Você está na página 1de 17

O teatro no século XX

FAZER UM PANORAMA SOBRE O GÊNERO DRAMÁTICO NOS ESTADOS UNIDOS DURANTE O SÉCULO XX,

FALANDO SOBRE OS PRINCIPAIS DRAMATURGOS E SUAS PEÇAS MAIS RELEVANTES, ALÉM DAS
TENDÊNCIAS GERAIS DO TEATRO NORTE-AMERICANO

AUTOR(A): PROF. ELTON LUIZ ALIANDRO FURLANETTO

O teatro americano no século XX


Até o início do século XX, vários dramaturgos já haviam produzido peças interessantes, seguindo os
modelos europeus. Porém, é apenas com a virada do século que o realismo tradicional das peças dá lugar às
experimentações na forma e no conteúdo.

Diversos dramaturgos como Eugene O’Neill, Tennessee Williams e Arthur Miller ficaram extremamente
famosos, ganhando prêmios e sendo reconhecidos pelo cuidado que tinham com o realismo psicológico, o
qual comentava desde os aspectos da personalidade até as diversas situações da sociedade norte-

americana.

Legenda: CARTAZ DA PEçA THE BLACK CROOK, DE 1886, CONSIDERADO POR ALGUNS HISTORIADORES

COMO O O PRIMEIRO MUSICAL DA HISTóRIA


O teatro sempre se assumiu enquanto uma ferramenta política, de comentário mais direto sobre os

assuntos sociais, de montagens amadoras e experimentais até as megaproduções, ele lutava com as outras

mídias como o cinema e a televisão, sempre objetivando complexificar os debates e multiplicar os pontos de
vista sobre o espírito humano e a sociedade. Veremos um panorama de muitos dramaturgos e peças que

formaram a grande tradição dramática norte-americana.

Período inicial: 1900-1914


O Realismo atingiu um novo patamar com dois dramaturgos: David Belasco e Clyde Fitch.   O realismo de
assuntos polêmicos foi colocado em cena neste período.

A peça The Girl of the Golden West (1905) recria uma cidade rural do interior da Califórnia na época da

Corrida do Ouro. É uma reinterpretação da ópera “Madame Butterfly”, de Puccini. O dramaturgo foi
pioneiro no uso de diferentes desenhos de luzes e efeitos especiais. 

Legenda: PôSTER DA PEçA THE GIRL OF THE GOLDEN WEST, DE DAVID BELASCO

Já Fitch, o primeiro dramaturgo americano a publicar suas peças, em 1909 com The City, explora os males

de negócios escusos e drogas. Outras de suas peças são The Woman in the Case (1905) e The truth ((1907),

ambas comédias sociais. Esta foi sua última peça, pois no ano seguinte ele morreria por uma apendicite não
tratada.
Outro dramaturgo da época, Eugene Walters, encenou em The Easiest Way (1909) a história de uma mulher

que escolhe o apoio financeiro de um pretendente, rejeitando o homem que amava. A produção foi dirigida

por Belasco.

As diversas tensões sociais que levavam o mundo à Primeira Guerra Mundial foram sentidas pelos

dramaturgos naquela época. Nas suas peças, eles já pressentiam algum tipo de situação complexa e

perigosa.

Uma das dramaturgas mais produtivas foi Rachel Crothers, que falava dos dois pesos e duas medidas para
homens e mulheres na sociedade, na peça A Man’s World (1909). Já Langdon Mitchell comenta em The New

York Idea (1906) sobre o papel do divórcio na sociedade.


Como podemos ver pelos assuntos tratados nessas peças, o tema da família norte-americana, com seus

desenvolvimentos e posterior desintegração, era comum na dramturgia da época e continuou aparecendo

no decorrer de todo o século. 

O período entreguerras: 1914-1939


  Com a Primeira Guerra, as técnicas do teatro europeu moderno chegou aos palcos americanos. Uma série

de dramaturgos se propuseram a realizar experimentos com o estilo dramático e na forma de apresentar as

peças, além de intensificar os comentários sócio-políticos nos temas tratados.

Um dos primeiros grupos a divulgar um Novo Drama Norte-Americano foi o Provincetown Players, grupo

criado em 1915 na pequena cidade de Provincetown, Massachusetts. O membro mais importante do grupo
foi Eugene O’Neill, que foi um dos artistas e dramaturgos mais importantes do século. 
Legenda: FOTO DOS PREPARATIVOS DA PEçA BOUND EAST FOR CARDIFF, DE 1916. EUGENE O' NEILL
APARECE NA SUBINDO A ESCADA

Uma de suas peças mais importantes foi The Hairy Ape (1922), que introduziu o expressionismo no teatro

americano. A peça mostra um trabalhador chamado Yank e uma mulher chamada Mildred. Ele é trabalhador

das fornalhas de carvão de um transatlêntico. Mildred é uma jovem rica, curiosa pela sociologia do barco

onde está. Desce até os porões para conhecer os trabalhadores em seu ambiente, mas diante da brutalidade

das atitudes de Yank, desmaia. Ele é demitido e perde sua identidade. Andando pela cidade, ele vai parar em

um zoológico e lá liberta um gorila, com quem se identifica por estarem ambos enjaulados e oprimidos, e o

liberta, mas acaba sendo morto por ele.

Legenda: CARTAZ DE THE HAIRY APE, DE EUGENE O'NEILL, DE 1922

O expressionismo era um movimento artístico que se desenvolveu na Alemanha no começo do

século XX e tinha como objetivo reagir contra os excessos do Realismo. Assim, a ênfase dos artistas

era maior nos sentimentos subjetivos e emoções do que na descrição detalhada e objetiva da

realidade. A diferença principal entre o expressionismo americano e o europeu era o foco na vida

interior do personagem principal, cuja descrição detalhada entrava em contraste com aquela feita

por todos os outros personagens.


Durante os anos 1920, O’Neill seguiu produzindo peças e buscando sua realização artística. Ele, assim como

outros dramaturgos, transformava os palcos da cidade de Nova York em um centro do drama moderno.

Produziu peças de cinco horas de duração, como por exemplo, Strange Interlude (1928), com nove atos e que

explorava como os processos psicológicos da protagonista, Nina Leeds, afetam suas ações exteriores. A peça

ganha um Pulitzer no mesmo ano. 

O Prêmio Pulitzer foi criado em testamento por Joseph Pulitzer em 1917, e administrado pela

Universidade de Columbia, como uma forma de premiar os desenvolvimentos nas áreas do

jornalismo, literatura e música. Os prêmios são divididos entre 21 categorias (o teatro é uma delas

e a grande parte dos dramaturgos citados aqui ganharam Pulitzer por alguma de suas peças). O

vencedor ganha um certificado e um prêmio em dinheiro, que chega até a 10 mil dólares.

Legenda: FOTO DE EUGENE O' NEILL, EM MEADOS DE 1930

Nos anos 1930, O’Neill lança uma trilogia chamada Mourning Becomes Electra (1931), uma adaptação de

três tragédias gregas de Ésquilo sobre Orestes, portanto conhecidas como Orestéia. O dramaturgo escreve 3

peças de cinco atos cada, chamados Homecoming, The Hunted, and The Haunted. Pela sua duração e

número elevado de atores, não é uma peça tão produzida quanto as outras do artista, ou sofre cortes.
Passando-se logo depois da Guerra Civil, o enredo conta sobre a destruição moral, emocional  e física de

duas gerações da família Mannon, falando de assuntos como adultério, incesto, ciúmes e vingança. Em

1936, O’Neill ganha o Prêmio Nobel de Literatura e se torna o primeiro dramaturgo americano a fazê-lo.

Outro dramaturgo importante da época dos anos 1920 e 1930 foi Elmer Rice. Sua peça The Adding Machine

(1923) foi uma das marcas do expressionismo americano, contando a jornada emocional de Mr. Zero, um

contador que perde o emprego ao ser trocado por uma máquina calculadora. Seus sucessos seguintes foram

a peça Street Scene (1929), pela qual ganhou o Pulitzer, e We, the People (1933) cujo tema é a Grande

Depressão Americana e conta a história de uma família de um trabalhador e como os eventos históricos
nacionais afetavam suas vidas. 

Há estudos recentes e brasileiros sobre Elmer Rice. A estudiosa Maira Gonçalves Malosso escreve

sobre a impossibilidade do drama mostrar os eventos históricos que estavam acontecendo no

momento e, portanto, a necessidade do uso do teatro épico. Para saber mais sobre sua pesquisa,

basta acessar: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8147/tde-01082012-162933/pt-br.php

(http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8147/tde-01082012-162933/pt-br.php)

Outro dramaturgo importante para a época foi Clifford Odets. Filho de uma família judia imigrada do leste

europeu, começou a participar de grupos teatrais em Nova York. Ficou muito conhecido como um dos

mestres do teatro social. Sua peça mais famosa é Waiting for Lefty (1935), na qual ele defende o

sindicalismo trabalhista. No mesmo ano ele lança Awake and Sing!, que fala sobre o drama de uma família

pobre do Bronx, no qual os pais querem manipular os filhos atingir seus objetivos.  Em 1937, ele lança

Golden Boy, que conta a história de um violinista italiano que imigra e, seduzido por dinheiro fácil e rápido,
torna-se boxeador, mas fere as mãos e não pode mais tocar.

Uma questão importante das peças do período foi um aumento dos personagens negros. Ainda assim,

dramaturgos negros não obtiveram sucesso até os anos 1950, sendo representados, portanto, apenas por

dramaturgos brancos. Na peça In Abraham’s Bosom (1926) de Paul Green, que era branco, o personagem

principal é filho de mãe negra e pai branco, e tenta ajudar a comunidade negra onde vive, mas acaba sendo

derrotado pela força do preconceito tanto dos negros quanto dos brancos.

Outra questão importante para a época foi o surgimento de um outro desenvolvimento do teatro

americano. O letrista Oscar Hammerstein II e o compositor Jerome Kern juntaram seus talentos para criar o

musical Show Boat (1927). Esse foi o primeiro musical norte-americano a reunir um arranjo musical às

letras e diálogos. Nas palavras do próprio Hammerstein:

Here we come to a completely new genre — the musical play as distinguished from

musical comedy. Now ... the play was the thing, and everything else was subservient to

that play. Now ... came complete integration of song, humor and production numbers into

a single and inextricable artistic entity.

HAMMERSTEIN EM ENTREVISTA
Porém, foi somente a partir dos anos 1940 que os musicais leves se popularizaram. A parceria mais

interessante foi de Hammerstein com o compositor Richard Rodgers. A história de amor deles, Oklahoma!

(1943), foi um grande sucesso e determinou o estilo dos musicais como a integração de diálogo falado e

música até os anos 1960. Outro de seus sucessos famosos foi o musical The Sound of Music (1959), que

ganhou 6 Tonys, incluindo o de melhor musical, e ficou popularizado pelo filme, gravado 6 anos depois. 

Legenda: CARTAZ ORIGINAL DA PEçA MUSICAL OKLAHOMA! NA BROADWAY, EM 1943

A Grande Depressão e a Segunda Guerra


Durante os anos 1930, por causa da crise, o público do teatro diminuiu drasticamente. Um dos grandes

motivadores dessa crise também era a nova tecnologia do cinema, que agora contava com a voz. Outro dos

motivos era que as dificuldades financeiras fizeram com que muitos teatros fechassem permanentemente.
Ainda assim, é possível identificar alguns nomes e temas importantes. Um deles foi o poeta e romancista,

além de ativista social, Langston Hughes. Ele fazia sucesso nas outras artes e escreveu Mulatto (1935),

falando sobre as questões raciais e servindo como modelo para os futuros dramaturgos afro-americanos.

O tipo de estrutura de sentimento causado pela crise aparece nas peças satíricas de Robert Sherwood, que

em Idiot’s Delight (1936) ataca o sistema eficiente de fabricação de armamento, que depois seria utilizado

na Segunda Guerra Mundial. Essa peça ganhou o Pulitzer daquele ano.

Durante a Grande Guerra, como ela costuma ser chamada, nenhuma peça de destaque foi produzida. Ou

tínhamos ficções escapistas ou propaganda de guerra que o governo encomendava como forma de

convencer as pessoas das decisões tomadas por eles.

Pós Guerra (a partir de 1945)


Com o fim dos conflitos, dois grandes nomes surgiram na cena teatral. E eles seriam “os” dramaturgos das

décadas seguintes: Arthur Miller e Tennessee Williams. 

Miller escreveu juntando personagens realistas e uma preocupação pelos problemas sociais, além de

escrever tragédias modernas, tal qual Death of a Salesman (1949), traduzido para o português como A Morte

de um caixeiro-viajante. Ela fala sobre a vida e a morte de um homem comum, o trabalhador Willy Loman.
Além disso, na peça The Crucible (1953), com o nome de As bruxas de Salem, na tradução da Companhia

das Letras de 2009, Miller faz uma analogia entre a caça às bruxas feita pelos Puritanos no século XVII e a

perseguição política aos artistas e trabalhadores no início dos anos 1950, no período que se convenciona

chamar de McCarthismo. 

Legenda: ARTHUR MILLER COM SUA SEGUNDA ESPOSA MARYLIN MONROE, NO WALFORD-ASTORIA

HOTEL, EM NOVA YORK, 1957


O período do mccarthismo foi marcado por uma perseguição forte aos comunistas e aos artistas

que, mesmo não sendo comunistas, criticavam o governo e as mazelas sociais. Para ter um olhar

brasileiro sob estes assuntos, você pode ler a dissertação de Thiago Pereira Russo: Análise formal

de All my sons e de An enemy of the people, de Arthur Miller. O link se encontra nas referências

Já Williams foi um dos dramaturgos mais poéticos da época, e contribuiu com muitas peças sobre os

enjeitados sociais e os oprimidos. Em A streetcar named desire (Um bonde chamado desejo) (1947), uma

mulher sulista, que era rica e empobreceu, luta de maneira neurótica para manter as ilusões de vida boa

mesmo quando forçada a encarar a realidade pelo marido operário da sua irmã, com quem acaba tendo que

ir morar. Outra de suas peças, Cat on a Hot Tin Roof (Gata em teto de zinco quente) (1955), ganhou o

prêmio Pulitzer e de forma parecida mostra a questão das aparências, da agressividade e da destruição de

uma família infeliz.

Legenda: CARTAZ DO FILME A STREETCAR NAMED DESIRED (1951), ESTRELADO POR VIVIEN LEIGH E

MARLON BRANDO

Anos 1950
O Realismo continuou como uma forte tendência nessa década, falando de personagens rejeitados pela

sociedade. Em Come back, Little Sheba (1950), William Inge contou a história de vidas fracassadas de um

médico alcoólatra e a esposa dele. Eugene O’Neill ainda produzia, porém morre nesta década. Uma das suas
últimas peças foi Long Day’s Journey into Night (1956), autobiográfica e considerada por muitos críticos

como sua obra prima. Ela estreou 3 anos após a morte do dramaturgo. A peça mostrava um dia na vida da

família Tyonne, no qual todos se confrontavam apontando os erros e falhas alheias.

No final dos anos 1950, a dramaturgia dos negros recebeu muito destaque, principalmente com a peça A

Raisin in the Sun (1959), a história de uma família negra e como eles têm de lidar com uma certa
estabilidade financeira. A peça foi escrita por Lorraine Hansberry e foi muito aclamada por público e crítica.

Foi inovadora também por ter sido a primeira peça da Broadway dirigida por um negro: Lloyd Richards. 

Legenda: CENA DA PEçA A RAISIN IN THE SUN, DE LORRAINE HANSBERRY

Foi também nos anos 1950 que as peças do teatro do absurdo começaram a aparecer, pelas mãos de Edward

Albee. O refinamento do diálogo somado ao suspense psicológico atraíram a imaginação dos norte-

americanos, já na sua primeira peça Zoo Story (1959). Outra das peças de Albee, que ficou popular também

por sua versão cinematográfica, é Who’s afraid of Virginia Woolf (1962), no qual um casal vai se destruindo,

majoritariamente por meio do abuso verbal.

Segundo a Wikipedia, o teatro do absurdo foi a designação criada em 1961 pelo crítico húngaro,

radicado na Inglaterra, Martin Esslin (1918-2002), tentando sintetizar uma definição que agrupasse

as obras de dramaturgos de diversos países que, apesar de serem completamente diferentes em suas

formas, tinham como centro de sua obra o tratamento inusitado de aspectos inesperados da vida

humana. Martin Esslin destaca como dramaturgos do teatro do absurdo, o escritor romeno,
radicado na França, Eugène Ionesco (1909 - 1994), o irlandê1962)s Samuel Beckett (1906 - 1989), o

russo Arthur Adamov (1908-1970), o inglês Harold Pinter (1930-2008), o espanhol Fernando

Arrabal (1932), o francês Jean Genet (1910-1986) e o estadunidense Edward Albee (1928).

Embora o termo seja aplicado a uma vasta gama de peças de teatro, algumas características

coincidem em muitas das peças: um sentido tragicómico, estrutura muitas vezes semelhante ao do

Vaudeville, com quadros não necessariamente conectados; alternância entre elementos cômicos e

imagens horríveis ou trágicas; personagens presas a situações sem solução, forçadas a executar

ações repetitivas ou sem sentido; diálogos cheios de clichês, jogo de palavras e nonsense; enredos

que são cíclicos ou absurdamente expansivos; paródia ou desligamento da realidade e artifícios da

well-made play (peça bem-feita, regras dramáticas do século XIX de como se fazer uma peça).

Anos 1960
As lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos e os movimentos contra a guerra do Vietnã serviram de

inspiração para uma explosão no teatro americano, na qual os teatros regionais e as peças experimentais

floresceram e muitos dramaturgos de talento se destacaram. As mudanças sociais e a instabilidade política

afetaram o drama da época e das décadas seguintes. Muitos dramatrugos questionaram os códigos de

comportamento social e apresentaram diferentes pontos de vistas, dando voz à pessoas que não haviam

antes sido consideradas.

As companhias experimentais de teatro, incluindo The Living Theater  e a The Open Theater
experimentaram com diferentes dinâmicas de pessoas ao colocar artistas e público no mesmo espaço. 

Legenda: ATUAçãO NO THE LIVING THEATER


Jean-Claude Van Itallie eliminou as barreiras entre atores e público, recriou histórias bíblicas pela lente de
acontecimentos modernos, como o assassinato do presidente John Kennedy em peças como The Serpent

(1968).
Megan Terry, uma das fundadoras do The Open Theater, experimenta com a estrutura tradicional do drama

ao colocar um artista interpretando uma multiplicidade de personagens sem transições aparentes: o actor’s
transformation. Uma de suas peça mais conhecida, Calm Down Mother (1964) utiliza a técnica.
Os dramaturgos negros continuaram sendo vozes fortes e confrontativas nessa década. A peça de Amiri
Baraka, Dutchman (1964), mostra o medo e o ódio da sociedade branca contra um protagonista negro bem

aculturado. Suas outras peças vão na mesma direção. Ele era conhecido não apenas como dramaturgo, mas
como poeta, romancista e ensaísta. Adrienne Kennedy, escreve a peça autobiográfica Funnyhouse of a

Negro (1962), retomando o tema das dificuldades de ser um norte-americano de descendência misturada:
 em um ato, conhecemos Sarah, uma jovem negra de NovaYork que admira sua mãe branca e despreza seu

pai negro. Para mostrar a batalha mental da protagonista, a dramaturga transforma o palco na manifestação
da mente de Sarah, usando figuras históricas como representação da herança branca e negra dela.

Anos 1970 e 1980


Nessas décadas, dois nomes se destacaram bastante, assim como Miller e Williams haviam feito nos anos
1950: Sam Shepard e David Mamet.

Shepard veio de uma família militar, o que fez com que se mudasse muito quando jovem. Tendo sido parte
de uma banda de rock, encontra uma voz nos Beat Poets das gerações anteriores. Suas primeiras peças,

Cowboys e Rock Garden já prefiguram os temas que estariam presentes em suas melhores obras: a
competição masculina e o oeste. Suas peças mais maduras como Buried Child (1978) e True West (1980), são

intensas montagens sonre os mitos destrutivos do oeste americano, que evocam o amor e a violência na
família: seus personagens agem de maneira imprevisível, quase ilógica e espontânea. Os personagens

determinam o enredo e não o contrário.


Já Mamet, criado em Chicago, é responsável por um estilo mais sombrio e cômico, que imitava a fala
fragmentada, as dificuldades da articulação e a violência na linguagem. Diversos temas muito caros para

Arthur Miller são atualizados aqui: busca de dignidade e segurança sendo minadas por competição, busca
irrefrada por lucros e corrupção. Sua peça Glengarry Glen Ross (1983), tornada filme uma década depois,

mostra a decadência moral de um vendedor que se associa com a ideologia do “lucro a qualquer custo”. Essa
peça venceu o prêmio Pulitzer do ano. Suas peças mais recentes, como Oleanna (1991) e The Criptogram

(1994) vão tratar de temas diversos como o assédio sexual em uma universidade e a vida familiar vista do
ponto de vista de uma criança.
Legenda: CARTAZ DA PEçA GLENGARRY GLEN ROSS (1983), DE DAVID MAMET

A partir dos anos 1970, um movimento chamado pós-modernismo passou a ser identificado no drama
americano. Ele ficou mais restrito à direção e produção, e só depois passou para os temas e assuntos das

peças. Os cenários e os design artísticos se tornaram minimalistas, utilizando imagens de outras gerações,
de maneira a homenagear ou parodiar os antecessores. Os diretores procuravam incorporar múltiplos

significados e camadas às peças.


Foi nessa época que tivemos uma explosão da dramaturgia feminista. Já vimos diversas dramaturgas que

obtiveram sucesso no decorrer do século, mas Maria Irene Fornés, Beth Henley e Wendy Wasserstein são os
nomes mais conhecidos, que trabalham com temas femininos das preocupações contemporâneas das

mulheres.
A presença dos dramaturgos afroamericanos estava marcada com August Wilson. Ele havia enfrentado a

pobreza e o racismo na juventude e suas peças vão fazer um retrato do que haviam sido e se tornado os
movimentos negros das décadas anteriores. Duas de suas peças mais importantes ganharam o Pulitzer:
Fences (1985) e The Piano Lesson (1987). A primeira se passa nos anos 1950, fala sobre um pai e um filho,
suas projeções para o futuro, baseball e o sonho americano. A segunda é sobre a disputa entre um irmão e
sua irmã, que querem vender umas relíquias da família para comprarem terras onde seus antepassados

haviam servido como escravos.


Anos 1990
Esta década testemunhou o retorno de alguns grandes nomes da dramaturgia que pareciam ter se
aposentado já: Arthur Miller (com Broken Glass, 1994) e Edward Albee (com Three Tall Women , 1994). Outro

nome bastante relevante para a época foi Tony Kushner.


Seu maior sucesso foi a peça Angels in America, transformada em minissérie pela HBO, e composta em duas

partes: Part I, 'Millennium Approaches', e Part II, 'Perestroika'. Trata-se de uma peça que mistura o drama
com o épico e trata da epidemia de AIDS que vinha assolando os Estados Unidos, principalmente a

comunidade gay, desde a década anterior. Ele entrelaça várias tramas e parte do ponto de vista de oito
personagens diferentes. O autor mistura comédia, comentários políticos e efeitos especiais. Em 1993, ele

ganha o Pulitzer pelas duas obras. Além dessas obras, Kushner escreveu sobre os conflitos modernos dos
Estados Unidos, como Caroline, or Change (2003), um musical no qual ele fala sobre a negra Caroline

Thibodeaux que é empregada da família judia, os Gellmans. Ela ganha um salário muito ruim e passa por
uma grande humilhação, quando é acusada de roubar do filho do casal, que tem apenas oito anos de idade.

Legenda: CARTAZ DE ANGELS IN AMERICA: A GAY FANTASIA ON NATIONAL THEMES (1993), DE TONY

KUSHNER
Para uma perspectiva sobre a peça Angels in America de Kushner, você pode ler a dissertação de
mestrado de Márcio de Deus, com uma análise da peça e seus elementos. O link para acessá-la pode

ser encontrado nas referências da aula.

Desde a metade da década de 1990 até o início da década seguinte, houve uma febre de reapresentações de
peças mais antigas e os musicais comerciais grandes passaram a dominar o teatro comercial. Um dos

eventos que marca essa mudança de paradigma é o lançamento da versão musical da animação da Disney O
rei Leão, em 1997.

Quase todas as peças que não eram musicais ou play revivals se originavam em teatros regionais. Porém
eles passavam por dificuldades porque tinha uma verba menor, criando peças de apenas um cenário e

poucos personagens. A competição com outros meios de entretenimento, como a televisão, o cinema e a
internet agravava esse quadro. Muitos teatros rejeitavam as peças estilizadas ou experimentais porque as

viam como riscos de não cobrirem os gastos de produção. Isso fez com que a maioria das peças só fosse
realmente conhecida devido a suas adaptações para filmes e séries. Muitos dramaturgos atualmente

escreveram ou escrevem eles mesmos os roteiros de suas peças para o cinema ou televisão.
Apesar de muitas experimentações e assuntos aparecerem continuamente no mundo do drama, muitos

escritores e escritoras acreditam que o drama norte-americano se tornou conservador demais nos trabalhos
mais influentes e especializado demais nas produções alternativas.

A grande questão atual é se o século XXI vai permitir que trabalhos originais e dramaturgos de envergadura
possam surgir.

 
Atividade:

Escolha algum dos diversos dramaturgos citados no decorrer da aula. Escolha uma peça dele ou dela e tente
obter uma cópia do texto, em inglês ou na sua tradução, caso ela exista. Converse com seu tutor se tiver

dificuldade de encontrar o texto. Faça a leitura integral ou de algum dos atos. Observe as seguintes
questões: Quais características são mais marcantes no texto? Há alguma técnica experimental sendo usada,

que se destaca do drama tradicional? Há alguma adaptação para o cinema? Há diferenças muito grandes
entre o texto e a versão fílmica (nas falas, no cenário, etc)?

REFERÊNCIA
BESSA, Maria Cristina. Panorama da Literatura Americana. São Paulo: Alexa Cultural, 2008.
DEUS, Márcio Aparecido da Silva de. Análise dos recursos épicos em Angels in America, de Tony Kushner

(Part I, 'Millennium Approaches', e Part II, 'Perestroika'). (Dissertação) USP, 2014. Disponível em:
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8147/tde-06112014-105506/pt-br.php

MALOSSO, Maira Gonçalves. Análise da forma épica na peça We, the people de Elmer Rice. (Dissertação)
USP, 2012. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8147/tde-01082012-162933/pt-
br.php (http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8147/tde-01082012-162933/pt-br.php)

ROYOT, Daniel. A Literatura Americana. Série Essência. Tradução Maria Helena Vieira de Araújo. Revisão
técnica Marcos César de Paula Soares. São Paulo: Ática, 2009.
RUSSO, Thiago Pereira. Análise formal de All my sons e de An enemy of the people, de Arthur Miller.
(Dissertação) USP, 2014. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8147/tde-01122014-

105930/fr.php (http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8147/tde-01122014-105930/fr.php)
VANSPANCKEREN, Kathryn. Outline of American Literature. Washington, D.C.: U.S. Information Agency,

1994.
www.en.wikipedia.org (http://www.en.wikipedia.org/)

Enciclopédia Encarta (2009) – Drama Americano Moderno