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Diagnóstico diferencial entre neurose e psicose:

uma função das entrevistas preliminares

Ana Lydia Santiago

Palavras-chave: Psicanálise, sintoma, diagnóstico diferencial, clínica das


psicoses, função paterna.

I. Introdução
No âmbito da prática clínica é necessário definir o sintoma, mas é importante,
também, saber identificar sua função para se decidir sobre a forma de tratá-lo.
Existem várias maneiras de abordar o sintoma: o tratamento médico, a educação, a
reeducação e a psicanálise. Essa variedade impõe-se, na prática clínica com crianças, de
duas maneiras diferentes. Uma delas refere-se às múltiplas ofertas terapêuticas que, para
alguns profissionais e, mesmo, para alguns pais, se tornaram partes interdependentes,
tendo-se em vista o sucesso terapêutico do sintoma. A outra, diz respeito à própria
resposta do sujeito frente ao que, a princípio, se apresenta como desordem. Sabe-se o
quanto um sujeito, ou sua família, pode viver anos com uma desordem sintomática,
adaptando-se a ela, dando um jeitinho e, até mesmo, fazendo do próprio sintoma uma
marca ou presença indispensável junto ao Outro.
A fim de que, para além da desordem, o sintoma seja um signo, ou seja,
represente alguma coisa para um sujeito, é preciso que ele adquira um sentido. O analista
é um dos profissionais que, entre muitos outros, pode ocupar o lugar de intérprete do
sintoma da criança. Entretanto sua oferta não deve restringir-se a uma nomeação; ele deve
possibilitar ao sintoma, enquanto uma formação do inconsciente que faz com que o
sujeito tropece, a chance, não a do silêncio que o aliena e o transforma em pura
determinação, mas a chance da palavra, ou seja, da própria expressão do sexual do
inconsciente.

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Nessa perspectiva, o analista opera enquanto tal, porque só é possível verificar seu
ato e, por conseguinte, a posição do inconsciente, mediante a própria modalidade de
resposta do sujeito ao que lhe é apresentado.
É levando em conta, exatamente, a resposta do sujeito, que ressaltaremos, a partir
de fragmentos de casos clínicos da literatura psicanalítica, a questão do diagnóstico
diferencial entre neurose e psicose.

II. Pré-história
Antes de entrar no caso, farei uma consideração sobre a questão da pré-história,
que ficou de ser discutida hoje.
No seu Seminário, livro 3, Lacan, perguntando-se sobre o que seria o início de
uma psicose, introduz a questão de saber se a psicose teria uma pré-história como a
neurose, para chegar a uma outra questão — que nos interessa de primeira mão —, que é
a de saber se há, ou não, uma psicose infantil.
Que a psicose se manifesta durante a infância é um fato certo. Afirmar isso,
contudo, não é o mesmo que dizer que há “psicose infantil”, no sentido que dizemos,
correntemente, para a clínica tanto com adultos quanto com crianças, que há “neurose
infantil”. O que se entende por pré-história é toda a dimensão do arcaico, do primário, do
traumático para o sujeito. Tem relação, portanto, com o recalcamento, com o Ur, do
termo alemão Urverdrängung , que designa o primário, intrínseco ao sujeito, à sua
possibilidade de se representar pelo efeito de um par de significantes.
Nessa perspectiva, não há psicose infantil, porque, no lugar do recalque, do
trauma, o que se tem é a forclusão do significante, o que aparece é um vazio.
O que, às vezes, gera confusão a respeito da pré-história é a idéia de pré-psicose.
Pré-psicose não tem nada a ver com pré-história. Entende-se por pré-psicose todos os
fenômenos que antecedem a eclosão, que precedem o desencadeamento da psicose
propriamente dita. A referência se faz a uma falha anterior a todos os sintomas produtivos
da psicose, a saber, os distúrbios da senso-percepção (manifestações alucinatórias) e os
distúrbios relacionados à atividade delirante.

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Existem duas concepções de pré-psicose: uma sincrônica (estrutural) e outra
diacrônica (histórica, desenvolvimentista, fenomênica, referida ao tempo). A sincrônica,
geralmente, encontra-se associada à categoria de boderline e às categorias em que se
podem notar fenômenos produtivos. Lacan elaborou uma noção de pré-psicose a partir de
uma outra concepção, a diacrônica, fenomênica, que foi bastante desenvolvida pelo
psiquiatra M. Katan, com base no estudo das Memórias, do Presidente Schreber. Lacan
parte de Katan e desenvolve sua própria noção de pré-psicose, propondo-se,
precisamente, a questão: “Onde começa a psicose?” Para ele, o começo da psicose estaria
associado a um encontro ou um acontecimento sem saída, sem registro para o sujeito. No
ponto em que, para o neurótico, se inscreve o trauma, para o psicótico nada se inscreve,
tudo permanece em branco. A psicose não tem, como a neurose, uma pré-história na
neurose infantil. Nem mesmo as etapas de desenvolvimento da doença constituem uma
história. E Lacan afirma isso em seu Seminário, livro 3, demonstrando a identidade
existente entre o momento prévio ao desencadeamento da psicose de Schreber e seu
estágio terminal, o delírio.
No curso desse mesmo Seminário, Lacan vai localizar o momento da pré-psicose
em alguns fenômenos típicos, tais como:
1) a questão da própria presença da falta para um sujeito, ou, em outros termos,
quando uma questão permanece colocada sem que o sujeito seja o mesmo que a teria
colocado;
2) o fenômeno da perplexidade, referida à dúvida, à vacilação associada a uma
parada do pensamento, a um vazio no pensamento;
3) os fenômenos de franja, também chamados fenômenos de borda ou de limite, que
seriam palavras interiores — murmúrios, gargalhadas, ainda sem um conteúdo
semântico;
No campo das psicoses na infância, a investigação que se pode fazer consiste em
verificar se essa produção prévia ao desencadeamento, tal como descrito em relação às
psicoses na vida adulta, é apreensível na infância, naqueles casos em que a manifestação
não é tão precoce.

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De toda maneira, a própria concepção de pré-psicose, no Campo Freudiano, está
sendo modificada, posta em questão, a partir da formalização borromiana da clínica
estrutural. A clínica borromiana, na atualidade, vem-se mostrando mais eficaz para o
diagnóstico daqueles casos que fogem à regra, que não coincidem com as descrições
clássicas da psiquiatria e que, por essa razão, são designados, na nosografia, como “raros”
ou “inclassificáveis”. Nesses casos, os fenômenos elementares ou pré-psicóticos quase
nunca se manifestam. Nas queixas atuais dos psicóticos, o que se observa é um tipo de
desconexão em relação ao Outro simbólico ou uma desamarração do sintoma que
mantinha o laço até então.

III. Caso clínico


Se, por um lado, existe uma série de elementos, fenômenos e bizarrias que podem
servir de ponto de referência para o diagnóstico de psicose — a tentativa de apreensão
desses elementos é uma das finalidades das entrevistas preliminares —, por outro, como
eu disse inicialmente, o diagnóstico pode se definir a partir da modalidade de
transferência que se estabelece e, sobretudo, a partir da resposta do sujeito à intervenção
da psicanálise.
O caso aqui tratado revela esse aspecto. Ele foi relatado e discutido durante um
evento dos “Centros Médicos Psicopedagógicos” de uma região da França, em novembro
do ano passado (1997). O tema do evento era o seguinte: “Que tratamento dar ao
sintoma?”
Esse evento chamou minha atenção por privilegiar, não a diversidade de discursos
em função das diferentes práticas clínicas, mas a própria diversidade presente no âmbito
da psicanálise. Tratou-se de uma atividade de psicanálise, preocupada com essa questão
— de que tratamento dar ao sintoma da criança — e, para isso, psicanalistas de
orientações diferentes foram convidados para comentar o mesmo caso.
Dentro desse espírito, foi solicitado a Jacques-Alain Miller interpretar o relato do
tratamento de uma menininha, narrado, em um livro, por René Diatkine e Janine Simon
(Diatkine foi presidenta da IPA, analista de Althusser, militante orgânico do Partido
Comunista. Recentemente foi publicado uma extensa correspondência entre ele e

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Althusser, que estava em análise durante seu fatídico episódio de passagem ao ato que
colocara fim na vida de sua companheira). Alguns representantes da orientação de
Diatkine, como, por exemplo, seu filho Gilbert, estavam presentes.
Do ponto de vista fenomênico, a criança em questão — Karine, de três anos e
meio —, apresenta uma variedade de sintomas desde o termo do primeiro ano de vida. O
mais importante deles é a insônia, acompanhada de gritos constantes e imotivados, que
só tem fim quando sua mãe a toma no colo. Esses gritos obrigam a mãe a permanecer
acordada durante toda a noite e, nessa circunstância, o pai também abandona o quarto
conjugal e termina sua noite de sono no quarto das crianças. Um outro sintoma é a
anorexia, que se instala na metade do primeiro ano. A criança, extremamente agressiva
em relação à mãe, não pode suportar seu afastamento e, então, desde que ela retorna,
passa a lhe dar tapas e mordidas violentas, durante todo o tempo em que está insatisfeita.
Além disso, apresenta uma fobia de transportes comuns, uma enurese… Enfim, um
conjunto de sintomas que justificam, aos olhos dos autores, o diagnóstico de “estrutura
pré-psicótica”.
Com o início do tratamento, toda essa sintomatologia, tomada no interior do
dispositivo analítico, apresenta uma melhora significativa. A mãe sempre participa das
sessões, na maior parte do tempo sustentando a filha no colo “como seu objeto”. No final
de uma primeira série de sessões, Karine começa a calçar os sapatos da mãe, a pegar sua
bolsa e a passear pela sala dizendo “Eu sou uma dama”. Ao mesmo tempo, maltrata a
boneca. Em seguida, ela também pega os sapatos da analista — Janine Simon — e encena
que está saindo para encontrar-se com o pai. Então, a analista interpreta: “Karine pensa
que os maltratos que ela inflige à boneca bebê deveriam ser aplicados a ela mesma, para
puni-la por amar seu pai”.
Eis a interpretação que faz com que a natureza do material apresentado durante as
sessões mude completamente. O comentário indica que a analista pretendeu nomear o
motivo pelo qual se escolhe brincar de ser uma dama: brinca-se de ser uma dama, diz ela,
para poder encontrar com o pai.
Na sessão seguinte, a criança relata um sonho. Muda-se de nível em relação às
demonstrações dela: “Vou contar meus sonhos ruins”, diz ela. “Esta noite, tive medo. Eu

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vi o lobo. Ele queria me arranhar e me comer.” Karine introduz as ameaças, os maus
tratos do lobo, que ela encena. Depois, acrescenta: “Uma vez, o lobo era muito mau; e,
por isso mesmo, eu tinha medo de que seu grande rabo me fizesse guli-guli no rosto e no
bumbum.” Ela aproxima sua mão do bumbum para mostrar a que distância o rabo do lobo
estava, quando ela acordou gritando. Nesse momento, ela faz uma associação, dizendo
gostar quando seu pai lhe dá tapinhas no bumbum, à noite, para incentivá-la a subir na
cama.
Pouco tempo depois, os efeitos terapêuticos da análise eram evidentes. Houve,
portanto, a interpretação “banca-se a dama para procurar o pai” e, depois, o sonho do
lobo, seguido da associação entre o rabo do lobo e os tapinhas de seu pai no seu traseiro.
Quinze dias mais tarde, a mãe de Karine declara que o principal sintoma — a insônia —
aparelhado nessas brincadeiras de lobo, desapareceu: “Ela dorme bem”, diz a mãe.
O que se pode retirar desse fragmento clínico é o fato da emergência da instância
fálica, imediatamente após ter sido restituida a presença do pai no sintoma. A criança
chega como objeto da mãe e a introdução do pai, por meio de interpretação, constitui, não
só a chave do processo analítico como também a evidência da estrutura dessa menina.
Depois dessa referência ao falo, seria em vão esperar a eclosão da psicose. Existe para ela
uma historicidade, um momento em que o sentido se produz e o sujeito responde,
revelando sua verdade e a articulação que sua desordem comporta.

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