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1.

Introdução
A resistência ao cisalhamento de um solo pode ser definida pela máxima tensão de
cisalhamento que um solo pode resistir antes da ruptura, ou a tensão de cisalhamento do solo
no plano em que estiver ocorrendo a ruptura. O cisalhamento ocorre devido ao deslizamento
entre corpos sólidos ou entre partículas do solo. Os principais fenômenos que permitem
menor ou maior deslizamento são o atrito e a coesão (Viecili, C. 2003).

Os parâmetros de resistência ao cisalhamento do solo, coesão e ângulo de atrito interno,


consistem em duas variáveis essenciais para a análise da susceptibilidade a deslizamentos de
encostas. A coesão representa a força cimentante entre as partículas de solo, por sua vez, o
ângulo de atrito interno representa as características friccionais entre as partículas. (De Abreu
et al. 2015)

O presente trabalho tem como objetivos identificar e descrever os métodos usados para
determinação desses parâmetros de resistência ao cisalhamento do solo, coesão e ângulo de
atrito interno.

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3.Métodos de determinação do ângulo de atrito interno e de coesão
3.1. Conceitos
Coesão

A coesão é a principal parcela da resistência ao cisalhamento dos solos finos e coesivos,


como por exemplo as argilas, já para os solos granulares ou não coesivos, como as areias, a
maior parcela é devida ao ângulo de atrito.

Ângulo de atrito interno

O ângulo de atrito interno do solo representa as características friccionais entre as partículas


do solo, sendo definido como o ângulo máximo que a força transmitida ao solo pode fazer
com a força normal à superfície de contato, sem que haja o cisalhamento do solo no plano de
ruptura.

O ângulo de atrito interno é afetado pelo teor de matéria orgânica do solo, mas isso está
relacionado ao teor de água do solo. A coesão é independente do teor de matéria orgânica e
decresce com o aumento do teor de água do solo. [ CITATION Joã07 \l 2070 ]

Segundo Al-Shayea (2001), quanto maior o teor de argila, menor o ângulo de atrito interno
do solo, pois as partículas de argila revestem a superfície das partículas de areia, diminuindo
o atrito interno do solo.

3.2. Resistência ao cisalhamento dos solos


A resistência ao cisalhamento de um solo pode ser definida pela máxima tensão de
cisalhamento que um solo pode resistir antes da ruptura, ou a tensão de cisalhamento do solo
no plano em que estiver ocorrendo a ruptura. O cisalhamento ocorre devido ao deslizamento
entre corpos sólidos ou entre partículas do solo. Os principais fenômenos que permitem
menor ou maior deslizamento são o atrito e a coesão (LAMBE, 1972; VARGAS, 1977;
PINTO, 2000) citados por (Viecili, C. 2003) .

3.2.1. Atrito
A resistência por atrito entre as partículas depende do coeficiente de atrito, e pode ser
definida como a força tangencial necessária para ocorrer o deslizamento de um plano, em
outro paralelamente a este. Esta força também é proporcional à força normal ao plano. O
ângulo formado entre a força normal e a resultante das forças, tangencial e normal, é
chamado de ângulo de atrito φ, sendo o máximo ângulo que a força cisalhante pode ter com a
normal ao plano sem que haja deslizamento.

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3.2.2. Coesão
A resistência ao cisalhamento dos solos é devida essencialmente ao atrito entre os grãos. Mas
a atração química entre partículas, independente da força normal, tem uma parcela de
resistência significativa em determinados tipos de solos, que é denominada coesão real. A
coesão real não pode ser confundida com a coesão aparente, presente principalmente em
solos argilosos húmidos não saturados, determinada pela pressão capilar da água. Essa
resistência desaparece à medida em que o solo vai sendo saturado.

3.3. Métodos de determinação


Segundo Das (2007) apud Souza (2018), existem diversos ensaios de laboratório e in situ (em
campo) disponíveis para se conhecer a resistência ao cisalhamento do solo, dentre eles
destacam-se os seguintes:

 Ensaio de cisalhamento directo;


 Ensaio triaxial;
 Ensaio de cisalhamento simples;
 Ensaio triaxial de deformação plana;
 Ensaio de cisalhamento anular ou ring shear;
 Borehole Shear Test (in-situ).

Os ensaios laboratoriais mais utilizados, segundo Pinto (2006), citado por Souza (2018), são
os de cisalhamento directo e o triaxial.

3.3.1. Métodos de determinação do ângulo de atrito interno e de coesão em laboratório


3.3.1.1. Ensaio de cisalhamento directo
O ensaio de cisalhamento directo é o mais antigo procedimento para determinar a resistência
ao cisalhamento de um solo, e baseia-se no critério de Coulomb. (Viecili, C. 2003)

O ensaio de cisalhamento directo consiste na determinação sob certa tensão normal da tensão
de cisalhamento necessária para que ocorra a ruptura de uma amostra de solo localizada no
interior de uma caixa composta de duas partes deslocáveis entre si. Repetindo-se o ensaio
para várias amostras, obtém-se um conjunto de pares de valores da tensão de cisalhamento (τ)
em função da tensão normal (σ ), que formam um gráfico cuja inclinação é o ângulo de atrito
do solo (φ). Essa constatação advém da equação abaixo, equação 1. Buzon, L.G et al. (2016)

τ =c +σ∗tgφ eq.1

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Em que:

 C - Coesão;
 σ – Tensão normal;

 φ - angulo de atrito interno das partículas;

 τ – Tensão de cisalhamento.

Figura 1: Ilustração simplificada do aparato para ensaio de cisalhamento directo

A tensão cisalhante pode ser representada em função do deslocamento no sentido do


cisalhamento, como mostra o gráfico abaixo, figura 1. Através da figura podem ser
identificadas as tensões de ruptura, τmáx, e a tensão residual, τres, que o solo ainda resiste
após a ruptura.

Figura 2: Ensaio de cisalhamento directo: representação de resultado típico do ensaio (PINTO, 2000) apud
(Viecili, C. 2003)

Uma variação do ensaio de cisalhamento directo é o ensaio de cisalhamento por torção ring
shear que permite determinar o ângulo de atrito e a coesão do solo a grandes deslocamentos.
(Viecili, C. 2003)

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3.3.1.2. Ensaio de compressão triaxial
Das (2006) apud Buzon, L.G et al. (2016), destaca que o ensaio de compressão triaxial é um
dos mais confiáveis métodos para a determinação dos parâmetros de resistência do solo ao
esforço cisalhante, consiste em uma câmara cilíndrica, dentro da qual o corpo de prova, neste
caso o solo, é posicionado envolto por uma membrana de borracha fina. Com uma placa
rígida posicionada sobre a área transversal superior do solo, um pistão imprime certa tensão
axial σ1 na amostra.

O fluido a ser adicionado na câmara cilíndrica normalmente é a água, é responsável por


aplicar certa pressão transversal σ2 à amostra confinada. Determinando-se os pares (σ1, σ2) e

traçando-se círculos de Mohr, é possível obter o ângulo de atrito do solo ( φ) e o coeficiente


de coesão (c).

Figura 3: Ilustração simplificada do aparato para ensaio de compressão triaxial

O ensaio pode ser executado de maneiras distintas: quanto às condições de drenagem: ensaio
adensado drenado, ensaio não adensado não drenado, e ensaio adensado não drenado; quanto
às condições de carregamento: ensaio de compressão por carregamento, ensaio de
compressão por descarregamento, ensaio de extensão por carregamento e ensaio de extensão
por descarregamento. (Viecili, C. 2003)

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3.3.1.2.1. Quanto as condições de drenagem
Ensaio não adensado não drenado (UU) – Neste ensaio submete-se a amostra com as válvulas
de drenagem sempre fechadas a uma pressão lateral e aumenta-se, de seguida, a tensão axial
até à rotura. Este ensaio permite obter a resistência não drenada do solo.

Ensaio adensado não drenado (CU) - O ensaio é conduzido em duas fases. Numa primeira
fase o solo é consolidado para um determinado estado de tensão (isotrópico ou anisotrópico).
As válvulas de drenagem estão abertas de modo a permitir a dissipação do excesso de pressão
intersticial gerado. Na segunda fase (fase de corte), com as válvulas de drenagem fechadas o
provete é levado à rotura, por variação das tensões ou das deformações impostas.

Ensaio adensado drenado (CD) - O ensaio é semelhante ao anterior com a diferença de que se
garante excesso de pressão intersticial nula na fase de corte.[ CITATION Nun15 \l 2070 ]

3.3.1.3. Ensaio de compressão simples


Este é um ensaio adicional de compressão axial, que pode ser considerado como precursor do
ensaio de compressão triaxial. O solo é carregado rapidamente axialmente, mas não é
encamisado numa membrana de borracha como no ensaio triaxial, e também não é confinado,
ou seja, σ3 = 0. O ensaio é não drenado e a resistência ao cisalhamento é Su = τmáx= σ1/2.
(Viecili, C. 2003).

3.3.2. Determinação do ângulo de atrito interno e de coesão em campo


A retirada de amostras sem alterações de campo não é um trabalho muito simples e, por isso,
procura-se realizar os ensaios in situ (MARANGON, 2013) citado por Souza (2018). Os
ensaios não são tão precisos quantos os de laboratório. O quadro 1 mostra os principais
ensaios realizados em campo segundo [ CITATION Pau18 \l 2070 ].

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Tipos de solos
Tipos de Ensaio Melhor Não Principais características
Aplicável Aplicável
Avaliação qualitativa do estado de compacidade
1 - Ensaio Padronizado
Granulares - ou consistência. Comparação qualitativa da
de Penetração (SPT) *
estratigrafia do subsolo.
Avaliação contínua da compacidade e resistência
2 - Ensaio de Penetração
Granulares - de solos granulares. Avaliação contínua de
Estática do Cone (CPT)
resistência não drenada de solos argilosos.
3 - Ensaio de Palheta Coesivos Granulares Resistência não drenada de solos argilosos
Coeficiente de empuxo no repouso;
4 - Ensaio Pressiométrico Granulares -
compressibilidade e resistência ao cisalhamento.
* Sem interesse directo na determinação dos parâmetros de resistência.
Fonte: Marangon (2013) apud Souza (2018).
Quadro 1: Ensaios de campo para determinação de resistência ao cisalhamento.

3.3.2.1. Borehole Shear Test (BST)


De Abreu et al. 2015, destacam o método Borehole Shear Test, uma técnica que também
pode ser usada para realização de ensaio para determinação de resistência ao cisalhamento
em campo.

O equipamento Borehole Shear Test foi desenvolvido com o intuito de estimar os parâmetros
de resistência do solo drenado de modo simples e rápido, directamente no campo. O aparelho
contém uma sonda cisalhante, uma bomba de ar e uma base para o arranchamento. De Abreu
et al. 2015

Consiste inserção da sonda cisalhante em uma certa profundidade, onde é aplicada uma
tensão de consolidação e, por meio do arrancamento da sonda, obtém-se a tensão de
cisalhamento do solo.

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Figura 4: Equipamento Borehole Shear Test (BST)

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4. Conclusão
Os parâmetros de resistência ao cisalhamento do solo, coesão e ângulo de atrito interno,
consistem em duas variáveis essenciais para a análise da susceptibilidade a deslizamentos de
encostas. Essas variáveis podem ser determinadas em campo (in-situ) e em laboratório, dentre
os diferentes métodos usados para determinar a coesão e o ângulo de atrito interno em
laboratório destacam-se o ensaio de cisalhamento directo, ensaio de compressão triaxial e
compressão simples. Para determinar esses parâmetros comumente são uusados os ensaios,
Padronizado de Penetração (SPT), Penetração Estática do Cone (CPT), ensaio de Palheta e de
Pressiométrico, e do dispositivo Borehole Shear Test (BST).

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5. Referências Bibliográficas

ABREU, R. P., SAKAMOTO, M. Y., CONTESSI, R. J., OLIVEIRA, M. C., GUESSER, L.


H., & HIGASHI, R. A. (2015). Comparação de Dois Métodos para a Determinação
dos Parâmetros de Resistência ao Cisalhamento dos Solos. Santa Catarina - Brasil:
UFSC.

Braida, J. A., Reichert, J. M., Reinert, D. J., & Soares, J. M. (2007). Coesão e atrito interno
associados aos teores de carbono orgânico e de água de um solo franco arenoso.
Santa Maria: Ciencia Rural.

Buzon, L. G., Fedrizzi, T., Marchezepe, B. K., Silva, C. C., Valentin, C. A., & Silva, J. L.
(2016). Estimativa Didática do Ângulo de Atrito de Solos Secos. Belo Horizonte,
Minas Gerais, Brasil: ABMS.

Rodrigues, N. G. (2015). ESTUDOS SOBRE O ÂNGULO DE ATRITO EM SOLOS


GRANÍTICOS RESIDUAIS. Covilhã-Brasil: UBI.

Souza, P. M. (2018). ÂNGULO DE ATRITO INTERNO DOS SOLOS . Porto Alegre - Brasil:
IPA.

VIECILI, C. (2003). DETERMINAÇÃO DOS PARÂMETROS DE RESISTÊNCIA DO SOLO


DE IJUÍ A PARTIR DO ENSAIO DE CISALHAMENTO DIRECTO. Ijuí-RS - Brasil:
UNIJUÍ.

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