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2020
Revista do NU-SOL — Núcleo de Sociabilidade Libertária
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais PUC-SP
verve
verve
Revista Semestral do Nu-Sol — Núcleo de Sociabilidade Libertária
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP

37
2020
VERVE: Revista Semestral do NU-SOL - Núcleo de Sociabilidade Libertária/
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP.
Nº37 (Junho 2020). São Paulo: o Programa, 2020 - semestral

1. Ciências Humanas - Periódicos. 2. Anarquismo. 3. Abolicio­nismo Penal.

I. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Estudos


Pós-Graduados em Ciências Sociais.

ISSN 1676-9090

VERVE é uma publicação do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária do


Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP (coorde-
nadores: Maura P. B. Veras e Miguel W. Chaia); indexada no Portal de Revistas
Eletrônicas da PUC-SP, no Portal de Periódicos Capes, no LATINDEX e cataloga-
da na Library of Congress, dos Estados Unidos.

Editoria

Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária.

Nu-Sol

Acácio Augusto, Andre Degenszajn, Beatriz Scigliano Carneiro, Edson Passetti


(coordenador), Eliane Carvalho, Flávia Lucchesi, Gustavo Simões, Gustavo
Vieira, Leandro Siqueira, Lúcia Soares, Luíza Uehara, Maria Cecília Oliveira,
Rogério Zeferino Nascimento, Salete Oliveira, Vitor Osório.

Conselho Editorial

Alfredo Veiga-Neto (UFRGS), Cecilia Coimbra (UFF e Grupo Tortura Nunca


Mais/RJ), Christian Ferrer (Universidade de Buenos Aires), Christina Lopreato
(UFU), Clovis N. Kassick (UFSC), Doris Accioly (USP), Guilherme Castelo
Branco (UFRJ), Heliana de Barros Conde Rodrigues (UERJ), Margareth Rago
(Unicamp), José Maria Carvalho Ferreira (Universidade Técnica de Lisboa),
Pietro Ferrua (CIRA – Centre Internationale de Recherches sur l’Anarchisme),
Rogério Zeferino Nascimento (UFPB), Silvana Tótora (PUC-SP).

Conselho Consultivo

Dorothea V. Passetti (PUC-SP), João da Mata (SOMA), José Carlos Morel


(Centro de Cultura Social – CSS/SP), José Eduardo Azevedo (Unip), Maria
Lúcia Karam, Nelson Méndez (Universidade de Caracas), Silvio Gallo
(Unicamp), Stéfanis Caiaffo (Unifesp), Vera Malaguti Batista (Instituto
Carioca de Criminologia).

ISSN 1676-9090
verve
verve

revista de atitudes. transita por limiares e


instantes arruinadores de hierarquias. nela,
não há dono, chefe, senhor, contador ou
programador. verve é parte de uma associação
livre formada por pessoas diferentes na
igualdade. amigos. vive por si, para uns.
instala-se numa universidade que alimenta o
fogo da liberdade. verve é uma labareda que
lambe corpos, gestos, movimentos e fluxos,
como ardentia. ela agita liberações. atiça-me!

verve é uma revista semestral do nu-sol que


estuda, pesquisa, publica, edita, grava e faz
anarquias e abolicionismo penal.
sumário
velhotes da harmonia
9 hoary of harmony
René Schérer

dossiê anarquismos e o envelhecer


25 o escandaloso envelhecer anarquista
dossie: anarchisms and aging
the scandalous anarchist aging
Flávia Lucchesi e Gustavo Simões (orgs.)

febre e saúde
40 fever and health
[página única 1]
Paul Goodman

amor e servidão, paixão e revolta


42 love and servitude, passion and revolt
Acácio Augusto

a criança e seus inimigos


57 the child and its enemies
Emma Goldman

revolta e anarquia
69 revolta and Anarchy
Edson Passetti

entrevista com joão da mata


87 interview with João da Mata
Nu-Sol & João da Mata

dossiê: a saúde anarquista


estamos vivos: uma breve nota
100 dossiê: anarchist health
we are alive: a brief note
Gustavo Simões (org.)
flecheiras libertárias
116 libertarians arrows
Nu-Sol

roberto ambrosoli: um cartunista libertário


159 roberto ambrosoli: a libertarian cartoonist
Émile Armand

mal
168 evil
[página única 2]
Émile Armand

resenhas
como ensinar molotov aos netos
172 how to teach motov to grandchildren
Lúcia Soares

cúmplices no meio do caminho


180 accomplices on the road
Eliane Carvalho
com todo prazer, esta é a verve 37!
em tempos de contaminação generalizada e de morte terríveis
com pilhas de cadáveres em asilos e hospitais pela europa e
américa, apresentamos, aqui, um texto do filósofo rené schérer
sobre o prazer a partir dos velhos fourieristas. no dossiê
organizado por flávia lucchesi e gustavo simões, libertários
desvelam seus jeitos peculiares de lidar com o envelhecer. o
poeta e dramaturgo paul goodman esquenta ainda mais as
nossas páginas com a sua febre e saúde. a partir do registro
caloroso de uma fala sobre o amor livre, acácio augusto
mostra as diferenças entre o curso das paixões ácratas e a
política oriunda do amor e suas servidões. emma goldman
entra com fôlego, afirmando a educação das crianças e jovens
como relação liberada da propriedade defendida pela família,
incluindo as chamadas progressistas e/ou revolucionárias.
joão da mata distende o arco dos seus tesões atuais e mira
as resistências contemporâneas na somaterapia. ao analisar
os efeitos da revolução moderna, edson passetti situa, no
presente, as associações libertárias pela contundência da
revolta e nas invenções militantistas de anarquistas. com
verve, a saúde anarquista pulsa. nosso segundo dossiê,
acompanha malatesta e o seu combate à cólera, no final do
século XIX, assim como outras vidas surpreendentes, mirando
os combates que enfrentamos hoje com a chamada pandemia
e a proliferação dos fascismos. flecheiras libertárias do nu-sol
alvejam o novo coronavírus no ar e os governos de Estados.
a morte do cartunista anarquista roberto ambrosoli pela
covid-19 é seguida de página única por émile armand, anarco-
individualista, ao desvelar o “mal” com um raro olhar. por fim,
o coquetel molotov ensinado aos netos e outras histórias,
vibram em salvadora onrubia resenhada por lúcia soares. e,
tocando de modo contundente e delicado na américa como
terra sem fronteiras vivida na pele por indígenas contundentes
e anarquistas, eliane carvalho expõe os caminhos do anárquico
aragorn!. esta é a nossa 37, no ar, chegando agora, início de
junho, instante estranho, para fortificar as chamas do fogo e
soltar fogos de artifício. abra a janela, ataque os fascistas, e não
permita que alguém surrupie seus prazeres.
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velhotes da harmonia

velhotes da harmonia1

rené schérer

Aquele que tiver a curiosidade de abrir o pequeno


tratado de Cícero intitulado De senectute (Da velhice),
dedicado aos últimos anos da vida de Catão — que
morreu aos 85 anos e aprendeu grego aos 80 —
encontrará ali, entre outras honras que o exemplo ilustre
do severo estoico permite conceder ao acúmulo dos anos,
particularmente aquela que consiste em atenuar o impulso
amoroso, a seiva erótica e a lubricidade, além de aumentar,
consequentemente, o tempo livre consagrável a atividades
mais úteis que o amor.
Essa ideia luminosa, essa inversão de valores na
hierarquia que valoriza a juventude, fazendo da maturidade

René Schérer é Professor Emérito em Filosofia da Universidade Paris 8 e autor de


extensa obra, destacadamente dedicada a Charles Fourier, à questão da infância e
à proposição de um “anarquismo filosófico”. No Brasil, conhecemos até agora apenas
alguns artigos e entrevistas recentemente publicados, além do livro Infantis:
Charles Fourier e a infância para além das crianças (tradução de Guilherme
João de Freitas Teixeira, Autêntica, 2009) e Coir, álbum sistemático da infância,
escrito em coautoria com Guy Hocquenghem (tradução de Eder Amaral, no prelo).
Contato: ederamaral@uesb.edu.br.

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um apogeu, tornou-se lugar comum no pensamento


clássico. Censores de costumes como o foram, Catão e
Cícero inauguram, ou ao menos demarcam uma tradição
de hostilidade ao desfrute do corpo, por acreditarem que
isso fosse um entrave ao exercício do espírito. É preciso
gozar o menos possível, o desejo é um mal. Nessas
condições, seria ilógico lamentar-se da sua míngua.
A filosofia é o apanágio dos velhotes e filosofar consiste,
desde a juventude, em se antecipar como já velho.
Nem é preciso dizer que, com Fourier2, abordamos
a velhice por uma ótica totalmente distinta. O utopista
inventor da Harmonia através da atração apaixonada de
um novo mundo ao mesmo tempo industrial e amoroso,
cujo princípio é o livre exercício e o impulso de todas as
paixões, torna derrisória a consolação estoica. No entanto,
não é porque ele desconsidere a ideia de que a velhice
possa se tornar “a mais bela idade da vida”; contudo, se
Fourier também se opõe à opinião corrente, é a partir
de uma reviravolta de interpretação em relação a Cícero.
Lançando mão de um estratagema que lhe é habitual, ele
opera uma reversão do problema e maneja o paradoxo.
Essencialmente ele dirá: não há dúvida de que o velho,
privado de prazeres e desejos, sofre menos desta privação
que do isolamento que a ela se segue. Mas não se trata
de consolá-lo pela satisfação, em tudo ilusória, que ele
encontraria num pretenso abandono dos impulsos eróticos.
Trata-se, muito pelo contrário, de especular sobre aquilo
que, nele, não deixa de ser uma paixão cardinal incoercível
e de saber como não a tamponar mediocremente, como
atingir em cheio sua satisfação, diversificá-la, expandi-la.
Trata-se de saber como restituir aos velhotes prazer e desejo.

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velhotes da harmonia

De descobrir o meio de torná-los o que a civilização lhes


priva ao colocá-los à parte da sociedade dita “ativa”. Não
somente de torná-los o que quer que seja, mas garantir
que a velhice seja a categoria mais invejada da Harmonia,
tendo em vista as vantagens e prerrogativas de que se
beneficiará nesta nova ordem orientada pelas atrações. De
fazer com que ela seja cobiçada e solicitada. Paradoxo de
antecipação da idade, contanto que os velhotes vejam suas
paixões reconhecidas e impulsionadas.
Pois sabemos como, ao mais baixo preço do melhor
mercado possível, pode-se dizer que nosso tempo de
civilização perfetibilizada tem se dado conta, apesar de tudo,
que nas pessoas de idade o desejo está longe de perecer, posto
que atinge seu vigor; sabemos bem de que maneira esta
sociedade perfeccionista, que é a nossa, aborda o problema
e procura resolvê-lo. Hoje, respeitam o desejo do “velho”,
chegam até a encantar-se com seus amores. Desde que
isso se passe entre eles. Um casal de oitenta anos, que
coisa admirável! “A mulher papoula” de Noëlle Châtelet,
chegando aos oitenta com os encantos enrugados, o
corpo minguando, se envolve com um octogenário
cujas vantagens físicas igualmente declinam e faz amor
com ele. Que coisa admirável! Nossa moral social pode
imediatamente integrar e incensar tudo isso. Mas que o
mesmo “velho” ou a mesma “velha” sintam e reivindiquem
paixões que os arrastem ao frescor da juventude e da
adolescência, aí mora o escândalo e o que, senão nos
costumes, ao menos nos julgamentos públicos, nossa
“razão julgadora” não poderia tolerar. Cada classe etária
entre si. Tal é a palavra de ordem do amor civilizado.
Que me compreendam bem: não digo que esta obra
de Noëlle Châtelet e a peça de teatro que dela deriva não

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sejam belas, verdadeiras, convincentes, tampouco que


inexista amor possível entre sexagenários (e além deles).
Nada disso, absolutamente. Mas é impossível afirmar
que, no caso dessas ligações, seja a atração física que as
conduz ou, no que concerne a esta mulher “papoula”, crer
que um parceiro atlético, na plenitude corporal dos seus
encantos, não tivesse exercido sobre sua amante mais
atração, nem estivesse em mais condições de satisfazer
sua sensualidade. Ora, Noëlle fala bem de uma sedução
acima de tudo física, e insiste sobre “o efeito sensual” em
ambos. Ao passo que, obviamente, se um amor brota entre
sexagenários, ele passa ao largo do físico, não começa pela
atração sensual, mas, sem dúvida, por uma outra forma
de charme. O que, de resto, tem suas próprias vantagens
e pode mesmo ser preferível. Porém, ao confundir esta
forma com a que resultaria da atração induzida por um
corpo bonito e jovem, nos deparamos com a mistificação;
dissimulação de outro desejo, confusão de duas atrações.
A moral civilizada, rica em truques baratos, transforma
em satisfeita uma resignada. Finalmente, esta apologia
dos amores entre velhos não passa de uma justificativa
moral para certa forma de mutilação do desejo, o elogio
da renúncia.
Sim, subordinação do erotismo à moral. À moral
civilizada onde o interdito maior é a mistura e a confusão
das idades.
Entre os modernos, apenas Gabriel Matzneff —
comentando Cícero, muito próximo a Fourier — soube
falar com inteligência da contradição do sábio latino
que, enquanto elogiava a abstinência da velhice, obedecia
cegamente ao amor pela jovem Publilia, na época com 14
anos3.

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Como acabo de dizer, a concepção de Fourier produz


um efeito em tudo distinto. Já o abordei a respeito da
renúncia estoica. Agora, tratarei da renúncia à juventude.
De uma certa maneira, o “novo mundo amoroso” (não
somente o livro que leva este nome, mas tudo o que é
esboçado em diversas ocorrências na obra de Fourier)
converge absolutamente para a satisfação da velhice.
Como Daniel Guérin viu bem, tudo parece feito para
ela. Não que se trate de uma sociedade “velha”, mas, ao
contrário, porque as diferentes classes de velhos, reverendos,
patriarcas, veneráveis, sempre aparecem associados a
grupos de classes mais jovens e são indissociáveis de seu
funcionamento.
A ordem harmônica de Fourier não é igualitária, isto
é, niveladora; ela faz intervir diferenças em todos os níveis
de agenciamento, e a mistura constante das idades é um
dos aspectos dessa dissimetria dinâmica. Pois de modo
algum ele concebe a possibilidade de que a satisfação
sensual dos velhotes atinja o auge do gozo ao transarem
entre eles. Que a cada um se destine sua velhota ou
velhote correspondente: não por acaso, esta é a única
combinação considerada possível na civilização. Onde
o amor é exclusivo, ele se concentra num só ser, forma
um único casal, que acumula todas as funções, ao mesmo
tempo “material” e “espiritual”.
Porém, basta que os amores sejam múltiplos, que não
haja apenas um amor em número e gênero, para que
se possa conceber muito bem, simultaneamente, uma
plena satisfação material e espiritual; basta que não se
concentre sobre o mesmo parceiro, a mesma pessoa.
Para isso, é necessário inventar novos agenciamentos.

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Arranjos de idade4 que se substituam ao “dispositivo de


sexualidade”, que normaliza nossa ordem social, o qual
Michel Foucault tão bem descreveu em A vontade de saber.
Se ele não engendra a paridade das idades, nada impede
que esta esteja implícita em todos os níveis das regras que
organizam o casal e a “pedagogização integral” do sexo em
seu funcionamento. A diferença de idade aí aparece como
uma forma de incesto, tão proscrita quanto ele.
Em contraste com esse dispositivo de poder, todo O
novo mundo amoroso, para empregar a expressão deleuze-
guattariana perfeitamente adequada aqui, é construído
sobre os “agenciamentos de desejo”, que tem como
correspondente — e certamente é uma nova linguagem
que desencadeiam — os “agenciamentos coletivos de
enunciação”.
Palavras bárbaras (ou pedantes, o que dá no mesmo)?
De jeito nenhum! Pois o que é nosso “amor”, que
cremos tão intimamente sentir, independentemente
de toda influência exterior, senão um agenciamento de
enunciação? E, antes de qualquer coisa, coletivo. Pois
este amor exclusivo, centrado sobre uma única pessoa,
não é nada “nosso” — e com certeza jamais o inventamos
sozinhos. Ele é, como também podemos dizer, fato de
civilização, fato histórico, induzido, herdado.
Em resumo — e Fourier não perde a chance de
também brincar com isso —, um estudo antropológico
comparado bastaria para demonstrar os prejuízos e
desmontar a farsa. As evidências dizem que somos
polígamos e versáteis. A única diferença mais essencial
entre esta evidência comumente compartilhada e aquela
proposta pelo novo mundo amoroso, é que nós só toleramos

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a ostentação da versatilidade e da poligamia na ordem das


sucessões temporais, enquanto que Fourier imagina seu
funcionamento na ordem das simultaneidades.
Aí está seu golpe de força, seu escândalo. Em Teoria
dos quatro movimentos, de 1806, ele diz que “toda mulher
poderá ter ao mesmo tempo um esposo, um genitor,
favoritos efetivos ou passageiros etc.”. Condição do
princípio da liberdade amorosa.
Entretanto, aqui se trata apenas das atrações
espontâneas ou “diretas”. Outro passo será dado com a
difusão da paixão “amor” em si mesma, na simultaneidade
das relações.
Em Fourier, isso tem um nome preciso: os
“envolvimentos”5. Os envolvimentos de amor: o que isso
quer dizer, o que isso implica? Eu diria imediatamente
que é através deles que, antes de tudo e em grande parte, é
construída a possibilidade de trazer uma plena satisfação
amorosa à velhice, assim como, aliás, a todos os despojados
e desfavorecidos em seus corpos.
Trata-se aí de um ponto fundamental e muito mal
compreendido — ou, antes, jamais admitido — pelos
leitores e mesmo pelos sectários de Fourier. Pois é o ponto
por excelência transgressor e escandaloso de sua tese,
em que ela se opõe ao máximo aos princípios morais e
personalistas da civilização, às suas pretensões progressistas
ou seu “perfetibilismo”, como ele prefere escrever.
Para apoiar minha exposição, eu me contentarei em me
referir ao exemplo cristalino de envolvimento amoroso
dado por Michel Butor num artigo sobre Fourier em
Cahiers du chemin, em 1972, no parágrafo intitulado “o

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feminino”. Passagem de tal modo convergente com as


minhas palavras que Butor a apresenta como tendo sido
alvo de uma censura de publicações fourieristas em La
Phalange (precisamente, a segunda edição de O novo mundo
industrial, datada de 1845, suprimiu este exemplo de uma
conjunção amorosa dissimétrica, obtida por envolvimento
amoroso, e as edições Anthropos se contentaram em
reproduzir esta segunda edição, enquanto que Butor
restitui o texto original de 1829).
Seria preciso citar na íntegra este texto essencial que
explica como o envolvimento tem por função vencer as
“antipatias” naturais entre juventude e velhice e garantir
simpatia e harmonia aí mesmo onde elas não existem.
Devo aqui resumir, atendo-me ao principal. Trata-se de
Urgèle, mulher de 80 anos, que ama o jovem Valère, de
20. Todo o problema consiste em saber como pode ser
superada esta repugnância. O que se dá pela oposição de
outros laços, mais fortes que isso, pela entrada de outras
paixões no jogo: amizade e ambição; antes e desde sua
infância, Valère desenvolveu todos os seus talentos (a
horticultura, as artes de florista), sob as instruções de
Urgèle, estabelecendo-se entre eles laços de amizade. E
como aspira a altas posições nos “exércitos industriais”, o
jovem se beneficia da proteção da velha, que ocupa o posto
de “hiperfada” (aqui já estamos em fase de Harmonia
plenamente instalada). Neste ponto, façamos ouvir a voz
de Fourier, pois qualquer transposição ou síntese o trairia:
“O objetivo será excitar em Valère não uma paixão de
amor direto por Urgèle, mas uma inclinação de gratidão,
afinidade indireta, laço neutro que propiciará o amor e
conduzirá à mesma meta. Urgèle obterá Valère pela pura
afeição. Seus 80 anos não serão obstáculo algum para

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Valère, habituado com Urgèle desde pequeno; a juventude


é destemida no amor quando dispõe de estímulos
suficientes; e de começo, Valère declara a Urgèle que se
sentiria feliz se pudesse retribuí-la por tudo o que recebeu.
Ele não se tornará uma amante habitual para ela, mas ela
terá alguma parte em sua cortesia; isso será para Urgèle
uma conquista desembaraçada de interesse, de motivo
sórdido, e bem diferente daquelas que pode fazer hoje
uma mulher de 80 anos, que só obtém os favores de um
jovem à força do dinheiro, impedida de obter qualquer
amor composto, laço suficiente para a alma e para os
sentidos”.6
Fourier acrescenta, é verdade, que na Harmonia a
velhice apresentará um viço incomum, e que nela haveria
uma legião de Ninon de Lenclos7; é verdade também
que o exemplo dado aqui concerne apenas a um grupo
restrito — o menor deles, de duas pessoas — e que O novo
mundo amoroso oferecerá, em termos de especulação sobre
os grupos, arranjos de potência muito maior (pensemos
no “casal angélico” de Narciso e Psyché que, oferecendo-
se a todos os insatisfeitos, pratica a “caridade amorosa”
que é corriqueira na Harmonia, assim como nas diversas
“orgias” favorecidas pelas “cavalarias errantes” e o serviço
do “faquirado”).
Mas tudo se encontra no exemplo dado, o qual gravita
em torno desta ideia fundamental, oposta à obsessão
civilizada de que o amor é uma entidade monolítica,
inanalisável; ao contrário, ele é simultaneamente passível
de ser decomposto e composto, quer dizer, ele pode ser
induzido ao se associar a outras paixões, as quais absorvem
os obstáculos e o reforçam. Composição é a palavra-chave
dos envolvimentos passionais. A relação de Urgèle e

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Valère seria falsa ou um engodo, mera barganha, se o


amor que dela emerge consistisse numa paixão exclusiva
funcionando isoladamente, isto é, se ele não fosse — em
seu princípio e imediatamente —, uma paixão envolvida
e envolvente8. Como qualquer outro, aliás. Porém, à mais
alta potência. É óbvio que, para compreender e adotar
estes “cálculos” da Harmonia, nunca se deve partir de
nossa concepção de amor, solitário e excepcional. Entre
nós, o amor não passa de um germe, um monstrengo em
pleno desenvolvimento na multiplicidade de seus aspectos
— entendamos que em Fourier são levadas em conta todas
as “exceções” ou “manias” que não subordinam o prazer ao
exercício de uma sexualidade suposta como natural.
Foi por isso que os fourieristas censuraram Fourier,
pois tais visões ultrapassam sua compreensão e sua
esclerose moral (o que, aliás, entre fourieristas ou não, só
tem piorado até agora).
No entanto, — e aqui concluo — sua censura só tem
acumulado desvantagens. Ela os fez preterir, no mecanismo
dos envolvimentos amorosos, o “material”, escandaloso
demais, em favor do “espiritual” ou afetivo, que é uma
mola igualmente poderosa, com as “ilusões criadas” que
a acompanham. De resto, esta escolha talvez não seja
desprovida de paradoxo e humor, se compreendermos
que a incomparável originalidade transgressiva de Fourier
vem menos da “liberação sexual”, que ele propõe, que do
deslocamento praticado no próprio conceito de amor, da
sua explosão ou dispersão, paralela àquela que o leque
passional provoca sobre o eu, o sujeito dos filósofos.
Oportuna neste caso, essa cegueira permitiu que os leitores
de um número de La Phalange [A Falange], em 1850,
fossem presenteados com a publicação do manuscrito

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velhotes da harmonia

“Sérisophie” [“Serisofia”] onde, finalmente, tudo é dito a


respeito da potência explosiva do envolvimento amoroso;
sob o disfarce de gozo espiritual, porém. O que só realça
o sabor. No capítulo XX, sob o título “Impéritie de la
civilization” [“Imperícia da civilização”], encontramos uma
passagem sobre a condição dos idosos e os remédios que
poderiam responder à privação do amor, essencialmente
caracterizada pela ruptura da ligação amorosa entre a
juventude e a velhice, bem como o tipo de “caridade
amorosa” que isso exige9.
Talvez na mais viva conformidade com o pensamento
profundo de Fourier — para quem o material, ainda que
sempre visto como “mínimo” exigível, não passa de uma
condição, não uma plenitude — o acento é colocado sobre
a amizade e as ilusões criadas do “ramo afetivo”. Entre
essas ilusões, intervém principalmente a “confidência”, a
curiosidade ligada às intrigas.
Se não é sempre que o velhote solicita gozar
corporalmente, por outro lado, e acima de tudo, não
quer ser excluído e, entre seus maiores prazeres, estima
o de ouvir os “cacarejos de amor”, de se intrometer nas
intrigas. O que só pode ocorrer se soubermos passar do
simples ao composto, se o amor deixar de ser concentrado,
como acontece na civilização, na posse física, tornada o
único valor real, relegando todo o resto ao desprezo. O
que o Novo mundo amoroso chama de “celadonia”, a parte
espiritual, recebe elogios hipócritas dos civilizados que, na
verdade, a espezinham.
“Quanto amor cabe de direito aos velhotes?” Sabemos
que é assim que Balzac intitula um capítulo de Esplendores
e misérias das cortesãs. Retrospectivamente, o mundo

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amoroso de Fourier parece ter sido escrito em contraponto


e ter formado por antecipação — pois precede o romance
em algumas décadas10 — sua réplica e contrapartida.
Para obter os favores da juventude, os velhotes não terão
mais necessidade de torná-la venal; para outros serviços
(“exercícios”, escreve Fourier), eles colocarão em jogo
as molas da ambição e da amizade, “cada mocinho ou
mocinha (15 a 19 anos) verá nos velhotes da Tribo uma
classe de amigos íntimos, dos quais desejarão o perfeito
contentamento”, pois serão vistos como conselheiros e
confidentes.
Compreendamos que, para os velhos da Harmonia, a
fruição dessas intrigas de amor, “ao menos na forma passiva,
no papel de espectadores e confidentes bem informados”,
não seria um prêmio de consolação. Sob a condição de que
a caridade amorosa garanta o “mínimo” material, há nesta
“passividade” — que a civilização deturpa — todo o sal,
todo o refinamento de tom da nova sociedade que Fourier
prefigura, embora a retire da civilização, que em tudo
rejeita. Ele é o analista minucioso das parcelas de verdade,
das fagulhas de felicidade que, nas poesias e romances,
nas obras de arte e de beleza deste mundo (“promessa
de felicidade”, segundo Stendhal, no qual Fourier deixou
uma profunda marca), num lampejo, se difratam11.
Eu concluo por um vislumbre desse tom que confere à
velhice a sabedoria e o refinamento das velhas marquesas
balzaquianas: “Mas vamos argumentar sobre uma ordem
de coisas em que a crônica romântica estará em todos os
seus mínimos detalhes, tão bem conhecida pelos idosos
quanto é hoje a crônica dos debates legislativos e políticos.
Nessa nova ordem, eles reconhecerão rapidamente que o
exame das gazetas ou cacarejos de amor, quando variados

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velhotes da harmonia

e ardentes, tornam-se para o espírito um alimento tão útil


quanto aquele dos cadernos de política. Será um verdadeiro
desjejum [sic] do espírito, e na Tribo nos ateremos a isso
tanto e mais do que hoje ao ler o jornal, porque geralmente
vemos apenas a máscara dos diplomatas, que figuram em
política como gente jovem nos amores, em que tudo é
fingimento. Quão mais [forte] será o interesse quando
pudermos nos orgulhar de sabermos os pormenores da
verdade quase exata a cada manhã, salvo algumas minúcias
a desvendar, e cuja obscuridade será útil para alimentar a
intriga dos curiosos.
Dirão que esta curiosidade é um alimento pueril para
um velho e que ele deve se contentar com as notícias da
lei e do comércio?12 Mas quando não houver mais nem lei
nem comércio, do que a décima paixão (o amor) deverá se
alimentar?”
“Sonho com uma idade da curiosidade”, escreveu
Michel Foucault em algum lugar13. Não seria nos velhotes
da Harmonia societária que ele precisaria procurá-la?

Tradução do francês por Eder Amaral.

Notas
1
“Vieillards d’harmonie” in Le Portique, Revue de philosophie et de sciences
humaines, n. 21, 2008, (Dossier Les Âges de la vie). Disponível em: http://
journals.openedition.org/leportique/1733.
2
Para informações mais amplas a respeito da sociedade harmoniana
de Charles Fourier, recomendo a obra recente de Arrigo Colombo, La
Società amorosa (Lecce-Bari), traduzida para o francês por Marie-Josèphe
Beauchard sob o título: La Société amoureuse, Paris, L’Harmattan, 2004.

verve, 37: 9-24, 2020 21


37
2020

3
Gabriel Matzneff, Le Taureau de Phalaris, Paris, Les Éditions de La Table
Ronde, 1987. (artigo “vieillesse”, p. 284); Mamma li Turchi, Paris, La Table
ronde, 2000, p. 196 e seg.; e ele contrabalança a interpretação clássica de
Cícero, demasiado puritana, através de referências muito mais matizadas,
no mesmo autor que “propõe, ao contrário, que os adolescentes dotados
de boa natureza experimentem os sentimentos mais ternos pelos sábios
velhotes que os guiam no caminho da virtude”. Um caminho que “passou
necessariamente por sua cama”, precisa Matzneff. Quão bem isso prenuncia
todo Fourier!
4
No original, Âgencements [sic]. Trata-se de um neologismo. Schérer faz
uso da coincidência, em francês, entre âge (idade) e agencement, aplicando o
acento da primeira palavra à segunda. Embora intraduzível, o neologismo
denota explicitamente o “agenciamento das idades”. Aproveito aqui outra
feliz coincidência léxica e semântica: além do correspondente literal que
utilizamos em diversas ocorrências do texto (agenciamento), agencement
também pode ser traduzido por arranjo, palavra cara a Fourier em seu
repertório botânico-industrial e na formulação dos envolvimentos amorosos.
Daí “arranjo de idades”. (N.T.)
5
No original, ralliement. Palavra que oferece dificuldades particulares
à tradução para o português. Literalmente, denota “reunião, ponto de
encontro, comício”. De imediato encontro amoroso pode parecer mais
pertinente; contudo, ao se sobrepor à expressão de uso comum, prejudica a
acepção fourierista de arranjo, agenciamento, implicada pela combinatória
passional, que não visa o encontro entre as pessoas, mas entre as paixões.
Outro caminho, já traçado no cinema de Pasolini (a quem Schérer dedicou
muitos escritos) e poeticamente condizente com os propósitos do texto seria
comício amoroso — como em Comizzi d’amore, do cineasta italiano, filme em
que o questionamento dos amores civilizados ressoa inteiramente. Porém,
em português a palavra está soterrada por acepções que também atrapalham
a fórmula fourierista. Além disso, tanto Fourier quanto Schérer fazem uso
do verbo rallier (juntar, alcançar, reunir), que na forma pronominal (se rallier)
torna-se “aderir a”, “esposar” (opinião), e do adjetivo ralliante, o qual nos
oferece o caminho — melhor, o desvio mais propício: dadas as dificuldades
e em função necessidade de fazer corresponder nome, ação e qualidade,
encontramos no trio envolvimento / envolver / envolvente a solução que
nos pareceu mais acertada, tanto pelo trânsito já conhecido da palavra
pelo terreno amoroso (na forma do pacto, da trama entre os que “estão

22 verve, 37: 9-24, 2020


verve
velhotes da harmonia

envolvidos”), quanto nas imagens laterais do “envolver-se”, da atmosfera


“envolvente” da sedução. (N.T.)
6
Citado por Butor, loc. cit., p. 64; correspondendo ao trecho: Amour-lacune
forcée..., na reedição da Anthropos, p. 324.
7
Ninon de Lenclos (1620-1705), cortesã, escritora e patrona de artes
francesa, conhecida pela agitação intelectual e amorosa do seu salão literário.
(N.T.)
8
No original, une passion ralliée et ralliante (cf. nota referente à fórmula
fourierista do ralliement d’amour). (N.T.)
9
Charles Fourier. Œuvres complètes. Paris, Anthropos, t. XII, p. 217.
10
O romance de Balzac foi publicado originalmente em 1838. O novo
mundo amoroso, por sua vez, foi concluído entre 1816 e 1818. Entretanto, sua
primeira aparição ocorrerá apenas em 1967, na coleção da Antrophos. (N.T.)
11
“Esta presença de outro lugar, esta aura utópica onipresente, eu a entendo
no sentido em que Charles Fourier falava da difração da luz: franjas
luminosas transbordando um disco negro. [...] A luz difratada se torna uma
franja multicor quando seu feixe é assombrado” (René Schérer, “Un esprit
d’utopie” in Présence de Guy Hocquenghem, Paris, L’Harmattan, 1992, p. 62).
(N.T.)
12
No original, de la Charte et du commerce. (N.T.)
13
Michel Foucault, “La vie des hommes infâmes”, Les Cahiers du chemin,
1977, n° 30. [A incerteza de Schérer quanto à localização da referência
não é fortuita. Embora remeta ao conhecido texto de Foucault, a alusão
à “idade da curiosidade” encontra-se, de fato, na entrevista intitulada “O
filósofo mascarado” de 06/04/1980 (ed. bras. In: Ditos e Escritos, vol. II —
Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento, tradução de Elisa
Monteiro, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2005, pp. 299-306) (N.T.)].

verve, 37: 9-24, 2020 23


37
2020

Resumo
No “novo mundo amoroso” de sua “harmonia societária”, Charles
Fourier reserva aos velhos um lugar especial. Veneráveis,
reverendos e reverendas, patriarcas e matriarcas, mulheres e
homens, sempre considerados em igualdade, desfrutam, dos 75 aos
quase 140 anos, de uma longevidade crescente pela excelência dos
alimentos, da ginástica, da ausência de preocupações e graças às
atividades coletivas constantemente renovadas. Fourier reserva
aos velhos as mais belas posições e as mais belas funções, e não lhes
retira nem a paixão do amor, nem as possibilidades de satisfazê-
la. A originalidade de sua utopia é que ela não se restringe ao
amor entre velhos, admitindo sua circulação em direção aos
jovens que rivalizam em “devoção amorosa”, a mais cobiçada
das honras societárias. À separação e à hostilidade das classes de
idade em civilização, Fourier substitui seu acordo, em que maior
alegria dos velhotes será obter a confiança da juventude e atrair
a confidência dos seus próprios amores.Palavras-chave: Amor;
velhice, juventude, Harmonia.
Abstract
In the “new amorous world” of his “societal harmony”, Charles
Fourier reserves for the elderly a special place. Venerable, reverend
and reverend mother, patriarchs and matriarchs, women and
men always considered as equal, enjoy, from 75 to almost 140
years old, an increasing longevity due to the excellence of food, of
gymnastics, the absence of worries and thanks to the constantly
renewed collective activities. Fourier reserves for old people the
most beautiful positions and the most beautiful functions, and he
does not take away either the passion of love or the possibilities to
satisfy it. The originality of his utopia is that it isn’t restrained to
love among old people, admitting its circulation towards young
people who compete for “amorous devotion”, the most coveted of
societal honors. The separation and hostility towards the elderly
groups in civilization, Fourier replaces with his agreement,
in which the greatest joy of the old men will be to obtain the
confidence of the youth and to attract the secrets of their own loves.
Keywords: love, old age, youth, harmony.

Hoary of Harmony, René Scherer


Indicado para publicação em 25 de março de 2020.

24 verve, 37: 9-24, 2020


verve
o escandaloso envelhecer anarquista

dossiê: anarquismos e o envelhecer

o escandaloso envelhecer anarquista

flávia lucchesi & gustavo simões (orgs.)

Dezessete cadáveres empilhados em um asilo de Nova


Jersey, nos Estados Unidos; seis em outro “recanto para
velhos” localizado em Sorocaba, no Brasil; somados a outros
relatos similares, na Espanha, na Itália e demais lugares, em
meio ao ápice de contágios pelo novo coronavírus. Desde o
início do ano, notícias como essas circularam em variadas
mídias. A ubiquidade das manchetes, em diferentes idiomas,
expõe como a velhice é confinada, reservada à morte, em
grande parte da Europa e da América.
Em “anarquistas, saúde!”1, Edson Passetti chamou a
atenção para esta palavra, saúde, presente no cumprimento
entre amigos anarquistas. Concluiu: o cumprimento, tão
precioso para os libertários é oriundo de um momento em
que a existência dos trabalhadores era curta e intensa. “Até a
década de 1940, a velhice era quase invisível”, argumentaram
militantes da Graine d’Anar. “Éramos velhos trabalhadores,
mas não velhos. Nós morríamos no trabalho”2.
Flávia Lucchesi é pesquisadora no nu-sol e doutoranda em Ciências Sociais na
PUC-SP. Contato:flalucchesi@gmail.com. Gustavo Simões é pesquisador no nu-
sol e doutor em Ciências Sociais. Contato: gusfsimoes@gmail.com.

verve, 37: 25-28, 2020 25


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2020

Um ano e meio antes do novo coronavírus, a reflexão


estampada no Le Monde Libertaire, apresentou a irrupção, em
especial, na França, depois da Segunda Guerra Mundial, das
chamadas conquistas relacionadas à aposentadoria. Frente
a essa incorporação da velhice pelo Estado, pela política, os
anarquistas sublinharam: a velhice é praticamente ausente
no pensamento anarquista. No breve texto, os libertários
colocam como ela, a velhice, conduzida de maneira liberada
da família e da sociedade (“dificultam a velhice para
nós...”) mobiliza, no presente, assuntos vitais, desde o apoio
mútuo, passando pela decisão de como viver e morrer, até
a afirmação anarquista da indissociabilidade entre meios e
fins. “A sociedade profundamente jovem e competitiva de
hoje não é saudável para a maioria de nós” encerram. “E não
mintam para nós, nossos círculos militantes frequentemente
reproduzem esse estado de coisas”3.
Mesmo com os efeitos do rescaldo da Segunda Guerra
Mundial, a velhice continuou distante das observações
anarquistas na segunda metade do século XX. Se, de um
lado, nos textos contemporâneos o envelhecer é situado
em detrimento do vigor jovem, muitas vezes apontado
como característico da revolta e da revolução, de outro
lado, detratores ainda visam desqualificar os anarquistas
como juvenis eternos, infantis, imaturos.
Contudo, entre os libertários, há também exceções. Em
L’Initiation individualiste anarchiste, publicado em 1923,
Émile Armand (com então cinquenta e um anos), lidou
corajosamente com o tema. Afirmou: o modo de lidar com a
idade é uma decisão de cada um. Aquele que se sente novo, é
novo; aquele que se sente velho, é velho. A idade que temos é
a que sentimos e queremos ter. O registro perante o Estado,
as classificações sociais estabelecidas a partir do que se

26 verve, 37: 24-27, 2020


verve
o escandaloso envelhecer anarquista

identifica na fisionomia de alguém, nas marcas da passagem


do tempo, no andar... nada disso fixa uma verdade sobre a
energia e a vitalidade de uma mulher ou homem anarquista.
Ainda assim, algumas questões permanecem: como
experimentar as mudanças do corpo, por vezes atravessado
por limitações; com a solidão e a percepção da proximidade
do fim da vida. Hoje, se colocam também outros
enfrentamentos como o prolongamento cada vez maior da
existência, garantido pelo acesso aos avanços tecnológico
e da medicina. A valorização da juventude e o constante
investimento no rejuvenescimento, são questões de agora.
Talvez precisamente por assumirem a vida como objeto
de luta, apesar da rara incidência em esmiuçar o envelhecer,
a velhice acaba exposta, mesmo que de maneira esparsa, em
escritos anarquistas. A seguir uma composição, uma colagem,
de breves trechos de algumas destas vidas escandalosas.
Além de Armand, há aqui neste dossiê sobre o envelhecer
anarquista escandalosos na paixão (Scarfó; Freire); no
trabalho intelectual constante (Cubero); na vitalidade dos
saberes dos velhos (Cage); no combate à morte precoce de
trabalhadores (Reclus); no combate à caridade (Malina);
no combate à gerontocracia (Freire); libertários que seguem
destruindo o que há de velho no mundo. É que, mesmo
vindas de mulheres e homens velhos, são sempre jovens as
suas invenções.
Notas
1
Edson Passetti. “Anarquistas, saúde!” in Anarquismos e sociedade de controle.
São Paulo, Cortez, 2003, pp. 116-121.
2
"Veillese et anachie" in Le Monde Libertaire, outubro de 2018.Tradução
de Gustavo Simões. Disponível em https://www.monde-libertaire.
fr/?article=vieillesse_et_anarchie
3 Idem.

verve, 37: 25-28, 2020 27


37
2020

américa scarfó, (1913-2006).


anarquista que viveu na argentina. desde os 16 anos
escreveu na imprensa libertária do país e na internacional,
correspondendo-se com émile armand, entre outros militantes.
nos anos 1950, inventou a editora anarquista americalee.

“Apenas uma vez América Scarfó entrou na


penitenciaria nacional, e foi o suficiente. Nas vinte-
e-quatro horas em que permaneceu entre seus muros,
seriam fuzilados, lá mesmo, seu namorado e seu irmão.
Isso aconteceu em fins de janeiro de 1931, com o país sob
estado de sítio e lei marcial, e dela, que tinha dezessete
anos, nada mais se soube pelas sete décadas seguintes.
Quando o nome de América Scarfó voltou a aparecer
nos jornais, na primeira página, no final do século, ela já
completara os oitenta e cinco anos e a notícia se referia
à sua presença na Casa Rosada. Havia-lhes ocorrido a
ideia de devolver a América as cartas de amor que lhe
pertenciam (...).1
América Scarfó, chamada pelos íntimos de ‘Fina’, foi
a primeira anarquista a entrar no palácio presidencial.
Aconteceu em 1999, quando ela era uma anciã, quase uma
nonagenária. Deve ter-lhe doído passar essas portas: dali
partiu a sentença do general Uriburu que selou o destino
de seu companheiro e seu irmão (...).2

28 verve, 37: 25-39, 2020


verve
dossiê: anarquismos e o envelhecer

Depois de uma espera eterna, América Scarfó


recuperou as cartas que Severino Di Giovanni lhe havia
escrito eternidades atrás (...).3
Ao ingressar na casa do governo, América Scarfó
declarou: ‘vim aqui para buscar algo meu’ (...), no ato da
devolução das cartas, América Scarfó ficou em silêncio.
Disse, apenas: ‘tenho uma linda lembrança dessa história
de amor’. Aos dezessete anos, ela mesma publicou na
revista anarchia, estas palavras: ‘a felicidade não é uma
utopia. mesmo que seja só por um instante podemos
saborear algo dessa quimera’. Sua convivência com Di
Giovanni, na clandestinidade, havia durado dez meses
inesquecíveis de sua distante juventude”.4

jaime cubero, (1926-1998).


jaime cubero atuou na reativação do centro de cultura social
de são paulo (ccs-sp), nos anos 1980. aglutinou anarquistas e
libertários e tornou-se referência para militantes e pesquisadores,
acolhendo-os com generosidade, humor e contundência.

“O norte do anarquismo repousa em fundamentos


puramente éticos e morais, porque o anarquista sente,
simplesmente, prazer em ser digno. É a atitude ética que
ele coloca em face da justiça, da equidade, da dignidade
humana, da elevação e superação do homem pelo homem.
Como o homem tem um potencial imenso voltado
para a vontade de conhecer, isso tem que ser canalizado

verve, 37: 25-39, 2020 29


37
2020

para procurar saber cada vez mais, sem limitações. Essa


experiência de procurar o conhecimento eu vi em todos
os militantes anarquistas, que não tinham frequentado os
bancos escolares. Liam seus livros e, sempre que saia um
livro novo, liam, estavam sempre estudando e discutindo
no Centro de Cultura. Ainda há pouco, estive em Porto
Alegre e encontrei o Augusto. Ele está com 84 anos, quase
cego, diabético, mas passa todo o tempo lendo. Incrível, a
leitura, depois de um certo tempo, passa a compor uma
segunda natureza do militante anarquista. O Augusto
doou toda a biblioteca dele, com livros muito bons, alguns
raríssimos hoje em dia. No entanto, me disse: ‘Vou ficar
com esses, que ainda estou estudando’. Sabe como ele
lê? Com muita dificuldade, numa mão segura a lupa e,
na outra, o livro. Foi assim, também, quando conheci o
Oiticica, no Rio de Janeiro. Ele estava com 74 anos, tinha
já uma formação completa, acadêmica, foi professor a
vida toda, deu cursos na Alemanha. Sabe o que ele estava
fazendo? Estudando russo e, ao mesmo tempo, como
músico, estudando Bach. Não admitia que o avançado dos
anos pudesse empobrecer o espírito”. 5

errico malatesta, (1853-1932).


errico malatesta, nascido no então reino das duas sicílias, era ainda
um jovem estudante de medicina quando rompeu com o movimento
republicano de mazzini e garibaldi e se aproximou do anarquismo
de mikhail bakunin. morreu após anos de prisão domiciliar na
itália fascista.

30 verve, 37: 25-39, 2020


verve
dossiê: anarquismos e o envelhecer

“Alguém que assina ‘Um operário comunista’ se levanta


para defender a ditadura bolchevique no Bandiera Rossa
de Fano; e como qualifiquei de bárbara a ditadura em
questão, ele pensa ter dito alguma coisa ao dizer que esta
‘expressão indecente prova a senilidade de Malatesta’.
Em troca quero dar a este jovenzinho (e, por sinal,
desejo que ele tenha fisicamente tanta vitalidade quanto
eu) uma pequena aula sobre a arte de raciocinar.
Talvez ele perceba que não basta ser jovem para ter o
cérebro no lugar onde deve estar (...).
Se a ditadura cara aos comunistas não é a ditadura de
uma minoria sobre a massa de trabalhadores, como os
anarquistas pensam que seja, mas quer realmente dizer
gestão da coisa pública feita por todos os trabalhadores,
isto é, todos os homens (porque todos deverão trabalhar),
como é possível que essa ditadura seja transitória?
Nosso querubim de Fano não vê, portanto, em que
contradições ele se perde ao querer persistir em negar o
que querem os comunistas, provisoriamente ou não, e o
que se passa na Rússia não é a passagem do ‘poder’ para as
mãos dos trabalhadores, mas, ao contrário, a ditadura dos
chefes de seu partido?
Visto que faço o favor de lhe dar uma aula de lógica
que ele talvez não compreenda, quero também dar-lhe
uma aula de polidez.
Dizer que é ‘má-fé’ conceber de um modo diferente
do seu a passagem da sociedade burguesa à sociedade
libertária é algo que se pode perdoar a um menino
irresponsável, mas certamente não é digno de um homem
sério, ainda que muito jovem.

verve, 37: 25-39, 2020 31


37
2020

Se os comunistas de Fano concordam com este tipo de


campeão de escola maternal, é problema deles. Mas, por
que, então, estes ardentes Aquiles do bolchevismo tomam
tanto cuidado em esconder o nome? Para candidatos à
ditadura, é verdadeiramente muita modéstia”.6

john cage, (1912-1992).


john cage, conhecido por seu “4’33” e por livros como silence e a year
from monday, foi um artista anarquista.

“Existem recursos intocados em crianças e adolescentes,


aos quais não temos acesso porque os mandamos para a
escola; e entre os militares, que perdemos por mandá-
los para lugares ao redor do mundo, e sob sua superfície,
para instalações ofensivas de testes de bomba; e entre os
cidadãos mais velhos, a quem persuadimos de nos deixar
em troca de banhos de sol, divertimentos e jogos. Nós
nos privamos sistematicamente de todas essas pessoas,
talvez por não desejarmos que elas nos atrapalhem
enquanto fazemos o que estamos fazendo. Mas, se existe
uma experiência que conduz mais do que outras para a
receptividade, trata-se da experiência de ser atrapalhado
por alguém, de ser interrompido por alguém. ‘Estamos
estudando como ser interrompidos’”.7

“Nós estamos, não estamos? socialmente falando,


numa situação de o velho morrer e o novo passar a existir?

32 verve, 37: 25-39, 2020


verve
dossiê: anarquismos e o envelhecer

Para o velho — pagar contas, buscar o poder — tomar a


atitude do jogo: jogos. Para o novo — fazer o que não é
necessário, ‘levar a areia de uma parte da praia pra outra’
(Buckminster Fuller)”.8

élisee reclus, (1830-1905).


geógrafo e anarquista como kropotkin, participou ativamente da
comuna de paris e de inúmeras agitações libertárias no final do
século XX e início do XX.

“A essência do progresso humano consiste na descoberta


da totalidade dos interesses e vontades comuns a todos
os povos; isto é idêntico à solidariedade. Antes de tudo,
é necessário lidar com a economia, que é bem diferente
daquela da natureza primitiva, na qual as sementes da
vida se espalham com abundância surpreendente. No
presente, a sociedade continua muito distante de alcançar
a sabedoria do uso das forças, especialmente das forças
humanas. É verdade que a morte violenta não é mais a
regra, como era antigamente. No entanto, a grande maioria
das pessoas morre antes da hora. Doenças, acidentes,
lesões e defeitos de todos os tipos, frequentemente
complicados por tratamentos médicos aplicados errônea
ou aleatoriamente e exacerbados sobretudo pela pobreza;
a lacuna de cuidados essenciais, a ausência de esperança
e ânimo, causam decrepitude muito antes do início
normal da velhice. De fato, um eminente fisiologista
[Elie Metchnikoff ] escreveu um livro maravilhoso cuja

verve, 37: 25-39, 2020 33


37
2020

tese principal é a de que quase todas as pessoas velhas


morrem antes de seu tempo e com um absoluto pavor da
morte, a qual, em vez disso, poderia chegar como o sono,
caso viesse no momento em que um homem, feliz de ter
levado uma boa vida repleta de atividade e amor, sentisse
a necessidade de descansar.”9

judith malina, (1926-2015).


judith malina foi atriz, diretora, poeta. ao lado de julian beck,
inventou, no final dos anos 1940, o the living theatre, grupo
de teatro anarquista ainda ativo no presente.

“Brad Burgess: Nos anos 1990, o The Living Theatre


apresentou Anarchia (1995) e Utopia (1996). Como você
vive o anarquismo hoje?
Judith Malina: Nesse momento, sou uma mulher velha
sem um centavo vivendo de caridade. Eu vivo de caridade
na casa dos atores, sustentada pelo fundo de atores.
— Você diria que, de alguma forma, essa é uma empreitada
anarquista desenvolvida pelo fundo de atores?
— Não, acredito que é uma caridade convencional.
Nós teríamos que discutir com mais profundidade se as
causas assistenciais são anarquistas...há muitos elementos
que envolvem essa questão.
— Você diria que o capitalismo capturou a caridade?
— Ah, sim, inteiramente...

34 verve, 37: 25-39, 2020


verve
dossiê: anarquismos e o envelhecer

— Mas a caridade, no seu sentido idealista, é bastante


anarquista, com seus atos de autônomos de generosidade.
— Sim... mas me mantém aqui numa situação
relativamente confortável sem que eu tenha que trabalhar
ou pagar por isso.
— Em 2007, The Living Theatre remontou The Brig. A
continuidade das guerras nas décadas de 1990 e 2000 faz com
que o antimilitarismo anarquista seja ainda urgente?
— Eu gostaria de pensar nesse sentido em um poema:
“way down the river,
way down the hill,
way past the meadow,
way past the mill,
way down the river,
a hundred miles or more,
other little children
will bring my boats to shore”

— Eu acredito, assim, que seja uma realidade


permanente. Eu não irei criar uma revolução, mas serei
parte de um movimento revolucionário.
— Você disse recentemente que a aposentadoria não é uma
questão. O que você deseja fazer agora?
— Eu pretendo viver um dia após o outro.” 10

verve, 37: 25-39, 2020 35


37
2020

roberto freire, (1927-2008).


roberto freire foi o inventor da somaterapia. jornalista,
dramaturgo, autor de romances anarquistas como coiote e
livros como sem tesão não há solução e ame e dê vexame.
“A democracia é tão bonita, mas completamente
inviável, porque ela só foi tentada, até hoje, através da
gerontocracia, quer dizer, com os velhos no poder (...).
Existem anarquistas no mundo que talvez pensem como
eu, sobretudo os mais jovens, e que lutem contra qualquer
forma de poder, especialmente o da gerontocracia. Mas,
quem sou eu para ter escrito essas coisas? Um velho (...) E
confesso: odeio ser velho. (...) Pelo menos não convivo com
velhos há 30 anos, tenho isso a meu favor. Em verdade,
sinto-me agora, escrevendo essas coisas, como Groucho
Marx, que disse uma vez não querer pertencer a um clube
que o aceitasse como sócio”.11

“Caetano Veloso, o poeta predileto, ajudou-me muito


com sua comovente composição O Velho. Ele a canta com
tão intensa e verdadeira emoção, com tamanho respeito
poético pela sabedoria que sabe ser a sensualidade dos
velhos, que me faz esquecer o que a velhice significa
para mim como decadência e como fim. Atualmente vou
caminhando contra os ventos que sopram úmidos e doces
do futuro, ainda impulsionado e atraído apenas pelo amor,
graças à coragem de me saber imortal, agora que posso ir
deixando a vida e a morte para atrás.
Sobre essa imortalidade figurada poeticamente, vale a
pena lembrar um momento de grande tristeza pela perda
recente de um jovem e lindo amor, quando, depois disso,

36 verve, 37: 25-39, 2020


verve
dossiê: anarquismos e o envelhecer

fracassava sempre em novas e obsessivas tentativas de


restaurá-lo com outras pessoas, também jovens. Rabisquei
e nunca mais revi estes versos. Ficaram assim, em estado
bruto e inacabados, como estava também até há bem
pouco tempo o meu amor
Como demora a morrer
a juventude em mim
Se recomeço a amar
eu me afasto do fim
Amo ao contrário do tempo.
Não me posso envelhecer
Talvez eu venha a morrer
Como se estivesse nascendo”12

émile armand, (1872-1963).


émile armand foi o pseudônimo do anarquista individualista
ernest lucien julin, nascido em 1872 e morto, aos 90 anos, em
1963.

“Saber que alguém está envelhecendo; ter ciência de


que o seu próprio cabelo está ficando branco e o rosto
marcado com as linhas dos anos; sentir-se na flor da idade.
O que importa, no fim das contas, se cabelos grisalhos ou
brancos apareçam na cabeça de alguém? O que importa é:
eu não me sinto velho ou que estou envelhecendo. Uma

verve, 37: 25-39, 2020 37


37
2020

pessoa possui a idade que sente. Aquele que se sente velho


é velho. É um fato, o ridículo social e as convenções existem
na sociedade. Mas, aquele que não pode confrontá-los está
condenado à idade que lhe é apresentada e imposta.
Afinal de contas, viver de modo complexo não é uma
coisa fácil. Neste instante, pode-se contar nos dedos as
pessoas que estão suficientemente prontas para uma vida
realmente embaralhada, isto é, uma vida que envolveria
viver, contemporaneamente, várias vidas sem que estas
se tornassem confusas ou se anulassem. Para aqueles
capazes de se manifestarem e se expandirem em múltiplas
atividades — sem que elas sejam conflituosas —, que
desabrochar! Que riqueza! Que beleza esse acúmulo de
experiências!”13

Notas
1
Christian Ferrer. “O coração empurpurado, epistolário e história” in verve.
São Paulo, nu-sol, vol. 20, 2011, p. 158.
2
Idem, p. 196.
3
Ibidem, p. 197.
4
Ibidem, p. 198.
5
“Entrevista: Depoimento de Jaime Cubero” in Educação e Pesquisa.
São Paulo, Educ, 2008, s/p. Disponível em https://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S1517-97022008000200013
6
Errico Malatesta. “Senilidade e Infantilismo” in Anarquistas, Socialistas e
Comunistas. São Paulo, Cortez, 1989.
7
John Cage. “O futuro da música” in escritos de artistas. Organização de
Glória Ferreira e Cecília Cotrim. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2009, pp.
330-347.

38 verve, 37: 25-39, 2020


verve
dossiê: anarquismos e o envelhecer

8
John Cage. De segunda a um ano. São Paulo, Hucitec, 1986, pp. 6.
9
Elisee Reclus, “Progress”. Disponível em: http://theanarchistlibrary.org/
library/elisee-reclus-progress#fn31. Tradução do inglês por Flávia Lucchesi.
10
Conversa com Judith Malina in revista ecopolitica. São Paulo, PUCSP/
nu-sol, vol.13, 2015.
11
Roberto Freire. Tesudos de todo o mundo uni-vos. São Paulo, Siciliano, 1995,
p. 43.
12
Roberto Freire. Ame e dê vexame. São Paulo, Casa Amarela, 1999, p. 28.
13
Émile Armand “Anarchist Individualism and Amorous Comradeship”, 2004.
Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/emile-armand-
anarchist-individualism-and-amorous-comradeship. Tradução do inglês
por Flávia Lucchesi.

Anarchisms and aging, Flávia Lucchesi e Gustavo


Simões (orgs.)

verve, 37: 25-39, 2020 39


Febre e saúde
Paul Goodman

Febre, as belas cintilantes


fogueiras da resistência,
a terra queimada e a passagem estreita,
embora seja terrível observar
a história da doença
e o tremular de errôneas bandeiras.

Porém, o mais fascinante que estrelas violentas


lançam quando arremetem é a saúde animal!
As três marchas da locomoção
e a gama dos quatro tempos da música
e o silogismo prático
e um potente e descuidado amor.

Tal beleza, como dói contemplar


e como, tão suave, alivia a ferida:
estou tremendo, embora não esteja frio,
e está escuro, embora seja meio-dia.

Meus ouvidos zumbem, um fogo vital


atordoou minhas mãos e pés.
Estou sem desejo
e em paz como se nas alturas.

Essa luxúria que brota como vermelha a rosa


não é nada minha, mas, como um canto
dado ao seu autor, não conhece
o próximo verso, ainda assim, canta junto.

Você pergunta o que murmuro


estupefato, é uma invocação
de agradecimento de que há algo assim
como você aí no mundo.
Fever and health
Paul Goodman

Fever is beautiful the twinkling


campfires of resistance
the scorched earth and the strait pass,
though it is terrible to watch
the history of the disease
and the wrong banner flying.

But the loveliest thing the violent stars


roll as they rush is animal health!
the three gaits of locomotion
and the fourfold gamut of song
and practical syllogism
and hammering and careless love.

Such beauty as hurts to behold


and so gentle as salves the wound:
I am shivering though it is not cold
and it is dark though it is noon.

My ears are ringing, a vital fire


has stunned my hands and feet.
I am without desire
and at peace as on a height.

This lust that blooms like red the rose


is none of mine, but as a song
is given to its author knows
not the next verse yet sings along.

You ask what I am muttering


stupefied, it is a prayer
of thanks that is such a thing
as you in the world there.

Tradução de Beatriz Scigliano Carneiro. Agradeci-


mentos a Andre Degenszjan e a Edson Passetti pela
leitura atenta e sugestões ao texto traduzido.
37
2020

amor e servidão, paixão e revolta1

acácio augusto

o amor ao dever está no centro da liberdade de moral


Max Stirner

É muito bom ouvir Laura Cordero, porque sua


perspectiva histórica dos anarquismos é muito importante
para situar que uma série de práticas tidas hoje como
corriqueiras nas relações amorosas foram inventadas e/ou
possibilitadas pelas lutas anarquistas. Eu costumo dizer
que a anarquia se pauta mais pela revolta e a multiplicidade
de práticas do que pela revolução e uma teoria. Quando
se entende a revolução com uma pretensão totalizadora,
acabada, ela é solução dirigida e definitiva. Quanto à
revolta é isso que disse Laura sobre o amor livre: é uma

Acácio Augusto é pesquisador no nu-sol, professor no Departamento de Relações


Internacionais da UNIFESP, onde coordena do LASInTec (Laboratório de
Análise em Segurança Interacional de Tecnologias de Monitoramento), e no
Programa de Pós Graduação em Psicologia Institucional da UFES. Contato:
acacio.augusto@unifesp.br.

42 verve, 37: 42-56, 2020


verve
amor e servidão, paixão e revolta

experiência, com todos os “erros” e “acertos” que se pode


experimentar.
A política moderna, mais acabada, e apartada da
dimensão da experiência, não compreende o que uma
situação de revolta pode disparar, a despeito dos efeitos
e reações que ela pode sofrer. Basta ver como certas
leituras analisam o que temos vivido na América Latina,
pelo menos desde o começo da década passada, com
acontecimentos como junho de 2013 por essas terras ou
as revoltas que estão acontecendo neste momento no
território dominado pelo Estado chileno. A revolta ativa
a dimensão antipolítica das lutas locais, algo insuportável
para marxistas e liberais.
Não traçarei uma história do amor livre, tampouco
direi o que ele é ou deixa de ser. Proponho expor, muito
brevemente, três comentários em torno do tema sugerido
por Margareth Rago, quando ela inventou de me colocar
nessa mesa para surpresa, inclusive, de algumas pessoas
(segundo ela me disse). Enfim, ter um homem nessa mesa
em que a grande força e singularidade da discussão vêm
das mulheres anarquistas.
Comentarei rapidamente, primeiro, sobre amor e
política; depois, sobre a anarquia e a paixão como revolta;
por fim, farei um breve comentário sobre hoje, a partir de
uma máxima do Roberto Freire, um anarquista que nos
deixou há pouco tempo (não muito pouco tempo), e que,
aliás, está presente na minha caixinha de guardar o maço
de cigarros com a frase “Ame e dê vexame”, o nome de um
livro dele também2.

verve, 37: 42-56, 2020 43


37
2020

amor e política
O amor na política moderna é um afeto de servidão.
Recomenda-se que ame a sua família, ame a sua esposa,
o seu marido, ame a pátria, ame a Deus. Em resumo: na
cultura judaico-cristã, amar é obedecer. Pensando nisso,
decidi falar sobre amor e anarquia da perspectiva dos que
são, reconhecidamente, os experimentadores mais radicais
no que diz respeito ao sexo e ao amor livre na história
dos anarquismos: os chamados anarco-individualistas, em
especial, um francês chamado Émile Armand.
Como indicam os principais historiadores dos
anarquismos, a referência do que se denomina de
anarco-individualismo é Max Stirner, um sujeito que
nem era declaradamente anarquista. Um jovem crítico
de Hegel, muito bem definido por Edson Passetti como
um anarquista nos anarquismos3. Stirner escreveu um
pequeno artigo publicado na Gazeta Mensal de Berlim, de
Ludwig Buhl, chamado justamente “Algumas observações
provisórias a respeito do Estado fundado no amor”4, em
que ele apresenta um debate, ocorrido a partir de uma
publicação de 1808, que discutia como na Revolução
Francesa, os valores de liberdade e igualdade da revolução,
tinham se perdido para uma reação conservadora. E aí,
Max Stirner, com a ironia e a acidez próprias, faz um
comentário mais ou menos assim: bom, se o Antigo
Regime pedia para o súdito amar o rei, o novo regime
apenas pede para amar a pátria, então, o amor é comum
e o cidadão nada mais é do que a transmutação amorosa
do servo. É por essa e outras que Karl Marx, um sujeito
que acreditava na ação estatal e não gostava de Stirner,
dedicou o maior capítulo de A ideologia alemã, escrito com
Engels, aos ataques a ele.

44 verve, 37: 42-56, 2020


verve
amor e servidão, paixão e revolta

O amor, portanto, é um afeto político de servidão, isso é


um fato que está registrado pela história política moderna,
a história na qual se funda nossa contemporaneidade.
A despeito desta constatação, eu associaria a anarquia
à paixão e à revolta. E na história das lutas, essa longa
história já situada pela Laura Cordero, quero relacionar as
práticas anarquistas com a paixão, não apenas no campo
da ação política ou militante. Interessa incorporar essa
paixão pela liberdade enquanto uma maneira de combater
a transmutação dos valores do amor como devoção servil.
E é aí que se passa, entre os anarquistas, do amor à servidão
no súdito e no cidadão para o que eles chamarão de amor
livre.
Eu trouxe três pequenos momentos para não me
estender muito.

camaradagem amorosa
O primeiro deles está na proposta de Émile Armand,
de camaradagem amorosa5. Ao contrário do que se pensa,
e do que principalmente hoje em dia se repete, o amor
livre nada tem a ver com poliamor, “promiscuidade” ou
contratos, aos moldes liberais, de não-monogamia. O
Armand tem um texto muito bonito em que ele vai dizer
assim: o amor livre é a prática amorosa que não respeita
nenhuma instituição formal ou informal. Se vocês
preferirem, como bom stirneriano que era o Armand,
o amor que não se dobra à moral. Ele escandalizava,
sendo um dos poucos defensores do que chamava de
homossexualismo ou sodomia na época, e da prática do
incesto. Ele dizia abertamente. Ele tinha uma definição
que considero muito bonita: temos que aprender a lidar

verve, 37: 42-56, 2020 45


37
2020

com os temperamentos amorosos — existem pessoas que


são mais tendencialmente monogâmicas, outras mais
poligâmicas; eu posso estar vivendo um momento onde
eu esteja pendendo mais para uma coisa ou para outra,
o que importa é que essa prática não esteja submetida a
nenhum tipo de regra exterior e, sim, que ela seja imanente
de cada um, que seja uma decisão livre e considerando a
relação com o outro. É essa associação amorosa livre que
ele chamava de camaradagem.
O excepcional interdito que Armand colocava a essa
definição de camaradagem amorosa era a violência, que
deveria ser banida das relações. Não poderia haver violência
que subjugasse qualquer parte. Ele entendia por violência
os jogos emocionais e as chantagens como submissão
ao poder e assim por diante. Mas o Armand apanhou
muito, inclusive dentro dos meios anarquistas, pois o
que defendia era tomado como algo secundário, pequeno
burguês, que não teria ressonância entre os trabalhadores,
que não contribuiria nada para a revolução, entre outras
mesquinhas reações. Considero boçal essa crítica aos
anarquistas chamados de individualistas, porque, agora, no
século XXI, as formulações dos chamados individualistas
se mostram mais atuais e radicais do que toda a retórica
pastoral dos anarco-sindicalistas direcionada aos operários,
que nem existem mais, ao menos não aos moldes da
disciplina fabril que marcou as relações de trabalho no
século XIX e parte do século XX.

uma experiência, mulheres anarquistas


O segundo momento está relacionado também com
Armand. É sobre uma garota, uma argentina América

46 verve, 37: 42-56, 2020


verve
amor e servidão, paixão e revolta

Scarfó, que fundou a editora que a Laura Cordero fez


menção aqui, a Américalee. Como algo que seria um
escândalo para a atual ministra da Mulher e da Cidadania,
Scarfó aos 16 anos se apaixonou por Severino Di Giovanni,
um dos principais militantes anarquistas na Argentina,
que se dedicava regularmente a assaltos a bancos, à
execução de delegados e assim por diante. Osvaldo Bayer,
historiador argentino, publicou um livro belíssimo sobre o
Severino Di Giovanni6. Mas o que ela, América, faz aos 16
anos? Procurou uma “reposta” anarquista ao caso amoroso
não convencional que ela estava vivendo. Foi severamente
atacada nos meios anarquistas e corroborando o que expôs
Laura Cordero, o fato de ser de esquerda ou ser anarquista
não livra ninguém se ser machista e homofóbico. Na
época, Émile Armand produzia um jornal chamado L’En-
Dehors7 e ela, América, decide escrever a ele: “camarada,
estou aqui querendo uma espécie de consulta amorosa”,
e diz, “no amor, por exemplo, [sobre os anarquistas] não
aguardaremos a revolução, e nos uniremos livremente,
desprezando preconceitos às barreiras, às inumeráveis
mentiras que interpõem a nós como obstáculos”8. E
sublinha: “aqui, em Buenos Aires, alguns se arvoram em
juízes. Eles não se encontram apenas entre as pessoas
comuns, mas também entre os companheiros de ideia
[modo como se chamavam os anarquistas], que se veem
livres de preconceitos, mas que no fundo são intolerantes”9.
América era uma mulher de 16 anos com uma visão
muito elaborada do anarquismo, do que era a revolução,
da relação dela com o Severino, que tinha por volta de 28,
29 anos, ou seja, quase o dobro da idade dela. Alguns aqui,
hoje, na esquerda diriam: “nossa, Severino é um pedófilo,
igual ao Caetano Veloso…”. Enfim, é o governo da moral

verve, 37: 42-56, 2020 47


37
2020

que não está apartado das nossas vidas, inclusive da


minha, que fique claro. Por isso a urgência em lutar contra
o que somos, também, em nossas relações amorosas e de
amizade.
E a resposta do Armand foi muito interessante. Ele
afirma que devemos ser consequentes com nossos atos,
e que, se pra ela, para o Severino e as demais pessoas
envolvidas está tudo bem, não há porque não seguir com
o romance. América explicitou na carta enviada que a
mulher de Severino sabia do amor deles e que não fazia
nenhuma objeção; que ela tinha meios materiais de se
manter e não precisava da ajuda material de Severino Di
Giovanni.
A prática de camaradagem amorosa passa por outra
coisa muito bonita. Armand coloca que isso não tem a
ver só com as relações que entendemos como sexuais ou
amorosas. A camaradagem amorosa passa pela convivência
entre camaradas lendo livros, escrevendo, lendo e fazendo
poesias, bebendo, em uma conversa, num jantar de horas,
um passeio pelas ruas, à beira do mar ou às margens de um
rio… Armand é um dos primeiros a ter sensibilidade entre
os anarquistas para as relações chamadas de homossexuais
ou hoje o que seria uma relação gay. Ele dirá ser capaz de
amar um camarada e nem por isso se ligar eternamente
a ele, e nem a partir daí definir minha identidade, o meu
sujeito, enfim, antecipando, a meu ver, muito do que só
emergirá na segunda metade do século XX e com as obras
do Michel Foucault e os seus desdobramentos.
Mas, como nem tudo são flores na vida…
Uma anarquista nascida no território dominado pelo
Estado brasileiro, chamada Maria Lacerda de Moura,

48 verve, 37: 42-56, 2020


verve
amor e servidão, paixão e revolta

autora de A mulher é uma degenerada — oportunamente


republicada, neste ano, pela Fernanda Grigolin —, publica
um outro livro chamado Amai-vos e não multiplicai-vos10.
Ela introduz o argumento que você, mulher, deve amar e
não necessariamente gerar filhos. Ela apreciava os anarco-
individualistas, em especial um anarquista francês chamado
Han Ryner, mas foi uma crítica feroz de Émile Armand
(amigo de Ryner), dizendo algo como: legal o seu papo
de camaradagem amorosa, mas para você que é homem
é muito fácil. Segundo Margareth Rago, “Maria Lacerda
considerava a ‘camaradagem’ proposta por Armand como
‘um retorno à promiscuidade, ao consumismo sexual
degradante, no qual a mulher continua representando
o papel de coisa, objeto de prazer, eleita sempre e quase
nunca com direito a escolher’. Para ela, a natureza fizera
a mulher apta a satisfazer vários homens, enquanto os
homens não tinham essa alternativa”11. A crítica de Maria
Lacerda de Moura é pertinente, considerando não apenas
a “proposta” de camaradagem amorosa de Armand, mas
sobretudo o meio no qual ela se daria. No entanto, para
efeitos do argumento que uso aqui é importante notar, na
crítica de Maria Lacerda, que não existe e não há pretensão
de consenso, nem sobre essa questão e nem sobre qualquer
outra, entre os anarquistas; além de América, havia
intensa produção de práticas e críticas sobre o que seria o
amor livre, hoje isso pode parecer trivial, mas essa intensa
produção estava no começo do século XX, às portas de
inúmeras investidas fascistas em todos os países e em vias
de consolidação de governos fascistas.
Eu não sustentei aqui que o Armand é o grande cânone
do amor livre; ele é um anarquista que me interessa
muito. Este francês foi interpelado por uma anarquista

verve, 37: 42-56, 2020 49


37
2020

brasileira [a Maria Lacerda] que lançou um livro em 1924


[o Amai-vos e não multiplicai-vos], se não me engano, e
que escandalizaria hoje num momento em que o governo
brasileiro recomenda, oficialmente, que os jovens não
façam sexo, imaginem uma mulher falar isso...
Emma Goldman esteve envolvida com o movimento
operário estadunidense. Entretanto, a prisão dela se
deu por fazer palestras, ensinando às mulheres métodos
anticoncepcionais. Ela, Emma, foi estigmatizada como
a mulher mais perigosa da América (Voltairine de Cleyre
tem um intenso texto, com exatamente esse título), não
por fazer greve, não por fomentar a revolução, mas porque
ensinava as mulheres a trepar sem ter filho. Esta era a sua
potência. Na verdade, é obvio que a atividade militante de
Emma Goldman a colocou na mira dos “cana”, os macacos
do governo, mas é significativo que o motivo oficial de sua
prisão estava ligado à prática do sexo livre.

hoje: sem tesão não solução!


Como que isso se dá hoje? A atualidade dessas práticas
não está em mimetizar as práticas históricas anarquistas,
mas em compreender que esse campo da paixão, esse
campo do amor, esse campo do afeto, da sedução, de
fato, não está disponível a nenhum tipo de domesticação
ou regra. Há duas coisas sobre “afetos políticos” que me
incomodam muito. A primeira delas é a ideia de que deve
se banir o ódio da política (“estamos vivendo um tempo
da política de ódio”). Bom, eu gostaria que alguém me
mostrasse algum momento na história da humanidade
que a política não foi feita com ódio ou que tenha sido
feita sem a mobilização de ódios. E, de repente, alguém

50 verve, 37: 42-56, 2020


verve
amor e servidão, paixão e revolta

se apresenta como uma consciência que paira sobre nossas


cabeças dizendo que o ódio é da direita, que as “pessoas
boas” devem “fazer política sem ódio”. Pelo contrário, tem
um meme famoso, que eu gosto muito, que diz: “você é
ótimo, só te falta ódio”. Curioso é que ele sempre seja
associado com os anarquistas, com um pinguim com o
A na Bola no peito. Nisso há uma ambiguidade: de um
lado, constata a potência antipolítica da anarquia, mas, de
outro e mais comum, busca-se desqualificar a ação dos
anarquistas, associando-os à irracionalidade e à prática
da violência e do que o liberais gostam de chamar de
“intolerância”.
A contrapartida dessa ideia remete a essa tradição
política do amor como servidão que toquei no início desta
conversação, essa ideia de que a política é um exercício
racional de pessoas que estão aqui seguras de si, civilizadas,
como se fosse possível estabelecer um acordo racional
como, por exemplo, se fizermos um acordo de relação aberta,
isso significa que você não ficará com ciúme se eu beijar ele. Isso
é uma grande bobagem, não há como controlar os afetos.
O grande lance da ideia de amor livre dos anarquistas é
antes de tudo admitir a inumanidade e lidar com ela. A
ideia é esta: não se faz política sem ódio, e a contrapartida é
a ideia de que não que não se faz (anti)política, militância,
sem tesão.
Na tradição da esquerda, a militância é uma espécie de
calvário que se atravessa: estou aqui me sacrificando, porque
no futuro a revolução… Isso produz absurdos. Lê-se muito
facilmente em alguns setores da esquerda que matar
pessoas é uma coisa ok: “na revolução vai morrer gente,
tal”. É uma comédia, porque quem diz isso, se imagina
dirigente dessa revolução, e por isso não vai morrer,

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2020

morrerão os outros. E em nome disso, a militância vira uma


atualização laica e futurista do cristianismo.
Por essas e outras, decidi fechar esta exposição com a
lembrança do Roberto Freire, criador da somaterapia, uma
terapia anarquista, que atualmente continua ativa com o
João da Mata, com grupos no Rio de Janeiro, aqui em São
Paulo e, as vezes, em outros estados… O Roberto dizia
uma frase que ele conta ter encontrado pixada na rua (no
muro do Cemitério da Consolação em São Paulo): “sem
tesão não há solução”.
A melhor maneira de responder ao que a gente
vive hoje, a esse bando de absurdos, a essa volta do
conservadorismo (ele teria ido embora algum dia?), a
esse conservadorismo de costumes que atinge, inclusive,
parte significativa da esquerda, uma espécie de “Damares
enrustida”, que fica querendo governar o sexo de todo
mundo, querendo classificar o que cada um faz ou que
deixa de fazer enquanto sexo; não estou falando aqui de
separação entre vida pública e privada, porque um dos
primeiros pressupostos do amor anarquista é: o meu
amor é evidentemente público a todo momento , que
será complementado com o que o João da Mata disse
recentemente em um livro que está para ser lançado pela
editora Circuito: a ideia de erotismo e sensualidade para
além da dimensão afetivo-sexual, estendendo-se para uma
erotização do cotidiano 12.
E o que o João da Mata chama por “erotização do
cotidiano”? É justamente tirar o erotismo desse lugar
privilegiado relacionado ao sexo, é erotizar a sua relação
com seu companheiro e companheira de militância,
com seu amigo e com sua amiga, com o que você faz. A

52 verve, 37: 42-56, 2020


verve
amor e servidão, paixão e revolta

partir do momento em que esse crivo de alguma maneira


orienta sua vida (porque é óbvio, a gente não vai fazer
só o que a gente gosta) e se você pensa que o erotismo
e o tesão devem habitar todas as suas atividades, você se
tornará cada vez menos suscetível a ser o servil amoroso,
a ser o bom marido, a boa esposa, o bom cidadão, o bom
patriota, o cidadão de bem. Hoje, vivemos uma situação
muito diferente.
Vivemos crendo em um mundo em que o sexo está
liberado. E estou falando “crendo”, porque justamente
essa hipertrofia do discurso sobre o sexo e sobre a
sexualidade nos rouba a liberdade de viver o sexo como
uma experiência livre13. Então ele, o sexo, deve ser daquela
maneira que o clipe musical mostra, em que o consumo
dos corpos dispostos como produtos lhe coloca. Não
há como esquecer o final do volume 1 da História da
Sexualidade de Michel Foucault, indo na contramão de
uma tradição da psicanálise e com a qual o João da Mata e
o Roberto Freire14 se filiaram, que é a revolução sexual do
Wilhelm Reich. Foucault olhará para aquele momento,
na metade dos anos 1970, quando deu forma à noção
de biopolítica, e dirá que mais perigoso que o discurso
sobre a repressão sexual é o discurso sobre a sexualidade,
porque esse discurso tenta moldar a maneira como nos
relacionamos com nosso sexo, como relacionamos quem
somos à forma como fazemos sexo. A última frase do livro
é: “Ironia deste dispositivo: é preciso acreditarmos que
nisso está nossa ‘liberação’”15.

verve, 37: 42-56, 2020 53


37
2020

Notas

1
Este texto foi escrito a partir de minha fala no lançamento do livro de
Laura Fernández Cordero. Amor y anarquia. Experiencias pioneras que
pensaran y ejercieron la libertad sexual. Buenos Aires, Siglo Veitiuno, 2019. O
lançamento ocorreu no Tapera Taperá comigo, Laura Cordero e Margareth
Rago, no dia 4 de fevereiro de 2020, e pode ser visto neste link: https://www.
youtube.com/watch?v=4-O7A9xGqq4&feature=youtu.be. Embora utilize
passagens transcritas este texto excede o que foi dito no vídeo. Agradeço a
Elis Verri pela transcrição do áudio do vídeo.
2
Roberto Freire. Ame e dê vexame. Rio de Janeiro, Editora Guanabara, 1990.
Edson Passetti. Ética dos amigos: invenções libertárias da vida. São Paulo,
<?>

Imaginário, 2003.
4
Max Stirner. “Algumas observações provisórias sobre o Estado fundado no
amor” in verve. São Paulo, nu-sol, vol. 1, 2002, pp. 13-21.
5
Sobre a camaradagem amorosa, ver Émile Armand. “Amor, amor em
liberdade, camaradagem amorosa”. in verve. São Paulo, nu-sol, vol. 21, 2012,
pp. 22-29.
6
Osvaldo Bayer. Severino Di Giovanni: el idealista de la violencia. Buenos
Aires, Ed. Planeta, 1998.
7
Sobre o jornal, ver: Émile Armand. “Our Rule of Ideological Conduct:
Manifesto of the journal L’En-Dehors (1922)”. Tradução de Shawn P. Wilbur,
2011. Disponível em: http://theanarchistlibrary.org/library/emile-armand-
our-rule-of-ideological-conduct-manifesto-of-the-journal-l-en-dehors.
Para consultar as edições do L’eN-Dehors de 1922-1939, quando Armand
o editou, ver: http://www.la-presse-anarchiste.net/spip.php?rubrique287.
8
Nu-Sol (org). “América Scarfó, uma experiência” (Cartas de Émile Armand
e América Scarfó) in verve. São Paulo, nu-sol, vol. 14, 2008, pp. 53-59.
9
Idem.
10
Sobre Maria Lacerda de Moura, sua vida e seus escritos, ver Miriam
Lifchitz Moreira Leite (org.). Maria Lacerda de Moura: uma feminista
utópica. Florianópolis, Editora Mulheres, 2005, pp. 369.

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verve
amor e servidão, paixão e revolta

11
Margareth Rago. “Entre o anarquismo e o feminismo: Maria Lacerda
de Moura e Luce Fabbri”. in verve. São Paulo, nu-sol, vol. 21, 2012, p. 63.
12
O livro ainda não foi lançado, mas é possível encontra diversos textos
sobre o assunto no site da Soma: http://www.somaterapia.com.br/. A
respeito do que me refiro, ver, em especial: João da Mata. “Erotismo,
sensualidade e sexualidade como potência de vida”. Disponível em http://
www.somaterapia.com.br/wp/wp-content/uploads/2015/05/Erotismo-
sensualidade-e-sexualidade-como-pot%C3%AAncias-da-vida.pdf
Para uma discussão mais longa e elaborada sobre isso, com suas implicações
13

morais, políticas, religiosas e mercadológicas sobre o sexo livre, ver: Eliane


Knorr de Carvalho. Sexo no mercado: produção de verdades, desejos e moral.
Tese de Doutorado. São Paulo, PUC-SP, 2017, 326 pp.
14
Sobre a vida e obra de Roberto Freire relacionada às práticas anarquistas e
ao movimento anarquista, ver Gustavo Ferreira Simões. Roberto Freire: tesão
e anarquia. Dissertação de Mestrado. São Paulo, PUC-SP, 2011, 227 pp.
15
Michel Foucault. História da sexualidade I: A vontade de saber. Tradução
Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de
Janeiro, Graal, 2001, p. 149.

verve, 37: 42-56, 2020 55


37
2020

Resumo
Breve apresentação das práticas do amor livre entre os
anarquistas em aposição ao amor como servidão. Parte-
se dos escritos de Émile Armand e desdobramentos entre os
anarquistas na experiência de América Scorfó, nos escritos de
Maria Lacerda de Moura e nas práticas da Somaterapia. A
anarquia se faz pela paixão e a revolta, o Estado, como aponta
Max Stirner, é fundado no amor à servidão, seja do súdito ou
do cidadão
Palavras-chave: Amor livre, paixão, revolta, camaradagem
amorosa, tesão.

Abstract
Brief overview on anarchists practices of free love opposed to
love as servitude. Based on the writtings of Emile Armand,
and the anarchist follow-ups on Amarica Sacarfo’s experiences,
Maria Lacerda de Moura’ writtings, and Somaterapia
practices. Anarchy is build by passion and revolt. The State,
according to Max Stirner, is build on love for servitude wether
it is from the subject or the citizen.
Keywords: Free Love, Passion, Revolt, Amorous Comradeship,
Yen.

Love and Servitude, Passion and Revolt, Acácio Augusto.


Recebido para publicação em 11 de março de 2020. Confirmado
em 14 de abril de 2020.

56 verve, 37: 42-56, 2020


verve
a criança e seus inimigos

a criança e seus inimigos1

emma goldman

A criança deve ser considerada como uma


individualidade, ou como um objeto a ser moldado de
acordo com os caprichos e fantasias daqueles ao redor
dela? Isso me parece a pergunta mais importante a ser
respondida pelos pais e educadores. Se a criança deverá
crescer a partir dela mesma, e se tudo o que almeja se
expressar, poderá emergir à luz do dia; ou se ela será sovada
como massa de pão por forças externas, isso vai depender
da resposta adequada para essa pergunta vital.
Os anseios do melhor e do mais nobre de nossa época
tem com resultado as mais fortes individualidades. Todo
ser sensível abomina a ideia de ser tratado como mera
máquina ou mero papagaio do convencionalismo e da

Emma Goldman, anarquista nascida na Lituânia, chegou nos Estados Unidos


com a irmã indo trabalhar como operária têxtil. Em pouco tempo tornou-se uma
militante combativa juntamente com seu companheiro Alexandre Berkman, o que
lhe valeu alguns encarceramentos, um deles por ensinar publicamente o uso de
contraceptivos. Emma Goldman participou criticamente da Revolução Russa, da
Revolução Espanhola e morreu em 1940, no Canadá. Seu corpo foi sepultado em
Chicago, junto com os dos anarquistas de Haymarket.

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37
2020

respeitabilidade. O ser humano almeja seu reconhecimento


enquanto tal.
É preciso ter em mente que é pela via da criança que
o desenvolvimento do ser humano maduro deve seguir,
e que as ideias atuais de educação ou treinamento dessa
pessoa na escola e na família — até mesmo na família
liberal ou radical — são tais que asfixiam o crescimento
natural da criança.
Todas as instituições de nosso cotidiano, a família,
o Estado, nossos códigos morais, veem em cada
personalidade forte, bela e intransigente um inimigo
mortal; há, portanto, todo um esforço feito para confinar
a emoção humana e a originalidade do pensamento do
indivíduo em uma camisa de força desde a primeira
infância; ou para modelar todo ser humano conforme
um único padrão; não em um indivíduo pleno, mas em
um resignado trabalhador escravo, em um autômato
profissional, um cidadão pagador de impostos ou um
moralista correto. Se alguém, no entanto, se depara com
uma espontaneidade real (que, aliás, é um traço raro), isso
não se deve ao nosso método de criar ou educar a criança:
a personalidade geralmente se impõe, apesar de barreiras
oficiais e familiares. Tal descoberta deve ser comemorada
como um evento incomum; uma vez que os obstáculos
colocados no caminho do crescimento e desenvolvimento
do caráter são tão numerosos, se forem preservadas sua
força e beleza e se este sobreviver às várias tentativas
de paralisar o que lhe é mais essencial, isso deve ser
considerado um milagre.
De fato, aquele que se libertou dos grilhões da
inconsequência e estupidez do lugar-comum; aquele que

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verve
a criança e seus inimigos

pode ficar em pé sem muletas morais, sem a aprovação


da opinião pública — a ‘preguiça privada’ como Friedrich
Nietzsche a denominou — pode muito bem entoar uma
alta e volumosa canção de independência e liberdade; ele
ganhou o direito a isso por meio de batalhas ferozes e
ardentes. Tais batalhas começam já na mais tenra idade.
A criança mostra suas tendências individuais em suas
brincadeiras, suas perguntas, sua associação com pessoas e
coisas. Mas precisa lutar contra a infindável interferência
externa em seu mundo de pensamento e emoção. Não
deve se expressar em harmonia com sua natureza, com
sua personalidade crescente. Deve se tornar uma coisa,
um objeto. Suas perguntas são recebidas com respostas
rasas, convencionais e ridículas, na maioria baseadas em
falsidade. Quando, com olhos grandes, maravilhados e
inocentes, a criança deseja contemplar as maravilhas do
mundo, todos a seu redor trancam rapidamente as janelas
e portas e mantêm a delicada planta humana em uma
atmosfera de estufa, onde não pode respirar nem crescer
livremente.
Zola, em seu romance Fecundidade, afirma que grande
parte das pessoas declararam morte à criança, conspiraram
contra o nascimento da criança. De fato, é um quadro
horrendo não obstante, a conspiração estabelecida pela
civilização contra o crescimento e a formação do caráter
me parece muito mais terrível e desastrosa devido à lenta
e gradual destruição das respectivas qualidades e traços
latentes e ao efeito soporífero e paralisante disso sobre sua
integridade social.
Visto que todo esforço em nossa vida educacional
parece estar direcionado para tornar a criança um ser

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2020

estranho a si mesma, isso deve necessariamente produzir


indivíduos estranhos uns aos outros e em perpétuo
antagonismo entre si.
O ideal do pedagogo médio não é um ser original,
coerente e pleno, em vez disso, ele busca que o produto
de sua arte pedagógica sejam autômatos de carne e
osso, para se encaixarem melhor na esteira da sociedade
e no vazio e estupidez de nossas vidas. Todo lar, escola,
faculdade e universidade defendem um utilitarismo seco
e frio, inundando o cérebro do aluno com uma imensa
quantidade de ideias, transmitidas de gerações passadas.
“Fatos e dados”, como estas são chamadas, constituem
muita informação, talvez o suficiente para manter toda
forma de autoridade e criar demasiada reverência à
importância da propriedade, mas são apenas um grande
entrave para uma verdadeira compreensão da alma
humana e de seu lugar no mundo.
Verdades mortas e esquecidas há muito tempo,
concepções de mundo e de seu povo cobertas de mofo, já
mesmo na época de nossas avós, estão sendo marteladas
nas cabeças de nossa jovem geração. Mudança contínua,
milhares de variações, inovação constante são a essência
da vida. A pedagogia profissional nada sabe sobre isso, os
sistemas de ensino estão sendo organizados em arquivos,
classificados e numerados. Eles não têm a forte semente
fértil que, caindo em solo rico, lhes permite crescer a
grandes alturas; são desgastados e incapazes de despertar
a espontaneidade de caráter. Instrutores e professores, com
almas mortas, operam com valores mortos. A quantidade
é obrigada a tomar o lugar da qualidade. As consequências
disso são inevitáveis.

60 verve, 37: 57-68, 2020


verve
a criança e seus inimigos

Em qualquer direção para a qual nós viramos,


avidamente buscando seres humanos que não medem as
ideias e as emoções com o critério da conveniência, somos
confrontados com os produtos de um adestramento similar
ao de um rebanho, em vez do resultado de características
espontâneas e inatas se exercitando em liberdade.

“Nenhum vestígio, agora eu vejo,


de qualquer ação de um espírito.
É adestramento, nada mais. ”

Essas palavras de Fausto2 se encaixam perfeitamente


em nossos métodos de pedagogia. Tome, por exemplo,
o modo como a história está sendo ensinada em nossas
escolas. Veja como os eventos do mundo se tornam um
show barato de marionetes, onde alguns poucos titereiros
supostamente direcionaram o curso do desenvolvimento
de toda a raça humana.
E a história de nossa própria nação! Não foi ela
escolhida pela Providência para se tornar a nação líder na
Terra? E não se eleva acima de outras nações? Não é a
joia do oceano? Não é incomparavelmente virtuosa, ideal
e corajosa? O resultado de um ensino tão ridículo é um
patriotismo monótono e superficial, cego para suas próprias
limitações, com uma teimosia bovina, totalmente incapaz
de julgar as capacidades de outras nações. É desse modo
que o espírito da juventude é emasculado, amortecido por
uma superestimação do seu próprio valor. Não me admira
que a opinião pública possa ser tão facilmente fabricada.

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2020

A expressão “alimento pré-digerido” deveria estar


inscrita em toda sala de aprendizado como um aviso a
todos os que não desejam perder sua própria personalidade
e seu senso original de julgamento, ao contrário daqueles
que se contentariam com uma grande quantia de conchas
vazias e rasas. Isso pode bastar como reconhecimento
dos múltiplos obstáculos colocados no caminho de um
independente desenvolvimento mental da criança.
Igualmente numerosas, e não menos importantes, são
as dificuldades que confrontam a vida emocional dos
jovens. Não devemos supor que os pais precisariam estar
unidos aos filhos pelos laços mais ternos e delicados? No
entanto, por mais triste que seja, precisamos supor isso: é
verdade que os pais são os primeiros a destruir as riquezas
internas de seus filhos.
As Escrituras nos dizem que Deus criou o homem à
sua própria imagem, o que de modo algum comprovou ser
um sucesso. Os pais seguem o mau exemplo de seu mestre
celestial; eles fazem todos os esforços para formatar e
moldar a criança de acordo com sua imagem. Apegam-se
tenazmente à ideia de que a criança é apenas parte deles
mesmos — uma ideia tão falsa quanto prejudicial, e que
apenas aumenta os equívocos sobre a alma da criança e
sobre as necessárias consequências da escravização e a
respectiva subordinação.
Assim que os primeiros raios de consciência iluminam
a mente e o coração da criança, ela instintivamente começa
a comparar sua própria personalidade com a personalidade
daqueles a seu redor. Quantos penhascos de pedra dura e
fria encontram seu extenso olhar de admiração? Em pouco
tempo, ela é confrontada com a dolorosa realidade de que

62 verve, 37: 57-68, 2020


verve
a criança e seus inimigos

ela está aqui apenas para servir como matéria inanimada


para pais e responsáveis, cuja autoridade por si só lhe dá
forma e contorno.
A terrível luta do homem e da mulher pensantes contra
as convenções políticas, sociais e morais tem sua origem
na família, na qual a criança sempre é obrigada a batalhar
contra o uso interno e externo da força. Os imperativos
categóricos: Você deve! Você precisa! Isso está certo! Isso
está errado! Isso é verdade! Isso é falso! despencam como
uma chuva violenta sobre a cabeça inexperiente do jovem
e imprimem em sua sensibilidade que ele precisa se curvar
diante de noções rígidas de pensamentos e emoções há
muito estabelecidas. No entanto, as qualidades e instintos
latentes buscam afirmar seus próprios métodos peculiares
de procurar o fundamento das coisas, de distinguir entre
o que é comumente chamado de errado, de verdadeiro ou
falso. Ele se empenha em seguir seu próprio caminho, pois
é composto pelos mesmos nervos, músculos e sangue, os
mesmos daqueles que assumem direcionar seu destino.
Não consigo entender como os pais esperam que
suas crianças possam em algum momento se tornarem
espíritos independentes e autoconfiantes, quando eles se
esforçam para reduzir e cercear as várias atividades de sua
prole e a vantagem em qualidade e caráter que a tornaria
diferente deles mesmos, e, em virtude da qual, seus filhos
se tornariam transmissores altamente equipados de
ideias novas e revigorantes. Uma jovem e delicada árvore,
cortada e podada pelo jardineiro para lhe dar uma forma
artificial, nunca alcançará a altura majestosa e a beleza
como quando lhe é permitido crescer na natureza e na
liberdade.

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2020

Quando a criança atinge a adolescência, ela encontra,


adicionada às restrições do lar e da escola, uma vasta
quantia de rígidas tradições de moralidade social. Os
desejos de amor e sexo são recebidos com absoluta
ignorância pela maioria dos pais, que os consideram
indecentes e impróprios, algo infame, quase criminoso,
para ser suprimido e combatido como uma doença
terrível. O amor e os sentimentos ternos da planta jovem
se transformam em vulgaridade e grosseria pela estupidez
dos que a cercam, de modo que tudo que é delicado e
belo acaba esmagado por completo ou escondido nos
interiores mais profundos, como um grande pecado, que
não se atreve a enfrentar a luz.
O mais surpreendente é o fato de que os pais se
despojarão de tudo, sacrificarão tudo pelo bem-estar físico
de seus filhos, passarão noites em claro e ficarão com medo
e agonia diante de alguma doença física de seu ser amado;
mas permanecerão frios e indiferentes, sem a menor
compreensão diante dos desejos da alma e dos anseios de
seus filhos, nem ouvindo nem querendo ouvir os sonoros
golpes do espírito jovem que exige reconhecimento. Pelo
contrário, abafarão a bela voz da primavera, de uma nova
vida de beleza e esplendor do amor; colocarão o longo e
magro dedo da autoridade na tenra garganta e não deixarão
escapar o canto prateado do crescimento individual, da
beleza do caráter, da força do amor e da relação humana,
que por si só fazem valer a pena viver.
E, no entanto, esses pais imaginam que com isso eles
proporcionam o melhor para a criança e, por tudo que
sei, alguns realmente o fazem; mas o que é o melhor para
eles significa a morte absoluta e o apodrecimento do
broto na sua formação. Afinal, eles estão apenas imitando

64 verve, 37: 57-68, 2020


verve
a criança e seus inimigos

seus próprios senhores nos assuntos comerciais, sociais,


morais e de Estado, ao suprimir à força todas as tentativas
independentes de análise dos males da sociedade e todo
esforço sincero em prol da abolição desses males; nunca
são capazes de compreender a verdade inalterável de que
todo método que empregam serve como o maior impulso
para gerar um desejo maior de liberdade e um zelo mais
profundo de lutar por ela.
Essa compulsão está fadada a despertar resistência,
todos os pais e professores devem saber. Surpreende
bastante o fato de que a maioria dos filhos de pais radicais
se opõem totalmente às ideias dos últimos, muitos deles
seguem velhos caminhos antiquados ou são indiferentes
aos novos pensamentos e ensinamentos da regeneração
social. E, no entanto, não há nada incomum nisso. Os pais
radicais, embora emancipados da crença da propriedade
na alma humana, ainda se apegam tenazmente à noção
de que são os donos da criança e de que têm o direito de
exercer sua autoridade sobre ela. Daí eles decidem moldar
e formar a criança de acordo com suas próprias concepções
do que é certo e errado, forçando suas ideias sobre ela com
a mesma veemência usada pelo pai católico comum. E,
como este último, eles apresentam perante os jovens a
necessidade de “fazer o que eu digo e não o que faço”.
Mas a mente sensível da criança percebe suficientemente
cedo que a vida de seus pais está em contradição com as
ideias que representam; que, como o bom cristão que reza
fervorosamente no domingo, mas continua quebrando
os mandamentos do Senhor pelo resto da semana, o
pai radical acusa Deus, o sacerdócio, a igreja, o governo,
a autoridade doméstica, mas continua a se ajustar à
condição que abomina. Assim, o pai livre-pensador pode

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se gabar orgulhosamente que seu filho de quatro anos


reconhecerá a imagem de Thomas Paine ou Ingersoll ou
que sabe que a ideia de Deus é estúpida. Ou então, o pai
social-democrata pode apontar para sua filhinha de seis
anos e dizer: “Quem escreveu O Capital, queridinha?”
“Karl Marx, pai!” Ou então, a mãe anarquista pode exibir
que o nome da filha é Louise Michel, Sophia Perovskaya,
ou que a menina pode recitar os poemas revolucionários
de Herwegh, Freiligrath ou Shelley, e que ela apontará os
rostos de Spencer, Bakunin ou Moisés Harmon em quase
todo lugar.
Estes não são exageros, de forma alguma, são fatos
tristes que conheci em minha experiência com pais
radicais. Quais são os resultados de tais métodos para
influenciar a mente? O que se segue é a consequência, e
não pouco frequente. A criança, tendo sido alimentada
com ideias unilaterais, definidas e fixas, logo se cansa de
requentar as crenças de seus pais e parte em busca de
novas sensações, não importa quanto inferior e superficial
a nova experiência possa ser, a mente humana não pode
suportar a mesmice e a monotonia. Então acontece que
aqueles meninos ou meninas, superalimentados por
Thomas Paine, aterrissarão nos braços da Igreja, ou votarão
pelo imperialismo, apenas para escapar da influência do
determinismo econômico e do socialismo científico, ou
então, abrirão uma fábrica de blusas e se apegarão ao seu
direito de acumular propriedades, apenas para encontrar
alívio do comunismo antiquado de seu pai. Ou a garota se
casará com o primeiro “bom partido”, desde que ele possa
ganhar a vida, apenas para fugir da interminável conversa
sobre variedades.

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a criança e seus inimigos

Tal estado das coisas pode ser muito doloroso para


os pais que desejam que seus filhos sigam seu caminho,
mas eu vejo estas crianças como forças psicológicas muito
refrescantes e encorajadoras. Elas são a maior garantia de
que, ao menos, a mente independente sempre resistirá a
toda força externa e estranha exercida sobre o coração e a
cabeça humanos.
Alguns perguntarão: e as naturezas fracas, elas não
deveriam ser protegidas? Sim, mas para poder fazer isso,
será necessário perceber que a educação das crianças não
é sinônimo de adestramento e treinamento em rebanho.
Se a educação deve realmente significar alguma coisa,
precisa insistir no livre crescimento e desenvolvimento
das forças e tendências inatas da criança. Só dessa maneira
podemos esperar pelo indivíduo livre e, eventualmente,
também uma comunidade livre, que tornarão impossíveis
a interferência e a coerção no crescimento humano.

Tradução do inglês por Beatriz Scigliano Carneiro.

Notas
1
Mother Earth, Vol. 1, No. 2, abril 1906.
2
Goethe, W. Fausto, Part 1. http://www.dominiopublico.gov.br/download/
texto/gu003023.pdf. O trecho se refere a uma observação de Fausto sobre o
comportamento de um cachorro. No original alemão: “Du hast wohl recht, ich
finde nicht die Spur Von einem Geist, und alles ist Dressur.” (N.T.)

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37
2020

Resumo
Emma Goldman demole a educação das crianças em nossa
sociedade. Dos pais às instituições a criança é tratada como
algo a ser moldado independente de seus talentos e vontades. O
resultado são adultos sem vida ou prontos a aceitar qualquer
opção que os garanta uma alternativa à vida que lhe foi
imposta. A educação pela liberdade é uma saúde!
Palavras-chave: crianças, educação, liberdade.
Abstract
Emma Goldman bashes on child education in our society. From
parents to institutuions the child is treated as something to be
shapped despite its own talents and craves. The results are
lifeless adults, os people ready to accept any other alternative to
the lifes that was imposed to them. Education through freedom
is liveliness!
Keywords: child, education, freedom.

The Child and Its Enemies, Emma Goldman.


Indicado para publicação em 25 de março de 2020.

68 verve, 37: 57-68, 2020


verve
revolta e anarquia

revolta e anarquia

edson passetti

1.
Os anarquistas sempre estiveram voltados para a análise
crítica da revolução moderna. Revolução, palavra para
designar a ruptura com um modo de vida, principalmente
com um governo da vida pautado na desigualdade
material. Porém, a palavra revolução, desde a chamada
de Revolução Francesa, ganhou variadas dimensões. Aos
poucos, passou a ser incorporada ao vocabulário cotidiano
como expressão de uma mudança surpreendente em
costumes, comportamentos, por vezes, na política e no
exercício da soberania; quase sempre, esteve relacionada
às mudanças na tecnologia industrial, nos paradigmas
das ciências, nos modos de governar os trabalhadores em
fábricas, serviços etc.; enfim, paulatinamente, a palavra
revolução passou a designar um reajuste à ordem fundada

Edson Passetti é professor livre-docente no departamento de Política e no


Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, onde
coordena o Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária) www.nu-sol.org
Contato: edson.passetti@uol.com.br

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na desigualdade material. Aos poucos, a palavra revolução


foi sendo projetada pelas Ciências Humanas na história
passada, presente e futura, para designar o alcance universal
das causalidades que geraram rupturas marcantes.
Para xs anarquistas, ao contrário, a palavra revolução
está historicamente relacionada aos efeitos da Revolução
Francesa. Para os liberais, entretanto, revolução está
sempre presente de maneira específica, quando as
práticas sociais e políticas colocam em questionamento
as desigualdades materiais e, por conseguinte, estão
relacionadas à tentativa de superação do capitalismo por
uma determinada classe econômica e social. O uso da
palavra e conceito de revolução para eles está autorizado
desde que sob suas condições teóricas. Assim sendo, no
limite, uma sublevação está autorizada somente quando
os excessos do soberano ferirem a integridade do corpo
social. Com maiores ou menores radicalidades, tais
excessos foram expostos por Thomas Hobbes e John
Locke, no século XVII, em função do contrato celebrado
para dar um fim à guerra no estado de natureza. Se em
Hobbes a sublevação exige novo contrato e novo soberano,
em Locke, a sublevação redimensiona a legitimidade da
soberania sem provocar uma ruptura com o contrato. Para
Hobbes, o uso e abuso no exercício do poder é prática
regular e a sedição, vista por ele como a doença do Estado
e, caso configurada como guerra civil a ser demarcada
como a inconcebível morte do Estado, portanto, o fim
do contrato. Para Locke, a guerra civil se justifica apenas
diante do abuso no exercício do poder com vistas a repor
um novo soberano que use adequadamente de suas
prerrogativas; está-se diante do equacionamento que
equilibra o abuso ao uso, pois no caso do Estado o “abuso”

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verve
revolta e anarquia

é condição inerente ao exercício do “uso”. Em outras


palavras, no contratualismo o circuito de violentações
inerente a qualquer Estado é dissimulado ao ser tratado
de forma eufemística pela encenação do jogo “uso-abuso-
uso”. A pertinência do contrato não se encontra no fato
social gerador do contrato de paz, historicamente sem
registros, mas na permanência e profícua continuidade do
contrato (jurídico ou normativo), governando as relações
e assegurando a defesa da sociedade. Xs anarquistas,
críticos do contrato (social ou formal), não só descrevem
as subordinações inexoráveis promovidas por relações
deste porte como redimensionam o contrato a partir de
duas pessoas ou mais, envolvidas em um acerto e libertas
de universalidades. Xs anarquistas produzem práticas em
direção à sua utopia, mas não a colocam no horizonte
da paisagem. Trazem-na, imediatamente, ao presente,
fortalecendo suas práticas. Neste sentido, a revolução é
um efeito possível na história e não a condição obrigatória
de mudança, segundo determinadas condições materiais
de força e capacidade políticas.
Xs anarquistas procuram situar o libertarismo entre
humanos em suas práticas e escritos, como o fez Max
Nettlau. A revolução é um acontecimento do final do
século XVIII e seguintes; se há algo de verdadeiramente
humano e que possui uma generalização que atravessa a
história é a recusa a ser subalternizado por alguém ou pela
Ciência da História como condutora de uma orientação
consciente. A revolução é algo inevitável, um atravessar
limites, uma situação de risco de morte, um escândalo do
insuportável conhecido como revolta. Mais recentemente,
um pequeno texto do filósofo Michel Foucault, “É inútil
revoltar-se?”, inscreveu-se no rol dos escritos considerados

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libertários sobre a revolta, de forma tão relevante como


o livro de Albert Camus em 1951, O homem revoltado,
logo após a II Guerra Mundial, com crítica direta ao
regime de condução de consciências e a saudação à
atitude de revolta. Vindos de fora dos anarquismos esses
escritos reiteram a coragem anarquista no embate com
condutores de consciência, o marxismo, porém, mais que
isso, a pertinência da revolta como atitude diante das
desigualdades, injustiças, explorações, ou o nome dado ao
insuportável e ao escândalo em momentos da história.
Xs anarquistas reconhecidos ou anônimos não
se apartam da revolta. Ela é incontrolável em certos
momentos, passa pelo indivíduo, por grupos, associações,
efêmeras, concentrações, no confronto direto com a polícia,
contra o regime das prisões e demais encarceramentos. A
revolta também situa nuanças de rebeldias, contestações,
impactos surpreendentes, derrubando a subjetividade que
se amolda à revolução dirigida, à reforma consentida,
conectada com as melhorias promovidas pela democracia,
à condução pelo alto, seja de vanguardas ou de elites. A
revolta está na epiderme.
A revolta atravessa a noção de revolução, dribla os
efeitos de revolução política moderna e dá condições para
que aconteça a revolução social anarquista em gestação
na sociedade fundada na guerra permanente, na qual o
direito aparece antes de tudo como meio de dominação.

2.
A espécie humana é um bicho que se revolta. Células,
bichos e gente são inteligentes, participam da cooperação

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verve
revolta e anarquia

entre espécies, como destacaram Kropotkin e Darwin.


Correm o risco de desaparecer por intempéries da
natureza e por sua devastação pelos humanos que se
consideram superiores. Superiores ao ponto de designar,
desde Aristóteles, os adversários e inimigos como animais.
Os seus seguidores no passado e os mais recentes desde
a era moderna, não deixam de ver o inimigo externo ou
interno como animais. A diferença é que, desde os tempos
modernos, difundiu-se a crença da paz possível por meio
do contrato, até se assimilar, definitivamente, desde
von Clausewitz, que a guerra é excepcional, episódica e
equacionável depois de iniciada, posto que ela é a política
prolongada por outros meios. A política é a gestão do
conflito e a guerra um evento extraordinário quando não se
convence o outro, pela diplomacia ou pelo reconhecimento
a priori, que suas forças são parcas. A guerra fortalece a
política porque liquida com muitos animais e pretende
civilizar os que sobraram pela domesticação. Entretanto,
se a guerra externa e episódica encontra essa solução, a
guerra interna demanda muito mais sangue. Em ambas, a
guerra se institui como sendo a guerra de um povo contra
outro, a guerra de fortes de um povo sobre fracos deste
povo, a guerra (interna ou externa) que edifica os direitos
dos vencedores, os deveres de vencidos e subalternos, a
legitimidade da obediência, uma política em que se define
como guerra prolongada por outros meios. E foi assim
desde a revolução Francesa, quando emergiu a noção de
guerra civil para situar a animalidade de segmentos da
sociedade contra a configuração civilizadora.
Para xs anarquistas, o que diferencia o humano dos
demais animais é a sua capacidade de revolta. Assim situou
Bakunin (Deus e o Estado), na esteira do que William

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37
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Godwin (Da justiça política) já sinalizara sobre a tirania


como componente irremediável do poder e do governo
acompanhada da glorificação da naturalização dos
direitos pelos juristas, e que também encontrou firmeza
e contundência em Pierre-Joseph Proudhon, desde O
que é a propriedade?. Uma diferença já situada desde o
longínquo século XVI pelo jovem Étienne de la Boétie
a partir de sua reflexão acerca da servidão voluntária, essa
estranha mania humana de seguir qualquer governante e
de abdicar da capacidade de reflexão pessoal pela razão
livre. E de revoltar-se.
A revolta é a questão central que nos diferencia de
animais e explicita as resistências a como essa vontade
geral-particular de ser governado por superiores se
expandiu e se consolidou. Por isso mesmo, para xs
anarquistas a revolução está sempre em discussão. Desde
Proudhon, sabe-se que a revolução política é uma maneira
de renovar o Estado. Ainda em companhia de Godwin,
não devemos esquecer que a revolução, em um primeiro
momento é efeito da luta aberta contra o exercício da
soberania e seu controle exercido por alguns, mas que em
seu momento subsequente, produz uma acomodação entre
as forças antigas e as novas no governo com uma inédita
forma de soberania ou simplesmente de sua restauração.
O governo de um (tirano), de alguns (aristocracia) ou de
todos (democracia) são maneiras pelas quais o domínio
do governo por um grupo seleto de superiores pretende
governar os de baixo. É sempre tirânico. É sempre o
governo do Um, como situara La Boétie.
A soberania popular moderna foi a grande e efetiva
revelação de como os variados modos de continuidade dos
governos no Estado se constituem e instituem por meio

74 verve, 37: 69-86, 2020


verve
revolta e anarquia

da revolução. São revoluções políticas, como a Francesa e


mais tarde como a Bolchevista, precipitadamente vistas ou
como opostas ou como sequência natural. No primeiro caso,
redimensiona-se o Estado, sua constituição e instituições,
introduzindo o jurídico-laico, a igualdade formal pela
cidadania, a regulação dos contratos (na fábrica, como
devedor em bancos, no comércio, na justiça, nas relações
sociais, culturais, científicas e políticas), situando deveres
de contratados, que explicitam a divisão da sociedade em
indivíduos, grupos e classes ao mesmo tempo em que
disseminam o ideal de igualdade pela cidadania. Um
modo de vida assegurado pelo direito penal, o legítimo
monopólio da violência física pelas forças armadas e
polícias, com a presença imprescindível do arquipélago
carcerário composto de prisões, asilos, manicômios,
orfanatos, e em certa medida, das fábricas, e mais tarde
pela escolarização da educação, coroando a legitimidade
da obediência com a crença no direito público. Tudo
isso produziu o humanismo, as relações de saber-poder
constantes, os domínios de sujeições, as seguranças, as
vigilâncias... Há muita repressão organizada pelo Estado
e muita educação gradativamente monopolizada pelo
Estado na medida em que esta se democratiza e se revela
imprescindível para o mundo do trabalho, do contrato, da
cultura hierarquizada. Institui-se a obediência legítima
e legal, a obediência como normalização, o amor à
obediência, ou seja, o assujeitamento, também entre os
súditos.
Para xs anarquistas a revolução somente pode ser
compreendida como revolução social, radical e voltada para
o fim das desigualdades reais e materiais que separam a
espécie. Rejeitam o humanitarismo burguês coroado pelas

verve, 37: 69-86, 2020 75


37
2020

suas filantropias e pelas políticas públicas contemporâneas.


Desde Proudhon, os xs anarquistas constataram e realizam
suas análises com base na situação de guerra permanente
em que vivemos como revolução permanente. Para os xs
anarquistas as relações de poder não se dão apenas na
relação descendente configurada pelo jurídico-político.
Na medida e desmedida em que inventaram e inventam
novas associações e formas de relações econômicas e
de direitos, explicitam que as relações de poder se dão
também de forma ascensional em direção ao Estado e nas
relações entre os próprios sujeitados.
As pesquisas de Michel Foucault são interessantes
para compreender mais detalhadamente este movimento
de resistências chamado Anarquia e suas práticas de
liberdade na atualidade. Antidisciplinar e voltado para o
direito antissoberania, os anarquismos não pretenderam
a hegemonia. Xs anarquistas não querem governar
anarquistas, nem compor com forças que se auto intitulam
libertárias (palavra que sobra na boca de liberais e de
marxistas heterodoxos).
X anarquista evita ser classificado como pacifista ou
revolucionário, individualista ou coletivista. Segundo a
situação e o acontecimento, ele é sempre isso e aquilo. De
acordo com a heterotopia anarquista, o percurso da forma
de realização imediata da utopia, xs anarquistas se associam
para inventar suas existências. São resistentes no jeito
como produzem existências, análises, antiposicionamentos
a cada convocação à participação.
Xs anarquistas são avessos ao ativismo em voga,
que a racionalidade neoliberal está consolidando ao
estimular a entrega de cada um para melhorar a situação,

76 verve, 37: 69-86, 2020


verve
revolta e anarquia

defender sustentabilidades, qualidade de vida, gestão


de vulnerabilidades, esforços para a pacificação... com
responsabilidade.
X anarquista evita os ativismos, a forma mais eficiente
de recrutamento de quadros e líderes para a consolidação
da governança (a crença em uma governamentalidade
planetária que faz crer não haver mais relações entre
governantes e governados), a expansão do pluralismo
democrático, o louvor à cidadania.
X anarquista não fortalece a relação de cooperação
entre capital e capital humano, fazendo de si, dentro das
empresas, um inovador empreendedor de si, um agente de
empoderamento, um colaboracionista.
X anarquista não tem identidade, não reivindica
local de fala, não visa equilibrar interesses capitalistas
individuais com coletivos para que nenhum dos dois
perca direitos nas escolhas racionais.
X anarquista combate no seu local de trabalho,
de estudo, de lazer, de moradia... O resto é retórica, é
ativismo, é capital humano inovador. A racionalidade
neoliberal tenta se apropriar de práticas de liberdade
anarquistas sob sua condução, redefinindo ação direta,
autogestão, liberdade, como palavras-chave.
X anarquista não admite o arquipélago carcerário,
nem o direito penal. Aprendeu desde o século XIX que o
direito penal é para identificá-lo como anormal, perigoso,
suspeito, sujo, vetor de pestes e epidemias, revoltado.
X anarquista sabe que a escolarização democrática dá
comida para melhor ensinar a obedecer.

verve, 37: 69-86, 2020 77


37
2020

X anarquista nunca separou natureza e cultura, sempre


foi defensor do jeito equilibrado de lidar com a flora e a
fauna. Morreu nas minas de carvão, de fome e desemprego
pelas ruas, viu seus filhos serem capturados pela caridade,
suas famílias habitarem cubículos de miseráveis, sempre
soube que não há capitalismo, com ou sem democracia,
sem produção de miséria.
X anarquista viveu o amor livre como paixão. O amor
é coisa de patriotas, famílias burguesas, religiões e está no
humanismo contemporâneo com o ecumenismo. E sabe
que por esta via a xenofobia reapareceu com força e se
expande. A paixão é incontrolável como a revolta.
X anarquista não despreza os saberes populares sobre
a saúde, inaugurou a alimentação natural, não admira os
animais docilizados, os similares dos homens de bem
aristotélico e platônico.
X anarquista não admite ser conduzido, muito menos
por outros que se dizem anarquistas. A existência
anarquista não é um direito, é uma atitude.
X anarquista não quer direitos iguais a homens e
mulheres. Os quer livres, com paixão, cuidando de si e
de seus filhos e amigos. X anarquista não é filantropo,
não pleiteia um lugar para resistir, e fala com todos
anarquistas que querem conversar. X anarquista não
admite o diálogo, o reconhecimento pelo outro que há
um superior. X anarquista sabe que há mestres em artes e
trabalhos e com eles estabelece uma relação de coragem, de
parresiasta. X anarquista não ama a humanidade, é amigo
dos guerreiros contra as desigualdades e hierarquias.

78 verve, 37: 69-86, 2020


verve
revolta e anarquia

X anarquista não crê na sociedade de plena liberdade;


em suas práticas sabe que há uma autoridade rondando,
mas que ela seja horizontalizada, como propicia a parrésia.

e ...
Xs anarquistas são revoltados, praticam a revolta como
risco de vida. Estão sempre naquele momento em que
enunciam o insuportável e provocam o escândalo com
suas atitudes.
Uma revolução não está apagada na paisagem, nem
se coloca como horizonte. É algo possível que pode se
configurar no interior de uma guerra permanente. No
passado esta guerra era mais explícita, era ameaçada pelas
insurreições que poderiam ocorrer a qualquer momento
com causas ou ao acaso. Enfrentava-se a ameaça da
declaração aberta de guerra civil pelo Estado contra os
revoltosos, ou por medidas jurídicas como de estado de
sítio, calamidade pública, emergenciais, sob a alegação
de proteger as populações de qualquer risco à ordem. Xs
anarquistas, no Brasil, nos anos 1920, sentiram isso na
pele pelas legislações e o estado de sítio declarado pelo
governo de Arthur Bernardes, durante todos os quatro
anos de seu mandato.
A revolução nunca deixou de ser uma heterotopia
para xs anarquistas. Muito mais que uma utopia, ela é
constitutiva das práticas anarquistas no presente como
revolução social permanente. O que os liberais procuram
levar a cabo com a racionalidade neoliberal, atravessando
regimes políticos distintos, é que a revolução política
como a realizada a partir da revolução russa é um modelo

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2020

que se esgotou. Xs anarquistas constataram isso antes,


durante e depois das revisões liberais. O diferencial está
em não considerar a Revolução Russa como modelo, nem
tampouco situá-la na zona de confronto com o marxismo.
Seja no caso russo ou espanhol, xs anarquistas, ao seu
modo, procuraram participar do desmonte do Estado
e realizar a revolução social. Mas foram massacrados,
justamente por não se darem conta que a demolição
do Estado não é uma tarefa da revolução política.
Embarcaram no bloco de forças que visava reocupar o
Estado como governo popular, e mesmo sabendo que isso
produz uma força hegemônica, tirânica, imaginaram ser
possível combater por dentro também. Estes foram mais
alguns momentos decisivos da luta anarquista em uma
guerra permanente. Xs anarquistas constataram que o
cerne da questão da ordem está na solução de paz pelo alto.
E nisso, liberais e marxistas estão mais que capacitados.
Seguem a gramática do poder maquiaveliana: não basta
conquistar, é preciso conservar. Trotsky estava certo na
abertura de sua História da revolução russa em seguir esta
gramática ao declarar que nada mais conservador que um
revolucionário (ao seu molde). Xs anarquistas, ao contrário,
estão próximos da análise ensaísta de La Boétie de luta
contra o UM, porque este é sempre tirânico e colabora
para impedir que a razão livre de cada pessoa interrogue
a servidão voluntária. Com Maquiavel se aprende que,
entre ser amado e temido, o soberano deve ser temido,
jamais odiado, pois isto será seu fim. Assim sendo, no
âmbito da gramática do poder os liberais sempre vencem
os marxistas. E com isso declaram, paramentados, o
esgotamento da noção de revolução. Mesmo porque creem
que a democracia é seu ideal, ainda que o capitalismo

80 verve, 37: 69-86, 2020


verve
revolta e anarquia

não requeira a democracia como regime constante; que


apesar de imperfeita a democracia é o melhor dos regimes
políticos. E daqui situa sua força hegemônica ao comandar
frentes e blocos contra fascistas e marxistas, como mostra
a história do século XX que se estende pelo XXI.
Todavia, xs anarquistas produziram subjetivações
voltadas para outras possibilidades das moldadas em
partidos e sindicatos, voltando a estarem presentes,
atualizadas, desde os movimentos de 68, como práticas
anarquizantes sem pleitearem uma identidade. Foram
além da crítica à exploração e à dominação, com atitudes
antimilitaristas, promoveram novos costumes livres
liberando minorias confinadas a pequenos direitos
concedidos e, juntos, mobilizaram contra o massacre
do planeta pela energia atômica bélica desde o final da
II Guerra Mundial. Provocaram com estas práticas um
verdadeiro reboliço nas relações. E sentiram na pele a
reação conservadora que, paulatinamente, foi controlando
as minorias com base na aceitação de direitos minoritários
que gerassem empoderamentos, protagonismos e
condutas moderadas. A reação conservadora se
escorou na racionalidade neoliberal que transformou o
trabalhador em capital humano colaborador e inovador
nas relações de produção e produziu uma nova elite
procedente destas minorias com pretensão a participar
das decisões majoritárias, que poderemos definir como
elites secundárias, imantadas às elites principais. Nesse
quadro, o militantismo anarquista, as práticas inventivas
de subjetivações contra as subordinações exigidas pela
militância, deparou-se com uma nova prática de liberdade,
em conformidade com as modulações neoliberais, o
ativismo.

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37
2020

O ativismo funciona em sintonia com a militância


convencional, produzindo recrutamentos horizontais
e verticais nas novas relações de poder que pretendem
consolidar uma nova política, não mais restrita aos canais
do sistema político partidário, mas capaz de absorver fluxos
de demandas da sociedade civil organizada. O ativismo
energiza a nova meta capitalista, a sustentabilidade,
ampliando os fluxos de tomadas de decisão políticas,
sociais e culturais, ao mesmo tempo em que por meio
do empreendedorismo do capital humano democratiza
as relações de produção. O ativismo é a chave neoliberal
para as práticas moderadas em consonância com a
sustentabilidade voltada a melhorar as condições de vida
das futuras gerações (como deixam claro os Objetivos
de Desenvolvimento Sustentável da ONU de 2015 e
com previsão de cumprimento de metas até 2030, dando
continuidade aos Objetivos do Milênio, de 2000 a 2015,
considerados alcançados), centro da programática da
governamentalidade planetária.
Aos poucos, as resistências também foram adocicadas
pelas práticas de resiliências introduzidas e que dizem
respeito a como devemos nos ajustar às dificuldades
e voltarmos à condição anterior. A resiliência passa
a ser a conduta recomendada e esperada das elites
secundárias, dos novos líderes, das práticas de convocação
à participação em função de redução de vulnerabilidades,
aumento de qualidade de vida e expansão da cultura de
paz. Recomenda-se que todos sejam democratas nesta
governança que pretende implodir a relação governantes-
governados. O militantismo anarquista vai inventando
práticas libertárias neste interior, sem aspirar em se
formalizar como alternativo. Ao mesmo tempo, a reação

82 verve, 37: 69-86, 2020


verve
revolta e anarquia

conservadora assimila práticas antidemocráticas, como


o fascismo e o neonazismo, no interior de sua nova
política, dispondo-lhes acesso ao sistema partidário
e espaço nas decisões, restaurando nacionalismos,
xenofobias, protecionismos... A democratização nas
relações é o inimigo contundente dos anarquistas. E os
ativistas e as resiliências seus dissimulados e oportunistas
parceiros. Na racionalidade neoliberal a nova política
se consolida pela diluição da oposição entre esquerda e
direita, característica da política no século XX. Ambas
extremidades do leque pluralista produz seus ativistas
resilientes que protagonizam as redes sociais digitais
com suas performáticas aparições, acelerando jogo de
renovação democrática com ampliações das chamadas
regra do jogo. A mobilização emotiva apressa a velocidade
do capitalismo de crise permanente e a programática
produtiva regida pelos fluxos computo-informacionais.
Nesta era de ecopolítica, onde o alvo dos governos é
o planeta, incluindo suas populações, a conservação com
moderação política, governando-se por meio de práticas
de resiliências, ativismos, elites secundárias... em função
da boa governança, as populações vão se ajustando
aos seus espaços comunitários como um campo de
concentração a céu aberto, em que cada um é um portador
de direitos, de uma identidade, de uma subjetividade
democrática, dirigindo suas expectativas à comunicação
contínua pelas redes sociais digitais, nas empresas, em seu
empreendedorismo, ativismo, militância. Aparece, então,
um cidadão-polícia (uma cidadã-polícia, uma cidadania
policial), que monitora a si e aos outros constantemente,
redefinindo o pastorado religioso absorvido pelo Estado
como pastorado laico por meio da biopolítica, em um

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2020

pastorado como prática de todos sobre cada um e de cada


um sobre os outros em seus ambientes na ecopolítica.
Confinados nas comunidades como sujeitos portadores de
direitos, fortalecem a hierarquia superior por meio de suas
formas de liderar nas elites secundárias, no seu espaço, e
de se conectar com as elites superiores pelo bem da boa
governança. É recomendado participar a cada convocação
e por variadas modulações da moderação. São os inimigos
dos anarquistas.
Se estiver correta a sugestão de Michel Foucault de nos
voltarmos contra o que somos e de nos interessarmos pelo
governo dos súditos pelos súditos, constata-se, também,
que a racionalidade neoliberal definiu ser impossível
acabar com o crime, porque isso que o jurídico chama
de crime e as humanidades reiteram e edulcoram é uma
escolha individual. O que muda é a gestão do crime e
das prisões. Com isso, ampliam-se as punições para que
as penas sejam cumpridas a céu aberto, definem-se mais
condutas criminalizáveis, diferenciam-se os tipos de
“crime” construindo prisões cada vez mais monitoradas.
E, além disso, introduz-se o monitorar pessoal e
eletronicamente as ruas e espaços abertos e fechados. Se na
sociedade das disciplinas o trabalhador estava condenado
por um tempo de jornada de trabalho exaustiva, na era da
ecopolítica se está na sociedade de controles, monitorado
e monitorando pelo ideal de controle full-time. Não
estamos mais na era da vigilância para produzir utilidade
econômica e docilidade política no e pelo trabalho.
Agora, estamos na era dos monitoramentos na produção
de produtividades, participação, inovação e democracia.
Exige-se que nos voltemos para este eficiente governo
dos súditos pelos súditos por meio de uma racionalidade

84 verve, 37: 69-86, 2020


verve
revolta e anarquia

neoliberal fundada no pluralismo político, na produção de


direitos e portadores de direitos de minorias numéricas
resilientes, na cooperação entre capital e capital-humano,
para acionarmos mais militantismos em nossas práticas
parresiásticas de liberdades anarquistas. O resto é retórica.
Cada anarquista saberá acrescentar algo proveniente
de suas práticas a estas anotações. Não há um ideal de
anarquista, prescrições, exemplos; x anarquista não está
disponível às disciplinas, aos controles a céu aberto, ao
domínio dos saberes, à política como guerra prolongada
por outros meios na biopolítica, ou à política como
segurança do vivo (na ecopolítica). Ele sabe que está no
rol dos que devem morrer porque vive neste estado de
guerra permanente. E vive perigosamente.

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37
2020

Resumo
A partir da análise crítica da revolução moderna, o artigo
afirma a potência da revolta, associando-a ao militantismo
anarquista.

Palavras-chave: revolução, anarquismo, revolta, militantismo.

Abstract
From the critical analysis of the modern revolution, the article
affirms the potency of the revolt, associating it with anarchist
militancy.
Keywords: revolution, anarchism, revolt, militancy.

Revolt and Anarchy, Edson Passetti.


Recebido para publicação em 20 de março de 2020. Confirmado
em 15 de abril de 2020.

86 verve, 37: 69-86, 2020


verve
Entrevista com joão da Masta

entrevista com joão da mata

Nu-Sol — Como foi a sua decisão e quais as experimentações


ao se tornar um somaterapeuta?

João da Mata — Esse tema é da ordem dos acasos.


Acontecimentos pelos quais somos tomados e, sem ter
muitos porquês, já estamos envolvidos. O fato é que
descobri a Soma, o anarquismo e toda essa perspectiva de
vida libertária a partir do meu encontro com o Roberto
Freire. Em certo sentido, ao ler e ouvir sobre esses
temas, parecia que se esclarecia algo em mim, como se
já conhecesse aquilo tudo, mas estava agora ali, claro e
direto. Foi uma identificação muito rápida e espontânea.
Eu era um jovem de vinte e poucos anos, filho de uma
família classe média pernambucana. As características
dessa família são conhecidas: formação cristã, pais
funcionários públicos e a necessidade de segurança de
toda ordem. Na época de meu encontro com o Roberto e
a Somaterapia, meu pai tornara-se político e seu projeto
era que, na minha vida adulta, eu pudesse sucedê-lo.

João da Mata é doutor em Psicologia/UFF; Doutor em Sociologia Econômica


e das Organizações/Universidade de Lisboa; Pós-Doutor em História/
UFF. Trabalha com a Soma – uma terapia anarquista há 25 anos.
Contato: jodamata@terra.com.br

verve, 37: 87-99, 2020 87


37
2020

Então, imagina! Largar aquilo tudo foi difícil, mas era o


que eu queria e estou até hoje. Passaram-se mais de trinta
anos desde esse primeiro contato. Experimentar a Soma
foi um sopro de vida diante de uma existência com muitos
bloqueios e travas.
A amizade e o trabalho com o Roberto foram coisas
muito marcantes, que trago comigo até hoje. A Soma é um
processo terapêutico-pedagógico, realizado em grupo e de
maneira autogestionária. Mas trabalhar com ela é também
um projeto de vida, de viver a anarquia no cotidiano. E a
vida anarquista, como sabemos, é uma vida de vicissitudes,
de lutas e alegrias.

— A Soma foi inventada em 1968, por Roberto Freire,


como resistência direta à ditadura civil-militar. Hoje, 2020,
o que permaneceu e como a Soma se transformou nesse meio
século?

— Muitas coisas mudaram. Porém, entre algumas


outras, há uma questão que permanece igual: a luta por
mais liberdade. O fundamental para a Soma, enquanto
processo terapêutico anarquista, continua sendo a
incessante busca por mais liberdade, pela ampliação de
nossas práticas de liberdade.
A Soma emerge como resistência diante de um cenário
fortemente marcado pela repressão fascista dos militares,
especialmente porque havia muito pouco amparo
psicológico aos militantes e ativistas da época que lutavam
contra aquilo tudo. Apesar de haver muita gente na
resistência antifascista, a sociedade era hegemonicamente

88 verve, 37: 87-99, 2020


verve
Entrevista com joão da Masta

favorável à ditadura e agia como força aliada para sua


manutenção. Os jovens que procuravam a Soma sofriam
ainda com as chantagens e jogos emocionais dentro de
suas próprias casas, formadas sob a moral burguesa.
Hoje vivemos em um regime democrático. Por mais
que muitos questionem a democracia atualmente,
sobretudo em função do “bolsonarismo”, é certo afirmar
que este mesmo fenômeno ocorreu dentro do pluralismo
democrático. Então, no meu entendimento, o que temos
hoje é uma dilatação e pulverização das práticas de poder
e de dominação, típicas da própria democracia. Isto torna
as coisas um pouco mais capciosas, pois a sedução à
participação do que está posto, aliado ao entendimento
que muitos jovens têm, de que é possível produzir práticas
de liberdade dentro de partidos e dos jogos eleitorais, é
enorme. A democracia representativa cria esse canto
da sereia, alimentando a fábula de um mundo melhor a
partir de sua legitimação e participação. O inimigo está
pulverizado e as resistências, capturadas.
Então, vejo que o maior desafio proposto pela Soma
hoje é incrementar nossos campos de luta, mesmo diante
dos controles aos quais estamos expostos diariamente.
No início da Soma havia também uma importantíssima
forma de resistência aos fascismos da época, que surgia a
partir do desbunde, da liberação dos corpos e costumes.
Penso que hoje isso ainda seja importante, já que a
libertinagem está inscrita nas práticas de liberdade. Mas
penso também que já não é por aí. Essa atitude já virou
produto de algo a ser consumido.
Outra característica atual é um aumento terrível da
medicalização. Se anos atrás era pouco comum algum

verve, 37: 87-99, 2020 89


37
2020

membro de grupo fazer uso de alguma medicação de uso


controlado, hoje seu consumo tornou-se muitas vezes
indiscriminado e banalizado.
Bem, esses são apenas alguns fatores que destaco.
Há muitos outros que vem sendo transformados, e
que refletem as mudanças sociais, culturais e políticas
vividas nestes últimos cinquenta anos. Alguns exercícios
e dinâmicas foram criados, novos autores incorporados,
práticas redimensionadas.
Enfim, penso ser a Soma uma obra aberta, e como tal,
deve sempre estar atenta às modificações e demandas que
a juventude tem passado.

— Além da Soma, você tem se envolvido com outras


práticas anarquistas, terapêuticas e artísticas?

— Além dos grupos de Soma, realizo atendimentos


individuais também. Me utilizo dos recurso teóricos
que dão sustentação ao trabalho da Soma, notadamente
as análises em torno das práticas de poder que estão
impregnadas em nosso comportamento e de como
podemos criar instantes libertários. Esta seria a própria
noção de saúde que trabalho: a vida livre.
Nos últimos anos, estive envolvido em levar as
análises terapêuticas e políticas da Soma ao âmbito
acadêmico, através de pesquisas em doutoramentos e pós-
doutoramentos. Atualmente, estou envolvido na produção
e escrita de livros e filmes também de temática libertária.

90 verve, 37: 87-99, 2020


verve
Entrevista com joão da Masta

— Qual a importância da capoeira na mobilização de


energias corporais contra os fascismos incrustados no corpo?

— Seguindo a perspectiva da psicologia somática de


Wilhelm Reich, o uso da capoeira angola dentro dos
grupos de Soma procura estabelecer uma relação entre
a problemática emocional e seus equivalentes corporais.
Também busca criar em seu praticante a disposição para a
luta diante dos autoritarismos que lidamos cotidianamente.
Em sua historicidade, a capoeira emerge como processo
de luta diante da escravidão que se manteve no Brasil
por quase quatro séculos. Transformando seus corpos
em armas de luta, o africano tornado escravo inventou a
capoeira como expressão física de resistência. Ela surge
como uma mescla de ritual, luta e dança, usada pelos
escravos para torná-la, ora uma mera brincadeira, ora uma
prática de combate.
Trabalhada numa perspectiva terapêutica na Soma,
entendemos que ela produz uma forte mobilização
bioenergética, despertando no praticante a disposição de
enfrentamento no cotidiano.
Dessa forma, não se trata de meramente uma luta física,
como defesa ou agilidade pessoal, por exemplo. Pensamos a
partir da perspectiva reichiana, que estabelece uma íntima
relação entre corpo e emoção. Assim, ao prepararmos
nossos corpos para a luta, estamos potencialmente nos
colocando no mundo para enfrentar emocionalmente as
relações de poder, valorizando uma postura afirmativa e
guerreira diante da vida.

verve, 37: 87-99, 2020 91


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2020

Acreditamos que disposição de luta é elemento básico


para o enfrentamento dos mecanismos de poder que atuam
e limitam as práticas de liberdade. Inclusive, aqueles que
estão impregnados em nossos corpos, gestos e atitudes.

— Você fala muito em política do cotidiano. É possível


conjugar política e antipolítica no cotidiano? Como a ação
terapêutica da Soma enfrenta as sociabilidades autoritárias
contemporâneas? A Soma é constitutiva de uma pedagogia
libertária?

— A Soma é uma terapia em grupo que funciona


como um micro laboratório social, possibilitando a
percepção do que cada um é a partir de suas relações com
os demais membros do grupo. O processo terapêutico
se dá pelas descobertas individuais, auxiliado pela forma
como somos percebidos pelos outros. Este “espelho social”
que representa o trabalho em grupo da Soma nos auxilia
a reconhecer como agimos e lidamos com os outros. Daí
também emerge o sentido da pedagogia libertária: como
podemos aprender sobre nós e sobre os outros a partir de
relações horizontais.
O campo social de estudo que situa o grupo, no qual
seus membros interagem com os demais e onde a terapia se
desenvolve, nos possibilita trabalharmos no que chamamos de
uma política do cotidiano. Para nós, é importante percebermos
como lidamos com as malhas de poder à nossa volta, quais as
práticas políticas e éticas que desenvolvemos e como somos
afetados por elas. E especialmente, como reproduzimos —
muitas vezes sem perceber — os jogos de poder nas relações,

92 verve, 37: 87-99, 2020


verve
Entrevista com joão da Masta

repetindo um mesmo circuito muitas vezes indesejado,


mas que não damos conta de mudar. Esta associação entre
psicologia e política nos possibilita entender, primeiro, a
articulação entre o comportamento humano e os jogos de
poder, e segundo, como se dá a implicação de cada um neste
processo. O grupo se torna então, o campo privilegiado onde
a terapia se processa, por meio de uma dinâmica de grupo
autogerida que proporciona sociabilidades mais horizontais,
combatendo hierarquias e mecanismos de dominação.
A criação de sociabilidades libertárias seria ao mesmo
tempo efeito da pedagogia libertária e a própria ação que
podemos chamar de terapêutica, entendida aqui não como
cura, mas como processo de deslocamento e reinvenção de si.
Entendo que produzir uma atitude política neste
termos é propriamente criar uma antipolítica anarquista.
Uma ação política menor, distante da práticas políticas
hegemônicas, quase sempre inócuas e autoritárias.

— Como alguém que possui formação no campo da


psicologia, como você analisa as atuais políticas baseadas no
ressentimento?

— O ressentimento é uma praga que assola a


humanidade há mais de dois mil anos.
É o predomínio das forças reativas sobre as forças
ativas, que prende o ressentido no sentimento de vingança
contra outro, que ele supõe ser o responsável por seu estado
de sofrimento e angústia.

verve, 37: 87-99, 2020 93


37
2020

Desde a emergência do cristianismo e da moral do


escravo somos assolados por essas forças, que agem
como campo de fundo nas subjetividades, produzindo
uma política de rebanho. Ela está impregnada de culpa,
ressentimento e má consciência, e composta por práticas
reativas, calcadas no medo, na inveja e na covardia.
Reich chamou essas forças de peste emocional, algo capaz
de reduzir a existência humana a uma condição medíocre,
que reserva a vida a uma condição de sobrevivência.
Segundo ele, a peste emocional é o que mantém o
indivíduo médio preso às lembranças e acontecimentos
do passado. Não conseguindo esquecer, este se torna
rancoroso e covarde.
Se a peste emocional nunca cessou sua presença, vivemos
seu predomínio. O recrudescimento do conservadorismo
atual é apenas uma de suas facetas, que alimentam o
ressentimento daqueles que desejam a servidão voluntária.

— Quais questões mais recorrentes trabalhadas nas sessões


de somaterapia no passado e na atualidade?

— As questões de gênero, as raciais, os feminismos


e muitos dos temas que surgem também no âmbito
universitário, por exemplo, aparecem nos grupos. Há um
dinamismo e busca por práticas contra-hegemônicas e
muitas pessoas veem na Soma um espaço para pensar tais
práticas a partir de uma perspectiva terapêutica. Muitas
delas estão cansadas da psicologia tradicional e individual,
circunscrita à dimensão sobrecodificante.

94 verve, 37: 87-99, 2020


verve
Entrevista com joão da Masta

Há uma busca pelas análises libertárias e coletivas,


apesar de vivermos a expansão de um individualismo
que chamo de vulgar, bem diferente da individualidade
defendida pelos anarquistas, na qual a afirmação da
nossa singularidade se dá na diferença do outro e não
na competição ou concorrência, características no
neoliberalismo.
Acredito que esta seja uma das principais questões
presentes nas pessoas que procuram a Soma hoje em dia:
a construção de modos de vida libertários.
Para isso, buscamos estabelecer uma analítica do poder
que atravesse o comportamento de cada um até atingir
as relações entre todos dentro do coletivo dos grupos.
Isso não significa a eliminação das práticas de poder, mas
possibilita o surgimento de sociabilidades que minimizem
e evitem a cristalização do autoritarismo. Traz ainda o
exercício da diferença e a afirmação do singular por parte
das pessoas ali presentes.

— Como tem sido lidar com a Soma, uma prática


anarquista corporal, em tempos do chamado isolamento social?

— Esse tem sido um dos maiores desafios no presente


e imagino que venha a ser também na própria história da
Soma. Nunca passamos por algo do tipo, o que tem nos
levado a um redimensionamento de sua prática.
Por se tratar de um processo eminentemente
corporal, relacional e coletivo, o distanciamento social
é terrivelmente limitador. A possibilidade de realizar
encontros por videoconferência supre temporariamente,

verve, 37: 87-99, 2020 95


37
2020

fazendo com que possamos realizar encontros em que o


uso da palavra seja prioritário.
No entanto, penso que apesar dos limites impostos
pelo isolamento social e dos recursos digitais, o espaço
coletivo continua a promover trocas, debates e análises
que são fundamentais ao tempo presente e como cada
um tem sido afetado. As dinâmicas terapêuticas seguem
trabalhando com as diferentes questões, que incluem a
vida amorosa, as sociabilidades, a sobrevivência econômica
no capitalismo etc., ao mesmo tempo como tudo isso está
sendo vivificado em função da pandemia.

— Qual sua visão sobre as mudanças que se anunciam a


partir dessa pandemia?

— Não tenho a ilusão de que haverá mudanças


significativas relativas à hegemonia do capitalismo. Essa
pandemia atingiu um dos pilares de sua engrenagem,
afetando a circulação de bens e serviços, ao menos boa
parte dela. É verdade que a virtualização não fez cessar
a circulação do capital, mas afetou brutalmente alguns
setores e antecipou o que se anunciava como futuro
próximo.
Acredito que as empresas e governos estão mais do
que interessadas na descoberta de medicações e vacinas
que possibilitem a retomada do funcionamento dessa
engrenagem, sem deixar de intensificar o incremento da
economia virtual. Se irá demorar para que a circulação
volte ao que tínhamos até há pouco tempo, penso que
isso se dará em função do acirramento da pobreza, do

96 verve, 37: 87-99, 2020


verve
Entrevista com joão da Masta

aumento da virtualização e precarização do trabalho,


entre outros fatores. Mas, uma vez que o capitalismo
possa se recompor, seu funcionamento e as relações com
ele envolvidas, continuarão presentes entre nós, mesmo
que seja a partir da convivência mais contínua com uma
doença endêmica.
Por outro lado, e relativamente aos anarquismos, ficarão
mais evidentes as suas análises em torno da impossibilidade
de vida e liberdade nos termos do capital. Nesse sentido,
a anarquia aparece como possibilidade de transformação
ética sempre que estivermos diante de situações limítrofes
como a que estamos passando. A radical crítica dos
libertários cada vez mais faz acender a faísca da revolta,
especialmente entre os jovens, na criação de existências e
sociabilidades que não obedecem à lógica do capital e de
Estados. Resta saber o quanto esse deslocamento poderá
ser possível e se efetivamente irá acontecer.
Quanto ao surgimento de um mundo novo, vejo com
muita estranheza algumas leituras que surgem relativas a
uma humanidade que emerge mais solidária e consciente.
Me parece uma leitura ingênua, senão dissimulada do
próprio capitalismo.

— Como você analisa as conversações que tem promovido


com anarquistas na internet sobre a chamada pandemia e os
anarquismos contemporâneos?

— São muitas as análises que cotidianamente nos


bombardeiam. Quase sempre a partir de perspectivas
liberais, eventualmente marxistas. Penso que as

verve, 37: 87-99, 2020 97


37
2020

Conversações Libertárias Online1 é um espaço a mais,


entre outras ações anarquistas, que falam de uma outra
perspectiva, aquela que nos interessa, que é a libertária.
O interesse tem sido enorme, porque, mesmo com a
presença avassaladora do capitalismo na atualidade, são
muitas as pessoas que querem amar, criar e existir de
maneira livre. Há muitos e muitas anarquistas por aí,
algumas talvez nem se denominem como tal. Isso não é
o mais importante, mas a maneira como cada um quer a
vida em liberdade.

— Quais são as questões mais vitais para os anarquistas


hoje?

— Diante dos desafios da existência do presente, antes


e além da pandemia, a vida libertária é criação singular
de viver, que se dá na relação permanente de si consigo
mesmo e na relação com os outros. Um exercício cotidiano
de lidar com a liberdade como prática, sem querer atingir
um lugar almejado.
A história da anarquia e dos anarquismos está
atravessada por acontecimentos de lutas sociais de homens
e mulheres que se colocaram contrários às relações de
dominação. Este desafio permanece atual e sempre será.
Na prática da Soma, até por ser um trabalho que situamos
nesta interface entre terapia e educação, buscamos destacar
a vida libertária — que se abre para a existência cotidiana
— como espaço não menos importante no campo de ação
política.

98 verve, 37: 87-99, 2020


verve
Entrevista com joão da Masta

Não se trata de pensar a anarquia como um estilo de


vida, mas também como modo singular de constituir-
se como único. Ela ocorre na incessante luta diante dos
microfascismos, que exigem microrresistências.
Esta vida libertária acontece no aqui e agora, e não em
um amanhã radioso e promissor, pois este nunca é agora.
Quem vive a anarquia procura encarnar as práticas de
liberdade nos múltiplos espaços que se apresentam diante
de si: na escola, no trabalho, entre amigos e em todos os
lugares, sempre que haja um outro em relação. A anarquia
é uma prática da liberdade social; a afirmação de vida livre,
diante do que está posto como verdade a ser seguida.

— Quais são os seus tesões hoje?

— Voltar a ver, abraçar, beijar e festejar com amigos e


cúmplices de vida. É um tesão incubado, louco para brotar.
Não sei quando isso será possível, mas será, precisamos
que seja. Continuar a produzir a Soma, expandi-la e vê-la
crescer.

Notas
1
https://youtube.com/user/Somaterapia.

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2020

dossiê: saúde anarquista

estamos vivos: uma breve nota

gustavo simões (org.)

Max Nettlau, no belo texto “Em memória de Errico


Malatesta”1, parte da morte do anarquista, em 1932,
para analisar sua existência livre e combativa. Para
Nettlau, se de um lado, a morte de Malatesta o libertou
de grave doença nos pulmões, de outro lado, também o
livrou definitivamente da prisão domiciliar imposta pelo
fascista Benito Mussolini. Mesmo em prisão rigorosa,
já doente, como todo anarquista escapa, de tempos em
tempos Malatesta também escapava em direção ao
mar. “Quando o velho tentou refrescar-se no mar, uma
perseguição policialesca o forçou em poucos dias a voltar
à cidade calorenta, ardente”2, contou Nettlau. De variados
episódios da vida de Malatesta, em sua densa exposição, o
historiador dos anarquismos recordou um combate ainda
pouco comentado por libertários e que hoje, diante da
denominada pandemia do novo coronavírus, nos ajuda a
afirmar a singularidade de uma saúde anarquista.

Gustavo Simões é pesquisador no nu-sol e doutor em Ciências Sociais. Contato:


gusfsimoes@gmail.com.

100 verve, 37: 100-115, 2020


verve
dossiê: saúde anarquista

Sob efeito de uma temporada insurrecional no Egito,


em 1883, Malatesta retornou à Itália empolgado para
animar revoluções e confrontar a ampliação das ideias
de Andrea Costa, militante de quem havia sido próximo,
mas que, nos últimos anos, se tornara mais um adepto
reformista da política parlamentar. Contudo, em seu
retorno, quase na metade da década de 1880, auge da
perseguição aos libertários na Europa, sua prisão não
tardou a acontecer. Acusado de envolvimento com a
subversão, mais precisamente por sua suposta participação
na distribuição de material comemorativo do aniversário
da Comuna de Paris (1871), foi conduzido mais uma vez
ao tribunal.
Frente ao que ficou conhecido como Julgamento
de Roma (1884), Malatesta não escondeu nenhuma
de suas atividades anarquistas. Condenado a três anos
de encarceramento conseguiu brevemente o direito
à chamada liberdade provisória. Foi neste instante,
segundo Luigi Fabbri e Max Nettlau, que, com pouco
mais de trinta anos, ele se inscreveu voluntariamente para
combater a epidemia de cólera em Nápoles. “Como um
ex-estudante de medicina, [Malatesta] foi encarregado de
uma seção de enfermos que, ao final da epidemia, teria a
maior taxa de recuperação”3, comentou Fabbri. No final da
campanha, Malatesta foi condecorado pelo Estado por sua
atuação decisiva. Não hesitou em recusar prontamente a
homenagem e, ao lado de outros militantes, às vésperas de
um novo julgamento em Roma, arrematou: “a verdadeira
causa da cólera era a miséria e o verdadeiro remédio para
impedir definitivamente o seu retorno não é nada menos
do que a revolução social”4.

verve, 37: 100-115, 2020 101


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2020

Transcorridos os acontecimentos em Nápoles, de volta


a Florença, Malatesta soube da nova decisão da corte
de Roma determinando a sua prisão definitiva. E assim,
procurado pela polícia na loja onde trabalhava, levou
adiante uma das mais espetaculares fugas da história
dos anarquismos. Escondido no interior de uma caixa
de costura, como descreveu Fabbri, o anarquista italiano
foi transportado até a fronteira com a Inglaterra. Ali, em
um porto inglês, em 1885, ciente de que seria caçado
incessantemente por todo o continente europeu, embarcou
rapidamente em um navio rumo à Argentina.
Ao sul da América, Malatesta buscou ouro nas
imensidões do extremo sul da Patagônia visando financiar
associações revolucionárias; pôs as mãos na massa,
auxiliando a formação, em Buenos Aires, do combativo
sindicato dos padeiros. Os efeitos libertários de sua
passagem, da coexistência com os padeiros ácratas é,
no mínimo, deliciosa. “[As chamadas facturas,] mostras
de confeitaria argentina levam por nome cañones,
bombas, vigilantes, bolas de fraile, suspiros de monja e
sacramentos, para escárnio do exército, da polícia e da
igreja respectivamente”5, concluiu Christian Ferrer em
“gastronomia e anarquismo”, ensaio que relata um pouco
das aventuras portenhas do anarquista italiano e seus
desdobramentos, ainda hoje presentes em cafés e padarias
do país.
Malatesta regressou à Europa em 1889. Entretanto,
a preocupação anarquista com a saúde também marcou
intensamente a existência de outros militantes na América
do Sul. No Brasil, ainda nos primeiros anos do século
XX, o anarquista Avelino Fóscolo, morador de Taboleiro
Grande, em Minas Gerais, além de farmacêutico,

102 verve, 37: 100-115, 2020


verve
dossiê: saúde anarquista

mantinha em sua própria casa uma biblioteca pública e


um ateneu. Contemporâneo de Fóscolo, o médico Fábio
Luz foi um dos inventores, em 1904, da “Universidade
Livre”.6 Ali mantinha um consultório para atendimentos
gratuitos destinados a operários e seus familiares.7
Errico Malatesta morreu em 1932. Não pôde se envolver,
quatro anos depois, nos episódios de 1936, conhecidos,
entre nós, como a Revolução Espanhola. No entanto, na
Espanha, mais precisamente na Catalunha, ao longo de
um ano, a saúde como aliada da revolução social, como
ele defendeu em 1884, foi experimentada com enorme
sucesso. Entre as médicas anarquistas envolvidas na luta
direta das ruas estava Amparo Poch y Gascón, pediatra,
uma das inventoras das Mujeres Libres, conhecida também
como Dra. Salud Alegre.8
Nestes dias em que lemos e ouvimos, a cada segundo,
como retornaremos ao “normal”, ou ao “novo normal”,
os exemplos citados aqui nesta nota introdutória e nos
textos a seguir, explicitam que, para mulheres e homens
anarquistas, a saúde irrompe somente na luta e como
ruptura decisiva com a política, a propriedade, o Estado.
Ela, a saúde, implica transformação que incide, sobretudo,
na vida de cada um. Em 1936, para além das vitais mudanças
implementadas pelo ministério e nos consultórios livres
criados por libertários, o escritor George Orwell, vivendo
na Catalunha, descreveu o que mais chamou a sua atenção
pelas ruas. “As formas de tratamento servis e até as de
cortesia haviam desaparecido temporariamente”. Segundo
ele, ninguém mais dizia “señor” ou “don” ou “usted”.
“Todo mundo chamava todo mundo de ‘camarada’ e ‘tu’,
e ao invés de ‘buenos dias’, dizia ‘salud’”9, cumprimento
libertário comum aos anarquistas como afirmou Edson

verve, 37: 100-115, 2020 103


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2020

Passetti e que provavelmente “advém do tempo em que


a vida dos trabalhadores e dos seus filhos era mais curta,
mas não menos intensa”10. Saúde, palavra saboreada pelos
libertários entre amigos e até mesmo para dar o nomes aos
filhos, como no caso de Salud, tia de Antonia Fontanillas,
uma das integrantes das Mujeres Libres. 11
Agora, momento em que se disseminam a defesa
dos confinamentos para evitar o contágio pelo novo
coronavírus ou se aguarda uma salvação por mais
uma vacina produzida em laboratórios da indústria
farmacêutica, é mais do que saudável retomar a intensidade
desses episódios anarquistas. Afinal, nos querem mortos,
mas estamos vivos!12

Notas
1
Max Nettlau. “Em memória de Errico Malatesta” in verve. São Paulo, nu-
sol, vol. 4, 2003, pp. 170-185.
2
Idem, p. 170.
3
Luigi Fabbri. Life of Malatesta. Disponível em http://dwardmac.pitzer.
edu/anarchist_archives/malatesta/lifeofmalatesta.html#p116
4
Idem.
5
Christian Ferrer. “Gastronomia e anarquismo” in verve. São Paulo, nu-sol
l, vol. 3, 2003, p. 158.
6
Gustavo Ramus, “O anarquismo cristão a potência dos únicos” in verve.
São Paulo, nu-sol, vol. 21, 2012, pp. 262-279. No artigo, Ramus mostra
como Fóscolo e Luz, além de farmacêutico e medico, respectivamente, foram
dos primeiros anarquistas no Brasil a escrever romances, inventando uma
literatura de combate a partir da experiência da própria existência libertária.
7
Luiza Uehara e Gustavo Ramus, “Aula-teatro saúde” in verve. São Paulo,
nu-sol, vol. 22, 2012, pp. 169-200.

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verve
dossiê: saúde anarquista

8
Margareth Rago. “Mujeres Libres: anarco-feminismo e subjetividade na
revolução espanhola” in verve. São Paulo, nu-sol, vol. 7, 2003, pp. 132-152.
9
George Orwell. Lutando na Espanha. São Paulo, Globo, 2006, p. 29.
10
Edson Passetti. “Anarquistas, saúde!” in Anarquismos e sociedade de controle.
São Paulo, Cortez, 2003, p. 116.
11
Ver depoimento de Fontanillas em Margareth Rago e Maria Clara
Biajoli. Mujeres Libres da Espanha: documentos da Revolução espanhola. Rio
de Janeiro, Achiamé, 2008.
12
Edson Passetti, 2003, p. 116.

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2020

saúde anarquista

um médico libertário
Os dois textos abaixo são de Fábio Luz (1864-1938),
médico, professor e jornalista nascido na Bahia, escreveu
romances como Os Ideólogos (1903) e Os Emancipados
(1906), além de peças de “teatro social”. Colaborou ativamente
com a imprensa operária dos primeiros anos do século XX. Foi
um dos fundadores da Universidade Livre no Rio de Janeiro
em 1904.

sobre a tuberculose
“O alcoolismo, o ar confinado das oficinas, das
miseráveis habitações sem luz e sem conforto,
impregnadas de poeiras, de resíduos químicos, de
filamentos de algodão, de cânhamo, de metais e carvão
pulverizados, o ar agitado e rodopiante em colunas, em
lufadas girando pela força dos ventiladores elétricos; o
trabalho exaustivo na tarefa diária, nos serões, nas noites
brancas; a exígua remuneração nos plantões esmagadores
e noites mal dormidas; as esfalfantes caminhadas
das oficinas para longínquas habitações de alugueis
módicos e pelo frio intenso ou pelos aniquilantes calores
estivais, sem agasalhos suficientes para bem resistir
ao primeiro, sem roupas apropriadas a atenuação dos

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verve
dossiê: saúde anarquista

outros; as privações de alimentação bastantes à nutrição


e de boa qualidade; a miséria, enfim, e a fome são os
principais fatores, dependentes uns dos outros, da pior
das endemias reinantes: a tuberculose. (...) Sem que
desapareça o regime industrial capitalista, explorador,
absorvente, desumano e cruel; sem que o capital passe
a ter destino social, não se poderá dar combate eficaz ao
terrível inimigo da humanidade. A tuberculose”.

Conferência pronunciada em julho de 1913.1

um anarquista de saúde
Florentino de Carvalho (1883-1947), pseudônimo
de Primitivo Raymundo Soares, foi professor nas Escolas
Modernas 1 e 2, agitou revoltas, editou e escreveu em jornais
anarquistas como A Plebe e Germinal!. O primeiro texto
completou um século e foi publicado no periódico A Obra, em
10 de junho de 1920. O seguinte faz parte de Da escravidão
à liberdade, primeiro livro lançado pelo anarquista.

a bubônica física é uma consequência da bubônica social.


Vivemos num Éden onde a natureza brinda ao homem
com a sua exuberante fecundidade, a uma vida intensa,
a um bem-estar perene, a escolher zonas salubres, de
inexcedíveis belezas naturais.

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E, parece incrível, neste paraíso, o povo debate-se nos


estertores da agonia, vitimado por todas as pestes.
As suas condições fisiológicas e psicológicas são tão
graves, que não admira se o terrível morbus não chegue a
destruir a última célula do seu decadente organismo; o que
admira é que o Brasil não seja, hoje, uma vasta necrópole.
O atavismo preside ainda os atos inconscientes; o
analfabetismo determina todas as torpezas; a religião
incute o horror ao asseio, provoca a superstição, a bruxaria,
o curandeirismo; a incultura em matéria de higiene, de
medicina, conduz os tristes mortais a um deplorável
estado patológico.
Vegetando, como os sapos, à beira dos pântanos, onde
se conglomeram todos os detritos, amalgamando-se nos
grandes centros industriais e comerciais, por obra mágica
da centralização capitalista, não pode o homem libertar-
se desse torvelinho social onde o vírus infeccioso enche a
atmosfera e decepa vidas a granel.
E se, como verificamos, a burguesia não é capaz de
manter o asseio na própria casa, isto é, nas cidades ou
vilas, como é possível evitar que os bacilos nos ataquem,
encontrando no nosso ambiente, um vergel no qual podem
florescer?
Se a habitação operária é um antro lúgubre, onde as
trevas e a umidade operam milagres, como é possível a
vida e a saúde?
Em verdade, o remédio radical não se encontra somente
na criação de um ambiente expurgado de impurezas; mais
do que na profilaxia, está na formação de um organismo

108 verve, 37: 100-115, 2020


verve
dossiê: saúde anarquista

vigoroso, capaz de sofrer, sem inconvenientes, todos os


vendavais da natureza.
Mas neste ponto é que está o quid da questão.
Os filhos deste país são ­— quase todos — estrangeiros
em terra própria, isto é, não têm um palmo de solo e,
os estrangeiros que regam os campos com o seu suor
ou expendem as suas forças nos centros industriais, não
possuem um átomo da riqueza por eles produzidas.
Um pequeno número de felizardos usufrui, sem
necessidade, esse enorme tesouro de riquezas e, os demais
ficam... fazendo cruzes...
Os grandes fazendeiros, os poderosos industriais, os
proprietários, duplicam em poucos dias os seus capitais;
os políticos de profissão criam durante o seu mandato,
fortunas colossais, além do que esbanjam diariamente; as
forças armadas consomem rios de ouro, exaurindo a nação,
sem oferecerem outro resultado que a opressão firmada
nas baionetas; o clero explora o povo nas numerosas
empresas industriais, das quais possui muitos milhares de
ações, embolsando pingues dividendos: o clero nas igrejas
drena para as suas arcas o dinheiro do público vendendo
escapulários e cruzes de honra (?); o clero recebe das mãos
caridosas somas enormes extorquidas do trabalhador,
cobra do Estado milhares de contos e, com eles ergue
templos à santa ignorância... e os servos dos servos passam
vida principesca em louvor ao Nazareno!...
A classe capitalista emprega todas as suas atividades em
consumir, esbanjar, em aplicar a sabotagem, à produção, às
energias, à vida da grande família humana.

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Urge, pois, aplicar a profilaxia política e econômica,


isto é, combater a bubônica social, para tornar efetivo o
desaparecimento da bubônica física.
Seja a riqueza social propriedade coletiva, dediquem-
se todos — inclusive os proprietários, os industriais, os
políticos, os ministros de todas as igrejas, — ao trabalho
produtivo, dignificante, proclame-se à abolição de todos
os privilégios, e a concorrência feroz terá cedido o seu
lugar à cooperação espontânea, ao livre acordo.
Desde o momento em que este Ideal for realizado
a Humanidade entrará num glorioso período de
rejuvenescimento e de progresso, descrito pelos grandes
pensadores, sonhado pelos poetas, suspirado por todos os
párias.2

colapso da civilização: histórica (parte primeira/ a hecatombe)

“(...) Enormes parcelas ilustram as estatísticas da


mortalidade universal, causada pela tuberculose, pela sífilis
e outras doenças de constituição social ou epidêmica. E
se a esta mortalidade acrescentarmos a produzida pelo
serviço noturno, pelos acidentes de trabalho, pela má
qualidade dos alimentos e seu envenenamento, ou pela
miséria, a que parcela assombrosa não atingirá o número
de vítimas da nossa civilização?
E quão interessante não seria a elaboração de uma
estatística da mortalidade resultante das doenças morais,

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verve
dossiê: saúde anarquista

da neurose, que prolifera sob o azorrague da tirania,


do espesinhamento (sic) da dignidade individual, das
determinadas pelo fanatismo religioso, pelas conseqüências
da guerra, das pugnas políticas e da luta social?
Se somarmos o número de vítimas das enfermidades
que têm a sua origem no artifício social, poderemos
cientificar-nos de que ultrapassa — tendo em vista a
classificação das doenças — o de muitas humanidades.
O doente é o tipo normal; o sadio é a exceção.
Já não se trata de saber quantos doentes povoam a Terra,
— este “grande hospital”, — trata-se de saber quantas
doenças sofre cada organismo humano, prematuramente
mutilado, degenerado ou decomposto pela virulência do
morbus”.3

nas páginas da imprensa ácrata


Os dois textos abaixo foram encontrados no periódico
anarquista, Terra Livre. Assim como o artigo de Florentino,
apresentam a perspectiva singular da saúde anarquista.

escrúpulos de negociantes
“Lugares há onde se chega a comer gesso e cal no
açúcar, serradura de madeira em vez de tosta ralada nas
costeletas panadas e muitas outras coisas ainda, como pão
com caulim (viu-se em Lisboa).

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E o leite? Além das falsificações vulgares, em toda a


parte conhecidas, há bons processos. Para que uma vaca,
em vez de 6 ou 8 litros de leite por dia, produza trinta,
é metida num curral quente e obscuro, de onde nunca
sai, e entulhada de polpas, polme de cevada e bagaço
provenientes das fábricas de azeite, açúcar e das destilações.
O pobre animal fica tuberculoso, hidrópico. Que importa?
Quem bebe o leite não é o proprietário, mas os 'fregueses'.
Nas modelares criações de porcos da América do Norte,
ficam os porcos também tuberculosos — e igualmente
em resultado da péssima alimentação, onde entra até
excremento de bichos da seda!
Tudo isso se faz para ganhar dinheiro depressa e em
abundância. O leite e o presunto tuberculoso não são para
os proprietários: são para vender. Depois, tendo no bolso
os milhões ganhos a envenenar os contemporâneos, a
vender produtos inferiores com charlatanismo, dá-se uma
boa soma para um hospital, com excelentes resultados:
um cofre cheio, uma consciência tranquila, um elogio nos
jornais e um retrato a óleo.
Assim será enquanto se produzir para vender e não
para consumir, enquanto não se produzir por conta do
consumidor, senhor dos meios de produção.”4

o caso queraltó
“Já aqui nos ocupamos deste ruidoso caso, narrando
como e porquê o ilustre médico e publicista espanhol dr.
Queraltó recolheu, em duas condenações definitivas, um
total de 9 anos e 4 meses de desterro de Barcelona e uma
multa de 4.500 pesetas, além das custas dos processos.

112 verve, 37: 100-115, 2020


verve
dossiê: saúde anarquista

Repitamos a história edificante. Certo dr. Fuster,


médico do Patronato da luta contra a tuberculose na
Catalunha, descobriu, tatuada num braço dum doente, a
inscrição: ‘Viva a anarquia!’.
Como o doente era um pobre diabo, de mais a mais
enfraquecido pela tuberculose, o clerical esculápio levou-o
a aceitar a ablação do herético e subversivo pedaço de
carne, sem anestesia geral nem local, para expiação do
pecado e bem da salvação eterna!...
O presidente do Patronato dr. Vidal y Ribas, cujo filho é
cortesão no Paço, celebrou o feito em sessão extraordinária,
começando: ‘Eis, senhores, uma alma resgatada pelos
nossos médicos’. Daí a alcunha dos médicos daquela
instituição em Barcelona: ‘os resgatadores de almas do
Patronato’.
Também o governador de Barcelona na ocasião, Osório
y Oallardo, louvou a façanha do dr. Fuster, considerando-a
como um símbolo e como um exemplo a seguir!
Contra a selvajaria da operação e contra a admiração
por ela provocada nos médicos clericais — mais
clericais do que médicos — insurgiu-se o dr. Queraltó,
que é uma celebridade cientifica universal, membro de
várias academias nacionais e estrangeiras, presidente de
instituições e de congressos, autor de obras numerosas
e valiosas, sendo bem conhecidos nos meios avançados
os seus belos estudos sobre o ‘aspèto social’ da luta
contra a tuberculose. Ainda, atualmente, está em vias
de publicação, nos Documents du Progrès, o seu ‘Balanço
social da tuberculose’.

verve, 37: 100-115, 2020 113


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O nobre e fundamentado protesto deste homem de


ciência e de coração valeu-lhe dois processos, movidos,
não pelo inquisidor (operador, não) dr. Fuster, mas pelos
médicos clericais! E sobre a decisão dos tribunais pesou
sem duvida a vontade da corte, onde o filho do dr. Vidal y
Ribas tem larga influência.
É o que a gente oficial da Espanha pretende agora
ocultar, porque o rei precisa fazer uma viajem política a Paris,
e na França, o caso Queraltó causou grande indignação.
Demais, nem os franceses, nem os espanhóis, nem os
homens livres de todo o mundo se esqueceram do caso
Ferrer, de Montjuich e de todas as repressões sangrentas e
ferozes da Espanha inquisitorial. A monarquia espanhola
acumulou sobre si demasiados ódios e já ninguém acredita
em comédias liberais. A prova está no novo atentado de
Madrid.
A prova está ainda na vasta repercussão do caso
Queraltó. Na Espanha e no estrangeiro, sobretudo na
Bélgica e na França, multiplicaram-se os protestos, nos
quais se solidarizaram associações médicas e associações
populares, ligas dos direitos do homem e sindicatos
operários. Barcelona distinguiu-se pela grandeza das suas
manifestações.
Não: a Espanha monárquica e clerical não tem
emenda”.5

114 verve, 37: 100-115, 2020


verve
dossiê: saúde anarquista

Notas
1
Conferência pública em julho de 1913, extraída de: Edgar Rodrigues.
Nacionalismo & Cultura Social. Rio de Janeiro, Laemmert, 1972, p. 23.
2
Disponível em https://bibdig.biblioteca.unesp.br/handle/10/6351
3
Florentino de Carvalho. Da escravidão à liberdade: a derrocada burguesa
e o advento da igualdade social. Apresentação de Rogério Nascimento e
Organização de Renato Lauris Jr. Seridó, tumulto, 2015, pp. 67-72.
4
Terra Livre – periódico anarquista, São Paulo, n. 32, ano II, 01 de maio
de 1907. Disponível em: https://bibdig.biblioteca.unesp.br/bitstream/
handle/10/26717/a-terra-livre-32.pdf ?sequence=4&isAllowed=y
5
Terra Livre – Semanário anarquista, Lisboa, n. 10, ano I, 17 de abril
de 1913. Disponível em: https://bibdig.biblioteca.unesp.br/bitstream/
handle/10/25260/terra-livre-1913-0010.pdf ?sequence=2&isAllowed=y

Dossiê Anarchist Health, Gustavo Simões (org.).

verve, 37: 100-115, 2020 115


sem medo, vivos
Em muitas fronteiras, pessoas retornando de
países com grande número de infectados, como
China, Coreia do Sul (do Norte nada se fala),
Irã e Itália, ou vindas destes países e demais
asiáticos são trancadas em quarentena ou
imediatamente extraditadas. Vilas nas regiões
de Lodi e Veneto, consideradas epicentros da
epidemia na Itália, foram sitiadas: ninguém sai
e ninguém desautorizado entra. Libertários que
vivem “nas áreas do vírus e além” publicaram
um texto “contra a quarentena das paixões,
a epidemia social”. Apresentam reflexões
e instigam questionamentos a respeito da
alegada epidemia; dos efeitos de “repressão
e vigilância”, do aprisionamento muitas vezes
voluntario; das incontestáveis medicina,
ciência e indústria farmacêutica; de como a
vida humana no capitalismo e o trato com os
outros animais e a natureza produzem morte e
mortificação. “Eles nos dizem para não sair de
casa, para não engravidar as pessoas que amamos,
de quais fronteiras e estradas não podemos ir
além. Eles nos dizem que nós arriscamos nossas
vidas. Mas qual vida? Talvez a não-vida que nós
encaramos anteriormente, na qual a quarentena
era a cabine de nossa SUV no tráfego no anel
viário? Ou era o isolamento no apartamento, a
própria cela de uma enorme colmeia de concreto?”

n. 570, 03 de março de 2020.


um domingo qualquer
Cidade de São Paulo. Domingo ensolarado, em um
contexto de “pandemia planetária”. Senhorinhas
do “grupo de risco”, com ou sem máscaras, são
maioria na manifestação pró-homem (hétero)
que senta no trono do palácio. Aglomeram-
se na avenida cartão-postal e se consideram
imunes ao ar que respiram. Acham a pandemia
uma fake news produzida pela esquerda com seu
“comunavírus”. No carro de som, o macho berra:
“foda-se!”. Diz ser preciso uma “desobediência
civil pacífica”, porque “o poder emana do
povo”. Declaram-se democráticos. Nos cartazes,
pedem a volta do AI-5. Grupos de extermínio
da época da ditadura e da atual democracia
são exaltados. Assassinos “boinas negras”
desfilam em suas velhas viaturas “veraneio”.
Pais incentivam seus filhos a cumprimentá-los.
Tudo parece normal na Avenida Paulista. Mais
um domingo de marcha da direita. No fim, um
tiro fascista em uma garota que se recusou a
aceitar o inaceitável. O facho, com a arma em
punho, segue tranquilo. De resto, “o povo sem
medo” com medo em casa aceita pacificamente
as recomendações da Organização Mundial da
Saúde. Todos creem na segurança, da sua casa,
do Estado, dos militares, das instituições. No
fim da tarde, uma chuva de granizo com vento,
rápida e intensa, surpreende. É a expressão
avessa e incontrolável da natureza.
atenção
O vírus começa a se espalhar pelo Brasil, por
meio de celebridades, executivos, burgueses,
políticos, digital influencers e outros ricos
que viajaram recentemente para a Europa e os
EUA. O medo se espalha. A mídia alardeia,
enfatizando não haver necessidade de pânico.
O presidente (hétero) diz que há histerismo.
Autoridades estaduais decretam medidas de
contenção. Nas cidades as manifestações e
aglomerações na rua não foram proibidas. As
polícias destes estados permitiram que as
marchas contra o congresso e o STF fechassem
algumas ruas. 12 asseclas do homem (hétero)
que senta no trono do palácio estão com o
vírus. No decorrer da semana, “monitorado”,
ele grava vídeo usando máscara cirúrgica para
“conscientizar” a população e insinua adiar
as marchas. Entretanto, na manhã de domingo,
é lambido pela manada e volta a convocar
participação nas demais atividades dominicais
a seu favor. “A direita de verdade” diz que o
“comunavírus” é uma mentira. Pastores também
dizem que é tudo fake ou criação de Satanás, e
que possuem a cura. Há uma parcela da população,
conectada e ansiosa, que acata as autoridades
médicas, a verdade proclamada por instituições
médicas. Assumem a responsabilidade individual
à espera que o “Brasil” reproduza as medidas
dos “países sérios”. Exigem confinamento.
servidão voluntária
Não há outra palavra. São carniça até a medula.
Amam carniceiros, o castigo, os militares, a
polícia, os ditadores, o discurso democrático
como espaço oportuno e conveniente para
alavancar ditaduras de tempos em tempos. Amam
as estultas conclamações hetero-autoritárias
que corroboram suas sobrevivências medíocres e
ignaras. E, definitivamente, amam a obediência!
Amam serem governados, ignoram o que Thoureau
chamou de desobediência civil, ao alertar que
o governo se baseia, também, no militarismo que
alimenta a guerra em nome da paz. E mais, que
“a paz em nome da continuidade dos governos,
nada mais é do que o engano na conveniência”.
fogo na prisão!
“É preciso uma alteração radical do estado
atual das coisas!”, alertam os anarquistas.
Frente às narrativas do que chamam de mídia
corporativa e das determinações cada vez mais
violentas do Estado, recordam como a cada
“crise” — do combate à “máfia” passando pelo
“terrorismo” ou para diminuir os efeitos após os
terremotos —, o governo italiano promulga leis
que visam a perseguição sistemática daqueles
que resistem às suas políticas. Contudo, mesmo
com o aumento do acossamento, precisamente no
primeiro dia de bloqueio nacional justificado
pelas medidas de contenção do Covid-19, alguns
corajosos saíram pelas ruas vazias do centro
de Roma. Em apoio às revoltas ocorridas no
interior das prisões, como a de Foggia, se
revoltaram em frente ao Ministério da Justiça
exigindo a liberação imediata de todos os
presos.

n. 572, 17 de março de 2020.


que abrigo é esse?
Em Florianópolis, Santa Catarina, funcionários
de um abrigo para crianças e jovens, que
ninguém quer, lançam iniciativa já divulgada
como “exemplar”. Cada um levou para casa
uma criança ou um jovem, sob o pretexto de
evitar aglomeração e contágio enquanto durar a
epidemia. E quando ela acabar? Devolverão estas
crianças e jovens como refugo aos depósitos
de restos que caracterizam qualquer abrigo;
que foram criados histórica e politicamente
sob a égide de medidas sanitárias de controle
dos indesejáveis? Ou adotarão estas crianças
e jovens, sinalizando para a possibilidade
de se dar fim ao aprisionamento em abrigos
destinados a crianças e jovens no país?
ouvir a vida selvagem
O uso na medicina dos saberes tradicionais
chineses e de outros povos asiáticos, há
anos foi capturado para a produção em larga
escala, levando ao extermínio dos pangolins
na Ásia. Hoje, China, Vietnã, Hong Kong,
Malásia e Singapura compram toneladas de
escamas e centenas de pangolins ainda vivos
da Nigéria e do Congo. Em 2018, a China
proibiu o comércio nacional de marfim e a
remessa dos pangolins no mercado disparou.
As organizações internacionais de combate ao
tráfico de animais continuarão monitorando e
apontam como solução o cumprimento da lei (“fim
do tráfico”). Já os cientistas estrangeiros
sinalizam a necessidade do fim dos mercados
úmidos (onde se comercializam animais vivos
junto aos pedaços de mortos); “os seres humanos
devem reduzir sua exposição à vida selvagem”,
conclui um desses cientistas. É possível
que pessoas tentem acabar com o problema
exterminando todos os pangolins de uma vez,
assim como no ano retrasado mataram centenas
de macacos no Brasil, “culpados” pela febre
amarela, pois não podem exterminar o vírus. As
outras formas vivas da natureza mostram, para
quem esqueceu ou apenas nega, que vivemos em
relação. Nada está aí para servir ao Homem, a
não ser o humano que se assujeita.
dados do futuro agora
Enquanto pesquisadores e intelectuais europeus
e estadunidenses se reúnem visando prever o que
acontecerá pós-Covid-19, chegam mais notícias
vindas do oriente. Na China, a caça ao vírus conta
com a análise minuciosa dos dados pelo Estado,
isto é, o governo mede temperaturas e monitora
os percursos de “suspeitos”, notificando via
celular as pessoas com quem cruzou em seus
trajetos. Em Taiwan, o “corona-app” notifica,
também via smartphone, a localização de
edifícios que abrigam infectados. Tecnologias
semelhantes são utilizadas em Singapura, em
Hong Kong, na Coréia do Sul, no Japão, em
Israel. Enquanto alguns discutem o futuro, a
partir da campanha de combate ao Covid-19 em
parte do oriente, os governos e as polícias
se expandem fundamentados nas informações que
cada um fornece voluntariamente a partir de seu
celular. Ficam as perguntas: o futuro é este
controle e ele já está dado ou resistências
inteligentes irromperão?

n. 574, 31 de março de 2020.


isolamento, monitoramento, cana 1
A Comissão Europeia recorre aos dados de
operadoras celulares para monitorar os
deslocamentos. Nos EUA, antes mesmo das
determinações federais pelo isolamento, a
Google e o Facebook (por extensão, Instagram
e WhatsApp também) já ofereciam os dados de
seus usuários para as autoridades. No Brasil,
o governo federal já tem acesso aos dados
de geolocalização de todos os celulares.
Objetiva-se monitorar os deslocamentos, pontos
de aglomeração e “risco de contaminação pelo
novo coronavírus”. A medida foi anunciada
nas redes sociais, inicialmente apagada e
depois repostada pelo ministro astronauta.
Autoridades e empresas de telecomunicação
enfatizam que a medida não infringe o Marco
Civil da Internet pois armazena anonimamente
os dados... então, como monitora o risco de
contaminação? O que monitora? Na Rússia, na
Turquia, na África do Sul, em Montenegro e na
Sérvia medidas para conter a disseminação de
fake news sobre o vírus desencadeiam aplicação
de multas, detenções e censura às mídias,
sites e publicações em redes sociais. O que
os governos consideram uma fake news sobre
o coronavírus? Perseguem o invisível? O que
as pessoas estão aceitando em troca de uma
suposta segurança contra o vírus?
isolamento, monitoramento, cana 2
Em Moscou, primeira cidade russa a ter
quarentena decretada, utilizam-se as câmeras
de rua com sistema de reconhecimento facial
para localizar e punir os violadores de
quarentena. Também se valem dos dados de
celulares para rastrear infectados e pessoas
que tiveram contato com eles. O mesmo ocorre
na Bélgica, na Eslováquia e na Áustria. Na
Polônia, as pessoas em isolamento, doentes
ou vindas do exterior, devem responder às
mensagens disparadas pelas autoridades com o
envio de uma selfie por meio do aplicativo
oficial que possui sistema de reconhecimento
facial e geolocalização. Em Israel, as forças de
segurança vasculham os celulares e computadores
de pessoas com a Covid-19 e de quem esteve
em contato com alguém infectado, assim como
já faziam em casos suspeitos de terrorismo.
A lei antiterrorismo foi ampliada para o
combate à epidemia. Na Chechênia, o presidente
considera que desobedientes da quarentena são
terroristas; patrulhas especiais os caçam
pelas ruas. Em muitos lugares do planeta, que
utilizam ou não amplamente estas tecnologias
como os latino americanos, o número de detidos
por desobedecerem às medidas governamentais
ultrapassa o de mortos e contaminados com o
coronavírus.
isolamento, monitoramento, cana 3
Essas tecnologias foram aplicadas e consideradas
exitosas na Ásia, especialmente na Coréia do
Sul, Taiwan e Singapura. Na China, aplicativos
de celular produzem dados sobre o deslocamento,
desde o trânsito por zonas de risco até o
controle do número de saídas autorizadas
para cada um; o contato com infectados seja
pessoas próximas, ou alguém que esteve no
mesmo vagão do metrô; os produtos comprados
online e todas as pessoas que os manipularam
até chegarem ao destino. A temperatura do
cidadão chinês é medida em praticamente todas
as etapas do seu itinerário e computada. O
primeiro lugar a utilizar um eficiente sistema
de quarentena via celulares foi Taiwan. Cada
pessoa que deixasse o isolamento era rastreada
diretamente pelas forças de segurança que
entravam em contato intimando: volte para casa
ou dentro de 15 minutos a polícia te pegará.
Ao longo do dia, em momentos aleatórios, cada
cidadão recebia duas ligações de controle
para confirmar que estava com o celular e
ter sua localização registrada. Em Hong Kong
o uso de apps foi combinado ao de pulseiras,
semelhantes às tornozeleiras eletrônicas
para os contaminados em quarentena. No Irã,
a tentativa não funcionou, uma vez que a
maior parte da população não possui aparelhos
celulares compatíveis com os aplicativos.
medidas de segurança para a saúde
do Estado
Nas Filipinas, após um protesto por comida em um
bairro pobre da capital Manila, o presidente deu
ordens para militares e policiais atirarem para
matar em quem “causar problemas” e desobedecer
a quarentena e as medidas de governo. Mesmo
antes dessa determinação, a polícia filipina
já torturava crianças, mulheres e homens pegos
pelas ruas. Há relatos de pessoas expostas em
vias públicas presas em jaulas e de crianças
trancadas em caixões. No Quênia, um menino de
13 anos que estava na sacada de sua casa foi
executado por policiais que faziam a patrulha da
quarentena. Na cidade de Mombaça, a polícia joga
bombas de gás contra aglomerados de trabalhadores
e espanca com cassetete pessoas que encontra
pelas ruas. Na África do Sul, aglomerações são
dispersadas com tiros de balas de borracha.
No Paraguai, pessoas fora da quarentena também
foram torturadas nas ruas, forçadas com o rosto
contra o chão a repetir que não sairão mais
de casa. Os vídeos foram compartilhados pelos
oficiais paraguaios em suas redes sociais.
Na ndia, trabalhadores confinados nas castas
baixas foram alvejados com sprays químicos
para “desinfetá-los”; outros foram coagidos a
fazer agachamentos enquanto repetiam: “somos os
inimigos da sociedade que não ficam em casa”.
Esta é a saúde do Estado?

n. 575, 07 de abril de 2020.


ao norte da América:
notícias de revoltas!
Na última semana, nos Estados Unidos e no
Canadá, foram registradas 38 revoltas em
prisões. Petições exigindo a libertação
imediata de presos, greves de fome, fugas e até
ameaças coletivas de suicídio (no Alabama),
intensificaram o questionamento à prisão, nos
últimos anos, ao norte da América. Segundo
o editorial do perilous chronicle, site que
acompanha as rebeliões, “o que talvez seja
mais singular (...) além da grande incidência
de protestos, é que um número sem precedentes
de prisioneiros e detidos exige a liberação
imediata da prisão. Em vez de exigir a melhoria
de algumas condições de seu encarceramento,
eles exigem liberdade. O encarceramento é o que
ameaça as suas vidas”. Em outras palavras, em
meio ao crescimento exponencial de cadáveres,
expandem também afirmações de existências.
não é só o vírus que mata I
No dia 7 de abril, em Manaus, alguns detentos
da Unidade Penitenciária de Puraquequara
tentaram fugir. Segundo as autoridades, todas
as fugas foram impedidas. Desde o fim de março,
os presos relatam que muitos dentre eles estão
doentes e apresentam sintomas da Covid-19.
A Secretaria de Administração Penitenciária
do Amazonas nega “veementemente”, dizendo
não haver registros de doentes, nem mesmo
de detentos com sintomas, em nenhuma prisão
do estado. A “ausência de casos suspeitos”
é o argumento que justifica a não aplicação
de testes. Isso não é subnotificação, é uma
matança. A continuidade da produção mórbida
não para.
não é só o vírus que mata II
Noticia-se que o Amazonas será o primeiro estado
brasileiro onde o sistema de saúde entrará
em colapso; que o número de contaminados e
mortos com a Covid-19 aumenta além do esperado
e que não há infraestrutura hospitalar. No
último final de semana morreram dois indígenas
internados em Manaus. Um Tikuna de 78 anos que
estava na UTI, tratando problemas cardíacos,
e uma Kokama de 44 anos internada para tratar
de anemia. Ambos foram contaminados pelo
novo coronavírus nos hospitais e faleceram
por complicações causadas pelo vírus. Na
quinta-feira, em um hospital em Roraima, foi
registrada a primeira morte oficial de um
indígena pela Covid-19, um jovem Yanomami de
15 anos. Além destes três casos e de uma Kokama
de 20 anos que se curou, há 5 confirmações de
indígenas infectados, todos no Amazonas. No
dia 1o de abril, a jovem Kokama foi a primeira
indígena a ser diagnosticada com a doença,
ela trabalha como agente de saúde atendendo
em aldeias do Distrito Sanitário Especial
Indígena Alto Rio Solimões, região com o maior
número de casos confirmados. Há ainda 23 casos
suspeitos, abrangendo também outras regiões
do país, sobre os quais não se sabe se foram
realizados testes. Dentre as subnotificações,
alguns indicam a morte de uma Borori de 87
anos, em Santarém...
não é só o vírus que mata III
Além do “Plano de Contingência Nacional
para Infecção Humana pelo novo Coronavírus
(COVID-19) em Povos Indígenas”, organizado
pela Secretaria Especial de Saúde Indígena,
o Ministério da Saúde promulgou um ofício
com medidas restritivas quanto à entrada de
pessoas em territórios indígenas, a serem
asseguradas pela Funai. Essas são as medidas
de governo. À parte delas, algumas aldeias
decidiram entrar em quarentena por conta
própria. Agronegócio, garimpeiros, grileiros
e madeireiros continuam seus trabalhos. Terras
habitadas por Yanomamis, em Roraima e no
Amazonas, tiveram um aumento de 3% (em relação
ao mês de fevereiro) na destruição decorrente
das escavações de garimpos. No equivalente
a 114 campos de futebol, as novas zonas de
garimpos avançaram a poucos quilômetros de
roças de subgrupos isolados de Yanomamis. Em
março, os Mura localizaram rastros destrutivos
nas proximidades da Terra Indígena Lago Capanã,
em Manicoré no Amazonas, cercada recentemente
por grileiros e madeireiros. Em 1º de abril,
Karipunas avistaram homens limpando um terreno
no meio da floresta, em Rondônia. Noticia-se
um novo recorde de desmatamento na Amazônia,
atingido nesses três primeiros meses de 2020...
assunto interno
Na última semana, em Tebas, na Grécia, uma mulher
morreu no interior da prisão após ser negado
seu pedido de translado ao hospital negado.
Não se sabe o que pode ter causado a morte, mas
um mês antes outra mulher havia morrido nas
mesmas condições. Diante disso, as mulheres
ali encarceradas começaram um levante, ateando
fogo nas dependências e recusando a comida.
Em reprimenda, a secretária do Ministério de
Proteção do Cidadão enviou reforço policial,
que resultou na hospitalização (só assim) de
algumas mulheres. Enquanto isso, no site do
ministério, destaca-se um cartaz estampado com
uma figura feminina sobre a campanha contra
a violência doméstica. Anexado ao cartaz se
lê: “A polícia grega administra todos os
incidentes de violência doméstica (...)”.
Mórbida coerência.
o vírus e a pandemia
RT-PCR (sigla em inglês para reação em cadeia
da polimerase em tempo real), é um dos três
testes disponíveis atualmente para detectar o
novo coronavírus. O mais preciso dos três. A
OMS recomenda que o teste seja feito em massa
de modo a facilitar a contenção do vírus. No
Brasil e no planeta, a produção massiva do
teste está aquém da demanda atual. Enquanto
os kits para o teste já são produzidos no
Brasil por laboratórios governamentais ou
privados, os insumos para o mesmo têm que
ser importados. As orientações referentes à
aplicação do teste aqui, variam de acordo com
a lógica de demanda e oferta. Atualmente, os
mesmos devem ser aplicados apenas em casos
graves (ou, obviamente, em uma situação de
grana aguda). A aplicação dos testes nesses
últimos casos, demanda um isolamento mais
rígido da população para sua eficácia. Tanto
o fluxo de produção necessário para as grandes
cidades como Nova York ou São Paulo, quanto
o necessário isolamento nesses aglomerados, é
impossível. A pandemia é apenas mais um produto
da imundície produzida pelo capitalismo.
bélgica: notícias de revoltas!
No último sábado, na Bélgica, em meio ao
confinamento total da população, jovens de
Anderlecht e de outros bairros da região de
Bruxelas, saíram às ruas para protestar contra
a violência policial. Na noite anterior ao
protesto, um jovem de 19 anos foi assassinado
por policiais que o caçavam em uma perseguição.
O jovem não conseguiu escapar, foi atropelado
por uma das viaturas. Rapidamente os tumultos
eclodiram. Revoltosos atiraram pedras contra
os policiais que responderam com canhões de
água e gás lacrimogêneo. Várias viaturas foram
depredadas. Por volta das 22h, os distúrbios
foram retomados, uma delegacia foi atacada com
pedras e vários veículos estacionados foram
queimados. 57 pessoas acabaram presas durante
os protestos da tarde e da noite, 43 delas ainda
estão sob custódia policial. O confinamento
compulsório está em vigor na Bélgica há quatro
semanas, com os policiais pelas ruas, exercendo
suas violências costumeiras, especialmente nos
bairros mais pobres e contra os desobedientes.
A explosão dessa revolta, incontível pelas
ruas esvaziadas de pessoas e repletas de
polícias, é afirmação de vida. Possibilidades
estão abertas. Força aos presos revoltosos de
Bruxelas e outros lugares. Pela propagação da
revolta.

n. 576, 14 de abril de 2020.


não somos todos
Em Brasília, a aglomeração de fachos ocorreu
em frente ao quartel das Forças Armadas. Ela
foi escoltada pela polícia e pelo exército
sem uso de máscaras de precaução contra o
novo coronavírus, e teve palanque do homem
que senta no trono do palácio. Com o dedo em
riste, ele bradou a obrigação, o direito e o
dever de todos de lutarem pelo Brasil e dar
a vida pela pátria. Ao seu redor a pequena
massa patriótica comemorou. Urgem afirmações
de vida antimilitaristas e antipatrióticas.
desejo de morte
Se antes esses cidadãos falavam em um “golpe
da esquerda global”, por meio do vírus chinês
ou “comunavírus”, na manhã desta segunda-feira
não pararam de postar sobre um golpe em curso
arquitetado pelos presidentes do Congresso e
do Senado. Desde o início, o discurso deles
é voltado pru povu: para os moradores das
favelas, os moradores de rua, falam para
os trabalhadores informais, a classe média
depauperada, pequenos comerciantes, sobre quem
não pode fazer quarentena. Falam que o povo
vai morrer doente ou de fome. O povo morre de
doença e de fome com ou sem pandemia. Aderiram
a uma prática recente da direita nos EUA:
ir a hospitais para fazer lives maquiadas,
mostrando que estão vazios. Querem que o povo
morra pela pátria e pela conservação desta
economia. E por eles.
amor à ordem
Diante da cordialidade da polícia ao proteger
as aglomerações, houve quem falasse que a
tropa é comunista. Denunciam nas redes que o
Choque “petista” do Ceará dispersou (apenas
com ordens, claro) os transeuntes que seguiam
a carreata em Fortaleza. No RJ, o Ralo dos
Caveiras — grupo de ex-veteranos e soldados
— se vangloriam nas redes sociais porque os
“pretorianos” de Witzel não os reprimiram. No
Vidigal, um policial apontou sua arma para
moradores que berravam contra o inaceitável.
A polícia continua no lugar dela, do lado da
ordem. E os polícias amam o homem que senta no
trono do palácio.

n. 577, 21 de abril de 2020.


aconteceu em Turim
No dia 19 de abril uma dezena de policiais
abordaram dois homens no bairro de Aurora
na cidade de Turim. Como sempre a abordagem
foi violenta. Das janelas de suas casas,
muitos viram a truculência e não silenciaram,
desceram à rua. “Precisamente aqueles que
impõem efetivamente o bloqueio e que gerem o
que acontece nas ruas das cidades, são os que
representam um perigo a mais para a saúde, para
além do papel que normalmente lhes concedem”,
afirmam anarquistas que vivem na cidade
italiana. A dezena de soldados prosseguiu com
sua violência, esmagando os corpos dos dois
contra o chão, enquanto esperava reforços. Logo
chegaram viaturas da polícia e do exército.
Os homens foram detidos. Mais gente chegava
às ruas do bairro pobre da cidade. Nas ruas
e pelas janelas as pessoas berraram contra
a insuportável violência, que é inerente à
polícia.
ecoou
Das janelas e varandas, ouviu-se uma “sincera
e ruidosa solidariedade com xs companheirxs
presxs”. As autoridades não informam sobre os
dois homens detidos na Aurora. A mídia fala
que foram presos por violarem a quarentena e
que cerca de 40 pessoas são processadas pela
mesma violação no dia 19 de abril. “Todos
livres, todas livres!”, ecoam os gritos dos
libertários.
vai contagiar?
No dia 23, uma manifestação de cerca de 50
anarquistas em apoio aos dois detidos e a todxs
xs companheirxs presxs aconteceu nas ruas de
Turim. No dia 25, mais pessoas foram às ruas,
chegando a algumas centenas. E os protestos
se expandiram para mais cidades italianas.
Em Saronno, durante a madrugada, espalharam
faixas agitando: “25 de abril, hoje: liberemo-
nos de quem vendeu a saúde”, “25 de abril, hoje:
liberemo-nos do Estado que nos faz passar fome”,
“25 de abril, hoje: liberemo-nos da polícia nas
ruas”. Em Cagliari, os manifestantes usando
máscaras e mantendo o distanciamento entre
si, foram reprimidos e multados. Em Nápoles,
ocorreram pequenas manifestações dispersas
pela cidade, que enfrentaram a polícia. Em
Milão, parte das ações do dia 25 foi levada
adiante por centros sociais que celebraram a
vida de partisanos da resistência italiana ao
fascismo. Muitos foram detidos e acossados
quando tentavam levar flores aos túmulos. A
cidade teve uma operação policial que esperava
por protestos, recrudescendo a repressão aos
que desobedeceram a quarentena. Em Roma,
pessoas também foram para as ruas. Um vírus
visível começa a aparecer na Itália?
sustentável?
Em Nova York, constatou-se que o novo coronavírus
mata mais negros e latinos. Em Cingapura, o
número de infectados subiu de 300 para 10 mil,
dos quais a imensa maioria é de trabalhadores
imigrantes que vivem em condições inóspitas.
Estes exemplos não são surpreendentes, nem
inesperados. Agora, o FMI e o Banco Mundial
lançaram um alerta de que a pandemia deve
exacerbar a desigualdade econômica entre
países ditos mais e menos desenvolvidos, e
no interior dos próprios países. Além disso,
preveem grande aumento no número de pessoas em
situação de extrema pobreza, cuja diminuição
era um dos principais objetivos do milênio,
e agora a pauta número 1 da Agenda 2030, dos
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Nada de novo no front, só a velha constatação
do que é o capitalismo.
sem juiz!
Na última sexta-feira, o então ministro
da justiça, o juiz celebridade anunciou
publicamente, com sua voz esganiçada, sua
demissão do governo. Em diversas cidades do
país, pouco tempo depois do anúncio, já se
ouviam o som das panelas e o grito exigindo
a saída do presidente. Até mesmo alguns
militantes de esquerda, críticos ferrenhos do
trabalho do juiz, engrossaram o coro. Diante
disto vale lembrar: anarquistas e amantes do
futebol sabem, de antemão, que desde o início
de qualquer partida, não se confia em juiz!
extermínio deliberado
Até o dia 24 de abril foram confirmados oficialmente
151 suspeitas da Covid-19 e 104 confirmações nos
presídios do país. O Distrito Federal concentra
o maior número de casos confirmados, 72 ao todo;
o estado de São Paulo registra o maior número de
óbitos: das cinco mortes de encarcerados pelo
coronavírus, quatro foram no estado. No estado
do Amazonas, em meio ao colapso do sistema de
saúde cuja escassez de leitos, respiradores,
macas e diversos outros aparelhos para o cuidado
de pacientes afeta severamente a população, a
Seap (Secretaria de Estado de Administração
Penitenciária) confirmou na última quarta-feira
(22/4), o primeiro caso do novo coronavírus. Essa
confirmação aconteceu 15 dias depois que a Justiça
do Amazonas negou um pedido habeas corpus para os
presos com risco de contrair a Covid-19 no Complexo
Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), de regime
fechado e administrado pelo estado em parceira
com a empresa Reviver. No dia 23, foi apresentada
uma lista com 101 presos dos grupos de riscos
no Compaj, muitos com doenças como tuberculose,
diabetes, hipertensão e problemas respiratórios,
cardíacos e com HIV. Todos ainda se encontram
encarcerados, e sem dar notícias, uma vez que
as visitas estão proibidas. Não há como saber a
situação de todos que se encontram doentes, de
quantos podem estar com infectados pela Covid-19
ou se ainda estão vivos. A única coisa que se sabe
até o momento é que mais mortes virão. No presídio
da Papuda (DF), explodem números de infectados.
n. 578, 28 abril de 2020.
1º de maio
A definição do 1º de maio como dia do
trabalhador decorre dos efeitos de resistências
anarquistas às violências do Estado no final do
século XIX. Desde Haymarket, 1886, em Chicago,
local onde anarquistas foram presos após um
protesto, os trabalhadores tomam as ruas em
diversos lugares do planeta para expor o
incompatível entre as suas existências e a dos
proprietários. Mas, também, para reivindicar
direitos e melhorias, ou até mesmo para se
entreter com espetáculos e apresentações
musicais ofertadas pelas centrais sindicais.
Neste primeiro de maio de 2020, pela primeira
vez, ruas e avenidas ficaram vazias, enquanto,
as centrais transmitiam farta programação via
internet. A escassez de ações radicais no 1º
de maio anuncia a acomodação em smartphones e
plataformas?
na madrugada anárquica
Nas primeiras horas do dia 1º de maio, ações
diretas contra propriedades, estatais e
privadas, aconteceram em Madri, Barcelona e
Arlon, na Bélgica. Na França e na Itália,
alguns anarquistas deram continuidade aos
ataques a antenas, interrompendo os sinais
de celulares, internet e televisão de algumas
cidades. Desde a Espanha, algunxs anarquistas
y otrxs amigxs del destrozo afirmam: “Não nos
resignamos a viver domesticados. Muito menos
a enquadrar a luta fora da rua e aceitar o
espetáculo de protestos em redes sociais. São
tempos difíceis e que ainda irão mais longe.
Tempos de militares, câmeras, obtenção de dados
biométricos, monitoramento via celulares,
drones, prisões, multas, polícia e repressão. É
a lógica dos Estados intensificada para conter
as consequências de outro período de reajustes
(crises) dos processos de exploração”.
por mais segurança
e pelo futuro?
Na Itália, em Roma, centrais sindicais gravaram
breves shows de artistas e transmitiram pela
emissora RAI, mas, sem a presença do público.
O mote da programação foi “trabalho seguro:
construindo o futuro”. Na Suécia e na Noruega,
o slogan adotado foi parecido, “segurança
para a saúde e o trabalho”. Em São Paulo,
na transmissão unificada de oito centrais
sindicais, um ex-presidente concluiu: “é hora
de construirmos um futuro”. Frente à ampliação
dos fascismos no mundo todo, em especial, no
Brasil, com sua patota vestindo a camisa verde-
e-amarela trancada em seus SUV’s, fica mais
uma questão: não é hora de uma ação urgente
no presente?
voluntários do aprisionamento de
jovens 1
Na última semana a Fundação CASA anunciou, em
seu site, a produção de máscaras, por jovens
encarcerados em diversas unidades do Polo ABCD,
para proteção contra o novo coronavírus. “A
ação tem se realizado nos CASAs São Bernardo I,
Santo André I, Diadema, Mauá, Novo Horizonte,
Guaianazes II, Fazenda do Carmo e Encosta
Norte. Os demais centros estão em processo de
implantação da oficina.” As máscaras são feitas
de pvc, reaproveitando material utilizado em
“datas comemorativas” e são destinadas ao
“internos e familiares”. A diretora da Fundação
CASA ressalta a positividade da prática para
a instituição: “Os adolescentes entenderam a
importância de se cuidar e de contribuir no
combate do Coronavírus”. A continuidade do
aprisionamento de jovens é o que sempre foi e
será. A proteção da continuidade da prisão e
seus rentáveis negócios e matanças.
voluntários do aprisionamento de
jovens 2
Na última semana um jovem de 17 anos foi
executado a tiros em Ubatuba pela polícia,
enquanto jogava futebol. Um protesto de
vizinhos, amigos e parentes fechou a rodovia
Rio-Santos por duas horas. A família fala que
“ele não tinha passagens pela Fundação CASA”.
A mãe do jovem morto declara: “se ele tinha
feito algo errado, que pagasse com cadeia
e não com a vida”. Eis aqui um minúsculo
detalhe imenso. Não há governo superior que
se sustente, esmagando alguém, sem seus baixos
começos. O consentimento voluntário de quem é
esmagado e, simultaneamente, o exercício miúdo
e ordinário do castigo, sempre começa pelo
corpo de crianças esmagadas cotidianamente pela
família em suas casas, com ou sem pandemia.
basta de voluntários do castigo
e do aprisionamento de jovens!
Mais uma vez. A continuidade do aprisionamento
de jovens é o ápice da covardia. A crença
no exercício do castigo sobre o corpo de
crianças e jovens é onde se situa os baixos
começos de uma cultura covarde e carnífice.
A morte putrefata que se acumula em casas
onde se castigam crianças, independente do
extrato econômico e social; na Fundação CASA
com seus congêneres, em qualquer tempo. Com a
chamada pandemia ou sem ela. Urge dar um fim
ao encarceramento de jovens no país. É preciso
dar um basta ao regime dos castigos! Acabar
com a prisão para jovens no país mostra-se
como um de seus corajosos e salutares baixos
começos.

n.579, 5 de maio de 2020.


jogando no ataque: gol
Em São Paulo, no último sábado, alguns
torcedores de futebol foram até a avenida
Paulista. O objetivo era impedir mais uma
marcha cadavérica dos seguidores do homem que
senta no trono do palácio. A ação deu certo!
Com os punhos cerrados, máscaras nos rostos,
os torcedores registraram a vitória por W.O.
deles sobre os grossos de verde-e-amarelo, que
afinaram rapidamente e debandaram. Que a ação
direta não só dos torcedores se amplie! Quem
aprecia a liberdade não teme jogar no ataque.
matam indígenas 1
A primeira criança indígena a morrer pela Covid-19
tinha 1 ano de idade. Ela vivia na TI Tenondé-
Porã, no estado de São Paulo, e faleceu no dia
21 de março. O resultado do teste que confirmou
a causa da morte saiu somente no dia 04 de maio.
30 povos indígenas já foram acometidos pelo
novo coronavírus. Os Kokama e os Tikuna são os
mais afetados. Ao menos 55 indígenas morreram
em decorrência da doença, segundo a Articulação
dos Povos Indígenas do Brasil. A Secretaria
Especial de Saúde Indígena do Ministério da
Saúde notifica 16 mortes. Esta instituição
considera como indígena apenas pessoas que vivem
em TIs e aldeias; não contabiliza óbitos em
áreas urbanas. Dispõem também de muitos médicos
e funcionários da saúde – curiosamente com
maior incidência em hospitais militares como o
Hospital de Guarnição de Tabatinga, na região do
alto Solimões, no Amazonas, local mais atingido
pela doença – que só reconhecem um indígena
quando este é certificado pelo Estado. Indígenas
que morreram em leitos hospitalares foram
classificados como “pardos”, pois não portavam
RANI (Registro Administrativo de Nascimento
Indígena) no momento da internação. Há os que
foram enterrados em alguma das muitas valas
abertas, sem que seu povo pudesse realizar seu
ritual. No último dia de abril, em Pernambuco,
um Pipã de apenas três dias morreu acometido
pela Covid-19.
matam indígenas 2
No dia 22 de abril, a Funai promulgou uma
Instrução Normativa (nº 9/2020) que altera
a “Declaração de Reconhecimento de Limites”,
vulgo de reconhecimento de “propriedade”.
Agora, os limites serão apenas de TIs,
autorizando explicitamente que os mais de 200
povos, cujas terras ainda não foram demarcadas,
sejam roubados e dizimados por proprietários
e seus lacaios. A mineração e o agronegócio
seguem como setores essenciais sob a chama
pandemia. Os alertas de desmatamento também e
cresceram 63,75% no último mês (em relação a
abril do ano passado). O Brasil quebra recorde
atrás de recorde nos rankings macabros. A
propriedade é um roubo e o Estado mata!
anticorpos
Libertárixs do Indigenous Action publicaram
um manifesto no qual questionam por que
conseguimos imaginar o fim do planeta, mas não
o fim desse mundo. Diante de um mundo de tempo
linear, que dos tomos religiosos à ficção
científica é fundamentado em origem, meio e
fim, afirmam: “é o nosso tempo dos sonhos
coletivo, e é agora. Depois. Amanhã. Ontem.
(...) Não estamos preocupados com o modo como
nossos inimigos nomeiam seu mundo morto e como
eles reconhecem e aceitam a nós ou as nossas
terras. Não estamos preocupados em retrabalhar
as maneiras com que eles gerenciam o controle
ou em honrar seus acordos e tratados mortos.
(...) Entre céus silenciosos. O mundo respira
novamente e a febre baixa. A terra está quieta.
Esperando que nós a escutemos. (...) Nós vamos
nos propagar. Nós somos os anticorpos”.

n. 580, 12 de maio de 2020.


sinal verde
Na noite de 13 de maio, sete anarquistas foram
presos pela operação “Ritrovo”, nas cidades
italianas de Bolonha, Milão e Toscana. Outros
cinco estão proibidos de sair dos municípios
onde moram. Além das casas destes libertários,
a polícia também invadiu o espaço de
documentação anarquista Il Tribolo, em Bolonha.
Giuseppe, Stefania, Duccio, Leonardo, Guido,
Elena e Nicole são acusados de: “associação
subversiva com o propósito de terrorismo ou
subversão da ordem democrática”, “incitação
ao delito”, “vandalismo e depredação” e “danos
à propriedade”. O chamado crime: “afirmar e
difundir a ideologia anarcoinsurrecionalista,
assim como instigar, com a difusão de material
de propaganda, que cometam atos de violência
contra as instituições”. De acordo com as
autoridades a prisão dos sete libertários
tem “valor preventivo estratégico destinado
a evitar que isso aconteça em qualquer
momento posterior da tensão social, derivado
da situação particular de emergência, ou em
outros momentos em que uma campanha de luta
antiestatal mais geral possa ter espaço.” O
Estado teme cada vez mais o vírus ácrata. Sinal
de alerta para a ampliação das repressões e
sinal verde para avançar.
libertá per tutti e tutte
Na tarde do dia 14, aproximadamente, cem pessoas
foram às ruas de Bolonha em uma manifestação
pela liberdade dos anarquistas detidos e
perseguidos. Diante da repressão, afirmaram:
“a solidariedade com quem se rebela com o
presente estado das coisas não pode parar.
Muito menos podem parar as lutas, a qualquer
momento, de quem se defende contra aqueles que
controlam nossas vidas, contra a exploração
em detrimento da saúde dos demais, contra
toda infame prisão”. Na cidade de Rovereto,
uma ação direta provocou um apagão nos sinais
de internet e telefonia celular. Nos muros
da companhia de telecomunicação, pixaram:
“liberemo-nos das jaulas tecnológicas”,
“solidariedade axs companheirxs de Bolonha” e
“liberdade axs encarceradxs”.
lockdown é estado de sítio
O autocuidado em não sair de casa não é sinônimo
de lockdown, proibição de sair de casa. Um é
sugestão, o outro é poder sobre os livres
encarcerados em suas habitações.

n. 581, 19 de maio de 2020.

basta!
Uma menina e um menino. Duas crianças brincam
no quintal de um sítio no interior do Paraná. Em
meio à brincadeira, de repente, ela é alvejada
por ele. Os tiros saíram de uma espingarda
velha e caseira que o avô tinha em casa. O
irmão que, brincando com a arma, disparou na
irmã tem apenas nove anos. E ela de cinco,
morreu... Pequeno acontecimento estrondoso
para dar um fim aos armamentos de qualquer
cepa, exaltados pelos abutres de sempre!
quando a torcida entra em campo
Em Porto Alegre, no último domingo, pela
terceira semana seguida, antifascistas
impediram a marcha fúnebre verde-amarela. A
ação foi mais uma vitória contundente. Segundo
pessoas envolvidas, entre os antifas, muitos
eram torcedores dos times de futebol da cidade.
Aos gritos de “recua fascista, recua”,

quando a torcida entra em campo 2


Na última quinta-feira na capital do Ceará,
torcedores do Fortaleza também impediram uma
carreata fascista. Do sul ao nordeste, as
ações explicitam, antes de tudo, que é o time
pelo qual nos apaixonamos que faz bater forte
o nosso coração e não a seleção verde-amarela.
A presença dos antifascistas mostra, também,
que os verde-amarelos, quando a partida é para
valer, tremem.

quando a torcida entra em campo 3


Em Belo Horizonte, torcedores atleticanos se
reuniram na Praça da Bandeira para marcar
oposição às manifestações fascistas pró
governo e pró ditadura. Que ações como esta,
que em São Paulo começaram com torcedores do
Corinthians, estourem cada vez mais em outras
localidades contagiando todas as torcidas.
o verde que não amarela
Na Argentina, nas arquibancadas do pequeno
estádio do Adrogué (há dois meses paralisado
por conta da pandemia), brotou um vigoroso pé
de maconha. Ao menos uma notícia boa, esse
verde que não amarela, ganhando espaço. Que
cresçam outros pés, fazendo a nossa cabeça,
para ganharmos definitivamente qualquer peleja
contra os fascistas.

n. 582, 26 de maio de 2020.


Roberto Ambrosoli:
um cartunista libertário

Morreu hoje [7 de abril de 2020] num hospital


de Turim, onde estava internado por causa do
coronavírus, o companheiro Roberto Ambrosoli,
desenhador que criou a personagem inesquecível
do "Anarchik, o inimigo do estado". Há 50 anos
que esta personagem nos acompanha, sobretudo
nas páginas da Revista (A).
MAL
s. ou adj. masc. (do latim: malum)

O mal é o oposto do bem. O Senhor De La


Palisse teria dito o mesmo. Mas isso não
avança uma sílaba na definição do termo “mal”,
tampouco prova que ele exista.

Há o mal metafísico, do qual não quero


me ocupar e que contém em si uma noção de
imperfeição, de falta, de lacuna, apenas
admissível se aceitarmos a priori que a
perfeição existe. Ora, na prática, não existe
a perfeição. A noção de um ser perfeito é um
conceito puramente quimérico. Nem a natureza,
nem o homem são perfeitos. A terra é muitas
vezes revirada por cataclismos destrutivos, as
estações nem sempre se sucedem regularmente,
os organismos vivos estão sujeitos a todos os
tipos de doença; os homens estão longe de ter
corpos impecáveis. Além disso, dos imensos
sóis até as mais minúsculas células, desde
seu surgimento tudo o que existe se encontra
corroído pelo ambiente físico-químico e
destinado inevitavelmente à dissolução, à
desintegração e à morte. A morte é suficiente
para provar a inevitável imperfeição universal.

Aliás, nesse sentido de perfeição e


imperfeição, em lugar nenhum há o “bem”
dissociado do “mal”. A manutenção de organismos
vivos é uma função do consumo de uma espécie
ou de outro organismo, logo, de destruição
Não sabemos se as erupções, os maremotos, os
terremotos, os ciclones, as ondas de frio ou
de calor são essenciais para a “boa saúde” do
globo em que vivemos etc.. Ao se defenderem
da atmosfera telúrica e cósmica, os homens
acabaram tirando vantagem do que antes lhes
tinha sido prejudicial, “usando” para o seu
“bem” o que antes lhes havia feito tanto “mal”,
o que prova o quão relativo é o conceito de
“mal”.

O que é criado para o “mal” dito físico


tem seu equivalente no suposto “mal”
moral. Tomado individualmente, de acordo
com as circunstâncias, de acordo com o seu
interesse, de acordo com os requisitos de
sua sensibilidade, um mesmo homem é terno ou
cruel, leal ou falso, grosseiramente avarento
ou excessivamente generoso. Eu conheci um
diretor de penitenciária que não parecia se
importar em varar noites com crianças doentes,
que não eram as suas; mas não hesitava em
enviar para a solitária — muitas vezes uma
antecâmara de doenças fatais — prisioneiros
infelizes, culpados de violar os regulamentos
da prisão.

Levaria muito tempo para escrever sobre


essa coexistência do bem com o mal. O que
mais me interessa é o “mal” do ponto de vista
social. Percebemos rapidamente que o mal é
aqui um sinônimo de “proibido”. “Um fulano”
- conta a Bíblia - “fez o mal aos olhos do
Eterno” e essa frase é encontrada em muitos
livros sagrados dos judeus, que também são os
mesmos dos cristãos. É necessário traduzir:
um fulano fez o que era proibido pela lei
religiosa e moral, tal como fora estabelecida
para os interesses da teocracia israelita...
Em todas as épocas e em todos os grandes
rebanhos humanos, sempre se chamou “mal” a
todos os atos proibidos pela convenção, escrita
ou não, variando de acordo com os tempos ou
latitudes. Desde modo, é considerado “mal” se
apropriar da propriedade de quem tem mais do
que precisa para se sustentar, zombar daqueles
que elaboram ou que aplicam as leis, negar
a pátria, manter relações sexuais com algum
parente consanguíneo muito próximo. E assim
por diante.

Para o anarquista individualista, não há


permitido ou proibido, “bom” ou “mal”. Para
ele, isolado ou associado, as coisas, os fatos,
os gestos lhe são úteis ou prejudiciais,
agradáveis ou desagradáveis, proporcionam
prazer ou sofrimento. Ele não crê que será
por restrições e constrições que eliminaremos
o “mal”, isto é, o que é desvantajoso para o
indivíduo ou para a associação, o que causa
dor, o que causa descontentamento. Pensa que a
reciprocidade bem concebida permite que todos
troquem os produtos do determinismo pessoal
ou de grupo, que encontrem nessas trocas a
satisfação de necessidades, desejos, apetites,
aspirações com os quais podem formar os vários
temperamentos humanos, como o prazer, que pode
ser prejudicial para este, mas benéfico para
aquele outro. O exercício da reciprocidade,
em um ambiente que ignora o permitido e o
proibido, implica responder a quase todos os
desejos que o psicológico e o fisiológico podem
manifestar. Permanecem insatisfeitos apenas
os casos verdadeiramente caracterizados como
patológicos, e sabemos que, onde não há mais
a moralidade do Estado, nem da Igreja, esses
estarão reduzidos a poucos.

ÉMILE ARMAND.

Nota: Expressão idiomática: uma verdade ou


dito do Senhor De La Palisse se refere a uma
evidência tão óbvia que se torna ridícula.
(N.T.)

Tradução do francês por Beatriz Scigliano


Carneiro.

[Verbete publicado originalmente em


Encyclopédie Anarchiste organizada por
Sébastien Faure. Disponível em http://www.
encyclopedie-anarchiste.xyz/articles/m/mal.
html.]
37
2020

Resenhas
como ensinar molotov aos netos
LÚCIA SOARES

Vanina Escales. ¡Arroja la Bomba! Salvadora Medina Onrubia y


el feminismo anarco. Buenos Aires, Marea, 2019, 272 pp.

Durante quinze anos, a jornalista e ensaísta argentina


Vanina Escales fez um levantamento minucioso sobre
a vida de Salvadora Medina Onrubia (1894-1972). O
trabalho originou o livro ¡Arroja la Bomba! Salvadora
Medina Onrubia y el feminismo anarco. A obra ainda
conta com o escrito inédito “Mil Claves Colorados” e faz
parte da coletânea Historia Urgente, da editora Marea. O
título valorizou as práticas e a ação direta de Onrubia,
exímia inventora e arremessadora de coquetéis molotov
contra opressores e partidários nacionalistas. Para
reunir as informações sobre ela, Escales mergulhou em
livros, poesias, artigos jornalísticos e peças teatrais como
Almafuerte e Las Descentradas. Entrevistou familiares,
amigos e amigas como America Scarfó e a própria filha
de Onrubia, China.
Em cinco capítulos, Escales discorre sobre a vida
intensa de Salvadora Medina Onrubia ou SMO, (como às
vezes assinava), e chamada também de “Vênus Vermelha”,
relacionando-a com a emergência do movimento
Lúcia Soares é pesquisadora no nu-sol, doutora, socióloga e professora universitária.
Contato: lucia.s.s.@uol.com.br.

172 verve, 37: 172-179, 2020


verve
como ensinar molotov aos netos

feminista e do chamado anarcofeminismo argentino.


A pesquisadora mostrou essas procedências logo nas
primeiras páginas, ao narrar o surgimento, em 1907,
do Centro Feminino Anarquista, fundado por Juana
Rouco Buela, anarco-sindicalista espanhola radicada
na Argentina, e mais dezenove companheiras. Estas
anarquistas ganharam espaço entre as mulheres operárias,
esgotadas pelo trabalho árduo e míseros salários. Este
coletivo anarcofeminista atuou em Buenos Aires e
Montevidéu e produziu o periódico La Nueva Senda.
Quando Francisco Ferrer y Guardia foi detido e
fuzilado em 1909, em Barcelona, Rouco Buela discursou
e inflamou milhares de pessoas diante da embaixada
espanhola em Montevidéu. No embate com a polícia
ocorreu um tiroteio. Dias depois, o governo expediu sua
prisão. Rouco Buela, então, traçou um plano de fuga. Pediu
roupas masculinas emprestadas e saiu de casa, pelas ruas,
fumando com um companheiro, como se nada tivesse
acontecido. O feito ridicularizou a polícia que integrava
a “Ordem Social”; repercutiu pela imprensa, tornou-se
verso e prosa. A ousadia impactou muitas pessoas, entre
elas Onrubia.
Onrubia foi inclassificável. Mesmo assim, para alguns,
ela foi apenas a esposa indomesticável do jornalista e
proprietário do jornal Crítica, Natalio Botana, ou a avó
anarquista de Copí, renomado cartunista e dramaturgo
franco-argentino. Onrubia nasceu em La Plata, cresceu
em Gualeguay, Entre Rios. Seu pai era arquiteto. Como sua
mãe, ela tornou-se professora. Sua rebeldia é sublinhada
desde criança quando foi expulsa da escola por se recusar
a beijar o anel de um bispo. Quando jovem, se juntou a
Emma Barrandeguy, Juan L., entre outros e organizou

verve, 37: 172-179, 2020 173


37
2020

o grupo Claridad, no qual discutiam política e literatura.


Com dezessete anos já se entendia anarquista, começou
a namorar e a questionar a virgindade. Logo engravidou.
Não revelou a gestação ao namorado e decidiu ter o filho
sozinha. Tinha quase 18 anos, quando, em 1912, nasceu
Carlos, seu primeiro filho, apelidado de Pitón.
Em 1913, Onrubia escreveu suas primeiras colaborações
no El Diario de Gualeguay, mas queria ir para Buenos
Aires colaborar no diário anarquista La Protesta, o
que se concretizou tempos depois. Suas primeiras
contribuições no periódico foram em 1914, a partir de
uma apresentação “singela” aos companheiros de redação
como a “niña” Onrubia, “uma nova poeta”, que já havia
escrito a peça teatral anarquista Almafuerte. Nesta mesma
época, conheceu o jornalista uruguaio Natalio Botana.
Se apaixonaram e foram morar juntos. Botana assumiu a
paternidade de Carlos e com Onrubia tiveram três filhos.
Quando nasceu a filha caçula, resolveram se casar. Ele era
o fundador e proprietário do jornal Crítica, periódico que
tensionava com o La Protesta.
Onrubia, na redação do La Protesta, fez parte das
ações do “Comitê Contra as Leis de Repressão e pela
Liberdade dos Prisioneiros”. Essa batalha contra a prisão
e a tortura atravessou toda sua existência. Participou de
inúmeras passeatas, como as da FORA — Federação
Operária Regional Argentina, jogando coquetel molotov,
ou discursando em manifestações operárias. De acordo
com Escales, “ser anarquista nessa época era lidar também
com vigilantes que elaboravam informes de inteligência,
era ser visto como delinquente, com destino à prisão ou
exílio” (p. 33).

174 verve, 37: 172-179, 2020


verve
como ensinar molotov aos netos

Anos depois, em 1931, Onrubia e Botana também


foram presos pela “Ordem Política”, órgão da Polícia
Federal, do governo do ditador Uriburu. Ela ficou cem
dias presa. No El Diario escritores e escritoras como
Horacio Quiroga e Alfonsina Storni protestaram contra
sua prisão. Fizeram uma carta ao presidente Uriburu,
pedindo sua “magnanimidade” em relação à prisão de
Salvadora. Quando foi notificada da carta, agradeceu a
todos. No entanto, escreveu a Uriburu,: “magnanimidade
implica perdão de uma falta. E eu, não me recordo de
faltas e não necessito de magnanimidades” (p. 138).
Mais do que óbvia, a justificativa para a prisão de
Onrubia, foram suas ideias anarquistas. O escritor
aristocrata cristão, defensor do fascismo, Polo Lugones,
relatou no Bandera Argentina que a detenção ocorreu
por ela ser uma mulher de comportamento libertário. “A
mulher que sai do sossego da casa para iniciar atividades
públicas tem o direito de ser creditada às outras (detentas)
que não cumprem o papel que o sexo lhes impõe. Ela é
uma mulher determinada, capaz de enfrentar situações
graves da mesma maneira que um homem, (...) ela não tem
a fraqueza de seu sexo nem um temperamento sensível e
os escritores que exigiram sua liberdade não sabiam o que
ela estava fazendo” (p. 139).
O livro relata várias passagens belas e contundentes
da existência de Onrubia, sua relação com amigas e
amigos, alguns deles militantes pouco conhecidos, outros
mais, companheiras e companheiros anarquistas, quase
todos perseguidos, presos e torturados por governos
conservadores, nacionalistas e ditatoriais como os de
Yrigoyen e Uriburu. Dentre essas relações destaca-se a
amizade de Salvadora Onrubia com Simón Radowitzky,

verve, 37: 172-179, 2020 175


37
2020

“um menino grande” ou, nas palavras de Luce Fabbri,


“uma alma simples e sincera”.
No dia 14 de novembro de 1909, Radowitzky, jovem
anarquista ucraniano, praticou um atentado a bomba
contra o coronel Ramon Falcón, oficial responsável pela
repressão sangrenta à manifestação operária de 1° de maio
de 1909, que deixou 12 mortos e mais de 80 feridos. Falcón
carregava uma lista infinita de ações de despejo de famílias
pobres, perseguição a anarquistas, mortes e torturas.
Apesar de fugir da repressão, Radowitzky foi alcançado e
detido. Não hesitou, na hora da captura, em gritar: “viva
a anarquia!”. Nesta época Onrubia ainda não o conhecia.
Ela tinha apenas quinze anos e acompanhou tudo pelos
jornais. Mas quando estava no La Protesta, combatendo e
ajudando os presos e seus familiares, começou a escrever
cartas a ele. Tornaram-se amigos.
Onrubia lutou pelo indulto de Radowitzky e por
seu exílio em Montevidéu. No período da Revolução
Espanhola, ele foi a Barcelona e manteve assiduamente
contato com Onrubia, que lhe enviava mantimentos e
organizava a coleta de dinheiro para os companheiros
anarquistas. No entanto, Radowitzky foi detido
novamente. Enviado para um campo de concentração na
França, conseguiu escapar em direção a Bélgica. Oitenta
mil francos foi o que Onrubia, na época, conseguiu
arrecadar para que o amigo libertário abandonasse a
Europa rumo ao México. Após ter seu visto para entrar
nos Estado Unidos negado, na última correspondência
enviada a Salvadora, em 1941, Radowitzky anexou uma
foto sua reunido com amigos exilados e exultando charme
mexicano.

176 verve, 37: 172-179, 2020


verve
como ensinar molotov aos netos

Das amigas de Onrubia, destacam-se Alfonsina Storni


e América Scarfó. Storni chegou a Buenos Aires um ano
antes de Onrubia. Logo que se conheceram tornaram-se
cúmplices. Além da paixão pela literatura e pela escrita, as
duas eram feministas, poetas, filhas de professoras e mães
solteiras. Os filhos, que tinham a mesma idade, também
se aproximaram. Apesar de percursos diferentes como
jornalistas e escritoras, principalmente pela receptividade
e “reconhecimento” da poesia de Storni, foram amigas
até o suicídio de Alfonsina, que tirou a própria vida
inconformada por ter adoecido de câncer, em 1938.
Com America Scarfó, admirou-se pela juventude e o
amor libertário vivido entre ela e Severino Di Giovanni.
Ao ser preso, Di Giovanni foi brutalmente torturado e
executado pela polícia da Ordem Social. Scarfó não
quis assistir ao seu fuzilamento no dia 1° de fevereiro
de 1931. No dia seguinte, seu irmão morreu da mesma
maneira. Sozinha, com dezoito anos, Scarfó passou a
se preocupar com a própria sobrevivência e com a dos
filhos de Di Giovanni. Procurou muito tempo por um
emprego. Onrubia, que logo depois do fuzilamento de
Di Giovanni, tentou resgatar o cadáver do anarquista
para que ele não fosse jogado em uma vala comum pelo
Estado e desaparecesse, quis conhecê-la. Quando Scarfó
foi até a sede do Crítica, várias mulheres a esperavam,
entre elas, Onrubia, Alfonsina Storni, Delia Morcillo.
Onrubia perguntou-lhe o que iria fazer e pela resposta
percebeu a preocupação de Scarfó. Então convidou-a para
trabalhar como sua secretária. A amizade entre as duas só
foi interrompida quando América Scarfó se casou e seu
marido a desaconselhou a manter essa amizade.

verve, 37: 172-179, 2020 177


37
2020

Outro detalhe na vida de SMO foi a prática da


teosofia. Como outros anarquistas, entre eles, José Oiticica
no Brasil, ela leu e seguiu os ensinamentos de Jiddu
Krishnamurti. Dez anos antes de sua visita à Argentina,
em 1924, Salvadora publicou a novela Akasha, que
invocava a memória do universo e de um suposto DNA
planetário comum a todos. Segundo Escales, ela encarou
a teosofia como fonte de autoconhecimento similar à
sociabilidade libertária. Uma vez, Onrubia perguntou
sobre teosofia a González Pacheco, que respondeu: “o
anarquismo não é um partido político; é um estado de
espírito” (p. 116). A própria Onrubia se intitulava espírita,
médium e curandeira.
Salvadora Onrubia foi uma mulher libertária, jornalista,
dramaturga, poeta. Não coube em modelos impostos por
uma sociedade burguesa, entre eles a de mãe e esposa
zelosa cuidadora do lar. Ela foi insuportável para a moral
e política vigentes nas primeiras décadas do século XX,
na Argentina. Experimentou o amor livre, questionou os
rígidos costumes que recaíam sobre as mulheres, incluindo
os estéticos, como a cobrança de serem magras e pálidas
e, por vezes, frígidas sexualmente, pois, uma boa mãe e
esposa não podia ter prazer sexual.
Onrubia escapou, transbordou. Quando se lê o livro,
vemos que não se consegue contê-la. E se tentássemos,
seria como agarrar a água que escorre pelas nossas mãos.
Ela enfrentou a sociedade, o Estado e seus governantes.
Enfrentou até seus próprios filhos e todos aqueles que
por ventura quiseram lhe silenciar. Ora admirada por sua
beleza e inteligência, ora atacada por ser intempestiva e
transgressora; como poeta foi rotulada de puta e louca.
Chamavam-na de pecaminosa por ter sido mãe solteira.

178 verve, 37: 172-179, 2020


verve
como ensinar molotov aos netos

Por andar e se relacionar com mulheres era acusada de


ser lésbica; por beber whisky, era a bêbada. E quando seu
filho mais velho morreu e ela usou morfina, foi chamada
de drogada. Toda essa construção da mulher degenerada
se somou às inúmeras vezes em que foi rechaçada pelos
círculos literários e intelectuais que a consideravam uma
outsider.
Vanina Escales afirma que a diferença de Salvadora
Medina Onrubia para as outras feministas é que ela sabia
fazer coquetel molotov e ensinou seus netos a fazerem o
mesmo. A diferença, a singularidade, é que ela foi uma
anarquista. Que a vida de SMO possa proporcionar
uma reflexão para contestadores, revoltados, mas,
principalmente para meninos e meninas dispostos a
aprender como fabricar molotovs em busca de liberdade.
História urgente, viva Salvadora Medina Onrubia!
Saúde!

verve, 37: 172-179, 2020 179


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2020

cúmplices no meio do caminho


ELIANE CARVALHO

Aragorn! (ed.). The Fight for Turtle Island. Berkeley, CA,


Ardent Press, 2018, 240 pp.

“Meu nome é Aragorn! e nasci em Michigan. Meus


pais eram hippies e escolheram meu nome por causa
do personagem do Senhor dos Anéis. Eu acrescentei
a exclamação (ou bang em linguagem hacker) como
homenagem a alguns aspectos da minha vida (punk
e tecnologia). Fui criado primeiramente por minha
enraivecida/triste mãe Odawa (Anishinaabe) que em
certo momento surtou e me expulsou de casa. Eu então
atravessei a neve e caí no mundo branco que vivo agora.
A partir daí me mudei para a Califórnia, entrei em brigas
com nazis, li livros, me meti com a contracultura, arrumei
empregos de merda, e estive envolvido com o anarquismo
desde então” (p. 96-97).
Aragorn! Faleceu no dia 13 de fevereiro de 2020,
meses antes de completar 50 anos. Em Berkeley, na
Califórnia, onde o conheci, fundou a editora Little Black
Cart (LBC) e a Ardent Press com alguns companheiros,
como Leona e Ariel, fundamentais no trabalho da editora
e agora responsáveis por tocar o trabalho adiante. Tomou
parte em outros projetos, seja como fundador, apoiador,

Eliane Carvalho é pesquisadora e anda no e com o nu-sol. Doutora em Ciências


Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, caminho aberto e
acompanhado por Dorothea Voegeli Passetti, desde a graduação. Contato: eliane@
riseup.net

180 verve, 37: 180-189, 2020


verve
cúmplices no meio do caminho

organizador, colaborador etc., no site anarchistnews.org, nos


podcasts Anarchy Bang eThe Brilliant, na editora Repartee
Press, no jornal Black Seed, em Green Anarchy, na revista
Anarchy, na BASTARD Conference, no grupo de estudos
anarquistas, cujos encontros se dão ainda hoje no espaço
Long Haul, e um tanto mais. Tornou-se, dessa maneira,
uma importante figura ligada à distribuição e produção
de material anarquista em território estadunidense e além.
The Fight for Turtle Island foi uma de suas últimas
publicações e uma tentativa de encontrar um campo
comum entre as práticas indígenas e anarquistas, ambas
constitutivas de seu próprio percurso. O livro, segundo
Aragorn!, é uma conversação entre pessoas que vivem
nos limiares, que circulam entre um mundo branco que
combatem e as experiências de uma outra maneira de se
relacionar com a terra que querem fortalecer.
As entrevistas foram realizadas dois anos antes
da publicação do livro. Neste período algumas coisas
mudaram e alguns contatos foram perdidos, mas o livro
permanece relevante e atual a partir de histórias que não
se perderam e espaços que se abrem para outras conversas.
Aragorn!, além de organizar/editar o livro, toma parte
nestas conversas com Alex (Tohono O’odham), Anpao
Duto Collective (coletivo composto por um casal Sioux
Dakota), Corinna (Chochenyo e Karkin Ohlone), Dan
(Haudenosaunee Mohawk), Danielle (Anishinaabe),
Dominique (Anishinaabe), Gord (Kwakwaka’wakw),
Jason/Jaden, Kevy (Tohona O’odham), Klee (Diné),
Loretta (Anishinaabe Odawa), Lyn (Anishinaabe), Ron
(Anishinaabe Odawa). Com exceção de Loretta e Ron
Yob, seus familiares, todos os contatos foram feitos a partir
do movimento anarquista.

verve, 37: 180-189, 2020 181


37
2020

O livro é organizado a partir de alguns eixos temáticos:


The people (Os povos/As pessoas), Anarchism, What
Exaclty Are We Fighting: Race (O que exatamente estamos
combatendo: raça), Indigeneity and Decolonization
(Indigenismo e descolonização), The Fight for Turtle Island
(A luta pela Ilha Tartaruga) e a conclusão, In Conclusion.
Esta organização não constava na proposta inicial do livro,
mas é também resultado de uma conversa em aberto. Este
não é um livro de receitas ou um manual de condutas.
Durante estas conversas “houve muito de para mim é isso
que funciona, e muito pouco de é assim que deveria ser para
todo mundo” (p. 10).
O livro é contra o UNO. No primeiro capítulo, The
People, não há a formulação de uma identidade “pan
indigenista”. Se há o reconhecimento da possibilidade de
conversas entre as práticas de diferentes povos, reconhece-
se também que são distintas, que não há e não se quer uma
hegemonia e que estas diferenças podem se fortalecer nesta
luta pela Turtle Island. Aragorn! expõe brevemente o uso
dos termos índio, indígena, nativo, nativo americano, etc. e
ressalta que estes procuram dar conta de uma uniformidade
que não existe. Ele escolhe o termo índio de forma irônica,
por este conter em si o engano dos colonizadores ao se
depararem com outros povos nas “novas” terras. Cada um
dos entrevistados, referia-se a si mesmo e aos seus a partir
do nome específico de seu povo. Neste texto, em alguns
momentos, faço uso da palavra indígena para expressar
uma unidade que não existe como tal, na impossibilidade
de colocar cada uma das experiências singulares, e tomo
emprestado o próprio uso de Aragorn!: “Quando me
refiro à indígena na maioria das minhas conversações,

182 verve, 37: 180-189, 2020


verve
cúmplices no meio do caminho

estou falando das ideias [práticas] de como se vive como


um nativo neste mundo” (p. 14).
Turtle Island, tal qual é apresentada na introdução,
é, aproximadamente, o lugar que foi nomeado como
América do Norte (México, Canadá e Estados Unidos),
e um não lugar, no sentido de que já não existe hoje, mas
remete a uma outra vida anterior à imposição do Destino
Manifesto: “acredito que Turtle Island é muito mais forte
do que a violência a que vem sendo submetida. E creio
que ela [Turtle Island] continuará mesmo depois que o
Destino Manifesto cesse de se manifestar e desapareça da
história humana” (p. 7-8).
Turtle Island, portanto, conecta-se a uma relação com
o espaço em que se vive. Partindo desta relação espacial,
dispensando o uso das chamadas novas tecnologias de
comunicação, cada uma das entrevistas foi realizada
a partir de uma viagem por este território, da fronteira
imposta entre México e Estados Unidos até o denominado
território canadense.
As histórias passadas de geração em geração e
recontadas no livro explicitam a arbitrariedade das
fronteiras, asseguradas pela imposição de línguas oficiais
e a institucionalização de diversos povos em nome de seu
reconhecimento pelo Estado, confinados em cada um dos
territórios.
Kevy, um Tohono O’odham, que vive em Phoenix,
no Arizona, afirma sobre a circulação de seu povo que,
“Tenategum [o mistério, para os Tohono O’odham] nos
dá, não a liberdade, mas o direito inerente de se mover
livremente pela terra (…)”(p. 61). E acrescenta mais adiante,
“Nas terras tribais há rotas tradicionais, estradas de terra

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37
2020

que levam ao norte de Sonora [em território Mexicano] e


que segue até outras vilas de Sonora (…). [Mas hoje] Há
a presença da guarda de fronteira, dos federais, da polícia,
mas também de milícias desconhecidas, assim como dos
carteis” (p. 61).
Do território canadense, Danielle, Anishinaabe,
salienta os efeitos ocidentais nas relações dos povos
sobreviventes de séculos de massacre com o território.
“Aqui em Hamilton, muitos Haudenosaunee dirão:
‘Esta é o território Haudenosaunee’, e muitos outros
Anishinaabe dirão: ‘Este é o território Anishinaabe’;
Enquanto isso, ainda estamos todos distinguindo o
território pelos padrões canadenses” (p. 34-35). Ressalta
ainda, a continuidade do massacre do Estado por meio da
educação e da barganha pelos direitos.
No capítulo “What Exaclty Are We Fighting: Race”, a
definição da identidade indígena aparece como mais uma
forma de controle. O discurso da raça, ou “puro sangue”,
é apresentado como uma forma de limitar a cultura e a
potência dos diferentes povos, dividindo, no lugar de
fortalecer. Jason/Jaden, afirma que o liberalismo racial é
aquele de uma inclusão hierárquica estruturada no branco,
ele não permite um fora (p. 158).
No lugar de enfatizar a herança hereditária da linhagem
pelo “sangue”, como querem os governos, muitos dos
entrevistados atentam então para a importância das
práticas. O casal Dakota, que constitui o Ampao Duto
Collective, lembra que “há inúmeras pessoas que são
cheias de “sangue” [indígena], mas se identificam como
estadunidenses e estão cagando para a cultura Dakota”
(p. 131). Em outro momento, Gord, Kwakwaka’wakw,

184 verve, 37: 180-189, 2020


verve
cúmplices no meio do caminho

lembra que muita gente fala perfeitamente a língua, “mas


são uns vendidos”. Alex, Tohono O’odham, usa como
exemplo o conflito com alguns imigrantes que chegam
ao território nomeado como Estados Unidos. Eles usam
sua ancestralidade indígena para garantir direitos e uma
“aura”, mas não querem conversa com os outros que estão
ao seu redor, pedem mais Estado e sonham tornar-se
parte de mais um centro urbano; dessa maneira, acabam
reproduzindo a mesma lógica que os assolam.
Se há uma valorização das práticas dos diferentes
grupos indígenas, especialmente em sua relação com a
terra, não se perde de vista que a identidade não é nada mais
que parte do jogo de extermínio dessas culturas. Loretta,
Anishinaabe, tia de Aragorn!, afirma que muitos nativos
assumiram a posição de blanket indians, em referência aos
indígenas que preferiam esperar por cobertores do lado
de fora dos fortes, no lugar partir para os enfrentamentos
(p. 103).
Loretta, conta que passou a viver em uma comunidade
que escolheu aderir à vida pacífica e religiosa. Em um
dado momento da história dos Anishinaabe, lhes foi
imposta a opção entre deixarem o território ou ficarem
e se integrarem à vida religiosa, ou seja, pacifismo com
a sujeição e adesão às regras do Estado. Seus primeiros
anos de vida, circundada por aqueles que preferiram lutar,
a afastou do conformismo e lhe abriu a perspectiva da
revolta.
No capítulo Indigeneity and Decolonization, Dominique,
Anishinaabe, afirma sobre o processo de pacificação por
meio da assimilação de aspectos da cultura indígena a
partir da religião: “Eu não acho que eles sejam a mesma

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37
2020

coisa [a mitologia cristã e a indígena], mas se os nossos


ancestrais pré-contato fossem iguais aos monoteístas,
teríamos que nos rebelar contra eles também” (p. 198).
Gord afirma uma perspectiva diferente sobre o termo
descolonização. Aragorn! ressalta no início do capítulo
seu desconforto com o termo e os usos que se fazem dele
na atualidade, entretanto valoriza a leitura de Gord que
lhe trouxe um outro olhar sobre o assunto.
Gord apresenta a descolonização como algo que não
deva ser exclusivo dos chamados povos indígenas. Ele
afirma que todas as pessoas vieram da terra, “a palavra
cultura vem de terra. A raiz da palavra cultura é na verdade
‘da terra’. Por isso que as culturas indígenas são todas
similares, ainda que diferentes. Porque isso depende da
terra em que estão” (p. 181). Neste sentido, estamos todos,
de uma forma ou outra, implicados em um processo de
colonização, e a descolonização é também a retomada da
relação com o espaço em que se vive.
O segundo capítulo, Anarchism, é o mais breve.
Entretanto, a relação com as práticas anarquistas atravessa
todo o livro e se mostra por exemplo, nesta possibilidade
de se relacionar de uma forma diferente com o meio.
O distanciamento da necessidade de se consolidar
uma identidade, possibilita também o afastamento de um
discurso que, em oposição ao rebaixamento dos povos
indígenas e dos anarquistas, tenta recobri-los com uma
aura. De um lado, como conta Alex, lhe interessava a
conversa com certos anarquistas brancos, loucos, que viviam
nos arredores e apareciam toda vez que havia um confronto
em curso, sem procurar se tornarem os salvadores, como
fazem inúmeras organizações não governamentais. De

186 verve, 37: 180-189, 2020


verve
cúmplices no meio do caminho

outro lado, faz uma crítica ao que chamou de anarquistas


de paraquedas, que se deslocam milhares de quilômetros
para tomar parte da causa dos outros, mas não têm a
capacidade de ver o que está acontecendo ao seu redor.
No capítulo Fight For Turtle Island, é onde Aragorn!
procura aproximar de forma mais explícita o que lhe
interessa na relação entre certas práticas indígenas e
anarquistas, retomando a questão do espaço (que se
apresenta em todo o livro). Aragorn! afirma a importância
da relação com o local, e retoma ainda a questão da
linguagem (mais do que a língua) — que também
atravessa o livro e já estava anunciada na introdução —,
quando assume seu interesse em se apartar desta sintaxe
de guerra (diferente da luta) que constitui o pensamento
ocidental. Na apresentação deste capítulo, Aragorn!
toma emprestado um termo de Klee, Diné, para situar a
relação entre anarquistas e indígenas como cúmplices. Os
cúmplices, como afirma Aragorn! não são aqueles que
você precisa convencer para se unir à luta e engrossar a
massa, prática comum entre muitos ativistas, mas é aquele
que aparece quando se precisa, porque a conexão se dá
pela relação com o espaço (p. 208-209).
Kevy, Tohono O’odham e integrante do DOA (Diné,
O’odham, and Anarchist Anti-Authoritarian Bloc), mostra
o limiar em que estas práticas se cruzam: “no passado, eu
e outros amigos, fomos abordados por organizações sem
fins lucrativos, ONGs, que também eram de nativos, ou
indígenas, e que, devo dizer, se empenharam bastante
em nos coagir a aderir à sua agenda (…). E nós dizíamos
‘Não, não vamos aceitar pagamento por isso’. Por que
razão iríamos querer ser ativistas assalariados? Não somos

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37
2020

o tipo de pessoa que se conecta com a polícia, com liberais,


ou políticos. Nós desafiamos, rejeitamos isso (...)” (p. 227).
A conclusão do livro tem um tom pessimista, em
função do momento em que o próprio Aragorn! vivia
no chamado movimento anarquista, em que lutas pela
hegemonia se estabeleciam, minando possíveis conversas.
A relação entre anarquistas e os chamados povos
autóctones não é de hoje. Desde o século XIX, as ciências
e a política os aproximaram a partir de uma categorização
deles como selvagens. Para retomar um termo de Pierre
Clastres a aproximação pode se dar pelo fato de ambos
serem contra o Estado, e mais do que isso, por saberem
por experiência própria que este não é uma mal necessário,
que a vida existe muito mais exuberante onde ele não
existe. Talvez, em função de certa desilusão explicitada em
mais de um momento do livro, Aragorn! esqueceu-se que
esta conexão é antiga, mas vale lembrar, a propósito de um
exemplo, a relação fecunda que Louise Michel estabeleceu
com os Kanak, em que não estava em jogo a colonização
ou abdução de um ou de outro, mas em que ambos se
fortaleceram por uma generosa reciprocidade.
O livro é precioso. Ele abre possibilidades. As histórias
são muitas e elas ressoam na vida daqueles que querem se
apartar do governo da vida.
Este livro também não tem a pretensão de representar o
pensamento de todas as pessoas que compõe os diferentes
grupos indígenas e anarquistas. Estão presentes no livro
alguns dos que recusam as negociações com o Estado
em troca do reconhecimento de uma identidade, que se
encontram, como foi colocado, nos limiares. Como afirma
Dominique: “uma vez que a gente não se enquadra em

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verve
cúmplices no meio do caminho

nenhum lugar, estamos nesta estranha posição, mas talvez


isso não seja algo ruim” (p. 153).
Não é um livro para indígenas ou um livro para
anarquistas, mas um livro para cúmplices. Ele começa
muito antes de sua publicação e não se encerra em suas
páginas. É um livro vivo de povos e gente viva. Nossa
conversa não termina aqui, amigo Aragorn!

verve, 37: 180-189, 2020 189


Aragorn!, assim mesmo com uma exclamação.
Anarquista e querido amigo. Nascido em 1970,
faleceu na última quinta-feira,13 de fevereiro,
antes de completar 50 anos. Filho de mãe indígena
e pai branco, cresceu em um território em que é
fácil tornar-se branco e difícil manter vivas
as práticas de povos nativos. Tornou-se punk.
Incansável, inventou, desinventou, passou
para frente, largou, transformou, projetos e
mais projetos anarquistas.

Aragorn! era assertivo e pouco afeito a


floreamento das palavras o que lhe criou
certas inimizades, mas mesmos estas não negam
a importância e influência de seu trabalho
para o anarquismo contemporâneo nos EUA.

Aragorn! na realidade tinha um coração


enorme. Talvez a comparação não seja exata, mas
ele lembrava a descrição dos chefes indígenas
por Pierre Clastres, e generosidade é algo
que não lhe faltava. Assim como o prazer em
desafiar e o humor sarcástico.

Dizia ele que não ser muito afeito a abraços,


mas quando cheguei nos EUA, depois de algumas
turbulências, encontrei Aragorn! em pé em
frente a sua casa, com um largo sorriso e os
braços abertos.

Saúde e Anarquia, querido amigo!

Por uma amiga do Brasil, nos EUA.


verve

NU-SOL
Publicações do Núcleo de Sociabilidade Libertária, do Programa de Estudos
Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.
hypomnemata, boletim eletrônico mensal, desde 1999;
flecheira libertária, semanal, desde 2007;
Aulas-teatro
Emma Goldman na Revolução Russa, maio e junho de 2007;
Eu, Émile Henry, outubro de 2007;
FOUCAULT, maio de 2008;
estamos todos presos, novembro de 2008 e fevereiro de 2009;
limiares da liberdade, junho de 2009;
FOUCAULT: intempéries, outubro de 2009 e fevereiro de 2010;
drogas-nocaute, maio de 2010;
terr@, outubro de 2010 e fevereiro de 2011;
eu, émile henry. resistências., maio de 2011;
LOUCURA, outubro de 2011;
saúde!, maio e outubro de 2012;
limiares da liberdade, maio e agosto de 2013;
anti-segurança, outubro/novembro de 2013 e fevereiro de 2014;
drogas-nocaute 2, maio de 2014;
a céu aberto. controles, direitos, seguranças, penalizações e
liberdades, novembro de 2014;
terr@ 2, maio de 2015;
libertárias, novembro de 2015;
LOUCURA, maio de 2016,
A Revolução Espanhola, novembro de 2016.
a segurança e o ingovernável, maio de 2017;
DVDs e exibições no Canal Universitário/TVPUC
ágora, agora, edição de 8 programas da série PUC ao vivo; exibição de set
a out/2007, jan a mar/2008 e fev a abr/2009.
os insurgentes, edição de 9 programas; exibição de abr a jun/2008, jun a
ago/2008 e dez/2008 a fev/2009.
ágora, agora 2, edição de 12 programas; exibição de set a dez/2008, abr a
jun/2009 e jun a out/2009.
ágora, agora 3, edição de 7 programas; exibição de out a nov de 2010.
carmem junqueira-kamaiurá — a antropologia MENOR, exibição de
out a nov/2010, 2011 e 2012.
ecopolítica-ecologia, exibição em ago/2012.
ecopolítica-segurança, exibição em nov/2012.
ecopolítica-direitos, exibição em abr/2013.
ecopolítica-céu aberto, exibição em dez/2015.
Vídeos
Libertárias (1999); Foucault-Ficô (2000); Um incômodo (2003); Foucault,
último (2004); Manu-Lorca (2005); A guerra devorou a revolução. A guerra civil
espanhola (2006); Cage, poesia, anarquistas (2006); Bigode (2008); Vídeo-
Fogo (2009).
CD-ROM
Um incômodo, 2003 (artigos e intervenções artísticas do Simpósio Um
Incômodo).
Coleção Escritos Anarquistas, 1999-2004
29 títulos.
191
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recomendações para colaborar com verve

Verve aceita artigos e resenhas originais para possível


publicação. Cada texto, respeitando o anonimato do autor,
será apresentado a dois revisores escolhidos entre os membros
do Conselho Editorial ou do Conselho Consultivo, ou ainda,
a pesquisadores convidados que poderão recomendá-lo para
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192
verve

Os artigos devem conter (em português e inglês): título,


resumo (em até 10 linhas) e três palavras-chave.
Notas explicativas:
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Resenhas não devem conter notas explicativas.
Citações:
As referências bibliográficas devem vir em nota de fim de texto
observando o padrão a seguir:
I) Para livros:
Nome do autor. Título do livro. Cidade, Editora, Ano, página.
Ex: Rogério Nascimento. Florentino de Carvalho: pensamento
social de um anarquista. Rio de Janeiro, Achiamé, 2000, p. 69.
II) Para artigos ou capítulos de livros:
Nome do autor. “Título” in Título da obra. Cidade, Editora, ano,
página.
Michel de Montaigne. “Da educação das crianças” in Ensaios, vol.
I. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo, Nova Cultural, Coleção Os
pensadores, 1987, p. 76.
III) Para artigos publicados em periódicos:
Nome do autor. “Título” in Nome do periódico. Cidade, Editora,
volume e/ou número, ano, páginas.
José Maria de Carvalho. “Elisée Reclus, vida e obra de um
apaixonado da natureza e da anarquia” in Utopia. Lisboa, Associação
Cultural A Vida, n. 21, 2006, pp. 33-46.
IV) Para citações posteriores:
a) primeira repetição: Idem, p. número da página.
b) segunda e demais repetições: Ibidem, p. número da página.

193
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c) para citação recorrente e não sequencial: Nome do autor, ano,


op. cit., p. número da página.
V) Para obras traduzidas:
Nome do autor. Título da Obra. Tradução de [nome do tradutor].
Cidade, Editora, ano, número da página.
Ex: Michel Foucault. As palavras e as coisas. Tradução de Salma T.
Muchail. São Paulo, Martins Fontes, 2000. p.42.
VI) Para textos publicados na internet:
Nome do autor ou fonte. Título. Disponível em: http://[endereço
da web] (acesso em: data da consulta).
Ex: Claude Lévi-Strauss. Pelo 60º aniversário da Unesco.
Disponível em: http://www.pucsp.br/ponto-e-virgula/n1/indexn1.
htm (acesso em: 24/09/2007).
VII) Para resenhas:
As resenhas devem identificar o livro resenhado, logo após o
título, da seguinte maneira:
Nome do autor. Título da Obra. Tradutor (quando houver).
Cidade, Editora, ano, número de páginas.
Ex: Roberto Freire. Sem tesão não há solução. Rio de Janeiro, Ed.
Guanabara, 1987, 193 pp.
As colaborações devem ser encaminhadas por meio eletrônico
para o endereço nu-sol@nu-sol.org salvos em extensão “.docx”. Na
impossibilidade do envio eletrônico, pede-se que a colaboração em
cd seja encaminhada pelo correio para:

Revista Verve
Núcleo de Sociabilidade Libertária (Nu-Sol), Programa de Estudos Pós-Graduados
em Ciências Sociais da PUC-SP. Rua Ministro Godói, 969, 4º andar, sala 4E-20,
Perdizes, CEP 05015-001,
São Paulo/SP.
Informações e programação das atividades
do Nu-Sol no endereço: www.nu-sol.org

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http://www.nu-sol.org/blog/covid-19-afirmacoes-da-vida
Observatório

visite:
http://www.pucsp.br/ecopolitica/
http://revistas.pucsp.br/ecopolitica/
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