiais daquela instituição. Outro
curso do 3º ciclo, como era referido na época, era o Clássico,
também voltado às ciências humanas, principalmente aos
interessados pelo Curso de Direito.
A procedência dos estudantes era a mais variada possível, para o estudo
na Esalq. Além de renomada, a Escola era ainda, no ano do nosso ingresso, a
única faculdade pública de Agronomia do Estado, recebendo gente de locali-
dades diversas, incluindo de outros estados e países. Na cidade, ela era ainda
referida pela sua denominação original, de Escola Agrícola,
sabidamente de orgulho daquele povo, desde a sua origem, a
partir da cessão de terras da Fazenda São João da Montanha,
há mais de 100 anos, por Luiz Vicente de Souza Queiroz, para
tal finalidade. Foi a única escola superior do interior paulista
a compor a Universidade de São Paulo, criada por decreto
em 1934, por Armando de Salles Oliveira; completou, assim,
75 anos de sua instituição, em 25 de janeiro de 2009. Foi mui-
to além de visionário o cidadão Luiz de Queiroz, quando se
constata o papel que veio a desempenhar a Escola na própria
evolução da agricultura brasileira. No prédio central da Es-
cola estão eternizados os primeiros agrônomos formados no
início do século passado, em quadros de formatura, dando
sequência a esse procedimento nos anos posteriores, onde estão registradas
relevantes personalidades que ajudaram a fazer a história do País nas ativi-
dades ligadas, principalmente, à agricultura.
Naturalmente, o grande contingente se estudantes era de origem pau-
lista, mas na nossa turma também o Estado de Minas Gerais estava nume-
ricamente bem representado. Tínhamos colegas oriundos da porção norte

Memórias da A68 21
do Paraná, e ainda de mais longe vinham, por
exemplo, o Eliezer, de Goiás, e o Léo, de Campo
Grande, cidade esta ainda do Estado de Mato
Grosso, naquela época, antes do seu desmem-
bramento e sem a pujança da atual Capital de
Mato Grosso do Sul.
Da nossa Capital do Estado provieram di-
versos colegas, tal como o Joaquim, dentre
muitos outros, bem como das proximidades,
como o Marco A. Dal Colleto e o Márcio Ri-
beiro (Boca), ambos de Santos.
Do “Circuito das Águas” e proximidades
vinham o Francisco Gimenes – Zangado (Ati-
baia), o L.C. Mousinho – Boi (Itapira), o Már-
cio Andrade (Poços de Caldas), a Maria Helena
– Freira (Socorro) e o Nery (Pedreira).
Partindo do centro do Estado, com a Mar-
ney em Jaú, em direção à Rodovia Washington
Luís e rumo ao Noroeste, vinham o Colbert e o
Larrubia, de Monte Aprazível, o Luiz A.B. Rosa,
de São José do Rio Preto, e o R.A. Moreira –
Tucura, de Mirassol.
Ainda para aqueles lados do Oeste paulista
tinha o Fiorindo (Tupã) e o Luiz L. Longo (Pi-
rajuí), e já rumo ao Nordeste íamos encontrar
o Serginho B. Neves (Monte Azul Paulista) e o
Vinícius (Igarapava), já beirando a divisa com
Minas Gerais.
Na fase antecedendo ao Vestibular, vários de
nossos (futuros) colegas já se deliciavam com as
mil estórias que corriam sobre os veteranos da
Esalq, que pareciam querer, até mesmo, coman-
dar a agitação da cidade. Qualquer outro curso
superior chegava a ser considerado com certo
menosprezo, ironizado e relegado a um mero
“Cursinho Walita”, como gostavam de arreliar;
até mesmo porque era numericamente muito maior. Veja só, que arrogante
irreverência: o próprio Curso de Odontologia, de ótimo nível e reconhecido
prestígio no meio universitário (hoje ligado à Unicamp), era assim tratado!

22
Claro que todos levavam isso em tom de brincadeira, como não podia dei-
xar de ser. E havia ainda “birra” pela frequente disputa entre os alunos das
duas faculdades nas competições esportivas locais e regionais.
Naquela ocasião, um acontecimento que deixou todos com
“água na boca” foi a passeata da turma ingressante em 1963,
que nos precedeu, com muita gente fantasiada desfilando
pelas ruas da cidade. A “bicha”(caloura) Ceres, que veio
a tornar-se esposa do Klaus Reichardt, que, por sua vez,
tornou-se mestre da Escola a partir do ingresso na nossa
turma, desfilou num carro alegórico como uma verda-
deira deusa, linda como sempre fora, trajando-se aos mol-
des da Ceres original – a Deusa da Agricultura, que serve
como emblema para o nosso distintivo escolar. Já ficávamos
sonhando com a vez de festejar o nosso próprio ingresso...
É importante ressaltar, nesse início, que a Esalq ainda praticava nes-
sa época uma organização do seu corpo discente de cada ano do Curso
em duas turmas, em razão do elevado número de alunos: a Turma A e
a Turma B, cada uma comportando cerca de 100. Como a matrícula era
feita integralmente para o ano em curso, e não por disciplinas, esse pro-
cedimento colaborava amplamente para o fortalecimento do sentido de
turma, pelo convívio contínuo dos mesmos grupos ao longo dos primeiros
quatro anos. Essa proximidade ganhava ainda mais força na constituição
das turmas práticas, em grupos de 25 alunos, onde uma verdadeira irman-
dade e cumplicidade se estabeleciam. A posterior reforma de ensino, após
a nossa saída, de caráter nacional, promoveu o desmantelamento da noção
de turma, com a introdução do sistema de matrículas por disciplina, por

Memórias da A68 23
vezes semestrais, levando o aluno a conviver periodicamente com colegas
diferentes daqueles do semestre anterior.
Muito da camaradagem já se iniciara há mais tempo entre certos co-
legas, que juntos torciam pelos resultados favoráveis no processo de in-
gresso; mas, a grande maioria acabou se conhecendo mesmo foi a partir
do acesso à Faculdade. Determinados colegas aprovados, mas não clas-
sificados (excedentes), acabaram ingressando na antiga E.N.A. – Escola
Nacional de Agronomia, do km 47, no Estado do Rio de Janeiro (hoje Uni-
versidade Federal Rural, em Seropédica).
O Jornal de Piracicaba estampou os resultados dos aprovados no Vesti-
bular: os bichos de 1964, que teriam suas cabeças raspadas pelos veteranos,
com direito (leia-se “obrigação”) ao trote. O colega Atílio fora o primeiro co-
locado, seguido de alguns egressos do Instituto de Educação Sud Mennucci

24
entre os sete primeiros colocados, na seguinte
sequência: Espindola, Leda, Scotton e Pelóia.
Pelas ruas da cidade, a passagem de qualquer
jovem careca suscitava de imediato o grito de
algum moleque: “Ói bicho novo!” E a gente que-
rendo se esconder para não ser apanhado por
algum veterano... O pavor era ser agarrado por
algum daqueles veteranos famosos pelos trotes “pesados”: o Brucutu, o Mula
Manca ou o Gerôncio. Temia-se, por exemplo, pela prática de ter raspadas as
sobrancelhas, ou mesmo o cabelo recém crescido, já na época final do trote,
quando se aguardava a realização do “Baile do Bicho”. Banhos de barro e
“bundografias” eram trotes mais do que frequentes, com os bichos indo para
suas moradias sumariamente vestidos, roupas nas mãos e “briacos” pelas be-
bidas ingeridas, muitas vezes a contragosto. Para
as meninas, tudo era mais simples, bastando ca-
racterizações “agricolonas”, tais como o chapéu
de palha e botas ou botinas.
A integração com os “nativos” era quase sem-
pre um processo natural e rápido, com frequen-
tes visitas daqueles às repúblicas, bem como dos
recém-chegados às residências piracicabanas.
Era normal que uma expressiva participação
numérica da turma fosse constituída pelos nati-
vos, nascidos ou não em Piracicaba, mas lá mo-
radores, muitos deles já carregando seus apeli-
dos antes de os veteranos os “batizarem”. Alguns,
apesar de batizados durante o trote, não carre-
garam suas designações atribuídas, tais como os
colegas: Davi, Fornasier, Orlando e Osmair.
De Piracicaba, ficaram popularizados pelos
seus apelidos o Arroz – A. Lucchesi, o Pingo –
Arnaldo, o Beca – C. Carrão, o Quase Mudo
– C. Machado, o Jonca – João Carlos Orsi; o
Dudo – J. Alfredo Usberti, o Punhê – P. R. Gon-
çalves, o Polé – P.R.L. Carvalho, o Pabé – P.R.C.
Castro, o Amebão – Ricardo, o Mula – Sérgio
Stolf e o Zô – W. Munhoz.
Há de se observar que alguns apelidos, por si
só, já permitiam identificar as origens dos seus

Memórias da A68 25
donos: Taubaté – A.C.M. Pinto; Guararapes – A.
Stevanato; Mineirinho – Álvaro; de certa forma,
também o Taquara – R. Veloce, de Taquaritinga.
Curiosamente, o J. Amâncio era tratado por Mi-
neiro, embora conste que sua procedência fosse
da paulista cidade de Franca.
Juntamente com colegas de outras cidades,
alguns de Piracicaba acabaram se tornando
professores da Escola, como o Arroz, o Júlio,
a Marli e o Pabé, aos quais se juntaram o Au-
gusto (Gatão), o Jorge Horii, o José Branco, o
Parra, o Perinho e o Walter P. Lima.
Ressalte-se que muitos colegas eram das
imediações e, por isso mesmo, às vezes tomados
também como nativos, com o sotaque em grau
maior ou menor do que o do piracicabano legí-
timo. Nessa leva estão, por exemplo, os primos
Anísio e Luiz Azzini (São Pedro), a prima deles
– a Verinha (Charqueada), o Luiz Rogado (Por-
to Feliz) e o Cosentino (Anhembi). O Zé Osório
era reconhecido pela forte pronúncia que trazia,
de nem tão perto – a cidade de Bariri.
Os apelidos constituem matéria para far-
tas recordações ou comentários, sendo alguns
deles de enorme criatividade, tendo sido a
maioria deles atribuída pelos veteranos, se
não pelos próprios colegas de classe. Assim, a
lista é enorme, já a julgar pelo início do alfa-
beto, com o A dos colegas: Adair – Sacristão;
Aderbal – Baiano; A.C. Batista – Candinho e
A. Carneiro – Tonhão.
Com certeza, certas denominações ficaram como definitivas, parecen-
do substituir os nomes verdadeiros que a gente acabava se esquecendo.
Ainda mais agora, com o passar dos anos... Exemplos desses são: Cota
Nula – Alfredo (exemplo máximo de criatividade); Chucrute – C.E. Pollo-
ni; Proveta – C. Eugênio; Dominique – Celso Kristensen; Geléia – Celso
Silveira; Bispo – J. Albertoni; Preá – J.A. Leal.
O linguajar nativo, além de carregado nos erres (pir, coró cocór), era
dotado de outras peculiaridades que, em geral, não eram (são) comuns

26
ao de outras localidades, tal como a maneira
de falar de trás para frente, com inversão das
sílabas, mas mantendo o acento mais forte na
posição original. Por exemplo, querendo dis-
farçar: “Ontem eu fui na nazo”, querendo dizer:
“Ontem eu fui na zona”. O pessoal da terra fala-
va invertendo com muita facilidade, formando
não apenas palavras, como mesmo frases. Além
disso, havia expressões curiosas para manifes-
tações diversas, tais como: “OooÔ!” (menção
a uma possível dúvida), ou: “Digue nem!”, ou
ainda: “Mai nem não”! Ao se cruzarem, em vez
de Oi ou Oba, era: “Ê !”(bem prolongado); “Vão
bor qui tá na hor! (Vamos embora, que está na
hora). Foi o maior tedéu! (a maior cofusão).
Para explicar que estava tirando o corpo
fora de alguma jogada, o nativo exclamava: “Sartei!”, ou: “Sartei de banda!”.
No Poleiro dos Anjos, o Jorge Horii cunhou a expressão “nativoice” para
referir-se a esse linguajar. O grau máximo des-
sa carga pesada dos “r” que nos era passada, fi-
cava por conta do Prof. Gallo, de Entomologia,
ao citar o “purgão marrão crarinho”.
Quem se interessar e quiser aprofundar-se
no assunto, o conhecido escritor e jornalista pi-
racicabano, ainda na mais perfeita ativa, e nosso
contemporâneo – o Cecílio Elias Neto, é autor
de livros em que trata da matéria, tal como o
“Dicionário de Dialeto Piracicabano – Arco, Tarco,
Verva”, editado pela Academia Piracicabana de
Letras, Editora Signos, 1996 (Prefácio do Prof.
Dr. Carlos Vogt, atual Secretário de Ensino Su-
perior do Estado), onde também comenta o falar de trás pra frente. Essa
ilustre figura pública revela-se notável historiador da vida da cidade, mere-
cendo percorrer suas matérias disponibilizadas na Internet.
Em plena assimilação desse linguajar, alguns termos ou expressões aca-
baram sendo incorporados por todos nós. Talvez o mais difundido tenha
sido “drepo”(inverso de podre). Hoje estou meio“drepo”(adoentado). A pa-
lavra parece ter adquirido significado próprio, ganhando até uma flexão fe-
minina – “drepa”. Tinha até uma “livre frequentadora” das repúblicas, conhe-

Memórias da A68 27
cida como Maria Drepa; outro “usuário” do termo era um colega veterano,
falecido precocemente, no 5º ano do Curso – o Drepinho (Irineu Azevedo).
Era frequente o Ary dizer: Tô de “cosa ioche ” = “ Tô de “saco cheio”. Outra ex-
pressão que muitos assimilaram foi “Tá um mé!” = Tá gostoso, um mel.
Também merece ser lembrada a maneira às vezes simplificada de os na-
tivos se referirem a certos termos ou expressões, ligada à pronúncia peculiar.
Tal é o caso, por exemplo, da denominação do Bairro Piracicamirim, que vi-
rou “Piscamirim”, ou, ainda de modo mais simplificado – “Pisca”: “Moro lá no
Pisca”. Falando em bairro, a zona de meretrício, quando isso ainda era moda
(motel ainda não estava em voga), lá era referida por “Ripolândia”, pelo fato de
o bem sucedido empresário Romeu Ítalo Rípoli (era, além de tudo, Agrôno-
mo) ser, naquela época, detentor de uma grande área de terrenos no seu en-
torno. A “casa” mais conhecida era a da Ruth (o povo mais idoso ainda usava
a expressão rendez-vous). De vez em quando os agricolões iam buscar gente
de lá para suas festas e bebedeiras, que, não raro, terminavam na delegacia,
ou mesmo na cadeia. Rípoli foi o responsável pela elaboração e construção da
Cidade Jardim, bairro admirado e considerado chique na época esalqueana.
Antes de se instalarem em condição mais permanente, diversos proto-
bichos se acomodaram em pensões diversas da cidade. O João Naka se
arranjou tão bem na Pensão da Dona Quita, perto do Largo São Benedito,
que por lá permaneceu durante todo o Curso, sempre muito procurado
pelos colegas, pelo seu consistente conhecimento das matérias diversas do
Curso, o que lhe garantiu sempre a primeira colocação no
ranking das notas. Vez por outra, formavam-se verdadeiras
filas para tais consultas! Com o passar do tempo, perto do fi-
nal do período esalqueano, naquela pensão acabou também
se instalando o Carlão Torloni.
Pela Pensão Minas Gerais, na rua XV de Novembro,
pertinho do Sud Mennucci, passaram vários alunos que es-
tudavam naquele Colégio, bem como outros que só faziam
Cursinho, como o Hermano, o José Aparecido e o José Ivan,
onde conviveram com verdadeiras “figurinhas carimbadas”
do “bas-fond” piracicabano, que por lá moravam ou apenas
circulavam, tais como o enorme e rotundo Zé Pena, ou o
maneiroso e exímio pianista das noitadas piracicabanas – o
amazonense Petrolysses. O Edemar (Loba) morava na es-
quina, na república Senzala, com diversos veteranos, e na
época do trote passava na pensão pela manhã, para ir com
os colegas bichos para a Escola, tentando escapar ao trote.

28
Na mesma altura, porém na rua Moraes
Barros, ficava o Bar Cruzeiro, onde se degus-
tava uma boa comidinha ou um farto lanche.
O colega Geraldo lembra que o Bar já era fre-
quentado por agricolões há muito tempo an-
tes de nós. Sua condução era garantida pelos
dois João (pai e filho) e mais o Toninho, além
da segura e simpática esposa do João pai. Era
usual a “pendura” da conta, e, em geral, o ele-
vado número de usuários levava a estabelecer
dois turnos para as refeições, mesmo contando
com uma mesa onde se acomodavam cerca de
20 colegas. O Bar permanece no mesmo local
até hoje, administrado pelos sucessores: filho e
genro, este último casado com a Djanira, exce-
lente cozinheira remanescente daquela época,
cada um deles já envergando seus mais de 80
anos e com muitas estórias de agricolões que por lá passaram. Ficaram sen-
sibilizados pela iniciativa do Geraldo em sacar fotos para serem colocadas
nas paredes, juntamente às tantas outras, onde se incluem personalidades
diversas, tais como antigos jogadores de futebol, principalmente do período
de auge do XV de Novembro. Para os moradores do centro da cidade, a
Brasserie, bem na frente da Praça José Bonifácio, era uma alternativa um
pouco mais sofisticada, mas também de boa qualidade no cardápio.
A Casa do Estudante constituía motivo de
júbilo de seus moradores, com acomodações
apropriadas para um elevado número de cole-
gas. Seu prédio, bem na frente do alambrado-
limite da Esalq com as ruas do tráfego piracica-
bano, fora inaugurado dois anos antes do nosso
ingresso (1962). Dava até para preparar lanches
nas próprias dependências, para um “quebra-
galho”, mas o pessoal daí era freguês mais cons-
tante do Bar do Narciso e do “bandejão” anexo.
Fora de hora, ou pela manhã, recorria-se a um
leite com groselha. Para o pessoal das repúbli-
cas, quando a empregada faltava, ficavam as al-
ternativas de também se recorrer ao “bandejão”,
ou a filar boia em alguma república de colega.

Memórias da A68 29
Muitas estórias corriam sobre ocorrências
hilárias com seus moradores, principalmente
em decorrência de faustos pileques e de seus
desdobramentos. Entre os colegas que por lá
passaram, constam os seguintes, de acordo
com dados levantados pelo Augusto (Gatão):
Adair, Aderbal, Augusto, Atílio, Edemar, Flávio
Seixas, Francisco Gimenes, Hugo Kuniyuki,
Inácio, J. Carlos de Oliveira, Albertoni, J. Aldo,
Matosinho, J. Freitas Melo, Kengo, Laércio,
Lorival, Nelson Martin, Nilton, Pedro Aragão,
Roberto Veloce e Walter P. Lima.
Mas a grande maioria dos alunos acabava
se acomodando em antigas repúblicas, junta-
mente com os veteranos, ou fundando as suas
próprias, à medida que os relacionamentos in-
terpessoais iam se intensificando. Das antigas,
por exemplo, a “Saudades da Mamãe” abrigara
os irmãos Demattê (o José Luiz foi um dos
nossos professores homenageados), o Klaus
Reichardt e o Gerard Bandel (da Genética),
que também se tornaram professores da Es-
cola. Nessa república de “notáveis” passaram a
habitar o Ayres (Pipa) e o Donadio.
Algumas dessas moradias mantiveram
suas existências ao longo de muitos anos se-
guintes à nossa formatura, como é o caso da
“Gato Preto”, renovando periodicamente seus
quadros e se reunindo a cada ano. Os colegas
G. Garcia e Waldyr (Pelego), juntamente com
outros colegas formados depois, têm mantido essa tradição.
Daria para fazer inúmeros livros a partir das estórias que “rolaram”
nessas moradias de congraçamento de colegas. Nomes instigantes e di-
vertidos eram aproveitados para denominar as repúblicas, procurando
conferir-lhes verdadeiras personalidades. Algumas já foram menciona-
das, porém registrem-se-as de novo, juntamente com as da seguinte lista
que a memória permitiu resgatar, com a ajuda de alguns colegas: Adega, A
Moribunda, Arado, Arpege, Baú, Cacareco (ou Ka Ka Re Co), Casa de Família,
Chatô, Copacabana, Esplanada, Fazendinha, Ferradura, Fim da Picada, Gato

30
Preto, Império da Felicidade, Jaca-
repaguá, Maloca, Marília, Mostei-
ro, Oco do Mundo, Paiol de Tela,
Paredão, Pito Aceso, Poleiro dos An-
jos, Quebra Galho, Saravá, Senza-
la, Soroca, Surucutinga, Vai Quem
Qué, Viúva da Colina... Pena que não se disponha de fotos das fachadas
com as respectivas placas das mesmas, tal como registrado pela Quebra
Galho, pelos seus moradores: o Almiro, o Gadô – Massareto, o Viana, o
Carioca – C.A. Gonçalves, o C. Otávio e o Ulrich. Para os que gostam de
“navegar”na Internet, há sites que trazem detalhes diversos sobre as re-
públicas de Piracicaba, incluindo
históricos sobre algumas antigas.
Uma característica marcan-
te das repúblicas era a dinâmica
de suas existências, muitas vezes
ligada à constante mobilidade
de seus moradores, passando de
uma a outra por razões diversas.
Na Cacareco, por exemplo, mo-
raram o Alexandre, o Aloísio, o
J. Hermann e o Galeto durante
bom tempo. Com a saída do ve-
terano André Carioba do sítio
onde morava, juntamente com
o Zé da Gaita (G. Sulbacher) e o
Carroça (Hans), a Chácara Che-
rembore acabou abrigando, no úl-
timo ano, o Alexandre e o Aloísio.
Por lá passaram visitas ilustres e
esculturais modelos em início de
suas carreiras, algumas das quais
tomaram outros rumos profis-
sionais. Destaque-se aí a “global”
Marília Gabriela, que naquela
ocasião namorava nosso colega
Cabrita (Paul), tendo deixado sua
assinatura no livro de registros da
casa, como era de praxe.

Memórias da A68 31
O Dirceu, Saroba, morava com o J. Beltra-
me, o Canguru, na república Viúva da Colina,
porém circulava por todas essas moradias, ten-
do se popularizado desde o começo do Curso,
durante o trote. Ficou muito querido por todos
e famoso por desgovernar, com frequência, seu
carro por ocasião das “biritadas”. Contudo, parecia azarado mesmo em es-
tado perfeitamente sóbrio. Talvez os colegas se lembrem de um tombo
que teve, após um tropeção logo na entrada do anfiteatro de aula, em que
caiu de boca, mas rapidamente se erguendo e abrindo um amplo sorriso
(banguela) para a classe, sem perceber que acabara de perder alguns den-
tes frontais. Sua popularidade levou-o a ser escolhido pelos colegas como
o “mais simpático”, ou o “mais popular” dos bichos. A Regina já devia estar
de olho nele, pois sua “caçada” não demorou a se estabelecer.
Pela república Vai Quem Qué passaram colegas diversos, em períodos
também diversos: Zé da Gaita, Henrique – Aranha, F. Junqueira – Qui-
co ou Chico Bunda, Paulo Greco – Estampi-
lha, Shojinho, Normando, Vladimir – Turcão,
Irineu – Belfrodo e o M. Baltazar – o mais
que popular “Carcaça”. Essa república tornou-
se praticamente uma “grife”dos agricolões na
questão da multiplicidade de estórias acumu-
ladas, notadamente pelas festas lá realizadas,
muito regadas pelas bebidas preferidas do pes-
soal, em que até os policiais chamados pela vi-
zinhança acabavam se confraternizando.
Vez por outra, a Vai Quem Qué virava notí-
cia de jornal, tal como na questão do trote. Assim é, que foi noticiado um
“trote acadêmico” ocorrido por ocasião do mandato do Prof. Malavolta,
como Diretor da Escola, veiculando o nome da república como “Vai Quem
Quer”. Percebam aí a tentativa da mídia em revestir o fato de plena serie-
dade, ao trocar o vocábulo Qué por Quer.
O Carcaça relatou o drama envolvido no encerramento da existência
da Vai Quem Qué, após várias investidas da polícia e de calorosas e desgas-
tantes discussões e questionamentos por seus moradores. Em decorrência,
ele próprio acabou se acomodando na Mosteiro, uma das mais temidas
pelos bichos, pelos seus famosos trotistas, dentre os quais o Brucutu. Nesta
também habitara o Fifi, alguns anos depois nosso Ministro da Agricul-
tura – Roberto Rodrigues. Aproveitando ainda da memória do Carcaça,

32
conseguiu se saber que na A Moribunda haviam morado o
João Pistola e o Amadeu; no Pito Aceso, o Roberto Feijão,
o Normando e o Turquinho – Paulo Tadeu. Na Senzala, o
J. Alberto Martins (Pistolinha) e no Império da Felicidade o
Paul (Cabrita) e o Ricardo (Amebão). Será que a memória
dele confere com a realidade?
A república Poleiro dos Anjos foi fundada no início do
Curso, após encerrado o período do trote (45 dias), pelo A.
Pelóia, o C. R. Espindola, o J. Horii e o Miguel, aos quais se
juntaram os proto-bichos Tafu e Peru. Estiveram também aí
alguns itinerantes, como o Tadeuzinho (Rita Pavone), que
não se formou conosco, embora tivesse estado em nossa
turma. O atleta corredor Luiz Iha por lá também passou,
mas acabou se mudando para a Casa do Estudante.
A primeira casa que serviu de moradia ao Poleiro era per-
to do açougue do Seu Osvaldo e da Dona Rosa, pais da Shei-
la, lá na rua Fernando Febeliano da Costa, perto da avenida
Independência e da república Fim da Picada, do Pinduca –
Márcio Scaléa e do Macalé – Marcelo Figueiredo. Nessa épo-
ca, a colega vinha se exercitando como aviadora, já com brevê
conquistado; como a emoção ainda era pouca, não tardou a
também saltar de paraquedas. Não é de se admirar que, anos

Memórias da A68 33
depois, ela tenha se tornado faixa preta no karatê. O pessoal
do Poleiro ia muitas vezes com ela aos bailes no ginásio de
esportes da Escola e, para atualização com os acontecimentos
musicais, era comum assistir a “O Fino Da Bossa” na repúbli-
ca do Pinduca, que dispunha de televisão. Com o sucesso do
“Arrastão”, pela Elis, no Festival da Excelsior, esse programa
estourara em audiência. A segunda casa do Poleiro era bem
pertinho da anterior, agora na rua Samuel Neves, tendo exi-
bido durante um bom tempo uma cabeça de vaca no alto da
parede da frente, cujos olhos eram ocupados por lâmpadas
vermelhas, até que acabou sendo roubada na madrugada.
Já nos primeiros anos do Curso começavam a ser arrecadados fundos
destinados à ainda distante formatura, e uma das formas de sucesso para
os recursos financeiros eram os bailes e festas promovidos, com inten-
sa divulgação na cidade. Exemplos bem sucedidos foram, por exemplo, o
“Baile dos Tempos de Luiz de Queiroz” e a “Festa do Bang Bang”, com muitos
alunos se empenhando na organização: vendas de bilhetes, garçons etc.

Segundo relatou o João Luiz, ele morou inicialmente com


os colegas de Campinas – o Machadão, o Perinho e o Par-
rinha, bem atrás da casa do Comendador Luciano Guidotti,
que foi Prefeito da cidade por mais de uma gestão. Este último
era famoso por suas “tiradas” aos moldes do Vicente Mateus
(do Corínthians), do tipo: “Essas ruas de terra eu vou mandar
apedrejar tão logo seja eleito Prefeito da cidade...” Ou ainda, em
pleno palanque, referindo-se à rapaziada jovem e bagunceira
da cidade, tidos como verdadeiros “playboys”: “Prometo, se elei-
to, acabar com esses long-plays”! Cotucado pelo cupincha a ele
colado, que lhe assoprava o termo certo, emendou: “Quero dizer: os life-boys”!
Outra: “No próximo bicentenário os festejos serão ainda maiores”.
Numerosos eram os colegas de Campinas e imediações, alguns dos
quais haviam sido contemporâneos, ou mesmo colegas de classe no Colé-

34
gio Estadual “Culto à Ciência”, tais como a Amélia, o Cebolão
(C.E.O. Camargo), o Deuber e o José Arthur. O Amadeu e
o João Pistola (Borges) também provinham daquela cida-
de. Com certeza, o emblemático Instituto Agronômico da
cidade exercia forte influência sobre a decisão de que rumo
tomar o colegial após o término do seu 3º ciclo.
Esse congraçamento constituía, praticamente, uma nova
“escola de vida”: cada um se inteirando e se envolvendo com
seus colegas, assimilando e transmitindo novos comporta-
mentos, saberes e pensares.
Para as moças, até que elas conseguissem montar suas
repúblicas, costumava-se lançar mão de pensões da cida-
de, ou ainda do Dispensário dos Pobres, na rua do Rosário,
por onde passaram, dentre outras, a Amélia e a Maria Lúcia
(quem se lembra da Maria Mole, que abandonou o Curso
ao casar-se com um agricolão?). Outras, como a Sandra e a
Ana Cristina (Pin) hospedaram-se no Colégio Piracicabano,
já com firme propósito de montarem suas próprias repúbli-
cas, o que ocorreu mais adiante, quando a Sandra já estava
namorando o Chico (Cinderela).
Mas o prestígio nacional da Escola sempre foi indiscu-
tível, o que pôde ser constatado, em nossa época, pela escolha do nosso
então Diretor – o Prof. Dr. Hugo de Almeida Leme, como Ministro da
Agricultura, sem que o mesmo estivesse atrelado a com-
prometimentos políticos que pudessem justificar aquela
relevante posição. Isso não constituiu matéria de desgaste
entre os alunos, a despeito do evidente repúdio dos mes-
mos pelas novas condições deflagradas pelo regime recém
instaurado na condução do País.
Basta lembrar o sentimento de frustração de cada um de
nós pela impossibilidade de realizarmos a tradicional “passe-
ata dos bichos”, após o sofrido e prolongado período de trote,
alongado além do usual por não se poder reunir pessoas para
manifestações, quais fossem elas. Essa condição ficou de tal
forma “entalada na garganta”, que os estudantes não titube-
aram em marchar firmemente pela cidade, numa manifestação contra as
arbitrariedades do regime militar. As tentativas de repressão e intimidação
policial levaram ao desbaratamento da passeata, com a Catedral se entupin-
do de estudantes. O jornal local detalhou os fatos, incluindo fotos de alu-

Memórias da A68 35
nos subindo no mastro
destinado ao Pavilhão
Nacional, e de outros
portando a nossa ban-
deira, tendo à frente
nossa colega Sheila.
Os “japas” (nisseis)
eram numerosos na
nossa turma (aliás, na
Esalq, como um todo),
certamente por conta
da tradição adquirida
a partir das atividades
agrícolas desenvolvidas
pelos pais e avós, que
tiveram envolvimen-
to capital na evolução
da economia paulista

36
a partir da emigração, que, em mais uma feliz
coincidência, completou um século no mesmo
ano comemorativo dos nossos 40. Costumava-
se arreliar com esse pessoal, referindo-se às
costumeiras “panelas” por eles constituídas, a
exemplo da república Surucutinga, com o Jor-
ge Okuma, o J.Ysao e o Yasuo (Ponkan). Para
disfarçar, eles colocaram o Luiz Marchesoni, de
Porto Feliz, cidade próxima a Tatuí, dos nossos
colegas Saladino e Shynia.
Pelas razões históricas mencionadas, com
a grande concentração nipônica tendo pre-
dominado no Oeste paulista, era natural que
a maioria desses colegas fosse proveniente de
cidades daquela região: Alfredo (Cota Nula) –
Tupã; Hiroshi – Irapuru; Morimoto (Pelicano)
– Andradina; Morio – S. Cruz do Rio Pardo;
Oscar – Araçatuba; Sigueo – Cafelândia; Takeo
– Assaí; Ywao (Picirico) – Pres. Prudente.
Mas também tinha nipônicos procedentes
de outras regiões, tal como o J. Ito – Tristeza,
de Carlópolis (PR), como da própria Capital
paulista: o Kengo, o Shigeru – Ximbica e o Sho-
jinho. O Hugo Kuniyuki – Buzina era de Bra-
gança Paulista e o Rubens Takaoka de Guará.
Ressalte-se também o ingresso de expressi-
vo número de estrangeiros, que a gente tratava
por “gringos”, sem qualquer conotação pejora-
tiva; alguns deles acabaram “amarrados” por
nativas, por casamento, e até mesmo adotan-
do a moradia no País. Desses latinos tinha o
Freddy, da Venezuela, o Dongo e o Irigoyen do
Peru, e da Bolívia o Juan e o Javier.
Embora com nomes que pudessem levar à
ideia de nacionalidade estrangeira, eram bem
brasileiros os colegas Hans Jensen Olof Krogh,
que adquiriu o apelido Carroça, carregado “per omnia secula seculorum”
pela turma, o Paul Willibrord Hogenboom, que virou Cabrita para todos,
e ainda o Deuber, que ficou sem apelido.

Memórias da A68 37
Muitos hão de se lembrar da auspiciosa hospitalidade
dispensada pela família do Prof. Odilon, em sua residência,
numa interação ainda pouco comum de estudantes e pro-
fessores em seus aconchegos. O Inácio (Horácio) conseguiu
um estágio na Mecânica e Máquinas, área daquele mestre,
tendo ficado famoso pelo rombo na parede do galpão de tra-
tores, ao manobrar um potente Case. Outro apaixonado pela
mecanização agrícola era o S. Benez – Maçaranduba, que se
enveredou nessa área como profissional, após formado.
Também na casa do Prof. Pimentel Gomes, Catedrático de
Matemática, afastado para atividades de alto cargo na E.N.A.(RJ),
a Marli também cobria os colegas de reuniões festivas regadas
a boas bebidas e muita música. A nipônica Áurea, que foi por
um período nossa colega de classe, passou certo dia pelo Polei-
ro, convocando-nos para uma dessas reuniões na casa da Marli
e, já com o carro em marcha, comentou: “Já ouviram Carcará,
com uma tal de Maria Bethânia? Outra família piracicabana que
acolhia muitos agricolões para seu convívio, sempre “regado” a
boas bebidas e bons papos, era a da Da. Ditinha Penezzi, pessoa
extremamente bem relacionada na sociedade local, tendo sido
Vereadora por várias vezes. Tinha muitos filhos e habitavam
numa casa de três andares, pertinho do Hotel Nacional.
Também de longa tradição e refinamento era o lar dos
Clément, do qual fazia parte o colega Achilles, onde muitos
iam estudar em ocasiões de provas, por vezes brindados como
uma saborosa sopa de cebola, prato esse que veio a ser sucesso
posteriormente, nas madrugadas paulistanas do antigo CEA-
SA. Num dia desses, de estudo, o sobrinho do Achilles grita lá
da sala onde via “O Fino da Bossa”: “Corra, tio, para ver a Maysa
recebida por toda a plateia em pé”, com calorosos aplausos da
plateia saudosa da cantora, após sua longa ausência do País,
voltando muito magra e linda, com aqueles olhos verdes de
gata que o Poeta comparou a um oceano... nada pacífico!
O Baile dos Bichos pareceu sacramentar a nossa nova condição de vida
esalqueana. Embora ainda bichos ao longo de 1964, como apregoavam
os veteranos, já nos firmávamos como os futuros e legítimos agricolões,
quando, então, poderíamos também dar trote nos ingressantes de 1965,
muitos dos quais já co-habitando nas nossas repúblicas, atribulados com
as tarefas do cursinho, que tanto trabalho nos dera.

38
Já no final do 2º ano, alguns colegas (Sheila, Espindola) e ingressantes
de 1965 (Adilson, Maristela) se aventuraram a passar o reveillon no Rio
de Janeiro, com muita bebida gelada garantida por um isopor bem gran-
de sobre as areias de Copacabana. As moças se locomoveram no carro
do veterano Gerard Bandel (algum tempo depois professor da Genética).
Todos procuram acomodar-se na “Pousada Estudantil”, na Lapa, quando
esta já se mostrava na mais completa decadência. Acomodações péssimas!
Um barulho ensurdecedor nos alto-falantes com músicas até altas horas
da noite. Tocava repetidamente “Help”, que garantia aos Beatles o topo das
paradas de sucesso. Acabaram todos indo para outras acomodações, em
Copacabana e no Leme. À noite, no Castelinho, onde se cultuava a bossa
nova, Jorge Ben passava entre os frequentadores na maior naturalidade
e despojamento, aos olhos dos que o reconheciam pelo “Mas que nada” e
“Por causa de você, menina”, responsável pela introdução de uma nova bati-
da no nosso samba, recém saída da bossa nova.

Memórias da A68 39
A rica safra musical dessa época se comporta como um verdadeiro
“passe partout” ao Retrato da Nossa Turma. Vivemos, com certeza, o pe-
ríodo musical mais rico da história brasileira, ainda pegando o “eco” da
música pré-bossa nova , com muito rock and roll, twist, cha-cha-cha, Ray
Connif nos bailes (e dá-lhe Cuba Libre!), boleros cheios de “dor de cotove-
lo”, sambas abolerados e as vozes de “dó de peito” dos antigos cantores. O
rádio não parava de tocar o “African Beat”, com o Bert Kampfert. O Con-
junto Farroupilha apresentara-se no Calq com seu repertório tradicional
acrescido da “moderna” música popular brasileira eternizada internacio-
nalmente pelo João Gilberto, Tom Jobim e outros. O Clube Coronel Bar-
bosa garantia sucesso em seus bailes com a presença de cantores ilustres
dessa fase, tal como a baixinha Claudete Soares.
Alguns colegas se deslocavam até a Capital, para verem espetáculos
teatrais como “Morte e Vida Severina”, “Arena Conta Zumbi”, “Liberdade
Liberdade”e shows musicais: “Festival Da Balança”, “O Fino da Bossa” e ou-
tros, sobretudo no Teatro Paramount, que já vinham mesclando canções
“participativas” com a batida da bossa nova. A situação política do País
suscitava uma música identificada como “de protesto” e a classe estudantil
acompanhava de perto. Nessas viagens, era comum uma “esticada” até o
João Sebastião Bar, onde se podia ver a Silvinha Telles cantando e o Chico
Buarque desfilando tranquilo, ainda relativamente pouco conhecido no
meio musical, livre de grandes abordagens.
Com o ingresso da batida do Jorge Ben, somada às interpretações
jazzísticas do Simonal para sucessos “carimbados” da bossa nova, como
Lobo Bobo, Nanã e tantos outros, entrava-se numa nova fase de reno-
vação da música brasileira. A Nara já causara muita surpresa aos bossa-

40
novistas com o show Opinião, pela inclusão de músicas de morro, qua-
se esquecidas, do Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti e João do Vale.
Quando ela veio cantar no nosso ginásio de esportes foi aquele reboliço,
bem lembrado pelo Pinduca e o Augusto nos textos que compuseram,
revelando sua forma despojada e aberta para diversos repertórios. Des-
sas expressões musicais, com letras muito enriquecidas pelo advento da
bossa nova, foi se criando o que passou, mais tarde, a ser referido por
MPB, já com elementos de uma música mais participativa, em termos
políticos, que grande parcela da massa estudantil viria a adotar.
Mas há que inserir ainda o movimento musical paralelo da “Jovem Guar-
da”, capitaneado pelo Roberto e Erasmo Carlos e coadjuvado pela Wander-
léia. Esta veio a apresentar-se, com sucesso, no Clube Coronel Barbosa. A
cabeça aberta e o “faro” musical da Nara não apenas acataram os embalos
dessa facção musical ligada ao rock, como ainda a levaram a ficar amiga do
“Brasa”, chegando a frequentar seu rancho às margens do rio Piracicaba.
A turma A68 ainda teve a oportunidade de desfrutar do bonde e de
equilibrar-se nas pedras do Salto de Piracicaba (o “sarto”), onde era fácil
apanhar peixes com as mãos na época da “piracema”, nas cavidades criadas
pelas irregularidades do leito do rio, bem em frente ao Mirante. Ainda era
possível nadar rio abaixo, na saudosa rua do Porto, ainda que nessa época
o local já era singularmente referido por “bosteiro” (leia-se bostero, com
sotaque nativo bem carregado). Mais abaixo, em direção ao Porto João Al-
fredo, perto de Artêmis, onde os ranchos abundavam, era comum “pescar
de bunda” à noite, com os pescadores imprimindo um forte golpe no fundo
do bote (um bate-bunda), o que fazia um monte de cascudo saltar para
dentro da embarcação. Isso era comum nas “ranchadas” de fins de semana,

Memórias da A68 41
como as promovidas pelo Achilles no seu rancho (que em outras cidades
é pesqueiro). A desastrada poluição “espumante” logo se fez presente nas
águas, principalmente em decorrência do crescente contingente de resí-
duos das usinas canavieiras (restilo, vinhaça, vinhoto; cada hora surgia
denominação nova) lançados no rio. Sinais dos novos tempos...
Mas foi na margem direita do rio que o Barão Ribeiro de Rezende fun-
dou, em 1881, o Engenho Central, tendo possibilitado a industrialização da
cana-de-açúcar mediante equipamentos modernos e mão-de-obra assa-
lariada, pela primeira vez no Município, como bem ressalta J.E.O. Bruno,
em site eletrônico. Com isso, Piracicaba tornou-se a maior produtora de
açúcar da América Latina já na virada do século XIX para o XX. Em 1899
as instalações foram adquiridas pela Societé Sucréries Brésiliènnes e em 1974
foram desativadas e o conjunto reconhecido como patrimônio histórico.
A esta paisagem singular na arquitetura juntam-se elementos da na-
tureza, como as pedras e águas do salto, bem como benfeitorias arquite-
tadas pelo homem, como o Mirante, o “véu-da-noiva”, hoje ostentando
uma singular e portentosa “ponte pênsil” de ferro e madeira sobre o rio,
atraindo numerosos grupos de turistas. Na margem esquerda, a rua do
Porto foi totalmente remodelada, comportando inúmeros bares, lancho-
netes e restaurantes à beira-rio, além de pistas para passeios e caminha-
das da população. No Restaurante “O Mirante”, desativado em 2008, o
“pintado na brasa” sempre foi o prato típico mais difundido, atribuído
àquele famoso “comedouro”.
A estrada que liga a Esalq ao aeroporto segue até o bairro de Monte
Alegre, onde foi edificada a usina canavieira de mesmo nome, do Enge-

42
nho Central, adquirida pelo empresário Pedro Morganti. Naquele bairro
constitui atração especial a Capela de São Pedro, que contém valorosas
pinturas do modernista Alfredo Volpi.
Outra família de reconhecido prestígio nesse meio sucro-alcooleiro foi
a De Cillos, que deixou a Itália para vir trabalhar, por contrato, no Enge-
nho Central, tendo se “emancipado” e fazendo nome a partir de seu fértil
trabalho nessa região, haja vista a instituição da renomada Fundação Romi.
Ainda não se pode deixar de referir a Fábrica de Tecidos Boyes, fundada por
Luiz de Queiroz praticamente sobre as pedras do Salto de Piracicaba, em
decorrência da substancial produção de algodão, cultura essa da qual mui-
to se ocupara o emigrante japonês, notadamente na região oeste paulista.
Registrem-se também outros sobrenomes de origem italiana, de famílias
de imigrantes que galgaram elevadas posições sociais, além dos já referi-
dos Dedini: Ometto, Morganti, Capellari etc.
Mas ainda há outras construções que a municipalidade tem procura-
do preservar, pela sua beleza arquitetônica e/ou seu significado histórico,
como é o caso do Matadouro Municipal, já bem comprometido em sua
conservação na nossa época, porém devidamente restaurado nesse iní-
cio de século em que estamos. Essas informações têm sido enriquecidas
em sites da Internet, que permitem ainda constatar, por exemplo, que a
saudosa “Caninha Tatuzinho”, de expressivo consumo pelos agricolões do
nosso tempo, era produzida pela família D’Abronzo a partir dos anos 40
do século passado. Foi só a gente sair da Escola, que se deu a sua venda,
em 1969, para o Grupo Três Fazendas, com sede em Rio Claro. Se esse
texto pudesse ser acompanhado por sons, aqui poderia ser adicionado

Memórias da A68 43
antigo reclame da Caninha, pois o termo propaganda ainda não estava
consagrado: “Ai Tatu, Tatuzinho, me abre a garrafa e me dá um pouquinho”.
Faz também parte da nossa trilha sonora.
Dentre esses registros históricos encontram-se referências aos bondes,
com a informação de que o da Esalq fora a última linha inaugurada, da
qual tanto pudemos desfrutar! Mas a cidade crescia e novas construções
modernas iam surgindo, principalmente no seu miolo, convivendo com a
“Padaria Vosso Pão” e seus simpáticos donos, “A Porta Larga”, “Ao Cardi-
nalli”, o posto dos Petrocelli (da colega Regina), o “Fisk”, o consultório do
dentista Mário Lázaro, com sua enorme dentadura no frontal da varanda,
tudo na rua Governador Pedro de Toledo. Também não dá para esquecer
a “Gengibirra” das Bebidas Orlando, lá da rua Benjamin Constant.
Nessa modernização arquitetônica, erguia-se o imponente Comurba,
bem na Praça José Bonifácio, em forma ondulada, mas não concluído em
decorrência de uma tragédia que abalou toda a cidade, com a tristeza de-
vidamente incorporada pelos esalqueanos, naquele nosso início de Curso:
seu desabamento. O conjunto do prédio incluía o já inaugurado Cine Pla-
za, orgulho de todos, pelo seu conforto e elegância. A Sandra presenciara o
desastroso evento e percorreu rapidamente as classes para notificar os co-
legas, a fim de que os mesmos pudessem comunicar as suas famílias para
as tranquilizarem. Um proto-bicho, ex-colega do Colégio, em Campinas (o
Pintinha), ficara soterrado nos escombros. Um dos mais funestos aciden-
tes piracicabanos, devidamente assimilado pelos agricolões! Atualmente
o local acomoda as modernas instalações da Caixa Econômica Federal,
restando apenas as boas lembranças de desfrute do cinema, com as devi-
das paqueras e bolinações durante as projeções, assinalando-se a exibição
de alguns filmes famosos, como: “Amor Sublime Amor” (West Side Story),
“Zorba, o Grego”, “Lawrence da Arábia” e outros.

44
O João Luiz, que morara com o Hugo Cota Pa-
checo, com o Mané e com o Nelson (Pincel), na rua Boa Morte, relatou que
foi compor nova moradia pertinho da praça central, num casarão antigo,
de intensa afluência de transeuntes. No enorme portão de madeira frontal
os moradores criaram um furo para dar passagem a um cordão capaz de
abrir o trinco pelo lado interno; isso valia tanto para o dia como para a
noite, dispensando o emprego de chave, sem que nunca qualquer fato de-
sagradável tivesse ocorrido. Nesse tempo se podia andar despreocupado
pelas ruas tarde da noite, fazer serenata, perambular para “apagar o fogo”
resultante das biritas ingeridas, ou mesmo “chamar o Hugo” sem ser mo-
lestado. Quaisquer manifestações só não podiam ter conotações julgadas
políticas, tal como será devidamente lembrado num relato do Pinduca.
E no Cine Politheama, na frente do qual o footing (o quadrar) corria
solto, tinha uma máquina de pipoca que os nativinhos de tenra idade
iam observar quando se mostravam obedientes em seus comportamen-
tos, com os pais exclamando: “Assim, sim! Hoje vamos te levar para ver a
pipoca pular!” Atualmente, o cinema deu lugar a uma agência Brades-
co. Logo nas imediações tinha a Passarella, para as pequenas guloseimas
(balas,chocolates, chicles etc) e o Cine Broadway, com sua insólita e psi-
codélica cortina colorida, cobrindo a tela antes da projeção, decorada
com propagandas de diversos estabelecimentos comerciais. Esta chegou

Memórias da A68 45
a ser eleita pelos agricolões, por ocasião da passeata dos bichos, “uma das
sete maravilhas da cidade”. Como seria inevitável, mais recentemente foi
transformada em bingo, tendência essa generalizada em todas as cida-
des, onde eles só conseguem competir com certas facções religiosas. Na
saída da sessão cinematográfica, era quase obrigatório o cafezinho no
Haiti, sob os olhares penetrantes e gulosos da “Quadrada”, ali ao lado da
Galeria Gianetti–Edifício Lúcia Cristina, que tinha na entrada a Livraria
Brasil. A título de curiosidade, Marcelo Bongagna informa, em site, que
pesquisa recente realizada com a população apontou como as reais “Sete
Maravilhas da Cidade” as seguintes, em ordem de votação preferencial:
Teatro São José, Engenho Central, Rio Piracicaba, rua do Porto, Teatro
Municipal e Mirante. Destes, apenas o Teatro surgiu após a nossa saída.
Alguns colegas já haviam se tornado sócios do Clube Coronel Barbo-
sa, ali na rua São José, acompanhando o proceder de muitos nativos (e
nativas, principalmente). Serenatas eram comuns, por vezes regadas com
acepipes e bebidas das boas, quando se avisava antecipadamente da inten-
ção. Aquele clube social trazia atrações musicais diversas para a cidade,
até mesmo internacionais, como o cantor norteamericano Johnny Mathis,
que na saída arrastou consigo um crioulo da segurança do Clube. Depen-
dendo da namorada, ficava-se também sócio do Clube Cristóvão Colombo,
na rua Governador Pedro de Toledo, bem no centro. E naquele tempo,
ainda havia “sessão só para homens”, à meia-noite, no Cine Teatro São José.
Outro tradicional era o Clube Treze de Maio, que promovia saraivada de
fogos por ocasião da comemoração da libertação dos escravos.
Mas, nem mesmo nas serenatas destinadas às nativas o agricolão pou-
pava gozações. Lá pelas tantas, já com a “cabeça no mundo da lua”, resolvia
cantar ou declamar a altos brados:

Cáxera de forfe, carcanhá de sapo,


sarto-sarto / de Piracicaba!
Cáxera de forfe, bícaro de pato,
sarto-sarto / de Piracicaba!

46
Havia também verdadeiros “gritos de guerra” disparados
pelos torcedores do “XV de Novembro” nas disputas
futebolísticas do venerado time de futebol local,
com diversas estórias famosas que os agricolões
gostavam de troçar, dizendo, por exemplo, que
os nativos iam ao campo torcer usando “Zocrinho
Raiban”. E ficou famoso o comentário de um aficcio-
nado locutor esportivo ao narrar uma jogada emo-
cionante na boca da pequena área do seu amado time:
“Cu-de-boi na área do XV!”, carinhosamente referido
por “Nhô Quim”, personagem caipira retratado na
forma de caricatura. Cultuava-se também o Hino
Popular do XV de Novembro, cantado não só na
cidade como em outras em que time jogava.
Os agricolões, para arreliarem com os nativos
em ocasiões de aglomeração, de vez em quando faziam
uma espécie de saudação irônica, sob uma voz de coman-
do e resposta em coro, a altos brados:

Turma! O que tem dentro do pastéis?


Zeitona!
E dentro da zeitona?
Caroço!
Eta Piracicaba colosso!

Pelas ruas da cidade o vendedor ambulante, por vezes munido de um


fusquinha, anunciava a altos brados, ou por alto-falante: “Pamonhas, pa-
monhas, pamonhas! Pamonhas de Piracicaba! É o puro creme do milho!” Foi
lá que isso surgiu, tendo se propagado por todos os rincões, mas com a
retirada da referência a Piracicaba. Deviam cobrar direitos autorais...
O novo prédio do nosso Centro Acadêmico Luiz de Queiroz (Calq) era
motivo de orgulho dos agricolões, pelo insano trabalho dispendido pelos

Memórias da A68 47
antigos veteranos, já de há muito tempo, em sua construção, pertinho do
centro, ali na rua Voluntários de Piracicaba. O Titico cuidava com desvelo
das instalações e das atividades diversas lá desenvolvidas. Eram frequentes
homenagens a ele prestadas nos quadros de formatura das diversas tur-
mas. No Calq eram promovidos cursos, palestras, esportes, shows, bailes,
brincadeiras diversas, debates etc. Cada estudante pagava uma mensalida-
de para garantir o bom andamento daquele rico patrimônio. Além disso,
vários colegas se engajaram na batalha por uma piscina no conjunto es-
portivo em frente à Escola, ao lado do ginásio de esportes.
O Departamento Esportivo do Calq sempre se mostrava muito ativo
em suas atividades, com vários colegas despontando em outras cidades
como verdadeiros craques e trazendo seus troféus para o nosso acervo.
O elemento feminino se firmava cada vez mais nesse setor, com destaque
merecido para a Elisa, a Sonia e a Sheila, além de colegas de outras turmas.
Lamentável e mais que melancólica a recente notícia sobre a decisão de
venda do prédio do Calq, por motivos financeiros. O prédio encontra-se
em pleno e desolado abandono. Os tempos são realmente outros...

48
Colegas da A68 engaja-
ram-se nos Departamentos
e Diretoria do Calq, bastan-
do lembrar a notoriedade
que acabaram granjeando
o Soboll e a Sonia (Paior),
ao lado de outros que dis-
putaram cargos em chapas
em momentos de eleições
internas. A posição de co-
mando do Calq pelo Soboll
“garantiu-lhe” muita vigi-
lância pela “polícia política”,
naquela época de obscuran-
tismo pela qual o País atra-
vessava; segundo o próprio
colega, expressivo material
guardado, o qual poderia
agora nos ser disponibili-
zado, fora incinerado para
evitar problemas maiores. A
Sonia vai contar seus malabarismos para conseguir desenvolver atividades
no Calq, na conquista de funções até então admitidas como restritas aos
homens. E olhe que as mulheres vinham ganhando força reconhecida no
mundo todo, desafiando até velhos costumes, a exemplo do lançamento
da minissaia, em 1964, pela inglesa Mary Quant. Numa dessas eleições
do Centro Acadêmico, o Eduardo Bulisani, o Pinduca e o Pedro Lacava
lançaram-se numa chapa juntamente com colegas de outras turmas.
Com uma distribuição de periodicidade bastante variável, o PEOJOTA
era o jornalzinho editado pelo Calq, em mimeógrafo (claro!), contendo
uma profusão de matérias: piadinhas, trocadilhos, ditos populares deturpa-
dos, provérbios idem e notas policiais ibidem. Consultórios sentimentais,
entrevistas inventadas e gozações em geral faziam parte desse universo,
cujos números eram ansiosamente esperados. O Pinduca disponibilizou
exemplares originais do Peojota, lembrando-nos que logo em baixo do seu
título em letras grandes, no alto, vinham os seus “princípios” norteadores:
PUGNAD OR OBJ ET I VO J UST IC E I RO.
Propagandas eram bem recebidas pelo jornalzinho, para reforçarem
o orçamento da publicação. Um dos temas preferidos do jornal era o das

Memórias da A68 49
50
“Sanhaças”, designação dada às moçoilas que cursavam o “Normal Rural”
dentro da Esalq. O apelido advinha do uniforme que elas envergavam:
saia azul-marinho e blusa azul-clara, e, para os redatores, elas lá estavam
com a finalidade única de conseguirem “agarrar” um agricolão. O cons-
tante desgaste trazido pela alcunha levou-as à substituição do uniforme
para uma saia xadrezinha preto-e-branca com blusa branca, o que veio
a lhes garantir a denominação “Angolinhas”; as brincadeiras e gozações
continuaram, claro, e até recrudesceram. Já mais para a frente, foi criado
na Esalq o Curso Superior de Ciências Domésticas, cuja primeira turma
formou-se um pouco depois de nós (em 1970) – início de uma amplia-
ção de seus cursos de graduação.

Novas casas de diversões surgiam na cidade, e o Rock disputava com


a MPB ou a Bossa Nova as preferências de todos. Vieram, assim, o Boliche
Bem Bolado, o Jequibau e o Jardim da Cerveja, onde os pares já começa-
vam a dançar separadamente, passada a fase do “twist”, prenunciando as
futuras “discoteques”. Fazia muito sucesso, para essa forma de dançar, a
música “Pata Pata”, com a Miriam Makeba, acompanhada pelo brasileiro
Sivuca. O Jequibau lotou com a apresentação do gringo Chris Montez,
em franca evidência popularesca naquela época (Cha la la, lalala, la cun
da..., ou : The more I see you...).
Dessa época registra-se o auge dos festivais de música (Record e Ex-
celsior, sobretudo). A música de protesto era uma tônica constante, com
a qual o Geraldo Vandré se estropiou com a intervenção dos “milicos”, ao
ter escancarado a questão da repressão em “Para não dizer que não falei
de flores”. A vitoriosa “Disparada”, de sua co-autoria, já continha, em si,

Memórias da A68 51
elementos considerados incriminatórios: “porque gado a gente mata, tange,
ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente”. A estudantada da época fa-
zia suas torcidas preferenciais, tendo vários deles, no auditório, chegado a
vaiar “Sabiá” (Tom & Chico), cheia de lirismo e de sutil referência ao exílio
(“Vou voltar, sei que ainda vou voltar...”), no momento mal compreendido
e com uma leitura pelo viés da alienação; o que grande parte da torcida
queria mesmo era a explicitação clara e contundente do protesto. Num
desses festivais, o recurso atual do DVD permite-nos ver o colega Aloísio,
envergando seu elegante smoking, num camarote de teatro em São Paulo.
Em busca de uma nova linguagem musical, para fugir das costumei-
ras canções de protesto rotuladas como “música subversiva”, os baianos
Gilberto Gil e Caetano Veloso partiram para uma estética calcada no
escracho e no insólito, invocando repertórios e apresentações musicais
padrão “macacas de auditório”, dos anos 40/50, por exemplo, da disputa
Emilinha–Marlene, ou ainda o vozerão contundente do Vicente Celestino,
para interpretar “O Pato”; muita “corda”foi dada ao Chacrinha, que acabou
virando “cult” e até promovido a “Papa da Comunicação”. Gilberto Gil che-
gou a engrossar a torcida frenética da plateia em manifestações irônicas
(Lindo! Lindo!) ao modelo “protesto” defendido por Chico Buarque. Mas
a ironia, mesmo, viria logo em seguida: a exposição da bandeira nacio-
nal juntamente com as cenas insólitas referidas foi reprimida, por ter sido
considerado pelos militares um ato “subversivo”, levando a consequências
bem conhecidas, como o exílio. Mas aí já aquele movimento viria a fundir-
se a outras formas de expressão artísticas ou plásticas, como a de Hélio
Oiticica, dando origem à “Tropicália”.
Nessa sequência de “trilha sonora” por nós presenciada, vimos em se-
guida o ingresso das guitarras na MPB, num período de absoluto sucesso
dos Beatles. O mais famoso Festival da Record consagrou essa fase, com o
Gil em “Domingo no Parque”, juntamente com Os Mutantes, e com o Caeta-
no em “Alegria, Alegria”. Uma tímida intérprete, de voz privilegiada, aí sur-
gia para o grande público, introduzindo Gal Costa, para muitos a primeira
cantora “moderna” da MPB. A gente assistia a essas manifestações em gru-
pos de colegas, procurando acompanhar, do interior, as rápidas mudanças
nas tendências musicais promovidas nas grandes cidades. No dia-a-dia,
o Zé da Gaita amenizava o clima com o “Moon River” em sua gaitinha, e
ainda se cantava muita música sertaneja, tal como na república Marília, do
Celso Silveira (Geléia), Edézio (Loira), Haroldo (Fininho), Hugo Cavic-
chioli e Yoshio (Piciricão), onde entoavam: “Em Tietê fizeram cadeia nova /
Mariazinha, coitadinha, é criminosa”.

52
Mas, fora da música muita coisa acontecia no nos-
so dia-a-dia, notadamente nas aulas, com muita estó-
ria para ser contada. Quem não há de se lembrar das
operações para a confecção do Herbário, no 1º ano?
Forçando a mente, dá até para sentir aquele cheiro do
laboratório de Botânica, com a Profa. Myrtes nos ensi-
nando a maneira correta de secar o material. Quando
não dava tempo para a secagem devida, a gente apelava
para o ferro de passar de nossas casas. E o catedrático
querido por todos, o Prof. Dr. Walter Radamés Accorsi,
ensinava-nos que ao gênero Hibiscus pertencia a “graxa
de estudante”, tendo à mão uma enorme flor amarela
para ilustrar, esclarecendo que a planta tinha espécie
com flor vermelha e com flor amarela, “sendo que esta
da minha mão é a amarela”. Nesse mesmo pavilhão da
Horticultura, cursamos as disciplinas dos Profs. Drs.
Helládio do Amaral Mello (Silvicultura) e Ferdinando
Galli (Fitopatologia), ambos por nós homenageados.
E o Insetário, no 2º ano? Aí o cheiro de vegetal ver-
de era substituído pelo do formol do laboratório da
Entomologia, no pavilhão da Zoologia, o mesmo no
qual, no 1º ano, o mestre Adiel nos ensinara a segu-
rar caranguejeiras com os dedos, e que a gente assistia
aulas com o coração na mão, com o bonde passando
em frente às janelas frontais, tentando imaginar como
escapar dos veteranos logo na saída. Alguns pulavam
a janela e outros tentavam fugir pelos fundos. Pelos
corredores do prédio pendiam pinturas primorosas
do ilustre e reverenciado piracicabano – Prof. Archi-
medes Dutra. Será que alguém se lembra de uma tal
“Júlia Pastrana”, uma “mulher barbada” num quadro
do corredor? Daria até para fazer um filme, ou um ar-
tigo intitulado: “Por onde andas, Júlia Pastrana”?
E as aulas de Desenho de Máquinas, lá na Enge-
nharia, que, para alguns, eram uma verdadeira tortu-
ra? Nessa matéria tem um bom registro do saudoso
colega Castro Neves, o Gordo, que perdeu as estribei-
ras, ao errar um detalhe exigido pelo Flexinha (Prof.
Arthur), deixando escapar: “PQP, que merda!” Com

Memórias da A68 53
toda a costumeira paciência, elegância e refinada educação, o mestre o
interpelou: “Moço, o senhor não fique nervoso, pois eu ajudo a corrigir...etc”!
Ao sairmos da sala, o Achilles fez o seguinte comentário: “O Flexinha é
tão educado, que não seria impossível a gente presenciar a seguinte cena:
“Moço, o senhor quer ter a bondade de tirar esse trator de cima do meu pé!?” Lá
pelo 3° ano, quando já estávamos mais “donos do pedaço”, tinha até ameni-
dades do tipo treinamento em equitação para quem quisesse praticar, após
o término das aulas semanais de Equinocultura com o Prof. Lozito, como
bem lembrou o Carlos Otávio, companheiro nessa atividade.

Corria a lenda, que virou gozação (claro!), de que num determinado ano
distante o Prof. Dr. Salgado, Catedrático de Geologia (Salgadinho) fora jo-
gado, como castigo aplicado por alunos, ao lago da Engenharia, pelo fato de
reprovar e aprovar sistematicamente expressivo montante dos discípulos em
anos alternados. A “reprimenda” aplicada teria atingido excelente resultado
nos anos posteriores, pela quase impossibilidade de reprova naquela disci-
plina. Como gozação, acrescentava-se que se algum aluno faltasse em algu-
ma das provas, um motorista ia apanhá-lo em casa, para não correr risco
de reprovação. Irreverência ainda maior era o comentário seguinte: “Quem
conseguir ficar reprovado em Botânica, ganha um Dauphine”.
Por falar em Dauphine, não é que o mestre J.Arzolla, da Química Or-
gânica e Biológica tinha um, branco e com o câmbio original substituído
por um cabo de guarda-chuva adaptado! E sua criatividade não parava
aí: criou um produto químico que ele denominara Antibiarzol, ao qual ele

54
atribuía poderes múltiplos. Desse mes-
mo pavilhão de Chímica, assinalam-se
ainda referências especiais a alguns dos
nossos homenageados, como os Profs.
Drs. Renato Amilcare Catani, da Quí-
mica Analítica, Eurípedes Malavolta,
da Química Orgânica e Bioquímica,
que também foi nosso Diretor, além do
saudoso Prof. Dr. André Louis Martin
Neptune, da Química Agrícola.
Na Tecnologia de Alimentos se
aprendia a confeccionar picles, ketchup
e goiabada; era uma verdadeira festa,
com doce espirrando por todo lado! E
tome determinação de “brix”! Só per-
dia, em número, para as aulas de Tec-
nologia do Açúcar e do Álcool. O bom,
é que no primeiro caso a gente comia
o produto ao final da aula, ou levava
para casa; ainda mais que, no caso do
ketchup, o professor garantia que não
havia receita melhor do que aquela, em
qualquer indústria do País. E no estu-
do dos vinhos, em Enologia, o mestre
Martinelli era enfático: “Vinho tem que
ter gosto de vinho, e não de uva!” Dessa
área tinha ainda o Prof. Dr. Ênio Roque
de Oliveira, por nós homenageado na
ocasião da formatura.
Mas nossos mestres também não saí-
am ilesos dos apelidos. Além do Flexinha
tinha o Abelhinha (Érico Amaral, da Api-
cultura), o Mira Perdida (Guilherme) e
o Nico Peta (Antonio Peta), ambos da
Topografia, o Sus trivellis (Trivelin, da Suinocultura), a Myrtes nativa (Mirtes
Adâmoli,da Botânica Sistemática), o Depilado (Edmar Vasconcellos, da Hor-
ticultura, tido como o responsável por ter ressuscitado o mangarito),o Mes-
trão (Érico da Rocha Nobre, da Economia Rural), o Goiano (Humberto, da
Matemática, um de nossos homenageados) e o Troção (Roberto Fleury No-

Memórias da A68 55
vaes, da Tecnologia de Alimentos). Os apelidos familiares que eles traziam
também eram empregados por nós: Ito (A. C. Teixeira Mendes, da Geolo-
gia); Dadinho (Eduardo, da Fisiologia Vegetal); Vavá (Sinval, da Tecnologia
do Leite e Derivados) e outros que a gente acaba esquecendo.
Outra recordação que todos devem ter
é das nossas aulas de campo para estudo de
perfis de solos, em geral ministradas pelos
Profs. Zilmar e Demattê. A gente ia “empo-
leirado” em pequenos caminhões, sentados
em tábuas transversais, exatamente como os
cortadores de cana (ainda não se usava a ex-
pressão “boias frias”). Numa dessas, ao chegar
ao campo, foi comentado com o Vincenzo:
“Sinta que cheiro de vida bucólica!”. Ele, empregando sua costumeira fleuma,
com aquele olhar compenetrado próprio dos sábios, arrematou, com leve
sorriso nos lábios: “Não é assim que você deve dizer, mas sim: Sinta que cheiro
bucólico de vida!” Não é à toa que foi a cidade de Parati (aonde ele tem uma
charmosa pousada) a estabelecida para o encontro anual de literatos e in-
telectuais das letras para o “Festival Internacional de Literatura de Parati”
– o cultuado Flip! Claro que foi ele quem para lá atraiu esses participantes,
cuja projeção cultural vem ganhando prestígio mundial, já com o seu 6º
evento realizado em 2008.
E lá no “Maracanã” – o auditório inaugurado pela nossa turma, no 2º
ano – resolveram juntar as Turmas A e B. Dá para imaginar 200 alunos
numa só classe! Nem sempre era possível esta-
belecer o silêncio absoluto que o Prof. Blumens-
chein, por exemplo, conseguia, “estraçalhando”
(no melhor sentido da palavra) ao nos expli-
car como se transmitia o código genético. E o
despertador em cima da mesa do professor era
prática obrigatória nas aulas de Genética, qual
fosse o mestre. Ainda naquele prédio, nas aulas
do Prof. Arzolla, aquela montanha de fórmulas
com radicais carboxílicos na lousa era enlou-
quecedor, tudo podendo acontecer. Para “ani-
mar”, determinado dia ele preencheu todo o
quadro-negro com as cadeias carboxílicas conectadas, avançando na por-
ta (fechada, é claro!) e ainda na parede em ângulo obtuso, para concluir a
fórmula desejada! Gargalhadas gerais...

56
Numa dessas ocasiões, no Maracanã, a Marli se “aperreou” com o
Lincoln, na carteira ao lado, em franco bate-papo com o colega vizinho,
exigindo:“Fermez la bouche!” A reação veio de imediato: “Allez à merde”!
Era nessa mesma sala que os docentes da Genética davam suas aulas
teóricas com um despertador em cima da mesa, para ao término exato
programado da matéria do dia. E como ainda estávamos no regime de
cátedra vitalícia, o Dr. Brieger atribuía mensalmente a seus assistentes
daquela disciplina provas de atualização de conhecimentos. Ai daquele
que tirasse menos de 7,0 (sete)!
No pavilhão da Engenharia tivemos presenças constantes desde o
1º ao 5º ano do Curso, a começar pela Matemática, do Catedrático Prof.
Dr. Frederico Pimentel Gomes, e pela Física e Meteorologia, que tinha
o Prof. Dr. Admar Cervellini como Catedrático, além dos vários pro-
fessores imediatos, dentre os quais o Prof. Dr. Nilson Vilanova, que nos
salvou do naufrágio que se verificara na turma do ano anterior à nossa,
imposto pelo Prof. Marden, que há pouco regressara de especialização
na Inglaterra. O Prof. Cervellini contava com uma equipe que vinha
se aprofundando nas pesquisas sobre a energia nuclear na agricultura,
juntamente com professores/pesquisadores de outras áreas, o que possi-
bilitou a criação do celebrado Centro de Energia Nuclear na Agricultu-
ra – o CENA, de reconhecimento científico internacional. Antes de dar
início a uma das provas sobre termodinâmica, aquele professor comen-
tou que queria os alunos se dispusessem em uma condição de entropia
máxima, tendo sido atendido de imediato por um dos colegas, que foi se
sentar bem longe dos
demais; este foi dis-
pensado, com nota 10
(dez), pela demonstra-
ção de entendimento
perfeito do solicitado,
ou seja, do assunto.
Mas o duro mesmo
era quando já se apro-
ximava o fim do ano,
com nossas provas fi-
nais, com muito estu-
do a partir das anotações acumuladas, todo mundo querendo escapar dos
exames e, mais ainda, da segunda época e possíveis dependências. Era um
tal de varar noite, de procurar anotações do João Naka e de escarafunchar

Memórias da A68 57
para tentar alguma “dica”. Apostilas passavam de mão em mão, muitas de-
las sendo lidas pela primeira vez.
Nesses finais de ano a primavera, de certa forma, ainda amenizava o
clima das provas, com o colorido oferecido por algumas árvores. Ficava a
assertiva de que “quando o flamboyant floresce, o agricolão padece!” O ponto
final do bonde que vinha do centro para a Escola ficava bem ao lado de
um gigantesco exemplar dessa árvore, que ainda hoje enfeita a paisagem
com a sua majestade. Em determinada época do ano, concorrem para o
colorido do campus as enormes sapucaias distribuídas pelos jardins, pela
mudança de coloração de suas folhas. O bosque ao lado da antiga residên-
cia reservada ao Diretor, que hoje comporta um museu, mostra essas colo-
rações diferenciadas de modo muito expressivo. E a Prefeitura do campus
intensificou esse embelezamento de cenário ao contrapor antigos bondes
restaurados em frente ao prédio da Agricultura.

58
A imagem do flamboyant como símbolo era tão presente, que era
citada no “Hino do Agricolão”, com uma divertida letra aproveitando a
melodia da “Canção do Soldado”, que a molecada do ginásio e colégio
também usava com outra letra que todos devem lembrar. Havia algumas
variações nas letras entoadas nas repúblicas ou nos eventos diversos na
nossa época, mas a questão parece ser tão cultuada, que até hoje os alu-
nos cantam o hino com letras variáveis, disponível até em site dos “goo-
gles da vida”, por vezes com baixarias inseridas. A letra mais cantada por
nós era mais ou menos a que segue:

Nós somos da Agronomia, Arroz, queremos com feijão,


Fiéis paus d’água de porcaria! A pinga, queremos com limão!
Andamos sempre de bonde, Porém se a pátria amada
Com o juízo não sei aonde! Precisar do agricolão,
Porém quando a coisa aperta Ai, ai, ai, que papelão!
E nós pensamos no amanhã, Parã pan pan...
Nós vemos de boa fé
Que está florido o flamboyant.
Parã pan pan...

Como é sublime / abrir a Brama


E depois puxar uma palha / numa boa d’uma grama!
Amor febril / pelo barril,
Com a turma nossa / não há quem possa!
Parã pan pan...

Memórias da A68 59
Por ocasião da realização de provas, parece que a ousadia e a cria-
tividade de nossos colegas se mostraram em suas máximas grandezas.
Dificilmente se deixava alguma pergunta sem resposta. O Didi (Alcides),
por exemplo, teve a “audácia” de classificar cientificamente o mamão como
Mamus communis. Também...que coisa mais sem importância, deve ter ele
pensado, ao saber que a denominação correta era Caryca papaia... Acres-
centa ainda o Jorge Horii, que durante aquela prova o Didi lhe perguntava
insistentemente, a baixa voz : mas é communis ou silvestris?
No quesito criatividade, vale a pena lembrar da observação do Prof.
Vadinho (o “Homem dos Cabelos de Alumínio”, da Agricultura), ao comen-
tar uma das provas que aplicara: “Sobre a colheita e secagem do feijão, um
colega de vocês mencionou um delicado e primoroso procedimento: o de cortar
os grãos da ramagem com um reduzido e apropriado alicatinho”. Isso mostra
que agricolão, de certa forma, também era ternura, não é mesmo?
A evasão de alunos das complexas aulas de Economia Rural do Prof.
Dr. Alcides Zagatto era uma constante. Constituía exceção o comportamen-
to irrepreensível e compenetrado do colega Soboll, imbuído em assimilar,
ao máximo, o domínio daquela matéria de seu especial interesse. O mestre
sempre fora aquela “finesse”, e não se importava com aquelas ausências, pois
era convicto de que os que permaneciam eram, de fato, os reais interessados
pela aquisição daqueles conhecimentos, a exemplo daquele colega, sempre
atento, na carteira da frente. Não é que num determinado dia o colega veio
a “engrossar” a fila de evasão, meio sem jeito, quando, já na porta de saída,
recebeu do mestre o seguinte comentário: “Até tu, Brútus?!”
Comum era o comentário sobre “embates” atribuídos aos Profs Drs Brie-
ger, da Genética, e Salvador de Toledo Piza, da Zoologia e Fisiologia Animal,

60
em reuniões científicas a respeito da abrangência
de atuação do “gen”, postando-se como verdadeiros
cientistas adversários, cada um mais enfático e ri-
goroso do que o outro na defesa de suas convicções.
O rigor nas atitudes do Prof. Piza ficava evidente,
por exemplo, quando ele ia assistir aulas de seus
Assistentes, para “conferir” seus desempenhos di-
dáticos, não titubeando em mandá-los sentar, caso
observasse algum eventual deslize, ou maneira
julgada imprópria em explicar o assunto da aula,
levantando-se e preferindo ele mesmo concluí-lo.
Tempos duros da Cátedra, não?
Vários professores moravam na própria Esco-
la, em casas posteriormente transformadas em se-
tores ou seções administrativas, incluindo o espa-
çoso e acolhedor restaurante dos professores (ex-
moradia do Prof. Dr. Edgard Graner, Catedrático
de Agricultura), com bela vista para trecho do vale
do Piracicaba, principalmente ao pôr do sol.
E quem é que não se recorda dos nossos sau-
dosos bedéis? Será que hoje eles ainda existem
sob essa mesma denominação? Era fantástica a
memória que eles dispunham para guardar nos-
sos nomes em curto espaço de tempo! O do 1º ano
era o Sr. Jorge Lordello, falecido em 1984 (quem
se lembra do apelido dele?). O do 2º era a Dona
Nadir, como a gente a tratava, embora o nome mesmo fosse Anadyr Lean-
dro, falecida em 1979. Tinha ainda o Ferrinho – Carlos Ferro, falecido em
1993, de acordo com o que pudemos apurar no setor administrativo da
Escola, graças à generosidade do atual Diretor, Dr. Roque Dechen, que até
solicitou ao pessoal administrativo o envio de fichas de registro daqueles
servidores. Dos bedéis, o que ficou mais amigo e querido de todos foi o
Tito – José Geraldo Rosi, que apenas se aposentou em 20 de outubro de
1991, mas que ainda está “bem vivo”, como nos informou a Sra. Evelini
Sarto, pois passa por lá todos os meses para receber seus proventos. A
camaradagem sempre por ele demonstrada para com os alunos levou-nos
a homenageá-lo formalmente, juntamente com o Sr. Joaquim Piedade, o
Secretário Geral. A propósito, nosso colega Carlos Otávio lembrou-se de
uma estorinha “infame” envolvendo a questão dos bedéis: Um dos bichos,

Memórias da A68 61
logo no começo das aulas, precisava resolver uma questão de faltas, pelo
que lhe foi sugerida a procura da sala dos bedéis. Consta que ele gastou
um bom tempo à procura da “Sala B 10”.
Outro assunto sério é o das empregadas de repúblicas. Algumas delas vi-
ravam as verdadeiras donas da casa, e até demonstravam consciência disso.
Davam broncas e se irritavam quando “meninas” iam perambular por lá: as
famosas “biscates”, das quais muitas estórias haveria a se contar. Entretanto,
em muitos casos, algumas destas viravam amigas e até mesmo protegidas
das empregadas. Nanci, Selminha, Liginha, Garnizé, Shirley, Deboleta, Maria
Pintinha, Maria Orlanda etc eram “nomes de guerra” de algumas delas. Mui-
tas eram oriundas de outras localidades, sendo que uma forte “provedora”
era a cidade mineira de Guaxupé, que parecia até responsável por aprendi-
zados ou treinamentos especilizados, dada a propaganda que elas faziam a
respeito: “Este fim de semana fui para Guaxupé!”. Uma dessas comentava, de lá
chegando na segunda-feira: “Olha, benhê, o que eu truxe de lá procê”, exibindo
com orgulho uma reluzente navalha afiada...
É até possível que determinados agricolões tenham se especializado
em certas práticas do “Kama Sutra” com o auxílio de tais companheiras.
Se assim não foi, certamente deve ter sido para as gonorreias ou uretrites
da vida, para o que havia que se recorrer ao órgão de saúde que atendia os
estudantes em convênio – o ISSU, no hospital do Dr. Gimenez, da avenida
Dr. Carlos Botelho (Meu Deus! Que dedo imenso tinha esse Dr. Cláudio!).
Hoje refletindo, elas não deveriam ser classificadas como “prostitutas”,
como provavelmente eram consideradas pela maioria da população. Cons-
tituíam, sim, um segmento à parte, com uma vida muito distinta daquela
exercida pelas profissionais prostitutas. Eram, simplesmente,“as biscate”,
assim mesmo pronunciado, sem o s final, para referir-se às próprias. De-
via pairar no íntimo de muitas delas que ali onde elas ficavam por algum
tempo é que era o seu lar, já que seria impossível regressar ou conviver no
seu verdadeiro, de origem, sabe-se lá por que motivos, como a corroborar
os versos do poeta: “Que seja eterno enquanto dure”.
Quando as repúblicas eram próximas umas das outras, havia até dis-
puta entre as empregadas pela arte de cozinhar, ou pela propaganda da
comida mais gostosa, propiciada a partir dos elogios dos usuários. Um
prato mais que frequente nas refeições era o que a gente, arreliando, se
referia por “carne com palito” (bife enrolado, com toucinho no meio, tudo
espetado por um palitinho de dente). Tinha uma empregada – a Alice
Borracha, que, invariavelmente, irrompia porta adentro do apartamento
do “Poleiro dos Anjos”, na rua Prudente de Morais, na hora do “rango”, de-

62
sejando a todos em voz alta: “Bom ape-
tite com boa música!” E a gente, em coro,
respondia: “Então, canta!” Todo dia isso
se repetia, e ela saía em seguida, entran-
do na porta ao lado, da sua república,
onde o pessoal também estava comendo.
Aí a gente ficava a elogiar a nossa cozi-
nheira, a “Patroa”, melhor do mundo e,
quem sabe... de Piracicaba!
No transcorrer do Curso, vários alunos
já vinham desenvolvendo estágios, dentro e fora da Escola. Os meses de fé-
rias eram bastante empregados nesse mister, com possibilidade, inclusive,
de remunerações. Do 3º para o 4º ano isso era intensificado, especialmente
para as férias de fim de ano, cada um já pensando em seu futuro profissio-
nal, o que, de certa forma, o estágio poderia facilitar. Surgiu, nessa época,
uma oportunidade no antigo IBC (Instituto Brasileiro do Café), que ofere-
cia uma polpuda remuneração para um grande número de alunos; diver-
sos do 5º ano foram contemplados e também alguns da nossa classe.
Contudo, o grande contingente de estagiários da nossa turma foi
parar na região de Urubupungá, na antiga Celusa (que evoluiu para a
CESP), por um prolongado período de atividades de campo, na porção
paulista do entorno da área sob influência da hidrelétrica em constru-
ção, envolvendo vários municípios, numa pesquisa sócio-econômica. Os
alunos ficaram alojados na “Vila Piloto”, ao lado da margem direita do
rio Paraná, no município de Três Lagoas, deslocando-se todos os dias
para os diversos pontos selecionados. Dentre outros, estavam lá o João
Carlos de Oliveira, o José Aldo, o Kengo, o Laércio, o Augusto, o Edemar,
o Pinduca, um dos gringos (?), o Pelóia o Eduardo, o Espindola e o Cota
Nula, além de veteranos do 5º ano.
Todo esse pessoal teve a oportunidade de conhecer o canteiro de
obras da futura barragem e cidade de
Ilha Solteira, bem como de hospedar-se
por alguns dias em outras cidades que
faziam parte da pesquisa envolvida, tais
como Mirandópolis, Andradina e ou-
tras. Ainda foi possível conhecer a pe-
quena localidade de Itapura e o “salto”
de mesmo nome, ambos posteriormente
encobertos pelo represamento do rio.

Memórias da A68 63
Durante esse período de estágio, alguns colegas passaram o Carnaval
em Mirandópolis e outros se divertindo como podiam, incluindo passeios
de carro com umas enfermeiras que lá desempenhavam tarefas específicas
e que apreciavam o “convívio” com jovens universitários. Alguns efetua-
ram uma visita à mais popular “casa de tolerância” próxima à Vila Piloto,
em Três Lagoas, conhecida como “Frinéia”. Foi numa dessas que o Pindu-
ca, mostrando-se muito compenetrado e circunspecto, observando tudo
com muita curiosidade, comentou timidamente e a baixa voz com um dos
gringos: “Hum...tenho a impressão de que todas essas mulheres dão...” O cole-
ga gringo retrucou, de imediato, empregando aquele portunhol que vinha
procurando aprimorar com o nosso convívio: “Mas claro que si! Ellas están
aí para esto! És solamente pagarlas!” Rea-
ção do Pinduca: “Ahh, bom”!
No último ano vieram as “diversifica-
ções”, que levaram à primeira separação
entre os colegas das duas turmas, confe-
rindo novas configurações ou arranjos. Os
grupos mais numerosos foram os da Fito-
tecnia I e os da Agrotecnia ou Fitotecnia II.
Esta última havia sido instituída naquele
ano pelo Prof. Dr. Guido Ranzani em razão
da demanda crescente por conhecimentos
aplicados sobre os solos agrícolas no pla-
nejamento agrícola, área essa em virtual
expansão, passível de absorver importante
contingente de agrônomos.

64
As novas turmas, em razão das diversificações, ficaram constituídas em
novas conformações, ensejando ainda maior proximidade entre alguns
colegas que pertenciam a turmas diferentes, principalmente os das Tur-
mas A e B. Serão aqui destacados alguns nomes de colegas até agora não
referidos, além da relação de alunos por diversificação, retirada do nosso
convite de formatura, no seu formato original.

Fitotecnia I (68 alunos)


Dessa numerosa turma faziam parte o Lago, o
Flávio Seixas, o José Fraga, o José Pozzi Neto, o
José Carlos Macluf e o Nelson Luzin, a refletir
um novo arranjo entre colegas que poderiam
ter estado em turmas práticas diferentes nos
anos anteriores, ensejando novos entrelaça-
mentos e proximidades.

Fitotecnia II (55 alunos)


Dentre os colegas que optaram por essa diver-
sificação estavam o Marcelo Stefani, o Sigueo,
o Takeo, o Ywao (Picirico) e o João Hermann.
A empolgação deste último contaminava to-
dos os colegas com respeito ao futuro pro-
fissional, promovendo reuniões com vistas a
possíveis viagens ao exterior. Acabou se ra-
dicando em Piracicaba, tornando-se poste-
riormente Prefeito e Deputado, dedicando-se
integralmente à carreira política. Foi a última
“baixa” do nosso quadro, pelo falecimento em
abril de 2009, tendo seu corpo sido velado na
Prefeitura Municipal de Campinas e o féretro
acompanhado por uma enormidade de pes-
soas de diversas classes sociais.

Economia Rural (34 alunos)


Do nosso quadro acabou não fazendo parte o
Luiz Hirata (o “Lua”), que preferiu formar-se
sem qualquer festividade. O Celso Graner, o
Flávio Pinheiro, o Henrique – Aranha –, o José A. Martins – Pistolinha –
e o Rubens Valentini estavam também nessa diversificação.

Memórias da A68 65
Zootecnia (23 alunos)
Dessa turma, que o Prof. Dr. Aristeu Mendes
Peixoto “capitaneava” com toda a sua catego-
ria, faziam parte o C.A. Carvalho – Bigode –, o
Evandro Sanchez, o Guilherme Guaragna, o J.
Ito – Tristeza. e o Francisco Círio Nogueira –
Chico Atrito –, além dos demais.

Tecnologia (13 alunos)


A Tecnologia contava com 13 alunos, tais
como o Dirceu Carvalho, o Osmar Peroni e o
Paulo Roberto Pires.

Silvicultura (8 alunos)
Essa era a turma numericamente menor, da qual
faziam parte a Elisa, o José Arthur e o Oscar.

Naquele concluir de curso, em que todas as


possibilidades profissionais eram vorazmente
procuradas, um grupo de colegas conquistou
uma viagem para os Estados Unidos, a partir
de um contato estabelecido com o Embaixa-
dor americano. O pessoal da Economia con-
seguiu uma viagem para o Chile, com peripé-
cias que serão relatadas em outro momento
das Memórias. A turma da Fitotecnia I foi até
a Argentina e o Uruguai com o ônibus da Es-
cola, conduzido pelo motorista João Soriano,
que mencionara a uma certa autoridade lo-
cal que o nosso diretor era o Dr. “Malavuelta”.
Provavelmente, durante o dia ele aproveitava
para “sacar muchas fuetos” e no jantar tomava
“suepa con Cueca Cuela”. Só sobrou mesmo, dessa viagens, foi o pessoal da
Agrotecnia, que ficou a sonhar com a Índia e outra paragens exóticas que
haviam sido sugeridas para viagem, tendo até suscitado verdadeiras pes-
quisas prévias, por alguns colegas, a respeito dos hábitos e tradições dessas
sociedades, para bem se prepararem para o evento.

66
Com muita disposição, cada um en-
trava em franco preparo para o enfren-
tamento profissional que se avizinhava,
alguns dos colegas até mesmo já dando
início ao desempenho de algumas ati-
vidades profissionais das quais viriam
a se ocupar brevemente, ao concluírem
formalmente o Curso, após o diploma e
a carteirinha do CREA. Só se aguardava,
portanto, a formatura...
Ah, a formatura! Teria existido, para
nós, momentos de igual magia (filho não
vale!), como aquele em que formamos
enorme fila no gramado em frente ao pré-
dio principal da Esalq, para dar ingresso
ao ginásio de esportes ao som de marcha
triunfal? Luzes indiretas e holofotes pos-
tados nas árvores e nos edifícios, já ao es-
curecer, emprestavam ao ambiente uma
atmosfera indescritível e inesquecível. Já
não nos bastava simplesmente a sensação
de despedida dos colegas e da Escola para
coroar nossa emoção?
Nosso convite de formatura, fina-
mente acondicionado numa caixinha
de madeira, apontava para o primoro-
so cuidado dispendido pela Comissão
de Formatura em sua árdua tarefa de
melhor proceder. O admirável quadro
de formatura, que hoje enfeita um dos
corredores do prédio principal, veio
sacramentar o caráter solene do even-
to, coroado, ademais, pelas palavras do
nosso Orador, o Carlos Otávio, prepara-
das juntamente com o Soboll. Discurso
também muito comentado foi o do pa-
raninfo, o Brigadeiro Faria Lima, então
Prefeito da Capital paulista, amplamen-
te veiculado nos jornais da época.

Memórias da A68 67
68
Memórias da A68 69
70
Memórias da A68 71
72
O pavilhão principal: aquele que serve como cartão postal para iden-
tificar o “mais belo campus universitário do mundo (isso já foi ouvido por
muitas pessoas insuspeitas)... Pois foi nas suas dependências que se reali-
zou nosso tão esperado Baile de Formatura, com o Salão Nobre acomo-
dando a grande orquestra de Waldemiro Lemke e, ainda “de sobra”, mais
dois salões dispondo de conjuntos musicais para abrilhantarem a magní-
fica festa e para não faltar espaço para se dançar. Mas a tradicional valsa
vienense de Strauss foi executada no salão principal, sob um clima misto
de alegria e melancolia. Também não faltou a tradicional Missa Ecumêni-
ca para nos abençoar e augurar sucesso no exercício profissional.

Memórias da A68 73
Vida nova, novos rumos... Cada um de nós
acabou criando seu próprio mundo, constituin-
do sua “nova” família e procurando se engajar em
seus primeiros empregos, vários colegas ainda se
intercomunicando e outros se dispersando pelos
vários cantos do País. Segundo o Carcaça, cerca
de 60 (sessenta) colegas da turma foram chama-
dos pelo Banespa, logo após a formatura, para a
área de crédito agrícola, em franca expansão. Di-
versos colegas foram contratados por empresas
ligadas aos insumos agrícolas, como a Ultrafértil,
Monsanto e outras que vinham despontando no
meio empresarial. Outros ainda foram tratar de
empreendimentos próprios, muitas vezes de natu-
reza familiar, que os aguardava ansiosamente pela
formatura, indo incrementar o sucesso empresa-
rial com as novas ideias que iam finalmente poder
colocar em prática com a sua presença constante.
Estavam também em plena ascensão empresas
de planejamento agrícola, mormente com a ques-
tão dos incentivos fiscais (Sudam, Sudene, Conde-
pe, Reflorestamentos). Para a Bradesplan, em Osas-
co, foram requisitados o Garcia, o Pelóia e o Miguel.
Pela Agroplan, do Eng. Agrônomo Guido Rando,
sócio também da Uniflora, ambas na rua Sete de
Abril, na Capital, passaram o Ary, o Espindola, a
Sheila, a Ana Cristina e o Zé da Gaita. Nesta em-
presa, o Eng. Agrônomo e renomado pesquisador
do Zebu, Alberto Alves Santiago, prestava segura
assessoria. Foi com surpresa que verificamos que
os dois veteraníssimos participaram conosco no
evento comemorativo dos 40 anos: o Dr. Santiago,
da turma 1938, pelos 70 (setenta) anos de formatu-
ra e o Dr. Guido, da turma 1943, pelos 65 (sessenta
e cinco). Sem dúvida, tal atitude nos serve de estí-
mulo à participação em encontros futuros.
Agora, já com as presenças referidas de todos
os colegas, dá para compor de novo o quadro de
formatura em sua conformação original conce-

74
bida, parecendo oportuno frisar que ao longo desses 40 anos, inumerá-
veis acontecimentos concorreram para inúmeras modificações em todo
o mundo, por vezes radicais, bastando mencionar, à guisa de exemplo, a
queda do Muro de Berlim, ou a derrocada da antiga União Soviética, para
não ter que se estender em demasia na escolha dos eventos mais marcan-
tes, ou, mais do que isso, quais os possíveis reflexos desses eventos sobre a
vida de cada um de nós.
A “globalização” que acompanhou os avanços da informática fez inserir
ampla e complexa variedade de situações difíceis de serem aqui enumera-
das, mas é indiscutível a sua ocorrência de forma vertiginosa e persisten-
te, deixando-nos, muitas vezes, num misto de perplexos, desconsertados,
surpresos e felizes. Daria para imaginar, por exemplo, o colega Carcaça se
ocupando de ensino e pesquisa em agricultura orgânica?
A preocupação com o futuro do Planeta levou a se perceber, com mais
clareza, que a natureza reage, com veemência, às práticas impostas pelo
homem ao ambiente, em nome do desenvolvimento. Resgatem-se aqui as
palavras do nosso orador, por ocasião da formatura, salientando deter-
minados avanços da ciência, tais como as viagens em torno da Lua. Não
precisou decorrer mais que um ano para se acompanhar, pela televisão
de nossas casas, o homem pisando a superfície lunar. O Brasil passou por
sucessivos momentos de crise e de fases de desenvolvimento, sempre com
a agricultura atrelada a esses processos. Na política, surgiram mecanismos
de anistia, eleições diretas, pró-álcool em diferentes versões, desbravamen-
tos de novas fronteiras agrícolas etc.
O modelo norteamericano norteador do “milagre econômico” bra-
sileiro, preconizando maquinaria pesada para as operações agrícolas,
acabou sendo questionado como prática generalizada, possibilitando a
geração de técnicas nacionais mais condizentes com as nossas distintas
realidades regionais, a exemplo do bem sucedido plantio direto. Foi
com muito trabalho de profissionais da agricultura que o Brasil pas-
sou a servir, até mesmo, de modelo para determinados procedimentos
agrícolas de outros países.
Mesmo assim, o domínio absoluto do sistema rodoviário imposto,
acarretou um enorme ônus ao nosso desenvolvimento, de difícil solução,
mesmo a longo prazo, principalmente em função da nossa tão decantada
dimensão continental. Até mesmo o tão defendido e festejado sistema hi-
droviário, para o qual foram investidos montantes fantásticos de recursos,
incluindo eclusas para a plena navegação ao longo do Estado, tem ficado a
esperar, por décadas sucessivas, a devida implementação.

Memórias da A68 75
Se tais raciocínios entrarem, então, por conjecturas ligadas ao nosso
sistema educacional, aí não mais se terminam essas elucubrações. É muito
provável que esteja justamente aí o principal “nó” da diversidade de uma
gama de problemas: a educação como peça fundamental para o equilibra-
do desenvolvimento de qualquer nação, não faltando exemplos (vários)
em todo o mundo. Contudo, em geral esses exemplos apenas aparecem
nos momentos que precedem eleições, já se sabendo de antemão que so-
luções adequadas requerem razoável integração de cabeças pensantes em
prol de uma coletividade.
Constitui preocupação muito atual e pertinente a menção expressa
pelo nosso orador da formatura, ao ter questionado o “simulacro da estru-
tura agrária que possuímos”, e, mais forte que essa imagem, a proposição
de que o “desenvolvimento global da Terra exige uma integração de todas as
ciências humanas e sociais, para a construção de um mundo unido, mas que
conserve as características, as diferenças e a liberdade dos povos”.
No momento, diversos colegas, servidores e ex-professores daquela
época esalqueana já fazem parte de “outras esferas” terrestres (ou extra),
mas felizmente contamos ainda com uma expressiva massa de sobrevi-
ventes, os quais hão de viver ainda muitos anos mais, para a comemoração
de muitos outros cinco anos que virão. Cada um desses tem, por certo, a
consciência de sua participação na constituição da “entidade coletiva” – a
A68, que tanto acrescentou ao seu aprimoramento individual. Alguns dos
momentos traçados nesse RETRATO DA NOSSA TURMA apontam para
quanto a Esalq significou para todos nós. As colaborações emprestadas por
vários colegas, por meio de meros relatos, por fotografias, textos, recortes
etc, a maioria das quais estão inseridas nessas nossas “Memórias”, corrobo-
ram tal assertiva. Registre-se ainda que, justamente no ano de conclusão
da turma de 2008, a Esalq comemorou, em janeiro de 2009, a formatura do
aluno de nº 10.000 – no caso, uma aluna – Susana Lin, conforme informa-
do pela Assessoria de Comunicação da Escola, precisamente 40 anos após
a nossa saída. Mais uma feliz coincidência...

Carlos Roberto Espindola

76
Memórias da A68 77
Do fundo do baú

N ossa mente é uma poderosa caixa de re-


gistros, com poder variável (maior ou me-
nor) de captar e manter fatos ou ocorrências variadas, na dependência,
principalmente, de seu dono, ou seja, do interesse particular de cada um,
seus passatempos favoritos, predileções nos afazeres de trabalho, alegrias
e tristezas, perdas e ganhos, sucessos e insucessos etc.
Assim é que, para alguns, certos eventos esportivos podem ser recupera-
dos de imediato pela mente, por mais afastados no tempo eles estejam. Estes
são capazes de escalar, na íntegra, o time ganhador do campeonato ocorrido
há várias décadas. Para outros, o mesmo ocorre com determinada música,
associando-a a momentos que podem estar ligados à infância, à juventude, a
algum lugar específico, ao primeiro namoro, casamento etc.
Há quem repita com facilidade a numeração dos bondes que circulavam
em épocas distantes, ou até mesmo o número que ocupava na lista de cha-
mada de classe, enquanto outros são capazes de mencionar todos os afluen-
tes da margem esquerda do rio Amazonas a partir da sua foz. Há quem atri-
bua tais comportamentos ao cultivo de uma “cultura inútil”, mas que pode
revelar-se muito divertida quando exercida em um grupo de amigos ou co-
legas com vivências semelhantes em determinada época. Quem não se ma-
ravilhou com o magnífico álbum envergado, com orgulho, pelo Massareto,
por ocasião de encontros promovidos pela nossa turma?! No evento dos 40
anos, o Geraldo mostrou-nos, com entusiasmo, seu rico acervo de material
esalqueano cuidadosamente acondicionado para consultas.
Certo é, que muitos de nós guardam materiais palpáveis, como recor-
tes de jornais, fotografias, convites, prospectos, carteirinhas de estudante,
ingressos para shows etc, além dos registros mentais nas respectivas “cai-
xolas”... Na maioria das vezes, nem bem sabemos porque guardamos, ou
se vale a pena passarmos esses pertences a filhos, sobrinhos, netos ou ami-
gos. Deve estar aí presente um sentido intuitivo de perpetuação de algum
momento, ou de vários, como se fosse possível influir em alguma decisão,

Memórias da A68 79
ainda que tardia, ou até mesmo de eternizar uma determinada condição,
como que a preservando do mundo atual que a cerca. Talvez isso possa
constituir, provavelmente, uma característica da qual todos são detentores,
ainda que em níveis de atuação muito diferentes.
É admissível, por exemplo, que muitos não compareçam aos encontros
de turma numa suposição íntima, intuitiva, da preservação das imagens de
uma época: expressões faciais dos colegas (e da própria); modificações nos
prédios e jardins da Escola; tentativa de ocultar problemas pessoais tidos
como sérios e que poderiam ficar expostos ao conhecimento público, e
assim por diante.
Alguns ponderaram que esse ou aquele colega teria atribuído sua au-
sência ao fato de preferir guardar na lembrança tudo o que vivera “naquela
época”, da maneira como era. É um direito e uma filosofia que não se po-
dem ser discutidos, e, muito menos, contestar. Para os que comparecem,
fica a frustração de ter imaginado encontrar aquele colega tão estimado,
vizinho de balcão nas aulas práticas, com quem trocara tantas experiên-
cias... Paciência... O pleno direito de um pode, então, causar a frustração do
outro. Na mente de muitos renitentes ao (re)encontro deve estar embutida
uma ideia de que a organização interna de seus registros mentais possa
vir a ser abalada quando seus próprios olhos se depararem com o cenário
atual. E essa situação, em geral, pode provocar medo: o desconhecido!
Há ainda os que assumem, também com direito, a importância de
apenas cuidar da sua família e de suas ocupações e relacionamentos atu-
ais. As coisas que ficaram para trás seriam meramente “águas passadas”.
Também não há como contestá-los, tanto quanto aqueles impedidos por
motivos de saúde no seu convívio diário ou familiar, ou por impedi-
mentos razoáveis de outra natureza, embora quisessem ter participado.
Talvez a maioria não tenha tido a pachorra de guardar registros de ma-
teriais antigos, o que pode estar aliado à fraca memória ou disposição de
lembrar-se de detalhes dessa natureza, já que os problemas do dia-a-dia
já não são poucos, em geral.
Por outro lado, há ainda os que, impossibilitados da participação “in
loco” do encontro, mostram firme disposição em fornecer informes para
se resgatar nossa trajetória esalqueana. Para fazer sentido um trabalho
dessa natureza, todas essas disposições individuais têm que ser levadas
em conta, procurando respeitar o modo de viver e pensar de cada um;
porém, não há dúvida de que quem mais se diverte com tal empreitada
é quem se investe dessa empreitada. Trata-se de um trabalho prazeroso,
principalmente ao imaginar que vai entreter pessoas de um convívio que

80
retroage há quase meio século, resgatando fatos que já estavam se apa-
gando de suas mentes; ao mesmo tempo, oferece até a sensação de um
certo balanço da própria vida...
Sob a designação “Do fundo do baú” a intenção foi disponibilizar
todo o acervo facultado pelos colegas, de modos diversos, tornando-o
de domínio público ou comunitário, de maneira a engrossar as Memó-
rias da A68. O eventual interesse despertado após sua divulgação poderá
promover um aprimoramento futuro do trabalho, quem sabe numa nova
oportunidade de comemoração (2013? 2018?), com enriquecimento a
partir de outras contribuições a serem oferecidas, concorrendo para es-
vaziar, ainda mais, os “baús” individuais, minimizando o risco de aqueles
registros serem sepultados de vez.
Julgou-se oportuno relacionar alguns registros do período 1964–1968,
contidos na obra de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – “A Can-
ção no Tempo: 85 anos de músicas brasileiras, Volume II – 1958–1985”,
São Paulo: Editora 34, 1998. Dada a natureza do tema, essencialmente
relacionado à música, os mencionados registros carregam toda força nas
melodias mais marcantes daquele período, o que significaria estabelecer a
“trilha sonora” da nossa turma, já que essa tarefa seria muito difícil de ser
executada de outra maneira, com os recursos de que dispomos. Além das
músicas, alguns fatos marcantes paralelos aos mencionados pelos autores
foram também aqui inseridos, quando julgados de certa relevância.

Ano de 1964
músicas
Berimbau — MPB com incorporação da bossa nova
Diz que fui por aí — no LP de estreia da Nara Leão, pela Elenco
É proibido fumar — da turma do “yê-yê-yê” (Roberto e Erasmo Carlos)
O menino das laranjas — estreia de Elis Regina, pela Philips
Cabeleira do Zezé — olha ainda as marchinhas de carnaval presentes!
Matriz ou filial — samba-canção “dor de cotovelo”, na voz do Jamelão
Que queres tu de mim — samba-canção abolerado (ou bolero?),
com Altemar Dutra
La bamba — olha os latinos nas nossas rádios e TVs!
I want to hold your hand — repertório dos primórdios dos Beatles

ou tras referências
Estreia do show Opinião, de grande impacto no meio artístico
Posse do Presidente Humberto de Castello Branco

Memórias da A68 81
Ano de 1965
músicas
Arrastão — Elis Regina “arrasa” no Festival da extinta TV Excelsior
Carcará — surge Maria Bethânia substituindo a Nara no Opinião
Minha namorada — do musical Pobre menina rica (C. Lyra e Vinicius)
Opinião — gravação, em LP da Philips, pela Nara Leão
Pedro Pedreiro — 1º grande sucesso do Chico Buarque
Trem das onze — “sambão” tradicional de Adoniran Barbosa
Joga a chave, meu amor — ainda persistiam as marchinhas de carnaval
Festa de arromba — da turma jovem ligada a Roberto e Erasmo Carlos
Gatinha manhosa — sucesso do Erasmo Carlos
Mexericos da Candinha — sucesso do Roberto Carlos
Quero que vá tudo pro inferno — magno sucesso do Roberto Carlos
Sentimental demais — olha aí o Altemar Dutra esbanjando emoções!
A hard day’s night — Beatles em todas as emissoras de rádio e TV
Help! — Beatles, campeões absolutos das paradas em todo o mundo
Sabor a mi — “bolerão” arraigado, que ensinou muita gente a dançar
A casa d’Irene — sucesso da música italiana, muito em voga na época

ou tras referências
Inauguração da TV Globo do Rio de Janeiro
Estreia do programa O fino da bossa, na TV Record, S. Paulo
Estreia do programa Jovem Guarda, na TV Record, S. Paulo
Estreia da peça teatral Arena Conta Zumbi
Ato Institucional n° 2, do Presidente Costa e Silva, extinguindo os partidos
políticos e estabelecendo o bipartidarismo: Arena e MDB
Instituição do Cruzeiro Novo (NCr$), equivalente a Cr$1000,00

Ano de 1966
músicas
A banda — II Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record
Disparada — II Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record
Upa neguinho, além de outras inúmeras da MPB
Namoradinha de um amigo meu — da Jovem Guarda
Eu te darei o céu — da Jovem Guarda
É papo firme — também da Jovem Guarda, além de inúmeras outras
Cinderela — da linha “brega”, grande sucesso na voz da Ângela Maria
Girl — Beatles sempre!

82
Yesterday — considerada a música mais gravada do mundo
(a segunda é Garota de Ipanema)
The shadow of your smile, na voz do Frank Sinatra
California dreamin’ — com The Mamas & the Papas (a bonitinha do conjunto
era a Michele, homenageada em música pelos Beatles)

ou tras referências
Morte da cantora Silvinha Teles, ícone da bossa nova, em acidente
automobilístico ocorrido em estrada fluminense

Ano de 1967
músicas
Alegria, alegria — Caetano Veloso e os Beat Boys, no III Festival de
MPB da TV Record, São Paulo, “oficializando” o ingresso da guitarra
elétrica na MPB, com nítida influência dos Beatles, inclusive na letra
Domingo no parque — Gilberto Gil com os Mutantes, no mesmo Festival
da Record. Comentou-se, depois de já nos termos formado, que o nosso
colega Pinduca morou uns tempos com os Mutantes, numa chácara...
Carolina — Cynara e Cybele, também do Festival da Record
Ponteio — sucesso absoluto e vencedora daquele Festival,
com Edu Lobo e Marília Medalha
Roda viva — também do Festival, com o MPB4 e o Chico Buarque;
foi adaptada para teatro em 1968, por Celso Martinez Corrêa, tendo
sido apresentada no Teatro Galpão, em Porto Alegre, alvo de completa
destruição dos cenários e perseguições pela repressão ditatorial
Ronda — composição antiga do pesquisador da USP, Paulo Vanzollini,
que voltou a fazer sucesso na voz da cantora Márcia
Travessia — lançamento para o grande público do cantor e
compositor Milton Nascimento; 2º classificada no II Festival
Internacional da Canção (FIC), no Rio de Janeiro
Coração vagabundo — Caetano Veloso, sob plena influência da bossa
nova na voz da novata Gal Costa, até então Maria da Graça
Máscara negra — de Zé Queti, já se aproximando do fim das
marchinhas de Carnaval e dos respectivos bailes de salão, na voz da
intérprete veteraníssima Dalva de Oliveira
A praça — Aparece aqui o mesmo Ronnie Von que hoje se apresenta na TV,
com seu programa de sucesso. Já ficara bem conhecido do grande público
com a versão de Girl, dos Beatles, denominada Meu bem, na qual ele torcia o

Memórias da A68 83
pescoço para tirar da testa seus longos e lisos cabelos
O bom rapaz — da turma da Jovem Guarda, Wanderley Cardoso
Quando — sucesso absoluto do Roberto Carlos
Eu sou terrível — idem
Pára Pedro! — aonde é que isso pode se encaixar?
Born free — fez parte de trilha sonora de filminho água com açúcar
Guantanamera — Nara a interpretou, no ginásio de esportes, a pedidos
Something Stupid — Frank e Nancy Sinatra
There’s a Kind of Rush — tocava muito no Jequibau
Sgt Pepper’s lonely hearts Club Band — LP genial dos Beatles
A day in life e Lucy in the sky with diamonds — do LP acima

ou tras referências
Promulgação da nova Constituição pelo Congresso Nacional
Posse da Presidência do Brasil por Artur da Costa e Silva
Composição da “Frente Ampla”, por Juscelino, C. Lacerda e J. Goulart,
na tentativa (infrutífera) de resgatar as liberdades democráticas
Morte do líder controvertido (até hoje),“Che” Guevara, na Bolívia
Primeiro transplante de coração humano, por Christian Barnard
na África do Sul

Ano de 1968
músicas
Alvorada — eis o Cartola, da “Velha Guarda”, acontecendo com galhardia!
Andança — surgimento da Beth Carvalho para o grande público,
no III Festival Internacional da Canção (FIC), como 3º colocada
Baby — composta para M. Bethânia, mas com maior sucesso por Gal Costa
Retrato em branco e preto — 1º parceria do Tom Jobim com o Chico
Sabiá — outro sucesso da mesma dupla, defendida por Cynara e Cybele,
muito vaiada em festival, por ter sido considerada “alienada”
Pra não dizer que não falei de flores (Caminhando) — defendida pelo
autor, Geraldo Vandré, a preferida do auditório do mesmo festival,
cuja “patrulha ideológica” lhe causou graves consequências
Viola enluarada — da dupla Marcos e Paulo Sérgio Valle, grandes
nomes da MPB, emergentes da bossa nova
Sei lá Mangueira — de Paulinho da Viola, defendida por Elza Soares
no IV Festival de MPB da Record
Tropicália — a designação atribuída à nova corrente musical foi

84
“oficializada” nessa música, gravada por Caetano Veloso
Lindonéia (nem linda nem feia) — gravação da Nara para o LP de
lançamento da Tropicália, com arranjos do Maestro Duprat
Wave — uma das maravilhas do Tom Jobim, apenas com letra mais
tarde adicionada (Vou te contar...). Sucesso internacional
Sá Marina — sucesso de Wilson Simonal, com notável “balanço”, já na
sua fase da “pilantragem” e do “mamãe passou açúcar ni mim”
As canções que você fez pra mim — sucesso na voz do Roberto Carlos
Se você pensa — idem, com inúmeras gravações posteriores – Maysa,
Gal, Nara, Elis e tantas outras
Canzone per te — do italiano Sérgio Endrigo, que levou Roberto Carlos
como intérprete de uma música de sua autoria em festival europeu
Hey Jude — olha aí os Beatles de novo nas paradas internacionais...
Pata Pata — a africana Miriam Makeba só fez sucesso no Brasil com
essa música, líder nas paradas. Tocada com insistência no Jardim da
Cerveja, pelo seu ritmo contagiante para dançar

ou tras referências
Assassinato do líder negro Martin Luther King
Assassinato do senador norteamericano Robert Kennedy
Assassinato do líder estudantil Edson Luís de Lima Júnior, no Rio de
Janeiro; para os de nossa turma, isso ocorrera com o colega Luiz
Hirata, que, provavelmente, pouquíssimos de nós sabiam de atividades
por ele desenvolvidas na luta contra a ditadura, de maneira prática
e direta, e não apenas por palavras e/ou discursos, como era comum,
principalmente por aqueles que, na época, eram referidos por
componentes da “esquerda festiva”. O “danado” se empregara como
trabalhador comum de uma empresa do meio produtivo
Estreia de Roda Viva, no Rio de Janeiro, cercada de preocupações óbvias
Primeira Bienal do Samba, tendo Elis como vencedora, com Lapinha
Novela inovadora na TV Tupi – Beto Rockfeller, que “fez escola”
Morte do consagrado poeta Manuel Bandeira, orgulho nacional
Morte de Sérgio Porto, o multifacetado Stanislaw Ponte Preta, do “Samba do
Crioulo Doido”, da “Tia Zulmira”, das “Certinhas do Lalau” e de muitos
outros “babados”
Visita, ao Brasil, da Rainha Elizabeth, da Inglaterra, que foi conhecer
o prestigioso Instituto Agronômico de Campinas, tendo sido regiamente
hospedada na sede da Fazenda Monte D’Este
Manifestações públicas contestatórias da estudantada e da intelectualidade

Memórias da A68 85
em Paris, contra o status quo, pró reformas de natureza diversa,
acompanhadas de muito “quebra-quebra”, depredações (e depedrações) – o
famoso movimento de 1968, que passou para a história, deixando de ser
simplesmente uma estória
Promulgação do Ato Institucional Nº 5, que promoveu o fechamento do
Congresso Nacional, suspendendo as liberdades individuais e conferindo
ao Presidente da República poderes excepcionais

***

A seguir, o fac-símile do nosso convite de formatura:

86
Memórias da A68 87
88
Diversos colaboradores apresentaram sugestões valiosas para a com-
posição das Memórias da A68, encaminhando-as na forma de recortes de
jornais da época, textos produzidos a partir de lembranças de fatos do
tempo esalqueano, imagens “escaneadas”de apontamentos, apostilas, fo-
tografias, registros em cadernos ou livros, como ainda relatos passados
por mensagens eletrônicas que as comodidades tecnológicas atuais nos
oferecem. Muitos depoimentos foram apenas verbalizados, em ocasiões
diversas, em conversas informais de “butecos”, ou por ocasião do nosso
encontro comemorativo dos 40 anos, em Águas de São Pedro, no jantar or-
ganizado pelo Zé da Gaita, bem como na própria Escola, durante o chur-
rasco de todas as turmas reunidas.
Portanto, o conteúdo desse nosso livro de memórias é fruto desse acer-
vo acumulado, por muitos anos, pelos Organizadores e Colaboradores,
em seus “baús” físicos, tangíveis, ou abstratos, nas memórias individuais.
Muitos desses Colaboradores mantiveram-se em contato constante com
os Organizadores, auxiliando-os a se lembrarem de fatos esquecidos, ou a
melhor os explicarem em seus contextos da época.
Quem diria que a gente viveu tudo isso em cinco anos, não é? Muitas
coisas só descobrimos depois de passadas... Felizmente parece que há uma
tendência generalizada a registrarmos, com maior força, as boas, engraça-
das ou divertidas. Assim é, que as colaborações dos colegas inseridas como
materiais especiais “Do Fundo do Baú” revelam essa característica ligada
ao bom humor, além, claro, de uma forte dose de saudade que os conteú-
dos oferecem. Passemos a essas colaborações.

Memórias da A68 89
Baú do gadô
(Antonio álvaro massareto)
Possuidor de invejável material documental, impecavelmente
acondicionado na forma de álbum, com capa dura, contendo registros de
natureza diversa (recortes de jornais, carteirinha de estudante, convites
de bailes promovidos pelo Calq, tíquetes de mensalidades, muitas
fotografias etc), devidamente protegidos, individualmente, por capinhas
plásticas. De Campo Mourão (PR), foi estudar na Esalq, mas retornou
às origens, para tratar de seus próprios negócios, com empresa de
planejamento agrícola, produção de soja e criação de gado.

90
Baú do gatão
(Augusto Tulmann Neto)
Incansável em ajudar a organizar
determinadas particularidades,
como, por exemplo, a conseguir
um adequado registro fotográfico
do nosso quadro de formatura,
de modo a pegá-lo por inteiro,
já que o mesmo se encontra
fixado à parede do corredor do
prédio principal, bem numa
ponta, recebendo luz exterior
em apenas algumas porções,
provocando reflexos indesejáveis
daí advindos, somados àqueles
oriundos dos vidros de proteção de cada foto. O recuo insuficiente do
fotógrafo, por conta da largura do corredor, constituiu outro entrave
complicador, e o Augusto não hesitou em solicitar o recurso do técnico
especializado da Escola para essa empreitada, que fez várias tomadas, até
chegar à considerada ideal, dentro de todas essas limitações. Conseguiu
levantar quem eram os moradores da Casa do Estudante na nossa
época e ainda nos brindou com texto de sua memória, daquele rico
convívio com os colegas e de atividades correlatas. Nada como o status de
pesquisador do CENA/USP, onde se radicou e milita até os dias de hoje!

Amor à primeira visita


Primeiro eu queria ser detetive, quem sabe devido às histórias que lia de
Sherlock Holmes! Depois, iria ser geólogo para ajudar a Petrobrás a extrair
Petróleo. Mas em 1961, no curso científico, participei de uma excursão para
conhecer o curso de agronomia da Esalq. Foi uma recepção magnífica (ao
contrário do trote!!) que os veteranos da época e professores nos fizeram, e
pude passear pela extraordinária e bem cuidada área verde com seus prédios
de uma arquitetura bem diferente. Conheci por meio de palestras e filmes o
que era a Esalq, como eram formados os agrônomos e... pronto..., já não tinha
mais dúvidas, eu queria ser agrônomo. Confesso que o que me atraiu bastante
nas exposições realizadas naquele dia, foi o melhoramento de plantas, área a
qual segui e estou até hoje. Portanto, foi amor à primeira visita! Tentei entrar

Memórias da A68 91
no vestibular de 1962, mas não consegui e até que isto foi uma sorte, pois
passei no ano seguinte sendo então um integrante da nossa turma de 1968.
Realmente tenho muito orgulho de pertencer a esta turma. Tivemos bastante
sorte de ter aulas com professores os quais, hoje sabemos, estavam em plena
maturidade. A grande diversidade econômica, e regional de nossa turma
não impediu o estabelecimento de um bom entendimento e sólidas amizades.
Pelos conhecimentos que adquirimos, analisando estes primeiros 40 anos de
formatura, está sendo grande a contribuição de nossa turma nas diferentes
ramificações da agronomia.
No começo, nossa vida não foi nada fácil, pois não podemos esquecer que a
nossa turma foi vitima dos mais bárbaros trotes já aplicados na Esalq, mas
graças a isto iniciamos um movimento para pelo menos tentar mudar o trote e
este é mais um dos legados da A68.
Histórias e memórias da época são muitas, algumas de coisas que agora
parecem ser até insignificantes, mas como não deixar de citar as viagens de
bonde, todas as noites, para ir jogar bilhar e tomar café no Calq? E o nosso
Calq, que boas lembranças com suas intermináveis assembleias noite adentro,
as quais serviram para nos politizar? Também agradeço ao Calq (e acho que
muitos também o fazem), pois foi lá, nas famosas brincadeiras dançantes,
que conheci minha esposa. E das noites de finais de semana na praça central,
em frente ao Politeama, vendo as moças circular? Lembro-me da queda do
Comurba e que na noite anterior o cinema estava lotado de agricolões (quantos
da nossa turma, além de mim??) pois havia passado um filme erótico para
a época. Alguns de nós dizem lembrar-se de alguns estalidos e tremores do
cinema durante o filme, mas isto bem que pode ter sido produzido pela plateia
ao ver na tela as tórridas cenas da história de Cristine Keller do caso Profumo.
Boas lembranças também são as dos bailes lotados no ginásio da agronomia.
Nesses bailes, existia um interessante congraçamento entre docentes e discentes,
pois compareciam alunos e professores com suas famílias e os garçons eram
agricolões dos anos mais avançados, os quais trabalhavam no bar para
arrecadação de dinheiro para a formatura. Em um desses bailes a grande
atração foi assistir a Nara Leão e seu joelho famoso. Lembro-me bem desses
bailes, pois eu e mais 25 colegas da A68, morávamos na casa do estudante
e eu era encarregado de fazer uma vaquinha para comprar Tatuzinho e
fazer caipirinha para tomar antes de ir para o baile. Ocorre que ao chegar
no supermercado, observei que pela primeira vez estavam vendendo whisky
feito em Piracicaba (do que seria feito??), e que se chamava Mansion House.
O litro era mais barato que o litro de Tatuzinho e então, resolvi comprar o tal
whisky, certo que seria um sucesso pois na casa do estudante, poucos já haviam

92
experimentado tal bebida. Bom, o resultado foi a pior ressaca dos 5 anos na
Esalq (e até hoje!!!) e minha destituição como comprador de aperitivos para os
bailes. Histórias da casa do estudante existem várias, mas lembro-me de uma
que aconteceu com um colega de turma nosso, o qual prefiro não dizer o nome,
pois ele poderia ficar chateado: Todos os domingos, eu, o Aragão (Birigui),
Hugo Kuniuky (Buzina), e outros colegas de nossa turma, inclusive este que
não quero citar o nome, íamos pela manhã tomar café lá no Rucalq. Como
ele estava demorando muito, lá da rua gritamos por ele, que ao aparecer na
janela disse que não podia descer por estar com medo de abrir a porta, pois
durante a noite algum bicho selvagem havia entrado na casa do estudante e
ficado bem em frente a sua porta e o tal bicho havia rosnado a noite inteira e
ainda se encontrava lá. Imediatamente subimos ao seu andar e constatamos
que o tal bicho era um colega de outro ano (também não vou citar o nome) o
qual completamente bêbado havia caído e passado a noite inteira “rosnando”
na porta deste nosso colega de turma! Falando em bebida, para se ver como
aqueles tempos eram economicamente bem difíceis, como bolsista do CNPq
não sobrava muito dinheiro e então, apenas no domingo à noite eu e o Laércio
Luz Moura (turma B) dividíamos meia cerveja no então famoso bar do Décio,
que servia os melhores baurus que já comi até hoje. Quanto à comida, almocei
e jantei durante 5 anos no então Rucalq, e a comida era bem diferente da
atual, comíamos quase todos os dias arroz, feijão e bife. Mas domingo era o dia
glorioso no qual serviam frango ensopado com polenta. Resultado: depois de
240 domingos seguidos, a partir de 1969, já há 40 anos não como mais nem
frango ensopado e nem polenta.
Aproveito para deixar aqui meu abraço, admiração e respeito a todos os colegas
de nossa turma e dizer aos familiares dos que faleceram, que eu e os demais
colegas jamais os esqueceremos, pois eles para sempre farão parte da nossa A68.

Augusto Tulmann Neto, Gatão

Memórias da A68 93
Baú do Carioca
(Carlos Alberto Ribeiro Gonçalves)
Destacou-se como proeminente profissional do ramo das sementes da
Agroceres, com início das atividades na área de pesquisa, seguindo-se
27 anos em Santa Cruz das Palmeiras (SP), onde exerceu a gerência
de diversos setores da Empresa, até chegar à Diretoria Comercial da
Área Vegetal. Devido à incorporação pela Monsanto, passou a atuar em
Uberlândia, para onde se mudou. Lá permanece até hoje, já tendo se
aposentado e, segundo o ex-companheiro de república – o Carlos Otávio,
está muito envolvido juntamente com a mesma “patroa” de sempre – a
colega Verinha, a “pesquisar” os mares
e praias de lugares os mais distantes e
aprazíveis de que se tem notícia. Como
relata o próprio Carioca, parou de
trabalhar na mesma data que o colega
Pinduca, ambos da mesma empresa,
sem que tenham combinado algo nesse
sentido. Enviou-nos um saboroso relato
ocorrido na república das meninas da
nossa classe, que trouxe, segundo ele,
até consequências impensadas.

O copo
introdução – Realmente, o período em
que morei em Piracicaba foi um dos mais
felizes de minha vida. Vivíamos sempre
“duros”, mas, no entanto, não tínhamos
preocupações... Aprendi, nessa época, o valor
da liberdade da Imprensa e chego a tremer
nas bases, quando ouço pessoas da minha
geração, dizer que no tempo dos militares era
melhor do que agora. Fundamos a república
chamada “Quebra Galho” que começou e
terminou com a nossa turma de Londrina,
todos da A68: Antonio Álvaro Massareto,
vulgo Gadô, Antonio José Viana Neto, Carlos
Otávio L. Jorge e, de São José do Rio Preto,

94
Almiro Cavenagni (falecido) e o Roberto Julião Gomes, da A69.
Comparando as repúblicas de antigamente (masculinas e femininas), com
as atuais (tenho 2 filhos agrônomos), hoje, o pessoal é muito mais liberal
(repúblicas mistas) e muito mais criativo e marqueteiro, promovendo festas
disputadíssimas e pagas como as dos anos 60 e que levantam fundos para a
própria república.
Histórias e estórias das quais participamos são lembradas para sempre.
Algumas só podem ser compartilhadas por nós, mesmo hoje, e outras podemos
deixar registradas e a que vou descrever provocou mudanças , momentâneas
(minha e do Massareto), cisma na minha mulher (na época, minha
namorada), e até mudança na vida espiritual de nosso amigo e colega Ulrich
Lenk (falecido), sem falar, na sofrível relação do Viana com o futuro cunhado.

o fato – No final de 1968, em algumas repúblicas, amigos se reuniam para


fazer a brincadeira do copo. Sentavam-se ao redor de uma mesa sobre a
qual estavam dispostos, em um círculo, pedaços de papel com as letras do
alfabeto e os algarismos de 0 a 9. No centro, um copo virado de boca para
baixo. As pessoas (nem todas) encostavam a ponta dos dedos sobre o copo e
este se movia, respondendo perguntas feitas pelos participantes ao suposto
espírito ali presente. Não tenho opinião formada sobre isso, mas acredito
que o copo só se movia quando participavam pessoas com poder mental
muito grande. É curioso, mas em nosso grupo, o copo se movia quando uma
colega de turma, a Sheila, estava presente. Numa certa tarde de domingo,
estávamos na república “Paior” fazendo a brincadeira (sessão espírita?) e a
minha namorada chegou de viagem; ao entrar na casa, perguntamos à Nadir
(espírito?) se ela sabia quem estava chegando:
— A Vera.
E perguntou-se o que ela gostaria que a Vera fizesse por ela. E ela respondeu:
— O Carioca!
A Vera diz até hoje que vamos partir desse mundo aos 74 anos pois foi o que a
Nadir lhe respondeu quando indagada com quantos anos iria morrer e que eu
iria morrer logo depois (isto é que é morrer de amor!!!!). Nessa estória tem uma
divergência de datas. Para mim, a idade que a Nadir respondeu foi de 76 anos.
Nesse mesmo dia, apareceram além da Nadir, diversos outros (entes? espíritos?
ou o que seja) e também veio o Aldo, um colega nosso da Escola que tinha
falecido, e eu, muito materialista, perguntei:
— Qual nº vai dar no bicho amanhã?
O copo se moveu e escreveu (não me lembro direito o nº), mas o mais
importante é o primeiro algarismo do exemplo de nº: 9.450. Anotei o mesmo

Memórias da A68 95
e levei o fato para contar para os colegas da minha república. Naquela época
só íamos para nossas casas poucas vezes por ano: nas férias, Semana Santa,
Semana da Pátria e Finados.Como era véspera de Finados, íamos pegar uma
carona, Carlos Otávio e eu, no belo Dauphine do Viana para irmos para
Londrina. Pedi para o Massareto, que não ia viajar (porque Campo Mourão
ficava ainda mais longe ou quem sabe por outros interesses como a namorada
pianista de Campinas), para que ele fizesse o jogo para mim.
Joguei uma certa quantia na milhar, centena, dezena e grupo, seco no 1º
prêmio. O Massareto também fez o jogo dele, mas com menos fé, jogou do
1º ao 5º prêmio. Carlos Otávio, sempre muito racional, não arriscou nada e
finalmente o Viana ligou para o cunhado fazer o jogo dele.
Um fato importante nessa estória era que o nº do bicho no jogo de sábado (que
iríamos jogar) era o da extração da Loteria Federal e assim não tinha jeito de
sermos enganados. Quando voltamos de Londrina, no domingo, ao chegarmos
à noitinha na república, e já esquecidos do jogo, o Massareto aparece na janela
do quarto do andar de cima, com um bolão de dinheiro e gritava:
— Ganhamos, ganhamos!!
A princípio, não acreditei, porque o que mais havia na república era gozação
entre nós e sempre um querendo passar a perna no outro. Mas quando vi que
as notas eram de verdade e o valor muito alto para o Massareto ter aquele
dinheiro, acreditei.
Na época, o dinheiro que ganhei foi mais que o total de um ano de mesada
que recebia para me manter em Piracicaba e só não estourei a banca, porque o
número sorteado foi 6.450 e não 9.450. Será que foi erro de interpretação meu
ao anotar o número ou do copo ao chegar na frente do 9? Se tivesse acertado
também na milhar, o dinheiro daria para comprar um carro mais simples 0 km
da época. O Massareto, como jogou de 1º ao 5º, ganhou menos. E o Viana? Este
ligou imediatamente para seu cunhado que infelizmente não tinha feito o jogo.
Imagine o diálogo entre eles!
Os outros participantes da reunião daquele dia não jogaram. Ficaram
frustrados, mas, para comemorar com eles, moradores e agregados das
repúblicas Paior e Quebra Galho, ofereci-lhes um jantar no Restaurante
Mirante, no “Sarto” de Piracicaba. Não sei se aconteceu algo parecido nas
outras repúblicas que faziam o copo rodar, mas alguns colegas com certeza
devem se lembrar dessa estória, apesar dos 40 anos já passados.

epílogo – O Ulrich Lenk (que tinha uma irmã, moradora da “Paior”) falou
para Vera e para mim, num dos nossos encontros, de que esse fato mudou sua
maneira de ver a vida no ponto de vista espiritual. A minha continua com a

96
mesma fé em Deus e acredito em pessoas que tem um poder mental muito forte
para fazer um copo rodar numa mesa.
Quanto à nossa ida dessa para uma melhor, todos poderão conferir. Se for
mesmo aos 74 anos completos, ainda vai dar para ir na festa dos 50 anos!!
Se for nos 74 incompletos, só se o acontecimento for depois da festa dos 50
anos para conseguirmos ir. Se for aos 76 anos, ganho dois de bonificação...
Mas estou fazendo uma força danada para ir mais longe...

Carlos Alberto Ribeiro Gonçalves, Carioca

O dia seguinte (pela Sheila)


Ainda atônitos com o que havia acontecido e inconformados por não
termos acreditado e feito o jogo, resolvemos repetir a brincadeira, que
não mais parecia brincadeira. No mesmo dia da semana, com todos os
envolvidos no episódio anterior, sentados nas mesmas cadeiras e mesma
posição na mesa estávamos lá fazendo a famosa pergunta. O copo (seja
lá o que for) nos deu o número. No dia seguinte todos jogaram; os que
dispunham e os que não dispunham de recursos para tal. Frustração
generalizada: o resultado não passou nem perto do número indicado. A
lição ficou. Nunca mais perguntamos o número que deveria dar no jogo do
bicho. O Carioca não se lembra desse fato, mas a Sonia sim.

Sheila Zambello de Pinho

Memórias da A68 97
Baú do Carlos Otávio
(Carlos Otávio Lourenço Jorge)
O orador da nossa formatura também se manteve em contato
permanente com os Organizadores, lembrando ocorrências variadas
e oferecendo sugestões sobre a composição da obra, por intermédio
de e-mails. Após formatura, trabalhou na Ultrafértil de Londrina (PR)
durante o ano de 1969, passando à Purina (rações) em 1970, pela qual
circulou por Jundiaí, Amparo, Ribeirão Preto e São Paulo, no nosso
Estado, mas também em Porto Alegre (RS) e Maringá (PR). Ainda no
ramo de rações, atuou também na Agroceres, em Patos de Minas e em
Rio Claro (SP). Devido às peculiaridades da cidade onde já atuara –
Amparo –, acabou lá trabalhando de novo, agora na CASP, voltada a
equipamentos de granja. A partir de 1998, passou a prestar consultoria
à COIMMA Balanças para Gado, em Dracena (SP). Reside em
Ribeirão Preto desde o ano de 2000 e, segundo ele próprio, faz parte
da “legião de vítimas do INSS” desde 2007.

98
Talentos do 68
— A TI, COLEGA DA “F-MEIA-OITO”
Esses versos, meio que um resumo!
Mas Bilac não sou – isso eu assumo.
Por isso – esse estilo meio xucro e afoito.

— Piracicaba, minha Nativa Namorada!


— Por ti, começo agora – e com sentida jura
Saudosa de ti, bela, acolhedora e madura
Da Colina Noiva – minha musa adorada!...

— Velha Escola, já se foram cento e dezenove


Desde a Fazenda São João da Montanha,
Do Luiz Vicente na saga de luta e manha,
À estrela da USP que nos orgulha e comove!

Quarenta anos que se passaram.


Quase voando, quase um lampejo.
Na bruma antiga e densa, vultos vejo,
E lembranças que me marcaram.

— Nossa querida “Luiz de Queiroz”!


Começamos em ti a cumprir nossa missão:
Março, “Meia-Quatro”, em febril Revolução,
Que aura triste envolvendo a nós!
Mas a Vida dá voltas – não se aquieta, nem cansa.
Tem lado bom, lado mau, serenidade e agitação.
No mesmo ano a Esalq lançou a pós-graduação
E na lei da compensação, ganhamos essa lembrança!

“Meia-Quatro”... tinha o trote duro, insano


Ao Bicho, com requintes de maldade.
— Corre, Bicho! Corre da barbaridade!
Que já vem atrás o trotista veterano...

Os militares, mão pesada de Repressão


De cara já nos pegaram, bem na veia:
“— Passeata? – não, nem inteira nem meia!”
(Bom, ao menos, isso foi sem agressão)!

Memórias da A68 99
“Meia-Oito”, o “Que Não Acabou” – assim se chamou!
Que tempos: AI-5, nosso Curso antigo, cinco anos
E aí no de repente, fim do ato – caem os panos!
Bem assim, um raio, um relance – e a gente se formou!

— E como nós vivemos, nesses já quarenta?


— Por onde foi que andamos, todos nós?
Casados – uns poucos, sós – outros, avós?
Calvos ou de geada na telha, passando os sessenta?

Alguns, com a Parca já encontraram.


“Se encantaram” – (diz Guimarães Rosa),
Mas estão conosco nesta poesia saudosa
Pois para nós, não se foram... ficaram!

— Colegas, o que fizemos nesses quarenta?


— Tivemos ética e competência?
— Herdamos saber e excelência
Que nossa vivência aparenta?

Tantas matérias, mestres, cada qual sua maneira...


Salim, Helládio, Salvador Piza, Galli, Aristeu...
— Colega, te lembras – meio embaçado quanto eu?
Mangifera indica, fuste, gene, oídio, capineira...?

... Ciclo de Krebs, “purgão”, albedo, heterose...


Mitscherlich, latossol, titulação, cultivares...
Azimute, mosto, “tio do Lito”, alelos pares...
Variância, brix, derivada, antracnose...!

— Gente, mas onde foi parar tudo isso?


Muitos de vós talvez aos próprios botões se dirão
Com os neurônios à toda, em hora-extra e mutirão:
— Não me lembro bem – serei omisso?

— Não, Colegas – tudo o que estudamos e vivemos


(Ou não), são tijolos, ferro, concreto do grande prédio
Daquilo que todos somos, desde o gênio até o médio!
Está lá o “Empire State” – mas os tijolos não vemos...

100
— Isso lembra a história do rei que voltou, dizia Mateus,
No Vinte e Cinco do já velho, bendito Novo Testamento.
Hoje somos eles, os tais servos, dando conta do Talento!
— Dizeis: – tereis juntado muitos – assim como os meus?

— Cada um sabe de si, de como na Vida usou os seus;


— Mas se hoje tiverdes poucos e precisais de alento
Em mais CINCO, RECONTEMOS – (Queiram Deus
– e os ateus) !!

Carlos Otávio Lourenço Jorge

Memórias da A68 101


Baú do Espindola
(Carlos Roberto Espindola)
Iniciou sua carreira na Agroplan, na qual já vinha estagiando desde o
5º ano da Escola, juntamente com o Ary e o Zé da Gaita. Aí permaneceu
por quase dois anos, indo também “aportar” em Botucatu, no Setor de
Agronomia, Depto de Agrotecnia e Geologia. Logo após seu retorno
da França, em 1977, onde se especializou, transferiu-se para o Depto
de Ciências Ambientais da Faculdade de Ciências Agronômicas, na
recém criada Unesp. Em Botucatu fez o seu Mestrado, Doutorado, Livre
Docência, chegando a Professor Adjunto (MS 5) e convivendo com mais
12 colegas da A68. Ajudou a consolidar
o Curso de Agronomia da Universidade
de Taubaté, na direção do mesmo, até
transferir-se para o campus de Ilha
Solteira, também da Unesp, aonde
chegou a Vice-Diretor, após ter chegado
a Professor Titular. Afastou-se por dois
anos para promover a implantação da
Faculdade de Tecnologia de Americana
(Fatec), do Centro Estadual de Educação
Tecnológica “Paula Souza”, autarquia da
Unesp. Transferiu-se para a Faculdade
de Engenharia Agrícola da Unicamp,
Depto de Água e Solo, onde foi Diretor,
aposentando-se em 1999, mantendo
seu vínculo com aquela Universidade
apenas na Pós-Graduação, onde ainda
atua. Ingressou novamente no Centro
Paula Souza, no ano 2000, agora
na condição de Assistente Técnico
Acadêmico, aonde ainda vem atuando.
Suas colaborações na forma de texto
estão a seguir relacionadas.

102
Namorada afetada
Comentado por um colega veterano, após um fim de semana de
permanência na cidade, onde começara um namoro na casa da moça.
O par conseguira o assentimento dos pais, mas com a exigência da
irmãzinha na sala, “segurando vela”. Diálogo:
— Ontem à tarde eu fui brincar lá no córrgo!, com o r carregado,
típico dos nativos.
— Ah, ah... não é assim que fala, sua analfabeta!
— Não?? Como é, então?!
— É... coRRgo!, com o RR bem carregado e rascante dos cariocas e o nariz
bem empinado, fazendo cara de inteligente.

Na delegacia
E lá na Delegacia, onde um bando de agricolões fora levado após ruidosa
bagunça na república, juntamente com algumas acompanhantes da
Ripolândia, vocifera o Delegado:
— Vocês não têm noção de ordem, respeito, cidadania?
E blá blá blá, blá blá blá, blá blá blá, como de costume.
— Você, aí: deve até ter vomitado na própria roupa!
E nessa direção conduziu seu discurso, passando a maior descompostura nos
agricolões... Voltando-se para as “meninas”, questionou:
— E vocês aí? O que fazem e pensam da vida?
Na maior naturalidade, a resposta veio de imediato, por uma delas:
— Nóis é puta...

Nativada nos “States”


Certo agricolão relatou que seu sogro fora passar uma semana, juntamente
com um grupo de amigos empresários bem sucedidos da sociedade
piracicabana, nos Estados Unidos, em comemoração ao sucesso financeiro que
suas atividades vinham alcançando nos últimos meses.
Como o “inglês” não era o forte de nenhum deles, o problema maior era o
de escolher o prato para refeição nos restaurantes de Nova York. Assim, no
primeiro dia acharam prudente escolher um recinto italiano, onde as coisas
eram imaginadas de mais fácil entendimento. Após a devida discussão, com o
garçom aguardando ao lado da mesa, concluíram que um “franguinho no leite”
era um prato leve, do agrado de todos e que não daria para ser muito diferente
em qualquer lugar do mundo.

Memórias da A68 103


Assim posto, o escalado para falar dirigiu-se ao garçom:
— A chicken in milk, please!
Sem compreender, retruca o garçom:
— I beg your pardon!
De novo, o pedido retornou, mas falado de maneira muito pausada, para a
pronúncia ser bem entendida, quase escandindo as palavras:
— A-chi-ken-in-mil-k!
Já irritado, sem compreender, vira-se o garçom para o maître, que ia justamente
por ali passando:
— Che parla questi animale!!

Nativas desiludidas
Quase todo ano um acontecimento se repetia na sociedade piracicabana, por
ocasião da formatura, com cenas de muita desolação, ou mesmo, de revolta,
choros convulsivos, bate-bocas, ameaças etc, envolvendo agricolões e famílias
locais. Certos formandos traziam de suas terras as namoradas “oficiais”,
ou mesmo noivas, para juntos participarem das diversas solenidades
programadas (missas, sessão solene, baile), sob os olhares curiosos,
senão desiludidos ou revoltados, das pretendentes locais. Algumas destas
guardavam certa esperança de serem apresentadas aos pais dos pretendidos,
e, quem sabe, até mesmo... pedidas em noivado!
Para umas, a choradeira se instalava, fechando-se nos quartos. Outras
enfrentavam o problema de frente, fazendo até questão de conhecer a rival,
calando-se ou maquinando um discurso incriminador e ofensivo ao noivo
pretendido. Outras colocavam o pai para afrontar o “conquistador barato e sem
coração”, que chegara até a filar muita boia na sua casa...
Mas o duro mesmo, para as desoladas, era enfrentar as “amigas” com
comentários do tipo:
— Você viu que linda a noiva? Eu bem que lhe avisara!
Ou, de maneira mais disfarçada, procurando consolar:
— Não sei o que ele viu nela, com aquele jeito de uma tremenda caipira!
Uma dessas tentou imprimir essa visão de desprestígio da rival que vinha lá
de um canto do Estado com o seguinte comentário:
— Essa deve ser uma das tais que se dizem íntimas de importantes famílias
paulistas quatrocentonas, porém, na verdade, capaz de pensar que Pires de
Oliveira seja o mesmo que Pratinho de Azeitona!

104
Joana D’Arc ao vivo
Um dos cinemas da cidade levava às telas uma película sobre o martírio de
Joana D’Arc. Após ter visto o filme, o agricolão obrigou o bicho também a
fazê-lo, levando-o a tiracolo durante alguns dias da semana, a exigir-lhe toda a
atenção, notadamente para as cenas finais.
No sábado, com os lugares todos tomados, na plateia o silêncio era sepulcral
nos momentos em que a heroína subia os degraus, com a câmera focalizando-a
pelas costas, em direção à fogueira. Ao chegar ao patíbulo, o bicho lá do fundo
da sala “chamou-a” em voz alta: “Joana!” Como que atendendo ao chamado,
a atriz se vira para a plateia, com seu olhar muito expressivo e suplicante em
close. Delírio generalizado no cinema!

Moça irritada na nossa Missa


O mau humor pode proporcionar cenas muito engraçadas quando a reação do
irritado é expressa de maneira explosiva e instantânea. O escritor Ruy Castro
publicou até livros com essa temática, focalizando muita gente famosa do
mundo todo, e em épocas as mais variadas.
Por ocasião da nossa Missa de Formatura, com as dependências praticamente
lotadas e muita gente em pé, uma tia de formando procurava avidamente por
um assento, já iniciado o “santo ofício”, quando divisou um espaço vago entre
duas pessoas sentadas. Para lá se dirigiu, comprimindo-se entre as pessoas
acomodadas e a fileira da frente. Já se preparando para sentar-se, ouviu da
senhora ao lado:
— Está guardado.
Muito irritada, não se conteve:
— Que coisa de pobre, essa de guardar lugar!, quando ouviu da sentada o
resmungo aflito:
— Ai, meu pé!, ao ser pisada pela “invasora”.
Esta não se conteve e exclamou, no auge da raiva:
— Grande coisa, seu pé... Até parece que foi na cabeça!

Deu bode na escola rural


Esse acontecimento foi relatado por uma ex-sanhaça, dos tempos em que
lecionara em uma escola rural do Município.
O pai, orgulhoso das novas funções da filha e sabedor das dificuldades
para se atingir a escola por “jardineira”, presenteou-lhe com um reluzente

Memórias da A68 105


Gordine novo. Deixado à sombra de uma frondosa mangueira, enquanto
lecionava, um carneiro investiu seguidamente contra a sua imagem (reflexo)
na lataria do carro, deixando a proprietária desconsolada e infeliz. O pai,
meio sem acreditar na veracidade do fato (carneiro chifrando carro?), mas
querendo amenizar o amargor da filha e procurando apaziguá-la, ligou para
a seguradora do carro, na sua presença, perguntando, com um risinho pouco
disfarçado, ao gerente, seu conhecido da seguradora : “Por favor! Por acaso
vocês têm seguro contra bodes e carneiros?”

“Surfa”
Essa também é de professora primária, mas de escola da periferia humilde
de Piracicaba. A professora notou que uma aluna descalça estava com um
corte no braço, envolvido por um curativo mal improvisado, feito com um
paninho... sabe-se lá com que condição de higiene e pomada aplicada...
Questionada sobre isso, a menina disse que a mãe fez o que pôde, mas
emendou: “A senhora não tem ‘pó pa tapá taio’?” Com muita dificuldade, e
com os coleguinhas ajudando, ela entendeu e concluiu: “Ah! Ela quer é ‘surfa’!”
Explicações: “Pó pa tapá taio” queria dizer pó (remédio na forma de) para
tapar (fechar, cicatrizar) talho (corte). E “surfa” é sulfa mesmo.

Calabrês bem disposto


Não dá mais para lembrar se o fato foi contado (na época) por algum colega
de república, ou se saiu como gozação, que não faltava, no Peojota. O fato
é que a cena envolvia um espanhol que morava em casa geminada a uma
moradia de agricolões, um dos quais ouviu certo dia, logo pela manhã, o dito
cujo exclamar em alta voz, em seu portuñol carregado: “Que belo dia para
arrumar una encrenca!”

Prova do mestre Arzolla


Todo o mundo estava perdido naquelas intermináveis cadeias carboxílicas
que o Prof. Dr. José D’Al Pozzo Arzolla praticava. Parece que o único que o
acompanhava, entendendo o assunto, era o João Naka, que tudo anotava,
com séria atenção. Quando a prova foi marcada, um enorme “comitê” cercou o
Professor, solicitando elementos facilitadores para o estudo. Chegou-se, assim,
ao estabelecimento de cerca de 20 questões a serem estudadas e respondidas
para o dia da prova. Criou-se aí um verdadeiro “cerco” à casa do Naka, para

106
pedidos de caderno, anotações, respostas às questões etc. Não satisfeitos,
vários colegas foram diretamente à “fonte”, criando uma enorme fila na frente
da residência do Mestre, que os atendeu amigavelmente na porta, com o
pequeno filho (5 a 6 anos de idade) ao lado. Questionado sobre o que seria
mais importante estudar, ele começou a fornecer algumas ideias, como, por
exemplo: “Você tem que entender bem a função do ATP”. Percebendo o olhar
interrogativo, para não dizer ignorante, do interlocutor, concluiu, perguntando:
“Você não sabe o que é ATP? Vem cá, Zezinho!” Dirigindo-se ao filho, ordenou:
“Diga aí pro rapaz o que é ATP!” A resposta veio de imediato, com certo ar
vexado, mas de maneira clara e definitiva: “É Trifosfato de Adenosina!”
No dia da prova, propriamente dita, ocorreu uma profusão de colas, de todas as
sortes e tamanhos imagináveis, predominando aquelas na forma de “rolinhos”.
O nervoso e o rebuliço eram tanto, que ninguém cuidava de bem escondê-las. O
Professor começou a circular pelo anfiteatro, entre os 200 alunos (Turmas A e B
juntas!), flagrando-as e, ao mesmo tempo, recolhendo-as, exclamando: “Cada
uma que eu encontrar, vou diminuir um ponto na nota da classe!” De repente,
deparou com um rolinho tão extenso ao ser desenrolado, que exclamou a alta
voz: “Só por esta, vocês todos terão nota negativa!”

O Peru e o fatídico encontro histórico de Ibiúna


Da república “Poleiro dos Anjos”, o bicho “Peru”protagonizou empolgante
cena ligada ao fatídico evento de Ibiúna, que conduziu grande número de
manifestantes brasileiros oponentes à ditadura a severas penas e inúmeras
consequências desagradáveis .
O referido bicho andava empolgado com os frequentes protestos e discursos
advogando liberdades democráticas, tendo se engajado a vários postulantes
à viagem a ser promovida a Ibiúna. Em tais situações, as palavras eram, por
demais, economizadas, tudo discutido de modo muito cifrado; ele apenas
tinha claro o conhecimento de que deveria ir para São Paulo e, de um ponto
de ônibus na Praça da República, aguardar um “contato”, ou um “sinal”, que
ele nem tinha ideia de como este se daria. Ficou marcando passos, de um
lado pra outro, no local indicado, quando, finalmente, passou por ele alguém
que lhe sussurrou: “Siga-me!” Assim procedeu, guardando certa distância
com seu “contato”, quando parou um ônibus comum, da CMTC, no qual ele
subiu, espremendo-se entre alguns passageiros que se encolhiam para dar-
lhe passagem. Vale a pena mencionar que ele era muito comprido, vermelho
e meio desengonçado, já por isso distinguindo-se dos demais, justo ele que
deveria disfarçar ao máximo sua presença! Não é que, bem na hora de passar

Memórias da A68 107


a catraca, o ônibus deu uma violenta freada, fazendo que ele “focinhasse” no
piso, tornando-se, ainda mais que antes, alvo da atenção de todos... “Coitado!
Machucou-se?” Procurando fugir da situação incômoda, decorrente de uma
colisão ocorrida, dirigiu-se rapidamente para a porta de saída, quando foi
interpelado por um guarda de trânsito, bem quando já estava com um pé no
último degrau da descida e o outro na calçada:
— Documentos, por favor! Você vai testemunhar o ocorrido!
— Mas... eu não vi nada!
— Ah, não? Pois então olhe e veja!”, apontando a colisão ocorrida.
Depois dessa, só mesmo voltando, não é? E do que escapou, hem?

Caça ao “tirisco”
O “Tadeuzinho”, também conhecido como “Rita Pavone”, estava em franca
“enturmação” com os nativos, entusiasmado com as novidades que vinha
adquirindo nos hábitos da cidade. Ele não se formou com a nossa turma,
mas participou bastante de nossas atividades, tendo morado um bom
tempo no “Poleiro”.
Chegou, um certo dia, muito empolgado, dizendo que ia participar de uma
caça de “tirisco”, juntamente com os colegas da terra, tarimbados no assunto,
que iriam instruí-lo devidamente para aquela aventura. A caça deveria
ocorrer no “Morro do Enxofre”, naquela época praticamente desabitado
e isolado no mato, perto da rua do Porto. Mas isso, explicava ele, apenas
poderia ocorrer em determinada lua, requerendo apetrechos próprios,
embora simples, como uma lata de 20 litros, um saco de estopa, um porrete
de pau e outros pequenos artefatos. Ensaiou bem cena de captura, que devia
ser precedida de pauladas na lata de 20 litros, gritando: “Entra, tirisco! Entra
tirisco!”, abrindo o saco de estopa para o tirisco entrar, em geral meio tonto.
E lá se foram eles, levando o aprendiz de “caçador de tiriscos” para o Morro
do Enxofre, em plena madrugada, lá o abandonando bem “à vontade” para a
execução da sua missão... Precisa continuar a estória?

Carlos Roberto Espindola

108
Baú do Loira
(Edézio Castelassi)
O ex-morador da república “Marília”,
conforme me lembrou por telefone,
deu os nomes dos demais habitantes
(da mesma cidade), tem o escritório
da Macrofértil em Curitiba (PR),
queixou-se da crise que assola o
mundo todo, mais evidenciada a partir
do segundo semestre de 2008, e está,
portanto, em plena ativa. Mas vai, quase
invariavelmente, nos fins de semana,
desfrutar e “malhar” em sua fazenda na
cidade de origem – Marília.

Memórias da A68 109


Baú do Geraldo
(Geraldo Gomes dos Reis)
Também detentor de um caprichado
álbum de momentos esalqueanos
que tem registrados, o qual
colocou à disposição com o maior
desprendimento e prontidão.
Questionado sobre o antigo “Bar
Cruzeiro” – local de grande afluência
de esalqueanos –, além das informações
precisas, esteve no local fotografando
e entrevistando os proprietários, com
plena disposição em auxiliar nos
depoimentos e registros para envio aos
organizadores. Sempre trabalhou na
área comercial de vendas de empresas
de fertilizantes, com os primeiros 14
anos na Ultrafértil e outros tantos em
empresa própria – a Ruralquímica.
Ainda está na ativa, na Nitrobrás,
residindo em Piracicaba, mas também
exercendo atividades na região noroeste
do Estado, em sua propriedade, com
cafeicultura e pecuária.

110
Baú do Zé da Gaita
(Gilberto Flávio Souza Sulzbacher)
Aplicado colaborador, na ânsia de oferecer o máximo de
informações, demonstrando ter um imenso “baú” para guardar todo
o material arquivado: recortes, registros de documentos, prospectos e...
muitas, muitas fotografias! Diversos desses materiais ele nos mostrou
em projeções na tela (DVD), por ocasião do jantar que fez questão de
organizar para o dia antecedente ao encontro dos 40 anos, na Esalq.
Teve que atender a muitos chamados telefônicos para prestar
informações solicitadas pelos organizadores. Logo após formar-se,
trabalhou na Agroplan Planejamento Agrícola, também na Capital,
mas resolveu alçar voos mais altos, aventurando-se pelos Estados
Unidos da América do Norte, onde trabalhou num “ranch” do Texas.
Na volta, ligou-se a um grupo agro-industrial – a Agroeldorado, onde
milita até hoje como um bem sucedido empresário.

Memórias da A68 111


Baú do Garcia
(Gilberto José Garcia)
Juntamente com outros colegas, foi trabalhar na Bradesplan
Planejamento Agrícola, onde permaneceu por cerca de dois anos,
tendo “tomado gosto” pelo trato com fotografias aéreas, com a técnica
da fotointerpretação voltada ao planejamento territorial. Com isso,
acabou indo se especializar nessa “arte”no Setor de Agronomia da
Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, como
professor-pesquisador, com livros publicados nessa especialidade. Lá
desenvolveu sua carreira universitária, até atingir o grau máximo de
Professor Titular pelo Departamento
de Engenharia Rural da Faculdade
de Ciências Agronômicas da Unesp.
Transferiu-se para o campus de
Rio Claro, da mesma universidade,
onde teve a possibilidade de criar
um importante centro de pesquisas
dirigidas ao planejamento territorial
– o CEAPLA. Mesmo após ter se
aposentado, no início deste século,
ainda desenvolve lá atividades
de pesquisa e orientação. Além
dos relatos enviados como texto,
encaminhou uma “montanha” de
fotografias da época esalqueana.

Festa na Vai-Quem-Qué
Em 1966, se não me engano, fui com tantos
outros colegas numa festa na Vai-Quem-
Qué, como sempre regada a muita pinga
e quase nada de cerveja. A comida, se é
que tinha, também não me lembro. Lá
pelas tantas chegou a polícia, com certeza
chamada por algum vizinho. Eu e mais um
ou dois colegas, do grupo da diplomacia,
fomos conversar com os policiais, no portão
da república. Conversa vai, conversa vem e

112
os policiais (fardados) aceitaram uma bebidinha e uma comidinha e, para
tanto, foram para os fundos, onde o agito acontecia.
Num certo momento vieram nos avisar que um dos nossos (quem?) tinha
saído com o carro da polícia para dar uma volta. Sufoco total, já que numa
certa hora, após um bom tempo dentro da república, os policiais resolveram
ir embora, “recomendando mais silêncio” etc., na maior cordialidade. Ficamos
enrolando os policiais até que não deu mais e eles começaram a sair da casa
em direção ao carro. Tensão total. Pois não é que segundos antes nosso colega
havia retornado e deixado o carro exatamente no mesmo lugar.
Difícil mesmo foi fazer que ele, bêbado, ficasse quieto. Ali mesmo na calçada
queria fazer uma reclamação aos policiais, já que não tinha conseguido ligar
nem a sirene e nem aquelas luzes que ficavam piscando em cima da viatura.

Aula Prática de Horticultura


Lá fomos nós para a aula prática de Horticultura, com o Kimoto, que
naquele tempo ainda era da Esalq. Logo em seguida foi para a Agronomia de
Botucatu. Fomos ver, talvez plantar ou ralear, canteiros de moranguinho, com
a recomendação expressa do Kimoto de que “não podia comer porque tinha
inseticida”. Ninguém acreditava.
Eram umas 11 horas quando a fome bateu e justo ao lado estavam canteiros
de cenoura, daquelas bem graúdas. Não deu outra. Comemos um ou mais
canteiros. Quando o Kimoto percebeu ficou apopléctico e tivemos a nítida
sensação de que ia bater em todo mundo. Dizia-se na época que ele era
lutador de Sumô. De fato ele era muito forte. O problema foi que aqueles
canteiros de cenouras eram pesquisa científica que ele já vinha desenvolvendo
há algum tempo. Enfim, comemos a pesquisa do Kimoto.

Festa na Gato Preto


A Gato Preto foi fundada em 1964, sendo eu e o Waldyr Galera participantes
do grupo inicial. Entre 1966 e 1968 ela ficava na Benjamin Constant, bem
em frente à casa do pastor da Igreja Metodista ligada ao então Colégio
Piracicabano. Tínhamos ótimas relações com a vizinhança, de modo que nas
festas ditas “familiares” os vizinhos eram convidados. Numa das festas, dentre
outros convidados, estava o nosso amigo pastor, que não cansava de elogiar a
qualidade dos petiscos que estavam sendo servidos na sala.
Na cozinha, três “meninas”, daquelas que circulavam pelas repúblicas no
sistema “cama e mesa”, cuidavam de fazer os tais petiscos, usando única e

Memórias da A68 113


exclusivamente um aventalzinho. Uma pinguinha aqui, outra ali e o pastor
querendo ir para a cozinha cumprimentar a cozinheira pela qualidade da
comida. Cada vez que ele se levantava, alguém dava um jeito de distraí-lo
e ele acabava desistindo. Até que num certo momento, ninguém percebeu
que ele foi finalmente para a cozinha. Silêncio na sala, respirações presas na
expectativa do desfecho. O tempo parecia parado. Eis que surge o bom pastor,
lívido, rígido e sem olhar para os lados. Não disse uma palavra. Acenou com
a cabeça e foi embora. Nunca ficamos sabendo, mas podíamos imaginar o
que ele pensou naquele momento.

Gilberto José Garcia

114
Baú do
João Luiz
(João Luiz Cardoso)
De 1969 a 1973, trabalhou inicialmente, assim como vários outros
companheiros de turma, no Departamento de Crédito Rural do Banespa
da região de Campinas. Em seguida, deu uma guinada em sua vida,
mudando-se para Jaboticabal, ao ligar-se ao Departamento de Economia
Rural da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias. Mas, não resistiu
à volta a Campinas, agora ligado à Faculdade de Engenharia Agrícola da
Unicamp, sempre na área de Economia Rural ou Agrícola, pelo período
de 1987 a 2006, onde atingiu o ápice da carreira universitária, como
Professor Titular. Enviou textos sobre fatos de nossa época, falando
de uma Piracicaba saudosa às nossas lembranças e também sobre
ocorrências pitorescas de aulas assistidas.

Dos tempos de Esalq do João Luiz


caso 1 – Vou narrar em seguida alguns fatos que considero interessantes,
engraçados e bastante ilustrativos dos nossos tempos de Esalq.
Estávamos na fase inicial do nosso curso de Agronomia. Um dos anfiteatros
tinha um posicionamento inclinado, de modo que a porta de entrada se
situava em um plano mais elevado, as carteiras ficavam postas de forma
descendente e, no fundo, em um plano mais baixo, ficava o local destinado

Memórias da A68 115


ao professor. Uma das matérias ministradas naquele prédio estava sob
a responsabilidade do Prof. Marden. Ele era excelente professor, mas me
parecia um pouco sistemático e exigente. Não permitia que os alunos
entrassem na sala após o início da aula. Um belo dia, eu cheguei alguns
minutos atrasado. Eu já conhecia as exigências do mestre. Assim mesmo,
resolvi fazer uma tentativa. Como a porta de entrada ficava fechada,
muito sorrateiramente procurei abrir vagarosamente a porta e movimentei
a cabeça a fim de espiar o professor, esperando a sua reação. Esta foi
fulminante! O Prof. Marden não pronunciou palavra alguma. Simplesmente,
paralisou a aula e olhou lá de baixo para cima, vislumbrando a porta de
entrada. Apenas gesticulando, com o dedo indicador o mestre executou
repetidamente aqueles sinais característicos do “não”. Mas, não satisfeito
com isso, continuou gesticulando. Balançou as duas mãos e, evidentemente,
também os dedos, várias vezes, de modo a mostrar que eu deveria me retirar
imediatamente. Foi possível perceber que, no interior do prédio, os colegas
ficaram inertes em um ambiente de muita apreensão. E mais eu não pude
perceber, porque fechei novamente, muito devagar, a porta, e me retirei
“de fininho”. Aquela cena teve aspectos marcantes para mim: por um lado,
tudo me pareceu até muito divertido; mas, por outro, também de bastante
aprendizado. Assim, jamais esqueci aquele fato!

caso 2 – Outro fato engraçado ocorreu quando era ministrada uma


aula de Genética, se não me equivoco, pelo Prof. Venkovsky (será que está
correta esta ortografia?). O mestre tinha um hábito muito singular: trazia
um relógio (despertador) que era programado para despertar, indicando o
momento exato para o término da aula. Este procedimento era cumprido
rigorosamente. Quando soava o despertador, o professor nem chegava a
terminar sua última frase, paralisando imediatamente a exposição das ideias.
Durante a aula, um dos nossos colegas, lá no fundão da sala, estava em pleno
“sono pesado”. O professor percebeu e, imediatamente interrompendo a aula,
fez um sinal para que todos os alunos da classe não se movimentassem. Em
seguida, pegou o relógio e colocou para despertar: “Triiiimmm!” O colega
dorminhoco levou o maior susto e este fato foi motivo para a maior algazarra
naquele momento e para animados comentários durante muito tempo.

caso 3 – Outro fato muito divertido aconteceu em uma aula de


Horticultura. O professor havia feito uma visita científica a diversos países da
Europa. Então, quando voltou, no decorrer de uma aula, passou a nos contar
as diversas passagens havidas durante a estadia europeia. Quando chegou

116
a vez dos acontecimentos na Itália, o professor disse que ficou muito bem
impressionado e até maravilhado com quase tudo o que viu. Em seguida,
disse que apenas quando esteve em Roma teve motivo para decepção: “as
ruínas que visitou pareciam estar muito quebradas e depreciadas, causando
impressão de que já estavam muito obsoletas”.

***
Estes relatos foram elaborados pelo número 86–A, da gloriosa turma de 1968.
Congratulações nesta etapa festiva, elevando sempre: a Agronomia, a Esalq,
Piracicaba, nossos mestres e, evidentemente, NOSSA GLORIOSA TURMA
DE 1968. Votos de muita felicidade e forte abraço a todos!

João Luiz Cardoso

Memórias da A68 117


Baú do João Naka
(João Nakagawa)
A trajetória do primeiro aluno da
classe estava fadada a ser dedicada
ao ensino e à pesquisa, como
já apontava desde o início, ao
vincular-se à Escola Agrícola de
São Manoel (SP), não tardando a
vincular-se também, já em 1969,
ao Departamento de Agricultura e
Fruticultura do Setor de Agronomia
da então denominada Faculdade de
Ciências Médicas e Biológicas de
Botucatu, um dos Institutos Isolados
de Ensino Superior do Estado.
Conforme já referido, esta unidade
passou futuramente a constituir a
Faculdade de Ciências Agronômicas
da Unesp, campus de Botucatu, onde
construiu toda a sua prestigiosa
carreira, até aposentar-se no topo
da mesma, como Professor Titular.
Instado a enviar informes do nosso
tempo, acabou encaminhando relatos
curiosos e divertidos que tinha
guardados em seu “baú”.

O dia em que tomaram a prova


de João Naka (colando?)
Estávamos fazendo uma prova de Solos no anfiteatro de Agricultura/Solos.
O colega do meu lado estava muito irrequieto, cobrando-me as respostas das
questões. Tentava acalmá-lo, com todo cuidado, para não chamar a atenção
dos professores. Entretanto, em algum movimento menos feliz de minha
parte, o professor Guido Ranzani, sem pestanejar, apontou-me e disse:
— Você, entregue a prova!
— Mas, mas, ...

118
Conhecendo o rigor e a postura normal do professor Guido, sem discutir
entreguei a prova e saí da sala.
Terminado o horário da prova, fui conversar com professor Otávio Freire, que
também estava presente à sala e com o qual tínhamos mais contato, além de
ser mais compreensivo.
Ele acolheu a minha a explicação de que não estava colando e disse que
iria considerar as questões respondidas. Por minha sorte, a maior parte das
perguntas estava já respondida.
Por alguns dias fui assunto de gozação: “Até o Naka??!!”

Novo nome científico


Nas provas dissertativas (a quase totalidade) um aspecto importante
era escrever, e dentro do possível de forma coerente. Havia então
os “chutes” conscientes. O colega Didi contava que em prova de Zoologia
foi pedido o nome científico do gato; em raciocínio rápido, não teve
dúvida e escreveu: Bichanus saltamurus.

Nota máxima
Professor Arzolla, da Bioquímica, foi um dos professores com mais estórias,
por suas atitudes e “tiradas” fora e dentro da sala de aula. Conta um colega
que estava precisando nota em Bioquímica e havia feito a prova, porém a nota
que recebera não era suficiente. Sabendo que professor Arzolla possibilitava
ver a prova feita e que “chorando” sempre se conseguia uns acréscimos, lá foi
ele tentar. Após ver as questões respondidas, foi pedindo ao professor para
reconsiderar a nota de cada questão. Professor Arzolla foi reconsiderando
questão por questão: “Mais 0,5 nessa, mais 0,3 na outra, ...” e assim foi
aumentando as notas praticamente de todas as respostas. Ao final, somando,
resultou 13,0! O mais interessante (aí vem a parte folclórica) é que disseram
que o professor telefonou para a secretaria, seção de alunos, indagando se não
poderia encaminhar aquela nota, pois assim resolveria o problema do aluno.

O não pagamento
Na disciplina de Doenças de Plantas Cultivadas (5º ano, optativa), fomos
para região de Registro, SP, ver as culturas e as doenças locais, acompanhados
pelo professor responsável pela disciplina. Na volta da visita técnica, de dois
ou três dias, paramos em posto de combustível para o ônibus ser abastecido

Memórias da A68 119


e os alunos se abastecerem na lanchonete, e que tinha também muitas
“lembrancinhas”. A maioria estava preparada com bolsas, sacolas e blusões.
Na saída do estabelecimento, muitas “coisinhas” ficaram como lembranças,
sem que tivessem sido pagas, apesar de toda fiscalização dos empregados do
local. O ônibus conseguiu partir sem nenhum problema. Percorrido poucos
quilômetros, surge uma viatura da polícia que pede ao ônibus encostar. O
professor ficou muito contrariado e começou a fazer sermão relacionando
a vinda dos guardas, provavelmente solicitada pelo dono da lanchonete, ao
não pagamento pelos alunos das coisas consumidas e/ou trazidas. Entretanto,
a realidade foi outra, pois os guardas vieram para cobrar o combustível do
ônibus, que não fora pago. O motorista pensara que o professor havia pago,
enquanto o professor que o motorista o fizera. Daí a confusão! Feitos os
acertos e a liberação para a viagem de volta, foi a vez do professor ouvir os
comentários dos alunos sobre o não pagamento.

João Nakagawa

120
Baú do Jorge
(Jorge Horii)
Manteve-se, a todo o tempo, em contato com os organizadores,
com informações preciosas facilitadas pela sua prodigiosa memória.
Provocou muitas risadas por fatos relatados do seu (nosso) tempo de
“Poleiro”, de sorte que muitos “causos” aqui contados são originários
de e-mails por ele enviados. Já no final do Curso, começou a
“namorar”a ideia de ligar-se à pesquisa, realizando estágio e já se
voltando à relativamente nova condição da pós-graduação na Esalq,
o que já há tempos constitui uma referência nacional. Com isso, acabou
sendo professor do Departamento de Tecnologia, da Área de Açúcar
e Álcool, sendo continuamente consultado pelo meio de produção a
respeito das minúcias que o assunto enseja. Deve gostar muito do
que faz, pois até hoje ainda não se aposentou; deve ser pelo odor
inebriante de produtos alcoólicos que exala daquele prédio...

Memórias da A68 121


Baú do Bispo
(José Albertoni)
O José Albertoni tem sido um dos ex-colegas mais atuantes na tarefa de
promover reencontros da nossa turma. Foi primoroso na organização
de um desses, em Águas de Lindóia, com pleno sucesso! Um empresário
muito bem sucedido, que apostou em sua especialização no viés zootécnico,
realizada no Texas. Pelo Google, é possível conhecer seu prestígio no campo
da pecuária de excelência, mostrando sua trajetória na qual se inclui a
Direção da Fazenda Rio Crixás (Mundo Novo, GO), pioneira na importação
de embriões da raça Bonsmara para o Brasil, referido como um dos maiores
projetos de transferência de embriões já realizados no mundo. Pertence
ao Conselho de Desenvolvimento do Estado, com sede no município de
Nova Crixás, e tem até foto com a Regina Duarte a tiracolo, em evento da
Associação Brasileira dos Criadores de Bonsmara. Repassou-nos vários
textos que tem guardados e arquivados (paginados) do período esalqueano,
muitos dos quais vão aqui reproduzidos.

122
Memórias da A68 123
124
Memórias da A68 125
126
Baú do Machadão
(José Machado da Silva Neto)
De janeiro a dezembro de 1969
trabalhou na Cyanamid, em São Paulo,
transferindo-se para a CICA, onde
batalhou de janeiro de 1970 até outubro
de 1986, em Jundiaí, quando então foi
contratado pela Braskalb Agropecuária
Brasileira Ltda, em Campinas, pelo
período de novembro de 1986 a maio
de 1999. Aí aposentou-se em julho desse
mesmo ano. Mas não parou de trabalhar:
foi prestador de serviços para o Carrefour
pela Cons-Agro Consultoria Agrícola
Ltda, durante o período de novembro
de 1999 a julho de 2008, em São Paulo.
Garante que desde então dedica-se com
afinco à prática do tênis, para manter-se
em forma, residindo na sua cidade de
origem – Campinas.

Mastique variedade de laranja


Estávamos no terceiro ano da Agronomia, no final do primeiro semestre do ano
de 1966, mais precisamente no dia da prova prática semestral de Horticultura,
na qual os diversos professores do Departamento, que compunham a banca
examinadora, chamavam os alunos de dois em dois para fazer dez perguntas a
cada um. Quando chegou a nossa vez, eu e o José Osório acabamos caindo com
o Professor Célio Moreira, que escolheu o meu companheiro para a primeira
questão e perguntou o que o número 265 significava em citricultura. Enquanto
ele pensava, imaginando que a pergunta poderia ser repassada para mim,
fiquei pensando em chutar que aquele número significava o número médio de
laranjas em uma caixa. Como o José Osório disse que não sabia, a pergunta
foi repassada e eu, com medo de estar errado, também disse que não sabia. O
Professor Célio, após informar que 265 significava o número médio de laranjas
numa caixa, colocou um primeiro zero nos nossos nomes no papel à sua frente

Memórias da A68 127


a passou para a segunda questão. Iniciando agora comigo perguntou o que eu
entendia por mastique. Em dúvida se mastique era a fita de plástico ou um
substrato usados para proteção do enxerto, resolvi erroneamente optar pela
primeira alternativa. Imediatamente o Professor Décio virou-se para o colega
José Osório perguntando se ele concordava comigo e aí ele respondeu: “CRARO
QUE NÃO, MASTIQUE É VARIEDADE DE LARANJA.”
Foi aí que terminou a nossa prova, pois, o Professor Célio perdeu a paciência,
mandou nós dois embora e deu nota zero para ambos. Vale lembrar que
esse episódio foi em parte responsável pelo fato de eu ter sido reprovado no
terceiro ano em Horticultura e de ter carregado essa dependência junto com o
quarto ano da Escola.

Ludibriados em Buenos Aires


Esta é outra história ocorrida durante nossa viagem ao sul do País e também
ao Uruguai e Argentina, nas férias de julho de 1968, quando cursávamos o
último ano na Esalq. Ela aconteceu num dos dias que passamos na cidade
de Buenos Aires, mas ninguém ficou sabendo do ocorrido, além dos que
participaram, porque foi feito um pacto de silêncio entre os cinco participantes,
de modo a manter em sigilo o “mico” pelo qual passamos naquele dia.
Nossa história se inicia no final da manhã de um dia chuvoso na capital da
Argentina, quando cinco participantes daquela excursão resolveram almoçar
juntos num restaurante do centro da cidade. Infelizmente, minha memória
não me permite lembrar todos os integrantes do grupo, porém, lembro-me
que eu estava acompanhado dos colegas Antonio Augusto Lucchesi (Arroz),
José Roberto Nery, Luiz Morimoto (Pelicano) e de mais um companheiro de
turma. Após o almoço, como a chuva tinha parado, resolvemos caminhar pelas
ruas do centro de Buenos Aires. Durante esse passeio notamos uma grande
aglomeração de pessoas dentro de uma loja e resolvemos entrar para verificar
o que se passava. Dentro da loja percebemos que se tratava de um leilão de
joias, relógios e objetos de arte. Assistimos ao leilão de duas ou três peças e em
seguida seus responsáveis colocaram para serem leiloados cinco relógios, sendo
dois ou três femininos e os demais masculinos. Depois de alguns lances feitos
por pessoas que estavam na loja o valor ofertado chegou perto de Cr$ 100,00
(cem cruzeiros), evidentemente em pesos argentinos. Como estávamos em cinco,
como precisávamos comprar alguma coisa para nossas namoradas, como o
valor era convidativo, por pior que fosse a qualidade dos relógios, resolvemos
fazer um lance, arredondando a oferta para Cr$ 100,00. Imediatamente após
nosso lance, o leiloeiro bateu o martelo informando que as peças tinham sido

128
vendidas, solicitou um documento nosso para a emissão do comprovante de
venda e, de posse desse documento preencheu a nota de venda, nos informando
que tínhamos que pagar uma importância, que não me lembro bem, mas que
era algo entre Cr$ 600,00 e Cr$ 700,00, pois, os lances, apesar de não terem
sido informados anteriormente, eram por peça, e, além disso, ainda havia os
impostos para serem acrescidos. Tentamos de todas as maneiras convencer os
responsáveis a esquecer a nossa oferta e reiniciar o leilão dos relógios, porém, a
argumentação deles era de que o documento de venda já estava emitido e não
poderia ser eliminado. Como nós também não tínhamos condições de cumprir
com o pagamento solicitado, depois de mais de duas horas de discussão, a
solução encontrada foi chamar a polícia local. Com a chegada de uma viatura
da polícia ficamos nessa loja até o final da tarde discutindo, até conseguir um
acordo que foi o de pagar os Cr$ 100,00 dados como lance, acrescidos do valor
do imposto, e levar apenas um dos relógios que estavam sendo leiloados. O
valor do pagamento foi rateado entre os cinco participantes e por escolha da
maioria o relógio escolhido foi um feminino (como eu já havia mencionado,
a intenção era aproveitá-lo para presente às namoradas), cabendo a peça
adquirida, por sorteio entre os cinco ludibriados, ao colega Antonio Augusto
Lucchesi (Arroz), que informou que iria dá-lo de presente para sua namorada.

República Baú: bicampeã Inter-Repúblicas


No período que fizemos o curso de Agronomia na Esalq, que foi de 1964 a
1968, o Centro Acadêmico Luiz de Queiroz (Calq), através da Associação
Atlética Luiz de Queiroz (AAALQ), organizava anualmente, no ginásio de
esportes da Escola, um torneio de futebol de salão que era disputado por quase
todas as repúblicas existentes naquela época na cidade de Piracicaba. Nesse
período, eu, Parra (José Roberto Postali Parra) e Perinho (Antonio Roberto
Pereira), disputamos por três anos seguidos esse torneio, de 1965 a 1967,
sempre defendendo a república em que morávamos. Deixamos de participar do
torneio em 1964, quando cursamos o primeiro ano da agronomia por razões
que não consigo lembrar e também deixamos de participar em 1968, porque
no último ano, pelo pequeno número de aulas semanais, voltamos a residir em
Campinas, SP, viajando diariamente a Piracicaba quando necessário.
Em 1965, nós morávamos numa república denominada OCO DO MUNDO,
que ficava numa travessa acima da avenida Independência. A república era
formada por quatro casas iguais de dois dormitórios, que tiveram seus muros
de separação, nos fundos, derrubados, onde moravam 16 estudantes, sendo
quatro em cada casa. Apesar do grande número de moradores tivemos que

Memórias da A68 129


nos juntar com outra república naquele ano para participar do campeonato
porque a maioria não jogava futebol. Nesse ano conseguimos ir para a final,
mas acabamos perdendo o título do torneio para uma equipe formada pelos
professores da Esalq.
No ano de 1966 criamos a república BAÚ numa casa da rua José Pinto de
Almeida, próximo à casa noturna Jequibau. Nela moravam Parra, Perinho e
eu da turma de 1968, e Luis Jonas Pozzi de Castro (Jamanta), Fernando Del
Porto Santos, Renato Rappa e Rui Nelson Rodrigues Arruda da turma de 1970.
Nesse ano, mais uma vez fomos para a final contra a equipe dos professores e
conseguimos a nossa revanche, pois, vencemos pelo placar de 2 × 1. Na equipe
dos professores da Esalq participavam, entre outros, Oswaldo Pereira Godoy
(Vadinho), Nilson Vila Nova, José Luis Ioriatti Demattê, Sinval Silveira Neto,
José Carlos Ometto (Zé Obinha) e José Paulo Stupiello (Zeca).
Em 1967, com a mesma equipe, a república BAÚ conseguiu o bicampeonato,
desta vez jogando a final contra um time formado por “nativos” de Piracicaba.
Nessa equipe, jogava entre outros, Jaime Luis Bassinello (turma de 1969),
Moacyr Bueno Viana (turma de 1969), Valdir Serra (turma de 1969) e
Norberto dos Santos Leal (turma de 1970).
No encerramento da república BAÚ, no ano de 1968, os três troféus conseguidos
foram sorteados entre os participantes que compunham a equipe, já que éramos
cinco jogadores. Jamanta, Fernando e Perinho tiveram mais sorte e ficaram
com um troféu cada um, enquanto que eu e Parra, por perdemos o sorteio,
acabamos ficando sem essa lembrança.

Sorte no cassino
Durante as férias de julho de 1968, quando estávamos no último ano na
Escola, alguns colegas da Turma 68 participaram com o ônibus da Esalq de
uma excursão técnica ao sul do País e também ao Uruguai e à Argentina.
Chamo de excursão técnica porque visitamos escolas de agronomia, institutos
de pesquisas e também estações experimentais. Participaram dessa excursão
17 colegas: Antonio Augusto Lucchesi (Arroz), Antonio Carlos de Mattos
Pinto (Taubaté), Atílio Nivaldo Modelli, Augusto Tulmann Neto, Ayres Alves
Monteiro Filho (Pipa), Carlos Alberto Ribeiro Gonçalves (Carioca), Edemar
José Scalopi, Jorge Horii, José Branco de Miranda Filho, José Machado da
Silva Neto, José Roberto Nery, Luiz Morimoto (Pelicano), Maria Alice Bueno
Sousa, Maria Helena Calafiori, Paulo Roberto Leite de Carvalho (Polé),
Pedro Ferreira Aragão e Roberto Veloci (Taquara). A delegação foi chefiada
pelo professor assistente da Cadeira de Solos Otávio Antonio de Camargo

130
(Gansolino) e o ônibus conduzido pelo motorista da Esalq João Soriani.
Dentro do Uruguai visitamos a cidade de Punta Del Este, onde à noite
aproveitamos para conhecer o cassino da cidade. Quando lá chegamos com o
ônibus da Escola, combinamos que o retorno ao local onde passaríamos a noite
seria às duas horas da manhã. Lembro-me que cada um dos colegas comprou
aproximadamente Cr$ 50,00 (cinquenta cruzeiros) em fichas para poder
jogar e que a Maria Helena Calafiori me propôs que jogássemos em parceria.
Perto das duas horas da manhã, praticamente todos os colegas já tinham
perdido todas as suas fichas e queriam ir embora, porém, eu e a Maria Helena
ainda tínhamos algumas fichas e continuávamos jogando. Como a pressão
dos colegas para irmos embora foi ficando grande, resolvemos acabar com as
nossas fichas numa única jogada na roleta. Assim, distribuímos todas as fichas
pela mesa colocando diversas fichas em alguns números escolhidos. A bolinha
parou no número 36 (não me recordo se preto ou vermelho), onde tínhamos
colocado diversas fichas. Recebemos três ou quatro fichas grandes de 100 pesos
e mais um punhado de fichas menores. As fichas menores foram espalhadas
novamente pelos números da roleta e, para nossa surpresa, a bolinha
voltou a parar no mesmo número 36 anterior e, como as fichas que vencem
permanecem na mesa, voltamos a vencer com as mesmas fichas da primeira
rodada. Assim, recebemos mais três fichas de 100 pesos e outro punhado de
fichas menores. Voltamos a distribuir as fichas menores e novamente fomos
felizes, porém, agora com outro número. Somente na quarta tentativa deixamos
de ganhar e aí trocamos as fichas maiores por pesos e fomos embora dormir.
No final ganhamos aproximadamente 1000 pesos que acabaram permitindo
que a Maria Helena e eu ficássemos num bom hotel nos dias que passamos em
Buenos Aires, além de nos proporcionar outros gastos em diversão e presentes
que não seriam possíveis sem aquele reforço de caixa.

José Machado da Silva Neto

Memórias da A68 131


Baú do
Carcaça
(Manoel Baltazar
Baptista da Costa)
Com certeza, ao lado
do Saroba (Dirceu),
foi o mais popular
colega da turma,
tendo oferecido
múltiplos relatos
daquele convívio para
estas Memórias. Ao
formar-se, trabalhou
para o Banespa, no
crédito rural, por dois
anos, em Itapetininga,
passando depois
à Sudelpa, em São
Paulo, por um ano e,
ainda na Capital, por
7 a 8 anos na Seitec e
Procap. Na sequência,
ingressou na CATI,
onde atuou na Casa
de Agricultura de
Itupeva e na DIRA de
São Paulo, passando
depois ao CNPq,

132
com mais dois anos na Capital paulista e igual tempo em Brasília. No
governo Montoro, trabalhou na Coordenadoria de Recursos Naturais,
já bem engajado nas questões ambientais e preocupação com processos
degradacionais. Assim é que foi Assessor de Gabinete da Secretaria da
Agricultura do Estado do Paraná, em Curitiba, de 1985 a 1986, e também
conectado ao Instituto Agronômico daquele Estado – IAPAR, órgão
reconhecidamente pioneiro numa agricultura realmente vocacionada à
realidade nacional, que veio difundir com brilhantismo suas técnicas por
todo o País, e que hoje constituem orgulho nacional no nosso processo
produtivo. Dando vazão àquele espírito de entender e proceder, então
ainda muito restrito aos tratados como “bichos-grilo”, quando se falava
numa “agricultura alternativa” (em 1978 promovera os primeiros grupos
de estudos na AEASP para tal assunto), engajou-se na ASBPA, voltada à
“agricultura orgânica”, que vem constituindo uma preocupação crescente
de ordem internacional, o que o fez ligar-se ao Greenpeace, em São Paulo,
com direito a uma incursão pela Hungria. Desenvolveu papel relevante
no evento sobre agricultura orgânica promovido em 1992 em São Paulo
(EFUAM), tendo se vinculado a uma ONG ligada à agricultura orgânica
(A.O.), por 4 a 5 anos. Com sua versatilidade, tornou-se consultor do
Globo Rural por 5 anos, mas sua vinculação ao MST-CCA (Coordenação
e Reforma Agrária, na linha ecológica) causou sua despedida daquele
poderoso órgão midiático. Acabou fazendo seu doutorado em Curitiba,
em curso conveniado com instituição universitária de Paris, na área
de meio ambiente. Com isso, habilitou-se a professor da Esalq, em
contrato precário durante o ano de 2005, indo vincular-se regularmente
à Universidade Federal de São Carlos – UfSCar – em 2006, onde se
encontra até o momento, sempre tratando da agricultura orgânica.
Ufa!! Tomara que agora sossegue!

Memórias da A68 133


Baú do Pinduca
(Márcio João Scaléa)
Desenvolveu atividades em empresas nacionais de pulverização aérea
durante quatro anos seguidos. Entre 1972 e 1975 passou ao ramo de
inseticidas, na Hércules do Brasil, e posteriormente para o setor dos
herbicidas agrícolas, na poderosa Monsanto. De 1975 a 1980 atuou na
Administração da famosa Fazenda Itamarati, em Ponta Porã, MS, e alguns
meses no Paraguai, com a alta incumbência de abertura de uma fazenda
para um grupo empresarial da Espanha. De 1980 a 2006 serviu novamente
à Monsanto, em Uberaba, MG, no desenvolvimento de herbicidas e de
mercados, com plantio direto, integração lavoura-pecuária e renovação
de pastagens. Como já informado, aposentou-se em 2006, mas continua
residindo em Uberaba. Foi, por diversas ocasiões, proferir palestras sobre
suas especialidades em curso de pós-graduação da Unicamp. Enviou vários
textos produzidos a partir de suas lembranças esalqueanas.

134
Trote
Primeiro mês de aulas, período do trote, careca lustrosa, “bicho novo”, conforme
a molecada nativa gritava em coro atrás dos coitados. Só quem passou por
essa experiência consegue avaliar o medo que ia tomando conta do bicho,
logo que a Viação Piracicabana saía de Santa Bárbara D’Oeste. Ao passar
por Tupi o medo já era pavor, olhadas sucessivas para a estrada, a ver se não
havia nenhum veterano seguindo o ônibus, para pegar quem saltasse antes
da rodoviária. Na baixada do Piracicamirim, sacola na mão, ônibus parando
rapidamente antes do DER, bichos saltando e correndo, trôpegos por causa dos
sapatos sem cordão, enveredando pela rua do Trabalho.
Na sexta feira, caminho inverso: caminhada desconfiada pela rua do Trabalho
até a rodovia, de onde o Universitário seguia por alguns quilômetros para
esperar o ônibus. Nem importava qual, podia ser o da AVA, para Campinas ou
o de São Paulo, o essencial era sair dali o mais rápido possível. Naquele dia foi
o de São Paulo que passou, e o Universitário subiu aliviado, agradecendo ao
motorista, quando ouviu o temido chamado:
— Bicho, vem cá. Achou que era esperto, que ia escapar tranquilo,
não é? Se apresente.
Ao que o Universitário, humildemente, de joelhos e cabeça baixa se apresenta
ao veterano, terror dos calouros, o famoso Periquito.
— Bicho Pinduca, doutor. De São Paulo, Capital.
— Pior ainda, não gosto de bicho de São Paulo, são todos uns ‘peles finas’
(referindo-se ao fato de que muitos vestibulandos de São Paulo não tinham
o comportamento rude de um típico sertanejo, estereótipo do agrônomo de
então). Você vai sentado no chão até o fim da viagem, e na semana que vem a
gente conversa lá na Soroca (república onde o veterano morava), você vai ver
o que é trote duro! Pelo menos o nome está perfeito, nunca vi ninguém mais
parecido com o Pinduca (gargalhada geral no ônibus).
Ele se referia ao personagem de histórias em quadrinhos, que originara o nome
do Universitário, que se resignou à sorte: melhor viajar sentado no chão do que
não viajar. Semana que vem é semana que vem.
E veio a semana, e outra, e outra, bicho Pinduca e veterano Periquito se
cruzavam aqui e ali, mas as circunstâncias favoreceram o Universitário, que
acabou sempre escapando do trote.
Dia de doar sangue, ônibus da Colsan estacionado na Escola, quem
doasse sangue ganhava anistia e podia ir para casa sem medo de trote.
O Universitário, na fila de doação, viu quando chegou o maior terror dos
bichos daquele ano, o veterano Gerôncio, autor de trotes dolorosos e cruéis, e

Memórias da A68 135


estremeceu. Surpreendentemente, Gerôncio estava até delicado aquela tarde,
exortando os bichos a doarem sangue e elogiando os que ali estavam na fila. Só
que fiscalizava um a um, na saída do ônibus, para ver se havia mesmo doado
o sangue. Chegou a vez do Universitário, que dentro do ônibus respondia às
perguntas da enfermeira que fazia o seu cadastro: nome, endereço, identidade,
data de nascimento. Ela mandou repetir a data de nascimento.
— 19 de junho de 1946.
— Não pode. Você não tem dezoito anos, não pode doar sangue. O próximo,
por favor.
O céu desabou sobre sua cabeça: sem doar sangue, seria a única presa daquela
tarde para o Gerôncio, trote pesado até de madrugada, rastejar, mamar
na cadela mascote da república, banho de lama, coquetel molotov, bicho a
milanesa, sem falar na tortura psicológica, o propalado tanque das piranhas!
— Dona, eu TENHO que doar sangue, se eu sair sem ter doado estou frito,
o veterano me mata no trote.
— Não posso fazer nada, é a lei. O próximo...
— Dona, pelo amor de Deus, pelo menos me cole aquele esparadrapozinho
aqui no braço, quem sabe assim consigo escapar.
O estado do Universitário era tão deplorável que ela se comoveu e
concordou em colar o esparadrapo na dobra do braço dele. Que conseguiu
fazer um pouquinho de hora dentro do ônibus para sair pálido de pavor,
frente a frente com o Gerôncio.
— Bicho, você saiu muito rápido, será que doou mesmo sangue? Deixa ver
o braço.
Manga arregaçada, esparadrapo à mostra, Gerôncio completou:
— Parabéns, bicho. Vai logo embora, você está muito pálido, quer que eu te
leve para casa?
— Muito obrigado, Doutor, eu vou indo, devagarinho, só estou um pouco fraco.

Revolução
Último dia do trote, reunião geral no Centro Acadêmico, para os acertos finais
do dia seguinte: passeata, churrasco e baile dos bichos.
Rumores estranhos no ar, Carlos Lacerda, exército, Jango Goulart, golpe de
estado, tanques. Foi decidido cancelar toda a programação e os bichos foram
liberados para voltar depressa para suas repúblicas; não convinha ficar pela
rua naquela noite.
O Universitário saía do Calq quando foi chamado:
— Pinduca, hoje você não me escapa. Você tem meia hora para chegar na sua

136
república; eu vou te seguir de carro. Se der meia hora e você não tiver chegado,
eu te pego e aí o trote vai ser feio! Corre, bicho!
Era o Periquito, que o caçava desde a primeira semana do trote.
Lá foi o Universitário correndo, a ver se conseguia chegar em casa em menos
de meia hora. Rua Voluntários, rua Alferes, cruzou a avenida, começou a subir
para o Jardim Europa, já cansado. Mais uns três quarteirões morro acima,
língua de fora, resolveu descansar um pouco e diminuiu o ritmo. Foi quando
ouviu de novo:
— Bicho, vem cá!
— Pois não, Doutor, respondeu descorçoado, pensando: ele estava me
seguindo mesmo!
Não era o Periquito, era outro veterano, mais preocupado em ajudar
do que em dar trote.
— O que você está fazendo na rua? Não sabe da revolução? Fecha rápido o
portão pra mim e sobe aqui, que eu te levo em casa. Estou indo a Campinas
buscar minha irmã no colégio das freiras; diz que vai ter guerra civil.
Revolução!

Delinquência
A notícia correu célere: saíram as notas de Matemática! E foi aquela correria
até o Pavilhão de Engenharia, de onde uns saíam felizes, comemorando,
outros cabisbaixos, algumas colegas choravam, outras se consolavam. É que os
professores da Cadeira de Matemática deixavam para divulgar as notas quase
no fim do ano, para manter a classe presente e atenta às aulas. Naquela tarde
de sexta-feira, então, selava-se a sorte de muitos alunos: alguns já aprovados,
outros reprovados, muitos calculando quais notas seriam necessárias nas
provas finais, o que era motivo para beber; uns de alegria, outros de desgosto,
mas no fundo todos aliviados da tensão e da incerteza.
Muitas caipirinhas depois, o Universitário encontrou o Saroba, o Cabrita
e o Morcego saindo da Brasserie, na praça central de Piracicaba. Já era
quase meia noite e eles o convidaram para a saideira num barzinho da rua
Governador, que nunca fechava. De lá, saíram os quatro abraçados: Cabrita,
Morcego e Pinduca, aprovados, consolando o Saroba, já reprovado. Subiram
para a praça, chegaram à esquina do Fórum e ali se separaram: Cabrita e
Morcego para suas casas e Saroba e o Universitário para o Vai Kem Ké, em
busca de uma cama. Dobrando a esquina, ao lado da padaria, viram uma
kombi parada com o motor funcionando e a porta aberta; devia ser de algum
padeiro ou entregador de pão. Cheios de boas intenções, eles decidiram fechar

Memórias da A68 137


a porta do carro; afinal poderia passar alguém e roubar algo...
Nem andaram meia quadra e foram cercados pela polícia:
— Vamos para a delegacia, tentativa de furto de veículo!
Incrédulos, os dois se olharam e nem conseguiram falar nada, de tão absurda
que era a acusação. Mas não teve jeito: tiveram que subir no jipe da rádio-
patrulha e lá foram eles para a delegacia.
Tomadas as providências de praxe, depoimentos etc., foram encaminhados
à cela onde já estavam uns oito ou dez marginais, o que os preocupou; para
prevenir qualquer violência, assim que a grade se fechou, sentaram-se costa
contra costa, na parte mais clara da cela, perto da porta. Mas a preocupação
era infundada, pois a grande maioria dos companheiros de cela era de bêbados
como eles, que apenas curavam a carraspana no xadrez. Além dos bêbados,
havia um senhor, ladrão de galinhas pego em flagrante e um outro coitado,
expulso de casa pela mulher e que, por causa disso, armara uma confusão,
acabando preso. No fim, todos amigos, compartilhando os poucos cigarros
até o dia clarear, cantando Piracicaba, Chico Mineiro e outras canções
menos lembradas. Só faltou uma cervejinha.
Naquela época até as cadeias eram românticas, à exceção dos
porões da ditadura.

Nara leão
Maio de 1967, ditadura, bossa nova... O Universitário cursava o quarto ano da
Esalq, quando ficou sabendo que o baile do próximo sábado, promovido pela
Comissão de Formatura do terceiro ano, teria como atração principal Nara
Leão. Ela era a Musa de boa parte dos brasileiros, em especial dos que haviam
assistido ao show Opinião, como era o caso do Universitário.
Eram dois problemas: ele não tinha terno (nos bailes daquela época era exigido
terno para entrar) e tampouco dinheiro para o convite e muito menos para
alguma bebida. Também não tinha companhia, mas já havia se acostumado a
isso. Mil ideias, planos para “furar” a vigilância e entrar. Logo depois do almoço
decidiu ir ver o que estava acontecendo no ginásio de esportes, local do baile
(planejava, na realidade, se esconder num banheiro e só sair depois do show!).
Chegou como quem não quer nada; intensa agitação nos preparativos para o
baile, porém logo o reconheceram: o presidente da comissão organizadora, que
havia sido bicho seu, quando do Vestibular. Este, que respeitosamente o tratava
por Doutor (tradição Esalqueana), comentou:
— Doutor Pinduca, que milagre passar um fim de semana em Piracicaba!
— Pois é, tinha um trabalho para terminar. E como estão os arranjos para o

138
baile? Posso ajudar em alguma coisa?
— Pinduca, tá um sufoco, mas minha maior preocupação é com a iluminação
do show da Nara Leão. Não tenho a menor ideia de como funciona; você
conhece alguém que entenda disso?
Centelha luminosa no cérebro do Universitário:
— Olha, eu até já trabalhei nisso, mas faz tanto tempo que não sei se posso ser
de grande utilidade. Se não tiver mais ninguém, posso tentar ajudar vocês.
— Sério? Você caiu do céu!
O Universitário passou a ser o mais novo membro da Comissão Organizadora,
com direito a crachá no peito e carro da Escola com motorista à disposição, lá
foi ele para o boliche Bem Bolado, que emprestaria os spots para a iluminação.
Ao escolher os equipamentos, teve, pelo menos, a lucidez de se informar como
aquilo funcionava, onde ligava e desligava, pois era a primeira vez que se
aproximava de um spot.
Iluminação montada, escolhido um assistente, banho tomado, lá foi o
Universitário de volta ao local do baile, para assumir seu posto. Não era nem
sete horas da noite e o baile só começaria às dez, mas lá estava ele. Lá pelas
tantas, burburinho, carro preto, seguranças; chegou a Musa, que logo foi
levada a uma sala do primeiro andar, para repousar antes da apresentação.
O Universitário, com o restinho da cara-de-pau que lhe restava, convenceu
a comissão e seguranças de que precisava discutir com a Nara os detalhes
da iluminação do show, e ali estava ele, frente a frente com a Musa, diáfana
presença recostada numa prosaica pilha de tatames de judô. Calça jeans, blusa
simples, sem maquiagem, confidenciou que não tinha preferências quanto à
iluminação e que o Universitário poderia iluminar a seu gosto, conforme o
ritmo, conforme a música, a letra, o sentimento. E aproveitou para discutir com
ele, suprema ventura, as músicas a apresentar, acertar a sequência e incluir as
preferidas dos agricolões.
Para o Universitário foi um show particular.

Nancy Maria Marlene Bernadette Aracy Silvia Nara


Regina Izabel Carmem Veronica Vera Sandra... Leão
O dia havia sido surpreendente: o Universitário passara de excluído social a
participante-assistente privilegiado da apresentação de Nara Leão, sua maior
paixão. Mas, repetindo o velho chavão, a noite era uma criança.
Terminado o show, o baile pegou fogo para a maioria, mas perdeu importância
para ele, que só queria sossego para desfrutar das recordações de um dia tão
memorável: a imagem, a voz, o perfume, o sorriso e os acenos da Musa maior.

Memórias da A68 139


Lá ia o Universitário a caminho da república, recapitulando e saboreando cada
momento daquela noite. Mas era sábado, e a república deserta deu-lhe a noção
de sua solidão e seu abandono. Como gostaria de ter alguém para compartilhar
o que fervia em seu peito e em sua cabeça!
Deitou-se, pois não havia mais nada a fazer, e demorou a dormir. A satisfação
pelos sucessos do dia se alternava com a sensação de isolamento e de solidão da
casa vazia. Acordou com as batidas na porta, alta madrugada, pensando que
era o Amigo 3 voltando da casa da namorada nativa, que mais uma vez havia
esquecido a chave. Mas não era.
Era Nancy, gentil garota, uma das mais novas “meninas de república” de
Piracicaba. Filha de uma lavadeira, ela recolhia roupas sujas e as entregava
lavadas para os clientes de sua mãe, nas mais diversas repúblicas da cidade.
Isso foi meio caminho andado para se apaixonar e se entregar a um estudante
mais afoito, que a repudiou em algumas semanas, levando-a à condição de
“menina de república”, expulsa de casa pelo preconceito familiar.
Ela passaria a se equilibrar numa estreita faixa em que, por comida, convivia
nas repúblicas durante o dia. Por dinheiro, se prostituía pelas ruas da cidade
durante a noite. E por afeto, se entregava a alguém durante as madrugadas.
Estava claro que ela não viera atrás do afeto do Universitário, mas quem não
tem cão, caça com gato. E ele foi o alvo de sua paixão naquela noite.
Naquela oportunidade ela representou para o Universitário a soma de todas as
mulheres tidas e não tidas, amadas ou desejadas, reais ou imaginarias: Nancy
Maria Marlene Bernadette Aracy Silvia Nara Regina Izabel Carmem Verônica
Vera Sandra... Leão.

Márcio João Scaléa, Pinduca

140
Baú da Maria Alice
(Maria Alice de Lourdes Bueno Sousa)
Também essa colega iniciou sua carreira da mesma forma que o João
Nakagawa e a Sonia, em curso técnico da Escola de Agricultura de São
Manoel (SP), vinculando-se logo depois à mesma unidade de trabalho
que aqueles colegas, porém na área de Floricultura e Paisagismo, tendo,
durante o estágio inicial, a cobertura segura do orientador Prof. Dr.
Kimoto, que fora nosso mestre na Esalq, mas que se transferira para
Botucatu, onde chegou a Diretor da Faculdade de Ciências Agronômicas
da Unesp. Casada com um Engenheiro Agrícola formado em Minas
Gerais, também professor da mesma Faculdade, porém do Departamento
de Engenharia Rural. Já se encontra aposentada, ainda residindo em
Botucatu, tendo fornecido um bom “arsenal” de fotografias da nossa
época de Escola. Valeu-se também da “memória de elefante” da colega
Lourdinha para enviar algumas informações solicitadas.

Memórias da A68 141


Baú da Sandra
(Sandra dos Santos Sevá Nogueira)
Esse “Nogueira” ela herdou do casamento com o Chico,
com quem faz um sólido par até hoje. Assim como ele, ela foi
trabalhar no Instituto Agronômico de Campinas, na antiga Seção
de Fisiologia Vegetal, onde permaneceu até a sua aposentadoria,
bem antes do Chico, podendo ajudá-lo a administrar, de longe,
a grande fazenda no Pará, bem como a “sofrer” no calor das areias
do Leblon, no Rio de Janeiro, para onde vai com relativa frequência,
principalmente nos intervalos de suas temporadas em Campos do
Jordão. Continuam, porém, a residir
em Campinas, num paradisíaco
condomínio da região de Souzas.
Também colaborou com textos e
fotografias para nossa composição.

Relatos do Baú da Sandra


1. No nosso segundo ano, em 1966, quando
se juntaram as duas turmas teóricas no
Maracanã, num certo dia o Professor Arzolla
estava na porta recebendo os alunos. Era uma
bagunça e tinha alguns alunos que pediam
para os outros darem o número na chamada,
e não entravam para a aula. Um aluno, que
não me recordo quem era, entrou, deu o seu
número, pulou a janela, que era alta, no fundo
do anfiteatro e depois entrou novamente e
deu outro número (o do colega). O Arzolla
encarou-o bem e disse: “Que interessante! O seu
isótopo acabou de passar aqui”. Todo mundo
riu muito, mas nada aconteceu com o colega.

142
2. Entomologia era uma matéria muito chata de estudar, porque era muita
coisa para decorar. Isso aconteceu também no Maracanã. O Professor (não
consigo lembrar o nome dele; era o Catedrático, narigudinho) marcou prova
das cabeludas e a Leda Amaral Gurgel resolveu escrever as ordens de insetos na
carteira, para “ajudar lembrar” na hora da prova. O Professor então resolveu
mudar todo mundo de lugar, prevendo mesmo, acho eu, que colas fossem
passadas. A Leda não se perturbou. Pegou a carteira dela, levantou-a e a
colocou no lugar que ela quis. Se ela precisou colar, não fiquei sabendo, mas que
sentou na carteira dela, sentou!

3. A aula prática mais nojenta que deve ter existido na Esalq foi uma aula
do Otto Crócomo, da disciplina de Bioquímica, quando deveríamos dosar
ptialina na saliva. Cada aluno que chegava na sala, tinha que dar uma cuspida
num vidro transparente. Depois que todos cuspiram, tivemos que pipetar a
cusparada, diluir e depois analisar. Nunca pude esquecer isso.

Observação do Espindola: Na segunda turma, a pipetagem


final da saliva coletiva fez com que o saudoso colega Celso Graner,
naquela época técnico de laboratório da Química Analítica, tivesse
recebido em sua boca a alíquota daquele conteúdo, por ter entrado
ar na pipeta, provavelmente pela situação inédita, dada a natureza
insólita daquele material.

4. Outro fato relativo a aulas práticas ocorreu na disciplina de Solos, no terceiro


ano. O professor Demattê arrumou um caminhão, tipo pau-de-arara, e levou
os alunos por uma estrada asfaltada. Ia despejando cada aluno ou aluna, num
barranco da estrada, para fazer o estudo dos diversos horizontes. Os alunos
ficavam sozinhos. Nem em duplas ele deixava. O que as meninas ouviram de
gracinhas dos motoristas que passavam, para época foi bem chato.

5. O bar do Narciso era a coisa mais desafiadora que existia. Os salgadinhos


que ele oferecia, ele mesmo os chamava de “Jesus está chamando”, “Último
bocado” e coisas semelhantes. E o leite com groselha? E o bandejão que ele
servia?! Hoje a vigilância sanitária teria fechado o bar.

Sandra dos Santos Sevá Nogueira

Memórias da A68 143


Baú da Sheila
(Sheila Zambello de Pinho)
A Sheila “aportou” inicialmente na Agroplan Planejamento Agrícola
Ltda, em São Paulo, onde já trabalhavam a Ana Cristina (Pin), o Ary
Brasil, o Espindola e o Zé da Gaita, ocupando-se especialmente da parte
econômica dos projetos, “craque” que era em cálculos matemáticos
e estatísticos adquiridos no Depto de Matemática da Esalq, como
estagiária regular, ao longo do Curso. Acabou seguindo os passos
de outros diversos colegas requeridos para consolidarem os cursos
instituídos em Botucatu, ficando sediada no Instituto de Biologia Médica
e Agrícola da já referida Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas,
ocupando-se da Matemática e Estatística e já dos primeiros “segredos” da
arte da computação, ainda pouco difundida no nosso meio. Destacou-se
também na área administrativa, galgando o posto de Diretora daquele
Instituto, cujo brilhantismo na função alçou-a à honrosa condição de
Pró-Reitora de Graduação da Unesp, Universidade esta à qual ainda
está vinculada, e nessas alturas, já no segundo mandato de pró-reitora.
Também galgou todos os passos da carreira acadêmica, de MS 1 a MS 6,
com aperfeiçoamento de um ano na Inglaterra.

144
A viagem
No final do quinto ano, alunos da diversificação em Economia Rural
conseguiram uma viagem ao Chile com voo realizado pelo Correio Aéreo
Nacional (CAN). Foram recebidos pelos órgãos oficiais do País, bem como pelas
autoridades acadêmicas da principal universidade pública.
Carros oficiais foram disponibilizados para deslocamentos diversos,
incluindo distantes cidades como Puerto Varas e Puerto Montt. Visitas foram
programadas em propriedades agrícolas diversas, incluindo áreas de projetos de
reforma agrária, o que constituía, para os alunos, um marco significativo, sem
qualquer correspondente no Brasil.
Ao longo de um mês foram visitadas as cidades de Santiago, Concepción,
Valparaíso e Viña del Mar, dentre outras, conhecendo a agricultura chilena e
pontos turísticos diversos, incluindo jogadas em cassino.
No retorno, o grupo foi surpreendido com a notícia de que o CAN não mais
chegaria no dia estipulado, em decorrência do AI-5, naquele momento
instituído no Brasil. Talvez tenha sido aquela a situação mais deplorável da
nossa história, com consequências extremamente nefastas, em que mesmo os
mais elementares direitos civis ficaram cerceados.
Como fazer nesta situação? Para aguardar o CAN (será que viria?), como
enfrentar as despesas? Para retornar por outros meios, o problema era
análogo. Alguns optaram pela proposta do Prof. Hoffmann, acompanhante
oficial do grupo, que se empenhou em busca de soluções, assumindo, inclusive,
a responsabilidade de avalizar a compra de todas as passagens aéreas,
àqueles que optaram pela aquisição de bilhetes financiados em 12 prestações.
Considere-se que nessa época ninguém ainda tinha emprego. Alguns dos
colegas optaram pela volta por meio de caronas, demorando semanas para o
retorno a suas casas, num período bem próximo às festividades natalinas.
Por conta disso, as 12 referidas prestações foram pagas em 1969, na capital
paulista, o que demandou muita “mão-de-obra”, tendo em vista que em outras
cidades não era possível efetuar essa operação.

Sheila Zambello de Pinho

Memórias da A68 145


Baú da Paior
(Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco)
A Sonia ocupou-se, no início, do ensino praticado em nível técnico,
paralelo ao nível médio, na Escola Agrícola de São Manuel. Foi uma das
primeiras agrônomas da A68 a vincular-se ao Curso de Agronomia da
então Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, que fazia
parte de um conjunto de Institutos Isolados do Estado que deram origem à
Unesp, em 1977. Sumiu por uns tempos para fazer seu mestrado em Viçosa
(MG), sempre se dedicando à Sociologia e Extensão Rural. Em Botucatu
desenvolveu toda a sua carreira, até chegar a Titular (MS 6), tendo liderado
movimentos pró-democracia no
meio acadêmico. Aí permaneceu até
aposentar-se, ingressando em seguida na
Unicamp, na Faculdade de Engenharia
Agrícola, onde está até hoje, sendo uma
das mais destacadas pesquisadoras e
defensoras da Agricultura Familiar,
assunto para o qual é frequentemente
requisitada para atividades consultivas,
inclusive em nível federal, ministrando
conferências por todo o País. Desenvolve
um projeto regular em convênio com
pesquisadores franceses de notório
prestígio científico, o que lhe garante um
intercâmbio que vem perdurando há
anos, o que lhe causa transtornos anuais
pelas permanências em Paris.

Esperata
“A baratinha yoyo, a baratinha yaya, a
baratinha bateu asas e voou...” Ah! voar ela
talvez conseguisse, porque as asas ficaram,
mas as perninhas foram parar em outro corpo.
Caberia aqui outra música, aquela do nosso
colega boliviano “la cucaracha, la cucaracha já
no puede camiñar, porque lhe falta, porque lhe
falta, la pernita para andar...”

146
É este o contexto desta história, que algumas das colegas do Paior de Tela
devem lembrar. Não vou negar que passei a maior vergonha, ainda mais
quando vi a notícia publicada no POJ. Mas, como disse o Espindola, depois dos
sessenta nada mais nos envergonha.
Estávamos no segundo ano, onde a marca principal era a montagem do
insetário da disciplina Entomologia. Acho que todos nós temos recordações
deste trabalho, com a incessante busca de insetos por todo canto. Quantas
foram as idas noturnas ao salto para colher os indefesos animais. Depois o
trabalho de secagem e classificação antes de ser entregue no dia determinado
pelos professores.
Mas, antes disso, todo cuidado era pouco na hora de espetá-los em alfinetes
e colocá-los na base de isopor. Sacrificávamos muitos bichinhos para
conseguir montar o tal insetário. Eles teriam que estar perfeitos para
alcançarmos uma boa nota.
Pois bem, me lembro como se fosse hoje que passamos eu, Elisa, Verinha e
Carminha com a sala abarrotada de bichos por longas semanas. Achava
difícil o trabalho de manipular os bichinhos para deixá-los de acordo com a
técnica em perfeito estado, mas, secos e mortos. No entanto, gostei de fazer
este exercício. Adquiríamos um bom conhecimento sobre os coleópteros e
todas as demais famílias.
E assim chegou o dia final, onde deveríamos estar com tudo perfeito para
entregar. Já era tarde da noite e eu fui dar uma última arrumada; na verdade,
admirar o trabalho feito. De todos os insetos da minha coleção, o que mais
chamava a atenção e que me transferia uma sensação de grande conquista
era uma Esperança, grande e verde (um louva-deus), que dava um colorido
ímpar ao meu insetário onde a maioria tinha uma coloração marrom, sem
muito brilho. E foi exatamente ela que considerei um pouco fora de esquadro.
E então resolvi arrumar. Foi de chorar o ocorrido: minha Esperança perdera
a perna. Estava muito seca a coitadinha! E daí, o que fazer? Colar é claro, o
que fazia parte da técnica. Mas esta operação, um tanto desajeitada, resultou
em uma perna quebrada, sem condição de restauração. Hoje, com o avanço
da tecnologia, talvez pudesse recuperar a perna da minha Esperança. Vejo
isto no trabalho de minha filha, que é ortopedista, o quanto avançou, para
os humanos, as próteses cirúrgicas. Tudo se recupera. Mas, naquela época e
naquele momento de aflição nada podia salvar a perna da minha Esperança, e
muito menos a minha nota.
Ah, mas daí surgiu na sala a brilhante ideia. Confesso que ela não foi minha,
mas não consegui registrar de onde viera ideia tão brilhante. Tínhamos muitos
outros insetos, ou melhor, pedaços de insetos já ressecados. Infelizmente,

Memórias da A68 147


nenhuma de Esperança. Escolhi a que fizesse melhor figura, ou seja, a que
melhor se adaptasse e, principalmente, que menos aparecesse. Colei a perna de
uma barata e dei por terminado o trabalho.
Que ingenuidade! No dia seguinte, Dr. Lordello, ao examinar meu insetário,
disse: ”tem algo estranho, essa Esperança tem uma perna mais escura”, e
examinando melhor me perguntou, “onde você conseguiu essa Esperata?” Não
sabia onde enfiar a cara, pois falou na frente de todos. Alguém da turma ouviu
e não deu outra: o POJ daquela semana noticiou o fato com o título acima.

Apologia ao feminismo?
Não se trata aqui de fazer apologia ao feminismo, mas sim de constatar como
nossa sociedade evoluiu em termos de reconhecimento do trabalho e do espaço
que as mulheres conquistaram no decorrer destes quarenta anos que nos
separam dos anos de convivência na nossa saudosa Esalq.
Num rápido olhar à nossa volta, vamos encontrar hoje mulheres ocupando
cargos de presidente em vários países do mundo, inclusive da América Latina,
como é o caso do Chile e da Argentina. No Brasil já dispomos de governadoras
de estado, tal como o Rio Grande do Sul, tanto quanto de chefes do poder
municipal, a exemplo do caso de Fortaleza, além de uma enorme quantidade
de deputadas federais e estaduais, vereadoras etc.
Ao comparar esta realidade com a que vivenciei nos idos anos 60 no Calq,
o Centro Acadêmico Luiz de Queiroz, espaço de formação extra-classe, de
confraternização, de trocas acadêmicas, de aprendizado técnico e político, pôde
se perceber o quanto e o valor dessas mudanças.
Quando cheguei à Piracicaba, da mesma forma que todos os colegas, fomos
introduzidos não só ao ambiente da Escola, propriamente dito, mas, com
muita força, também ao do Centro Acadêmico. Confesso que fiquei encantada
com seu espaço, sua infra-estrutura, sua efervescência de atividades, seus
departamentos, anfiteatro e sala de jogos, mas o que me chamou mais a
atenção foi uma sala especial para as mulheres, com banheiro próprio, sofás,
mesinha de centro... tudo muito chique! Ali estava nosso espaço, o lugar das
mulheres, o reduto feminino, e foi a partir de lá que comecei minhas atividades
de militância estudantil. A princípio, como Diretora do Departamento
Feminino, depois alçando voos para outros departamentos, como o de Extensão,
que foi fundamental em minha trajetória profissional, bem como o cultural e
o de publicações. Era difícil a noite em que não batia ponto no Calq, incluindo
os sábados, é claro, quando foi criado o “Ponto de Encontro”, a discoteca onde
dançávamos até o início da madrugada.

148
Mas o caso mais interessante que quero aqui relatar aqui ocorreu por ocasião
das eleições à diretoria do Calq, no final de 1967. Estávamos já sentindo
o impacto do término do Curso, da ruptura com aqueles anos dourados –
no sentido exato da palavra –, dos anos da bossa nova, cujos programas
assistíamos na televisão do Calq, e também da escolha da especialização, que,
é óbvio, deveria determinar nossa futura vida profissional. Mesmo assim, as
atividades do Centro Acadêmico constituíam algo de extrema importância
e, não só isso, teríamos que pensar na nova diretoria, visto que o futuro da
entidade nos preocupava. Assim como fazíamos a todas as eleições, iniciamos
as reuniões de grupo para discutir a plataforma de ação da próxima gestão.
Nossas noites passaram a ser ocupadas com reuniões visando garantir, da
melhor maneira possível, uma proposta de atuação que intensificasse as ações
do Calq dando ênfase aos seus objetivos de formação, congraçamento, defesa
dos direitos dos estudantes, de um melhor ensino e, principalmente, no avanço
da participação e representação política, apesar das dificuldades daquela
ocasião em que as liberdades democráticas vinham sendo totalmente tolhidas.
Avançamos muito nas proposições e elaboramos os tópicos da campanha.
Embora até aquele momento acreditássemos que a chapa da situação que
estávamos para montar seria única, tudo foi pensado com muita seriedade
e esperança. Após esta etapa, seguir-se-ia a escolha de nomes para os
diferentes cargos.
Havia constatado que o espaço da Diretoria era um mundo masculino e me
perguntava o porquê daquilo, tendo em vista que algumas de nós, mulheres,
tínhamos uma atuação relevante nas atividades do Calq. Conversando com
algumas colegas, igualmente atuantes, revelei o desejo de ser inserida na chapa.
Fomos para a reunião e esperei que meu nome surgisse naturalmente e, para
minha surpresa, tal não aconteceu. Com isso, efetuei uma auto-indicação
e tentei argumentar sobre a necessidade de uma mulher na chapa. Fiquei
desolada com a atitude de alguns dos colegas, todos extremamente militantes
e, para minha surpresa, com uma postura machista. Claro que argumentos
diversos foram discutidos, mas, desses, o que mais me marcou, e que hoje
analiso como uma questão de formação e de entendimento do papel e do lugar
da mulher na sociedade, foi o de que “as reuniões da Diretoria vão sempre
até a madrugada e não convém que você saia sozinha pelas ruas para voltar
para casa; é perigoso!” Recordo-me que agradeci com muita cordialidade a
preocupação do colega.
Vejam bem, hoje no Calq não mais há necessidade de um Departamento
Feminino, posto que as mulheres ocupam quaisquer cargos, militam sem
restrições, já dominam quase a metade das vagas dos cursos de Agronomia e

Memórias da A68 149


moram na Moradia Estudantil, anteriormente só permitido ao sexo masculino.
É, os tempos mudaram, felizmente!
Continuando... diante da tentativa frustrada de participar da chapa e, com o
apoio de um grupo de colegas de outros anos da Esalq (não cito nomes para
não correr o risco da injustiça de esquecer alguém, pois, com o passar do
tempo, é claro que muita coisa se apaga da nossa lembrança). Decidi sair como
candidata a Secretária, independentemente de chapa. Pelos estatutos, sabia que
a eleição era por cargo e, então, comuniquei a decisão ao grupo reunido que,
naquele momento, já havia registrado a chapa. Efetuei também o meu registro
sem que, pelo menos diretamente, algum colega fizesse alguma objeção. Tudo
pareceu normal, sem nenhuma crítica ou retaliação.
Mas, é obvio que o mesmo não aconteceu quando nos deparamos com a
candidatura de outro colega, agora para a Presidência. Isto acirrou muito o
debate e a disputa, tendo o colega João Hermann levado a melhor contra o
nosso candidato – Roberto Moreira, o Tucura.
Minha campanha revelou momentos altamente relevantes. Sempre
acompanhada por um grupo de colegas mulheres, íamos a todas as classes e
pedíamos licença aos professores para falarmos dez minutos com os alunos
e, para nossa surpresa, não recebemos nenhuma recusa por parte dos
professores. Todos foram muito amáveis em atender nosso pedido, sendo
que alguns, como o Professor Crócomo, da Química Biológica, após nossos
argumentos, fez um discurso em apoio a essa candidatura. Recebi os parabéns
de muitos professores, pela coragem.
Tudo isso representa algo que jamais vou me esquecer e que me leva a refletir
sobre o significado daquela atitude. Abri, sim, um caminho; fui a primeira
mulher a participar da diretoria do Calq. Saíamos tarde das reuniões, é certo,
mas existia sempre um cavalheiro à moda antiga que nos acompanhava até o
“Paior de Tela”, a nossa república.

Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco

150
Palavras finais

A o passar cerca de dois anos “convivendo”


com os personagens dessas Memórias, lem-
brando a multiplicidade de estórias que um rico período de cinco anos
proporcionou, sensações diversas nos assaltam: alegria e hilaridade, me-
lancolia e tristeza, o que reafirma que “nada do que foi será de novo do jeito
que vai ser um dia...”
Ao mesmo tempo, é a nós adicionado certo sentimento de orgulho
pela admissão implícita de termos constituído a melhor turma que já
passou pela Esalq: “A Turma de Ouro”.
Certamente, um lado da melancolia e tristeza decorre do fato de tan-
tos personagens já terem partido para o merecido descanso. Ao longo de
2009 tivemos “baixas” de dois insignes colegas, os quais haviam notabi-
lizado pelas suas atuações: um na política nacional – o João Hermann, e
o outro na pesquisa agrícola – o Camargão, honrando a tradição que o
Dr. Leocádio, seu pai, lhe deixara. Tudo parece acontecer muito depres-
sa, dando validade aos versos do compositor: “Tudo passa, tudo sempre
passará... Como uma onda no mar...” Valeria a pena, aqui, quebrar um pou-
co divagações como essas, inserindo um dito bem agricolão: “Nóis morre
tudo abraçado, mais num si entreguemo!”
Tão apenas essas, por si só, já constituiriam motivo de sobra para
nossos reencontros periódicos, aproveitando a graça de estarmos vivos,
de corpos presentes, relembrando casos antigos e novos acontecimentos
e conquistas, aí inseridos os sucessos posteriores ao nosso convívio, os
quais nem sempre chegam ao nosso conhecimento por vias outras.
Muitos desses fatos apenas vêm corroborar o caráter de “Turma de
Ouro” para a A68, bastando, por exemplo, lembrar que dela brotaram
dois diretores da Esalq – o Júlio e o Parra, um diretor do CENA/USP, o
Augusto, e um diretor do Instituto Agronômico de Campinas, o Bulisani.
Isso para não ter que mencionar inúmeros colegas que ocuparam cargos
diretivos em faculdades ligadas às ciências agrárias e, com toda a certeza,

Memórias da A68 151


assessorias de alto nível e posições proeminentes em empresas de grande
e reconhecido prestígio, nacionais e multinacionais, senão de suas prós-
peras propriedades.
Talvez, até por isso, seja de cogitar que o universo nos direcionou uma
força invisível, superior, nos envolvendo e protegendo, valendo a pena en-
cerrar essas elucubrações com a “oração” especial, na forma de acróstico
(na página ao lado), que o insigne e querido piracicabano, nosso mestre
Accorsi nos brindou pouco tempo antes de partir do nosso meio.

Os Organizadores

152
a turma de ouro
Perfil Evangélico
quele que permanece em mim e no qual eu permaneço, dá muito fruto,
pois sem mim nada podeis fazer. João, 15:5

e amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os


pecadores amam aos que os amam. Lucas, 6:32

m verdade, em verdade vos digo que o filho nada pode fazer, senão
o que vir o Pai fazer; porque tudo o que Ele fizer, o faz semelhante o
filho. João, 5:19

e alguém vir após mim, negue-se a si mesmo,


tome a sua cruz e siga-me. Mateus, 16:24

e alguém tiver sede, venha a Mim e beba. Quem crê em Mim, como
disse a Escritura, do seu interior manarão rios de água viva. João, 7:37-38

m verdade vos digo quem disser a este monte: Levanta-te e lança-te


ao mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se faz o que se diz,
assim lhe será feito. Marcos, 11:23

enhum servo pode servir a dois senhores: porque ou há de aborrecer


a um e amar o outro, ou há de unir-se a um e desprezar o outro.
Não podeis servir a Deus e as riquezas. Lucas, 16:13

omai sobre vós o Meu jugo, aprendei de mim, porque Sou manso e hu-
milde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Mateus, 11:29

marás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e
de todo o seu entendimento. Mateus, 22:37

u sou o Bom Pastor; o bom pastor dá a sua vida


pelas ovelhas. João, 10:11

lhando para seus discípulos, começou a dizer: Bem-aventurados vós os


pobres, porque vosso é o reino de Deus. Lucas, 6:20

sto vos mando, que vos ameis uns aos outros. Se o mundo vos aborrece,
sabei que primeiro do que a vós Me tem aborrecido a Mim. João, 15:17-18

odo aquele que de Mim tem aprendido,


vem a Mim. João, 6:45

verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e


vimos a Sua glória, glória como do unigênito do Pai. João, 1:14

prof. dr. walter radamés accorsi

Memórias da A68 153


No apagar das luzes

J á concluindo a diagramação desta obra,


lamentando não ter conseguido dispor de
uma fotografia do Luiz Hirata para juntar-se a nós, e com a súplica do
diagramador de “não inventar mais nada” para inserir, uma busca a fami-
liares daquele colega, via Google, já tentada anteriormente, sem sucesso,
acabou nos deixando estupefatos e arrasados.
Não poderíamos, nesse “apagar das luzes”, deixar de compartilhar com
os colegas a estarrecedora narrativa sobre as circunstâncias do assassina-
to do Hirata, que veio a lume com a matéria
“Ação na Caminhada: Mortos na Tortura da
Ditadura Militar”, postada na internet pelo
esalqueano Tiago Valentim Georgette.
O texto foi transcrito do livro Direito à
Memória e à Verdade: comissão especial sobre
mortos e desaparecidos políticos, da Secretaria
da Presidência da República, publicado em
2007. Contém uma imprecisão temporal, ao
mencionar a data de 1969, em que “precisou
abandonar os estudos, no quarto ano...”, uma vez
que ele nos acompanhou quase até o encerra-
mento formal do Curso, participando, inclu-
sive, da Comissão de Formatura, mas tendo
colado grau sem participar das festividades,
como viemos a saber apenas recentemente.
Até então estabelecêramos diversas con-
jecturas a respeito da ausência do colega na
colação de grau, pela inexistência de sua fo-
tografia no quadro de formatura, mas, ao mesmo tempo, com seu nome
naquele caderninho quadrado de capa branca com endereços de todos
os formandos, distribuído pela Comissão de Formatura. Com a recente

Memórias da A68 155


publicação da obra Universidade de São
Paulo - 75 anos; contribuição da Escola
Superior de Agricultura Luiz de Queiroz,
pela Associação dos Ex-Alunos (Ade-
alq, 2009), confirmou-se o seu nome
junto aos demais da A68.
Um encontro casual com o colega
Garcia, já em 2010, nos esclareceu sobre
a resolução deliberada do Hirata em não
participar das festividades de colação de
grau, mas, até então, muitos colegas su-
punham que a sua ausência decorrera de
sua prisão e morte ainda em 1968. A rea-
lidade dos fatos veio com a documenta-
ção a nós facultada pela atual Diretoria
da Escola, na qual se inclui o RECIBO
do diploma assinado pelo colega no ano
seguinte (19 de setembro de 1969), assim
como seu Histórico Escolar completo.
Contudo, o relato sobre as atrocidades contra ele praticadas, eivadas de
requintes de crueldade e sadismo nas sevícias pelas quais passou (ver pág.
ao lado), constitui um pesado fardo emocional que gostaríamos de dividir
com os colegas nesse Apagar das Luzes.

Os Organizadores

156
LUIZ HIRATA (1944–1971)
Número do processo: 290/96
Filiação: Hisae Hirata e Tadayoshi Hirata
Data e local de nascimento: 23/11/1944, Guaiçara (SP)
Organização política ou atividade: AP
Data e local da morte: 20/12/1971, São Paulo (SP)
Relator: general Oswaldo Pereira Gomes
Deferido em: 14/05/1996 por unanimidade
Data da publicação no DOU: 17/05/1996.

Filho de imigrantes japoneses e agricultores, paulista de Guaiçara, na região de Lins, Luiz


Hirata estudava Agronomia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, em
Piracicaba. Em 1969 precisou abandonar os estudos, no quarto ano, por perseguição política:
era militante da Ação Popular. Em 1971, antes de ser preso e assassinado sob torturas, era um
dos cinco coordenadores do movimento de oposição sindical metalúrgica de São Paulo, ao lado
de Waldemar Rossi, Cleodon Silva, Vito Gianotti e Raimundo Moreira.
Foi preso pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, do DOPS-SP, em 26/11/1971.
Morreu em 20/12/1971 como conseqüência das torturas a que foi submetido ao longo de três
semanas. Heládio José de Campos Leme, preso político no DOPS/SP, conviveu ali com Luiz
Hirata cerca de duas semanas. Ficaram na mesma cela. Acompanhou, dia a dia, o agravamen-
to do seu estado de saúde, testemunhando que ele voltava dos interrogatórios carregado pelos
policiais. Era Heládio quem carregava Luiz até o sanitário da cela. “Seu rosto ficou tão inchado
que ele não podia abrir os olhos. Chegou um momento em que ele não mais urinava nem comia: foi
quando o levaram, quase inconsciente”.
Em 16 de dezembro, quatro dias antes da morte, Fleury tentou justificar as lesões provocadas
pelas torturas. Para isso, chamou ao DOPS o legista Harry Shibata, que se tornaria tristemente
célebre a partir de 1975 por assinar o laudo que tentou legitimar a farsa do pretenso suicídio de
Vladimir Herzog no DOI-CODI/SP. Prontamente, Shibata atendeu ao pedido e produziu um
laudo de corpo de delito onde sustenta a estapafúrdia versão que lhe foi ditada pelo delegado
torturador: Luiz Hirata havia colidido com a traseira de um ônibus quando tentava a fuga, em
alta velocidade, correndo a pé. O legista considerou, então, “de bom alvitre remoção ao Hospital
das Clínicas para socorro e providências médicas”.
Pode-se imaginar o estado físico em que se encontrava Luiz Hirata, a ponto de suscitar uma
justificativa tão inverossímil como essa: Luiz Hirata teria simplesmente atropelado um ônibus
ao tentar fugir. O laudo com as recomendações do legista Harry Shibata foi elaborado às 9h15,
mas Fleury levou o preso ao Hospital das Clínicas somente 11 horas depois. De acordo com a
documentação oficial, Luiz Hirata morreu nesse hospital no dia 20. A requisição de exame ao
IML, assinada por Jair Romeu, estava marcada com o “T” característico utilizado para identi-
ficar os presos políticos. Registra que teria morrido por morte natural, sendo diagnosticada
insuficiência renal crônica. Os legistas Onildo B. Rogano e Abeylard de Queiroz Orsini confir-
maram a versão oficial, embora façam referência à presença de “lesões não recentes” no corpo.
Esse segundo médico legista, Abeylard de Queiroz Orsini, teve cassado o exercício da profis-
são pelo Conselho Federal de Medicina, em 10/04/2002, confirmando decisão anterior do Con-
selho Regional de Medicina de São Paulo, que havia proferido igual sentença em 29/04/2000,
por violação da ética médica, fraude e conivência com a tortura ao assinar aproximadamente 15
laudos de presos políticos executados nos porões dos órgãos de segurança do regime militar.
No voto aprovado por unanimidade na CEMDP, o relator do caso, general Oswaldo Pereira
Gomes, destacou que “as peças do processo dão a plena convicção de que Luiz Hirata estava preso
na polícia paulista e que foi conduzido ao Hospital das Clínicas em estado terminal irreversível.
Do processo consta declaração do professor Universitário Heládio Jose de Campos Leme, compa-
nheiro de prisão de Luiz Hirata que testemunharia a progressiva deterioração do estado físico dele
em conseqüência de maus-tratos; depois das sessões de ‘interrogatório’, era trazido carregado pela
polícia; que apresentava grandes hematomas pelo corpo, principalmente na região dos rins, diz essa
testemunha que Hirata precisava ser carregado para fazer uso de vaso sanitário; após alguns dias
foi retirado da cela semi-inconsciente para ser encaminhado a um Hospital”. E, categoricamente,
afirmou: “Isto não coincide com a versão da fuga velocíssima da vitima que em velocidade chocou-se
com a traseira de um ônibus”.

Memórias da A68 157


Agradecimentos
Antonio Roque Dechen, diretor da Esalq
Evelini Sarto, da Secretaria Acadêmica da Esalq
Milton Costa
Neide Aquemi Itocazu
Nirlei Maria de Oliveira
Zilmar Ziller Marcos, professor da Esalq

Agradecimento
especial a
José Albertoni,
pelo suporte financeiro

Memórias da A68 159


“Tudo o que se vê não é igual ao que a
gente viu há um segundo...”
Lulu Santos & Nelson Motta
daquele dos anos 60, com grandes
mudanças no cenário universitário
brasileiro. Em 2009, a USP
comemorou 75 anos de criação,
a turma de 1968 participou de
Memórias da A68
traça um retrato
da turma de
É com grande satisfação
que apresentamos o livro
Memórias da A68, um
minucioso e curioso relato da
turma de formandos da ESALQ
46 anos da História da USP, Agronomia da Esalq 1968, capitaneado pelos colegas
tendo sido a única a legar dois Carlos Roberto Espindola, Sheila
diretores à ESALQ, os Professores
do período 1964 Zambello de Pinho e Sonia Maria
Julio Marcos Filho e o Prof. José a 1968. Composto Pessoa Pereira Bergamasco.
Roberto Postali Parra. a partir de relatos, Trata-se da turma que iniciou
Em 2001, nas comemorações do fotografias, recortes, o curso em 1964, um ano
Centenário da ESALQ, o então inesquecível para todos os
governador Geraldo Alckmin
guardados pessoais brasileiros e que, certamente,
referiu-se à ESALQ como a e documentos marcou a vida de um grupo de
melhor semente plantada nas diversos, pelos alunos jovens estudantes que iniciou
terras paulistas. As sementes da turma, retroage suas atividades na ESALQ e
lançadas em 1964 produziram que vivenciou aquele momento
grandes frutos e os A68 são reais
a uma Piracicaba histórico do Brasil. Daí a
construtores da história de sucesso saudosa, dos bondes propriedade do título. Para nós
da agricultura brasileira. e das ferrovias, dos leitores, mais do que um retrato da
No livro há uma menção de Lulu cinemas nas ruas e turma, é um relato de época, um
Santos e Nelson Mota de que registro histórico para os arquivos
“nada do que foi será de novo do
das serenatas, mesmo da ESALQ e da USP.
jeito que já foi um dia”. Todos os numa época tão O Memórias da A68 resgata, além
anos novas sementes são lançadas dura para o exercício dos relatos pessoais, a história
e esperamos que esses novos das liberdades política dos anos 60, a Piracicaba
profissionais espelhem-se nas daqueles tempos e da ESALQ da
realizações e sucessos dos A68.
democráticas. época (professores, funcionários
Obrigado pelos exemplos de e alunos), tudo registrado com
profissionalismo e por honrarem fotos e documentos dos “baús”
a ESALQ e o seu idealizador, Luiz dos A68, que resultou nesse rico
Vicente de Souza Queiroz! acervo de depoimentos, reflexões,
brincadeiras, frustrações, fotos de
Antonio Roque Dechen aulas e de festas de repúblicas.
Diretor da ESALQ e Hoje vivemos um cenário
Vice-Reitor Executivo de agronômico bem diferente
Administração da USP