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Como os melhores estudantes estudam?

Respondeu originalmente a: Qual é o melhor método de estudo?

Não diria que existe um método fechado. A vida não é tão simples assim. Para fazermos
algo com maestria (bem feito, com qualidade), temos que entender o que estamos
fazendo. Para responder a esta pergunta, precisamos saber o que é "estudar" e,
também, o que é "aprender", "entender", "revisar" e outros elementos envolvidos.
Não é difícil e eu pretendo explicar tudo neste post. Veja:

É possível ser um carpinteiro sem conhecer várias ferramentas? tais como martelo,
serra, alicate, os tipos de madeira… é claro!

Até é possível, mas não será um bom carpinteiro, sua mesa não passará em medicina,
seu armário não será aprovada em concurso público, e seu bidê não será fluente em um
segundo idioma… (rsrs)

Então vamos lá, vamos aos conceitos, seguindo um fluxo de estudo:

1 - Quando começamos a estudar um assunto novo, devemos manipular o


conteúdo, ou seja, resumir, fazer mapas mentais, entre outros. E aqui eu vou também
definir "resumir": manipular o conteúdo e reescreve-lo do seu jeito, tirando
"rebarbas" e segmentando informações, com as suas palavras.

Essa atividade de manipulação (resumo) faz parte do processo de entendimento. Você


ainda não aprendeu. Apenas, se fez corretamente, entendeu. E esse é o objetivo do
início de um estudo: manipular/resumir objetivando segmentar e entender cada
segmento.

Vou dar um exemplo com algo bem chato e difícil de se aplicar o que eu falei. Já que
quando o treino difícil, o combate fácil.

"Art 316 (CPPM). A autoridade que determinar perícia formulará os quesitos que
entender necessários. Poderão, igualmente, fazê-lo: no inquérito, o indiciado; e,
durante a instrução criminal, o Ministério Público e o acusado, em prazo que lhes
fôr marcado para aquêle fim, pelo auditor."

Eu resumiria desta maneira:

"Os requisitos da perícia podem ser formulados:

- pela autoridade que a determinou (deve)

- o indiciado (no inquérito)

- MP e acusado (durante a instrução, com prazo marcado pelo auditor)"


Perceba como ficou mais "limpo", fácil de entender, sem omitir nenhuma informação
(se você achar que falta alguma informação, você poderia adicioná-la. Talvez o
significado da palavra "quesito" neste contexto, por exemplo).

Além disso, o conhecimento acerca do artigo 316 foi segmentado. Um único artigo
virou 3 elementos (ou 7, dependendo de como você olhe e do seu domínio sobre o
assunto).

Feita a manipulação, a segmentação, o resumo e o entendimento do que você produziu,


está conclusa primeira atividade do estudo: o entendimento. Agora vamos para a
próxima etapa.

2 - Revisão. A revisão é a consolidação do conteúdo. Fazendo o que chamamos de


entendimento (descrito acima), as redes sinápticas foram iniciadas, orientadas e já
representam uma informação (ou um conjunto delas) em seu cérebro. Mas, quando
você dormir, essas conexões serão enfraquecidas. Você deve fortificá-las. Revisá-las.
Consolidá-las. Fixar o que você entendeu. Ou seja, o aprendizado é um processo
contínuo, haja vista que uma de suas etapas é contínua: a revisão. Você deve revisar
continuamente.

A revisão, então, faz a consolidação do conteúdo no cérebro. Esse é o seu objetivo. Mas
e como ela se define? Como se atinge este objetivo? Atingimos a consolidação de um
conteúdo dando uso dessas informações ao nosso cérebro. Nosso cérebro somente
guarda o que usa. Imagine se guardássemos tudo o que vemos, lemos, ouvimos,
vivemos, sentimos, pensamos… Seria impossível viver, um caos, impossível até mesmo
imaginar a dor de cabeça… hahaha

Então, para que sejam fortificadas e consolidadas as conexões sinápticas (ou seja, o
entendimento realizado acerca de um conhecimento e o conhecimento em si), devemos
dar uso desses entendimentos e informações ao nosso cérebro. E isto é a revisão.

"Ah, mas isso eu já sabia". É mesmo? Saiba que os detalhes que estão sendo ditos
aqui importam. E muito. Se você "resumir" algo meramente copiando, não está
manipulando o conteúdo, pode não estar promovendo o entendimento e pode acabar
memorizando o que não saberá utilizar. Isso fica evidente na matemática, mas ocorre
em outros conteúdos de forma oculta (até errarmos uma questão sobre algo que juramos
saber). Por exemplo:

Meramente copiar o artigo 316 acima sem saber as definições envolvidas, sem
realizar a segmentação, sem fazer a atividade encarando-a como uma manipulação
do conteúdo resultará em nada. Você não prestará atenção no que está fazendo, ficará
ansioso, não iniciará as conexões sinápticas e não terá sequer o que revisar depois. É
como memorizar a fórmula de bháskara, -(b+/- (b²-4ac)^0.5)2a, sem saber o que é b, a,
c, sem saber como operar uma raiz, o que é uma fração, etc. ISSO NÃO QUER DIZER
QUE REVISAR NÃO É IMPORTANTE, pois não adiantará nada entender o que é a, b
e c e não revisar, pois semana que vem (mentira, amanhã mesmo) você não lembrará.
As duas partes são importantes. Quem gosta de exatas tende a incorrer no erro de só
entender e quem gosta de humanas no erro de só memorizar. Ambos não aprendem, e lá
se vai nossa nota no PISA :/
Então, agora você sabe que, após entender algo, deve ler este conteúdo muitas vezes a
fim de consolidar as redes sinápticas, certo? Errado. Ler não serve. Lembra que
mencionei que deve ser dado um USO do conteúdo para o cérebro. Ler não é usar.
Você precisar USAR o conhecimento. Reprocessá-lo. Passar impulsos nervosos pelos
neurônios da rede sináptica envolvendo aquele conhecimento. Apenas ler (ou reler o
que escreveu) é precário e insuficiente. Se você ler em voz alta, pensar á respeito por
um tempo, já ajuda. Mas o ideal mesmo é fazer uma questão envolvendo o
conhecimento ou explicar para alguém (pode ser você mesmo). E, já que segmentamos
o conhecimento, cada segmento é uma informação a ser revisada. Isso é revisar. É assim
que se revisa: utilizando o conhecimento e o entendimento outrora manipulados,
entendidos e registrados. Ah, e esse processo é contínuo. Aquilo que você parar de
revisar, irá esquecer. Boa parte. Quase tudo. Há casos de pessoas que esquecem de
idiomas nos quais foram fluentes.

Acabou? Quase. Agora precisamos saber quando devemos revisar. É um processo


contínuo, mas seria impossível (e desnecessário) revisar tudo todos os dias. Porém,
revisar 1x/mês é o mesmo que não revisar e ter que re-entender o conteúdo do zero
na primeira revisão. As redes sinápticas desenvolvidas já terão sido destruídas em 30
dias.

3 - Hermann Ebbinghaus iniciou um trabalho no final do século XIX ao registrar o que


chamou de Forgetting Curve (curva do esquecimento). Este trabalho, realizado ao
memorizar palavras, nos mostra várias coisas. Boa parte delas já falei acima. O que
quero destacar aqui é justamente o que esta curva gerou posteriormente: a técnica da
repetição espaçada (SRS). Quando nos deparamos com uma informação (o processo de
entendimento descrito acima), nosso cérebro esquece ela logo, 1 ou 2 dias. Quando você
revisa, você retém essa informação por mais tempo. Quando você revisa de novo, você
retém ela por mais tempo ainda. Justamente esta é a realidade biológica do nosso
cérebro que dá base ao sistema de repetição (cada vez mais) espaçada. Eu sugiro a você
revisar o conteúdo no mesmo dia ("Aula dada, aula estudada. Hoje", Pierluigi Piazzi),
no dia seguinte, 2 ou 3 dias depois, 1 semana depois, 1 mês depois, 3 meses depois. E
depois seguir revisando de 3 em 3 meses.
(Fonte: https://www.instagram.com/p/B1wKdcgFWqw/

Agora você já sabe como entender, como revisar e quando revisar. Tudo o mais a ser
dito são dicas. E há várias: como fazer os intervalos, como evitar a procrastinação (foco
no processo vs foco no produto), uso de mnemônicos para realizar o "entendimento" de
informações acerca das quais não há entendimento*, entre outras. São dicas. São úteis.
Mas são baseadas no que eu elenquei aqui. Fazer só as dicas sem se dar conta de como
entender, quando e como revisar, é a mesma coisa que colocar uma cereja de bolo onde
não há bolo.

*qual a explicação que se dá para "azul", em inglês, ser "blue"? Existe? Existe. Há um
processo de formação das palavras, histórico, etc. Mas ele não interessa para quem quer
aprender a falar o idioma (os próprios nativos não sabem). Para esses casos onde não há
uma explicação, é possível (e muitas vezes indicado) utilizar mnemônicos. Nosso
cérebro trata eles como se fossem explicações.

Antes de encerrar, faço um acréscimo: você deve ter percebido que executar o SRS sem
um sistema automatizado não é algo fácil (embora seja simples), pois ficar gerenciando
o tempo de revisão para cada conteúdo, de forma independente, é muito difícil. Na
verdade, impossível. Mas com o auxílio da tecnologia, o gerenciamento do SRS fica a
cargo de um sistema e você só precisa de fato cumprir este gerenciamento (o método) e
realizar as revisões. Neste sentido, o PIOLET (Piolet - O app de educação com srs

e Piolet – Apps no Google Play

) é uma plataforma que atua em tudo o que foi descrito aqui:

1 - tudo que você insere se transforma em questões (justamente visando a posterior


revisão);

2 - o modo de inserir o conteúdo é feito de modo a estimular e facilitar a fragmentação


do conteúdo;

3 - as revisões acontecem de acordo com o método SRS, com alguns melhoramentos e


em forma de exercício, não apenas a mera leitura;

4 - é possível utilizar o celular para executar as revisões, o que possibilita estudar (a


parte contínua, ou seja, a revisão) a qualquer momento, em qualquer lugar.

Dois nomes interessantes a serem pesquisados acerca de aprendizado: Pierluigi Piazzi e


Barbara Oakley.

Muito obrigado pela atenção, e espero que façam bom uso das informações aqui
contidas.