Você está na página 1de 1

A cultura africana 173

De fato, houve, e ainda há, uma crescente expropriação da africanidade


de cada brasileiro. A auto-identificação, por parte da maioria dos negros
brasileiros, com a figura do “homem pardo”, nas pesquisas do IBGE, revela o
esvaziamento da negritude provocada pela política de branqueamento aplicada
no Brasil. Como resultado imediato, os saberes e costumes de matriz africana
aparecem descolados do valor simbólico e político da própria negritude que
poderia atuar como força motriz para as lutas sociais de emancipação, a fim
de desconstruir a fantasia de democracia racial para, de fato, criar uma política
real de democracia para a igualdade racial.
A questão central no processo de transformações de seres humanos em
coisas está, sem dúvida, na eliminação da memória e, consequentemente, na
anulação das práticas culturais. Assim, todo o esforço de dominação das elites
brancas centrou-se na eliminação da História e da cultura africana, pois a África
deveria desaparecer para os cativos e, posteriormente, para o negro livre. Não
é à toa que, em Benin, todos os cativos, antes de embarcarem nos navios, para
a diáspora negra, eram obrigados a dar inúmeras voltas em torno da chamada
“árvore do esquecimento”, a fim de se desprender de sua memória e cultura
para sempre. Efetivamente, a resistência fundamental dos afro-brasileiros
está, como no passado, posto no limite da memória e da cultura originária,
para afrontar o poder simbólico da árvore do esquecimento.
Quando conferimos a importância da cultura africana para a constituição
do Brasil, é possível perceber um evidente paradoxo, por um lado, a cultura
afrodescendente está na intimidade de todos nós, mantém-se em nossos corpos
e está nas nossas práticas cotidianas e, por outro, há uma espécie de silêncio
inquietante que procura negligenciar a África que há em cada cidadão brasileiro,
principalmente naqueles corpos de baixa cidadania: os negros brasileiros. Sem
dúvida, é resultado de um racismo também muito silencioso, que subtrai a
história e a cultura africana do corpo de cada um de nós. Somos resultado de
séculos de escravidão, de coisificação dos negros, a fim de produção de riqueza
para o Brasil. O fim do sistema escravocrata não resultou em “democracia
racial”, ele foi substituído por uma república que resolveu esquecer a África
e a escravidão, sem desenvolver políticas objetivas de integração dos negros
como cidadãos brasileiros.
No entanto, há sinais importantes no país de reparação e de constituição
de cidadania para os afro-brasileiros, no quadro da redemocratização na
chamada Nova República. Ela começou muito bem com uma nova constitui-
ção, em 1988, que refuta a discriminação de toda a ordem, inclusive racial.
Constituição promulgada, exatamente, no centenário da abolição da escravidão,
ano de contínuos debates sobre a questão negra no país. Nesse mesmo ano,

Antropologia e Cultura_U4_C15.indd 173 17/11/2017 17:44:34

Você também pode gostar