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24/07/2019 “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas” de Kimberle Crensh…

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“Mapeando as margens:
interseccionalidade, políticas de
identidade e violência contra mulheres
não-brancas” de Kimberle Crenshaw —
Parte 1/4
Carol Correia
Jun 14, 2017 · 29 min read

Imagem de Kimberle Crenshaw

Escrito por: Kimberlé Williams Crenshaw; professora de Direito na Universidade da


Califórnia, Los Angeles, B.A. Universidade de Cornell, 1981; J.D. Escola de Direito de
Harvard, 1984; L.L.M. Universidade de Wisconsin, 1985.

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Retirado de: https://negrasoulblog.files.wordpress.com/2016/04/mapping-the-


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margins-intersectionality-identity-politics-and-violence-against-women-of-color-
kimberle-crenshaw1.pdf

Traduzido por Carol Correia, a fim de aumentar a discussão referente a violência


contra mulheres, em especial a mulheres não-brancas.

Observação: esta tradução será dividida em 4 partes, devido ao espaço no medium e a


fim de melhorar a divulgação e disponibilização do texto.

. . .

Estou em dívida com um grande número de pessoas que têm incentivado este projeto.
Para o tipo de assistência em facilitar meu campo de pesquisa para este artigo, gostaria
de agradecer Maria Blanco, Margaret Cambrick, Joan Creer, Estelle Cheung, Nilda
Rimonte e Fred Smith. Apreciei os comentários de Taunya Banks, Mark Barenberg,
Darcy Calkins, Adrienne Davis, Gina Dent, Brent Edwards, Paul Gewirtz, Lani Guinier,
Neil Gotanda, Joel Handler, Duncan Kennedy, Henry Monaghan, Elizabeth Schneider e
Kendall Thomas. Um agradecimento muito especial para Gary Peller e Leti Volpp que
forneceram ajuda de pesquisa valiosa. Agradeço o apoio do Senado Acadêmico da
UCLA, do Centro de Estudos Afro-Americanos da UCLA, da Fundação Reed e da
Columbia Law School. Versões anteriores deste artigo foram apresentadas ao
Workshop de Teoria Crítica da Raça e ao Workshop da Teoria Legal de Yale.

Esse artigo é dedicado a memória de Denise Carly-Bennia e Mary Joe Frug.

INTRODUÇÃO
Durante essas duas últimas décadas, mulheres tem se organizado contra as violências
quase rotineiras que moldam suas vidas[1]. Tirando a partir da força dessas
experiências compartilhadas, mulheres tem reconhecido as demandas políticas de
milhões falam de forma mais potente que os apelos de algumas vozes isoladas. Essa
politização por sua vez transforma a forma como nós entendemos violência contra
mulheres. Por exemplo, agressão e estupro, antigamente visto como de âmbito privado
(questão de família) e aberracional (agressão sexual errante), agora são amplamente
reconhecidos como parte de um sistema de dominação em ampla escala que afeta

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mulheres enquanto classe[2]. Esse processo de reconhecimento como algo social e


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sistêmico foi a princípio percebido como isolado e individual tem também a
caracterização da identidade política de afro-americanos, pessoas de outras etnias, e
gays e lésbicas, entre outros. Para todos esses grupos, a política baseada na identidade
tem sido uma fonte de força, comunidade e desenvolvimento intelectual.

A inclusão da política de identidade, no entanto, tem estado em tensão com as


concepções dominantes de justiça social. Raça, gênero e outras categorias de
identidade são tratados com maior frequência no discurso liberal dominante como
vestígios de preconceito ou dominação — isto é, como estruturas intrinsecamente
negativas nas quais o poder social trabalha para excluir ou marginalizar aqueles que
são diferentes. De acordo com este entendimento, nosso objetivo libertador deveria ser
o de esvaziar essas categorias de qualquer significado social. No entanto, implicita em
certas vertentes dos movimentos de libertação feminista e racial, por exemplo, é a visão
de que o poder social na delimitação da diferença não precisa ser o poder da
dominação; em vez disso, pode ser a fonte de empoderamento social e de reconstrução.

O problema com a política de identidade não é que ele não transcenda a diferença,
como alguns críticos acusam, mas sim o oposto — que frequentemente confunde ou
ignora as diferenças intragrupais. No contexto da violência contra as mulheres, esta
elisão da diferença na política identitária é problemática, fundamentalmente porque a
violência que muitas mulheres experimentam é muitas vezes moldada por outras
dimensões de suas identidades, como raça e classe. Além disso, ignorar a diferença
dentro dos grupos contribui para a tensão entre estes, outro problema da política de
identidade que envolve esforços para politizar a violência contra as mulheres. Os
esforços feministas para politizar experiências de mulheres e esforços antirracistas para
politizar experiências de pessoas não-brancas têm frequentemente procedido como se
as questões e experiências que cada detalhe ocorrem em terrenos mutuamente
exclusivos. Embora o racismo e o sexismo se entrecruzem facilmente na vida de
pessoas reais, raramente o fazem nas práticas feministas e antirracistas. E assim,
quando as práticas expõem a identidade como mulher ou pessoa não-branca como uma
ou outra proposição, elas relegam a identidade das mulheres não-brancas a um lugar
que não dizem.

Meu objetivo neste artigo é avançar o relato dessa localização, explorando as


dimensões raça e gênero da violência contra as mulheres não-brancas.[3] Os discursos
feministas e antirracistas contemporâneos não conseguiram considerar identidades
interseccionais como as mulheres não-brancas.[4] Concentrando-me em duas
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dimensões da violência masculina contra as mulheres — violência doméstica e


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estupros — considero como as experiências das mulheres não-brancas são
frequentemente o produto de padrões que se cruzam de racismo e sexismo[5] e como
essas experiências não tendem a ser representadas dentro dos discursos do feminismo
ou do antirracismo. Por causa de sua identidade interseccional como mulheres e não-
brancas dentro de discursos que são moldados para responder a um ou outro, mulheres
não-brancas são marginalizadas dentro de ambos.

Em um artigo anterior, usei o conceito de interseccionalidade para denotar as várias


maneiras pelas quais raça e gênero interagem para moldar as múltiplas dimensões das
experiências de empregação das mulheres negras[6][7]. Meu objetivo era ilustrar que
muitas das experiências que as mulheres negras enfrentam não são classificadas dentro
das fronteiras tradicionais da raça ou discriminação de gênero, uma vez que essas
fronteiras são atualmente compreendidas e que a intersecção do racismo e do sexismo
afeta as vidas das mulheres negras de maneiras que não podem ser capturadas
completamente examinando as dimensões de raça ou gênero dessas experiências
separadamente. Aproveito essas observações aqui explorando as várias maneiras pelas
quais raça e gênero se cruzam para moldar os aspectos estruturais, políticos e
representacionais da violência contra as mulheres não-brancas.[8]

Devo dizer desde logo que a interseccionalidade não está sendo aqui apresentada como
uma nova teoria totalizante da identidade. Nem quero sugerir que a violência contra as
mulheres não-brancas só possa ser explicada através dos quadros específicos de raça e
gênero aqui considerados.[9] Na verdade, os fatores que eu abordar apenas em parte,
como classe ou sexualidade, são muitas vezes bem críticos na formação das
experiências das mulheres não-brancas. Meu foco nas intersecções de raça e gênero
apenas destaca a necessidade de explicar múltiplos motivos de identidade ao
considerar como o mundo social é construído.[10]

Eu dividi as questões apresentadas neste artigo em três categorias. Na Parte I, discuto a


interseccionalidade estrutural, a forma como a localização das mulheres não-brancas
na intersecção entre raça e gênero torna nossa experiência real de violência doméstica,
estupro e reforma corretiva qualitativamente diferente da das mulheres brancas. Eu
mudo o foco na Parte II para a interseccionalidade política, onde eu analiso como a
política feminista e antirracista, paradoxalmente, muitas vezes ajudou a marginalizar a
questão da violência contra as mulheres não-brancas. Então, na Parte III, discuto a
interseccionalidade representacional, com a qual me refiro à construção cultural de
mulheres não-brancas. Considero como as controvérsias sobre a representação das
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mulheres não-brancas na cultura popular também podem elidir a localização particular


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das mulheres não-brancas e, assim, tornar-se mais uma fonte de falta de poder
interseccional. Finalmente, abordo as implicações da abordagem interseccional no
âmbito mais amplo da política de identidade contemporânea.

. . .

I. INTERSECCIONALIDADE ESTRUTURAL
A. Interseccionalidade estrutural e violência física na seara familiar
Observei a dinâmica da interseccionalidade estrutural durante um breve estudo de
campo de abrigos de mulheres que passaram por violência doméstica localizadas em
comunidades minoritárias em Los Angeles.[11] Na maioria dos casos, a agressão física
que leva as mulheres a esses abrigos é apenas a manifestação mais imediata da
subordinação que elas experimentam. Muitas mulheres que procuram proteção estão
desempregadas ou subempregadas e um bom número delas sãos pobres. Os abrigos
que servem a essas mulheres não podem dar-se ao luxo de lidar apenas com a violência
infligida pelo agressor; eles também devem confrontar as outras formas de dominação
multicamadas e rotineiras que muitas vezes convergem para a vida dessas mulheres,
dificultando sua capacidade de criar alternativas às relações abusivas que as levaram a
abrigos em primeiro lugar. Muitas mulheres não-brancas, por exemplo, são
sobrecarregadas pela pobreza, responsabilidades de assistência à infância e a falta de
habilidades de trabalho.[12] Esses fardos, em grande parte são consequência do
gênero e da opressão de classe, são então agravados pelo emprego racialmente
discriminatório e as práticas de moradia que as mulheres não-brancas frequentemente
enfrentam[13], bem como pelo desemprego desproporcionalmente alto entre as
pessoas não-brancas que torna as mulheres não-brancas vítimas de violência doméstica
menos capazes de depender do apoio de amigos e parentes para abrigo temporário.
[14]

Onde os sistemas de raça, gênero e dominação de classe convergem, como ocorre nas
experiências de mulheres não-brancas, as estratégias de intervenção baseadas
unicamente nas experiências das mulheres que não compartilham a mesma classe ou
raça de fundo serão de ajuda limitada para as mulheres que por causa de raça e classe
enfrentam obstáculos diferentes.[15] Tal foi o caso em 1990 quando o Congresso
alterou as disposições de fraude matrimonial da Lei de Imigração e Nacionalidade para
proteger as mulheres imigrantes que foram vítimas de violência doméstica ou expostas
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à extrema crueldade pelos cidadãos dos Estados Unidos ou residentes permanentes,


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estas mulheres imigraram para os Estados Unidos para se casar. Sob as disposições de
fraude de casamento da Lei, uma pessoa que imigrou para os Estados Unidos para se
casar com um cidadão dos Estados Unidos ou residente permanente teve de
permanecer “corretamente” casado por dois anos antes mesmo de se inscrever para o
status de residente permanente,[16] momento em que os requerimentos para o status
permanente do imigrante eram exigidos de ambos os cônjuges.[17] Previsivelmente,
nestas circunstâncias, muitas mulheres imigrantes estavam relutantes em deixar até os
mais abusivos parceiros por medo de serem deportadas.[18] Quando confrontados
com a escolha entre a proteção de seus agressores e proteção contra a deportação,
muitas mulheres imigrantes escolheram o último.[19] Os relatos das trágicas
consequências dessa dupla subordinação pressionaram o Congresso a incluir na Lei de
Imigração de 1990 uma disposição que altera as regras de fraude matrimonial para
permitir uma renúncia explícita às dificuldades causadas pela violência doméstica.[20]
No entanto, muitas mulheres imigrantes, em particular as mulheres imigrantes não-
brancas, permaneceram vulneráveis a agressões porque não conseguem cumprir as
condições estabelecidas para uma renúncia. As evidências necessárias para apoiar uma
renúncia “podem incluir, mas não se limitando, relatos e declarações da polícia, pessoal
médico, psicólogos, funcionários da escola e agências de serviços sociais”.[21] Para
muitas mulheres imigrantes, o acesso limitado a esses recursos pode dificultar a
obtenção das provas necessárias para uma dispensa. E as barreiras culturais muitas
vezes desencorajam mais as mulheres imigrantes de relatar ou escapar de situações de
violência. Tina Shum, conselheira de uma agência de serviços sociais, ressalta que “esta
lei parece tão fácil de aplicar, mas há complicações culturais na comunidade asiática
que tornam essas exigências difíceis… Só para encontrar a oportunidade e a coragem
de nos chamar é uma realização para muitas.”[22] O típico cônjuge de imigrantes, ela
sugere, pode viver “em uma família alargada onde várias gerações vivem juntas, pode
não haver privacidade no telefone, sem oportunidade de sair de casa e sem
compreensão de telefones públicos”.[23] Como consequência, muitas mulheres
imigrantes são totalmente dependentes de seus maridos como sua ligação com o
mundo fora de suas casas.[24]

As mulheres imigrantes também são vulneráveis à violência conjugal porque muitas


delas dependem de seus maridos para obter informações sobre seu status legal.[25]
Muitas mulheres que agora são residentes permanentes continuam a sofrer abuso sob
ameaças de deportação por seus maridos. Mesmo que as ameaças sejam infundadas, as
mulheres que não têm acesso independente à informação continuarão a ser

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intimidadas por tais ameaças.[26] E mesmo que a renúncia à violência doméstica se


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concentre em mulheres imigrantes cujos maridos são cidadãos dos Estados Unidos ou
residentes permanentes, há um número incontável de mulheres casadas com
trabalhadores indocumentados (ou que são elas próprias indocumentadas) que sofrem
em silêncio por medo de que a segurança de toda a sua família que busque ajuda ou
chame atenção para si mesma.[27]

As barreiras linguísticas representam outro problema estrutural que muitas vezes


limita as oportunidades das mulheres que não falam inglês para tirar proveito dos
serviços de apoio existentes.[28] Tais barreiras não só limitam o acesso à informação
sobre abrigos, como também limitam o acesso aos abrigos de segurança. Alguns
abrigos recusam mulheres que não falam inglês por falta de pessoal e recursos
bilíngues.[29]

Esses exemplos ilustram como os padrões de subordinação se cruzam na experiência


das mulheres de violência doméstica. A subordinação interseccional não precisa ser
produzida intencionalmente; na verdade, é frequentemente a consequência da
imposição de um fardo que interage com vulnerabilidades preexistentes para criar mais
uma dimensão de destituição de poder. No caso das disposições sobre a fraude
matrimonial da Lei de Imigração e Nacionalidade, a imposição de uma política
especificamente concebida para sobrecarregar uma classe — os cônjuges imigrantes
que procuram o status de residente permanente — exacerbou o desempoderamento
daquelas já subordinadas por outras estruturas de dominação. Ao deixar de levar em
conta a vulnerabilidade dos cônjuges imigrantes à violência doméstica, o Congresso
posicionou essas mulheres para absorver o impacto simultâneo de sua política anti-
imigração e o abuso de seus cônjuges.

A promulgação da renúncia à violência doméstica das disposições de fraude


matrimonial ilustra de forma semelhante como modestas tentativas de responder a
certos problemas podem ser ineficazes quando a localização interseccional de
mulheres não-brancas não é considerada na formulação do remédio. Identidade
cultural e classe afetam a probabilidade de que um cônjuge maltratado poderia tirar
proveito da renúncia. Embora a renúncia seja formalmente disponível para todas as
mulheres, os termos da renúncia tornam-no inacessível para alguns. As mulheres
imigrantes socialmente, culturalmente ou economicamente privilegiadas têm maior
probabilidade de serem capazes de ordenar os recursos necessários para satisfazer os
requisitos de dispensa. Essas mulheres imigrantes menos capazes de tirar vantagem da

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renúncia — mulheres social ou economicamente mais marginalizadas — são as que


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têm maior probabilidade de serem mulheres não-brancas.

B. Interseccionalidade Estrutural e Estupro


As mulheres não-brancas estão diferentemente situadas nos mundos econômico, social
e político. Quando os esforços de reforma empreendidos em nome das mulheres
negligenciam esse fato, as mulheres não-brancas têm menos probabilidade de ter suas
necessidades atendidas do que as mulheres que são racialmente privilegiadas. Por
exemplo, conselheiros que fornecem serviços de crise de estupro a mulheres não-
brancas relatam que uma proporção significativa dos recursos alocados a eles deve ser
gasta tratando de problemas que não sejam o próprio estupro. Reunir essas
necessidades muitas vezes coloca esses conselheiros em desacordo com suas agências
de financiamento, que alocam fundos de acordo com padrões de necessidade que são
em grande parte brancos e de classe média.[30] Esses padrões uniformes de
necessidade ignoram o fato de que diferentes necessidades muitas vezes demandam
prioridades diferentes em termos de alocação de recursos e, consequentemente, essas
normas dificultam a capacidade dos conselheiros de atender às necessidades das
mulheres não-brancas e pobres.[31] Um exemplo disso é que as mulheres não-brancas
ocupam posições tanto fisicamente como culturalmente marginalizadas dentro da
sociedade dominante e, portanto, a informação deve ser direcionada diretamente a
elas para alcançá-las.[32] Consequentemente, os centros de crise de estupro devem
destinar mais recursos para a disseminação básica de informações em comunidades
não-brancas do que em áreas brancas.

O aumento dos custos é apenas uma consequência de servir pessoas que não podem ser
alcançadas pelos principais canais de informação. Conforme observado anteriormente,
conselheiros em comunidades minoritárias relatam gastar horas localizando recursos e
contatos para atender as necessidades de moradia e outras necessidades imediatas de
mulheres que foram estupradas. No entanto, este trabalho é apenas considerado
“informação e encaminhamento” por agências de financiamento e, como tal, é
tipicamente subfinanciado, apesar da magnitude da necessidade desses serviços em
comunidades minoritárias.[33] O problema é agravado pelas expectativas de que os
centros de crise de estupro usarão uma parcela significativa dos recursos alocados a
eles em conselheiros para acompanhar as vítimas a tribunal[34], mesmo que as
mulheres não-brancas são menos susceptíveis de ter seus casos perseguidos no sistema
de justiça criminal.[35] Os recursos previstos para os serviços judiciais são mal
dirigidos nessas comunidades.

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O fato de que as mulheres pertencentes a minorias sofrem com os efeitos da


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subordinação múltipla, aliada às expectativas institucionais baseadas em contextos não
institucionais inadequados, molda e, finalmente, limita as oportunidades de
intervenção significativa em seu nome. Reconhecendo a incapacidade de considerar a
dinâmica interseccional pode ir muito longe para explicar os altos níveis de frustração e
fracasso completo experimentado por conselheiros que tentam atender às necessidades
das vítimas que são mulheres de grupos minoritários.

. . .

Sumário
Parte 1. Parte 2. Parte 3. Parte 4.

. . .

Referências e notas de rodapé:


[1] Acadêmicas e ativistas feministas tem feito um papel central no encaminhamento
do desafio ideológico e institucional a práticas que perdoam e perpetuam violência
contra mulher. Veja de forma geral SUSAN BROWNMILLER, AGAINST OUR WILL:
MEN, WOMEN AND RAPE (1975); LORENNE M.G. CLARK & RUSSEL DOBASH,
VIOLENCE AGAISNT WIVES: A CASE AGAINST THE PATRIARCHY (1979); NANCY
GAGER & CATHLEEN SCHURR, SEXUAL ASSAULT: CONFRONTING RAPE IN
AMERICA (1979); DIANA E.H. RUSSEL, THE POLITICS OF RAPE: THE VICTIM’S
PERSPECTIVE (1974); ELIZABETH ANNE STANKO, INTIMATE INTRUSIONS:
WOMEN’S EXPERIENCE OF MALE VIOLENCE (1985); LENORE E. WALKER,
TERRYFING LOVE: WHY BATTERED WOMEN KILL AND HOW SOCIETY RESPONDS
(1989); LENORE E. WALKER, THE BATTERED WOMAN SYNDROME (1984). LENORE
E. WALKER, THE BATTERED WOMAN (1979).

[2] Veja, por exemplo, SUSAN SCHETER, WOMEN AND MALE VIOLENCE: THE
VISIONS AND STRUGGLES OF THE BATTERED WOMEN’S MOVEMENT (1982)
(argumentando que violência doméstica significa a manutenção da posição de
subordinada das mulheres); S. BROWNMILLER, supra nota 1 (argumentando que
estupro é uma prática patriarcal que subordina mulheres a homens); Elizabeth
Schneider, The violence of privacy, 23 CONN. L. VER. 973, 974 (1991) (discutindo como
“conceituar autorização de privacidade encoraja e reforça violência contra mulheres”);
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Susan Estrich, Rape, 95 YALE L.J. 1087 (1986) (analizando leis sobre estupro assim
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como se ilustra o sexismo nas leis penais); veja também CATHARINE A. MACKINNON,
SEXUAL HARASSMENT OF WORKIN WOMEN: A CASE OF SEX DISCRIMINATION
143–213 (1979) (argumentando que assédio sexual deveria ser redefinido como
discriminação sexual sob o título VII, do que visto como sexualidade deslocada em
locais de trabalho).

[3] Este artigo surge de e é inspirado por dois emergentes discursos acadêmicos. A
primeira é a teoria crítica da raça. Para um corte transversal do que é agora um corpo
substancial de literatura, veja PATRICIA J. WILLIAMS, THE ALCHEMY OF RACE AND
RlGHTS (1991); Robin D. Barnes, Race Consciousness: The Thematic Content of Racial
Distinctiveness in Critical Race Scholarship, 103 HARV. L. REV. 1864 (1990); John O.
Calmore, Critical Race Theory, Archie Shepp, and Fire Music: Securing an Authentic
Intellectual Life in a Multicultural World, 65 S. CAL. L. REV. 2129 (1992); Anthony E.
Cook, Beyond Critical Legal Studies: The Reconstructive Theology of Dr. Martin Luther
King, 103 HARV. L. REV. 985 (1990); Kimberle Williams Crenshaw, Race, Reform and
Retrenchment: Transformation and Legitimation in Antidiscrimination Law, 101 HARV.
L. REv. 1331 (1988); Richard Delgado, When a Story is Just a Story: Does Voice Really
Matter?, 76 VA. L. REv. 95 (1990); Neil Gotanda, A Critique of “Our Constitution is
Colorblind,” 44 STAN. L. REv. 1 (1991) Mari J. Matsuda, Public Response to Racist
Speech: Considering the Victim’s Story, 87 Mich. L. REV. 2320 (1989); Charles R.
Lawrence III, the Id, the Ego, and Equal Protection: Reckoning with Unconscious Racism,
39 STAN. L. REv. 317 (1987); Gerald Torres, Critical Race Theory: The Decline of the
Universalist Ideal and the Hope of Plural Justice-Some Observations and Questions of an
Emerging Phenomenon, 75 MINN. L. REV. 993 (1991). Para uma visão geral útil da
teoria crítica da raça, ver Calmore, supra, em 2160–2168.

Um segundo corpo, menos formalmente ligado, de estudos jurídicos investiga as


conexões entre raça e gênero. Ver, por exemplo, Regina Austin, Sapphire Bound!, 1989
Wis. L. REv. 539; Crenshaw, supra; Angela P. Harris, Race and Essentialism in Feminist
Legal Theory, 42 STAN. L. REv. 581 (1990); Marlee Kline, Race, Racism and Feminist
Legal Theory, 12 HARV. Women’s L.J. 115 (1989); Dorothy E. Roberts, Punishing Drug
Addicts Who Have Babies: Women of Color, Equality and the Right of Privacy, 104 HARV.
L. REV. 1419 (1991); Cathy Scarborough, Conceptualizing Black Women’s Employment
Experiences, 98 YALE L.J. 1457 (1989) (student author); Peggie R. Smith, Separate
Identities: Black Women, Work and Title Vil 14 HARV. WOMEN’s L.J. 21 (1991); Judy
Scales-Trent, Black Women and the Constitution: Finding Our Place, Asserting Our Rights,

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24 HARV. C.R-C.L. L. REV. 9 (1989); Judith A. Winston, Mirror, Mirror on the Wall: Title
Get started
VII, Section 1981, and the Intersection of Race and Gender in the Civil Rights Act of 1990,
79 CAL L. REv. 775 (1991). Este trabalho foi informado de uma literatura mais ampla
que examina as interações de raça e gênero em outros contextos. Veja, por exemplo,
PATRICIA HILL COLLINS, BLACK FEMINIST THOUGHT: KNOWLEDGE,
CONSCIOUSNESS, AND THE POLITICS OF EMPOWERMENT (I 990); ANGELA DAVIS,
WOMEN, RACE ANO CLASS (1981); BELL HOOKS, AIN’T IA WOMAN? BLACK
W0MEN AND FEMINISM (1981); ELIZABETH V. SPELMAN, lNESSENTIAL WOMAN:
PROBLEMS OF EXCLUSION IN FEMINIST THOUGHT (1988); Frances Beale, Double
Jeopardy: To De Black and Female, in THE BLACK WOMAN 90 (Toni Cade ed. 1970);
Kink-Kok Cheung, The Woman Warrior versus The Chinaman Pacific: Must a Chinese
American Critic Choose between Feminism and Heroism?, in CONFLICTS IN
FEMINISM 234 (Marianne Hirsch & Evelyn Fox Keller eds. 1990); Deborah H. King,
Multiple Jeopardy, Multiple Consciousness: The Context of a Black Feminist Ideology,
14 SIGNS 42 ( 1988); Diane K. Lewis, A Response to Inequality: Black Women, Racism
and Sexism, 3 SIGNS 339 (1977); Deborah E. McDowell, New Directions for Black
Feminist Criticism, in THE NEW FEMINIST CRITICISM: ESSAYS ON WOMEN,
LITERATURE AND THEORY 186 (Elaine Showalter ed. 1985); Valerie Smith, Black
Feminist Theory and the Representation of the “Other’’. In CHANGING ÜUR ÜWN
WORDS: ESSAYS ON CRITICISM, THEORY AND WRITING BY BLACK WOMEN 38
(Cheryl A. Wall ed. 1989).

[4] Embora o objetivo deste artigo seja descrever a localização interseccional das
mulheres não-brancas e sua marginalização nos discursos de resistência dominantes,
não quero dizer que a falta de poder das mulheres não-brancas é singular ou mesmo
principalmente causada por teóricos e ativistas feministas e antirracistas. Na verdade,
espero dissipar quaisquer interpretações tão simplistas ao capturar, pelo menos em
parte, as formas como as estruturas de dominação predominantes moldam diversos
discursos de resistência. Como observei em outro lugar, “as pessoas só podem exigir
mudanças de formas que refletem a lógica das instituições que estão desafiando. As
exigências de mudanças que não refletem… ideologia dominante… provavelmente
serão ineficazes”. Crenshaw, supra nota 3, em 1367. Embora existam importantes
obstáculos políticos e conceituais para se mover contra estruturas de dominação com
uma sensibilidade intersetorial, o meu argumento é que o esforço para fazê-lo deve ser
um objetivo central teórico e político tanto do antirracismo como do feminismo.

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[5] Embora este artigo trate de estupros violentos perpetrados por homens contra
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mulheres, as mulheres também estão sujeitas a estupros violentos de mulheres. A
violência entre as lésbicas é um problema oculto, mas significativo. Um especialista
informou que em um estudo de 90 casais de lésbicas, cerca de 46% das lésbicas foram
abusadas fisicamente por suas parceiras. Jane Garcia, The Cost of Escaping Domestic
Violence: Fear of Treatment in a Largely Homophobic Society May Keep Lesbian Abuse
Victims from Calling for Help, L.A. Times, May 6, 1991, em 2; veja também NAMING
THE VIOLENCE: SPEAKING OUT ABOUT LESBIAN BATTERING (Kerry Label ed.
1986); Ruthann Robson, Lavender Bruises: Intralesbian Violence, Law and Lesbian
Legal Theory, 20 GOLDEN GATE U.L. REV. 567 (1990). Há paralelos nítidos entre
violência contra mulheres na comunidade lésbica e violência contra mulheres em
comunidades não-brancas. A violência lésbica é muitas vezes envolvida em segredo por
razões semelhantes que reprimiram a exposição da violência heterossexual em
comunidades não-brancas, o medo de envergonhar outros membros da comunidade,
que já são estereotipados como desviantes e medo de serem condenadas ao ostracismo
da comunidade. Apesar dessas semelhanças, existem no entanto distinções entre o
abuso de mulheres e o abuso feminino de mulheres que, no contexto do patriarcado, do
racismo e da homofobia, merecem uma análise mais focada do que é possível aqui.

[6] Eu uso “negro” e “afro-americano” de forma intercambiável ao longo deste artigo.


Eu capitalizo “negro” porque “Os negros, como os asiáticos, os latinos e outras
‘minorias’, constituem um grupo cultural específico e, como tal, requerem uma
denotação como um substantivo próprio”. Crenshaw, supra nota 3, em 1332 n.2
(citando Catharine MacKinnon, Feminism, Marxism, Method, and the State: An
Agenda for Theory, 7 SIGNS 515, 516 (1982)). Do mesmo jeito, não capitalizo
“branco”, que não é um substantivo próprio, uma vez que os brancos não constituem
um grupo cultural específico. Pelo mesmo motivo, não capitalizo “mulheres não-
brancas”.

[7] Kimberle Crenshaw, Demarginalizing the Intersection of Race and Sex, 1989 U.
CHI. LEGAL F. 139.

[8] Eu adotei explicitamente uma posição feminista negra nesta pesquisa de violência
contra mulheres não-brancas. Eu faço isso ciente de várias tensões que tal posição
implica. O mais significativo decorre da crítica de que, enquanto o feminismo branco
pretende falar por mulheres não-brancas através da invocação do termo “mulher”, a
perspectiva feminista exclui mulheres não-brancas porque se baseia nas experiências e
interesses de um certo subconjunto de mulheres. Por outro lado, quando feministas
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24/07/2019 “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas” de Kimberle Crensh…

brancas tentam incluir outras mulheres, muitas vezes agregam nossas experiências a
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um quadro de outra forma inalterado. É importante citar a perspectiva a partir da qual
se constrói sua análise; e para mim, isso é enquanto feminista negra. Além disso, é
importante reconhecer que os materiais que eu incorporo na minha análise são muito
atraídos pela pesquisa sobre mulheres negras. Por outro lado, vejo o meu próprio
trabalho como parte de um esforço coletivo mais amplo entre as feministas não-brancas
para expandir o feminismo de forma a incluir análises de raça e outros fatores como
classe, sexualidade e idade. Tentei, portanto, oferecer o meu sentido das tentativas das
conexões entre minha análise das experiências intersetoriais das mulheres negras e as
experiências intersetoriais de outras mulheres não-brancas. Eu insisto que esta análise
não pretende incluir falsamente nem excluir desnecessariamente outras mulheres não-
brancas.

[9] Considero a interseccionalidade um conceito provisório que liga a política


contemporânea à teoria pós-moderna. Ao mapear as intersecções de raça e gênero, o
conceito envolve pressupostos dominantes de que raça e gênero são categorias
essencialmente separadas. Ao traçar as categorias para as suas intersecções, espero
sugerir uma metodologia que acabe por interromper as tendências para ver a raça e o
gênero como exclusivos ou separáveis. Enquanto as intersecções primárias que eu
exploro aqui são entre raça e gênero, o conceito pode e deve ser expandido com base
em questões como classe, orientação sexual, idade e cor.

[10] A professora Mari Matsuda chama este inquérito “fazendo a outra pergunta”. Mari
J. Matsuda, Beside My Sister, Facing the Enemy: Legal Theory Out of Coalition, 43
STAN. L. REY. 1183 (1991). Por exemplo, devemos olhar para uma questão ou
condição tradicionalmente considerada como uma questão de gênero e perguntar:
“Onde está o racismo nisso?”

[11] Durante a minha pesquisa em Los Angeles, na Califórnia, visitei o abrigo Jenesee
para mulheres que passaram por violência doméstica, o único abrigo nos estados
ocidentais que servem principalmente as mulheres negras e Every woman’s Shelter,
que serve principalmente as mulheres asiáticas. Visitei também Estelle Chueng na
Asian Pacific Law Foundation e falei com um representante da casa La Casa, na
comunidade predominantemente latina do leste de L.A.

[12] Um pesquisador observou, em referência a uma pesquisa realizada com abrigos de


mulheres que sofreram violência doméstica, que “muitas mulheres caucasianas
provavelmente foram excluídas da amostra, uma vez que elas têm mais probabilidade

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de ter recursos disponíveis que lhes permitam evitar o albergue. Muitos abrigos
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admitem apenas mulheres com poucos ou nenhuns recursos ou alternativas”.
MILDRED DALEY PAGELOW, WOMAN-BATTERING: VICTIMS AND THEIR
EXPERIENCES 97 (1981). Por outro lado, muitas mulheres da classe média e média
são financeiramente dependentes de seus maridos e, portanto, experimentam uma
diminuição no padrão de vida quando deixam seus maridos.

[13] Juntos, eles garantem até mesmo as necessidades mais básicas além do alcance de
muitos. De fato, um provedor de abrigo relatou que quase 85% de seus clientes
retornaram às relações de agressão, em grande parte por dificuldades em encontrar
emprego e habitação. Os afro-americanos são mais segregados do que qualquer outro
grupo racial e essa segregação existe entre as linhas de classe. Estudos recentes em
Washington, DC e seus subúrbios mostram que 64% dos negros tentando alugar
apartamentos em bairros brancos encontraram discriminação. Tracy Thompson, Study
Finds ‘Persistent’ Racial Dias in Area’s Rental Housing, Wash. Post, Jan. 31, 1991, at DI.
Se esses estudos tivessem levado em consideração o status de gênero e família na
equação, as estatísticas poderiam ter sido piores.

[14] Mais especificamente, os afro-americanos sofrem de altas taxas de desemprego,


baixos índices e altas taxas de pobreza. De acordo com o Dr. David Swinton, Dean of
the School of Business na Jackson State University no Mississippi, os afro-americanos
“recebem três quintos quanto incorporam por pessoa como brancos e são três vezes
mais propensos a ter incumbências anuais abaixo do nível de pobreza federalmente
definido de US$ 12.675 para uma família de quatro”. Urban League insiste em ação,
N.Y. Times, 9 de janeiro de 1991, em Al4. De fato, as estatísticas recentes indicam que a
desigualdade econômica racial é “maior que quando começamos na década de 1990 do
que em qualquer outro momento nos últimos 20 anos”. David Swinton, The Economic
Status of African Americans: “Permanent” Poverty and inequality, in THE STATE OF
BLACK AMERICA 1991, at 25 (1991). A situação econômica das mulheres minoritárias
é, provavelmente, pior do que a dos seus pares masculinos. As mulheres negras, que
ganham uma média de US$ 7.875 por ano, ganham muito menos do que os homens
negros, que ganham uma renda média de US$ 12.609 por ano e as mulheres brancas,
que ganham uma renda média de US$ 9.812 por ano. Id. Em 32 (Tabela 3). Além disso,
a porcentagem de famílias lideradas por uma negra que vive na pobreza (46,5%) é
quase o dobro do que as famílias lideradas por mulheres brancas (25,4%). Id. Em 43
(Tabela 8). As famílias latinas também ganham consideravelmente menos do que os
agregados familiares brancos. Em 1988, a incorporação mediana de domicílios latinos

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era de US$ 20.359 e para famílias brancas, US$ 28.340 — uma diferença de quase US$
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8.000. HISPANIC AMERICANS: A STATISTICAL SOURCEBOOK 149 (1991).
Analisando por origem, em 1988, os domicílios porto-riquenhos foram os piores, com
34,1% ganhando abaixo de US$ 10.000 por ano e um valor médio para todas as
famílias porto-riquenhas de US$ 15.447 por ano. Id. Em 155. As estatísticas de 1989
para homens e mulheres latinos mostram que as mulheres obtiveram uma média de
US$ 7.000 a menos do que os homens. Id. Em 169.

[15] Veja o texto que acompanha as notas 63–67 (discutindo a recusa do abrigo de
abrigar uma mulher de língua espanhola em crise, mesmo que seu filho possa
interpretar por ela porque isso contribuiria para a sua falta de poder). As diferenças
raciais marcaram um contraste interessante entre as políticas de Jenesee e as de outros
abrigos situados fora da comunidade negra. Ao contrário de alguns outros abrigos em
Los Angeles, Jenesee recebeu a assistência de homens. De acordo com o diretor, a
política do abrigo baseou-se na crença de que, dada a necessidade dos afro-americanos
de manter relações saudáveis para prosseguir uma luta comum contra o racismo, os
programas antiviolência na comunidade afro-americana não podem se dar ao luxo de
ser antagônicos aos homens. Para uma discussão das diferentes necessidades das
mulheres negras que passaram pela violência doméstica, veja Beth Richie, Battered
Black Women: A Challenge for the Black Community, BLACK SCHOLAR, Mar. /Abr.
1985, em 40.

[16] 8 U.S.C. § 1186a (1988). As Alterações da Fraude do Casamento preveem que um


cônjuge estrangeiro “seja considerado, no momento da obtenção do status de
estrangeiro legalmente admitido para residência permanente, ter obtido tal status sob
condições condicionadas às disposições desta seção”. § I 186a (a) (I). Um cônjuge
estrangeiro com status de residente permanente sob esta condição condicional pode ter
seu status rescindido se o procurador-geral verificar que o casamento era “impróprio”, §
1186a (b) (I), ou se ela não apresentar uma petição ou falhar em comparecer na
entrevista pessoal. § 186a © (2) (A).

[17] As alterações da fraude matrimonial preveem que, para que o status de residente
condicional seja removido, “o cônjuge estrangeiro e o cônjuge requerente (se não
falecido) conjuntamente devem apresentar ao Procurador-Geral… uma petição que
solicite a remoção dessa base condicional e que afirma, sob pena de perjúrio, os fatos e
informações”. § 1 186a (b) (l) (A) (ênfase adicionada). As Alterações preveem uma
renúncia, a critério do Procurador-Geral, se o cônjuge estrangeiro puder demonstrar
que a deportação resultaria em dificuldades extremas ou que o casamento qualificado
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foi encerrado por uma boa causa. § 186a © (4). No entanto, os termos desta renúncia
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às dificuldades não protegeram adequadamente os cônjuges que passaram por
violência doméstica. Por exemplo, o requisito de que o casamento seja rescindido por
uma boa causa pode ser difícil de satisfazer nos estados com divórcios sem culpa.
Eileen P. Lynsky, Alterações da fraude matrimonial de imigração de 1986: Até o
Congresso, Parte A, 41 U. MIAMI L. REV. 1087, 1095 n.47 (1987) (autor do aluno)
(citando Jerome B. Ingber & R. Leo Prischet, The Marriage Fraud Amendments, em
THE NEW SJMPSON-R0DINO IMMJGRATION LAW OF 1986, at 564–65 (Stanley
Mailman ed. 1986)).

[18] Ativistas de imigração sublinharam que “a Lei de Reforma de Imigração de 1986 e


a Emenda de Invasão de Fraude de Casamento combinaram para dar ao cônjuge que
solicita residência permanente uma poderosa ferramenta para controlar seu parceiro”.
Jorge Banales, Abuse among Immigrants; As Their Numbers Grow So Does the Need
for Services, Wash. Post, Oct. 16, 1990, em E5. Dean Ito Taylor, diretor executivo da
Nihonmachi Legal Outreach em São Francisco, explicou que as emendas de fraude do
casamento “vincularam essas mulheres imigrantes a seus abusadores”. Deanna Hodgin,
‘Mail-Order’ Brides Marry Pain to Gel Green Cards, Wash. Times, Apr. 16, 1991, em EI.
Em uma instância flagrante descrita por Beckie Masaki, diretora executiva do Asian
Women’s Shelter em São Francisco, quanto mais perto a noiva chinesa chegou a obter
sua residência permanente nos Estados Unidos, mais duramente seu marido asiático-
americano a agredia. Seu marido, chutando-a no pescoço e no rosto, advertiu-lhe que
precisava dele e se ela não fizesse o que lhe falava, ele chamaria funcionários de
imigração. Id.

[19] Como Alice Fernández, chefe da Agência de Serviços às Vítimas do Tribunal Penal
do Bronx, explicou: “As mulheres estão sendo mantidas reféns pelos seus proprietários,
seus namorados, seus chefes, seus maridos…. A mensagem é: se você dizer a alguém o
que eu estou fazendo com você, eles vão enviar seu traseiro para casa. E para essas
mulheres, não há nada mais terrível do que isso… Às vezes, sua resposta é: eu
preferiria estar morta neste país do que voltar para casa.’’ Vivienne Walt, Immigrant
Abuse: Nowhere to Hide; Women Fear Deportation. Experts Say, Newsday, Dec. 2,
1990, em 8.

[20] Ato de Imigração de 1990, Pub. L. №101–649, 104 Stat. 4978. O Ato,
apresentado pelo Representante Louise Slaughter (DN.Y.), prevê que um cônjuge que
sofreu violência doméstica que tenha status de residente permanente condicional pode
receber uma renúncia por falha ao cumprimento dos requisitos, se ela puder
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demonstrar que “o casamento foi celebrado em boa fé e que, após o casamento, o


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cônjuge estrangeiro sofreu violência doméstica ou foi submetido a extrema crueldade
mental pelo cidadão dos EUA ou pelo cônjuge residente permanente”. H.R. REP.
№723(1), 101st Cong., 2d Sess. 78 (1990), reimpresso em 1990 U.S.C.C.A.N. 6710,
6758; veja também 8 C.F.R. § 216.5(3) (1992) (regulamentos para pedido de renúncia
com base em alegação de terem passado por violência doméstica ou sujeitos a extrema
crueldade mental).

[21] H.R. REP. №723(1), supra note 20, em 79, reprintado em 1990 U.S.C.C.A.N.
6710, 6759.

[22] Hodgin, supra note 18.

[23] Id.

[24] Uma pesquisa conduzida de mulheres que passaram por violência doméstica
“levantou a hipótese de que, se uma pessoa é membro de um grupo minoritário
discriminado, quanto menor for o nível socioeconômico acima do nível de pobreza e
quanto mais fracas as habilidades de língua inglesa, maior será a desvantagem”. M.
PAGELOW, supra nota 12, em 96. As 70 mulheres minoritárias no estudo
“apresentaram uma dupla desvantagem nesta sociedade que serve para amarrá-las
mais fortemente aos cônjuges”. Id.

[25] Um cidadão ou cônjuge residente permanente pode exercer poder sobre um


cônjuge estrangeiro, ameaçando não apresentar uma petição de residência
permanente. Se ele não apresentar uma petição de residência permanente, o cônjuge
estrangeiro continua a ser indocumentado e é considerado ilegal no país. Essas
restrições geralmente restringem a saída de uma esposa alienígena. Dean Ito Taylor
conta a história de “um cliente que foi hospitalizado — ela o tomou preso por vencê-la
— mas ela continua voltando para ele porque ele promete que ele irá arquivar por ela…
Ele segura esse cartão verde sobre sua cabeça.” Hodgin, supra nota 18. São abundantes
outras histórias de abuso doméstico. Maria, uma mulher dominicana de 50 anos,
explica que “‘Uma vez eu tive oito pontos na minha cabeça e um corte no outro lado da
minha cabeça e ele quebrou minhas costelas… Ele bateria minha cabeça contra a
parede enquanto fazíamos sexo. Ele continuou ameaçando me matar se eu dissesse ao
médico o que aconteceu.’” Maria teve uma “razão poderosa para ficar com Juan
durante anos de abuso: um ingresso para residência permanente nos Estados Unidos”.
Walt, supra nota 19.

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[26] Um repórter explicou que “as mulheres do terceiro mundo têm que enfrentar
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outros medos, no entanto. Em muitos casos, têm medo da autoridade, das instituições
governamentais e da ameaça de seus abusadores de as estregarem aos funcionários da
imigração para serem deportadas”. Banales, supra nota 18.

[27] Incidentes de abuso sexual de mulheres indocumentadas abundam. Marta Rivera,


diretora do Centro Hostos College para Direitos das Mulheres e Imigrantes, conta como
uma mulher dominicana de 19 anos “chegou abalada… depois que seu chefe a
estuprou no banheiro feminino no trabalho”. A mulher disse a Rivera que “70 a 80%
das trabalhadoras [em uma fábrica de roupas de Brooklyn] eram indocumentadas e
todas aceitaram o sexo como parte do trabalho… Ela disse que uma menina de 13 anos
foi estuprada lá um pouco antes dela e a família a enviou de volta à República
Dominicana”. Walt, supra nota 19. Em outro exemplo, uma “mulher latino-americana,
cujo último ataque do marido a deixou com dois dedos quebrados, um rosto inchado e
contusões no pescoço e no peito, recusou-se a denunciar a agressão à polícia”. Ela
voltou para sua casa depois de uma pequena estadia em um abrigo. Ela não deixou a
situação abusiva porque era “uma trabalhadora indocumentada e analfabeta cujos
filhos, passaportes e dinheiro são fortemente controlados por seu marido”. Embora
tenha sido informada sobre seus direitos, ela não foi capaz de prejudicar os obstáculos
estruturais em seu caminho. Banales, supra nota 18.

[28] Por exemplo, em uma região com um grande número de imigrantes do terceiro
mundo, “o primeiro obstáculo que esses [abrigos de mulheres que passaram por
violência doméstica] devem superar é a barreira da língua”. Banales, supra nota 18.

[29] Pode haver poucas dúvidas de que as mulheres incapazes de se comunicarem em


inglês são severamente incapacitadas na busca da independência. Algumas mulheres
assim excluídas foram ainda mais desfavorecidas porque não eram cidadãs dos EUA e
algumas estavam neste país ilegalmente. Para algumas dessas, a única equipe de abrigo
de ajuda que poderia prestar era ajudar a reuni-las com suas famílias de origem. M.
PAGELOW, supra nota 12, em 96–97. As mulheres que não falam inglês são muitas
vezes excluídas mesmo de estudos de mulheres que passaram por violência doméstica
por causa de sua linguagem e outras dificuldades. Um pesquisador qualificou as
estatísticas de uma pesquisa, ressaltando que “um número desconhecido de mulheres
do grupo minoritário foi excluído desta amostra da pesquisa devido a dificuldades de
linguagem”. Id. Em 96. Para combater esta falta de serviços adequados para mulheres
não-brancas em muitos abrigos, programas especiais foram criados especificamente
para mulheres de comunidades particulares. Alguns exemplos de tais programas
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incluem o Projeto de Intervenção de Vítimas em leste do Harlem para mulheres latinas,


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Abrigo Jenesee para mulheres afro-americanas em Los Angeles, Apna Gar em Chicago
para mulheres do Sul da Ásia e, para mulheres asiáticas em geral, o Abrigo das
Mulheres Asiáticas em San Francisco, o Centro de Mulheres Asiáticas de Nova York e o
Centro para a Família Asiática do Pacífico em Los Angeles. Os programas com linhas
diretas incluem Sakhi para mulheres da Ásia do Sul em Nova York e Manavi em Jersey
City, também para mulheres do sul da Ásia, bem como programas para mulheres
coreanas em Filadélfia e Chicago.

[30] Por exemplo, o Abrigo Rosa Parks e a Linha Direta de Combate à Violação de
Compton, dois abrigos que servem a comunidade afro-americana, estão em constante
conflito com fontes de financiamento em relação à proporção de dólares e horas para
mulheres atendidas. Entrevista com Joan Greer, Diretora Executiva do Abrigo Rosa
Parks, em Los Angeles, Califórnia (abril de 1990).

[31] Um trabalhador explicou: por exemplo, uma mulher pode entrar ou ligar por
vários motivos. Ela não tem lugar para ir, ela não tem emprego, ela não tem apoio, ela
não tem dinheiro, ela não tem comida, ela foi espancada e depois de terminar de
atender a todas essas necessidades, ou tentar atender a todas essas necessidades, então
ela pode dizer, por sinal, durante tudo isso, eu fui estuprada. Isso faz com que nossa
comunidade seja diferente de outras comunidades. Uma pessoa quer suas necessidades
básicas primeiro. É muito mais fácil discutir as coisas quando estiver cheio. Nancy Anne
Matthews, Stopping Rape or Managing its Consequences? State Intervention and
Feminist Resistance in the Los Angeles Anti-Rape Movement, 1972–1987, em 287
(1989) (Dissertação de doutorado, Universidade da Califórnia, Los Angeles)
(descrevendo a história do movimento de crise de estupro e destacando as diferentes
histórias e dilemas das linhas diretas de crise de estupro dirigidas por feministas
brancas e situadas nas comunidades minoritárias).

[32] Normalmente, é necessário gastar mais tempo com um sobrevivente que tenha
menos recursos pessoais. Esses sobreviventes tendem a ser mulheres de minorias
étnicas. Muitas vezes, um sobrevivente de minorias étnicas não-assimiladas requer
tradução e interpretação, transporte, abrigo para noite e para crianças e
aconselhamento para outras pessoas, além dos serviços habituais de aconselhamento e
advocacia. Assim, se um centro de crise de estupro atender a uma população
predominantemente de minoria étnica, o número “médio” de horas de serviço prestado
a cada sobrevivente é muito maior do que para um centro que atende uma população

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predominantemente branca. Id. Em 275 (citando papel de posição da Southern


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California Rape Hotline Alliance).

[33] Id. em 287–88.

[34] A Diretora da Rosa Parks relatou que ela muitas vezes encontra problemas com
suas fontes de financiamento em relação ao número médio de conselheiros do Centro
que acompanham as vítimas ao tribunal. Entrevista com Joan Greer, supra nota 30.

[35] Mesmo que as estatísticas atuais indiquem que as mulheres negras são mais
propensas a serem vítimas do que as mulheres brancas, as mulheres negras são menos
propensas a relatar seus estupros, menos propensas a ter seus casos em julgamento,
menos probabilidades de que seus julgamentos resultem em convicções e, de forma
mais perturbante, menos propensas a procurar aconselhamento e outros serviços de
apoio. PATRICIA HILL COLLINS, BLACK FEMINIST THOUGHT: KNOWLEDGE,
CONSCIOUSNESS ANO THE POLITICS OF EMPOWERMENT 178–79 (1990); em
acordo com HUBERT S. FEILD & LEIGH B. BIENEN, JURORS ANO RAPE: A STUDY IN
PSYCHOLOGY AND LAW 141 (1980) (Os dados obtidos de 1.056 cidadãos que servem
como jurados em casos de estupro simulados geralmente mostraram que “o agressor da
mulher negra recebeu uma sentença mais indulgente do que o agressor da mulher
branca”). De acordo com Fern Ferguson, um trabalhador do abuso sexual de Illinois,
falando em uma conferência do Instituto Women of Color em Knoxville, Tennessee,
10% das violações envolvendo vítimas brancas acabam em condenação, em
comparação com 4,2% por violações envolvendo vítimas não-brancas (e 2,3% para o
grupo menos inclusivo de vítimas de violação negra). UPI, 30 de julho de 1985.
Ferguson argumenta que os mitos sobre as mulheres não-brancas serem promíscuas e
desejam ser estupradas encorajam o sistema de justiça criminal e profissionais médicos
também a tratar as mulheres não-brancas de forma diferente do que tratam as
mulheres brancas após a ocorrência de estupro. Id.

Feminism Feminismo Racism Racismo Intersectionality

471 claps

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Escrito por: Kimberlé Williams Crenshaw; professora de Direito na Universidade da


Califórnia, Los Angeles, B.A. Universidade de Cornell, 1981; J.D. Escola de Direito de
Harvard, 1984; L.L.M. Universidade de Wisconsin, 1985.
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Retirado de: https://negrasoulblog.files.wordpress.com/2016/04/mapping-the-


Get started
margins-intersectionality-identity-politics-and-violence-against-women-of-color-
kimberle-crenshaw1.pdf

Traduzido por Carol Correia, a fim de aumentar a discussão referente a violência


contra mulheres, em especial a mulheres não-brancas.

Observação: esta tradução será dividida em 4 partes, devido ao espaço no medium e a


fim de melhorar a divulgação e disponibilização do texto.

. . .

II. INTERSECCIONALIDADE POLÍTICA


O conceito de interseccionalidade política destaca o fato de que as mulheres não-
brancas estão situadas dentro de pelo menos dois grupos subordinados que
frequentemente perseguem agendas políticas conflitantes. A necessidade de dividir as
energias políticas entre dois grupos, às vezes opostos, é uma dimensão de falta de
poder interseccional que os homens não-brancos e as mulheres brancas raramente
enfrentam. De fato, suas experiências específicas de raça e gênero, embora
interseccionais, muitas vezes definem e limitam os interesses de todo o grupo. Por
exemplo, o racismo, tal como experimentado por pessoas não-brancas que pertencem a
um gênero particular — o homem — tende a determinar os parâmetros das estratégias
antirracistas, assim como o sexismo experimentado pelas mulheres de uma raça
particular — branca — tende a fundamentar o movimento das mulheres. O problema
não é simplesmente que ambos os discursos falham às mulheres não-brancas ao não
reconhecer a questão “adicional” da raça ou do patriarcado, mas que os discursos são
muitas vezes inadequados até mesmo às tarefas discretas de articular as dimensões
completas do racismo e do sexismo. Como as mulheres não-brancas vivenciam o
racismo de maneiras nem sempre as mesmas que as experimentadas por homens não-
brancos e sexismo de maneiras nem sempre paralelas às experiências das mulheres
brancas, o antirracismo e o feminismo são limitados, mesmo em seus próprios termos.

Entre as consequências políticas mais preocupantes do fracasso dos discursos


antirracistas e feministas, abordar as intersecções de raça e gênero é o fato de que, na
medida em que podem transmitir o interesse de “pessoas não-brancas” e “mulheres”,
respectivamente, uma análise muitas vezes implícita nega a validade da outra. O
fracasso do feminismo em interrogar a raça significa que as estratégias de resistência

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do feminismo muitas vezes replicam e reforçam a subordinação de pessoas não-brancas


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e o fracasso do antirracismo em interrogar o patriarcado significa que o antirracismo
frequentemente reproduz a subordinação das mulheres. Essas elisões mútuas
apresentam um dilema político particularmente difícil para mulheres não-brancas. A
adoção de ambas as análises constitui uma negação de uma dimensão fundamental da
nossa subordinação e impede o desenvolvimento de um discurso político que mais
capacita as mulheres não-brancas.

A. A politização da violência doméstica


Que os interesses políticos das mulheres não-brancas são confundidos e às vezes
comprometidos por estratégias políticas que ignoram ou suprimem questões
interseccionais são ilustrados pelas minhas experiências na coleta de informações para
este artigo. Eu tentei rever as estatísticas do Departamento de Polícia de Los Angeles,
refletindo a taxa de intervenções de violência doméstica por parte do distrito, porque
tais estatísticas podem fornecer uma imagem áspera de prisões por grupo racial, dado
o grau de segregação racial em Los Angeles.[1] L.A.P.D., no entanto, não divulgaria as
estatísticas. Um representante explicou que uma das razões pelas quais as estatísticas
não foram divulgadas era que os ativistas sobre a violência doméstica, tanto dentro
como fora do Departamento, temiam que as estatísticas que refletissem a extensão da
violência doméstica em comunidades minoritárias poderiam ser interpretadas e
divulgadas seletivamente de modo a prejudicar os esforços a longo prazo para forçar o
Departamento para abordar a violência doméstica como um problema sério. Foi-me
dito que os ativistas estavam preocupados com o fato de que as estatísticas poderiam
permitir que os opositores descartem a violência doméstica como um problema
minoritário e, portanto, não mereçam ações agressivas.

O informante também afirmou que representantes de diversas comunidades


minoritárias se opuseram à liberação dessas estatísticas. Eles estavam preocupados,
aparentemente, de que os dados representariam injustamente as comunidades negras e
‘marrons’[2], como estereótipos potencialmente reforçadores e violentos, que
poderiam ser usados em tentativas de justificar táticas policiais opressivas e outras
práticas discriminatórias. Essas dúvidas são baseadas na premissa familiar e não
infundada de que certos grupos minoritários — especialmente os negros — já foram
estereotipados como incontrolavelmente violentos. Alguns se preocupam que as
tentativas de tornar a violência doméstica um objeto de ação política só pode servir
para confirmar tais estereótipos e prejudicar os esforços para combater as crenças
negativas sobre a comunidade negra.

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Esta conta ilustra bem como as mulheres não-brancas podem ser apagadas pelos
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silêncios estratégicos do antirracismo e do feminismo. As prioridades políticas de
ambos foram definidas de formas que suprimiram a informação que poderia ter
facilitado as tentativas de enfrentar o problema da violência doméstica em
comunidades não-brancas.

1. Violência doméstica e política antirracista.


Dentro das comunidades não-brancas, os esforços para deter a politização da violência
doméstica são muitas vezes fundamentados em tentativas de manter a integridade da
comunidade. A articulação desta perspectiva tem formas diferentes. Alguns críticos
alegam que o feminismo não tem lugar dentro das comunidades não-brancas, que as
questões são internamente divisórias e que representam a migração das preocupações
das mulheres brancas para um contexto em que elas não são apenas irrelevantes, mas
também prejudiciais. No seu extremo, esta retórica nega que a violência de gênero é
um problema na comunidade e caracteriza qualquer esforço para politizar a
subordinação de gênero como um problema de comunidade. Esta é a posição tomada
por Shahrazad Ali em seu controverso livro, The Blackman’s Guide to Understanding the
Black woman (O guia do homem negro para compreender a mulher negra).[3] Neste trato
estritamente antifeminista, Ali estabelece uma correlação positiva entre violência
doméstica e libertação de afro-americanos. Ali culpa as condições de deterioração
dentro da comunidade negra sobre a insubordinação das mulheres negras e sobre o
fracasso dos homens negros em controlá-las.[4] Ali chega a ponto de aconselhar os
homens negros a castigarem fisicamente as mulheres negras quando são
“desrespeitosas”.[5] Enquanto ela adverte que os homens negros devem usar a
moderação na disciplina de “suas” mulheres, ela argumenta que os homens negros
devem às vezes recorrer à força física para restabelecer a autoridade sobre as mulheres
negras que o racismo interrompeu.[6]

A premissa de Ali é que o patriarcado é benéfico para a comunidade negra[7] e que


deve ser fortalecido através de meios coercivos, se necessário[8]. No entanto, a
violência que acompanha essa vontade de controle é devastadora, não só para as
mulheres negras que são vítimas, mas também para toda a comunidade negra.[9] O
recurso à violência para resolver conflitos estabelece um padrão perigoso para crianças
criadas em tais ambientes e contribui para muitos outros problemas urgentes[10].
Estima-se que quase 40% de todas as mulheres e crianças desabrigadas tenham fugido
da violência no lar[11] e cerca de 63% entre as idades de onze e vinte pessoas presas
por homicídio mataram os agressores de suas mães[12]. E, no entanto, enquanto a

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violência de gangues, homicídios e outras formas de crimes de negros contra outros


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negros foram cada vez mais discutidos dentro da política afro-americana, ideias
patriarcais sobre gênero e poder impedem o reconhecimento da violência doméstica
como outra incidência convincente de crimes de negros contra outros negros.

Esforços como os de Ali para justificar a violência contra as mulheres em nome da


libertação negra são realmente extremos[13]. O problema mais comum é que os
interesses políticos ou culturais da comunidade são interpretados de forma a impedir o
reconhecimento público completo do problema da violência doméstica. Embora seja
enganoso sugerir que os americanos brancos tenham chegado a um acordo com o grau
de violência em suas próprias casas, é mesmo o caso da raça acrescentar mais uma
dimensão ao porquê o problema da violência doméstica é reprimido em comunidades
não-brancas. As pessoas não-brancas muitas vezes devem pesar seus interesses para
evitar problemas que possam reforçar percepções públicas distorcidas contra a
necessidade de reconhecer e resolver os problemas intracomunitários. No entanto, o
custo da supressão raramente é reconhecido em parte porque o fracasso em discutir a
questão molda as percepções de quão grave é o problema em primeiro lugar.

A controvérsia sobre o livro de Alice Walker The Color Purple (A Cor Púrpura) pode ser
entendida como um debate intracomunitário sobre os custos políticos de expor a
violência de gênero dentro da comunidade negra[14]. Alguns críticos castigaram
Walker por retratar homens negros como brutos violentos[15]. Um crítico duramente
julgou o retrato de Walker de Celie, a protagonista emocional e fisicamente abusada
que finalmente triunfa no final. Walker, argumentou o crítico, criou em Celie uma
mulher negra, a quem não podia imaginar existir em qualquer comunidade negra que
ela conhecesse ou pudesse conceber[16].

A afirmação de que Celie era de alguma forma um caráter não-autêntico pode ser lida
como uma consequência de silenciar a discussão da violência intracomunitária. Celie
pode ser diferente de qualquer mulher negra que conhecemos porque o verdadeiro
terror experimentado diariamente por mulheres minoritárias é rotineiramente
escondido em uma tentativa equivocada (embora talvez compreensível) para evitar
estereótipos raciais. É claro que as representações da violência negra — estatística ou
ficcional — são muitas vezes escritas em um roteiro maior que retrata
consistentemente negros e outras comunidades minoritárias como patologicamente
violentas. O problema, no entanto, não é tanto o retrato da própria violência como a
ausência de outras narrativas e imagens que retratam uma gama mais completa de
experiência negra. A supressão de algumas dessas questões em nome do antirracismo
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impõe custos reais. Onde a informação sobre a violência em comunidades minoritárias


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não está disponível, a violência doméstica é improvável de ser abordada como uma
questão séria.

Os imperativos políticos de uma estratégia antirracista estreitamente focada apoiam


outras práticas que isolam as mulheres não-brancas. Por exemplo, ativistas que
tentaram fornecer serviços de apoio a mulheres asiáticas e afro-americanas relatam
uma intensa resistência dessas comunidades.[17] Em outros momentos, fatores
culturais e sociais contribuem para a supressão. Nilda Rimonte, diretora de Every
woman’s Shelter em Los Angeles, ressalta que na comunidade asiática, salvar a honra
da família da vergonha é uma prioridade.[18] Infelizmente, esta prioridade tende a ser
interpretada como obrigando as mulheres a não gritar ao invés de obrigar os homens a
não baterem.

A raça e a cultura também contribuem para a supressão da violência doméstica. As


mulheres não-brancas muitas vezes relutam em chamar a polícia, uma hesitação
provavelmente devido a uma falta de vontade geral entre as pessoas não-brancas para
submeter sua vida privada ao escrutínio e controle de uma força policial que é
frequentemente hostil. Há também uma ética comunitária mais generalizada contra a
intervenção pública, produto do desejo de criar um mundo privado livre dos diversos
estupros à vida pública de pessoas subordinadas racialmente. A casa não é
simplesmente um castelo do homem no sentido patriarcal, mas também pode
funcionar como um refúgio seguro das indignidades da vida em uma sociedade racista.
No entanto, mas para este “refúgio seguro” em muitos casos, as mulheres não-brancas
vitimadas pela violência poderiam, de outra forma, procurar ajuda.

Há também uma tendência geral no discurso antirracista de considerar o problema da


violência contra as mulheres não-brancas como apenas mais uma manifestação do
racismo. Nesse sentido, a relevância da dominação de gênero dentro da comunidade é
reconfigurada como consequência da discriminação contra os homens. Claro, se é
provavelmente verdade que o racismo contribui para o ciclo de violência, dado o
estresse que os homens não-brancos experienciam na sociedade dominante. É,
portanto, mais do que razoável explorar as ligações entre o racismo e a violência
doméstica. Mas a cadeia de violência é mais complexa e se estende além desse único
elo. O racismo está ligado ao patriarcado na medida em que o racismo nega aos
homens não-brancos o poder e o privilégio de que gozam os homens dominantes.
Quando a violência é entendida como uma atuação de ser negado o poder masculino
em outras esferas, parece contraproducente abraçar construções que vinculam
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implicitamente a solução à violência doméstica à aquisição de maior poder masculino.


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O imperativo político mais promissor é desafiar a legitimidade de tais expectativas de
poder, expondo seu efeito disfuncional e debilitante sobre as famílias e comunidades
não-brancas. Além disso, embora a compreensão das ligações entre o racismo e a
violência doméstica seja um componente importante de qualquer estratégia de
intervenção eficaz, também é nítido que as mulheres não-brancas não precisam esperar
o triunfo final sobre o racismo antes de poderem viver vidas livres de violência.

2. Raça e lobby de violência doméstica.


Não só as prioridades baseadas na raça funcionam para confundir o problema da
violência sofrida pelas mulheres não-brancas; as preocupações feministas também
suprimem as experiências das minorias. As estratégias para aumentar a consciência da
violência doméstica dentro da comunidade branca tendem a começar por citar a
suposição comumente compartilhada de que o estupro é um problema minoritário. A
estratégia, em seguida, se concentra em demolir este espantalho, salientando que o
abuso realizado por cônjuge também ocorre na comunidade branca. Inúmeras histórias
em primeira pessoa começam com uma declaração como “Eu não era suposta em ser
uma esposa que sofreu violência doméstica.” Essa agressão ocorre em famílias de todas
as raças e todas as classes parece ser um tema sempre presente de campanhas contra o
abuso.[19] Anedotas em primeira pessoa e estudos, por exemplo, afirmam
consistentemente que a violência atravessa linhas raciais, étnicas, econômicas,
educacionais e religiosas.[20] Tais renúncias parecem relevantes apenas na presença
de uma crença inicial e amplamente difundida de que a violência doméstica ocorre
principalmente em famílias minoritárias ou pobres. Na verdade, algumas autoridades
renunciam explicitamente aos “mitos estereotipados” sobre mulheres que sofreram
violência doméstica.[21] Alguns comentaristas até transformaram a mensagem de que
a violência doméstica não é exclusivamente um problema das comunidades pobres ou
minoritárias em uma alegação de que ela afeta igualmente todas as raças e classes.[22]
No entanto, esses comentários parecem menos preocupados com a exploração do
abuso doméstico dentro de comunidades “estereotipadas” do que com a remoção do
estereótipo como um obstáculo para expor a violência doméstica dentro das
comunidades brancas de classe média e alta.[23]

Os esforços para politizar a questão da violência contra as mulheres desafiam as


crenças de que a violência ocorre apenas em casas de “outros”. Embora seja improvável
que os defensores e outros que adotam esta estratégia retórica pretendam excluir ou
ignorar as necessidades de mulheres pobres e não-brancas, a premissa subjacente a

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esse apelo aparentemente universalista é manter a sensibilidade dos grupos sociais


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dominantes focada nas experiências desses grupos. Na verdade, como sutilmente
sugerido pelos comentários iniciais do senador David Boren (D-Okla.) Em apoio à Lei
de Violência contra as Mulheres de 1991, o deslocamento do “outro” como a vítima
presumida de violência doméstica funciona principalmente como um apelo político
para reunir elites brancas. Boren disse,

Os crimes violentos contra as mulheres não se limitam às ruas das cidades do interior, mas
também ocorrem em casas nas áreas urbanas e rurais em todo o país.

A violência contra as mulheres afeta não só aquelas que são realmente espancadas e
brutalizadas, mas afetam indiretamente todas as mulheres. Hoje, nossas esposas, mães,
filhas, irmãs e colegas são mantidas cativas pelo medo gerado por esses crimes violentos —
mantidas prisioneiras não pelo que fazem ou quem são, mas apenas devido ao gênero[24].

Ao invés de se concentrar em e iluminar como a violência é desconsiderada quando a


casa é “diferente”, a estratégia implícita nas observações do senador Boren funciona em
vez disso para politizar o problema apenas na comunidade dominante. Esta estratégia
permite que as mulheres brancas que são vítimas se aproximem, mas pouco para
interromper os padrões de negligência que permitiram que o problema continuasse,
desde que se considerasse um problema minoritário. A experiência da violência das
mulheres minoritárias é ignorada, exceto na medida em que ganha apoio branco para
programas de violência doméstica na comunidade branca.

O senador Boren e seus colegas, sem dúvida, acreditam que forneceram legislação e
recursos que abordarão os problemas de todas as mulheres vítimas de violência
doméstica. No entanto, apesar de sua retórica universalizadora de “todas” as mulheres,
foram capazes de simpatizar com as mulheres vítimas de violência doméstica apenas
procurando superar a situação de “outras” mulheres e reconhecendo os próprios rostos
familiares. A força do apelo para “proteger nossas mulheres” deve ser sua raça e classe
especificamente. Afinal, sempre foi esposa, mãe, irmã ou filha de alguém que foi
abusada, mesmo quando a violência era estereotípicamente negra ou marrom e pobre.
O ponto aqui não é que o Ato de Violência contra as Mulheres seja particularista em
seus próprios termos, mas isso, a menos que os senadores e outros formuladores de
políticas perguntem por que a violência permaneceu insignificante, desde que seja
entendido como um problema minoritário, é improvável que mulheres não-brancas
participem igualmente na distribuição de recursos e preocupação. É ainda mais
improvável, no entanto, que aqueles em poder serão forçados a enfrentar esta questão.

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Enquanto as tentativas de politizar a violência doméstica se concentrarem em


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convencer os brancos de que este não é um problema “minoritário”, mas seu problema,
qualquer atenção autêntica e sensível às experiências de mulheres negras e outras
mulheres minoritárias provavelmente continuará a ser considerada como se estivesse
prejudicando o movimento.

Enquanto a declaração do senador Boren reflete uma apresentação auto


conscientemente política da violência doméstica, um episódio do programa de notícias
do CBS, 48 hours[25] mostra como os padrões semelhantes de mulheres não-brancas
são evidentes nas contas jornalísticas da violência doméstica também. O programa
apresentou sete mulheres vítimas de abuso. Seis foram entrevistadas com algum tempo
junto com seus familiares, amigos, apoiantes e até detratores. O espectador conheceu
algo sobre cada uma dessas mulheres. Essas vítimas foram humanizadas. No entanto, a
sétima mulher, a única não-branca, nunca chegou a ficar em foco. Ela era literalmente
irreconhecível em todo o segmento, introduzida pela primeira vez por fotografias
mostrando seu rosto bem agredido e depois mostrado com o rosto alterado
eletronicamente na fita de vídeo de uma audiência na qual ela foi forçada a
testemunhar. Outras imagens associadas a esta mulher incluíam tiros de uma sala
manchada de sangue e almofadas encharcadas de sangue. Seu namorado foi retratado
algemado enquanto a câmera se aproximava para um close-up de seus tênis
ensanguentados. De todas as apresentações no episódio, a dela foi a mais gráfica e
impessoal. O ponto geral do segmento “apresentando” essa mulher foi que a agressão
pode não se transformar em homicídio se mulheres que passam por violência
doméstica apenas cooperassem com procuradores. Ao concentrar-se em sua própria
agenda e não explorar por que essa mulher se recusou a cooperar, o programa
diminuiu essa mulher, comunicando-se, porém sutilmente, que ela era responsável por
sua própria vitimização.

Ao contrário das outras mulheres, todas de novo brancas, essa mulher negra não tinha
nome, nem família, nem contexto. O espectador a vê apenas como vitimada e não
cooperativa. Ela chora quando mostra imagens. Ela não se obriga a ver a sala
manchada de sangue e o rosto desfigurado. O programa não ajuda o espectador a
entender sua situação. Os possíveis motivos por que ela não queria testemunhar —
medo, amor ou, possivelmente, ambos — nunca são sugeridos[26]. Mais, infelizmente,
ela, ao contrário das outras seis, não recebe nenhum epílogo. Enquanto os destinos das
outras mulheres são revelados no final do episódio, não descobrimos nada sobre a

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mulher negra. Ela, como os “outros” que ela representa, é simplesmente deixada para si
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mesma e logo esquecida.

Ofereço essa descrição para sugerir que as “outras” mulheres são silenciadas, sendo
relegadas à margem de experiência como por exclusão total. A inclusão tokenística,
objetivadora e voyerística é, pelo menos, tão implacável quanto a exclusão completa. O
esforço para politizar a violência contra as mulheres fará pouco para lidar com as
mulheres negras e outras mulheres minoritárias se suas imagens forem mantidas
simplesmente para ampliar o problema ao invés de humanizar suas experiências. Da
mesma forma, a agenda antirracista não avançará de forma significativa por meio da
supressão forçada da realidade do golpe nas comunidades minoritárias. À medida que
o episódio de 48 hours deixa nítido que as imagens e os estereótipos que tememos estão
prontamente disponíveis e são frequentemente implantados de maneiras que não
geram compreensão sensível da natureza da violência doméstica nas comunidades
minoritárias.

3. Serviços de apoio à violência doméstica e racial.


As mulheres que trabalham no campo da violência doméstica às vezes reproduziram a
subordinação e a marginalização das mulheres não-brancas, adotando políticas,
prioridades ou estratégias de capacitação que ignoram ou omitem completamente as
necessidades interseccionais particulares das mulheres não-brancas. Enquanto o
gênero, a raça e a classe se cruzam para criar o contexto particular em que as mulheres
não-brancas experimentam violência, certas escolhas feitas por “aliados” podem
reproduzir a subordinação interseccional dentro das estratégias de resistência muito
projetadas para responder ao problema.

Este problema é obviamente ilustrado pela inacessibilidade dos serviços de apoio à


violência doméstica a muitas mulheres que não falam inglês. Em uma carta escrita ao
vice-comissário do Departamento de Serviços Sociais do Estado de Nova York, Diana
Campos, Diretora de Serviços Humanos para Programas de Ocupações e
Desenvolvimento Econômico Real, Inc. (PODER), detalhou o caso de uma latina em
crise que repetidamente foi negada alojamento em um abrigo porque não conseguiu
provar que ela era proficiente em inglês. A mulher tinha fugido para casa com o filho
adolescente, acreditando nas ameaças de seu marido para matá-los. Ela chamou a
linha direta de violência doméstica administrada pelo PODER buscando abrigo para ela
e seu filho. Como a maioria dos abrigos não acomodava a mulher com seu filho, eles
foram forçados a viver nas ruas por dois dias. O conselheiro da linha direta foi
finalmente capaz de encontrar uma agência que levaria tanto a mãe como ao filho, mas
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quando o conselheiro disse ao coordenador de admissão no abrigo que a mulher tinha


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inglês limitado, a coordenadora disse que não podiam levar ninguém que não fosse
proficiente em inglês. Quando a mulher em crise ligou de volta e foi informada da
“regra” do abrigo, ela respondeu que podia entender o inglês se falassem lentamente.
Como Campos explica, Mildred, o conselheiro da linha direta, disse a Wendy, a
coordenadora de admissão

que a mulher disse que poderia se comunicar um pouco em inglês. Wendy disse a Mildred
que eles não poderiam prestar serviços à essa mulher porque eles têm regras da casa que a
mulher deve concordar em seguir. Mildred perguntou: “E se a mulher concordar em seguir
suas regras? Você ainda não a levará?” Wendy respondeu que todas as mulheres no abrigo
são obrigadas a participar de um grupo de apoio e não poderiam tê-la no grupo se não
pudesse se comunicar. Mildred mencionou a gravidade do caso desta mulher. Ela disse a
Wendy que a mulher vagava pelas ruas durante a noite, enquanto o marido estava em casa
e ela havia sido assaltada duas vezes. Ela também reiterou o fato de que esta mulher estava
em perigo de ser morta por seu marido ou por um assaltante. Mildred expressou que a
segurança da mulher era uma prioridade neste ponto, e que, uma vez em um lugar seguro,
receberia aconselhamento em um grupo de apoio em que poderia ser tratada[27].

O coordenador de admissão reafirmou a política de acolhimento de aceitar apenas


mulheres de língua inglesa e afirmou ainda que a mulher teria que chamar o abrigo
para seleção. Se a mulher pudesse se comunicar com eles em inglês, ela poderia ser
aceita. Quando a mulher chamou a linha direta do PODER no final daquele dia, ela
estava com tanto medo que o conselheiro da linha direta que estava trabalhando com
ela, que ele teve dificuldade em entendê-la em espanhol[28]. Campos intervêm
diretamente neste ponto, chamando o diretor executivo do abrigo. Um conselheiro
chamado de volta do abrigo. Como Campos relata,

Marie [a conselheira] me disse que eles não queriam levar a mulher no abrigo porque
sentiam que a mulher se sentiria isolada. Expliquei que o filho concordou em traduzir para
sua mãe durante o processo de admissão. Além disso, nós as ajudamos a localizar uma
defensora de língua espanhola para ajudar a orientá-la. Marie afirmou que utilizar o filho
não era um meio de comunicação aceitável para eles, já que ele vitimizava a vítima. Além
disso, ela afirmou que eles tiveram experiências semelhantes com mulheres que não eram
de língua inglesa e que as mulheres finalmente tiveram que sair porque não conseguiram
se comunicar com ninguém. Eu expressei minha preocupação extrema por sua segurança e
reiteramos que nós as ajudamos a fornecer os serviços necessários até que possamos
colocá-la em algum lugar onde eles tivessem pessoal bilíngue[29].
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Depois de várias outras chamadas, o abrigo finalmente concordou em admitir a


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mulher. A mulher ligou mais uma vez durante a negociação; no entanto, depois que um
plano estava no lugar, a mulher nunca voltou. Disse Campos, “Depois de tantas
chamadas, agora nos perguntamos se ela está viva e bem e se ela sempre terá fé
suficiente em nossa capacidade de ajudá-la a nos chamar novamente na próxima vez
que ela estiver em crise”[30].

Apesar da necessidade desesperada desta mulher, ela não conseguiu receber a proteção
oferecida às mulheres de língua inglesa, devido ao rígido compromisso do abrigo em
relação a políticas de exclusão. Talvez ainda mais preocupante do que a falta de
recursos bilíngues do abrigo era a recusa de permitir que um amigo ou parente
traduzisse para a mulher. Esta história ilustra o absurdo de uma abordagem feminista
que faz da capacidade de participar de um grupo de apoio sem um tradutor uma
consideração mais significativa na distribuição de recursos do que o risco de danos
físicos na rua. O ponto não é que a imagem de capacitação do abrigo seja vazia, mas
sim que foi imposta sem levar em conta as consequências desvalorizadoras para as
mulheres que não combinavam com o tipo de cliente que os administradores do abrigo
imaginavam. E assim eles não conseguiram cumprir a prioridade básica do movimento
de abrigo — de tirar a mulher da situação de risco.

Aqui, a mulher em crise foi levada a suportar o ônus da recusa do abrigo de antecipar e
atender as necessidades de mulheres que não falam inglês. Disse Campos: “É injusto
impor mais estresse às vítimas, colocando-as na posição de ter que demonstrar sua
proficiência em inglês para receber serviços que estão prontamente disponíveis para
outras mulheres vítimas de violência doméstica”[31]. O problema não é facilmente
descartado como uma ignorância bem intencionada. A questão específica do
monolinguismo e a visão monista da experiência das mulheres que prepararam o
terreno para essa tragédia não foram novas questões em Nova York. Na verdade, várias
mulheres não-brancas relataram que lutaram repetidamente com a Coalizão do Estado
de Nova York contra a violência doméstica sobre a exclusão da linguagem e outras
práticas que marginalizavam os interesses das mulheres não-brancas[32]. No entanto,
apesar do lobby repetido, a Coalizão não atuou para incorporar as necessidades
específicas das mulheres não-brancas em sua visão organizacional central.

Alguns críticos vincularam o fracasso da Coalizão em abordar essas questões para a


estreita visão de coalizão que animou sua interação com mulheres não-brancas em
primeiro lugar. A própria localização da sede da Coalizão em Woodstock, Nova York —
uma área onde poucas pessoas não-brancas vivem — parecia garantir que as mulheres
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não-brancas desempenhassem um papel limitado na formulação de políticas. Além


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disso, os esforços para incluir as mulheres não-brancas vieram, ao que parece, como
algo de uma reflexão tardia. Muitas foram convidadas a participar apenas depois que a
Coalizão recebeu uma concessão pelo Estado para recrutar mulheres não-brancas. No
entanto, como uma “recruta” disse, “eles não estavam realmente preparados para lidar
conosco ou com nossos problemas. Eles pensaram que poderiam simplesmente nos
incorporar à sua organização sem repensar nenhuma das suas crenças ou prioridades e
que seríamos felizes”[33]. Mesmo os gestos mais formais de inclusão não deveriam ser
considerados como garantidos. Em uma ocasião em que várias mulheres não-brancas
participaram de uma reunião para discutir uma força-tarefa especial sobre mulheres
não-brancas, o grupo debateu o dia inteiro, incluindo a questão na agenda[34].

A relação entre as mulheres brancas e as mulheres não-brancas no quadro foi difícil do


início ao fim. Outros conflitos desenvolvidos em diferentes definições do feminismo.
Por exemplo, o Conselho decidiu contratar um pessoal da equipe latina para gerenciar
programas de divulgação para a comunidade latina, mas os membros brancos do
comitê de contratação rejeitaram os candidatos favorecidos pelos membros do comitê
latino que não possuíam credenciais feministas reconhecidas. Como Campos apontou,
ao medir as latinas contra suas próprias biografias, os membros brancos da Junta não
conseguiram reconhecer as diferentes circunstâncias sob as quais a consciência
feminista se desenvolve e se manifesta dentro das comunidades minoritárias. Muitas
das mulheres entrevistadas para o cargo foram ativistas e líderes estabelecidas dentro
de sua própria comunidade, fato em si sugerindo que essas mulheres provavelmente
estavam familiarizadas com a dinâmica específica de gênero em suas comunidades e,
portanto, estavam melhor qualificadas para lidar com o alcance do que outras
candidatas com credenciais feministas mais convencionais[35].

A Coalizão terminou alguns meses depois, quando as mulheres não-brancas


saíram[36]. Muitas dessas mulheres voltaram para as organizações comunitárias,
preferindo lutar sobre as questões das mulheres dentro de suas comunidades em vez de
lutar por questões de raça e classe com mulheres brancas de classe média. No entanto,
como ilustrado pelo caso da latina que não encontrou abrigo, o domínio de uma
perspectiva particular e um conjunto de prioridades dentro da comunidade de refúgio
continua a marginalizar as necessidades das mulheres não-brancas.

A luta sobre a qual as diferenças importam e quais não são nem um debate abstrato
nem insignificante entre as mulheres. Na verdade, esses conflitos são mais do que
diferenças como tal; levantam questões críticas de poder. O problema não é
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24/07/2019 “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas” de Kimberle Crensh…

simplesmente que as mulheres que dominam o movimento de antiviolência são


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diferentes das mulheres não-brancas, mas que frequentemente têm poder para
determinar, seja através de recursos materiais ou retóricos, se as diferenças
interseccionais de mulheres não-brancas serão incorporadas na formulação básica de
políticas. Assim, a luta pela incorporação dessas diferenças não é um conflito
insignificante ou superficial sobre quem se sente à frente da mesa. No contexto da
violência, às vezes é uma questão mortal e séria de quem vai sobreviver — e quem não
vai[37].

B. Interseccionalidades políticas no estupro


Nas seções anteriores, usei interseccionalidade para descrever ou enquadrar várias
relações entre raça e gênero. Utilizei a interseccionalidade como forma de articular a
interação do racismo e do patriarcado em geral. Eu também usei interseccionalidade
para descrever a localização das mulheres não-brancas, tanto dentro dos sistemas de
subordinação sobrepostos quanto nas margens do feminismo e do antirracismo.
Quando os fatores de raça e gênero são examinados no contexto de estupro, a
intersecção pode ser usada para mapear as formas em que o racismo e o patriarcado
moldaram conceituações de estupro, descrevem a vulnerabilidade única das mulheres
não-brancas a esses sistemas convergentes de dominação e rastreia a marginalização
das mulheres não-brancas dentro de discursos antirracistas e anti-estupro[38].

1. Racismo e sexismo nas conceituações dominantes de estupro.


Gerações de críticos e ativistas criticaram conceituações dominantes de estupro como
racistas e sexistas. Esses esforços têm sido importantes para revelar a forma como as
representações de estupro refletem e reproduzem hierarquias de raça e gênero na
sociedade americana[39]. As mulheres negras, tanto mulheres como pessoas não-
brancas, estão situadas em ambos os grupos, cada uma das quais se beneficiou de
desafios para o sexismo e o racismo, respectivamente, e, no entanto, a dinâmica
particular de gênero e raça relacionada à violação de mulheres negras recebeu atenção
escassa. Embora os ataques antirracistas e antissexistas em estupro tenham sido
politicamente úteis para as mulheres negras, em algum nível, as críticas monofocais
antirracistas e feministas também produziram um discurso político que diminui as
mulheres negras.

Historicamente, a conceituação dominante de estupro quintessencialmente como


agressor negro e vítima branca deixou os homens negros sujeitos a violência legal e
extralegal. O uso de estupro para legitimar os esforços para controlar e disciplinar a

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comunidade negra está bem estabelecida e o elenco de todos os homens negros como
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ameaças potenciais à santidade da feminilidade branca foi uma construção familiar que
antirracistas enfrentaram e tentaram dissipar há mais de um século.

As feministas têm atacado outras concepções dominantes, essencialmente patriarcais,


de estupro, particularmente como representadas através da lei. A ênfase precoce da lei
de estupro sobre o aspecto semelhante à da propriedade da castidade das mulheres
resultou em menor solicitude para as vítimas de estupro cuja castidade havia sido de
alguma forma desvalorizada. Alguns dos pressupostos mais insidiosos foram escritos
na lei, incluindo a noção de common law inicial de que uma mulher que alegou estupro
deve ser capaz de mostrar que ela resistiu ao máximo para provar que ela foi estuprada
em vez de ter seduzido seu agressor. As próprias mulheres foram julgadas, enquanto o
juiz e o júri examinavam suas vidas para determinar se eram vítimas inocentes ou
mulheres que obtiveram essencialmente o que pediam. As regras legais funcionaram
assim para legitimar uma boa dicotomia mulher boa/mulher ruim em que as mulheres
que levam vidas sexualmente autônomas geralmente eram menos propensas a serem
vindicadas se fossem estupradas.

Hoje, muito depois que as leis discriminatórias mais flagrantes foram erradicadas, as
construções de estupro no discurso popular e no direito penal continuam a manifestar
vestígios desses temas racistas e sexistas. Como Valerie Smith observa, “uma variedade
de narrativas culturais que historicamente ligaram a violência sexual com a opressão
racial continua a determinar a natureza da resposta pública [aos estupros inter-
raciais]”[40]. Smith analisa o caso bem divulgado de uma corredora que foi estuprada
no Central Park de Nova York[41] para expor como o discurso público sobre o assalto
“tornou a história da vitimização sexual inseparável da retórica do racismo”[42]. Smith
afirma que, na desumanização dos estupradores como “selvagens”, “lobos” e “bestas”, a
imprensa “moldou o discurso em torno do evento de forma que inflamou os medos
penetrantes sobre homens negros”[43]. Dado os muitos paralelos entre os
representantes dos meios de comunicação do estupro de Central Park e a cobertura
sensacionalista de alegações semelhantes que no passado, frequentemente,
culminaram em linchamentos, dificilmente poderia ser surpreendido quando Donald
Trump tirou um anúncio de página completa em quatro jornais de Nova York que
exigiam que Nova York “trouxesse de volta a pena de morte, traga nossa polícia”[44].

Outros espetáculos da mídia sugerem que os estereótipos tradicionais baseados em


gênero que são opressivos para as mulheres continuam a figurar na construção popular
de estupro. Na Flórida, por exemplo, uma controvérsia foi provocada pela absolvição
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do júri de um homem acusado de um estupro brutal porque, de acordo com os jurados,


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a vestimenta da mulher sugeria que ela estava pedindo sexo[45]. Mesmo a cobertura
da imprensa sobre o julgamento de estupro de William Kennedy Smith envolveu um
considerável grau de especulação sobre a história sexual de seu acusador[46].

O racismo e o sexismo escritos na construção social do estupro são meramente


manifestações contemporâneas de narrativas de estupro que decorrem de um período
histórico em que as hierarquias da raça e do sexo foram mais policialmente explicitas.
Ainda mais é a desvalorização das mulheres negras e a marginalização de suas vítimas
sexuais. Isso foi dramaticamente demonstrado na atenção especial dada ao estupro da
corredora do Central Park durante uma semana em que outros oito casos de estupro ou
tentativa de estupro foram relatados em Nova York[47]. Muitos desses estupros foram
tão horríveis quanto o estupro no Central Park, mas todos foram praticamente
ignorados pela mídia. Alguns eram estupros feitos por gangues[48] e no caso que os
promotores descreveram como “um dos mais brutais nos últimos anos”, uma mulher foi
estuprada, sodomizada e jogada a cinquenta metros do topo de um prédio de quatro
andares no Brooklyn. Testemunhas afirmaram que a vítima “gritou enquanto
mergulhava no poço do ar…. Ela sofreu fraturas de tornozelos e pernas, sua pélvis foi
quebrada e ela sofreu extensas lesões internas”[49]. Esta sobrevivente de estupro,
como a maioria das outras vítimas esquecidas naquela semana, era uma mulher não-
branca.

Em suma, durante o período em que a corredora do Central Park dominou as


manchetes, ocorreram muitos estupros igualmente horripilantes. Nenhum, no entanto,
provocou expressões públicas de horror e indignação que assistiram ao estupro de
Central Park[50]. Para explicar essas diferentes respostas, o Professor Smith sugere
uma hierarquia sexual em operação que mantém determinados corpos femininos em
maior consideração do que outros[51]. As estatísticas do processo de casos de estupro
sugerem que esta hierarquia é pelo menos um fator significativo, embora
frequentemente negligenciado na avaliação de atitudes em relação ao estupro[52]. Um
estudo das disposições sobre estupro em Dallas, por exemplo, mostrou que a prisão
média para um homem condenado por estuprar uma negra era de dois anos[53], em
comparação com cinco anos para o estupro de uma latina e dez anos para o estupro de
uma mulher branca[54]. Uma questão relacionada é o fato de que as vítimas afro-
americanas de estupro são menos propensas a serem acreditadas[55]. O estudo de
Dallas e outros como ele também apontam para um problema mais sutil: nem a agenda
política anti-estupro nem a antirracista se concentraram na vítima negra de estupro.

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Esta desatenção decorre da forma como o problema do estupro é conceitualizado


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dentro de discursos de reforma antirracista e anti-estupro. Embora a retórica de ambas
as agendas inclua formalmente as mulheres negras, o racismo geralmente não é
problematizado no feminismo e o sexismo, não é problematizado nos discursos
antirracistas. Consequentemente, a situação das mulheres negras é relegada a uma
importância secundária: os principais beneficiários das políticas apoiadas por
feministas e outros preocupados com estupro tendem a ser mulheres brancas; as
principais beneficiárias da preocupação da comunidade negra com o racismo e o
estupro, são homens negros. Em última análise, as estratégias reformistas e retóricas
que surgiram dos movimentos de reforma anti-estupro e antirracista foram ineficazes
na politização do tratamento das mulheres negras.

2. Raça e o lobby anti-estupro.


As críticas feministas de estupro se concentraram na forma como a lei de estupro
refletiu regras e expectativas dominantes que regulam muito a sexualidade das
mulheres. No contexto do julgamento de estupro, a definição formal de estupro, bem
como as regras de provas aplicáveis em um julgamento de estupro discriminam as
mulheres, medindo a vítima de estupro contra uma norma restrita de conduta sexual
aceitável para as mulheres. O desvio dessa norma tende a levar as mulheres como
vítimas ilegítimas de estupro, levando à rejeição de suas reivindicações.

Historicamente, as regras legais ditavam, por exemplo, que as vítimas de estupro


deveriam ter resistido a seus agressores para que suas reivindicações fossem aceitas.
Qualquer redução da luta foi interpretada como o consentimento da mulher para a
relação sexual sob a lógica de que uma verdadeira vítima de estupro protege sua honra
virtualmente até a morte. Embora a maior resistência já não seja formalmente exigida,
a lei de estupro continua a pesar a credibilidade das mulheres contra os padrões
normativos restritos do comportamento feminino. A história sexual de uma mulher,
por exemplo, é frequentemente explorada por advogados de defesa como uma forma
de sugerir que uma mulher que consentiu sexo em outras ocasiões provavelmente teria
consentido no caso em questão. A conduta sexual passada, bem como as circunstâncias
específicas que levaram ao estupro, costumam ser usadas para distinguir o caráter
moral da vítima de estupro legítima de mulheres que são consideradas degradadas
moralmente ou, de outra forma, responsáveis por sua própria vitimização.

Este tipo de crítica feminista da lei de estupro tem informado muitas das medidas de
reforma fundamentais promulgadas na legislação anti-estupro, incluindo penas
aumentadas para estupradores condenados[56] e mudanças nas regras de evidência
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para impedir ataques ao caráter moral da mulher[57]. Essas reformas limitam as


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táticas que os advogados podem usar para manchar a imagem da vítima de estupro,
mas eles operam dentro de construções sociais preexistentes que distinguem vítimas de
não-vítimas com base em seu caráter sexual. E, portanto, essas reformas, embora
benéficas, não desafiam as narrativas culturais de fundo que prejudicam a
credibilidade das mulheres negras.

Porque as mulheres negras enfrentam subordinação baseada em raça e gênero, as


reformas da lei de estupro e os procedimentos judiciais que se baseiam em concepções
estreitas de subordinação de gênero podem não abordar a desvalorização das mulheres
negras. Grande parte do problema resulta da forma como certas expectativas de
gênero para as mulheres se cruzam com certas noções sexualizadas de raça, noções que
estão profundamente enraizadas na cultura americana. As imagens sexualizadas de
afro-americanos vão todo o caminho de volta ao primeiro compromisso dos europeus
com os africanos. Os negros têm sido retratados como mais sexuais, mais terrenos,
mais orientados para a gratificação. Essas imagens sexualizadas de raça se cruzam com
as normas da sexualidade das mulheres, normas que são usadas para distinguir as boas
mulheres das do mal, as madonnas das putas. Assim, as mulheres negras são
essencialmente pré-embaladas como mulheres ruins dentro de narrativas culturais
sobre mulheres boas que podem ser estupradas e mulheres ruins que não podem. O
descrédito das reivindicações das mulheres negras é a consequência de uma
intersecção complexa de um sistema sexual de gênero, que constrói regras apropriadas
para mulheres boas e más e um código de raça que fornece imagens que definem a
natureza supostamente essencial das mulheres negras. Se essas imagens sexuais
formam parte mesmo das imagens culturais das mulheres negras, a própria
representação de um corpo feminino negro sugere, pelo menos, certas narrativas que
podem fazer do estupro das mulheres negras menos credível ou menos importante.
Essas narrativas podem explicar por que os estupros de mulheres negras são menos
propensos a resultar em condenações e longas penas de prisão do que os estupros de
mulheres brancas[58].

As medidas de reforma da lei do estupro que, de alguma forma, não se envolvem e


desafiam as narrativas que são lidas nos corpos das mulheres negras, provavelmente
não afetarão a maneira como as crenças culturais oprimem as mulheres negras em
julgamentos de estupro. Embora o grau em que a reforma legal possa desafiar
diretamente as crenças culturais que moldam os ensaios de estupro é limitado[59], o
grande esforço para mobilizar recursos políticos para enfrentar a opressão sexual das

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mulheres negras pode ser um primeiro passo importante para atrair maior atenção
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para o problema. Um obstáculo a tal esforço foi o fracasso da maioria dos ativistas anti-
estupros em analisar especificamente as consequências do racismo no contexto do
estupro. Na ausência de uma tentativa direta de abordar as dimensões raciais do
estupro, as mulheres negras são simplesmente presumidas para serem representadas e
beneficiadas pelas críticas feministas prevalecentes.

3. Antirracismo e estupro.
As críticas antirracistas da lei de estupro se concentram em como a lei opera
principalmente para condenar estupros de mulheres brancas por homens negros[60].
Embora a maior preocupação com a proteção das mulheres brancas contra os homens
negros tenha sido criticada principalmente como uma forma de discriminação contra
os homens negros[61], isso também reflete desvalorização das mulheres negras[62].
Este desrespeito pelas mulheres negras resulta de um foco exclusivo nas consequências
do problema para os homens negros[63]. É claro que as acusações de estupro
historicamente forneceram uma justificativa para o terrorismo branco contra a
comunidade negra, gerando um poder de legitimação de tal força que criou um véu
praticamente impenetrável para atrair tanto a humanidade quanto o fato[64].
Ironicamente, enquanto o medo do estuprador negro era explorado para legitimar a
prática do linchamento, o estupro não era nem mesmo alegado na maioria dos
casos[65]. O medo bem desenvolvido da sexualidade negra serviu principalmente para
aumentar a tolerância branca ao terrorismo racial como uma medida profilática para
manter os negros sob controle[66]. Dentro da comunidade afro-americana, casos
envolvendo acusações baseadas na raça contra os homens negros ficaram como
características da injustiça racial. A acusação dos meninos de Scottsboro[67] e a
tragédia de Emmett Till[68], por exemplo, desencadeou a resistência afro-americana
aos rígidos códigos sociais da supremacia branca[69]. Na medida em que o estupro das
mulheres negras é pensado para dramatizar o racismo, geralmente é lançado como um
assalto à masculinidade negra, demonstrando sua incapacidade de proteger as
mulheres negras. O assalto direto à feminilidade negra é menos frequentemente visto
como um assalto à comunidade negra[70].

As políticas sexuais que esta leitura limitada de racismo e estupro engendram continua
a se desempenhar hoje, conforme ilustrado pelo julgamento de estupro de Mike Tyson.
O uso da retórica antirracista para mobilizar o apoio para Tyson representou uma
prática contínua de ver com considerável suspeita de violar acusações contra homens
negros e interpretar o racismo sexual através de um quadro centrado no homem. A

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experiência histórica dos homens negros ocupou tão completamente as concepções


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dominantes de racismo e estupro que há pouco espaço para espremer as experiências
das mulheres negras. Consequentemente, a solidariedade racial foi continuamente
criada como um ponto de reunião em nome de Tyson, mas nunca em nome de Desiree
Washington, a acusadora negra de Tyson. Líderes que vão de Benjamin Hooks a Louis
Farrakhan expressaram seu apoio a Tyson[71], mas nenhum líder negro expressou
qualquer preocupação com Washington. O fato dos homens negros terem sido
falsamente acusados de estuprar mulheres brancas está subjacente à defesa antirracista
de homens negros acusados de estupro, mesmo quando a acusadora é uma mulher
negra.

Como resultado desta ênfase contínua na sexualidade masculina negra como a questão
central das críticas antirracistas ao estupro, as mulheres negras que criam
reivindicações de estupro contra homens negros não são apenas desconsideradas, mas
também às vezes se vilipendiam na comunidade afro-americana. Pode-se imaginar
apenas a alienação experimentada por uma sobrevivente de estupro negra, como
Desiree Washington, quando o violador acusado é abraçado e defendido como vítima
de racismo enquanto ela é, na melhor das hipóteses, desconsiderada e, na pior das
hipóteses, condenada ao ostracismo e ridicularizada. Em contraste, Tyson foi o
beneficiário da longa prática de usar a retórica antirracista para desviar a lesão sofrida
por mulheres negras vítimas de homens negros. Alguns defenderam o apoio dado a
Tyson com o argumento de que todos os afro-americanos podem facilmente imaginar
seus filhos, pais, irmãos ou tios sendo injustamente acusados de estupro. No entanto,
filhas, mães, irmãs e tias também merecem pelo menos uma preocupação semelhante,
uma vez que as estatísticas mostram que as mulheres negras são mais propensas a
serem estupradas do que os homens negros de serem falsamente acusados. Dada a
magnitude da vulnerabilidade das mulheres negras à violência sexual, não é razoável
esperar muita preocupação com as mulheres negras que são estupradas, como é
expressado para os homens acusados de estuprar.

Os líderes negros não estão sozinhos na falta de simpatizar com as vítimas negras de
estupro ou se reunirem em torno delas. Na verdade, algumas mulheres negras estavam
entre os mais firmes apoiantes de Tyson e os críticos mais severos de Washington[72].
A mídia notou amplamente a falta de simpatia que as mulheres negras tinham para
Washington; Barbara Walters usou a observação como uma forma de desafiar a
credibilidade de Washington, chegando a pressionar Washington a uma reação[73]. A
revelação mais preocupante foi que muitas das mulheres que não apoiaram

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Washington também duvidaram da história de Tyson. Essas mulheres não


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simpatizavam com Washington porque acreditavam que Washington não tinha o que
estar fazendo no quarto de hotel de Tyson às 2:00 da manhã. Uma jovem negra
apresentou uma resposta típica: “Ela pediu por isso, ela entendeu a situação, não é
justo chorar afirmando ser estupro agora”[74].

De fato, algumas das mulheres que expressaram seu desdém em Washington


reconheceram que enfrentaram a ameaça de agressão sexual quase que
diariamente[75]. No entanto, pode ser precisamente essa ameaça — juntamente com a
ausência relativa de estratégias retóricas que desafiam a subordinação sexual das
mulheres negras — que animaram suas duras críticas. Nesse sentido, as mulheres
negras que condenaram Washington eram bem como todas as outras mulheres que
procuram distanciar-se das vítimas de estupro como forma de negar sua própria
vulnerabilidade. Os promotores que lidam com casos de agressão sexual reconhecem
que muitas vezes excluem as mulheres como potenciais jurados porque as mulheres
tendem a empatizar o mínimo com a vítima[76]. Identificar-se de perto com a
vitimização pode revelar sua própria vulnerabilidade[77]. Por conseguinte, as
mulheres muitas vezes procuram provas de que a vítima trouxe o estupro para si
mesma, geralmente, quebrando regras sociais que, em geral, são válidas apenas para as
mulheres. E quando as regras classificam as mulheres como idiotas, liberadas ou fracas,
por um lado, e inteligentes, discriminantes e fortes, por outro lado, não é
surpreendente que as mulheres que não conseguem se afastar das regras para criticá-
las tentam se validar dentro delas. A posição da maioria das mulheres negras sobre esta
questão é particularmente problemática, em primeiro lugar, pela medida em que elas
são consistentemente lembradas de que elas são o grupo mais vulnerável à vitimização
sexual e, segundo, porque a maioria das mulheres negras compartilha a resistência
genérica da comunidade afro-americana à análise explicitamente feminista quando
parece correr contra as narrativas de longa data que constroem homens negros como
as principais vítimas do racismo sexual.

C. Estupro e Interseccionalidade nas Ciências Sociais


A marginalização das experiências das mulheres negras nas críticas antirracistas e
feministas da lei do estupro é facilitada por estudos de ciências sociais que não
examinam as formas em que o racismo e o sexismo convergem. Gary LaFree’s Rape and
Criminal Justice: The Social Construction of Sexual Assault[78] é um exemplo clássico.
Através de um estudo de processos de estupro em Minneapolis, LaFree tenta
determinar a validade de duas reivindicações prevalecentes em relação a processos de

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estupro. A primeira afirmação é que os acusados negros enfrentam uma discriminação


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racial significativa[79]. O segundo é que as leis de estupro servem para regular a
conduta sexual das mulheres, rejeitando às vítimas de estupro a capacidade de invocar
a lei de agressão sexual quando elas se envolvem em comportamentos não
tradicionais[80]. O estudo convincente de LaFree conclui que a lei constrói estupros de
formas que continuam a manifestar a dominação racial e de gênero[81]. Embora as
mulheres negras sejam postas como vítimas tanto do racismo quanto do sexismo que
LaFree tão persuasivamente detalha, sua análise é menos iluminadora do que se
poderia esperar porque as mulheres negras caíram nas fendas de seu quadro teórico
dicotômico.

1. Dominação racial e estupro.


LaFree confirma os resultados de estudos anteriores que mostram que a raça é um
determinante significativo na disposição final dos casos de estupro. Ele descobre que os
homens negros acusados de estuprar mulheres brancas foram tratados de forma mais
severa, enquanto os agressores negros acusados de estuprar mulheres negras foram
tratados de forma muito indulgente[82]. Esses efeitos eram verdadeiros mesmo depois
de controlar outros fatores, como ferimento da vítima e conhecimento entre vítima e
agressor.

Em comparação com outros réus, os negros suspeitos de estuprar mulheres brancas


receberam acusações mais graves, eram mais propensos a ter seus casos arquivados como
delitos graves, eram mais propensos a receber sentenças de prisão se condenados, eram
mais propensos a serem presos na penitenciária estadual (em oposição a uma prisão ou
facilidade de segurança mínima) e recebeu sentenças mais longas em média[83].

As conclusões de LaFree de que os homens negros são punidos de forma diferenciada


dependendo da raça da vítima não contribuem muito para entender a situação das
negras vítimas de estupro. Parte do problema reside no uso que o autor faz da teoria da
“estratificação sexual”, que postula tanto que as mulheres são valoradas de forma
diferente de acordo com sua raça e que existem certas “regras de acesso sexual” que
governam quem pode ter contato sexual com quem nesse mercado de sexo
estratificado[84]. De acordo com a teoria, os homens negros são discriminados na
medida em que seu “acesso” forçado a mulheres brancas é mais severamente
penalizado do que seu “acesso” forçado a mulheres negras[85]. A análise de LaFree
centra-se na rígida regulação do acesso dos homens negros a mulheres brancas, mas
não diz respeito à subordinação relativa das mulheres negras às mulheres brancas. A
ênfase no acesso diferencial às mulheres é consistente com perspectivas analíticas que
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consideram o racismo principalmente em termos da desigualdade entre os homens. A


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partir desse ponto de vista prevalecente, o problema da discriminação é que os homens
brancos podem estuprar mulheres negras com relativa impunidade, enquanto os
homens negros não podem fazer o mesmo com as mulheres brancas[86]. As mulheres
negras são consideradas vítimas de discriminação apenas na medida em que os homens
brancos podem estuprá-las sem medo de uma punição significativa. Em vez de serem
vistas como vítimas de discriminação por direito próprio, elas se tornam apenas os
meios pelos quais a discriminação contra os homens negros pode ser reconhecida. O
resultado inevitável dessa orientação é que os esforços para combater a discriminação
tendem a ignorar a posição particularmente vulnerável das mulheres negras, que
devem enfrentar o viés racial e desafiar seu status como instrumentos, em vez de
beneficiárias, da luta pelos direitos civis.

Onde a discriminação racial é enquadrada pela LaFree principalmente em termos de


competição entre homens negros e brancos sobre mulheres, o racismo experimentado
por mulheres negras só será visto em termos de acesso masculino branco a elas.
Quando os estupros de mulheres negras por homens brancos forem eliminados como
um fator na análise, seja por razões estatísticas ou outras, a discriminação racial contra
as mulheres negras já não importa, uma vez que a análise de LaFree envolve a
comparação do “acesso” de homens brancos e negros a mulheres brancas[87]. No
entanto, as mulheres negras não são discriminadas, simplesmente porque os homens
brancos podem estuprá-las com pouca sanção e ser punidos menos do que homens
negros que estupram mulheres brancas ou porque homens brancos que as estupram
não são punidos do mesmo modo que homens brancos que estupram mulheres
brancas. As mulheres negras também são discriminadas porque o estupro intraracial de
mulheres brancas é tratada mais seriamente do que o estupro intraracial de mulheres
negras. Mas a proteção diferencial que as mulheres negras e brancas recebem contra
estupro intraracial não é vista como racista porque o estupro intraracial não envolve
uma disputa entre homens negros e brancos. Em outras palavras, a forma como o
sistema de justiça criminal trata estupros de mulheres negras por homens negros e
estupros de mulheres brancas por homens brancos não é vista como questões de
racismo porque homens negros e brancos não estão envolvidos com as mulheres do
outro.

Em suma, as mulheres negras que são estupradas são discriminadas racialmente


porque seus estupradores, sejam negros ou brancos, são menos propensos a serem
acusados de estupro e, quando acusados e condenados, são menos propensos a receber

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uma pena de prisão significativa do que os estupradores de mulheres brancas. E


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enquanto a teoria da estratificação sexual postula que as mulheres são estratificadas
sexualmente por raça, a maioria das aplicações da teoria se concentra na desigualdade
de agentes masculinos de estupro e não na desigualdade de vítimas de estupro,
prejudicando assim o tratamento racista das mulheres negras ao retratar o racismo de
forma consistente em termos do poder relativo de homens negros e brancos.

Para entender e tratar a vitimização das mulheres negras como consequência do


racismo e do sexismo, é necessário afastar a análise do acesso diferencial dos homens e
mais para a proteção diferencial das mulheres. Ao longo de sua análise, LaFree não
consegue fazê-lo. Sua tese de estratificação sexual — em particular, o foco no poder
comparativo dos agentes masculinos de estupro — ilustra a inclinação da
marginalização das mulheres negras em políticas antirracistas é replicada na pesquisa
em ciências sociais. De fato, a tese deixa incompatível a subordinação racista de objetos
menos valiosos (mulheres negras) a objetos mais valiosos (mulheres brancas) e
perpetua o tratamento sexista das mulheres como extensões de propriedade de “seus”
homens.

2. Estupro e subordinação de gênero.


Embora LaFree tente abordar as preocupações de mulheres relacionadas ao gênero em
sua discussão de estupro e controle social das mulheres, sua teoria da estratificação
sexual não se concentra suficientemente nos efeitos da estratificação em mulheres[88].
LaFree usa explicitamente uma estrutura que trata a raça e o gênero como categorias
separadas, não dando nenhuma indicação de que as mulheres negras podem cair entre
ou dentro de ambas. O problema com a análise de LaFree não está em suas observações
individuais, que podem ser perspicazes e precisas, mas na falta de conectá-las e
desenvolver uma perspectiva mais ampla e profunda. Sua estrutura de duas faixas faz
uma interpretação estreita dos dados porque deixa intacta a possibilidade de que essas
duas faixas se cruzem. E são aqueles que residem na intersecção de discriminação de
gênero e raça — mulheres negras — que sofrem com essa supervisão fundamental.

LaFree tenta testar a hipótese feminista de que “a aplicação da lei a mulheres ‘não
conformistas’ em casos de estupro pode servir para controlar o comportamento de
todas as mulheres”[89]. Este inquérito é importante, seja explicado, porque “se as
mulheres que violam os papéis sexuais tradicionais e são estupradas não conseguem
obter justiça através do sistema legal, a lei pode ser interpretada como um arranjo
institucional para reforçar a conformidade do papel das mulheres”[90]. Ele acha que
“as absolvições eram mais comuns e as sentenças finais eram mais curtas quando o
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comportamento das vítimas não tradicionais era alegado”[91]. Assim, LaFree conclui
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que o caráter moral da vítima era mais importante que o ferimento de vítima e ficou em
segundo lugar apenas para o personagem do réu. No geral, 82,3% dos casos
tradicionais de vítimas resultaram em condenações e sentenças médias de 43,38
meses[92]. Apenas 50% dos casos de vítimas não-tradicionais levaram a condenações,
com prazo médio de 27,83 meses[93]. Os efeitos do comportamento tradicional e não
tradicional das mulheres negras são difíceis de determinar a partir das informações
fornecidas e devem ser inferidos dos comentários de passagem da LaFree. Por exemplo,
LaFree observa que as vítimas negras foram divididas uniformemente entre os papéis
de gênero tradicionais e não-tradicionais. Esta observação, juntamente com a menor
taxa de condenação para os homens acusados de estupros dos negros, sugere que o
comportamento do papel de gênero não era tão significativo na determinação da
disposição do caso quanto aos casos envolvendo vítimas brancas. Na verdade, LaFree
observa explicitamente que “a raça da vítima foi … um importante profeta das
avaliações de casos de jurados”[94].

Os jurados eram menos propensos a acreditar na culpa de um réu quando a vítima era
negra. Nossas entrevistas com jurados sugeriram que parte da explicação para este efeito
foi que os jurados… foram influenciados por estereótipos de mulheres negras como mais
propensas a consentir sexo ou como mais sexualmente experientes e, portanto, menos
prejudicadas por estupro. Em um caso envolvendo o estupro de uma jovem negra, um
jurado argumentou por absolvição com o argumento de que uma garota de sua idade de
“esse tipo de bairro” provavelmente não era virgem de qualquer maneira[95].

A LaFree também observa que “outros jurados simplesmente estavam menos dispostos
a acreditar no testemunho de denunciantes negros”[96]. Um jurado branco é citado
dizendo: “Os negros têm uma maneira de não dizer a verdade. Eles têm uma
habilidade para colorir a história. Então você sabe que você não pode acreditar em tudo
o que eles dizem”[97].

Apesar da evidência explícita de que a raça da vítima é significativa na determinação


da disposição dos casos de estupro, LaFree conclui que a lei de estupro funciona para
penalizar o comportamento não tradicional de mulheres[98]. LaFree não observa que
a identificação racial pode, por si só, servir de proxy para o comportamento não
tradicional. A lei do estupro, isto é, serve não só para penalizar exemplos reais de
comportamento não tradicional, mas também para diminuir e desvalorizar as mulheres
que pertencem a grupos em que o comportamento não tradicional é percebido como
comum. Para a vítima negra de estupro, a disposição de seu caso geralmente pode
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reduzir seu comportamento do que a sua identidade. LaFree perdeu o argumento de


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que, embora as mulheres brancas e negras tenham compartilhado interesses em resistir
totalmente à dicotomia madonna/prostituta, elas, no entanto, experimentam seu
poder opressivo de maneira diferente. As mulheres negras continuam a ser julgadas
por quem são, não pelo que fazem.

3. Compondo a marginalização do estupro.


A LaFree oferece evidências claras de que a hierarquia racial/sexual subordina
mulheres negras a mulheres brancas, bem como a homens, tanto negros como brancos.
No entanto, os diferentes efeitos da lei de estupro sobre mulheres negras são pouco
mencionados nas conclusões da LaFree. Em uma seção final, LaFree trata a
desvalorização das mulheres negras como uma suposição, sem ramificações aparentes
para a lei de estupro. Ele conclui: “O tratamento mais severo de delinquentes negros
que estupram mulheres brancas (ou, nesse caso, o tratamento mais ameno de ofensores
negros que estupram mulheres negras) provavelmente é melhor explicado em termos de
discriminação racial dentro de um contexto mais amplo de segregação social e física
contínua entre negros e brancos”[99]. Implícito em todo o estudo de LaFree é o
pressuposto de que negros que são submetidos ao controle social são homens negros.
Além disso, o controle social a que ele se refere limita-se a garantir os limites entre
homens negros e mulheres brancas. Sua conclusão de que os diferenciais de raça são
melhor compreendidos no contexto da segregação social, bem como a sua ênfase nas
implicações inter-raciais da aplicação de fronteiras ignoram a dinâmica intraracial de
raça e subordinação de gênero. Quando os homens negros são indulgentemente
castigados por estuprar mulheres negras, o problema não é “melhor explicado” em
termos de segregação social, mas em termos de desvalorização racial e de gênero das
mulheres negras. Ao não examinar as raízes sexistas de castigos tão indulgentes,
LaFree e outros escritores sensíveis ao racismo repetem ironicamente os erros daqueles
que ignoram a raça como fator nesses casos. Ambos os grupos não consideram
diretamente a situação das mulheres negras.

Estudos como o de LaFree fazem pouco para iluminar como a interação de


comportamento racial, de classe e não tradicional afeta a disposição de casos de
estupro envolvendo mulheres negras. Esse descuido é especialmente preocupante,
dado que muitos casos envolvendo mulheres negras são descartados[100]. Mais de
20% das queixas de estupro foram recentemente rejeitadas como “infundadas” pelo
Departamento de Polícia de Oakland, que nem sequer entrevistaram muitas, senão a
maioria, das mulheres envolvidas[101]. Não coincidentemente, a grande maioria das

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queixosas eram negras e pobres; muitos delas eram toxicodependentes ou


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prostitutas[102]. Explicando o seu fracasso em perseguir essas queixas, a polícia
observou que “esses casos foram irremediavelmente manchados por mulheres que são
transitórias, não cooperativas, falsas ou não credíveis como testemunhas no
tribunal”[103].

O esforço para politizar a violência contra as mulheres fará pouco para abordar as
experiências das mulheres negras e outras não-brancas, até que as ramificações da
estratificação racial entre as mulheres sejam reconhecidas. Ao mesmo tempo, a agenda
antirracista não será promovida pela supressão da realidade da violência intraracial
contra as mulheres não-brancas. O efeito de ambas as marginalizações é que as
mulheres não-brancas não possuem meios prontos para vincular suas experiências com
as de outras mulheres. Essa sensação de isolamento compõe os esforços para politizar a
violência sexual nas comunidades não-brancas e permite o silêncio mortal em torno
dessas questões.

D. Implicações
Com relação ao estupro de mulheres negras, raça e gênero convergem de maneiras que
são apenas vagamente entendidas. Infelizmente, os quadros analíticos que
tradicionalmente informaram as agendas anti-estupro e antirracista tendem a se
concentrar apenas em questões únicas. Eles são, portanto, incapazes de desenvolver
soluções para a marginalização composta das vítimas das mulheres negras, que, mais
uma vez, caem no vazio entre as preocupações com as questões das mulheres e as
preocupações com o racismo. Esse dilema é complicado pelo papel que as imagens
culturais desempenham no tratamento das vítimas das mulheres negras. Ou seja, os
aspectos mais críticos desses problemas podem girar menos em torno das agendas
políticas de grupos separados de raça e gênero e mais sobre a desvalorização social e
cultural das mulheres não-brancas. As histórias que nossa cultura conta sobre a
experiência das mulheres não-brancas apresentam outro desafio — e uma
oportunidade adicional — de aplicar e avaliar a utilidade da crítica intersetorial.

. . .

Sumário
Parte 1. Parte 2. Parte 3. Parte 4.

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Referências e notas de rodapé:


[1] A maioria das estatísticas da criminalidade são classificadas por sexo ou raça, mas
nenhuma é classificada por sexo e raça. Porque sabemos que a maioria das vítimas de
estupro são mulheres, a repartição racial revela, na melhor das hipóteses, as taxas de
estupro de mulheres negras. No entanto, mesmo tendo essa vantagem, as taxas para
outras mulheres não-brancas são difíceis de coletar. Embora existam algumas
estatísticas para as latinas, as estatísticas das mulheres asiáticas e nativas americanas
são praticamente inexistentes. Cj G. Chezia Carraway, Violence Against Women of Color,
43 STAN. L. REV. 1301 (1993).

[2] NOTA DA TRADUÇÃO: No original, é utilizado a expressão “brown community” e


por falta de melhor palavra similar, traduzo como ‘marrom’. Faço isso pensando nas
possibilidades de tradução: 1. Não branca; 2. Mulata; e 3. Marrom. Não é adequado o
uso da palavra “não-branca” nesse contexto, pois “brown” indicaria pessoas de tons de
peles mais escuras e não apenas qualquer pessoa que não seja branca, ou seja, é um
grupo um pouco mais específico. Não é adequado o termo “mulata” devido a origem de
sua palavra, que significa “mula”, em que a mula é o produto do cruzamento do cavalo
com a burra, fazendo uma referência histórica ao filho de branco com negra, ou seja,
contém um teor pejorativo. Logo, o termo “marrom” que indicaria um grupo específico
de pessoas de tons de pele mais escuros e sem qualquer tom pejorativo é considerado
ideal.

[3] SHAHRAZAD ALI, THE BLACKMAN’S GUIDE TO UNDERSTANDING THE


BLACKWOMAN (1989). O livro de Ali vendeu bastante bem para um título publicado
de forma independente, uma realização sem dúvida devido em parte às suas aparições
nos programas de entrevistas de televisão Phil Donahue, Oprah Winfrey e Sally Jesse
Raphael. Para reações públicas e de imprensa, veja Dorothy Gilliam, Sick, Distorted
Thinking, Wash. Post, Oct. 11, 1990, at D3; Lena Williams, Black Woman’s Book Starts
a Predictable Storm, N.Y. Times, Oct. 2, 1990, at Cl1; veja também PEARL CLEAGUE,
MAD AT MILES: A BLACK WOMAN’S GUIDE TO TRUTH (1990). O título, claramente
chamado de Ali, Mad at Miles responde não apenas às questões levantadas pelo livro de
Ali, mas também à admissão de Miles Davis em sua autobiografia, Miles: The
Autobiography (1989), que ele abusou fisicamente, entre outras mulheres, de sua ex-
esposa, atriz Cicely Tyson.

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[4] Shahrazad Ali sugere que “[a mulher negra] certamente não acredita que seu
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desrespeito pelo homem negro seja destrutivo, nem que sua oposição a ele tenha
deteriorado a nação negra”. S. ALI, supra nota 37, na viii. Culpando os problemas da
comunidade sobre o fracasso da mulher negra em aceitar sua “definição real”, Ali
explica que “nenhuma nação pode crescer quando a ordem natural do comportamento
do mal e da mulher foi alterada contra seus desejos por força. Nenhuma espécie pode
sobreviver se a fêmea do gênero perturbe o equilíbrio de sua natureza agindo diferente
de si mesma”. Id. Em 76.

[5] Ali aconselha homens negros a acertar a mulher negra na boca, “porque é daquele
buraco, na parte inferior do rosto, que toda a sua rebelião culmina em palavras. Sua
língua desenfreada é uma razão principal pela qual ela não pode se dar bem com o
homem negro. Ela geralmente precisa de um lembrete. “Id., Em 169. Ali adverte que
“se [a mulher negra] ignora a autoridade e a superioridade do homem negro, há uma
penalidade. Quando ela cruza essa linha e se torna insultante e viciosa, é hora do
homem negro dar uma bofetada na boca.” Id.

[6] Ali explica que “com pesar, algumas mulheres negras querem ser controladas
fisicamente pelo homem negro”. Id. Em 174. “A mulher negra, no fundo do coração”,
revela Ali, “quer render-se, mas quer ser coagida”. Id. Em 72. “[A mulher negra] quer [o
homem negro] se levante e defenda-se, mesmo que isso signifique que ele tenha que
derrubá-la no caminho para fazê-lo. Isso é necessário sempre que a mulher negra sai da
proteção do comportamento feminino e entra no perigoso domínio do desafio
masculino”. Id. Em 174.

[7] Ali ressalta que “o homem negro sendo o número 1 e a mulher negra sendo o
número 2 é outra lei absoluta da natureza. O homem negro foi criado primeiro, ele tem
antiguidade. E a mulher negra foi criada segundo. Ele é o primeiro. Ela é segunda. O
homem negro é o começo e todos os outros vêm dele. Todos na terra sabem disso
exceto a mulher negra”. Id. Em 67.

[8] A este respeito, os argumentos de Ali têm muito em comum com os dos
neoconservadores que atribuem muitos dos males sociais que atormentam a América
negra à ruptura dos valores familiares patriarcais. Veja, por exemplo, William
Raspberry, We Are to Rescue American Families, We Have to Save the Boys, Chicago
Trib., July 19, 1989, at Cl5; George F. Will, Voting Rights Won’t Fix It, Wash. Post, Jan.
23, 1986, at A23; George F. Will, “White Racism” Doesn’t Make Blacks Mere Victims of
Fate, Milwaukee J., Feb. 21, 1986, at 9. O argumento de Ali compartilha semelhanças

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notáveis com o controverso “Relatório Moynihan” sobre a família negra, assim


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chamado porque o autor principal dele era o senador Daniel P. Moynihan (D-N.Y.). No
capítulo infame intitulado “O emaranhado da patologia”, Moynihan argumentou que

a comunidade negra foi forçada a uma estrutura matriarcal que, por estar tão fora do
alcance do resto da sociedade americana, atrasa seriamente o progresso do grupo
como inteiro, e impõe uma carga esmagadora para o homem negro e,
consequentemente, em muitas mulheres negras também.

OFFICE OF POLICY PLANNING AND RESEARCH, U.S. DEPARTMENT OF LABOR, THE


NEGRO FAMILY: THE CASE FOR NATIONAL ACTION 29 (1965), reprinted in LEE
RAINWATER & WILLIAM L. Y ANCEY, THE MOYNIHAN REPORT AND THE POLITICS
OF CONTROVERSY 75 (1967). Uma tempestade de controvérsia se desenvolveu sobre
o livro, embora alguns comentaristas tenham desafiado o patriarcado incorporado na
análise. Bill Moyers, então jovem ministro e redator de discursos para o presidente
Johnson, acreditou firmemente que a crítica dirigida a Moynihan era injusta. Cerca de
20 anos depois, Moyers ressuscitou a tese de Moynihan em um programa de televisão
especial, The Vanishing Family: Crisis in Black America (CBS television broadcast, Jan.
25, 1986). O show foi exibido em janeiro de 1986 e apresentou vários homens e
mulheres afro-americanos que se tornaram pais, mas estavam dispostos a se casar.
Arthur Unger, Hard-hitting Special About Black Families, Christian Sei. Mon., Jan. 23,
1986, at 23. Muitos viram o show de Moyers como uma reivindicação de Moynihan. O
presidente Reagan aproveitou a oportunidade para apresentar uma iniciativa para
renovar o sistema de assistência social uma semana após o programa ser exibido.
Michael Barone, Poor Children and Politics, Wash. Post, Feb. 10, 1986, at AI. Disse um
funcionário, “Bill Moyers fez seguro para as pessoas falarem sobre esta questão, a
desintegração da estrutura da família negra”. Robert Pear, President Reported Ready to
Propose Overhaul of Social Welfare System, N.Y. Times, Feb. 1, 1986, at A12. Os
críticos da tese de Moynihan/Moyers argumentaram que os bodes expiatórios da
família negra geralmente e das mulheres negras em particular. Para uma série de
respostas, veja Scapegoating the Black Family, NATION, July 24, 1989 (Edição
especial, editada por Jewell Handy Gresham e Margaret B. Wilkerson, com
contribuições de Margaret Bumham, Constance Clayton, Dorothy Height, Faye
Wattleton e Marian Wright Edelman). Para uma análise do endosso da mídia sobre a
tese de Moynihan/Moyers, veja CARL GINSBURG, RACE AND MEDIA: THE
ENDURING LIFE OF THE MOYNIHAN REPORT (1989).

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[9] A violência doméstica relaciona-se diretamente com questões que mesmo aqueles
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que se inscrevem na posição de Ali também devem se preocupar. A condição
socioeconômica dos homens negros tem sido uma preocupação central. As estatísticas
recentes estimam que 25% dos homens negros dos vinte anos estão envolvidos nos
sistemas de justiça criminal. Veja David O. Savage, Young Black Males in Jail or in
Court Contrail Study Says, L.A. Times, Feb. 27, 1990, at AI; Newsday, Feb. 27, 1990, at
15; Study Shows Racial Imbalance in Penal System, N.Y. Times, Feb. 27, 1990, at AIS.
Pensaríamos que os vínculos entre a violência no lar e a violência nas ruas só poderiam
convencer aqueles como Ali a concluir que a comunidade afro-americana não pode se
permitir violência doméstica e valores patriarcais que o sustentam.

[10] Um problema premente é a forma como a violência doméstica se reproduz nas


gerações subsequentes. Estima-se que os meninos que testemunham violência contra as
mulheres são dez vezes mais propensos a bater em mulheres parceiras quando adultos.
Women and Violence: Hearings Before the Senate Comm. 011 the Judiciary 011
Legislation to Reduce the Growing Problem of Violent Crime Against Women, 101st
Cong., 2d Sess., pt. 2, at 89 (1991) [hereinafter Hearings 011 Violent Crime Against
Women] (testemunho de Charlotte Fedders). Outros problemas associados aos
meninos que testemunham violência contra mulheres incluem taxas mais altas de
suicídio, assalto violento, agressão sexual e consumo de álcool e drogas. Ld., Pt. 2, em
13 (declaração de Sarah M. Buel, Assistant District Attorney, Massachusetts, and
Supervisor, Harvard Law School Battered Women’s Advocacy Project).

[11] Id. em 142 (Declaração de Susan Kelly-Dreiss) (Discutindo vários estudos na


Pensilvânia ligando o sem-abrigo à violência doméstica).

[12] Id. em 143 (Declaração de Susan Kelly-Dreiss).

[13] Outro exemplo histórico inclui Eldridge Cleaver, que argumentou que ele
estuprou mulheres brancas como um assalto à comunidade branca. Cleaver “praticou”
com as mulheres negras primeiro. ELDRIDGE CLEAVER, Soul. ON ICE 14–15 (1968).
Apesar da aparência de misoginia em ambos os trabalhos, cada um professa adorar as
mulheres negras como “rainhas” da comunidade negra. Esta “subordinada da rainha” é
paralela à imagem da “mulher em um pedestal” contra a qual as feministas brancas
haviam vedado. Porque as mulheres negras foram negadas o status do pedestal dentro
da sociedade dominante, a imagem da rainha africana tem algum apelo a muitas
mulheres afro-americanas. Embora não seja uma posição feminista, existem maneiras
significativas em que a promulgação da imagem contesta diretamente os efeitos

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interseccionais do racismo e do sexismo que negaram a mulher afro-americana uma


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posição elevada na “gaiola dourada”.

[14] ALICE W ALKER, THE COLOR PURPLE (1982), A crítica mais severa de Walker se
desenvolveu depois que o livro foi feito um filme. Donald Bogle, um historiador do
filme, argumentou que parte da crítica do filme decorria do retrato unidimensional de
Mister, o homem abusivo. Veja Jacqueline Trescott, Passions Over Purple; Anger and
Unease Over Film: Depiction of Black Men, Wash. Post, Feb. 5, 1986, at CI. Bogle
argumenta que, na novela, Walker ligou a conduta abusiva de Mister a sua opressão no
mundo branco — já que Mister “não pode ser ele mesmo, ele tem que se afirmar com a
mulher negra”. O filme não conseguiu estabelecer nenhuma conexão entre o
tratamento abusivo de Mister sobre as mulheres negras e o racismo e, desse modo,
apresentou Mister apenas como um “homem insensível e caloso”. Id.

[15] Veja, por exemplo, Gerald Early, Her Picture in the Papers: Remembering Some
Black Women, ANTAEUS, Spring 1988, at 9; Daryl Pinckney, Black Victims, Black
Villains, N.Y. REVIEW OF BOOKS, Jan. 29, 1987, at 17; Trescott, supra note 48.

[16] Trudier Harris, 011 the Color Purple, Stereotypes, and Silence, 18 BLACK AM.
LJT. F. 155, 155 (1984).

[17] A fonte da resistência revela uma diferença interessante entre as comunidades


asiático-americana e afro-americana. Na comunidade afro-americana, a resistência é
geralmente fundamentada em esforços para evitar a confirmação de estereótipos
negativos de afro-americanos como violentos; A preocupação dos membros em
algumas comunidades asiático-americanas é evitar manchar o mito modelo
minoritário. Entrevista com Nilda Rimonte, Diretora do Everywoman Shelter, em Los
Angeles, Califórnia (19 de abril de 1991).

[18] Nilda Rimante, A Question of Culture: Cultural Approval of Violence Against


Women in the Pacific-Asian Community and the Cultural Defense, 43 STAN. L. REV.
1311 (1991); veja também Nilda Rimante, Domestic Violence Against Pacific Asians, in
MAKING WAVES: AN ANTHOLOGY OF WRITINGS BY AND ABOUT ASIAN AMERICAN
WOMEN 327, 328 (Asian Women United of California ed. 1989) (“Tradicionalmente,
os asiáticos do Pacífico escondem e negam problemas que ameaçam o orgulho do
grupo e podem causar vergonha. Por causa da forte ênfase nas obrigações para com a
família, uma mulher asiática do Pacífico ficará silenciosa em vez de admitir um
problema que possa desgraçar sua família”). Além disso, a possibilidade de terminar o

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casamento pode impedir uma mulher imigrante de procurar ajuda. Tina Shum, uma
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conselheira familiar, explica que um “divórcio é uma vergonha para toda a família… A
mulher asiática que se divorcia sente uma tremenda culpa”. “Claro, pode-se, numa
tentativa de ser sensível à diferença cultural, estereotipar uma cultura ou adiar ela de
forma que abandone as mulheres ao abuso. Quando — ou, mais importante, como
levar em consideração a cultura ao abordar as necessidades das mulheres não-brancas
é uma questão complicada. O testemunho sobre as particularidades da “cultura”
asiática tem sido cada vez mais utilizado em julgamentos para determinar a culpa de
mulheres imigrantes asiáticas e homens acusados de crimes de violência interpessoal.
Uma posição sobre o uso da “defesa cultural” nestas instâncias depende de como a
“cultura” está sendo definida, bem como sobre se e em que medida a “defesa cultural”
tem sido usada de forma diferente para homens asiáticos e mulheres asiáticas. Veja Leti
Volpp, (Mis)Identifying Culture: Asian Women and the “Cultural Defense,”
(Manuscrito inédito) (no arquivo com o Stanford Law Review).

[19] Veja, por exemplo, Hearings on Violent Crime Against Women, supra note 44, pt.
1, at 101 (Testemunho de Roni Young, diretor da Unidade de Violência Doméstica,
escritório do Procurador do Estado da Baltimore City, Baltimore, Maryland) (“As
vítimas não se encaixam em nenhum molde”); Id. Pt. 2, em 89 (testemunho de
Charlotte Fedders) (“A violência doméstica ocorre em todos os grupos econômicos,
culturais, raciais e religiosos. Não há uma mulher típica para ser abusada.”); Id. Pt. 2
em 139 (declaração de Susan Kelly-Dreiss, Diretora executiva, Coligação da
Pensilvânia Contra a Violência Doméstica) (“As vítimas vêm de um amplo espectro de
experiências e origens de vida. As mulheres podem ser espancadas em qualquer bairro
e em qualquer cidade”).

[20] Veja, por exemplo LENORE F. WALKER, TERRIFYING LOVE: WHY BATTERED
WOMEN KILL AND HOW SOCIETY RESPONDS 101–02 (1989) (“As mulheres vítimas
de violência doméstica vêm de todos os tipos de origens econômicas, culturais,
religiosas e raciais… São mulheres como você. Como eu. Como aquelas que você
conhece e ama.”); MURRAY A. STRAUS, RICHARD J. GELLES, SUZANNE K.
STEINMETZ, BEHIND CLOSED DOORS: VIOLENCE IN THE AMERICAN FAMILY 31
(1980) (“Agressões às esposas é encontrada em todas as classes, em cada nível de
renda”); Natalie Loder Clark, Crime Begins At Home: Let’s Stop Punishing Victims and
Perpetuating Violence, 28 WM. & MARY L. REV. 263, 282 n.74 (1987) (“O problema
da violência doméstica corta todas as linhas sociais e afeta as famílias,
independentemente da classe econômica, raça, origem nacional ou formação

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educacional”. Os comentadores indicaram que a violência doméstica prevalece entre as


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famílias da classe média alta.”) (Citações omitidas); Kathleen Waits, The Criminal
Justice System’s Response to Battering: Understanding the Problem, Forging the
Solutions, 60 W ASH. L. REv. 267, 276 (1985) (“É importante enfatizar que o abuso de
esposa é prevalente em toda a nossa sociedade. Os dados recém-coletados apenas
confirmam o que as pessoas que trabalham com as vítimas conhecem há muito tempo:
as agressões ocorrem em todos os grupos sociais e econômicos”. (Citações omitidas);
Liza G. Lerman, Mediation of Wife Abuse Cases: The adverse Impact of Informal
Dispute Resolution on Women, 7 HARV. Women’s L.J. 57, 63 (1984) (“Violência
doméstica ocorre em todos os grupos raciais, econômicos e religiosos, em ambientes
rurais, urbanos e suburbanos”) (citação omitida); Steven M. Cook, Domestic Abuse
Legislation in Illinois and Other States: A Survey and Suggestions for Reform, 1983 U.
lLL L. REV. 261, 262 (1983) (Embora a violência doméstica seja difícil de medir, vários
estudos sugerem que o abuso de cônjuge é um problema extenso, que atinge as
famílias, independentemente da classe econômica, raça, origem nacional ou
escolaridade”). (Citações omitidas).

[21] Por exemplo, Susan Kelly-Dreiss afirma:

O público tem muitos mitos sobre mulheres vítimas de violências doméstica — são
pobres, são mulheres não-brancas, não são educadas, estão no bem-estar, merecem ser
espancadas e até gostam disso. No entanto, contrariamente às percepções erradas
comuns, a violência doméstica não se limita a nenhum grupo socioeconômico, étnico,
religioso ou racial.

Audiências sobre crimes violentos contra as mulheres, supra nota 44, pt. 2, em 139
(testemunho de Susan Kelly-Dreiss, diretora executiva, Pa. Coalition Against Domestic
Violence). Kathleen Waits oferece uma possível explicação para essa percepção
errônea:

É verdade que as mulheres vítimas de violência doméstica que também são pobres são
mais propensas a chamar a atenção de funcionários governamentais do que suas
contrapartes de classe média e alta. No entanto, esse fenômeno é causado mais pela
falta de recursos alternativos e pela intrusão do estado do bem-estar social do que por
qualquer incidência de violência significativamente maior entre famílias de classe
baixa.

Waits, supra nota 54, em 276–77 (citações omitidas).

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[22] No entanto, nenhuma estatística confiável suporta tal reclamação. Na verdade,


Get started
algumas estatísticas sugerem que há uma maior frequência de violência entre as classes
trabalhadoras e as pobres. Veja M. STRAUS, R. GELLES, & S. STEJNMETZ, supra note
54, at 31. No entanto, essas estatísticas também não são confiáveis porque, para seguir
a observação de Waits, a violência em casas de classe média e média permanece
escondida da visão de estatísticos e funcionários governamentais. Ver nota 55 supra.
Gostaria de sugerir que as afirmações de que o problema é o mesmo em toda a raça e a
classe são motivadas menos pelo conhecimento real sobre a prevalência da violência
doméstica em diferentes comunidades do que pelo reconhecimento dos defensores de
que a imagem da violência doméstica é uma questão que envolve principalmente os
pobres e as minorias complica os esforços para se mobilizar contra..

[23] Em 14 de janeiro de 1991, o senador Joseph Biden (D-Dei.) apresentou ao Senado


a Lei 15, Lei de Violência contra as Mulheres de 1991, legislação abrangente que trata
dos crimes violentos que enfrentam as mulheres. S. 15, 102d Cong., 1st Sess. (1991). A
lei consiste em várias medidas destinadas a criar ruas seguras, casas seguras e campos
seguros para mulheres. Mais especificamente, o Título III da lei cria um remédio para
direitos civis por crimes de violência motivados pelo gênero da vítima. Id. § 301. Entre
os resultados que apoiam a lei estão “(1) os crimes motivados pelo gênero da vítima
constituem crimes de parcialidade em violação do direito da vítima de ser livre de
discriminação com base em gênero” e “(2) lei atual (não proporciona um remédio aos
direitos civis) por crimes de gênero cometidos na rua ou no lar.” S. REP. №197, 102d
Cong., 1º Sess. 27 (1991).

[24] 137 Cong. Rec.S611(Edição diária, 14 de janeiro de 1991) (declaração do


senador Boren). O senador William Cohen (D-Me.) seguiu com uma declaração
semelhante, observando que estupros e agressões domésticos

não se limitam às ruas de nossas cidades mais internas ou aos poucos casos altamente
divulgados que lemos sobre nos jornais ou vemos a noite nas notícias. As mulheres em
todo o país, nas áreas urbanas e nas comunidades rurais da Nação, estão sendo
espancadas e brutalizadas nas ruas e em suas casas. São nossas mães, esposas, filhas,
irmãs, amigas, vizinhas e colegas de trabalho que estão sendo vitimadas; e em muitos
casos, estão sendo vítimas de familiares, amigos e conhecidos.

Id. (Declaração de Sen. Cohen).

[25] 48 Hours: Til’ Death Do Us Part (CDS television broadcast, Feb. 6, 1991).

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[26] Veja Christine A. Littleton, Women’s Experience and the Problem of Transition:
Get started
Perspectives on Male Battering of Women, 1989 U. CHI. LEGAL F. 23.

[27] Carta de Diana M. Campos, Diretora de Serviços Humanos, PODER, a Joseph


Semidei, Vice-Comissária do Departamento de Serviços Sociais do Estado de Nova York
(26 de março de 1992) [a seguir Carta PODER].

[28] A mulher estava voltando para sua casa durante o dia em que seu marido estava
no trabalho. Ela permaneceu em um estado de ansiedade elevado porque ele estava
voltando em breve e ela seria forçada a voltar para as ruas por mais uma noite.

[29] PODER Letter, supra note 61 (enfâse adicionada).

[30] Id.

[31] Id.

[32] Roundtable Discussion on Racism and the Domestic Violence Movement (April 2,
1992) (transcrito do arquivo com o Stanford Law Review). Os participantes na
discussão — Diana Campos, Diretora, Projeto de Divulgação Bilíngue da Coalizão do
Estado de Nova York Contra a Violência Doméstica; Elsa A. Rios, Project Director,
Victim Intervention Project (Um projeto baseado na comunidade em East Harlem,
Nova York, servindo mulheres vítimas de violência doméstica); e Haydee Rosario, Uma
trabalhadora social com o Conselho East Harlem para Serviços Humanos e um Projeto
de Intervenção de Vítimas voltou voluntariamente a conflitos relacionados à raça e
cultura durante sua associação com a Coalizão do Estado de Nova York Contra a
Violência Doméstica, um grupo de supervisão do Estado que distribuiu recursos para
abrigos de mulheres vítimas de violência doméstica através do estado e geralmente
estabeleceram prioridades políticas para os refúgios que faziam parte da Coalizão.

[33] Id.

[34] Id.

[35] Id.

[36] Ironicamente, a controvérsia específica que levou à caminhada significou a


habitação da linha de apoio à violência doméstica em língua espanhola. A linha direta
foi inicialmente alojada na sede da Coalizão, mas definiu depois que uma sucessão de
coordenadores deixou a organização. As latinas no painel da Coalizão argumentaram
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que a linha direta deveria ser alojada em uma das agências de serviços comunitários,
Get started
enquanto o conselho insistiu em manter o controle disso. A linha direta está agora
alojada no PODER. Id.

[37] Disse Campos: “Seria uma pena que, no estado de Nova York, a vida ou a morte de
uma mulher vítima de violência doméstica dependessem de suas habilidades de língua
inglesa”. PODER Lener, supra nota 61.

[38] A discussão na seção a seguir se concentra bastante na dinâmica de uma


hierarquia sexual negra/branca. Eu especifico os afro-americanos em parte porque,
dada a centralidade da sexualidade como um site de dominação racial de afro-
americanos, quaisquer generalizações que possam ser extraídas dessa história parecem
menos aplicáveis a outros grupos raciais. Com certeza, a dinâmica específica da
opressão racial vivida por outros grupos raciais provavelmente também terá um
componente sexual. Na verdade, o repertório de imagens racistas comumente
associado a diferentes grupos raciais também contém um estereótipo sexual. Essas
imagens provavelmente influenciam a maneira como os estupros que envolvem outros
grupos minoritários são percebidas internamente e na sociedade em geral, mas é
provável que funcionem de maneiras diferentes.

[39] Por exemplo, o uso de estupro para legitimar esforços para controlar e disciplinar
a comunidade negra está bem estabelecido na literatura histórica sobre estupro e raça.
Veja JOYCE E. WILLIAMS & KAREN A. HOLMES, THE SECOND ASSAULT: RAPE AND
PUBLIC ATTITUDES 26 (1981) (“Estupro, ou a ameaça de estupro, é uma ferramenta
importante de controle social em um sistema complexo de estratificação racial-
sexual”).

[40] Valerie Smith, Split Affinities: The Case of interracial Rape, in CONFLICTS IN
FEMINISM 271, 274 (Marianne Hirsch & Evelyn Fox Keller eds. 1990).

[41] Em 18 de abril de 1989, uma jovem branca, correndo pelo Central Park de Nova
York, foi estuprada, severamente espancada e deixada inconsciente em um ataque de
até 12 jovens negros. Craig Wolff, Youth’s Rape and Beat Central Park Jogger, N.Y.
Times, 21 de abril de 1989, no Bl.

[42] Smith, supra nota 74, em 276–78.

[43] Smith cita o uso de imagens de animais para caracterizar os estupradores negros
acusados, incluindo descrições como: “um bando de lobos de mais de uma dúzia de
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jovens adolescentes” e “houve uma lua cheia na noite de quarta-feira. Um cenário


Get started
adequado para o bando de lobos. Um pacote vicioso correu desenfreado através do
Central Park…. Esta foi uma brutalidade bestial’. “Um editorial no New York Times foi
intitulado “A corredora e o bando de lobos”. Id. Em 277 (citações omitidas).

A evidência do vínculo em curso entre estupro e racismo na cultura americana não é de


modo algum exclusiva da cobertura da mídia do caso da corredora do Central Park. Em
dezembro de 1990, o jornal estudantil da Universidade George Washington, The
Hatchet, imprimiu uma história na qual uma estudante branca alegou que dois homens
negros no campus ou perto do campus a haviam estuprado usando uma faca. A história
causou considerável tensão racial. Pouco depois do relatório, o advogado da mulher
informou a polícia do campus que sua cliente havia fabricado o ataque. Depois que o
engano foi descoberto, a mulher disse que esperava que a história “ressaltasse os
problemas de segurança para as mulheres”. Felicity Banger, False Rape Report
Upsetting Campus, N.Y. Times, Dec. 12, 1990, at A2; veja também Les Payne, A Rape
Hoax Stirs up Hate, Newsday, Dec. 16, 1990, em 6.

[44] William C. Troft, Deadly Donald, UPI, Apr. 30 1989. Donald Trump explicou que
gastou US$ 85.000 para retirar esses anúncios porque “eu quero odiar esses assaltantes
e assassinos. Eles devem ser forçados a sofrer e quando eles matam, eles devem ser
executados por seus crimes”. Trump Calls for Death to Muggers, L.A. Times, May l,
1989, em A2. Mas cf Leaders Fear ‘Lynch’ Hysteria in Response to Trump Ads, UPI, May
6, 1989 (Comunidade Os líderes temiam que os anúncios de Trump faria “as chamas da
polarização racial e do ódio”); Cynthia Fuchs Epstein, Cost of Full-Page Ad Could Help
Fight Causes of Urban Violence, N.Y. Times, May 15, 1989, at AIS(“A proposta do Sr.
Trump poderia levar a maior violência”).

[45] Ian Ball, Rape Victim to Blame, Says Jury, Daily Telegraph, Oct. 6, 1989, at 3. Dois
meses após a absolvição, o mesmo homem se declarou culpado de estuprar uma
mulher da Geórgia a quem ele disse: “É culpa sua. Você está usando uma saia”. Roger
Simon, Rape: Clothing is Not the Criminal, L.A. Times, Feb. 18, 1990, at E2.

[46] Veja Barbara Kantrowitz, Naming Names, NEWSWEEK, Apr. 29, 1991, at 26
(Discutindo o tom de várias investigações de jornal sobre o personagem da mulher que
alegou que ela foi estuprada por William Kennedy Smith). Havia outros pressupostos
duvidosos que animavam a cobertura. Um artigo descreveu Smith como um “candidato
improvável para o papel do estuprador”. Boy’s Night Out in Palm Beach, TIME, Apr. 22,
1991, at 82. But see Hillary Rustin, Letters: The Kennedy Problem, TIME, May 20,

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1991, em 7 (Criticando os autores pela perpetuação de imagens estereotipadas de


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quem é ou não um estuprador “provável”). Smith finalmente foi absolvido.

[47] O New York Times apontou que “quase todos os estupros relatadas durante aquela
semana de abril eram de mulheres negras ou hispânicas. A maioria passou
despercebida pelo público”. Don Terry, ln Week of an Infamous Rape, 28 Other Victims
Suffer, N.Y. Times, May 29, 1989, at B25. Quase todos os estupros ocorreram entre
atacantes e vítimas da mesma raça: “Entre as vítimas havia 17 negros, 7 mulheres
hispânicas, 3 brancas e 2 asiáticas”. Id.

[48] Em Glen Ridge, um subúrbio afluente de Nova Jersey, cinco adolescentes brancos
de classe média alegadamente estupraram uma mulher branca com uma alça de
vassoura e um bastão de beisebol em miniatura. Veja Robert Hanley, Sexual Assault
Splits a New Jersey Town, N.Y. Times, May 26, 1989, at Bl; Derrick Z. Jackson, The
Seeds of Violence, Boston Globe, June 2, 1989, at 23; Bill Turque, Gang Rape in the
Suburbs, NEWSWEEK, June 5, 1989, em 26.

[49] Robert D. McFadden, 2 Men Get 6 to 18 Years for Rape in Brooklyn, N.Y. Times,
Oct. 2, 1990, at B2. A mulher “ficou, meio nua, gemendo e chorando por ajuda até que
uma vizinha ouviu” no poço do ar. Community Rallies to Support Victim of Brutal
Brooklyn Rape, N.Y. Daily News, June 26, 1989, at 6. A vítima “sofreu ferimentos tão
extensos que ela teve que aprender a caminhar de novo… Ela enfrentará anos de
aconselhamento psicológico…” McFadden, supra.

[50] Esta resposta diferencial foi resumida pela reação pública ao assassinato de uma
jovem negra em Boston em 31 de outubro de 1990. Kimberly Rae Harbour, estuprada e
esfaqueada mais de 100 vezes por oito membros de uma gangue local, era uma mãe
solteira, prostituta ocasional e uma usuária de drogas. A vítima do Central Park era
uma profissional branca e de classe alta. A mulher negra foi estuprada e assassinada
intraracialmente. A mulher branca foi estuprada e deixada morta intraracialmente. O
estupro do Central Park tornou-se uma causa de reunião nacional contra a violência
aleatória (ver Black male); o estupro de Kimberly Rae Harbour foi escrito em um
roteiro local destacado pelo cerco do Departamento de Polícia de Boston contra os
homens negros em busca do assassino “ficcional” de Carol Stuart. Veja John Ellement,
8 Teen-agers Charged in Rape, Killing of Dorchester Woman, Boston Globe, Nov. 20,
1990, at I; James S. Kunen, Homicide No. JJ9, PEOPLE, Jan. 14, 1991, em 42. Para
uma comparação dos assassinatos de Stuart e Harbour, veja Christopher B. Daly, Scant

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Attention Paid Victim as Homicides Reach Record in Boston, Wash. Post, Dec. 5, 1990,
Get started
em A3.

[51] Smith ressalta que “a invisibilidade relativa das mulheres negras vítimas de
estupro também reflete o valor diferencial dos corpos das mulheres nas sociedades
capitalistas. Na medida em que o estupro é construído como crime contra a
propriedade de homens brancos privilegiados, crimes contra mulheres menos valiosas
— mulheres não-brancas, mulheres da classe trabalhadora e lésbicas, por exemplo —
significam menos ou diferem do que as mulheres brancas das classes média e alta”.
Smith, supra nota 74, em 275–76.

[52] “Os casos envolvendo infratores negros e vítimas negras foram menos tratados
com seriedade”. GARY D. LAFREE, RAPE AND CRIMINAL JUSTICE: THE SOCIAL
CONSTRUCTION OF SEXUAL ASSAULT (1989). LaFree também observou, no entanto,
que “a composição da raça da díade vítima-ofensor” não era o único preditor de
disposições de casos. Id. Em 219–20.

[53] Race Tilts the Scales of Justice. Study: Dallas Punishes Attacks on Whites More
Harshly, Dallas Times Herald, Aug. 19, 1990, em AI. Um estudo de casos de 1988 no
sistema de justiça criminal do condado de Dallas concluiu que os estupradores cujas
vítimas eram brancas foram punidos com mais severidade do que aqueles cujas vítimas
eram negras ou hispânicas. O Dallas Times Herald, que havia encomendado o estudo,
informou que “a pena quase dobrou quando o atacante e a vítima eram de raças
diferentes. Exceto por esse crime inter-racial, as disparidades de sentença foram muito
menos pronunciadas…” Id.

[54] Id. Dois especialistas em direito penal, o professor de direito de Iowa, David
Baldus, e o professor da Universidade Carnegie-Mellon, Alfred Blumstein, “disseram
que as desigualdades raciais podem ser ainda piores do que os números sugerem”. Id.

[55] Veja G. LAFREE, supra nota 86, at 219–20 (Citando jurados que duvidaram da
credibilidade dos sobreviventes negras de estupro); Veja também H. FEILD & L.
BIENEN, supra note 35, at 117–18.

[56] Por exemplo, o Título I da Lei de Violência contra a Mulher cria penas federais por
crimes sexuais. Veja 137 CONG. REC. S597, S599–600 (publicado diariamente em 14
de janeiro de 1991). Especificamente, a seção 111 da Lei autoriza a Comissão de
Sentença a promulgar diretrizes para providenciar que qualquer pessoa que cometa um
estupro após uma condenação anterior pode ser punida por um período de prisão ou
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multa até duas vezes do que de outra forma é fornecido nas diretrizes. S. J 5, supra
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nota 57, em 8. Além disso, a seção 112 da Lei autoriza a Comissão de Sentença a
alterar suas diretrizes de sentença para prover que um réu seja condenado por estupro
ou estupro agravado, “será atribuído um delito de base… que é pelo menos 4 níveis
maiores do que o nível de infração de base aplicável para tais ofensas”. Id. em 5.

[57] O Título I da Lei também cria novas regras de prova para a introdução da história
sexual em casos criminais e civis. Id. As seções 151 e 152 alteram o Fed. R. Evid. 412
proibindo a “reputação ou evidência de opinião sobre o comportamento sexual passado
de uma suposta vítima” de ser admitida e limitar outras evidências de comportamento
sexual passado. Id. em 39–44. Da mesma forma, a seção 153 altera a lei da proteção do
estupro. Id. em 44–45. Os Estados também promulgaram ou tentaram promulgar as
próprias reformas de leis de estupefação. Veja Harriet R. Galvin, Shielding Rape
Victims in the State and Federal Courts: A Proposal for the Second Decade, 70 MINN. L.
REv. 763 (1986); Barbara Fromm, Sexual Battery: Mixed-Signal Legislation Reveals
Need for Further Reform, 18 FLA. ST. U. L. REV. 579 (1991).

[58] Veja nota 35 supra.

[59] Pode-se imaginar certas intervenções baseadas em ensaios que possam ajudar os
promotores a lutar com essas crenças. Por exemplo, pode-se considerar expandir o
escopo de void dire para examinar as atitudes dos jurados em relação às negras vítimas
de estupro. Além disso, à medida que mais se aprende sobre a resposta das mulheres
negras ao estupro, esta informação pode ser considerada relevante na avaliação do
testemunho das mulheres negras e, portanto, justifica a introdução através de
testemunhos de especialistas. A este respeito, vale a pena notar que a síndrome da
mulher vítima de violência doméstica e a síndrome do trauma de estupro são ambas
formas de testemunho especializado que frequentemente funcionam no contexto de
um julgamento para contrariar os estereótipos e outras narrativas dominantes que
poderiam, de outra forma, produzir um resultado negativo para a mulher “em
julgamento”. Essas intervenções, provavelmente inimagináveis há pouco tempo,
surgiram de esforços para estudar e de alguma forma quantificar a experiência das
mulheres. Intervenções semelhantes que abordam as dimensões particulares das
experiências de mulheres não-brancas podem ser possíveis. Este conhecimento pode
crescer fora dos esforços para mapear como as mulheres não-brancas se beneficiaram
de intervenções padrão. Para um exemplo de uma crítica interseccional da síndrome da
mulher vítima de violência doméstica, veja Sharon A. Allard, Rethinking Battered

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Woman Syndrome: A Black Feminist Perspective, 1 U.C.L.A. WOMEN’s L.J. 191 (1991)
Get started
(autor do aluno).

[60] Veja Smith, supra nota 74 (Discutindo o sensacionalismo da mídia do caso da


corredora do Central Park como consistente com padrões históricos de foco quase
exclusivo em díades homem negro/mulher branca); veja também Terry, supra nota 81
(discutindo os outros 28 estupros ocorridos durante a mesma semana, mas que não
receberam a mesma cobertura de mídia). Embora o estupro seja em grande parte um
crime inter-racial, essa explicação para a cobertura díspar às vítimas não-brancas é
duvidosa; no entanto, dados os achados de pelo menos um estudo que 48% dos
entrevistados acreditavam que a maioria dos estupros envolvia um agressor negro e
uma vítima branca. Veja H. FEILD & L. BIENEN, supra nota 35, em 80. Ironicamente,
Feild e Bienen incluem em seu livro-estudo de estupro de duas fotografias distribuídas
aos sujeitos em seu estudo descrevendo a suposta vítima como branca e o suposto
agressor como negro. Dado o reconhecimento dos autores de que o estupro foi
esmagadoramente inter-racial, a aparência dessas fotos foi particularmente
impressionante, especialmente porque elas eram as únicas fotos incluídas em todo o
livro.

[61] Veja por exemplo, G. LAFREE, supra nota 86, em 237–39.

[62] Para um argumento semelhante de que a discriminação da raça de vítima na


administração da pena de morte realmente representa o status desvalorizado das
vítimas negras, em vez de discriminação contra os agressores negros, veja Randall L.
Kennedy, McCleskey v. Kemp: Race, Capital Punishment, and the Supreme Court, 101
HARV. L. REV. 1388 (1988).

[63] A estatística de que 89% de todos os homens executados por estupro neste país
eram negros. Furman v. Georgia, 408 U.S. 238, 364 (1972) (Marshall, J., concorrente).
Infelizmente, a análise dominante da discriminação racial em processos de estupro
geralmente não discute se alguma das vítimas de estupro nesses casos era negra. Veja
Jennifer Wriggins, Rape, Racism, and the Law, 6 HARV. WOMEN’s L.J. 103, 113 (1983)
(Autor do aluno).

[64] A raça era frequentemente suficiente para preencher fatos que desconheciam. Até
1953, o Supremo Tribunal do Alabama decidiu que um júri poderia ter em conta a raça
para determinar se um homem negro era culpado de “uma tentativa de cometer uma
agressão com tentativa de estuprar”. Veja McQuirter v. State, 63 So. 2d. 388, 390 (Ala.

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1953). De acordo com o testemunho da “vítima”, o homem olhou para ela e murmurou
Get started
algo ininteligível ao passarem. Id. em 389.

[65] Ida Wells, uma feminista negra precoce, investigou todos os linchamentos que ela
conseguiu por cerca de uma década. Depois de pesquisar 728 linchamentos, ela
concluiu que “apenas um terço dos negros assassinados chegou a ser acusado de
estupro, muito menos culpado por isso”. PAULA GIDDINGS, WHEN AND WHERE I
ENTER: THE IMPACT OF BLACK WOMEN ON RACE AND SEX IN AMERICA 28 (1984)
(citando Wells).

[66] Veja Jacquelyn Dowd Hall, “The Mind That Burns in Each Body”: Women, Rape,
and Racial Violence, in POWERS OF DESIRE: THE POLITICS 0F SEXUALITY 328, 334
(Ann Snitow, Christine Stansell, & Sharon Thompson eds. 1983).

[67] Nove jovens negros foram acusados de estupro de duas mulheres brancas em um
vagão ferroviário perto de Scottsboro, Alabama. Seus julgamentos ocorreram em uma
atmosfera aquecida. Cada julgamento foi concluído em um único dia e todos os réus
foram condenados e sentenciados à morte. Veja DAN T. CARTER, SCOTTSBORO: A
TRAGEDY OF THE AMERICAN SOUTH (1976). O Supremo Tribunal de Justiça
inverteu as condenações dos condenados e as sentenças de morte, alegando que foram
inconstitucionalmente a eles negado o direito a um advogado. Powell v. Alabama, 287
U.S. 45, 65 (1932). No entanto, os arguidos foram julgados novamente por um júri
totalmente branco depois que o Supremo Tribunal reverteu suas convicções.

[68] Emmett Tíll era um menino negro de 14 anos de Chicago visitando seus parentes
perto de Money, Mississippi. Em um desafio por meninos locais, ele entrou em uma loja
e falou com uma mulher branca. Vários dias depois, o corpo de Emmett Till foi
encontrado no rio Tallahatchie. “O arame farpado que segurava o ventilador de
algodão em volta do pescoço tinha se enrolado em uma raiz do rio emaranhado”.
Depois que o cadáver foi descoberto, o marido da mulher branca e seu cunhado foram
acusados do assassinato de Emmett Till. JUAN WILLIAMS, EYES ON THE PRIZE 39.43
(1987). Para um relato histórico da tragédia de Emmett Till, veja STEPHEN J.
WHITFIELD, A DEATH IN THE DELTA (1988).

[69] Crenshaw, supra nota 7, em 159 (Discutindo como a geração de ativistas negros
que criaram o Movimento de Liberação Negra eram contemporâneos de Emmett Till).

[70] Até recentemente, por exemplo, quando os historiadores falaram de estupro na


experiência da escravidão, muitas vezes lamentavam o dano que este ato fazia ao
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sentimento de estima e respeito do homem negro. Ele era impotente para proteger sua
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mulher de estupradores brancos. Poucos pesquisadores avaliaram o efeito de estupros,
ameaças de estupro e violência doméstica no desenvolvimento psíquico das vítimas
femininas.

Darlene Clark Hine, Rape and the Inner Lives of Black Women in the Middle West:
Preliminary Thoughts on the Culture of Dissemblance, in UNEQUAL SISTERS: A
MULTI-CULTURAL READER IN U.S. WOMEN’S HISTORY (Ellen Carol Dubois & Vicki
L. Ruiz eds. 1990).

[71] Michael Madden, No Offensive from Defense, Boston Globe, Feb. 1, 1992, at 33
(Hooks); Farrakha11 Backs Calls for Freeing Tyson, UPI, July 10, 1992.

[72] Veja Megan Rosenfeld, After the Verdict, The Doubts: Black Women Show Lillle
Sympalhy for Tyson’s Accuser, Wash. Post, Feb. 13, 1992, at D 1; Allan Johnson, Tyson
Rape Case Strikes a Nerve Among Blacks, Chicago Trib., Mar. 29, 1992, at CI; Suzanne
P. Kelly, Black Women Wrestle with se Issue: Many Say Choosing Racial Over Gender
Loyalty Is Too Great a Sacrijice, Star Trib., Feb. 18, 1992, em AI.

[73] 20/20 (ABC television broadcast, Feb. 21, 1992).

[74] Id.

[75] De acordo com um estudo realizado pelo Departamento de Justiça, as mulheres


negras são significativamente mais propensas a serem estupradas do que as mulheres
brancas e as mulheres do grupo 16–24 anos de idade são 2 a 3 vezes mais propensas a
serem vítimas de estupro ou tentativa de estupro de mulheres em qualquer outro grupo
etário. Veja Ronald J. Ostrow, Typical Rape Victim Called Poor, Young, L.A. Times, Mar.
25, 1985, em 8.

[76] Veja Peg Tyre, Whal Experts Say About Rape Jurors, Newsday, May 19, 1991, em
IO (relatando que “os pesquisadores haviam determinado que os jurados em
julgamentos criminais se comparam com o queixoso ou o réu cujas bases étnicas,
econômicas e religiosas se assemelham mais à sua própria. A exceção à regra… é a
forma como as mulheres juradas julgam as vítimas de estupro”). Linda Fairstein, uma
promotora de Manhattan, afirma: “Muitas vezes, as mulheres tendem a serem muito
críticas contra a conduta de outras mulheres e muitas vezes não são boas juradas em
casos de estupro”. Margaret Carlson, The Trials of Convicting Rapists, TIME, Oct. 14,
1991, at 11.
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[77] Como a promotora de crimes sexuais Barbara Eganhause nota, mesmo mulheres
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jovens com estilos de vida contemporâneos costumam rejeitar as acusações de estupro
de mulheres devido ao medo. “Chamar outra mulher de vítima de estupro é reconhecer
a vulnerabilidade em si mesma. Elas saem a noite, elas namoram, elas vão a bares e
andam sozinhas. Negar isso é dizer em julgamento que mulheres não são vítimas”.
Tyre, supra nota 110.

[78] G. LAFREE, supra nota 86.

[79] Id. em 49–50.

[80] ld. em 50–51.

[81] ld. em 237–40.

[82] LaFree conclui que estudos recentes que não encontraram efeito discriminatório
não foram conclusivos porque analisaram os efeitos da raça do réu independentemente
da raça da vítima. Os efeitos da raça diferencial na sentença são muitas vezes ocultos,
combinando as sentenças mais severas dadas aos homens negros acusados de estuprar
mulheres brancas com o tratamento mais indulgente dos homens negros acusados de
estuprar mulheres negras. Id. em 117, 140. Resultados semelhantes foram encontrados
em outro estudo. Veja Anthony Walsh, The Sexual Stratification Hypothesis and Sexual
Assault in Light of the Changing Conceptions of Race, 25 CRIMINOLOGY 153, 170
(1987) (“gravidade da sentença significa que os negros que agrediram os brancos, que
significaram mais do que os brancos que agrediram os brancos, foram encobertos pela
severidade da frase indulgente para negros que agrediram os negros”).

[83] G. LAFREE, supra nota 86, em 139–40.

[84] A estratificação sexual, de acordo com LaFree, refere-se à avaliação diferencial das
mulheres de acordo com sua raça e à criação de “regras de acesso sexual” que
governam quem pode ter contato com quem. A estratificação sexual também
determina qual será a penalidade por violar essas regras: o estupro de uma mulher
branca por um homem negro é visto como uma transgressão sobre os valiosos direitos
de propriedade dos homens brancos e é punido com mais severidade. Id. em 48–49.

As proposições fundamentais da tese de estratificação sexual foram resumidas da


seguinte forma:

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(1) As mulheres são vistas como a propriedade valorizada e escassa dos homens de sua
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própria raça.

(2) As mulheres brancas, em virtude da adesão à raça dominante, são mais valiosas que
as mulheres negras.

(3) O estupro de uma branca por um negro ameaça os “direitos de propriedade” do


homem branco e sua posição social dominante. Essa dupla ameaça explica a força do
tabu anexado ao ataque sexual inter-racial.

(4) Um estupro por um homem de qualquer raça sobre os membros da raça negra
menos valorizada é percebido como não ameaçador ao status quo e, portanto, menos
grave.

(5) Os homens brancos predominam como agentes de controle social. Portanto, eles
têm o poder de sancionar diferencialmente de acordo com a ameaça percebida para
sua posição social favorecida.

Walsh, supra nota 116, em 155.

[85] Eu uso o termo “acesso sexual” com cautela porque é um eufemismo inapropriado
para estupro. Por outro lado, o estupro é conceituado de forma diferente, dependendo
se certas regras específicas de raça de acesso sexual são violadas. Embora a violência
não seja explicitamente escrita na teoria da estratificação sexual, ela se baseia nas
regras, na medida em que a relação sexual que viola as regras de acesso racial é
presumivelmente coercitiva e sim voluntária. Veja, por exemplo, Sims v. Balkam, 136
S.E. 2d 766, 769 (Ga. 1964) (Descrevendo o estupro de uma mulher branca por um
homem negro como “um crime mais terrível do que a morte”); Story v. State, 59 So.
480 (Ala. 1912) (“O consenso da opinião pública, sem restrições para qualquer raça, é
que uma prostituta branca ainda está, embora perdida de virtude, acima do sacrifício
ainda maior da submissão voluntária de sua pessoa aos abraços da outra raça”);
Wriggins, supra nota 97, em 125, 127.

[86] Esta abordagem tradicional coloca as mulheres negras em uma posição de negar
sua própria vitimização, exigindo que mulheres negras argumentem que é racista punir
os homens negros mais severamente por estuprar mulheres brancas do que por
estuprar mulheres negras. No entanto, na sequência do julgamento de Mike Tyson,
parece que muitas mulheres negras estão dispostas a fazer exatamente isso. Veja as
notas 106–109 supra e o texto que acompanha.
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[87] Na verdade, críticos e comentaristas costumam usar o termo “estupro inter-racial”


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quando eles na verdade falam apenas de estupro de agressor negro/vítima branca.

[88] G. LAFREE, supra nota 86, em 148. A transição de LaFree entre raça e gênero
sugere que a mudança pode não afrouxar o quadro o suficiente para permitir a
discussão dos efeitos combinados da subordinação racial e de gênero em mulheres
negras. LaFree separa repetidamente a raça do gênero, tratando-as como problemas
totalmente distinguíveis. Veja, por exemplo, id. em 147.

[89] Id.

[90] ld. em 151. LaFree interpreta o comportamento não tradicional para incluir o
consumo de álcool, o uso de drogas, o sexo extraconjugal, as crianças ilegítimas e “ter
uma reputação como ‘festeira’, alguém que sempre ‘busca pelo prazer’ ou alguém que
permanece até tarde da noite”. Id. Em 201.

[91] Id. em 204.

[92] Id.

[93] Id.

[94] Id. em 219 (ênfase adicionada). Embora haja pouca evidência direta de que os
promotores são influenciados pela raça da vítima, não é irracional assumir que, uma
vez que a raça é um importante preditor de convicção, os procuradores determinados a
manter uma alta taxa de convicção podem ser menos propensos a perseguir um caso
envolvendo uma vítima negra do que uma branca. Este cálculo provavelmente é
reforçado quando os júris falham em condenar em casos fortes envolvendo vítimas
negras. Por exemplo, a absolvição de três atletas brancos da Universidade de St. John
para o estupro em grupo de uma colega jamaicana foi interpretada por muitos como
influenciados pela raça. Testemunhas disseram que a mulher estava incapacitada
durante grande parte da provação, tendo ingerido uma mistura de álcool dada a ela
por um colega de classe que posteriormente iniciou a violência. Os jurados insistiram
que a raça não desempenhou nenhum papel em sua decisão de absolver. “Não há raça,
todos concordamos”, disse um jurado; “Estavam tentando torná-lo racial, mas não era”,
disse outro. Jurors: ‘It Wasn’t Racial,’ Newsday, July 25, 1991, em 4. No entanto, é
possível que a raça tenha influenciado em algum nível sua crença de que a mulher
concordou com o que, por todas as contas, representava uma conduta
desumanizadora. Veja, por exemplo, Carole Agus, Whatever Happened to ‘The Rules’,
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Newsday, July 28, 1991, em 11 (citando testemunho de que pelo menos dois dos
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assaltantes atingem a vítima na cabeça com seus pênis). No entanto, o júri pensou, nas
palavras de seu chefe, que o comportamento dos arguidos era “desagradável”, mas não
criminoso. Veja Sydney H. Schanberg, Those ‘Obnoxious’ St. John’s Athletes, Newsday,
July 30, 1991, em 79. Pode-se imaginar um resultado diferente se as raças das partes
não tivessem sido revertidas.

O representante Charles Rangel (D-N.Y.) chamou o veredicto de “uma repetição do que


costumava acontecer no sul”. James Michael Brodie, The St. John’s Rape Acquittal: Old
Wounds That Just Won’t Go Away, BLACK ISSUES IN HIGHER EDUC., Aug. 15, 1991,
em 18. Denise Snyder, diretora executiva do Centro de Crise de Estupro em D.C.,
comentou:

É um precedente histórico que homens brancos podem estuprar negras e fugir com
isso. Ai do homem negro que estupra mulheres brancas. Todos os preconceitos que
existiram há cem anos estão inativos e não tão adormecidos e eles remetem suas
cabeças feias em situações como esta. Contraste isso com a corredora do Central Park
que foi uma mulher branca de classe.

Judy Mann, New Age, Old Myths, Wash. Post, July 26, 1991, em CJ (citando Snyder);
veja Kristin Bumiller, Rape as a Legal Symbol: An Essay on Sexual Violence and
Racism, 42 U. MIAMI L. REv. 75, 88 (“O significado cultural do estupro está enraizado
em uma simbiose de racismo e sexismo que tolerou a atuação de agressão masculina
contra mulheres e, em particular, mulheres negras”).

[95] ld. em 219–20 (citações omitidas). Evidências anedóticas sugerem que essa
atitude existe entre alguns responsáveis pelo processamento de casos de estupro. Fran
Weinman, estudante do meu seminário sobre raça, gênero e lei, realizou um estudo de
campo no Centro de Crises de Estupro Rosa Parks. Durante seu estudo, ela aconselhou
e acompanhou uma sobrevivente de estupro negra 12 anos que engravidou como
resultado da violação. A menina tinha medo de contar aos pais, que descobriram o
estupro depois que ela ficou deprimida e começou a ir mal na escola. A polícia
inicialmente estava relutante em entrevistar a menina. Só depois que o pai da menina
ameaçou tomar as coisas em suas próprias mãos, o departamento de polícia enviou um
investigador para a casa da menina. O promotor da cidade indicou que o caso não era
grave e relutou em processar o réu por estupro estatutário mesmo que a menina fosse
menor de idade. O promotor argumentou: “Afinal, ela parece 16”. Depois de muitas
frustrações, a família da menina finalmente decidiu não pressionar o promotor mais e o

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caso foi descartado. Veja Fran Weinman, Racism and the Enforcement of Rape Law,
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13–30 (1990) (manuscrito inédito) (no arquivo com o Stanford Law Review).

[96] G. LAFREE, supra nota 86, em 220.

[97] Id.

[98] Id. em 226.

[99] Id. em 239 (ênfase adicionada). As taxas de convicção mais baixas para aqueles
que estupram mulheres negras podem ser análogas às baixas taxas de convicção para
estupro de conhecimentos. A questão central em muitos casos de estupro está provando
que a vítima não consentiu. A presunção básica na ausência de evidência explícita de
falta de consentimento é que o consentimento existe. Certas provas são suficientes para
refutar essa presunção e a quantidade de evidência necessária para provar o não
consentimento aumenta à medida que as presunções que justificam uma inferência de
consentimento aumentam. Algumas mulheres — com base em seu caráter, identidade
ou vestimenta — são vistas como mais propensas a consentir do que outras mulheres.
Talvez seja a combinação dos estereótipos sexuais sobre os negros, juntamente com o
maior grau de familiaridade que se presume existir entre os homens negros e as
mulheres negras, que leva à conceitualização de tais estupros que existe em algum
lugar entre estupro de conhecidos e estupro por estranhos.

[100] Veja, por exemplo, Candy J. Cooper, Nowhere to Turn for Rape Victims: High
Proportion of Cases Tossed Aside by Oakland Police, S.F. Examiner, Sept. 16, 1990, em
AI (a seguir Cooper, Nowhere to Turn]. A evidência mais persuasiva de que as imagens
e crenças que os policiais de Oakland mantêm contra vítimas de estupro influenciam a
disposição de seus casos está representada em duas histórias a seguir. Veja Candy J.
Cooper, A Rape Victim Vindicated, S.F. Examiner, Sept. 17, 1990, em AI; Candy J.
Cooper, Victim of Rape, Victim of the System, S.F. Examiner, Sept. 17, 1990, em AIO.
Essas histórias contrastaram as experiências de duas mulheres negras, ambas
estupradas por um conhecido depois de fumar crack. No primeiro caso, embora
houvesse pouca evidência física e a mulher inicialmente relutasse em testemunhar, seu
estuprador foi processado e finalmente condenado. No segundo caso, a mulher foi
severamente espancada pelo agressor. Apesar de ampla evidência física e corroboração
e uma vítima cooperativa, seu caso não foi perseguido. O primeiro caso foi tratado pelo
departamento de polícia de Berkeley, Califórnia, enquanto o último foi tratado pelo
departamento de polícia de Oakland. Talvez as diferentes abordagens que produzam

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esses resultados díspares possam ser melhoradas pelas filosofias dos pesquisadores.
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Oficiais em Berkeley “tomam o caso de cada mulher tão a sério que nenhum [em 1989]
foi encontrado falso”. Veja Candy J. Cooper, Berkeley Unit Takes Ali Cases as
Legitimate, S.F. Examiner, Sept. 16, 1990, em A16. No mesmo ano, 24,4% dos casos de
estupro de Oakland foram classificados como “infundados”. Cooper, Nowhere to Turn,
supra.

[101] Cooper, Nowhere to Turn, supra nota 134, em AIO.

[102] Id. (“Os trabalhadores da polícia, dos promotores, das vítimas e da violação de
estupro concordam que a maioria dos casos caídos foram relatados por mulheres não-
brancas que fumavam crack ou estavam envolvidas em outros comportamentos
criminosos de alto risco, como a prostituição”.)

[103] Id. Advogados apontam que, porque os investigadores trabalham a partir de um


perfil do tipo de caso susceptível de obter uma convicção, as pessoas deixadas fora
desse perfil são pessoas não-brancas, prostitutas, usuárias de drogas e pessoas
estupradas por conhecidos. Esta exclusão resulta em “uma classe inteira de mulheres…
negadas sistematicamente a justiça. As mulheres pobres sofrem mais”. Id.

Feminism Racism Racismo Feminismo Intersectionality

272 claps

WRITTEN BY

Carol Correia

Ativista antiprostituição e Formada em Direito (pós em


Constitucional e Processo Penal). Acessem também:
antiprostituicao.wordpress.com

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identidade e violência contra mulheres
não-brancas” de Kimberle Crenshaw —
Parte 3/4
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Imagem de Kimberle Crenshaw

Escrito por: Kimberlé Williams Crenshaw; professora de Direito na Universidade da


Califórnia, Los Angeles, B.A. Universidade de Cornell, 1981; J.D. Escola de Direito de
Harvard, 1984; L.L.M. Universidade de Wisconsin, 1985.

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Retirado de: https://negrasoulblog.files.wordpress.com/2016/04/mapping-the-


Get started
margins-intersectionality-identity-politics-and-violence-against-women-of-color-
kimberle-crenshaw1.pdf

Traduzido por Carol Correia, a fim de aumentar a discussão referente a violência


contra mulheres, em especial a mulheres não-brancas.

Observação: esta tradução será dividida em 4 partes, devido ao espaço no medium e a


fim de melhorar a divulgação e disponibilização do texto.

. . .

III. INTERSECÇÃO REPRESENTACIONAL


Com relação ao estupro de mulheres negras, raça e gênero convergem para que as
preocupações das mulheres minoritárias falem no vazio entre as preocupações com as
questões das mulheres e as preocupações com o racismo. Mas quando um discurso não
reconhece o significado do outro, as relações de poder que cada um tenta desafiar são
fortalecidas. Por exemplo, quando as feministas não reconhecem o papel que a raça
desempenhou na resposta pública ao estupro da corredora do Central Park, o
feminismo contribui para as forças que produzem punição desproporcional para os
homens negros que estupram mulheres brancas e quando os antirracistas representam
o caso unicamente em termos de dominação racial, eles menosprezam o fato de que as
mulheres particularmente, e todas as pessoas em geral, devem estar indignadas com a
violência de gênero que o caso representava.

Talvez a desvalorização das mulheres não-brancas implícita aqui esteja ligada à forma
como as mulheres não-brancas são representadas em imagens culturais. Os estudiosos
em uma ampla gama de campos estão cada vez mais a reconhecer a centralidade das
questões de representação na reprodução da hierarquia racial e de gênero nos Estados
Unidos. No entanto, os debates atuais sobre a representação continuam a influenciar a
intersecção de raça e gênero na construção da cultura popular de imagens de mulheres
não-brancas. Por conseguinte, uma análise do que pode ser denominado “intersecção
representacional” incluiria tanto as formas como essas imagens são produzidas através
de uma confluência de narrativas predominantes de raça e gênero, bem como o
reconhecimento de como as críticas contemporâneas de uma representação racista e
sexista marginalizam mulheres não-brancas.

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Nesta seção, exploro o problema da intersecção representacional — em particular,


Get started
como a produção de imagens de mulheres não-brancas e as contestações sobre essas
imagens tendem a ignorar os interesses interseccionais das mulheres não-brancas — no
contexto da controvérsia sobre 2 Live Crew, o grupo de rap negro que foi objeto de uma
acusação de obscenidade na Flórida em 1990. Eu me oponho ao processo de
obscenidade de 2 Live Crew e não sem uma sensação de divisão interna forte, de
insatisfação com a ideia de que a “questão real” é raça ou gênero, inutilmente
justapostos. Uma análise interseccional oferece uma resposta intelectual e política a
esse dilema. Com o objetivo de reunir os diferentes aspectos de uma sensibilidade de
outra forma dividida, uma análise interseccional argumenta que as subordinações
raciais e sexuais se reforçam mutuamente, que as mulheres negras são comumente
marginalizadas por uma política de raça única ou gênero única e que uma resposta
política a cada forma de subordinação deve, ao mesmo tempo, ser uma resposta
política a ambas.

A. Controvérsia do 2 Live Crew


Em junho de 1990, os membros dos 2 Live Crew foram presos e acusados sob um status
de obscenidade da Flórida por seu desempenho em um clube para adultos apenas em
Hollywood, na Flórida. As prisões vieram apenas dois dias depois que um juiz federal
julgou sexualmente explícitas as letras do álbum de 2 Live Crew, As Nasty As They
Wanna Be[1], eram obscenas[2]. Embora os membros do 2 Live Crew tenham sido
eventualmente absolvidos de acusações decorrentes do desempenho ao vivo, a decisão
do tribunal federal de que Nasty é obscena ainda é válida. Este julgamento de
obscenidade, juntamente com as prisões e o julgamento subsequente, provocou uma
intensa controvérsia pública sobre a música rap, uma polêmica que se fundiu com um
debate mais amplo sobre a representação do sexo e da violência na música popular,
sobre a diversidade cultural e sobre o significado da liberdade de expressão.

Duas posições dominaram o debate sobre 2 Live Crew. Escrevendo no Newsweek, o


colunista político George Will observou o caso da acusação[3]. Argumentaria que
Nasty era uma imundice misógina e caracterizava o desempenho de 2 Live Crew como
uma “combinação de infantilismo e extrema ameaça repugnante” que objetivava as
mulheres negras e as representava como alvos adequados a violência sexual[4]. A
defesa mais proeminente de 2 Live Crew foi avançada por Henry Louis Gates Jr.,
professor de Harvard e especialista em literatura afro-americana. Em uma peça de
opinião do New York Times e em testemunho no julgamento criminal, Gates afirmou
que membros do 2 Live Crew eram artistas importantes que operavam dentro e

https://medium.com/revista-subjetiva/mapeando-as-margens-interseccionalidade-políticas-de-identidade-e-violência-contra-mulheres-não-3888f… 3/26
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criativamente desenvolvendo distintamente formas de expressão cultural afro-


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americana[5]. De acordo com Gates, o exagero característico apresentado nas letras de
2 Live Crew serviu com um fim político: explodir estereótipos racistas populares de
forma comicamente extrema[6]. Onde Will viu um estupro misógino às mulheres
negras por degenerados sociais, Gates encontrou uma forma de “carnivalesco sexual”
com a promessa de libertar-nos das patologias do racismo[7].

Ao contrário de Gates, há muitos que simplesmente não “ririam” depois de ouvir 2 Live
Crew[8]. Fazemos um desserviço da questão para descrever as imagens das mulheres
em Nasty como simplesmente “sexualmente explícitas”[9]. Ouvindo Nasty, ouvimos
falar de “bucetas” sendo “fodidas” até que a coragem esteja rachada, “bundas” sendo
“arrebentadas”, “pintos” estragando gargantas e o sêmen salpicando nos rostos. As
mulheres negras são “cunts[10]”, “cadelas” e “vadias” de uso geral[11].

Este não é um mero braggadocio[12]. Aqueles que estão preocupados com as altas
taxas de violência de gênero em nossas comunidades devem estar preocupados com as
possíveis conexões entre essas imagens e a tolerância à violência contra a mulher.
Crianças e adolescentes estão ouvindo essa música e não se pode deixar de preocupar
que a gama de comportamentos aceitáveis seja ampliada pela propagação constante de
imagens misóginas. É preciso também se preocupar com jovens mulheres negras que,
como homens jovens, estão aprendendo que seu valor está entre suas pernas. Mas o
valor sexual das mulheres, ao contrário dos homens, é uma mercadoria depletável; os
rapazes se tornam homens gastando o deles, enquanto as meninas se tornam vadias.

Nasty é misógino e uma análise interseccional do caso contra 2 Live Crew não deve
afastar-se de um reconhecimento completo dessa misoginia. Mas essa análise também
deve considerar se um foco exclusivo em questões de gênero enfrenta os aspectos do
processo de 2 Live Crew que suscitam sérias questões de racismo.

B. A acusação de obscenidade de 2 Live Crew


Um problema inicial com a acusação de obscenidade de 2 Live Crew foi a sua aparente
seletividade[13]. Mesmo a comparação mais superficial entre 2 Live Crew e outras
representações sexuais comercializadas em massa sugere a probabilidade da raça
desempenhar algum papel ao distinguir 2 Live Crew como o primeiro grupo a ser
processado por obscenidade em conexão com uma gravação musical e um punhado de
artistas de gravação para serem processados por uma performance ao vivo. As recentes
controvérsias sobre o sexismo, o racismo e a violência na cultura popular apontam para
uma vasta gama de expressões que poderiam ter permitido alvos para a censura, mas
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24/07/2019 “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas” de Kimberle Crensh…

ficaram intocados. Madonna atuou na masturbação, retratou a sedução de um padre e


Get started
insinuou o sexo grupal no palco[14], mas nunca foi processada por obscenidade.
Enquanto 2 Live Crew estava se apresentando em Hollywood, Flórida, as gravações de
Andrew Dice Clay estavam sendo vendidas nas lojas e ele estava se apresentando em
todo o país na HBO. Bem conhecido por seu “humor racista”, Clay também é
comparável ao 2 Live Crew sexualmente explícita e misoginia. Em seu show, por
exemplo, Clay oferece: “Eenie, meenie, miney, mo[15]/Chupe meu [palavrão] e engula
lentamente” e “Tire o sutiã, vadia”[16]. Além disso, as imagens sexuais gráficas —
muitas delas violentas — estavam amplamente disponíveis no condado de Broward,
onde o desempenho e o julgamento ocorreram. De acordo com o depoimento de um
vice-detetive do Condado de Broward, “espectáculos de dança nua e livrarias para
adultos estão espalhadas por todo o município onde 2 Live Crew se apresentaram”[17].
Dada a disponibilidade de outras formas de “entretenimento” sexualmente explícito no
Condado de Broward, Flórida, pode-se imaginar como 2 Live Crew poderia ter sido
visto como excepcionalmente obsceno pelas luzes dos “padrões comunitários” do
município[18]. Afinal, os patronos de certos clubes do Broward County “podem ver as
mulheres dançando com pelo menos seus seios expostos” e os fregueses da livraria
podem “visualizar e comprar filmes e revistas que retratam sexo vaginal, oral e anal,
sexo homossexual e sexo grupal”[19]. Ao chegar à sua descoberta de obscenidade, o
tribunal colocou pouco peso na gama disponível de filmes, revistas e shows ao vivo
como evidência das sensibilidades da comunidade. Em vez disso, o tribunal aceitou,
aparentemente, o testemunho do xerife de que a decisão de escolher entre tudo a Nasty
foi baseada no número de queixas contra 2 Live Crew “comunicadas por chamadas
telefônicas, mensagens anônimas ou cartas à polícia”[20].

A evidência desse clamor popular nunca foi fundamentada. Mas, mesmo que fosse, o
caso da seletividade permaneceria[21]. A história da repressão social da sexualidade
masculina negra é longa, muitas vezes violenta e muito familiar[22]. As reações
negativas à conduta sexual de homens negros tradicionalmente tiveram conhecimentos
racistas, especialmente quando essa conduta ameaça “atravessar” a comunidade
dominante[23]. Assim, mesmo que a decisão de processar refletisse uma percepção
generalizada da comunidade sobre o caráter puramente prurido da música de 2 Live
Crew, essa percepção em si poderia refletir um padrão estabelecido de atitudes de
vigilância voltadas para a expressão sexual dos homens negros[24]. Em suma, o apelo
às normas da comunidade não prejudica a preocupação com o racismo; em vez disso,
isso ressalta essa preocupação.

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Uma segunda dimensão preocupante do processo contra 2 Live Crew foi o aparente
Get started
desrespeito do tribunal pelos aspectos culturalmente enraizados da música de 2 Live
Crew. Esse desrespeito foi essencial para a descoberta de obscenidade, dado o terceiro
ponto do teste de Miller, exigindo que o material julgado obsceno deve, em sua
totalidade, ter um valor literário, artístico ou político[25]. 2 Live Crew argumentou que
este critério do teste de Miller não foi cumprido no caso de Nasty, uma vez que a
gravação exemplificou esses modos culturais afro-americanos como trocar insultos
referentes a parentes, chamar e responder e significar[26]. O tribunal negou cada uma
das reivindicações do grupo de especificidade cultural, recaracterizando em termos
mais genéricos o que 2 Live Crew afirmou ser distintamente afro-americano. De acordo
com o tribunal, trocar insultos referentes a parentes é “comumente visto em
adolescentes, especialmente meninos, de todas as idades”; “vangloriar” parece ser
“parte da condição humana universal”; e as origens culturais de “chamar e responder”
— apresentadas em uma música sobre Nasty sobre fellatio em que os grupos
concorrentes cantavam “menos enchimento” e “gosto excelente” — seriam encontrados
em um comercial de cerveja Miller, não em cultura afro-americana tradicional[27]. A
possibilidade de que o comercial da cerveja Miller tenha se desenvolvido de uma
tradição cultural afro-americana foi aparentemente perdida na corte.

Ao desconsiderar os argumentos feitos em nome da 2 Live Crew, o tribunal negou que a


forma e o estilo da música desagradável e, por implicação, do rap, em geral, tivessem
algum mérito artístico. Essa destruição perturbadora dos atributos culturais do rap e o
esforço para universalizar os modos de expressão afro-americanos são uma forma de
daltonismo que pressupõe nivelar todas as diferenças raciais e étnicas significativas
para julgar os conflitos entre grupos. A análise do tribunal aqui também manifesta uma
estratégia de apropriação cultural frequentemente encontrada. As contribuições afro-
americanas que foram aceitas pela cultura dominante são eventualmente absorvidas
como simplesmente “americanas” ou que se achavam “universais”. Outros modos
associados à cultura afro-americana que resistem à absorção permanecem distintivos e
são negligenciados ou descartados como “desviantes”.

O tribunal, aparentemente, rejeitou também a possibilidade de que mesmo o rap mais


misógino possa ter valor político como discurso de resistência. O elemento de
resistência encontrado em algum rap é fazer as pessoas incômodas, desafiando os
hábitos recebidos de pensamento e ação. Tais desafios são potencialmente políticos,
assim como as tentativas mais subversivas de contestar as regras tradicionais,
tornando-se o que é mais temido[28]. Contra um retrocesso histórico em que o homem

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negro como fora da lei social é um tema proeminente, “o rap do gangsta” pode ser
Get started
tomado como uma rejeição de uma postura conciliadora visando minar o medo através
da tranquilidade, em favor de uma forma de oposição mais subversiva que tenta
desafiar as regras precisamente ao se tornar o fora da lei social que a sociedade teme e
tenta proscrever. As representações de rap que celebram uma sexualidade masculina
negra agressiva podem ser facilmente interpretadas como incompatíveis e
oposicionistas. Não só a leitura do rap dessa maneira impede a descoberta de que Nasty
não tenha valor político, mas também derrota o pressuposto do tribunal de que a
intenção do grupo era apelar apenas para interesses prurientes. Com certeza, essas
considerações levam maior força no caso de outros artistas de rap, como NWA, Too
Short, Ice Cube e The Geto Boys, todos cujas tarifas incluem as representações de
agressão violenta, estupro, estupro seguido de assassinato e mutilação[29]. Na
verdade, se esses outros grupos tivessem sido alvo, em vez de comparativamente
menos ofensivos, 2 Live Crew, eles poderiam vencer com sucesso a acusação. A
violência gráfica em suas representações milita contra uma descoberta de obscenidade,
sugerindo a intenção de não apelar para interesses prurientes, mas em vez de mais
expressamente políticos. Enquanto a violência for vista como distinta da sexualidade, a
exigência de interesse pruriente pode fornecer um escudo para os artistas de rap mais
violentos. No entanto, mesmo esta dicotomia um tanto formalista pode proporcionar
pouca consolação a esses artistas de rap, dados os vínculos históricos que foram feitos
entre a sexualidade masculina negra e a violência. Na verdade, tem sido o espectro da
violência que envolve imagens de sexualidade masculina negra que apresentou 2 Live
Crew como um alvo aceitável de uma acusação de obscenidade em um campo que
incluía Andrew Dice Clay e inúmeros outros.

O ponto aqui não é que a distinção entre sexo e violência deve ser rigorosamente
mantida na determinação do que é obsceno ou, mais especificamente, que artistas do
rap cuja tarifa padrão seja mais violenta deve ser protegida. Pelo contrário, esses
grupos mais violentos devem ser muito mais preocupantes do que 2 Live Crew. Meu
ponto de vista é sugerir que os processos de obscenidade dos artistas do rap não fazem
nada para proteger os interesses dos mais diretamente implicados no rap — mulheres
negras. Por um lado, as noções prevalecentes de obscenidade separam a sexualidade
da violência, o que tem o efeito de proteger os grupos mais agressivamente misóginos
da perseguição; por outro lado, os vínculos históricos entre imagens da sexualidade
masculina negra e da violência permitem identificar os rappers “leves” para serem
processados entre todos os outros fornecedores de imagens sexuais explícitas.

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C. Discutindo a Interseccionalidade Get started


Embora os interesses das mulheres negras fossem obviamente irrelevantes no
julgamento da obscenidade do 2 Live Crew, suas imagens ocuparam um lugar
proeminente no caso público que apoiava a acusação. O ensaio de Newsweek de
George Will fornece um exemplo impressionante de como os corpos das mulheres
negras foram apropriados e implantados no ataque mais amplo contra o 2 Live Crew.
Comentando sobre “America’s Slide into the Sewers”, Will lamenta isso

A América hoje é capaz de uma intolerância fantástica sobre o tabagismo ou resíduos


tóxicos que ameaçam a truta. Mas apenas uma sociedade profundamente confusa é mais
preocupada em proteger os pulmões do que as mentes, as trutas do que as mulheres negras.
Nós legislamos contra o tabagismo em restaurantes; cantar “eu com tanto tesão” é um
direito constitucional. A fumaça secundária é cancerígena; a celebração de vaginas
rasgadas é “meras palavras”[30].

Para que alguém não seja enganado em pensar que Will se tornou um aliado de
mulheres negras, a verdadeira preocupação de Will é sugerida por suas repetidas
referências ao estupro da corredora de Central Park. Will escreveu: “Seu rosto estava
tão desfigurado que um amigo levou 15 minutos para identificá-la. ‘Eu reconheci seu
anel’. Você reconhece a relevância de 2 Live Crew?”[31] Enquanto a conexão entre a
ameaça de 2 Live Crew e a imagem do estuprador do homem negro foi sugerida
sutilmente no debate público; é flagrante em toda a discussão de Will. Na verdade, ele
pretende ser o tema central do ensaio. “Fato: alguns membros de uma idade particular
e um bando societário — o que fez 2 Live Crew rico — pisotearam e estupraram a
corredora até a beira da morte, apenas pela diversão disso.”[32] Will diretamente
indica 2 Live Crew no colapso do Central Park através de um diálogo fictício entre ele e
os réus. Respondendo à alegada confissão de um réu de que o estupro era divertido,
Will pergunta: “Onde você pode ter a ideia de que a violência sexual contra as mulheres
é divertida? De uma loja de música, através de fones de ouvido Walkman, de caixas de
som que explodem as letras de rap de 2 Live Crew.”[33] Uma vez que os estupradores
eram jovens homens negros e Nasty apresenta homens negros comemorando de
violência sexual, 2 Live Crew esteve no Central Park naquela noite, proporcionando o
acompanhamento subjacente a um estupro vicioso. Ironicamente, Will rejeitou
precisamente esse tipo de argumento no contexto do discurso racista, com o argumento
de que os esforços para vincular o discurso racista à violência racista pressupõem que
aqueles que ouvem discurso racista irão atuar de forma irrefutável sobre o que

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ouvem[34]. Aparentemente, certo “grupo social” que produz e consome discurso


Get started
racista é fundamentalmente diferente daquele que produz e consome música rap.

Will invoca as mulheres negras — duas vezes — como vítimas desta música. Mas se ele
estivesse realmente preocupado com a ameaça de 2 Live Crew para mulheres negras,
por que a corredora de Central Park figura tão proeminente em sua argumentação? Por
que não a mulher negra no Brooklyn que foi estuprada em uma banda e depois jogada
por um arraial? Na verdade, Will falhou mesmo em mencionar as vítimas negras de
violência sexual, o que sugere que as mulheres negras simplesmente funcionam para
Will como ‘atores substitutos’ para mulheres brancas. O uso de Will do corpo feminino
negro para pressionar o caso contra 2 Live Crew lembra a estratégia do promotor no
romance Native Son, de Richard Wright. Bigger Thomas, o protagonista masculino
negro de Wright, está em julgamento por matar Mary Dalton, uma mulher branca.
Porque Bigger queimou seu corpo, não pode ser estabelecido se Bigger a estupro, então
o promotor traz o corpo de Bessie, uma mulher negra estuprada por Bigger e deixada
para morrer, a fim de estabelecer que Bigger havia estuprado Mary Dalton[35].

Essas considerações sobre seletividade, sobre a negação da especificidade cultural e


sobre a manipulação dos corpos das mulheres negras me convencem que a raça
desempenhou um papel significativo, se não determinante, na formação do caso contra
o 2 Live Crew. Ao usar a retórica antissexista para sugerir uma preocupação com as
mulheres, o ataque contra 2 Live Crew adota as leituras tradicionais da sexualidade
masculina negra. O fato de que os objetos dessas imagens sexuais violentas são
mulheres negras torna-se irrelevante na representação da ameaça em termos da díade
de estuprador negro/vítima branca. O homem negro torna-se o agente da violência
sexual e a comunidade branca se torna sua vítima potencial. O subtexto do julgamento
do 2 Live Crew torna-se assim uma releitura das políticas raciais sexualizadas do
passado.

Enquanto as preocupações com o racismo alimentam minha oposição ao processo de


obscenidade de 2 Live Crew, o apoio acrítico para e mesmo a celebração de 2 Live Crew
por outros opositores da acusação também é extremamente preocupante. Se a retórica
do antissexismo constituiu uma ocasião para o racismo, também a retórica do
antirracismo proporcionou uma ocasião para defender a misoginia de 2 Live Crew. Essa
defesa assumiu duas formas, uma política e outra cultural, ambas arguidas
proeminentemente por Henry Louis Gates. A defesa política de Gates argumenta que 2
Live Crew avança na agenda antirracista exagerando os estereótipos da sexualidade
masculina negra “para mostrar o quanto são ridículos”[36]. A defesa afirma que, ao
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destacar ao extremo o sexismo, a misoginia e a violência estereotipicamente associadas


Get started
à sexualidade masculina negra, 2 Live Crew representa um esforço pós-moderno para
“libertar-nos” do racismo que perpetua esses estereótipos[37].

Gates tem razão em afirmar que as reações de Will e outros confirmam que ainda
existem estereótipos raciais, mas mesmo que 2 Live Crew pretendessem explodir esses
estereótipos, sua estratégia era equivocada. Certamente, o grupo calculou
completamente a reação de sua audiência branca, como a polêmica de Will ilustra
amplamente. Ao invés de explodir estereótipos, como Gates sugere, 2 Live Crew, parece
mais razoável argumentar, foi simplesmente (e sem sucesso) tentar ser engraçado.
Afinal, o comércio de estereótipos sexuais tem sido um meio para uma risada barata e a
defesa cultural de Gates a 2 Live Crew reconhece tanto em argumentar a identificação
do grupo com uma tradição cultural claramente afro-americana das “trocas de
insultos” e outras formas de jacância verbal, piadas raquetas e insinuações de proezas
sexuais, todas as quais foram feitas para rir e ganhar o respeito do falante por sua
palavra feiticeira e não para atrapalhar os mitos convencionais da sexualidade
negra[38]. A defesa cultural de Gates de 2 Live Crew, no entanto, lembra esforços
semelhantes em favor do humor racista, que às vezes foi defendido como antirracista
— um esforço para se divertir ou mostrar a ridicularização do racismo. Mais
simplesmente, o humor racista muitas vezes foi desculpado como “apenas brincadeira”
— mesmo as agressões motivadas por raça foram defendidas como simples
brincadeiras. Assim, o racismo de um Andrew Dice Clay poderia ser defendido em
ambos os modos como uma tentativa de explodir estereótipos racistas ou como um
humor simples que não deveria ser levado a sério. Implícito nessas defesas é o
pressuposto de que as representações racistas são prejudiciais apenas se pretendem
ferir ou se forem tomadas literalmente ou são desprovidas de algum outro objetivo não-
racista. É altamente improvável que essa justificativa seja aceita pelos negros como
uma defesa persuasiva da Andrew Dice Clay. Na verdade, a crítica histórica e contínua
da comunidade negra sobre esse humor sugere a rejeição generalizada desses
argumentos.

A afirmação de que uma representação se entende simplesmente como uma piada pode
ser verdadeira, mas a brincadeira funciona como humor dentro de um contexto social
específico em que frequentemente reforça padrões de poder social. Embora o humor
racial às vezes possa ser destinado a ridicularizar o racismo, a estreita relação entre os
estereótipos e as imagens prevalecentes das pessoas marginalizadas complica essa
estratégia. E certamente, o posicionamento do humorista em relação a um grupo

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direcionado colabora como o grupo interpreta um estereótipo ou gesto potencialmente


Get started
ridículo. Embora se possa argumentar que os comediantes negros têm uma licença
mais ampla para comercializar imagens estereotipicamente racistas, esse argumento
não tem força aqui. 2 Live Crew não pode reivindicar um privilégio no grupo para
perpetuar o humor misógino contra as mulheres negras: os membros da 2 Live Crew
não são mulheres negras e, mais importante, eles desfrutam de um relacionamento de
poder sobre elas.

O humor em que as mulheres são objetificadas como pacotes de partes corporais para
servir qualquer ligação masculina/competição masculina necessitem homens que se
agradem em subordinar as mulheres da mesma forma que o humor racista subordina
os afro-americanos. Reivindica que as incidências de tal humor são apenas piadas e não
se destinam a ferir ou a ser tomadas, literalmente, pouco para frustrar sua qualidade
degradante — nem, na verdade, o fato de que as piadas são contadas dentro de uma
tradição cultural intergrupo.

A noção de que o sexismo pode servir para fins antirracistas tem proponentes que vão
desde Eldridge Cleaver[39] a Shahrazad Ali[40], todos parecem esperar que as
mulheres negras sirvam como veículos para a realização de uma “libertação” que
funcione para perpetuar sua própria subordinação[41]. As reivindicações de
especificidade cultural também não justificam a tolerância da misoginia[42]. Enquanto
a defesa cultural de 2 Live Crew tem a virtude de reconhecer o mérito em uma forma
de música comum à comunidade negra, algo que George Will e o tribunal que
condenou 2 Live Crew foram muito gentis em descartar, não elimina a necessidade de
questionar tanto o sexismo dentro da tradição que defende como os objetivos a que a
tradição foi pressionada. O fato de que trocar insultos relacionados aos parentes dos
outros, digamos, está enraizado na tradição cultural negra, ou que os temas
representados por heróis populares míticos como “Stackolee” são afro-americanos, não
resolve a questão de saber se essas práticas oprimem as mulheres negras[43]. Se essas
práticas são uma parte distintiva da tradição cultural afro-americana decididamente
não vem ao ponto. A verdadeira questão é como os aspectos subordinados dessas
práticas se desempenham na vida das pessoas na comunidade, pessoas que
compartilham os benefícios e os encargos de uma cultura comum. No que diz respeito
ao 2 Live Crew, embora possa ser verdade que a comunidade negra aceitou as formas
culturais que evoluíram para o rap, essa aceitação não deve impedir a discussão sobre
se a misoginia dentro do rap é aceitável.

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Com respeito às defesas políticas e culturais de Gates de 2 Live Crew, então, pouco se
Get started
mostra se o “jogo de palavras” realizado pela tripulação é um desafio pós-moderno à
mitologia sexual racista ou simplesmente uma prática de grupo interno que atravessou
a América corrente. Ambas as defesas são problemáticas porque exigem que as
mulheres negras adotem a misoginia e o seu desrespeito e exploração ao serviço de
algum objetivo coletivo mais amplo, quer seja prosseguir uma agenda política
antirracista ou manter a integridade cultural da comunidade negra. Nenhum objetivo
obriga as mulheres negras tolerar tal misoginia.

Da mesma forma, os esforços superficiais do movimento anti-2 Live Crew para vincular
a acusação da equipe com a vitimização das mulheres negras tiveram pouco a ver com
a vida das mulheres negras. Aqueles que desdobraram mulheres negras ao serviço da
condenação de representações misóginas de 2 Live Crew não o fizeram no interesse de
capacitar mulheres negras; em vez disso, tinham outros interesses em mente, cuja
busca era subordinada racialmente. A implicação aqui não é que as feministas negras
devem ser solidárias com os apoiantes de 2 Live Crew. A defesa enérgica de 2 Live Crew
não era mais sobre a defesa de toda a comunidade negra do que a acusação era sobre a
defesa das mulheres negras. Afinal, as mulheres negras cujo estupro é o sujeito da
representação dificilmente podem considerar o direito de ser representado como
vadias e prostitutas como essenciais para seu interesse. Em vez disso, a defesa
principalmente funciona para proteger a prerrogativa de 2 Live Crew para ser tão
misógino quanto eles querem ser[44].

Dentro da comunidade política afro-americana, as mulheres negras terão que deixar


claro que o patriarcado é uma questão crítica que afeta negativamente a vida, não só
das mulheres negras, mas também dos homens negros. Fazer isso ajudaria a remodelar
as práticas tradicionais para que a evidência do racismo não constituísse uma
justificativa suficiente para o acréscimo acrítico em torno da política misógina e dos
valores patriarcais. Embora a oposição coletiva à prática racista tenha sido e continue
sendo crucialmente importante na proteção dos interesses negros, uma sensibilidade
feminista negra capacitada exigiria que os termos de unidade não reflitam mais as
prioridades com base na contínua marginalização das mulheres negras.

. . .

Sumário

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24/07/2019 “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas” de Kimberle Crensh…

Parte 1. Parte 2. Parte 3. Parte 4. Get started

. . .

Referências e notas de rodapé:


[1] 2 LIVE CREW, AS NASTY AS THEY WANNA BE (Luke Records 1989).

[2] Em junho de 1990, um juiz federal decidiu que as letras de 2 Live Crew referentes a
sodomia e relações sexuais eram obscenas. Skywalker Records, Inc, v. Navarro, 739 F.
Supp. 578, 596 (S.D. Fla. 1990). O tribunal considerou que a gravação apelou para o
interesse mais próspero, era manifestamente ofensivo, conforme definido pela lei
estadual e considerado como um todo, faltava um valor literário, artístico ou político
sério. Id. em 591–96. No entanto, o tribunal também considerou que o escritório do
xerife submeteu a gravação à restrição prévia inconstitucional e, consequentemente,
concedeu atuações permanentes da 2 Live Crew. Id. em 596–604. Dois dias depois que
o juiz declarou a obscena da gravação, membros do 2 Live Crew foram encarregados de
dar uma performance obscena em um clube em Hollywood, Flórida. Especialistas
defendem letras do Live Crew, UPI, 19 de outubro de 1990. Os deputados adjuntos
também prenderam Charles Freeman, um comerciante que estava vendendo cópias da
gravação Nasty. Ver Gene Santoro, How 2B Nasty, NATION, July 2, 1990, em 4. O 11º
circuito inverteu a convicção, Luke Records, Inc. v. Navarro, 960 F 2d 134 (11th Cir.
1992)

[3] Veja George F. Will, America’s Slide into the Sewer, NEWSWEEK, July 30, 1990, em
64.

[4] Id.

[5] Henry Louis Gates, 2 Live Crew, Decoded, N.Y. Times, June 19, 1990, em A23. O
professor Gates, que testemunhou em nome de 2 Live Crew no processo criminal
decorrente de sua performance ao vivo, apontou que os membros da 2 Live Crew se
expressavam em mensagens codificadas e estavam envolvidos em paródia. “Durante
séculos, os afro-americanos foram obrigados a desenvolver formas de comunicação
codificadas para protegê-los do perigo. Alegorias e duplo-significado, palavras
redefinidas para significar seus opostos… habilitaram os negros a compartilhar
mensagens”. Id. Da mesma forma, a paródia é um componente da “tradição da rua”
chamada signifying ou trocando insultos (playing the dozens), que geralmente tem

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sido assinalada e onde o melhor signifier ou “rapper” é aquele que inventa as imagens
Get started
mais extravagantes, as maiores “mentiras”, como a cultura diz.” Id.

[6] Testemunhando durante a perseguição de 2 Live Crew por obscenidade, Gates


argumentou que “uma das coisas brilhantes sobre essas quatro músicas é que eles
abraçam esse estereótipo [dos negros que têm órgãos sexuais excessivamente grandes
e sendo indivíduos hiperssexualizadas]. Eles o nomeiam e eles explodem. Você não
pode ter nenhuma reação, mas repreender o riso. O fato de que eles estão sendo
cantados por quatro jovens negros viris é inescapável para o público”. Laura Parker,
Rap Lyrics Likened To Literature; Witness in 2 Live Crew Trial Cites Art, Parody,
Precedents, Wash. Post, Oct. 20, 1990, em OI.

[7] Compare Gates, supra nota 142 (rotulando o braggadocio de 2 Live Crew como
“carnivalesco sexual”) com Will, supra nota 140 (caracterizando 2 Live Crew como
“animais baixos”).

[8] Veja nota 143 supra.

[9] Embora eu tenha elegido imprimir algumas das linguagens reais de Nasty, grande
parte do debate sobre este caso prosseguiu sem qualquer discussão específica sobre as
letras. Há motivos para evitar repetir esse material sexualmente explícito. Entre os mais
convincentes, a preocupação de apresentar letras fora de seu contexto musical mais
completo dificulta uma compreensão complexa e apreciação da forma de arte do
próprio rap. Fazer isso também essencializa uma dimensão da obra de arte — suas
letras — para defender o todo. Finalmente, concentrar-se na produção de um único
grupo pode contribuir para a impressão de que esse grupo — aqui, 2 Live Crew —
representa justamente todos os rappers.

Reconhecendo esses riscos, acredito que seja importante incorporar excertos das letras
da equipe nesta análise. Não só as letras são legalmente relevantes em qualquer
discussão substantiva da acusação de obscenidade, mas também sua inclusão aqui
serve para revelar a profundidade da misoginia que muitas mulheres afro-americanas
devem lidar para defender 2 Live Crew. Isto é particularmente verdadeiro para as
mulheres afro-americanas que foram abusadas sexualmente pelos homens em suas
vidas. Claro, também é o caso de muitas mulheres afro-americanas que estão
preocupadas com a degradação sexual de mulheres negras em alguma música rap
podem desfrutar da música rap em geral.

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[10] NOTA DA TRADUÇÃO: Cunt é um termo de desrespeito a mulher. Considerado


Get started
por muitos como a palavra mais ofensiva na língua inglesa.

[11] Veja geralmente 2 LIYE CREW, supra nota 138; N.W.A., STRAIGHT GOTTA
COMPTON (Priority Records, Inc. 1988); N.W.A., N.W.A. & THE POSSE (Priority
Records, Inc. 1989).

[12] NOTA DA TRADUÇÃO: Braggadocio é um tipo de rap em que o MC se gaba por


demais e pode incluir temas como físico, capacidade de lutar, riqueza, proeza sexual ou
frieza. Veja mais em: Edwards, Paul (2009). How to Rap: The Art & Science of the Hip-
Hop MC. Chicago Review Press, ISBN 1–55652–816–7.

[13] Há um apoio considerável para a afirmação de que o julgamento de 2 Live Crew e


outros grupos de rap é uma manifestação de repressão seletiva da expressão negra que
não é mais racista ou sexista do que a expressão por grupos não-negros. O exemplo
mais flagrante é a decisão da Geffen Records de não distribuir um álbum pelo ato rap,
Geto Boys. Geffen explicou que “até que ponto o álbum Geto Boys glamouriza e
possivelmente endossa violência, racismo e misoginia nos compele a encorajar o Def
American (o rótulo do grupo) a selecionar um distribuidor com maior afinidade por
essa expressão musical”. Greg Ket, No Safe, Citing Explicit Lyrics, Distributor Backs
Away From Geto Boys Album, Chicago Trib., Sept. 13, 1990, § 5, em 9. Geffen,
aparentemente, tem uma maior afinidade por pessoas como Andrew Dice Clay e Guns
‘N Roses, atos não-negros que foram atacados por comentários racistas e sexistas.
Apesar das críticas de Guns ‘N Roses para letras que incluem “negros” e “piadas” de
Clay sobre os nativos americanos (ver nota 150 infra), a Geffen continuou a distribuir
suas gravações. Id.

[14] Veja Derrick Z. Jackson, Why Must Only Rappers Take the Rape, Boston Globe,
June 17, 1990, em A17.

[15] NOTA DA TRADUÇÃO: Eenie, meenie, miney, moe que pode ser escrito de várias
maneiras — é uma contagem de rima para crianças, usado para selecionar uma pessoa
em jogos como tag.

[16] Id. em A20. Não só Clay exibe o sexismo comparável, senão maior que o de 2 Live
Crew, ele também intensifica o nível de ódio ao fazer racismo: “Indianos, pessoas
espertas, hein? Eles ainda estão vivendo em [expletivo] tendas. Eles mereceram isso.
Eles são idiotas como [expletivo].’” Id. (citando Clay).

https://medium.com/revista-subjetiva/mapeando-as-margens-interseccionalidade-políticas-de-identidade-e-violência-contra-mulheres-não-388… 15/26
24/07/2019 “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas” de Kimberle Crensh…

Um comentarista perguntou: “O que separa Andrew Dice Clay e 2 Live Crew? Resposta:
Get started
Andrew Dice Clay, drogado, está sendo perseguido pelos produtores de “Saturday
Night Live”. 2 Live Crew, que costuma utilizar palavrãos, está sendo perseguido pela
polícia”. Id. em Al7. Quando Clay apareceu no Saturday Night Live, uma controvérsia
foi provocada porque a membro do elenco Nora Dunn e a convidada musical Sinead
O’Connor se recusaram a aparecer. Jean Seligman, Dicey Problem, NEWSWEEK, 21 de
maio de 1990, em 95.

[17] Jane Sutton, Untitled, 2 Live Crew, UPI, Oct. 18, 1990.

[18] Processar 2 Live Crew, mas não Clay, pode ser justificado pelo argumento de que
existe uma distinção entre “obscenidade”, definida como expressões de interesses
prurientes e “pornografia” ou “discurso racista”, definidos como expressões de
misoginia e ódio racial, respectivamente. Expressões prurientes de 2 Live Crew
poderiam ser processadas como obscenidade constitucionalmente desprotegida,
enquanto as expressões racistas e misóginas protegidas de Clay não podiam. Tal
distinção foi submetida a análise crítica. Veja Catharine A. MacKinnon, Not A Moral
Issue, 2 YALE L. & POL’Y REV. 321 (1984). A distinção não explica por que outras
expressões que apelam mais diretamente para “interesses prurientes” não são
processadas. Além disso, o apelo pruriente de 2 Live Crew é produzido, pelo menos em
parte, através da degradação das mulheres. Consequentemente, não pode haver
distinção convincente entre o recurso que Clay faz e o de 2 Live Crew.

[19] Sutton, supra nota 151.

[20] Skywalker Records, Inc. v. Navarro, 739 F. Supp. 578, 589 (S.D. Fia 1990). O
tribunal rejeitou o argumento dos arguidos de que “a admissão de outras obras
sexualmente explícitas” tem direito a um grande peso na determinação dos padrões
comunitários e afirmou que “esse tipo de evidência nem sequer deve ser considerado,
mesmo que os trabalhos comparáveis tenham sido encontrados não obscenos”. Id.
(citando Hamling v. United States, 418 U.S. 82, 126–27 (1974)). Embora o tribunal
tenha dado “algum peso” a escritos sexualmente explícitos em livros e revistas, a fita de
áudio de Eddie Murphy de Raw e a gravação de Andrew Dice Clay, não explicou por
que essas mensagens verbais “análogas ao formato na gravação Nasty” também não
eram obscenos. Id.

[21] Um relatório sugeriu que a denúncia veio de um advogado, Jack Thompson.


Thompson continuou sua campanha, expandindo sua rede para incluir artistas de rap,

https://medium.com/revista-subjetiva/mapeando-as-margens-interseccionalidade-políticas-de-identidade-e-violência-contra-mulheres-não-388… 16/26
24/07/2019 “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas” de Kimberle Crensh…

os Geto Boys e Too Short. Sara Rimer, Obscenity or Art? Trial on Rap Lyrics Opens, N. Y.
Get started
Times, Oct. 17, 1990, em Al. Apesar da aparência da aplicação seletiva, é duvidoso que
qualquer tribunal seja persuadido de que a motivação racial necessária foi comprovada.
Mesmo a evidência de disparidade racial nas mais pesadas penas criminais — a
sentença de morte — é insuficiente para justificar a ausência de evidências específicas
de discriminação no caso do réu. Ver McClesky v. Kemp, 481 U. S. 279 (1987).

[22] Veja notas 101–104 supra e texto que os acompanha.

[23] Alguns críticos especulam que a acusação de 2 Live Crew tem menos a ver com a
obscenidade do que com o policiamento tradicional de homens negros, especialmente
no que diz respeito à sexualidade. Questionando se 2 Live Crew é mais obsceno do que
Andrew Dice Clay, Gates afirma: “Claramente, este grupo de rap é visto como mais
ameaçador do que outros que são tão sexualmente explícitos. Isso pode ser
completamente independente do espectro do jovem negro como uma figura de
perturbação sexual e social, os próprios estereótipos que 2 Live Crew parece
determinado a minar?” Gates, supra nota 142. Clarence Page faz um ponto semelhante,
especulando que “2 Live Crew tornou-se o bode expiatório para a frustração
generalizada compartilhada por muitos negros e brancos em uma ampla gama de
problemas sociais que parecem ter ficado fora de controle”. Clarence Page, Culture,
Taste and Standard-Setting, Chicago Trib., Oct. 7, 1990, § 4, em 3. Page implica, no
entanto, que esta explicação seja algo mais ou diferente do racismo. “Poderia ser
(tambores, por favor) o racismo? Ou poderia ser medo?” Id. (ênfase adicionada). A
definição de racismo de Page, aparentemente, não inclui a possibilidade de que é
racista atacar os próprios medos e desconfortos da sociedade a um “outro”
subordinado e altamente estigmatizado. Em outras palavras, o bode expiatório, pelo
menos neste país, tradicionalmente foi, e ainda é, considerado racista, seja qual for a
fonte do medo.

[24] Mesmo na era atual, esse vigilantismo às vezes é tragicamente expresso. Yusef
Hawkins tornou-se vítima dele em Nova York em 23 de agosto de 1989, quando foi
morto por uma multidão de homens brancos que acreditavam estar protegendo “suas”
mulheres de serem tomadas por homens negros. UPI, 18 de maio de 1990. Jesse
Jackson chamou Hawkins por matar em um “linchamento racial e sexualmente
motivado” e comparou-o com o assassinato de 1951 com o jovem negro de Mississippi,
Emmett Till, que foi morto por homens que achavam que ele assobiava a uma mulher
branca. Id. Mesmo aqueles que negaram os maus-tratos raciais do assassinato de
Hawkins produziram explicações alternativas que faziam parte da mesma narrativa
https://medium.com/revista-subjetiva/mapeando-as-margens-interseccionalidade-políticas-de-identidade-e-violência-contra-mulheres-não-388… 17/26
24/07/2019 “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas” de Kimberle Crensh…

histórica. Artigos sobre o incidente de Hawkins incidiram sobre Gina Feliciano como a
Get started
causa do incidente, atacando sua credibilidade. Veja, por exemplo, Lorrin Anderson,
Cracks in the Mosaic, NAT’L REV., 25 de junho de 1990, em 36. “Gina instigou o
problema… Gina consumiu drogas e, aparentemente, ainda consome. Ela abandonou
um programa de reabilitação antes de testemunhar no julgamento “e depois foi pega
pela polícia e” acusada de possuir cocaína — 15 frascos de crack caíram da bolsa, disse
à polícia e ela tinha um pouco no sutiã”. Id. em 37. No julgamento, o advogado de
defesa Stephen Murphy afirmou que Feliciano “mentiu… perjurou-se… Ela divide,
polariza oito milhões de pessoas…. É desprezível o que fez, tornando este um incidente
racial”. Id. (citando Murphy). Mas as feministas atacaram o “bode expiatório” de
Feliciano, afirmando: “Não só as mulheres são vítimas de violência masculina, são
culpadas por isso”. Alexis Jetter, Protesters Blast Scapegoat Tactics, Newsday, Apr. 3,
1990, em 29 (citando Françoise Jacobsohn, presidente do capítulo de Nova York da
Organização Nacional das Mulheres). De acordo com Merle Hoffman, fundadora da
New York Pro-Choice Coalition, “a vida pessoal de Gina não tem nada a ver com o
crime… mas tenha a certeza, eles entrarão em sua história sexual… Tudo é parte da
ideia do ‘Ela me fez fazer isso’”. Id. (citando Hoffman). E o colunista de Nova York,
Ilene Barth, observou que

Gênero… tem um papel na guerra racial de Nova York. Dedos foram apontados em
Benson Hurst na semana passada em uma adolescente… [que] nunca prejudicou
ninguém…. A palavra de seu convite ofendia os cravos locais, brotando macho-freaks
determinados a possuir o relvado local e as mulheres jovens em seu grupo étnico… As
mulheres não fizeram as manchetes como parte das bandas de pilhagem com intenção
de agressão racial. Mas eles se numeram entre suas vítimas”.

Ilene Barth, Let the Women of Benson Hurst Lead Usina Prayer Vigil, Newsday, Sept. 3,
1989, at 10.

[25] A Suprema Corte articulou seu padrão de obscenidade em Miller v. California,


413 U.S. 15 (1973), reh’g negado, 414 US 881 (1973). O Tribunal considerou que as
orientações básicas para as pessoas responsáveis pela investigação e decisão do caso
judicial dos fatos eram (A) “se a ‘pessoa média, aplicando padrões comunitários
contemporâneos’, consideraria que o trabalho, como um todo, atrai o interesse
pruriente”; (B) “se o trabalho descreve, de forma manifestamente ofensiva, uma
conduta sexual especificamente definida pela lei estadual aplicável”; e © “se o
trabalho, no seu conjunto, não possui um valor literário, artístico, político ou científico
sério”. Id. em 24 (citações omitidas).
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[26] Veja Gates, supra nota 142.


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[27] Skywalker Records, Inc., v. Navarro, 739 F. Supp. 578, 595 (S.D. Fia. 1990). A
apropriação comercial do rap é prontamente aparente na cultura pop. Os comerciais de
refrigerantes e fast food agora apresentam rap mesmo que o estilo às vezes seja
apresentado sem a sua face racial/cultural. As batatas fritas dançantes do McDonald’s e
o Pillsbury Doughboy entraram no ato de rap. O crossover do rap não é o problema; em
vez disso, é a tendência, representada em Skywalker, rejeitar as origens culturais da
linguagem e das práticas que são perturbadoras. Isso faz parte de um padrão geral de
apropriação cultural que antecede a controvérsia do rap. Mostramente ilustrado em
música e dança, pioneiros culturais como Little Richard e James Brown foram
espremidos do seu lugar na consciência popular para dar espaço para Elvis Presley,
Mick Jagger e outros. O aumento meteórico do rapper branco Vanilla Ice é um exemplo
contemporâneo.

[28] Gates argumenta que 2 Live Crew está prejudicando o “espectro do jovem negro
como uma figura de ruptura sexual e social”. Gates, supra nota 142. Diante de
“estereótipos racistas sobre a sexualidade negra”, ele explica, “você pode fazer uma das
duas coisas: você pode desautorizá-las ou explodi-las com exagero”. Id. 2 Live Crew,
sugeriu Gates, optou por explodir o mito parodiando os exageros da “do sexo negro
entre mulheres e homens”. Id.

[29] Outros atos de rap que foram destacados por suas letras violentas incluem Ice
Cube, the Geto Boys e Too Short. Veja, por exemplo, lCE CUBE, KILL AT WILL (Gangsta
Boogie Music (ASCAP)/ UJAMA Music, Inc. 1990); GETO BOYS, THE GETO BOYS (N-
The-Water Music, Inc. (ASCAP) 1989); TOO SHORT, SHORT DOO’S IN THE HOUSE
(RCA Records 1990). Nem todas as letras de rap são misóginas. Além disso, mesmo os
atos misóginos também expressam uma visão política do mundo. As diferenças entre os
grupos de rap e o valor artístico do meio às vezes são ignoradas pelos críticos
convencionais. Veja, por exemplo, Jerry Adler, The Rap Altitude, NEWSWEEK, Mar. 19,
1990, em 56, 57 (rotulando o rap como um subproduto “bombástico,
autoagrandatório” da crescente “cultura de Atitude”). O tratamento de rap dos
adolescentes provocou uma tempestade de respostas. Veja, por exemplo, Patrick
Goldstein, Pop Eye: Rappers Don’t Have Time For Newsweek’s Attitude, L.A. Times,
Mar. 25, 1990, em 90 (Magazine). Disse Russell Simmons, presidente da Def-Jam
Records, o rótulo mais bem sucedido do rap: “Certamente, a indignação moral na peça
[de Adler] seria melhor aplicada às crises americanas contemporâneas em saúde,
educação, sem-teto… Culpar as vítimas — neste caso da classe trabalhadora negra da
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América e da subclasse — nunca é uma abordagem muito útil para a resolução de


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problemas “. Id. (citando Simmons).

[30] Veja Will, supra nota 140.

[31] Id.

[32] Id.

[33] Id.

[34] Veja George F. Will, On Campuses, Liberal’s Would Gag Free Speech, Newsday,
Nov. 6, 1989, em 62.

[35] RICHARD WRJGHT, NATIVE SON 305–08 (Perennial Library ed. 1989) (1940).
Wright escreveu:

Apesar de ter matado uma garota negra e uma garota branca, ele sabia que seria pela
morte da garota branca que ele seria punido. A menina negra era meramente
“evidência”. E sob tudo, ele sabia que os brancos realmente não se importavam com o
assassinato de Bessie. As pessoas brancas nunca procuraram por negros que mataram
outros negros,

Id. em 306–07.

[36] Gates, supra nota 142. A defesa de Gates de 2 Live Crew retratou o grupo como
envolvido na guerrilha pós-moderna contra estereótipos racistas de sexualidade negra.
Diz Gates, “A música de 2 Live Crew exagera os estereótipos de homens e mulheres
negras para mostrar o quão ridículo são esses retratos. Uma das coisas brilhantes sobre
essas músicas é que eles abraçam os estereótipos…. É ridículo. É por isso que nós rimos
sobre. Essa é uma das coisas que notei na reação da audiência. Não há nenhum
fundamento na violência. Há risadas, há alegria.” Id. Gates repete o tema de
celebridades em outros lugares, ligando 2 Live Crew a Eddie Murphy e outros artistas
do sexo masculino negros, porque

eles estão dizendo todas as coisas que não poderíamos dizer, mesmo na década de
1960, sobre nossos próprios excessos, coisas que só podíamos sussurrar em salas
escuras. Eles estão dizendo que vamos explodir todas essas vacas sagradas. É
fascinante e é perturbador para todos — não apenas pessoas brancas, mas pessoas
negras. Mas é um momento libertador.
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John Pareles, An Album is Judged Obscene; Rap: Slick, Violent, Nasty and, Maybe
Get started
Hopeful, N. Y. Times, June 17, 1990, em 1 (citando Gates). Para uma análise
interseccional convincente do apelo popular de Eddie Murphy, veja Herman Beavers,
The Cool Pose: Intersectionality, Masculinity and Quiescence in the Comedy and Films
of Richard Pryor and Eddie Murphy(manuscrito inédito) (no arquivo com o Stanford
Law Review).

[37] Gates e outros que defendem 2 Live Crew como heróis cômicos pós-modernos
tendem a descartar ou minimizar a misoginia representada em seu rap. Disse Gates:
“Seu sexismo é tão flagrante, no entanto, que quase se cancela em uma guerra
hiperbólica entre os sexos”. Gates, supra nota 142.

[38] Veja nota 142 supra.

[39] Veja nota 47 supra.

[40] Veja notas 37–42 supra e o texto acompanhando.

[41] Gates ocasionalmente afirma que ambas as imagens de homens e mulheres negras
são explodidas por 2 Live Crew. Mesmo que a visão de Gates seja válida para imagens
de homens negros, a estratégia não funciona e não deveria funcionar — para mulheres
negras. As mulheres negras não são os atores da estratégia 2 Live Crew; elas são
incentivadas. Para desafiar as imagens das mulheres negras, as próprias mulheres
negras deveriam abraçá-las e não simplesmente permitir que os homens negros
“atuem” neles. Os únicos grupos de raps do sexo feminino negro que poderiam pensar
tal estratégia são Bytches With Problems and Hoes With Altitudes. No entanto, tendo
ouvido a música desses grupos de rap negro feminino, não tenho a certeza de que
explodir imagens racistas seja sua intenção ou efeito. Isto não quer dizer, é claro, que
todo rap feminino negro esteja sem suas estratégias de resistência. Veja a nota 179
infra.

[42] É interessante que, se os que julgassem o caso do 2 Live Crew em frente ou contra,
todos pareciam rejeitar a noção de que a raça tem algo a ver com sua análise. Veja
Skywalker Records, Inc. v. Navarro, 739 F. Supp. 578, 594–96 (S.D. Fia 1990)
(rejeitando a disputa de defesa de que 2 Live Crew Nasty tem valor artístico como
expressão cultural negra); veja também Sara Rimer, Rap Band Members Found Not
Guilty in Obscenity Trial, N.Y. Times, Oct. 21, 1990, em A30 (“Os jurados disseram que
não concordaram com a afirmação da defesa de que a música do 2 Live Crew deveria
ser entendida no contexto da cultura negra. Eles disseram que a raça não tinha nada a
https://medium.com/revista-subjetiva/mapeando-as-margens-interseccionalidade-políticas-de-identidade-e-violência-contra-mulheres-não-388… 21/26
24/07/2019 “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas” de Kimberle Crensh…

ver com isso”). Clarence Page também rejeita o argumento de que o NASTY de 2 Live
Get started
Crew deve ser avaliado como expressão cultural negra: “Não penso que 2 Live Crew
pode ser dito em representar a cultura negra mais do que, digamos, Andrew Dice Clay
pode ser dito representar a cultura branca. Em vez disso, penso que ambos
representam uma falta de cultura”. Veja a página, supra nota 157.

[43] Os homens homossexuais também são alvo de humor homofóbico que pode ser
defendido como culturalmente específico. Considere o humor homofóbico de
comediantes como Eddie Murphy, Arsenio Hall e Damon Wayans e David Alan Grier, os
dois atores que atualmente retratam homens gays negros no programa de televisão em
Living Color. Os críticos ligaram essas representações homofóbicas de homens
homossexuais negros a padrões de subordinação dentro da comunidade negra. O
cineasta gay negro Marlon Riggs argumentou que tais caricaturas desacreditam a
alegação dos homens gays negros sobre a masculinidade negra, apresentando-os como
“jogo para jogar, para ser usado, brincando, derrubado, espancado, golpeado, não
apenas por bandidos homofóbicos analfabetos da noite, mas pela melhor cultura
americana negra”. Marlon Riggs, Black Macho Revisited: Rejections of a SNAP! Queen,
in BROTHER TO BROTHER: NEW WRITINGS BY BLACK GAY MEN 253, 254 (Essex
Hemphill ed. 1991); veja também Blair Fell, Gayface/Blackface: Parallels of
Oppression, NYQ, Apr. 5, 1992, em 32 (desenhando paralelos entre gayface e blackface
e argumentando que “a comédia contemporânea utilizando gayface… serve como uma
ferramenta para acalmar as consciências culpadas e perpetuar as injustiças da
humilhação aos homossexuais da América. Afinal, rir de algo quase humano é mais
fácil do que lidar com balas disparadas, caveiras, corpos moribundos e demandas de
direitos civis”).

[44] Embora grande parte do sexismo que se expressa no rap permeia a indústria, as
rappers que são mulheres negras ganharam um ponto de apoio e empreenderam
diversas estratégias de resistência. Para alguns, sua própria presença no rap desafia os
pressupostos prevalecentes de que o rap é uma tradição masculina negra. Veja Tricia
Rose, One Queen, One Tribe, One Destiny, VILLAGE VOICE ROCK & ROLL QUARTERL
Y, Spring 1990, em 10(Desenhando o perfil de Queen Latifah, amplamente
considerada como uma das melhores rappers femininas). Embora Latifah tenha
evitado a abordagem inicial, seu rap e seus vídeos são muitas vezes centrados nas
mulheres, como exemplificado por seu single, “Ladies First.” QUEEN LATIFAH, ALL
HAIL THE QUEEN (Tommy Boy 1989). O vídeo “Ladies First” apresentou outros raps
femininos, “mostrando uma profundidade de solidariedade feminina nunca antes

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vista”. Rose, supra, em 16. Rappers como Yo-Yo, “primeira ativista feminista
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autoproclamada do hip-hop”, leva uma linha mais conflituosa; por exemplo, duelos Yo-
Yo diretamente com o rapper Ice Cube em “It’s a Man’s World”. Joan Morgan, Throw
the ‘F’, Village Voice, June 11, 1991, em 75.

Algumas rappers femininas, como Bytches with Problems, tentaram subverter as


categorias de cadelas e putas, assumindo as denominações e infundindo-as com poder.
Como observa Joan Morgan,

é prática comum para os povos oprimidos neutralizar os termos de depreciação,


adotando-os e redefinindo-os. A decisão de Lyndah McCaskill e Tanisha Michelle
Morgan de definir a cadela “como uma mulher forte, que não aceita destrato de
ninguém, seja homem ou mulher” e encoraja as mulheres a “usar o título como
emblema de honra — e continuar recebendo o seu” não diferem significativamente dos
negros optando por usar a palavra nigger ou gays abraçando queer.

Id. No entanto, no caso das Bytches, Joan Morgan finalmente encontrou a tentativa
infrutífera, em parte porque a subversão operava apenas como uma exceção para
poucas (“Lynda e Tanisha Michelle são as únicas B-Y-T-C-H aqui, todas as outras
mulheres de que falam sobre, incluindo o acidente menstrual, a mulher cujo namorado
Lyndah fode e qualquer outra pessoa que não gosta do estilo delas, são B-I-T-C-H no
sentido muito masculino da palavra”) e porque, em última instância, sua visão de
mundo serve para reinscrever o poder masculino. Disse Morgan: “É uma capitulação
feminina cansada de um pensamento sexista e patriarcal antigo: o poder está na pistola
ou no pênis”. Id.

Feminism Racism Feminismo Racismo Intersectionality

252 claps

WRITTEN BY

Carol Correia

Ativista antiprostituição e Formada em Direito (pós em


Constitucional e Processo Penal). Acessem também:
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“Mapeando as margens:
interseccionalidade, políticas de
identidade e violência contra mulheres
não-brancas” de Kimberle Crenshaw —
Parte 4/4
Carol Correia
Sep 16, 2017 · 9 min read

Imagem de Kimberle Crenshaw

Escrito por: Kimberlé Williams Crenshaw; professora de Direito na Universidade da


Califórnia, Los Angeles, B.A. Universidade de Cornell, 1981; J.D. Escola de Direito de
Harvard, 1984; L.L.M. Universidade de Wisconsin, 1985.

Retirado de: https://negrasoulblog.files.wordpress.com/2016/04/mapping-the-


margins-intersectionality-identity-politics-and-violence-against-women-of-color-
https://medium.com/revista-subjetiva/mapeando-as-margens-interseccionalidade-políticas-de-identidade-e-violência-contra-mulheres-não-31d7c… 1/10
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kimberle-crenshaw1.pdf
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Traduzido por Carol Correia, a fim de aumentar a discussão referente a violência


contra mulheres, em especial a mulheres não-brancas.

Observação: esta tradução será dividida em 4 partes, devido ao espaço no medium e a


fim de melhorar a divulgação e disponibilização do texto.

. . .

CONCLUSÃO
Este artigo apresentou interseccionalidade como forma de enquadrar as várias
interações de raça e gênero no contexto da violência contra as mulheres não-brancas.
No entanto, a interseccionalidade pode ser mais amplamente útil como forma de
mediação da tensão entre asserções de identidade múltipla e a necessidade contínua de
política grupal. É útil a este respeito distinguir a interseccionalidade da perspectiva
intimamente relacionada do antiessencialismo, de que as mulheres não-brancas têm
comprometido o feminismo branco com a ausência de mulheres não-brancas, por um
lado, e para falar de mulheres não-brancas, por outro. Uma interpretação desta crítica
antiessencialista — que o feminismo essencializa a categoria mulher — deve muito à
ideia pós-moderna de que as categorias que consideramos naturais ou meramente
representativas são realmente socialmente construídas em uma economia linguística
da diferença[1]. Embora o projeto descritivo do pós-modernismo de questionar as
formas em que o significado seja socialmente construído seja geralmente ressoado,
essa crítica às vezes confunde o significado da construção social e distorce sua
relevância política.

Uma versão do antiessencialismo, que incorpora o que pode ser chamado de tese de
construção social vulgarizada, é que, uma vez que todas as categorias são socialmente
construídas, não existe tal coisa, por exemplo, negros ou mulheres, e, portanto, não faz
sentido continuar a reproduzir essas categorias através da organização em torno
deles[2]. Mesmo a Suprema Corte entrou neste ato na Metro Broadcasting, Inc. v.
FCC[3], os conservadores do tribunal, em retórica que escoar vulgar constrangimento
construtório, proclamaram que qualquer retirada destinada a aumentar as vozes das
minorias nas ondas de ar se baseou em uma suposição racista de que a cor da pele está
de alguma forma ligada ao provável conteúdo da própria transmissão[4].

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24/07/2019 “Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas” de Kimberle Crensh…

Mas dizer que uma categoria como raça ou gênero é construída socialmente não é dizer
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que essa categoria não tem significado em nosso mundo. Pelo contrário, um grande e
contínuo projeto para pessoas subordinadas — e, de fato, um dos projetos para os quais
as teorias pós-modernas tem sido muito útil — é pensar sobre o modo como o poder se
agrupou em torno de certas categorias e é exercido contra outros. Este projeto tenta
desvendar os processos de subordinação e as várias maneiras pelas quais esses
processos são experimentados por pessoas subordinadas e por pessoas privilegiadas
por eles. É, então, um projeto que presume que as categorias têm significado e
consequências. E o problema mais urgente deste projeto, em muitos casos, se não na
maioria dos casos, não é a existência das categorias, mas sim os valores particulares
que lhes são inerentes e a forma como esses valores promovem e criam hierarquias
sociais.

Isso não é negar que o processo de categorização é em si um exercício de poder, mas a


história é muito mais complicada e matizada do que isso. Primeiro, o processo de
categorização — ou, em termos de identidade, nomeação — não é unilateral. Pessoas
subordinadas podem e participam, às vezes até subvertam o processo de nomeação de
maneira empoderadora. Basta pensar na subversão histórica da categoria “negro” ou
na transformação atual de “queer” para entender que a categorização não é uma via
unidirecional. Claramente, há um poder desigual, mas existe, no entanto, algum grau
de agência que as pessoas podem e exercem na política de nomeação. E é importante
notar que a identidade continua a ser um local de resistência para membros de
diferentes grupos subordinados. Todos nós podemos reconhecer a distinção entre as
reivindicações “Eu sou negro” e a afirmação de “Eu sou uma pessoa que é negra”. “Eu
sou negro” toma a identidade socialmente imposta e fortalece-a como uma âncora de
subjetividade. “Eu sou negro” não é simplesmente uma declaração de resistência, mas
também um discurso positivo de auto identificação, intimamente ligado a declarações
de celebração, como o nacionalista negro “Negro é lindo”. “Eu sou uma pessoa que é
negra”, por outro lado, alcança a auto identificação, esforçando-se por uma certa
universalidade (na verdade, “eu sou primeiro uma pessoa”) e por uma demissão
concomitante da categoria imposta (“negra”) como contingente, circunstancial, não
determinante. Há uma verdade em ambas as caracterizações, é claro. Mas eles
funcionam de forma bastante diferentes, dependendo do contexto político. Neste ponto
da história, pode-se argumentar que a estratégia de resistência mais crítica para grupos
desempoderados é ocupar e defender uma política de localização social em vez de
desocupar e destruí-la.

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O construtor vulgar distorce assim as possibilidades de políticas de identidade


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significativas, combinando pelo menos duas manifestações de poder separadas, mas
intimamente ligadas. Um é o poder exercido simplesmente através do processo de
categorização; o outro, o poder de fazer com que a categorização tenha consequências
sociais e materiais. Enquanto o poder anterior facilita o último, as implicações políticas
de desafiar um sobre o outro são muito importantes. Podemos analisar os debates
sobre a subordinação racial ao longo da história e ver que, em cada caso, houve a
possibilidade de desafiar a construção da identidade ou o sistema de subordinação com
base nessa identidade. Considere, por exemplo, o sistema de segregação em Plessy vs.
Ferguson[5]. Em questão, as dimensões multipessoais da dominação, incluindo a
categorização, o sinal da raça e a subordinação daqueles assim rotulados. Havia pelo
menos dois alvos para Plessy desafiar: a construção da identidade (“O que é um
negro?”) e o sistema de subordinação baseado nessa identidade (“Os negros e brancos
podem se sentar juntos em um trem?”). Plessy realmente fez ambos os argumentos, um
contra a coerência da raça como uma categoria, o outro contra a subordinação
daqueles considerados negros. Em seu ataque contra o primeiro, Plessy argumentou
que o pedido do status de segregação para ele, dado seu status de raça mista, era
inapropriado. O Tribunal recusou-se a ver isso como um ataque à coerência do sistema
racial e, em vez disso, respondeu de uma maneira que simplesmente reproduzia a
dicotomia negra/branca que Plessy estava desafiando. Como sabemos, o desafio de
Plessy ao sistema de segregação também não foi bem sucedido. Ao avaliar várias
estratégias de resistência hoje, é útil perguntar qual dos desafios da Plessy teria sido
melhor para ele ganhar — o desafio contra a coerência do sistema de categorização
racial ou o desafio à prática da segregação?

A mesma pergunta pode ser colocada para Brown vs. Conselho da Educação[6]. Qual
dos dois possíveis argumentos era politicamente mais empoderador — que a
segregação era inconstitucional porque o sistema de categorização racial em que se
baseava era incoerente ou a segregação era inconstitucional porque era prejudicial
para crianças negras e opressiva para suas comunidades? Embora possa ser uma
questão difícil, em sua maior parte, a dimensão da dominação racial que tem sido mais
irritante para os afro-americanos não foi a categorização social como tal, mas a miríade
de maneiras pelas quais aqueles de nós tão definidos foram sistematicamente
subordinados. Com especial atenção aos problemas enfrentados pelas mulheres não-
brancas, quando as políticas de identidade nos falham, como costumam fazer, não é
principalmente porque essas políticas consideram como categorias certos naturais que
são socialmente construídas, mas sim porque o conteúdo descritivo dessas categorias e

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as narrativas sobre que são baseados privilegiaram algumas experiências e excluíram


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outras.

Nesse sentido, considere a controvérsia Clarence Thomas/Anita Hill. Durante as


audiências do Senado para a confirmação de Clarence Thomas ao Supremo Tribunal,
Anita Hill, ao trazer alegações de assédio sexual contra Thomas, foi retoricamente
desempregada em parte porque caiu entre as interpretações dominantes do feminismo
e do antirracismo. Entre os tropos narrativos concorrentes de estupro (avançados pelas
feministas), por um lado e o linchamento (avançado por Thomas e seus partidários
antirracistas), por outro lado, as dimensões de raça e gênero de sua posição não
poderiam ser ditas. Esse dilema poderia ser descrito como a consequência do
antirracismo essencializando a negritude e o feminismo essencializando a
feminilidade. Mas reconhecer tanto não nos leva longe o suficiente, pois o problema
não é simplesmente de natureza linguística ou filosófica. É especificamente político: as
narrativas de gênero são baseadas na experiência das mulheres brancas e de classe
média e as narrativas da raça são baseadas na experiência dos homens negros. A
solução não implica apenas argumentar a multiplicidade de identidades ou o
essencialismo desafiador em geral. Em vez disso, no caso de Hill, por exemplo, teria
sido necessário afirmar os aspectos cruciais de sua localização que foram apagados,
mesmo por muitos de seus defensores — isto é, para indicar a diferença de diferença.

Se, como afirma essa análise, a história e o contexto determinam a utilidade da política
de identidade, como, então, entendemos as políticas de identidade hoje, especialmente
à luz do nosso reconhecimento de múltiplas dimensões da identidade? Mais
especificamente, o que significa argumentar que as identidades de gênero foram
embaralhadas em discursos antirracistas, assim como as identidades raciais foram
embaralhadas nos discursos feministas? Isso significa que não podemos falar sobre
identidade? Ou, em vez disso, que qualquer discurso sobre identidade deve reconhecer
como nossas identidades são construídas através da interseção de múltiplas
dimensões? Uma resposta inicial a estas questões exige que reconheçamos que os
grupos de identidade organizados nos quais nos encontramos são, de fato, coalizões,
ou pelo menos coligações potenciais que esperam ser formadas.

No contexto do antirracismo, reconhecer as maneiras pelas quais as experiências


interseccionais das mulheres não-brancas são marginalizadas nas concepções
prevalecentes de políticas identitárias não requer que desistamos das tentativas de
organização como comunidades não-brancas. Em vez disso, a interseccionalidade
fornece uma base para reconceptualizar a raça como uma coalizão entre homens e
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mulheres não-brancos. Por exemplo, na área de estupro, a interseccionalidade fornece


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uma maneira de explicar por que as mulheres não-brancas têm que abandonar o
argumento geral de que os interesses da comunidade exigem a supressão de qualquer
confronto em torno do estupro inter-racial. A interseccionalidade pode fornecer os
meios para lidar com outras marginalizações também. Por exemplo, a raça também
pode ser uma coalizão de pessoas heterossexuais e homossexuais e assim servir como
base para a crítica das igrejas e outras instituições culturais que reproduzem o
heterosexismo.

Com a identidade assim reconceitualizada, pode ser mais fácil entender a necessidade
e convocar a coragem para desafiar grupos que são afinal, em um sentido, “lar” para
nós, em nome das partes de nós que não são feitas em casa. Isso leva uma grande
quantidade de energia e desperta ansiedade intensa. A maioria poderia esperar é que
nos atreveremos a falar contra exclusões e marginalizações internas, para que
possamos chamar a atenção para como a identidade do “grupo” centrou-se nas
identidades interseccionais de alguns. Reconhecendo que as políticas de identidade
ocorrem no local onde as categorias se cruzam, parece mais frutífero do que desafiar a
possibilidade de falar sobre categorias. Através de uma consciência de
interseccionalidade, podemos reconhecer e fundamentar as diferenças entre nós e
negociar os meios pelos quais essas diferenças se expressarão na construção de
políticas grupais.

. . .

Sumário
Parte 1. Parte 2. Parte 3. Parte 4.

. . .

Referências e notas de rodapé:


[1] Sigo a prática de outros em ligar o anti-essencialismo ao pós-modernismo. Veja
LINDA NICHOLSON, FEMINISM/POSTMODERNISM (1990).

[2] Não quero dizer que todos os teóricos que criaram críticas antiessencialistas
tenham avançado para o construcionismo vulgar. Na verdade, os anti-essencialistas
evitam fazer esses movimentos preocupantes e, sem dúvida, serão receptivos a grande
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parte da crítica aqui exposta. Eu uso o termo construcionismo vulgar para distinguir
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entre as críticas anti-essencialistas que deixam espaço para a política identitária e para
aqueles que não fazem isso.

[3] 110 S. Ct. 2997 (1990).

[4]

A escolha da FCC para empregar um critério racial incorpora as noções relacionadas de


que um ponto de vista particular e distinto é inerente a certos grupos raciais e que um
determinado candidato, em virtude de raça ou etnia, é mais valorizado do que outros
candidatos porque o candidato é “provável de fornecer essa perspectiva distinta”. As
políticas equivalem diretamente à raça com crença e comportamento, pois estabelecem
a raça como uma condição necessária e suficiente para garantir a preferência… As
políticas valorizam inadmissivelmente os indivíduos, porque presumem que as pessoas
pensam de forma associada à sua raça.

Id. Em 3037 (O’Connor, J., juntado por Rehnquist, C.J., e Scalia e Kennedy, J.J.,
dissidentes) (citações internas omitidas).

[5] 163 U.S. 537 (1896)

[6] 397 U.S. 493 (1954)

Feminismo Feminism Racismo Racism Intersectionality

247 claps

WRITTEN BY

Carol Correia

Ativista antiprostituição e Formada em Direito (pós em


Constitucional e Processo Penal). Acessem também:
antiprostituicao.wordpress.com

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