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A Reserva Florestal de Mecuburi, na província de Nampula, a maior de Moçambique e a

segunda de África, continua a ser vítima da acção de indivíduos que invadem o seu espaço para
dela extraírem de forma ilegal madeira.

A floresta, de 230 mil hectares e reservatório de espécies de flora e de fauna únicas no país e no
mundo, é considerada uma autêntica galeria.

O distrito de Mecuburi dista cerca de 80 quilómetros da capital provincial, Nampula, e a Reserva


tem como espécies florestais mais dominantes: o moco, umbila, jambirre, mucorea, nacuva e
pau-preto. A fauna é composta por elefantes, leões, búfalos, leopardos, zebras, cudos, chitas e
répteis.
As autoridades moçambicanas proíbem, por isso, que esta riqueza seja explorada de forma
desordenada o que não impede que, de forma furtiva, seja frequentada por indivíduos que aliciam
os residentes locais para que cortem, por exemplo, madeira e a vendam a preços considerados
irrisórios.
A troco de valores monetários, grupos organizados de residentes, supostamente à revelia das
lideranças, concentram madeira de alto valor como umbila, jambirre e pau-preto que, depois, é
comprada por indivíduos que iludem os fiscais e guardas florestais.
No interior da reserva, AIM entrevistou Falice Ali, um ancião e líder religioso, que se mostrou
preocupado com estas práticas, principalmente porque a venda da madeira proibida não beneficia
a comunidade.
“Veem de noite, de forma sorrateira, cortam a madeira e vão-se embora. Estamos aqui com
escolas e centros de saúde sem condições, nem chapas têm. Dizem que há organizações que
ajudam para a conservação da reserva, mas nesta zona Rotunda, posto administrativo de Muite,
não estamos a ver nada”, lamentou.
Indagado se a zona não tem um fiscal, o líder religioso disse haver, mas que este “é
constantemente ludibriado” por aqueles que, de forma furtiva, exploram os recursos da reserva.
“A sobrevivência é difícil, porque o que produzimos, nas nossas machambas, somos obrigados a
vender a preços baixos. Por exemplo um quilo de milho a um metical e meio, contra os oito ou
dez do preço praticado noutras zonas. Para os nativos viver aqui é muito difícil”.
Hilário Projene, um camponês daquela região secundou a preocupação manifestada pelo líder
religioso.
“Não vejo qualquer vantagem em residir no espaço da reserva, até os líderes e régulos são
enganados, gostaríamos que quem de direito fosse mais enérgico para impedir que esta nossa
floresta desapareça”.
Opinião diferente tem a rainha de Napawa, do regulado de Mualua, Amissa Raul, que afirmou, a
AIM, ser coisa do passado a presença dos instigadores do abate de árvores na Reserva de
Mecuburi.
“Desde o ano passado que por aqui não registo essa movimentação. Realmente houve uma
grande redução graças ao trabalho de sensibilização nas comunidades sobre a importância de
conservarmos esta nossa riqueza”, explicou a líder de 29 anos, mãe de um filho.
“Há meses que não vejo essas pessoas, mas eu gostaria que a reserva tivesse mais guardas
munidos de meios de transporte, pelo menos bicicletas. A floresta é muito grande e, como
fazemos trabalho em equipa, precisamos de nos comunicar com rapidez”, acrescentou.
Face a estas contradições, a AIM ouviu a opinião da responsável do Fórum Terra, uma
organização que lida com a conservação de recursos naturais e exploração florestal, Luisa
Hoffmam.
Ela explicou que a sua organização está a desenvolver uma campanha a que denominou de
“exploração florestal urgência” que se pretende que haja consciência nacional de que a protecção
dos recursos naturais “é um acto de cidadania”.
“Nós, como contribuinte de gestão dos recursos naturais, particularmente as florestas em
Nampula, estamos a sensibilizar a comunidade para levar a cabo acções de conservação locais e
nos corredores e de escoamento. Neste caso concreto na Reserva de Mecuburi, que tem muitas
potencialidades”.
A fonte disse que constitui também preocupação do Fórum Terra verificar que os que fazem uso
dos corredores de escoamento, transportando madeira, fazem-no obedecendo as normas impostas
pelas autoridades, para que as comunidades disso tirem o proveito desejado.
“O Fórum Terra envolve as autoridades, incluindo as procuradorias, lideranças e comunidades
para que a mensagem chegue o mais longe possível, difundindo regras de exploração do recuso
de forma condigna e observando-se a lei, sublinhou Hoffmam.
Segundo a responsável do Fórum Terra, neste momento estão a ser organizados os comités de
gestão em diversas zonas da Reserva de Mecuburi, para que saibam gerir os seus próprios
recursos nas áreas de conservação e de exploração.
“Eles são donos do processo e sujeitos, porque zelam pelos seus recursos e também pelo
desenvolvimento das comunidades”, defendeu a fonte.
Desta forma, segundo Hoffman, as comunidades serão desencorajadas a serem elas próprias a se
envolverem, de forma ilegal, na delapidação dos recursos florestais, proporcionando por isso
uma forma para que possam ter rendimento e assim estancarem a acção dos furtivos.
Disse ser também importante a participação do sector privado para que o produto a ser extraído
obedeça ao regulado e sejam valorizados.
A estas questões, o chefe da fiscalização nos Serviços Provinciais de Florestas e Fauna Bravia de
Nampula, Gilberto Nipanga, revelou que a Reserva de Florestal de Mecuburi, com os seus 230
mil hectares, tem dois guardas florestais do total de 65 em toda a província.
“A situação (actividade dos furtivos) na reserva diminuiu nos últimos dois anos. Estamos
satisfeitos porque, para além dos fiscais residentes, temos brigadas móveis que em colaboração
com as lideranças comunitárias têm desencorajado a presença dos furtivos”, afirmou.
Nipanga disse que esta não é a situação ideal, pois o melhor seria ter uma estrutura melhor
montada. 
“Em conjunto com os nossos parceiros gostaríamos que esta reserva, por ser muito extensa, devia
ter um corpo de gestão próprio, com um administrador, mais fiscais, para que fique mais
protegida”, propôs.
O responsável explicou que uma das formas de encorajar as comunidades a fazer denúncia de
furtivos é a compensação que lhes cabe quando estas se concretizam e as penalizações são pagas.
“Precisamos de transporte, substituição do nosso corpo de fiscais, muitos deles em fim de
carreira, porque a demanda é muito grande e queremos manter esta Reserva”, afirmou Nipanga.
(RM-AIM)

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