Você está na página 1de 16

AULA 15: MARX II – LUTA DE CLASSES, REVOLUÇÃO E COMUNISMO E NICOLAU MAQUIAVEL

SOCIOLOGIA

A noção de classe social

De acordo com os estudos de Karl Marx, as sociedades europeias foram constituídas através
da contradição entre classes sociais. Classe social significa um conjunto de sujeitos sociais que
realizam, para com os meios de produção, ou uma relação de monopólio ou de privação. Meio
de produção é todo o instrumento, técnica ou conhecimento utilizado para se produzir riqueza
dentro de modo de produção específico. E, por fim, modo de produção é a forma pela qual
uma sociedade se organiza para gerar riqueza. Por exemplo, suponhamos que estamos
analisando um sujeito que trabalha nas lavouras de trigo do seu senhor, durante a alta Idade Média.
Nessas circunstâncias, o sujeito que trabalha no campo está privado da terra que, por sua vez, é de
monopólio do seu senhorio, portanto, esse trabalhador pertence a classe social camponesa, pois
está desprovido de terra (meio de produção), enquanto o senhor pertence a classe social nobre,
pois monopolizador da terra (meio de produção). Além da terra, que é, ao mesmo tempo, meio e
local onde se realiza a produção, o camponês também utiliza-se de arados, foices entre outros meios
de produção, geralmente emprestados ou alugados do senhor, e trabalha sob o modo de produção
feudal no qual a produção da riqueza não permanecia nas mãos de quem a produzia (nas mãos dos
camponeses), mas, em vez disso, concentrava-se nas mãos de quem detinha a terra (nas mãos dos
senhores de terras).
Posto isso, precisamos deixar nítido que a originalidade de Marx está não apenas na criação
do conceito de classe social, mas, sobretudo, na descoberta de que elas se manifestam através
da contradição, ou seja, só existe a classe nobre enriquecida e ociosa, porque existe uma classe de
camponeses que sustentam os privilégios nobiliários com o suor de seus rostos. Constatando a
contradição, Marx afirma ainda que as classes estão em conflito. Em síntese, as classes sociais
dominadas lutando para pôr fim a sua exploração e as classes dominantes agarrando-se com
unhas e dentes em um sistema social que garante seus privilégios e sua hegemonia no poder.

Desigualdade X diferenças

Antes de aprofundar a reflexão sobre a questão da luta entre classes sociais, precisamos
evidenciar a distinção entre os termos desigualdade e diferença e entre igualdade e indiferença.
Em primeiro lugar, a sociedade moderna foi fundamentada na tese de que todos os seres

1
humanos são iguais, porém isso não significa que todos os sujeitos sociais pensem, ajam e sintam
da mesma maneira, ou seja, NÃO QUER DIZER QUE os seres humanos sejam indistintos entre
si. Em vez disso, quando afirmamos que todos nós somos iguais, queremos dizer que todos nós
temos, ou melhor, deveríamos ter, as mesmas condições de acesso àquilo que foi produzido
historicamente pela sociedade e temos as mesmas condições para realizar nossos sonhos.
Portanto, por mais que soe paradoxal ao senso comum, é o direito à igualdade que garante a
possibilidade de as pessoas serem diferentes, ou seja, possam pensar, a gir e sentir da maneira que
desejarem. Portanto, desigualdade e diferença são questões diferentes, mas, para além disso,
são opostas. Por exemplo, em uma sociedade desigual as pessoas não são tratadas com igualdade,
ou seja, alguns tem acesso ao que a sociedade produz, outros não, alguns conseguem realizar seus
sonhos, outros não.
Em resumo, desigualdade significa uma condição em que as pessoas não são tratadas
como iguais, ou não tem igualdade de acesso ao que a sociedade produz. O contrário de
desigualdade é igualdade. Diferença, significa que os sujeitos sociais pensam, sentem e agem
de forma diferente de acordo com sua formação, língua e cultura. O contrário de diferença é
indiferença, isto é, quando as pessoas seguem modelos definidos de beleza ou comportamento,
quando se quer ser exatamente como o outro.

A luta de classes

Antes de estudarmos as ideias propriamente ditas de Marx e Engels, precisamos ter em


mente que eles elaboraram um manifesto, resumindo suas ideias produzidas até 1848. Essa obra é o
Manifesto comunista. Baseando-nos na leitura desse livro podemos começar a refletir sobre uma das
suas primeiras ideias: “A história de todas as sociedades até hoje existentes 1 é a história das
lutas de classe” (MARX e ENGELS, 2010, p. 40). A análise da história ocidental, embasa do
método do materialismo histórico dialético2, chegou a conclusão da seguinte tendência: a
organização socioeconômica das civilizações europeias estabeleceu-se por meio de um processo
exploração de uma classe social dominante por uma classe social dominada. Dentro das classes
dominantes há uma série de subdivisões e hierarquias (o mesmo ocorre nas classes dominadas), mas
por caráter didático não vamos aprofundar essa questão. As relações sociais entre classes
dominantes e dominadas é contraditória, o que não significa apenas que ambas as classes são
oposta entre si, mas essa oposição é estrutural, ou seja, só existem classes dominantes, ricas e
1 Marx e Engels estavam se referindo as sociedades que surgiram no Ocidente europeu.
2 Ver aula anterior (Aula 13 – Karl Marx 1): https://drive.google.com/file/d/1CO6U4Rbh7z-
YDFrNdrPhHFk2rKghL24_/view?usp=sharing.

2
privilegiadas, porque, ao mesmo tempo, existem classes dominadas, empobrecidas e miseráveis,
cuja situação precária garante a riqueza o conforto das classes que as exploram. Além disso, Marx e
Engels perceberam que essa situação de exploração não acontece de forma passiva, mas, ao
contrário, estabelece-se por meio de lutas e conflitos constantes que, num dado momento
histórico, chegam a um patamar máximo e explodem em um processo de revolução social que
transforma as relações até então estabelecidas entre classes dominantes e classes dominadas.
Veremos agora como a luta de classes se manifestou na história.

Exemplos de luta de classes:


Na Antiguidade (XXXV a. C – V d. C)

 Luta de classes na Grécia Antiga (século XI a.C – II d.C):


A luta de classes na Antiguidade grega, em especial, na cidade-estado de Atenas, se
expressava por meio do conflito entre as classes proprietárias de terras (monopolizadores do
prestígio e da riqueza social) e os sujeitos por elas escravizados (os verdadeiros produtores da
riqueza social). Faz-se necessário lembrar que naquela época todas as pessoas que fossem
derrotadas em batalha eram escravizados por seus conquistadores. Essa tipo de contradição foi
responsável pela criação das escolas, cujo nome origina-se do grego scholé, isto é, “lugar de
ócio”, nas quais os filhos das proprietárias de terra – privilegiados pelo fato de terem muito tempo
livre, uma vez que o trabalho pesado realizado, por exemplo, na construção de monumentos e
edifícios, e o trabalho doméstico3 ficavam a cargo das pessoas que foram escravizadas por eles –
foram ensinados a aperfeiçoar suas capacidades intelectivas e físicas. Assim, então, surgem os
primeiros Liceus e as primeiras Olimpíadas. Dentro desta lógica também surge espaço para o
surgimento da filosofia grega, haja vista que a sua prática requisitava muito tempo livre e esforço
intelectual, Se os sujeitos escravizados não fizessem todo o trabalho duro, talvez a filosofia não
surgiria da forma como a conhecemos, isto é, como fruto do ócio e da reflexão contemplativa.
Além do mais, as cidades-estados da Grécia Antiga, as civilizações egípcias e os impérios
babilônicas provavelmente ruiriam.

 Luta de classes na civilização romana ocidental (I – V):


A luta de classes na Roma antiga se expressava por meio do conflito entre patrícios (uma

3 Naquela época, o trabalho doméstico, além de ser atribuição obrigatória dos escravizados eram também das mulheres.
Nesse sentido, a educação, a filosofia e a arte eram proibidas de serem ensinadas às mulheres. Salvo raros casos das
mulheres que desafiavam os impedimentos da época, como as sofistas que educaram a Sócrates, a maioria das mulheres
ficava restrita a agir dentro do campo das atividades doméstica e do cuidado com os filhos.

3
espécie de aristocrata agrário), monopolizadores da terra e detentores do poder político, e a plebe, a
camada da população responsável pelo trabalho rural e braçal. Do embate entre essas classes
surgiram medidas exploradoras e opressoras, mas também conquistas significativas e
humanas, no entanto, nossa aula se focará em somente duas dessas consequências da luta de
classes que, inclusive, refletem-se em nossa história até hoje. O primeiro deles foi a conquista do
tribuno da plebe4 e, o segundo, foi a estratégia de controle político da população mais eficiente até
então criada, a política do pão e circo [panem at circenses5]. A contradição entre patrícios e
plebeus explodiu em diversas formas de resistências, no entanto, as mais conhecidas foram as
“revoltas plebeias”, por meio das quais foram conquistados diversa reformas políticas na
civilização romana. Contudo, outra forma de manifestação que ameaçou a hegemonia do
império Romano foi a revolta dos sujeitos escravizados, simbolizada pela figura de Spartacus,
um homem escravizado que fugiu e inspirou os demais a também conquistar sua própria
liberdade.

No Feudalismo (V – XV)

O início da Idade Média, cujo modo de produção era o feudalismo, pode ser demarcado
pela queda do império romano do ocidente em 476, arruinando consigo a contradição entre patrícios
e plebeus, ao mesmo tempo que inaugurava uma nova e tensa contradição social, a saber: o
antagonismo entre o senhor feudal e seus servos. Desse embate surgem inúmeros fenômenos,
dentre os quais merece destaque a hegemonia da religião cristã católica e, consequentemente, a
primazia das suas principais instituições, por exemplo: a igreja católica, a Inquisição, as cruzadas
(XI – XIII), entre outras.
Durante toda a Idade Média foi deixado em segundo plano a relação socioeconômica da
troca entre mercadorias, emblematizado na concepção abstrata do dinheiro enquanto
mercadoria que serve como meio universal de troca sedendo espaço ao escambo6. Além disso, o
sistema produtivo estava restrito a manufatura e às famosas oficinas de ofício, onde os aspirantes ao
4 Era um magistrado, ou seja, um membro do governo, atuante no senado que visava manter a garantia dos interesses e
direitos da plebe, frente a arbitrariedade e mesquinharia dos políticos patrícios. Em outras palavras, representou uma
possibilidade história da camada mais desfavorecida participar da política, embora isso tenha se realizado de
forma tímida e desigual, uma vez que os tribunos da plebe era minoria no senado romano constituído, em sua
maioria, por tribunos patrícios.
5 Estratégia de manipulação poplítica da população, a qual aproveitava-se da geral falta de informações e do elitizado
processo educacional (responsável por alfabetizar somente os patrícios) para manter os plebeus sempre fiéis ao
governos, através da garantia de alimentação e divertimento e, tendo em vista, que o circo era a única forma de
entretenimento da época, tal estratégia foi denominada como política do pão e circo.
6 Escambo é uma relação de troca simples na qual a transação ou contrato entre cada uma das partes é realizado pela
entrega um bem ou prestação de um serviço para receber da outra parte um bem ou serviço em forma de crédito, sem
que um dos bens seja dinheiro.

4
artesanato aprendiam sua arte por meio dos ensinamentos dos grandes mestres artesãos. O quadro
histórico começa a mudar, por conta das incursões militares católicas (cruzadas) e ao processo
de Renascimento Comercial (XIV – XV) impulsionado pelas rotas comerciais fundadas a
partir das expedições militares e expansionistas católicas. Tais fenômenos possibilitaram o
fortalecimento e a organização dos pequenos vendedores nômades que se concentravam ao redor
dos feudos. Essa região onde os comerciantes ficavam foi chamada de “burgo” (daqui surge o
termo usado por Marx e Engels para se referir aos grandes comerciantes responsáveis pelo caráter
explorador da realidade do século XIX, os tão conhecidos hoje como burgueses). Esse sistema que
já se mostrava obsoleto recebeu seu golpe de misericórdia, por meio das revoluções burguesas e
revoluções industriais que, respectivamente, destruíram as antigas classes em luta (senhor feudal e
servos) e o antigo sistema de produção (agrário e manufatureiro).

No Capitalismo (desde o século XVI até os dias de hoje)

Sem dúvida, o conflito de classes no qual Marx e Engels se debruçaram por mais tempo foi
aquele que se originou após a ruína do feudalismo. A luta de classes que se form ou nesse momento
foi entre dois agentes sociais importantíssimos: a burguesia e ao proletariado. No entanto, não
podemos nos esquecer que tais seres sociais tão contraditórios não surgiram do nada, muito, em vez
disso, resultam do movimento dialético da história que se manifesta por meio dos processos de
revolucionamento do sistema material de produção. O proletariado, classe antagônica à
burguesia, originou-se de inúmeras formas, variando de acordo com a especificidade história de
cada região, no entanto, o processo que ilustra mais nitidamente o surgimento deles é o terrível
processo dos cercamentos que foram levadas a cabo na Inglaterra. Os cercamentos foram um
processo sistemático de expulsão dos pequenos produtores de suas terras que, em seguida,
foram cercadas com arame farpado, tornando-se grandes latifúndios que foram alugados
(arrendados) a burgueses que cuidavam de ovelhas para fornecimento de lã às recentes
manufaturas inglesas de tecido. Nessas condições, os pequenos produtores não tiveram outra
escolha senão migar para as cidades recém-construídas, sobrevivendo unicamente através da venda
da única coisa que não tinha sido expropriadas deles, a saber: sua força de trabalho. Muitas vezes
isso não era o suficiente para sustentar sua família, por isso, tentava colocar toda a sua “prole” para
trabalhar junto com eles nas fábricas, com esperança de aumentar a renda mensal, a fim de não
passar fome. Foi assim que o termo proletariado surgiu.
Assim, surgiu um novo modo de produção simbolizado pela máquina e pela
contradição entre burguesia e proletariado, surgia então o capitalismo. Segundo Marx, a

5
contradição entre proletariado e burguesia terminaria, tal como aconteceu na Revolução Francesa,
com uma revolução massiva e violenta que levaria a superação do capitalismo e com ele da
propriedade privada, da desigualdade de classes e do mercado. Após a revolução, haveria um
período temporário de socialismo até que, pouco a pouco, a sociedade encaminhasse-se ao
comunismo. Quando Marx analisou a revolução comunista ele tinha em mente dois processos
históricos: a Revolta dos Tecelões da Silésia (Alemanha) em 1844 e a Revolta dos Canuts em
Lyon (França) em 1831 e 1848. Contudo, antes de finalizarmos nossa discussão acerca da luta de
classe na idade moderna, é preciso levantarmos duas importantes observações:

I. O caráter essencial da burguesia


“A burguesia não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de
produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais”
(MARX e ENGELS, 2010, p. 43). A partir desta citação do Manifesto comunista, podemos
destacar o fato da burguesia iniciar seu movimento de ascensão política e econômica como uma
classe revolucionária que lutava contra os privilégios e a arbitrariedade da nobreza feudal e do
clero. Vale ressalta que, para tornar a sua crítica uma verdadeira revolução social, precisou
aliar-se aos camponeses e aos artesãos. Contudo, após a derrubada de uma vez por todas da
hegemonia do feudalismo, a burguesia trai o campesinato, impedindo que a revolução fosse levada
até as últimas consequências – isto é, impediram que os seus privilégios fossem também
questionados e depois abolidos. Aliando-se novamente a nobreza (mais especificamente ao
exército) a burguesia reprime o movimento jacobino. Aqueles que contam a história a partir do
ponto de vista das classes que saem vitoriosas dos processos históricos, denominam o momento em
que os jacobinos queriam levar a revolução francesa para cima dos privilégios da burguesia como
Período do Terror (1792 – 1794), entretanto, nós preferimos entender este momento como um
dos poucos, mas verdadeiro, períodos democráticos da história francesa.

II. O fundamento da história


A essência do movimento dialético da história é sempre gerar novas contradições sociais,
que, por sua vez, criam a necessidade de mudança social. Por exemplo, a burguesia representou o
elemento contraditório dentro do feudalismo, levando a cabo um processo de mudança social
que destruiu a hegemonia feudal e preparou o campo para o surgimento do capitalismo. Em
seguida ela trai a classe com que estabeleceu parceria, adquiri hegemonia na política e na economia
e começa a profetizar a incontestabilidade, a naturalidade e eternidade do seu domínio, ou seja,
passa agora a se dedicar em construir a sua ideologia (uma consciência particular sobre a

6
realidade que tende a se propagar em todos os âmbitos da sociedade, favorecendo a burguesia).
Marx já nos alerta sobre isso quando afirma que a burguesia começou como uma classe
revolucionária e depois se tornou uma classe conservadora, deixando o papel histórico da revolução
para a classe proletária. Segundo ele, nossa realidade histórica é tão mutável quanto qualquer outra,
por isso, é passível das leis da dialética, como qualquer sociedade humana.“Dissolvem-se todas as
relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de ideias secularmente
veneradas; as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes mesmo de se
consolidarem. Tudo que era sólido e estável se desmanha no ar…” (MARX e ENGELS, 2010.
p. 43). Além disso, o próprio poder hegemônico cria os meios e os agentes sociais para a sua
destruição, no caso da burguesia, os responsáveis pela sua destruição é o proletariado. “A
burguesia produz, sobretudo, seus próprios coveiros. Seu declínio e a vitória do proletariado
são igualmente inevitáveis” (MARX e ENGELS, 2010, p. 51).

A questão da classe média

Até agora nossa reflexão se debruçou sobre as classes essencialmente antagônicas, isto é, os
exploradores e explorados, os oprimidos e os opressores. No entanto, não podemos esquecer de
mencionar a classe que se estabelece no meio de sses dois polos, a saber: a classe média. Marx
denomina a classe média como ideólogos enérgicos do capital, isto é, são aquela parcela da
sociedade que NÃO DETÉM OS MEIOS DE PRODUÇÃO, portanto, são tão explorados quanto
o proletariado, porém recebem salários maiores do que a média dos trabalhadores ou ocupam
funções menos pesadas ou braçais. Por conta disso, se dedicam ativamente na criação de ilusões,
propagandas, dogmas, entre outros métodos de apologia dos privilégios das classes dominantes,
acreditando que eles mesmo fazem parte dela7 quando, na realidade, jamais farão, haja vista
que, caso fiquem desempregados, estarão na miséria, diferente dos verdadeiros membros das
classes dominantes que não precisam trabalhar, ao contrário, vivem da exploração do
trabalho dos outros.

A questão da história

A teoria da revolução em Marx consiste em pensar na história como uma espécie de

7 É realmente muito interessante observar que a análise realizada por Marx e Engels durante a segunda metade do
século XIX consegue, ainda hoje, compreender a nossa realidade, principalmente quando a classe média brasileira
resolve “bater suas panelas” em benefício da manutenção do poder e dos privilégios de uma parcela reduzidíssima no
Brasil, da qual inclusive ela mesmo não faz parte, nem jamais fará.

7
movimento perpétuo de ascensão e queda de modos de produção, nas quais os próprios poderes
hegemônicos e aparentemente absolutos são os responsáveis pela por gerar os meios necessários
para a sua ruína. A revolução assume sua expressão clássica (leia-se semelhante a revolução
francesa), ou seja, um levante explosivo, massivo e violento da classe oprimida contra a classe
dominante. Desse choque entre sujeitos sociais e interesses tão contraditórios surge uma realidade
inédita na história, em que os interesses da classe anteriormente dominada, finalmente podem ser
contemplados. Durante a revolução, os agentes sociais vivenciam um momento único, inventivo e
extremamente rico de possibilidades, denominamos essa época transitória de história aberta, ou
momento de abertura da história. Nesse intervalo curto de tempo, os destinos da revolução não
estão trassados, a criatividade, a originalidade e a liberdade do espírito humano são levadas
as últimas consequências. Tudo se opina, tudo se cria e a única ordem do dia e superar o velho e
criar da forma mais livre o quanto possível, isto é: o novo. Durante a derrubada do feudalismo, essa
época de história aberta foi denominada de Renascimento (século XVI).
Ilustrando:

A questão da ideologia

Todo saciedade possui um conjunto de leis, ideias, costumes, visões de mundo que
atuam na defesa da realidade vigente, fazendo com que seus membros esqueçam o fato da sua

8
existência em sociedade ser histórica, ou seja, seus valores e crenças não são imutáveis,
perpétuos e eternos. Muito pelo contrário, são provenientes de um momento específico da história,
portanto, possuem um começo um meio e um fim.
Tendo realizado tais observações, podemos nos debruçar sobre pelo menos três aspectos
apontados por Marx e Engels para entender o desenrolar da ideologia como “falsa consciência”.
O primeiro deles diz respeito a tendência da ideologia expressar-se como uma espécie de
universalização abstrata do conjunto particular de ideias próprias das classes dominantes. Em
outras palavras, as ideias dominantes aparecem como se por si mesmas contemplassem a totalidade
das necessidades do meio social. Dessa forma, essa tendência falseia a complexidade e abrangência
do processo histórico-material encarregado de produzir tanto ideias dominantes, quanto ideias não
dominantes, as quais, por sua vez, entram em contradição umas com as outras, constituindo a
dinâmica da realidade histórica como um todo.
O segundo deles, corresponde a tendência mistificadora da ideologia, que atribui as ideias
hegemônicas o potencial de dar dinâmica a e vida à história, deixando de lado o fato de que
quem faz a história são os seres humanos reais, por meio de seu trabalho. Noutras palavras, é
possível compreender a história de uma maneira exclusivamente ideológica, deixando de lado
o fato dela ser um processo proveniente da produção material dos sujeitos sociais (leia-se
práxis ); e, em vez disso, entendê-la apenas enquanto resultado da força de ideias hegemônicas
8

soltas no ar. Por exemplo, dentro desta perspectiva, é possível analisar o feudalismo por meio das
ideias isoladas de fé, de honra, de prestígio e de lealdade nobiliária; esquecendo-se de observar, tal
como pontuam Marx e Engels, que a religião e a ética são, antes de mais nada, frutos de relações
concretas do trabalho dos sujeitos sociais. Enfim, a ideologia procura ignorar tudo isso,
transformando a ideia no sujeito por excelência da história.
O terceiro deles, refere-se ao potencial de deturpação histórica da ideologia, ou seja,
quando a história é analisada segundo o ponto de vista ideologicamente dominante, todos os
acontecimentos desenvolvidos no presente tendem a ser explicados como se fossem resultados
de uma série retilínea, invariável, natural e lógica de fenômenos desenvolvidos durante
o passado. Por exemplo, a partir da perspectiva ideológica vigente, a diversidade das históricas e
das conquistas do continente americano, anteriores a chegada de Colombo, são todas reduzidas e
abstraídas num único objetivo, a saber: concretizar a Revolução Francesa, ou melhor, o capitalismo
europeu9. Portanto, supor a existência de uma “finalidade histórica necessária”, ou melhor, de
8 Para uma explicação mais didática e aprofundada sobre o conceito de práxis em Marx consultar: NETTO, J. P. &
BRAZ, M. Economia política: uma introdução crítica. São Paulo: Cortez, 2006. 259p.
9 Essa noção de reapresentar o presente a partir da suposição de finalidades necessárias desenvolvidas durante o
passado é evidente na tradição positivista de pensamento, principalmente na tese dos três estágios evolutivos da
humanidade, nos quais os elementos do estágio posterior eram consequências diretas do anterior. Isso fica ainda mais

9
um “destino histórico inexorável”, definindo o movimento da história presente a partir da
abstração da realidade histórica passada não significa outra coisa senão a própria distorção
do movimento real da história, bem como da relação entre passado, presente e futuro10. Desse
modo, segundo o ponto de vista materialista e dialético da história, “quase toda a ideologia se reduz
ou a uma concepção distorcida dessa história ou a uma abstração total dela. A ideologia, ela mesma,
é apenas um dos lados dessa história (MARX e ENGELS, 2010, p. 86 – 7)”. Em oposição a isto, a
história, em Marx, não possui uma teleologia pré-definida, em vez disso está aberta a uma
infinidade de possibilidades determinadas pelas condições sócio-históricas de uma época, bem
como estão passíveis da interferência do acaso. “Os homens fazem a sua própria história;
contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as
circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram”
(MARX, 2011, p. 25). Em síntese, “Para Marx, portanto, a história da humanidade e, no outro polo,
dos indivíduos não são processos teleológicos. O desenvolvimento do presente em um futuro
incorpora um quantum de acaso que faz com o futuro não seja o desenvolvimento lógico e direto do
presente” (LESSA, 2015, p. 478).
Em síntese, o comportamento da ideologia enquanto “falsa consciência” pode ser entendido
como uma espécie de lobo em pele de cordeiro (MARX e ENGELS, 2010, p. 525), cujo intuito é
distrair o “rebanho” de sujeitos sociais, por meio de suas ardilosas fantasias, a fim de que eles não
tenham consciência da sua própria realdade (leia-se a condição de presa fácil) e, consequentemente,
não sejam capazes de reagir até que seja tarde de mais para tanto.

Funciona do capitalismo

 A mercadoria
A mercadoria é o fundamento da sociedade capitalista e uma das primeiras observações
que Marx fez a respeito das mercadorias é que elas têm um caráter duplo, isto é, tem tanto um
valor de uso, quanto um valor de troca. O valor de uso, tal como o próprio nome já indica,
significa a utilidade específica que os artigos produzidos pelo ser humano têm para aqueles

claro durante o evolucionismo cultural – teoria antropológica que defendia a existência de uma escala retilínea e
universal de desenvolvimento do ser humano, invariável no tempo e no espaço. Os evolucionistas partiam do
pressuposto de que todos os países deveriam evoluir da selvageria, passando pela barbárie e terminando na civilização –
convenientemente entendida como a condição sócio-histórica alcançada pela Europa do século XIX e por meio da
exploração do chamado Novo Mundo.
10 Em contraposição a essa história abstrata e ideológica, Marx e Engels desenvolvem a perspectiva materialista
histórico-dialética, na qual o passado, o presente e futuro se articulam por meio da luta de classes, da contradição e da
revolução – fenômenos que abrem a história em infinitas possibilidades indeterminadas, mas que aos poucos vão se
fechando numa possibilidade específica e desenvolvida de acordo com o desenrolar das relações sócio-históricas
materiais de cada período histórico.

10
que os desejam possuir11; logo, não adquire qualquer tipo de sentido fora do consumo. Já o valor
de troca é uma relação de equivalência entre valores de uso distintos, variáveis em quantidades
igualmente distintas, tomando como base uma propriedade que ambos compartilham em comum.
Portanto, é uma relação quantitativa, e não qualitativa como acontece no cálculo do valor de uso.
Por exemplo, suponha-se que um móvel de madeira, dez casacos e uma tonelada de soja tenham o
mesmo valor de troca. O que isso significa? Em poucas palavras, quer dizer que ambos, embora
tenham valores de uso distintos (respectivamente, o de mobília, aquecimento corporal e
alimentação) e, neste exemplo, apresentam-se em quantidades diferentes (uma unidade, dez
unidades e uma tonelada), entretanto, ambas têm em comum a mesma propriedade: todos tem o
mesmo valor de troca. Mas o que torna valores de uso tão distintos e em quantidades tão
diferentes, equivalentes entre si? De acordo com as leituras críticas de Marx à economia política
clássica, é “quantidade de trabalho” neles “contida” (MARX, 2013, p. 116). E como se mede o
trabalho contido nas mercadorias? A partir de “seu tempo de duração”, por exemplo, “hora, dia etc.”
(Id. Ibid.). Nesse sentido, a seguinte confusão poderia surgir: então as mercadorias são mais
valiosas “quanto mais preguiçoso ou inábil for” o trabalhador que as produz (Id. Ibid.)? Não, elas
não são. Marx explica o porquê disso ao pontuar que não é o trabalhador individual o responsável
pela impressão do valor das mercadorias, mas, em vez disso, é a média dos tempos de trabalhado
exercido por trabalhadores, dentro de um sistema produtivo social específico, que valoriza as
mercadorias.

 Trabalho abstrato
Nesse sentido, um importante questionamento se impõe: como é possível relacionar de
forma equivalentes valores de uso12 produzidos por trabalhos eminentemente distintos? Há
apenas uma maneira: abstraindo-se dos trabalhos concretos e específicos que produzem tais
mercadorias. Dessa forma, quando se abre mão dos valores de uso, durante o cálculo de seus
valores de troca, igualmente se abstraí dos seus componentes materiais, ou seja, “o produto não é
mais uma mesa, uma casa, um fio ou qualquer outra coisa útil. Todas as suas qualidades sensíveis
foram apagadas. E também já não é mais o produto do carpinteiro, do pedreiro, do fiandeiro
ou de qualquer outro” trabalho concreto-histórico (Ibid., p. 116). O que resta, então? Apenas

11 O valor de uso, portanto, é calculado levando em conta as propriedades qualitativas materiais das mercadorias, ou
seja, um móvel de madeira serve para mobiliar um recinto, um casaco tem função de aquecer o corpo humano, os grãos
têm qualidades alimentares básicas, etc.
12 Expressão matemática que ilustra a relação de equivalência entre diversos valores de usos (representados em
quantidades diferentes) de mercadorias no mercado:
x mercadoria A = y mercadoria B, etc…
(1 móvel de madeira = 2 toneladas de soja, etc…).

11
“uma mesma objetividade fantasmagórica, uma simples geleia [Gallerte] de trabalho humano
indiferenciado”, monótono e simplificado, ou seja, “trabalho humano abstrato” (Id. Ibid.).

 Fetichismo da mercadoria
Contudo, os consumidores – embora satisfaçam suas necessidades sociais quando adquirem
uma mercadoria – não necessariamente tem consciência do processo produtivo do qual os seus
objetos de consumo se originam. Se, por exemplo, uma pessoa vai ao mercado para, por
exemplo, comprar um móvel de madeira, dificilmente ela saberá se a mercadoria que
comprou foi construído pelas próprias mão de um marceneiro ou, em vez disso, se foi utilizado
o auxílio de máquinas no processo produtivo do móvel; ou ainda, se o móvel foi feito por
trabalho informal, mau pago e superexplorado. Tudo que o consumidor sabe é que o móvel
lhe servirá de alguma forma. Dessa forma, as mercadorias aparentam ter vida própria e
aparecerem nas prateleiras dos mercados de forma mágica (fetiche), bem como parecem ser
independentes da ação e da vontade do próprio ser humano, e é justamente esta confusa
inversão de papéis na qual a coisa usurpa o lugar por excelência do ser humano que se abre margem
à existência misteriosa e abstrata das mercadorias. Aqui nos deparamos com aquilo que Marx
chama fetichismo da mercadoria.

➢ A mercadoria dinheiro
Retomando a fórmula do cálculo do valor das mercadorias:
x mercadoria A = y mercadoria B, etc..
(1 móvel de madeira = 2 toneladas de soja, etc…)
Posto isso, não podemos deixar de notar que na circulação capitalista não se trocam as
mercadorias diretamente umas pelas outras, tais como se fazia nos sistemas de escambo, em vez
disso, a sociedade capitalista se utiliza de uma mercadoria que serve como mediador universal
da troca, isto é: o dinheiro. Para elucidar tal questão, reflete-se sobre o seguinte exemplo: em 8
horas de trabalho diário são produzidas as seguintes mercadorias: 2 toneladas de soja; 1 móvel de
madeira; 20 arrobas (300 quilos) de carne bovina; 2 mil litros de leite e 12,5 gramas de ouro. Nessas
circunstâncias, isto é, dentro da lógica da circulação simples no mercado capitalista, todas as
mercadorias obtém um valor equivalente entre si, apesar de chegarem no mercado em
quantidades diferentes (1 unidade; 300 quilos; 2 mil litros e 12,5 gramas), pois são frutos de
um mesmo trabalho abstrato e são calculadas em função de uma mesma quantia de tempo de

12
trabalho médio ou socialmente necessário para que esses tipos de mercadorias sejam
produzidas. Portanto: 2 toneladas de soja = 1 móvel de madeira = 20 arrobas (300 quilos) de carne
bovina = 2 mil litros de leite = 12,5 gramas de ouro. Dentro dessa lógica, qualquer mercadoria
da série supracitada pode ser isolada e servir como valor referência para o cálculo das demais.
Na equação a seguir, o valor de troca da soja tornou-se a referência universal para o cálculo do
valor de troca de todas as mercadorias levadas à venda no mercado.

}
Equação:
1 móvel de madeira =
20 arrobas (300 quilos) de carne bovina = 2 toneladas de soja
2 mil litros de leite =
12, 5 gramas de ouro =
etc.
Os metais preciosos também são mercadorias, porém como são raros e facilmente
fracionados, se tornaram a mercadoria universal que medeia a compra e venda de outras
mercadorias, isto é, a mercadoria-dinheiro.

 Mais-valor
Finalmente, chegou o momento de entendermos como se fundamenta a exploração na
sociedade burguesa. Uma das ideologias mais básica da sociedade do capital é que todos possam
igualmente ir ao mercado com seus produtos e trocar igualmente, mercadoria pela sua
referência em dinheiro. Todavia, essa aparente troca entre iguais sem mostra uma troca entre
desiguais e veremos isso agora. Suponhamos a produção de soja de um agricultor qualquer. Ele,
como qualquer outro capitalista, pretende produzir uma mercadoria a partir da compra de força de
trabalho, de matérias-primas ou insumos e dos gastos com a manutenção dos meios de produção
(máquinas, por exemplo) utilizadas no processo produtivo da soja. Retomando e complementando o
exemplo que usamos durante toda a aula, imaginemos que as 1 tonelada de soja que o agricultor
produziu custem no mercado 1500,00 R$, preço no qual estão contidos os gastos com força de
trabalho, insumos e meios de produção. Se a condição básica da circulação simples fosse respeitada,
o móvel de também madeira custaria 1500,00 R$, bem como todas as quantidades de mercadorias
que fossem produzidas durante uma jornada de trabalho. No entanto, o capitalista não quer trocar
valor por valor, não deseja realizar uma troca igual, muito pelo contrário, almeja trocar seus
gastos obtidos na produção por um soma de valor maior do que aquilo que investiu, ou
melhor, anseia lucrar. Mas como o capitalista faz isso? A resposta é revoltante: ele não remunera a
força de trabalho de uma forma justa e equivalente ao trabalho que ela realiza. Sendo mais claros,

13
todos os trabalhadores recebem em uma jornada de trabalho o equivalente a terem
trabalhado aproximadamente metade de tal jornada de trabalho. Por que isso? Porque metade
de uma jornada de trabalho é o suficiente para os trabalhadores não morreram de fome, voltando no
dia seguinte na mesma condição que entraram no processo produtivo, isto é, como trabalhadores
(essa remuneração necessária para manter somente as condições de subsistência dos trabalhadores é
o que chamamos hoje de salário-mínimo). Este trabalho não pago ao trabalhador é o que
enriquece o capitalista e é denominado cientificamente por Marx como mais-valor.
Ilustrando:

➢ Mais-valor absoluto e relativo


O mais-valor absoluto é acontece quando o capitalista estende a jornada de trabalho,
por exemplo, quando faz seus trabalhadores transitarem de uma jornada de 7 horas de trabalho
diário para uma de 12 horas. Neste caso, o mais-valor extraído da força de trabalho sobre de 1 hora
para 6 horas. Já o mais-valor relativo acontece quando o capitalista aperfeiçoa a produtividade
de sua empresa, o que, por sua vez, aumenta a quantidade de mercadorias produzidas pelos
trabalhadores e, consequentemente, reduz o tempo de trabalho necessário para que eles as
produzam. Por exemplo, seu tempo de trabalho necessário cai de 6 horas para 2 horas, ao mesmo
tempo que seu tempo de trabalho gratuito ao capitalista (leia-se mais-valor) sobe de 1 hora para 5
horas.

O comunismo

O comunismo surgiu de um movimento social francês de trabalhadores que reivindicavam


melhores condições de vida. Marx conheceu os trabalhadores que faziam parte do movimento
comunista e se tornou um dos seus porta-vozes, encarregando de escrever uma teoria que desse
sustentação às reivindicações dos membros do movimento comunista. Dentro da teoria criada por

14
Marx, o comunismo se torna um modo de produção que se surgirá por meio da revolução do
proletariado, levada a cabo a fim de extinguir o domínio de uma classe social sobre a outra
(mais especificamente o a opressão que a burguesia exercia sobre ele, a qual depois de extinta,
acreditava-se que também se acabaria com todo o domínio de classes). Esse processo se fundamenta
em três intuitos: em primeiro lugar; é preciso superar a propriedade privada, em segundo
lugar; o mercado capitalista e; em último lugar; a divisão social do trabalho. A abolição destes
três pilares do capitalismo não acontece de uma hora para outra, mas precisa ser realizado em um
momento de transição denominado como socialismo. Durante o socialismo a estrutura da
sociedade capitalista é superada, ou seja, mostrou já ter cumprido seu papel histórico e foi
substituída por outra ralidade histórica. Passada esta etapa transitória de socialismo, o estado e
as classes sociais e até mesmo as religiões como nós a conhecíamos (COMO FORMAS DE
DOMINAÇÃO E EXPLORAÇÃO) deixam de existir, não tem mais necessidade de existir da
forma tal como existiam antes. A nova sociedade que surge, o comunismo, significa, nas palavras de
seus próprios teóricos, uma realidade na qual: “[…] o livre desenvolvimento de cada um é uma
condição para o livre desenvolvimento de todos” (MARX e ENGELS, 2010, p. 59). É válido
ressaltar que, o comunismo não representa, em nenhum aspecto, o fim da história, pois o
movimento dialético da realidade há de promover novas contradições a serem superadas. O
comunismo representa, na visão de Marx e Engels, o fim do mundo como nós o conhecemos,
desigual, autoritário e injusto. Outra ressalta sobre o comunismo que veremos nessa aula é a
crítica aos falsos marxistas que afirmam ser o comunismo um caminho futuro natural da sociedade,
inevitavelmente acontecerá, sem que os agentes sócias nada precisem fazer. Isso é um grande erro
interpretativo. Talvez o único caráter inevitável seja a exploração do sistema capitalista, nada pode
evitá-la, pois faz parte estrutural desse tipo de sociedade. Mas o que Marx e Engels queriam
evidenciar no Manifesto comunista era a crescente conscientização da população sobre os males
do capitalismo e, sobretudo, a necessidade prática de superá-lo, por isso, o apelo final dos
nossos filósofos comunistas é a união dessa indignação em um movimento proletário mundial:
“PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS!” (MARX e ENGELS, 2010, p. 69).

15
Referências bibliográficas

LESSA, S. Alienação e estranhamento. IN: MARX, K. Cadernos de Paris. In: ______. Cadernos
de Paris & Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. São Paulo: Boitempo, 2015. p. 449 –
491.

MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 2010. 272 p.

MARX, K. O capital. São Paulo: Boitempo, 2013. 894 p.

______. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011, 169 p.

16

Você também pode gostar