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FUNDAÇÃO PRESIDENTE ANTÔNIO CARLOS

(COORDENADORA)

SOBRE ATUALIDADES DO
DIREITO
Coletânea de ensaios e artigos

1ª Edição

MARIANA,
FUPAC-MARIANA
2019
FICHA CATALOGRÁFICA

SOBRE ATUALIDADES DO DIREITO

Fundação Presidente Antônio Carlos (coordenadora). Sobre


atualidades do Direito: coletânea de ensaios e artigos. 1 edição.
Mariana: FUPAC-MARIANA, 2019. 564p.

ISBN: 978-85-98974-24-8
Coletânea de textos do 7º Concurso de Ensaios e de Artigos Acadêmicos
da Faculdade Presidente Antônio Carlos de Mariana.

Capa, edição e diagramação: Magna Campos

1. Direito. 2. Atualidades Jurídicas. 2. Ensino Jurídico. 4. Direito:


contemporaneidade e ensino. 5. Interdisciplinaridade.

* A revisão textual é de responsabilidade dos autores de cada


ensaio ou artigo do livro.
AUTORES

Alessandra Justiniana Zacharias Lorena Ferreira


André Ferreira Lucas Borges
André Germano Luís Felipe Cota
André Rossini Luiza Moreira de Carvalho
Bernardo Coelho Magna Campos
Bruna Mariane Manoel Douglas
Bruno Oliveira Márcia Machado Bento
Camila Ferreira Marcos Ribeiro
Carlos Eduardo dos Reis Maria Cláudia Pires Fernandes
Carlos Randel Crepalde Mafra Marisa Oliveira
Celso Guimarães Carvalho Marisa Quintão
Danielle Alves de Paula Marlon Mesquita
Débora Luz Martinho Cardoso
Fabiano César Rebuzzi Guzzo Matheos Junio
Fernanda Conceição Santos Mayara Aparecida
Géssica Corrêa Maycon Douglas
Gilson Félix Michele Aparecida Gomes
Gisele Fernandes Machado Guimarães
Guilherme Damasceno Moisés Moura
Iago Valadares Nathalia Rocha
Ianka Aniceto Nilmara Regina Gomes Dias
Ingrid Rocha Paulo Castanheira
Israel Quirino Raphael Furtado Carminate
Jéssica Cristina René Dentz
Jéssika Braga Rúbia Poletto
Jesus Brendon Das Dores Samuel Camilo
Carneiro Samuel Miranda
Joana D´Arc Aparecida de Oliveira Stefanne Oliveira
João Victor Silva Costa Valmir C Gabriel
Jonathan Correa Victor Moreira
Juliana Quatorze Voltas Vinícius Neves
Júnia de Jesus Nascimento Vitor Junior Lopes
Karine Lemos Gomes Ribeiro Yusf Jamil
Karollyne Machado
Leticia Santos
Lohany Dutra Amorim
PREFÁCIO

É com imensa satisfação e alegria que ora se apresenta a


coletânea de ensaios e artigos “Sobre Atualidades do Direito”, fruto do
7º Concurso de Ensaios e de Artigos Acadêmicos da Faculdade
Presidente Antônio Carlos de Mariana, no qual participaram como
autores dos trabalhos: alunos, ex-alunos e docentes da FUPAC-
Mariana.
Ora, é sempre desafiador prefaciar uma obra! Ainda mais
quando a riqueza das abordagens aflora nos mais variados espectros.
Neste caso, surge o temor razoável de que uma enunciação um tanto
quanto simples amenize o brilho e a profundidade das ideias insignes
aventadas.
As abordagens em epígrafe permeiam as seguintes temáticas:
direito, contemporaneidade, atualidades jurídicas, ensino jurídico e
relações interdisciplinares, sendo certo que os excelentes textos
acadêmicos publicados neste livro provocam reflexões profundas
acerca de assuntos discutidos hodiernamente, dentro de uma visão
acadêmica contemporânea.
Para os leitores, trata-se de oportunidade ímpar de conhecer e
investigar discussões modernas e teoricamente fundamentadas, num
estilo marcado pela interdisciplinaridade e diálogo de fontes com
bases jurídicas, sociológicas, linguísticas e até mesmo filosóficas.
Demais disso, não se pode olvidar que a produção acadêmico-
científica nas instituições de Ensino Superior é de suma importância
para o eficaz cumprimento de missões institucionais, contribuindo
para a consolidação de um conhecimento atualizado conforme o
respectivo campo de trabalho, ante a relevância da divulgação de
dados, informações e conhecimentos produzidos no cenário
acadêmico.
De fato, a publicação da obra é relevante para a Faculdade
Presidente Antônio Carlos de Mariana visto representar construção de
conhecimento, exteriorização da excelência e qualidade do ensino
jurídico que vem se consolidando na Região dos Inconfidentes há mais
de uma década, com autonomia, criatividade e inovação científicas,
articulação de demandas locais, regionais e nacionais, bem como
contribuições com as comunidades científicas e sociais.
Em síntese, a produção acadêmico-científica também
representa um importante instrumento de referência para as
atividades de avaliação institucional e retrata a incessante busca da
qualidade do ensino, sem falar que o livro é cooperação para o corpo
social resultante do esforço mútuo e contínuo dos pesquisadores.
Destarte, deseja-se que a obra sirva de inspiração para novas
discussões e produção acadêmicas, com formação de ideias que,
independentemente da base de fundamentação adotada, sejam
lançadas com o objetivo de construção de uma sociedade melhor,
mais instruída, reflexiva, justa e solidária.
Vamos lá! Que a leitura seja leve, agradável e relevante jurídica
e socialmente, quer ao mundo do Direito, quer às demais
comunidades interessadas.

Michele Aparecida Gomes Guimarães


Mestre em Direito Ambiental e Desenvolvimento
Sustentável pela Escola Superior Dom Helder Câmara
Advogada, consultora e professora de Direito da FUPAC-
Mariana
SUMÁRIO
CONSIDERAÇÕES SOBRE A TRANSFORMAÇÃO DO PARQUE NATURAL
MUNICIPAL ARQUEOLÓGICO DO MORRO DA QUEIMADA PARA
MONUMENTO NATURAL MUNICIPAL ARQUEOLÓGICO DO MORRO DA
QUEIMADA................................................................................................................ 18
Celso Guimarães Carvalho e Israel Quirino ................................................. 18
Resumo: .................................................................................................. 18
1. Introdução ........................................................................................... 18
2. Desenvolvimento.................................................................................. 20
2.1. Histórico do morro da queimada ....................................................... 20
2.2. Da criação legal do parque natural arqueológico do morro da queimada
............................................................................................................... 23
2.3. Da ação civil pública ......................................................................... 26
2.4. Da alteração de categoria de unidade de conservação ........................ 33
3. Considerações finais ............................................................................ 35
Referências: ............................................................................................. 37

ENSAIO ACERCA DA FUNDAMENTAÇÃO DAS TUTELAS PROVISÓRIAS A LUZ


DO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL ........................................................... 38
Fabiano César Rebuzzi Guzzo, Gisele Fernandes Machado e Lohany
Dutra Amorim ................................................................................................... 38
Resumo: .................................................................................................. 38
1 introdução ............................................................................................ 38
2 o princípio da fundamentação das decisões judiciais ............................. 40
3 as tutelas provisórias no novo código de processo civil .......................... 44
4 a fundamentação das tutelas provisórias de acordo com o novo código de
processo civil ........................................................................................... 46
5 delimitação do objeto de pesquisa ......................................................... 47
6 a fundamentação das tutelas provisórias pleiteadas pelo núcleo de
assistência jurídica da ufop/ najop .......................................................... 49
7 considerações finais .............................................................................. 55
8 referências ............................................................................................ 56

ANÁLISE DO ETHOS E DO PATHOS NO EPISÓDIO “CONDUTA MÉDICA”, DO


SERIADO BULL ........................................................................................................ 58
Magna Campos e Maria Cláudia Pires Fernandes ....................................... 58
Resumo: .................................................................................................. 58
Introdução: .............................................................................................. 58
2. O sistema retórico argumentativo ........................................................ 60
2.1 As provas retóricas subjetivas: ethos e pathos .................................... 66
3. Análise do episódio: ethos e pathos em “Conduta Médica” .................... 68
Considerações finais: ............................................................................... 73
Referências bibliográficas: ...................................................................................... 74

JUSTIÇA RESTAURATIVA: UM NOVO PARADGMA DE SISTEMA DE JUSTIÇA


.................................................................................................................................... 75
Márcia Machado Bento .................................................................................... 75
Resumo ................................................................................................... 75
Introdução ............................................................................................... 76
2. Breve histórico da Justiça Restaurativa ............................................... 79
3. Justiça Restaurativa e Justiça Retributiva ........................................... 81
4. Um novo olhar sob o conflito ................................................................ 83
5. Os processos restaurativos .................................................................. 84
5.1 Princípios .......................................................................................... 86
5.2 Aplicação da Justiça Restaurativa ...................................................... 89
6. Ações e Programas de Justiça Restaurativa no Brasil ........................... 90
Considerações finais ................................................................................ 92
Referências Bibliográficas ........................................................................ 93

O TRATAMENTO JURÍDICO DOS TÍTULOS DE CRÉDITOS ELETRÔNICOS NA


LEGISLAÇÃO BRASILEIRA EM VIGOR ................................................................. 96
Júnia de Jesus Nascimento e Michele Aparecida Gomes Guimarães....... 96
Resumo ................................................................................................... 96
Introdução ............................................................................................... 96
2. Fundamentação teórica ..................................................................... 100
2.1 Conceito dos títulos de créditos ........................................................ 101
2.2 Princípios norteadores dos títulos de créditos ................................... 105
2.3 Títulos de créditos eletrônicos frente à tecnologia da informatização. 109
2.4 A regulamentação dos títulos de créditos, sob a perspectiva da
desmaterialização .................................................................................. 112
2.4.1Bitcoins: uma nova modalidade de moeda informatizada ................ 118
2.5 A segurança jurídica dos títulos de créditos eletrônicos e suas benesses
............................................................................................................. 123
2.6 O tratamento jurídico dos títulos de créditos eletrônicos no meio
empresarial em face dos avanços tecnológicos........................................ 125
Considerações finais .............................................................................. 130
Referências ............................................................................................ 133

ANÁLISE DA OBRA “ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA” DE JOSÉ SARAMAGO


SOB AS DIMENSÕES DO OLHAR, DO VER E DO REPARAR .......................... 136
Bruno Oliveira, Danielle Alves de Paula, Jesus Brendon Das Dores
Carneiro, Juliana Quatorze Voltas, Lorena Ferreira, Moisés Moura,
Nilmara Regina Gomes Dias, Rúbia Poletto e René Dentz ....................... 136
Resumo ................................................................................................. 136
Introdução ............................................................................................. 136
1. A distinção entre o olhar, o ver e o reparar ......................................... 137
2. O olhar ............................................................................................. 139
3. O ver ................................................................................................. 142
4. Diferenças entre ver e olhar ............................................................... 143
5. O reparar........................................................................................... 145
Considerações Finais ............................................................................. 147
Referências bibliográficas....................................................................... 148

HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA E ACESSO À JUSTIÇA NO PROCESSO DO


TRABALHO: UMA ANÁLISE A PARTIR DA REFORMA TRABALHISTA ........... 149
Fabiano Cesar Rebuzzi Guzzo, Carlos Randel Crepalde Mafra e Karine
Lemos Gomes Ribeiro .................................................................................... 149
Resumo: ................................................................................................ 149
Introdução ............................................................................................. 149
Acesso à justiça ..................................................................................... 152
Honorários de sucumbência na justiça do trabalho ................................ 156
Considerações finais .............................................................................. 163
Referências ............................................................................................ 164

DIREITO À RELIGIÃO NO ESTADO LAICO: ESTUDO DE CASO..................... 166


Israel Quirino .................................................................................................. 166

A MOEDA NA ERA DAS TRANSAÇÕES ON-LINE: UMA ANÁLISE DA


POSSIBILIDADE JURÍDICA DA PENHORA DE CRIPTOMOEDAS NO
ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO ......................................................... 176
Vitor Junior Lopes e Michele Aparecida Gomes Guimarães .................... 176
Resumo: ................................................................................................ 176
1. Introdução ......................................................................................... 176
2. Breve evolução histórica da moeda .................................................... 178
3. Criptomoedas .................................................................................... 185
4. Possibilidade jurídica da penhora das criptomoedas........................... 190
5. Exequibilidade da penhora das criptmoedas ...................................... 195
6. Considerações finais .......................................................................... 197
referências ............................................................................................. 198

O DIREITO REAL DE HABITAÇÃO: PRIMEIRAS REFLEXÕES SOBRE SUAS


CONTROVÉRSIAS .................................................................................................. 201
Luiza Moreira de Carvalho e Raphael Furtado Carminate ....................... 201
Resumo ................................................................................................. 201
introdução ............................................................................................. 201
1 Evolução histórica do direito real de habitação .............................................. 202
1.1 A proteção patrimonial do cônjuge ................................................... 203
1.2 Aspectos gerais e fundamento jurídico do direito real de habitação ........ 206
2. Questões controvertidas sobre o direito real de habitação .................. 209
2.1 O direito real de habitação diante dos novos paradigmas de família .. 209
2.2 A (in)aplicabilidade aos conviventes em união estável ....................... 211
2.3. Adequação da proteção vitalícia ...................................................... 213
2.4. A problemática do direito real de habitação sobre imóvel com
coproprietários estranhos à relação familiar ........................................... 215
2.5 Do tratamento diferenciado entre os filhos ....................................... 216
2.6 Aplicação do direito real de habitação em imóveis de valor vultoso ou
ainda que não se trate de único imóvel de natureza residencial a inventariar
............................................................................................................. 219
3.Considerações finais ........................................................................... 222
Referências ............................................................................................ 223

DEMOCRACIA, SISTEMAS E DIREITO: UMA ABORDAGEM A PARTIR DO


DIREITO CONSTITUCIONAL E DA FILOSOFIA POLÍTICA ................................ 225
Marcos Ribeiro e René Dentz ........................................................................ 225
A evolução histórica do plebiscito na história da Humanidade................ 225
A evolução histórica do referendo na história da Humanidade................ 230
A Democracia e a Constituição............................................................... 231
O Direito e o sistema jurídico ................................................................. 234
A paz social e o reconhecimento mútuo.................................................. 237
Referências ............................................................................................ 240

IMPACTOS DA PSICANÁLISE NO DIREITO PROCESSUAL PENAL: ESTUDO


DE DECISÃO DE CASO DE PEDOFILIA ............................................................. 242
Joana D´Arc Aparecida de Oliveira e René Dentz ...................................... 242
Resumo ................................................................................................. 242
Introdução ............................................................................................. 242
2.0 Fundamentação teórica ................................................................... 245
2.1 Introdução da Psicanálise ................................................................ 247
2.2 Visão Ontogenética da Psicanálise ................................................... 249
2.3 O Diálogo Possível entre a Psicanálise e o Direito ............................. 252
2.4 Criminologia e a Psicopatologia ........................................................ 254
2.5 Direito Penal e a Psicopatologia ........................................................ 256
2.6 Elementos da psicanálise importantes para o Direito nos crimes sexuais
............................................................................................................. 259
2.6.1 Estrutura da Personalidade .......................................................... 259
2.7 Trauma e Desenvolvimento Psíquico ................................................ 261
3.0 Crimes Sexuais ................................................................................ 263
3.1 Pedofilia ........................................................................................... 263
4.0 Estudo de decisão de um caso de pedofilia ...................................... 268
5.0 Considerações finais ........................................................................ 271
Referências ............................................................................................ 273

ANÁLISE DO FILME “MAR ADENTRO” A PARTIR DA FILOSOFIA DE PAUL


RICOEUR ................................................................................................................. 276
Marisa Quintão e René Dentz ....................................................................... 276
Resumo ................................................................................................. 276
Introdução ............................................................................................. 276
Conclusão ............................................................................................. 284
Referências ............................................................................................ 286

A CULTURA DAS SELFIES E O NARCISISMO ................................................... 287


André Germano, Bruna Mariane, Carlos dos Reis, Débora Luz, Jonathas
Corrêa, Marlon Mesquita, Mayara Aparecida, Paulo Castanheira e René
Dentz ................................................................................................................ 287
Resumo ................................................................................................. 287
Introdução ............................................................................................. 287
A cultura das selfies .............................................................................. 289
O narcisismo ......................................................................................... 289
Selfies através do narcisismo ................................................................. 293
Análise do tema a partir das obras audiovisuais .................................... 294
Conclusão ............................................................................................. 295
Referências bibliográficas....................................................................... 297

SOCIEDADE INTOLERANTE E SUAS VÁRIAS FACETAS: MANIFESTAÇÕES E


PRECONCEITOS ..................................................................................................... 299
Alessandra Justiniana Zacharias, Fernanda Conceição Santos, Jéssika
Braga, Karollyne Machado, Luís Felipe Cota, Maria Cláudia Pires
Fernandes, Valmir C Gabriel e Magna Campos
Resumo: ................................................................................................ 299
Introdução: ............................................................................................ 299
2. As várias versões e manifestações de intolerância na sociedade.......... 302
2.1 Intolerância religiosa........................................................................ 302
2.2 Intolerância política ......................................................................... 306
2.3 Intolerância racial ............................................................................ 312
2.4 Misoginia e Feminicídio.................................................................... 318
2.5 Homofobia ....................................................................................... 323
2.6 O combate aos discurso de ódio nas redes sociais ............................ 328
Considerações finais: ............................................................................. 333
Referências bibliográficas:...................................................................... 334

INTOLERÂNCIAS NA SOCIEDADE MODERNA: ORIGEM, CAUSA E EFEITOS


.................................................................................................................................. 338
Bernardo Coelho, Guilherme Damasceno, Iago Valadares, Ingrid Rocha,
Jéssica Cristina, Manoel Douglas, Matheos Junio, Maycon Douglas e
Magna Campos
Resumo: ................................................................................................ 338
Introdução: ............................................................................................ 338
2. As várias versões e manifestações de intolerância na sociedade.......... 341
2.1 Intolerância religiosa........................................................................ 341
2.2 Intolerância política ......................................................................... 347
2.3 Intolerância racial ............................................................................ 352
2.4 Intolerância contra a mulher - Misoginia e Feminicídio .................... 357
2.5 Intolerância sexual - Homofobia ....................................................... 362
2.6 Intolerância ao imigrante - Xenofobia ............................................... 367
2.7 O combate aos discurso de ódio nas redes sociais ............................ 373
Considerações finais: ............................................................................. 380
Referências bibliográficas:...................................................................... 381

DEBATES SOBRE A INTOLERÂNCIA: UMA ANÁLISE SOBRE ESSE ESTIGMA


DIFUNDIDO E TOLERADO NA SOCIEDADE GLOBAL E BRASILEIRA .......... 385
Danielle Alves, Géssica Corrêa, Ianka Aniceto, Nathalia Rocha, Nilmara
Regina Gomes Dias, Marisa Oliveira, Paulo Castanheira, Samuel Camilo e
Magna Campos
Resumo: ................................................................................................ 385
Introdução: ............................................................................................ 385
2. As várias versões e manifestações de intolerância na sociedade.......... 388
2.1 Intolerância religiosa........................................................................ 388
2.2 Intolerância política ......................................................................... 396
2.3 Intolerância racial ............................................................................ 405
2.4 Misoginia. ....................................................................................... 417
2.5 Homofobia ....................................................................................... 419
2.6 Xenofobia ........................................................................................ 424
2.7 O combate aos discursos de ódio nas redes sociais .......................... 430
Considerações finais: ............................................................................. 439
Referências bibliográficas:...................................................................... 441

A INTOLERÂNCIA CONTEMPORÂNEA: RAÍZES E CONTINUIDADE .............. 444


André Ferreira, Camila Ferreira, Leticia Santos, Lucas Borges, Samuel
Miranda, Stefanne Oliveira, Victor Moreira e Magna Campos
Resumo: ................................................................................................ 444
Introdução ............................................................................................. 445
2. As várias versões e manifestações de intolerância na sociedade.......... 447
2.1 Intolerância religiosa........................................................................ 447
2.2 Intolerância política ......................................................................... 454
2.4 Intolerância contra a mulher - Misoginia e Feminicídio .................... 461
2.5 Intolerância sexual - Homofobia ....................................................... 470
2.6 Intolerância ao imigrante - Xenofobia ............................................... 479
2.7 O combate aos discurso de ódio nas redes sociais ............................ 484
Referências bibliográficas:...................................................................... 491

MUNDO PLURALIZADO: AS DIFERENÇAS QUE NOS FAZ HUMANOS ......... 495


Bruno Oliveira, Moisés Moura, Lorena Ferreira, Rúbia Poletto, Martinho
Cardoso, João Victor Silva Costa, Yusf Jamil, Jesus Brendon e Magna
Campos
Resumo ................................................................................................. 495
Introdução: ............................................................................................ 495
2. As várias versões e manifestações de intolerância na sociedade.......... 497
2.1 Intolerância religiosa........................................................................ 497
2.2 Intolerância política ......................................................................... 501
2.3 Intolerância racial ............................................................................ 505
2.4 Intolerância contra a mulher - Misoginia e Feminicídio .................... 511
2.5 Intolerância sexual - Homofobia ....................................................... 519
2.6 Intolerância ao imigrante - Xenofobia ............................................... 525
2.7 O combate aos discurso de ódio nas redes sociais ............................ 530
Considerações finais .............................................................................. 533
Referências bibliográficas:...................................................................... 534

INTOLERÂNCIA NA SOCIEDADE: IMPACTOS NA VIDA DE TODOS NÓS ..... 537


Vinícius Neves, Jonathan Correa, André Rossini, Carlos Eduardo , Gilson
Félix, Bernardo Coelho e Magna Campos

Resumo: ................................................................................................ 537


Introdução: ............................................................................................ 537
2. As várias versões e manifestações de intolerância na sociedade.......... 539
2.1 Intolerância religiosa:....................................................................... 539
2.2 Intolerância política: ........................................................................ 543
2.3 Intolerância racial: ........................................................................... 548
2.4 Misoginia e Feminicídio.................................................................... 552
2.5 Xenofobia ........................................................................................ 556
Considerações finais: ............................................................................. 561
Referências bibliográficas:...................................................................... 562
“O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A
sabedoria, se aprende é com a vida e com os humildes.”
Cora Coralina
ARTIGOS CIENTÍFICOS
&
ENSAIOS ACADÊMICOS

17
CONSIDERAÇÕES SOBRE A TRANSFORMAÇÃO DO PARQUE
NATURAL MUNICIPAL ARQUEOLÓGICO DO MORRO DA
QUEIMADA PARA MONUMENTO NATURAL MUNICIPAL
ARQUEOLÓGICO DO MORRO DA QUEIMADA

Celso Guimarães Carvalho1


Israel Quirino2

RESUMO:

O presente artigo visa analisar a criação e implementação do


Parque Natural Municipal Arqueológico do Morro da Queimada
bem como avaliar proposta de alteração de categoria de unidade
de conservação passando para Monumento Natural. Nessa
senda, a partir de levantamento legislativo, doutrinário e da
documentação acostada à Ação Civil Pública ajuizada pelo
Ministério Público (autos nº 0461.12.000020-7), pondera-se pela
razoabilidade de alteração da categoria da unidade como forma
de promover maior efetividade em sua implementação.

Palavras-chave: Direito Ambiental. Unidades de Conservação.


Parque Arqueológico do Morro da Queimada.

1. INTRODUÇÃO
Esta pesquisa objetiva analisar a criação/implementação
do Parque Natural Municipal Arqueológico do Morro da
Queimada e avaliar proposta de transformação da categoria da
unidade.

1 Mestre em Economia Mineral pela Universidade Federal de Ouro Preto


(UFOP). Especialista em Direito Público pela PUC-MG. Graduado em Direito
pela UFOP.
2 Mestre em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local. Especialista

em Administração Pública. Professor da Faculdade Presidente Antônio Carlos


de Mariana - MG.

18
Tal unidade de conservação tem por finalidade, além da
proteção dos seus recursos naturais, a proteção aos bens
culturais arqueológicos inseridos em seu perímetro. A
discussão de sua criação visou especificamente coibir a
ocupação urbana desordenada das ruínas existentes.
Muito embora a referida Unidade de Conservação tenha
sido criada por lei, verifica-se que tal criação não atendeu aos
requisitos da Lei Federal nº 9.985/00, lei que institui o Sistema
Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).
Ademais, a criação do Parque restringiu-se à própria lei,
não tendo sido efetivamente implementado pelo Poder Público.
Esta situação deu origem a uma Ação Civil Pública ajuizada
pelo Ministério Público de Minas Gerais (autos nº
0461.12.000020-7), que também será objeto de exame deste
artigo.
Aprecia-se, por fim, a proposta de alteração da categoria
da unidade de conservação, que passaria a ser configurada
como Monumento Natural, tal transformação poderá gerar um
efeito positivo em sua implementação na medida em que reduz
os custos de regularização fundiária sem prejudicar os objetivos
de conservação.
Apresenta-se neste estudo um levantamento da
legislação relativa à Unidade de Conservação, bem como foram
examinados os documentos constantes da Ação Civil Pública
mencionada.
Tal pesquisa se justifica pela necessidade de maior
consideração dos aspectos jurídicos durante o processo de

19
implantação de uma unidade de conservação. Muitas vezes tais
espaços são criados sem observância à norma e sem atenção às
consequências de sua Constituição.

2. DESENVOLVIMENTO
2.1. HISTÓRICO DO MORRO DA QUEIMADA
A busca e descoberta dos metais preciosos no interior do
Brasil foi o principal fundamento da povoação e articulação das
regiões meridionais da antiga colônia portuguesa. De acordo
com FURTADO (1987):

O estado de prostração e pobreza em que


se encontravam a Metrópole e a colônia
explica a extraordinária rapidez com que
se desenvolveu a economia do ouro nos
primeiros decênios do século XVIII. De
Piratininga a população emigrou em
massa, do Nordeste se deslocaram grandes
recursos, principalmente sob a forma de
mão-de-obra escrava, e em Portugal se
formou pela primeira vez uma grande
corrente migratória espontânea com
destino ao Brasil. O fades da colônia iria
modificar-se fundamentalmente.
Neste contexto, a Serra do Ouro Preto, divisor das bacias
do Rio São Francisco e do Rio Doce, foi o cenário inicial da
ocupação da antiga Vila Rica, hoje Ouro Preto. Nela se
estabeleceram os primeiros povoados, dentre eles o Morro do
Ouro Podre, fundado a partir dos primeiros empreendimentos
minerários da região. Conforme SOBREIRA e FONSECA (2015):

20
A ocupação iniciou-se e desenvolveu-se a
partir da descoberta de abundantes
depósitos de ouro aluvionar no final do
século XVII, tendo rapidamente se tornado
o segundo maior centro populacional da
América Latina e também capital da
Província de Minas Gerais. O auge da
corrida do ouro ocorreu nas primeiras
décadas do século XVIII, com intensas
atividades mineradoras subterrâneas e a
céu aberto, em vales e encostas,
principalmente na Serra de Ouro Preto,
limite norte da atual cidade.

Aspecto relevante que os autores acima destacam é que a


explotação do ouro na região não ocorria de apenas de maneira
aluvionar junto aos córregos, mas também através da
mineração subterrânea (mais de 350 bocas de minas
catalogadas na Serra do Ouro Preto) e também de trabalhos de
mineração a céu aberto através de processos de desmonte
hidráulico, aproveitando as águas de chuva ou captadas de
nascentes. Situação que se apresentou na região do Ouro
Podre:

Quando em 1704, Pascoal Guimarães,


mascate português enriquecido no Rio das
Velhas, meteu-se de posse das catas
abandonadas pelos Camargos, iniciou a
mineração pelo processo de desbancar o
terreno por levadas de água. Sucedeu que
no flanco da serra por onde hoje passa o
caminho das Lajes, deu com um veio
riquíssimo. Ali o metal era como terra.
Ouro podre! Esse ouro excelente e tão fácil
de colher foi que verdadeiramente fundou

21
a futura Vila Rica, povoando-a de
forasteiros ávidos. (BANDEIRA, 1963)

Outro relevante aspecto histórico do Morro da Queimada


diz respeito ao primeiro registro de revolta da Colônia contra a
cobrança de tributos pela Coroa. A partir da Lei de 11 de
fevereiro de 1719, foi estabelecido que um quinto do ouro
extraído deveria ser destinado à Coroa. A oposição a tal
cobrança gerou grande revolta que culminou com a condenação
dos participantes, inclusive com a pena de morte a Filipe dos
Santos e o incêndio do arraial do Ouro Podre, pertencente a um
dos líderes do movimento (Pascoal da Silva), que foi totalmente
incendiado, e desde então até hoje ficou chamado Morro da
Queimada. (BANDEIRA, 1963)
A decadência da mineração de ouro no final do séc. XVIII
e a mudança da capital para Belo Horizonte em 1897
provocaram a estagnação do núcleo urbano de Ouro Preto até a
década de 50. Entretanto, como observado em todo o país, Ouro
Preto também viveu um processo de rápida urbanização a partir
da segunda metade do séc. XX caracterizada pela ausência de
planejamento e pela ocupação irregular de terras. Nesse
contexto, antigas áreas mineradas e núcleos urbanos coloniais
foram ocupados e hoje representam bairros consolidados.
Nestes bairros remanesce um rico acervo cultural que
registra a atividade de mineração colonial. Antigas minas de
ouro, aquedutos, ruínas de edificações, reservatórios de água,
sarilhos (para a ventilação das minas) e mundéus (para onde
era destinada a lama aurífera para seu devido tratamento)
22
compõem a arqueologia local e testemunham um grande núcleo
de mineração com sua configuração urbana.
Muito embora seus vestígios representem parcela do
conjunto original, cujas antigas estruturas foram suprimidas
ou absorvidas pela ocupação desordenada, destaca-se o Morro
da Queimada pelo seu acervo remanescente.
Diante desse fato, é possível afirmar que o risco de danos
ao sítio arqueológico em virtude da ocupação desordenada foi
um dos principais fatores que levou à criação da Unidade de
Conservação em análise.
2.2. DA CRIAÇÃO LEGAL DO PARQUE NATURAL
ARQUEOLÓGICO DO MORRO DA QUEIMADA

No Plano Diretor de 1996 (Lei Complementar Municipal


01/96) verifica-se a perspectiva de criação do Parque
Arqueológico do Morro da Queimada no art. 26-A, vejamos:

Art. 26- A Zona de Proteção 1 e 2


caracterizam-se como sendo áreas de
interesse paisagístico, ambiental,
arqueológico, histórico e de proteção de
mananciais de abastecimento de água.
Parágrafo 1º- Nas áreas de propriedade
pública pertencentes à ZPI só poderão ser
edificados equipamentos públicos de apoio
ao cumprimento das funções de
preservação.
Parágrafo 2º- Fica destinada área para
criação do Parque Arqueológico do Morro
da Queimada.
Parágrafo 3º- São admitidas no Parque
Arqueológico do Morro da Queimada
apenas as atividades de pesquisa, lazer,
23
educação ambiental e turismo,
compatíveis com sua função de Parque
Arqueológico, ficando vedada a exploração
mineral e usos não condizentes com a
destinação da área, bem como qualquer
tipo de parcelamento do solo.

Posteriormente, em 21 de Março de 2006 foi sancionada


a Lei Municipal nº 194/2006, que autorizou o Município a
efetuar acordo com as famílias que ocupavam parte da área
onde seria implantado o Parque do Morro da Queimada. Foi
prevista na norma a indenização a dezenove pessoas para que
desocupassem os imóveis.
A criação do Parque ocorreu através da Lei Municipal nº
465/08 que previu sua implantação em uma área de
aproximadamente 67 ha (sessenta e sete hectares), com as
finalidades de proteção ao sítio histórico, ruínas e vestígios,
bem como aos seus recursos naturais. A referida lei previu
zonas que seriam regulamentadas no plano de manejo.
Através da mesma lei foi criado o Conselho de
Administração do Parque do Morro da Queimada que seria
constituído por representantes de quatro instituições,
nomeadamente: Prefeitura, IPHAN, UFOP e Associação de
Moradores do Morro da Queimada. Pelo Decreto Executivo
Municipal 2.421/2010, foram nomeados os primeiros membros
a compor o Conselho.
Também em 2008 o sítio arqueológico do Morro da
Queimada foi inserido no Cadastro Nacional de Sítios
Arqueológicos (CNSA MG01005) com uma área de 1.252.500m²

24
e a seguinte descrição sumária: “Sítio arqueológico de
inestimável valor, por ser um testemunho material das
primeiras tipologias arquitetônicas da cidade e guardar
preciosos registros da exploração de ouro no início do século
XVIII”.
Posteriormente, a Lei 836/2013 alterou dispositivos da
Lei 465/08, notadamente alterou a denominação do Parque
para Parque Natural Arqueológico Municipal do Morro da
Queimada e o perímetro do Parque passando a sua área para
66,5595 ha.
Em 2015, foi publicada a Lei nº 966/2015 que revogou
dispositivos visando adequar a Lei nº 465/08 à Lei Federal nº
9.985/00, lei que institui o Sistema Nacional de Unidades de
Conservação (SNUC).
Importante destacar que a criação do Parque pela Lei
Municipal nº 465/08 não observou a Lei do SNUC, tal fato é
visível pela própria denominação dada ao mesmo, uma vez que
nas categorias previstas de unidades de conservação não há
previsão Parque Arqueológico, mas sim Parque Natural. A
denominação do Parque foi objeto das duas alterações
legislativas, até se chegar ao hoje Parque Natural Municipal
Arqueológico do Morro da Queimada (PNMAMQ) 3.

3 É no mínimo curiosa a confusão ocorrida em virtude da denominação da


Unidade de Conservação, tal fato já gerou duas alterações legislativas, a Lei
836/13 denominou “Parque Natural Arqueológico Municipal do Morro da
Queimada” e a Lei 966/2015 alterou para “Parque Natural Municipal
Arqueológico do Morro da Queimada”, tais alterações foram promovidas
visando a inclusão do Parque no Cadastro Nacional das Unidades de
Conservação.
25
Ainda sobre o atendimento às exigências da Lei do SNUC,
o art. 22 §2º demanda que a criação de uma unidade de
conservação deve ser precedida de estudos técnicos e de
consulta pública que permitam identificar a localização, a
dimensão e os limites mais adequados para a unidade.
Da análise de literatura existente sobre o PNMAMQ, nos
arquivos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, nos autos
do Inquérito Civil do Ministério Público do Estado de Minas
Gerais nº 0461.12.000020-7 e da Ação Civil Pública (ACP) que
nos referiremos a seguir não se localiza os estudos que
fundamentam os limites da Unidade. No entanto, verifica-se a
realização de audiências públicas no ano de 2005 (OLIVEIRA,
2005).
Ademais, não foi cumprido o art. 27, §3º da Lei do SNUC
que determina a elaboração do Plano de Manejo no prazo de
cinco anos a partir da data de sua criação.
Muito embora tenha sido criado por lei, a sua efetiva
implementação é objeto de Ação Civil Pública ajuizada pelo
MPMG (autos nº 0461.15.0037186), que passaremos a analisar.

2.3. DA AÇÃO CIVIL PÚBLICA


Diante da ausência de implementação efetiva do
PNMAMQ foi ajuizada a mencionada ACP em que o Ministério
Público do Estado de Minas Gerais argumenta, em síntese, que
com a criação da Unidade de Conservação, surge um dever para
o Poder Público de providenciar os meios para sua gestão. A
inicial da ACP contém o seguinte pedido liminar:

26
A implantação do cercamento e sinalização
do Parque Arqueológico Municipal Morro
da Queimada, no prazo de 90 dias,
conforme projeto de fls. 73/74;
A designação, no prazo de 60 dias, de um
gerente e quatro guarda-parques para
atuação exclusiva no Parque Arqueológico
Municipal Morro da Queimada;
A eleição e posse do Conselho
Administrativo do Parque Arqueológico
Municipal Morro da Queimada, no prazo
de noventa dias;
A retirada, no prazo de trinta dias, de
todos os resíduos sólidos (restos de
material de construção e lixo doméstico)
depositados irregularmente dentro da área
do Parque, inclusive dentro de sarilhos;
A disponibilização ao Parque Arqueológico
Municipal Morro da Queimada, no prazo
de noventa dias, de pelo menos um veículo
novo, preferencialmente tracionado, para
realização de vistorias e vigilância;
A remessa a esse juízo, bimestralmente de
todas as atas do conselho administrativo,
pareceres técnicos, autos de fiscalização e
infração e manifestações relacionadas à
implantação e/ou funcionamento do
Parque Arqueológico Municipal Morro da
Queimada.
Em decisão às ff. 91/92 dos autos, a Juíza de Direito da
2ª Vara Cível da Comarca de Ouro Preto reconheceu o fundado
receio de dano irreparável em virtude das invasões, construções
irregulares e depósito e queima de lixo no perímetro do Parque e
deferiu parcialmente o pedido liminar nos seguintes termos:

27
Diante do exposto, DEFIRO
PARCIALMENTE o pedido liminar e
determino nos termos do art. 461, §4º e 5º
do CPC, a implementação pelo Município
de Ouro Preto das medidas especificadas
no pedido liminar de itens A, B, C e D das
ff. 15/16, sob pena de imposição de multa
diária de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), até
o limite de R$ 200.000,00 (duzentos mil
reais), em caso de descumprimento desta
decisão. No que tange ao item E do pedido
liminar de f. 16, indefiro-o em vista da
ausência de justificativa da necessidade de
veículo novo de preferência tracionado
para a realização das vistorias e vigilância
do Parque, por se tratar de um ônus
excessivo ao Município de Ouro Preto, que
deverá garantir de forma efetiva a
realização da vigilância constante do
Parque. Caberá ao Município prestar
informações bimestralmente ao Ministério
Público de todas as atas do conselho
administrativo, pareceres técnicos, autos
de fiscalização e infração e manifestações
relacionadas à implementação e/ou
funcionamento do Parque.
O Município interpôs agravo de instrumento contra a
referida decisão, tendo sido negado seu provimento pelo TJMG
consoante a seguinte ementa do acórdão:

Relator: Des. Edgard Penna Amorim


Data de Julgamento: 05/05/2016
Data da publicação da súmula:
16/05/2016
EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO –
AÇÃO CIVIL PÚBLICA – LIMINAR –
PATRIMÔNIO HISTÓRICO – MUNICÍPIO
DE OURO PRETO – PARQUE
28
ARQUEOLÓGICO MUNICIPAL DO MORRO
DA QUEIMADA – OBRIGAÇÃO DE FAZER
E DE NÃO FAZER – NECESSIDADE –
PRELIMINARES – NULIDADE – AUSÊNCIA
DE DEVIDO PROCESSO LEGAL – FALTA
DE MOTIVAÇÃO – REJEIÇÃO.
Em ação civil pública ajuizada pelo
Ministério Público, cabe manter a liminar
que impeliu o requerido a promover
medidas de conservação de área
arqueológica, protegida por lei local, que
retrata os primeiros tempos da ocupação
antrópica da cidade de Ouro Preto em
região dotada de atributos ambientais
relevantes e remanescentes florestais, pois
presentes os “fumus boni iuris” – a
obrigação de preservar – e o “periculum in
mora” – o risco de perecimento do sítio.
Recurso não provido.

Em contestação à ação o Município alegou em linhas


gerais no mérito: a) que a ausência de implementação da
unidade não teria gerado dano ambiental; b) que a
implementação da unidade de conservação não teria se
concretizado por questões financeiras e que tal implementação
é uma questão de mérito administrativo, não devendo o
Judiciário impor tal condição ao Município sob pena de ofensa
ao princípio da separação de poderes.
Destacam-se no cumprimento da decisão liminar
dificuldades em se promover o cercamento da unidade de
conservação. Observou-se o problema de que o perímetro
delimitado para o Parque seria tecnicamente inconsistente uma
vez que deixou de fora parte dos recursos naturais e bens

29
arqueológicos, sendo difícil de vislumbrar quais foram os
parâmetros utilizados para embasar tal delimitação.
Tal situação foi inclusive constatada em material juntado
pelo Ministério Público intitulado “Parque Arqueológico Morro
da Queimada: delimitação do Patrimônio Arqueológico”
elaborado sob a coordenação do Prof. Carlos Magno Guimarães,
que aponta o seguinte às fls. 187 dos autos ao tratar sobre a
denominada área 2:

Com dimensões menores do que as demais


áreas ela contempla é na realidade uma
parte da grande cava existente a oeste do
Parque.
É curioso, para não dizer incompreensível,
o motivo que levou esta parte do conjunto
arqueológico ser desconsiderada quando
da definição dos limites originais do
Parque e no seu entorno.
Segmentos de canais, mundéu, montes de
rejeito, tanques, áreas perturbadas por
ação antrópica, galerias de minas,
testemunhos dos níveis originais do
terreno, etc. são evidências da atividade
setecentista a integrarem o conjunto.
“É necessário insistir no fato de que esta
área deve integrar o conjunto do Parque e
é indispensável que ela esteja formalmente
protegida pelos mesmos mecanismos que
vão protegê-lo.” (destaque nosso)

Este fato confirma a condição de que não foram


elaborados os estudos técnicos que deveriam preceder à criação
do Parque, em desatenção ao art. 22 da Lei 9.985/2000.

30
Além disso, a tentativa de cercamento da unidade de
conservação evidenciou a existência de conflitos fundiários,
tendo sido apuradas matrículas inseridas dentro do perímetro
do Parque, sem que houvesse sido instaurada qualquer ação
expropriatória·.
A referida ACP segue em tramitação em fase de instrução

processual. Ao final de sua tramitação o Ministério Público

pretende o acolhimento dos seguintes pedidos:

Seja o réu condenado, sob pena de multa


cominatória diária de R$ 50.000,00
(cinquenta mil reais), sem prejuízo de
responsabilidade por crime e improbidade
administrativa:
3.1) A adotar todas as providências
administrativas e/ou judiciais objetivando
a regularização fundiária integral do
Parque Arqueológico Municipal Morro da
Queimada;
3.2) A elaborar e editar, no prazo de
dezoito meses, o Plano de Manejo do
Parque Arqueológico Municipal Morro da
Queimada, conforme Termo de Referência
de Fls. 91/119; incluindo medidas com o
fim de promover sua integração à vida
econômica e social das comunidades
vizinhas, assegurada a ampla participação
da população residente, inclusive
mediante realização de audiências
públicas;
3.3) A implantar integralmente, no prazo
de 12 meses, os programas constantes de
fls. 111/112, sem prejuízo de outros
julgados necessários durante a elaboração
do Plano de Manejo;
31
3.4) A disponibilizarem e implantarem, no
prazo de doze meses, com manutenção
permanente posterior, infraestrutura
integral para o funcionamento efetivo do
Parque Arqueológico Municipal Morro da
Queimada, consistente, no mínimo, em:
a) Sede própria, com espaço e estrutura
suficientes para o bom funcionamento da
unidade de conservação, incluindo
equipamentos de comunicação;
b) Servidores (técnicos, monitores e
guarda-parques) em número suficiente
para a efetiva gestão e fiscalização da
unidade de conservação;
c) Veículos em número suficiente e com
características apropriadas à vigilância e
gestão da unidade de conservação;
d) Sinalização educativa, interpretativa e
de advertência em toda a unidade de
conservação, observado o disposto na Lei
Estadual 14.353/2002;
e) Brigada de incêndio, devidamente
treinada e equipada para atuação na
unidade de conservação.

Fica claro que a pretensão do Ministério Público, caso


seja acolhida, demandará vultosos recursos da Administração
Municipal, sendo que um dos itens que demandará grande
aporte de recursos será a regularização fundiária do Parque.
Visando atender a tal demanda, discute-se a alteração da
categoria da unidade de conservação como forma de promover
maior eficiência em sua concretização.

32
2.4. DA ALTERAÇÃO DE CATEGORIA DE UNIDADE DE
CONSERVAÇÃO

Foi apresentado pelo Vereador Juliano Ferreira na


Câmara Municipal de Ouro Preto o PLO 149/2018, projeto de
lei visando à alteração da categoria da unidade para
Monumento Natural. Na justificativa apresentada deve ser
destacado o seguinte:

Tal projeto visa à preservação dos sítios


arqueológicos e ampliação da utilização
das terras e dos recursos naturais do
“Morro da Queimada” pelos proprietários
conforme disposto no Plano de Manejo da
unidade, uma vez que se alterará a
natureza do Parque Natural Arqueológico,
instituído pela Lei 465/2008.
Evidencia-se na justificativa a conveniência de alteração
da categoria da unidade em virtude da existência de
proprietários inseridos nos limites do Parque e a evidente
dificuldade de se promover a desapropriação dos referidos
imóveis. Além disso, fica clara a possibilidade de utilização das
terras pelos proprietários dentro dos moldes do Plano de
Manejo, o que reduz o custo de gestão da unidade.
Tal conveniência é reconhecida também pela doutrina do
Prof. Paulo de Bessa Antunes:

Parece claro que, após realizar os estudos


previstos em lei e concluindo que a área
merece proteção especial, ao
administrador cabe, única e
exclusivamente, decretar o regime especial
de proteção consistente na instituição de
uma unidade de conservação. Daí surge a
33
candente questão do orçamento capaz de
materializar concretamente a
determinação do Constituinte; dado que os
recursos públicos são escassos e
necessitam ser divididos por diferentes
setores da vida em sociedade, a utilização
do regime de direito privado para a
proteção do meio ambiente é uma fórmula
criativa para, ao mesmo tempo, (i)
implementar a obrigação de criar áreas
especialmente protegidas, (ii) possibilitar
que o cidadão atue ativamente na proteção
ambiental e (iii) não criar pressão
excessiva sobre os recursos públicos. Em
primeiro lugar, (i) há que se registrar que o
naipe de Unidades de Conservação postos
à disposição do administrador corresponde
ao atual nível de compreensão das
diferentes modalidades de proteção
necessárias para que se possam atingir,
simultaneamente os objetivos de proteção
ambiental com o desenvolvimento
econômico que, se assim feito, tem-se por
sustentável. Em seguida, há que se
compatibilizarem os direitos da
coletividade em usufruir em de um meio
ambiente equilibrado com os direitos
constitucionais dos indivíduos, relativos à
propriedade. Assim, sempre que
ecologicamente possível garantir a
proteção ambiental sem a violação aos
direitos de propriedade pública ou privada,
tal fórmula deve ser obrigatoriamente
adotada pela Administração.
Como visto, na perspectiva do reconhecido doutrinador,

quando possível à conciliação entre a proteção ambiental e a

propriedade privada, haveria obrigação de se buscar tal

34
situação. Nesta senda, a adoção da categoria Monumento

Natural atende ao princípio da eficiência administrativa,

proporcionando uma implementação menos onerosa ao Poder

Público, ao permitir a sua Constituição em áreas particulares.

Com relação aos requisitos para a alteração da categoria


da unidade, entende-se que a alteração por meio de lei
específica atende à exigência da legislação atinente, vez que a
Lei do SNUC prevê a alteração de unidades do grupo de Uso
Sustentável para as de Proteção Integral mediante instrumento
normativo de mesmo nível hierárquico, desde que obedecidos os
procedimentos de consulta (art. 22, §3º). Ademais, pela via
legislativa é possível inclusive a desafetação da unidade (art.
22, §7º).

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da pesquisa realizada, constata-se que a
Constituição do Parque Natural Municipal Arqueológico do
Morro da Queimada ocorreu sem observar a Lei Federal nº
9.985/00 (SNUC), notadamente restou evidente a ausência de
estudos técnicos que permitiriam identificar a localização, a
dimensão e os limites mais adequados para a unidade.
Esta omissão gera consequências que dificultam a
implementação da unidade de conservação, uma vez que não
há uma delimitação clara dos atributos arqueológicos e
naturais do Parque.

35
Além disso, constatou-se a existência de diversas
propriedades particulares inseridas dentro do perímetro da
unidade e a ausência de recursos financeiros para a devida
desapropriação, uma vez que o domínio das terras de Parques
Naturais deve ser público.
A ausência de destinação de recursos públicos para a
gestão e efetivação das unidades de conservação é um problema
que precisa ser enfrentado. Neste sentido, é louvável a iniciativa
do Ministério Público ao ajuizar a Ação Civil Público.
No entanto, a forma de implementação de uma unidade
de conservação deve ser respaldada na participação
democrática e subsidiada por estudos técnicos, com
observância da possibilidade financeira do Poder Público
Municipal, e não por meio de sentença judicial.
Visando superar um aspecto econômico da efetivação das
unidades de conservação, a opção pela categoria Monumento
Natural é bastante indicada, haja vista que permite a existência
de propriedades particulares e até mesmo a utilização das
terras pelos proprietários dentro dos moldes do Plano de
Manejo, o que reduz o custo de regularização fundiária e de
gestão do espaço territorialmente protegido.
Assim, mostra-se oportuna a alteração da categoria da
unidade, sendo certo que tal legislação deverá ser precedida
pelo procedimento administrativo previsto na Lei Federal nº
9.985/00, delimitando-se fundamentadamente os limites da
unidade através de estudos técnicos e promovendo-se ampla

36
consulta pública com a participação dos proprietários e
possuidores dos imóveis afetados.
REFERÊNCIAS:

ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 16. ed. São


Paulo: Atlas, 2014.

BANDEIRA, Manuel. Guia de Ouro Preto. Rio de Janeiro:


Editora Tecnoprint, 1963.

BRASIL. Lei n°. 9.985, de 2000.

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 22. Ed. São


Paulo: Editora Nacional, 1987.

FERNANDES, Edésio. A nova ordem jurídico-urbanística no


Brasil. In: ALFONSIN, Betânia; FERNANDES, Edésio
(Org.). Direito Urbanístico: estudos brasileiros e
internacionais. Belo Horizonte: del Rey, 2006. p. 4-23.

FONSECA, M. A. da; SOBREIRA, F. G. Impactos físicos e


sociais de antigas atividades de mineração em Ouro Preto,
Brasil. Geotecnia, Lisboa, v. 92, p. 5-28, 2001. Disponível em:
http://www.repositorio.ufop.br/handle/123456789/4105.
Acesso em: 10 dez. 2017. ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito
Ambiental. 16. ed. São Paulo: Atlas, 2014.

OLIVEIRA, Benedito Tadeu de. Morro da Queimada – ”a


Pompéia brasileira”. 2005. Disponível em:
<http://morrodaqueimada.fiocruz.br/pdf/8_pompeia.pdf>.
Acesso em: 15 fev. 2019.
OURO PRETO. Lei Complementar Municipal nº 01, de 1996.
OURO PRETO. Lei Municipal nº 194, de 2006.
OURO PRETO. Lei Municipal nº 465, de 2008.
OURO PRETO. Lei Municipal nº 836, de 2013.
OURO PRETO. Lei Municipal nº 966, de 2015.
OURO PRETO. Projeto de Lei Municipal nº 149, de 2018.

37
ENSAIO ACERCA DA FUNDAMENTAÇÃO DAS
TUTELAS PROVISÓRIAS A LUZ DO NOVO CÓDIGO DE
PROCESSO CIVIL

Fabiano César Rebuzzi Guzzo 4


Gisele Fernandes Machado5
Lohany Dutra Amorim6
RESUMO:

A abrangência do principio da fundamentação, no inciso IX do


artigo 93 da CR/1988, e reproduzido pelo artigo 11 do
CPC/2015, é questão amplamente discutida entre os
doutrinadores e aplicadores do direito. O objetivo desse artigo
consiste em contribuir para a mensuração das repercussões do
instituto aplicadas as decisões judiciais emanados em face à
propositura de Tutelas Provisórias pleiteadas perante a Comarca
de Ouro Preto/MG sob a representação do Núcleo de Prática
Jurídica da Universidade Federal de Ouro Preto entre os anos de
2015 a 2018. Destaca-se que a utilidade do artigo transcende ao
ambiente acadêmico, atingindo o mundo jurídico, por meio da
aferição da efetividade de um instituto inserido recentemente na
legislação brasileira.

1 INTRODUÇÃO
A Constituição da República de 1998 que inaugurou o
Estado Democrático de Direito fora erigida de acordo com a
adoção de um novo paradigma pós-positivista, que acentuou a

4 Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Ouro Preto (1999). Mestre


em Direito (Direito e Globalização) pela Universidade Vale do Rio Verde (2008).
Professor Adjunto II da Universidade Federal de Ouro Preto – MG. Professor
Adjunto I da Universidade Presidente Antônio Carlos de Mariana – MG.
Coordenador do Curso de Direito da Universidade Presidente Antônio Carlos
de Mariana – MG. Advogado OAB/MG 80.534.
5 Graduanda em Direito do 10º período. Integrante do grupo de estudos em

Direito do Trabalho. Estagiária no escritório de advocacia Visar advogados


Associados.
6 Graduanda em Direito do 9º período. Pesquisadora do Centro de Estudos em

Biodireito e Novos Direitos Privados da Universidade Federal de Ouro Preto –


CEBID/NDP – UFOP. Pesquisadora pelo CNPQ.
38
ênfase de proteção constitucional aos direitos sociais e
fundamentais. Neste prisma, surgiu a necessidade de
reformulação de todo o ordenamento jurídico a fim de construir
um sistema jurídico harmônico aos novos anseios
constitucionais. A reforma processual cível concretizou-se em
2015 consagrando o novo paradigma denominado por Fredie
Didier (2016, p.54) como processual constitucional, possuindo
como traço fundamental o abandono ao caráter meramente
instrumental do processo assumindo um viés garantístico dos
Direitos Fundamentais estabelecidos constitucionalmente.
Neste diapasão, a Constituição da República estabelece
as bases principiológicas estruturantes para a consecução do
direito processual cível, tais princípios são interpretados
segundo Ronald Dworkin (1997, p. 35) como espécies de
normas, sendo consequentemente equiparada a estas em todos
os seus efeitos. Dentre os principais princípios constitucionais
aplicados ao âmbito processual dá-se ênfase ao dever de
fundamentação das decisões judiciais, insculpido no inciso IX
do artigo 93 da CR/1988 que possui como fito primordial para
Elpídio Donizetti (2017, p. 67) a retirada de discricionariedade
do julgador, condicionando à decisão a sua necessária
motivação, corroborando para a vedação do ativismo judicial.
Em harmonia com os anseios constitucionais, o novo Código de
Processo Civil reproduz em seu artigo 11 o princípio da
fundamentação, estabelecendo a obrigatoriedade de motivação
das decisões judiciais.

39
O objetivo precípuo desse artigo consiste em contribuir
para a mensuração das repercussões do instituto aplicadas as
decisões judiciais emanados em face à propositura de Tutelas
Provisórias pleiteadas perante a Comarca de Ouro Preto/MG
sob a representação do Núcleo de Prática Jurídica da
Universidade Federal de Ouro Preto entre os anos de 2015 a
2018. Apresenta-se como principal hipótese a efetividade do
princípio da fundamentação. Almeja-se com o presente artigo
contribuir para a robustez teórica e pratica acerca do panorama
de aplicabilidade da fundamentação à realidade judiciária.
Adotar-se-á para a consecução do presente artigo de
acordo com Miracy Gustin (2013, p. 28) o método jurídico
teórico. O caminho metodológico percorrerá a analise de
dispositivos pertencentes ao CPC/ 2015 e CR/ 1988, buscando
assim identificar e analisar os pontos fundamentais do
instituto, perquirindo e apresentando, por fim, um panorama
acerca da efetividade do principio da fundamentação.

2 O PRINCÍPIO DA FUNDAMENTAÇÃO DAS DECISÕES


JUDICIAIS

O princípio da fundamentação encontra escopo


constitucional no artigo 93 inciso IX da CF/88, que estabelece o
condicionamento da legitimidade da sentença a aplicação da
fundamentação. Nesse sentido, o novo Código de Processo Civil
visando à harmonização aos preceitos constitucionais elencou a
fundamentação por meio do artigo 11 do CPC/15 ao rol dos
princípios processuais, bem como, aos elementos essenciais da

40
sentença conforme se extrai da dicção do inciso II do artigo 489
do CPC/2015, corroborando para acentuar a
indispensabilidade da motivação para a formação do
pronunciamento judicial.
Para Luiz Guilherme Marinoni (2005, p. 457) “a
motivação, é a explicação da convicção e da decisão”, é na
fundamentação que o Magistrado eivado de um juízo de
imparcialidade demonstra as razões que conduziram a
formação do seu convencimento, segundo Elpídio Donizetti
(2017, p. 95) a fundamentação é essencial “de um lado, para
que se possa aferir em concreto a imparcialidade do Juiz e a
justiça de suas decisões e, de outro, é essencial às partes, para
que elas conheçam as razões da decisão”, contribui também
para a viabilização do acesso ao duplo grau de jurisdição por
meio do qual, de acordo com Daniel Amorim (2016, p. 277) “o
órgão jurisdicional competente para o julgamento do recurso
possa analisar o acerto ou equívoco do julgamento impugnado"
além do efeito imediato aos sujeitos processuais a
fundamentação transcende aos efeitos interpartes refletindo
segundo Michelle Taruffo (2015, p. 23) na opinião pública.
Atento à indispensabilidade da fundamentação para a
legitimidade dos pronunciamentos judiciais, o legislador
positivou por meio do § 1º do artigo 489 do CPC/2015 às
hipóteses em que as sentenças, acórdãos e decisões
interlocutórias não serão considerados fundamentados.
O inciso I do § 1º do art. 489 do CPC/2015 determina
que não será fundamentada a decisão que: “se limitar à

41
indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem
explicar sua relação com a causa ou a questão decidida”
(BRASIL, 2015), obrigando ao Magistrado a adotar uma postura
mais rígida demonstrando que conhece as singularidades da
lide, afastando o sentenciamento genérico.
Em contra partida o inciso II do art. 489, §1° do
CPC/2015 aduz que as sentenças, acórdãos e decisões
interlocutórias não serão motivados quando: “empregar
conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo
concreto de sua incidência no caso” (BRASIL, 2015), destaca-se
que o ordenamento jurídico esbarra com o obstáculo material
de abarcar todas as situações sociais que necessitam de
regulamentação, diante de tal impossibilidade o legislador opta
pela utilização de conceitos jurídicos indeterminados, contudo a
legitimidade de tais conceitos somente será aferida no
pronunciamento judicial nas hipóteses em que o julgador
embasar o seu emprego.
O Inciso III, do § 1º do art. 489 do CPC/2015, considera
como não motivada à sentença que: “invocar motivos que se
prestaria a justificar qualquer outra decisão” (BRASIL, 2015),
esse dispositivo possui como condão primordial a tentativa de
vedação a prática recorrente adotada por Magistrados de
sentenciamento padronizado e estereotipado sem o devido
enfrentamento das singularidades constantes nas lides.
O Inciso IV, do § 1º do art. 489 do CPC/2015, determina
que as sentenças, acórdãos e decisões interlocutórias não serão
fundamentas quando “Não enfrentar todos os argumentos

42
deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a inclusão
adotado pelo julgador” (BRASIL, 2015), neste diapasão incumbe
ao Magistrado apreciar todas as questões trazidas pelas partes
à lide, ao revés, diante do desconhecimento de alguma questão
as partes são legitimas a invocar o remédio processual
denominado Embargos de Declaração insculpido no artigo
1.022 do CPC/2015 visando a reanalise da lide com o intuito de
abarcar os fatos omissos.
Segundo a dicção do inciso V do § 1º do art. 489 do
CPC/2015 não será fundamentada a sentença quando esta: “se
limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem
identificar seus fundamentos determinantes, nem demonstrar
que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos”
(BRASIL, 2015), o dispositivo visa insculpir uma postura critica
aos Magistrados direcionando-os a um estudo histórico dos
procedentes jurisprudenciais a fim de verificar a similaridade
com o caso concreto.
Por fim, o inciso VI do § 1º do art. 489 do CPC/2015
(BRASIL, 2015) enumera a última hipótese na qual a sentença
será considera não fundamentada: “deixar de seguir enunciado
de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte,
sem demostrar a existência de distinção no caso em julgamento
ou a superação do entendimento” (BRASIL, 2015), o texto
normativo em prol da segurança jurídica induz o
condicionamento da sentença à formação de um entendimento
conciso, no qual o Magistrado deverá pronunciar-se inclusive

43
acerca de precedentes e normativas invocados pelas partes e
inutilizados na sentença.

3 AS TUTELAS PROVISÓRIAS NO NOVO CÓDIGO DE


PROCESSO CIVIL

As Tutelas Provisórias estão elencadas no Livro V da


Parte Geral do CPC/2015, sendo classificadas como de
Urgência e Evidência e podem ser definidas conforme leciona
Humberto Theodoro Junior:

“As tutelas provisórias têm em comum a


meta de combater os riscos de injustiça ou
de dano, derivados da espera, sempre
longa, pelo desate final do conflito
submetido à solução judicial. Representam
provimentos imediatos que, de alguma
forma, possam obviar ou minimizar os
inconvenientes suportados pela parte que
se acha numa situação de vantagem
aparentemente tutelada pela ordem
jurídica material fumus boni iuris”
(JÚNIOR, 2015, p.792).
A Tutela Provisória de Urgência subdivide-se em
antecipada e cautelar em que esta tem um cunho satisfativo,
que visa realizar; já aquela tem um cunho conservativo, que
visa assegurar. Também se deve observar que Tutela provisória
antecipada não se confunde com o julgamento antecipado do
mérito, pois a primeira tem o caráter provisório que pode ser
revisto a qualquer momento.
A concessão da Tutela de Urgência está condicionada ao
fornecimento de uma caução, contudo excepcionam-se as

44
situações em que o autor do pedido é hipossuficiente,
dispensando-se o recolhimento da referida caução, visando
conceder amplo acesso à justiça. Nesse sentido leciona
Alexandre Câmara:

“A concessão de tutela de urgência – em


qualquer de suas modalidades – exigirá a
prestação de uma caução de
contracautela, que pode ser real ou
fidejussória, a fim de proteger a parte
contrária contra o risco de que venha a
sofrer danos indevidos (art. 300, § 1o).
Trata-se de medida destinada a acautelar
contra o assim chamado periculum in
mora inverso, isto é, o perigo de que o
demandado sofra, em razão da demora do
processo, um dano de difícil ou impossível
reparação (que só será identificado quando
se verificar que, não obstante provável, o
direito do demandante na verdade não
existia). Deve-se, porém, dispensar a
caução de contracautela nos casos em que
o demandante, por ser economicamente
hipossuficiente, não puder oferecê-la (art.
300, § 1o, parte final)” (CÂMARA, 2017,
p.145).
O Código de Processo Civil elenca quatro hipóteses em
que se faz necessária à interposição de Tutela de Evidência, a
saber: quando restar claro o “abuso de direito de defesa ou o
manifesto propósito protelatório da parte” (BRASIL, 2015), ou
seja, quando os sujeitos utilizam-se de diligencias protelatórias
visando obstaculizar o direito da parte adversária. A segunda
hipótese constitui-se quando “as alegações de fato que podem
ser comprovadas documentalmente havendo tese firmada em
julgamento de casos repetitivos ou em súmula vinculante”
45
(BRASIL, 2015), vislumbra-se o direito cristalino do requerente
e o forte valor probante das suas alegações. Também ensejará a
interposição de Tutela de Evidência quando “se tratar de pedido
reipersecutório fundado em prova documental adequada do
contrato de depósito” (BRASIL, 2015), por fim quando “a petição
inicial for instruída com prova documental suficiente dos fatos
constitutivos do direito do autor, a que o réu não oponha prova
capaz de gerar dúvida razoável” (BRASIL, 2015).
As Tutelas provisórias pleiteadas tanto em caráter de
Urgência ou Evidência são marcadas por constituir-se de atos
processuais que necessitam de um tratamento mais célere,
visto que o seguimento do tramite processual convencional
poderá desencadear enormes danos às partes, contudo a
excepcionalidade do procedimento não desincumbe ao
Magistrado de emanar uma decisão desprovida dos requisitos
legais, principalmente no que tange a obrigatoriedade de
fundamentação.
4 A FUNDAMENTAÇÃO DAS TUTELAS PROVISÓRIAS DE
ACORDO COM O NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

O novo Código de Processo Civil de 2015 em harmonia


com os anseios constitucionais estabelece a necessidade de
fundamentação de todos os provimentos judiciais, inclusive os
proferidos nos procedimentos de Tutelas Provisórias, pois o
Magistrado não pode simplesmente decidir discricionariamente,
o mesmo deve se fundamentar nos requisitos legais (NEVES,
2016).

46
Embora o princípio da fundamentação encontre escopo
constitucional no inciso IX do artigo 93 da CF/88 o Código de
Processo Civil optou por enfatizar a necessidade da motivação
por meio dos artigos 11 e 489 do CPC/15, pois esta representa
uma garantia para as partes que o juiz efetivamente conheceu a
lide.
O dever de fundamentação não está atrelado apenas às
sentenças, devendo ao revés, estar presente em todos os atos
processuais que contenham conteúdos decisórios, embora as
Tutelas Provisórias constituam-se de procedimentos
extraordinários devido à necessidade de celeridade, o
Magistrado está condicionado a seguir o tramite ordinário de
sentenciamento, principalmente no que tange a subordinação à
obrigatoriedade de fundamentação das decisões.
Nesse sentido os artigos 298 e 489 ambos do CPC/2015
evidenciam que qualquer decisão que conceder negar, modificar
ou revogar a tutela provisória, o juiz deverá motivar o seu
convencimento de maneira clara para que todos entendam o
teor de sua decisão (BRASIL, 2015). Com isso, observa-se que o
Magistrado deve-se ater aos requisitos de cada uma das tutelas
provisórias e proferir uma decisão motivada conforme orienta o
Código de Processo Civil com o intuito que as partes
identifiquem as razoes que conduziram à decisão a formação do
convencimento judicial.

5 DELIMITAÇÃO DO OBJETO DE PESQUISA


Vislumbrou-se com o presente estudo a mensuração das
repercussões do Princípio da Fundamentação aplicadas às
47
decisões interlocutórias emanadas em face à propositura de
Tutelas Provisórias pleiteadas perante as varas cíveis da
Comarca de Ouro Preto/MG e representadas pelo Núcleo de
assistência Jurídica e Comunitária de Ouro Preto – NAJOP. O
referido órgão fora fundado em 1997 como projeto de extensão
do curso de direito da Universidade Federal de Ouro Preto, com
o objetivo maior de atender as necessidades das pessoas
carentes de Ouro Preto (GUZZO, 2010, p.209). Atualmente o
NAJOP está sediado à Praça Cesário Alvim n°50, Bairro: Barra,
Ouro Preto/MG e conta com 16 estagiários e 07 docentes
orientadores, todos vinculados à Universidade Federal de Ouro
Preto.
Com o fito de aferir a efetividade do Princípio da
Fundamentação foram analisados 360 processos sob a
representação do NAJOP pleiteados entre os anos de 2015 a
2018. Após analise preliminar, extraiu-se que em 20 % destes
processos foram detectados pedidos de Tutelas Provisórias,
dentre elas 35 % são referentes a pedido provisório de tutela e
curatela, 25 % a pedido de alimentos provisórios, 10 %
respectivamente para pedido de guarda provisória, fornecimento
de medicamentos, investigação de paternidade e por fim 5 %
das Tutelas Provisórias relacionam-se ao direito das coisas
versando especificamente acerca de litígios possessórios, e por
fim pedido de revisão contratual. Conforme se ilustra a seguir:

48
Tutelas Provisórias
Tutela e Curatela Alimentos Provisórios
Guarda Provisória Fornecimento de medicamentos
Negatória de Paternidade Direito das coisas
11% 5%
11% 37%

10%
26%

Fonte: Classificação das Tutelas Provisórias. Pesquisa


quantitativa.

Dos pedidos de Tutelas Provisórias requeridos perante a


Comarca de Ouro Preto/MG, 55 % tiveram o seu pleito deferido,
enquanto que 45 % foram indeferidos. Os pedidos indeferidos
originaram-se majoritariamente de ações de alimentos,
seguidas de ações que versam sobre contratos, direito das
coisas e fornecimentos de medicamentos. Embora cabível, não
fora verificado dentre os processos inseridos na base de dados
constantes do presente estudo nenhuma hipótese de
interposição do Recurso de Agravo de Instrumento previsto no
artigo 1.015 I do CPC/2015 com o fito de impugnar a decisão
interlocutória.

6 A FUNDAMENTAÇÃO DAS TUTELAS PROVISÓRIAS


PLEITEADAS PELO NÚCLEO DE ASSISTÊNCIA JURÍDICA DA
UFOP/ NAJOP

O Principio da Fundamentação das decisões judiciais


encontra-se positivado no artigo 93 inciso IX da Constituição
49
Federal de 1988, nessa ótica o Novo Código de Processo Civil
construído sob um viés pós- positivista o reproduziu ao rol dos
princípios processuais. Apesar do referido principio já
encontrar-se consolidado no ordenamento jurídico, o legislador
optou por transportar o conteúdo principiológico atinente à
obrigatoriedade de fundamentação ao capitulo processual
dedicado à regulamentação das Tutelas Provisórias, conforme
vislumbrado pelo artigo 398 do CPC/2015.
O fito principal deste estudo consistiu em extrair dos
processos pleiteados entre os anos de 2015 a 2018 perante a
Comarca de Ouro Preto/MG e representados pelo NAJOP, que
contenham pedidos de Tutela Provisória, a efetividade do
principio da Fundamentação. Como visto alhures, dos 360
processos analisados 20 % possuam pedidos de Tutela
Provisória, da totalidade de tais pedidos 55 % tiveram o seu
pleito deferido, em contraposição a 45 % de indeferimentos.
No que tange as decisões interlocutórias proferidas em
função dos pedidos de Tutela Provisória, cumpre observar a
priori a singularidade de tais atos decisórios que necessitam ser
proferidos em um tempo reduzido visto que, o seguimento do
processo e da resposta jurisdicional em um tempo ordinário
desencadearia consequências prejudiciais aos sujeitos
processuais, pois estamos diante de situações que demandam
um tratamento diferenciado devido à urgência relacionada ao
pleito.
Contudo tais medidas urgentes não legitimam ao
Magistrado emanar um provimento judicial em

50
desconformidade com os princípios constitucionais e
processuais. Dentre esses princípios encontra-se a
obrigatoriedade de fundamentação das decisões judiciais que
devem estar presentes em todos os provimentos judiciais com
conteúdo decisório inclusive as decisões interlocutórias.
Extrai-se de uma observação inicial que as decisões
analisadas são prolatadas em uma média de duas laudas, não
possuindo um conteúdo material exaustivo, o que não afasta a
possibilidade do Magistrado apreciar e resolver as questões de
fato e de direito que são postas à sua apreciação.
Prosseguindo-se a análise em relação à estruturação da
decisão verificou-se que todas possuem breves relatos da
demanda em uma média de dois parágrafos eivados de todas as
informações pertinentes ao processo, arquitetados de acordo
com uma dinâmica clara possibilitando aos sujeitos processuais
uma rápida identificação do caso concreto.
Após a demonstração de conhecimento das questões
fáticas consubstanciada em um breve relatório, passou-se a
analise do Pedido de Tutela Provisória. Ressalta-se que 45 %
destes pedidos de antecipação de tutela tiveram o seu pleito
indeferido e foram requisitados em processos envolvendo a
temática contratual, do direito das coisas, alimentos provisórios
e fornecimento de medicamentos.
As decisões interlocutórias que versaram acerca do
indeferimento de Tutelas Provisórias requeridas em ações
contratuais, do direito de vizinhança e alimentos provisórios
estavam estruturadas sucintamente e o conteúdo do

51
indeferimento versava apenas na necessidade de dilação
probatória, decidindo o Magistrado pela não concessão da
tutela e pelo prosseguimento ordinário do pleito.
No que tange os pedidos ora indeferidos de alimentos
provisórios, insta salientar que os pedidos pleiteados na
exordial estavam cumulados com o pedido de investigação de
paternidade, demandando efetivamente a necessidade de
diligencias probatórias da paternidade para posterior
cominação de verbas alimentares. Contudo o Magistrado
poderia ter assumido uma postura de adoção da
fundamentação do indeferimento mostrando o conhecimento a
respeito da lide, ao invés de restinguir-se apenas a necessidade
de dilação probatória.
Em contrapartida as decisões interlocutórias que
indeferiram pedidos liminares de fornecimento de
medicamentos contra os Entes Públicos tiveram uma
estruturação divergente das decisões anteriores, caracterizada
por um conteúdo extenso, por uma análise minuciosa e pela
impugnação de todos os documentos comprobatórios e laudos
médicos juntados, ressalta-se, contudo a subjetividade da
fundamentação de tais impugnações, uma vez que, o
Magistrado não possui conhecimentos específicos relacionados
às ciências medicas, restringindo à decisão a afirmação de
inexistência de urgência citando de forma genérica o artigo 300
do CPC/2015.
Quanto ao conteúdo normativo da negativa estava
estruturado nos preceitos constitucionais que versam acerca da

52
separação dos poderes, afirmando que a concessão da medida
em caráter liminar provocaria uma usurpação dos poderes
legislativos por meio da criação de politicas públicas no âmbito
do poder legislativo.
Ao revés, as decisões interlocutórias que concederam os
pedidos de antecipação de tutela, caracterizavam-se pela
utilização de uma linguagem clara e sucinta, verificou-se a
demonstração de conhecimento acerca do material probatório
juntado aos autos e da utilização para a fundamentação da
decisão do conteúdo dos dispositivos legais. Majoritariamente
os pedidos concedidos versavam acerca de tutela, curatela e
guarda e alimentos provisórios.
A decisão fora embasada utilizando-se do critério
cronológico no que tange a necessidade de concessão da guarda
provisória, e com fulcro nos laudos médicos para a
comprovação da imprescindibilidade de deferimento da tutela e
da curatela. Quanto à fundamentação normativa, o Magistrado
remeteu-se ao artigo 300 do CPC/2015 para determinar o
enquadramento da urgência do pedido e da probabilidade do
direito que fora atestada pelas provas documentais.
Contudo há que se ressaltar, que a concessão de tais
medidas influi diretamente na esfera personalíssima dos
sujeitos vulneráveis que necessitam de acompanhamento,
podendo tal medida, refletir negativamente quando concedida a
um tutor, curador ou guardião que não possui condições de dar
esse suporte a vulnerável. Neste ponto fora inobservado na

53
decisão jurisdicional uma analise nem sequer previa da
viabilidade e da capacidade para tutelar e curatelar.
Ressalta-se que as Ações de Tutela e Curatela foram
pleiteadas antes da vigência da Lei nº 13.146, de 6 de julho de
2015 que modificou a parte geral do Código Civil de 2002 e o
Estatuto da Pessoa com Deficiência no que concerne aos
direitos da pessoa com deficiência, é importante tecer
considerações acerca das modificações do Estatuto da pessoa
com deficiência - Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015 – em que
o mesmo fornece as pessoas com deficiência a dignidade da
pessoa humana, pois os desloca do patamar de absolutamente
incapazes para a posição a ser definida no caso concreto, em
que se verificará a necessidade de curatela, tutela ou nenhum
instituto de acordo com a análise específica de um determinado
indivíduo e com isso, a possibilidade ou negativa de uma
interdição (BRASIL, 2015).
Com a inserção das modificações referidas alhures,
cogita-se uma superveniente diminuição do número de Ações
de Tutela e Curatela, mitigando as discrepâncias e lacunas
procedimentais das ações envolvendo a temática em foco.
Quanto ao conteúdo normativo, restou-se verificado para
fundamentar os conteúdos decisórios, estes não foram inseridos
como uma simples paráfrase, encontrando-se a efetivação de
uma relação entre o positivado e o caso concreto. Contudo
pondera-se por meio do estudo das sentenças objeto da
presente pesquisa, a necessidade de adoção pelos Magistrados

54
de uma postura mais cautelosa e criteriosa ao valer-se das
normativas legais.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio da análise de campo e pesquisa bibliográfica,


neste artigo, foi possível aferir a essencialidade da
fundamentação das decisões judiciais, ressalta-se que a
motivação não está atrelada somente a sentença e sim a todos
os atos processuais do Magistrado. A fundamentação das
decisões judiciais está sob o alicerce da Constituição Federal da
República em seu artigo 93 IX da CR/88, e encontra-se
reproduzido pelo artigo 11 do CPC/2015, bem como, pelos
artigos 489 e 298 do CPC/2015.
Através do desenvolvimento de pesquisa empírica, foram
analisados 360 (trezentos e sessenta) processos ativos sob a
representação do NAJOP pleiteados entre os anos de 2015 a
2018 para aferir a aplicabilidade do Principio da
Fundamentação diante das Tutelas Provisórias em que se
observa como observado minuciosamente ao longo do estudo,
que determinadas decisões interlocutórias de Tutelas
Provisórias foram bem fundamentadas vislumbrando-se a
utilização de conteúdos normativos e demonstração de
conhecimento do material probatório, ao revés, em outras
decisões aferiu-se a necessidade de maiores aprofundamentos e
mais clareza de informações.
Por meio do estudo empírico foi possível observar a
relevância do artigo 298 do novo Código de Processo Civil no
que tange a fundamentação das Tutelas Provisórias. Concluiu-
55
se que o Princípio da Fundamentação fora observado pelos
Magistrados da Comarca de Ouro Preto/MG, contudo
ressalvam-se algumas exceções principalmente nas decisões
que versam acerca do indeferimento do pleito, restringindo-se
ao julgador a motivar o indeferimento por meio da necessidade
de dilação probatória.
Por fim, também diante da pesquisa empírica
conjuntamente com a análise doutrinária, vislumbra-se a
essencialidade das decisões serem claras e objetivas, sem a
utilização de motivação genérica, com o intuito que as partes
identifiquem as razões que conduziram à decisão a formação do
convencimento judicial.
8 REFERÊNCIAS

CÂMARA, Alexandre de Freitas. O novo processo civil brasileiro.


3ª ed. São Paulo. Atlas, 2017.

DWORKIN, Ronald. Taking rights seriously, Cambridge: Harvard


University Press, 1997.

DIDIER, Fredie .Curso de Processo Civil: introdução a lei


processual civil, parte geral do Processo de Conhecimento.19 ed.
Salvador: Jus. Podium 2017.

GUSTIN, Miracy Barbosa de Sousa. (Re)pensando a pesquisa


jurídica: teoria e prática/ Miracy Barbosa de Sousa Gustin e
Maria Tereza Fonseca Dias- 4 ed. rev. e atual.- Belo Horizonte:
Del Rey, 2013.

DONIZETTI, Elpídio. Curso didático de Direito Processual Civil.


20.ed. São Paulo: Atlas, 2017.

GOLÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Direito processual civil


esquematizado. 8ª ed. São Paulo. Saraiva, 2017.

56
GUZZO, Fabiano César Rebuzzi. Núcleo de Assistência
Judiciária da Universidade Federal de Ouro Preto: uma
importante experiência extensionista. IN: Maria Tereza Fonseca
Dias (Org.), Miracy Barbosa de Souza Gustin (Pref.). Mediação,
Cidadania e Emancipação social. A experiência da implantação
do Centro de Mediação e Cidadania da UFOP e Outros ensaios.
Belo Horizonte: Fórum, 2010, Cap. 1, p. 209-217.

JÚNIOR, Humberto Theodoro. Curso de Direito Processual Civil.


56ª ed. Rio de Janeiro. Vol.1. Forense, 2015.

MARINONI, Luiz Guilherme. ARENHAT, Sérgio Cruz.


MITIDIERO, Daniel. Curso de Processo Civil. Tutela dos direitos
mediante procedimento comum. Vol. 2. Revista dos tribunais.
2015.

NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de Direito


Processual. 8ª ed. Salvador. Vol. Único. JusPodivm, 2016.

57
ANÁLISE DO ETHOS E DO PATHOS NO EPISÓDIO
“CONDUTA MÉDICA”, DO SERIADO BULL

Magna Campos1
Maria Cláudia Pires Fernandes2
RESUMO:
Este texto tece análise sobre o sistema retórico, mais
especificamente, sobre a questão do ethos e do pathos no
episódio “Conduta Médica”, do seriado Bull. A análise foi feita
cena a cena, evidenciando-se o tipo de ethos ou de pathos que
pode ser verificado em cada situação. O episódio mostrou-se
bastante prolífero em relação aos dos meios de argumentação
subjetiva, e evidencia como esse tipo de argumentação está
engendrada nas atividades humanas e que, muitas vezes, não
são percebidas ou bem utilizadas.

Palavras-chave: Argumentação. Retórica. Ethos. Pathos.


Seriado.

INTRODUÇÃO:
Em uma série de outros textos recentemente publicados,
Campos (2015a3; 2015b4; 20175; 2018a6, 2018b7), já se tratou

1 Professora universitária, mestre em Letras e escritora.


2 Graduanda em Direito pela Faculdade Presidente Antônio Carlos de
Mariana.
3 CAMPOS, Magna. Letramento acadêmico e argumentação: incursões

teóricas e práticas. Mariana: edição do autor, 2015a. 142p.


4 FUNDAÇÃO PRESIDENTE ANTÔNIO CARLOS (coord.). Direito:
contemporaneidade e ensino. In: CAMPOS, Magna; MATTOS, Alan de. O
sistema retórico (ethos, pathos e logos): contribuições para a argumentação
jurídica. FUPAC-Mariana, 2015b, p. 166-213.
5 FUNDAÇÃO PRESIDENTE ANTÔNIO CARLOS (coord.). Temáticas jurídicas

e ensino. In: CAMPOS, Magna. Análise acadêmica de julgados jurídicos: uma


proposta metodológica. Mariana: FUPAC-Mariana, 2017. p. 318-341.
6 FUNDAÇÃO PRESIDENTE ANTÔNIO CARLOS (coord.). Diálogos com o

Direito. In: CAMPOS, Magna; LEÃO, Mateus Fernandes; JUNIOR, Vitor.


Argumentação e sistema retórico: análise dos filmes Negação, Sob Custódia e
Tempo de Matar. Mariana: FUPAC-Mariana, 2018a. p. 35-63.
58
do tema da argumentação e de seus instrumentos de análise de
textos. E, novamente, busca-se nesta área de estudos da
linguagem em ação, em suas práticas sociais, os instrumentais
para analisar um texto televisivo, na verdade, um episódio do
seriado americano Bull, de 20168, intitulado “Conduta Médica”,
exibido na 2ª temporada da série em 2017.
Busca-se analisar o sistema retórico no episódio em
questão, verificando-se o desenrolar dos meios da
argumentação subjetiva, ethos e pathos, propriamente.
O seriado Bull é inspirado no início da carreira do Dr.
Phil McGraw como fundador de uma das empresas de
consultoria de julgamento mais prolíficas de todos os tempos.
Assim, é inspirado na carreira do doutor, escritor best-seller e
apresentador de TV Dr. Phil McGraw, fundador de uma das
empresas mais bem sucedidas de assessoria e preparação
jurídica dos Estados Unidos. (JORNAL ESTADÃO, 20 abr. 2017)
9

No seriado, tenta-se explorar aquilo que é chamado de


ciência do julgamento, associando-se tecnologia e ciência na
análise dos jurados e de seus comportamentos capazes de

7 FUNDAÇÃO PRESIDENTE ANTÔNIO CARLOS (coord.). Diálogos com o


Direito. In: CAMPOS, Magna; ARAÙJO, Raquel. A importância da
argumentação no âmbito do Direito contemporâneo. Mariana: FUPAC-
Mariana, 2018b. p. 201-215.
8 Bull é uma série da TV americana CBS da categoria Drama, estrelada por

Michael Weatherly e tendo como produtores Steven Spielberg, Phil McGraw e


Paul Attanasio. A série estreou na TV americana em 20 de setembro de 2016.
Foi exibida no Brasil pela emissora A&E. (Wikipédia)
9 JORNAL ESTADÃO. “Bull”, série que junta tecnologia e psicologia, estreia

nesta quinta. Caderno de cultura, 20 abr. 2017. Disponível em:


https://cultura.estadao.com.br/noticias/televisao,serie-bull-combina-alta-
tecnologia-e-psicologia,70001744935 Acesso em: 09 ou. 2018.
59
ajudar a predizer suas tendências de votação, para influenciá-
los a darem um parecer favorável ao cliente defendido pela
equipe do doutor Bull.
A série foi criada por Paul Attanasio (2016), tendo como
personagem protagonista o doutor Bull, representado pelo ator
Michael Weatherley, que trabalha junto de sua equipe na
empresa Trial Analysys Corporation, contando assim com uma
equipe de profissionais que aliam análise psicológica,
linguística, indumentária e corporal, juntamente à tecnologia de
ponta para darem forma às narrativas de seus clientes e
conseguirem influenciar os jurados. (JORNAL ESTADÃO, 20
abr. 2017)
Para realizar a análise do sistema retórico no episódio
mencionado, primeiramente serão feitas algumas considerações
teóricas gerais a respeito do sistema retórico, na sequência
serão tratadas especificamente a respeito dos dois meios de
argumentação subjetivas, ethos, pathos, para então realizar-se
a análise do episódio mencionado.

2. O SISTEMA RETÓRICO ARGUMENTATIVO

Argumentar é influenciar opiniões, ideias, atitudes e


comportamentos, portanto é agir sobre o outro numa
interlocução, numa comunicação. E, por conseguinte, realizar a
análise argumentativa de um texto, seja ele monossemiótico10

10 Composto por um único tipo de signo, como a escrita, por exemplo.


60
ou multissemiótico11, é desvendar o funcionamento discursivo
usado para agir sobre esse outro.
Assim, como ensina Grize (1971) apud Amossy (2018,
p.28), a argumentação se define como “o conjunto de
estratégias discursivas de um orador A que se dirige a um
ouvinte B com vistas a modificar, num determinado sentido, o
julgamento de B sobre uma situação S”. Desta forma, continua
a autora em outro texto:

A argumentação considera o interlocutor


não um objeto a manipular, mas como um
alter ego sobre o qual ela agirá a fim de
compartilhar de sua visão. Agir sobre ele é
buscar modificar as diversas
representações que lhe atribuímos,
colocando em evidência certos aspectos
das coisas, ocultando outras, propondo
novas. (GRIZE, 1990 apud AMOSSY, 2018,
p. 28).

Seguindo-se tal raciocínio teórico, pode-se inferir que se


argumentar refere-se a modificar representações atribuídas ao
outro, é preciso predispô-lo para aceitar, concordar e aderir ao
que lhe é proposta pela argumentação. E tal predisposição pode
ser conseguida com o uso dos meios do sistema retórico.
O sistema retórico pode ser definido, em uma versão
preliminar, como sendo o sistema discursivo empregado com o
intuito de convencer ou de persuadir uma pessoa ou um
conjunto de pessoas a respeito de alguma coisa.

11 Composto por vários tipos de signos no mesmo texto, como escrita,


imagens, cores, movimentos, sons, enquadramentos etc.
61
Aristóteles ([384-322 a.C.], 2005), autor clássico
fundamental para o estudo da retórica e do sistema retórico,
propõe-no, no livro “Retórica”, como se referindo ao estudo dos
meios de provas persuasivas, não pertencentes somente à lógica
formal, que permitem obter ou aumentar a adesão do auditório
às teses/ideias que se lhe propõem ao assentimento, pelo
orador.
Entretanto, cabe ressaltar que o autor, em seus três
livros de a “Retórica”, não se preocupa com o mérito daquilo
que está sendo dito, mas como o fato de que aquilo que está
sendo dito ser ou não eficiente em termos de persuasão. Assim,
a retórica além de uma arte é também uma técnica, ou seja, um
meio de produzir discursos eficientes em termos de persuasão,
e que sejam eficazes quanto a seu intento de conseguir a
adesão da audiência em questões dialéticas – que comportam
posicionamentos distintos, como no caso dos discursos político
e judiciário, por exemplo (CITELLI, 2002).
Ainda, pode-se entender que tais questões se assentam
sobre raciocínios baseados em verossimilhanças e opiniões,
portanto, passíveis de verdade, razoáveis, ao contrário das
ciências [exatas] que está baseada na demonstração, na ideia
de verdade. Relembrando-se que o “verossímil é, pois, aquilo
que se constitui em verdade a partir de sua própria lógica. Daí a
necessidade, para se construir o “efeito de verdade”, da
existência de argumentos, provas, perorações, exórdios [...]”
(CITELLI, 2002, p.14).

62
Decorre daí que a demonstração e as inferências formais
são, portanto, corretas ou incorretas, já os argumentos, as
razões fornecidas a favor ou contra uma tese têm maior ou
menos força e fazem variar a intensidade de adesão do auditório
(PERELMAN, 1998). Assim, a argumentação não visa à adesão a
uma tese porque ela é exclusivamente verdadeira, “pode-se
preferir uma tese à outra por parecer mais equitativa, mais
oportuna, mais útil, mais razoável, mais bem adaptada à
situação” (PERELMAN, 1998, p.156).
A argumentação, como bem propõe Perelman (1998),
preocupa-se com o discurso dos valores e não com o discurso
do real, e explica que,

de fato, aquilo que se opõe ao verdadeiro


só pode ser falso, e o que é verdadeiro ou
falso para alguns deve sê-lo para todos:
não se tem de escolher entre o verdadeiro
e o falso. Mas aquilo que se opõe a um
valor não deixa de ser um valor, mesmo
que a importância que lhe concedamos, o
apego que lhe testemunhemos não
impeçam de sacrificá-lo eventualmente
para salvaguardar o primeiro. Não garante,
aliás, que a hierarquia de valores de um
será reconhecida por outro. (PERELMAN,
1998, p. 147)

Tal pauta valorativa é o que permite justificar o


argumento e o posicionamento assumido pelo auditório, sendo
este aquele ou o conjunto daqueles os quais o orador quer
influenciar por meio da argumentação.
Perelman (1996) explica que o estudo dos meios de prova
utilizados para obter a adesão foi completamente negligenciado
63
pelos lógicos e teóricos do conhecimento durante vários séculos,
em virtude da primazia do pensamento mecanicista e
cientificista. Isso porque, como se explicou anteriormente, a
argumentação se aplica sobre o verossímil e sobre o
controverso, na medida em que escapam às certezas do cálculo.
Nesta perspectiva, desde Aristóteles já se entendia que a
finalidade maior do discurso retórico era o de persuadir. Não se
trata de discutir a verdade dos fatos, mas de uma verdade
construída para os fatos, a única possível (crer-ser), tratando-se
da verossimilhança no discurso que produz efeitos baseados na
razão, na emoção e na adesão. Para alcançar tal fim, o orador
deveria apresentar provas (písteis) capazes de fazer com que a
audiência adira à tese defendida.
As provas de persuasão (provas técnicas) fornecidas pelo
discurso são de três espécies: umas residem no caráter moral/
imagem do orador (ethos); outras, no modo como se dispõe o
ouvinte (pathos); e outras, no próprio discurso, pelo que se
demonstra ou parece demonstrar (logos) (ARISTÓTELES, Livro
I, apud ALEXANDRE JUNIOR, 2005, p. 37; 96). 12

Essas três provas técnicas dividem a argumentação em


dois campos, como ilustra a figura 01 abaixo:

12 ALEXANDRE JÚNIOR, Manuel. Aristóteles: retórica. Lisboa: Imprensa


Nacional-Casa da Moeda, 2005. 2005. Disponível em:
http://www.obrasdearistoteles.net/files/volumes/0000000030.PDF Acesso
em: 15 set. 2015.

64
ETHOS PATHOS
(Caráter/imagem) (Emoção/ paixão)

Subjetividade
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Objetividade

LOGOS
(Razão, raciocínio lógico)

Figura 01: Esquema do sistema retórico. Fonte: elaboração da


autora com base em Reboul (2004)

As provas lógicas (logos) podem ser, por exemplo, por


meio de induções, deduções e exemplos. As provas éticas
(ethos) podem derivar, por exemplo, da credibilidade de que o
orador constrói frente ao auditório, com sua argumentação, e
as provas patéticas ou patêmicas da possibilidade de o orador
trabalhar com a emoção do público, suas reações (pathos).
Afinal, preocupar-se com o desenvolvimento e melhoria
da competência argumentativa implica entender que “toda
argumentação supõe uma escolha que consiste não só da
seleção dos elementos que são utilizados, mas também na
técnica da apresentação destes” (PERELMAN; OLBRECHTS-
TYTECA, 1996, p. 136).
O ethos e o pathos, assim, comporiam a dimensão
subjetiva da persuasão, ao passo, que o logos comporia a
dimensão objetiva.

65
2.1 AS PROVAS RETÓRICAS SUBJETIVAS: ETHOS E
PATHOS
O ethos é a prova retórica associada ao caráter do orador
(portanto, ligada à imagem, à performance, à figura daquele que
locutor. Relacionada à apresentação de si no e pelo discurso de
modo a inspirar confiança, respeito, competência e
credibilidade junto ao auditório, para que este possa confiar em
seu juízo e aceitar o que se diz (digno de fé).
Segundo Reboul (2004), sejam quais forem os
argumentos lógicos, eles nada obtêm sem a confiança inspirada
pelo ethos. É preciso, por exemplo, mostrar que se acredita no
próprio cliente, na causa – construir uma imagem crível pelo
discurso.
O discurso valoriza o caráter ético do orador, o que torna
mais provável que o auditório venha a ser “seduzido” pelas
ideias/argumentos do orador como sendo “verdadeiras”. Assim,
o orador deixa transparecer uma boa imagem de si mesmo,
uma imagem digna de fé, mesmo que isso não seja condizente
com a verdade. Afinal, como ensina a análise do discurso, ao
falar, eu me falo e ao dizer, o sujeito se diz.
Ruth Amossy (2005) propõe algumas classificações para
o ethos que podem ser assim sistematizadas:

Projetivo: aquela imagem que se imagina


estar constituindo.
Ethos
Efetivo: a imagem que de fato o auditório
está criando.

66
Prévio: pré-construído, pré-existente ao
discurso.
Ethos
Discursivo: construído à medida que se
fala.

de Si: imagem voltada par o orador.


Ethos
do Outro: imagem voltada para o outro.

O pathos, por sua vez, como ensina Reboul (2004), refere-se


ao conjunto de emoções, paixões e sentimentos que o orador
deve suscitar no auditório para conseguir a adesão à tese
defendida. Desta forma, diz respeito a fazer com que o auditório
se sinta emocionalmente inclinado a aceitar a ideia.
Enquanto o ethos constitui um conjunto de parâmetros
relacionados com o orador, o pathos é um conjunto de
parâmetros relacionados ao auditório com o intuito de
despertar os diversos tipos de sentimentos: empatia,
solidariedade, angústia, indignação, carinho, medo, calma,
misericórdia, asco e compaixão, por exemplo.
Neste sentido, saber as crenças e valores socialmente
compartilhados, para que os ouvintes se engajem e solidarizem
emocionalmente como vítimas ou beneficiários no caso em
julgo. Charaudeau (2015), divide o pathos em duas formas:

Projetivo: aquelas emoções, sentimentos


que se supõe estarem sendo criadas.
Pathos
Efetivo: as que de fato são criadas no
auditório.

67
3. ANÁLISE DO EPISÓDIO: ETHOS E PATHOS EM
“CONDUTA MÉDICA”

O episódio 06 do Seriado Bull conta o drama sofrido por


Érica, com problemas para engravidar e, por indicação da sua
médica, procurou o experiente e renomado cirurgião
ginecológico Dr. Terence para a remoção de fibromas que a
impedia de ter um bebê. O hospital, no qual o médico trabalha,
dispõe de alta tecnologia para a realização de procedimentos
cirúrgicos e o utilizado foi um braço robótico denominado
Atticus. No decorrer da cirurgia, houve uma falha neste sistema
ocasionando uma hemorragia intensa e sendo necessária à
remoção do útero da paciente em questão. Diante do ocorrido,
ela move uma ação a fim de que seja processado por
negligência.
A empresa Trial Analysis, coordenada por Dr. Jason Bull,
advogado, psicólogo, possui em seu elenco grande profissionais
que procuram desvendar o caso de acordo com as reações das
pessoas e como elas se comportam. Ou seja, a empresa
combina psicologia e alta tecnologia.
Inicia-se com a Érica entrando na sala de cirurgia para a
realização do procedimento, e ela faz questionamentos, sobre a
sedação e se o médico havia informado. A enfermeira demonstra
um ethos prévio do Dr. Terence quando menciona que o mesmo
não gosta de conversar.
Para a equipe da Trial Analysis, a Marrisa Morgan,
neurolinguista e psicóloga, especialista em linguagem e
argumentação, exibe o caso apresentando o ethos prévio do
68
médico Dr. Terence, informando que foi o primeiro aluno na
turma de Harvard e um dos maiores cirurgiões ginecológico do
mundo. No segundo momento, aponta o ethos prévio da autora,
Érica, que apesar de ter sido salva quer processar o médico
sendo que o procedimento da qual ela se submeteu não é
incomum um caso de hemorragia. Provocou então um
sentimento/pathos em Chunk Palmer, estilista, especialista em
indumentária da vestimenta, preparação visual e postura, em
que ele argumenta que a Érica procurou o cirurgião para se
submeter a uma cirurgia em que diz: “então agora ela não pode
ter filhos e ela fez uma cirurgia para ter filhos?”
No momento da simulação, na Trial Analysis, o Terence
exibe um ethos efetivo de si e também demonstrando um pathos
efetivo ao júri e aos funcionários, provocando neles um
sentimento de hostilidade por o considerarem “egoísta, elitista,
acha que é perfeito e por se achar um Deus”. E, após as
análises do Dr. Bull constatou-se que ele tem um “Complexo de
Deus”, confirmando um ethos efetivo de que ele é bom e sabe o
que faz, uma característica pragmática.
Conforme o estudo elaborado com o Terence, Dr. Bull
resolve chamar para o caso a advogada Library que buscaria
um equilíbrio do superego do cirurgião.
Chunk Palmer, através da vestimenta, procura transmitir
um ethos prévio para os jurados e o tribunal para que tenham
uma percepção melhor dele. E com a música tenta promover
um relaxamento para essa imagem seja plenamente construída.

69
No julgamento, a advogada começa a interpelar os
jurados sobre o “personagem histórico que mais admira”, a fim
de que seja construído um ethos prévio para o Dr. Bull e a sua
equipe. Após essa análise, solicitaram a retirada ou a
permanência para que sejam usados de uma forma favorável ao
julgamento, tendo em vista o perfil pragmático do réu. Com a
ajuda da Cable McCrory, Hacker, especialista em análise de
perfis digitais, ela juntamente com a Marrisa e o Dr. Bull
realizam “uma leitura” dos jurados, a fim de que os perfis se
cruzem com o Terrence. Através dos ethos prévio construíram
os perfis dos jurados e empregaram os nomes dos deuses da
mitologia grega.
Após a investigação do vídeo do momento da cirurgia, a
equipe Trial analisa, através do pathos da enfermeira, que se
apresenta confusa no momento em que a paciente sofre uma
perda de sangue e é auxiliada pelo médico na colocação da
bolsa de sangue correta. E a Danny James, Ex-FBI, especialista
em investigação, declara, após várias conversas realizadas com
membros do hospital, que o Terence omitiu informações e que
usou da sua influência para montar a equipe cirúrgica.
Com o júri formado, constata-se que o mesmo possui
ethos projetivo em que eles demonstram serem egocêntricos.
Dr. Bull elabora junto com a advogada a criação do ethos prévio
da principal testemunha da acusação, Dr. Talbertison, cirurgião
ginecológico sênior, em que apontará que houve uma falha nos
procedimentos do Terence, provocando uma reação em que será
observada pelos “deuses” (jurados denominados pelo Dr. Bull,

70
como na mitologia grega). Sugere a advogada que crie um
pathos projetivo, através da linguagem especifica instigando nos
“deuses” o raciocínio comum. Bull expõe o ethos discursivo dos
jurados: ”Zeus” que é um banqueiro de investimento que
responde uma análise estatística, na jurada “Athena”
instigando o lado treinadora dela que gosta de vencer, o
“Dionísio”, crítico gastronômico, colocando elementos como
cozinha e fogo, fazendo um paralelo do seu trabalho a realidade
ali imposta. Após as considerações, ela cria nos jurados o
pathos efetivo apresentando dados estatísticos em comparação
aos procedimentos realizados entre o Dr. Talbertison e ao Dr.
Terence, evidenciando que ele foi mais eficaz e com forte indício
de salvar a vida da paciente conforme o número de cirurgias
que ele realizava.
A autora Érica cria o ethos do cirurgião Terence como
sendo indiferente, que tem um ego grande e não prestou a
devida atenção após o ocorrido. Causa o pathos nos jurados no
momento em que afirma que seu único desejo era ser mãe e
este foi aniquilado causando uma mutilação.
Dra. Library compara o Terence a grandes nomes como
Churchil, Steve Jobs construindo um pathos de que
desempenho de alto nível e um ego de alto nível andam lado a
lado. Dr. Bull observa que o “deus” Dionísio não estava
prestando a atenção no depoimento.
Dr. Bull ao encontrar com o “deus” Dionísio menciona
que ele tem chamado a atenção e está muito exposto, gerando
um pathos projetivo quando declara que poderá ser indiciado,

71
sua pena poderá ser de 05 (cinco) anos, teria que procurar um
advogado para o defender e, caso continuasse fazendo as coisas
erradas, contaria a juíza sobre o ocorrido. Com isso, o “deus”
Dionísio solicitou a Dr. Bull que o ajudasse, assim sendo, pediu
que não aparecesse no tribunal.
No decorrer do julgamento, o deus “Dionísio” não se
apresentou junto ao corpo de jurados e este foi substituído pela
“deusa” “Afrodite”, apontada o ethos pelo Dr. Bull, como
terapeuta sexual, causando um consenso no júri e “possuindo
habilidade para unir o Monte Olímpio”.
Após as análises da McCrory, constatou-se que não
houve erro médico e sim falha no braço robótico denominado
Atticus, evidenciando que o software havia sido corrigido e o
“Deus Dionísio” havia sido subornado para comprar o veredicto
de inocente, a fim de que não denegrisse a imagem do Dr. Grey
Wicht como “jogada” de marketing, como explica o Dr. Bull.
Dr. Grey Wicht, declarado como engenheiro chefe da
Atticus, expôs o ethos do braço robótico que levou 12 anos e
$100 milhões de dólares para ser desenvolvido e sem
apresentar nenhum erro médico.
Dra. Library provoca um pathos em todos no momento
que sugere que o braço seja utilizado, conforme na cirurgia,
comprovando que o aparelho sofreu alterações inocentando o
réu.
A equipe busca elementos que auxiliem na aceitação de
todos os deuses que o réu é inocente, mas Dr. Bull salienta que
os procedimentos e a tecnologia não são o principal motivo da

72
acusação e sim a forma como o cirurgião Terence se portou
mediante a paciente. Então, embasado no análise do ethos da
“deusa” “Afrodite” elaboram um ethos discursivo do Terence,
com a intervenção do Benny Colón, advogado, conselheiro
jurídico, especialista em preparar o júri espelho, e que já havia
o interrogado antes, porém sem sucesso, para que construí um
pathos para os jurados e se dirigindo a eles de que ele
reconhecesse que “não pode consertar tudo”, que ele fez de tudo
para salvá-la, apresentado elementos médicos que
influenciaram na cirurgia, mencionou que não sabe lidar com
as emoções e o demonstrou um ethos efetivo em que é um
excelente profissional e que estudou para isso.
Finalizando com a Dra. Library, dirigindo-se aos jurados,
construiu um pathos de que é mais necessário um médico
eficiente do que aquele que é amigo e simpático e que um dia
poderia ser eles, o jurado, a ser “socorrido” pelo o Dr. Terence.
Os jurados o declaram inocente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Através da análise do seriado Bull, nota-se que o poder
argumentativo de ethos e pathos está engendrado nas
atividades humanas e que, muitas vezes, não é percebido e bem
utilizado.
As ferramentas jurídicas tais como leis e jurisprudências
não foram tão exploradas, pois o sistema retórico satisfez os
elementos da narrativa e proporcionou uma análise muito mais
ampla do caso apresentado.

73
Assim, comprovamos a importância do sistema retórico a
sua teoria e a sua prática.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALEXANDRE JÚNIOR, Manuel. Aristóteles: retórica. Lisboa:


Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005. 2005. Disponível em:
http://www.obrasdearistoteles.net/files/volumes/0000000030.
PDF Acesso em: 15 set.
2015.

AMOSSY, Ruth. A argumentação no discurso. São Paulo:


Contexto, 2018.

AMOSSY, Ruth (org.). Imagens de si no discurso: a construção


do ethos. São Paulo: Contexto, 2005.

CHARAUDEAU, Patrick. A patemização na televisão como


estratégia de autenticidade. Disponível em:
http://www.patrick-charaudeau.com/Apatemizacao-
na-televisao-como.html. Acesso em: 22 set. 2015.

CITELLI, Adilson. Linguagem e persuasão. 15.ed. São Paulo:


Ática, 2002.

PERELMAN, Chaïm; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da


argumentação: a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes,
1996.

PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica. São Paulo: Martins


Fontes, 1998.

REBOUL, Olivier. Introdução à retórica. São Paulo: Martins


Fontes, 2004.

74
JUSTIÇA RESTAURATIVA: UM NOVO PARADGMA DE
SISTEMA DE JUSTIÇA

Márcia Machado Bento1

A lente através da qual


enxergamos determina o modo
como configuraremos o
problema e a solução”.
(Howard Zehr)

RESUMO

O presente artigo pretende abordar o conceito da Justiça


Restaurativa, sob o ponto de vista de novo modelo de justiça,
verificando seus princípios e mecanismos, assim como as formas
com a qual tem se relacionado no direito penal brasileiro e com o
atual modelo de justiça penal. O Conselho Nacional de Justiça
(CNJ), por influência da Organizações da Nações Unidas (ONU),
já há algum tempo vem abordando a cultura de resolução do
conflito, baseando-se nas práticas restaurativas junto aos
tribunais. A partir da Resolução CNJ 225/2016 faz-se uma
abordagem mais aprofundada no sentido de estabelecer
parâmetros e metodologias à Justiça Restaurativa no Brasil,
valorizando o diálogo entre as partes, assim como a participação
da comunidade afetada pelo conflito, no intuito de se alcançar a
responsabilização por parte do ofensor, a valorização da parte
que sofreu o dano e a participação ativa da comunidade
envolvida. Embora o conceito de Justiça Restaurativa seja muito
amplo, um dos principais eixos a que se busca, é como trazer
para noção de crime, uma abordagem que não seja da
culpabilização, não se busca punir a vítima, posto que isto o
estado já faz a partir da aplicação do Código Penal e Processo
Penal, e sim trazer a possibilidade do encontro, entre o agente do
crime, a vítima e a comunidade a qual também tem envolvimento
com o contexto do dano. Possibilita a vítima a falar como foi ter
sofrido o dano, seus sentimentos, suas necessidades. A pessoa
causadora desse dano, ao ouvir a vítima, possa compreender o
que causou, e a partir disso assuma uma postura de mudança

1 Advogada. Graduada pela FUPAC-Mariana. Pós-Graduanda em Direito Penal


e Processo Penal pela Universidade Cândido Mendes
75
frente à comunidade. A comunidade ao participar deste encontro
compreenda a situação do conflito, como algo que não está bom
para todos, que contribua para reinserção do agente causador do
dano à sociedade, para que se previna a reincidência ao crime.

Palavras-chave: Justiça Restaurativa. Sistema de Justiça.


Diálogo. Reparação do dano.

INTRODUÇÃO

A Justiça Restaurativa não pretende substituir o


modelo atual de justiça penal, mas sim, complementar para que
haja soluções de conflito penal mais eficientes.
O presente trabalho pretende analisar o conceito e os
mecanismos da Justiça Restaurativa (JR), seus principais
aspectos, suas possibilidades de restauração das relações
humanas, a partir da fala, da escuta, da empatia, assim como,
da cooperação da comunidade afetada pelo conflito, por meio de
círculos restaurativos que promovam diretamente o diálogo
entre as partes envolvidas na gestão do conflito, com apoio da
figura de um facilitador, como forma alternativa de resolução de
conflito, diferenciando do instituto da mediação.
Não é novidade que nosso atual sistema de justiça, não
consegue nem de longe alcançar sua finalidade, se
perguntarmos para as pessoas sobre o grau de satisfação delas
com a justiça brasileira, provavelmente elas responderiam não
estarem plenamente satisfeitas.
O Brasil, vem atravessando tempos de desafio no
âmbito das relações humanas, o que acaba culminando em
76
conflitos de todas as ordens, como a intolerância;
individualismo, criminalidade, violência, transgressões em
todos os sentidos, as pessoas adquiram a cultura de judicializar
tudo o que é conflito, porém, será que a sentença judicial
realmente resolve o conflito? Normalmente vemos que as
sentenças resolvem o processo judicial, mas não
necessariamente põe fim no conflito entre as partes.
Na sistema de justiça penal, o Estado, através do poder
de punir, edita leis que dispõe sobre as penalidades, aos que
praticam ato tipificado no nosso Código Penal Brasileiro,
variando das mais brandas às mais severas, o que
observaremos que não basta que Estado apenas execute o
poder de punição, ou nossas penitenciárias não estariam
vivendo o colapso que desde algum tempo vive, em condições
humanas degradantes, a própria superlotação, a reincidência, a
falta de ressocialização e consequentemente o sentimento de
impunidade na visão da sociedade, o que não tem funcionado
ao longo de anos. Não se esquecendo do Poder Judiciário, que
vai se arrastando dia após dia, com processos e mais processos
aguardando decisões, sentenças, o que nos obriga a pensar em
alternativas que realmente sejam eficazes para a sociedade
como um todo, este sistema de justiça já não atende sua
finalidade como deveria, logo, a Justiça Restaurativa surge
como um novo paradigma de sistema se justiça.
Diante do caráter punitivo o qual se baseia nosso
Direito Penal, que como forma de resposta à prática de ato
tipificado, impõe-lhe uma pena, ao passo que a aplicação da

77
pena não impede a reincidência ao crime, nem tão pouco
contribui para a ressocialização do apenado, neste sentido, o
CNJ considera como um dos pontos centrais da Justiça
Restaurativa,

[...] entender que todos nós vivemos em


sociedade, interligados de alguma forma,
como se estivéssemos em um grande
círculo, cada qual com sua
individualidade, mas apresentando igual
importância para o desenvolvimento do
todo e influenciando diretamente os rumos
da coletividade. Portanto, não é possível
simplesmente excluir qualquer pessoa
quando vem à tona um conflito, mas, ao
contrário, faz-se necessário trabalhar as
responsabilidades coletivas e individuais
para que ela retorne à convivência
comunitária da melhor forma possível.

Nessa linha, vem incentivando cada vez mais os


tribunais de justiça, sendo que alguns Estados são destaques
quando o assunto e a Justiça Restaurativa, como por exemplo
Rio Grande do Sul, São Paulo.
É evidente que se precisa pensar em novas alternativas
de solução de conflito, alternativas mais eficazes, para o nosso
sistema de justiça, e o instituto da Justiça Restaurativa traz
essa expectativa, nos convida a uma mudança social cultural,
onde as partes assumem a posição de gestores do conflito e não
meros expectadores, cada uma no limite que a cabe, por
exemplo, dando direito da fala e expressão para a vítima, para o
ofensor, a escuta da dimensão do dano, a responsabilização e

78
reparação, e para a comunidade a cooperação em participar de
forma ativa na compreensão e resolução do conflito.
Como nos ensina o professor Howard Zehr em sua obra
Trocando as Lentes,

A Justiça Restaurativa coloca as


necessidades da vítima no ponto de
partida do processo. A responsabilidade
pelo ato lesivo e a obrigação de corrigir a
situação devem ser assumidas pelo
ofensor, que assim deixa de ser um
criminoso estigmatizado para se tornar um
protagonista. Também a comunidade tem
seu papel nesse processo inovador, que
não visa à punição como fim em si mesmo,
mas sim a reparação dos danos, o
reconhecimento do mal, a restauração de
relacionamentos, a reorganização dos
envolvidos e o fortalecimento da
comunidade. Atuando diretamente no
movimento

Neste sentido, a comunidade se predispõe a sair da zona de


conforto e a atuar como cooperadora nesse processo gestão.

2. BREVE HISTÓRICO DA JUSTIÇA RESTAURATIVA

A justiça restaurativa teve sua origem a partir de


círculos de diálogos das tribos indígenas da América do Norte,
que consistiam em formar círculos para discutirem assuntos
relevantes da comunidade

79
Inspirada em modelos de justiça tribal, a
Justiça Restaurativa nos desafia a
ressignificar os valores fundamentais que
condicionam as atuais práticas de Justiça,
sobretudo no enfrentamento da violência e
da criminalidade. Além do campo da
justiça institucional, essas reflexões
permitem visualizar e reconfigurar a forma
como atuamos nas atividades judicativas
que exercemos conosco mesmos e com
nossos relacionamentos, nas instâncias
informais de julgamentos de que
participamos cotidianamente em
ambientes como a família, escola ou
trabalho. (BRANCHER, 2011)

Nos anos 70, várias abordagens surgiram em inúmeras


comunidades em diversos países, a justiça restaurativa era
constantemente oferecida como paralelas ao sistema legal da
época. A nova Zelândia, desde de 1989, é um dos países modelo
no diz respeito a fazer como eixo de seu sistema de justiça a
justiça restaurativa. (ZEHR, 2002)
Tanto o Canadá como a Nova Zelândia, adotaram
nacionalmente a Justiça Restaurativa como modo institucional,
para efetivo tratamento com adolescentes infratores, o que
acabou de certa forma contribuindo para o movimento de
formulação da justiça restaurativa no mundo (BRANCHER,
2011).
O advogado norte americano Howard Zehr faz uma
abordagem fantástica em sua obra “Trocando as Lentes” de
forma bem didática explorando o conceito de crime, assim como

80
o conceito de Justiça, contribuindo de forma marcante o estudo
teórico do tema, criando e dirigindo iniciativas chamadas como
Centro de Justiça Comunitária, programa que reconcilia
vítimas e infratores nos Estados Unidos.
Em 2012, o Conselho Econômico e Social da ONU, na
37ª Sessão Plenária em 24 de julho, editou a Resolução
2002/12 que trataria dos princípios básicos para utilização de
programas de justiça restaurativa em matéria criminal, que
traduz como terminologia “Significa qualquer que use processos
restaurativos e objetive atingir resultados restaurativos”,
definindo processo restaurativo como “Qualquer processo no
qual a vítima e o ofensor, e, quando apropriado, quaisquer
outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um
crime, participam ativamente na resolução das questões
oriundas do crime, geralmente com a ajuda de um facilitador”.
No brasil, o Conselho Nacional de Justiça, por
influência da ONU editou a Resolução 225/2016,
recepcionando os princípios norteadores para promoção da
cultura da paz, desde então, vem recomendando aos tribunais,
práticas da Justiça Restaurativa como forma de resolução do
conflito.

3. JUSTIÇA RESTAURATIVA E JUSTIÇA RETRIBUTIVA

Para Howard Zehr, considera em seu conceito sobre


Justiça Restaurativa, que a justiça tem como nova forma de
atuação no que tange à resolução de conflitos. Vê o crime como

81
uma violação entre o agente que comete a infração, a vítima e a
comunidade, cabendo à Justiça incentivar as partes envolvidas
no conflito a dialogarem com objetivo de se chegar a um acordo,
como parte centrais. Com isso, a Justiça seria avaliada por sua
competência em contribuir com que o agressor assuma a
responsabilidade do delito, assim como os resultados sociais
sejam alcançados.
Este conceito é diferenciado do conceito de punir do
Estado, tendo em vista que na Justiça Restaurativa, o Estado
apenas atua como “mediado/orientador” do círculo
restaurativo, de modo que não há de forma alguma a imposição
ao infrator, e sim uma abertura para que o próprio agressor,
assuma sua responsabilidade.
Zehr, demonstra através de um quadro, as seguintes
comparações relacionado às formas de ver o crime para a Lente
Retributiva e para a Lente Restaurativa

82
Podemos observar que tanto a justiça Retributiva
quando a Restaurativa tem sua importância, não se trata de
uma substituir a outra, mas sim de complementar, para que se
alcance resultados mais eficientes para todas a sociedade.

4. UM NOVO OLHAR SOB O CONFLITO

Não há dúvidas que necessita - se investir em novas


alternativas de sistema de justiça, de novas formas de
construção do consenso, frente à situação caótica que vivencia
nosso sistema judiciário, nosso sistema carcerário, a falta de
empatia nas relações pessoais, a escassez na cooperação por
83
parte da comunidade que muitas vezes atuam apenas como
expectadores do conflito.
Até que ponto uma sentença judicial é “justa” e coloca
realmente fim no conflito? É preciso ir além para que alcançar
uma sociedade mais harmônica, resolver de fato um conflito
penal ou outro que seja, vai além de tão somente a busca por
uma sentença ao final do processo gerado pelo conflito
existente, é preciso aprofundarmos na escuta do outro, sobre
tudo, quanto à parte que sofreu o dano, é fundamental que
haja, nem que seja uma estrutura que possibilite ao ofensor (a)
se colocar no lugar do outro, e de fato reparar o que é possível
ser reparado, onde a comunidade tenha envolvimento com a
gestão do conflito.
De forma bem didática Howard Zehr nos ensina que “a
lente através da qual enxergamos determina o modo como
configuraremos o problema e a solução”.
Urge a necessidade de mudança de paradigma, tanto
com relação à vítima que sofreu o dano, quanto para o ofensor
(a) que tem a possibilidade de certa forma de reconciliar-se com
a comunidade e então sentir-se parte desta.

5. OS PROCESSOS RESTAURATIVOS

Os processos restaurativos, de forma geral, propiciam


uma nova visão de gestão de conflitos, de restaurar as relações,
dirigem-se a questões relativas ao processo de escuta da vítima,

84
da empatia, da cooperação por parte de terceiros envolvidos no
contexto do conflito.
Há indicadores favoráveis a efetividade dos círculos
restaurativos para promoção da cultura da paz, do acesso à
justiça de forma eficaz.
Diferentemente do processo de mediação, os processos
restaurativos possuem um caráter voluntário, envolve
participação da vítima, do ofensor, além de amigos de ambos e
família, como na mediação possui o mediador, no círculo
restaurativo conta com o apoio de um facilitador, que apenas
coordena a solução do conflito, sem impor alguma alternativa
de solução do conflito às partes. Este procedimento embora seja
semelhante ao da mediação, diferencia-se quanto à participação
do facilitador e ao mesmo tempo a ampla participação da
família, amigos e comunidade, o que não ocorre na mediação.
O CNJ, após a Resolução 225/2016 vem promovendo
cursos de Justiça Restaurativa através da Escola Nacional de
Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados, atendendo todos
os tribunais estaduais e federais, para que sejam difundidos os
Fundamentos, Princípios e Valores da J.R. O quadro abaixo
desenvolvido para um melhor entendimento das fases de um
círculo restaurativo.

85
Possui diversos benefícios, como a construção de uma
sociedade que valoriza a cultura da paz, não só no âmbito
jurídico, mas também no âmbito escolar, institucional, privado,
enfim, em todas as relações pessoais, com a prática da
cooperação e da empatia para contribuir para não só colocar
fim em processos judiciais, mas também nos conflitos.

5.1 PRINCÍPIOS

Os conceitos e princípios da ONU, desenvolvido pelo


Conselho Econômico e Social, valida e recomenda a Justiça
Restaurativa para os países membros e institui os princípios
básicos.
Em Sessão Plenária 24 de Julho de 2002, o Conselho
Econômico e Social da ONU, considerando a Resolução nº.
1999/26, 28.07.99 intitulada "Elaboração e aplicação de
medidas de mediação e justiça restaurativa em matéria de

86
justiça criminal"; recordando também sua Resolução 2000/14,
de 27 de julho de 2000, intitulada "Princípios básicos sobre a
utilização de programas de justiça restaurativa em matéria
criminal", o qual conta com o seguinte anexo e preambulo:

Anexo
Princípios básicos sobre a utilização de
programas de justiça restaurativa em
matéria criminal
Preâmbulo
Recordando que tem havido um
significativo aumento global de iniciativas
relacionadas à justiça restaurativa,
Reconhecendo que tais iniciativas
frequentemente baseiam-se em formas
tradicionais e nativas de justiça que veem
o crime como fundamentalmente danoso à
pessoa,
Enfatizando que a justiça restaurativa é
uma resposta evolutiva ao crime que
respeita a dignidade e a igualdade entre
cada pessoa, constrói a compreensão e
promove a harmonia social por meio da
recuperação das vítimas, dos infratores e
das comunidades,
Destacando que este enfoque permite que
aqueles afetados pelo crime compartilhem
abertamente seus sentimentos e
experiências, tendo como objetivo o
atendimento de suas necessidades,
Consciente de que tal enfoque confere às
vítimas a oportunidade de obter reparação,
sentir-se mais seguras e alcançar uma
conclusão para o problema; permite que os
infratores compreendam melhor as causas
87
e as consequências de seus
comportamentos e assumam, de forma
significativa, responsabilidade por suas
ações; e permite que as comunidades
entendam as causas do comportamento
criminoso, promovam o bem-estar
comunitário e previnam outros crimes
Notando que a justiça restaurativa
proporciona um variado leque de medidas,
que são flexíveis em sua adaptação aos
sistemas criminais estabelecidos e que os
complementam, levando em consideração
particularidades legais, sociais e culturais,
Reconhecendo que a utilização da justiça
restaurativa não obsta o direito de o
Estado processar supostos infratores.

O CNJ se orienta pelos princípios como a


responsabilidade, a informalidade, a voluntariedade, a
imparcialidade, a consensualidade, a confidencialidade, a
reparação do dano, o atendimento às necessidades dos
envolvidos, dentre outros.
Entendemos que tanto a vítima quanto o ofensor devem
voluntariamente consentir em participarem de alguma sessão
de justiça restaurativa, nunca é imposto a Justiça Restaurativa
nem ao réu nem à vítima, é importante que haja um consenso
mínimo sobre o fato danoso que aconteceu, o ofensor precisa no
mínimo reconhecer e assumir a responsabilidade daquilo que
pode ser reparado.
Retira-se o olhar de punição sobre o fato danoso e foca
no da reparação, tanto do dano causado à vítima, como da
restauração da relação entre os envolvidos com a comunidade.
88
5.2 APLICAÇÃO DA JUSTIÇA RESTAURATIVA

Conforme os princípios e fundamentos, os processos


restaurativos podem ser aplicados em qualquer área em que
houve um conflito, familiar, de vizinhança, infância e
juventude, em crimes de menor e maior potencial ofensivo,
basta que tenha causado algum dano, que exista a figura da
vítima, do ofensor ou do causador do dano.
O Juizado Especial Criminal, por se reger pelos
princípios da informalidade, oralidade da conciliação, e da
reparação dos danos à vítima, logo, todos os crimes de menor
potencial ofensivo poderiam ser bem atendidos pelas
metodologias da JR.
Com a voluntariedade e um consenso mínimo sobre o
fato danoso, observando algumas limitações, poderiam ser
aplicadas inclusive aos crimes comuns, tendo em vista que,
quando da sentença condenatória após 2008, o juiz tem que
dizer como se dará a reparação do dano tendo em vista os
prejuízos sofridos pela vítima. Neste aspecto, a JR poderia ser
uma alternativa para caminhar juntamente com o cumprimento
da pena, porém com objetivo de se reparar o prejuízo causado à
vítima.
Muitas vezes não é necessário que haja um encontro da
vítima com o agressor, para se obter a reparação, em alguns
casos como em crimes graves por exemplo, a vítima escreve
uma carta, ou grava um vídeo, considerando tudo o que sente
com relação ao fato, assim como suas necessidades e medo, ou

89
até mesmo, a vítima é representada por outra pessoa que
também tenha sofrido o dano por um crime parecido, mas não
com o mesmo réu, o que também acaba preservando a vítima
em casos em que esta não deseja exposição.

6. AÇÕES E PROGRAMAS DE JUSTIÇA RESTAURATIVA NO


BRASIL
Influenciado por tais resoluções e recomendações da
ONU, é que o CNJ, através da Resolução 225/2016, art. 1º, ao
qual resolve:

Art. 1º. A Justiça Restaurativa constitui-se


como um conjunto ordenado e sistêmico
de princípios, métodos, técnicas e
atividades próprias, que visa à
conscientização sobre os fatores
relacionais, institucionais e sociais
motivadores de conflitos e violência, e por
meio do qual os conflitos que geram dano,
concreto ou abstrato, são solucionados de
modo estruturado na seguinte forma:
I – é necessária a participação do ofensor,
e, quando houver, da vítima, bem como,
das suas famílias e dos demais envolvidos
no fato danoso, com a presença dos
representantes da comunidade direta ou
indiretamente atingida pelo fato e de um
ou mais facilitadores restaurativos;
II – as práticas restaurativas serão
coordenadas por facilitadores restaurativos
capacitados em técnicas autocompositivas
e consensuais de solução de conflitos
próprias da Justiça Restaurativa, podendo
ser servidor do tribunal, agente público,

90
voluntário ou indicado por entidades
parceiras;
III – as práticas restaurativas terão como
foco a satisfação das necessidades de
todos os envolvidos, a responsabilização
ativa daqueles que contribuíram direta ou
indiretamente para a ocorrência do fato
danoso e o empoderamento da
comunidade, destacando a necessidade da
reparação do dano e da recomposição do
tecido social rompido pelo conflito e as
suas implicações para o futuro.

Neste sentido, o CNJ vem incentivando os tribunais a


aderirem à Justiça Restaurativas, desenvolvendo um novo olhar
para se obter uma sociedade restaurada e pacificada.
Alguns programas merecem destaque, intitulado como
“Caxias da Paz – A Paz que Nasce de Uma Nova Justiça” de
Caxias do Sul - RS, um dos projetos pioneiros no Brasil,
recebeu o Prêmio Inovare em 2015, que foi uma parceria entre o
município de Caxias do sul, o Poder Judiciário (por meio do
Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania –
CEJUSC da comarca de Caxias do Sul), a Universidade de
Caxias do Sul e a Fundação Caxias, propõe a compreensão da
“justiça como poder da comunidade”, partindo da ideia de que a
função de “justiça” não se esgota na esfera judicial, mas é uma
função que se exerce no cotidiano da convivência social.
Em Minas Gerais, o Programa Núcleo para Orientação e
Solução de Conflito Escolares (Nós) de Belo Horizonte, a
iniciativa é fruto de um termo de cooperação entre o Tribunal
de Justiça de Minas Gerais, o Estado de Minas Gerais e o
91
Município de Belo Horizonte, a Faculdade de Direito da UFMG e
o Ministério Público de Minas Gerais.
Em São Paulo, com o Núcleo de Educação pela Paz
(NEP), iniciativa criada entre o Tribunal de Justiça com os
Municípios, tendo inclusive como destaque, a Comarca de
Santos, que aderiu à prática como política pública, criando a
Lei 3.371, publicada em 11 de julho de 2017, já tendo iniciado
as práticas restaurativas em escolas-piloto desde 2014.
Em Porto Alegre, com o projeto "Promovendo Práticas
Restaurativas no Sistema de Justiça Brasileiro"
(PNUD/Ministério da Justiça), com foco inicialmente nos
processos judiciais da 3ª Vara, tornou-se referência no
incentivando os estudos e práticas propostas pelo novo modelo
de Justiça.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Justiça Restaurativa é sem sombra de dúvidas uma


mudança de paradigma em termos de sistema de justiça, e é
preciso reconhecer que o atual modelo de justiça penal não é
eficiente, não garante a efetiva justiça com relação às vítimas
nem com relação à sociedade envolvida no conflito, tendo em
vista que o poder de punir do Estado só garante a aplicação da
pena, porém deixa a desejar no que se refere à prevenção à
reincidência, a restaurar as relações entre a vítima e a
sociedade, assim como, a própria reinserção do agressor à
sociedade. A aplicação da pena, pura e simples, não é suficiente

92
para prevenir a reincidência ao crime, o que acaba
sobressaindo é o isolamento do apenado, assim como sua
estigmatização frente à sociedade,
Cumpre salientar a importância que a empatia e a
cooperação possuem nas relações pessoais, e que estas são
práticas necessárias para que haja a mudança social e cultural
que tanto precisamos, por meio da proposta de um novo
paradigma de sistema de justiça proporcionado pela Justiça
Restaurativa, com apoio da mediação, dos círculos
restaurativos.
Através da Justiça Restaurativa, alcançaremos uma
sociedade mais harmoniosa e equilibrada, onde o ofensor se
responsabilize verdadeiramente do dano que causou e assim
possa repará-lo, bem como, deixar que a vítima se expresse,
exponha suas necessidades seus sentimentos com relação ao
fato danoso. Aos poucos contribuirá para que haja de fato
reconstrução dos laços rompidos dentro da sociedade,
sobretudo do resgate de valores humanos, que foram de certa
forma se perdendo ao longo dos conflitos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Resolução nº 225 - DE 31 DE MAIO DE 2016.


Deliberado pelo Plenário do CNJ na 232ª Sessão Ordinária,
realizada em 31 de maio de 2016. Disponível em:
http://www.cnj.jus.br/images/atos_normativos/resolucao/reso
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dezembro de 2018.

93
BRASIL. Cartilha do Programa Justiça para o século 21- TJ
RS – Disponível em:
http://www.cnj.jus.br/files/conteudo/arquivo/2016/08/03fae
bc99e4d18816aa549f0ff41307a.pdf : Acesso em dezembro de
2018

OBJETIVO Nº 16 DA ONU. Disponível em:


https://nacoesunidas.org/pos2015/ods16/ : Acessado em
novembro de 2018
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CkFR2HG4 MpER7a5lHc-bgUVs : Acessado em novembro de
2018.
BRASIL. JUSTIÇA RESTAURATIVA: horizontes a partir da
Resolução CNJ 225. Coordenação: Fabrício Bittencourt da
Cruz. 1ª Edição. Brasília-CNJ.2016. Disponível em:
http://www.cnj.jus.br/files/conteudo/arquivo/2016/08/4d637
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RESOLUÇÃO TJMG. Disponível em:
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F ACESSADO EM 04/12/2018
CARTILHA DA JUSTIÇA RESTAURATIVA DO TJMG:
Disponível em:
http://www8.tjmg.jus.br/institucional/programas-
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dezembro de 2018.
PROGRAMAS E PROJETOS DO TJMG. Disponível em:
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RESOLUÇÃO 225/2016 DO CNJ: Disponível em:
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janeiro de 2019

94
BRANCHER, Leoberto Narciso. Justiça Restaurativa: a
Cultura de Paz na Prática da Justiça. 2011. Disponível em
http://jij.tjrs.jus.br/justica-restaurativa/cultura-de-paz-na-
pratica-da-justica : Acesso em dezembro de 2018
SENNETT, Richard. Juntos. Os rituais, os prazeres e a
política de cooperação. [Tradução de Clóvis Marques] Rio de
Janeiro. Record, 2012.

KRZNARIC, Roman; O Poder da Empatia. A arte de se colocar


no lugar do outro para transformar o mundo. [Tradução
Maria Luzia X. de A. Borges]. 1° Edição. Rio de Janeiro: Zahar,
2015.

ZEHR, Howard; Trocando as Lentes: Um novo foco sobre o


crime e a justiça. Justiça Restaurativa. [Tradução Tonia Van
Acker]. 2ª° Edição. Palas Athena, 2014.

95
O TRATAMENTO JURÍDICO DOS TÍTULOS DE CRÉDITOS
ELETRÔNICOS NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA EM VIGOR

Júnia de Jesus Nascimento1


Michele Aparecida Gomes Guimarães2

RESUMO

O presente trabalho tem por objeto estudar o tratamento jurídico


dos títulos de créditos eletrônicos observando a legislação
brasileira vigente. A pesquisa tem como propósito analisar o
instituto da desmaterialização dos títulos de créditos, uma vez
que os tradicionais títulos de créditos materializados em cártula
vêm cedendo lugar diante de uma atual realidade tecnológica
que formaliza o direito de crédito em meios eletrônicos. Desta
forma, em face dos avanços tecnológicos, o tratamento dos
referidos títulos de créditos estão ganhando uma nova
perspectiva jurídica, entretanto, sem desqualificá-los,
considerando que a inovação quanto à existência dos títulos de
créditos desmaterializados continuarão tendo a mesma eficácia.
Com isso, busca-se averiguar como a atual legislação brasileira
tem amparado os títulos de créditos eletrônicos, explorando a
realização dos negócios realizados virtualmente e alcançando
seu fim almejado no Direito Empresarial.

Palavras-chave: Títulos de Créditos desmaterializados.


Tratamento Jurídico. Legislação Brasileira. Avanços
Tecnológicos. Direito Empresarial.

INTRODUÇÃO
Os títulos de créditos consistem em um documento
importante no ramo comercial, para o Direito e toda uma
sociedade, e, consequentemente, contribui significativamente

1 Graduada em Direito pela Faculdade Presidente Antônio Carlos de


Mariana.
2 Mestre em Direito. Professora de Direito da UNIPAC Mariana.
Advogada e Consultora Jurídica.
96
para o Direito Empresarial em direção a uma participação na
economia. Desta forma, sabe-se que os títulos de créditos se
tornam primordiais para o desenvolvimento de um país.
Contudo, através do avanço da tecnologia os tradicionais títulos
de créditos exibidos em cártula vêm perdendo espaço para as
mudanças informatizadas na medida em que não se adaptam
às novas realidades.
Nesse sentido, trata-se da desmaterialização dos títulos
de créditos, compreendendo os avanços tecnológicos em sua
utilização, tal como, o aspecto da segurança jurídica em relação
a tais títulos e o seu tratamento jurídico, e, por conseguinte,
analisa-se a descartularização dos títulos de créditos e sua
previsão na legislação brasileira vigente.
Destarte, é mister pesquisar os benefícios trazidos
através do instituto da desmaterialização para tais títulos de
créditos, bem como as consequências na perspectiva jurídica
sob a égide da legislação brasileira em vigor, tornando-se
relevante analisar como são vistos os títulos de créditos
eletrônicos, a partir dos avanços tecnológicos. Nessa seara, esta
pesquisa pretender encontrar respostas juridicamente
fundamentadas aos seguintes questionamentos: quais as
implicações da desmaterialização dos títulos de crédito nas
relações civis e empresariais? A regulamentação hodierna sobre
títulos de crédito eletrônicos é suficiente para garantir
segurança jurídica à matéria?
Em caráter preliminar, depreende-se que como objetivo
geral se torna indispensável analisar o instituto da

97
desmaterialização dos títulos de créditos eletrônicos,
considerando os avanços tecnológicos, suas benesses e
consequências na perspectiva jurídica, sob a égide da legislação
brasileira vigente. Igualmente, como objetivos específicos
impede analisar se a realização dos negócios na forma virtual
tem alcançando seu fim almejado no Direito Comercial, verificar
como a legislação atual tem tratado os títulos de créditos
eletrônicos, tendo em conta o aspecto da segurança jurídica e
demonstrar as benesses da desmaterialização de tais títulos, de
acordo com os avanços da tecnologia e caracterizar o
tratamento jurídico dos títulos de créditos desmaterializados.
Neste seguimento, não se pode olvidar que a tecnologia
de informação trouxe ao Direito Comercial mecanismos que
possibilitam o aumento de circulação de riquezas através dos
títulos de créditos desmaterializados. Em virtude disso, os
tradicionais documentos em papéis passaram a ser
substituídos e reproduzidos por documentos virtuais,
entretanto, estes possuem o mesmo alcance jurídico que os
outros. Tal temática ainda não recebeu a devida atenção
acadêmica, sendo assim, é necessário que o Direito acompanhe
e se adéque à globalização e aos mecanismos e sistemas
tecnológicos de forma que esses títulos de créditos eletrônicos
alcancem um lugar na esfera acadêmica com mais segurança
jurídica.
De igual forma, a temática envolve interesses de todos os
cidadãos em geral, pois participam do mercado consumidor,
adquirindo bens ou contratando serviços por meios dos títulos

98
eletrônicos, principalmente, para os que atuam no mercado na
qualidade de empresário ou prestadores de serviços, sendo que,
através dos avanços de informatização, os títulos de créditos
são caracterizados pela rapidez, e, consequentemente,
facilitando a sua utilização nas transações cotidianas para as
pessoas.
A pesquisa proposta se encaixa na categoria geral da
pesquisa básica qualitativa por se destinar a conhecer melhor
como a temática é tratada no âmbito da legislação em vigor e
quais as suas implicações frentes a tecnologia de
informatização, por meio de análise do conteúdo dos textos e
não por análises estatísticas. E, na categoria específica,
classifica-se como pesquisa bibliográfica, vez que, se valerá de
estudos de literatura específica da área associada aos estudos
de artigos científicos, doutrinas, ensaios, dentre outros. Ainda,
por se propor a usar a legislação, também ganha o patamar de
pesquisa documental.
Do mesmo modo, o estudo se valerá do método de
pesquisa dedutivo, tendo em vista que já existem teorias e
legislação estabelecidas para tratar da temática sobre as
tratativas dos títulos de créditos eletrônicos.
Dando continuidade ao introito, vale notar que, para
abordagem das principais definições, legislações e autores
empregados no artigo acerca dos títulos de créditos
desmaterializados e materializados, utilizou-se como principais
marcos teóricos: Ulhoa Coelho (2005), Vivante (2006), Código
Civil Brasileiro (2002) e Falconeri (2005).

99
Primordialmente, cumpre destacar o conceito de títulos
de créditos, bem como elencar os princípios que regem e de
certa forma regulamentam tais títulos, explicando e discorrendo
sobre cada característica desses, de forma que possibilite
demonstrar as principais particularidades dos títulos de
créditos. A partir de então, cuida-se de discutir sobre o
tratamento que vem recebendo o princípio da cartularidade
especificamente, pois este é o que mais foi alterado devido os
avanços da tecnologia.
Nessa conjuntura, exprime-se que os avanços
tecnológicos de informatização atingiram a regulamentação e
transações dos títulos de créditos, de modo que há uma nova
figura que podemos denominar de instituto da
desmaterialização, levantando dúvidas correntes quanto à
segurança jurídica dos títulos de créditos eletrônicos, tal como
se a respectiva legislação vigente é suficiente para normatizar
sobre o assunto e ainda apresentar modalidades inovadoras
que abrirão caminhos para futuramente serem regulamentados
e de fato usuais.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Entende-se que os títulos de créditos sempre foram de total relevân


conceitos e caminhos, não por perderem suas características e
peculiaridades, mas por terem que se adaptar à nova realidade
pela veloz mudança na informatização.

100
Deste modo, torna-se essencial compreender o instituto da desmate
brasileira vigente. Por outro lado, há de se demonstrar os
encadeamentos nas relações civis e comerciais, da mesma
maneira, as benesses que trazem as tecnologias de informações,
fazendo com que o Direito Comercial aumente seu fluxo de
circulação de riquezas, através desses títulos descartularizados.
Por esse meio, há de se evidenciar que os títulos de créditos
eletrônicos ou desmaterializados não perderão sua eficácia por
não possuírem mesmas características dos tradicionais títulos,
ou seja, aqueles representados pelo documento papável, há
muito denominado cártula, apenas há um acompanhamento
desses quanto aos avanços tecnológicos e consequentemente, o
Direito também deve acompanhar, de forma que se amolde na
tecnologia de informatização, haja vista que o ordenamento
jurídico deve ser pautado em conformidade com os momentos e
problemas que surgem em certo espaço de tempo.

2.1 CONCEITO DOS TÍTULOS DE CRÉDITOS

Tratando-se de conteúdo jurídico, existem vários


conceitos acerca dos títulos de créditos, sendo que a principal
conceituação destes é apresentada por Vivante (1906, p. 154
apud Wallace Fabrício Paiva Souza; Jean Carlos Fernandes,
2015, p. 197), e também adotada pelo Código Civil de 2002 no
artigo 887 que diz ser o título de crédito é “documento
necessário para o exercício do direito literal e autônomo nele
mencionado”.

101
Na forma do Artigo 887 do Código Civil, bem como
pela conceituação trazida por Vivante, conclui-se que os títulos
de crédito só produzirão efeitos e disporão de validade quando
preenchidos os requisitos expressos na lei, isto é, os títulos de
créditos dependem de certas características para que sejam
validados, e, por conseguinte, é um documento de
representatividade de uma obrigação pecuniária. Nesse
diapasão, ensina Coelho (2015, p. 271):

Os títulos de créditos são documentos que


representam obrigações pecuniárias, esses
não se confundem com a respectiva
obrigação, não obstante se distinguem
dela na correta medida que representam.

À vista disso percebe-se que as obrigações creditícias não


se confundem com as obrigações comuns, como leciona Coelho
(2012, p.436):

O título de crédito se distingue dos demais


documentos representativos de direito, em
três aspectos. Em primeiro lugar, ele se
refere unicamente a relações creditícias.
Não se documenta num título de crédito
nenhuma outra obrigação, de dar, fazer ou
não fazer. Apenas o crédito titularizado por
um ou mais sujeitos, perante outro ou
outros, consta de um instrumento
cambial.

102
Ainda, na mesma linha de raciocínio, é imprescindível
elucidar outra conceituação de títulos de créditos compreendido
por Coelho (2005, p.369 e 370), colacionada a seguir:

Título de crédito é um documento. Como


documento ele reporta um fato, ele diz que
alguma coisa existe. Em outros termos, o
título prova a existência de uma relação
jurídica, especificamente de uma relação
de crédito; ele constitui a prova de que
certa pessoa é credora de outra; ou de que
duas ou mais pessoas são credoras de
outras.

Os títulos de créditos, com surgimento no antigo Direito


Romano, realizaram as primeiras possibilidades de
movimentarem o capital através de pequenas operações
envolvendo os créditos ou até mesmo mediante promessas de
pagamentos, isto quer dizer que se baseavam na confiança para
cumprir obrigações que eram contraídas.
Naquela época, devido às dificuldades de circulação
desses créditos referentes às obrigações que eram constituídas
entre credor e devedor, a cobrança não poderia ser realizada
diretamente sobre o bem do devedor, ou seja, a maneira que se
cobrava a dívida do devedor era sobre o seu corpo, podendo ser
morto ou servir-se de escravo, essa modalidade de cobrança foi
estabelecida pela Lei das XII Tabuas.
Um pouco mais tarde, essa cobrança cruel fora
substituída pela Lei Lex Papira, a qual preconiza que o devedor
pagaria suas dívidas com seu patrimônio. Já na Idade Média

103
começaram a surgir os primeiros documentos, papéis e titulares
daqueles créditos fazendo com que a circulação dos capitais
aumentasse nos comércios. Com isso, devido às constantes
mudanças que se caracterizam pela necessidade da função
econômica, isto é, para maior promoção das movimentações
creditícias, atualmente é o que conhecemos como títulos de
créditos.
Sobre a origem do crédito, Rizzardo (2011, p.4) ensina
que:

No antigo direito romano, o princípio da


obrigatoriedade assentava-se num elo ou
numa vinculação pessoal entre credor e
devedor. Não havia instrumento de
segurança formal, nem garantias em bens
que dessem lastro à obrigação. Sendo
pessoal o vínculo, chegava-se ao extremo
de se executar o crédito, ou aquilo que se
combinara, e o credor tinha que receber,
na própria pessoa do devedor.

Nessa continuidade, pode-se compreender que a esfera


jurídica cambiária dos títulos de créditos está submetida há
certas características ou princípios, que sem esses, ou, melhor
dizendo, no caso de inobservância de requisitos expressos em
lei, os títulos de créditos tornarão insubsistentes e sem efeitos,
conforme preconiza (Ramos apud Alves, 2009, p. 35):

As características dos títulos de crédito


também podem ser extraídas do conceito
legal de títulos de crédito. Eles possuem
104
natureza comercial em sua essência, são
documentos formais, em razão da
necessidade de requisitos legais e
essenciais para sua validade, são
considerados bens móveis, tal como dispõe
o art.82 e seguintes do Código Civil. Os
títulos de crédito são títulos de
apresentação, porque são documentos
necessários ao exercício de direitos neles
contidos. Outra característica dos títulos
de crédito é que eles constituem títulos
executivos extrajudiciais (art. 585 do CPC),
por configurarem uma obrigação líquida e
certa. (RAMOS apud ALVES, 2009, p. 35)

Sendo assim, é indispensável averiguar os referidos


princípios para melhor entender o tratamento relativo a tais
títulos de forma a identificar as principais tratativas de
maneira a demonstrar que um título desmaterializado dispõe
do mesmo modo quanto à eficácia e validade que um título
físico.

2.2 PRINCÍPIOS NORTEADORES DOS TÍTULOS DE


CRÉDITOS

Do exposto acima, faz-se mister, através da conceituação


dos títulos de créditos, entender a respeito dos princípios aos
quais os títulos de créditos se sujeitam, de maneira que aqueles
regem e regulamentam esses.
Por meio da descrição dos títulos de créditos, é
fundamental que os documentos que retratam esses, sigam
estritamente o que conste em lei, para que sejam considerados
como títulos válidos. Assim sendo, têm-se os mais importantes
105
princípios que administram os títulos, quais sejam: Princípio da
Literalidade, Princípio da Autonomia e Princípio da
Cartularidade.
O Princípio da Literalidade traduz que apenas valerá o
que consta no título, ou seja, para que o título de crédito tenha
eficácia para o credor e devedor, exclusivamente o que está
expresso no título importará, na medida em que o que não está
no título de crédito, não está no seu universo. Assim, Coelho
(2011, p. 268) afirma que, para que se tenha efetividade, as
relações jurídicas cambiais devem constar a obrigação no
próprio título, sob pena de não produzir efeitos jurídicos.
Já o Princípio da Autonomia exprime que qualquer
relação que foi realizada entre credor e devedor de títulos
anteriores com os atuais, ou melhor, relações entre os
possuidores do título podem afirmar que o que se move é o
título de crédito e não o direito literal nele mencionado.
Portanto, conclui-se que os títulos são independentes entre si,
de maneira que o título de crédito não se vincula com o direito
abstrato compreendido no título, haja vista que há uma
desvinculação da razão do título em relação a todos que
assumiram a obrigação.
Por último, consoante o princípio da Cartularidade, para
que o título obtenha validade e eficácia, haverá exigibilidade da
existência material do título de crédito, ou seja, a representação
do título de crédito deve ser necessariamente precedida do
documento corpóreo que podemos qualificá-los como cártula.
Desta forma, Coelho (2011, p. 267) “clarifica que por este

106
princípio o credor somente pode exercer seus direitos, ou
melhor, os benefícios do regime jurídico cambial, quando possui
a posse do documento (cártula)”.
Destarte, se analisarmos a interpretação literal da
definição dos títulos de créditos, percebemos que não há
margem para circulação digital de tais títulos, todavia, devido
às evoluções tecnológicas de informação e com o intensivo uso
da internet para realização dos negócios, quais sejam compras,
vendas e inclusive relações negociais jurídicas, esses
documentos representados pela cártula, estão perdendo seu
espaço no mundo todo, de forma gradativa e sendo substituídos
e representados não pelo documento material tradicional, mas
sim reproduzidos pelos documentos eletrônicos. Posto isso, com
o surgimento dos títulos de créditos eletrônicos, o princípio da
cartularidade vem sendo limitado, isto quer dizer que um dos
principais princípios do Direito Cambiário está sendo
relativizado em razão das alterações nas transações comerciais,
fruto de uma tecnologia digital.
Como já mencionado no presente trabalho, pelo princípio
da cartularidade os títulos de créditos devem ser expedidos e
percorrer por intermédio de material e eis que surgem
indagações referentes ao tratamento que o princípio da
cartularidade vem recebendo, visto que devido a sua
relativização houve transformação na transferência da cártula
para o documento virtual, desta forma, para que tenha validade
e eficácia os títulos de créditos não mais se tornam necessária
apresentação do documento corpóreo, apenas que cumpra os

107
requisitos exigidos em lei. Contudo, apesar de caracterizar
limitação ao princípio mencionado, entende-se que não há
ofensa quanto ao mesmo, porque a ausência de documento
papável não descaracteriza a validade e nem mesmo o direito
literal contido no título de crédito, restando evidente que tal
relativização e limitação são uma superação ao referido
princípio, de forma que a modernidade também vem
alcançando a esfera judicial.
Tal superação do princípio da cartularidade em relação à
desmaterialização dos títulos de créditos tornou-se resistente
quanto aos questionamentos de ofensividade ao princípio,
todavia, o tema ainda necessita de aprimoramento e
progressão, de modo que não haja dúvidas e questionamentos
sobre o assunto. Assim assinala Francisco de Paula apud
Rodrigo Almeida:

De fato, a desmaterialização ou o
abandono do papel, no todo ou em parte,
constitui um fenômeno que, malgrado
esteja longe de sua maturação, está em
plena evolução nas esferas pública e
privada das sociedades. Aliás, ao se
analisar a desmaterialização, em sentido
extenso, tomando-se por parâmetro alguns
países em que se manifesta, percebe-se
que o universo dos setores atingidos, a
dimensão e as perspectivas de
aprofundamento do fenômeno variam de
conformidade com o estágio de
desenvolvimento econômico e tecnológico
de cada um. (DE PAULA apud ALMEIDA,
2006, p. 65)

108
Desse modo, sustenta-se que a utilização de títulos de
crédito eletrônicos não afronta ao princípio da cartularidade,
pois este não deixou de existir, considerando que apesar de
haver um conflito no que tange o assunto, há de se
compreender que tal discussão é um fato consolidado.
Entretanto, no que se refere a sua aplicabilidade, esta deverá
posteriormente deixar de ser habitual, visto que estamos diante
de uma evolução na transição dos títulos de créditos no campo
do Direito Empresarial, influenciado pelo processo da tecnologia
de informatização, ou seja, o contínuo e gradual uso da internet
repercute nas relações sociais, bem como econômicas. Tal qual,
podemos dizer que ocorreu uma mitigação ou relativização do
princípio da cartularidade de forma que a finalidade do mesmo
se torna inviável quanto aos títulos desmaterializados, não por
ofensa ou lesão ao referido princípio da cartularidade, todavia,
pelo fato do desenvolvimento, desde o seu modelo, estrutura,
emissão e circulação se dá de forma virtual, tornando-se
desnecessária e inexigível apresentação da cártula, malgrado os
princípios da literalidade e autonomia continuam sendo
aplicáveis aos títulos de créditos desmaterializados.

2.3 TÍTULOS DE CRÉDITOS ELETRÔNICOS FRENTE À


TECNOLOGIA DA INFORMATIZAÇÃO

Num primeiro momento, observando o conceito de títulos


de créditos que é definido por Cesare Vivante e também adotado

109
pelo Código Civil de 2002, percebemos que é imprescindível que
se tenha posse da cártula e faça sua apresentação fisicamente.
Entretanto, em virtude das inovações, as transações
comerciais estão sendo vistas através de novas perspectivas, de
modo que os hábitos, as práticas e atividades realizadas no
âmbito do Direito Empresarial vêm sofrendo alterações no que
se refere aos títulos de créditos. Tais práticas podem-se
caracterizar ou denominar por desmaterialização ou
descartularização dos títulos de créditos, visto que por meio dos
avanços tecnológicos, mais precisamente através da tecnologia
na informatização, esses títulos virtuais vêm auferindo grande
lugar, posto que a incidência desses tenda a crescer cada vez
mais.
A influência na tecnologia dos computadores retrata um
avanço na seara econômica e financeira, tanto dentro de uma
determinada empresa, como também na esfera que envolve o
interesse de qualquer cidadão, pois esses participam do
mercado consumerista e até mesmo quando não houver
participação desses cidadãos quanto às relações empresariais,
temos as relações civis, que dizem respeito à relação
obrigacional, quer dizer, no direito obrigacional comum, que é
composto por três elementos, quais sejam o credor, o devedor e
o vínculo jurídico-obrigacional pelo qual este fica obrigado a
realizar prestações em favor daquele. O fato de haver um
vínculo obrigacional faz incidir na relação entre as partes o
denominado direito das obrigações.

110
Assim, percebe-se que através desses avanços
tecnológicos na informatização as transações dos títulos de
créditos consequentemente tornam-se mais eficazes por conter
características de rapidez, contribui para um maior
desenvolvimento nas relações empresariais, aumenta a
circulação e riqueza, eficiência, facilitação de sua utilização nas
relações comerciais cotidianas, fazendo com que todos tenham
oportunidade de participar dessa evolução, mesmo
compreendendo que nem todos possuem acesso a essa
informatização, entretanto tudo ao nosso redor e até mesmo as
pessoas, estão propicias a submeterem-se às mudanças, posto
que elas sejam necessárias, na medida em que os membros de
um espaço é que se adaptam e se sujeitam aos avanços da
tecnologia e não o inverso. Desta maneira, esclarece Pinto
(2003, p. 04):

O surgimento de novas tecnologias, numa


perspectiva histórica, sempre representou
um desafio à organização e evolução das
sociedades, na medida em que as
mudanças que ocorrem nos hábitos e
atividades sociais implicam, na maioria
das vezes, mudanças nas regras jurídicas
existentes, de forma a regular a novas
realidades. (PINTO, 2003, p. 04)

Ante o exposto, podemos compreender que através da


tecnologia da informatização, o uso de documentos como
requisito necessário para validação de um título de crédito está
se tornando cada vez mais escasso, pois os títulos eletrônicos

111
apesar de não possuírem sua devida regulamentação,
gradativamente vêm tomando conta de seu espaço no mundo
jurídico e comercial, fazendo com que os documentos físicos se
tornem não essenciais e não tão usual, bem como
demonstrando que os títulos de créditos desmaterializados
também possuem eficácia e validade e que o princípio da
cartularidade apresenta paulatinamente característica de
inaplicabilidade, contudo não tira deste sua particularidade e
nem mesmo em virtude dessa nova realidade o torna ineficaz e
inválido.

2.4 A REGULAMENTAÇÃO DOS TÍTULOS DE CRÉDITOS,


SOB A PERSPECTIVA DA DESMATERIALIZAÇÃO

Os tradicionais títulos de créditos são exibidos através de


documentos, sendo que tais títulos simbolizam uma obrigação
pecuniária, isto é, direito e obrigações. A principal conceituação
dos títulos de créditos é abarcada por Vivante (1906, p. 154
apud Wallace Fabrício Paiva Souza; Jean Carlos Fernandes,
2015, p. 197), e também adotada no artigo 887 pela Legislação
Civil atual que diz ser o título de crédito “documento necessário
para o exercício do direito literal e autônomo nele mencionado”.
Acompanhando a evolução tecnológica e os avanços na
informatização, não mais podemos conceituar os títulos de
créditos apenas como documento corpóreo, mas sim pelos
títulos de créditos corpóreos ou virtuais, como estabelece
Coelho (2012, p. 452):

112
Título de crédito não pode mais ser
conceituado como “o documento
necessário para o exercício do direito
literal e autônomo nele mencionado”, mas
sim o documento, cartular ou eletrônico,
que contempla a cláusula cambial, pela
qual os coobrigados expressam a
concordância com a circulação do crédito
nele mencionado de modo literal e
autônomo.

Assim, em ambos os conceitos, percebemos que alguns


autores como este mencionado, entendem que tanto os títulos
de créditos tradicionais como os eletrônicos possuem a mesma
natureza, distinguindo-se na sua forma de emissão, circulação,
pois o primeiro é através do documento físico e o segundo por
meio de programa de computador. Entretanto, salienta-se que
há doutrinadores, que defendem a ideia de que para ser título
de crédito é necessário que o documento seja corpóreo, como
ensina Martins (1995, p.06):

Para ser título de crédito é necessário que


a declaração conste de um documento
escrito: poderá esse documento ser um
papel, um pergaminho, um tecido, mas de
qualquer modo deve ser uma coisa
corpórea, material, em que se possa ver (e
não apenas ouvir, como no caso do disco),
inscrita a manifestação da vontade do
declarante. Não é preciso, sequer, que
todas as declarações constantes sejam
grafadas de próprio punho do declarante.
Mas, em qualquer circunstância, deve ser
um escrito, lançado em documento
corpóreo, em regra uma coisa móvel, para
facilitar a circulação dos direitos, já que
113
esses, incorporados no título, circulam
com o mesmo.

É valido salientar que os títulos de créditos são


significativos para o cenário do Direito Empresarial, como
também para a sociedade, que no decorrer do tempo tem se
demonstrado eficaz na ausência de disponibilidade imediata de
moeda e dar-se-á facilidade para inclusão de todos no mercado
de crédito. Tais aspectos de influência auxiliam na formação do
desenvolvimento da economia.
Contudo, devido aos avanços tecnológicos e ao mundo
globalizado, os títulos de créditos documentados através da
cártula, passaram a ser replicados e até serem substituídos por
documentos eletrônicos, fruto da tecnologia de informatização.
Esse fenômeno é o que denominamos de instituto da
desmaterialização. Isso porque, com o passar do tempo e com
evolução da sociedade, as atividades praticadas
corriqueiramente, necessitam de maior presteza para
acompanhar o mundo globalizado, a tecnologia e adaptabilidade
ao Direito Empresarial, pois, as inovações trazidas pelos
avanços tecnológicos, como também pela tecnologia de
informatização não devem se adequar a sociedade e nem ao
Direito, ao contrário, esses é que devem se amoldar às
mudanças, como doravante explica:

O fenômeno da desmaterialização dos


títulos de crédito iniciou-se na França,
através de um sistema que foi implantado
em 1967 e aperfeiçoado em 1973, com a
introdução do Lettre de Change-relevé.
114
Logo após foi adotado pela Alemanha, no
chamado LastschriHuerrehr, e por vários
outros países, tais como Itália, Estados
Unidos e Argentina. No Brasil, o tema
ainda é novo e apenas timidamente citado
pelos doutrinadores. O ordenamento
jurídico brasileiro ainda não está adaptado
a essa evolução tecnológica. Há uma
enorme carência de legislação sobre o
assunto. (FALCONERI, 2005, p.02)

Porém, o desafio jurídico em tal cenário, consiste no fato


da legislação hodierna que trata dos títulos de créditos não se
encontrar ajustada para essa evolução, visto que a
regulamentação dos títulos de créditos eletrônicos é
nitidamente tímida, em outras palavras, é escassa e
insuficiente. Melhor esclarecendo, é cediço que apesar desses
títulos de créditos existirem, os mesmos carecem de uma
regulamentação propícia, que se altere no inteiro teor, pois o
que se pode analisar sobre esse assunto é uma legislação
superficial e cercada de lacunas, sendo que na verdade, seria
certo normatizar o assunto quanto aos títulos de créditos para
haver concordância lógica entre a modernização para com o
Direito e também para com as relações sociais, com finalidade
de que o nosso Ordenamento Jurídico satisfaça e atenda o
mundo globalizado e as relações empresariais.
No caso dos títulos de créditos, percebe-se que há
inconformismos ou não aceitação por parte de alguns
doutrinadores, aqueles tradicionais, que sustentam pelo “fim
dos títulos” de créditos, considerando que falta uma dos

115
principais atributos essenciais dos títulos de créditos, qual seja,
a cartularidade. Assim, os clássicos doutrinadores entendem
que deve haver exigência da cártula. Contudo, essa
exigibilidade não mais se adapta a nova realidade, visto que são
totalmente aceitos os documentos eletrônicos. No mesmo
sentido, insistindo na necessidade de documento corpóreo para
validade dos títulos de créditos, leciona Costa, (2006, p.278-
279):

Certo é que, como entendemos os títulos


eletrônicos não são títulos de crédito,
porque para tanto precisam ser
documentos como exige o art. 887 do
Código. Mas não o são. Apenas constituem
uma simulação de algo criado por um
computador, mas também por meio
equivalente, como a máquina de escrever.
Em verdade, só depois de se
materializarem no papel, tecido,
pergaminho, couro ou outro material em
que possam ser impressos e visualizados.

Porém, apesar de haver divergências doutrinárias, outros


doutrinadores já entendem que as características e
essencialidade dos títulos de créditos tradicionais e os títulos de
créditos eletrônicos são os mesmos, o que resta fundamentado
no trecho subsequente orientado por Coelho, (2012, p. 452):

Título de crédito não pode mais ser


conceituado como “o documento
necessário para o exercício do direito

116
literal e autônomo nele mencionado”, mas
sim o “documento, cartular ou eletrônico,
que contempla a cláusula cambial, pela
qual os coobrigados expressam a
concordância com a circulação do crédito
nele mencionado de modo literal e
autônomo.

De fato, é imprescindível buscar uma modificação na


legislação para amparar e tornar suficiente a regulamentação
dos títulos de créditos eletrônicos, vez que a principal finalidade
é fazer com que esses títulos desmaterializados ganhem espaço
no mundo todo para sua utilização, e, sobretudo, obtenham
previsão legal, é necessário que haja a fragmentação de
paradigmas, em relação aos princípios dos títulos de créditos,
em especial, ao princípio da cartularidade, em razão do
instituto da desmaterialização dos títulos de créditos, os
princípios que possuem características norteadoras de tais
títulos devem se amoldar na tecnologia de informatização, ou
seja, na realidade social.
Pelo princípio da cartularidade é indispensável à
apresentação da cártula, entretanto, sabe-se que os títulos de
créditos eletrônicos, per si, não são documentos físicos e sim
virtuais. Com isso, em real verdade, é certo que o referido
princípio não deve ter atuação apenas supletiva, devendo ter
atuação autônoma. Porém, na medida em que a tecnologia vai
se aprimorando, é certo que o Direito acompanhe e se adéque a
esses avanços tecnológicos, de forma a que o princípio da
cartularidade deixa de ter um papel absoluto e passa a ser

117
relativizado em virtude das mudanças, e sendo assim, a
sociedade e o próprio Direito, devem caminhar junto aos fatores
e não o inverso, como dito anteriormente. É nítido compreender
que os avanços da tecnologia, em especial na informática não
vem sendo acompanhado pela legislação cambiária (DUTRA,
LEMOS, 2013).

2.4.1BITCOINS: UMA NOVA MODALIDADE DE MOEDA


INFORMATIZADA

Tratando de crédito que circula a partir da tecnologia da


informação e sem materialização, surge a tratativa dos bitcoins
que consistem em uma nova modalidade de moeda
informatizada.
Atualmente, o bitcoin, espécie de criptomoeda, tem
alcançado uma força diante da tecnologia da informatização.
Criado em 2009 por Satoshi Nakamoto, nada mais é que um
dinheiro eletrônico para realização de transações comerciais de
compra, de venda, todas as transações que uma moeda comum,
isto é, a moeda física pode proporcionar. Tal definição de Bitcoin
também é abarcada por Ferreira, que diz que:

Bitcoin é uma rede consensual que


permite um novo sistema de pagamento e
uma moeda completamente digital. É a
primeira rede de usuários com
pagamentos descentralizados e controlada
pelos usuários, sem uma autoridade
central ou intermediários. Ou seja, essa
moeda digital é vista como dinheiro na
Internet (FERREIRA, 2014, p. 3).

118
A forma para adquirir a moeda virtual ou criptomoeda é
efetivada através de uma plataforma específica digital,
conhecida como exchanges. Na referida plataforma a pessoa
efetuará um cadastro.
Para melhor entendermos, o Bitcoin tem seu
funcionamento descentralizado, o que significa dizer que não
existe um banco, um intermediário ou uma instituição
regulatória de mercado para participar das transações dos
indivíduos, ao contrário disso, possui característica básica de
realizações de negócios diretamente entre as partes envolvidas,
do qual podemos denominar de “Peertopeer”. Desta forma, como
não há um administrador central para regular o negócio, não
há possibilidade de seu valor ser manufaturado, de forma que
este possa sofrer intervenções na valorização, ou melhor, não
há taxas, impostos a serem saldados, isto porque os bitcoins
são efetuados de maneira online e guardados nos computadores
dos seus pertencentes. Assim, assinala Ulrich que:

Bitcoin funciona com uma rede de


pagamentos peer-to-peer e moeda virtual
que opera essencialmente como o dinheiro
online, é open source e não depende de
nenhum tipo de autoridade central, esse
fato é o principal atrativo do Bitcoin por
fazer do mesmo o primeiro sistema de
pagamento global descentralizado. Por ser
uma criptomoeda, o Bitcoin utiliza-se de
criptografia de chave pública e privadas
para registrar todas as transações
efetuadas pelo usuário, todas as
119
transações que ocorrem na economia
Bitcoin ficam registradas em um
“blockchain” simplesmente o grande banco
de dados da rede Bitcoin. Bitcoin pode
representar várias coisas para diferentes
pessoas, por exemplo, para um simples
usuário que Bitcoin é uma simples forma
de dinheiro assim como o dólar, o real só
que puramente digital. Já para um
usuário perito em ti podemos dizer que
bitcoins são simplesmente dados de uma
rede P2P que utiliza de criptografia para
gerar dados que são utilizados com moeda.
São infinitas as formas de se explicar varia
de acordo com cada ramo de atuação e
realidade de cada pessoal, mas, sem
dúvida, é uma tecnologia revolucionaria e
isso depende de qualquer interpretação.
(ULRICH, 2014, p. 3 e 4).

Há razões para um brilhante futuro dos Bitcoins, posto


que cresce cada vez mais a massa de pessoas que querem
investir nessa modalidade de mercado virtual, como os
investidores institucionais, empresas e até mesmo as pessoas
mais leigas, bem como é necessária uma unificação das moedas
ao redor do mundo, pois a finalidade do Bitcoin é justamente
ser uma moeda global, uma forma de pessoas transacionarem
dinheiro entre países, entre empresas, de forma mais simples,
rápida e segura, de maneira que quanto mais disseminada a
estrutura de Bitcoin pelo mundo, maior será sua utilização e
validade em todos os países. Em contrapartida, a economia do
Bitcoin é bastante desequilibrada, pois por não ser regulada por
um administrador central, a moeda modifica muito, tendo em
vista que a incerteza no mercado faz com que não haja uma
120
massa considerável que se utilizam do Bitcoin e
consequentemente o valor da moeda despenque.
Data vênia, as moedas digitais estão chegando
gradativamente para revolucionar o mercado financeiro, vez que
a tendência é que os negócios jurídicos realizados pela internet
cresçam cada vez mais. Entretanto, considerando que não
houve adesão da maioria dos países em transacionar através
dos Bitcoins, haja vista que há preocupação de alguns quanto à
sua segurança, tornando-se o uso escasso, até então é
prematuro dizer essa nova geração de moedas virtuais seriam
um sucesso indiscutível, vez que há controvérsias a respeito da
relação negocial via digital e ainda há necessidade de amparo
legal dessa nova modalidade de moeda informatizada, posto que
não é usual o Bitcoin pois ainda não se têm legislação que trata
do assunto, fazendo com que no mundo contemporâneo não
seja possível realizar negócios através da criptomoeda, mas sim
num futuro bem próximo.
Sendo assim, o Bitcoin é um mercado que promete ser
superdesenvolvido, todavia, essa nova modalidade de moeda
digital ainda encontra-se em fase de experiência e não há
obrigatoriedade em utilizá-las, visto que elas não surgiram com
finalidade de extinguirem as tradicionais moedas físicas, desta
maneira, são apenas facultativas, apesar de que com os
avanços tecnológicos, futuramente essa moeda informatizada
poderá ser o principal recurso em todo o mundo como forma de
circulação de valores, porém, para que haja maior segurança
quanto à sua utilização é necessário que se tenha uma

121
regulamentação específica acerca da matéria para normatizar o
mercado virtual. Desta forma, partindo do pressuposto de que a
tecnologia na informatização não está atrelada apenas nas
vantagens, mas também nas desvantagens, ressalta ULRICH
(2014, p.25) que:

Apesar dos benefícios que ele apresenta, o


Bitcoin tem algumas desvantagens que
usuários em potencial devem levar em
consideração. Houve significativa
volatilidade no preço ao longo de sua
existência. Novos usuários correm o risco
de não proteger devidamente suas
carteiras ou de, até mesmo,
acidentalmente apagar seus bitcoins, caso
não sejam cautelosos. Além disso, há
preocupações sobre se hackers podem de
alguma forma comprometer a economia
Bitcoin. (ULRICH, 2014,p.25).

Destarte, atualmente as transações realizadas pelo


sistema do Bitcoin não são significativas, visto que ainda há
uma parcela muito pequena de usuários, o que dificulta a
expansão dessa nova modalidade frente aos avanços da
tecnologia, e consequentemente sua regulamentação jurídica
caminha lentamente, pois para tratar do assunto, a legislação
teria certo embaraço em estabelecer e definir critérios, haja
vista ser uma matéria complexa e omissa por dificuldades em
saber como aplicar as leis e de qual forma em relação às
moedas virtuais. E, dentro do tema do artigo em tela, há de se
pontuar que, a maioria dos doutrinadores entende que

122
juridicamente os Bitcoins não são compreendidos como títulos
de crédito eletrônicos, e sim, como moedas eletrônicas.

2.5 A SEGURANÇA JURÍDICA DOS TÍTULOS DE CRÉDITOS


ELETRÔNICOS E SUAS BENESSES

Impede realçar que os títulos de créditos cumprem um


papel determinante no mercado, visto que através destes, se
forma o desenvolvimento para contribuir no Direito
Empresarial. Contudo, se fala em títulos de créditos
representados por documentos eletrônicos, surgem indagações
e divergências. Isto porque, apesar do instituto da
desmaterialização dos títulos ser fato consolidado, não há
dúvidas de que as tratativas dos títulos de créditos eletrônicos
devem ser aperfeiçoadas, no sentido de que essa via virtual
fruto da tecnologia de informatização proporcione maior
segurança jurídica.
Nesse universo, mister se torna a anunciar que Cármen
Lúcia Antunes Rocha define segurança jurídica como a:
garantia da estabilidade e de certeza dos
negócios jurídicos, de sorte que as pessoas
saibam de antemão que, uma vez
envolvidas em determinada relação
jurídica esta se mantém estável, mesmo se
modificar a base legal sob a qual se
estabeleceu (ROCHA, 2004, p. 168).

Pois bem, a segurança jurídica dos títulos de créditos


está relacionada à certeza quanto à eficácia dos mesmos, de
forma que, embora haja modificação na base legal dos títulos de

123
créditos, quais seja, alteração do viés dos tradicionais
documentos físicos exibidos através da cártula, pelos
documentos eletrônicos, da nova geração, prole dos avanços
tecnológicos, se manteriam estáveis quanto a sua validade e
efeitos que produzirão, de forma que haverá garantia na
satisfação do crédito.
Em verdade, malgrado existam controvérsias referentes
à segurança jurídica quanto à matéria, pode-se observar que os
títulos de créditos por meios eletrônicos circulariam com mais
rapidez, posto que atingiriam sua destinação de negócios com
maior celeridade, mais eficiência, aumentaria a sua utilização,
vez que nos dias atuais toda sociedade usa de meios virtuais,
até mesmo para relações negociais, de compra e venda por
exemplo, além de que, contribuiria para preservação e
conservação do meio ambiente, pois a degradação dos recursos
ambientais é algo inquietante que afeta todos nós. Igualmente,
as realizações por via eletrônica, tornam as negociações mais
práticas e modernas, em virtude de que as transações poderão
ser efetuadas em qualquer parte do mundo, e nem por isso, a
desmaterialização dos títulos descaracterizaria a validade e
eficácia dos créditos, nem mesmo perderia seu caráter por
carência de cártula. Em outras palavras, os documentos
eletrônicos possuem mesma qualidade e legitimidade dos
documentos convencionais, já que representam uma obrigação
pecuniária, da mesma forma que, no documento físico é
assinado, no documento eletrônico também há essa
possibilidade através da assinatura digital, findando então, que

124
há compatibilidade e conformidade tanto entre documento em
papel como documento virtual, sem este perder eficácia e
validade.
Desta maneira, muito embora a legislação que trata do
assunto seja escassa e precária para regulamentar os títulos de
créditos desmaterialização, em virtude, do não
acompanhamento do Direito ao mundo tecnológico, dado que a
norma que deve acompanhar o mundo globalizado e não o
contrário, a figura da segurança jurídica não deixa de existir
nos títulos desmaterializados, essa se encontra elencada nos
títulos de créditos eletrônicos, pois esses também desfrutam de
legalidade da mesma forma que os documentos físicos, isto
porque, tanto um quanto o outro abrangem as mesmas
finalidades, quais sejam, validade e eficácia do título de crédito,
na medida em que logrará êxito nas relações cambiais virtuais,
quanto nas relações cambiais tradicionais, posto que o fato de
um título de crédito ser desenvolvido através de meio eletrônico,
não significa que acabaria com a segurança de tais títulos, pelo
contrário, apenas aqueles que fazem parte da relação cambial é
que teriam acesso aos dados e conteúdos constantes dos títulos
de créditos eletrônicos por meio de uma ferramenta que
garantirá uma segurança desses títulos digitais.

2.6 O TRATAMENTO JURÍDICO DOS TÍTULOS DE


CRÉDITOS ELETRÔNICOS NO MEIO EMPRESARIAL EM
FACE DOS AVANÇOS TECNOLÓGICOS

125
Quando nos referimos aos títulos de créditos eletrônicos,
logo sabemos que possuem ligação direta com os institutos da
desmaterialização e da descartularização. Basicamente toda a
discussão e problemática se concentram nessas duas figuras.
Vale lembrar que o artigo 889, §3º do Código Civil prevê a
possibilidade de utilização dos créditos pela via eletrônica, diz
que:

Art. 889. Deve o título de crédito conter a


data da emissão, a indicação precisa dos
direitos que confere, e a assinatura do
emitente.§ 3o O título poderá ser emitido a
partir dos caracteres criados em
computador ou meio técnico equivalente e
que constem da escrituração do emitente,
observados os requisitos mínimos
previstos neste artigo.

Apesar dos títulos de créditos eletrônicos possuírem


previsão em tal dispositivo legal, este regramento, per si, não é
suficiente para que se tenha uma adequada interpretação dos
créditos eletrônicos, vez que há entendimentos no sentindo de
que o surgimento dos títulos de créditos representados por vias
eletrônicas contraria aqueles tradicionais documentos
representados pela cártula e ainda gera certa insegurança
jurídica.
Desta forma, há necessidade da legislação caminhar
junto às inovações, entretanto, seu tratamento jurídico se torna
escasso e insatisfatório quando se têm uma amplitude
relacionada à matéria, porém, em virtude da escassa previsão

126
para tratá-los, a maneira de recebê-los acaba sendo afetada de
forma que não se dá tanta importância para tanto, ficando
restrito ao que se considera tradicional, e a sociedade e o
Direito acabam por não se adaptarem à inevitável modernidade,
aos avanços tecnológicos, que são meios de aumentar a
circulação de riquezas, além da rapidez e praticidade.
Acrescentando que, o que se necessita a realizar e buscar
são um maior suporte e auxílio jurídico, reforçando o
tratamento dos títulos de créditos desmaterializados, dado que
o instituto da desmaterialização não caracteriza inexistência e
invalidade dos títulos de créditos e sim uma ferramenta que se
adequou aos avanços tecnológicos, ou seja, não há forma
corpórea, qual seja documento em papel, contudo, essa nova
figura não deixa de possuir caráter de títulos de crédito.
Conforme nos ensina Adrianna de Alencar Setubal:

A desmaterialização, etimologicamente
falando, é a ação de não materializar. É
um não fazer alguma coisa e no caso dos
títulos de crédito é, inserir dados
referentes a uma operação em um
computador, em um banco de dados e não
imprimi-los, deixando-os somente
registrados eletronicamente, como coisa
material. Entende-se: a desmaterialização
não se confunde com a inexistência. Dizer
que algo inexiste é dizer que não há algo. A
inexistência refere-se à carência de
existência, à falta de existência, o que não
ocorre na desmaterialização, que consiste
simplesmente em não dar forma material a
alguma coisa existente. Um título

127
desmaterializado é um título representado
sob a forma incorpórea. Já um título
inexistente, é um título que não se
representa sob nenhuma forma porque
não há título. (SETUBAL, p. 58, 1999).

Frente ao papel de suma importância que os títulos de


créditos possuem no meio empresarial, em outras palavras, o
capital de giro se torna cada vez maior, daí, é de extrema
necessidade que esses continuem em circulação no mercado. E
com isso, para que prossiga na efetivação do desenvolvimento
econômico empresarial, o mundo contemporâneo deve adequar-
se nos moldes dos avanços tecnológicos, de maneira que as
modificações são constantes e involuntárias, fazendo com que
acreditemos e aceitemos a digitalização dos títulos de crédito,
de maneira que as adaptações são necessárias, e os títulos
desmaterializados buscam justamente a adaptabilidade aos
novos tempos. Tendo em conta que estamos num mundo
globalizado e pronto para acomodação aos novos ditames,
salienta-se na desnecessidade de um título de crédito possuir
sua circulação exclusivamente por meio de documento
corporificado, uma vez que não está havendo alteração nos
pressupostos de validade e aceitabilidade, apenas convertendo
o meio do qual este se exterioriza, ou seja, apenas o seu suporte
está sendo modificado, mas continua possuindo os mesmos
critérios de eficacidade, pois existem mecanismos para que haja
circulação pela via digital, caracterizado por desmaterialização
ou descartularização.

128
No campo empresarial, verifica-se sobretudo que os
títulos de créditos informatizados tornarão mais célere e ágil a
circulação de riquezas, no que tange os direitos e obrigações
creditícias e ajudaria na organização da empresa. No mesmo
sentido, facilitaria para muitos empresários nas relações
negociais, aumentando os lucros, visto que geraria um
progresso empresarial e equilíbrio econômico. Essas mudanças
foram crescendo gradativamente, pois facilitaram as relações
comerciais, principalmente para aqueles que atuam na esfera
empresarial, na medida em que há outros meios de
pagamentos, tal como através de transferências eletrônicas, por
intermédio dos cartões de créditos e pagamentos em débito
automático pelo telefone celular.
Posto isso, percebe-se que os títulos de créditos
eletrônicos ainda não receberam seu devido espaço e que
consequentemente o seu tratamento jurídico se torna
insatisfatório. Nesse sentido, conclui-se que há necessidade de
uma remodelação quanto à legislação brasileira em vigor no que
tange os títulos de créditos, para uma maior eficiência e
validade aos títulos de créditos que serão representados por
documentos eletrônicos, pois o que se visualiza é que a previsão
que trata desse dispositivo ainda necessita percorrer um longo
caminho no que se refere ao nível jurídico, cabendo ao Direito ir
ao encontro e no mesmo caminho que a evolução social, visto
que essas inovações referentes a tais títulos de créditos é
considerado uma ferramenta que acrescenta positivamente no

129
meio Empresarial, propiciando na facilitação da realização dos
negócios.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do exposto, conclui-se que os títulos de créditos


chegaram ao longo do tempo com o objetivo de facilitar a
circulação de riquezas e as relações comerciais. Sendo assim,
com o passar dos anos surgiu-se a necessidade de transformar
em documentos as relações creditícias que eram realizadas, a
fim de gerar maior segurança à matéria, pois através da
apresentação do documento, seria possível efetuar a cobrança
da dívida.
Entretanto, a evolução tecnológica, e consequentemente,
a evolução da sociedade influenciou na informatização, caindo
em desuso os tradicionais títulos de créditos representados pelo
documento palpável, isto é, o abandonamento do papel.
É mister analisar que os títulos de créditos estão sujeitos
às certas características que segundo elas, sem essas, aqueles
serão inválidos e ineficazes. Porém, vislumbra-se que a
literalidade e a autonomia de um título são mantidas nos
títulos de créditos eletrônicos, pois a ausência do documento
físico não impede a circulação dos títulos, permanecendo nítido
que o não uso da cártula não retira a condição de título de
crédito, restando afetada a cartularidade, tendo em vista que a
tecnologia da informatização possibilita a apresentação do título
por meio virtual, gerando a inutilização da corriqueira cártula, e
mesmo assim essa nova realidade não tiraria dos títulos de

130
créditos sua validade e eficácia, tendo em vista que também
constarão no título eletrônico os requisitos essenciais para sua
legitimidade. Assim, é inconteste no que se refere à existência
dos títulos de créditos virtuais ou eletrônicos, haja vista que o
ordenamento jurídico brasileiro acolheu a possibilidade de tais
títulos desmaterializados.
Analisando o estudo, toda a discussão é acerca da sua
regulamentação, visto ser escassa e insuficiente, gerando uma
lacuna na legislação brasileira vigente, onde a figura da
descartularização dos títulos de créditos, num primeiro
momento parece lesar o principal princípio dos títulos, qual
seja, o princípio da cartularidade. Porém, mesmo que haja
mitigação ou relativização do referido, os princípios que regem
os tradicionais títulos de créditos poderão ser utilizados nas
relações jurídicas comerciais dos títulos eletrônicos, pois não
houve extinção de tais características, e nem essas deixaram de
ser importantes, pelo contrário, estão se adequando as
negociações para otimização das relações comerciais, uma vez
que são analisadas sob a ótica da tecnologia da informatização.
Apesar da incontestável existência dos títulos de créditos
eletrônicos, percebe-se que a sua normatização está precária,
tornando sua previsão falha, insatisfatória, deficitária e como
resultado disso, em declínio, desta maneira, o ideal seria que
houvesse regulamentação específica quanto à matéria.
No que se refere à segurança jurídica dos títulos de
créditos eletrônicos, embora haja modificação no suporte legal,
não há que se falar em ineficácia e invalidade, pois a essência

131
dos títulos de créditos virtuais seria a mesma, havendo
mudanças apenas em sua estruturação, mas a segurança
desses títulos desmaterializados, com o avanço na tecnologia da
informatização poderia se dar através de uma ferramenta
virtual, onde apenas as partes do vínculo creditício teriam
acesso aos respectivos títulos de créditos eletrônicos por meio
de login e senhas. Além disso, a realização dos títulos de
créditos por meio eletrônico agilizaria sua circulação,
promovendo acima de tudo preservação e conservação do meio
ambiente, haja vista ser um assunto preocupante que nos
cercam.
Averiguaram-se, ainda, com o referido trabalho que em
prol dos avanços da tecnologia na informatização, têm-se uma
nova modalidade de moeda, aquelas que se denominam moedas
eletrônicas ou virtuais, no qual apesar de pouco utilizada, já se
tornou conhecida em todo o mundo. Apensar de ser um novo
patamar para as relações comerciais, privilegiando quanto à
circulação dos valores, essa modalidade de moeda virtual, ou
seja, os Bitcoins ainda estão conquistaram por completo seu
espaço no mercado, e para uma amplificação e crescimento em
relação aos números de usuários e à sua segurança jurídica é
necessário que também haja regulamentação específica para
assegurarem aqueles que não utilizam desses recursos
tecnológicos devido ao medo e desconfiança.
Assim, é possível concluir que os avanços tecnológicos
contribuem significativamente para a sociedade, e desta forma,
também para o Direito, entretanto, é essencial que haja

132
acompanhamento de todos em busca de adaptações, pois o
mundo, assim como o Direito são dinâmicos, e desta maneira
sempre estão em constantes mudanças. É certo que existem
readaptações a serem efetuadas, especialmente por parte do
ordenamento jurídico no que se refere à regulamentação, pois
se compreende lacunas e omissões por parte desse, dificultando
a circulação dos títulos eletrônicos, fazendo com que o Direito e
a Economia não estejam lado a lado. Em contrapartida, a
legislação caminha certo, tentando sanar os vícios e lacunas, e
ainda analisando a incontestável existência dos títulos
desmaterializados, percebe-se que a descartularização não
corrompe com um título de crédito, ressaltando que ante as
necessidades de um mundo cada vez mais globalizado, e
consequentemente informatizado, torna-se obrigatório atender
as expectativas da economia, promovendo riquezas.

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VIVANTE, Cesare. Instituições do Direito Comercial. 1. ed.


São Paulo. Edit. Minelli, 2006.

135
ANÁLISE DA OBRA “ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA” DE JOSÉ
SARAMAGO SOB AS DIMENSÕES DO OLHAR, DO VER E DO
REPARAR

Bruno Oliveira
Danielle Alves de Paula
Jesus Brendon Das Dores Carneiro
Juliana Quatorze Voltas
Lorena Ferreira
Moisés Moura
Nilmara Regina Gomes Dias
Rúbia Poletto1
René DENTZ2

RESUMO
Esse artigo tem como objetivo analisar a obra “Ensaio sobre a
cegueira” de José Saramago através das dimensões do olhar, do
ver e do reparar descritas no texto de Henriete Karam 3
distinguindo a cegueira do Ensaio dos tradicionais sentidos de
cegueira.

INTRODUÇÃO
A obra de José Saramago relata uma incomum epidemia
de cegueira na qual os habitantes de uma cidade são atingidos
pela “cegueira branca” onde as pessoas infectadas passam a ver
apenas um branco clarão. No início, apenas algumas pessoas

1 Estudantes do Curso de Direito pela Faculdade Presidente Antônio Carlos –


Mariana.
2 Professor Titular da FUPAC-Mariana; Psicanalista; Membro do International

Institute for Hermeneutics (Alemanha); Ph.D. pela Warsaw University.


3 Mestre em Teoria da Literatura, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande

do Sul (PUCRS), e Doutora em Estudos Literários, pela Universidade Federal do Rio


Grande do Sul (UFRGS). Professora Convidada do Programa de Pós-Graduação
em Letras da UFRGS. Membro fundadora da Rede Brasileira Direito e
Literatura (RDL). Editora-Chefe da Anamorphosis – Revista Internacional de
Direito e Literatura. Psicanalista. Autora do texto “A Visão e as Dimensões
do Olhar, do Ver e do Reparar”.
136
perdem a visão e são trancadas pelo governo em um velho
manicômio. Depois, a “cegueira branca” se alastra para todas
as pessoas, exceto à mulher do médico, única que continua a
enxergar, descrita pelo autor como aquela que tem a
“responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”
(SARAMAGO, 1995, p. 241). Aos poucos, no decorrer da trama,
todos se tornam cegos e lutam apenas por suas necessidades
básicas, expondo assim um comportamento quase considerado
animal através de atitudes machistas, racistas e egoístas.
A mulher do médico, embora seja a única que pode
enxergar, acaba se adaptando àquela condição, onde Saramago
faz uso da cegueira como metáfora da cegueira moral dentro da
qual a sociedade se encontra, pois no mundo contemporâneo,
as pessoas enxergam, mas acabam se adaptando a uma espécie
de cegueira social que atinge a maioria das pessoas.
Vivemos numa sociedade cada vez mais individualizada
onde as pessoas são impacientes e insensíveis uns com os
outros. Dessa forma, Henriete Karam em sua obra nos
apresenta o conceito reparar como uma dimensão da visão.
Dimensão esta que se baseia na contemplação da visão tanto
em sua totalidade quanto em suas particularidades.

1. A DISTINÇÃO ENTRE O OLHAR, O VER E O REPARAR


Na epígrafe do Ensaio sobre a cegueira constam as
seguintes palavras: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
Dessa forma, Saramago faz distinção entre o olhar, o ver e o
reparar, distinção esta que pode ser compreendida fazendo

137
alusão à outra obra do autor, a “História do cerco de Lisboa”
onde o autor afirma que:

Olhar, ver e reparar são maneiras distintas


de usar o órgão da visão, cada qual com a
sua intensidade própria, até nas
degenerações, por exemplo, olhar sem ver,
quando uma pessoa se encontra
ensimesmada, situação comum nos
antigos romances, ou ver e não dar por
isso, se os olhos por cansaço ou fastio se
defendem de sobrecargas incômodas. Só o
reparar pode chegar a ser visão plena,
quando num ponto determinado ou
sucessivamente a atenção se concentra, o
que tanto sucederá por efeito duma
deliberação da vontade quanto por uma
espécie de estado sinestésico involuntário
em que o visto solicita ser visto
novamente, assim se passando de uma
sensação a outra, retendo, arrastando o
olhar, como se a imagem tivesse de
produzir-se em dois lugares distintos do
cérebro com diferença temporal de um
centésimo de segundo, primeiro o sinal
simplificado, depois o desenho rigoroso, a
definição nítida (...) (SARAMAGO, 1989,
p.166)

Quando a cegueira branca toma conta da sociedade, os


problemas sociais que antes eram não vistos e ignorados pelas
pessoas se intensificam de tal maneira que o homem passa a
lutar somente pela sua sobrevivência utilizando até mesmo
artifícios imorais como a segregação de grupos, a luta pelo
poder entre os grupos, traição, abuso sexual e outros.
138
Dessa forma, o olhar pode ser entendido como o próprio
ato de enxergar, o ver como a capacidade de observar, prestar
atenção aos detalhes, analisar as situações de forma que se
consiga compreender além do superficial e o reparar como a
capacidade de visão plena.

2. O OLHAR

O adjetivo olhar segundo o dicionário da língua


portuguesa é mirar, contemplar, encarar, examinar, observar
fisicamente com os olhos, do qual através do contato da retina
com a luz e as células forma-se uma imagem que o nosso
cérebro interpreta e nos demonstra. Por esse motivo através de
um simples olhar um mundo nos é apresentado onde
aprendemos mirando e imitando, e tudo começa desde os
nossos primeiros anos de vida observando o espaço ao nosso
redor, começamos a imitar para aprender e principalmente
sobreviver, tudo isso graças a “Luz” que recebemos do mundo.
Agora imagine o mundo sem a luz, um mundo cego onde
apenas tentamos sobreviver sem aprender, com a moral
corrompida, apenas adaptando a uma nova situação, desafio,
esse é um dos principais pontos do Ensaio sobre a Cegueira,
pois pela perda da visão os personagens perderam não só a
visão enxergando tudo branco, mas também a “luz” interior, se
tornando cada vez mais egoístas, rancorosos, traidores e
tentando sempre se sobressair sobre os outros pelo meio de
conflitos internos e da nova “sociedade” que todos foram
obrigados a viver, sendo a mulher do médico a única que
139
enxergava fisicamente e não temia ficar cega, pois ela tentava
sempre de uma forma não perder a sua moral interior nessa
nova sociedade corrompida, para consequentemente não perder
a sua própria “luz”.
Podemos também fazer uma relação com a Alegoria da
caverna de Platão onde os homens viviam presos a correntes
numa caverna onde podiam apenas observar sombras obtidas
de uma fraca luz que havia atrás deles, dessa forma essas
sombras de estátuas de animais era o mundo real, pois aquele
era o mundo que eles sempre viveram desde criança.
Posteriormente quando um desses homens sai da caverna ele
fica cego temporariamente pela forte luz do exterior e com o
passar do tempo acostuma com essa “luz” saindo da ignorância
e “descobre” um novo mundo, o do conhecimento, da
experimentação, da curiosidade. Em vista disso podemos
observar que o contrário aconteceu com os homens no Ensaio
sobre a Cegueira, pois nele os homens através da cegueira
temporária perderam a noção de moralidade, e naquela prisão
em que estavam confinados se tornou uma nova sociedade onde
a escuridão interior de cada um foi à tona.
Platão também faz uma analogia interessante sobre a
Luz e os olhos no seu livro A REPÚBLICA:

Sabes que os olhos quando se voltam para


objetos cujas cores já não são mantidas
pela luz do dia, mas pelos clarões
noturnos, veem mal e parecem quase
cegos, como se não tivessem uma visão
clara. (...) – Mas, quando se voltam para os
que são iluminados pelo sol, acho que

140
veem nitidamente e torna-se evidente que
esses mesmos olhos têm uma visão clara.
(...) – Portanto, relativamente à alma,
reflete assim: quando ela se fixa num
objeto iluminado pela verdade e pelo ser,
compreende-o, conhece-o e parece
inteligente, porém quando se fixa num
objeto ao qual se misturam às trevas, o
que nasce e morre, só sabe ter opiniões, vê
mal, alterando o seu parecer de alto a
baixo, e parece já não ter inteligência. (...)
– Fica sabendo que o que transmite a
verdade aos objetos cognoscíveis e dá ao
sujeito que conhece esse poder, é a ideias
do bem. Entende que é ela a causa do
saber e da verdade, na medida em que
esta é conhecida, mas sendo ambos assim
belos, o saber e a verdade, terás razão em
pensar corretamente que neste mundo a
luz e a vista são semelhantes ao sol, mas
já não é certo tomá-las pelo sol, da mesma
maneira, no outro, é correto considerar a
ciência e a verdade, ambas elas,
semelhantes ao bem, mas não está certo
tomá-las, a uma ou a outra, pelo bem,
mas sim formar um conceito ainda mais
elevado do que seja o bem. (A REPÚBLICA,
508c-509a)
Para explicar o trecho e finalizar podemos dizer que
Platão usa o Sol para fazer uma analogia e comparação com a
nossa visão, pois como dissemos anteriormente nosso olho
necessita do elemento de luz para visualizar um objeto, por
essa razão nossa mente precisa da Luz do Sol que segundo
Platão representa a verdade do conhecimento, do bem; logo,
ilumina nossa escuridão interior reduzindo a ignorância, o mal,
nos evoluindo como pessoa e a sociedade como um todo.

141
3. O VER

Ver é o ato de enxergar com os olhos. É verbo transitivo


direto e intransitivo – é o perceber pela visão; enxergar. Pode ser
verbo transitivo indireto e pronominal – olhar para algo (alguém
ou si próprio).
Na obra Ensaio sobre a cegueira, Saramago não se refere
apenas à cegueira física, mas sim da cegueira moral dentro da
qual a sociedade se encontra. Isso fica muito claro quando o
médico oftalmologista prioriza o atendimento de um homem
cego, nesse momento uma senhora que aguardava a sua vez no
atendimento, fica muito brava com a atitude do médico. Ela
alega que é a primeira na fila para ser atendida e que já estava
a horas aguardo sua vez. Fica nítido o interesse próprio, a
impaciência e a insensibilidade dessa mulher diante de um
caso urgente. A atitude egocêntrica da senhora com o caso do
homem cego deixa nítida a presença da fluidez das relações,
onde o próprio interesse é posto em primeiro lugar. A
necessidade da “urgência” e falta de paciência de uma
sociedade totalmente interessada em suas próprias conquistas.
Freud, em suas teorias, relaciona o ver com o consciente
humano e o seu pensamento. Para ele, o ver e ser visto
proporciona o prazer, o consciente humano deseja algo a partir
do seu contato visual, deste modo, Freud cria seu conceito de
pulsão escópica. Conceito este que permitiu à psicanálise
restituir uma atividade para o olho como fonte de libido, uma
vez que o escopismo é constituinte do próprio desejo.

142
Seguindo a linha de raciocínio Aristóteles diz na abertura
da Metafísica:

Todos os seres humanos naturalmente


desejam conhecimento. Isso e indicado
pelo apreço que experimentamos pelos
sentidos, pois independente do seu uso,
nos os estimamos por se mesmo, e mais
que todos os outros o sentido da visão.
Não somente objetivando a ação, mas
mesmo quando não se visa nenhuma ação,
preferimos a visão – no geral- a todos os
demais sentidos, e a visão o que melhor
contribui para o nosso conhecimento das
coisas e o que revela uma multiplicidade
de distinções (I 980 a 22)

Nesse sentido, a ação do ver pode estimular reações ao


consciente humano, seja ela de prazer ou modo de percepção
da realidade. Na obra em análise, a mulher do médico - a única
não afetada pela cegueira - se passou por cega para manter os
cuidados ao seu marido. Em um momento delicado, presenciar
a cegueira do seu cônjuge e de todos os afetados fez com que
ela desejasse ficar cega. A psicanálise estuda os parâmetros da
dimensão do consciente humano na perspectiva do ver, uma
vez que ele faz com que o individuo tenha desejos nem sempre
lógicos. Como o desejo da personagem de se tornar cega em
meio ao surto da cegueira.

4. DIFERENÇAS ENTRE VER E OLHAR

143
Diferentemente do olhar, o ver está intrinsecamente
ligado à capacidade de gerar conhecimento e através disso
atingir a real felicidade, pois este seria o real objetivo capaz de
conceder plenitude ao homem. Neste sentido, Aristóteles afirma
que a visão é de certa forma privilegiada se comparada aos
demais sentidos, pois é capaz de analisar o contexto geral com
a mesma facilidade que pode ser focada nos detalhes. Essa
sofisticação da visão causa uma dependência enorme, não
apenas pelo que a cegueira em si pode causar, mas também
pela forma como os demais sentidos trabalham. É possível usar
como amostra dois sentidos que se tornam muito caros para o
homem que não pode ver, o tato e a audição.
O primeiro se apega ao micro, sendo extremamente
desvantajoso quando se precisa ter uma ideia do contexto geral,
pois o escopo máximo para observação se torna o que a ponta
dos dedos é capaz de tocar. A audição, por sua vez, embora
acurada a curta distância, e capaz de oferecer certa localização
espacial, pode se tornar inútil em meio a diversos estímulos
contínuos. Tendo esses conceitos em vista, é possível notar que
embora a falta da visão não seja empecilho definitivo para o
desenvolvimento racional, definitivamente é um atraso.
Adiante se desenvolve a noção do ver e ser visto através
de M. Merleau-Ponty, onde ao mesmo passo que a visão confere
um caráter ativo ao homem, também o transforma em agente
passivo para o olhar de outrem. O que mais tarde S. Freud
chama de “pulsão escópica”, onde o ver gera tanto prazer
quanto o ser visto.

144
Com a Schautrieb, pulsão de ver, S. Freud inscreve na
cultura ocidental uma nova concepção da visão, que deixa de
estar centrada na atividade de ver, seja esta vinculada ao
atributo sensível ou à consciência e ao pensamento, para
desempenhar funções relacionadas ao prazer de ver e de ser
visto.
O Ensaio trata bem desse aspecto através da sexualidade
excessiva de alguns dos personagens, de modo que as cenas de
abusos e estupros não estão inseridas gratuitamente. Ao se
verem incapazes de observar e serem observador, acabam por
extravasar essa sexualidade de forma bizarra. O próprio médico
acaba por trair sua esposa, pois mesmo sabendo que está ainda
era capaz de ver, ele não tinha sua própria visão para
referenciá-la.
E é neste ponto que a mulher do médico se mostra
verdadeiramente superior aos afetados pela cegueira, não
apenas fisicamente, mas também em caráter psíquico. Pois
mesmo após ser traída por seu marido, ela é capaz de um
esforço hercúleo para manter segredo sobre sua condição
privilegiada ao mesmo tempo em que guia seu grupo através do
campo de batalha que se tornou a cidade.

5. O REPARAR
Esta dimensão, segundo José Saramago, é a única que
pode alcançar a visão plena, pois somente através dela a visão
busca extrair as partes e reintegrá-las para alcançar o todo e
assim compreendê-lo.

145
Na obra, a única capaz de chegar a esta dimensão da
visão é a mulher do médico, pois além de enxergar ela passa a
ter a capacidade de reparar a verdadeira face das coisas e das
pessoas. À medida que o tempo passava, a sensação de não ser
mais objeto de observação de outrem - já que pensavam
estarem todos cegos dentro do manicômio - aumentava, os
personagens passaram a deixar a ética e a moral de lado e
preocupar-se apenas com o bem-estar e prazer próprio. Além
disso, no filme há também um escritor que escreve sobre como
ficou a sua vida e de sua família após ficaram cegos e, no final
do filme, quando a mulher do médico o encontra e ele fica
sabendo que ela é a única testemunha ocular do que ocorreu no
manicômio ele percebe que ninguém mais sabe o que realmente
aconteceu mais do que ela porque além de ela poder ver o que
estava acontecendo, também presenciou as intenções e
aspirações daqueles que pensavam não poder ser vistos através
daquilo que Henriete Karam no artigo “A visão e as Dimensões
do Olhar, do Ver e do Reparar”, nomeou como reparar:

... por sua dimensão criadora e lúdica,


pela flexibilidade e constante renovação da
linguagem, pelos efeitos de humanização e
empatia que se mostra capaz de produzir,
por sua natureza polifônica, sua abertura
para a plurissignificação e para múltiplas
possibilidades de interpretação. Está
implicada a capacidade de as palavras
evocarem uma difusão de imagens, mesmo
num mundo de cegos. E por isso que eu
situo a literatura na dimensão do
reparar... (Karam, p. 108)
146
Nesse sentido, a mulher do médico está dentro das
dimensões do reparar e por isso conseguiu presenciar as mais
diversas situações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Responsabilidade de que? – Responsabilidade ter os


olhos quando os outros os perderam” (SARAMAGO, 1989,
p.166.) Neste trecho do Ensaio em que faz referência a mulher
do médico, enquanto ela enxergava “pelos outros”, demonstra a
analogia feita por Saramago ao modo de “ver” no mundo
contemporâneo. Deste modo, o autor não trata apenas da
cegueira física, mas da cegueira moral: "Por que cegamos, não
sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te
diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que
estamos cegos, cegos que veem, cegos que vendo, não veem"
(José Saramago).
A obra leva o leitor a despertar diversas críticas e visões
diferentes no decorrer das cenas, podendo enxergar através dos
impostos uma crítica à sociedade moderna. As relações de
interesses próprios ocorridos no ensaio, a falta de empatia para
com o próximo, a ausência de paciência e os desejos carnais
balanceados entre o sensato e o insensato, fundamentados a
luz dos seus próprios interesses.
Podemos correlacionar o Ensaio da cegueira com os
termos criados por Zigmunt Bauman, onde o sociólogo descreve
as relações da sociedade moderna e pós-moderna como a
147
geração das “relações liquidas”. Bauman caracteriza o presente
século como individualista. Todavia, no ensaio os atingidos pela
cegueira branca, são obrigados a reaprender a conviver em
sociedade, para reencontrar os valores realmente humanos,
perdidos em meio à era de informações e tecnologias, descritos
por Bauman em suas obras.
O autor trás as dimensões do ver, olhar e reparar em
suas particularidades e pluralidades já citados no decorrer do
artigo. Todavia, o estudo da psicanálise na literatura,
especialmente no Ensaio sobre a cegueira, acarreta em novas
formas literárias de compreensão da natureza humana e das
suas causas sociais, culturalmente estabelecidas no presente
século. Através do contato com a obra de Saramago e estudos
de demais sociólogos e psicanalista, passa-se a observa uma
inovadora visão sobre o mundo e a sua realidade social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. 1998. Lisboa:


Editorial Caminho

KARAM, Henriete. Direito, psicanálise e literatura: a visão e


as dimensões do olhar, do ver e do reparar. 2016.
ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Leonel Vallandro.
Porto Alegre: Globo, 1969.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. 1ª ed. Jorge Zahar
Ed., 2001. Tradução de: Liquid modernity.
FREUD, Sigmund. A concepção psicanalítica da perturbação
psicogênica da visão. 1910, vol. 11.
PLATÃO. República. Rio de Janeiro. Editora Best Seller, 2002.
Tradução de Enrico Corvisieri.

148
HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA E ACESSO À JUSTIÇA NO
PROCESSO DO TRABALHO: UMA ANÁLISE A PARTIR DA
REFORMA TRABALHISTA

Fabiano Cesar Rebuzzi Guzzo1


Carlos Randel Crepalde Mafra2
Karine Lemos Gomes Ribeiro3

RESUMO:

O presente artigo perquire investigar se o art. 791-A, §4º, oriundo


da Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017) pode ser lido como um
obstáculo econômico ao acesso à justiça, especialmente para os
trabalhadores hipossuficientes. Para balizar a discussão
proposta, por meio de pesquisa teórico-dogmática, adota-se como
referencial teórico os pesquisadores Mauro Cappelletti e Bryan
Garth (1988). Parte-se da hipótese de que a inclusão dos
honorários de sucumbência para os beneficiários da justiça
gratuita, no Processo do Trabalho, manifestada no art. 791-A,
§4º da Consolidação das Leis do Trabalho, pode ser lida como
um possível obstáculo econômico para os trabalhadores
hipossuficientes, inibindo, assim, o efetivo acesso à justiça.
INTRODUÇÃO

1 Mestre em Direito (Direito e Globalização) pela Universidade Vale do Rio


Verde, professor Adjunto III da Universidade Federal de Ouro Preto - MG,
especialista em Direito Público pelo Centro Universitário Newton Paiva,
especialista em Docência Superior pela Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais, professor Adjunto I da Universidade Presidente Antônio Carlos
de Mariana – MG, coordenador do Núcleo de Prática Jurídica – UFOP,
coordenador do Curso de Direito da Universidade Presidente Antônio Carlos
de Mariana – MG e advogado OAB/MG 80.534.
2 Especialista em Direito Público pela Faculdade de Educação de Bom

Despacho (2012). Mestrando em Ciências Criminológico-forenses pela


Universidad de Ciencias Empresariales Y Sociales de Buenos Aires. Professor
de Direito Penal, Processo Penal e Criminologia na Universidade Presidente
Antônio Carlos - Mariana. Advogado militante nas áreas civil, criminal e
trabalhista e sócio do GUZZO, MAFRA & ADVOGADOS ASSOCIADOS em
Ouro Preto/MG. Psicopedagogo Clínico e Institucional e Psicanalista Infanto-
Juvenil na empresa PsicoEducare em Mariana/MG.
3 Mestranda em Novos Sujeitos Novos Direitos- UFOP

149
O princípio do acesso à justiça é consagrado pela
Constituição da República (BRASIL, 1988), e permeia todo o
ordenamento jurídico pátrio.
O preceito constitucional garante que todos/as os
cidadãos/ãs tenham a sua demanda apreciada pelo Poder
Judiciário, uma vez que é tutela fundamental e indisponível dos
litigantes.
Sendo um imperativo legal que permeia todo o
ordenamento pátrio, a inafastabilidade da jurisdição é princípio
fundamental também do Processo do Trabalho, servindo de
aporte para que empregados e empregadores tenham suas
celeumas apreciadas pela Justiça do Trabalho.
Cumpre ressaltar que, embora a Constituição tenha
assegurado a inafastabilidade da jurisdição, sendo um dos
corolários dos direitos fundamentais, o autor Mauro Cappelletti
alerta para o fato de que três obstáculos devem ser transpostos
para se alcançar o efetivo acesso à justiça. São eles: obstáculo
econômico, obstáculo organizacional e obstáculo processual.
(CAPPELLETTI, 1994).
A recente Lei 13.467/2017, conhecida como Reforma
Trabalhista, trouxe significativas mudanças que impactam
diretamente na relação entre os trabalhadores e o Poder
Judiciário, especialmente no tocante ao acesso à justiça.
O artigo 791-A, §4º oriundo da Reforma Trabalhista
(BRASIL, 2017) explana acerca de honorários de sucumbência
para a parte vencida no processo do trabalho, ainda que

150
beneficiário da justiça gratuita, e contraria diretamente o
entendimento que havia sido consolidado pelo Tribunal
Superior do Trabalho- TST, na edição da Súmula 2194.
Diante das referidas inovações no Processo do Trabalho,
o presente artigo perquire investigar se o mencionado artigo
791-A, §4º pode ser lido como um obstáculo econômico ao
acesso à justiça, especialmente para os trabalhadores
hipossuficientes.
Para balizar a discussão proposta, por meio de pesquisa
teórico-dogmática, adota-se como referencial teórico os
pesquisadores Mauro Cappelletti e Bryan Garth (1988).

4 Súmula nº 219 do TST: HONORÁRIOS


ADVOCATÍCIOS. CABIMENTO (alterada a redação do item I e acrescidos
os itens IV a VI em decorrência do CPC de 2015) - Res. 204/2016, DEJT
divulgado em 17, 18 e 21.03.2016
I - Na Justiça do Trabalho, a condenação ao pagamento de honorários
advocatícios não decorre pura e simplesmente da sucumbência, devendo a
parte, concomitantemente: a) estar assistida por sindicato da categoria
profissional; b) comprovar a percepção de salário inferior ao dobro do salário
mínimo ou encontrar-se em situação econômica que não lhe permita
demandar sem prejuízo do próprio sustento ou da respectiva família.
(art.14,§1º, da Lei nº 5.584/1970). (ex-OJ nº 305da SBDI-I).
II - É cabível a condenação ao pagamento de honorários advocatícios em ação
rescisória no processo trabalhista.
III – São devidos os honorários advocatícios nas causas em que o ente sindical
figure como substituto processual e nas lides que não derivem da relação de
emprego.
IV – Na ação rescisória e nas lides que não derivem de relação de emprego, a
responsabilidade pelo pagamento dos honorários advocatícios da
sucumbência submete-se à disciplina do Código de Processo Civil (arts. 85,
86, 87 e 90).
V - Em caso de assistência judiciária sindical ou de substituição processual
sindical, excetuados os processos em que a Fazenda Pública for parte, os
honorários advocatícios são devidos entre o mínimo de dez e o máximo de
vinte por cento sobre o valor da condenação, do proveito econômico obtido ou,
não sendo possível mensurá-lo, sobre o valor atualizado da causa (CPC de
2015, art. 85, § 2º).
VI - Nas causas em que a Fazenda Pública for parte, aplicar-se-ão os
percentuais específicos de honorários advocatícios contemplados no Código de
Processo Civil.
151
A trajetória metodológica utiliza a pesquisa bibliográfica
para coleta de dados, por meio do método hipotético-dedutivo. A
pesquisa é interdisciplinar, na medida em que coordena
diferentes campos do saber, como Direito Constitucional,
Processo Civil e Processo do Trabalho.
Dessa forma, parte-se da hipótese de que a inclusão dos
honorários de sucumbência, ainda que beneficiários da justiça
gratuita, no Processo do Trabalho, manifestada no art. 791-A,
§4º da Consolidação das Leis do Trabalho, pode ser lida como
um possível obstáculo econômico para os trabalhadores
hipossuficientes, inibindo, assim, o efetivo acesso à justiça e
violando diretamente os preceitos da Constituição da República
(BRASIL, 1988).
ACESSO À JUSTIÇA

O movimento de acesso à justiça ganhou destaque no


Brasil a partir do advento da Constituição da República
(BRASIL, 1988). A Carta Magna dispõe em suas garantias
fundamentais que “a lei não excluirá da apreciação do Poder
Judiciário lesão ou ameaça a direito” (BRASIL, 1988, art. 5º,
XXXV).
O termo “acesso à justiça” tem por intuito garantir o seu
acesso não meramente formal, mas o acesso real e eficaz. Dessa
forma:

O acesso à justiça pode, portanto, ser


encarado como o requisito fundamental- o
mais básico dos direitos humanos- de um
152
sistema jurídico moderno e igualitário que
pretenda garantir, e não apenas proclamar
o direito de todos. (CAPPELLETTI, GARTH,
1988, p. 12).

Nesse sentido, a partir da década de 1990, o Brasil foi


assistido por inúmeras medidas visando garantir o efetivo
acesso à justiça a todos/as os cidadãos/ãs. São as chamadas
ondas de acesso à justiça, que cuidaram de “analisar e procurar
os caminhos para superar as dificuldades ou obstáculos que
fazem inacessíveis para tanta gente as liberdades civis e
políticas.” (CAPPELLETTI, 1994, p. 02).
Não obstante, Carlos Henrique Bezerra Leite assevera
que “a ninguém (Estado, sociedade ou cidadão) é permitido
impedir o direito fundamental de qualquer pessoa de ajuizar
ação perante o Poder Judiciário”. (LEITE, 2017, p. 85).
É mister que o Código de Processo Civil (BRASIL, 2015)
traz alusão expressa ao princípio do acesso à justiça (art. 3º) e
incentiva a resolução dos conflitos de maneira pacífica e eficaz,
estando consoante, portanto, às reais necessidades dos
litigantes na seara cível.
Nesse sentido, o incentivo ao efetivo acesso à Justiça no
Código de Processo Civil é perceptível em diversos aspectos,
dentre eles na possibilidade gratuidade da Justiça, conforme
preconiza o art. 98 do Código, segundo o qual:

Art. 98. A pessoa natural ou jurídica,


brasileira ou estrangeira, com insuficiência
de recursos para pagar as custas, as
153
despesas processuais e os honorários
advocatícios tem direito à gratuidade da
justiça, na forma da lei.
§ 1o A gratuidade da justiça compreende:
I - as taxas ou as custas judiciais;
II - os selos postais;
III - as despesas com publicação na
imprensa oficial, dispensando-se a
publicação em outros meios;
IV - a indenização devida à testemunha
que, quando empregada, receberá do
empregador salário integral, como se em
serviço estivesse;
V - as despesas com a realização de exame
de código genético - DNA e de outros
exames considerados essenciais;
VI - os honorários do advogado e do perito
e a remuneração do intérprete ou do
tradutor nomeado para apresentação de
versão em português de documento
redigido em língua estrangeira;
VII - o custo com a elaboração de memória
de cálculo, quando exigida para
instauração da execução;
VIII - os depósitos previstos em lei para
interposição de recurso, para propositura
de ação e para a prática de outros atos
processuais inerentes ao exercício da
ampla defesa e do contraditório;
IX - os emolumentos devidos a notários ou
registradores em decorrência da prática de
registro, averbação ou qualquer outro ato
notarial necessário à efetivação de decisão
judicial ou à continuidade de processo
judicial no qual o benefício tenha sido
concedido.
154
Todavia, o Processo do Trabalho, recentemente
reformado pela Lei 13.467/2017, parece estar na contramão do
movimento de inafastabilidade da jurisdição.
A Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017) incluiu e
modificou muitos aspectos da Consolidação das Leis do
Trabalho. De fato, tendo em vista que a sociedade e, por
conseguinte, as relações de trabalho são plurais e se
transformam diuturnamente, são necessárias reformas
legislativas a fim de garantir os preceitos constitucionais nas
relações de emprego.
Vale dizer, o mundo do trabalho pós-industrial se
caracteriza cada vez mais pela diversificação e complexificação
das relações de trabalho (DORNELES, p. 293, 2013).
Porém, algumas medidas da recente Reforma Trabalhista
parecem prejudicar o empregado/a, uma vez que a nova Lei
parece obstacularizar a devida apreciação do Poder Judiciário
nas relações trabalhistas, oportunidade em que deve haver
cautela por parte dos intérpretes no tocante à nova legislação.
Nesse sentido, Amauri Cesar Alves (2018) dispõe que:

A análise da regra celetista reformada


deverá considerar o princípio da
interpretação conforme a Constituição
como técnica de interpretação, optando o
intérprete pelo resultado que melhor se
compatibilize com a Constituição da
República, por suas regras e princípios.
Deve a análise da regra celetista
considerar também o princípio da
155
interpretação conforme a Constituição
como técnica de controle de
constitucionalidade, pois é necessário
excluir resultado interpretativo contrário à
Constituição e afirmar resultado
interpretativo conforme a Constituição. A
observância ao princípio da interpretação
conforme a Constituição permitirá ao
intérprete preservar a essência do Direito
do Trabalho enquanto ramo jurídico
protetivo do cidadão trabalhador, ainda
que não tenha sido necessariamente essa
a pretensão do legislador ordinário.
(ALVES, 2017, p. 14).

Uma das mudanças trazidas pela referida Reforma foi a


previsão do pagamento de honorários de sucumbência pela
parte vencida, inclusive pelo beneficiário de justiça gratuita.
Referida inovação legislativa pode corresponder a um verdadeiro
obstáculo econômico de acesso à justiça para pessoas
vulneráveis economicamente.
Destarte, em muitos casos os beneficiários da justiça
gratuita na Justiça do Trabalho pleiteiam por verbas
alimentares e, portanto, não poderiam arcar com os honorários
sucumbenciais, ainda que tenham verbas a receber em outas
ações trabalhistas.
Passemos, então, a análise minuciosa do artigo
introduzido pela Reforma Trabalhista.

HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA NA JUSTIÇA DO


TRABALHO

156
A Lei n. 13.467/2017 reformou o entendimento que
havia sido consolidado no tocante aos honorários de
sucumbência na Justiça do Trabalho. Até aquele momento, não
havia previsão legal que permitisse a cobrança de honorários de
sucumbência da parte vencida, mas, tão somente, a previsão da
Súmula 219 do Tribunal Superior do Trabalho.
O novo dispositivo inserido pela Reforma Trabalhista (art.
791-A) aduz que:

Art. 791-A. Ao advogado, ainda que atue


em causa própria, serão devidos
honorários de sucumbência, fixados entre
o mínimo de 5% (cinco por cento) e o
máximo de 15% (quinze por cento) sobre o
valor que resultar da liquidação da
sentença, do proveito econômico obtido ou,
não sendo possível mensurá-lo, sobre o
valor atualizado da causa.
(...)
§ 4o Vencido o beneficiário da justiça
gratuita, desde que não tenha obtido em
juízo, ainda que em outro processo,
créditos capazes de suportar a despesa, as
obrigações decorrentes de sua
sucumbência ficarão sob condição
suspensiva de exigibilidade e somente
poderão ser executadas se, nos dois anos
subsequentes ao trânsito em julgado da
decisão que as certificou, o credor
demonstrar que deixou de existir a
situação de insuficiência de recursos que
justificou a concessão de gratuidade,
extinguindo-se, passado esse prazo, tais
obrigações do beneficiário.

157
Dessa forma, a parte que não lograr êxito em seus
pedidos, ainda que beneficiário da justiça gratuita, poderá ser
condenado em honorários de sucumbência, podendo utilizar as
verbas vencidas de outro processo para quitar as custas
judiciais. Cumpre ressaltar que o benefício da justiça gratuita é
garantia fundamental prevista na Constituição da República,
em seu artigo 5º, LXXIV (BRASIL, 1988).
De início, cabe elucidar que o perfil do beneficiário da
justiça gratuita é delimitado pela Consolidação das Leis do
Trabalho, no art. 790, também objeto de reforma pela Lei
13.467/2017:

Art. 790. Nas Varas do Trabalho, nos


Juízos de Direito, nos Tribunais e no
Tribunal Superior do Trabalho, a forma de
pagamento das custas e emolumentos
obedecerá às instruções que serão
expedidas pelo Tribunal Superior do
Trabalho.
(...)
§ 3o É facultado aos juízes, órgãos
julgadores e presidentes dos tribunais do
trabalho de qualquer instância conceder, a
requerimento ou de ofício, o benefício da
justiça gratuita, inclusive quanto a
traslados e instrumentos, àqueles que
perceberem salário igual ou inferior a 40%
(quarenta por cento) do limite máximo dos
benefícios do Regime Geral de Previdência
Social.
§ 4o O benefício da justiça gratuita será
concedido à parte que comprovar

158
insuficiência de recursos para o
pagamento das custas do processo.

Diante do dispositivo elucidado, pode inferir-se que o


beneficiário da justiça gratuita caracteriza-se por sua
hipossuficiência econômica. Não obstante, a Lei 1060/1950,
que dispõe acerca da assistência judiciária, utiliza o termo
“necessitados” para caracterizar os destinatários da assistência
judiciária, havendo, portanto, um cuidado notadamente
histórico para com os litigantes vulneráveis economicamente.

Art. 1º. Os poderes públicos federal e


estadual, independente da colaboração
que possam receber dos municípios e da
Ordem dos Advogados do Brasil, - OAB,
concederão assistência judiciária aos
necessitados nos termos da presente Lei.
(BRASIL, 1950).

Na definição do autor Leandro do Amaral D. de


Dorneles, os hipossuficientes são aqueles que podem oferecer
apenas sua força de trabalho (DORNELES, 2013, p. 294).
Segundo o autor, “a hipossuficiência nos remete
fundamentalmente à flagrante desigualdade econômica entre o
trabalhador e seu empregador” (DORNELES, 2013, p. 294).
Sendo assim, hipossuficiente é a pessoa de parcos recursos
econômicos e, nas relações de trabalho, caracteriza-se por ser o
empregado.

159
Nesse sentido, “a concessão do referido benefício (justiça
gratuita) é elemento indispensável ao acesso à justiça,
principalmente, na seara trabalhista pela natureza alimentar e
o caráter inadiável das verbas trabalhistas” (XAVIER, LEITE,
2018, p. 92).
A Reforma Trabalhista prevê no art. 791-A, §4º que a
parte vencida poderá arcar com os honorários de sucumbência,
ainda que beneficiários dos auspícios da justiça gratuita. Ora,
“a penalidade para o vencido em países que adotam o princípio
da sucumbência é aproximadamente duas vezes maior- ele
pagará os custos de ambas as partes” (1988, p. 17).
Nesse aspecto, Alves e Alves indicam que “a Reforma
Trabalhista, na prática, acaba por mitigar a noção de
hipossuficiência, pois em diversos dispositivos pressupõe
igualdade contratual e jurídica entre empregados e
empregadores.” (ALVES; ALVES, 2017, p. 61).
Segundo Alves e Alves, “o que se busca, ainda que a
médio prazo, é a transformação do contrato de trabalho em um
contrato comum, típico do direito civil.” (ALVES; ALVES, 2017,
p. 61). Ora, após a Reforma Trabalhistas (BRASIL, 2017), há
um risco eminente de que as relações de trabalho sejam
tratadas como meras relações cíveis, o que é inadmissível
diante das diferenças abissais entre os dois institutos e as
relações jurídicas às quais regulam.
Dessa forma, tendo em vista o estado de hipossuficiência
do trabalhador que faz jus aos auspícios da justiça gratuita,
dificilmente o mesmo terá condições de adimplir com os

160
honorários de sucumbência, sendo que referida medida pode
ter como consequência a obstacularização do acesso à
jurisdição pelo empregado.
Garth e Cappelletti indicam que “de qualquer forma,
torna-se claro que os altos custos, na medida em que ambas as
partes devam suportá-los, constituem uma importante barreira
ao acesso à justiça”. (1988, p. 18).
Cumpre elucidar que:

O Deputado Rogério Marinho (PSDB-RN), a


quem atribuem a autoria, relatoria e
organização da “Reforma Trabalhista” na
Câmara dos Deputados, em sua análise de
mérito sobre os dispositivos sustentou que
a previsão de honorários de sucumbência
no Processo do Trabalho objetiva a
redução de demandas temerárias e em
decorrência, o aumento da celeridade
processual e a redução dos custos da
justiça especializada. Contudo, inexiste
qualquer estudo que comprove a relação
direta entre o aumento do ônus financeiro
do processo e a redução do acesso à
justiça. (XAVIER, LEITE, 2018, p. 196).

Todavia, não obstante a vontade do Legislador, a nova


disposição legal poderia, de certa forma, desestimular o
empregado a ajuizar reclamatórias trabalhistas e, por
conseguinte, se ver impossibilitado de acionar a jurisdição
trabalhista.
A medida legislativa poderia, portanto, silenciar
eventuais demandas e abusos cometidos nas relações
161
empregador/a-empregado/a. Ao se ver inviabilizado de acessar
ao Poder Judiciário por ausência de condições financeiras para
arcar com possíveis honorários de sucumbência, temos um
grande retrocesso para a dignidade dos/as trabalhadores/as.
Se, por um lado, intenta-se a celeridade processual na
Justiça do Trabalho, por outro, pode haver a inibição dos
trabalhadores a perquirirem seus direitos frente ao Poder
Judiciário, formando-se assim o chamado obstáculo econômico
de acesso à justiça.
Não obstante, Xavier e Leite apontam que:

O trabalhador tende a buscar a justiça


trabalhista para o reconhecimento e
recebimento de verbas inadimplidas,
geralmente, apenas quando do término do
contrato de emprego ante o receio de
possível dispensa motivada pelo
ajuizamento de reclamatória. Por
consequência, o aumento do número de
desempregados tende a aumentar o de
demandas trabalhistas. (2018, p. 193).

Dessa forma, tendo em vista que referida medida trazida


pela Reforma Trabalhista pode consistir em verdadeiro
obstáculo econômico de acesso à justiça, o supramencionado
dispositivo deve ser interpretado à luz dos princípios
constitucionais de gratuidade da justiça e inafastabilidade da
jurisdição, afim de que não seja essa uma oportunidade para
regressão do acesso à justiça pelo trabalhador, pois, ao que

162
parece, a imposição de honorários de sucumbência pode estar
na contramão de um efetivo acesso à justiça.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do exposto, constata-se que a Reforma
Trabalhista (Lei 13.467/2017) pode ser prejudicial ao
empregado, especialmente o art. 791-A, §4º da CLT.
Isso porque o novo artigo prevê a possibilidade de
pagamento dos honorários de sucumbência pela parte vencida,
ainda que beneficiária dos auspícios da justiça gratuita.
Dessa forma, a intenção do legislador ao inserir o referido
artigo na CLT foi o de dar celeridade aos processos e reduzir as
demandas temerárias. Ocorre que, não obstante a vontade do
Legislador, o referido artigo pode ser lido como um possível
obstáculo econômico para os litigantes hipossuficientes.
Nesse ínterim, a Reforma Trabalhista, neste aspecto,
encontra-se na contramão do movimento de acesso à justiça,
preconizado no Brasil pela Constituição da República (BRASIL,
1988).
Por esse motivo, a interpretação dos aplicadores da Lei
deve ser no sentido de ampliar o espaço de acesso à jurisdição,
uma vez que é direito fundamental do trabalhador brasileira, e
jamais restringi-lo, sob pena de silenciar eventuais demandas e
abusos no âmbito da relação empregador/a-empregado/a.
Destaca-se, contudo, que, no presente artigo, não há
oponibilidade ao pagamento de honorários de sucumbência pela
parte vencida na Justiça do Trabalho; opõe-se, contudo, à
previsão de referido ônus para os beneficiários da justiça
163
gratuita, que devido à sua vulnerabilidade econômica podem
encontrar na nova medida um possível obstáculo de acesso à
jurisdição.
Dessa forma, entende-se que colocar o empregado
hipossuficiente nesta situação é uma flagrante afronta ao
primado de acesso à justiça.

REFERÊNCIAS
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em síntese. In: ALVES, Amauri Cesar; LEITE, Rafaela
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Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo
Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, e as Leis nos
164
6.019, de 3 de janeiro de 1974, 8.036, de 11 de maio de 1990, e
8.212, de 24 de julho de 1991, a fim de adequar a legislação às
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do Trabalho. 15ª edição, São Paulo: Saraiva Jur, 2017.

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13.467/2017. Belo Horizonte: Conhecimento Jurídico, 2018, p.
196-198.

165
DIREITO À RELIGIÃO NO ESTADO LAICO: ESTUDO DE
CASO

Israel Quirino1

Estado laico não é um estado ateu. É, sim, estrutura de


poder político que não professa apenas uma religião, respeita a
liberdade de crença e todas as manifestações de fé de sua
gente.
Nos dias atuais o tema religião imiscuiu-se nos
assuntos de Estado como não se via há muitos anos. Desde a
denominação da coligação eleitoral que identificou a campanha
do candidato vencedor à presidência da República: “Brasil
acima de tudo, Deus acima de todos”, até as referências
religiosas do próprio candidato vencedor, que fez questão de
abrir suas falas citando uma passagem bíblica - “João 8,32 –
Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” - as questões
políticas do povo brasileiro têm sido relacionadas a motes
religiosos.
Visto por um lado como fundamentalismo religioso, e
por outro, como estratégia de marketing político, ou ainda como
resgate de valores morais do povo brasileiro nos princípios da fé
cristã, há uma presença, no ideário político, de um discurso
calcado em preceitos religiosos que, à luz da sociologia, tem
força coercitiva maior que as normas legais positivadas.

1 Professor de Direito Constitucional da Faculdade de Direito Presidente


Antonio Carlos de Mariana Texto publicado originalmente na Revista Jus
Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 24, n. 5679, 18 jan. 2019.

166
O que se tem perguntado, nesse momento, é se essa
ascensão religiosa na política não estaria tendente a impor uma
corrente de fé ao povo brasileiro que, tradicionalmente se fez em
diversas crenças. O sincretismo religioso, caso seja tutelado
pelo Estado, ou a unificação da fé em torno de uma só
manifestação, é, sem dúvida, uma afronta às nossas diversas
origens culturais.
No passado, o sincretismo religioso foi usado para
impor o domínio português sobre o negro escravizado, de
maneira a romper os laços com terras ancestrais e “adotar” a fé
cristã da Casa Grande. O mesmo já havia sido feito com o
indígena nos primeiros anos da colonização por toda a América
Latina. Não era uma miscigenação de culturas, mas sim, a
religião como instrumento de dominação.
Fato é que a religiosidade, em alta neste novo período
da história política brasileira, tem sido o diferencial de outras
guinadas ideológicas do estado nacional ao longo dos anos,
desde proclamação da República em 1889. Há que se
dimensionar, no futuro breve, o alcance desta interseção.
Política e religião já foram uma só entidade quando, na
Constituição de 1824 (artigo 5º), fora oficializado o estado
confessional, instituído o padroado que submeteu a igreja
católica ao controle do Império do Brasil.
Mesclando modelos da monarquia inglesa com
ferramentas do discurso iluminista do Século XVIII,
preservando valores da tradição portuguesa e mirando as
liberdades civis das revoluções francesa (1789) e americana

167
(1776), coube a Dom Pedro I outorgar a Constituição do
Império, a mais longeva do país, e ter os seus princípios
firmados nos preceitos emanados dos livros sagrados do
cristianismo. Pelos ingredientes postos à disposição, a
Constituição de 1824 é, de fato, um caleidoscópio de ideias.
A laicidade do estado brasileiro, no entanto, é fruto do
positivismo do final do Século XIX que, no pensamento de
Auguste Comte, inspirou a República de “ordem e progresso”
inserido em nossa Bandeira Nacional.
Todavia, antes mesmo da instauração de uma nova
forma de governo, Dom Pedro II, por meio do Decreto 1.114 de
11 de setembro de 1861, instituiu o casamento civil, oferecendo
tutela jurídica à união conjugal concebida fora dos umbrais da
igreja católica, religião oficial do Império.
A inovação proposta pelo segundo imperador traduz não
em uma “tolerância” do Estado à diversidade religiosa, mas no
reconhecimento oficial de que a pluralidade de povos que
compunham o Brasil estaria a exigir do Estado o
reconhecimento de outras tendências religiosas, para além das
práticas oficiais. Um avanço, sem dúvida.
O casamento Civil de pessoas “não católicas”, que veio a
ser regulamentado pelo Decreto 3.069 de 17 de abril de 1863,
reafirmou que o Império, embora confessional e declarado
católico em sua Constituição, se via na obrigação de oferecer
garantia de direitos àqueles que não professavam a religião
oficial.

168
Separada a Igreja do Estado, de maneira oficial na
Constituição de 1891 (§ 7º do Art. 72), a religiosidade passou a
ser prática social e não mais instrumento oficial de transmissão
de crença, preceitos e ritos de um determinado grupo, como
forma de manter a ordem política. Ademais, nesse contexto, os
dogmas espirituais professados pelas religiões cristãs estavam
em sentido oposto à corrente filosófica positivista que inspirava
os líderes republicanos.
Algumas reminiscências deste período religioso do
estado ainda pululam a vida civil nacional, quando temos, na
gama dos oito feriados nacionais legalmente instituídos (Lei
662/1949 e Lei 6.802/1980 – ambas recepcionadas pela CF de
1988), dois deles são nitidamente religiosos (Dia de Natal e dia
de Nossa Senhora Aparecida). Isso sem descer à legislação
municipal que institui seus dias de feriados, mormente,
atrelados aos santos de devoção.
Na prática a separação estado/religião não corresponde
exatamente ao que diz o texto legal, posto que as igrejas (no
plural) continuam a ser relevantes fatores de poder político
compondo, inclusive, bancadas parlamentares nas Casas
Legislativas, como fazem os segmentos representativos da
economia em defesa dos seus interesses.
Já no contexto do mundo sem fronteiras, originado da
globalização dos anos 1980, a Constituição de 1988, em um
momento de confraternização dos vários povos que formam a
nação brasileira, consagrou a pluralidade como característica
nacional e reafirmou não apenas a laicidade do Estado (art. 19,

169
I), mas também a possibilidade de tutela estatal às várias
manifestações religiosas (Art. 5º, VI), inaugurando uma era de
respeito à diversidade.
Respeito e Diversidade. Estas são as palavras chaves
deste ensaio, no momento em que o Brasil vive o confronto de
ideias e mudanças de rumos político-ideológicos, desafiando até
mesmo a permanência da “Constituição Cidadã” e plural de
1988.
Os fatos que foram notícia nos primeiros dias de 2019
retratam bem essa convivência (ou conflito) Igreja/sociedade e
Estado/religião no cenário nacional.
A prisão de um médium em Goiás, tido para muitos
como um ícone de fé, a valoração midiática de princípios de
moral religiosa e a adoção de valores tradicionais como
fundamento de políticas públicas esboçado por alguns
integrantes do novo governo federal mostram a efusão (e
confronto) de ideias que apresenta esse momento da história do
país e a sua pluralidade.
A questão político-religiosa, neste contexto, é tão
desafiadora que se chega ao paradoxo de se apresentar um
governo rotulado de “direita” que tem pensamentos (e discurso)
de moral cristã, como se o cristianismo fosse uma ideologia
político-partidária. Enfim, isso não é o objeto desta discussão,
pois demandaria um estudo mais aprofundado.
Neste cenário de polarização estado/religião, em outra
ponta, em um episódio que quase passou despercebido à
grande mídia, a juíza Caroline Rosa Vieira, do Tribunal de

170
Justiça da Bahia (Comarca de Nazaré), em decisão que merece
reverência, ressaltou a pluralidade religiosa do povo brasileiro,
quando determinou o cumprimento de rituais de Candomblé às
exéquias de Maria Stella de Azevedo Santos, conhecida como
Mãe Stella de Oxóssi.
A nosso sentir, conjugando preceitos de direito civil a
princípios constitucionais, o caso Mãe Stella de Oxóssi superou
as balizas das decisões legalistas, indo àquele campo cinzento
do “espírito das leis” (sem trocadilho), a entender que a norma
serve a um povo que define, por si, seu destino, suas crenças e
valores. Vamos ao caso.
No dia 27 de dezembro de 2018, na cidade de Nazaré
das Farinhas, faleceu a Sra. Maria Stella de Azevedo Santos,
aos 93 anos de idade. O episódio ganhou mídia nacional pela
importância cultural da finada, incansável defensora de sua
crença e das suas origens ancestrais, contrária ao sincretismo
religioso e líder praticante do Candomblé.
Na sociedade, a falecida, pelo que consta dos autos,
vivia em união estável devidamente documentada e à sua
companheira legal para fins civis competia, segundo normas
vigentes (art. 12 do CC), reivindicar para si as obrigações post
mortem.
Assim o velório de Mãe Stella de Oxóssi deu inicio na
cidade de Nazaré das Farinhas, previsto o sepultamento para o
Cemitério Nosso Senhor dos Aflitos, naquela cidade.
Ocorre que Maria Stella de Azevedo Santos, ou Mãe
Stella de Oxóssi, em vida exerceu a liderança de uma

171
comunidade religiosa de matriz africana, sendo escolhida, em
19 de março de 1976, como a quinta iyalorixá do Ilê Axé Opó
Afonjá, na cidade de Salvador.
Para quem não é familiarizado com as religiões de
matriz africana, necessário se faz um parêntese exemplificativo.
A função de iylorixá é uma espécie de sumo-sacertode do grupo
religioso (mãe-de-santo), líder máximo de um Terreiro
(ilê). Autoridade religiosa digna das maiores reverências. E aí
está a celeuma.
A falta de consenso entre a responsável legal da falecida
(que insistiu em realizar o velório na cidade de Nazaré) e os
preceitos de sua religião (que exigia que o velório fosse realizado
no Terreiro, em Salvador) levou o caso ao Judiciário, em um
embate sem precedentes que se travou acerca do domínio sobre
o corpo morto da líder religiosa e seus possíveis “direitos” a um
ritual fúnebre nos moldes de sua fé.
Pelas disposições da religião de matriz africana, as
exéquias de seus líderes são realizadas com rituais próprios, em
locais de culto adequado, em cerimônias fúnebres que
acontecem com a presença física do corpo do falecido, no
Terreiro onde exercia suas funções religiosas.
A realização do velório fora do Terreiro e sepultamento
sem que se cumpram os rituais funéreos, acompanhados pela
egbé (a comunidade do Terreiro), afronta à religiosidade do
falecido e dos seus parceiros na fé e, mais que isso, interfere na
vida pós-morte do pranteado.

172
O caso chegou ao Judiciário e de acordo com a Inicial
apresentada nos autos, na cerimônia fúnebre de uma mãe-de-
santo o corpo é velado no Terreiro que regia porque é nesse
momento em que se inicia o ritual de passagem conhecido por
axexê, sendo aí também oportunidade em que são tomadas
decisões importantes dentro do culto, como o destino dos
objetos sagrados da pessoa morta.
A realização do velório nos moldes dos preceitos
religiosos é, pois, um momento sagrado da fé professada, que
não pode ser obstado ou impedido, haja vista disposições da
Constituição Federal que assegura a liberdade de culto. Mais
que um direito do morto, é um direito da comunidade de
reverenciar os seus mortos.
Desta forma, realizar o velório e sepultamento de um
líder religioso fora dos seus rituais significaria não apenas
negar a ela (a morta) o direito de passar pelas honrarias
fúnebres de sua religião, mas também poderia comprometer o
funcionamento religioso de toda uma comunidade, afrontando a
dignidade de sua crença.
Em petição apresentada ao juízo de Nazaré das
Farinhas (Processos nº 8000796-64.2018.8.05.0176 e
8000797-49.2018.8.05.0176), a Sociedade Cruz Santa do Axé
Opô Afonjá (razão social do Terreiro que era dirigido
espiritualmente pela falecida), por seus representantes legais
requisitaram o envio do corpo de Mãe Stella para o Terreiro que
regia, exigindo do Estado a prestação jurisdicional que
assegurassem aos parceiros na fé o direito de cultuarem seu

173
líder morto e, ao falecido, o direito de merecer as exéquias
próprias dos rituais da fé que professou em vida.
Confrontando o Código Civil (artigo 12) que dá direito ao
familiar de exercer os ritos mortuários, com as disposições da
Constituição Federal que asseguram a pluralidade religiosa e o
respeito às suas manifestações, optou a magistrada por conferir
eficácia à norma constitucional, determinando a remessa do
corpo para a cidade de Salvador, onde fora sufragado pela
comunidade religiosa e lá enterrado, conforme preceitos do
Candomblé.
A decisão, por certo, inusitada, haverá de compor a
literatura nacional no rol daqueles feitos singulares da crônica
jurídica.
O que soa como novidade, porém, está na valorização
das nossas origens plúrimas, de sociedade eclética, na
isonomia, na liberdade de crença e culto, no respeito à
diversidade cultural, enfim, um aprendizado sobre a sociologia
brasileira que já há muito superou os limites da Casa Grande e
Senzala.
Em sua decisão, a juíza invocou a proteção ao
patrimônio cultural do Terreiro (e do povo brasileiro, por que
não?), reafirmando, por influência reversa, as diversas posições
legislativas em defesa da cultura afro-brasileira e do
reconhecimento da igualdade racial, já antes previstas na
Constituição Federal de 1988.
A ela os nossos aplausos!

174
Inegável o fato histórico de que a nação brasileira se fez
sob estandartes da fé cristã, estampada nas velas das
embarcações portuguesas que aqui aportaram. Todavia, outros
barcos atracaram nesses mesmos portos e aqui desembarcaram
outras crenças, outros deuses, todos abrigados sobre as
mesmas asas de que nos fala o refrão do Hino da República:
“Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.”

O Estado Democrático, enquanto guardião das


liberdades civis, não pode ser instrumento de repressão a esta
ou àquela crença religiosa. Assim, espera-se que os novos dias
sejam plenos de liberdade para cultuar (ou não) uma divindade
a seu modo, dentro da fé de cada um.

175
A MOEDA NA ERA DAS TRANSAÇÕES ON-LINE: UMA
ANÁLISE DA POSSIBILIDADE JURÍDICA DA PENHORA DE
CRIPTOMOEDAS NO ORDENAMENTO JURÍDICO
BRASILEIRO

Vitor Junior Lopes1


Michele Aparecida Gomes Guimarães2

RESUMO:

O presente trabalho versa sobre questões atinentes às


criptomoedas, que se constituem em um mercado ainda em
expansão, mas que chamam atenção devido a sua grande
valorização nos últimos anos, além de sua praticidade e
celeridade nas transações. Devido grande valorização e
utilização das criptomoedas por parte de muitos brasileiros, que
ressaltam vantagens na utilização de tais moedas, o presente
estudo busca analisar como essas integram o patrimônio do
devedor, bem como a possibilidade ou não realizar-se a penhora
de moedas virtuais no ordenamento jurídico brasileiro, no campo
do Direito e da práxis. Para tanto, utilizará como base o Código
de Processo Civil de 2015, bem como outras bases legais,
doutrinárias e jurisprudenciais.

Palavras-chave: Moedas. Criptomoedas. Penhora.

1. INTRODUÇÃO

Com o advento da Terceira Revolução Industrial, que se


iniciou na segunda metade do Século XX, marcada com
inovações nas áreas de tecnologia e informática, intensificou-se
a popularização dos computadores, internet e plataformas
digitais. Fato que possibilitou a expansão das negociações e

1Graduando em Direito pela Fundação Presidente Antônio Carlos de Mariana.


2Mestre em Direito. Professora de Direito da Fundação Presidente Antônio
Carlos de Mariana. Advogada e Consultora Jurídica.
176
propiciou a criação de moedas digitais para substituir os
métodos tradicionais de realização de transações negociais. No
entanto, a utilização de criptomoedas é um mercado ainda em
expansão que não conta com regulação própria em nosso
ordenamento jurídico, o que tende a evoluir muito nos próximos
anos.
Sabe-se que o Direito está sempre a um passo atrás da
sociedade. Isso porque, por consequência lógica, primeiro
ocorrem os fatos sociais, e, depois de tais acontecimentos, é que
o Estado passa a regula-los. Dessa forma, com os grandes
avanços nas áreas da tecnologia, principalmente no campo das
moedas virtuais os ordenamentos jurídicos de vários países,
inclusive o brasileiro, deverão passar a regulamentar a
utilização dessas moedas no dia-a-dia.
E é por falta dessa regulação que o presente trabalho tem
por objetivo geral analisar a possibilidade jurídica de penhora
das criptomoedas em processos de execução, utilizando-se
como base as disposições reguladas pelo Código de Processo
Civil de 2015, a fim de verificar se a codificação processual
vigente ampara a viabilidade de constrição patrimonial desse
tipo de bem. Em prol de alcançar o intento, como forma de
fundamentação, apresentar-se-á uma contextualização da
decisão da Trigésima Sexta Câmara de Direito Privado do
Tribunal de Justiça de São Paulo, que deliberou, pela primeira
vez no Brasil, sobre o pedido de penhora de moedas virtuais,
apreciando a penhorabilidade da moeda Bitcoin.

177
Para o desenvolvimento do estudo, em um primeiro
momento será realizado um breve percurso histórico da
evolução da moeda no mundo até chegar ao século XXI, a “Era
das Moedas Digitais”. Posteriormente, será abordado, de
maneira geral, o conceito das criptomoedas, em especial o da
Bitcoin, que, até então, consiste na moeda virtual mais
conhecida e utilizada, bem como as formas de adquiri-las e as
vantagens e desvantagens de sua utilização nas negociações.
Ressalva-se que diante da temática vasta e complexa e o
conhecimento ainda limitado acerca do tema, o estudo do
assunto do que são criptomoedas e suas funções exigirá outros
aprofundamentos por parte do leitor.
Por fim, tratar-se-á da difícil exequibilidade da penhora
de criptomoedas, apontando os desafios e possíveis soluções
apresentadas pelo Desembargador do Tribunal de Justiça do
Rio de Janeiro, Alexandre Câmara.
Destarte, note-se que se utilizou como fonte de estudo
entendimentos jurisprudenciais, bem como fontes legislativas e
a pesquisa bibliográfica, tudo com o escopo de verificar a
viabilidade fático-jurídica da penhora de criptomoedas no
ordenamento jurídico brasileiro.
2. BREVE EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA MOEDA

Vale nesse momento analisar brevemente a evolução pela


qual passou a moeda até as moedas digitais do século XXI.
Nos tempos primitivos, antes da existência da moeda, as
negociações eram realizadas por meio de escambo, sendo

178
considerado o modo mais primitivo de trocas realizadas pelos
negociantes. Ainda hoje a mera troca é um método que traz
vantagens mútuas para ambas as partes envolvidas, já que
uma das partes obterá o que quer, oferecendo a outrem aquilo
que ele deseja. Não se tem informações concretas de como
funcionava o escambo em tais tempos, no entanto, as
comunidades que ainda vivenciam tal forma de negociação
servem como parâmetros das comunidades primitivas, como se
exprime das palavras de Davies (2002) citado por Silva (2016),
nos seguintes termos:

Durante grande parte do desenvolvimento


humano o escambo necessariamente
constituía o único meio de trocar bens e
serviços. [...] Consequentemente nós
sabemos mais da coexistência
complementar do escambo com o dinheiro
do que se sabe sobre o escambo nessa
obscura e longa era pré-histórica sem
moeda e, deste modo nós tendemos a
derivar o conhecimento do escambo das
remanescentes encolhidas comunidades
sem moeda de tempos mais modernos. É
principalmente dessas comunidades
atrasadas ao invés do convencional
progresso humano que a maioria das
contas de troca tem sido tomados para
proporcionar os exemplos básicos que
ocorrem geralmente nos modernos livros
sobre moeda (DAVIES, 2002 apud SILVA,
2016, p. 10).

Com a evolução do comércio, o escambo puro e simples,


como forma principal de realizar negociações foi superado e

179
implementando o sistema no qual certas mercadorias tinham
preferência se comparadas a outras por apresentarem algum
tipo de qualidade que as diferenciassem das demais. Nas
palavras de Vasconcellos e Garcia (2011), a moeda mercadoria
constitui a forma mais primitiva de moeda na economia,
expressando que:

Com a evolução da sociedade, certas


mercadorias passaram a ser aceitas por
todos, por suas características peculiares
ou pelo próprio fato de serem escassas.
Por exemplo, o sal, que por ser escasso era
aceito na Roma Antiga como moeda. Em
diversas épocas e locais diferentes, outros
bens assumiram idêntica função. Portanto,
a moeda mercadoria constitui a forma
mais primitiva de moeda na economia.
(VASCONCELLOS; GARCIA, 2011, p.198)

Poupo a pouco, porém, o escambo em sua forma pura e


simples, mesmo com importantes modificações como a moeda
mercadoria, passou a ser eficaz apenas em pequenas
comunidades com volumes reduzidos de produtos a serem
trocados. Assim, em sociedades modernas a eficácia de tal
sistema de negociação fica abalada, na medida em que o tempo
despendido para encontrar aquilo que se quer adquirir, e, ao
mesmo tempo, alguém disposto a aceitar aquilo que pretende
oferecer, acaba constituindo-se como entreve à realização das
transações, uma vez que poderia se chegar a uma situação na
qual o tempo que os perderiam para realizarem trocas poderia

180
ser muito superior ao demandado para a produção dos
produtos, como proclama Vasconcellos e Garcia (2011).
Dessa forma, as trocas de mercadorias se tornaram
insuficientes nos fluxos de negociações, sendo necessário o
surgimento de novas moedas para simplificar e agilizar as
transações. Assim sendo, as principais moedas que surgiram
foram as metálicas – ouro, prata e cobre, senão vejamos:

Os metais preciosos passaram a assumir a


função de moeda por diversas razoes: são
limitadas na natureza, possuem
durabilidade e resistência, são divisíveis
em peso etc. Para exercer o controle sobre
os metais em circulação, foi implantada a
“cunhagem” da moeda pelos governantes,
o que deu origem à atual moeda metálica.
(VASCONCELLOS; GARCIA, 2011, p.198)

Acerca dos primeiros registros da utilização de metais


como moedas, temos os dizeres de Silva (2016) citando
Galbraith (1975):

Os primeiros registros de metais


transformados em moedas com peso pré-
determinado ocorreram na Lídia
aproximadamente em 800 A.C. Conforme
Galbraith (1975, p. 8, tradução nossa)
“essa inovação é atribuída por Herodotus
para os reis da Lídia, presumidamente na
última parte do oitavo século a.C”. Eles
são os primeiros povos, em registro, que
cunhavam ouro e prata em moedas e
comercializavam no varejo. (SILVA, 2016,
p. 15)

181
Ora, o desenvolvimento da sociedade, e,
consequentemente, de seus sistemas monetários, exigiam o
surgimento de um novo tipo de moeda para superar as
desvantagens das moedas metálicas, como por exemplo, o seu
peso e o elevado risco de roubo. Abriu-se assim, caminho para
a criação dos bancos e dos títulos de crédito:

As pessoas de posse de ouro, por questão


de segurança, guardavam-no em casas
especializadas (embrião do atual sistema
bancário), onde ourives – pessoas que
trabalhavam o ouro e a prata – emitiam
certificados de depósito dos metais. [...]
Como o depositário do metal merecia a
confiança de todos, esses certificados
foram ganhando livre circulação, passando
a ter aceitação geral, porque possuíam
lastro e podiam ser convertidos a qualquer
instante em ouro. (VASCONCELLOS;
GARCIA, 2011, p.198)

Desta feita, ao realizar transações de bens ou serviços, as


pessoas que portavam tal certificado podiam efetuar o
pagamento com estes, uma vez que consistiam em títulos
transferíveis, que possibilitavam ao novo detentor retirar a
quantia de moedas pactuadas em tais bancos.
Mais tarde, surgiram os bancos comerciais privados que
passaram a emitir notas ou recibos bancários que circulavam
na sociedade como moeda, originando, assim, o papel moeda.
Alguns desses bancos comerciais privados possuíam o

182
monopólio da emissão de tais notas, como apontam
Vasconcellos e Garcia (2011):

Alguns desses bancos receberam o


privilégio do monopólio da emissão de
notas bancárias, sendo esse monopólio a
origem de muitos bancos centrais, como o
Banco da Inglaterra, fundado em 1694 por
um grupo de banqueiros privados para
financiar os déficits da Coroa.
(VASCONCELLOS; GARCIA, 2011, p.198)

Posteriormente, o monopólio da emissão do papel moeda


ficou com o Estado, que emitia as moedas a partir da
quantidade de ouro existente, ou seja, a emissão de moedas
estava associada às reservas de ouro. Fato é que esse sistema
de criação de moedas acaba impedindo o crescimento das
relações comerciais, já que o ouro encontra-se em quantidades
limitadas na natureza. Dessa forma, o padrão-ouro teve de ser
abandonado e implementado a emissão de moedas de forma
livre, sem vincula-lo a nenhum metal precioso, como
contextualizado a seguir:

A partir de 1920, o padrão-ouro foi


abandonado e a emissão de moeda passou
a ser livre, ou a critério das autoridades
monetárias de cada país. Assim, a moeda
passou a ser aceita por força de lei,
denominando-se moeda de curso forçado
ou moeda fiduciária (de fidúcia,
confiança), não sendo lastreada em metais
preciosos (VASCONCELLOS; GARCIA,
2011, p.198).

183
Nessa linha, Teixeira (2017) aduz que à medida que os
países conquistavam sua independência, seus governos
passaram a conduzir a emissão de cédulas e passou a controlar
as falsificações. Além disso, hoje a maioria dos países possuem
Bancos Centrais aos quais são encarregados de emitir as
cédulas e moedas. O autor menciona ainda:

Todavia, foi com o advento da informática


no decorrer do século XX que a moeda de
papel evoluiu para um sistema quase
inteiramente eletrônico, reduzindo a sua
impressão a um simples número,
desmaterializado (TEIXEIRA, 2017, p.
256).

Apontam-se ainda os cheques e os cartões de crédito


como estágios que viabilizaram e antecederam o surgimento das
transações realizadas com criptomoedas. Nos dizeres de Alves e
Silva (2018) as moedas bancárias são movimentadas por
cheques, que se baseia em um contrato com a instituição
bancaria na qual se abre uma conta corrente, na qual o cliente
do banco poderá emitir ordens de pagamento contra o sacado
(banco) à vista dos depósitos que possui em conta. São métodos
tendentes ao desuso, mas que ainda são utilizados como forma
de pagamento principalmente no ramo imobiliário.
Hoje, instituições bancárias e até mesmo algumas lojas
têm viabilizado a utilização de cartões de crédito como forma de
substituir a utilização de cédulas e moedas, impulsionando a
concessão e o estímulo ao crédito.

184
Em nossa sociedade o dinheiro tangível, no qual fazemos
pequenas transações representa uma parte modesta frente a
todo o dinheiro em circulação no mundo. Atualmente, vivemos
a era das transações on-line e das criptomoedas, baseadas na
tecnologia, matemática e ciência e não mais no papel ou metal
como nos tempos passados.
Para uma melhor compreensão sobre a possibilidade da
penhora de criptomoedas, em especial do Bitcoin, parece
imprescindível apontar o que são moedas virtuais, suas
características e demais informações pertinentes.
3. CRIPTOMOEDAS

Vale nesse momento salientar que as criptomoedas,


também denominadas de moedas virtuais, não se confundem
com as moedas eletrônicas. É isso que se desprende do
Comunicado nº 25.306, de 19 de fevereiro de 2014, emitido pelo
Banco Central do Brasil que busca esclarecer sobre os riscos
decorrentes da aquisição das chamadas “moedas virtuais” ou
“moedas criptografadas” e da realização de transações com elas,
in verbis:

O Banco Central do Brasil esclarece,


inicialmente, que as chamadas moedas
virtuais não se confundem com a “moeda
eletrônica” de que tratam a Lei nº 12.865,
de 9 de outubro de 2013, e sua
regulamentação infralegal. Moedas
eletrônicas, conforme disciplinadas por
esses atos normativos, são recursos
armazenados em dispositivo ou sistema

185
eletrônico que permitem ao usuário final
efetuar transações de pagamento
denominada em moeda nacional. Por sua
vez, as moedas virtuais possuem forma
própria de denominação, ou seja, são
denominadas em unidade de conta
distinta das moedas emitidas por governos
soberanos, e não se caracterizam
dispositivo ou sistema eletrônico para
armazenamento em reais (BANCO
CENTRAL DO BRASIL, 2014).

Assim, ao realizarem pagamentos de contas ou


transações através do internet banking, por exemplo, as pessoas
estão utilizando moedas eletrônicas e não moedas virtuais
(criptomoedas), haja vista que aquelas se encontram
armazenadas em dispositivos ou sistemas eletrônicos que
permitem ao usuário efetuar pagamento em moeda nacional
emitida por um governo soberano, no caso o brasileiro.
Segundo o site https://coinmarketcap.com/, existem
atualmente cerca de 2.084 tipos de criptomoedas disponíveis
para os usuários3. Dentre as criptomoedas mais utilizadas
estão o Bitcoin, o Ethereum, a XRP, o Bitcoin Cash e o EOS.
Para fins didáticos e para simplificar a exposição, ante a
complexidade do tema, utilizaremos o Bitcoin como modelo
para ilustrar as discussões propostas.
Segundo Fernando Ulrich, Mestre em Economia pela
URJC de Madri:

Bitcoin é uma forma de dinheiro, assim


como o real, dólar ou euro, com a

3 Acesso em jan. 2019.


186
diferença de ser puramente digital e não
ser emitido por nenhum governo. O seu
valor é determinado livremente pelos
indivíduos no mercado. Para transações
online, é a forma ideal de pagamento, pois
é rápido, barato e seguro. É uma
tecnologia inovadora (ULRICH, 2014).

Assim, diferente de outras formas de transações, como as


contas bancárias ou cartão de crédito, o Bitcoin é uma moeda
descentralizada, isto é, ao realizarem transações, estas serão
verificadas pelos usuários da rede bitcoin e gravados os dados
da transação num banco de dados, denominado Blockchain.
O blockchain consiste em um “livro-razão”, onde são
registradas as transações realizadas utilizando a criptomoeda.
O registro das operações é público, mas em razão da
criptografia existente, impossível de ser hackeado. Dessa forma,
as partes envolvidas nas transações permanecem anônimas:

Sabe-se que o direito de usar uma


determinada quantidade de bitcoins “saiu”
de uma carteira (wallet) X e “entrou” em
uma carteira Y, mas não se sabe quem é o
titular dessas carteiras, nem qual foi o ato
ou negócio que ensejou a transmissão,
porque a informação é criptografada com a
chave pública do destinatário, mas
somente pode ser decodificada com a
senha privada da sua carteira
(FOLLADOR, 2017, p. 84).

Quanto à forma de adquirir bitcoins, temos basicamente


três:
187
(i) através do processo de mineração, onde os
“mineradores” utilizam seu poder computacional para
resolvem problemas matemáticos de alta
complexidade, destinados a verificar as transações no
blockchain. Concluída a análise das transações e
ocorrendo a atualização da blockchain, o “minerador”
ganha como recompensa Bitcoins. No entanto, a
remuneração fica cada vez mais difícil, uma vez que
Satoshi Nakamoto, criador da moeda, programou o
sistema para emitir o limite máximo de 21 milhões de
bitcoins;
(ii) através de corretoras ou casas de câmbio, na quais
são as principais formas de comprar e vender as
criptomoedas. As corretoras e casas de câmbio de
criptomoedas são muito parecidas com as instituições
financeiras comuns, com a diferença de que estas
trabalham com ações, enquanto que aquelas com
moedas virtuais; e por fim,
(iii) aceitar bitcoins como forma de pagamento, ou seja, a
pessoa poderá conseguir moedas virtuais aceitando-
as como pagamento pela prestação de serviço ou
venda de mercadorias.

A utilização de criptomoedas traz inúmeras vantagens. É


um excelente meio de troca, por oferecerem economicidade,
evitando a incidência de taxas de transações, que seriam
cobradas caso utilizassem instituições financeiras. Além disso,

188
a utilização de moedas virtuais traz como vantagem a
praticidade e celeridade, uma vez que as transações podem ser
realizadas em qualquer dia, horário ou local, e por não
contarem com a presença de um intermediário, como as
instituições financeiras, por exemplo, além de possuírem tempo
médio da realização das transações reduzidas. Nesse sentido,
Teixeira (2017), analisando os dizeres de Joel Kurtzman,
assenta:

Na análise do referido economista, o


dinheiro megabyte traz inúmeras
vantagens, tais como: é um excelente
veículo para transações, é movimentado
rapidamente e com facilidade, é impresso
magneticamente numa fita de computador,
é convertido de uma moeda para outra
numa fração de segundo, é negociado
rapidamente nos mercados de todo o
mundo e transformado quase
instantaneamente de bônus em ações ou
em opções e contratos de futuros. O
dinheiro megabyte não ocupa espaço, pode
ser contado automaticamente e nunca
estraga, corrói ou perde a cor (TEIXEIRA,
2017, p. 256).

No entanto, por não estarem as criptomoedas sobre o


controle de nenhum órgão regulador e por não possuírem
legislação especifica as regulando e sendo negociadas na base
da confiança, o valor do Bitcoin pode ser muito volátil, ou seja,
sofrer elevadas variações. Assim, uma pessoa que tenha hoje
R$ 100 mil em Bitcoins, pode ter apenas R$ 20 mil amanhã,
devido à grande instabilidade de tais moedas virtuais.
189
Após a compreensão sobre as criptomoedas, em especial
da moeda Bitcoin, nos resta nesse momento, verificar a
possibilidade de serem essas moedas virtuais penhoradas à luz
do ordenamento jurídico brasileiro.
4. POSSIBILIDADE JURÍDICA DA PENHORA DAS
CRIPTOMOEDAS

Nas sociedades primitivas o credor tinha a faculdade de


exigir do devedor o cumprimento de determinada prestação.
Caso não o fizesse o devedor responderia com seu próprio
corpo, podendo ser reduzido a escravo, juntamente com sua
mulher e filhos ou até mesmo morto, e repartido o cadáver
entre os credores, em caso de pluralidade destes.
Posteriormente, com o progresso da civilização e da
ordem jurídica, a Lex Poetelia Papiria inaugurou um novo
paradigma ao suprimir essa forma de execução, onde não mais
o corpo responderia pelos débitos, mas sim o patrimônio do
devedor. Dessa forma, seguindo tal inspiração, o patrimônio do
devedor passou a ser a garantia real dos credores.
O ordenamento jurídico brasileiro atual contempla
algumas formas que podem ser utilizadas no adimplemento da
dívida que podem ser perseguidas pelo credor, como, por
exemplo, a penhora, a hipoteca, o arresto, o sequestro e outros.
Apesar das várias possibilidades, neste momento, nos interessa
estudar o instituto processual da penhora.
Para Lourenço (2018, p. 601) a penhora consiste “em um
ato de apreensão judicial para, de maneira direta ou indireta,

190
ser empregado o bem apreendido na satisfação do crédito
exequendo.” Da mesma forma, Câmara (2018) leciona que:

Penhora é o ato de apreensão judicial dos


bens que serão empregados, direta ou
indiretamente, na satisfação do crédito
exequendo. Em outras palavras, a penhora
é um ato de constrição patrimonial,
através do qual são apreendidos bens que
serão utilizados como meio destinado a
viabilizar a realização do crédito do
exequente. Esta utilização pode ser direta
(que se dá quando o próprio bem
apreendido é entregue ao exequente a
título de pagamento da dívida, por
intermédio de uma técnica de expropriação
chamada adjudicação) ou indireta (que
ocorre nos casos em que o bem penhorado
é expropriado e transformado em dinheiro,
usando-se esta verba, obtida com a
alienação do bem penhorado, para pagar o
credor) (CÂMARA, 2018, p. 375).

A penhora, não havendo restrição legal, deverá ser feita


sobre tantos bens quantos bastam para garantir o pagamento
da obrigação principal atualizada, acrescida dos juros, bem
como das despesas processuais e dos honorários advocatícios.
Assim, a penhora não abrangerá nem menos nem mais do que
o suficiente para o pagamento de tais débitos, como proclama o
art. 831 do Código de Processo Civil de 2015:

Art. 831. A penhora deverá recair sobre


tantos bens quantos bastem para o
pagamento do principal atualizado, dos

191
juros, das custas e dos honorários
advocatícios (BRASIL, 2015).

Há de realçar, outrossim, que dispõe, o art. 789 do


CPC/2015 que o devedor, tanto pessoa física como jurídica,
responde com todos os seus bens presentes e futuros pelo
pagamento de suas dívidas, ficando excluídos destes, os bens
em que a lei declare não ser suscetível de constrição
patrimonial. Assim, pelo princípio da responsabilidade
patrimonial, os bens do devedor respondem pelo cumprimento
das obrigações pactuadas, mas cabe analisar se as
criptomoedas, integram como bens no patrimônio do devedor e
como ocorre eventual penhora das mesmas.
Vimos que as criptomoedas, também denominadas
moedas virtuais são uma forma de dinheiro, como o dólar e o
real, mas se diferenciam desta uma vez que são puramente
digitais e não são reguladas e emitidas por nenhum governo
soberano. São, portanto, bens incorpóreos dotados de valor
econômico.
Em novembro de 2017, a 36º Câmara de Direito Privado
do Tribunal de Justiça de São Paulo, se deparou com o primeiro
pedido de penhora de criptomoeda no Brasil, como ementado:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. Execução de


título extrajudicial. Penhora de moeda
virtual (bitcoin). Indeferimento. Pedido
genérico. Ausência de indícios de que os
executados sejam titulares de bens dessa

192
natureza. Decisão mantida. Recurso
desprovido.4

O julgamento teve a participação dos Desembargadores


Jayme Queiroz Lopes, Arantes Theodoro e o Relator Milton
Carvalho, que negaram provimento ao Agravo de Instrumento
nº 2202157-35.2017.8.26.0000, da Comarca de São Paulo, sob
a alegação de que a agravante não apresentou os devidos
indícios de que os “agravados tenham investimentos em bitcoins
ou, de qualquer outra forma, sejam titulares de bens dessa
natureza. Tampouco evidenciou que os executados utilizam
moedas virtuais em suas atividades”. No entanto, o relator do
caso, o Desembargador Milton Carvalho deixou claro que “por
se tratar de bem imaterial com conteúdo patrimonial, em tese,
não há óbice para que a moeda virtual possa ser penhorada
para garantir a execução”.
Dessa forma, por possuírem valor econômico, mesmo
sendo bens de natureza imaterial, as criptomoedas integram o
patrimônio do devedor.
Nesse campo, também se faz necessário analisar se o
ordenamento jurídico brasileiro permite que bens incorpóreos
sejam objeto de constrições patrimoniais na via judicial, ou
seja, se tais bens mesmo sendo de natureza imaterial são
passíveis de serem penhoradas. O art. 833 da codificação
processual civil vigente traz um rol de bens que são

4 Agravo de Instrumento nº 2202157-35.2017.8.26.0000, 36º Câmara de


Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, Relator: Milton Carvalho.
193
absolutamente impenhoráveis, isto é, que não podem ser
penhorados em hipótese alguma, ressalvada as exceções legais:

Art. 833. São impenhoráveis:


I - os bens inalienáveis e os declarados,
por ato voluntário, não sujeitos à
execução;
II - os móveis, os pertences e as utilidades
domésticas que guarnecem a residência do
executado, salvo os de elevado valor ou os
que ultrapassem as necessidades comuns
correspondentes a um médio padrão de
vida;
III - os vestuários, bem como os pertences
de uso pessoal do executado, salvo se de
elevado valor;
IV - os vencimentos, os subsídios, os
soldos, os salários, as remunerações, os
proventos de aposentadoria, as pensões,
os pecúlios e os montepios, bem como as
quantias recebidas por liberalidade de
terceiro e destinadas ao sustento do
devedor e de sua família, os ganhos de
trabalhador autônomo e os honorários de
profissional liberal, ressalvado o § 2o;
V - os livros, as máquinas, as ferramentas,
os utensílios, os instrumentos ou outros
bens móveis necessários ou úteis ao
exercício da profissão do executado;
VI - o seguro de vida;
VII - os materiais necessários para obras
em andamento, salvo se essas forem
penhoradas;
VIII - a pequena propriedade rural, assim
definida em lei, desde que trabalhada pela
família;
194
IX - os recursos públicos recebidos por
instituições privadas para aplicação
compulsória em educação, saúde ou
assistência social;
X - a quantia depositada em caderneta de
poupança, até o limite de 40 (quarenta)
salários-mínimos;
XI - os recursos públicos do fundo
partidário recebidos por partido político,
nos termos da lei;
XII - os créditos oriundos de alienação de
unidades imobiliárias, sob regime de
incorporação imobiliária, vinculados à
execução da obra.
[...]

Com a leitura do dispositivo legal supramencionado,


verifica-se que não há óbice para que as criptomoedas, por
serem bens imateriais, mas dotadas de valor econômico, sejam
excluídas da possibilidade de penhora, já que em nosso
ordenamento não há disposição legal proibindo a prática da
penhorabilidade de bens incorpóreos. Sendo assim, não
havendo previsão da exceção, incide a regra da penhorabilidade
do bem sobre as criptomoedas.
5. EXEQUIBILIDADE DA PENHORA DAS CRIPTMOEDAS

Pelo exposto, é inegável a possibilidade de penhora de


criptomoedas no ordenamento jurídico brasileiro. No entanto, o
mercado de moedas virtuais não conta com o controle e
fiscalização de uma autoridade central reguladora. Dessa
forma, o magistrado que analisa pedido de penhora de

195
criptomoedas na prática se depara com um grande problema:
saber se o devedor possui as criptomoedas e onde estão
depositadas.
Como visto, uma das formas de adquirir criptomoedas é
através de corretoras ou casas de câmbio, que auxiliam na
compra e venda das moedas. Tendo informações de que o
devedor tem por costume investir em moedas virtuais, deverá o
credor fornecer ao Poder Judiciário lista dessas instituições
para que então o magistrado envie uma ordem judicial, a fim de
verificar a existência e a quantidade de criptomoedas do
devedor e, então, efetivar a sua penhora.
Outro desafio para que ocorra a penhora de moedas
criptografadas é sua elevada volatilidade. Sabe-se que a
morosidade do Poder Judiciário pode fazer com que um
processo se desenrole lentamente e devido à alta volatilidade
das criptomoedas, o valor apontado no momento da penhora e
da satisfação do débito podem ser completamente diferentes.
Caso a moeda tenha se valorizado nesse lapso temporal, a
constrição patrimonial será eficaz, a dívida satisfeita e o valor
excedente (se for o caso) devolvido ao executado. No entanto,
caso as criptomoedas sofram uma desvalorização elevada, a
penhora terá sido frustrada.
Solução para esse problema é apresentado pelo
Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em
entrevista ao canal no Youtube da Professora Priscilla Menezes,
que consiste na aplicação análoga do art. 852 do Código de
Processo Civil de 2015:

196
Art. 852. O juiz determinará a alienação
antecipada dos bens penhorados quando:
I - se tratar de veículos automotores, de
pedras e metais preciosos e de outros
bens móveis sujeitos à depreciação ou à
deterioração; (BRASIL, 2015) (grifos
nossos)

Assim, ao realizar a penhora de criptomoedas, o


magistrado deverá ordenar a venda imediata da moeda virtual,
devido sua elevada volatilidade e grande possibilidade de
depreciação de seu valor econômico. O dinheiro obtido com a
venda das moedas criptografadas deverá ser depositado no
processo para futura satisfação do débito do devedor.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em conclusão, é fato que o estudo do desenvolvimento


histórico das relações negociais ao longo dos períodos históricos
auxilia no entendimento das transações modernas.
Nesse compasso, findado o estado de prevalência do uso
da força, o escambo surge como relevante forma de negociação
para suprir necessidades humanas. Tempos depois, a moeda
vem aprimorar as transações alargando os fluxos do mercado,
sendo, tempos depois, substituídas por títulos de crédito, e,
mais atualmente, até mesmo por criptomoedas, possíveis
graças aos meios tecnológicos.
De fato, na medida em que as relações negociais
avançam e se modificam, exige-se do Estado a devida

197
regulamentação para fins de garantia da ordem e da segurança
jurídica. Aplicando tal raciocínio no âmbito das criptomoedas, é
notório que o ordenamento jurídico brasileiro ainda tem muito a
regulamentar.
Todavia, malgrado a insuficiência da legislação pátria
sobre as criptomoedas, resta inequívoco que as mesmas são
dotadas de valor econômico, compondo, por conseguinte, o
patrimônio das pessoas físicas e jurídicas. Daí, do ponto de
vista jurídico, tais moedas, como a moeda Bitcoin, podem ser
penhoradas nos processos de execução, visto não existir óbice
legal, porém, alguns desafios podem emergir do ponto de vista
prático, ante as reais dificuldades de se provar que o devedor
possui esse tipo de investimento. Logo, entende-se que com
regulamentação adequada e fiscalização efetiva por parte do
Estado, no futuro (espera-se que bem próximo) esse tipo de
constrição patrimonial do devedor possa ocorrer com facilidade,
segurança e adequação, já que os avanços tecnológicos devem
ser elementos de concretização de direitos.
REFERÊNCIAS

ALVES, Alexandre Ferreira de Assumpção; SILVA, Priscilla


Menezes da. Exequibilidade da Penhora de Criptomoedas no
Processo De Execução Brasileiro. Revista de Processo,
Jurisdição e Efetividade da Justiça. Salvador, v. 4, n. 1, p.
70-90, jan/jun. 2018.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. COMUNICADO Nº 25.306, de


19 de fevereiro de 2014: Esclarece sobre os riscos decorrentes
da aquisição das chamadas "moedas virtuais" ou "moedas
criptografadas" e da realização de transações com elas.
Disponível em:
198
https://www3.bcb.gov.br/normativo/detalharNormativo.do?me
thod=detalharNormativo&N=114009277. Acesso em: 04 jan.
2019.

BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Institui o


Código de Processo Civil. Brasília. 2015. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-
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CÂMARA, Alexandre Freitas. O Novo Processo Civil Brasileiro.


4. ed. São Paulo: Atlas, 2018.

FOLLADOR, Guilherme Broto. Criptomoedas e Competência


Tributária. Revista Brasileira de Políticas Públicas. Brasília,
v. 7, n. 3, p. 79-104, dez. 2017.

LOURENÇO, Haroldo. Processo Civil Sistematizado. 4. ed. Rio


de Janeiro: Método, 2018.

MENEZES, Priscilla. Entrevista Des. Alexandre Câmara –


Possibilidade de Penhora de Criptomoedas. Disponível em:
https://youtu.be/2s_0g-8tjjA. Acesso em: 06 jan. 2019.

SÃO PAULO, Tribunal de Justiça do Estado de; 36ª Câmara de


Direito Privado. Agravo de Instrumento n. 2202157-
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DJSP 21 nov. 2017. Disponível em:
https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdAcordao=109886
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SILVA, Rodrigo Morais Paim. A Evolução da Moeda e a


Bitcoin: um estudo da validade da bitcoin como moeda. 68 f.
Monografia (Graduação em Ciências Econômicas) – Pontifícia
universidade católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.

TEIXEIRA, Tarcísio. Direito Empresarial Sistematizado:


Doutrina, Jurisprudência e Prática. 6. ed. São Paulo: Saraiva,
2017.

199
ULRICH, Fernando. Dez formas de explicar o que é Bitcoin.
2014. Disponível em:
https://www.infomoney.com.br/blogs/cambio/moeda-na-era-
digital/post/3160782/dez-formas-de-explicar-o-que-e-bitcoin.
Acesso em: 13 já. 2019.

VASCONCELLOS, Marco Antonio Sandoval de; GARCIA, Manuel


Enriquez. Fundamentos de Economia. 4. ed. São Paulo:
Saraiva, 2008.

200
O DIREITO REAL DE HABITAÇÃO: PRIMEIRAS REFLEXÕES
SOBRE SUAS CONTROVÉRSIAS

Luiza Moreira de Carvalho¹


Raphael Furtado Carminate²

RESUMO

O presente estudo sem pretensões exaurientes visa apresentar o


instituto do direito real de habitação e, a partir de análise
doutrinária, abordar as questões polêmicas envolvendo o tema.
Visando alcançar este objetivo, a presente discussão reside na
exploração do tema por meio da análise de sua evolução história,
abordando o surgimento do instituto e suas principais
características na atualidade, suas vicissitudes após o advento
do Código Civil de 2002. Dessa forma, procura-se abarcar alguns
principais enfrentamento das questões controvertidas do direito
real de habitação, que geram inúmeros conflitos doutrinários e
judiciais, considerando a família como instituto que deve ser
objeto de proteção legal.

Palavras-chave: entidades familiares, direito real de habitação,


direito sucessório cônjuge sobrevivente

INTRODUÇÃO
Em época na qual a estrutura social era altamente
matrimonializada e conservadora, o Estatuto da Mulher Casada
(Lei n° 4.121, de 1962) surgiu como meio de minimizar a
desigualdade entre os gêneros, dando maior autonomia à
mulher - até então considerada como relativamente incapaz -
conferindo-lhe maior proteção patrimonial ao introduzir o
direito real de habitação no ordenamento jurídico brasileiro.
Assim, o direito real de habitação, instituído pela norma
supracitada, garantia ao cônjuge sobrevivente, casado sob o

201
regime de comunhão universal de bens, o direito de continuar a
residir no imóvel da família enquanto não contraísse novas
núpcias e desde que fosse o único bem daquela natureza a
inventariar. Caso o regime de bens fosse outro, era resguardado
ao cônjuge sobrevivente o direito de usufruto da quarta parte
dos bens do de cujus, quando este deixasse filhos, e ao usufruto
da metade dos bens, caso não os tivesse.
A Constituição de 1988 trouxe novas tendências ao
direito das famílias, com a valorização de seus membros, o
reconhecimento de outras formas de família e a necessidade de
ampliação de sua proteção, uma vez reconhecida sua
importância para as estruturas sociais. Posteriormente, o
Código Civil e o direito real de habitação também sofreram
alteração, remanescendo, na legislação codificada atual, como
garantia que cabe somente ao cônjuge sobrevivente, conforme
preceitua o artigo 1.831 do Código Civil vigente.
Ocorre que, o direito real de habitação estabelecido no
Código Civil de 2002 é marcado por algumas inconsistências na
redação que geram controvérsias em relação a sua
interpretação. Assim, o presente artigo se propõe a analisar
algumas das questões controvertidas que o circundam,
partindo de uma abordagem histórica do instituto e de seus
principais fundamentos, seguida da análise do posicionamento
doutrinário e jurisprudencial a respeito destes aspectos.
1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO DIREITO REAL DE
HABITAÇÃO
Para melhor compreensão do tema, é importante abordar
o contexto histórico do direito real de habitação no

202
ordenamento jurídico brasileiro, o que nos permitirá refletir
sobre sua finalidade enquanto instrumento de garantia dada ao
consorte sobrevivente.

1.1 A PROTEÇÃO PATRIMONIAL DO CÔNJUGE


A sucessão legítima do cônjuge não é matéria nova no
ordenamento jurídico brasileiro. Já nas primeiras codificações,
a ordem de vocação hereditária, trazida pelas ordenações
Filipinas, concedia ao cônjuge mulher do falecido casado a
qualidade de herdeira universal, desde que ausentes parentes
até o décimo grau. Teixeira de Freitas manteve as tradições
previstas na codificação Filipina quando da elaboração do
esboço do Código Civil, não apresentando nenhuma inovação
com relação à posição do cônjuge na ordem de vocação
hereditária. (ANDRADE, 2018, p.20).
Com o advento da Lei Feliciano Pena (Decreto n° 1839 de
1907), o cônjuge passou a ocupar terceira posição na ordem de
vocação hereditária, além de preferir aos colaterais, agora, até
sexto grau. Tal modificação, que já estava prevista no projeto do
Código Civil proposto por Clóvis Beviláqua, refletiu a
necessidade de reconhecer e privilegiar o cônjuge enquanto
membro importante da família.
O Código Civil de 1916 buscou manter a tendência do
Decreto n° 1839, dispondo que a sucessão do cônjuge só se
daria na ausência de ascendentes e descendentes, e desde que,
à época da morte do autor da herança, não estivesse dele
desquitado ou que aquele não houvesse deixado testamento
dispondo da integralidade de seu patrimônio a terceiro. No
203
entanto, o cônjuge não era considerado como herdeiro
necessário, apenas os ascendentes e descendentes ocupavam
essa posição. Além, disso, o amparo legal ao cônjuge apenas
socorria àqueles que tivessem optado pelo regime legal de bens,
deferindo ao consorte metade do patrimônio do de cujus em
razão da meação. Os casados sob regime diverso ficavam
desprotegidos caso o cônjuge tivesse deixado ascendentes ou
descendentes, ou ainda apenas bens particulares.
O Estatuto da Mulher Casada (Lei 4.121/1962) surgiu
como um reconhecimento da mulher como importante
colaboradora não só para a estrutura familiar, mas para a
construção do patrimônio conjugal, afastando sua inferioridade
e concedendo-lhe alguma autonomia em relação ao esposo.
Nesse momento, a mulher casada deixou de ser considerada
como relativamente incapaz, podendo agora praticar atos que
antes dependiam da autorização marital, como por exemplo,
para o exercício de profissão.
Por este motivo, a lei passou a se preocupar em não
deixar o cônjuge sobrevivente ao desabrigo e ampliou os
benefícios decorrentes do casamento, com a introdução do
usufruto vidual e modificação do direito real de habitação
concedido ao viúvo. Para tanto, foram acrescidos ao artigo
1.611 os parágrafos 1º e 2º. A proteção de que tratava o aludido
artigo, porém, dependia do regime de bens do casal: o cônjuge
supérstite casado no regime de comunhão universal de bens
adquiriria o direito de residir no imóvel familiar enquanto
perdurasse a viuvez e desde que fosse o único bem daquela

204
natureza a inventariar. Em relação ao usufruto vidual, tratado
no parágrafo 1°, restaria ao consorte casado em regime diverso.
Nesse caso, sobre a cota de bens que usufruiria, a referida
norma estabelecia que em havendo filhos, caberia a quarta
parte dos bens do falecido, entretanto, não os havendo, seria da
metade. Entretanto, apesar da melhoria da condição da mulher
casada e de representar uma superação em prol de sua
emancipação, alguns autores, como Caio Mário da Silva Pereira,
asseveram que a Lei n°4.121/62 deixou a desejar em alguns
aspectos, deixando resquícios de certas desigualdades.
Importante destacar que a finalidade do instituto do
direito real de habitação era, senão, garantir alguma qualidade
de vida ao consorte sobrevivente independente da existência de
testamento a seu favor. Nesse sentido, conforme preleciona
Daniel Blikstein, embora os textos legais atinentes ao direito
real de habitação e o usufruto vidual buscassem conceder
direitos à mulher casada, os benefícios de sua aplicação
favoreciam tanto o homem quanto a mulher.
Mais tarde, houve nova alteração no artigo 1.611 do
Código Civil de 1916, com a Lei 10.050/2000, que estendeu o
benefício conferido pelo parágrafo 2º ao filho necessitado
portador de deficiência. Finalmente, o Código Civil de 2002
trouxe diversas mudanças em relação ao seu antecessor,
especialmente no que tange ao direito real de habitação na
sucessão hereditária dos cônjuges sobreviventes. O artigo 1.831
extinguiu o usufruto vidual e positivou o direito real de
habitação vitalício ao cônjuge supérstite (ANDRADE, 2018,

205
p.29). Além disso, com a mudança, as disposições do referido
artigo subsistirão em favor do cônjuge independente do regime
de bens adotado pelos nubentes e sem prejuízo da participação
que exista na herança. Ademais, não menciona a necessidade
de que o cônjuge permaneça viúvo ou limita o valor do imóvel,
de forma que a única condição imposta é a necessidade de que
o imóvel destinado à residência seja o único da mesma natureza
a inventarias. Notadamente, na hipótese de falecimento de
cônjuge beneficiado que constituiu nova família, o direito de
habitação será extinto. Importante notar, também, a escolha do
legislador por não contemplar o filho com deficiência, na falta
do pai ou da mãe e os conviventes em união estável, deixando
espaços para diversas interpretações sobre a possibilidade ou
não de aplicação por analogia.
A entrada em vigor do Código de 2002 trouxe à baila uma
série de divergências entre os estudiosos sobre o direito real de
habitação, principalmente, em relação às consequências da
extensão da proteção do instituto e a condição de que seja o
único imóvel de natureza residencial. Um dos temas
controvertidos é em relação à preocupação da lei em não deixar
o cônjuge sobrevivente desamparado, mas não ter essa mesma
preocupação com os filhos menores. Entretanto, para melhor
compreendermos o tema, é necessário pontuarmos algumas
características do direito real de habitação no ordenamento
jurídico pátrio.

1.2 ASPECTOS GERAIS E FUNDAMENTO JURÍDICO DO


DIREITO REAL DE HABITAÇÃO

206
O direito real de habitação está inserido no livro do
direito das sucessões, parte especial do Código Civil. No que
tange às características do instituto, estão regulamentadas no
título de direitos reais, especificamente nos artigos 1.414, 1415
e 1.416, sendo aplicáveis também, de forma subsidiária, as
disposições inerentes ao usufruto.
Para Maria Berenice Dias (2013, p. 64):

O direito Real de habitação leva ao


desdobramento da propriedade,
assegurando ai viúvo a posse direta do
bem, na qualidade de usufrutuário,
enquanto a nua –propriedade pertence aos
herdeiros, configura uma hipótese de
sucessão anômala, que derroga o princípio
da unidade da sucessão, transmitindo ao
cônjuge um legado ex-lege, um direito
limitado quanto ao objeto individualmente
considerado, certo e determinado,
separado do patrimônio hereditário para
garantia da moradia, caracterizando uma
sucessão a título singular.
Ainda sobre o conceito do instituto, Tartuce (2014, p.
229): dispõem que “trata-se do mais restrito dos direitos reais
sobre a coisa alheia, pois, em tese, autoriza o seu uso apenas
com a finalidade de residência, concedendo a utilização para
outras finalidades, ou a retirada de frutos, caso da locação,
como ocorre no usufruto” [...].
A garantia pode ser concedido em favor de qualquer
pessoa por ato unilateral de vontade ou por determinação legal.
Assim, o direito de habitação concede a determinada pessoa ou
determinadas pessoas, como direito personalíssimo, o direito
207
gratuito de, exclusivamente, habitar casa alheia, cessando com
a morte da pessoa contemplada. As despesas ordinárias e de
conservação do bem são incumbidas ao titular do direito, por
força dos artigos 1.403 e 1.404 do Código Civil.
A existência do direito real de habitação não permite aos
proprietários de parte ou da totalidade do imóvel, pleitearem a
extinção de condomínio e a alienação da coisa comum. Nessa
hipótese, o habitador não terá que pagar aluguel aos demais
coproprietários ou beneficiários, caso o direito de habitar seja
concedido a mais de uma pessoa. Além disso, quando o
benefício for concedido a mais de uma pessoa, um titular não
poderá obstar o direito de habitar do outro, surgindo a única
possibilidade de utilização conjunta do imóvel.
O fundamento jurídico do direito real de habitação
decorre do dever de assistência, pelo princípio da solidariedade
social (artigo 3°, inciso I, da Constituição federal de 1988).
Assim, sob o ponto de vista da Carta Magna, o princípio da
solidariedade implica respeito e consideração mútuos em
relação aos membros da família e na importância da
manutenção desta para a construir uma sociedade livre, justa e
solidária. Desse modo, o direito real de habitação “impõe que
terceiros fiquem privados do direito de usufruir da posse ou
mesmo do direito de residir no imóvel herdado” (ANDRADE,
2018, p.37) tendo em vista a necessidade de amparo ao cônjuge
sobrevivente. O problema aqui é que a lei não prevê qualquer
limite ou critério para identificar a vulnerabilidade que
justifique a proteção conferida, o que acarreta, nas palavras de

208
Patrícia Andrade, em distorção da finalidade do instituto,
propiciando mitigação injustificável de direito alheio, a
desigualdade e o enriquecimento sem causa.

2.QUESTÕES CONTROVERTIDAS SOBRE O DIREITO REAL


DE HABITAÇÃO

Analisadas as principais características do direito real de


habitação, cabe agora tratar das questões controvertidas que
envolvem o tema e suas implicações para a aplicação do
instituto.

2.1 O DIREITO REAL DE HABITAÇÃO DIANTE DOS NOVOS


PARADIGMAS DE FAMÍLIA

Como visto, os primeiros esboços do direito real de


habitação enquanto instituto surgiram no Código Civil de 1916
em um contexto de sociedade matrimonializada, onde a única
forma reconhecida de família era aquela advinda do casamento,
além de conservadora, patrimonialista e patriarcal, que
colocava a mulher em posição de submissão em relação ao
homem, sem nenhuma autonomia.
Com conquista feminina de espaço no mercado de
trabalho , o conceito de família passou a ser nuclear, com
valorização de cada componente da entidade familiar e, mais
tarde, a Lei n° 4.121/62 extinguiu a relativa incapacidade da
mulher, imputando-lhe maior autonomia. Ocorre que, apesar
da vigência da lei, a mulher ainda se encontrava em posição de
desigualdade em relação ao marido, pois ainda ocupava posição

209
secundária no âmbito familiar e necessitando de amparo em
razão de sua vulnerabilidade em prol da solidariedade familiar.
Diante deste quadro, era adequada a proteção conferida ao
cônjuge enquanto colaborador do núcleo familiar.
A Constituição de 1988 trouxe novas tendências para o
conceito de família e elevou a mulher a um patamar mais
igualitário, conforme assevera Patrícia Andrade:
(...) em 1988, a igualdade de gêneros
restou exaltada na Constituição da
República. As mulheres consagraram a
sua independência e autonomia, o
conceito de família ganhou novos
contornos, tornando-se um núcleo, que
pode ser estabelecido pelo afeto, de
promoção da autonomia e da realização
pessoal de cada membro. Assim, outras
formas de relações interpessoais
ganharam o status de entidade familiar e o
divórcio foi facilitado. Sob a égide dos
modernos fundamentos constitucionais e
da autonomia privada, atrelada à
inexorável busca individual por novas
realizações e pela felicidade, as famílias se
desfazem e se refazem, rapidamente, as
relações se tornam mutáveis, flexíveis e
efêmeras. (ANDRADE, 2018, p. 66).

Contudo, diante da transmutação dos paradigmas


familiares, o direito real de habitação precisa de revisão
buscando sua adequação à nova dinâmica familiar sob pena de
esvaziar o sentido do dispositivo. Ao beneficiar o cônjuge
sobrevivente com a moradia vitalícia, o legislador negligenciou o
fato de a incidência do direito real de habitação acarreta em
restrições ao direito de propriedade de terceiros. Assim, não

210
parece justificável a tutela da moradia permanente ao consorte,
com base na presunção de solidariedade e hipossuficiência da
mulher e em detrimento dos demais herdeiros. É necessário,
conquanto, analisar a situação do consorteno caso concreto
com intuito de averiguar a necessidade ou não de concessão do
benefício.

2.2 A (IN)APLICABILIDADE AOS CONVIVENTES EM UNIÃO


ESTÁVEL

A lei nº 9.278 de 10 de maio de 1996, no parágrafo único


do artigo 7º prevê o direito real de habitação ao companheiro
sobrevivente, enquanto vivo e não constituir nova união estável
ou contrair casamento. Também a Constituição Federal, em seu
artigo 226, §3º reconhece a união estável como entidade
familiar para efeitos de proteção do Estado. Contudo, o Código
Civil de 2002 atribuiu o direito real de moradia exclusivamente
ao cônjuge, sem mencionar o convivente.
A omissão da legislação gerou grande discussão
doutrinária, conforme assevera Paulo Nader (214, p.162):

Pertinente ao direito Real de habitação,


que é de natureza assistencial o legislador
de 2002 não contemplou o companheiro
sobrevivo, diferentemente do tratamento
dispensado ao cônjuge (art.1.831).
Relevante na plena compreensão da
matéria é que, de um lado, o Código não
negou o benefício, expressa ou
tacitamente, apensa omitiu-se a respeito.
Não há como se inferir na norma proibitiva
implícita, pois inaplicável o argumento
contrário sensu, De outro lado, o art. 7º,
211
parag., único, da Lei nº 9.278/96, prevê
o jus in re alínea: “Dissolvida a União
Estável por morte de um dos conviventes
terá o direito real de habitação, enquanto
viver ou não constituir nova união ou
casamento, relativamente ao imóvel
destinado à residência da família”. Como a
Lei não foi revogada e o benefício se
harmoniza com ames legis, de fundo
humanitário, há de se entender que o
direito real de habitação é conferido pela
ordem jurídica também ao companheiro
sobrevivo. (Itálico no original)

Assim, a doutrina se dividiu em duas principais


correntes sobre o tema. A primeira sustenta a tese de que o
direito real de habitação não se aplica a companheiro
sobrevivente, eis que a Lei n° 9.278/96 foi revogada tacitamente
pelo Código Civil de 2002, tendo em vista que o legislador optou
por estabelecer todas as regras acerca do direito sucessório do
cônjuge no artigo 1.790 do Código Civil. Assim, se o legislador
deixou de lado a inclusão do companheiro é porque não tinha o
propósito de beneficiá-lo.
Em contrapartida, outra parcela entende que o Código
Civil não revogou a o artigo 7º da Lei 9.278, permanecendo ele
vigente e concedendo direito de habitação ao consorte, ou
ainda, que o benefício deve ser aplicado por analogia como
forme de evitar injustiças contra os conviventes. Apesar de a
primeira corrente mostrar-se robusta considerando uma análise
meramente processual, ela deixa questões de grande relevância
sem respostas, além de que restringir aos conviventes em união
estável a proteção conferida pelo instituto implica em violação à
212
ordem constitucional que garante tratamento isonômico às
entidades familiares (ANDRADE, 2018, P.72).
Esta questão foi recentemente resolvida pelo Supremo
Tribunal Federal – STF, em maio de 2017, ao concluir o
julgamento que discutia a equiparação entre cônjuge e
companheiro, tanto da união heteroafetiva quanto da
homoafetiva, para fins de sucessão, considerando ainda as
uniões homoafetivas, proferidas no julgamento dos Recursos
Extraordinários (REs) 646721-RS e 878694-MG, tendo ambos a
repercussão geral reconhecida. No julgamento, os ministros
declararam a inconstitucionalidade do artigo 1.790 do Código
Civil, que instituía o regime sucessório aplicado a união estável.
Portanto, ainda que o art. 1831 reste silente a respeito à sua
aplicação aos conviventes em união estável, no sistema
constitucional vigente, é inconstitucional a distinção entre
cônjuges e companheiros, devendo ser aplicado por analogia,
inclusive, às uniões homoafetivas.
2.3. ADEQUAÇÃO DA PROTEÇÃO VITALÍCIA

Apesar de alguns autores, como José Tadeu Neves


Xavier, apontarem a vitaliciedade do instituto como avanço,
outros, como Mario Roberto Carvalho Faria consideram um
absurdo a manutenção do benefício mesmo após o cônjuge
sobrevivente contrair novas núpcias ou nova união. Nesse
mesmo sentido, Patrícia Andrade considera imprópria a
perpetuação da proteção diante da Constituição de nova
família, eis que o direito real de habitação funda-se na
solidariedade familiar proveniente dos laços familiares. Esses
213
laços, se perpetuados, estabelecerão uma cadeia infinita de
obrigações, à medida que forem se formando novos vínculos.
Portanto, conforme explica Andrade, não há justificativa para a
manutenção da vitaliciedade do instituto:

Para que fique mais evidente o


contrassenso, é possível estabelecer um
raciocínio analógico do direito real de
habitação com a obrigação de prestar
alimentos, também embasada no preceito
solidário das entidades familiares. Embora
a obrigação de prestar alimentos tutelada
no artigo 1.700 do Código Civil e o direito
de habitação tenham o mesmo
fundamento e a mesma finalidade, qual
seja, de não deixar ao desamparo o
cônjuge ou companheiro sobrevivente, na
mesma codificação em que o direito à
moradia [e vitalício, o dever alimentar
cessa com o casamento, a união estável ou
o concubinato do credor, conforme caput
do artigo 1.708 do Código Civil. Não há
razão lógica para tal distinção. Entretanto,
mostra-se mais precisa a normatização
dos alimentos que põe termo à obrigação,
mesmo que decorrente de vínculo
biológico, com a formação de uma nova
entidade familiar. (ANDRADE, 2018, p.84)
Ainda nesse sentido, a ideia da vitaliciedade do direito
real de habitação também não agrada a Venosa por configurar
injustiça com os demais herdeiros (2017, p. 171): “um novo
consorte é trazido para dentro do imóvel a viver com o
supérstite e os herdeiros legais ou testamentários não poderão
usufruir do imóvel”. Contudo, não se trata de deixar o cônjuge
sobrevivente desamparado, mas de fazer uma análise casuística

214
acerca da situação. Considerando situação de de cujus que
contraiu núpcias várias vezes durante a vida, deixando filhos
mais velhos que o cônjuge supérstite, o que pode ocorrer é de
nunca os filhos desfrutarem do patrimônio deixado, pois o
cônjuge supérstite tem expectativa de vida maior, e o direito
real de habitação é vitalício.

2.4. A PROBLEMÁTICA DO DIREITO REAL DE HABITAÇÃO


SOBRE IMÓVEL COM COPROPRIETÁRIOS ESTRANHOS À
RELAÇÃO FAMILIAR

O artigo 1.831 do Código Civil não impôs como requisito


para a incidência da tutela que a propriedade do imóvel seja de
propriedade plena do falecido. A omissão da norma trouxe à
baila um debate acerca da possibilidade manutenção do direito
de habitar vitalício ao cônjuge sobrevivente no imóvel onde o
casal residia quando o bem é em condomínio com terceiros eu
não tem vínculo com o casal, restringindo o direito de posse
desses.
A imposição do direito real de habitação a terceiro sem
nenhum vínculo familiar, entretanto, parece descomedida. A
proteção conferida pelo instituto tem a finalidade de conceder
amparo e moradia ao cônjuge sobrevivente com fundamento na
solidariedade familiar. Assim, o ônus derivado do direito real de
habitação recai sobre os consortes, mas terceiros não devem
suportá-lo. Essa é, inclusive, a posição defendida Pablo
Malheiros da Cunha Frota, que assevera:
Não parece correto esse segundo
entendimento (de eu deve persistir a tutela
ainda eu sobre bem em condomínio), por
215
tornar o DRH um direito absoluto, sendo
possível que a moradia seja protegida de
outras maneiras, pela tutela possessória
ou pela partilha de bens, quando houver
outros bens partilháveis, não se podendo
restringir a titularidade proprietária de tal
maneira com o DRH (FROTA, 2016, p.11)
Portanto, não parece plausível que as obrigações
derivadas do direito real de habitação recaiam sobre o direito de
terceiros eu não mantenham vínculo familiar com o de cujus,
obstando-lhes a propriedade plena. Nesse sentido, o Código
Civil argentino parece mais acertado ao estabelecer como
requisito para o reconhecimento do direito real de habitação
que o imóvel, ao tempo da abertura da sucessão, seja de
propriedade plena do falecido.
2.5 DO TRATAMENTO DIFERENCIADO ENTRE OS FILHOS

Como ressaltado, tendo em vista as novas formas de


Constituição de família, é bastante comum que as pessoas
tenham filhos advindos de relacionamentos anteriores. São as
chamadas famílias reconstruídas. Assim, há possibilidade do (a)
novo (a) companheiro exercer papel equivalente ao dos pais em
relação aos filhos havidos em relacionamentos anteriores, como
também subsiste a possibilidade de que a convivência entre
estes e aqueles seja insuportável. Também pode ocorrer que os
filhos comuns do casal usufruírem o bem em razão do vínculo
familiar com o cônjuge sobrevivente em detrimento dos filhos
exclusivos do falecido, que podem impedidos de habitar o
imóvel, ainda que precisem. Tudo a depender do grau de
proximidade com o beneficiário seja ele afetivo ou biológico.

216
Nesse cenário, questiona-se o que deve persistir: o direito real
de habitação eu garante moradia ao cônjuge ou o direito
constitucionalmente garantido de moradia dos filhos exclusivos
do de cujus?
Ainda que raros julgados cuidem dessa temática, na
maioria das vezes as decisões optam por uma aplicação literal
da norma. Entretanto, na relatoria do REsp 1.134.387, a
Ministra Nancy Andrighi, buscou relativizar a aplicação do
instituto e negou a aplicação do direito real de habitação em
razão do condomínio do bem com os outros filhos do falecido
que não integravam o grupo familiar. Nessa linha de
pensamento, o voto proferido foi no sentido de buscar maior
isonomia entre os filhos e a preservação do bem-estar entre os
ascendentes do de cujus de forma que o direito real de
habitação não deveria afrontar o direito de propriedade dos
demais herdeiros diante da ausência de vínculo de
parentalidade entre a viúva e os filhos exclusivos do falecido.
Entretanto, o posicionamento da ministra não encontrou
respaldo.
Um possível caminho para a solução da avença pode ser
encontrada no direito de habitação chileno, que estabelece uma
preferência ao cônjuge sobrevivente para usar de sua cota parte
da herança para adquirir o imóvel e, somente não havendo
recurso suficiente para a aquisição, o conserte faria jus ao
direito real de habitação. O Código Chileno, ainda que não
ofereça a decisão mais acertada, procura minimizar a restrição
ao direito de terceiros, concedendo a tutela do benefício apenas

217
se for necessário. Assim, a necessidade deveria ser considerada
requisito para aplicação da norma, pois no contexto familiar
contemporâneo a vulnerabilidade e hipossuficiência do cônjuge
sobrevivente não deve ser presumida, mas averiguada de
acordo com o caso concreto. Imagine que o cônjuge
sobrevivente possua condições mais do eu necessárias para
manter-se, ou eu tenha outro imóvel onde possa residir. Nesses
casos, reconhecer-lhe o direito real de habitação é ignorar
a ratio da norma. A esse respeito, assim apregoa Patrícia
Andrade:

De fato, a análise não se esgota na


finalidade de proteger o consorte
desassistido. Para eu a previsão legal
tenha utilidade e se justifique, é
indispensável eu o cônjuge necessite da
tutela, pois a inexistência de
hipossuficiência, além de afastar a
solidariedade familiar e esvaziar a norma,
importará em relativização arbitrária e
desmotivada de direitos fundamentais de
terceiros. (ANDRADE, 2018, p. 99)
A proposta apresentada por Patrícia Andrade é de que,
uma vez constatada a ausência de necessidade do cônjuge, o
direito de habitar deveria lhe ser negado. Havendo filhos, tanto
comuns quanto exclusivos, se ambos precisassem da proteção
conferida pela norma, admitir-se-ia a composse. Caso a
convivência seja conflituosa, restando possível a dissolução do
condomínio e cada parte receberia o equivalente a seu
montante do imóvel.

218
O que se vislumbra, em verdade, é a incapacidade do
Direito de acompanhar os anseios e mudanças de paradigmas
da sociedade. Todavia, resta demonstrada que a excessiva
proteção conferida pelo direito real de habitação carece de
hermenêutica que busque adequar a norma à realidade
(ADRADE, 2018), pois sua configuração é, muitas vezes, débil
em relação ao contexto atual.
2.6 APLICAÇÃO DO DIREITO REAL DE HABITAÇÃO EM
IMÓVEIS DE VALOR VULTOSO OU AINDA QUE NÃO SE
TRATE DE ÚNICO IMÓVEL DE NATUREZA RESIDENCIAL A
INVENTARIAR

Sobre a hipótese de o imóvel objeto de direito real de


habitação ser o único imóvel a inventariar, a jurisprudência já
vem afastando esta necessidade sob fundamento de que o que
se busca proteger é a moradia, garantindo ao cônjuge,
independentemente do número de bens imóveis deixados
pelo de cujus, um patrimônio mínimo até porque a proteção é
da moradia e não da titularidade proprietária (TJSP, AgIn
0029149-90.2013.8.26.0000).

José Luiz Galvão Almeida, no Código Civil Comentado,


defende que ao menos um imóvel deve ser assegurado ao
cônjuge supérstite:

Há que se entender, então, para não


chancelar extrema injustiça, que, no caso
de existirem vários imóveis residenciais e
nenhum deles de propriedade do cônjuge
sobrevivente, não tem ele direito real de
habitação sobre o imóvel que utilizava,
porque nesse caso podem os herdeiros, por
219
conveniência, exigir a mudança de
domicílio do sobrevivente para outro dos
imóveis residenciais que foram objeto da
herança. A existência de outros imóveis
residenciais não afasta o direito real de
habitação, mas apenas o direito real de
habitação sobre o bem que servia de
moradia à família do falecido. Nesse caso,
o imóvel ofertado em substituição não
pode ser de conforto inferior. Deve-se
garantir ao cônjuge sobrevivente a mesma
situação que desfrutava em sua residência
anterior. (ALMEIDA, 2003 p.220)
A condição para que seja o único imóvel, a primeiro
momento, parece imprópria, pois abrange todos os regimes de
bens, não havendo como presumir a titularidade do imóvel ao
consorte pela meação. Além do mais, restringir a concessão da
tutela apenas quando o falecido deixar um imóvel é restringir
ainda mais o direito dos coproprietários e demais herdeiros.
(PEREIRA, 2012, p.126), que não poderão exercer a propriedade
plena. Tal necessidade deturpa os objetivos do instituto, como
na hipótese em que o de cujus deixa volume considerável de
bens de outra natureza e ao viúvo é atribuído valor considerável
em fortuna, ou ainda quando este possui outro imóvel próprio.
Assim, garantir ao cônjuge supérstite o direito real de habitação
sobre o único imóvel do espólio é gravoso do ponto de vista dos
demais herdeiros. Nesse sentido, a aplicação literal da norma
fere aos princípios da dignidade humana e ao direito de
moradia dos herdeiros, pois nas hipóteses aqui aforadas, o
viúvo não necessitaria do imóvel para promover sua existência
digna.

220
Quanto aos imóveis de alta monta, a jurisprudência não
parece se preocupar com o tema, reconhecendo o direito
independente do valor em que fora avaliado. Entretanto, não
parece haver nenhuma justificativa jurídica para a manutenção
desse entendimento, em razão do mesmo argumento de que,
para manter uma vida digna, não é necessário habitar em
imóvel de elevado valor. A esse respeito, assim aduz Patrícia
Andrade:

Os argumentos para que seja possível a


penhora de imóveis de valor vultoso são os
mesmos que se devem considerar para que
seja rechaçado o direito real de habitação
no caso apresentado: não é necessário um
imóvel de alta monta para garantir a
dignidade e a moradia dos beneficiários, é
arbitrária e injusta a manutenção de
pessoas em um imóvel de luxo em prejuízo
do crédito ou propriedade de terceiros.
Nessa situação, inexiste mitigação de
direitos, e sim violação desmotivada de
preceitos fundamentais. (ANDRADE, 2018,
p105)
Ocorre que este não é o posicionamento majoritários dos
tribunais, que considera irrelevante o valor conferido ao imóvel
para a aplicação da proteção, uma vez que o artigo 1.832 do
Código Civil não estabeleceu nenhum limite nesse sentido.
Assim, o Projeto de Lei nº11.381, de 2006, eu propunha
limitação do valor do imóvel para 1.000 salários mínimos foi
vetado pelo presidente à época. Este posicionamento reflete um
verdadeiro descuido com a utilidade do instituto, com seu fim
social e com a observância aos princípios constitucionais, que

221
devem ser levados em conta para a aplicação de qualquer regra.
O que se vê é uma interpretação superficial e negligenciada da
norma, que acarreta em sua aplicação desarrazoada.

3.CONSIDERAÇÕES FINAIS

O advento do Código Civil de 2002 trouxe várias


inovações para o direito sucessório, principalmente em relação
à proteção do cônjuge sobrevivente. Ocorre que, tendo em vista
o direito real de habitação, essas alterações não conseguiram
acompanhar a evolução da sociedade contemporânea,
principalmente no que tange a conquistas de espaço da mulher.
Hoje, não se aplica a presunção de hipossuficiência da mulher,
especialmente no âmbito familiar.
Diante do eu foi exposto neste artigo, é possível verificar
que, de modo geral, o direito real de habitação foi um
importante instrumento do direito de família eu objetiva
garantir equilíbrio do núcleo familiar. Entretanto, o instituto
carece de reforma, pois se mostra retrógrado à medida que não
reflete a atual realidade das famílias brasileiras. Assim, para
efetivamente servir ao fim que se destina, é necessário
estabelecer alguns limites para a aplicação da proteção
conferida pelo instituto visando proteger direito de terceiro, que
é atingido muitas vezes sem justificativa jurídica.
Este breve estudo abordou toda a evolução histórica do
instituto e tratou de algumas de suas falhas. Tudo isso para
evidenciar as questões incongruentes da norma, o que nos leva
a considerá-la inadequada para o atual cenário de evolução da

222
sociedade. Por óbvio, a saída para os dilemas apresentados
seria conferir à norma interpretação conforme e não literal,
impondo-lhe limitações por meio da hermenêutica ou com uma
possível alteração da norma, adequando o direito real de
habitação às demandas sociais atuais.
Por fim, o tema ainda é bastante controvertido,
carecendo de reflexões profundas sobre as suas mais diversas
vertentes de aplicação. A intenção aqui é contribuir para o
debate no âmbito acadêmico, somando-se aos artigos que já
abordaram o tema.
REFERÊNCIAS

ALMEIDA, José Luiz Gavião. Código Civil comentado: direito


das sucessões, sucessão em geral legitima: arts. 1.784 a 1.856,
São Paulo: Atlas, 2003. v. 18.

BLIKSTEINS, Daniel. O direito real de habitação na sucessão


hereditária. Belo Horizonte: Del Rey, 2012.

CAMPOS, Maria Luiza Nascimento. Direito real de habitação e


sua aplicabilidade nas instituições familiares. Itajaí, 2010.

COSTA, Patrícia Andrade Perdigão. O direito real de habitação


na sucessão causa mortis. Belo Horizonte: D’Plácido, 2018.

FROTA, Pablo Malheiros da Cunha. O direito real de habitação


e a sua possível relativização no direito sucessório brasileiro:
primeiras reflexões. Revista de Direito Civil Contemporâneo,
2016. Disponível em
< http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/documentacao_
e_divulgacao/doc_biblioteca/bibli_servicos_produtos/bibli_bolet
im/bibli_bol_2006/RDCivCont_n.8.12.PDF>

DIAS, Maria Berenice. Manual das Sucessões. 2013. p. 64.

223
PEREIRA, Caio Mario da Silva. Instituições de direito civil:
direito das sucessões. Rio de Janeiro: Forense, 2012. v. VI. 19
ed.

TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 5. ed. São Paulo: Ed.


Método, 2015.

VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: Reais. 17 ed. São Paulo:


Ed Atlas, 2017. V.4

224
DEMOCRACIA, SISTEMAS E DIREITO: UMA ABORDAGEM A
PARTIR DO DIREITO CONSTITUCIONAL E DA FILOSOFIA
POLÍTICA

Marcos Ribeiro1
René Dentz2

A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO PLEBISCITO NA HISTÓRIA DA


HUMANIDADE

Em primeira análise, faz-se necessário observar a


morfologia etimologia e semântica dos termos plebiscito e
referendo. No tocante ao termo plebiscito, vê-se a junção do
termo plebis que vem do latim “povo” e Sectium (decreto) na
idade média, uma versão especificava que o plebiscito referia-se
a “algo que o povo sabe” em latim: Plebe scitum.
Nesse sentido, a própria morfologia de plebiscito,
contempla a etimologia do mesmo, pois temos que o plebiscitum
é a vontade do povo.
Agora parte-se para a análise do termo referendo, que a
exemplo de plebiscito, origina-se do latim, referendum, inclusive
muitos doutrinadores usam a nomenclatura referendum em vez
de referendo, dentro deles podemos citar o constitucionalista
Pinto Ferreira.
Ao contrário do plebiscito, o referendo não consiste em
composição de termos, mas sim em um termo único, que
significa “para aprovação” referendar significa, portanto,
aprovar e no caso específico a vontade popular.

1Bacharel em Direito pela FACEMG-Belo Horizonte; Advogado militante.


2Professor Titular da UNIPAC-Mariana; Membro do International Institute for
Hermeneutics; Psicanalista; Ph.D. pela Warsaw University.

225
Sob o viés histórico, o plebiscito como instituto surgiu o
declínio do Império Romano (27- a.c até 476 d.c.), mais
precisamente no ano de 245 d.c. Roma. Com a revolução no
ano supracitado, a aristocracia passou a ter a mais completa
ascendência sobre o povo.
O povo (plebe) oprimido reivindicou ao império romano,
maior participação política, e organizaram seus planos de
reivindicação de poder e direitos que até então eram
sistematicamente recusados.
Entretanto, nem todas as participações políticas
aspiradas pelos plebeus lograram êxito de plano. Foi preciso um
trabalho lento e pertinaz de politização da plebe feito por líderes
dos movimentos por direitos políticos, até a célebre retirada
para o Monte Sagrado próximo a Roma, de modo que os
plebeus, até então maioria da população romana, fizeram uma
espécie de boicote sócio econômico evadindo de Roma, e só
voltariam à cidade depois que de fato pudessem participar da
vida política do império, e como Roma não sobreviveria sem os
plebeus, estes foram atendidos pelos patrícios, os nobres de
Roma, em suas aspirações.

É mister salientar que a Grécia antiga ,berço da filosofia


e democracia foi profunda influenciadora do império Romano,
que conquistou a Grécia em 133 a. c, absorvendo sua cultura,
aspectos religiosos, tais como o politeísmo e a divisão social em
classes , tanto que no sincretismo religioso, todo deus grego
corresponde a um deus romano.
No meio da pirâmide social romana, estavam os plebeus

226
que deram, conforme antes exposto, origem ao plebiscito, eram
numericamente a maioria da sociedade Romana, a plebe era
composta basicamente por pequenos comerciantes, artesãos e
outros trabalhadores livres, possuíam poucos direitos políticos.
Abaixo dos plebeus, na estrutura social estavam os
cilentes, viviam “presos” aos patrícios, e possuíam por estes
uma forte relação de dependência, essa classe era formada
basicamente por estrangeiros e refugiados pobres, tinham apoio
econômico e jurídico dos patrícios, mas como os vassalos da
idade média, lhes deviam ajudas em trabalhos e questões
militares.

Na base da pirâmide estavam os escravos em sua grande


maioria capturados em guerras e vendidos como mercadorias
para os patrícios e plebeus que não recebiam pagamentos pelos
trabalhos, mas apenas provimentos alimentares e vestimentas.
Eles executavam tarefas consideradas pesadas e também eram
serviçais domésticos. Os homens mais fortes fisicamente eram
transformados em gladiadores, para promoverem a diversão do
povo. O imperadores romanos praticavam o panis et circenses
pão e circo, alimentado o povo, e os concedendo diversão, assim
como feito nos dias com o futebol e a televisão usados para
alienar as massas, Marx escrevera que a religião era o ópio do
povo, mas nota-se que nos dias de hoje, perdeu força em
comparação a indústria do entretenimento.
Uma diferença bem relevante entre a escravidão grega a
romana é mediante ao fato de que na Grécia antiga, o escravo
estaria submetido à escravidão enquanto vivesse, ao contrário

227
do escravo romano, que poderia adquirir a sua liberdade seja
pela concessão de seu proprietário, por abandono, ou até
mesmo pela compra da própria liberdade, da mesma forma que
escravidão brasileira, geralmente trabalhava para seu ex
- proprietário.
Após toda essa explanação, desse arcabouço histórico
acerca da divisão de classes da civilização grega e do império
romano, grande e desnecessária tarefa seria dissertar sobre as
subdivisões de outras sociedades e civilizações antigas, focou-
se, portanto nessas duas, posto que a Grécia antiga é o berço
da filosofia e o direito romano é à base do ordenamento jurídico
brasileiro.
Karl Marx, no seu livro Manifesto Comunista, mais de
1600 anos depois do declínio do império romano, cita de forma
veemente a luta de classes sociais. E como visto, no império
romano em 245 d.C. havia as lutas de classes entre os plebeus
e os patrícios, mesmo a plebe sendo maioria do império, os
membros da mesma não eram considerados cidadãos.
Os plebiscitos ocorridos após a revolta no monte sagrado
eram de fato, as primeiras inserções populares da Humanidade,
concernente ao período republicano de Roma (509 a. c-27 d, c),
pois os plebeus em sua maioria conquistaram o direito de eleger
seus representantes, os chamados tribunos da plebe, esses
poderiam propor plebiscitos, decretos da plebe, passados em
comícios e válidos inicialmente para a sua classe e que
tornariam a decisão “soberana” da plebe mediante o plebiscito,
e se tornou uma axiologia no período republicano do império

228
romano. Assim como o próprio sistema político, a palavra
democracia tem origem no idioma grego, e vem de demokratia,
sua versão em latim era democratia.
Também segundo a vertente grega, o termo tem em sua
base duas palavras gregas, demos que significa povo, e kratos
domínio e poder, trás o significado de “poder do povo”.
Entretanto, sob o ponto de vista social, o termo não
condiz com a realidade fática, pois apenas uma minoria
privilegiada os eupátridas, e somente eles, tinham direito a voto
e a voz, já que as mulheres e as demais classes, não tinham
direito algum.
Democracia e política são termos análogos, a política em
sua morfologia e etimologia o termo grego Politikos polis
significa cidade e ikos sistema. A “cidade” Atenas era composta
apenas pelos eupátridas, classe social correspondente aos
patrícios do Império Romano.
Houve um exponencial crescimento democrático dos
plebeus entre 75 - 509 a.c e no período seguinte o republicano
509- 27 d.c, o que gerou uma grande massa de insatisfeitos
com a vida política do império romano, se sentiam alijados da
vida política de Roma, criaram um “governo paralelo”, afim que
dentro da sua classe se tornariam a decisão soberana da plebe,
mediante o voto. Cria-se, portanto o embrião do plebiscito hoje
democraticamente utilizado em muitos países, principalmente
os ditos civilizados.
Apenas em 380 d.c o império romano se tornou cristão,
através do decreto do imperador bizantino Teodósio primeiro, e

229
houve de fato uma divisão política social maior, com o advento
do clero no poder, e era a “aristocracia” dos “melhores” de
aristos “melhor”, mais kratos “poder”, e eram aristocratas os
patrícios romanos, e os plebeus postos à margem da vida
política e jurídica do império romano.
Necessária, portanto foi à explanação da divisão política
do império romano para se entender a origem do plebiscito na
Humanidade.

A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO REFERENDO NA HISTÓRIA


DA HUMANIDADE

No tocante ao referendo, ele é muito mais recente na


história, segundo Maria Victória de Benevides, origina-se da
expressão ad referendum, e tem raízes nos cantões suíços como
Valais e Grisons, por volta do século XV (entre 1400 a 1500)
antes do iluminismo francês, implementado a época com o
objetivo de validar decisões perante os cidadãos emanados das
assembleias cantonais.

A teorização do instituto deu-se na França, no final do


século XVIII, fruto de debates acalorados entre defensores da
democracia versus fatores do modelo representativa. Na metade
do século XIX, no entanto, o povo francês começou repudiar o
referendo de, muitas vezes, ter sido como o plebiscito, e a
utilização de forma desvirtuava por Napoleão Bonaparte com o
intuito de legitimar suas decisões políticas.
No século XX, o instituto popularizou-se na Europa,
expandiu-se pela América do Norte, quais passaram a empregar

230
para ampliar a participação popular e concomitantemente
mantendo a estrutura da democracia representativa.
Lentamente, diversos países passaram a prever o referendo em
suas constituições, todavia, em muitos deles, tal figura jurídica
restou esquecida no texto legal, sem qualquer expressão
prática. Todavia, mesmo não sendo utilizado politicamente, o
termo referendo, foi cunhado nas antigas confederações
germânicas e helvéticas, no século, XIX entre 800 e 900, nas
quais todas as leis eram aprovadas ad referendum pelo povo, ou
seja, desde que obtivessem como reposta o consentimento da
população a lei seria válida. Portanto
estes institutos trazem desde a sua origem, a ideia de
consultar a opinião pública.
É necessário frisar que a origem do plebiscito e referendo
nos moldes em que foram apresentadas, está condicionada a
história meramente ocidental, mais precisamente na Europa
dito o continente civilizado sob o viés histórico, não significa,
portanto que o continente africano, americano, asiático e a
Oceania, não utilizavam consultas prévias ou posteriores de
criações de leis, mas, contudo, apenas os registros históricos
escritos, servem para a comprovação histórica da democracia
em sua plenitude.
A DEMOCRACIA E A CONSTITUIÇÃO

O Brasil ao longo de cento e noventa e cinco anos,


possuiu nove constituições, ou seja, proporcionalmente uma
Constituição a cada vinte e um anos. Sendo em ordem
cronológica, 1822 (Constituição Lusa Brasileira) 1824 (ainda na

231
era imperial) subsequentemente em1891, 1934, 1937, 1946,
1967 e 1969 (As últimas promulgadas em plena ditadura
militar) e por fim a Constituição Federal da Republica
Federativa do Brasil, batizada de Constituição cidadã em 1988.
Muito tardiamente somente após 71 anos da proclamação da
República veio à luz, a normatização do plebiscito em uma
Constituição brasileira através da EC nº 4 de 2 (dois) de
setembro de 1961.

Em um primeiro momento, lembramos a


EC nº 4 de 02 de setembro de 1961, a
Constituição de 1946, em seu artigo 25,
fixou a possibilidade de lei complementar,
dispor sobre a realização de plebiscito que
decida sobre a manutenção do sistema
parlamentar ou a volta do sistema
presidencial. Devendo em tal hipótese,
fazer-se a consulta plebiscitária.
Determinou-se então, a realização da
denominada plebiscito para o ano de 1965,
com o objeto de saber se o governo de
parlamento deveria ser mantido ou se o
sistema presidencial seria retomado.
Parece-nos que se tratava em essência, de
um referendo, uma vez que, depois de já
tomado o ato, a instituição do
parlamentarismo no Brasil, proceder-se-á
consulta popular para confirmar ou
afastar a decisão. (LENZA, 2015, p.1339).
É de total pertinência abordar mesmo que
superficialmente as eras políticas para fazermos uma conexão a
contento, da ausência de plebiscitos e referendos, em nossas
constituições, normativamente expressa, assim como traçar um
paralelo dessas ausências, com o contexto histórico em

232
questão. Entre 1889 e 1894, o governo republicano era exercido
por militares, portanto por se tornar um governo classista, por
motivos óbvios, não era interessante submeter às decisões do
país ao crivo popular.
Segundo o site história brasileira, nos anos de 1894 a
1930, conhecida como a era da república do “café com leite”, no
qual governava a oligarquia rural, grandes produtores rurais e
latifundiários, descendentes dos senhores do engenho de Minas
Gerais e São Paulo, se revezavam no cargo de mandatário
máximo da nação.
Por óbvio, a oligarquia latifundiária em questão, só
queria o poder concentrado com seus pares, uma classe
privilegiada economicamente, nesse contexto plebiscitos e
referendos como institutos de democracia plena e participativa,
eram considerados descalabros para a classe política da época.
Ainda segundo o site, história brasileira em 1930 Getúlio
Vargas assume o governo mediante uma ditadura que perdurou
até 1945. E em um governo ditatorial,

233
como o próprio sistema pressupõe não cabe à consulta
popular sobre as leis promulgadas ou a serem produzidas. Nos
dezesseis anos subsequentes, em plena guerra fria entre União
Soviética e Estados Unidos, tendo o Brasil como sempre se
posicionando a favor dos Estados Unidos, não poderia tomar
atitudes populistas para não serem associados a uma
aproximação com o comunismo soviético. Logo no início dos
anos 1960, governos presidencialistas populares, como os de
Jânio Quadros e de João Goulart, que se aproximaram muito
da Cuba comunista, teve mediante a EC de 2 (dois) de setembro
de 1961, a primeira implementação do plebiscito e referendo do
Brasil, no caso, através de uma emenda constitucional a
Constituição de 1946, como supracitado.
O receio da burguesia do Brasil de se tornar um país
comunista, consubstanciado pelo contexto histórico da época
potencializou o golpe militar de 1964, que só de um cidadão
conjecturar plebiscitos e referendos, seria preso como
subversivo, provavelmente torturado e até assassinado.
A ditadura militar perdurou até 1985, três anos antes, da
promulgação da última Constituição de 1988, onde foi
normatizado enfim os institutos de plebiscitos e referendos no
Brasil que serão abordados no capítulo a posteriori.

O DIREITO E O SISTEMA JURÍDICO


Aqui pretendemos abordar o tema da lei. O lugar dos
justos - em um sentido metafórico - dentro da lei e do sistema
legal é um tema crucial ao engajamento, depois de Ricoeur, ao
234
fenômeno da justiça. A questão que diz respeito a - como pode
uma situação injusta ser impedida por uma solução justa - é a
questão central do juiz no final de um processo de tentativa,
induzida pelo veredicto. O veredicto representa o fim de uma
série de argumentos que surgem a partir de uma situação de
incerteza na abertura de um julgamento. Como podemos
afirmar, é o ato de fala que diz a lei.

No plano jurídico, o justo é sempre oposto ao problema


da violência. Os instrumentos do campo jurídico permitem,
assim, uma transformação da chamada imediata de vingança,
que por si só é uma forma de injustiça. A busca pela justiça -
seja em um processo de julgamento, seja em um debate político
ou em um debate moral individual - culmina em um julgamento
certo, traz a argumentação ao fim, colocando uma solução
justa. O veredicto como um julgamento jurídico manifesta o ato
que estabelece a lei. No plano jurídico, o juízo de imputação é
restrito ao campo do direito positivo - no caso de a transgressão
da lei, o juízo de imputação leva à retribuição. A punição, após
o veredicto deve ser considerada, aos olhos de Ricoeur, como
uma espécie de obrigação de compensação ou indenização. A
punição deve ser constituída de tal forma que ela se distancia
de uma represália precipitada. Em vez disso, todo o processo
jurídico com o veredicto e a punição deve ocorrer de forma
responsável que permite que a vítima, mas também a pessoa
condenada a sentir-se plenamente reconhecida como um
sujeito de direitos. Justiça, portanto, - seja no que diz respeito

235
ao plano jurídico, moral ou político - está intimamente ligada à
responsabilidade.

Em qualquer responsabilidade jurídica, bem como em


um sentido moral, visa estabelecer uma distância entre o
sujeito que praticou a ação e a outra pessoa confrontada. Neste
contexto, o outro como sujeito de direitos é considerado como o
mesmo assunto digno de respeito como eu. É a tarefa do
judiciário e das instituições políticas criar esta distância entre
diferentes partidos, instituições e pessoas. Nesse sentido,
apenas deve ser considerado como um tipo de prática social.

No que diz respeito ao fenômeno da justiça, o próprio


Ricoeur se concentra particularmente no nível jurídico, mas
também está interessado no conceito mais geral de um
julgamento político, que está localizado dentro da esfera política
e que foi primeiro formulado por Hannah Arendt. Ricoeur critica
conceito de Arendt, em alguns aspectos, mas geralmente ele
estima que o elemento integrante de um juízo reflexivo de gosto
em seu conceito que se refere à terceira Crítica de Kant.
Seguindo o conceito de Hannah Arendt de um julgamento
político e suas referências a juízo de gosto de Kant, o próprio
Ricoeur propõe em seu artigo "O ato de julgar" a ideia de um
juízo político que se baseia em um processo deliberado de
argumentação e não na já definida regra.

Geralmente pode-se dizer que, para Ricoeur, a justiça


não é um prazo fixo. Por isso, não pode ser encontrada através
da estrita aplicação de uma norma, mas deve ser descoberta em
236
um discurso crítico que ocorre dentro do espaço público. Este é
exatamente o modo do juízo reflexivo - para encontrar uma
regra universal para um dado, um caso particular.

A PAZ SOCIAL E O RECONHECIMENTO MÚTUO

Voltemos à ideia de distribuição que é tão central para a


questão da justa. Pode-se notar que o conceito geral da
sociedade como um sistema de distribuição que encontramos
na teoria processual de Rawls da justiça ou no conceito
pluralista de Michael Walzer da justiça social, pode, de acordo
com Ricoeur, servir de base frutífera para a elaboração dos
princípios de justiça. Isso ocorre porque a ideia de distribuição
traz com ele o elemento de diferenciação, de articulação que
está faltando no sentido ético puro, que encontra a sua
expressão na noção de querer viver juntos. Mas a ideia de
distribuição é, aos olhos de Ricoeur não suficiente para o
florescimento de bem-estar social. Ricoeur enfatiza que a
questão do justo não é apenas a de distribuição (a questão do
que nos separar), mas também o da igualdade de ação,
ordinária - o último se refere à nossa modalidade comum, por si
só, as nossas necessidades, nossos valores e esperanças
compartilhadas sociedades. Este segundo entendimento da
questão do justo conduz a um esforço de longo prazo no que diz
respeito à justiça - o objetivo deste esforço é para estabelecer a
paz social dentro de uma sociedade partilhada ou entre
diferentes sociedades.

237
Em Ricoeur (2006), partindo de sua obra Parcours de
Reconaissance1, desenvolvida em três estudos, “o
reconhecimento como identificação”, “reconhecer-se a si
mesmo” e “o reconhecimento mútuo”, a primeira formulação
dada à temática do reconhecimento propriamente dita foi feita
por Hegel, através de sua conhecida obra Fenomenologia do
Espírito (2005). Aqui, Hegel, segundo o filósofo francês, parte do
caminho realizado por Hobbes, trabalhando dentro da dialética
do senhor e do escravo.
Com efeito, analisando o pensamento de Hobbes (2005),
que preconizava o estado de natureza como acalentador de uma
situação de constante tensão e conflito, consistente num estado
de guerra de todos contra todos, e produzida, conforme se vê no
Leviatã, pela desconfiança, competição e busca de glória, Hegel
vai se afirmar contrário a este autor, postulando que há um
fundamento moral diverso do medo preconizado por Hobbes,
para explicar as relações sociais e a instauração do pacto, que é
justamente o desejo de ser reconhecido.
Por meio da dialética do senhor e do escravo do autor
alemão, Ricoeur (2006) verá que, não obstante senhor e escravo
serem seres pensantes e possuírem humanidade, é no conflito
dessa relação negativa de desprezo que o reconhecimento
postula-se plausível para Hegel. Sendo o desprezo e a negação

1 No prefácio, o filósofo francês elucida que “a pesquisa foi suscitada


por um sentimento de perplexidade concernente ao estatuto semântico do
próprio termo ‘reconhecimento’ no plano do discurso filosófico. É fato que não
existe uma teoria do reconhecimento digna desse nome ao modo como há
uma ou várias teorias do conhecimento” (RICOEUR, 2006, p. 9).

238
do reconhecimento frutos da contradição social2 vê-se, ainda,
um desequilíbrio entre a igual atribuição de direitos e a
desigual distribuição dos bens, o que causa, para Hegel, a não
realização da estima social. Ou seja, há a prescrição formal do
reconhecimento, mas também a sua negação fática, o que gera
o anseio por ser reconhecido de modo concreto.
Com relação a Axel Honneth, através de seu livro Luta
por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais
(2003), publicado em 1992, Ricoeur (2006) dirá que ele
retomará a ideia hegeliana da experiência negativa de desprezo
como aquilo que possibilita o desejo de ser reconhecido.
Trazendo uma dimensão de luta social à ideia de
reconhecimento, Honneth proporá que este possibilita o
respeito de si e a estima social, sendo força moral com
possibilidade de promover desenvolvimentos e progressos na
realidade social, instaurando, também, o que chamará de
autorrealização.
Contudo, o filósofo francês postulará que, se o
reconhecimento for analisado somente pelo horizonte da luta,
não obstante a sua contribuição bastante válida, haverá uma
demanda que ele chamará de “insaciável”, “uma reivindicação
sem fim”, “um tipo de nova consciência infeliz”. Por isso sua
proposta é “de completar uma problemática da luta por meio da
evocação das experiências de paz pelas quais o reconhecimento

2 “A experiência negativa do menosprezo assume então a forma


específica de sentimentos de exclusão, de alienação, de opressão, e a
indignação que deles provém pôde dar às lutas sociais a forma da guerra,
quer se trate de revolução, de guerra de libertação, de guerra de
descolonização” (RICOEUR, 2006, p. 215).
239
pode, senão encerrar seu percurso, ao menos deixar entrever a
derrota da negação de reconhecimento” (RICOEUR, 2006, p.
203). Afasta-se, então, o autor, da perspectiva de negação ou
mesmo de reivindicação da morte do outro para se conquistar o
reconhecimento. Ricoeur, como vai dizer, pretende corrigir e
completar a herança hegeliana.

Dessa forma, podemos afirmar uma lógica do perdão que


não deriva de uma retribuição. Em Soi-même comme un autre,
Ricoeur retorna à regra de ouro. Essa regra indica a
importância de tomar iniciativas com respeito a outrem. Dessa
maneira, o Evangelho de Lucas porta sabedoria: “Aquilo que
você quer que os homens façam por você, faça
semelhantemente por eles” (Lc 6,31). Para o filósofo francês, a
regra de ouro pertence a uma economia do dom. Graças a ela, é
possível relacionar a ética teleológica e a moral dita
deontológica.
REFERÊNCIAS

Marcel Hénaff: Le don des philosophes. Repenser la réciprocité,


Paris: Éd. Seuil, 2012.

Dries Deweer: »Ricoeur on citizenship: A picture of Personalist


Republicanism«, in: Paul Ricoeur and the Task of Political
Philosophy, edited by Greg S. Johnson and Dan R. Stiver,
Lanham: Lexington Books, (p. 35-50).

Paul Ricoeur: Amour et justice, Paris: Points Essais, 2008.

Paul Ricoeur: Interpretation and/or Argumentation, in: Paul


Ricoeur: The Just, transl. by David Pellauer, Chicago / London:
University of Chicago Press, 2000, (p. 109-126), [Interprétation
et/ou argumentation? In: Le Juste, Paris: Éd. Seuil, 1995].
240
Paul Ricoeur: Le juste entre le légal et le bon (1991), in Ricoeur:
Lectures Tome 1: Autour du politique, Paris: Éd. Seuil, 1991, (p.
176-195).

Paul Ricoeur: Oneself as another, transl. by Kathleen Blamey,


Chicago / London: University of Chicago Press, 1995, [Soi-même
comme un autre, Paris: Éd. Seuil, 1990].

Paul Ricoeur: »Préface à Hannah Arendt, Condition de l'homme


moderne (1983)«, in: Lectures 1, Autour du politique, Paris: Éd.
Seuil, 1991, (p. 43-66).

Paul Ricoeur: Sanction, Rehabilitation and Pardon, in: Paul


Ricoeur: The Just, transl. by David Pellauer, Chicago/London:
University of Chicago Press, 2000, (p. 133-135), [orig. Sanction,
réhabilitation, pardon, in: Le Juste, Paris: Éd. Seuil, 1995].

Paul Ricoeur: The act of judging, in: Paul Ricoeur: The Just,
transl. by David Pellauer, Chicago / London: University of
Chicago Press, 2000, (p. 127-132), [orig. L’acte de juger, in: Le
Juste, Paris: Éd. Esprit, 1995].

Paul Ricoeur: The Course of Recognition, transl. by David


Pellauer, Cambridge, MA: Harvard University Press, 2005,
Parcours de la reconnaissance. Trois Études, Paris: Stock, 2004.

Paul Ricoeur: The Moral, the Ethical, and the Political, trans. by
Alison Scott-Baumann, in: Paul Ricoeur and the Task of Political
Philosophy, edited by Greg S. Johnson, Dan R. Stiver, Lanham:
Lexington Books, 2013, (p. 13-24) [orig. Morale et Politique,
1993].

Paul Ricoeur: The Political Paradox, in: Paul Ricoeur: History


and Truth, transl. by Charles A. Kelbley, Evanston:
Northwestern University Press, 1965, (p. 247-270).

Paul Ricoeur: Who is the subject of rights? In: Paul Ricoeur: The
Just, transl. by David Pellauer, Chicago / London: University of
Chicago Press, 2000, (p. 1-10), [orig. Qui est le sujet du droit?
In: Le Juste, Paris: Esprit, 1995].

241
IMPACTOS DA PSICANÁLISE NO DIREITO PROCESSUAL
PENAL: ESTUDO DE DECISÃO DE CASO DE PEDOFILIA

Joana D´Arc Aparecida de Oliveira3


René Dentz4
RESUMO

Partindo do pressuposto de que a discussão entre os crimes


sexuais é um tema que encontra berço dentro da teoria
psicanalítica, o presente artigo tem como objetivo evidenciar a
interlocução entre a Psicanálise e o Direito Processual Penal nos
casos de crime sexual, mas, especificamente, na pedofilia, a
partir de uma decisão judicial. Para elucidação, será
apresentada, numa perspectiva freudiana, como a Psicanálise
tem contribuído no Direito Penal em questões que o mesmo ainda
não consegue explicar, uma vez que o Direito analisa
superficialmente o sujeito. A pesquisa proposta encaixa-se na
categoria geral da pesquisa Empírica Aplicada Qualitativa, pois
diante da ocorrência de casos de abuso sexual, busca mostrar,
sob uma visão psicanalítica, e por meio de análise de textos e
revisão bibliográfica e não por análises estatísticas, o
comportamento do indivíduo que comete a pedofilia. Conclui-se
que o diálogo da Psicanálise e o Direito são de grande relevância,
uma vez que a aquela estuda a personalidade do sujeito, o que
vem a contribuir para explicar os atos do sujeito e proporcionar o
desfecho em uma decisão judicial.

Palavras-chave: Psicanálise. Pedofilia. Direito. Sujeito.

INTRODUÇÃO
A temática abordada diz respeito a como a Psicanálise,
através de estudos sobre o inconsciente, pode contribuir

3 Graduando do 9º período do Curso de Direito da Faculdade Presidente


Antônio Carlos de Mariana.
4Pós-Doutor pela Warsaw University, Psicanalista, Membro do International

Institute for Hermeneutics/Alemanha, Professor Titular da UNIPAC/Mariana


e do ISTA-Belo Horizonte.
242
significativamente no Direito Processual Penal, nas decisões
judiciais nos crimes sexuais, mas, especificamente, na pedofilia.
Analisa, ainda, os conceitos freudianos em relação à formação
da personalidade do sujeito.
O tema central visa elucidar, através de uma visão
psicanalítica, o porquê do comportamento desviante do sujeito,
quando o mesmo pratica a pedofilia e a partir dessa interface
proposta e tendo elementos devido a este conhecimento e a esta
atestação, como a decisão judicial trata essa questão
relacionada à aplicação da pena.
O objetivo desse artigo é evidenciar que, mesmo que o
discurso psicanalítico não seja, na sua totalidade, aplicável ao
Direito, em se tratando de crimes sexuais, o discurso estabelece
uma relação entre a Psicanálise e o Direito para descobrir a
verdade no Processo Penal.
Diante da ocorrência de casos de crimes sexuais, mais
notadamente na pedofilia, justifica-se a necessidade acadêmica
de estudar e mostrar a importância da interdisciplinaridade
entre o Direito Processual Penal e a Psicanálise, que consiste na
busca de uma releitura no comportamento desviante do sujeito.
A pesquisa proposta encaixa-se na categoria geral da
pesquisa empírica aplicada qualitativa, pois, diante da
ocorrência de casos de violência sexual, busca mostrar, sob
uma visão psicanalítica, o comportamento do indivíduo que
pratica a pedofilia. O estudo se faz por meio de análise de
textos e não de análises estatísticas. Na categoria específica,

243
classifica-se em um estudo de caso de pedofilia, pois será o
motivo real de análise.
O estudo se valerá do Método Indutivo, tendo em vista que
a temática não se encontra pacificada e nem respaldada na
legislação específica, porém o assunto necessita ser
interpretado pela Psicanálise, a fim de que sejam julgados os
casos de indivíduos que cometem a pedofilia.
Para se chegar à demonstração, exigiu-se uma melhor
compreensão, através de embasamento teórico, buscado em
estudos realizados por Sigmund Freud (1856-1939), após o
surgimento da Psicanálise no final do século passado, o qual
alterou, radicalmente, o modo de pensar da vida psíquica, e,
por meio da Lei Nº 12.015/2009, que reestruturou o Titulo VI
da Parte Especial do Código Penal, caracterizando como ¨DOS
CRIMES CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL¨. Valer-se-á, ainda,
da premissa do Coordenador do Núcleo de Direito e Psicanálise
do Programa de Pós-graduação em Direito da UFPR, o Dr
Jacinto Nelson Miranda Coutinho (1996), que demonstrou uma
aproximação possível entre o Direito e a Psicanálise
Será traçada, inicialmente, uma abordagem à introdução da
Psicanálise, a qual, clinicamente, é a linguagem do inconsciente
que parte do sujeito e traz informações precisas desde os
primeiros momentos de sua vida, e, podendo refletir em seus
comportamentos futuros. Posteriormente, há discussão acerca
da interlocução da Psicanálise com o Direito Penal, partindo do
pressuposto de que ainda existem muitas lacunas em relação

244
aos crimes sexuais. Para finalizar, e na perspectiva de elucidar
o tema proposto, será apresentado um caso de pedofilia.
2.0 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

De acordo com Coutinho (1996), busca-se uma


aproximação possível entre o Direito e a Psicanálise diante de
uma estrutura de velamento-desvelamento da própria
Instituição (Direito), que é mantida em nome do amor.

Ficou patente, por exemplo, que se não


pode fazer um discurso psicanalítico do
direito e muito menos um discurso jurídico
da psicanálise. (...) Os elementos dos
campos (direito e psicanálise), por outro
lado, não têm a mesma estrutura e não
podem ser tomados como lugar-comum.
Arriscar a identidade é ceder à
comodidade, mas incorreto, para não dizer
falso. Atitude empulhadora, deslumbra na
primeira aparência pelas fórmulas fáceis,
mas oferece o cadafalso no momento
seguinte (COUTINHO, 1996, pp. 41-42).
Logo, não pode ser de maneira simplista a compatibilização
teórica de institutos jurídicos com a Psicanálise, uma vez que
seria um tanto dificultoso e com contornos próprios.
Entretanto, mesmo que a Psicanálise não esteja sendo
totalmente aplicável ao Direito, se valerá daquela no momento
em que se tenta descobrir a verdade no Processo Penal.
Partindo dessa premissa, a Psicanálise mostra que certos
indivíduos não conseguem atravessar tranquilamente seu
Complexo de Édipo, isto é, não conseguem superar, de forma
esperada, o conflito, e isso refletirá na fase adulta em
comportamentos desviantes e prática de crimes sexuais.
245
É mister ressaltar a importância da contribuição da
Psicanálise para o Direito, no que tange às questões que o
mesmo, ainda por possuir lacunas no Ordenamento Jurídico,
não consegue explicar. Dessa forma, a interlocução entre a
Psicanálise e o Direito tenta resgatar a efetivação da Dignidade
da Pessoa Humana nos indivíduos que praticam crimes
sexuais.
Segundo Carlos Eduardo da Silva Serra, no livro “A
perspectiva do crime e da sociedade punitiva”, a psicanálise foi
desenvolvida na década de 1890 por Sigmund Freud, cuja
proposta foi analisar o homem, compreendendo-o como sujeito
do inconsciente. Ao analisar seus pacientes, Freud percebeu
que os problemas daqueles originavam-se dos desejos
reprimidos e acontecimentos traumáticos, os quais não eram
“apagados”, pois ficavam relegados ao inconsciente, de modo a
influenciar continuamente os pensamentos e comportamentos.
Assim, a Psicanálise considera que, a partir da relação de
cada indivíduo, na perspectiva do inconsciente, sua historia é
crucial para explicar a respeito de certos comportamentos
desviante.
O Direito Penal foi criado com a finalidade de proteger os
bens mais importantes e necessários para a própria
sobrevivência da sociedade; bens estes essenciais ao indivíduo e
à comunidade (GRECO, 2O09, p.4). Sendo assim, o Direito não
deve visualizar o entendimento a partir de entendimentos
puramente baseado em códigos, isto é, apenas na lei, mas sim

246
com a aplicação justa e não apenas de forma superior e
independente em um caso concreto.
Em síntese, um magistrado não deve visualizar o Direito
somente a partir de entendimentos isolados, mas, por meio da
interdisciplinaridade de outros saberes.
2.1 INTRODUÇÃO DA PSICANÁLISE

Vários aspectos da vida humana, a partir da segunda


metade do século XX, sofreram algumas transformações que
contribuíram para um processo evolutivo histórico. É cediço
que o Direito sempre buscou auxílio em outras ciências, como a
Sociologia, a Antropologia, a Historia, e a Psicologia.
A partir de então, o Direito sob uma visão filosófica, passou
a reexaminar, através da interdisciplinaridade, a condição do
sujeito. Entretanto, após o surgimento da Psicanálise, no final
do século passado, Freud (1856-1939, p.307) demonstrou ao
mundo a existência do inconsciente, onde o mesmo produz
efeitos que é reconhecido (lapso, ato falho...). Tais efeitos,
embora inconscientes, repercutam no Direito.
Sendo assim, o Direito não pode deixar de analisar que o
sujeito é um ser desejante e que, a todo o momento, é
influenciado pelas condições sociais, culturais, econômicas e
políticas. A Psicanálise, através de Sigmund Freud (1856-1939,
p.307), alterou radicalmente o modo de pensar da vida
psíquica, uma vez que ousou colocar os ¨processos" misteriosos
¨do psiquismo, as suas ¨regiões obscuras¨, isto é, as fantasias,
os sonhos, os esquecimentos, a interioridade do homem, como
problemas científicos.
247
A psicanálise é uma área que estuda clinicamente a
linguagem inconsciente que parte do sujeito. Sigmund Freud
demonstrou que grande parte dos problemas oriundos do
sujeito vinha de seu inconsciente. Dessa forma, Freud, através
de sua descoberta, trouxe explicações referentes aos processos
que acontecem na mente humana ao longo de sua evolução.
Nesse contexto, a Psicanálise trouxe para o Direito à
revelação do inconsciente, o que contribuiu, significativamente,
pois elucidou alguns crimes sexuais, principalmente a pedofilia,
que ainda não tinha uma explicação mais contundente.
Entretanto, o Direito Penal ainda apresenta algumas lacunas
na legislação positivada e necessita urgentemente de
reformulações.
Através dos avanços da Psicanálise, houve a
possibilidade de se encontrar o significado do inconsciente que
existe nas ações, palavras, sonhos, fantasias, atos falhos e
outras produções imaginárias do sujeito.
Nas palavras de Freud:

Todo o consciente tem um estágio prévio


inconsciente... O inconsciente é o psíquico
propriamente real, tão desconhecido para
nós, na sua natureza interna, quanto o
real do mundo exterior, e dado a nós
através dos dados da consciência de forma
tão incompleta quanto o mundo exterior
através do depoimento de nossos órgãos
sensoriais. (FREUD, 1900/1982, cap. 7, F,
p. 580)

248
Sendo assim, muitos fatos acontecidos, desde o nascimento
e a infância, ficam armazenados no inconsciente do sujeito e
refletindo em seus comportamentos futuros.
Nesse sentido, o esquecido será sempre penoso para o
sujeito, mas não significando, necessariamente, que deverá ser
algo ruim, pois poderá ser algo bom que se perdera ou que fora
intensamente desejado. Portanto, estes conteúdos psíquicos se
alojam no consciente, podendo ou não vir à tona.
Nos trabalhos terapêuticos, Freud abandonou as perguntas
aos pacientes, deixando-os dar livre curso às suas ideias. Dessa
forma, foi observado que os pacientes ficavam embaraçados,
envergonhados com algumas ideias ou imagens que lhes
corriam. Freud descobriu, ainda, que as experiências
traumáticas e reprimidas referiam-se a conflitos de ordem
sexual, a partir de fatos acontecidos desde os primeiros anos de
vida do sujeito e que, consequentemente, refletem na formação
de sua personalidade.
2.2 VISÃO ONTOGENÉTICA DA PSICANÁLISE

A Psicanálise traz informações precisas de que todo sujeito,


desde os primeiros momentos de vida, se confronta com uma
cadeia de frustrações e que, de certa forma, é necessário para o
seu desenvolvimento.
Laplanche e Pontalis definem o Complexo de Édipo:

Conjunto organizado de desejos amorosos


e hostis que a criança sente em relação
aos pais. Sob a sua forma dita positiva, o
complexo apresenta-se como na história
de Édipo-Rei: desejo da morte do rival que
249
é a personagem do mesmo sexo e desejo
sexual pela personagem do sexo oposto.
Sob a sua forma negativa, apresenta-se de
modo inverso: amor pelo progenitor do
mesmo sexo e ódio ciumento ao progenitor
do sexo oposto. Na realidade, essas duas
formas encontram-se em graus diversos na
chamada forma completa do complexo de
Édipo. Segundo Freud, o apogeu do
complexo de Édipo é vivido entre os três e
os cinco anos, durante a fase fálica; o seu
declínio marca a entrada no período de
latência. É revivido na puberdade e é
superado com maior ou menor êxito num
tipo especial de escolha de objeto. O
complexo de Édipo desempenha papel
fundamental na estruturação da
personalidade e na orientação do desejo
humano. Para os psicanalistas, ele é o
principal eixo de referência da
psicopatologia. (LAPLANCHE;
PONTALIS,1992,p.77)

Freud quer mostrar que no início de vida do bebê surge um


processo chamado de simbiose, que é a relação entre ele e a
mãe, e isso ocorre por volta de 01(um) ano e meio, onde ele
existe apenas pela mãe. Apreende-se ser apenas uma relação
simbiótica porque é uma relação de união e não, ainda, de
desejo,
Portanto, ainda não há o desejo, mas apenas uma relação
simbiótica, isto é, uma relação de união, do qual o bebê vê o
mundo apenas pela mãe. Ele não considera o mundo como
concreto e real. Inicialmente terá uma necessidade biológica,

250
que será traduzida pela Psicanálise pela sua oralidade, isto é,
através da sucção do seio materno.
É nesse momento que ocorre a primeira fase da
sexualidade, chamada de fase oral, a qual Freud mostra que se
inaugura a sexualidade do sujeito num processo simbiótico.
Todavia, Freud discorre que pode haver algumas consequências
no momento, pois o Eu do sujeito está com a mãe e ela também
poderá passar alguns elementos fortes para o bebê.
Entretanto, a partir dessa fase, o bebê começa a ter a
introdução de outro sujeito nessa relação, que é a figura
paterna. Isso representará uma ruptura entre o bebê e a mãe,
tirando aquele do imaginário e o levando para o real, isto é, o
mundo concreto onde existem limites. Porém, essa ruptura é de
suma importância para o sujeito, visto que ele estará fora desse
processo da simbiose.
Assim, nesse momento, o sujeito irá deixar essa fase, a qual
significa deixar de entender o mundo apenas pela mãe. É mister
lembrar que se trata de um processo inconsciente trazido pela
psicanálise de forma predominante. Sendo assim, deixará a
mãe como um único processo de estar no mundo e tendo agora
também a figura paterna.
Essa passagem faz-se necessária ao bebê, visto que
representa a existência de algo proibido no mundo, com perigos
e limites. Em razão disso, surge, consequentemente, a culpa,
que é a lei interna, a qual o sujeito entenderá que não poderá
fazer tudo o que quiser.

251
Considera-se que o real é fundamental para o
desenvolvimento da criança, pois se instaura nesta um ser de
desejos. Portanto, a estrutura psíquica do sujeito nunca será
completa, pois sempre será uma estrutura de desejos e de falta.

2.3 O DIÁLOGO POSSÍVEL ENTRE A PSICANÁLISE E O


DIREITO

O Direito Penal foi criado com a finalidade de proteger os


bens mais importantes e necessários para a própria
sobrevivência da sociedade, essenciais ao indivíduo e à
comunidade (GRECO, 2009, p.4).
Nesse sentido, pode-se estabelecer que o Direito e a
Psicanálise estão, de certa forma, imbricados, já que é inevitável
compreender a formação do sujeito sem traçar as diversas
facetas na formação da personalidade.
Sendo assim, a Psicanálise trouxe para o pensamento
jurídico uma contribuição revolucionária, uma vez que tenta
explicar certas condutas do indivíduo, como por exemplo,
quando o mesmo comete algum crime sexual.
De acordo com Miranda Coutinho (1996), busca-se uma
aproximação possível entre o Direito e a Psicanálise diante de
uma estrutura de velamento-desvelamento da própria
Instituição (Direito), que é mantida em nome do amor.

Ficou patente, por exemplo, que se não


pode fazer um discurso psicanalítico do
direito e muito menos um discurso jurídico
da psicanálise. (...) Os elementos dos
campos (direito e psicanálise), por outro
lado, não têm a mesma estrutura e não
252
podem ser tomados como lugar-comum.
Arriscar a identidade é ceder à
comodidade, mas incorreto, para não dizer
falso. Atitude empulhadora, deslumbra na
primeira aparência pelas fórmulas fáceis,
mas oferece o cadafalso no momento
seguinte (MIRANDA COUTINHO, 1996, pp.
41-42).
Vale ressaltar que a compatibilização teórica de institutos
jurídicos com a Psicanálise não pode ser feita de maneira
simplista, visto que seria um tanto dificultoso. Ademais, deve-se
considerar que o Direito, pretendendo o domínio total de
racionalidade consciente, às vezes, não é afeito a esse diálogo.
Entretanto, mesmo que o discurso psicanalítico não seja de
todo aplicável ao Direito, alguns de seus conceitos,
impre(ci)sões e postulados não podem deixar de ser
considerados no momento que se busca a verdade no Processo
Penal.
Importante se expor as ponderações de Miranda Coutinho,

Para que a psicanálise penetre


definitivamente no processo penal, para
cumprir uma missão fundamental deve,
pois, ser levada a sério, a fim de que se
possa indicar como, mais ou menos,
funciona o mecanismo de decisão judicial,
eis que a consciência plena é ilusória¨
(COUTINHO, 2003, p.4-5).
Salienta-se que a sociedade encontra-se sob constantes
mudanças e sendo o ser humano integrante dela, acaba
refletindo nesta tais alterações.

Poder-se-ia dizer que devemos as mais


belas florações de nosso amor à reação
253
contra o impulso hostil que sentimos
dentro de nós. (…) Ela [a guerra] nos
despoja dos acréscimos ulteriores da
civilização e põe a nu o homem primevo
que existe em cada um de nós (FREUD,
1915, p. 338).
Dessa forma, um dos principais aspectos entre a
Psicanálise e o Direito consiste na busca incessante pela
efetivação da Dignidade da Pessoa Humana. Através do
encontro dessas duas vertentes é que podemos perceber
avanços no desenvolvimento da sociedade cada vez mais plural,
que necessita de respeito às diferenças.
Há alguns fatores externos, como o contesto social,
psicológico e financeiro que se têm mostrado determinantes
para a prática criminosa, bem como há experiências que ao
longo de sua existência o indivíduo vivenciou, refletindo, dessa
forma, em suas atitudes.
Enfim, para Freud, os processos constitutivos do ¨EU¨ se
repetem em cada ser humano, mesmo com o passar do tempo,
pois os conflitos psíquicos são os mesmos desde a aurora da
humanidade. A vida em sociedade só é suportável enquanto
dela se pode extrair satisfação pulsional suficiente para
relativizar a frustração imposta pelo trabalho da cultura.
Sendo assim, para que as pulsões destrutivas reapareçam,
basta uma pequena ameaça ou uma possibilidade de frustração
por parte do outro. Pode-se observar que nosso cotidiano é
repleto de exemplos que corroboram esta assertiva.

2.4 CRIMINOLOGIA E A PSICOPATOLOGIA

254
Segundo as palavras de Herzmann:

Para a esfera criminal, a Psicanálise


contribuiu de modo significativo ao revelar
o inconsciente como causa dilatada e mais
poderosa da vida psíquica. Revelou que o
psicológico humano é formado pela força
dos instintos, pelas experiências pretéritas
traumatizantes da formação da
personalidade do ser. E o único modo de
estudo desses fenômenos, é através da
Psicanálise (HERZMANN. 2014, p. 01)
É de entendimento da Psicanálise, caso o sujeito não
conseguiu uma ruptura por completo no Processo da Simbiose,
gera-se então uma personalidade denominada psicótica ou
neurótica. Ele ainda não tem um mundo concreto e real, isto é,
ainda existe um mundo imaginário da mãe.
Por isso, o indivíduo perde o senso da realidade,
apresentando patologias alucinatórias e confusão de
pensamentos. Não existindo, portanto, uma noção lógica de
pensamentos.
A psicose tira-o também da moralidade e a partir desse
processo, começam os primeiros encontros com o Direito, pois o
indivíduo não tem noção da lei. Onde então fica a culpa e a
imputabilidade, isto é, onde fica a culpa do sujeito?
Surgindo então, os primeiros impactos no Direito, pois os
psicopatas em grau determinado não têm noção de que algo é
proibido e cometem crimes apenas por prazer.
Há então um retorno puramente voltado para a
sexualidade, onde o sujeito apenas vê uma sexualidade
desenfreada e sem limites. Apenas pelo puro prazer. Partindo

255
dessa premissa, a Psicanálise procura compreender o
comportamento humano e, por conseguinte, o comportamento
desviante.
Barata esclarece que:

Dentre as distintas linhas de pensamento


que se seguiram, ainda que interligadas, a
contribuição da psicanálise não se ateve
simplesmente á explicação do
comportamento criminoso como ato
individual, mas trouxe ainda um novo
objeto de análise, a própria sociedade, com
o objetivo de esclarecer as razões pelas
quais se busca a punição de determinadas
condutas, tipificando-as como crime
(BARATA, 2002, p.184)

Através da Psicanálise, na perspectiva do inconsciente,


consegue-se descobrir o porquê de certos comportamentos
desviantes.
Desse modo, vale registrar o seguinte pensamento:

[...] existiriam criminosos por sentimento


de culpa. Tais indivíduos passam ao ato
motivado por uma culpabilidade
inconsciente a fim de se liberarem desse
sentimento: a culpabilidade precede o ato
e o causa, fazendo com que, em certa
medida, o ato criminal seja um efeito da
culpabilidade; culpabilidade que, no
fundo, tem raízes no complexo de Édipo
(FREUD, 1916/1976 apud CECCARELLI,
2013, p. 02).

2.5 DIREITO PENAL E A PSICOPATOLOGIA


256
Prevê no artigo 26 do Código Penal a possibilidade da
inimputabilidade, onde:

Ӄ isento de pena o agente que, por


doença mental ou desenvolvimento mental
incompleto ou retardado, era, ao tempo da
ação ou da omissão, inteiramente incapaz
de entender o caráter ilícito do fato ou de
determinar-se de acordo com esse
entendimento”. (Redação dada pela Lei nº
7.209, de 11.7.1984).

A Lei nº 10.216, de 06 de abril de 2001 que dispõe sobre a


proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos
mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental,
em seu artigo sexto diz: “Art. 6º A internação psiquiátrica
somente será realizada mediante laudo médico
circunstanciado que caracterize os seus motivos.”
Sendo assim, quando o indivíduo é considerado
inimputável, mediante um laudo psiquiátrico, deverá ter um
tratamento diferenciado entre o cumprimento da pena e medida
de segurança.
Ressalta-se nessas palavras que:

Criado por Sigmund Freud, a Psicanálise é


um método terapêutico que comporta
modelos e saberes que nos informa sobre o
funcionamento psíquico de indivíduos
oriundos de contextos socioculturais
diferentes dos nossos, exige uma extrema
prudência, para não corrermos o risco de
importarmos, também, a repressão sexual
e a moral da cultura que produziu aquela
257
forma de comportamento desviante: para
além de possíveis fatores biológicos no
aparecimento da conduta criminosa,
nunca devemos perder de vista que é a
cultura, com sistema de valores ético-
morais, que cria os comportamentos
desviantes e a delinquência. Sem este
cuidado, estaríamos aos poucos
importando modos de conduta e valores
que serão impostos como os únicos
capazes de gerar saúde psíquica. Trata-se,
pois, de ficarmos alertas contra os perigos
da globalização da origem do adoecer, das
causas do sofrimento e,
consequentemente, das formas de
tratamento (CECCARELLI, 2011, p. 18).

De acordo com Hisgail (2007, p.03),

Para a psicanálise, a pedofilia representa


uma perversão sexual que envolve
fantasias sexuais da primeira infância
abrigadas no complexo de Édipo, período
de intensa ambivalência da criança com os
pais, caracterizando-se pela atitude de
desafiar a lei simbólica da interdição do
incesto.

Portanto, a psicanálise apresenta instrumentos teórico-


práticos para a identificação e a compreensão do inconsciente.

A psicanálise, ao descrever princípios do


funcionamento mental, como, por
exemplo, o determinismo inconsciente,
definir estruturas psicológicas tais como
Id, Ego e Superego, e demonstrar que,
mesmo pessoas ditas normais, têm, nas
suas fantasias inconscientes, tendências
258
criminosas e antissociais, contribui de
forma esclarecedora para uma mudança
no modo de pensar a respeito de alguns
fundamentos tidos como básicos na
história do Direito. O primeiro destes é a
concepção do livre arbítrio, oriundo da
Escola Clássica e o segundo, o conceito de
determinismo, da Escola Positivista SORDI
(2007; p. 294).

Deverá o mesmo se preocupar com a aplicação justa e não


apenas de forma superior e independente em um caso concreto.

2.6 ELEMENTOS DA PSICANÁLISE IMPORTANTES PARA O


DIREITO NOS CRIMES SEXUAIS

2.6.1 ESTRUTURA DA PERSONALIDADE

De acordo com Hermann Mannheim (1984, p.450), para a


compreensão das teorias psicanalíticas, faz-se mister ressaltar
a formação da estrutura da personalidade, que são
denominadas: Id, Ego e Superego.
O Id é chamado de inconsciente puro, e é o núcleo da
personalidade. Apresenta-se no início da vida. O indivíduo,
nesse momento, é puramente inconsciente e busca o prazer
sem controle.
Em sequência, vem o Superego, a moral, que é introduzida
no sujeito a partir do aparecimento da figura paterna. Esta é a
porta de entrada para o mundo, pois é nesse momento que o
sujeito começa a ter noção de que não existe somente a
realidade da mãe, mas um mundo concreto. Desloca-se, então,
de um núcleo, que é o momento em que a criança começa a
259
engatinhar e levar à boca objetos dos quais não conseguia
pegar e que poderão representar dor. Nesse sentido, tem-se
início a noção do mundo concreto e a noção do que é proibido.
Portanto, é importante ter o desejo, que é um tema
fundamental para a psicanálise, pois ele é mais motivado pela
falta do que pela conquista e a frustração de não conseguir, isto
é, ter limite. Para confrontar com a realidade, surge o Ego, que
vem para equilibrar as duas estruturas: o Id e o Superego.
Segundo as palavras de Freud, o indivíduo inicia um
período de sofrimento a partir do momento do primitivo Id onde
deseja, por fim, a figura do pai. E sendo o Ego, o elo de
comunicação com o mundo externo, pois para ele o pai
representa a repressão e é mais forte que ele.

“Se a satisfação de amor no campo do


complexo de Édipo deve custar à criança o
pênis, está fadado a surgir um conflito
entre seu interesse narcísico nesta parte
de seu corpo e a catexia libidinal de seus
objetos parentais. Nesse conflito, triunfa
normalmente a primeira dessas formas: o
ego da criança volta às costas ao complexo
de Édipo” (FREUD, 1990.p.05).

Conclui-se que, para a construção do sujeito, é de suma


importância o Complexo de Édipo, pois revelará a diferença
entre ele e os pais e será um marco importante que refletirá por
toda sua vida.
E importante salientar que as estruturas não existem
enquanto vazias, mas são sempre habitadas pelo conjunto de
260
experiências pessoais e particulares de cada indivíduo, que se
constituem como sujeitos em sua relação como o outro e em
determinadas circunstâncias sociais.
Em síntese, para compreender alguém, é necessário
resgatar sua história pessoal, pois ela está ligada aos seus
grupos e à sociedade em que vive.
Esse processo, para Freud (1924/1996), é mais uma
repressão ou uma abolição do complexo, pois caso o Ego não
consiga muito mais que uma repressão do complexo, este
persistirá, em estado inconsciente no Id, manifestando-se,
futuramente, o seu efeito patogênico.

2.7 TRAUMA E DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO

Sendo o Complexo de Édipo uma chama de sexualidade


vivida por uma criança em relação aos seus pais, a matriz da
identidade sexual que será definida na crise edipiana, a base da
neurose infantil e modelo para todas as neuroses adultas, é
essencial para toda organização dos conceitos psicanalíticos, é
o conceito soberano.
Nas palavras de Faiman:

Se em todo sujeito, no período da infância,


existe, uma fantasia inconsciente de
cunho erótico, voltada ao genitor do sexo
oposto, devendo ser recalcada e resolvida
no desenrolar do Édipo, a Psicanálise vem
dizer que a concretização desses desejos,
sejam eles agressivos ou sexuais, tornar-
se-ia para a criança, uma experiência
261
bizarra e não prazerosa, causando, além
do sofrimento, o sentimento de não
existência como unidade psíquica
independente (FAIMAN, 2004, p. 04).

Existem duas consequências de todo o processo vivido no


Complexo de Édipo pelo menino: a formação do Supereu e a
confirmação de uma identidade sexual.
O Supereu é formado no momento em que o menino
percebe que não pode ter os pais e escolhe ser como eles, em
seus ideais, fraquezas e ambições. Na fase adulta do homem,
observa-se sua moral, intimidade e todos os seus sentimentos
refletidos desde a formação.
Portanto, é de suma importância a compreensão do
Complexo de Édipo, para entender no adulto suas neuroses,
angústias e frustrações.
GARRIDO faz uma interessante observação:

Surpreende na infância com tendências


psicopáticas a percepção positiva que têm
de atos cruéis contra outras crianças ou
animais, configurando grave sinal de
problemas emocionais e/ou
comportamentais (GARRIDO, 2011,
p.293).

Pode-se então observar comportamentos na infância de


extrema crueldade somada a ondas de prazer em determinados
atos praticados e acompanhados sem nenhuma manifestação
de arrependimento.

262
A continuidade do comportamento antissocial durante toda
a vida do psicopata é realmente impressionante, conforme
afirma Hare (2013, p.240), caracterizando o fracasso desses
indivíduos ao ajuste de regras e normas sociais e as
consequentes condenações criminais que compõem seu
histórico.
3.0 CRIMES SEXUAIS

Inicialmente, apresentava a designação dos crimes sexuais:


¨DOS CRIMES CONTRA OS COSTUMES¨, porém diante de
várias críticas doutrinárias, a partir de 10 de agosto de 2009, a
Lei Nº 12.015/2009 reestruturou o Titulo VI da Parte Especial
do Código Penal, caracterizando como ¨DOS CRIMES CONTRA
A DIGNIDADE SEXUAL¨.
Pode-se observar que no artigo 213 do Código Penal se
manteve a redação, onde caracteriza o crime de estupro, porém
foi acrescentado, no mesmo rol, o crime de atentado violento ao
pudor.
Sendo assim, acabou por abrandar a pena prevista, pois
caso o agressor pratique, na mesma vítima, mais de uma
conduta, incorrerá apenas uma pena.

3.1 PEDOFILIA
Foi a partir de 1905 que Sigmund Freud adotou o termo
perversão para a psicanálise, propondo a ideia de que havia nos
sujeitos perversos um desvio sexual em relação a uma norma
(MELO, 2011). Através da Psicanálise, é possível entender que a
sexualidade é um processo de fixação do desejo em alguns
263
elementos do mundo, e a partir disso será definida a
heterossexualidade e a homossexualidade.
Entretanto, a pedofilia apresenta-se como um descaminho
relativo a um desequilíbrio entre o Superego e o Id, pois a
sexualidade tem um ajuste, isto é, não é desenfreada. O desejo,
diferente de prazer, pressupõe um impedimento, que é a parte
consciente do sujeito.
A compreensão mais adequada é que o sujeito sabe que
terá de ter limites, isto é, não poderá a todo o momento ter
relação sexual ou exercer a sexualidade. Portanto, tendo essa
consciência, o mesmo acaba não sofrendo com essa limitação.
Todavia, no caso da perversão ou mais especificamente da
pedofilia, o sujeito tentará armar uma estratégia inconsciente
de não ter uma proibição e poderá atrair indivíduos mais
vulneráveis, as quais, crianças ou adolescentes, que,
supostamente, têm menos resistência para manter relações
sexuais com o pedófilo.
Para maior compreensão da ligação entre a pedofilia e os
crimes sexuais contra vulneráveis, conceitua-se este como
aquele indivíduo que, por qualquer outra causa, não pode
oferecer resistência à conduta do agente.
Mirabete dispõe sobre o conceito de vulnerável

dizendo que a pessoa do vulnerável no


sentido que o Código Penal Brasileiro lhe
conferiu é, em primeiro plano, a pessoa
menor de 14 anos, que, por sua
personalidade ainda incompleta, se
encontra particularmente sujeita aos
264
abusos e à exploração e sofre, em maior
intensidade, os efeitos danosos causados
por delitos de cunho sexual (MIRABETE,
2010, p.27).

Os crimes sexuais contra vulneráveis, abrangem os crimes


de:

 Estupro de vulnerável (art. 217-A,CP)

 Indução de menor de 14 anos a satisfazer a


lascívia de outrem (art. 218, CP)

 Satisfação da lascívia mediante presença de


criança ou adolescente (art. 218-A, CP)

 Favorecimento da prostituição ou outra


forma de exploração sexual de vulnerável (art. 218-
B,CP)

De acordo com o Código Penal - Decreto Lei nº 2.848 de 07


de Dezembro de 1940:

Art. 217 - (Revogado pela Lei nº 11.106, de


2005)
Estupro de vulnerável (Incluído pela Lei nº
12.015, de 2009)
Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou
praticar outro ato libidinoso com menor de
14 (catorze) anos: (Incluído pela Lei nº
12.015, de 2009)
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze)
anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de
2009)
§ 1o Incorre na mesma pena quem pratica
as ações descritas no caput com alguém
que, por enfermidade ou deficiência
265
mental, não tem o necessário
discernimento para a prática do ato, ou
que, por qualquer outra causa, não pode
oferecer resistência. (Incluído pela Lei nº
12.015, de 2009)
§ 2o (VETADO) (Incluído pela Lei nº
12.015, de 2009)
§ 3o Se da conduta resulta lesão corporal
de natureza grave: (Incluído pela Lei nº
12.015, de 2009)
Pena - reclusão, de 10 (dez) a 20 (vinte)
anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de
2009)
§ 4o Se da conduta resulta morte:
(Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)
Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta)
anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de
2009)
Corrupção de menores

Vale ressaltar que, a pedofilia em si não implica em crime,


porém, a partir do momento que a exterioriza, isto é, consuma o
ato com a criança, será considerado crime.
De acordo com Kaplan, trata-se de um distúrbio inserido no
grupo das parafilias:

As parafilias são transtornos sexuais


caracterizados por fantasias sexuais
especializadas e intensas necessidades e
práticas que, em geral, são de natureza
repetitiva e angustiam a pessoa. A fantasia
especial, com seus componentes
conscientes e inconscientes, constitui o
elemento patognomônico, sendo a
266
excitação sexual e o orgasmo fenômenos
associados. A influência da fantasia e suas
manifestações comportamentais
estendem-se além da esfera sexual,
invadindo toda a vida da pessoa. As
principais funções do comportamento
sexual para os seres humanos consistem
em auxiliar na formação de vínculos,
expressar e melhorar o amor entre as
pessoas e para fins de procriação. As
parafilias representam um comportamento
divergente, no sentido de serem
escondidos, por seus participantes,
parecerem excluir ou prejudicar outros e
perturbarem o potencial para os vínculos
entre as pessoas. A excitação parafílica
pode ser temporária em algumas pessoas
que agem segundo seus impulsos, apenas
durante períodos de estresse ou conflito.
As principais categorias de parafilias na
quarta edição do Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-
IV) são: exibicionismo, fetichismo,
frotteurismo, pedofilia, masoquismo
sexual, sadismo sexual, voyeurismo,
fetichismo transvéstico, e uma categoria
separada para outras parafilas sem outra
especificação (SOE) (por ex., zoofilia). Uma
determinada pessoa pode ter múltiplos
trantornos parafílicos (KAPLAN, 2003,
p.635).

É mister ressaltar que não se trata de uma sexualidade


adulta, mas sim masturbatória, de adolescente, haja vista que,
às vezes, o ato não se concretiza propriamente. Há casos de
pedofilia em que não se há a penetração no momento do ato,
havendo apenas abusos de toques. Dessa forma, é

267
proporcionado ao pedófilo apenas o prazer pela masturbação e
não pela consumação da relação sexual.
No entendimento da Psicanálise, o motivo da perversão
sexual do pedófilo encontra-se abrigadas no Complexo de
Édipo, período de intensa dualidade de sentimento entre o amor
e o ódio.
Portanto, este comportamento é um desequilíbrio entre o
Superego e o Id, isto é, uma má formação da personalidade,
transformando-se então numa perversão.
4.0 ESTUDO DE DECISÃO DE UM CASO DE PEDOFILIA

Para elucidar o tema proposto, será apresentado um


Acórdão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Nº:
1.0000.08.488386-7/000, Numeração: 4883867- Relator:
Des.(a) Ediwal José de Morais Relator do Acordão: Des.(a)
Hélcio Valentim Data do Julgamento: 10/05/2010. Data da
Publicação: 03/09/2010.

EMENTA: CRIME SEXUAL -


PERTURBAÇÃO MENTAL - PEDOFILIA -
REDUÇÃO DE PENA - IMPOSSIBILIDADE
- DESVIO QUE CONSTITUI A PRÓPRIA
AÇÃO IMPUTADA - AÇÃO REVISIONAL
JULGADA IMPROCEDENTE. V.V.
REVISÃO CRIMINAL - ATENTADO
VIOLENTO AO PUDOR - PERÍCIAS QUE
COMPROVAM A SEMI-IMPUTABILIDADE
DO RÉU - PERTURBAÇÃO MENTAL
ANTIGA - PEDIDO ACOLHIDO PARA
REDUÇÃO DA SANÇÃO - FRAÇÃO DE
REDUÇÃO - UM TERÇO - PROPORÇÃO
MAIS ADEQUADA AO CASO - PEDIDO
268
PARCIALMENTE ACOLHIDO. -Havendo
nos autos da revisão criminal perícias que
indicam padecer o agente de perturbação
da saúde mental, sofrimento que o
acometia ainda à época dos fatos
revisados, cuidando-se de questão não
debatida no feito de origem, cumpre
reconhecer em favor do condenado à
circunstância que atenua a pena,
tratando-se aquela do art. 26, parágrafo
único, do CP. Inteligência do art. 621, III,
do CPP. Tratando-se de perturbação
fronteiriça entre a normalidade e doenças
psíquicas sérias, adequada a fração de um
terço para a redução, já adotada em outros
processos que correm contra o réu. Pedido
revisional parcialmente acolhido. REVISÃO
CRIMINAL N° 1.0000.08.488386-7/000 -
COMARCA DE SANTA BÁRBARA -
PETICIONÁRIO(S): BONIFACIO BUZZI -
RELATOR: EXMO. SR. DES. EDIWAL
JOSÉ DE MORAIS - RELATOR PARA O
ACÓRDÃO: EXMO SR. DES. HÉLCIO
VALENTIM.
ACÓRDÃO.
No Acórdão Nº: 1.0000.08.488386-7/000 fica evidente
como o Direito busca esclarecer e identificar os fatos, por meio
de uma avaliação do perfil psicológico e da personalidade do
réu, através de um Laudo Psiquiátrico, e se valeu do auxílio da
Psicanálise.
De acordo com as informações extraídas no Processo do
Acórdão acima, no final do ano de 1994 e início de 1995,
através de denúncias (f.28 dos autos principais), Bonifácio
Buzzi, valendo-se da condição de sacerdote, no distrito de
Brumal/Minas Gerais, molestou duas crianças menores de doze

269
anos. No julgamento, realizado em dezenove de agosto de 1997,
o réu foi condenado, após recurso examinado neste colendo
Sodalício, em nove anos de reclusão (art. 214 c/c o art. 224,
"a", na forma do art. 71, todos do CP), de acordo com o acórdão
acostado às f. 643/669 do feito originário ora em apenso.
Na leitura da descrição de f. 406 deste processo,
evidencia-se que o réu, quando apresentava a idade de 06 (seis)
anos, sofrera abusos sexuais e o mesmo reconhecia sua
patologia mental e afirmava que ¨sua doença não tinha cura¨.
Nesse contexto, a Psicanálise contribuirá de forma
significativa para esclarecer determinados comportamentos
sexuais no Processo Penal, haja vista que aquela estuda o
inconsciente, através de traumas acontecidos na infância, e que
consequentemente refletirá ao longo de toda vida.
No caso em tela, o comportamento sexual do condenado
está diretamente ligado no desvio da formação de sua
personalidade, uma vez que o mesmo foi abusado na infância,
período de intensa dualidade de sentimento entre o amor e o
ódio. Possivelmente, o trauma sofrido culminou em práticas
sexuais desviantes, pois não se conseguiu canalizá-lo.
Vale frisar que nem todos os indivíduos abusados
sexualmente, quando criança ou adolescente, terão uma
conduta que os levarão a cometer crimes sexuais, entretanto,
sob uma visão psicanalítica, certos indivíduos, quando têm
experiências sexuais traumáticas, quando adultos, armam
estratégias no inconsciente, as quais o levarão às práticas
sexuais sem limites.

270
As perícias f. 227/237 e f. 405/413 dos autos da revisão
criminal, principalmente aquele trazido em sede oficial f. 405 e
seguintes, revelam a provável origem da conduta criminosa do
condenado, ali se indicando os fatores que teriam instigado o
agente a seguir o referido caminho.
Na leitura da descrição de f. 406 deste processo é
possível constatar que o réu estaria envolvido em fatos de
mesma natureza há um longo tempo. Noticia-se, ainda, o abuso
sexual em detrimento do condenado, quando este apresentava a
idade de seis anos.
Segundo as f. 409 dos autos da revisão - quesito n. 08,
Problema este ligado à patologia mental, que no caso do réu foi
diagnosticada como desvio para práticas pedofílicas, a ponto de
mitigar a capacidade plena de determinar-se de acordo com o
entendimento do caráter criminoso dos fatos.
Assim, aplica-se aqui o seguinte enunciado:

Laudo psiquiátrico, que dá o requerente


como semi-imputável, em processo que
ainda tramita. Extensão aos feitos
definitivamente julgados. Possibilidade de
revisão parcial, para reconhecer
circunstância que autoriza diminuição
especial de pena. O laudo psiquiátrico tem
caráter de prova nova, eis antes não
agitada, e de prova positiva, eis aceita pelo
Judiciário como decisiva para o
reconhecimento de minorante do art. 26,
parágrafo único, do CP (TARS - JTAERGS,
92/60).
5.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS

271
O presente estudo evidencia que, diante de crimes
sexuais, mais especificamente crimes de pedofilia, o Direito
Penal apresenta-se ainda bastante incompleto, se analisado de
forma isolada, autônoma e independente dos demais saberes.
Apreende-se que o Juiz, quando é estritamente legalista,
isto é, analisa o processo baseando-se apenas na lei seca,
apresenta-se muito despreparado para a promoção da justiça
em um caso concreto que demanda o uso de uma gama de
saberes.
Nesse sentido, demonstrou-se a importância da
interlocução entre o Direito Penal e a Psicanálise, visto que
esta, através do estudo da personalidade do sujeito, ajuda a
interpretar determinados comportamentos relacionados ao
inconsciente, podendo intervir e contribuir para os operadores
de Direito, a fim de que uma decisão judicial, nos crimes
sexuais, não seja proferida apenas se baseando no Código Penal
Brasileiro.
E importante salientar que a Psicanálise, através do
processo de análise, que é a terapia, poderá, no primeiro passo,
detectar qual foi o trauma ocorrido na formação da
personalidade, a qual, consequentemente, gerou a passagem
para o ato, isto é, o motivo pelo qual o individuo tem essa
personalidade, que irá levá-lo a cometer os crimes sexuais e
também por não ter a dimensão do Superego desenvolvida.
Sendo assim, nesses casos de psicoses, em que há a
prática de crimes sexuais, mesmo não tendo cura, nota-se que
através de terapia, poderá ocorrer um processo denominado de

272
sublimação, que é a passagem desse sintoma para outro,
através de uma mediação, ou seja, canalização do indivíduo por
meio de atividades terapêuticas (arte, músicas ou outras...)
para que ele consiga expressar a sua psicose, por meio de uma
forma que não seja maléfica a ele e a outro.
Vale ressaltar que não se há nenhuma pretensão no que
tange a esgotar o tema proposto, dado à sua complexidade, e,
sobretudo , porque há muitos desafios a serem alcançados,
como, por exemplo, fornecer esse tipo de tratamento em grande
escala ao serviço público, uma vez que não há outro caminho
de ressocialização do individuo.
E cediço que o Estado democrático de direito, como
detentor do poder de punir, deve aplicar medidas de segurança
mais humanizadas aos indivíduos que sofrem de transtornos
mentais e praticam crimes sexuais, e não apenas administração
medicamentosa, que tira o indivíduo ou controla instantânea de
sua própria personalidade.

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In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
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Tradução Juliana Teixeira. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2011.
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Trad.J.F.Faria Costa e M. Costa Andrade. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 1984. vol.1, p.450, em que cita também
Foulkes que ¨compara estas três camadas da personalidade
humana a uma outra Tríade: criminoso-sociedade-juiz, em que
o cidadão normal ocupa uma posição entre o primeiro e o
terceiro¨(p.451). Também, Figueiredo Dias, Jorge de; Andrade,
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Psicanálise e o Mundo Neoliberal. In: Direito e Neoliberalismo:
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MELO, Maria de Magdala Esmeraldo. O discurso perverso na


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SORDI, Rudyard. Psiquiatria Forense. Aspectos Psicológicos na
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275
ANÁLISE DO FILME “MAR ADENTRO” A PARTIR DA
FILOSOFIA DE PAUL RICOEUR
Marisa Quintão1
René Dentz2

RESUMO

O Filme “Mar Adentro” de Alejandro Almenabar apresenta o


personagem principal que por razões relacionadas à sua
dignidade acaba por cometer a eutanásia auxiliado por seus
amigos. Esse filme nos leva a questões filosóficas e traz um
conceito mais reflexivo do que é tirar a vida do ser humano por
considerações humanitárias para a pessoa ou a sociedade.

Palavras-chave: Eutanásia; Corporeidade; Liberdade; Razão;


Alteridade.

INTRODUÇÃO
É um caso verídico, com apologia à liberdade onde pode
ser notado na frase marcante do personagem principal Ramón
San Pedro onde ele diz: “Liberdade que elimina a vida, não é
liberdade, e vida que elimina liberdade, não é vida”.

1 Graduada em Odontologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas


Gerais -conclusão em 1982;
Especialista em Saúde Pública pela UNAERP- conclusão em 2000;
Especialista em Periodontia pela Universidade de Itaúna- conclusão em 2006;
Especialista em Implantodontia pela Faculdade UNINGÁ- conclusão em 2007;
Especialista em Cirurgia e Traumatologia Buco Maxilo Facial pela FACSETE-
conclusão em 2012;
Mestre em Clínicas Odontológicas e Periodontia pela Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais- conclusão 2006;
Curso de Extensão em Teologia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana-
conclusão em 2015;
Graduanda em Direito- UNIPAC- Mariana
Graduanda em História- UFOP- Mariana.
2 Professor Titular da FUPAC-Mariana; Psicanalista; Membro do International

Institute for Hermeneutics (Alemanha) e da Ricoeur Society (EUA); Ph.D. pela


Warsaw University.
276
Existe nesse filme uma desconstrução da generalidade,
Ramón não quer a cadeira de rodas. Ocorrem cenas sensitivas,
bonitas onde o mar apresenta-se com a condição do infinito. É
como se o mar adentro fosse uma volta: mar deu a vida e tirou-
a no acidente. É uma construção de ligação. Ramon é uma
pessoa racional, tem certeza de que vai morrer e a vida do corpo
é a liberdade para ele. Como seres humanos, somos
programados para o nascer, o desenvolver, a criação de laços
afetivos, a reprodução, a velhice, mas não a morte, por isso
mesmo podemos afirmar que na maioria das vezes procuramos
cada vez mais medidas para prolongar a vida, e embora
tenhamos essa ânsia por vida eterna a morte continua sendo
um fato certo para todos nós. Na Constituição Brasileira existe
a instituição no seu artigo quinto como garantia fundamental o
direito à vida, portanto, inalienável.
Porém como direito inalienável, a vida realmente nos
pertence? Podemos dispor dela quando e como queremos? Isto é
pensado quando argumentamos a favor ou contra a eutanásia.
O filme nos leva a uma série de reflexões acerca do direito
objetivo e do direito subjetivo, se devemos abordar a questão
respeitando principalmente o princípio da dignidade da pessoa
humana e/ ou a autonomia do ser humano.
Durante o decorrer do filme percebe-se que para Ramon
a vida do corpo é a liberdade. É melancólico e o tempo para ele
está morto no tempo e a morte viria como uma cisão. Ricoeur
tem desenvolvido uma ética hermenêutica que pode ser
prolongada em uma bioética. Psicanálise, semiótica,

277
estruturalismo, fenomenologia, história das religiões, ciências
históricas e políticas têm sido utilizadas por Ricoeur como saída
em impasses a certas situações. O filósofo francês tem sua
filosofia com reflexão da vida moral do princípio ao fim. É uma
filosofia da vontade humana. Movemos no mundo das
interpretações na sua pluralidade e conflitos. Portanto, a
hermenêutica de Ricoeur gira progressivamente até a ética.
Ricoeur foi sem dúvida um dos principais nomes da
filosofia contemporânea. Sua importância está ancorada em
diversos fatores: suas numerosas publicações, seu brilhantismo
na articulação filosófica, sua clareza de objetivos, na abordagem
pertinente para sua época e em constante diálogo com a
mesma. Ricoeur foi um pensador atento e sensível ao seu
tempo, não se esquivando nem dos acontecimentos de sua
época, nem dos fatos impactantes em sua existência.
No entanto, destacamos três fatores que o distinguem de
outros importantes nomes da filosofia do século XX: sua
interlocução com diversas áreas do saber, demonstrando uma
abertura ao novo, possibilitando uma constante abertura de
sua filosofia a novas dimensões do saber e do humano.
Podemos verificar esses frutos intelectuais a partir do diálogo
com a teologia, a psicanálise, a literatura, a história, a
linguística, as religiões, etc.; sua preocupação em pensar a
filosofia de forma rigorosa, fundamentando-a na tradição, mas,
ao mesmo tempo, promovendo abordagens a partir dos mitos,
da religião, dos poetas antigos, ou seja, de fontes “não
filosóficas da filosofia”. O diálogo entre teologia e filosofia, nesse

278
sentido, alarga o campo de pensamento filosófico,
enriquecendo-o, protegendo-o de preconceitos e ideologias; seu
contato com um tipo de filosofia que tem como inspiração a
tradição analítica, o que lhe permite fazer uma abordagem
sobre a linguagem de forma mais ampla. Durante quinze anos
Ricoeur vive e lecionou nos Estados Unidos, em Chicago. Lá,
teve contato com uma perspectiva diferente de filosofar,
partindo de um horizonte mais “analítico” e menos
“hermenêutico”. No entanto, não abandonou a hermenêutica,
apenas a ampliou.
A hermenêutica e a ética não se opõe em seu projeto de
se encontrar e se complementam. A experiência moral (a lei, a
obrigação) se encaixa hermeneuticamente.
Para Ricoeur, não há conflito entre a hermenêutica dos
textos e a ética do cuidado do outro. A interpretação não se
entende sem o momento ético-pessoal da aplicação, da
produção prática. Ramon deseja a morte porque a vida do corpo
é a liberdade, não existem certezas e existe o esvaziamento do
“eu”. Como forma de se orientar na realidade, Ricouer mostra
três momentos: a racionalidade que dá conta do humano é
narrativa. As narrações fazem parte de nossa vida. Somos
moradores de nós mesmos. A identidade humana, pessoal,
social, nossas crenças são narrativas; e para Ramon existem
essas narrativas que são pessoais, identitárias.
As narrativas são formas de produzir sentido e o sentido
pode ser múltiplo e ter ambiguidades; o que fica bem claro nas
posições de Ramon durante o decorrer do filme. Existe a

279
necessidade da racionalidade definida pelo ideal da
universalidade as quais não se buscam na natureza sem o
próprio sujeito.
A partir de uma tomada de consciência, o indivíduo
descentra-se de si mesmo e adentra numa perspectiva de
abertura, concretizando a humanidade que emerge com os
valores da pessoa em um sentido comunitário.
Em meio às verdadeiras guerras
intelectuais que assolam violenta e
soberbamente os meios acadêmicos,
Ricoeur, em atitude sempre discreta e
humilde, privilegiou a escuta, a atenção
profunda à assimetria possível no diálogo e
ao argumento sempre respeitável do
adversário. Para nós, intelectuais de hoje,
seu legado é o de um caminho generoso e
certamente apto a conduzir as criaturas
falíveis que somos através dos
desconfortos destes tempos modernos e
pós-modernos (BINGEMER, 2005, p. 2).

A ética de Ricoeur conduz a uma bioética definida como


das éticas em que a vida moral se expressa em sua
cotidianidade. É a pequena ética-si mesmo como outro- a
tomada de decisões no ato médico- ética aplicada na defesa de
um sentido de justiça originário que impregna o parecer
médico.
A ética centrada na atenção do médico ao paciente que
se faz necessária. Essa prática apresenta níveis para Ricoeur
como a prudência que é a capacidade de julgar e se aplica a
situações singulares em que o paciente individual está situado
em uma relação interpessoal com o médico, ou com a sociedade

280
(é considerar que para Ramon não é direito à vida, porque o que
ele vive não é vida para ele).
Desde o início, Ricoeur considerou a racionalidade
filosófica como um desafio a assumir na condição de crente.
Dessa forma, procura no círculo hermenêutico compreender
mais para crer e crer mais para compreender e alcançar um
caminho de maior harmonia entre a filosofia e a religião, mas
nunca uma solução simplista. “Eu sempre caminhei sobre duas
pernas. Não foi apenas por precaução metodológica que não
misturei os gêneros, mas porque procuro afirmar uma dupla
referência, absolutamente primeira para mim” (RICOEUR,
1995a, p. 211).
Tanto nas intervenções filosóficas, quanto em seus
trabalhos exegéticos, Ricoeur se esforça para rejeitar tudo
aquilo que poderia ser identificado como um “fundamentalismo
redutor”, seja especulativo, conceitual ou teológico. É
justamente o diálogo entre a filosofia e a religião que ele vê
como um antídoto para tal problema. Esse diálogo não pode se
instituir sem essa alteridade principal, sem essa diferenciação
bem clara entre dois campos, que animam, com o mesmo rigor,
um pensamento que nunca perde como horizonte a
incompletude. Essa cisão entre os dois domínios teve mesmo
uma tendência a se reforçar. Os artigos publicados por Ricoeur
nos anos cinquenta e sessenta justapõem as intervenções dos
dois registros. Por outro lado, os três volumes de Lectures
separam esses domínios. Em Lectures 2 se dedica aos filósofos,

281
em Lectures 3 se situa na fronteira da filosofia, estudando
temas teológicos.
Em Soi-même comme un autre Ricoeur não quis, mesmo
que seu editor, François Wahl não visse nenhuma objeção, que
sua hermenêutica do si, propriamente filosófica, se finalizasse
com dois capítulos de hermenêutica bíblica. Ele se explica no
prefácio da obra, reconhecendo que sua escolha é discutível e
pode ser criticada, mas mantém um “discurso filosófico
autônomo”. Fica aqui claro que ele pretende evitar críticas no
campo teológico de que seria um “cripto-filósofo”, pois tentaria
transformar a fé bíblica em uma filosofia; e no campo filosófico
de que seria um “cripto-teólogo”, pois traria à discussão temas
que não são próprios à razão filosófica. Por certo, em ambientes
onde a crítica filosófica é mais acirrada, como na França,
Ricoeur parece não se sentir à vontade para abordar temas
teológicos. No entanto, ministra várias conferências pela
Europa, por exemplo, as Gifford Lectures, em Edimburgo, nas
quais também aborda temas com forte inspiração teológica.
Essa forma de ascese perpassa toda sua obra, configurando-o
como um “tipo de filósofo que a nomeação efetiva de Deus está
ausente e onde a questão de Deus, na condição de uma questão
filosófica, permanece em um suspense que podemos dizer
agnóstico” (RICOEUR, 1990, p. 36).
Outro nível é o deontológico é o exercício crítico com
respeito ao interior buscando ir mais além da relação particular
deste paciente e o médico. É o nível dos códigos deontológicos

282
da medicina. Seria a postura médica frente à vontade da
eutanásia.
Finalmente, outro nível para Ricoeur é a ética médica
com caráter reflexivo com esforço de legitimação e
fundamentação dos saberes exercidos na prática e depurados
pelos códigos deontológicos. É necessário para Ricoeur que
exista o esforço reflexivo próprio da filosofia em questões de
saúde, enfermidade, sofrimento.
Desse modo, a fenomenologia resgata o movimento
unitário do voluntário e do involuntário, havendo uma
superação do estágio puramente analítico da fenomenologia
para estabelecer um movimento de conjunto da vida e da
vontade. Ricoeur mostra que a reflexão faz a vontade chegar ao
seu máximo nas determinações de si por si, isto é: eu me
decido, eu me determino e determino o que corresponde a uma
relação ativa e passiva do sujeito para si mesmo. Ao atribuir a
mim mesmo a responsabilidade pelos meus atos, esta já se
mostra presente em minha consciência, o que traduz a
possibilidade de ação da minha liberdade.

[...] Justo para reivindicar a


responsabilidade de minhas ações ou me
acusar, para essa imputação refletida de
mim mesmo irromper na minha
consciência. (...) Neste sentido, o primeiro
possível inaugurado pelo querer não é o
meu próprio poder-ser, mas a
possibilidade do acontecimento da obra no
mundo projetando agir. É o poder-ser feito,
visado sobre o próprio mundo que
permanece sempre no horizonte da minha
escolha como o campo de operação da
283
minha liberdade (RICOEUR, 2008, p. 75-
76).
Encontramos em Le volontaire et l´involontaire, obra que é
o foco da eidética da vontade, as estruturas pré-éticas do
homem livre, da vontade finita. No entanto, a produção de uma
inteligibilidade do sentido voluntário-involuntário foi feita sob a
abstração da falta e da transcendência. Trata-se de uma
abstração relativa à espontaneidade do corpo próprio e relativa
à paixão – enquanto vertigem que tem sua fonte na alma
mesma – de ser o que se é: na falta.
Segundo Ricoeur, o nível prudencial ocorre em situações
mais particulares do que gerais. É o ato médico. É a relação que
tem como pano de fundo o sofrimento do qual o paciente quer
saber se livrar com a ajuda médica. É baseado na confiança
(Ramon necessitando de ajuda para morrer).
As queixas, sofrimentos são narrados por Ramon. A
narração desses sofrimentos é um componente fundamental na
expressão do sintoma e na compreensão por parte do paciente
(Ramon) que expõe sua dor, moléstia e pede a cura (eutanásia).
CONCLUSÃO
O pacto da confiança que é o coração da bioética é um
pacto frágil. Paciente espera muito do médico e existem formas
de superar essa fragilidade segundo Ricoeur. Ele aponta a
singularidade de cada pessoa em seu caráter insubstituível; a
necessidade de tratar a pessoa como um todo e não
fragmentada (vontade de liberdade apontada por Ramon) e a
autoestima (que é percebida como aquela que Ramon perde na
circunstância em que vive: acamado, com cuidados excessivos
284
familiares, triviais, limitado, com dependência total). Uma
autoestima perdida que seria o amor próprio, orgulho pessoal
na relação consigo mesmo que é o fundo ético que chamamos
de dignidade.
Com relação ao aspecto deontológico segundo Ricoeur, o
código deontológico distribui, coordena direitos e deveres aos
médicos e pacientes (a questão da verdade devida ao paciente
que é um direito do paciente). Paciente fica sujeito à legislação,
tribunal como ocorre com Ramon no filme.
E a terceira condição para Ricoeur que é arbitrar os
conflitos que podem surgir na prática médica no cuidado à
pessoa e decidir na prática humanista (ajudar na eutanásia e
deixar o paciente ter a liberdade que almeja).
Para Ricoeur, no nível reflexivo, temos que as sociedades
democráticas não sobrevivem mais graças a um consenso
entrecruzado mediante desacordos razoáveis. Nesse ponto,
Ricoeur é um seguidor de Rawls. Discussão na razão discursiva
se faz necessário na democracia. No filme, o padre tem postura
dogmática, mas Ramon não pode falar. O advogado é
incoerente. Isto é dogmatismo e metafísico. Ricoeur reflete
questões relativas à saúde, sofrimento, felicidade, vida boa e
por outro lado a figura do médico. A fragilidade maior dessa
relação é no plano reflexivo pois afeta as ideias, imagens,
crenças referidas pela dor, morte e sofrimento, como podemos
notar no caso de Ramon. São diferentes fontes de moralidade,
convicções; consenso entrecruzado, desacordos racionais que

285
estão em desencontro à vontade do paciente que é o
proprietário de sua própria vida.
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RICOEUR, Paul. Le Soi mandaté, in: Amour et Justice, Paris,


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286
A CULTURA DAS SELFIES E O NARCISISMO

André Germano
Bruna Mariane
Carlos dos Reis
Débora Luz
Jonathan Corrêa
Marlon Mesquita
Mayara Aparecida
Paulo Castanheira1
René Dentz2

RESUMO

O ensaio pretende refletir livremente a respeito da cultura das


selfies, fazendo análise da questão partindo dos princípios
narcisistas visualizados através dos artigos: A era do
narcisismo: aspectos da subjetividade contemporânea;
Melancolia e narcisismo: a face narcísica da melancolia nas
relações do eu com o outro; e Até Que Ponto O Narcisismo Pode
Ser Datado? Uma Reflexão À Luz Das Contribuições De Piera
Aulagnier (primeiro capítulo). E também, debater sobre as obras
audiovisuais: O Retrato de Dorian Gray e também o primeiro
episódio da terceira temporada da série Black Mirror intitulado
Queda Livre, sob a luz interpretativa dos especialistas da
atualidade, interpretando essas obras utilizando-se das
conclusões reflexivas alcançadas no decorrer deste ensaio.

INTRODUÇÃO

Evento cotidiano na sociedade contemporânea, a


utilização e divulgação da autoimagem, popularmente chamada
de selfie, que é uma palavra em inglês, um neologismo com
origem no termo self-portrait, e é uma fotografia, normalmente

1Graduandos do curso de Direito da FUPAC-Mariana


2Professor Titular da FUPAC-Mariana; Pós-Doutor pela Warsaw University;
Membro do International Institute for Hermeneutics (Alemanha); Psicanalista.
287
em formato digital, que uma pessoa tira de si mesma, ou seja,
um autorretrato, tendo historicamente o alemão Robert
Cornelius, em 1839, como autor do primeiro autorretrato
registrado, popularizando-se, principalmente a partir de 2012,
quando sua utilização e termo se tornaram comuns nas
principais plataformas de mídia, a selfie vem sendo motivo de
estudo por profissionais de diversas áreas, dentre elas a
sociologia e também a psicologia e psicanalítica.
Pelo ponto sociológico, o estudo é direcionado ao estudo
das selfies como forma de interação e comunicação entre
indivíduos, analisando seus impactos e consequências na
sociedade.
Já através da psicologia e psicanálise, esse estudo possui
como principal foco a compreensão das selfies devido ao
significativo impacto no indivíduo em si, nos acarretamentos
que tal atividade provoca no sujeito, bem como eventuais
distúrbios psicossomáticos que podem advir da mesma.
Para os fins reflexivos aqui pretendidos, pontua-se a
visão psicológica e psicanalítica, analisando o impacto no
indivíduo em si, e alguns dos seus acarretamentos ao levantar
preocupações, como obsessão e dependência de criar e postar
selfies em redes sociais, assim como problemas relacionados à
autoestima e depressão. Sendo que, apesar da grande
abrangência de temas e discussões no âmbito psicológico e
psicanalítico que podem advir aos estudar as selfies, o foco aqui
pretendido é analisar através da visão do narcisismo, ou seja,

288
buscar um entendimento das selfies embasando-se pelo
conceito narcisista.
A CULTURA DAS SELFIES

Sendo um evento extremamente recente, a cultura de


interação e comunicação social através das selfies ainda
necessita de vários estudos para total entendimento do seu real
impacto, mas com o que já foi debatido até o momento, verifica-
se que a selfie tornou-se um marco na forma como o indivíduo
interage uns com os outros e assim com a sociedade como um
todo, sendo que através do autorretrato o indivíduo busca
principalmente: a inclusão e a aceitação social nos grupos que
deseja fazer parte; formas de aumento da autoestima;
valorização de seus feitos; e também reforço de seu status.
Nota-se inclusive que essa nova forma vem substituindo
várias formas antigamente utilizadas, o que como exemplo,
pode verificar a partir da cada vez mais reduzida forma de
comunicação pela narrativa, pois o sujeito prefere “contar” os
seus feitos através da publicação do autorretrato do que em um
discurso narrativo.
O NARCISISMO

Para entender a discussão acerca do tema, é preciso que


se façam as devidas definições para o entendimento do assunto
abordado. Sendo assim, é primordial a devida definição do
narcisismo, que pela psicanálise de uma forma extremamente
condensada significa o amor pela própria imagem.

289
O termo narcisismo surgiu pela primeira vez em 1910
numa nota acrescentada por Freud aos Três ensaios sobre a
teoria da sexualidade. Freud escreveu que eles “tomam a si
mesmos como objetos sexuais” e, “partindo do narcisismo,
procuram rapazes semelhantes à sua própria pessoa, a quem
querem amar tal como sua mãe os amou”.
Freud se dedica totalmente ao narcisismo em sua obra
escrita em 1914, onde desenvolve sua teoria sobre o tema, e
acordo com o dicionário de psicanálise, o termo Narcisismo foi
“empregado pela primeira vez em 1887, pelo psicólogo francês
Alfred Binet (1857-1911), para descrever uma forma de
fetichismo que consiste em se tomar a própria pessoa como
objeto sexual” (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 530). O termo
foi depois utilizado por Havelock Ellis, em 1898, para designar
um comportamento perverso relacionado com o mito de
Narciso.
Ainda sobre sua origem na tradição grega, o personagem
Narciso descreve o amor do indivíduo por si mesmo, mas ainda
nesse período, esse termo não estava relacionado a um conceito
construído cientificamente:

“Filho do deus Cefiso, protetor do rio do


mesmo nome, e da ninfa Liríope, Narciso
era de uma beleza ímpar. Atraiu o desejo
de mais de uma ninfa, dentre elas Eco, a
quem repeliu. Desesperada, esta adoeceu e
implorou à deusa Nêmesis que a vingasse.
Durante uma caçada, o rapaz fez uma
pausa junto a uma fonte de águas claras:
fascinado por seu reflexo, supôs estar
290
vendo um outro ser e, paralisado, não
mais conseguiu desviar os olhos daquele
rosto que era o seu. Apaixonado por si
mesmo, Narciso mergulhou os braços na
água para abraçar aquela imagem que não
parava de se esquivar. Torturado por esse
desejo impossível, chorou e acabou por
perceber que ele mesmo era o objeto de
seu amor. Quis então separar-se de sua
própria pessoa e se feriu até sangrar,
antes de se despedir do espelho fatal e
expirar. Em sinal de luto, suas irmãs, as
Náiades e as Díades, cortaram os cabelos.
Quando quiseram instalar o corpo de
Narciso numa pira, constataram que havia
se transformado numa flor. (ROUDINESCO
e PLON, 1998, p. 530).

Foi em 1914, que o conceito de narcisismo foi melhor


desenvolvido. No seu texto Sobre o narcisismo: uma introdução,
Freud abre seu texto afirmando que:

“O termo narcisismo deriva da descrição


clínica e foi escolhido por Paul Näcke em
1899 para denotar a atitude de uma
pessoa que trata seu próprio corpo da
mesma forma pela qual o corpo de um
objeto sexual é comumente tratado - que o
contempla, vale dizer, o afaga e o acaricia
até obter satisfação completa através
dessas atividades. Desenvolvido até esse
grau, o narcisismo passa a significar uma
perversão que absorveu a totalidade da
vida sexual do indivíduo, exibindo,
consequentemente, as características que
esperamos encontrar no estudo de todas
as perversões.” (FREUD, 1914/1996,
p.81).

291
Uma definição que traz ainda um melhor entendimento
para as reflexões pretendidas neste ensaio pode ser encontrada
no texto de Fernando Gaio e André Gaio (2013) no qual definem
o olhar narcísico como sendo: “aquele que acredita que nada
existe de melhor à sua volta a não ser sua própria imagem
refletida. Os sujeitos narcisistas ficam agarrados à própria
imagem; são incapazes de distinguir entre uma imagem do que
se imaginam ser do que realmente são. Eles se identificam com
uma imagem idealizada; assim a imagem real se perde.”
Outra forma na qual a definição do narcisismo deve ser
explorada para uma melhor elaboração da discursiva atual, que
é através da definição de que em certos casos o indivíduo
engloba um outro/objeto ao seu eu, considerando assim esse
outro/objeto como parte de si, portanto, formando na concepção
deste indivíduo uma única entidade que o indivíduo considera
como toda a extensão do eu. E aqui, precisa-se esclarecer
melhor ao leitor sobre o que é o termo outro/objeto, cujo valor é
de extrema importância para o devido entendimento a respeito
deste ensaio, e possui a seguinte representação: em Freud, o
indivíduo possui a sua essência, que no âmbito técnico é
chamado de self, que nada mais é do que o núcleo daquele
indivíduo, aquilo que o forma e o define.
Entretanto em alguns casos o indivíduo pode atribuir
uma pessoa, um objeto ou um 'status' como parte de si mesmo,
podendo ser citado a título de exemplo uma pessoa que acredita
que aquilo que o define fundamentalmente é o seu emprego. Ele
considera que esse emprego faz parte dele, e algo como a perda

292
de tal seria considerada como a perda de uma parte de si
mesmo, causando assim um sofrimento melancólico. Outro
exemplo, talvez mais identificável, encontra-se nos
relacionamentos, nos quais as pessoas em muitas ocasiões
passam a enxergar outras pessoas, no caso os parceiros
afetivos, como parte de si e do que lhes definem, e caso haja um
afastamento, por qualquer motivo que seja: falecimento; quebra
da relação, haverá também o sofrimento advindo da sensação
de perda de parte do eu.

SELFIES ATRAVÉS DO NARCISISMO

Baseado nos fatores levantados nos tópicos anteriores, é


agora possível realizar as ligações das selfies com as definições
e características do narcisismo. Por início então, utiliza-se da
citação de Lasch:

“O narcisista depende dos outros para


validar sua autoestima. Ele não pode viver
sem um público admirativo. Sua aparente
liberdade de laços familiares e de pressões
institucionais não o liberta para ficar
sozinho ou glorificar-se de sua
individualidade. Ao contrário, contribui
para a sua insegurança, que ele só poderá
superar vendo o seu ‘ego grandioso’
refletido nas atenções dos outros ou
ligando-se àqueles que irradiam
celebridade, poder e carisma” (LASCH,
1983, p. 30-1).

293
Ou seja, o sujeito, a cada dia, na sociedade
contemporânea, vem se tornando individualista no sentido do
pensamento em si só, a satisfação própria e nada mais,
entretanto esse mesmo sujeito busca desesperadamente pela
aceitação alheia do outro, e em muitas vezes define inclusive
essa aceitação esperada como um objeto componente do seu
eu, e é isso que se observa entre as diversas redes sociais, essa
importância da autoimagem, onde os indivíduos postam seus
autorretratos a todo o momento com o intuito obter o máximo
de ‘curtidas’ possíveis. E mais, a cada ‘curtida’ obtida, o que se
espera é ter o retorno narcísico, que seria esse engrandecimento
do eu que, pela concepção do indivíduo, está englobado ao
status daquele reconhecimento advindo dos outros. E esta
afirmação tem seu embasamento reforçado através da citação
do seguinte trecho de Birman: “a pessoa se contempla e quer
ser contemplada o tempo todo, preocupada com a identidade
fundada na imagem” (BIRMAN, 1997, p.228 )

ANÁLISE DO TEMA A PARTIR DAS OBRAS AUDIOVISUAIS

Sob a luz dos pontos debatidos aqui até o momento,


pode-se fazer uma analogia quanto às obras audiovisuais: o
primeiro episódio da terceira temporada da série Black Mirror
intitulado Queda Livre; e O Retrato de Dorian Gray.
Inicialmente, abordando a primeira obra, Queda Livre,
cujo tema trata da questão da busca dos indivíduos pela
aceitação nas redes sociais, verifica-se em sua história a
questão da importância dada a imagem que a pessoa cria em
294
torno de si nas redes sociais e como essa imagem então é
incorporada ao seu eu. A obra aborda justamente o quão
profunda tal incorporação pode alcançar fazendo com que a
pessoa passe a viver em função daquele status incorporado. A
obra ainda aprofunda nessa crítica ao demonstrar que assim
como ocorre na realidade contemporânea a dita individualidade
é de certa maneira algo irreal, pois para manter a saúde dessa
parte do seu eu incorporado, que é a opinião alheia a seu
respeito, o sujeito passa a seguir os ditames exigidos dos
outros, sendo assim negado de em algum momento revelar o
seu verdadeiro eu.
Seguindo essa questão do verdadeiro eu e o eu ideal que
é exposto, a análise da segunda obra, O Retrato de Dorian Gray,
aborda a questão da aparência através da concepção da
ocultação do eu real e do eu que é exibido à sociedade, onde o
indivíduo busca ocultar suas imperfeições e vícios, e deixar
visível apenas aquele eu próximo da idealização. É notável que
isso seja um fato que se observa nos quesitos relativos ao
comportamento de criação e postagem das selfies, onde as
pessoas buscam exibir uma forma de existência perfeita e tudo
ocorre como o planejado, enquanto na realidade a pessoa para
atingir essa falsa impressão, e utiliza de recursos como filtros,
efeitos de imagem, e repetição de fotos na tentativa da imagem
ideal.
CONCLUSÃO

295
Então, através de todos os fatores apresentados, um dos
entendimentos que pode vir a ser alcançado por essa reflexão, é
que a sociedade contemporânea passou a utilizar o autorretrato
como uma nova forma de comunicação, que visa contar a
história do indivíduo de uma forma fluida e à medida que vai
acontecendo. E é claro, isso tem consequências, tanto para a
sociedade como um todo, assim como para o indivíduo.
Particularmente, no caso do indivíduo, o que é visto é
justamente o aumento dessa cultura narcisista, onde o sujeito
pensando apenas em si próprio, busca adaptar-se aos
requisitos sociais exigidos para agradar o grupo social em que
está inserido para assim obter deles como retorno desse
investimento a tão desejada aceitação. Esse indivíduo muitas
vezes acreditando estar demonstrando a sua individualidade,
na verdade está cada vez mais engessado quanto a restrições
comportamentais exigidas para que o mesmo mantenha sempre
a visibilidade apenas do seu eu ideal. E isso é um fator
preocupante, porque por um lado o sujeito encontra-se
pressionado pela sua condição narcisista, que incorporou como
parte de si o reflexo daquilo que ele recebe como retorno através
das opiniões alheias, por outro esse mesmo sujeito permanece
em constante pressão devido ao fato de não poder expressar
alguns de seus anseios e desejos advindos do seu eu real para
manter intacto a imagem criado desse eu idealizado.
Ainda mantendo a analogia da questão, observa-se um
fator social que também contribui para o agravamento da
condição discorrida no parágrafo anterior, pois no intuito de

296
manter as aparências e seguir os requisitos sociais necessários
para manter a desejada aparência do eu idealizado, a sociedade
participante dessa cultura, perante as redes sociais cria a
aparência de ser formada apenas por seres perfeitos, cuja
sincronicidade de eventos estão sempre a beneficiar-lhes, e isso
visto através dos olhos daquele indivíduo que possa estar
passando por alguma dificuldade, pode ser um fator
psicossomático agravante tendo em vista que muitas vezes a
sensação desse sujeito é que apenas ele sofre dessas
imperfeições ou má sorte que possibilitaram a ocorrência de
sua dificuldade.
Então, permanecendo nos acarretamentos dessa
assertiva, pode-se apontar um dos porquês da atualidade
contemporânea possuir um número tão grande de casos de
depressões, entre outras enfermidades psicossomáticas, se
comparado com épocas anteriores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BIRMAN, Joel. Estilo e Modernidade em psicanálise. Editora


34 - São Paulo/SP, 1997.

Clara, Carlos J. S. S.. Melancolia e narcisismo: a face


narcísica da melancolia nas relações do eu com o outro.
Revista MENTAL, ano V, n. 9, p. 131-150 - Barbacena/MG,
2007.

DRUBSCKY, Camila Andrade. Até Que Ponto O Narcisismo


Pode Ser Datado? Uma Reflexão À Luz Das Contribuições De
Piera Aulagnier. Publicação Acadêmica. Tese - PUC-RIO, Rio de
Janeiro/RJ, 2008.

297
FREUD, Sigmund. A História do Movimento Psicanalítico,
Artigos sobre a Metapsicologia e Outros Textos (1914-1916)
em: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de
Sigmund Freud, v. 12. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Gaio, Fernando M.; Gaio, André M.. A era do narcisismo:


aspectos da subjetividade contemporânea. CES Revista, v.27,
p. 227-244 - Juiz de Fora/MG, 2013.

LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de


Janeiro/RJ: Imago, 1983.

ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michael. Dicionário de


Psicanálise. Rio de Janeiro/RJ: Jorge Zahar Editor, 1998.

298
SOCIEDADE INTOLERANTE E SUAS VÁRIAS FACETAS:
MANIFESTAÇÕES E PRECONCEITOS

Alessandra Justiniana Zacharias1


Fernanda Conceição Santos2
Jéssika Braga3
Karollyne Machado4
Luís Felipe Cota5
Maria Cláudia Pires Fernandes6
Valmir C Gabriel7
Magna Campos8

RESUMO:

A proposta do ensaio é compreender, e analisar quais as faces


da intolerância existente no mundo pela sociedade, investigando
causas e consequência desses atos de intolerância e a
diversidade de opiniões de cada tema abordado. Por ser um
tema que reflete muito nosso dia a dia através de violência,
agressões e preconceitos nos seres humanos. Essas intolerâncias
são parte de uma sociedade que ainda mantém a mente fechada
não respeitando opiniões e crenças de cada pessoa.

INTRODUÇÃO:

Estamos vivendo numa sociedade onde as pessoas perderam


a tolerância, não respeitam o diferente, a opinião dos outros, o
ponto de vista, suas opções e sonhos, temos uma realidade

1Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana


2 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
3 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
4 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
5 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
6 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
7 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
8 Professora universitária, escritora e Mestre em Letras.
299
diferente para cada pessoa. Sendo que a intolerância já existe
desde muito tempo, uma demonstração de desrespeito à
diversidade humana.
Dificilmente teremos uma convivência harmônica por que
ao se deparar com certas situações, momentos que nos
desagradam, como um trânsito parado, fila de banco, vaga de
estacionamento, consulta atrasada, opiniões diferente que nos
trata com desrespeito. Reagimos impulsivamente de acordo com
nossa personalidade, com o ensinamento que tivemos quando
crescemos e valores que cultivamos ao longo da vida. Certas
reações que pode gerar constrangimento, discussões, violência,
atitudes sem pensar e a intolerância.
A intolerância tem várias formas de manifestações,
política, religiosa, racial, contra as mulheres, uma atitude
caracterizada pela falta de habilidade ou vontade de respeitar
as diferenças em crenças e opiniões. Uma forma de negar o
direito do artigo 7º da Declaração Universal dos Direitos
Humanos, que e se caracteriza pela falta de informação e
vontade em se conhecer e respeitar as diferenças em crenças,
opções sexuais e opiniões (SAVY, 2017).
Por isso, todo o tipo de intolerância deve ser combatido
por meio de educação nas escolas, palestras, regras em casa e
valores de comportamentos, para que sejamos mais tolerantes
respeitando a igualdade e a liberdade de todos, respeitar as
características de cada um sem discriminação, uma forma de
tentar fazer o nosso país progredir.
Não podemos responsabilizar apenas uma parte da
sociedade pelos erros cometidos a respeito da intolerância,

300
todas as ações cometidas pelas sociedades, são reflexos de
corrupção, desigualdade, falta de interesse da sociedade em
solucionar as ações que acontecem no nosso dia a dia.
Em uma entrevista à BBC Leandro Karnal diz:

O que eu desejo sempre afirmar é que não


existe uma elite separada do todo. Um
político ladrão deve ser preso e devolver o
que roubou. A culpa é dele e só dele. Mas,
se queremos um novo país, devemos
discutir na base, na educação, na família,
na fila do aeroporto e em todos os campos
para uma sociedade mais ética. (PEREIRA,
2017, p.01)

A Declaração universal dos direitos humanos prevê


igualdade para todos de forma que possamos ser uma
sociedade democrática, garantindo o respeito à liberdade
humana e garantias fundamentais, através da proteção
jurídica.
Este ensaio irá tratar os tipos de intolerância que se
manifesta em todo mundo, inclusive nas redes sociais.
Intolerância contra xenofobia, homofobia, crimes de ódio,
violência contra as mulheres, preconceito de pessoas de classes
sociais, religiões e políticas. Manifestações que refletem
xingamentos, ameaças, agressões, chegando até assassinatos.
Vários tipos de tolerância que se multiplica cada dia na
sociedade, como uma tentativa de fazer justiça com as próprias
mãos, sem respeitar os direitos humanos, crenças e opiniões
que cada um.

301
2. AS VÁRIAS VERSÕES E MANIFESTAÇÕES DE
INTOLERÂNCIA NA SOCIEDADE

2.1 INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

O Brasil é um país laico, portanto, não possui uma


religião oficial, mas, apesar da liberdade religiosa ser
assegurada pela lei, a intolerância religiosa está presente na
sociedade brasileira. Os primeiros casos de intolerância
religiosa ocorreram no período colonial brasileiro, os negros
africanos foram escravizados e obrigados a seguir o
cristianismo católico, até então a religião oficial de Portugal, e
assim tiveram suas culturas excluídas e encobertas. E em
seguida durante no século XX na Segunda Guerra Mundial,
quando os nazistas perseguiram milhões de judeus e outras
etnias indesejadas pelo regime.
Voltaire em sua obra Tratado sobre a Tolerância (1763),
explica que intolerância religiosa tem como principal objetivo a
busca pelo poder com a imposição de uma religião dominante.
Levando em conta as diferenças individuais, Voltaire ressalta
que quando se trata de religião, não existem verdades
absolutas, mas, sim verdades relativas. Assim, segundo ele, o
que garante a paz e a tolerância entre as pessoas é o respeito
com as diversidades de crenças e religiões.
O pensamento de Voltaire sobre a intolerância está
correto em tudo, porém o nosso estado brasileiro se declara

302
laico desde a primeira Constituição, ou seja, não há uma
religião dominante. A intolerância religiosa é algo que atinge
não só o Brasil, mas como todo o mundo. Ela acontece quando
o indivíduo possui atitudes e ideologias que caracterizam a falta
de respeito pelas religiões que possuem crenças e hábitos
diferentes das suas, mesmo que a liberdade de crença seja
assegurada pela lei.
A nossa Constituição Federal (1988) assegura a liberdade
de crença ela é considerada “inviolável”, de acordo com o quinto
artigo da Constituição segundo a lei, é assegurado a todos os
brasileiros o “livre exercício de cultos religiosos e tendo
garantida a proteção aos seus locais de culto e às suas
liturgias” (BRASIL, Constituição Federal, 1988). Ainda segundo
a carta, o Estado brasileiro se declara laico, então, não tem
religião oficial e nem deveria favorecer uma religião, entretanto,
muitos são os casos de injúrias, piadas, agressões, assassinatos
e destruição de templos e patrimônios religiosos.
Em alguns casos, a intolerância religiosa já chegou a
deixar vítimas em estado grave no Brasil, com isso o artigo 208
do Código Penal Brasileiro cita dos crimes contra o “sentimento
religioso”, como debochar de alguém por motivo de crença
religiosa, perturbar ou impedir culto e desrespeitar ato ou
objeto religioso. É válido ressaltar que se houver emprego de
violência em alguns casos a pena pode aumentar ⅓ de acordo
com o paragrafo único do Código Penal. (BRASIL, Código Penal
Brasil, 1940).

303
No atual contexto da sociedade brasileira, a mídia
televisiva, é usada para atacar as religiões afro-brasileiras como
a umbanda e o candomblé. Deste modo, há uma tensão social
onde fica claro a obediência aos líderes católicos, pastores,
sobre seus fiéis que partiram para os atos de ofensa e agressão.
Essas duas religiões são as mais afetadas e denominadas como
religiões demoníacas por diversos religiosos católicos e demais
religiões cristãs. Diante disso, os relatos da imprensa menciona
a ocorrência, nas duas últimas décadas, de casos, ainda que
em pequeno número, de invasões de centros e terreiros, de
imposições forçadas da Bíblia, agressões a símbolos religiosos,
agressões físicas a adeptos dos cultos afro-brasileiros e
espíritas e até de prática de cárcere privado (MARIANO, 2007,
p. 137). Mas o que mais ocorre é a agressão a símbolos
religiosos.
Para exemplificar alguns desses relatos da imprensa,
houve um fato de agressão a símbolo sagrado que ocorreu em
novembro de 2014, em Salvador, no Bairro Cajazeiras. A
chamada Pedra de Xangô é considerada sagrada para as
religiões de matrizes africanas, mas também já foi cultuada
pelos indígenas e, nos tempos coloniais, ficava dentro da área
de um quilombo. Os jornais noticiaram que ocorreram
pichações na Pedra e também o despejo de 200 kg de sal
grosso. Segundo informações locais, a agressão foi denunciada
à polícia para que fossem tomadas as providências cabíveis,
mas não se conseguiu identificar os agressores. Além de
provocar danos ao símbolo religioso do Candomblé, que já faz

304
parte do patrimônio histórico do município, destruiu oferendas
que se encontravam no local.·.
O presidente da Associação de Preservação da Cultura
Afro, Leonel Monteiro afirmou: “Esse monumento aqui significa
muito para o povo do axé, para o povo do candomblé, de
Umbanda, que aqui cultuam suas divindades e este
monumento precisa ser preservado”. A prática de jogar sal
grosso em elementos que simbolizam as religiões afro-
brasileiras é uma situação já enfrentada há tempos,
principalmente, nos terreiros, mas, em Salvador, tem-se
tornado frequente.
Entretanto, o dano histórico causado com essas
agressões pode ser irreversível. Para a mãe de santo, Mãe
Branca de Xangô, a Pedra de Xangô não é apenas um santuário
para as religiões que a utilizam, mas também um presente
deixado por seus ancestrais. A Pedra de Xangô significa justiça.
Por meio do Símbolo, utiliza-se do poder dos orixás,
principalmente, pelas oferendas e pelos pedidos, colocados no
local.
Sobre o uso do sal grosso, Franco Guizzetti informa que o
sal grosso e o sal marinho são muito usados para eliminar a
energia negativa de ambientes e das pessoas. A escola de
samba Nenê da Vila Matilde, de São Paulo, com o tema, Uma
história do mundo, retratou o poder econômico do sal e seu uso
em rituais religiosos e de magia, desde a antiguidade. Guizzetti
ressalta que, na Idade Média, o sal era usado para afastar os
maus espíritos, os demônios e as bruxas das casas, sendo

305
jogado nas portas, janelas e chaminés, como representação da
purificação.
Num Estado Democrático de Direito qualquer pessoa tem
a opção de escolher sua fé religiosa e nela se manter sem ser
hostilizada ou assediada por essa escolha. Diante disso, o
Brasil é um país tão multicultural e fruto das mais diversas
miscigenações, é possível afirmar que nenhuma crença deveria
ser reprimida, mas sim respeitada em suas mais diversas
formas de manifestação. Vivemos em uma sociedade
democrática, e a liberdade está ligada diretamente aos direitos
fundamentais de primeira geração, portanto é dever do Estado
proteger a todos, considerando os princípios fundamentais e
individuais.
A legislação protege as vítimas desse crime, mas mesmo
com essa proteção, ele ainda está presente, portanto vai muito
além de proteger as vítimas é preciso uma conscientização de
que todas as pessoas são livres para demonstrar a sua fé.
Diante disso a população brasileira não deve enxergar as
religiões diferentes da sua, não como algo devastador e
demoníaco, mas sim como uma fonte de conhecimento mútuo e
aberto a diversas formas de interpretação.

2.2 INTOLERÂNCIA POLÍTICA

Mergulhado em um cenário de crise econômica, o país do


futebol, também conhecido como Brasil, vê problemas antigos
ressurgirem, fazendo com que o cidadão brasileiro comece a

306
questionar seu governo e a desconfiar do sistema democrático.
Tal cenário serve como combustível para discursos políticos
extremistas, que trazem consigo a intolerância as diferentes
ideologias políticas e pontos de vista.
A intolerância política, ou de qualquer natureza, é um
grave desrespeito aos direitos humanos e ameaçam diversos
direitos que foram conquistados pela sociedade ao longo da
história, essa perda de direitos, muita das vezes, é mais
perceptível nas minorias, que na maioria das vezes não tem a
devida proteção da legislação ou do Estado.
Os vários crimes de corrupção acentuam mais ainda a
desconfiança da população no sistema democrático, mas
diferente dos casos de corrupção que, na maioria das vezes, é
notícia na imprensa, os cidadãos também praticam corrupção
no seu dia a dia, seguindo esse pensamento Masi (2015) apud
Bittar (2017, p.54) declara:

A palavra «democracia» evoca o modus


vivendi em que a partilha do que é comum
é priorizada para a alterização do convívio
e para a integração humana; nesta forma
de ser, deve-se enfatizar a
responsabilidade ético-democrática de
estar-em-comum, e, por isso, o termo
designa o modo de interação social voltado
para a administração paritária do comum,
e com o modo pelo qual os sujeitos se
constroem identificados com o respeito-ao-
outro e com o respeito-ao-que-é-comum. E
isso é válido para políticos que usurpam o
dinheiro público, dissolvendo a diferença
entre o espaço privado e o espaço público,
tanto quanto para cidadãos, que se
307
apropriam do espaço público como se
privado fosse.
Engana-se quem pensa que a corrupção e a intolerância
política é um problema que começou ontem, o voto de cabresto,
termo usado para senhores de engenho e autoridades do
começo da nossa república que obrigavam os seus empregados
a votarem nos candidatos que eles apoiavam e lhes davam
vantagens.
Todos os fatos citados anteriormente, fez com que
houvesse uma polarização quanto ao posicionamento político
da população brasileira, o que trouxe consigo danos ao bem-
estar do convívio social. São recorrentes manifestações políticas
um tanto quanto violentas, que disseminam o ódio, que resulta
até mesmo em divisão social e descrença no Estado por parte
da população que não se posiciona politicamente. De certa
forma, isso também enfraquece projetos para o futuro do país,
pois os políticos eleitos se preocupam em realizar projetos de
curto prazo, que surtiram efeitos rápidos para tentar se
consolidar no poder, embora os resultados sejam na maioria
das vezes superficiais e não resolvam os problemas de fato.
Nos dias de hoje, a propagação do ódio ganhou um novo
suporte, as redes sociais. Através delas qualquer usuário pode
manifestar seus pensamentos e ideias, acontece que muitas das
vezes essas manifestações vêm carregadas de ódio, preconceito
e também expondo falsas informações, pois os usuários se
sentem protegidos pela rede social e o anonimato.

308
Como ainda muitas pessoas não sabem separar as
informações falsas das verdadeiras, a força que essas
manifestações que são compartilhadas via redes sociais ganha
força e podem até se transformar em grandes movimentos,
como cita Bucci (2016) apud Bittar (2017, p.59), “Um certo grau
de violência, neles, funciona como publicidade. No rumor dos
protestos, a violência é linguagem”, dessa forma devemos ficar
mais atentos às informações que recebemos diariamente, temos
de saber filtrá-las.
No Brasil, infelizmente, tem se tornado cada vez mais forte
a cultura da intolerância. Tem sido assim com a xenofobia em
alguns outros países como nos Estados unidos e em alguns da
Europa, por exemplo. No meio político, os ânimos estão ficando
cada vez mais acirrados, tratando diferenças como inimizades,
fato que, tem causado uma enorme polarização de ideais e
posicionamentos políticos, que fazem com que a intolerância
cresça e o diálogo diminua.
De fato, Brasil, no atual cenário do ano de 2018, enfrenta
uma de suas maiores crises de toda história. Além de estarmos
em um cenário de crise econômica mundial, enfrentamos
também uma crise da economia nacional e uma crise causada
pela corrupção em nosso sistema político. Diante desse cenário
desastroso o Brasileiro passou a recorrer a políticos que usam
do discurso simplista e desesperado, que se baseia em soluções
rápidas e, aparentemente, práticas. Enquanto, de um outro
lado, temos os brasileiros que se “agarram” aos resultados que
antigos governos deixaram como herança. Com o cenário ideal

309
para o surgimento da mencionada polarização política.
Causando efeitos negativos na discussão de ideias, a exclusão
dessa possibilidade de diálogo aconteceu de tal forma que o
antagonismo político agora gera medo, ódio e ressentimento
social.
Como se não bastasse intolerância por parte do eleitor,
os políticos também praticam essa triste ação, mas de uma
forma bem mais preocupante e perigosa: a ditadura. Na
ditadura, como diversos livros de história nos mostram e
também como temos frequentes notícias de países que vivem
regimes ditatoriais, como a coreia do norte, de maneira simples,
se você não é a favor do governo você é considerado perigoso,
por isso pode acabar preso, torturado ou morto, como cita
Snyder (2017, p. 13):

Quando os fascistas, nazistas ou


comunistas saíram-se bem em eleições nas
décadas de 1930 ou 1940, o que se seguiu
foi uma combinação de espetáculo,
repressão e “tática do salame” — ir
cortando, uma a uma, fatias da oposição.
A maioria das pessoas foi silenciada,
algumas encarceradas e outras,
derrotadas.

Apesar do pesares e dos tempos difíceis, não podemos


deixar de lutar por um país democrático e que as liberdades de
escolhas sejam respeitadas. Um país no qual você seja
respeitado por estar do lado A ou B, que você seja respeitado
por ter qualquer tipo de opção sexual, um país que sua religião
não seja motivo para sofrer violência é um país que a cor da sua
310
pele não seja requisito para definir seu caráter. Que a mudança
para um país melhor comece de dentro de casa, por nós
mesmos, como diz Snyder (2017, p.24):

Alguém precisa tomar a frente. É fácil


acompanhar a maioria. Pode parecer
estranho fazer ou dizer algo diferente. Mas
sem essa inquietação não existe liberdade.
No momento em que você dá o exemplo,
quebra-se o encanto exercido pelo status
quo, e outros o imitarão.

A polarização política tem alcançado níveis assustadores,


e pouco a pouco tem se tornado mais frequentes casos de
intolerância. Notícias de agressões verbais e até mesmo físicas
contra quem pensa diferente não são mais tão incomuns
assim, com alguns casos extrapolando qualquer limite do
racional.
Essa polarização já levou “coxinhas” e “petralhas” às vias
de fato algumas vezes. No dia em que o ex-presidente Lula foi
conduzido coercitivamente pela Operação Lava-Jato, por
exemplo, ocorreram diversos confrontos entre manifestantes,
pró e contra o governo, no Aeroporto de Congonhas, em São
Paulo, onde Lula prestava depoimento, e na frente da casa do
ex-presidente, em Santo Bernardo do Campo (SP), tal noticia
ganhou repercussão nacional e foi manchete do canal de
notícias eletrônico G1.
Após o ex-presidente Lula ser conduzido de forma
coercitiva para depor na operação Lava Jato, no dia 04 de
março de 2016, várias pessoas pró e contra o ex-presidente

311
entraram em confronto, em alguns pontos do estado de São
Paulo, como na porta do da residência do ex-presidente em São
Bernardo do Campo e no aeroporto de Congonhas em são
Paulo.
A polícia foi acionada e chegou aos locais onde os
confrontos estavam acontecendo, e os ânimos foram
acalmados, mas a “calmaria” não durou muito tempo. Uma
manifestante pró lula atirou um arranjo de flores em um carro
que passava em um dos focos de manifestação, outros
manifestantes trocaram agressões físicas e verbais, como foi
noticiado no G1. Ao decorrer do dia os focos de confrontos e
manifestações foram se dissipando e a PM conseguiu
restabelecer a paz.
Confrontos como esse, noticiados pelo G1 no dia
04/03/2016, tem se tornado corriqueiro e tomado cada vez
mais às manchetes dos portais de notícias e jornais. Esses
casos mostram a que ponto chegou a disputa política no Brasil,
com a intolerância atingindo um nível perigoso. Ter um
posicionamento político e defendê-lo faz parte da democracia.
Mas a discordância e o respeito às opiniões divergentes
também. Pratique a tolerância e compartilhe essa ideia.

2.3 INTOLERÂNCIA RACIAL

Atualmente a nossa sociedade vem enfrentando diversos


problemas sociais, e, entre eles, está a intolerância, que se
encontra sempre presente no nosso cotidiano. Uma delas é a
312
intolerância racial, que será a que iremos tratar agora. A
intolerância racial está diretamente ligada ao racismo, uma vez
que, ela se dá pela aversão a cor da pele e a raça da pessoa.
A intolerância racial é algo que está presente na
sociedade há milhares de anos. Desde o surgimento do Brasil já
havia discriminação com relação à cor da pele e a raça do ser
humano. O tratamento e as condições de vida já eram
diferentes, e não só pelas pessoas, mas também pelo próprio
Estado.

Foi o Estado quem legitimou o regime de


escravidão, institucionalizando e
legalizando o tráfico de africanos/as e sua
existência como mercadoria na mão de
senhores brancos. [...] após a abolição da
escravatura o Estado promoveu uma
deliberada política de branqueamento da
população, com o incentivo à imigração de
origem europeia. (CICONELLO, 2008, p. 8)

Podemos perceber então que apesar do Brasil nunca ter


tomado nenhuma medida de segregação oficial, que realmente
separassem negros de brancos nos lugares públicos, no qual
cada um tinha a sua área e privilégios delimitados e diferentes
como aconteceu em outros países, o Estado foi conveniente com
algumas posturas preconceituosas e intolerantes.
Uma das grandes questões por de trás da intolerância
racial é o fato de que no Brasil as pessoas apesar de
reconhecerem a sua existência, pouquíssimos se consideram
praticantes, no texto do Ciconello há uma passagem
evidenciando tal fato: “Uma pesquisa de opinião realizada pela
313
Fundação Perseu Abramo em 2003, demonstra que 87% dos
brasileiros/as admitem que há racismo no Brasil, contudo
apenas 4% se reconhecem como racista.” (SANTOS; SILVA apud
CICONELLO, 2008, p.1).
O dado citado acima demonstra o quanto é importante
tratarmos desse assunto, visto que, se as pessoas não se
assumem como intolerantes raciais e o nosso país têm uma alta
taxa de racismo e intolerância, significa que temos que abordar
e discutir mais o tema para que esse cenário mude. Só após
identificar o problema é que se torna possível resolvê-lo.
E a questão da intolerância racial acaba por levar outras
dificuldades a mais para quem a sofre. Além de ter que lidar
com essa situação, encontra dificuldade também de inserção no
mercado de trabalho, dificuldade de ingressar nos estudos e
posteriormente cursar faculdade.
Hoje apesar do Estado se declarar como democrático,
segundo Ciconello (2008), para que isso realmente seja efetivo,
é preciso que intolerâncias e preconceitos sejam extintos da
nossa sociedade.
O assunto é importante, delicado e deve ser tratado com
seriedade por todos, inclusive pelo Estado. Hoje em dia já
existem grupos que lutam por igualdade de direitos em todos os
âmbitos, para que as possibilidades sejam iguais
independentemente da sua cor e raça. Há grupos formados por
mulheres, e estes além de abdicar por igualdade
independentemente da raça, também precisam lutar pela
igualdade de gênero.

314
É válido dizer que o racismo, na maioria das vezes, não
se encontra em situações muito grotescas, até porque como já
foi dito acima, o número de pessoas que se consideram racistas
não bate com a alta taxa de racismo que temos Brasil. O
racismo acaba sendo notado em situações mais sutis, onde as
pessoas tentam disfarçar e mascarar, tentam fazer com que
aquilo seja algo “normal”, cotidiano.

Não nos referimos a grupos


declaradamente racistas como a Klu Klux
Klan ou a organizações neonazistas
facilmente identificáveis, mas sim àquelas
práticas invisíveis, veladas, sutis, inscritas
na cultura e no cotidiano de determinada
sociedade, naturalizadas e incorporadas,
que por isso tornam-se perceptíveis
somente quando analisadas
minuciosamente, em suas entrelinhas, nas
filigranas sociais, naquilo que é dito, e
também não dito, em suma aquilo que é
feito e vivido diariamente. (BARTEL, 2014,
p. 109)

A prática do racismo que está mais dissolvida na


sociedade é a sua forma sutil, e é também o mais difícil de ser
revertido, uma vez que, está tão culturalmente entrelaçado que
a maioria das pessoas nem a consideram como de fato racismo.
O discurso da intolerância racial se dá muitas vezes
misturada com questões de gênero, de classe social,
sexualidade e religião. A pessoa que a prática mistura esses
pontos para tentar validar/fundamentar o seu discurso de
aversão ao outro em sua linguagem, sendo que grande maioria

315
acaba por nem ter real noção dos significados das atrocidades
que diz (BARTEL, 2014).
O Estado é um agente com grande força quando
tratamos deste assunto, pois mesmo ele não sendo quem
diretamente prática, a partir do momento que ele não pune
quem comete tal intolerância, ele acaba legitimando esses tipos
de discurso. Então, é de extrema importância a colaboração do
Estado para conseguirmos vencer o racismo.

O repúdio ao racismo declarado na


Constituição Federal de 1988 promoveu
uma nova conjuntura que possibilitou a
aprovação da lei nº. 7.716 de 1989, de
autoria do deputado federal Carlos Alberto
Oliveira, que definia e regulamentava a
noção de crime racial. Porém, essa lei que
tornou o racismo um crime inafiançável se
mostrou ineficaz no combate ao
preconceito brasileiro, tendo em vista que
só considerava discriminatórias atitudes
preconceituosas tomadas em público.
Dessa maneira, outros movimentos e
mecanismos foram efetivados pelo Estado
brasileiro visando erradicar o racismo e
integrar as populações negras ao mercado
de trabalho e educação. (BARTEL, 2014, p.
116)

A educação também é uma grande arma que temos para


combater tanto o racismo como outras intolerâncias presentes
em nossa sociedade. A população que provém da educação
possui mais discernimento e reflexão diante de situações de
injustiça e preconceito, e uma vez que ela se torna acessível a
todas as cenas de racismo se tornarão cada vez mais raras.
316
Hoje em dia são inúmeros os casos de racismo que
acontecem diariamente no mundo, casos de racismo direto e
exposto e casos de racismo mais sutis e encobertos. O ato da
intolerância racial vai desde um olhar “torto” até a agressão
física, e entre esses dois pontos temos diversas maneiras que as
pessoas se demonstram racistas.
Recentemente a atriz Erika Januza sofreu com a
intolerância racial. Em uma reportagem do site da revista Marie
Claire do dia trinta e um de outubro de dois mil e dezoito, foi
abordado o caso da atriz. Erika Januza sofreu a agressão em
uma rede social, uma internauta fez um comentário racista em
uma foto da atriz: "Mais que palhaçada desse Caio Paduan eu
adorei que Bolsonaro ganhou assim ele manda matar os negros
fedidos e feios e Erika Januza vai junto odeio essa mulher (sic)”.
A atriz falou sobre o caso e, claro, se mostrou chateada e
afirmou saber que ela não é a única a sofrer, e que diariamente
as pessoas sofrem com atitudes racistas. A atriz também falou
da importância de denunciar os casos de intolerância, e
destacou ainda que não é só quem sofre diretamente o racismo
que pode denunciar, mas quem presenciou alguma situação ou
viu algo também pode fazer a denúncia, “Se você vir alguém
sofrendo racismo, denuncie, porque essa luta é de todos nós
que somos contra essa violência e não só dos negros.", disse a
Erika.
A situação descrita acima é apenas um dos inúmeros
casos de racismo que acontecem na nossa volta. Precisamos
nos conscientizar e ajudar da forma que for possível para cada

317
um para que situações como essas não se repitam, e se
repetirem que não sejamos omissos e condizentes, mas sim que
denunciemos.

2.4 MISOGINIA E FEMINICÍDIO

Misoginia, preconceito exacerbado contra mulheres ou


meninas podendo se manifestar de várias maneiras, desde a
sexualidade com progressão a hostilidade agressão e até a
morte. É um termo torpe, fútil uma agressão gratuita
discriminatória, que já existe desde os primórdios da
humanidade até os dia atuais, e vem passando por gerações
inteiras como um trator opressor de sentimentos, e de vidas
violadas psicologicamente e fisicamente.
A misoginia está inclusa dentro do feminicídio, ganhando
destaque devido aos inúmeros crimes cometidos contra as
mulheres independentemente de cor ou raça, tendo como
motivação o simples fato de ser do sexo feminino, funciona
como uma cultura de ódio contra as mulheres.
Essas formas de inferioridade foram divulgadas durante
séculos e serviram como base para o “pensamento ocidental”
onde se formaram com grande valor as famílias que desde
pequenas as meninas são obrigadas as se sujeitar aos
mandados patriarcais e depois a submissão total de “servir”
seus maridos como objetos sexuais.

318
As formas de opressão vividas por mulheres na
atualidade se manifestam de diversas formas: mulheres que
galgam “poder” de alguma forma têm seus anseios
pormenorizados, onde suas opiniões são colocadas sempre em
xeque, exemplo claro é a Ex-presidente Dilma Roussef que
sofreu discriminação devido ao cargo de alto poder no qual ela
ocupava, as mulheres são julgadas pela vestimenta, pela forma
de agir e falar entre outras coisas.
Vivemos em uma sociedade caótica, com mulheres
assassinadas, estupradas, espancadas, humilhadas. E esse
ódio discriminatório tem ceifado vidas de várias mulheres,
meninas indefesas, pelo simples fato de não respeitarem.
A partir desses fatos ocorridos ao longo dos anos houve a
necessidade de se começar a questionar a representação da
mulher e a discussão sobre a luta e os crimes cometidos e elas
começam a buscar os direitos garantidos pelo Estado. De
acordo com (SILVA; DUARTE, 2017).

“Dentro da nossa Constituição já


possuímos leis que tem um olhar
embasado na igualdade e dignidade das
mulheres, porém o modo em que a
sociedade vê a mulher é fruto de anos de
repressão, inclusive sexual, elas eram
vistas como seres que deviam “obedecer” e
ter relação de servidão com seus pais e
maridos, inferiorizando totalmente
qualquer qualidade que ela “mulher”
pudesse de alguma forma ser destacada.”

319
Mas hoje buscamos resgate de valores, agregando
justificativas na norma, onde o legislador reconhece inúmeras
formas de “violência”, praticada contra a mulher, em todos os
sentidos, desde o convívio doméstico com o pai, marido e
também nas redes sociais e vida social. O nosso ordenamento
jurídico dispõe de leis que protegem os direitos das mulheres.
Temos a lei Maria da penha, a inclusão do feminicídio, a lei que
proíbe propagação de conteúdo misógino em redes sociais lei
nº13.642 de 3/04/18:

Altera a lei nº 10.446, de 08 de maio de


2002, para acrescentar atribuição á polícia
federal no que concerne a investigação de
crimes praticados por meio da rede
mundial de computadores que difundam
conteúdo misógino, definidos como
aqueles que propagam ódio ou aversão às
mulheres. (BRASIL, lei 13642,2018)

A polícia federal passa a investigar esses casos em toda


rede mundial; entretanto apesar das ferramentas legislativas
criadas em prol da defesa dos direitos das mulheres, podemos
refletir se elas realmente são efetivas ao que se propõe no
mundo real.
Gomes (2017) relata que as estatísticas demonstram que
os casos de feminicídio no Brasil não diminuíram após a
promulgação das leis referentes aos direitos das mulheres, é
possível observar uma falha na prevenção da violência de
gênero.

320
Visto que a aversão contra as mulheres têm uma raiz
histórica, onde desde o início da civilização a mulher era vista
como submissa aos homens e sem voz ativa, com o passar do
tempo isso foi sendo cultivado e repassado por várias gerações
na nossa sociedade.
De acordo com Gomes (2017), é possível observar que a
criação de uma legislação, não muda a mentalidade ou educa a
pessoa conta a prática da violência ela simplesmente coíbe o
autor por medo das respectivas sanções, não que isso impeça
que tal ato seja cometido.
Para obter efetividade em relação ao direitos da mulheres
é preciso que haja conscientização no âmbito social, mães, pais
tias ou orientadores devem se policiar na educação da crianças,
tendo como objetivo tentar anular o conceito de submissão das
mulheres, pregando direitos iguais perante aos gêneros.
Também é necessária a criação de políticas públicas
embasadas na igualdade entre os gêneros, devendo ser
aplicadas em escolas, creches, em todos os lugares de convívio
social, uma vez que a sociedade sendo educada em relação à
violência de gênero, não haveria tantos crimes como a atual
situação do Brasil.
Com a mudança de valores e a erradicação desse
histórico de aversão às mulheres é possível sim o bom convívio
social e a erradicação da violência de gênero. A misoginia é
cruel e desumana, mas pode ser retirada do nosso convívio,
com muita determinação e nova conscientização social, cabe a
nós mudarmos essa realidade social de submissão e

321
desrespeito, agregando a educação social à nossa proteção
estatal.
Os exemplos de violência contra a mulher estão mais
próximos do que imaginamos, um caso bem recente é sobre a
adolescente de apenas 16 anos que saiu para uma festa com as
amigas e simplesmente não voltou mais para a casa.
Em um relato do jornal LIRA (2018), Rayane Alves
Paulino desapareceu após ir a uma festa em Mogi das Cruzes,
seu corpo foi encontrado somente oito dias após o seu
desaparecimento em uma área da mata em Guararema.
Michel Flor da Silva de 28 anos, vigia do terminal
rodoviário de Guararema, foi preso sob suspeita de estuprar e
matar a jovem.
Amigos de Rayane relataram que ela resolveu ir embora
da festa sozinha, visto que a jovem caminhava em sentido
contrário ao pretendido um senhor a ofereceu carona até o
terminal rodoviário de Guararema, para a polícia o senhor não
teve nenhum tipo de envolvimento com o crime. Já o segurança
Michel foi descoberto após ser encontrado próximo ao corpo da
vítima uma caneta com a marca da empresa de segurança na
qual Michel prestava serviço para o terminal rodoviário.
Michel acabou confessando o crime, alegando ter matado
Rayane após uma relação sexual entre os dois, Michel disse que
teria a intenção de fazer sexo consensual ou não de qualquer
forma, mas relata que após realizar o sexo consensual a vítima
se arrependeu e ameaçou a denunciá-lo pelo crime de estupro e
o chutou, neste momento ele aplica um golpe mata-leão na

322
vítima e a leva para desovar em uma mata, chegando lá ele
percebe que Rayane ainda estava com vida e decide asfixiá-la
com o cadarço da bota que a jovem usava.
Michel foi indiciado pelos crimes de estupro e homicídio
qualificado por motivo torpe, impedir a defesa da vítima, asfixia
e por ocultar a vantagem de outro crime, que seria o estupro.
Como apresenta Lira (2018), o crime gerou uma
manifestação que, além de homenagear a jovem ressaltou a
necessidade de discutir a violência contra a mulher, o ato “Eu
sou Rayane” reuniu centenas de pessoas na Avenida Cívica, em
Mogi Das Cruzes.
Casos parecidos com o da Rayane tomam conta de
páginas diárias dos jornais, um crime torpe que fere o direito de
negativa das mulheres. Por motivos assim e pelo direito de ir e
vir das mulheres é que são necessárias medidas
socioeducativas contra esse tipo de comportamento, pois autor
do crime após cumprir sua pena será incluso na sociedade
novamente. O Estado fez o papel de punir. E as nossas
“Rayanes” como ficam? E isso nos faz pensar que quem fica
preso é quem está morto, uma vez o crime cometido não há
como voltar atrás, por isso é necessário a mudança deste
conceito em nossa sociedade.

2.5 HOMOFOBIA

A sociedade, nos últimos anos, vem se transformando de


uma forma geral e principalmente no tocante às diversidades

323
culturais, religiosas, étnicas e sexuais. Muitos não conseguem
acompanhar essas mudanças e por muitas vezes não estão
abertas “ao novo”. Fato notório em que a própria Legislação
Brasileira não tem acompanhado essas variações.
Desta feita, surgiu um novo conceito de família, onde o
Supremo Tribunal Federal reconheceu a união entre pessoas do
mesmo sexo como entidade familiar (MONTEIRO, 2016). Apesar
deste reconhecimento, várias pessoas têm os seus direitos
violados diante de sua orientação sexual. Essa classe
minoritária denominada LGBTI – Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Travestis, Transexuais e Intersexuais é composta por pessoas
que diferem dos padrões impostos, atualmente, pela sociedade.
O que ocorre no Brasil, é que não há uma lei específica e
não foi inserido no Código Penal, a criminalização da
homofobia. Há Projetos de Leis, tais como: Projeto de Lei nº
122/2006 e Projeto de Lei nº 31/2010, tramitando na Câmara
dos Deputados e no Senado Federal há anos sem nenhuma
perspectiva de que os mesmos sejam aprovados, como apontado
por Monteiro (2016).
O que se discute é o porquê da omissão dos
parlamentares em tratar de um assunto sério, sendo que todas
as pessoas são asseguradas pela Constituição Brasileira na sua
dignidade humana, direito à vida, a liberdade como abordado
pelo Alexandre Moraes (MORAES, 2012, p. 34 apud
MONTEIRO, 2016):

A Constituição Federal garante que todos


são iguais perante a lei, sem distinção de

324
qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade do direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade. O direito à vida é o mais
fundamental de todos os direitos, já que se
constitui pré-requisito à existência e
exercício de todos os demais direitos.

Vivemos em um Estado Laico, em que há liberdade


religiosa, no tocante que cada indivíduo poderá professar a sua
fé conforme lhe aprouver. Debate-se muito sobre as bancadas
religiosas constantes no Congresso Nacional e também sobre a
“própria imagem” que alguns políticos pretendem demonstrar a
não se posicionar em frente à Criminalização da Homofobia.
Constatamos que há conflito de interesses e que o
assunto da Criminalização da Homofobia não tem sido levado a
sério.
No entanto, o Brasil está inserido, no contexto mundial,
como em primeiro lugar em assassinatos homofóbicos.
(KOEHLER, 2013, P. 136). Dados esses tipificados como
“subnotificações”, pois há muitos crimes que não são
contabilizados pelo Disque Direitos Humanos (Disque 100) e
pelas Nos LGBT. E até mesmo as estatísticas do IBGE
apresentam falhas no tocante à identidade de gênero e a
orientação sexual, pois o mesmo retrata somente a coabitação
de parceiros do mesmo sexo.
Outro dado alarmante é a consequência da homofobia no
ambiente escolar que tem gerado evasão, desistência dos
estudos e até mesmo o suicídio. Inferimos que a
325
homossexualidade moveu do cenário que era considerada como
doença para ser considerada a discriminação contra
homossexuais uma violação aos direitos humanos como retrata
(KOEHLER, 2013, p. 131).

Vinte anos se passaram e em 1973, a


Associação Americana de Psiquiatra
removeu a homossexualidade da lista de
desordens mentais. Em 1975, a
Associação Americana de Psicologia deixou
de considerar a homossexualidade uma
doença. A partir de 1990 a Organização
Mundial de Saúde (OMS) assumiu que a
homossexualidade não é doença, distúrbio
ou perversão e retirou a sua classificação
do rol de doenças mentais do CID –
Classificação Internacional de Doenças.
Logo em seguida, em 1991 a Anistia
Internacional passou a considerar a
discriminação contra homossexuais uma
violação aos Direitos Humanos.

No Brasil, a homossexualidade cessou o estigma de


doença a partir de 1985, pelo Conselho Federal de Medicina
(SCARDUA E SOUZA-FILHO, 2006 apud KOEHLER, 2013, p.
132). Essas referências demonstram que estamos caminhando
lentamente para a aceitação de diversidades de gêneros.
Debate-se que é necessária a inserção das escolas na educação
sexual, para que estas “complementam” a educação recebida
em suas residências, e o que ocorre é um despreparo de uma
forma geral. Ou seja, é necessário que os professores sejam
preparados para que possam abordar o tema de forma clara,
neutra e concisa no intuito de abolir ao Bullying homofóbico.

326
Nota-se, também, que não somente as escolas, mas como
a população de uma forma geral, não compreende as
expressões sexuais de gêneros. O conceito de família está
arraigado no heterossexualismo, nas crenças religiosas, nos
núcleos familiares em que a sociedade, ainda, não consegue
absorver tantas mudanças.
É imperioso que, a sociedade busque uma maior
informação nas escolas, universidades, que tenhamos políticas
públicas com a eficácia no cumprimento das leis e estas sejam
aprovadas, que envolvam o ministério da saúde e promovam
através de campanhas socioeducativas informações acerca das
diversidades de gêneros.
Os relatos de homofobia, quando revelados, aparecem
constantemente em jornais, revistas, redes sociais. É o que
demonstra O Jornal Folha de São Paulo, que apresenta o caso
de Lucas Siqueira Dionísio, estudante, de 21 anos, que
começou a sofrer preconceitos homofóbicos desde a 6ª série e se
estendendo para o ensino médio, em Escolas Públicas da cidade
de Cornélio Procópio, interior do Paraná.
Hoje está cursando uma universidade, mas não tem boas
lembranças do seu período escolar. Iniciou com “piadinhas” até
chegar ao limite da agressão física, ocasionando em Lucas uma
aversão à escola.
Lamentável a constatação de que não há uma
intervenção da escola nesses casos de Bullying homofóbico,
como relata o Secretário de Educação da ABGLT, Toni Reis
(SALDAÑA, 2016): “Há um silenciamento e individualização por

327
parte da escola. As pessoas veem e não querem tratar do
assunto. Tratam como se agressões fossem normais, coisa de
adolescente. Mas isso magoa, chateia e causa até suicídio.”
Assim sendo, devemos nos empenhar para que crimes
como este, e tantos outros que não são relatados, não sejam
admissíveis em nossa sociedade. Temos que “reeducar” as
nossas famílias expandindo para as escolas, as comunidades, e
toda a sociedade em geral. Reeducar no sentido de que temos
que “Respeitar” as diferenças e promover o bem estar social.
Reivindicando, também, a aprovação dos Projetos de Leis para
que tais crimes sejam punidos.

2.6 O COMBATE AOS DISCURSOS DE ÓDIO NAS REDES


SOCIAIS

Nos dias atuais, a internet e as redes sociais formam


juntas as maiores disseminadoras do discurso de ódio. Aqui, no
mundo virtual, os usuários de perfis expõem suas ideias
sentimentos que não teriam coragem de expor pessoalmente,
essas mudanças são caracterizada pela facilidade
proporcionada pela rede e pelo fato de não enfrentar
presencialmente o agredido torna se mais fácil e contribui com
a intolerância de várias formas. Santos e Silva (2013 citado por
NANDI, 2018, p 37).

O ódio é uma questão factual e sua


intensidade como movimento
transformador na sociedade dependerá de

328
como ele é divulgado. O discurso de ódio é
uma forma especial de propagação do mal
e meio informacional tem papel
fundamental no atual contexto histórico.

Nesta hipótese, os danos causados na sociedade podem


ser na mesma velocidade que o discurso está sendo propagado,
então atinge maiores números de pessoas afetadas pela fala
intolerante e preconceituosa do agressor. O comportamento
social por meio da internet trouxe divergências entre as
pessoas, agora não precisa estar frente a frente com uma
pessoa para que haja ofensas e agressões verbais, agora se
tornou mais fácil falar da mãe do outro sem que haja agressões
físicas.
Esta mudança de comportamento social a partir da
chegada da internet mudou a forma das pessoa exporem seus
sentimentos de preconceito, racismo e ódio pelo fato de que a
internet nos dá uma sensação de que não há consequências ou
punição para o agressor, de certa forma o agressor nas redes
sociais sempre foi preconceituoso ou racista, o fato é que agora
com a internet esse sentimento de ódio se torna ainda maior
porque diminui a empatia por não estar presente com esta
pessoa.
O anonimato nas redes permite ao usuário que
compartilha o discurso de ódio ser um “amolador de faca”, um
agente que atua nas “sombras” perpetuando a violência
cotidiana. Segundo Batista (1999 apud NANDI, 2018).

329
O fio da faca que esquarteja, ou o tiro
certeiro nos olhos, possui alguns aliados,
agentes sem rostos que preparam o solo
para esses sinistros atos. Sem cara ou
personalidade, podem ser encontrados em
discursos, textos, falas, modos de viver,
modos de pensar que circulam entre
famílias, jornalistas, prefeitos, artistas,
padres, psicanalistas etc. Destituídos de
aparente crueldade, tais aliados amolam a
faca e enfraquecem a vítima, reduzindo-a a
pobre coitado, cúmplice do ato, carente de
cuidado, fraco e estranho a nós, estranho
a uma condição humana plenamente viva.
Os amoladores de facas, à semelhança dos
cortadores de membros, fragmentam a
violência da cotidianidade, remetendo a
particularidades, casos individuais.
Estranhamento e individualidades são
alguns dos produtos desses agentes. Onde
estão os amoladores de facas?

Conforme o nível do discurso vai aumentando, com


palavras que expõe característica ao discurso de ódio, mais
aumenta o ódio, se duas pessoas em um site começarem uma
discussão sobre determinado assunto, na medida em que um
deles aumenta seu discurso o outro também na mesma
proporção aumenta seu tom fortificando a disseminação do
ódio.
A intolerância disseminada em larga escala por meios
das redes sociais é uma ameaça grave à sociedade que precisa
ser combatida de forma consciente, é importante saber quais
são os métodos de combate que estão sendo aplicados para

330
tentar frear essa propagação com objetivo de conter o avanço
indiscriminado do discurso de ódio.
Mas como a sociedade pode lidar com essa explosão de
ódio que espalha pela rede mundial. Em primeiro lugar
deixando claro que este é não é um crime sem punição, que não
é terra de ninguém, na qual estes salteadores de dignidade
podem agir de forma preconceituosa e não identificados,
desrespeitando pessoas e leis.
Buscar ideias novas que garantam punição aos
agressores, essa mudança é o ponto de partida para garantir
a tolerância, o combate ao discurso de ódio nas redes sócias
começa com o auxílio da legislação passando conhecimento
das leis por aqueles grupos que sofrem tal agressão.
Neste sentido a ação seria simples, o Estado e a
sociedade sendo responsáveis por esse combate, o cidadão
entender seus direito e respeitar os direitos de cada um, ao
Estado identificar e punir o agressor na forma da lei “A
condução da sociedade se dá por ela mesma, ela deve superar a
noção de preconceito e aprender que o Estado é um
instrumento da sociedade” (CARCARÁ, 2017, p.10).
Sabendo a vítima de agressão moral por preconceito ou
por qualquer diferença dos seus direitos e que há meios de
combater essa agressão e punir seus agressores, nesta
proporção se tornará menor esses casos, o agressor sendo
punido não mais praticarão tal crime.
Na ideia defendida, o ódio existe, todos nós nos
deparamos com ele a todo o momento, no trabalho, no ônibus,

331
na escola, mesmo sendo em pequena proporção o indivíduo é
alvo. As circunstâncias modificam os grupos e criam novas
classes de intolerantes alimentando o ódio.
Na comissão geral sobre a intolerância, ódio, preconceito
e violência na internet, discordam sobre o melhor meio de
combater o discurso de ódio, o autor do requerimento o
deputado (Assis de Melo, PC do B- RS) disse que legislação
atual é insuficiente para coibir esse tipo de discurso “O papel
do congresso nacional é especificar e tornar crime os atos de
intolerância, ódio e preconceito que são disseminados,
principalmente através das redes sociais.”
Já a coordenadora geral do Fórum Nacional pela
democratização da comunicação (Renata Mielli) e a diretora do
Coletivo intervozes (Helena Martins) discordam, pra elas criação
e aumento de leis penas não é o melhor caminho, já que há leis
que punem o discurso de ódio, como a lei do racismo (lei
7.716/89) e a lei Maria da Penha (lei 11.340/06), mas não tem
evitado os crimes.
O presidente da câmara (Rodrigo Maia) defendeu a
adaptação da legislação à nova realidade, “o marco civil da
internet (Lei 12.965) está precocemente envelhecida”. “A”
(SAFERNET) empresa que recebe denúncias de crime violações
na internet, também concorda que o (Marco Civil da Internet)
não cria obstáculo para que o discurso de ódio seja removido e
que nos últimos anos foram removidas pelas plataformas e
pelas redes sociais 88 mil páginas que foram denunciadas,

332
também afirma que as plataformas veem fazendo um bom
trabalho retirando as paginas que foram denunciadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Diante das informações abordadas no ensaio podemos


entender a ligação da intolerância com o processo que se
estende ao desrespeito e a desvalorização do ser humano.
Sendo visível demonstrar que nosso Brasil sempre foi
preconceituoso, uma sociedade conservadora, que implanta leis
dando direito à liberdade de expressão, e que somos todos
iguais perante a sociedade.
Uma sociedade que não respeita o próximo e que vive a
partir de sua própria vontade, daquilo que acha ser certo, de
costumes arcaicos, crenças antigas essa intolerância que vem
crescendo cada vez mais, criando nova faces, alimentadas pelo
preconceito e ódio, resultando em violência, agressão física ou
verbal.
A Legislação diz está protegendo as vítimas das
intolerâncias, mas o que podemos notar é certa falha, nos
deparamos com várias situações de violências, manifestações
de ódio, que muitos acham normal. Devemos buscar uma forma
de acabar com tais intolerâncias através de punições que sejam
realmente aplicadas de forma eficaz na sociedade, leis que
sejam realmente aprovadas para tais crimes de ódio.
Precisamos conscientizar mais as pessoas em escolas,
usar a mídia como uma forma de combater a violência,

333
reeducar as gerações futuras, as famílias e aprender melhor a
viver com a diversidade, respeitando a todos independente de
sua religião, raça, cor, sexo, ensinar o mundo a viver com o
diferente, respeitar as nossas opiniões.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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334
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O QUE SE SABE SOBRE O CASO RAYANE: estudante morta


em festa em Mogi das Cruzes. Mogi das Cruzes, 23 out. 2018.
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BITTAR, Eduardo. Democracia, Intolerância Política e


Direitos Humanos: uma visão reflexiva a partir da realidade
brasileira contemporânea. Disponível em:
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SNYDER, Timothy. Sobre a tirania: Vinte lições do século XX


para o presente. Disponível em:
file:///C:/Users/Usuario/Downloads/Sobre%20a%20Tirania_
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presente%20-%20Timothy%20Snyder.pdf Acesso em: out.
2018.

337
INTOLERÂNCIAS NA SOCIEDADE MODERNA: ORIGEM,
CAUSA E EFEITOS

Bernardo Coelho1
Guilherme Damasceno2
Iago Valadares3
Ingrid Rocha4
Jéssica Cristina5
Manoel Douglas6
Matheos Junio7
Maycon Douglas8
Magna Campos9

RESUMO:
O presente ensaio tem como objetivo expor problemas
vividos na sociedade moderna, que com a evolução
apresenta vários tipos de fenômenos, nesse estudo
analisamos comportamentos da sociedade causados pelas
intolerâncias, sendo elas: religiosa, política, racial, contra a
mulher, homofobia, xenofobia e combate aos discurso de
ódio nas redes sociais, o objetivo é expor de forma
detalhada cada tema abordando acontecimentos históricos
e analisando pensamentos de especialistas no assunto
para que possamos entender os problemas causados à
sociedade devido às intolerâncias.

INTRODUÇÃO:
O presente ensaio faz abordagens de temas com
grande relevância à sociedade, as intolerâncias, fato

1 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana


2 Graduando do 1º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
3 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
4 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
5 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
6 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
7 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
8 Graduando do 1º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
9 Professora universitária, escritora e Mestre em Letras.
338
recorrente no nosso dia a dia, sendo elas religiosa,
política, racial, contra a mulher, homofobia, xenofobia,
combate aos discurso de ódio nas redes sociais dentre
outras, mas sendo essas apresentadas em nosso ensaio.
Nosso objetivo é expor conflitos constantes no
Brasil, observa-se o agravo ao aumento da desigualdade
social.

A desigualdade é a base do problema


e colabora para a má formação
escolar. Uma sociedade que seja
desigual já é um problema, mas uma
que não educa nega a chance de
corrigir a desigualdade. Como
sempre, educação escolar básica é a
chave da transformação. (PEREIRA,
2017, p.1).
Disse Leandro Karnal em entrevista à BBC Brasil
(PEREIRA, 2001, p.1), com intuito de evidenciar a
importância da educação como fator predominante para
que haja uma harmonia social, mas ainda distante de se
alcançar, pois o que se nota nos dias atuais é exatamente
o contrário, o aumento de intolerância em escolas, alunos
que não respeitam professores muitas vezes até os
agridem.
Outro ponto observado na entrevista foi o combate
aos discursos de ódio nas redes sociais.

Hoje é um clique e um site, com


muitas imagens. Facilitamos muito
para quem odeia. O ódio tem imenso
poder retórico. Ele sempre existiu.
Agora, existe este ódio prêt-à-porter,
339
pronto, onde você se serve à la carte e
pega seu prato preferido. (PEREIRA,
2017, p. 1).
Essa fala evidencia o que ocorre nos dias atuais,
com a grande evolução do mundo virtual que facilita a
conexão entre pessoas trazendo junto o aumento da
intolerância, uma simples mensagem mal interpretada
pode ser o motivo de ofensas com xingamentos absurdos
não respeitando um direito fundamental do homem que
garante a manifestação de opiniões, ideias e pensamentos
sem retaliação ou censura por parte de governos, órgãos
privados ou públicos, ou outros indivíduos. No Brasil, a
liberdade de expressão é garantida pelo artigo quinto da
Constituição Federal, (BRASIL, Constituição Federal,
1988).
Em outro trecho da entrevista a BBC Brasil
(PEREIRA, 2017, p. 1) Leandro Karnal aborda o tema de
intolerância racial, de gênero e de classe.

Sempre existiu este ódio que flui por


todos os lados. Não é fácil existir e
acumular fracassos, dores, solidão,
questões sexuais, desafetos e uma
sensação de que a vida é injusta
conosco. O mais fácil é a
transposição para terceiros.
(PEREIRA, 2017, p. 1).
No artigo quinto da Constituição Federal de 1988,
assegura vários direitos como: discriminação racial,
liberdade de expressão, igualdade de gênero e outros mais,
ou seja, somos todos iguais perante a lei, (BRASIL,

340
Constituição Federal, 1988), mas que devido às
intolerâncias passam esses direitos a serem violados, não
respeitando as leis, tendo como consequências a
propagação de vários tipos de violências podendo ser física
e/ou simbólica, causadas por abusos e negligências.
Em nosso ensaio apresentaremos análises
científicas do grupo de estudos, analisando fatos
históricos e sociais da atualidade, expondo pontos de vista
e analisando cada tema individualmente sobre
intolerâncias presentes em nossa sociedade.

2. AS VÁRIAS VERSÕES E MANIFESTAÇÕES DE


INTOLERÂNCIA NA SOCIEDADE

2.1 INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Ao analisar o seguinte artigo científico sobre


“Intolerância religiosa no Brasil de acordo com a
Constituição federal de 1988”, podemos notar claramente
que essa intolerância vem de anos desde a chegada dos
Portugueses em território Brasileiro, eles catequizaram os
índios e os negros, pois estes possuíam crenças e
tradições maléficas e demoníaca, segundo a cultura
portuguesa.
O seguinte trecho trata acerca de como acreditar em
outras religiões e crenças, era visto como algo pela própria
Constituição vigente na época: ”Durante o império, a
religião católica foi declarada oficial pela a Constituição de
1824” (JESUS et. al., 2018, p.3), mostrando assim como
341
os portugueses eram intolerantes a outras religiões. Com o
tempo o Estado se separou da igreja, tornando-se
República. Assim, a Religião católica deixou de ser a única
presente na sociedade brasileira, surgindo em seguida os
protestantes.
Atualmente já existem leis para o combate da
intolerância religiosa em decorrência do aumento dos
crimes contra as pessoas que possui uma religião
diferente, foram criadas leis para está protegendo essas
pessoas de serem violentadas ou até mesmo mortas.

A intolerância religiosa é um
conjunto de ideologias e atitudes
agressivas a diferença crenças e
religiões. O ato de intolerância seja
no aspecto psicológico, físico ou
intelectual, é uma afronta à opinião
do próximo. Satirizar ou ridicularizar
a importância da cultura e suas
devoções. (JESUS et. al., 2018, p.2).
O seguinte trecho extraído do artigo nos mostra
qual é a maior causa da violência em função da escolha de
religião:

O fanatismo religioso resulta em


intolerância, seguir cegamente uma
visão do mundo ou doutrina, acaba
que tendo uma ideia de verdade
absoluta e o fanático se sente como o
dono da verdade, acaba que por
considerar como inimigo aquele que
não tem a mesma Fé. (JESUS et. al.,
2018, p.6)

342
Cada religião tem suas tradições, crenças, conceito
que leva o indivíduo a ter fé, acreditar que aquela crença
pode mudar sua vida e trazer uma paz espiritual para o
indivíduo. Sendo assim essa atitude deve ser respeitada,
para que a discriminação seja anulada na sociedade, se o
indivíduo não acredita em uma religião, porque
discriminá-lo? Todo sujeito tem direitos e deveres somente
a ele cabe decidir o que seguir.
O Brasil é um país que possui uma extensa
diversidade cultural, que com a migração e a mistura de
povos fizeram do Brasil um país de diferenças, somos um
país laico temos liberdade de escolher aquilo que é certo
para cada um de nós e devemos respeitar acima de tudo
as diferenças e diversidades presente em nossa sociedade,
pois somos diferentes e não podemos tentar moldar
ninguém do jeito que queremos.
Podemos analisar o seguinte trecho retirado do
artigo “A presença do religioso no espaço público:
modalidade no Brasil”:

No Brasil, em se tratando de
laicidade, nos deparamos com a
aurora republicana como marco. É
quando se adota de modo assumido o
princípio da separação entre Estado e
igrejas. Em termos mais concretos:
rompe-se com o arranjo que
oficializava e mantinha a Igreja
Católica; o ensino é declarado leigo,
os registros civis deixam de ser
eclesiástico, o casamento torna-se
civil, os cemitérios são secularizados;
343
ao mesmo tempo, incorporam-se os
princípios da liberdade religiosa e da
igualdade dos grupos confessionais, o
que daria legitimidade ao pluralismo
espiritual. (GIUMBELLI, 2008, p.2).
Vemos que o Brasil é um país que se considera
como laico, mais na realidade é um lugar que nem todas
as religiões são aceitas pela sociedade, um país que duas
grandes religiões se destacam das demais, sendo seguidas
pela a maior parte da nação brasileira, sendo elas: o
catolicismo e o evangelicalismo. Já as demais religiões
grande parte da população as menosprezam, por serem a
maioria delas afrodescendentes, vindas de culturas
africanas trazidas pelos os escravos ao longo dos séculos
XVI e XIX.
O seguinte trecho relata um pouco a questão da
separação do Estado e da Igreja Católica, que foi um
pouco contra, pois assim perdia o poder que a ela era
conferido:

Por muitas razões, a Igreja Católica


teve um papel crucial na definição do
novo regime de relações entre Estado
e religião no Brasil republicano.
Ressalta-se bastante o fato de que a
Igreja Católica foi contrária à sua
separação com o Estado. E é fácil de
mostrar como seus líderes e
representantes se empenharam na
defesa do regime contrário ou de
algum tipo de reconhecimento, por
parte do Estado, da preeminência do
catolicismo na Constituição da
nacionalidade. Tais empenhos foram
344
em parte recompensados no texto da
Constituição de 1934, na qual, por
exemplo, o ensino religioso é
permitido e o casamento religioso
volta a ter validade civil; além disso, o
princípio da separação é temperado
pela possibilidade de "colaboração"
entre Estado e religiões. (GIUMBELLI,
2008, P.2).
Ademais vivemos em um país que é considerado
laico, favorecendo a liberdade de religião e dando o direito
a cada indivíduo a escolher qual crença se encaixa melhor
para que possa buscar uma paz espiritual e se sentir bem
naquela religião que frequenta.
Para entendemos melhor o assunto abordado vamos
analisar a seguinte notícia publicada no jornal Estadão de
São Paulo em 12 de Novembro de 2017 escrita por Felipe
Resk, José Maria Tomazela e Jonathas Cotrim, ”Brasil
registra uma denúncia de intolerância religiosa a cada 15
horas”. Podemos analisar o seguinte trecho:

SÃO PAULO - Templos são invadidos


e profanados. Em outros casos, há
agressões verbais, destruição de
imagens sacras e até ataques
incendiários ou tentativas de
homicídio. O cenário preocupa
adeptos de diversas religiões e, em
pelo menos oito Estados, o Ministério
Público investiga ocorrências
recentes de intolerância. Entre
janeiro de 2015 e o primeiro semestre
deste ano, o Brasil registrou uma
denúncia a cada 15 horas, mostram
dados do Ministério dos Direitos

345
Humanos (MDH). (RESK,
TOMAZELA, COTRIM, p.01.)
Vemos que grandes partes dos templos religiosos
são invadidos por pessoas que são contra a religião ou
pessoas que seguem outras religiões, mas não são a favor
de uma determinada religião que discrimina, na maioria
dos casos, são pessoas que entram para roubar os objetos
sagrados mais importantes para uma determinada
religião, como por exemplo, a religião católica que tem a
eucaristia que representa o corpo de Cristo para eles, este
tipo de situação tem sido cada vez mais comum na
sociedade atual, que a cada dia a sociedade está se
tornando mais ignorante por não aceitar outras religiões.
O seguinte trecho da notícia ”Brasil registra uma
denúncia de intolerância religiosa a cada 15 horas”, nos
mostra como religiões afro são discriminadas ainda nos
dias atuais:

Juristas vão protocolar uma petição


no próximo dia 20 para processar o
Brasil na Corte Interamericana de
Direitos Humanos, por crimes contra
religiões de origem africana. “A
intolerância está virando epidêmica”,
diz o advogado Hédio Silva Júnior,
membro do grupo. “Do início do ano
para cá, houve um mudança do tipo
de ataque, com agravamento para
agressões físicas e casos de tortura.”
(RESK; TOMAZELA; COTRIM. p.05.)

A religião que mais sofre discriminação e a afro-


descendentes, por serem de origem africana vindas de
346
negros trazidos para o Brasil. Infelizmente em nosso meio,
religiões afro são consideradas como terrenos de
macumba, mas a realidade de muitas delas são diferentes,
pois nem todas têm as mesmas funções e crenças, somos
um país que é considerado laico, que aceita todo tipo de
religião, então porque ainda há discriminação com as
religiões vindas da cultura negra, ou melhor, de
descendentes africanos? Cabe a nós aceitamos todos os
tipos de religião que existem em nosso país, anulando todo
tipo de discriminação.

2.2 INTOLERÂNCIA POLÍTICA

Ao analisar o artigo científico Democracia,


Intolerância Política e Direitos Humanos: uma visão
reflexiva a partir da realidade brasileira contemporânea.
Compreendemos que no atual cenário que vivemos
passamos por crises políticas que gerou um desconforto e
falta de credibilidade com a democracia em si.
Observamos que a intolerância política não estão só
a associada no brasil, mas sim global onde a falta de
confianças no governo tem a maior base disto. Bittar
(2015) citado por Domenico (2015 ps 214-215) “A
percepção de que se padece da falta de rumo, de que se
vive na desordem social e de que se convive com a
desconfiança define os traços do presente, ” (DOMENICO,
2015), ps. 214-215.grifo do autor)

347
Atualmente, estamos em processo eleitoral, várias
intolerâncias políticas ocorrem nesses momentos,
observamos "o ódio político” e a “insatisfação com o
governo”, gerando violência. “As redes sociais têm sido no
Brasil, um termômetro, neste sentido, demonstrando a
forma bruta com a qual se exprimem as manifestações
populares nas ruas, as opiniões políticas no ambiente
virtual e o ódio político nos veículos das mídias”. (BUCCI,
2016, p30.)
Quando tocamos no assunto de intolerância política
há vários casos de violência física ou verbal como este
acontecimento com José de Abreu.

O ator José de Abreu e sua esposa


foram insultados enquanto jantavam
em um restaurante em São Paulo,
por conta do seu posicionamento
contrário ao impeachment e acusado
de ser conivente com corrupção. E Zé
de Abreu reagiu cuspindo. (FOLHA
DE SÃO PAULO, 2016)

Notamos que segundo Souza Neto, a democracia


brasileira contemporânea tem de romper barreiras no nível
da cultura e no nível da economia, no nível da justiça e no
nível da cidadania, no nível da educação e da política e,
também, no nível de esclarecimento da opinião pública,
preparando-se para a superação do ciclo de pré-
modernidade que ainda permite ao Brasil manter clivagens
sociais injustificáveis, relações sociais violentas fundadas
na pura barganha pelo direito à vida, autoritarismo social
348
dominante, intensos traços de truculência na
determinação da convivência social.

Destacamos que não se trata de fazer


democracia somente por meio das
instituições políticas, mas estabelecer
uma democracia no cotidiano das
interações sociais; isto significa o
desenvolvimento de elos sociais
capazes de se construírem por
práticas democráticas, onde valores
sociais do convívio são afirmados e
reafirmados independentemente de
normativas ou exigências de Estado.
(ALMEDINA, 2013, p.207).
No Brasil por mais que estamos em um momento
muito frágil o passo para a democratização deveria ocorrer
em passos largos, para não ficarmos no tempo. A
humanidade deve entender como um bem comum a todos.
Assim a intolerância política vai diminuir e a sociedade
juntamente com o governo crescer acabando com esse
cenário desastroso político e econômico que o País convive.
O artigo reflexões sobre a intolerância política
retrata a questão da intolerância política no Brasil Nos
últimos anos, a sociedade brasileira veio criando um
interesse a mais para a política no Brasil, vista por muitos
um assunto indiscutível. A intolerância no Brasil vem
crescendo assustadoramente. A poucos dias das eleições
brasileiras definirem o próximo presidente da República,
essa intolerância política parece estar sem controle.
O seguinte trecho de ARANTES apud MORAIS
(2014) mostra o conceito de violência política:
349
Contudo, dentre outros fatores, ao
aludir positivamente à Ditadura
Militar e a um dos principais
torturadores desse período nas
passagens “Perderam em 64,
perderam agora em 2016” e “pela
memória do Coronel Carlos Alberto
Brilhante Ustra, o pavor de Dilma
Rousseff” (BOLSONARO, 2016), a fala
do congressista rompe com o “ideal
social”, passando a se caracterizar
como um discurso intolerante, com
foco na apologia à tortura e na
incitação ao ódio.

A sociedade deve rever a sua cultura e o seu


comportamento em relação ao jeitinho brasileiro,
passando por quatro estágios. Consciência: desta
realidade, saber que cada um tem um papel neste
processo. O debate: sobre esta realidade. A educação:
pensar na educação informal (que ocorre dentro de casa e
na rede de relações) até a educação formal (de sala de
aula). A prática: onde se ‘abre mão’ de vantagens pessoais
em detrimento de valores e se pratica o que foi acordado,
se trabalha em prol do bem comum.
A falta de incentivar a sociedade e mostrá-la a real
importância da interferência da população no meio político
trouxe um atraso, onde se criou uma preocupação tardia,
sendo reflexo da situação política atual. O pensamento
etnocêntrico reflete na intolerância que é notada no dia-a-
dia, onde não se respeita mais à opinião ou ponto de vista
que cada cidadão escolhe. Essa atitude gera um reflexo no

350
meio, pois, trás cada vez mais ódio na sociedade, sendo
um ciclo que se repete por várias vezes.
Vivemos momentos em que se faz necessária
prudência, tolerância e sabedoria. Precisamos discutir
alguns valores éticos e morais, a honestidade e o respeito
à diversidade ideológica e política é essencial para o
desenvolvimento do país.
Conforme vimos nos últimos dias um ato de
intolerância política é o caso da estudante universitária de
33 anos em Fortaleza, o crime ocorreu em torno da
universidade (UNIFOR) em Fortaleza. A polícia está
investigando o caso.
Podemos então perceber que no Brasil a sociedade
ainda tem um comportamento agressivo em opiniões sobre
política. E o aumento dos crimes ocorre em épocas de
eleições.
A comissão de direitos humanos se posicionou em
relação a este crime, É lamentável e repugnante o nível
que se chega nessas eleições. É preocupante o
empedramento de grupos que repercute o discurso de
ódio.
A vítima ainda ouviu insultos como “esse lugar não
é pra gente como você” de homens na entrada do campus.
A intolerância hoje cada vez cresce mais não porque o
cenário político do Brasil está em crise, mas porque nós
não temos educação de ouvir a opinião do outro a escolha.
Por isso, defendemos o incentivo a programa a educação

351
política o ato de ouvir e respeitar a opinião da sociedade o
bem como a todos assim cresceremos em uma sociedade
como um bem maior para nosso país.

2.3 INTOLERÂNCIA RACIAL

No Brasil temos um alto índice de racismo mais de


50% da população Brasileira e a maior parte dessa
porcentagem é pobre vemos a desigualdade de classes,
com isso deixando o racismo mais alto ainda propondo
que o racismo influencia em maiores áreas na sociedade
como no mercado de trabalho, no território, nas
representações simbólicas da sociedade brasileira, dentre
outros espaços. Isso vem gerando uma mudança na
autoestima da população negra e uma maior consciência
das desigualdades raciais alimentadas pelo racismo.
Esse processo, intensificado nos últimos 30 anos,
tem possibilitado um fortalecimento do movimento negro,
assim como um maior debate público sobre as
desigualdades raciais.

Portanto, não se pode falar de


superação do racismo e diminuição
das desigualdades sociais sem certo
entendimento do que e o racismo sem
ver quem sente de verdade o que é
passar por uma vergonha ou uma
humilhação perante a sociedade o
racismo nunca vai superado e a luta
dos negros. (CICONELLO, 2007, p.2)

352
Continuaram para mostrar a sociedade que são
pessoas capazes de realizar outros afazeres obrigações
serviços na sociedade como qualquer outra pessoa:

O racismo é percebido e vivido no


cotidiano: nos shopping centers de
elite, onde os trabalhadores negros
são confinados em postos de vigias
ou faxineiro, ocupam as tradicionais
posições de subordinação.
(CICONELLO, 2007, p.3)
A sociedade tende a colocar os negros em empregos
mais baixos do que os outros empregados, tratando assim
os funcionários negros com uma desigualdade perante aos
outros, criando com isso certa desigualdade na empresa.
A desigualdade social começa em uma comparação
entre os negros e os brancos em vários setores da
sociedade como pobreza educação violência e mercado de
trabalho todos esses itens citados tem uma grande
desigualdade entre negros e brancos, vemos eles com
melhores acesso nessas áreas, isso gera uma tensão, uma
revolta claramente expressa nas palavras de Flávio Jorge,
diretor da Fundação Perseu Abramo e da CONEN –
Coordenação Nacional de Entidades Negras, “o racismo no
Brasil vai deixar de ser cordial”. (CICONELLO, 2007, p.7)
De acordo com Ciconello (2007), o movimento negro
e o mais antigo dos movimentos ele surgiu para que os
direitos dos negros fossem respeitados começando na
época da escravidão lutando para que os seus direitos
como de ser livre fossem alcançados por eles. Hoje em dia

353
existem outras maneiras de realizar esses protestos
sempre em vista de estar melhorando a vida e os direitos
dos negros. Depois desses protestos o governo começou a
enxergar uma desigualdade social entre negros e brancos
com isso criando uma lei que defendia os direitos dos
negros “a Fundação Cultural Palmares – cuja finalidade é
"promover a preservação dos valores culturais, sociais e
econômicos decorrentes da influência negra na formação
da sociedade brasileira" (art. 1º da Lei Federal nº 7668/88)
apud (CICONELLO, 2007, p 7.)
Contudo, vemos que os negros vêm lutando desde
sempre, para que seus direitos sejam alcançados, essa
luta de todos os negros pelos seus direitos só irá para,
quando todos, sem exceção, aceitarem-nos de verdade
como pessoas de direitos que não sejam excluídos de
certas coisas só por serem negros.
Analisando um novo artigo sobre intolerância racial
vemos uma abordagem maior sobre este tema vemos que o
racismo vem de muitos anos atrás podemos ver que esse
assunto o racismo em si não tem diminuído com o tempo
ele ainda tem sido muito combatido durante os anos
através de protestos pacíficos e as demais manifestações
pacíficas tentando mostrar a uma sociedade que os negros
são pessoas comuns como qualquer outra tendo
capacidade para exercer qualquer função.
Nessa sociedade, perguntas são frequentes como
"qual a forma desse racismo? Seu modus operandi? Suas

354
nuances, sutilezas e transformações? Em que situações e
locais ele se manifesta ou se torna visível?” (BARTEL,
2018.p.105) essas perguntas são acontecimentos
frequentes que vemos na sociedade como negros sendo
excluídos de uma certa forma, que vemos que o racismo
não vem diminuindo por certas atitudes que as próprias
pessoas praticam contra os negros.
Propõe integrar populações negras e indígenas na
vida social do país, considerando que até então essas
comunidades foram marginalizadas e excluídas
socialmente, devido o processo histórico sofrido por
ambas. O processo de a sociedade tentar rejeitar uma
parte da população negra fez com que menos negros
consigam alcançar certo padrão de vida, sendo que todos
não partem de um mesmo ponto inicial perante os outros.
”Assim, as populações carentes encontram inúmeras
dificuldades em meio à sociedade brasileira, condição que
se agrava quando acrescida de outros adjetivos como
negro, mulher e homossexual” (BARTEL, 2018.p.112).
Na onde vivemos temos que ver pessoas com alta
capacidade mais serem desprezadas pela sua cor de pele
antes mesmos de verem a suas qualidades ou mesmos de
conhecer a tal pessoa temos vendo que o racismo e de tal
forma cometido pelos outros que durante tantos anos se
passando vemos que não evoluímos e continuamos a
ignorar essa questão voltada para o racismo que por si

355
não vem trazendo benefícios para nenhum dos lados dos
negros ou de brancos.
Como vemos no cotidiano, muitas formas do
preconceito se manifestam e em todo lugar, como, por
exemplo, nos esportes onde muitos jogadores são vítimas
desse tipo de racismo chamados com certas ofensas e
ações ofensivas que criticava sua cor e raça. “Por fim, cabe
ainda dizer que insultos raciais são encontrados nos
estádios de futebol há muitas décadas”. (BARTEL, 2018,
p.112)
Com tudo se a sociedade não mudar o seu olhar
para os negros não vamos ver mudanças consideráveis na
sociedade que julgam pela aparência que um negro
aparenta sem que todos já julguem pela sua cor.
Com base no tema escolhido vemos que os tipos de
racismo praticados não só por rejeição na sociedade ou em
campos de trabalho vemos que o racismo pode ser
praticado nas redes sociais onde esses praticantes desse
crime tentam se esconder e tentando ferir as pessoas.

“A atriz Taís Araújo é alvo de


comentários racistas no Facebook
desde a noite de sábado (31). A foto
que passou a receber comentários
preconceituosos de diferentes perfis,
datada do início de outubro, foi
publicada quase um mês antes dos
ataques” (G1 Rio, 2014).
Neste caso, acontecido em 2015, a atriz Taís Araújo
sofreu esse tipo de racismo praticado nas redes sociais,

356
principalmente no seu facebook onde diziam “te pago com
banana” “me empresta seu cabelo pra lavar louça”, muitos
não acreditam no racismo, mas vemos que isso é
predominante na sociedade.
Num caso da atualidade acontecido com a Maria
Júlia Coutinho também foi alvo de internautas que
queriam prejudicá-la tentando atingi-la com esses
comentários racistas sem saber o que passam depois de
passar por isso como elas se sentem tristes e vulneráveis
com esse racismo praticado por esses internautas.
Mais esse tipo de racismo não sai impune por eles
esses internautas praticam o crime de injúria.

“O crime de injúria está previsto no


artigo 140 do Código Penal e consiste
em ofender a dignidade ou o decoro
de alguém na utilização de elementos
referentes à raça, cor, etnia, religião,
origem ou a condição de pessoa idosa
ou portadora de deficiência”. (G1 Rio,
2014)

Esse crime tem a pena de três anos de reclusão.

2.4 INTOLERÂNCIA CONTRA A MULHER - MISOGINIA


E FEMINICÍDIO

No texto, “A misoginia como obstáculo para o pleno


exercício dos direitos fundamentais”, os autores tratam os
seguintes aspectos, o histórico de “objetificação” e
“culpabilização” das mulheres na sociedade e a luta destas
ao longo dos anos.

357
Podemos observar que desde a época do
descobrimento do Brasil as mulheres não tinham voz na
sociedade, eram escravizadas e utilizadas como objeto
sexual de seus “donos”, com apenas o objetivo de conceder
prazer ao homem e de procriar.
De acordo com Silva e Duarte (2017), embora o
direito à liberdade e igualdade de gêneros seja assegurado
constitucionalmente, sabemos que a realidade é diferente,
basta observarmos a diferença salarial entre homens e
mulheres no mercado de trabalho, o tratamento dado a
uma mulher pela maneira como se veste e muitas vezes
até mesmo a falta de credibilidade intelectual feminina
frente ao homem. É também cada vez mais comum
escutarmos acerca do Feminicídio e misoginia, que são,
respectivamente, crime contra a figura da mulher e
aversão e ódio ao sexo feminino.
Outra ideia também apresentada é a diferenciação
entre Feminismo e Femismo, como pode ser visto no
seguinte trecho: ”O feminismo é movimento social e
político que busca a igualdade entre gêneros, através de
direitos e oportunidades iguais para os dois sexos. Já o
feminismo propaga a ideia de que a mulher é superior ao
homem, como se fosse um machismo inverso.” (SILVA;
DUARTE, 2017, p. 14)
Em decorrência disso e sempre em busca da
efetivação de seus direitos, através de movimentos sociais
e políticos de empoderamento, as mulheres estão cada vez

358
mais conquistando o seu espaço na sociedade, apesar de
sabermos que a desigualdade de gênero e o preconceito
estão longe de acabar diante da resistência humana de
personificar o machismo como algo banal.
Por fim, o texto em análise ressalta a importância
da educação sexual e conscientização das crianças sobre o
respeito mútuo que deve existir entre as pessoas,
principalmente as mulheres neste caso, como seres
possuidores de direitos fundamentais, para que só assim
possamos construir uma sociedade evoluída e igualitária.
O artigo “Feminicídio no Brasil: uma análise crítico-
feminista” retrata a questão do feminicídio na sociedade
brasileira, de forma a demonstrar que os direitos das
mulheres não eram objeto de proteção no Código Penal
vigente em nosso ordenamento, mas como houve um
aumento exorbitante de violência em relação à mulher
ocorreu a tipificação em especial doméstica e familiar. Mas
somente em 2006 é que surgiu a Lei Maria da Penha, lei
esta que iniciou o marco de reconhecimento dos direitos
das mulheres em nossa sociedade. Apesar disso, a
violência contra a mulher ainda se mostra bastante
evidente.
O seguinte trecho de LAGARDE apud CAMPOS
(2015) mostra o conceito de violência de gênero:

A violência de gênero é a violência


misógina contra as mulheres pelo
fato de serem mulheres, situadas em
relações de desigualdade de gênero:

359
opressão, exclusão, subordinação
discriminação, exploração e
marginalização. As mulheres são
vítimas de ameaças, agressões,
maus-tratos, lesões e danos
misóginos. As Modalidades de
violência de gênero são: familiar, na
comunidade, institucional e
feminicida.
Assim, percebe-se que o feminicídio é um crime de
ódio, tendo como objeto a figura da mulher. Tudo isso
originado pelo machismo, culturalmente, enraizado em
nossa sociedade. Nesse sentido, o trecho a seguir:

Os estereótipos e os pré-conceitos de
gênero estão na base das atitudes
preconceituosas e discriminatórias
contra mulheres e podem ser
identificados em muitas situações:
por exemplo, muitos homens acham
que mulheres não devem trabalhar
fora e são violentos quando elas
procuram trabalho; na visão de que
as adolescentes femininas são
promíscuas, por isso podem ser
estupradas; nos ditos populares
mulheres gostam de apanhar; em
briga de marido e mulher ninguém
mete a colher; matou por amor,
dentre outros. (CAMPOS, 2015, P-
112).
Assim, podemos notar que os crimes contra as
mulheres estão longe do fim, pois infelizmente o machismo
está bastante presente na sociedade, mesmo após leis
específicas que defende os direitos das mulheres.

360
O filme “Vidas Partidas”, ora analisado, é dirigido
por Marcos Schechtman, 2016 e traz como protagonistas
Domingos Montagner (Raul) e Naura Schneider (Graça). É
inspirado no caso Maria da Penha e relata a violência
doméstica sofrida por Graça, visto que o seu marido
mostrou-se, ao longo dos anos, um cara violento e
dominador.
O filme por ser inspirado em fatos reais, retrata um
pouco sobre o drama vivido por Graça, uma mulher
inteligente e que estava se destacando em seu emprego,
em contrapartida, a vida de seu marido Raul, homem
desempregado e que não estava muito contente com a sua
situação, pois tinha em mente que era o homem que
deveria manter a casa.
Ao longo da história, o sossego de Graça foi
desaparecendo, na medida em que as agressões foram
aumentando até chegar a uma tentativa de morte, embora
tenha sido uma tentativa em vão, a mulher ficou com
sequelas. A partir disso, iniciou-se um processo na justiça
para que fosse reconhecido que a mulher era vítima de
violência doméstica, sendo seu marido, o autor daquela.
Em síntese, o filme nos demonstra como foi criada a
lei Maria da Penha no Brasil em 2006, lei esta que
assegura e protege os direitos das mulheres na sociedade
brasileira contra qualquer tipo de violência, seja ela física
e/ou psicológica.

361
2.5 INTOLERÂNCIA SEXUAL - HOMOFOBIA

O artigo analisado visa demonstrar a necessidade


da criminalização da homofobia, já que há violação de
direitos de uma parte da sociedade denominada LGBT. O
tema é abordado por Monteiro Rodrigues Monteiro na
revista “ciência e sociedade” do estado de Macapá no
primeiro semestre de 2016.
Diante de tal situação em que uma minoria de
pessoas tem seus direitos violados por causa de suas
escolhas sexuais ou de gênero, se faz necessário a
existência de lei em nosso ordenamento jurídico que
assegure a dignidade, a vida, a segurança, a igualdade e a
liberdade dessas pessoas e criminalizando a homofobia.
Estamos vivendo uma realidade onde o certo é
somente aquilo que a sociedade propõe, qualquer coisa
que fuja desse padrão são descriminalizadas, atitudes
essas que isola nossa sociedade.
A esse respeito é preciso declarar que:

Com as grandes transformações


ocorridas na sociedade ao longo dos
anos não é razoável aceitamos em
pleno século XXI que determinada
pessoa seja agredida, humilhada, ou
até mesmo tenha sua vida ceifada,
por descriminalização e intolerância,
relativa à orientação sexual. E,
portanto, sendo o Brasil um país
democrático de direito, por que não
criminalizar a homofobia, pois tais
condutas são uma afronta à
Constituição da república federativa
362
do Brasil de 1988. (MONTEIRO,
2016, p.3)

O conceito de família é bastante amplo e já foi


reconhecida pelo supremo tribunal federal a união
homoafetiva, mas algumas pessoas tendem a discriminar
a orientação sexual do outro. “Em terceiro, mesmo que
não aceitem a orientação sexual do indivíduo, ainda assim
que seja obrigado a tolerar, uma vez que a tolerância é
requisito da vida em sociedade”. (MONTEIRO, 2016, p.7)
Diante de tal quadro de violência movido pelo crime
de ódio o poder legislativo deveria sim aprovar uma lei que
cabe com a impunidade desses crimes, com a intenção de
estabelecer dispositivo que assegure aos LGBTS os mesmo
direito dos heterossexuais uma vez que diante da lei
somos todos iguais.
Por anos o projeto de lei n° 122/2006, tramitou na
câmara dos deputados e no senado federal, um projeto
que visa criminalizar a discriminação motivada
unicamente na orientação sexual ou na identidade de
gênero da pessoa discriminada, tal projeto seria necessário
para regularizar e modificar o quadro de violência que se
encontra, mas que anos depois tramitando foi arquivado,
conforme explica Monteiro (2016).
A sociedade brasileira precisa ser conscientizada de
que não pode discriminar alguém pelo simples fato de ter
determinada orientação sexual e aceitando qualquer
conceito de família, e o projeto de lei se faz necessário para

363
que não continuem impune atos homofóbicos e desta
forma o estado não permitiria que uma pessoa seja
discriminada pelo fato de sua orientação sexual ser
diferente do padrão tradicional.
Ao analisar um segundo artigo de autoria de Sarah
Schulman, do ano de 2012, ele nos faz compreender o
fundamental papel da família na vida de pessoas que se
declaram homossexuais, como ressalta a autora no
seguinte trecho:

Entretanto, ainda hoje, as famílias


estão mais propensas a “tolerar” os
homossexuais, isto é, a mantê-los em
uma posição de menor valor do que
aprender com eles e se inspirar em
seu conhecimento. É mais provável
ver um político que tenha um filho
abertamente gay se opondo
ativamente aos direitos gays do que
vê-lo publicamente exaltando aquele
filho por ter tido a sensibilidade
pessoal e integridade de se assumir
(SCHULMAN. p.3-4. 2012).
Por ser um conjunto de práticas e discursos a
respeito da sexualidade ou escolha de gênero que levam
em conta aspectos sociais, morais e subjetivos são em sua
maioria lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais,
transgêneros ou todos aqueles que não se adequam à
norma linear proposta pela maioria da sociedade que
sofrem tal crime movido a ódio.
Homofobia é muito mais que um medo ou uma
fobia da desistência da heterossexualidade, a homofobia é

364
movida por um sistema de prazer baseado em crenças
religiosas e valores vindos de grupos de heterossexuais.
Trata-se, portanto, de um dispositivo regulatório ou
moldador da sexualidade que vai de sutil até formas
violentas de opressão e dominação.
Enganam-se quem acha que tal ato é demonstrado
somente pela sociedade, pois muitas das vezes o
desrespeito com a liberdade de escolha da vítima começa
dentro de casa com seus próprios familiares que são
moldados pela sociedade e por suas crenças religiosas.
“Sem intervenção compassiva, entretanto, a homofobia
familiar pode se tornar uma opressão dolorosa
determinante na vida da pessoa gay” (SCHULMAN. p.4.
2012).
A esse respeito é preciso ressaltar:

A estrutura familiar e sua


intocabilidade predominam. Então,
porque a pessoa gay não tem apoio
total de sua família, ela por sua vez
se torna o bode expiatório ideal. Na
sociedade, assim como na família,
ninguém irá intervir. A sociedade não
irá intervir na família e a família não
irá intervir na sociedade. É uma
relação dialógica de opressão
(SCHULMAN. p.10. 2012).
É importante que pessoas que se declaram
homossexuais tenha apoio familiar, na qual façam com
que elas busquem a compreensão da sociedade, sendo
assim é de grande relevância que a mesma se mantenha

365
unida nas escolhas de cada um dos seus membros,
mostrando que toda forma de amor é aceita e respeitada,
pois só assim teremos o início de uma sociedade mais
igualitária e justa com os direitos dos cidadãos, até mesmo
porque é no lar que se deve aprender a respeitar e amar as
diferenças que encontramos à nossa frente.
Para entendermos melhor a problemática
apresentada vale ressaltar uma análise do filme “orações
para Bobby” dirigido por Russel Mucahy e tendo como
produtor Damian Ganczewski no ano de 2009, o longa-
metragem traz em seu elenco principal Sigoumey Weaver
interpretando a personagem Mary Griffith e Ryan Kelly no
seu personagem Bobby Griffith.
Por ser um filme baseado em fatos reais, traz por
meio de cenas fortes, sensíveis e emocionantes a
comovente e trágica história de vida de um jovem
homossexual e da sua família em especial sua mãe de
como lidam com essa questão da homossexualidade. Mary
durante todo o filme demonstra o amor pelos filhos,
percebemos que a mesma não deixou de amar Bobby
quando ele se revela homossexual, mas por ser uma
religiosa tradicional e tomada pelo discurso religioso
presente na bíblia que exclui os gays como merecedores do
amor de deus ela se esforça para que o filho aceite a
condição de pecador tentando promover nele uma
mudança de orientação sexual.

366
Somente após a triste e prematura morte de Bobby
quando o jovem se joga de uma ponte a fim de acabar com
a dor causada pela família que o repreende por sua
escolha sexual e sua mãe Mary não aceita ter um filho
gay, que a matriarca da família vê possibilidade de
compreender a angústia e o sofrimento do universo dos
homossexuais.
A esse respeito podemos destacar questões para
trazer reflexões acerca da homossexualidade. Cabe a nos
perguntarmos como lidar com a dor da perda de um filho
diante de uma situação de preconceito sexual/ religioso?
Ou como a experiência de ter um filho homossexual pode
ajudar a compreender o mundo a partir do respeito à
diferença? São perguntas como essa que deveríamos fazer
antes de julgar ou banalizar a escolha de alguém, pois no
mundo em que vivemos é incontestável que agredimos
indivíduos através de atos ou discurso de ódio
desrespeitando a liberdade de escolha e de expressão do
próximo.

2.6 INTOLERÂNCIA AO IMIGRANTE - XENOFOBIA

A série de cadernos chamada “Assistente Social no


combate ao preconceito”, publicada no ano de 2016 em
Brasília (DF), tem como objetivo visar e orientar os
assistentes sociais conforme o tema de variadas situações
de preconceito com os imigrantes (xenofobia), a partir dos
textos elaborados por Cleusa Santos.

367
Contudo, a maioria dos imigrantes é atingida pelo
preconceito de classe, em especial aqueles que procuram
um lugar melhor para morar (refúgio), devido às baixas
condições de vida, guerras, conflitos, pobreza, entre outros
males onde moravam.
Ainda sobre o preconceito de classes, exalta-se
Cleusa Santos:

Esse preconceito de classe se


expressa em comportamentos que
beiram o fascismo, destilando
discursos de ódio e de repulsa ao
“diferente”, ao/à estrangeiro/a, ao
não familiar, vistos como ameaça à
uma pretensa estabilidade da
“ordem” e da economia mundiais.
Tais preconceitos dificultam a
inserção e a permanência dos/as
migrantes e atingem diretamente as
ações dos/as assistentes sociais
voltadas paras as demandas sociais
dessa população. Em outras
palavras, obstaculizam ações que de
fato reconheçam a liberdade
associada à ampliação e consolidação
da cidadania, a defesa do
aprofundamento da democracia e a
opção por um projeto profissional que
se some às lutas pela construção de
um projeto societário alternativo ao
capitalismo. Para isso, é preciso
refletir sobre o tema, nos marcos do
projeto ético-político, nos
referenciando no Código de Ética da
profissão. Contribuir para esse
objetivo é a função principal deste
material. (SANTOS, 2016, p.8)

368
No Brasil, a imigração é um caso típico da
construção econômica e social, a migração na questão
histórica remete ao período escravocrata.
Em um ocorrido histórico, com a vinda de pessoas
da Europa com o objetivo de trabalhar, ocorreram várias
mudanças e conflitos significativos na política de
migração, decorrendo a movimentos (greves) reivindicando
a entrada de imigrantes, de acordo com Santos (2016).
Quando falamos em preconceito e imigração, logo
pensamos em acontecimentos que já presenciamos ou que
foram acontecidos, de acordo com Santos (2016):

Na sétima série (sexto ano do Ensino


Fundamental), se não me engano, a
professora perguntou “de onde você
é?”. Porque ninguém sabia de onde
eu era. E falei “eu sou boliviana”, e
todo mundo virou e olhou para
minha cara: “mentira”. Eu disse “não
é mentira, eu sou boliviana”. “Não,
você é japonesa, coreana”. Aí, eles
ficaram meio assim, desconfiados. Às
vezes, eu ouvia “ah, os seus pais
vieram aqui para tirar o trabalho dos
nossos pais”. (SANTOS, p.10)
Além de sofrerem preconceitos, o lado do trabalho
também é bastante seletivo e discriminatório. Com todo
temor, os refugiados e imigrantes não buscam nenhum
órgão competente, ficando em circunstância de restrição.
De acordo com o Congresso Nacional, foi instituída
uma nova lei, chamada “Lei de Migração”, substituindo o
Estatuto do estrangeiro.

369
Os assistentes sociais desse debate no Brasil vêm
crescendo a cada dia, porém não é sua responsabilidade
atribuir aos indivíduos seus problemas, mas oferecer aos
imigrantes acessos à educação, saúde, trabalho, entre
outros.
Para entender como acabar com o preconceito com
os imigrantes, será papel de cada um ajudar.
O segundo artigo feito por Vivian Rafaella Prestes e
Alexandre Luís Ponce Martins, no ano de 2017, tem como
principal objetivo discorrer sobre diferentes análises a
respeito do conceito de xenofobia. Agregando ideias
relativas psicanalíticas na compreensão da xenofobia em
suas concepções geográficas e sociológicas do termo.
Ao falar sobre xenofobia percebe-se que este tema
nunca foi algo restrito a atualidade, essa situação sempre
ocorreu na história da humanidade, sendo um tema
bastante presente nas discussões políticas de âmbito
internacional.
Segundo Cabecinhas (2010, apud PRESTES e
MARTINS, 2017, p. 25- 39), “desde a antiguidade
determinados povos dominavam outros a partir de
diversas ações, entre as quais, também, formas violentas,
neste contexto, o que os diferenciavam era de fato a
crença, subjetiva e concreta, na superioridade de um
grupo sobre outros”.
O etnocentrismo e xenofobia estão dentro do mesmo
conceito, o autor os coloca no mesmo fragmento, todo

370
xenofobismo apresenta conjunções com o outro conceito,
mas, nem todo etnocentrismo é xenofobia, ou seja, o
preconceito pode variar dentro de um mesmo país.
Segundo (ROCHA, 1988, p.5), “Etnocentrismo é
uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado
como centro de tudo e todos os outros são pensados e
sentidos através dos nossos valores, nossos modelos,
nossas definições do que é a existência. No plano
intelectual, pode ser visto como a dificuldade de
pensarmos a diferença; no plano afetivo, como
sentimentos de estranheza, medo, hostilidade, etc.” (apud
PRESTES e MARTINS, 2017, p. 25- 39).
Apesar de ter sentidos próximos, etnocentrismo e
xenofobia não são sinônimos, assim a xenofobia segundo
Albuquerque Júnior, (2016, p. 9):
“A palavra xenofobia vem do grego, da articulação
das palavras xénos [ξένος] (estranho, estrangeiro) e phobos
[φόβος] (medo), significando, portanto, o medo, a rejeição,
a recusa, a antipatia e a profunda aversão ao estrangeiro.
Ela implica uma desconfiança e um preconceito em
relação às pessoas estranhas ao território, ao meio, à
cultura a que pertence aquele que julga, que observa, que
se considera como estando em seu lugar. A xenofobia
implica uma delimitação espacial, uma territorialidade,
uma comunidade, em que se estabelecem dentro e um
fora, uma interioridade e uma exterioridade, tanto
material quanto simbólica, tanto territorial quanto

371
cultural, fazendo daquele que vem de fora desse território
ou dessa cultura um estranho ao qual se recusa, se rejeita
com maior ou menor intensidade” (apud PRESTES e
MARTINS, 2017, p. 25- 39).
A xenofobia pode ser vista como uma forma de pré-
conceito mais aparente em razão dos processos de
globalização, que diz respeito à aversão pelo estrangeiro,
ou seja, a intolerância por aquele que é diferente,
estranho, desconhecido. A xenofobia é um exemplo de
como alguns grupos localizam no outro os sentimentos de
insuficiência e desconforto.
Concluindo, o preconceito é um tema que, para ser
entendido, exige a articulação de várias áreas do saber.
Para melhor entendimento sobre a questão do
preconceito com os imigrantes, um exemplo será uma
reportagem feita pelo “Jornal Hoje”, publicado no dia
22/10/2014, com o seguinte título: Imigrantes haitianos
são vítimas de preconceito e xenofobia no Paraná.
A partir dessa reportagem é possível entender como
é feito e suas consequências.
A reportagem apresenta a história de um grupo de
haitianos que foram em busca de melhores condições de
vida e trabalho no Paraná. Enfim, a busca pelo trabalho
eles conseguiram, porém, não ficaram muito tempo,
devido aos atos infelizes de seus companheiros de
trabalho. Como cita um haitiano na reportagem: “Eles me
chamam de macaco. Eu não fiz nada pra eles e continuam

372
me chamando de macaco. Ele me deu uma banana e me
bateu".
Os haitianos mesmo sendo vítima de xenofobia, ao
voltar ao trabalho em seguida foram demitidos, sem
nenhuma justificativa. Com isso o Ministério Público do
Trabalho está investigando todos esses acontecimentos.

2.7 O COMBATE AOS DISCURSO DE ÓDIO NAS REDES


SOCIAIS

Ao analisarmos o artigo “O combate ao discurso de


ódio nas redes sociais” foi possível notar que nos últimos
20 anos o Brasil e o mundo passou por uma revolução
tecnológica, o avanço da tecnologia se deu
exponencialmente, o avanço e popularização da internet e
seus meios de acesso aproximaram diferentes tipos de
pessoas de várias partes do país e do mundo, com isso
causando um choque cultural, que apesar de suas
vantagens, trouxe à tona problemas antes velados, o
preconceito e os discursos de ódio.
A internet é um local onde a sensação de anonimato
permite às pessoas expressarem suas, de acordo com
Nandi (2018), a internet é um local onde a sensação de
anonimato permite às pessoas expressarem suas ideias
mais profundas, e algumas dessas ideias, muitas vezes
por seu conteúdo ofensivo ou radical, acabam sendo
rechaçadas pela “comunidade”, a partir daí, na busca por
sua liberdade de expressão, a pessoa procura se
desvincular de sua verdadeira identidade, para que seus
373
discursos e pensamentos não afetem sua vida fora da
internet, para isso, essa pessoa se esconde atrás de um
“perfil fake” que por não ser atingido pelas consequências
de suas ações, tem maior liberdade de propagar seus
discursos.
Quando falamos de discurso de ódio, nos referimos
ao discurso com um padrão, como é exposto pelo exemplo,
“Genericamente, esse discurso se caracteriza por incitar a
discriminação contra pessoas que partilham de uma
característica identitária comum, como a cor da pele, o
gênero, a opção sexual, a nacionalidade, a religião, entre
outros atributos.”, conforme Silva (2011, p.446) Apud
Nandi (2018, p.22), é algo que acontece mesmo antes da
internet, esses critérios sempre foram utilizados para
excluir grupos e justificar ações bárbaras, mas agora com
o alcance da internet, o processo torna-se absolutamente
mais rápido.
Através de pesquisas realizadas pelo “TIC
Domicílios: Pesquisa Sobre o Uso das Tecnologias da
Informação e Comunicação nos Domicílios Brasileiros
2016” podemos demonstrar que a internet está presente
na vida de aproximadamente 60% da população brasileira,
esse “mundo virtual” se tornou ponto de encontro para
todo tipo de pessoa, são locais utilizados para lazer,
comunicação, debates calorosos e até mesmo criação de
movimentos e grupos, com a participação mais ativa e
cotidiana de grande parte da sociedade, os discursos

374
propagados por meio dessas redes tem influência direta e
indireta sobre a sociedade como um todo, fazendo com que
ideias que promovam ódio, se tornem uma ameaça real
aos direitos e liberdades das pessoas.
De acordo com a ideia de Nandi (2018), notamos
que um dos principais reflexos negativos causados por
esses discursos, é a segregação social, onde ao invés de
lutarem contra o sistema de opressão, as vítimas acabam
reproduzindo e adaptando os mesmos discursos, mas
contra os opressores que agora são vistos como um grupo
a ser combatido, sendo assim, tornou-se necessária a
intervenção do estado, onde, autoridades de vários países
se juntaram ao combate imparcial dos discursos odiosos
nas redes sociais, criando barreiras legais na tentativa de
coibir a popularização de ideias e ideais discriminatórios,
conscientizando sobre os impactos que esse tipo de
atitude causam na vida de outras pessoas.
Apesar da recente repercussão negativa de um
velho problema, as soluções adotadas para a resolução
estão cada vez mais efetivas, tanto dentro quanto fora do
ambiente virtual, a sociedade moderna, cada vez mais, se
une contra a disseminação de discursos criados para
separar as pessoas, mostrando que apesar de nossas
diferenças físicas ou culturais, podemos resolver conflitos
utilizando a racionalidade e demonstrando que somos um
mesmo povo, independente da origem, cor, credo ou

375
orientação sexual, somo unidos pela condição de sermos
humanos.
Analisando o segundo artigo “Liberdade de
expressão e discurso do ódio: o conflito discursivo nas
redes sociais” produzido por Walter Claudius Rothenburg
e Tatiana Stroppa, no ano de 2015, busca-se trazer à tona
a questão do conflito entre o discurso de ódio nas redes
sociais e a liberdade de expressão, de forma a questionar
quais são os limites da liberdade de expressão e onde esse
direito começa a cercear a liberdade de outras pessoas.
Ao tratar da liberdade de expressão no discurso de
ódio, busca-se realizar a interpretação correta da lei, que
apesar de permitir a livre manifestação através do
discurso, sem que haja censura prévia, mas também
limita esses discursos a não atentarem contra os direitos
já garantidos na Constituição.

A própria Constituição, ao tratar


generosamente do direito de
expressão, explicitou que não haverá
restrições, mas que haverá de ser
“observado o disposto nesta
Constituição”, ou seja, só os demais
direitos fundamentais e bens
constitucionais servem como
restrição. Ocorre que são muitas as
hipóteses em que a manifestação do
pensamento entra em conflito com
outros direitos e valores
constitucionalmente protegidos.
Dentre os diversos conflitos situam-
se as manifestações que expressam
mensagens violentas, intolerantes e

376
eivadas de conteúdo preconceituoso.
(CLAUDIUS & STROPPA, 2015, p. 04)
Essa questão da limitação da liberdade de
expressão pelos direitos já garantidos na Constituição é o
que leva muitas vezes ao equívoco ao exercer esse direito,
o erro interpretativo e o desconhecimento, acaba
contribuindo para a propagação, de discursos de ódio que:

Consiste na divulgação de mensagens


que difundem e estimulam o ódio
racial, a xenofobia, a homofobia e
outras formas de ódio baseadas na
intolerância e que confrontam os
limites éticos de convivência com o
objetivo de justificar a privação de
direitos. (CLAUDIUS; STROPPA,
2015, p. 05)
A partir disso, percebe-se que é possível identificar
e punir os responsáveis utilizando meios mais severos
para conseguir atingir a proporcionalidade na punição,
segundo Claudius e Stroppa, (2015, p. 09):

Quando as vítimas do discurso do


ódio forem pessoas ou grupos
vulneráveis, ignorados ou oprimidos
pelos grupos hegemônicos as
restrições ao direito de expressão de
conteúdo discriminatório são mais
aceitáveis, seja porque essa
mensagem tende a reproduzir e talvez
recrudescer a discriminação, seja
porque provavelmente não haverá
condições adequadas de contrapor
ideias, opiniões e sentimentos
compartilhados pela maioria ou pelos
grupos hegemônicos, pois o acesso às

377
novas tecnologias passa pela
superação das barreiras
socioeconômicas.
Assim notamos que muitas vezes é utilizado o
conceito de liberdade de expressão para a propagação de
ódio, atitude que, apesar de aparentar se tratar de uma
brecha legal, é somente um erro interpretativo ou até
mesmo desconhecimento por parte de quem busca
disseminar discursos de ódio ou apoiar tais práticas,
apesar disso, nota-se claramente um avanço na legislação
no sentido de coibir cada vez mais esse tipo de
comportamento, e tratar os casos já existentes de
maneiras mais eficientes o possível.
Para exemplificar a relação entre os discursos de
ódio no ambiente virtual e os reflexos causados nas vidas
das pessoas analisamos o seguinte trecho da reportagem
publicada pelo Extra, portal de notícias da empresa Globo
em Julho de 2015:

“A jornalista Maria Julia Coutinho


voltou a ser vítima de comentários
racistas, desta vez em uma
publicação na página do Facebook do
Jornal Nacional. Internautas
destilaram uma série de ofensas
contra ela. Outros usuários saíram
em sua defesa e, mais tarde, as
mensagens negativas foram
removidas do perfil.”

Percebemos assim que os ataques não se


restringem somente ao ambiente pessoal, mas também os
378
canais de trabalho das vítimas onde, além dos danos
causados a vida pessoal é possível ver que muitas vezes
buscam constranger a pessoa em seu ambiente
profissional, deslegitimando sua capacidade de trabalho
por usando como justificativa uma característica que em
nada influencia em seu desempenho, apenas para
propagar um ódio direcional.
Observa-se então, que ainda é uma questão sem
solução ou métodos definitivos, mas essa prática não se
dá só por parte do Estado, apesar de ser crime, também é
considerado pelas pessoas uma conduta imoral, como
abordou o portal de notícias O Globo, nesse trecho da
notícia publicada em Agosto de 2016:

“Essa é a mesma opinião de Lincoln


Werneck, do Instituto Coaliza. O
especialista acredita em ações
educativas e de conscientização para
reduzir a intolerância entre os
internautas, que, se apoiando no
anonimato, expressam seus
preconceitos: — Internet não é terra
sem lei. Se houver interesse
investigativo, os agressores serão
identificados.”
A partir disso, é possível notar que mesmo com o
aparente crescimento desse tipo de crime nos ambientes
virtuais, a conscientização popular ganha espaço no
auxílio combate a essa prática, indicando uma possível
melhora e redução no preconceito que motiva esses
discursos.

379
CONSIDERAÇÕES FINAIS:

O presente trabalho foi de grande importância para


compreendermos um pouco mais às intolerâncias, suas
causas e seus efeitos, observando fatos históricos onde se
observa origens de vários tipos de intolerâncias que já
eram observadas desde nossos antepassados se tornando
fato histórico e cultural. Essas intolerâncias se
apresentam onde há diferenças de raça, crença, gênero e
até ideias e se inicia a partir do momento em que não se
respeitam essas diferenças, ocasionando violência física
e/ou simbólica.
Observado os fatos históricos que muitas vezes é
importante para explicar os fenômenos atuais, observamos
o aumento da propagação de intolerâncias nos dias atuais
isso devido à evolução do mundo virtual que facilita o
acesso entre pessoas, um grande exemplo hoje disso são
as fake news que produzidas de forma maldosa atacam as
pessoas de forma violenta não se importando com
consequências causadas à pessoa atacada, em muitos
casos gerando danos irreversíveis.
Fica evidenciado aqui a importância de exposição de
ideias para observarmos as diferenças de pensamentos e a
importância de compreender e respeitar o ponto de vista
de cada um, fato que geralmente pode se tornar o
combustível para o assunto estudado, às intolerâncias.

380
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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para quem odeia', diz Leandro Karnal. 2017. Disponível
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G1 Rio. Atriz Taís Araújo é alvo de comentários racistas


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misoginia como obstáculo para o pleno exercício dos
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382
SCHULMAN, Sarah. Homofobia familiar: uma experiência
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NANDI, José Adelmo Becker. O combate ao discurso de


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MATSURA, Sérgio. Brasil cultiva discurso de ódio nas


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Disponível em:
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Extra. 2015. Disponível em: <https://extra.globo.com/tv-
e-lazer/maria-julia-coutinho-sofre-racismo-em-rede-
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RESK, Felipe; TOMAZELA, José Maria; COTRIM,


Jonathas. Brasil registra uma denúncia de intolerância
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12/11/2017. Disponível
em:<https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-
registra-uma-denuncia-de-intolerancia-religiosa-a-cada-15
Horas,70002081286>. Acesso em: 01 /11/2018.

ORAÇÕES para Bobby. Direção: Russell Mulcahy.


Produção: Damian Ganczewski. Estados Unidos da
383
América. 2009. Disponível em:
<https://youtu.be/Y1kIjFJSxIc?t=1072> acesso em
01/11/2018.

384
DEBATES SOBRE A INTOLERÂNCIA: UMA ANÁLISE
SOBRE ESSE ESTIGMA DIFUNDIDO E TOLERADO NA
SOCIEDADE GLOBAL E BRASILEIRA

Danielle Alves1
Géssica Corrêa2
Ianka Aniceto3
Nathalia Rocha4
Nilmara Regina Gomes Dias5
Marisa Oliveira6
Paulo Castanheira7
Samuel Camilo8
Magna Campos9

RESUMO:

O presente ensaio pretende abordar o tema da intolerância


na sociedade, global e brasileira, enfatizando intolerâncias
de caráter religioso; político; racial; contra a mulher;
homofóbico e xenofóbico, e também debater e ressaltar a
importância das formas de combate aos discursos de ódio,
difundidos atualmente, principalmente através das redes
sociais. Essa abordagem utiliza de análises embasadas em
críticas e visões encontradas nos trabalhos publicados por
autores reconhecidos nas áreas pertinentes ao assunto,
para então, realizar uma reflexão, advinda através dessas
análises e debates pesquisados.

INTRODUÇÃO:
A sociedade, em seu desenvolvimento histórico,
sempre teve em seu âmago as diferenças e segregações

1 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana


2 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
3 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
4 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
5 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
6 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
7 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
8 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
9 Professora universitária, escritora e Mestre em Letras.
385
encontradas entre os indivíduos e grupos que a compõe,
sendo essas segregações, em grande parte, criações da
própria sociedade ao relacionar alguma diferença entre os
indivíduos ou grupos.
Essas diferenças, ao se contrastar, poderiam ser
resolvidas através do diálogo e do entendimento entres as
partes contrastantes, entretanto o que frequentemente
ocorre é a intolerância, que é caracterizada pela
incapacidade, do indivíduo ou grupo, em respeitar ou
admitir diferentes pontos de vistas ou crenças,
expressando assim, diante dessas diferenças, emoções de
ódio e hostilidade. Em entrevista à BBC, ao ser
questionado sobre a motivação para o comportamento
intolerante, o historiador, Leandro Karnal afirma que, tal
comportamento, se deve ao fato de que:

Sempre existiu este ódio que flui por


todos os lados. Não é fácil existir e
acumular fracassos, dores, solidão,
questões sexuais, desafetos e uma
sensação de que a vida é injusta
conosco. O mais fácil é a
transposição para terceiros.
(PEREIRA, 2017, p.1)

Ao discutir a assertiva sobre a intolerância,


primeiro é analisado um contexto geral, o mundo,
globalizado, cuja proximidade entre os indivíduos é alta
devido aos meios de comunicações atuais. Nesse contexto

386
geral, alguns debatem a questão da influência dessa
aproximação mundial, ou seja, o quanto a globalização
influencia no surgimento dos conflitos que frequentemente
chegam ao ponto da intolerância. Em sua entrevista,
Karnal afirma, a respeito da influência da globalização e
dos meios atuais de comunicação quanto à intolerância,
que:

Não havia um mundo harmônico e


feliz antes, e não existe agora. O que
varia em história é como produzimos
a dor. Nosso método atual mudou
este método. Os mais sólidos
preconceitos e violências humanos
são muito anteriores à globalização.
(PEREIRA, 2017, p.1)

No Brasil, o contexto da intolerância não é


diferente. Até mesmo porque, segundo Karnal, em sua
entrevista (PEREIRA, 2017), o Brasil sofre com um grande
problema de desigualdade social, que é reforçado pelo
baixo investimento dado à educação escolar, e que por
consequência acarreta na redução da capacidade da
sociedade brasileira para lidar de forma esclarecida com
todas as diferenças e divergências que a sociedade
brasileira apresenta em sua heterogeneidade.
Aprofundando o tema em questão, em seus tópicos
seguintes, o presente trabalho buscará abordar algumas
das várias versões e manifestações de intolerância na
sociedade, ressaltando assim, com uma maior descrição e
387
reflexão, as intolerâncias: religiosa; política; racial; contra
a mulher; homofóbica e xenofóbica.
Outro ponto que também será debatido na
sequência será a questão do combate aos discursos de
ódio, que hoje se encontram tão difundidos na internet
devido às redes sociais. Tal tópico se mostra importante,
pois as redes sociais criaram um facilitador para a criação
e disseminação desses discursos de ódio. Inclusive Karnal,
em sua entrevista, afirma a respeito do fato, que:

Antes era preciso ler livros para criar


estes ódios. Mesmo para um homem
médio da década de 1930, ele
precisava comprar o Mein Kampf de
Hitler e percorrer suas páginas mal
redigidas. Ao final, seus vagos
temores antissemitas eram
embasados numa nova literatura com
exemplos e que fazia sentido no seu
universo. Mesmo assim, havia um
custo: um livro. Hoje é um clique e
um site, com muitas imagens.
Facilitamos muito para quem odeia.
O ódio tem imenso poder retórico. Ele
sempre existiu. Agora, existe este
ódio prêt-à-porter, pronto, onde você
se serve à la carte e pega seu prato
preferido. (PEREIRA, 2017, p.1)

2. AS VÁRIAS VERSÕES E MANIFESTAÇÕES DE


INTOLERÂNCIA NA SOCIEDADE

2.1 INTOLERÂNCIA RELIGIOSA


388
A intolerância religiosa é um problema recorrente
na sociedade brasileira e no mundo, mas essa
problemática, no Brasil, se dá a posteriori à sua
colonização, como foi citada no ensaio: “Intolerância
religiosa no Brasil de acordo com a Constituição federal de
1988.” (JESUS ET al., 2018, p.1). A esse respeito, é
preciso considerar que:

A intolerância religiosa na
antiguidade ao redor do mundo se
tornou evidente quando o Império
Romano se mostrou intolerante
diante do crescimento do
cristianismo em seu território, eles
perseguiram e mataram muitos
cristãos. Entretanto, uma vez que foi
legalizado e admitido como religião do
Império, é a vez dos cristãos se
tornarem intolerantes com os pagãos.
(JESUS et al., 2018, p.3)

A intolerância religiosa no Brasil chegou junto com


a chegada dos portugueses na colonização do território
brasileiro e junto disso a cultura europeia que erradicou a
cultura indígena e impôs a eles a sua fé como a única
verdade estabelecida. “Com o passar das décadas, houve a
vinda dos negros para serem escravizados, e a mesma
situação se repetiu.” (JESUS et al., 2018, p.3 ).
Porém, a situação com os negros foi mais
problemática pelo fato de que seus cultos eram
389
considerados demoníacos pelos católicos (JESUS et al.,
2018) e, portanto eram inferiores ao homem branco por
isso foram escravizados com maior vigor do que os índios.
“Para livrar-se das perseguições de seus senhores e do
clero, os negros faziam uso das imagens dos santos
católicos em suas cerimônias, quando na verdade estavam
cultuando seus orixás.” (JESUS et al., 2018, p.2).
Esse fanatismo exacerbado por parte de indivíduos
que alienadamente acreditam que a sua crença é superior
à dos outros pelo único motivo de que a ideologia pregada
por sua Fé é a verdadeira por simples questões de cunho
interpretativo, que o próprio ser humano se torna refém
dessas ideologias que o torna intolerante a outros
pensamentos, sendo assim, tornando agressivo e
discriminatório a outros tipos de interpretação espiritual
da fé do outro.
Só pra ilustrar esta questão, o ensaio retrata sobre
o estado islâmico que além de discriminar outras
interpretações de fé, são pautados no discurso de ódio e
propõem uma política baseada no livro do alcorão, com a
intenção de lutar contra os infiéis e expandir a fé islã
(JESUS et al., 2018) que por sinal, quando se referem a
lutar contra esses infiéis nada mais é do que impor a sua
fé sobre as crenças de outros povos causando a
intolerância que vem se radicando nos dias atuais.
Para combater e frear essa intolerância, existem leis
para que possam garantir a autonomia do indivíduo em

390
expressar a sua vontade a escolha do seu culto religioso
no Brasil, a Constituição Federal (1988) citada por JESUS
et al. (2018, p. 4)

Art. 5º Todos são iguais perante a lei,


sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e
à propriedade, nos termos seguintes:
VI - é inviolável a liberdade de
consciência e de crença, sendo
assegurado o livre exercício dos
cultos religiosos e garantida, na
forma da lei, a proteção aos locais de
culto e a suas liturgias;
VII - é assegurada, nos termos da lei,
a prestação de assistência religiosa
nas entidades civis e militares de
internação coletiva;
VIII - ninguém será privado de
direitos por motivo de crença religiosa
ou de convicção filosófica ou política,
salvo se as invocar para eximir-se de
obrigação legal a todos imposta e
recusar-se a cumprir prestação
alternativa, fixada em lei.

Ao revermos o art. 5° e seus incisos vemos a


importância dessa norma para resolução do problema da
intolerância que no Brasil é um crime contra a liberdade
de crença em um país como o Brasil cheio de misturas
étnicas, culturais e religiosas. (JESUS et al., 2018)
391
A essa variação de interpretação e a complexidade
de cada interpretação da fé colocando cada uma delas em
xeque com relação à outra, na busca pela verdade
cristalizada para elaboração da fé, tal fé que para
membros religiosos possa ser chamada de única por
verdades pragmáticas, construídas pelos seus costumes
sociais de cada parte do globo terrestre.
A esse respeito Teixeira (2016, p.1), retrata o
pluralismo de crenças:

Não há possibilidade de diálogo inter-


religioso, se não se acolhe com
ternura e com alegria o pluralismo
religioso Um pluralismo de princípio,
ou de direito, não um simples
pluralismo de fato. Isto é, não a
simples constatação da pluralidade
das religiões como uma realidade que
é preciso aceitar, mas que não é
desejada por Deus, mas sim o
reconhecimento de que a diversidade
é acolhida com alegria por Deus, que
a diversidade é um valor,
insubstituível, irrevogável.

A diversidade pelos olhos dos teólogos é magnífico,


pois sem ela não teriam meio de buscar o conhecimento, é
claro, que todo meio de buscar o que é divino ou que
transcende o ser humano acima do seu apogeu é uma
finalidade fundante do ser, para que ele possa dar razão a
sua vida. Portanto o pluralismo é a junção de enigmas

392
constituídos pela população que tende a crescer conforme
os séculos vão se passando isto segundo Teixeira (2016),
ora que tais enigmas devem ser dialogados e conhecidos,
haja visto que o que torna algo intolerante é a descrença,
ou seja, a ignorância do não conhecido, a respeito, da
advinda de um outro termo que interpreta a vida na busca
do mesmo para todos.
O diálogo, segundo Teixeira (2016), é o melhor meio
para se compreender essa diversidade pluralista das
religiões. Nesse momento o pluralismo não pode ser mais
visto como algo simples e sem importância, mas como
uma formação positivada assim como as leis do direito.
Essa positivação que Teixeira prega é uma tentativa
de garantir questões universais do ser humano se
tornando a sua autonomia uma heteronomia que mantém
o alinhamento das questões sociais da população, tal ideia
de autonomia e heteronomia advindas de Kant, para
propor uma nova fundamentação dos direitos naturais do
homem, como a liberdade de crença, para garantir a
aceitabilidade da autonomia do homem.
Teixeira (2016) vai afirmar que: “Trata-se de um
espírito novo, que requer abertura e coragem, e que
convida a teologia a romper com os esquemas tradicionais
e a se aventurar em novos sendeiros.” A fim de que esse
rompimento quebre a cristalização das crenças para que
elas possam se envolver em suas ideias, diminuindo os
seus conflitos, se vendo com um novo olhar, não mais de

393
uma rivalidade entre elas, mas em uma fraternidade. Para
esse fato, é necessária a sensibilidade para o diálogo
levando-nos a reconhecer a presença de Deus e da Sua
graça nas diversas tradições religiosas.
E é dessa forma que Teixeira (2016) vai dizer como
a teologia deve se comportar em meio ao pluralismo
religioso em seu artigo “Deus não tem religião.”
ressalta que: “os teólogos deverão, cada vez mais, suportar
intelectualmente o enigma de uma pluralidade das
tradições religiosas na sua irredutível diferença.”
fazendo com que a teologia seja um dos meio para
desencadear o diálogo entre as religiões trazendo
harmonia entre elas e o respeito à crença como o artigo 5°
(BRASIL, Constituição federal, 1988) mencionou neste
ensaio.
A revista digital Carta Capital revela que no
trimestre de 2018 houve aumento da intolerância religiosa
no estado do Rio de Janeiro comparado com o trimestre do
ano anterior. Segundo a Secretaria de Estado de Direitos
Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos (SEDHMI)
apud Carta Capital (2018, p.1), “o índice aumentou de 16
para 25 denúncias de intolerância.”
Vale ressaltar que a Carta Capital (2018, p.1) vai
citar que:

A Carta (2018, p.1) também vai


ressaltar que: O tipo de violência
mais praticado é a discriminação
394
(32%). Depois, aparecem depredação
de lugares ou imagens (20%) e
difamação (10,8%). As religiões de
matrizes africanas são os principais
alvos: candomblé (30%) e, umbanda
(22%).

Em síntese dessa análise de dados, vemos que a


partir desses atos, também se figuram a ações
impulsionadas por outros vieses de intolerância como a
racial, sendo assim os mais deflagrados por esta
problemática.
Para enaltecer essa ideia, Márcio de Jagum (2018)
apud Carta Capital (2018, p. 1), assinala:

Tolerância nunca houve. Sempre


houve o preconceito. As pessoas se
encolhiam no que diz respeito a
revelarem suas crenças. As pessoas
não se diziam candomblecistas,
umbandistas, muçulmanas, ciganas.
Escondiam-se, porque havia o
preconceito no tocante a isso.

O caso de intolerância no Rio é uma pequena


parcela do que é refletido em todo o Brasil, por conta
disso, toda essa recorrência de intolerância mesmo
havendo meios para seu combate continua a se perpetuar
pela ausência de sanções rígidas a esses que cometem
esses delitos. Além de combater efetivamente todo tipo de
intolerância que desencadeia a violência, muitas vezes

395
financiadas por desigualdades sociais provenientes de
grupos que tendem a se manter no controle instigando e
intimidando outros grupos almejando o poder absoluto
retirando a autonomia da representatividade do indivíduo
em representar sua crença.

2.2 INTOLERÂNCIA POLÍTICA

O texto Democracia, Intolerância Política e Direitos


Humanos: uma visão reflexiva a partir da realidade
brasileira contemporânea, do autor Eduardo C.B Bittar,
indica relações de intolerância política contemporânea que
contradizem o conceito de democracia.
Isso se dá por meio de um pensamento que envolve
os problemas dentro de uma sociedade democrática versos
sua organização política. Com isso, o texto informa sobre
uma crise a partir de problemas sociais, econômicos e
políticos.
Bittar (2017), inicialmente trata as questões de
características do povo brasileiro, de forma associar a sua
imagem a um povo receptivo, “país do samba e do futebol”,
popularmente falando. Sendo assim os verdadeiros
problemas do país se tornam invisíveis perante a
sociedade civil, como por exemplo: a diversidade das
opiniões partidárias, corrupção, crise na economia, entre
outros problemas enfrentados pela sociedade brasileira.

396
Esses problemas evidenciados, segundo Bittar
(2017) causam tensão na credibilidade da democracia, que
está inteiramente ligada ao funcionamento do sistema
democrático em geral, e que a crise econômica em cada
localidade com suas especificidades são globais.
O texto relata sobre as tensões sociais que estão
cada dia mais claras para a sociedade. Essas tensões
exigem soluções, conforme explica Bittar (2017), que
geram discursos políticos e midiáticos com intuito de
manipulação, sendo assim, para que aconteça o processo
civilizatório, a sociedade precisa passar por essas crises.
Contudo pode-se dizer que o processo de modernização ao
mesmo tempo em que sofre avanços, em outras
perspectivas retrocede e ao mesmo tempo em que suas
estruturas sistemáticas são libertadoras elas também
podem ser opressoras a partir de um pensamento crítico.

Essas tensões sociais, que clamam


por soluções iram por isso escorregar
dos discursos cotidianos para as
mídias e para os discursos
institucionais e políticos. Não por
outro motivo, período de crise é
importante para se colherem
evidências do processo civilizatórias,
ou seja, do que foi realizado como
verdadeira “expressão de civilidade”,
e do que não foi realizado e faz restar,
“vestígios de barbárie” sob a “capa da
civilização”. (BITTAR, 2017, p 51.)

397
Quanto às questões sociais, o autor diz que as
etapas de emancipação também passam por conflitos e
tensões. Pois segundo Bittar (2017), a conquista da
liberdade consequentemente ocasiona uma evolução
tecnológica, com isso geram novas ideologias políticas e
dúvidas sócio-históricas. Então, pode-se afirmar que em
um período de conflitos geram intolerâncias políticas,
assim como a intolerância política do passado que
causaram mortes, revoltas históricas, sendo assim uma
grande conquista que é a dos direitos humanos não
podem sofrer retrocessos, mesmo que seja necessário o
combate aos conflitos políticos, o exercício dos direitos
humanos num regime democrático deve ser exercido,
contradizendo o totalitarismo e autoritarismo que se
fizeram presentes no cenário político histórico.
O autor conceitua que no país essas relações de
política ela é instável, contraditória, relatando a ditadura
civil militar (1964- 1985) e o de construção da democracia
com a Constituição federal de 1988, manifestações e
revoltas que transformaram a sociedade com os
impeachment dos presidentes Fernando Collor e Dilma
Rousseff. Bittar (2017).
O autor aponta indicadores que estão relacionados
diretamente com a crise econômica e a fragilidade da
democracia que estão atreladas às interações sociais,
relatando os altos índices de desemprego, desigualdades
socioeconômicas, manifestações, greves populacionais,

398
liberdade de expressões políticas entre outros, que
implicam nas questões da consolidação da democracia
brasileira.
Na segunda parte do texto, democracia, ação social
e a vida em comum, Bittar (2017) indica teoria da
democracia a partir da teoria do filósofo Hans Kelsen,
apontando o conceito de um ponto de vista psicológico a
“personalidade democrática”, afirmando ser feita a partir
das relações humanas (relação um para com o outro),
surgindo a ideia de que a democracia não está somente
associada a um governo ou instituições, pois a democracia
implica diretamente na ação de esfera pública, e
fornecendo uma linha de comportamento a serem
seguidos pela sociedade civil. Sendo assim, podendo
observar o estado da cultura republicana e democrática de
acordo com os vínculos estabelecidos pelos cidadãos, de
um lado os problemas sociais, violência e de outra parte o
respeito e a cidadania. Sendo assim a compreensão do
conceito de democracia se dá pela ação, produção de
valores sociais e conduta dos indivíduos que formam a
sociedade.
Bittar (2017) aponta várias perspectivas de
democracia, como por exemplo: democracia política,
democracia social, democracia cultural e democracia
global, que são inteiramente ligadas uma à outra, e são
essenciais para o processo de socialização dentro de uma
sociedade democrática. Apontam também novas

399
dimensões para o conceito de democracia, determinantes
para o processo de sociabilidades dentro das perspectivas
da ação social democrática.
Com isso, na realidade contemporânea brasileira
todas as questões levantadas indicam a ideia de que a
democracia é denominada apenas por uma forma de
relações de organizações políticas e suas instituições, além
das relações de convívio cotidiano das pessoas que
compõem a sociedade caracterizando a democracia como
uma forma de interação social.
No artigo, Bittar (2017), afirma que crise global
econômica financeira e a situação de crise política social
estão de algumas formas ligadas, quando observa os
escândalos de corrupção o desvio de dinheiro público e a
instabilidade política.
Na terceira e última parte do artigo, Democracia do
Convívio e Republicanismo, trata a realidade brasileira
contemporânea, a partir da crise econômica social e
cultural, causando grande tensão e conflitos na sociedade.
Essa crise abre brechas para manifestações populares,
impondo necessidades de refazer a identidade cultural e
novas considerações para os parâmetros de socialização.
(Bittar, 2017)
Para Bittar, gerando uma disruptura do tecido social,
com isso, surge a ideia de ódio político e a insatisfação do
povo com o governo e suas formas de organização,
percebendo que a democracia nas falas e visões do dia a

400
dia e abandono do padrão republicano para retroceder
historicamente ao padrão autoritário. Sendo assim, o
processo civilizatório democrático e os direitos são
colocados de lado, repetindo as mesmas formas de governo
do passado, consequentemente causando divisão social e
a descrença política.
O autor também trata a democracia
desinstitucionalizada, que apoiada na base do elo moral
entre os sujeitos democráticos em relações de cidadania de
forma de convívio com intuito de construir uma
democracia independente das condições políticas. Além de
uma democracia que se consolida em uma base de
negociação étnico racial e dialógico e colaborativo, assim
como a construção de valores a partir dos direitos
humanos. (Bittar, 2017).
Assim, o processo de modernização democrático do
Brasil ainda é um desafio constante e consiste uma
preocupação pelos estudiosos diante dos grandes
problemas sociais enfrentados pela sociedade através de
políticas públicas, desigualdades sociais, liberdade
política, e cidadania, que são importantes para estrutura e
organização do País, exigindo um desenvolvimento à
medida que se deve alcançar, sempre considerando
questões históricas, enquanto a verdadeira prática da
democracia não avançar a sociedade passará sempre por
períodos de crise, retrocessos, dúvidas, interrupções e
relativização, e, toda sociedade de certa forma entende a

401
necessidade de aprender com a crise econômica financeira
que se torna crise política e consecutivamente crise social
e moral.
A partir da compreensão do texto de Bittar (2017),
podemos relacionar suas teorias da realidade
contemporânea sobre a Intolerância Política e democracia,
com as ideias do psicanalista Christian Dunker.
Dunker (2017) diz que a intolerância ganha cada
vez mais força e espaço. É fácil entender esse cenário no
cotidiano. Mesmo que as pessoas não o falam de maneira
aberta, muitas o sentem. Diante deste cenário, é urgente a
necessidade de se fazer uma reflexão sobre o porquê de
não estarmos vivendo bem em sociedade, contradizendo
com o sentido verdadeiro de democracia.
Vivemos um período de recessão econômica e crise
política que há muito não se via, a primeira que atinge
diretamente a geração nascida entre o fim da década de
1980 e início dos anos 90, exatamente a faixa etária que
está ganhando protagonismo.
Diante desses fatos, as crises políticas e
econômicas são mais comuns do que se parece,
entretanto, nesta, em específico, o que mais se destaca é o
fato de as pessoas estarem reagindo de forma mais
agressiva à adversidade.

Existe um investimento no
sentimento da insatisfação sem
causa. A narrativa é que você faz
402
tudo que o mundo manda fazer: vai à
escola e tira boas notas, arruma um
emprego, casa, tem filhos, ganham
dinheiro. Ainda assim existe um
sentimento permanente de que falta
algo. Essa lacuna de quando em
quando é direcionada para a resposta
mais simples de que o outro é
culpado por essa insatisfação. E o
que está faltando na realidade foi
‘roubado’ pelo outro. Dunker (2017, p
01).

O senso comum utiliza-se dos conflitos ideológicos


para justificar esse momento hostil que estamos vivendo,
porém só isso não basta como resposta. Citar a
polarização política da sociedade civil, não deixa de ser
argumento válido, porém quando se bate apenas nessa
tecla camufla-se a complexidade da situação atual.
O brasileiro está se sentindo vulnerável, o governo
que antes tinha como objetivo um futuro melhor se perdeu
no meio do caminho e agora se tornou o único vilão e
causa de todos os males, colocando em dúvida a
credibilidade da democracia. Fazendo com que as pessoas
se tornem cada dia mais individualistas, assim como os
atuais governantes.
Para Dunker (2017), a Intolerância Política, acaba
gerando Intolerância social, e visibiliza as desigualdades
sociais, de modo a ficarem mais evidentes e ganhando
mais força, pois, a Intolerância extingue o respeito de um
para com o outro.

403
O psicanalista afirma que é necessário insistir na
cultura da tolerância, pois a moral da tolerância pode
pacificar as pessoas em situações em que são exploradas.
No sentido de explorar o respeito a diversidades de
opinião.
Conforme um dos autores citado acima, Bittar
(2017), pode-se afirmar que em um período de conflitos
geram intolerâncias políticas, assim como a intolerância
política do passado que causaram mortes, revoltas
históricas, podemos mostrar como exemplo na atualidade
as eleições políticas de 2018.
Segundo Rafael Gregório, as eleições de 2018 serão
lembradas pelos casos de violência, dizem analistas.
(Folha de São Paulo).
Assassinatos, lesões, ameaças e ofensas fizeram
parte dessas eleições as mais violentas da história, dizem
os especialistas em segurança.
A polarização levou pessoas a quererem impor
verdades à força, a eleição mais violenta, tanto na
ideologia quanto entre eleitores, e não só entre
desconhecidos, mas entre amigos e familiares. A crise
deixou as pessoas mais inseguras e fomentou medo,
individualismo e violência.
Temos a plataforma Violência política no Brasil,
dos portais Opera Mundi, que contabiliza 133 agressões
por motivos políticos, incluindo 8 mortes e 42 lesões

404
corporais. Além disso, a contabilidade não considera
ameaças verbais.
Um dos episódios mais emblemáticos foi o do
compositor e mestre de capoeira Romualdo Rosário da
Costa, o Moa do katendê, morto em Salvador a facadas.
Após ser preso o agressor Paulo Ferreira de Santana
afirmou que o ataque se deveu a divergência política, pois
ele é eleitor de Bolsonaro (PSL), e Moa que faria 64 anos,
havia declarado voto ao Fernando Haddad (PT).
Segundo Lima, do FBSP, a radicalização dos políticos
fez as pessoas se sentem autorizadas a cometer atos
violentos. “Principalmente Bolsonaro, com um discurso de
destruição do inimigo”, ele diz.
O Brasil está vulnerável, os governantes tinham como
objetivo um futuro melhor e agora se tornou o único vilão
e causa de todos os males, colocando em dúvida a
credibilidade da democracia.
Diante das informações mencionadas, concluímos que
é necessário insistir na cultura da tolerância, pois a moral
da tolerância pode pacificar as pessoas em situações em
que são exploradas. No sentido de explorar o respeito a
diversidades de opinião, conforme diz o psicanalista
Dunker (2017).

2.3 INTOLERÂNCIA RACIAL

405
O racismo se baseia em práticas realizadas por uma
determinada raça/etnia que, por possuir certo
favorecimento social, coloca outra raça/etnia em situação
desfavorável. Este se manifesta de diversas formas e é
uma das principais causas de pobreza e desigualdades
sociais no Brasil. “Metade da população brasileira é negra
e a maior parte dela é pobre” (CICONELLO, 2008, p. 02),
dessa forma, há uma imensa distância que ainda hoje
separa brancos e negros, distância esta que reflete no
acesso que a população negra possui aos meios de
sobrevivência.
Fazendo uma análise histórica podemos observar
que no Brasil, por ser um país que nunca estabeleceu um
regime jurídico de segregação da população negra, ergueu-
se a ideologia da democracia racial, criando assim, a falsa
ideia de que brancos e negros convivem de forma
harmônica e possuem iguais oportunidades. Esta ideologia
acaba por se tornar um mito, pois ao mesmo tempo em
que visa integrar a população negra acaba por mostrar
uma sociedade onde o racismo e as desigualdades sociais
que dele decorrem são ignorados fazendo com que
aparentemente não existam.
Assim como Abdias Nascimento10, entendemos que
a escravidão deixou como legado o racismo, e a mulher
negra é um exemplo claro disso. O Brasil herdou de
Portugal a estrutura patriarcal de família, estrutura esta

10NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de


um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
406
que deu aval para que os escravocratas tivessem o
costume de manter prostitutas negro-africanas como meio
de renda e, concomitantemente, suas famílias formadas
por homem, mulher e crianças brancas. As relações
sexuais (via de regra, estupros) que foram mantidas pelo
homem branco com as negras africanas resultaram em
um processo de branqueamento da raça negra, na qual
os/as mulatos/as resultante dessas relações passaram a
ser utilizados pelos brancos e escravocratas como, de
acordo com Nascimento (1978, p. 75), ““ prova” de
abertura e saúde das relações raciais no Brasil” dando
assim mais ênfase ao mito da democracia racial.
O processo de branqueamento da raça foi
estratégico, pois visava, através do crescimento da
população mulata, o sumiço da população negra. Este
processo também pôde ser sentido após a abolição da
escravatura. Nascimento (1978, p. 79) trata a abolição
como sendo o “mito do africano livre”, pois ela “exonerou
de responsabilidades os senhores, o Estado, e a igreja.
Tudo cessou, extinguiu-se todo o humanismo, qualquer
gesto de solidariedade ou de justiça social: o africano e
seus descendentes que sobrevivessem como pudessem.” O
Estado que, além de abster-se da obrigação de assegurar
aos negros condições básicas para que pudessem viver de
forma digna após a abolição da escravidão, foi um
instrumento nesse processo, pois

407
promoveu uma deliberada política de
branqueamento da população, com o
incentivo à imigração de origem
europeia. Essa política foi
implementada tendo como
justificativa ideológica a suposta
superioridade da “raça” branca,
incentivada pelo racismo científico da
época. (CICONELLO, 2008, p. 08)

Dessa forma, mesmo depois de “livre” o negro se via


desamparado e o mesmo acontecia com o mulato, pois
ambos eram vítimas de desprezo, preconceito e
discriminação de toda uma sociedade.
No Brasil, o componente racial está atrelado a
diversas formas de desigualdades sociais, pois como
demonstra Ciconello (2008, p.03) “a pequena parte da
população com alta renda é essencialmente branca; na
outra ponta, o amplo conjunto de brasileiros/as que vive
em situação de pobreza é majoritariamente negro.” Sendo
assim, observamos que a maior parte da população negra
brasileira vive abaixo da linha de pobreza e,
consequentemente, esta população não está totalmente
incluída no sistema educacional e é o grupo que mais
sofre com a violência extrema do país sendo caracterizada
como a parcela da população brasileira que tem mais
chances de ser assassinada. No mercado de trabalho a
situação não é diferente, devido à pobreza, extrema em
alguns casos, a falta de acesso à educação, a violência do
meio em que estão inseridos, o racismo e o preconceito,

408
muitas vezes os negros acabam ocupando posições sociais
determinadas e subordinadas no mercado de trabalho.

Até 1950, a discriminação em


empregos era uma prática recorrente,
sancionada pela lei consuetudinária.
Em geral, os anúncios procurando
empregos se publicavam com a
explícita advertência: “não se aceitam
pessoas de cor”. Mesmo após a lei
Afonso Arinos, de 1951, proibindo
categoricamente a discriminação
racial, tudo continuou na mesma.
Trata-se de uma lei que não é
cumprida nem executada. Depois da
lei, os anúncios se tornaram mais
sofisticados que antes: requerem
agora “pessoas de boa aparência”.
Basta substituir “boa aparência” por
“branco” para se obter a verdadeira
significação do eufemismo. Com lei
ou sem lei, a discriminação contra o
negro permanece: difusa, mas ativa.
(NASCIMENTO, 1978, p. 97)

Podemos notar então, a partir da síntese de


Nascimento relacionada à discriminação histórica que a
população negra sofreu e ainda sofre no mercado de
trabalho brasileiro que, mesmo constituindo a maioria da
população, a realidade dos afro-brasileiros é de existir
como minoria econômica, cultural e nos negócios políticos.
O negro no Brasil se vê preso em um círculo vicioso de
discriminação na qual suas oportunidades de melhorar de

409
vida são retiradas. Nascimento (1978, p. 101) demonstra
claramente este círculo vicioso ao afirmar que

Se os negros vivem nas favelas


porque não possuem meios para
alugar ou comprar residência nas
áreas habitáveis, por sua vez a falta
de dinheiro resulta da discriminação
no emprego. Se a falta de emprego é
por causa de carência de preparo
técnico e de instrução adequada, a
falta desta aptidão se deve à ausência
de recurso financeiro.

Se por um lado observamos essa realidade dura e


cruel do negro brasileiro, por outro, a imagem racial que é
projetada pelo Brasil para o exterior é completamente
diferente, a começar pela ausência de representantes
negros do país lá fora. Nascimento (1978) é enfático ao
dizer que o Brasil, na tentativa de mascarar a situação
racial do país, demonstra um sintoma de insensibilidade
moral e desprezo pelos direitos humanos dos afro-
brasileiros.
Noutro enfoque, a mídia, como grande
influenciadora da opinião popular, não tem sido grande
aliada do movimento negro, pelo contrário, muitas vezes
acaba por discriminar ainda mais a parcela da população
negra, pois nos diversos setores como televisão, rádios e
imprensa escrita só observamos negros, isto quando estes
aparecem, ocupando posições sociais determinadas e

410
subordinadas. Além disso, “a mídia, no geral, tem se
mostrado contrária a qualquer política de ação afirmativa
para a população negra, além de desqualificar o discurso
do movimento negro e das iniciativas governamentais
nesse sentido” (CICONELLO, 2008, p. 13).
A título de exemplificação das discriminações
raciais que ainda ocorrem nos dias de hoje, podemos usar
o recente caso, relatado pelo site da revista Época em 24
de out. 2018, ocorrido em um voo da Ryanair entre
Barcelona e Stansted, na Inglaterra, que acabou virando
caso de polícia na Espanha.
Em vídeo publicado nas redes sociais, um homem
branco agrediu verbalmente uma senhora negra de 77
anos. De acordo com a filha da vítima, em uma entrevista
a um jornal, o homem teria se exaltado porque a sua mãe
demorou um pouco para dar espaço para que o homem
pudesse chegar ao seu assento e, mesmo depois que ela
tentou fazê-lo parar, ele continuou com as ofensas.
Uma questão levantada em razão desse episódio é o
papel da companhia aérea frente ao combate da violência
sofrida pela senhora. Muitas pessoas se manifestaram e
disseram que a Ryanair deveria ter expulsado o homem do
voo, mas isso não aconteceu, o avião decolou e o homem
foi autorizado a permanecer a bordo. De forma contrária,
como demonstrado pela revista Época (2018), o vice-
prefeito de Barcelona, Jaume Asens, disse que o caso será

411
denunciado ao promotor público para verificar se um
crime de ódio foi cometido.
Este cenário racista e desigual começa a mudar a
partir da ressignificação de ser negro, ou seja, a
valorização da negritude que

tem como consequência o


questionamento dos lugares sociais
de subordinação em que a população
negra está inserida: no mercado de
trabalho, no território, nas
representações simbólicas da
sociedade brasileira, dentre outros
espaços. Isso vem gerando uma
mudança na autoestima da
população negra e uma maior
consciência das desigualdades raciais
alimentadas pelo racismo.
(CICONELLO, 2008, p. 02)

Sendo assim, Ciconello (2008) salienta que, desde a


época da escravidão onde já existiam os quilombos,
podemos observar vários movimentos em defesa da
população negra que questionaram e seguem
questionando até hoje o mito da democracia racial como,
por exemplo, o Movimento Negro Unificado (MNU), a
Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN) e a
União de Negros pela Igualdade (UNEGRO), se destacando
nessa luta as mulheres negras através da Articulação de
Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) e do Fórum Nacional
de Mulheres Negras (FNMN).

412
De forma paralela ao movimento negro, entendemos
que o Estado possui papel relevante nesse processo de
superação do racismo. Este, que segundo Ciconello (2008,
p.08) foi

quem legitimou o regime de


escravidão, institucionalizando e
legalizando o tráfico de africanos/as e
a sua existência como mercadoria na
mão de senhores brancos. Em um
segundo momento, após a abolição
da escravatura, o Estado promoveu
uma deliberada política de
branqueamento da população, com o
incentivo à imigração de origem
europeia.

Possui uma responsabilidade histórica para com os negros


brasileiros, responsabilidade esta que só começou a ser
assumida 1988 com a promulgação da Constituição
Federal, quando, pela primeira vez, o Estado reconhece a
existência do racismo no país e toma algumas medidas
para enfrentar essa situação, se destacando a participação
do Brasil na III Conferência Mundial contra o Racismo que
ocorreu em 2001, em Durban, na África do Sul.
(CICONELLO, 2008).
De acordo com Ciconello (2008), a partir de 2002
com a chegada do Partido dos Trabalhadores à presidência
do Brasil, houve a criação de uma nova institucionalidade
de promoção da igualdade racial como a criação de
secretarias e conselhos especializados (SEPPIR, CNPIR), a
413
realização da I Conferência Nacional de Promoção da
Igualdade Racial em 2005 e a implementação da Lei
10.639/2003. Além disso, houve a nomeação inédita pelo
presidente Lula, de ministros/as negros/as para seu
governo.
Observamos então, que ainda existem muitos
obstáculos a serem enfrentados pela população negra do
Brasil, como por exemplo, o racismo institucional que é
apenas uma das diversas formas como se manifesta a
discriminação racial. O caminho é árduo, e casos como o
que foi reportado pela revista Época devem ser fortemente
discutidos a fim de que sejam combatidos e os autores
devidamente punidos.

2.4 INTOLERÂNCIA CONTRA A MULHER

No livro da Bíblia, relata a chegada do “mal” através


da mulher. Eva pecou e mediante isso todos estavam
condenados à morte. Assim, era a visão da Igreja Católica
compartilhada durantes anos, a demonização da mulher
como a culpada de todo o mal existente no mundo. Deste
modo, os preconceitos e ódios que a mulher enfrenta na
atualidade são decorrentes de um fator histórico,
fundamentados nos aspectos religiosos e sociais de uma
sociedade historicamente patriarcal.
Para Duarte e Silva (2017), a misoginia- ódio ou
aversão ao sexo feminino - é a causa do elevado índice de
violência doméstica, abuso sexual, feminicídio,
414
desigualdade de gênero, entre outros problemas
enfrentado pela população feminina no país. Normalmente
os misóginos são homens heterossexuais, que ao se
relacionar com as mulheres criam a ideia de que esta é o
sexo frágil e por este motivo precisam de uma figura
masculina para que tome as decisões por ela em seus
relacionamentos abusivos.
As conquistas feministas como o novo conceito de
feminicídio e a Lei Maria da Penha contribuíram para a
segurança da mulher, contudo há uma aversão entre o
feminismo e discurso misógino, relata João Carlos Duarte
e outros:

Outrossim, intitulam as feministas de


misândricas, ainda que não utilizem
o termo. Misândria é o contrário de
misoginia, ou seja, ó ódio e aversão
aos homens. Ser feminista nada tem
a ver com ser feminista ou
misândricas. Mais uma vez o sistema
machista fez um desfavor às
mulheres, manipulando a sociedade
de forma que não veem os
verdadeiros ideais feministas.
(DUARTE; SILVA, 2017, p.14).

A luta feminista abrange não somente o campo do


Direito, mas aspectos culturais, como descreve Perrot
(2001, p.184) apud Duarte; Souza (2017, p.12) ao
pronunciar que “O feminismo entre nós continuará a ser
um fato “social”, não político.” Deste modo é necessário
415
mais que um texto constitucional para que o exercício de
direito da mulher seja colocado em prática no cotidiano
brasileiro.
Nesse sentido, vale ressaltar a cultura do estupro,
que se constitui no pensamento de que a conduta da
vítima pode ser alegado como justificativa para a agressão,
uma vez que ela não adere aos valores machistas. De
acordo com Duarte e Silva (2017, p.16) é necessário
ensinar os meninos a não estuprar. Transformar a cultura
do estupro por ensinamentos que direcione as crianças a
verem as meninas com a dignidade que elas merecem é
essencial para a mudança que tanto queremos.
O movimento feminista consolidou às mulheres hoje
direitos e garantias antes negados a elas. Como a
Constituição Federal de 1988, que traz em seus
ordenamentos jurídicos o conceito de igualdades entre
homens e mulheres. Deste modo, abre-se um espaço para
as mulheres no legislativo e os textos jurídicos do país
passam a proteger e a punir seus agressores.
Segundo Oliveira (2012, p.183), o espaço adquirido
pelas mulheres nos textos constitucionais se construiu em
um caminho árduo, na luta, resistência e insistência das
mulheres, onde a concepção dos direitos e cidadania da
mulher tem relação direta com as representações sociais
destas enquanto sujeitos de direito na sociedade, sendo
esta estrutura social patriarcal o motivo pelo qual somente

416
as leis não foram suficientes para o fim da violência contra
mulher. De acordo com Oliveira (2012, p.182)

direito e de cidadania [...] tem relação


direta com as representações sociais
que esses sujeitos venham a
desenvolver na sociedade “Perceber a
violência contra a mulher enquanto
processo que carece de ser analisado
para além das “situações sociais ou
situações existentes problemas”,
sendo explicitado como um fenômeno
social que se objetiva em um dado
momento histórico, nos remete,
necessariamente, à percepção de que
a concepção dos de [...].”

Para a consolidação de mecanismos eficazes contra


todos os tipos de violência a mulher, sejam elas,
domésticas, sexual, entre outras, emanam da
concretização de criação de políticas públicas para
segurança, a consubstancialização dá segurança como
fator social e político. Oliveira (2012, p.182), argumenta
para o fato de que a política de segurança pública no
Brasil sempre teve um papel secundário em ações, planos
e programas do Estado. Este investimento seria a alavanca
para a solidificação do que o movimento feminista busca
por anos – uma nova visão social, referentes às
dificuldades enfrentadas pelas mulheres – e
consequentemente a diminuição no índice de violência.
Todavia, faz-se necessária a conscientização da
violência contra a mulher como um problema de ordem

417
social, que deve ser observado e discutido, com todas as
pessoas, classes, raças e gêneros. Visto que há uma
necessidade de implantar na sociedade a consciência
social, de que o problema de uma determinada minoria e
de relevância para todos. Uma nova cultura ao invés da
cultura machista e patriarcal em que vivemos, seria o
primeiro passo para a erradicação da violência. Nesse
sentido, Oliveira (2012, p.183) acredita que no momento
histórico em que vivemos, está remeteria a percepção dos
direitos e da cidadania, e da relação direta com as
representações sociais que sujeitos desenvolvem na
sociedade.
Contudo, mesmo com inúmeras conquistas
alcançadas pelo movimento feminista, o caminho para
alcançar a equidade de gênero ainda estar sendo
percorrido. Atualmente, as mulheres possuem voz ativa e
cargos públicos, no executivo, legislativo, judiciário, como
por exemplo, a participação ativa a bancada parlamentar,
faz com que as mesmas tenham forças e mecanismos de
modificar e solidificar não apenas leis ordinárias e textos
constitucionais, mas também de implantar políticas
públicas e sociais no país. Oliveira (2012, p.183) acredita
que a falta das políticas públicas são a base da
problemática citada e a criação destas resultaria em
melhorias.
É evidente a necessidade de mudança, fora dos
textos constitucionais, como uma nova visão da sociedade

418
em relação à violência contra a mulher, citado por Oliveira
(2012) em suas falas. Um exemplo é o recente caso da
advogada Tatiane Spitzner, de 29 anos, que foi encontrada
morta no apartamento em que morava com o marido, no
Paraná. O circuito interno do prédio em que morava,
mostram a vítima sendo brutalmente agredida no elevador
e em outros locais do prédio.
As filmagens ainda mostram Luís Felipe, atual
esposo da vítima, limpando o sangue da mesma antes de
fugir. Agora réu, e principal suspeito do caso, Manvailer
responderá pelos crimes de homicídio qualificado, fraude
processual e cárcere privado, segundo a MP do Paraná, em
entrevista ao Jornal da Globo. (G1.COM, 2018).
Os gritos de socorro de Tatiana, ecoaram pelo prédio,
porém a vítima não recebeu nenhuma ajuda de seus
vizinhos que a ouviam gritar. O caso de Tatiana traz um
questionamento além dos textos constitucionais e do
crime cometido. Seria a sociedade em que vivemos
negligente em situações de agressões? O termo “em briga
de marido e mulher não se mete a colher”, não seria um
pejorativo para se manter imparcial em situações onde
caberia a outrem intervir, e salvar uma vida? Uma
problemática desta, só seria vencida através de mudanças
nas estruturas sociais e morais da sociedade.

2.5 HOMOFOBIA

419
O artigo Criminalização da Homofobia (2016) tem
como objetivo demonstrar a necessidade da criminalização
da homofobia, partindo do princípio de que essa forma de
preconceito atinge uma parte minoritária da sociedade, a
comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis,
Transexuais e Intersexuais), o que causa um
estranhamento a partir dos conceitos tradicionais
estabelecidos de gênero.
A sociedade está passando por várias
transformações ao longo do tempo e uma dessas
mudanças inclui a decisão do Supremo tribunal Federal,
em 5 de maio de 2011, na Ação Direta
Inconstitucionalidade 4277 e na Ação Direta de Preceito
Fundamental 132, reconhecendo a união de pessoas do
mesmo sexo como entidade familiar.
Berenice (2016) tem como objetivo mostrar a
necessidade de criminalizar a homofobia, demonstrando a
violação de direitos constitucionais que promove o bem-
estar comum de uma sociedade, independente de raça,
origem, cor, sexo, idade, e, identificar as dificuldades a
partir da inexistência de uma lei que pune atos de
intolerância, violência por ódio, repulsa além de grandes
índices de homicídios, apenas pelo fato de não aceitarem
as diferenças que contradizem com padrões estabelecidos.
Projetos de Lei indispensáveis aos homossexuais
tramitam pelo Poder Legislativo, porém sem previsão de
aprovação, viabilizando ainda mais a impunidade, e,

420
enquanto isso, vidas continuam sendo ceifadas e afetadas
psicologicamente, sonhos interrompidos pelo preconceito,
além da propagação da falta de respeito e do preconceito.
A criminalização da homofobia é de suma
importância para a comunidade LGBT, pois punindo atos
de discriminação e intolerância, além de protegê-los de
certa forma, tem como objetivo inibir que pessoas a
cometam crimes contra essas comunidades minoritárias,
dando a essas pessoas o direito à liberdade e de ir e vir,
assim como garante a Constituição Federal Brasileira,
conforme explica Berenice (2016).
A autora informa que a homofobia manifesta-se a
partir da intolerância, discriminação e preconceito, para
que essa conduta seja penalizada faz-se necessário
tipificação penal que mencione tal conduta realizada e a
pena legal a ser imposta, sendo assim parte do princípio
da legalidade penal, também previsto na Constituição (CF
5° XXXIX) “não há crime sem lei anterior que o defina,
nem pena sem prévia cominação legal.” (Brasil,
Constituição Federal, 1988).
O texto “A Criminalização da Homofobia”, deixa claro
essa observação: “assim, para que uma conduta seja
considerada crime, faz-se necessário que uma lei a defina.
E, ainda, que essa definição seja feita de forma clara e
precisa.” (BERENICE, p.4,2016).
De acordo com a autora, todo o cidadão, a partir da
Declaração Universal dos Direitos Humanos, que define o

421
direito básico de uma sociedade civil tem direito de
usufruir de sua liberdade, sem distinção de qualquer
forma, inclusive a de sua opção sexual.
No entanto, quando atos de repulsa e de violência
são praticados a comunidade LGBT, esses direitos são
claramente violados, daí surge à necessidade de leis
punitivas para essa prática de discriminação.
São várias violações cometidas com tais atos,
como por exemplo: o Direito à vida, Dignidade da Pessoa
Humana, Direito à Igualdade, Normas Infraconstitucionais
e etc. O Poder legislativo reconhece os crimes praticados
pelo ódio, porém há uma grande contradição, pois mesmo
reconhecendo esses fatos, não apresentam projetos de
correção dessa problemática, nem aprovam projetos de leis
punitivas desses crimes, demonstrando a ineficiência das
ações do legislativo.
Um dos motivos para a não aprovação dos projetos
contra a homofobia é a prática do tradicionalismo religioso
e da moralidade pragmática, impedindo que o estado
assegure aos homossexuais o direito à vida e a
criminalização da homofobia.
Podemos relacionar o texto A Criminalização da
Homofobia (2016), com o artigo Homofobia, Cultura e
Violências: A Desinformação social (2013), da autora Sônia
Maria Ferreira Koehler, professora do Centro Universitário
Salesiano de São Paulo, Coordenadora do Observatório de

422
Violência nas Escolas, Doutora em Psicologia Escolar e do
Desenvolvimento Humano.
Koehler (2013) tem a intenção de ressaltar nesse
artigo, a problemática das questões sociais, educacionais e
de violência, a partir da contextualização de sexo e gênero.
Já observamos no texto anterior, às mudanças adquiridas
ao longo dos anos dentro dessas perspectivas, e o quanto
a opção sexual dos indivíduos gera problemas no âmbito
social, e, o principal deles é a Homofobia.
Com isso, a discriminação e aversão à comunidade
LGBT, tem ocasionado um aumento significativo de
violência e crimes contra travestis, gays e lésbicas, levando
a sociedade a repensar medidas socioeducativas, para
desconstruir o tradicionalismo religioso e moralista, de
que só existe uma verdade única nos processos de padrões
sociais.
Contudo mesmo existindo movimentos a favor da
comunidade LGBT, as escolas e o poder legislativo, se
omitem diante dos problemas, ao invés de investigar, criar
políticas públicas, medidas de proteção e garantias dos
direitos civis desses sujeitos, que são corrompidos pelos
atos de discriminação e violência.
Um dos objetivos desse artigo é a desconstrução
de que a homofobia é uma doença, mas sim uma atitude,
observado no trecho do artigo Koehler (2013) p.143:

423
[...] e um crescente entendimento de
que a homofobia não é uma doença,
mas sim uma atitude, ainda
relacionada ao medo em relação a
outro homem, a coisa ou lugar,
aparecendo ainda de forma relevante
o “não entendimento” do conceito,
assim como o entendimento do termo
“homofobia” sem relação com a
sexualidade [...].

Esse problema social, ocasionado pela homofobia,


demonstra que o país ainda é tomado pela desinformação
e não aceitação da diversidade de orientação sexual,
levando ao preconceito e ao um grande desafio a
democracia. A função do legislativo é corrigir e contribuir
para que esses problemas sociais sejam solucionados, ou
tentar amenizar e inibir a prática de crimes ocasionados
pela homofobia.

2.6 XENOFOBIA
Podemos observar na sociedade atual uma alta
intolerância com os imigrantes, à medida que a crise do
capitalismo ressurge em um ciclo vicioso. Temos através
dos imigrantes a chegada de mão de obra no país, muitos
provindos de países em guerra ou de extrema pobreza, em
consequência disso, além do preconceito de classe, temos
também o aumento deste “exército” de mão de obra na
sociedade, favorecendo o capitalismo monopolista neste
ciclo.

424
A mão de obra imigrante amplia o
exército de reserva de trabalhadores/
as que garante a sobrevivência do
império do capitalismo monopolista,
estruturado na livre circulação de
moedas e mercadorias, mas cerceia a
livre circulação da força de trabalho.
Afinal, no atual estágio do
capitalismo, a legislação que garante
direitos aos/às migrantes e
refugiados/ deteriora não só as
condições de trabalho, como
contribui para a desvalorização do
valor do trabalho para todos/as,
tanto nacionais quanto
estrangeiros/as, como classe.
(SANTOS, 2016, p.7)

Através destes preconceitos de classe percebemos


estas atitudes como algo que beira ao fascismo,
adquirindo estes aspectos de intolerância ao imigrante, em
repulsa a ele, ao que é “diferente”, sendo estrangeiro e
abalando a ordem da sociedade nesta visão. “Tais
preconceitos dificultam a inserção e a permanência dos/as
migrantes”. (SANTOS, 2016, p.8)
Podemos ver que a visão dos partidos neoliberais e
conservadores está voltada para a xenofobia, defendendo
um tipo de desenvolvimento econômico que tem resultados
na desigualdade, o que gera muitos conflitos quanto ao
imigrante em busca, não somente de melhor mercado, de
uma vida melhor.

425
Partidos políticos neoliberais e
conservadores, utilizando discursos
ultrageneralistas, novamente
levantam as bandeiras da xenofobia,
da hostilidade, da intolerância e da
violação dos tratados, leis e estatutos
de proteção aos/às estrangeiros/as.
Os/as defensores/as da
desregulamentação de mercado
(liberalização da economia) defendem
um tipo de desenvolvimento
econômico que tem resultado na
desigualdade, na concentração de
renda, no desemprego, entre outros.
(SANTOS, 2016, p.8)

Temos como objetivo do Fundo Monetário


Internacional e do Banco Mundial firmado com a criação
da Organização Mundial do Comércio criar uma nova
política econômica global, reduzindo o estado e deixando o
indivíduo à mercê dos grandes monopólios em
crescimento, abrindo assim as portas para o capitalismo
monopolista e influenciando os países a abrir ou fechar as
fronteiras para os imigrantes.

Essa perspectiva ideológica


intensificou-se com as orientações do
Fundo Monetário Internacional (FMI)
e do Banco Mundial, consolidadas
com a criação da Organização
Mundial do Comércio (OMC), em
1995. Os objetivos dessas orientações
foram criar uma nova política
426
econômica em nível global, em que as
funções do estado ficassem
reduzidas, cabendo-lhe apenas criar
as condições para o avanço do capital
monopolista. Ao indivíduo, foi
atribuída a responsabilidade de se
manter empregável e produtivo para
os mercados. Nesse contexto, as
agências internacionais “orientam” as
políticas migratórias dos países,
também por meio de pressão, acordos
de empréstimo ou financiamento,
influenciando nas decisões sobre
acolhimento ou fechamento de
fronteiras para contingentes cada vez
maiores de trabalhadores/as
migrantes. (SANTOS, 2016, p.9)

No Brasil, temos uma mudança com a política de


imigração no século 20, com a vinda de imigrantes para a
substituição da mão de obra escrava. Com a vinda de
imigrantes da Europa, muitos os quais ajudaram na
formação da consciência de classe do imigrante, temos por
parte do governo a implementação da Lei de Cotas que
limitava a 2% o número de contratados imigrantes por
país, deixando clara a postura do Brasil para com esta
classe. Temos ainda até hoje o preconceito deixando estas
pessoas trabalhando em situações precárias e de baixos
salários, ainda com a intolerância e preconceito. (SANTOS,
2016, p.10)
Temos ainda no Brasil o Estatuto do Estrangeiro
(Lei 6,851) uma herança do regime militar que não está de
acordo com a nossa Constituição de 1988 além da
427
Declaração Universal de Direitos Humanos. Temos um
projeto de lei em tramitação, mas que ainda possui muitas
críticas em relação às legislações e tratados
internacionais. (SANTOS, 2016, p.14, 15).
Outra forma de visão a respeito da Xenofobia pode
ser vistas através da visão de Ruffato (2017), que diz que,
as manifestações Xenofóbicas, são atos ignorantes, nos
quais o Brasil compartilha de atitudes preconceituosas e
violentas.
Ainda segundo Ruffato (2017) a estabilidade
política juntamente com a economia, são os principais
fatores para o embasamento discursivo Neofacista, tendo
em vista que, quando a economia do país vai mal, os
problemas sociais surgem com mais frequência,
reforçando assim a sua instabilidade.
Dando prosseguimento ao raciocínio, o auto
Ruffato, aduz através de sua matéria para o Jornal El País
que:

O medo do outro, que alimenta a


xenofobia, hoje está ancorado,
superficialmente, ao receio da perda
de postos de trabalho e ao
radicalismo religioso. Digo
superficialmente, porque nas
profundezas trata-se da mesma
questão: não é ao outro que
tememos, mas a nós mesmos, à
possibilidade de vermos descoberta a
nossa mediocridade, a nossa
incompetência, a nossa limitação.
428
Alegar que não queremos mais
imigrantes em nosso território, ou
que os imigrantes miseráveis são
indesejados ou ainda que não
aceitaremos receber refugiados
islâmicos porque eles são terroristas
redundam em falácias indefensáveis.
(RUFFATO, 2017, p.1)

Tendo em vista todas as informações expostas pelo


autor Ruffato, entende-se que o Brasil é um país de
imigrantes, com exceção da população Indígena, que não
se misturou, começando desde século XIV pelos
Portugueses, e também as imigrações dos períodos da
primeira e segunda guerra mundial, estendendo até os
dias de hoje.
Em 2017, em reportagem relatada através do site
da Carta Capital (OLIVEIRA, 2017), um Sírio foi agredido
verbalmente no seu trabalho, no Rio de Janeiro. O Sírio
vendia esfírras e doces na cidade, em um local
considerado região nobre do Rio de Janeiro. As agressões
duraram cerca de 1 minuto, onde o agressor exigia que o
Sírio saísse de seu país, armado com pedaços de madeira.
O vídeo da agressão foi parar na internet, e
Mohamad, o Sírio refugiado, se manifestou em um
comentário no vídeo, dizendo que, veio até o Brasil com
amor, pois seus amigos afirmavam que o país recebia
pessoas de outras culturas. O refugiado contou que estava
no Brasil a aproximadamente três anos e veio em busca de
paz.
429
Mohamad completou dizendo que, estava
trabalhando arduamente para adquirir seu sustento,
afirmou não ser um terrorista, caso contrário estaria
lutando com seu povo na Síria, agradeceu os manifestos
de apoio e afirmou estar muito triste, pois não esperava
que tamanha discriminação acontecesse com ele.

2.7 O COMBATE AOS DISCURSOS DE ÓDIO NAS


REDES SOCIAIS

De acordo com Nandi (2018, p. 37), o discurso de


ódio consiste na manifestação de ideias que incitam à
discriminação racial, social ou religiosa e m relação a
determinados grupos, na maioria das vezes, as minorias.
Envolve a perpetração da marginalização ou subordinação
das pessoas pertencentes ao grupo explorado, mediante o
desprezo, ou inclusive o insulto, sobretudo quando trata
de traços pessoais que o indivíduo afetado não pode trocar
por sua própria vontade, por exemplo, a cor da pele ou seu
sexo.
O discurso do ódio se infirma tão somente pelo fato
de não existir uma verdade absoluta, que não comporte
discussão. No Brasil, a Liberdade de Expressão é
constitucionalmente prevista com direito fundamental (art.
5º, IV, da Constituição Federal de 1988) apud
(SOBRENOME, ano). Sua tutela consiste na consagração
da plena autonomia para o seu exercício, vedando apenas
o anonimato como forma de evitar a verbalização do
430
discurso sem a devida responsabilidade. Entretanto, é
importante ressaltar que essa liberdade, como as demais,
não são de fruição ilimitada como quando

o discurso de ódio torna-se


extremamente perigoso quanto maior
for sua audiência. A internet como
meio de propagação de informação
com alto poder de alcance aos mais
diferentes públicos funciona como
potencializador da disseminação e da
continuidade deste tipo de discurso.
Grupos extremistas se valem das
redes sociais para espalharem suas
ideias para a comunicação, criando
notícias falsas, misturando fatos
verídicos com inverdades, elas são
divulgadas em fóruns e blogs que
conforme geram repercussão são
reproduzidas em sites mais populares
até atingirem as redes sociais e por
fim geram uma discussão nacional.
(NANDI, 2018, p.39)

Ela está referida no sistema constitucional pelo


princípio da legalidade. Assim, consoante do artigo 5º, II
da Constituição Federal/88, a possibilidade de escolha
estará sempre limitada pela integralidade do ordenamento
jurídico; a) em normas constitucionais, quando terá que
conviver com outros valores também prestigiados pela
Constituição, como a dignidade humana, direitos de
personalidade, etc.; b) pelas normas infraconstitucionais
que tipificam condutas ilícitas, determinadas pelo código
penal e outros dispositivos, como a Lei n. 7.716/89, que

431
aponta os crimes de preconceito em razão de raça, cor,
etnia, religião etc.
Portanto, o que se pode depreender é que a
Liberdade de Expressão não é absoluta, nem é um direito
fundamental de hierarquia maior, aos moldes da tutela
estadunidense. Essa Liberdade terá que ser
compatibilizada com outros direitos fundamentais, em
respeito ao sistema constitucional em vigor. Para tanto,
poderá ser utilizada, em casos de violação de direitos, uma
solução promovida pelo princípio da proporcionalidade ou
dissidência recíproca entre valores constitucionais, ou
ainda outros recursos disponibilizados pela hermenêutica.
Quanto ao discurso do ódio, entretanto, pode-se
observar vedações expressas infraconstitucionais
promovidas pela lei, Fica claro, portanto, o limite
promovido por texto de lei infraconstitucional à Liberdade
de Expressão, consoante o artigo 5º, II da CF/88, que
estabelece o princípio da legalidade. Como a “Lei n.
7.716/89, que tipifica, em seu artigo 20, como condutas
criminosas, a prática da discriminação que deprecia e
desqualifica em razão da raça, cor, etnia, procedência
nacional ou religião”. (BRASIL, Código Penal, 1989)
O discurso do ódio questiona os limites e
fundamentos do Estado Democrático de Direito, pois se
trata de um discurso que tem a intenção de agredir e
hostilizar certos grupos sociais, étnicos, religiosos ou

432
culturais, tendo como consequência uma intensa e
perigosa incitação de ódio contra estes grupos.
Para melhor se analisar este fenômeno, deve-se
estudar os princípios constitucionais que garantem o
direito à liberdade, à liberdade de expressão, mas também,
por outro lado, é necessário que se conheça os limites
dessas liberdades, uma vez que estes direitos não são
absolutos. Exemplos de limitação à liberdade de expressão
estão previstos no próprio texto constitucional, como
ocorre com a vedação ao anonimato, a proibição de
violação à honra e à imagem do indivíduo e a previsão de
indenização pelos danos morais ou patrimoniais advindos
de eventuais abusos no exercício desses direitos.
O fenômeno “discurso do ódio” se trata de uma
apologia abstrata ao sentimento de ódio nas pessoas,
representando repúdio e discriminação a determinados
grupos devido a suas características definidoras, como,
por exemplo, os islâmicos, os judeus, os homossexuais,
dentre outros.
Para Brugger (2007), o discurso do ódio:

[refere-se a] palavras que tendam a


insultar, intimidar ou assediar
pessoas em virtude de sua raça, cor,
etnicidade, nacionalidade, sexo ou
religião, ou que têm a capacidade de
instigar a violência, ódio ou
discriminação contra tais pessoas.
(BRUGGER, 2007, p.118)

433
Ao fim da Segunda Guerra Mundial, na Europa,
principalmente, restou grande preocupação dos países em
evitar o ressurgimento do antissemitismo. Uma importante
medida foi a de se criminalizar a Teoria Revisionista, que é
aquela em que se questiona a existência do holocausto.
Ora, ao se questionar a existência dessa barbárie, incita-
se expressamente o apoio àquele regime cruel e às suas
nuances discriminatórias.
Um dos principais direitos afetados por este
discurso do ódio é o direito da dignidade da pessoa
humana, pois as manifestações de desprezo e ódio a
determinados indivíduos por conta de suas características
existenciais e essenciais tende a diminuir a autoestima
desses seres humanos, bem como sua dignidade e
autorrespeito, e instigam, ainda, o preconceito em pessoas
que não viam nenhum defeito nesses grupos
anteriormente.
O discurso do ódio pode ocorrer devido a atos que
incitem o preconceito, a discriminação ou o racismo,
sendo necessária, desta forma, a análise de cada um
destes conceitos.
Questão complexa para o sistema jurídico é a
dificuldade em identificar o discurso do ódio para, assim,
repudiá-lo e puni-lo. Isto se deve ao fato de a incitação ao
ódio poder ocorrer não apenas de maneira explícita, mas
também, de maneira implícita. Insultos e ofensas,
mensagens de ódio ou de repulsa, podem estar presentes

434
no discurso por meio de mensagens subliminares. Assim
sendo, o Estado deve ser extremamente cauteloso para
averiguar este fato, pois não poderá restringir a liberdade
de expressão do indivíduo se não houver prova concreta de
que a sua intenção era praticar este ato.
Assim, o grande desafio do Estado e da sociedade
será possibilitar e garantir o direito à liberdade de
expressão sem que haja abuso e, consequentemente,
prejuízos e danos irreparáveis para a dignidade da pessoa
humana e o direito à liberdade.
A Constituição Federal brasileira guarnece proteção
à liberdade de expressão, à dignidade da pessoa humana e
repudia a prática de racismo. Assim sendo, já foram
ratificados pelo Brasil inúmeros tratados acerca da
proteção à liberdade de expressão e da proibição de
práticas discriminatórias e atentatórias aos direitos
fundamentais. Apesar disso, nenhuma lei brasileira refere-
se expressamente à proibição do discurso do ódio.
O Supremo Tribunal Federal, Corte de nossa
jurisdição e principal defensor da Constituição Federal
brasileira, já teve, infelizmente, que julgar um caso
histórico que envolvia a prática de racismo e o discurso do
ódio. Foi assim, desde esta decisão, que passou a haver
especial observância à matéria “discurso do ódio” na
jurisprudência brasileira.
O referido caso tinha como objeto o Habeas Corpus
82.424/Rio Grande do Sul, impetrado em favor de

435
Siegfried Ellwanger, que houvera sido denunciado pelo
crime de racismo em 14 de Novembro de 1991. Este
paciente fora absolvido em primeira instância, entretanto,
fora condenado em segunda instância, em dois anos de
reclusão por apologia a ideias preconceituosas e
discriminatórias contra judeus.
Siegfried Ellwanger era sócio da editora Revisão
Editora Limitada e também era autor de algumas obras
literárias detentoras de conteúdo antissemita.
Primeiramente, ocorreu a sua condenação pelo Tribunal
de Justiça do Rio Grande do Sul. Assim, impetrou-se
habeas corpus em seu favor no Superior Tribunal de
Justiça, sendo indeferido nesta instância, fazendo com
que, em seguida, o caso chegasse ao Supremo Tribunal
Federal. A Corte Suprema denegou o writ, decidindo:

A edição e publicação de obras


escritas veiculando ideias
antissemitas, que buscam resgatar e
dar credibilidade à concepção racial
definida pelo regime nazista,
negadoras e subversoras de fatos
históricos incontroversos como o
holocausto, consubstanciadas na
pretensa inferioridade e
desqualificação do povo judeu,
equivalem à incitação ao discrímen
com acentuado conteúdo racista,
reforçadas pelas consequências
históricas dos atos em que se
baseiam. (BRASIL, 2004, p.9)

436
A referida decisão do Supremo Tribunal Federal foi
tomada por maioria de votos, entretanto, não foram
enfrentados de maneira direta os conflitos entre direitos
fundamentais e a liberdade de expressão, a dignidade do
povo judeu e a proibição à prática do racismo, por não ser
este o ponto central do habeas corpus. A questão principal
era saber se judeu era considerado raça ou não.
Todavia, deve-se ressaltar que o racismo não está
no fato de uma pessoa ser judeu ou não, mas sim se quem
promoveu prática discriminatória, o fez baseado na
concepção e conceito de raça. Por isso que no caso
concreto, judeu é uma raça.
Assim, o Tribunal Constitucional, na medida em
que lhe foi proposta a discussão acerca do tema, fixou o
entendimento de que a liberdade de expressão não é um
direito absoluto, pois para exercê-lo, há que se observar e
respeitar limites morais e jurídicos. Este foi um
importante passo para a preservação da dignidade da
pessoa humana pela nossa jurisprudência, entretanto, a
luta contra o racismo, a discriminação e o preconceito
ainda está muito distante de um fim.
Com a popularidade da internet e o uso cada vez
mais frequente das redes sociais e aplicativos, inúmeras
questões jurídicas envolvendo o uso da tecnologia
começaram a surgir. Furto de dados, sites falsos com o
objetivo de fraudar o consumidor, uso indevido de imagem
e discurso de ódio são apenas alguns dos exemplos de

437
situações que demandam regulamentação e soluções por
parte dos operadores do Direito.
Assim como no caso Marcelo Valle Silveira Mello,
Policia Federal investigou Marcelo na Operação
Intolerância devido ao blog de masculinismo assinado por
Silvio Koerich, que na verdade era um pseudônimo usado
por Marcelo e seu comparsa Emerson Eduardo Rodrigues
Setim. As postagens incluíam discurso de ódio contra
mulheres, inclusive ensinando técnicas de estupro, e
também incitavam que se praticasse pedofilia e violência
contra negros, judeus, homossexuais e nordestinos.
Exatamente por isso o direito tenta atuar de
maneira multidisciplinar, ou seja, agregando situações
previstas nas mais diversas áreas do direito, como:
Direito civil: processos de danos morais, motivados por
difamação, injúria e calúnia, são bastante comuns.
Direito penal: quem difama ou calunia uma pessoa
através de uma rede social pode processado por crimes
contra a pessoa, previsto no direito penal. O mesmo ocorre
com quem furta dados privados, públicos ou empresariais,
para quem usa a Internet para traficar drogas ou vender
armas, para a pornografia infantil, extorsão, falsidade
ideológica, entre outros.
Injúria, difamação ou discurso de ódio tipificada na
divulgação de informações mentirosas sobre uma empresa
ou sobre uma pessoa física que ocorra na internet A
pessoa lesada poderá requerer o reparo da informação e o

438
crime vai depender do contexto; dispositivos que se faz
essa interpretação são:
“Art. 139. Difamar alguém, imputando-lhe fato
ofensivo à sua reputação (…)”
“Art. 140. Injuriar alguém, ofendendo-lhe a
dignidade ou o decoro (…)”

No ano de 2012 foi publicada a Lei nº 12.737/2012,


que regulamentou os delitos informáticos e apresentou
novas tipificações que foram incluídas no CPB. O objetivo
dessa lei foi conferir mais segurança aos usuários leigos
que em razão da desinformação se tornam vítimas de
crimes virtuais.
Posteriormente, no ano de 2014 foi publicada a Lei
nº 12.965/2014, que estabelece os princípios, direitos e
deveres para o uso da internet do Brasil. Conhecida como
Marco Civil da Internet (MCI), essa lei tem como princípios
a privacidade, a proteção dos dados pessoais, a liberdade
dos modelos de negócios etc.
Ela também estabelece que um Decreto deverá
regulamentar penalidades próprias relacionadas ao uso da
tecnologia e dos provedores de internet, ressaltando que
elas poderão ser aplicadas em conjuntos com sanções
cíveis, penais ou administrativas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

439
Então, através de todos os fatores apresentados, as
pesquisas, as opiniões dos especialistas e os exemplos, por
si só, já evidenciam a necessidade de se estudar, debater,
e principalmente educar o máximo possível à sociedade,
preparando-a para lidar melhor com essa questão da
Intolerância.
Até porque, mesmo com a existência de leis que
visam a proteger as parcelas da sociedade, entre essas
leis, a título de exemplo, o supracitado, no tópico 2.1 desta
obra, o Art. 5º (BRASIL, A Constituição Federal, 1988) que
visa garantir as liberdades do indivíduo, observa-se na
prática que tais barbaridades advinda da intolerância
continuam por ocorrer pelos mais diversos motivos.
Há aqueles que defendem sanções mais rigorosas
em relação à Intolerância, em alguns casos, tal rigor até se
mostra necessário, como é o caso da implantação da Lei
Maria da Penha, promulgada na forma da Lei nº
11.340/06 (BRASIL, 2006), que visa proteger a mulher no
âmbito familiar, tentando desta forma amenizar a
intolerância de gênero dentro do ambiente familiar.
Entretanto, mesmo com essas sanções, o que é
observado, na realidade, é que tais atos de intolerância
continuam a ocorrer com extrema frequência, incitados
principalmente pela incapacidade e despreparo dos
indivíduos em lidar com as diferenças surgidas das
questões anteriormente debatidas: religião, política, racial,
de gênero, de orientação sexual e de imigração.

440
Neste ponto, percebe-se que o que realmente é
necessário para enfrentar adequadamente essa questão, é
educar de forma correta a sociedade, preparando-a e
moldando-a, para que, ao invés de partir para violência ou
aderir a discursos de ódio, ela resolva suas divergências
utilizando-se de formas pacíficas e através de um
consenso que permita a coexistência de todas as partes
envolvidas.

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443
A INTOLERÂNCIA CONTEMPORÂNEA: RAÍZES E
CONTINUIDADE

André Ferreira1
Camila Ferreira2
Leticia Santos3
Lucas Borges4
Samuel Miranda5
Stefanne Oliveira6
Victor Moreira7
Magna Campos8

RESUMO:

Os autores deste ensaio acadêmico tiveram como objetivo


analisar e aprofundar sobre a intolerância no Brasil atual,
usando pensamento e informações de especialistas de cada
tema abordado. Porém, tal estudo não se mostra apenas de
forma superficial, mas sim detalhando as fragmentadas
partes da intolerância. Vamos expor tais formas de
intolerância contra classes, raças, gêneros, e entre outras.
Tal motivação de pesquisa se deu devido insistência da
sociedade com práticas que são inaceitáveis em pleno
século XXI, mostrando assim as raízes dessas
discriminações, e as razões pelas quais são existentes até
os dias de hoje, visando atingir a queda ou diminuição
destas intolerâncias.

1 Graduando do 1º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana


2 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUPAC-Mariana
3 Graduando do 2º período do Curso de Direito da FUP