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FILOSOFIA teorias, que são abstrações razoáveis acerca do

observado.
CIÊNCIA E SOCIEDADE Apesar de suas diferenças, o problema da
oposição extremada entre senso comum e ciência deu-se
a partir do positivismo, que valorizou exageradamente o
O debate sobre o papel da ciência
saber científico em detrimento de outras formas de
A análise epistemológica contemporânea tem
conhecimento, como mito, a religião, a arte e até a
levado à compreensão da atividade científica como um
filosofia.
procedimento que admite falhas.
O positivismo criou o mito do cientificismo, a ideia
Esse questionamento tem relativizado o
de que o conhecimento científico é perfeito, a ciência
conhecimento científico em relação aos outros tipos de
caminha sempre em direção ao progresso e a tecnologia
conhecimento e jogado luz sobre o processo de conhecer,
desenvolvida pode responder a todas as necessidades
que não depende exclusivamente da atividade lógica.
humanas, crenças que têm sido postas em xeques .
Mito da ciência Questão da correção
Apesar dessas novas concepções, para a
Com isso, chegamos à segunda questão: o
sociedade em geral a ciência ainda é um mito, mas
estatuto do conhecimento científico, ele será sempre
chama a atenção para o perigo de mitificar a ciência e os
perfeito, o mais correto? A reflexão sobre o assunto
cientistas.
indica que não.
O cientista virou um mito e todo mito é perigoso
Não há certezas absolutas em relação à validade
porque ele induz o comportamento e inibe o pensamento.
de nenhuma teoria científica, essa é uma das questões
Se existe uma classe especializada em pensar de
mais debatidas entre filósofos da ciência e cientistas.
maneira correta (os cientistas), os outros indivíduos são
Muitos deles encaram a ciência como uma
liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente
atividade contínua e não como uma doutrina enrijecida
fazer o que os cientistas mandam.
pela pretensão de ter atingido um saber perfeito e
É preciso que se proponham algumas questões
absoluto.
em relação ao conhecimento científico e ao poder que
Além disso, a complexidade dos fenômenos é
esse conhecimento adquiriu na sociedade
uma interrogação sempre constante no campo do
contemporânea.
conhecimento científico.
A primeira diz respeito à diferença entre o
Muitos dos problemas ambientais decorrentes da
conhecimento científico e o conhecimento comum, isto é,
ação tecnocientífica são exemplos dessa incapacidade da
o senso comum, da maioria das pessoas: será que o
ciência tudo prover, a ciência nunca resolve um problema
conhecimento científico é superior?
sem criar outros.
A segunda diz respeito ao estatuto do
Aliada fiel do capitalismo, o desenvolvimento
conhecimento científico, encarado como modo de pensar
tecnológico, resultante nos avanços do conhecimento
correto: será a ciência sempre correta, perfeita e
científico, tem mostrado pouca preocupação pelo meio
absoluta?
ambiente e a qualidade de vida das pessoas.
Finalmente, a terceira refere-se propriamente ao
Questão da neutralidade
poder que o saber científico confere a quem o detém,
Chegamos à terceira questão aqui proposta: a
poder de induzir o comportamento das pessoas e
relação entre o saber e o poder, formulada pelo filósofo
autoproclamar-se conhecedor da verdade sobre
Francis Bacon (1561-1626).
determinados assuntos: será o cientista neutro?
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-
A questão da superioridade
1900) já havia afirmado que o conhecimento se dá por
Quanto à primeira questão, o senso comum se
meio de alguma forma de dominação, isto é,
caracteriza por certa ausência de fundamentação, por
conhecimento implica poder.
uma aceitação acrítica ou pouco criteriosa daquilo que
Com o conhecimento científico ocorre o mesmo,
parece ser a verdade para as pessoas em geral.
ele não é neutro e seu uso é menos neutro ainda.
A ciência, por sua vez, seria, ao contrário, a
A produção científica insere-se no conjunto dos
busca dessa fundamentação, a procura rigorosa dos
interesses das sociedades, frequentemente é direcionada
nexos e relações entre os fatos observáveis, de forma a
por verbas e financiamentos vinculados aos objetivos dos
encontrar a razão de ser dos fenômenos estudados.
grupos que exercem poder social.
No entanto, essa oposição tão rígida, que culmina
Crítica da ciência
em uma valorização da ciência em detrimento do senso
Não é, portanto, apenas em relação à
comum, não corresponde exatamente à prática do acesso
possibilidade de verdade das teorias científicas que a
ao saber.
filosofia da ciência deve se debruçar.
Em outras palavras, nem o senso comum é tão
Outras questões referentes à ciência ainda
ingênuo quanto costuma ser pintado, nem a ciência é tão
surgem no mundo contemporâneo, elas dizem respeito
rigorosa e infalível quanto se apresenta.
ao sentido, ao valor e aos limites éticos do conhecimento
Primeiramente, não devemos nos esquecer de
científico nos contextos das sociedades.
que as observações que levam ao conhecimento científico
nascem dos problemas com os quais o senso comum lida, Dominação social
a ciência nada mais é que o senso comum refinado e Nos filósofos da Escola de Frankfurt a crítica do
disciplinado. papel da ciência e da tecnologia no mundo atual está
Mas também devemos considerar que o vinculada à crítica da própria razão contemporânea,
comportamento científico se distingue do senso comum dominadora e manipuladora, uma razão instrumental.
por não se manter preso às primeiras observações. Segundo essa interpretação, essa racionalidade,
Vai além do observável ao promover a elaboração que a partir dos iluministas apresentava-se como
de teorias, muitas das quais de complexidade tal que libertadora, passou servir à dominação e destruição da
fogem ao entendimento comum. natureza.
O trabalho científico envolve outros elementos, A vida dos indivíduos também foi submetida a
além da observação: o levantamento de hipóteses, mecanismo de racionalização, como a especialização do
experimentações, generalizações, até se constituir em trabalho nas indústrias, que se apresentou como
científica, quer dizer, neutra, desinteressada, mas nem
sempre foi assim.
Outro filósofo que denunciou os mecanismos de
controle social pela indução racional e científica dos
comportamentos foi Michel Foucault (1926-1984). Ele
procurou mostrar que o saber especializado é usado
como forma de convencimento racional das pessoas em
geral, exercendo poder sobre elas.
Essa utilização do discurso científico só é possível
a partir do mito do cientificismo, ou seja, a crença no
poder da ciência de tudo explicar e, sobretudo, a crença
em sua neutralidade, a ideia de que o conhecimento
científico é desinteressado e imparcial.
Interesses políticos e econômicos
O que define a finalidade da pesquisa científica?
Apenas o bem-estar social e a emancipação do ser
humano como geralmente se creem, ou há outros
interesses?
Os cientistas envolvidos na construção da bomba
atômica, por exemplo, não detinham o controle de seu
uso.
O físico estadunidense Julius Robert Oppenheimer
(1904-1967), diretor do centro de pesquisas nucleares de
Los Alamos durante parte dos trabalhos relativos a tal
projeto, redigiu uma declaração na qual revelou sua
ignorância política, ou seja, desconhecimento do uso
previsto para suas pesquisas.
Também é sabido que muitos países dependem
economicamente da indústria armamentista, responsável
por grande parte do PIB mundial.
Isso estimula o investimento de recursos nesse
tipo de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, em
detrimento de outros, pois estão envolvidos interesses de
dominação política e econômica.
Levando tudo isso em consideração, percebemos
que a ciência também está atrelada a outros interesses
que norteiam sua própria ação.
Desse modo, devemos ser cautelosos quando
avaliamos o sentido e o valor dos conhecimentos
científicos, a reflexão filosófica pode nos ajudar nessa
tarefa.