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CENA | FESTA “VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA”

PRÓLOGO

(Texto reescrito a partir do prólogo de Eduardo Galeano em “Veias abertas da


América Latina”)

CORO: A história não quer se repetir. O amanhã não quer ser outra face do
hoje.

JOY: Essa triste rotina dos séculos começou com o ouro e a prata, seguiu com
o açúcar, o tabaco, o guano, o salitre, o cobre, o estanho, a borracha, o cacau,
a banana, o café, o petróleo... O que nos legaram esses esplendores? Nem
herança, nem bonança.

TULIO: Jardins transformados em desertos, campos abandonados, montanhas


esburacadas, águas estagnadas, rios canalizados, cidades afogadas na lama,
longas caravanas de infelizes condenados à morte precoce e palácios vazios
de onde comandam os fantasmas, cadáveres e milícias.

CORO: O amanhã não quer ser outra face do hoje.

TULIO: Agora é a vez da soja transgênica, dos falsos bosques da celulose e do


novo cardápio dos automóveis, que já não comem apenas petróleo e gás, mas
também milho e cana de açúcar de imensas plantações.

JOY: O hoje tem sido o lugar onde dar de comer aos carros é mais importantes
do que dar de comer às pessoas.

CORO: O passado é mudo? Ou continuamos sendo surdos?

(Música alta, clima de quermesse. Uma música andina alegre é tocada, algo
que remeta à um universo ameríndio [ proposta de música: “así tocan los
indios” de Los Gaiteros de San Jacinto]. Um mestre de cerimônias incentiva as
pessoas a participarem da festa. O clima da festa “Voluntários da Pátria”
pretende transitar da percepção de uma real festividade, para uma festividade
bizarra, hipnótica, fascista, atemporal )
MC: (fala no microfone) Pode chegar! A casa é nossa!. A alegria é a marca do
nosso povo, integra nosso espírito nacional! Essa festa é do povo, pro povo e
com o povo. É ou não é? Todos somos, ou não somos, voluntários que dão
suas vidas procurando exercer suas profissões da melhor maneira possível?
Somos todos construtores dessa nação! Produzindo pro seu senhor, cumprindo
com seu papel no exercício do seu melhor. Aumenta o som! Esquente o peito
com a cachaça pernambucana que traz a tradição brasileira na sua ardência.

(Atores que estavam dançando uma partitura de festa, começam a evidenciar


Gestus sociais de várias contradições dentro desta “festa brasileira” - como a
relação entre o corpo do senhor e o do escravo, o corpo do trabalhador e do
patrão, o corpo policial (Estado) e o corpo cidadão. Gestus que evidenciem
essas relações, incorporados, separadamente, na partitura dançante de cada
interprete. Esses corpos “aristocráticos” dançam ao redor do locutor, que
começa a adotar um tom de pastor de igreja, um tom político empolado estilo
Castello Branco e Getúlio Vargas, mas também dialogando com um tom
político mais atual. Ao longo do discurso penso muito nas imagens de
pequenos comícios bolsonaristas com pouca gente, dialogando com imagens
dos ataques contra os enfermeiros em Brasília. Ao mesmo tempo em que
essas imagens poderiam sugerir uma contradição em relação às imagens
propostas pelo discurso que está sendo dito: imagens de campos de
concentração, imagens da destruição do Paraguai, da ditadura militar, do
ataque policial no baile funk em Paraisópolis etc... )

MC (trechos do discurso do Roberto Alvim):Quando eu assumi esse cargo, eu


o fiz com o objetivo de fazer prosperar uma cultura que não destrua, mas que
salve a nossa juventude. A cultura é a base da pátria. Quando a cultura adoece
o povo adoece junto. É por isso que queremos uma cultura dinâmica e, ao
mesmo tempo, enraizada na nobreza de nossos mitos fundantes: a pátria, a
família, a coragem do povo e sua profunda ligação com Deus. Esses mitos
amparam nossas ações. As virtudes da fé, da lealdade, do auto-sacrifico e da
luta contra o mal serão alçadas ao território sagrado das obras de arte. A arte
brasileira da próxima década será heróica e será nacional. Ansiamos por uma
nova arte nacional capaz de encarnas simbolicamente os anseios desta imensa
maioria da população brasileira. Com artistas dotados de sensibilidade e
formação intelectual, capazes de olhar fundo e perceber os movimentos que
brotam do coração do Brasil, transformando-os em poderosas formas estéticas.
(os corpos “aristocráticos” estão deformados e bizarros à essa altura) São
estas formas estéticas, geradas por uma Arte Nacional que agora começará a
se desenhar.

(Corte abrupto na música. Discussão ao fundo, gritaria. Coro que dançava


pega objetos como se pegasse gente. Grande gritaria.Link com Paraisópolis)

MC: Obrigado gente, agradecemos a todos os envolvidos no suporte da festa,


se não fosse tão tarde citaríamos uma a uma as alianças que possibilitaram
essa diversão no angariamento de voluntários da pátria para derrotar as forças
inimigas, mas essas alianças são inúmeras. Algumas nem existem mais, outras
ainda nem abriram. Então encerro dizendo “pra frente Brasil”, o show não pode
parar!

INTERPRETE: (Pega O microfone que estava pendurado pra falar) Uns dirão:
são só palavras! Mas eu creio no poder das palavras, na força das palavras.
Creio que fazemos coisas com as palavras e que também as palavras fazem
coisas conosco. As palavras determinam nosso pensamento, porque não
pensamos com pensamentos, mas com palavras! Não pensamos a partir de
uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir das nossas palavras. E
pensar não é somente raciocinar, ou calcular, ou argumentar, como nos tem
sido ensinado algumas vezes. Mas é, sobretudo, dar sentido ao que somos e
ao que nos acontece. E isso - o sentido ou o sentido – é o que tem haver com
as palavras. Portanto, também tem haver com as palavras o modo como nos
colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em
que vivemos. Larrosa Bondía.