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O Vale do Colosso

Wanju Duli
2016
Imagem de Capa: © Ivosar | Dreamstime.com

Design de Capa: Luiggi Ligocky


Sumário
Capítulo 1: ______________________________________________5
Capítulo 2: _____________________________________________90
Capítulo 3: ____________________________________________134
Capítulo 4:_____________________________________________168
O Vale do Colosso

Capítulo 1

– Tu acha que ele vem?


– Calma, guria. Ainda são dez da noite. É claro que ele vai chegar.
Para mim isso não estava bem claro. Eu nada sabia dos hábitos dele.
E por que saberia? Nunca o tinha visto frente a frente.
Lá estava eu, numa merda de festa. Não que eu odeie festas. Eu
apenas não me importo. Eu não bebia, não curtia dançar. Então por que
aparecer?
Por causa dele. Apenas observá-lo de longe seria o bastante para
mim. Mera curiosidade.
Gustavo voltou com dois copos de refrigerante e me alcançou um.
Sentou-se comigo e com a Marina. Mais especificamente no meio de nós.
Simplesmente atirou-se no sofá e bebeu quase metade do conteúdo do
copo num gole.
– Tu vai ver, Carmen – disse Gustavo – o Lucas é o maior gato.
– Nem é – disse Marina – o Átila é muito mais gostoso.
– E onde está o Átila? – perguntei, intrigada.
– É claro que aquele bestinha não vem – afirmou Gustavo – decerto
deve estar estudando.
Sinceramente, eu não tinha interesse no Átila. Sequer precisava vê-lo
ao vivo para atestar. Foi o bastante espiar as fotos do Facebook: carinha
de bebê, filhinho de papai, melhor da turma. Definitivamente não era o
meu tipo.
– Eu acho muito sexy o fato de um menino tão meigo ter um nome
tão forte como “Átila” – comentou Marina.
– Quem se importa com o nome dele? – perguntou Gustavo – parece
nome de cachorro.
– É um filhotinho inofensivo – observou Marina, sonhadora.
– Cães me lembram dos dominicanos – disse Gustavo – eles são os
cães de caça do Senhor. Eis a alcunha de São Domingos.
Marina fitou-o de canto.

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– Até falar de cachorro te lembra da Igreja, cara? – perguntou Marina,


desapontada – vai te tratar desse teu vício.
– Vários santos possuem apelidos – explicou Gustavo – São Tomás
de Aquino era o boi. Seus colegas o apelidaram de “boi burro” porque
ficava quieto num canto e tinha dificuldade de aprender lógica, era
grande e gordo. E ele se tornou o maior teólogo católico de todos os
tempos!
– Eu não quero saber disso – falou Marina – me diz uma coisa, cara:
como você pode ser tão viciado no catolicismo se tu é gay? Os católicos
não desprezam os homossexuais?
– É claro que não desprezam – disse Gustavo – sou sempre bem
recebido na igreja, pelo padre e pelos meus amigos de lá. Todos sabem
que sou gay e ninguém se incomoda com isso. Existem preconceituosos
católicos e ateus, sem diferença.
– Tá, mas eles não deixam que os gays se casem na igreja –
argumentou Marina.
– Honestamente, eu não me incomodo com isso – ele disse – já
recebi o sacramento da crisma, que considero o mais importante.
Ninguém me impediu de recebê-lo. E nem sei se quero me casar. Talvez
só me ajuntar.
– Com o Lucas? – Marina sorriu.
Gustavo ficou meio embaraçado.
– Sou apenas um admirador dele – confessou Gustavo – acho que
não tenho chance.
– Por que não pergunta? – insistiu Marina – nunca se sabe...
– É claro que o cara não é viado! – exclamou Gustavo, amassando
seu copinho de plástico – tá cheio de história por aí. Ele vive pegando
um monte de mina.
– Ele pode fazer isso só pra disfarçar – insistiu Marina – porque no
fundo gosta mesmo de um peru. Muitos caras fazem isso: trepam com
um monte de guria por aí para ninguém desconfiar de sua masculinidade,
mas na privacidade comem as bichas. Com todo o respeito...
Gustavo riu.
– Sei lá, eu não acho que o Lucas seja disso – insistiu Gustavo – acho
que sou capaz de farejar um cara que joga pro outro time à distância.

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– Duvido! – exclamou Marina, divertindo-se – até você não é assim


tão profissional.
– OK, e que tal isso – tentou Gustavo – muita gente sabe qual é o
tipo de pornô que o Lucas curte. Ele vive assistindo lésbicas se pegando.
Quer algo mais hetero que isso?
– Quê? – perguntou Marina, sem entender – como diabos duas
lésbicas se pegando pode ser hetero?
– Tu entendeu o que eu quis dizer – explicou Gustavo – é muito
hetero um cara curtir lésbicas se pegando. Assim como é muito hetero
para uma mina curtir ver dois caras se comendo. Sacou?
Marina fingiu pensar.
– Tá, vamos supor que concordei – disse Marina – mas o que tu vai
fazer se descobrir que o Lucas odeia gays?
Dessa vez, Gustavo parou para pensar.
– Não sei – ele disse, por fim – acho que eu ficaria chateado. Não sei
se eu deixaria de gostar dele, mas no mínimo ficaria decepcionado.
– Coloca uma coisa na tua cabeça, Gus – disse Marina – o Lucas não
presta. Tem muita história podre por trás das coisas que ele fez. Ele não
é uma boa pessoa. E isso é um alerta pra ti também, Carmen. Não te
envolve com ele. Apenas admira à distância e depois parte pra outra.
Eu despertei de meu transe. Estava imersa, escutando a conversa dos
dois com interesse.
– Pode ser que aquela pose de bad boy seja só uma fachada –
argumentei.
– Não é fachada coisa nenhuma – afirmou Marina – ele é ruim. Mal
educado, tem bosta na cabeça. Vocês dois não enxergam isso porque
estão apaixonados e só conseguem ver o que desejam. Fantasiaram uma
imagem de quem o Lucas seja realmente, mas eu garanto que ele é muito
menos do que vocês imaginam.
– Não que minhas expectativas sejam muito grandes – explicou
Gustavo – eu apenas o acho atraente e engraçado, de tão mal educado
que é, de tão boca suja.
– Isso só é divertido por um tempo – disse Marina – nada bom pode
vir disso.
Talvez ela tivesse razão, mas por enquanto eu não queria me
importar. Deixaria para me ocupar desses detalhes depois.

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Até ali, eu só queria ser parte do fã-clube dele. Não que houvesse
realmente um fã-clube. Até onde sabíamos, era só eu e o Gustavo que
curtíamos ele. Podia ser que outros colegas nossos o curtissem em
segredo, mas não achei que alguém levaria tal sentimento a sério e
adiante. Ao menos não o expressavam em voz alta, da mesma forma que
faziam em relação ao Átila.
Sempre havia uma ou outra colega nossa que ficava com o Lucas, ou
até mesmo trepava com ele. Mas era só sexo casual. Depois pegavam
outros caras. Não havia ligação amorosa ali. O próprio Lucas não parecia
tão interessado em ligações amorosas. Só queria curtir.
Para ser sincera, eu nem era ainda oficialmente aluna daquele colégio.
As aulas só começariam no dia seguinte. Mesmo assim, eu tinha ido na
festinha da turma, conhecer o pessoal.
De certa forma era mágico estar conhecendo pessoalmente todo
mundo. Por dois anos, Marina me contou todas as histórias da turma
dela e eu apenas fantasiava na minha cabeça que seria maravilhoso poder
estudar numa turma divertida como aquela, cheia de malucos e grandes
imbecis.
As histórias sobre o Lucas superavam todas. Às vezes eu duvidava
que ele fosse mesmo real. Ele fazia muita merda! Sempre estava
envolvido nas maiores porcarias. E ninguém nunca sabia o que era
verdade ou mentira.
Enquanto os demais adolescentes do ensino médio estavam
envolvidos com estudos, festinhas bobas, tinham suas primeiras
experiências sexuais, davam sua primeira tragada num cigarro ou baseado
e tomavam suas primeiras cervejas, Lucas já estava à anos-luz dessas
iniciações. Diziam que ele já tinha feito tudo isso daí com uns 13 anos e
há muito partira para os próximos níveis.
Era normal que nós, estudantes, tivéssemos receio de ir mal numa
prova ou repetir de ano. Mas Lucas não dava a mínima. Ele estava acima
disso tudo. Já tinha rodado duas vezes e provavelmente nem estudava
para as provas. Tirar notas como zero e um eram rotina para ele. Até se
orgulhava de ter as notas mais baixas. Ele era, oficialmente, o pior aluno.
Sem discussão.
Aos meus olhos, isso o tornava muito sedutor: era como se ele fosse
um Buda e para ele não importasse mais tirar dez ou zero. Não devia ter

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ansiedades sobre notas ou preocupações sobre o futuro. Eu tinha


interesse em saber o que pensava um cara desses.
Para ele as nossas festinhas de adolescente eram uma piada. Ele
frequentava festas de adultos, já que era maior de idade e podia ir para lá.
Sempre voltava com histórias fascinantes. E frequentemente participava
dessas histórias.
Ele já tinha entrado em coma alcoólico. Duas vezes. Em uma das
ocasiões foi tão grave que teve até que fazer hemodiálise. Diz ele que
quase morreu. Quanto a isso não sei. Mas Gustavo relatou que Lucas
contou isso num tom de quem estava doido para fazer tudo de novo.
Era comum que ele vomitasse nos banheiros nas festas da turma e o
pessoal ficava puto com isso, pois ele frequentemente sujava o chão.
Houve a linda ocasião em que Lucas vomitou em cima de Natália,
que era a princesinha da turma, sempre preocupada com a aparência,
tirava notas altas e, como haveria de ser, era apaixonada por Átila, como
a maior parte das gurias da turma. Natália odiava Lucas mortalmente e o
detestou ainda mais desde aquele dia. Marina amava contar essa história.
Eu tinha conhecido Natália pessoalmente naquele dia. Não falei com
ela, mas Marina e Gustavo a apontaram. A famosa Natália. Estava com
um vestido tão chique que parecia que tinha ido a um baile de formatura
e não a uma mera festinha informal de começo de ano. Usava uma
maquiagem muito pesada. Tinha cabelos longos e tão espichados que
pareciam ter sido passados a ferro. Eram cabelos loiros e com luzes. Pela
raiz, via-se que seu tom natural de cabelo era castanho escuro. Ela tinha
olhos azuis, mas Marina me contou que eram lentes de contato.
– Sério? – perguntei – nem reparei.
– Ela é rica – disse Marina – parece que o pai dela é um político
importante.
Mas é claro que Lucas não vomitava apenas por causa de álcool. Ele
usava drogas pesadas. Até crack e heroína. Sem mentira. Diziam que ele
botava na boca qualquer coisa que lhe dessem. Ele topava se picar com
qualquer troço. Gustavo amava contar o dia em que Lucas, no
laboratório de química, simplesmente havia aberto vários vidrinhos e
bebido tudo. Ele passou mal pra caralho e o professor ficou apavorado.

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Uma vez perguntei a eles se Lucas era meio suicida, mas Gustavo
afirmava que não. Dizia que, pelo contrário, Lucas gostava tanto da vida
que queria sentir todas as sensações possíveis.
Mas aquilo tudo era mera especulação. Ninguém sabia nada sobre ele
de verdade. Talvez nem mesmo seus amigos próximos. Está certo: isso
também era especulação. Não sabíamos sequer se os amigos próximos
do Lucas eram próximos mesmo ou eram só uns bacanas drogados que
ele arrastava por aí.
Ele era, evidentemente, da turma do fundão. Passava a aula inteira
folheando revistas de putaria e fazia questão de fazer isso para que todos
enxergassem e não de forma discreta. Não parava quieto. Em vez de
ficar discretamente e quietamente checando o celular, como todo o resto,
ele colava chicletes embaixo da classe e uma vez até se picou com
heróina durante a aula. Ele simplesmente acendeu a colher com um
isqueiro. Foi mandado para a diretoria diversas vezes. Foi célebre a
ocasião em que começou a fumar maconha com outros dois lá no fundo.
O professor sentiu o cheiro e fez uma ameaça tão forte que até Lucas
guardou suas porcarias. Não sei qual ameaça era suficiente para lhe meter
medo.
Em todo intervalo de aula, Lucas fumava. Ia lá para fora. Não largava
o cigarro da mão.
Gustavo uma vez me contou, todo excitado, que houve a ocasião em
que pegaram o Lucas se masturbando lá no fundo. Claro, ficar de pau
duro de vez em quando era ocorrência comum para vários alunos. Mas
Lucas literalmente havia se masturbado até gozar. Aquilo foi o fim.
Disseram até que ele ficou com a mão suja de porra. Alguns diziam que
ele só tinha fingido e que a porra era falsa. Gustavo afirmava que não e
dizia que Lucas só fazia coisas autênticas.
O mais engraçado é que Gustavo e Marina me contavam todas essas
histórias apenas por tabela. Eles nunca vivenciaram nada disso
tampouco. Lucas era de uma turma mais avançada. Quando eles estavam
no segundo ano, ele estava no terceiro. Só cruzavam com ele pelos
corredores. No máximo, deviam ter frequentado uma ou duas festas com
ele.
Eu nem pretendia ter me mudado para o colégio deles. Apesar de as
histórias serem fantásticas, aquele era um colégio caro e exigente e eu

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achava que não valia o esforço. Mas quando eu soube que Lucas havia
rodado e iria repetir o ano no mesmo colégio, meu coração quase parou.
Estava ali uma oportunidade de ouro: vivenciar as lendas.
Acompanhar tudo ao vivo. A que tudo indicava, Lucas daria
continuidade às suas lendas e faria jus a elas.
Por isso, o primeiro dia de aula seria novidade para todos nós.
Gustavo também estava ansioso para ser colega de Lucas pela primeira
vez. E ali estávamos, como dois cachorrinhos esperando o almoço,
aguardando que Lucas chegasse logo na porra daquela festa.
Eu queria ver Lucas enchendo a cara e vomitando. Queria presenciar
quando ele falasse merda. Diziam que era quando estava mais bêbado
que falava coisas mais engraçadas.
Mas deu onze horas e nada de ele chegar.
– Que merda – eu disse – vou ter que ir embora à meia-noite.
– Por quê? – perguntou Marina.
– Meu pai só pode me buscar nesse horário – expliquei – e vou ter
que acordar cedo para a aula amanhã. Aliás, vocês também!
– E daí? – perguntou Marina – a gente pode pegar carona pra voltar.
– Vai voltar que horas?
– Umas três.
– É muito tarde pra mim.
– Pensei que sua vontade de conhecer o Lucas era maior que sua
vontade de dormir – zombou Gustavo.
– Ah, cara, sei lá – respondi – vou conhecê-lo na aula amanhã, não
vou?
– Vai perder o Lucas pegando as gurias na festa hoje?
– Ele pega assim, na frente de todo mundo? – perguntei.
– Claro, qual é o problema? – disse Gustavo – muita gente pega
muita gente na frente de todos. É a coisa mais normal do mundo.
Pensando bem, era mesmo.
– Tá, mas ele chega a trepar na frente das pessoas?
– Isso não – concluiu Gustavo – ou pelo menos eu acho que não. Já
ouviu alguma história, Marina?
– Eu sei que ele já pegou umas duas ou três gurias ao mesmo tempo
– ela disse – e ele já pagou putas. Mas não lembro se ele já colocou o pau
pra fora em público.

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– Se um dia eu presenciar isso, posso morrer a seguir que não me


importo – decidiu Gustavo.
Será que não havia limites para o quão interessante um cara pode ser?
Eu já tinha visto fotos dele no Facebook. Tinha uma aparência bem
normal até. Diferente de Átila, que tinha um rosto que claramente
chamava a atenção. Mas, por alguma razão, o rosto de Lucas me atraía
mais. Não era arredondado como o de Átila, mas quadrado. Lucas tinha
queixo quadrado e barba por fazer. Sobrancelhas grossas e negras. Nariz
e orelhas grandes.
Lucas era mulato e tinha cabelos crespos. Sua aparência era meio
selvagem, com jeans largos e tênis velhos. Os cabelos estavam sempre
embaraçados e desalinhados.
As fotos dele no Facebook eram umas porcarias. Ele não se
preocupava em sair bem em fotos. Aliás, mal tinha fotos. Acho que só
umas dez, o que para padrões de Facebook não era quase nada. Em
quase todas ele estava com um cigarro ou uma bebida na mão. Não sei o
que os pais dele pensavam disso. Provavelmente sabiam o filho que
tinham.
Lembro que quando olhei o Facebook dele pela primeira vez procurei
os livros favoritos do cara, mas não encontrei. Fiquei curiosa, pois eu
mesma gostava de ler de vez em quando.
– Desiste, Carmen – observou Gustavo na ocasião – ele
provavelmente nunca leu um livro na vida.
Mas havia filmes e músicas favoritas. Os filmes eram uns lixos. Só
ação, daqueles com motos e carros que saltam no ar e se quebram. É
uma boa descrição para os filmes favoritos dele.
Nas músicas tinha rap americano. E só. Eu não conhecia nada e nem
queria conhecer.
Seria difícil achar algo em comum com ele, para tentar uma
aproximação. Mas no fundo aquilo era bobagem: era lógico que eu não
teria coragem de me aproximar dele. Até porque, eu não estava com
muita vontade de começar a fumar, beber e me drogar. Aquela parecia
ser uma consequência inevitável de quem se envolvia com o sujeito.
Diziam que todos que faziam amizade com Lucas iam para o mal
caminho. Ele era o pior pesadelo das mães dos alunos.

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Ele não parecia gostar tanto de esportes. Mas, estranhamente, ele


tinha várias coisas de pinball no Facebook. Achei bem esquisito.
– Por que pinball? – perguntei – por que não World of Warcraft ou
League of Legends? Que aleatório!
– Eu já disse que vocês estão fantasiando uma imagem dele – insistiu
Marina – você acharia mais estiloso que ele jogasse Starcraft do que
pinball e por isso ficou desapontada. Deixa o cara fazer o que ele quer!
– Será que ele se interessa por religião? – perguntou Gustavo.
– Duvido – disse Marina – e se ele odiar cristianismo, o que você vai
fazer, Gus?
Gustavo deu de ombros.
– Muita gente odeia cristianismo, então já estou acostumado –
afirmou Gustavo – não seria surpresa. Isso não me desapontaria.
Cristianismo é uma religião muito difícil. Ela geralmente atinge ou as
pessoas simples que possuem humildade para reconhecer que existe algo
acima delas mesmas, ou pessoas que possuem inteligência acima da
média para captar a complexidade dessa religião.
– Que arrogante – disse Marina – então quem não gosta de
cristianismo é burro?
Eu suspirei. Confesso que eu não gostava muito quando aquelas
discussões religiosas começavam. Minha opinião era: cada um tem o
direito de ter ou não ter a religião que quiser e acabou. Ninguém tem
nada a ver com isso.
– Não foi isso que eu disse – insistiu Gustavo.
– Tu acha que o Lucas é burro? – insistiu Marina.
– Não importa se ele é burro ou não – respondeu Gustavo – porque
ele é estiloso e isso é mais do que suficiente.
– Ele tira zero nas provas – comentei, rindo.
– O nosso colégio é difícil – argumentou Gustavo – de qualquer
forma, desempenho no colégio não mede inteligência.
– Mede um pouco sim – observei – no mínimo, mede esforço e
dedicação.
– Tá, mas não mede toda a inteligência da pessoa. Há diversos tipos
de inteligência.
– Isso é desculpa para quem é preguiçoso e não quer estudar – insisti.

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– Eu gosto de participar dos grupos de estudo que o Átila organiza –


falou Marina – acredita que toda tarde ele fica no colégio estudando e
convida para estudar quem quiser tirar dúvidas? Ele é muito gentil!
– Ele é exibido – disse Gustavo.
A festa estava chata pra caralho. Eu queria me mandar o quanto
antes. Mas não queria ir embora antes de Lucas chegar. Se bem que
ninguém garantia que ele viesse.
– Até parece que ele ia perder uma festa – disse Gustavo – ele não
perde uma.
– Por que será? – perguntei.
– Festa é bebedeira e pegação – explicou Gustavo – que são duas
coisas que ele curte muito.
– Entendi.
– Por isso mesmo o Átila não vem em nenhuma – acrescentou
Marina – ele não bebe. Acredita que pelo menos umas dez meninas da
nossa sala já pediram o Átila em namoro e ele recusou uma por uma?
Algumas delas eram lindas!
– Então ele é gay – disse Gustavo – não tem outra opção.
– Tá aí tua oportunidade, Gus – observei.
– Que nada – disse Gustavo – o Átila pode até ser bonito, mas não
faz meu tipo.
– Digo o mesmo – falei.
– Vocês são doidos – afirmou Marina – trocar um gostosão como o
Átila por aquele fedorento do Lucas.
– Fedorento por quê? – perguntou Gustavo – tu já chegou perto dele
o suficiente pra cheirar?
– Não, mas já ouvi gente dizendo isso – explicou Marina – que ele
não é muito de tomar banho.
– Eu chuparia o pau dele mesmo que ele estivesse há um mês sem
tomar banho – afirmou Gustavo.
Ele disse isso num tom tão sério e decisivo que eu desatei a rir e não
consegui parar mais.
– Imagina se o cara aparece agora e ouve essa merda – disse Marina,
balançando a cabeça em desaprovação – vocês não prestam!
Ela começou a olhar o próprio celular.

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– O Átila é tão meigo que fica citando trechos de livros para crianças
– ela comentou, achando graça.
Marina nos mostrou a página do Facebook de Átila no seu celular.
Ele havia colocado o seguinte trecho de “História Sem Fim”:

“Havia milhares e milhares de formas de alegria no mundo, mas todas elas eram
essencialmente uma e a mesma, ou seja, a alegria de ser capaz de amar”

– O Michael Ende pode até escrever histórias para crianças –


observei – mas ele é um gênio. Foi um dos mais notáveis escritores
alemães. Ele também já escreveu livros para um público mais maduro.
– Sei – disse Marina, com pouco interesse – isso não muda o fato de
que Átila gosta dos livros infantis que ele escreveu.
– Infanto-juvenis – corrigi.
– Que seja – falou Marina – me deixa fantasiar que Átila é puro e
inocente. Talvez seja mesmo. Não vejo nada no Facebook dele que
prove o contrário.
– Me dá isso aqui – falou Gustavo, tomando o celular das mãos dela.
Ele estava determinado a encontrar qualquer coisa que provasse que
ele era sujo. Mas não foi fácil.
Pelo jeito, Átila era o sujeito mais sem graça do mundo.
Completamente o oposto de Lucas. Só queria saber de estudar. Fora um
ou outro filme ou livro, parecia não ter nenhum outro interesse. Não era
bom em esportes, não tocava instrumentos musicais, não parecia ter
outros hobbies fora estudos.
– Ele é bom em inglês e espanhol – lembrou Marina, que queria
defender Átila a qualquer custo.
– E eu sou bom em português – comentou Gustavo.
– Até parece que é – zombou Marina – ainda me lembro daquela tua
redação...
– Por favor, não precisamos falar disso aqui na festa – solicitou
Gustavo.
Aparentemente ele havia escrito uma redação totalmente pervertida
que superava até algo que Lucas possivelmente escreveria. Marina dizia
que Lucas não teria vocabulário o bastante para montar algo daquele

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nível. Mesmo assim, ainda criticava os erros ortográficos de Gustavo,


que tornou tudo muito mais engraçado.
O relógio marcou meia-noite. Logo depois, recebi uma ligação do
meu pai no celular. Levantei-me.
– Lá vou eu, galera – eu disse – depois vocês me contam os babados.
Até amanhã!
– Cara, eu não acredito que tu vai perder a entrada triunfal do Lucas
– disse Gustavo – um amigo aqui me mandou uma mensagem pelo
Whats. Ele disse que o Lucas vai chegar daqui meia hora.
Senti um frio na espinha.
– Meu pai não pode esperar – eu falei – meia hora é demais. Que
cocô!
– Amanhã a gente te conta tuuuudooo – disse Gustavo, deliciado.
E eu tive que me retirar, me mordendo de raiva. Se o cretino do
amigo do Gus tivesse confirmado antes que Lucas estava chegando, eu
teria ido embora de carona mesmo. Mas eu não quis arriscar chegar
morrendo de sono no dia seguinte sem nem saber se o Lucas ia ir
naquela festa cretina ou não.
Era colégio novo. Haveria outras novidades além do Lucas.
Eu acabei acordando morrendo de sono do mesmo jeito. Fui para a
aula com extremo mau humor.
Quando cheguei na sala, encontrei Marina e Gustavo sentados lá no
fundo da sala, no lado esquerdo, perto da janela. Sentei-me com eles.
– E aí – cumprimentei-os.
– Nem sabe o que perdeu – disse Gustavo.
Eu sabia que ele ia fazer aquilo. Pretendia me contar uma história
toda dramática, só para me deixar morrendo de inveja por ter saído mais
cedo.
– Ainda bem que tu não ficou esperando mais meia hora – disse
Marina – porque o cara só chegou lá pra uma da manhã.
– Mas chegou – falei.
– É – concordou Marina – e chegou chegando. Ele trouxe um monte
de latas de cerveja. Sentou com duas gurias num sofá. Aliás, nem sei
quem eram. Não foram convidadas. Ele só trouxe junto. Ficou sentado
no meio delas e elas fazendo festinha nele.
– Fazendo festinha – repeti, achando graça.

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– Só que a gente não pode ficar esperando até ele ficar bêbado –
explicou Gustavo – a gente teve que sair lá pras três da manhã com
nossa carona.
– Ele ficou lá até que horas? – perguntei.
– Deve estar lá até agora – garantiu Gustavo – é claro que ele não
vem na aula hoje. Nem espera.
Se embebedar e pegar mulheres era o previsível que Lucas faria. Eu
queria ouvir mais histórias.
– Ele falou alguma coisa engraçada? – perguntei – ele vomitou em
tudo?
– Não sei – disse Marina, cansada daquela conversa – nem todo
mundo se interessa tanto pelo que aquele sujeito faz. Não ouvi nenhum
relato até agora.
Havia alguns alunos comentando sobre a festa. Só que não estavam
falando do Lucas. Falaram de outras coisas. Realmente, o Lucas não era
o centro das atenções da forma que eu pensava.
Talvez ele só quisesse ficar na dele. Não criava caso apenas pelo
prazer de criá-los. Ele só vomitava porque bebia demais e pronto. Não
para criar história.
Natália, a musa rica da turma, estava falando em voz alta muitas
coisas sobre a festa. Estava criticando as roupas horríveis que outras
meninas usaram. E quando a tal menina entrava na sala, ela ou fingia
educação ao cumprimentá-la ou lançava-lhe um olhar irônico.
– Não gostei dessa Natália – sussurrei para meus amigos.
– Entra pro clube então – disse Marina – acho que nem as amigas
dela gostam dessa guria.
Até para ir à aula ela se emperiquitava. Estava com seu cabelo
lambido e suas lentes de contato. Cheia de pulseiras de tecido,
maquiagem leve e salto. Aquela bolsa parecia ser cara.
Marina me apontou duas gurias: Marjana e Roxana eram as duas
grandes amigas de Natália e vivam puxando o saco dela. As duas
pareciam idênticas a Natália, com cabelo loiro tingido e com luzes.
Também usavam bolsas da mesma marca.
– E o que é pior – disse Marina – as três são perdidamente
apaixonadas pelo Átila. Ou melhor, sei lá se Marjana e Roxana são
apaixonadas de verdade. Talvez só sejam para imitar Natália. Mas Natália

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é completamente maluca pelo Átila. Ela é doente por ele. Sério, até me
dá medo.
– Ela já se declarou para ele? – perguntei.
– Pelo menos umas três vezes – contou Marina – se duvidar, deve se
declarar todo mês pra ver se ele muda de ideia. Mas Átila é inflexível.
Sempre recusa educadamente qualquer menina que se declara, como já te
contei.
– Deve ser todo convencido – observei.
– Não parece – disse Marina – que culpa ele tem de ser bonito?
– É, que CULPA ele tem? – zombou Gustavo, em tom desagradável
– que culpa ele tem de tirar as melhores notas da turma e de ser
extremamente gentil com todo mundo que fala com ele? Deve ser um
esforço enorme não fazer nada disso.
Eu ri. Foi quando eu me dei conta que Átila estava na sala, então eu
calei a boca.
– Não te preocupa – disse Gustavo – ele sempre senta lá na frente.
Não vai ouvir nada que comentarmos em voz baixa aqui atrás.
Natália foi cumprimentar Átila em altas vozes. Posicionou-se na
frente da mesa dele e começou a falar.
– Bom dia, Átila! Como foram as férias?
– Bom dia, Natália – ele disse, agradavelmente – foram ótimas,
obrigado. E as suas?
– Maravilhosas – ela respondeu, jogando seus cabelos para o lado –
passei as férias todas na praia. Em Florianópolis. Minha família tem casa
lá.
– Que legal!
Ele pronunciou esse “que legal” de forma tão sincera e com um
sorriso tão grande que até parecia estar mesmo gostando da conversa.
– O que fez nas férias? – perguntou Natália.
Ela parecia ter uma curiosidade genuína por cada coisa que Átila
fazia. Não parecia estar apenas fingindo interesse.
– Fiquei em casa – ele respondeu.
– Como assim? – perguntou Natália.
Acho que para ela devia ser a coisa mais absurda do mundo alguém
passar todas as longas férias de verão trancado em casa. Ela parecia ser
do tipo que viajava para a praia até em feriados.

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O Vale do Colosso

Eu mesma passei as férias inteiras em casa. Tanto porque viajar sai


caro como porque eu não estava realmente a fim de ir para outro lugar.
Fiquei só comendo na frente do computador ou da TV, assistindo filmes
e seriados. Isso sim que é férias! Até engordei cinco quilos, mas para
mim, que já era bem acima do peso, aquilo não era praticamente nada.
Meu peso diminuía ou aumentava aos montes como o sopro do vento.
Eu já estava acostumada e achava muito engraçado cada vez que uma
guria fazia um escândalo por ter engordado apenas um ou dois quilos.
– Resolvi usar essas férias para estudar para o vestibular – explicou
Átila.
Gustavo revirou os olhos de uma forma tão engraçada ao ouvir
aquilo que eu e Marina tivemos que conter o riso para que o pessoal lá na
frente não percebesse que estávamos prestando atenção na conversa
deles.
– Eu fiz o vestibular agora em janeiro, só para testar – explicou Átila
– e eu fui aprovado.
– Então por que passou as férias inteiras estudando mesmo assim,
seu imbecil? – Gustavo sussurrou para nós.
Se Gustavo não parasse com aquelas reações aos comentários de
Átila, eu não conseguiria mais conter o riso.
Ainda bem que Átila era um tapado bonzinho e nem notou nada.
Imagina se aquele anjinho ia desconfiar que alguém estava caçoando
dele. Provavelmente sempre pensava o melhor das pessoas.
– Para qual curso? – perguntou Natália.
– Engenharia elétrica – respondeu Átila.
– É esse o curso que vai fazer quando for para valer?
– Não sei.
– Acho que vou fazer administração ou contabilidade – explicou
Natália – ou moda, ou veterinária...
Dessa vez Gustavo deu um urro sem querer e tapou a boca,
escondendo a cara nos braços. Surpreendentemente, os dois não
repararam que estávamos nos mijando de rir deles. Eu já estava com
lágrimas nos olhos. Meu, como era difícil segurar o riso quando você não
pode rir.
Eu apostava que Natália só estava mantendo aquela merda de
conversa para continuar falando com Átila. Nem ela mesma parecia estar

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Wanju Duli

interessada no que estava dizendo e nem devia estar pensando antes de


fazer isso. Átila, por sua vez, sempre demonstrava um respeitoso
interesse por tudo que diziam a ele, independente de estar sentindo
mesmo interesse ou não.
– Tem uma amiga da minha mãe que é psicóloga – Natália entregou
para Átila um cartão de visitas – ela pode te ajudar um pouco na questão
da orientação vocacional. Ela tem me ajudado muito.
– Estou vendo que ela tem ajudado – Gustavo sussurrou para nós –
se Átila aceitar frequentar essa psicóloga, ele é muito burro. É óbvio que
a amiga da mãe dela vai contar tudo da vida pessoal dele para a Natália.
É isso que ela está planejando.
– Ela não seria tão baixa para fazer algo assim – disse Marina – os
psicólogos possuem uma ética profissional de não revelar detalhes das
consultas para outras pessoas.
– Cara, a Natália é perversa – disse Gustavo – não se sabe do que ela
seria capaz.
Átila recusou educadamente a oferta de Natália. O assunto morreu
mais ou menos nesse ponto, já que um amigo de Átila chegou para falar
com ele. Natália fez cara feia, pois certamente queria Átila só para si. Mas
acabou saindo de lá e foi fofocar com as duas amigas num canto.
– Essa turma não parece ser assim tão interessante – observei – onde
estão os outros causadores de caso? Não tem barraco?
– Calma, é recém o primeiro dia de aula – disse Marina.
Observei Átila de longe por mais um tempo enquanto ele conversava
com outro guri. As roupas dele, embora simples, davam a ele certo ar de
refinamento. Talvez apenas porque fossem roupas limpas e bem
passadas, mas tive essa impressão.
Átila tinha a pele escura e cabelos negros ondulados. Uma vez Marina
me contou que um colega perguntou se Átila se considerava negro. O
papo se desenrolou mais ou menos dessa forma:
– É claro – respondeu Átila.
– Mas os teus cabelos não são crespos – foi o argumento – e os
traços do teu rosto parecem meio europeus.
– Que bobagem – disse Átila – em primeiro lugar, não existe raça
pura. Todos nós somos uma mistura, especialmente nós brasileiros. Para
mim, a cor da minha pele é suficiente para eu me considerar negro. Eu

20
O Vale do Colosso

sempre me declaro negro em pesquisas. Além do mais, eu acho que meu


rosto não tem traços nada europeus.
Eu não sabia dizer com que raça Átila se parecia. Ele tinha um nariz
largo e bonito. Olhos em tom castanho médio. Eu entendia porque
aquele olhar dele fazia derreter o coração das gurias. Mas o mais matador
era o sorriso. Eu não sabia como ele conseguia fazer aquilo. Era
realmente mortífero. E os dentes brancos dele eram perfeitos.
Pelo que vi nas fotos do Facebook, Lucas tinha a cor da pele
ligeiramente mais clara que a de Átila. Os cabelos eram bem mais
revoltos. Mas eu, num primeiro impulso, diria que Lucas era mulato e
Átila negro. Claro que quando se parava para filosofar sobre essa
questão, a resposta não era nada simples.
Quanto a mim, eu não tinha a menor dúvida: eu era,
incontestavelmente, negra. Minha pele era até mesmo mais escura que a
de Átila, e olha que a dele já era bem escura. Meus cabelos eram muito
crespos, embora fosse um crespo diferente dos cabelos de Lucas. Meus
cachinhos eram bem pequenos e dificilmente se assentavam. Eu os
mantinha bem curtos, num miniafro. Já os cabelos de Lucas tinham
cachos maiores. Eu até chamaria de encaracolado, embora cacheado,
crespo, etc, para mim acaba dando tudo na mesma. Algumas pessoas não
gostam de usar o termo “crespo”. Que bobagem. Eu era crespa com
orgulho!
Agora que eu o via ao vivo, notava algo com clareza que eu já
desconfiara nas fotos: Átila era ligeiramente gordinho. Ele tinha um
rosto bem redondo, mas isso não era somente marca de seu tipo de
rosto. Ele ficava ainda mais arredondado por causa dos quilinhos a mais.
Acredito que isso o deixava ainda mais gracioso aos olhos das gurias, que
certamente sentiam vontade de apertá-lo como a um ursinho.
Lucas não era magro tampouco. Mas eu não diria que era gordo.
Pelas fotos, parecia ter um tipo físico médio. Braços fortes, embora ele
não parecesse fazer exercícios físicos para ganhar massa muscular. Acho
que só os braços dele eram meio gordinhos, mas isso era tudo.
Isso era algo bem diferente de Gustavo, que era realmente magro. Na
verdade eu até sentia um pouco de pena dele. Ele era até um pouquinho
mais baixo que eu. Não que eu fosse tão baixinha. Tinha uma altura
média para mulheres.

21
Wanju Duli

Gustavo era uma das poucas pessoas que eu conhecia que


genuinamente se esforçava para engordar. Ele queria ganhar um pouco
de músculos, mas detestava ir para a academia. Já tinha começado a fazer
academia quatro vezes, mas sempre parava. Até já tinha pensado em
começar a tomar anabolizantes, mas desistiu.
– Não faz essa merda! – exclamara Marina, na ocasião.
Isso foi o suficiente para que Gustavo não desse a essa ideia um
segundo pensamento.
Gustavo tinha uma pele meio branca, mas não pálida. Ligeiramente
bronzeada. Olhos e cabelos negros. Marina também era mais ou menos
assim, embora seus cabelos fossem num tom mais para castanho escuro.
Eu mantinha uma eterna luta contra a balança. Por isso eu sentia raiva
de Marina, que tinha sessenta e poucos quilos e se achava gorda. Ela
disse o seguinte naquele primeiro dia de aula:
– Engordei dois quilos nas férias. Estou com sessenta e cinco agora.
– É mesmo? – eu disse – eu engordei cinco. Estou com cento e dez.
Isso normalmente calava a boca dela. E ela frequentemente se sentia
intimidada a fazer queixas sobre peso na minha frente, pois ela sabia que
seria ofensivo para mim.
Sei lá, eu já não me ofendia tanto com piadas de peso. Convivi com
isso minha vida inteira. Sempre fui gorda, desde criança. E não somente
“gordinha”.
Meu sonho era um dia ver o número “99” na balança. Era minha
meta. Já estive muito perto. O mais próximo que cheguei foi pesar 102.
Mas depois começou a subir outra vez.
O máximo que eu já tinha chegado era 120. Não queria bater esse
recorde.
No primeiro período tivemos aula de história. Nem prestei atenção.
Fiquei mexendo no celular. Acho que depois teve aula de química. Algo
assim. Eu não estava muito interessada.
No intervalo, Marina me apontou uma guria.
– Tá vendo aquela guria de cabelos pretos bem longos?
– Tô.
– É a famosa Sabrina.
Eu não a tinha imaginado dessa forma. Sabrina tinha dormido
praticamente na aula inteira até ali. Ela tinha cabelos lisos, meio

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O Vale do Colosso

ondulado nas pontas. Franja bem curta. Pele meio morena, que não
chegava a ser negra. Lembrava um pouco uma índia.
Ela tinha fama de estar sempre com sono. Só isso. Alguns a achavam
muito calada e reservada, mas talvez fosse só sono mesmo.
– Parece que ela tem um problema de saúde e por isso precisa dormir
mais que o normal. Não sei se é insônia e mais alguma outra coisa. Mas
os professores estão informados.
– Também queria ter o privilégio de dormir na aula – observei.
– Eu que não queria estar na pele dela – disse Marina – imagina,
dormir quando não se quer e não conseguir dormir quando se quer.
– Acho que existem problemas muito piores que esse – comentei,
com tranquilidade.
Eu era gorda, feia, usava óculos e minha família não tinha muito
dinheiro. Mesmo assim, eu não me considerava uma pessoa azarada. Até
achava que tinha uma vida muito boa. Nunca tive depressão nem nada
assim.
Nunca teve uma coisa que eu quisesse muito comprar e para isso
precisasse de dinheiro que eu não tinha. A primeira vez que pedi ajuda
financeira para minha família tinha sido naquele ano. Afinal, escolhi um
colégio caro para estudar.
Como nunca antes eu havia feito um pedido de algo caro para minha
família, meus pais aceitaram fazer um esforço para pagar meu último ano
de colégio. Meu argumento foi exatamente esse: era o último ano, então
era importante. E uma grande amiga estudava lá.
Era verdade que eu queria estudar no mesmo colégio que Marina.
Meus pais conheciam Marina e gostavam dela. Mas eu não estava muito
preocupada com estudos. Ainda não tinha decidido que curso ia prestar
para o vestibular. Eu sequer sabia se iria prestar vestibular naquele ano.
Quem sabe eu trabalhasse um ano antes de decidir?
Aquelas questões me incomodavam um pouco, mas não a ponto de
me fazer sentir mal.
Não me senti disposta a contar para meus pais que o maior motivo de
eu escolher aquele colégio para estudar era porque eu queria ficar na
mesma turma de um guri que eu não conhecia. Só porque eu achava esse
guri estiloso e sentia certa atração.

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Wanju Duli

Esse pode parecer um motivo bem bobo, mas foda-se. Eu quis fazer
isso. Afinal, Obinze não tinha o sonho de estudar em certa faculdade
apenas por causa de um poema?
Eu tinha lido isso num dos meus livros favoritos: “Americanah” de
Chimamanda Ngozi Adichie. Eu adorava os autores nigerianos. Também
curtia o Wole Soyinka e Chinua Achebe. Era difícil de acreditar como
um único país podia produzir aquela quantidade de escritores tão
poderosos.
Nesse mesmo livro, achei um personagem com o mesmo sobrenome
que o meu: “DaSilva”; assim, com “da” maiúsculo e tudo junto.
Sinceramente, eu achava lindo. Era diferente e soava bem.
“Carmen DaSilva”. Eu realmente me orgulhava do som do meu
nome. Era forte, impactante.
Eu não me achava feia por ser gorda, embora eu tivesse intenção de
emagrecer pelo menos um pouco, nem que fosse por motivos de saúde.
Havia algo no meu rosto que eu não gostava, mas eu nunca soube bem o
que era.
– Tu não é feia, deixa disso – Marina me falava.
– Não gosto de usar óculos – eu falei – e talvez eu precise usar
aparelhos nos dentes. Cara, nem morta. Óculos ainda vá lá, mas a
combinação de óculos e aparelho já é de mais.
– Ué, qual é o problema?
Eu mesma não sabia. Mas eu implicava com essas coisas. Eu não
queria mais acessórios na minha cara.
Eu raramente usava batom ou maquiagem. Eu me achava feia usando
isso. Só usava brincos discretos de pedrinhas. Eu achava lindas aquelas
negras de afros que usam argolas. Mas por que nelas ficava um arraso e
em mim não? Eu não me achava com classe suficiente para usar aquilo.
Embora eu não tivesse indícios de depressão, eu tinha um leve
complexo de inferioridade. Mas, ao contrário do que alguns pensavam,
eu não tinha isso por ter mais de cem quilos. Já conheci pessoas bem
confiantes que eram mais gordas que eu.
Então o que seria? Talvez o simples fato de eu ser adolescente
trouxesse um peso consigo.
Diziam que depois que passa a adolescência as coisas começam a
mudar. Aos poucos, você se preocupa menos com o que os outros

24
O Vale do Colosso

pensam, não quer tanto assim tentar agradar os outros, é mais sincero
consigo mesmo.
Queria ser assim um dia. Então era só aguardar mais uns anos.
Simples, não? Eu era otimista. Não achava que dez quilos a menos iriam
resolver o meu problema. Antes, dez anos a mais resolveriam.
No final da aula, confesso que fiquei meio aborrecida com o tal Átila.
Ele sempre respondia corretamente as perguntas dos professores. Mas eu
gostava menos ainda quando ele levantava a mão para fazer perguntas
complicadas.
– Deixa ele – disse Gustavo – o pobre coitado estudou as férias
inteiras, então que pelo menos isso sirva para alguma coisa.
Voltei para casa e almocei arroz, feijão, bife e batata frita. Tomei um
copo de Coca-Cola.
– Não acredito que tu vai repetir a Coca.
– Deixa mãe, por favor! – supliquei.
– Nada disso. Não está tentando perder peso?
– Mais ou menos – respondi, incerta – não estou com tanta pressa.
Sou adolescente, estou em fase de crescimento.
Mas minha mãe tirou a garrafa de Coca da minha frente, apesar de
meus choramingos.
Toda minha família era gorda. Minha mãe era quem se cuidava mais
e, apesar de estar uns vinte quilos acima de seu peso, tentava manter uma
alimentação mais saudável e fazia exercícios físicos.
Meu pai tinha cento e cinquenta quilos. Com ele era meio
complicado. Ele era teimoso e não conseguia largar os velhos hábitos.
Eu tinha um irmão e uma irmã mais velhos. Eles já não moravam em
casa. Eu conversava pouco com eles. Os dois eram obesos, mas eu era a
mais gorda de nós três.
Digamos que eu era a queridinha da família. Era bastante mimada até.
Talvez por sempre terem me deixado ficar com o último bolinho de
arroz ou com a última fatia do bolo isso tivesse contribuído para que
meu peso saísse do controle. Mas eu não era injusta de atribuir meu peso
a algo como amor.
De tarde, conversei com meus amigos pelo celular.

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Wanju Duli

– Acredita que o Átila já montou um grupo de estudos hoje? – me


informou Marina – e ainda é o primeiro dia de aula. Mal teve matéria, foi
só revisão!
– E tu ficou no grupo hoje? – perguntei.
– Claro que fiquei. Se eu não ficar de olho, as outras piranhas atacam.
– Tu já te declarou para o Átila alguma vez?
– Não... pra quê? Perda de tempo.
Ela não queria ouvir um “não”. Queria viver de ilusões. Mas eu não a
culpava. Eu pensava o mesmo em relação ao Lucas. Não era maluca de
um dia me declarar pra ele, do nada. Observar à distância e não correr
perigos era mais seguro.
Que engraçado eu pensar numa coisa dessas. Eu nem tinha
conhecido o sujeito ainda!
– Reparou que a Natália colocou silicone? – perguntou Marina.
– Não.
– Bom, tu não conhecia ela no ano passado – lembrou Marina – e ela
não tinha esses peitões antes. Hoje e na festa ela usou decotão. E na hora
do grupo de estudos, ela não parava de chegar bem perto do Átila com
seus peitões.
– E ele? – perguntei, curiosa.
– Ele fingiu não notar, mas é óbvio que notou – contou Marina,
animada – teve uma hora em que ela encostou os peitos levemente no
braço dele. O cara se desconcentrou pra caralho. Se atrapalhou todo no
que estava dizendo e depois disfarçou.
Eu ri. Inicialmente senti um pouco de inveja de Átila, por ele ser
bonito, inteligente e admirado. Mas, pensando bem, ele também sofria.
Se bem que essa ideia de jerico de organizar grupos de estudo foi dele.
– Não foi não – informou Marina prontamente quando observei isso
– Átila sempre estudou todas as tardes sozinho na biblioteca do colégio.
Foi no final do ano passado que Natália começou com essa história de
grupo de estudo. Átila é muito educadinho para recusar, mas é óbvio que
ele preferia passar mais tempo estudando sozinho. Deve ter sido por isso
que estudou nas férias inteiras: porque sabia que ia perder tempo com
esses grupos de estudo depois.
Marina me contou muita coisa depois disso. Ela relatou as situações
constrangedoras do ano passado. Natália fez muita pressão em Átila.

26
O Vale do Colosso

Começou a almoçar junto com ele na cafeteria do colégio. Ela apenas se


sentava na mesma mesa que ele, sem pedir permissão. Átila foi educado,
até que conseguiu informar a ela que preferia almoçar sozinho.
– Que chato – eu disse – eu não imagino Átila dizendo algo assim.
Deve ter ficado muito puto.
– A Natália é inconveniente a esse ponto.
– Mas agora chega de falar do cara que tu gosta – falei – e vamos falar
do meu.
– Já se apaixonou sem nem ter visto?
– Qual é o problema? Não tem muita gente que se apaixona por
cantores sem nunca tê-los visto pessoalmente?
– Se quer mesmo saber, já recebi o relato da festa – informou Marina
– e, bem como tu queria, teve barraco envolvendo o Lucas.
– Que maravilha! Pode falar tudo!
– Não foi um negócio muito legal. Quer mesmo saber?
– Sim – eu disse – ele bateu em alguém?
– Não. Nunca ouvi história sobre ele ter arranjado briga. Ele já
chegou a gritar bastante quando ficou bêbado, mas não sei se já chegou a
socar alguém. Acho que ele não é disso. Ele nem deve ser tão forte pra
fazer isso.
– Então o que foi?
– Dizem que não foi nada de mais, mas nunca se sabe...
– Fala logo – insisti.
– Lembra que ele levou duas gurias pra festa?
– Lembro.
– Eram amigas dele, ou putas, nem sei. Não faz diferença. Mas ele
ficou bebaço e agarrou as gurias pra valer. Beijando mesmo afu, tocando.
Sacou o que eu tô dizendo?
– Acho que sim. Na frente do pessoal, né?
– Isso. A gente ainda pegou mais ou menos essa parte. Eu e o
Gustavo ainda estávamos lá na parte dos beijos. Depois a gente não viu
mais.
– Ele trepou com elas?
– Quase. Então, ele meio que tentou trepar com uma das minas. Tava
meio bêbado. Aliás, nem tava conseguindo se equilibrar, foi o que
disseram.

27
Wanju Duli

– E aí?
– E aí que ela também tava bêbada e sei lá. Deu merda. Não sei o que
aconteceu.
– Não entendi.
– Os dois queriam trepar – explicou Marina – só que ela queria ir pra
outro lugar e ele queria lá mesmo. Aí ele insistiu que tinha que ser lá e ela
disse que lá não rolava. Resumindo, aconteceu alguma porcaria, mas não
sei o quanto.
Eu não falei nada.
– Que tu acha disso, Carmen?
– Não sei o que achar. Eu não tava lá. Pode ter acontecido qualquer
coisa. Não vou acreditar em qualquer história. Já não contaram muita
mentira sobre o Lucas?
– Sim, mas dessa vez houve várias testemunhas. Esse pessoal nem foi
pra aula hoje. A gente vai saber das últimas fofocas amanhã.
Só que no dia seguinte o Lucas também não apareceu na aula. Mas
apareceu o pessoal que viu a coisa toda.
Cada história era diferente da outra. Só faltou dizer que os dois
participaram de uma orgia junto com alienígenas e porcos.
– Era ela quem queria fazer ali e não ele!
– O cara pagou uma puta, então ela tinha que fazer o que ele queria,
não?
– Na verdade os dois queriam e só estavam de frescura.
– Cara, ele enfiou nela e ela disse “não, não”.
– Tava dizendo “sim, sim” que eu ouvi!
– Nossa, eu não vi nada disso! Fiquei até o fim da festa e eles só
trocaram uns beijinhos. Vocês que ficam inventando essas porra toda aí.
Nada a ver.
– Que tu acha disso, Átila?
Átila ficou perplexo.
– Eu? – perguntou Átila, já que obviamente aquilo não tinha nada a
ver com ele.
– Quem mais? O Lucas pegou a mina de jeito ou não?
– Como vou saber? – perguntou Átila, baixando os olhos para o livro
– nem fui nessa festa.
– Tá, mas vamos supor que ele pegou a mina. Tu acha isso certo?

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O Vale do Colosso

– Sei lá – respondeu Átila, sem muito interesse.


– Como pode dizer isso? – perguntou Natália, fingindo estar ofendida
– não acha indecente que eles se peguem na frente de todo mundo? Tu
treparia com uma guria em público?
– Acho que não – respondeu Átila.
– Como assim, “acha que não”? – Natália riu – então talvez sim?
– Bah, Natália, cala a boca – disse Marina – deixa o guri em paz. Ele
não tem nada a ver com esse negócio.
Marina não costumava interferir tanto quando Natália flertava com
Átila, mas acho que até ela tinha limites.
– Não te mete – disse Natália – tu é outra que só frequenta os grupos
de estudos pra dar em cima do Átila.
Honestamente, eu achava aquele tipo de cena deprimente.
Metade das gurias da turma indo no grupo de estudos só pra dar em
cima do carinha. Que porcaria. Se eu fosse Átila, teria acabado com o
grupo de estudos rapidinho.
Não sei de quem eu tinha mais raiva: das gurias que gostavam dele ou
do próprio Átila. Acho que se o Lucas fosse tão popular como Átila eu
teria me recusado a gostar dele. Não ia querer ser apenas mais uma das
imbecis que o perseguiam.
Na quarta-feira Lucas também não foi para a aula. E os rumores
sobre ele pioraram.
– Tão dizendo que o Lucas pegou a guria à força – contou Gustavo –
eu não acredito nisso. Ninguém viu nada disso. Só estão inventando.
– Eu acho muito de mau gosto falar essas coisas – disse Marina.
Eu já não estava achando a menor graça. Já estava me arrependendo
por ter me mudado para aquele colégio.
Não achei que eu ia ficar tão deprimida ouvindo sobre os grupos de
estudo do Átila. Na última tarde, disseram que uma guria pegou o celular
do guri quando ele foi pro banheiro. Checou as mensagens que ele
mandou por último para amigos. Aquilo era uma puta duma invasão de
privacidade. Achei absurdo.
Comecei a sentir pena do Átila. Ele não parecia ter amigos. Também,
só ficava estudando. Só tinha aquele bando de gurias idiotas o
perseguindo. Era meio doentio. Aquilo estava claramente interferindo no

29
Wanju Duli

ritmo de estudos dele. Eu não sabia por quanto tempo ele iria aguentar
essa merda. Educação e gentileza tinha limites.
Até Marina estava começando a ceder.
– Não sei se vou continuar indo nesses grupos – ela confessou – a
cada dia sinto mais ódio da Natália. Ela é muito cara-de-pau.
Na quinta-feira, nada de o Lucas aparecer. E a cada dia que passava
os rumores ficavam piores. Agora disseram que a prostituta havia ido à
polícia denunciar Lucas.
O pior era que o pessoal nem sabia se a guria era mesmo prostituta.
Ninguém tinha certeza se eles tinham ido além dos beijos na festa, porra!
Que palhaçada.
Até que sexta chegou. Eu já tinha perdido as esperanças de que Lucas
fosse aparecer no colégio. Talvez tivesse largado os estudos.
Mas, para a minha surpresa, Lucas simplesmente apareceu dez
minutos depois de o primeiro período começar. Abriu a porta e entrou
assim, do nada. Nem pediu permissão para o professor ou pediu
desculpas. Só foi entrando, bem calmamente.
Lembro que senti um arrepio quando o reconheci. Engraçado que eu
o reconheci de imediato.
Ele sentou no fundo da sala, perto dos amigos. Nós sentávamos do
lado esquerdo. Ele sentou no meio, mas não exatamente perto de nós.
Havia outro carinha que estava mais próximo, então não era possível
observá-lo perfeitamente.
Mesmo assim, foi incrível. Gustavo tapou o próprio riso com a mão.
É claro que, assim como eu, ele estava transbordando de felicidade.
Marina notou nossa alegria e apenas debochou da gente. Como se ela
mesma não ficasse daquele jeito quando falava do Átila.
Lucas parecia um cara bem calmo. Bastante normal. Talvez fossem as
drogas que o deixassem assim, tranquilaço.
Ele nem abriu livros ou cadernos. Só ficou lá jogado na mesa, roendo
as unhas. Deu um enorme bocejo sem tapar a boca. Até que enfiou o
dedo no nariz e jogou a meleca longe com um peteleco.
Não sei explicar, mas quando ele fez isso meu coração disparou
descontroladamente de paixão. É óbvio: ele parecia não estar nem aí para
quem estava olhando. Desprezava normas sociais.
– Eca – Marina disse para a gente – vocês gostam disso daí?

30
O Vale do Colosso

– Adoro – disse Gustavo, imediatamente.


– Sem dúvidas – confirmei.
– Que diabos? – disse Marina – bom proveito, então.
Lucas coçou o saco. Foi só uma coçadinha rápida por cima da roupa.
Mas é claro que eu e Gustavo não deixamos passar. Não tirávamos os
olhos dele. Gustavo fez um movimento como se sentisse vontade de
desmaiar de deslumbramento.
Lucas tirou um videogame portátil da mochila e começou a jogar.
Fiquei curiosa para saber o que era. Gustavo também. Mas a gente não
conseguiu ver.
No intervalo, vieram abordar Lucas com a história da prostituta.
Quem veio falar com ele foi Bernardo, que diziam ser o segundo aluno
com as maiores notas da turma.
O caso de Bernardo era complicado, porque ele odiava todo mundo:
Átila, Lucas, Natália... não havia limites.
É claro que Bernardo não gostava do fato de Átila sempre tirar notas
mais altas que ele. Bernardo tinha a teoria de que Átila só fazia aqueles
grupos de estudo para sentir o poder: mostrar o quanto era superior, pois
amava se sentir como o galo do galinheiro. E no fundo queria trepar
com todas as gurias da sala e toda aquela recusa fazia parte de seu
joguinho.
De qualquer forma, Bernardo não gostava das gurias também.
Achava Natália nojenta. E acho que ele odiava Lucas acima de qualquer
um. Bernardo era todo certinho e vivia cheio dos moralismos. Diziam
que ele era meio religioso. Acho que era evangélico.
Por isso, foi tirar satisfações com Lucas sobre o ocorrido.
– Que pouca vergonha pagar para uma mulher fazer sexo contigo –
Bernardo começou assim – nenhuma mulher quer te comer, então só
pagando, não é mesmo, seu crápula?
Lucas não lhe deu atenção. Continuou jogando.
– Mas se fosse só isso eu ainda te perdoava – prosseguiu Bernardo –
além disso, tu prometeu pagar a moça e não pagou. E tentou comer ela
mesmo assim.
Lucas não disse nada. Bernardo se irritou e bateu na mesa dele.
– Tô falando contigo, porra! Vê se para de me ignorar, cacete!
Dessa vez, Lucas desviou os olhos do jogo e olhou para ele.

31
Wanju Duli

– Pois não? – perguntou Lucas – em que posso te ser útil?


– Tá tirando com a minha cara? – perguntou Bernardo – tu comeu a
mina na festa ou não, afinal?
– Ela não era prostituta – explicou Lucas, com uma admirável
paciência – era uma amiga. Nós não fizemos sexo. Satisfeito?
– Que mentira!
Lucas bocejou. Nem respondeu. Voltou a jogar. Bernardo desistiu.
Eu e Gustavo nos entreolhamos.
– Parece verdade – sussurrei para Gustavo – o Lucas não parece
preocupado.
E não estava mesmo. Naquele dia, tudo voltou à normalidade, como
se nada tivesse acontecido.
As semanas seguintes foram decepcionantes de tão normais. Os
grupos de estudo toda tarde, que eu nunca frequentava. E Lucas fazendo
as coisas de sempre: bocejando, dormindo, tirando meleca do nariz. Teve
até uma vez em que ele roncou durante a aula. OK, dessa vez foi
engraçado. Lucas pareceu muito orgulhoso por ter roncado.
Percebi que já estava na hora de eu retirar minha atenção do Lucas e
começar a me preocupar com as provas que em breve começariam.
– Vem no grupo de estudos – insistiu Marina – ajuda mesmo! O Átila
explica mil vezes melhor do que qualquer professor.
Diante de tanta insistência, acabei indo. E não foi tão ruim quanto
pensei.
O começo foi meio desagradável. Natália era uma filha da puta!
– Pode me dar aulas particulares, Átila? – ela pediu – eu pago. Tu
pode ir lá em casa no fim de semana?
– Me desculpe – disse Átila – mas já estou com tempo reduzido para
estudar.
– Então... que tal a gente ir no cinema na sexta à noite?
– Infelizmente, não estou com tempo de ir ao cinema.
– Quer sair comigo para fazermos outra coisa?
– Perdão. Terei que recusar.
– Por quê? Só por causa dos estudos? Mas a Roberta viu no teu
celular que tu estava combinando de ir ao cinema com um amigo teu.
Átila ficou sem fala nesse momento.

32
O Vale do Colosso

– Foi uma exceção – ele disse, finalmente – não vou poder ir mais ao
cinema.
– Depois das provas tu pode? – insistiu Natália.
– Não sei. Acho melhor não.
– Tu é virgem?
– Me desculpe, mas não vou responder.
Nesse momento, Marjana e Roxana deram gritinhos.
– Por quê? – pressionou Natália – não seja tímido.
– Natália, estamos desviando o foco. Se não quiser estudar, vou ter
que pedir para que se retire.
Em vez de se ofender, ela ficou toda alegre.
– Tu sabe meu nome! – ela exclamou, orgulhosa.
Eu tinha vontade de vomitar. Era complicado lidar com ela sem ser
mal educado. Fiquei impressionada com a enorme paciência de Átila. Às
vezes dava a impressão de que Natália não gostava dele de verdade e só
fazia aquilo para tentar constrangê-lo. Por pura diversão e maldade. Ou
até mesmo por zombaria.
Natália acabou saindo mais cedo naquele dia com as amigas. Não sei
bem o motivo e nem fiquei curiosa para saber. Só sei que depois disso o
grupo de estudos rendeu muito. Algumas gurias, mesmo gostando de
Átila, queriam realmente aprender a matéria e faziam perguntas
pertinentes. Átila respondia com a maior atenção do mundo.
Quanto mais tarde ficava, o pessoal ia saindo. Por volta das seis da
tarde, só restamos eu, Átila e Marina. Por fim, Marina disse que precisava
ir.
– Quer vir comigo, Carmen?
– Vou olhar uns livros na biblioteca ainda. Pode ir na frente.
Depois que Marina saiu, Átila me informou que ele também precisava
ir embora, pois já estava ficando tarde.
Ele me viu olhando a prateleira de livros de literatura.
– Pensei que fosse olhar livros didáticos – observou Átila.
Não sei se isso era uma crítica.
– Gosto de ler literatura mesmo – expliquei.
– Quais são seus autores favoritos? – ele me perguntou.
Só que ele não conhecia nenhum nome que eu mencionei.

33
Wanju Duli

– Nunca li autores nigerianos – ele disse, quando eu expliquei que os


autores que eu gostava eram de lá – os únicos autores africanos que li
eram sul-africanos, como J.M. Coetzee e Nadine Gordimer.
– Já deve ter lido Tolkien então – eu observei.
– Não há tantas pessoas que sabem que ele nasceu na África do Sul –
observou Átila.
Notei que era um elogio. Fiquei toda contente.
– É meio como saber que George Orwell nasceu na Índia –
acrescentei – ouvi falar que você gosta também dos autores alemães.
– Onde ouviu falar isso? – perguntou Átila, curioso.
– Teve uma vez que vi você citar Michael Ende no Facebook.
Desculpe. Olhei seu Facebook uma vez. Não é que eu goste de ti como
as outras gurias. Só fiquei curiosa...
Eu me embolei nas palavras ao dizer isso. Mas ele não levou a mal.
– Não é que eu goste de autores alemães – explicou Átila – mas gosto
muito do Ende. Me lembra a infância, quando li muitos livros dele no
colégio.
– Nunca li livros dele, mas já vi filmes – expliquei – vi até o filme de
Momo.
– Mesmo? – ele pareceu empolgado – é um filme velho, mas eu
adoro. E nem vou insistir que o livro é melhor que o filme, como se diz
por aí, porque o Ende ajudou a produzir o filme. Ele até mesmo aparece
nele.
Notei que Átila não se importaria de continuar na biblioteca até a
noite se fosse para falar do Michael Ende.
As gurias da minha turma eram bobinhas demais. Não notavam uma
coisa evidente como aquela: se queriam conquistá-lo, era só falar das
coisas que ele gostava. Mas eu não tinha certeza se alguma delas era tão
séria na vontade de namorá-lo a ponto de aceitar ler um monte de livros
escritos pelo Michael Ende só para tentar encantar o Átila.
Depois disso, falamos um pouco sobre os escritores russos: Tolstói,
Dostoiévski, Gogol, Nabokov... havia tantos escritores russos fodas que
se fôssemos continuar com aquela conversa definitivamente não
sairíamos dali mais. Átila também notou isso.
Não falamos dos brasileiros porque, afinal, isso já era suficientemente
discutido nas aulas de literatura. A não ser que fosse para falarmos dos

34
O Vale do Colosso

autores brasileiros mais desconhecidos, tanto os antigos quanto os


contemporâneos. Aí a conversa poderia começar a ficar divertida.
– Você realmente leu inteiro Anna Karenina? – perguntei
impressionada – e o livro faz jus à reputação de melhor livro do mundo?
– Parafraseando Mark Twain, eu diria que os rumores a esse respeito
são exagerados – brincou Átila – mas, sim, é um bom livro.
Até então, eu via Átila como um cara que só ligava para estudos e
com hobbies quase inexistentes. Não passava pela minha cabeça que ele
havia lido livros de literatura além do que era pedido no colégio.
E o pior: ele parecia ter lido bem mais que eu. Eu não me
considerava uma leitora voraz, mas me orgulhava de ter lido alguns
clássicos. Só que ele tinha lido até os clássicos de mil páginas.
– Estou muito curiosa para saber o que você pensa sobre os autores
americanos – falei – o que acha de Salinger?
– Eu precisaria de pelo menos uma hora para analisar Salinger –
respondeu Átila – podemos falar disso amanhã? Já está meio tarde. Pode
vir de novo no grupo de estudos?
– É claro.
E assim nos despedimos.
Eu não tinha exatamente planos de comparecer ao grupo de estudos
outra vez, mas acabei indo, já que fui convidada.
No outro dia, lá estava Natália incomodando de novo.
– Tu já beijou, Átila? – ela perguntou.
Átila ignorou-a. Fingiu que não tinha ouvido.
– Tu venderia a tua virgindade por um milhão? – perguntou Natália.
– Um milhão de reais ou um milhão de dólares? – perguntou Átila.
– Faz diferença? É um milhão, cara.
– Tu venderia teu rabo por um milhão de dólares? – perguntou um
dos raros guris que estavam participando naquela tarde.
– Aí não – respondeu Átila.
A resposta dele foi tão espontânea que quase todos na mesa riram.
Notei que Átila ficou um pouco encabulado com a própria resposta.
– Não tenho nada contra gays – ele quis deixar claro – desculpe,
minha resposta deve ter soado ruim.
– Que nada – garanti a ele – relaxa.

35
Wanju Duli

Quando contei mais tarde para Gustavo, ele também achou


engraçado. Até achou simpática a observação posterior de Átila.
Fiquei aliviada quando o pessoal começou a ir embora. Perto das seis
da tarde, eu e Átila voltamos a conversar sobre literatura. Falamos de
Salinger. Foi muito divertido. Eu jamais imaginaria que um sujeito
certinho como Átila ia elogiar tanto Salinger.
– “O Apanhador no Campo de Centeio” é a Bíblia da revolta
adolescente – disse Átila – não tem como não se sentir atraído. O
protagonista é muito carismático.
– Sério? Eu acho que ele é um trouxa, mas mesmo assim gosto dele.
Por que será?
– Eu acho que gosto dele porque o Holden é tudo aquilo que não
sou.
– Então você não gosta de quem é? – perguntei, antes que pudesse
me conter.
Ele demorou para responder.
– Não tenho certeza – disse Átila, por fim – ainda não tive tempo de
pensar nisso porque estou sempre estudando. E esse é um ano decisivo.
Acho que depois que eu entrar na faculdade vou começar a pensar.
– Mas teu livro favorito é “História Sem Fim”, certo?
– Sem dúvidas. Suponho que gosto do livro por motivos
semelhantes. O protagonista é pouco popular na sala, invisível. Mas,
acima de tudo, é um cara bonzinho que fica malvado. O filme não
mostra isso.
– Você gostaria de se tornar malvado?
– Não sei se é uma boa ideia me psicoanalisar através dos livros que
gosto – concluiu Átila – e você, qual seu livro preferido?
– “A Morte e o Cavaleiro do Rei” de Wole Soyinka – respondi.
– Esse eu não li. Agora fiquei curioso. Sobre o que se trata?
– É uma peça. Bem curta. Prefiro não contar para não estragar a
surpresa. Mas é realmente poderosa.
– Está certo. Que tal eu ler seu livro favorito e você ler o meu?
Fiquei surpresa com o pedido. E assim ficou combinado.
No final da sessão de estudos do dia seguinte, trocamos os livros.
Passei o fim de semana todo lendo o livro preferido dele. Era
relativamente longo. A peça que eu gostava, por outro lado, era curta.

36
O Vale do Colosso

Na segunda-feira tivemos muito que conversar.


– Agora entendi porque se chama “História Sem Fim” – concluí –
fiquei boquiaberta. O autor é muito inteligente.
– Digo o mesmo sobre Soyinka. As peças dele são uma verdadeira
obra de arte. É quase uma música.
– Ele é o maior dramaturgo africano.
Átila ficou em silêncio por alguns segundos.
– Me diz uma coisa, Carmen. Por que é tão fácil conversar contigo?
– Por quê? – fiquei surpresa com a pergunta – talvez porque você não
tenha muitos amigos que gostem de literatura clássica estrangeira?
– Pode ser – disse Átila.
Notei que Átila me tratava um pouquinho diferente. Ele me olhava
de forma diferente. Não era impressão minha. Eu conhecia aquele olhar.
Já sabia o que significava. Já tinha recebido esse olhar muitas vezes antes.
Era pena. O tipo de olhar quase inevitável que eu recebia de
estranhos. As pessoas não tinham inveja de mim e não me consideravam
uma ameaça. Ao me olhar, deviam apenas pensar “Que feia... tão
gorda!”.
Acho que Átila me olhou desse jeito desde a primeira vez que me viu.
Devia pensar que eu era mais uma de suas admiradoras. E deve ter
sentido pena porque alguém tão feia e tão gorda havia se apaixonado por
ele. Então ele quis ser agradável por pena. “Essa menina ainda acha que
teria alguma chance comigo? Coitada!” ele deve ter pensado.
Pois, por mais que Átila tivesse um tipo de humildade, no fundo ele
sabia que era bonito e inteligente. Isso ficava evidente para mim. É que
nem dizia Salinger: quando o ator do teatro começava a saber o quão
bem ele atuava, estragava tudo.
Confesso que senti um pouco de tristeza ao perceber que ele podia
estar fazendo tudo aquilo apenas ao imaginar que assim estaria brincando
com meus sentimentos. Queria me presentear com um pouco de sua
atenção. Vamos dar um pouco de atenção para a guria feia, como se
fosse caridade. Não era assim?
Afinal, eu não era uma ameaça real. Não havia o perigo de ele acabar
se apaixonando por mim sem querer. Por isso era mais fácil conversar
comigo do que com as outras. É claro que ele não acreditou quando eu
disse que não gostava dele da outra vez.

37
Wanju Duli

Fiquei tão chateada com todos esses pensamentos que não aguentei e
cometi o erro de compartilhá-los.
– Você tá se encontrando comigo por pena? – perguntei, numa voz
baixa.
– O quê?
– Sei que é ocupado. Então por que está conversando tanto comigo?
– Não é por pena – ele disse, sem entender – estou gostando mesmo
das nossas conversas.
– Mas você não me vê como mulher e sim como amiga – observei.
– Não sei o que dizer.
– Você está tão ocupado com seus estudos que provavelmente não
pensou sobre essa questão ainda, certo? – perguntei – mas é uma
resposta muito fácil. Não precisa pensar muito. Ou você não tem
coragem de dizer a verdade?
– Por que está fazendo isso? – perguntou Átila, parecendo
genuinamente chateado – eu estava gostando dos nossos encontros. Foi
tudo muito natural.
O que ele queria dizer com isso? Ele queria dizer que não estava
apaixonado por mim e me via apenas como amiga. No entanto, se
aquelas conversas de literatura tivessem prosseguido lentamente por mais
alguns meses, isso poderia mudar. E eu tinha estragado tudo com minhas
perguntas.
Era verdade que a pessoa por quem eu era apaixonada era o Lucas.
Cheguei a sentir um pouco de inveja e desprezo por Átila, por ele ser tão
paparicado. Mas, pensando bem, é claro que se um cara incrível como o
Átila se apaixonasse por mim, eu não ia dizer não. Como poderia?
Mas eu acho que até uma menina feia pode dizer não. Eu podia ter
mantido aquele jogo sem sentido por mais alguns meses apenas para
fazê-lo se apaixonar por mim e ter o prazer de dar o fora.
Só que eu não queria fazer isso. Não queria nem arriscar essa
possibilidade, por mais remota que fosse. Então não era melhor deixar
completamente claro que eu não gostava dele? Não foi o suficiente
observar isso de maneira tímida apenas uma vez. Nem mesmo eu achei
que soara convincente.
Quando citei Salinger, notei que Átila se sentiu ofendido.

38
O Vale do Colosso

– Falando assim você me constrange – disse Átila – e muito. Está


insinuando que sou convencido? Que sei que sou bonito e inteligente. O
que é isso? Eu me sinto humilhado.
Eu não sabia onde esconder a cara. Subitamente, eu me senti horrível.
Eu não devia ter dito isso para ele. Acho que toquei em seu ponto fraco
sem querer. Mas depois de todas aquelas conversas sobre literatura foi
inevitável ler um pouco do que havia dentro dele: suas angústias e
inseguranças.
Mas qualquer um veria: todos os professores diziam que ele era
inteligente. Metade das alunas da classe diziam que ele era lindo. Então
por que ele mesmo ainda não teria se convencido disso?
Contudo, foi somente ao dizer aquelas coisas que eu notei como eu
fui mordaz no meu comentário. Certas coisas não precisam ser ditas.
Átila reagiu de maneira forte e exagerada. Mas era como ele se sentia.
– Desculpe – falei, arrependida – eu disse sem pensar.
– Você tem alguma religião?
Fui pega de surpresa pela pergunta. O que aquilo tinha a ver com o
que estávamos conversando?
– Não tenho – respondi.
– Eu sou católico – disse Átila – e para mim não somente o amor e a
caridade, mas também a humildade é a maior virtude. Afinal, não há
verdadeiro amor sem humildade. Que adianta eu ser bonito e inteligente
se não tenho humildade? E você me disse que não tenho.
Só não peguei a conversa completamente no ar porque eu já tinha
conversado sobre isso com Gustavo algumas vezes. Eu entendi um
pouco sobre o que ele estava falando.
Foi só nesse momento que entendi porque ele ficou tão ofendido
com meu comentário. Não foi porque ele teve o orgulho ferido. Afinal,
qualquer pessoa religiosa considera a sua religião acima de qualquer
coisa. A fé é algo sério. E se Átila era sério, boas notas e aparência eram
menos que lixo perto de Deus.
Mas eu não queria falar sobre Deus naquele momento. Afinal, Deus
me parecia algo muito distante e pouco importante diante da conversa
que estávamos tendo. Estávamos tratando de um assunto humano e não
divino.
– Você acha que sou gorda? – resolvi perguntar.

39
Wanju Duli

Ele não respondeu.


– Pode dizer – insisti.
– Não acho adequado responder.
– Sim, sou gorda, e daí? E você me acha feia?
– Não acho.
Ele falou isso sem pensar duas vezes. Pareceu sincero.
– Bem, eu acho que você tenta ser humilde e acho isso bonito –
observei – mas não precisa tentar com tanta força. Não há nada de
errado em saber que se é bonito e inteligente. É bom ter auto-estima.
– Não sei porque estamos conversando isso.
– Tu preferia só falar de literatura, né? Tu sempre tenta escapar
quando começamos a pular para assuntos pessoais.
Ele se ofendeu outra vez.
– Não pense que me conhece tanto assim – observou Átila.
– É claro que não conheço. E se somos mesmo amigos, estamos
tendo nossa primeira briga. Dizem que a primeira briga sela uma
amizade. Que amigos que não brigam não são realmente amigos. Se bem
que não precisamos ser amigos íntimos. Apenas amigos distantes que
falam de literatura. Era só isso que você queria, certo?
– E você queria outra coisa?
– Acho que não – concluí – eu gosto do Lucas.
Dessa vez ele se surpreendeu.
– Do Lucas? – ele perguntou, sem entender – mas ele não gosta de
ler...
Foi um comentário tão bobo que achei gracioso. Quase como se ele
quisesse provar que era mais atraente que Lucas por gostar de livros.
– Acho que o vejo como um Holden Caulfield.
Esse comentário foi o bastante. Notei que ele não gostou de eu ter
dito. Foi então que entendi.
Na verdade, Átila não se sentia atraído por mim. Mas ele gostava das
nossas conversas.
O problema era que Átila estava acostumado a ganhar sempre. A tirar
as melhores notas. A roubar o coração das garotas. Então saber assim,
em primeira mão, que eu estava apaixonada por uma pessoa que não era
ele devia ter sido um golpe forte.

40
O Vale do Colosso

Não deixava de ser um tipo de egoísmo. Ele estava agindo um pouco


como o protagonista de seu livro preferido. Ele queria sentir o poder.
Queria ser forte, mesmo que para isso precisasse se tornar cruel. Mesmo
que precisasse sacrificar sua preciosa humildade e o seu céu.
– Não acredito nisso – ele insistiu.
Era seu momento de negação. Como nos cinco estágios de luto. O
estágio seguinte seria a raiva. E eu já a sentia no ar, mesmo que fosse
apenas um tipo de raiva leve.
– É verdade – garanti – sou apaixonada por ele.
– Isso eu entendi. Só achei absurdo compará-lo a Holden...
Então era isso que o irritara.
– Lucas nem mesmo se parece com ele – acrescentou Átila – não tem
nada a ver. Tem certeza? Não tem como achar uma comparação melhor?
Ali estava a fase da negociação. Mas como eu fiz que não, ele logo
ficou desapontado. Como se tivesse se decepcionado comigo como
pessoa.
– Está bem – ele concluiu – acho que vou pra casa. Melhor
cancelarmos esses nossos encontros na biblioteca. Já tem gente
comentando.
– Não sabia que você se importava com os comentários.
– E não me importo. Só estou tentando cancelar educadamente as
nossas conversas a partir de agora.
– Só porque eu gosto do Lucas?
– Não, é só que eu preciso de mais tempo para estudar. Acho que
vou cancelar nossos grupos de estudo também.
E ele foi embora, sem mais nem menos. No dia seguinte anunciou
que havia cancelado os grupos de estudo.
Marina brigou comigo depois. Ela já tinha escutado os boatos dos
meus encontros com Átila. Por alguma razão, não contei nada daquilo
para Marina ou Gustavo. Mas naquele dia contei tudo.
– Átila simpatiza com gays e é católico – observou Gustavo – isso é
muito interessante.
– Não entenda mal, Carmen – observou Marina – Átila não estava
com ciúmes.
– Eu não disse que ele estava – falei – mas essa sua observação me
sugere que é você quem está.

41
Wanju Duli

– É claro! Vocês se encontraram sozinhos na biblioteca uma hora por


dia por mais de uma semana! Como posso não estar com ciúmes?
– Eu preferia que o Átila se apaixonasse pela Carmen – observou
Gustavo – pois assim ela deixaria o Lucas livre para mim.
Natália foi uma que reclamou do cancelamento do grupo de estudos.
Várias gurias reclamaram que o grupo tinha sido cancelado muito em
cima da hora. Elas já tinham se preparado para ficar no colégio de tarde.
Por consideração a elas, Átila aceitou fazer um último grupo de
estudos naquele dia, mas garantiu que seria o último.
Acho que ele já estava querendo se livrar daqueles grupos há muito
tempo. A nossa discussão foi apenas uma desculpa.
Resolvi não aparecer por lá. Mesmo assim, almocei junto com Marina
na cafeteria do colégio naquela tarde. Observei, de longe, Átila comendo
sozinho. Ele sempre trazia o próprio lanche num pote e esquentava no
microondas.
– Por que será que ele não compra comida na cafeteria? – perguntou-
me Marina – ele tem mania de limpeza e acha que a comida feita fora de
casa não é higiênica? Ou ele só come coisas saudáveis que ele tem certeza
que foram bem preparadas?
– Como vou saber? – perguntei – talvez ele apenas goste de trazer
marmitas.
Eu lembrava de uma época em que eu levava marmitas para o
colégio. Foi numa época em que minha mãe perdeu o emprego e ficamos
mal de grana.
Mas eu não imaginava Átila mal de grana. Ele tinha cara de filhinho
de papai e se vestia bem. Até os sapatos dele eram novos. A mochila e o
material escolar impecáveis. Ou podia ser que ele apenas cuidasse muito
bem das próprias coisas.
Na aula do dia seguinte, escutei fofocas que não acabavam mais. A
melhor delas foi que Lucas apareceu no grupo de estudos pela primeira
vez.
Parecia piada. Como aquele cara podia se interessar por estudos? Me
contaram que ele fez perguntas ridículas para Átila. E ele não foi assim
tão educado ao respondê-las, pois sentiu como se Lucas estivesse
zombando dele.

42
O Vale do Colosso

– O Lucas é muito burro! – exclamou Marina para nós – ele não tava
fingindo. Ele é realmente estúpido.
Outra fofoca foi que Natália seguiu Átila secretamente até a casa dele
após o grupo. Descobriu onde ele morava e espalhou para toda a turma.
– Ele é pobre pra caralho! – ela exclamou, como se sentisse muita
alegria por isso – ele mora com uns seis irmãos menores. E a mãe dele é
tão gorda e pobre que parece um botijão de gás.
Eu me senti extremamente ofendida com isso. A mãe dele certamente
não era mais gorda que meu pai. Eu amava muito meu pai e me sentiria
muito mal se falassem aquilo dele. Eu bateria na pessoa.
Se falassem mal de mim eu não me importaria tanto. Mas falar mal
dos meus pais era demais.
O pior era que Natália havia investigado com detalhes. Pelo jeito
ficou de tocaia na casa por algum tempo. Contou que Átila estava
trocando a fralda de um irmão. Que estava colocando a roupa para secar
num varal todo podre. E que se dirigia à mãe de uma forma
exageradamente reverente. Senti um traço de ciúme na voz de Natália.
– Só pode ser Complexo de Édipo – garantiu Natália – então é isso.
Ele não quer namorar nenhuma guria porque no fundo sonha em trepar
com aquele botijão de gás que é a mãe dele!
Muita gente xingou Natália. Ninguém gostou de ela estar sendo assim
tão imensamente mal educada, com exceção de suas duas amigas
inseparáveis que eram idênticas a ela, tanto por fora como por dentro.
Quando Átila chegou na sala, todos calaram a boca. Eu não aguentei
isso. E tivemos que aguentar os risinhos de Natália ao longo do dia. Eu
sabia que ela continuava a fofocar sobre isso com as amigas.
O fato de Átila estar no escuro sobre o que estava acontecendo me
incomodou. Por isso, pedi para conversar reservadamente com ele
depois da aula.
– Sobre o quê? – ele perguntou, pois ainda devia estar chateado
comigo e em dúvida se queria conversar ou não.
– Sobre a Natália. É importante.
E eu contei tudo. Em detalhes. Falei tudo o que Natália tinha dito.
No outro dia, Átila foi tirar satisfações.
– Por que me seguiu? – perguntou Átila.
– Porque eu quis – respondeu Natália, simplesmente.

43
Wanju Duli

Depois disso, ela tirou uma nota de cinquenta reais da carteira.


– Quer? – ela perguntou – se me der um beijo no rosto, eu te dou. E
olha que tô sendo generosa, pois é só no rosto.
– Está louca? – perguntou Átila.
Acho que só naquele dia todos tiveram uma noção do quanto Natália
era detestável. E a partir daí a vida de Átila se tornou um inferno.
Natália não deixava passar nada. Devia estar com raiva após seus
pedidos de namoro terem sido recusados por tanto tempo. E agora
obtinha sua vingança.
Ela passou a comentar sobre as marmitas de Átila. Disse que ele não
teria dinheiro nem para comprar balas na cantina. E só agora reparava
em pequenos detalhes, como no fato de Átila usar a mesma roupa muitas
vezes, apesar de serem sempre roupas limpas.
Para mim, Átila se tornou um herói trágico. Além de se matar
estudando, ele ainda cuidava da casa e dos irmãos menores. Aquilo era
inacreditável. De onde ele tirava tempo?
Ele tirou notas excelentes nas primeiras provas. Novamente,
Bernardo não conseguiu ultrapassá-lo. Mas ele tinha esperanças de que se
Natália jogasse um pouco mais sujo nas ofensas, as notas de Átila
poderiam começar a cair a partir das provas seguintes. E Natália se
empolgou nesse jogo, em sua tentativa desesperada de descobrir cada vez
mais coisas.
Enquanto isso, Lucas tirou as piores notas da turma. Mesmo
repetindo o terceiro ano. Eu não sabia que notas poderiam ser tão ruins.
Fiquei desapontada com meu desempenho, mas subitamente gostei
muito do meu boletim ao ver as notas do sujeito.
Lucas até colou de mim numa das provas. Fiquei muito feliz ao poder
contribuir um pouco. Mas pelo visto não adiantou muito.
Foi então que Natália descobriu algo espantoso: a mãe de Átila estava
muito doente. Ela estava com câncer e parecia ser grave. A mãe dele
precisava realizar um procedimento que não era oferecido pelo SUS. Era
algo muito caro.
Como é que Átila estava passando por tudo aquilo e não
demonstrava? Ele devia ser muito forte.
Mas ao saber disso, com o passar dos dias comecei a notar o
abatimento no rosto de Átila. Ele frequentemente aparecia com olheiras.

44
O Vale do Colosso

Alguns dias depois, alguns colegas meus se mostraram interessados


em saber o preço do procedimento. Queriam contribuir de alguma
forma. Mas quando Átila contou, o pessoal recuou. Era algo muito acima
do que pais de alunos de classe média alta poderiam pagar. Claro, eles
poderiam tentar conseguir a quantia se fosse para seus próprios
familiares. Estava fora de questão fazer uma doação daquele porte para
alguém que não era da família e jamais teria como pagar de volta.
Só havia uma pessoa na turma que poderia ser capaz de conseguir
aquele dinheiro sem que aquilo representasse uma falta fatal para o
orçamento da família: Natália. E ela mesma se deliciou em ver a si
mesma com tanto poder.
Ela pediu para conversar com Átila sobre isso. Porém, ela não queria
simplesmente doar. Ela daria a quantia total no ato, contanto que Átila
fizesse apenas uma coisa. Por apenas uma hora. E isso era tudo.
O pessoal ficou indignado quando soube o que ela pediu.
– Adivinha – disse Marina, nervosa – ela quer que o Átila trepe com
ela. Natália não vai topar fazer isso apenas por um beijo.
– Que imbecil – comentou Gustavo – isso é o fim do mundo.
É claro que Átila negou. Ele nem queria pensar nisso. Apesar de toda
sua humildade, também tinha seu orgulho.
No entanto, duas semanas depois a situação de sua mãe piorou
drasticamente. Ela foi parar no hospital. Já estava em estado terminal. As
perspectivas não eram nada boas. Átila já sabia disso há um tempo, mas
ao ver a mãe naquele estado no hospital, ele se desesperou.
Ele teve uma conversa séria com Natália. Explicou a ela que seu pai
havia ido embora há muito tempo e não ajudava com as despesas da
casa. Que se sua mãe morresse ele teria que tomar conta dos irmãos. Ele
teria que largar o sonho de fazer faculdade para conseguir uns dois ou
três empregos.
– Então você não quer que ela morra por causa de si mesmo e não
por ela – concluiu Natália – como você é egoísta.
Átila ficou sem fala. Disse que era por ela, mas também por causa de
todo o resto. Até então, a mãe havia trabalhado incansavelmente para
que ele pudesse se concentrar nos estudos. Ele tinha conseguido uma
bolsa de estudos integral em nosso colégio após muito esforço. Se as
notas dele caíssem, ele perderia a bolsa.

45
Wanju Duli

Finalmente entendi porque Átila estudava tanto. Ele teria que se


transferir para um colégio público se suas notas caíssem.
Mas Natália se mostrou inflexível. Ela deixou claro que não doaria o
dinheiro. Ele teria que transar com ela. E, diante do desespero de ver sua
mãe naquele estado, Átila disse que aceitava.
Muitos colegas nossos protestaram, tanto os guris quanto as gurias.
Disseram para ele não confiar em Natália. Que aquilo era insano. Alguns
até falaram com os professores ou conhecidos para saber se alguém
poderia ajudar com doações, mas não apareceu ninguém capaz de cobrir
nem mesmo metade da quantia. E com metade Átila não poderia fazer
nada. Não seria o bastante.
Átila disse que aceitava, contanto que Natália pagasse o dinheiro
adiantado.
– Nada feito – ela falou – primeiro a trepada. Depois a grana.
Ela tinha um imenso prazer em dizer tudo aquilo. Em ter Átila como
seu brinquedo.
Então Átila disse que, tudo bem, ela poderia pagar depois, contanto
que fosse na manhã seguinte após a transa.
– Fechado – disse Natália – mas eu só vou aceitar se tiver oral. Eu
quero fazer oral em ti. Pode ser?
Átila fechou os olhos e respirou fundo. Parecia estar visualizando o
que “transa” significava pela primeira vez.
– Tá... – disse ele, quase arrependendo-se – mas tem que ser com
camisinha.
– Qual é! – exclamou Natália, contrariada – por quê? Você tem nojo
de mim e não quer que eu encoste a boca no teu pau?
Parecia que até as palavras que ela usava eram como facadas para
Átila.
– É por causa das doenças – explicou ele.
– Ah, isso – comentou Natália, como se não fosse nada – eu não
tenho doenças. Eu só trepo com caras limpos.
– Não tem nada a ver ser limpo.
– Cara, tu não tá em posição de exigir nada.
– Eu não vou fazer sem camisinha – insistiu Átila – e se eu te
engravidar? Vou estar numa situação ainda pior do que ter que cuidar
dos meus irmãos.

46
O Vale do Colosso

Ele tinha um bom argumento. Por isso Natália cedeu.


– OK, que seja com camisinha. Hoje lá em casa. Pode ser?
Acho que Átila não esperava que fosse tão cedo. Não devia estar
psicologicamente preparado. Mas ele sabia que precisava desse dinheiro
urgentemente.
– Pode – disse Átila.
– A gente volta juntos da aula e almoça lá em casa – ela explicou –
vou te apresentar pra minha mãe e dizer que você vai me ajudar nos
estudos de tarde. Mas antes de ir pra casa, a gente passa na farmácia pra
comprar camisinha.
Cara, que inferno.
– Aliás, tu é virgem, né? – disse Natália – quero que diga na frente de
toda turma, senão não trepo contigo.
– Que vadia! – berrou Marina, sem se conter – cala a boca, Natália!
Átila, não aceita isso. Não responde!
– Eu sou virgem – declarou Átila, cansado – que diferença faz?
– Quero saber o que esperar da transa – explicou Natália – mas nem
precisava responder, pois eu iria descobrir de acordo com seu
desempenho. Mesma coisa no beijo: se você me babar toda, vou saber
que nunca beijou antes.
Átila se sentiu um pouco intimidado ao saber que cada um de seus
movimentos seria minuciosamente analisado. Mas foi em frente.
E chegou a aula do dia seguinte...
Todos estavam muito curiosos quando Natália chegou na sala. É
claro que ela já chegou se gabando.
– Gente, eu comi o Átila! – ela exclamou, vitoriosa – jamais imaginei
que seria tão fácil. Foi só aparecer aquela bobagem com a mãe dele e
pronto.
– Como foi? – perguntou Marjana – conta tudo!
– Como é o pau dele? – perguntou Roxana, ansiosa – é grande?
– É bom – Natália sorriu – muito bom! Não é tão grande, mas
também não é pequeno. Eu diria que não deixa a desejar.
Ela estava berrando isso antes de a aula começar. Todos ouviam
atentamente.
– Mas calma, vou contar tudo desde o começo! – ela decidiu – a
gente passou na farmácia e foi bem divertido. Escolhi uma camisinha

47
Wanju Duli

sabor morango. Átila parecia que estava indo para a forca na hora de
pagarmos. Mas na hora do almoço ele tava bem à vontade e conversou
bastante com minha mãe. Ela gostou muito dele. E ele não parava de
elogiar a comida. O Átila sabe ser um anjinho quando quer. É claro que
qualquer mãe o amaria.
Aquele relato estava muito enrolado. Marina prestava muita atenção.
– Depois do almoço, fomos para meu quarto. Eu disse que só queria
fazer sexo no fim da tarde e até lá iríamos fingir que éramos namorados
e fazer coisas de namorados. Eu não sou meiga?
– Nem um pouco, sua bruxa – soltou Marina.
– Fica quieta, perua – disse Natália – então a primeira coisa foi o
beijo. A gente se abraçou e se beijou na boca. Foi lindo! Eu ensinei
diferentes tipos de beijos para ele. Mostrei como se beijava de língua. Eu
fiz questão de ficar o tempo todo com a mão no peito dele para sentir os
batimentos cardícaos conforme fazíamos cada coisa. E quando coloquei
as mãos dele nos meus peitos de surpresa, por cima da minha roupa, ele
quase teve um infarto. Coitadinho!
E Natália se acabou de rir. Marina não estava aguentando ouvir.
Pensou em sair da sala, mas resistiu e ficou.
– Então, depois de chegar na segunda base, fiz uma pausa e coloquei
um filme para vermos abraçadinhos. Só que no meio do filme eu
coloquei a mão no pinto dele. Por cima da calça, mas coloquei. Ele ficou
bem alterado, se é que vocês me entendem. Fiz isso algumas vezes e ele
começou a ficar duro. É claro que a gente não conseguiu ver o filme até
o fim. Interrompi no meio e me joguei em cima dele. Ele também
parecia bem excitado.
– Puta mentirosa! – protestou Marina.
Marina ignorou-a.
– A gente foi arrancando as roupas, se beijando e se pegando.
Quando fiquei toda nua, ele já estava totalmente duro. Quando tirei a
cueca dele, o cacete parecia um poste.
– Meu Deus, que guria mais falsa. É claro que não aconteceu nada
disso! – insistiu Marina.
– Coloquei a camisinha e dei aquela chupada – contou Natália – Átila
não parava de suspirar. Ele teve que me pedir para parar, ou iria gozar.
Então eu subi em cima dele, coloquei o cacete dele na minha boceta e

48
O Vale do Colosso

comandei a transa, com muitas cavalgadas. Depois disse pra ele ficar por
cima e fazer em mim. Eu queria ver como ele faria os movimentos. Foi
muito meigo! Ele era muito desajeitado. Até broxou, então usamos outra
camisinha. Ele demorou muito pra gozar, então conseguimos tentar
outras posições. Até que ele gozou. Mas quando tirei a camisinha e disse
que ia colocar no lixo, ele não deixou. Ficou apavorado, com medo que
eu roubasse o sêmen dele e inserisse em mim, acredita? Então ele
guardou a camisinha cheia de porra na mochila! Se olharem o primeiro
bolso da mochila dele hoje vão ver que está todo melado e vão acreditar
em mim.
Ao que parecia, era o fim da história. Mas havia mais.
– Depois de trepar, fomos fazer um lanche. Átila queria ir embora
logo, mas preparamos sanduíches e comemos juntos. Juro que eu queria
que nossos dias juntos assim continuassem pra sempre! – ela comentou,
sonhadora – bem, isso é tudo. Foi o que aconteceu. Que acharam?
– Fala mais sobre o corpo dele – insistiu Roxana.
– Ele tem barriguinha – riu Natália – sempre achei que tivesse
mesmo, com aquele rosto gordinho. Mas achei sexy. Tudo nele é sexy.
– Ele tem prepúcio?
– Sim, ele não é judeu, pelo que eu saiba – respondeu Natália,
simplesmente.
– Mas ele é católico – lembrou Roxana – está tudo bem pra ele trepar
antes do casamento?
– Acho que ele prefere cometer esse pecado a ver a mãe morta –
disse Natália, como se fosse uma piada – eu também amei os pêlos
pubianos dele. O Átila é simplesmente perfeito. Já transei com caras
muito habilidosos, mas o que senti ao deitar com ele foi diferente. Foi
realmente como transar com um anjo puro.
Marina parecia estar quase passando mal ao meu lado. Ainda não
parecia acreditar que aquilo havia de fato acontecido.
– Por que vocês falam de trepada como se fosse algo extraordinário?
– perguntou Lucas, inesperadamente – é só uma porra de uma trepada!
Falando assim, parece que estão prestando continência a um rei.
– Você treparia comigo agora? – desafiou Natália – aqui no chão?
– Não vejo porque não – foi a resposta de Lucas – já trepei no meio
de vômito. Chão é fichinha.

49
Wanju Duli

– Mas nesse caso você teria que me pagar e não o contrário –


explicou Natália.
– Quanto? – perguntou Lucas.
– Pelo menos mil reais.
Lucas riu.
– Como uma puta suja por cinco pila – explicou Lucas – até parece
que você vale tanto.
Átila entrou na sala naquele momento. A primeira coisa que Marjana
fez foi abrir o primeiro bolso da mochila dele, sem permissão.
– Nossa, tá aqui até agora!
Marjana levantou a camisinha usada para o alto.
OK, aquilo foi muito humilhante. Se fosse Lucas, imaginei que ele
não se importaria de empilhar dezenas de camisinhas como troféus. Mas
Átila era discreto. Ele se sentiu tão humilhado que quis dar meia volta e
sair da sala, mas não fez isso, porque precisava falar com Natália.
– A gente pode conversar em particular?
– Negativo – respondeu Natália – vai ter que falar pra todos.
– Você ainda não depositou o dinheiro na minha conta.
– Que menino apressado – ela sorriu – eu disse que ia colocar de
manhã, não disse? Não especifiquei a hora. Até o meio-dia terá o seu
dinheiro.
Átila fitou-a com uma expressão desolada, mas não falou mais nada.
Senti uma pena desesperada dele. Átila apenas sentou-se em seu lugar
quietamente.
Até mesmo eu aguardava ansiosa para o meio-dia. Átila até saiu um
período mais cedo para chegar no banco se Natália havia feito o depósito
no intervalo. No fim da aula ele retornou dizendo para Natália que não
havia dinheiro lá.
– Eu estava em aula, não estava? – disse Natália – daqui a pouco já
coloco.
Porém, na manhã seguinte Átila já não estava tão educado. Entrou na
sala em passos apressados.
– Eu não sou trouxa – disse Átila – é melhor você depositar esse
dinheiro hoje. Senão...

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O Vale do Colosso

– Senão o quê? – ameaçou Natália – vai contar para a mamãe que


trepou comigo e não te dei a grana? Ou vai contar pra polícia? É óbvio
que você é trouxa, Átila. Eu nunca tive intenção de te dar esse dinheiro.
A cor sumiu do rosto de Átila. E olha que ele tinha pele escura.
– Tu tá brincando, né? – disse Átila, com a respiração falhada – só
está testando minhas reações.
– Eu não tenho tudo isso, cara – ela disse, por fim – e nem meus pais.
Não sou tão rica assim quanto você pensa. Posso até ser a mais rica da
turma, mas não sou rica o bastante para ficar pagando operações caras de
câncer por aí. Tenho coisas mais úteis para comprar, como bolsas de
marca e sapatos da moda.
Átila ficou lá parado, fitando o nada. O choque havia sido grande
demais.
– O que foi? – perguntou Natália – você está agindo como se tivesse
trabalhado duro para mim oito horas por dia durante dez anos e eu
tivesse surrupiado todo teu salário. A única coisa que você fez foi o
“sacrifício” de trepar com uma mulher gostosa como eu por pouco mais
de uma hora. Te liga, cara! Devia é me agradecer.
Átila fechou os olhos e fez uma careta. Uma expressão de sofrimento.
No segundo seguinte, vários alunos começaram a protestar. Marina
queria matá-la. Foi lá para frente tentar socar Natália. E não foi a única.
Várias gurias partiram para cima dela com socos e chutes, chamando-a
de todos os nomes.
– Égua!
– Cachorra!
Quando Natália começou a ser espancada, Lucas filmou com seu
celular. E não foi o único.
No final, Natália, Marina e as outras gurias foram chamadas na
direção. E tiveram que contar toda a história.
Em pouco tempo, o colégio todo estava sabendo o que tinha
acontecido, incluindo os professores. Mas Natália não foi expulsa.
Não aconteceu absolutamente nada, fora algumas suspensões. E Átila
parou de responder as perguntas em aula. A partir daí, ele ficava
absolutamente quieto como um túmulo.
Ele não queria conversar com ninguém: nem com as gurias e nem
com os guris. Obviamente, me ignorou completamente também.

51
Wanju Duli

Passou a ser um grande sofrimento para Átila vir a cada dia de aula.
Nas provas seguintes suas notas caíram. E Bernardo fez uma grande
comemoração, pois conseguiu tirar notas maiores que as de Átila pela
primeira vez.
Não sei se as notas dele caíram porque agora que a mãe dele estava
no hospital ele tinha que cuidar dos irmãos ou porque ele estava
desestabilizado psicologicamente. Talvez um pouco dos dois.
Mesmo assim, as notas continuavam bem acima da média. Sua bolsa
de estudos continuava assegurada, o que era mais importante. Ele ainda
estava em segundo lugar na turma.
– Eu tenho muita pena do Átila – Lucas falou um dia – sempre tive.
É um desgraçado. Só acontece merda na vida dele.
É como se Átila estivesse sob uma má estrela. Mas eu não sabia se
acreditava nessas coisas. Eu não tinha certeza no que eu acreditava.
Antes havia alguns colegas nossos que invejavam Átila e eram meio
distantes. Mas desde que tudo aquilo tinha acontecido, eles começaram a
tentar se aproximar dele.
Não eram raros os colegas nossos que ofereciam dinheiro para Átila,
mas ele sempre recusava.
Até que um dia ele quebrou os vidros do banheiro masculino, usando
os punhos. As mãos e os pulsos dele ficaram empapados de sangue e
cheios de vidro. Aparentemente, além de uma vontade de quebrar vidros
para descontar a raiva, tinha acontecido uma tentativa deliberada de
cortar os pulsos. Ao menos foi isso que disseram.
Gustavo contou que ele e outros guris foram para o banheiro ao
ouvir o barulho e encontraram Átila no banheiro se acabando de chorar.
Fazendo um grande escândalo. Ele disse que foi horrível e que nunca
mais queria ver algo assim na vida.
– Era desespero mesmo – disse Gustavo – eu me senti muito mal. Eu
me senti acabado. Quase chorei também, sei lá. Foi muito forte. Ele
gritava. A gente sabia que ele tinha mais motivos que qualquer um. Foi
uma merda.
A mãe dele estava a cada dia mais doente. Átila não tinha mais vida.
Sua vida era ir para o colégio de manhã e, no resto do dia, visitar sua mãe
no hospital, cuidar dela, cuidar da casa, cuidar dos irmãos e
possivelmente passar a noite em claro.

52
O Vale do Colosso

Ele parecia um zumbi. Não devia mais dormir, tanto porque


precisava de mais tempo para estudar como porque precisava cuidar dos
irmãos bem pequenos e chorões. Sem contar o estresse com a piora da
mãe.
Finalmente, algo concreto começou a ser feito para ajudar Átila,
mesmo depois de todas as recusas dele.
A primeira boa notícia veio do próprio colégio: foi garantido a ele que
sua bolsa não seria descontinuada, mesmo que as notas dele baixassem
muito. A única coisa necessária seria passar por média em cada disciplina.
E, mesmo se não passasse, ele não seria expulso se ficasse em
recuperação. Iam dar um jeito, diziam. Pois sabiam o que ele estava
passando.
Acho que isso já tirou um grande peso das costas dele. Sem contar
que ainda haveria o vestibular em janeiro do ano seguinte. Era muita
pressão.
Átila começou a aceitar ajuda financeira de alguns colegas, embora
parecesse se sentir extremamente mal com isso.
Ele devia ter emagrecido alguns quilos com o estresse. Não parecia
estar se alimentando bem.
Até que a própria Natália começou a sentir pena dele. Ofereceu-se a
pagar uma babá e empregada para os irmãos de Átila. Ele recusou na
hora.
– Não quero falar com você – disse Átila.
– Se não aceitar, vou contar pra sua mãe que você vendeu seu corpo
pra mim – ameaçou Natália – aposto que a velha vai ter um infarto e
morrer na hora.
Átila sentiu um frio na espinha.
– Se você contar pra minha mãe, eu não vou te perdoar – garantiu
Átila.
E naquele dia Átila começou a se sentir mal de novo.
Naqueles dias eu quase senti vontade de pular fora daquele colégio.
Estava insuportável. O drama do Átila estava afetando todo mundo. Se
até eu estava me sentindo deprimida com tudo aquilo, eu nem queria
imaginar pelo que ele estava passando.

53
Wanju Duli

Até que surgiu uma luz gloriosa no fim do túnel: a mãe de Natália
ficou sabendo de toda história pela mãe de uma colega nossa. Ela
abominou a atitude da filha.
A mãe de Natália fez questão de conversar com Átila. Ela havia
adorado mesmo o guri quando ele foi almoçar na casa dela. E decidiu
que iria pagar o valor integral do tratamento que a mãe de Átila
precisava. Naquele mesmo dia depositou o valor na conta dele.
E não foi só isso. O tratamento só estava disponível nos Estados
Unidos, pois era novo. A mãe de Natália pagou para a mãe de Átila viajar
para lá. Como Átila não poderia acompanhá-la por estar em aula, a mãe
de Natália viajou junto.
Natália ficou furiosa.
– Faz cinco anos que não viajo para os Estados Unidos – ela nos
contou – e agora a mãe do meu colega pobre vai simplesmente passar as
férias lá? Que nojo!
Aquela guria era inacreditável.
Nas semanas seguintes, Átila ficou muito mais relaxado, embora
estivesse nervoso por estar longe da mãe. A mãe de Natália ligava
frequentemente para dar notícias.
Depois disso, Átila não se importou mais de passar noites em claro
cuidando dos irmãos ou estudando. A mãe estava recebendo o
tratamento que precisava e isso era tudo que ele queria. Por isso, ele
voltou a sorrir, embora fosse um sorriso cansado. Ele era muito sincero.
E tinha uma bondade tão grande que machucava.
– Entendeu agora porque eu gosto do Átila, Carmen? – Marina me
disse – alguém que tenha tanto amor assim pela mãe, a ponto de
sacrificar tudo, só pode ser uma das pessoas mais bondosas do mundo.
Diferente do seu Lucas, que não liga para ninguém.
– Acho que todos merecem ser amados – opinei – cada um tem uma
personalidade diferente e nem todos conseguem ter esse espírito de
sacrifício. Eu não sei se eu teria. Mesmo assim, somos todos humanos e
queremos amor, não é verdade?
– Lucas não quer amor – afirmou Marina – ele só quer sexo.
– Não deixa de ser um tipo de amor.
Mas eu mesma não tinha certeza do que eu disse. Sei lá o que Lucas
queria. Não parecia mesmo se importar com nada. Ele nem se comoveu

54
O Vale do Colosso

com o que aconteceu com Átila. Só disse que tinha pena dele, que ele era
um coitado. E isso foi tudo. Ele não ajudou em nada.
Não que eu tivesse ajudado tampouco. Pelo menos Átila voltou a
falar comigo, mas não tanto. Aquela nossa semana conversando todo dia
sobre literatura agora pertencia ao passado. Atualmente, apenas nos
cumprimentávamos. Uma vez ou outra trocávamos um diálogo breve.
Mas estava bom assim. Eu não tinha nenhuma intenção de ter uma
amizade profunda com ele.
Digamos que meu único hobby atualmente era observar Lucas
durante as aulas. Eu fazia isso desde o primeiro dia, sempre aguardando
que ele fizesse algo extraordinário.
Mas ele era um cara tri normal. Nunca abria os livros. Só abria os
cadernos para rabiscar. Ficava jogando pôquer durante as aulas (sim, até
isso ele fazia) ou conversando com amigos. Nada de mais interessante.
Ele não ia usar drogas? Fumar? Beber? Bem, talvez ele não estivesse
tão disposto a fazer aquilo em aula após as suspensões que levou no
passado. Mesmo assim, teve uma ou outra vez que ele abriu uma revista
de putaria. Eu cutuquei Gustavo com entusiasmo quando ele fez isso.
Lucas mostrou uma página para o colega ao seu lado e riu. Eu quase
derreti quando o vi rir. Era um riso tão espontâneo e sincero. Apesar de
ele estar olhando a foto de uma mulher de pernas abertas, por alguma
razão eu o achei muito inocente fazendo isso.
Ele fingiu que ia colocar a mão dentro da calça, só pra zoar. Na
verdade chegou a colocar de leve e depois tirou, como se simulasse uma
masturbação, indicando que a mina da revista era gata.
Eu e Gustavo não conseguimos nos segurar. Nós demos uma
exclamação audível e depois tapamos a boca com a mão.
Só que Lucas percebeu. Ele raramente notava. Estava sempre
concentrado demais nas suas coisas. Nunca achava que alguém estava
olhando para ele.
Lucas apenas deu um olhar ligeiro na nossa direção. No segundo
seguinte voltou sua atenção para a revista. Acho que foi um reflexo, ao
ouvir nossa exclamação. Mas era ingênuo demais para desconfiar que
estávamos o observando e admirados por causa dele.
– Ele é tão doce – Gustavo comentou comigo.
– Pra valer – concordei.

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Wanju Duli

Marina disse que tínhamos uma visão muito distorcida a respeito do


que era um cara doce. Um sujeito que vivia tirando meleca do nariz em
público e simulando que batia punheta com revistas de putaria não
parecia em nada com sua definição de “doce”.
No intervalo, Lucas continuou olhando as revistas. Gustavo passou
por trás dele, tentando espiar. Mas Lucas percebeu.
– Quer ver? – perguntou Lucas – é das boas.
E passou a revista para Gustavo, que a segurou completamente sem
fala.
– Dá uma olhada na página 23 – sugeriu Lucas – olha só que
bocetinha gostosa. Não é gostosa?
Gustavo foi para a página indicada. É claro que ele não estava
interessado na boceta da moça. Ele não sentia atração sexual por
mulheres.
– É boa, né? – perguntou Lucas, ansioso.
– Muito boa – respondeu Gustavo, só para agradá-lo.
E Lucas ficou todo feliz que Gustavo concordou.
– Tenho mais lá em casa – contou Lucas – tenho uns vídeos também.
Posso te passar?
– Claro – disse Gustavo, sem escolha.
À noite, Gustavo falou comigo pelo Facebook. Ele me mandou os
links que Lucas enviou para ele.
Na maior parte dos links havia mulheres se pegando. Às vezes até
três ou quatro. Elas lambiam as bocetas das outras, ou até encostavam as
bocetas e esfregavam. Descobri que aquilo se chamava tribadismo.
Realmente, era um mundo que eu desconhecia.
Mas eu sinceramente não via a menor graça em duas mulheres
esfregando bocetas. Gustavo também não viu.
Gostei mais dos vídeos de sexo oral hetero. Havia uma mina
chupando um cara e um cara chupando uma mina. Eu curti os dois.
– Tô desapontada – contei para Gustavo – achei que Lucas ia curtir
uns vídeos mais sujos e ousados, mas isso aqui é só sexo convencional.
– Acho que ele resolveu começar me mandando coisas mais leves.
Depois ele vai pegar mais pesado.
Depois Lucas enviou uns vídeos de uns caras enfiando um monte de
coisas nas bocetas das mocinhas e elas gemendo. Eu não sabia que as

56
O Vale do Colosso

pessoas eram tão criativas. Nunca imaginei que certos objetos sequer
cabiam numa boceta.
Após alguns dias, do nada, Lucas parou de mandar links para
Gustavo. Acho que cansou. E a coisa morreu aí.
– Você devia ter mandado reações mais enérgicas – critiquei.
– Eu só estava fingindo que gostava e não sei mentir bem –
justificou-se Gustavo – acho que ele percebeu que não me animei muito.
Eu passei a observar Lucas cada vez mais atentamente. Estava
completamente obcecada por ele.
No final, ele era apenas um cara normal que curtia sexo e drogas. Ele
ficava quieto na maior parte das aulas. Vez ou outra fazia um comentário
engraçado ou absurdo, mas em geral só ficava no seu canto, sem desejar
ser incomodado.
Então no fundo ele era um sujeito discreto. Ele não tentava chamar a
atenção como outros palhaços da sala que apenas tentavam ser
engraçados. Ele era genuinamente divertido quando abria a boca. Se
fosse outra pessoa falando as mesmas coisas eu não ligaria. Mas parecia
que qualquer coisa que ele dissesse soava importante.
Uma vez, quando ele saiu para o intervalo para comprar alguma coisa
na cafeteria, eu espiei a mochila dele. A sala estava completamente vazia,
então ninguém ia me ver. Até porque eu não ia roubar nada, é claro. Só
dar uma olhadinha.
Espiei o caderno aberto em cima da mesa, cheio de rabiscos. Ele
tinha desenhado um cacete todo feioso e riscado. Tinha mais um monte
de putarias, como se fosse uma parede de banheiro.
A letra dele era horripilante. Nunca vi letra tão feia. E vi até um erro
absurdo de ortografia. Ele escrevia com muitos erros. Senti uma certa
simpatia por isso, até mesmo amor.
Sinceramente, o caderno era tão infantil que parecia ser de um
estudante do primário. Ele desenhou uma boceta e escreveu
“buçetinhah”, com uma seta. Eu ri.
Dentro da mochila havia um monte de páginas de caderno riscadas,
rasgadas e amassadas. Canetas quebradas e até um lápis partido ao meio.
As tampas das canetas estavam completamente mordidas.

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Wanju Duli

Abri outro bolso da mochila. Havia um monte de camisinhas.


Chequei a marca e os sabores. Eu adorei descobrir as marcas que ele
usava e anotei mentalmente.
Vi umas caixas de cigarros. Uma da Marlboro e outra da Camel. Eu
não sabia muito sobre cigarros, mas aquelas não deviam ser marcas
baratas. A família dele devia ser de classe média alta, como a da maior
parte dos alunos daquele colégio, embora a mochila dele fosse um
chiqueiro.
Quando alguém entrou na sala, eu me afastei automaticamente da
mochila. A pessoa que entrou nem reparou em mim.
Não contei nem para Gustavo e Marina que olhei a mochila dele. Se
bem que eu não havia descoberto nada de extraordinário. Ainda assim,
me envergonhei por fazer aquilo. Antes eu criticava as gurias por estarem
invadindo a privacidade de Átila e agora eu estava fazendo o mesmo.
E eu fui ainda mais longe na minha imitação: segui o Lucas num dia
após a aula. Queria ver para onde ele iria. Eu tinha que seguir bem de
longe, pois eu era muito gorda e me destacava na multidão.
Assim que saiu do colégio, Lucas acendeu um cigarro da Camel. Foi
até a esquina e entrou numa farmácia. Eu entrei também.
Ele comprou um desodorante de spray, umas pastilhas de limão e
uma lâmina de barbear. Depois disso, saiu de lá.
Foi até uma banca de revista. Ele comprou uma revista de putaria que
parecia bem cara e que não era Playboy. Eu não sabia bem o que era. Ele
só enfiou na mochila e saiu. Acho que ele também comprou uma bala.
Um Halls ou algo assim.
Ele andou mais um pouco. Esperava que ele não me notasse.
Entrou num fliperama. E ficou jogando pinball. Acho que ficou umas
duas horas lá. Ele tinha tanto dinheiro assim para jogar fora?
Do nada, saiu de lá e entrou num barzinho. Pediu uma cerveja e
bebeu sozinho.
O cara não almoçava? Ele só tinha comido um pastel no intervalo da
aula e depois disso só aquela cerveja. Eu nem mesmo havia almoçado
para segui-lo. Estava morrendo de fome.
Por isso, comprei um churro de doce de leite numa esquina, por um
real. Quase o perdi de vista nesse intervalo.
Ele pegou um ônibus. Peguei também. Mas ele não foi muito longe.

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O Vale do Colosso

Desceu numa parada. Eu o acompanhei. Ele entrou num prédio.


Parecia um lugar legal. Acho que era aí que ele morava.
Obviamente, eu não podia entrar para espiar mais. E fui embora.
Quando voltei para casa, fiquei me perguntando porque tinha feito
aquilo.
A vida de Lucas não era extraordinária. Era comum e monótona,
como a vida de qualquer outra pessoa. Decerto eu não esperava que ele
fosse traficar drogas ou algo assim, certo? Ele era só um burguês
playboy.
Só fiquei surpresa com uma coisa: ele não parecia ter muitos amigos.
Por que tinha saído sozinho? Era normal alguém ir no fliperama sozinho
ou beber cerveja sozinho? Geralmente os estudantes faziam aquilo em
grupo.
Não adiantava segui-lo todos os dias. Imaginei que ele frequentasse
mais ou menos os mesmos lugares. Portanto, eu precisava mudar a
estratégia.
Lucas usava a sala de informática do colégio frequentemente.
Comecei a segui-lo em todos os intervalos. Cada vez que ele saía do
computador eu dava uma espiada no histórico.
Mas aquele sujeito era muito previsível! Só site de putaria. O cara não
tinha mesmo mais nada na cabeça? Me irritei ainda mais quando vi um
site sobre pinball na busca. Ele também logava no e-mail e no Facebook,
mas sempre deslogava depois.
Um mês depois, eu finalmente consegui acessar o Facebook dele. Foi
numa ocasião que ele saiu apressado da sala de informática pois um
amigo o chamou para ir rápido ver um negócio incrível.
E lá estava eu, com acesso irrestrito ao Facebook e ao e-mail dele! Eu
olhei tudo.
Esperava ver um monte de e-mails de Lucas contratando putas ou
falando de putaria com amigos próximos. Mas não havia nada disso.
O e-mail dele era simplesmente coberto de spams. A caixa de entrada
era uma bagunça. Tive o maior trabalho para encontrar coisas que
prestassem.
Eram mensagens inocentes demais e curtas demais. Ele mandava e-
mails mais ou menos assim:

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Wanju Duli

E aí, meu velho


Faz um tempão que não te vejo. Como tá? Bora tomar uma ceva um dia desses?
Falou

Pronto. Nada espetacular. Aquele “meu velho” por alguma razão me


lembrou “O Grande Gatsby”. Mas eu duvidei que ele tivesse lido.
No Facebook havia conversas mais longas. As conversas se dividiam
em dois tipos: aquelas com mulheres eram bem curtas. Ele só tentava
flertar com as gurias de forma bem desajeitada. E desistia rápido quando
elas não queriam. Logo mandava mensagens para outra. O segundo tipo
de conversa era com guris. Essas eram mais longas. Falando de qualquer
porcaria que eu não me interessava.
Pelo jeito não havia nada de interessante a descobrir sobre a vida de
Lucas. As coisas acabavam aí.
Eu não sabia sobre os pais dele. Não sabia se tinha irmãos. O que
pretendia fazer da vida, seus planos futuros. Mas acho que isso eu só
descobriria conversando com ele, que era algo que eu não pretendia
fazer.
Eu sempre acompanhava o Twitter dele. Mas ele só escrevia coisas
sem sentido. Mensagens do tipo: “Cansado”. “Merda”. “Quero cigarro”.
“Aula chata”. “Cacetão”. “Bosta cagada, quero cagar”. “Quero comer
boceta”.
Cada vez mais eu achava que ele agia como um estudante do
primário. Não era possível que ele não fosse capaz de escrever frases
completas.
Segui-lo na vida real e na internet passou a ser um ritual para mim. Eu
sempre tinha esperanças de descobrir alguma coisa nova. Mas isso
raramente acontecia.
Numa ocasião, ele se encontrou com uma guria num barzinho. Eu
me sentei numa mesa próxima e pedi qualquer coisa. Os dois pediram
cervejas e começaram a conversar. A guria era bonita e ria muito. Era
uma negra com um afro muito mais imponente que o meu cabelo
curtinho e discreto.
Dava pra notar que ela tava na dele. Até que os dois saíram do bar e
foram para um muro lá fora se beijar.

60
O Vale do Colosso

E eu fiquei lá, olhando. Lucas beijava de uma forma muito sensual.


Ele segurava o rosto da guria com cuidado. Os beijos eram mais que
ternos. Eram repletos de desejo. Ele passava as mãos no corpo dela, nas
costas, na cintura. Os dois estavam se desejando muito.
Até que saíram de lá. Acho que foram trepar num motel ou algo
assim. Eu não consegui segui-los, pois eles saíram de carro.
Acompanhei tudo pelo Facebook. Dei um jeito de ler as mensagens
deles. Acabei descobrindo a senha de Lucas. Não foi muito difícil. A
senha era “buçeta”. Tive que escrever “boceta” de vários jeitos diferentes
até acertar.
Lucas escrevia coisas muito idiotas para ela. Ele era péssimo em
cantar gurias. “Tu é muito gatinha, morena. Tô te querendo, meu tesão”.
Sei lá, muito feio. Já ela escrevia bem direitinho e era educada.
Alguns dias depois, ela não quis mais saber dele. Só deu tchau, deu
uma desculpa. Disse que começou a sair com outro cara.
Lucas nem respondeu a mensagem dela. Ignorou. Deve ter ficado
ressentido. Mas isso não durou muito, pois no dia seguinte ele arranjou
uma guria branca de cabelos cacheados e que usava uma mini saia tão
curta que dava para ver as nádegas.
Achei essa guria meio feia, mas se Lucas curtia era problema dele. E
não durou tanto também. Dessa vez foi Lucas quem cansou dela.
Cada vez eu achava a vida dele mais sem sal. Acho que eu não queria
estar no lugar dele. Pegava uma guria, enjoava, largava. Que sentido tinha
isso?
No final de uma das aulas, quando quase todo mundo já tinha saído
da sala, Lucas foi até a minha direção. Ele falou comigo pela primeira
vez.
– Vem aqui.
Achei que eu não tinha ouvido direito.
– Quero falar contigo – falou Lucas.
Eu o segui até uma sala vazia. Eu estava muito nervosa. Ele fechou a
porta e me indicou uma cadeira para sentar. Ele sentou-se também,
embora não muito perto.
– Qual é a sua? – ele perguntou, bem direto.
– Quê?

61
Wanju Duli

– Não estou gostando nada disso – falou Lucas – então me fala logo
o que tu quer.
– O que eu quero? – perguntei, que nem uma tonta.
Lucas respirou fundo.
– Tu tá me seguindo – ele disse – já notei há muito tempo. Fiquei
quieto no começo. Mas agora já tá demais. Que é isso?
Eu fiquei quieta.
– Que é isso aí? – ele repetiu – não tô gostando, entendeu?
– Desculpa.
– Vai parar de me seguir?
– Vou.
– OK. Não vai me dizer porque tava seguindo, né?
Eu não respondi.
– Tu tem contato com algum traficante? Com o Bruno?
– Hã? – perguntei, perplexa.
– Esquece – ele disse – me diz uma coisa. Foi tu que entrou no meu
Facebook?
– Eu...
– Entrou, né? – ele me interrompeu – tu tá louca? Que merda é essa?
Eu estava suando. Não conseguia dizer nada.
Nunca imaginei que aquilo pudesse acontecer. Eu estava sem defesas.
– Tu quer me comer? – ele foi bem direto – por que não chegou pra
mim e falou? Tem que fazer essa palhaçada?
Nada de sair uma palavra da minha boca. Lucas já estava cansado.
– Olha, eu não sei o que tu tá planejando – disse Lucas – pensando
bem, não quero saber. Só não se envolve comigo mais, tá?
– E se eu disser que quero te comer? – falei isso antes que eu pudesse
me conter.
Ele me olhou com surpresa. Foi uma expressão tão genuína de
assombro que eu fiquei completamente constrangida.
Então ele tinha dito aquilo de brincadeira. Mas eu levei a sério. Dessa
vez foi ele quem não encontrou as palavras.
– Tu quer? – ele me perguntou, com cuidado.
Mas aquele olhar dele quase me destruiu. Era um olhar quase de
pena, como se ele me achasse feia demais para topar trepar comigo.
Eu fiquei quieta. Ele suspirou de novo.

62
O Vale do Colosso

– Como é teu nome, guria?


– Carmen.
– Então, Carmen... tu quer trepar comigo, é isso?
– Não sei – falei, completamente perdida.
– Não sabe – ele repetiu – mas que porra?
Eu queria sumir dali.
– Eu gosto de ti, é só isso – eu finalmente consegui dizer.
– É só isso – ele repetiu, tentando entender – e aí, o que vem depois?
Quer me comer?
Mas que diabos? Ele não sabia o que gostar de uma pessoa
significava?
Resolvi ser bem clara antes que eu não conseguisse mais falar.
– Queria namorar – falei.
– Namorar sem transar? – ele perguntou.
Ele parecia estar impaciente e com raiva. Isso me incomodou um
pouco. Eu entendi que ele ainda devia estar chateado por eu ter invadido
a privacidade dele. Será que era motivo suficiente para me tratar mal?
Talvez.
– Pode ser sem transar no começo – expliquei – e depois a gente
transa.
– Começo é muito vago. Quanto tempo é isso?
– Algumas semanas ou um mês saindo juntos. Até se acostumar.
– É muito tempo.
– Se a gente transar já no primeiro dia, tu namora comigo? –
perguntei – é que eu sou virgem, então pensei que seria legal esperarmos
pelo menos alguns dias, mas tu que sabe...
– Eu nunca disse que queria namorar contigo – ele me interrompeu.
Eu me calei. Ele só estava me testando? Para se vingar?
– Tu me deseja muito? – ele perguntou – o quanto tu me deseja?
Ele queria escutar. Para massagear seu ego.
– Tô te observando desde o primeiro dia de aula – expliquei.
Mas eu não ia dizer que tinha entrado no colégio por causa dele.
Assim eu ia parecer muito desesperada.
– Tá observando bastante pelo jeito – ele disse – tu já me viu pelado?
– O quê? Não!
– Entendi. Tu quer ver, né? Pois não vai ver.

63
Wanju Duli

Que filho da puta. Ele não entendia mesmo o que namoro


significava? Claro que ele sabia. Ele só estava me torturando.
– Eu não gostei do que tu fez – disse Lucas – se tivesse conversado
comigo primeiro, de boa, podia ser diferente. Mas agora eu não quero
saber. Nunca vou transar com alguém como tu. Muito menos namorar.
Acho fodido isso. Vai ficar controlando minha vida? Odeio guria
ciumenta.
Ele levantou.
– Pode continuar olhando pra mim na aula – ele falou – eu deixo. Só
não olha demais. E não me segue. Não entra na porra das minhas contas.
Entendeu?
– Sim.
– Se fizer uma dessas coisas, a gente vai conversar de novo. E não vai
ser uma conversa legal como hoje.
Ele saiu da sala.
Eu me senti um lixo. Não tive vontade de contar nada para Marina e
Gustavo.
Evidentemente, parei de entrar no Facebook e no e-mail do Lucas.
Eu não o segui mais após a aula ou no laboratório de informática.
Mesmo assim, não consegui deixar de espiá-lo nas aulas e acompanhar o
que ele postava no Facebook e no Twitter.
Estava tudo normal. A vida de Lucas não parecia ter se alterado em
nada com minha intervenção. Era como se eu não existisse. Eu era
apenas um elemento incômodo que tinha sido eliminado.
Conforme os dias passavam, eu me sentia cada vez pior. Marina e
Gustavo me perguntavam o que tinha acontecido. Eu mentia, dizendo
que andava preocupada com minhas notas. Eles tentavam levantar meu
astral, dizendo pra eu não me preocupar.
Eu estava com uma cara tão ruim que até o Átila quis falar comigo
um dia.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntou Átila, preocupado.
Eu não queria enchê-lo com meu problema idiota. Os problemas de
Átila eram muito mais graves e importantes.
Em vez de responder, perguntei:
– Como anda a tua mãe?

64
O Vale do Colosso

– Bem melhor – falou Átila – o tratamento novo já está dando alguns


resultados. Espero que minha mãe possa voltar o quanto antes para o
Brasil, pois estou com saudades.
– Fico feliz por ela – eu falei – e como vão teus irmãos?
– Quanto mais eles crescem, menos trabalho dão – disse Átila – é
essa a tendência. Logo não vou precisar mais trocar fraldas do meu
irmão menor. As coisas vão dar certo. Tenho outro irmão, que apesar de
ainda ser pequeno, também ajuda com as coisas. Somos muito unidos.
– Que legal.
Eu achava legal mesmo. As últimas notas dele já tinham sido
melhores, então parecia que estava tudo dando certo. E ele já estava com
o mesmo rosto redondo de antes. Tinha recuperado os quilinhos.
– Mas e contigo? – insistiu Átila – como vão as coisas?
Resolvi ser sincera com ele.
– Lucas me deu o fora.
– Sinto muito – disse Átila.
– Mas a culpa foi minha.
Contei que eu andava seguindo ele. Átila não se sentiu bem com isso.
Ele já tinha sido seguido também. E já tinham olhado suas mensagens
no celular. Ele sabia qual era a sensação.
– É, Carmen, isso é complicado. Talvez eu fizesse a mesma coisa no
lugar dele.
– Talvez até eu fizesse – confessei – mesmo assim, fiquei triste.
Eu não queria acreditar que o Lucas fosse tão sério. Ele não traficava
drogas? Então por que ele queria ser certinho com as outras coisas?
A ideia de jamais ficar com ele me incomodava. Eu não poderia nem
mesmo beijá-lo um dia.
E esse pensamento começou a me consumir. Eu me senti mal. E
passei a sonhar com ele.
Tive vários sonhos em que eu e Lucas tínhamos um sexo selvagem e
apaixonado. Ambos gostávamos muito.
Mas um sonho em especial foi cruel: sonhei que prendi Lucas. Eu o
amordacei. Baixei as calças dele e o chupei. Depois, sentei nele e
coloquei o pau dele dentro de mim. Fiz movimentos vigorosos até que
ele gozasse.

65
Wanju Duli

Depois eu o soltei. Ele se levantou e alcançou uma barra de ferro.


Bateu com ela na minha cara e eu caí sangrando no chão.
Depois disso, ele deu batidas vigorosas na minha cara até que cada
parte se despedaçasse. Fiquei completamente desfigurada.
Eu acordei com lágrimas nos olhos. Mas também senti minha boceta
molhada.
Eu estava começando a ficar pirada por ele. Não era mais capaz de
não pensar nele.
Contei o sonho apenas para Gustavo. Talvez ele me entendesse.
– Foi um sonho meio forte – disse Gustavo – não foi muito legal.
– Claro que foi péssimo – eu disse – mas não tenho como controlar o
que eu sonho. Já sonhei muita porcaria.
– Eu também. Que tal você falar com o Lucas e perguntar se ele
aceita pelo menos uma trepada contigo? Ele é hetero. Você ainda tem
chance.
– Pelo menos você não deixou ele puto.
Mesmo assim, segui a sugestão de Gustavo ou eu não ficaria em paz.
Lucas riu com meu pedido.
– Não quero – ele disse, simplesmente.
– Nem se eu pagar? – tentei.
Ele riu mais ainda.
– Sai daqui – falou, por fim.
Caralho.
Não sabia que ele era tão orgulhoso.
Mas eu também tinha meu orgulho. Não ia aceitar continuar a ser
humilhada daquela forma. Por isso, era melhor esquecê-lo.
Mas adivinha se eu consegui?
Um dia Lucas perguntou para Marina se ela queria transar com ele.
Ela foi pega completamente de surpresa pelo pedido.
Ela disse que não, em consideração a mim. No entanto, Lucas
insistiu. E ela disse que só treparia com ele se Lucas trepasse comigo
depois.
– Nada feito – disse Lucas.
Mas eles chegaram a um acordo. Lucas sairia num encontro comigo
por um dia inteiro. Contanto que ele decidisse tudo que íamos fazer.

66
O Vale do Colosso

Vi alguma esperança. Se conversássemos bastante, eu poderia pedir


desculpas apropriadamente.
Mas aquele encontro foi um completo desastre.
Lucas caminhou na minha frente o dia todo. Ele não me esperava. E
a gente ficou quieto na maior parte do tempo. Foi bem desagradável.
A gente foi ao cinema ver uma porcaria de filme que ele escolheu.
Aposto que até ele achou ruim. Talvez tenha escolhido um ruim de
propósito para me incomodar.
Depois, fomos tomar cerveja. Mas Lucas ficava indiferente o tempo
inteiro.
– Até quando vai ficar brabo comigo? – perguntei.
– Não sei – ele disse – não decidi ainda.
Ele agia mesmo como uma criança. Estava de mal comigo e ficava
emburrado.
– Não posso tomar cerveja – observei – ainda não fiz dezoito.
– Problema seu.
Ele estava se esforçando para ser rude. Eu já o tinha observado o
bastante. Sabia que ele não era assim. Nunca o tinha visto agir de forma
tão mal educada com uma guria antes.
Em geral, ele era todo amoroso com as gurias que queria comer.
Bem, isso fazia diferença. Ele não queria me comer. Não precisava se
esforçar para ser agradável.
– Se não quer transar comigo por causa da minha aparência apenas
diz logo – falei – não acredito que isso tudo seja apenas porque entrei no
teu e-mail. Tu tá usando isso como desculpa.
– Talvez eu esteja. Mas e daí? Que diferença faz?
– Diz na minha cara então que não gostou de mim. Imagino que até
mesmo tu tenha preferências.
– Não gostei de ti.
– Então por que a gente tá aqui?
– Porque eu quero que tu lembre do que tu perdeu. Sei que sou
gostoso. Só tô brincando com teus sentimentos.
Eu me levantei.
– Vai te foder – eu disse.
– Contigo é que não vai ser – disse Lucas – a não ser que você me
peça com jeitinho. Diga “por favor” e me chame de “senhor”.

67
Wanju Duli

Eu fui embora.
Foi só naquele momento que me recordei do que Marina disse: “ele é
uma pessoa ruim”. Eu começava a sentir um pouco disso.
Mas Marina teve que transar com ele por causa do encontro. Depois
disso, eu e Gustavo perguntamos ansiosamente como tinha sido.
– Nada de mais – disse Marina – ele é meio apressado. Bom de cama,
mas não gosta de preliminares. Não gosto desse tipo de guri que só
pensa em si no sexo e não pensa no prazer da guria.
Sempre acreditei que no fundo Lucas era uma boa pessoa. Que aquilo
tudo era só pose. Mas não era. Ele era genuíno: um filho da puta por
dentro e por fora. Ele não saía batendo nas pessoas, não tinha tendências
violentas. Mas ele sabia ser cruel de uma forma mais sutil.
Isso me machucou. Ainda assim, não consegui esquecer dele.
Foi então que uma coisa completamente inesperada aconteceu.
Sabrina, a guria que vivia com sono, veio falar comigo.
– Tu tá triste – ela disse – não sei o que aconteceu, mas tenho todas
as respostas para os teus problemas.
Eu já tinha ouvido falar que ela era meio esquisita. Ela mexia com
esoterismo, espíritos e algo do gênero. Eu não ligava muito para religião,
mas tinha um pouco de receio de me envolver com esses trecos. O
problema não era se não funcionasse e sim se funcionasse.
Ela me entregou um livro.
– Faz o que tá escrito aqui.
– Tu já leu isso? – perguntei.
– Sim e fiz tudo exatamente como está descrito – informou Sabrina –
funciona mesmo. Eu garanto.
Voltei para casa atônita. Comecei a ler o livro. Parecia uma grande
bosta. Começava assim:

“Problemas amorosos? Quer se sair melhor nos estudos? E que tal um dinheiro a
mais? Temos a fórmula mágica! Basta traçar esses símbolos no seu quarto e chamar
sua fada amiga. A fada amiga resolve os problemas. Porque ela é amiga mesmo. Se
não funcionar, o problema é contigo e não com o livro, tudo certo?”

Sem pensar muito, peguei uma tinta e tracei os símbolos no chão do


meu quarto. Usei a recitação da fada amiga:

68
O Vale do Colosso

“Fada querida, amor da minha vida. Me ajuda, preciso de ti aqui ao meu lado.
Quero um pacto contigo, pacto de morte, sangue e muita dor. Vendo minha alma,
vendo meu corpo, está tudo à venda, é liquidação!”

Mas não aconteceu nada. Fiquei desapontada.


Lembrei que eu precisava oferecer uma gota de sangue. Misturei num
copo com água e mel e bebi metade.
– Fada amiga, pode beber o resto!
Fechei os olhos. Levei um susto, pois quase deixei cair o cálice no
chão.
Mas onde estava o cálice? Abri os olhos.
Diante de mim estava uma criatura cor de carvão. Parecia
completamente humana, mas a sua pele era preta não num tom negro
bem escuro, mas carvão mesmo. Era um cara com dreads negros e
longos. Ele vestia um tipo de manto vermelho e branco. Estava bebendo
meu sangue do cálice.
Eu recuei. Ele não parecia humano. A criatura riu.
– Saudações, Carmen. Muito obrigado por me evocar. O seu sangue
tem um gosto muito agradável. Que quer de mim?
Não respondi. Sempre achei que Sabrina fosse maluca, mas não
tanto.
– Você é uma fada? – perguntei, gaguejando.
– Mais ou menos – a criatura repousou o copo vazio no chão –
alguns me chamam de demônio. Sou algo entre fada e demônio. Posso
fazer tanto o bem quanto o mal. Moro em outro mundo, chamado Vale
da Sombra da Morte.
– Não me parece um lugar muito bom para morar – observei.
– É bom sim. Sou uma criatura chamada colosso.
– Esse é seu nome?
– Não. Eu sou um colosso. É a minha espécie. Meu nome é... difícil
de pronunciar. Que tal dar um nome para mim?
– Kayode – decidi, na mesma hora – é o nome de um personagem de
um livro de uma autora nigeriana.
– Muito bem. E por que me chamou, Carmen? Deve ter um pedido
importante a fazer. Quer dinheiro? Alta capacidade de memorização?

69
Wanju Duli

– Na verdade eu gosto de um cara.


Kayode sorriu.
– Que não te quer – completou Kayode – e você quer transar com
ele.
– Na verdade queria namorar, mas transar já estaria ótimo –
expliquei.
– E o que vai me dar em troca?
– Quais são as opções?
– Um braço, uma perna, sua saúde, sua felicidade, sua memória, sua
liberdade, sua alma... há várias opções.
– Dar a alma parece o menos pior – comentei.
– Na verdade a alma é o preço mais caro e que gera maiores
resultados.
– Então, que seja a alma – decidi – o que acontece depois disso?
– Eu capturo sua alma. Posso devorá-la ou vendê-la no Mercado do
Vale.
– O que vai acontecer comigo quando eu ficar sem alma? – perguntei.
– É diferente para cada um. Há quem se sinta depressivo ou vazio.
Em vida não há muitas consequências. O problema é depois da morte.
Você pode ser uma escrava no Mercado de Almas. Alguns dizem que é
uma punição pior que o inferno.
– Tudo bem – eu disse – não acredito em alma mesmo. E nem em
vida após a morte.
– Excelente – Kayode lambeu os lábios – temos um trato então?
– Pode apostar – falei, sem preocupações.
– Ótimo. Assine aqui, por favor.
Ele me deu um papel e uma caneta. Assinei meu nome.
Kayode me mandou fechar os olhos e abrir a boca. Colocou um tipo
de pastilha na minha boca e me mandou engolir.
No segundo seguinte, eu passei muito mal. Tive uma febre alta, muito
súbita, e vontade de vomitar.
Kayode me alcançou um saquinho prontamente e vomitei nele.
– Seu mal estar pode durar até amanhã – ele avisou – mas depois
passa. E só resta o mal estar mental.
– E o que acontece agora? – perguntei – o que vai acontecer com
Lucas?

70
O Vale do Colosso

– O coração dele vai mudar – avisou Kayode – ele vai tentar resistir.
Mas a alma gera uma magia muito forte. Seu amado vai acabar cedendo
cedo ou tarde.
– Quanto tempo terei que esperar?
– Não sei dizer. Ele pode vir falar contigo amanhã ou daqui um mês.
Não acho que ele vai aguentar mais que isso.
Kayode sentou-se ao meu lado e disse:
– Posso te colocar para dormir para aliviar um pouco a dor
insuportável.
– Por favor – pedi.
Não fui na aula no dia seguinte. Somente à noite eu me senti melhor.
No outro dia, devolvi o livro para Sabrina.
– Deu certo? – ela perguntou.
– Deu – respondi – apareceu uma fada e fiz um pacto com ela. Na
verdade é um demônio. Não sei bem. Ele disse que é um colosso.
– Eu sei. Fiz pacto com um também. Você já visitou o Vale da
Sombra da Morte?
– Não. Por que eu visitaria?
– Pagou com sua alma?
– Sim.
– Então um dia vai querer visitar. No dia em que se arrepender do
pacto e desejar recuperar a sua alma no Mercado.
Mas Sabrina não me explicou mais nada além disso. Eu mesma estava
cansada demais para pedir mais detalhes.
– Por que não veio na aula ontem? – perguntou-me Marina, quando
sentei lá atrás com eles.
– Sei lá – respondi, simplesmente – não tava a fim.
– Lucas também não veio – comentou Gustavo – mas ele veio hoje.
Lucas estava do mesmo jeito de sempre. Pelo visto a magia ainda não
começara a surtir efeito.
Mas eu já sentia seus efeitos colaterais. Sentia cansaço extremo. E um
pouco de tristeza e vazio. Não sabia explicar bem o que era. Só sei que
foi um sacrifício assistir a aula até o fim.
Kayode veio falar comigo à noite outra vez.
Sentou-se no chão do meu quarto. Parecia bem à vontade.

71
Wanju Duli

– Consegui um bom dinheiro com sua alma – ele contou – valia


bastante. Sinta-se orgulhosa.
– Lucas não está apaixonado por mim – garanti.
– Calma. Eu não disse que pode levar algum tempo? Apenas aguarde.
– Não preciso fazer nada?
– Não. A magia é poderosa a esse ponto. Mesmo que pise nele, Lucas
vai correr atrás de você como um cachorro.
– Mas... eu não quero isso. Só queria que ele se interessasse por mim
de maneira normal. Não quero que ele seja meu escravo sexual nem nada
assim. Até acho que se ele virasse esse tipo de pessoa eu perderia o
interesse por ele. O que me encanta em Lucas é sua personalidade. Se ela
for embora, que vai restar dele?
– Você está pensando demais. Não se preocupe. Garanto que irá
gostar dos resultados. Pelo menos por um tempo.
– É esse tempo que me preocupa. Poderei desfazer a magia se eu não
me sentir satisfeita?
– É complicado, mas não vamos falar disso agora – decidiu Kayode –
por enquanto, aproveite para se divertir.
Não ia ser fácil me divertir enquanto eu sentia uma forte exaustão e
tristeza. Eu achava que nem o amor do Lucas iria preencher o vazio
profundo que eu sentia.
Uma semana se passou. Duas semanas. E nada. Eu não sabia o que
estava acontecendo. Minha angústia apenas se aprofundava.
Aos poucos eu via que tinha feito uma besteira. Se bem que eu era
adolescente. Eu sentia a necessidade de fazer pelo menos uma ou duas
grandes bobagens antes dos vinte. Senão, eu acabaria tendo o desejo de
fazer essas merdas quando fosse mais velha. Era melhor cometer os
erros enquanto eu fosse jovem.
Ou talvez aquele argumento fosse uma desculpa que arranjei para
mim mesma, apenas para não admitir que eu tinha tomado uma decisão
sem volta.
Finalmente, Lucas veio conversar comigo. Do nada.
– Tem um tempo?
– Acho que sim – respondi.
Fomos falar reservadamente.

72
O Vale do Colosso

– Lembrei que naquele dia você queria fazer sexo – ele falou – e aí?
Tá disposta hoje?
– Não sei. Pode ser amanhã?
– Tranquilamente.
Mas eu adiei outra vez. Falei que queria só dali uma semana. Depois
aumentei o tempo para duas semanas.
Lucas começou a se aborrecer.
– Se não quer, apenas diz que não tá a fim e não desperdiça meu
tempo.
– É, acho que não tô a fim – resolvi dizer.
E ele se afastou.
– Será que ele vai desistir assim tão fácil? – perguntou Kayode.
Ele estava sentado na escadaria do meu colégio. Eu fiquei
escandalizada. O que as pessoas iam pensar se vissem um cara cor de
carvão com um manto num estilo da Grécia Antiga?
– Tá maluco? – perguntei, preocupada – e se alguém enxergar você?
– Relaxa – disse Kayode – só você consegue me ver. Além disso,
Sabrina sempre está com seu colosso por aí.
– Tem mais alguém nesse colégio que tenha um colosso? – perguntei.
Os olhos amarelos de Kayode brilharam de forma significativa.
– Não vou te contar – ele disse, misteriosamente.
– Contanto que Lucas não tenha um, eu não ligo – decidi.
Alguns dias depois, Lucas voltou a falar comigo.
– Esquece o sexo – ele começou assim – está livre hoje à tarde?
– Estou – respondi.
– Podemos sair juntos?
– Suponho que sim.
E saímos. Fácil assim.
Fomos almoçar no Burger King. E, diferente da porcaria do nosso
encontro anterior, dessa vez Lucas estava disposto a conversar comigo.
– Então... tá gostando do colégio?
Muito estranho da parte dele fazer aquela pergunta. É claro que ele
não ligava pra colégio.
– É razoável – respondi – melhor que meu anterior, que era colégio
público.

73
Wanju Duli

– Eu queria estudar num colégio público, mas meus pais não deixam.
Eles gostam de me torturar. Acham que essa bosta de colégio particular
da elite está me acrescentando alguma coisa. Até parece.
– Pensa em fazer faculdade?
– Claro que não. Detesto estudar.
– Ninguém gosta de estudar em colégios e universidades – expliquei –
mas muita gente gosta de aprender, de adquirir novos conhecimentos.
– Não me interesso nem por uma coisa e nem por outra.
– Pretende fazer o que então, depois de terminar o colégio?
Ele fez uma careta.
– Sei lá! – ele exclamou – você parece meus pais falando. E meus tios.
Todo mundo se mete na minha vida. Por que é tão importante assim o
que vou fazer?
– Não disse que é tão importante – observei – só estamos
conversando...
Ele se acalmou um pouco. Deu uma mordida no sanduíche.
– Está certo – ele falou, de boca cheia – não pensei ainda no que vou
fazer e nem estou preocupado. Acho que vou pegar qualquer emprego.
Pode ser um fodido, não ligo. Não tenho tanto amor assim por dinheiro.
Minha família tem boas condições financeiras, mas nunca achei que isso
significa grande coisa. Uma casa grande dá mais trabalho pra limpar.
Posso comprar cigarros mais baratos depois. Por que preciso de um
emprego “respeitável”? Posso baixar a minha classe social e ser parte da
casta dos pobres. Por que não?
– É, por que não? – concordei – também não tenho grandes
ambições. Não decidi se vou fazer faculdade. Não sou tão exigente assim
em relação a emprego. Ser garçonete parece legal, principalmente se eu
trabalhar num lugar com comida boa. Como esse.
– Deve ser legal trabalhar em fast-food, né? Ou melhor, deve ser um
saco, mas sempre sobra rango. O pessoal desperdiça muito. Comida é o
principal pra viver, então nada melhor que trabalhar no ramo dos
alimentos.
Eu mal podia acreditar que nossa conversa estava fluindo. Lucas
parecia realmente interessado em bater um papo comigo.
Jamais imaginei que tivéssemos coisas em comum. Então nem eu e
nem ele ligávamos muito para faculdade. Éramos pessoas simples, que

74
O Vale do Colosso

nos contentávamos com as pequenas coisas da vida. Um emprego


normal por aí seria o bastante para viver.
Eu não queria mesmo uma vida centrada em dinheiro e status.
Comentei com Lucas como era curioso ver como as pessoas ficavam
ansiosas hoje em dia tentando subir na escala social. Como ligavam para
prestígio, como se fosse o centro da existência.
– Há muitas diversões gratuitas por aí – falou Lucas – é verdade que
eu torro a mesada que recebo dos meus pais em coisas supérfluas.
Imagino que quando eu começar a ganhar meu salário eu seja mais
econômico. Meus pais disseram que assim que eu terminar o colégio vou
ter que trabalhar. Eles não percebem que isso pode fazer com que eu
acabe rodando de novo.
– Não quer trabalhar? – perguntei.
– No fundo, eu acho que quero. Vai ser bom quando eu ganhar
minha própria grana, mesmo que seja bem menor que minha mesada.
Não vou precisar dar satisfações. Vou viver como quero. Não aguento
mais viver na casa dos meus pais. Eles acabam descobrindo umas merdas
que faço. Eu me sinto mal com isso. Ao mesmo tempo não me sinto.
Eles não precisam se meter tanto na minha vida.
– Não me importo de morar na casa dos meus pais – contei a ele –
mas também quero minha independência financeira. Só que ainda não
tenho a menor ideia do que vou fazer!
– Não se preocupe – disse Lucas – também não sei. A diferença é que
não dou a mínima. Provavelmente vou tentar vários empregos diferentes
até me encontrar.
– Pretende casar e ter filhos?
Ele riu.
– Não, eu não pretendo casar e ter filhos – ele respondeu,
tranquilamente – gosto da minha liberdade. Casar pode ser que eu acabe
casando num dia distante quando eu for capaz de amadurecer o
suficiente para querer isso. Mas filhos jamais. Já tem tanta criança
infestando o mundo.
– Nós precisamos de crianças infestando o mundo para nos sustentar
na aposentadoria – expliquei.

75
Wanju Duli

– Mas não há nenhuma lei que me obrigue a ser eu a gastar dinheiro


com o idiota que vai trabalhar no meu lugar quando eu estiver inválido.
Que outros façam isso por mim. Não sou trouxa.
– Tem certeza que você já não fez um filho por aí? – perguntei –
acidentes acontecem.
– Tenho. Só trepei com três minas até hoje. Uma vez com cada uma e
usei camisinha. Então não há perigo.
Eu quase engasguei com minha Coca.
– Você só transou três vezes até hoje? – perguntei, incrédula – pelas
histórias que eu escuto, você já trepou com todas as mulheres da cidade
pelo menos umas cem vezes.
– Bom, eu tive minha primeira transa com quinze – ele explicou –
depois fiquei um tempo afastado dessa atividade porque eu ainda tava
meio puto com a guria. Sei lá porquê. Só depois eu me acalmei. Eu
enfrentei um momento de crise de nunca mais confiar numa mulher. Eu
só estava sendo ridículo.
Eu não sabia se ele estava me dizendo a verdade, mas por que ele ia
mentir? Ele também me contou que nunca ficou em coma alcoólico.
Que aquilo era só um monte de mentiras. E ele também nunca tinha
usado heroína e crack. Só maconha e umas coisas mais leves.
Uma parte de mim ficou desapontada. Mas no fundo fiquei um
pouquinho feliz. Poderia ser problemático namorar um viciado em
heroína. Aquilo não era brincadeira.
Ele só fumava como uma chaminé. Isso era verdade. E bebia
bastante até, todos os dias.
– Uma vez eu vi um monte de camisinhas na tua mochila – observei.
– Você abriu minha mochila?
– Desculpe.
Mas ele não pareceu assim tão brabo com isso.
– Eu gosto de ter camisinha. Porque nunca se sabe.
Então ele não era tão experiente na cama, apesar da fama. Na
verdade, poderia se dizer que ele era bem inexperiente. Três vezes não
era praticamente nada. Um adolescente de 13 anos já podia ter trepado
mais vezes que ele, que tinha 19.
– Você gostaria de ir para outro mundo? – perguntei.
Ele foi pego de surpresa com minha pergunta.

76
O Vale do Colosso

– Está perguntando se penso em suicídio?


– Nada disso – falei – se houvesse outro lugar por aí, tipo um mundo
de fantasia, você gostaria de viver lá para ter grandes aventuras?
– Você está perguntando se eu gostaria de escapar da realidade.
– Algo assim. Porque há momentos em que ela pode ser dura e
assustadora.
– Eu não penso assim – falou Lucas – gosto da vida. Gosto da minha
cidade. Só não gosto dos palhaços que inventaram esse ridículo sistema
de ensino. Por mim, nem terminava o ensino médio. Só vou terminar
para deixar meus pais felizes.
– A vida é simples – concordei – mas acho que o ser humano é um
pouco masoquista. Ele inventou um sistema para se aprisionar. Afinal,
por que a gente precisa passar 12 anos da nossa infância e adolescência
sentados em cadeiras dentro de uma sala? É deprimente. A gente não
precisa de nada assim.
– Se ao menos aprendêssemos algo de útil – disse Lucas – coisas que
realmente servem para a vida, como cozinhar, costurar e fazer primeiros
socorros. Em vez disso, tudo que temos é conhecimento fragmentado
que nos torna dependentes do sistema. Então precisamos de outras
pessoas para fazer por nós coisas simples como cozinhar. Esses são os
serviçais. Você vê como as pessoas almoçam fora hoje em dia?
– É, né – zombei – é meio hipócrita a gente estar falando isso.
– Sim, sou um escravo do sistema – concordou Lucas – estou todo
estragado. Mas eu queria saber cozinhar. Lá em casa a gente tem uma
cozinheira. Acho um desperdício. Preferia que meus pais tivessem me
ensinado a cuidar de mim. A cozinhar, lavar minhas roupas, limpar a
casa. Agora sou apenas um inútil imaturo com empregados. Mas não
importa. Nos próximos anos vou aprender tudo que é necessário para eu
ter uma vida simples. Tudo que a escola não me me ensinou. A escola só
me mostra o caminho de pertencer a elite e ensina que ser pobre é ruim.
Grande merda. Bando de cretinos.
Sempre achei que Lucas fosse burro. Mas ele não era. Pelo menos
tinha seus princípios.
– Eu não quero isso pra minha vida – ele decidiu – ter empregados
que cozinham pra mim e limpam minha casa. É claro que se eu tiver um
bom emprego e muita grana vou me sentir tentado a gastar grana com

77
Wanju Duli

idiotices nesse sistema imundo. Por isso, prefiro ter um emprego de


merda. Prefiro ser o serviçal. Assim não me sinto tentado a ser o vilão
capitalista.
– O vilão capitalista? – eu segurei o riso.
– Não me entenda mal – falou Lucas – pois eu também odeio
socialismo, comunismo, anarquismo, todos os ismos. Para ser sincero,
não entendo nada disso. Odeio tudo. Só queria que me deixassem em
paz. Lavo meus pratos, fumo um cigarrinho e estou feliz.
– Não sente vontade de viajar?
– Não... por que eu teria vontade de viajar? Isso dá o maior trabalho.
Detesto arrumar malas.
– Não tem interesse em conhecer outros lugares, outras culturas?
– Para isso é só olhar a internet ou ler livros. Não preciso torrar uma
grana só pra pisar num chão de cor diferente. Os seres humanos são
iguais em toda parte. Esse tesão de viajar é só mais uma enganação de
consumo criada para alimentar o sistema capitalista. Eles querem que
você acredite que só vai ser feliz e relaxar viajando, comprando o carro
do ano, almoçando em restaurante caro. Mas essas pessoas mal
conhecem a própria cidade. Não visitaram todos os lugares possíveis
nem mesmo em seu próprio bairro. E não sabem que comida feita em
casa é sempre mais gostosa, mais limpa e mais saudável.
– Você se preocupa mesmo com saúde? – perguntei, duvidando.
– Eu sou jovem, ainda posso destruir meu corpo. Quem sabe daqui
uns dez anos eu comece a me preocupar. Tanto faz.
– Para onde já viajou?
– Viajo com meus pais todo ano nas férias de verão para algum lugar
– ele explicou – sempre achei um programa de índio. A gente geralmente
visita os estados mais próximos, como Santa Catarina e Paraná. Também
vamos para o interior, como Gramado e Canela. Até já visitei o Uruguai.
– O que achou de lá?
– Tranquilo. Mas não sei espanhol e não tenho interesse em saber.
Uma vez só a gente foi pra Europa, visitar os mesmos lugares chatos que
todo mundo vai. Sinceramente, eu não achei graça nenhuma. Parece um
museu morto.
– Eu gostaria de conhecer a Nigéria – contei – porque meus autores
favoritos são de lá.

78
O Vale do Colosso

– É uma viagem cara – informou Lucas – você só consegue


promoções para os destinos mais populares. Mas se é esse mesmo seu
sonho, vá em frente. Não precisa dar satisfações pra ninguém. Não sou
contra viajar. É apenas algo que não faço questão de fazer. Já enjoei.
Assim como enjoei de pepinos e azeitonas.
– Você acredita em Deus?
Ele me fitou surpreso.
– Estou impressionado com sua capacidade de mudar de assunto –
observou Lucas – não sei se acredito em Deus. É como viajar: não tenho
nada contra. Mas já fui obrigado a frequentar a igreja na infância, então
enjoei. Mas não sou contra quem tem religião. Eu entendo o que leva
uma pessoa a buscar isso.
Nenhum de nós tinha grandes ambições, nem no mundo material e
nem no espiritual. Não estávamos tentando nos tornar mais ricos, mais
sábios ou mais bondosos. Eu também não queria ter filhos. Não
pretendia ir para a faculdade. Ou melhor, depois daquela conversa tive
menos vontade ainda.
Só queria estar ao lado do Lucas, se isso fosse possível. Eu tinha
vendido minha alma para conseguir isso, caramba! Então o resto não
importava.
Ele comia um monte. Quase tanto quanto eu. Não sei como não
engordava. E ele pelo jeito só comia porcaria, apesar de seus discursos
bonitos sobre saúde.
Quando terminamos, ele disse:
– Vamos no fliper?
– Pode ser – falei, embora não estivesse muito interessada.
“Sim, vamos lá no fliper fortalecer o capitalismo, já que você é contra
o sistema” pensei, divertindo-me. A postura dele em relação a parar de
torrar grana em coisas supérfluas era como a minha com a dieta: “Vou
começar na segunda-feira”; e nunca começava.
– Tem um aqui perto.
– Eu sei.
– Sim, porque você já me seguiu até lá.
Não falei nada.
Mas até que foi divertido. Começamos no pinball. Ele era muito bom
e não tinha muita graça assisti-lo, porque ele não perdia nunca. Quando

79
Wanju Duli

foi minha vez de jogar, acabou bem rápido. Ele me deu algumas dicas,
mas não adiantou muito.
– Com o tempo dá pra pegar o jeito – ele falou.
Ele ficava muito feliz quando jogava aquilo. Eu me senti contagiada
com a felicidade dele.
Jogamos outras coisas também. Até que ficamos bastante tempo lá.
Ele pagou tudo.
Quando jogamos um jogo de carro e ele capotou o carro dele, Lucas
riu tanto e de forma tão sincera que senti meu coração disparar de
paixão.
– Viu isso? – ele me mostrou, com um grande sorriso – eu sou muito
podre nessa merda. Sou um baita dum panaca.
– Não é não – falei, maravilhada com o sorriso dele.
– Tu já jogou aquele de tiro?
Claro que não. Eu nunca tinha jogado nada lá dentro. E fomos lá.
Pegamos duas pistolas e começamos a matar zumbis.
A alegria inocente que ele sentia era quase infantil. Como se fosse
uma criança com seus brinquedos. Só estávamos explodindo uns
monstrinhos. E daí?
Mas para ele era importante. Então era importante pra mim também.
– Bah! Tu matou aquele! – berrou Lucas, de repente.
Nem vi que tinha matado. Mas ele achou o máximo. Sei lá porquê.
Ainda com a pistola na mão direita, ele me estendeu a mão esquerda.
– Muito obrigado pela ajuda, caçadora. Os cidadãos da cidade
agradecem.
– Ora, foi um prazer ajudar – respondi – e se não fosse por ti, juro
que eu estaria perdida.
Estendi a mão também, ainda segurando minha pistola. Nesse
momento, ele me puxou para perto de si e me abraçou.
Ainda segurando a pistola de matar zumbis, ele se inclinou e me deu
um beijo na boca. Um beijo totalmente apaixonado, bem daquele jeito
que eu vi ele dar naquela guria. Ele definitivamente sabia beijar. Disso eu
não tinha a menor dúvida.
Quando afastamos os lábios, ele ainda me segurava. Ainda olhava pra
mim. Eu estava com um rosto de quem estava no céu.

80
O Vale do Colosso

Meu coração estava explodindo no peito. Eu sentia o cheiro dele. O


gosto dele. O toque. Isso tudo. Não parecia ser real. Foi muito melhor
do que jamais imaginei.
Voltamos a nos abraçar. Ele sussurrou no meu ouvido:
– Quer ir lá em casa? Não tem ninguém lá agora.
Senti um arrepio. Senti um calorão nos genitais. Eu tava nervosa pra
caralho. Aquilo estava mesmo acontecendo?
Sim, se fosse mesmo real seria incrível. Mas eu precisava acordar.
Aquilo era um truque. Eu não podia me deixar levar.
– Lucas... eu preciso te contar uma coisa.
– O quê? – ele perguntou, apreensivo.
– Teu amor por mim não é real – eu disse, de uma vez – fiz um pacto
com um demônio. Ele te enganou. Mudou teu coração, teu desejo. Nada
disso é teu.
– Mas que diabos?
– Eu sei. Kayode, tem como aparecer para o Lucas? Acho que
somente assim ele vai acreditar.
Eu sabia que Kayode estava por perto assistindo tudo. Ele se
materializou diante da máquina do fliperama, somente para nós.
Lucas deu um grito e um salto para trás. Estava morrendo de medo.
– O que é isso?! – ele exclamou – um zumbi?
Kayode riu. Deu trabalho contar toda a história para ele, mas eu
estava determinada a fazer isso.
Relatei com detalhes. Kayode confirmou. Lucas ficou assustado pra
caralho.
– Isso que eu tô sentindo é mentira? – perguntou Lucas.
– Tanto o sentimento quanto o desejo sexual – explicou Kayode – eu
forjei tudo. Os seres humanos são muito fáceis de manipular.
– E agora? – perguntou Lucas, desesperado – como vou saber o que
é verdade ou mentira?
– Ninguém nunca soube disso, camarada – falou Kayode – mas se
quiser desfazer a maldição, sugiro que faça você mesmo um pacto com
um de nós.
Lucas olhou feio para mim.
– Estava tentando me enganar? – ele perguntou.
– Não é bem isso... – eu disse.

81
Wanju Duli

– Ei, seu feioso! – berrou Lucas.


– Meu nome é Kayode.
– Não tô nem aí pro teu nome, seu corno – disse Lucas – chama aí
um bicho igual a você que irei fazer um pacto imediatamente. Se é guerra
o que Carmen quer, ela vai ter.
Kayode deu uma gargalhada. Pegou um celular esquisitíssimo e fez
uma ligação espiritual. Em poucos minutos, surgiu uma linda mulher
com pele cor de carvão e manto metade branco, metade laranja.
– Quem é o tolinho que deseja fazer um pacto comigo? – ela
perguntou, com uma voz sensual.
– Sou eu – informou Lucas – e irei vender a minha alma também.
Minha alma não deve valer porra nenhuma, então tanto faz. Sempre
gostei de viver perigosamente.
– Qual é teu desejo?
– Acho mais divertido amaldiçoar Carmen em vez de romper minha
maldição. Então quero que ela se apaixone por outra pessoa. Vejamos...
que tal Natália?
– Nem pensar! – exclamei, nervosa.
– Vou ser bonzinho – decidiu Lucas – vai se apaixonar por Átila,
como todas as meninas acéfalas da nossa sala.
– Que merda – eu disse.
– Que seja um aleatório então – ele disse – que tal seu amigo
Gustavo?
– Ele é um amigo – falei, nervosa – isso seria injusto.
– Você parece bem alterada com essa perspectiva – observou Lucas –
então, que seja por ele. Pode fazer isso, bruxa horrorosa?
– Eu tenho um nome, seu cavalo – disse a moça de pele em tom
carvão – mas você é incapaz de pronunciá-lo. Então dê um nome para
mim.
– Zumbi – decidiu ele, meio sem pensar – vai atender ao meu
pedido?
– É claro.
Ela deu-lhe um murro no estômago e puxou-lhe a alma pela boca.
Lucas desmaiou na hora.
– Que a magia seja feita – declarou Zumbi.
E desapareceu junto com Kayode.

82
O Vale do Colosso

Abaixei-me para ajudar Lucas. Mas ele continuava desacordado. Só


foi despertar depois de alguns minutos.
– Não encosta em mim – ele disse, afastando-me.
– É difícil resistir?
– Muito difícil. E logo você vai experimentar o quanto. Prepare-se.
E ele deu um sorrisinho antes de ir embora.
Eu estava ferrada.
Uma semana depois, eu não conseguia mais parar de pensar em
Gustavo. Era uma tortura vê-lo no colégio. Foi uma paixão quase
incontrolável.
Eu não parava de observá-lo. Cada um de seus movimentos. Notei
seus belos lábios. Seus cabelos. Sua voz. Tudo nele era perfeito.
– Como vai, Gustavo? – Lucas aproximou-se só pra implicar – que tal
ir lá em casa pra gente ver vídeos bem sujos de putaria?
– Parece legal – disse Gustavo, contente.
A partir daí, Lucas passou a convidar Gustavo frequentemente para
sua casa. Só pra me deixar morrendo de ciúme.
Gustavo, é claro, estava todo contente. Me relatava tudo com
detalhes.
– Eu dormi na casa dele! – contou Gustavo, sonhador – Lucas tem
um pijama azul muito sexy.
E ele não dormiu na casa dele somente uma vez. Aquilo se tornou
rotina. Lucas pensou que estava me torturando, mas ele nem imaginava o
que estava fazendo. O jeito que estava sendo olhado.
– Lucas ficou de pau duro uma vez enquanto dormia – contou
Gustavo, quase morrendo de felicidade – eu vi! Não consegui parar de
olhar.
Marina apenas ria. Ela já tinha transado com Lucas, mas sabia o que
apenas um pau duro por baixo da roupa significava para Gustavo.
– Acha que ele pode estar interessado por ti? – perguntou Marina,
com entusiasmo.
– Quem sabe? – disse Gustavo, esperançoso – será que eu tento me
aproximar?
– Cuidado – recomendou Marina – se ele for mesmo hetero, pode ser
que ele fique com raiva. Você sabe como são esses heteros imbecis que
possuem insegurança sobre a própria masculinidade.

83
Wanju Duli

– Eu sei – disse Gustavo.


Eu fiquei com medo. Estava com receio que Lucas socasse Gustavo
ou algo assim. Lucas não era disso. Mas podia ser que aquele choque
desencadeasse uma reação indesejada.
Por isso, eu mesma decidi conversar reservadamente com Lucas antes
que a situação piorasse.
– Tem uma coisa que eu preciso te contar sobre o Gustavo – falei – o
quanto antes.
– E o que seria? – Lucas perguntou, duvidando da importância da
minha informação – seu ciúme ardente?
– Ele é gay.
Lucas ia responder. Abriu a boca, mas não saiu nenhum som.
– Ele é o quê?
– Ele é homo, cara – falei para Lucas – e é completamente
apaixonado por ti. Ele tava olhando pro teu pau duro enquanto tu
dormia.
Lucas cambaleou. Acho que ele esperava qualquer coisa, menos isso.
– Eu vou matar aquele filho da puta – disse Lucas.
– Calma – falei.
Mas será que no fundo eu não queria ver o circo pegar fogo? Eu sei
que não devia ter falado sobre Gustavo estar olhando para o pau dele.
Mas eu não resisti.
No final, Lucas não bateu em Gustavo. Mas foi bem mal educado
com ele. Gritou bastante. Foi bem desagradável.
– Nunca mais aparece na minha frente, ouviu?
Após dizer isso, Lucas saiu. Gustavo estava se sentindo muito mal.
– Merda – disse Gustavo.
Senti uma pena desesperada dele. Eu queria confortá-lo. Mesmo que
a culpa tivesse sido minha. Mas aquela descoberta acabaria acontecendo
cedo ou tarde. Então era melhor assim.
Gustavo acabou chorando. Fui com ele lá pra fora e dei-lhe um
ombro amigo. Mas é claro que eu queria muito mais que isso. Meu
coração batia forte de amor.
– Brigado, Carmen.
– Sei como se sente – falei – já fui rejeitada pelo Lucas antes.
– Acho que tu é mesmo a única que me entende.

84
O Vale do Colosso

A gente se abraçou. Mas no meio do abraço tentei dar-lhe um beijo


na boca.
– Opa! – exclamou Gustavo, se afastando – que foi isso?
– Perdão – falei.
– Tu tentou me beijar? – ele perguntou, com os olhos esbugalhados.
– Acho que tentei.
– Tu gosta de mim? Não gosta do Lucas?
– É complicado.
Apresentei Gustavo para Kayode. Acabei chamando Marina também.
Contei a eles toda a história. Até meu beijo com Lucas no fliperama.
– Não estou disposto a vender minha alma para um demônio nem
ferrando! – exclamou Gustavo, decidido – eu sou cristão.
– Eu não tenho religião, mas isso parece perigoso – falou Marina – tô
feliz com minha vida. E não quero forçar Átila a gostar de mim. Depois
de tudo que aconteceu com ele, seria crueldade.
Os dois eram razoáveis. Diferente de mim e de Lucas.
– Mas que tal apresentar esse bicho para Átila? – sugeriu Marina –
talvez ele possa curar a mãe dele...
– É mesmo! – exclamei – que ideia genial.
Eu corri até a biblioteca. Sabia que o encontraria lá.
– O que está lendo? – perguntei, curiosa, quando entrei.
– “As Aventuras de Hucleberry Finn” – informou Átila.
– Esse livro não é meio racista? – perguntei.
– Vários são – disse Átila – você nunca leu “Coração das Trevas” de
Joseph Conrad?
– Sim – respondi – o Chinua Achebe fez várias críticas fortes contra
esse livro.
– Não vou deixar de ler um livro apenas porque é racista – disse Átila
– pelo contrário, preciso conhecê-lo para tecer bons argumentos.
– Está certo. Átila, como vai sua mãe?
– Infelizmente ela teve uma piora súbita – disse Átila – mas ainda
tenho esperanças.
– E se houvesse um modo de curá-la? – perguntei – você estaria
disposto a vender sua alma para isso?
Ele escutou com atenção o que eu tinha a dizer.

85
Wanju Duli

Átila já tinha vendido o corpo em busca daquela cura. Eu sabia que


ele também estaria disposto a vender a alma.
– Sei que minha vida é preciosa, pois é um presente de Deus – falou
Átila – mas eu não vou valorizar o amor que tenho à minha própria vida
acima do amor que tenho pela minha mãe. Estou disposto a pagar o
preço para salvá-la.
O homem cor de carvão que apareceu diante de Átila explicou-lhe
com detalhes como o processo funcionaria.
Átila deu a ele o nome de Atreyu. Achei bem previsível.
Após um mês, a mãe dele foi milagrosamente curada. Átila não
conseguia se conter de felicidade. Ao mesmo tempo, estava morrendo de
nervosismo com a proximidade do vestibular. O ano estava chegando ao
fim.
No entanto, nas próximas semanas a falta da alma começou a nos
deteriorar.
Eu soube que Sabrina já estava no hospital há algum tempo. Fui a
próxima a ir, seguida de Lucas e Átila.
Ficou muito claro a causa. Iríamos pagar aquela merda com nossas
próprias vidas. O filho da puta do colosso tinha mentido: a falta da alma
também afetava nosso corpo e não só a mente.
Pelo menos o pedido de Átila era sério. Eu não sabia o que a
misteriosa Sabrina havia pedido. Mas eu e Lucas tínhamos apenas
brincado com fogo.
Naquela noite, nós quatro combinamos de realizar um ritual.
Estávamos internados no mesmo hospital e nos encontramos
secretamente. Um mais fraco que o outro. Cada qual cedeu uma gota de
sangue.
Sabrina nos mostrou outra página do livro.
– O único jeito de recuperarmos nossa alma é viajarmos para o Vale
da Sombra da Morte e procurar pelo Mercado de Almas. Esse ritual irá
nos transportar para lá.
Enquanto isso, os quatro colossos observavam com atenção tudo que
fazíamos; com extremo interesse.
Juntamos as mãos. Senti meu corpo desaparecer pouco a pouco.
Quando acordei, não estava mais no meu mundo. Estava deitada no
chão, junto com os outros três.

86
O Vale do Colosso

Um ar frio. Uma torre. Uma estátua colossal. Eu não queria


realmente acreditar. Sequer tive tempo de me maravilhar ou me
assombrar. Eu estava morrendo. Por algum motivo, eu não queria
morrer num mundo desconhecido. Era melhor eu fazer o que tinha que
ser feito e cair fora dali o quanto antes.
– Depressa – chamou Sabrina, que havia despertado antes de todos –
precisamos achar o Mercado das Almas.
Estávamos os quatro de pijamas. Corremos por lá somente de meias
ou pantufas.
O Mercado ficava num lugar muito alto chamado Torre de Marfim.
Átila quase não se conteu de felicidade ao ouvir o nome.
– Para recuperarmos nossas almas, teremos que responder algumas
perguntas – explicou Sabrina – que somente o dono da alma saberá.
Quando entramos na torre houve escuridão total. A porta se fechou
por trás de nós. Eu senti medo.
Eu me sentia tão fraca que caí no chão. Ajoelhei-me.
Um fantasma se enrolou ao meu redor, com uma risada fria. Eu gelei.
– Qual é teu nome, criança?
– Carmen DaSilva – respondi, de imediato.
– Quem é que tu amas?
Quase respondi “Gustavo”. No entanto, por mais que a magia fosse
forte em mim, havia outra parte do meu ser que ainda se recordava da
verdade.
– Lucas – respondi.
– Qual é o teu maior sonho?
Como é que eu ia saber? Eu não me conhecia o suficiente para saber
disso.
Foi então que me recordei da conversa que tive com Lucas. Eu e ele
não tínhamos grandes ambições. Só queríamos uma vida simples. Nada
de grandes aventuras. Apenas um amor pacífico.
– Viver com Lucas – contei – num lugar simples, uma vida simples.
Só a gente se amando.
– Tu desejas desfazer a maldição?
– Eu desejo.
– Mas isso tem um preço, assim como a devolução da tua alma. Tu
deverás retornar a este local daqui vinte anos. E entregar teu primeiro

87
Wanju Duli

filho para nosso mundo. Ele jamais poderá sair daqui. Permanecerá
aprisionado para todo o sempre.
– Eu não pretendo ter filhos – informei.
– Ah, pois tu terás. Ou morrerás.
– Se é assim, não desejo desfazer a maldição.
– Então morrerás em poucos dias. Sem tua alma, não aguentará por
muito tempo.
Foi então que entendi. E, em minha loucura, aceitei o preço do pacto.
Peguei minha alma de volta. Saí da torre.
Meus três colegas me aguardavam. Todos eles tinham feito a
promessa de entregar o primeiro filho dali vinte anos.
– Tu desfez a magia de salvar tua mãe, Átila? – perguntei.
– Eu não desfiz – ele respondeu – mas eu aceitei a promessa dos
vinte anos. Afinal, se eu morrer agora minha mãe ficará arrasada. Então
de que adiantará tê-la salvado? Para uma mãe, não há maior dor que
perder um filho. Mesmo que ela tenha outros cinco.
– Mas tu vai ser pai – lembrei – e vai ter que sacrificar teu filho.
– Não irei sacrificá-lo – disse Átila – ele apenas vai viver nesse
mundo. E é um lugar bonito.
Apesar do nome, não era uma terra assim tão feia. Estava meio
nublado, mas havia alguma natureza e torres altas. Exatamente como
numa história de fantasia.
Imaginei que Átila realizaria um tipo de desejo secreto ao colocar o
filho lá. Diferente de Lucas, acho que Átila sempre sonhou em viver
num mundo de fantasia. Porque Lucas já tinha sua vida ideal em nosso
mundo, com todas as suas diversões, enquanto Átila se sentia quase
como um prisioneiro, em meio aos seus muitos deveres e à vida séria que
levava. Seu único subterfúgio era os livros, enquanto Lucas já realizava
seus pequenos sonhos dia após dia.
Tanto que Lucas nem estava preocupado.
– Para a sua felicidade, desfiz a merda do feitiço – ele me informou –
eu só o fiz para brincar. E não ligo em trazer a porcaria de um filho para
cá. Nem queria ter filhos mesmo e não vou ficar ressentido em jogá-lo
aqui.

88
O Vale do Colosso

Já Sabrina mantinha um profundo silêncio. Ninguém sabia qual era o


desejo dela e se ela o tinha desfeito ou não. Mas ela deu a entender que
retornaria ali com um filho dali vinte anos, como nós.
E, vinte anos depois, nós retornamos. A estátua colossal ainda estava
lá, imponente. Tão magnífica quanto um Colosso de Rodes.
A vida de cada um de nós estava completamente diferente. Muita
coisa tinha mudado. No entanto, cumprimos nossa promessa e chegou a
hora decisiva.

89
Wanju Duli

Capítulo 2

– Acha que ele estava falando sério?


– Sobre o quê?
– Sobre o filho.
Eu estava jogando vôlei com Marina no ginásio. Ela adorava vôlei.
Era muito boa nisso e até fazia parte de um time que havia no colégio.
Por outro lado, eu não me considerava nem um pouco esportista e
me cansava facilmente.
– Devia estar – foi minha resposta – mas e daí? Vinte anos é muito
tempo.
– Não acho – respondeu Marina – parece muito tempo agora. Mas
daqui vinte anos você não vai querer entregar teu filho de jeito nenhum.
Vai preferir morrer a isso.
– Pais são assim, não é? O que eu acho muito estranho. No dia a dia
parece que os pais não se importam tanto conosco e só querem nos
aborrecer.
A Marina ficava muito linda com aquele rabo de cavalo alto. Seus
cabelos negros balançavam para lá e para cá quando ela jogava. Seus
trajes de esporte também eram atraentes: shorts e blusa sem mangas
colados no corpo. Exaltavam suas curvas: as coxas grossas e seus seios
bem delineados. Os tênis brancos completavam o visual perfeitamente.
“Ah, se meu corpo fosse bom assim, Lucas também ia desejar me
comer” eu não podia deixar de pensar. Era impossível não invejá-la. Eu
não conseguia deixar de lembrar que ela conhecia o corpo do Lucas.
– Eu acho que essa história está muito estranha desde o começo –
opinou Marina – essa tal de Sabrina sempre foi meio esquisitinha, se quer
saber minha opinião. Onde foi que ela conseguiu esse livro? Ninguém
perguntou pra ela?
– Que eu saiba não – respondi.
– Se eu gostasse de livros do jeito que tu e o Átila gostam, eu ficaria
no mínimo curiosa para saber de onde saiu essa coisa que levou vocês
para outro mundo.

90
O Vale do Colosso

– Também quero saber onde ela conseguiu o livro – eu disse – mas


não me sinto muito à vontade para conversar com Sabrina toda hora.
– Tu tem medo dela?
Pensei um pouco antes de reponder.
– Não é bem medo. Talvez seja algo como respeito? Ela só fica quieta
num canto. Dá impressão de que ela não gosta muito que falem com ela.
Você entende?
– Sim.
– Vou perguntar qualquer dia sobre o livro, mas sinto que agora não
é o momento.
Os peitos de Marina não eram muito grandes, mas eles balançavam
graciosamente quando ela pulava para pegar a bola. Achei que Lucas ia
gostar de ver isso.
Se bem que Lucas não era apaixonado por Marina. Ele simplesmente
ficou a fim de transar com ela um dia, do nada, e fez isso. Certo?
Ou será que eu estava enganada? Se ele só tinha trepado mesmo com
três pessoas até hoje, será que significava que ele poderia sentir algo
especial pela minha amiga?
Quem sabe ele só fingisse que não ligava em trepar com qualquer
uma. No fundo ele podia preferir transar com pessoas por quem ele
tivesse algum sentimento.
– É curioso que tu tenha receio de conversar com a Sabrina, mas
consiga conversar com Átila livremente – observou Marina – eu sinto
meu rosto queimando quando me aproximo dele.
– Bom, eu também não consigo conversar livremente com Lucas –
expliquei – mas eu vejo Átila apenas como o carinha popular que as
outras gurias gostam. Não estou exatamente inclusa nesse grupo de
gurias. E eu e ele temos interesses em comum, que são os livros.
Infelizmente não tenho nada em comum com o Lucas.
– Mas tu me contou sobre a conversa de vocês. Lembra que tu disse
que vocês dois têm visões parecidas sobre a vida? Não têm grandes
ambições.
– É, pode ser – respondi – mas é uma semelhança muito vaga.
Preferia que nós tivéssemos um hobby em comum.
– Será que eu devia começar a ler livros de literatura clássica? –
Marina sorriu.

91
Wanju Duli

– Posso te indicar alguns – eu disse – o Átila adora o Michael Ende.


Que tal ler Momo? Acho que tu vai gostar.
Marina fez uma careta.
– Não, esquece. Não vai funcionar. Ler é muito chato.
– Ler é chato quando o livro é chato – expliquei.
– Mas a maior parte dos livros são chatos.
– Talvez tu apenas não tenha identificado o tipo de livro que tu gosta
– expliquei – tem gente que adora ler biografias. Outros só leem livros de
religião, política... ah, já sei! Que tal ler livros de esportes? Pensa em
alguém que joga vôlei que tu admira e procura a biografia.
Só que minha sugestão não deu certo. Marina não quis mais saber de
falar de livros. Resolveu mudar de assunto.
– Me conta mais sobre aquela parada de almas.
– Qual parada? – perguntei.
– Vocês quatro venderam as almas de vocês para um demônio – ela
disse isso como se não fosse nada.
– Pois é, acho que a gente vendeu – também respondi como se não
fosse nada.
– Mas alma não é algo, tipo, importante?
– Dizem que é, para quem acredita que isso existe. Mas como alguém
vai achar importante algo que não existe?
– Sejamos pragmáticas – disse Marina, pronta a dar um discurso –
independente de alma existir ou não, vocês venderam suas almas. E
foram parar no hospital depois disso. Isso, segundo o método científico,
não é um forte indício de causa e efeito?
– Se tu diz – falei, em tom de troça.
– Pensa, por exemplo, no caso dos átomos.
– Átomos. Sei.
– Ninguém nunca viu um átomo.
– Tô sabendo.
– Mas cientificamente as evidências de que os átomos existem são
fortes por causa dos experimentos.
– Não acho que seja uma comparação válida – opinei – o demônio
pode ter nos enganado. Como os gênios malignos de Descartes.
– Não quero saber de Descartes – Marina revirou os olhos – não
posso levar a sério alguém que põe em dúvida a própria existência.

92
O Vale do Colosso

– Mas é aí que está. A fada parece real o suficiente para mim. O Vale
da Sombra da Morte também me pareceu muito real. Mas o que ele
chama de “alma” soa como um embuste.
– Por que diz isso?
– Porque não acho que alguém possa vender a alma assim tão
facilmente. Se alma existir mesmo... e muito menos pegá-la de volta após
tê-la vendido!
– O que acha que foi vendido então?
– Não sei. Mas não acho que tenha sido uma mera brincadeira.
Aquela fada é muito suspeita.
– É uma fada ou um demônio afinal?
Eu não sabia. Dizer que era um “colosso” não parecia significar nada.
Era um habitante espiritual do Vale.
Agora era eu que estava me cansando da conversa.
– Se está assim tão curiosa pelo Vale, por que não vai para lá?
– Não acho que curiosidade seja motivo suficiente para eu me
envolver em algo tão grandioso.
– Te parece grandioso?
– Um pouco...
– Então me fala sobre o corpo do Lucas – falei, subitamente – ele
parece achar que curiosidade é motivo suficiente para se envolver
contigo.
Marina entortou a boca.
– Cara... não sei como tu gosta dele, na boa. Ele não é uma pessoa
séria.
– Tu só te envolve com caras sérios?
– Não é isso. Mas ele não sabe o que quer.
Eu ri.
– Quer dizer, profissionalmente? Tu só te envolve com caras que
tenham planos bem definidos de carreira, como o Átila? Ou só com
caras que tenham dinheiro?
Ela pensou um pouco.
– Planejo fazer vestibular para fisioterapia – ela me informou – e
também tenho planos de ter dois filhos. Acho que meu retorno
financeiro será bom como fisioterapeuta. Então, sendo bem sincera, pra

93
Wanju Duli

mim está fora de questão casar com um cara que mal consegue terminar
o ensino médio.
Fingi estar chocada. Abri a boca, em tom de reprovação.
– Que feio, Marina! Os guris dizem que as gurias só pensam em
dinheiro. Achei que fosse um estereótipo. Mas aí está você, a encarnação
viva dessa lenda!
– Ué, não tem muita gente que só namora quem tem boa aparência?
Se essa exigência é socialmente aceitável, por que devo ser reprovada por
procurar estabilidade financeira no meu futuro marido? Para mim isso
importa mais que aparência.
– Quer dizer que tu passou a gostar menos do Átila quando decobriu
que ele vem de família pobre? – perguntei.
– Não tem nada a ver – defendeu-se Marina – ninguém escolhe
família. E ele é muito esforçado e tem planos sérios para o futuro. Eu o
admiro muito por isso.
– O que tu chama de “planos sérios?” – perguntei – qualquer um que
escolha um caminho que não seja universitário não tem planos sérios na
tua visão?
– Há cursos técnicos que dão um retorno financeiro superior a alguns
cursos universitários, dependendo da escolha – disse Marina – mas o teu
Lucas não planeja fazer nem mesmo curso técnico! Ele disse que, se
fosse por ele, não terminaria nem o colégio! Eu afirmo, sem medo de
errar, que ele não é sério e que tu devia pensar duas vezes antes de
continuar correndo atrás dele.
– O meu Lucas – repeti aquilo, nas nuvens.
Marina riu de mim. Nem liguei.
– Não acha que tu está sendo sexista em dizer que é um problema
que o homem não se preocupe em ganhar dinheiro, mas que está tudo
bem que eu, como mulher, não me preocupe com isso?
– Não pretendo casar contigo, então pra mim não é um problema se
tu vai ganhar dinheiro ou não – brincou Marina – por que não faz, pelo
menos, faculdade de letras, já que gosta de livros?
– “Pelo menos” – respondi – como se faculdade de letras fosse fácil!
Qualquer faculdade é difícil pra caralho e exige muita dedicação. Mas
agora vamos parar com esse assunto chato e me conta logo como é o
corpo do Lucas.

94
O Vale do Colosso

Marina até errou a direção da bola quando eu mencionei novamente


esse assunto. Tive que ir lá buscar. Quando voltei, ela ainda estava
pensativa.
– Tu sabe que eu só aceitei trepar com ele para que ele saísse contigo,
né?
– Sei disso. Mas se arrependeu depois?
– Não me arrependi. Não sou do tipo que considera uma trepada
como se fosse um casamento. Já transei com uns carinhas que eu nem
era muito a fim. Mas, claro, tenho minhas preferências e não teria
comido o Lucas de graça.
– Para logo de enrolar e me fala sobre o pau dele.
Acho que eu disse isso meio alto. Algumas pessoas que estavam na
quadra entreouviram nossa conversa e riram.
– Caralho – eu falei – tá, pode relatar, mas em voz mais baixa.
– Quem disse que eu vou relatar? – falou Marina.
– Ah, qual é! Somos amigas.
– Eu não ia curtir que um cara com quem saí contasse pros amigos
sobre o formato da minha boceta ou dos meus peitos. Mesmo que fosse
só pra amigos íntimos. Se bem que minhas partes são bem
proporcionadas... mas é pessoal!
– Sei que é pessoal. Por isso estou morta de curiosidade.
– Tu vai acabar descobrindo um dia se te esforçar bastante.
– Nem mesmo depois de vender minha alma eu consegui esse feito!
– Mas isso porque tu estragou tudo.
Era verdade. Eu me senti culpada no último instante. Talvez eu fosse
boazinha demais. Eu devia ter comido o Lucas e só depois contado pra
ele que eu tinha feito um pacto com uma besta. Ou devia ter mantido
segredo sobre isso pra sempre.
Mas, me conhecendo, eu ia me sentir culpada cedo ou tarde. Não ia
querer viver daquele jeito. Seria insuportável. O peso na consciência me
traria uma infelicidade muito maior do que a felicidade que eu sentiria de
estar com o carinha que eu gostava.
Eu não era como Natália.
Por falar nisso, Natália andava insuportável ultimamente.
– Sabe de uma coisa? – disse Marina – acho que no fundo foi uma má
ideia contar para o Átila sobre essa magia estranha com almas. É claro

95
Wanju Duli

que ele está disposto a sacrificar qualquer coisa pela mãe dele. Isso foi
quase suicídio. Às vezes o Átila devia ser um pouquinho mais egoísta.
Ele merece isso.
Eu concordava.
Nós cansamos de jogar vôlei e fomos guardar a bola. No quartinho
de guardar as coisas de educação física, encontramos Lucas e uns amigos
dele procurando uma boa bola para jogar futebol.
Ele me ignorou completamente quando me viu. Na verdade, ele
pareceu fazer força para não olhar na minha direção e mostrar que estava
me desprezando abertamente.
Quando saímos de lá, comentei com Marina sobre isso.
– Ele ainda deve estar chateado por você tê-lo enganado – disse
Marina.
– Foi só um beijo – justifiquei.
– Você não entende isso. Não foi pelo beijo. Foi pela honra.
– Honra?
– É. Os guris têm essa coisa.
– E as gurias não têm? – perguntei, achando graça.
– Sim, mas os guris acham que são um cavaleiro medieval e que são
conquistadores de gurias. Que podem pegar todas elas na lábia. Ser
enganado por uma guria deve ter ferido o orgulho desse machista filho
da puta.
– Lucas não é machista – defendi-o.
– Mas você não disse que ele não é filho da puta – Marina sorriu.
E esse foi nosso momento “Ahá!”. Eu não contestei.
Na minha humilde opinião, ser um tantinho filho da puta tornava
Lucas um pouco mais sexy. Claro, eu só queria que ele tivesse pose de
filho da puta, não que fosse um de verdade. Eu me sentia atraída quando
ele se portava como um bosta, mas queria que em seu interior ele fosse
um cavalheiro.
Complicado, né? Mas Lucas era um ser humano normal e não um
anti-herói cheio de sex appeal extraído de um livro de literatura.
Ele não era meu Holden. Até porque ele nunca foi meu para
começar.
Quando Marina foi embora, resolvi continuar na quadra, sentada no
banco. Para admirar Lucas de longe, enquanto ele jogava futebol.

96
O Vale do Colosso

Lucas e outros colegas meus se reuniram a uns guris do segundo ano


e se dividiram em times: os com camisa e os sem camisa. Sim, totalmente
clichê, mas era ainda um método efetivo para identificar times.
E, para meu total deleite, Lucas ficou no time dos sem camisa. Eu
quase morri quando ele tirou a própria camisa e jogou longe. Era a
primeira vez que eu o via sem. Em todas as fotos do Facebook ele usava
camisa. Aquelas fotos que eu já havia olhado mil vezes. Eu precisava de
mais fotos para contemplar. Mas eu ainda não era uma stalker tão cara-
de-pau para tirar fotos dele escondida por aí.
Vou ser totalmente sincera: eu não olhei para nenhum dos outros
guris. Por mais bonitos que alguns deles fossem, nem me importei que
alguns estivessem sem camisa. Eu só tinha olhos para o Lucas.
Eu sabia que o Lucas não fazia musculação e nenhum esporte
regularmente. Por isso, ele não tinha músculos salientes ou um corpo
bem definido. Mas pelo menos ele não era magrelo. Ele tinha braços
fortes e tinha até uma barriguinha. Um pouco de pelo no peito. Pelo
embaixo do umbigo também, formando uma linha.
Eu estava hipnotizada. Senti meus genitais em fogo. Cara, ele era
tudo!
Queria poder passar as mãos no peito dele. Nas costas. Abraçá-lo.
Senti-lo. Beijá-lo. Consumi-lo por inteiro.
Reparei até que era possível ver um pouco da cueca. A calça que ele
usava estava um pouco abaixada. Vi até a marca da cueca escrita atrás.
Acho que se alguém tivesse medido meus batimentos cardíacos
naquele momento, teria pensado que eu estava infartando.
Eu era só pura felicidade. Todo meu ser era alegria e prazer. Eu
queria ficar ali para sempre.
Principalmente quando ele começou a ficar suado. Corpo inteiro
pingando suor. Meu, eu queria aquele cara para mim. Eu estava ficando
louca.
Será que eu não podia vender minha alma de novo?
– Bem, você até pode. Mas vou garantir que dessa vez não consiga
mais recuperá-la.
Levei um susto. Kayode estava sentado logo ao meu lado no banco.
Ele bebia um refrigerante com canudinho.
– Onde pegou esse refri? – perguntei.

97
Wanju Duli

– Na máquina – ele apontou – não sei como vocês, humanos,


aguentam beber essas porcarias. Tem gosto de merda.
Mas ele continuava bebendo.
– Também acho que tem gosto de merda – concordei – mas quando
se acrescenta sal ou açúcar até merda fica com gosto bom.
– É verdade.
– Mas agora me diz o que tu tá fazendo aqui! – exclamei – agora que
Lucas fez um pacto com um de vocês, é óbvio que não posso mais
tapeá-lo tão facilmente.
– Eu sou mais forte que a mocinha com quem seu amado fez o pacto
– esclareceu Kayode – e aí? Quer trepar com ele e me dar sua alma?
– Eu não caio mais nessa – falei – dessa vez vou tentar conquistá-lo
de verdade. Quero que ele me ame sinceramente, não de mentira. Você,
no máximo, pode me auxiliar com detalhes pouco comprometedores.
– Estarei curiosíssimo para saber sobre esses “detalhes pouco
comprometedores”.
Ele deu um sorrisinho malicioso e desapareceu.
Decidi que não iria fazer mais pactos até saber mais sobre o livro.
Mas saber sobre o livro significava falar com Sabrina.
Por que será que eu estava com tanto receio de falar com Sabrina
ultimamente? Talvez por ela andar mais sombria do que de costume?
– O que tu tá fazendo aqui?
Quase caí para trás. Lucas estava bem na minha frente, sem camisa,
perguntando isso. Com a bola de futebol numa das mãos. Pelo visto o
jogo tinha terminado.
– Quem ganhou? – perguntei.
– Se estivesse prestando a mínima atenção no jogo, teria percebido
que nosso time já tinha feito dois gols logo no início – falou Lucas – a
gente ganhou de cinco a zero daqueles pernas de pau do segundo ano.
Tu nem viu o jogo, né? Nadinha.
Não respondi.
– Tu tava olhando pra mim, né? E tá olhando agora.
Eu desviei os olhos. Queria que aquilo acabasse logo. Eu mal
conseguia me mover. Respirei fundo.
– Por que fica tão nervosa quando fala comigo? Naquele dia, no
Burger King, estava tão falante...

98
O Vale do Colosso

E quem disse que eu consegui responder? Fiquei muda. Tentei dizer


algo, mas as palavras não saíam.
– Presta atenção: a gente não vai trepar. Eu não gosto de ti. Tu
ouviu?
– Ouvi – consegui dizer, finalmente.
– Então me deixa em paz. Para de me seguir.
– Eu só queria te dizer que...
– O quê? – ele perguntou, de modo ríspido.
– Falei com a Sabrina sobre o livro. Queria te contar de onde veio –
menti.
– E quem disse que eu estou interessado?
Que merda. A situação só estava se tornando cada vez pior.
– Quer transar de novo com a Marina? – perguntei a primeira coisa
que saiu na minha cabeça.
– E se eu quiser, o que tu tem a ver com isso? – ele perguntou, me
interrompendo.
Dessa vez eu me calei.
– Guria idiota.
Ele disse isso e foi embora.
Eu me senti um lixo. Queria, sei lá, chorar, sair daquele colégio
naquele mesmo dia.
Mas eu não fiz nada disso.
Acho que eu me consolei vendo a situação do Átila. Porque ele sofria
muito mais que eu e ainda assim aguentava tudo. Então eu ia aguentar
também.
Era meio injusto encontrar consolo na miséria alheia, mas eu não
estava agindo assim por sentir um tipo de prazer sádico no sofrimento
do Átila. Ao contrário, eu me compadecia do sofrimento dele, via como
ele era forte apesar de tudo e também encontrava forças em mim.
A mãe dele havia retornado ao Brasil após um tratamento
relativamente curto. Estava bem melhor que antes desse tratamento, mas
vez ou outra tinha umas recaídas. E cada vez que a mãe dele tinha
qualquer coisinha, o Átila já ficava nervoso pra caralho.
– Como tá a tua mãe, Átila? – perguntou um amigo dele naqueles
dias.

99
Wanju Duli

– Ela pegou uma gripe – disse Átila, com tristeza – tô meio


preocupado.
E Natália nunca deixava de zombar dele.
– Para de falar na tua mãe, cara! – disse Natália – mas que coisa chata.
Esse teu Complexo de Édipo tá muito forte. É normal que gurias achem
fofo que um homem se preocupe com a mãe, mas preocupação
excessiva é coisa de maricas.
– Coisa de maricas – Gustavo repetiu para nós – essa guria é
inacreditável.
– Ela é uma pessoa que não faria falta nenhuma no mundo –
observou Marina.
– Nenhuma mesmo – reforcei – mas tenho pena da mãe dela, que é
tão boazinha. Acho que ela não gostaria de perder a filha.
E, apesar de dizer tudo isso, ela estava cada vez mais apaixonada pelo
Átila. Na verdade, o termo “paixão” era inapropriado. Ela estava
completamente obcecada por ele.
Desde que os dois fizeram sexo, Natália ficou maluca. Ela vivia
dizendo em altas vozes que não conseguia parar de pensar no pau do
Átila. Que tinha saudades do cheiro do pau dele, do gosto, e só de pensar
nisso já ficava doidinha.
Átila, obviamente, não gostava nem um pouco quando ela falava
essas coisas quando ele estava presente. Ele ficava sem saber o que fazer.
No começo ele ficava encabulado, mas ultimamente ele andava irritado
com isso. Dizia que era falta de respeito. Eu concordava.
– Átila, quem te chupa uma vez nunca mais esquece – disse Natália –
será que eu não posso fazer de novo? Só uma chupadinha? Por
favorzinho?
Átila ignorou-a. Nem olhou na direção dela.
– Quero apertar tuas bolas de novo – prosseguiu Natália, certamente
achando que estava arrasando nos comentários – esses teus ovos cheios
de pentelho. Quero fazer omelete com eles.
– Natália, se você continuar com isso, eu vou me queixar na direção –
ameaçou Átila.
– Uuuhhh! – fez Roxana, a amiguinha de Natália – que criancinha!
Não sabe se defender sozinho.

100
O Vale do Colosso

Eu não sabia que Átila era orgulhoso, mas naquele dia eu descobri
isso. Só por causa da implicação de Roxana, ele garantiu que não
envolveria o colégio naquilo. Iria resolver sozinho a situação.
– Sem pais e professores envolvidos nisso, OK? – falou Natália.
– Não vou fazer isso só porque tu pediu – explicou Átila – e sim
porque, pensando bem, não quero perturbar outras pessoas por causa da
sua infantilidade.
Natália se aproximou e abraçou-o por trás. Depois disso, ela colocou
a mão entre as pernas dele, por cima da calça.
Átila levantou-se e saiu da sala. Ultimamente Natália achava que
podia fazer o que queria, só porque eles tinham transado uma vez.
Marina queria matá-la.
Nos dias que se seguiram, Átila levava um susto cada vez que Natália
chegava perto. Ele reagia dando um salto para trás cada vez que ela
ameçava encostar nele. Ela dava risinhos e se sentia muito poderosa. As
amigas dela riam junto.
– Tá com medo de mim, Átila querido? – ameaçou Natália.
Ele não respondia. Apenas se afastava, com um olhar frio.
– Eu quero deixar ele puto – contou Natália – quero fazer ele gritar
comigo.
E ela conseguiu. E de um jeito muito fácil. Em vez de tentar colocar a
mão dentro da calça dele ou fazer algo ousado assim, ela fez algo que o
deixou ainda mais irritado: riscou os cadernos e livros dele.
Era uma estrátegia muito comum de bullying. Mas Natália fez aquilo
com um gosto feroz. Ela até picou em pedacinhos o exemplar de “A
História Sem Fim” que Átila carregava na mochila para todos os lados,
como se fosse uma Bíblia. Acho que de vez em quando ele lia trechos
para se motivar.
Ao contemplar sua mochila e seu material em pedaços, sua primeira
reação foi de choque. Achei que ele fosse chorar.
Até que Natália entrou na sala.
– O que foi, Átila? – ela provocou – está sentindo pena de sua mãe
gorda que vendeu o corpo para toda a vizinhança para conseguir
comprar o material escolar que eu destruí?

101
Wanju Duli

Levei um susto. Átila avançou até Natália em passos rápidos e


segurou-a violentamente pelo casaco. Achei que ele fosse bater nela.
Nunca vi uma expressão tão mortal no rosto de alguém.
Até senti medo. E não fui a única. Aquela expressão no rosto do Átila
teria assustado até o Diabo.
– Que merda, Natália! O que é que tu fez, caralho? O que é que tu
quer, porra?!
Natália fitou-o assustada e tremendo. Ela não estava fingindo. Ela
ficou totalmente aterrorizada.
No segundo seguinte, Átila respirou fundo e se acalmou. Ele largou-a.
Natália apoiou-se na mesa, tentando se recuperar do susto.
– Não se preocupe, não vou te bater – ele disse – minha mãe me
ensinou que nunca devo bater numa mulher. Mas se tu fosse homem, eu
juro que não teria me segurado, nem que eu fosse expulso.
Ele continuou fitando-a por alguns segundos. Natália estava tão
chocada que nem se atreveu a fazer uma piadinha com isso.
Átila disse que ia ao banheiro lavar o rosto para se acalmar e saiu de
lá.
Após essa cena, todos ficaram comentando. Eu vi o rosto de Lucas.
Até mesmo ele estava com os olhos esbugalhados, contemplando a cena.
Se foi um espetáculo até mesmo para ele, só consigo imaginar o que
Natália sentiu.
– Mas que porra? – Gustavo disse para nós – quem era aquele?
– Não era o Átila, com certeza – garantiu Marina – não o Átila que eu
conheço.
Não consegui dizer nada. Realmente, aquela não podia ser a mesma
pessoa. De onde aquela fúria tinha vindo?
Pensei em conversar com o Átila no final da aula, mas não tive
coragem. Acho que fiquei com um pouco de medo dele depois de tudo.
Depois daquilo, Natália passou vários dias sem se aproximar do Átila.
Nem olhava para ele. Não fazia piadinhas.
Ele, por outro lado, continuava mudado. Não estava mais brabo, mas
se portava de forma anormalmente séria. Só chegava na aula e não
cumprimentava ninguém. Só fazia suas tarefas e saía. Não tirava dúvidas
com os professores.

102
O Vale do Colosso

Às vezes ele arrastava a cadeira com força ao se levantar. Continuava


com a mochila toda rasgada. E usando os cadernos rasgados.
Só umas duas semanas depois daquilo que tive coragem de conversar
com ele.
– Pode falar? – perguntei, quando as aulas do dia tinham terminado.
Ele fez que sim. E fomos conversar num local mais afastado. Nos
sentamos num banco e olhamos a paisagem do pátio do colégio.
– Como tu tá? – perguntei.
– Sei lá – ele respondeu – e tu?
– Mais ou menos.
Mas eu não queria aborrecê-lo com meus problemas. Não queria
contar que Lucas estava me desprezando.
– A Natália ainda tá te atormentando? – perguntei.
– Não.
– Ela diz que gosta de ti e só quer te ver sofrer. Não entendo isso.
– Eu também não – falou Átila – ela é mimada e está acostumada a
ter tudo. Ela pode até ter comprado meu corpo com dinheiro uma vez,
mas isso não vai funcionar duas vezes. Não sou trouxa. E ela nunca vai
comprar meu coração com esse método. Então tudo terá sido inútil.
– Você se arrepende? Desculpa, não precisa responder. É uma
pergunta muito pessoal.
– Nunca vou me arrepender de ter salvado minha mãe – disse Átila –
mesmo que seja arrogante da minha parte falar em “salvar”. Só Deus é
Senhor da vida e da morte.
– Mesmo assim tu vendeu tua alma.
– Foi um ato impensado – disse Átila – não quero mais me envolver
com aquele mundo estranho e com as magias de Sabrina.
– E daqui vinte anos, tu pretende dar teu filho para o demônio?
– Vinte anos é uma vida. Não quero pensar nisso.
Realmente. Naquele tempo, quando tínhamos dezessete anos, vinte
anos parecia ser mesmo uma vida. Mas nem imaginávamos como o
tempo voaria.
– Achei que tu queria escapar para um mundo fantástico – eu disse –
e que o Vale da Sombra da Morte seria uma oportunidade para
recomeçar tua vida.

103
Wanju Duli

– Também achei isso, por um breve momento. Mas não importa o


quão maravilhoso seja o outro mundo, não quero deixar esse lugar antes
do tempo. O céu pode ser um lugar perfeito, mas nem por isso vou
arrancar minha vida. O meu céu é com minha família e com meus
poucos amigos.
Eu achava estranho que ele tivesse poucos amigos, mesmo sendo tão
popular. Era a mesma coisa com Lucas.
– Os verdadeiros amigos são realmente poucos – disse Átila – sempre
será assim. Mas família é pra sempre.
– Você poderia viver sua História Sem Fim, com Atreyu – lembrei.
– Não – ele disse – eu não quero. Minha História Sem Fim é aqui,
pois é onde há o amor.
– Não pode ficar com sua mãe para sempre – eu lembrei – um dia vai
formar sua própria família.
– Eu sei. Mas... acha que depois do que Natália fez, eu estou animado
para ter um amor apaixonado? É como se todos os livros de literatura
fossem uma mentira. Amor romântico se tornou menos que lixo para
mim.
– Não é bem assim.
– Racionalmente eu entendo que não é. Mas emocionalmente, agora
sinto que sexo é algo sujo e que romance é uma farsa.
Era como se Natália houvesse quebrado Átila completamente, por
dentro e por fora. E não era isso que ela queria?
Nos dias que se seguiram, Natália voltou a fazer seus comentários
desagradáveis. Começou a perguntar se Átila se masturbava e como fazia
isso.
– Qual pornô tu assiste? – perguntou Natália.
– Não assisto – respondeu Átila.
Ele tinha aprendido que se a ignorasse ela repetiria a mesma pergunta
pelo menos cinquenta vezes. O único jeito de se livrar dela era
respondendo.
– Vou fingir que acredito – disse Natália – mas tu te masturba, né?
– Não – respondeu Átila.
– Mentiroso! – rosnou Natália – pode ser até que não se masturbe
hoje por causa da tua religião e consiga segurar a libido se focando nos
estudos. Mas tu com certeza já se masturbou antes, né?

104
O Vale do Colosso

Átila não respondeu. Ela deu um sorrisinho satisfeito.


– Sabia – ela continuava sorrindo – em que tu pensou para gozar?
Ele estava ficando maluco. Naquela semana, Átila foi até a direção,
solicitando trocar de colégio. Mas no final ele mudou de ideia. Ele sabia
que Natália poderia ir atrás dele de qualquer forma. Não havia para onde
fugir.
Foi então que eu vi Átila conversando com Sabrina. Ele falou comigo
depois disso.
– Algumas vezes eu queria que Natália morresse – ele me
confidenciou – eu sei que é horrível pensar nisso. Mas eu não aguento
mais. Está se tornando insuportável.
Todos viam com os próprios olhos como era absurdo. Natália era
uma pessoa ruim, que não faria nenhuma falta no mundo. Quem
discordaria daquilo?
Mas o ápice ocorreu numa ocasião em que Natália perturbou Átila
demais. Eu fiquei sabendo da história depois que a merda já tinha
acontecido.
Eu desconfiava que aquilo poderia acontecer um dia. Natália queria
trepar com Átila e ele não queria. Se não conseguia comprá-lo com
dinheiro, era óbvio que ela ia dar um jeito de as coisas acontecerem
conforme sua vontade.
Ela trancou Átila numa sala junto com suas duas amigas Marjana e
Roxana. Natália tinha planos de que tudo ocorresse de forma
determinada. Devia ter sido assim no começo. Mas o final saiu de seu
controle.
Os três, por algum motivo, tinham ido muito mais cedo para o
colégio. O lugar estava praticamente vazio.
Quando eu cheguei, a ambulância já estava lá. Marina e Gustavo me
fitavam com o rosto completamente sem cor.
– O cérebro saiu – disse Gustavo – parecia uma pasta.
– Parecia massinha – acrescentou Marina.
– Ou macarrão.
Eles estavam completamente obcecados em descrever o cérebro em
todos os detalhes.

105
Wanju Duli

– A cara abriu ao meio – explicou Gustavo – quer dizer, a testa. O


couro cabeludo estava arrancado. E o cérebro estava todo derramado.
Acho que a cabeça bateu numa pedra.
– Parecia um filme – disse Marina – não parecia real.
– Eu acho que ela não merecia morrer assim, tão rápido – disse
Gustavo – ela merecia ter morrido com muita dor.
– Eu concordo – confirmou Marina – a Natália era um monstro
miserável. Merecia ser torturada.
Eu não parava de ouvir aquilo por todos os lados. O quanto ela
merecia aquilo. Eu não via ninguém chorando. Acho que vi até gente
rindo. Apontando para o sangue no chão.
Eu não vi Natália. Só vi um corpo coberto por um pano. Nunca vi
algo assim: estavam todos felizes. Só faltou cortarem um bolo e abrirem
uma champanhe.
Foi um espetáculo: todos olhando e tirando fotos. Com os celulares
em punho. Ninguém cochichava discretamente. Eles berravam
animadamente, como animais.
– Viu o cérebro, que legal?
– Olha lá o sangue!
– Ela morreu mesmo? Que divertido! Nem vai ter aula!
Eu não fiquei chocada. Não fiquei triste. Por alguma razão, fiquei
apática.
Gustavo e Marina não estavam exatamente felizes, mas quando
conseguiram parar de comentar sobre a merda do cérebro, eles me
fizeram o favor de esclarecer a situação.
– Ninguém sabe ao certo o que aconteceu – contou Gustavo, de
forma sombria – e acho que ninguém nunca vai saber.
Os fatos eram os seguintes: Natália estava morta. Marjana e Roxana
iam sair do colégio. Elas não foram expulsas. Simplesmente saíram.
– E Átila? – perguntei, preocupada.
– Isso é o mais estranho – disse Gustavo – ele está um túmulo.
Havia várias hipóteses.
A teoria mais popular era que Natália tinha cometido suicídio. Afinal,
com dezessete anos já havia passado um pouco da idade do suicídio dos
adolescentes, mas ainda estava no prazo. A época conturbada do

106
O Vale do Colosso

vestibular era popular para isso. Embora fosse mais popular após os
resultados do vestibular.
Mas Natália não parecia ligar muito para o vestibular ou sofrer
depressão. Ela era, sem dúvidas, muito perturbada. Talvez a psicóloga
dela tivesse alguma pista, mas ninguém falou nada a respeito.
A segunda teoria mais popular era que Átila tinha matado Natália. Ele
a havia empurrado da janela abaixo. Era um prédio alto e uma queda de
lá podia ser fatal.
Ainda havia quem dissesse que Marjana e Roxana tinham matado
Natália. Talvez as duas juntas. Ou apenas uma delas. Ou quem sabe os
três juntos?
Alguns também não descartavam a hipótese de um acidente. Natália
acidentalmente caiu da janela. Mas por quê?
Marjana e Roxana foram bem diretas em seu testemunho: Natália
tinha cometido suicídio. Elas relataram isso sem pestanejar. Não
pareciam tristes ou chocadas, como se falassem de algo muito objetivo e
desinteressante.
E Átila não disse nada. Estava sério.
– Ele pode mesmo ficar quieto? – perguntei.
– Ninguém vai obrigá-lo a falar – disse Gustavo.
Alguns dias depois, Átila confirmou a teoria do suicídio, que já se
tornara praticamente um fato. Mas ele não confirmou de forma enfática.
Ele apenas balançava a cabeça concordando quando alguém perguntava,
como se desse razão às outras duas gurias.
Quando investigaram o corpo e a sala, os especialistas disseram
mesmo que parecia suicídio.
– Os especialistas – repeti – mas os especialistas são apenas humanos.
– Tem razão – disse-me Kayode – nada mais que humanos.
– Me diz a verdade, Kayode – eu disse – foi um colosso quem fez
isso?
– Por que eu te contaria? – ele perguntou – para acabar com a
diversão? Por que não pergunta você mesma para Átila?
É claro que eu não teria coragem de fazer aquilo. Ele não devia estar
se sentindo muito bem. Tinha presenciado um suicídio. Acabou dando
depoimentos e se ocupando com toda essa porcaria. Uma grande
chateação.

107
Wanju Duli

Tomei coragem e fui falar com Sabrina em vez disso.


– Sabe de alguma coisa?
Eu encontrei Sabrina deitada no pátio, sob uma árvore, pegando sol.
Ela usava um vestido branco de rendas, que ia até o joelho. Um
vestido de alcinha. Parecia estar em outro mundo. Entreabriu os olhos
quando me viu.
– Bom dia, Carmen. Quer brincar de detetive?
– Nada disso – eu falei – quero que seja clara. As criaturas do Vale da
Sombra da Morte foram responsáveis pelo que aconteceu?
– Sinceramente? – perguntou Sabrina, sentando-se – isso me parece
um feito bem humano. É tão improvável que Natália tenha tirado a
própria vida?
– Nem tanto – admiti – mas não quero acreditar nisso. Átila
conversou contigo um pouco antes de aquilo acontecer. Os quatro foram
mais cedo para o colégio naquele dia.
– É verdade. Aonde quer chegar?
Era difícil dizer aquilo.
– Eu acho que Átila matou Natália – eu falei – mas não acho que ele
tenha sido louco de fazer isso com as próprias mãos. Por mais que
tivesse vontade. Por mais que ela merecesse. Acho que ele fez um pacto
com um colosso.
– Não foi isso que aconteceu – disse Sabrina – você é muito lenta.
– Então tu sabe – eu disse.
– Vá lá conversar com Átila, Carmen.
– Quem é você? – perguntei, nervosa – onde encontrou aquele livro?
O que foi que você pediu para o colosso da primeira vez que vendeu sua
alma?
Ela colocou o dedo na frente da boca e fez “Shhhh!”.
– Eu te odeio.
– Quê?
– Essas tuas perguntas – explicou Sabrina – eu detesto todas elas.
Eu desisti. Tomada de coragem, fui falar com Átila.
Ele estava péssimo. Parecia meio morto.
– Pode falar?
Ele fez que não.

108
O Vale do Colosso

– Me desculpe – disse Átila – não estou em condições.


Principalmente se você for me perguntar o que todos estão perguntando.
Estou muito cansado para isso.
– Podemos conversar outras coisas então?
Ele tentou se livrar de mim, mas não conseguiu. Concordou em falar
de outras coisas.
Fiz uma grande força mental para pensar num assunto interessante
sem nenhuma relação.
– Sua mãe?
– Bem – ele disse – muito bem, aliás.
– E os estudos, como vão?
Ele respirou fundo. Talvez eu não tenha escolhido bem o tópico.
– Razoáveis, apesar de Natália ter destruído meu material. OK, não
vou conseguir deixar de falar nela. O que quer saber?
– Está triste que ela morreu?
– Não.
Ele não pensou antes de responder. Apenas disse.
– Mas também não estou feliz – ele resolveu acrescentar.
– Tem certeza? – perguntei.
– Não tenho certeza. Mas tenho certeza que não estou triste. É
estranho. Parece que não sinto nada. Apenas, quem sabe, certo alívio.
Mas esse alívio também me trouxe um pouco de angústia. Acho que em
breve esse sentimento também vai desaparecer.
– Acha que ela foi para o céu?
Não sei porque perguntei isso. Mas fiz Átila dar um sorriso estranho.
– Ninguém cai no céu por acidente da mesma forma que se pode cair
de uma janela – explicou Átila.
– Então ela foi para o inferno? – perguntei.
Átila fitou meu rosto.
– Por que está me perguntando isso, Carmen? Está insinuando que eu
a mandei para lá?
– Não – respondi de imediato, ligeiramente nervosa por essa reação
defensiva – eu apenas queria saber o que você pensa sobre isso.
– Eu não penso nada. Por que deveria pensar alguma coisa? Estou,
aliás, fazendo força para não pensar. Mas não consigo.
– Por que vocês quatro foram mais cedo para o colégio naquele dia?

109
Wanju Duli

Eu não me segurei e perguntei isso.


Átila ficou em silêncio por um minuto inteiro. Não acreditei mais que
ele fosse responder.
– Eu mesmo não sei – foi a resposta – eu apenas fui mais cedo. Não
é incomum da minha parte.
– Sei que não é incomum da tua parte. Mas é incomum da parte delas!
– Então digamos que elas fizeram isso propositalmente para
conversar comigo. É uma explicação razoável?
– Bastante – respondi – eu acreditaria nela sem nenhum problema.
Mas e depois? Por que se trancaram naquela sala?
– Eu não tranquei a sala. Natália estava com a chave. Ela escondeu
no sutiã.
– Eu sabia – eu disse – e você não conseguiu recuperá-la.
– Claro que não. Ela caiu com a chave.
– Então por que vocês três saíram tranquilamente da sala depois que
ela se jogou?
Dessa vez Átila ficou zangado.
– Está tentando me encurralar? – ele perguntou – está dizendo que
estou mentindo?
– Não...
Eu estava mais surpresa com as reações dele. Parecia a raiva que
alguém sente por ser pego em flagrante. Mas Átila não era de mentir.
Talvez exatamente por isso que ele não soubesse mentir bem e estivesse
evidente que ele estava escondendo alguma coisa.
– Não tenho o direito de saber disso e você não precisa responder –
falei – mas a Natália fez alguma coisa contigo?
– Essa conversa está chata – disse Átila.
Ele parecia mesmo nervoso.
– Nem você e nem as outras duas gurias estavam machucados – eu
disse – não parece que elas te pegaram à força.
– É claro que elas não pegaram – falou Átila, perturbado – o que as
pessoas estão espalhando por aí?
Contei a história. Estavam dizendo que as três se revezaram para
fazer uma felação nele. Átila riu quando eu disse isso. Na verdade ele
gargalhou. Parecia uma risada falsa.
– E eu teria permitido?

110
O Vale do Colosso

– Ué, elas estavam em três.


– Eu acho que você precisa transar logo com o Lucas para parar de
ficar fantasiando essas coisas por aí – comentou Átila.
Foi um comentário um pouco rude, mas eu não levei a mal, porque
eu estava me metendo muito mais na vida dele.
– Se me der uma resposta boa do motivo de vocês quatro estarem
naquela sala, juro que vou acreditar – falei – por que Natália escondeu a
chave no sutiã?
– Eu não entendo nenhuma das ações dela – disse Átila – OK,
Carmen, vamos acabar logo com o mistério. Natália me disse para tirar a
chave. Eu, obviamente, não tirei. E ela ameaçou que ia se jogar da janela
se eu não tirasse. Entendeu? Eu disse que, ainda assim, não ia tirar. Ela
se sentou na janela.
– E você não ficou com medo?
– Eu senti um pouco de nervosismo e adrenalina – confessou Átila –
mas eu não me importava com o que Natália fizesse. E eu não seria
responsável por isso.
– Está certo – falei – a história já me parece mais verídica. Ela estava
desesperada porque você não trepava com ela de novo. Mas como foi
que vocês três saíram da sala depois se estavam sem a chave?
– Eu não lembro.
– Que resposta fodida – eu falei – você não sobreviveria a um
tribunal. E se Marjana e Roxana tivessem delatado que você matou
Natália?
– Eu as mataria em seguida – respondeu Átila, muito naturalmente.
Eu fitei Átila com uma expressão de choque. Ele riu de mim.
– Estou brincando – ele disse – é claro que não matei Natália.
– Não gostei da brincadeira.
– É claro que não gostou. Não sou muito de humor negro. Mas
Natália transformou minha vida num humor negro. Sei que eu não devia
decair a esse nível. Mas entenda que eu estou um pouco fora de mim
depois de tudo que aconteceu. Eu mesmo estou me segurando para não
rachar minha cabeça contra uma parede.
– Está bem perto do vestibular, não é?
– Muito perto.
– E aí?

111
Wanju Duli

– E aí que se o plano de Natália era me desestabilizar


psicologicamente para ir mal na prova, ela conseguiu. Não sei se vou
passar.
– Está mesmo preocupado com isso?
– Não. A doença da minha mãe era algo muito mais sério e que me
distraiu da prova. Fez eu me dar conta que o vestibular não era nada.
Mas agora que ela está melhor, voltei a lembrar que o vestibular é
importante e me senti miserável outra vez. Minha vida é uma merda.
Odeio minha vida.
– Pensa mesmo em tirar a própria vida?
– Eu penso. Mas não quero que minha mãe fique triste. Às vezes
penso que seria melhor ela ter morrido mesmo. Assim eu poderia me
matar livremente agora. Mas eu me sinto preso enquanto ela viver.
– Você colocou correntes em si mesmo – decidi – será que você não
se sente um pouco como Rodion, em “Crime e Castigo” de Dostoiévski?
Você tem até mesmo a adoração por sua mãe...
– Eu não sei se acredito em salvação pela dor – disse Átila.
– Mas não foi esse o sofrimento de Jesus Cristo? – perguntei.
Átila fechou os olhos, com uma expressão de sofrimento.
– Por favor, Carmen! Eu não matei Natália. Que absurdo é esse? Sei
lá porque falei da chave. Eu estava nervoso.
– Pensei que você poderia ter usado seu colosso para matá-la.
– Se pensa isso de mim, estou desapontado – falou Átila – eu quase te
considerava uma amiga. Até cheguei a torcer por você e Lucas. Mas
agora sinto até um pouco de asco...
– Tem nojo de mim?
– Eu tenho nojo da forma mórbida com que você ama a tragédia das
pessoas. Parece que você fica feliz quando eu, Lucas ou outras pessoas
sofrem.
– Por que eu ficaria feliz com isso?
– Porque eu conheço esse sentimento. Fiquei feliz sim com a morte
de Natália! Mas me senti mal por isso. Fui pra igreja me confessar. Fazia
quase um ano que eu não me confessava.
– Bem, eu não sou católica.
– Não penso mal de você por isso. As pessoas podem ter a religião
que quiserem. Mas acho importante que acreditem em alguma coisa.

112
O Vale do Colosso

Nem que seja no amor e na justiça. Ou você acha que a justiça é relativa?
Que matar uma pessoa às vezes pode ser bom? Que esse “às vezes”
pode se transformar em “muitas vezes”? Percebe quando o relativismo
se torna um problema?
– Não, eu não percebo e nem me sinto disposta a discutir isso com
você agora. Não acho que estamos com cabeça para isso.
– Concordo.
E então nós encerramos aquele assunto.
Naquela tarde fiquei no colégio junto com Marina e Gustavo para
prepararmos um trabalho em trio. Desnecessário dizer que saiu mais
fofoca do que trabalho.
Contei a eles parte da minha conversa com Átila.
– Ele está mentindo – garantiu Marina.
– Como sabe? – perguntou Gustavo – não é você que gosta dele e
confia nele?
– Sim, mas dessa vez tenho motivos para desconfiar. Umas pessoas
disseram que ele foi no médico.
– Umas pessoas? – perguntei, sem acreditar muito – e você confia
mais nessas pessoas do que nele? Não sabe como espalham mentiras
sobre o Lucas? O que te leva a crer que também não espalhem mentiras
sobre o Átila?
– Não entendeu? Disseram que ele foi no médico na mesma manhã
depois do ocorrido. E não foi psiquiatra. Foi para tratar ferimentos.
– Ele não estava machucado. Foi o que todos disseram – insisti.
– Ele fingiu que não estava machucado. Ele pode ter disfarçado as
expressões faciais. Fingiu caminhar normalmente. Pode ser ferimento
onde a gente não possa ver. Te liga, Carmen. Aquelas gurias pegaram ele
pra valer.
Eu baixei os olhos.
– Não acho – falei – ele tava muito calmo e controlado.
– Calmo demais depois de presenciar um suicídio – disse Marina –
não foi estranho? Não tá tudo muito esquisito?
Eu não queria acreditar. Mas, de fato, havia algo muito suspeito.
No dia seguinte, mencionei a Átila que ouvi falar que ele havia ido ao
médico na manhã do ocorrido. Ele ficou fora de si.

113
Wanju Duli

Ainda bem que estávamos ambos em local privado no pátio e


ninguém presenciou a fúria dele.
Mas eu vi aquele olhar. Foi uma expressão parecida com a que ele fez
quando Natália o emputeceu destruindo seus materiais.
– O que quer provar com isso? – ele provocou – que eu sou um
assassino?
– Não – falei – eu estava preocupada.
– Eu não fui a médico algum – ele afirmou, com seriedade – pare de
acreditar nessas mentiras. Não volte a discutir esse assunto comigo.
Eu não ia voltar. Para mim, aquilo encerrava o assunto.
Mas naquele mesmo dia Gustavo contou para mim e para Marina a
história oficial.
– Sabem o Eduardo? Ele até que é bem próximo do Átila. Ele tá
sabendo do que aconteceu. Eu sou amigo do Eduardo. Fomos colegas
no ensino fundamental. Ele me disse tudo. Eu nem devia estar contando
isso pra vocês...
– Diz logo – falou Marina, ansiosa e preocupada.
– É pesado – falou Gustavo – tem certeza que querem saber?
– Cara... não pode ser pior do que os boatos – disse Marina – e eu já
me preparei para todos eles.
– A Natália encostou um canivete nas bolas dele – disse Gustavo – e
ameaçou castrá-lo se ele não fizesse tudo o que ela queria. Como Átila
não tinha nenhuma intenção de ser mutilado, ele obedeceu. Parece que
ele só resistiu um pouco no começo. Mas bastou um corte leve com o
canivete para Átila acreditar que ela estava falando sério. Eduardo não
me contou o que ele teve que fazer, pois Átila não disse nem mesmo
para ele. Acho que ele não vai dizer para ninguém.
– Ela mereceu morrer – concluiu Marina – já não me interessa se ela
se matou ou se Átila a matou. Ela cometeu um crime hediondo e ele
cometeu outro em troca. Teve sua vingança.
– Calma – disse Gustavo – você sabe que esse pensamento é errado.
– Numa situação como essa, quem se importa com certo ou errado? –
perguntou Marina – só não entendi porque ele não se vingou das outras
duas.
– Eduardo não sabe até que ponto Roxana e Marjana fizeram alguma
coisa – explicou Gustavo – mas mesmo se elas só assistiram e riram, já

114
O Vale do Colosso

seria grave o bastante. Átila contou que elas disseram umas coisas
odiosas para ele. Usou a palavra “imperdoáveis”, o que vindo dele é bem
forte.
Então era por isso que ninguém tinha saído machucado. Átila
concordou passivamente em fazer o que elas queriam, com medo de ser
mutilado.
Mas o que tinha acontecido depois disso era um completo mistério.
Era possível que Natália tivesse se arrependido e cometido suicídio após
o ato. Mas ela não tinha cara de quem se arrependia das merdas que
fazia. Era mais provável que ela já planejasse tirar a própria vida desde o
começo após fazer. Talvez para não passar o resto da vida na cadeia. Ou
porque achava que merecia a punição que deu para si mesma.
Porém, a possibilidade de assassinato também não era nula. Eu não
iria condenar Átila se ele realmente a tivesse empurrado. E quem sabe ele
a havia derrubado da janela por acidente? Meio por acidente, meio por
vontade, em legítima defesa.
Ainda assim, nenhuma das possibilidades me deixava satisfeita. O
mais complicado era saber qual foi a combinação que Átila fez com
Roxana e Marjana. Será que, após matar Natália, ele havia ameaçado
matá-las se elas revelassem a verdade? E por isso todos eles combinaram
a mentira sobre o suicídio.
Mas será que não havia outra opção? Marjana ou Roxana não
poderiam ter matado Natália? Cada ideia parecia mais absurda que a
outra.
Átila queria esquecer o assunto. Para ele, aquele tema estava morto.
Mas ninguém ao redor dele queria esquecer. Ninguém aceitava a versão
oficial dos acontecimentos e cada um tinha sua teoria da conspiração
preferida.
A minha preferida era que os colossos estavam envolvidos nisso. Mas
pelo jeito não adiantava conversar com Sabrina para confirmar essa
versão.
No trabalho em trio que realizamos na semana seguinte, eu peguei
um trio bem peculiar: Lucas e Bernardo.
Bernardo era o idiotinha que ficava em segundo lugar nas notas da
turma. Parecia adorar cada vez que acontecia algo de ruim com o Átila.

115
Wanju Duli

Afinal, além de Átila ser bonito e adorado pelas gurias, ele tirava notas
melhores.
Mesmo assim, ele nunca gostou de Natália. Parecia bem satisfeito
com a morte dela. Mas ele odiava Lucas ainda mais do que Átila e não
ficou nada satisfeito com nosso trio.
Para ele, eu era invisível. Não fazia a menor diferença eu estar no trio
ou não. Ele apenas estava incomodado com a presença do Lucas.
– Bem, vai ser o seguinte – informou Bernardo – vou fazer o trabalho
inteiro sozinho para que vocês não o estraguem. Ponho o nome de
vocês. Pode ser?
Eu achei ótimo. Concordei prontamente.
– Por que isso? – perguntou Lucas – quero ajudar no trabalho.
– Cala a boca – disse Bernardo – você vai me atrapalhar! Eu consigo
fazer o trabalho todo muito mais rápido do que se eu tiver dois idiotas
mexendo nele.
Fui promovida de invisível para idiota. Eu deveria me sentir feliz?
– Se o trabalho estiver perfeito, a professora vai saber que não
fizemos nada – argumentou Lucas.
– Até parece que você se importa com isso! – esganiçou-se Bernardo
– sinta-se grato por ter uma nota de graça e apenas aceite quietamente,
sem contestar.
– Não vou fazer isso – Lucas sorriu – se não me deixar participar,
vou contar para a professora que você quer fazer tudo sozinho e não nos
deixa aprender.
Bernardo ficou furioso. Era óbvio que Lucas só estava fazendo aquilo
para irritá-lo.
– Muito bem – Bernardo cedeu – se fazem tanta questão assim de
baixar a nota do nosso trabalho, o primeiro encontro do grupo será hoje
após a aula.
– Como assim? – Lucas riu – o trabalho é só para daqui três semanas.
Nem precisa ter encontro. A gente divide as partes e depois junta.
– Isso é coisa de roceiro preguiçoso e bunda-mole.
– Como é? – perguntou Lucas, divertindo-se.
– Vamos ter três encontros do grupo, a começar por hoje. Para que
tudo saia como eu quero.

116
O Vale do Colosso

Eu não gostei disso. Eu tinha mais o que fazer do que ficar


frequentando aqueles encontros infelizes que nunca davam em nada.
Minha experiência com trabalhos em grupo era que nos tais
encontros presenciais do grupo não se resolvia nada. Era perda de
tempo. Só rolava fofoca. No final, todos deixavam para entregar tudo de
última hora e o trabalho era feito de qualquer jeito da mesma forma,
independente de haver encontro de grupo ou não.
Mas Bernardo era cabeça-dura. Seria difícil fazê-lo mudar de ideia.
Por isso almocei no colégio naquele dia.
Lucas também almoçou no colégio, mas em outra mesa. Ele encheu
um prato enorme, com muito arroz e carne. Nem mesmo eu aguentava
comer tudo aquilo numa única refeição. A não ser que fosse um potão de
sorvete.
“Por isso está ficando gordo” pensei, triunfante. Mas era injusto dizer
que ele estava gordo. Ele só tinha um pouco de barriga. E eu achava que
ele ficava melhor com aqueles braços fortes. Eu não gostava de caras
magrelos. Principalmente porque eu era muito gorda. Eu me sentiria
ofendida se o cara com quem eu saísse fosse muito mais magro que eu.
Ele tinha que ser, pelo menos, um pouco mais alto e ser fortinho para
não ficar muito desproporcional ao meu lado.
Eu particularmente achava que Lucas e eu formávamos um belo
casal. Ele era um pouco mais alto que eu. O peso dele também parecia
adequado, embora eu não soubesse qual era.
E eu fiquei lá, observando-o levar cada garfada para a boca. Ele
comia com gosto e eu ficava toda derretida vendo. Eu queria poder
cozinhar para ele para vê-lo comer com gosto a comida que eu fizesse.
Ele bebeu uma latinha de refri depois do almoço. Sabia que ele estava
louco para tomar uma cerveja e acender um cigarro. Mas ele não podia
fazer aquilo dentro do colégio.
Lucas procurou alguma coisa dentro da mochila, mas não achou. Foi
então que me dei conta: ele estava procurando o Halls. Ele comia Halls
preto extra-forte após as refeições.
Eu tinha comprado só para provar. Por acaso eu tinha aquele Halls
comigo. Levantei e ofereci para ele.
– Quer? – perguntei.
Ele olhou para mim. Olhou para o Halls.

117
Wanju Duli

Aceitou sem dizer nada. Me lançou um olhar desconfiado. Depois


desviou o olhar.
Eu retornei para minha mesa, toda contente.
Sinceramente, aquele encontro do grupo foi um lixo. Bernardo só
encheu o saco. Queria fazer tudo perfeito e perdemos muito tempo em
detalhes desnecessários.
Mesmo assim valeu a pena o encontro. Eu me diverti só pelas tiradas
de Lucas.
– Sobre o que é o trabalho mesmo? – perguntou Lucas.
Lucas perguntou isso quando já estávamos planejando o trabalho há
mais de meia hora. Bernardo apenas lançou um olhar fuzilante para
Lucas e não respondeu.
– A gente vai fazer à mão ou digitar? – perguntou Lucas.
– Mas que raios de pergunta é essa? – Bernardo ficou irritado – é
óbvio que a gente vai digitar. Quem em sã consciência faria um trabalho
desse tamanho à mão?
– É bom pra treinar caligrafia – observou Lucas – por isso os jovens
de hoje não sabem mais escrever.
– Sim, vovô, é por isso mesmo – retrucou Bernardo, de mau humor –
e você não sabe nem mesmo digitar direito! Olha só! Você escreve tudo
errado! Isso é uma frase? O que tá escrito aqui, cacete?
Lucas digitou uma frase no laptop que começava com letra
minúscula, não tinha pontuação nenhuma e faltava muitas letras.
Bernardo queria arrancar os cabelos.
– Tu tá fazendo de propósito, né? – perguntou Bernardo – só pra me
tirar.
– Não tô – garantiu Lucas.
– Tu não pode ser assim tão burro, meu. Não é possível. Volta pro
jardim de infância.
– É que eu tô com preguiça de digitar – explicou Lucas – esse teclado
tem muitas teclas. Por que não fazem menos? Dá muito trabalho mover
os dedos até o outro lado. Acho que vou digitar com uma mão só,
porque minha mão esquerda está doendo.
Bernardo arrancou o laptop das mãos de Lucas, apagou o que ele
tinha feito e digitou tudo de novo.

118
O Vale do Colosso

– Se eu for arrumar seus erros, vou levar o triplo do tempo que eu


levaria para escrever tudo sozinho – disse Bernardo.
Assim que Bernardo terminou de preparar sozinho toda a primeira
parte do trabalho enquanto assistíamos sem ter direito a opinar,
Bernardo comentou:
– Ainda bem que Natália morreu. Ela era uma vaca. Pena que Átila
não morreu junto. Por mim, os quatro tinham se jogado da janela.
E ele falou isso completamente de graça.
– Por que você não se joga? – perguntou Lucas.
– Porque eu não sou um adolescente imaturo com complexo de
inferioridade e sedento pela aprovação dos outros – respondeu
Bernardo, simplesmente – não me importo que falem mal de mim pelas
costas. É óbvio que vão falar, por inveja da minha inteligência. Átila é
muito fraco para aguentar críticas. Alguém como ele vai acabar se
tornando uma pessoa medíocre no futuro, só para não ser alvo de
olhares e de falações.
– Que bom – Lucas sorriu.
Mas Bernardo não gostou do comentário e do sorrisinho do Lucas.
– Eu não gosto de ti, cara – falou Bernardo.
– Ainda bem – disse Lucas – fico aliviado. Prefiro ser chupado por
mulheres.
Bernardo fez uma expressão desagradável.
– Você se acha muito engraçado, hã? – provocou Bernardo – pena
que vai morrer de câncer de pulmão por não largar esse seu cigarro.
Vamos ver quem vai rir por último.
– Prefiro morrer de câncer de pulmão a estar na sua pele – disse
Lucas – deve ser difícil ter tanto ódio no coração. A tua mãe não te deu
amor?
– A minha mãe tá morta! – exclamou Bernardo – e meu pai só me dá
dinheiro. Nem vejo a cara dele.
Bernardo levantou-se e saiu de lá.
Eu e Lucas continuamos sentados na mesa da biblioteca. Acho que
os demais presentes ficaram aliviados por pararmos com a gritaria.
– Tem mais Halls? – Lucas perguntou, de repente.
Passei para ele e peguei um também.

119
Wanju Duli

Nós apenas chupamos o Halls em silêncio por algum tempo. Aquela


quietude estava me incomodando. Eu precisava falar qualquer coisa.
– Sabe o que aconteceu com o Átila de verdade naquele dia? –
perguntei.
– Não quero saber – disse Lucas, me interrompendo – deixem o cara
em paz. É surpreendente que ele não tenha se matado ainda.
– Você voltou para o Vale da Sombra da Morte desde aquele dia? –
perguntei.
– Não.
E o assunto se encerrou. Outro momento incômodo de silêncio.
– Tenho um presente pra ti – disse Lucas.
Aquilo me pegou de surpresa. Ele tirou alguma coisa da mochila. Era
uma foto.
Observei a foto. Era de um garoto pequeno com um grande sorriso
banguela e fartos cabelos negros e crespos. Ele usava bermuda, camiseta
e tênis.
– Sei que gurias gostam dessas merdas – explicou Lucas – minha
primeira namorada vivia pedindo para ver fotos minhas quando criança
ou fotos em que eu estava comendo. Não sei que graça tem isso. Em vez
de querer ver foto do cacete do cara, elas pedem isso. Vai entender.
Dei um grande sorriso. Não conseguia parar de olhar para a foto.
– Que amor! – exclamei, com alegria.
Foi uma reação totalmente sincera. Lucas sorriu com minha reação.
– Na verdade não é bem um presente, porque você não vai poder
ficar com ela – ele explicou – era só pra te mostrar mesmo. Porque tu
ainda tá a fim de mim, né? E eu queria te torturar um pouco. Mas já vou
parar.
Ele pegou a foto de volta e guardou.
– Não tem aquela outra foto? – perguntei.
– Qual?
– A do teu... cacete – falei, sem conseguir me conter.
– Essa eu só mostro para namoradas.
Fiquei perplexa com toda aquela situação. Com toda aquela conversa.
Por um momento, parecia que Lucas estava se divertindo por eu gostar
dele.

120
O Vale do Colosso

Isso me deixava confusa. Eu preferia que ele fosse claro. Ele tava me
dando esperanças? Ou apenas me provocando como disse, para se
divertir às minhas custas? Seria como dar corda e brincar. Aquilo era
cruel.
– Não sabia que tu era esse tipo de pessoa – falei – sabe, de torturar
gurias que gostam de ti, mas não querer nada com elas.
– Desculpa, mas você sempre está me olhando como um cachorrinho
que pede osso – falou Lucas – acha que eu não reparo? Hoje quando eu
tava almoçando parecia que você ia me devorar a qualquer instante.
– Não foi de propósito – defendi-me – não pretendia te ofender.
– Não me ofendeu. É bom ser desejado. Mas o seu desejo está meio
excessivo. Eu só me senti desconfortável. Fico sem saber o que fazer.
Não sei se te xingo ou se dou corda. Ignorar é algo que tenho tentado
fazer, mas é algo chato.
– Sei que estou sendo insistente com isso – falei – mas já que não
gosta de mim para namorar, será que a gente não pode só ficar?
Ele olhou para baixo. Mas não parecia estar pensando no que dizer, e
sim em como dizer.
– Foi mal, mas não vai rolar – disse Lucas – eu gosto de uma pessoa.
– Da Marina? – perguntei.
– Eu me declarei para ela, mas Marina recusou – contou Lucas –
então eu meio que desisti. Não sou você ou a Natália. Estou visando
outra pessoa agora. Sou um cara assim: aceito um “não” e parto para
outra.
Eu abri a boca e não consegui fechar mais.
– Marina não me contou nada sobre isso! – exclamei – e eu a
considero minha melhor amiga!
– Ela provavelmente não quis te deixar chateada, já que ela sabe que
você gosta de mim.
Mesmo assim, era injusto.
– Foi doloroso? – perguntei.
– O quê?
– Quando ela recusou.
Lucas deu de ombros.
– Gostava um pouquinho dela, mas não tenho esse desespero quando
amo – ele disse – eu gostei um pouco demais da minha primeira

121
Wanju Duli

namorada e não deu certo. Desde então, tenho me controlado em


paixões. Mas sei que isso não se controla. Cedo ou tarde posso ser
acometido por essa doença.
Ele tinha desistido de Marina. E agora estava olhando para outra
guria que não era eu.
Será que não era hora de eu desistir? Estava bem claro que Lucas não
estava a fim de mim. De jeito nenhum.
– Você me recomenda a desistir de ti? – perguntei, em voz baixa.
– Você conseguiria? – ele perguntou.
Fiz que não.
– Então terá que sofrer sozinha por um tempo – disse Lucas – mas
vai acabar desistindo, se tiver intenção de seguir sua vida. Não queira ser
a protagonista de uma história trágica. Essas coisas estão fora de moda
nos tempos atuais. Hoje em dia isso não é considerado mais sinal de
romantismo e sim de burrice.
– Acha que eu e Natália somos burras por insistir tanto?
– Não sei se você é burra, mas Natália é uma criminosa – falou Lucas
– espero que você tenha um sentimento mais digno por mim do que a
porcaria que Natália sentia por Átila. Desejo sexual é uma coisa.
Ninfomania doentia é outra.
– Então tu não te ofende com meu desejo, senhor Calvin Klein?
Por um momento eu me arrependi do que eu disse. Acho que ele não
gostou.
– Cuidado – ele disse – eu não me ofendo se não passar do ponto.
Mas ele deu um leve sorriso quando disse isso. Colocou sua mochila
nas costas e saiu da biblioteca.
Finalmente eu consegui respirar.
No outro dia, contei a história para Gustavo. Eu e ele ficamos
indignados com Marina, por ter escondido aquilo da gente.
– E tu ainda recusou? – perguntou Gustavo, sem acreditar – que
desperdício!
– Ele é quente, mas não é meu tipo – explicou Marina – e não vou
ficar com ele só pra fazer um “favor” para vocês. Aliás, eu diria que seria
um desfavor.
– Antes você que umazinha qualquer – opinei.
– Realmente – concordou Gustavo.

122
O Vale do Colosso

Gustavo me contou que outro dia Lucas foi se desculpar com ele.
– Muito gente fina – me contou Gustavo – ele meio que se desculpou
um pouco por ter gritado comigo naquele dia. Disse que a reação dele
tinha sido exagerada só por eu ser um cara. Mas que ele havia repensado
isso e achou injusto ser esse o motivo. Viu como ele é legal, Marina?
– Mais ou menos – disse Marina.
O difícil agora era conversar com Átila. Soubemos que ele estava
fazendo psicoterapia com a psicóloga do colégio. Se bem que no caso
dele eu achava que remédios fossem mais apropriados.
Ele insistia com todo mundo que nada havia acontecido na sala
trancada antes do incidente. Todos fingiam que acreditavam na história
dele, mas ninguém acreditava de verdade.
A versão de que Natália havia feito apenas algo tão inocente como
esconder a chave no sutiã não colou. Ela não era tão sutil assim.
Por outro lado, ninguém estava insistindo que Átila tinha matado
Natália. Todos a consideravam louca o suficiente para ter se jogado por
vontade própria.
Mas Átila se sentia cada vez mais desconfortável. Ele agia como se já
estivesse bem. E todos fingiam que tudo estava bem. Mas no fundo o
pessoal olhava para Átila como se ele fosse uma vítima e se dirigiam a ele
com certa pena. É claro que ele reparou.
Num dia em que ele finalmente aceitou conversar comigo, ele me
disse, desapontado:
– Você também está me olhando desse jeito.
– Que jeito? – perguntei.
– Como se eu fosse um pobre coitado.
Eu não disse nada.
– É assim agora – contou Átila – as pessoas evitam fazer piada sobre
sexo perto de mim. Ficam com um tom todo sério. Eu acho isso um
saco. Seria melhor que tentassem agir normalmente. Nem quando
descobriram que minha mãe tinha câncer me olhavam desse jeito.
– Você contou para sua mãe o que aconteceu?
– É claro que não. Eu não sou louco. Ou melhor... contar o quê?
Você se refere ao suicídio de Natália?
Ele quase se entregou.
– É... – observei.

123
Wanju Duli

– Contei mais ou menos. Eu disse que ela já tinha alguns problemas.


– Vários problemas – reforcei.
Átila deu um leve sorriso. Acho que ele ficou aliviado que eu o
estivesse ajudando em sua mentira.
– Eu me inscrevi para matemática no vestibular – contou-me Átila –
desisti da engenharia.
– Fez bem! – exclamei, aprovando – você sempre gostou mais de
matemática do que de física, não é mesmo?
– Acho que sim – comentou ele, contente por minha aprovação –
acho que eu estava pensando em fazer engenharia mais pelo dinheiro
mesmo. Descobri, após as conversas com a psicóloga, que o que eu
quero mesmo é matemática. Não me importo de fazer pós-graduação e
dar aulas. Na verdade, acho que vou adorar. Quero ser professor. Eu até
curtia ensinar para o pessoal no grupo de estudos. Além disso, a
matemática é muito lógica. Nas ciências da natureza é preciso observar e
fazer experimentos. Mas a matemática é totalmente livre. Posso apenas
montar meu jogo interior, que pode funcionar de forma bem estruturada
independente do que acontece lá fora.
Nos minutos seguintes, ele continuou tecendo elogios à matemática.
Me contou dos livros que já tinha lido. Recomendou-me autores. Estava
totalmente apaixonado.
Era bom vê-lo assim. Fiquei tão feliz com o entusiasmo dele que, por
um breve instante, pensei em desistir de Lucas e me aproximar de Átila.
Porém, só de pensar que eu teria que competir com todas as gurias lindas
da turma, já senti um desânimo e desisti da ideia no segundo seguinte.
– Carmen? Está prestando atenção?
Acordei de meu devaneio. Estava olhando para os lábios dele. Nem
prestei atenção no que ele disse sobre matemática.
Ele estava me mostrando um livro. Era “Oliver Twist”.
– Gosta de Dickens? – ele perguntou.
– Um pouco – falei – na verdade só li “Um Conto de Natal”, porque
os livros dele são muito grandes.
– Livros longos me acalmam – explicou Átila – pois vou descobrindo
as coisas aos poucos, sem pressa. Queria que a vida fosse assim também.
Não esse furacão.
– Que tal viver uma vida simples, numa fazenda do interior? – sugeri.

124
O Vale do Colosso

– Não é tão fácil viver assim como professor de matemática – ele


disse – mas quem sabe eu dê aulas um dia numa cidade mais calma e
simples. Vou pensar nisso. De preferência, um lugar mais quente. Talvez
eu me mude do Rio Grande do Sul.
Eu disse que ele era muito preocupado. Que eu nem ia fazer
vestibular. Que as coisas se arranjavam sozinhas. Ele simpatizou com
minha tranquilidade.
– Queria ser como tu, despreocupada – disse Átila – acho que eu me
estresso desnecessariamente. Mas eu sou assim porque me preocupo
com meus irmãos, que merecem uma vida melhor. Achei que eu poderia
ganhar muito dinheiro um dia para ajudá-los. Só que dessa vez eu quis
pensar em mim também.
– É claro que tem que pensar em ti – eu disse – e tu é muito
inteligente. Vai ganhar dinheiro com qualquer coisa que escolher fazer.
– Obrigado.
Quando saí da biblioteca, Kayode surgiu ao meu lado.
– Como sua mente é suja – disse Kayode – estava olhando para Átila
com pensamentos lascivos. Pensei que gostava do tal do Lucas.
– Eu gosto do Lucas – falei – mas Átila é queridinho demais.
– Mesmo depois que ele matou Natália?
Eu senti uma sensação ruim. Mas ela logo desapareceu.
– Ele não fez isso – afirmei.
– Como pode ter certeza?
– Você é um filho da puta, Kayode – eu disse – me conta logo o que
aconteceu naquela sala. Não quero mais perturbar Átila com isso. Ele
não merece.
– Está certo – disse Kayode – é verdade que os colossos estavam
envolvidos nisso.
– Sabia! – exclamei, triunfante.
– Mas não do jeito que você pensa. Foi a própria Natália quem fez
um pacto com um de nós.
Por essa eu não esperava.
– O que ela mandou o colosso fazer? – perguntei.
– Na visão dela, nós somos demônios completos – explicou Kayode
– então ela mandou que Átila transasse com uma amiga nossa. Ela
pretendia corrompê-lo fazendo isso. Natália queria que Átila renegasse a

125
Wanju Duli

Deus. Mas a verdade é que nós não temos nada a ver com o Deus de
vocês.
– Mesmo? – perguntei, desconfiada.
– Sim. Não há nenhum problema em humanos transarem com
colossos. Átila ficou chocado apenas porque acreditou que realmente
havia renegado seu Deus fazendo isso. Aquele menino é meio
perturbado. Ele leva as coisas muito a sério.
Lembrei que Marina mencionou uma vez que gostava de caras que
levassem as coisas a sério. Mas no caso de Átila, ele realmente devia levar
a vida mais na boa. Coisas como religião e família eram tão sagradas para
ele que Átila estava sempre pronto a morrer por eles.
– Tem uma frase que eu achei um dia no livro de Salinger – contei –
dita por um psicológo. Ela é assim: “A marca do homem imaturo é
querer morrer nobremente por uma causa, enquanto a marca do homem
maduro é querer viver humildemente por uma”.
– Vocês, humanos, e suas frases de efeito – comentou Kayode,
divertindo-se – então você acha que Átila é imaturo. Bem, aos meus
olhos ele também se parece com uma criança. A única realmente madura
entre vocês talvez seja Sabrina. Quero dizer, espiritualmente madura.
– Kayode... o Átila matou a Natália?
– Não. Natália cansou de viver. Ela, em vez de vender a própria alma
como vocês tolos fizeram, vendeu a própria vida. Só para ver Átila
trepando com nossa amiga. Acho que ela tinha um tipo de fantasia
vendo-o se corrompendo. Mas, como eu já disse, foi tudo uma bobagem.
Ninguém se corrompe transando com um colosso.
– Então se eu fizesse sexo contigo não aconteceria nada? – perguntei.
Kayode me fitou com um largo sorriso.
– Você quer me comer, Carmen? Isso é uma indireta? Ou uma direta?
– Não, nada a ver – respondi – só fiquei curiosa. Você já transou com
humanos?
– Já, muitas vezes. Eu sou muito mais velho do que pareço. Tenho
vivido por, digamos... alguns milhares de anos, pelo menos.
– Então deve ser um rei na cama.
– Comparando com vocês, humanos inexperientes, qualquer colosso
é um rei na cama.
– Era para ser um elogio.

126
O Vale do Colosso

– Prefiro ser elogiado nisso depois de você experimentar em primeira


mão – falou Kayode – tem certeza de que não quer treinar comigo para
não fazer feio quando for comer seu príncipe encantado?
– Você se refere a Lucas?
– Ou qualquer outro príncipe que escolha.
– Prefiro que o cara que eu gosto rompa meu hímen – eu disse – ou
melhor, nem faço questão, mas já que por acaso meu hímen ainda está
aqui, acho que posso aguardar mais um pouquinho. Se eu cansar de
esperar nos próximos anos, eu te aviso.
– Está certo.
– Mas agora você me deixou curiosa sobre outras coisas – observei –
não sei quase nada sobre vocês, ou sobre o mundo em que vivem. Você
tem pais? Irmãos? Quais são seus hobbies?
– Uma pergunta de cada vez – disse Kayode – nós somos magos. A
questão do sangue não é tão forte entre nós como em vocês. Talvez eu
tenha pais e irmãos, mas nem ligo. Por que deveria importar? Em geral,
nós somos solitários. Mas até tenho alguns amigos. Só os chamo quando
preciso deles ou quando estou entediado e quero me divertir. Mas
também me divirto enganando humanos.
– Algum humano já te enganou?
– Isso acontece entre os melhores de nós. Mas não somos assim tão
orgulhosos. Contanto que eu me divirta, não me importo de ser
enganado.
– Vocês são imortais?
– Não somos. Apenas vivemos bastante.
– Um humano pode matar um colosso?
– Mas que ousada! – zombou Kayode – já pretende tentar me
enganar e me matar? Só não é muito inteligente me revelando seus
planos. E o que vai ganhar fazendo isso?
– Não quero te matar – falei – contanto que você não faça merda, é
claro.
– Isso também depende de você.
Pensei um pouco.
– Kayode... o que é uma alma?

127
Wanju Duli

– No Vale da Sombra da Morte uma alma vale muito, mas não tanto
quanto nas religiões de vocês – explicou Kayode – uma alma pode ser
vendida. Assim como o amor.
– Não entendo. Como se pode vender o amor?
– Da mesma forma que te vendi. Lucas se apaixonou por ti.
– Existe algo que não se compra com dinheiro? – perguntei.
– Que tal descobrir? – ele ofertou – não quer visitar outra vez nosso
mundo?
– Não acha que o mundo aqui é mais simpático?
– Depende. Acho que o Vale é mais flexível para magias.
– Que há de tão legal em fazer magias? – perguntei – assim se obtém
o que se quer num piscar de olhos?
– É como os jogos de vocês. Quando obtemos tudo que queremos
ficamos entediados. Então buscamos desafios ainda mais fabulosos.
Jogos mais desafiadores. É como nas religiões de vocês, em que é
necessário acrescentar miséria, destruição, pecado e desgraça para não
ficar tudo muito chato. É preciso haver o adversário. Um mundo em paz
não tem objetivo algum.
– Vocês também fazem guerra no Vale?
– Algumas.
– Acho guerra uma estupidez.
– Isso porque vocês não sabem nada sobre a morte – explicou
Kayode – uma guerra pode ser algo infeliz aqui na Terra. Pois vocês
pensam que a morte é o fim. No Vale a morte é o começo.
– Como pode ser isso?
Kayode respirou fundo e fitou o horizonte.
– Vocês se orgulham tanto dos avanços científicos. Mas são crianças
em matéria de espiritualidade. Que sabem sobre ética? Sobre a morte e a
dor? Você até me fez uma pergunta idiota: que é a alma? Carmen, você
não sabe de nada.
– Aqui na Terra nós só buscamos mais qualidade de vida por avanços
científicos – expliquei – mais conforto, mais prazer, mais respeito e
dignidade pelos que vivem.
– Essas são coisas boas – elogiou Kayode – mais isso não é tudo. É
apenas o início. Não está curiosa para saber mais? Para ler os livros do
Vale. Para entender coisas que por enquanto você apenas sonha.

128
O Vale do Colosso

– Eu estou – admiti – mas se isso significa abandonar o meu mundo


e todas as coisas que conheço, por que eu optaria pelo desconhecido?
– Que tal partir numa aventura? O Vale não é apenas sombra e
morte. É também luz e vida. Mas apenas para aqueles que ousam abrir os
olhos. Teus olhos estão fechados, garotinha tola.
– Como faço para abri-los? – perguntei – se ler livros resolvesse o
problema, Átila não seria tão psicologicamente instável.
– Ele precisa ler os livros certos – disse Kayode – não apenas os
clássicos da literatura de vocês. Vou ser honesto: eu li algumas coisas
enquanto você estava passeando por esse prédio grande.
– Você quer dizer, enquanto eu estava tendo aulas – corrigi.
– Ou isso. Não entendo esse hobby dos humanos de ficar horas
sentado na frente de um quadro.
– Eu também não. Mas é assim que se faz as coisas por aqui. Por
tradição.
– Que seja – disse Kayode – eu não gostei muito dos livros de vocês.
Eles possuem mais ou menos as mesmas fórmulas. Tratam de política,
religião, amor e morte. É isso?
– É – eu disse – por aqui, basta colocar questões políticas e sociais
num livro para que ele fique famoso. De preferência exaltando a cultura
local. Mas amor e morte são sempre clássicos, porque acontecem com
frequência. Religião, por outro lado, não anda muito popular, com
exceção do islamismo. Vocês têm religião?
– Sim, embora nós chamemos por outro nome. Eu acho engraçado
como os humanos, apesar de serem menos religiosos hoje, continuem a
usar uma ética religiosa.
– Ela se chama leis, mas são uma bagunça. Me diz uma coisa: onde
foi que Sabrina conseguiu aquele livro de evocação?
– Ela roubou da nossa biblioteca – explicou Kayode – mas nós não
nos importamos. Sabrina achou nosso mundo completamente por
acidente. Ela estava voando.
– Voando?
– Sabrina sabe voar. Ela nunca mostrou para vocês? Ela adquiriu uma
série de poderes sobrenaturais.
– Onde? Como? – perguntei, impressionada.

129
Wanju Duli

– Ela sabe comandar algumas dimensões. Ela atinge estados alterados


de consciência e localiza alguns pacotes mágicos com poderes psíquicos.
Alguns desses poderes são encontrados prontos. Outros é possível
aprender. Qual poder você gostaria de ter, Carmen?
– O poder de fazer Lucas me amar – minha resposta foi imediata.
– Mas esse eu já te dei e você não gostou.
– Então não sei. Que tal fazer com que você se apaixone por mim?
– Por que você iria querer algo assim?
– Para ter poder sobre ti.
– Então para ti amor é uma relação de poder – concluiu Kayode – tu
não quer que o Lucas te ame. Quer ter poder sobre ele.
– Acho que sim.
– Então o que tu cobiça é o poder sobre os outros: a maior tentação
humana.
– O problema é que o Lucas não busca o poder – expliquei – ele não
está nem aí. Mesmo que eu fosse muito poderosa, ele não olharia para
mim.
– Isso é o que você pensa.
Sabrina andava muito sorridente e feliz naqueles dias. Achei esquisito.
Ela estava até conversando com as pessoas.
– Como está hoje, Átila?
– Muito bem, obrigado – respondeu Átila, prontamente.
– Que está lendo?
– Ah, nada. Apenas um livro de matemática...
– Quem é o autor?
– Edwin Abbott.
– É claro que eu conheço Flatland – disse Sabrina – é uma das ficções
de matemática mais conhecidas de todos os tempos.
Confesso que senti um pouco de inveja ao vê-la conversando tão
livremente com Átila sobre livros.
Mas o pior foi quando ela se dirigiu a Lucas.
Ela fez isso no intervalo. Ela aceitou um cigarro e os dois foram
fumar lá fora. Mataram aula!
Eu nunca fiz isso. Nunca fumei com Lucas. No máximo, provamos
juntos um Halls.
– De onde veio essa menina? – perguntou Laura.

130
O Vale do Colosso

Ela era uma das admiradoras de Átila. Agora que Natália e suas
seguidoras não estavam mais no comando da situação, novas fãs do
melhor aluno da turma tinham assumido a posição.
Como Sabrina vivia quieta, ninguém reparava nela. Mas naquele dia
ela parecia particularmente propensa a conversar com as pessoas que
tinham feito pactos com colossos.
Por isso a próxima a ser abordada fui eu.
– Então, você já transou com seu colosso? – perguntou Sabrina.
– Não, eu deveria? – perguntei, perplexa.
– Tu deve ter ouvido a história sobre Átila.
– Kayode me contou.
– Conversei agora com Lucas e eu soube que ele mantém relações
sexuais com Zumbi. Começou recentemente.
Eu não gostei nem um pouco de saber disso.
– Também já trepei com o meu – informou Sabrina.
– Por que está me contando isso?
– Porque seria bem menos cruel se separar de um filho que seja
híbrido.
Eu precisava ter uma conversinha com Kayode.
– Por que mentiu para mim? – perguntei, indignada, quando
estávamos num local reservado – e tão descaradamente!
– Perdão – disse Kayode, segurando o riso – achei que seria divertido.
– O que aqueles quatro fizeram de verdade quando se trancaram
naquela sala?
– Um ritual – explicou Kayode, simplesmente – para ter um filho o
quanto antes. Você sabe que vai morrer daqui vinte anos, não é mesmo?
– Como assim? – perguntei, aborrecida – é claro que não vou morrer.
Porque vou doar meu filho para vocês.
– Nada disso. De vocês quatro, somente um irá sobreviver.
– Não estou entendendo nada.
– Em vinte anos, cada um dará um filho para nosso mundo. Seja ele
humano ou híbrido, não importa. E cada um de seus filhos deverá partir
numa jornada para salvar seus pais. É claro que um filho metade colosso
será mais poderoso. Além do mais, quanto antes ele nascer melhor, pois
estará mais velho, mais forte e mais experiente.
Eu fiquei quieta. Não tinha certeza se tinha entendido direito.

131
Wanju Duli

– Na prática, isso significa que meu filho será mais forte se eu o tiver
com você do que com um humano, certo? – perguntei.
– Exato.
– Além disso, o quanto antes ele nascer melhor, já que assim ele terá
mais idade, poder e sabedoria.
– Menina esperta.
Dei um soco na cara dele. Dessa vez Kayode se irritou de verdade.
Era a primeira vez que eu o via irado.
– É isso que chama de ritual de acasalamento? – ele me perguntou.
– Não, eu o chamo de ritual de vingança – eu disse – estava tentando
me matar ao esconder a verdade?
– Nós colossos fizemos uma aposta entre nós. Não vamos colaborar
com vocês, humanos. Se quiserem transar, vão em frente. Mas nada de
favoritismos. Não pretendo salvar sua vida, Carmen.
– E por que não?
– Você vendeu sua alma como se fosse lixo. Conseguiu recuperá-la
como se não fosse nada. Achou que não haveria um preço? Quanto vale
uma vida?
– Mas para vocês não existe morte...
– Nós morremos. Apenas sabemos mais sobre a vida, sobre o valor
da morte e o pós-morte. Isso não significa que a morte não exista.
– O que vai acontecer se eu morrer daqui vinte anos?
– Exatamente o que pensa que acontece: seu corpo volta para a terra.
Já seu espírito é imortal. Eu tenho tua alma aqui. Ela me pertence.
Ele me mostrou um contrato.
– Onde está a minha alma agora? – perguntei, preocupada – não está
dentro de mim...?
– Não, Carmen. Ela está aqui.
Ele apontou para si mesmo. Depois declarou, triunfante.
– Se quiser recuperá-la, terá que trepar comigo – explicou Kayode –
eu escondi sua alma no meu sêmen. A única maneira de recuperá-la é
através do sexo. Oral também serve, caso queira comer sua própria alma.
Mas eu sugiro que você a coloque no próprio útero e libere seu poder
total através do filho. Vai facilitar as coisas.
– Eu sabia que o vestibular seria meu menor problema. Foda-se, nem
queria fazer mesmo. Vamos fazer amor, Kayode.

132
O Vale do Colosso

– Mesmo?
– É claro que não! – rosnei – eu não vou trepar contigo. Vou matá-lo
em vez disso. Se eu te matar, recupero minha alma, não é?
– Possivelmente.
Aquela resposta era o bastante. De certa forma era emocionante,
quase como a aposta feita em Fausto, de Goethe.
Procurei Sabrina, Átila e Lucas. Sugeri que unissem forças comigo
para que assim pudéssemos matar os colossos.
– É muito mais fácil transar com eles – disse Sabrina – por que
complicar as coisas?
– Por que seguir o caminho mais fácil? – perguntei – você não tem o
menor orgulho?
Átila também disse que não queria saber de matar ninguém. Já tinha
se esforçado muito no ritual da última transa para jogar todo o esforço
no lixo.
Lucas era minha última esperança.
– Nunca fiz questão de ter filhos – disse Lucas – e matá-los não soa
bem mais divertido?
Estava na hora dos preparativos. Eu e Lucas precisávamos descobrir
algumas magias poderosas para enfrentar os colossos do Vale. E se
Sabrina não fosse nos ajudar nisso, teríamos que descobrir sozinhos.

133
Wanju Duli

Capítulo 3

Marina e Gustavo se recusavam a se meter nessa fria em que


estávamos. Sabrina e Átila seguiriam o caminho mais fácil. Portanto, a
insegurança recairia somente sobre mim e Lucas.
Fiquei contente por ele me acompanhar nessa. Eu não deixava de
pensar que ele poderia ter escolhido o caminho mais difícil para que eu
não o percorresse sozinha.
Infelizmente não estávamos tendo muito progresso. Pesquisávamos
sobre magia em livros antigos, mas nada encontrávamos.
– Precisamos dos livros do Vale – sugeriu Lucas – que tal irmos para
lá? Não acho que seremos barrados. Os colossos gostam de receber
visitas.
– Seria legal – concordei – ando a fim de respirar os ares do Vale. E
não conheço as bibliotecas deles.
Kayode sentou-se entre nós.
– Eu posso levá-los para lá – ele disse, despreocupadamente – para
poupá-los de ingerir alucinógenos suspeitos.
– Eu topo – falei – engraçado que você sabe que estou pesquisando
meios de matá-lo e mesmo assim vai me ajudar.
– Quem sabe assim você tenha piedade de mim – brincou Kayode.
– Até parece que é por isso que está me ajudando – falei – tu não
acredita que eu vou ser capaz de te matar, né?
– Não acredito, mas estou curioso para saber como você irá tentar.
Sabia que sou muito forte?
– Nem imagino o quanto – falei.
– Pare de escutar esse cara, Carmen – disse Lucas, folheando um livro
– ele está fazendo sua cabeça.
– Que sujeito desagradável – disse Kayode – até o tom de voz dele
me dá náuseas. E essa pose de superior é irritante. Você por acaso é uma
galinha para andar com esse peito empinado?
– Espera aí – disse Lucas – eu escutei bem? Você me chamou de
galinha?

134
O Vale do Colosso

Eu segurei o riso.
– Como consegue gostar desse humano arrogante, Carmen? –
perguntou Kayode – me desculpe, mas você tem um mau gosto
desgraçado.
– Seu colosso está completamente apaixonado por você – Lucas me
informou – e está morrendo de ciúmes da nossa amizade. Não se
preocupe, seu colosso horroroso. Não estou visando sua amada. Pode
ficar com ela.
– É verdade que tenho algum interesse em ter relações sexuais com
Carmen – disse Kayode – mas paixão é outra coisa completamente
diferente. Estou apenas com ciúmes do desejo dela por você. Quanto ao
amor que ela sente, pouco me importa.
– E nem sabe mentir – acrescentou Lucas.
– Eu sei ler mentes, seu escroto – falou Kayode, com ferocidade – eu
já te vi olhando a bunda da Carmen.
– Mas que diabos – disse Lucas, despreocupadamente – eu olho para
a bunda de todas as mulheres da face da Terra. Coloque uma bunda na
minha frente e ela não escapará da minha análise. Isso não significa que
tenho sentimentos por bundas, seu crápula.
– Não briguem, garotos – eu disse – Kayode, nos leve logo para o
Vale, já que ofereceu. De preferência, nos leve para uma biblioteca.
– Eu os levarei para a melhor biblioteca do Vale.
Kayode abriu um portal, com a facilidade com que respirava. Eu e o
Lucas o seguimos e quando abrimos os olhos estávamos dentro de uma
biblioteca muito suja e empoeirada.
– Se essa é a melhor biblioteca de vocês, imagina a pior – observou
Lucas, segurando os livros, que quase se desmanchavam em suas mãos –
para começar, a tecnologia de vocês é péssima. Deviam pesquisar
materiais mais duradouros para escrever os livros. Está tudo se
desintegrando aqui dentro.
– Só sabe criticar – disse Kayode – porque ainda não viu os tesouros
que temos aqui.
Eu os descobri muito depressa. Meus olhos estavam brilhando ao
fitar as prateleiras. Havia livros escritos há milhares de anos. Alguns
tinham até mais de um milhão de anos. Muito antes de a raça humana
sequer sonhar em inventar a escrita.

135
Wanju Duli

– Não sei ler isso – falei, folheando um livro.


– Eu traduzo o que precisar – ofereceu-se Kayode.
– Que situação de merda – comentou Lucas – vamos precisar do
colosso para traduzir cada linha? E depois matá-lo furtivamente com as
dicas que nos der? Que plano maravilhoso!
Zumbi apareceu ali no meio dos livros.
– Precisa de mim, Lucas? – ofereceu a mocinha.
– Preciso sim – ele disse – traduza isso.
Zumbi gentilmente traduziu. Observei que ela apoiava-se no corpo
dele com excessiva liberdade. Não cuidava onde segurava. Como se já
tivessem transado.
Era bem diferente da minha relação com Kayode. Ele raramente
encostava um dedo em mim. Sempre mantinha uma distância respeitosa.
Nunca reparei nisso, mas agora eu via que era intencional.
– Você está grávida? – perguntou Kayode, curioso.
– Ainda não – respondeu Zumbi, sem problema algum – eu e Lucas
só tivemos uma relação sexual. Não deu certo da primeira vez. Podemos
tentar uma segunda vez, se ele quiser.
– A não ser que eu decida te matar em vez de te comer – observou
Lucas.
Zumbi riu.
– Os humanos pensam que podem nos matar – Zumbi disse a
Kayode – poder até podem, mas eles acham que vão conseguir isso em
poucos dias, lendo meia dúzia de livros.
– Achei que tínhamos vinte anos – disse Lucas.
– Se querem gastar seus vinte anos nisso, fiquem à vontade – falou
Zumbi – tenho todo o tempo do mundo para fornecer traduções. A não
ser que eu fique entediada.
Notei que Zumbi passou as mãos nas costas e no peito de Lucas. Ele
não a impediu.
– Tem certeza que não quer se deitar comigo? – ela falou no ouvido
de Lucas, mas em voz alta e clara – foi tão bom da primeira vez...
Será que ela estava fazendo aquilo para me provocar?
– Foi bom – concordou Lucas – mas faremos isso outra hora. Agora
estou ocupado.
Ela largou-o, ligeiramente ofendida.

136
O Vale do Colosso

– Os livros são mais interessantes do que eu? – perguntou Zumbi.


– Não são – disse Lucas – odeio livros. Estou apenas acompanhando
a Carmen. Quero mostrar a ela que essa busca é inútil. Não vamos
derrotar colossos com magia de colossos.
– O que propõe então? – perguntei.
– Apenas trepe com esse bicho e acabe com isso – sugeriu Lucas.
– Mesmo? – perguntei, para me certificar.
– Prefere que eu te engravide em vez disso? – perguntou Lucas.
– Faria isso por mim? – perguntei.
– Não – disse Lucas – estou apenas brincando com seus sentimentos.
Zumbi gargalhou quando Lucas disse isso. Kayode, por outro lado,
segurou Lucas pela camisa e empurrou-o contra uma parede.
– Escute aqui, espertinho – disse Kayode, com maus modos – eu não
sei como Carmen aguenta essa sua má educação, mas eu não vou tolerar.
– Bem, isso foi muito galante – comentei – obrigada por me
defender.
– Às ordens – disse Kayode, largando Lucas – viu só? Ele ficou todo
cagado.
De fato, Lucas tinha levado um susto tão grande quando Kayode
colocou-o contra a parede que ele até perdeu a fala. Estava com uma
expressão assustada e respirando rápido.
– Você não se atreveria a me matar – disse Lucas.
– Não vale a pena o esforço – disse Kayode – mas não me incomodo
de arrancar uma perna ou um braço.
Eu sabia que Kayode não gostava de mim de verdade. Então o que
era todo aquele teatro?
Foi então que eu somei dois mais dois. Kayode estava fingindo que
era superprotetor em relação a mim. Talvez assim Lucas começasse a
olhar para mim. Achasse que havia algo ali que valia a pena.
Fiquei grata por Kayode fazer aquilo. Mas não precisava. Eu disse
isso a ele mais tarde, enquanto Lucas e Zumbi checavam outra seção
mais afastada da biblioteca.
– Esse rapaz que você gosta é muito fácil de ser lido – explicou
Kayode – eu conheço os humanos há milhares de anos, Carmen. Eles
funcionam mais ou menos da mesma forma. Eu também conheço a
cultura da era e do lugar em que vocês vivem. Não tem erro. Se Zumbi

137
Wanju Duli

não estragar tudo, em pouco tempo Lucas estará correndo atrás de você,
sem precisar de magia nenhuma.
Não achei que seria tão simples. Eu disse a ele que eu não sabia se
tinha paciência de esperar por Lucas por vinte anos.
– Você deve saber o que quer – disse Kayode – essa é sempre a parte
mais difícil.
– Não pode me ensinar algumas magias? – perguntei.
– Até posso. Quer que eu seja seu professor?
– Por favor.
Kayode se empolgou.
– Quer conhecer a minha casa?
– Não vou morar contigo – falei.
– Eu não disse isso. Só vou te oferecer um chá.
Eu aceitei e fomos até lá. Caminhamos tranquilamente pelas ruas.
Observei os arredores.
– É meio isolado – comentei.
Havia algumas árvores, algumas casas. Mas não muito mais que isso.
Estava nublado e era como se um grande monstro fosse aparecer de
repente para engolir o mundo. Eu não gostava da sensação que eu sentia
ao estar no Vale.
– Aqui estamos.
– Você vive num castelo? – perguntei, impressionada – não sabia que
era rico.
– Eu não sou rico – explicou Kayode – aqui no Vale há muitos
castelos e construções abandonadas. Não há quase ninguém habitando
aquelas casas velhas que você viu no caminho.
Adentramos o castelo. Realmente, estava em ruínas. Havia poucos
móveis lá dentro e era tudo muito feio. Mesmo assim, era adequado para
conversar, pois a reverberação era boa.
– Sente-se – ele convidou, apontando um grande sofá vermelho.
Eu me sentei. Pelo menos o sofá era novo e confortável. Senti até um
pouco de sono só de sentar nele.
Kayode sentou-se em outro sofá, em frente ao meu.
– Como se sente ao ter terminado aquela coisa que você fazia todas
as manhãs bem cedo?
– Você se refere ao meu colégio? – perguntei.

138
O Vale do Colosso

– A que mais seria?


Respirei fundo. Eu sentia uma sensação de liberdade. Ao mesmo
tempo, um pouco de inquietação.
– Parece que levou uma eternidade – comentei – mas me sinto bem
ao ter me livrado dele.
– Em compensação, não poderá mais ver seu amado todo dia.
– Aposto que Lucas vai querer ficar no Vale por um tempo. Então
ainda vou vê-lo por aí.
– Por que não fica também? – perguntou Kayode – ainda tem algum
compromisso no seu mundo?
– Na verdade não.
Pensando bem... por que eu continuaria no lugar que nasci? Eu tinha
mais dois irmãos que já estavam com a vida bem estabelecida. Meus pais
também estavam bem. Eu já tinha concluído o ensino médio e não tinha
outros planos.
O cara que eu gostava ia ficar no Vale. Se eu voltasse para meu
mundo ia acabar trabalhando em qualquer coisa. Se eu permanecesse no
Vale poderia me focar no meu treinamento de magia.
Além do mais, eu poderia visitar a Terra a qualquer hora.
Kayode foi até outro aposento do castelo e retornou com duas
canecas de chá. Ele me deu uma.
– Leite, açúcar ou creme?
– Eu bebo chá com leite, mas... que chá esquisito é esse? – perguntei.
– É feito de uma planta do Vale – explicou Kayode – já viu uma
árvore enorme, com folhas azuis? Nós usamos essas folhas. A árvore se
chama Virgílio. Então esse é um chá de virgílio.
– Há um poeta romano com esse nome – comentei – ele escreveu um
livro chamado Eneida.
– Eu sei. Ele veio para o Vale, mais de dois mil anos atrás.
Eu ri.
– Virgílio veio visitar vocês aqui? Tá bom. Vou fingir que acreditei.
– Muitos humanos já vieram nos visitar nos últimos milhares de anos
– contou Kayode – mas a maioria não era gente famosa. Eram pessoas
quaisquer, como você.
– Não me importo de ser uma pessoa qualquer – eu disse – contanto
que, para a pessoa que eu ame, eu não seja qualquer uma.

139
Wanju Duli

– Que lindo – zombou Kayode.


Bebi o chá e adorei. Até pedi mais.
– Não fica entediado morando sozinho nesse castelo enorme? –
perguntei – deve ser meio solitário.
– Eu fico – disse Kayode.
– Que tipo de magia você vai me ensinar?
– Depende do que quer aprender. Magia de ataque? Defesa? Cura?
Divinações? Evocações?
– Acho que ataque e defesa me interessam – comentei – porque
parece algo útil de se saber nesse lugar.
– Você viu alguma guerra rolando por aí?
– Ainda não, mas eu tenho medo de estar sozinha um dia e um
colosso me atacar. Você disse uma vez que colossos são muito
poderosos. Eles não gostam de humanos?
– Nós adoramos humanos. Eles são ao mesmo tempo tão fracos e
tão fortes. Eu os acho graciosos por isso. A força física de vocês é risível.
No entanto, há momentos em que vocês se mostram tão fortes em suas
mentes como se fossem Deuses. São capazes de cometer loucuras. Eu
acho isso fascinante. Por isso, mesmo usando magia de colossos, o
potencial de vocês é imprevisível.
Kayode me disse que a magia não podia ser medida pelo método
científico. Ao menos não plenamente.
– A ciência de vocês fala sobre corpo e mente. No entanto, ela fala
muito pouco sobre espírito. Fala de forma vaga, nas raras vezes em que
menciona a importância do bem-estar espiritual. Além do mais, vocês
possuem uma dicotomia de conceitos que frequentemente se torna um
problema. Acham que saúde é bom e doença é ruim. Que prazer é bom e
dor é ruim. Não conhecem e não exploram o potencial da doença, da dor
e da morte. Magias poderosíssimas podem ser ativadas a partir disso. A
morte faz parte da vida. Ela desperta o potencial pleno do espírito.
– Como posso realizar magias fortes se você roubou minha alma? –
perguntei, aborrecida.
– Posso te tirar um braço, arrancar sua saúde, seu conforto e sua
felicidade. No entanto, é difícil tocar no espírito. Eu sei que, mesmo sem
sua alma, você ainda pode realizar grandes feitos, exatamente quando se
encontra no seu pior momento.

140
O Vale do Colosso

– Qual a diferença entre alma e espírito?


– Aqui no Vale, nos dizemos que a alma representa sua vida presente;
sua essência vital. Porém, o espírito é algo muito mais forte que isso. É
sua conexão com os Deuses.
– Quem são os Deuses?
Kayode sorriu.
– Há várias coisas que você ainda não entende. Alma e espírito são
muito próximos; quase a mesma coisa, se não fosse por um pequeno
detalhe. A alma representa sua individualidade, sua potência única do
momento atual. O espírito é atemporal e múltiplo. É sua conexão com o
Todo.
– O Todo – repeti – isso me soa meio taoísta.
– Mas como disse aquele respeitável filósofo de vocês, Aristóteles, o
todo é maior do que a mera soma de suas partes. Quando combinamos
corpo, mente e espírito há uma força muito maior do que apenas a soma
do potencial de cada um desses três isolado. Ou seja, a matemática
convencional não se aplica aqui. Eu poderia dizer que o corpo é 1, a
mente é 2 e o espírito é 3. No entanto, os três juntos somados te dão o
potencial de, digamos, 10. Mas o mago poderoso não para no dez. Ele
quer mais. Ele não se limita à mera lógica matemática.
– Ah, então é como xadrez – eu comentei – a torre vale cinco e o
bispo vale três.
– Mas esse é apenas um valor relativo – disse Kayode – ele muda em
sistemas diferentes e pode variar conforme o jogo progride. Na vida
também é assim. Seu corpo pode valer mais ou menos conforme você o
treina. Depende de como o alimenta, como o exercita. Como você nutre
sua mente, Carmen? E o seu espírito?
– Você é capaz de medir quanto vale cada uma das minhas partes? –
perguntei.
– Estou certo de que é mais fácil medir isso no xadrez do que numa
pessoa. Mas é a combinação de cada uma das porções de você que
determina seu potencial de magia. Porém, não desanime. Pode ser que
seu potencial atual seja baixo, mas existem exercícios específicos para
aumentá-lo.
– Então chega de teoria da magia – decidi – estou pronta para os
exercícios. Podemos começar?

141
Wanju Duli

– Vocês, humanos, e suas dicotomias – comentou Kayode – o


dualismo é um sistema útil quando as partes se complementam e não são
antagonistas. Quem disse que teoria e prática são coisas tão diferentes?
Nós somente as separamos para fins de sistematização. Você vai estudar
e praticar conjuntamente. Eu vou te indicar leituras diárias além dos
exercícios. Não negligencie nenhum deles.
– Está certo – eu sorri – você sabe ser um professor sério e rigoroso
quando quer.
Kayode não respondeu. Ele estava observando as próprias prateleiras.
Tirou de lá um livro e me entregou.
– Leia esse para amanhã: “Pensamentos que tocam a alma: a mente
como ponte e como destino”.
Folheei o livro.
– Tem trezentas páginas – comentei – como quer que eu leia até
amanhã?
– Se tivesse o dobro disso eu te daria dois dias. Trezentas páginas é
um tamanho aceitável e o livro é divertido e tem figuras. Agora vamos lá
fora para treinar. Embora os móveis possuam energia vital, porque são
feitos de elementos da natureza, os iniciantes sentem mais facilmente a
energia de árvores e pedras brutas.
Eu bebi o resto da minha segunda caneca de chá e o segui. Era
engraçado ver Kayode todo sério, se concentrando no meu treinamento.
Kayode subiu na árvore facilmente, porque voou. Só que eu não sabia
voar. Então comecei a escalá-la como podia, mas fiz isso de forma muito
desajeitada. Desde que eu era criança eu não subia numa árvore.
Fui me apoiando nos galhos, com cuidado. Mas eu era gorda e tinha
pouca consciência corporal. Era muito peso para levar para cima e a
gravidade não ajudava. Quando eu estava quase chegando onde Kayode
estava, eu tropecei. Ele segurou o meu braço a tempo e eu não caí.
Ele me segurou com força. Até me machucou um pouco. Puxou-me
para cima. Ele me pegou pela outra mão e me conduziu. Sentei-me ao
lado dele.
Meu coração estava acelerado.
– Achei que ia cair – eu disse.
– Eu não ia te deixar cair – falou Kayode – se bem que a árvore não é
alta e você não ia se machucar muito.

142
O Vale do Colosso

Kayode raramente encostava em mim. Senti-me grata por ele ter me


ajudado. Eu estava com raiva daquela árvore. Era desconfortável.
– O conforto não é sua meta – ele disse – ao menos não todas as
vezes.
– Já te disse que odeio quando você lê meus pensamentos? –
perguntei – isso é invasão de privacidade.
– Eu não posso evitar. Você não possui nenhum tipo de controle
mental e deixa que seus pensamentos vaguem com tanta força que eu
precisaria de uma grande concentração para não lê-los. Sua mente está
sempre gritando.
– Gritando?
– O seu grito mais frequente é “estou com fome” – ele me contou.
– Isso é óbvio – falei – porque é a verdade. Você só me ofereceu um
chá e nada sólido para acompanhar.
– Quando acabarmos o treinamento de hoje vou te oferecer alguma
coisa para comer. Em geral é melhor treinar de barriga vazia, pois há
certos tipos de magia que podem revirar a comida no seu estômago e te
deixar enjoada.
– Ah, como é lindo!
Eu apontei para o horizonte. Ele estava colorido de rosa e roxo lá
longe.
– O que tem lá? – perguntei, curiosa.
– A Torre de Marfim – respondeu Kayode – você já esteve lá.
– Mas ela não me pareceu tão imponente da outra vez.
– Isso porque você estava fraca. A percepção das coisas muda
completamente dependendo do estado mental. E principalmente do
estado do espírito. Você pode estar doente e triste, mas se seu espírito
está bem alimentado, poderá encontrar forças para superar a fraqueza
física e a tristeza. Entende o que quero dizer?
– Mais ou menos. É algo como esperança?
– Esperança é uma boa palavra. Mas ela é apenas o começo.
Kayode também fitava o horizonte com concentração. Sua pele em
tom de carvão reluzia à luz do Sol. Eu não sabia porque ele usava aquele
manto pesado. Eu não podia ver muito do corpo dele por causa disso.
É claro que eu tinha curiosidade de ver mais do corpo dele, até
porque ele era de uma espécie diferente da minha. O que haveria lá

143
Wanju Duli

embaixo? Os colossos faziam sexo com os humanos, então devia ser


algo parecido.
Será que o pau dele também era escuro como carvão? E as bolas? Ele
tinha pelos pubianos como nós? E a glande, de que cor seria?
Kayode continuava fitando o horizonte, seriamente.
– Carmen, você é tão sincera – ele comentou, casualmente – eu te
admiro por isso. Se eu estivesse em sua pele, eu teria mais cuidado ao
deixar meus pensamentos voarem ao lado de alguém que pode lê-los tão
claramente.
– Porra! – eu disse – você leu isso?
– Isso o quê? – brincou ele.
– Vai pro inferno, Kayode – eu disse, com irritação.
– É lá – ele apontou para um local ao longe, com céu vermelho.
– O quê?
– O inferno. Quer ir visitar?
– Você está brincando.
– Estou sim.
Eu queria aprender logo a controlar meus pensamentos para que ele
não tivesse mais acesso ao meu coração.
– Vamos começar isso de uma vez? – perguntei, impaciente.
Eu ainda estava chateada com o recente acontecimento.
Ele arrancou uma folha da árvore e entregou para mim. Aquela
árvore tinha folhas amarelas e laranjas.
Segurei a folha. Não parecia ter nada de mais nela.
– Sinta sua aspereza – ele disse – seu cheiro, seu gosto, o som que ela
faz entre os dedos. Contemple a cor vibrante. Penetre-a com todos os
seus sentidos físicos.
Fiz o que ele requisitou.
– Nós normalmente não olhamos bem para as coisas – explicou
Kayode – só vemos de relance, sem prestar atenção. Por isso tudo nos
parece morto. Até as pessoas ao nosso redor. Parece que são meros
cadáveres sem alma.
– Já me senti desse jeito – concordei – sozinha numa multidão.
Todos eram como robôs.
– Estão todos vivendo e morrendo – disse Kayode – do jeito que
sabem. Quando não olhamos direito para nós mesmos, nós apenas

144
O Vale do Colosso

deixamos nossa vida e nossa morte seguir o curso da natureza, sem


interferir.
– Então fazer magia é interferir no curso da natureza?
– Depende da teoria que você usa. Magia pode ser definida como um
fenômeno sobrenatural, que quebra com o fluxo da correnteza. Ou pode
ser vista como algo supernatural: um tipo de conexão profunda com
tudo o que vive e morre ao nosso redor. Qual abordagem você prefere?
– Faz diferença?
– É claro que faz. A magia depende de uma teoria. Ou melhor, ela se
baseia completamente numa teoria. Quem apenas pratica magia e não
liga para teorias, também cria, inconscientemente, uma teoria de como
acha que a magia funciona. Mas, nesse caso, se trata de hipóteses
incompletas e instáveis, que podem afetar seu poder. Precisamos
construir nosso castelo sobre uma base segura. Por isso a teoria é tão
importante. O que vem depois depende dela. A mente consciente
interfere o tempo todo. Não precisamos nos livrar completamente da
nossa lógica, até porque isso é muito difícil. Podemos usá-la como aliada
do insconsciente.
Por alguma razão, aquilo fazia muito sentido para mim.
– Não posso aliar as duas teorias? – perguntei.
– Você pode, contanto que funcione. Use aquilo que te parece mais
lógico, ou que tenha efeitos práticos melhores. Quem sabe um pouco
dos dois. É difícil para a mente adotar uma teoria que não parece fazer o
menor sentido, por mais que seu efeito seja visível. Por outro lado, uma
teoria brilhante que gere poucos efeitos também estaria incompleta.
Você precisa encontrar um equilíbrio. Não tente construir uma
hierarquia, com um sistema em que teoria é superior ou prática é
superior. Elas devem se aliar.
– Gostei disso – decidi – prefiro considerar que a magia é ao mesmo
tempo sobrenatural e supernatural, dependendo do contexto. E que as
coisas estão simultaneamente vivas e mortas.
– Se for capaz de sustentar esse tipo de relativismo, vá em frente. O
relativismo não é sempre a melhor escolha. Mas se você puder usá-lo nos
momentos adequados, obterá efeitos extraordinários.
– Então, quando for conveniente, irei considerar que minha teoria
pode ser alterada por outra.

145
Wanju Duli

– Esse tipo de flexibilidade mental é louvável – ele disse – mas nem


todos se sentem confortáveis com isso. Pode gerar confusão em algumas
pessoas.
– Essa folha me parece bem viva e natural agora – eu disse.
No segundo seguinte, eu esmigalhei-a.
– Agora ela me parece mais morta. Mas ela ainda faz parte da
natureza, certo? Voltou para a natureza.
– Uma folha que é queimada ainda é uma folha? – perguntou
Kayode.
– Acho que aprendi isso na aula de química no colégio – tentei me
lembrar – que os fenômenos de natureza física podem ser reversíveis,
mas os químicos podem ser irreversíveis. Algo assim. Eu posso congelar
e descongelar a água muitas vezes. Mas não posso queimar uma folha e
depois fazê-la voltar a ser folha. O que isso significa? Lavoisier estava
errado? Ele disse que tudo se transforma, mas por que a folha não volta
a ser folha? A folha em si não foi, de certa forma, perdida? Ela se tornou
outra coisa, mas a folha em si sumiu e perdeu sua essência de folha.
Então qual é a diferença se ela continua sob outra forma?
– Pode ser que um dia, se lhe der tempo suficiente, ela volte a ser
folha – sugeriu Kayode – quem sabe daqui alguns milhões de anos.
– Mas nunca vai ser exatamente a mesma folha de hoje.
– Quando apenas um segundo se passa, a folha já não é a mesma que
era um segundo atrás.
– Isso me lembra Heráclito – falei – ele disse que um homem não
pode entrar duas vezes no mesmo rio, porque o rio mudou e o homem
também. Mas... o homem não deixou de ser homem e o rio não deixou
de ser rio apenas porque mudou um pouco. Qual é o limite entre mudar
um pouco e mudar muito? Em que momento uma transformação física
se torna química? Em que momento em que a vida vira morte? Talvez
esse limiar seja muito pequeno.
– A ciência possui limitações para responder isso – explicou Kayode
– porque para a ciência as coisas são compostas por átomos. Mesmo que
vocês nunca tenham visto os átomos. A mecânica quântica fala de
dualidade onda-partícula.
– Para nós as coisas são matéria é energia – falei – mas sabemos que
há algo chamado consciência. O que é a mente humana? Não sabemos

146
O Vale do Colosso

muito bem isso. E se sequer isso nós podemos responder, falar em alma
é algo que vai muito além do que a ciência pode sequer sonhar.
– Vocês estão vivendo um momento histórico peculiar – disse
Kayode – na Idade Média ocidental, a autoridade máxima de vocês era a
religião. Tudo o que não vinha de Deus era descartado. Atualmente, a
autoridade de vocês é a ciência. Vocês desprezam tudo que não é
científico e assim limitam sua visão e vivência da vida e do mundo.
– Então você acha que na Antiguidade Clássica se tinha uma visão
mais abrangente da vida? – perguntei – porque havia ao mesmo tempo
ciência, religião e filosofia coexistindo.
– Talvez você esteja fantasiando um pouco a Grécia Antiga –
comentou Kayode – vocês, humanos, têm a tendência a construir
hierarquias. Acham que a Antiguidade Clássica era linda, a Idade Média
foram trevas e atualmente se vive um período melhor que a Idade Média,
mas pior que a Antiguidade Clássica. Eu acho essa visão completamente
errada e limitada. Cada época é única e teve suas particularidades. Sem
contar que vocês fecham os olhos para a história dos outros países e
ficam com uma visão linear da existência.
– Eu li alguns livros de autores nigerianos e chineses – contei.
– E agora vai ler nossos livros.
– Eu não entendo o idioma daquele livro que você me emprestou.
– Aos poucos você vai entender. Está bem: vou te dar três dias para
ler, já que tem dificuldade com o idioma. Mas entenda que a linguagem
do Vale não se lê somente com a mente, mas também com o espírito.
Por aqui, a vida e a morte se confundem. Esse livro que te emprestei tem
muita vida. Ele tem uma alma nele.
– É mesmo? – perguntei – posso roubá-la?
– Pode, mas para isso você teria que derrotar o espírito do autor do
livro – explicou Kayode – mesmo que o autor já tenha morrido, ele
lacrou uma magia poderosa no livro. Se você entender tudo o que ele
disse e dominar a teoria, talvez possa arrancar a alma dele. Mas em geral,
um leitor generoso não faz isso. Não destroi a alma de um livro, para que
o leitor seguinte se beneficie. Aqui no Vale existem criminosos
chamados Caçadores de Livros.
– Eles roubam as almas dos livros e colecionam? – perguntei.

147
Wanju Duli

– Eles as absorvem para si. Mas quando um livro morre, ainda é


possível fazer uma operação de necromancia e fazê-lo reviver com outra
alma. É claro, um mago experiente logo percebe quando abre um livro
que possui uma alma que não é aquela do autor que originalmente o
escreveu.
– Que fascinante! – exclamei – o autor pode recuperar o livro morto
e devolver a alma dele?
– Sim, mas quando o autor do livro morre, não pode mexer mais
nisso. Esses são chamados os livros raros: os que possuem autores
mortos. Colossos vivem muito. No entanto, é claro que alguns de nós já
morreram e deixaram livros para trás. As almas de alguns deles ainda
estão por aí. Estas são caríssimas e podem ser vendidas a um alto preço
no Mercado.
– Lembro que um dia te perguntei se há algo que não se pode
comprar.
– Você aos poucos irá aprender essas coisas. Mas não espere nunca
ter respostas definitivas. No dia em que achar respostas absolutas para
tudo, seu conhecimento irá se cristalizar, sua alma irá endurecer e deixar
de se desenvolver. Entende o que quero dizer? É a sede de
conhecimento que nos move. É a busca por novas perguntas e não por
respostas finais.
– Mas quando morremos, tudo acaba – falei – até essa busca.
– Ela não termina. Porque a morte não é o fim. Já te falei que aqui no
Vale a morte é o começo.
– Então a morte é o objetivo da vida?
– Você não entendeu. Eu sabia que não seria fácil. Mas não se
apresse. Um dos segredos está no tempo.
– O tempo é ao mesmo tempo absoluto e relativo no Vale? –
perguntei.
– Você se refere à percepção do tempo ou ao tempo em si? –
perguntou Kayode – o corpo pode sentir uma coisa e a alma sentir outra.
Para o espírito, tudo é atemporal. Já a alma, mergulha nesse universo sem
tempo, mas ela em si não é atemporal. Você compreende?
– Ainda estou pensando na folha – confessei – faz diferença a folha
se transformar em outra coisa se ela deixa de ser folha? Se perco minha

148
O Vale do Colosso

individualidade com a alma, que diferença faz se eu me torno parte do


Todo, se perco minhas memórias?
– O que é uma memória, Carmen?
– É aquilo que faz a Carmen ser a Carmen.
– De jeito nenhum – disse Kayode – uma Carmen sem memórias não
deixa de ser ela mesma. Porque a essência de quem você é não reside em
sua mente e sim em sua alma. E a alma jamais esquece.
Aquilo me soou profundo.
– E se o objetivo de tudo for esquecer? – perguntei – como no
budismo. O objetivo não é viver para sempre, e sim interromper o ciclo
de nascimentos e mortes. Iluminar-se é como apagar a chama da vela da
vida e dos desejos.
– Para mim, isso é dizer a mesma coisa de maneira diferente – falou
Kayode – a linguagem é limitada para explicar a verdade.
– Existe uma verdade? – perguntei.
– Na verdade existe uma mentira – disse Kayode – aqui no Vale nós
buscamos pela Grande Mentira.
– Uau – falei – você quer dizer que, dependendo da teoria adotada,
tudo pode ser verdade. Então vocês estão em busca de algo que não
pode ser verdade?
– Eu gosto dos seus pensamentos, mas não me entenda errado. Eu
não acho que as coisas são relativas. Eu acho que a teoria que diz que
tudo é relativo é apenas uma teoria. E a teoria de que existe uma verdade
absoluta também é uma teoria. E, por trás da criação das teorias, está a
mente humana.
– E por trás da mente humana está a mente de Deus – concluí.
– Quem é esse Deus? – perguntou Kayode.
– A origem dos espíritos? – perguntei – o espírito em si?
– A morte é um tipo de existência – disse Kayode – e a existência um
tipo de morte. Se esse Deus é imortal, ele não é nem vida e nem morte.
O que ele é?
– Ele é... nada – decidi – ele não existe.
– O que significa uma coisa não existir? – perguntou Kayode – ela
não existe de uma forma diferente, seguindo outras leis? Ela vive numa
não existência? Numa morte que não é morte, porque nunca nasceu?

149
Wanju Duli

– Parabéns, Kayode. Você está destruindo toda a lógica e toda a


línguagem. Essas coisas existem para nos ajudar e não para nos
atrapalhar.
– Mas é divertido tentar transcendê-las. Criar novos tipos de lógica e
de linguagem. Você sabe que as regras da lógica e a estrutura das línguas
foram inventadas para abarcar o que se conhece. Mas quando se
descobre coisas novas, não podemos tentar apenas encaixá-las nos
sistemas limitados que já existem. Pelo contrário, podemos destruir esses
sistemas antiquados e desenvolver outros que abarquem as novas
descobertas.
Minha mente estava girando.
– OK, então fazer magias significa destruir as antigas teorias – falei –
nós acreditamos que a matéria e a mente seguem leis científicas
específicas que não podem ser quebradas facilmente. As leis da física.
Mas se criarmos novas teorias, podemos realizar coisas que antes
achávamos não serem possíveis. Isso é manipular a realidade material
pela crença? Pela fé?
– Talvez, no começo. Depois deixa de ser uma crença, quando se
experimenta os resultados. Mas é claro que resultados não são tudo. O
método científico dos humanos se baseou fortemente em Francis Bacon,
que baseava-se no empirismo. Para ele, a experiência tinha muita força
para definir a realidade. No entanto, outras escolas filosóficas discordam,
como os racionalistas. Alguns colocam mais ênfase na razão do que na
experiência para dizer o que é possível e permitido.
Depois disso, Kayode recitou a seguinte passagem de cor:
– "Os que se dedicaram às ciências foram ou empíricos, ou dogmáticos. Os
empíricos, à maneira das formigas, acumulam e usam as provisões; os racionalistas, à
maneira das aranhas, de si mesmos extraem o que lhes serve para a teia. A abelha
representa a posição intermediária: recolhe a matéria-prima das flores do jardim e do
campo e com seus próprios recursos a transforma e digere. Não é diferente o labor da
verdadeira filosofia, que se não serve unicamente das forças da mente nem tampouco se
limita ao material fornecido pela história natural ou pelas artes mecânicas, conservado
intato na memória. Mas ele deve ser modificado e elaborado pelo intelecto. Por isso
muito se deve esperar da aliança estreita e sólida (ainda não levada a cabo) entre essas
duas faculdades, a experimental e a racional".
– Bacon escreveu isso? – perguntei.

150
O Vale do Colosso

– Em seu livro “Novum Organum”.


– Pensei que você não gostasse dos nossos livros.
– Eu não gosto muito – disse Kayode – mas quando converso com
você, preciso me referir aos livros dos humanos, para fazê-la entender
certos conceitos que possuem similaridade com outros que vocês
criaram. Não acho que os humanos são estúpidos, Carmen. Eles apenas
possuem a tendência irritante de se acomodarem logo que encontram
uma teoria bonita e confortável. Está bem, eu confesso: quando
encontro ou crio uma teoria toda luminosa, nas cores de arco-íris e tão
macia quanto um travesseiro de plumas, eu também me sinto tentado a
dormir sobre ela por alguns séculos. Nesse ponto, não somos assim tão
diferentes. Mas nós colossos vivemos tanto que com o tempo fomos nos
livrando de algumas das armadilhas mais óbvias. Isso não significa que
ainda não nos aprisionemos nelas de vez em quando. Mas quando isso
ocorre, é feito de forma mais consciente. Uma prisão voluntária.
– Sei – falei – vocês não são perfeitos. E pelo jeito essa não é a meta
de vocês.
– Se tivéssemos perfeita sabedoria, a jornada chegaria ao fim.
– E por que a jornada não pode acabar?
– Ela pode. Mas existe essa coisa chamada vício. Vício pela vida, vício
pela morte. Esses são bem conhecidos por vocês, humanos, que podem
se viciar facilmente por heroína ou pelo suicídio. Também há vícios
mentais poderosos além dos corporais. Você pode se viciar em se tornar
cada vez mais habilidoso em, digamos, matemática. Mas os vícios
espirituais são os piores. São como veneno.
– É quando a folha deseja continuar a ser folha, mesmo após
queimada?
– Sim – respondeu Kayode – os humanos encontraram esse veneno,
por exemplo, no interesse por alquimia. Segundo Paracelso, tudo é
veneno e nada é veneno. O que muda é a dose. A mesma faca que é
capaz de preparar seu alimento também pode te tirar a vida. Os magos
desejam ser consumidos pela chama, mas renascer das cinzas como uma
fênix. Eles podem fazer isso se harmonizando tanto ao fluxo da natureza
a ponto de se tornarem a própria natureza e, de alguma forma estranha,
preservam sua individualidade. Ou eles podem conhecer as leis da
natureza para quebrá-las. Ou desvendar leis diferentes.

151
Wanju Duli

– Vou ficar louca com tanta informação – eu disse – todas essas


teorias possuem alguma lógica e são maravilhosas. Mas é possível aplicá-
las?
– Apenas ao conversarmos, já estamos aplicando as teorias – disse
Kayode – não sente que aos poucos elas estão penetrando em seu
coração? Você está acreditando nelas, não somente com sua mente, mas
com seu espírito. Algo está se transformando dentro de ti. Isso vai se
refletir na tua percepção de mundo e mudar tuas ações. Não apenas na
forma de crença. Essas novas visões passam a produzir resultados
materiais palpáveis, num mundo que não é rígido.
Kayode tocou nos farelos de folha na minha mão. Ele pronunciou
alguns dizeres mágicos e os pedaços se uniram. A folha voltou a ser
folha.
– Você conseguiu fazer isso porque acreditou que podia?
– Você consegue falar apenas porque acredita que pode? – ele
perguntou – não. Eu fiz isso porque eu, de forma absoluta e
incontestável, posso fazer. Porque o mundo material permite. Eu posso
moldá-lo não somente com a minha mente, mas também com minha
alma. Você compreende?
– Não. Para mim, apenas a matéria altera a matéria. Nossa porção
psicológica tem alguma influência sobre a matéria, mas é pequena. Se
estou doente, um remédio vai me curar mais do que a crença de que
posso ficar boa. É verdade que o estado psicológico é parte da cura, mas
não é mais importante.
– Lá vem você de novo construindo hierarquias. Não escutou o que
Bacon falou? Ele enfatiza na experiência, mas alerta para que nunca
deixemos para trás a lógica. Então você não pode desprezar a mente e o
espírito e colocá-los como secundários. Se optar por fazer isso, sua magia
apenas se restringirá a efeitos materiais determinados pelas leis da física
estabelecidas por seu método científico. Carmen, Francis Bacon
inaugurou o método científico. Juntamente com Descartes.
– Agora entendo. Mas não sei como eu, que fui educada com essa
visão, posso alterar tão radicalmente minha forma de pensar assim, do
nada, a ponto de ser capaz de usar a magia de vocês.
– Você entende logicamente que é possível e presenciou essa
experiência com seus próprios olhos – disse Kayode – esse é o primeiro

152
O Vale do Colosso

passo: direcionar corpo e mente para esses fenômenos. Só falta você


encontrar seu espírito. Você sabia que tanto Bacon quanto Descartes
eram muito religiosos?
– Eles falavam muito de Deus – eu disse – mas isso não foi apenas
porque isso fazia parte da cultura deles?
– Onde está esse seu Deus escondido? Você fala dele como se fosse
um estrangeiro. Um mito há muito esquecido. Aqui no Vale, nossos
Deuses são reais. Não são apenas espírito, mas carne e sangue.
Kayode colocou uma faca na minha mão.
– Tente me ferir – disse Kayode – tenho sua alma comigo. Tente
arrancá-la de mim.
– Não – falei, surpresa – não quero te machucar.
Kayode riu.
– Não se preocupe. Não sou como vocês, humanos, que temem tanto
perder o corpo. Para nós a alma não é uma lenda, como para vocês. E
Deus não é somente um velho conservador. Ataque-me!
Se isso o divertia, eu lhe daria o que ele queria.
Tentei feri-lo com a faca, mas ele logo notou que eu não tentei fazer
aquilo de verdade.
– Ataque-me para me matar – ele disse – somente assim vai obter
algum resultado. Faça com vontade. Não queria aprender magias de
ataque e defesa? Mas eu não ensino apenas como fazer. Eu ensino o
motivo de as coisas serem dessa forma. De outro modo, você seria
apenas um robô seguindo regras. Aprenda a pensar, Carmen. Aprenda a
construir sua própria magia e ser a senhora da sua vida e da sua morte.
Deseja apenas ser arrastada pelo tempo e pela natureza? Ou deseja
desvendar o relógio e as leis da vida? Você já estudou bastante física no
colégio. Agora, saia do paradigma do método científico por um
momento. Escute seus sentimentos. E sua alma.
– Mas a alma está em você e não em mim...
– Tem certeza? Onde está você? No seu próprio corpo? Ou no meu?
Cravei a faca no ombro dele. Kayode fez uma expressão de dor.
– Muito bem – ele disse, deliciado – achei que só ia me arranhar no
começo. Mas você não teve piedade.
– Desculpe.
– Não peça desculpas. Continue. Dessa vez atinja os órgãos vitais.

153
Wanju Duli

Tentei ferir-lhe o peito, mas apenas arranhei seus braços e seu rosto.
Kayode se desviava, mas não estava preocupado em se desviar
perfeitamente.
Eu estava ficando cansada com as investidas. Para mim, aquela era
uma atividade física intensa.
Ataquei-lhe cada vez com mais vontade. Eu me equilibrava na árvore
para não cair. Dessa vez enfiei-lhe a faca no peito.
A expressão de dor de Kayode parecia muito genuína.
– Acho que estou tonto... de verdade.
Ele quase desmaiou. Tentei segurá-lo. Nós dois caímos juntos da
árvore.
Eu caí em cima dele, ainda com a faca na mão. Lá embaixo, Kayode
começou a rir com dificuldade.
– Não vai terminar o serviço?
– Não quero mais te matar – decidi.
– Só por causa da nossa conversa? Eu não disse nada assim tão
importante. Agi como um professor. Mas nem mesmo eu sei de tudo.
– Se eu te matar, quem vai me ensinar magia? – perguntei.
– Achei que quisesse aprender magias de ataque para me matar.
– Isso não é magia de ataque. Eu só estou te esfaqueando.
– A magia começa ao conhecermos o próprio corpo. E o impacto
mental que nossas ações geram. O impacto moral. Sabe alguma coisa
sobre moralidade?
– Acho que sei – falei – ou pensei que sabia.
– Essa faca que você segura faz parte do seu corpo? É uma extensão
do seu braço? Onde seu corpo começa e termina? Já pensou nisso? Se
você for capaz de adotar elementos da natureza como se fossem parte do
seu ser, até que ponto seria capaz de manipulá-los?
Foi só então, ao prestar atenção, que senti minha alma dentro dele.
Encostei o ouvido no peito ensanguentado de Kayode. Escutei as
batidas de seu coração. Mas parecia que havia outra coisa pulsando junto.
Eu não estava escutando com meus ouvidos do corpo físico. Era um
outro tipo de som, que gerava uma sensação incrível.
– Você é uma extensão do meu corpo? – perguntei – então se eu te
matar eu morro. Você tem a minha alma. Não posso te matar!

154
O Vale do Colosso

– Você acredita mesmo nisso? – ele perguntou – ou só está dando


essa desculpa porque não quer tirar a minha vida?
– Está mesmo morrendo? – perguntei, preocupada.
– Eu não sou imortal. Meu corpo não é frágil como vidro, mas ele é
de carne.
Prestei atenção no rosto dele. Por mais que disfarçasse, eu via um
pouco do medo da morte na expressão de Kayode.
– Não morre – eu disse, com voz fraca.
Como fui idiota. Por que eu o obedeci? Achei que colossos fossem
muito mais poderosos.
Senti lágrimas nos olhos. Que merda. Kayode riu de mim.
– Aquele filho da puta estava certo – disse Kayode – quando Lucas
disse que me apaixonei por você, ele viu através de mim. Já me apaixonei
por outras humanas antes. Sempre dá merda. É uma pena que você goste
de outro cara, mas eu respeito isso. Estou cansado de toda essa filosofia
e magia. No fundo busco um sentimento bem simples. Eros e Thanatos.
Amor e morte. As maiores forças que guiam o ser humano. Acho que até
mesmo eu sou bem humano nisso. Se não tenho o amor, que seja a
morte. Como nos livros ridículos de literatura que vocês escrevem.
Sempre achei a maior besteira. Por que alguém morreria por amor e não
pela verdade? Se for assim, morro pela mentira. Morro de brincadeira e
por motivo nenhum, para tapear os Deuses.
– Eu não preciso de Deuses – falei – e foda-se o Lucas também. Ele
não sabe o que perdeu.
Aproximei o rosto e dei um beijo nos lábios de Kayode.
– Está com pena de mim? – perguntou Kayode – só me beijou
porque estou morrendo?
– Você não está morrendo, idiota – falei – você está bem vivo aqui
embaixo.
Senti o pau duro de Kayode por baixo do manto. Eu nunca tinha
sentido a ereção de um cara antes, mas eu não era assim tão ingênua. Eu
sabia que ele não tinha nenhum tijolo escondido entre as pernas.
– Eu joguei sujo? – perguntou Kayode.
– Muito – falei.
Kayode sentou-se. Limpou o sangue das vestes.

155
Wanju Duli

– Realmente, eu não estou morrendo – ele declarou – mas a dor que


eu senti não foi fingimento. Foi mal pelo teatro. Não fiz isso para te
enganar. Eu apenas não me segurei. Não quis perder a oportunidade de
fazer esse joguinho. Pode voltar para o Lucas e para a Terra. Seu
treinamento de magia termina aqui.
– O quê? – perguntei, confusa – e minha alma?
– Já te devolvi. Não vou te induzir a trepar comigo só para devolvê-
la. Não sou esse tipo de pessoa. Pense por um tempo sobre as coisas que
te falei.
Fiquei desapontada.
– Você é muito inteligente, cara – falei – eu fiquei muito empolgada
com as coisas que tu disse. As teorias da magia e todas essas coisas fodas.
– Eu posso te indicar outro professor depois – disse Kayode – não
sinto que eu seja a pessoa adequada para te ensinar.
– Por que não?
– Porque eu sinto vontade de te comer sempre que te vejo – disse
Kayode – ainda bem que você não lê meus pensamentos. Só não te comi
ainda porque sinto afeição por você, então não acho certo.
– Afeição não é mais um motivo para me comer? – perguntei.
– É, se a afeição e o desejo fossem mútuos. Como não são, vou te
arranjar outro instrutor. Uma mulher, se preferir, para evitar problemas.
Ele levantou-se. Percebi que o pau dele ainda estava um pouco duro.
Eu levantei-me também e, mesmo por cima do manto, segurei no pau
dele.
– Você fica tão, mas tão chato, quando é certinho desse jeito – falei –
não quero saber dessa história de afeição e o caralho. Eu falei sério
quando eu disse “foda-se o Lucas”. Entendeu?
– Entendi – disse Kayode, com um meio sorriso – você está sendo
bem clara.
– Eu posso ser muito mais clara que isso – falei.
Voltei a beijá-lo. Empurrei-o para o chão. Fiquei em cima dele de
novo e coloquei a mão por baixo do manto dele. Dessa vez, toquei no
pau dele diretamente. Pele com pele. Eu ainda o beijava enquanto o
masturbei.
– Tem certeza? – perguntou Kayode.

156
O Vale do Colosso

Beijei-lhe de novo, para que não dissesse mais nada. Levantei o


manto dele e o chupei.
Eu não sabia muito bem fazer aquilo. Mas acho que ele gostou.
– Você não usa nada embaixo do manto – falei – sempre tive
curiosidade para saber se não usava mesmo. Que perigo.
– Não é nada de mais – ele disse, desabotoando minha blusa – é
como vocês, em seu mundo, quando usam saias e vestidos. Quando
acostuma, não é a mesma sensação de usar calça?
– É mesmo – falei, agora só de sutiã.
Quando tirou meu sutiã, ele beijou e chupou os meus peitos. Ele fazia
aquilo de uma forma que me dava um prazer inimaginável.
Eu já estava bem molhada quando ele tirou minha calcinha. Porém,
quando ele tentou me penetrar, senti uma dor desgraçada.
– Merda – eu disse.
Sempre tive medo disso. Que na minha primeira vez a porra do
hímen atrapalhasse tudo. E não teve jeito: por mais que eu estivesse
molhada, quanto mais ele enfiava, mais eu sentia dor.
Até que fiquei com lágrimas nos olhos. Eu me senti patética. Mas a
dor era muito forte. Era quase como se ele estivesse enfiando um tijolo
no meu útero.
Eu estava respirando rápido.
– Vamos parar – decidiu Kayode – não quero te torturar.
– Mesmo depois que eu dei facadas em ti? – perguntei, rindo em
meio às lágrimas – eu vou precisar ter um filho depois, não é? Se eu vou
aguentar a dor do parto, sei que posso aguentar isso.
– Então vamos precisar de uma magia poderosa – disse Kayode –
porque eu, um dos magos mais fortes do Vale, acabo de broxar. E não
conheço nenhuma magia para levantar.
– Não me diga que broxou por causa das minhas lágrimas – falei,
desapontada.
– Exatamente. Não fico excitado em te causar dor. Então não vai ter
jeito. Vamos continuar amanhã.
Sem escolha, vesti minhas roupas de novo. Havia um pouco de
sangue na minha vagina, mas o hímen ainda não tinha rompido
completamente.

157
Wanju Duli

Aquela porra de hímen. Se eu soubesse, eu teria me livrado dele há


muito tempo. Nem que fosse com uma tesoura.
Kayode também já estava vestido.
– Para onde vai? – ele perguntou.
– Talvez para a Terra – falei – sei lá.
Eu estava chateada de verdade. Tentei me fingir de poderosa na
frente de Kayode. Queria me portar como uma entendida sobre sexo,
algo que eu não era. Kayode sabia que eu era inexperiente.
Voltei para a biblioteca do Vale. Lucas e a colosso dele não estavam
mais lá.
Mas eu não queria saber onde eles estavam. Eu queria voltar para
casa.
Adentrei num portal que ainda estava aberto na biblioteca. Acho que
Lucas também voltou por lá.
Retornei para meu quarto. Fiquei deitada na cama, pensativa.
“Eu não devia ter chorado” pensei, arrependida. Mas eu não tinha
chorado de propósito. As lágrimas caíram por causa da dor. Acho que
era a primeira vez que eu chorava porque a dor passou do limite do
tolerável.
Uma vez tive uma cólica menstrual terrível que me derrubou. Lembro
que daquela vez quase chorei por causa da dor insuportável. Mas as
lágrimas não chegaram a rolar. Meus olhos só ficaram molhados.
Passei alguns dias de cama, deprimida. Kayode não apareceu naqueles
dias. Acho que ele sabia que eu precisava de um tempo.
Uma semana depois, eu já estava melhor. Mesmo assim, ainda estava
comendo pouco.
Quando retornei para meu quarto com uma sopa, vi Kayode lá.
– Às vezes eu esqueço que você ainda é uma adolescente – disse
Kayode – eu te trato como se você fosse uma mulher adulta. Me
desculpe.
– Por que está pedindo desculpas? – falei, ligeiramente irritada com
aquela atitude dele – fui eu que estraguei tudo.
– Por isso que eu digo que você ainda age como adolescente. Você
quer fingir que não tem fraquezas? Qual é o problema de você chorar na
minha frente?

158
O Vale do Colosso

– Acho vergonhoso – falei – eu, como mulher, também tenho meu


orgulho. Gosto de me portar de forma confiante na frente de um cara.
– Eu não sou um desses humanos adolescentes que se importa com
isso – falou Kayode – já vivi muito. Já vi muitas lágrimas e humilhações.
Eu mesmo já sofri tudo isso. Você sentiu dor e chorou. Isso é totalmente
normal.
– Marina me disse que não sentiu nenhuma dor na primeira vez dela
– eu insisti – então eu ter chorado parece frescura.
– Não é frescura. Cada pessoa tem uma percepção diferente da dor e
um limite diferente. E você ainda não conhece nenhuma magia para
disfarçar isso. Até mesmo eu às vezes não sei disfarçar. Temos mente e
alma, mas nunca podemos fugir completamente da realidade física do
corpo. Dor é dor. E nunca vai ser outra coisa. Dor é necessária.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
– Você disse que é possível extrair magia da dor – lembrei – tanto da
dor física como da psicológica?
– De qualquer tipo. Até mesmo da espiritual. É o que vocês chamam
de “noite escura da alma”.
Eu ainda me sentia triste. E só de olhar para Kayode minha tristeza
aumentava.
Eu me achava patética. Eu queria enfiar minha cabeça num buraco e
sumir.
– Eu me sinto humilhada – falei.
– Que palavra forte – disse Kayode – foi alguma coisa que eu fiz?
– Eu humilhei a mim mesma – prossegui – porque eu sou
completamente humana.
– Eu não esperava que você fosse outra coisa – Kayode deu um
sorriso simpático.
Mas eu não queria ouvir aquilo. Não queria que Kayode tivesse pena
de mim. Não queria que ele me olhasse como uma mera adolescente
fraca.
Queria que ele me visse como uma mulher forte e confiante. Sim, ele
sabia ler meus pensamentos, então não havia como esconder muita coisa
dele. Mesmo assim, até ali eu tinha sido forte, apesar da minha paixão
adolescente ridícula por Lucas.

159
Wanju Duli

Eu queria me livrar daquela paixão. Queria amadurecer e não ficar


chorando pelos cantos, fosse por uma dor no corpo ou no coração.
De repente, lembrei de Átila. Ele tinha passado no vestibular para o
curso que queria. Natália não estava mais viva para perturbá-lo.
Nenhuma das nossas colegas idiotas iria incomodá-lo.
Eu já tinha sentido pena do Átila. Muita gente já tinha sentido. Foi
então que me dei conta como tinha sido terrível para ele. Ser olhado
daquele jeito.
Era como Kayode estava me olhando. Claro, Kayode ao menos tinha
mais consideração do que meus colegas trouxas. Mas eu sabia que ele
devia estar sentindo um tipo de prazer sádico ao ver que eu tinha sentido
dor na hora do sexo.
Poder sobre mim. Poder sobre as pessoas. Não era aquilo que todos
queriam?
– Carmen, desculpa, mas eu li seus pensamentos – falou Kayode – e
queria deixar claro que não estou sentindo nada disso. A situação é bem
mais simples que isso. Nós interrompemos a transa devido a um
problema. Isso é tudo. Nenhuma outra coisa está se passando na minha
mente.
– Você mente muito mal, Kayode. Eu acho melhor você ir embora.
– Pensei que queria treinar magia.
– Não estou no clima.
Kayode, em respeito a mim, saiu do quarto. Mas ele disse que ia me
visitar outro dia.
– Não precisa voltar – falei, ligeiramente aborrecida.
Mas depois me senti mal por ter dito isso.
Minha depressão voltou. Passei umas duas semanas apenas dormindo
e comendo muito mal.
Depois disso, num dia em que saí de casa, fui me pesar numa balança.
Vi o número “99” e meu rosto se iluminou por um momento.
Eu tinha realizado um sonho antigo. Mas não senti absolutamente
nada sobre isso. Voltei para casa naquele mesmo dia e devorei um potão
de sorvete. Depois me arrependi, mas já era tarde.
E chorei em cima do pote de sorvete.
Sentindo-me derrotada, fui dormir na casa de Marina. Chorei no colo
dela e contei tudo o que tinha acontecido.

160
O Vale do Colosso

Marina, é claro, me consolou daquele jeito calmo e maduro que só ela


sabia fazer. Eu me senti um pouquinho melhor. Ela disse que tinha
sentido um pouquinho de dor sim quando transou com um cara pela
primeira vez, mas foi pouca. Pelas histórias que ela ouvia, achou que
seria bem mais.
– Não quero passar por isso de novo – falei, chateada – e se eu tentar
trepar com Kayode outra vez e voltar a sentir dor? E se eu chorar de
novo na frente dele? Nem quero pensar nisso!
– Que bobagem – falou Marina – não entendi qual é o problema de
chorar.
– Não me importo de chorar na tua frente – falei – mas não quero
parecer fraca na frente de um cara que eu gosto. Entendeu?
– Quando a gente ama a gente confia na pessoa e não se importa de
demonstrar fraquezas na frente dela.
– Na teoria isso é lindo – falei – mas amor é uma disputa de poderes.
Uma luta de egos. Tanto Lucas quanto Kayode são muito fortes e
confiantes. É claro que somente uma mulher forte pode despertar
sentimento neles.
– Tem certeza? – falou Marina – olha, Carmen, eu acho que você está
com uma visão totalmente distorcida. Sabia que quando o Lucas se
declarou pra mim e eu disse não, ele chorou na minha frente?
Eu fiquei quieta. Eu abri a boca, surpresa.
– Não acredito! – falei, como se tivesse descoberto a coisa mais
incrível do mundo – o Lucas... chorou?
– É, Carmen, o Lucas chora – Marina riu de mim – você acabou de
descobrir que até o seu maravilhoso Lucas é um ser humano como
qualquer outro e tem sentimentos.
– Ele disse pra mim que nem se importou muito quando tu deu o
fora nele.
– É claro que ele estava mentindo – disse Marina – tá, eu confesso
que ele não chorou muito na minha frente. Ele foi discreto e disfarçou.
Mas eu vi a cara dele. Tenho certeza do que vi.
Só de ver a minha expressão, Marina comentou:
– Tu gostou de saber que ele chorou, né?
– Um pouquinho... – admiti.
– E está ainda mais apaixonada por ele depois de saber disso?

161
Wanju Duli

– Sim, eu tô.
– Então é assim que Kayode deve estar se sentindo em relação a ti
também – falou Marina – você não está amando ele mais por ser sádica e
nem nada assim. É só porque tu quer estar ao lado do Lucas, proteger ele
tanto na alegria quanto na dor. Não é isso?
– É. Ou era. Eu ainda gosto do Lucas e vai ser difícil superar isso.
Mas agora o meu coração tá dividido.
Marina passou a mão na minha cabeça. Mexeu nos meus cabelos,
com carinho.
– É difícil ter a nossa idade, né? – perguntou Marina.
– Muito – falei – mas eu acho que problemas de amor são difíceis em
qualquer idade. Quando envelhecemos e amadurecemos, passamos a
lidar melhor com a realidade da morte. É o que dizem. Mas será que
aprendemos mais sobre o amor? Será que algum dia alguém vai entender
o amor?
Marina bocejou.
– Desculpa – ela disse.
– Não, eu que peço desculpas! – exclamei, levantando-me – são
quatro da manhã! Caralho! Foi mal, tô indo embora.
– Não, tá louca. Vai sair daqui nesse horário? Dorme aqui.
E eu dormi lá.
Quando acordamos, Kayode estava no quarto. Marina estava usando
um pijama muito curto, com decote e shorts. Ela levantou o lençol e
cobriu o corpo ao ver Kayode. Ficou um pouco irritada.
– Puta que pariu! – exclamou Marina – você é muito rude, sabia?
– Eu nem olhei pra você, menina – comentou Kayode – não fique se
achando. Não estou aqui por sua causa.
– Sei que não é por minha causa – falou Marina – mas podia ter o
mínimo de respeito e cavalheirismo e bater na porta.
Eu ainda estava acordando. Mas me diverti um pouco com a
discussão dos dois.
– Bom dia, Kayode – eu falei – que horas são?
– Sete horas.
– Eu só dormi três horas? – falei, deitando-me de novo – volte daqui
umas cinco horas.

162
O Vale do Colosso

– Não, pode ficar aqui – decidiu Marina – quero ter uma conversinha
com ele.
– Que conversinha? – perguntou Kayode, desconfiado.
– Já estou sabendo de tudo que aconteceu – falou Marina – não que
eu queira me meter. E não que você tenha feito algo de errado. Mas é
melhor você ter cuidado daqui em diante para não machucar os
sentimentos da minha amiga.
– Que tipo de cuidado? – perguntou Kayode.
– Primeiro, você vai ter toda a paciência para não causar mais dor a
ela – disse Marina.
Dessa vez Kayode ficou brabo.
– Quem quis continuar foi ela e não eu! – exclamou Kayode,
ofendido – você não sabe de nada, amiga da Carmen. Não quero saber
dos seus conselhos. Sou muito experiente na cama. Já transei com
centenas de mulheres.
– Pode ter transado com milhares – insistiu Carmen – vocês homens
sempre são muito impacientes. Não sabem como dar prazer a uma
mulher. Sempre fazem tudo errado!
– Eu fiz tudo certinho.
– Então está dizendo que a culpa foi exclusivamente dela?
Kayode respirou fundo.
– Que tal vocês duas fazerem sexo agora? – sugeriu Kayode – rompa
o hímen dela de forma gentil, já que você é mulher e entende tanto sobre
o prazer das mulheres. Depois, quando Carmen estiver sem o cabaço,
terei o maior prazer em continuar de onde paramos, sem mais nenhum
empecilho.
Ao dizer isso, Kayode desapareceu.
– Esse é o colosso maduro e experiente? – Marina riu – parece uma
criança! Acho que até o Lucas é mais maduro que ele.
– Marina... tem sorvete?
– De manhã? Negativo! Vamos beber um iogurte com frutas.
– Sorvete, iogurte, tudo a mesma coisa...
– Seu sorvete tem mais gorduras trans.
Eu não disse para Marina que fiquei chateada com o que Kayode
falou. Até porque ela falou tão mal dele depois que eu me senti melhor.

163
Wanju Duli

Dormimos mais um pouco. Acordamos dez da manhã e fomos tomar


iogurte.
Depois do café da manhã eu já me sentia muito melhor.
– É, eu fui idiota em fazer aquele drama só porque chorei na frente
dele – concluí – depois peço desculpas a ele. Ou será que não peço?
– Não sei, Carmen. Acho que não precisa pedir desculpas.
– O que eu faço agora? – perguntei, ansiosa – eu peço para Kayode
para transarmos de novo?
– Não precisa pedir – disse Marina – espera acontecer. Vá visitá-lo no
Vale da Sombra da Morte. Embora, com esse nome, não deva ser o lugar
mais romântico para um encontro.
– Vou visitá-lo e depois faço o quê?
– Vá continuar seu treinamento de magia. E, quando surgir a
oportunidade, vocês transam. De forma natural, como foi da primeira
vez. Que acha?
Eu gostei da ideia. E voltei para o Vale naquele mesmo dia.
Fui visitar Kayode em seu castelo. Ele preparou um chá e voltamos a
falar de magia.
Nem mencionamos a trepada. Como se nem tivesse acontecido.
Nas semanas seguintes, eu ia visitar Kayode quase todo dia no Vale,
para ser treinada em magia. Os treinamentos eram rigorosos. Quando
Kayode estava no papel de professor ele se transformava.
Quase meio ano se passou. Eu estava nesse limbo: ainda morava em
casa, mas ir para o Vale todo dia era custoso. Eu precisava decidir se eu
me mudava definitivamente para o Vale ou se esquecia toda aquela
história e arranjava um emprego na Terra.
Daquele jeito não dava para continuar. Meus pais andavam me
pressionando para arranjar logo um emprego. Eu já estava há meio ano
sem fazer nada!
Eu queria que Kayode me convidasse para morar com ele. Só que ele
não fez isso. E, desde o dia que fizemos sexo, não se aproximou de mim
outra vez. A nossa relação de professor e aluna era estritamente
profissional.
Pensei que faríamos sexo logo. E que, após o sexo, decidíssemos
namorar, casar, morar juntos, sei lá! Por que depois de tanto tempo
Kayode não avançava em mim? Que raiva!

164
O Vale do Colosso

Ele sabia ler pensamentos. O filho da puta sabia! Ele sabia que eu
queria que ele me convidasse para morar com ele. Kayode lia meu desejo
sexual e sabia que eu estava quase implorando para ele trepar comigo.
Então por que ele me torturava?
Antes Kayode dizia que não conseguia olhar para mim sem pensar
em me comer. Agora era eu que estava passando por isso.
Todo dia que Kayode me dava aulas, eu observava o corpo dele.
Lembrava daquele cacete duro e gostoso. Me recordava do toque, do
cheiro.
Eu presenciei ocasiões em que Kayode dava um risinho quando eu
pensava isso. Mas ele nunca falava nada! Se ele tocasse no assunto ao
menos uma vez, eu podia me jogar em cima dele.
Mas não tive coragem. Eu só ficava quieta no meu canto, tentando
controlar o fogo da minha boceta.
Foi só numa ocasião em que fantasiei Lucas e Kayode me comendo
ao mesmo tempo, que Kayode não se segurou e interrompeu sua
explicação sobre magia.
– Ah, não! – ele fingiu estar indignado – por que Lucas está junto?
Ele nunca esteve junto nesses últimos meses, então por que ele apareceu
lá de repente?
– O quê? – perguntei, perplexa.
Kayode me fitou com cara de bunda. E eu entendi.
– Ah! – falei – está falando daquilo. Eu estava quase dormindo e esse
pensamento saiu sem querer.
Kayode balançou a cabeça em desaprovação.
– Você precisa se resolver.
– Já me resolvi! – falei.
– Não é o que vejo.
E isso encerrou o assunto. Ele retomou as explicações sobre magia
antes que eu pudesse aproveitar o gancho do assunto para declarar meus
sentimentos.
Eu já tinha perdido as esperanças com Lucas. Ele devia estar se
divertindo com aquela mulherzinha colosso que passava as mãos nele. Só
de pensar nisso, uma raiva ardente me consumia por dentro.
Mas por que eu sentia essa raiva ardente se eu já não me importava
com ele?

165
Wanju Duli

Tentei pensar a situação oposta: Kayode trepando com uma colosso


qualquer.
Dessa vez eu não senti só raiva ao pensar nisso. Senti uma profunda
tristeza e meu coração doeu muito.
Foi então que eu entendi de quem eu gostava de verdade. Não que
meu sentimento por Lucas fosse falso no passado. Mas atualmente as
coisas tinham mudado. Eu ouvia a voz calma de Kayode todos os dias.
Eu o amava cada dia mais. E Lucas, aos poucos, ia se tornando uma
lembrança do passado. Algo que eu faria melhor em esquecer.
Numa tarde calma, sob uma árvore, Kayode lia um trecho de um
livro, com sua voz melodiosa.
De repente, envolvi seu pescoço com meus braços e fechei os olhos.
A gente se beijou. E não precisamos dizer nenhuma palavra. Não
houve nenhuma explicação.
Nós nos deitamos ali mesmo nas folhas amarelas e fizemos amor.
Não senti dor.
Logo fiquei grávida. Tive meu filho no Vale.
Cinco anos depois, eu estava levando meu filho pela mão para pegar
uns livros naquela velha biblioteca. E eu encontrei alguém que não via há
muito tempo.
Era Lucas. Usando barba. E carregando uma garotinha pela mão,
praticamente da idade do meu filho. Ela também era híbrida de humano
e colosso.
Pensei em conversar. Achei que meu filho e a filha dele podiam
brincar juntos no parquinho, enquanto eu e ele ríamos dos velhos
tempos.
No entanto, Lucas me fitou de forma fria. Ele apenas disse:
– Minha filha está muito forte na magia e eu também estou. Daqui
quinze anos, pode ter certeza de que você e seu filho serão mortos por
ela.
Não consegui me mover ou pronunciar uma palavra.
Quando Lucas saiu da biblioteca, eu não sabia o que pensar. Ele
estava transformado. A esposa dele devia ter feito uma lavagem cerebral
pesada para que ele se tornasse assim.
Eu não duvidei que Lucas já conhecesse umas magias poderosas. Ele
não devia estar blefando.

166
O Vale do Colosso

Era verdade que eu também andava treinando durante todo aquele


tempo. Eu havia me mudado oficialmente para o Vale e morava com
Kayode no castelo. Somente nós três vivendo juntos em meio àquele
nada absoluto.
Mesmo assim, meu treinamento não era intenso. Era normal,
tranquilo. Leituras sob as árvores. Lutinhas amistosas de magia.
– Lucas está dando suor e sangue para aprender magia – Kayode me
contou um dia – ele está virando uma lenda no Vale. Ele só não é uma
lenda maior que Sabrina.
– Sabrina? – perguntei.
– Você não sabe? – disse Kayode – Sabrina é a imperatriz do Vale da
Sombra da Morte. É a maga mais forte desse mundo.
Então era isso.
Eu não sabia o que Átila andava fazendo. Provavelmente ele era
professor de matemática na Terra e tinha se esquecido completamente da
promessa de entregar um filho dali quinze anos.
De qualquer forma, estava claro que nem eu e nem Átila estávamos
nos esforçando o bastante. Lucas, por outro lado, estava obcecado:
queria superar Sabrina. Essa seria a única forma de salvar a própria vida.
Mas será que ele queria mesmo sobreviver? Seria esse o verdadeiro
motivo de tanto esforço? Lucas sempre se entupiu de drogas. Ele nunca
ligou muito para a própria sobrevivência. Acho que ele só queria sentir
um barato. E atualmente seu treinamento maluco era o que fazia com
que sentisse adrenalina. Era o que o deixava mais vivo.
Eu não fazia parte daquele universo. Mas eu sabia que iria presenciar
algo realmente grandioso quando o momento chegasse.

167
Wanju Duli

Capítulo 4

Eu não voltei para a minha antiga casa. Resolvi morar definitivamente


no Vale da Sombra da Morte.
Um dos motivos de eu fazer isso é porque eu sabia que poderia
retornar para minha antiga vida a qualquer momento. Se um dia eu
tivesse que tomar uma decisão definitiva sobre onde eu queria ficar, eu
pensaria com mais seriedade.
Quanto mais eu aprendia sobre magia, mais eu conseguia perceber as
belezas escondidas do Vale. Elementos que antes pareceram feios aos
meus olhos despreparados, logo se tornaram belos.
Isso porque agora eu via um pouco mais a beleza da feiúra, da dor, da
escuridão.
Quinze anos se passaram. Meu filho estava agora com dezoito anos.
A mesma idade com que eu o tive.
Eu, por outro lado, estava com 36 anos. Muito em breve a data da
promessa das almas chegaria: os vinte anos.
– O que eu terei que fazer nesse dia, mãe?
– Terá que fazer uma promessa, diante da Torre de Marfim, que
jamais sairá do Vale da Sombra da Morte – respondi.
– Nunca tive curiosidade para conhecer a Terra. Então não será
muito difícil. Meu sangue de colosso é muito mais forte.
Dei a ele o nome de Jonatas, que era o nome do meu pai. Por um
momento pensei em chamá-lo de Lucas, mas achei que seria idiotice. Eu
estava com Kayode agora e eu não tinha intenção de gravar o passado no
presente.
Jonatas era muito mais parecido com Kayode do que comigo: a pele
em tom de carvão e os olhos amarelos e brilhantes. Ele mesmo se
orgulhava da própria aparência. Gostava de esconder que era metade
humano, embora isso muitas vezes lhe trouxesse vantagens. Alguns
colossos tinham medo do potencial escondido dos humanos.
Depois que Jonatas fizesse sua promessa de permanecer eternamente
no Vale, eu não teria mais vontade de voltar para a Terra. De vez em

168
O Vale do Colosso

quando eu ainda visitava meus pais e irmãos. Mentia que estava morando
em outro estado. Até passei o telefone de Marina para eles, que agora
morava em Santa Catarina. Para eles, eu era uma respeitável secretária de
um consultório de odontologia.
Kayode me disse que um híbrido não vivia milhares de anos como os
colossos. Jonatas teria, no máximo, uns 2 mil anos de vida. No começo
ele ficou chateado ao saber disso. Afinal, todos os amigos dele eram
colossos. Então ele seria o primeiro a morrer.
– Você devia estar grato e não chateado! – lembro que eu tinha dito a
ele uns anos atrás – caso seu pai fosse humano, você não viveria muito
mais que cem anos. Vai viver vinte vezes mais e ainda está reclamando?
– Ele ainda é uma criança, Carmen – comentou Kayode – ainda não
sabe que viver muito ou pouco não é o que faz mais diferença. É como
se vive e não o quanto se vive que realmente conta.
Jonatas admirava muito seu pai. Ele não chegava a me desprezar, mas
eu notava que para ele eu era apenas uma mãe normal. Se bem que no
Vale ter uma mãe humana era uma coisa bem exótica. Mas não
exatamente algo para se orgulhar. Acho que Jonatas preferia encarar esse
fato de forma neutra.
No início da adolescência Jonatas se sentia meio diferente dos outros.
Até que, dois anos atrás, pela primeira vez ele se sentiu grato por ser
metade colosso, metade humano.
Ele conheceu a filha de Lucas e de Zumbi, chamada Catarina. Ela era
muito bonita. Desejada por muitos colossos. Mas ela desprezava a maior
parte deles.
Jonatas se apaixonou por Catarina à primeira vista e sofreu muito.
Por um ano ele foi seguidamente rejeitado por Catarina. Acho que ele via
nela uma esperança de salvação. Se estivesse com ela, ele não se sentiria
diferente. Os dois teriam expectativa de vida similar e compartilhavam o
mesmo dilema: ter pais de dois mundos e em breve ser obrigado a ficar
preso a um deles.
Até que Catarina finalmente cedeu. Um ano atrás os dois começaram
a namorar. Lembro que isso deixou os pais dela muito nervosos. Lucas
até veio se queixar comigo. Ele não falava comigo há muito tempo, mas
foi me visitar no castelo onde morávamos.

169
Wanju Duli

– Eu sou contra – Lucas me disse – daqui um ano eles terão que


lutar. Não é bom que se apaixonem. Caso se neguem a matar um ao
outro, quem vai se ferrar somos nós. E a nós eu me refiro eu e você.
Kayode e Zumbi vão seguir suas vidas como se nada tivesse acontecido.
Isso não deixava de ser verdade. Ofereci a ele um chá de virgílio, que
Lucas bebia sentado no sofá vermelho.
– Sinto saudade da Terra – falou Lucas – aqui não há drogas tão
pesadas. Eu só visito a Terra pra comprar cigarros. Eu também odeio as
bebidas alcoólicas daqui. É tudo muito doce e enjoativo.
– Você se arrepende de ter se mudado para cá? – perguntei.
Ele deu de ombros.
– Eu não moro com Zumbi. Nós nunca nos casamos. Só trepamos
para ter a filha e acabou. Não nos damos bem.
– Por quê?
– Porque ela é insuportável – explicou Lucas – e morre de ciúmes de
Sabrina. Você deve saber que ela é minha mestra de magia.
– Já ouvi falar – comentei – o que é estranho, sendo que sua filha
supostamente deve derrotar a filha dela.
– Elas são amigas – explicou Lucas – Catarina é fã de Lúcia, a filha de
Sabrina. Lúcia é muito mais sábia e poderosa que Catarina, embora
Catarina seja anormalmente esperta e perspicaz.
Eu não sabia quase nada sobre Sabrina. Só sabia que ela era a
imperatriz absoluta do Vale e morava num castelo gigantesco, umas dez
vezes maior que o meu, todo feito de cristal. Para ela, magia era
brincadeira de criança. Diziam que ela era capaz de fazer qualquer coisa.
– Sabrina anda cada vez mais isolada – contou Lucas – já faz um
tempo que ela deixou de me treinar, porque entrou em meditação
profunda. Agora só tenho notícias dela através de Lúcia, que é quase
como uma empregada da mãe.
– Ela sempre foi isolada – comentei – desde o colégio.
– Mas agora ela está obcecada com isso. Não sei porque ela quer ficar
ainda mais forte, se já tem poder para esmagar o mundo.
– Será que não é sabedoria o que ela busca? – perguntei.
– Duvido. Ela já tem todas as coisas. Sabe demais. Ela aprendeu
muitos idiomas do Vale. Até os antigos. Leu livros raros.

170
O Vale do Colosso

– Ela conseguiu absorver a alma dos autores mortos? – perguntei,


fascinada – pensei que fosse crime.
– Sabrina pode até matar alguém e isso não será considerado crime –
disse Lucas – pois ela é a força vital que governa esse lugar. Ela espalhou
dezenas de livros pelo Vale. Ninguém, até hoje, foi capaz de sequer
romper o lacre. Isso significa que ninguém ainda teve poder para nem
mesmo lê-los.
– Se alguém matasse Sabrina, os lacres se romperiam – comentei.
– Teoricamente – concordou Lucas – mas Lúcia não permitiria. Ela
iria reforçar os lacres. Sabrina é humana e não vai viver muito mais que
uns setenta anos. Depois disso, Lúcia será a guardiã de seu legado.
Aquilo tudo me deixou muito curiosa.
– Acho que vou visitá-la – decidi.
– É perda de tempo – disse Lucas – ela não recebe ninguém. Nem
mesmo a mim, que sou seu discípulo mais importante. Ela só conversa
com a própria filha.
– Irei mesmo assim.
E percorri o longo caminho até o maravilhoso castelo de cristal
naquele mesmo dia.
Até o céu lá era diferente: bem branco e brilhante. O castelo ficava no
alto de um morro.
Bati no portão de cristal, que produziu um som límpido e suave.
Esperei uns cinco minutos na porta. Estava quase desistindo, quando
uma mocinha adolescente veio me atender.
Ela era tão bela quanto Catarina. No entanto, tratava-se de uma
beleza diferente.
A pele de Lúcia não era tão escura quanto a dos colossos. Era de um
tom negro mais parecido com o tom da minha pele e com outros
habitantes negros da Terra.
Seus olhos eram vermelhos em vez de amarelos. A maior parte dos
colossos tinham olhos amarelos. Aparentemente o pai de Lúcia era
exceção.
Os cabelos dela eram crespos, mas tinham cachos grandes e mais
definidos. Afinal, Sabrina tinha cabelos mais lisos e o pai dela devia ter os
cabelos crespos dos colossos. Sendo assim, Lúcia era uma mistura.
– Quem é você e o que quer? – perguntou Lúcia, em tom ríspido.

171
Wanju Duli

Ela usava um daqueles mantos dos colossos. Além de joias grandes e


bonitas. Estava até maquiada.
– Sou ex-colega de Sabrina – expliquei – um dos quatro da promessa
dos vinte anos. Gostaria de falar com ela.
Minha aparência confirmava a verdade. Não eram muitos humanos
que andavam por lá. Ela me observou por um instante.
– Um momento, por favor.
Ao dizer isso, ela se retirou. Esperei pelo menos uns dez minutos lá
fora até que Lúcia retornasse.
– Pode entrar. Me acompanhe.
Eu a segui, completamente fascinada com o interior do castelo de
cristal.
Subimos escadas que não acabavam mais. Eu estava ficando cansada.
Somente quando chegamos ao topo Lúcia me colocou diante de uma
porta.
– Minha mãe aceitou te receber – informou Lúcia – ela está aí dentro
e irá conversar contigo em particular. Fique à vontade.
– Obrigada.
E Lúcia se retirou, realmente como se fosse uma espécie de criada.
Abri a porta com cuidado. O quarto era enorme e tinha somente um
móvel: uma cama de casal bastante imponente, com lençóis brancos.
Era tudo branco. Sabrina estava deitada lá, de barriga para cima e
olhos fechados, como uma Bela Adormecida. Os longos cabelos negros
esparramados. Um vestido longo e branco, de alcinhas, que devia arrastar
no chão.
Ela abriu os olhos quando me viu. Sentou-se na cama
preguiçosamente.
– Oi, Carmen. Você não mudou nada.
– E nem você – falei – vivia dormindo no colégio e vive dormindo
agora.
– É verdade. Sente-se.
Como não havia outro lugar para sentar, acomodei-me na ponta da
cama.
Sabrina sorriu.
– Que nostálgico – ela comentou – a tua presença me traz memórias.
Lembro quando tu era apaixonada pelo Lucas. Tu te lembra disso?

172
O Vale do Colosso

Fiz que sim com a cabeça, sem saber porque ela tinha mencionado
aquilo.
Sabrina aproximou-se mais e me abraçou.
– Minha querida – ela disse – não tive amigas no colégio. Queria que
tu tivesse sido minha amiga. Sempre invejei a tua amizade com Marina.
Eu nunca vi nada de mais na minha amizade com Marina. Não
éramos amigas inseparáveis ou algo do tipo. Eu a considerava minha
melhor amiga, mas a nossa amizade era bem normal.
Então aos olhos dos outros eu e Marina tínhamos esse tipo de
amizade. Achei curioso.
– Quer ser minha melhor amiga agora? – propôs Sabrina – agora que
tua best ficou no outro mundo...
Eu achava que não era algo muito comum alguém perguntar “Quer
ser minha amiga?” e muito menos “Quer ser minha melhor amiga?”.
Aquela tradição era mais comum para namorados.
Amizade só acontecia e pronto.
– Sei que amizade é algo natural e não forçado – disse Sabrina – não
precisamos fazer nenhum tipo de voto de fidelidade. Mas eu me sinto só
nesse mundo rodeado por colossos. Somos algumas das poucas humanas
desse lugar. Então devíamos unir forças.
– Você consegue ler meus pensamentos?
– É claro, tolinha. Aqui eu consigo fazer qualquer coisa que eu quiser.
– E os rapazes? – perguntei.
– Átila continua na Terra e só vai voltar para cá no último instante. Já
no caso de Lucas, ele está perdido.
– Por que diz isso? – perguntei.
– Porque ele me ama e não sou capaz de corresponder esse amor –
explicou Sabrina.
Eu baixei os olhos. Eu já desconfiava que Lucas a admirava. Afinal,
Sabrina era muito poderosa.
– Eu me divorciei do meu colosso muitos anos atrás, após um
casamento feliz – disse Sabrina – e agora eu estou profundamente vazia.
Não quer largar o seu colosso e ficar comigo?
– Eu amo Kayode – eu disse – de verdade.
– Pare com isso – falou Sabrina, ligeiramente aborrecida – você ama
o Lucas.

173
Wanju Duli

Sabrina aproximou o rosto e tentou me dar um beijo nos lábios. Eu


me afastei.
– Por que me rejeita? – perguntou Sabrina – por que se aproxima e
depois se afasta, me tentando assim?
– Eu não estou fazendo nada disso! – defendi-me – você parece
confusa.
– Estou plenamente lúcida – informou Sabrina – então vamos fazer
um trato. Se você ficar comigo, eu te dou o Lucas.
– Você me dá o Lucas? – perguntei, sem acreditar – ele não é um
boneco para você dá-lo para alguém.
– Para mim, qualquer um pode ser um boneco – explicou Sabrina –
sou capaz de usar os humanos e depois descartá-los em segundos. Faço
isso até mesmo com os colossos. Mas você é diferente, Carmen. Nunca
tive vontade de te usar.
– E o que me faz ser diferente? – perguntei, já cansando-me daquela
conversa.
– Não sei explicar. Talvez eu não queira explicar. Apenas sinto que
você é pura e desapegada das coisas. Seu amor pelo Lucas sempre foi
puro. Sua amizade por Marina era pura. Sua amizade totalmente ingênua
com Átila era muito linda. Você é belíssima, Carmen. Somente tu não é
capaz de enxergar isso.
Eu não sabia que as pessoas me viam desse jeito.
Sempre achei que os outros me viam como uma gorda feia e
desajeitada. Alguém com inteligência mediana, até meio normal demais.
Uma pessoa nem boa e nem ruim. Na média.
Porém, aos olhos de Sabrina, eu era quase um anjo. E, aos meus
olhos, Sabrina sempre foi um tipo de anjo adormecido e misterioso.
Ainda mais com aqueles trajes brancos. Ela tocava outros mundos nos
sonhos. Ela desvendou o Vale com suas próprias forças. Ela era especial.
Quanto mais lia meus pensamentos sinceros que escapavam, mais
fortemente Sabrina me abraçava. Ela passou as mãos pelos meus seios
enquanto lambia meu pescoço. Ela colocou a mão entre as minhas
pernas, mas eu a retirei.
– Por favor, só um pouquinho – suplicou Sabrina – se estiver comigo
apenas uma vez, eu te dou o Lucas.

174
O Vale do Colosso

– Pare com essa história de me dar o Lucas – falei – ele foi apenas um
amor passageiro da adolescência. Tem outra pessoa que eu gosto.
– Direi para Kayode que te obriguei a se deitar com o Lucas – propôs
Sabrina – assim você não o terá traído.
– Ele também lê pensamentos, Sabrina.
– Mas eu sou mais forte que ele – lembrou Sabrina – se for esse o
caso, posso obrigar que você se deite com ele de verdade.
Eu respirei fundo.
– É tão divertido assim controlar a vida das pessoas? – perguntei – foi
tudo o que conseguiu atingir com tanto poder e sabedoria?
– Não seja tola – falou Sabrina – eu sei de tudo. Pode testar meus
conhecimentos. O que quer saber?
– O que é a Torre de Marfim? – perguntei – e o que é o Vale da
Sombra da Morte?
– Torre de Marfim é uma expressão muito antiga – disse Sabrina –
você já deve ter ouvido antes. Ela representa a sabedoria pura dos
filósofos: a nobreza de refletir sobre as coisas, independente de elas
terem uma aplicação prática. Atualmente o mundo se corrompeu com a
mera técnica. Mas a sabedoria espiritual está acima da experiência dos
sentidos do mundo material. Tanto que o termo “Torre de Marfim”
também é achado na Bíblia. No Cântico dos Cânticos. E “Vale da
Sombra da Morte” também é bíblico. Está nos salmos: “Ainda que eu
ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois tu estás
comigo”.
– Você se refere a Deus? – perguntei – pensei que o Vale era muito
mais antigo que a Bíblia ou que o cristianismo.
– Eu criei o Vale, Carmen – disse Sabrina – sou a suprema criadora e
senhora desse mundo. Esse foi meu primeiro desejo em meu pacto com
meu colosso: que eu fosse a imperatriz desse mundo.
– O Vale existe há milhares de anos, talvez milhões! – argumentei.
– Eu posso controlar o tempo. Mas não posso impedir minha própria
morte. Porque somente os Deuses comandam a vida e a morte.
Sabrina levantou-se da cama e me estendeu a mão. De fato, o vestido
dela era tão longo que arrastava no chão, numa cauda.
– Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.

175
Wanju Duli

Toquei na mão dela. No momento em que fiz isso, desaparecemos de


lá.
Reaparecemos no topo do mundo. Na cabeça de uma estátua
realmente colossal. Eu já a tinha visto de longe uma vez, da primeira vez
que pisei no Vale.
– Esse é nosso Colosso de Rodes – disse Sabrina – quando eu era
criança, fiquei fascinada com essa estátua. Minha mãe estava lendo para
mim um livro sobre a Antiguidade Clássica. Ela me disse que essa estátua
de bronze tinha 30 metros de altura e era uma das Sete Maravilhas do
Mundo Antigo.
– Nunca me lembro de todas as sete maravilhas – confessei – só
lembro da pirâmide de Quéops, dos Jardins suspensos da Babilônia e do
Farol de Alexandria.
– Mas para mim o Colosso de Rodes era especial. Porque ele tinha
cada um dos pés na margem de um canal. Então todo navio que chegava
lá devia passar embaixo dele. Isso não é mágico? Por isso, eu decidi que
quando criasse meu mundo, todos que chegassem nele deveriam passar
por baixo da estátua. Depois eu descobri que a estátua muito
provavelmente não foi construída dessa forma. Shakespeare e escritores
do medievo estavam sendo muito românticos. Mas eu queria que no meu
mundo meu Colosso correspondesse exatamente a esse romance.
– Então você conseguiu fazer tudo que queria – observei – e agora
está entediada. Não vê mais beleza nem no seu Vale e nem no seu
Colosso.
– É por isso que agora estou procurando por Deus. Na verdade eu o
escondi dentro dessa estátua. A tarefa dos nossos quatro filhos será
quebrá-la para libertar o Deus esquecido. Só que essa estátua não pode
ser quebrada. Nem mesmo por Lúcia.
Então era uma empreitada sem esperanças. Observei o Vale, lá de
cima da estátua. Aquela visão era magnífica. Mas eu estava triste.
– Também há beleza na desesperança e no fim – disse Sabrina.
Quando voltei para nosso castelo naquele dia, Kayode notou que eu
estava cabisbaixa.
– Fui me encontrar com Sabrina.
E relatei todas as coisas estranhas que ela tinha me contado. Jonatas
ouviu tudo aquilo fascinado.

176
O Vale do Colosso

– Não se preocupe, mãe. Eu vou quebrar essa estátua para salvar sua
vida.
– Não se incomode – falei.
– Que tal confiar em mim pelo menos uma vez?
Quando chegou o grande dia em que os vinte anos se completaram,
nós quatro nos encontramos na entrada da Torre de Marfim com nossos
filhos.
Átila estava completamente mudado. Eu mal o reconheci. Ele já não
tinha carinha de criança. Também estava de barba, como Lucas, e tinha
um porte bem maduro.
Ele trouxe uma garota adolescente consigo. Ela também era meio
colosso, meio humana.
Sabrina e Lucas não estavam muito interessados em Átila e o
recepcionaram de forma fria. Por isso, tentei ser um pouco mais
simpática.
– Por onde tem andado, Átila? – falei – o que tem feito na Terra?
– Estou morando em Recife com Gustavo. Sou professor
universitário.
– Espera – eu o interrompi – você está morando com Gustavo? Se
refere ao meu amigo?
– Exato. Natália me atormentou tanto no colégio que eu fiquei com
trauma de mulheres. Eu descobri que me dou melhor com homens.
Então eu e Gustavo nos casamos.
– Quê? Mas que genial! – exclamei, contente.
Ele pareceu feliz com meu entusiasmo. Achei que os dois
combinavam. Os dois eram bonzinhos.
– Eu não te atormentei de propósito – disse a menina adolescente –
foi por amor. Quando me dei conta que você só sabia amar sua família,
constatei que a única forma de ser amado por ti era me tornando um
membro dela. E o que pode ser mais adequado do que ser a filha?
– Natália?! – perguntei, sem entender nada – a Natália não tinha
morrido?
– Sim, eu morri e renasci como a filha do Átila – ela me contou,
sonhadora – foi esse o ritual que fizemos naquele dia, na sala trancada.
Por isso eu cometi suicídio: para renascer como a filha dele. E agora ele
me ama!

177
Wanju Duli

– Mas eu te amo como filha – explicou Átila.


– Não importa – disse Natália – amor é amor. E quem é esse
gatinho?
Natália foi logo abraçando Jonatas. Eu não gostei nada daquilo. Mas
Catarina gostou menos ainda.
– Sai daqui, bruxa! – exclamou Catarina – Jonatas é meu namorado.
– Se eu te matar, posso pegá-lo para mim, certo? – perguntou Natália.
E Natália simplesmente partiu para cima de Catarina. As duas
começaram a brigar para valer, com socos, chutes e puxões de cabelo.
– Calma, meninas – falou Sabrina – o dever de vocês não será matar
uns aos outros. Eu mudei as regras outra vez. Em primeiro lugar, vocês
prestarão o juramento de que jamais deixarão o Vale. E depois terão que
quebrar a estátua que fica no centro do mundo.
As duas se endireitaram. Os quatro já tinham decorado os dizeres do
juramento e os pronunciaram sem pestanejar:
– Eu juro, pelos Deuses, pelos colossos e humanos, jamais partir do
Vale da Sombra da Morte. Eis meu lar e meu túmulo, para todo sempre.
Prometo pelo sangue e nutro essa esperança. E juro, acima de tudo, por
Hélio, Deus do Sol.
Cada um pegou uma faca e derramou gotas do próprio sangue na
terra, diante da Torre de Marfim.
Assim que fizeram isso, suas almas abandonaram seus corpos e foram
trancados na torre.
– Muito bem – sorriu Sabrina – agora, podem correr. A estátua é de
vocês, bravos heróis.
Os quatro dispararam, voando. Nós os seguimos, mas com mais
calma. Sabrina chamou um monstro que passou voando no céu e
subimos nele.
Átila estava maravilhado. Eu sabia que ele devia estar se sentindo
como se estivesse voando sobre Fuchur, o dragão da sorte de seu livro
favorito.
Quando chegamos diante da estátua, os quatro já a atacavam com as
magias mais poderosas que eram capazes de lançar.
Bolas de fogo, de gelo, raios, trovões. Nada parecia adiantar. O céu
até ficou escuro, porque Catarina evocou uma tempestade.
Sabrina apenas observava tudo com um leve sorriso.

178
O Vale do Colosso

Eles estavam ficando cansados e sem ideias. Sabrina pressionou-os:


– Se não forem capazes de destruir a estátua até o fim do dia, nós
quatro cairemos mortos. É isso que desejam?
– Até mesmo você, mãe? – perguntou Lúcia, nervosa.
– Até mesmo eu. Minha própria imaginação também tem um preço.
Eu nunca me importei com isso. Para mim, vida e morte sempre foram
brincadeiras.
Sem suas almas, os quatro estavam muito mais fracos. A noite
começou a cair.
Jonatas já estava com as mãos sangrando. Ele e Catarina se uniram
para tentar quebrar o Colosso, mas todas as tentativas eram inúteis. A
estátua colossal nem mesmo rachou.
Foi então que, quando já estava perto da meia-noite, Jonatas tentou
um ato desesperado: ele rezou para o Deus do Sol. Levantou os braços.
– Hélio, nos auxilia nessa empreitada! Eu não te conheço, Deus do
Sol. Tu és para mim um Deus desconhecido. Nada sei sobre Deuses.
Mas se tu vieres aqui em meu auxílio para salvar minha mãe, juro que te
entrego minha vida.
– Eu entrego a minha também! – exclamou Catarina – por favor,
salva nossos pais!
Natália riu do que eles fizeram.
– Não existe Deus do Sol – afirmou Natália – os Deuses são uma
mera invenção da imaginação humana.
Lúcia nada comentou. Apenas observou fascinada o que os dois
fizeram.
O farol da mão direita do Deus começou a queimar mais forte. Até
que a estátua se mexeu.
A terra tremeu. Natália gritou e caiu no chão.
O Deus abriu a boca e disse, numa voz muito poderosa:
– Quem me acordou?
– Eu o fiz – disse Jonatas, tentando conter o medo – e assumo as
consequências.
– Se tu e ela aceitarem mesmo entregar as vidas, eu vos levarei para
outro mundo em minha carruagem. O vosso desejo se cumpirá.
– Mas nós fizemos um juramento – disse Jonatas – de que jamais
sairemos desse lugar.

179
Wanju Duli

– Eu vos liberto de tal juramento – disse o Deus – porque estou


acima de humanos e colossos.
O Deus fechou a mão e a Torre de Marfim rachou ao longe. As
quatro almas voaram pelos céus e retornaram aos seus donos.
Hélio pegou uma carruagem com quatro cavalos e convidou Jonatas e
Catarina a subirem nela. Eles aceitaram o convite.
– Adeus, mãe – disse Jonatas.
– Adeus – eu respondi, sem escolha.
Eu sabia que nunca mais o veria.
– Espere! – berrou Sabrina, enfurecida – esse é o meu mundo!
Somente eu posso quebrar as regras.
– Felizmente não sou desse mundo – disse Hélio – não estou mais
aqui.
Ele estava rodeado por uma luz forte, que não pertencia àquele lugar.
E no momento que os dois subiram na carruagem, escaparam das leis do
Vale.
– Merda! – exclamou Sabrina.
Ela tentou atingi-los com uma bola de fogo. Mas Hélio fez com que
as horas passasem em segundos. Segurou o Sol do céu com a mão
esquerda e colocou-o sobre a cabeça, como uma coroa. O sol absorveu a
bola de fogo.
Não enxergamos nada por alguns segundos, pois a luz foi muito
forte. Quando abrimos os olhos, o Deus e sua carruagem já tinham
sumido, levando consigo Jonatas e Catarina.
Sabrina estava tão furiosa que lançava raios para todos os lados. Ela
estava quebrando tudo.
Ela quase nos matou, mas se segurou. Ela retornou para seu castelo
de cristal, ainda coberta de fúria.
– Ainda vamos viver? – perguntei para eles.
– Não me importo mais se vamos viver ou não – disse Lucas,
acendendo um cigarro – eu me apeguei muito a Catarina e agora ela
sumiu. Que merda.
Eu também achava uma merda. Pelo menos eu sabia que Jonatas e
Catarina estavam juntos.
– Gostei desse lugar – falou Natália – vamos morar aqui por um
tempo, pai?

180
O Vale do Colosso

– Talvez – respondeu Átila – vou avisar Gustavo que passaremos


essas férias aqui.
Olhando ao redor, com toda aquela destruição, não parecia um lugar
muito atraente para se passar as férias.
– Lucas – pronunciou Lúcia – minha mãe quer falar com você.
– Comigo? – perguntou Lucas, curioso – ela nunca quer falar comigo.
Finalmente deixou de me dar gelo?
– Apenas me siga. Minha mãe está na floresta.
Lucas seguiu Lúcia. Átila me perguntou se havia um bom lugar no
Vale em que ele e Natália pudessem ficar por alguns dias. Eu indiquei a
ele um castelo vazio perto do nosso.
– Por que você aceitou isso? – perguntei a Átila – transformar Natália
na sua filha?
– Você sabe porquê. Eu não queria ter um filho apenas para largá-lo
nesse buraco. Se fosse Natália, achei que eu não iria sofrer tanto.
– Muito obrigada – zombou Natália.
– Mas olhando melhor, não acho que o Vale seja um lugar ruim para
viver. Sinceramente, eu ando meio desapontado com a Terra. O
ambiente universitário é estressante. Quando você tenta propor coisas
novas, para melhorar o sistema de ensino e a forma com que a
matemática é ensinada na academia, você é barrado. Eu já me cansei de
fazer propostas que foram rejeitadas.
– Então você quer fugir da realidade e ter mais liberdade – concluí –
eu já ouvi falar de magias que se baseiam na matemática. Um lance meio
pitagórico. Mas aqui eles chamam por outros nomes. Você podia estudar
isso. Reunir alguns discípulos, quem sabe? Ou ao menos alunos.
– Não sei – disse Átila – o problema de eu ficar aqui é que eu vou
sentir muita falta da minha mãe.
Natália revirou os olhos.
– Vovó está demorando demais para morrer – explicou Natália.
Mesmo após morrer e renascer, Natália não tinha mudado muito. Só
na aparência.
Conduzi-os até o castelo e deixei que o explorassem sozinhos.
Enquanto isso, eu estava pensando sobre a floresta.
Lúcia só podia ter se referido a uma única floresta, que não ficava
muito longe de seu castelo de cristal. Por isso, resolvi dirigir-me até lá.

181
Wanju Duli

Quem sabe eu entreouvisse a conversa dos dois? Não sei o motivo,


mas fiquei curiosa. Mesmo que eu já não ligasse tanto nem para Sabrina e
nem para Lucas.
Adentrei a floresta. Caminhei por algum tempo. Até que avistei uma
clareira.
Lucas e Sabrina não tinham ido muito longe. Mas eu logo me
arrependi de tê-los seguido quando os vi.
Os dois estavam deitados na grama, um por cima do outro. Sabrina
estava em cima. Ambos estavam completamente nus, trocando beijos de
língua muito intensos.
Eu desviei o olhar. Senti que morria por dentro. Não sei porque me
sentia assim.
Invejei Sabrina mortalmente. Eu já não gostava tanto assim de Lucas.
Mas uma parte de mim ainda o desejava somente porque eu sabia que
para mim ele sempre foi inatingível.
Não aguentei mais ouvir os gemidos da clareira e fui embora.
Quando voltei para casa, contei a Kayode tudo que aconteceu, menos
a parte da floresta. Ele ficou triste por saber que Jonatas havia partido
para sempre.
– Ele teve uma boa educação – falou Kayode – e agora irá seguir seu
próprio caminho. O caminho que escolheu para si.
Nunca pensei em ter filhos. Mas depois de ter e vê-lo partir, ficou um
buraco no meu coração.
No dia seguinte, Sabrina foi me visitar em casa. Ela anunciou que, no
fundo, eu tinha sido a vencedora do desafio, já que foi meu filho quem
desvendou o enigma, rezando para o Deus.
– Por isso eu vou te dar um presente – disse Sabrina – pode pedir o
que quiser.
– Qualquer coisa?
Ela assentiu.
– Quero meu filho de volta.
– Por que está pedindo a única coisa que não posso te dar? –
perguntou Sabrina, aborrecida – assim você me ofende.
– Então eu quero conversar com um Deus.
– Por que, em vez disso, não se torna uma Deusa como eu?
– Você é uma Deusa? – perguntei, duvidando.

182
O Vale do Colosso

– Não tão poderosa quanto Hélio – ela teve que admitir – mas eu
criei esse lugar. Sou a Deusa do Vale, ou quase isso. Você também pode
criar um mundo e ser a Deusa dele. Que tal?
– Acho que não – falei – estou contente aqui.
– Pois é. Algumas pessoas são conformistas e acomodadas.
Sabrina deu um sorrisinho quando disse isso. Eu não gostei muito.
– Pense por um tempo no que deseja – falou Sabrina – e depois me
procure.
E ela foi embora.
Pedi sugestões para Kayode, mas ele também não conseguiu pensar
em nada.
– É engraçado pensar que já temos tudo que queremos – observou
Kayode – que tal termos outro filho?
– Não sei – respondi – não acho que Jonatas possa ser substituído.
– Não disse que podia.
Mas eu desconversei. Ter outros filhos não era algo que se passava
pela minha cabeça. Talvez para Kayode fosse mais fácil falar nisso, já que
ele ainda teria alguns milênios de vida pela frente. Eu não queria
preencher todos os meus anos restantes de vida cuidando de filhos, por
mais que esse hobby fosse nobre e simpático.
Algumas semanas depois, Lucas foi morar com Sabrina em sua
casinha de cristal. Saber daquilo me deixou com raiva. Não queria mais
ouvir falar sobre eles. Decidi que não iria voltar a falar com Sabrina
pedindo por um presente, ou o que fosse.
Átila adaptou-se ao Vale rapidamente. Em poucos meses já tinha
aprendido o idioma local e lido dezenas de livros. Já estava sabendo fazer
magias muito poderosas e tinha diversos alunos.
Natália, por outro lado, tinha ciúmes de todos os alunos de Átila,
fossem eles homens ou mulheres. Até que Átila e Natália brigaram feio e
Natália retornou para a Terra.
– Vou contar para o papai que você me xingou! – exclamou Natália.
Nesse caso, ela se referia a seu outro pai, chamado Gustavo. Devia
ser legal ter dois pais.
Átila demitiu-se de seu emprego na Terra. Já estava há três anos
morando sozinho no Vale. Gustavo ia visitá-lo somente muito

183
Wanju Duli

raramente, mas eu soube que o relacionamento dos dois não andava


muito bem.
É claro: Átila se viciou na magia do Vale e abandonou o esposo na
Terra. Se fosse eu, também ficaria com raiva. Ele tinha se esquecido até
da própria mãe, que ele idolatrava! Então o vício dele era sério mesmo.
Sabrina e Lucas estavam reinando absolutos, como a imperatriz e o
imperador do Vale da Sombra da Morte. Eles até mesmo usavam vestes
reais agora, com coroas. Não sei de quem foi a ideia, mas eu achei bem
ridículo.
Até que Átila de repente resolveu desafiar a autoridade de Sabrina.
– Suas leis não são justas – protestou Átila – você faz o povo passar
fome. As escolas e universidades daqui estão sucateadas. Como
governante, eu irei reestabelecer o sistema de ensino e dar boas
condições de vida para a população.
Sabrina morreu de rir.
– Não é assim que as coisas funcionam no Vale, queridinho –
esclareceu Sabrina – eu não dou a mínima para o sistema de ensino. Aqui
cada um pode ir às bibliotecas públicas quando quiser e realizar um
autoestudo. Não precisamos de escolas e universidades.
– Muitos colossos não sabem nem ler! Você devia instituir o ensino
obrigatório.
– Estuda quem quer – disse Sabrina.
– Para você tanto faz, já que quando os colossos não sabem ler você
pode manipulá-los mais facilmente.
Átila reuniu a população para protestar por melhores condições de
vida. O que era um perigo, já que havia colossos muito poderosos, que
conheciam magias fortes.
Sabrina ficou irada, porque em pouco tempo lá Átila já estava
bagunçando tudo. Parecia que em breve ia estourar uma guerra civil.
– Átila, meu bem, vou te propor o seguinte – ela disse – em vez de
matar todo mundo numa guerra idiota, eu te desafio para uma batalha de
vida ou morte. Se você me matar, casa com Lucas e toma meu trono.
– Eu não quero casar com Lucas, mas aceito o trono com minha
vitória.

184
O Vale do Colosso

Átila parecia um louco naquela batalha. Ele realmente atacava Sabrina


para matar. Os dois evocavam trovões, faziam voar casas e árvores e
jogavam tudo um por cima do outro.
Ou melhor, Sabrina era quem mais fazia isso. Átila se defendia e
batalhava de forma mais elegante, economizando energia. Ele dizia que a
base de sua magia era a gramática e a matemática. Sabrina não entendia
que raios ele queria dizer com isso.
– Meu cálculo é exato, Sabrina – explicou Átila – sua magia é muito
passional. Assim, você já perdeu antes mesmo de começar a lutar.
Átila arrancou a alma de Sabrina pela boca. Segurou a alma e com ela
enforcou-a.
Depois de assassinar Sabrina, Átila deixou o corpo dela à mostra no
topo do castelo, dependurado. O povo se reuniu para despedaçá-la e
depois comê-la. Pareciam animais.
Nos próximos dias, Átila instituiu um monte de leis severas.
Anunciou-se como o ditador vitalício do Vale. Acho que ler aquele
monte de livros tinha dado a ele muitas ideias estranhas. Ele agitava “O
Príncipe” de Maquiavel no braço.
– Vou colocar ordem nesse lugar – disse Átila – a partir de hoje,
todos os habitantes deverão ler, obrigatoriamente, um livro por dia e me
entregar a resenha até o anoitecer. Quem não me entregar, será
executado. As drogas e os jogos estão proibidos.
– Mas que merda? – eu não podia acreditar – Átila ficou pirado?
Mas não era isso que ele queria? Ser um Bastian! Um Bastian que
começa bonzinho e pacífico e depois se revolta, despertando seu lado
negro.
Até mesmo o colosso de Átila, Atreyu, estava com tanto medo dele
que nem ousava se aproximar.
Lucas não ficou brabo quando Átila matou Sabrina. Ele ficou
indignado porque Átila proibiu as drogas e ele queria fumar.
Por isso, Lucas resolveu atacar Átila, com toda a força. Ele
simplesmente chegou na frente dele um dia e deu-lhe um soco na cara.
– Escute aqui, seu bostinha – falou Lucas – ditador vitalício ou não,
você não vai me tirar a minha erva. Eu não quero saber se o ópio do
povo é o próprio ópio, a religião, a falta de educação ou o meu rabo.
Que se foda o povo! Eu quero fumar!

185
Wanju Duli

– Não acredito que uma pessoa com essa mentalidade foi imperador
– disse Átila, desapontado.
– Não me tornei imperador por causa da minha mentalidade, mas
porque Sabrina gostou do meu pau!
– Nesse caso, Lucas, se quiser seu cigarro de volta, terá que me fazer
alguns favores.
– Que tipo de favores? – perguntou Lucas.
– Sexuais – respondeu Átila.
A partir daí, Átila e Lucas se tornaram amantes. Todos os dias eles se
deitavam juntos na cama de casal de lençois brancos. E isso ainda durou
por algumas semanas. Até que Lúcia entrou sorrateiramente no quarto
um dia e passou a faca no pescoço deles.
Lúcia exibiu as cabeças de Átila e Lucas no topo da Torre de Marfim.
Até que o mundo começou a se despedaçar.
Eu me sentia num livro de Chinua Achebe. Não parecia real.
Lúcia assumiu o cargo de imperatriz, no lugar de sua mãe morta. Mas
agora que Sabrina já não existia, o Vale não conseguia mais resistir.
Eu notei quando ele começou a desmoronar. Eu precisava sair
daquele lugar antes que ele terminasse.
– Me ajuda, Kayode – eu pedi – vamos abrir um portal para a Terra.
Vem comigo.
Ele me acompanhou. Retornamos para a Terra por pouco. Logo, já
não era possível voltar para o Vale. Ele havia sido completamente
destruído.
Fui visitar meus pais em casa, que ficaram muito surpresos com a
visita. Fui até meu velho quarto e peguei a minha cópia do livro de
evocações que Sabrina havia escrito. Pensei em fazer uma fogueira lá
fora e queimar. Mas eu simplesmente resolvi trancá-lo num baú e jogá-lo
no Rio Guaíba.
– Estou com quarenta anos, mas nunca é tarde para recomeçar – falei
para Kayode – você vai descobrir que nosso mundo não é perfeito. Mas
é um lugar agradável e é possível ter momentos incríveis. Sempre tive
vontade de trabalhar como garçonete. Meus pais vão me dar uma ajuda
para eu alugar um apartamento pequeno. O que acha?
– Eu não sei fazer nada – disse Kayode.

186
O Vale do Colosso

– Para a sua sorte, eu não faço questão que meus namorados saibam
fazer alguma coisa – eu disse – não sou a Marina. Aos poucos você vai
encontrar seu lugar nesse mundo, meu querido. Da mesma forma que eu
encontrei um lugar no seu.
– Acho que vou trabalhar com você.
– Seria divertidíssimo!
– Sei algumas magias que poderiam até facilitar nosso trabalho...
– Só não exagere!

FIM

187