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AULA 17: MOVIMENTOS SOCIAIS DO SÉCULO XIX (OS ANARQUISMOS)

SOCIOLOGIA

Introdução Histórica

Até agora nossa discussão girou em torno dos fenômenos e dos pensadores que
surgiram durante a Idade Média (século V – XV), bem como naqueles que se manifestaram
no período de transição entre ela e a Idade Moderna (XV – XVIII), mais conhecido como
Renascimento (século XVI). Nesse momento, entretanto, entraremos de vez na discussão
sobre a modernidade, seus adventos, maravilhas, promessas, mazelas, injustiças e catástrofes.
Posto isso, o foco desta aula serão os movimentos sociais que se desenvolveram no século
XIX, ou melhor, os movimentos operários de cunho anarquista. Mas, antes de
começarmos a discutir tal tema, é preciso ter noção daquilo que representou esse período da
história, para tanto, exploraremos o significado das revoluções industriais e como elas
criaram um campo fértil à explosão de movimentos sociais. Dois importantes e inéditos
fenômenos que emergiram nesse período são: a urbanização e o crescimento das indústrias.
Com respeito ao primeiro evento, podemos dizer que ele aconteceu de diversas formas
em cada país da Europa, mas, a título de exemplo, estudaremos o caso da Inglaterra 1 que
impôs a boa parte de sua população o êxodo rural e intensificou o processo de urbanização
através do complexo e violento processo dos cercamentos. Os ingleses também
revolucionaram completamente o seu sistema produtivo através do uso capitalista de
máquinas, principalmente a partir da segunda metade do século XVIII, ou seja, depois da
década de de 1750, quando historicamente se desenvolveu a primeira revolução industrial.
Tal transformação trouxe à tona a descoberta da máquina a vapor que revolucionou a
produção industrial e mudou para sempre a vida social europeia. Além disso, o processo
de crescimento das embrionárias cidades do século XVI foi intensificado, criando-se novos
centros urbanos repletos de fábricas e costurados por linhas férreas – responsáveis pelo
transporte das manufaturas e das matérias primas para o sistema industrial e comercial.
Embora as cidades daquela época não chegassem aos números gigantescos dos centros
urbanos do século XXI, cujos habitantes giram em torno da casa dos milhões e até bilhões,
uma cidade com cerca de 200 mil pessoas representava, durante o século XVIII, uma
verdadeira revolução, tendo em vista que a população dos antigos feudos e das cidades-estado
dificilmente chegavam próximos da casa das dezenas de milhares – seja pela mortalidade alta,

1 A Inglaterra é um exemplo emblemático, pois ela foi pioneira nos processos de revolução industrial, a França
em contraponto, depois da Revolução Francesa de 1879, permaneceu demasiado ruralizada, em vez de
intensificar o processo de urbanização e industrialização.
1
seja pela própria pequenez dos feudos (nanicos se comparados a menor das cidades da era
burguesa). O que precisamos frisar é o incrível e veloz crescimento populacional que
nunca havia sido presenciado até então.
Contudo, como ressaltamos no começo da nossa aula, o crescimento das cidades e as
invenções produzidas em meio à revolução industrial não contribuíram apenas para o
crescimento das cidades e das indústrias, mas também colaboraram para a intensificação de
um fenômeno social que nos assombra até hoje: a desigualdade social. Os planejadores
europeus das cidades modernas sabiam que maioria da população que ocupava as cidades
estava em condições de pobreza, ou melhor, só tinham uma única alternativa para sobreviver:
vender sua força de trabalho. Pensando nisso e dotados de um perigoso preconceito ou
medo de classe, tais planejadores (arquitetos, engenheiros civis, projetistas, entre outros
profissionais da área da construção civil), segregaram os bairros das cidades, de forma que
ficassem bem distantes uns dos outros. Foram elaborados bairros específicos ao padrão de
vida dos ricos, outros mais dedicados a satisfazerem as necessidades da classe média e as
construções mais simples e precárias (na maioria das vezes, dotadas unicamente de dois
cômodos) foram deixadas às pessoas em condição de pobreza, pois, segundo esses projetistas,
a miscigenação dos trabalhadores nos bairros ricos e nos de classe média poderiam
intensificar os índices de violência, causando distúrbios sociais2.
Nesse momento, desenvolveu-se um campo fértil para a eclosão das ideias liberais as
quais permearam o imaginário daquela época, profetizando a importância do livre mercado e
da liberdade comercial, entre outros princípios considerados naturais, pelo liberalismo, ao
espírito humano. Todavia, o século XIX não era o mar de rosas de liberdade, tal como
pintados por muitos pensadores liberais. Até 1860, todos as construções ferroviárias já
haviam sido controladas pela empresa inglesa North-Eastern Railway, o sistema
econômico bancário pela família inglesa Rothschilds e grande parte do complexo
industrial por familiais como as do francês Saint-Simon (1760 – 1825). Com efeito, essas
famílias monopolizadoras se desprezavam mutuamente, apenas desejavam manter os seus
impérios particulares, abominando a ideia de um dia precisarem recorrer ao auxílio umas das
outras3. Como se não bastasse o fenômeno do monopólio na vida social, outra mazela terrível
da época era a mentalidade administrativa dos capitalistas que só conhecia dois métodos de

2 A história nos mostrou que essa medida segregacionista e preconceituosa é que intensificou a violência e os
conflitos sociais, impulsionando os processos de poderes paralelos, tais como: crime organizado e máfias.
3 A burguesia foi muito bem capaz de se unir durante o período de necessidade da revolução, mas, depois que o

novo momento histórico consolidou-se, a necessidade de união praticamente desapareceu e as diferentes espécies
de burguesia (bancária, industrial, rural, etc..) preferiram voltarem-se a si mesmas, criando e fortalecendo seus
impérios.
2
comando: a burocracia e o regime de trabalho análogo a escravidão4. Além disso,
perdurava na burguesia a crença inquestionável na manutenção dos salários mais baixos
possíveis, a fim de se manter o balanço lucrativo das suas empresas. Os industriais
argumentavam que a condição difícil e disciplinada da vida do operário era um mal necessário
para se alcançar futuramente a condição prospera do burguês. Entretanto, todos eles sabiam
que para o bom funcionamento do sistema econômico capitalista era necessário um grande
número de pessoas que nasceriam trabalhadores fabris e morreriam assim. Na realidade,
existia a necessidade social (ou contradição social) de a burguesia em autoafirmar a sua
posição social, ao manter na miséria uma massa de trabalhadores.
Em resumo, a situação que se evidenciava na vida do trabalhador do século
XVIII era a insegurança. Devido as imensas reservas de mercado5, os trabalhadores não
sabiam por quanto tempo trabalhariam numa empresa ou se conseguiriam emprego
noutra, caso fossem demitidos. Além disso, devido aos baixíssimos salários recebidos, os
proletários eram obrigados a empregarem suas esposas e seus filhos para incrementar a renda
e, ainda assim, não havia garantias de que deixaria de passar fome. Nessa situação, eram raros
aqueles que sobreviviam mais de 40 anos, salvo uma minoria de proletários que viviam até
cerca de 50 anos, pois trabalhavam em funções especializadas (e menos braçais) nas fábricas
modernas.
Frente a essa situação, pouco a pouco, o século XIX inflama-se em indignação que se
manifesta, primeiramente, em um ódio imediato contra as máquinas introduzidas nas fábricas,
sendo consideradas como as culpadas pelas condições miseráveis e opressivas do regime de
trabalho industrial. Esse movimento ficou conhecido como Ludismo, em homenagem a um
dos grandes lideres do movimento operário inglês Ned Ludd, que em 1811 organizou os
operários para destruírem as máquinas das indústrias inglesas. Em seguida, em 1838,
acompanhados pelas trade unios (primeiros sindicatos trabalhistas da história) surge um
movimento de trabalhadores que escrevem a People’s charter [carta do povo], elaborada
por William Lovett e Feargus, na qual foram compiladas as seguintes reivindicações:
sufrágio universal masculino, voto secreto através da cédula, eleições anuais, igualdade entre
os direitos eleitorais, participação de representantes da classe operária no parlamento e que os
parlamentos fossem remunerados. As reivindicações cartistas não foram aceitas pelos
4 Um bom filme que retrata essa realidade é o filme clássico Modern times [Tempos modernos] de Charles
Chaplin (1889 – 1977).
5 Reserva de mercado foi um fenômeno que se desenvolveu a partir dos cercamentos. Como foi explicados nas

aulas sobre Marx, o violento processo dos cercamentos proletarizou milhares de pequenos trabalhadores rurais,
causando um verdadeiro exercito de trabalhadores sem ter outra escolha para sobreviver senão vender sua força
de trabalho. Isso garantiu aos burgueses industriais pagar baixos salários e estender exorbitantemente a jornada
de trabalho, argumentando que quem não se adequasse seria demitido e haveria uma fila enorme de
desempregados esperando para ocupar sua vaga.
3
governantes, no entanto, eles conseguiram mudanças efetivas, tais como: a primeira lei de
proteção ao trabalho infantil (1833), a lei que garantia a liberdade de imprensa (1836), a
reforma do código penal (1837), a regulamentação do trabalho feminino e infantil e a lei da
jornada de trabalho de 10 horas. A partir de então, vão se formando organizações de
trabalhadores, constituídas pelos mais hábeis e inteligentes operários 6, responsáveis pela
melhoria da condição de trabalho na indústria. Formam-se os famosos sindicatos
trabalhistas. Desse período em diante as organizações sindicais fortalecem-se criando suas
próprias sustentações teóricas, dentre elas destacam-se as inúmeras expressões de
Anarquismo.

Anarquismos

Antes de mais nada, precisamos começar a discussão combatendo um grande


preconceito que persiste em existir nos estudos sobre o anarquismo, ou melhor, nos diversos
tipos de anarquismos, pois existem muitos deles. Enfim, é necessário vencermos a ideia
costumeira de associar os anarquistas à baderna, bagunça ou desordem, uma vez que
tais adjetivos não tem nada a ver com a filosofia e a consistência do movimento social
anarquista. Anarquia é uma palavra de orgiem grega, cuja raiz Anarchos significa ausência
governo, ausência soberania, em outras palavras, sem qualquer controle opressivo sobre o
indivíduo. A defesa dos anarquistas pelo caos e pela destruição revolucionária, partem do
pressuposto de que existe um caráter eminentemente criador na paixão pela obliteração.
Antes de mais nada, vale ressaltar que nenhum movimento anarquista nenhum
deles deseja tomar o poder para si, ou para seu grupo, tendo em vista o fato de todos
abominarem o poder, considerando-o opressivo e subjugador. Em segundo lugar, muitos
dos principias idealizadores do anarquismo discordavam entre si, naquilo que diz respeito ao
método, ou seja, cada um defendia uma forma diferente para se construir uma sociedade
anárquica. Existem inúmeros anarquismos, por exemplo, os apreciadores dos escritos do
russo Liev Tolstói (1828 – 1910) e do alemão Max Stirner (1806 – 1856) não admitiam o
uso da violência; os partidários do pensamento do inglês William Godwin (1756 – 1836)
preferiam o combate discursivo; os adeptos da filosofia do francês Pierre-Joseph
Proudhon (1809 – 1865) defendiam o embate através da expansão e popularização das
organizações cooperativas; aqueles que compartilhavam das ideias do russo Piotr
Kropotkin (1842 – 1921) possuíam uma visão muito diferente, entendiam a existência de
6 A limitada e egoísta consciência burguesa não entendia por que diabos os melhores trabalhadores faziam parte
ou idealizavam os sindicatos, pois, estes poderiam ser um dos poucos capazes de melhorar sozinho de vida e se
tornarem burgueses.
4
uma espécie de caráter inevitável da violência durante os processos de mudança social e
os companheiros da filosofia do russo Mikhail Bakunin (1814 – 1876) não só defendam a
estratégia da transformação social violenta, inclusive, participavam das manifestações
desse tipo, principalmente as insurreições camponesas7.
No entanto, todos os anarquistas possuíam algumas características em comum, tais
como: acreditavam que os seres humanos eram seres sociais, o que não significa pensar
que o ser humano não é nem bom nem mau por natureza, em vez disso, se torna o que
seu meio social o ensina a ser. Ao negarem a tese da maldade natural do ser humano, lutando
contra uma tradição política moderna da defesa do Estado, ou seja, a defesa de o ser humano
ser mal por natureza, que pressupõe a criação de uma instituição (Estado), superior e
responsável pela defesa deles mesmos. Nesse sentido, o Estado, sem dúvida, torna-se o pior
inimigo dos anarquistas, a instituição que concentra tudo que eles mais se dedicaram em
destruir: o poder, a autoridade, o monopólio da violência e a disciplina. Em contraponto,
procuram olhar para a realidade enxergando as possíveis formas de se construir um
governo pautado na coletividade e na reciprocidade humana, por isso, também são
grandes críticos da democracia burguesa representativa (e do próprio sistema
capitalista) que mantém sempre um pequeno e exageradamente poderoso grupo no
poder. Resumidamente, o anarquismo pretende criar um mundo formado por pequenas
comunidades autônomas e relacionáveis entre si.
Por fim, os anarquistas também tinham uma divergência metodológica com os
movimentos socialista e comunistas e os seus porta-vozes, como Marx e Engels, Lenin
(1870 – 1924), Trotski, entre outros, pois abominam a “primeira fase” do comunismo
(socialismo), na qual todos os bens coletivos ficam sob monopólio temporário do
“Estado” proletário para depois serem distribuídos para toda a sociedade. Essa primeira
fase do processo revolucionário comunista é criticado pelos adeptos do anarquismo, pois,
segundo eles, é preciso partir direto para o momento da coletivização dos bens sociais e a
formação das comunidades livres e autogeridas. O último elemento compartilhado por
todos os anarquistas é o apreço pela ação direta, é uma ação social partida dos
indivíduos, com a consciência de que a sua atitude influencia em toda a sociedade e
pronto para aceitar as consequências dos seus atos. A ação direta pode variar desde uma
manifestação violenta, a uma reivindicação trabalhista, a uma obra de arte, a um
posicionamento político, a educação familiar, enfim, independente do local de ação, o

7As manifestações camponesas são geralmente as mais violentas e perigosas na época e ainda hoje, pois atacam
um dos elementos mais importantes da manutenção do poder: o monopólio sobre a terra. No Brasil, como na
maioria dos países onde ela acontece, geralmente são reprimidas de forma demasiadamente violenta pelo poder
vigente.
5
importante é assumir a responsabilidade pelos seus atos em função de construir uma nova
realidade.

Os cinco principais tipos de anarquismo

 O anarquismo racionalista de Wiliam Godwin (1756 – 1836)


Filho de família inglesa protestante que se converteu ao calvinismo. Vivenciou a
Revolução Francesa com muito entusiasmo e leu os iluministas, com destaque a Rousseau. No
final da vida sua esposa faleceu e ele faliu. Em seguida, tanto sua obra quanto a Revolução
Francesa foram rechaçados por toda a Inglaterra, porque levaram as últimas consequências às
lutas por igualdade e liberdade. O anarquismo de Godwin era racionalista, pois ele estava
na Inglaterra enquanto a revolução se desenrolava na França, portanto sua percepção
do evento foi puramente teórica. Confiava plenamente no caráter absoluto da razão, por
isso, declarou guerra a todos os agentes que pudessem interferir no pleno exercício desta
faculdade: O Estado (sua violência se opõe a individualidade, seu contrato se é uma abdicação
ao julgamento), o Direito (o indivíduo tem que ter plena consciência dos seus atos) e a
propriedade privada (enquanto ela existir, milhões de pessoas são condenadas a viver na
miséria e os poucos privilegiados, aliás, entregam-se aos vícios).
A sociedade e o Estado atuais são a materialização da maldade humana, o
anarquismo de Godwin promoveria uma vida pautada no altruísmo. A organização
social fragmentara-se em pequenas comunidades, os bens seriam distribuídos
equitativamente e o Estado seria destruído. Duas instituições seriam criadas para suprir a
necessidade de defesa interna e externa, no primeiro caso se organizaria uma espécie de Júri
coletivo e na segunda uma Assembleia coletiva. A violência então desapareceria e os homens
viveriam plenamente de acordo com a razão.

 O mutualismo de Pierre-Joseph Proudhon (1809 – 1865)


Proufohon foi o teórico mais conhecido do anarquismo, mas não por causa da
originalidade de sua obra, em vez disso, sua fama vem do apelo que fazia a ação prática. Isso
se explica na sua própria história de vida, tendo em vista o fato de ter nascido numa família
francesa humilde e quase sempre se preocupar mais em subsistir do que com o deleite dos
estudos filosóficos. Por mais revolucionário que o pensamento do filósofo francês fosse, tinha
um grande teor reacionário, pois criticava a burguesia justamente porque supostamente ela
teria corrompido os valores morais tradicionais em vez de mantê-los. Além disso, criticava a
organização dos trabalhadores e sua prática da greve, uma vez que achava que o
6
aumento dos salários conquistados pelos trabalhadores poderia ser seguido de um
contínuo rebaixamento salarial e aumento dos preços das mercadorias 8. Para Proudhon,
e depois para os socialistas utópicos, eram os anarquistas e socialistas, por meio da
superioridade de suas ideias e por meio do exemplo, que transformariam a sociedade,
NÃO os trabalhadores através da greve e da manifestação violenta. Dessa forma, seu
pensamento criou herdeiros tanto à direita, quanto à esquerda – ambos, diga-se de
passagem, defendiam ideias que o próprio Proudhon jamais aceitaria. O anarquismo
positivo, ou mutualismo do filósofo francês era demasiado teórico e abstrato pautado em
concepções particulares do autor sobre a Justiça que, em suas palavras, devia promover
o equilíbrio social. Por fim, não defendia as soluções violentas preferindo a calma das
transições pacíficas.
O mutualismo era um movimento não-político, procurava mesclar-se junto as
associações operárias atuando de forma muito parecida com as soluções dos socialistas
utópicos, ou seja, não pretendiam destruir a lógica vigente (pelo menos não imediatamente),
antes de mais nada, desejavam tornar a vida na sociedade capitalista e industrial menos
opressora à classe trabalhadora, portanto, montaram esquemas de cooperativas e
bancos de crédito popular e gratuito. Seus membros também votavam nas eleições
oficiais. Um caráter bastante distintivo era o seu anticlericalismo, ou seja, desejavam afastar
a religião da vida política, defendendo a existência de uma expressão política laica. Pouco a
pouco, foram perdendo adeptos apara as formulações anarquistas mais combativas.

 O coletivismo de Mikhail Bakunin (1814 – 1876)


Bakunin, sem dúvida alguma, é o pensador do anarquismo que mais simboliza o
caráter combativo deste movimento. Embora tenha nascido numa família russa nobre,
mantinha um desprezo aos bens materiais e às autoridades sociais. Sua vida foi
impulsionada pelo desejo de participação ativa em todos os movimentos sociais contra a
realidade capitalista existente. Mediante a isso, acabou sendo encarcerado em inúmeras
prisões da Europa. Bakunin foi um importante crítico do marxismo, pois não concordava
com o socialismo, para ele, o mundo deveria partir direto para a vida coletiva (leia-se
para o comunismo) sem precisar de uma fase temporária autoritária (no sentido de ter
forte presença do Estado, ainda que operário) para isso. O anarquista russo lutava por uma
revolução mundial que acabasse com todas as formas de domínio do ser humano sobre o ser

8 Marx demonstra em sua obra Miséria da filosofia que o aumento dos salários afeta menos os preços das
mercadorias produzidas em empresas que possuem mais máquinas do que trabalhadores assalariados e, por conta
da concorrência, os preços tendem a se equilibrar. Assim as greves e coalizões trabalhistas não levam ao aumento
dos preços das mercadorias de forma geral e permanente, muito menos geral a escassez de produtos.
7
humano.
A conquista da sociedade coletivista aconteceria por meio da revolução das
massas, organizada pelos intelectuais anarquistas, mas estes não seriam chefes do
movimento, ou qualquer outro tipo de autoridade, apenas seriam guias para a
consolidação do movimento revolucionário, em outras palavras, estariam lá para colocar
“fogo na fogueira”. Quando finalmente a revolução constituir o coletivismo, as pessoas
seriam obrigadas a realizar um trabalho manual em prol do coletivo e seria
recompensado em função da sua contribuição, portanto, a remuneração baseava-se no
trabalho e não mais na necessidade9. Por fim, o Estado seria destruído de uma vez por todas
e em seu lugar surgiriam uma espécie de federação de inúmeros livres coletivos autônomos.

 O anarco-comunismo de Piotr Kropotkin (1842 – 1921)


Nascido príncipe, renegou o título de nobreza e acabou sendo forçado a servir o
exército russo por ordens do próprio czar Nicolau I. Teve contato com inúmeros
representantes do pensamento revolucionário do século XIX, com destaque a Karl Marx e
Mikhail Bakunin. Foi considerado o pai do anarquismo comunista.
A sociedade anarco-comunista surgiria também da revolução das massas, no entanto,
diferente da sociedade coletivista de bakunin, o trabalho não seria obrigatório, pois seriam
criados grandes armazéns coletivos, nos quais as pessoas retirariam tudo aquilo que
achassem necessário, retribuindo se quisessem para a reposição do estoque. Os anarco-
comunistas estavam convictos de que na nova realidade todos trabalhariam
voluntariamente e retirariam do armazém coletivo, somente aquilo que fosse necessário para
a sua sobrevivência e a de sua família.

 O anarquismo individualista de Max Stirner (1806 – 1856)


Filho de um humilde vendedor alemão de flautas. Em sua juventude foi um excelente
estudante e passou por inúmeras universidades, inclusive conseguiu assistir as aulas do grande
Hegel. Seu sonho era ser professor, no entanto foi frustrado em ministrar aula para o
Estado e acabou somente trabalhando no ensino particular. Também foi um dos membros
mais importantes dos famosos hegelianos de esquerda.
A essência das sociedades anarquistas individualistas está pautada em um egoismo
pleno, isto é, os indivíduos devem levar a suas paixões e anseios as últimas consequências,
9 Essa remuneração em função da necessidade é a que funciona no capitalismo, no entanto, sua consistência é
muito questionável, pois um médico é considerado mais necessário do que um gari, embora, sem garis os
médicos não seriam capazes de curar tantas doenças quanto surgiriam. Enfim, a visão de Bakunin concebe a
remuneração como algo coletivo, a importância do serviço leva em conta as consequências sociais, não é uma
coisa isolada como no capitalismo, por exemplo, médico salva vidas, advogado faz a lei funcionar, etc.
8
independente dos limites, dos preconceitos e das leis coletivas, sempre que isso não
prejudique os demais, é claro. A liberdade e o alcance desses indivíduos torna-se
eminentemente anticapitalistas e tais pessoas devem procurar outros companheiros que ajam
dessa maneira e construir a união dos seres humanos egoístas (ou de seres humanos únicos
como diria Stirner). Estas manifestações podiam ser tanto pacíficas, tais como passeatas e
protestos não violentos, mas também desenvolveram formas violentas, sempre
respeitando a tese de não se prejudicar os outros, por exemplo, greves de fome e, os mais
radicais, feriam a si mesmos, analogamente aos monges hinduístas que se encendiam em
forma de protesto contra as medidas autoritárias de seu governo. Enfim, o anarquismo
individualista evidencia formas de se pensar e agir diferentes das aceitas nas sociedades
capitalistas, defendendo-as com unhas e dentes, até mesmo com a morte, na esperança de
incentivar possíveis mudanças no futuro.
A sociedade para Stirner não deve exigir direitos ou deveres dos indivíduos, muito
pelo contrário, deve apenas satisfazer as necessidades humanas. Sua solução é trocar a
sociedade por inúmeras associações. Na sociedade existe exploração do trabalho, nas
associações você pode explorar as máximas potencialidades do teu “eu”, ela existe por você e
para você.

 O anarco-sindicalismo trabalhadores fabris


Boa parte dos anarquismos terminou em forma de anarco-sindicalismo, movimento
que surgir na França, no final do século XIX, pautado na ideia de que a Greve Geral era a
ferramente mais eficaz para o florescimento da revolução contra o Estado e contra o
capitalismo. Sua forma mais acabada e mais combatida foi o CNT (Confederação
Nacional do Trabalho) desenvolvida na Espanha durante a década de 1910 na Espanha,
teve a sua maior atuação durante a Guerra Civil Espanhola entre 1936 e 1939 (Um bom
filme que retrata o anarquismo nessa época é: Libertarias [1996]). A sociedade anarquista
fundada pelo anarco-sindicalismo seria constituída por uma união geral entre pequenos
sindicatos trabalhistas. Através dessas ideias o anarquismo transcendeu os limites europeus
chegando na América Latina e culminando na famosa Greve Geral Brasileira de 1917,
responsável pela resposta governamental por meio da criação das CLTs (Consolidação das leis
do trabalho) somente em 1943. Faz necessário ressaltar que a criação da CLTs em Vargas foi
mais uma forma de controlar os trabalhadores e diluir as reivindicações do que uma demanda
dos próprios anarquistas. Na realidade, Vargas fechou todos os sindicatos anarquistas,
bem como caçou e torturou seus membros até levá-los à morte ou à loucura.

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Referências Bibliográficas

HOBSBAWM, E. A cidade, a indústria, a classe trabalhadora. IN: ______. A era do capital.


Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. p. 217 – 236.

COSTA, C. T. Introdução e Ingênua Lucidez. In: ______. O que é Anarquismo. São Paulo:
Brasiliense, 2004. p. 7 – 29.

Referências Filmográficas

Libertarias. Espanha. 1996. Direção: Vicente Aranda. Duração: 125 min.

Tempos Modernos. EUA. 1936. Direção: Charlie Chaplin. Duração: 87 min.

Referência de Músicas

Central, Facção. Há Mil Anos Luz Da Paz. Álbum: Direto do campo de extermínio. São
Paulo: Face da Morte Produções, 2003.

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