Você está na página 1de 95

,, Roger Chartier

Cultura Escrita,
Literatura e História
Conversas de Roger Chartier
.:\;
'

com Carlos Aguirre Anaya,


jesús Anaya Rosique, Daniel Gofdin
e Antonio Saborit

Tradução:
ERNANIROSA
T
Consultoria, supervisão e revisão técnica desta edição:
Chartier, Roger
llZAJARDIM
C4B6c
Cultura escrita, literatura e história: Conversas de Reger Chartier com Carlos
Aguirre Anaya, Jesús Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. - Porto Professora da Faculdade de Educação da UFRGS.
Alegre : ARTMED Editora, 2001.

1. Ensino da Leitura. 1. Título

CDU 372.41

Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto - CRB 10/1 023

ISBN BS-7307-766-:

PORTO ALEGRE, 2001


Obra originalmente publicada Sob o título
Cultura escrita, literatura e historia: Coacciones transgred1das y hbertades restnng1das
. . . .

- Conversaciones de Roger Chartier con Carlos Aguirre Anaya, Jesús Anaya Rosique,
Daniel Goldin y Antonio Saborit
© Fe d o de Cultura Económica, 1999
n
ISBN 968-16-5974-0

Editor do texto:
ALBERTO CUE

Capa:
JOAQUIM DA FONSECA

Preparação do original:
ANDRÉ LUIS AGUIAR
AUTOR E PARTICIPANTES
Leitura final:
MARIA DA GLÓRIA ALMEIDA DOS SANTOS

Supervisão editorial:
MÔNICA BALLEJO CANTO Roger Chartier (Lyon, França, 1945). É diretor dos estudos em Ciências So­
ciais da École des Hautes Études, diretor do centro internacional de Synthêse­
Editoração eletrônica e filmes:
Fondation pour la Science e membro de diferentes conselhos editoriais (Studies
GRAFLINE EDITORA GRÁFICA
in Print Culture and History ofThe Book; In-Octavo; Iichiko; Maná; Estudios de
Antropología Social, entre outros) . Administra cursos, seminários e conferêÓ.ci­
as nas principais universidades do mundo, e recebeu as seguintes distinções:
Annual Award of the American Prinring fjistoryAssociation, Grancl Prix d'Historie
(Prix Gobert) da Académie Française: Corresponding Fellow of the British Aca­
demy. Entre suas obras destacam-se: Espacio público, críti.cay desacralización en
el sigla XVIIIhos orígenes culturales de la Revolución francesa; Libras, lecturas y
lectores en la sociedad moderna; Lecturas y lectores en la Francia del Anti.guo
Reservados todos os direitos de publicação, em lí ngua portuguesa, à
Régimen; Escribir las prácti.cas e Foucault, De Certau, Marin; e Historia de la
ARTMED� EDITORA S.A. lectura en el mundo occidental (em colaboração com Guglielmo Cavallo).
Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Santana
90040-340 Porto Alegre RS
Fone (51) 3330-3444 Fax (51) 3330-2378

::(•
Carlos Aguirre Anaya. Antropólogo egresso d& Escuela Nacional de Antro­
É proibida a duplicação ou reprodução deste vol��e, no to?o_ ou em pa�te, sob
quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletron1c?, �ecamco, gravaçao, pología e Histeria; pesquisador da Dirección de Estudios Históricos do INAH,
_
fotocópia, distribuição na Web e outros), sem perm1ssao expressa da Ed1tora. da qual foi vice-diretor (1989-1995), e onde coordena o Seminario de Historia
Urbana. Foi assessor de pesquisa do Museo de la Ciudad de México (1996-
SÃO PAULO
Av. Rebouças, 1073 ·Jardins 1998). Autor de numerosos artigos e ensaios, entre suas obras recentes encon­
05401-150 São Paulo SP tram-se: "La cerámica y la ciudad: permanencias e innovaciones", La cerámica
Fone (11) 3062-3757 Fax (1 1) 3062-2487
en la ciudad de México (1325-1917) (Departamento del Distrito Federal, 1997);
SAC 0800 703-3444 "El centro - um espaço para todos", El Centro Histórico ayer, hoy y mafíana
(Departamento del Distrito Federal-INAH, 1997). Ministrou conferênci&s em
IMPRESSO NO BRASIL várias instituições, centros de pesquisa e universidades. É diretor da revista
PRINTED IN BRAZ/L
Historias, e fundador e editor executivo do Breve Fondo Editorial.
VI

Jesús Anaya Rosique. Editor, tradutor e pesquisador da indústria editorial e


da história da edição contemporânea. Em 1992, fundou a primeira pós-gradu­
ação de edição na América Latina, com apoio da Universidad de Guadalajara e
da Cámara Nacional de la Indústria Editorial Mexicana. Desde 1996 é diretor
editorial do Grupo Planeta no México.

Alberto Cue. Estudou história na Universidad Nacional Autónoma do Méxi­


co. Desde 1978 exerce seu trabalho como editor, ao lado do catedrático e tradu­
torWenceslao Roces no Fondo de Cultura Económica. A partir de 1989, colaborou APRESENTAÇÃO
em diversas editoras em tarefas relacionadas com a produção editorial.

Daniel Goldin. Estudou língua e literatura hispânica na Universidad Nacio­


nal Autónoma de México. Criou e dirige os programas de livros para crianças e
jovens, e de formação de leitores do Fondo de Cultura Económica. Pela capacidade de unir a reflexão metodológica e teórica com uma rigorosa
investigação empírica em um campo que por si mesmo convoca a diversida�
Antonio Saborit. Realizou estudos de literatura inglesa e história na Facul­ de de ciências sociais, Reger Chartier é, além de um pensador�chave para o
tad de Filosofia y Letras da UNAM, e de realização cinematográfica no Centro estudo da cultura escrita, uma presença seminal no panorama contemporâ�
Universitario de Estudios Cinematográficos. Escreveu numerosos artigos, pró­ neo das ciências sociais.
logos e ensaios sobre história cultural e literária para diversas publicações peri­ Desta vitalidade falavam as numerosas traduções de suas obras para o
ódicas e livros coletivos e próprios. Editou, entre outros: Todo es historia de Luis espanhol, mas principalmente a grande diversidade de seus leitores: histori­
González y Gonzáles (Cal y Arena, 1989); Cuando éramos menos de Renato adores, antropólogos, sociólogos, críticos literários, pedagogos, literatos ou
Leduc (Cal y Arena, 1989); Una mujer sin país. Las cartas de Tina Modotti a editores. r
Edward Weston (Cal y Arena, 1992), e Crónicas desde la cárcel de Heriberto Frías Esta oõra tem sua origem em um encontro do autor, um historiador
(Breve Fondo Editorial, 1995). É coordenador do Seminario de Historia de la francês, com quatro leitores mexicanos, com diferentes formações profissio­
Cultura Nacional de la Dirección de Estudios Históricos do INAH, da qual foi nais, para quem a obra de Chartier foi fundamental, e está destinado aos
titular entre 1989 e 1995. É vice-diretor da revista Historias, membro da mesa seus leitores, àqueles que queiram se aproximar pela primeira vez da sua
dir<tora do projeto Recovering the U. S. HíspanicLiterary Heritage (Universidade obra e a tatta pessoa que tem interesse em compreender, de uma maneira
de Houston), fundador e editor executivo do Breve Fondo Editorial, membro do mais profunda, a cultura e, especificamente, a cultura escrita.
conselho editorial das revistas Biblioteca de México e Memoria. Fellow do pro­ Como a própria obra de Chartier, este livro exige do leitor atenção,
grama "Friends of the Princeton University Library'' (1998-1999). reflexão, análise, releitura. Neste sentido, não é uma leitura fácil, mas, sem
dúvida, é uma experiência estimulante e enriquecedora. Chartier é um pen�
sador rigoroso e, simultaneamente, de grande generosidade.
Ao final falamos dele como arquiteto de sua própria obra, e de sua
preferência pelas pequenas construções frente aos grandes monumentos. Tam­
bém como urbanista, quer dizer, como um artista que planeja espaços para
que outros construam, vivam e convivam. Ao escrever estas linhas, volto a
sentir isso. Penso que nesta obra há material para iniciar ou prosseguir muitas
outras. Espero que alguns leitores encontrem nela alento para continuar ou
aprofundar a compreensão da história da cultura escrita em nosso idioma.
APRESENTAÇÃO
VIII

Isso era parte do que buscamos ao convidá-lo. Estou certo �e qu:, para o
leitor que tiver o primeiro contato com Chartier, a marca sera, mdel�vel, P?�. s
jamais poderá voltar a se aproximar de um livr? sem sen�r que es:a partlcl­
pando em uma longa e complexa cadeia de praticas . e objetos, �ultas vezes
.
esquecida, em que nós, humanos, temos buscado e gerado sentido, diferen­
ciando-nos e criando uniões, exercendo poder e questionando-o.
Esta obra não teria sido possível sem a valiosa ajuda de Alberto Cue,
outro leitor de Chartier e um colaborador esmerado e atento. Quero deixar
registrado nosso agradecimento.
PRÓLOGO
Daniel Goldin
Os antigos não professavam nosso culto ao livro; viam no livro um sucedâ­
neo da palavra oral. Aquela frase que se cita sempre - Scripta manet
verba volant - não significa que a palavra oral seja efêmera, mas que a
palavra escrita é algo duradouro e morto. Em troca, a palavra oral tem
algo de alado, de leve; alado e sagrado, como disse Platão. (Jorge Luis
Borges. Borges oral, "El Libro", 1978.)

Como as aptigas comédias espanholas, este livro desenvolve-se em cinco jor­


nadas, que constituem o rastro escrito (e agora impresso) das extensas con­
versas que mantive com quatro amigos mexicanos: Carlos Aguirre Anaya,
Jesús Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Sal:Íorit.
A e�eriência foi magnífica e difícil para mim. Magnífica, pois permitiu­
me confrontar meu trabalho e minha reflexão com as preocupações, as inquie­
tações e as perguntas guiadas por outras referências e outros conhecimentos
distintos dos meus. Difícil, pois o diálogo (sobretudo quando implica o uso de
uma língua estrangeira) está sempre ameaçado pela imprecisão ou a repeti­
ção. Mas valia a pena correr o risco, já que nossa obra, em sua própria forma,
ilustra duas idéias que me parecem fundamentais para compreender a cultu­
ra escrita em sua complexidade e em sua história.
Antes de tudo, mais ainda que em outros, um livro baseado em uma
série de conversas supõe uma multiplicidade de mediações e de intermediári­
os entre as palavras enunciadas e a página impressa. Em nosso caso, a própria
construção desta obra exigiu a capacidade e o cuidado de todos aqueles que
contribuíram em suas diversas etapas: o registro das mudanças, sua transcri-
X PRÓ LOGO PRÓLOGO X.l

ção, a correção do "manuscrito", sua releitura, a composição e a impressão, O tema fundamental da obra dirige-se a duas perguntas: como com­
e a edição. Não há melhor maneira de mostrar que os autores não escrevem preender _ as mudanç_as da cul�ura escEita em uma perspectiva de IOniá du­
os livros, mas que estes são objetos que requerem numerosas int�rvenções. raç��:? ��?.- �-�tuai a literatura na base do conjunto de discursos que Uma
Conforme o tempo e o lugar, estas não são idênticas tampouco os papéis se sociedade pr?.��� e recebe? Estes serão os fios condutores ao longo de
· ·

distribuem de igual maneira. Desde meados do século XV, os processos de nossas jOrnadas.
produção do livro impresso mobilizam os conhecimentos e os procedimen­ Em nossa primeira jornada, tentamos sublinhar e datar, a partir dos
tos de todos os que trabalham na oficina tipográfica (editores, revisores, inquietantes diagnósticos acerca do presente, as principais mudanças que
linotipistas, impressores). Surge assim, com a multiplicação de manuscritos em diversos momentos transformaram a própria forma do livro ou do objeto
que descansam no trabalho dos copistas e difere da fabricação do livro no escrito, as técnicas de produção e reprodução dos textos, as _modalidad�� qe
Oriente, na China e no Japão, que até o século XIX ignora o emprego maciço �.ua _"publicaçãC?" e as práticas de sua leitura. SemelhantePérspe�tiVa, que
.
de caracteres móveis ao depender do trabalho dos calígrafos, que copiam o feliZiii.êrite atravessa os séculos, permite identificar as revoluções mais es­
texto, e do dos gravadores, que o dispõem em pranchas de madeira que senciais da cultura escrita e dar um lugar mais justo, mais importante e me­
servem para a impressão. As técnicas mudam e, com elas, os protagonistas nos heróico à invenção de Gutemberg.
da fabricação do livro, mas permanece o fato de que o texto do autor não Após a perspectiva de longa duração, vem o inventário dos lugares. Em
pode chegar a seu leitor senão quando as muitas decisões e operações lhe nosso segundo diálogo, esforçamo-nos para delinear o mapa da história do
deram forma de livro. Não dá para esquecer isto ao lê-lo. livro, entendendo em duplo sentido - os antigos espaços da produção e a
Esta obra deseja mostrar o corte que sempre separa a palavra viva do circulação dos impressos e a geografia contemporânea - a disciplina que os
texto escrito. O projeto não carece de paradoxos, pois somente devido à sua estuda. Semelhante enfoque introduz, necessariamente, uma dimensão com­
transcrição pode o nível oral deixar um rastro que possibilite sua difusão. parativa em nossos diálogos, convidando assim à reflexão em torno das evo­
Apesar desta traição obrigatória, pôr em forma escrita - e, no caso presente, luções paralelas ou discordantes entre o Velho Mundo europeu e o das
na de publicação impressa - não apaga nunca de todo o que há de específico sociedades americanas. Deste modo, ensaia-se uma reflexão comum em tor­
na prática oral_: um encadeamento mais espontâneo das idéias, um temor no dos marc<JS territoriais e cronológicos mais pertinentes para a história da
menor às digressões e aos rodeios, uma expressão menos restrita das opiniões edição, do liVro e da leitura na América - por exemplo, no caso mexicano.
e dos pensamentos. As duas jornadas seguintes tentam situar os diversos usos estéticos, pri­
Daí, talvez, o interesse por tentar, como aqui se faz de alguma maneira, vados ou públicos da escrita e, depois, da impressão. Desejamos mostrar o
voltar a uma velha questão: a da impossível e, portanto, necessária fixação que um enfoque que restitui o papel do leitor e da leitura, seguidamente
das palavras, que, em sua forma oral, desaparecem tão logo são pronuncia­ ignorado pm. crítica literária, pode trazer para a compreensão das obras,
das. Esta contradição foi compartilhada no passado por todos aqueles que se incluindo as mais clássicas e canônicas. Em sua conferência pronunciada em
esforçaram por reproduzir e transmitir as palavras ditas pelos comediantes 1978, Jorge Luis Borges indicava com sutileza que um livro só adquire exis­
em cena, os pregadores ou os professores desde o alto de seu estrado, ou tência quando tem um leitor que o lê, e que seus significados mudam com
inclusive os legisladores ao deliberar nas assembléias. Capturar as palavras suas leituras:
ao vivo conduz inventar os sistemas para transcrever e preservar na escrita
O que são as palavras postas em um livro? O que são esses símbolos mor­
sua força viva: estes desafios não são próprios de nosso presente. Alimenta­ tos? Nada absolutamente. O que é um livro se não o abrimos? É simples­
ram a redação de numerosos textos, dirigiram a invenção de novas técnicas, mente um cubo de papel e couro, com folhas; mas se o lemos acontece
de escritas rápidas no registro sonoro, e ligaram duradouramente certos gê­ algo estranho, creio que muda a cada vez. Heráclito disse (o repeti dema­
neros (o sermão, o discurso, a cena dramática) com a oralidade, embora nos­ siadas vezes) que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Ninguém
sas palavras tenham sofrido mudanças ao serem transcritas na tentativa de se banha duas vezes no mesmo rio porque as águas mudam, mas o mais
tornar possível a comunicação, esperamos que tenham conservado algo da terrível é que nós não somos menos fluidos que o rio. Cada vez que lemos
liberdade original que tiveram. um livro, o livro mudou, a conotação das palavras é outra.
XII PRÓLOGO PRÓLOGO XIII

Daí a necessidade1 para o historiador, de refletir sobre as fontes e os cidades, as normas e os gêneros. Contra uma visão simplista que supõe a
meios que permitem abordar este ato sempre efêmero e misterioso que é a servidão dos leitores quanto às mensagens inculcadas, lembra�se que a recep·
apropriação de um texto. ção é criação, e o consumo, produção. No entanto, contra a perspectiva inver­
Ao poder poético e secreto do livro se acrescenta outro, público e crítico, sa que postula a absoluta liberdade dos indivíduos e a força de uma
que foi objeto de nossa quarta jornada. Para os homens do Iluminismo, o imaginação sem limites, lembra�se que toda criação, toda apropriação, está
surgimento da opinião pública supôs a circulação do escrito, o intercâmbio encerrada nas condições de possibilidade historicamente variáveis e social·
epistolar, a leitura crítica, a formulação de juízos. A partir deste momento mente desiguais. Desta dupla evidência resulta o projeto fundamental, que
fundador, as diversas modalidades de constituição e de controle ·da opinião acredita descobrir corno, erll contextos diversos e mediante práticas diferen�
são sucedidas pelas novas práticas de leitura instauradas pela Revolução Fran­ tes (escrita literária, a operação historiográfica, as maneiras de ler), estabe�
cesa e, mais tarde, pelas transformações da imprensa jornalística na segunda lece·se o paradoxal entrecruzamento de restrições transgredidas e de
metade do século XIX. Esboçamos aqui o inventário. liberdades restringidas,
Esta constatação só pode conduzir-nos ao exame do presente e a uma A segunda trama de nossas conversas surge de uma interrogação sobre o
apreciação mais rigorosa dos efeitos produzidos pela revolução do texto ele· próprio papel dos participantes das ciências humanas e sociais em nossas
trônico sobre as práticas, os usos e as concepções do escrito. Como pensar, sociedades. À distância do velho modelo de moderado afastamento do mun­
nesta nova economia da escrita, a criação estética, a identidade do texto, a do, mas também da figura do intelectual profético, o que buscamos conjunta�
submissão ou a liberdade do leitor e, finalmente, a definição do espaço públi­ mente é algo diferente: quais são as condições para que os conhecimentos
cO e a -relãção êbm ós podere;;'? Ésta é a questão fundamental que nos tem particulares, de análises especializadas, possam procurar os instrumentos crí­
reclamado como leitores, intelectuais e cidadãos. ticos e os modos de inteligibilidade aproveitáveis para compreender melhor
Não é próprio de uma boa comédia concluir sem um epílogo destinado a as realidades do presente, seguidamente cruéis ou inquietantes? Um projeto
captar a benevolência dos espectadores. Assim é este livro, que se encerra assim explica porque nos mais diver$OS momentos deste livro discutem�se os
com uma reflexão em torno da maneira, ou melhor, das maneiras de escrever conceitos e as categorias de análise (apropriação, aculturação, representação,
a história e em torno da responsabilidade própria dos historiadores. Se estes etc,) capazeTde deslocar nosso conhecimento do passado e fundar uma visão
compartilham com os romancistas as figuras retóricas e as formas narrativas mais lúcida acerca dos tempos que vivemos.
que organizam todos os relatos, quaisquer que estes sejam, de história ou de Ficaríamos alegres se este livro, a muitas vozes e a muitas mãos, pudes·
ficção, sua tarefa específica é propor um conhecimento adequado do que fize­ se contribuir para realizar esse exercício de lucidez. ·
ram - as maneiras de atuar e de pensar, de ler, escrever e dizer- os homens
e as mulheres do passado. Este conhecimento não carece de importância pois
é capaz de revelar as falsificações que os poderes querem produzir, assim Roger Chartier
como de destruir as falsas idéias que alteram nossa relação com a história.
Esta exigência de um conhecimento fundamentado e crítico animou cada um
dos protagonistas destas conversas a tentar fazer mais inteligível a revolução
da cultura escrita que vivemos, apesar de não se ter sempre urna exata per·
cepção de suas dimensões.
Ao reler estas conversas, pareceu·me que as tramas lhe deram sua coe·
rência. Antes de mais nada, uma idêntica forma de pensar a criação literária,
o trabalho do historiador e as práticas do escrito é o que conferiu unidade a
nossos diálogos. Em cada caso, o importante é compreender como os signifi·
cados impostos São transgredidos, mas também como a invenção - a do
autor ou a do leitor - se vê sempre refreada por aquilo que impõem as capa·
SUMÁRIO

AUTOR E PARTICIPANTES................................................................. V

APRESENTAÇÃO ............................................................................... VII

PRÓLOGO . ... .. ........... ...................................... ................................... IX

Primeira Jornada
A CULTURA ESCRITA NA PERSPECTIVA DE LONGA DURAÇÃO....... 19
Por qu� a história do livro? ....................................................... 19
Crise do livro e da cúltura escrita.............................................. 20
A crise da leitura: os discursos e seus produtores ..................... 24
A biblioteca universal: sonhos e pesadelos ................................ 27
Do lilml à leitura ....................................................................... 29
Gutemberg reconsiderado ......................................................... 34
As revoluções da leitura ............................................................ 37
Do rolo ao códice ............ . .... . ...............................................
. . .. . 43
Figuras do editor ....................................................................... 44
Editor e publisher .................................................. .......... ........
. . 46
O autor e o editor ...................................................................... 50
Copyright e propriedade literária ................... ........ ............ ....
. . . 51
Notas ....... ........... .................. .................. ........... ........................ 55

...._
__ __,,_.. " ..--·--·---------- --·-·-
Segunda Jorna da Quinta Jornada
OS ESPAÇOS DA HISTÓRIA DO LIVRO ............................................ . 57 A REVOLUÇÃO DO TEXTO ELETRÔNICO ......................................... . 139
A história do livro: centro e periferias ...................................... . 57 A leitura: hábito ou interiorização .......................................... .. 139
Livros, revoluções e colonização .............................................. . 62 A Bi"blia e as imagens: protestantismo e catolicismo ............ ... .. 140
Apropriações e traduções ......................................................... . 66 O texto como imagem ............................................................. .. 142
Para urna história do livro no México ....................................... . 69 Frente à tela ............................................................................. . 144
O que é a contemporaneidade? ................................................ . 71 A forma e o sentido ................................................................. ..
147
Livros e educação ..................................................................... . 73 O texto na idade da representação eletrônica .......................... . 148
O papel dos intelectuais .......................................................... .. 79 Escrever e ler no século XXI .................................................... .. 150
Notas ........................................................................................ . 81 Disciplina e invenção, distinção e divulgação ......................... .. 154
O leitor e o_ poder .................................................................... .. 156
�r A legibilidade do mundo ......................................................... .. 157
Terceira Jornada Notas ........................................................................................ . 159
LITERATURA E LEITURA .................................................................. . 83
Práticas da oralidade e cultura gráfica ..................................... . 83
O historiador e a literatura ...................................................... . 88 Epí l ogo
Moliêre e Shakespeare em seu tempo ...................................... . 91 AS PRÁTICAS DA HISTÓRIA ............................................................ .
161
O rei e o poeta ......................................................................... . 96 A história das práticas culturais .............................................. .. 161
As fontes da história da leitura ................................................ . 99 Diálogos ................................................................................... . 164
Palavras de leitores .................................................................. . 101 Deslocamentos ;.;
········ .
···· .......................... ................................. 165
Literatura e sociedade ............................................................... 104 Micro-história e macroantopologia .......................................... . 167
Iluminismo e Revoluç�o, Revolução e Iluminismo ................... . 107 A história, entre a narração e o conhecimento ................. ....... .. 169
Notas ........................................................................................ . 110 Qual retorno ao político? ........................................................ .. 171
A construção conflitante de sentido ........................................ .. 174
História, falsificação e ficção .................................................... . 175
/Ó u. a r t a Jo rn ada Estilos historiográficos ............................................................. . 179
.
' PRATICAS PRIVADAS, ESPAÇO PUBLICO ........................................ . 113 A ilus� autobiográfica ............................................................ . 182
O poder do livro ....................................................................... . 113 Notas ....................................................................................... .. 185
Aculturação e apropriação ....................................................... . 115
Entender a Revolução .............................................................. . 117
A . ieit:üra · ·reVolucionada ........................................................... .. 120 Apêndice
Definições da opinião pública .................................................. . 123 BIBLIOGRAFIA DE ROGER CHARTIER .............•................................. 187
Da descrição do presente à invenção do futuro ........................ . 126
. .'--�--
1
Invenção do jornal ................................................................... . 128
.,.
A ordem dos livros ................................................................... . 132
' ·')
Evento e monumento ... . ........................................................... 135 .,
'(",
.

Notas ....................................................................................... .. 137


T
Primeira Jornada

A CULTURA ESCRITA
NA PERSPECTIVA DE
LONGA DURAÇÃO

POR Q U E A HISTÓRIA DO LIVRO?


.,
JEsús ANAYA ROSIQUE: f'
Gostaria de começ /-;:�;;,'uma t,érgunta uito simples:
por que a história do livro, da edição, Q.a leitura J dos�eitores?/'
,
ROGER CHARTIER: Sim, por que faz os ·sfo hoje•em-<11a? Por que a im­
portância c �.pcedida à história do livro, da leitura, dos leitores? Isto acont.� ce
.
em um morflento em que os discursos mais coryunSvep am sobre a perda
-
deste mundo de objetos: o livro impresso, ou das :Práticas,,ffieste caso a ·iêitura. '
Parece-me que a reflexão histó��ca. ou socihl_Qgi.c:i' ou filosófica ·que· se
dedica ao tema daJeitura, do livro, �ós _suportes dos textos, pode ser vincula­
da a este' prese11te talvez para corrigifC;:s·díagnósticos mais sombrios. Apesar
'r
de ser veãadéira a concorrênCia erit[�,.qo_e..a tela (algo comum hoje em
.�
dia), há uma resistência, uma presença, não sód.Os t�xtos impressos como
também . dos textos em geral, porque os novos meios de comunicação são
,suportéS Pàra a comunicação tanto de textos como de imagens. Parece-me
" .
que·dêVemos nos distanciar um pouco da perspectiva à maneira de MacLuhan,
em que se supõe que há uma concorrência entre o livro, que significa os

[ textos, e as telas do cinema e da televisão, que significam imagens. Nas novas


telas - as dos compUtadores - há muitos textos, e existe uma possibilidade
c-;ria de uma nova forma de com�ÍcaçãÔ· q�e. se articula, agrega e vincula
textos, imagens e sons. Assim, pois, � cultura teXtual resiste QU, melhor dito,
se fortalece,\no mundo dos novos meiO"S de comunicação. ;. 1
·�.. . ·-., '·
·
20 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 21

Esta é uma primeira razão para recusar, corrigir ou matizar os diagnós� cação, mas que se inscreve na defasagem entre um mercado insuficiente ·e a
ticos que seguidamente se fazem acerca do presente. Outra razªº,_acredito, é capacidade de produção de novos livros, multiplicada pelas novas técnicas de
o �gfSi:ro h��.QrtS9.. C;le todos os critérios, conceitos e<rry�·�SeÊ.�!:�<?9' que se impressão e composição como a linotipia e a monotipia. Mas esta crise do
{) tem em relação . à Cultura escrita de nosso tempo, pois acontece· como se a,s final do século XIX indica algo mais profundo, que ocorre quase q"tiedesde�Õs
categorias que utilizamos espontaneamente fossem categorias inVai{ávefs, �ni­ pnmeírõS-11.V!Õs-iãiPressos, frente a pensamentos contraditórios sobre a cultu- e
versais. Certo, o livro existe desde a Antigüidade, mas não da mesma forma. ra escrita. Há o temor à perda, o que faz com que no século XVI se recolham .
O mesmo acontece com a Fa:teg�iri'!-__g_�J�Itl;JX�i:Jler silenciosamente, nà soli­ os textos ma���SJJ!<?ê.,�--�-�, �:Yt�Jpliqu�.
- m impressos .. assim fi�á-108
. - ...__ para . . . e�J:êS-
dão, embora seja em um espaço público, nem sempre foi uma prática com­ gata-los do esquedmento. _ Estabelecem-se as edições mais corretas possíveis
partilhada. E o mesmo acontece com a categoria de autor. Para nós, um texto côfu-áldéiã"de CorriPOr' e "depois conservar um patrimônio escrito, que com o
. . .. .
�---7-'"·-·--· ··-· - - ,, ' ' .. ,,.,,_�-- .

literário identifica-se em primeiro lugar com um nome próprio, tem um autor, manuscrito sempre corria o risco de desaparecer. Essa primeira idéia de con­
se bem que não é o caso para todos os textos, nem sequer em nossa sociedade servação fundamenta até agora a vontade de manter na dimensão mais minu­
, -por exemplo, uma publicidade não tem autor, um texto legislativo não tem ciosa possível o patrimônio escrito. Por outro lado, existe o temor ao excesso,
l autor. Um texto jurídico funciona sob um regime de identificação que não se o temor próprio de uma sociedade completamente inVa:didá-pOi- seli'pât"ri�ô­
\ vincula à figura personalizada que se expressa por meio do nome do autor. nio escrito e pela impossibilidade de que cada indivíduo maneje e domestique
Livro, leitura, autor. Parece-me que muitos dos trabalhos históricos con­ esta abundância textual. Daí começam, me parece, todos os esforços para
temporâneos mantêm uma certa distância em relação a esses conceitos es­ classificar, organizar, escolher e estabelecer, dentro desta,minudência·inquie­ -
pontaneamente utilizados e possibilitam pensar, de maneira diferente, o tante, possíveis usos. O ensino, as bibliotecas e os sistemas de classificação
passado, embora também o futuro, pois o que consideramos irrefletidamente são os instrumentos para controlar esse medo de que se multipliquem os tex­
como im�diato ou necessário, P�..?..�CJ:�lati>::iz�49 se_ for s�tua_QQ.J�m uma tos, de que, finalmente, se transformem em. um. e _xces,so perigoso e temível. É 1
trajetória _ci_e. �Ç>p.ga duração. Talvez o interesse que desperta em muitos de nós muito forte a contradição entre � obsessão da perda,:que requer a acumula- f.
este� campo de estudo, seja explicado pelo fato de que se trata de uma refle� çãO,ê a P.��º_ç_t,IJ1{lÇ,ã.() p�.!9 . �x.:�e.�_s_ 9:� · q��eXlg.e:�elecionar e escolher.
, xão um tanto distinta �-�§.9-�r�g__ dqs_.meiqs de comunicação �obreª_ç;qnçQt;-
l

_ _:��-����_:_�i::.�!�-������-���:�!fnS_��ssão dos textos, i�essos ou não. E


ê:t
.

/h/�não
ÀíiAYA: Teria isto alguma relaÇão co� o q�e. �Qê€ -COlOcá Tto vOlume V da
devemos esquecer que e uma( visão realmente histórica.· Co que significa
História da lida privada naforma de duas polarizações, a da cultura letrada e a

agarrar-se às descontinuidades, difhen'ças e discrepándas) que permitiria ter


da cultura populci.�· . quando fala dos movimentos revolucionários populares do

uma idéia mais complexa e, talvez, mais adequada do passado, para se apro-
século XVI, onde o�: escritos são. destruídos porque sêf,o vistos como umq força yY1

ximar do futuro com maior força de invenção e imaginação.


inimiga e, por_?!-{..tfO lado, quando os letrados mostram seu desprezo pelos textos -

CHARTI�R: Sim. Podem ser analisadas de maneira mais precisa estas ex­
impressos,"" livros impressos, por considerá-los como urry.a vulgarização? A ,t.
-·-. ·

ceções que at�avessam a sociedade ocidental. Por e"xemplo, há uma forte so- I
_·br.emvênci<.\ da ci �culação manuscrita �oS' textos até o século· xV:m e _ tàl:'{ez �
_
CRISE DO LIVRO E DA CULTURA ESCRITA

ANAYA: Algo me chama a atenção. O conceito de ucri.se do livro" aparece- e você


CHARTIER: Sim. Há duas maneiras de ver este problema. A expressão
a menciona - no final do século XIX, especificamente em 1890. ��n�������;���:��i�i�!l��J T;Ji�i�i� � !��62!�J
texto impresso.
� '-
: )�� 1�
"�J.i�S(����� �90, �uando a idéia de uma super­ Contudo, o fundamental é ver, por um lado, como a cultura impressa
produção de livros estava muito prese"il.teerifre os editores, observadores e estabelece-se de maneira muito profunda no mundo do texto manuscrito (este
jornalistas, como se o mercado que cresceu na segunda metade do século XIX é outro tema que podemos discutir mais tarde), e, por outro, ver como a
não fosse suficiente para absorver a produção nos últimos 10 anos desse mes­ circ���ção dos ma�uscritos tem seus próprios valores, sua própria lógica. So­
mo século. Não se trata de uma crise em relação aos outros meios de comuni- bre isso se pensa imediatamente nos textos proibidos, nos manuscritos filosó-
,/

./
22 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA

ficos dos séculos XVII ou XVIII, nos livros de segredos ou nos livros de magia. que proporciona as raízes de movimentos como a Guerra dos Camponeses. É
23

Mas além desse vínculo entre o manuscrito e o segredo ou o perigo, há gênew a razão pela qual Lutero, quase na metade da década de 1520, realiza um
ros literários clássicos para os quais a antologia ma crita é uma forma ordiw movimento retrógrado - publicando os catecismos. Estudos recentes mos­
nária - por exemplo, a poesia. tr.aram,que no luteranismo a Btôlia n��o era o livro de cada um: era o livro do
Há gêneros que encontram um mercado, mes um mercado restrito e
J past�r�, Ó livro dos candidatos a precep-t·OréSêdéSiãStiCó�Çól.i"o liVro da paró­
f))'>l'·� escolhido po ·o da forma ID?JlUScrita. Por exemplo, as gazetas manuscri-
� quià_ óu do templo. O fundamental é a mediação do catecismo entre
o texto
;> tas do sé�ul X\/Iii:)}ue podiam rea�_�r . ID'!_is: �apidamet:ttêJtoS�áCOD.teéimê -iít���
,Att1'

sagrado e a interpretação dos fiéis; e observa-se, talvez de maneira parado­


_
definindo, á 'Siíii� 'Um público seleto. Há util·modelo··átiStocrático da escrita, xal, que no século XVI e ao longo do XVII; até a segunda reforma da década
que vai do século XVI ao XVIII (e que poderia ser chamado de gentleman de 1680, há mais �roxifl_lt_çl�çl�.en_çr� o catoliciSJ:lOl e o luteranismo que entre
writer, de gentleman amateur), que S�E�__co!ll o._Ip._ _ �n�- .s��!_t_� h� �<?._n- o luteranisrri"à e as otit:ras formas da RefOima (cà.lVl:O.ismo, puritanismo, pietis­
..J-·1-' tr��gw.t��....P��- . �-�? �uto�, so�re a_forn:ta de sua obf� e sobre o mo), que consideram a Bz'blia como o livro fundamental da leitura coletiva
-
p úblico,_p__gj§_q_ �::�anus��ito -�ircul�" em g�ral �enn:o de um meioyla��õifffie- familiar e pessoal.
..

11,·-�� -;\r �_b..o_mgg_êneo;�-Os-1�it_q_r€:s .�ão autores potenciai�. e, desta maneira, existe


'

QJ� �;, ;,�t.�t:: Parece-me que a atitude de Lutero exemplifica essa obsessão pela cor­
2

f.?<_\. um control_e..implícíto sobre a interpretação; acredita-se que as intenções do rupção do texto, pela falta de controle da leitura devido à circulação do livro
.
texto podem ser decifradas corretamente por leitores que comparti1ham o impresso, frente ao livro manuscrito que, em troca, permite manter a comuni­
., '' ; mesmo modelo cultural, a mesma comunidade de interpretação que o autor.
,e

dade de interpretação entre o autor e o leitor. Este é o tema do livro de um


,.
•l

-J:/i/.-r.\�_�)., Isto pode ser observado no século XVI. Sobre isso existe um famoso artigo de colega inglês chamado Harold Lave (1993).' Ali se descrevem todas as for­
. '/' Francisco Rico sobre a "edição" manuscrita do Lazarillo de Tormes. Ainda que
1-�·
mas da cultura do manuscrito na Inglaterra do século XVII, desde sua circula­
não tenhamos o manuscrito, a prova decisiva, todos os indícios textuais que çãolimitada a uma comunidade de interpretação até as formas comerciais da
._:.,

Rico sublinha em seu estudo acerca das edições impressas do Lazarillo levam "ediç.&9__:�.manuscrita. Além disso, t�J;llOS todos os est�dos feitos na França
,_ ""

a pensar que é plausiveLa hipótese de uma primeira circulação do texto em sobre a vinculação entre textos manuscritos proibidos ou perigosos.4 Estas
forma manuscritâ.l � observações acerca da sobrevivência do manuscrito coloca o tema do vínculo
A sobrevivência do manu!Íf:rito estabelece-se além disso com outra ob­ entre o podtr e a imprensa, e mais ainda, entre o poder e a escrita em suas
sessão: a \corrupção dos textos.. Com a iiJlpreii!)-� se amplia est� obsessão, que duas dimensões. Porque, como disse Armando Petrucci no título de um de
existia an't�s na relaç�� _entre ·autor f copista, 'mas que, posteriormente, se seus artigos, devemos distinguir entre o poder da escrita e poder sobre a
desenvolve Cl:e-man�ífa muito mais fo�e qua1_1.d6 se encontram �ois mundos: escrita.
o

por um lado, da escrita, do saber; do ib.tetéâmbio intelectua��_,das maneiras É pos.Wel observar o poder da escrita na obra Henrique VI, de Shakes­
honestas, da ética letrada, e, por outro, o mundo da ofic;ina tipográfica, que é peare, na qual uma rebelião popular é caracterizada por meio de sua rejeição
o da concorrência, do dinheiro, dos operários e das técnicas que 'transformam ao texto impresso (algo um tanto curioso porque é Um anacronismo terrível,
um texto·manuscrito em um objeto impresso, e que desta forma multiplica as pois a revolução de Jacke Cade sucedeu antes da invenção de Gutemberg,
oportunidades de leitura. Daí o risco da corrupção do texto pelos erros dos embora Shakespeare não tenha se preocupado muito com a cronologia neste
compositores, pela multiplicação das edições piratas e plagiadas, multiplica­ texto). Porém, mais do que uma rejeição à imprensa, é uma rejeição ao escri­
do por um capitalismo selvagem que tenta aproveitar o novo produto sem to como forma de imposição de uma autoridade: a do Estado ou a dos pode­
respeito ao autor nem à obra, e pelas más interpretações pois a grande distân­ rosos: Esta forma de rejeição da escrita poderia ser estudada em relação com
cia do escritor em relação aos leitores permite a liberdade na apropriação dos a iconoclastia, a destruição das imagens que impõem uma crença, uma auto­
textos. ridade, um poder (e infelizmente não há muitos estudos sobre o tema da
Observa-se isto em uma dimensão particularmente importante no cam­ "iconoclastia escriturai", se assim posso chamá-la, um tema de estudo muito
po religioso. O exemplo de Lutero é muito interessante. Ele publica traduções apaixonante). Não só se observa o poder da escrita em toda a escrita adminis­
em alemão da B{blia que, ao se difundir, permitem interpretações diversas, o trativa que os Estados produzem a partir de sua construção na Idade Média, e

---........... ________ ·--··-·----·


ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E H I STÓRIA 25

que controlam, vigiam e castigam, para citar Foucault, como também por
24

meio de formas mais imediatas como as escritas públicas que se exibem na


cidade. Há um livro apaixonante de Petrucci, intitulado La Scritura,5 que não
existe tanto uma preocupação com a saturação do mercado como com a dimi­

trata de todas as formas de escrita, mas apenas das escritas que ele chama
nuição dos leitoresfrente à concorrência dos meios audiovisuais.
ANAYA: Este é um tema para discussão...

"expostas". As grandes escritas�J)í$ráfic3S:\que se vêem na R��a antiga e que


aparecem - depois de seu esquecimento dura�te a Id?de Medta -como um
AGUIRRE: Bem, então a pergunta seria de quem surge, como se apresenta a
crise do livro no século XIX. E, em segundo lugar, talvez..ppssamos compçzrá-la

elemento de expressão do poder nas monarqmas da epoca moderna (século CHARtiER: Isso é importante porque as,tfrês obsessões)(perda, �xcesso)e
-
XVI a XVIII), são muito interessantes porque essas inscrições não podem ser corrupção/ não são temas abstratos e estão 'Vinculados--ábs ineios"(j_ue..t-r:aíls�
com a crii�, atual. ,r-- \ , ', '\

lidas pela maioria do povo por dois motivos: estão inscritas em latim e se -.-�item _g.a'i; ouvintes ou aos leitores. Parece�me que embora estas três obses­
:\

acham colocadas a uma altura que ultrapassa o olhar normal. Não podem ser sõêSêXistam de maneira mais ou menos permanente desde os séculos centrais
decifradas mas tornam visível o poder e delimitam um território marcado, da Idade Média, ao se desenvolver de novo uma cultura escrita ampla, seus
apropriad� pelo poder por meio da escrita. Aqui aparece uma �dimensã? �a produtores não são os mesmos em cada tempo. Assim, é claro que a definição
escrita do poder, ou do poder por meio da escrita, expressada nao no coti�la­ a-
de uma crise do livro como produção excessiva em relação com o mercado do
no da prática burocrática ou administrativa e de controle, mas na da domm final do século XIX vem do âmbito dos editores. É um tema diretamente vin­
ção simbólica da escrita. culado a seu temor econômico, pois a história da edição na França do século
, renc1as p�r�
O poder sobre a escrita é outro tema. Refere-se as concor XIX pode ser escrita como uma série de dificuldades, de falências, para os

definir uma norma de escrita, as formas de ensino . �a escrita , Os., usos legttl­ editores, Na década de 1830 e depois, nos anos posteriores a 1848, mais
" .

mos desta capacidade segundo.,os-�stamentos.D _ _\ l as Ca:nrad as sqci �js, ou-a-": particularmente no final do século XIX muitos editores desapareceram. Con­
divisão entre··os sexos. Segundo uma tradiçã o na cultm:a ociden tal,{\ mulher/ solidaram-se as editoras que tinham mais força, e que são as que vão dominar
devia saber ler) mas não ter a capacid ade de escrev� r-. leitur a é uni -veíe �tô o mercado da ficção a partir dos primeiros anos do século XX. A crise dos
,

transm ite em sua l it ra (ao me!f()_ S eo últimos anos do XIX é como um filtro que vai conduzir ao desaparecimento
que iJ:npõe y.rtia autoridade� o téxto C: � _
A

uma ordem , u � � tsc1phn a, uma fo ry a dos mai� fraros e ao fortalecimento dos mais poderosos. Toda a preocupação,
que pensam os produtores de texto) � _ rd_��e ao
de coação. Pelo contrário, escrita procur a a posstb üt��9. e dehb� todo o d1scurso, vem deste mundo da edição, cruzado pelas inquietações e os
or­
ser utilizada para comunicação, intercâmbio, possibilidade de escapar·da te' riscos que ameaçam as empresas.
a

dem- patriarcal, matrimonial ou familiar. Este é outro tema muito im�ortanto, � Parece�me que todo este discurso não tem as m:esmas raízes nos séculos
que até agora foi trabalh ado mais pelos estudio sos da ç:ul tura do man �
r-� XVII ou XVIIL-Neste1Íltimo não é um discurso dos editores;-� mais um discur­
_
mas que poderia ser estendido para o estudo da cultura Impressa. so dos letrmlos perteli'sentes aos meios cultos, dos autores cJ.ue se agarram à
corrupção dos. ��-�!OS ejque se perguntam como limitá�la. São eles que estão
obcecàdÔs pela perda dos textos e inventam'todas esté!-s-bibliotecas, imaginá­
rias ou reais, em--qüe vai se conservar a parte mà1s--anlpla possível do patrimô�
.

nio escrito. Aqui os atores que definem o discurso, que o difundem, que o
produzem, não são os mesmos. É uma questão que deve ser vista a longo
A CRISE DA LEITURA:
OS DI SCURSOS E SEUS PRODUTORES

prazo, mas não para dizer, como se faz algumas vezes, que a história é uma
repetição ou que há inconstantes históricas, porque os temas, embora fossem
Como sabemos, esta
CARLos AGUIRRE: Podemos voltar ao tema da crise do livro.

expressados da mesma maneira, têm sentidos muito diferentes segundo a


de livros, insufici��cia d�
se caracterizou, no século XIX, por uma abundância

configuração intelectual ou política nos quais se configuram.


-
rgrver�a-�
escrito e pela(te
leitores, preocupação pela conservação do patrimônio
pa-
que 0 autor propunha originalmente. Mas, de
�sta preoc�
(fãõ.do
)
quem nasce
o mundo dos ltvros
çãO ? São as pessoas que fazem os livros, as relacionadas com DANIEL GOLDIN: Neste sentido, volto à pergunta antes formulada por Car­
Ao mesmo tempo, podemos n�s los: qual é a relação entre a crise do livro que externam os editores no século XIX
e da leitura, ou são outros setores da sociedade?
ade. Acho que no presente nao
perguntar como se estabelece esta crise na atualid e a crise atual?
26 ROGER CHARTIER CULTU RA ESCRITA, LITERA TURA E H I STÓRIA

CHARTIER: Sim, mas antes teríamos que discutir como mudaram os pro­ man dos meios de comunicação e ao mesmo tempo
27

como um editor
dutores destes discursos em diversas configurações históricas. Para deslocar­ nal que escolhe textos e autores, e que se preocupa com sua difusã tradicio­
nos do século XIX para o presente, é .claro,que os atores do campo do discurso um modelo que se impõe. Uma exposição particularmente intereo. Há aqui
atual são, em primeiro lugar, os pedagogos �todo o mundo da escola e da Barcelona foi a de Bertelsmann, que falou durante uma hora comssante em
educação, que por sua vez lametltam um retrOcesso das capa���?es ou das autoridade para impor Uma imagem da nova empresa editorial, absoluta
práticas deJeitura e tetj(am levar a "cabo campanhàs ae aífabetiiãÇãO"iião minha opinião, multiplicou os medos dos editores tradicionais, que e que em
pens�ram
exêlUSiV��ente c�ffi. -o·s analfabetos, mas também com alfabetizados, para �ue �e veriam destruídos neste novo mundo. Era absolutamen� fascinante e
assim reforçar as. prát�_�a� .d.e leitura de pe$soas_que sabem ler, mas que não mqutetante obseiVar s�--medo, seUs temores, suas expectativas�
lêem. out!-OS âtoreSSãõ ·os editores� porque entre eles se desenvolveU um E há um terceiroj'Protagonista; que é o mundo dos autores, mund
novo temo�; que é o temor aos novos meios de comunicação e ao texto eletrô­ cultura literária, que S� preoc.�pa; por meio de ensai�'s.. ou_ da J>'besquisa o da
nico como uma ameaça à produção tradicional de livros. Por exemplo, em um estabelecer e situar de Õiàiieha correta o. que acontece em· ��ss6. em
dentro da perspectiva de longa duração. É o projeto a que pertenço . pres nte
congresso da União Internacional de Editores em Barcelona, em 1996, havia � que nos
em quase todas as exposições uma obsessão: como sobreviver em um mundo reúne nesta conversa.

em que a edição eletrônica vai ser a mais poderosa.6


·

/
ANAYA: E o mais curioso é que nestes últimos anos foram publicados mais
livros do que em toda a história da humanidade. Quer dizer; se revisamos as
.

CHARTIER: No presente, a tensão entre a obsessão ou a preocupação


A BIBLIOTECA UNIVERSAL: SONHOS E PESADELOS

pelo ex�
cifras de produção em títulos e exemplaress nunca na história da humanidade se '

cesso e a necessidade de uma recompilação do patrimônio escfito podem


havia impresso tantos livros. Alguém dizia que talvez seja um modelo exauridos

levar a posições diversas, a práticas diversas. Desde o século XVI toda a refle­
mas que está chegando a seu limite máximo.

xão sobre os instrumentos que perm,item a conservação e a orga�ização deste


GOLDIN: Chama-me a atenção que com freqüência os quefalan:t desta crise do

patrimônio sira em torno das bibliotecas (e agora também muitos dos deba�
livro sejam editores, uma classe nova de editores - os publisher businessmen. Eles

_ CHART�ER: Sim, mas interessa saber quem são os �rodutores dos �iscur- tes se referefn a elas), que são o receptáculo natural deste patrimônio escrito.
.
,se queÍXQ.[!l da diminuição de leitores como se fosse uma verdade incontestável.

soS que se a\ticulam ao redor de um tema como a cnse do livro. Alem dos Mas além das bibliotecas, temos todas as formas de produção escrita sobre
!pedagogos e �o mundo da escola, que lamentam a diminuição das capacida­ cultura escrita cuja intenção é esgotar essas formas: catálogos, bibliografias a
d�s ou das piáticas de leitura, existe o mundo editorial. Por um lado, o que todas essas coleções que no século XVIII, e mesmo antes, já entrando o séculoe
ch:aq1a a �teíÍ.ção é o fato de que este diagnóstico, que aponta como resultado XVI, se chamaram "bibliotecas" e que não eram lugares ou edifícios, mas
um desl�camento da edição tradicional pelo surgimento da edição eletrônica, coleções de autores, de títulos, de textos. Este é um �lemento que permanece
continue sendo formulado como uma pergunta. Os editores r�Petem a ques­ no presente pela figura da biblioteca como edifício, ou, de uma nova maneira,
tão, assim como a resposta de Umberto Eco, que é o autor e�pécializado neste pela figura universal de disponibilidade do patrimônio escrito graças às redes
� tipo de colocação. A resposta é: o livro impresso vai sobfeviver para certos eletrônicas. É o mesmo sonho de uma exaustão prometida que fundamenta
, usos, e para outros a edição eletrônica vai superar as formas tradicionais. os projetos da arquitetura das novas bibliotecas e os projetos do patrimônio
Aqui a pergunta nos leva a integrar dentro da reflexão profissional os discur­ escrito, acessível a cada um por meio de uma rede eletrônica, independente
mente do lugar. �
sos "científicos" que podem matizar ou escl.arecer o diagnóstico. E, por outro,
é interessante ver que há uma luta de classes entre os editores, por assim Algumas vezes, tem-se a idéia de que para resistir ao excesso (porque
a mesma coisa em uma biblioteca, onde todos os livros não podem ser lidos, é
dizer. Realmente, como podem os editores se adequar a este novo modelo de
editor? Nem todos têm o mesmo desejo nem as mesmas possibilidades para . ou frente à tela da rede eletrônica, onde não se podem receber nem manus
desempenhar este novo papel empresarial, que é ao mesmo tempo editor de : todos os textos acessíveis) são necessárias seleções e escolhas, por meio ear
í diversos discursos, dos textos considerados
de
livros impressos e editor de textos eletrônicos, que atua como um business- como os mais importantes. A idéia
ROGER CHARTlER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 29
28

DO LIVRO À LEITURA
da redução, desenvolvida por meio de todo o trabalho da construção dos
cânones dos textos clássicos, por meio da crítica (pela escola, pelos poderes, f..
ANAYA: Em relação a pergunta por que a história do livro?, lembro que Lucien
etc.), encontra uma forma radical no século XVIII com as utopias que encer�
Febvre diz no prefácio dessa obra seminal que foi E.Apparition du livre: "...propo­
raro em um livro todos os conhecimentos úteis, o que era a maneira radical de
mo-nos estudar nestas páginas a ação cultural e a influência do livro nestes
se distanciar da acumulação. Existiam aqueles livros chamados "extratos" ou
últimos 400 anos. .. "8 e encontro um modelo que me parece muito semelhante ao
"espíritos", na acepção alquímica de quando se extrai uma essência ou um
. \
perfume. Estes pequenos livros tentavam extrair o mais útil da acumulação
�ivresca. �\ll outra oportunidade comentei um texto utópico, que é mais uma
t�

que você propõe no posfácio do quarto volume da Histoire de l'éditionfrançaise,9
�--qu€""' / esta ,tr_íplice interslcção, riru�o iltt;ttrativa se observarmos as distintas
_ na d ltvro,
da ISto _ e�tr� texto�VJe_ t_9 (neste . caso o livro impresso, embora
tucronia, l� Luis-Sébastien Mercier. Em O ano 2440, por um lado, há uma �
ftr:.
P dgsse os mencwnar tambe- .
-. m.---a-fa.sh:(u.f?.. vem, a . do--i_ivro em outro formato
f,mensa , gueira de todos os livros inúteis que são os romances ou os livros ..
aind� transitório na ediç�o �letrôn�ca) e áticas cultu�9-is (as leituras e os uso;
pie sos, etc., e, por outro, a biblioteca do rei, que tem unicamente os livros
dos livros por parte dos drstmtos lettores). Esêe-mOO:el6 me parece também equi­
úteis que são resultado do processo de escolhas dentro de uma acumulação,
valente à história do livro que propunha Robert Darnton em What is the History


agora inútil.
of Books? ,10 na qual os livros impressos fru;em parte de um circuito de comuni­
O livro que deve ser queimado é outro tema interessante. Para terminar
cação que vai do autor ao leitor e que tem como principais estações intermediá­
com este assunto, da queima de livros, menciono que um colega espanhol lhe
rias editores, impressores, livreiros e bibliotecários. A história do livro da leitura'
dedicou um pequeno ensaio, pois há dive�saS·-m iras de pensar a queima concebida como parte do processo de comunicação social.
'

de livros:7 a repres·s�o�- a -!?-quisição, os a�tos �e fé, supressão de �udo o �ue


. .CTOLDIN: Eu tenho es.t(l preo_c1,1paç�o: a história. do··1ivtd, cOnforme aVança,
é perigo�o··para a fe e, por, .outro lado, c1: queima orno uma técmca rad1cal ,.- . _

St ��!!.ve�t�_!_f!!: '-!_1!9!- -_�-����!:: �a ���tur:a_elambém em uma,hjstória do escrit�.e já
para suPrimir o excesso, o iriútil, que, co�o no c o de Mercier, se pretende -:: do ltvro. Qu �e
_

nao � � liv�� - d���- "d:__::.r o recipiente único e privilegiâdo da


_

que haja ma_i�. ��p�ço pat'â os livros que rea1meÍÍte devem ser lidos. _ e . ��
.
.

escnta, 3 �!!!§!q . _�a ciiltura escritã:j


}}q_
ANAYA: Há uma prática comercial vigente hoje em dia que é a guilhotina e ���
CHARTIER: Aqui nos apiõli:ítrnnn osdeuiíi ponto metodológico importàn­
que se aplica aos livros que já estão fora do mercado. te que nos ttmete à discussão ou colaboração entre historiadores que vêm de
CHARTlER: São as mortes dos livros, não é "a morte do livro", são as
eram, uma tradição de história social e cultural, como é meu caso, e que pertencem
mortes físicas do livro. Como na Bastilha, onde no século XVIII os livros · ao mundo - não quero dizer escola porque não me parece que haja escola _
co'mo se diz em francês, pilomés, quer dizer, moídos, transform adõi; em!Ja�
', �?,� ����les, à sua tradição, com historiadores da literatura, bibliógrafos,([)a:
e papelão. Mas estes exemplares da mesma ediçã9. -ébntinuam circulando. - . f9:ve-outros,
-
GoLDIN: Parece-me interessante nos determos e;fn atoshparentement
e iguai;_� · c_1eogra o que implica reconhecer o vínculo essencial entre o textõ
em sua materialidade, �ue suporta os textos,.. e as práticas de apropriação,
que, no entanto, não podem ser interpretados de umà-- rnelma mane-iraporterém que. sao _
_ as leituras. Mmtos estudos evitaram limitar-se ao que chamamos
distintos atores e estarem sustentados por diferentes discursos.' "leitura" desde o momento em que, sem serem lidos, os livros podem ser
CHARTIER: Penso que essa é uma de nossas linhas de reflexão nestas jor­

i
utilizados com fins de magia, para estabelecer uma distinção social ou com
nadas: não há uma estabilidade de sentido dos mesmos objetos ou das mes­ uso medicinal, como quando se utilizava o livro como proteção e se �credita­
mas práticas, quando mudam q_��C?i:1textos-enf�ú -� S i 8.s'--práticas são . efetiyadaS. va que pondo-o sobre o corpo do doente este seria curado. Mas, para voltar ao
Por detrás do discurso, em sua e·Stàbilidade; Oú por detrás da prática, em sua tema central, que é este espaço intelectual, resisto um pouco a falar do circui­
homogeneidade, quando os atores mudam, quando as relações mudam, se to da comunicação por uma razão, talvez muito francesa: porque na França
impõem novas significações. Abordar as descontinuidades culturais é uma ha, um domínio específico das "ciências da comunicação" que seguidamente
lição fundamental que deve ser entendida contra toda forma de universaliza­ impõe suas categorias, seu léxico, sua maneira de trabalhar toda história do
ção, demasiado apressada e um tanto míope. livro, o que de certo modo produz uma forma anacrônica de relação com 0
passado porque todos os conceitos, critérios e categorias desta disciplina vêm
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATU-RA E HISTÓRIA
30 31

da comunicação moderna. Este debate tem uma tradução muittJ evidente na como para os espectadores ou os ouvintes, que entendem o texto em relação
França, pois em Lyon há uma escola que prepara os bibliotecários a partir da a estas práticas e estes discursos compartilhados, sem deixar de perceber a
ciência da informação e da comunicação. E claro que isto resulta, por um distância, a diferença, o deslocamento literário. Esta corrente articulou-se em

mas por outro impõe à história categorias demasiado anacr�nicas em rela�ão


lado' em uma formação profisSional precisa e operatória para os estudantes, torno da literatura isabelina, Shakespeare em primeiro lugar, e se identificou
com o nome de Stephen Greenblat, em Berkeley,ll .
.
__

Nestas três perspectivas, a m��s fenomenológica, a rJQ... g_er�s response -theoM


.

às realidades do passado, incluindo o passado recente do seculo XIX. Por tsso


não gosto de definir desta maneira, a partir da ciência da informação e da ry; a mais vinculada às categorias literárias, a teoria da recepção; ou esta

o essencial é superar du� li��t�çõ��: �imeiq. é que


comunicação, minha própria perspectiva de �o � nova corrente do new historicism, que pensa em termos de negociações a
a;"mu _ tos-traba
.

na tradtçao da �

lh�s sobre
relação entr� a obra e o mundo social, há algo fundamental: "sacar" a J�it.�.r�
do texto pms �gê�- _ /
história da literatura, e além da histona da literatur � . � pensaç!.a
. em u�a relação dialética) ou dialógica (é o
os textos esquecer am que estes não e��-���!l:l:. �()r_a _ de
_ uma\ � -� - _ . �_de qu_e
� e ri�li<:J termo da teoria da recepção), se assemelha .ã.o manter uma idéia abstrata do
lhes dá existênc ia. Esta material idade geralme nte ê um objeto, um manuscnM texto. É como se o texto de Madame Bovary ou de Quixote atuassem sobre o
to ou um impresso , mas também pode ser uma forma de represen tação d? leitor ou a leitora em si mesmos, sem a mediação do encontro com o texto,
o palco, uma forma de transmis são vinculad a às práticas da oral�M por meio de um...páfticllla� _ objeto impressp que não con_tém unicamente o

\
texto sobre
dade: recitar um texto, lêMlo em voz alta, etc. Todos estes element maten­ os texto no sentido""SemâDtiêO,-·mas que tem uma ·6iateri�lid
. ade' um formato
ais, corporais ou físicos, pertencem ao processo de produção de sentido, e as imagens, -uma c3pa, uffia distribuição, etc.; quer di�er; ·Eúéffie_n;os que impor:
formas mais radicais d� ignorar esta dimensão são clar�111ente as cor�en!� _ -�-a. ta��!::�!:<>._ no processo de construção de sentido. Por est� raZão, parece-me
. naS peà;pectiVas mais prôxiffias
crítica literária m� � ·
lisi�a r;OUvelle critique franceSa e o ne }1'_ �:iti�­ que inclusive do trabalho do historiador, que
cisTiCiiOrte�amfri · u
cáriÔ-;-que ·esq eéeraffi pOr complet o esta dimensã o, na me­ são as três que citamos, devemos superar o que permanecé abstrato em relaM
- -
am·á êffi qü'e o--enJOque está localizado no funciona mento da linguage m dentro ção ao texto e superar a falta de���rihéCimentos, o que é particularmente
da obra sem se ocupar com sua forma materia l. certo na. .teoria dã·- i'éêepção do texto ou na teoria do reader's response da
MAYA: MaS ·não é certo qu�� literatura ou da crítica
- entro da história da
história do livro. Isto é um pouco mais complicado Tio caso do new historicism
literária, é 4 teoria da recepção, . h
.fu, dam� ntalmente a_ _ al�m- �� que propõe uma porque estesliüstoriadores da literatura isabelina não podem ignorar o imenM
correção des$e_p!-?��2..4§..Yista? -- · so trabalho que foi feito sobre a história editorial das obras de Shakespeare e
CHARTiER: Sim, mas para mim é uma correção insuficiente. Se bem que dos outros dramaturgos isabelinos. No entanto, embora conheçam o anterior,
com a crítica em torno de quem pensa ou que posição de sentido lingüístico é tratam o texto independentemente de suas formas de transmissão, e neste
real tentouMse restituir algo da dimensão dialética do texto e do leitor. Este caso não sã&.-unicamente as formas impressas do livro, mas também as forM
enf�que conseguiu "tin1r" a leitura do texto, pois a leitura já _não é concebida mas dra�áticas no palco.
como resultado de urti funcionam
. ento lingüístico puro, mas como resultado t1. lim,���çao seguinte;-:que se vincula à anterio;, é que se abstrai não o
da· int�;�çâo entre texto e leitor. Ao lado da teoria da i-ec_epção, devemos texto, mas o leitor. Quando disse que as formas do texto (orais, escritas ou
.. . Considerar o que nos 'Estados Unidos se chama.r�.�der's response theory, que é dramáticas) importam na construção de sentido, não é menos importante o
mais um enfoque fenog1enológico e,_ de certa f?rmà:; ·a--corrente irrij:>orta�te papel do leitor neste ato de produção cultural. Mas é um leitor abstrai<>-oijue
nos Estados Unidos dó. new historicism."-�2.� l?.��p?_�, por meio de um conceito
"
maneja a teoria da recepção ou a teoria do reader's re;pon.Se, pois se trata de
como o de negociação, <iüe a relação entre o texto literário e os discursos _e um leitor que de fato universaliza a posição ou a capacidade de leitura do
práticas ordinários do mundo social, sejam ritua�s, religiosos, juríd�cos.' polítlM leitor profissional do século XX, ao ponto de existir o chiste de que o leitor da
cos, admini�trati:v.:o� ou cot�d�anos. Tal p:r��ect1va �_e pare·�e -n;�It?_.l,nteres­ teoria da recepção é a projeção para o universal da figura do próprio Hans-
'
sante, pai(restitui �s condtçoes de posSlbthdade do texto- h;e:an�,;Ja que o X.. Robert Jauss, seu grande impulsionador. -
·
·r
-
texto sempl:ejoga, desloca e reformula estes discursos ou praticas do �undo --nevemos transformar o leit�� !:.� historiador, s_ociólogo, se assim podeM
..

social, �lém de �tivar as condições de inteligibilidade, tanto para os lettores m�s dizer. Qualquer leitor pertence a uma comunidade de interpretação e se
32 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 33

define em relação às capacidades de leitura; entre os analfabetos e os leitores f�ra�-�orreseon�a�-��gl- Q_f!Q_a.@fig���� h�s!��� _ell) �rP�_co�­
(.

virtuoses há todo um leque de capacidades que deve ser reconstruído para �-= p�r��-�lllar d� ����rp_retaÇao. Desta maneira, Iião se consegue recons­
entender o ponto de partida de uma comunidade de leitura. Depois vêm as truir a leitura, mas descrever as condições compartilhadas que a definem, e a
normas, regras, convenções e códigos de leitura próprios a cada uma das partir das quais o leitor pode produzir esta criação de sentido que sempre está
comunidades de leitura. Nisto consiste a maneira de dar uma realidade soei- presente em cada leitura. Assim, é decepcionante o programa de uma história
' da leitura que é, antes de mais nada, em sua realização, uma descrição das
' ocultural à figura do leitor. Posso dizer, _d_e maneira um pouco simplista, que
'i se deve levar em consideração � �a-�er}�li�_(l_d�--��5-��}� a corporeidade do
restrições sobre a leitura, que pertencem à capacidade de ler, aos códigos de
- leitura e às condições práticas, sociais, econômicas do ler. Mas parece-me que
\ leitor, mas não so como unláCOrporeidade física (porque ler é fazer gestos),
' mas também como uma corporeidade social e culturalmente construída. é a única via para evitar uma história da leitura fragmentada por completo,
Há muitos autores dq..s..�culo XX que refletiram de maneira não histórica que captaria apenas a recopilação de experiências singulares. Devemos re­
sobre a relação entre o �Orpo do leito� a materialidade do livro e o próprio construir as convenções de le��Q.res que -�-t?.-_p.erf!!:item, quando as fontes o ofe­
texto. Há um ensaio de Walter B"éhjaínin sobre a história a longo prazo do recem, a compreensão de p_��-p�l� �já que entendidas como

exemplares, ou em sua origiJialidade radical. _.1

livro e o que implica para o leitor a passagem do livro da Antigüidade (em


forma de rolo) para o livro da modernidade (em forma de códice), e ali temos ANAYA: Como a que f� Carlo Ginzburg, por exemplo, em O queijo e os
vermes... ,
umé. reflexão cabal.soP,r�-- a. leitura. Outro, de Jorge Luis_ Borg�s� -- vincula-se . \
das transformações dos modos de l�f)or meio CHARTIER: Sim, como o que faz .Ginzburg. O problema é que devemos
estreitamente a essa - dimensão .
do tempo, seja e� S��;f��ff itilaÇões imaginárias ou de ficção, Citi� rios ensaios jogar com uma liberdade sempre limitada pelas capacidades e recursos; e,
que dedicou à história da leitura. Ele lembra um texto famoso no qual Santo além disso, ver quando se transgridem estas restrições. Poderia articular-Sé --....
Agostinho evoca São Ambrósio lendo sem produzir sons, sem ruminar ou uma fórmula como a sua, dentro da história da leitura, supõe-se, em princí­
"mastigar" a palavra. Santo Agostinho tinha-se espantado diante desta práti­ pio, que a leitura seja uma prática de invenção de sentido, uma produção de
ca de leitura, e Borges conhecia muito bem o referido texto. O que pode se sentido. A partir de tal fato, devemoS compreender que essa invenção não é
observar em um texto como este? O interessante é que há escritores que sem­ aleatória, mas está sempre inscrita dentro de coações, restrições e limitações
pre escaparam do modelo lingüístico da crítica literária que, finalmente, foi compartilhadas; e por outro lado que, como invenção, sempre desloca ou
incorporado pelos escritores no momento de pensar que inscrever suas pala­ supera estas limitações que a restringem. É algo parecido com a idéia de uma
vras no escrito era suficiente para impor sentido. Outros pensc:�.ram · que o história das liberdades limitadas ou das restrições superadas, que seria o coro

�SmesffioS,õTdtõr·e;_�lem
pr_o.�o de produção de sentido era um p�oc�sso complexo,com· mui.�-��9� de uma história da leitura.
t�s: deles, o(edit6r, os tipógrafO_s, ê't-amh.ém os Mas eS4lJ.ecemos a trajetória que vai do livro ao escrito. Para mim é claro
( '··--�-· agora que uma das extensões do programa clássico de uma nova história do
livreiros, os críticos, a.. escola� os literatos, ête:-""
ANAYA: Você propõe Uma resposta a esta "onipotência" do texto que não livro, transformada em história da leitura, consiste ·em reinscrevê-la dentro
leva em consideração o leitor. E por outro lado, há as experiências dos leitores, d�-�-l!l�- história de longa duração da cultura -esc�ita�)tomada em toda sua
. muito variadas e irredutíveis, e que levariam a um beco sem saída, pois como dimensão. Ao falar da relação entre cultura manuscrita e cultura impressa,
estudar tantas experiências tão distintas? achamos uma primeira aproximação a esta restituição de um mundo mais
CHARTIER: As práticas são inumeráveis. Cada um de nós realiza em um completo, que não desvincula uma forma ou outra da transmissão de textos.
dia de vida profissional ou privada milhares de práticas cotidianas, ordiná­ Parece-me que essa concepção mais ampla da cultura escrita se vê muito con­
rias. É impossível para a história recolher ou dar uma representação adequa­ cretamente n��ais r.���!!!��-- t_���� -�e investi&iiÇaô:)Por exemplo, pode-se
da dessas práticas múltiplas, porque há uma situação muito difícil para a ilustrar por meio da trajetória de Henri-Jean-Maitlü;êÍesde seu primeiro livro,
análise. Parece-me que o que podemos fazer na história da leitura não é resti­ escrito com Lucien Febvre (embora de fato é um livro de Martin, pois Febvre
tuir as leituras de cada leitor do passado ou do presente, como se tratássemos só deu a estrutura e escreveu o prólogo): EApparition du livre, que foi publica­
de chegar à leitura do primeiro dia do mundo, mas sim, organizar modelos-----
de - do em 1958.12 Porém, o significativo, apesar de seu título, é que o primeiro
--- . ··-
ROGER CHARTIER 35
34 CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA

livro de Martin foi dedicado ao livro impresso, a seus efeitos, a suas conseqü­ pensar na forma da oficina tipográfica ocidental. Mas isto não significa (e
ências sobre a cultura ocidental. seria um possível equívoco pensá�lo ao ler essa citação) que não haja na Chi�
ANAYA: Há outro trabalho de Martin, também esquecido, sobre a escrita, na, na Coréia nem no Japão uma cultura impressa muito ampla. Mas é uma
em que explica em detalhes quais são as condições culturais que tornam possível cultura impressa que utiliza outra técnica: a da gravação do texto em pran�
a invenção da imprerLSa.13 chas de madeira, com uma impressão baseada na técnica de fricção da folha
CHARTIER: É o.utro tema; um livro de Martin mais recente se
intitula de"'apel posta sobre a prancha de madeira gravada. i;t técnica da xilogravu�'
-�

J Histoire et_PC?uvoirs de l_ écriC� É interessante que o historiador que fundou na Í"a,_)� sobre essa base se desenvolveram, como no Ocidente, editores privados,
França -a históriá do-livro te;;ha produzido enfim uma obra de grande fôlego ls-âlas de leitura, gêneros populares. Existe assim uma cultura não unicamente
dedicada à relação entre a escrita e os poderes, desde a Babilônia até o século do escrito, como também do impresso, mas com uma técnica que não é a
xx:. Mas a ambição não era unicamente situar o livro dentro da cultura
escrita ocidental, e que tem seu próprio interesse porque mantém um forte vínculo
em cada período, mas escrever também uma história realmente de longa du­ com a caligrafia. As pranchas eram gravadas a partir de modelos caligrafados,
ração da cultura escrita. É um exemplo de até que ponto se estendeu agora o o que assegurava uma relação, perdida no Ocidente, entre a escrita manuscri�
campo de reflexão, desde o livro impresso , a invenção de Gutembe rg, na ta em suas .formas mais estéticas e as letras impressas. E as pranchas eram
cultura do impresso, até a cultura escrita em suas diversas expressões e usos. guardadas. Então, o problema da comparação é complicado porque temos a
invenção da tipografia em países que vffio d�senvolver uma cultura do impres�
so a partir de outra técnica. (�- """
GUTEMBERG RECONSIDERADO Quanto a toda a cultura do\Ocidente, esta pode ser considerada como
uma._çultura do impresso· porque h�a r:elação com o escrito por meio do
GowiN: Há uma afirmação que você Jaz em Libras, lecturas y lectores en la impreSSO, nas cidades-pêlo menos, ond;;e vêem cartazes, inscrições, livros
sociedad moderna, se. não me engano, que diz: "Desde Gutemberg, toda a cultura nas lojas dos livreiros, éditos ou text,os oficiais colados nas paredes. Há uma
ocidental pode ser considerada cultura do impresso". Você comparava a cultura presença do escrito impresso, que cria condições de presença de uma cultura
ocidental com a coreana e a chinesa, no sentido de como o impresso permeou do empréstirpo, mesmo para os analfabetos, que contam aí com mediações
distintCLS partes da cultura_ .. para poder e�tabelecer uma relação com esta cultura impressa: mediação da
A.NAYA: Por isso é preciso mencionar também o interesse sobre o escrito e leitura coletiva em voz alta, mediação de um deciframento do texto a partir
não só sobre o livro, no sentido a que você se refere em outros livros ou em outros da imagem, quando existe uma no início do texto, e· outras. Desta maneira,
ensaios sobre o surgimento do texto escrito, na festa, por exemplo.... parece�me que a cultura do impresso impregnou a totalidade das práticas
CHARTIER: Exatamente. Isto dever ser explicado. Talvez se possa susten� culturais, inel-uindo as que não são de leitura, como as rituais ou as de festas,
tar essa afirmação com certas correções. Podemos começar pela segunda par� e incluindo a população analfabeta ou mal alfabetizada. Para mim "qui esta­
te, que é mais fácil em um certo sentido. A citação corresponde à verdade se ria talvez a diferença de cultura e de manuscrit9·: Por exemplo, o manuscrito
consideramos a palavra tipográfic::a; po�que, como disse no �n�aio-�Del códice dõ-tabelião ou o manuscrito do padre são objetos em que se fixam relações ou
a la pantalla" ("Do códic�--à tela"), nÔ\Oriente há uma . situação :um tanto ac�t-�Cinl.elltos peSSõâis, m-as que são mantidos à distância pelas pessoas; é o
.
paradoxal. l S Por um lado,i�hina e Coréia inventaram, ff!.Ulto ante�,..c�.e Gut�IJ1� mesmo que um arquivo, não é algoãbertOãô 01fi8:f.(pJ:e pêite-fiCe á6 éôtidiano.
berg, os caracteres móveis>que são oS que definem a imprensa tipográfica Esta é a razão pela qual parece haver uma distância entre o campo e a cidade,
com letras de molde. Seu uso estava limitado às edições do imperador, dos mas que vai se reduzir, a partir do século XVIII, graças à edição dos livros de
monastérios; ou teve uma vinculação descontínua, como no Japão, o que é catálogo pelos livreiros. Gostaria também de dizer que deve se comentar ou
compreensível porque em línguas com uma multiplicidade de caracteres es� se matizar minha formulação citada para evitar equívocos; é que há livros ou
critos ou, como na japonesa, com uma multiplicidade de escritas, imprimir textos impressos que se transformam em práticas ou em comportamentos
com caracteres móveis supõe um grande número de caracteres e em socieda­ para aqueles que os lêem e para aqueles que os escutam ler; e toda a literatu�
des onde as línguas necessitam centenas de milhares desses tipos não se pode ra da urbanidade, os tratados de comportamento, os textos que indicam as
36 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 37

práticas religiosas, etc., são textos que devem se tornar gestos, comportamen­ nas relações da cultura manuscrita e a cultura impressa. Tocamos um po1:1co
tos. Desta maneira, se vê como a cultura do impresso pode articular e gover­ em tudo isto. A comparação entre Ocidente e as culturas do Oriente vai no
nar as práticas mais corporais e espontâneas. mesmo sentido: relativizar a importância do invento de Gutemberg em seus
GowiN: Poderia também destacar que, a partir da concepção da cultura do diversos níveis. Mas resta algo: por um lado, Gutemberg abre na história do
escrito, se dá a Gutemberg e à invenção da imprensa um papel menos importan­ Ocidente a possibilidade da multiplicação dos textos em um tempo em que
.
te ou matizado, já que o mais_ relevante é a passagem do volume ou rolo pa'r;a o esta era restrita; e por outro, a multiplicação com uma baixa nos custos de
··a.
cÓdice. Mas visto deste ou;� nguzo, sim, Gutemberg é importante. -------- ,
PJ9PY.ção vem a ser uma realidad�àDSõhitamei1tê"1D.dubitáVei� · fun.crameiital,
CHARTIER: Sim, mas para nossa discussão é um ponto mais de método. E que possibilitou o que assinalei: a PÇ.�_etração da cu_ltura escrita, graças à sua
um ponto que podemos esclarecer porque concerne ao próprio exercício que forma impressa, em ITI�_ios sociais que_tr3diCionalriientê-ési:avam fora do mundo
estamos fazendo. Em primeiro lugar, não se pode pensar que haja necessaria­ do escrito. Esta péri€traçã6 contaminou a tOda"s as práticas e a todo o povo,
mente uma absoluta coerência em uma trajetória de investigação, e em al­ pefo menos durante certo tempo e apenas nas cidades. É uma questão de
guns textos podem estar presentes erros ou equívocos que desaparecerão, escala de entendimento e de perspectiva; mas seria um absurdo negar a im­
quando se lêem outras coisas ou se abre uma ou outras diferenças. Mê._s_ _o portância de Gutemberg, que proporcionou algo que foi uma novidade funda­
problema com o texto impresso � _q�.H� !l�q �-� .Pc:Jt:le apagar, e se há um erro este mental, essencial, e que foi percebido nos séculos XV e XVI. Em texto que
petffianecera·ru:e:õ·aesaP·ãreCiinento definitivo dO livrO. Assim, há.�§is·�� que redigi depois, em 1995, utilizei os exemplos de Condorcet e Malesherbes, da
esCreVI que talvez agora me pareceriam completamente absurdas. um· pri­ França do século XVIII, para desenhar uma cronologia de longa duração da
meiro ctspecto é a trajetóriã ·de investigação, que amplia o âmbito de referên­ cultura escrita. Ambos fixam-se ao invento de Gutemberg, considerado por
cias e que dá um estatuto talvez um tanto fraco, se é que não completamente Condorcet no Esboço de uma história do progresso do espírito humano como
falso a certas coisas anteriormente ditas ou escritas. O segundo problema equivalente à invenção do alfabeto. Os dois momentos chave no texto de
surg� quando esta trajetória de investigação se expressa por meio de tradu­ Condorcet são a invenção do alfabe�o. e a invenção da imprensa, que semea­
ções, e que são outra fonte de incoerências, pois os textos nem sempre são ram as bases de nossas percepções, Perspectivas e representações. Penso que
traduzidos de acordo com suas datas de publicação. Particularmente, fiz re­ há algo fund_Jl mental neste enfoque, mas, como historiadores, devemos mati�
compilações de ensaios com uma intenção precisa, seja temática ou em fun­ zar ambos irlventos.
ção do público destinatário ou dos leitores de outros países; e aqui podemos
encontrar de maneira sintética textos meus que foram escritos com uma dis­
tância que talvez algumas vezes pode não ser o suficiente para dar uma idéia AS REVOLUÇÕES DA LEITURA
da trajetória de minhas investigações ou possibilitar a correção permanente
de afirmações.
<;> outro fâto�
i: speito ao c?n:e�do. Ser�a absurdo dizer que a inven­
ção d� Gutemberg na conta na htstona do Ocidente, mas o que me parece
GOWIN: Você faz uma periodização da história do livr9 e da história da leitura;
fala de conceitos como "revolução da leitura" ou 1'revolução do livro" e, em certa
ocasião, diz que a revolução da leitura, a p�a.ssagem da leitura em voz alta para
importànte.,...agora ais do que no momento desse ensaio citado, é_ q_ue de':�­ a leitura silenciosa, é uma revolução que preC"é.dé. a essa r�válução" do lil(rO qüefoi
mos situar, loc�lizar em sua justa e correta importâ�cia -��te invento. Tudo o
.

o Sürgrm.ento-dá liVro impressó.


que fótilito dêpols déssé texto é criticar os que atribuem a Guiemberg tanto -
-··· -· CHÃRTIER: Entraiiios em uma história complicada por diversas razões. A
uma ruptura absoluta com o passado da cultura escrita como os elementos de mais importante delas é a existência de distintas linhas de transformações. Se
nossa relação com os textos (uma certa forma de estabilidade dos textos, a queremos simplificar, tem-se a linha de transformações das técnicas de repro�
invenção da figura do autor, a invenção da leitura silenciosa, etc.). Isto me · ;: dução de textos; e aqui o momento da invenção de Gutemberg é essencial. Do
parece um grande perigo. Por esta razão, devemos considerar em longa dura­ uso da mão se passou à prática de uma técnica baseada na composição dos
ção o que ocorre com a passagem do rolo ao códice, e deste à tela, o que caracteres móveis e na impressão com prensa. E tem�se uma segunda linha,
acontece na história de longa duração da leitura e também o que acontece que é a das formas do livro e que não está vinculada à primeira, pois o livro,
38 ROGER CHARTIER CULTUR A ESCRITA , LITERAT URA E HISTÓRI A u
., '
. 39

\ l
an_te� e depois de Gutemberg, tem as m�sffi"��� uturas. �ntãÕ:·Osiiiomentos
� chavê\são, por um lado, a invenção dO co' dice os séculQs. II, III <;---LVfia era
,
. ;;�r:;r�����:ae;i:;�;a:�:�::�;J���r!a�i��;�������!lJ���:s �g�::
n
\ cristã .k, por outro, a invenção de um hovo .. . � outra
porte do texto, ai telà onde ha leitores silenciOsos no mundo riredi�..-atl o presente, quando a
. . .. . linha
\'forro�'de livro, pois pode-se falar pambém âo li eletrônico, A terceira Çél.���-te__r��-���g_p���t-�ª.Qp an_a,lfª.�e_tis�o c<?nsiste_q.ª_incapacidade de ler silen­
��:.�IE�.te;._Pela. comp.ªração, se- vê qlle uma...:erátic� miÜOfitária: ·se
..

de 'transformações refere-se à hihória da leitura suas diversas mudanças e


,
transfor�
i momentos de transformação; at_é\gor'â��dois�déles foram mais considerados m6u,é� riõrma de_�eitur� que os que não pode��lJ;fãi:ICà�Ià são os analfab é'tos
i que outros: a invenção da leitufa silencias� (quando o leitor pode se livrar da -
müd�"i-bos.'É Uiiià primeira história que vai da alta Idade Média até o presen
necessidade da oralização para\Lmesmd: ..ry.ão para os outros, mas para en­ te. Há uma segunda história relacionada co� esta história do mundo antigo,-­
·
tender o sentido do que lê) e o que-sé cha"?ou de revolução da leitura do
século XVIII, que é o acesso à leitura extensivá, Existem pois estas trê�,
que ��!re:!?.?E-.:1!�--�--�-ffiª-I]lJ:..�.���-9�_1C?gia,�_·e que éi�Ve�-��--��-���e

e aqui também-�emas a mesma lição, seguem-se os trabalhos mais recentes: a
in!����[�.i�.i� _ silenciosa e sua possibilidade para os leitores letrados
cultoS(pertenceria ·a s séculos _. VI -ou- .. V a.C.� .
matizar · · - e _prec_isar. � p 'cia.. _
......_ _ · .
"'-:' "

·----- · · Õ��emos ser muito precisos pois, caso contrário, vamos produzir .uma CHARTIER: ... e a revolução do livro na Antigüidade é a revolução do códi­
__

confusão total. Você lembra uma frase que disse que "as revoluções da leitura ce, nos séculos 11, 111 e IV d.C. Também vemos aqui que há uma inovaç ão nas
precederam as revoluções do livro"? Quero esclarecer duas coisas. A primeira práticas de leitura que não pode ser vinculada à transformação do livro. Da
é que muita gente lia silenciosamente antes da revolução de Gutemberg... mesma maneira que não pode vincular-se a leitura silenciosa, na modernida­
ANAYA: E antes do códice... de, à invenção de Gutemberg, tampouco pode vincular-se à invenção da leitu�
CHARTIER: Sim, mas deixemos o códice por hora. Na Idade Média havia ra silenciosa, na Antigüidade, ao códice. Isso quer dizer que há uma autonomia
cada vez mais espaços de leitura, nos quais se praticou a leitura silenciosa: no das revoluções das práticas culturais e estas não podem ser deduzi sim�
começo unicamente dentro dos monastérios, depois no mundo das escolas e plesmente das transformações técl).icas ou formais; a passagem dodas rolo ao
das universidades e, mais tarde, no das aristocracias laicas. Aqui chegamos à códice trata-se de uma transformação da forma do livro, e no caso de Gutem
discussão de um tema clássico e que, de certa maneira, Margit Freilk reto­ �erg é um)-transformação técnica da reprodução dos textos. Estas diversas­
mou, pois ela vincula a leitura silenciosa ao livro impresso, o que não me lmhas de transformações têm suas próprias razões ou lógicas, e
parece exato.l6 Creio que esse não é o tema central de seu trabalho e sim, propõe problemas porque não estamos frente a um saber absoluto, cada uma
estável .É
pelo contrário, a questão de que a leitUra erp. vqz alta se.-manteve depoi�--�e necessário dizer que no conhecimento histórico há dúvidas, interpretações
Gutemberg. Aqui Súá. Obra é absolutame-nte- inspirador�. Para inim, há um problemas, particularmente nos períodos nos quais as fontes são muito escas­,
QeSéilVÜlvimento que, em meados do século XV, fez com que nas povoações sas. Os problemas que se discutiram consistem em saber se as. maneiras de ler
da Europa ocidental houvesse muita gente capaz de ler em silêncio entre os �ão. finalmente o_ mais-itrií)Ort� Há . historiadores.. -m��ievaÚstas, �alegas
meios letrados, nas aristocracias e nas cortes. Italianos como:: Armando Petrucci �u Guglielmo Cavallo; que afirmam que
Agora vamos à Antigüidade. Por que essas duas histórias não se vincu­ não tocamos até'·agorq. ri� verd;:i_delra ID.udança essenCial, que não pertence
lam? Porque a alta Idade Média assinala uma descontinuidade em relação ao nenhum dos registros de transformações; pertence à função que se dá aoa
mundo da Antigüidade, que leva a uma regressão cultural. Mas se pensamos escrito, porque há uma alta Idade Média na qual o escmo-é um reposit
só na revolução do livro impresso, vemos que a revolução da leitura silenciosa destiD.ado à conservação, à fixação, para estabelecer ym.a -memóFia_·0u-...ório
a precedeu longameg.t,ê;·embora seja necessário dizer que as conquistas da di:�i�-�,: é_ o es�rito do m�nasté��o, por ex�m�lo qu(llão se escr�ve ;ar'\)t m
...
.:
lt�r��g:b� __:P�-�a gara�ttr;-o_s d1re1. tos, os pnvtlegi?s �
_ __

leitura silenciosa vão se prolongar através dos séculos XVI, XVII e XVIII, E _ � da-,
ç omu�idade;·
quando se fala d.!"iletrismo" rias so,_ciedad.es contemporâne!'s, fala-se de pes­ c:�ruo- e o re)JuSJtono .
, da pa]avra sagrada. E uma pratJca . <4 escnta sem · º�
- - 9._
ra, ·cõ_hform� o paradoxo qu� PetruCci destaca. Q-tiimd.ôSê:-�StabefeCé.Ilüin leitu­
soas que (em sua 'kai9ria}não são de todo alheiá.s à cultura escrita, que não
\
··
são analfabetas no sentido absoluto da palavra, mas são pessoas que devem do das··escolas, das unive�sidades, a leitura se torna uma prática intelectual.U-n"'�· É
· ·-· -·-· -·----· ·
40 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 41

talvez a fundação de nosso mundo, neste sentido; e a partir deste ponto a texto, como se este existisse unicamente por meio da atuação ou da atua:lrz·a-
função atribuída ao texto escrito não é somente uma função de conservação
�\ � ha pesso

ção da leitura em voz alta. Vê-se c· ?.�.�}.�r��a �u��ID:�:a. ·���ns te �t�s �� _Aristó-
. - s que 1eem pertett me. t.��:gt....
ou de repositório, é o próprio objeto do trabalho intelectual. f·���� �� em out�os textos dra�áttcos . � �
· · � _
A.NAYA: E aqui nasce o mercado dos leitores... / stlengo' e que tem esta capactdade. Mas a lettu ·-em·· voz··atta ftcou como
CHARTIER: Aqui nasce o mercado dos leitores e surgem também os livrei· \.prátiCa ordinária de leitura, não porque fosse impossível ler em silêncio, mas
ros, e novos espaços onde se copiam os livros, não só os scriptoria, as oficinas pela relação com os gêneros literários, pela leitura como forma de sociabilida-
monásticas, mas também os recintos das universidades. E muda o livro por­ de, por um nexo muito importante entre texto e voz. Thdo isto definiu um
que é o momento em que se multiplicam as glosas e os comentários, que são
as pegadas do trabalho intelectual frente ao texto; e mudam a pedagogia ou a
norma de leitura. A leitura monástica, quando existe, é uma leitura que incor­ s!l�cio.sªJ.!l�!!ts:.--P ode-se pensar que, assi
3
modelo de leitura que supõe a leitura em voz alta, mas não como o pensavam


os trabalhos tradici�nais, s_egundo os quais <?;.sJeito.re .eram incapazes...deJer
mo nós os gregos ou os roma­
__

.
.· . . alternavam
(
pora a palavra divina no leitor. A leitura da con;mnidade.{eligiosa é a- leitura ··nos a leitura em voz alta com a lelt ur enciosa, de acordo com
da "mastigação". Esta é a !_�_ªo l?.�!a q�al na prática ritual_se }� em v�� _a)ta:_ o .�-_ç_ircgn�tâncias, os textos e as nece�sidades. P 9 i-tanto, não é uma questão de
corpo recebe'a ·palavia ·Sãgracr�porffieiõâest'HeitUra·que sé_YihÇiiiá::à preCe impossibilidade. ·
'
.
·

oUâõ'fãÇáõ:-A-fe"ítüi-ã dõ"� Uildo escoláStlê.o, do rinlndo cias escolas, é por sua O problema ainda não resolvido é, se na Antigüidade grega e romana
ve-z tirhá leitura que busca o deciframento, uma leitura da intelegibilidade, da podia ler-se em silêncio, porque esta capacidade se perdeu com a ruptura da
compreensão. Nos séculos XII ou XIII surge uma técnica ou um método de alta Idade Média. Desta maneira, parece que há duas histórias que se repe­
leitura que vai do deciframento da palavra e da compreensão do sentido do tem: a história que vai da leitura em voz alta à leitura silenciosa no mundo
1 texto à compreensão da doutrina. Assim, pois, há estas três etapas: compre­
i ender o sentido literal, compreender o sentido em suas diversas dimensões
{ textuais e, finalmente, compreender a doutrina que se expressa por meio des-

antigo, a partir da Gréc��- ª_rcaiCil.e clássica até o final do-ImpériO 'Rfmano; e
aquela em que' pela�egunda vez .,Ô �cidente teve que éonquistar (sem saber
_ ·
que o que fazi� ·· .e\(1· ·E_eCOI'l:5J.uistar) a it.�_:_a_ .���: nc·· .�-�.�.�. -.��.. -�:O:� situação em que
\ se texto. /·----- a leitura em· voz alt�� à. Funaamenta-se isto na Alta Idade Média
Tudo mudou nesse momento, e é a razão pela qual, mais do que a� 'ijüaiidO a upgua dos �'Xtos'não·eta a língua vernácula dos leitores; e a dificul­
maneiras de ler (em voz alta ou silenciosamente), o qu� p�re��_ ill).porta_nçe ) dade de lei'sem vocalizar um texto em língua latina apresentado sem separa­

entre alguns historiadores da cultm�� escrita é esta
. . m_uc\�.Ǫ-. .Pe um mgg�l ções entre as palavras - que é o caso dos manuscritos dos séculos V a VIII -

L�
m;náStlCôdê"e·sciiúl·P�ra üffi -modelo escolástiCO de leiturà. Aq�lLse:V{como _ implicava quase necessariamente que o leitor lesse em voz alta. O que era
nõSSO-esqüemã·com-suastrêS lirihas se torna mais complexo ao acrescentar ... ..._. , possível �ntre �s roma os, le�_em silê��io ':lm ���to sem separações entre as
� , . .
outra dimensão, a que eu queria sublinhar porque não o fiz em outros livros ""--) · _..
palavras-�"Eporque sua lmgua. ��a a lmgua do textõ)', transforma-se em uma
anteriormente. Voltemos a Borges e sua leitura de Santo Agostinho. Comu­ iinpossibilidcide ·para os leitores na Irlanâa, Ingla�erra ou nos territórios da
mente se diz que todo o mundo da Antigüidade era um mundo de leitura atual Frçmça, que falavam uma língua que já não era a língua do texto. O
necessariamente vocalizada, oralizada, e o texto agustiniano seria testemu­ deciframento do texto em latim, sem separações entre as palavras, tornou-se
nho único de que quando se lia sem vocalizar era motivo de surpresa: Santo praticamente im,POSslV.ei;... e ..é;sa..é ·a: raz·ãô' pela qual se vinculou com certa
.
Agostinho se mostra por completo assombrado diante de Santo Ambrósio pêifiii'êntia. � Teconquista-da ieitura Silenciosa .....:.... eín primeiro lugar nos mo­
lendo em silêncio. O que se disse tradicionalmente desse texto já não é aceitá­ nastérios e n�âmbitos eclesiásticos - à introdução das separações entre as
vel agora porque é claro que a capacidade de leitura silenciosa existe a partir palavras dos textos manuscritos.1 7 Este é um processo progressivo que vai dos
da cultura grega, arcaica ou clássica, nos séculos VI ou V a. C . O leitor se séculos VII a IX, principalmente na cultura anglo-saxã dos scriptoria dos mo­
distanciou do texto a partir desse momento enquanto que, como mostram as nastérios da Irlanda e da Inglaterra. Vemos aqui uma história complicada: é
participações, antes o texto pedia sua voz ao leitor. As participações fúnebres, como se o Ocidente tivesse seguido duas vezes o mesmo percurso, a mesma
por exemplo, pedem ao leitor que leia em voz alta, para assim dar voz ao trajetória, e há um momento de desvinculação entre estas duas histórias.
42 ROGER CHARTIER CULTUR A ESCRITA , LITERATURA E HISTÓRI A

� '<n;
43

q
' .·�GoLDIN: Ser,üi ,interessante pond � também o papel que desempenha a manter uma cultura textual religiosa judaica na Espanha da Inquisição, na
i �spanhdJ onde c nvivem árabes e judeu�'!} e suas respectivas práticas de leitura Espanha dos estatutos de sangue e da ortodoxia, pelas práticas de leitura?
nesse- nlomento. \ -
CHARTIER: Sei Um pouco mais sobre a cultura judaica, mas aqui seria
necessário mobilizar o mesmo tipo de interrogações sobre a forma técnica do DO ROLO AO CÓDICE
livro, sobre a forma de reprodução do texto ante as práticas de leitura, e me
parece que o mundo acadêmico não desenvolveu com a mesma importância GOLDIN: O tema da convivência judaica, árabe e cristã
na Espanha é interessan­
este tipo de interrogação em relação a essas culturas. Há trabalhos sobre as tíssimo; penso, por exemplo, na escola de Córdoba. Corresponderia ao historia­
práticas de leitura, particula��nte no mundo judaico ocidental, e sobre as dores espanhóis tentar recuperá-lo.
formas de publicação dó:j:aiíiiucíih por exemplo, ou sobre a multiplicação das CHARTIER: Sim, é um tema fundamental, e não só em nível da leitura,
glosas, o que transformou a·pú�pria compreensão do Talmude na medida em mas também no dos textos. Como se sabe, muitos textos da antigüidade grega
que uma glosa perde seu estatuto de glosa para se transformar no próprio ou romana nos chegavam pelas traduções árabes, o que expressa as práticas
texto que uma ou outra glosa comentará posteriormente. Mas estes trabalhos de intercâmbi� cultural, de sedimentação das apropriações, de construção
até agora me parecem escassos. Em 1966 fui convidado para dar duas confe­ plural de sentido - ocorrendo uma espécie de laboratório na Espanha, que
rências em um centro de estudos judaicos na Filadélfia, na Universidade da era ao mesmo tempo cristã, judaica e muçulmana. Esta questão me parece
Pensilvânia, e o programa anual deste pequeno centro, que recebe estudos �bsolutamente fundamental; a outra seria o começo de uma trajetória que
sobre a cultura judaica americana ou fora da América, era: texto/livro/leitu­ fmalmente proporcionaria ao Ocidente os textos da tradição antiga mediante
ra. Ao examinar a bibliografia nas línguas que posso manejar pareceu-me que as traduções árabes. E que textos árabes foram traduzidos? Temos aqui o
este movimento de investigação sobre a cultura judaica estava começando, e problema dos efeitos da passagem do rolo da cultura antisa ao códice, porque
alguns colegas me confirmaram que havia trabalhos importantes como os de nesta passagem talvez haja uma lição para nosso presente. É preciso esclare­
Robert Bonfil, um professor de Israel que escreveu um dos ensaios de nosso cer que isto não aconteceu sem perdas, pois nas obras de muitos historiadores
livro coletivo Historia de la lectura en el mundo occidental, organizado por da Antigüidade, gregos ou latinos, seguidamente faltam cinco livros (livro
Guglielmo Cavallo e eu." entendido cÓmo divisão do texto), sejam os primeiros cinco ou cinco interme­
Ao contrário, poderia dizer algo sobre a cultura judaica que conseguiu­ diários, entre o quinze e o vinte por exemplo. Luciano Canfora propôs uma
se manter na Espanha do Século de Ouro e da Inquisição, quando estudamos hipótese, que m_e parece muito aguda: cinco livros equivalem ao conteúdo de
os textos de denúncia da tradiçãó judaica, Há um livro maravilhoso de Yosef cinto rolos, � 1um có�ice, nos séculos II, III e N, continha o texto de -éill��
Yerushalmi que descreve a trajetória dos irmãos Cardoso, desde a corte da ! �· I:olos; .e quaftcio"'"úriféiJéfiC·e- foi perdido, então se perde o·teXto COrréSpõil�ente
aos cinco rolos.20 Um� �ea�ida_�e t�xtual não deve s�r entendida unicamente -
-�
Espanha ao gueto italiano de Verona.l9 Dedica um capítulo fascinante à Espa­
nha que proibia a circulação dos textos da tradição judaica. Ali Cardoso re­ em SUé:J.. dil!lensão literária, pois também arraiga-se profundamente em sua
constrói parte dessa tradição lendo às avessas as denúncias cristãs, porque ( realidad e material, que é a forma do livro éffi"(jue' se abarcava o textÓ. Os
nestas há algumas vezes citações ou paráfrases retiradas da cultura judaica l:inco·-rolos-··convertidos em códice constituem uma unidade de discurso ao
dos grandes doutores, dos comentários ao Velho Testamento e ao Talmude. É mesmo tempo que uma unidade do objeto. Consideramos assim, como a trans­
um modelo interessante de compreensão porque todos os Estados nos quais missão do mundo antigo, por meio dos árabes e da cópia, está em relação
há uma ditadura exercida sobre a circulação dos textos, não há unicamente direta com os próprios objetos em que foram transcritos os textos.
os textos proibidos que circulam sob o tapete - como na França do século Parece-me que não nos esforçamos o suficiente para entender o que era
XVIII, tão cara a Robert Darnton, ou como os samizdat na antiga União Sovié­ a leitura dos gregos ou dos romanos nos rolos. Assim, lemos Platão, Thcídices,
�-,
tica - como também a apropriação distorcida dos textos, pois lê-se às avessas Heródoto ou Sófocles como se houvessem escrito códices ou, mais ainda,
a paráfrase que condena um texto ou uma prática relacionada com ele. E o textos feitos para a imprensa, de modo que se esquece que as formas materi­
livro de Yerushalmi atribui grande interesse a esta questão: como podia se ais implicam formas de entendimento dos textos. Este esquecimento é um
44 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 45

obstáculo para reconstruir os sentidos próprios em seu mundo específico, pro­ itex�o se torna um objeto e encontra leitores. Todas as dimensões da história
i duzidos pela relação entre um texto que existia por meio dos rolos e um leitor Ida cultura impressa podem se associar à figura do editor, à prática da edição,
i que os lia. Le; um rolo)mplica uma Rrática cpmpletamente diferente à-�e ler �à escolha dos textos, ao negócio dos livros e ao encontro com um público de
um códice; é claro que ler um rolo iqlpede escrever e. leç... ao mesmo temppJ ou 1\teitores. Sobre estas bases construímos o projeto com atenção ao nascimento
i porque o leitoflê' \Z
!
-eri& arito suas g.,rlas .
mãos . . .
ctetênl régu s d� .
ma(lt�ira nas \\do editor, se pensamos em uma profissão particular, separada do comércio da
_
as �
I quais se enrola o rolo àtl-pm.:qúe o fecha e tem em uma so mao os suportes i\ivraria ou da atividade da imprensa, o que nos remete à década de 1830 na
! deste, e escreve, mas sem poder ler. !França. Nesse momento a profissão de editor torna-se autônoma. Já não se
(�onfunde com o negócio do livreiro nem com o trabalho do impressor, embo­
·

ANAYA: Mas não podiam ter um assistente que lesse em voz alta?
Sim, mas iSso não é ler e escrever ao mesmo tempo, comO o j i:a nessa época haja editores que possuem livrarias e oficinas tipográficas. A
fazemos agora. A possibilidade de escrever lendo só é entendida em relação à
CHARTIER:
! nova definição do ofício firma-se na relação com os autores, na escolha dos
forma do códice, que é um objeto que pode ser posto na mesa, em uma escri­ .
t�xtos, na seleção das formas do livro e, finalmente, nos leitores. Desta ma-
vaninha, ou segurado em uma só mão enquanto com a outra se escreve. É um neira, a edição se estabelece como uma atividade autônoma e um ofício par­

exemplo para pensar que Platão ou Thcídides compuseram suas obras em um ticular.
mundo em que todas as práticas se articulam conforme critérios ou gestos ANAYA: Você fala de três modos de edição na história, não?
que desconhecemos. Embora a distância entre· a escrita do século XVII e a CHARTIER: Sim, porque desta forma entende-se unicamente esta dimen­
leitura dos textos nas edições modernas seja mais reduzida, há uma enorme são, a história da edição deve começar no século XIX. Mas é preciso começar
discrepância. Lembro uma citação de Cabrera Infante que diz: "Não se deve com a Idade Média e levar em conta a tensão entre uma definição moderna
esquecer que Góngora escreveu seus sonetos com pena de ganso". Isto indica do editor e da edição, e outras formas de publicação, que podemos chamar de
que não datilografaram para o poeta os seus textos e que ele nunca escreveu "edição", mas que s_e . originam de outras práticas. Uma--..,primeira
_
,. _ _ ' '
forma
. . . de
em frente a um computador; todo este mundo da pena de ganso se vincula edição, df:\,� publicaçã<?_�)foi
'"
precisamente a leitura em voz .�lta de um novo
. ·-.
.

com as realidades do patronato, do mecenato, com uma prática da escrita que têXtõ, que Úá a prática das uniVersidades ou das corteS iriedievãis e que per­
tem suas regras em um mundo social e humano completamente diferente. maneceu ao lo.pgo da modernidade, quando publicar um texto era lê-lo em
São lembranças ou chamadas de atenção para historizar a relação com os voz alta em mrl salão, em uma sociedade ilustraa·a,eiiiúiTícellâtüló.literáiio,
textos, para dizer que quando lemos textos antigos nas edições modernas coffiõVistoaigUíü8.SVez-es-·com -ã-pOeSút, 8-ênero que manteve este tipo de
recolhemos algo de sua textualidade, mas que �._necessár�? f���r ��-�-��n�� publicação e de edição do texto, por meio da voz. Há - um segundo modelo,
es�Q_�_� qyt;_ _��,Ql,P§.Jf;!�obr�r .���b�m ? estatuto, � f�-��� de c���reensão, a que corresponde mais ou menos àt.;tapa segtÍint�� o momento em que a edi­
irteligibilidade dos leitores antigbs-�ente a estes textos. ção se vincula--ao comércio de livrai-la::---- -
_
_

�- ANAYA: Corii·o--livro fá impresso:�:·


-�

-
·""
CHARTIER: Exatamente, e cuja grande figura é o que se chamou livreiro
FIGURAS DO EDITOR editor, libraire éditeur, protagonista central desde a invenção de Gutemberg
até o começo do século XIX. Aqui o capital mercantil é fundamental, pois
A partir destas perspectivas temporais, mais implícitas que explíci­ define o poder dentro do mundo da cultura impressa, o que significa que o
) tas, poderíamos lembrar como H.-J. Martin e eu construímos o projeto da
CHARTIER:
livreiro-editor tem uma oficina tipográfica ou dá seus livros para um impres­
" Histoire de l'éditio� ft:ançaise, em quatro volumes publicados entre 1982 e sor compor, o que significa também que seu negócio se vincula, em primeiro
1986:-s�, � �onceito de-ecliÇão se impôs foi por duas razões. A primeira é lugar, a seu próprio catálogo. O que ele vende se incrementa por meio do
puramente casual, pois a idéia deste projeto veio de um editor já falecido, comércio de intercâmbio com seus colegas, ao enviar algumas de suas edi­
Jean-Pierre Vivet, que pensava fazer desta maneira uma forma de reconheci­ ções e receber em troca os livros publicados por outros. Podemos observar
mento a seu próprio ofício. A segunda é que esta noção permitiu considerar a � que a dimensão da livraria é fundamental. Quando Darnton estuda a Societé
trajetória qtie vai do texto ao leitor, pois a edição é o momento em que um \ '!YPographique de Neuchâte[21 constatamos que, por um lado, esta editora
46 ROGER CHART1ER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 47

(
tem uma oficina tipográfica e por outro? é uma grande empresa de livraria está em saber a quem devemos atribuir as transformações. Talvez em meus
que difunde por toda a Europa,�particularmente na França, eaiÇões pfràfãS ·ou ensaios dedicados a este tipo de "intervenção" editorial tenha utilizado a figu­
livros proibidos, em sua maioria publicados pela própria Societé Typographi­ ra do livreiro editor de maneira um tanto metafórica. Explico: este homem

- -
que, assim como as obras que obtém mediante o citado comércio de inter­ não é necessariamente quem faz todo o trabalho de preparação de um exem­
câmbio commerce d'échange , que era ao mesmo tempo envio de livros plar, que era um texto já publicado, para organizar um texto mais de acordo,
em forma de cadernos ou de folhas de papel a outro livreiro e a recepção de segundo sua idéia, com as capacidades e interesses do público mais amplo.
livros com um valor correspondente. Este segundo modelo da figura do editor Algumas vezes podemos observar isto embora seja muito difícil, pois não há
é dos grandes editores do tempo do humanismo na França, dos livreiros edi­ fontes para avaliar o papel que desempenharam os pequenos letrados da ci­
tores de Paris que dominaram o mercado, de certa maneira arruinando os dade com os livreiros editores neste tipo de trabalho, o que nos remete à
livreiros da província durante o século XVII. O mesmo aconteceu no século questão já mencionada: a quem atribuir as formas dos textos dos livros im­
XVIU com a figura das sociedades tipográficas instaladas fora da França: na pressos durante os séculos XVI e XVII, as formas gráficas, ortográficas e inclu­
Suíça, nos Países Baixos, nos pequenos Estados alemães, etc., mas com o sive de pontuação. Surge então o papel que desempenharam estes revisores e
mercado francês como primeiro mercado. letrados a serviço dos livreiros editores, que deram forma ao texto manuscrito
Trê.$_!J!�9�1Qs: editar é publicar por meio da leitura em voz alta; publicar ou impresso; não me parece que os próprios livreiros editores, como agentes
' é editar sob a dominação do capital comercial quando a função de editor se autônomos em relação ao texto, tenham feito este trabalho; s�:.i� só a partir
deduz da função do livreiro, e, finalmente, �. invenção . 111oderna do editox __ de 1830 quando se forma a figura do editor. Este retomará em suà:S-ffiâ.OS��se
como ofício particular, definido mediante critérios i rl tei��tuãfs::mãlS··quêtéc­ -
b-em-qrre-com-
- oapOHYtéCnico' neces·sátib para este tipo de trabalho, todos os
nicÔS.óU comerciais. Daí a luta entre os .editores que Se cOriSlde�am a si mes­ elementos que defi"nem o livro: o texto, as ilustrações, as escolhas que darão
mos como intelectuais e os autores, quando a edição já é uma profissão -
forma e organizarão a difusão. Desta maneira, penso quê tãiVez se corre um
distanciada do mundo mecânico, da oficina de impressão e do mundo comer­ riSCo 3.0 dizer que nOs SéculOs XVII e XVIII esse livreiro editor era quem deci­
cial da livraria. Poder-se-ia dizer que até o momento da edição eletrônica dia este tipo de coisas, pois atrás dele havia anônimos que contribuíam para


(que, sem dúvi4�J vai modificar as relações editoriais) as grandes diferenças esse trabalh9 e sem ter maior registro de seu nome nas fontes acessíveis, ao
se situam e�tre os tores com:o empresários conquistadofes (figuras singu­ menos no c� so da literatura de cordel francesa.
lares comorHachette Pu Larousse, na França) e a maison d'édition, quando o ANAYA: Subsiste uma confusão quando se fala do editor. Existe o editor que
capital já não é �nieimente um...-tapital pessoal, familiar, como também que a prepara um texto e o submete a uma série de mudanças para torná-lo parte do
editOra se organiza como umá. empresa de serviços. Aqui a figura do editor processo de produção de um livro impresso. A seguir temos a figura profissional
como empresário conquistador se apaga um pouco em proveito de uma estru­ do editor; qtte não necessariamente em pessoa efetua esse trabalho; aqui nos
tura coletivaJ uma entidade impessoal que pode ser uma sociedade anônima. referimos a um profissional que, como dizia um esp�cialista italiano, não faz
exatamente nada especialJ mas que coordena diversos trabalhos, como um dire­
tor de orquestra, que não toca nenhum instrumento, mas sem o qual não há
EDITOR E PUBL/SHER espetáculo nem música. Se compreendo bem, desde o ano de 1830 ficou definida
essafigura que parece capaz de escolher um programa editorial: de propor, con­
ANAYA: Na citada Histoire de l'éditionfrançaise você data o surgimento do editor sultar; encarregar e executar. Encarrega um tradutor ou um editor de texto que
moderno em torno de 1830. Pergunto-me se o trabalho prévio que os livreiros prepare um original, que prepare o manuscrito e o transforme em objeto do
editores faziam no século anterior com muitos livros da Bibliotheque Bleue não processo de produção, defabricação do livro. Planeja a estratégia comercial e de
era já de algum modo a con.sagração da figura do editor. distribuição e, no século XIX, é além disso quem tem o capital ou o que recebe o
CHARTIER: A diferença é que se pensamos em um trabalho como o da capital de alguns sócios. Aqui estamos na fronteira entre editor como figura
Biblioteca Azul, que utiliza um texto já publicado e o transforma para um profissional (e suafamaia) e as empresas editoriais em .formação. Eu pen.so que
público mais amplo (o que significa cortar, reorganizar, ilustrar), o problema com a Biblioteca Azul o livreiro editor já executava, de algum modo, tarefas que
48 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 49

são do editor moderno, ou seja, este livreiro editor é um antecedente do editor momento de glória após a Se�Llnda Guerra Mundial, com as grafúfiS'editoras da
que conhecemos. Esta idéia dasfunções é muito importante, principalmentepara Europa e dos Estadosflnid"os, etc.; masfciltilesi:udar os ano{i.975-198O, quando
o editor contemporâneo. ocorre a entrada de capital dos setores da indústria dos "màss-m.�.çlia': . no mundo
CHARTIER: É uma questão difícil, pois nos apresenta um problema de editorial, a qual muda totalmente a estrutura industrial das empresas editoriais,
termos que, talvez sim ou talvez não, pode ser resolvido. Se distinguimos não são tratados...
entre um editor como a pessoa que prepara ou organiza o texto e o publisher, CHARTIER: Depois da casa editorial, o momento fundamental é a entrada
que é quem maneja a empresa editorial - são os empresários - vemos um dos grupos capitalistas da comunicação dentro do mundo editorial... Nem
pouco como em inglês, a distinção entre a pessoa que escreveu um texto Martin nem eu o analisamos nessa história da edição. Mas há um livro, que
(writer) e o autor (author). A questão fundamental seria talvez não definir, logo será publicado, que trata da edição mais contemporânea; será como um
porque é muito difícil, se os publishers são editores que desempenham este quinto volume da Histoire de l'éditionfranaçise embora seja um livro à parte,
tipo de atividade. É muito difícil, e penso que o assunto é mais claro quando distinto.22 Mas os problemas na década de 1980 eram, sobretudo, falta de
se adota outro critério. Por exemplo, compartilhando sua reflexão: nos sécu­ trabalho e falta de arquivos; se bem que a situação tenha mudado porque se
los XVI, XVII e XVIII, em especial nos tempos do humanismo, existem os pu­ organizou pela primeira vez um instituto, o Instituto para a Memória da Edi­
blishers que são editores no sentido comercial e ao mesmo tempo letrados, ção Contemporânea (IMEC), dedicado a recolher os arquivos dos editores ou
homens cultos, humanistas à maneira de um Aldo Manuzio. Deste modo, das casas editoriais, embora deixando os arquivos em seu lugar, mas classifi­
prefigura-se o editor e tem-se um proto-editor. E obtemos maior clareza se cando-os e organizando-os, ou tomando os arquivos para pô-los em seu pró­
adotamos a idéia de uma atividade profissional: a edição, mas desvinculada prio repositório documental. Isto funcionou muito bem, porque com um sério
do comércio da livraria e da atividade da imprensa. Até o começo do século apoio monetário do Estado - por meio do Ministério da Cultura francês -, e
XIX, é difícil dizer que haja realmente este tipo de autonomia em relação à com a boa vontade dos editores tendo em vista de que não se tratava de uma
livraria principalmente; muitos deixaram o trabalho de fabricação de livros administração pública (e assim tinh�m menos temor, pois para eles o impor­
nas mãos das oficinas de impressores, embora a definição de sua atividade tante era continuar utilizando estes arquivos por ainda serem "arquivos vi�
editorial correspondesse estritamente a seu negócio como livreiros. A Société vos"), o �roj;to avançou e os ar�u�vos arrecadados multiplicaram-se; não só
lYPographique de Neuchâtel, descrita com muito cuidado por Darnton, é fun­ .
os dos edttot'es e das casas edrtonars, , os de revistas, centros de
como tambem
damentalmente uma empresa de livraria que se define a partir de sua ativida­ pesquisa, empresas de difusão, etc. Hoje em dia, isto constitui um enorme
de q>mercial. Naturalmente, o editor do século XIX tem uma atividade patrimônio de fontes documentais. Há pesquisadores que começaram a tra­
comercial, mas se caracteriza por seu papel como coordenador de todas as balhar com esse material e essas investigações; assim, todo o quadro da histó­
possíveis seleções que levam um texto a se transformar em livro, e tal livro em ria da edição& mais contemporânea está mudando e mudará ainda mais nos
mercadoria intelectual, e esta mercadoria intelectual em um objeto difundi­ próximos anos. É tim exemplo que poderia ou deveria ser seguido fora da
do, recebido e lido. As" fronteiras são sempre muito instávei�, e mais complica­ França porque é a própria condição de possibilidade de uma história da edi­
das do que se pensa' em uma prlrileira-ãP-roximãção: ·MaS� se mantemos esta ção contemporânea. Sem estas bases só poder-se-ia trabalhar com as revistas,
idéia de profissionalização, de autonomia crescente em relação à livraria, os textos impressos, as éstatísticas ou as mostras sociológicas. É necessário
talvez possamos ter um critério importante que deverá ser matizado com o poder apreciar as decisões que constroem uma política editorial, as quais só
papel textual desempenhado por alguns editores. Os grandes editores do hu­ podem ser vistas por meio deste tipo de arquivos. Quando H.-J. Martin e eu
manismo poderiam talvez ser exemplos mais destacados de semelhante vin­ iniciamos o projeto de nossa Histoire, não existiam nem este instituto nem a
culação que os dos séculos posteriores. disponibilidade destes arquivos ou trabalhos que tivessem permitido ir além
do ano de 1950, o momento da influência dos Estados Unidos nas editoras e
a hora das novas formas de difusão do livro ou de novas práticas de leitura: o
ANAYA:__Ca�o a Histoire de l'éditionfrançaise se detém em 1950, não abor­
da o que açontec� nos últimos 40 anos; nasce o editor em 1830; depois, no
começordeste séculd, surge a editora propriamente dita e, digamos, conhece seu que ainda não acabou.
50 ROGER CHART!ER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 51

ANAYA: Tenho a impressão de que em alguns meios de historiadores no uma primeira conseqüência do triunfo do editor como maestro do proces�o
México, a tônica dominante seria estudar atéperíodos cronológicos mais ou menos de publicação.
afastados de nossos anos recentes; a história acaba mais ou menos quando a E há mais. Se no passado os autores, salvo exceções, não se preocupa·
pessoa nasceu. ...._ vam muito com a forma do livro e deixavam para o editor certa liberdade
sobre o assunto, no século XIX talvez depois do livro romântico, se observa
_

O fim da história, como disse Fukuyama...


_ _ ____ ___________ _ _ _ _ _ _ _ _ _ ---- -------- -----
_
_

--clW\'tiER:
uma maior atenção do autor pelo objeto, pela forma de seu texto. E aqui
,

ANAYA: . . Quer dizer, os estudos de história política no México, por exemplo,


surge uma segunda série de razões para os conflitos, tensões, suspicácias, e
.

ainda não chegam aos anos 60...


CHARTIER: Talvez na França e no México não existam as mesmas razões, inclusive cumplicidades, mas a contradição entre a vontade do autor quanto
mas parece-me que estas são fundamentalmente de arquivos, com um aspec­ à forma impressa do texto, e a do editor em função do que pensa do texto ou
to um tanto paradoxal já sublinhado: o duplo temor à ausência ou ao excesso. do que espera dele no mercado, se traduz na afirmação do novo ofício e, ao
Porque, por um lado, os arquivos contemporâneos estão fechados até comple­ mesmo tempo, na afirmação de uma nova maneira de relação do autor com o
tarem 50 anos, por isso fazem falta como fontes para o estudo do mundo livro e com a própria profissão de escritor. E no século XIX estas duas vonta­
contemporâneo. Mas, ao mesmo tempo, há uma proliferação de fontes fora des se chocam e podem dar origem a toda uma série de conflitos, visíveis por
dos arquivos públicos, e a investigação dos historiadores do contemporâneo, meio da correspondência entre editores e autores, o que revela que estas
que não é meu caso, está sempre articulada ou organizada com a tensão do relações em geral não são idílicas. Com Gallimard, por exemplo, quase todos
que falta, porque está proibido ou vedado, e essa abundância ou superabun· seus autores têm uma relação conflitante. Mas além do conflito, que é psico�
dância de fontes oculta o conhecimento ao mesmo tempo que o revela. lÇJgico, há razões objetivas, não necessariamente conhecidas pelos próprios
atores históricos, que constituem a mudança paralela do editor estabelecido
como editor autônomo, como intelectual que faz livros, e do próprio autor em
O AUTOR E O EDITOR busca de sua profissionalização.
GowiN: A reflexão sobre o terceiro modelo de editor - o primeiro editor modei"·
no - conduz· me a pensar como o mundo da cultura escrita se converte cada vez COPYRIGHT E PROPRIEDADE LITERÁRIA
mais em assunto de muitos atores e vontades.
CHARTIER: Sim, essa é uma questão importante. É o momento em que se ANAYA: Há algo muito curioso: se há um terreno onde se .universalizou uma visão
inventa este ofício de editor. É ele quem se encarrega de reunir o conjunto das é precisamente o da propriedade intelectual, dos direitos de autor. A maior parte
; ! seleções que devem ser feitas para publicar um livro: escolha do texto, esco· das legislaçl5€s (embora haja países que ainda não assinaram os convênios de
lha do formato, escolha em um certo sentido de um mercado por meio da Berna e Florença) tendem a respeitar a idéia da proteção ao autor. Mas uma
publicidade e da difusão, o que significa que o editor desempenha um papel
·

tendência muito recente (que reflete também mudançàs no mundo da edição)


central para unificar todos os processos que fazem de um texto um livro. Em
·

fala de um direito do editor; ou seja, revaloriza o papel do editor neste trabalho


colaboração ou em oposição a ele, os autores mudaram de duas maneiras.
.
profissional. cõmo·poaeria-se situar eSta pr€eminê'ncia da âútofia de um texto
Mudaram porque nos séculos passados só uma minoria pensava viver de sua ou uma obra?
aflição e a maioria vivia de seu status, de sua fortuna, de sua condição ou do CHARTIER: É um tema que conheço unicamente em sua primeira parte,

mecenato e do patronato, o que, enfim, dava mais liberdade ao livreiro editor. que é a parte do século XVIII. Seria um pouco a trajetória inversa porque você
O século XIX é o momento em que se multiplicam as tentativas por parte dos mencionou o movimento que vai do direito �e a_�tf>.L3:10 direito de editor, e a
autores para se estabelecer como profissionais. Pedem então ao editor contra· trajetória do século XVIII vai do privilé&·i-odÓ ii;,:eiro a;dÍ��it� do e�critor. Os
tos que possam sustentar essa perspectiva; daí os inumeráveis conflitos entre estudos recentes sobre a Inglaterra e a França o mostraram claramente; fo·
os editores e os autores a propósito dos direitos. Esta reivindicação dos auto· ram os livreiros que inventaram o autor como proprietário de sua obra. No '"
res, cujo nível econômico vem criar dificuldades e tensões com o editor, é caso da FranÇa,-·o-·srstiiiúl..era ó··siStema do Privilégio: qUando um livreiro·
52 R O G E R CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 53

editor publicava um livro, pedia à Administração da Livraria (quer dizer, à se organizar, como o fizeram na França os dramaturgos em torno de Beau­
Chancelaria, não só a autorização para publicá-lo, o que remete à censura, marchais, e de outras formas nos países alemães, com o objetivo de pedir aos
como também um privilégio para exercer por 10 ou 15 anos o monopólio livreiros reconhecimento de seu direito. Mas até o século XIX, esta prática
sobre o título. E a prática desde o século XVII foi a prorrogação destes privilé­ continuou sendo limitada porque, como mostrou a sociologia dos autores, a
gios de maneira quase indefinida, sem que nenhum outro livreiro pudesse maioria deles vivia de sUa própria condição, de seus bens, de seu status, ou do
publicar o mesmo texto. Na Inglaterra, com as regras corporativas da Stationer's patronato, do mecenato de um príncipe, do rei ou de um aristocrata. Desta
Company, quando um livreiro entrava (essa era a expressão, to enter) um maneira, muitos não necessitaram do elemento econômico do direito de au­
título nos registros da Comunidade de Livreiros e Impressores Londrinos, a tor, embora no curso do século XIX tudo vai mudar, pois esta legislação, que
Stationer's Company acreditava ter um direito imprescritível e indefinido so­ tem suas raízes no Antigo Regime, se converte em um instrumento para rein­
bre este título sem que ninguém mais pudesse publicar o texto. A situação vindicar o direito de autor.
mudou primeiro na Inglaterra, em 1710, quando a nionarquia introduziu uma ANAYA: Junto com o surgimento da .figura do editor profissional, aparece a
dupla reforma: os próprios autores estavam capacitados para "entrar" um do escritor profissional...
texto nos registros da Stationer's Company e, de certa forma, se tornavam CHARTIER: Simplificando as coisas, a questão poderia ser enunciada as­
concorrentes dos livreiros. Mais grave foi o fato de que havia um limite na sim: antes existia uma dupla limitação. A primeira é que o direito de autor
duração do copyrigth (a primeira menção da palavra data de 1701 nos regis­ não compreendia uma remuneração proporcional à tiragem ou à venda dos
tros da Stationer's Company), com prescrição em 14 anos, passados os quais exemplares; ,(_�m�·i��-��o. CI�filj.itiVa>Por isso, o que alguns autores fazem é
qualquer um podia publicar qualquer título, particularmente os livreiros das vender em diversas ocasiões o mesmo manuscrito, o mesmo título. Temos o
províncias da Irlanda e Escócia. No século XVIII há uma série de pleitos pro­ exemplo de Jean-Jacques Rousseau, que vende três vezes seu romance A nova
movidos por livreiros de Londres; neles afirmam a imprescritibilidade de seu Heloisa: a primeira vez para Michel Rey, seu editor nos Países Baixos; a segun­
copyrigth contra os livreiros das periferias, que utilizavam a legislação real - da a um livreiro francês que já tinha a. permissão de fazer circular a obra na
o estatuto da rainha Ana - para publicar obras cujo copyrigth havia expirado França; e a terceira, com o pretexto do prólogo que acrescentou à obra sobre
ou está a ponto de sê-lo e, assim, aproveitavam a nova legislação para des­ a discussão em torno dos romances. Esta era a única possibilidade: as trans­
truir o monopólio dos livreiros de Londres. Para se defender, os livreiros de formações doTtexto, para vender duas ou três vezes a ob"tã". A exceção e·�affi os
Londres ou seus advogados inventaram a figura do autor proprietário de sua ãramaturgos, que recebiam uma parte proporcional sobre as entradas vendi­
obra; �legavam que seu direito era imprescritível, por haver recebido do au­ das em cada representação; esse foi o único exemplo de remuneração profis­
tor a cessão de uma propriedade inteira e infinita sobre a obra. Quando o sional durante o século XVIII. Mais tarde, este princípio entrará no direito de
autor a havia cedido por meio da venda ao livreiro, este se considerava e se autor para �belecer assim a prática contemporânea da relação proporcio­
apresentava como proprietário, com os mesmos direitos que o autor havia nal entre vendas e direitos.
tido sobre sua obra. Mas a história do século XVIII é para mim um momento-chave do que
Na França, houve um processo análogo. Frente ao temor da regulação e discutimos. Depois de ter inventado a figura do proprietário primordial, que é
limitação dos privilégios, mediante um mesmo expediente, os livreiros de o autor, devia se justificar por que este proprietário primordial era proprietá­
Paris pediram a Denis Diderot que escrevesse uma defesa de seu privilégio. rio. Pois cabe mencionar que no século XVIII a idéia de propriedade literária
Este texto é a "Carta sobre a livraria", no qual Diderot defende ao mesmo vai contra todo um discurso do Iluminismo que recusa a apropriação privada
tempo a perpetuidade do privilégio do livreiro e aproveita a situação para das idéias. Toda a ideologia iluminista, segundo Condorcet ou Sieyês por exem­
dizer que se o livreiro é um proprietário com um privilégio ilimitado, é por­ plo, consiste em afirmar que não se pode estabelecer uma propriedade literá­
que o autor o era previamente. O ponto é que, em ambos casos, esta defesa do ria, porque as idéias devem ser compartilhadas para o progresso da
privilégio da livraria - seja na forma administrativa francesa, seja na forma humanidade, e não há uma razão para que um indivíduo particular seja o
corporativa inglesa - conduziu finalmente à invenção do proprietário pri­ proprietário de uma obra em que haja idéias úteis para todos. ·
mordial: o autor. Mais tarde, os autores tentaram aproveitar esta brecha para
54 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 55

Nestas circunstâncias, devia se justificar o direito do autor contra seme­ NOTAS


lhante posição; e a justificativa foi dupla, como se vê claramente no contexto
dos pleitos na Inglaterra, ou nos informes escritos na França sobre a primeira !Francisco Rico, "La princeps dei Lazarillo. Título, capitulación y epígrafe de un texto apó­
justificativa, que foi jurídica. Esta se constituiu a partir da teoria do direito crifo", Problemas del Lazarillo, Madrid, Cátedra, 1988, p. 112-151.
natural, que considera o homem como proprietário dos objetos resultantes de 2Richard Gawthorp e Gerald Strauss, "Protestantism and Literacy in Early Modem Ger­
seu trabalho; assim, as composições literárias pertencem a seu produtor. É o many'', Past and Present, n. 104, 1984, p. 31-55, e Jean François Guilmont (comp.), La

conceito do direito natural à maneira de John Locke, fundado na idéia do


Réjorme et le livre. E Europe de l'imprimé (1517-v.l570), Paris, Cerf, 1990.
3Harold Love, Scribal Publication in Seventeenth Century England, Londres, Clarendon Press,
trabalho como atividade que transforma parte da natureza em algo manufa­ 1993. Ver também H. R. Woudhuysen, Sir Philip Sydney and the Circulation ofManuscripts

turado, em um objeto que, neste caso, pode ser um manuscrito, o que define 1558-1640, Oxford, Clarendon Press, 1996.

a base jurídica e legal do copyright. A segunda justificativa foi estética. Cons­


4François Moureau, De Bonne main. La communication manuscrite au XVIIIe siecle, Paris,
Universitas, e Oxford, The Volteire Foundation, 1993.
tituiu-se a partir de toda a ideologia estética da originalidade. Embora as SAnnando Petrucci, La Scritura, Ideologia e rappresentazione,
.-:-\
�im, Giulio Einaudi, 1986.
idéias sejam compartilhadas, se argumentou, há algo nas obras irredutível­ 6Véi:-Proéiié'ding ofthe 25th Cohgrcis of the Iritári.iitiOnci.I Publishers ASsociation (Barcelona,
mente singular e pessoal: estilo, sentimento, a maneira de escrever; assim, foi 22-26 de Abril, 1996), Barcelona, La Magrama, 1998.

possível desvincular a necessidade de compartilhar as idéias, que não perten­


7Francisco M. Gimeno Blay, "Quemar livros... lqué extrafio placer!", Eutopias, segunda épo�
ca, v. 104, 1995.
cem a ninguém, em relação à forma e à expressão, que são particulares, que SLucien Febvre e Henri-Jean Martin, I.:Apparition du livre, Paris, Albin Michel, 1958 (tradu­
são a tradução de um indivíduo. Sobre essas duas bases, a estética e a jurídi­ ção para o espanhol de Agustín Millares Carlo: La aparición del libro, México, UTEHA,
ca, estabeleceram-se o direito de autor e a figura do autor proprietário. Para 1962).
9Roger Chartier, Hisoire de l'éditionfrançaise, v. rv, Paris, Promodis, p. 621-641.
concluir este ponto, vê-se que em nossa sociedade estes dois elementos são tORobert Rarnton, "What is the History of Books", Daedalus, v. III, n. 3, verão de 1982, p.
chave em nossa relação com as obras literárias, estéticas, filosóficas ou cientí­ 65-83.

ficas. Com base na originalidade, remete-se a obra ao indivíduo singular e se tlStephen Grenblat, Shakespearean Negotiations. The Circulation ofSocial Energy in Renais­
define a partir de sua coerência, de seu estilo, de sua diferença. Além disso, a sance England, Berkeley e Los Angeles, University of Califomia Press, 1988. Ver também H.

definição jurídica já reconhecia em todo trabalho uma dimensão de proprie­


Aram Veeser (org.), The New Historicism, New York e London, Routledge, 1989.
t2.Lucien Febvre e Henri-Jean Martin, I.:Apparition du livre, 1958.
dade. 13Henri-Jean Mali:in La escritura y la psicologia de los pueblos, México, Siglo XXI, 1968, p.
A vinculção entre estes dois elementos, a justificativa jurídica e a estéti­ 285-306.

ca, estabeleceu-se no século XVIII. Quando discutimos, comentamos ou le­


HHenri-Jean Martin (e Bruno Delmas, colab.), Histoire et pouvoirs de l'écrit, Paris, Perrin,
1988/Paris, Albin Michel, 1996.
mos obras dos séculos XV, XVI ou XVII, ou da Idade Média, os critérios que t 5"Del códice a la pantalla", em Sociedady escritura en la sociedad moderna, México, Insti­
utilizamos espontaneamente para as obras modernas, ou seja, posteriores ao tuto Mora (Colss.ción Itinerários), 1993, p. 249-263.
século XVIII, não funcionam para aquelas, pois não são pertinentes. Devemos 16Margit Frenk, Entre la voz y el silencio (La lectura en tiempos de Cervantes), Alcalá de

reconstruir um conjunto de categorias completamente distintas entre uma e


Henares, Centro de Estudios Cervantinos, 1997.
17Paul Saenger, Space Between Worlds. The Origins of Silent Reading, Stanford, Stanford
outras épocas com o objetivo de entender os modos de identificação, atribui­ University Press, 1997.
ção, circulação e apropriação das obras anteriores à definição do autor como tSRobert Bonfil, "La lectura en las comunidades hebreas de Europa occidental en la época
proprietário. medieval", em Guglielmo Cavallo e Roger Chartier (coords.), Historia de la lectura en el
mundo occidental, Madrid, Taurus, 1998, p. 231-179.
GOLDIN: Se concordam continuamos amanhã... 19Yosef Hayim Yerushalmi, From Spanish Court to an Italian Ghetto. Isaac Cardoso: A Study
in Seventeenth-Century Marranism and Jewish Apologetics, New York, Columbia University
Press, 1971. Nova edição, com o mesmo título, em Seattle, University of Washington Press,
1981.
56 ROGER CHARTIER

20Luciano Canfora, "Les bibliotheques anciennes et líhistoire des textes", em Le pouvoir des
bibliotheques. La mémoire des livres en Occident, Marc Maratin e Christian Jacob, (org.),
Paris, A!bin Michel, 1996, p. 261-272.
21Robert Darnton, em Pascal Fouché (dir.), EÉditionfrançaise depuis 1945, Paris, Cercle de
Librairie. Seg u nda Jornada
22Pascal Fouché (dir.), EÉdition FrancÍçise depuis, 1945.

qs ESPAÇOS DA
HISTORIA DO LIVRO

A HISTÓRIA DO LIVRO: CENTRO E PERIFERIAS

Jesús Anaya Rosique: Poderíamos entrar propriamente na história da leitura.


Robert Darnton, em seu mencionado ensaio What is the Histo:ry of the Books?,
conclui que a história do livro, por sua própria natureza, deve ser internacional
em suas dimensões e interdisciplinar e� seu método. Você publicou há dois anos
um editorial na revista In Octavo em que fala disso mesmo, inclusive de uma
idéia de como t própria rede internacional e multidiciplinar construída por meio
de In Octavo permite ir conhecendo o que acontece, e você aponta alguns desenM
volvimentos retomados por outros estudos, que se referem a zonas totalmente
desconhecidas, como o mundo árabe ou a África; do mesmo modo poderíamos
comentar alg&.sobre as situações da América Latina e Espanha, que estão muito
ligadas.
ROGER CHARTIER: Sim, poderíamos começar com a idéia de que há uma
relação entre a história do livro e a da leitura como uma disciplina científica
com sua geografia, seus lugares privilegiados, seus centros e suas periferias,
assim como com a dimensão histórica da edição depois de Gutemberg. Esta
história, que localizou suas próprias empresas na Inglaterra, nos Estados aleM
mães, na França, nos Países Baixos, na Suíça e nos Estados Unidos. Nestes
países há um mundo de estudos, projetos e realizações que d�finiram a histó­
ria do livro como uma disciplina autônoma quE!. entrou nos outros campos
disCipliriares: história da literatura, sociologia cui!llral; etnologia, etc. Aqui se
percebe uma espécie de reflexo das realidades do passado porque se trata dos
países onde a produção do livro, a organização da livraria e os níveis de leitu�
58 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 59

ra foram os mais altos entre os séculos XVI e XVII. Mas isso não significa que casos, nos quais a definição primordial é a nação. Por outro lado, parece·me
não haja diferenças entre estes centros, se assim podemos chamá-los, da his­ que nestes paíSes as t[ádições historiográficas não levaram necessariamente a
toriografia do livro, nem tampouco que não haja outras áreas onde a produ­ uma história do livro, da edição e da leitura. Na .I�áli�, porque foi dominante
ção e o consumo de livros fossem importantes. uma histó��a das idéias, particularmente do Ilu�iiiiSffio, arraigadas na tradi­
O que podemos dizer é que atualmente há diversos projetos que tentam ção de Croce que é recuperada pela obra de FrancÕ VenturD. Aqui o enfoque se
construir uma história global e de longa duração em torno dos temas que dirige mais às idéias em seu processo de criação e menos às práticas culturais
discutimos: livros, leitura, edição, mas com matizes. Na França, como disse­ que delas se apropriam. Na Espanha parece-me que a nova história, depois do
mos, este projeto finalmente teve como resultado a Histoire de l'édition fran­ franquismo, foi, em essências, uma história à maneira dos primeiros Anais
çaise, obra organizada em torno do próprio conceito de edição, entendido franceses: história das populações, história social, história econômica, que só
este como o processo pelo qual poderiam se vincular os elementos técnicos, nos últimos anos cruzou a tradição da história literária e uma forma nova de
sociais, culturais e literários. Na Inglaterra e nos Estados Unidos há dois pro· história cultural. Esta é a razão, acredito, de que haja atualmente uma desi­
jetos de história global neste campo; são histórias do livro porque tais estudos gualdade em relação a este centro da história do livro baseada em uma tradi·
se baseiam aqui na tradição da bibliografia, que utiliza como primeira fonte o ção historiográfica antiga, com distintas vertentes, mas que acumulou estudos
próprio objeto impresso. Na França, a história do livro foi mais uma história que oferecem projetos sintéticos. E falei unicamente das periferias mediterrâ­
que utilizou fontes documentais de tipo clássico, como os arquivos de cartóri· neas, mas temos o problema de toda a Europa, do Centro e do Leste, porque
os, para reconstruir o meio social dos produtores ou a presença do livro nos deve-se dizer que, de alguma maneira, nos países da Europa do Norte há
inventários post mortem. Assim, existia uma forte dependência entre a histÓ· estudos similares aos ingleses, ou que desenvolveram os temas de uma histó­
ria do livro, da edição e da leitura, e a história social, que utilizava de maneira ria sociocultural do livro; mas continuam sendo fragmentários e infelizmente
quantitativa estas fontes clássicas, basicamente as fontes cartoriais. Na Ingla­ de circulação limitada, pois estão publicados nas línguas da Europa do Norte,
terra e nos Estados Unidos a fonte primordial é o objeto impresso, descrito e o sueco e o dinamarquês, e apresenta,m então uma dificuldade para a leitura
analisado para entender o processo de produção do livro, a história técnica e de muitos pesquisadores...
do trabalho, ou o texto mesmo, pois a tradição bibliográfica não separa o DANIEL GfLDIN: Sempre me chamou a atenção uma visão anterior a todos
estudo das obras do estudo de sua forma tipográfica. Na Alemanha existe os desenvolvimentos dos últimos 40 anos, que se desprende de um livro muito
agora o projeto com enfoque não no conceito de edição, nem no de livro, mas popular em espanhol quando se trata da história do livro, o de Sven Dahl, que
no conceito de livraria." -O que se desenvolve é a vontade de prolongar o livro oferece uma visão bibliográfica, uma visão que prevalece.
clássico da história da livraria alemã, o publicado entre os últimos anos do CHARTIER: Sim, em um ensaio publicado em nossa pequena revista In
século XIX e começo do XX. Deste modo observamos que neste centro geográ­ Octavo quis salientar que, embora existam razões históricas que explicam as
fico da história do livro há matizes nacionais, que remetem ao dominante em diferenças entre o centro e as periferias, a situação atual mudou. Assim nós,
uma tradição historiográfica mais ampla que a do estudo do livro, da edição e historiadOres ingleses, franceses e alemães,-. devemos ser mais conscientes de
da leitura. que há inovações, talvez pela própria razão do atraso em outros países. Por
Fora deste centro, há outras situações importantes que devem ser consi· exemplo, parece que já existe na Espanha o encontro entre uma história dos
deradas e que, em geral, são ignoradas pela história do centro europeu: o gêneros literários e uma história dos gêneros editoriais; algo muito original:
mundo da edição ou do livro dos países mediterrâneos, e fora da Europa, o romance e cadernos soltos, gêneros breves e formas particulares de edição.
mundo das antigas colônias transformadas em países independentes. Parece· Parece-me também que a Espanha do Século de Ouro, por meio da tematiza.
me que temos aqui uma dupla dificuldade: por um lado, no caso da Itália e no ção da literatura, expressa coisas agudas sobre as práticas de leitura, a tensão
da Espanha, falamos de Estados nacionais mais recentes ou, ao menos na entre a leitura em voz alta - que, como mostrou Margit Frenk, é fundamen­
Espanha, de um Estado onde se reúne uma diversidade de identidades, se não tal para á circulação dos romances e das comédias -, e os progressos da
políticas ao menos históricas e culturais; e no caso da Itália, temos entidades leitura silenciosa.
políticas autônomas, por isto é mais difícil armar um projeto qu� �iú)s outros
60 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 61

Deste encontro se desprendem muitas conseqüências. Por um lado, sur­ crítica literária espanhola ou dos trabalhos sobre os gêneros editoriais, o que
ge o temor do que pode produzir a leitura silenciosa: esta apaga as diferenças me parece inovador no campo de nossa reflexão. Infelizmente, quase todos os
entre o mundo imaginário da literatura e o mundo social dos leitores. Portan­ estudos produzidos no núcleo tradicional da história do livro e da edição
to, as leis que proíbem a produção, difusão e leitura de romances de cavala­ ignoram ou não levam em conta este conjunto de estudos, talvez devido ao
ria, de farsas de amores, e de textos de diversão nas colônias de ultramar, problema da língua e da distância cultural, pois a cultura espanhola do Sécu­
incluindo um projeto de lei das Cortes, de 1555, que pretendia estender à lo.4e._,Qp.ro, com a _exçeção �t:;._ Qui.�pte:, não entrO\i 'de� tqdo no patrimôniO
..

própria Espanha esta proibição. Por outro lado, o jogo da literatura, com esta u��ver�al. É um_ exemplo, e acredito que se poderiam propor outros, para
tensão entre a leitura em voz alta - que manifesta claramente que o mundo dizer que o mundo__da. Q_istória do livro muda;·, que deve-se abrir para uma
do texto não é o mundo do leitor - e a leitura silenciosa, como no caso de dimensão ma,i�-ª.rnpla com novas comParações.
Quixote, que faz desaparecer a diferença. A literatura picaresca, em sua rela­ .... . l'ô'demos falar um pOuco da situação nos países da América Latina que
ção específica com o leitor, é, talvez, outra resposta à proibição, que sugere durante algum tempo foram parte deste mundo cultural hispânico do Século
em que se deve ou não acreditar, e mantém com o leitor uma relação que de Ouro. Não conheço muito do passado do México e por isso seria interes­
alimenta a ficção como algo divertido, mas em forma de ficção. sante que vocês pudessem dizer algo a propósito do tema. Acredito que há
Háou_tro elemento, que é a formação do público. -Da Espanha do Século
.
uma dificuldade para armar projetos nacionais, e que esta dificuldade reme­
de Outro selnpr� me interessou o vínculo entre um re�ertório de gêneros � te-se também à própria história destes países porque, como definir, a partir do
romances, comédias e relato� de fatos - e uma forma ao mesmo tempo edi� Estado nacional dos séculos XIX e XX, uma história retrospectiva que, em
torial e material - o caderno solto -, com as implicações que ajudam ser o alguns casos, não pode seguir as próprias fronteiras geográficas? Como se
suporte de semelhantes textos. Em sua dimensão material, isto corresponde pode definir uma história do livro argentino, ou uma história de outro país
às capacidades técnicas das oficinas tipográficas, que seguidamente têm ape� sul-americano, quando a identidade como nação é relativamente recente? Se
nas uma só prensa com que é possível imprimir em um dia uma folha de projeta de maneira retrospectiva a realidade geográfica nacional ou política
papel, o que corresponde à mesma definição do caderno solto com 1.500 do Estado-nação sobre um mundo qUe funcionava conforme outras regras,
exemplares. Há uma lógica econômica e técnica que estabelece no caderno outras divisões e outras pertenças, vemos que existe sempre o risco de certo
solto - uma folha de papel dobrada duas vezes, dá uma folheto de formato anacronismd. Cito um caso na Europa em que se observa esta dificuldade: o
in�quarto - uma correspondência entre esta capacidade técnica e as dimen­ projeto da história da edição e do livro nos Países Baixos. É um projeto que vai
sões textuais do romance, da comédia solta ou do relato de fatos. Surge o considerar o que são os Países Baixos hoje em dia e a parte flamenga da
público em sua dupla definição: culto e vulgar, o que não supõe imediatamen­ Bélgica. A definição aqui está colocada não só pelo marco do Estado nacional,
te uma dimensão social, mas a existência de um público com juízo estético: o como pela líllgua. Mas o que acontece com este projeto, com a Bélgica? A
dos letrados, dos que sabem apreciar as obras, e o público vulgar, que não é Bélgica existe agora como um Estado-nação com uma unidade. Vemos assim
necessariamente popular, mas que está fora deste mundo dos critérios de como subsiste a tensão entre uma história cultural e uma história que toma
juízo estético. A Espanha do Século de Ouro deu as expressões mais intensas como princípio o marco nacional. É de todo evidente que o problema não
e explícitas deste duplo público: na obra picaresca Guzmán de Alfarache, de existe quando se fala da França ou da Inglaterra, mas existe quando se fala de
1599, há dois prólogos: um para o sensato, ou leitor culto, e outro para o países como a Bélgica e os Países Baixos, e leva a uma história do livro ou da
vulgo, ou leitor vulgar, o que constitui uma visão deste duplo público, ou seja, edição construídas sobre uma base lingüística. Temos assim outra dimensão
que as obras podem ser divididas conforme seu destinatário - o público vul­ da história que se defronta diretamente com os problemas do presente...
gar ou o culto -, ou que a mesma obra pode fazer a proposta a ambos públicos. ANAYA: Isso acontece com os trabalhos de Quebec?
Desta forma, parece�me que na Espanha do Século de Ouro existe uma CHARTIER: Até onde sei, não existe um projeto de uma história do livro
reflexão acerca da trajetória que vai do texto ao objeto e do objeto ao leitor, no Canadá. E aqui podemos ver outro problema: como escrever a história da
que não existe da mesma maneira em nenhuma outra tradição literária. E edição em língua francesa fora da França? Porque com a Hi.stoire de l'édition
esta base histórica foi revelada pelos trabalhos historiográficos por meio da française esse foi um problema. Em teoria, nós aceitamos quase inconsciente-
62 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 63

mente o marco nacional, mas incluímos capítulos tanto sobre os livros produ R zido para o castelhano há quase 40 anos, mas que então passou inadvertido. O
zidos para o mercado francês, sem importar seu lugar de produção, como curioso é que se nestes anos ressurge ou nasce um interesse por estes temas, não
sobre a edição na Bélgica, Suíça ou Quebec, onde se publica em francês, mas é precisamente entre os historiadores, mas entre os editores. Talvez estejamos
não para o mercado francês, ou não unicamente para o mercado francês. E se correndo o risco de fazer uma leitura superficial das coisas, de não entender as
consideramos esse problema nos séculos XIX e XX, temos diante de nós o diferenças. Assim, os fenômenos que você descreve para a França, a partir de
universo da edição francesa para os países africanos e a edição própria dos 1830, nós os vemos aqu� talvez, um século depois, de maneira que não há cor­
pals�s africanos, de maneira que o quadro adquire uma grande complexida­ respondência nos tempos históricos.
de. E o problema da tensão entre o Estado nacional e a unidade cultural GOWIN: Mas há idéias comuns que poderiam ser úteis: penso em seu livro
baseada em considerações lingüísticas, no uso da mesma língua. o problema Lo� orígenes culturales de la Reyolución francesa, que matiza a importância
adquire complexidade a partir de todas as relações econômicas que se estabeR das idéias como origem da revolução. Com freqüência, na América Latina, acre­
lecem. Podemos falar, por exemplo, da publicação no século XVIII em um ditamos que são as idéias a origem dos movimentos sociais.
�stado alemão, de um livro destinado ao mercado francês; das publicações CHARTIER: Realmente, existem muitos elementos comuns. Em primeiro
dos editores franceses paras as colônias e, mais tarde, para os países indepen­ lugar, talvez não seja tanta a distância entre o centro europeu, onde os estu­
dentes, mas de língua francesa, etc. Esta é uma questão aberta em que se vê dos têm uma tradição mais forte, e o campo das periferias, com sua suposta
como uma história particular - a história do livro e da edição - pode ajudar fraqueza neste campo de estudos. Por um lado� não se deve idealizar a situa­
a refletir sobre problemas do passado e do presente, em particular sobre a ção européia. Na França, por exemplo, até hoje falta uma bibliografia retros­
tensão entre a definição clássica do Estado nacional e as definições mais com­ pectiva de todas as edições publicadas desde 1470, ano em que foi instalada
plexas, mais fluidas das unidades culturais. a primeira oficina na Sorbonne; neste ponto nós, franceses, continuamos ten­
do um atraso em relação ao mundo inglês, onde as bibliografias sentam as
bases para todas as pesquisas e consultas. Por outro la,d�,..o que caracteriza
LIVROS, REVOLUÇÕES E COLONIZAÇÃO nos últimos anos a pesquisa em países· como Méxica,, Brasil Ou Argentina é o
desenvolvimento de estudos de tipo monográfico, se bem que não se deveria
ANAYA: Aqui surge um ponto importante relativo a quais são as contribuições da cq�eçéi:�J�9!.�§!e�!ipo de est1:14os. Há uÍn número da revista HiStórias, editado
história do livro. Em um de seus trabalhos você dizia que todas as questões da pela Direção de Estudos Históricos do INAH, do México, dedicado por com­
história do livro, da edição e da leitura têm que ver com as evoluções maiores pleto a ensaios e artigos sobre a cultura impressa. l E sei que no mestrado de
que transformaram a civilização européia ou ocidental no sentido mais amplo, edição (Guadalaja e México) há estudos que desenvolvem projetos de investi­
da Idade Média à época contemporânea, ·entendendo o processo de civilização gação sobru edição nos séculos XIX e XX no México. Assim, a situação não é
como o faz Norbert Elias. Talvez para nós, no México e nos países da América tão desigual como poderia se pensar.
Latina, seria importante desenvolver este novo espaço intelectual. o que pode­ Penso que há uma relação muito estreita entre a historiografia, que é a
mos constatar é que nos últimos 40 anos nossa pesquisa histórica começou a se história que os historiadores escrevem, e a história, que é a história de seu
transformar em uma história social e econômica, e em menor grau, cultural. país. Mas também podemos pensar em uma perspectiva mais global,' pelo
Esta é muito recente e incipiente e, portanto, a reflexão sobre a história do livro menos aplicável ao mundo de tradição européia, que compartilhamos. Por
a partir da colônia na Nova Espanha, ou em outras partes da América colonial, exemplo, na relação entre a circulação dos livros e aS "figuras revolucionáriaS.
apenas está em fase quantitativa, estatística ou seria� na fase bibliográfica de A Revolti�ão mexicana (1910), ou a russa (1917), ou a francesa (1789), ou a
descrição de um corpus, e talvez incompleta. Mas já se começa a perceber o inglesa (1688) são experiências históricas em que se observa e discute este
interesse por estes temas que vocês desenvolveram na França e na Europa; as tema: a revolução sempre constrói raízes, origens, precursores e, ao mesmo
referências aos seus trabalhos, aos de Darnton e de outros historiadores do livro tempo, se pensa como ruptura, como descontinuidade. Devem se questionar
revelam-nos, em nosso meio, obras que não se conhecem, ou muito pouco. Isso é as condições que tornam possível a ruptura com a antiga ordem, os papéis
o que aconteceu com o surgimento do livro de Henri-Jean Martir;z, que foi tradu- recíprocos que desempenham, por um lado, a cultura escrita, a mesma que
/ ' (/

64 ROGER CHARTJER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 65

vai modificar, transformar as maneiras de pensar, sentir ou atuar; e, por ouM vinculada à produção, circulação e apropriação do escrito. Vemos então como
tro, as transformações que não têm nada que ver com a circulação dos textos a constituição desse espaço público, que sempre encontra resistências por
nem com a leitura de livros. É um tema essencial, e aqui o projeto de uma parte das autoridades, se desenvolveu a longo prazo desde a Inglaterra do
"história comparada das revoluções e suas origens" poderia ser fundamental. final do século XVII até a França e outros países ,.europeus do século XVIII, e
Estas evoluções, com ritmos diversos, têm relação com todo o mundo ociden­ mais tarde conquistou a América. .�.: ,, ;/> (. / \ ' - ' " ) . :
tal, seja pelo lado da Europa ou pelo lado das colônias nos séculos XVII e ANTONIO SABORIT: O que incide diretamente no acordo historiográjiéo que
XVIII, e depois, pelo dos Estados independentes da América. Em todos os convida, e desafia, a apreciar o século XVIII, o século do Iluminismo, em compa­
casos, a constituição de uma esfera privada da existência fundamenta-se nas nhia da rica e intensa segunda metade d� ��culo XVII europeu.
práticas do escrito, lido ou produzido, nas práticas de leitura comunitária ou CHARTIER: Existe também uma segunda· trajetória que me parece funda­
individual, nas transformaçqes da relação do ind_ivíduo com os. outros ou con­ mental. Se a (primeira trajetória - a das novas formas de sociabilidade -
sigo mesmo m-ediante a cultura_ escrita... Aqui há um conjuntO de"!�àS êiue se identifica-se cÜi'h a noção de vida privada; se a segunda - a da circulação do
identifica com o nome de \Philippe Ariês e com um projeto como a História da escrito· ...:...,i...., dentifica-se com a perspectiva do espaÇo público e crítico; uma
vi4.g Privada, que explora à'ilivenção do privado, não no sentido ecOnômico terceira idehtifica-se com o processo de civilização como o descreve Norbert
.
atual, mas no sentido da separação de uma esfera de existência diferenciada '··-Elias. É um processo compartilhado em ambos lados do Atlântico e que incor­
da vida comum e comunitária, ou do. Estado, e que utiliza, de maneira impor­ pora nos indivíduos controles sobre seus comportamentos e condutas, que
tante, m3.s não única a Çulttita escrita.2 Mas, como dissemos, não devemos reforçam o umbral do pudor, que oprime os afetos e que, também neste caso,
ver a cultura escrita exclusiVamente como uma cultura impressa, destinada à se produz apoiando-se na cultura escrita, pois por meio dos textos se definem
leitura. Uma segunda evolução, de certa forma em sentido contrário, é a cri­ as novas formas, desde Erasmo até os tratados de boas maneiras dos séculos
ação de uma esfera pública de debate, de discussão, de crítica, que define um XVII, XVIII e XIX. Se há uma incorporação, uma internalização das normas
espaço público novo na Europa do século XVIII e nos Estados da América por meio da experiência imediata, é porque se utilizam os livros impressos;
Latina do XIX. Este espaço se fundamenta em duas realidades. Por um lado, por um lado os tratados de boas maneiras, e por outro os manuais escolares,
em novas formas de sociabilidade, de encontros entre pessoas privadas que a fim de impor "ditas" regras de comportamento. Temos também uma trajetó­
discutem e criticam os as�untos de Estado e da autoridade em geral, que é o ria de longa ãuração que cruza o Atlântico e se apóia no escrito. Desta manei­
que sublinhou Jürgen..Habermas sobre a invenção de um �spaço público e· ra, acredito que há uma possibilidade de vincular o que até agora está
pr(tiCO-�n�, séCulo XVI.IJ�·a cafés, dub!=s, salões, sociedades Hierádas-. É uma desvinculado.
forma· de soCiabilidade em que os suJeitos privados fazem um exercício públi­ Gostaria de acrescentar outro tema pois parece-me que, por meio da
co de sua razão, de sua razão crítka da autoridade, seja .d� Igrej? ou do história do Wrro, se pode introduzir a relação entre as culturas pré-hispânicas
Estado. 1·� ··.· .! '.J·_ · ) '": e a dimensão colonial e p_ó.s.:colonial da América Latina. Assim como o que fez
Mas há uma segunda realidade, que é a circulação do escrito; e segundo meu colega! Serg€: Gruzinsk.i'ao estudar os códices anteriores ou posteriores
a definição de Kant sobre o Iluminismo, o elemento essencial não são as for­ ao ano da Cõ:nqllista; o 'que Significa estudar um fenômeno de apropriação em
mas de sociabilidade, mas a circulação do escrito, o que permite a constitui­ todas suas dimensões.5 Não sou de maneira nenhuma especialista nestes te­
ção de um público sem que as pessoas estejam necessariamente no mesmo mas, mas para mim foi importante notar que para reconstruir esta tensão ou
lugar, em mútua proximidade. Este espaço público, que se define a partir das encontro entre os conceitos de tempo, espaço ou pessoa, que enfrenta e ao
práticas solitárias de escrita ou de leitura, é um espaço em que cada indiví­ mesmo tempo mistura dois mundos, Gruzinski utilizou os códices mexicanos,
duo, como disse Kant em seu ensaio "O que é o Iluminismo? (1784), deve que são livros. Depois da Conquista, houve pintores indígenas, mas já incor­
atuar como sábio frente ao público que lê.4 Na perspectiva de Kant, o Ilumi­ porados ao mundo ocidentalizado de regras, critérios e convenções; cristiani­
nismo é mais um processo, uma tendência, um movimento que terá concluído zados não só em termos de religião, como também do que é uma representação
quando cada um possa atuar produzindo textos como sábio e recebendo ou­ do indivíduo, do espaço ou do passado. Os códices mexicanos expressam ao
tros como leitor. A definição do novo espaço público está assim estreitamente mesmo tempo uma aculturação e uma autonomia preservada; os pintores
66 R O G E R CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 67

indígenas se apropriam de maneira original das normas que definem modos ser a matriz de usos e de apropriações diversos. Parece-me que isto abre ne­
completamente diversos de representação e de pensamento. Aqui há uma cessariamente a definição do social, a categoria do social, que talvez seja
dimensão que não devemos esquecer na história do livro, porque se na Euro­ demasiado estreita quando é pensada unicamente a partir de critérios socioe­
pa esta não começa com Gutemberg, no México não começa com Hemán conômicos. Mas quero ser bem entendido: não se trata de .rejeitar a história
Cortés. social como base da compreensão histórica das práticas culturai�·ffias de
esclarecer que não é possível encerrar as diferenÇas··sociais unicainente em
critérios socioeconômicos; devemos sempre mesclar, cruzar diversos critérios
APROPRIAÇÕES E TRADUÇÕES que nos permitam dar conta das diferenças que se observam na circulação
dos artefatos culturais.
CHARTIER: Acho mais importante reconhecer quais são as diversas tradições e ANAYA: Não sei se. há estudos que meçam as realidades culturais européias,
os contextos intelectuais a partir dos quais se construiu o projeto d� história como por exemplo a quantidade de obras traduzidas. Para nós é muito impor­
.
culturaL É claro que na França este gênero se Construiu ·a · partir da história tante o que se traduziu; somos países subsidiários de um processo de cultural
social, e que todos os nossos esforços dos últimos anos consistiram, sem aban­ central, digamos assim, e graças às traduções para o espanhol há livros-chaves
donar a definição social das representações e práticas culturais, em não redu­ que circularam entre nós.
zir as práticas nem os artefatos culturais às hierarquias das condições CHARTIER: Podemos dizer alguma coisa sobre a questão das traduções.
socioeconômicas. Devemos considerar, ao contrário, quase como um texto, Falamos muito da apropriação, mas o problema é como fazer uma história
um gênero editorial ou um código de comportamento podem ser comparti­ desta. O termo é interessante; permite vincular as duas dimensões etimológi­
lhados em e por diversos meios sociais, mas utilizando e apropriando-os de cas que estão presentes nele: apropriar-se_é est�belecer a propriedade sobre_\
maneira distinta. Assim, evitando tomar como ponto de partida a diferença _algo; e, d.esta maneira, o conceito de apropriaçãg)oi utilizado por Jy1ich�tJ
social entendida como diferença socioeconômica, parte-se da observação da ( Foucauts .Para descrever todos os dispo�itivoS que tentam cC?n�ro.Iar a dilúsão
áJ;"ea_ de circulação de um gênero textual ou editorial, ou de um código que vai e-·:rdrêlllação dos discursos, estabeleéendo a propriedade de alguns sobre o
corrigir os comportamentos, ou de um texto em partictilát: Depois de reco­ discurso por meio de suas formas materiais. E existe a apropriação no sentido
nhecer as fronteiras da circulação deste artefato cultural, trata-se de compre­ da hermenêud:ca, que consiste no que os indivíduos fazem com o que rece­
ender como diversos meios e comunidades usam e interpretam de várias formas bem, e que é uma forma de invenção, de criação e de produção desde o
um mesmo artefato. A $'ociologia culturart:ontemporânea, por exemplo da momento em que se apoderam dos textos ou dos objetos recebidos. Desta
televiSão, poderia servir como modelo de análise, afinal os programas da tele­ maneira, o conceito de apropriação pode misturar o controle e a invenção,
visão são compartilhados: indivíduos pertencentes a quase todas as camadas pode articulaJ;.. a imposição de um sentido e a produção de novos sentidos,
sociais vêem o mesmo programa; mas a maneira de vê-lo, a relação com ele, mas há um problema histórico ou historiográfico: como fazer a história das
o discurso sobre ele, a interpretação do que foi, mudam conforme as comuni­ al?ropriações? Porque se necessitam fontes para isso, e esse tipo de fontes
dades construídas sobre critérios sociais que não são necessariamente crité­ geralmente não foram deixadas nem pelos Estados nem pela Igreja, nem pe­
rios socioeconômicos, embora estes desempenhem papel.impC?rtante. los arquivos "clássicos" da história. As traduções oferecem uma maneira de
ANAYA: Você propõe repensar o conceito de diferença social,1 como Pierre estudar as apropriações; elas dão imediatamente, de uma língua a outra, o
Bourdieu, não só com proposições socioeconômicas, mas envOlv-endo também horizonte de recepção de um texto. Temos um primeiro elemento da história
outras dimensões mais concretas: homens, mulheres, cidade, campo, católicos, das traduções que é um elemento básico da história da edição: quais são os
protestantes, gerações, oficios, corporações... .- · · -- - . textos traduzidos? Quais são as empresas que traduzem? Qual é o meio dos
-
CHARTIER: Não é um princípio teórico, mas ao estudar as form�s particu­ tradutores? Aqui há uma contribuição da história da edição e da sociologia
lares de circulação e de apropriação culturais, conclui-se que- é"6nforme os literária absolutamente necessária.
períodos a diferença mais importante nem sempre é a diferença socioeconô­ SABORIT: O que você propõe diz respeito a certas indagações muito revela­
mica. A diferença entre homens e mulheres ou entre crenças religiosas pode doras: os estudos de A G. Cross sobre os livros de origem inglesa traduzidos para
\
}; "
68 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 69

o russo em fins do século XVIII, ou o trabalho que poderia se empreender para como os leitores recebiam as traduções, indicada pela composição das biblio­
essa mesma época com uma fonte como a Gazeta de Literatura de México de José tecas ou, quando isso é possível, a partir do que escreveram os leitores sobre
Antonio Alzate. São zonas repletas de apropriações que restituem densidade à as leituras de textos traduzidos.
relação entre um centro ou metrópole produtor e as diversas estratégias das Assim, pois, devemos inventar as fontes que permitam uma história da
periferias. Mas também me vem (I mente o ensaio de Frances Yates sobre Trans­ apropriação ou das apropriações. A tradução é uma forma; outra que pode se
formações do Ugolino de Dante, no qual esta autora rastreia tanto a constru­ vincular a ela é a resenha. Desde sua origem, entre os séculos XVII e XVIII, a
ção de uma presença canônica como sua influência na Inglaterra por meio das resenha de livros nos jornais consistia antes em extratos de textos e não no
traduções. que hoje conhecemos como resenha. Aqui o mais apaixonante é a reescrita de
CHARTIER: Esse é um segundo nível. Seguindo uns textos particulares, fragmentos do livro comentado. Uma estudante que trabalha comigo, Yosmi­
· um gênero textual, uma obra específica ou um autor particular, teria que se ne Mareil, comparou os relatos de viagem em sua edição livresca com as
analisar como foi traduzido. O que significam as seleções dentro de todas as resenhas, notícias e extratos destes relatos aparecidos em diversos jornais do
possibilidades? Quais são os textos traduzidos de um autor e quais não? Qual século XVIII. São os mesmos problemas: quais são os textos escolhidos? Quais
é o registro da tradução? Porque algumas vezes a tradução altera o registro são os fragmentos do texto selecionados? Como se faz a reescrita? O que
de um texto. Um exemplo que estudei foi o do Buscón de Quevedo. O texto de muda no texto? Porque, em geral, não há uma idéia da literalidade como nós
Quevedo foi traduzido para o francês pela Geneste-Scarron e, por meio do a entendemos: há uma liberdade nas citações que não responde às regras que
repertório do burlesco, a picaresca espanhola se transforma em algo que per­ depois, no século XIX, aparecem com a filologia: citação literal, referência de
tence a um repertório distinto. Vê-se como o tradutor muda palavras, perío­ fontes, etc. No século XVIII há uma certa liberdade, e seguidamente se trata
dos, formas e episódios para ajustar o texto ao gosto dominante do momento de uma escrita paralela ao fragmento citado. É outra forma de recepção pois
da tradução. Aqui a história da tradução pode-se apoiar na história dos esti­ permite ver como, por meio do jornal, que tem seu próprio meio leitor, sua
los, na da língua, na da literatura em sua dimensão mais propriamente estéti­ própria lógica dirigida a certo públicq,
' se elabora uma matéria editorial a
ca. E neste segundo nível, vemos como, por meio da tradução, podem-se criar partir dos livros resenhados.
obras ou autores. Trabalhava comigo uma estudante, Anne Saada, que atual­
mente estuda as traduções de Diderot para o alemão, que verificou que há T
muitos textos de Diderot que foram traduzidos para o alemão com outro nome PARA UMA HISTÓRIA DO LIVRO NO MÉXICO
de autor, e ao mesmo tempo com textos que jamais foram escritos por Diderot
e que lhe são atribuídos, o que significa que há um Diderot alemão que não CARLOS AGUIRRE: A história do livro no México está para serfeita. Acredito que o
corresponde ao Diderot da crítica literária francesa porque é mais e menos ao ponto de par..ftda não deve ser somente a localização de uma ausência historio­
mesmo tempo. É este Diderot o que nos interessa e não o de nossos manuais gráfica, porque então nos defrontaríamos com outras mais. Uma idéia que pode
de literatura. nos ajudar a refletir por que é importante uma história do livro no México e o
As traduções são um tema completo de estudo que dá entrada a todo um que tem de particular; é que a escrita, o livro e a leitura desempenharam um
horizonte cultural, não só por meio das seleções das obras traduzidas, como papel central na ocidentalização do país, e que estafoi produto de uma imposi­
também por meio das dos registros da tradução. Isto implica necessariamente ção. Acho que a construção de uma história do livro deveria considerar este
estudo; por um lado, dos tradutores como grupo particular: quem são eles? ponto de partida e, em segundo lugar; pensar que esta história está relacionada
Aqui se observa uma profissionalização a partir de uma situação em que os com o processo de formação de uma nova sociedade.
tradutores são eles mesmos os autores, e não profissionais da tradução. Tal­ CHARTIER: Não posso fazer muitas reflexões sobre esta última proposi­
vez no século XVIII aparecem tradutores mais ou menos especializados entre ção. Acho que disse anteriormente que, no caso europeu, o que nós historia­
todos esses literatos que, de uma forma ou outra, devem viver de sua pena a dores devemos evitar é a tirania da classificação social tradicional. Mas também
serviço das grandes empresas de edição ao se multiplicar dicionários, enciclo­ o problema é não levar em conta todas as realidades antigas por meio da
pédias, traduções, adaptações de obras, etc.; por outro lado, temos a maneira projeção retrospectiva do Estado-nação. Parece-me então que, se há uma his-
70 ROGER CHART!ER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 71

tória do livro no México, existem duas dimensões distintas. A primeira reco­ Por exemplo, em meu ensaio publicado nesse livro tentei mostrar o específico
nhece espaços culturais amplos além do marco dos Estados nacionais, logo a
da história francesa em relação a outros lugares da Europa. Pareceu-me que
não há sentido em fragmentar estes espaços porque, em algum momento, se os três elementos específicos eram: primeiro, o processo de civilização à ma­
constituíram Estados-nações que definiram seu próprio espaço ou território neira de Norbert Elias, pois na França temos a sociedade cortesã mais desen­
delimitado. Desta maneira, um primeiro elemento do projeto poderia ser a volvida de todos os Estados do século XVII, a qual, pode se dizer, se organizou
história da circulação dos textos e das práticas de leitura e de escrita neste como monarquia a partir da corte; em segundo lugar, o processo de cristiani­
eSpaÇo colonial compartilhado com o mundo da metrópole, o que permitida zação mais rápido da Europa - tema que retomei no livro sobre as origens
obSeiVar de maneira distinta a relação entre esta circulação do escrito e o culturais da Revolução francesa9 -: a distância de uma parte importante da
passado do México antigo. . sociedade em relação à autoridade da Igreja (uma originalidade francesa no
A segunda dimensão é a de como se transforma o processo de formação século XVIII); e, finalmente, uma situação em que a relação entre o patronato
do Estado-nação. Vimos que em torno da Revolução mexicana poder-se-ia monárquico e a criação de uma esfera pública literária adquiriu uma forma
propor algumas perguntas que os historiadores' ingleses ou franceses se fize­ específica. O patronato monárquico francês foi talvez, junto com o do Papa, o
ram a partir das revoluções dos séculos XVII ou XVIII. Tomar o marco do mais desenvolvido na idade moderna; e o espaço público, em primeiro lugar
Estado-nação como algo imediato é dar-lhe uma importância central, mas o literário e depois o político, o primeiro depois da Inglaterra; mas o encontro
sem problematizá-Io, como se fosse uma realidade evidente, mas ao mesmo de ambos define uma originalidade francesa. A partir daí se vê que não é a
tempo que não tem pertinência para todo um período do passado, sua cons­ cultura a que seria um capítulo da história do Estado-nação, mas que ela
trução é problemática, e fazer da cultura escrita uma das maneiras para en­ mesma pode definir a especificidade que sustenta a construção desse Estado­
trar na problematização da construção do Estado-nação e da sociedade que nação.
lhe corresponde parece-me uma boa escolhà.
Recentemente, na França, fizeram-se esforços para fazer este tipo de
desvinculação com o imediato ao definir o Estado-nação, convertendo-o no O QUE É A CONTEMPORANEIDADE?
objeto do questionamento. A grande tarefa de Pierre Nadeau, Os lugares da
memória, 6 se inscreve nesta perspectiva: entender como na França o Estado, a ANAYA: No Mélico existe uma preocupação central com o papel do Estado, pois os
nação e a república foram sucessivamente construídos e definiram uma iden­ espaços de desenvolvimento que estão fora da esfera pública são praticamente
tidade que agora nos separa dos demais. Uma forma política: a república; um inexistentes, e toda nossa cultura tem como interlocutor necessário e obrigató­
conceito do político: o Estado; e uma identidade, a nação. Mas estudar os rio, em um sentido de dependência ou de subordinação, o Estado. Por outro lado,
lugares em que se construíram estes três elementos, ou mais, em que se vin­ no México te'*"'Sido muito forte a preocupação em torno de quando nos tornare­
cularam estes três elementos, já é um projeto em si mesmo. A Histoire de la mos (ou nos tornamos) contemporâneos, em uma refer�ncia a nossa integração
France publicado sob a direção de André Burgiere e Jacques Revel partia da ao Ocidente.
mesma idéia:' fazer com que a França não fosse o marco em que deviam se CHARTIER: Sem entrar em realidades mexicanas que não conheço, o tema
estudar todas as realidades possíveis, mas que o problema mesmo era como do vínculo entre a difusão da cultura impressa e a democratização em todos
se construiu, com especificidades, uma França que é ao mesmo tempo um os selltidos (democratização da .Cãj:úiddade para ler e escrever, acesso ou de­
Estado, uma nação e uma sociedade. E revela-se pelo caminho da história mOcratização do acesso às pÍoduções culturais, democratização no sentido
cultural, curiosamente talvez, o que fazemos para esclarecer de maneira nova político clássico) me parece elemento fundamental e arraigado na visão ilu­
os temas da história política; o tema do Estado-nação, por exemplo, mas visto minista da própria imprensa. Os textos do século XVIII destacam como um
não como o que define um marco geográfico onde deve-se estudar tudo (as riioinénto ·chave na história dos progressos da humanidade a invenção de
mulheres, os livros, a edição), mas entendendo o problema de como este Gutemberg, porque a imprensa permitia, ao menos em um futuro, a realiza­
marco se estabeleceu. E aqui surge uma espécie de perspectiva invertida na ção, a atualização do próprio projeto do Iluminismo: que cada um possa atu­
qual as outras formas de história adquirem uma importância fundamental. ar como crítico graças ao intercâmbio do escrito. Como cidadãos do século XX

----- - --- ---·--- - - - --------- --------··------ ---


-----
72 ROGER CHARTJER CULTURA ESCRITA, L1TERATURA E HISTÓRIA 73

estamos ligados a esta visão e podemos compartilhá-la como o ideal de uma Nisto há algo muito contemporâneo e de uma contemporaneidade abso­
nova forma de Iluminismo. Dentro deste marco situa-se o debate sobre a luta, para abordar o segundo ponto, porque embora haja distâncias, também
· r-:_volw;�o 4o present�, a ��volução da representação eletrôf!iC�- -Q�-��teX�<?.S. há contemporaneidade entre Austrália, México e França. É um mundo inte­
Reàli:nêúte, pela primeira vez um meio técnico pode tornar imaginável esse grado deste ponto de vista. Mas integrado não significa igual, ainda que con­
intercâmbio universal, e se supõe que cada um pode entrar em uma rede temporâneo de si mesmo. E na contemporaneidade as distâncias aumentam,
informática universal, tornar realidade o programa de Kant: cacla.um. _pqde, se acumulam, e surge a pergunta: quando fomos contemporâneos ou o sere­
COP:J.() sábio, express�r suas idéias, suas proposições e suâS cr·��icas, e, -���� mos na verdade algum dia? É algo curioso porque, em um certo sentido, o
leitÓÍ-, reCeber e exercer o julgamento sobre as proposições dos outros. A rede contemporâneo foi definido a partir dos critérios da ocidentalização, mas pode
eletr&nica prbpordona o suporte técnico para este espaço público em que ser definido de outra maneira. Temos insistido no fato de que se poderia
Kant pensou, organizado não com base em comunidades particulares ou em medir toda a cultura impressa a partir da invenção de Gutemberg. Há situa­
formas de sociabilidade específicas, mas neste mundo universal abstrato liga­ ções e épocas em que existe uma importante cultura impressa que não obriga
do à circulação, produção e recepção do escrito. o uso de caracteres nem de prensas, mas que se vale de outras técnicas para
No mundo atual temos por um lado o suporte técnico do sonho do Ilu­ desenvolver um mercado, uma prática de leitura, gêneros populares, etc. Neste
minismo, mas por outro sabemos que a realidade vai, ou pode ir, em um caso vemos uma contemporaneidade de fato, propriamente cronológica, que
sentido completamente contraditório, devido ao controle de forças particula­ rejeita todo critério de medida vindo de fora, próprio de outras técnicas ou
res (políticas ou econômicas) sobre as redes eletrônicas. Neste mundo univer­ práticas consideradas como norma fora da qual não há modernidade, mas a
sal há um risco de que aumentem as distâncias entre os que manejam o novo partir do século XIX, talvez ainda antes, se produz no mundo uma primeira
tipo de comunicação e os que estão fora, seja no âmbito de uma sociedade globalização em que a ocidentalização é a medida absoluta para medir atra­
particular (por isso eu disse que talvez os analfabetos do futuro sejam os que sos e paridades. Define-se assim uma tensão absolutamente central na cultu­
fiquem fora das formas eletrônicas de produção, transmissão e apropriação ra, por exemplo na mexicana ou na latino-americana. Parece-me que esses
dos textos), ou no do mundo em seu conjunto. Vemos, pois, que as distâncias dois elementos devem ser tomados se�pre em conjunto, pois definem faixas
não se reduzem, elas aumentam com a difusão desse novo tipo de técnica. de contemporaneidades: a que se dá por meio do conceito de uma moderni­
Finalmente, entre os que utilizam as técnicas informáticas e eletrônicas dade necessaJamente ocidental, e a contemporaneidade como coexistência,
de transmissão de textos observa-se a formação de comunidades particulares com ou sem relações� de mundos culturais que têm suas próprias formas de
desvinculadas que compartilham regras, normas e interesses, mas que igno­ pensamento, representação e atuação.
ram as outras. Por todas essas razões (a desvinculação das comunidades, o
crescimento das distâncias culturais, o controle sobre o repertório dos textos
difundidos e sobre o acesso a sua difusão) existe o risco de que o sonho se LIVROS E EDUCAÇÃO
torne pesadelo. Parece-me que este é um dos principais desafios do presente,
o que supõe que as políticas que regem todo esse mundo (das redes eletrôni­ GOLDIN: Gostaria de retomar a pergunta: por que fazer uma história do livro
cas) vinculam-se às necessidades das sociedades civis e colocam-se a serviço hoje? E relacioná-la com nossa preocupação com a construção da cultura escrita,
da democratização sem criar a aplicação de regras, sejam as do mercado, em para levar você a falar sobre a relação entre a história da leitura e a história da
suas duras realidades, ou as do monopólio, estabelecido por países, classes, educação, que foi seu interesse inicial como historiador; conforme penso.
meios, etc., sobre estas novas possíveis ofertas para constituir um espaço pú­ CHARTIER: Depende do que se entenda por história da educação. A pri­
blico. E a idéia do vínculo entre o escrito e a democratização t�p;t_atualmente meira definição é a de uma sociologia da educação'por meio do estudo de
não só a dimensão da referêriCia histórica, como também_a.das decisões que quais foram as pessoas que freQUentaram as escolas primárias, os colégios, as
se toffià.in a·c·erca·das estradas·da infOrmação ou redeS éÍetrônicas, a formação universidades. Na Europa, foi essencial toda esta corrente de sociologia histó­
de uma edição eletrônica, ou as novas bibliotecas abertas para este tipo de rica da educação� e todos os trabalhos sobre os colégios jesuítas ou de outro
comunicação. tipo, ou sobre as outras formas de instituições escolares que transformaram,
74 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 75

de maneira profunda, nossa visão da educação. O primeiro elemento da his­ as assinaturas não medem a população capaz de escrever (porque há muita
tória da educação é a sociologia das populações educadas. Em segundo lugar, gente que pode assinar sem saber escrever) nem medem, por outro lado, a
temos a história dos programas e dos materiais que definem a educação. É população que sabe ler (porque há muita gente que sabe ler e não sabe assi·
outro campo muito tradicional, mais tradicional que o primeiro; no entanto, nar). Desta maneira, são um indício que não reflete nenhuma capacidade
atualmente se renovou e se dá ênfase nas regulamentações, dos Estados ou particular, embora dê uma idéia do nível de familiaridade de uma sociedade
da Igreja, que definiram os currículos escolares, nas formas pedagógicas que com a cultura escrita. Contra os mais céticos que pensam que não se pode
se apóiam nos textos que enunciam a norma didática e em uma literatura fazer nada com as assinaturas, e contra os que pensavam que era possível
escolar específica, -distinta da que havia tradicionalmente nas escolas elemen­ medir a alfabetização mediante porcentagens de assinaturas, parece-me que
tares da primeira era moderna, quando se utilizava para a aprendizagem liiri devemos optar por uma via média; ou seja, não se pode medir a população
livro de preceS ou um caderno solto. E podemos dizer que existe um terceiro que escreve ou a população que lê a partir das assinaturas, embora estas
c.ampo de estudo: o d':ls práticas pedagógicas, "restritas pelos textos que ten­ dêem uma idéia da familiarização de uma sociedade com a cultura escrita, se
tain defini-las, e nenl-Sempre delimitadas, ou melhor, que jamais o são. não fosse assim a distribuição destas porcentagens não teria nenhuma lógica
Concluímos que a relação entre história da educação e história do livro e no entanto tem, quando as porcentagens são comparadas na Europa dos
ou da leitura pode ser colocada de maneira complexa nos dois campos de séculos XVII ou XVIII. Esta lógica explica porque há uma Europa do Norte e
estudo. Por um lado, por meio dos textos impreSsos fixam-se e transmitem as do Nordeste -que inclui apenas a metade da França, mas que compreende a
normas pedagógicas, e por outro, os manuais escolares e os textos manuscri­ Inglaterra, o ocidente da Alemanha e dos Países Baixos - que define um
tos produzidos pelos estudantes ou alunos vinculam a fixação impressa da centro de alta alfabetização frente a uma Europa do Sul ou do Leste com
norma pedagógica a sua própria produção. Isto nos permite entrar no mais porcentagens baixas, o que não significa que em certas cidades da Europa
complexo, que é a relação ou a distância entre a prática pedagógica e todos os mediterrânea não houvesse porcentagens altas de assinaturas.
textos que tentam selecionar, limitar ou definir tais normas. É um campo que O certo é que para uma história <;Ias práticas culturais, como eu a enten­
não trabalhei nos últimos 20 anos, mas há muitos colegas interessados nesse do, o mais importante, freqüentemente, não se pode quantificar; devemos
tipo de investigação. Na França, no lnstitut National de la Recherche Pédago· reconhecer que algumas capacidades têm matizes, que não estão, de um lado,
gique, particularmente em um de seus centros de pesquisa, o SeiVice d'Histoire os analfabeto! e, do outro, os alfabetizados. Certas capacidades de leitura
de l'Éducation, praticam-se estes três tipos de h�stória: sociologia da educa­ dependem, por exemplo, das formas do texto. Por quê? Porque se aprendia a
ção, história do discurso e da norma pedagógica, e história das práticas peda­ ler com textos impressos e, desta maneira, alguns leitores podiam ler a letra
gógicas. Ali também se publica a revista Histoire.-de l'Éducation. imp�essa em caracteres romanos, mas não a escrita à mão. Aqui temos uma
Contudo interessa-me mais discutir outra dimensão: Ufl.la história da divisão fundamental entre capacidades de leitura: como possibilidade de ler
leitura que necessariamente é uma história, como seguido dissemos, das ca­ um texto impresso e como impossibilidade de ler outro manuscrito. Sabemos
pacidades de leitura (primeira condição para o acesso aos textos); é outro _que ler um texto manuscrito supunha uma capacidade para produzi-lo e su­
entrecruzamento entre a história do livro e a história da educação do ponto punha além disso que, antes da aprendizagem da leitura, tinha-se feito uma
de vista da história da alfabetização, da transmissão da capacidade de ler e aprendizagem da escrita. Estes dois momentos estão separados em todas as
escrever. O problema para os historiadores é que não é fácil medir o re�ultado doutrinas e práticas pedagógicas européias até o começo do século XIX, quan­
da transmissão destas capacidades. A única fonte global que permite estudos do se estabelece na França a simultaneidade de ambas as aprendizagens.
quantitativos de longa duraçãÔ'-é a que oferecem as assinaturas, principal­ Havia, assim, mu��a gente que podia ler mas que nunca aprendeu a escrever,
mente dos arquivos de cartórios ou os registros paroquiais. No caso inglês, e a assinatura pertence a esta aprendizagem da escrita. ·Desta maneira, aos
toda uma série de estudos estabeleceu porcentagens a partir destas assinatu­ alunos mais humildes dos meios de artesãos e de camponeses, ou às mulhe­
ras baseando-se em um juramento que se exigia em diversos momentos do res, a escola oferece apenas a aprendizagem da leitura, mas não a da escrita.
século XVII. Estas assinaturas são fundamentais porque constituem a única A população de leitores virtuais é mais ampla do que a população que assina,
'
maneira de medir, mas medir o quê? O problema é que, pelo que me ap''rece, .
além disso, saber assinar não implica necessariamente saber escrever, parti-

76 ROGER CHARTIER C U LTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 77

cularmente quando não há razão para se escrever muito, que é o caso de CHARTIER: O que pode se ser registrado historicamente, em primeiro lu­
numerosos grupos sociais, os mais populares, e nestes casos a escrita se perde gar, é quem quer ou queria a alfabetização. Estamos acostumados a pensar
progressivamente, e também com a idade. que a partir da segunda metade do século XIX, os Estados assumiram a educa­
Uma primeira vinculação entre história da leitura e história da educação ção dos povos. Na França, a escola obrigatória gratuita e universal, a das leis
utiliza, como primeira base, todos os trabalhos feitos sobre as assinaturas; ao da Terceira República, e a alfabetização da população estão estreitamente
mesmo tempo, temos outra história da leitura a partir de documentos singu� ligadas, mas quando se olha para trás, nota-se que no Antigo Regime as de­
lares, o que permite discriminar entre as capacidades de leitura conforme a mandas da alfabetização não vinham em absoluto do Estado, a quem isto não
forma tipográfica e a forma do texto ou conforme o que se lê. Há uma famili� preocupava (com sua visão de que a estrutura social não devia mudar). A
arização com as fórmulas repetidas de certos textos, assim como certa possi­ educação das classes populares era vista como um elemento de desordem,
bilidade de manejá-los sem que isto indique necessariamente a possibilidade pois podia desequilibrar a sociedade e fazer com que os filhos dos campone­
de ler outros livros ou impressos fora desse conjunto de textos um tanto utili­ ses e artesãos desejassem sair de sua condição multiplicando a população de
tários, como poderiam ser os pertencentes à pedagogia cristã, aos cartazes intelectuais frustrados que cresceu na Inglaterra das primeiras décadas do
que se fixam nas paredes. Temos aqui uma capacidade que pode depender do século XVII ou na França de meados do século XVIII. A idéia da necessária
gênero textual, quando a primeira poderia depender da forma material da reprodução da ordem social, contrária à educação das classes populares, esta­
escrita. É outra relação e é um campo em que oS dois momentos -história da va muito presente no pensamento dos administradores. As duas forças que
leitura e história da educação - podem-se cruzar de muitas maneiras. Os demandam educação são a Igreja e as próprias comunidades. Para a Igreja, a
diálogos entre os historiadores da educação e os historiadores das práticas de leitura compreende os livros de devoção, o breviário - elemento essencial da
leitura e do livro são numerosos e, freqüentemente, são os mesmos que per­ formação cristã -, e o catecismo. Para as comunidades camponesas e urba�
mitiram ampliar o marco de sua investigação. nas, a partir do século XVII, tem-se a idéia de que se um filho sabe ler e
Outro tema pode ser a questão dos autodidatas. Mostrou-se que durante escrever, pode então modificar sua con�ição, encontrar emprego a serviço de
os. séçulos XVII e XVIII hOuve muita gente que conquistou a escrita e a leitura uma casa de notáveis ou de aristocrá.tas. Uma fonte interessante no século
, fora·à.e todO- mar2o ·esColar. Essa entrada na cultura escrita sem mediáÇ:ão da XVIII são os anúncios de jornais nos quais as pessoas solicitam algum empre­
escola fêz-se por meio do encontro de algum personagem singular com os gado ou emplegada que saiba ler ou escrever para ajudar os patrões nas tare·
livros, como o mostram duas ou três autobiografias do século XVIII na Fran­ fas cotidianas. As comunidades consideravam tal conquista como um apoio
ça; nelas se aprecia essa conquista, em primeiro lugar da leitura e depois da para sair da condição em que viviam; isto era um motivo importante para
escrita, segundo procedimentos particulares que não são a transmissão peda­ emigrar para a cidade, porque a migração com ou sem essas capacidades,
gógica estabelecida. É outro campo interessante porque dá uma idéia da tra­ podia muda.p..por completo o destino social. O encontro entre a demanda da
jetória da leitura intensiva (que permite decifrar unicamente um repertório Igreja e as demandas ou os desejos das comunidades estabeleceu as bases
fechado de textos) à leitura extensiVa·'(que compreende a descOberta e a ca­ para a multiplicação das escolas nas cidades ou nos campos franceses dos
pacidade de ler novas formas>novos gêneros, novos textos). Esta oposição, séculos XVII e XVIII, contra a própria vontade do Estado ou de seus adminis­
feita de maneira cronológica para marcar o moderno em leituras, pode ser tradores.
utilizada para que se a trajetória dos autodidatas, que vão de uma leitura Vemos aqui a possibilidade do registro histórico da própria natureza da
intensiva fechada em si mesma a uma leitura extensiva que conquista pro­ educação escolar, que vai a par com o histórico que define a leitura e o leitor.
gressivamente novos textos. Temos assim muitos exemplos de entrecruza­ A partir desta alfabetização mais ou menos funcional (porque deve se ajustar
mento entre os dois campos. à mensagem religiosa ou à utilidade na vida cotidiana) se chega, ao longo dos
GOLDIN: O importante é ver os lugares que ocupam na educação a leitura e séculos XIX e XX, à definição da leitura como acesso à cultura, a um mundo
a escrita, estas como espaços historizáveis, isto é, o conceito do que é um leitor e, de obras que devem permear a mente e a ética. Em ambos os extremos pode­
portanto, das práticas para se formar como leitor, ou ser formado leitor pela se ver, embora eu não seja especialista no tema, como se transformam as
alfabetização... · formas das técnicas pedagógicas assim como os textos impressos que servem
R O G E R CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 79
78

para a aprendizagem. Na França, nos últimos anos, houve um interesse parti� O PAPEL DOS INTELECTUAIS
cular por construir o corpus ou repertório dos autores clássicos ou canônicos,
que definem ao mesmo tempo os exemplos que devem ser imitados, e daí um AGUIRRE: Quanto à relação do conhecimento histórico, o conhecimento do passa­
panteão, um cânon, um repertório dos textos clássicos da literatura nacional; do, não éforçosamente só conhecimento do passado; existe a construção do pre­
como se a cultura se identificasse com estes clássicos por meio de gêneros ao sente ou dofuturo, a dualidade do historiador como historiador e como cidadão...
mesmo tempo textuais e editoriais, que são os extratos de grand�s autores CHARTIER: Sim, pode-se pensar a história sem relação com o presente e

que devem ser imitados quando o aluno escreve uma composição. E um tema como uma investigação que acumula conhecimentos que, em si mesmos, são
apaixonante observar como os manuais construíram este repertório com es­ uma contribuição para esses progressos do espírito humano. Contudo parece­
colhas e esquecimentos. me que em todos os temas que tocamos existe sempre essa dupla dimensão
O duplo registro histórico do ensino escolar e de seus suportes liga-se à de um conhecimento que tem sua importância, sua pertinência para o mundo
própria definição de leitura e de seus fins (porque, no primeiro caso, a alfabe­ contemporâneo, seja porque permite situar em uma história de longa dura­
tização funcional utiliza como suporte na escola as cartilhas, os silabários, os ção o que é realmente novo, ou o que está fortemente vinculado ao passado
catecismos - material que mistura uma didática religiosa elementar com a em nosso tempo, ou porque, por outro lado, por meio dos estudos históricos
aprendizagem da leitura), enquanto que a abertura da leitura aos valores que se procuram modelos de intelegibilidade que podem ser deslocados a outras
a vinculam a uma definição do indivíduo, de uma nação ou de uma cultura, realidades. Desta maneira, o leitor de história pode utilizar as ferramentas, os
leva a inventar manuais e a enriquecer seus conteúdos. instrumentos propostos de maneira livre, para receber e dar inteligibilidade
GOLDIN: Estes manuais e métodos restringem de algum modo a aprendiza­ às questões que o preocupam ou inquietam. A história tem uma função críti­
gem da leitura. ca, que é sua função primordial, e não necessariamente crítica em si mesma
CHARTIER: Para dar outro exemplo da tematização literária do Século de
mas sim como proposta de instrumentos críticos. É outra maneira de pensar �
Ouro quanto às práticas de leitura ou dos objetos impressos, podemos men­ projeto do Iluminismo: contribuir pa.ça a construção deste espaço crítico no
cionar um texto. Há em uma cena da comédia de Lope de Vega, Peribáfiezy el qual as pessoas particulares fazem um uso público de sua razão. O projeto
comendador de Ocafia um diálogo muito divertido entre um marido e sua necessita apoios, referências, e a história é uma destas referências embora
mulher, que utiliza a cartilha, o que significa a ordem do alfabeto, para enun­ não a única; {or outro lado, a ficção pode nutrir esta relação crítica do indiví­
ciar todas as qualidades que a mulher espera em relação a seu marido, ou o duo com seu presente e acredito que o historiador utiliza por si mesmo, como
contrário. É um texto delicioso porque corresponde igualmente ao amor, à cidadão, essa dimensão crítica da ficção.
beleza, à bondade, etc., e se enuncia cada letra do alfabeto para esperar e Mas gostaria de acrescentar algo. Não me parece que o fato de alguém
pedir uma qualidade, seja do marido, ou da mulher. O interessante é ver ser historiaderou historiadora tenha mais direitos ou esteja melhor qualifica�
como uma forma muito humilde de objeto impresso, que serve nas escolas, se do para falar acerca de seu presente fora de seu domínio de competência.
transforma em um suporte para um jogo literário, em uma ilustra·ção do que, Aqui há uma confusão que freqüentemente observa-se na França e talvez na
digamos, é ao mesmo tempo uma matriz para construir a cena de uma comé­ Europa com a figura do intelectual capaz de falar sobre todas as coisas. Como
dia, deslocando para o registro amoroso o que era um objeto da aprendiza­ produtor de um conhecimento controlado, o historiador tem a possibilidade
gem escolar, e criar também uma condição para o entendimento do público, de falar do presente a partir de sua experiência ou de seu ofício de histeria�
que vê. esse jogo que se refere a uma experiência compartilhada, a de pelo dor, o que limita necessariamente os campos em que esta experiência ou estes
menos dois alfabetos - e para os que foram à escola a cena da cartilha é conhecimentos têm uma validade particular. Parece�me que essa é a razão
muito divertida. pela qual os historiadores podem e devem falar na imprensa, nos meios de
comunicação sobre temas, problemas ou assuntos do presente relacionados
com sua própria experiência e conhecimento. Como cidadão, o historiador
pode falar (como o camponês, o artesão ou o empresário) de todos os proble­
mas, mas não mais nem menos que os outros. E deve-se evitar a confusão
80 ROGER CHARTIER CUlTURA ESCRITA, LITERATURA E H I STÓRIA 81

entre essas duas dimensões. A história tem a dupla dimensão do conhecimen­ NOTAS
to do passado e a possibilidade de produzir instrumentos de crítica do presen­
te, o que certamente pode conduzir à confusão. Devemos nos distanciar do IHistorias, n. 31, outubro 1993 - março 1994, "El mundo del libro, siglos XVI a XIX''.
2História da vida privada, sob a direção de Philippe Aries e Georges Duby, v. III, "Do Renas­
modelo clássico de intelectual "à la Sartre", que se pronuncia sobre a totalida­ cimento ao Iluminismo" organizado por Roger Chartier, Taurus, Madrid, 1989;
de dos problemas em uma sociedade. Pelo contrário, falando só da França, 3Jürgen Habermas, Strukwwandel der ó!fentlichkeit, Neuwied, Hermann Luchterhand Ver­
poderia citar Foucault ou Bourdieu, cujas intervenções no mundo social vin­ lag, 1962 (tradução para o espanhol: Historia critica de la publicidad, Barcelona, Gustavo
culam-se estreitamente com trabalhos, estudos e conhecimentos em um cam­ Gili, 1982).
41mmanuel Kant, ""'Qué es la Ilustración?", em Filosofia de la historia, México, Fundo de
po particular. Foucault, por exemplo, intervém no problema dos prisioneiros e Cultura Económica, S. reimpressão, 1994, p. 25-37.
e
das prisões ao escrever Vigiar punir. Em Bourdieu, é a sociologia da socieda­ sserge Gruzinski, La colonisation de l'imaginaire. Sociétés indigênes et occidentalisation dans
de francesa contemporânea que lhe dá a possibilidade de uma intervenção; la Mexique espagnol, XVIe�XVIlle siêcles, Gallimard, Paris, 1988 (tradução para o espanhol:
por exemplo, recentemente, nas greves de dezembro de 1995, a partir de seu La colonización de lo imaginaria. Sociedades ind(genas y occidentalización en el México es­
pafiol, siglos XVI-XVIIII, México, Fundo de Cultura Económica, 1991).
conhecimento dos mecanismos sociais. Não quero dizer que não exista a ten­ 6Pierre Nadeau, In: Les lieux de mémoire, sob a direção de Pierre Nora, Paris, Gallimard,
tação de restabelecer algo da posição sartreana por meio da aparência de 1984-1992, v. I, "La Répuiblique", v. II, "La Nation", v. III, "Les France", 7 vols.
uma intervenção específica, ou de reconquistar algo do estatuto do intelectual 7André Burgiere & Jacques Revel, Histoire de la France, Paris, Éditions du Sueil, 1989-1993.
capaz de enunciar o passado, o presente e o futuro da totalidade da socieda­ 8Roger Chartier, "Trajectoires et tensions culture!les de l'Ancien Régime", Histoire de la
France, op. cit. , "Les formes de la culture", volume organizado por André Burgiêre, p. 307-
de, mas acredito que deve se manter este tipo de intervenção que utiliza suas 392.
próprias capacidades e alcances. Estes definem para mim, no campo político, 9Roger Chartier, Les originies culturelles de la Révolution Française, Paris, 1990 (tradução
os limites e a importância da intervenção dos intelectuais, ou inclusive, no para o espanhol: Espacio público, crítica y desacralización en el sigla XVIII. Los origenes
culturales de la Revoluciónfrancesa, Barcelona, Gedisa, 1995).
campo dos meios de comunicação, do papel que podem desempenhar quan­
do escrevem artigos e fazem programas de rádio ou de televisão, mas não
ultrapassar os domínios de sua própria competência não significa que o histo­
riador ou historiadora estejam impedidos de escrever livremente em um jor­
nal para expressar sua opinião sobre tal ou qual assunto. Significa simplesmente T
não cair na confusão entre o papel legítimo dos intelectuais e a opinião do
cidadão, assim como é preciso evitar cair nas tendências antiintelectuais, per­
ceptíveis nos meios de comunicação mais poderosos, por exemplo nos Esta­
dos Unidos, onde é quase nula a participação dos intelectuais profissionais.
Devemos rejeitar firmemente o silêncio imposto aos intelectuais, apesar de
que na França e no México não estão necessariamente ameaçados pois têm
um papel tradicional, e se há uma "norte-americanização" do mundo, é preci­
so estar preparado contra os riscos que isso compreende.
Terceira Jornada

LITERATURA E LEITURA

PRÁTICAS DA ORALIDADE E CULTURA GRÁFICA

ROGER CHARTIER: Para começar esta jornada, poderíamos lembrar o projeto


intelectual que nos reúne aqui: o desejo de construir uma história .çap.az de
e�, em uma mesma perspectiva, a história de u�·fe�ica, a história da
imru:_�nsa...e.-a-Ge-Beus-�produtos: o livrg_���4.�Úw,i�=9bJ�i9?��.hriP.t:essos, e final­
m��12_�m CLhJ�!2.ü�99�J-�xtos. Ápresentam-se aqui todos os problemas
que podem-se colocar junto com a crítiCa textual e literária e, por outro lado,
o produzido na circulaç�p .<:J.q_s t�;<�Q�_p_o_r..�a determinada sociedade, o que
impliQLaJeit:LrasQl!!9 .'lPJQP.riaç!g_5Jt..te.<f!� por meio das materialidades
..

que lhe são próprias.


Como podemos ampliar a indagação? Parece-me que de duas maneiras.
Uma é pensar que há muitos textos e muitos gêneros fl._a sociedade do Antigo
Regime - c\e.sde os sermões até o teatro, desde a novela até o discurso políti-
co - que supõe uma forma de comunicação garantida pelo texto escrito e o
objeto impresso, mas-que além disso�Supõ.e·a ·prêsénç·â; ·i:l'éfitáda e a força de
uma voz que o fará em voz alta, ou que recitará ou declamará ou atuará sobre
um palco. É um grande desafio para os historiadores, porque como podere­
mos reconstruir uma parte que seja das regr_� coaçõe�própri�s a e_�t� qrali- t

zação dos textos? No caso do livro, temos objetos cuja deSCriÇãO mais rigorosa
��- .
possível está dada na ordem do que pode se fazer. A bibliografia anglo-saxã
demonstrou como critérios detalhados de descrição poderiam, ao mesmo tem­
po, permitir a catalogação e a classificação dos livros; e, além disso, recons­
truir o processo da produção do livro no caso das formas de oralidade ou de
oralização dos textos, que são oralidades mudas para o historiador. Devem
ser inventadas ao mesmo tempo fontes e métodos para que se entenda as

......__� _ -- -�--- -·-�---------- ---


84 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 85

representações antigas das formas de oralidade, tal como se mostram nos crito em sua totalidade e analisar problemas como o controle sobre a escrita,
textos literários ou outros, identificando o que Paul Zumthor chamava "indí­ a diferença entre as duas aprendizagens, os valores envolvidos em cada uma j
vinçu]adas à articulaf;ªQ...Q)L�. -�!f�.�����entr� �-�c!�� . �r -� ler:!Por outro lado, :.,
cios de oralidade". l O texto se dirige a um leitor que lerá em voz alta diante das formas de comunicação, etc... Temos aqtJLt9.9-ª. y_W-ª., s�rie . de problemas 0
de um público de ouvintes; e também, o que é um pouco mais difícil, interpre­
tará a pontuação dos textos como aparecem nas edições dos séculos XVI, XVII observamos que o mundo do escrito e 'umãi:otalidade- e que os modelos im­
os textos manuscritos ou uma parte deles têm como futuro sua transformação:,:. � .
e XVIII, em um momento em que esta se desloca desde uma pontuação apta à pressos podem guiar ou ordenar as práticas manuscritas e, ao contrário, que . :·,.
oralidade, à retórica e à leitura em voz alta, até uma sintática e gramatical.
Este é um tema difícil que podemos retomar depois, porque o problema é em objetos impressos, ou que a leitura pode conduzir imediatamente �. escri- .·

saber a quem devemos as formas gráficas, ortográficas e de pontuação tal -- ·· -


t�liY!_9_m�§!llo �problem�����--..iTI��giri�If�� --�-�ª�· qüe as p_�SSoas._ -�'�
como as vemos nos livros impressos. Aos linotipistas que compuseram o tex­ escre�!ll.na.�. Ráginas_4_os liyros, fonte esseilcial P.é!ra ]Jma_hisiõria da leitura >-,
to? Aos revisores que prepararam o manuscrito ou corrigiram as provas? Ou, com9...r.�cepção intelectual dos textos), ou a escrita que, por meio da prática �
finalmente, a uma intenção de construir um destinatário que apoiará suas da leitura, estava dirigida ao autor de textos publicados como livros. '-
\ -:;.
leituras a partir da pontuação oralizada, tal como a do texto? "" Robert Darnton mostrou este último no caso de Rousseau, que foi o ..>..J
Parece-me um primeiro campo extremamente interessante pois nos con­ autor a quem mais se dirigiam epistolarmente seus leitores, embora não seja
duz à idéia das formas dos textos ou de sua matei-ialidade Esta materialidade o primeiro nem o único.2 Não foi o primeiro pois o fenômeno se estabeleceu
(;_r�nquanto s�.<?���-0.�--Y.�fç_l}_lo. Por outro lado, a materialidade nos leva à
:...\·
p..,�o PtrtenS;$6 aoffiundõdõ;��b]é"t� �;�;itos ou impressos, mas também à com Samuel Richardson, e o sucesso de seus romances Pamela ou a virtude
recompensada e Clarissa ou a história de uma senhorita o levou de certa forma
dimensão de uma leitura histórica dos textos literários, não para reduzi-los a a integrar nas reedições de seus romances as cartas de seus leitores. Foi o
uma condição documental, senão para articular tanto as representações das mesmo caso de Johann W. Goethe e de Bernardin de Saint-Pierre. Este último
Lt) ���!:�a �-�-i�Q_nan!�. qué nos vincula talvez ao tema da "revolu­
práticas como as práticas das representações, o que requer reconstruir a tota­ recebeu muitas cartas, como Rousseall:. A_!E�����E.!-�Ç�.9��9��-!-:!il.éll . _IçJ.t��-�, �m
lidade do processo que faz com que um texto se converta em um livro, que é
o suporte para uma leitura, qualquer que esta seja. E_�e._pegueno pro­ ção da leitura" no século XVIII; porque talvez uma das formas desta revolu­
l�ã, vemos imediatamerlieõ-i)f��j�)Júeiiõ-:-Pc?�t��oo-;po_n�':l�çfu;do
-�ma _4�p.ontuaçªo.t _q�-� não é pequeno para os estudiosos da filo.l_qgiª ou da ção, se existl, seria que em torno de um gênero novo, como a novela, se
definiram um novo estatuto de autor - cuja existência, sinceridade e perso­
autor que pensa no destinatário de seu texto, a pontu.ação.._qu_�_se remete aos nalidade são a prova mesma da autenticidade de se).l texto - e uma nova
costurrles par�!cl.!-l.<:tres de um ou outro linotipiSt;e as regras d;-põD.tua-Ção
----..... .. . r - ·· prática de leitura que conduziu à prática da escrita - pois a novela levou os

que queYéiirtmpor os corretores


.
..
- estes letrados que trabalham nas oficinas leitores a es�ver ao autor e, também, a fazê-lo mais habitualmente. Os cole-
te��o �__P-_<?_d_�-�.��_b-�e_ <l:..E:�ç-�it-ª..9.�..9.P..94�r.,�.��,��-�.ri!_?.!..�-����?-�...Yinc�la- \j;;
tipográficas. Essa é uma linha de investigação que acredito promissora, como
-
gas italianos estudaram, abrangendo desde a Idade Média até o século XVII, .
,
uma maneira de voltar a considerar todo o processo da passagem do text_Çl ao

. 'pms
tr� d�mensão é -ª--�<:t_�alia��-?�P..�!:�graf!� a<.���is��-Ü�i..d'á escreve pÕ���:.Pir-ã qü�� n�? .�a9�..�S.�.r�ver_g1;}_Ei,�çr�:V:���al? Aqui há um tema
__

livro e do livro à leitura. ·, .


.

dos à busca de falsificações, como o problema da delegação da escrita:.9ll.ê!l.. ·


��_51, e claro que não se po'de�ar 3e uma CUlfura do impresso, da de hiStória social, P'ôis ein certas sitUações os que escrêVêm para os outros
leitura dos livros impressos, sem antes situar essa prática ou esses objetos em pertencem ao mesmo meio social, se supormos que há alguns neste meio que
um marco mais amplo, que é o que define em uma sociedade a cultura do adquiriram a capacidade de escrita. É o caso, no século XIX, dos progressos da
esc:ito. � ������-=s�r�:-�_v_ai _�����--1? �i��?_P_��ojornal impres_s_� a alfabetização, ou do Renascimento, como PetruccP mostrou. E existem tam­
_, ���na,_� _r:n�us �o��-��a�a. _d_�s_produç_�es escrtt�S.· -�s _!1-0J�s.feitªs�m bém situações em que a delegação da escrita supõe uma distância social: é o
I '
.. / Ç?-_d�l]:l.9� a_s �él.r.t�s_ enviadas,_ o escri�o para si mesmo, etc.- Parece-me que na tabelião, o clérigo ou uma pessoa que pertence a um grupo social superior
cultura do êScrito há unl conti.T7.uum deSde á prática dã: escrita ordinária até a que escreve para os mais humildes, os mais pobres. Há uma terceira situação
prática da escrita literária. Finalmente, devemos considerar a cultura do es- que pode-se observar, e penso em Guadalajara ou no México, cidades com
86 CULTURA ESCRITA, LITE RATURA E H I STÓRIA 87
'!

escritórios públicos, qub significam uma pr_9_f!��i�na[i>�l\Ç�J>�d'lld�(í d�ziÇ )la artesanal, algo do modelo da escrita como pertencente ao mundo do scripto­
escrita' uma realidade Jiundamental nas sociedades do Antigo Regime. O pro­ riu �, dos escrib�s, etc. Um rei ou Umé_l.. Pessoa co� uma autoridade superior
bÍ�·;;,a da delegação d� escrita é um tema fundamental pois revela as distân­ /A:elega.� _�_sp� �--��-ffi�t�!L�J..sl�- :P.�-<?�US�9...�?S 't�*-�ôs;� em geral, estes são
cias socioculturais d�niro·de-tt ciedade; e essa prática pode nos conduzir ��<!5>.3.,.-eomo no caso de Luís XN e suas Memórias, escritas por um secretário
ao problema dwde Íegação da leit a, quando nas cidades alguém lê, paral e talvez em parte ditadas pelo rei, mas o rei não escreveu uma só linha, e há

l'f outros,
.altay
os cartáz
erl!l!t_e.. cr..i
e'S;-
gg
' : daiultura do escrito-:Bstes
r

. . .. .
S
_f!.
Os
S o
editos,
dos m
dms

os anúncios
l-alfabetizad
processos, a
comerciais, etc. A leitura em voz \
os ou do� analfabetos no mundoo \
delegaçao da lettura e a delegV .
muito poucos sinais da e�q::ité:l dos monarcas ou dos príncipes na sociedade
cortesã. -�"��" - - .. . .
� · · �- - . .
,
.' · · ,

SABORIT: Algo de que se queixava William Hazlitt nas primeiras décadas do


: 1 çã�'dã"�ê;2rif�;-;ã� te�as que devem ser investigados no futuro. século XIX. "Pena"- dizia - "que nem os reis nem os grandes escrevam livros,
DANIEL GOLDIN: Também se trata da delegação da apropriação por meio da em vez dos que são meros autores."
escrita ou da leitura. CHARTIER: Existia também o leitor do rei. Na França. ler para o rei era
CHARTIER: Em um sentido mais amplo do conceito de delegação, todas um ofício semelhante aos diversos cargos de justiça; durante o século XVI e
as mediações sobre e em relação à tendência a fixar o sentido, como se pudés� até o tempo do rei Luís XIY, houve uma pessoa encarregada deste ofício. A
semos admitir que a história da leitura é sempre essa tensão entre todos os leitura em voz alta foi algo fundamental nos jantares, ou no momento em que
agentes, todos os mecanismos, todas as práticas que tentam fixar o sentido. o rei ia para a cama; leituras não só poéticas, para nós vinculadas à voz, como
Além disso, as apropriações - que, sem ser totalmente aleatórias nem care­ também de textos que diziam talvez qual é o bom rei ou o bom governo;
cer de restrições ou coações, deslocam e distorcem o sentido - e as "delega­ inclusive há um testemunho em Rabelais de textos seus lidos em voz alta pelo
ções" da leitura podem ser entendidas nesta dimensão, incluindo comentários, leitor do rei Francisco I. O mesmo acontece na corte da Inglaterra, em que
glosas, formas pedagógicas ou edições autorizadas que tentam fixar o senti­
do. Penso que cada um de nós está sempre como que tentado por esta vonta­
( não houve talvez um cargo como na França, mas sim um leitor do rei da, /
lt··Ingl �terr�. Aqui se vê com� �avia um,a. �istância�P.:�!'.�-a figura monárquica e · "'
de de restabelecer um sentido fixo. O último parágrafo do prólogo de um de -.·"JO objeto Impresso ou a pratlca de escnta, que supunha uma mediação, um
meus livros diz que há duas maneiras de ler esse mesmo livro: seguindo a s ��fêt:�i'Tó-§1�-(�m
. Jgi.t�.r. �ão �uero dize; qu� os reis não Ie;sem Pessoalmente,
. .
ordem cronológica da escrita dos textos ou seguindo a construção que eu pms ha num�rosos smais disto; mas e multo clara a 1de1a da mediação na
mesmo propunha. É algo um tanto paradoxal e irônico tratando-se de um medida em que o livro vem do mundo mecânico, da oficina, de um mundo
livro fundado na idéia da apropriação livre dos textos por parte dos leitores. muito distante da corte, e a escrita impressa tem a dimensão de uma prática
Minh� advertência demonstra- .tt.m�Jendência inconsciente, implícita, para mecânica, do trabalho dos mécaniques. Pelo contrário, desde a Idade Média o
limitar essa liberdade de 4P"�?pria5ã.?)ao dizer que não há uma só maneira, que dá autoridade ao rei é a palavra viva, que tem a forma administrativa de
mas sim duas, para que o leitàtSé] a como deseja o autor, que o leitor real éditos, leis, etc., proclamados por uma ou outra voz. Há algo muito forte na
.
esteja plasmado por completo na figura implícita do leitor. Parece-me que relação entre o poder e a voz, embora o poder tenha-se expressado por meio
esta tensão estabelece-se entre as forças que tentam disciplinar e as liberda­ de uma acumulação de palavras escritas. O rei Felipe 11 da Espanha é, talvez,
des que inventam um espaço de produção livre; acontece dentro de cada o primeiro de todos os reis burocráticos e, apesar disto, se mantinha algo que
um dos mecanismos e dos dispositivos que transformam um texto em uma vinculava o poder à voz, como se a expressão fundamental do poder tivesse
leitura. /' lugar por meio do que é proclamado.•
" ,
Dentro d1jl:legafão da escrita;emos a escrita na corte,
ANTONIO SABoRIT: SABoRIT: Realmente, édito vem de um édicére, que se vincula com "ditar". ..
onde o rei ou os seus se valem de secretários,--eSáibaS ou anotadores. Na Nova CHART!ER: Exato.
Espanha não era raro que, ao se dirigir a uma autoridade secular ou religiosa, GOLDIN: Habitualmente, a gente pensa que ler e escrever são atos que a
um letrado ou um capelão delegasse a escrita a um escrivão. mesma pessoa realiza, e que um ou outro exercícios sempre tiveram o mesmo
CHARTIER: Neste caso, a delegação da escrita se vincula a uma distância valor. Por exemplo, grande parte da literatura latina foi ditada, embora nós a
cultural imensa por meio de uma prática em que fica algo de mecânico, de conheçamos em forma de livro.
88 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E H I STÓRIA 89

CHARTIER: O que para nós são noções, comportamentos ou práticas ime­ texto, quer dizer, só pegadas negras em uma folha em branco. Ricoeur utiliza
diatas, e que conseqüentemente pensamos como compartilhadas e invariá­ os conceitos hermenêuticas de atualização ou apropriação em um sentido
veis, não o são tanto. Este problema da "escrita da literatura" é fundamental, particular para designar o encontro que dá existência ao texto por meio de
pois no mundo antigo há muitas razões pelas quais se ditaram os textos, entre uma leitura. Há algo muito paralelo nas duas citações. Há também um outro
outras, uma razão técnica e material: era impossível escrever lendo porque o aspecto: sair da relação autor/obra é o que discutimos antes, pois a obra
rolo obriga a ambas as mãos a sustentá-lo e, desta maneira, se uma pessoa significa todo um processo que resulta em um texto difundido, disseminado,
está compondo um texto a partir de outro texto lido, a única possibilidade é acessível, legível. Desta maneira, estamos frente à rejeição da abstração do
ditar, ou então deve-se fechar o rolo, tomá-lo em uma só mão e escrever. É texto e, também, da abstração da pintura. Seria a mesma coisa na medida em
uma primeira razão. A segunda é que o poder ou a autoridade delegam a que na pintura há dispositivos materiais que não são o quadro mesmo, que
função mecânica de escrever a uma pessoa de condição inferior, o escriba. E são a moldura do quadro, as condições de sua apresentação, lugar, etc. Isto
uma terceira é que as literaturas latina e grega podem ser entendidas em sua lembra-me uma reflexão de Louis Marin.s Ele dizia que em toda representa�
relação com a voz, até o ponto de que na Antigüidade tardia existe a prosa ção, literária ou pictórica, há duas dimensões: por um lado a representação
métrica, que não são versos, mas que na prosa restabelece a duração das representa algo, é a dimensão que ele chama transitiva e que governa ao
sílabas e organiza o texto de acordo com uma rítmica que está implícita, menos a teoria clássica da representação, na qual há algo representado por
apesar de supor composição oral e leitura oral. Desta maneira, ditar é intro­ meio de uma representação; e.por outro, há a dimensão reflexiva, que faz
duzir algo desta rítmica no próprio processo da composição. Estas são as três
razões· principais para explicar a literatura ditada, prévia a uma liter;a u
escrita que, no entanto, mantém um vínculo com a oralidade. O caso de Flau­
9 com que a representação se dê representando algo de maneira que não se
confundam a representação com o objeto, ou a cena, ou a pessoa representa­
dos. Esta dimensão enfoca tudo o que em um quadro são suas próprias condi­
bert não é único: ele falava seus textos, gritava seus textos, para ver se c6'- s­ ções de representação: o lugar onde é exibida, o que enquadra a própria
pondia a uma rítmica, a uma dinâmica textual, que só podia s�ciada por pintura; e assim, nas igrejas, por exemplo, os dispositivos arquitetônicos ser-
·

meio da oralização e não por meio de uma leitura silenciosa da obrã--i.:s&.ita. vem de moldura para o quadro.
�--�- Quanto ao livro, trata-se de todas as formas materiais que lhe são pró­
prias: seu forfuato, sua tipografia, a presença de imagens, sua encadernação,
O HISTORIADOR E A LITERATURA todos esses elementos que dão realidade a esta dimensão reflexiva da repre­
sentação, etc., de modo que podemos romper com o conceito abstrato de obra
SABORIT: Gostaria que você se estendesse um pouco mais sobre a leitura histórica e, da mesma maneira, com um conceito de autor abstrato, invariável ou uni­
dos textOs literários, essa leitura que busca a reconstrução de conjunto de um versal, porqt!eo-os lugares sociais ou as instituições nas quais ds autores produ­
processo. Ernest Gombrich disse no livro Art and Illusion: "Sem a parte do espec­ zem obras são muito variáveis (o mecenato, a co�te, á universidade, as
tador as pinturas não seriam mais do que áreas planas cobertas de pigmento". academias, o mercado, os meios de comunicação, etc.) e porque, como Fou­
Sem a parte do espectador; em troca, eu acho que os livros não teriam uma sorte cault destacava em seu ensaio "O que é um autor?", os textos, segundo sua
tão pobre; realmente, a história que hoje leva em consideração a parte do espec­ natureza ou seu período temporal, não supõem de maneira universal e está­
tador tem pela frente o obstáculo das respostas verossímeis, que deram as per­ vel o autor.6 Por exemplo, na literatura grega, temos uma invenção de autores
guntas inteligentes de historiadores da cultura que não viram mais do que o primordiais nos gêneros que circulavam anonimamente, trata-se da epopéia
binômio autor/obra, deslocando, evitando a parte do espectador; ou seja, esta ou da ode, e na Idade Média a forma de circulação das obras literárias mais
leitura histórica dos textos literários enfrenta hoje a verossimilhança de críticos generalizada respondeu a tais condições. De nenhuma maneira há atribuição
muito bons que formaram uma tradição na crítica e na imaginação cultural do texto a um autor e, freqüentemente, os autores da literatura medieval são
ocidental, mas que não saíram do binômio autor/obra. invenções dos filólogos. Um caso célebre é o de Marie de France, que não é
CHARTIER: Sim. A citação de Gombrich faz lembrar-me um apontamento uma pessoa cuja existência possa ser restituída, mas uma imposição dos filó­
quase idêntico de Paul Ricoeur que diz que um texto sem leitor é um não logos do século XIX do que era em seu tempo o estilo normal de atribuição de
90 ROGER CHARTIER CUlTURA ESCRITA, liTERATURA E HISTÓRIA
91

textos literários quando há um autor ao qual identificar e que garante ou Estes elementos parecem indicar vários dos termos dignos de atenção para
autentica a obra.? Desta maneira, vê-se que o próprio conceito de autor, se há restabelecer uma leitura histórica das obras literárias que não destrua sua
alguém que escreveu os textos, nem sempre significa um autor com as pro­ condição literária. Porque há historiadores que se interessaram em fazer lei­
priedades específicas que definem a relação entre um texto e um nome pró­ turas das obras literárias, mas freqüentemente sem sucesso, pois as liam corno
prio. Foucault, talvez de maneira discutível, pensava que da Idade Média à se fossem um documento singular que ilustrava os resultados ou que corrobo­
época moderna os textos de conhecimento teológico ou científico supunham rava o que as fontes e as técnicas clássicas da história tinham mostrado. As­
necessariamente um autor, enquanto que as obras literárias estavam avaliza­ sim, é uma leitura redutiva, puramerite documental e que destrói o próprio
das pela condição do anonimato. Mais tarde, o que implica inversão das coi­ interesse de se confrontar com a literatura. Para concluir, talvez possamos
sas, os textos científicos ganham força a partir de sua adequação a enunciados estabelecer estes dois ternas de discussão tendo em vista estarem vinculados.
já propostos e, quando incluíam um nome próprio, nem sempre era o do Por um lado, o retorno da história sobre si mesma, pensando em sua dimen­
autor, e ao contrário, uma novela pressupõe um autor pois se há uma falsifi­ são literária; por outro, a literatura como objeto possível ou necessário da
cação, se há um jogo, é sempre um jogo com o nome do autor, e assim se dá investig���---�-��_!?..rica. Estas duas correntes, que talvez se desenvolvam de
a busca de alguém que se oculta atrás do anonimato ou de uma invenção, modo separado, confluem agora na pergunta sobre o estatuto da história, que
como se viu há poucos anos com esses autores ocultos por outro nome, quan­ sempre se vincula a fórmulas literárias, e com o enfoque histórico que faz
do o problema consiste em saber quem é o verdadeiro autor. Finalmente, este pensar que é possível produzir uma inteligibilidade mais densa, mais comple­
jogo pertence à função de autor. É um segundo elemento que se pode retomar xa e mais rica das obras literárias.
a partir da citação de Gombrich: ver como obra e autor supõem uma histori­
cidade e condições concretas materiais de definição.
O último elemento é o problema do espectador, do leitor ou do ouvinte. MOLIERE E SHAKESPEARE EM SEU TEMPO
Como podem-se reconstruir os sistemas, os esquemas pelos quais diversas
comunidades de espectadores ou de leitores pensam, recebem, organizam e SABORIT: A leitura histórica dos textos literários talvez ajude a evitar o que Lucien
classificam os textos? Seria algo assim como a continuação necessária do que Febvre chamoli- de os "travestismos do passado". A leitura histórica dos textos
sugere a estética da recepção, a qual - mediante o conceito de horizonte de literários penrlite nos acercar de uma maneira mais antropológica e menos esco­


expectativas - define o pr�_Qlema, mas sem h1Storizá-lo realmente de manei­ lar. Mas nessa leitura histórica temos que incluir os 11travestismos" dos historia­
ra precisa. Quanto a esteslhoriz.on.t�$_ _c.].e expectativ a lição que se de_spren­ dores, quer dizer, as leituras dos que nos precederam e que não estiveram muito
de de Gombrich, a partir da história da 8.1-t"e� .é 3j?féciável porque nos últimos interessados na leitura histórica dos textos literários. Nossa leitura é, também,
anos desenvolveram-se estudos que tentam reconstruir o olhar específico, seja uma reconst�ão que deve incluir os horizontes de expectativa desses leitores
de um século ou de um ambiente, a partir de valores atribuídos às cores, à profissionais, não é isso verdade? E a maneira como se leu Shakespeare no século
hierarquia das figuras, à disposição no quadro de seus diversos elementos, XIX não é igual a como se lê hoje.
etc., todas elas sinais que se dirigem ao espectador e à sua capacidade de CHARTIER: É um tema muito interessante. Estou de acordo com você
julgamento, a seu sistema de classificação e de apreciação. O famoso livro de porque o problema que traz é o das fontes e dos métodos. Aqui parece-me
Baxandall sobre a maneira como se viam as pinturas no século XVI, ou o que, para dar esta leitura historiadora ou histórica (historiadora porque pode
estudo de Carlo Ginzburg sobre Piero della Francesca, são modelos desse tipo se tratar de historiadores que se preocupam com outros temas, ou histórica
de reconstrução da descontinuidade ou da especificidade das maneiras de porque pode-se tratar de outras pessoas que não são historiadores com rótulo
ver.s Ref��l!laJ!�ira§__de ler, _o que s�pi)__gJ�n.t.endeLCOIJl_O cada comu­ profissional), são necessárias as técnicas de investigação e a elaboração de
nidade tem sistemas de-étassifi�ÇaQ :ao$�iéiierqs - que não são necessaria­ perguntas. Talvez para mim a mais clássica, como poderão imaginar, vem
menteôsnõSsÕs -, de di;tiD.Çã� entre ficçi� e verdade - que não têm diretamente de tudo o que temos dito em torno de como se aproximar dos
necessariamente os mesmos limites que para nós -, e também distinções textos. Neste ponto comecei um trabalho sobre as comédias de Moliére, e o
entre o discurso metafórico e irônico, que se deve tomar ao pé da letra, etc. escolhi porque é um autor de que gosto muito, mas também porque implica
92 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, UTERATURA E H I STÓRIA 93

uma situação - como no caso de Shakespeare ou de Lope de Vega, ou de forma de antologia, e suponho que esqueço muitas outras. É uma primeira
outros autores de obras teatrais - na qual há pluralidade de formas de repre­ maneira de trabalhar, se pensamos que devemos situar a literatura em seu
sentações do texto. As representações teatrais podem situar-se na corte ou na próprio espaço de produção e de recepção. Isso significa romper positivamen­
cidade, e também na "representação" impressa para as pessoas que não vêem te com uma tradição da crítica literária que supõe uma relação direta entre o
a peça, mas que a lêem, ou que a viram, ou que depois irão vê-la. Estamos texto antigo e o crítico contemporâneo, e que produz a interpretação do texto
aqui frente a uma multiplicidade de formas impressas: desde as primeiras a partir de um modelo lingüístico no qual o sentido se deriva do funciona­
edições soltas (que na Espanha seriam cadernos soltos) até as recopilações e mento da linguagem, mas esquecendo essa cadeia de mediações e sem preo­
antologias que definem as obras de Moliere; ou como na Inglaterra das edi­ cupar-se com as leitm� s contemporâneas, quer dizer, contemporâneas do
ções in quarto, vinculadas muito estreitamente às representações cênicas das próprio texto.
peças até o momento em que surge a edição in folio (depois da morte de Há �segunda linh de trabalho que me parece muito útil: as propo­
Shakespeare em 1623) de suas comédias, tragédias e histórias. Desta manei­ sições do/new historicism. E corrente, desenvolvida nos Estados Unidos em
ra, temos três formas de representações: a da corte, a da cidade e a do impres­ torno de\ novos estudos spbre o teatro isabelino, começando por Shakespeare
so ou livro; três relações com o mesmo texto; três públicos. Porque o público - mas rlão só ele ---;/l{aseia-se na obra de Stephen Greenblatt. O conceito­
da corte não é o público urbano do teatro nem o público dos leitores, e medi­ chave é o �áção, que serve para designar a relação entre os textos e os
ante estas três formas, estas três relações, estes três públicos, temos a produ­ rituais, as práticas religiosas ou jurídicas, as políticas do cotidiano e a obra de
ção de sentidos diversos para a mesma obra. arte. Uma negociação estética com estas práticas ou com estes discursos ordi­
A dificuldade consiste em que é completamente desigual documentar nários faz com que a ficção, ao deslocá-los, produza ao mesmo tempo um
estas três situações, pois ao trabalhar sobre Moliêre achei que é possível re­ efeito estético específico e mantenha uma vinculação com estes discursos ou
construir a visão e a percepção da corte na medida em que temos jornais, práticas que finalmente permitem ao público decifrar a ficção - a qual traba­
memórias, prograni.as, etc., o que proporciona a possibilidade de reconstruir lha relacionada com o que é sua matriz no mundo social. No caso de Green­
a maneira como as pessoas da corte imaginavam, viam ou recebiam a peça de blatt, a análise se empenha na re'lãção entre uma cena de uma peça
Moliêre, a partir da presença de uma comédia dentro de uma pastoral, com shakespeariana e um processo, um rito religioso, etc. O que importa é o jogo
música de Jean-Baptiste Lully, com o canto e as danças, e a partir da presença entre uma prltica social e uma ficção literária. No caso das comédias de Mo­
dessas duas formas articuladas dentro de uma festa, à maneira barroca.9 Mas liêre, estudei algumas cenas com essa idéia. Por exemplo, na comédia George
reconstruir a percepção e a recepção do público urbano é muito mais difícil, Dandin há uma lição de boas maneiras na qual se u�iliza, formal e correta­
nem temos fontes diretas para fazê-lo. O que sabemos sobre o público urbano mente, um tratado de boas maneiras como os que circulavam nessa socieda­
não se vincula a uma representação específica de uma peça particular, mas só de, mas des].m:ando-o para produzir um efeito cômico no público. Neste caso,
a sua composição social, às tensões entre os burgueses parisienses e os jovens trata-se de alguns nobres que dão lições de boas maneiras a um camponês,
domésticos das casas aristocráticas, à hierarquia dos postos na sala ou no mas sem respeitar as regras, assumindo-se eles mesmos como mestres de
palco, porém para a leitura, a única fonte é o próprio objeto, o que é possível boas maneiras. Aos olhos do público da corte, são ridículos pois são nobres
imaginar a partir da leitura mediante a forma de apresentação do texto. Aqui provincianos que não conhecem realmente o que ensinam; e a contradição
se vê como teoricamente existe uma igualdade que deve ser estabelecida em entre o que fazem e o que dizem produz o efeito cômico. É outra perspectiva,
três formas de relação com o mesmo texto, apesar que do ponto de vista do que acredito muito útil e que aplica o conceito de negociação para evitar a
trabalho histórico existe desigualdade, e as fontes não remetem ao mesmo idéia de reflexo, de reprodução do mundo social na ficção. Organizei também
tipo de conhecimento. Esta estratégia de investigação parece-me essencial um seminário, cujos conteúdos não foram publicados, sobre 1\velfth Night, de
como primeira forma de aproximação aos textos literários. Se pensamos no Shakespeare. É a Noite de Reis, que culmina o ciclo do Natal com a festa de
século XIX, temos várias situações distintas: uma novela de Balzac em forma Reis; em francês é a Nuit de Rois. Toda a comédia de Shakespeare se apóia em
de folhetim, como publicação por entregas nos jornais, em forma de livro referências ao ciclo folclórico, estudado pelos etnólogos, e toda a peça pode­
para gabinetes de leitura, em forma de livro normal para as livrarias, em ria ser eptendida a partir desta chave folclórica, etnológica. Esta comédia de

j. ' �JP'l Y'Jfl


'
1 . p//i ·:f,tv 1 � 'i/
'

·--����:'.· .
. <k- ,_ .. ' / ' I i\·.
F,.,;.- r . . .A <-- dJ. -�--lJ 1
-- '

"'-'---------
94 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 95

Shakespeare organizou�se com uma "negociaçãd', com a matriz folclórica de uma coisa: vocês publicaram, em uma excelente coleção do Breve Pondo Edi­
toda a sociedade inglesa, incluindo a corte. É, pois, uma segunda direção de torial, um pequeno livro de um escritor mexicano.
trabalho; depois de entender o conceito de forma, vem aqui o conceito de SABoRIT: Refere-se a El conferenciante, de Eduardo Contreras Soto?
negociação. CHARTIER: Sim. Ele escreveu uma história de que gostei muito. É a histó­
Uma terceira linha de trabalho poderia ser a análise de como, em certas ria de um leitor que diz que sempre gostou de certo poeta, cuja obra acompa­
épocas, a literatura se encarrega de discursos que depois vão-se constituir em nhou. Mas um dia lê um trabalho de um crítico literário que estabelece que o
outros tantos registros de discurso. Por exemplo, em todas as comédias de sentido dos poemas é exatamente o oposto do que o próprio leitor pensava.
Moliêre há um discurso sobre a sociedade que poderia ser chamado "pré­ Gostei muito da conclusão da história porque o leitor diz: aceito a leitura do
sociológico" - da mesma maneira que em Quixote há um discurso que pode­ crítico literário porque estabelece com verossimilhança o significado, o Senti­
ria ser chamado de "pré-etnológico", "pré-antropológico". E em uma economia do histórico deste poeta; mas eu manterei minha própria leitura. O leitor
dos discursos que não dá lugar ao de discurso constituído no século XIX, as desta história se dá conta de que projetou muito de si mesmo na leitura. to É
coisas se expressam em outros gêneros, com uma função própria, estética, ao um conto maravilhoso, porque é a história de uma leitura - que é sempre
produzir efeitos sobre o público. No caso da comédia Geores Dandin trata-se produção de sentido a partir da experiência do leitor - e porque, ao mesmo
de um discurso acerca de quem depende a identidade social; depende da tempo, inclui o trabalho que discutimos aqui, um trabalho arqueológico, his�
pessoa que pode transformar sua condição, neste caso um camponês que se tórico, crítico que tenta reconstruir os sentidos para os espectadores de Shakes­
casa com uma filha da nobreza rural e que adquire uma terra senhorial? Ou peare ou para os leitores de Balzac, o que não significa que não possa se
seja, existe a possibilidade de manipular a própria identidade, ou a identida­ estabelecer outro tipo de relação com o mesmo texto, mais subjetiva e exis­
de é sempre imposta pelos que têm o poder ou a autoridade, os que dizem aos tencial. Pareceu-me uma boa lição, uma fábula que permite estabelecer uma
menos poderosos o que são? Aqui vemos como o casamento do camponês distinção entre o necessário como trabalho histórico, para evitar os anacro­
com a filha de nobres fracassou finalmente ante a posição que estes lhe im­ nismos na análise, e o que para cada um. é algo muito pessoal, secreto, indivi­
põem por meio de suas palavras e seus comportamentos. Esta é uma maneira dual: nossa relação com Shakespeare, Óoethe, Cervantes e outros.
de vincular esta lição - uma lição sociológica posta em forma cômica - à GowiN: A referência a Gombrich vem-nos dizer que existe uma relação
representação cortesã, porque no momento da produção deste texto esse entre texto e aufor. que sempre está mediada pelo leitor. Não existe outra possibi­
mecanismo preocupava muito os nobres e a corte embora em outro nível, pois lidade ou via de significação além dessa, e o historiador resgata justamente tal
nessa época se proclamaram as "reformas da nobreza", que remetiam ao ter­ coisa.
ceiro estado todos aqueles que não tinham direito de ser considerados no­ CHARTIER: Sim. Sempre gostei do prólogo de Fernando de Rojas para A
bres, e que, portanto, deviam pagar impostos. Foi o caso do camponês Dandin: Celestina porque demonstra que há autores, como ele, com quem se poderia
a identidade social dos nobres não dependia deles mesmos, mas da decisão compartilhar nossa discussão devido ao grau de cons.ciência em relação às
de um poder mais alto, que era o rei. E algo análogo acontecia neste sentido diversas interpretações que seus textos podem receber, embora, como todos
com a situação social nos tempos em que se escreveu e representou esta co­ os autores, Rojas tente fixar o sentido. Em seu caso é particularmente interes­
média, em relação a sua própria intriga. sante porque refletiu sobre a natureza do público em relação com a forma de
Temos então três vias para historizar nossa leitura dos textos literários, e transmissão e com a técnica de leitura. Assim, pois, sempre me pareceu que
acho que todos devem ao mesmo tempo recuperar e identificar a sedimenta­ este prólogo é um texto que traduz uma consciência muito aguda, comparti­
ção dos discursos da crítica literária e das interpretações acumuladas, entre lhada na Espanha desde o fim do século X:V até a metade do XVII, dos efeitos
Shakespeare e nós, entre Moliere e nós. Desta maneira se reconstroem as dos textos e de suas formas de circulação entre seus públicos. Mais que a
diferentes formas em que um texto foi entendido, comentado e situado em francesa ou a inglesa, a literatura espanhola do Século de Ouro tematiza sua
diversos tempos. De algum modo, é uma necessidade para restabelecer certa própria condição de produção, de circulação e de recepção. Os textos nas
"frescura" em nosso olhar em relação ao texto antigo, seja para nosso prazer duas leituras - em voz alta e em silêncio -, os textos dirigidos a públicos
de leitores ou para nosso trabalho histórico. Certamente, gostaria de dizer diferentes - o culto e o popular -, a consciência das próprias formas de
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÔRJA 97
96

transmissão dos textos: tudo isto está presente, seja nos prólogos ou nas ad� Em algum seminário comentei o conto "O espelho e a máscara", de O
vertências ao leitor, seja dentro do próprio texto literário, como seu tema, sua livro de areia, que considero um exemplo maravilhoso. H Um poeta escreve
matéria, etc. Seriam infinitos os exemplos na literatura do Século de Ouro uma ode para um rei que venceu a seu inimigo; é um rei da Irlanda (o assunto
que mostram esta consciência dos autores em relação aos textos, às formas, da mitologia borgesiana das literaturas anglo·saxãs), e três vezes, como nos
aos públicos. E seria interessante saber por que esta consciência é mais aguda contos de fadas, o poeta chega diante do rei e, ao mesmo tempo, a natureza
na Espanha do que na França. Talvez a resposta se deva ao amplo público do texto se transforma. A primeira vez é um texto segundo as regras da arte
urbano nos teatros de comédias, ou talvez à prática da leitura em voz alta (e copiada, imitada ou integrada, o que quer dizer que o poema se situa no
esta é em parte a conclusão de Margit Frenk), ou em nível de alfabetização, registro da imitação. A segunda, é um poema muito particular, estranho, que
que por muito tempo foi considerado muito baixo, e não é o caso nas cidades, não respeita as regras retóricas nem gramaticais, e que, de alguma maneira, é
onde há níveis de assinaturas comparáveis a outros lugares da Europa... um poema como invenção. A terceira vez é apenas uma linha, e aqui o poema
GOLDIN: O caso de Rojas nos remete à Inquisição e à censura... é comparado a urna blasfêmia ou a uma prece: nem imitação nem invenção,
CHARTIER: Talvez exista esta dimensão que o vincula a uma presença mas inspiração. Muda a forma de transmissão do texto: no primeiro caso, o
mais forte da censura do que, por exemplo, na França. Seguindo a tese de poeta declama com grande segurança; no segundo, lê em voz alta, mas trope­
Auerbach sobre os diversos graus de relação das literaturas com a realidade ça e lê fragmentos do texto como se não o entendesse bem; no terceiro, é só
social, é claro que na literatura espanhola (e poder·se-ia dizer que também na urna recitação quase em voz baixa. Muda o público: no primeiro caso, estão
pintura) há uma presença das realidades materiais do mundo social como presentes a corte, o colégio dos poetas, a multidão; no segundo, a corte, os
algo que a produção estética pode utilizar, deslocando·as com maior força e doutos, os letrados; no terceiro, o rei e o poeta estão sós. Muda também o
sem o processo de distanciamento ou abstração próprio da literatura clássica efeito produzido pelo poema: no primeiro caso, há um respeito por uma imi·
francesa. Estão presentes todas essas razões, mas parece·me uma literatura tação bem feita, mas néj.da acontece; no segundo, há um efeito de ekphrasis, a
em que pode·se analisar, de maneira muito aguda, o que você assinala e que batalha que o poema celebra não é aqui uma reprodução da batalha,_ uma
é o problema da consciência de certos autores quanto às formas de difusão e representação: é a própria batalha, e as pessoas, os poetas e a corte estão
apropriação dos textos. comovidos com o poema; no terceiro, é mais um ato ritual e religioso, o poeta
e o rei murnfurarn o texto. E muda finalmente a recompensa: no primeiro
caso, é um espelho, um trabalho de um artesão, corno o poema que foi resul·
O �EI E O POETA tado de um trabalho artesanal (o que significa que há uma realidade prévia,
refletida, como o poema reflete a batalha); no segundo, é a máscara, uma
CHARTIER: Gostaria de acrescentar uma citação de Borges, pois penso que ele invenção dramática, tal como o teatro faz presente o que se representa, pois o
pertence a esta tradição hispânica. Comentam·se seguidame�te as inclina­ poeta tornou presente a batalha; no terceiro, a recompensa é uma adaga, pois
ções literárias de Borges para a literatura inglesa dos séculoS XIX e XX ou aqui o rei e o poeta se aproximaram da beleza absoluta (prece ou blasfêmia),
pelas literaturas anglo·saxãs medievais, mas há um vínculo intenso entre a a uma espécie de domínio proibido, e então o poeta se suicida e o rei abando·
escrita de Borges e a literatura do Século de Ouro. Nele vemos exatamente a na seu trono e sai como vagabundo pelo reino.
mesma percepção, muito aguda também, da cultura do escrito e do impresso. Vejo neste conto exatamente o mesmo que em Fernando de Rojas: há
Todas as figuras dos leitores, dos autores, do próprio livro, seus ·interesses uma percepção extraordinária das mudanças vinculadas às maneiras de trans·
além da literatura por um problema como a leitura em voz alta (como se mitir as obras, à estética que rege a produção literária, à natureza do público,
deduz de seu conhecimento do texto de Santo Agostinho), sua reflexão acer­ aos efeitos do texto literário e, finalmente, ao estatuto mesmo da literatura.
ca da dimensão auto·reflexiva da literatura, tudo isto, parece que se funda em Parece·me uma aguda visão com um grande conhecimento do Século de Ouro,
um sólido conhecimento e em uma intensa inspiração que provém da litera· porque quando se fala do segundo poema, o poema da ekphrasis, o poema da
tura do Século de Ouro. invenção, do entusiasmo, se utilizam as mesmas palavras que se utilizavam
98 R O G E R CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 99

no Século de Ouro: arrebatar, maravilhar, encantar; como se a literatura, esta AS FONTES DA HISTÓRIA DA lEITURA

��
invenção que recebe como recompensa a máscara, pudesse criar tal efeito.

(
Borges respeita a linguagem do Século de Ouro, e o que falta em meu pobre JEsús ANAYA ROSIQUE: É o problema que Damton tenta responder em First Steps

-
comentário deste conto é sua última dimensão: porque o poeta, com a tercei­ Toward a History of Reading (que Saborit traduziu para o espanhol)12 quand� \

.,1.
ra ode, perdeu a vista. Aqui se vê finalmente que só a inspiração se aproxima propõe cinco maneiras de estudar as diferentes leituras que se produziram no 'S'
da beleza absoluta, que só pode ser alcançada por meio de um murmúrio sem tempo: 1) aprender mais�e_Qsj.g._e_c:t.�.-�.P.'.€!sup�stos que estão por_ detrás da .
rastros. No primeiro caso, o rei pede que os escribas reproduzam o poema lei�g§_�ado; 2) inves�(J_r ?-� 1!!!����� co ··que s-e �p-�en��� a ler; 3) re- �
-- - 111.
conforme as regras e que se difunda como modelo; no segundo, pede que esta construir QLt�mun.hos.acerca de como liani·p� so� tqnto.f�11!osas Como co- '-::;'1'
obra da invenção, da ekphrasis, se conserve, mas só em um exemplar guarda­ muns; 4) aprofundar-se na teoria literária e 5) na bibliografia analítica. �\
do; e no último caso, que não se escreva, que não se repita. Desta maneira -CHARTIER: Há claraménte uma classificação relacionada com diversos z-\
não há texto impresso, não há escribas, não há cópia, só o murmúrio do tipos de fontes, e a própria classificação está entrecruzada por temáticas, e
poema entre o rei e o poeta. Um poeta cego como Homero ou Milton, linha­ estas por metodologias. Temos que começar com as fontes da história da lei­
gem em que Borges se .situa com uma nota portenha pelo fato de que dois de tura. Talvez fosse bom rematar as fontes porque pelo que parece existe um
seus antecessores na :áíblioteca Nacional de Buenos Aires foram cegos: Paul mundo do ensino da leitura que se vincula claramente aos interesses, que já
Groussac - nascido em Tolouse, França, como Gardel- e o romancista José discutimos, das pedagogias da leitura� seu lugar dentro da educação, suas
Mármol. Fernando de Rojas foi quem conduziu-me a Borges para dizer que técnicas que mudam conforme os séculos. Por exemplo, você menciona a lei­

..
há obras literárias que tematizam poeticamente o espaço de trabalho que os tura em voz alta na escola, mas o objetivo desta leitura é verificar a capacida-
une. de da leitura silenciosa, o que é Pê!.�a..ctoxal: le� voz �lt" para verificar por
Por último, posso também apoiar-me em outra citação de Borges. Em meio dela a correta leitura em silêriclo .lsto apontãi:Odo "üm mundo que per­
um prólogo ao Macbeth de Shakespeare, Borges cita o poeta norte-americano tenCe-est"iítãiilente·à-liiStófia d"ã ·pedagpgia e da educação, e que produziu
Walt Whitman: há um mistério - como no terceiro caso - da obra de arte, suas próprias fontes. Depois1 a classificação se remete aos discursos sobre a
da beleza absoluta, mas devemos nos aproximar o mais que possamos aos leitura: memórias, autobiografias, cartas, livros de contas, cadernos, diários
fatos que tornaram possível esse mistério. É iniludível a consciência do que de notas, etc., fudo o que vai desde os letrados ou poderosos até as pessoas de
discutimos: há um mistério irredutível que remete a obra à subjetividade de condição mais humilde. E os exemplos de Jamerey-Duval e de Jacques-Louis
cada um, mas há fatos que possibilitaram a construção desta obra, o que quer Ménétra respondem a uma produção de escrita em que se escreve acerca da
dizer Sua localização em um lugar, em um tempo, em uma sociedade, com leitura como uma aprendizagem, como uma prática, ou referindo-se a seus
técnicas, formas de difusão e de apropriação; e o trabalho do crítico, do histo­ conteúdos.13 .Acredito que devemos situar Menocchio na mesma perspectiva,
riador ou do filólogo consiste em reconstruir todos esses fatos com a certeza mas com a diferença de que aqui- como explica Carlo Ginzburg em O queijo
de que será uma aproximação fundamental para a obra literária com a condi­ e os vermes - trata-se de um discurso oral sobre as leituras transcritas pelo
ção de não destruir de maneira reducionista seu mistério. Penso ser uma boa inquisidor, em uma situação em que este pede a Menocchio que diga algo
lição para este tipo de trabalho, que tenta construir uma leitura histórica das sobre a leitura, o que é muito diferente de quando uma pessoa escreve uma
obras literárias, mas sem destruir sua condição mais real: o mistério. carta ou suas memórias; trata-se de um discurso forçado sobre a leitura devi-
SABORIT: O leitor também está preso em seu momento histórico. � do a que as duas perguntas essenciais (De onde vêm os livros?, Como leu e
dos atores ou peÇrumais difíceis de documentar; talvez seja a equação menos
. interpretou os livros?) pertencem ao processo.14 Evidentemente, a fonte in­
.
si.;npres ··nã· -�e��nStriíçã0-ddS'1"e'iturãS históricas� mas nem por isso deixa de ser quisitorial é escassa neste sentido no que se refere a personagens humildes1
uma das presenças mais reais. Podemos tentar reconstruir as outras presenças ­ com exceção dos que se apoderam da prática da escrita do eu, como Ménétra,
me refiro àquelas que estão dentro da obra ou do texto - convocadas pela von­ como Jemerey-Duval, como - em um número mais amplo - os puritanos
tade ou acaso da combinação� mas só excepcionalmente se conseguirá recons­ ingleses, incluindo os que emigraram para a América. A de Menocchio é uma
truir a reação do leitor diante do universo de mistérios que o autor propõe. das raras e escassas fontes em que a pessoa é obrigada a dizer algo sobre suas
100 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITE RATURA E HISTÓRIA 101

leituras; essa é a razão pela qual, depois dele, se desenvolveram outros traba­ ladas, mas hipóteses, afinal; no segundo, trata-se de discursos que podem ser
lhos em nível mais global. comentados, e há igualmente·· hii)ó"teSes de interpretação, mas também um
Nos tribunais eclesiásticos apresentam-se duas situações: no caso da In­ texto, algo que vem da própria pessoa: s���-9�§_ç:�r_S_Q�. ?ECli§
quisição na Espanha e na Itália, depois de Ginzburg, houve o estudo das inter­ transcrito.�.P.�.ku�.s..criba clªj!!_qg_isição, mas baseados em S:t!�.P�lavra, .. ou em
pretações de um autor particular por meio de fontes inquisitoriais - entre seusêSCritos pessoais das memórias, as autobiõgrarta:S� etc. E no primeiro
outros é o caso do livro de Seidel Menchi sobre Erasmat s - e há uma inves­ caso temos as fontes pedagógicas, na quais se controla·m as normãs··e· ãs�Prá­
tigaçã� sobre os leitores da diocese de Cuenca, que não se vincula a um leitor ticas. Estas persp�ctivas · do mesmo nív€T€ à medida que nos interes-
não s·ão
-- ----·-AA---··-n----·--
partkular, como Menocchio, mas que tenta reconstruir a população leitora sam estes temas devemos admitir · que, conforme as realidades, as fontes e os
frente à Inquisição; 16 no caso dos protestantes da Bohemia, os husitas, existi­ tempos, o que podemos estabelecer é mais ou menos hipotético. Mas a histó­
ram os tribunais de bispos, que realizaro_o mesmo tipo de interrogatórios que ria não pode se reduzir às questões que possam ser respondidas, aparente­
o tribunal da Inquisição. Uma te���!.�J���!�, a�açõ.��vros mente, com a mais rigoroSa certeza, pois freqüentemente os temas que podem
pelos pr_<:)pxios l.�itores, embora"Se refira mais claramente ao����:� �: trados ser tratados com certa segurança são os menos interessantes para os historia-
- de
_ um
j,
qüe··a?�-hw:nildes, ..nãQ_Q._�i��--d-� se�__i_mportante. Há pouco li o livro dores: o.(.-t,r..�'�.--
.-1 r
joVerrl historiador norte-americariõ; William Sherman, dedicado à biblioteca. /i !. '-· 'ô
fjf'
v.:-.· · 1 'c <.·-
de John Dee,17 um personagem muito curioso que foi mago e matemático na --
, ,tJ- · i. r·..,
1• tt.v1• {._
Inglaterra do século XVI e possuía uma importante biblioteca aberta à utiliza­ PALAVRAS DE LEITORES A '\i' '· ·J,;J-. . , ··
ção de uma parte da corte e dos ministros. Era uma espécie de centro de
referências, pois multiplic�a..aê. anotações em seus livros. Em seu estudo, GOLDIN: Creio que; inclusive no presente, a sociologia da leitura é muito interes­
Sherman compara as al§tações}e John Dee com toda uma série de anota­ sante e leva a problemas muito complexos. Como se recebe Gabriel García Már­
J;:�)
c p...,
ções de um bibliotecário dêcãmbridge _ do século XIX, que separou em cole­
ções �q4.os...o.s. .��y�os com no���-11}2:!z�nais, integrando assim uma coleção
quez, por eXemplo, na Colômbia, México, Estados Unidos ou Europa?
C-HÁR.TtER: Sim, porque na história da leitura, se pensamos na leitura
b.
espeéial, uma adverSCfi1:â�Is se faz referência ao texto manuscrito contra­ como uma prática, há a cada dia milhões de indivíduos que realizam milhões
posto ao texto impresso, e seguidamente o primeiro pode ser crítico em rela­ de atós··de leitura, e reconstruir esta realidade múltipla da leitura está além
ção ao texto impresso. A coleção das adversária oferece um material importante das posSibilidades das ciências sociais. Podemos reconstruir normas e regras,
onde se vêem todas as táticas e práticas da anotação marginal. costumes - ém que todos estes milhões de atos singulares se situam e encon­
Outra fonte para nossos discursos sobre a leitura, junto com as fontes tram seu· · sentido. Para nosso tempo talvez haja outras possibilidades, por
pedagógicas e escolares e o que menciona Darnton em seu último ponto, há exemplo, as..pe�g_g�§ª-� ..�Qçiolq_glç�s. Na_!!��ç-�-��-F�al�z.a,_ a_ cada cinco e1n9s,
na forma material do texto, quando não há mais possibilidades ou hipóteses, uma pesquisa naciona� · sobr� as prá�icas culturais_'que tenta medir se as pessoas '
mas hipóteses controladas do que se sabe mais ampla e ge:almente acerca vão a bibliotec;s; õU.. COffiPi-aiTdiViós; ou vao·aó Chi�in�, ou assistem a confe­
das capacidades ou hábitos de leitura de cada comunidade. E .�b�s-:de _u_ma rêrlêías;êtC .; dados um tanto eSquemáticos, mas que dão uma idéia dos des­
. o.Pjt_=_tos.impressos OIJ.dQ.$.J?róprios man��-C::..itõs.
história da leitura a par0J-:.4Q.S0. locamentos em nível da população global e de cada categoria socioprofissional.
Mã;é·-aaroq�e-nãó ·podemos aplicar o mesmo critérià�deveraade ou de Ou então, há pesquisas em formulários preparados por escrito ou em entre­
verossimilhança conforme as fontes. A questão é que Darnton quer provas vistas diretas que, em minha opinião, serviram como base a projetos interes­
firmes para estabelecer os fatos e, ainda que tenha bastante imaginação, não santes. Sobre este ponto posso citar dois livros. O primeiro, dedicado aos
gosta muito da hipótese de tipo imaginativo na história, e todo seu trabalho leitores e leitoras na Austrália nascidos em fins do século XIX ou começo do
em torno dos leitores da França do XVIII serve para estabelecer, da forma XX, é de dois colegas, Lyons e Taksa, que construíram seu livro a partir dos
mais contundente possível, suas interpretações dos textos. Penso no entanto discursos sobre a leitura recolhidos entre a própria polulação.1s O ponto de
que, de acordo com os diversos tipos de fontes que mencionamos, o grau ou a partida é a população de leitores e leitoras, definida por sua pertinência a
maneira de provar não é a mesma. No terceiro caso há mais hipóteses contra- uma geração ou a um espaço temporal de nascimento. O outro livro, da histo-
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA. LITERATURA E HISTÓRIA 1 03
102

riadora norte-americana da literatura Janice Radway, tem outro ponto de uma relação de confiança, descobria-se que tinha, sim, práticas de leitura e
partida: o gênero do que na França seria a coleção Arlequim, o que se costu­ também impressos, embora não necessariamente livros. Parece que a negati­
ma chamar de romans rases, romances rosas, sentimentais, para o público va inicial respondia à imposição do modelo legítimo da leitura que esta pes­
feminino.19 E partindo deste corpus de novelas rosas - no qual se consolidam soa supunha no momento da primeira entrevista e que, ao se familiarizar com
tanto os papéis clássicos da mulher e da ordem patriarcal como a dominação o pesquisador, lhe parecia menos estrita.
masculina -, a autora estuda seu público de leitoras, não em nível de uma ANAYA: Há outros casos em que a pessoa que lê muitos livros não se assume
pesquisa sociológica na escala do país, mas por meio de uma amostra de uma como leitor pois considera que ler é coisa de intelectuais, algo sério, acrescentan­
cidade particular. Estas mulheres responderam um questionário e foram en­ do que "o que eu faço é apenas perder tempo". Ou também, como no censo de
trevistadas. Enfim, este livro é maravilhoso porque se opõe ao sentido deseja­ 1980, outras respostas que auto-elevam seu nível de leitura. Mas qualquer prova
do pelos produtores que favorecem o sentido do reforço da ideologia patriarcal é enganosa, inclusive se não queremos trapacear e tratamos de reconhecer quem
no texto ou no livro, enquanto que o ato mesmo da leitura revela como em é leitor ou o que quer dizer ler: Imagino que na França deve haver instrumentos
seu transcurso a leitora escapa desta ordem caseira, da dominação masculi­ de controle que tornem possível a obtenção de melhores resultados.
na, das tarefas domésticas. Publicado há mais de uma década, este livro é CHARTIER: Nas pesquisas do Estado - a pesquisa nacional mencionada
fascinante pelo fato de que uma destas mulheres descreve sua leitura exata­ sobre as práticas culturais, dos anos 70, organizada e publicada pelo Ministé­
mente com o léxico das comunidades dos beneandanti estudados por Ginz­ rio de Cultura da França - e nas pesquisas sociológicas, em particular dos
burg, o mesmo que expressa a idéia de que a mente vai separada do corpo:zo que trabalharam sobre as práticas culturais desde a perspectiva de Bourdieu,
Assim, o corpo da mulher está em casa, com o marido ao lado, com as crian­ mas que utilizam mostras muito mais controladas que a pesquisa nacional,
ças brincando em outra peça, com todas as pressões do cotidiano; mas ao ler sempre existem os riscos da situação de entrevista: produzir limitações nas
estes romances a leitora expressa que sua mente se transporta para outro lugar, declarações em torno das práticas porque estas se refeririam a uma suposta
se separa do corpo e, finalmente, esta literatura tão conseiVadora constitui, na norma, a do pesquisador, que cria uma situação de inferioridade entre os
própria prática da leitura, uma tomada de distância em relação ao homem. entrevistados e que os impede dizer que suas leituras são romances rosas ou
Estes são dois exemplos do que se pode fazer com a entrevista e o questionário. revistas de mof.odclismo, etc. A situação de entrevista só pode mudar quando
ANAYA: Sim, lembro que você, em vários textos, se refere a como transfor­ se modifica a técnica com a própria repetição de entrevistas. Entramos na
mar em uma tensão operativa essa liberdade do leitorfrente ao texto que origina crítica das pesquisas, particularmente a das pesquisas com organização cen­
uma coleção indefinida de experiências irredutíveis para poder planejar uma tral por parte do Estado, do Ministério. Lembro o famoso artigo de Bourdieu"
história das práticas de leitura. Outro problema pertinente está relacionado com sobre as pesquisas de opinião, no qual afirma que estas pesquisas apresentam
a proliferação de pesquisas e sondagens de opinião pública que se verificam no problemas q� comumente as pessoas não se propõem e que sugerem um
México nesta fase particular de transição para a democracia. As pesquisas de pouco a resposta, como no caso que você menciona, onde, se não há um
consumo cultural repetem estereótipos e lugares-comuns e produzem dados que controle técnico, o entrevistado pode "inflar" sua própria situação cultural.
carecem de rigor; até agora nenhumapesquisa sobre o comportamento dos leito­ Aqui há um efeito de imposição, próprio da pesquisa, e cujo resultado é reme­
res tem uma metodologia sem objeção e resultados fundamentais... - tido mais à pergunta do que à resposta.
CHARTIER: Mas além da falta de rigor, há armadilhas particulares nessas GOLDIN: Mas aí há um caso interessante de como um instrumento de análi­
investigações. A história oral, as entrevistas, como se sabe agora de maneira se não é objetivo e, no entanto, cria um mecanismo para se objetivar; mas o
mais precisa, nem sempre produzem fontes mais acessíveis ou transparentes historiador, como cria o mecanismo para se objetivar, para transformar em co­
que as fontes clássicas dos arquivos sobre a leitura. Por exemplo, meu amigo nhecimento científico sua leitura?
Jean Hébrard assinalou o caso de algumas pessoas de nível popular (entre CHARTIER: Bourdieu disse, e isto parece-me muito interessante, que se
outros, sujeitos nascidos no começo do século XX) que, na entrevista, respon­ interrogar sobre as condições de possibilidade da leitura equivale a se interro­
diam que não haviam lido nem praticado a leitura, e que não tinham livros. gar sobre as condições sociais em que se lê e as condições sociais de produção
Mas quando a mesma pessoa era entrevistada três, quatro ou cinco vezes em dos leitores. Ele emprega as palavras latinas leitores, leitor, como comentador,
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 1 05
1 04

como hermeneuta que busca o sentido, pQ.iS isso é o leitor letrado. Uma das Foucault abandonou mais tarde esse tipo de estudo, e não dedicou mais en­
ilusões do "leitor" consiste em esque,Cer suas próprias condições sociais de saios a escritores contemporâneos seus. Parece-me que, ao insistir na diferen­
produção, em universalizar inconscienteinente as condições que possibilitam ça entre práticas discursivas e práticas não discursivas, Foucault foi-se
sua leitura, como se as situações de leitura do leitor letrado fossem necessaM distanciando da idéia de que fora da linguagem não há nada, que não há
riamente compartilhadas e sua própria relação com os textos deveria ser a realidades não discursivas, que a realidade é sempre produzida dentro da
relação de cada um de nós com a cultura escrita.22 O trabalho de tipo arqueo· linguagem. Desde A história da loucura na época clássica até Vigiar e punir,
lógico, à maneira de Foucault, ou sociológico, à maneira de Bourdieu, consis­ Foulcault sempre se empenhou na distinção entre práticas discursivas e não
tiria em desmantelar esta projeção para- o universal de nossa prática particu­ discursivas. Depois da new criticism ou da nouvelle critique dos anos 50 e 60,
lar como leitores profissionais. Derrida é o autor que, após Foulcault ou Barthes, aparece nos Estados Unidos
como a figura principal deste tipo de enfoques, centrados no funcionamento
da linguagem e na pluralidade e instabilidade do texto.
LITERATURA E SOCIEDADE Pelo visto, é útil recuperar essa dimensão porque falamos de pluralida­
de, diferenças, multiplicidade de sentidos (esta idéia de que não há um senti­
SABORIT: Gostaria de voltar à leitura e à crítica da leitura. Nos anos 20� Ivor do fiXo, congelado, estabelecido da obra, mas instabilidade e multiplicidade,
Armstrong Richards, o critico literário que fundou seus princípios valorativos na é o que me parece importante) ; mas do meu ponto de vista, nem na new
crítica da leitura tal como se praticava nas universidades inglesas em princípios criticism nem em Derrida essa constatação levou a desenvolver todas as técni­
do século XX, pôs-se a indagar como liam seus alunos e descobriu que esses cas que permitiram recuperar essa instabilidade ou pluralidade. A perspecti­
leitores universitários eram incapazes de decifrar um poema não só por suas va é fundamental para evitar a tradicional crítica literária que buscava o sentido
imagens, como também por suas palavras. Publicou dois livros na década de de Macbeth ou de O misantropo, mas ao mesmo tempo se distancia da prática
1 920: Practical Criticism e Principies ofLiterary Criticism, e em um deles mostra sócio-histórica. Por essa razão, este tipo. de crítica literária é agora discutido
estas experiências de leitura com seus alunos e estabelece uma série de princípios no âmbito norte-americano. Mas também se consolidaram outras correntes
sobre os problemas da leitura. Tenho a impressão de que a crítica da leitura, dedicadas ao \i.Studo do copyright, a propriedade literária, a construção do
como ferramenta central da crítica literária, leva à crítica da escritçz e esta, ÇJ. da autor; o new hlstonctsm ou todas estas correntes que mais ou menos se inspi­

escrita da história. No século XX temos uma compenetração muito interessante raram na teoria da recepção e que se dedicam à teoria da reader's response,
na crítica da leitura que desemboca em práticas literárias e de escrita da história quer dizer, à maneira em que o leitor reage diante do texto. Todas estas cor­
que n� mundo anglo-saxão teria sua expressão na chamada nova crítica (ou new rentes representam uma vontade de se distanciar em relação à hegemonia da
criticism) dos anos 50. Entendo que na França ocorre algo paralelo que a nós new criticism,-rm do desconstrucionismo à maneira de Derrida. Hoje atrevo­
chega por mediação de autores e livros como Octavio Paz e O arco e a lira. Neste me a dizer que durante muito tempo pensei que para nós não era de grande
há uma reflexão sobre a linguagem poética e a história, e recolhe a nova crítica, utilidade esse tipo de proposta em virtude de que nos distanciava de uma
mas também um tipo de reflexão francesa. perspectiva sócio-histórica. Mas agora modifiquei meu pensamento e creio
CHARTIER: Sim, mencionei o new historicism como uma nova definição que se pode fazer algo com essa idéia de um texto não fechado, da instabili·
da prática da crítica literária norte-americana em contraponto à new criticism. dade do sentido, da pluralidade interna da linguagem. Indica algo importan·
O new historicism tenta "tirar" a produção estética do funcionamento da lin­ te: há textos abertos a reapropriações múltiplas e outros que não o estão.
guagem - que foi a base da new cristicism - em relação com a nouvelle Essa questão não pode ser remetida unicamente às instituições - os
critique francesa. Pode se exemplificar com as figuras de Barthes ou com os centros de ensino, as livrarias, as editoras - nem a seus mecanismos para
ensaios de Foucault dos anos 60 sobre Bataille, Klossowski, Artaud e Blan­ escolher, selecionar, ignorar ou rejeitar. É claro que a construção do cânon dos
chot, que são a parte da obra de Foucault em que é mais claro esse modelo textos dos séculos passados que hoje lemos é um processo que supõe a inter­
lingüístico da produção de sentido que escapa à vontade do autor, que ultra· venção de todas estas instituições, e que, . frente a todos os textos possíveis,
passa o leitor, que é uma produção múltipla e instável da linguagem no texto. construíram, por diversas razões, um repertório. A dimensão sócio-histórica
106 ROGER CHART!ER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 107

do estudo da produção do cânon é absolutamente fundamental; devemos ILUMINISMO E REVOLUÇÃO, REVOLUÇÃO E ILUMINISMO
analisar de maneira muito precisa por que se estuda na escola a uns autores e
a outros não, por que no repertório dramático há autores que freqüentemente GOLDIN: No livro sobre as origens da Revolução Francesa, e em outros ensaios
são representados enquanto outros são abandonados, por que nas estratégias seus que estão dispersos nos livros traduzidos para o espanhol, você menciona a
de publicação dos editores há textos que são conservados e outros descarta­ llrevolução da leitura", a passagem da leitura intensiva à leitura extensiva. Há
dos. Tudo isso existe, mas há outra dimensão que resiste a semelhante estu· uma série de temas que me parecem muito interessantes, tanto para conhecer o
do: diante dos fatos que tornam possível a arte, o mistério permanece. Aqui passado como para influir nos hábitos culturais no presente. Uma das idéias
temos o problema de que há dentro das próprias obras algo, não sei como matiza o papel do livro, reduz-lhe a importância: não são as idéias dos iluminis­
designáMlo, que permite ou que cancela as reapropriações em longa duração. tas que geram a revolução, mas antes é a revolução que constrói sua própria
Por que Shakespeare e não Fletcher? Por que Corneille e não Rotru? Desta parentela e seus antecessores, e são as práticas de leitura que geram uma cultura
maneira, encontramos a idéia de um texto instável. Mas por que é instável? crítica, uma cultura distinta. Algumas investigações realizadas fora do México
Em seu funcionamento lingüístico pode possibilitar reapropriações múltiplas, mostram como é na aula (onde há uma pluralidade de textos que podem ser
o que permite construções de sentidos diversos. É uma questão central que escolhidos livremente) onde se geram alunos críticos com uma relação muito
talvez ajude a abrir este tipo de investigação em torno das condições sócio� mais profunda com a leitura.
históricas sem estabelecer um diálogo imediato entre o texto instável e o CHARTIER: Sim, podemos falar sobre o tema. O que se discute no livro Les
crítico desconstrucionista, quando, naturalmente, entre ambos existem todos origines cultuerelles de la Révolution française não vale unicamente para essa
os mecanismos, os agentes e as mediações de que falamos, mas é também situação histórica particular. A idéia era criticar, rejeitar ou matizar o que
uma maneira de aceitar uma visão que evite um sociologismo redutor do chamei de "operação de dedução": considerar que as idéias transformadas
processo de construção do cânon, pois essa visão remete à estrutura interna em textos, e os textos transformados em livros, impõem seu conteúdo aos
das obras e ao funcionamento da linguagem, e não unicamente aos dispositi­ sistemas de representações dos leitores, levando�os finalmente, se são idéias
vos externos como a escola, a crítica literária, o mercado do livro, etc., que revolucionárias, a uma ruptura decisiVa com o Antigo Regime. Esse modelo
operaram para estabelecer esta seleção canônica. foi clássico na história da relação entre o Iluminismo e a Revolução. O corpus
Contudo, introduzir obras ignoradas pelo cânon é algo um tanto para­ de idéias filoJ\ficas expressadas por meio das obras dos filósofos do XVIII
doxal. Se, por um lado, implica rejeitar os mecanismos que estabeleceram as conquistou progressiva e paulatinamente os diversos meios sociais, as provín­
seleções, por outro, estabelecem-se obras anteriormente marginalizadas como cias depois de Paris, e impôs uma transformação importante ou radical na
obras iegítimas. Isso se deve a que se lhes atribui algo da densidade, da com� maneira de ver a autoridade, o poder e o rei. O que se traduziu na ruptura
plexidade e da pluralidade reconhecível nas obras clássicas. Assim, vemos revolucionárkl.j essa era a perspectiva clássica tradicional.
que inclusive nas perspectivas mais políticas, que recusam a escolha do reper­ Nosso querido amigo Robert Darnton deslocou o enfoque substituindo
tório canônico a partir da crítica e da rejeição às instituições que ó estabelece­ as idéias filosóficas pelos livros filosóficos. Estes sãO certamente distintos,
ram, fracassam critérios do mesmo tipo que os aplicados a Shakespeare, a pois a expressão livro filosófico, na biblioteca do século XVIII, equivale a um
Moliere ou a Lope de Vega. Quero dizer que há, nestas obras ignoradas e corpus heterogêneo que não consiste apenas nas obras de Montesquieu, Rous­
marginalizadas, algo que pode abri-las a reapropriações; e encontramos de seau, Voltaire, Diderot, mas inclui também as obras pornográficas, antigas ou
novo a questão de por que é possível a sobrevivência cultural. Creio que a novas, e toda a produção de libelos, panfletos e crônicas escandalosas que
resposta depende do entrecruzamento dos enfoques sócio-históricos e das atacavam e denunciavam a aristocracia, a corte, a rainha e, finalmente, o rei,
proposições estéticas ou formalistas. A discussão é central para sociedades em princípio sob dois expedientes: a corrupção despótica da monarquia e os
que se transformam em sociedades pluriétnicas e que, desta maneira, criam desvios sexuais dos meios aristocráticos ou cortesãos. Esse deslocamento foi
uma distância entre o repertório canônico literário e a realidade plural de sua fundamental, pois os historiadores franceses já haviam se acostumado a con­
população. É um problema da escola, dos meios de comunicação, da edição, siderar que o que se lia no reino no século XVIII era o que os editores france­
mas teoricamente propõe a relação entre sociedade e literatura. ses produziam dentro do mesmo, e esse enfoque permitiu reconhecer outras
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E H I STÓRIA 1 09
1 08

leituras possíveis facilitadas pelos livros publicados fora da França e que en­ que abarcava os autores do século XVII: Moliere, La Fontaine. Há diferenças e
travam no reino de maneira clandestina. Mas me pergunto: no final das con­ também traduções muito conc�etas e cotidianas de tudo isto pois tais grupos
tas não se utiliza o mesmo modelo intelectual de compreensão? Porque se de autores, definidos como precursores da Revolução, podem ser celebrados
aceita que as idéias radicais de toda essa literatura de denúncia impuseram nas festas, nas estátuas ou nas cartas do baralho, onde substituem os reis.
seu conteúdo crítico às representações dos leitores, levando-os finalmente a Tive a oportunidade de ver em um baralho onde figuram Voltaire, Rousseau,
se separar da autoridade, da ordem, da monarquia. E a pergunta assinalaria: La Fontaine e Moliere. Esta construção muito cotidiana, muito comum, ofere­
não deveria se dar mais importância não tanto à leitura em si mesma como a ce a idéia de uma construção retrospectiva do Iluminismo a partir da Revolu­
suas práticas ordinárias, que destacam os indivíduos em relação àquela or­ ção e de seus conflitos. Penso que para as revoluções inglesa, russa, chinesa e
dem e que, também, expressam em comportamentos e gestos essa distância mexicana poder-se-ia fazer exatamente o mesmo trabalho de reconstrução
assumida diante das coações e das disciplinas da antiga ordem política e sociw retrospectiva dos precursores.
al? Nisto consiste o trabalho de minha amiga e colega Arlette Farge; ela se A segunda nota que quero mencionar é sobre o problema da interpreta­
dirige às práticas mais cotidianas, às palavras que as pessoas dizem no mercaw ção dos textos. Os textos estudados por Darnton (crônicas escandalosas, libe­
do ou na rua, os gestos que indicam, sem que, necessariamente, sejam acomw los e panfletos de denúncia política e erótica contra a corte e a rainha, que
panhados de algum discurso, que há uma certa distância frente à antiga culminarão durante a Revolução com seu processo) foram aceitos por muita
ordem.z3 Práticas sociais, cotidianas, mas práticas de leitura. Pareceu-me que gente como realidaçies, embora não por todos. Não se acreditou necessaria­
em cada leitura dos textos mais clássicos ou tradicionais devewse considerar mente no comportamento da rainha e da corte ali descrito como parte de uma
uma nova posição de leitura, uma leitura crítica, que distanciava o leitor do realidade; e houve outros leitores que puderam ver nos panfletos uma indica­
texto e que expressava um uso público por parte das pessoas privadas. ção sobre as lutas políticas, porque por meio deste tipo de literatura se indica
Finalmente, o problema não era só saber se os livros filosóficos impu­ uma posição na luta da corte e das facções que se defrontam em nível do
nham sua visão crítica ou denunciadora da corrupção, seja da monarquia governo. Este tipo 4�. interpretação, que supõe multiplicidade ou distância,
despótica ou da corte depravada, mas caracterizar uma leitura que tinha uma pode-se inspirar na)éitura que fez meu colega Christian Jouhaud sobre os
nova forma de relação com os textos, qualquer que fosse seu conteúdo. Deste panfletos de 4a Fro�pe- de meados do século XVII, e que não expressam uma
modo, podemos evitar essa operação de dedução, que encadeia unilateralw ideologia pol!tica, m.as que são instrumentos dentro da luta política; algo
mente idéias e textos, textos e livros, livros e leitura, leitura e mentalidade, parecido com o tea�r·o barroco, no qual máquinas ocultas produzem efeitos
mentalidade e ação. Parecewme que é preciso, em cada revolução, considerar visíveis.24 Aqui temo� máquinas que devem produzir efeitos, pois tentam obri­
os textOs de toda natureza como um suporte, como instrumentos, e, também, gar o partido adversário a fazer algo, a tomar uma posição, a dizer ou produ­
que há práticas sem discursos ou que estas nem sempre se vinculam aos disw zir outro texttr. Pareçe-me que este mecanismo do teatro barroco, a máquina
cursos. oculta que deve prod1.1zir efeitos visíveis, é uma chave de leitura para muitos
Gostaria de acrescentar duas notas. A primeira é que a partif deste pon­ gêneros cujo propósit:O é fazer com que a pessoa que recebe o texto faça algo,
to de vista poderiawse dizer, de maneira um tanto provocadora, que o Ilumiw como os sermões, o� tratados de boas maneiras e a literatura panfletária.
nismo foi um invento da Revolução quanto à construção retrospectiva de um Nem todos os textos'Servem para expressar idéias, para construir formas estéw
corpus de idéias e de autores que a Revolução definiu como seus precursores. ticas. Há textos que são de natureza prática, particularmente nos séculos XVII
Esta leitura a contragosto que vai da Revolução ao Iluminismo não significa e XVIII, com essa referência implícita ou explícita à máquina que produz efei­
que no século XV!Il não tenha havido algo que se possa chamar - e que a si tos. Os textos eróticos ou pornográficos, como destacou Jean-Marie Goule­
mesmo se chamou - de Iluminismo, mas que as escolhas ou esquecimentos mot, servem para produzir efeitos sobre o leitor e, na expressão de Rousseau,
que definem o corpus ilustrado começam com a própria Revolução, com suas são lidos com uma só mão.25 Devo acrescentar que Darnton opôs uma argu­
lutas e conflitos, pois nela o Iluminismo é diferente para seus distintos leitow mentação contra estas, se não críticas, ao menos levantando dúvidas, em um
res. Robespierre odiava os enciclopedistas, os ateus, D'Holbach; seu Iluminis­ livro escrito diretamente em francês intitulado Édition et sédition, publicado
mo era o de Rousseau. Enquanto que outros haviam constituído um repertório por Gallimard - que foi algo assim como o centro destas discussões.26 Na
11o ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E H I STÓRIA 111

edição em inglês do mesmo livro, o autor não só acrescentou um documento 10Eduardo Contreras Soto, "El poeta que queremos", em El conferenciante, México, Breve
extraordinário (o catálogo de todos os livros filosóficos que circulavam, junto Fundo Editorial, 1995.
1 1Roger Chartier, "El poeta y el rey'', em Pluma de ganso, libro de letras, ojo viajero, México,
com os números de pedidos à Société Typographique de Neuchâtel, o que Universidade Ibero-americana, 1997, p. 13-18.
proporciona a hierarquia de êxitos de cada um destes textos), senão que tam­ 12Robert Darnton, "Primeros pasos hacia una historia de la lectura", Boletín Bibliográfico,
bém retomou todo seu argumento para estabelecer ou defender sua posição DEM-INAH, 1-3, janeiro-dezembro de 1990, p. 1 1-26.
acerca do efeito deste tipo de literatura, que ele considera muito importante, 13Ver Jean Hébard, "taudidaxie exemplaire. Comment Valentin Jamerey-Duval aprit-il à
lire", em Roger Chartier (coord.), Pratique de la lecture, Paris, Payot et Rivages, p. 29-76, e
nas rupturas pré-revolucionárias. Daniel Rache, Joumal de ma vie. Jacques-Louis Ménétra, compagnon vitrier au XVIIIe siecle,
Isto me faz voltar aos enfoques lingüísticos. Embora possa se rejeitar Paris, Montalba, 1982, Paris, Albin Michel, 1998).
uma de suas conclusões, que esquece todos os agentes concretos que partici­ 14Carlo Ginzburg, Il formaggio e i vermi. Il cosmo di un mugnaio del '500, Thrim, Giulio
Einaudi, 1976 (tradução para o espanhol: El queso y los gusanos. El universo de un molinero
pam na produção de sentido, Darton chama a atenção sobre a instabilidade del siglo XVI, Barcelona, Muchnik Editores, 1981).
interna dos textos, abertos às interpretações, às releituras, aos usos diversos. 15Silvana Seidel Menchi, Erasmo in Italia 1520-1580, Turim, Bollati Boringhieri, 1987.
Parece-me que estamos frente a um problema importante, de difícil solução. 16Sara T. Nalle, "Literacy and Culture in Early Moderns Castile", Past and Present, n. 125,
Podemos utiliz�r, do lado do texto, tudo o que sabemos agora sobre os jogos 1989, p. 65-96.
17VII'illim H. Sherman, John Dee. The Politics ofReading and Writing in the English Renai.ssan­
paratextuais e textuais, e do lado do leitor, a reconstrução dos horizontes de ce, Amherst, University of Massachusetts, 1995.
expectativa próprios de cada comunidade de interpretação. 18Martyn Lyons e Lucy Taksa, Australian Readers Remember. ANAYA Oral History ofReading
1890-1930, Melbourne, Oxford University Press, 1992.
19Janice A. Radway; Reading the Romance. Women, Patriarchy, and Popular Literature, Cha­
pell Hill e Londres, Oxford University Press, 1992.
NOTAS 20Carlo Ginzburg, I Beneandanti. Stregoneria e culti agrari tra Cinquecento e Seicento, Tu­
rim, Giulio Einaudi, 1966.
lPaul Zumthor, La lettre et la voix. Études de la "littérature" mediévale, Paris, Éditions du 21Pierre Boudrieu, "fupinion publique n'exisçe pas", em Questions de sociologie, Paris, Mi-
'
Seuil, 1987 (tradução para o espanhol: La letray la voz. De la literatura medieval, Madrid, nuit, 1980, p. 222-235.
Cátedra, 1978). 22Pierre Bourdieu, "Lecture, lecteurs, lettrés, littérature", em Choses dites, Paris, Minuit,
2Robert Darnton, "Readers Respond to Rousseau: The Fabrication of Romantic Sensitivity'', 1987, p. 132-1 f (tradução para o espanhol: Cosas dichas, Barcelona, Gedisa, 1988).
em The Great Cat Massacre and Other Episodes in French Cultural History, Nova Iorque, 23Arlette Farge, Dire et mal dire. Eopinion publique au XVIlle siecle, Paris, Seuil, 1992.
Basic Books, 1984, p. 214-256 (tradução para o espanhol: La gran matanza de gatos y otros 24Christian Jouhaud, Mazarinades. La Fonde des mots, Paris, Aubier, 1985.
episodios en la historia de la cultura francesa, FCE, México, 1987, 1 . reimp., 1994). 2SJean-Marie Goulemot, Ces livres qu'on ne lit que d'une main. Lecture et lectuers de livres
3Armando Petrucci, "Scrivere per gli altri", Scrittura e Civilità, XIII, 1989, p. 475-487. pomographiques au XVIIIe siecle, Paris, Gallimard, 1994.
4Fernando Souza, Imagen y propaganda. Capítulos de historia cultural del reinado de Felipe 26Robert Darton, Édition et Sédition. Eunivers de la littérature clandestine au XVIIIe siecle,
11, Madrid, Akal, 1998. Paris, Gallim&llti, 1991, e Forbidden Best-Sellers of Pre-Revolutionary France, New York e
SLouis Marin, Opacité de la peinture. Essais sur la représentation au Quattrocento, Paris, London, W. W. Norton & Company, 1995.
Usher, 1989.
6Michel Foucault, "Qu'est-ce qu'un auteur?", em Daniel Defert e François Ewald (dirs.),
Dits et écrits, v. I, 1954-1969, com a colaboração de Jacques Lagrange, Paris, Gallimard,
1994, p. 789-821 (tradução para o espanhol: "lQué es un autor?", em i.Por dónde empe­
zar?, Barcelona, Thsquets Editores, 1972).
78ernard Cerquiglini, Eloge de la variante. Histoire critique de la philologie, Paris, Seuil,
1989.
SVer Michael Baxandall, Painting and Experience in Fifteenth-Century Italy. A Primer in the
Social History ofPictorial Style, Oxford e New York, Oxford University Press, 1972, e Carla
Ginzburg, Indagini su Piero. Il Battesimo, Il Ciclo di Arezzo, La Flagellazione di Urbino, lU­
rim, Giulio Einaudi, 1981 (2a ed., 1994).
9George Dandin "De la fête de cour au public citadin", em Roger Chartier, Culture écrite et
société. Eordre des livre (XIVe-XVIIIe siecle), Paris, Albin Michel, 1996, p. 155-204.
Q u a rta Jornada

· PRÁTICAS PRIVADAS,
ESPAÇO PÚBLICO

O PODER DO LIVRO

DANIEL GowiN: Gostaria que voltássemos à idéia ingênua de que a difusão das
idéias se traduziria imediatamente em uma tran.sformação dos leitores, contra·
lada pelo emissor da idéia.

.&
ROGER CHARTIER: Poderia-se estudar de que Jllaneira, em muitas comu­
nidades, h�!�!�!�s e _ textos que defin�� o P:� �tura. O que se
tem feito nosfÍltimos· ãn:os-soore a leitura bíblica nos protestantismos (calvi­
nismo, puritanismo, pietismo) é um exemplo disto. A leitura bíblica tem suas
regras próprias: leitura, releitura, conhecimento de memória, leitura compar­
tilhada, articulação entre leitura em casa e a leit!:!I9-..9..ª.!3.�Plia no templo. Thdo ,�_,._ :
isto define chaves d�_!_:��-t_I_ra_ _q�= se. .�plic:_a_I!?:..fÉut�.!e� ��� a outros livros, � -�..
_ _ "1
embora nãoSejam bíblicos nem religiosos.
-

VJ'l
Meu colega Daniel Fabvre mostrou como nas comunidades camponesas f __.

dos Pirineus franceses ou espanhóis havia uma concentração no livro de ma- J�A/'
gia, no livro de segredos.l Este tipo de livro circulou em forma impressa e
definia no leitor uma relação de poder, pois manejá-lo ou tão só conhecê-lo ?'
constituía um poder sobre a natureza e sobre os demais membros da comuni- l
dade. Além disso, essa relação com semelhantes textos era perigosa pois o
livro de magia ou de segredos podia finalmente cativar, capturar seu leitor e
atá-lo, vinculá-lo à sua letr!=l. De certa maneira, este tipo de relação com o
livro de magia que outorga poder e é um perigo (pois afinal é uma alienação
do leitor) que se generaliza na maneira de entender a leitura. Dentro da co·
munidade, as pessoas que lêem têm um poder maior sobre as coisas que as
-
1 14 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATUR A E H I STÓRIA 115

outras; mas ao mesmo tempo a leitura é sempre vista em seu excesso como ACULTURAÇÃO E APROPRIAÇÃO
um perigo para a mente, para o indivíduo, para a saúde, pois foi comum
explicar a louc���_pelo ex::esso de leitura. Vemos co�__?J_�yr-�_�e magia e sua GOLDIN: Gostaria que falássemos sobre o poder aculturizante da leitura, agora
leiturª-.'Ltl�aJ:Iidi,g_!Ila ml�,define outras leituras, outros livros e, finalmente, que retive essa expressão.
a relação cõ'ih-o,escrito:Esséé-'::n teriia-qu�j.iõéíe ser ,visto for� �e seme�a� CHARTIER: Cada um de nós pode dizer o que entende por aculturação.
contexto. Na tradição da antropologia cultural ou da história antropológica francesa, a
·· - O perigoso poder do livro é uma constante que podemos notar no Prós­ aculturação significa, em geral, a destruição de um antigo sistema de repre·
pero de A tempestade de Shakespeare, já que deve atirar ao mar seu livro, seu sentações e práticas e a partir de um novo sistema imposto por um autorida·
único livro, para anular seu poder e, ao mesmo tempo, para reconquistar uma de, qualquer que seja. Desta maneira se falaria de aculturação dos meios
liberdade humana. É o tema de Borges em O livro de areia, no qual, à maneira populares a partir das reformas religiosas, que deviam anular todo um con·
de Próspero, deve deixar oculto um livro, enterrando-o sob a Biblioteca Na­ junto de práticas e representações em proveito de uma nova normativa de
cional, em Buenos Aires, na rua México. É um tema que se vincula à idéia da condutas e crenças. O termo aculturação, segundo penso, chegou ao mundo
relação com um livro em particular, o livro mágico. das referências francesas com os trabalhos de Nathan Wachtel sobre a acultu­
Outro exemplo que poderia mencionar·se é o da leitura dos romances ­ ração que a conquista, em sua forma política e em sua forma religiosa, impôs
de Richardson e Rousseau a Bemardin de Saint·Pierre e Goethe -que define aos antigos sistemas de crenças e comportamentos.2 Para o caso do México,
um novo modelo de leitura, de relação dos leitores com os livros, e desloca a Serge Gruzinski retomou a mesma perspectiva. Desta maneira, se define a
leitura bíblica porque é também uma leitura de repetição. Assim, ao concluir aculturação em primeiro lugar como a imposição de um novo sistema de
o livro deve se começar de novo: o texto já é conhecido pelo indivíduo, que representações que deve anular e fazer desaparecer crenças e condutas antigas.
projeta sua vida no texto incorporando·o à sua existência pessoal e apagando Mas é preciso acrescentar que o conceito de aculturação não foi entendi·
toda diferença entre ficção e realidade, como se os personagens fossem pesso· do só neste sentido de imposição (no çaso de Wachtel, no de Gruzinski e no
as reais, sem importar se a leitura é compartilhada ou solitária. É uma leitura da religião popular), mas também coino aculturações recíprocas, se bem que
que, como dissemos, leva à escrita. Este modelo de relação com um gênero e este último caso não implica igualdade no processo pois persiste um poder
algumas obras particulares define uma nova concepção da leitura que se ge· econômico, "Pblítico, militar e eclesiástico frente aos vencidos. Por exemplo,
neraliza fora deste gênero e que, em particular, vincula a leitura aos efeitos. chegou·se a dizer "índios da Índia" ou "índios da Europa", pois na visão da
Quando se lê a novela, mas também fora dela, há emoção e sensibilidade: as Reforma católica existiu a idéia de que os campos da Europa eram outras
pessoas choram, se comovem, e isto define um paradigma geral da leitura. Índias e, assim, índio podia ser o camponês da Itália, da Espanha ou da Fran·
Cada comunidade organiza, explícita ou ÍII].plicitamente, suas prá.��c�s -�t;!ei· ça, e não só-as naturais do México ou do Peru. Assim, pois, aculturação reCÍ·
ttifãeSuas repreSerit8.ÇOeS a partir da leitura Pá"rticular de um texto_part!�U· proca não significa igualdade, mas que o vencedor _deve aceitar e negociar
láf. Crelo-�ié"r uma -idéia original porqUe rlão é a descrição clássiCa de todas as com o que sobrevive da cultura derrotada, anulada, mas que não o é nunca de
· 1êlturas nem uma análise das práticas desvinculadas dos textos. É uma ma· maneira absoluta. Desta maneira, vemos como na Europa as igrejas da Refor·
neira de �� a questão da depen<!ência ou i�d�P-��ência .da prá�ica em ma protestante ou a da Contra·reforma católica devem negociar com as cren­
relação ao �exto, pois mostra como u!E� dep�Il:��!l-:1�- pnmora1���e transfor· ças e as condutas estabelecidas. É uma negociação que pode ser mais ou
ma mais tarde em independência, no sentido de que além de um texto_..ser menos aberta, que pode gerar equilíbrios ou rejeições, mas que funciona sem­
poftãdor de Conteúdo{Co��-t;ói uma maneira de lêr) uma técniCa de leit�a,
___

pre nas relações culturais. Assim, as igrejas da Contra·reforma católica ou a


um paradigma de li:" -- - 7
� protestante são aculturizantes embora, de outra maneira, são também acul·
.
turadas. Há um movimento recíproco de aculturação que define as relações
� C entre cultura popular e cultura letrada, eclesiástica e absolutista. O mais apai­
{"- xonante é o estudo das formas, quero destacar, desiguais, que uns aculturam
outros.
____, --

\ ,
_
116 ROGER CHART!ER CULT URA ESCRI TA, LITER ATUR A E
HISTÓ RIA

GowiN: Parece-me que o termo G� ��priaç_��-a:r.tula a pos:i�_�lidad�)de um


---- --..... · . ......,.
117
-
uma luta, de uma vontade em confronto com
outra. Assim, atribuir um con­
único sentido. A apropriação como leÚ'!>r·següe-óu seg;Jraín.eVitavclm.êTlte para teúdo sóci?.�-�.�� �� ��� �onceito hermenêutica
_ - - de apropriaçãÕcie�;; ir vi���­
algum lugar que talvez te��g__ a ver com a intenção_�_�!!!:�.l___do_ _�scritor do texto, lãclõã-üffia visão na quaTa apÍ'Õ"i)ifâÇKõ·-·prOv
enlíã' de� Umã·· teÍlsão eritre aS
do editor, etc., ou com c(§.�Eab_i���-��:rlE:�. ��o ��c�ito; uma vez que ";C?!}t�d.es d.e conquist� e_�S�?-�E'!.��-�-��·���ifs>_�����
comece a circular. •·

hgam-se o sentido de Foucault - que atende monoPólio. D€Ste�õd0,


ao aspecto ·aos obstáculos e das
CHARTIER: Sim1 estou de acdrdo com isso. Eu tenho utilizado freqüente­ proibições - e a apropriação no sentido que eu
lhe dou - definida como um
mente 0 termo apropr7.ação- e aO :rn·esmo. tempo tentei distinguir meu próprio uso inventiva e criador. A noção se torna prog
ressiva e paulatinamente mais
uso do de outros e recuperá-los; porque há, além disso, alguns usos clássicos. co�plexa. �alvez eu possa utilizá-la com mais
segurança que em meus pri­
o uso à maneira de FoucaUlt:· apropriação é, na ordem do discurso, a vontade metros ensaws, em que a apropriação era a man
eira de rejeitar a tirania da
por parte de uma comuni�ad��- qualquer
. que seja sua natureza, de estab�le­ escala social aplicada às práticas culturais ou
todos os discursos que pensa­
cer um monopólio sobre a formação e circulação de discursos.3 Neste sentido, vam que, quando há uma força de aculturaçã
o, as pessoas são de imediato
���!
0 termo se refere à proibiçãO·db. acesso d()S outros a um discurso monopoliza­ aculturizadas sem haver de permeio espaços, distâ
ncias ou lugares para estas
do. É uma �rilp.�...ra realidade ?.12i-iaÇ�Õ. e é a definiç�� etimológica: formas de �propriações distintas ao que tenta
impor uma autoridade, qual­
apropriação como propriedade, como con:ro�e e como m�nopoho. Temos ta�­ quer que seJa sua natureza.
.
bém 0 sentido, quase inverso, da hermeneunca de Paul R1coeur: _a atuahzaçao
do texto na leitura que se abre à relação entre o munci,? do textõ� tal cmpo o
propõem a ficção ou a história, e o mundo �9 1�!���-,��:_�,: apro��i� 9ele ENTENDER A REVOLUÇÃO
(atualiza e realiza o texto) e o recebe, de maneira que se mOdifiquem - sua
corícepçãõ,Sua VisãOou sua ��pre�-�-�tação do tempo, do indivíduo, do sujei­ CARLos AGUIRRE: Voltando ao tema da interp
retação da
to.4 Para mim, trata-se dê(�r9priaçãÜ' no �_t:nt�_do de fa��r al�o com o que: se ded�ção e do �orpus de idéias em texto� e em livros, contr Revolução a partir da
aposta a uma interpre­
recebe. Utilizei o termo no sêntido da phiralidade de usos, da multiplicidade :açao que fana empenho na importância das práticas cotidianas, me parece
de interpretações, da diversidade de compreensão dos textos, o qu� significa z�teressante o�servar como a imagem mais forte da Revo
seguir a definição hermenêutica, mas com um· conte��o $�cip_:_histórico p�rti­ diZer, algo qu� necessariamente, não se prevê, muda de lução é a ruptura. Quer
cular, pois no caso da hermenêutica trata-se de um fenomeno que e, VIsto
maneira violenta em um
tempo muito curto; então esta idéia das práticas cotid
ianas refere-se a outro
como universal, invariável ou abstrato. tempo e a outros ritmos para explicar estes momentos
Como historiadores, como sociólogos ou como antropólogos, devemos de ruptura muito rápida. Parece-me muito sugestivo em tempos muito curtos,
que esta nova tendência
ver que cada apropriação tem seus recursos e suas práti�as, e que uns e ou:ras para explicar-r!Spectos de uma ruptura revolucionária
se
dependem da identidade sócio-histórica de cada comumdade e de cada lettor. tos que se referem a processos de prazo mais longo. É faça a partir de concei­
sugestiva esta maneira de
Mas da definição foucaltiana devemos manter a idéia de que este processo de abordar os estudos sobre a Revolução Francesa e, possi
velmente, sobre as outras
apropriação é desigual. Uma crítica justa, correta, contra este uso de apropri­ revoluções.
.
ação - a de minha colega Arlette Farge - expressa o nsco de que se pense CHARTIER: Sim, porque há três reali
dades um tanto contraditórias. O que
em um leque de apropriações em que cada uma seja equivalente a outra, o você diz é que se pensa cada revolução como uma
que le�aria a uma forma de relativismo no sentido cultural e, na dimensão era nova. No caso francês
isto se ilustra com o novo calendário, que definia
uma nova era, que significa:
hist6rka, à anulação das relações de dominação, à anulação das relações de va �ma ruptura com a temporalidade, a cron
_ ologia, a duração antiga e, pos­
poder. Para evitar isso, é preciso situar as apropriações dentro das relaçoes tenormente, com todas as outras coisas: a mane
ira de vestir, de falar, de se
sociais que definem um mundo social particular e, ao mesmo tempo, talvez dirigir ao outro. Impôs-se uina idéia de fundação

radicalmente nova de um
deva-se retomar algo do sentido foucaultiano deste termo, que assinala que su;?imento que se destaca de todo o passado
acumulado. Acredito ue esta
há sempre uma vontade de monopólio, de controle, de propriedade, e que a 1de1a se faça presente, com diferenças, em todas as outra
apropriação não se dá por si mesma, mas como resultado de um confhto, . de s revoluções. O se­
gundo elemento é a busca ·dos piecursCires, o que
é um pouco contraditÓrio
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 119
118

com a primeira idéia: constituir neste · passado rejeitado o que a revolução cesso de mais longa duração. O irônico é que seja Furet que exemplifique de
iniciou. Ao mesmo tempo há uma diferença radical, um surgimento indiscutí­ maneira mais intensa esse retorno ao político, à interpretação da Revolução
vel. Além disso, no passado anulado e apagado há elementos que definem o no sentido da reprodução dos pensamentos dos atores em torno dos fatos,
próprio evento. E há uma terceira realidade: desde um ponto de vista analíti­ enquanto que, em um livro anterior, Pensar a Revolução Francesa, insistia com
co, a Revolução mantém uma vinculação particular com a evolução histórica dois autores que definem particularmente a Revolução como uma continui­
das práticas e dos discursos. Aqui podemos seguir o que Foucault fez com o dade e não como uma inovação.? Conforme Tocqueville, que via na Revolu­
tema da Revolução em seus livros. Por que a Revolução está presente em cada ção a forma última do processo de centralização do Estado, que começou com
um deles? Porque em O nascimento da clínica, em Vigiar e punir, em História a monarquia. De acordo com a obra de Tocqueville, na consciência revolucio­
da loucura na época clássica e em A arqueologia do saber, a Revolução é atra­ nária há ilusão na medida em que aquela pensa estabelecer uma ruptura no
vessada pelos discursos que têm sua origem na Revolução, enquanto que ou­ momento em que se desdobra um processo contínuo. O mesmo acontece com
tros desaparecem e outros mais nem sequer são afetados por ela.5 Temos aqui o outro autor em que se apoiou Furet, Agustin Cochin, que dizia que o Terror
uma multiplicidade de situações que não permite dizer precisamente que a jacobino, robespierrista, do ano II, tem suas raízes no funcionamento das
Revolução seja o momento fundador que seus atores pensaram. Em relação lojas maçônicas, das academias, das sociedades de pensamento do século
com as séries de discursos que se podem analisar, há ao menos três situações: XVIII, porque em todas estas sociedades (muito pacíficas) existia a idéia do
discursos que começam com a Revolução, que acabam com ela e que a abar­ consenso assim como a impossibilidade de organizar práticas para aceitar as
cam. Assim, esta existe, mas não como o momento que tem sua duração pre­ diferenças de opinião na medida em que funcionavam com a idéia de um
cisa e que define uma inovação particular, mas como um momento com consenso universal de seus membros. Era uma maneira de inventar um -regi­
durações mais longas que se abarcam uma a outra. Vemos como a Revolução me político no qual não há lugar, instituição ou possibilidade para a diferen­
pode ser pensada de duas maneiras, o que conduz a uma crítica dos estud� s ça, para a discussão. Acredito que é o que se traduziu na Revolução por meio
publicados em 1989 e depois, inspirados por exemplo na obra de Françms das exclusões recíprocas e progressi�as de um partido por outro até o Terror
Furet, na França, ou na de Baker, nos Estados Unidos. Eles consideram que a do ano 11. Pode se discutir esse diagnóstico, mas me parece que estabelece
Revolução foi, antes de mais nada, um fato político e que significou uma uma continuidade: a Revolução seria a expressão política do funcionamento
ruptura ao ser definida como a inventora da democracia, sem praticá-la real­ socioculturafdas sociedades de pensamento. Não quero entrar no problema
mente, e dos direitos humanos de igualdade cívica, jurídica e política dos de saber qual diagnóstico é o adequado, o de Tocqueville ou o de Cochin; sem
indivíduos.6 É algo real e importante, e talvez a herança da Revolução no dúvida, em ambas perspectivas a Revolução é abarcada por uma duração
mundo contemporâneo se vincule a estas duas invenções. Mas, por outro mais ampla, mais longa. Ao ler Furet, parece-me contraditório retornar à his­
lado, não me parece uma razão suficiente para escrever a história da Rev�lu­ tória política-que supõe necessariamente que o político transforma o mundo
ção na linguagem de seus atores, que pensavam que haviam estabelecido e, ao mesmo tempo, insistir com autores que destaca� quase que o contrário:
uma ruptura total, definida por seu conteúdo político, com o Antigo Regime. as continuidades em que a Revolução se situa.
Por último, o retorno a uma história do político, à maneira de Furet, Este debate revela-se interessante porque tem dimensões metodológi­
consiste em reproduzir a própria consciência dos indivíduos da Revolução, cas: como pode e deve-se estabelecer a dimensão política na história sociocul­
que pensaram que com a transformação política podia-se mudar a sociedade tural, que é a que mais nos interessa, mas sem reduzi-la a uma história do
e o indivíduo e não unicamente o político. Era uma refundação absoluta do político, que significa a história das teorias e das instituições políticas (que
regime político da sociedade e do indivíduo; assim acreditaram, e aturaram traduzem estas teorias políticas) e, em certa medida, das práticas políticas.
para torná-lo possível. Mas voltando à pergunta de como Foucault pensava e Não obstante, parece-me que esta definição oferece uma dimensão muito
situava a Revolução em seu livros, é claro que esta visão de ruptura, que deve estreita. Observo que as dimensões do político devem ser reintroduzidas na
ser estudada como tal (pois inspirou tais comportamentos), é só uma face da história cultural de outra maneira. Vejo-o - com a ajuda de Foucault - no
Revolução. Existem as outras visões que a situam em continuidades de longo tema dos poderes, o que ele chamava a microfísica do poder, que era o estudo
prazo, que finalmente abarcam a Revolução em um movimento, em um pro- da dispersão das relações de poder dentro da sociedade em seu conjunto.
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 121
1 20

Vejo-o à maneira de Norbert Elias, u.m tanto complementar, que consiste em desenvolvido durante a Revolução; é uma maneira de ver como se instala a
pensar que a forma de exercício do poder central supõe condições :ociais Revolução em um tempo mais amplo.
para sua possibilidade ao mesmo tempo que produz novas configuraçoes �o­ Por outro lado, temos, por diversas razões, a Revolução como inovadora
dais. Por exemplo, a sociedade cortesã, graças ao poder absoluto, necess1ta no campo das práticas de leitura. A primeira destas razões é que cada revolu�
de uma sociedade deste tipo para manter o equilíbrio de tensões entre os ção, desde a inglesa do século XVII, construiu a referência ao . .e:scrito. _como
grupos dominantes que se anulain em suas oposições, mas que se devem UIE�J.c!��-ti_f�c�ção do gesto .Ee:'9}.��}.9,I).�I�9.: a alfab�tlZa.çãÕ� a co�fi�ilça na
sustentar para existir. Esta é a própria condição para a reprodução do poder palavra impressa, a transmissão do escrito, etc., o que define para cada revo�
absolutista. As configurações sociais, constituídas a partir de um exercício lução uma ideologia do escrito. E quanto às revoluções dÓ século XX, um
específico do poder, impõem novas normas e regras de comportamento indi­ exemplo disto poderia ser a idéia de que a revolução é, antes de mais nada,
vidual. É precisamente dentro da sociedade cortesã onde se inventa uma nova uma aculturação em um duplo sentido: impõem uma nova ideologia no lugar
racionalidade que, segundo Elias, define uma nova economia da psique, uma das velhas crenças e comportamentos, e é uma aculturação que permitirá aos
nova estrutura da personalidade que, por meio de um processo de divulgação mais humildes, aos mais pobres, aos mais numerosos, ter acesso à cult�ra. A
e apropriação, transforma, mais tarde, a sociedade em seu conjunto.8 Estas isto vincula-se a invenção de novas práticas de leitura ou de um novo conteú-
duas perspectivas são complementares: a que insiste, com Elias, na forma de do imposto às antigas. Durante a Revolução, por exemplo, a leitura em voz
exercício do poder central, e a que, com Foucault, dissemina as relações de alta, tanto nos clubes como nas seções políticas das cidades ou nos campos,
poder dentro de todas e cada uma das configurações sociais. Isto me parece serve à propaganda ou à aculturação revolucionárias. Todas estas leituras do
muito mais inovador, muito mais complexo e pertinente do que esse retorno século XVIII __ nas praças públicas regularizam-se e são veÍculos nom:i�is de
.
ao político, tal como vimos na França e fora dela nos últimos anos. difuS'ãOCl€' iextos, das asSeinbléias de 8:oVeillo, dâs no-tidas jornalísticas, qu�
ccmstifUefu ten.·ta!i.V..!l.� .d·e e�si�?..��EE;.o_ ��vo. Temos, pois, a pr_������� leitura{ I
.

em voz alta · . -· -
. como
·· · TeiT{os
. . .med1açao . · · revolucwnana.
·
. . . \_.,
A LEITURA REVOLUCIONADA
_
.... taffibérrl ã.-''!<iVOiuciõD.ad�ci.Ção" dos gêneros tradicionais. No caso
francês, o �anaque, o catecismo, etc.,_ em que estes adquirem uma. forma
voltand o outra revolucio�à:rfae-se�trãn.�·fo�mam nos suportes, ·nos Veículos de um� ·mensa­
AGUIRRE: Penso neste tempo de maior duração da revolução, e -
vez ao lugar que ocupam as idéias e a leitura -já se põe de uma maneir a mais ge�]_�� UtiliZ� umà: -fúiilla _clássi�à. p���à. diSS.��i�.<�.� tJm coiite·ú:dO novo, 9tle é
as maneir as de ler, que se transfo r :
n� m, e � maneir a o��ra reáliààd�" da RevolüÇãO e .4?- Ieitura. Ao mesmO ten:iPo, devemos PerlS"ar
especf,fica: a relação entre .
como as práticas cotidianas influenciam mais que as expostçoes cnttcas e _às de qué do ponto de vista de um paradigma de leitura, a Revolução Francesa se
êTJi@�e
denúncia propostas pelos livros filosóficos. Nã�hgY..�!:i�CJ!!!AE-! �gior situa nas mttdanças prévias do século XVIII que deram um novo modelo à
transfo_r_ma_ções . que mo�if!:�ar!_!_proftl_nqar:ze': te as maneir�. de leil,? leitura; e, por outro lado, como aconteceu nas outras revoluções, a Revolução
··

cHA..RTIER:�A-IêitUra e a Revolução. Por um lado, temos deslocamentos inventa práticas de leitura, gêneros textuais e editoriais, e dá centralidade a
m as práticas seu pensamento e atualização ao escrito. É outra maneira de ser herdeira do
nas práticas de leitura ao longo do século XVIII, que abarca
revolucionárias. Trata�se___ do - �ipo de leitura mais extensiva, que é a leitura século XVIII porque, como já dissemos nO caso de Condorcet, a idéia da im­
vincula da ao prensa de Gutemberg como fundadora da modernidade, é uma idéia muito
mais crítica, Â��. .acg��·{Ufa teXtOS"éf���?1 ?)que está diretamente
.

estabel ecido pelo difundida no século XVIII quando o alfabeto e a imprensa eram considerados
cotidiano da;-;;,uda�Çãs-pcífíiiêãs: Este modelo de leitura,
..

menos nas cidades a partir do crescimento da produy_§,Q..,lm p �essa, J}ãO signifi­ como os dois momentos-chaves da evolução da humanidade. Temos também
!l-�"_(9S e o culto ou as festas durante a Revolução, que celebram Gutemberg. Há uma
sa-uni�mente a produção do livro como tambén(�ir_c�laç_ã? d�
textos sao hdos -e forma de reverenciá-lo, e este seria um tema interessante de investigação.
(ijbelos,J, se vincula aos lugares da sociedade(§_d"_)>s
c�f�_s_� PX.ª-ǧ.�_p_ú�lic ��- e ANTONIO SABORIT: Quanto às práticas de leitura no século XVIn e a leitura
p�ÜSO que Darnton tem razão ao insistir em club�s, .
jardins. Temos então um _modelo pré-revolucionário que vai ser utilizad oe como motor ou gerador da mudança revolucionária, creio que também devería-
- -- f -+ l (fj,; � , .-
1 /f/l\ jP J í', V l.)/ ·;t .Q I\ J ' c.<
{i /1";.,1(,_!
V 'v . '-' 1--'.J
..
� v '
1 22 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA
1 23

mos incluir as mudanças no registro e no gosto literários do século XVIII. Porque cias de um âmbito desvinculado da cultura da cerve /


ja.' O café se assen . ta
embora haja uma revolução na leitura� não descarto que sua realização se deva con:���IJ.l e��aço p�b
U�g q?.�.���ui�. !l:�Iito est�e_!!.<�J!!�l}�e . a Pü.bÍi��Ç �o i�­
a uma revolução no registro literário. Penso em dois elementos: a incorporação pre� : a �o�v:rsação ou a discussão. E o casO" de The
. SP�c"tátor é pertinente
do espaço urbano na literatura, e o emprego da crônica e do ensaio nos novos porque_ nelé
_
vemos muitas· referências deste tipo.
meios de difusão, como os jornais. A mudança na figura do autor desloca tam­
bém a mudança no exercício da leitura. Não conheço como gostaria o caso da
França, mas na literatura inglesa isto é muito claro com Joseph Addison e Ri­ DEFIN IÇÕES DA OPINIÃO PÚ BLICA
chard Steele, em princípios do século XVIII, cujo vôo recupera na Espanha o
Iluminismo espanhol em meados do mesmo século, até chegar ao México em SABORIT: Gostaria de ter presente que tanto estaforma de leitur
princípios do XIX. Há um jogo interessante na tradução de :rhe Spectat?r para o lê se referem aos problemas de uma coletividade mais ou meno a como o que se
espanhol, pois passa a ser El Pensador na Espanha e, maiS tarde, Jose Joaqum _ s nova e mais ou
menos imaginada·no século XVIII.
Fernández de Lizardi, na Nova Espanha, se apropria dele e o transforma em El CHARTIER: De maneira mais geral, necessitamos articu
Pensador Mexicano retomando as idéias que ventilaram na Espanha escritores lar duas defini­
ções da opinião pública para o século XVIII. Por um lado,
como José Cadalso ou Jerónimo Geijoo, autores que pensavam em voz alta os a opinião pública
identificada com as sociabilidades particulares do salão,
do café, do clube, da
assuntos mais imediatos para a vida em sociedade. sociedade literária, da loja maçônica, ou com lugares mais
CHARTIER: Podemos reforçar estas reflexões com dois elementos: a cida­ informais como a
praça pública ou o jardim, temas que foram estudados
tanto por Arlette Far­
de como objeto da literatura e, ao mesmo tempo, como o lugar onde circulam ge, em suas formas mais populares, como por Darnton,
em suas formas mais
os textos. E a figura da qual falam os textos poderia se verificar nas listas de letradas. Corresponde à idéia de opinião pública que Jürge
nosso amigo Darnton, pois um dos livros mais difundidos no século XVIII é o n Habermas reto­
mou em seu livro sobre os espaços públicos e a publicidade
: o espaço público
'Ià.bleau de Paris de Louis-Sébastien Mercier, obra que pertence a este gênero a partir das formas e lugares da sociabiHdade.Io Isto inclui
de descrição citadina dos lugares, das práticas e das sociedades, e que expres­ , como você desta­
cou, o jornal como um lugar; não como um lugar propriamen
te dito, mas sim
sa uma dimensão crítica; razão pela qual foi uma obra proibida e publicada como um ele:ryen o q e se vincula a outros lugares e que
� � funciona como uma
fora da França e introduzida clandestinamente. Quanto à segunda reflexão, forma de coni.umcaçao entre eles. Por outro lado, temos
a definição mais
me parece que é interessante, no caso de The Spectator ou The Tatler de Addi­ abstrata da opinião pública, não como uma série de lt�gare
s particulares, mas
son e . Steele, a relação com as formas de sociabilidade. Você mencionou a como um conceito, como uma noção: a opinião públicà à
qual o autor deve�se
educação do público a partir do jornal, mas neste caso há uma vinculação dirigir quando escreve um texto no século XVIII, que define
um espaço abstra­
estreita entre os coffee-houses e os jornais The Spectator ou The Tatler, seJa to da circulação do escrito entre pessoas que não se unem
, que não partici­
porque o jornal publica discussões, imaginárias ou reais, que se. desenrolam pam na mesma sociedade, mas que em particular, ao ler
ou ao escrever em
no café ou porque o conteúdo do jornal alimenta as discussões que ocorrem sua esfera privada, se comunicam entre si por meio da circul
ação do impresso.
nos cafés. Há estudos recentes sobre os coffee-houses na Inglaterra que de­ Creio que as duas realidades devem-se vincular e não se
opor, nem cons­
monstraram dois ou três casos importantes relacionados com nosso tema. Por tituir uma oposição radical entre as idéias e a sociab
ilidade. Acho que as
um lado, o fato de que estes cafés nasceram em meados do século XVII; que formas de sociabilidade que definem um espaço público
funcionam a partir
não são unicamente de Londres, mas também das províncias; que contam da idéia que cada um de seus membros têm da opinião públic
a como entida­
com uma participação e uma presença de mulheres (e portanto, não são so­ de abstrata, como tribuna, como instância de juízo
ao mesmo tempo que
ciedades exclusivamente masculinas), e que, ao longo do século XVIII se ob­ como justificação, na medida em que há pessoas que comp
etem para ser os
serva uma rejeição a eles. Esta rejeição se baseia em uma referência a um portadores. Aqui há um tema fundamental com a seguin
te proposta: de um
elemento da cultura nacional inglesa, a taberna, como o lugar onde se bebe lado, um jornal define um espaço abstrato de opinião públic
a porque circula
cerveja, contraposta ao café, pois naquela se observam os valores vinculados e cada um pode lê-lo em sua esfera privada; por outro,
porque se vincula a
a uma cultura masculina e neste se dá a presença feminina, com reminiscên- formas específicas de sociabilidade. É uma maneira de supera
r o que vimos
1 24 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA
125

nos últimos anos; a oposição entre os historiadoreS interessados nas existên­ posto oficial como administrador, como sujeito de um Estado ou como mem�

!
cias concretas, à maneira de Darnton ou de Farge, e os que investigam concei­ bro de uma Igreja, Kant qualifica o \\fsÕ.d.it- iii'zã3/) que se pode fazer nestas
tos, noções, idéias. Parece-me que devemos superar esta divisão e vincular a situações como privad�, o ue é paià õXã , po.is p
Estado ou um carg� of1c1al . q__ . " � � riõs\ uma Igreja, um
definição imaterial e abstrata de opinião pública com as sociabilidades parti­ sao mstanctas publicas, \!Srulqt<:Iiz privado p_<>r­
culares em que se expressa. Isso talvez ajude a superar uma distinção, que q�e :_:}.:a�_a_ .d� ��mtl�a�, de_ co:mu�_t.da,d�s, de ��P:��� a� es-_ a ti lar s,
p t �� _ (:!_ _ �.s..q���js
agora não tem muito sentido, entre história intelectual das idéias e história nao dao ul!la _tdera de fxg:uré3. universal. Kant não fala nesse texto das socieda�
sociocultural das formas e lugares de sociabilidade. É um grande desafio, mas des-ae-peiis"ãnlénto, dos. Salões:· dOs clubes nem dos cafés, pois estes reprodu�
agora existe uma tendên� na histor�ografia italiana, cujo tema é o Iluminis­ zem uma realidade fragmentada, segmentada da universalidade. A única figura
mo, a partir da obra dE(Érªfl:ÇO Venturi)que se atém às idéias, aos conceitos, à da universalidade que define o público em seu sentido novo é a circulação
filosofia, mas se abrindo parà·-uma dimensão sociocultural forte.n Além dis­ textual, que se apóia. na privacidade de cada um, mas que define uma rede de
so, não se pode fazer uma história das formas de sociabilidade, das socieda­ intercâmbios de idéias, juízos e críticas. E é assim porque enfim o Iluminismo
des particulares, sem levar em consideração os conceitos abstratos ou as noções, é neste sentido um processo, um movimento e não uma realidade. Talvez em
qu·e são referência das práticas culturais. Desta maneira, inventamos talvez francês Lumieres dá uma idéia fixa do conceito, enquanto que o termo alemão
um novo espaço que, a partir do encontro entre o texto, o livro e a leitura, AufkU:i.rung define mais um processo, porque este deve unir a definição abs­
define um campo mais amplo: o de uma história cultural e ao mesmo tempo trata do espaço em que cada um pode atuar como sábio e corno leitor com a
intelectual. realidade social. O processo do Iluminismo, pensava Kant, acabará quando a
SABORIT: Não deixa de ser paradoxal que este espaço de opinião pública seja entidade abstrata, filosófica, de uma opinião pública em que cada um atua
a construção de textos escritos em que a voz narrativa não se descobre. No século como crítico, seja adequada ou igual à realidade social do universo; quando
x.vrn pelo contrário, nos defrontamos em primeiro lugar com um indivíduo. Por efetivamente cada pessoa, com as capacidades de leitura e de escrita, com a
exemplo, na reconstrução de Addison e Steele, o núcleo é um personagem, e capacidade de atuar em uma dimensãç crítica, possa fazê�lo. E o processo do
muitas vezes o próprio cronista fala na primeira pessoa e descreve o· que vê; em Iluminismo se daria quando o públiCo seja o povo ou quando o povo seja o
outro casos, trata-se de um personagem fictício que disserta ou rec6fi.Str6i a opi­ público na dimensão " de cada Estado e, finalmente, na dimensão universal. É
nião, as atmosferas - o que opina -, e isto forma uma oj>inião Pública. No um tema apafxonante porque vincula a priv�t�ici���-S.9!!?:9. C9.Il,dição do novo
século XIX a prática será escrever textos em que a mão do cronista não os assume es�_to_p_�plico, enquanto que a visão tradicional do- público. como pertencen�
necessariamente; são textos escritos na primeira pessoa com a cumplicidade da te à esfera do exercício do poder real não supunha, de modo algum, o indiví�
terceira pessoa. duo singutar atuando em sua privacidade.
CHARTIER: Sua reflexão é muito kantiana porque nesta perspectiva há r- · 'E uma.grande lição para o presente e para a construção de um novo
unicamente a constituição de uma esfera privada, e a existência identifica-se espaço público. Agora contamos com um meio que permite a cada pessoa
neste caso com o processo de individualização, o qual permite a construção atuar de maneira crítica. Com as redes eletrônicas cada um poderia enviar 13
de um eSpaço público. Como o diz o texto "O que é o Ilumin,i§mQ?", çle -�"ª-nt, aos outros suas opiniões e propostasr·e, ao mesmo1 tempo, receber as dos
é o uso público da réizão .R9l.Q�soas p�ivadas,�·e ."PessôãS-PriVadas" significa demais. Assin}d:m :. K.<lnt,_o sgp.h,q de universalidade pOr meio da circuh:t_ção do '/.�(
___

indivíduo;erl} sU� ·pri�ã�idade, riãà-éffi cOnjuntos. HTuma vincuiaÇáô êStrei­ escrito ma��é.���e en: r�lação com a'·�irculação_ ��� o�Je�os impreSsos, e ago�
-
ra co!t1 os textos - el�trô.nicos. O problema consiste em saber como se situam
.__.

ta COffi-ás-liri1iãS que Phllippe ArieS seguiu ao destacar a invenção de uma


esfera privada de existência, uma de cujas formas era a individualização (o estas· redes eletrônicas no mundo atual, se reforçarão esta homogeneidade e
indivíduo solitário, que lê em silêncio em sua privacidade) e outra a constitui­ esta virtualidade de universalidade ou se ref9rçarão as comunidades particu­
ção de uma opinião e de um espaço públicos a partir das práticas ou das lares, as defasag�ns _ entre as situações nacionais, as distâncias dentro dé uma
experiências escritas pelos indivíduos singulares e isolados. Assim, o processo meiní.a sociedade; quer dizer, se vão atuar como meios divisórios e não como
de invenção da privacidade é condição de uma nova definição do público. meios universalizadores.
Este teXtO de Kant acrescenta algo apaixonante: quando a pessoa tem um
1 26 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 1 27

DA DESCRIÇÃO DO PRESENTE À INVENÇÃO DO FUTURO nio de referências literárias e culturais� que ajuda a pensar, que permite ao
indivíduo situar·se em relação aos outros, com o mundo, com a natureza,
GowiN: Para voltar a este paiTI.�lismo entre a revolução da leitura no século com a transcendência, e que é o suporte da atividade crítica.
XVIII e o momento atual, nd\XVIII je dá à div��s_i���e do e:.�rito e das leit;-trc;s um Há dois tipos de textos fundamentais: os que enriquecem a vida e os que
,_
. . ra. cnttc�r. Como voce v�e. esta
determinado papel no surgi"RJ,guto de umct_Eulq..L permitem re-avaliar e ver dé maneira disüiitã'rlOsso IÚÜndO� Por outro' iado,
.
diversidade do escrito? Acha que forrrJ.a uma cultura critica? são..textorque� áciffiá de-setiObJéi0PartlCU13.f _üilVesti88.çãõ histórica� descri­
--·cHA.RTiER: MencionamoS a situação em que nossa relação com um texto ção etnológica, pesquisa sociológica)� propõem aos leitores instrumentos, fer­
literário pode ser subjetiva ou estética, sem nos preocuparmos com as condi­ ramentas críticas, maneiras de ver, de pensar, de situar·se, que, esperamos,
ções de produção, circulação e interpretação do texto em seu tempo, situação vão lhes permitir distanciarem·se do mais habitual, obrigatório e espontâneo.
diferente do próprio momento da invenção (que é nossa contribuição para o Era a idéia de Foucault: destruir o que se faz e se pensa espontaneamente,
texto a partir do que somos, pensamos e sentimos) e que não é uma forma de estabelecer uma distância necessária. Parece·me fundamental a entrada de
relação com o texto como a do crítico literário nem a do historiador quando nossos contemporâneos neste mundo cultural que oferece uma densidade de
-, tentam reconstruir a localização do texto em seu próprio mundo; São dois reflexão ou que propõe estes instrumentos críticos; mas não se devem con­
i aspectos que não vão1 necessariamente, juntos, por isso citei aquele texto de fun�ir_ _9��9-.E!���veis, pois, com freqüência, J:?.OS levam a jutgar·as prátiCas do
,
Contrera Soto que narra as duas relações possíveis com um mesmo texto. préSente a partir desta expectativa legítima de difusão em torno dos instru-
: Agora acontece mais ou menos o mesmo. Por um lado, como observador so­ mentos·-ct-íüC"OSóü-·éle" acesSo àS Obras mais densas. ..

� �:
ciológico que tenta dar um enfoque à nossa sociedade, é importante destacar �rmpõeiTi.-se 'úffi_"mod.elo de texto, de HVro e de leitura que, necessaria_/ /
que, contra os discursos mais habituais, qu� lame_ntam a perda de u��_ida�� ment�' _c ��� � q�e estamos frent� à uiTii:t_t��ri.v�l ��cadência. Para reCupera
.
o projeto 1lum1msta : , '",
de ourodãleltuia' e dofiVio e afirmam que já nãó se lê ou que os livros que compartilhamos, e md1spensavel estabelecer um di­
"
eXis�em �iiiCãffiente-para-·ã-ffiiiiôii8,-dêVe·se dlZer· ·que e�J�tem·_ m�ll:Jp_l���-���· agnóstico objetivo e neutro das práticas. do presente. A partir destas práticas,
tfêãs·-de'léitura que-ilãO sãO nécessariamente práticas cultas, ou profissionais, mudando de registro, podemos ver se são um obstáculo ou um apoio para
w-,���8-ítin;:�é; que há muitos textos, livros ou "frripressoS que Iião sé d·efíileffi chegar a uma sociedade democrática, crítica, na qual cada um possa atuar
a partir de um conteúdo filosófico, literário ou científico, e qll:� estas práti_ças com certa dist!ncia ou com as restrições necessárias. Parece-me q_4�_ aqy_LQ4__
se _ é!P._rqpriªm da cultura textual impressa disi?onível nos banc�s �-e jornais, urg� si\.g_�!!_Çã? absolutamente essencial. Somos ao mesmo tempo indivíduos
__

ré�stas e t€xtos úteis. Contra toda a nostalgia de uma idade de ouro, real ou qu�.�����-� d.Cl:r ç.Q-n.tª 4?. que acontece em nOsso· riúJ.ú.do, ou no passádO; ou
1 im�&inária, é- preciso medir, a��IiSar e entender 6 conjunto destas práticas d� -
em outras sociedades, e daaaaos··com-ürn.a pérsp-ê"CtiVà da sociedade, do que
! leitUra e destes textos que não são precisamente o que se chama literatura. E pode�_i�-��r -� futuro menõs i:uiffi do qUe" o Presente� É difícil articular esta
l preciso de1xar para trás a nostalgia (literária ou política) e entender o fato de -
dÜpla identidade que estamos obrigados a controlar, porque se há uma confu-
"L q�E: agOra se lê mais do que antes, sem esqueCer que a prodUção de te�tos são entre uma e outra identidade produz-se imediatamente o discurso nostál­
,J impressos é maiS importante hoje do que no começo do século XX. gico, melancólico, da idade de ouro perdida e da decadência universaL Por
- Este é um ponto de vista neutro que analisa, descreve. Mas do ponto de outro lado, mantém-se unicamente um registro descritivo das práticas1 corre-
vista iluminista, e não meramente científico, a pergunta seria: como se pode se o risco de um relativismo cultural que debilitará qualquer forma de inter­
construir um espaço público à maneira do século XVIII em nossa sociedade? venção dentro da sociedade, como se tudo fosse equivalente.
Aqui mudamos de registro e de nível. Pensemos, em primeiro lugar, que dotar GOLDIN: Acredito que todos compartilhamos um projeto assim, em que se
de instrumentos críticos os leitores é algo necessário e importante (eu tam­ combinem a análise e a descrição para procurar um presente muito mais habi­
bém o penso), mas devemos notar que o assumimos de maneira um tanto tável.
voluntária, um pouco como uma ideologia; e, por outro lado, lembremos que CHARTIER: Penso que não é por acaso. Foucault tinha uma relação parti·
alguns textos permitem esta atividade crítica de maneira mais aguda que cular com o citado texto de Kant "O que é o Iluminismo?", e o comentou duas
outros e que, para nós, estes textos são os que constituem um denso patrimô- ou três vezes em seus cursos, conforme disse em uma entrevista. Parece que
ROGER CHART I E R CULTURA ESCRITA, LITE RATURA E HISTÓRIA
1 28 129

vivermos um momento em que a filosofia é a filosofia do presente, que tem o política como ����-m da vi<;l.� CQtidiana.-__Antes disso, surge o episódio revolu­
presente como objeto de reflexão filosófica, o que é curioso porque como cionário, quando se multiplicam os periódicos, embora com uma vida muito
imaginar uma distância maior entre uma prática filosófico�histórica da des­ breve, e que desaparecem no mesmo ritmo que são publicados. Mas depois da
continuidade, à maneira de Foucault, e as críticas kantianas que definem as Revolução, com o Império, se restabelece em parte a situação anterior. E em­
condições universais de possibilidade do conhecimento ou do julgamento es­ bora as formas impressas pertençam a uma estrutura global idêntica suas
tético? Parecem dois mundo completamente opostos. diferenças aumentaram com o tempo. Assim, a imposição do formato d� livro
em toda a cultura impressa dos séculos XVI e XVII, e inclusive com os primei­
ros periódicos, vai-se reduzir no século XIX. Aqui há uma notável diversifica­
INVENÇÃO DO JORNAL ção da produção.
///""'
lESÚS ANAYA ROSIQUE: Um ponto interessante é que a partir do êxito dos
AGUIRRE: A circulação do escrito no séc�lo XVIII ,eStá especialmente relacionada periódicos na segunda metade do século XIX, a notável mudança tem a ver com
com os jornais diários, os periódicos e \as_.fq.r;n'Ías de sociabilidade que eles su­ todos os elementos que você citou, e as inovações técnicas vão estar muito acele­
põem. Ao falar da circulação do escrito, se homogeneizaram objetos diferentes: radas pela necessidade de ter periódicos com linotipos e premas de grandes tira­
livros e periódicos, com formas associadas de sociabilidade, igualmente distin­ gens. Todas essas inovações técnicas que vão-se produzir emfunção da necessidade
tas. Por exemplo, nos periódicos expõem-se opiniões que são compartilhadas e de ter periódicos de outro tipo, regressam às formas do livro no século XX ao
debatidas em um café; mais tarde, podem aparecer escritas em diários que, por contrário do que havia acontecido antes, a partir do XVIII. Quer dizer, esta e�an­
sua vez, podem dar lugar a polêmicas públicas. Estefenômeno generaliza-se no cipação do periódico e de outros gêneros em relação ao livro realmente ocorre em
México, principalmente no século XIX, conhecido como rodapé, no qual há abun­ fins do século XIX, mas no XX acontece o contrário.
dantes polêmicas entre diferentes autores. Desta perspectiva da circulação do CHARTIER: Sim, mas o periódico nunca se reintegrou verdadei
ramente à
escrito, seria interessante contrastar as opiniões entre o livro e o periódico. cultura do livro. Antes se separou, po\s me parece que o � definiu 0 novo
CHARTIER: Parece-me que o fato é verdadeiro, mas é um processo no qual P..�jqpico Ce você tem razão ao dizer que há evoluções nas forma·s) é a·;�-��Ç�9
há uma emancipação. do periódico em relação ao livro. Q� primeiros pe(ió_Q.i­ �?�--��!�E.l�r()_,_ _Ç.Qffi.JJ.ffi#".�'!��-�s��- _br���-1 e rápida de fatos.. Esta diü;ériSif� d o
podem ser efê���o conltminou �s o.��:�s s�5?�s do PêiiódiéO'; as· resellhaS;·póiêiéffiPIO.
.� cos dos sécci�i xvll é-.XV! . ú m:a1 sé diferenciap-! dos livros)porque
fe"Ii"Cãdefllcidos dk-ITiêSÍi:iã ffianeira que um livro e _ - n ij.o�� �tã_o vinculados à _ª-�1_-la­ Nos seCUlóS. XVII ou XVIII, as notícias leVavam terripo p8ra chegar ao periódi­
'
�n co, e a.resen�� não dava uma representação do mais atual nele, senão que era
. se lembramos o sentido eti-
;-.- -" lida.de, com exceção das assinaturas dos diários,
'-....,..., ""''ffiõlóiíco da palavra diário, journal. No século XVIII, embora se mantenham um comentano ao mesmo tempo que uma notícia. A partir da evolução do
XIX vemos e.sxa relação com a notícia acumulada, com a notícia
esses elementos de dependência, inventa-se um novo periódico, que talvez o urgente que
seja mais pelo conteúdo textual que pela forma material. Há outra relação exerce pressão sobre o jornal. Esta relação com o fluxo cotidiano das notícias
entre o periódico e o acontecimento que· vai distanciar o periódi�o do livro, vai definir o periódico, e a transformação ao revés de�te de novo em livro não
mas a evolução que você descreve me parece encontrar sua realidade mais me parece uma tend.ên�ia_ at_ual, porque aqui. 9 . conte�dO _é mais iffiportante
_
profunda no século XIX. No caso da França há duas etapas. Na década de d? que a forma, o conteúdo em sua relação com essa impaciência dos a���te­
1840 baixa o preço do periódico, que definia até esse momento uma socieda- cimentos e a impaciência dos leitores também.
ANAYA: Ainda que haja um reflexo do mundo do livro, do que
',·· dê'd� leitores muito restrita e que adquire novas formas, por exemplo, com a
- acontece ao
publicação dos{euiÍlefõits,. Mas as i�õ_�.s d.�ssa década se vê�m .forteme?te liv�o em s�a relação com os leitores. Ocorre nos suplementos culturais dos jor­
limitadas porqúe mesmó com a redução de preço temos um pubhco restnto. naiS, do Tlmes, do Le Monde, do New York Times, ou dos nossos no México. o
O segundo mcnnc:;nto, o da �_er_�-�c!���-a evolução do periódicâ, aconteceu na mundo do livro se transforma em momento de reflexão e de comentário nessas
em todo seções dos jornais.
década de 1860)om a compra por n'!.m _ ...<:ro, que permitiu a difusão
o país gr�:ças·âó ._cQr,re_i0.91JA .�g-�����.9-�J�!TO, e com a inv�nção do f?rm�to CHARTIER: Exatamente, mas vou dar um exemplo. Embora

-
eu escreva
grande dos periódicos ou diários, que já se vinculam à atualidade, não só para o Le Monde, nunca guardei as séries ou os suplementos do Le Monde

j
··- .. - ---·-� ''"'�" .
' . - -

Cb-n. v--��- #-;, ,,


ROGER CHART!ER CULTURA ESCR ITA. LITERATURA E HISTÓRIA
130 131

a que, como neste caso, os jornais alemães organizavam pesquisas de opinião,


como guardo livros. Talvez não seja uma experiência compartilhada, mas .
_ podemos dtzer,
tão grande que com os livros basta. Mesmo quando os suple­ se ass1m a partir dos temas discutidos nas sociedades literári­
acumulação é
, as. O que é o Iluminismo? Foi um tema proposto aos alemães cultos e o jornal
mentos literários falem de livros, desvinculando-se da atualidade do mundo
não têm o status de livro corno objeto que se conserva: são textos comple
ta­ Berlinischer Monatschrift recebeu diversas respostas. O texto de Ka�t publica­
Tal­ do neste periódico se intitula "Resposta à questão: O que é o Iluminismo?"
mente dominados pelo efêmero do conteúdo de outras partes do jornal.
vez apenas nos casos de jornais especializados como o N_ew Yo� Revie of
k "':' Não é que Kant dissesse vou escrever um texto e intitulá-lo "O que é o Ilumi-
.
1ado do JOr­ msmo.?", mas s1.m uma resposta ao tema proposto. Aqui temos uma forma
Books, ou o Times Literary Supplement tem-se um status d1ferenc
m moderna em que o jornal se vincula à sociedade de pensamento que acredi­
nal clássico e estes podem se transformar em objetos impressos que merece
dos, relidos, ao passo tou útil fundamentar e fazer a pergunta; e se dirige a seus leitores como
ser conservados e aos quais se pode voltar; são reutiliza
autores potenciais do periódico. Um tema à maneira de Walter Benjamin em
que 0 jornal, em essência, não leva à releitura, incluídas as seções que podiam
seu ensaio sobre a obra de arte na era da reprodução mecânica, quando os
ser deste tipo. _
"escrever para o ;ornal e escre­ leitores se transformam em autores do jornal por meio do correio recebido
. I

GOLDIN: Lembro um comentário de Borges:


ver para o esquecimento", e aquele conto de Cor ;ázar sobre um _jor�al que v�i ou quando o homem comum se transforma em ator de cinema por meio do�
rolando e no fim embrulha um pedaço de carne. E uma dessacraltzaçao do escn­ filmes de tipo realista que mostram a realidade cotidiana .l3
to' uma metamorfose cotidiana do papel... A questão é saber se se trata de um fenômeno específico de alguma
CHARTIER: Exatamente, é um tema à maneira de Foucault. Os artigos de parte do mundo europeu, incluindo a toda Europa e o Iluminismo espanhol.
Saber, também, se se produzem as mesmas coisas no mundo colonial. Porque
um "autor" pertencem à sua obra ou não? É um problema porque, para voltar
falamos �e uma situação que se localiza na Alemanha daAufkliirung, na França
a Borges, só na antologia de obras da edição francesa de La Pléiade se recolhe­ , e na Inglaterra de fins do século
ram os artigos dos anos 20 e 30. A primeira edição das obras completas de das Lumleres XVII, em relação a uma decisão
adm�nistrativa, que ocorre em 1695, _e,que outorga a liberdade de imprensa e
Borges excluiu os artigos jomalísticos. 12 Essa cond;i.ção instável se observa na
suas supnme a censura. Mas esse mundo, que corresponde ao mundo da história
pergunta d�_ foucª'!lt: qu_te,.Y'_�!osf,?_r�am � obra de a�guém? /Incluem
sua� �a�ndª'_ s.,._seus do livro, ao mundo mais desenvolvido conforme todos os critérios econômi­
listãSd'ecompras no supermercado, suas cartas _pessoais,
artigos jornalísticos? OÍl.de se estab��� . -e éiAiyJ?,��J Vemos que a delimita ção cos que podlm-se recolher para o século XVIII, ao mundo da alfabetização
ticos, e vemos tam­ medida pelas assinaturas, é um mundo exemplar para outras partes da Euro­
não é clara, particularmente nõ caso dos artigos jornalís
com pa e do mundo, ou há defasagens cronológicas ou outras formas que enfim
bém que há uma grande dificuldade para recolher estes artigos mesmo
ógico de .voJta �� fontes. f:zem existir a mesma realidade nas colônias? Seria uma pergunta para vo­
escritOres como Borges. É um trabalho quase arqueol
t i o obj�t? m��mo,) gue se ces: saber S&-R)do este modelo que construímos.-yntre formas de sociabilidade
o efêmero_ :não é . �r:ti_ç_cgpente .? fl���- �as n�. �� �.�-: -�
·
trâilsfu;[;;.à.- em:··p�pel e qU:e··- não- fol conserv ?ad com o mesmo cui��do_ 9:��:-as e espaço público a partir da circulctção do eiqtito teve vigência em outros
- pontos.
ecTi�Õ€5-ImpreSsas. · Eilfim�· �f-SOhiÇão vem da condiçã o de autor; se pubhca ;Ít4 �:)'1. /&1 t{ ..
EfOrges·, ;;·cõ!iSidera que os textos dos artigos jornalísticos realme�te perten­ SABORIT: No caso americano, acho que seria útil retomar o tema da repre­
uma
cem à obra. Para um historiador, não estou certo de que se publicasse sentação do mundo, a tecnologia e o estado do conhecimento. Se tomamos estas
artigos jornalísticos. No fim das contas, éa três peças podemos estabelecer diferenças muito ilustrativas em relação ao caso
·""'· obra completa se integrassem seus
d q��-,����� -�-��? _ ntei ra de sua b
C? ��· dada a_ na ��E�!:� do europeu. No século XVIII, o jornal está vinculado ao efêmero, mas busca 0
1 � · ÍJ:EI?Qr.tfu!çj� 9 �.U!C?�.?_.
__

pxqprio suporte. prestígio livresco pois são folhas colecionáveis que, finalmente, formarão um
SABoRIT: O texto de Kant que citou é, se não me engano, uma resposta a um livro.
o

jornal. CHARTIER: Sim, vi a Gazeta de México na biblioteca da Universidade Ibe­

CHARTIER: Para acrescentar alguma coisa à reflexão sobre


The Spectator. ro-americana, e é como um livro... Sua forma final é um livro. E toda publica­
De um jeito ou de outro, o jornal é, no século XVIII, um produto desta primei­ ção séria que apareça com certa periodicidade deve aterrissar finalmente no
por-
ra emancipação; que não é uma emancipação formal, mas sim textual formato livro.
ROGER CHARTlER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 1 33
132

sante: o
SABOFIT: No século XIX ocorre no México uma coisa muito interes tradição. Em seguida, outro historiador e bibliófilo que realiza sua obra entre os
dos escritores mexica nos é séculos XIX e XX, Nicolás León propõe-se fazer uma bibliografia mexicana do
jornal acaba tomando o espaço do livro, e a queixa
as human as e o investimento século XVIII, ficando a lacuna do século XVII, pois, precisamente este século, no
que não existe o livro no México. 'Ibdas as energi
vão para afundação de jornais e não existe a indústria editaria
� prop�iamente. que se refere à cidade do México, esteve assolado por inundações e tumultos que
Aqui a pergunta não é se os artigos são parte da obra � e um escr z �or: sao a obra. fizeram desaparecer muitos livros. Então é uma corrente historiográfica que não
os do seculo XIX e,;ustamente que consegue se encaixar no século XXjusto porque é parte de um estado de ânimo
Thdo vai para o jornal e o lamento dos literat
vai embrulhar um
sua obra está dispersa em um papel que, na manhã seguinte, reivindicativo, muito crioulo.
pedaço de carne. . CHARTIER: É interessante essa recuperação do passado por meio de uma
ANAYA: Por isso, quandofaláfamos do editor
moderno na França a partl.r de bibliografia dos textos impressos que deve defender a honra, a reputação
1830 eu esclarecia que no México é um fenômeno
que não aparece até o século nacional contra uma desvalorização que vem de fora porque, a dois séculos
xx, depois da segunda década . O Fondo de Cultur a Económica, por exemplo, foi de distância, repete o fenômeno da construção das primeiras bibliografias
fundado em 1934.. . baseadas em uma definição, em uma delimitação nacional e na reconstrução
e dos
CHARTIER: o que você propõe talvez seja o problema de uma Pletad
•.

de toda uma produção livresca em um projeto da ordem dos livros.l4 Interes­


autores mexicanos do século XIX... sa-me isto porque há um texto central que é uma bibliografia, de fato a pri­
meira no mundo ocidental - a Biblioteca Universalis de Conrad Gesner, de
1545 - que se define de outra maneira, pois inclui todos os textos escritos
A ORDEM DOS LIVROS em grego, latim e hebraico. E a Espanha foi uma das primeiras nações a con­
tar com uma bibliografia crítica de sua produção literária, com a Biblioteca
ANAYA: Claro..., mas apenas na década passada se teve a compilação das obras Hispana que Nicolás Antonio publicou em uma primeira parte em 1672 e,
completas de um escritor fundamental para o México, Ignacio Manuel Altamira­ postumamente, em uma segunda p�rte em 1696. Na década de 1580, temos
no, e agora é preciso revisar esses 22 volumes. E por fim, temos � obras �e na França asBibliotheques Françaises de la Croix du Maine et deDu Verdier, que
Guillermo Prieto em 28 volumes até o momento, e as de Manuel Gutzerrez Na;, e­ formam a bibliografia de todos os escritores que escreveram em língua verná­
ra' editadas pela Universidade Nacional, e de outros mais. cula e que lonstituem uma defesa e ilustração do francês contra o idioma
SABORIT: Nenhum deles, salvo exceções, conseguiu publicar fora das revis­ italiano. Há uma concorrência lingüística entre o italiano e o francês para se
tas e dos jornais. Praticamente, toda a literatura mexicana do século XIX descan­ estabelecer cada uma como a língua mais adequada para a produção literá­
sa noS periódicos. E sefez a história literária do México_ a partir das o� rC:S editadas ria. Mas a bibliografia, que parece um objeto morto, inerte, neutro para a
como livros, o que é perder a metade da literatura. E uma contradtçao, por um tradição da..ft.istória do livro, no caso mexicano me agrada, agora que o men­
lado, se nos referimos à história do livro no México, que começa como uma ciona desta maneira, porque revive o que aconteceu. no século XVI, quando a
reivindicação desde as primeiras tentativas da história bibliográfica. H� � c� o bibliografia era um elemento de construção da entidade nacional, em primei­
de Juan José de Eguiara y Eguren, em meados do século XVIII, que rervmdtca ro lugar, por meio do local de nascimento dos autores e, depois, por meio da
frente à Europa a cultura livresca e intelectual das colônias americanas� e se língua em que escreveram. Penso que todos estes escritores ou bibliógrafos
propõe fazer a bibliografia americana, hisp�no-�mericana. Claro que �guwray mexicanos conheciam mais ou menos essa tradição de afirmação de uma iden­
Eguren nunca concluiu sua obra, é um pro;eto mconcluso. E ma�. adwnte, em tidade e de uma comunidade por meio do inventário de sua produção escrita
fins do século XVIII, José Mariano Beristáin y Souza retoma o pro� et� sem es�a­ e impressa no que se devem listar tanto autores como obras.
par ao fracasso de sua empresa, e uma vez consumada � ind�pen�encw �olomal, SABORIT: Teria que acrescentar que a primeira destas bibliografias, a de
se cancela este projeto. Este não voltará a aparecer na tmagmaçao me.ucana, de Eguiara y Eguren, foi escrita em latim.
forma significativa, até fins do século XIX, quando Joaquín García lcazbalceta CHARTIER: Então é a mesma evolução, reproduzida a mais de dois sécu­
comece sua bibliografia mexicana e, dando-se conta da tmposS!btltdade do pro;e­ los de distância.
to, se concentre no século XVI; sua Bibliografia do século XVII é parte desta
134 ROGER CHARTIER CULT URA ESCR ITA, LITERATÚRA
E HISTÓ RIA
1 35

:
SABORJT: É interessante observar como alguns textos que aparecem pela
fissionalizados que estão ligados à imprensa: colunista, autor de crônicas, de
primeira vez na imprensa diária se transformam em livros, e como, por sua vez,
recopi a�ões �e notícias, do editorial. Dá-se uma primeira profissionalização
influi nos livros. Há muita literatura do século XIX que tem essa origem. E tam­ , . que não parece ir no mesmo ritmo na
dos oficiOs vmculados ao period1co
bém é interessante ver como (talvez se trate de um fenômeno mais específico do
França, por exemplo, onde os que escrevem para os jornais são um pouco
século XX) a leitura dos jornais vai gerando uma espécie de gosto literário que
como os autores: pessoas que têm uma posição, bens, um ofício, ou que são
cria uma literatura efêmera, para chamá-la de algum modo: todos estas novelas
escritores reconhecidos ou pessoas que vivem do mecenato, etc. A primeira
que são lidas nos aviões e que são deixadas aí como se lê o jornal.
profissionalização é inglesa e define os ofícios que vão ser importantes nos
CHARTIER: Parece-me que o roman feuilleton indica, em princípios do
periódicos do século XIX.
século XIX, a mudança mais fundamental. No XVIII temos publicações por
SABORIT: Não deveríamos passar por alto a invenção de um estilo literário
entregas ou por fascículos, que, em geral, se chamaram Bibliothêques Univer­
en t:e os que escrevem sobre livros. Pensemos no que fez falta para chegar ao
selles, e incluíam novelas, relatos de viagens, etc. Eram entre cem e duzentos _
esttlo de um Samte-Beuve, por exemplo. Suponho que uma parte importante tem
volumes, mas cada um com sua unidade e sua coerência, pois se tratava de
a ver com o escritor, com seu espaço privado. Mas seu estilo também tem a ver
fascículos encadernados que se transformavam em livro conforme a mesma
com um registro literário muito particular que se baseia, naturalmente� nos
fórmula que as gazetas que comentávamos. Com o roman feuilleton acontece _ ou nas sondagens de outros que o precederam.
ensaws
outra coisa porque a mesma história continua de um número para outro e
CHARTIER: É talvez a defasagem de um século entre a individualização
permite organizar as obras em resposta à recepção por parte dos leitores. E
_ do autor tal como a mencionamos por meio de Richardson, Rousseau Bernar­
aqui há um modelo ou um gênero que instaura uma nova f?rma de relaçao
din de Saint�Pierre ou Goethe, e a individualização do jornalista ou da escrita
entre os gêneros textuais e a própria forma do periódico. E uma forma na
no jornal; porque no século XVIII, as resenhas em forma de extrato não têm
França; mas fora da França, na Europa, o momento essencial me aprece que assinatura, são textos anônimos que remetem ao próprio jornal; 0 autor da
ocorre nas décadas de 1830 e de 1840, e inclusive aos autores de maior pres­
resenha esconde�se atrás das citações e das paráfrases. Observa�se uma eman­
tígio, como Balzac, na forma de folhetim, que não é a mesma fórmula das
cipação muito lenta da escrita pessoal por meio do jornalismo.
publicações por entregas ou por fascículos.
SABORIT: Como Charles Dickens na Inglaterra... T
CHARTIER: Como Dickens na Inglaterra. Da mesma maneira, pode-se acom­ EVENTO E MONU MENTO
panhar a evolução das resenhas, porque no século XVIII o que define uma
resenha é o extrato; uma citação, que não é uma citação conforme nossos SABORIT: E a formação de um cânone. Willi
am Hazzlit, em princípios do século
critérios porque se trata de uma paráfrase, uma reescrita. Podemos ver como XIX, e:creve-b-:ro re autores e livros entre
muitos outros temas que aborda, mas
as resenhas de um determinado livro escolheram este ou aquele fragmento, tambem toca assuntos do gosto e do bem
e do mal escrito. Ele toma como padrão
como foi reescrito o texto, como há paráfrases e não literalidade� T?dos estes de b�a esc�ta a que éfeita para ser lida
em voz alta,· quer dizer, para ele, a má
elementos constituem uma história da recepção. O jornal é, digamos, o pri­ escrzta sera sempre a destinada à leitura
silenciosa, a que não levou em conside­
meiro lugar de recepção e interpretação de um texto, porque o extrato deve ração o ouvido...
dar o essencial, parafraseando, copiando ou reescrevendo o texto. A partir do CHARTIER: Pode-se vincular isto à sobrevivência
século XIX a resenha é um comentário mais pessoal, com uma distância to­ da leitura em voz alta do
periódico como órgão de unificação de uma socia
bilidade, de uma sociedade.
mada a pa�ir de citações muito breves. Há outra prática de leitura e de escri­ Par
�:��--=.9_�_:�}-�r.��L�5.�-�o _él,"���t-�-�-�- regis�ro do m�nu � c�ito. O jornal e a
ta. E assim poderia se acompanhar, do século XVIII ao XIX, a maneira como se c�:-_t_· !� m:�l�e� os, objetos privilegiados des.tâ-lefiür
transformam os gêneros mais diretamente vinculados ao periódico. E, um tema _ _ ra em voz alta, á qúe. permite corÜpar­
tilhar o tex�� por mem da leitu e aqui veinOSüffia rélação entre
importante para a autodefinição dos autores, para o conceito mesmo de obra um�prãtica ef�trva _e·-·urri'Tde-�T de··es�rita.
Um tenia: iriteressanre', aléin da
e, por fim, para as práticas de escrita dirigidas ao periódico. Talvez seja na questáOd<:ijôfnalismo, é a identidade entre
a ficção de circulação oral e as
Inglaterra do século XVIII onde se inventaram os ofícios mais ou menos pro- condições reais de seus usos. Por exemplo, temo
s o século XVI com todas as
136 ROGER CHARTIER CULTURA ESC RITA, LITERATURA E HISTÓRIA 1 37

antologias de contos à maneira de Boccaccio com seu Decameron (1352) ou o NOTAS


de Margarita de Navarra com seu Heptameron (1559), que imaginam uma
situação na qual há pessoas reunidas em um lugar fechado e, para passar o 1D�niel Fabvre, '�Le livre et sa magie", em Roger Chartier (coord.), Pratiques de la lecture
'
Pans, Payot et Rivages, 1993, p. 231-263.
tempo, cada um conta uma história, uma nouvelle, um relato. Parece-me que 2Nathan Wacht�l, La v�ion des vaincus. Les Indiens du Pérou devant la Conquéte espagnole
aqui há um vínculo forte entre a construção desta ficção enunciativa e as ?
1530· ! 570, Par�s, ?llu?ard, 1971, e Le retour des ancêtres. Les Indiens Urus de Bolivie .XVe­
condições reais de circulação do texto, como se o leitor, na mesma situação, � ,
e szecle. Essaz d hzstozre regressive, Paris, Gallimard, 1990.
reproduzisse a situação enunciativa fictícia do texto. Deve-se distinguir entre M1chel Fo�cault, Z:ordre du discours, Paris, Gallimard, 1970 (tradução para 0 espanhol: El
orden del drscurso, Barcelona, 1\tsquets, 1972).
gêneros literários que mantêm um vínculo forte entre as condições imagina­ 4Paul Ricoeur, Du texte a l'action. Essais d'hermenéutique II, Paris, Seuil, 1986, p. 151-159.
das de enunciação e as condições possíveis de circulação, e outros gêneros em Sobre a o?ra de Ricouer,
_
�er Gabriel Aranzueque (comp.), Horizontes del relato. Lecturas y
que há uma distância total entre a cena enunciativa do texto e as condições
��ff��
conversacwnes con Paul Rtcouer, Madrid, Cuaderno Gris 1997.
SRoger �hanier, "La �uimera dei origen. Foucault, la Ilu�tración y Ia Revolución francesa",
efetivas da circulação. Seria outra maneira de escrever a história da literatu­ _ las práctzcas. Foucault3 De Certeau,
nbrr Marin, Buenos Aires, Manantial, 1996, p.
ra. Comentamos, à maneira de paráfrase, o texto de Borges que mostra a
transformação do texto-monumento em texto-acontecimento da ode louva­ 6François Furet, Le révoluti�n: 1770-1880, Paris, Hachette, 1988, e Keith Michael Baker,
ção, que respeita todas as regras no poema murmurado, efêmero e nunca Inventz_� the French Revolutzon. Essays on French Political Culture in the Eighteenth Century
Cambndge, Cambridge University Press, 1990. '
escrito. Mas há outra trajetória, talvez a mais histórica, que conduz dos tex­
7François Furet, Penser la Révolution française, Paris, Gallimard, 1978 (tradução para 0
tos-acontecimentos (que têm uma função ritual, cujo valor está em sua efeti­ : spanhol: P msa:.la Revoluciónfrances? �arcelona, �etrel, 1980).
•.

vidade, que não supõem a fixação escrita) à situação do texto-monumento ­ �


Norbert Ehas, Uber den Prozess der Ztvrllsatton. _ Sozwgenetische und psychogenetische Un­
_
que para nós constitui o repertório literário. Há estudos recentes - por exem­ te:such�ngen, Basllea, Haus zum Falken, 1933 (reeditada por Suhrkamp, Francfurt 1978
plo, o de Florence Dupont, especialista em literatura da Antigüidade grega ­ (tra��çao par� o espanh�l: El proceso de civilización. Investigaciones sociogenéticas psico­ ;
genetzcas, Méxtco e Madnd, Fondo de Cultura Económica 1987· 2 ed 1989)
que descrevem a trajetória da literatura grega desde esta perspectiva, quer 9Ste�e Pincus, '"Coffee Politicians Does Make'. Coffeeeho�se and �sto�ation P�litical Cul­
dizer, seguindo outros gêneros, por exemplo a ode. Esta vinculava-se a uma �� re , The Journal ofModerns His�ory_, �- 67, n. 4, dezembro de 1995, p. 807-834.
cena ritual em que se convocava os deuses - Dionísio em primeiro lugar -, Arlette Farg: 'r.� 1re
_ et ma� �rre._ �op mon publt�u

_
: au XVIIIe stecle, Paris, Seuil, 1992; Ro­
,
bert Darton, Editzo � et Sedztzon.
e era uma poesia que encontrava seu sentido na circunstância puramente tumvers de la lttterature clandestine au stecle, Paris, Galli­
mard, 1991, e Forbrdden Best-Sellers of the Pre-Revolutionary France, New York e London
oral; desse modo era uma poesia performativa, de representação, porque ao w._ W. Norton & Company, 1995; Jürgen Habermas, Strukturwandel der Offentlichkeit Neu:
evocar a presença do deus este se fazia presente. Havia-se tornado assim em wted, Hermann Luchterhand, 1962. · '
uma espécie de literatura virtual que não existe fora de sua atualização, em ��Fra�co Ven�uri, Settece�to riformatores, Thrim, Giulio Einaudi, 5 vols., 1969-1990.
Anmck Lomlo.Jorge Lurs Borges: oeuvre et manoeuvres Paris IBarmattan 1997
um gênero literário com regras que pertencem a uma poética que se transfor­ ·
13Walter _BenJamm, · "r'�
' ' ' ·

LNeuvre d'art à I''ere de sa reproductivité technique" em Ehomme [e


ma finalmente em material pedagógico que pode produzir comentários. O �� '
langag; et culture, Paris, �enõeVGonthier, 1971, p. 137-181. Sobre este texto, ver Ro er Í
acontecimento transformou-se em um monumento em que se cónserva algo Chartn�r, De la reprodu�ctón mecánica a la representación electrónica", em Pluma de
_ v1a;ero,
_
da ficção da enunciação primitiva, porque a ode se dá como uma obra oral ganso, lzbro de letras, o;o op. cit., p. 63-70.
14Roger Chartie:, "Lectores, autores, bibliotecas en Europa entre los siglos xrv yXVIII", em
vinculada à cena ritual, embora se comunique em formas de transmissão com­ El orden de los ltbros, Barcelona, Gedisa, 1994, p. 69-89.
pletamente distintas das imaginadas na própria obra. Temos assim uma for­
ma de história da literatura que pode integrar tudo o que discutimos e articular
as práticas culturais com as ficções.
Q u i n ta Jornada

A REVOLU�O DO
TEXTO ELETRONICO

A lEITURA: HÁBITO OU INTERIORIZAÇÃO

DANIEL GOLDIN: Os conceitos correspondentes ao campo da leitura são dirigidos de


diferentes maneira; · e�tre .historiadores� editores, educadores ou psicólogos. Mas
Uiii CóTiCéltõ ��iüe-·se converteU erii. meta de Uma políticci. nacional é 6 do '�háf?jt<? de
' -
leitura". Aparentemente� a origem deste uso vem da influência da psicologi� da
êdúClzÇão, que se refere a uma série de hábitos inculcados na escola. Um deles é o
hábito de ler. J\cho que é um conceito errôneo. É evidente que nos textos em inglês
e em francês não aparece. É possível que nas traduções equivocadas de alguns
textos em espanhol tenha introduzido-se de contrabando, em a/gull-S textos de Ro­
bert Damton talvez? Mas de qü_alquer forma acho um con�eit.a_._errado.
ROGER- CHARTIER: Sim, pÓrque como eu o entendo;··dó. pÜÍlto de vista de
' _Y
dar às pessoas o costUme dé ler e de fazer da leitura uma prática freqüente -
o que é um sentido um tanto banal da idéia de "hábÍto de leitura" - seria o
resultado de um programa, de uma transformação cultural. Mas, por outro
lado, o hábito, nascrefer:ênç!as�que
. eu utilizo, tem um sentido mais particular,
que é o de uma ni�-��iorização; _'·não a de uma prática, mas sim interiorização
dentro do indivíduo do mUndo social e de sua posição no mundo social, que
se expressa por meio de suas maneiras de classificar, falar e atuar. É o concei­
to que Pierre Bourdieu utiliza freqüentemente e é central na obra de Nobert
Elias: o hábito social é o que um grupo humano compartilha em termos de
um sistenl8. de .representações que fundamenta suas maneiras de classificar,
de se "Slhiãi no mundo social, de atuar. Na obra de Elias, é um conceito que
tem STta própria dinâmica pois afirma que o mundo social pode mudar en-
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E H I STÓRIA 141
1 40

pode perma­
quanto que o hábito social de um grupo ou de uma comunidade nos Países Baixos, Inglaterra e Nova Inglaterra) distribuíram-se entre dois
de defasa gem entre protestantismos fortemente diferenciados. Por um lado, no luteranismo, a
necer estável. Mas também significa que há uma espécie
e as novas condiç ões. Bz'blia é a leitura de cada um, a leitura de cada ftel da Igreja na tradição do
a interiorização de uma situação perdida, desaparecida,
os novos Estado s da luteranismo que na França se chama Réformée, que significa calvinista, e fora
Quanto a esta defasagem, por exemplo, Elias aponta
), onde o hábito social se da França, nas espiritualidades puritana ou pietista. Por outro o luteranismo
África (recordemos que ensinou 2 anos em Ghana
fixou em nível da família ou da etnia quando o Estado já é um Estado nacio­ mantém a Bíblia, depois das primeiras traduções, como um liVI� dos pasto��$�,'\
nal do tipo moderno. Existe uma discrepância entre o hábito social
das pesso­ dos candidatos a preceptor da Igreja; mas com uma mediação:· Seja ·a do célte-·
olvidas no nível de uma comun idade quista ou a do pastor, que deve impedir as interpretações selvagens, perigosas
as e as interdependências objetivas desenv
defasa gens ou tensõe s.l Isto poderi a ser óu subversivas. Desta maneira, de forma um tanto exagerada, há muito mais
maior. o que cria toda uma série de
visto �a obra de Eiwin Panofsky, que também utilizav a a expres são habit for­ semelhanças entre catolicismo e luteranismo do que entre estes e as correntes
livro, no qual compa ra a arquite tura gótica com o da Reforma, como o calvinismo, o puritanismo e o pietismo. As coisas mudam
ming forces. Em seu famoso
mesma s formas , as mesma s classifi c ações e um � quando, __ com a s�gunda fteforma, na Alemanha luterana a Brôlia se transfor­
pensamento escolástico (as � dos arqm­
mesma organização) , remete essas teologi as ao lugar de formaç ao ma no�:vro de cada"'um, de cada momento, na leitura individual, familiar e
2 Assim, vemos eclesiástiCa, iudo ao mesmo tempo, e com um incremento considerável de
tetos e escolásticos: as escolas das catedrais ou os monastérios.
o, c�assifica­ sua publicação em língua vernácula a partir da década de 1680.3
que o processo de iD:�-�!�.o-�izaç�o de um certO tipo de representaçã
s particu lares. O segundo matiz é que, embora a B{blia em língua vernácula não seja
ção ou apreciação, se expr��-S8:. mais tard� em práticas e campo
escolás tico, que é dada sem restrições dentro da religião católica, havia, sim, possibilidades de
Por último, o conceitO. h"abitus vé:In do próprio pensamento
·

deste concei to, enten­ lê-la em língua vulgar quando se pedia uma autorização ao bispo ou ao inqui­
um termo medieval eu�àpeU. Há toda uma genealogia
exemplo ler, sidor (dependendo dos países); e há traduções da Bz'blia em língua vulgar
dido não na maneirã. bá.nal de ter o costume de fazer algo, por
que suport am as formas de dentro do mundo católico depois e �ntes da Reforma, depois e antes de Gu­
mas como interiorização de esquemas matrizes
atuação, de pensamerito ·ou de classificaçao : · temberg. Mas, há algo que fica como verdade� a B(blia não era de uso imedi­
ato nem un �ersal no mundo católico, embora não se deva esquecer que há
possibilidad�s de leitura, pois há traduções e uma legislação eclesiástica per­
A BÍBLIA E AS IMAGENS: missiva.4
PROTESTANTI SMO E CATOLICISMO O terceiro matiz tem a ver com o tema das imagens. Durante um século
(a partir de 1517) Lutero e o luteranismo utilizaram a imagem para a propa­
entre o mundo da ganda luterana, e a utilizaram de maneira surpreendente, pois as imagens
CARLos AGUIRRE: Creio que cabe mencionar a grande diferença

sa repercute signifi­ difundidas pertenceram à cultllr9- folclórica, carnavalesca, que serviu para
cultura católica e o da Reforma, no qual uma divisão religio

f
oS totalmente dife­ atacar e denunciar Rom�..e-a Igrej católica graças ao repertório de uma cul­
cativamente na leitura. A relação com a Bíblia propõe víncul

f
da cultura católica tura como a descrita pot. Mijail Baj�í em seu livro sobre Rabelais: cultura do
rentes com o livro. Comumente, se afirma que o mundo
estabelece um nexo mais estreito, de hábito, com a imagem
, e que resulta margi­ corpo, do grotesco, do arnaval.5 �or outro lado, temos a utilização da ima­
ante, que teria uma gem para explicar e dar 'a enten�r
-
a nova fé e a nova Igreja, a nova definição
nal em relação à leitura, ao contrário do mundo protest '----
- - --

aproximação mais próxima da leitura e uma maior distânc


ia frente às ima�ens. ao mesmo tempo teológica e�êscolástica do luteranismo. Aqui também encon-
Creio que o México, dada nossa tradição ibero-americana,
pode compartrlhar tramos uma diferença radical com a ausência e, freqüentemente, destruição
a das imagens, se você das imagens nas correntes do calvinismo, o puritanismo e o pietismo.
estes critérios. Poderíamos ligar este ponto com o problem
quiser.
Pelo contrário, parece-me que o catolicismo é uma religião que desde a
CHARTIER:Podemos, sim, e estou de acordo com sua proposta de um Idade Média, e depois da Reforma, utiliza as imagens como Bíblia dos pobres,
es . o lute­ como se dizia a propósito das catedrais. Mas em diversos meios católicos se
modo geral, mas com matizes. Como ressaltei em trabalh?� recent ,
e o ·pietismo (na Suíça, fazem esforços para se distanciar das imagens. Na tradição francesa jansenis-
ranismo e as tradições do calvinismo, o puritanismo

- -- --
--------.--�- ·-------� --·-·-·-�-- - ---
ROGER CHARTlER CULTURA ESCRITA, LITE RATURA E H I STÓRIA 1 43
1 42

ta observa-se um distanciamento notável em relação a toda forma de repre­ tualizado em um livro, em um escrito, que, embora tenha ocorrido realmente,
sentação visível do sagrado e, curiosamente, não é totalmente certo que a atuou conforme uma lógica prática que não é a da construção discursiva. Este
pedagogia jesuítica estivesse centrada na imagem. Por exemplo, não é claro é um �rimeiro ponto fundamental para distinguir entre uma leitura que se
se Ignacio de Loyola acreditava possível ilustrar os Exercícios espirituais. Nes­ apropna de textos e as outras formas de apropriações a partir de outros su­
ta corrente mística, ou que se aproxima da mística, há uma desmaterialização portes, que não são decíframentos discursivos.6
da fé, da mesma maneira que, na vida de Teresa de Jesus, a oração deve Depois encaramos a questão importante, embora rião seja especialista
abandonar pouco a pouco o livro como suporte para ser unicamente mental e no tema, da relação entre a dimensão propriamente pictórica da escrita e sua
ter, no final, um encontro com o sagrado sem materialidade alguma corno ���ensão como mediadora da palavra viva, do som; quer dizer, a dimensão
intermediária, incluindo os livros. Da mesma maneira, os Exercícios espiri­ propriamente fonológica da escrita em relação à sua dimensão representati­
tuais de Ignacio de Loyola devem ir desde as representações que tornem pos­ va. Assim, vejo uma nova reavaliação.? Citei Condorcet várias vezes. Nele,
sível essa prática da devoção até um exercício puramente mental. Assim, po­ como em Gianbattista Vico, encontramos a idéia de uma história da escrita
dem entrecruzar-se os usos das imagens na Reforma como arma na luta contra que define a invenção do alfabeto como a invenção essencial porque com ele
a Igreja romana, e, em algumas tradições católicas, os esforços por desvincu­ a escrita se distancia de toda forma de representação das coisas, como os
lar o encontro com o sagrado de qualquer forma material, entre elas as ima­ hieróglifos ou as escritas pictográficas, além de que é um meio pelo qual a
gens ou representações iconográficas. palavra pode ser escrita e transmitida. .
Contra esta visão tradicional da história da escrita no Ocidente, há ago­
ra uma dupla reavaliação. Por um lado, considera-se a função fônica das es­
O TEXTO COMO IMAGEM
critas de tipo simbólico ou "diretamente" representativas das coisas; as novas
investigações sobre a escrita mesopotâmica, com as primeiras formas de es­
leitura cr!ta, restabeleceram a função fônic� çlas escritas ideográficas. Por outro, po­
AGUIRRE: A leitura, como leitura de sinais, é em um certo sentido também
demos reavaliar a dimensão propriamente material da escrita alfabética, o
de imagens...
que alguns autores do século XIX trabalharam, como Stéphane Mallarmé. A
CHARTIER: Você sugere um tema imenso porque ao tratar da imagem e
dis­ distribuição �as letras na folha de papel e a dimensão propriamente material
do texto, em uma primeira aproximação, deve-se evitar considerar como atribuída às letras fizeram do alfabeto não unicamente um suporte que deve
"ler" uma imagem pode ser entend ida como
curso as imagens. A idéia de se anular no sentido do texto que o contém, ou que só deve indicar uma
metá,fora, mas sem esquecer que não é uma leitura, mas uma "leitura" organi­ maneira da fala, como deve ter também um sentido na forma das letras e em
ê:s
zada ou pensada conforme os mesmos procedimentos e as mesma�_técnic
da leitura de um teXto, mas --com um objeto distinto. Durant e os anos 60 e 70, sua distrib�ão. A partir disto, poderíamos ver como os anúncios publicitári­
as riife­ os do século XIX ilustram este jogo com a dimensão propriamente material da
me parece, abusou-Se do tercl..o ler ou do termo leitura, pois segundo escrita alfabética, o que produz um efeito de tipo simbólico ao mesmo tempo
des,
rências desses anos se "liam" todas as coisas: paisagens, imagens, socieda que contém um texto. Seria o procedimento inverso das escritas simbólicas
a idéia funda­
etc. Para nos entendermos, pode se utilizar o termo, mas com que podem servir de suporte para a palavra, pois agora há uma tendênci�
discursi­
mental de que a leitura de um texto pertence ao mundo das práticas contra Condorcet e Vico, e surge um diagnóstico muito diferente do deles
de uma paisage m
vas e não é igual à "leitura" de uma imagem, de um rito ou pois há uma espécie de superioridade atribuída às escritas de tipo simbólic�
de outra naturez a.
pois, realmente, aqui as técnicas e os procedimentos são em virtude de que são imagens (têm um efeito como imagem) e ao mesmo
a cultura, devemo s
Parece-me assim que, contra a "textualização" de toda tempo um suporte fônico. Línguas como as da Mesopotâmia e Japão têm o
que se exer<7e fr�.nte a
manter a especificidade da leitura como uma prática . .
que se chama chaves de ordem lógica. Estas escritas são ao mesmo t�mpo
textos e analiSar suas próprias formas. Em relaçao â outras fornias de leitura, imagens, sinais fonéticos e elementos de classificação lógica.
m,
devemos analisar como se desenvolve a prática de apropriação da paisage Pelo contrário, o alfabeto é percebido como uma redução, como uma
na discuss ão com Robert
do texto ou do ritual. Abordo um tema presente perda desta dupla dimensão, a de tipo lógico e a de tipo simbólico, para se
tex-
Darnton: o perigo da textualização de urna matança de gatos, um fato
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITE RATURA E HISTÓRIA 1 45
1 44


E agora, qual é a realidade? A realidade é uma tela que, como o livro, contém
o paradoxal dizer que haveria uma
reduzir a um veículo de sons. É um tant textos. De qualquer forma, a percepção segundo a qual os textos são também
iria de encontro ao d��c.urs? t�� icio­
espécie de perda com o alfabeto, o que imagens, no sentido de que têm uma forma específica, impôs a idéia de que a
mos frente a uma(_reavahaçao, mas
nal e da história ocidental. Parece que esta f��a .�o.s text�s ter:n irn.:p?r�ânç�g P.ê3:�él:. ��� de�ifrªw_e.nto�para sua ·intelegibiM
os estudos particulares, precisos,
tudo o que disse deve ser verificado com
simbólicas, hieroglíficas ou pict�- hdade e sua compreensão. Por exemplo, na conferência intitulada "O livro"
eruditos, que se realizaram sobre as escritas �e �a dt­ Borges diz: "Eu pensei, uma vez, escrever uma história do livro não do pont�
:1 , ricas. De qualquer mod
o, há um sonho, uma nostalgia, uma ;a�da de vista físico. Os livros não me interessam fisicamente (principalmente os
do alfab eto. E Mallarm e nao e o umco
. mensão material oculta ou perdida, livros dos bibliófilos, que costumam ser desmesurados), mas as diversas valoM
ou brincar com as letras ou a disposi­
que em fins do século XIX ou no XX tent rações que o livro recebeu".
não é do próprio texto, �as que �em
ção do texto para produzir um efeito que C�nsidero importante a segunda parte da frase porque as valorações do
em espe ctador de uma escnta que e ao .
seu impacto no leitor, transformado hvro sao outra forma das transformações culturais. Mas há nesta passagem
mesmo tempo imagem. exatamente a consciência espontânea do escritor que não pensa nas dimenM
laume Apollinaire, não?
ANTONIO SABoRIT: Há o caso de Guil sões fís!cas · do livro como pertencentes à produção de sentido, pois há uma
CHARTIER: Exatamente, pode
mos ver como em seus Calligrammes se reM
rial que desa�arec�u t�l;ez depois anulaçao de toda forma física ao existir a supremacia do texto, que vem direM
conquista algo da dimensão formal e mate tamente da inspiração. Tudo o que se refere aos livros como objeto material
tista sobre o sentido stmbohco das leM
J
do Renascimento: a reflexão renascen pertence a esta ciência ou a esta prática, denunciada desde o século XVII que
dos hieróglifos na tradição ocidental,
tras e a relação com as interpretações é a �ibliofilia. Ou, por outro lado, pertence ao mundo vulgar dos ob etos
que pode expressar um macrocosmo
ou a idéia da letra como um microcosmo .
tecmcos: as prensas, as oficinas, etc. Aqui temos uma citação muito interes­
se perdeu mais tarde em favor da let:a
por meio de suas proporções. Thdo isso sante porque abre duas dimensões que temos seguido: escrever uma história
a se anular no processo de transmtsM
alfabética como suporte neutro que devi do livro e escrever u�a história das .valoraçÕes do livro, mas com outro tipo
são do sentido. is da fazer de rejeição do próprio prOcesso de produção do texto em sua forma material.
interesse pelo alfabeto depo
SABORIT: EmApollinaire aparece este Por esta razão, eu dizia que frente,.à oposição tela/imagens, livros/texM
orme confessou, um
0 catálogo do Infern
o na Biblioteca Nacional de Paris. Conf ��s, acontecJam pelo menos:-du(l_� coisa.s díVers·ás: por um lado se considera
emprega
repensar a poesia nos termos que ele
\J
par de títulos do século XVI o fez que o texto tem uma forma �ateriat que lhe dá forma de idtagem e, por
grado, m�ito nostálgico...
nos Calligrammes, que é muito retró en o de refle ?xa sobr a
_
outro, que a r�cepção dos textos se t�ansformou quando já não é leitura de
E saudoso do Renascimento. E o mom � .
CHARTIER:
dtsp _ c:_ao
ostç um livro, mas leitura frente a uma telà.B Tudo muda desta maneira nas disM
s das letras alfabettcas e da
própria matéria e os sentidos simbólico cussões abef't!tls pela teoria do livro de Mc:Luhan. Se pensamos no realmente
visual de um texto. novo desta forma de reprodução, inSCfiÇãõ' e recepção dos textos, podemos
ver que há três coisas. A primeira é que se pode escrever no texto: antes, com
o livro impresso, era possível escrever nas margens do texto, nos espaços em
FRENTE À TELA branco da página, uma escrita que se insinuava, mas que não podia modificar
itos na o enunciado do texto nem apagáMlo, que não modificava o que vinha de uma
Jesús .ANAYA RosrQUE: Talvez aqu
i devamos abordar alguns temas inscr
escri:a �ransformada em composição tipográfica; agora, com a representação
história do que vem.. . eletromca do texto, existe a possibilidade de submeter o texto recebido às
CHARTIER: Sim. . . decisões próprias do leitor para cortar, deslocar, mudar a ordem, introduzir
passado, este jogo entre a letra e a
GoLDIN: Do que vem? E também do sua própria escrita, etc. PodeMse então escrever no texto ou reescrevêMlo.
imagem na educação ... .
,

O segundo ponto seria o que eu chamo a possibilidade de escrever na


leva a re�sar a fundo\,�sa opos1çao, que
. _

CHARTIER: Sim, porque isso


nos
biblioteca. Permitam-me explicar. Até agora, existe um processo que analisa­
vem de uma leitura talvez um pouc o rápida de McLuhan, qúe opunha o livro
mos e que transforma o texto de um escritor, qualquer que seja, em um objeto
era a tela da televisão, do cinema, etc.
com texto à tela com imagens, mas que
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 147
146

. ios. Quan­
impresso por meio das de��sões editoriais e-do trabalho dos operár A FORMA E O SENTIDO
mercad oria>ne cessita- se por sua vez de
do se transforma este,objeto em uma
os livreiro s, as bibliote cas, os divulga dores, Você conclui seu ensaio Do Códice à tela falando de um risco muito
outros intermediários, que são ANAYA:
compra do, lido ou empres tado surge final­ importante: que esta biblioteca, este armazém do patrimônio universal, não con­
etc. E deste objeto transmitido,
corrent es supõem tempo, pois há necessa ria­ serve os textos com suas referências.
mente a leitura do leitor. Essas
gica entre o momen to da escrita e o momen to CHARTIER: Exatamente. Há muitos riscos. Por exemplo, o de dar uma
mente uma defasagem cronoló
igualm ente uma série de mediaç ões e de agente s que dimensão inédita, original, nova, ao tema que identificamos na discussão em
da leitura, e supõem
, por­
contribuem, cada um, para a produção de sentido, incluindo o livreiro torno do temor do excesso textual: um mundo textual que não possa ser ma­
sentido.
que a maneira como coloca o livro em sua livraria também lhe dá um nejado, que esmague o leitor mais do que o ajude, um mundo proliferante e
simulta ­ incontrolável. Aqui, os bancos de dados e os terminais desta biblioteca uni­
, Com a transmissão eletrônica, tudo isto pode-se reduzir a uma
para ativida ­ versal, ao menos virtual, seriam uma figura particularmente extrema deste
neidade. ,C�mo podemos ver nas redes informáticas utilizadas
intercâ mbio entre excesso de textos. O segundo risco poderia ser quàlificado como político e
des que tradicionalmente pertenciam à correspondência, o
pudesse econômico: o controle exercido sobre a própria constituição do repertório
os indivíduos é imediato. E é possível pensar que a produção livresca
poderi a ser o próprio textual, em sua forma eletrônica, e o controle sobre os meios de difusão,
seguir o mesmo caminho e que o momento da escrita
s. Desta maneir a pode­ como mostrou a discussão em torno das estradas da informação, a própria
momento da leitura: sem mediações nem intermediário
me refiro ao conjun to dos textos constituição dos bancos de dados, a língua que se fala no mundo da biblioteca
se escrever na biblioteca; e por biblioteca
amente decisiv a, e introdu za virtual. Thdo isso tem uma dimensão política e econômica imediata que su­
acumulados. Esta segunda diferença é absolut
em um mundo que supunh a a defa­ põe escolhas, negociações, resistências.
si�ultaneidade e a identidade das tarefas
ediário. Existe um terceiro risco, que se deduz diretamente de todos os nossos
sagem cronológica e .� multiplicação ou multiplicidade de interm
transfo rmação fundam ental: a possibi lidade da intercâmbios, se supomos que todos, os textos que existem nos arquivos ou
o terceiro ponto é outra
endo por isto que, se cada um dos textos escritos nas bibliotecas se transformaram em textos eletrônicos. Por um lado, isso
biblioteca universal entend
ônio textua l é transfo rmado em um texto eletrôn ico, permite o ac� so universal ao patrimônio textual, e não vejo nenhuma razão
ou impressos do patrim
não se possa propor uma univer sal dispon ibilidad e do para nos lam�ntarmos por esta disponibilidade; desta maneira, meu discurso
não há razão para que
patrimônio textual por meio da transmissão eletrônica. A b!bliote�
a, que abran­ não é um discurso da saudade, da melancolia pela leitura perdida. Por outro
escritos e todos os novos textos que sao escnto s, se trans­ ladO, o risco consistiria em esquecer o mundo em que estes textos foram
ge todos os textos
fundam ental entre escritos, comunicados, lidos e que, deste modo, se perderia a compreensão do
forma em uma realidade virtual devido a que a diferença
por comple to com _esta mundo do livro em sua forma material. Por isso digo que, ao mesmo tempo
0 lugar do texto e o lugar do leitor pode reduzir-se
não há um "lugar" ' do que devem-se explorar e se controlar as novas possibilidades procuradas pela
conversão eletrônica de todo o patrimônio textual. Já
a esse patrim ônio reprodução eletrônica dos textos, devem-se manter lugares em que a inteligi­
texto: cada leitor, em seu próprio lugar, pode ter acesso
ue que bilidade da cultura do códice, do manuscrito ou do impresso seja sempre
textual universal. São os três pontos essenciais, sem que isso signifiq
de um ponto de vista teóri­ acessível, compreensível, como um mundo textual que ainda é nosso majori­
são as realidades do mundo contemporâneo, mas
no texto, escrev er diretam en­ t3riamente. É tarefa e missão das biblio�ecas, mas não apenas das bibliotecas,
co são as três grandes transformações: es.crever
bibliot eca univer sal. manter a inteligibilidade da cultura textual, livresca e impressa tal como a
te na biblioteca e, por último, constituir uma
conhecemos, pois sempre se corre o risco entre os bibliotecários de transladar
um texto de um suporte para outro, considerando que se cria assim uma
equivalência, enquanto que o importante em um dado momento é manter,
conservar ou dar acesso ao primeiro suporte.
ROGER CHARTIER CULTURA --��-Ç�!TA, LITERATURA E HISTÓRIA 1 49


1 48

. /é amos de sangue: Há uma dimensão um tanto (�séptic�: quanto ao curso que


Há�·urnq)lusão que deve ser dissipada, a .!!_�sã_o de qu� ':1:�
�exto é_ o
. vai"d.o rolo à tela em que seria conveniente nos det:er.��:..__../
. Podem os pensa r no exem plo da passa­
� mesmo texto êln.b'Ora mude de fqrma e muito CHARTIER: Muitas coisas mudam e continuarão mudando, mas com uma
p temos uma relaçã o muito partic ular
·ge;d-;--rôiõ��-êó.dlCe·�· eJiso que üidade defasagem entre as mentalidades comuns, as representações comuns e as
üidad e. Lemo s os textos da Antig
anacrônica coiü õs textos da Antig n?v�s estruturas. Temos o mesmo fenômeno para os primeiros tempos do
�os esponta­
por meio dos critérios impostos pela cultura do códice, e _pens� 4o 4.�pois do cod1ce: a representação do livro se mantinha em forma de rolo. Além disso,
os
neamente que os autores da Antigüidade são autores como com a estrutura absolutamente inaudita da disposição do texto na tela existe
escrev eram· ú.tri texto para sua fixaçã o, ainda que
século XVIII. Pensamos que s:mpre o es�orço p�r� i�J2�E �os��� -qi��ri?s e es�n�turas; pertei}C,;�t�;-:ào,
e a essa circunstân­
grande parte da filosofia ou da literatura não respondess -
hVtO !�pressa, sobre o texto eletrônico: a idéia da paginação, �as notas ao pé ._,
do códice quan­
. cia1 e lemos o texto como estruturas que vêm da imprensa- ou d� p_agma, etc., elementos que são imposições da antiga formà·- .d6 teXto ·em
do na_ realidade foram publicados para uma circulação
e� uma organização
do que sentir a uI11._a estrutura que permitiria mudá-là tOtalmente, seffi pensar"ll� f�i�Ç"ã�---��­
li�éSca coffipletamente diferente. Assim, não podemos mais �s t�xto�Aa _ texto e notas, sem utilizar a terminOlogia do livro impresso. Desta manei­
tre
entos, e
perda dos rolos porque, como o sabemos, temos só fragm
!) , . de_�o��sti�ar uma nova pr.ofissão, uma nov� f�rma de livro, uma nova forma
. -�a, há em todo momento uma espécie de vontade, consciente ou inconsciente,
COI_t2�-�?-�.i����fl1Uͭ
Antigüiçl.ade.foram- quase sempre salvados �- �ran_s_��-tidos
iéééssariamente um
tos séculos depois de ·sua ·eséritã.. PareCe-rri·e que" 8.qui hã."I , / áe suporte do texto, a partir do que era tradtcmnalmente conhecido e mane­
anacronismo que se pfoduz porque perdemos, em grand e parte, a inteligibili­ __

ção dos textos , de sua inscrição e jado com familiaridade. Estas defasagens são um tema importante. Em rela­
dade da cultura do rolo em termos da produ ção à tela como suporte do text? ou de multimídia, vemos esta domestiCãÇao
o mesm o com a cultur a do códice no
1 n'· de sua leitura. Não deve nos acontecer pO� meio das categorias e critéi'ios· qüe ·runa!l.. s�O ..os do _livro �mpresso.
possib ilidad e, se o desej amos, mas com
j' r,: tempo da tela. Desta vez temos outra _ Aqm. encontraríamos um problema mais geral, o da dificuldade, em uma
pr�!)ti gioso s autor es ou às mais humi ldes
essa advertência dirigida aos mais certa sociedade, de perceber a inovação como inovaçã9 _
instituições: a forma coiitribui para o sentid O� - e, com temor tentar
do anterior, domesticá-la por meio do que se conlíe�eu. Temos ��a razã� p�ra pen�ar que
Agora pOaemO·�-periSâr.também sobre o que muda, a partir para nós existe essa vontade de controle e domesticação, que evita pensar que
da composição da es­
no próprio conceito de literatura. Difunde-se a prática há algo com�etamente inaudito na nova forma do texto. Por exemplo, para
muitas coisas mu­
crita dos textos na tela, onde os l�!�ores vão recebê-los, e retomar o problema do corpo e do texto, vemos uma dupla mediação. Uma
ente arruinadas,
dam. Há disciplinas qu� nesta-s condições se acham completam um depois do mediação que corresponde à escrita, porque o traçado como escrita não vem
os,
como por exemplo a"Crítica genética, q\:r.e estuda os esboç diretamente da mão, mas pela mediação do teclado, o que produz algo que
a. Sobre a tela,
outro, e as pegadas deixadas pelo. próprio processo da escrit não é formado pela própria mão, mas algo novo que só a máquina de escrever
, com consciência da
um texto apaga o texto anterior, a menos que o autor preparou. Com a leitura acontece o mesmo; a relação da leitura frente à tela
importância de sua escrita, salve seus arquivos. s'!prime toda presença do objeto impresso nas .mãos do leitor. Tanto a distân-
cia estabelecida e as mudanças corporais da relação com o escrito me pare­
ELETRÔNICA cem indicar mudanças profundas, se bem que tentamos limitá-las pot\meio '"',
O TEXTO NA IDAD E DA REPR ESENTAÇÃO . \
?� no�sa terminologia ou de noss<_:>s costumeSí É uiTftema pata refletir�)Mais
bel, creio que se 1�trep1damente, parece-me necessário entende:i;·para--os anQ$ ou _décadas por
GowiN: Lembro agora um pequeno ensaio de Michelle Rever vn; essa cultura da representação eletrônica dos textos. Com a idéia de ure­
reflexão sobre uma experiência em
intitula Apagar, riscar, matar. Ela faz uma
presentação do texto", vemos de imediato uma forma de texto que muda em
as crianç as expres sam em sua escrita
suas oficinas de literatura, onde
\ \ uma de entre e das crianç as expressavam su�__:_:;��utura e em sua_disposição. É Geoffrey Numberg;·"Eúll.um ensaio inuito
' / uma elevada quantidade de violência: 50 60%
tem de físico, que crítico pllblicadó na revista Representations, quem fala de r�p_resentação. ele.�

c:
__
relaciona a escrita no que
seus desejos e sua sede de matar. Ela _gQ.niç_ª,9gsJe�tos....-'De modo que não acabamos de perisa·r os efeitos próprios
do uma manch a, enqua nto que na escrita na _

deixa marcas, e é apagada deixan olucionários deste novo tipo de representação textual. : ,
a violência dos vídeo- games : nunca nos man-
tela as marcas são apagadas, como

- --- ----------- -------- -


ROGER CHARTlER CULTURA ESCRITA, LlTERATU�A E HISTÓRIA 151
1 50

Em grande parte não acabamos de pensar porque apenas começa­


GowiN: uma pesquisa com 1 0 ou 1 2 "grandes leitores" que deviam registrar seus usos, r
mos a vivê-los... suas novas práticas, o_ _que faziam com este tipo de leitura. Os resultados não· .'-�­
.

E começamos a fazê-lo com passos diferentes, que é a outra


CHARTIER: fár8jifl)libliàidoS,·· mas�{úma experlêriC'ia qtié Poélé ser o começo para uma
face do assunto. No tema desta discussão aumentam as distâncias mesmo reflexão mais documentada. Em segundo lugar, a transformação dos postos
quando a técnica poderia unificar o mundo social de �� país ou d� mun� o de trabalho nas empresas, com a introdução do computador, deve ser estuda­
inteiro. Mas os passos são muito distintos, como os mve1s de uso sao rnmto da, da mesma maneira como há estudos sobre o que mudou com a máquina
diferentes conforme as comunidades. de escrever e como novos ofícios são definidos e desaparecem, ou como se
estabelece uma nova hierarquia das tarefas. Tudo isto se vincula a uma histÓ·
rlà social do trabalho, que é outro teriíã- importante se pensa no efeito do
trabalho informal que pode se fazer nos países com salários menores, em
ESCREVER E LER N O SÉCULO XXI
I relação com o desaparecimento do trabalho nos países com níveis de salários

?
que o uso do computador modifica a form
a de mais altos. Por último, temos os usos do correio eletrônico. Posso citar um
GowiN: Tenho a impressão de
o, aforma de_v e nsa � L.embro outr o texto estudo publicado em um livro coletivo organizado por Daniel Fabvre, Écritu·
redação dos textos e, em um certo senti . o ntmo em que escreve. res ordinaires, que é a análise do que aconteceu com o correio eletrônico em
fala de como a maq uina .determ ma
de Cortázar no qual um laboratório onde norte-americanos e franceses entram em conflito porque
to, pois cr:io q ue o uso do computador
Agora também enfrentamos algo distin _ os norte·americanos recebem muitos textos de todas as redes e os franceses o
as de organtzaçao textual...
acarretará uma modificação·nas form , em ge·
tema experimentam como unia 'ocUpação ilegítima da merriótia eletrônica. O se­
- .,. Faltam estudos. 'Há muitos discursos sobre esse
CHARTIER:
ico sob re as p ssibil�da� es abertas �u, gundo elemento de oposição é como se deve escrever uma carta eletrônica.
ral inspirados por um entusiasmo utóp _ � �
çao perdtda. Sao d1scursos muno Devem·se respeitar as formas clássicas das boas maneiras epistolar, com uma
ainda, pela nostalgia que lamenta uma s1tua
os dos : ditare�, que �e �m�dron· fórmula de abertura, com as fórmula� finais, com uma data, a correção das
ideológicos. Por outro lado, temos os...di:curs
relaçao à ed1ça� o class1ca, ou os frases? Ou pode·se escrever como Uma nota, sem respeitar nenhuma regra
tam frente ao mundo da edição eletromca em
da informação. Mas, quant� a epistolar? Por meio de ambos os conflitos se traduzia, neste laboratório, uma
discursos, como já vimos, sobre as infovias
o sobre o que acontece na escnta, tensão com Óutros motivos entre os norte·americanos, que tinham bolsa e um
estudos de tipo..antropológico ou sociológic
na leitura, etc., falta mUito. Os discursos mais globais impediram em um cer­ estatuto mais ou menos estável diante dos estudantes de pós-graduação fran­
. que fazemos para os séculos XVII ou ceses, e estes, que temiam por seu futuro e que pensavam estar em uma
to sentido os estudos de càSo, do tipo dos rva­ situação de inferioridade. A luta de classes acadêmica se traduziu em uma
XVIII com a cultura impr
essa. Temos aqui um campo imenso para .obse
única cond ição para que saiamos da ocupação da--memória e em um conflito e educação epistolar.
ções de tipo socioantropológico, que é a SABORJT: Não sei se na Antigüidade se tratava de estudar o futuro com o
repetição dos discursos globais. . , .
nça, afinco com que nós o fazemos. Um dos perigos apontados é a ideologização, ou
ta, que e a veloctdade da muda
_ . ,

ANAYA: Há talvez uma dimensao medt


a imprensa na metade do século XV e sua utopização nostálgica. Penso por exemplo, na questão da oralidade e o texto, na
em um olhar retrospectivo, inventa-se do
300 anos, quer dizer, há áreas do mun

influência do telefone e de muitas outras coisas que modificaram nosso mundo
difusão no mundo levou em torno de fins do século XX , da cultura escrita: a maneira como a representação eletrônica dos textos nos
is de sua inven ção. Em
o de a imprensa chegou 300 anos depo
anhias como Sony anunctam o ltvro ele· impacta, assim como a velocidade com que cotidianamente se movem todos estes
quase seis séculos depois, grandes comp
em 1 990, mas em 1992 a forma ap�e· recursos e ferramentas na escrita, na leitura ou na reprodução� e a impossibili­
trônico e 0 lançam no mercado mundial dade de nos separar deste processo e a necessidade de vivê·lo também velozmen­
Esta velocidade transforma os padroes
sentada pela Sony já perdeu o sentido. te. Penso que esses efeitos nos obrigam a repensar cada um dos processos de
inédita, se é que já não é. , .
das coisas, e a história será dimensão Penso em vanas
Sim, mas há também e�tudos particulares.
modo distanciado. Separar·nos da representação e convertê-la em um agente
CHARTIER:
as transformações da escrita �om intelectualmente ativo. A cada dia serão mais pontuais as perguntas que nos
coisas. Por exemplo, para entender melhor
dor, a Biblioteca da França orgamzou faremos sobre os editores, sobre a figura do editor e também sobre a figura deste
a leitura e as da leitura com o computa
1 52 ROGER CHARTIER CULTU RA ESCRIT A, LITERA TURA E HISTÓR
IA
1 53

agente parecido · com o editor, anterior ao surgimento do livro, o copista, que rompe o texto com seus erros, falhas e em certos casos
falsificações; e por
fazia às vezes do que hoje conhecemos como editor. Penso no trabalho de Grafton outro, o autor, que, com sua vontade de controle, queria
fixar a letra e 0
a propósito das cópias, dos críticos e dos impostores em The Forgers and Critics, sentido ao mesmo tempo. Desta maneira, Petrarca é talvez
a figura fundadora
no trabalho do copista de manuscritos que, além de autenticar um texto e de porque ele foi seu próprio copista; produziu a cópia autor
izada de seus textos,
manter sua vigência ao longo dos séculos, fazia trabalhos de genealogia, de crí­ de modo que este "arquétipo" textual, sem corrupção, é
produto de sua pró­
tica literária, de hermenêutica, e chega (estou especulando) um momento de pria mão.
sofisticação que coincide com o surgimento da imprensa, em relação com a qual Com a imprensa, se dá uma nova forma desta tensão, opond
o um mun­
este personagem se desloca de maneira paulatina para os âmbitos da erudição, do com valores e âmbitos que pertencem à escrita, à literat
ura, ao trabalho
separados da imprensa e do livreiro editor, e se "inventa" um novo personagem: intelectual, e, por outro lado, um mundo diferente que
tem seus próprios
o editor de textos encarregado de preparar um manuscrito para sua publicação interesses práticos. São outros interesses, outras técnicas,
outros agentes e
em forma de livro imprensa. Pensemos nas mudanças sociais que incorpora ao talvez seja a partir de uma reflexão sobre o presente que
este problema da
mundo da literatura o mundo da circulação de impressos. O torvelinho tecnoló� escrita se mostra em seu sentido metafórico e, ao mesmo
tempo, como litera­
gico fez com que nos propuséssemos perguntas e nos defrontássemos com proble� tura em seu sentido mais material e corporal. Petrarca,
de maneira nova
mas de evidências interessantes, de árduas comprovações empíricas e de buscas alicerça sua obra de maneira nova, sua obra literária como
a escrita que cÍ.ev�
especulativas. ficar estabelecida, fixada, como prática corporal e mater -
ial. Entre ambos os -
CHARTIER: Ao pensar o que acontece no mundo contemporâneo, faz�se aspectos, n��� não cabia a distância. ·E vemos que a
. partir da composição
muito claro que tudo o que pensamos como estável, invariável ou universal se eletrônica eSta..âi:Stâricia tanibém se reduz, e o texto é difundido a partir da
fragmenta em uma descontinuidade ou em uma série de particularidades. escrita do autor, sem mediações, sem intermediários. Desta
maneira, pode­
Assim, tem lugar uma consciência ou autoconsciência da situ�ção singular de mos d!:?er. que o computador realiza o sonho de Petrarca.
cada um de nós em um presente que é também singular. E uma forma de ANAYA: Autor e leitor. ..
entender o trabalho intelectual, como o fazia Foucault, por exemplo, com sua CHARTIER: Exatamente... autor, copista e leitor...· Sem media
ções. E agora
idéia de fazer daquilo que se pensa automaticamente e o que se faz de manei� estaríamos vivendo de certa maneira um regresso a este
momento do autor­
ra quase obrigatória algo que está fissurado por urna inquietude, por uma copista-leito!Mas Petrarca pensava que qu<indo seu texto
chegasse ao leitor,
preocupação. eSte não poderia transformar de nenhuma maneira o texto
. No campo político ou social poderia levar a reavaliar e a criticar as for­ recebido. Mas
agora sabemos que o leitor do computador pode transformar
imediatamente
mas automáticas de pensar ou de atuar. Voltemos mais uma vez ao texto de o texto recebido por um autor.
Kant porque este começa com a idéia de que há pensamentos automáticos, ANAYA:�o começo tfnhamos traçado um esquema
histórico que iria do
regras impostas, maneiras de ver que vêm da tradição, e toda a definição do mais simples ao mais complexo e, com o surgimento do
computador, voltamos ao
Iluminismo é justamente fazer a crítica desta suposta universalidade e, por mais simples, a essa utopia "petrarquiana" que antece
de esse mundo que se foi
fim, libertar o indivíduo desses discursos ou atuações, pensados inconsciente­ diversificando com grande número de intermediários
...
mente sem alternativa possível. Se podemos contribuir cada um com seu tra� GOLDIN: O computador coincide desta maneira, ao menos
ao nível da edi­
balho para esta reflexão, para esse distanciamento, seria algo útil no momento ção, com o que se vislumbra como uma grande revolu
ção na indústria editorial,
presente e na discussão pública. as edições de pequenas tiragens.
Há em nosso mundo transformações que não compreendemos de todo, CHARTIER: Ou, então, utilizamos a composição informática,
publicando
mas que sentimos importante. Temos a invenção de novas gestões, de novas diretamente a partir da matriz eletrônica, que é outra forma
de voltar ao que
evidências, de novas fontes. O exemplo que você tomou, o do copista, e sua faziam os editores chineses, japoneses ou coreanos, ao utiliza
r as pranchas de
tensão com o autor, talvez tenha ocorrido de maneira muito viva no século XV. madeira gravadas e conservadas. As pranchas de madeira
conservadas eram
Por um lado, temos o copista que, quase necessária e automaticamente, cor- aptas para qualquer demanda, ou para um novo mercado,
e imprimiam-se
ROGER CHART!ER CULTURA ESCR ITA, LITERATURA E HISTÓRIA 1 55
1 54

dessa matriz conservada. A im­ as bipolares, que devem ser manejadas juntas. E o outro modelo contrasta a
novas cópias e exemplares do livro a partir
ue devia sempre compor e recom- distinção com a divulgação, categorias também manejadas juntas. Por um lado,
prensa de tipos móveis suprimiu isto porq é uma forma de entender a cultura escrita dentro da dimenão política e, por
s...
por textos a partir dos mesmos caractere " . outro, você estabelece estas duas jonnas para sua análise.
ANAYA: Mas a verdade é que atua lmen te vivemos umfenomeno mutto com-
dizer, por �emplo� uma m�ma CHARTIER: Pode-se transformar em categorias analíticas o que foi estabe­
plexo, que não se consegue entender bem. Quer _ lecido para o primeiro par mencionado disciplina e invenção. Os estudos que
de 1 _960, hoJe, na ultzma decada
geração que começou afazer livros na década consideraram a recepção como uma produção opõem, desta maneira, com
diferente.
do século XX, vive outra história completamente
GOLDIN: Simplesmente, tem-s e enorm es trans formaçqes nos últimos 1 O um léxico um tanto diferente, os termos de estratégia e tática, imposição e
,
apropriação. E uma maneira de transformar a visão imediata, segundo a qual
anos... impõe-se na mente do espectador ou do leitor, como sobre cera macia, a men­
d a União d e Editores,
CHARTIER: No caso do Congresso Internacional
Eco, por· exempl�, para que �a­ sagem, enquanto que sempre há distorção, resistência, desvios. A partir deste
convidou-se pessoas importantes, Umberto
parecer. E convtdaram tambem momento, tudo muda na análise da circulação do texto em relação a seus
rantissem aos editores que o livro não vai desa usos, interpretações e apropriações. O segundo par conceitual, distinção e
a profissão de editor será uma
Salman Rushdie para que lhes garantisse que
ão a aspect�s importantes: ?S divulgação, era antes uma maneira de situar uma forma de história cultural
profissão que sempre terá seu valor em relaç que nos separa dos modelos com relações entre as elites e o povo, vistos como
to e de expressao, e para que lhes
direitos humanos, a liberdade de pensamen
garantisse que o gênero com mais êxito na prod �ção e�itorial é o r�mance, e um processo de descenso social dos fenômenos culturais. Este processo é mais
a man exra, estao se prevenmdo para c�mplexo por diversas razões. Umas vinculam-se à divulgação mesma; impor
que este tampouco vai desaparecer. Dest algo é uma coisa, mas outra distinta é o processo da conquista cultural entre
imíd ia.
o futuro diante das ameaças da mult os que estavam excluídos de um modelo cultural. Por outro lado, deve-se
pensar este processo como se desloçasse o ponto de referência, razão pela
TIN ÇÃO E DIVULGAÇÃO qual deve se utilizar o termo distinção, que é quando uma conduta, uma prá­
DI SCIP LIN A E INV ENÇÃO, DIS ti:a, un: corpys de textos são específicos para marcar e designar uma distin­
inteira da histór�a do çao soctal. Quando este comportamento, prática ou corpus, se transforma em
GoLDIN: uma das coisas que a gente aprende quando se algo compartilhado, deve então se reinventar uma nova forma de distinção. O
do mundo da cultura escnta, e
livro, da edição e da leitura, é a complexidade processo de divulgação não carece de efeito no que· é divulgado: obriga os
econômico, e como uma muda�­
como .tem repercussões em nível político, social, meios que perderam suas formas tradicionais de singularização, na medida
inte�pretações distint� nos demars
ça em alguma coisa pode ter repercussões e em que se d.Tfundiram na sociedade, a inventar novas formas capazes de sin­
mteressa, a relaçao entre cultu­
níveis. Mas gostaria de voltar a um tema que me _ gularizar. Em cada exemplo, a idéia é introduzir uma dinâmica cultural onde
está presente de mw_tas formas.
ra escrita e poder. Em vários ensaios seus isto não se veja unicamente uma imposição estática, ou um processo unidirecio­
· a, é um d�s temas mawres de um
Vou ler um fragmento: "Na história da leitur nal. A partir desse momento, podem-se pensar, por meio de conceitos como
que afirma frente �o poder do
estudo da formação da cultura política moderna , disciplina e invenção, ou distinção e divulgação, interrelações dinâmicas e
la a comumdade crvrca sobre a
príncipe a legitimidade da crítica e que mocJ.e fenômenos que se desenvolvem de maneira dialética.
idua� "· Diz, er:z ��tro fragr:ze_nto
comunicação e a discussão das opiniõ�. indiv Estes dois modelos de compreensão pareceram-me capazes de transfor­
conv ertida em hrstona da edtçao e
deste mesmo ensaio: 'J\ história do livro, mar de certa forma a herança clássica da história sociocultural, que pensava
sobr e a forma como se transforma­
história da leitura, tem muito que ensinar em termos de hierarquia social e sobre a base de que uma prática ou um
as discrepdncias entre os grupos e as
ram as condições do exercício do poder; artefato era propriedade comum a uma classe, a um estado social. Acredito
estar em sociedade". Depois, em outro
classes, as práÚcas culturais, as formas de ser uma maneira de rejeitar os modelos pertinentes a uma visão um tanto
reens ão para dar co�t� dos texto�, dos
ensaio, você fala dos modelos de comp _ lma com a mve ­ rápida dos mass media, transportada para o passado e que, assim, quer dar
elo contr asta a dlSctp �
livros e de suas leituras. O primeiro mod toda a autoridade e a força de imposição à mensagem, esquecendo que sem-
consi dera estas duas categorias não como anta gônicas, mas como categon-
ção e

- ·----- ----- -- -�-·--�---


1 56 ROGER CHARTIER C U LTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 1 57

pre há a possibilidade de distância e de invenção. Podemos utilizar em todos é uma atitude moral, ética, religiosa e radicalmente crítica, mas sem nenhuM
os meus ensaios este duplo modelo de inteligibilidade, que se vincula com o n:a ��rticipaç�o�no esp�ço ?úblico. Mas, a partir desta leitura silenciosa, que
tema do poder. Em primeiro lugar, a disciplina está estabelecida para assegu­ stg�I:tca � sohdao, a pnva�Idade, podeMse reconstituir um novo espaço públiM
rar o poder e sua força, mas sempre se defronta com esta possibilidade de co, Ja o dissemos, que é dtretamente um desafio ao poder estatal. São duas
distância, se não de resistência. Mas também, uma forma de singularização figuras distintas desta independência ou autonomia da leitura do leitor silenM
do poder é como uma distinção social; a partir do momento em que se difun­ cioso� que se subtrai ou se distancia do mundo ao fabricar instrumentos crítiM
de, deve, cada vez mais, inventar novas formas de legitimação. Não há uma cos que se voltam contra o podet Esta segunda forma é abordada no livro de
legitimação dada de uma vez por todas, mas há urna invenção coiiiiil.Uãdás Reinhart Koselleck, publicado ao mesmo tempo que o de Jürgen Habermas
fótfuas que-mantêm na conSciência dos sujeitos a necessidade de sua subinis­ sobre a opinião pública.9 Ali Koselleck refere o mecanismo de que, quando os
são. Assirri, há uma fábricá do poder que passa por meio de todas as 'fOrmas Estados absolutistas definiram uma razão própria para justificar sua existênM
siffibólicas que deve multiplicar, para se assegurar de sua autoridàde. cia e seus atos, definiram a razão de Estado, a raison d'État, e abandonaram à
esfera privada, à esfera dos particulares, os critérios de uma moral, de uma
ética religiosa (a medida de legitimidade das ações) produzindo desta manei­
O LEITOR E O PODER ra duas razões completamente desvinculadas: na esfera privada, uma moraliM
�ade. e �ma ética baseadas nos valores cristãos; e na esfera pública, a
AGUIRRE: Neste marco geral propõeMse especificamente o assunto da leitura como _
JUStificativa do Estado a partir de seu princípio, a razão de Estado. No século
inovadora, que autoriza novos pensamentos. A leitura em silêncio representaria XVIII, todo o movimento de construção de um espaço público se baseia no
um passo significativo de ruptura, já que a leiturà oral eStá sujeita _.cl. .cQht(Ozes deslocamento destes critérios morais, próprios da esfera privada, como mediM
corltunitários. A leirura· em silêncio, em particular, permite justamente esse desM
.
�·.
- ?a política das ações e decisões do Estado, em uma figura de retorno, que
vio, a subversão que ante57zd0 .era possível. ·-· Julgava o Estado segundo os critérios morais cristãos ou da nova ética, expresM
CI-IAR.TiER: Aqui retornamos aos temas das primeiras sessões, com esta sados pelo próprio Estado, na esfera" privada. Esta segunda forma, 0 julgaM
ambigüidade. Você tem razão ao dizer que há um controle comunitário Sobre menta individual da ação pública, corresponde à figura do leitor silencioso
a leitura em voz alta, que desaparece com a leitura silenciosa. Esta última é que, à man�ira kantiana, faz um uso público de sua razão a partir de sua
um primeiro perigo, pois permite a cada um desenvolver seus próprios pensaM privacidade. Vemos como o fenômeno da figura exemplar ou utópica do leitor
mentes a partir dos textos recebidos sem possibilidade de controle por parte silencioso pode ser entendida nestas duas formas.
da comunidade ou da autoridade . Isto vem reforçar um segundo perigo, já
mencionado: o de tomar a ficção como realidade, confundir dois mundos, o
mundo do texto e o mundo do leitor. O controle comunitário traduzMse no fato A LEGIBILIDADE DO MUNDO
de que o mundo do texto não é o mundo do leitor, em que há uma distância,
que na ficção pode não divertir nem ser um mundo onde o leitor individual ANAYA: Você dizia no epaogo do ensaio Do códice à tela que não se decreta nem
exista ou esteja presente. Ambos os perigos, tomar o fictício como real e funM se suprime uma inovação técnica e, ao mesmo tempo, nestas conversas lembráM
dir o mundo do texto com o mundo do leitor, foram iiéfCebid.õSnõS"'séculos vamos com você o que na História da vida privada descreveu acerca da resistên­
XVI e XVII pelas a;Jiorldâd-es e, desta maneira, a figura do poder, por um lado, cia dos letrados aos livros e aos textos impressos, que é o fundo da oposição entre
e a figura do leitor sil�!1�i9so, por outro, são antagônicas, como dois extremos cultura letrada e cultura popular.
de um�r;la.Ção-cle obe�iftiéia " .de. imposição. CHARTIER: Certo, não se decretam nem se suprimem as inovações técniM
No entanto a i€hura em silêncio, que poderia transformarMse em uma cas. Desta maneira, anula-se a pertinência prática dos discursos utópicos ou
distância crítica em relação ao poder, pode levar- a-esta diS�ância puramente nostálgicos. PodemMse utilizar em um sentido ou noutro. Não quero que com
mental, que seria a atitude, por exemplo, dosjansenistas na'França do século esta referência as pessoas pensem que há uma necessidade de revolução téc­
XVII. Uma distância em relação ao poder pot �eio da rejeição do mundo, que nica. Vimos seguidamente com as revoluções técnicas do século XIX: a cultura
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 1 59
1 58

, navegar entre os arquipélagos textuais, ..n�yegar na Internet. Talvez esta idéia


da produção . do livro não seguiu sempre o passo das revoluções técnicas
ia em relação a elas. Então, não há uma necessid ade in­ de navegação, de um mundo sem fronteiras,' faça do leitor alguém que vai de
tinha uma autonom
de repro­ um texto a outro, que I}ão· pára em uma ilha. Seria interessante aprofundar
.· . trínseca da Revolução. O que muda é o meio de produção de livros,
· dução dos textos, mas os usos que podem-se fazer estão abertos à decisão por que a metáfora dá navegação textual se impôs em relação a este novo
·
Sl:lporte· do texto.
humana, às seleções ou às ignorâncias dos que têm o poder de atuar e de
Temos aqui outro t�ma, apenas abordado, que seriam todas as metáfo­
decidir sobre os usos da revolução técnica. Não há um determinismo técnico,
nível de ras utilizadas em relação a uma ou outra das formas de representação do
mas há um reconhecimento de que as mudanças deste tipo, neste
importância, não podem ser anuladas nem decretadas como uma decisão que texto, do rolo ao códice, do êódice ao livro impresso e do livro impresso ao
ser apropriadas. texto eletrônko. San Buenave�tura explicou que há dois livros escritos por
dependa unicamente de uma vontade singular. Só podem
GOLDIN:Noutro ensaio você falava do momento em que se generaliza a Deus: o livrú da Natureza e o livro da B{blia; e afirma (nos tempos em que os
que se gera a livros já tinham a forma do códice) que são como ambos os lados de um rolo.
divulgação, em que se divulga o livro, e é por meio da leitura
A referência ao rolo era corno urna sacralização da Escritura e, no entanto,
discussão...
CHARTIER: Sim, quando o livro por si mesmo não era mais que um sinal um erro, pois se escrevia só em um lado do rolo, mas San Buenaventura
menos apropriou-se da materialidade do rolo para dizer que há um dentro e um fora:
de distinção, este sinal_ s� deslocou para as maneiras dé ler mais ou
ou menos· canôn�co .s. Vimos isto ao falar dentro, o livro da B{blia, e fora, o livro da Natureza.
legítimas e para os textOs lid�S:;, mais
- definem . ��vr() � �?��-li .�eraturà 'e a leitura
da imposição de ci itériós. que �� . .. .
como leitura letrada ou culta� Há uma distinção por meio de uma forma de
a·éfinição mãiS estreita aplicada a todas as práticas, mas qual é a norma que
NOTAS
está
deve se impor a cada um? É a contradição do processo de distinção, que
pela idéia da imposiçã o por meio da divulgaç ão. E quando se 1Norbert Elias, Die Gesellschaft der Individuen, Frankfurt, Suhrkamp, 1987 (tradução para
sempre cruzado o espanhol: La sociedad de los individuosi, Madrid, Península, 1990).
consegue esta divulgação, deve-se transformar ou inventar uma nova distin­ 2Erwin Panofsky, GothicArchitecture and Scholasticism, Latrobe, The ArchabbeyPress, 1951.
divul­
ção. Dentro da noção de distinção, podemos ver a intencionalidade de 3Jean-François Gilmont, "Reformas protestantes y lectura", em Cavallo e Chartier, Historia
gação mais ou menos consciente porque esta define a norma. de la lectura en !1 mundo occidental, op. cit., p. 329-365.
4Dominique Julia, "Lecturas y Contrarreforma", em ibid., p. 367-412.
ele­
SABoRIT: Talvez um desconforto pessoal nesta etapa da representação 5R. W. Scribner, For the Sake of the People. Popular Propaganda for the German Reformation,
própria etapa. Quer
trônica dos textos fosse relacionado com as metáforas desta Cambridge, Cambrid�e University Press; Mijail Bajtín, r:oeuvre rle Rabelais et la culture
um território de
dizer..". virtualidade, infovia e todos os termos que invadem populaire au Moyen Age et sous la Renaissance, Paris, Gallimard; 1975 (tradução para o
um pé no cultivo da memó­ espanhol: La cultura popular en la Edad Media y en el Renacimiento, Barcelona, Barrai
humanismo duvidoso, mas, no final das contas, com Editores, 1974; nova edição pela Alianza Editorial, Madrid, 1990).
ria e no reforço da memória como uma chave da cultura...
6Sobre o debate entabulado pelo ensaio de Robert Darnton, "La gran matanza de gatos",
CHARTIER: É uma questão essencial a das metáforas. Um filósofo alemão, ver O$ textos reunidos em Bernardo Houcade, Cristina Godoy e Horacio Batalla (org.), Luz
Hans Blumenberg, fez um trabalho filosófico a partir das metáforas: a metá­ y contraluz de una historia antropológica, Buenos Aires, Biblos, 1995.

fora da Caverna, a metáfora do Livro, etc. Um de seus livros é dedicad
7Anne-Marie Christine, I:image écrite ou la déraison graphique, Paris, Flammarion, 1995.
a metáfor a 8G�offrey Numberg, "The places of books in the age of electronic reproduction", Represen­
legibilidade do mundo. lo Seguind o a via aberta por Curtius sobre
tattons, n. 42, 1993, p. 13·37.
l e modern a, 11 Blumenb erg analisa a metáfor a
do livro na literatura medieva 9Reinhart Kiselleck, Critique and Crisis: Englightment and the Pathogenesis of Modem Soci­
(i() livro como o livro da natureza (Galileu), a do livro utilizado como imagem ety (Studies in Contemporany German Social Studies), março de 1988.
como livro lOHans Blumeenberg, Die Lesbarkeit der Welt, Frankfurt, Suhrkamp, 1981.
do corpo humano (há muitos textos em Shakespeare) e a do livro 1 1Ernest R. Curtius, Europafsche Literatur und latinisches Mittelalter, Berna, A Francke,
Hoje em dia esse livro, que é a metáfor a de
do porvir, do futuro, do destino. 1948 (tradução para o espanhol de Margit Frenk e Antonio Alatorre: Literatura europeay
outra coisa (da vida, do corpo ou da naturez a), se convert e, com a técnica Edad Media, 2 vols., México, Pondo de Cultura Económica, 1955; 1. reimp., 1975).
eletrônica, em um registro distinto, que freqüentemente é o registro da nave­
gação. Em inglês diz-se to surf in the Internet, navegar nos bancos de dados,

---- � - � -�----- -----


E p ílogo

AS PRÁTICAS DA HISTÓRIA

A HISTÓRIA DAS PRÁTICAS CULTURAIS

ANTONIO SABORIT: Na história da cultura, em sua prática desde as décadas dos


anos 70 e 80, uma exceção é o estudo particular da história do livro. É interes­
sante observar como se relaciona com uma definição da história da cultura e da
criação de um espaço que tem a ver com uma discussão não apenas em relação
ao livro, como também com as reproposições da história, e isto parece inesgotável.
CARLOS AGUIRRE: Si11\ você poderia talvez considerar a própria trajetória
da história do livro surgida sob a influência da história da educação e da histó­
ria quantitaliva, e como poSteriormente, com a crítica a esta última, aparece
uma nova perspectiva que supôs não apenas o estabelecimento da história do
livro, que é a história da leitura, como também redefiniu a ocupação da história
graças à história cultural.
ROGE!LCHARTIER: É uma possibilidade de discussão, realmente. O que
me interessa destacar é que o tema que nos ocupa é o da relação entre a
história dos textos, qualquer que seja seu estatuto, sua natureza ou sua legiti­
midade; a história dos livros, que transportam os textos a seus leitores, e,
para terminar, esta misteriosa história da leitura entendida como uma série
de gestos, C.QmP.9!��Ig�J:.!�Os, _pJ.i�i���-�JlJKªI�.ê.J.-��.énldissódêfi�-idâ:�cõJ;õ··a·
invenção de sentido de um leitor particular, se bem que esta particularidade
se situaria no que este leitor compartilha com os outros leitores e leitoras que
pertencem à mesma comunidade de interpretação.
ESf.�_.tr!lballiu.pQQg!_1_9_s dar bases para diversos tipos de investigação. O
estudO dos gêneros editoriaij:rlefinidos por uma forma particular e, por exem­
plo, todõõTráoa:lliõs65ré.os cadernos soltos na Espanha, dos chapbooks na
Inglaterra, da Biblioteca Azul na França, se inscreve nesta direção. O estudo
-.-------·
1 62 ROGER CHART!ER CULTU RA ESCRIT A, LIHRA TURA E HISTÓ
RIA
163

de um gênero textual por meio de suas diversas manifestações materiais e


editoriais, por exemplo, os livros de como morrer bem, os tratados de boas
maneiras. Ou a reconstituição sócio-histórica das práticas de leitura a partir
máquina de produção de uma crença. Temos tamb
duas dimensões da representação: o que representa
sentado por algo.3 Poderia acrescentar aqui a obra

ém sua refle::ã:c o-·so�as
al o -o que se dá repr�­


Pierre Bourdieu. E,
de seus paradigmas, por exemplo, a leitura compartilhada, solitária, em voz embora seu. ponto de vista seja tão diferente, a persp
tiva de Pa r,
alta. Vimos em vários destes casos, que um livro particular é a chave do� baseada n<3: hermenêutica e na fenomenologia, propõ
e, comÕ� a questão
paradigmas de leitura ou das práticas de leitura próprios de comunidades fundamental do encontro entre leitores e textos, e
tenta pensar como as cate­
particulares: os meios letrados humanistas, os leitores de novelas no século ��2b..em seu livro Temps et récit)4 se refp..rmulam, desloC"â[;.
XVIII, os círculos protestantes ou católicos, e outros mais. Esse conjunto de 0\1 transformam mediant'e"'SuãreiãÇãõ com
os textos e o trab;ih�dôtêXtQP.õ"" .
questões está ligado ao meu próprio trabalho dos últimos anos em forma de l:;tor, �ue ffan'Sfê)f!?. �. �J§"!tI(
. ª�:!!CÇãõ'"õúããliiSfóiiãSüãf)tó·P�i;·;�p ��;�_�Í:a-
-
pesquisas particulares ou de projetos coletivos, desde a Histoire de l'édition ç��lla e��êrí� �éia p�ssoal de tempo: ··· ·
·
· ·

française até a História da leitura no mundo ocidental. Mas gostaria de desta­ .-- Todos os teXtos que escrevi em forma de Comentário
, apesar da dificul­
car que não me ocupo unicamente disto. Pois parece-me que é possível deslo­ dade que Foucault destaca acerca do gênero do come
ntário, acompanharam
car questões, reflexões e indagações a partir de uma reflexão que se definia meu trabalho mais concreto em um campo específico,
que é o dos textos dos
como teórica, como metodológica ou como historiográfica. Por isso, comentei livros e das leituras. Constituem talvez uma contribuiçã
o para a reflexã� his­
autores que me aprecem importantes para transformar a visão da história. to�iográfica �e m nei um tanto diferente da dos traba
� :� lhos de natureza pro­
Em nossas conversas, mencionou-se a obra de Michel de Certeau em sua pnamente h1stonograf1ca. Esta reflexão se apóia em
autores que não são
dupla dimensão: tanto como uma reflexão sobre as práticas do presente, a hi��oriadores: Ricouer é filósofo, Bordieu e Elias são
sociólogos, Marin é se­
invenção do cotidiano, assim como a história das práticas místicas dos séculos mwlogo, Foucault �ez um trabalho filosófico em espaç
os históricos, e Michel
XVI e XVJI.l Esta é uma referência importante porque tanto no cotidiano con­ �e C�rtea� era etnologo, antropólogo, psicanalista, histor iador e, como jesu­
temporâneo como no meio místico antigo há algo em comum: a apropriação Ita, h1stonador �a teo�ogia. Não p dem deixar de me
� interessar estes pensa­
do imposto, seja a cultura dos mass media ou a ortodoxia católica, e que é mentos e estas Investigações paralelas, pois ajudam a
esclarecer o trabalho
transformado em algo novo. Os místicos, como nossos contemporâneos, fa­ histórico.
zem algo novo com o que lhes é imposto. As diversas dimensões da obra de Parecl-me importante frisar isto porque se os historiador
es querem se
Michel Foucault também estão presentes nestas discussões, ao mesmo tempo definir como especialistas em um campo particular com
seus limites necessá­
por sua historização dos conceitos mais imediatos, vinculados, para nós, à rios e como construtores de uma reflexão mais ampla da
discussão filosófica
cultura do escrito como autor, comentário, obra, e por suas reflexões sobre as literária ou das ciências sociais, devem pensar a partir das
obras dos outros �
diversas formas do poder, o que ele chamou "microfísica do poder". �as há que pode .c.oncluir a variados temas históricos. Por exem
plo, escrevi, mas não
outros autores que acompanharam esta trajetória de investigação, como Nor­ muito, sobre a história do esporte, algo que está vinculado
à reflexão de Elias. '
bert Elias, introduzido na França pela primeira vez nos anos 70 e uma segun­ que tambem ' escreveu sobre este tema, pois o esporte é, nas socied
ades con-
da vez, com novas traduções para o francês, em fins da década de 1980, e temporâneas, um bom exemplo de que os controles
sobre os afetos estão
cujos conceitos de processo e configuração permitem pensar, de um� ou outra sufi_cientemente estabelecidos de tal modo que as emoções
podem ser libera­
:
maneira a descontinuidade e a diferença de todas as formas, seJam estas das em um lugar particular, o estádio, e em um tempo partic
ular, o da parti­
políticas sociais ou psicológicas.2 Também a obra um pouco menos conheci­ da.s Para concluir, direi que me parece importante esta
dialética entre as
da fora da França, de L�qn, semiólogo e historiado: da literatura, fez i
��5����-g�-� ...:���---��- - �e-��e à _ sua _ mane_i�a�..-à . Piirt�J; de suas próprias

m?..��rg�J- ij>ô�··m�·�c;· f" �


uma reflexão muito agttaa sobre o conceito de rep�esentaçao _ e,_ �J!t.I:�r.ttc11lar, fon:�s, dedtcadas .a tornar in!�.�ível_��Ú?bi��Q-�U um�. sitllação histórica, e a
· reflexão �� _
a re��5!-��-Eo�-� � 4. ·s ����-��$.�9-�����o.�s, �rTifi�cJrica,;·iiietodológica e--fi.íStàriô&"iáfiCa. ISSO permi�
d�stacanQo.�a-teqsã�, á � iãiéfic.ê.êD.t�e as fõíh1as que devef!l fazer..��!..����-�.? te esclarecimentos no curso da investigação.
p.od��- ;bsoluto e âS"fôi-ffiàS-d� crençaS, que�i"éêéDéffi,"ãCeitam ou rejeitam esta-
�----
1 64 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA
1 65

DIÁLOGOS que a história é escrita e que, portanto, ao ser escrita, utiliza os mesmos pro­
cedimentos e as mesmas figuras que a ficção. Este conjunto de problemas nos
AGUIRRE: Além dos autores e obras mencionados por você, existe um diálog� distancia de uma posição epistemológica fundamentada unicamente no exer­
igualmente relevante com historiadores de sua própria geração, ou de anos mw.­ cício da crítica histórica. Devemos, pois, considerar, ao mesmo tempo, a histó­
to próximos, para a conformação de sua visão sobre a história da lei�ra; por ria como escrita, compartilhando com a ficção seus procedimentos narrativos,

exemplo, o que Robert Darnton e você sustentaram, ou sua atençao a obra de e como representação de um passado que já não é, mas que foi. E, a partir
Carlo Ginzburg. . . •
disto, surge a necessidade de uma nova definição da objetividade, de uma
CHARTlER: É outro estilo porque são os diálogos exphcttos ou tmpllCltos
• .

definição que segundo Paul Ricouer se dá como um realismo crítico do conhe­


com outros historiadores. Os diálogos explícitos podem tomar a forma de cimentos histórico. Nada disto é fácil, mas constitui o desafio lançado pela
uma polêmica, de uma controvérsia, e me parece que, efetivamente, a discus­ posição de Hayden White. Ou, no caso de Angelo Torre, trata-se da discussão
são sobre 0 texto que dá título ao livro de Darnton, ''A grande matança de em torno do risco de dissolver as práticas dentro de suas representações, 0
gatos", abriu em seu momento toda uma discussão em torno do uso da antr�­ que obriga, necessariamente, a voltar a pensar o próprio conceito de repre­
pologia simbólica no campo da história e em torno do problema da t�xtuah­ sentação e voltar a articular a relação que discutimos entre representações
zação daquilo que não é um texto, ou a ·maneira pel� qual pode �e articula� a (de um quadro, de uma peça teatral, uma novela ou um relato histórico) e as
análise do texto em que se situa a descnçao� de um nto, sem dectfrar esse nto
práticas sociais que ocorrem por meio desta produção de representações.
como texto.6 Tive outra polêmica com Hayden White, quem identifica o regis­
tro do conhecimento da ficção e o registro do conhecimento da história, o que
não significa que para White não haja conhecimento da histó�ia, ainda que s� DESLOCAMENTOS
trate de um conhecimento da mesma natureza que o produztdo pela narrati­
va de ficção. Rejeitei esta posição em meu artigo ('Quatro perguntas a Hayden CHARTIER: Creio que estes diálogos qjudam a avançar, a desloc
ar. a transfor­
White", no qual brinco com os quatro tópicos escolhidos. p? r ele co�o pa­ mar as questões e perspectivas su[gidas, dentro de minha própri
. . a tradição,
drões de todos os discursos históricos em seu hvro Metahtst� na . Pubhcou� se com as formas da história cultural dos Anais, nas décadas dos
. 1960 e 1970. É
uma resposta sua.7 E há também uma polêmica com um htstonador mutto a trajetória(que compartilhei com meus primeiros trabalhos sobre
. a Academia
próximo a Giovanni Levi, chamado Angelo Tor:e, que e�creveu um arttgo de Lyon no século XVIII, sobre as bibliotecas privadas, sobre
a sociologia da
,
contra Bourdieu, contra um historiador portugues, Antomo M. �� spanha, e e�ucação, em um momento em que a quantificação. dos dados
culturais pare­
contra mim, segundo o qual em nosso enfoque a�ulan; -se as praticas e� fa­ Cia uma chave para entender, de maneira mais científica,
a circulação e a
vor de suas representações e que, finalmente, nao ha lugar para a p�attca . posição dQS.livros assim como a identidade das populações
. escolares ou dos
entendida como ação. Escrevi uma resposta que defende mmha mane1ra de meios intelectuais do Iluminismo. São estudos fundamenta
is que desenha­
ver as relações práticas da representação.8 ram um mapa que oferecia uma visão precisa da composição
de um meio
Todos estes são diálogos que permitem talvez prectsar concettos, como sociocultural particular, ou que permitiram medir a presen
• .

ça de um artefato
acontece no caso da discussão com Darnton em torno da relação, bastante cultural ou estético. Mas o problema era que a tradição france
sa implicava
polêmica, entre práticas e textualização. No c�so da discussão com Hayden considerar que esses tipos de investigação identificavam as
leituras ou as prá­
White trata-se do estatuto específico do conhecimento que, segundo meu pen­ ticas, quando era só uma maneira de reconhecer um territó
rio e nesse terri­
samento existe na história, porque acredito que não é suficiente rejeitar a tório, propor uma das questões mais agudas: a construção
de se�tido.
posição de White, mas que é necessário elabor�r uma p�si� ã� que fundamen­ ReCoitln�-céf"'élâiStriDüíçao ou a posse do livro a Pãrtrr·âáS'"s
·êrieS·�q�anti­
te a idéia de um estatuto particular do conhecimento htstonco, o que resulta tativas é algo necessário para observar a conjuntura da produ
ção do livro, ou
em algo muito difícil na medida em que abandonamos toda epistemologia da para identificar diversos meios de leitores a partir do núme
ro de livros que
coincidência entre os fatos e sua representação no relato histórico, enquanto possuíam, as categorias bibliográficas dominantes em sua
biblioteca ou em
que, de acordo com a obra de Paul Ricouer, estamos obrigados a considerar um dado meio social, a pors��tage �� que em seus inven
?: � tários post :nor-
. -·
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITE RATURA E HISTÓRIA 1 67
1 66

tem tinham livros e os que não. Estes indíc


ios foram uma contribuição muito M ICRO-HISTÓRIA E MACROANTROPOLOGIA
índices de alfabetização. S�­
importaniê-paraa-hisEõ-riã-cüíi:ural, ao lado dos
constituem a resposta defim­ AGUIRRE: Talvez possa nos falar de Carlo Ginzburg...
ria absurdo negá-lo, mas, ao mesmo tempo, não CHARTIER: Podemos dizer que no mundo historiográfico recente a micro­
iro nível, o da cultura, depois
tiva conforme pensava a história serial de terce h.!WrW�{<?L?��5i��-!�c:?.Y.�Ções Illais importa_fites. Com a redllç_�o da eS�Caia · de
o ponto de partida de novas
da economia e da sociedade. Assim, pois, foram o1>�3-çRp, Ginzburg tentÕÜ�-i:-õí-i1àr-vrSí�êi uma série de fà·to-s· ·aCült�d�;-�0
pretação, a si�ific�ção da
interrogações sobre os problemas dos usos, a inter curso das investigações de história social clássica: vinculações, negociações,
sive para quem nao os tmham.
cultura escrita para os que tinham livros e inclu .
confhtos, elementos que geralmente não se vêem em uma escala mais ampla.
riadores que haviam-se
Este deslocamento foi compartilhado pelos histo A idéia era muito diferente da que guiava a tradição da monografia francesa
titativa e serial da cultura.
dedicado, em primeiro lugar, a uma história quan que consistia em delimitar um território particular, para identificar a singula:
el Rache ou Michel Vovelle, que
Por exemplo, colegas historiadores como Dani ridade desse território, pois só se limitando o território, podiam�se analisar
es que desenvolveram esse
foram talvez os dois historiadores mais important todas as fontes necessárias; a monografia se situava dentro do projeto da
quan titativos, cada um se dedi­
tipo de enfoque. Mas depois de seus trabalhos história global, se bem que uma história global em nível de uma cidade, de
via o papel do indivíduo dentro
cou ao estudo biográfico, restituindo por esta um país no sentido tradicional, de uma região ou de uma província. A idéia
e publ icou u�J:�YI"? . � J?�rti� do diá­
deste marco estatístico geral. Daniel Rach era fazer a história global dentro de um espaço geográfico particular e, talvez,
.do sécu lo XVI II, chamado M�ra, e
rio de um gp_erário_yidreiro . de Paris acumular as monografias para finalmente obter uma descrição geral.
. um pequeno notável de
Mfchcl.Vo-;;elle publicou i.íiti érisaio biográfico sobre
z a diferença seria que Vovelle �.!2.:.��!?.�.����-Ef'_I_!!P.LEi!,ª-l!).-�B-�!.diferente ou Í!:J-5��gsive. oposta a.. este
Provence .9 É o mesmo deslocamento, mas talve p��� pois, embora não dedique um inte·ressê'·pãiticular a um lugar, toma�
uz dos grupos a? indi�duo,
tem 0 propósito de situar esta trajetória que cond , o co:mo um laboratório, como uma situação particular, para obsE!rvar fenôme­
de um marco teonco mais e�­
da ·quantificação à descrição biográfica dentro n��-.9�� _r�sp911dem � i�t�raç<?�-� €ij_tr�. .indivíduos, famílias e c����icÍ�des, e
ações do pens �ento �ances
a
plícito. É uma trajetória que se liga às transform que poderri·dar acesso, também, à relação entre o poder estatal e a comunida­
ias sociais, com as dtsc�ssoes em
depois de 1968, com a explosão das ciênc
ria em um mundo mtelectual ?e ��rticulyr de que se trata, ou ao m?�?-.�-� atuar c9m_ singu�ar!��-�.�---��s
torno do marxismo e com a inscrição da histó mdlVldU�� �ept_ro de modelos ou de crenças cçmpartilhadas. Mas o que me
ou menos implícitas porque,
mais amplo. Aqui tiveram lugar discussões mais pafééê-interessante é que entre uma definição social deste tipo de micro­
re difícil tornar completamen­
dentro de uma tradição compartilhada, é semp história, que é a de Giovanni Levi . e .9 , _. uso da Illj!=ró-história por Carla Ginz­
as amizades pessoais, e as opi­
te visíveis as diferenças, pois estão entre elas .
rário. Estas questões eram mais lu��_s�o .c()mple���ente diferente��"._(;l.n..z.])� 'g) importante é�'!�H.Qg>alia,
niões intelectuais podem ir em sentido cont _o: que se pode ver por meio de uma situação excep �ional. Para ele' · ó território
trabalho que nas manifestações
discretas, mais implícitas em meu próprio escolhido não é um laboratório, um��pe·que�n.,ã·'��C�la para estuda; uma sacie�
mim este momento de mudança
públicas. Mas há um texto que marcou para dade particular em sua relação com o poder, mas uma maneira de perceber
nos Estados Unidos em 1979.1° ��a
intelectual: foi uma conferência realizada crenças e ritos que têm uma longa envergadura. É o caso, deSde seus primei­
ment alida des, identificada com a histó­
uma crítica à tradição da história das ros livros, Il beneadanti e O queijo e os vermes, onde se empenhava na apropri­
istia em voltar àquilo que
riãquáíltit-citiVã·ae·te-rcei:tó· iiíVeL'"Mírihil tarefa cons ação (Menocchio como leitor de seus livros) ou nas lutas de identidades." No
a dimensão da epistemologia
estava completamente esquecido pelos Anais, primeiro livro, Il beneandanti, analisa como se impõe uma identidade por
Propus então uma crítica, não
histórica, a de Bachelard, Koyré, Canguilhem. parte da Inquisição sobre uma população que, sem ser católica, vivia e pensa­
à sua prete�_são de dar respos­
à história quantitativa em si mesma, mas antes va de uma maneira que não era a descrita pelos tratados de demonologia. A
s perguntas.
tas enquanto �ue seu papel era estimular nova imposição de uma identidade a uma comunidade que não estava conformada
a esta identidade é a aposta do jogo entre o inquisidor e os acusados, que
tinham um sistema específico de crenças e de práticas religiosas frente às
designações clássicas da bruxaria. A de Ginzbur é uma maneira de observar
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERAT URA E HISTÓRIA 1 69
1 68

que oferece uma A HISTÓRIA: ENTRE A NARRAÇÃO E O CONHECIMENTO


os conflitos ou as apropriações em uma escala pequena, o
riqueza particular. DANIEL GOWIN: Graças à grande parte das respostas dadas ao longo desta con­
inten­
No entanto, com seu último livro, Storia notturna, vemos que sua
definem uma identid ade versa} ficam abertos muitos caminhos e novas perguntas. Essas respostas foram
ção é reconstruir as crenças e os ritos, que para ele dadas a partir de uma reflexão teórica e metodológica e se apresentam como um
a Europa , incluin do o m undo
antropológica fundamental no âmbito de toda ,
convite à investigação histórica. Por isso quero lhe perguntar acerca do trabalho
como na Africa
das estepes, onde o xamanismo é a matriz de tudo isto, assim que você realiza atualmente: quais seriam as perguntas que o inquietam?
O seu é um diag­
ou Ásia, onde se mantêm ritos e crenças do mesmo tipo.12 CHARTIER: Como disse, com a perda de uma idéia simples da relação
nature za human a, o que é um tanto
nóstico das constantes, do invariável na entre o passado e o discurso sobre o passado, com a perda da ilusão de uma
paradoxal em um projeto de micro-h istória, que via como problemática a
rg utiliza referen cialme nte uma nova cientificidade da história à diferença das ciências exatas, ou supostamente
categoria de natureza humana. Ginzbu exatas, há inscrita, de maneira explícita ou implícita, em cada prática histo­
icação , na história das ciência s ch_ê!.f:q.ada
técnicg�,._Qe classificação, de identif riográfica (a qual deve produzir a análise de um conjunto de textos de uma
es recons trói as famüias a
1dadÍstica:q�e apesar dos traços visíveis das espéci
dada sociedade, de uma evolução demográfica, de uma mudança econômica)
1 partir- de -unia série de traços
que podem ser completamente invisíveis e que
is que pare� uma reflexão sobre seu próprio estatuto de conhecimento. Esta dimensão auto­
pertencem à anatomia1 à análise sangüínea, etc. Assim, os anima reflexiva da história não estava tão presente nas figuras antigas ou tradicio­
e colocados
ciam próximos por suas formas ou sua aparência, são separados nais do conhecimento histórico. Penso em um ensaio de meu colega François
e na�tes,
em outras famílias. Todo seu trabalho para identificar, nos textos Hart?g,, �m que el� propõe a questão de por que há agora essa interrogação
o da fu.distica:'
as proximidades de crenças e ritos está inspirado neste model da htstona sobre SI mesma e particularmente sobre a forma narrativa da his­
adores : devem ser es­
Mas isto propõe um problema temível para os histori tória? Por que a história tomou consciência de sua dimensão narrativa, embo­
fonte, assim como seu .
qu'ecidas as condições específicas de produção de cada ra se escreva com cifras, quadros ou séries de numeroS�?í3'�Aêõütrí6UiÇãQ­
erar dentro das diferen ças só o
contexto, sua retórica e sua lógica, para consid fundamental da já citada obra de Ricouer, Temps et récit, foi o reconhecimento
elemento ritual ou mítico comum. de que inclusive a história mais _quantitgtiva, menos descritiva ou mais estru­
É estimulante para o espírito historiográfico observar dois usos total­ .
tural é umÀ história que uf:fiTza·-âS .fi&ur�s e _os p�qc�QiQJ.entos-.da- narração.
a micro-história.
mente distintos e quase opostos de uma mesma perspectiva, Assim, esta tomada de consciência se faz pieseOte. E por que não antes? A
aos historiadores mais apegados às
E1 no caso de Ginzburg, é um desafio história da Antigüidade é uma coleção de exemplos, e aqui há um estatuto
âncias e defasa gens, pois propõ e uma es­
descontinuidades, variações, discrep que vincula a função didática ao procedimento retórico, no qual não há dúvi­
o no sentid o do univer sal e reform ula assim
pécie de retorno ao antropológic das sobre�róprio conhecimento. Trata-se de produzir exemplos para o pre­
� pode-s e entend er o-paSs ado o � o outro, o estra­
uma questão �lássica: cor11: sente a partir de uma forma retórica. No caso da P.istória da tradição alemã
há algo em comum que permit a essa compr eensão ? Se
nho e· ãihE:fo, se não historicista do século XIX, ao modo filosófico de Hegel, os acontecimentos
é porque há algo
teffiôS"àlguma possibilidade de reconstruir estas diferenças
0. �
aquilo que é com­ parecem ter uma maneir� .�e presença,no próprio discurso histórico como se
compartilhado. E, a propósito, para Ricouer, o que define a� du�s definições, a � ic �C:-.�.o� o fluxo dos acontecimentos, e a de
partilhado é um ·campo comum de experi ência, igualm ente presente em um .:: �� - _�
s. Mas a resposta Htstone como expressao escnta do historiador, estivessem fundidas ou con­
grego do século VI a. C. e em um africano ou em nós mesmo fundidas. Há um desdobramento do passado dentro do discurso, e há tam­
ntes compartilha­
de Ginzburg vai por outro caminho: ele faz surgir as consta bém uma coincidência sem lugar para dúvidas. E, por fim, se a nova história
s.
das por toda a humanidade a partir da relação com os morto do século XX é entendida como a vontade de uma cientificidade (séries, quan­
tificação estatística, modelos matemáticos), isso foi uma maneira de rejeitar a
dimensão narrativa em proveito de um estatuto científico que se provou por
meio das técnicas e dos critérios utilizados pelos historiadores. Mas como a
história já não é um conjunto de exemplos, como não pensamos que a história
1 70 ROGER CHART!ER C U LTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA
171

se desdobra no relato, como temos dúvidas acerca do registro próprio da necessidade da presença desta reflexão teQJ:jÇa_e.metudglógjça dentro de qual­
cientificidade que outorgam as técnicas mais quantitativas, então se insinuou quer investigação, por mais empírica que seja.
esta dimensão reflexiva da história. Podemos dizer, à maneira de Marin, que
cada livro de história representa um fragmento do passado e, ao mesmo tem­
po, se dá como representação deste fragmento do passado. Dessa representa­ QUAL RETORNO AO POLÍTICO?
ção surgem todas as proposições metodológicas ou teóricas que pudemos
identificar. Parece-me que podemos voltar sempre a esta definição da cientifi­ SABORJT: Parece-me interessante que os historiadores tenham incorporado,
no
cidade da história, tal como a via Michel de Certeau, ao dizer que a história é ato da escrita, a reflexão sobre o estatuto do conhecimento histórico, pois
é um
científica se por isso entendemos "a possibilidade de estabelecer um conjunto movimento paralelo no exercício contemporâneo da história: um exercício
de
de regras que permitam controlar operações proporcionadas para a produção investigação empírica e outro reflexivo sobre os resultados e o manejo
dessa
de objetos determinados".14 Nesta frase, cada palavra é importante: "produ� investigação basicamente documental. Quer dizer; o historiador relata e é consci­
ção de objetos determinados" (o historiador produz seu objeto, este não vem ente de que relata. Talvez seja um tipo de reflexão sobre o estatuto do conheci­
de um passado já constituído como objeto científico); "operações" (o que mento histórico, próprio da história cultural, mas que nem sempre ocorre em
significa que há técnicas próprias do enfoque histórico, o que Hayden White outros campos da história. Em segundo lugar; este exercício reflexivo resulta
nega porque ele vê a história somente por meio das figuras retóricas, sem duplamente desafiante para a própria tradição historiográfica, pois as investiga
­
atribuir nenhuma preponderância à constituição das fontes, das técnicas de ções que vocês fizeram (e me refiro à grande quantidade de historiadores
dos
.
investigação ou dos critérios da prova), e, por último, as "regras", que permi� Anais ou próximos desta corrente) no campo da história cultural acertam
seus
tem controlar estas operações e, desta maneira, estabelecer a história como propósitos no próprio centro da história política tradicional do Antigo Regime,
o
um conhecimento de natureza universal. que não ocorre com outras especialidades historiográficas.
Agora existe uma tentação muito forte de identificar história e memória, CHARTIER: Sim, mas não é ab�olutamente certo que seria uma especifici·
construir histórias particulares vinculadas aos desejos, às expectativas de co� dade da história cultural. Se pensamos na "New Economy History" dos Esta­
munidades, em particular às comunidades que foram marginalizadas, ou às dos Unidos dos anos 60, lembraremos que talvez foi esta a primeira forma de
identidades reprimidas, e que, com o recurso do passado, tentam fundamen� história qtk utilizou a ficção no sentido absoluto da palavra: como imaginar o
tar sua identidade reconquistada ou afirmada, seja em nível da identidade desenvolvimento econômico dos Estados Unidos sem estradas de ferro? Essa
nacional dos novos Estados�nações, ou no das identidades étnicas, religiosas, foi a proposta de trabalho. É talvez uma história que utiliza as técnicas mais
sexu�is, etc. Existe um perigo muito grande nisto, pois se devemos respeitar quantitativas e estatísticas, que ao mesmo tempo mobilizou a ficção como
este tipo de desejos ou expectativas e pensar que estas identidades devem se instrumeftffil de conhecimento. Creio que a história social é pensada, necessa­
fazer reconhecer como legítimas, isso não é uma razão suficiente para consi� riamente, como história de uma sociedade e ao m�smo tempo como história
derar que a história que produzem com o fim de sustentar suas reivindica� das categorias ou técnicas de sua própria tradição. Desta forma, surgiram os
ções, pertença à história tal como a define Michel de Certeau, apoiada em estudos sobre a história das técnicas estatísticas desde o século XVIII com a
operações técnicas controláveis e verificáveis mediante regras compartilha� idéia da aplicação dos cálculos de probabilidades ao mundo social, o� acerca
das. Estamos frente a u_ma das- grandes_.l�!l.�Õ�s �o I11�D:c:lo contemporâneo: a das técnicas estatísticas para os censos da história social ou demográfica. Há
-
afirmaçãõ,-ãbSOTutame�te T�g íti��; �p-;; r parte d� i �di�duos ou de comunida­ uma auto-reflexão sobre estas técnicas, assim como sobre as categorias (clas­
d�-sua ident�-ª9-e, e, por outro lado, a necessidade _4-��-�I-2-!�!:..�rn,.a dis­ ses, grupos socioprofissionais, etc.), que se convertem no próprio objeto da
tânciáem rej�si.9.J. .l!ist�ria�_IT!em<S_ria J?roduii�ã."P9f_��'ªs_ id.,ntidades. De história social. Assim, não me parece um privilégio nosso.
man·erraqUé devemos manter este estatuto "científico", pois só riieOíãirte esta Por outro lado, é claro que todo nosso esforço vai contra a história polí­
perspectiva a história pode ser considerada como uma disciplina crítica, ca­ tica tradicional, que é a história dos acontecimentos políticos. Na posição
.
. de
paz de revelar os mitos ou, no pior dos casos, as falsificações. Aqui estamos no bJ���-9-�Uana, não se tiata dizer que este tipo de históiia não tivesse impor­
centro da discussão em torno do próprio estatuto da história, o que explica a tância, pois a última parte de seu livro O Mediterrâneo e o mundo mediterrâ-
ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA
1 72 173

neo na época de Felipe li é, propriamente, uma história política, com


aconteci­ acadêmico, e aqui também vemos que a instância política é o elemento-chave
é
mentos, batalhas, etc., ainda que inscrita em sua própria dimensão, que q�e ao mesmo tempo permeia as produções culturais e produz, por diferen­
N
revelar estruturas mais fundamentais, como as dos dois primeiros níveis de ctaçao, um espaço autônomo, o da crítica literária, que seria a prefiguração
todo estudo, a relação entre o homem e a natureza, e a evolução das econo­ do espaço público político depois de sê-lo literário. A terceira trajetória está
trata­
mias e das sociedades. Mas, por outro lado, em um debate mais atual, talvez um pouco menos vinculada ao Estado, e é o processo de descristianiza­
político, por
se da rejeição do que foi proposto na França como retomo ao ção, que, sem dúvida, é mais precoce e importante na França do que fora da
exemplo, por François Furet, com a idéia de que a instânci a política é a chave França no século XVIII europeu, e aqui a dimensão estatal é um pouco mais
mais sutil para entender a sociedade e, finalmente, com a idéia, também _
, de red��ida � dar-se-ia unicamente por meio da imposição por parte da Igreja
que os objetos privilegiados da história são os pensamentos claros, as �� �as
or catohca, vmculada a uma definição independentista da Igreja da França, em
explícitas, as ações voluntárias, o que leva a rejeit� r � modelo que as cie r:ci.as relação ao jansenismo, de exigências morais, que definiram um modelo quase
atençao JUstame nte ao contran o:
sociais impuseram à história e que dedicava inacessível para a maioria dos fiéis e, por último, paradoxalmente, foi esta
os sujeitos pensar e atua:. Esta é exigência absoluta um dos motores da descristianização, distanciando os fiéis
às determinações desconhecidas que fazem _ .
mais ou menos a filosofia do sujeito que sustenta este retorno ao poht1co de um ideal impossível. Tentei utilizar nesse ensaio o retorno ao político, mas
Contudo, penso que na tradição da história cultural, qualquer que seja nos fenômenos culturais, seja no sentido das restrições impostas às produções
polí­
sua forma devemos dar uma importância antes não atribuída à história e práticas em um campo determinado, como a cultura letrada, ou no sentido
que são e os
tica. Os indivíduos são sempre, ao mesmo tempo, os que pensam antropológico, à maneira de Elias, considerando a transformação dos contro­
que ignoram que são. As determi nações desconh ecidas pen � eiam as formas les sobre as emoções e a estrutura psíquica dos indivíduos. Assim, os proces­
da
de represe11w,ç.�Q,,,Ç��icação e apreciação a que nos refenmos ao falar sos culturais estão vinculados à natureza específica do Estado absolutista na
este último ju tamep. t � �91?� a França do século XVII, com sua produção mais notável: a sociedade cortesã. É
1 relação edtre hábito e hãblfu.st �ntende T).d� � ..

Õíl
V\ matriz de t �do-o-qtie""é"Võfúittári9)e_-��cmscierite, _mas t�mbém com re
�- �� ���� o uma maneira de rejeitar uma forma estreita de retorno ao político e de desta­
\d€! umaíncõ_rp-oraç_ãtnn� fc: - 1��t� C_ fe··est�Ut�fas �ã_�--�-�-tódó· con necída s. ?� s­ car a necessidade de outra distinta.
tâ · manerra·- edítõ··q
acr ue ·este retorno ao políticO e a uma filosofia do SUJeitO SABOif: O que gostaria de deixar claro é que talvez a história cultural
anteri­
deste tipo é uma via que não conduz a um enfoque mais agudo que os tenha sido muito mais sensível ao político do que a história política ao cultural.
a política no quadro da
ores. Se há necessidade de restabelecer a instânci Geralmente� foi mais reducionista a idéia da cultura que se oferece desde a pers­
tivas de Norbert Elias,
história cultural, é mais viável fazê-lo com as perspec pectiva da história política, que a idéia do político q"ue se oferece desde a nova
e às es­
que implicam a vinculação do poder estatal às configurações so:iais história cultural.
seu enfoque das relaçoe s de poder CHAFmER: Sim, porque em sua forma mais tradicional, não há uma pre­
truturas psicológicas, e a de Foucault, com
dispersas em cada uma das relações sociais. . sença da cultura em uma história política vinculada unicamente à narração
Finalmente eu mesmo fiz uma tentativa em um longo ensaiO que per­ de acontecimentos em sua forma mais filosófica, como a que mencionei em
Antigo
tence ao quarto �olume da Histoire de la France dedicado à cultura no relação a Furet. Uma obra na França que vinculou história política e história
Regime e no período contem porâneo , em que es �olhi trê tra
� ! et �rias q �e ,m_e cultural é de Renê Rémond. Seu livro sobre as distintas correntes da direita
es para o caso frances: 15 a pnmetra e a traJeton a política na França estuda cada uma.16 Nesta análise, examina o século XIX até
pareceram um tanto singular
porque é a corte da França a que oferece a forma chegar ao XX, e as diversas tradições da direita francesa aparecem aqui liga�
do processo de civilização,
mais completa da sociedade cortesã, onde se vê que tudo começa com o po­ das a uma cultura política. Creio que a compreensão da cultura política exis­
io de
der absoluto, que cria a sociedade cortesã para reproduzir o equilíbr te, mas não só mediante as teorias políticas ou a história das instituições e dos
sua perpetu ação. A segunda é a invençã o de um partidos políticos, mas no âmbito das fantasias da direita, à maneira autoritá­
tensões sociais que permite
espaço público da crítica literária a partir das formas de controle do Estado ria do bonapartismo, projetando-se até o gaullismo, ou à maneira liberal da
absolutista sobre a cultura por meio da censura, o patronato ou o Sistema revolução de 1830, projetando�se até os movimentos que na política contem-
ROGER CHART!ER CULTURA ESCRITA, LITERÃTURA E H I STÓRIA
174 1 75

porânea se identificam, por exemplo, com Giscard d'Éstaing. Desta maneira, tante de sentido, particularmente quando estamos diante de diversas formas
identificam-se famílias políticas que partilham valores e representações do relações e públicos para uma mesma obra. Estas perspectivas compartilhada�
mundo. fazem com que cada um de nós se aproxime da arte, em um ou outro momen­
to, co�o ?inzburg, com seu livro sobre Piero della Francesca, Darnton, por�
que nao so estuda a literatura dos panfletos e libelos como também a literatura
A. CONSTRUÇÃO CONFLITANTE D E SENTID O própria do século XVIII, e eu que atualmente estudo algumas obras teatrais
dos séculos XVI e XVII. Thdo isso explica que, se alguém se interessa pela
AGUIRRE: Essa preocupação com o estatuto científico da história, e especificamen­ construção conflitante de sentido, a questão se torna particularmente interes�
te em relação às mudanças que proporcionaram as novas propostas da história sante em relação aos textos canônicos, que em uma dada sociedade parecem
cultural, se apresenta em autores como Darnton, Ginzburg e Chartier. Creio que �stáveis e cuja interpretação está fixada, enquanto que não são mais que ob­
há um ponto de partida semelhante neles: a crítica à cultura compreendida como Jetos de apropriações plurais e diversas.
É um grande desafio, pois dá uma nova visão ao público contemporâneo
um terceiro nível, para ir mais longe. Se há algo que para um leitorparece muito
de obras que são pensadas por meio de uma longa tradição. Além disso tal
sugestivo, além das opções particulares e discutíveis em cada autor, ou inclwive '
desafio é compartilhado por outros historiadores como Natalie Davis em seu
em outros, como Natalie Davis, é justamente a discussão do estatuto da história
livro Lettres de rémision, que é dedicado às cartas escritas para pedir o perdão
cultural, mas já não proposto como mais um nível, mas como o estatuto cultural
do rei e suprimir uma pena dada por um tribunal.17 É um gênero muito im­
que, com autonomia e capacidade de explicar�se a si próprio e a outras instânci­
portante na Idade Média e no século XVI: escreve-se uma carta para pedir a
. as, rompe este esquema, redefinindo o âmbito da hist6ria cultural.
benevolência do rei e, por meio dela, deve�se explicar que a pessoa não era
SABORIT: Eu gostaria de acrescentar que, itesta história cultura� chama a
tão culpada do crime porque havia circunstâncias diversas, etc. E Natalie Da­
atenção a insistência de certos autores na construção do sentido da mesma. Mas
vis estudou isto em relação aos mo.delos literários que essas cartas utilizavam
o que parece irmanar destes autores, mais do que um método ou a confissão de
.

ou em relação à circunstância oposta, quando as cartas inspiravam texto�


uma ausência de método, é, pelo que se� um temperamento, uma maneira de
literários, fomo um jogo r cípr co �ntre a literatura do século XVI e este tipo
fazer história, de escrever história e também de pensá-la. � _�
de documento puramente JUdtctal. E outro exemplo desta aproximação à lite­
CHARTIER: Talvez a fórmula seria que o interesse compartilhado se tra­


ratura a partir de um estudo que destaca a construção conflitante de sentido,
duz nas construçõ�s-·een.flitant�s de sentido, o que se observa se retomamos
os três autores. ra Darnto�!..-� co�sn:ução de sen_tido p�rt�---�.�..toda a .�i�er��
l como em todos os estudos dedicados à relação entre cultura folclórica e cultu­
ra humanista, que foi por certo o objeto de seu livro de ensaios' Cultura e
tut:�p_roil>i�,a, e dàlrdesti:mrque ele estudou do ponto de vista de sua produçao
sociedade-rta França moderna. lB
editorial, que'e importante, e aqui o conflito se estabelece entre a censlita real
e ã-leitura das diversas comunidades de leitores. É uma dinâmica política que
se constrói a partir da circulação, cada vez mais ampla, desta literatura proi�
bida e que sg_Q.efine como uma rejeição à ordem tradicional da monarquia.
HISTÓRIA, FALSIFICAÇÃO E FICÇÃO
t-!<Y c·aso- de Ginzbü�, particularmente em seus primeiros livros, trata,�se da
cÕilStfUÇãO·conflitãiite "4�. ��.'9:�i4.<? e!l�r� . ?. inquisid�r e os ben.eand.an.ti,]��t_r.� o
. .. .. .
SABORIT: Há um escritor que eu não saberia situar: Claudio Magris. Ao menos
em seu livro Las conjeturas sobre un sable, cujo tema central também diz res�
in_glJ!s.idor eJVI,enocchlo, entre os textos lidos por estê-e a-leitur.a -qm!"faz des­
..

ses textos; assinl_é. (iüe ele constrói conflitantemente o sentido. No livro sobre peito com a construção conflitante de sentido. Narra um episódio histórico no
Piero della Francesca, trata�se da tensão entre a pintura, com todas as suas enfoque do new historicism, e sua idéia não é desvelar a verdade mas mostrar a
'

determinações que a vinculam às próprias condições de sua produção, e o construção de uma sucessão de mistificações.. .
CHARTIER: Isto nos remete aos temas do mito, a história, a memória, a
olho, o olhar do espectador. É uma tensão, uma negociação, o mesmo que
vimos na leitura. Para mim, a apropriação do leitor tem seus limites, mas, ao falsificação, o conhecimento. Todas estas questões que preocupam muito os
mesmo tempo, é uma produção inventiva, uma forma de construção confli- historiadores contemporâneos porque são a própria definição de seu ofício,
1 76 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA 1 77

do métier de l'historien, como diria Marc Bloch. E desta maneira temos uma imaginárias, que também podem ser ensaios muito úteis para indicar certo tipo
pergunta que não podemos evitar. Há formas de se aproximar deste problema de biografias. Schwob destaca que o indivíduo é dono unicamente de sua singu­
que você menciona, e seria por meio de uma auto-reflexão ou de um desdo­ laridade e que as idéias gerais ou o restopertence à mentalité, ao resto da huma­

Q!!:���J:&
bramento da Erópria in1(estlgaç.ãPJlOJl10deh�)ledç�_\>Jjp]Q1,<:_5, ,!ª2-Sill:>'.,..!' _ nidade. Por outro lado, temos a estratégia narrativa de Proust vista por Ficher
É um ':'o�e�o de, construção da história � p��i�,�_e_ i��(çjgs0�_u �:. por meio do caso Dreyfus: o tema está presente ao longo dos sete volumes de Em
.
, __
l _ Extste também o estudo das falstficaçoes,
... p evidências soltas.
.,.,
seJa nas c1enctas busca do tempo perdido, e se constitui em uma peça histórica que ajuda a
s'OClã1S eXãfãS:-i>"ãr1:icularmente nas ciências naturais, ou no campo próprio da
.. definir e a retratar a sociedade que Proust registra ao longo de sua obra, na qual
história, como no livro de Anthony Grafton, Forgers and Critics, ou no de Julio há estratégias historiográficas precisas a serviço da literatura. Mas, ao contrá­
Caro Baroja, Las falsificaciones en la historia.19 Estes últimos seguiram essa via rio, há estratégias literárias a serviço da história que se empreguem hoje?
para restabelecer o estatuto do conhecimento, pois se as falsificações são re­ CHARTIER: Certamente, há uma desigualdade porque não são muitos os
conhecidas como tais é porque há um conhecimento capaz de desmantelá�las trabalhos históricos que introduzam na escrita esta dimensão reflexiva e que
e de reconstruir a falsificação como falsificação. Existe também a interroga� façam ver por meio da produção do conhecimento o próprio processo de in­
ção epistemológica quanto a um novo realismo crítico do conhecimento his­ terrogações, seleções, dúvidas ou possibilidades diversas para oferecer eleM
tórico, para fal�r como Ricouer, quer dizer, a fundação de uma nova teoria da mentos de compreensão de um fenômeno. Esta dimensão está mais
objetividade, que aceita a pluralidade, mas dentro de uma distinção possível tradicionalmente vinculada à literatura se se lembra, como disse Borges, que
entre o válido e o que não o é; um caminho aberto pelo livro das três histori� os personagens da segunda parte do Quixote já tinham lido a primeira. Há
adoras norte� americanas Joyce Appleby, Lynn Hunt e Margaret Jacob, Telling dois historiadores que foram mais longe nesta dimensão. Por um lado, Carla
the Truth about History, que tenta fundar uma nova teoria da objetividade Ginzburg, porque com a própria construção de O queijo e os vermes, med.Târite
aceitando esta dimensão de pluralidade de interpretações dentro de um mar� umà"tê�ríiéà -C1i1EITúitOgí-áfica ·de frag_��ritáção;·de· -diStanciamento, ·de close
co em que, um pouco ao modo de Michel de Certeau, o inválido e o válido up, P_iOdu�_�s� Uma illptura Corri- ·? �rel�to clássico (qiie vem do modelo da
podem ser discriminados. Nada disto é fácil, mas constitui outra via para se n6Vélã cláSsica) e se ofer�c�m in�f�?.�..-�9�.l�!��r sem <lue necessariamente
acercar do problema. sej �� �xplJci�os. Algo na hiStOiíâdepende de sua eSCi-ita,· e"oS e-f€ít0s de CO­
Temos a via da ficção, que desconstrói as operações de uma investiga� --
nheciment o produzidos dependem da técnica da mise en sâne, que neste caso
ção; a via da crítica a partir do estudo das falsificações, particularmente as utiliza todos os recursos cin�áfico5:)
históricas, do século XVI (ao mesmo tempo é o século da fundação da tradi­ O outro historiador é
���n SpepCe, que é talvez um dos maiores
ção crítica da história com a figura emblemática de Lorenzo Valia), e a via da historiadores contemporâneos. EscreveU dois livros absolutamente maravi­
reflexão epistemológica que tenta estabelecer dentro de um conhecimento lhosos. Um- é A morte da senhora Wang, no qual reconstrói a história de uma
(que é representação) os critérios que fazem da representação algo aceitável mulher; mas, além de ser do gênero biográfico, esta obra acrescenta a recons­
ou inaceitável. Todas estas tentativas definem um espaço intelectual vivo, e trução dos SOnfiOS.aãprõtãgOn1Stã;TiidTCãC
. õm evidências, no discUrso histó­
me parece que podem transformar nossa visão da história como escrita e rico, os moniéntos <}uaridó se díSúiricia das fontes; e há na própria tipografia
como conhecimento. do livro, ou na mudança de registro do discurso, a indicação de que o historiw
SABORIT: Pergunto-me se existe realmente na prática da história uma apli­ ador se converte, a partir de sua experiência historiográfica, no autor de um
cação do que se propõe teoricamente sobre a escrita da história e que influi relato que pertence a outro registro, o da ficção. O segundo livro é A história
diretamente no estatuto do conhecimento histórico. Polemizou-se sobre a narra­ do senhor Hu: um chinês levado a Paris na época de Luís XN, e por seu com­
ção, a história e a literatura, sobre sua proximidade e suas fronteiras comparti­ portamento tão estranho ali, pensou�se que era completamente louco e foi
lhadas. Em contrapartida, me ocorrem dois exemplos pelo lado da literatura, encerrado em um hospital; seria um tema para Foucault. O problema é se
que seriam Marcel Schwob e Marcel Proust, nos quais há estratégias. Em Schwob permite definir a loucura, seja como uma loucura ou como algo relacionado
há uma estratégia historiográfica no começo de seu Vidas imaginárias, na qual com a diferença cultural, e neste livro há também indícios que diferenciam a
estabelece como vai narra�; ou como deveriam ser narradas no final estas vidas reconstrução histórica objetiva e o que vem da imaginação do autor. São dois
1 78 ROGER CHARTIER
CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA
1 79

livros extraordinários que têm na própria prática, sem discurso, esta auto­ é uma recopilação de oito ensaios. Meus próprios livros são em geral uma
reflexão sobre os níveis da escrita histórica e suas distâncias em relação às série de ensaios. Mas não é o caso com Carlo Ginzburg, que sempre se vincu­
fontes, assim como de operações que supõem regras de controle das quais lou à forma de livro dividido em capítulos. No caso de Robert Damton há
fala Michel de Certeau. ambas aSformas PõiS'-Sê'US-Piíi:úeirOS livros são recompilações de ensaios, como
É preciso dizer também que a história cultural não pode se reduzir à A grande matança de gatos, que é formado por vários deles, embora Darnton
história cultural européia dos séculos XVI a XVIII. Há uma concentração de tenha também livros amplos, como o estudo dedicado à edição francesa da
trabalhos sobre este período, mais do que sobre o tempo contemporâneo, Enciclopédia, ou o mais recente, dedicado à literatura clandestina francesa
mais do que sobre outras áreas estrangeiras. Mas seria um erro pensar que Édition et sédition. O ensaio permite, como um laboratório, uma invençã
este tipo de enfoque não se desenvolveu para a história da China, ou para a �
mais livre e define um objeto mais manejável, além de que permite inscrever
história latino-americana que, a partir do estudo do encontro das culturas, mais facilmente a teflexão teórica dentro da análise histórica. Isto é certo, há
propõe exatamente os mesmos temas. Mostramos aqui uma idéia muito res­ autores que mantêm sua vinculação com o ensaio e outros que pensam que a
trita da história cultural, se entendemos unicamente os trabalhos sobre os dignidade do livro se mantém com a dimensão própria de uma obra maior.
antigos regimes europeus. Mas há um mundo mais amplo embora, talvez,
vítima da reprodução das relações de dominação, da exagerada dominação
do centro europeu sobre a historiografia cultural, como por muitos anos so­ ESTILOS HISTORIOGRÁFICOS
bre a própria história.
AGUIRRE: Possivelmente, mas o que, além disso, se distinguiria é que se GOLDIN: Penso em um futuro leitor do livro que estamos tratando de fazer
e
trata de autores europeus que se propuseram uma refle;cão explícita sobre os imagino suas perguntas. Intuo que gostaria de saber várias coisas. Como traba­
programas teóricos, metodológicos, historiográficos, ao contrário de outros. Eu lha o historiador Chartier? O que leu? Como procede em seus trabalhos?,
etc.
acho que é uma questão central e importante. Tenho a impressão de que lê muitos livros de colegas, que tem preferência pelo
CHARTIER: Sim, é possível porque a história cultural está situada em um ensaio, mas que, ao mesmo tempo, suas investigações são muito instigantes.
marco de reflexão compartilhado pelas ciências sociais, a literatura ou a filo­ C�IER: Não sei. O problema é que, efetivamente, prefiro ler a escre­
sofia, que definem um perfil específico que não se encontra necessariamente ver, prefiro aprender a dar uma forma fixa ou definitiva a uma investigação,
nas historiografias culturais de outras áreas geográficas. Por outro lado, te­ porque penso que sempre há mudanças, deslocamentos, proposições intelec­
mos o problema da constituição do repertório canônico. Até agora, as obras tuais que surgem de todos os horizontes, de todas ·as disciplinas, de todas as
"univ�rsais" (sem depender de suas próprias tradições culturais, estéticas ou escolas historio gráficas. 1\Jdo isto me aprece de grande dificuldade para dar
literárias) vêm deste coro ocidental. Falamos de Shakespeare, de Cezvantes, estabilidatre a uma investigação de muitos anos sobre um só tema e, no final,
de Moliere... acabar em uma obra de conhecimento, mas sem que tenha que integrar ne­
SABoRIT: Eu perguntava acerca da inserção do registro literário no traba­ cessariamente toda a vitalidade da discussão intelectual. É a razão pela qual
lho historiográfico porque me parece que IJ.$ê!!-.�I:<?:Por excelência para este tipo o ensaio permite expressar-me de maneira mais adequada. É evidente que a
de história (considerando a citação de Michel de Certeau, que eu não conheciq,) preferência pela leitura tem vantagens, porque permite abrir janelas, mas ao
é o-efí.SCiio. Isto me remete a outra coisa: à imaginação controlada de Gombrich. / mesmo tempo pode imobilizar uma investigação de duração mais longa, pois
o�;:;;;io é o espaço idôneo, e defato praticaram-no todos estes histoT--ià.dorerquê· não se pode fazer tudo ao mesmo tempo, e em particular se a curiosidade, no
foram comentados aqui. Há wna ampla e notável produção ensaística em todos caso de que o tema da história do livro o imponha, se desenvolva em relação
estes historiadores; é notável no sentido de que o ensaio permite estas duas coisas a períodos ou áreas geográficas culturais mais diversas. Além disso, a biblio­
ao mesmo tempo: propor um conjunto de conhecimentos e refletir sobre esses grafia sobre cada um dos temas que discutimos, ou apenas mencionamos, é
conhecimentos... enorme, e aumenta ca�a dia em todas -�s línguas. ACho que vamos regressan-
CHARTIER: Sim, mas os casos são um tanto diferentes. Para Natalie Davis, dOá-ííÕssopÕ�tÕ-de partictá': ��EC.ê_s.!. g.fl�.-esg:L\g, qiJ}U.lJ5'L �- pçç!�_.maneja ,
por exemplo, o ensaio foi a primeira forma de seu trabalho; seu primeiro livro __

controlar nem integrar. Podemos tentar da melhor maneira possível - r


e, com
. (.
180 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E H I STÓRIA 181

essa preocupação, essa curiosidade, vem talvez a forma privilegiada do en­ CHARTIER: A imagem da cidade nos remete a um dos capítulos de Michel
saio, as correções de textos já escritos e que depois podem me parecer discu­ de Certeau em sua obra A invenção do cotidiano. A leitura é como uma prática
tíveis, pois sempre há novos enfoques que tornam duvidosas as próprias de caça furtiva no terreno do texto, apesar que há tambéfilOílso� da cL(fãde,
conclusões. Desta maneira, é um trabalho que pode nos inspirar, que retoma pàrque a�-êfdãde·;'é��-;·uaõrgã�ríriação, seus edifícios, suas·� .;;-�b;ig �tórias, é
temas e perguntas por meio das leituras e das investigações. habitada por pessoas que nela caminham, que se apropriam dela e a. delimi­
Gosto que se comuniquem esses mundos tão separados porque a neces­ tam em seu estilo singular: as vias que seguem, os lugares que preferem, as
sária especialização do ofício de historiador, com sua dificuldade para domi­ paisagens que tornam suas e o resto. Do mesmo modo que Michel de Certeau
nar a produção impressa inclusive em um só campo, não deve impedir pensava que a leitura era como uma caça furtiva no terreno textual, pensava
encontros como o nosso, acima das tradições e das referências nacionais, das no uso da cidade como uma apropriação específica do que é dado ou imposto.
maneiras de pensar ou de ignorar (sem má intenção) o que se faz fora, sem Assim, pois, se pensamos nas historiografias em forma de grandes edifícios,
esquecer o problema da língua que se converte de imediato no problema das será possível caminhar entre eles e apostar mais pelo caminho que pelo edifí�
traduções acessíveis. Assim, pois, o mundo globalizado é, contudo, um mun� cio. Mas talvez seja necessário construir novos edifícios ainda que menores e
do que permanece e que, talvez, se amplie como desvinculado, isolado� sepa� não só caminhar...
rado, disseminado. E se as reflexões e as investigações particulares podem GOLDIN: Finalmente, a cidade não são apenas grandes edifícios, são as ave­
ajudar para estabelecer uma comunicação entre disciplinas ou tradições naci� nidas, os parques onde a gente se senta e desfruta, os mercados onde a gente
anais específicas� então podem ser conseguidas outras formas de contribui� negocia. Temos que resistir a uma idéia urbanística onde só há grandes edifícios
ção dentro do mundo intelectual. para sobreviver; também há espaços para o confronto, o diálogo, o ócio.
Entre as outras obras de grande amplitude e a prática do ensaio há uma AGUIRRE: Eu gosto da figura que Isaiah Berlin utiliza em um ensaio de seu
tensão inevitável. Está de acordo com os temperamentos� com os acasos da livro Pensadores russos, quando analisa Tolstoi. Com esta figura, divide os pen�
vida, com o aleatório das carreiras universitárias, que vão em uma ou noutra sadores entre pensadores�ouriço e pensadores-raposa; a contradição no caso de
J direção. Ler aos ou��2,- �-.f!�y:e".,RexmitlLR�.IJ.�-�!, em [lOvos teii?:�� .�.!:.Lr:':Y��.�i.Ç�,Ç�Q Tolstoi, diria Isaiah Berlin, é que sendo este um pensador com natureza de rapo­
v'\1 e, por meíõ-aeste; nOvo_s t_e�as� P;ropqr _é!-liànÇaS� ináis 'ou menos inauditas sa, que fan;ja por muitos lugares, queria ser um pensardor-ouriço, alguém mais
.
eE!f!2.�1Ell!í.�·s.,ÊStã··�etià' Uffi p�ucO minha resposta, que implica,"neêêsS·�� . 0-entificadb com uma só posição. Podemos levar a figura a épocas, e tenho cada
riamente, formas particulares, e também limites, porque não se pode fazer vez mais a impressão de que estamos deixando para trás as épocas-ouriço, que
tudo c.om a mesma visão ou a mesma perspectiva. Aqui a expressão chave buscavam a explicação em um núcleo específico, e entramos em épocas de explo�

seria "curiosidade compartilhada > . Mais do que a idéia de um edifício bem ração de muitos caminhos, de muitas possibilidades.
construído, a curiosidade compartilhad a é o estilo de uma tradição da repú� CHM\'f!ER: Isto poderia ser vinculado ao tema da forma privilegiada do
blica das letras que consiste em aprender e compartilhar o conhecimento ensaio e à importância de autores que� distanciando-se da form·a da grande
mediante uma rede de intercâmbios. Esta definição é o que podeda explicar a obra tradicional, multiplicaram este tipo de enfoques. Referimo�nos muitas
forma do ensaio, o gbsto pela resenha ou o gosto pelos encontros. vezes a Borges, que nunca escreveu textos monumentais, nem mais nem me�
GOLDIN: Agora que mencionou o edifício, eu pensei no trabalho do urbanis­ nos. Escreveu contos, ficções, histórias que mesclam a ficção com a exploração
ta, e em como de certa forma isso o define. Traçar ruas, estabelecer lugares de do conhecimento. Por sua parte, Walter Benjamin constitui agora uma inspi�
ração para este tipo de olhar agudo, de mescla entre observação controlada e
encontro, imaginar edificações que não são forçosamente construídas pela pró�
pria pessoa, estabelecer possíveis caminhos que talvez a gente nunca transite. J projeção livre do sujeito. Estes autores, que estão muito presentes no momen­
I ) Está presente o enormemente cons!!::�€_�2E:.._s.:!.12!..��'!_'!:E�! :__'!_!:_ ���-��-:_c!_ 1
V __
to contemporâneo, nos remetem a esse tipo de investigação intelectual.
/ afl!:ffi!;IG. porq_��-�.�?..9_��.��-��?-�·-�-C!:.��_l!-fC!-0 �g..fQ.11JO.. em .tQdQ$_ '?� ��'!:� I . . -- .
Assim, pois, não se deveria pensar sempre que a história exige um traba�

Í!
textos há uma $rande inclina�ão para matizar; para problematizar; para rejeitar · lho lento e operações complexas para produzir objetos, fontes, análises, trata­
- .
afirmações catei6ricàs� É �m� das várias lições que, como leitor; a gente obtlin mentos. Esta prática pode se transformar na escolha de uma forma breve e
' lA dii"chariier:-c-·-·· · · ·
não da obra majestosa e impressionante à maneira de Braudel, se bem que
i
182 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERAiURA E HISTÓRIA 1 83

isto não significa que não haja uma disciplina de invéstigação que é parte SABORIT: A entrevista é justamente o gênero no qual pode-se observar o
oculta da prática histórica e que, enfim, continua sendo a mais importante campo de conhecimento, mas também se vê o ator da construção desse campo de
para fazer história. É uma fase que conhece seus fracassos, suas dúvidas, a conhecimento desde distintas perspectivas; no entanto, na obra não se evidencia
dificuldade ou impossibilidade de encontrar uma fonte que corresponda à a presença desse ator. ..
questão tratada, o problema de acesso aos arquivos, a incerteza frente ao GOLDIN: Por exemplo, lembro uma imagem do livro Barthes por si mesmo,
método mais adequado para estudar ou analisar os documentos. Tudo isto uma fotografia na qual ele aparece de calças curtas fazendo um trabalho de
constitui a realidade cotidiana da prática da história, que depois deve-se con­ classificação de fichas ou algo assim. São detalhes, mas a gente gosta de conhecer
verter em uma escrita que se oferece a um público profissional e ao mesmo esses gestos privados...
tempo não profissional. Este núcleo leitor poderia desta maneira apropriar-se CHARTIER: Podemos tocar esse tema. Há sempre uma contradição em
do texto para aumentar seu conhecimento histórico em geral ou utilizar ins­ uma entrevista na qual a pessoa que deve falar de si mesmo e reconstruir, à
trumentos de pensamento que se podem aplicar fora do objeto que permiti­ .' . sua maneira, trajetória, mudanças e influências que lhe parecem chaves no
ram analisar. Há esta parte do trabalho historiográfico que me faz pensar que que escreveu ou fez, ao mesmo tempo, enfatiza em seu trabalho a matéria das
a descrição de Hayden White não é adequada na medida em que a sua é a determinações desconhecidas, das relações ignoradas pelos sujeitos.
descrição da história unicamente como escrita. Mas os historiadores não es­ O caso de Barthes era particularmente claro. Ele definiu uma das teorias
crevem a cada minuto de seu trabalho como historiadores, escrevem também fundamentais para a nouvelle critique que apagava o autor em proveito do
uma escrita não necessariamente pública: a nota, a ficha, 6 resumo, os qua­ funcionamento lingüístico de um texto que o autor não controlava, e da liber­
dros numéricos. É o modo de tornar seu o documento, mas é outra forma de dade do leitor, proclamando a morte do autor. No entanto, escreveu esse livro
escrita que não ocorre como a escrita visível da história; esta se estabelece, que foi uma espécie de afirmação extrema da singularidade pessoal." Mas
antes, a partir das escritas múltiplas que tornam possível os materiais históri­ essa armadilha, ou contradição, assumida por Barthes, repete-se com todas
cos. E este balanço, este equilíbrio entre uma prática modesta, de análise as formas de pensamento que se obstinam em uma dimensão sociológica das
cotidiana, que encontra muitas dificuldades (documentais, teóricas ou meto­ determinações que gravitam sobre cada um de nós e que não são necessaria­
dológicas), e, por outro lado, esta escrita, que vimos de diversas maneiras, mente percebidas ou conhecidas pelo sujeito. Desta maneira, quando há esse
dão e definem a singularidade da história. E ao faltar uma ou outra dessas tipo de enfuque intelectual, essa forma de inteligibilidade do mundo social, se
dimensões, me parece que há uma debilidade na própria definição da histó­ torna difícil estabelecer o próprio discurso como dando a causa ou a chave da
ria: como escrita (grafia\ segundo dizia Michel de Certeau, mas ao mesmo própria trajetória ou das próprias escolhas. Por isso, sempre pareceu-me uma
tempo supondo todas essas operações que têm suas regras e suas exigências, tensão, uma dificuldade. E não acredito que o novo gênero da ego-história, o
as da história como investigação. Enfim, é uma disciplina técnica, que só dos histofladores que escrevem sobre sua própria trajetória, careça de arris�
existe quando se converte em um discurso acessível e público que vai alimen­ cadas ilusões. Um volume de oito egohistórias foi publicado por Pierre Nora,
tar a reflexão coletiva. São as duas faces da história: como disciPlina científi­ e o paradoxal foi que estes historiadores, pertencentes à tradição dos Anais e
ca e como escrita. à tradição da história como ciência social, falando de si mesmos não podiam
propor uma explicação de tipo sociológico em relação à sua origem social, sua
trajetória educativa.21 Quando uma pessoa fala de si mesma pensa sempre
A ILUSÃO AUTOBIOGRÁFICA que é absolutamente singular e livre. Mas nós, historiadores, ou sociólogos,
sabemos que esta singularidade é muito relativa e que a compartilhamos com
GowiN: Não falamos em aspectos de sua pessoa que, embora não me pareçam outros que têm as mesmas propriedades sociais. Cada um de nós não atua da
imprescindíveis, poderiam ajudar a explicar algo... mesma maneira, mas em nível de uma série de determinações fundamentais
CHARTIER: Bem, sua idéia de levar em consideração o possível leitor des­ essa realidade sociológica funciona.
ta conversas pareceu-me muito interessante...
1 84 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA
185

Desta maneira, uma entrevista ideal é a que, por um lado, propõe o CHARTIER: Exatamente. Mas também há muita gente que esquece que
discurso da pessoa entrevistada como a projeção da representação de si mes­ não é ao mesmo tempo o ator e o construtor. E todo enfoque fundado em uma
ma por meio de uma apresentação para os outros e, além disso, oferece igual­ noção como a de interdependência, à maneira de Elias, ou da definição de
mente um estudo de tipo sociológico sobre as distintas comunidades onde ela habitus, à maneira de Bourdieu, deve, sem dúvida, nos proteger de semelhan·
mesma esteve situada ao longo de sua trajetória vital. Seria uma lição de te ilusão, de maneira talvez mais forte do que outros enfoques que se obsti­
modéstia considerável porque se veria que o que é pensado como uma atua­ nam na liberdade supostamente absoluta do sujeito. Penso que o problema
ção intensamente consciente, finalmente repete as condições objetivas de outros consiste exatamente em articular esta força inovadora com as restrições esta�
na mesma situação. O que fica é o toque pessoal que cada um de nós pode belecidas, o qual foi tema constante em muitas partes desta entrevista.
acrescentar a essas determinações ou a estas trajetórias compartilhadas, mas Ver como o autor, o leitor, o editor ou o historiador poderiam definir um
não mais. espaço seu a partir das restrições que o momento histórico, a formação social
GOLDIN:Também o toque pessoal pode ser o que muda tudo� creio que e a herança da tradição nacional lhes impõe: foi quase o leit motiv de todas as
nenhuma das perspectivas anula a outra� e hoje em dia entendemos claramente partes da entrevista, com seus diferentes temas. E, por último, voltando a
que existem essas duas dimensões com as quais temos que viver con:o sujeitos... mim mesmo� parece�me exatamente a mesma lição que devemos seguir e que
CHARTIER: Há um exemplo em que esta tensão é extrema. E o caso do define esse espaço de restrições transgredidas, mas ao mesmo tempo de liber·
sociólogo francês Pierre Bourdieu, porque ele não é somente um sociólogo dades que confrontam suas coações e seus limites. Não há palavra final...
que estuda sociedades ou grupos sociais específicos, mas também estuda o Porque, enfim, encontramos a coerência disto tudo, quase no último momen­
mundo intelectual a que pertence. Desta maneira, a tensão entre a subjetivi� to, no da despedida.
dade e a objetividade é extrema quando o próprio estudo inclui a pessoa que
estuda. Vemos o limite deste tipo de tensão em toda a obra de Bourdieu,
particularmente no livro Homo academicus, uma descrição do campo univer� NOTAS
sitário francês, do qual Bourideu é um elemento.22 Seria uma imagem exem·
piar o que pretende esta dificuldade para cada um objetivar-se, o que leva a 1Michel de Certeau, I!invention de l'quotidien I, Arts de faire, Gallimard, Paris, 1990 (tradu·
pensar que esta objetivação não pode vir em forma de discursos produzidos ryão para o elpanhol: La invención de lo cotidiano I, Artes de hacer, México, Universidade
na primeira pessoa e a partir da consciência e da representação que cada um Ibero·america:na, 1996), e La Fable mystique XVle-XVIIe siecles, Paris, Gallimard, 1982 (tra­
·•
dução para o espanhol: La fábula mística. Siglas XVI-XVII, México, Universidade Íbero·
tem Q.e si mesmo. Por isso não nego o interesse como documento histórico dos americana, 1993).
relatos biográficos, nem o fato de que o toque particular possa mudar muito Ü
2Norbert Elias, ber den Prozess derZivilisation, op. cit., e Die hõfische Gesselschaft Untersu�
quando falamos de um trabalho intelectual. Mas quero dizer que não se de­ chungen zu�oziologie des KOnigstums und der hOschen Aristokratie, Darmstadt e Neuwied,
vem aceitar as ilusões deste gênero, e me parece que com a moda da egohts­ Hermann Luchterhand, 1969 (tradução para o espanhol: La sociedad cortesana, México,
Fondo de Cultura Económica, 1982).
tória na França este perigo nem sempre foi evitado. 3Louis Marin, Le Portrait du roi, Paris, Minuit, 1981, e Opacité de la peiture. Essais sur Ia
GowiN: Parece·me que não se deve aceitar nenhuma ilusão, embora seja répresentation au Quattrocento, Paris, Usher, 1989. Sobre a obra de Marin, ver Roger Char�
bonito sonhar. .. tier, "Poderes y limites de la representación. Marin, el discurso y Ia imagen", em Escribir las
prácticas, Foucault, De Certeau, Marin, op. cit., p. 73·99.
CHARTIER: Talvez um tanto divertido, não? ...
4Paul Ricoeur, Temps et récit, Paris, Seuil, 1983�1985, 3 vols. (traduções para ao espanhol:
GOLDIN: Você mencionou que gosta mais de ler do que de escrever. Bem, Tiempo yrelato, Madrid, Cristiandad, 1987, 3 vols., e Tiempo y narración, México, Siglo XXI
depende, é gostoso ler e sonhar; e a gente nem sempre está na mesma posição Editores, 1995-1996, 3 vols.).
frente a um texto literário; às vezes o lê e o relê e quer se perder na leitura, e às 5Norbert Elias e Eric Dunning, Questfor Excitment. Sport and Leisure in the Civilizing Pro­
cess, Oxford, Basil Blackwell, 1986. Ver Roger Chartier, "Le sport ou Ia Iibération contrôlée
vezes a gente o lê e analisa prestando mais atenção ao texto do que ao que o texto
des civilisation. La violence maitresée, Paris, Fayard, 1994, p. 7�24 (tradução para o espa­
suscita. Há também momentos no qual a gente pode dar·se a ilusão de ser o ator nhol: Nobert Elias, Deportey ocio en el proceso de la civilización, México, Fondo de Cultura
e o construtor de sua história, com conhecimento e deliberação de que não o é... Económica, 1992)
1 86 ROGER CHARTIER

6Hourcade, Godoy e Botalla (org.), Luz y contraluz, op. cit.


7Roger Chartier, "Cuatro preguntas a Hayden White", Historia y Grafía, n. 3, 1994, p. 231�
246, e Hayden White, "Respuesta a las cuatro preguntas del profesor Chartier", Historia y
Graffa, n. 4, p. 317-329. Ver também: Hayden White, Metahi.storia. La imaginación históri­
ca en la Europa del siglo XIX, México, FCE, 1992. A pênd i ce
S"Rappresentaziones della pratica, pratica della Rappresentazione", Quaderni Storici, n. 2,
1996, p. 487-496.
90aniel Roche, Journal de ma vie. Jacques-Louis Ménétran, compagnon vitrier au XVIIIe
siecle, Paris, Montalba, 1982 (nova edição em Albin Michel, Paris 1998), e Michel Vovelle,
Eirresistible ascension de Joseph Sec, bourgeois d'Aix, Aix-en-Provence, Edisud, 1975.
lORoger Chartier, "Intellectual history or sociocultural history? lntellectual trajectories", BIBLIOGRAFIA
em Dominicke La Capra e Steven L. Kaplan (org.), Reappraisals and New Perspectives, Itha­
ca e Londres, Comell University Press, 1982, p. 13-46 (tradução para o espanhol: El mundo
como representación. Estudios sobre historia cultural, Barcelona, Gedisa, 1992, p. 13-43.
DE ROGER CHARTIER
llCarlo Ginzbur, Il beneandanti. Stregoneria e culti agrari tra Cinquecento e Seicento, op.
cit., e Ilformaggio e i vemi. Il cosmo diferente un muganaio Del '500, op. cit. (tradução para
o espafíol: El queso y los gusanos, op. cit.).
12Carlo Ginzburg, Sotoria nottuma. Una decifrazione Del sabba, Thrim, Giulio Einaudi, 1989.
t3François Hartog, "Eart du récit historique", em Jean Bourdier e Dominique Julia (org.), OBRAS EM ESPANHOL
Passés recompasés. Champs et chantiers de l'histoire, Paris, Autrement, 1994, p. 184-193.
14Michel de Certeau, J.:Écriture de l'histoire, Paris, Gallimard, 1975 (tradução para o espa­
nhol: La escritura de la historia, México, Universidade Ibero-americana, 1993, p. 68, nota Roger Chartier, Historia d: la vida privada, de Philippe Ariês e Geores Duby (dirs.), tradu­
_ de M. A. C nc;pcxón Martfn Montero, v. III, R. Chartier (coord.), "Del Renacimien­
çao
5). ?
lSRoger Charlier, "Trajectoires et tensions culturelles de l'Ancien Régime", em Histoire de la to a la Ilustracxón , Madrid, 1989. (Ensaio: "Las prácticas de lo escrito", p. 112-161.)
France, op. cit., "Lês formes de la culture", volume organizado por André Bourgiêre, Paris, -- , El mundo como representaci6n. &tudios sobre historia cultural, tradução de Clau­
Seuil, 1993, p. 307-392. dia Ferrari, Barcelona, Gedisa, 1992.'
16René Rémond, La droite en France de 1815 à nous jours. Continuité et diversité d'une - -� Libras, lecturas y lectores en la Edad Moderna, tradução de Mauro Armifío,
Madrid'
tradition politique, Paris, Aubier, 1954. Altanza 1993.
17Natalie Zemon Davis, Fiction in the Archives. Pardon Tales and Their Tellers in Sixteenth­ -- , El J:den �e los lib:�s. Lectores, autores y bibliotecas en Europa entre los siglas xnr e
Century France, Stanford, Stanford University Press, 1987. XVII�, traduçao de VlVlana Akerman, prólogo de Ricardo Garda Cárcel, Barcelona
'
lSNatalie ZemOn Davis, Society and Culture in Early Modem France, Stanford, Stanford Gedtsa, 1994.
University Press, 1975 (tradução para o espanhol: Sociedad y cultura en la Francia moder­ -- , �ecturas ! lectores en la Francia delAntiguo Régimen,'tradução de Paioma Villegas,
na, Barcelona, Grijalbo, ·1992) . México, Instituto Mora, 1994 (coleção Cuadernos de Secuencial).
19Anthony Grafton, Forgers and Critics. Creativity and Duplycity in Westem Scholarship, --, E�?io público, crítica Y desacralización en el siglo XVIII. Los or{gens culturales
_
Revoluc�onfrancesa' traduçao
de la
Pricenton, Princenton University Press, 1990, e Julio Caro Baroja, Las falsificaciones en la de Beatriz Lonné, Barcelona, Gedisa, 1995.
, Soctedad Y escntura en la Edad Moderna. La cultura como apropriación, tradução
.
historia (em relação à da Espanha), Barcelona, Seix Barrai, 1992.
·
---

20Roland Barthes, Roland Barthes par Roland Barthes, Paris, Seuil, 1975. de �aloma Villegas Y Ana Garcia Bergua, México, Instituto Mora, 1995 (coleção Itine­
21Pierre Nora (comp.), Essais d'ego-histoire, Paris, Minuit, 1987. ranos).
22Pierre Bourdieu, Homo academicus, Paris, Minuit, 1984 (tradução para o espanhol: Homo ---, Escribir las prácticas. Foucault, De Certeau, Marin, tradução de Horacio Pons, Bue­
academicus, Madrid, Taurus, 1987). nos Aires, Mantial, 1996.
---, Pluma de ganso, libra de letras, ojo viajero, México, Universidad Iberoameri
cana'
1997.
--- , Guglielmo Cavallo (coords.), Historia de la lectura em el mundo occidental tradu­
ções de Maria Barberán, Mari Pepa Palomero; Fernando Borrajo e Cristina Gar�ía Ohl­
rich, Madrid, Taurus, 1998.
1 88 ROGER CHARTIER CULTURA ESCRITA, LITERATURA E HISTÓRIA
189

PRÍNCI PAIS OBRAS EM FRANCÊS -- �es pra�ques de l'écriture ordinaire dans las societés de l'll.ncien Régime, Lyon, Uni­
,
verstté Lum1ere, Lyon H, Groupe de Recherches sur l_a socialisation, 1996
(Cahiers de
Recherche, 7).
Reger Chartier, Dominique Julia e M. M. Compiere, E Éducation en France du XVIe au XVllle -- � Guglielmo Cavallo (coords.), Histoire de la lecture dans le monde occidental Paris
siecle, Paris, SEDES, 1976.
Semi, 1997. (Ensaio: "Introduction", com Gublielmo Cavallo, p. 7-46, e
, J. Le Goff e J. Revel, La Nouvelle Histoire, Paris, Retz, 1978. (Artigos: '1\.nnales", "Lect�res e�
---
lecteurs 'populaires' de la Renaissance à l'âge Classique", p. 315-330.)
'fuchéologie industrielle", "Education", "Febvre", "Livre", "Outillage mental", "Piren­ --, Au bord de la falaise. E histoire entre certitude et inquiétude
ne", "Populaire", "Positivisme", "Révolution", "Revue Historique", "Histoire sérielle", ' Paris Albins Michel
'
1998. '
"Histoire sociale", "Sombart".)
-- , Figures de la gueuserie, Paris, Montalba, 1982 (Bibliotheque bleue).
--- e H.-Y. Martin (coords.), Histoire de l'Édition Française, v. I, "Le livre conquérant.
Ou Moyen Age au milieu du XVII siécle", Paris, Promodis, 1982. (Ensaios: "Pamphlets
et gazettes", p. 405-425, e "Stratégies éditoriales et lecteurs populaires", p. 585-603.)
--- e D. Richet (coords.), Représentations et vouloir politique. Autour des États Géné­
rauxde 1614, Paris, EHESS, 1982. (Ensaios: "La convocation aux État de 1614. Note
sur les formes politiques", p. 55-61; "Doléances rurales: le baillage de Troyes", p. 89-
1 1 1 , e "La noblesse et les Etats de 1614", p. 1 15-125.)
--- e H.-J. Martin (coords.), Histoire de l'Édition Française, v. 11, "Le livre triomphant.
1660-1830", Paris, Promodis. (Ensaio: "Les pratiques urbaines de l'imprimé", com D.
Rache, p. 402-429, e "Livres bleus et lecteurs populaires", p. 498-5 11.)
--- e H.-J. Martin (coords.), Histoire de l' Édition Française, v. III, "Les temps des édi­
teurs, Du romantisme à la Belle Époque", Paris, Promodis, 1985.
--- (coord.), Pratiques de la lecture, Marsella, Rivages, 1985. (Ensaios: "Du livre au
lire", p. 62-88, e "La lecture: une pratique culturelle", com Pierre Bourdieu, p. 218-
139.)
--- , Hisoire de la vie j;rivée de Philippe Airés e Georges Duby (dirs.), v. III, R. Chartier,
(coord.), "De la Renaissance aux Lumiéres", Paris, Seuil, 1986. (Ensaio: "Les pratiques
de l'ecrite", p. 121-162.)
--- e H.-J Martin, Histoire de l'Édition Française, vol. rv, "Le livre concurrencé, 1900- 1
1950", Paris, Promodis, 1986. (Ensaio: "Les imaginaires de la lecture", com J. Hé­
brard, p. 528·541.
---., Lectures et lecteurs dans la France de l'll.ncien Régime, Paris, Seuil, 1987.
--- (coord.), Les Usages de l'Imprimé (XVe-X1Xe siecles), Paris, Fayard, 1987. (Ensaios:
"La culture de l'imprimé", p. 7-20; "La pendue miraculeusement sauvée. Étude d'um
ocassionel", p. 83-127, e "Du rituel au for privé: les chartes de mariage lyonnaises au
XV!Ie siécle", p. 229-251.) .
--- , Les Origines culturelles de la Revolution française, Paris, Seuil, 1990.
--- (coord.), La Correspondance. Les usages de la lettre au XIXe siécle, Paris, Fayard,
1991. (Ensaios: "Avant-Propos", p. 7-13; "Des 'secrétaires' pour le peuple? Les modé­
les épistolaires de l'Ancien Régime entre littérature de cour et livre de colportage", p.
159-207, e "Conclusion. Entre public et privé: la correspondance, une écriture ordi­
naire", com J. Hébrard, p. 451-458.)
---, J.:Ordre des livres. Lecteurs, auteurs, bibliotheques en Europe entre XIVe et XVllle
siecle, Aix-en-Provence, Alinéa, 1992.
--- (coord.), Histoires de la lecture. Um bilan des recherches, Paris, IMEC/Maison des
Sciences de l'Homme, 1995. (Ensaios: "Presentation", p. 13-18, e "Lecteurs dans la
longue durée: du codex à l'écran", p. 271-283.)
---, Culture écrite et société. Eordre des livres (XIVe-XVIIIe siécles), Paris Albin Michel,
1996.