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PSICOLOGIA JUDICIÁRIA

autora
STELLA LUIZA MOURA ARANHA CARNEIRO

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2018
Conselho editorial  roberto paes e gisele lima

Autora do original  stella luiza moura aranha carneiro

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  gisele lima, paula r. de a. machado e thamyres mondim


pinho

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  bfs media

Revisão linguística  bfs media

Revisão de conteúdo  satina priscila pimenta

Imagem de capa  mark cinotti | shutterstock.com

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2018.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

C289p Carneiro, Stella Luiza Moura Aranha


Psicologia judiciária / Stella Luiza Moura Aranha Carneiro.
Rio de Janeiro: SESES, 2018.
136 p: il.

isbn: 978-85-5548-599-2.

1. Psicologia. 2. Direitos humanos. 3. Psicologia judiciária.


4. Psicopatologia. I. SESES. II. Estácio..
cdd 347.066019

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário
Prefácio 7

1. O papel do psicólogo no contexto jurídico e


sua relação com os Direitos Humanos 9
O papel do psicólogo no contexto jurídico 11
Primórdios da Psicologia Jurídica 11

Psicologia do testemunho 13

Psicologia jurídica no Brasil 15

Atribuições do psicólogo jurídico no Brasil 18

Documentos elaborados pelo psicólogo 19


Declaração 20
Atestado psicológico 20
Relatório psicológico 21
Parecer 21

O que são Direitos Humanos? 21

Declaração Universal dos Direitos Humanos 22

Psicologia e Direitos Humanos no Brasil 24

Princípios fundamentais do Código de Ética dos psicólogos 25

Onde ir ao se deparar com violações de direitos 26

2. Psicologia e Direito Teorias em Psicologia:


uma visão abrangente. Aspectos psicológicos
dos métodos de resolução ou gestão de conflitos 35
Psicologia e Direito 37

Teorias em Psicologia 39
Abordagens psicodinâmicas 39
Abordagens cognitivas 41
Abordagem comportamental 43
Abordagem motivacional 44
Abordagem sistêmica 46

Entendimento psicológico do conflito 47


Manejo das emoções nos conflitos 49
Aspectos psicológicos envolvidos nas tomadas de decisões 49

Métodos autocompositivos 51
Negociação 51
Conciliação 52
Mediação 53
Diferenças entre mediação e conciliação 54

3. Personalidade: definições, características e


transtornos. Psicopatologia aplicada ao Direito 63
O comportamento humano 65

Personalidade 66
Características da personalidade 68

O que é o comportamento anormal? 69

Saúde mental e transtorno mental 71


Transtornos mentais 72

Lei 10.216 de 6 de abril de 2001 – Lei antimanicomial 78

4. Psicologia e violência: crianças, adolescentes,


mulheres e idosos. Psicologia e Direito Penal 87
Violência contra crianças e adolescentes 89
Violência contra mulheres 93
Violência contra o idoso 96
Código Penal (1940) 97
Noções de criminologia 100
Comportamento criminoso 101
Introdução à vitimologia 102
Justiça restaurativa 103
Atuação do psicólogo no sistema prisional 103

5. Psicologia e direito de família. Psicologia,


infância e juventude 113
Psicologia e Direito de Família 115
Dissolução do vínculo conjugal 115
A guarda dos filhos na dissolução do vínculo conjugal 116
Alienação parental 118

Psicologia, infância e juventude 121


Trajetória até o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (1990) 121
Medidas de proteção 123
Adoção e abrigamento 125
O adolescente em conflito com a lei 126
Medidas socioeducativas 128
Prefácio

Prezados(as) alunos(as),

A Psicologia é a ciência que estuda o comportamento humano e os processos


mentais com o objetivo de entender como as pessoas sentem, pensam e agem em
relação ao outro e em relação a si mesmas. É um conhecimento importante para
o profissional da área do Direito, porque ajuda a compreender os motivos que
movem as pessoas a tomar determinadas decisões e agir de forma, muitas vezes,
inesperada, gerando situações no Judiciário.
O profissional do Direito que utiliza os conhecimentos da Psicologia, sem
o propósito de se identificar como um psicólogo ou realizar psicoterapia, terá
maior percepção sobre os fatores que levam as pessoas a expressarem determinados
comportamentos da forma como o fazem. Isso levará o profissional do Direito à
compreensão maior quanto às ações passadas e poderá levar às antecipações de
ações futuras, além de uma análise mais detalhada sobre o que está acontecendo,
para uma adequada tomada de decisão.
Um outro fator importante em relação ao estudo da Psicologia pelo profissional
do Direito é a possibilidade de aumentar a sua percepção em relação ao seu próprio
comportamento, acarretando maior eficácia e eficiência em sua relação com os
outros, principalmente, aqueles envolvidos em processos judiciais. Na medida
em que, para a Psicologia, é fundamental a escuta ativa e o desenvolvimento
da empatia.
Neste livro, você perceberá que não há a intenção de privilegiar nenhum
modelo teórico de interpretação do comportamento humano. Serão apresentados
vários enfoques teóricos e análises sobre diferentes perspectivas. É sempre
importante lembrar que os comportamentos fazem parte de um processo que não
se iniciou e não termina na Justiça.
Você terá oportunidade de conhecer os diferentes trabalhos realizados pelo
psicólogo no Judiciário nas diferentes demandas nesta área. Vamos, então, começar.

Bons estudos!

7
1
O papel do
psicólogo no
contexto jurídico e
sua relação com os
Direitos Humanos
O papel do psicólogo no contexto jurídico e
sua relação com os Direitos Humanos

A Psicologia no contexto jurídico fundamenta-se no percurso histórico de um


conjunto de intervenções especializadas no âmbito das necessidades do Estado
de Direito, por meio da aplicação de determinados princípios psicológicos e
métodos periciais na investigação de testemunhos, avaliação de perfis e processos
psicopatológicos e no entendimento de fenômenos psicológicos instalados ou
manifestados nas relações das pessoas com a Justiça e com as instituições judiciárias.
Dar relevância a estes dados históricos é importante para desenvolvermos uma
reflexão sobre a prática profissional da Psicologia junto às instituições do Direito e
sobre as mudanças que têm ocorrido principalmente após 1980, indicando novas
perspectivas para o decorrer do século XXI. Destaca-se também, a necessidade
de conhecer determinadas terminologias da área jurídica e a importância de um
trabalho interdisciplinar, junto a advogados, juízes, promotores, assistentes sociais
e sociólogos. Esse é o grande desafio da Psicologia Jurídica: não ficar limitada
aos conhecimentos advindos da ciência psicológica e trocar conhecimentos
com ciências afins, buscando redimensionar a compreensão do agir humano,
considerando os aspectos legais, afetivos e comportamentais.
Neste capítulo, trataremos da inserção do psicólogo no contexto jurídico. A
Psicologia é de grande relevância ao ordenamento jurídico brasileiro, pois visa
obter maior compreensão do comportamento do ser humano, para melhorar a
solução dos litígios no contexto jurídico. Apresentaremos a história da inserção
da Psicologia junto ao Direito de forma geral e contextualizada no Brasil. Serão
abordadas as atribuições do psicólogo, nesta área, determinadas pelo Conselho
Federal de Psicologia e que não mais estão restritas à avaliação psicológica. Vamos
estudar, também, as questões importantes na luta pelos Direitos Humanos e a
inserção da Psicologia nessa questão.

OBJETIVOS
•  Compreender a história da inserção da Psicologia junto ao Direito;
•  Conhecer o percurso da Psicologia Jurídica no Brasil;

capítulo 1 • 10
•  Identificar as atribuições do psicólogo jurídico determinadas pelo Conselho Federal
de Psicologia;
•  Estudar a Declaração Universal dos Direitos Humanos;
•  Compreender o trabalho do psicólogo em relação aos Direitos Humanos.

O papel do psicólogo no contexto jurídico

Primórdios da Psicologia Jurídica

Vamos relembrar um pouco de História. Da Idade Média1 ao século XVIII


vão sendo construídos os ideais liberais da sociedade burguesa, que vão constituir
os princípios do Direito Moderno – homem, sujeito da razão, livre e igual aos
demais. Na Idade Média tínhamos a religião como fator totalizante da vida. O
homem, nesse período, estava submetido à rede de relações sociais em que estava
inserido. Sua identidade era constituída a partir do espaço social que ocupava e era
marcada pela diferença (nobre, servo, filho, pai).
O processo de fragmentação deste mundo – processo específico das sociedades
ocidentais – constrói novas explicações para o mundo que vão superar os
significados dados pela religião. Surge o mundo moderno que quebra a tradição
na qual se fundamenta a religião e as posições estáveis. O mundo é dinâmico, é
um mundo em movimento. O homem é, agora, um ser moral, independente,
autônomo, senhor do livre-arbítrio. Ele é um sujeito jurídico, portador da razão,
que estabelece suas relações com os outros a partir de contratos sociais. A visão de
mundo tem como eixo central o individualismo2.
O indivíduo-cidadão é sujeito da razão. Livre-arbítrio e razão se interligam. No
entanto, a afirmação da igualdade, que é parte da natureza humana redescoberta,
produz a necessidade de pensar as diferenças. Mesmo que a igualdade jurídica
esteja garantida, a diferença entre os indivíduos reside na sua interioridade.
Portanto, temos dois entendimentos da natureza humana. Um, como razão, que
afirma a igualdade entre os homens, possibilitando a vida em sociedade; outro,
aponta uma desigualdade que está fora da sociedade, é biológica.

1  a Idade Média (adj. medieval) é um período da história da Europa entre os séculos V e XV. Inicia-se com a queda
do Império Romano do Ocidente e termina durante a transição para a Idade Moderna. Disponível em: <https://
pt.wikipedia.org/wiki/Idade_Média>. Acesso em: 11 mar. 2017.
2  individualismo é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a liberdade do indivíduo frente
a um grupo, à sociedade ou ao Estado. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Individualismo>. Acesso em:
11 mar. 2017.

capítulo 1 • 11
Com a primazia do conhecimento biológico busca-se explicar aquilo que está
além da sociedade, podendo até explicar os comportamentos humanos. Assim,
aparecem estudos importantes como a Frenologia de Gall3 e a Antropologia
Criminal de Cesare Lombroso4, afirmando que a criminalidade era um fenômeno
hereditário. A Psiquiatria, estudo sobre a loucura, com Pinel5, no século XVIII,
ganha espírito iluminista, que ao longo do século XIX agrega o seu conhecimento
às teorias da degenerescência, que ligam a loucura individual à degeneração racial.
A este conceito de degeneração junta-se a explicação dos distúrbios morais,
os quais explicam os atos desviantes da norma social. Há uma disputa entre os
saberes médico e jurídico, segundo Foucault (1996). Há uma psiquiatrização do
crime porque a verdade jurídica obtém-se a partir do exame do criminoso, suas
motivações e intenções. Esse exame toma o lugar do testemunho do criminoso,
que passa a ser secundário ao conhecimento especializado. Surgem também,
diferentes formas para organizar a individualidade humana, como o exame, a
medida, a análise e a classificação.
Neste contexto científico surgem algumas ciências, entre elas, a Psicologia,
que apresenta fronteiras entre a Filosofia e a Biologia. A consciência do indivíduo
autônomo, dono do livre-arbítrio, não é uma totalidade fechada. Nela estão
presentes vários processos como sensação, percepção, vontade e emoção. São esses
processos que a Psicologia vai estudar. Wundt é um dos nomes mais conhecidos
da Psicologia, neste momento inicial da Psicologia científica, principalmente pela
criação do primeiro laboratório de Psicologia Experimental, em 1879, em Leipzig.
Essa data marca, oficialmente, o início da Psicologia como ciência, dentro das
características científicas exigidas naquela época.

3  frenologia (do grego: φρήν, phrēn, "mente"; e λόγος, logos, "lógica ou estudo") é uma teoria que reivindica ser
capaz de determinar o caráter, características da personalidade, e grau de criminalidade pela forma da cabeça (lendo
"caroços ou protuberâncias"). Desenvolvido por médico alemão Franz Joseph Gall por volta de 1800, e muito popular
no século XIX, está agora desacreditada e classificada como pseudociência. A frenologia, contudo, recebeu crédito
como protociência por contribuir para a ciência médica com as ideias de que o cérebro é o órgão da mente e áreas
específicas do cérebro estão relacionadas com determinadas funções do cérebro humano. Disponível em: <https://
pt.wikipedia.org/wiki/Frenologia>. Acesso em: 11 mar. 2017.
4  é creditado como sendo o criador da antropologia criminal e suas ideias inovadoras deram nascimento à Escola
Positiva de Direito Penal, mais precisamente a que se refere ao positivismo evolucionista, que tinha base na sua
interpretação em fatos e investigações científicas. Lombroso ansiou detectar as causas da criminalidade, e o fez por
meio de pesquisas científico-empíricas das características físicas, fisiológicas e psicológicas do indivíduo criminoso.
Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Cesare_Lombroso>. Acesso em: 11 mar. 2017.
5  considerado por muitos o pai da psiquiatria. Notabilizou-se por ter considerado que os seres humanos que
sofriam de perturbações mentais eram doentes e que ao contrário do que acontecia na época, deviam ser tratados
como doentes e não de forma violenta. Foi o primeiro médico a tentar descrever e classificar algumas perturbações
mentais, demência precoce ou esquizofrenia

capítulo 1 • 12
Portanto, você percebe que a Psicologia inicia sua trajetória científica a partir
de estudos experimentais dos processos psicológicos, também chamados de ele-
mentos da mente. Diferente da Psiquiatria, que estuda a loucura e suas ligações
com a razão, a Psicologia analisará os processos mentais comuns a todo ser hu-
mano, estabelecendo as condições ditas normais do seu funcionamento e outras
condições que determinam um aparecimento diferenciado.
Com o aprofundamento dos estudos realizados em laboratórios, foi possível
sair deste espaço, mantendo suas regras de funcionamento. Foram criados mais
testes psicológicos, que pela facilidade de aplicação quanto ao local e ao número
de pessoas, tornaram-se a técnica privilegiada de produção de saber e práticas
psicológicas. (JACÓ-VILELA, 1999)
É a partir dos testes psicológicos que a Psicologia se aproxima do Direito, sem
interferir nas funções realizadas pela Psiquiatria junto a essa ciência. A Psicologia
não estudará a loucura, mas a fidedignidade do testemunho, que apresenta em sua
essência questões ligadas à percepção, motivação, emoção, memória, aquisição de
hábitos e ao funcionamento da repressão.

Psicologia do testemunho

Nenhum testemunho é perfeito, mas por meio dos instrumentos de análise


psicológica é possível avaliar certo grau de fidedignidade do relato da testemunha
através dos seguintes fatores:

De acordo com Mira y Lopez (2013), a percepção é revelada em vários resultados:


a) a capacidade de apreensão de estímulos que é maior pela manhã do que à
PERCEPÇÃO

noite;
b) as mulheres percebem com mais exatidão os detalhes que os homens;
c) os acontecimentos iniciais e finais são melhor percebidos que os intermediários;
d) o testemunho sobre dados qualitativos é mais preciso do que sobre dados
quantitativos;
e) as pessoas diferem entre si quanto à duração das vivências no tempo.

capítulo 1 • 13
Decorrente de condições orgânicas, estado do observador, crenças, novas in-
formações, emoções dolorosas e repressão. O estado emocional interfere na
lembrança da memória da seguinte forma:
a) recuperação lacunar das informações (a mente elimina conteúdos que tra-
riam dor ou desconforto);
b) ampliação de atributos (recorda-se de algo ruim como pior do que realmente
foi e de algo de bom como extremamente melhor);
c) fixação das recordações nos aspectos desagradáveis dos acontecimentos;
MEMÓRIA

d) distorção da interpretação dos acontecimentos, por omissão de aspectos


relevantes, ampliação de detalhes pouco significantes ou combinação des-
ses elementos;
e) enfraquecimento dos traços de memória com o passar do tempo;
f) interferências entre conteúdos, os relatos misturam eventos e suas
consequências;
g) incorporação de fantasias às recordações, principalmente nos relatos de gra-
ves conflitos que se prolongaram por muito tempo;
h) preenchimento de espaços de memória com suposições possíveis, fenômeno
comum mesmo em relatos de incidentes sem grandes consequências.

Outros fatores dizem respeito à expressão dos fatos que podem estar ligados à
falta de inteligência verbal, ao ambiente da sala de audiência, aos tipos de perguntas
e à linguagem usada pelo interrogador. Embora a testemunha não deva fazer juízos
de valor sobre os fatos, vários processos, na maioria inconscientes, interferem na
percepção, no armazenamento e na exteriorização das informações.
Esses diversos fatores, entre outros que não foram contemplados aqui, de
ordem psicológica, influenciam diretamente a qualidade do testemunho. Todo
evento presenciado passa pelo filtro interpretativo de cada pessoa e é composto por
seus conhecimentos prévios, sentimentos e expectativas. E as interferências não
param por aí. No processo de armazenamento dessas lembranças, também atuam
fatores de ordem interna e externa, como os comentários de outras pessoas sobre
o acontecimento, a mídia, novas informações. Por fim, na reconstrução do fato, a
testemunha tende a preencher eventuais lacunas com informações já existentes em
seu psiquismo e que podem não estar relacionadas à realidade dos acontecimentos.
Ao Direito interessa a realidade efetiva dos fatos, mas nem sempre ocorre
relação direta com a realidade psíquica das testemunhas. Um mesmo fato pode gerar
diferentes interpretações, porque cada indivíduo possui uma forma particular de
entender o mundo. O que a mente percebe e retém dos acontecimentos depende
de fatores internos e externos. Podemos considerar fatores internos o próprio
aparelho sensorial de cada pessoa e os conteúdos emocionais dos indivíduos, que,

capítulo 1 • 14
em grande parte, escapam à sua consciência. Os fatores externos, como o contexto
social e cultural, se combinam com aqueles fatores internos para formar a realidade
psíquica de cada um.
Estudos acerca dos sistemas de interrogatório, os fatos delitivos, a detecção
de falsos testemunhos, as amnésias simuladas e os testemunhos de crianças
impulsionaram a ascensão da então denominada Psicologia do Testemunho
(GARRIDO, 1994). É importante entender que esses fatos não invalidam a
utilização dos instrumentos de análise psicológica para favorecer a compreensão
da verdade perseguida pelo Direito. Embora a prova testemunhal seja o meio mais
inseguro, em muitos processos ela se constitui no principal fundamento da decisão
que resolve a controvérsia. Nesse sentido, é fundamental que os profissionais do
Direito entendam a extensão com que ocorrem as interferências emocionais sobre
o testemunho, aumentando as chances de melhor lidarem com as testemunhas e
obter delas um relato que seja mais próximo possível da realidade.
De acordo com o livro Avanços científicos em Psicologia do Testemunho
aplicados ao Reconhecimento Pessoal e aos Depoimentos Forenses, publicado em
2015 pelo Ministério da Justiça brasileiro, há mais de três décadas, a Psicologia
do Testemunho tem investigado sobre as implicações dos avanços científicos sobre
a memória humana para o testemunho e o reconhecimento. Porém no Brasil, o
diálogo desse campo do saber com o ramo do Direito tem sido bastante tímido.
Como possível resultado, ao contrário de vários outros países, nossa legislação
ainda não contempla este consolidado conhecimento científico advindo da
Psicologia do Testemunho.

Psicologia jurídica no Brasil

A história da atuação de psicólogos brasileiros na área da Psicologia Jurídica


tem seu início no reconhecimento da profissão, na década de 1960. Tal inserção
deu-se de forma gradual e lenta, muitas vezes de maneira informal, por meio de
trabalhos voluntários. Os primeiros trabalhos ocorreram na área criminal, com
enfoque em estudos acerca de adultos criminosos e adolescentes infratores da lei
(ROVINSKI, 2002). O trabalho do psicólogo junto ao sistema penitenciário
existe, ainda que não oficialmente, em alguns Estados brasileiros há mais de 40
anos. Contudo, foi a partir da promulgação da Lei de Execução Penal (1984) que
o psicólogo passou a ser reconhecido legalmente pela instituição penitenciária.
(FERNANDES, 1998)

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De acordo com Brito (2005), os psicodiagnósticos eram vistos como instru-
mentos que forneciam dados matematicamente comprováveis para a orientação
dos operadores do Direito. Inicialmente, a Psicologia era identificada como uma
prática voltada para a realização de exames e avaliações, buscando identificações
por meio de diagnósticos. Essa época, marcada pela inauguração do uso dos testes
psicológicos, fez o psicólogo ser visto como um “testólogo”, na primeira metade
do século XX . Atualmente, o psicólogo utiliza estratégias de avaliação psicológica,
com objetivos bem definidos, para encontrar respostas para solução de problemas.
A testagem pode ser um passo importante do processo, mas constitui apenas um
dos recursos de avaliação. (CUNHA, 2000)
No Estado de São Paulo, o psicólogo fez sua entrada informal no Tribunal
de Justiça por meio de trabalhos voluntários com famílias carentes, em 1979. A
entrada oficial se deu em 1985, quando ocorreu o primeiro concurso público para
admissão de psicólogos dentro de seus quadros (SHINE, 1998). Com a implan-
tação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, o Juizado de
Menores passou a ser denominado Juizado da Infância e Juventude. O trabalho do
psicólogo foi ampliado, envolvendo atividades na área pericial, acompanhamentos
e aplicação das medidas de proteção ou medidas socioeducativas. (TABAJASKI,
GAIGER ; RODRIGUES, 1998)
Essa expansão do campo de atuação do psicólogo gerou aumento do número
de profissionais em instituições judiciárias mediante a legalização dos cargos pelos
concursos públicos. São exemplos a criação do cargo de psicólogo nos Tribunais
de Justiça dos estados de Minas Gerais (1992), Rio Grande do Sul (1993) e Rio de
Janeiro (1998). (ROVINSKI, 2002)
Em relação à área acadêmica, cabe citar que a Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (UERJ) foi pioneira em relação à Psicologia Jurídica. Foi criada,
em 1980, uma área de concentração dentro do curso de especialização em
Psicologia Clínica, denominada “Psicodiagnóstico para Fins Jurídicos”. Seis anos
mais tarde, passou por uma reformulação e tornou-se um curso independente do
Departamento de Clínica, fazendo parte do Departamento de Psicologia Social
(ALTOÉ, 2001), sendo denominado de Psicologia Jurídica.
Antes de finalizar este item, seria interessante abordar a questão da terminolo-
gia: Psicologia Jurídica, Psicologia Forense e Psicologia Judiciária. Para o Conselho
Federal de Psicologia, a partir de documentos como veremos no item a seguir,
o termo jurídico é utilizado sem a diferenciação entre outros termos, como ju-
diciário ou forense. Segundo a psicóloga Fátima França, uma das pioneiras da

capítulo 1 • 16
Psicologia Jurídica no Brasil, Psicologia Jurídica é uma das denominações para
nomear essa área da Psicologia que se relaciona com o sistema de justiça.
Na Argentina, denomina-se Psicologia Forense, embora haja muitos profissio-
nais argentinos filiados à Associação Ibero-Americana de Psicologia Jurídica, o que
permite inferir a adoção do termo Psicologia Jurídica. De acordo com publicação
do Colégio Oficial de Psicólogos de España Oficial de Espanha, o termo adotado
naquele país é Psicologia Jurídica, no entanto, a Associação Europeia de Psicologia
e Ley atribui a designação de Psicologia e Ley. Ainda de acordo com França (2004,
p.74):

No Brasil, o termo Psicologia Jurídica é o mais adotado. Entretanto há profissionais


que preferem a denominação Psicologia Forense. Prefiro o adjetivo “jurídica” por ser
mais abrangente. Para o autor do Dicionário Prático de Língua Portuguesa, o termo
forense é relativo ao foro judicial. Relativo aos tribunais. De acordo com o mesmo
dicionário, a palavra jurídico é concernente ao Direito, conforme às ciências do Direito
e aos seus preceitos. Assim, a palavra jurídica torna-se mais abrangente por referir-
se aos procedimentos ocorridos nos tribunais, bem como àqueles que são fruto da
decisão judicial ou ainda àqueles que são de interesse do jurídico ou do Direito.

Para o autor Oliveira (2016), a Psicologia Jurídica é concebida como a


Psicologia Forense, que contém a Psicologia Judiciária. O campo da Psicologia
Jurídica seria o conjunto de todas essas práticas, nela se inserindo também, aquelas
realizadas nos órgãos cujo fundamento é evitar a jurisdicionalização dos conflitos
(Defensoria Pública e Conselho Tutelar), bem como naqueles voltados a atender
pessoas em situação de vulnerabilidade social (Centro de Referência de Assistência
Social – CRAS) ou sob risco de rompimento de vínculos familiares (Centro de
Referência Especializado de Assistência Social – CREAS). A Psicologia Forense
é o trabalho do psicólogo na execução penal que objetiva a reintegração social
do preso e o trabalho realizado nas Centrais de Penas e Medidas Alternativas,
assim como a assistência técnica psicológica realizada no Ministério Público e nos
serviços criados pela Lei Maria da Penha e nos CREAS. A Psicologia Judiciária seria
classificada como as práticas realizadas pelo psicólogo funcionário dos Tribunais
de Justiça e as de todos que a eles se equiparam ao proceder a estudo psicológico
sob determinação judicial de envolvidos em processos judiciais com quem nunca
mantiveram contato prévio, além da realização de exame criminológico pelo
psicólogo que atua no sistema prisional.

capítulo 1 • 17
Atribuições do psicólogo jurídico no Brasil

Para que você conheça o trabalho do psicólogo jurídico no Brasil é preciso


entender que nesta área há uma predominância das atividades de confecções
de laudos, pareceres e relatórios, pressupondo-se que compete a essa Psicologia
uma atividade de primordialmente avaliativa e de subsídio aos magistrados. É
importante que você saiba que o psicólogo, ao concluir o processo da avaliação,
pode levantar propostas para os conflitos apresentados, mas jamais determinar os
procedimentos jurídicos que deverão ser tomados. Ao juiz cabe a decisão judicial.
Não compete ao psicólogo realizar esta tarefa.
É preciso deixar clara esta situação, reforçando a ideia de que o psicólogo não
decide, apenas conclui a partir dos dados levantados mediante a avaliação e pode,
assim, sugerir e/ou indicar possibilidades de solução da questão apresentada pela
situação judicial. Entretanto, nem sempre o trabalho do psicólogo jurídico está
ligado à questão da avaliação e consequente elaboração de documentos, conforme
é estabelecido pelo documento denominado Atribuições Profissionais do
Psicólogo no Brasil que foi uma contribuição do Conselho Federal de Psicologia
ao Ministério do Trabalho para integrar o Catálogo Brasileiro de Ocupações,
enviado em 17 de outubro de 1992 e válido até hoje. Vejamos este documento:

Psicólogo Jurídico
Atua no âmbito da Justiça, nas instituições governamentais e não governamentais,
colaborando no planejamento e na execução de políticas de cidadania, Direitos
Humanos e prevenção da violência. Para tanto, sua atuação é centrada na orientação
do dado psicológico repassado não só para os juristas como também aos sujeitos que
carecem de tal intervenção. Contribui para formulação, revisões e interpretação das
leis.
Detalhamento das atribuições
1. Assessora na formulação, revisão e execução de leis.
2. Colabora na formulação e implantação das políticas de cidadania e direitos humanos.
3 Realiza pesquisa visando à construção e ampliação do conhecimento psicológico
aplicado ao campo do Direito.
4. Avalia as condições intelectuais e emocionais de crianças adolescentes e adultos
em conexão processos jurídicos, seja por deficiência mental e insanidade, testamentos
contestados, aceitação em lares adotivos, posse e guarda de crianças ou determina-
ção da responsabilidade legal por atos criminosos.

capítulo 1 • 18
5. Atua como perito judicial nas varas cíveis, criminais, justiça do trabalho, da família, da
criança e do adolescente, elaborando laudos, pareceres e perícias a serem anexados
aos processos.
6. Elabora petições que serão juntadas ao processo, sempre que solicitar alguma pro-
vidência, ou haja necessidade de comunicar-se com o juiz, durante a execução da
perícia.
7. Eventualmente participa de audiência para esclarecer aspectos técnicos em Psico-
logia que possam necessitar de maiores informações a leigos ou leitores do trabalho
pericial psicológico (juízes, curadores e advogados).
8. Elabora laudos, relatórios e pareceres, colaborando não só com a ordem jurídica
como com o indivíduo envolvido com a Justiça, por meio da avaliação das personali-
dades destes e fornecendo subsídios ao processo judicial quando solicitado por uma
autoridade competente, podendo utilizar-se de consulta aos processos e coletar dados
considerar necessários a elaboração do estudo psicológico.
9. Realiza atendimento psicológico pelo trabalho acessível e comprometido com
a busca de decisões próprias na organização familiar dos que recorrem a Varas de
Família para a resolução de questões.
10. Realiza atendimento a crianças envolvidas em situações que chegam às Instituições
de Direito, visando à preservação de sua saúde mental, bem como presta atendimento
e orientação a detentos e seus familiares.
11. Participa da elaboração e execução de programas socioeducativos destinados à
criança de rua, abandonadas ou infratoras.
12. Orienta a administração e os colegiados do sistema penitenciário, sob o ponto
de vista psicológico, nas tarefas educativas e profissionais que os internos possam
exercer nos estabelecimentos penais.
13. Assessora autoridades judiciais no encaminhamento à terapias psicológicas,
quando necessário.
14. Participa da elaboração e do processo de Execução Penal e assessorar a admi-
nistração dos estabelecimentos penais quanto a formulação da política penal e no
treinamento de pessoal para aplicá-la.
15. Atua em pesquisas e programas de prevenção à violência e desenvolve estudos
e pesquisas sobre a pesquisa criminal, construindo ou adaptando instrumentos de
investigação psicológica.

Documentos elaborados pelo psicólogo

Para finalizarmos nosso conhecimento pela Psicologia aplicada ao Direito,


muito falamos sobre as avaliações que se tornaram, durante muito tempo, uma
prática extremamente valorizada em relação ao trabalho do psicólogo. O processo
de avaliação psicológica utiliza-se dos instrumentais técnicos (entrevistas, testes,

capítulo 1 • 19
observações, estudos de campo, dinâmicas de grupo, escuta, intervenções verbais)
que se configuram como métodos e técnicas psicológicas para a coleta de dados,
estudos e interpretações de informações a respeito das pessoas ou grupos atendidos.
É importante saber que as avaliações e seus documentos formam procedimentos
gerais da prática psicológica. Na área jurídica, os documentos elaborados pelo
psicólogo são considerados como “provas” processuais, isto é, elementos que
corroboram para a elucidação de controvérsias e para decisões judiciais.
A Resolução 007 de 2003, do Conselho Federal de Psicologia, instituiu o
Manual de Elaboração de Documentos produzidos pelo psicólogo. É claro que o
profissional ligado à área do Direito não terá de saber sobre a elaboração destes
documentos, no entanto é recomendado que tenha conhecimento da existência
destes documentos e sua utilização, para que possa, nos casos em que atua e se for
necessário, solicitar ao psicólogo o documento mais pertinente. Vamos estudar,
resumidamente, cada um destes documentos.

Declaração

É um documento que visa informar a ocorrência de fatos ou situações objetivas


relacionados ao atendimento psicológico, com a finalidade de declarar:
a) Comparecimentos do atendido e/ou do seu acompanhante, quan-
do necessário;
b) Acompanhamento psicológico do atendido;
c) Informações sobre as condições do atendimento (tempo de
acompanhamento, dias ou horários).

Atestado psicológico

É um documento expedido pelo psicólogo que certifica determinada


situação ou estado psicológico, tendo como finalidade afirmar sobre as condições
psicológicas de quem, por requerimento, o solicita, com fins de:
a) Justificar faltas e/ou impedimentos do solicitante;
b) Justificar estar apto ou não para atividades específicas, após realização
de processo de avaliação psicológica, dentro do rigor técnico e ético que
subscreve esta Resolução;
c) Solicitar afastamento e/ou dispensa do solicitante, subsidiado
na afirmação.

capítulo 1 • 20
Relatório psicológico

O relatório ou laudo psicológico é uma apresentação descritiva acerca de si-


tuações e/ou condições psicológicas e suas determinações históricas, sociais, po-
líticas e culturais, pesquisadas no processo de avaliação psicológica. Como todo
documento, deve ser subsidiado em dados colhidos e analisados, à luz de um ins-
trumental técnico (entrevistas, dinâmicas, testes psicológicos, observação, exame
psíquico, intervenção verbal), consubstanciado em referencial técnico e científico
adotado pelo psicólogo.

Parecer

É um documento fundamentado e resumido sobre uma questão focal do


campo psicológico cujo resultado pode ser indicativo ou conclusivo. O parecer tem
como finalidade apresentar resposta esclarecedora, no campo do conhecimento
psicológico, por meio de uma avaliação especializada, de uma “questão-problema”,
visando dirimir dúvidas que estão interferindo na decisão, sendo, portanto, uma
resposta a uma consulta, que exige de quem responde competência no assunto.

O que são Direitos Humanos?

Segundo a Organização das Nações Unidas – ONUBR (BRASIL, 2016), os


Direitos Humanos são compreendidos como aqueles inerentes ao ser humano. O
conceito de Direitos Humanos estabelece que cada ser humano pode aproveitar
seus direitos sem distinção de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou
de outro tipo, origem social ou nacional ou condição de nascimento ou riqueza.
Os Direitos Humanos são garantidos legalmente por lei, protegendo indivíduos
e grupos contra ações que interferem nas liberdades fundamentais e na dignidade
humana. Estão expressos em tratados, no Direito Internacional consuetudinário6,
conjuntos de princípios e outras modalidades do Direito. A legislação de Direitos
Humanos obriga os estados a agir de uma determinada maneira e os proíbe de se
envolverem em atividades específicas que desrespeitem esses direitos. Os Direitos
Humanos são inerentes a cada pessoa simplesmente por ela ser um humano.

6  é o direito que surge dos costumes de certa sociedade, não passando por um processo formal de criação de leis,
em que um poder legislativo cria leis, emendas constitucionais, medidas provisórias etc. Disponível em: <https://
pt.wikipedia.org/wiki/Direito_consuetudinário>. Acesso em: 15 ago. 2017.

capítulo 1 • 21
Os tratados e outras expressões do Direito, em geral, protegem, formalmente,
os direitos de indivíduos ou grupos contra ações ou abandono dos governos, que
interferem nos Direitos Humanos. De acordo com a ONUBR (2016), algumas
das características mais importantes dos Direitos Humanos são:

Os Direitos Humanos são fundados sobre o respeito pela dignidade e o valor de cada
pessoa.
Os Direitos Humanos são universais, o que quer dizer que são aplicados de forma igual
e sem discriminação a todas as pessoas.
Os Direitos Humanos são inalienáveis, e ninguém pode ser privado de seus direitos
humanos; eles podem ser limitados em situações específicas. Por exemplo, o direito
à liberdade pode ser restringido se uma pessoa é considerada culpada de um crime
diante de um tribunal e com o devido processo legal.
Os Direitos Humanos são indivisíveis, inter-relacionados e interdependentes, já que é
insuficiente respeitar alguns Direitos Humanos e outros não. Na prática, a violação de
um direito vai afetar o respeito por muitos outros.
Todos os Direitos Humanos devem, portanto, ser vistos como de igual importância,
sendo igualmente essencial respeitar a dignidade e o valor de cada pessoa.

Declaração Universal dos Direitos Humanos

Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi criada em


resposta aos crimes cometidos nos campos de concentração da Europa. A partir
dela temos, juntamente, o caráter universal da concepção de sujeito. De acordo
com Neves; Souza e Monteiro (2006):

como pensarmos os Direitos Humanos em seu âmbito internacional sem sermos


prescritivos e invasores? Como contemplar as diferenças culturais não só em diferentes
continentes, mas até mesmo em um só país ou nação? Além disso, como não cairmos
na cilada do relativismo cultural absoluto? Como estabelecermos direitos humanos
respeitando as heranças culturais? A concepção de sujeito universal permeou durante
longos tempos os diferentes campos do saber, e se pensarmos nos Direitos Humanos,
a situação não era tão diferente (p. 30).

Em 2001, a Unesco, com o objetivo de reafirmar sua preocupação com a pre-


servação e o respeito à diversidade cultural, estruturou e a Declaração Universal
Sobre a Diversidade Cultural. O objetivo dessa declaração é assegurar o respeito
à diversidade das culturas, a tolerância, o diálogo e a cooperação e por meio dela

capítulo 1 • 22
proporcionar um clima de confiança e de entendimento mútuo, buscando a paz e
a segurança internacional. Vamos ver alguns pontos estabelecidos neste documento
(FVHD, 2009):

A diversidade cultural é patrimônio comum da humanidade. A diversidade se manifesta


na originalidade e na pluralidade de identidades que caracterizam os grupos e as so-
ciedades que compõem a humanidade.
Em nossas sociedades, cada vez mais diversificadas, torna-se indispensável garantir
interação harmoniosa entre pessoas e grupos com identidades culturais a um só tem-
po plurais, variadas e dinâmicas, assim como sua vontade de conviver.
A diversidade cultural amplia as possibilidades de escolha que se oferecem a
todos; é uma das fontes do desenvolvimento, entendido não somente em termos de
crescimento econômico, mas também como meio de acesso à existência intelectual,
afetiva, moral e espiritual satisfatória.
A defesa da diversidade cultural é um imperativo ético, inseparável do respeito à
dignidade humana. Ela implica o compromisso de respeitar os direitos humanos e
as liberdades fundamentais, em particular os direitos das pessoas que pertencem a
minorias e os dos povos autóctones.
Os direitos culturais são parte integrante dos direitos humanos, que são universais,
indissociáveis e interdependentes.
Enquanto se garanta a livre circulação das ideias mediante a palavra e a imagem, de-
ve-se cuidar para que todas as culturas possam se expressar e se fazer conhecidas.
A liberdade de expressão, o pluralismo dos meios de comunicação, o multilinguismo,
a igualdade de acesso às expressões artísticas, ao conhecimento científico e tecnoló-
gico – inclusive em formato digital – e a possibilidade, para todas as culturas, de estar
presentes nos meios de expressão e de difusão, são garantias da diversidade cultural.
Toda criação tem suas origens nas tradições culturais, porém se desenvolve plenamente
em contato com outras.

As duas declarações acabam sendo inseparáveis, pois ambas implicam o


compromisso de respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais.
Apesar do longo processo de evolução da noção de Direitos Humanos – dos
hebreus, gregos e romanos, passando pelo cristianismo e pela Idade Média, até
as revoluções burguesas e o momento em que vivemos (LEAL, 1997), é comum,
ainda nos dias atuais, a denúncia das constantes e estruturais violações das
condições básicas de uma vida humana digna.
Mesmo após a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos da
ONU (1948/2006), expressão mais difundida de um esforço conjunto de diversos
Estados para universalizar a questão, muitos são os compromissos não honrados

capítulo 1 • 23
nas mais variadas áreas. O apelo aos direitos humanos é constante, não apenas em
países do chamado Terceiro Mundo, como o Brasil, mas também em sociedades
que atingiram alto grau de desenvolvimento. (OLIVEIRA, 2003)

Psicologia e Direitos Humanos no Brasil

No caso da posição da Psicologia no Brasil frente a esta questão, são citados os


movimentos iniciados após o golpe militar de 1964. Para Lane (2005), os profis-
sionais da Psicologia começaram a se questionar “sobre a atuação junto à maioria
da população, e de qual seria o seu papel na sua conscientização e organização” (p.
17). A partir da década de 1970, muitos estudos sobre a Psicologia como profissão
também chamam a atenção para a demanda de uma postura de compromisso por
parte dos psicólogos de forma geral. Além do psicólogo atender uma pequena
parcela da população nos serviços psicológicos clínicos – atividade profissional
predominante – discute-se ainda as limitações das abordagens centradas apenas
no indivíduo, uma vez que não levam em consideração o contexto sócio-histórico
como um dos fatores que pesam sobre a realidade das pessoas. (YAMAMOTO,
2006)
Segundo Bock; Gianfaldoni (2010), o período de transição para uma demo-
cracia (a partir de 1985) repercutiu no plano político-jurídico. Não houve possi-
bilidade de aprofundamento do processo de democratização, porque não ocorreu
uma reforma econômica ou social que abrangesse a maioria da população, e au-
mentou o processo de concentração de poder. A Constituição de 1988 reforçou os
direitos que a ditadura havia destituído, mas, ao criminalizar o Estado, contribuiu
para as ideias neoliberais que se estendem até hoje, e uma de suas propostas é a
substituição da noção de direitos pela de oportunidade. “Um cenário de priorida-
de ao mercado, de retração do Estado na prestação de políticas sociais e de preca-
rização das relações de trabalho permitiu, então, que o tema dos direitos sociais e
assim, o dos direitos humanos, ganhasse importância.” (p. 98)
Quanto à Psicologia e aos Direitos Humanos, em pesquisa realizada por Bock;
Gianfaldoni (2010), foi concluído pelas autoras que a presença dos direitos hu-
manos na formação dos psicólogos é ainda muito tímida, mas já é presente. É pre-
ciso desenvolver o conceito de direitos humanos entre os psicólogos, pois a falta
de tradição da Psicologia nesse campo coloca estes profissionais distantes de um
trabalho mais abrangente nessa área. É necessário propor alternativas de educação
em direitos humanos, para todas as áreas do conhecimento em que se contemplem

capítulo 1 • 24
práticas tradicionais, a fim de adquirir a perspectiva da educação permanente feita
de diferentes modos e em diversos espaços sobre este tema.

Princípios fundamentais do Código de Ética dos psicólogos

É importante citar que entre os “Princípios Fundamentais” estabelecidos no


Código de Ética Profissional do Psicólogo, promulgado pelo Conselho Federal
de Psicologia (2005), este profissional, “(...) baseará o seu trabalho no respeito
e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser
humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos
Humanos.” (p. 7). Vamos ver este documento na íntegra, quanto a este aspecto:

I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da


dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que
embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas
e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência,
discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
III. O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente
a realidade política, econômica, social e cultural.
IV. O psicólogo atuará com responsabilidade, por meio do contínuo aprimoramento
profissional, contribuindo para o desenvolvimento da Psicologia como campo científico
de conhecimento e de prática.
V. O psicólogo contribuirá para promover a universalização do acesso da população
às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos serviços e aos padrões
éticos da profissão.
VI. O psicólogo zelará para que o exercício profissional seja efetuado com dignidade,
rejeitando situações em que a Psicologia esteja sendo aviltada.
VII. O psicólogo considerará as relações de poder nos contextos em que atua e os
impactos dessas relações sobre as suas atividades profissionais, posicionando-se de
forma crítica e em consonância com os demais princípios deste Código. (CONSELHO
FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2005)

Dessa forma, a partir dos princípios fundamentais do Código de Ética do


psicólogo, percebemos a necessidade de atuação direta desse profissional junto às
pessoas que têm seus direitos violados, especialmente em um país como o Brasil,
onde a má distribuição de renda e outras questões coloca-se de forma urgente.

capítulo 1 • 25
Assim, em razão da realidade que se apresenta percebemos que é para estas
pessoas, que vivem desprovidas de seus direitos e de possibilidades de ação, porque
se encontram em desinformação, que uma prática comprometida da Psicologia
deve ser realizada.
A profissão de psicólogo estabelece o direito à vida humana digna, que qualifica
os direitos e deveres do cidadão brasileiro. No entanto, isso só se concretiza a partir
da ação objetiva das pessoas. Nesse sentido, a Psicologia no contexto dos Direitos
Humanos não só assume um campo de atuação possível, mas também responde
a uma demanda real com a qual se comprometeu. Isso se dá em vista das reais
possibilidades de uma atuação concreta, legítima e necessária, com intervenções
diretivas.
De acordo com o Conselho Federal de Psicologia, se uma das missões da
Psicologia é proteger a integridade psíquica e emocional das pessoas e zelar pelo
respeito à subjetividade e singularidade das pessoas, então a Psicologia tem tudo a
ver. Como estamos percebendo, a Psicologia está completamente comprometida
com a defesa, promoção e garantia dos direitos humanos. Os psicólogos não
podem concordar com nenhuma forma de preconceito e discriminação.
O profissional da Psicologia, por meio do seu compromisso ético e o seu
conhecimento teórico está submetido a essas declarações de forma categórica,
pois seu público-alvo é o ser humano, independente de raça, religião, condição
econômica, gênero, idade, grau de instrução etc. O psicólogo deve ter muito
cuidado na sua atuação profissional, pois está imerso em uma cultura de exclusão
e categorização. E infelizmente, a sociedade vai transmitindo pelas gerações essa
cultura de “rótulos” (favelado, desempregado, bandidos, pobre etc.) que são
utilizados para excluir as pessoas.
Todo profissional, seja da Psicologia, da Assistência Social, do Direito, da
Saúde, da Educação, bem como todo cidadão tem o compromisso de esclarecer e
encaminhar casos de violação de direitos para que sejam apurados e julgados pelos
órgãos competentes.

Onde ir ao se deparar com violações de direitos

•  Conselho Tutelar do Município;


•  Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente;
•  Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONDECA;

capítulo 1 • 26
•  Disque Direitos Humanos: Disque 100): O Disque Direitos Humanos
(Disque 100) é um serviço da Secretaria de Direitos Humanos para informação
e recebimento de denúncias de violação dos direitos humanos. O serviço tem
abrangência nacional, funciona 24 horas todos os dias e é gratuito. E-mail: direi-
toshumanos@sedh.gov.br. Site: www.direitoshumanos.gov.br;
•  Câmara Federal Comissão de Direitos Humanos e Minorias: Site:
www.camara.gov.br;
•  Senado Comissão de Direitos Humanos do Senado: e-mail: cdh@senado.
gov.br. Site: www.senado.gov.br.

ATIVIDADES
Psicologia e Direito, apesar de terem um mesmo objeto de interesse, divergem quanto
aos métodos de aproximação e compreensão do comportamento humano (ROVINSKI, 2007).

01. Avalie as seguintes afirmativas quanto às diferenças de paradigmas entre estas duas
disciplinas. Concurso de Provas e Títulos para Concessão do Título de Especialista em
Psicologia e seu respectivo registro – CFP-2010
I. O Direito necessita trabalhar com o conceito de livre-arbítrio, enquanto a Psicologia
estuda os determinismos da conduta.
II. Juristas necessitam trabalhar com graus de certeza sobre a previsibilidade de conduta
que a Psicologia não consegue oferecer.
III. O pluralismo das teorias psicológicas favorece a integração com o Direito, pois possibilita
diferentes opções de interpretação da conduta.
IV. Psicologia e Direito diferem em relação a seus propósitos, cabendo ao Direito a proteção
da ordem pública.
Assinale a resposta correta:
a) todas as afirmações.
b) apenas as afirmações I, II e III.
c) apenas as afirmações I, II e IV.
d) apenas as afirmações I e II.
e) nenhuma das afirmações.

capítulo 1 • 27
02. (FUNCAB) A Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948 preceitua, em seu Ar-
tigo 2o: “Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos
nesta declaração, sem distinção de qualquer espécie (…)”. Dessa forma, pode-se dizer que
não haverá discriminação baseada em diferenças de:
I. Raça
II. Sexo
III. Cor
Dos itens anteriormente mencionados,
a) I está correto, apenas.
b) II está correto, apenas.
c) III está correto, apenas.
d) I e III estão corretos, apenas.
e) I, II e III estão corretos.
Matéria “Psicologia e direitos humanos”
Entrevista com Pedro Paulo Gastalho de Bicalho (CRP 05/26077), conselheiro
presidente da Comissão Regional de Direitos Humanos do CRP-RJ e professor do
Instituto de Psicologia da UFRJ. Disponível em: <http://www.crprj.org.br/site/wp-content/
uploads/2016/05/jornal29-pedro-paulo1.pdf>. Acesso em: 10 jun. 2017.

03. Como você vê a relação entre Psicologia e direitos humanos?

04. Como isso afeta o cotidiano profissional dos psicólogos? Como o psicólogo que está
isolado em seu consultório, por exemplo, pode ver essa relação?

05. Como você vê o tratamento dado aos direitos humanos hoje em nossa sociedade? Que
tipos de violações ainda são cometidas?

06. Essa discussão sobre direitos humanos aparece nas universidades, na formação dos
psicólogos?

07. A partir da entrevista realizada com o psicólogo Pedro Paulo, reflita sobre a questão dos
direitos humanos na formação dos psicólogos nas universidades .

capítulo 1 • 28
LEITURA
BRITO, L. M. T. de. Anotações sobre a Psicologia Jurídica. Psicologia: ciência e profis-
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CRP SP. Entre o direito e a Lei: uma História da Psicologia Jurídica em São Paulo.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8aOfdiuHn14>. Acesso em: jun.
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tps://www.youtube.com/watch?v=nZ23CYmPQIA>. Acesso em: jun. 2018.

7  É um manual que fornece parâmetros internacionais para investigação, documentação, caracterização e


elucidação de crimes de tortura. Foi apresentado, em 1999, ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os
Direitos Humanos.
8  a Convenção foi aprovada pela Assembleia da ONU em 1984. Ela define o crime da tortura como: "Qualquer
ato pelo qual dores ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim
de obter, dela ou de terceira pessoa, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou terceira pessoa
tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou por
qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza; quando tais dores ou sofrimentos são infligidos
por um funcionário público ou outra pessoa no exercício de funções públicas, ou por sua instigação, ou com o seu
consentimento ou aquiescência". Os países que aderiram à Convenção ficam obrigados a não tolerar e a punir crimes
de tortura, além de tomar medidas eficazes para erradicá-la da sociedade. O Brasil ratificou (confirmou sua adesão)
essa convenção em 1989.

capítulo 1 • 30
CURIOSIDADE
©© WIKIMEDIA.ORG

Universidade de Leipzig (Primeiro laboratório de estudos experimentais em Psicologia)

O Laboratório de Psicologia em 1879 era bastante precário e consistia apenas em uma


pequena sala, anteriormente utilizada como auditório, que foi doada a Wundt. Aos poucos,
ele foi adicionando novas salas ao Laboratório, o que levou o espaço a adquirir feições de
um instituto propriamente dito. Posteriormente o instituto mudou-se para um prédio próprio,
construído segundo as especificações de Wundt, que se tornou modelo para os demais la-
boratórios de psicologia na época, até ser totalmente destruído durante a Segunda Guerra
Mundial. (ARAÚJO, 2005)
O laboratório de Leipzig atraiu estudantes de várias partes do mundo e tornou-se o
primeiro e maior centro de formação de toda uma geração de psicólogos. Foi o seu sucesso
que impulsionou a institucionalização formal da psicologia, quando em 1883, o Instituto de
Psicologia teve sua existência oficialmente reconhecida pela Universidade de Leipzig e
passou a ser incluído no orçamento universitário. Mas até meados do século XX a Psicologia
continuou subordinada à faculdade de Filosofia nas Universidades alemãs.
Disponível em: <https://psicologado.com/psicologia-geral/historia-da-psicologia/
wundt-e-a-criacao-do-primeiro-laboratorio-de-psicologia-na-alemanha

capítulo 1 • 31
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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capítulo 1 • 33
capítulo 1 • 34
2
Psicologia e Direito
Teorias em Psicologia:
uma visão abrangente
Aspectos psicológicos
dos métodos de
resolução ou gestão de
conflitos
Psicologia e Direito. Teorias em Psicologia:
uma visão abrangente. Aspectos psicológicos
dos métodos de resolução ou gestão de
conflitos

A Psicologia tem se preocupado em manter um status de cientificidade,


estabelecendo grande importância para as evidências empíricas, a partir de
um pensamento crítico e inovador. É habitual nos referirmos à diversas áreas
da Psicologia, mas a Ciência Psicológica é uma só, com várias abordagens e se
expressando por diferentes linguagens. Essas abordagens vão constituir o que
chamamos de Teorias da Psicologia.
As principais teorias da Psicologia serão apresentadas selecionando aquelas
abordagens que, em geral, podem mais contribuir para um papel eficaz do
mediador. As questões abordadas no estudo destas áreas serão destacadas,
enfatizando os seus pontos de encontros e a transversalidade que faz parte das
relações entre os diferentes conhecimentos. A Psicologia como a ciência que estuda
os processos mentais e o comportamento nos traz importantes contribuições
sobre a compreensão dos aspectos emocionais envolvidos no conflito, desde a
sua formação até a sua solução. Buscamos, desta forma, apresentar para você,
os efeitos do conflito sobre o psiquismo das pessoas e como isso reflete nas suas
funções psíquicas e em seus comportamentos.
Qualquer que seja a estratégia para lidar com os conflitos, os sujeitos envolvidos
experimentam fortes emoções e, com frequência, podem deparar-se com soluções
insatisfatórias sob o ponto de vista psicológico e econômico. Historicamente,
a sociedade vem buscando novas formas de tratar as situações conflituosas,
aperfeiçoando e buscando novos métodos para lidar com estas questões. Neste
capítulo, procuramos não nos ater a um ou outro modelo de interpretação
psicológica do comportamento humano, apresentando várias perspectivas dentro
da Psicologia, que podem levar a uma compreensão do conflito e a sua importância
para os métodos de resolução ou gestão de conflitos.

capítulo 2 • 36
OBJETIVOS
•  Identificar as relações estabelecidas entre a Psicologia e o Direito;
•  Estudar as teorias em Psicologia;
•  Relacionar as diferentes abordagens teóricas;
•  Identificar as perspectivas psicológicas do conflito;
•  Compreender o processo de tomada de decisão;
•  Estudar os métodos autocompositivos e suas características.

Psicologia e Direito

Como foi possível perceber, a Psicologia tem um longo passado, mas uma
curta história. É uma disciplina jovem, que possui muitas abordagens, fala
diferentes línguas, com divergentes compreensões entre suas escolas e referenciais
teóricos. No entanto, apesar das particularidades da Psicologia, ela e o Direito
possuem um destino comum: o comportamento humano. A Psicologia constrói o
seu conhecimento para compreender o comportamento humano. O Direito é um
conjunto de regras que busca regular este comportamento, através da prescrição
de condutas e formas de soluções de conflitos.
É importante que você compreenda que o comportamento humano é um
objeto de estudo apropriado por vários saberes ao mesmo tempo, a partir de
diferentes perspectivas, sem que estes saberes se esgotem, pois todos convergem
para a pessoa e, de certa forma, se complementam e são transversais. Não há uma
hierarquia entre os saberes. É preciso interligar os conhecimentos e fazer conexões,
não esquecendo que a ciência na Pós-modernidade se produz a partir de ligações
e, não pelo isolamento.
Vamos estudar um quadro comparativo entre algumas características da
Lei, do Direito e da Justiça e algumas características da Psicologia, exposto por
Trindade (2004, p. 28).

capítulo 2 • 37
CARACTERÍSTICAS DA LEI, DO CARACTERÍSTICAS DA PSICOLOGIA
DIREITO E DA JUSTIÇA
Formalismo: ritos e procedimentos Informal
Racionalista Empirista
Interpessoalidade Intrapessoalidade
Axiológico e valorativo Compreensivo
Subjetivismo Objetivismo Objetivismo Subjetivismo
Verdade processual Verdade científica
Hierarquia Flexibilidade
O todo é hermético O todo é diferente da soma das partes
Caráter sancionatório Ausência de sanção
Mundo externo Mundo externo e mundo interno
Desconsideração da fantasia, imaginação
Fantasia, imaginação e desejo
e desejo
Interrogatório e depoimento Entrevista e testagem

Esse mesmo autor (TRINDADE, 2004), afirma que, além das diferenças
estabelecidas entre as duas ciências, existem questões de base, que muitas vezes
podem dificultar o encontro da Psicologia com o Direito. Vamos observar a nova
tabela (p. 28-9).

PELO LADO DO DIREITO PELO LADO DA PSICOLOGIA


Desconhecimento dos princípios básicos Desconhecimento dos princípios jurídicos
do funcionamento da mente e dos fundamentos do Direito
Dificuldade de compartilhamento e de Procedimentos não suficientemente sedi-
aceitação de crítica mentados e críticas pouco consistentes
Tendência à hegemonia Práticas com várias identidades
Estruturação rígida e pouco permeável a Estruturação flexível e permeável a outros
outros ramos do conhecimento ramos do conhecimento
Dogmatismo Relativismo
Psicologia científica surge no final do
Tradição milenar
século XIX

capítulo 2 • 38
Apesar das dificuldades existentes entre as duas ciências, percebemos que a
Psicologia é importante não apenas para o Direito, mas também, para a Justiça. A
aproximação entre o Direito e a Psicologia, assim como a criação de um território
transdisciplinar, segundo Trindade (2004) é uma questão de Justiça.

Teorias em Psicologia

A complexidade do comportamento humano fez surgirem várias escolas


de Psicologia. Cada uma delas aborda o comportamento humano de maneira
diferente quanto à sua origem e às possibilidades de trabalhar com ele. Todas
essas teorias têm pontos em comum e complementam-se. Por isso, encontramos
psicólogos usando diferentes bases teóricas e técnicas.
A Psicologia delimita o seu estudo nos fenômenos relacionados ao
funcionamento do indivíduo e grupos. Sua ação estende-se a crianças, adolescentes,
idosos, famílias e organizações, a partir de diferentes abordagens. Além disso, os
conhecimentos da Psicologia são de grande importância para a compreensão dos
mecanismos mentais que estão presentes nos conflitos interpessoais e, dessa forma,
estabelecem interesse primordial para a mediação e para o Direito.

Abordagens psicodinâmicas

Nestas abordagens, encontramos o comportamento humano impulsionado


pelas forças dos mecanismos psíquicos, relacionados entre o consciente e o
inconsciente. Sigmund Freud, pai da Psicanálise, conceituou a existência do
inconsciente, compreendeu sua força e a forma como ele se expressa, que são
fundamentais para o comportamento humano. Alguns aspectos quanto aos seus
estudos e de seus seguidores devem ser destacados:
•  “Nada ocorre ao acaso e muito menos os processos mentais” (FADIMAN;
FRAGER,1986, p. 7);
•  “Há conexões entre todos os processos mentais” (FADIMAN;
FRAGER,1986, p. 7);
•  Existem processos mentais conscientes e inconscientes, mas a maior parte é
inconsciente. (FREUD, 1974);
•  No inconsciente não existe o conceito de tempo, de certo e errado, não há
contradição. (FREUD,1974).

capítulo 2 • 39
Estes aspectos sugerem que os comportamentos considerados inaceitáveis po-
dem ser consequência das forças do inconsciente, as quais o indivíduo não tem
percepção. Outra contribuição teórica de Freud foi o modelo de aparelho psíqui-
co, que é composto por: Id, Ego e Superego.

A parte mais primitiva e menos acessível da personalidade, constituída


ID de conteúdos inconscientes, inatos ou adquiridos, que buscam sempre
o prazer.
É o responsável pelo contato do psiquismo com a realidade externa, com
EGO elementos conscientes e inconscientes.
Atua como um censor. Representa as exigências da sociedade. Pode ser
SUPEREGO chamado de força moral da personalidade. Representa os ideais mais do
que o real e busca a perfeição no lugar do prazer.

O comportamento, nesta abordagem, é o produto de uma interação entre os


sistemas: Id, Ego e Superego, que trabalham inter-relacionados. O Id como busca
sempre a satisfação imediata, não conhece juízo de valor e atua segundo o princípio
do Prazer. O Ego age de acordo com o Princípio da Realidade, conciliando as
exigências entre o Id e o Superego.
Outro importante estudo desta abordagem é a análise dos mecanismos de
defesa. Estes mecanismos são manifestações do Ego em relação às exigências das
outras instâncias psíquicas, Id e Superego. Eles são utilizados por todos nós para
nos adaptarmos a uma situação geradora de conflitos, sejam eles reais ou não.
Para que você tenha ideia do que estamos falando, vamos ao exemplo de alguns
deles. No entanto se você quiser aprofundar sua leitura, não deixe de ler o texto
Mecanismos de defesa, cujo endereço está no Explore+.

A pessoa recusa-se a reconhecer os fatos reais e os


NEGAÇÃO substitui por outros imaginários.
Consiste em buscar um motivo lógico para determinado
RACIONALIZAÇÃO comportamento ou sentimento inaceitável.

Consiste em atribuir a outra pessoa, ao grupo ou até ao


PROJEÇÃO mundo, algo que é dela mesma.

Consiste em desviar a energia para algo socialmente


SUBLIMAÇÃO aceito, facilitando a adaptação social.

capítulo 2 • 40
Nesta abordagem temos Carl Gustav Jung, que idealizou a Psicologia Analítica,
e que trouxe o importante conceito de símbolo. Podemos conceituar símbolo
como algo natural, espontâneo, que significa sempre mais do que o seu significa-
do imediato e óbvio. As pessoas costumam carregar os seus símbolos e estar atento
a esta situação é uma forma de conhecer as pessoas e o valor que estes têm para
elas. Por exemplo, determinados bens podem ter simbologia muito diferente do
que a sua real significação. É fácil ver estas situações em partilhas de bens em que
determinados objetos tornam-se difíceis de resolução entre as partes.
Um último nome a ser citado, nesta abordagem, seria Alfred Adler, que apoiava
sua teoria na importância do meio ambiente como o aspecto mais fundamental
da vida. Sendo assim, o ser humano era dirigido pela luta pela superioridade. O
indivíduo saudável era aquele que lutava construtivamente pela superioridade,
com forte interesse social e cooperação. Esse teórico destacou, também, que os
problemas psicológicos não devem ser tratados de forma isolada, pensando o
indivíduo como um ser integral: mente, corpo e espírito.

Abordagens cognitivas

Essas abordagens se propõem a estudar como as pessoas são capazes de perceber,


aprender, lembrar e pensar sobre determinadas situações da vida. Frederick Perls
destacou a importância da análise da estrutura da percepção e da situação da
pessoa no presente. Nessa teoria a noção de indivíduo como um todo é central.
Sua abordagem terapêutica é fundamentada em três conceitos: ênfase no aqui e
agora, na visão holística do organismo e na prevalência do como sobre o porquê.
Por exemplo, as pessoas presas no passado escolhem, muitas vezes, alternativas de
ação, inadequadas ou ultrapassadas para lidar no novo contexto.
Outro teórico, Aaron Beck, considera que as interpretações que um indivíduo
faz do mundo estruturam-se progressivamente, durante o seu desenvolvimento,
constituindo suas regras ou esquemas de pensamento. Estes esquemas orientam,
organizam e selecionam as interpretações e ajudam a estabelecer critérios de avaliação
de eficácia ou adequação das ações no mundo. Nesse sentido, o comportamento
da pessoa decorre, em parte, da forma como ela processa as informações a respeito
do ambiente. Os esquemas de pensamento falham quando o psiquismo se depara
com o inimaginável. As crenças constituem a base da comparação empregadas
pelas pessoas para interpretar os acontecimentos. O poder de certas crenças é tão
grande que, muitas vezes, elas tornam-se aceitas como verdades absolutas e são
incorporadas à cultura de uma sociedade.

capítulo 2 • 41
Continuando nesta abordagem, ao nos depararmos com eventos, o psiquismo
“dispara” esquemas de pensamento que parecem funcionar como caminhos
predefinidos pelos quais o pensamento do indivíduo caminha, sem experimentar
outras vias. Essa tarefa permite grande economia de energia psíquica e favorece certo
grau de agilidade na resolução de questões: chamamos esta situação de pensamentos
automáticos. Por exemplo, ao percebermos o sinal vermelho, automaticamente
acionamos o freio. Seria difícil se a cada mudança de cor do sinal, os motoristas
tivessem de gastar um tempo pensando o que deveriam de fazer. Os esquemas
rígidos de pensamento fazem as pessoas se tornarem incapazes de enxergar outros
pontos de vista e negam-se a tomar conhecimento de novos conceitos.
A seguir, apresentamos para você o fenômeno da cognição como um todo:

SITUAÇÕES

CONHECIMENTO RACIOCÍNIOS
REPRESENTAÇÕES

CONSTRUÇÃO DE
CONHECIMENTOS

ATIVIDADES DE ATIVIDADES DE
RESOLUÇÃO
EXECUÇÃO EXECUÇÃO
DE PROBLEMAS
AUTOMATIZADAS NÃO-AUTOMATIZADAS

SEQUÊNCIA
DE AÇÕES

AVALIAÇÃO

Disponível em: <http://criativ.pro.br/abordagem-cognitiva/>. Acesso em: 25 mar. 2017.

Os esquemas rígidos geram preconceitos. Preconceitos estão ligados a estereó-


tipos, ou seja, as pessoas constroem imagens mentais de indivíduos e lhes associam

capítulo 2 • 42
comportamentos bons ou maus. Pensamentos automáticos e esquemas rígidos de
pensamentos são encontrados em grande quantidade e variedade no nosso cotidia-
no, em ambientes de trabalho, nas relações familiares e na vida social. Os esque-
mas rígidos de pensamento estão presentes em qualquer idade, mas acentuam-se
com o passar dos anos, tornando o relacionamento com as pessoas mais difícil.
Encontramos associado ao conceito de crenças, a dissonância cognitiva,
proposta por Leon Festinger. Para este estudioso, a dissonância cognitiva se
manifesta através de uma incoerência entre o que a pessoa diz e o que ela faz.
Temos como exemplos, pessoas que dizem que querem se separar, mas não querem
abrir mão de algumas facilidades que o casamento proporciona; e, funcionários
que querem sair da empresa recebendo uma indenização, mas não querem se
afastar dos amigos de trabalho.

Abordagem comportamental

A base teórica desta abordagem é o behaviorismo. Edward L. Thorndike e


John Watson foram os precursores dessa linha teórica. Thorndike afirmava que o
comportamento de todo animal, inclusive o homem, tendia a se repetir, se fosse
recompensado (reforço positivo) ou se fosse capaz de eliminar um estímulo aversivo
(reforço negativo) no momento em que emitisse o comportamento. Entretanto, o
comportamento tenderia a não acontecer, se o organismo fosse castigado (punição)
após sua ocorrência. Através da lei do reforço, a pessoa associará essas situações
com outras semelhantes, generalizando essa aprendizagem para um contexto mais
amplo.
Watson considerou apenas eventos observáveis e físicos para análise,
descartando comportamentos encobertos, dentro do modelo Estímulo-Resposta
(S -> R). Ele acreditava que a Psicologia só atingiria um grau de confiabilidade se
restringisse o seu estudo ao comportamento observável. Suas proposições teóricas
atualmente servem apenas como fundamentos para a história da Psicologia.
Outro teórico, desta abordagem, foi B. F. Skinner o fundador de uma das
filosofias que embasam a análise experimental do comportamento, o behavioris-
mo radical. Skinner afirmava que o organismo teria em seu comportamento três
tipos comportamentos: P.D.F(padrão fixo de ação); comportamento respondente
(100% inatos); e operantes (100% aprendidos). Segundo Skinner, o homem será

capítulo 2 • 43
influenciado por fatores filogenéticos9, ontogenéticos10 e culturais, tendo como
parâmetro teórico o Selecionismo de Charles Darwin11 (NOTA). Na teoria de
Skinner os fatores culturais atuam como modificadores do comportamento, em
uma relação funcional do indivíduo com o ambiente através do comportamen-
to verbal.
O condicionamento é observável em situações de conflito, onde podemos
encontrar determinadas palavras ou gestos de um litigante desencadeando palavras
ou gestos condicionados no outro. Muitas vezes, uma pessoa não chega a um
acordo porque estão condicionadas ao passado. O poder do condicionamento está
manifestado em vários momentos da vida. Condicionar, na verdade, consiste em
criar esquemas rígidos de pensamento e produzir pensamentos automáticos, para
poupar o trabalho do psiquismo.

Abordagem motivacional

A motivação é considerada por vários estudiosos como uma das forças


fundamentais que leva o indivíduo a apresentar determinados comportamentos.
Essa abordagem entende que o indivíduo é movido por forças que tem origem
em seu psiquismo e que vão além da relação estímulo-resposta, estabelecida pela
abordagem comportamental. A psicologia motivacional é uma abordagem que
observa o comportamento do ser humano em diferentes situações, com o objetivo
de tentar compreender o que leva o indivíduo a se sentir motivado e como ele
reage aos diferentes estímulos.
Para este estudo, cada pessoa é estimulada de forma diferente, pois sua
compreensão de mundo é particular e moldada de acordo com suas experiências
anteriores. Desse modo, o que pode ser motivador para um pode não ser para
o outro. A motivação irá influenciar diretamente o estilo de vida, as decisões
tomadas e até preferências como a escolha de um filme, a forma de vestir e o
grupo de amigos. Cada um possui suas próprias motivações de acordo com o
que considera importante ou significativo para si. O psicólogo americano David
McClelland realizou um estudo no qual identificou três tipos de motivação que
9  fatores da evolução de uma espécie ou grupo hierarquicamente reconhecido. Disponível em: <http://portfolio-
psi-12.blogspot.com.br/2011/12/os-processos-de-desenvolvimento.html>. Acesso em: jun. 2018.
10  conjunto de transformações embrionárias e pós-embrionárias pelas quais passa um organismo vertebrado,
desde a fase do ovo até à fase adulta. Disponível em: <http://portfolio-psi-12.blogspot.com.br/2011/12/os-
processos-de-desenvolvimento.html>. Acesso em: jun. 2018.
11  para Darwin, a seleção natural se constitui num processo de eliminação. Serão preservados os indivíduos cujas
características (fenotípicas) favorecerem sua sobrevivência no ambiente onde estão inseridos.

capítulo 2 • 44
impulsionam o ser humano. Segundo McClelland, todas as pessoas são afetadas
pelos três tipos de motivação, mas em diferentes níveis de intensidade. São elas:

Pessoas que se sentem motivadas em alcançar o máximo em suas ati-


vidades e querem conquistar seus objetivos por seus próprios méritos.
REALIZAÇÃO Ficam estimuladas quando conseguem realizar seus projetos, sentin-
do-se competentes e capazes.
Pessoas que se sentem motivadas por afiliação são aquelas que prio-
rizam os relacionamentos interpessoais. Um meio agradável é funda-
AFILIAÇÃO mental para seu bem-estar, e sua principal necessidade é se sentir
aceito e estabelecer uma relação com os outros.
Pessoas motivadas por poder, existem dois tipos de influência: o po-
der pessoal, são aquelas que gostam de determinar as regras den-
tro de seus ciclos sociais, geralmente possuem perfil dominante e se
PODER sentem incomodadas em permitir que o próximo expresse sua opinião
individual; e o poder institucional, em que apresentam habilidade de
organização e delegação, e sempre se colocam prontas para instruir
e orientar com a finalidade de que o objetivo do grupo seja alcançado.

A hierarquia das necessidades é um modelo de motivação proposto por


Maslow e bastante utilizado, principalmente, nas Organizações. Este estudioso
afirma que todas as necessidades do indivíduo não podem ser manifestadas de uma
só vez, elas tendem a ter alguma prioridade na qual encontram expressão. Divide
as necessidades em duas ordens, as de ordem inferior e as de ordem superior,
organizando em forma de pirâmide, conforme mostra a figura a seguir.

CONEXÃO
Para que você compreenda melhor a teoria de Maslow, sugerimos que acesse o link:
<https://www.significados.com.br/piramide-de-maslow>. Acesso em: jun. 2018.

Segundo esta abordagem, as pessoas são dominadas por necessidades diferen-


tes em épocas e circunstâncias diferentes. Pode-se motivar uma pessoa quando se
sabe o que ela necessita neste lugar e no momento específico. Ao verificarmos a
aplicação da pirâmide de Maslow, poderemos notar que as necessidades de ordem
inferior são facilmente detectadas, mas as de ordem superior dependem da avalia-
ção direta.

capítulo 2 • 45
moralidade,
criatividade,
espontaneidade,
solução de problemas,
ausência de preconceito,
Realização pessoal aceitação dos fatos
auto-estima,
confiança, conquista,
Estima respeito dos outros, respeito aos outros

amizade, família, intimidade sexual


Amor/relacionamento
segurança do corpo, do emprego, de recursos,
Segurança da moralidade, da família, da saúde, da prosperidade

respiração, comida, água, sexo, sono, homeostase, excreção


Fisiologia

Tabela 2.1  –  Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Hierarquia_de_necessidades_


de_Maslow>. Acesso em: 25 mar. 2017.

Abordagem sistêmica

Os conceitos desta abordagem são úteis para o estudo, a análise e a interpreta-


ção de inúmeras situações. Nesta teoria, os integrantes de um conjunto de pessoas
unem-se por laços que têm componentes pragmáticos12 e afetivos. Na abordagem
sistêmica, as pessoas são vistas como partes de uma rede de relações, em que cada
membro influencia e é influenciado pelo outro. As mudanças devem ser enfrenta-
das, no sistema, a partir de certa flexibilidade, que deve ser capaz para reorganizar o
sistema diante de diferentes demandas e exigências que surgem no dia a dia.
Em um sistema, tudo o que acontece com qualquer integrante afeta todos os
outros e o comportamento do sistema é analisado como um todo e, não apenas
uma das partes. Em se tratando de mediação, temos como uma das bases teóricas
deste procedimento a abordagem sistêmica.

Para compreendermos como as ideias sistêmicas aplicam-se às pessoas, precisamos


ter em mente a ideia das conexões e dos padrões repetitivos. Precisamos também
prestar atenção a outras características de qualquer sistema: a presença de
subsistemas, a maneira com que as partes influenciam uma a outra, e o fato de que
todo sistema inevitavelmente passa por períodos de estabilidade e de mudança.
(MINUCHIN; COLAPINTO; MINHUCHIN,1999, p. 20)

12  ser pragmático é ter objetivos bem definidos, é fugir do improviso, é ter base no conceito de que as ideias e atos
só são verdadeiros se servirem para a solução imediata de seus problemas.

capítulo 2 • 46
Todo sistema é composto de subsistemas, que são organizações internas com o
objetivo de aumentar a eficiência do sistema e ajudar na sua estabilidade. Os sub-
sistemas compõem-se dos mesmos elementos que constituem os sistemas. Os sub-
sistemas são especializações internas indispensáveis para os sistemas, cada um com
objetivos, metas, independência e cultura particulares. Os elementos, no sistema,
apresentam alianças e coalizões. As alianças são aquelas realizadas pelas identida-
des de interesses, simpatias e afetos entre as pessoas. As coalizões ocorrem quando
as pessoas se unem por oposição a outras. Um advogado, por exemplo, deve estar
atento às alianças e coalizões dos seus clientes nos seus subsistemas, porque elas
afetam diretamente o comportamento das pessoas.
O sistema, para lidar com os desafios, desenvolve padrões de funcionamento.
Dois tipos de mudanças podem ocorrer de forma contínua: mudanças no
ambiente externo, novas culturas e tecnologias parecem ao mesmo tempo que a
existente, fazendo surgir adaptações; mudanças no ambiente interno, os elementos
que fazem parte do sistema mudam, novos elementos são incorporados e outros
saem, provocando transformações dentro do sistema. Quando o funcionamento
do sistema é satisfatório, afirmamos que o sistema é funcional; quando isso não
ocorre, as respostas do sistema não atendem aos padrões esperados, o sistema
é disfuncional.
As fronteiras são as delimitações que os subsistemas estabelecem entre si,
dentro de um sistema e entre os sistemas em relação aos outros sistemas. As
fronteiras permitem que os elementos de um subsistema percebam o seu limite
em relação ao seu espaço e ao do outro. Quando um sistema ou os subsistemas não
funcionam bem, as fronteiras refletem esta situação, tornando-se menos nítidas,
rígidas, emaranhadas, inadequadamente impermeáveis ou excessivamente fluidas.
A visão sistêmica é muito importante porque poderemos encontrar situações,
entre as pessoas, em que o conflito no trabalho é consequência ou antecede o
conflito familiar. A família pode esgotar o indivíduo, fazendo-o ter conflitos no
trabalho e vice-versa.

Entendimento psicológico do conflito

O surgimento do conflito pressupõe um determinado clima social, que nos


obriga a pensarmos se o conflito é único ou vai se expandir no meio social em
que se produziu. Além disso, uma série de condições são necessárias para a sua
emergência. A ideia trazida por Redorta (2007) de fonte do conflito substitui

capítulo 2 • 47
de forma vantajosa a ideia de causa. Nascemos em conflito com o meio e crescer
pressupõe na resolução de inúmeros problemas.
O conflito está em nós, em nossas células, em nossos genes, em nosso
desenvolvimento e nossa evolução. Desde cedo necessitamos de interações para nos
tornarmos humanos. Depois, nos convertemos em seres de grande complexidade
por meio da cultura e nos tornamos, muitas vezes, imprevisíveis. Sendo assim, os
conflitos podem desempenhar muitas funções: promover mudanças, exteriorizar
emoções, colocar as pessoas em interação etc.
Graficamente, Redorta (2007) expressa a função do conflito da seguinte forma:

Condições fontes fatores desencadeantes função

Sob a perspectiva da forma do conflito podemos observar três níveis em


qualquer conflito. São eles:

Simbólico - mitos e ritos

Ideológico - crenças e valores

Comportamental - normas e ações

Figura 2.1  –  Estrutura da ação conflitiva. REDORTA, J. Entender o conflito. Barcelona:


Paidós, 2007. p. 90.

A ação está ligada ao primeiro nível do conflito. Uma pessoa pode estar
equivocada na sua forma de pensar, mas este erro é irrelevante enquanto não se
converter em ação e, mais tarde, em interação social.
Em um segundo nível, encontramos na forma da estrutura do conflito, as
crenças e valores que fazem parte das pessoas. Nossos valores e crenças afetam a
forma como vamos tomar nossas decisões e decidir sobre ações alternativas. Na
análise do discurso das partes em conflito, devemos examinar quais são os valores
que elas estão reforçando ou não.

capítulo 2 • 48
Por último, em um plano superior e mais difícil de observar, encontramos os
mitos e ritos que formam o nível simbólico dos conflitos. Um mito é algo inal-
cançável por definição. Em troca, a função do rito é manter o mito vivo. Os ritos
são repetitivos e, em muitos casos, dependendo da importância do mito, tendem à
solenidade. Sob a perspectiva do conflito, os mitos e os ritos ativam, a longo prazo,
as aspirações das partes, seus objetivos, que vão, por exemplo, desde recuperar a
liberdade pondo fim a um casamento ou abandonar um trabalho para buscar uma
vida melhor no campo.
A aparição de um conflito com uma estrutura determinada de comportamentos,
discursos e símbolos deve ser contextualizada em elementos de referência para que
nos permitam interpretar a forma que adota o conflito. Também é fundamental
observar e refletir sobre o significado que o conflito tem para cada uma das partes.

Manejo das emoções nos conflitos

Devemos examinar as emoções, os motivos e as razões presentes que levam


os indivíduos às suas ações. Por exemplo, a intensidade das emoções nos dá uma
ideia do que representa o conflito para uma pessoa. Da mesma forma que as
características das emoções (medo, ansiedade, frustração etc.) nos informam os
efeitos que esse conflito tem nas relações interpessoais.
Outra avaliação que deve ser realizada é a das razões e explicações para o conflito.
Tem sido muito útil entender como está colocada a responsabilidade de cada um
dos sujeitos participantes e quais são as direções que explicam a interpretação
destas ações. As expectativas marcam a orientação que as partes têm quanto
ao que vai acontecer. O fracasso das expectativas gera frustrações, que podem
aumentar o conflito.
Por fim, não podemos esquecer que o contexto no qual ocorre um conflito tem
alto significado no conteúdo deste conflito. Por exemplo, matar alguém em tempos
de paz é um crime, no entanto, em tempos de guerra pode ser um ato de heroísmo.
O contexto nos permitirá interpretar a comunicação e o significado do conflito.

Aspectos psicológicos envolvidos nas tomadas de decisões

Durante uma negociação para a solução de um conflito, as partes envolvi-


das adotam várias decisões, mesmo que esta negociação seja breve. Decidir não é
tarefa fácil. Decidir envolve uma série de ações possíveis. A decisão poderíamos

capítulo 2 • 49
considerar como predição das consequências de situações futuras e o cálculo dessas
consequências que acarretam estas possíveis ações.
Quando uma pessoa negocia em situações de conflito, está influenciada pela
sua condição de ser humano, sua postura frente à vida, às informações, ao contexto,
a seus valores, sua cultura e seus preconceitos e “pré-juízos”. Com todos esses
fatores influenciando na tomada de decisões, a pessoa deve ser capaz de aumentar
o peso dos fatores objetivos para decidir, com base em fatores mais racionais,
minimizando os riscos das influências dos aspectos emocionais.
Frente à situação de tomar uma decisão, as pessoas podem adotar as
seguintes atitudes:
•  Evitar a decisão: propondo ou recorrendo aos outros para que decidam por
ela. É a reação mais perigosa para a pessoa que a assume.
•  Apegar-se ao passado: toma suas decisões em função do que ocorreu no
passado.
•  Confiar na intuição.
•  Realizar um processo mental: analisa mentalmente os dados disponíveis
e elege a alternativa que considera a melhor, sem recorrer a nenhum método ou
instrumento formal que auxilie este processo mental.
•  Agir informalmente: toma notas, faz consultas, reúne informações,
mas segue confiando em suas habilidades intuitivas ou na sua experiência para
selecionar a alternativa que julga a mais apropriada.
•  Desenvolver um processo lógico e formal: utiliza diferentes instrumentos
de análise, combinando com habilidades intuitivas, técnicas e conceituais, com a
finalidade de chegar à uma decisão que ofereça a maior probabilidade de êxito.

O esquema de decisão formal e lógico permite aumentar as possibilidades de


êxito das decisões adotadas. Durante um processo de negociação, podemos adotar
diferentes decisões como: retroceder, permanecer na negociação ou propor um
acordo. Dessa forma, vários são os elementos que influenciam tais decisões. Vamos
destacar alguns deles:
•  Os seres humanos estão condicionados a diferentes situações, por outro
lado, nossas condições mudam constantemente.
•  Os seres humanos não estão preparados para ver os outros como uma forta-
leza. O que vemos é alguém que pode ir contra a nossa sobrevivência.
•  As informações são valorizadas de diferentes maneiras pelos diferentes nego-
ciadores. Alguns são muito racionais e colocam sua estratégia em uma informação

capítulo 2 • 50
detalhada. Outros, entram numa negociação com base puramente intuitiva, sem
nenhuma informação consistente.
•  O contexto, o ambiente organizacional, cultural, social, político e
econômico, também são fatores importantes na tomada de decisão.
•  Finalmente, os preconceitos, em relação à situação, formam o último
elemento neste processo. Tomar decisões com base em preconceitos nem sempre é
negativo, principalmente em situações rotineiras.

Métodos autocompositivos

Negociação

A negociação é um fenômeno muito antigo, usado pela humanidade há


muito tempo. Quanto ao seu estudo, durante muito tempo, as abordagens
acadêmicas e profissionais fizeram a descrição da prática da negociação, ligada às
áreas de atuação, como na diplomacia, no trabalho, na empresa, com diferentes
metodologias e focos.
A negociação é o meio através do qual as pessoas lidam com suas diferenças.
Na verdade, negociar é buscar um acordo por meio de um diálogo. É importante
que você perceba que a negociação está de forma permanente em nossas vidas.
Negociamos com nossos pais, nossos filhos, nossos companheiros, ou seja, tanto
em nossa vida , como no trabalho com nossa chefia ou nossos subordinados.
Encontramos na literatura sobre negociação uma variedade de definições
que conceituam o processo de negociação. Por exemplo, para Fisher; Ury; Patton
(2005) encontramos esta definição: “Negociar é obter acordo de mútuo interesse
e, se houver conflitos, adotar padrões corretos, sem considerar propostas pura-
mente individuais.”
“Negociação é um processo, em que duas ou mais partes, com interesses
comuns e antagônicos se reúnem para confrontar e discutir propostas com o
objetivo de alcançarem um acordo”, segundo Berley (1984).
Não pretendendo esgotar o assunto a partir das múltiplas definições que
existem, observamos três condições necessárias para que uma negociação ocorra:
1. As partes devem ter interesses em comum – as partes preferem, em
conjunto, certos resultados no lugar de outros;
2. As partes devem ter interesses conflituais – alguns dos resultados dese-
jados são melhores para uma das partes e outros são melhores para a outra;

capítulo 2 • 51
3. As partes devem ter possibilidade de comunicar entre si – para que
exista a busca de um acordo, é necessário ter oportunidade de comunicar o
que se oferece e o que se aceita.

Destacamos a importância da negociação colaborativa ou com base em princí-


pios, que chega a resultados justos, abordando os reais interesses dos envolvidos e
não suas posições. É muito importante aprofundar seus conhecimentos sobre esta
negociação e, para isso, indicamos o livro: Como chegar ao SIM, de Roger Fisher,
William Ury e Bruce Patton (2005).
Para esses autores, quatro pontos fundamentais são necessários na
negociação colaborativa:
1. Separação das pessoas dos problemas;
2. Foco nos interesses e não nas posições;
3. Geração de opções de ganhos mútuos;
4. Utilização de critérios objetivos.

O mais importante na negociação colaborativa são os interesses. Podemos falar


de solução nessa negociação, quando os reais interesses das partes são atendidos.

Conciliação

Segundo o Novo Dicionário Aurélio Século XXI (1999), “conciliação” con-


siste no “ato ou efeito de conciliar (-se)” ou na “harmonização de litigantes ou
pessoas desavindas”. Do latim conciliatio, de conciliare (harmonizar, ajuntar), é
o ato pelo qual duas ou mais pessoas se ajustam amigavelmente, pondo fim às
suas divergências. Pode ser judicial ou extrajudicial. A primeira é realizada em
juízo; a segunda, pode ser realizada fora do juízo e, diretamente entre as partes
em desacordo.
Merece ser destacado, também, o conceito um pouco mais amplo construído
por Maria Helena Diniz (2005), ensinando que conciliação é o:

Encerramento da lide feito pelas partes, no processo por meio de autocomposição e


heterocomposição daquela. É o método de composição em que um especialista em
conflitos faz sugestões para sua solução entre as partes, não é adversarial e pode
ser interrompida a qualquer tempo. Pressupõe transigência e é aplicável a todos os
conflitos e alguns da esfera penal em pequenos delitos e contravenções.

capítulo 2 • 52
Analisadas a dimensão do conflito e as partes nele envolvidas, a conciliação
pode apresentar-se como o método eficaz para a sua rápida solução, que, em
geral, se desenvolve em apenas quatro etapas: (a) na primeira delas, o conciliador
esclarece às partes acerca do procedimento e as implicações legais do alcance
do acordo; (b) na segunda, as partes manifestam suas posições e o conciliador,
ouvindo-as e questionando-as sobre os fatos, deverá identificar os pontos
convergentes e divergentes da controvérsia, criando atalhos para a terceira etapa;
(c) na terceira, são criadas as opções para a solução da lide, inclusive, se for o caso,
com informações técnicas ou sugestões de terceiros, visando ao consenso ou ao
fechamento do acordo; (d) na quarta e última, a redação do acordo/transação e
sua assinatura.
A conciliação atualmente é (ou ao menos deveria ser) um processo consensual
breve, envolvendo contextos conflituosos menos complexos, no qual as partes ou
os interessados são auxiliados por um terceiro, neutro à questão, ou por um painel
de pessoas sem interesse na causa, por meio de técnicas adequadas, a chegar a uma
solução ou acordo.
Assim, a utilização de técnicas adequadas na conciliação, como as ferramentas
da mediação, pressupõe na essência que os profissionais não se afastem dos
princípios norteadores do disposto no Código de Ética da Resolução 125 do
Conselho Nacional de Justiça, de 29 de novembro de 2010.

Mediação

O vocábulo mediação é oriundo do termo latim mediare, que significa me-


diar, dividir ao meio ou intervir, colocar-se no meio, de acordo com Serpa (1999).
Existem várias conceituações para mediação. Trabalharemos, nesta aula, com ape-
nas algumas porque não é nossa pretensão algo inatingível, que é esgotarmos este
tema.
De acordo com Highton e Alvarez (1996, p.122), a mediação

é um procedimento não adversarial, na qual um terceiro imparcial ajuda as partes a


negociar para chegar a um acordo mutuamente aceitável. Consiste em um esforço
estruturado para facilitar a comunicação entre os contrários com o qual as partes
podem voluntariamente evitar se submeter a um longo processo judicial – com o
desgaste econômico e emocional que esse comporta – podendo acordar uma solução
para o seu problema de forma rápida, econômica e cordial.

capítulo 2 • 53
O mediador, na mediação, atua exclusivamente como mediador. O que
isso quer dizer? Na mediação, o mediador está eticamente impedido de exercer
sua profissão de origem, inclusive no que diz respeito a prestar esclarecimentos
técnicos às partes. Caso estas informações sejam necessárias, os mediandos devem
ser orientados a procurarem um especialista naquela área.
O mediador é imparcial em relação aos mediandos e ao tema que está sendo
tratado. Isso é fundamental para o estabelecimento da confiança das partes no
mediador e na mediação. Uma outra questão importante na técnica da mediação
é a competência do mediador, que deve ser capacitado para que desta forma possa
conduzir a mediação de forma satisfatória, zelando para manter a autonomia das
partes e o protagonismo das mesmas.

Diferenças entre mediação e conciliação

Segundo Trindade; Trindade; Molinaro (2012), na conciliação, o terceiro


envolvido propõe alternativas de resoluções, o que denota sua maior intervenção
e responsabilidade para solucionar o conflito. Embora o acordo jamais possa ser
imposto, a participação do conciliador na composição do litígio é mais efetiva,
mostrando às partes envolvidas possibilidades de se chegar a um consenso. É
importante lembrar que a consensualidade dos envolvidos é inerente à conciliação.
No que diz respeito à mediação, nota-se maior grau de empoderamento das
partes que atuam de forma efetiva para solucionar o conflito, ficando a cargo do
mediador o papel de facilitador da negociação. As partes estão autodeterminadas
e são responsáveis pela composição do litígio, o que naturalmente facilita a
elaboração, a aceitação e o posterior cumprimento do acordo firmado.
Da mesma forma, Moraes; Moraes (2012) afirmam que na mediação um ter-
ceiro, imparcial, auxilia as partes a chegarem, elas próprias a um acordo entre si,
por meio de um processo estruturado.
Ainda sobre a diferenciação entre conciliação e mediação, Macedo Junior;
Andrade (2011, p.48) afirmam que:

A diferença primordial é que a mediação é um método de colaboração entre quem


não quer ficar em antagonismo, em que as próprias partes procuram o mediador para
tentarem o acordo que evitará o processo judicial; enquanto a conciliação é um método
de intermediação no sentido de convergir posições já antagonizadas, sendo parte de
um processo judicial já existente.

capítulo 2 • 54
Verificamos, de acordo com as diferenças demonstradas, anteriormente, que
a conciliação pressupõe uma participação ativa do conciliador para a resolução do
conflito, podendo ele sugerir soluções , enquanto na mediação, a intervenção do
mediador mostra-se mais passiva, na medida em que nessa ele atua como mero
facilitador da negociação e as partes agem de forma conjunta para solucionar a
controvérsia, devendo, por isso, o mediador deixar de externar sua opinião ou
posicionamento sobre o assunto, pois isso poderia significar que estaria agindo
de forma a dar razão a uma das partes, o que poderia comprometer severamente
a mediação.
Segundo o Guia de Mediação e Conciliação (2015) são estabelecidos diversos
pontos de distinção entre a mediação e a conciliação, sugerindo‑se que:

I. A mediação visaria à “resolução do conflito” enquanto a conciliação buscaria ape-


nas o acordo;
II. A mediação visaria à restauração da relação social subjacente ao caso enquanto
a conciliação buscaria o fim do litígio;
III. A mediação partiria de uma abordagem de estímulo (ou facilitação) do entendi-
mento enquanto a conciliação permitiria a sugestão de uma proposta de acordo pelo
conciliador;
IV. A mediação seria, em regra, mais demorada e envolveria diversas sessões, en-
quanto a conciliação seria um processo mais breve com apenas uma sessão;
V. A mediação seria voltada às pessoas e teria o cunho preponderantemente subje-
tivo enquanto a conciliação seria voltada aos fatos e direitos e com enfoque essencial-
mente objetivo;
VI. A mediação seria confidencial enquanto a conciliação seria eminentemente públi-
ca;
VII. A mediação seria prospectiva, com enfoque no futuro e em soluções, enquanto a
conciliação seria com enfoque retrospectivo e voltado à culpa;
VIII. A mediação seria um processo em que os interessados encontram suas próprias
soluções enquanto a conciliação seria um processo voltado a esclarecer aos litigantes
pontos (fatos, direitos ou interesses) ainda não compreendidos por esses;
IX. A mediação seria um processo com lastro multidisciplinar, envolvendo as mais dis-
tintas áreas como Psicologia, Administração, Direito, Matemática, Comunicação, entre
outros, enquanto a conciliação seria unidisciplinar (ou monodisciplinar) com base no
Direito. (p. 36-7)

capítulo 2 • 55
ATIVIDADES
01. Sigmund Freud propôs três componentes básicos estruturais da psique. A parte do
aparelho psíquico que está em contato com a realidade externa e tem a tarefa de garantir a
saúde, segurança e sanidade da personalidade é o: (TRT-MG- Analista judiciário – Psicologia
– 2009)
a) Ego.
b) Id.
c) Superego.
d) Alterego.
e) Consciente pessoal.

02. Há uma cultura do litígio enraizada na sociedade, cuja tendência é resolver os conflitos
de forma adversarial. Nessas circunstâncias, os denominados meios alternativos de resolução
de conflitos apresentam especial importância, com destaque para a mediação, na medida
em que possuem os seguintes objetivos, exceto: (Tribunal de Justiça do Estado do Rio de
Janeiro (TJ-RJ) – Analista Judiciário – 2014)
a) aliviar o congestionamento do judiciário.
b) promover a pacificação social.
c) democratizar o acesso à justiça.
d) promover a autocomposição da solução de controvérsias.
e) garantir a legitimidade dos ritos judiciais.

03. Leia o interessante texto, sobre a Psicologia Cognitiva. Disponível em: <http://criativ.
pro.br/abordagem-cognitiva/>. Acesso em: 25 mar. 2017.
Após a leitura do texto, analise, quanto às inteligências múltiplas, quais delas são
importantes para aqueles que seguem uma carreira relacionada às Ciências Sociais.

LEITURA
Não deixe de ler a entrevista com as psicólogas Marilene Marodin, Rafaela Duso e
Lisiane Lindenmeyer Kalil sobre Psicologia e Mediação. Disponível em: <http://www.crprs.
org.br/upload/others/file/294fcb07ef9277c4b48c99809e111c33.pdf>. Acesso em: 23
maio. 2017.

capítulo 2 • 56
Artigos
AGUIAR, J. C. de; CHINELATO, J. M. T. Interpretação do Direito e Comportamento
Humano. Disponível em: <https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/
id/514410/001017662.pdf?sequence=1>. Acesso em 25 mar. 2017.
BARBIERE,C. M.; LEÃO, T. M. S. O papel do psicólogo jurídico na mediação de
conflitos familiares. Psicologia Pt. O protal dos psicólogos. Disponível em: <http://www.
psicologia.pt/artigos/textos/A0660.pdf>. Acesso em: 23 maio 2017.
BUCHER-MALUSCHKE, J. S.; CELESTINO, V. R. R. Um novo olhar para a abordagem
sistêmica na Psicologia. Disponível em: <http://periodicos.unifacef.com.br/index.php/fa-
cefpesquisa/article/viewFile/1109/865>. Acesso em: 25 mar. 2017.
MÜLLER, F. G.; BEIRAS, A.; CRUZ, R. M. O trabalho do psicólogo na mediação de confli-
tos familiares: reflexões com base na experiência do serviço de mediação familiar em Santa
Catarina. Aletheia, n. 26, p. 196-209, jul./dez. 2007. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.
org/pdf/aletheia/n26/n26a16.pdf>. Acesso em: 23 maio 2017.
SILVA, E. B. T. Mecanismos de Defesa. Disponível em: <http://www.psicologia.pt/
artigos/textos/TL0212.pdf>. Acesso em: 25 mar. 2017.

CONEXÃO
Movimento pela conciliação. Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/
conciliacao-mediacao/movimento-conciliacao-mediacao>. Acesso em: jun. 2018.
Fórum Nacional de Mediação e conciliação – Fonamec. Disponível em: <http://www.
cnj.jus.br/files/conteudo/destaques/arquivo/2015/05/780d8efd499230fb3cdd6ce3a-
c53d7aa.PDF>. Acesso em: jun. 2018.

MULTIMÍDIA
Animação sobre mediação. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=SDi-
Zw_gFQY&t=4s>. Acesso em: 23 maio 2017.

capítulo 2 • 57
CURIOSIDADE
Curiosidades sobre alguns autores das teorias da personalidade:
4 fatos fascinantes sobre Carl Jung
Muitas pessoas estão familiarizadas com Jung por sua famosa amizade e eventual
separação de Sigmund Freud, que considerava o relacionamento como de pai e filho. Jung
discordou fortemente da ênfase de Freud sobre o sexo e outras partes de suas teorias,
e a relação logo se deteriorou. No entanto, os dois pioneiros concordam em uma coisa:
um indivíduo deve analisar o funcionamento interno da mente, incluindo os seus sonhos
e fantasias.
Jung fundou a psicologia analítica, que enfatiza a importância de explorar ambos os
processos conscientes e inconscientes. De acordo com uma de suas teorias, todos os
humanos compartilham um inconsciente coletivo. Ao contrário do inconsciente pessoal, que
é feito de memórias pessoais e personalidade de cada indivíduo, o inconsciente coletivo
detém as experiências de nossos antepassados. Prova disso pode ser vista, de acordo com
Jung, na mitologia, que compartilha temas semelhantes entre culturas.
A seguir estão quatro outras curiosidades sobre Jung que talvez você não sabia.
1. Jung cunhou os termos introvertido e extrovertido.
Jung acreditava que existem duas principais atitudes que as pessoas usam para se
aproximar do mundo, que ele chamou de introversão e extroversão. As pessoas não são
apenas introvertidas ou extrovertidas. Todos nós somos geralmente uma mistura de ambos,
mas um tipo é mais dominante do que o outro.

2. A tese de doutorado de Jung explorou o ocultismo.


Em 1902, Jung publicou sua tese On the Psychology and Pathology of So-Called Occult
Phenomena, enquanto trabalhava na Clínica Psiquiátrica Burghölzli com Eugen Bleuler (que
cunhou o termo esquizofrenia). Nele, Jung analisou as sessões de uma médium de 15 anos
de idade, que ele realmente atendeu. Em The Portable Jung, Joseph Campbell relata o caso
de Jung com a médium:

Ele conheceu uma jovem de quinze anos e meio, que produziu estados de sonambulismo
e fenômenos espíritas. Convidado a participar, Jung juntou-se as sessões, e pelos
próximos dois anos, meticulosamente tomou notas, até que, no final, a médium,
sentindo seus “poderes” falhando, começou a fazer fraude, e Jung partiu.

capítulo 2 • 58
De acordo com o The Guardian, este trabalho “lançou as bases para duas ideias-chave
em seu pensamento. Em primeiro lugar, que o inconsciente contém ‘partes de personalida-
des’, chamadas complexos. Uma maneira pela qual elas podem revelar-se é por fenômenos
ocultos. Em segundo lugar, a maioria do trabalho de desenvolvimento da personalidade é
feita no nível inconsciente.”.

3. A teoria da personalidade de Jung contribuiu para o inventário tipológico de


Myers-Briggs.
Em 1921, Jung publicou o livro Tipos Psicológicos, no qual ele expôs sua teoria da per-
sonalidade. Ele acreditava que cada pessoa tem um tipo psicológico. Ele escreveu “o que
parece ser comportamento aleatório é realmente o resultado de diferenças na forma como
as pessoas preferem usar as suas capacidades mentais.”.
Ele também acredita que existem quatro funções psicológicas:
• Pensamento faz a pergunta “O que significa?” Trata-se de fazer julgamentos
e decisões.
• Sentimento faz a pergunta “Que valor tem isso?” Sentimento, por exemplo, pode ser
julgar certo ou errado.
• Sensação pergunta: “O que exatamente eu estou percebendo?” Isso envolve a forma
como percebemos o mundo e reunimos informações usando nossos diferentes sentidos.
• Intuição pergunta: “O que pode acontecer, o que é possível?” Isso se refere ao modo
como a percepção se refere a coisas como metas e experiências passadas.

Inspirado por seu trabalho, Isabel Myers e sua mãe Katharine Cook Briggs criaram o
Inventário tipológico de Myers-Briggs com base em ideias de Jung. Elas desenvolveram a
medida de personalidade na década de 1940. O Myers-Briggs é composto por 16 tipos de
personalidade. Os participantes respondem a 125 perguntas e são, então, colocados em uma
destas categorias.
4. Jung escreveu o que o New York Times chamou de “O Santo Graal
do Inconsciente”.
Jung passou 16 anos escrevendo e ilustrando o seu Liber Novus, que agora é conhecido
como o Livro Vermelho. Nele, Jung investiga profundamente seu próprio inconsciente.
Escondido em um cofre de banco suíço, a cópia original permaneceu inédita até 2009.
Antes de sua publicação, o Livro Vermelho só tinha sido visto por um punhado de pessoas.
Segundo a NPR, “O estudioso junguiano Dr. Sonu Shamdasani levou três anos para conven-
cer a família de Jung a trazer o livro para fora do esconderijo. Foram necessários mais 13
anos para traduzi-lo”.

capítulo 2 • 59
Leia o fascinante artigo do New York Times sobre o Livro Vermelho e a longa e complexa
jornada para publicação aqui. E você pode ler um trecho do livro no NPR.
Disponível em: <http://psicoativo.com/2016/07/4-fatos-fascinantes-
sobre-carl-jung.html>. Acesso em: 5 nov. 2017.

Quem foi Abraham Maslow?


Abraham Maslow foi o filho mais velho de pais judeus que emigraram da Rússia para os
EUA, a fim de escapar das condições adversas e da revolta sociopolítica. Foi em Brooklyn,
Nova York, que Maslow nasceu, no dia 1 de abril de 1908. Cresceu e quase sem amigos,
dividindo seu tempo entre longas horas de estudo e enquanto auxiliava o seu pai a sobreviver.
Os livros tornaram-se seu refúgio, em que mergulhou mais nas obras de Freud, Jung,
Pavlov e outros. A Psicologia interessava-lhe bastante. Maslow cedeu aos desejos de seus
pais para estudar Direito. No entanto, viu logo que a lei não era para ele. Mas mesmo assim,
ele manteve-se no curso por três semestres completos.
Finalmente, ele decidiu revoltar-se. A resulta foi contra seus pais foi em duas frentes: pri-
meiro, a sua escolha de uma vocação que era mais perto de seu coração: decidiu entrar para
a área da Psicologia, em segundo lugar, a escolha de sua noiva: ele decidiu casar-se com a
sua própria prima, Bertha Goodman. Ele pediu e obteve transferência para a Universidade
de Cornell. Foi em Wisconsin que Maslow descobriu finalmente a estabilidade e sucesso na
sua vida.
Em 1930, Maslow terminou seu curso na área da Psicologia na Universidade de
Wisconsin. Sua sede de conhecimento, investigado por mentores, como Harry Harlow, levou-o
a terminar o seu mestrado (em 1931) e mais tarde o seu doutoramento (em 1934) no mesmo
campo. Durante este período, o casal Maslow deu à luz duas filhas – Ellen Maslow e Ann
Kaplan. Em Wisconsin, Maslow tornou-se intimamente associado com as experiências de
Harlow em primatas. Ele próprio tinha exercido uma linha independente de pesquisa sobre o
comportamento de primatas e publicou alguns artigos sobre o assunto. Maslow correspondia
com o Dr. Thorndike, e no ano seguinte (1935) viajou para Nova York, para continuar seu
trabalho de pesquisa na Universidade da Columbia sobre a motivação dos animais.
Os investigadores da universidade, naqueles dias estavam envolvidos em ensaios e
medição de inteligência das crianças e de adultos e a sua capacidade de aprender. Maslow
ajudou essa área de conhecimento, e assim começou a sua próxima fase de crescimento e de
evolução. Os trabalhos produzidos por ele de 1937 e em diante apresentam o envolvimento
de Maslow em relação ao comportamento social, traços de personalidade, autoestima,
motivação e teoria, em relação aos seres humanos.

capítulo 2 • 60
Em 1937, Maslow se mudou para Brooklyn, o seu local de nascimento, e começou a
ensinar Psicologia na faculdade de Brooklyn, uma posição que manteve durante 14 anos.
Foi nessa época que algumas de suas melhores obras foram produzidas. Ele ficou conhecido
como o líder da escola da psicologia humanista, que ele se referia como a "terceira força".
Na década de 1960 após entrar em contato com a obra de Peter Drucker e Douglas Mc-
Gregor, Maslow envolveu-se com a área de Gestão de negócios. Passou então a relacionar
as teorias de motivação e personalidade com os estudos de gestão.
No fim da década de 1960, foi honrado como "Humanista do ano" pela Associação Ame-
ricana de Psicologia, que o elegeu presidente. Em 1969, Maslow aceitou a bolsa residente da
Fundação Laughlin, e mudou-se para Menlo Park, Califórnia. Atualizou seu livro Motivação e
Personalidade, que ele tinha escrito pela primeira vez em 1954. Também escreveu mais dois
livros: Rumo a uma Psicologia do Ser e Além da natureza humana.
Maslow retornou a Nova York onde morreu em 8 de junho de 1970, vítima de um ataque
cardíaco, quando passeava próximo à sua residência.
Disponível em: <http://abrahammaslow190808.blogspot.com.br/2013/04/quem-foi-
abraham-maslow.html>. Acesso em: jun. 2018.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Processo de Negociação, sua estrutura e importância no contexto atual. Disponível em: <http://
www.aedb.br/seget/artigos05/299_ARTIGO%20NEGOCIACAO.pdf>. Acesso em: jun. 2018.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Guia de Conciliação e Mediação Judicial: orientação para
instalação de CEJUSC. Brasília/DF: Conselho Nacional de Justiça, 2015.
DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2005.
FADIMAN, J.; FRAGER, R. Teorias da personalidade. São Paulo: Harbra, 1986.
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School. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 2005.
FIORELLI, J. O.; FIORELLI, M. R.; MALHADAS JUNIOR, M. J. O. Psicologia aplicada ao Direito. 4. ed.
São Paulo: LTr, 2015.

capítulo 2 • 61
FIORELLI, J. O.; MALHADAS JUNIOR, M. J. O.; MORAES, D. L. de. Psicologia na Mediação. São
Paulo: LTr, 2004.
FIORELLI, J. O.; MANGINI, R. C. R. Psicologia Jurídica. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
FREUD, S. Obras Psicológicas Completas. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
v. XIV.
HIGHTON, E. I.; ALVAREZ, G. S. Mediación para resolver conflitos. 2. ed. Buenos Aires: Ad Hoc,
1996.
MACEDO JUNIOR, F. L.; ANDRADE, A. M. R. Manual de Conciliação. 2. ed. Curitiba: Juruá, 2011.
MINUCHIN, P; COLAPINTO, J; MINHUCHIN, S. Trabalhando com famílias pobres. Porto Alegre:
ArtMed,1999.
MORAES, P. V. D. P.; MORAES, M. A.C. de. A negociação ética para agentes públicos e
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SERPA, M. de N. Teoria e prática da mediação de conflitos. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 1999.
TRINDADE, J. Manual de Psicologia Jurídica para operadores do Direito. 2. ed. Porto Alegre:
Livraria do Advogado, 2007.
TRINDADE, J.; TRINDADE, E. K.; MOLINARI, F. Psicologia judiciária: para a carreira da magistratura.
2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2012.

capítulo 2 • 62
3
Personalidade:
definições,
características e
transtornos.
Psicopatologia
aplicada ao Direito
Personalidade: definições, características
e transtornos. Psicopatologia aplicada ao
Direito
A Psicologia científica apresenta embasamento teórico da personalidade.
Popularmente, a personalidade é atribuída sendo boa ou ruim porém, na
Psicologia, ela deve estar alheia a esse juízo de valor, tornando-se o estudo
das características que diferenciam os indivíduos. Na tentativa de agrupar e
diferenciar as características da personalidade, pode-se dizer que os determinantes
inconscientes do comportamento e os determinantes conscientes são fatores
centrais entre algumas teorias da personalidade, porém considera-se também, a
hereditariedade, a base biológica e os aspectos sociais do indivíduo como aspectos
relevantes na determinação da personalidade dele.
A personalidade pode ser definida como o conjunto de características que
determinam os padrões pessoais e sociais de uma pessoa. Sua formação é um
processo gradual, complexo e único para cada indivíduo. No que diz respeito
ao senso comum, o termo personalidade é usado para descrever características
marcantes de uma pessoa, como “essa pessoa é extrovertida ou aquela menina é
tímida”. No entanto, o conceito de personalidade está relacionado às mudanças de
habilidades, atitudes, crenças, emoções, desejos, e ao modo constante e particular
do indivíduo perceber, pensar, sentir e agir, além da interferência de fatores
culturais e sociais nessas características.
Neste capítulo, estudaremos, também, a Psicopatologia e sua aplicação no
Direito. É importante, em primeiro lugar, sabermos qual é o estudo que esta dis-
ciplina faz, e qual a sua importância para a área jurídica. A Psicopatologia pode
ser definida como um estudo descritivo13 dos fenômenos psíquicos considerados
anormais, da forma como se apresentam à experiência imediata. Estuda os gestos,
o comportamento e as expressões destas pessoas, além de relatos e autodescrições
feitas pelas mesmas. É diferente da Psiquiatria, porque é uma ciência normativa
que estuda e classifica os fenômenos mentais, não tendo como objetivo a clínica
médica aplicada, assim como o tratamento e a assistência aos portadores de trans-
tornos mentais.

13  Realiza-se o estudo, a análise, o registro e a interpretação dos fatos do mundo físico sem a interferência do
pesquisador. Disponível em: <http://posgraduando.com/diferencas-pesquisa-descritiva-exploratoria-explicativa/>.
Acesso em: 2 abr. 2017.

capítulo 3 • 64
A Psicopatologia está ligada a diversas disciplinas: às Psicologias, às Psiquiatrias
e à Psicanálise. Em relação à Psicologia liga-se com a Psicologia Clínica (dedicada
ao diagnóstico e estudo da personalidade), a Psicologia Geral (noções de sub-
jetividade, intencionalidade, representação, atos voluntários) e a Neurociência14,
entre outras áreas. A Psicopatologia considera o indivíduo em sua globalidade, está
sempre atenta para os padrões de normalidade em que o indivíduo questionado
está inserido, não se deixando guiar “cegamente” pelos sintomas15. Considerar
um sintoma isolado é fazer o objetivo principal de compreender o indivíduo
ser esquecido.

OBJETIVOS
•  Estudar as diferentes definições de personalidade;
•  Reconhecer características formadoras da personalidade;
•  Identificar os transtornos de personalidade;
•  Compreender os conceitos de saúde mental e transtorno mental;
•  Identificar alguns transtornos mentais;
•  Analisar a Lei Antimanicomial.

O comportamento humano

Quando estudamos o comportamento humano, devemos estar atentos a


algumas questões básicas: a influência do observador, porque as pessoas modificam
seus comportamentos quando se sentem observadas; a capacidade de o observador
em perceber e discriminar o que é importante na sua observação; e o grau de
autoconhecimento do observador, para perceber questões da sua própria forma de
ser que podem interferir em sua atividade, afetando o seu trabalho.
É muito importante você estar ciente dessas questões, não só em relação ao
comportamento das pessoas, como também a sua própria reação em relação aos
mesmos. Ao se colocar disposto a compreender os comportamentos das pessoas,
14  Ciência que estuda o sistema nervoso, a organização cerebral, a anatomia e a fisiologia do cérebro, além de sua
relação com as áreas do conhecimento (aprendizagem, cognição ou comportamento). Disponível em: <https://www.
dicio.com.br/neurociencia/>. Acesso em: 2 abr. 2017.
15  São alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, seu metabolismo, suas
sensações, podendo ou não consistir em um início de doença. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação do
próprio paciente. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Sintoma>. Acesso em: 2 abr. 2017.

capítulo 3 • 65
você deve desenvolver uma observação destes desprovida de preconceitos e construir
certa distância emocional, que permita envolver-se sem se deixar dominar ou ser
absorvido pelo outro.
Os comportamentos acontecem em um esquema de referência de valores. A
pessoa que carrega uma carga de preconceitos, no momento da observação ou
do relacionamento com o outro, terá uma percepção distorcida daquilo que está
acontecendo e não realizará seu trabalho com objetividade. É importante que
todo acadêmico ou profissional da área do Direito cuide de seus preconceitos
e pensamentos automáticos16, flexibilizando seus esquemas17 de pensamentos e
compreendendo seus próprios mecanismos de defesa (NOTA).
Os comportamentos sofrem modificações cognitivas e comportamentais
no decorrer do tempo. Estas mudanças, muitas vezes, acarretam comentários
como “não acredito que Fulano pudesse se comportar daquele jeito...”. Devemos
sempre pensar o comportamento humano como um complexo formado pelas
características do indivíduo, seu ambiente, sua cultura, suas experiências e as
influências das situações vividas a cada momento em sua vida.

Personalidade

A palavra “personalidade” é derivada da palavra persona, que significa a más-


cara usada pelos atores no antigo teatro grego18, para desempenhar um persona-
gem. Fazendo uma reflexão sobre esta questão, vamos perceber que as pessoas
estão sempre representando papéis e quando falam sobre as situações que viram
ou que vivenciaram, estão narrando as suas percepções, a partir dos conteúdos
16  São aqueles que brotam em nossas mentes sem que haja nenhuma reflexão ou deliberação. Costumam ser
considerados como verdades incontestáveis para quem os têm, mesmo antes de qualquer avaliação. Disponível em:
<http://www.psicologosp.com/2013/12/o-que-sao-pensamentos-automaticos.html>. Acesso em: 28 mar. 2017.
17  são estruturas mentais que representam aspectos do mundo. As pessoas usam esquemas para organizar o
conhecimento atual e providenciar uma base para compreensão futura. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/
wiki/Esquema_(psicologia)>. Acesso em: 28 mar. 2017.
18 No teatro grego, a máscara servia para dar aos atores a sua personagem. Estas eram tipificadas com um
tipo de personagem predeterminado, tendo também expressões faciais imutáveis que indicavam o destino último
da personagem. Cobria não apenas o rosto do ator, com aberturas para os olhos e boca, mas também o alto da
cabeça. Com isso os atores representavam usando apenas o tom de voz e o gesto. Servia também para figurar
aos espectadores os tipos tradicionais da tragédia e da comédia, para aumentar a estatura dos atores. Na sua
origem estariam os disfarces usados nas festas dionisíacas: rostos pintados com borras de vinho e outras matérias,
adornados de barbas vegetais. Completavam-na cabeleira e barba, segundo a idade e o sexo da personagem. As
diferenças de classe, condição social e raça revelavam-se nas 25 espécies de máscaras trágicas e em mais de 40
para o gênero cômico. O branco predominava nas máscaras femininas e o negro nas masculinas. Disponível em:
<http://teatrogregodehistoria.blogspot.com.br/2012/09/mascaras-no-teatro-grego-mascaraservia.html>. Acesso
em: 28 mar. 2017.

capítulo 3 • 66
selecionados da memória, ou seja, uma realidade psíquica que pode ou não ter
maior proximidade com aquilo que realmente aconteceu.
Diferentes autores conceituam a personalidade, procurando cada um enfatizar
um ou outro elemento de sua constituição. Vamos a algumas conceituações. Para
Skinner, citado por Fadiman; Frager (1986), a personalidade seria um conjunto de
padrões comportamentais. De acordo com Beck (BECK; FREEMAN, 1993), o
conceito de personalidade seria uma organização, relativamente estável, composta
de sistemas e moldes. Segundo Kaplan e Sadock (1993), a personalidade
seria uma totalidade relativamente estável e previsível de traços emocionais
e comportamentais, que identificam a pessoa no seu cotidiano, sob condições
normais.
Para Freud, segundo Araújo (2010), a personalidade humana é dividida
em três grandes superestruturas, estas compreendem os seguintes complexos
psicológicos: Ego, Id e Superego. O Ego é a parte da personalidade que toma as
decisões a respeito de que impulsos do Id deverão ser satisfeitos e de que modo.
O Id é a parte inicial da personalidade, é a partir dela em que o Ego e o Superego
se desenvolvem, ele é responsável pela concretização dos impulsos biológicos mais
básicos inerentes a pessoa humana. Porquanto o Superego é a parte cognitiva da
personalidade que está encarregada de julgar e distinguir o que é certo e errado; de
uma maneira geral, ele é a reprodução dos valores e costumes internacionalizados
pelo individuo.
Finalizando, Allport, citado por Campbell; Hall; Lindsey (2000), considera
a personalidade como uma organização dinâmica dos sistemas psicofísicos do
indivíduo, que determinam seus ajustamentos ao ambiente. A personalidade,
neste sentido, adapta-se às exigências e transformações do meio, buscando certa
estabilidade que é fundamental para o convívio social.
Existem diversas conceituações não científicas de personalidade. Algumas de-
las procuram conceituar personalidade a partir da relação do tipo físico com o
comportamento, por exemplo, as pessoas gordas são alegres e as magras são sérias.
Estas situações apresentam como resultado a indução de prejulgamentos e a cria-
ção de estereótipos19 . São desprovidas de sentido, deixando de levar em conta
uma série de fatores, como as influências do meio, as histórias de vida das pessoas
e o ambiente em que estão inseridas.

19  é a imagem preconcebida de determinada pessoa, coisa ou situação. São usados principalmente para definir e
limitar pessoas ou grupo de pessoas na sociedade. Sua aceitação é ampla e culturalmente difundida, sendo um grande
motivador de preconceito e discriminação. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Estere%C3%B3tipo>

capítulo 3 • 67
A personalidade se manifesta a partir do comportamento das pessoas em re-
lação a uma situação ou em relação às pessoas presentes ou não, reais ou ilusórias.
Para compreendermos o comportamento das pessoas, não podemos desconsiderar
os fatores cognitivos, comportamentais e ambientais e suas inter-relações, além
das influências da cultura e da história de vida de cada um, inserido em um deter-
minado contexto.
Resumindo, a partir do que estudamos até agora, podemos conceituar
personalidade, segundo Fiorelli, Fiorelli, Malhadas Junior (2015) como “uma
condição estável e duradoura dos comportamentos da pessoa, embora não
permanente.” (p. 179)

Características da personalidade

Os comportamentos típicos, estáveis, persistentes e que formam o padrão


pelo qual o indivíduo se comporta nas mais diferentes situações são chamados
de características da personalidade. Estas características permitem às pessoas
preverem os comportamentos daqueles com quem se relacionam.
Para Fiorelli; Fiorelli; Malhadas Junior (2015), a identificação, compreensão
e o conhecimento das diferentes características de personalidade, principalmente
as mais predominantes, pode possibilitar previsão ou interpretação próxima da
realidade de um comportamento e, muitas vezes, o sucesso ou fracasso de uma
tentativa de acordo.
Não existem características de personalidade “boas” ou “más”. Existem
diferentes teorias sobre como as características da personalidade se estabelecem
que são mantidas e modificam-se ao longo da vida, fazendo o indivíduo encontrar
uma forma de adaptar-se às diferentes situações. As características de personalidade
não devem ser qualificadas como problemas, defeitos ou virtudes, mas meios pelos
quais o nosso psiquismo enfrenta o cotidiano.
Segundo Fiorelli; Fiorelli; Malhadas Júnior (2015), elas formam os nossos
comportamentos predominantes, reforçadas pelo ambiente e sedimentadas
na idade adulta. As proporções e as formas como as características de nossa
personalidade se manifestam variam entre os indivíduos, tornando cada pessoa
única na sua forma de ser e agir.
Chamamos a sua atenção para o fato de que não há uma personalidade
normal nem características normais, até mesmo porque o critério de normalidade
é bastante relativo. A seguir, veremos algumas características da personalidade, que

capítulo 3 • 68
já sabemos serem aspectos habituais dos comportamentos dos indivíduos. Elas são
apenas exemplificativas e não temos a pretensão de esgotar um assunto tão amplo.
Escolhemos apenas quatro características, considerando a importância que
apresentam para a relação cliente-profissional. Recomendamos, para maior apro-
fundamento deste tema, a leitura do capítulo 6 do Livro Psicologia aplicada ao
Direito de Fiorelli; Fiorelli; Malhadas Junior (2017).

Essa característica é manifestada pelo senso de dever e


perseverança no cumprimento de princípios e valores. Le-
vada ao extremo, pode chegar a comportamentos inflexí-
CONSCIÊNCIA SOCIAL veis, dificultando, no caso da prática jurídica, a realização
de acordos. É perigoso, também, quando não existe esta
consciência porque pode levar a um egocentrismo, em que
o indivíduo ignora as pessoas.
Essa característica manifesta-se pela disponibilidade para
experimentar situações novas, lidar com o desconhecido,
tentar o novo. Em excesso, pode levar a comportamentos
OUSADIA arriscados, não assumindo os riscos de suas atitudes, mui-
tas vezes colocando em segundo plano os aspectos práti-
cos da situação. O oposto, que é a excessiva praticidade,
pode representar um obstáculo para a criatividade.
Essa característica manifesta-se pela manutenção de um
estado. A pessoa conservadora inibe a criação de opções
porque está presa às tradições. O conservadorismo é uma
CONSERVADORISMO limitação, mas está associado à segurança e pode apresen-
tar forte ligação na defesa de princípios ou valores como as
características de consciência social.
Apesar de ser uma característica agradável, deve-se ter
cuidado porque pode levar as pessoas que cercam o oti-
OTIMISTA mista a subestimar dificuldades e não dar atenção para
possíveis fragilidades.

O que é o comportamento anormal?

A conduta humana é variável de acordo com regras sociais e padrões de com-


portamento adquiridos a partir da relação do indivíduo com determinado meio.
É importante entendermos que certos comportamentos diferenciados da maioria
das pessoas de certa cultura podem ser considerados “anormais” para outra cultura.
Em nossa cultura, para distinguirmos a “normalidade” da “anormalidade”
costumamos escolher um sistema de categorização reconhecido pela comunidade

capítulo 3 • 69
científica para classificarmos os quadros clínicos e realizarmos hipóteses diagnós-
ticas sobre o estado de saúde mental das pessoas. Em nossa aula, escolhemos a
Classificação Internacional de Doenças (CID-10)20, lembrando que essa esco-
lha não quer dizer que os outros sistemas classificatórios apresentem menor va-
lor científico.
Durante muito tempo, o comportamento “anormal” era considerado
produto de doença mental. Algumas teorias diziam que o cérebro de uma pessoa
“anormal” era diferente. Existiram épocas em que o comportamento “anormal” foi
considerado obra de demônios e de bruxarias. Algumas correntes da Psiquiatria
defendem que o conceito de doença mental é um mito. De acordo com Szasz. A
maioria das pessoas possui ideias preconcebidas do que seja um comportamento
anormal. No entanto, temos de entender quais são os padrões que nos levam a
concluir sobre a anormalidade. A divergência de opiniões sobre a anormalidade é
o resultado dos diferentes padrões que as pessoas usam para chegar a esta definição.
Em geral, temos as normas sociais, estatísticas e pessoais.
Em relação às normas sociais, podemos dizer que elas regem nosso
comportamento. Precisamos destas regras para estabelecer os padrões de
convívio, punir os comportamentos que se desviam destes padrões e reforçar
os comportamentos desejáveis. Nesse caso, a pessoa “anormal” não conseguiria
satisfazer as normas de conduta em seu meio. As leis estabelecem objetivamente
as normas de conduta. Sendo assim, uma pessoa com formação jurídica definiria
o sujeito “anormal”, como aquele que infringe as leis. Por exemplo, o cidadão
que trafica, rouba, furta, violenta, assassina alguém, de acordo com estas normas,
seria considerado anormal porque descumpre a lei. No entanto, caso um
homem ande pelas ruas vestido de noiva, falando sozinho, não pode ser preso
por causa desta atitude, mas seu comportamento seria apenas estranho para os
padrões sociais.
Quando falamos de normas estatísticas, estamos considerando como
“anormais” aqueles comportamentos que, quantitativamente, divergem da média
das pessoas em um local. A forma de estabelecermos qual é o comportamento
“normal” e o “anormal” é dada pela determinação do comportamento médio das
pessoas, a partir de uma amostra de sujeitos deste local. As normas devem estar bem
definidas, mas caso isso não ocorra, teremos dificuldades nesta identificação. Além
20  A Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (também conhecida como
Classificação Internacional de Doenças – CID 10) é publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e visa
padronizar a codificação de doenças e outros problemas relacionados à saúde. Disponível em: <https://pt.wikipedia.
org/wiki/Classifica%C3%A7%C3%A3o_Estat%C3%ADstica_Internacional_de_Doen%C3%A7as_e_Problemas_
Relacionados_com_a_Sa%C3%BAde>. Acesso em: 1 abr. 2017.

capítulo 3 • 70
disso, existem os casos especiais, por exemplo, um profissional da área de saúde
que precisa constantemente lavar suas mãos, dentro de um critério estabelecido
pela média, estaria realizando um comportamento “anormal”, no entanto, dentro
de sua atividade profissional, esta classificação não ocorreria.
Em relação às normas pessoais, a autoavaliação e a autolinguagem das pessoas
poderão ser indicadores de que a pessoa está fora dos padrões da “normalidade”. As
normas pessoais, ao mesmo tempo que são as mais simples, são as mais complexas
porque dependem do grau de sensibilidade das pessoas para perceberem seus
estados emocionais. Thomas Szasz (1961), professor de Psiquiatria e autor de
vários livros nesta área, defendia a ideia de que o conceito de doença mental é mito.
Para ele, a ideia de difusão e rotulação da doença mental atendia muito mais aos
interesses mercadológicos da Psiquiatria do que a uma realidade psicopatológica.

Saúde mental e transtorno mental

Segundo Kaplan e Sadock (1993), é mais aceitável a pessoa ser portadora de


um problema médico ou cirúrgico do que um problema mental. A hipótese de
transtorno mental, muitas vezes, acarreta reações e preconceitos imprevisíveis do
próprio indivíduo, de seus familiares e seus colegas, devido à falta de informa-
ção e preconceito. Os transtornos orgânicos e mentais sofrem transformações, ao
longo do tempo, em suas características e seus diagnósticos. Muitos deles, pouco
presentes em épocas passadas, tornaram-se frequentes, atualmente, os transtornos
associados ao estresse.
Podemos entender que as mudanças sociais provocam transtornos que
permanecem socialmente adaptados. Cada momento histórico tem sua
própria síndrome.
De acordo com Fiorelli; Fiorelli; e Malhadas Junior (2015), entende-se
como um indivíduo “mentalmente saudável” aquele que apresenta as seguintes
características (p. 236):
•  Compreende que não é perfeito;
•  Entende que não pode ser tudo para todos;
•  Vivencia uma vasta gama de emoções;
•  Enfrenta desafios e mudanças da vida cotidiana;
•  Sabe procurar ajuda para lidar com traumas e transições importantes (não
se considera onipotente).

capítulo 3 • 71
O termo “transtorno mental” utilizado no lugar de doença, é um critério ado-
tado pelo CID-10, no qual se entende que o problema ou o conflito social sem
o comprometimento do funcionamento do indivíduo não deve ser considerado
transtorno mental (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 1993, p. 5).
Segundo esta Organização (OMS,1993), o funcionamento do indivíduo apresen-
ta comprometimento quando:
•  Funções mentais superiores21 apresentam-se comprometidas dificultando
ou acarretando problemas no comportamento do indivíduo;
•  As atividades de vida diárias, geralmente necessárias para a integração do
indivíduo com o ambiente, estão comprometidas, de alguma forma.

Estas situações anteriormente descritas não permitem que o indivíduo atue


dentro dos padrões de normalidade de seu meio e cultura, sendo perceptíveis para
as outras pessoas. Muitas vezes, há o acobertamento dos transtornos mentais pelas
doenças orgânicas, fazendo as pessoas buscarem assistência médica contínua, sem
obter resultados satisfatórios.

Transtornos mentais

Vamos passar para a descrição de alguns transtornos mentais, de fácil


identificação, e que podem ser encontrados no ambiente de trabalho do advogado.
Não vamos fazer descrições muito técnicas e exaustivas, porque queremos
apenas dar condições mínimas para que você possa identificá-los e, a partir daí,
orientar seus clientes ou seus familiares, dependendo do caso, na procura de uma
ajuda especializada.
É importante entender que as pessoas possuem diferentes capacidades para
suportar estímulos e várias formas de reagir a eles. Desta forma, algumas pessoas
passam por situações traumáticas e, supostamente, insuportáveis, sem nenhum
comprometimento físico ou mental. Ultrapassam estes momentos, aprendem com
eles e amadurecem. Outras pessoas vivem as mesmas situações e passam a apre-
sentar transtornos, que se não forem tratados aumentam de intensidade e podem
chegar a impedir a relação do indivíduo com os outros e com o meio. A essa capa-
cidade individual de passar por situações traumáticas, chamamos de resiliência22.
21  percepção, atenção, linguagem, pensamento e emoção. Disponível em <http://www.administradores.com.br/
artigos/negocios/funcoes-mentais-superiores/32986/>. Acesso em: 4 abr. 2017.
22  é a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à
pressão de situações adversas – choque, estresse etc. – sem entrar em surto psicológico, emocional ou físico, por

capítulo 3 • 72
Alterações da personalidade

As alterações da personalidade podem ser descritas como modificações dos


padrões de comportamento, segundo Fiorelli; Fiorelli; Malhadas Junior (2015),
em geral, acarretadas por estresse prolongado. Vários fatores podem ocasionar
estas alterações como: demissões, alterações significativas no trabalho; mudanças
de atribuições, autoridade e responsabilidade; separações conjugais; falecimentos
de cônjuges, filhos, outros parentes e amigos.
De acordo com Kaplan; Sadock (1993), alguns indivíduos “desenvolvem
padrões de comportamento profundamente arraigados e permanentes,
manifestando-se como respostas inflexíveis a uma ampla série de situações pessoais
e sociais. (p. 196)
Podemos falar de transtorno de personalidade quando esta inflexibilidade, sem
nenhuma associação à doença cerebral ou outro tipo de transtorno mental, torna-
se inflexível, causando comprometimento no seu desenvolvimento funcional,
social e ocupacional. Uma ou mais características da personalidade predominam,
condicionando os comportamentos da pessoa, que não apresenta capacidade de
adaptação às situações de sua vida.
É importante lembrar que, em condições normais, todas as características
de personalidade se manifestam, alternando, para administrar as situações nos
diferentes momentos. Quando falamos de transtorno de personalidade, há uma
predominância de uma ou outra característica, independentemente da situação
vivida. Há perda da flexibilidade para agir de acordo com o momento.
Vamos apresentar os transtornos de personalidade, seguindo a classificação do
CID-10 (Classificação Internacional de Doenças). É claro que estes quadros serão
apresentados apenas para que você tenha conhecimento de como os transtornos
de personalidade se manifestam e fique atento para estabelecer estratégias para
que estas pessoas não se prejudiquem, não prejudiquem os outros, ou até mesmo,
o andamento do processo. Ao suspeitar de que uma pessoa apresenta algum pro-
blema emocional, o advogado deve orientar a pessoa a buscar ajuda psicológica.

encontrar soluções estratégicas para enfrentar e superar as adversidades. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/
wiki/Resili%C3%AAncia_(psicologia)>. Acesso em: 4 abr. 2017.

capítulo 3 • 73
O indivíduo interpreta de maneira errada ou distorce as
ações de outras pessoas. Está sempre percebendo com
desconfiança o comportamento das pessoas, mesmo que
estes sejam amistosos ou neutros. Costuma guardar rancor,
TRANSTORNO DE não perdoa injúrias ou ofensas e, desta forma, é comum bus-
PERSONALIDADE car a via judicial para conseguir suas reparações. Há uma
PARANOIDE desconfiança sistemática e excessiva em relação às pes-
soas. Quando busca auxílio para a solução de seus conflitos,
relaciona várias pessoas que poderiam estar apresentando
comportamentos de perseguição, calúnias, e, até mesmo,
criando planos para prejudicá-lo.
Há uma grande diferença entre o seu comportamento e as
normas e regras da sociedade. São pessoas que estão, com
frequência , com problemas com a lei, violando os direitos
dos outros e agindo com deslealdade. É muito observador,
TRANSTORNO DE e alguns apresentam a habilidade de identificar as pessoas
PERSONALIDADE que servirão aos seus propósitos. Os argumentos em rela-
ANTISSOCIAL ção à moral não fazem sentido porque as pessoas que os
seguem são “bobos” e merecem ser prejudicados. Segundo
Fiorelli; Fiorelli; Malhadas Júnior (2015), são pessoas com
baixa tolerância à frustração, racionalizam as situações e
não aprendem com a punição.
São pessoas que são incapazes de tomar decisões, ter ini-
TRANSTORNO DE ciativa e assumir responsabilidades. Quando é obrigado a
PERSONALIDADE decidir, toma muito cuidado, faz muitas perguntas e pede
DEPENDENTE muitos conselhos, podendo se tornar alvo de pessoas sem
escrúpulos.
Esses indivíduos apresentam como característica o isola-
TRANSTORNO DE mento. É uma pessoa fria, arredia e não retribui qualquer ma-
PERSONALIDADE nifestação de afeto. Em relação à justiça, é um cliente difícil
ESQUIZOIDE porque pode fazer concessões apenas pelo fato de não ter
disposição para se relacionar com as pessoas.

TRANSTORNO DE Há um distanciamento social, mas ao contrário do esqui-


zoide, ocorre o desejo de um relacionamento afetivo, mas a
PERSONALIDADE impossibilidade de realizá-lo. O afastamento social é acarre-
ANSIOSA tado pelo medo da rejeição, crítica ou não aprovação.

TRANSTORNO DE Neste caso, há predomínio da falta de controle dos impulsos.


A pessoa pode ter acessos de raiva, quando criticada, ou até
PERSONALIDADE mesmo, um comportamento ameaçador. Muitas vezes, suas
EMOCIONALMENTE atitudes são autodestrutivas, com relacionamentos instáveis
INSTÁVEL e intensos.

capítulo 3 • 74
A pessoa apresenta-se de forma sedutora, buscando sem-
TRANSTORNO DE pre a aprovação e elogios dos outros. Suas emoções são
PERSONALIDADE expressas de forma exagerada e inadequada. Quando não é
HISTRIÔNICA o centro das atenções, sente-se desconfortável. Tem relacio-
namentos interpessoais exagerados, que não a gratificam.
É uma pessoa muito detalhista e preocupada com tudo que
TRANSTORNO DE a cerca. Apresenta rigidez, obstinação, excesso de escrúpu-
PERSONALIDADE los, e um forte senso de defesa de seus direitos. Não tem
ANANCÁSTICA muitos amigos ou colegas de trabalho, porque suas atitudes
o fazem parecer superior e desagradável aos outros.

Na maioria das situações, os transtornos de personalidade chamam a atenção,


distorcem a percepção dos observadores e dos profissionais que se deparam com
estas pessoas. Vamos entender outros comportamentos, considerados fora dos
padrões da normalidade, que apresentam outras classificações.

Transtorno de ansiedade

Estes transtornos são aqueles que se acham mais interligados com o estresse. Em
muitas ocasiões, a combinação de manifestações psicológicas e orgânicas aumenta
a tensão e a instabilidade emocional da pessoa, interferindo em seu desempenho.
Alguns sintomas podem ser exemplificados, segundo Fiorelli; Fiorelli; e, Malhadas
Júnior, como:
•  Expectativa do pior, frente a qualquer notícia;
•  Sensação de tensão, irritação e impossibilidade para relaxar, podendo levar
a dificuldades com o sono;
•  Dificuldade de concentração nas atividades, associada a alterações
na memória.

Em certos casos, é comum o aparecimento de queixas orgânicas como: hi-


pertensão, taquicardia, distúrbios gástricos, entre outros. Podem acontecer pen-
samentos ruminativos, em que a pessoa não consegue pensar em outro assunto, a
respeito de certas situações.

Transtorno obsessivo-compulsivo

Este transtorno tem sido objeto de vários filmes por causa dos famosos rituais
aos quais as pessoas se veem submetidas. Podemos definir a obsessão como uma per-
sistência patológica de um pensamento ou sentimento irresistível, sempre associado

capítulo 3 • 75
à ansiedade e que não pode ser eliminado da consciência pelo esforço da lógica
(FIORELLI; FIORELLI; MALHADAS JUNIOR, 2015, p. 239). O indivíduo
procura afastar este pensamento ou sentimento, sem sucesso. A obsessão pode vir
associada a uma compulsão, que seria considerada como aquele comportamento
ritualístico que envolve a repetição de um comportamento estereotipado. Seu obje-
tivo é proteger o indivíduo da possibilidade de ocorrência de um evento improvável.
Podemos exemplificar estas duas situações pela situação em que uma pessoa cria a
ideia de que os objetos em seu trabalho estão contaminados. A cada manuseio de
um objeto tem de ir ao banheiro lavar as mãos, caso contrário poderá contrair uma
doença grave. No trabalho, esta situação envolverá uma baixa produtividade e na
família estas atitudes poderão limitar a liberdade das pessoas.

Transtorno de estresse pós-traumático

Este transtorno, que ocorre após um evento traumático, acarreta uma série
de consequências para as pessoas, nem sempre atribuídas pelo trauma, porque
surgem de forma tardia em relação a este fato. Podemos encontrar como exemplos:
•  Paralisação brusca das atividades, com períodos de afastamentos acarretados
pelo estado físico ou emocional;
•  Alterações comportamentais que afetam o relacionamento com as pessoas;
•  Dificuldade de reiniciar suas tarefas, em razão das alterações
comportamentais;
•  Incapacidade de realizar certas tarefas que antes eram realizadas
com facilidade.

Muitas vezes, as consequências sobre as características de personalidade podem


ser sérias, por exemplo, uma pessoa era extrovertida e independente, pode tornar-
se introvertida e dependente dos outros.

Mania

A pessoa maníaca vê apenas o lado favorável das situações. Este otimismo


exagerado pode fazer a pessoa ter desatenção para certos aspectos importantes, que
poderão prejudicá-la. Em certas ocasiões, estes indivíduos podem comportar-se
como se tivessem poderes especiais. A sua autoestima aumentada e a falta de con-
trole sobre os seus atos podem se manifestar por gastos exagerados, que poderão
trazer problemas judiciais.

capítulo 3 • 76
Depressão

A depressão afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Os efeitos da depressão


são bastante conhecidos de todos nós. O transtorno depressivo compromete, de
forma parcial ou total, as atividades do indivíduo e a sua capacidade para assumir
a sua vida, sendo o suicídio o seu gesto mais extremo. Na depressão, há profunda
desesperança, além de se responsabilizar por tudo o que ocorre de mau em seu
meio. Alguns sinais da depressão podem ser:
•  A pessoa não sente prazer e perde o interesse pelas atividades que realizava;
•  A sua visão de mundo é realizada pelo pessimismo: o mundo é ruim;
•  O indivíduo aparenta eterna tristeza e infelicidade;
•  Pode apresentar variação no apetite;
•  No início do dia seu humor está péssimo e melhora no decorrer do dia;
•  Há lentidão nos seus movimentos e no seu discurso, limitando-se a
poucas palavras.

Perturbações do pensamento e da percepção

Existem situações em que a pessoa apresenta distorções do pensamento e da


percepção, mesmo que a consciência e a inteligência permaneçam preservadas.
Podemos descrever algumas situações como:
•  A pessoa percebe que forças sobrenaturais interferem em suas ações;
•  Há a percepção pelo indivíduo de que tudo o que acontece é por
sua influência;
•  Algumas pessoas conseguem penetrar no seu pensamento e alguns atos que
gostaria de realizar já são do conhecimento de todos;
•  A pessoa pode perceber coisas e objetos que não existem e agir como se
fossem reais;
•  O indivíduo pode sentir-se perseguido por uma pessoa e por isso deve
cometer atos infracionais, em relação a ela.

Quando a pessoa dá sinais de que perdeu o contato com a realidade, criando


uma visão de mundo distorcida, há necessidade do encaminhamento para um
psiquiatra, para a avaliação do seu quadro clínico e da necessidade de alguma me-
dicação. São situações complexas que envolvem inclusive a própria capacidade do
indivíduo para tomar decisões em relação à sua própria vida.

capítulo 3 • 77
Lei 10.216 de 6 de abril de 2001 – Lei antimanicomial

Você sabia que o portador de transtornos mentais tem uma lei especial que o
protege? Em 1987, surgiu o Movimento da Luta Antimanicomial, fruto de um
Encontro Nacional de Trabalhadores da Saúde Mental. Seu lema era “por uma
sociedade sem manicômios”. Nesta época, várias denúncias foram realizadas em
relação a abusos e violações dos direitos dos portadores de transtornos mentais,
principalmente, dentro das instituições psiquiátricas.
A luta era pelo fim da internação e a criação de tratamentos alternativos. Um
dos resultados desse movimento foi a criação da lei 10.216, em 2001, também
conhecida como lei antimanicomial ou lei Paulo Delgado. Esta legislação determi-
nou o fechamento progressivo dos hospitais psiquiátricos e a instalação de serviços
substitutivos.
A partir deste momento, o Brasil vem eliminando, gradativamente, as inter-
nações e substituindo-as pelos serviços dos Centros de Atenção Psicossociais, re-
sidências terapêuticas, programas de redução de danos, Centros de Convivência,
oficinas de geração de renda, entre outros programas. Para que você conheça um
pouco mais, disponibilizamos a lei nos links selecionados deste capítulo.

ATIVIDADES
01. Os conceitos centrais no pensamento freudiano para entender como funciona a psique
humana são
a) imaginação, superação de si e traumas. d) sonhos, traumas e anomalias.
b) consciência e traumas reais. e) Ego, Id e Superego.
c) consciência e realidade latente.

02. A lei 10.216, denominada Lei da Reforma da Assistência Psiquiátrica, dispõe que a
internação psiquiátrica deve
a) em todas as suas formas, ser determinada por profissional de saúde mental não médico.
b) em todas as suas formas, ser determinada por juiz de direito.
c) em todas as suas formas, ser determinada por psiquiatra.
d) em todas as suas formas, ser determinada pela autoridade policial.
e) em todas as suas formas, ser determinada pela autoridade administrativa.

capítulo 3 • 78
MULTIMÍDIA
Não deixe de assistir ao vídeo sobre Id, Ego e Superego para aprofundar os seus
conhecimentos em relação a esta teoria sobre a formação da personalidade. Disponível em:
<http://psicoativo.com/2015/12/o-que-e-ego-para-freud.html>. Acesso em: jun. 2008
Assista ao vídeo do Dr. Thomas Szasz sobre a Psiquiatria. É realmente uma conferência
que nos fará pensar sobre as questões relacionadas aos transtornos mentais e seus
tratamentos. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=uE0mysIHvvg>. Acesso
em: 2 abr. 2017.

LEITURA
Artigos
ARAUJO, M. E. da S. As teorias da personalidade: uma abordagem ampla e ontológica.
In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XIII, n. 78, jul 2010. Disponível em: <http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=8046>. Acesso
em: mar 2017.
DELGADO, P. G. G. Saúde Mental e Direitos humanos. Disponível em: <http://pepsic.
bvsalud.org/pdf/arbp/v63n2/12.pdf>. Acesso em: 4 abr. 2017.
MARCIANO, Carlos Eduardo. O transtorno mental ou psicológico nas relações
de trabalho e o dever de indenizar por parte do empregador. In: Âmbito Jurídico,
Rio Grande, XVIII, n. 139, ago 2015. Disponível em: <http://www.ambitojuridico.com.br/
site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=15810&revista_caderno=25>. Acesso em:
abr. 2017.
NARCISO, L. S. Habilidades pessoais e interpessoais do advogado no contexto
interpessoal. Disponível em: <http://webartigos.com/artigos/habilidades-pessoais-e-
interpessoais-do-advogado-no-contexto-interpessoal/115348>. Acesso em: 28 mar. 2017.
SOUZA, C. A. C. de; MORETTO, C. P.; CORNELLIS, F. Transtorno de personalidade
antissocial: pena ou medida de segurança? Disponível em: <http://www.polbr.med.br/
ano06/artigo0806.php>. Acesso em: 28 mar. 2017.
SCHWARTZMAN, R. S. Psiquiatria, psicanálise e psicopatologia. Psicol. cienc. prof.
v. 17 n. 2 Brasília, 1997. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttex-
t&pid=S1414-98931997000200005>. Acesso em : 1 abr. 2017.

capítulo 3 • 79
CONEXÃO
Visite a página do Laboratório de Estudos sobre a personalidade da Universidade de
São Paulo. Disponível em: <http://www.ip.usp.br/portal/index.php?option=com_conten-
t&view=article&id=2194%3Alep-links-de-interesse&catid=353&Itemid=199&lang=pt>.
Acesso em: jun. 2018.

Leia a Lei Antimanicomial. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/


leis_2001/l10216.htm>. Acesso em: 4 abr.2017.

Visite a página do Professor Universitário Paulo Gabriel Godinho Delgado, sociólogo, pós-
graduado em ciências políticas, deputado federal por seis mandatos a partir da Constituinte
iniciada em 1987. Disponível em: <http://www.paulodelgado.com.br/lei-n%C2%BA-10-
216-de-6-de-abril-de-2001/>. Acesso em: 4 abr. 2017.

CURIOSIDADE
Identidade versus Personalidade
Muito se fala e se confundem os conceitos de personalidade e identidade, mas quais são
as principais semelhanças e diferenças?
Ao longo do tempo, os conceitos de personalidade e de identidade, confundem-se pelo
senso comum, porem ambas são conceitos muito diferentes, entre si.
Personalidade: O conceito de personalidade é complexo, podemos encontrar varias de-
finições, originadas em várias teorias ou mesmo várias “escolas de pensamento”. Não existe
uma definição exata e completa, tendo em conta as várias teorias e as várias perspecti-
vas existentes.
De forma generalista e resumida, personalidade é uma organização interna e dinâmica
do sistema psicológico, com todos os seus componentes. Esta mesma organização define
padrões relativamente coerentes de comportamentos, atitudes, pensamentos, sentimentos
e emoções. Esse padrão embora alterável constrói-se e reconstrói-se de forma gradual. Os
elementos e componentes que a vão constituindo, inicialmente é mais um elemento, mas
posteriormente contribui para a integração do próximo componente ou experiência.

capítulo 3 • 80
A personalidade é:
• Uma organização, um todo, funcionando como um conjunto e não como um conjun-
to de partes individuais;
• Dinâmica, embora geralmente não se altere radicalmente, está longe de ser consi-
derada estática ou mesmo imutável;
• Psicológica, mas intimamente relacionada com o corpo e os seus processos;
• O “filtro” entre a pessoa e o mundo, definindo a forma como se relaciona com o
mundo interno e externo;
• Um constructo analítico e abstrato, não existindo fisicamente, expressando-se
unicamente em padrões de comportamento, pensamento e emoções.

A identidade é
• O conjunto total das nossas características próprias que nos fazem únicos e exclu-
sivos, diferentes de todos os outros seres humanos e todos os outros animais;
• O que nos faz únicos e exclusivos do resto das pessoas são muito mais que ca-
racterísticas psicológicas. A identidade é o conjunto de características psicológicas, físicas,
culturais etc. Não existe identidade perfeita, mas sim identidade mais ou menos adaptada ao
meio envolvente;
• A identidade é o que nos define quem somos, bem como a nossa missão. Ela diz
aos outros e a nós, quem somos e para onde vamos. Identidade é única e absoluta em si
mesmo. Não tem sentido encontrar duas pessoas com identidades semelhantes, podemos
encontrar pessoas que partilham a mesma cultura, de personalidades semelhantes, fisica-
mente semelhantes etc., mas não a identidade;
• Em termos de comparação, a personalidade é um conjunto de elementos e compo-
nentes psicológicos, enquanto a identidade é o conjunto de elementos, sendo a personalida-
de um deles;
• Existem instrumentos que avaliam a personalidade, mas não que avaliam
a identidade.
E você, conhecia a diferença?
Disponível em: <http://www.psicologiafree.com/curiosidades/identidade-vs-
personalidade/>. Acesso em: 5 nov. 2017.

capítulo 3 • 81
O Holocausto Manicomial 2: trechos da história velada do Juquery
©© CLAUDIO EDINGER

Considerado um dos maiores hospícios do Brasil, o Asylo de Alienados do Juquery – pro-


jetado por Ramos Azevedo e fundado por Franco da Rocha em 1898 em São Paulo –, abriga
mais de um século de história (velada) de mortes, torturas e maus tratos.
Na inauguração o hospital tinha 80 pacientes, muitos sem diagnóstico algum de doen-
ça mental23, representantes de um setor improdutivo e inútil da sociedade:. Não havia um
diagnóstico preciso dos problemas mentais. Conviviam no mesmo ambiente esquizofrênicos,
alcoólatras, pessoas com síndrome de Down, usuários de drogas ilícitas… a lista vai longe!
Até presos políticos foram parar lá dentro e morreram sem que ninguém soubesse onde fo-
ram enterrados. No início do século 20, imigrantes japoneses chegavam ao porto de Santos
e só porque tinham os olhos puxados eram considerados diferentes e acabavam internados
no Juquery. A política da época era limpar as ruas e eliminar aquilo que parecesse diferente
e não se enquadrasse nos padrões de normalidade da sociedade24.
No seio da medicina social constituiu-se a psiquiatria brasileira no final do século XIX,
convencionalmente definida como uma especialidade que se ocupava do diagnóstico e do
tratamento das doenças mentais, mas que no início do século 20 estruturou-se na biologi-
zação dos comportamentos e na prevenção eugênica. O Juquery atendia exatamente a essa
política de sanitarismo, higienismo, controle social e segurança, lógica esta de neutralização
dos “inúteis-inferiores” para que não se reproduzissem e não atrapalhassem o avanço das
raças “superiores”.

23  A mesma realidade exposta no primeiro texto da série que retratava a história do hospital psiquiátrico de
Barbacena/MG. Ver: O holocausto manicomial.
24  SONIM, Navarro Daniel; FARIAS, Walter. O Capa-Branca – de funcionário a paciente de um dos maiores
hospitais psiquiátricos do Brasil. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2014. “No livro O Capa-Branca, o jornalista
Daniel Navarro Sonim reuniu, a partir de manuscritos e entrevistas, as experiências de vida de Walter Farias, ex-
funcionário que se transformou em paciente, na década de 1970, do Complexo Psiquiátrico do Juquery. Aprovado
no concurso público para atendente de enfermagem, Walter é designado para cuidar de pacientes acamados ou que
perambulam, alheios à realidade, pelos corredores das clínicas do Hospital Psiquiátrico. A vida do protagonista de O
Capa-Branca começa a tomar outro rumo depois da repentina transferência para o Manicômio Judiciário, onde ele
convive com pacientes que cometeram crimes. A rotina no manicômio abala sua sanidade e o obriga a abandonar
seu trabalho. Dali em diante, ele tem que se internar. Ao se tornar mais um paciente do Juquery, passa a sentir na
pele os horrores daquele lugar”.

capítulo 3 • 82
Em 1922, foi inaugurado um pavilhão de menores, chegando ao número de 3.520 crian-
ças em 1957. Entre 1957 e 1958, o número de pacientes passou de 7.099 para 11.009;
e, neste último ano, atingiu a marca de 14.000 internados. Em 1981, o complexo contava
com 4.200 pacientes entre o Juquery e o Manicômio Judiciário, instalados na mesma área25.
Sobre as “terapias” utilizadas no hospital, além da Malarioterapia, outras terapias foram
aplicadas, como as injeções de substâncias químicas como o protinjetol, o sulfurpiretógeno, o
“Dmelcos”, injeções de leite, cálcio etc. Foi a terapia biológica mais utilizada no Juquery, mas
foi perdendo força com o uso das demais terapias biológicas e finalmente com o advento
dos psicofármacos e dos antibióticos (…). No final da década de 1930, o choque cardiazó-
lico foi introduzido. Este inaugurou as “terapias convulsivantes” que pretendiam curar casos
de esquizofrenia e de diversas psicoses. Inicialmente essa forma terapêutica era ministrada
por injeções de cânfora e, por provocar uma crise convulsiva mais forte, foi substituída pela
injeção de cardiazol26.
Nas festividades (?) dos cem anos do hospital (final dos anos 1990), o perfil dos internos
do Juquery não era muito diferente do da inauguração. Dos 1.670 pacientes, apenas 25%
eram “doentes mentais”. Internados há muitas décadas os pacientes eram ociosos, deslocan-
do-se apenas para comer, dormir e, esporadicamente, tomar banho de sol. As queixas de má
alimentação e falta de higiene ainda eram constantes. Estes cem anos ferem, envergonham
e criam dívida com a história da humanidade. Eles têm a marca e a identidade do sofrimento
humano27.
Ressaltamos que no início dos anos 2000 (antes da promulgação da Lei Antimanico-
mial), o Brasil detinha o título de país com o maior parque manicomial do mundo28, com
quase 100 mil pacientes confinados. Nesse período, o Juquery somava um histórico de
25  CREMESP – Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo.
26  TARELOW, Gustavo Querodia. Humores, choques e laboratórios: o Juquery administrado por Pacheco e
Silva (1923-1937). Disponível em: <http://www.anpuhsp.org.br/sp/downloads/CD%20XX%20Encontro/PDF/
Autores%20e%20Artigos/Gustavo%20Querodia%20Tarelow.pdf>. Acesso em: jun. 2018.
27  Dados fornecidos por Isabel Cristina Lopes, psicóloga e fundadora da Associação SOS Saúde Mental. Na
época ela concedeu uma entrevista revelando os bastidores do Juquery. Disponível em: <http://www.crpsp.org.br/
PORTAL/comunicacao/jornal_crp/113/frames/fr_denuncia.aspx_>. Acesso em: jun. 2018.
28  Números inflacionados, sobretudo, durante a ditadura militar. Com as mudanças efetivadas na sociedade
brasileira a partir do golpe militar de 1964, a assistência à saúde foi caracterizada por uma política de privatização
maciça. No campo da assistência psiquiátrica, fomentou-se o surgimento das “clínicas de repouso”, denominação
dada aos hospitais psiquiátricos de então, além de métodos de busca e internamento de pessoas. Desse modo,
passa a prosperar a recém-criada e rentável “indústria da loucura”. Nos anos seguintes, o número de hospitais
psiquiátricos e leitos contratados aumentou. Além disso, com o desenvolvimento da industrialização no Brasil após
1964 e com a intensificação do modelo tecnocrata e capitalista de produção, adotado pela ditadura militar, se
favorece o crescimento de uma forte indústria farmacêutica, que fomenta a necessidade de um “mercado interno
compensador”. Assim, em 1964, tínhamos 74 manicômios e no final da ditadura os números subiram para 395.
(COSTA, Augusto César de Farias. Direito, Saúde Mental e Reforma Psiquiátrica. In: Ministério da Saúde, Secretaria
de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Departamento de Gestão da Educação na Saúde; ARANHA, Márcio
Iorio (Org.). Direito sanitário e saúde pública. Coletânea de textos. v. I. Brasília: Ministério da Saúde, 2003).

capítulo 3 • 83
120 mil pacientes e só num período de 10 anos – entre as décadas de 1970 e 1980 – che-
gou a abrigar entre 16 e 20 mil pacientes.
Enquanto o Brasil “comemorava” os 100 anos (de torturas e mortes) do funcionamento
do Juquery, a Declaração Universal dos Direitos Humanos fazia 50 anos. No ato em que se
festejava que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos;
que todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal; e que ninguém
será submetido à tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
Contraditoriamente, muitos aplaudiam a perpetuação do genocídio e desejavam, certamente,
votos de muitos anos de vigência da barbárie manicomial.
Em 2005, houve um incêndio que atingiu o setor administrativo do hospital, a biblioteca e
destruiu praticamente todos os registros de internação. Afirmam ex-funcionários que nesses
livros constavam uma média de 33.977 óbitos. No meio destes, estavam dois mil menores,
dentre eles: adolescentes, crianças e natimortos29. O incêndio impediu uma série de investi-
gações e comprovações documentais do genocídio que ali ocorreu.
Atualmente, o hospital vive um processo de desativação que já dura uma década. Vários
já foram transferidos para residenciais terapêuticos e instituições no interior com melhores
condições de acolhimento, mas ainda não há uma política eficiente que atenda as diretrizes
da Reforma Antimanicomial (lei 10.216/01). Os que continuam lá internados são pessoas
“cronificadas” que estão há mais de 30 anos e não possuem condições para reinserção so-
cial, devido à ausência dos familiares30.
No mundo dos cadáveres adiados, o que se pode depreender é que a “morte” de cada
“malvivente” surte efeitos farmacêuticos sobre os bem-viventes31. E é importante que se diga
o óbvio: o Estado diariamente psiquiatriza o perigo público, enjaula e joga a chave fora.
Thayara Castelo Branco é Advogada. Mestre e Doutoranda em Ciências Criminais pela
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), com área de pesquisa em
Violência, crime e Segurança Pública.

29  Não se sabe ao certo a origem dessas crianças no hospital. Mas acredita-se, como ocorreu em Barbacena, que
elas são frutos da violência sexual interna e dos casos de mulheres que já chegavam grávidas no local. Há inclusive
um caso muito significativo: duas crianças de dez dias, registradas como filhos de internas, que morreram no mesmo
dia e sem atestado de óbito. Disponível em: <http://www.crpsp.org.br/PORTAL/comunicacao/jornal_crp/113/
frames/fr_denuncia.aspx_>. Acesso em: jun. 2018.
30  Informações da Secretaria de Saúde de São Paulo.
31  Informações da Secretaria de Saúde de São Paulo.

capítulo 3 • 84
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BECK, A; FREEMAN, A. Terapia cognitiva dos transtornos de personalidade. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1993.
BRASIL. LEI 10.216, DE 6 DE ABRIL DE 2001.Dispõe sobre a proteção e os direitos das
pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde
mental. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm>. Acesso
em: 4 abr. 2017.
CAMPBELL, J. B.; HALL, C. S.; LINDZEY, G. Teorias da personalidade. 4. ed. Porto Alegre: Artmed,
2000.
FADIMAN, J; FRAGER, R. Teorias da Personalidade. São Paulo: Harbra, 1986.
FIORELLI, J. O.; FIORELLI, M. R.; MALHADAS JUNIOR, M. J. O. Psicologia aplicada ao Direito. São
Paulo: LTr, 2015.
FIORELLI, J. O.; MALHADAS JUNIOR, M. J. O.; MORAES, D. L. de. Psicologia na Mediação. São
Paulo: LTr, 2004.
FIORELLI, J. O.; MANGINI, R. C. R. Psicologia Jurídica. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
JESUS, F. de. Psicologia aplicada à Justiça. São Paulo: AB Editora, 2001.
KAPLAN, H.; SADOCK, B. J. Compêndio de Psiquiatria. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 1993.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Classificação estatística internacional de doenças e
problemas relacionados à saúde. 10. ed. São Paulo: Edusp, 2007.

capítulo 3 • 85
capítulo 3 • 86
4
Psicologia e
violência: crianças,
adolescentes,
mulheres e idosos.
Psicologia e Direito
Penal
Psicologia e violência: crianças, adolescentes,
mulheres e idosos. Psicologia e Direito Penal

A palavra “violência” tem origem na palavra latina vis, que significa força,
exercer a superioridade física sobre alguém, constranger. Segundo a Organização
Mundial de Saúde (OMS, 2002, p. 5) “violência é o uso da força física ou do
poder real ou em ameaça contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um
grupo ou comunidade, que resulte ou tenha qualquer possibilidade de resultar
em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação”.
Esse conceito, como você pode observar, expressa diferentes tipos e categorias
de violência, tomando como base as suas manifestações, isto é, dirigidas da pessoa
contra si mesma (autoinfligida), violência interpessoal e violência coletiva. A
violência é um fenômeno pluricausal, sendo sua ocorrência e origem impossíveis
de serem explicadas ou compreendidas a partir de um só fator. Para que se
possa entender a violência não podemos nos esquecer dos aspectos individuais,
psicológicos, biológicos, familiares, além dos fatores econômicos, sociais e culturais.
O Direito trata da conduta humana, entretanto, todos nós sabemos que a
norma jurídica não é suficiente, muitas vezes, para inibir, comportamentos
delituosos. Até os dias atuais, há uma inquietude, nas diversas áreas do saber, em
relação ao crime e ao criminoso. Esses fenômenos abrangem amplo repertório
teórico, que necessita de variada abordagem interdisciplinar, na tentativa de
fomentar políticas públicas que possam levar à prevenção da prática criminosa.
Sabemos que nenhuma ciência atingiu, ainda, um grau de previsibilidade eficaz
no que diz respeito ao comportamento humano, mas os estudos continuam.

OBJETIVOS
•  Estudar a violência contra crianças e adolescentes;
•  Identificar os diferentes tipos de violência contra os idosos;
•  Analisar a violência contra a mulher;
•  Entender a importância da Psicologia para o Direito Penal;
•  Estudar algumas questões do Direito Penal Contemporâneo;
•  Identificar o trabalho do psicólogo no Sistema Penitenciário.

capítulo 4 • 88
Violência contra crianças e adolescentes

A violência intrafamiliar é aquela que ocorre entre os membros da família, nos


diferentes subsistemas (conjugal, parental e fraternal), especialmente, em casa, mas
não exclusivamente, nela. Essa é uma forma de violência que mais atinge crianças e
adolescentes, segundo dados da SDH (Secretaria de Direitos Humanos), cerca de
70% dos casos de violência contra crianças e adolescentes no Brasil acontece em
residências, seja da vítima ou do agressor. De acordo com Maciel e Cruz (2009),
citando dados do IBGE, os pais são os agressores, seguidos dos irmãos mais velhos.
A partir desses dados, podemos pensar que a violência é um fenômeno aprendido
nas relações interpessoais, sob condição hierárquica e disciplinar. É uma forma de
comunicação, na família, que determina regras, crenças e comportamentos.
Vários autores, como Guerra (1998), Rosa (2004), Alberton (2005),
Minayo (2006) e Cruz e Maciel (2009), classificam a natureza da violência da
seguinte forma:

Quando ocorre o uso da força física, intencional ou intenção per-


cebida, não acidental, por parte da pessoa, em relação à criança e
FÍSICA ao adolescente. O dano físico pode ir desde a imposição de leve
dor, como tapas até o assassinato.
Quando ocorrem agressões verbais ou gestuais, com o objetivo
de amedrontar, humilhar, rejeitar, restringir a liberdade ou isolar a
PSICOLÓGICA criança ou o adolescente de seu convívio social. Ocorre um abalo
na autoestima, privando, crianças e adolescentes de afeto, aten-
ção, cuidados, bem-estar, segurança e conforto.
Quando ocorre um ato ou jogo sexual, relações hétero ou homos-
sexuais, entre um adulto e uma criança ou adolescente, tendo por
SEXUAL finalidade estimular sexualmente ou obter estimulação sexual so-
bre sua pessoa ou de outrem.
quando ocorre omissão, ausência, recusa de cuidados necessá-
NEGLIGÊNCIA rios à crianças e adolescentes e esta situação não é resultado de
ausência de condições para realizá-los.

É importante chamar atenção para o fato de que a violência física contra


crianças e adolescentes é a que é mais descrita nas publicações científicas, inclusive
com descrições das diferentes repercussões. No entanto, todas as formas de violência
expressam, em algum grau, situações de desconforto, estresse, constrangimento,
sofrimento e tensão.

capítulo 4 • 89
O grau de saúde psicológica de crianças e adolescentes, vítimas de violência,
pode ser identificado pelo fator de resiliência, segundo Cruz e Maciel (2009). Este
fator é caracterizado como um processo dinâmico que envolve a capacidade de o
indivíduo em enfrentar os estresses oriundos da violência e as adversidades deste
contexto. A ocorrência dos maus-tratos ou mesmo a suspeita de ocorrência implica
a necessidade de medidas que levem à proteção da criança ou do adolescente.
De acordo com o artigo 13 e 56, I do Estatuto da Criança e do Adolescente
(1990) constata-se que o Conselho Tutelar é mencionado explicitamente como
destinatário da denúncia de maus-tratos, sendo esta obrigatória. No entanto, jun-
to ao Conselho Tutelar, como autoridades competentes para recebimento da de-
núncia de suspeita ou confirmação de maus tratos, o Poder Judiciário, o Ministério
Público e a Polícia Civil ou Militar. Segundo Elias (1994, p. 215), “autoridade
competente, no caso, tanto pode ser o Juiz da Infância e da Juventude quanto o
Ministério Público e o Conselho Tutelar. É válida, também, a comunicação feita à
autoridade policial. Importa, sobretudo que o atentado à criança ou ao adolescen-
te seja esclarecido, e os responsáveis, devidamente punidos".
Assim, cada órgão competente para recebimento da denúncia de maus-tratos
deve realizar sua atuação: o Juiz da Infância e Juventude analisa as situações de
risco e aplica as medidas protetivas e o Juiz Criminal (Juizado Especial Criminal
– JECrim e Juízo Comum) julga as infrações penais. O Ministério Público, que
fiscaliza o Conselho Tutelar, tem legitimidade para tomar medidas judiciais com
relação à suspensão ou destituição do poder familiar e para aplicação de medidas
protetivas à vítima e sua família. Além disso, é incumbido de propor a ação penal
pública incondicionada32 e a condicionada33 na representação nos casos em que a
legislação permite, para punição do agressor. Isto é, defende os direitos fundamen-
tais da criança e do adolescente previstos no art. 201, VIII do ECA (1990).
A autoridade policial investiga a conduta de maus-tratos, caso estes tenham
resultado em infração à norma penal, preparando elementos para que o Ministério
Público possa interpor a ação correspondente. O Conselho Tutelar aplica medidas
de proteção à criança e ao adolescente vítima (Art. 136, I e Art. 101 do ECA) bem
32  é a iniciada mediante denúncia do Ministério Público nas infrações penais que interferem diretamente no
interesse público. É a regra no processo penal. Portanto, independe de representação ou requisição. Disponível em:
<http://www.direitonet.com.br/dicionario/exibir/982/Acao-Penal-Publica>. Acesso em: 14 abr. 2017.
33  é a intentada mediante denúncia do Ministério Público nas infrações penais que interferem diretamente no
interesse público, mas, por esbarrar na esfera privada do ofendido, dependerá de representação deste, ou, se o
ofendido for o Presidente da República, por exemplo, de requisição do Ministro da Justiça. Com isso, a representação
e a requisição constituem condições de procedibilidade da ação penal. Disponível em: <http://www.direitonet.com.
br/dicionario/exibir/982/Acao-Penal-Publica>. Acesso em: 14 abr. 2017.

capítulo 4 • 90
como medidas aos pais (Art. 136, II e o Art. 129 do ECA); também comunica ao
Ministério Público o fato que constitua infração administrativa ou penal contra
criança ou adolescente (Art. 136, IV do ECA).
Mas vale ressaltar que o destinatário primeiro da denúncia é o Conselho
Tutelar do Município onde reside a vítima. Assim, mesmo que esta venha a
receber atendimento em outra cidade, a denúncia deve ser realizada na cidade
de origem onde ocorreram os maus-tratos. O artigo 70 do ECA direciona-se no
mesmo sentido: “É dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação de
direitos da criança e do adolescente”.
Apesar desta determinação geral, o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990)
aponta alguns responsáveis específicos pela notificação dos maus-tratos, que assim
são listados devido à sua atuação perante a sociedade e seu dever profissional de as-
segurar o tratamento digno à criança e ao adolescente. Assim, o artigo 56, inciso I,
aponta aos dirigentes de estabelecimentos de Ensino Fundamental o dever de
informar ao Conselho Tutelar os casos de maus-tratos envolvendo seus alunos.
Além do artigo citado (artigo 56, inciso I), o artigo 245 do ECA individualiza: o
médico, o professor e o responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de
Ensino Fundamental, pré-escola ou creche como responsáveis pela denúncia. No
entanto, denunciar é exercício de cidadania, sendo colocado para todos este dever,
que decorre da proteção integral, fundamento que embasa todo o ECA (1990).
Em abril de 2017, tivemos a sanção da lei 13.431, que estabelece o sistema de
garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência.
Apresenta como uma de suas inovações a escuta especializada e o depoimento
especial, de forma a garantir às crianças e aos adolescentes certa proteção física e
emocional no momento de seu depoimento. Segue adiante, o fragmento da lei que
diz respeito a estes aspectos.

TÍTULO III
DA ESCUTA ESPECIALIZADA E DO DEPOIMENTO ESPECIAL
Art. 7º. Escuta especializada é o procedimento de entrevista sobre situação de violên-
cia com criança ou adolescente perante órgão da rede de proteção, limitado o relato
estritamente ao necessário para o cumprimento de sua finalidade.
Art. 8º. Depoimento especial é o procedimento de oitiva de criança ou adolescente
vítima ou testemunha de violência perante autoridade policial ou judiciária.

capítulo 4 • 91
Art. 9º. A criança ou o adolescente será resguardado de qualquer contato, ainda que
visual, com o suposto autor ou acusado, ou com outra pessoa que represente ameaça,
coação ou constrangimento.
Art. 10º. A escuta especializada e o depoimento especial serão realizados em local
apropriado e acolhedor, com infraestrutura e espaço físico que garantam a privacidade
da criança ou do adolescente vítima ou testemunha de violência.
Art. 11º. O depoimento especial reger-se-á por protocolos e, sempre que possível, será
realizado uma única vez, em sede de produção antecipada de prova judicial, garantida
a ampla defesa do investigado.
§ 1º. O depoimento especial seguirá o rito cautelar de antecipação de prova:
I. Quando a criança ou o adolescente tiver menos de 7 (sete) anos.
II. Em caso de violência sexual.
§ 2º. Não será admitida a tomada de novo depoimento especial, salvo quando justifi-
cada a sua imprescindibilidade pela autoridade competente e houver a concordância
da vítima ou da testemunha, ou de seu representante legal.
Art. 12. O depoimento especial será colhido conforme o seguinte procedimento:
I. Os profissionais especializados esclarecerão à criança ou ao adolescente sobre a
tomada do depoimento especial, informando-lhe os seus direitos e os procedimentos
a serem adotados e planejando sua participação, sendo vedada a leitura da denúncia
ou de outras peças processuais.
II. É assegurada à criança ou ao adolescente a livre narrativa sobre a situação de
violência, podendo o profissional especializado intervir quando necessário, utilizando
técnicas que permitam a elucidação dos fatos.
III. No curso do processo judicial, o depoimento especial será transmitido em tempo
real para a sala de audiência, preservado o sigilo.
IV. Findo o procedimento previsto no inciso II deste artigo, o juiz, após consultar o
Ministério Público, o defensor e os assistentes técnicos, avaliará a pertinência de
perguntas complementares, organizadas em bloco.
V. O profissional especializado poderá adaptar as perguntas à linguagem de melhor
compreensão da criança ou do adolescente.
VI. O depoimento especial será gravado em áudio e vídeo.
§ 1º. À vítima ou testemunha de violência é garantido o direito de prestar depoimento
diretamente ao juiz, se assim o entender.
§ 2º. O juiz tomará todas as medidas apropriadas para a preservação da intimidade e
da privacidade da vítima ou testemunha.
§ 3º. O profissional especializado comunicará ao juiz se verificar que a presença, na
sala de audiência, do autor da violência pode prejudicar o depoimento especial ou
colocar o depoente em situação de risco, caso em que, fazendo constar em termo, será
autorizado o afastamento do imputado.

capítulo 4 • 92
§ 4º. Nas hipóteses em que houver risco à vida ou à integridade física da vítima ou
testemunha, o juiz tomará as medidas de proteção cabíveis, inclusive a restrição do
disposto nos incisos III e VI deste artigo.
§ 5º. As condições de preservação e de segurança da mídia relativa ao depoimento
da criança ou do adolescente serão objeto de regulamentação, de forma a garantir o
direito à intimidade e à privacidade da vítima ou testemunha.
§ 6º.O depoimento especial tramitará em segredo de justiça

Violência contra mulheres

A violência contra a mulher é um problema social e de saúde pública que


consiste em um fenômeno mundial que não respeita fronteiras de classe social,
etnia, religião, idade ou grau de escolaridade. O seu local de preferência continua
sendo, segundo Amaral e colaboradores (2001), citados por Werlang; Sá e Borges
(2009), o âmbito familiar. Ditados populares como “Em briga de marido e mulher
não se mete a colher” e “ele pode não saber por que bate, mas ela sabe por que
apanha”, são exemplos de conivência da sociedade com a violência dentro do lar.
A violência contra a mulher desestrutura a família e deixa feridas irreparáveis
em todos. Poucas pessoas sabem que a violência doméstica vai muito além da
agressão física ou do estupro. Embora os termos violência doméstica e violência fa-
miliar soem como sinônimo, eles têm suas próprias características bem definidas.
Observando o que descreve a lei Maria da Penha34 ou lei 13.140 (2006), em seus
artigos 5º e 7º, que se refere às duas formas de violência, ficam bem evidentes as
diferenças entre elas. Para que se configure o que se chama de violência doméstica,
é suficiente a ocorrência de qualquer agressão, no domicílio da vítima, mas sem a
existência de vínculos entre as partes.
A violência familiar consiste no ato de qualquer forma de agressão em que as
partes tenham algum vínculo familiar como cônjuges, genitores, filhos, sobrinhos
tio etc. A lei Maria da Penha (11340/2006) classifica os tipos de abuso contra a mu-
lher nas seguintes categorias: violência patrimonial, violência sexual, violência física,

34  a farmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes é o marco recente mais importante da história das
lutas feministas brasileiras. Em 1983, enquanto dormia, recebeu um tiro do então marido, Marco Antônio Heredia
Viveiros, que a deixou paraplégica. Depois de se recuperar, foi mantida em cárcere privado, sofreu outras agressões
e nova tentativa de assassinato, também pelo marido, por eletrocução. Procurou a Justiça e conseguiu deixar a casa,
com as três filhas. Depois de um longo processo de luta, em 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou
a lei no 11.340, conhecida por lei Maria da Penha, que coíbe a violência doméstica contra mulheres. Disponível em:
<http://www.compromissoeatitude.org.br/quem-e-maria-da-penha-maia-fernandes/>. Acesso em: 14 abr. 2017.

capítulo 4 • 93
violência moral e violência psicológica. Segundo o artigo 7o da lei nº 11.340/2006
são formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras:

I. A violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou
saúde corporal.
II. A violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano
emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno
desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos,
crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação,
isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem,
ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que
lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação.
III. A violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar,
a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça,
coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a
sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao
matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno
ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos.
IV. A violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção,
subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho,
documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os
destinados a satisfazer suas necessidades.
V. A violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia,
difamação ou injúria.

As consequências da violência doméstica são importantes e podem permanecer


durante muito tempo. Além das marcas físicas, a violência doméstica costuma
causar também vários danos emocionais, como: influências na vida sexual da
vítima; baixa autoestima e dificuldade em estabelecer relacionamentos.
Os sintomas psicológicos que com frequência são encontrados em vítimas de
violência doméstica são: insônia, pesadelos, falta de concentração, irritabilidade,
falta de apetite, e até o aparecimento de sérios problemas mentais como a depressão,
ansiedade, síndrome do pânico, estresse pós-traumático, além de comportamentos
autodestrutivos, como o uso de álcool e drogas, ou mesmo tentativas de suicídio.
(KASHANI; ALLAN, 1998)

capítulo 4 • 94
A lei Maria da Penha (2006) estabelece no Título V – Da equipe de atendimento
multidisciplinar, a criação da equipe multidisciplinar que no artigo 30 propõe:

Art. 30. Compete à equipe de atendimento multidisciplinar, entre outras atribuições


que lhe forem reservadas pela legislação local, fornecer subsídios por escrito ao juiz,
ao Ministério Público e à Defensoria Pública, mediante laudos ou verbalmente em au-
diência, e desenvolver trabalhos de orientação, encaminhamento, prevenção e outras
medidas, voltados para a ofendida, o agressor e os familiares, com especial atenção às
crianças e aos adolescentes.

A multidisciplinaridade no atendimento se faz fundamental para que haja


uma melhor eficiência e para que todas as necessidades das vítimas sejam atendidas
e elas possam se sentir seguras não só para denunciar o agressor mas, também,
procurar ajuda para si e para todos os envolvidos. Neste corpo multidisciplinar
tem fundamental importância a atuação do psicólogo. O papel do psicólogo é
fundamental no auxílio a mulheres vítimas de violência doméstica, pois ele é capaz
de não só realizar um trabalho de acolhimento, mas também contribuir para a
compreensão da construção do sujeito e abordar sua relação com a sociedade.
A Rede de Atendimento reúne ações e serviços das áreas da assistência social,
justiça, segurança pública e saúde, integrando a Rede de Enfrentamento, ao
contemplar o eixo de assistência previsto na Política Nacional de Enfrentamento
à Violência Contra as Mulheres. Buscando a identificação e encaminhamento
adequados das mulheres em situação de violência e a integralidade e humanização
da assistência, a Rede de Atendimento é composta por serviços especializados,
como as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), os Centros
de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) e os Centros de Referência
Especializados de Assistência Social (CREAS), e não especializados, como os
Centros de Referência de Assistência Social (CRAS). Esses são apenas alguns
dos serviços e das instituições que compõem a Rede de Atendimento, que inclui
também: Juizados da Violência Doméstica e Familiar; Promotorias Especializadas/
Núcleos de Gênero do Ministério Público; Serviços de Abrigamento e outros.
O enfrentamento às múltiplas formas de violência contra as mulheres é uma
importante demanda no que diz respeito a condições mais dignas e justas para as
mulheres. A mulher deve possuir o direito de não sofrer agressões no espaço pú-
blico ou privado, ser respeitada em suas especificidades e ter garantia de acesso aos
serviços da rede de enfrentamento à violência contra a mulher, quando passar por
situação em que sofreu algum tipo de agressão, seja ela física, moral, psicológica

capítulo 4 • 95
ou verbal. É dever do Estado e uma necessidade da sociedade enfrentar todas as
formas de violência contra as mulheres. Proibir, punir e erradicar todas as formas
de violência deve ser preceito fundamental de um país que luta por uma sociedade
justa e igualitária entre mulheres e homens.

Violência contra o idoso

A população de idosos vem crescendo cada vez mais. Segundo o Instituto


Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até 2030, o Brasil atingirá o número
de 259,8 milhões de brasileiros com expectativa de vida de 81,3 anos (GARCIA;
CRUZ, 2009). Junto com o envelhecimento vem crescendo a violência contra
o idoso. Esse tipo de violência passou a ser considerado problema mundial,
atingindo qualquer população, independentemente de fatores sociais, econômicos
e culturais. É entendida como violação de direitos, uma questão não apenas social,
mas de Saúde Pública, pelas consequências que acarreta nessa área. A violência é
um fator de risco para a saúde e vida dos idosos, a partir do momento em que ele
passa a ser também vítima do processo de globalização da violência.
A existência de atos violentos, de negligência e maus-tratos contra os idosos só
começou a despertar o interesse nos últimos anos do século 20. Segundo Minayo
(2006), nos anos de 1993 e 1994, a Organização Mundial de Saúde incorporou a
violência como um dos principais problemas das Políticas Públicas da América Latina
no século 21. No entanto, foi a partir da criação do Estatuto do Idoso (lei 10.741 de 1
de outubro de 2003), por meio da Constituição Federal (1988) e da Política Nacional
do Idoso, que essa população, no Brasil, passou a receber proteção jurídica plena.
De acordo com Garcia; Cruz (2009), a violência intrafamiliar contra o idoso
pode ser classificada em: abuso físico, que pode ser entendido como ações agressivas
e brutais, causando prejuízos na saúde física do idoso, como fraturas, hematomas,
entre outros; abuso psicológico: compreendido como as provações ambientais, so-
ciais e verbais, assim como a negação de direitos e uso de palavras que humilhem,
insultem ou ofendam o idoso; a exploração econômica ou abuso financeiro, que
pode ser definido como a apropriação de rendimentos e uso ilícito de fundos, patri-
mônio e outros pertences do idoso; negligência, que pode ser entendida como uma
situação na qual o idoso experimenta sofrimento por omissão da atenção do cuida-
dor; abuso sexual, entendido como qualquer contato sexual, sem o consentimento

capítulo 4 • 96
da pessoa, expondo a mesma a um constrangimento; e, por fim, o abandono, que
significa a ausência de pessoa responsável pelo idoso e seus cuidados.
Os abusos mais frequentes contra idosos, segundo Garcia; Cruz (2009) são
abuso físico, negligência, sonegação de alimentos, falta de cuidado com o idoso,
isolamento, confinamento, falta de atenção, intimidação, abuso verbal ou psico-
lógico e abuso financeiro.
O psicólogo pode atuar junto aos Conselhos de Idosos, em Delegacias
Especializadas e no Ministério Público. Quando ocorre qualquer tipo de abuso
contra um idoso, o procedimento inicial é o Registro do Boletim de Ocorrência
para a averiguação dos fatos, instauração do inquérito policial e encaminhamento
para o Ministério Público. Nos casos de denúncia de abuso contra o idoso, em
geral ocorre investigação policial e é acionado o Conselho do Idoso do Município.
O papel do psicólogo será o de mediador e conciliador entre os membros
da família, visto que, 90% dos casos de abuso contra o idoso ocorrem no meio
familiar (GARCIA; CRUZ, 2009). Se for necessário, o psicólogo poderá realizar
avaliações psicológicas e acompanhar o idoso e seus familiares em audiência. A
obrigação do Estado e da sociedade é garantir à pessoa idosa a sua liberdade, o
respeito e a dignidade como pessoa humana e sujeito de direitos garantidos pela
Constituição (1988) e pela lei (10.741/2003).

Código Penal (1940)

O Código Penal Brasileiro é o conjunto de leis que tem o objetivo de ao mesmo


tempo defender os cidadãos e punir aqueles que cometem crimes e infrações. Foi
criado em 1940 e, ao longo dos anos, passou por modificações com o propósito
de atualizá-lo e torná-lo mais de acordo com as características da sociedade atual.
O Direito Penal, muitas vezes chamado de Direito Criminal, é a área do
Direito Público que contém as normas oriundas do Poder Legislativo para reprimir
os delitos, imputando penas com o objetivo de preservar a sociedade e possibilitar o
seu desenvolvimento. O Direito Penal é diferente do Direito Civil, em que a ênfase
está, principalmente, na solução de litígios e compensação das vítimas, muito
mais do que na punição. A Psicologia aplicada ao Direito, nesta área, estuda o
comportamento psicológico do agente do delito, além de tratar de questões como a
inimputabilidade, imputabilidade, progressão de pena, execução penal entre outras.

capítulo 4 • 97
Modalidades de crime

Podemos tipificar uma conduta humana como crime a partir da ilicitude35 e


da materialidade do fato36. Até o delito, encontramos todo um caminho subjeti-
vo, interno, que vai desde o desejo à intenção, a decisão e a realização do crime,
que afetará o social. Vamos, nesta disciplina, privilegiar o enfoque psicológico
sobre estas questões, não pretendendo esgotar este tema. Para o Direito, a in-
tenção apresenta um interesse particular e, a partir deste fato, dividem-se os delitos
em dois grupos: delito doloso e delito culposo.
No delito doloso, encontramos a vontade consciente. Entretanto, é importante
a análise das motivações que levaram esta pessoa a este ato, para melhor entender
de que forma esta vontade foi expressa. Segundo Fiorelli; Mangini (2010), este
tipo de delito pode ser justificado por meio de desequilíbrio emocional, que se
caracteriza pela evolução de um conflito, em que o estresse acumulado leva ao
cometimento do delito.
No delito culposo, o Código Penal (1984) aplica três situações para caracterizá-
lo: a imprudência, a negligência e a imperícia. De acordo com a Psicologia, todas
estas situações podem ser interpretadas, não como “obras do acaso”, mas como
situações que envolvem em maior ou menor grau aspectos do inconsciente
das pessoas.

Imputabilidade e inimputabilidade

O Código Penal (1940) legisla a respeito da capacidade de responsabilização


dos indivíduos portadores de transtornos mentais, frente ao cometimento de
crimes. Segundo o artigo 26 deste Código (1940):

35  ilicitude, ou antijuridicidade, é a relação de antagonismo, de contrariedade entre a conduta do agente e o


ordenamento jurídico. Se essa contrariedade do fato se fizer em relação a uma norma de matéria penal, tornar-se-á uma
ilicitude penal. Disponível em: <https://www.universojus.com.br/direito-penal-ilicitude/>. Acesso em: 4 maio 2017.
36  existência material do fato. Existência real do acontecimento. Fato efetivamente ocorrido. A simples constatação
da materialidade do fato não é suficiente para uma condenação criminal, se este fato não for típico, antijurídico,
culpável e punido, se a autoria não está determinada, se não houver provas suficientes para tanto, se não existir prova
de ter o réu concorrido para a infração penal ou existir circunstância que exclua o crime ou isente o réu de pena.
Disponível em: <http://www.elfez.com.br/elfez/Materialidade.html>. Acesso em: 4 maio 2017.

capítulo 4 • 98
É isento de pena o agente que, por doença mental* ou desenvolvimento mental incom-
pleto** ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de
entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.
Parágrafo único. A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, em virtude
de perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retarda-
do não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se
de acordo com esse entendimento.

* A expressão doença mental “abrange todas as moléstias que causam alterações mórbidas à saúde mental”,
como esquizofrenia, transtorno bipolar do humor, paranoia, epilepsia, demência senil etc. Disponível em:
<http://www.institutomillenium.org.br/artigos/imputabilidade/>. Acesso em: 30 abr. 2017.
** Desenvolvimento mental incompleto é a ausência de maturidade psicológica para compreender as regras da
civilização; essa incompreensão é transitória, podendo o indivíduo vir a superá-la. A doutrina tem considerado
que os menores de 18 anos, os indígenas não integrados à sociedade e os surdos-mudos que não receberam
a instrução adequada têm seu desenvolvimento mental ainda incompleto. Disponível em: <http://www.
institutomillenium.org.br/artigos/imputabilidade/>. Acesso em: 30 abr. 2017.

A imputabilidade diz respeito ao entendimento da ação praticada como algo


ilícito, isto é, contrária à lei e que possa agir de acordo com esse entendimento. As
leis são elaboradas a partir de padrões típicos de comportamento, em determinado
contexto, cultura e momento histórico. Em relação ao portador de algum tipo
de transtorno mental, deve-se avaliar a intensidade e a qualidade deste, para
determinar a possibilidade ou não da sua responsabilização.
De acordo com o Código de Processo Penal (1940):

Artigo 149. Quando houver dúvida sobre a integridade mental do acusado, o juiz
ordenará, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, do defensor, do curador,
do ascendente, descendente, irmão ou cônjuge do acusado, seja este submetido a
exame médico legal.

Aos portadores de transtorno mentais que praticaram atos ilícitos, havendo


a comprovação de doença mental que impede o discernimento sobre o ato
praticado ou no momento do ato praticado, em lugar da pena, haverá a aplicação
da medida de segurança, que poderá ser na modalidade de internação ou
tratamento ambulatorial.
É importante saber que a medida de segurança tem natureza preventiva e é apli-
cada por prazo indeterminado, fundamentada nas características de periculosidade
do indivíduo, conforme o artigo 97 da Lei de Execuções Penais (1984):

capítulo 4 • 99
§ 1º. A internação ou tratamento ambulatorial, será por tempo indeterminado,
perdurando enquanto for não for averiguada, mediante perícia médica, a cessação da
periculosidade. O prazo mínimo deverá ser de 1 (um) a 3 (três) anos.

O termo periculosidade é impreciso e é fonte de discussões nos meios


jurídicos, médicos e psicológicos. Sua origem é do século 19 e, atualmente, deve
ser interpretado de forma mais abrangente, levando em conta o contexto social, a
diversidade e a desigualdade social.

CONEXÃO
Para saber mais sobre esse tema, leia o texto Imputabilidade, de Alexandre Magno
Fernandes Moreira, disponível em: <http://www.institutomillenium.org.br/artigos/
imputabilidade/>. Acesso em: 30 abr. 2017.

Noções de criminologia

A criminologia é uma ciência que tem sua origem na segunda metade do sé-
culo 19, cujo marco é Cesare Lombroso37. Entretanto, a moderna criminologia é
muito mais abrangente em relação ao comportamento criminoso, destacando que
o crime é um problema da sociedade, nasce nela e é nela que deverão ser encon-
tradas as soluções. O entendimento para tal afirmação é que criminoso e vítima
fazem parte da sociedade. Há várias formas de controle social: formal, represen-
tado pelas instituições estatais e vão desde a investigação até a execução da pena;
informal, representado pelo controle da sociedade, que muitas vezes pede mais
repressão e um maior controle formal.
A criminologia teve crescimento surpreendente nas últimas três décadas.
Desenvolveram-se muitas teorias novas, algumas das quais implicaram a revisão
de teorias tradicionais, outras apresentaram novas teorias e outras, ainda, foram
37  a principal ideia de Lombroso foi parcialmente inspirada pelos estudos genéticos e evolutivos no final do século
9o, e propõe que certos criminosos têm evidências físicas de um "atavismo" (reaparição de características que foram
apresentadas somente em ascendentes distantes) de tipo hereditário, reminiscente de estágios mais primitivos da
evolução humana. Estas anomalias, denominadas de estigmas por Lombroso, poderiam ser expressas em termos
de formas anormais ou dimensões do crânio e mandíbula, assimetrias na face etc., mas também de outras partes
do corpo. Posteriormente, estas associações foram consideradas altamente inconsistentes ou completamente
inexistentes e as teorias com base na causa ambiental da criminalidade se tornaram dominantes. Disponível em:
<http://www.cerebromente.org.br/n01/frenolog/lombroso_port.htm>. Acesso em: 4 maio 2017.

capítulo 4 • 100
mais além, recorrendo à integração de todas elas. Embora a criminologia ainda
se encontre dominada pela sociologia, a sua natureza tornou-se cada vez mais
interdisciplinar. Biólogos, psicólogos, economistas e outros profissionais
desempenham papel de destaque na investigação do crime.
A comprovação desta afirmativa é o fato de os criminologistas estudarem ago-
ra o impacto de vários fatores sobre o crime. Alguns destes fatores são de natureza
biológica, como é o caso da herança genética e das lesões cerebrais; outros são
de natureza psicológica, por exemplo, a inteligência ou determinados traços da
personalidade; há os que dizem respeito a características do meio social imediato
do indivíduo, incluindo a família, a escola, os conhecidos e o ambiente de traba-
lho; outros, ainda, destacam a situações com as quais se deparam os indivíduos;
finalmente, há os que se estão relacionados com o ambiente social entendido num
sentido mais amplo, como no caso das especificidades das comunidades.

MULTIMÍDIA
Assista ao filme: Como nascem os anjos, de Murilo Sales, que retrata as questões
conflituosas do crime.

Comportamento criminoso

De acordo com Guido Arturo Palomba, psiquiatra forense, podemos ter cinco
tipos de criminosos:

Agem em “curto-circuito”, por amor à honra, sem preme-


ditação, fruto de ausência momentânea do senso crítico.
Entre os delitos que praticam, relacionam-se principal-
1. OS IMPETUOSOS mente o crime passional e alguns tipos de assassinatos
e de agressão física. Em geral é um criminoso honesto,
principalmente quando se trata de um delito passional.

São os levados pelas condições pessoais e influências


2. OS OCASIONAIS do meio. Os fatores têm muito peso. Os delitos que mais
praticam são o furto e o estelionato.

capítulo 4 • 101
São aqueles incapazes de readquirir existência honesta.
Cometem todo tipo de delito como assaltos, tráfico de
3. OS HABITUAIS drogas e assassinatos em série. Esses últimos são co-
nhecidos como “assassinos de aluguel ou justiceiros. O
criminoso habitual é o que tem como profissão o crime”.

Não são propriamente doentes mentais e também não são


normais. Apresentam permanentes perturbações do senso
ético-moral, problemas com a afetividade e sensibilidade
cujas alterações psíquicas os levam ao delito. As pessoas
4. FRONTEIRIÇOS classificadas neste tipo, quando violentas, são as que pra-
ticam os atos mais perversos e hediondos entre todos os
outros tipos de criminosos. Sua característica principal é a
extrema frieza e insensibilidade moral com que tratam as
vítimas.

Os delitos praticados por eles podem ser divididos em


dois grandes grupos:
5. LOUCOS I. Aqueles que agem graças a um processo lento e
CRIMINOSOS reflexivo.
II. Aqueles que agem por impulso momentâneo.

No primeiro caso, dos loucos criminosos, a ideia surge do nada, inesperada-


mente, é a obsessão doentia e invencível. No segundo caso, a deliberação do crime
é fruto de um impulso momentâneo, seguido da execução imediata.

Introdução à vitimologia

A vitimologia pode ser definida como o estudo científico da extensão,


natureza e das causas da vitimização criminal, suas consequências para as pessoas
envolvidas e as reações àquelas pela sociedade, em particular pela polícia e
pelo sistema de justiça criminal, assim como pelos trabalhadores voluntários e
colaboradores profissionais.
O termo "vitimologia" foi utilizado pela primeira vez pelo psiquiatra ameri-
cano Frederick Wertham, mas só ficou conhecido com o trabalho de Hans von
Hentig, The Criminal na his Victim, em 1948. Este autor propôs uma abordagem
dinâmica, interacionista, contestando a concepção de vítima como ator passivo.
Destacou que poderia haver algumas características das vítimas que poderiam
precipitar fatos ou condutas delituosas. Principalmente, realçou a necessidade de
analisar as relações existentes entre vítima e agressor.

capítulo 4 • 102
A vitimologia é, atualmente, um campo de estudo orientado para a ação ou
formulação de políticas públicas. Não deve ser estudada apenas relacionada ao
Direito Penal, mas devemos associá-la aos Direitos Humanos. Assim, a vitimolo-
gia passa a ser, também, o estudo das consequências dos abusos contra os direitos
humanos, cometidos por cidadãos ou agentes do governo.

Justiça restaurativa

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ, 2014), a prática da


Justiça Restaurativa tem se expandido pelo país, e está em funcionamento há cerca
de mais de 10 anos no Brasil. É conhecida como uma técnica de solução de confli-
tos que prioriza a criatividade e sensibilidade na escuta das vítimas e dos ofensores.
A prática desta Justiça tem iniciativas cada vez mais diversificadas e já apresenta
alto grau de resultados positivos.
Em São Paulo, a Justiça Restaurativa tem sido utilizada em dezenas de escolas
públicas e privadas, auxiliando na prevenção e no agravamento de conflitos. No Rio
Grande do Sul, juízes aplicam o método para auxiliar nas medidas socioeducativas
cumpridas por adolescentes em conflito com a lei, conseguindo recuperar para
a sociedade jovens que estavam cada vez mais entregues ao caminho do crime.
No Distrito Federal, o Programa Justiça Restaurativa é utilizado em crimes de
pequeno e médio potencial ofensivo, além dos casos de violência doméstica. Na
Bahia e no Maranhão, o método tem solucionado os crimes de pequeno potencial
ofensivo, sem a necessidade de prosseguir com processos judiciais. (CNJ, 2014)
A Justiça Restaurativa é incentivada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ)
por meio do Protocolo de Cooperação para a difusão da Justiça Restaurativa, fir-
mado em agosto de 2014 com a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB).

Atuação do psicólogo no sistema prisional

Em 2010, o Conselho Federal de Psicologia publicou a Resolução 009/2010,


que orienta a atuação do psicólogo no sistema prisional. Em 2011, na tentati-
va de rever algumas intervenções do psicólogo no sistema prisional, este mesmo
Conselho (CFP), publicou a Resolução 012/2011, que foi suspensa pela Justiça da
1a Vara Federal de Porto Alegre. A decisão ocorreu na ação civil pública, movida
pelo Ministério Público Federal contra o Conselho Federal de Psicologia e Conselho
Regional de Psicologia da 7a Região (RS). Esta suspensão gerou nota técnica do

capítulo 4 • 103
Conselho Federal de Psicologia (Disponível em: <http://www.crprs.org.br/upload/
noticia/arquivo2945.pdf>. Acesso em: jun. 2018) em relação a essa decisão.
Este é um tema importante e polêmico porque envolve conceitos como jus-
tiça, castigo, punição e liberdade. Há muita discussão sobre o papel que o psicó-
logo quer e pode ocupar no sistema prisional. Muitos são os desafios colocados
à Psicologia nessa área. Os profissionais, nestes locais, tentam desenvolver seus
trabalhos, lidando com as contradições do mesmo. O trabalho do psicólogo deve
estar voltado para a criação de estratégias de sobrevivência nesta instituição total38
– Sistema Penitenciário.
A função do psicólogo na prisão é participar de Comissões Técnicas de
Classificação (CTCs) e realizar exames criminológicos (EC) e é determinada pela
Lei de Execução Penal (LEP). As CTCs são compostas por profissionais técnicos
e agentes penitenciários. Esta participação do psicólogo nestas Comissões é muito
discutida porque quanto ao EC exigido do psicólogo, o que se pretende é inferir
sobre a periculosidade do sujeito, tendendo a naturalizar as determinações do
crime, ocultando os processos de produção social da criminalidade.
As atribuições do profissional, em todas as práticas do sistema prisional devem
ser realizadas e fundamentadas no respeito e na promoção dos direitos humanos;
na participação nos processos de construção da cidadania, desconstruindo o
conceito de que o crime está relacionado unicamente à patologia ou à história
individual; enfatizar os dispositivos sociais que promovem o processo de
criminalização; elaborar estratégias de fortalecimento dos laços sociais, com
uma ampla participação dos sujeitos, por meio de projetos interdisciplinares que
resgatem a cidadania e a inserção na sociedade extramuros.
Dessa forma, a partir destas premissas, o trabalho possível do psicólogo nesta
Instituição, dependendo de sua organização e postura frente ao processo de en-
carceramento será: acompanhamento psicológico dos presos, possibilitando para
eles atendimentos individuais e em grupos em que se abordem o fato de estar pre-
so, questões familiares e dificuldades surgidas no cárcere. O psicólogo trabalhará
de forma a amenizar o sofrimento pelos quais essas pessoas passam, ajudando a
elaborar a condição de encarcerado, independentemente de serem inocentes ou
culpados. Outra área importante de trabalho é na elaboração de políticas públicas
para atender as necessidades deste setor.
38  é aquela que controla ou busca controlar a vida dos indivíduos a ela submetidos substituindo todas as
possibilidades de interação social por "alternativas" internas. O conjunto de efeitos causados pelas instituições totais
nos seres humanos é chamado de institucionalização. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Instituição_
total>. Acesso em: 4 maio 2017

capítulo 4 • 104
ATIVIDADES
01. O Estatuto do Idoso define a violência contra o idoso como sendo: (Defensoria Pública
do Estado do Amazonas-2013)
a) o atentado contra a pessoa do idoso, nos termos da lei penal.
b) a prática dos crimes contra a vida, de lesões corporais, de periclitação da vida e da saúde
e contra a liberdade individual do idoso.
c) o crime que envolver violência doméstica e familiar contra o idoso.
d) o atentado contra os direitos fundamentais do idoso.
e) e) a ação ou omissão praticada em local público ou privado que lhe cause morte, dano
ou sofrimento físico ou psicológico.

02. No que se refere à violência, assinale a opção correta. (Analista Judiciário-TJ/RO –


Psicólogo-2012_
a) A violência sexual envolve sempre violência física, sendo a vítima obrigada a satisfazer
sexualmente o agressor.
b) Quando o abuso sexual na infância é cometido por pessoas não pertencentes à família,
a tendência é que a procura por atendimento e orientação ocorra de modo mais rápido
e eficaz.
c) Nos casos de abuso sexual infantil intrafamiliar, sentimentos como medo, culpa e vergo-
nha, decorrentes do fato de a vítima ser corresponsável pelo ciclo de abuso, são elemen-
tos que retardam a denúncia.
d) Violência verbal refere-se ao intuito de ferir, podendo deixar marcas evidentes, e violên-
cia psicológica refere-se às ofensas morais, que podem ocorrer na presença de pessoas
desconhecidas do núcleo familiar e/ou podem ser dirigidas a outros membros da família.
e) A negligência, que pode ser atribuída à pobreza ou às dificuldades materiais do casal
parental, pode causar danos permanentes.

03. Assinale a alternativa correta sobre a espécie de violência que a Lei Federal no 11.340,
de 7 de agosto de 2006 (lei Maria da Penha) indica, em termos expressos e precisos, como
qualquer conduta contra a mulher que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima,
que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento, que vise degradar ou controlar suas
ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça. (AGERBA – Técnico em
regulação-2017)
a) Violência psicológica d) Violência uxória
b) Violência moral e) Violência extracorporal
c) Violência imaterial

capítulo 4 • 105
04. Na busca por novas formas de resoluções de conflitos acerca de condutas criminaliza-
das, face ao notório insucesso e à crise do tradicional modelo de Justiça Penal, vem emer-
gindo a Justiça Restaurativa, que se destaca por ser alternativa condizente com o respeito
aos Direitos Humanos e à dignidade da pessoa humana para dirimir conflitos tanto na esfera
Penal quanto no âmbito da Infância e Juventude. Em relação à Justiça Restaurativa, avalie se
as assertivas a seguir são falsas (F) ou verdadeiras (V) e assinale a opção correta.
( ) Sistema retributivo com base no delito como ofensa à seguridade social.
( ) Identificada como justiça penal social inclusiva.
( ) Revitalização da vítima em processo dialogado e fundado no princípio consensual.
( ) Modelo retributivo, de resposta imposta verticalmente e concretizada pela aplicação
de pena pelo Estado ao autor da conduta criminalizada.
a) F – V – V – F d) V – F – F – V
b) V – V – V – V e) V – F – V – F
c) V – F – V – V

05. Este vídeo retrata uma das violências mais comuns contra o idoso, o abuso financeiro.
Assista ao vídeo, pesquise sobre o assunto e descreva de que modo esta situação pode ser
denunciada, em sua cidade. Disponível em:
<http://g1.globo.com/pe/petrolina-regiao/grtv-2edicao/videos/v/um-dos-abusos
-mais-cometidos-contra-idosos-e-o-abuso-financeiro/5485093/>. Acesso em: jun. 2018.

Brasil tem 1 denúncia de violência contra mulher a cada 7 minutos.


Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-esta-
do/2016/03/08/brasil-tem-1-denuncia-de-violencia-contra-mulher-a-cada-7-minutos.
htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em: 11 abr. 2017.

A partir da leitura do artigo, sobre a pesquisa realizada em São Paulo, responda as se-
guintes questões:

06. Há diferença entre a violência contra mulheres negras e mulheres brancas?

07. Em relação às mulheres negras – entre este grupo, o número de mortes aumentou 54%
em dez anos, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Na mesma época, a quan-
tidade de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%, de 1.747 para 1576.

capítulo 4 • 106
08. 2. O que os dados desta pesquisa ressaltaram em relação ao local e ao autor da violência
contra a mulher?

09. Os relatos de violência, 85,85% corresponderam a situações em ambiente doméstico e


familiar. Na maioria dos relatos (67,36%), as violências foram cometidas por homens com os
quais as vítimas tinham ou já tiveram algum vínculo afetivo.

10. Qual é a opinião dos juristas ouvidos pela reportagem, em relação à queda da violência
contra a mulher, na cidade de São Paulo?

11. Quatro juristas ouvidos pela reportagem atribuem a queda nos dois índices à
conscientização das mulheres e às punições aos agressores – garantidas nos últimos dez
anos pela lei Maria da Penha –, mas destacam ainda o pouco valor da palavra da vítima como
prova para as autoridades judiciais.

LEITURA
Artigos
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Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 – Fundamenta todo o
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Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>.
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Decreto no 99.710, de 21 de novembro de 1990. Promulga a Convenção
sobre os Direitos da Criança. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
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Adolescente e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/cci-
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Recomendação no 33 de 23/11/2010 – Conselho Nacional de Justiça – Recomenda
aos tribunais a criação de serviços especializados para escuta de crianças e adolescentes
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em: <http://www.cnj.jus.br/busca-atos-adm?documento=1194>. Acesso em: 14 abr. 2017.
Lei no 13.010, de 26 de junho de 2014 – Lei da palmada. Disponível em: <http://
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Lei nº 13.431, de 4 de abril de 2017 - Estabelece o sistema de garantia de direitos
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capítulo 4 • 108
8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente). Disponível
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capítulo 4 • 109
Pesquisa
Pesquisa sobre violência contra a mulher
Pesquisa revela dados alarmantes sobre abusos sexuais contra mulheres.
Disponível em: <http://www.huffpostbrasil.com/2014/02/12/pesquisa-revela-
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CONEXÃO
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www.amb.com.br/jr/docs/protocolo.pdf>. Acesso em: jun. 2018.

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capítulo 4 • 111
capítulo 4 • 112
5
Psicologia e
direito de família.
Psicologia, infância
e juventude
Psicologia e direito de família. Psicologia,
infância e juventude

Para todos os seres humanos, a família é o principal veículo de transmissão da


cultura de uma sociedade e, também, responsável pelo desenvolvimento psíquico
dos seus membros. Ao longo da história da humanidade, o modelo de família
vem sendo alterado. Deparamos-nos com o relaxamento dos vínculos afetivos e o
declínio social da figura paterna. Aparecem novos vínculos familiares, formados
por meios-irmãos de outras uniões, modos artificiais de procriação, pais solteiros
e a posição da mulher como chefe de família.
As principais dificuldades entre o casal, que resultam em ações de separação,
de maneira litigiosa, derivam da estrutura de personalidade de cada um dos
ex-cônjuges e da forma como eles constroem a relação familiar. No início de
uma relação conjugal, cada pessoa busca na outra a satisfação de suas fantasias
inconscientes. Cada um cria expectativa em relação ao outro, e desta forma, não
entra em contato com suas próprias limitações. No decorrer da convivência, essas
expectativas vão sendo frustradas, ressurgindo os conflitos, o ódio, a raiva, a mágoa
e todos os sentimentos de infelicidade que ficam depositados no outro. Não há
possibilidade de perceber a responsabilidade de ambos na continuidade da relação.
Em certo momento, o importante é descobrir o “culpado”, ou seja, culpar o outro.
A separação é a solução para resolver estes conflitos. Mesmo frente à decisão de
separação, o casal percebe que não é tão fácil.
E as crianças e os adolescentes? Além destas questões da conjugalidade vividas
por alguns pais, aqueles não tinham seus direitos adquiridos. Muitas vezes, os pro-
blemas acarretados pela não dissolução da relação conjugal de forma satisfatória
fazia estas crianças e estes adolescentes se tornarem meros instrumentos nas mãos
de seus genitores. Hoje, é para nós um dado adquirido a existência dos direitos da
criança e aquilo que lhe é prejudicial. Mas nem sempre assim foi. As crianças eram
menos que pessoas, aproximando-se da categoria de objetos, de coisas, pequenos
adultos a quem tudo se podia exigir, propriedade parental.

capítulo 5 • 114
OBJETIVOS
•  Entender a parentalidade nos processos de dissolução do vínculo conjugal litigioso;
•  Estudar a guarda compartilhada;
•  Analisar a alienação parental e suas consequências;
•  Estudar os documentos legais de proteção à criança e ao adolescente;
•  Compreender as medidas protetivas para crianças e adolescentes;
•  Analisar as questões relativas ao adolescente e o ato infracional.

Psicologia e Direito de Família

Dissolução do vínculo conjugal

Os casais que chegam com litígios, nas Varas de Família, são vistos como casais
parentais, que devem resolver seus conflitos sem prejudicar o interesse dos filhos.
Mas, de certa forma, isso é impossível porque estão sob forte pressão emocional
e são relegados a um segundo plano, enquanto ex-casal. Os sentimentos não
elaborados são intensificados pelas disputas judiciais. Quando existem crianças
envolvidas no litígio é importante perguntar, qual o lugar que esta criança ocupa
na disputa. Até que ponto é ela, realmente, o foco do processo?
A comunicação familiar fica prejudicada. Cada membro desenvolve um tipo
de contato com o outro que não favorece o entendimento. A comunicação não
verbal, ao lado da verbal, torna-se um importante elemento a ser observado sobre
a estrutura psíquica do grupo familiar. Mas, quem poderia fazer este trabalho
no Judiciário? O psicólogo. Entretanto, as pessoas quando procuram o Judiciário
estão querendo um auxílio legal e, não, psicológico. O psicólogo, muitas vezes,
é visto como um obstáculo para as partes, porque pode prolongar a decisão do
juiz. As pessoas querem uma decisão pronta do juiz, e, ao contrário, o psicólogo
trabalha para fazê-las achar esta solução. O psicólogo busca, com a família, a
melhor solução emocional, que satisfaça a todos e ajude a família a elaborar os
seus conflitos.

capítulo 5 • 115
A guarda dos filhos na dissolução do vínculo conjugal

Nos processos de dissolução do vínculo conjugal, podem surgir questões para


definir qual dos ex-cônjuges ficará com a guarda dos filhos. Também podem surgir
outras situações, nos casos mais graves, litígios, em que o genitor que não detém a
guarda pode requerê-la, denegrindo a imagem do outro.
Para que os pais e o Judiciário possam tomar a decisão mais adequada sobre
a situação da criança frente à separação dos pais, é importante que tenham
conhecimento das necessidades psicológicas no desenvolvimento infantil. Por
exemplo, com a separação dos pais, é recomendável que as rotinas e as tarefas
simples do dia a dia dos filhos sejam mantidas, para que não ocorram mudanças
bruscas e repentinas. Além disso, os pais devem sempre conversar com os filhos
porque a falta de diálogo poderá levar a fantasias de abandono e outras situações,
que podem impedir o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.
As diferenças na forma de educar e viver não acontecem apenas com pais
separados. Mesmo durante o vínculo conjugal, cada um dos genitores pode
apresentar suas diferenças quanto a concepções e estilo de vida, proporcionando
aos filhos maior variedade de modelos e opções. O problema ocorre quando estes
pais tentam usar estas diferenças como argumentos para demonstrar a intolerância
em relação ao diferente.
Com um modelo de guarda unilateral ou monoparental, os filhos são privados
do convívio com o outro genitor, com habitualidade, o que pode provocar em
algumas crianças e adolescentes o medo do abandono e o desapego em relação
àquele genitor que não detém a guarda. Independentemente do tipo de guarda, os
filhos precisam que os genitores continuem sendo modelos de identificação. Com
exceção dos casos graves, como distúrbios mentais de qualquer um dos genitores
ou abuso dos pais em relação aos filhos, a guarda assumida por um dos cônjuges
não deve ser “uma posse” da criança.
Em 13 de junho de 2008, o Congresso Nacional aprovou a lei 11.698, que
instituiu e regulamentou a guarda compartilhada, alterando os artigos 1.583 e
1.584 do Código Civil (2002). Foi uma importante conquista para a sociedade
brasileira. Esta luta pela igualdade de direitos e deveres vinha sendo elaborada
desde 2000, a partir do trabalho de várias associações de pais separados, como
a APASE e a Pais para sempre, entre outras de semelhante importância na área.
A guarda compartilhada consiste em uma modalidade de guarda em que os
filhos menores de 18 anos não emancipados e os filhos considerados incapazes
(mesmo que maiores e enquanto durar a incapacidade, segundo o Art. 1.590 do

capítulo 5 • 116
Código Civil, 2002) permanecem sob corresponsabilidade igualitária e conjunta
de ambos os pais, nas decisões que lhes dizem respeito. Nesse tipo de guarda,
não há um guardião único e um guardião secundário. Não há divisões rígidas de
papéis, mas o compartilhamento de tarefas referentes à manutenção, aos cuidados
e à segurança dos filhos. Nenhuma atitude pode ser tomada sem o consentimento
de ambos, que estão sempre cientes dos acontecimentos escolares, médicos e
sociais. Os períodos de convivência, em geral, não são mais restritos, para que os
filhos possam aproveitar a presença de seus genitores.
A desigualdade que vinha acontecendo com o modelo tradicional de
guarda, ou unilateral, é desfeita pela guarda compartilhada. Há uma priorização
das necessidades dos filhos e, não mais, das necessidades do ex-casal. Há a
preservação dos laços afetivos e a construção de uma intimidade entre pais e
filhos, principalmente, desfazendo a ideia de visitação. Filhos não visitam pais,
convivem com eles. Da mesma forma quando conviviam juntos, as relações de
convivência continuam existindo, agora em função dos filhos, para a manutenção
dos vínculos parentais.
Desde 2008, o Código Civil (2002) previa que mesmo não havendo acordo
entre os pais, a guarda compartilhada deveria ser aplicada sempre que possível.
Porém, na maioria das demandas judiciais esta modalidade de guarda vinha sendo
aplicada apenas quando havia bom diálogo entre os genitores. E é neste ponto
que a lei 13.058 (2014) inovou, excluindo a locução “sempre que possível”, para
que a aplicação da guarda compartilhada ocorra como regra, ainda que não haja
consenso. Entretanto, a aplicação da guarda compartilhada não se trata de regra
absoluta pois, nos termos do parágrafo 2o do Art. 1.584 (Código Civil, 2002), os
pais devem estar aptos ao exercício do poder familiar.
Neste novo momento da guarda compartilhada, o melhor interesse da criança
não poderá ser esquecido, uma vez que para além dos preceitos constitucionais,
ficou mantida a regra do inciso II do Art. 1.584 do Código Civil (2002), sobre
a fixação da guarda que deverá ocorrer “em atenção a necessidades específicas do
filho, ou em razão da distribuição de tempo necessário ao convívio deste com o
pai e com a mãe”.
Concluindo, a guarda compartilhada deverá ser em regra aplicada, mas
nunca sem a necessária avaliação do contexto familiar, com foco nas necessidades
específicas da criança, bem como na aptidão dos pais.
Quanto à regulamentação da convivência entre pais e filhos na guarda
compartilhada, a lei (13.058/2014) inovou ao inserir o termo “tempo de convívio”

capítulo 5 • 117
e ao delinear que este “deve ser dividido de forma equilibrada com a mãe e com
o pai, sempre tendo em vista as condições fáticas e os interesses dos filhos”. Dessa
forma, a proporcionalidade do tempo de convivência (este equilíbrio não significa
a divisão de metade do tempo com cada genitor), deverá ocorrer com a análise do
caso concreto, vislumbrando o melhor interesse dos filhos.
Para finalizarmos as questões ligadas à guarda, quando é citada a
proporcionalidade de tempo de convivência, devemos ter muito claro que a lei
não está falando de alternância de tempo. Existe certa falta de informação sobre
a guarda compartilhada, que muitas vezes, nesta questão, é confundida com a
guarda alternada, que nem faz parte de nosso ordenamento jurídico. A guarda
alternada caracteriza-se pelo exercício da guarda, alternadamente, seguindo um
período predeterminado, que pode ser anual, semestral, mensal, semanal, ou até
mesmo diário. No período em que a criança estiver com um genitor, este detém
todas as responsabilidades, decisões e atitudes em relação ao filho.
A guarda alternada, segundo Bonfim (2005), citado por Silva (2009), pode
trazer os seguintes malefícios para os filhos: não há constância da moradia, podendo
os objetos pessoais da criança serem esquecidos em uma das casas, causando
discussões entre os pais; a formação da criança fica prejudicada, não sabendo qual
a orientação que deve seguir em temas importantes da sua formação; e, pode
ser prejudicial à saúde e formação psicológica da criança, tornando confusos os
seus referenciais.

Alienação parental

Mesmo após a separação ter ocorrido, muitos autores segundo Buosi (2012),
afirmam que os pais continuam utilizando seus filhos para pedir dinheiro,
transmitir recados e, muitas vezes, ameaças ao outro. Quando um dos pais, por
problemas não resolvidos na conjugalidade (relação entre o casal), usa os filhos
como uma forma de causar sofrimento e afastá-los do outro genitor, que também
os amam, acarreta problemas sérios no desenvolvimento psicológico dos filhos e
do ex-cônjuge afastado.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), em seus artigos 3o, 4o e
130, determina que crianças e adolescentes não devem ser submetidos a qualquer
tipo de tortura, seja psicológica ou física, por quem quer que seja, principalmente
por aqueles que têm o dever de protegê-los. Apesar dessa determinação, um dos
genitores pode iniciar um jogo de manipulações e retaliações capazes de implantar

capítulo 5 • 118
falsas memórias nos filhos, a ponto de estes acusarem o genitor de várias formas de
abuso, inclusive sexual, e apresentar sentimentos de raiva e hostilidade, negando a
possibilidade de convívio com o mesmo.
A imagem do genitor alienado fica destruída e desmoralizada perante os filhos,
que passam a ser utilizados como instrumentos de raiva e agressividade do genitor
alienador. É estabelecida a crença de que aquele genitor, alienado, faz mal aos
filhos, não os amam, fazendo os filhos quererem cada vez mais mantê-lo afastado
de seu convívio.
A partir dessas situações pode ocorrer o aparecimento da Síndrome de
Alienação Parental, termo proposto por Robert Gardner, em 1985, que a
conceitua da seguinte forma: a Síndrome de Alienação Parental (SAP) é um
distúrbio da infância que aparece quase exclusivamente no contexto de disputas
de custódia de crianças. Sua manifestação preliminar é a campanha denegritória
contra um dos genitores, uma campanha feita pela própria criança e que não tenha
nenhuma justificação. Resulta da combinação das instruções de um genitor (o que
faz a “lavagem cerebral, programação, doutrinação”) e contribuições da própria
criança para caluniar o genitor-alvo. Quando o abuso e/ou a negligência parentais
verdadeiros estão presentes, a animosidade da criança pode ser justificada, e assim
a explicação de Síndrome de Alienação Parental para a hostilidade da criança não
é aplicável (2002).
Como podemos observar, a alienação parental é um tipo de tortura psicológica,
pouco conhecida pela sociedade e maioria dos profissionais da área do Direito e
da Psicologia. Quando a essa síndrome está instalada, este é o momento em que
a criança passa a odiar o genitor alienado por influência do genitor alienador, que
passa a ser um estranho para ela. O alienador, com esta conduta, passa a ser o
modelo, mesmo que patológico e mal adaptado, que os filhos têm. Os filhos não
têm condições de perceber e passam a destruir os vínculos que existiam entre eles
e o alienado.
A agressividade que era direcionada ao genitor alienado passa a ser generali-
zada para toda a família deste, tais como os avós, os tios e os primos. O processo
de alienação pode acontecer de duas formas, segundo Silva (2009): a primeira, é
a obstrução do contato com os filhos; a segunda, é constituída pela denúncia de
falsos abusos, tanto sexual quanto emocional.
Não se pode considerar que esteja ocorrendo a alienação parental quando
um dos genitores ainda está mantendo um relacionamento positivo com seus fi-
lhos, mesmo com o outro genitor tentando alienar a criança. É importante os

capítulo 5 • 119
profissionais prestarem atenção para não enquadrarem determinados comporta-
mentos como síndrome e prejudicar a análise da situação entre os envolvidos.
Existem críticas acerca do termo Síndrome de Alienação Parental, por parte
dos especialistas em saúde mental e dos operadores do Direito. O principal argu-
mento para a discordância sobre a existência da síndrome é o de que ela não foi
reconhecida por nenhuma associação profissional e científica e, além de tudo, não
está incluída nem no DSM-V39 nem no CID-1040. Outros estudiosos negam a
SAP porque relatam que o psiquiatra Richard Gardner não alcançou os requisitos
científicos e metodológicos para a comprovação da existência da síndrome.
É importante que as críticas sejam analisadas, mas não há como negar
a existência desta ocorrência, que é investigada em inúmeros estudos que
demonstram crianças que rejeitam um de seus genitores, sem motivos plausíveis,
desde antes da definição da síndrome descrita por Gardner. No Brasil, temos a lei
no 12.318, de 26 de agosto de 2010, que dispõe sobre a alienação parental e altera
o Art. 236 da lei no 8.069, de 13 de julho de 1990 (ECA) e que foi criada para
proteger direitos fundamentais de crianças e adolescentes.
De acordo com a lei (12.318/2010), a alienação fere o direito fundamental da
criança ou do adolescente de convivência familiar saudável, prejudica a realização
de afeto nas relações com genitor e com o grupo familiar, constitui abuso moral
contra a criança ou o adolescente e descumprimento dos deveres inerentes à
autoridade parental ou decorrentes de tutela ou guarda. Esta lei tipifica as atitudes
do alienador causador da alienação parental, reconhecendo esta atitude como abuso
moral e emocional, sobretudo em face da criança e do adolescente. Outro fator
preponderante advindo dessa lei está que ela dá ensejo aos alienados à interposição
de ações de indenizações, na qual o alienador poderá ser responsabilizado civil e
criminalmente pelos atos e comportamentos praticados, dificultando a prática do
ato ilícito e imoral cometido pelo alienador, prevalecendo o direito e a justiça.

39  Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5a edição ou DSM-5 é um manual diagnóstico
e estatístico feito pela Associação Americana de Psiquiatria para definir como é feito o diagnóstico de transtornos
mentais. Usado por psicólogos, médicos e terapeutas ocupacionais. A versão atualizada saiu em maio de 2013 e
substitui o DSM-IV criado em 1994 e revisado em 2000. Desde o DSM-I, criado em 1952, esse manual tem sido uma
das bases de diagnósticos de saúde mental mais usados no mundo.
40  a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, frequentemente
designada pela sigla CID ou ICD (do inglês International Statistical Classification of Diseases and Related Health
Problems) fornece códigos relativos à classificação de doenças e grande variedade de sinais, sintomas, aspectos
anormais, queixas, circunstâncias sociais e causas externas para ferimentos ou doenças. A cada estado de saúde é
atribuída uma categoria única à qual corresponde um código, que contém até 6 caracteres. Tais categorias podem
incluir um conjunto de doenças semelhantes

capítulo 5 • 120
Conclui-se, portanto, que a lei 12.318/2010 surgiu como uma importante
vitória àqueles que estão impedidos há anos de manter contato com os seus filhos,
sendo este o único meio de efetivar a convivência entre eles, e, também, fazen-
do a observação, de que as “punições” têm caráter bem mais pedagógico do que
sancionatórios propriamente ditos, zelando sempre por um dos institutos mais
importantes da vida do ser humano, que é a base de uma família sólida.

Psicologia, infância e juventude

Trajetória até o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (1990)

A visão da infância e adolescência como objeto, que não se resumia somente aos
pobres, mesmo nas famílias abastadas, havia uma noção de objeto. O abandono de
bebês recém-nascidos ou de crianças era uma prática comum nos séculos 17 e 18
no Brasil colonial. Meninas e meninos eram abandonados em calçadas, praias ou
terrenos baldios, falecendo por falta de alimento, pelo frio, ou passando a conviver
com todos os males que as cidades em desenvolvimento já tinham (ratos, lixo...).
Em alguns centros urbanos, no século 18, até 25% dos bebês eram abandonados
e cerca de 70-80% faleciam antes de completar sete anos.
A Roda dos Expostos foi uma solução encontrada pela Igreja Católica para esta
situação. Copiando modelos do que já havia ocorrido na Europa, foram inseridas
as primeiras rodas no Rio de Janeiro, 1738 e em São Paulo, no ano de 1896, com
o objetivo de dar uma solução aos seguintes problemas:
•  Recém-nascidos já órfãos de mães (altas taxas de mortalidade materna
no parto);
•  Impedir a prática do infanticídio;
•  “Salvar” a reputação de jovens (brancas), que mantinham em segredo
a gravidez e precisavam depositar seus filhos em algum lugar com o benefício
do anonimato.

Na década de 1920, havia o que se chamava Juízo Privativo de Menores e


o primeiro Juiz de Menores do Brasil foi o Dr. José Cândido Albuquerque
Mello Mattos.
Este Juiz foi o primeiro expoente do pensamento da legislação da infância e
juventude no Brasil. Ele criou vários estabelecimentos de assistência e proteção à
infância abandonada e delinquente, assim como organizou o primeiro Código,

capítulo 5 • 121
que ganhou o seu nome (Código Mello Mattos – Decreto no 17.943-A, de 12 de
outubro de 1927). Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decre-
to/1910-1929/d17943a.htm>. Acesso em: 7 maio 2017.
Em 1979, surge o Código de Menores, lei no 6.697 de 10 de outubro de
1979. Um dos aspectos mais importantes, que devem ser frisados quando trata-
mos do Código de Menores (1979), é que a Doutrina da Situação Irregular, que
se encontrava implícita no Código Mello Matos de 1927, vem a ser oficializada no
Código de 1979, por meio de seu artigo 2º:

Art. 2º Para os efeitos deste Código, considera-se em situação irregular o menor:


I. Privado de condições essenciais à sua subsistência, saúde e instrução obrigatória,
ainda que eventualmente, em razão de:
a) falta, ação ou omissão dos pais ou responsável.
b) manifesta impossibilidade dos pais ou responsável para provê-las.
Il. Vítima de maus-tratos ou castigos imoderados impostos pelos pais ou responsável.
III. Em perigo moral, devido a:
a) encontrar-se, de modo habitual, em ambiente contrário aos bons costumes.
b) exploração em atividade contrária aos bons costumes.
IV. Privado de representação ou assistência legal, pela falta eventual dos pais ou
responsável.
V. Com desvio de conduta, em virtude de grave inadaptação familiar ou comunitária.
VI. Autor de infração penal.
Parágrafo único. Entende-se por responsável aquele que, não sendo pai ou mãe,
exerce, a qualquer título, vigilância, direção ou educação de menor, ou voluntariamente
o traz em seu poder ou companhia, independentemente de ato judicial.

Nas palavras de Alyrio Cavallieri, Juiz de Menores e doutrinador da época, a


situação irregular é percebida como estados que caracterizam o destinatário das
normas de Direito do Menor.
A partir da construção doutrinária de Cavallieri é possível classificar os
destinatários do artigo 2o do Código de Menores (1979) da seguinte forma:
•  O menor abandonado materialmente;
•  O menor vítima;
•  O menor em perigo moral;
•  O menor em abandono jurídico;
•  O menor com desvio de conduta ou inadaptado;
•  O menor infrator.

capítulo 5 • 122
Entretanto, os direitos fundamentais de crianças e adolescentes passaram a
ser assegurados pela Constituição Federal (1988) e pelo Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA 1990). O ECA é identificado como a Lei Federal no 8.069
de 13 de julho de 1990, cujo pilar é a doutrina de proteção integral, diferente
da Doutrina do Código de Menores, que era chamada de Doutrina da Situação
Irregular. Com base nesse documento (ECA, 1990), crianças e adolescentes passa-
ram a ser considerados cidadãos detentores de direitos.
Sendo assim, na formulação das políticas e no controle das ações ligadas às
crianças e aos adolescentes, não apenas o Estado, mas a sociedade e a família são
convocadas para participação ativa e responsável. Na defesa dos direitos de crianças
e adolescentes, o ECA (1990) afirma que eles devem ser protegidos de qualquer
forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
As crianças e os adolescentes precisam ser tratados com dignidade e respeito.

Medidas de proteção

As medidas de proteção à criança ou ao adolescente são aplicáveis sempre que


seus direitos sofrerem ameaça ou violação, seja por ação ou omissão da sociedade
ou do Estado, por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável, ou por sua
própria conduta (artigo 98, ECA, 1990).
Nesses casos, serão aplicadas as medidas protetivas encontradas no artigo
101 (ECA, 1990), que envolvem o encaminhamento aos pais ou ao responsável,
mediante termo de responsabilidade; orientação, apoio e acompanhamento
temporários; matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de
Ensino Fundamental; inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à
família, à criança e ao adolescente; requisição de tratamento médico, psicológico ou
psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial; inclusão em programa oficial
ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos;
abrigo em entidade; colocação em família substituta.
Aos pais e/ou responsáveis por crianças ou adolescentes, também poderão ser
aplicadas algumas medidas, já que, na maioria das vezes, as agressões, os maus-
tratos e abusos ocorrem na família e são realizados pelos próprios familiares. De
acordo com o artigo 129 (ECA,1990), são medidas aplicáveis aos pais ou res-
ponsável o encaminhamento a programa oficial ou comunitário de proteção à
família; a inclusão em programa oficial ou comunitário de auxilio, orientação

capítulo 5 • 123
e tratamento a alcoólatras e toxicômanos; encaminhamento a tratamento psi-
cológico ou psiquiátrico; encaminhamento a cursos ou programas de orienta-
ção; obrigação de matricular o filho ou pupilo e acompanhar sua frequência e
aproveitamento escolar; obrigação de encaminhar a criança ou o adolescente a
tratamento especializado; advertência; perda da guarda; suspensão ou destituição
do poder familiar. E, ainda, conforme o Art. 130, “verificada a hipótese de maus-
tratos, opressão ou abuso sexual impostos pelos pais ou responsável, a autoridade
judiciária poderá determinar, como medida cautelar, o afastamento do agressor
da moradia comum”.
A aplicação das medidas protetivas, a que se refere o artigo 129, é atribuição
do Conselho Tutelar, “órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, encar-
regado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do
adolescente.” (Art. 131 do ECA,1990)
As atribuições do Conselho Tutelar seriam:
•  Atender as crianças e os adolescentes quando tiverem seus direitos ameaça-
dos ou violados: por ação ou omissão do Estado ou da sociedade; por falta, omis-
são ou abuso dos pais ou responsável; ou no caso de ato infracional;
•  Atender e aconselhar pais e ou responsáveis;
•  Promover a execução de suas decisões podendo requisitar serviços públicos
em várias áreas; representar junto à autoridade judiciária nos casos de descumpri-
mento não justificado de suas deliberações;
•  Expedir notificações;
•  Requisitar certidões de nascimento e óbito, entre outros documentos.

Nas áreas da infância e juventude, no estabelecimento de medidas protetivas,


o psicólogo trabalhará com questões ligadas à violência contra crianças e
adolescentes em consonância com o Conselho Tutelar no atendimento destes,
de seus responsáveis e nas situações de abrigamento de crianças e adolescentes,
quando é impossível a convivência e segurança em seus lares.
O psicólogo, nestes casos, irá elaborar relatório que fundamente a decisão da
autoridade judiciária competente pela possibilidade de reintegração familiar ou
colocação em família substituta dessas crianças e desses adolescentes.

capítulo 5 • 124
Adoção e abrigamento

Os artigos relativos à adoção estão contidos no ECA (1990) a partir dos arti-
gos 39 a 52. Algumas questões tratadas a partir deste tema são:
•  O adotando deve contar, no máximo, com 18 anos à data do pedido, salvo
se já estiver sob a guarda ou tutela dos adotantes;
•  Guarda: obriga a prestação de assistência material, moral e educacional à
criança e ao adolescente, conferindo ao seu detentor o direito de opor-se a tercei-
ros, inclusive os pais;
•  Tutela: pressupõe a prévia decretação da perda do pátrio poder ou suspen-
são do pátrio poder e implica o dever de guarda;
•  A adoção atribui a condição de filho ao adotado, com mesmos direitos e
deveres, inclusive sucessórios, desliga do vínculo com os pais e parentes, salvo
impedimentos matrimoniais;
•  Podem adotar maiores de 21 anos, independente do estado civil;
•  O adotante tem de ser, pelo menos, 16 anos mais velho do que o adotado.
•  A adoção depende do consentimento dos pais ou do representante legal
do adotando;
•  Consentimento dispensado: pais desconhecidos ou destituídos de pá-
trio poder;
•  Adotando maior de 12 anos de idade será necessário o seu consentimento.

Em 29 de julho de 2009, surgiu a lei 2.010, que dispõe sobre adoção,


alterando dispositivos do Estatuto da Criança e do Adolescente (1990). Vamos
expor algumas alterações:

Art. 19
1º Toda criança ou todo adolescente que estiver inserido em programa de acolhimento
familiar ou institucional terá sua situação reavaliada, no máximo, a cada 6 (seis)
meses, devendo a autoridade judiciária competente, com base em relatório elaborado
por equipe interprofissional ou multidisciplinar, decidir de forma fundamentada pela
possibilidade de reintegração familiar ou colocação em família substituta (...).
2º A permanência da criança e do adolescente em programa de acolhimento institu-
cional não se prolongará por mais de 2 (dois) anos, salvo comprovada necessidade
que atenda ao seu superior interesse, devidamente fundamentada pela autoridade
judiciária.

capítulo 5 • 125
3º A manutenção ou reintegração de criança ou adolescente à sua família terá pre-
ferência em relação a qualquer outra providência, caso em que será esta incluída em
programas de orientação e auxílio (...).

O psicólogo terá um papel fundamental nesses casos. Há previsão no ECA de


intervenção obrigatória de uma equipe técnica interprofissional na adoção, com o
intuito de elaborar laudo psicossocial (artigo 197-C do ECA,1990). O objetivo des-
se laudo é “analisar a capacidade e o preparo dos candidatos para o exercício de uma
paternidade ou maternidade responsável, à luz dos requisitos e princípios desta lei”.
Na fase de habilitação dos candidatos à adoção, o psicólogo irá analisar os
motivos que levam o habilitante a querer adotar. Após a habilitação dos adotantes,
no curso do processo de adoção, o psicólogo irá analisar por um lado, o contexto
psicológico de quem está sendo adotado; do outro, tudo que envolve o adotante,
como suas expectativas, compreensões da realidade, capacidade econômica,
estrutura psicológica, entre outros dados relevantes que podem interferir na futura
convivência entre as partes.
Segundo a Nova Lei Nacional da Adoção (2009), o psicólogo, integrante da
equipe interdisciplinar, fará um trabalho de avaliação, acompanhamento e de
intervenção focal antes, durante e após a adoção: com familiares que oferecem
consentimento do poder familiar; com os pretendentes à adoção; e com crianças
e adolescentes em condições de serem adotados. Além disso, realizará preparação
prévia com os interessados em adotar; preparação prévia de crianças e adolescentes
a serem adotados; e, acompanhamento do estágio de convivência da criança ou do
adolescente e o(s) adotante(s).
Nos casos de acolhimento institucional, constata-se a relevância do papel do
psicólogo nestes locais. É muito importante o trabalho do psicólogo em abrigos,
principalmente junto a uma equipe multidisciplinar que busque diminuir o so-
frimento e proporcionar afeto e acolhimento às crianças e aos adolescentes que
chegam periodicamente, vítimas de abandono ou de violência doméstica em seus
lares, pelos seus familiares.

O adolescente em conflito com a lei

Para falarmos do adolescente em conflito com a lei, é importante fazer uma


linha do tempo, em relação à imputabilidade em nosso país e a idade determinada
pela lei. Começamos pelo Código Criminal do Império de 1830.

capítulo 5 • 126
Este Código determinava que, até os 14 anos, as crianças e os adolescentes eram
considerados inimputáveis (ou seja, considerados incapazes para responder pela
conduta delituosa por não compreender a ilicitude do ato praticado). É necessário
pontuar que em alguns casos, os menores de 14 anos respondiam como os maiores
de 14 anos por meio da “Teoria da Ação com Discernimento”, ou seja, a imputação
de responsabilidade penal ao menor de 14 anos, em função de uma “pesquisa da sua
consciência” em relação à prática da ação criminosa. Nos casos desses menores, eles
eram enviados à Casa de Correção até os 17 anos. Entre os 14 e os 17 anos os infra-
tores sofriam a chamada “pena de cumplicidade” (2/3 do que cabia ao adulto infra-
tor) e os maiores de 17 e menores de 21 anos gozavam de atenuante da menoridade.
No Código Penal da República, de 1890, até 9 anos eram considerados inim-
putáveis. Entre os 9 e 14 anos se não tivessem discernimento eram tidos como
inimputáveis e com discernimento eram recolhidos para estabelecimentos disci-
plinares industriais até os 17 anos. A pena de cumplicidade continuava existindo
dos 14 aos 17 anos. A lei 4.242/1921 eliminou o critério do discernimento e fixou
em 14 anos a inimputabilidade.
Com o surgimento do Código Mello Mattos (1927) veio a classificação
menorista. Os menores de 18 anos classificados como abandonados e/ou
delinquentes; os delinquentes, com idade superior a 14 anos, não eram submetidos
a processo penal, mas a um processo especial de apuração de sua infração. A
medida de internação ao delinquente era imposta por todo o tempo necessário à
sua educação (3 a 7 anos de duração). Por fim, a partir do Código Penal de 1940
(Código Penal Atual), a responsabilidade penal é estabelecida aos 18 anos.
O Código de Menores (1979) trouxe a preocupação com os jovens-adultos
(entre 18 e 21 anos) que, mesmo atingindo a maioridade, não podiam ser inseridos
na sociedade. Esses jovens permaneciam sob a jurisdição dos juízes de menores,
portanto, sujeitos ainda às previsões do Código de Menores. Com a Constituição
Federal de 1988, temos: “Art. 228 – São penalmente inimputáveis os menores de
dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial”.
Em 1990, foi sancionado o Estatuto da Criança e Adolescente em que define
o ato Infracional, no artigo 103, como a conduta descrita como crime ou con-
travenção penal praticado por crianças e adolescentes. A inimputabilidade in-
fantojuvenil (Art. 104 ECA) esclarece que os menores de 18 anos estão sujeitos a
medidas socioeducativas, considerando a idade do adolescente (12 anos completos
até 18 anos incompletos) a data do fato. No caso do ato Infracional praticado por
criança, ou seja, até 12 anos de idade incompletos, o ECA (1990) as excluiu da

capítulo 5 • 127
aplicação de Medida Socioeducativa. Para isso, o artigo 105, deste Estatuto (ECA,
1990), determina que sejam aplicadas as medidas de proteção do artigo 101.
Para que fiquem claras as diferenças entre o Código de menores (1979) e o
Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), estude com atenção o quadro a seguir:

CÓDIGO DE ESTATUTO
ASPECTO MENORES (1979) (ECA,1990)
DOUTRINÁRIO Situação irregular Proteção integral

CARÁTER: Filantrópico* Política pública

FUNDAMENTO Assistencialista Direito subjetivo**

CENTRALIDADE Judiciário Município

Co-gestão com
INSTITUCIONAL Estatal
sociedade civil

ORGANIZAÇÃO Piramidal hierárquica Rede***

GESTÃO Monocrática**** Democrática

* Filantropia significa humanitarismo, é a atitude de ajudar o próximo, de fazer caridade.


** O Direito Subjetivo se caracteriza por ser um atributo da pessoa. Este faz dos seus sujeitos titulares de
poderes, obrigações e faculdades estabelecidos pela lei. Disponível em: <www.infoescola.com/direito/direito-
subjetivo/>. Acesso em: 7 maio 2017.
***Conjunto de unidades ou equipamentos que prestam serviços públicos. A palavra “rede” nesses casos é
utilizada para indicar a vinculação dessas unidades a um órgão central controlador ou gestor das políticas de
atendimento. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/aprendiz/designsocial/travessia/politica_traba.htm>.
Acesso em: 7 maio 2017.
**** Gestão realizada por apenas um órgão.

Medidas socioeducativas

Com o ECA (1990) o adolescente torna-se sujeito de direitos, em


desenvolvimento. A proposta, então é a educação para cidadania, ou seja, uma
justificativa estruturante para os adolescentes em conflito com a lei.
A proposta na aplicação das medidas é fornecer suporte social para interna-
lização das leis, respeitando os direitos como convivência familiar e comunitária,
educação, lazer, entre outros. O objetivo é o pleno desenvolvimento do adolescente.

capítulo 5 • 128
As Medidas Socioeducativas (artigos 112 a 125, ECA, 1990) são medidas com
caráter pedagógico, visando à reintegração do jovem em conflito com a lei à vida
social, assim como caráter sancionatório, como resposta à sociedade pela lesão
provocada pelo adolescente.
A aplicação das medidas socioeducativas deve estar de acordo com as ca-
racterísticas da infração, circunstâncias sociofamiliares e disponibilidade de pro-
gramas. Elas apresentam aspectos coercitivos e educativos, estabelecendo uma
gradação de acordo com a gravidade do delito cometido e/ou sua reiteração. Dessa
forma, o objetivo é garantir o acesso do adolescente às oportunidades de superar
sua condição de exclusão. É uma tentativa de formar valores positivos e de parti-
cipação na vida social. Como ficou claro, no quadro comparativo entre o Código
de Menores (1979) e o ECA (1990), o trabalho a ser realizado é em rede com a
família e a comunidade participando, mesmo nos casos de privação de liberdade.
Para conhecer estas medidas, vamos apresentá-las resumidamente, esperando
que você aprofunde os seus estudos na leitura do material indicado neste capítulo.

ADVERTÊNCIA Admoestatória, informativa, formativa e imediata.

REPARAÇÃO DO Restituição do bem, ressarcimento e/ou compensação da


DANO vítima.

PRESTAÇÃO DE Adequado acompanhamento e apoio da entidade que recebe


SERVIÇOS À o adolescente, além da utilidade do trabalho realizado para o
COMUNIDADE mesmo.

LIBERDADE Acompanhamento personalizado da equipe de orientadores


ASSISTIDA sociais, ligada aos programas de proteção e/ou formativos.

Afasta o adolescente do convívio familiar e da comunidade de


SEMILIBERDADE origem, mas não restringe o direito de ir e vir. É um processo
de transição entre a internação e o retorno à comunidade.

INTERNAÇÃO Limitação do direito de ir e vir. Avaliação em períodos máximos


de 6 meses. Tempo máximo de internação 3 anos. Permis-
– (PARA ATOS são para atividades externas a critério da equipe e do Juiz.
INFRACIONAIS Esta internação deve ser um estabelecimento apenas para
GRAVES) adolescentes.

capítulo 5 • 129
Com este tema terminamos o nosso livro lembrando a você a importância do
trabalho do psicólogo, nas áreas destacadas neste trabalho, destacando que, seja
em qualquer área que o psicólogo trabalhe no Judiciário, sua postura será sempre
a de, por meio de suas competências, se tornar acessível a todos que venham ne-
cessitar desta prática.

ATIVIDADES
01. A lei no 11.698/2008 institui e disciplina a Guarda Compartilhada. Assim, para a
aplicação desta modalidade de guarda é necessário que: (TRT – 6a Região (PE) – Analista
Judiciário – Psicologia-2012)
a) seja definida judicialmente a residência dos filhos com um dos genitores e o pagamento
de pensão alimentícia ao outro.
b) ocorra obrigatoriamente a alternância da morada dos filhos entre os domicílios do pai e
da mãe em horários e dias previamente estabelecidos judicialmente.
c) haja a responsabilização conjunta e o exercício de direitos e deveres do pai e da mãe
que não vivam sob o mesmo teto, concernentes ao poder familiar dos filhos comuns.
d) o juiz fique adstrito à orientação técnico-profissional ou de equipe interdisciplinar que
analisará no caso concreto e definirá qual é o melhor interesse da criança.
e) um dos genitores assuma os filhos em comum e o outro fiscalize o exercício
dessas funções.

02. As medidas que podem ser aplicadas pela autoridade competente ao adolescente que
pratique ato infracional não incluem a:(CESPE-OAB-2007)
a) obrigação de reparar o dano.
b) liberdade assistida.
c) inserção em regime de semiliberdade.
d) prestação de trabalhos forçados.

03. Ao romper definitivamente com a doutrina da situação irregular, até então admitida pelo
Código de Menores (lei 6.697, de 10/10/79), a lei 8.069/90 (ECA) estabeleceu como dire-
triz básica e única no atendimento de crianças e adolescentes(MP/ES_2005)
a) a doutrina da proteção integral à criança e ao adolescente.
b) a doutrina de direitos e garantias fundamentais da criança e do adolescente.
c) a doutrina da proteção especial à criança e ao adolescente.
d) a Declaração dos Direitos da Criança.
e) o princípio da dignidade da pessoa humana.

capítulo 5 • 130
04. A partir do texto Oito perguntas sobre alienação parental: a construção do desamor,
escolha uma das questões discutidas e faça uma pesquisa sobre o tema escolhido. Isso
ajudará no desenvolvimento do entendimento e aprofundamento sobre o tema. Disponível
em: <http://justificando.cartacapital.com.br/2015/04/01/8-perguntas-sobre-alienacao-
parental-a-construcao-do-desamor/>. Acesso em: 15 abr. 2017.

05. Assista ao vídeo Juízo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=


3LtzzwxKBiw>. Acesso em: jun. 2018 e faça uma reflexão sobre o que é vivenciado pelos
adolescentes em conflito com a lei. Insira estas reflexões no fórum da disciplina e dialogue
com seus colegas sobre as suas impressões.

LEITURA
Artigos
MENDES, M. J.; NASCIMENTO, H. M. do. Reflexos da Psicologia no Direito com
enfoque na atuação do psicólogo jurídico no instituto da guarda compartilhada.
Disponível em: <https://www.jurisway.org.br/v2/dhall.asp?id_dh=13773>. Acesso em: 11
abr. 2017.
MOREIRA, M. Síndrome da alienação parental: o Direito e a Psicologia. Disponível
em: <http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/8794/Sindrome-da-alienacao-parental-
o-direito-e-a-psicologia>. Acesso em: 11 abr. 2017.
PENNA, P. D. M. A perícia psicológica e o Direito de Família. Disponível em: <http://
www.ibdfam.org.br/_img/artigos/A%20per%C3%ADcia%20psicol%C3%B3gica%20
e%20o%20Direito%20de%20Fam%C3%ADlia.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2017.

Diplomas legais
Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do
Adolescente e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acesso em: 15 abr. 2017.
Lei 11.698 de 13 de junho de 2008. Altera os artigos 1.583 e 1.584 da lei no 10.406, de
10 de janeiro de 2002 – Código Civil, para instituir e disciplinar a guarda compartilhada.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11698.
htm>. Acesso em: 15 abr. 2017.
Lei no 13.058 de 22 de dezembro de 2014. Altera os artigos 1.583, 1.584, 1.585 e 1.634
da lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil, para estabelecer o significado

capítulo 5 • 131
da expressão “guarda compartilhada” e dispor sobre sua aplicação. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13058.htm>. Acesso
em: 15 abr. 2017.
Código Mello Mattos. Decreto no 17.943-A, de 12 de outubro de 1927. Disponível em:
<https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-1929/d17943a.htm>. Acesso em:
7 maio 2017.
Código de Menores. Lei 6.697 de 10 de outubro de 1979. Disponível em: <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-1979/L6697.htm>. Acesso em: jun. 2018.
Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA. Lei 8.069 de 13 de julho de 1990. Dis-
ponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acesso em: jun. 2018.
Lei 12.010, de 3 de agosto de 2009. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/cci-
vil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12010.htm>. Acesso em: jun. 2018.

Entrevista
Leia a entrevista: Pesquisa IBGE e a guarda compartilhada. Disponível em: <http://
webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:WqO1-y1M2CYJ:www.ibdfam.org.br/
noticias/4938/novosite+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br>. Acesso em: 15 abr. 2017.

CONEXÃO
Instituto Brasileiro de Direito de Família. IBDFAM. Disponível em: <http://www.ibdfam.
org.br/>. Acesso em: jun. 2018.
Instituto Brasileiro de Direito Civil. IBDCivil. Disponível em: <https://www.ibdcivil.org.br>.
Acesso em: jun. 2018.
Pai legal. Disponível em: <https://www.pailegal.net/>. Acesso em: jun. 2018.
Associação de pais separados – APASE. Disponível em: <http://www.apase.org.br/>.
Acesso em: jun. 2018.
Fundo das Nações Unidas para a infância. Unicef. Disponível em: <https://www.unicef.
org/brazil/pt/>. Acesso em: jun. 2018.
Instituto Internacional para o desenvolvimento da cidadania. IIDAC. Disponível em:
<http://iidac.org/iidac/>. Acesso em: jun. 2018.
Agência de Notícias dos Direitos da Infância. ANDI. Disponível em: <http://www.andi.
org.br/>. Acesso em: jun. 2018.
Centro de Referências de Estudos e Ação da Criança. CECRIA. Disponível em: <http://
www.cecria.org.br/>. Acesso em: jun. 2018.

capítulo 5 • 132
MULTIMÍDIA
A morte inventada. Vídeo sobre a alienação parental. Disponível em: <https://www.
youtube.com/watch?v=HctTgwNNpSY>. Acesso em: 15 abr. 2017.

CURIOSIDADE
Leis de proteção: primeiro foi para os animais, depois para as crianças!
Hoje, é para nós um dado adquirido a
©© WIKIMEDIA.ORG

existência dos direitos da criança e aquilo que


lhe é prejudicial. Mas nem sempre assim foi.
As crianças eram menos que pessoas,
aproximando-se da categoria de objetos, de
coisas, pequenos adultos a quem tudo se po-
dia exigir, propriedade parental…
Lembremos a história de Mary Ellen Wil-
son. Nascida em 1864, filha de imigrantes
irlandeses, cedo órfã de pai, com a ausência
forçada da mãe para ir trabalhar longe, aca-
bou no “Departamento de Caridades” da cida-
de de Nova York, de onde foi posteriormente
encaminhada à adoção, de maneira ilegal, por
uma família na qual não foi bem acolhida. Nos
seis anos que se lhe seguiram, Mary Ellen,
que quase nunca brincava fora de casa, não
tinha roupas para se proteger do frio nem cama para dormir. Apresentava hematomas e
marcas por todo o corpo e era forçada a realizar trabalhos manuais muito além da sua ca-
pacidade. Aos nove anos de idade, Mary Ellen aparentava o desenvolvimento físico de uma
criança de apenas cinco anos de idade.
Foi uma missionária metodista, ao visitar a família, a pedido de uma das vizinhas, que con-
firmou as suspeitas de maus-tratos e violência e tentou alertar as autoridades, sem sucesso.
Assim, contatou o líder do movimento de proteção dos animais e fundador da “Sociedade
Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais” (ASPCA) que levou a situação

capítulo 5 • 133
para o tribunal. Como consequência, a mãe adotiva foi condenada pelos maus-tratos. A crian-
ça, depois de ir viver em uma instituição, cresceu, casou, teve duas filhas e viveu até os 92
anos de idade.
Observamos com a história de Mary Ellen, o quanto a criança era desprotegida em rela-
ção aos maus-tratos e outras situações que retiravam dela a sua humanidade e o direito de
ser um sujeito de direitos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRITO, L. M. T. de. Se- pa- ran- do. Um estudo sobre a atuação do psicólogo nas Varas de
Família. 3. ed. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1993.
BUOSI, C. de C. F. Alienação parental. Uma interface do Direito e da Psicologia. Curitiba: Juruá, 2012.
CARVALHO, M. C. N. DE (Coord.) Psicologia e Justiça. Infância, adolescência e família. São Paulo:
Juruá, 2012.
CEZAR-FERREIRA, V. A. da M.; MACEDO, R. M. S. de. Guarda compartilhada. Uma visão
psicojurídica. Porto Alegre: Artmed, 2016.
COIMBRA, C. M. B.; AYRES, L. S. M.; NASCIMENTO, M. L. do. (Orgs.) Pivetes. Encontros entre a
Psicologia e o Judiciário. São Paulo: Juruá, 2013.
FIORELLI, J. O.; MANGINI, R. C. R. Psicologia Jurídica. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
FIORELLI, J. O.; FIORELLI, M. R.; MALHADAS JÚNIOR, M. J. O. Psicologia Aplicada ao Direito. 4. ed.
São Paulo: LTr, 2015.
GARDNER, R. O DSM-IV tem equivalente para o diagnóstico da Síndrome de Alienação
Parental (SAP)? Disponível em: <http://www.alienacaoparental.com.br/textos-sobre-sap-1/o-dsm-iv-
tem-equivalente>. Acesso em: 15 abr. 2017.
PEREIRA, R. da C. Direito de família. Uma abordagem psicanalítica. 2. ed. Belo Horizonte: Del
Rey,1999.
PRADO, M. do C. C. de A. (Coord.) O mosaico da violência. A perversão na vida cotidiana. São Paulo:
VETOR, 2004.
SILVA, D. M. P da. Psicologia jurídica no Processo Civil Brasileiro. São Paulo: GEN; Forense, 2009.
SILVA, D. M. P. da. Guarda compartilhada e síndrome de alienação parental: o que é isso?
Campinas: Ipê, 2009.

capítulo 5 • 134
GABARITO
Capítulo 1

01. A 02. E

03. Em primeiro lugar, entendo direitos humanos como uma prática, não como objeto a ser
alcançado. Por isso, a prática dos psicólogos também deve ser calcada pelo que entendemos
como direitos humanos. Acho que o grande problema dessa relação entre Psicologia e direi-
tos humanos é o fato de que a Psicologia, historicamente, foi concebida como uma prática
intimista, entendendo o sujeito como sujeito individual – um individual que não é atravessado
pelas condições políticas, históricas e sociais do contexto em que vive. A Psicologia foi mon-
tada assim porque, no século XIX, quando quis ser ciência, o modelo de ciência advinha das
ciências físico-naturais, com base no positivismo e em uma relação de causa-efeito entre as
coisas. E a Psicologia teve que ser assim para se intitular como ciência. Mas isso, infelizmen-
te, continua; essa ainda é a Psicologia hegemônica que se produz nesse país: uma Psicologia
individual, do sujeito individuado. Situações que estão, segundo esses teóricos, para além do
sujeito, não dizem respeito à Psicologia. A Psicologia é sempre a do interior, do intimista, e,
claro, para essa Psicologia, a temática dos direitos humanos é uma temática política, e as
temáticas políticas não dizem respeito à Psicologia. Então, o nosso grande desafio, ao pro-
movermos a discussão entre Psicologia e direitos humanos, é também promover a discussão
de que esse sujeito sobre o qual a Psicologia se debruça não é um sujeito individualizdo, é um
sujeito atravessado pelas condições históricas, sociais e políticas nas quais vive.

04. Para esse psicólogo que está no consultório – que, na verdade, é apenas uma forma de
ser psicólogo –, a grande questão é entender o sujeito que ele atende como esse sujeito do
contexto. Então, na verdade, quando ele traz o fato de ele ter sido afetado pelas chuvas que
caíram no Rio de Janeiro, é preciso entender que essas chuvas também fazem parte desse
próprio sujeito. É uma questão legítima a se trabalhar

05. Acho que a grande discussão hoje não é de quais são os nossos direitos, mas de quem
são esses humanos. Essa é a discussão prioritária na sociedade. Quais são os nossos direi-
tos é fácil: pegamos a Declaração de 1948, os pactos dos quais o Brasil é signatário, a Con-
venção Nacional sobre Tortura. Temos vários instrumentos legais e jurídicos que falam sobre
esses direitos. Acho que o nó está em entender quem são esses humanos para os quais
esses direitos são voltados; é ampliar essa noção para uma concepção de direitos humanos

capítulo 5 • 135
onde caibam mais humanos – ou onde caibam todos os humanos – e colocar em discussão
que políticas estão sendo produzidas que tornam alguns humanos e outros não humanos. Por
isso, a Psicologia precisa encarar de frente essa temática.

06. De uma forma muito tímida. Não existe uma cadeira sobre direitos humanos – e que bom
que não exista, porque essa discussão precisa estar em todas as disciplinas. Na verdade,
nossa discussão hoje na academia é que a questão política não é tratada. Entende-se uma
Psicologia que não é política – a política e o contexto social em que vivemos não fazem parte
do ensino da Psicologia. Claro que já foi muito pior; hoje essa discussão já é mais presente,
mas ainda falta muito a avançar. Esse entendimento de que as discussões políticas também
são discussões de Psicologia ainda está na minoria

07. O aluno deve responder que a formação dos psicólogos nas universidades sobre os
direitos humanos é realizada de uma forma muito tímida. Entende-se uma Psicologia que
não é política – a política e o contexto social em que vivemos não fazem parte do ensino da
Psicologia ou são colocados de modo a não expressar a realidade em que vivemos.

Capítulo 2

01. A 02. E

03. Inteligência linguística ou verbal, inteligência intrapessoal e inteligência interpessoal

Capítulo 3

01. E 02. C

Capítulo 4

01. E 02. B 03. A 04. A

Capítulo 5

01. C 02. D 03. A

capítulo 5 • 136