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N° 16 | Junho de 2011 U rdimento

ANJO NEGRO: SEXO E RAÇA NO


TEATRO BRASILEIRO1
Mara Lucia Leal2

Resumo

Com este texto proponho uma reflexão sobre o


impedimento de um ator negro interpretar o personagem
principal da peça Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, por
ocasião de sua estreia no Rio de Janeiro em 1948. Para
tanto, analiso a prática comum dos espetáculos teatrais
da época em pintar atores brancos de preto (blackface)
para representar personagens negros e o tabu da relação
erótico-amorosa entre um homem negro e uma mulher
branca tratada de forma magistral pelo autor.

Palavras-chave: Teatro Brasileiro, Anjo Negro, Blackface.

Abstract

With this text I propose a reflection on the circumstances


of a black actor being barred from interpreting the main
character of Nelson Rodrigues’ play Anjo Negro, on the
occasion of its first performance in Rio de Janeiro in 1948.
To do so, I analyze the theatrical practice common in those
days that white actors represented colored characters
with a black facial makeup (blackface) and the taboo of
an erotic relationship between a black man and a white
woman treated in a masterly way by author’s playtext..

Keywords: Brazilian Theatre, Anjo Negro, Blackface.

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Meu Deus do Céu, Entretanto, essa teoria cai por terra


tenho medo de preto! quando há um ator negro capacitado para
Tenho medo, tenho medo!3
o papel e este é impedido de representá-
lo. Depois de uma luta imensa de Nelson
Um homem Rodrigues para passar a peça Anjo Negro pela
censura brasileira, a “comissão cultural” do

A
Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde a
bdias do Nascimento, peça iria estrear, proibiu que o personagem
negro, ator, artista principal, Ismael, fosse representado por
plástico, militante da um ator negro. Ao exigir uma explicação,
causa negra e fundador Nelson Rodrigues ouviu o seguinte: “Se
do Teatro Experimental fosse um espetáculo folclórico... E há cenas
do Negro (TEN) teve a ideia de criar entre o crioulo e a loura. Olhe – que tal um
o grupo depois de assistir, perplexo, a negro pintado?” (ver em CASTRO, 2003,
encenação de O Imperador Jones, de Eugene p. 203). Abdias do Nascimento, grande
O’Neill, em viagem a Lima, Peru, na qual o inspirador do projeto de Nelson Rodrigues
personagem título, negro, era representado em escrever sobre o problema racial no
por um ator branco pintado. Brasil e para quem ele escreveu Ismael, foi
Era 1941 e, tanto no teatro como na impedido de fazer o papel.
sociedade, tentava-se apagar a existência Eu entrei em contato com Anjo Negro e
física da cor negra, ou então, apresentá- os desdobramentos racistas de sua estreia
la na ficção do piche. Por isso, desde o quando tinha recém chegado a Salvador
seu surgimento em 1944, o TEN não era e buscava me inserir na cena local. Os
só um experimento teatral, pois além estudos que fiz para encarnar o papel de
das montagens de espetáculos, o TEN Virginia, a mulher subjugada pela violência
promoveu cursos de alfabetização de sexual e pelo desejo reprimido, que mata
adultos, o 1. Congresso do Negro Brasileiro, os filhos negros como meio de salvação, me
o Conselho Nacional de Mulheres Negras, o ajudaram a refletir sobre as relações raciais
debate sobre a regulamentação do trabalho que vivia no dia-a-dia da cidade.
doméstico, concursos de beleza negra, Ao estudar a peça de Nelson Rodrigues,
entre outros. classificada como tragédia pelo autor, e
Apesar do espanto de Abdias, pintar o período em que foi escrita, me chamou
atores brancos de preto era uma prática muito a atenção o ato discriminatório do
comum no teatro ocidental até meados blackface. Assim, sem me furtar das relações
do século XX. Para a naturalização estreitas entre a arte e os condicionamentos
dessa atitude dava-se muitas respostas, históricos e sociais que a cercam, no caso em
a principal era a de que não existiriam questão, pretendo focar nos preconceitos
atores negros capacitados para o palco. da época, construídos historicamente,
Assim, infelizmente, se fazia necessário que geraram tal procedimento artístico, a
que um ator capacitado, ou seja, branco, despeito de toda uma corrente de artistas,
representasse esses papéis. como o próprio Abdias do Nascimento
e Nelson Rodrigues, que lutava ativa e
1 Uma primeira versão desse texto foi apresentada no artisticamente contra essas práticas. A
ENECULT (2008) e na ABRALIC (2008).
chave de minha interpretação vem do
2 Atriz/Performer formada pelo CAC/ECA/USP. Professora próprio texto: o tabu da relação erótico-
do Curso de Teatro da Universidade Federal de Uberlândia.
Mestre em Artes pela Unicamp com pesquisa sobre o teatro amorosa entre um homem negro e uma
de George Tabori. Doutoranda pelo PPGAC/UFBA com a mulher branca tratada de forma magistral
pesquisa Memória e(m) Performance: material biográfico na por Nelson Rodrigues.
composição da cena.
3 Todas as falas das epígrafes pertencem aos personagens da
peça Anjo Negro, de Nelson Rodrigues (Ver em RODRIGUES, Sempre o sonho dele foi violar uma
1981, p. 121-192). branca.

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Um personagem drama absurdo que os outros montaram


ao redor de mim, afastar estes dois termos
que são igualmente inaceitáveis e, através
Ismael, negro, médico. Segundo de uma particularidade humana, tender
seu irmão Elias, Ismael sempre quis ser ao universal (FANON, 2008, p.166).
branco: “Desde menino tem vergonha;
vergonha, não, tem ódio da própria cor”. Rodrigues afirma que escreveu Anjo
Ismael nega suas origens para tentar ser Negro porque achava um absurdo o negro
aceito no mundo branco; ao ser rechaçado ser representando no teatro apenas como o
subjuga, através do poder sexual, uma “moleque gaiato” das comédias de costumes
mulher branca – Virgínia – com quem tem ou por tipos folclorizados. Por isso, cria um
três filhos. A tentativa de branqueamento personagem – Ismael – de classe média,
de sua prole é duplamente frustrada: seus inteligente, mas também com paixões e
filhos são negros como ele e, por isso, ódios, ou seja, “um homem, com dignidade
assassinados pela mãe que não suporta ver dramática”, enredado em situações
em sua descendência o reflexo do marido. proféticas e míticas (Ver em CASTRO, 2003,
Frantz Fanon, no mesmo período em p. 203). Mas Ismael, tragicamente, esta
que estreava Anjo Negro4, discorria sobre envolvido na dupla situação neurótica a
o perigo de dois caminhos antagônicos qual descreve Fanon: rechaça suas origens
que o negro tem a sua frente, na tentativa e exerce violência sexual para pertencer ao
de resolver esse problema. Ao aceitar mundo dos brancos.
as diferenças impostas pela sociedade Nelson Rodrigues, em várias ocasiões,
branca e colonizadora, há dois caminhos: afirma ter escrito o personagem para seu
ambicionar ser branco, alienando-se, amigo Abdias representar, pois, segundo
para ser aceito pela sociedade ou exaltar ele, era o “único negro do Brasil”. Em uma
sua negritude. Em sua opinião, os dois de suas crônicas sobre a vinda de Sartre
caminhos estão fadados ao fracasso. ao Brasil, nas quais Nelson comenta que o
Sobre o primeiro, não há necessidade de filósofo sempre perguntava aos presentes
argumentos; sobre o segundo, a questão – “Onde estão os Negros?”, numa irônica
é complexa: a valorização da negritude se cutucada ao fato de a burguesia carioca ser
dá, muitas vezes, pela exaltação de valores composta apenas por brancos, o cronista
que a cultura branca impôs sobre ela, como emenda: “Alguém poderia dizer a Sartre,
o excesso sexual e sensual, a brutalidade sem violentar a verdade: – ‘Temos aí
física, etc. Sobre isso Fanon conclui: um negro, um único negro, o Abdias do
Nascimento’. E, de fato, que eu saiba, é o
Eis na verdade o que se passa: como nosso único negro confesso e radiante de o
percebo que o preto é o símbolo do ser. A cor, em Abdias, é uma perene tensão
pecado, começo a odiá-lo. Porém constato dionisíaca” (RODRIGUES, 2003, p. 51).
que sou negro. Para escapar ao conflito,
duas soluções. Ou peço aos outros que
Mas, a despeito de trazer o personagem
não prestem atenção à minha cor, ou, ao negro para outro patamar da dramaturgia
contrário, quero que eles a percebam. brasileira, Rodrigues talvez não tenha
Tento, então, valorizar o que é ruim – visto previsto que estava tratando de um tema
que, irrefletidamente, admiti que o negro tabu: o amor erótico inter-racial entre um
é a cor do Mal. Para pôr um termo a esta
situação neurótica, na qual sou obrigado a
homem negro e uma mulher branca.
escolher uma solução insana, conflitante, A peça estreou em 1948, com Ismael
alimentada por fantasmagorias, pintado de graxa, representado pelo ator
antagônica, desumana enfim, - só tenho Orlando Guy, Virgínia pela atriz Maria
uma solução: passar por cima deste Della Costa e sob direção de um Ziembinski
que, em 1943, havia revolucionado o teatro
4 Fanon lançou Peau Noire, Masques Blancs em 1952, na
França; Nelson Rodrigues estreou com Anjo Negro em 1948,
brasileiro com sua encenação de Vestido
no Teatro Felix, no Rio de Janeiro com direção de Ziembinski. de Noiva, mas que não ousou mais essa

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revolução teatral, votando também pela uma forma de se apropriar, assimilar e


cara pintada. Abdias foi uma das pessoas explorar a cultura negra norte-americana.
que convenceu Nelson de que seria melhor Tratando especificamente do
encená-la assim do que não ir para os “travestismo racial”, no caso do blackface,
6

palcos. De fato, parece que Nelson foi o quando o homem branco se fantasia de
único a se incomodar, pois nenhum jornal homem negro, Senelick (2000, p. 300)
do período questionou a ausência de um considera que assim como no travestismo
ator negro no palco. de gênero, o de raça também estaria
Depois da estreia, entre a crítica baseado no desejo sexual. Para ele,
calorosamente dividida havia os “a psicologia das relações raciais são
entusiastas como Menotti del Picchia e muito emaranhadas de desejo sexual,
os detratores que chegaram a listar todos particularmente em manifestações como
os crimes cometidos pelos personagens: de dominação e submissão, de exotismo e
“homicídios com agravantes, indução de atração pela oposição”.
a lascívia, três infanticídios, adultério, Porém, em 1849, surgem comediantes
corrupção de menor, lesões corporais negros fazendo blackface e em 1860 já havia
graves, estupro e cárcere privado”. Mas vários grupos só com comediantes negros.
o problema central da peça não seria o Esses grupos fizeram muito sucesso e
relacionamento entre um homem negro incluíram dança e música da cultura
e uma mulher branca, mas outro: “Sexo, afro-americana nos shows, passando
sexo, sexo, é só nisso que ele pensa?”, assim a rivalizar com os grupos de
escrevera um crítico da época (ver em comediantes brancos, autodenominando-
CASTRO, 2003, p. 202). se os “autênticos”. Esses performers
faziam auto-paródia bufonescas, mas
Já me esqueci dos outros homens, também, apesar da origem discriminatória
já sinto como se no mundo só existisse e preconceituosa desses shows, criaram
uma fisionomia um espaço de resistência e de trabalho
– a sua – todos os homens só tivessem para artistas que tinham dificuldades de se
um rosto – o seu.
inserirem em outras atividades do mundo
artístico norte-americano. Outra novidade
que esses “verdadeiros” blackface inseriram
Blackface
no Minstrel Show foi a participação de
mulheres, o que, segundo Senelick (2000,
A prática de pintar atores brancos de p. 299), trouxe uma “erotização” para esses
preto foi muito recorrente nos Estados eventos, principalmente se considerar o
Unidos durante mais de um século nos papel que a mulher negra tem no imaginário
Minstrel Shows. O auge desses espetáculos masculino norte-americano.
ocorreu entre a década de vinte do século No Brasil não há notícia sobre eventos
XIX e a de trinta do século XX.5 Tratava- dessa natureza, mas os negros e mulatos
se de shows humorísticos, onde havia já atuavam em autos profanos como a
comediantes brancos que se travestiam de Congada e danças dramáticas desde a
homens negros: pintavam o rosto com graxa, metade do século XVI. Pode-se ver ainda
exageravam os lábios, usavam perucas hoje personagens negros no Bumba-
de lã, luvas e fraque. Essas performances meu-boi e no Cavalo Marinho, muitas
desempenharam papel importante em vezes com a cara pintada, que poderiam
consolidar e proliferar imagens, atitudes e ser considerados, inclusive, o germe
percepções racistas no mundo. Era também dos “negrinhos pitorescos das comédias

5 Há pouco material a respeito publicado em português. 6 É Michael Rogin quem traz a ideia de que o blackface
Encontrei um livro sobre a história do Jazz que discorre sobre seria uma forma de “travestismo racial”. Ver em SENELICK,
os Minstrel Shows. Ver em Calado, 1990. 2000, p. 300.

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de costumes” (MENDES, 1993, p. 48). civilizadas como a França e o terceiro


Uma performance que pode-se chamar outro seria o ridículo do “eu nacional”, ou
de blackface à brasileira é Nego Fugido, seja, o triste legado colonial. Dentro desse
apresentada por negros exageradamente terceiro outro estaria a mediocridade, a
pintados, realizada em Acupe de Santo pobreza e em seu centro a escravidão, o
Amaro, na Bahia que, como o próprio nome “mal necessário”.
sugere, representa a fuga de escravos. Aguiar não faz nenhuma menção de
Na segunda metade do século XVIII como essas peças foram representadas
já havia várias companhias profissionais nesse período e quem foram os atores, pois
de negros e mulatos, tanto escravos como seu foco é a dramaturgia e sua recepção da
libertos, que representavam adaptações época, mas não é difícil imaginar como e
de textos europeus com o rosto e as mãos por quem esses personagens negros foram
pintados de branco, realizando uma representados num Brasil escravocrata:
inversão do blackface norte-americano. atores e atrizes brancos pintados.
Entretanto, paradoxalmente, com a Lilia Schwarcz (1987, p. 244), em estudo
criação de um teatro nacional em 1838, sobre como o homem negro era representado
ou seja, com dramaturgia, elenco e nos jornais paulistas do final do século
produtores brasileiros, os atores negros e XIX, salienta que a esse “outro” “violento
mulatos sumiram da cena teatral. Apesar e degenerado” do período escravagista,
de saírem da cena como atores, eles inclui-se o de “estrangeiro indesejável”
permanecem como personagens, fato que com o fim da escravidão. Pois, é ao se
definha com a abolição da escravatura e “assumir as diferenças”, “ao por em relevo
passa por momentos sombrios até meados o lado estrangeiro”, “ou ao se eleger a ‘cor’
do século XX7, quando tanto o TEN ou os caracteres hereditários como critérios
como dramaturgos do calibre de Nelson ‘dignos’ e eficazes para a delimitação da
Rodrigues, Antônio Callado, entre outros, degeneração e da desigualdade entre as
tentam reverter esse quadro toscamente raças que se estabelecem com maior clareza
pintado (MENDES, 1993). o contraste e a distinção”.
Ainda sobre o período escravagista, Entretanto, a partir do início do
pode-se citar a dramaturgia de José de século XX essa questão vai sumindo da
Alencar, autor que cria personagens negros pauta, vai sendo apagada dos jornais que
importantes em suas peças: Pedro, da passam a assumir o discurso da “harmonia
comédia O Demônio Familiar (1858) e Joana, racial” e os preconceitos, ao não serem
a protagonista do drama A Mãe (1860). mais nomeados, passam para o “local
A inclusão de temas como a escravidão do implícito, do consenso, do silêncio”
na nascente dramaturgia brasileira faz (SCHWARCZ, 1987, p. 256). Do mesmo
parte, segundo Flávio Aguiar (1984), de modo, vemos o apagamento do ator e do
um movimento de valorização do “eu personagem negro dos palcos brasileiros.
nacional” surgido com a independência E esse apagamento se dá, muitas vezes,
do Brasil. Segundo o autor, a comédia, em através de uma demão de tinta preta.
seu processo de rebaixamento do “outro”
para atingir seu fim e de afirmação do A branca também desejou o preto.
“eu nacional” teria se concentrado em
ridicularizar três outros: O primeiro seria
a antiga metrópole; o segundo as nações Cor e desejo

7 Em 1926 De Chocolat, influenciado pelas Revistas Negras


parisienses, cria no Rio de Janeiro a Companhia Negra Há no imaginário brasileiro,
de Revistas. A iniciativa, apesar de durar apenas um ano, principalmente do homem branco, quando
trouxe à tona, através da comicidade tão comum ao estilo
das revistas, a discussão sobre os preconceitos raciais no
se trata de relacionamentos heterossexuais
Brasil. Ver em Barros (2005). inter-raciais, em se pensar apenas no casal

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homem branco/mulher negra, na verdade, três permanecem juntos no final da obra;


mulata. Há inúmeros trabalhos sociológicos os outros seis terminam por assassinato ou
a respeito e tanto na literatura como nas suicídio do parceiro.
artes e nos meios de comunicação temos Uma das obras em questão é Anjo Negro,
personagens mulatas como a Gabriela com a qual quero retomar a discussão sobre
de Jorge Amado, povoando o imaginário aos motivos do impedimento de Abdias do
masculino. No entanto, quando vamos Nascimento em fazer o papel de Ismael: “o
para os números, eles nos informam que a crioulo com a loura”, segundo os censores.
maioria dos relacionamentos inter-raciais A peça fala de desejo, do desejo proibido do
no Brasil é constituída pelo casal homem negro pela branca: “Oh! Deus mata todos
negro/mulher branca.8 Por que esse fato os desejos! Maldita seja a vida, maldito seja
povoa tão pouco nossas representações? o amor!” é a imprecação do coro das velhas
Segundo Laura Moutinho (2003, p. negras em volta do caixão do terceiro
167), essa relação é considerada tabu “anjo negro”, vítima dessa união funesta.
em nossa sociedade porque ameaçaria o Virgínia seria uma mulher branca de útero
domínio masculino branco da estrutura de negro, segundo as carpideiras, remetendo-
dominação social e econômica. Por isso, se tanto a cor do filho que carrega no ventre
no “plano das representações, a estrutura como a cor da morte.
escolhida para a decantada miscigenação Nelson Rodrigues cria uma dramaturgia
brasileira é composta pelo homem ‘branco’ na qual o contraste branco/negro será o
com sua esposa ‘branca’ e a amante tempo todo colocado em relevo como o
‘negra’/’mestiça’”. impedimento da relação. Não importa
Se atentarmos para a tese ficcional que Ismael seja de classe social igual à de
do branqueamento, ela funcionaria Virgínia, que tenha bens suficientes para
apenas dentro do par homem branco/ manter mulher e filhos, pois é a negação
mulher negra: É o português colonizador da sua cor, tanto por ele como por Virgínia,
gerando descendentes na barriga negra, que impossibilita a união e a geração de
descendentes que a cada geração ficariam descendentes; é essa negação que gera a
mais claros. Quando se inverte a posição, maldição da mãe negra, trazida por Elias,
é o negro gerando descendência na barriga irmão de criação branco e cego como o
branca: os filhos de Ismael com Virgínia mensageiro dos deuses das tragédias
serão sempre negros como o pai. Moutinho gregas, Tirésias.
analisa sete obras da literatura brasileira, Ismael tenta apagar o mundo dos brancos
entre o final do século XIX e meados do de sua relação com Virgínia, que não pode
XX, detendo-se sobre as relações afetivo- sair de casa, nem ver ninguém: “Só posso
sexuais inter-raciais.9 Há tanto os pares esperar você. [...] O mundo está reduzido a
homem branco/mulher negra, como o seu nós dois – eu e você”. Mas essa também foi
inverso, além de uma relação homossexual uma escolha dela, pois não queria ser mais
homem branco/homem negro. Em todas vista depois do que aconteceu ali, na cama
se vê a dificuldade enfrentada pelos de solteiro permanentemente presente
amantes: Dos nove casais analisados, só como naquele dia passado: o estupro. O
segredo dessa relação está fundado no
8 Esses dados foram analisados a partir do senso demográfico abuso sexual sofrido por Virgínia, tanto
de 1980. Os casamentos endogâmicos representam 79% do na primeira noite como em todas que tem
total. Dos 21% restantes tem-se 57% de homens com pele mais
escura que as mulheres e 42,5% de mulheres mais escuras
com o marido: o ato sexual entre o homem
que os homens. Ver em SILVA, 1987. p. 54-84. negro e a mulher branca visto como uma
9 Trata-se de O Mulato e O Cortiço, de Aluísio Azevedo; O Bom constante violação.
Crioulo, de Adolfo Caminha, considerado o primeiro romance Só no final da peça, quando é preterida
homossexual da literatura brasileira; Jubiabá e Gabriela,
Cravo e Canela, de Jorge Amado; as peças Sortilégio, de
por Ismael, Virgínia afirma que também
Abdias do Nascimento e Anjo Negro, de Nelson Rodrigues. sempre o desejou, um desejo cultivado

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desde a infância, quando viu homens branca, da década de quarenta do século


negros seminus carregando um piano na passado, não poderia ter desejo e ser mãe
rua. Aquele desejo proibido pelo outro, ao mesmo tempo, principalmente mãe de
o negro, foi constantemente mantido em uma prole negra.
segredo, até para ela mesma. Somente Apesar de o autor explicitar ao
quando Ismael a troca pela filha é que ela longo da peça que é o preconceito racial
consegue trazer a tona o que mantinha na o gerador de toda a tragédia vivida
escuridão: o desejo pelo homem negro. pelos personagens, é curioso – talvez
Entretanto, apesar do desejo, ou até por fosse melhor dizer um curioso sintoma
causa dele, as carpideiras encerram a peça – observar que tanto a crítica da época
vaticinando o impedimento da geração silencia sobre essa questão, como também
de filhos. Depois do casal se reconciliar Sábato Magaldi, em sua introdução a uma
e consumar o ato sexual, elas concluem: das edições da peça, afirma que devido
“Futuro anjo negro que morrerá como ao seu caráter “hermético”, Anjo Negro
os outros”, diz uma e a outra completa: não “arregimenta motivos racionais para
“Vosso amor, vosso ódio não tem fim neste discutir o problema racial (...)”, pois
mundo. Branca Virgínia. Negro Ismael”. Nelson Rodrigues só estaria chamando os
Fim do último ato. espectadores a se depararem com “seus
Nelson Rodrigues, ao nos apresentar mitos ancestrais”. (ver em RODRIGUES,
essa relação impossível, expõe de forma 1981, p. 30) Pode até ser, mas então esse
crua e poética dois grandes preconceitos: o chamado seria para se depararem com o
racial contra as pessoas de pele negra, tanto mito ancestral da diferença racial.
pelos que a tem (Ismael) como por quem o É para tentar desconstruir cenas como
gera (Virgínia). O outro é sobre a mulher essas que surge o Teatro Experimental do
branca, cuja função é manter a espécie e Negro. Segundo Abdias do Nascimento,
suprimir os desejos. o TEN surgiu como uma iniciativa de
Ann Pelegrini (2001), ao trazer a contra-ação ás práticas citadas. Portanto,
teoria da interpelação de Althusser para o objetivo artístico do TEN era fomentar
a constituição sexual do sujeito: “É uma uma nova dramaturgia ligada aos temas
menina”, me ajuda a refletir sobre a afro-brasileiros e produzir espetáculos,
interpelação racial: “Olha, um negro!”, nos quais os atores negros tivessem espaço
como descreve Fanon (2008). Tanto para atuar. Para alcançar tal objetivo o
Ismael como Virgínia foram constituídos grupo também precisava formar atores.
por essas interpelações. Por um momento Assim, a partir de um viés artístico, o TEN
não ouviram o chamado e se desejaram. promoveu uma revolução social, pois a
Mas o chamado não pára nunca e ambos maioria de seus integrantes era oriunda
acabam olhando para trás e se identificam das classes populares, como empregadas
com ele. Segundo Fanon (2008), o homem domésticas e operários, e muitos deles
negro passa por dois complexos de sem alfabetização.
inferioridade: o econômico e o epidérmico. Ironildes Rodrigues (1998), professor
Ismael consegue romper com o primeiro, dos cursos de alfabetização promovidos
mas o segundo lhe persegue sempre, por pelo TEN que chegaram a ter 600 alunos,
isso, vê como única saída a alienação de relata que além das aulas de português,
sua cor, o desejo de ser branco através de história e matemática, os alunos também
Virgínia e sua descendência. Virgínia, a aprendiam história do teatro e folclore
moça branca de classe média, criada para brasileiro. O aprendizado era incentivado
o “bom casamento” e para a perpetuação por leituras, ensaios e discussões de peças,
da espécie, primeiro deseja o noivo da como O Imperador Jones de Eugene O`Neill,
prima, depois deseja o marido negro. peça de estreia do TEN no Teatro Municipal
Resultado: Anjos negros. Uma mulher do Rio de Janeiro, em 1945.

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Onze anos depois, em 1956, Em 1966, Milton Gonçalves junto


vários atores do grupo participam com Antônio Pitanga, Zózimo Bubul,
da montagem de Orfeu da Conceição, entre outros, forma o Grupo Ação, cujo
de Vinícius de Moraes, primeira foco era o Teatro de Rua, pensando
peça de autor brasileiro com elenco em atingir seu público alvo: o negro.
exclusivamente negro a se apresentar Lea Garcia, ex-atriz do TEN também
no mesmo teatro, além de ter como organiza um grupo dentro do IPCN
cenário um morro carioca e temas (Instituto de Pesquisas das Culturas
populares como capoeira e samba: Negras), entre 1978 a 1980. Um dos
“Mais que um acontecimento teatral, trabalhos realizados foi a peça Chico Rei,
o Orfeu foi um excitante momento de Walmir Ayala, que posteriormente
cultural na vida da cidade e, sem foi adaptada para o cinema, com Mário
exagero, do país, pois nesta peça Gusmão no papel principal.
teve início a parceria Vinícius e Tom Atualmente, existem vários grupos
[Jobim], que resultou na Bossa Nova”, com essas características pelo Brasil,
declara Haroldo Costa, ex-ator do TEN como destaca o trabalho de Douxami
que fez o papel de Orfeu na montagem. (2001) e também como pude observar
(COSTA, 2004, p. 225). durante o II Encontro de Performance
Nesses sessenta anos que nos Negra, realizado em 2009, no teatro
separam dessas atividades pioneiras Vila Velha, em Salvador, onde estavam
no âmbito das artes cênicas para representados por volta de cem grupos
a inclusão na cena de uma parcela de teatro e dança de todo o país.
da população brasileira relegada Uma questão que se coloca a partir
à margem dos produtos artístico- dessa realidade é: Por que ainda se faz
culturais muitas coisas mudaram, necessário no Brasil a criação de grupos
outras nem tanto. Além dos atores nos moldes do Teatro Experimental do
formados no grupo, como Ruth de Negro, onde a ideia de diferença racial
Souza, Lea Garcia, Haroldo Costa e é a geradora desses grupos? Talvez
Aguinaldo Camargo, que seguiram simplesmente porque no Brasil ainda se
trabalhos individuais ou montaram acha estranho “Hamlets” e “Prósperos”
seus próprios grupos, criou-se uma negros como Peter Brook já o fez com
rede de parcerias e influências que sua companhia internacional. Talvez
chega até os dias de hoje, apesar do porque ainda ao se escolher um ator para
hiato existente durante o período da determinado papel, a cor/raça é critério
ditadura brasileira que sufocou as de escolha ou veto apesar da mídia e do
atividades do TEN e de tantos outros. senso comum alardearem que não existe
Dentro do que comumente se passou racismo no Brasil.
a chamar de “Teatro Negro” há alguns A despeito de muitos desses grupos
grupos considerados “herdeiros” do receberem críticas de que a militância, o
TEN. Além de influências diretas como a social ou o político, às vezes, estão à frente
criação do TEN de São Paulo, que seguiu de questões artísticas, não posso deixar
os moldes do grupo do Rio, encenando, de concordar com Abdias que “a política
inclusive, os mesmos textos e incluindo é totalmente implicada em qualquer
autores como Augusto Boal, destaca-se o atividade cultural” (apud DOUXAMI, 2001,
grupo Brasiliana, fundado por Haroldo p. 323), por isso, todo ato, inclusive o artístico,
Costa a partir de uma dissidência com é político. As escolhas estéticas que faço
o TEN, pois se queria dar mais ênfase a estão em sintonia com a visão de mundo
cultura afro-brasileira a partir da dança que tenho, com questões identitárias e de
e música, realizando trabalhos a partir alteridade que, no caso brasileiro, se constrói
das manifestações populares. também a partir desses mitos raciais.

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Anjo negro: sexo e raça no teatro brasileiro 75

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