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METAMORFOSES NAS ÁREAS LIVRES PÚBLICAS DAS CIDADES BRASILEIRAS:

IDENTIDADE CULTURAL E INTERAÇÃO SOCIAL *

KOHLSDORF, Maria Elaine.


Professora-adjunta aposentada da FAU-UnB. Arquiteta, Mestre em Planejamento Urbano.
End.: SQS 103, bloco B, ap.101-Asa Sul, Brasília, DF 70 342 020. e-mail:
mek@persocom.com.br

* A partir de palestra apresentada no Colóquio Internacional sobre Perspectivas do Espaço


Urbano (Internationales Kolloquium Perspektiven des Urbanen Raums), Universität Stuttgart,
Suttgart, Alemanha,em 29.11.2002.

RESUMO

As transformações morfológicas dos espaços públicos das cidades brasileiras nas


últimas décadas foram mais intensas do que em todo o período anterior de nossa história
urbana. Tais metamorfoses atingiram atributos incidentes em duas possibilidades encontradas
no espaço urbano: a) de lócus de interação social intensa e pouco restritiva; e b) de lugares de
fácil identificação devido a suas fortes raízes culturais. Essas questões podem ser examinadas
por meio de mudanças registradas em predicados das unidades morfológicas vinculados às
possibilidades cotidianas de interação social e identificação dos lugares. Por outro lado,
expõem-se brevemente as características históricas da urbanização brasileira e das áreas livres
públicas de nossas cidades, no que se refere a suas possibilidades para interação social e
identificação dos lugares, e se observa o papel de ruptura morfológica decorrente da
construção de Brasília, pela instalação de um novo paradigma de configuração urbana no
Brasil.

Palavras-chave: transformações do espaço urbano; desempenho morfológico; identidade


urbana; cidades brasileiras.

ABSTRACT
In last decades, the morphological changes of public spaces in Brazilian cities have
been more intense than in all the posterior urban history. Those metamorphosis influenced
incident attributes in two possibilities found in urban space: a) locus of intense and less
restrictive social interaction; and b) places of an easy identification because of strong cultural
background. These questions can be examined by changes recorded in characteristics of
morphological units, linked to daily possibilities of social interaction and identification of
places. On the other hand, historical characteristics of Brazilian urbanization and
characteristics of public open areas in our cities are briefly exposed, referring to possibilities
to social interaction and place identification, and the role of morphological rupture originated
from the construction of Brasilia is observed, by the settlement of a new paradigm of urban
configuration in Brazil.

Key-words: changes in urban space; morphological performance; urban identity; Brazilian


cities.

- INTRODUÇÃO –

As transformações das cidades brasileiras podem ser observadas através de suas áreas livres
públicas, pois nestas reside o sentido imediato de espaço urbano. Sob o olhar da Arquitetura,
a análise do espaço urbano busca respostas para certas expectativas dos indivíduos,
estabelecendo correlações entre estas e determinadas características espaciais, e permitindo
abordar um mesmo lugar sob diferentes aspectos. A escolha de algum desses aspectos implica
nos voltarmos a uma certa relação entre espaço e sociedade, e avaliar desempenhos dos
lugares, conforme atendam, melhor ou pior, a aspirações localizadas no aspecto
correspondente. Da mesma maneira podem ser consideradas as transformações ocorrentes nas
áreas livres públicas; mudanças de atividades, substituições de edifícios, aberturas de novas
vias ou transferências de centralidades afetam diferentemente o desempenho do espaço
urbano, alterando sua resposta para expectativas de orientação espacial, conforto ambiental,
funcionalidade, economia, sustentabilidade etc. Tais atuações em geral não são coerentes,
indicando que prevalecem certos objetivos sobre outros.

Embora quase nunca se explicitem opções por atender a este ou àquele aspecto (como à
funcionalidade em detrimento de barateamento de custos, por exemplo), existe um discurso
espacial que denuncia as escolhas. Esse discurso estrutura-se por características configurativas
dos lugares incidentes em expectativas sociais e, portanto, expõe-se à avaliação dos sujeitos,
permitindo que se fale em desempenho morfológico do espaço. Por outro lado, diferenças no
comportamento configurativo de uma mesma situação evidenciam que os atributos de sua
forma física incidem distintamente na resposta a expectativas sociais variadas. Mostram que
existem predicados morfológicos específicos para satisfação de certas expectativas sociais
(como, por exemplo, funcionais), mas que não necessariamente auxiliam o bom desempenho
espacial para outras (como, por exemplo, para orientação ou para economia de recursos).

Nesta ocasião, vamos considerar as transformações do espaço urbano brasileiro no que se


refere a suas características morfológicas incidentes em expectativas de interação social e
identidade cultural. Limitações de tempo permitem apenas uma breve abordagem, onde se
enfatizam tipicidades desse processo, embora sob riscos de reduções.

A interação social possibilitada por certos tipos de configurações espaciais interessa a nossa
análise mesmo se restrita ao mero estar físico de pessoas, sem quaisquer diálogos verbais. Os
efeitos dessas práticas foram registrados por Jacobs (1961), Mitscherlich (1965), Sennet
(1974) e Featherstone (1990), dentre outros, mas existem atributos morfológicos que
incentivam, possibilitam ou restringem a presença corpórea no espaço, promovendo interações
sociais. Ou seja, há razões configurativas para termos áreas livres públicas cheias de gente ou
desertificadas. Os trabalhos de Hillier & Hanson (1984) e de Holanda (2002) apontam para o
papel decisivo de permeabilidades e barreiras espaciais ao movimento dos pedestres para certo
tipo de interação social, qualificada por esses autores como co-presença. Permeabilidades e
barreiras podem ser examinadas pela forma e o tamanho dos recintos que compõem as áreas
livres públicas, pela quantidade de portas que dão diretamente para tais recintos e pelos eixos
de permeabilidade que os atravessam. Essas características nos ajudarão a analisar as
transformações do espaço urbano brasileiro quanto às possibilidades de interação social,
embora aqui se reduzindo bastante o alcance teórico oferecido pelos referidos autores.

A identidade cultural dos lugares significa sua possibilidade de expressar costumes, tradições
e valores, evocando certos grupos sociais ou povos. Essa associação pode ser observada a
partir da capacidade simbólica dos lugares, conforme encontramos em Hall (1973), Norberg-
Schulz (1980), Gottdiener & Lagopoulos (1986), Rapoport (1990) e Amerlinck (1995), mas
também ser entendida a partir da potencialidade afetiva do espaço (como em Lynch, 1960 e
Tuan, 1974 e 1977, dentre outros). Em ambos os enfoques, certas características morfológicas
constroem a identidade dos lugares, como expressou, de modo pioneiro, Camillo Sitte (1889),
sendo no século XX resgatado por Lynch (1960) e Cullen (1961), e sistematizado por Trieb
(1974 e outros títulos), Markelin (1974) e Trieb & Markelin (1976). O trabalho desses autores
expõe o papel fundamental da percepção do espaço na abordagem da identidade cultural dos
lugares, e destaca predicados morfológicos dos mesmos que incidem no sistema visual
humano tanto como códigos informacionais, quanto como normas de composição das formas.
Tais atributos são fenômenos de configuração, como unidade e diversidade; efeitos
semânticos, como pregnância, contraste ou associatividade; leis de composição plástica, como
ritmo e centro de gravidade; ou leis da Gestalt, como fechamento, proximidade e semelhança.
Observar o desempenho dos lugares quanto à revelação de sua identidade cultural implica
considerar sujeitos situados no interior do espaço, cujas condições de apreensão obedecem às
leis da percepção: o movimento do observador, a seleção e a transformação de informações.

As transformações do espaço urbano brasileiro, no que se refere a suas possibilidades co-


presenciais e de revelação de identidade cultural, podem ser conduzidas pelas unidades
morfológicas. Estas significam o repertório utilizado para compor as cidades e suas partes,
como ruas, avenidas, vias, praças, parques etc., e se caracterizam tanto pela geometria de sua
percepção pelos indivíduos nelas inseridos, quanto por seu desenho expresso em
representações projetuais (Kohlsdorf, 1996, a e b). Portanto, as mudanças nas unidades
morfológicas das cidades brasileiras mostram como nosso espaço urbano alterou seu
desempenho quanto às possibilidades do exercício, nele, de práticas sociais que não
prescindem da presença física e que se enraízam na identidade cultural dos lugares.

- O ESPAÇO PÚBLICO NA CIDADE BRASILEIRA -


Assim como em todo o mundo urbanizado, o espaço das cidades brasileiras sofreu alterações
nos últimos sessenta anos com intensidade jamais ocorrida em toda sua história. Essas
transformações atingiram diretamente atributos configurativos incidentes em dois aspectos de
nossas áreas livres públicas: a) de lócus de encontros interpessoais não programados,
caracterizando-se pela intensa presença física dos indivíduos; e b) de lugares de fácil
identificação devido a seu forte enraizamento cultural. No caso brasileiro, porém, essas
transformações implicaram acirramento da exclusão social em cidades de todos os portes.
Devido ao crescente esvaziamento do meio rural no Brasil, o crescimento demográfico em
nossas cidades é enorme e não distribui os benefícios gerados nas mesmas, expulsando
rapidamente as populações pobres para periferias sempre mais distantes e com péssima
qualidade de vida.

A história urbana brasileira é recente. Ao tomarem posse do Brasil, a partir de 1500, os


portugueses encontraram comunidades autóctones agrupadas em aldeias de atividade extrativa
ou ínfima agricultura, quadro que permanece até hoje nos poucos exemplos remanescentes. A
cultura indígena brasileira enraiza-se em nossas matas, de onde provém caça, pesca e frutos
nativos. Cercados pelas florestas, os aldeamentos dos índios não prescindem de um amplo
espaço aberto, geralmente central e delimitado pelas ocas. Nessa espécie de praça dão-se
encontros cotidianos e cerimoniais, ainda que as práticas nela ocorrentes dependam dos tipos
de vida social de cada tribo ou nação. Trata-se de um espaço público que incentiva a co-
presença dada sua condição única na aldeia, centralidade quanto aos eixos de permeabilidade e
alimentação direta pelas entradas das cabanas que o cercam. Sua apreensão é facilitada pelo
contraste entre as visuais de campo amplo que caracterizam a percepção dessa unidade
morfológica, e os campos restritos dos percursos que a ela dão acesso, a partir das cabanas,
dos estreitos caminhos entre estas ou da própria mata próxima. São esses elementos que
compõem a identidade cultural das áreas livres públicas dos índios brasileiros.

Nas décadas seguintes aos primeiros contatos, parece interessar aos portugueses apenas
procurar ouro e extrair pau-brasil, pois se limitam a construir algumas fortificações, para uma
precária defesa territorial. Embora alguns fortes se tenham tornado embriões urbanos, é apenas
quando Portugal adotou uma atitude de colonização com esta terra e seus habitantes que
nasceram aldeias e cidades brasileiras, seguindo certos modelos espaciais claros quanto a suas
possibilidades co-presenciais e de identidade cultural.

No caso de aldeias, os jesuítas, parceiros dos portugueses na empreitada de colonização,


mantiveram a organização indígena em torno de uma praça, permanecendo hoje exemplos
preservados em algumas regiões brasileiras. As grandes dimensões dessa unidade morfológica
única congregavam índios aldeados e portugueses na catequese cristã, esta simbolizada pela
igreja que se destacava em uma das faces daquela, por sua condição solitária no trecho. A
organização das demais faces da praça contrasta pela quantidade de pequenas casas, contíguas
e abrindo suas portas diretamente para o espaço coletivo. Trata-se, assim, de um espaço
público que propicia a co-presença e preserva as qualidades morfológicas de seu similar da
aldeia indígena, recém descritos. Por outro lado, gera-se um atributo da identidade de nossas
áreas livres públicas, que só se vai esvaecer no final do séc.XX: um hibridismo que
representam, no espaço, a miscigenação étnica e cultural próprias ao povo brasileiro.

Na verdade tal hibridismo já se registra na cultura portuguesa do séc.XVI, tanto pela


influência moura na península ibérica, quanto pelas colônias fundadas por Portugal na Ásia e
na África. Ele vem para o segundo modelo de organização urbana no Brasil, pois as cidades
aqui fundadas reproduzem Lisboa ou o Porto, e não raro incorporam nos edifícios chinesismos
e detalhes encontrados na África Ocidental. As semelhanças vão desde a escolha do sítio,
geralmente à beira-mar; quando o relevo é algo acidentado, estende-se sobre ele malha
irregular, que origina ruas estreitas, tortuosas, de perspectivas curtas, e rica diversidade de
efeitos visuais. Nos terrenos planos, emprega-se um xadrez pouco rígido que mantém as
pequenas larguras das ruas e as visuais de campo restrito. As cidades brasileiras estruturam-se
por unidades morfológicas bem contidas pelas paredes do espaço público, resultado de lotes
estreitos e bastante compridos, onde os edifícios alojam-se sem afastamento frontal e
geralmente com alta contigüidade. Grande parte da área privatizada destina-se aos quintais de
frondosas árvores frutíferas, que se vão insinuar visualmente no espaço público, coroando os
telhados. Tais regras valem para o casario, configurador dos temas-base, mas muda em parte
nos temas-destaque monumentais. Estes realçam por seu tamanho, volumetria e fachadas mais
complexas, mas mantém a relação direta com as áreas livres públicas.

Esses atributos permaneceram nas cidades brasileiras até a metade do século XX, ainda que se
registrem diversas transformações espaciais nas mesmas. Neste período, o país urbanizou-se
ao longo de uma faixa estreita que acompanha a extensa costa do Brasil, deixando um
vastíssimo interior ocupado por florestas e grandes latifúndios. Mas em todos os exemplos
conhecidos, as unidades morfológicas estruturavam-se mantendo:
- características incidentes na indução de interação social nas áreas livres públicas, como
recintos de dimensões modestas; relação direta entre as áreas públicas e o interior das
edificações; eixos de circulação articulados em um único núcleo; integração de atividades nos
edifícios lindeiros a tais áreas, e entre os mesmos, por meio do espaço público.
- características responsáveis pela fácil leitura da identidade cultural expressa nas áreas livres
públicas, como hierarquia clara das unidades morfológicas (ruas, avenidas, praças etc.)
componentes do tecido urbano; individualidade de cada uma das partes da cidade; participação
intensa dos elementos de sítio físico (relevo, vegetação, hidrografia) nos campos visuais a
partir das áreas livres públicas; contraste forte entre temas-base e temas-destaque.

Portanto, as cidades do período colonial, as nascidas no curto Império brasileiro e as


contemporâneas às conturbadas fases da República não abandonaram esses princípios
morfológicos, até os anos 1960. Assim ocorreu em nossas duas primeiras capitais nacionais,
nas diversas cidades nascidas nos ciclos econômicos, nas cidades oriundas da imigração
organizada em fins do séc.XIX e princípio do XX e nas novas capitais regionais (como Belo
Horizonte e Goiânia). Elas preservaram tais princípios afirmando espacialmente uma
identidade brasileira sobre três vertentes em desigualdade de forças: a européia, formada pelos
colonizadores portugueses e por imigrantes de diversas regiões; a negra, proveniente da
prática escravagista durante séculos; e a indígena, a mais frágil de todas. Os espaços de nossas
cidades mantiveram as citadas características mesmo transformando-se a partir de influências
externas, como as da Missão Francesa, do ecletismo, da cidade-jardim, do Art Déco e do
protomoderno. Mesmo a produção arquitetônica brasileira anterior a Brasília, mas sintonizada
com o Movimento de Arquitetura Moderna, não logrou metamorfoses decisivas nas unidades
morfológicas de nossas cidades antes da metade do séc.XX.

Trata-se de uma história urbana cujo período majoritário nos mostra um papel categórico das
áreas livres públicas na vida social brasileira. Esse papel transcende diferenças regionais, pois
cumpre função de receber práticas cotidianas e cerimoniais que tanto reúnem grupos
homogêneos, quanto estabelecem co-presença entre indivíduos econômica e socialmente
muito diferentes. Tal fato refere-se às relações de vizinhança, onde nas ruas e praças brincam
crianças, encontram-se amigos, procura-se casamento, fala-se da vida alheia, e sabe-se mais do
que é divulgado pelos jornais, rádio e televisão. Mas ele também qualifica o centro urbano
(lugar cheio de pedestres), os lugares de cerimônias religiosas ou cívicas e de festas públicas,
onde o Carnaval é apenas uma delas. Dependendo do caso, são lugares de trabalho informal
(do vendedor, do prestador de serviços) e também de algumas lidas domésticas, melhor
desempenhadas ao ar livre do que em uma habitação precária. As áreas livres públicas assim
qualificadas são meio eficiente de passagem de informação irrestrita e menos manipulada,
processo que não prescinde das características morfológicas anteriormente descritas.

Evidentemente, estamos lidando com um clima tropical propício a uma intensa utilização das
áreas livres públicas, na maior parte do território e praticamente durante todo o ano. E com
uma cultura cuja diversidade de influências tem sido considerada responsável pela
cordialidade que caracteriza o brasileiro, pertença ele a qualquer das classes sociais que se
estratificam fortemente ao longo de nossa história (Holanda, 1936, 1997). Ainda que
preservando separação nítida entre instâncias públicas e privadas (Da Matta, 1985), o espaço
das cidades brasileiras, até, correspondia a uma vida social e cultural urbana que se apoiava
em atributos morfológicos propícios à interação social, a tal ponto destes impregnarem a
própria identidade dos lugares.

- A RUPTURA MORFOLÓGICA -

A ruptura morfológica que ocorre a partir da década de 1960 nas áreas livres públicas de
nossas cidades articula-se a mudanças profundas da vida social brasileira. O sintoma agudo
dessas transformações é o esvaziamento do campo e o inchaço das cidades que se
industrializam, sempre próximas à costa. Embora não se possa aprofundar este tema no
momento, a revolução industrial brasileira dá-se nessa época, com mais de cem anos de atraso
em relação ao Hemisfério Norte. Ela incide em uma estrutura fundiária absurdamente
concentrada em poucas mãos, remanescente de terras obtidas no período colonial, e não
expandiu a precária produção industrial herdada do início do séc.XX., que abastecia a
comercialização de bens simples (como têxteis e alguns utensílios domésticos). Nossa
industrialização também não se voltou à mecanização da agricultura arcaica, mas a bens de
capital (automóveis, eletrodomésticos), beneficiando o consumo das classes urbanas mais
abastadas. E, por outro lado, estava reservada à industrialização brasileira uma economia
capitalista dependente, posição que se iria consolidar no mundo globalizado.

A tal contexto sócio-econômico correspondeu uma urbanização que aumentou ainda mais a
concentração populacional, primeiro no eixo Rio-São Paulo. A esta se vem somar, depois, as
demais capitais e, a partir da década de 1970, as cidades de porte médio. Os últimos anos do
século passado encontraram a maior porção do vastíssimo território brasileiro ainda ocupada
por extensos latifúndios, e enormes concentrações urbanas na faixa costeira, mesmo que esta
se tenha alargado na metade sul do país. Para este fato, provavelmente contribuiu a mudança
da capital para o centro-oeste do Brasil, cumprindo uma das metas do presidente Kubitschek
quando assumiu a criação de Brasília: a urbanização do interior do país. No entanto, a nova
capital também respondia ao desejo político de diminuir os conflitos sociais nas cidades
inchadas do litoral e, especialmente, no Rio de Janeiro, onde conviviam perigosamente
favelados e o poder federal constituído. Não se deve esquecer o quanto esse convívio era
possibilitado pela estrutura morfológica do Rio, que até hoje se configura, em sua maior parte,
pelos já descritos atributos favoráveis à co-presença nas áreas livres públicas.

Brasília deveria modificar os traços do desenvolvimento brasileiro, tornando-o menos


excludente, conforme os discursos fundadores dos políticos, dos intelectuais e do autor de seu
plano, Lucio Costa. Ela não o fez (pelo menos até agora), mas alterou radicalmente a maneira
de se configurarem as unidades morfológicas. Inaugurou no Brasil um modo de organização
de nossas cidades que logo passou a prevalecer nas reformas urbanas, nos novos bairros e nas
cidades fundadas a partir de então, e instalou um pensamento praticamente único no ensino de
arquitetura e urbanismo.

Sintonizado com a intelligentsia internacional dos anos 1950, o modelo morfológico de


Brasília cultua a manière de penser l’urbanisme de Le Corbusier, e segue os princípios da
Carta de Atenas. Por outro lado, apoia-se em um discurso ao mesmo tempo nacionalista e
europeu, próprio a Lucio Costa, representante de uma intelectualidade sensível a nossas raízes
culturais, mas formada na Europa. Tais fatores se condensam em sua proposta, elogiada pelo
júri do concurso em função da estrutura espacial clara e adequada a uma capital. Isto depõe a
favor de uma identidade forte do plano desse urbanista, mas é discutível se existe nele
enraizamento cultural brasileiro que remeta à maneira vernácula de configurar nossas cidades.

Por outro lado, é difícil afirmar que Brasília, tal como foi implantada, corresponda às idéias de
Lucio Costa, dado o caráter preliminar de seu projeto, e às inúmeras modificações sofridas
pelo mesmo, logo após o concurso e durante os 42 anos dessa cidade. O mesmo vale para as
unidades morfológicas de Brasília, embora nestas ecoem, já nos croquis de Costa, certos
princípios modernistas que rompem com a maneira tradicional de organizar as áreas livres
públicas brasileiras. Tais princípios estruturam o espaço público real dessa cidade, e passam a
prevalecer nas mudanças que atingem todas as cidades brasileiras nas últimas quatro décadas:
- delimitação imprecisa do espaço público por paredes dos edifícios (porque estes posicionam-
se sempre isolados);
- acesso indireto aos edifícios (pois suas portas não abrem diretamente para o espaço público);
- grandes dimensões das áreas livres públicas;
- exclusividade de uma única atividade nos edifícios lindeiros ao espaço público;
- monofuncionalidade de grandes porções de tecido urbano;
- internalização de atividades comunitárias.

Além de instituírem uma outra família morfológica, essas mudanças incidem diretamente nas
possibilidades de interação social nas áreas livres públicas, pois:
- os recintos públicos aumentam muito de tamanho;
- os espaços públicos tornam-se cegos, pois para eles não se abrem portas diretamente dos
edifícios;
- aumentam as distâncias a serem vencidas entre edifícios e setores monofuncionais;
- há enorme dispersão das integrações dos eixos de circulação.

Esse código configurativo impõe uma morfologia de segregação ao espaço público, pois, ao
isolarem-se edifícios, separam-se pessoas (Holanda, 2002). À morte da rua e da praça
sucedem-se áreas livres desertificadas, e os pedestres são substituídos pelos automóveis.

Embora com identidade forte, a percepção de Brasília dificilmente evoca, ao observador


comum, a tradição urbana brasileira. Rompe com o tradicional enraizamento de nossas áreas
livres públicas em função de:
- unidades morfológicas pouco diversificadas, pois vias e áreas verdes seguem um mesmo
modelo de espaço amplo com limites laterais descontínuos;
- assemelhação de diversas partes da cidade, pois as regras configurativas são praticamente as
mesmas, e várias zonas residenciais são idênticas;
- embora a vegetação e os desníveis de terreno sejam muito presentes, não remetem ao meio
natural onde a cidade se implanta, pois trata-se de uma natureza recriada (espécies exóticas,
relevo modelado por vigorosos terraplenos, lago artificial);
- temas-base formados por repetição, e não por associação de elementos compositivos;
- cenário uniforme, dada a repetição dos elementos compositivos (edifícios, vegetação ou
mobiliário urbano);
- paisagem anônima, onde prevalecem edifícios que, sejam nos moldes do international style
ou das vertentes pós-modernas, não dialogam entre si, nem com os elementos do rico sítio
natural brasileiro.
Brasília é uma cidade com orientação difícil para os forasteiros, que internalizam seu código
topoceptivo apenas depois de repetidas experiências de percepção na cidade. Estas se dão
forçosamente por meio de veículos (quase sempre automóveis), pois os deslocamentos a pé
são penosos devido às grandes distâncias, aos caminhos pouco sombreados e sem
pavimentação e às inúmeras barreiras físicas ao movimento pedestre.

No entanto, a Brasília-real não se restringiu à idéia inicial, nem se conteve na área prevista.
Ela sempre foi uma cidade polinucleada (Paviani, 1985), composta por diversos tipos de
configuração entrelaçados no tecido urbanizado do Distrito Federal (Kohlsdorf, 1985, 1996,b).
Tal mosaico morfológico resulta do encontro conflitante de interesses, onde convivem:
- configurações vernáculas de partes de Planaltina e Brazlândia, cidades anteriores à criação
de Brasília, e que a ela se anexaram como satélites;
- o tipo genuinamente modernista do Plano Piloto;
- o tipo modernista periférico das cidades satélites;
- os acampamentos de obra que resistem a desmonte;
- as favelas;
- as invasões de populações de renda média em terras irregulares;
- os novos bairros criados pelo governo.

À exceção do modelo vernáculo e das favelas, em todos os demais tipos de organização


espacial da Brasília-real permanecem as características de descontinuidade e segregação
espacial, e elas se comunicaram a suas unidades morfológicas. Assim, as características de
configuração incidentes na interação social e na identidade cultural de suas áreas livres
públicas seguem a regra imposta pelo modelo modernista, recém descrito. No entanto, o
mosaico brasiliense tem sido muito dinâmico, e todos os seus tipos sofrem um processo de
assemelhação ao modelo das cidades satélites de Brasília. Isto significa os diversos tipos
migrarem para uma versão que enfatiza atributos morfológicos de segregação espacial e
social, presentes no nascedouro dos tipos mórficos modernistas: barreiras físicas ao
movimento pedestre, interiorização de atividades gregárias e abolição da rua pela relação
indireta entre os espaços públicos e privados, para falar dos mais importantes.
Concomitantemente, registra-se em todos os tipos componentes da Brasília-real uma
desqualificação progressiva de predicados de composição espacial incidentes na leitura dos
lugares. Tal fato deve-se ao crescente desequilíbrio da organização das informações
visualmente captáveis, seja por sua escassez, seja pela excessiva diversidade das mesmas.

Essas tendências não se limitam ao Distrito Federal, mas são encontradas em qualquer cidade
brasileira, e até mesmo em algumas consideradas patrimônio histórico, onde se registra, não
raro, intervenções profundamente descaracterizadoras. Tais tendências confirmam o
rompimento com a maneira tradicional de organizar o espaço urbano brasileiro, a partir da
criação de Brasília. Essa ruptura morfológica atinge práticas culturalmente enraizadas que,
como vimos, não prescindiam de espaços organizados segundo atributos configurativos
propícios à co-presença e que facilmente remetiam a costumes, tradições e valores brasileiros.
Em um cenário desertificado, beneficiam-se práticas sociais que não se apóiam no espaço
público, e as atividades urbanas se interiorizam, implicando maiores possibilidades de controle
grupal e seleção. Mas, lembrando Mitscherlich, a inesgotável capacidade adaptativa das
pessoas acomoda também seu antigo modus de brasilidade urbana, evidentemente às custas do
abandono de uma cultura que, apoiada na celebração do cotidiano nos espaços públicos,
impregnava-se nas características das unidades morfológicas de nossas cidades.

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