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Os desafios

dos anos finais


do Ensino Conheça as dificuldades

Fundamental
enfrentadas por professores
e alunos e seis caminhos
para melhorar essa fase.

uma publicação Edição Especial nº 12 AGOSTO/2012

1 MÊS 2011 novaescola.org.br


Proibida a Venda

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{ Índice }

4 Panorama
Desafios de uma fase de ensino pouco explorada

8 Alunos
Meio crianças, meio adultos

10 Depoimentos
Com a palavra, os estudantes

12 Docentes
Profissionais distantes do público

14 Depoimentos
Com a palavra, os professores

16 Alunos e docentes
Percepções diversas sobre a escola

17 Artigo
Maria do Carmo Brant

18 Recomendações
Rumo à qualidade: seis soluções possíveis

Edição especial sobre a pesquisa da Fundação Victor Civita (FVC) Anos Finais do
GABRIEL LORA

Ensino Fundamental: Aproximando-se da Configuração Atual, realizada pela Fundação


Carlos Chagas (FCC) e concluída em julho de 2012. Coordenadoras: Claudia Leme
Ferreira Davis, GiselaLobo B. P. Tartuce, Marina Muniz Rossa Nunes e Patrícia Os desafios
Cristina Albieri de Almeida. Assistentes de pesquisa: Ana Paula Ferreira da Silva dos anos finais
do Ensino
Fundamental
Conheça as dificuldades
enfrentadas por professores

e Juliana Cedro de Souza. Auxiliar de pesquisa: Beatriz Souza Dias de Olival Costa.
e alunos e seis caminhos
para melhorar essa fase.

Ilustração da capa GABRIEL LORA

EDIÇÃO ESPECIAL “DESAFIOS DOS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL”

Diretora de Redação: Maggi Krause


Redatora-chefe: Denise Pellegrini
Edição especial “Desafios dos Anos Finais do Ensino Fundamental”
Diretora de Arte: Manuela Novais
Coordenadora Pedagógica: Regina Scarpa é uma publicação da área de Estudos e Pesquisas da Fundação Victor Civita
Editora-assistente: Elisa Meirelles (estudosepesquisas@fvc.org.br).
Designer: Alice Vasconcellos
Gerente de Projetos: Mauro Morellato IMPRESSA NA INTERGRAF INDUSTRIA GRAFICA LTDA
Fundador: Victor Civita Analista de Planejamento e Controle Operacional: Kátia Gimenes
(1907-1990) Rua André Rosa Coppini, 90, Planalto, São Bernardo do Campo, SP, 09895-310
Processos Gráficos: Vitor Nogueira
Colaborarou nesta edição: Rosangela Anzzelotti (revisão)
Presidente: Roberto Civita
Diretora Executiva: Angela Dannemann
Conselheiros: Roberto Civita, Giancarlo Francesco Civita,
Victor Civita, Roberta Anamaria Civita, Fábio Barbosa,
Maria Alice Setúbal, Claudio de Moura Castro, Apoiadores
Jorge Gerdau Johannpeter,
Manoel Amorim e Marcos Magalhães

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{ Abre
Panorama
} }
GABRIEL LORA

60 MÊS 2011 novaescola.org.br


4

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Desafios de uma
fase de ensino
pouco explorada
Pesquisa coloca luz sobre as particularidades
dos anos finais do Ensino Fundamental,
em que ocorrem inúmeras mudanças
na rotina escolar e na vida dos alunos
ELISA MEIRELLES elisa.meirelles@fvc.org.br

Q uando se buscam informações


sobre as características da Edu-
cação Básica, é fácil encontrar
um grande número de estudos sobre os
primeiros anos do Ensino Fundamental,
Com foco nessa lacuna, foi lançada a
pesquisa Anos Finais do Ensino Fundamen-
tal: Aproximando-se da Configuração Atual,
da Fundação Victor Civita (FVC) em par-
ceria com o Itaú BBA e a Fundação Itaú
dela dentro da Educação Básica brasilei-
ra (leia o panorama nas páginas 6 e 7). Em
seguida, foram reunidas referências so-
bre as transformações vividas por crian-
ças e adolescentes de 11 a 14 anos.
com ênfase no período de alfabetização. Social, realizada pela Fundação Carlos Informações teóricas analisadas, era o
Educadores se debruçam sobre os peque- Chagas (FCC). Trata-se de um estudo ex- momento de ir a campo. A equipe esco-
nos que estão começando a vida escolar ploratório com o objetivo de apresentar lheu duas escolas em São Paulo e duas
e buscam maneiras de garantir a eles um panorama dessa fase e propor temas em Maceió e, nelas, realizou entrevistas
uma aprendizagem significativa. Na ou- a serem aprofundados por outros pesqui- com docentes e alunos que hoje cursam
tra ponta, são comuns também pesqui- sadores. “A intenção foi apontar especifi- o 9º ano, perguntando como avaliam o
sadores interessados em entender quem cidades e desafios e, igualmente, subsi- segmento que estão concluindo (leia os
são e o que pensam os jovens que cursam diar novos estudos sobre uma fase tão depoimentos ao longo desta edição).
o Ensino Médio, como eles se relacionam pouco investigada”, diz Marina Muniz Para terminar, um relatório prelimi-
com o conhecimento e quais as expecta- Rossa Nunes, pesquisadora da FCC, uma nar do estudo foi apresentado a um gru-
tivas que têm a respeito do futuro. das autoras do estudo e orientadora edu- po de especialistas que analisou o mate-
Pouco se fala, no entanto, sobre o seg- cacional do Colégio Santa Cruz, em São rial e trouxe contribuições para aprimo-
mento que liga esses dois extremos: os Paulo (leia o relatório final da pesquisa em rá-lo. “Pesquisas como essa são importan-
anos finais do Fundamental. Deixada de fvc.org.br/estudos-e-pesquisas). tes por trazer informações para ajudar a
lado por grande parte dos estudiosos da Organizado em três etapas, o trabalho melhorar a formação de professores”, co-
área, essa fase enfrenta atualmente uma começou com um levantamento sobre o menta Rosana Louro Ferreira Silva, dou-
série de desafios na tentativa de encon- que tem sido proposto como orientação tora em Educação pela Universidade de
trar uma identidade própria, capaz de pública para os anos finais do Ensino São Paulo (USP), docente da Universi-
dar conta de estudantes que estão dei- Fundamental e uma análise de dados dade Federal do ABC e uma das partici-
xando de ser crianças, mas ainda se en- nacionais e regionais sobre essa fase, de pantes do encontro (leia os nomes de todos
contram bem distantes da idade adulta. modo a deixar claro qual a dimensão os presentes na página 19).

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{ Panorama }

Em números Alunos
Entenda quem são os alunos e os professores LOCALIZAÇÃO
Maioria estuda
que fazem parte dessa fase do Fundamental na zona urbana
11%

DISTRIBUIÇÃO rural
Número de estudantes e docentes dos anos finais
urbana
do Ensino Fundamental, dividido por região. 89%

fonte MEC - censo escolar 2011

DIVISÃO POR REDE


Estadual ainda é a que
1.347.576
mais atende a esse segmento
77.192
0,1%
4.162.861 12,6%
249.194
Federal

Estadual
48,8%
1.022.649
56.221 38,5% Municipal

5.572.841 Privada
297.636 fonte MEC - censo escolar 2011

ATRASO ESCOLAR
1.891.943 Distorção idade-série
113.646 é um problema
BRASIL 32,5%
29,6% 30,7%
ALUNOS 13.997.870 28,3%
25,7%
PROFESSORES 793.889
fonte MEC - censo escolar 2011

média de 6º ano 7º ano 8º ano 9º ano


6º a 9º ano
fonte MEC - censo escolar 2010

Para começar, um pequeno de reduzir drasticamente o número de o fim dos exames de admissão e o au-
histórico desse segmento estudantes no sistema, mantendo apenas mento das vagas na rede pública.
Entender os desafios do 6º ao 9º ano pres- aqueles com condições sociais e econô- Nesse período, o primário e o ginásio
supõe conhecer os caminhos trilhados micas mais favorecidas. “Os professores foram agrupados em um mesmo nível
para chegarmos à configuração atual. traziam consigo a ideia de que iam tra- de ensino denominado primeiro grau.
Até 1970, o ensino obrigatório restringia- balhar com alunos que já estavam pron- Isso, no entanto, não foi acompanhado
se às quatro séries iniciais da escolarida- tos para estudar”, explica Bernardete por uma reorganização da escola, de mo-
de, que compunham o chamado primá- Gatti, pesquisadora-colaboradora da FCC do a articular melhor anos iniciais e fi-
rio. Para dar continuidade aos estudos, o e consultora técnica da FVC. nais. “Essa ausência de continuidade re-
aluno tinha de ser submetido a um exa- O cenário começou a mudar a partir trata-se, nos anos 1980 e 1990, na repro-
me de admissão para o ginásio. A avalia- de 1971, com a ampliação da escolarida- vação e na evasão generalizadas entre a
ção funcionava como uma peneira capaz de obrigatória para alunos de 7 a 14 anos, 4ª e a 5ª série”, relembra o estudo.

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Professores
IDADE HORÁRIO
Fase tem docentes de Maioria trabalha
diferentes faixas etárias em um turno
1%
5%
24% 30%
15% Até 24
Um
25 a 32
Dois
33 a 40
69% Três
29%
41 a 50
Mais de 50
27%
fonte MEC - censo escolar 2011 fonte MEC - censo escolar 2011

FORMAÇÃO ESCOLAS
A maior parte deles Em geral, eles atuam em
tem curso superior completo apenas uma instituição

1% 3%
15%
15%

Uma
Fundamental
Médio Duas
84% 82%
Superior
Três ou mais

fonte MEC - censo escolar 2011 fonte MEC - censo escolar 2011

GABRIEL LORA

Muitos anos se passaram, houve avan- finição sobre como organizar essa fase. cional de Educação (CNE) em 2010 com
ços importantes, como a aprovação da Embora haja políticas públicas federais, o objetivo de assegurar a continuidade
Lei de Diretrizes e Bases da Educação estaduais e municipais voltadas à Educa- dos processos de aprendizagem e o de-
Nacional (LDB), em 1996, mas os proble- ção Básica, não há uma preocupação es- senvolvimento cognitivo, emocional,
mas de descontinuidade e de fracasso pecífica com o período do 6º ao 9º ano. social e moral dos alunos. Apesar disso,
escolar não foram resolvidos. Os anos finais “continuam esquecidos, a integração ainda é um ponto vulnerá-
comprimidos entre a primeira fase do vel. Existem, é claro, iniciativas regionais
Questões imprescindíveis Fundamental e o Médio”, diz o estudo. de destaque, mas o país ainda carece de
que continuam sem solução A articulação entre as fases da Educa- uma orientação geral. Entenda, nas pró-
O que se vê ainda hoje é uma ruptura ção é garantida pelas Diretrizes Curricu- ximas páginas, quais aspectos caracterís-
considerável na rotina escolar dos anos lares Nacionais para a Educação Básica ticos dos anos finais devem ser incorpo-
iniciais para os anos finais e muita inde- (DCNEB), propostas pelo Conselho Na- rados ao debate.

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{ Alunos }

GABRIEL LORA

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Meio crianças,
meio adultos
As enormes mudanças vividas por esses
meninos e meninas entram em classe com eles.
Entenda o turbilhão pelo qual a turma passa
Tatiana Pinheiro novaescola@fvc.org.br

É comum a adolescência ser vista


apenas como uma transição entre
a infância e a vida adulta. Segun-
do a pesquisa, porém, considerar esse
período somente como uma ponte entre
■ Corpo em ebulição
Na puberdade, que começa por volta dos
10 anos, o organismo de meninos e me-
ninas começa a mudar sensivelmente.
Em termos técnicos, é quando ocorre a
■ Emoções de todo o tipo
É o momento também de o estudante
formar parte importante de sua identi-
dade. Com a capacidade mais sofisticada
de pensar, elabora e reelabora a percep-
o mundo infantil e a maioridade é limi- maturação que permitirá a reprodução ção de quem ele é e do que é capaz. Não
tante e pode induzir os docentes a enfa- sexual. Os pelos surgem, os seios crescem, por acaso, se permite vivenciar inúmeros
tizar somente os aspectos negativos de a voz muda, o desejo pelo outro aparece. papéis e experimenta toda a sorte de si-
seus alunos. O melhor caminho é encará- Diante de um corpo diferente, o aluno tuações – de onde vem a noção de que
lo como uma fase com significado pró- pode sentir-se perdido e desconfortável. esse período é perigoso. Surgem os aler-
prio, importante para a construção da tas quanto às drogas e às doenças sexual-
identidade do jovem. ■ Mente a todo vapor mente transmissíveis, por exemplo.
Um aspecto primordial na relação en- Se antes, quando criança, a vida era uma
tre professor e aluno adolescente é o res- sequência de ações seguidas de reações, ■ Meus amigos, minha vida
peito ao ritmo de amadurecimento de visualizadas de forma concreta no dia a A garotada dessa fase conversa, gesticula,
cada um. O corpo e a forma de ver o dia, agora, o que manda é o pensamento se empurra, fala alto e brinca de todo o
mundo, os outros e a si próprio se modi- abstrato. O adolescente se torna capaz de jeito para aproveitar ao máximo o tem-
ficam sem respeitar uma sequência lógi- raciocinar de forma mais elaborada, sem po entre amigos. Estar com os pares ad-
ca ou linear (leia nas páginas 10 e 11 de- se limitar ao real. Divaga por possibilida- quire muita importância, mais do que o
poimentos analisados por especialistas). des e, às vezes, se fecha em si mesmo pa- convívio com adultos. Os grupos deixam
Cabe ao educador entender que a turma ra chegar a conclusões. Passa também a de ser só de meninos ou só de meninas,
enfrenta um frenesi de sentimentos e pensar de forma multidimensional, sen- surgem as tribos, e o namoro ou o “ficar”
que isso tem impacto em seu comporta- do capaz de interpretar um fato com assume papel de destaque nas relações.
mento. Para facilitar a compreensão de base em vários pontos de vista. É por isso Neste contexto, a escola figura como um
GABRIEL LORA

quem é esse estudante, a pesquisa indi- que desconfia de afirmações categóricas ponto de encontro, um lugar de apren-
cou os quatro pontos a seguir. e não acredita em verdades absolutas. der e de conhecer pessoas.

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{ Depoimentos }

Com a palavra,
os estudantes
Especialistas analisam as falas dos jovens coletadas
pela pesquisa e mostram aos professores como lidar
com aspectos característicos dessa faixa etária*
TATIANA PINHEIRO novascola@fvc.org.br Colaborou ELISA MEIRELLES

ALUNA
TRANSFORMAÇÕES NA VIDA
“Não é simples crescer na nossa
cultura. A adolescência é um fenômeno
ALUNO cujo desenvolvimento depende do
NOVAS RESPONSABILIDADES ambiente econômico, social e cultural
“A dinâmica dos anos finais do Ensino no qual o adolescente se constitui.
Fundamental é muito diferente da A escola pode contribuir com a
dos ciclos anteriores. Faz-se necessário que formação desses alunos ao trabalhar
o estudante se organize com diferentes interdisciplinarmente os temas
cadernos e conteúdos e considere a maneira transversais da Educação
particular de cada professor dar aula. Isso (ética, meio ambiente, orientação
precisa ser ensinado pela escola e reforçado sexual, saúde e pluralidade cultural)
pela família. Cabe a ela fomentar a autonomia e ao tentar conhecer melhor
dos filhos na organização dos estudos em casa.” as características dessa fase”.
GABRIEL LORA

Lucas Monteiro de Oliveira, professor Catarina Iavelberg, especialista


da Escola Santi, em São Paulo em Psicologia da Educação

10

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ALUNA
RELAÇÃO COM O CONHECIMENTO
“Há uma valorização, por parte da
aluna, de professores que sabem
ensinar. O que a garota elogia, com
razão, é o compromisso do docente ALUNO
em fazer com que todos compreendam particularidades da idade
o conteúdo ensinado. Depois que “A reclamação revela uma
o adolescente entende, tudo parece necessidade de que os professores
simples e fácil.” Regina Scarpa, entendam a etapa de vida em que
coordenadora pedagógica ele está. Em geral, eles não conhecem
da Fundação Victor Civita (FVC) os estudantes para os quais lecionam.
Um planejamento conjunto de
atividades e estudos coletivos sobre
questões pertinentes aos anos finais
do Ensino Fundamental auxilia
a compreender como a criança
raciocina e quais são seus interesses.”
Orly Zucatto de Assis, professora
da Faculdade de Educação
da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp)

importância da turma
“Esta é a mais marcante das
constatações que a Psicologia Moral
tem feito: a necessidade da relação
entre pares. Infelizmente, muitos
docentes veem a amizade entre
os alunos como algo prejudicial
ao aprendizado. É preciso entender
que o conhecimento só se constrói
na interação entre as pessoas.”
Luciene Tognetta, doutora em
Psicologia Escolar pela Universidade
de São Paulo (USP)
* OS NOMES DOS ENTREVISTADOS PARA A PESQUISA FORAM
ALUNO MANTIDOS EM SIGILO PARA PRESERVAR SUA IDENTIDADE.

11
{ Docentes }
GABRIEL LORA

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Profissionais
distantes do público
Os docentes são os mesmos do Ensino
Médio, mas os alunos são bem diferentes.
Saiba como isso impacta a sala de aula
Tatiana Pinheiro novaescola@fvc.org.br

P ara dar aulas do 6º ao 9º ano, o


professor precisa ter licenciatura
plena em uma das disciplinas do
currículo, como Língua Portuguesa, Ma-
temática, História e Geografia. Com essa
nas do que às questões pedagógicas e às
particularidades dos estudantes mais no-
vos, que ainda estão no início da adoles-
cência. As discussões nos cursos de gra-
duação passam ao largo das questões
já sabem – ou deveriam saber – e sem
considerar os conhecimentos não adqui-
ridos por eles nos anos anteriores.

Alguns caminhos a seguir


mesma formação específica, ele também práticas que afetam meninos e meninas Se, do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamen-
pode lecionar para turmas do Ensino nesse período escolar – como ter cader- tal, os alunos nutrem um carinho quase
Médio. O problema é que os estudantes nos distintos para cada disciplina, entre- incondicional por seus docentes, isso se
dessas duas fases escolares são bastante gar lições e trabalhos com periodicidades torna raro daí em diante. O que funciona
diferentes e, muitas vezes, o educador irregulares, iniciar o uso da agenda, orga- com essa moçada é um professor “admi-
não se dá conta disso. nizar o tempo de estudo em casa de for- rado por sua forma de ensinar, pelo com-
Declarações dos professores entrevis- ma autônoma, etc. promisso que demonstra ter com os alu-
tados para a pesquisa denotam que mui- Aspectos da capacidade de compreen- nos, pelo cuidado em apresentar uma
tos se decepcionam com os jovens de 11 são dos alunos também não são objeto aula coerente e organizada, e pela corre-
a 14 anos (leia nas páginas 14 e 15 depoi- de reflexão na formação inicial. “Esses ção cuidadosa e respeitosa que faz dos
mentos analisados por especialistas). Para jovens não estão prontos para aprender trabalhos solicitados”, diz o estudo.
eles, os alunos não conseguem se com- como os educadores gostariam”, explica Nesse sentido, formações continuadas
portar com o mínimo de maturidade, a consultora Bernardete Gatti. Essa garo- podem ser proveitosas, desde que explo-
não demonstram interesse pela aquisi- tada precisa de ajuda para dominar o rem as características próprias desta faixa
ção de conhecimento e, muito menos, pensamento abstrato e a linguagem pró- etária e trabalhem formas eficientes de
valorizam a figura do professor. pria dos novos conteúdos. atribuir significado ao conhecimento e à
Muitas vezes, os professores também escola. Mas de nada vale isso se os docen-
Formação em xeque caem na armadilha de seguir, estritamen- tes não construírem uma visão positiva
Parte dessa percepção negativa ocorre te, o planejamento de aulas, passando de seus estudantes. Confiar neles e se pre-
porque a formação desses especialistas se pelos conteúdos estipulados sem estabe- ocupar com o futuro deles faz parte do
atém mais aos conteúdos de suas discipli- lecer conexões com o que os estudantes processo de ensino e aprendizagem.

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{ Depoimentos }

Com a palavra,
os professores
As declarações de quem está à frente da sala
de aula são um bom reflexo dos desafios
enfrentados. Veja as opiniões de especialistas
TATIANA PINHEIRO novascola@fvc.org.br Colaborou ELISA MEIRELLES

PROFESSORA DE CIÊNCIAS
PROFESSORA DE GEOGRAFIA

formas de motivação
reorganização da prática “Meninos e meninas que passam
“Há inúmeras experiências para os anos finais do Fundamental
que mostram ser possível, sim, precisam ser vistos como agentes
criar um ambiente de aprendizagem do próprio conhecimento. É assim
mais significativo, cooperativo que se sentem com relação a sua vida
e respeitoso. Mas, para isso, escolar neste momento: já podem
é necessário o engajamento da escola tudo porque são grandes. Então, por
toda, desde o gestor até os funcionários que não aproveitamos para organizar
que não atuam diretamente em projetos de pesquisa em grupos,
sala de aula e, claro, os docentes.” sobre temas e com ações que sejam
Adriana Ramos, coordenadora pensadas por eles e não por nós?”
do curso de pós-graduação Luciene Tognetta, doutora em
sobre relações interpessoais da Psicologia Escolar pela Universidade
Universidade de Franca (Unifran) de São Paulo (USP)

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PROFESSORA DE GEOGRAFIA PROFESSORA DE LÍNGUA PORTUGUESA

reconhecimento apoio e orientação


“Não é possível generalizar a relação “O depoimento é uma prova de que
entre docentes e alunos. Em muitos a universidade está muito distante
casos, é o próprio professor quem da escola. Enquanto as pesquisas
se sente desvalorizado e aceita essa acadêmicas não se dedicarem
imagem. Vale pensar, então, qual de verdade às questões didáticas,
é a visão que ele tem de si mesmo. pouco poderão contribuir com
Os profissionais que dão importância o professor no dia a dia de sala
ao seu trabalho se posicionam de aula. Há que se aproximar
de maneira diferente em classe a academia das redes de ensino
e mostram que sabem ensinar. Com e dos problemas que são vivenciados
isso, costumam conquistar a moçada.” por professores e alunos.”
Débora Rana, professora e formadora Priscila Monteiro, consultora
do Instituto Avisa Lá, em São Paulo. pedagógica da FVC.

tempo para a formação


“O professor precisa de espaço
para analisar a sua prática. Na escola,
ele acaba ficando preso ao ‘fazer’
e não tem esse tempo. A profissão
exige reuniões com os colegas,
em que se pensa em conjunto e
imagina bons caminhos para resolver
os problemas. É preciso dar atenção
à formação docente na escola.”
Ana Flávia Alonço Castanho,
GABRIEL LORA

assessora da Secretaria Municipal


de Educação de São Paulo e formadora
PROFESSORA DE LÍNGUA PORTUGUESA de professores em leitura.

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{ Alunos e docentes }

Percepções diversas
sobre a escola
O ponto de vista de quem ensina e de quem
aprende tem de ser levado em conta se
queremos elevar a qualidade da Educação
TATIANA PINHEIRO novaescola@fvc.org.br

A o se observar as declarações de
docentes e alunos apresentadas
neste especial, constata-se que
esses agentes têm discursos ora próximos
ora distantes sobre temas ligados ao uni-
comuns. Muitos docentes admitiram
perceber dificuldades na adaptação dos
alunos à rotina do 6º ano. Em coro com
seus estudantes, verbalizaram que é mes-
mo um choque ter de lidar, de uma hora
verso escolar e às especificidades do pe- para outra, com vários professores, cader-
ríodo focado pela pesquisa da FVC. nos diferentes, diversas formas de ensi-
Foi comum ver, de um lado, educado- nar e vários níveis de exigência.
res se queixando de que os estudantes Em conjunto, também, eles comenta-
não têm interesse pelo que é ensinado e, ram o afastamento entre a escola e os
muito menos, se importam com o saber. interesses da turma, enfatizando que al-
“Eles valorizam mais o conhecimento da go tem de mudar. “É preciso inovar na
TV do que o da escola. Esta vem como gestão do tempo, na forma de agrupa-
algo para matar o tempo”, diz uma pro- mento dos estudantes, na circulação de-
fessora de Língua Portuguesa de São les nos espaços dentro e fora da escola,
Paulo. Enquanto isso, alunos reclamam na definição dos conteúdos, no uso de
da forma apressada de ensinar, em que o tecnologias e na formação docente”, co-
conteúdo de lousas e mais lousas deve ser menta Catarina Iavelberg, especialista
copiado, e – contrariando seus mestres em Psicologia da Educação, com base
– afirmam que sem a escola não seriam nos depoimentos reunidos na pesquisa.
ninguém. “Se você não tem estudo, você Levar em conta os pontos de contato
não faz parte da sociedade! É como se e de distanciamento na fala desses que
você não fosse ninguém”, afirma um dos são os principais atores do processo de
alunos entrevistados. ensino e de aprendizagem dá pistas do
Se, às vezes, os pontos de vista se dis- que precisa ser revisto e aperfeiçoado. Só
GABRIEL LORA

tanciam, há momentos em que se apro- assim, todos encontrarão o significado


ximam na identificação de problemas pleno de suas atividades.

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{ Artigo }

O que mais
MONTAGEM SOBRE FOTO DE DIVULGAÇÃO

sabemos sobre
Maria do Carmo Brant
nossos alunos?
Doutora em Serviço Social,
pesquisadora e consultora,
Além de compreender as mudanças
foi superintendente do pelas quais os adolescentes passam,
Centro de Estudos e Pesquisas
em Educação, Cultura e
é necessário observar como se
Ação Comunitária (Cenpec) relacionam com o mundo em que vivem

T rago aqui uma pequena reflexão


sobre a pesquisa da FVC. O rela-
tório mostra que os alunos desta
fase são pré-adolescentes de 11 e 12 anos
e adolescentes de 13 e 14, que vivem em
Querem aprendizagens ágeis e vivencia-
das, e não se adaptam à escola.
Os adolescentes querem um saber fa-
zer, não apenas um saber. Querem opor-
tunidades alargadas de sociabilidade, que
se veem diante de situações que fogem
ao controle, e é aceita e valorizada entre
os pares. A atitude é mais um ato de ir-
reverência e de afirmação no jogo das
relações do que propriamente bagunça,
um particular ciclo da vida: já não são praticamente não possuem – apesar de mas é um dos pesadelos dos professores
crianças e nem tampouco jovens. Mas o serem algo essencial nesse período de – interpretada como indisciplina. Perde-
que mais sabemos sobre eles? construção de identidade. Desgarraram- se então o respeito mútuo.
Além de estarem passando pelas mu- se das saias da mãe ou da “tia”. A pre- A mesmice da escola desmotiva seus
danças da puberdade, esses alunos nave- ferência agora são os pares, o grupo de alunos adolescentes. Há um claro confli-
gam na complexidade da sociedade con- amigos que escolhem para responder a to entre as promessas postergadas para
temporânea. São nativos da era digital e suas necessidades de comunicação, auto- o futuro e a urgência em obter respostas
informacional; apresentam outra racio- nomia, trocas afetivas e de identidade. para o presente. Querem saber viver e
nalidade cognitiva na qual o aprender As resistências em relação à escola mover-se com maior segurança frente
se faz descentrado e difuso. São capazes começam com a enorme dificuldade de às demandas que os cercam. Querem
de acessar um conjunto simultâneo de serem reconhecidos na busca de socia- aprendizagens convertidas em compe-
informações e conhecimentos espraiados bilidade. A paixão pela relação os torna tências no seu uso imediato. Em outras
em vários espaços que não mais apenas a irrequietos, dispersos e afastados dos con- palavras, precisam de conhecimentos
escola. Transitam por meios e circuitos teúdos. Rotinas, regras e recortes escola- úteis e contextualizados que lhes possi-
virtuais e navegam por links e hiperlinks res acabam por cercear a socialização. bilitem ligar e religar fatos e significados,
nada sequenciais e lineares. Há uma visível incivilidade no trato realizar mediações, expressar, argumen-
Contraditoriamente, no entanto, não das relações e dos espaços institucionais tar, pesquisar, construir nexos de com-
agarram as informações e saberes que de convivência. Essa incivilidade tornou- preensão do mundo e de si.
acessam. Carecem da mediação que a se uma prática banalizada no interior Equalizar esses aspectos e rever a
escola nem sempre realiza. Sentem-se das escolas – até porque vivemos numa maneira como os anos finais do Ensino
abandonados e inseguros para lidar com sociedade cunhada por interesses indivi- Fundamental estão organizados são um
o excesso cultural e com informações duais, em que não se sabe mais desenvol- grande desafio. O que está claro, no en-
instantâneas mundiais e locais que lhes ver valores ligados ao bem comum. tanto, é que não se pode mais ignorar
chegam isoladas, vulneráveis e fora de or- A prática do zoar marca as relações quem são e o que pensam esses meninos
dem. Vivem mergulhados no presente. entre os adolescentes, sobretudo quando e meninas que passam pela escola.

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{ Recomendações }

Rumo à qualidade:
seis possíveis soluções
Com base nas questões levantadas pela pesquisa
e nas contribuições de especialistas, a FVC aponta
caminhos para aprimorar essa fase de ensino
Maria Rehder novascola@fvc.org.br

A
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pesquisa realizada pela FCC Articular melhor
trouxe questionamentos impor- as fases da educação
tantes sobre os desafios dos anos Promover uma integração mais ampla
finais do Ensino Fundamental. Com entre os segmentos da Educação
Básica é indispensável para assegurar
base nas constatações apresentadas e
a continuidade na aprendizagem. “Em
nas contribuições dos especialistas que
muitas cidades, apenas o primeiro ciclo
estiveram no painel sobre o estudo (leia
foi municipalizado. Temos de criar
a lista dos participantes na página à direi- espaços para que as redes conversem”,
ta), a FVC propõe alguns meios para avalia Joyce Mary Adam de Paula
garantir a qualidade do ensino. e Silva, professora da Universidade
Para começar, é preciso articular de Estadual Paulista “Júlio de Mesquita

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forma mais efetiva as fases da Educação Filho” (Unesp), campus de Rio Claro.
e os docentes que nelas atuam. Igual-
mente importante é garantir uma base
curricular nacional, além de desmitifi-
car a imagem negativa do aluno, conhe- Promover o diálogo
cendo a fundo as particularidades dele entre os PROFESSORES
para melhor ensiná-lo. Para tanto, a for- Os docentes necessitam de espaço
mação docente é um ponto básico. para discutir o planejamento
O cumprimento dessas medidas pres- em conjunto, enfatizando conteúdos
e habilidades que serão trabalhados.
supõe a união de esforços por um
Esses encontros devem ser previstos
maior investimento – que deve ser em-
pela coordenação pedagógica.
pregado para equipar escolas, oferecer
“É necessário criar condições para que
uma formação inicial e continuada só- os professores atuem de forma integrada,
lida aos professores e salários dignos, sem esquecer as especificidades das
GABRIEL LORA

entre outros itens. Por fim, há que se disciplinas”, diz a diretora do Colégio
repensar o pacto federativo. Equipe, em São Paulo, Luciana Fevorini.

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ORGANIZAR UMA BASE
CURRICULAR NACIONAL
O país tem de delimitar os objetivos
a serem alcançados em nível nacional
e ajudar as redes a repensar os
currículos e a maneira como as aulas
são planejadas. “Muitos dos recortes
de conteúdo feitos em classe pertencem
a outra concepção de ensino. É preciso
coragem para mudar”, afirma Leandro

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Karnal, professor da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp).

Repensar a formação
INICIAL E CONTINUADA
Formar melhor o especialista
significa, entre outras coisas,
dar ferramentas para que ele conheça
as peculiaridades da adolescência.
Para Karnal, “esse docente está situado
em uma fronteira, entre o profissional
mais técnico do Ensino Médio
e o que atua como orientador,

5
das séries iniciais”. A formação deve
considerar essa duplicidade de papéis.

entender quem é e o que


pensa o adolescente
É urgente desenvolver uma
visão do estudante pautada nas
necessidades específicas da faixa
etária. Existe uma imagem negativa
dele, construída pelos professores,
e que deve ser deixada de lado.
“O aluno real já está em nossa
escola, buscando autoafirmação.

6
O docente deve ser formado para
dialogar com ele”, defende Joyce.

LEVAR EM CONTA NAS AULAS


as ESPECIFICIDADES da fase
Por fim, há que se trazer esse
conhecimento sobre o aluno para
a escola e aproveitá-lo em prol
da aprendizagem. Lucas Monteiro,
professor da Escola Santi, em São
Participaram do painel sobre a pesquisa Angela Dannemann e Regina Scarpa,
Paulo, ressalta a importância de um
da FVC; Bernardete Gatti e Gisela Tartuce, da FCC; Ana Lucia Lima, do Instituto
Paulo Montenegro; Ângelo Ricardo de Souza, da Universidade Federal do Paraná currículo que permita ao educador
(UFPR); Maria Amabile Mansutti, do Cenpec; Maria do Pilar Lacerda Almeida se apropriar dos interesses da turma
e Silva, especialista em Gestão de Sistemas Educacionais; Mozart Neves Ramos, e envolvê-la na produção do saber.
do movimento Todos Pela Educação; Paulo Alves da Silva, do Ministério
da Educação (MEC); Rosana Louro Ferreira Silva, da Universidade Federal
“O conhecimento em qualquer área
do ABC; e Rosangela Valim, da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. requer uma discussão coletiva”, afirma.

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