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Coleção Lingua [gem]

1. Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa. Marcos Bagno


2 . Linguagem & comunicação social-linguistica para comunicadores, Manoel Luiz Gonçalves Corrêa
3 . Por uma linguística crítica, Kanavillil Rajagopalan
4 . Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula, Stella Maris Bortoni-Ricardo
5. Sistema, mudança e linguagem - um percurso pela história da linguística moderna, Dante Lucchesi
"
6 O português são dois" - novas fronteiras, velhos problemas. Rosa Virgínia Mattos e Silva

DO SIGNO
.

7.Ensaios para uma sócio-história do português brasileiro. Rosa Virgínia Mattos e Silva
8 A linguística que nos faz falhar-Investigação crítica, Kanavillil Rajagopalan, Fábio Lopes da Silva [orgs.]
.

9 Do signo ao discurso - Introdução d filosofia da linguagem, Inês Lacerda Araújo


.

10. Ensaios de filosofia da linguística, José Borges Neto


11. Nós cheguemu ria escola, e agora? - sociolinguística e educação, Stella Maris Bortoni-Ricardo
12. Doa-se lindos filhotes de poodle-Variação linguística, mídia e preconceito, Maria Marta Pereira Scherre
13. A geopolítica do inglês, Yves Lacoste [org.], Kanavillil Rajagopalan
14. Géneros - teorias, métodos, debates,J. L. Meurer, Adair Bonini, Désirée Motta-Roth [orgs.]
AO DISCURSO
15.0 tempo nos verbos do português - uma introdução a sua interpretação semântica, M" Luiza M. S. Coroa
16. Considerações sobre a fala e a escrita - fonologia em nova chave, Darcilia Simões Introdução à filosofia da linguagem
17. Princípios de linguística descritiva, M. A. Perini
18. Por uma linguística aplicada INdisciplinar, Luiz Paulo da Moita Lopes
19. Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística, U. Weinreich, W. Labov, M. I. Herzog
20. Origens do português brasileiro, Anthony Julius Naro, Maria Marta Pereira Scherre
21. Introdução à gramaticalizaçao - Princípios teóricos & aplicação, Sebastião Carlos Leite Gonçalves,
Ma Célia Lima-Hernandes, Vânia Cristina Casseb-Galvão [orgs.]

22. O acento em português - Abordagens fonológicas, Gabriel Antunes de Araújo [org.]


23. Sociolinguística quantitativa-Instrumental de análise, Gregory R. Guy, Ana Maria Stahl Zilles
24. Metáfora, Tony Berber Sardinha
2 5. Norma culta brasileira - desatando alguns nós, Carlos Alberto Faraco
26. Padrões sociolinguísticos, William Labov
2 7. Génese dos discursos, Dominique Maingueneau
28. Cenas da enunciação, Dominique Maingueneau
29. Estudos de gramática descritiva-as valências verbais Mário A. Perini
,

30. Caminhos da linguística histórica - "Ouvir o inaudível". Rosa Virgínia Mattos e Silva
31. Limites do discurso - ensaios sobre discurso e sujeito. Sírio Possenti
32. Questões para analistas do discurso. Sírio Possenti
3 3. Linguagem & diálogo-as ideias linguísticas do Círculo de Bakhtin, Carlos Alberto Faraco
34. Nomenclatura Gramatical Brasileira - cinquenta anos depois, Cláudio Cezar Henriques
35. Língua na mídia. Sírio Possenti
36. Malcomportadas línguas, Sírio Possenti
37. Linguagem. Género. Sexualidade: clássicos traduzidos Ana Cristina Ostermann e Beatriz Fontana [orgs.]
,
JT,
38. Em busca de FerdinandSaussure, Michel Arrivé
39. A noção de"fórmula" em análise do discurso- quadro teórico e metodológico, Alice Krieg-Planque
40. Geolinguística - tradição e modernidade, Suzana Alice Marcelino Cardoso
41. Doze conceitos em análise do discurso, Dominique Maingueneau
42.0 discurso pornográfico, Dominique Maingueneau
43. Falando ao pé da letra - a constituição da narrativa e do letramento Roxane Rojo

INÊS LACERDA ARAÚJO


,

44. Nova pragmática - fases e feições de um fazer Kanavillil Rajagopalan


,
Capa e Projeto gràfko; Andréia Custódio
Editor:
Conselho Eoitoriau
Marcos Marcionilo
Ana Stahl Zilles [Unisinos]
Carlos Alberto Faraco [UFPR]
SUMÁRIO
Egon de Oliveira Rangel [PUC-SP]
Gilvan Muller de Oliveira (UFSC, [poli
Henrique Monteagudo [Universidade de Santiago de Compostela]
Kanavillíl Rajagopalan [Unicampl
Marcos 6agno ÍUnBI
Maria Marta Pereira Scherre [UFES]
Rachel Gazolia de Andrade [PUC-SP]
Roxane Helena Rodrigues Rojo [Unicamp]
Salma Tannus Muchail [PUC-SP]
Stefla Maris Bortoni-Ricardo fUnSJ
INTRODUÇÃO .. 9

I .
SIGNO E REALIDADE. 19
I A PROBLEMÁTICA DA LINGUAGEM .
.
19

CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO NA FONTE 1 1 . .


Breve escorço histórico. 19
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, Ri 2 Signo e referência.
.
28

A689d
2 1 . .
0 signo linguístico. 28
Araújo, Inês Lacerda, 1950
Inês
22
. .
0 problema da referência para Saussure. 32
Do signo ao discurso: introdução à filosofia da linguagem |
Lacerda Araújo - São Paulo : Parábola Editorial, 2004 3. Conceito e objeto. 37
(Linguaígem); v. 9) 4 Os limites da semântica. 41
.

Inclui bibliografia 5. A contribuição de Peirce. 46


ISBN 978-85-88456-28-0
1. O esquema triangular de Peirce.
S.
46
1. Linguagem - Filosofia 2. Linguística. L Título. III. Série. 5 2 A três categorias do signo.
. .
49
5 3 .A semiótica como lógica dos signos. 53
04-2704 CD°; 4°, .

CDU : 81*1

II. AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO, VERDADE E REFERÊNCIA. 57


1 Significar e nomear.
.
57
2 Referir difere de significar: Frege.
.
63

Direitos reservados à 3. A solução de Russell para o problema da denotação. 70


Parábola Editorial 4 O paralelismo entre linguagem e realidade para Wittgenstein no Tractatus
.

Rua Sussuarana, 216 - Alto do Ipiranga


04281-070 São Paulo, SP locico-philosophicus. 74
589-9263
pabx: [11] 5061-926215061-8075 | fax: Cl 1J 2 5 Kripke e a rigidez referencial.
.
82
home page: www.parabolaeditorial.com.br 6 Consequências do semantismo. 91
e-mail: parabola@parabo(aeditoríal.com.br
.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode


ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer
III. A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM. 99
meios (eletrónico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou 1. O Wittgenstein das Investigações fiiosóficas. 99
arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão
por escrito da Parábola Editorial Ltda.
1 1
. .
0 paradigma pós-metafísico. 100
12
. .
Fim do primado da lógica e da metafísica . 102
ISBN: 978-85-8845&-28-0 1 3
. .
Os jogos de linguagem. 106
1" edição | 2" reimpressão, fevereiro de 2011, conforme o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.
14
. .
O problema da referência. 114
© do texto: Inês Lacerda Araújo, novembro de 2004
1 5
. .
Crítica à linguagem privada. 120
DO SIGNO AO DISCURSO

2 .
A CRÍTICA DE STRAWSON À TEORIA DAS DESCRIÇÕES DE RUSSELL. 1 23
3 .
Austin e a noção de ato ilocucionário. 128
3 1
. . Constativos e performativos. 129
3 2
. .
Os atos de discurso. 13 1
3 3
. . As afirmações. 133
4 .
A referência como ato de fala para Searle. 139

IV A CONTROVÉRSIA EXTERNALISMO X INTERNALISMO. 143


1 .
Dewey: o significado como função do comportamento cooperativo. 144
2 . A inescrutabilidade da referência para Quine. 150 "

O mundo não fala apenas nós falamos. Desde que


2 1
. .
0 problema ontológico. 151 ,

22
. . A relatividade ontológica. 155 fomos programados com uma linguagem o mundo pode
,

3 Davidson e a interpretação radical. 164


levar-nos a aderir a crenças Mas não poderia fornecer
.

4 .
Putnam e a fixação da referência. 17 5 .

5 .
Internalismo e referência para Chomsky. 184 uma linguagem para que nós falássemos Apenas outros
.

6 . Por que uma teoria da referência é dispensável, segundo o pragmatismo. 195 "

seres humanos podem fazê-lo .

V REFERÊNCIA E DISCURSO: O PAPEL DA PRAGMÁTICA. 201


Richard Rorty: Contingência ironia e solidariedade, 1989.
,

1 . Um mudança de enfoque. 201


2 .
Da referência ao processo de referenciação. 205
3 . A noção de discurso em Foucault. 215
3 1
. .
Por que análise do discurso?. 215
32
. .
Enunciado e discurso. 218
3 3
. . Formação discursiva. 219
34
. . A função sujeito. 223
3 5 O referencial e o domínio associado.
. .
224
3 6 A materialidade discursiva.
. .
229
3 7 0 conceito de discurso.
. .
231
38
. .
O poder do discurso. 233
39
. .
Avaliando as consequências da análise foucaultiana do discurso. 238
4 . A teoria da ação comunicativa de Habermas: a virada linguística e a virada
pragmática. 244
4 1
. .
Da semântica à pragmática. 246
4 2
. .
Ação comunicativa e ação estratégica. 249
4 3
. .
Verdade, referência,correção. 256
44
. .
A teoria da ação comunicativa como implicando uma teoria sociológica. 258
CONCLUSÕES. 263

BIBLIOGRAFIA. 277

ÍNDICE DE NOMES. 279

G
INTRODUÇÃO

A
JL JL linguagem é provavelmente a marca mais notória da cultura .
As

trocas simbólicas permitem a comunicação geram relações sociais, mantêm


,

ou interrompem essas relações possibilitam o pensamento abstrato e os


,

conceitos. Quando, em uma entrevista perguntou-se a Umberto Eco as


,

razões para o título de sua obra O nome da rosa, ele respondeu que certo
,

monge medieval dissera que mesmo não havendo mais uma rosa , ou
"

certa rosa, ou rosa alguma pela linguagem é que podemos dizer:


, Não

há mais a rosa" (nulla rosa est). Sem linguagem ,


não há acesso à realidade.
Sem linguagem, não há pensamento.

Poder referir-se a algo que não se encontra mais aí nomear, designar ,

é parte essencial do comportamento humano A simples manipulação de


.

um instrumento vem acompanhada de certa intenção expressa pelo uso ,

de signos linguísticos e não linguísticos. Pensamento é sempre pensamento


acerca de alguma coisa e por isso mesmo, consiste em linguagem, que
,

não é um mero subproduto do pensamento É na e pela linguagem que


.

se pode não somente expressar ideias e conceitos mas significar como ,

um comportamento a ser compreendido isto é, como comportamento


,

que provoca relações e reações. O processo de semiose ou de significação


requer basicamente, sistemas de símbolos e de signos linguísticos codifica-
,

dos por meio de regras de emprego Porém, sem os fatores da situação de


.

fala, contexto intenção, comportamento verbal, circuito da comunicação,


,

efetividade do dito e do dizer simplesmente não há linguagem. O pro-


,

cesso de semiose não se restringe a que algo (como um signo ou sistema


9
DO SIGNO AO DISCURSO INTRODUÇÃO

de signos) substitua algo para alguém. A linguagem não é uma tradução entendimento mútuo) Reservamos um capítulo para discutir cada um desses
.

automática das coisas, o significado não é um substituto do objeto. patamares da linguagem. Em cada um deles, o problema da referência e
O século XX foi o século da lógica e da linguagem. A linguagem
do significado recebe tratamento peculiar ao mesmo tempo em que vai
,

sofrendo importantes transformações conforme se trate do enfoque linguís-


torna-se o pano de fundo obrigatório para o pensamento filosófico con-
tico, lógicó-proposicional ilocucionário (ato de fala) e discursivo O que
temporâneo. Trata-se da chamada virada linguística. Este trabalho aborda as
, .

leva a um percurso que começa no signo com sua estrutur linguístico-


*

a
questões e os autores essenciais para compreender o tema da referência,
ou seja, da relação entre linguagem e realidade, palavras e coisas; o pro-
-

gramatical, passa pela proposição com sua estrutura lógico-semântica e


culmina nos atos de fala com sua estrutura pragmático-discursiva.
blema do significado, de como com as palavras dizemos algo a alguém e
somos compreendidos; o papel dos jogos de linguagem e dos atos de fala Como as palavras se relacionam com o mundo?" Com esta questão
nos processos comunicativos; a questão pragmática do discurso, isto é, da Searle inicia sua obra Spcech Acts Trata-se do velho problema da referência
.

fala como prática humana entre outras práticas. Esses temas são analisados que, desde Platão até Davidson, tem perturbado filósofos linguistas, teóricos ,

em diferentes perspectivas, autores e escolas de pensamento, num arco da comunicação .

Há uma relação entre palavras e coisas significadas , no-


meadas designadas - isto é certo. Porém surgem os seguintes problemas;
histórico que se inicia com a virada linguística em fins do século XIX e ,
,

vem até nossos dias, com as teorias do discurso. Nessa trajetória, houve a) qual é a natureza do laço" que une linguagem e realidade
"

como
,

uma mudança radical de perspectiva. Para lógicos, linguistas e filósofos elas se relacionam?
da linguagem que se detêm no nível semântico, a referência é nuclear. Já b) quais são os recursos que a linguagem oferece para realizar tal
com a virada pragmática, no paradigma da intersubjetividade linguística, operação: os signos as frases gramaticais, os enunciados lógicos
,
,

a questão da relação entre significar e referir, ou seja, a proposição com os atos de fala ou os discursos?
,

função denotativa e veritativa, passa a ser considerada um ato de fala entre c) qual é a categoria ou natureza da "realidade" referida ou repre-
outros. O ato de referir à realidade depende de um contexto, seus efeitos sentada: será algo puramente externo e objetivo ,
ou construída de
são práticos, pois são os efeitos discursivos que os produzem. Essa relação alguma forma pela linguagem?
recebe enfoques distintos conforme o nível ou patamar da linguagem em
Com a virada linguística (linguistic turn) o pensamento ocidental volta-se
,

que os filósofos da linguagem se atenham: ao signo, à frase, à proposição


ou ao discurso.
para o problema da linguagem, o que provocou transformações rápidas e
importantes na linguística e na filosofia da linguagem. Em fins do século
A linguagem pode ser caracterizada em suas dimensões de signo (sig- XVIII ,
dá-se um corte epistemológico, uma mudança no campo conceptual:
nificação, simbolização e semiotização), de proposição enquanto forma de no lugar do puro pensamento e das ideias do racionalismo e do empiris-
descrever e/ou representar estado de coisa (relação entre significado, mo do século XVII e no lugar da razão kantiana com suas formas puras a
referência e valor de verdade), de ato de fala que demanda um certo tipo priori, surge a linguagem como um dos problemas centrais do pensamento
de comportamento e um uso em situação (linguagem como forma de ocidental. A linguagem não é mais considerada como simples instrumen-
comportamento e valor ilocucionário dos atos de fala), de discurso, enten- to para o pensamento representar as coisas , e sim estrutura articulada,

dido como efetivação do dizer e do dito (lugar de constituição do sujeito independente de um sujeito ou de uma vontade individual e subjetiva ,

e das formas linguísticas com valor e força social, política, bem como do não mais submetida à função exclusiva da nomeação ou designação, quer
10 11
DO SIGNO AO DISCURSO INTRODUÇÃO

dizer o signo não se limita a estabelecer uma relação direta com a coisa (1859-1952), o behaviorismo epistemológico de Quine (1908-2000) , o

nomeada. Temos assim, no lugar de uma análise das representações, a neopragmatismo de Rorty (193 1-2007) enriquecido com as contraposições
,

análise da linguagem, cujas expressões gramaticais são públicas. de Davidson (1917- 2003) referência e significação são consideradas como
,

A virada linguística, pressentida por Hegel, configura vim novo pa- parte da ação no mundo. Enriquece essa discussão a disputa externalismo
norama para a filosofia da linguagem e para a linguística. Nascem, nesse x ínternalismo de Chomsky (1928- ) e Putnam (1926 ). Finalmente, no -

âmbito do discurso temos a teoria do agir comunicativo 'de Habermas


ambiente renovado, a crítica literária, a filologia, as análises do discurso, ,

a linguística do signo de Saussure, o estruturalismo (cujo precursor foi o (1929- ) e a análise do discurso de Foucault (1929-1984).
próprio Saussure), a semiótica de Peirce. Essas contribuições são valiosas para todo iniciante ou estudioso da lin-

Nessa mesma época, surge a lógica matemática com Frege, Russell e o guagem, seja sob a perspectiva da linguística, seja da filosofia. O percurso do
signo ao discurso passando pela proposição e pelo ato de fala, não é apenas
Wittgenstein do Tractfltus logico-philosophicus, que contribui primeiramente com
,

" " sequencial mas obedece a uma lógica interna com enfoques cada vez maic
a teoria da figuração, dando todo poder à proposição, e depois de uma
,
,

elucidativos e complexos Interessa-nos essa lógica que se distende a partir


impressionante revisão teórica, passa à análise da linguagem ordinária. Nesse
.

da relação entre signo e referência passando pela relação entre proposição


panorama, ocorrem algumas das mais importantes mudanças de concepção ,

e referência ato de fala e referência, e, finalmente discurso e referência.


da linguagem e seu papel: o estruturalismo mostra que sem linguagem
,
,

não há cultura, nem pensamento, nem personalidade; a semântica expande Como já dissemos o foco alterou-se após a virada pragmática indo
,
,

seus domínios dos campos semânticos às situações de fala que requerem da proposição para o ato de fala; assim a referência de obstáculo episte- ,

contexto e intenção; a análise do discurso distende a linguagem para o mológico a ser evitado pelos diversos estruturalismos linguísticos (e por
domínio social e institucional, todo discurso remete a outro discurso (rede isso mesmo considerada como algo problemático) passa a questão que ,

discursiva) e cria relações de saber e poder (Foucault). A lista não acaba precisa ser dissolvida ou absorvida nas concepções pós-Wittgenstein II ,

aqui, mas ela é suficientemente significativa para mostrar que, pela virada Quine e Dewey.
pragmática, a linguagem não é mais vista como tendo função exclusiva- Pressupomos ser necessário se quisermos fazer avançar o estado atual
,

mente referencial, a referência acaba por se dissolver como problema para a


das discussões sobre significação e sobre a capacidade de referir , prosseguir
filosofia da linguagem, ao tornar-se uma questão de simples uso linguístico. galgando os patamares do signo ao discurso. Só assim daremos conta da
A fim de proporcionar uma visão a mais completa possível desse possibilidade de comunicar com sentido e eficácia algo acerca do mundo
panorama, percorremos os seguintes enfoques: o linguístico-estrutural e da capacidade de com palavras, fazer-nos entender acerca de algo no
,

de Saussure (1857-1913); o semiótico de Peirce (1839-1914); o lógico- mundo. Consideramos cada um destes patamares o do signo/frase gra- ,

representacionista de Frege (1848-1925); a proposta empírico-logicista matical, o da proposição/sentença lógico-semântica o do ato de fala e, ,

de Russell (1872-1970) e do primeiro Wittgenstein (1889-1951). Neste finalmente o patamar do discurso como necessários em termos de níveis de
,

mesmo modelo, temos ainda Kripke (1940- ), com um controvertido re- organização. Tomados isoladamente não permitem caracterizar o fenómeno
,

torno a um tipo de essencialismo. No marco da virada linguística, temos completo da linguagem. Quer dizer deter-se no signo, primeiro patamar
,
,

o segundo Wittgenstein, as contribuições de Austin (1911-1960), Searle e considerar que esse nível basta não elucida os problemas da significação
,

(1932- ) e Strawson (1919-2006). Pelo enfoque pragmatista de Dewey e da referência como veremos no capítulo I. O mesmo pode-se afirmar
,

12 13
DO SIGNO AO DISCURSO INTRODUÇÃO

de uma análise sintático-gramatical de uma frase: ela é insuficiente para por exemplo, pode ter sua fonte em qualquer uma dessas dimensões e
dar conta do fenómeno da referência, pois requer o recurso ao contexto ser sanado, conforme o caso ,
pelo fornecimento de um sinónimo (expli-
informativo. Um exemplo: no seguinte trecho de notícia, é preciso infor- cação do significado do signo empregado), pela explicação de qual é o
mações atuais sobre a família real inglesa para saber que a namorada de caso ou situação que está sendo descrito narrado, nomeado (apontando ,

Charles é Camilla e não Laura, que vem a ser filha de Camilla: o referente ou voltando ao foco da narração), pela dissolução de uma
ambiguidade sintática pela justificativa ou pelo pedido de escusas por um
Laura Parker-Bowles, filha de Camila, namorada do príncipe Charles,
,
"

ato de fala ter sido compreendido como insinuação quando a intenção


passeou um ano com uma mochila nas costas pela América do Sul".
era perguntar ,
pelo apelo a implicações ou interpretações decorrentes do
O mesmo podendo-se afirmar acerca de uma análise exclusivamente uso em situação .

O que mostra justamente que apesar de serem fatores ,

lógico-gramatical. Assim, faz sentido, apesar de não ter referente no mundo analisáveis separadamente tendo em vista suas peculiaridades isso se deve
,
,

empírico afirmar: ao próprio modo de funcionamento da linguagem. Em outras palavras,


"
sem precisar de uma ligação
A montanha de ouro está na Califórnia
"

,
pode-se voltar a cada um daqueles aspectos, conforme houver necessidade
com o estado de coisa, o que é uma exigência do patamar lógico-pro- de, por exemplo sanar uma polissemia, esclarecer de qual ato de fala se
,

trata, determinar um referente contestar o direito de dar uma ordem em


posicional. E preciso, para efeitos de significação ou compreensão, o uso ,

determinada situação para aquele público naquela circunstância


situado. Afirmar que os níveis inferiores ao discurso são irrelevantes, que ,
, usar uma

tudo na linguagem é uma questão de falante e contexto, dilui a dimensão expressão para querer dizer isto ou aquilo Entretanto em qualquer desses .
,

discursivo-pragmática no terreno lodoso do subjetivismo e do solipsismo. casos, há uma situação criada pela ação linguística, isto é uma situação de
Ora, o discurso é público, e, além disso, demanda frases gramaticalmente discurso. Por isso não faz sentido pensar a sintaxe a lógica, a semântica ,
,

ou a análise do discurso como disciplinas autossuficientes não faz sen-


estruturadas, uma vez que, obviamente, sem as regras de uma língua não ,
,

há produção discursiva, O que não leva a supor que os fatores estruturais tido defender cada qual seu próprio terreno com a exclusão dos demais .

e estruturantes da frase gramatical constituiriam uma espécie de núcleo Consequentemente ,


há que sair dos limites do signo da proposição, ,

rígido com um nexo interno formado pelos componentes fonológicos, até mesmo dos atos de fala e ir até a análise discursiva para dar conta
,
,

sintáticos e semânticos, sendo os demais componentes apenas agregados, da real dimensão da linguagem especialmente do problema da referência
,
,
"

superponíveis, visto serem constituídos por fatores "frouxos tais como na acepção ampla que estamos propondo como um querer dizer algo a ,
"

falantes, contextos, situação dialógica, poder do discurso, efeitos ilocucio- alguém em dada situação" .

nários, retóricos etc. Nesse sentido, a teoria de Chomsky comporta sérias Ao longo deste trabalho mostraremos que esse problema toma uma
,

limitações, como veremos no capítulo IV. dimensão e um sentido inteiramente diferentes em cada uma das áreas da
Em lugar da hipótese núcleo-periferia, ou do modelo que pressupõe linguagem enfocadas: a da linguistica ocupada com as relações intrassígnícas,
complexidade crescente (ou camadas concêntricas), consideramos que a da filosofia da linguagem centrada na análise da proposição a da filosofia ,

todos os fatores e dimensões têm seu lugar e sua função precípuos: do da linguagem calcada nos atos de fala e nas propostas que concernem à
signo ao discurso e deste àquele, assim se articulam e se compõem as pragmática, bem como a certas tendências da análise do discurso . E isso

perspectivas sob as quais se pode analisar a linguagem. Um mal-entendido, de tal forma que necessariamente, a questão da referência se distende
,
,

14 IS
DO SIGNO AO DISCURSO INTRODUÇÃO

passa de questão exclusivamente lógica para questão pragmática e, nessa dem ser o interior/sujeito/cogito fornecedor de representações do exterior/
perspectiva, a relação linguagem/realidade, linguagem/pensamento irá objeto/coisa. Com isso ignoram a linguagem A própria controvérsia atual
.

passar pelo iltro da ação linguistica. entre externalismo e internalismo dá a medida da dificuldade em sair dos

f
A linguística estrutural, primeiro patamar de análise, recusa tratar do esquemas tradicionais em que se embaralham o problema do conhecimento
e seu correlato o problema do sujeito.
problema, justamente por reconhecer que há o problema. O que cria não
,

poucos embaraços, pois, ao mesmo tempo em que a relação da linguagem Percorreremos esse itinerário contemporâneo que vai do "estrutura-
com o extralinguístico é descartada como não pertinente para explicar lismo" de Saussure e da semiótica de Peirce no capítulo I, ao problema,

" "

como se produzem as frases de uma língua, essa meta de pureza teórico- da denotação e da referência em que se destacam Erege, Russell Witt-
,
,

epistemológica não é produtiva, não justifica isolar a língua dos demais genstein I e Kripke, no capítulo II. A partir de Wittgenstein II (capítulo
fatores, situação, contexto dialógico, intenção. Daí ser preciso ir além de III), nova virada ocorre com enfoque eminentemente pragmático cuja
,
,

Saussure, até Peirce, que nos coloca na rota da pragmática. vertente tem sido explorada até hoje A relação da linguística com a filosofia da
.

No segundo patamar, temos a abordagem lógico-semântica que analisa linguagem estreita-se em proveito de ambas Esse ambiente é propício ao desen-
.

a relação linguagem/realidade através da proposição com sentido/signifi- volvimento das análises da linguagem ordinária que orientam a reflexão
cação e referência, de modo que esta vem como que colada na asserção sobre os problemas da referência e da significação sob a perspectiva do
e pressuposta por toda asserção de um estado de coisa. Além do mais, a uso linguístico e do usuário da língua . Como temos insistido até o mo-
,

asserção demanda uma comparação com o estado de coisa, portanto, um mento anterior à virada pragmática a referência é o problema central da
,

filosofia da linguagem Intriga aos filósofos a capacidade de a linguagem


preenchimento empírico para que a asserção se complete com um valor
.

de verdade. Ora, a forma lógica da proposição não dá conta da capacidade pela organização significativa das palavras, poder dizer algo a respeito da
realidade e os outros compreenderem podendo agir de acordo com essa
que as pessoas têm de referir, apontar algo para alguém, nomear, saber ,

de que ente se trata, especificar um referente mostrando que tal ou qual compreensão. Essa capacidade decorre de signos que designam, ou de
designação são as apropriadas para tal ente e não para tal outro. A realidade proposições com valor de verdade que se referem a fatos do mundo ou ,

não tem um modo preferencial (no caso, a proposição) para ser designada ou referida. ainda de atos de fala realizados em situação de discurso? Ou essa capa-
A própria "realidade" é uma categoria entre outras que facilita nossa lida cidade decorre da ação comunicativa (Habermas)? Ou trata -

se, ainda, de

com as coisas. Assim, é preciso ir para a contribuição de Wittgenstein II, uma prática discursiva (Foucault)?
Dewey, Quine, Davidson, os teóricos de Oxford, os analistas do discurso Esse recorte nos levará à hipótese de que não cabe pensar a linguagem
(Foucault e Habermas). Enfim, o modelo da linguagem ordinária rompe como reduzida à função referencial isto é, como retrato ou re-presentação
,

com o modelo lógico-linguístico, com efeitos salutares para a linguística, da realidade ,


e que a realidade vai sendo "construída" pela linguagem .

a filosofia da linguagem, a epistemologia e a filosofia da mente. Pelo menos ,


é preciso levar em conta que ontos e logos são inseparáveis .

Ao longo deste trabalho, argumentaremos favoravelmente às hipóteses Os autores e as áreas utilizados são: da linguística , as contribuições de
levantadas pelas abordagens pragmático-discursivas, entre elas a principal, Saussure , Benveniste, Chomsky; da semiótica Umberto Eco e Peirce, que
,

a de que as teorias que focalizam a referência como problema central são com sua noção de interpretante permite enxergar mais longe do que a
caudatárias da velha epistemologia e da metafísica cartesiana, que enten- dicotomia saussuriana langue/parole; da filosofia da linguagem e da lógica,
1G 17
DO SIGNO AO DISCURSO

Frege e Russell, desembocando em Quine e abordando o problema da


relação linguagem/mundo; ainda nessa área, temos o ponto de virada I SIGNO E REALIDADE
entre a vertente puramente lógico-formal e a vertente de cunho pragmá-
tico, representado por Wittgenstein II, cujas análises da linguagem como
uso revolucionam a questão da referência. Austin e Searle saberão como
" "

aproveitar as consequências da virada pragmática às quais Habermas


,

dará sequência; finalmente, mostraremos que referir faz sentido e funciona


como um entre outros fatores discursivos, com Foucault.
1 A PROBLEMÁTICA DA LINGUAGEM
.

1 1
. .
Breve escorço histórico
A linguagem tem sido o tema por excelência da filosofia contemporânea .

As escolas e sistemas mais importantes e os filósofos mais influentes seja ,

em lógica, teoria do conhecimento ontologia, ética, de uma forma ou de


,

outra, acabam abordando a linguagem Nossa episteme nossa configuração


.
,

de saber, é linguística. Vivemos uma época de pensamento pós-metafisico ,

resultante da virada linguística No lugar de um sujeito que conhece e


.

pensa pelas representações do mundo que constituirão suas ideias - con-


cepção metafísica típica das filosofias da consciência - tem-se o sujeito ,

que fala, constituído nas e pelas trocas linguísticas às quais tem acesso,
não pela introspecção mas publicamente. Foi um longo caminho desde
,

o signo, passando pela análise da proposição (semântica formal) e desta para


os fenómenos de alcance ainda maior , ao uso ia fala em situação, ou seja,
aos fenómenos pragmáticos .

Até o século XIXa linguagem foi praticamente ignorada, uma vez


,

que seu papel era confundido com o papel de logos, de ideias na mente,
de cogito. Este breve escorço histórico mostra que foram raros os momen -

tos em que a própria linguagem foi alvo de preocupação filosófica e/ou


linguística Destacamos os estoicos Agostinho, a Gramática de Port-Royal,
.
,

Locke e Hobbes .

Os estoicos (século I a C.) elaboraram uma teoria acerca da linguagem


.

relativamente bem acabada A razão recebe as ideias mediante as sensações


.
,

IR m
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

a memória e a experiência. Daí nascem os conceitos. A representação, sendo Após um longo hiato ,
há que se ressaltar a contribuição de Agosti-
intelecção pela qual se reconhece a verdade das coisas, permite que haja nho (354-430) para uma teoria do signo e sua relação com a realidade.
é enunciativo, Na obra De Magistro ele considera que falar é exteriorizar "o sinal de sua
assentimento, compreensão e pensamento. O pensamento ,

exprime com palavras o material recebido da representação, que são as vontade por meio da articulação do som" A linguagem serve para ensinar
.

proposições completas em si, podendo ser verdadeiras ou falsas porque ou recordar, serve também para a fala interior que é o pensamento de ,

dizem algo sobre o que foi expresso. No processo de significação, há três palavras aderidas à memória. Este processo traz à mente as pfóprias coisas .

elementos: o significado, o signo e a coisa, que pode ser uma entidade As palavras são sinais dessas coisas . Contudo
há palavras que são sinais ,

física, uma ação, um acontecimento. O signo é, por exemplo, a palavra e que nada significam por não remeterem a coisa algyyna, caso das con-
"

Dion" (nome de uma pessoa); o significado é o que vem expresso por junções e das proposições, por exemplo, que podem ser explicitados por
aquela palavra e que nós compreendemos quando é dado ao pensamento; outras palavras. Quando não for possível indicar o significado das palavras
a coisa é o que subsiste exteriormente, neste caso, o próprio Dion. Por- abstratas apontando para algo o sinal deve ser interpretado por meio de
,

outro sinal
tanto, os estoicos já distinguiam entre expressão, conteúdo e referente. A ,
por exemplo, um gesto. Se alguém não conhece o sinal ele ,

análise dos estoicos chega, inclusive, à sofisticação da distinção entre sons pode ser explicado pela ação correspondente. Para ensinar o significado
de "andar"
produzidos fisiologicamente e sons articulados, quer dizer, a palavra que
,
anda-se. Como pode ocorrer que a pessoa ainda assim não
compreenda acrescentam-se mais sinais. Sinais podem ser palavras gestos,
precisa de um correlato para subsistir. Eco observa que a distinção entre
,
,

letras. O significado de "pedra" é um sinal mas o que o sinal indica a


expressão, conteúdo e coisa já tinha sido aventada por Platão e Aristóte-
,
,

les, mas os estoicos elaboraram de modo mais sistemático o problema pedra como um objeto, não é sinal. Agostinho distingue , portanto, entre
a coisa e seu sinal .

As palavras são sinais verbais que remetem a outros


da linguagem. É possível ouvir um som produzido pela voz de alguém
sinais. As orações se compõem de nomes e a presença do verbo assegura
e não reconhecê-lo como querendo dizer algo. Só se diz algo, só se tem
,

que se trata de uma proposição. Enquanto a palavra resulta da verbalização


palavra, se houver um conteúdo de caráter não sensível, incorpóreo, ente
,

isto é
o que se entende quando alguém fala ou escreve algo o nome
,

da razão. O dizível pertence a essa categoria. Pode ser aproximado à noção


,

relaciona-se ao que o espírito compreende ou conhece Assim é que .

de proposição. As palavras que a compõem são os significados. As partes


,

para memorizar, pergunta-se o nome de algo e não a palavra que serve


da proposição são o sujeito e o predicado, entendidos como conteúdos, para nomear. Um homem não é a união de duas sílabas "
ho" + "mem".
,

unidades culturais, o que retira o caráter psicológico da semântica, como Note-se que Agostinho não confunde o som com o significado de uma
observa Eco (1991: 39). O valor do signo depende de ele relacionar-
palavra, e que ele já esboça o problema da nomeação. Mas sempre que
se com um fato anterior. Por exemplo, fumaça" precisa relacíonar-se a
"

alguém compreende uma palavra é porque estabeleceu uma conexão com


fogo. A cada ocorrência de fogo, infere-se a ocorrência de fumaça, o que aquilo de que a palavra é sinal A mente examina o que o sinal significa
.
.

mostra que os signos são formulados em proposições, isto é, expressões "'

Homem' é nome e animal: o primeiro (ser nome) se diz enquanto é


da linguagem que se articula pelo fato de expressar fatos significativos. sinal; o segundo (ser animal) enquanto indica a coisa significada "

,
afirma
Os estoicos não confundem o signo com a ocorrência real e particular Agostinho (1979: 311) O significado se esvazia se não houver referente
.

,
conteúdo,
de uma fumaça. Eles entendem que o dado sensível se torna significante coisa significada tanto que conhecer as coisas é preferível a conhecer os
,

pela proposição que verifica haver fumaça onde há fogo. sinais correspondentes; falar é valioso porque possibilita ensinar, usar o
20 21
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

sinal no discurso. Apesar de a maioria das coisas depender do sinal para Realismo, conceptualismo e nominalismo dominaram o cenário , com uma

ser transmitida e ensinada, o conhecimento resultante é mais valioso do proveitosa discussão que vem até os nossos dias, nas questões ontológicas
que os sinais. Se alguém vê uma pessoa carregando armadilhas e armas e
e epistemológicas concernentes aos universais e sua relação com a mente
em seguida a vê com uma ave capturada, compreende, sem sinais, o que e/ou com a realidade , sob a roupagem de logicismo , intuicionismo e
é caçar. Agostinho não leva em conta, como fará Peirce, que o comporta- formalismo. Os universais são ,
na tradição do platonismo, ÿntidades com
mento, a ação estão carregados de sentido. Fatos ou objetos não são, em realidade ontológica independente da mente que os pen/a, representam
si, fonte de conhecimento. Para Agostinho, o conhecimento não vem das a verdadeira realidade. Já a tradição aristotélica é seguida pelos concep-
"

palavras que significam os objetos, mas dos próprios objetos. (.ÿ.) ou- tualistas, pois as entidades reais não são os conceitos , mas sim os entes
vindo muitas vezes dizer caput ( cabeça ) e notando e observando a palavra
* *

individuais. Os universais são abstrações mentais , conceitos abstratos acerca


quando era pronunciada, reparei facilmente que ela denotava (grifo meu) das coisas individuais e concretas Para os nominalistas os universais não
.

aquela coisa que, por tê-la visto, a mim já era conhecidíssima" (1979: "
existem
"

,
são nomes que sequer precisam de entidades abstratas para
317) A palavra que, antes do aprendizado, era som torna-se sinal não pelo contê-los. Espécies e géneros são "nomina , voces
"

, sons. Reais são os entes


fato de se aprender o seu significado, e sim pelo fato de se aprender a individuais. Para Occam (1300-1349) os universais estão na mente não ,
,

que ela se refere, sua denotação. O som não é percebido como sinal na enquanto substâncias e sim enquanto formas. O nominalismo lançou pro-
,

primeira vez em que é ouvido. O significado só é aprendido ao remeter fundas raízes na história do pensamento ocidental A moderna filosofia da .

a algo. Dessa maneira, o valor da palavra, seu significado, advém do co-


linguagem tem em Quine um dos principais defensores do nominalismo ,

nhecimento da coisa significada.


para quem os conceitos referem não pela relação com as coisas mas devido ,

Agostinho restringe a linguagem à referência, sem o que o significado a certas relações que as classes estabelecem como veremos no capítulo IV ,

é vazio, pois a linguagem deve transmitir pensamento, e pensamento é


Há que mencionar ainda a contribuição da Gramática de Port-Royal
sobre algo; esse é justamente o problema do qual a filosofia e a linguística
contemporâneas procuram se desembaraçar. Para a concepção agostiniana
(1660). Lancelot e Arnauld tomam Descartes como ponto de partida .
Para

Descartes, mais vale o pensamento que é independente das línguas, é


de linguagem, mas também para o senso comum e para o poeta, conhecer ,

a essência, a realidade
"
mesma
"

, é algo mais precioso do que a palavra extralinguístico. A linguagem pode ser inclusive, uma das causas de erros
,

"
"

diz-se; e equívocos. Têm-se de um lado, as ideias e de outro lado o mundo


(palavras não passam de palavras, sons: palavras soltas ao vento a
,
, ,

"

)
realidade a ser captada pelas ideias A linguagem faz a intermediação por
words, nothing but words
" .

,
... .

isso pode atrapalhar a relação entre pensamento e ser As palavras distinguem- .

Agostinho contribui com análises argutas sobre a linguagem, porém -

se do conhecimento claro e distinto das coisas Como, porém as palavras .


,

restritivas, o que não é de se estranhar, uma vez que seu objetivo era
que exprimem as coisas são mais bem lembradas do que as coisas que
chegar ao conhecimento de Deus pela iluminação da fé, pela intuição. Daí expressam valoriza-se a palavra e esquece-se que o meio para apreender é
,

as palavras serem um instrumento importante, mas talvez muito limitado,


a intuição racional das coisas pelo pensamento Apesar de Descartes relegar .

até mesmo rudimentar.


a linguagem a um plano secundário com relação à mente/pensamento,
Já no medievo, a querela dos universais representa um momento ele influenciou os gramáticos de Port Royal. Se o pensamento do sujeito
-

significativo para o debate sobre a natureza dos conceitos e das coisas. não depende de uma língua são as regras do pensamento que fornecem
,

?? 23
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

as regras do dizer e não as da própria linguagem. Toda uma metafísica Enquanto Lancelot e Arnauld ressaltam uma gramática logicizada, Locke

da representação nasce dessa concepção, com reflexos até hoje, haja vista dará à linguagem um papel mais complexo e significativo para o processo
do conhecimento
a teoria de Chomsky sobre a linguagem internalizada, ao modo de uma no qual aquela deixa de ser transparente
,
.

gramática universal. Ao perguntar pela extensão e limite do conhecimento Locke (1632- ,

Para Port-Royal, a língua é um sistema de signos. As palavras ou ex-


-

1704) critica acidamente a doutrina cartesiana do inatismo>Todo conhe-


f
cimento nasce com a experiência e forma-se por obra das ideias; ideia
pressões são invólucro das ideias. Apenas as ideias ligam-se aos objetos.
O nível mais elaborado é o nível lógico das ideias, a língua exterioriza é todo e qualquer conteúdo do processo cognitivo Quando uma pessoa .

essa lógica, que é o fundo comum por detrás da diversidade linguística, pensa, os objetos de seu entendimento são as ideias que podem provir da
sensação ou da reflexão Se provocadas por um só sentido
daí a gramática fundir-se com a lógica. As palavras são sons distintos e .

elas são simples, ,

articulados que se transformam em signos, encarregados de traduzir o que como a ideia de solidez; ideias complexas como a de figura derivam do
,
,

se passa no pensamento, isto é, as operações lógicas, tais como conceber, espaço, a de eternidade deriva do tempo a de liberdade deriva do poder
,
.

julgar, raciocinar. As palavras apenas marcam essas operações. Os homens O empirismo de Locke leva em conta a linguagem, que passara prati-
inventaram os signos para explicar seus pensamentos. Por detrás dos signos, camente despercebida ou mesmo desprezada por Descartes, cuja atenção
há toda uma lógica das ideias e dos juízos. estava voltada para a razão para os processos mentais. Locke afirma que
,

o homem, e só ele é equipado pela linguagem. Os sons são sinais de


A gramática busca mostrar como as ideias ou essências são significadas, ,

ideias. A linguagem transmite pensamentos através desses sinais marcas


quer dizer, qual a sua relação com a realidade. exteriores das ideias internas
,

Os sinais são usados para compreender várias


Há um lado material da fala, sonoro, e um lado espiritual, usado para coisas particulares ,
não há um nome para cada coisa e sim termos gerais
significar o pensamento, que opera concebendo (compreensão intelectual), para indicar seres particulares. As palavras, mesmo as abstratas provêm ,

julgando (afirmação do ser das coisas) e raciocinando (juízos usados em da sensação: os vários e ricos pensamentos só são conhecidos quando
deduções). Em todas essas operações, funcionam proposições compostas manifestados por sinais A conexão entre sons e ideias não ocorreu de
.

de sujeito e predicado, o sujeito é aquele que concebe e o concebido é o modo uniforme ,


e como consequência disso temos as diversas línguas.
atributo. A ligação, o verbo ser, vem do juízo e do raciocínio. O juízo é Locke distingue no uso da palavra sua marca sensível das ideias dessas
a forma por excelência do pensamento. A sintaxe gramatical baseia-se na marcas e elabora uma noção sofisticada de significado: as palavras signifi-
proposição: os nomes designam os objetos, as substâncias são designadas cam as ideias na mente de quem as usa mesmo que as ideias representem
,

pelos substantivos e os adjetivos designam seus atributos. O verbo afirma, imperfeitamente as coisas Como as palavras marcam as ideias não faz
.

diz o que algo é em sua essência. sentido aplicá-las a outras ideias pois não teriam significado. Se forem
,

Apesar de analisar pronomes e também orações complementares, a acerca de algo desconhecido diríamos, se não tiverem referente não passam
,
,

tradição legada pela Gramática de Port-Royal centra -

se na ideia de que de sons sem significado O significado é aprendido para expressar deter-
.

minada ideia
a realidade é representada por juízos, em que o emprego do verbo ser ,
o que permite a compreensão. Assim se alguém entender ,

permite afirmar proposições. Só assim o pensamento pensa realmente, pela palavra "ouro" apenas uma de suas propriedades irá aplicar aquele ,

pensa as coisas propriamente. som apenas àquela propriedade Por isso é preciso supor que as marcas
.

?4 2S
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E MAUDADI

das nossas ideias correspondem às marcas das ideias dos outros para haver Os sinais servem para registrar aconselhar, dar a conhecer sua vontade
,
,

compreensão, hoje diríamos, comunicação. As palavras são usadas para falar agradar. Mas há abusos como o engano, a ofensa a mentira, as metáforas
,
,

da realidade das coisas e não do fruto da imaginação pessoal. Com o uso perigosas. Hobbes procura mostrar como e por que a ação humana precisa
frequente firma-se, fixa-se a relação entre sons e ideias a ponto de, quando ser produtiva em seus efeitos principalmente o de sobreviver.
,

alguém ouve tal som, vir-lhe a ideia como se fosse a própria coisa que Seguindo os princípios do nominalismo
impressiona os sentidos. Há também palavras empregadas apenas como universais não passam de nomes não correspondem a nenhuma ideia
,

Hobbes afirma que os


,

palavras. Mas se as palavras tiverem uso e significação (grifo meu), haverá


"

"
ou conceito que pudesse ter ou tivesse de fato consistência ontológica
conexão constante entre som e ideia, e a designação apropriada Sem essa ,
.

" diversamente das tendências conceptualistas platónicas e cartesianas. Mais


aplicação, elas não são mais do que ruído sem significado afirma Locke
"
,

um sinal da atualidade de Hobbes O que existe não são as ideias ou os


.

(1690: 325). O significado de um som é limitado à ideia correspondente. conceitos , mas as coisas nomeadas
individuais e singulares. Verdade e
,

Parece lícito afirmar que Locke já distinguia entre significante, significado falsidade são atributos da linguagem e não das coisas. Há verdade sempre
e seu conjunto, ideia, ou seja, grosso modo, o signo.
que houver uma adequada ordenação de nomes em nossas afirmações .

As palavras só se tornam significativas no discurso. No discurso usam- Para chegar à verdade deve-se lembrar que uma coisa deve substituir
,

se palavras para significar em geral e em particular quando uma pessoa cada palavra de que alguém se serve e essa palavra deve estar de acordo ,

fala com outra. Essa consideração da linguagem como fundamental para as com esse uso e relação .

ideias provém do empirismo, o material sensível fornece as ideias que são Não há conhecimentos absolutamente certos e evidentes pois pelos
depois elaboradas como ideias de reflexão. De certo modo, Locke sugere
,

discursos jamais se saberá se isto ou aquilo foi, é ou será. O conhecimento


que o conhecimento demanda, para seu desenvolvimento, a linguagem, que é sempre condicional E não se trata de conhecer as consequências de
.
"

é aprendida, exercitada. Não comete o erro de pensar que há uma relação uma coisa pela outra e sim as do nome de uma coisa para outro nome
,

direta entre sinal e coisa designada ou referida. O significado expressa da mesma coisa" diz ele (1979: 40). Quer dizer deve-se levar em conta
,

uma ideia e essa provém da experiência, sem a qual a mente é tabula rasa. ,

o modo como se lida com as coisas pela linguagem. Hobbes pode ser ,

Na mesma vertente do pensamento inglês do século XVII, Hobbes considerado um caso à parte na progressão da concepção representacio-
(1588-1679) pressente o papel decisivo da linguagem como fator de nista. E o que pensa Rorty para quem o empirismo nominalista foge
,

conhecimento. à regra epistêmica do século XVII segundo a qual a mente espelha ou


,

representa as coisas através das ideias Para Hobbes o que conta é o uso
São interessantes suas observações na primeira parte do Leviatõ, chamada .
,

de nomes a linguagem.
Do homem", onde ele analisa a linguagem como a mais útil e nobre
"
" ,

das invenções" (1979: 20). Ela consta de nomes e conexões que servem Esta incursão histórica ilustra o quanto a linguagem permaneceu se-
para transmitir e registrar pensamentos. Ainda que com o pressuposto de cundária no século XVII O que importa é o problema do conhecimento
.

que o pensamento é essencial (o que é compreensível para a época, muito que é, de modo geral, representação das coisas relação entre uma exclu- ,

anterior à virada linguística), afirma que sem linguagem "não existiria entre siva e soberana razão (culminando nas formas puras a priori kantianas) e
"

os homens nem Estado, nem sociedade, nem contrato, nem paz (Hob- o mundo ,
como mostra Foucault em A? palavras e as coisas As exceções ao .

bes, 1979: 20). A cadeia de pensamento passa para a cadeia de palavras. modelo fundacionalista são segundo Rorty, os empiristas Locke e Hobbes,
,
,

2G 27
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

razão soberana, mas um esforço das detrás das inúmeras línguas é preciso localizar algo comum para se fazer
para os quais não há uma mente ou ,

ideias e da linguagem para chegar ao conhecimento das coisas. ciência e que possa também dar conta da noção de articulação linguística .

Segundo Saussure no corte entre fatos sincrônicos que são atuais e


,
,

efetivos, e fatos diacrônicos ,


que são históricos, temporais, a língua per-
2 Signo e referência
.
tence aos primeiros ,
pois é um sistema de signos:
f '
Corn notáveis avanços e, ao mesmo tempo com sérios entraves, a A língua é um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de
análise de Saussure é ponto obrigatório na discussão da relação dos convenções necessárias ,
adotadas pelo corpo social para permitir essa facul-
signos com o chamado fator extralinguístico. A linguística, a fim de po- dade nos indivíduos ( ) E um todo por si e um princípio de classificação
...

der constituir-se como ciência, deve ocupar-se da langue e não da parole, (1975: 17).

segundo Saussure, pois esta última representa um verdadeiro obstáculo Atualmente diríamos que a língua é uma estrutura. A coletividade for-
epistemológico para o linguista. A referência fica fora da linguagem, uma nece o instrumento essencial à faculdade de articular palavras Para haver .

vez que para a linguagem contam apenas às relações intrassígnicas. O língua, é preciso que ideias distintas correspondam a signos distintos .

que tem duas consequências, sendo a primeira produtiva, pois, como Para encontrar a língua em meio à linguagem, Saussure analisa o circuito
veremos, falar é relacionar signos entre si e não signos com a realidade. da fala que demanda pelo menos dois indivíduos que possuem em sua
A segunda consequência é mais problemática: a linguística estrutural consciência conceitos associados às representações dos signos linguísticos
é constrangida a abandonar o problema da referência para preservar o ou imagens acústicas que exprimem signos. Implica ainda que haja uma
caráter científico da própria linguística. Pela ótica estruturalista, referir
ionável, parte física, a das ondas sonoras, e uma parte psíquica (imagens verbais
depende de fatores extralinguísticos (o que é extremamente quest e conceitos) Todo esse processo foi desenvolvido e mantido por homens
.

como veremos ao longo deste trabalho). Assim, cabe à filosofia e/ou à vivendo em sociedade Nem a parte física
.

nem a parte psíquica foram


lógica estabelecer a relação na qual se encontram implicadas as questões
,

responsáveis por esse fenómeno que é sempre pessoal, pois toda execução
delas ,

da verdade, verificabilidade, valor de verdade e outras, nenhuma da língua é obra de indivíduos .

pertinente à linguística, segundo Saussure.


Para que todos pudessem executar a fala foi-se armazenando segundo
,
,

Saussure
2 1
. . O signo linguistico
um sistema gramatical (grifo nosso) que existe virtualmente em cada cérebro ou
Para Saussure, a análise da linguagem deve ter caráter científico, o que mais exatamente
,

,
nos cérebros de um conjunto de indivíduos (1975 21).
se obtém circunscrevendo o objeto de estudo da linguagem naquilo que
:

ele chamou de langue. No Curso de linguística geral (1916, obra póstuma, fruto Trata-se do par opositivo língua/fala. A língua é social, essencial não ,

"

das anotações de seus alunos), ele explica que língua" não é o mesmo demanda uma tomada de consciência o indivíduo não pode criá-la nem
,

modificá-la Requer aprendizado e vem fixada


que linguagem. Todas as sociedades possuem um meio de comunicação pela comunidade que a fala.
.

articulado, a linguagem. Dificilmente se chega à unidade da linguagem por É homogénea une o sentido à imagem acústica é um sistema de signos
,
,

ela ser multiforme e demandar a abordagem física, fisiológica, psíqui- que exprime ideias, situado entre as instituições humanas A semiologia
" "

ca, estando ao mesmo tempo no domínio do individual e do social. Por é a ciência que estuda "a vida dos signos no seio da vida social" (1975 :

on
29
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

24), seu funcionamento e as leis que os regem. A linguística faz parte da Todo signo é arbitrário pois a união entre significado e significante é
,

arbitrária. A ideia
ciência da semiologia. o conceito, ou mais apropriadamente o significado de
,
,

" "

mar afirma Saussure


Ao lado da linguística da língua, há a linguística da fala, subordinada ,
,
não está ligado por nenhuma relação prévia aos sons
[mar] que lhe servem de significante Poderia bem ser outra se
à primeira. Como a fala é individual e acessória, não pode ser estudada quência de
.

significante. Tanto é que o significado de "boi tem os significantes [boeuf] "

sem a língua. Se na fala se alteram sons, por exemplo, essa alteração


do lado francês da fronteira e [oks] do lado alemão exemplifica Saussure
é puramente fonética, não perturba as imagens acústicas da língua. ,
.

Contudo, uma não existe sem a outra; inclusive historicamente a fala O símbolo não possui o caráter de arbitrariedade pois a balança vem ,

precedeu a língua. Ela é o meio de aprendizado da língua materna, o sempre associada à ideia de justiça mostrando que há uma motivação e
, -
.

que faz evoluir a língua, que se encontra depositada" no cérebro de


"
não pura arbitrariedade Saussure não pretende com a noção de arbitra-
.

cada um, como se fosse um dicionário com exemplares idênticos dis- riedade dizer que o signo depende da livre escolha de cada um ou de
tribuídos a cada indivíduo, independentemente de sua vontade. E como cada língua mas sim apontar para o aspecto imotivado da relação entre
,

significado e significante isto é, não há um laço natural entre eles na


que uma estrutura inconsciente formada pelas regras que possibilitam ,

realidade
toda e qualquer emissão significativa. Por isso, linguística propriamente ,
com a discutível exceção das onomatopeias .

fenómenos da
dita é apenas a linguística da língua, uma vez que os A língua é feita de signos estruturados de acordo com regras supra-
"

fala "são individuais e momentâneos . individuais funciona mediante relações sincrônicas como um sistema de
,

Emissor e receptor, língua e fala, sincronia e diacronia, todos eles valores puros . As ideias ou o pensamento
,
seriam massa amorfa sem os
,

dependem, para funcionar, do caráter articulatório da língua falada, que signos, não há ideias que se possam estabelecer previamente aos signos.
não é uma simples lista de termos correspondentes a coisas. N
ão há ideias Interessante observar que foi um linguista e não um filósofo quem evi-
acabadas anteriores à palavra. A relação entre palavras e coisas não provém denciou que pensamento sem articulação da linguagem é vazio (e não
sem os dados do sentido
de uma correspondência um por um. O que forma a unidade linguística ,
como queria, por exemplo Kant). A substância
,

são dois termos, porém é enganoso concebê-los um como linguístico e o fônica também é indistinta sem os significantes. Cada termo funciona de
e seu vínculo modo a articular a fixação de uma ideia a um som e faz com que de
" "

outro exterior ao linguístico. Ambos são termos psíquicos -

la- terminado som se torne signo de determinada ideia. Pensamento e som


também é psíquico. O signo linguístico não une uma coisa e uma pa
"

vra, mas um conceito e uma imagem acústica (Saussure, 1975: 80). Esta
"
significado e significante são como verso e reverso da mesma folha de
afirmação é fundamental para a linguística e tem profundas consequências papel, ao cortar-se um, corta-se também o outro Combinados tornam-se .

veremos. A imagem acústica não é formas cujos valores são relativos a seu papel e posição Esses valores são
para a filosofia da linguagem, como .

o som, mas a impressão do som no psiquismo, tanto que se po


de falar fixados pelo uso Um termo não decorre da simples união entre significado
.

e significante mas de regras que definem seu lugar e função no interior


consigo mesmo sem pronunciar som algum. Compõe-se de fonemas. A ,

do sistema e este recorta reveste de valor cada termo


imagem acústica vem sempre associado um conceito, mais abstrato ainda. A ,
Tomando a significa- .

combinação de ambos chama se signo. O conceito é chamado de significado


-
ção como resultado da associação entre significante e significado, o signo
resultante é também um valor com relação aos demais signos da lí
e a imagem acústica é chamada de significante. A sequência fonológica só ngua.
é um signo se exprime um conceito. Quer dizer, o significante pode ser "trocado" pois é um valor, por algo ,

nn
31
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

diverso dele, o conceito. O signo terá uma significação, um valor, que é Whorf discípulo de Sapir radicalizou as ideias de seu mestre na socio
,
,
-

delimitado e determinado pelos outros signos do sistema da língua. Daí linguística. Para Sapir o léxico é exclusivo de cada língua para Whorf, até
,
,

o caráter opositivo dos signos. Tal como no jogo de xadrez, as peças valem mesmo a organização sintática é particular e própria de cada língua não ,

pela sua localização, movimentação, enfim, pelas regras do jogo. Há uma contendo uma forma lógica matriz geradora universal. Assim o pensamen-
"
,
,
,

combinatória não linear de elementos, que forma os sintagmas, como: to, a lógica" os tipos de raciocínios inferências etc. variam
,
,
, como variam
"
reler
"

,
"

contra todos
"

,
A articulação prevê, ao lado dessas
"
Deus é bom
"

.
a sintaxe e o léxicoO modo de conhecer a realidade especialmente nos
.

relações horizontais, as associações verticais entre paradigmas que formam contatos mais simples e imediatos com a natureza depende das línguas e ,

grupamentos virtuais. Assim guardar pode vir associada e ser comutada


" "
das culturasO mundo é organizado conceptualmente pelas significações
.

com
"

conservar
"

,
"

manter
"

,
"

vigiar
"

.
que atribuímos e não poderia ser diferente pois a comunidade linguística ,

recorta a natureza
concebe-a através dos códigos das línguas. Cada modelo
O mecanismo da linguagem funciona por essa dupla articulação de
,

"
elementos virtuais.
linguístico realiza certos tipos de observação do seu meio conforme suas
regras para formar frases e nelas "encaixar ,

necessidades básicas Assim é que os Hopi (tribo norte


americana) devi-
.
-

do a fatores geográficos e hábitos culturais desenvolveram sua língua e ,

22. . O problema da referência para Saussure sua cultura


e, ao mesmo tempo elas influenciaram seu modo de vida
,
,
,

formando toda uma concepção de mundo. Habitavam um terreno árido


Como vimos, até o século XVIII, predominava a noção de que a ,

is. Sob a super- formavam uma sociedade agrícola isolada sendo necessário desenvolver
linguagem reflete o pensamento, cujas leis são universa ,

um trabalho árduo na estreita dependência de um escasso regime de


fície das frases gramaticais, há uma articulação lógica mais profunda,
chuvas. Tudo isso fez com
a de um sujeito lógico e sua relação com um predicado, o que es- que tivessem laços sólidos com a tradição ,

sentimento forte de colaboração e de religiosidade Esses fatores entraram "

pelharia a relação que todo ser na realidade tem com seu predicado.
.

em interação com os modelos (patterns) linguísticos hopi, moldaram-nos e


Hoje, com exceção de Chomsky, tanto a linguística como a filosofia foram por sua vez moldados por eles, tendo-se assim desenvolvido pouco
da linguagem rejeitam a noção de universalidade e a necessidade de a pouco a concepção de mundo hopi
"

explica Whorf conforme lemos em


uma estrutura que seja fulcro, modelo universal e necessário para toda
,
,

SchafF (1957: 157-158) De acordo com Whorf só podemos pensar numa


.

e qualquer frase ou emissão verbal.


,

língua. As línguas que obedecem ao padrão europeu tendem a distinguir


As pesquisas em sociolinguística, desde seus pioneiros Sapir e Whorf, no mundo coisas ,
objetos, produtos. Já os Hopi veem o mundo como
imeiros filósofos um conjunto de acontecimentos
desmontaram uma noção largamente aceita entre os pr .

Nas línguas indo-europeias dir-se-ia, por ,

ís-
analíticos, que é raramente criticada, a não ser pelo ângulo da sociolingu
"

exemplo: E uma fonte que jorra" Os apaches dizem: "Como a á


gua ou
.

a fonte
tica: a de que a linguagem descreve a realidade através das proposições, a brancura move-se para baixo" As combinações de elementos
,
.

configurando-a através da forma lógica, único modo de produzir significado. em produtos sintéticos demonstram a possibilidade de imagens do cosmo

Desde Aristóteles, passando pela Gramática de Port-Royal, até o verifica- diferentes da estrutura proposicional, típica do modelo aristotélico que
cionismo de Carnap, a proposição (seja na forma sujeito/predicado, seja molda o pensamento nas proposições compostas de sujeito e predicado que
,

por meio de quantificadores da lógica proposicional) foi eleita a forma por sua vez, retratam os entes, as substâncias em seus aspectos, estados.
Determinadas propriedades ou predicados são atribuídos a uma substância
privilegiada, elementar e invariável da linguagem. .

V) 33
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

necessidade de excluir a substância


O verbo vem ligado às coisas, o cosmo é reificado. Na tradição ocidental, ,
ou as coisas para efeitos de signifi -

cação e compreensão do signo. O signo, e nisso Saussure está correto é


o ser é aquilo de que se predica algo, a organização sintática segmenta a ,

realidade em substâncias com seus atributos. compreendido por oposição a outros signos no jogo de regras internas
do sistema da langue Por isso seria necessário uma correção de rota no
Para a sociolinguística, o modelo proposicional não é, epistemica-
.

mente falando, nem universal nem compulsório. As diferenças sintáticas pensamento de Saussure, e Benveniste propõe que o laço que une o sig-
nificante ao significado é necessário interior ao signo e #ão arbitrário
e semânticas apontadas pela sociolinguística não impedem que todas as
,
.

O "arbitrário é que tal signo e não tal outro seja aplicado a tal elemento
línguas sejam igualmente aptas ao conhecimento e à lida com as coisas e
da realidade e não a tal outro" (Benveniste 1966: 52).
situações, ao trato comunicativo e à manutenção das tradições.
,

lidar com o problema Os signos designam isto é, querem dizer algo significam, porém não
,

Do que se conclui que a linguística sugere meios para ,

referem. Não são eles que realizam a relação propriamente dita de referir
da relação entre significação e realidade, ao contrário da suposição de Saussure. de estabelecer uma relação entre as palavras e as coisas, entre dizer e ser
,

Mesmo levando-se em conta que os propósitos de Sapir e Saussure não sejam .

Tratar das relações intrassígnicas evita incluir a


" "

no interior do
os mesmos, importa ressaltar justamente a complexidade da linguagem, quer
coisa
significado. Se houvesse uma conexão
sob o ponto de vista da organização sintático-lexical das línguas (sua estrutura), necessária entre o signo e o objeto
quer sob o ponto de vista lexical e semântico. É justificável, compreensível
que ele designa, a capacidade linguística de semiotização , de significação ,

ficação não ficaria prejudicada Falar limitar-se-ia a nomear


e teoricamente produtiva a proposta de Saussure de que a signi
.

decorre de uma ligação obrigatória com as coisas. Assim também não há nada Nesse sentido a relação entre signo e realidade não deve e nem pode
,

nas coisas ou situações que as ligue magicamente ao signo. ser resolvida pelo linguista Ela cabe à filosofia como propusera Saussure
.

,
.

Mas
Na linguística de vertente estrutural-saussuriana, o signo, como vimos,
,
ainda que a questão da referência seja filosófica, pois que a filosofia
da linguagem não se limita à descrição dos elementos constitutivos das
é arbitrário e convencional, o referente não conta para a compreensão e
línguas as considerações da linguística estrutural
para o funcionamento dos signos. Não é obrigatoriamente pela relação são pertinentes para
,

isto é, de desfazer problemas filosóficos Como a coisa mesma a realidade exter-


referencial que o signo tem a capacidade de realizar semiose,
.

na à língua não conta para a significação, para a linguística estrutural a


significar algo para alguém. O tropeço teórico de Saussure reside na sua
li- linguagem é o lugar onde as ideias emergem através dela a realidade é
proposta de que entre o significante e o significado não há nenhuma ,

recortada (tanto pelo léxico como pela estrutura sintático-semântic


gação interior. O significado "casa" tem como significantes [casa], [Haus], a) e
tornada significativa compreensível suscetível de comunicação verbal
[maison]. Isto mostra que Saussure acaba por introduzir um terceiro elemento ,
,
.

A referência às coisas podemos concluir com acerto


no interior do signo que é a própria coisa externa, a realidade, justamente "
,
é guiada (ou até ,

mesmo "

produzida como discutiremos mais adiante no 3° ca


aquilo que ele pretendera deixar de lado, pois os significantes acima re- pítulo) pela
,

significação e não o inverso


lacionados se reportam à mesma realidade, ou seja, ao objeto físico ou como pensam as teorias representacionistas
,

cultural chamado
"
casa
"
extralinguístico, e não ao significado linguístico da linguagem e do conhecimento Pela tradição estruturalista não se está
.

,
,

autorizado a sair dos limites da frase gramatical portanto, não há como


"

casa
"

,
como demonstrou Benveniste em Princípios de linguística geral (1966). "
"
,

resolver o problema da referência As palavras se combinam mediante


Desse modo, segundo Benveniste, Saussure contradiz o princípio, por ele .

mesmo enunciado, de que a linguística é a ciências das formas. Daí a regras gramaticais sintáticas e semânticas para a produção de todas e so-
,
,

35
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

mente aquelas que são frases da língua. Importa a competência verbal, o ser ela uma ciência acerca do sistema da forma, da estrutura
,
ou seja, das ,

be ao
designatum. Já o denotatum fica fora do sistema, sendo problema que ca regras que comandam as línguas (ciência da langue). Isto porque o resultado
filósofo resolver, observa Lopes (1977: 249-2S0). A introdução do real no será excluir toda uma série de fatores e fenómenos nada secundários não ,

linguístico, pensar contraditoriamente como fez Saussure, que o significante só a coisa referida (conotatum) como também a fala, a intenção o uso, as ,

interações verbais. Enfim o que for da ordem da fala e do discurso


varia conforme as línguas, implicaria que se poderiam inventar sequências ,

que ,

sonoras e a elas relacionar significados, esquecendo-se que os signos são necessariamente envolve fatores do contexto e da situação aÿaba não sendo ,

convencionais, que a relação entre significante e significado é necessária. analisado pela ciência da linguagem simplesmente por se tratar de fenóme-
,

nos variáveis , cujo caráter aleatório ou como afirma Saussure individual e


O que conduz à importante noção de que a língua não se limita a puro
,
,

da um se serve
acessório, impede qualquer tentativa de tratamento científico
instrumento do pensamento, a código de sinais de que ca
.

A questão da cientificidade da linguística


para comunicar o claro e límpido pensamento, sujeitado ao meio precário (em que pese o fardo de supor
ser necessária essa discussão do estatuto epistemológico de "ciência") e
dos códigos linguísticos, aos signos. O senso comum costuma afirmar que
do seu alcance continua sendo um problema crucial
as palavras são meros sons, que as línguas são limitadas, que o pensamento como veremos com
,
,

claro e distinto encontra nelas um obstáculo para expressar-se. Nada mais Chomsky e com as discussões sobre o estatuto da análise do discurso" "

enganoso do que este cartesianismo fácil. A linguagem não é um simples


Ocorre que esse problema só pode ser equacionado se levarmos em conta
conjunto de sinais, tuna espécie de código telegráfico, meio de tradução justamente o que Saussure apontara como secundário a parole. Com o que ,

fica evidente a necessidade de sair dos limites do signo e das relações


do pensamento. Pelo contrário, são as línguas, com suas construções (as
" "

realidade exclusivamente intrassígnicas e fazer a análise avançar até os atos de fala


frases gramaticais), que funcionam como que sintetizando a
" "
, ,

e os atos de discurso Só assim o problema da relação lin


no sentido kantiano do termo sintetizar .
.

guagem/mundo
receberá tratamento mais satisfatório
Devido ao fenómeno da transparência linguística, o falante considera
,
tanto pela filosofia da linguagem ,

como pela linguística .

haver "entre o signo e a realidade uma adequação total: o signo recobre


"

afirma Benveniste
e dirige a realidade, ou melhor, ele é essa realidade ,

(1966: 52). Objeto e nome se confundem. Já o linguista trabalha com a 3 .


Conceito e objeto
relação entre significante e significado, e o domínio do arbitrário é rele-
"

Saussure diz que o significado corresponde a um conceito, e pouco


"

gado para fora da compreensão do signo linguístico (1966: 52), completa


Benveniste. Em outras palavras, a significação não decorre da referência. A avançou além dessa consideração. Aos filósofos importa e muito, a ques- ,

língua agencia os signos distintos e distintivos para dar forma às expres- tão de como é possível que a um signo corresponda um objeto. Desde
Platão
sões, às trocas linguísticas. "
,
passando pela Idade Média, entre a coisa e sua denominação ,

algo
"
mental
suprassensível, denominado "ideia" ou "conceito" Seriam
O problema, e este é um ponto bastante controvertido, são as razões
,
.

ou não as palavras capazes de denominar os conceitos e por sua vez, os


invocadas para deixar a referência de fora do âmbito da linguística. Linguagem conceitos seriam as imagens
,

"
afirmar a realidade.
"
mentais ou signos mentais das coisas reais?
e significação não têm função denotativa, isto é, de
Distinguir essas funções, no entanto, não deve ser decorrência dos motivos Grande parte da filosofia clássica não duvida de que há um mundo
saussurianos de preservar o caráter científico da linguística, argumentando real de um lado e o pensamento de outro lado, prenhe de conceitos e
1C 37
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO £ REAIIDADE

ideias. O nominalismo de Occam é uma exceção à tendência generalizada cendo, discriminando recortando, afirmando etc ,
.
,
enfim, sem algum tipo
de atribuir aos nomes uma relação direta com os conceitos encarregados de semiose ,
isto é, de processo sígnico até mesmo a mais simples das
,

de espelhar ou representar a realidade, o mundo exterior. Para o nomi-


intervenções do homem no mundo seria impraticável .

nalismo, os conceitos não passam de nomes, rubricas, simples signos que Portanto ,
falar não é relacionar uma coisa com uma palavra, mas rela-
reúnem seres individuais sob um nome geral.
cionar signos entre si ou melhor, formular frases ,
,
utilizar sentenças que;

O "reinado da coisa em sicomo diz Habermas, e do pensamento que


"

,
sirvam para referir-se a fatos no mundo que são, por sua vez, "moldados" ,

reflete as coisas em conceitos, perdura até Kant (1724-1804). Para Kant, pela linguagem.
a coisa em si não é cognoscível, o que se conhece são os fenómenos, as
coisas tais como elas se manifestam pelo instrumento da sensibilidade e
O signo linguístico é operacional não está simplesmente no lugar de ,

do entendimento. Kant, contudo, preocupa-se apenas com as formas puras algo. Contrariamente ao que pensa a tradição filosófica, o pensamento não
da razão, a linguagem é um fator que só passa a contar a par
tir do século é um tabernáculo onde os conceitos abstratos são encerrados
O pensa- .

XIX. O que possibilita pensar a coisa é um puro conceito mental, ou é mento é linguístico como sustentaremos mais adiante nos ca
,
pítulos III
uma capacidade de significar, de verbalizar? e IV Não se limita à tarefa adâmica da nomeação nem à tarefa platónica ,

limites ou semelhanças da conceptualização


Diante de dois ou mais objetos físicos, seus
.

identificadores provêm exclusivamente deles mesmos, são impostos pela A própria capacidade de nomear ou de denotar não é intrínseca ao
"
bem acabada" e outra
realidade? Por exemplo, a diferença entre uma casa " "
signo ,
como se ele estivesse ligado por um cordão mágico a seu referen-
e de
"

rústica
"
reside na coisa em si e daí viriam os conceitos de casa
te. E isso por diversas razões: há signos que absolutamente não possuem
"
cabana
"

que os signos apenas traduziriam? O problema é: exatamente referente (


"
não
"

,
"
se
"

); os signos não são etiquetas das coisas; os signos


onde no objeto estariam as diferenças pertinentes para que se o nomeie?
não possuem um significado fixo (fixidez essa pressuposta por todos
discri-
Realistas e conceptualistas pensam assim: a realidade traz em si ,
aqueles que concebem a lin
guagem como código de signos etiquetados);
minados, os seres. Basta então nomeá-los Como se o problema filosófico,
.
enfim como Saussure mostrou
,
,
signos valem. Se isso se deve ao sistema ,

ou o problema metafísico por excelência consistisse em conhecer o que como preconiza o estruturalismo de vertente saussuriana ou não, é dis- ,

de um
são exatamente os seres, em si e por si próprios, independentemente cutível mesmo porque a fala
,
,
longe de instaurar o caos e de representar
sujeito, ou melhor, de sujeitos que falam. A linguagem é pública. E, mais: um empecilho para a propalada aquisição do status de ciência por parte
Kant, como dissemos acima, já havia mostrado ser impossível conhecer da linguística tem sido campo fértil para a pesquisa linguística.
,

algo em si mesmo: é preciso que as formas puras do entendimento e


da razão discriminem os fenómenos da realidade externa, que, sem essas A linguagem também depende de fatores externos , as palavras também
servem para falar das coisas Não há um universo linguístico à parte,
formas, não passariam de um amontoado caótico. Hoje diríamos que sem "
.

por
isso é preciso mais de que um código decifrador, mais do que uma rela-
"
realidade
a linguagem, sem algum tipo de semiotização codificadora, a
ficaria ininteligível. Evidentemente, são as situações que motivam a ação ção um por um entre signo e coisa nomeada para que uma frase, a mais
banal
e o conhecimento, a realidade não é maquinação ou elucubração mental. como o famoso exemplo de Putnam há um gato no capacho" "
,
,
,

Não obstante, sem a linguagem nomeando, designando, situando, esclare- seja dita e compreendida .

ço 29
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

Um dos diversos problemas a que o exemplo dá margem é justamente isto é, de como com as palavras pretendemos identificar algo ou uma
o do conceito mental gato
" "

. Num suposto universo platónico, ou num situação para alguém e somos bem-sucedidos nessa empreitada nada ga- ,

cogito cartesiano, há uma entidade ideal ou uma ideia correspondente ao nha com a pressuposição de que os conceitos espelhados em significados ,

felino que o signo "gato nomeia? O conceito serviria de ponte abstrata


"

linguísticos, realizam essa mágica .

entre signo e coisa? Por último ,


como saber se o conceito é apropriado àÿíoisa? A lin-
dade. Em vez
A tradição platônico-cartesiana perdeu força na moderni guística estrutural não tem meios de mostrar qual seja a natureza dessa
de pensar o conceito como imagem abstrata e suporte do significado, relação e nem pretende tê-los Se tivesse essa pretensão acabaria por abrir
.

há quem afirme o conceito como o próprio conteúdo das formas lin- mão justamente da noção de que signo é valor e não'uma entidade em
guísticas. O mesmo conceito pode ser realizado por mais de um signo. si, uma substância. Essa é uma contribuição valiosa da linguística para
Eles funcionam no interior do esquema de comunicação/compreensão todas os filósofos da linguagem cujos pressupostos sejam pós-metafísicos.
de expressões linguísticas da seguinte forma: um falante, motivado pela
situação, conceitua certa faceta da realidade através de significações (tra-
ços que compõem o significado), que expressam apropriadamente este 4 .
Os LIMITES DA SEMÂNTICA
ou aquele significado pertencente ao sistema da língua, a fim de que A linguística estuda desde a menor unidade significativa
que é o
falante e ouvinte se compreendam. Há quem pense que os conceitos são fonema
,

,
até a maior unidade significativa que é a frase gramaticalmente
independentes das línguas, é o caso de Baldinger (1980) e de Chomsky
,

bem construída ,
isto é, de acordo com as regras fonológicas sintáticas e
(2000). Os conceitos formam um campo ou um sistema lógico/mental
,

semânticas. A frase "

nós cheguemo tarde" é uma frase de alguns dialetos


de relações, cujas estruturas provêm das diversas línguas, mas as ultrapas- da língua portuguesa porém cheguemo e ou é anómala provavelmente
,
" "

sam, para o primeiro, e para o segundo fazem parte da estrutura inata da


,

jamais será dita, servindo apenas como exemplo O nível da frase é o nível
mente. Os significados devem poder traduzir o mais fielmente possível o
.

superior para as semânticas de cunho estrutural e representa o limite da


conceito que expressam. língua como sistema de signos A partir daí entramos num outro uni-
.
"

Dois problemas se põem: os conceitos mentais e universais não seriam verso


o da língua como instrumento de comunicação cuja expressão é
,
,

uma mera duplicação que apenas sofistica os significados? Pretende-se que


"

o discurso diz Benveniste (1966: 130) Daí derivam conforme se leve


,
.

os conceitos sejam o meio através do qual se dá a relação entre palavras em consideração seja apenas a língua, ou o par língua/fala, ou ainda o
e coisas. Eles dão conta desta tarefa? discurso , diferentes teorias semânticas .

lém dos
Acreditamos que não há nenhum ganho em pressupor que a A semântica do signo limita-se ao estudo dos traços que compõem o
signos haja entidades mentais, afinal a virada linguística ocorreu, a mo- significadoPara Saussure significante e significado são os dois lados da
.

dernidade experimenta um processo de arejamento no céu platónico e no mesma moeda .


É no ponto de interseção entre as cadeias sintagmáticas
cogito cartesiano. Para que multiplicar entidades? Além disso, a noção de e paradigmáticas que o signo recebe significado. A língua prevê relações
significado, seja como objeto abstrato, seja como conceito mental, mais sintagmáticas horizontais, entre os elementos que regem a construção de
,

atrapalha do que ajuda a explicar a referência. O problema da referência, frases ,


e relações paradigmáticas entre elementos que podem vir a ocupar
lift

DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

o lugar virtual de cada signo, em substituições verticais. O significado "


geradas todas e apenas aquelas frases da língua. Como Chomsky restringiu-
se à sintaxe até meados da década de 1980
depende da posição que o signo ocupa e da função que exerce. Em "
as -

,
,
por entender que a semântica
provém da
"

o significado de as meninas não pertence ao terreno das sólidas conquistas da ciência (no capítulo IV
"

meninas atravessaram a rua ,

posição sujeito e da função nominal, e do fato de poder ser substituí- " " " " "
voltaremos a essa questão) Katz e Fodor é que empreenderam uma tentativa
,

elas de dar conta da semântica Seus componentes são: um dicionário contendo


"

do pelos signos associados a ele, como as gurias , , as garotas .

(substituição vertical, ocupação virtual de posição de signos que estão na os itens lexicais; regras de projeção que dizem como cada' item do dicio- '

memória de cada falante). Evidentemente, o valor de cada signo, junta- nário pode ser integrado para formar as frases; informação sintática (nome ,

mente com seu significado, pode mudar conforme as circunstâncias da fala, adjetivo, verbo); marcadores semânticos que fornecem informação semântica
mas o estudo propriamente linguístico deve ater-se àquilo que o sistema (humano, macho, animal, objeto etc.); distinguidores que especificam o
da língua permite formular através do jogo combinatório das regras de item lexical com relação a sinónimos; restrições de seleção que fecham a
articulação dos signos no interior das frases. Diz Saussure: descrição semântica das ocorrências conforme a apropriação do uso.
Nossa memória tem de reserva todos os tipos de sintagmas mais ou menos Trata-se de uma teoria semântica que pouco avança com relação à noção
complexos, de qualquer espécie ou extensão que possam ter, e, no momento
de campo semântico onde também importam os traços distinguidores e
,

de empregá-los, fazemos intervir os grupos associativos para fixar nossa es- " "
a circunscrição de um limite os signos, ficando de lado a frase dita em
,

colha. Quando alguém diz vamos! este figura por um lado na série vai!
" "

situação, o falante o problema da relação entre significação e referência


,

e é a oposição de vamos! com essas formas que determina a


" " .
" "

e vão!
Apesar do esforço para evitar o apelo à situação de discurso, as restrições
,

"

etc. " "

escolha; por outro lado, vamos! evoca a série "subamos! comamos!


" "

de seleção decorrem da fala e do contexto De outro modo xingar alguém


( ... ) Em cada série, sabemos o que é preciso variar para obter a diferenciação "
com você é uma porta! "
.

própria da unidade buscada. Mude-se a ideia a exprimir, e outras oposições seria ininteligível por ferir a restrição de seleção
" "

serão necessárias para fazer aparecer um outro valor (1975: 151). para a qual porta é objeto físico e por isso não pode ser atribuído a
uma pessoa. A associação do significado de "porta a algo inerte o que "

Igualmente tendo como limite a frase estruturada, a semântica com- não está previsto no dicionário da semântica componencial, é que permite
,

ponencial de Katz e Fodor, associada num primeiro momento às teses de


o efeito desejado Além disso como observa Lopes (1977) as definições
.

Chomsky sobre a geração de toda e qualquer frase de uma língua pela


,
,

nada mais são que sinonímia com o que permanece insolúvel o caso das
competência verbal, adota a noção chomskiana de produtividade. Devido a
,

conotações que envolvem itens derivados de subcódigos. E mais: para usar


sua competência linguística, o falante produz e reconhece frases já ouvidas
adequadamente os distinguidores é preciso já se ter em mente o item
e/ou ditas, bem como frases novas. O problema para a semântica é delimitar
,

escolhido Para saber se "bachelor"


.

como no famoso exemplo de Katz e


seu nível superior. Ao levar-se em conta o contexto da fala para selecionar o
,

Fodor ,
designa homem jovem solteiro ou foca na época do acasalamento,
significado de uma frase, seria preciso construir uma teoria que pudesse dar
a escolha entre o distinguidor "solteiro" e "foca sem parceiro na época de
conta desse imenso universo do falante e das inumeráveis e variáveis situações "
acasalar
de fala. Por isso Katz e Fodor circunscrevem a semântica à capacidade que pressupõe que se conhece antecipadamente aquilo que se quis
explicar ou significar (Lopes: 1977)
tem o falante de detectar ambiguidades, anomalias, sinonímias, aplicando
.

tão somente regras gramaticais, excluindo dados do contexto, por estarem Daí a pergunta: a língua (langue) ou a competência do falante bastam
fora do limite superior da descrição semântica. Num nível profundo, são para dar conta do significado? São suficientes para dar conta de como
4? .Ú
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

operar com itens lexicais no interior de códigos, mas insuficientes por


-

se à distinção saussuriana língua/fala A função designativa ou referencial .

fundamental segundo Jakobson enfatiza o contexto. Ocorre por meio da verbaliz


deixarem de lado o desempenho verbal, que consideramos ,
ação
para explicar o significado e compreender o problema da referência. O que de um designation e não de um denotatum isto é, algo é dito num contexto ,

dá margem a interrogações que ficam suspensas: se as dicotomias língua/ verbal sem a necessidade da correlação imediata com a ocorrência de
fala, competência/desempenho se sustentam; como lidar com as conotações, uma situação ,
objeto ou ente aos quais o signo teria de corresponder para
com o dizer situado; deixa-se intocado o problema filosófico da referência que o sentido se efetivasse. Nada muito diferente da tese/de Fregé, que
sob o pretexto de que a realidade e a relação de referência extrapolam o abordaremos no próximo capítulo .

" "
teste
limite do propriamente linguístico; ao mesmo tempo, recorre-se ao Mas, antes dele ,
os filósofos já haviam percebido a necessidade d e
frases,
da realidade (situação de fala) para dar valor semântico a certas distinguir a expressão verbal o significado do qual ela é o suporte ma-
,

nas quais, se não for possível identificar o referente que o falante tem terial, e o estado de coisa Para Platão
por exemplo, o estado de coisa
.

em vista ao usar tal signo, a própria intenção significativa fica alterada muda, contém não ser é passageiro. Já a ideia da coisa permanece
,
o logos
blema da fixação do referente).
,

(nos próximos capítulos retomamos o pro é distinto dos seres individuais Como observa Umberto Eco
o significado
.

dos difere do referente


Se, por um lado, distinguir entre significação e denotação é tun Não é o termo isolado que refere e sim as expressões
.

saldos positivos da herança estruturalista (como vimos, a língua semiotiza a que tomam a forma de juízos, como "os homens são mortais" Mesmo .

termos isolados
realidade, não há uma relação um por um entre signo e realidade, o falante quando ditos, assumem o papel de enunciados As expres-
,
.

relaciona signos entre si), por outro, deixar o problema da referência para sões são associadas a propriedades que, ao ser verbalizadas, se revestem ,

o filósofo resolver, o que pode ser considerado um pleito justo, é uma de determinado significado .

atitude que peca pela incongruência; dificilmente a semântica consegue E preciso pois, ampliar a semântica para dar conta de dois fatores; a
,

evitar o apelo ao extralinguístico, como no caso acima apontado dos dis- intensão de um termo ,
que são as propriedades que o circunscrevem , e a
tinguidores, e a sua função na caracterização dos marcadores semânticos extensão
que é a classe de todos os entes a que um signo pode referír
,
se.
-

e na configuração dos campos semânticos. É por integrar certas possibilidades em sua intensão que ao ser empre- ,

Essa situação cria um impasse, uma vez que o universo linguístico gado, um termo mostrará sua extensão a que ou a quem pode referir ,
.

não é um universo à parte e, ao mesmo tempo, amarrar a linguagem à Desse modo ,


o problema da relação entre signo e realidade depende
relação um por um entre signo e realidade implica emascular a linguagem da postura com relação a significado e referência. Se significado for o
da força que ultrapassa a simples nomeação, como é o caso das várias conceito aderido a um significante então a relação acima fica propo- ,
,

facetas da linguagem, tais como a função designativa, o apelo ao ouvinte, sitadamente ,


fora do campo da linguística Designa-se .
, remete-se com o
a expressibilidade, a argumentação, a retórica, o jogo com metáforas, as signo a uma situação intencionada ou experimentada e nesta operação o
conotações etc. que se transmite, evidentemente, é um signo e não um objeto .
Aliás nem
,

No entanto, gostaríamos de evitar que a discussão desembocasse na é um signo mas tuna mensagem veiculada por meio de signos, aquilo
,

disputa bizantina; há ou não sentido literal? Ou nas soluções que separam que os falantes estão aptos a formular e compreender através dos diversos
o componente linguístico do componente retórico, que, no fundo, não processos significativos, entre eles, o mais versátil e frequente o processo ,

verbal linguístico. Por isso mesmo o patamar estrutural aquele dos signos
passam de análises do tipo competência/desempenho, ou até mesmo, limitam- ,
,
,

IS
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

influência
e suas combinações, depende do discurso e não da frase gramatical. A ,
que é, ou que supõe, a cooperação de três sujeitos , que são o
signo, seu objeto e seu interpretance Esta relação ternária de influência não
pragmática vem a ser o horizonte teórico, quer dizer, é preciso sair dos
.

limites exclusivamente estruturais da língua. Uma das vantagens desse pode, em nenhum caso, reduzir-se a ação entre pares. Significar supõe aqui
três termos ,
não apenas dois (Bougnoux 2000: 55).
enfoque é evitar o mito da monossemia, isto é, de que o significado es-
,

teja pronto, cristalizado numa espécie de dicionário, e que a produção de Peirce pergunta pelo que ocorre na vida evitando a pergunta metafísica ,

sobre o fundamento
sentidos diversos mediante conotações, implicaturas, pressupostos, efeitos A ação no mundo precisa levar em conta o passado,
.

provocados no ouvinte, recursos pragmáticos, situações discursivas, sejam produzindo as diversas experiências. O mundo mesmo contém apenas o
"

considerados todos eles como secundários, apêndices, derivações. Ocorre que Peirce chama de primeiridade", que são as coisas fora de qualquer
suporte ou de relação referencial tais como: espirrar nesse momento
que a língua não é, como mostraram, por exemplo, Sapir e Whorf, um ,
, ter

código transmissor de informações. E nela e por ela que uma cultura vive. nascido no século passado na Terra e não em Marte o ruído das teclas do ,

É nela que o pensamento habita. computador. No nível da primeiridade tem-se a novidade, vida liberdade, ,
,

tudo o que pode ser os fenómenos simples e livres completos em si.


,
,

Nesta altura da discussão, cabe perguntar se não há, na esfera da se-


Já em outro nível, o futuro se apresenta nas formas mentais intenções
miótica, uma contribuição mais satisfatória para a compreensão da relação
,

e expectativas. O conhecimento científico depende do futuro, como na


signo/realidade que, ao mesmo tempo, preserve as contribuições produtivas do
pergunta sobre o resultado da variação provocada num dado aspecto de
estruturalismo de vertente saussuriana (a capacidade designadora, o processo um fenómeno O homem trabalha com uma capacidade ou poder divina-
.

de semiose), enfrente a questão da denotação e evite as limitações teóricas da tório (ainda que potencial) de fazer suposições, numa ação governada pela
semântica restrita às noções de campo semântico e de análise componencial.
razão. Quando um homem presenteia uma mulher há o ato mecânico de ,

Apenas uma concepção sem peias para acolher produtivamente uma entrega ,
a emissão de sons e o objeto sendo pego pela mulher .
O caráter

direção pragmática pode satisfazer essas exigências. Peirce resolve o im- tríplice dessa ação reside na intenção na ação mental. Daí Peirce propor
,

passe de Saussure: se o signo não retira sua significação da denotação, se as seguintes características:
ele não está simplesmente no lugar de algo, como fica, então, a relação ORIGINALIDADE: designa o ser tal como ele é em nível primário. ,

das palavras com o mundo? Afinal a linguagem não é um jogo solitário


e autossuficiente.
OBSISTÊNCIA: ocorre pelo contato com alguma outra coisa que
obriga a uma modificação a reações, que operam noutro nível o da se-
,
,

cundidade. Por exemplo A ser maior do que B, seja por similaridade seja
,
,

por diferença. A secundidade caracteriza-se pelo aspecto relacional como


5 . A CONTRIBUIÇÃO DE PEIRCE nos conflitos
,

Se alguém torce uma maçaneta para entrar porém encontra ,

5 1 O esquema triangular de Peirce


. .
resistência ,
esforça-se para abrir, reage. Trata-se de uma situação de relação
mútua
A filosofia da linguagem, a lógica e a semiótica experimentaram, com
,
a realidade obrigando a reconhecer algo fora , que opõe resistência.

esse filósofo do pragmatismo norte-americano, um impulso inovador. TRANSUAÇAO: ocorre mediação ou modificação da primeiridade
Peirce partiu de um esquema triangular muito diferente do de Saussure (a e da secundidade pela terceiridade através de processos comunicativos
,
.

O signo pertence a esse nível representa algo para a ideia que provoca ou
quem, aliás, não conheceu): a relação de semiose designa uma ação, ou uma ,

ÍC Kl
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

modifica, é veículo para comunicar à mente algo exterior. Cria media- 52 . .


As três categorias do signo
ções genuínas, pois está relacionado a algo fora dele, ou seja, seu objeto Não há uma ordem cronológica ou lógica entre índice, ícone e sím-
(não somente a coisa ou a situação, mas o modo de aplicar o signo) bolo, as famosas distinções do signo peircianas .

isto é, algo é representado, mas não inteiramente e sim com respeito


O ÍNDICE é um fragmento retirado da coisa realmente afetado pela
a uma qualidade ou aspecto. Essas relações são intermediadas por um ,

coisa, como o sintoma médico Trata-se de um signo "degènerado"; pois


terceiro termo, o interpretante, ou seja, a ideia que o signo provoca,
.

a fim de comunicar uma significação. O interpretante é um outro signo e


a significação de seu objeto deve-se a um relação genuína com ele, sem
levar em conta o interpretante ou o código, sem a mediação de inten-
também, conforme explica Eco, interpreta uma ideia a que os signos
dão lugar. O interpretante pode também ser uma ação, um comporta- ção mental, e por isso mesmo, não realiza corte semiótico algum .
Corte
semiótico implica a distância" entre o mundo exterior ou mundo real
"

mento. Por isso não se deve confundir o interpretante com o receptor


dos objetos designados e o signo isto é, que o mundo está separado do
do signo. O código para Peirce funciona como uma leitura, como um "
,

signo. Assim é que a palavra


' '

saber constituído, que permite ligar o signo a um objeto. Os objetos


cão
não morde (nem sua imagem aliás) ,
"

explica Bougnoux (2000: 206) Dada sua natureza típica os índices não
podem ser fatos, relações, algo conhecido e que tenha existido ou que
.

se espera existir, uma qualidade, ou conjunto, partes de um conjunto. Se precisam levar em conta o corte semiótico. Por exemplo a batida na porta ,

característica de alguém querendo entrar é indiciai, não provoca a necessi-


alguém aponta algo para uma pessoa, para essa pessoa saber a que está
se referindo, é preciso que os referenciais possam ser reconhecidos.
" "
dade de distinguir o signo de sua designação. O índice refere-se ao objeto
O exemplo é de Peirce: acordo de manhã, antes de minha esposa, que que denota por ser afetado por ele, tendo uma qualidade em comum com
logo pergunta: "Como está o dia hoje? É um signo cujo objeto ime-
"
o objeto e sendo modificado pelo objeto Serve para estabelecer contato.

vínculos diretos nas relações de comunicação, pois não representa a coisa


diato é o tempo naquela ocasião, mas que possui um segundo objeto, a ,

mas as manifesta com sua vivacidade própria, nos gestos, na entonação,


sensação que presumivelmente tive ao olhar pela janela. Uma operação
nos olhares
leva a outra, e assim por diante, infinitamente. Como a significação de ,
que facilitam e encaminham os conteúdos da comunicação .

Exemplifica Peirce:
uma representação é outra representação, tem-se uma série infinita, a
que Eco chama de semiose infinita. Vejo um homem que anda gingando. Isso é uma indicação provável de que
seja um marinheiro ...

Um quadrante solar ou um relógio indicam a hora...


Pertencem à terceiridade as ideias de generalidade, infinidade, conti -

Uma batida na porta é um índice Tudo o que nos surpreende é um índi-


.

nuidade, difusão, crescimento, inteligência. Se alguém vai fazer uma torta


ce na medida em que assinala a junção entre duas porções da experiência
de maçã, por exemplo, generaliza a partir do momento em que segue (Peirce, 1977: 67).
a receita com seus passos e regras costumeiros, medidas, ingredientes,
como uma torta de maçã que precisa ser feita com maçãs frescas, nem Já um signo degenerado em grau mais alto é um ÍCONE ,
caso das
imagens Elas provocam um desengate mais nítido entre signo
muito doces e nem muito azedas etc. Para tal é preciso escolher as maçãs e coisa no-
.

meada
e aplicai aqueles requisitos para que a torta atinja o padrão de qualidade significam apenas pela qualidade da semelhança Peirce exemplifica:
,
.

desejado. E essa qualidade, ser torta deliciosa, não vem solta, mas é uma É o caso de como eu agiria em certas circunstâncias enquanto me mostram ,

qualidade que ocorre em mim, objeto de experiência. como outra pessoa provavelmente agiria (1977: 28).

W 19
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

Assim é que um retrato de alguém que eu não conheço é convincen- significa, apenas pela compreensão dessa significação. O símbolo pode ser
te. Pelo retrato forma-se uma ideia da pessoa que ele representa. Porém, constituído por um índice como quando alguém diz: "Lá está um balão"
,

não se trata de um ícone perfeito, visto ser obra de um fotógrafo, tendo, e aponta para ele. O gesto funciona como indicador Mas se alguém ex- .

portanto, uma relação obsistente com o original, com a face da pessoa. A plica que balão é algo como um círculo, a imagem cria neste caso , um
noção de semelhança não é tão simples quanto parece à primeira vista. símbolo, e não um índice .

No caso da foto de identidade, a relação estabelecida entre um simples p X

Um signo genuíno é um signo transuacional ou símbolo, pois como


pedaço de papel brilhante contendo certas manchas e a identificação do
,

dissemos ,
depende de um interpretante para ser compreendido Toda emissão
rosto de alguém demanda toda uma série de relações e ilações levadas
.

discursiva é um signo genuíno Os sons inicialmente reportavam-se seja


.

a cabo por uma percepção resultante da cultura, da educação. Traços são


a ícones
recolhidos e analisados num material diverso daquele do fenómeno re-
,
seja a índices, mas esse caráter se perdeu com o signo palavra.
Afirma Peirce (1977: 29):
presentado. Entre um sinal rodoviário de curva perigosa e a curva que se
tem de percorrer vai uma enorme distância que a semiotização do mundo As palavras só representam os objetos que representam e significam as qua-
lidades que significam porque vão determinar na mente do ouvinte signos
anula e ao mesmo tempo reconstrói. O ícone não é a imagem externa,
,
,

correspondentes .

propriamente dita, é a imagem mental, imitação dos objetos.


Assim ,
todo signo determina um interpretante que é também um signo.
,

Assim, o signo é um ícone quando se refere ao objeto que esse signo


Em suma um signo, ou representamen
denota pelos caracteres do próprio signo, quer o objeto exista ou não. ,
é aquilo que, sob certo aspecto,

ou modo
Uma coisa é ícone de outra quando houver uma semelhança e essa outra representa algo para alguém. Dirige-se a alguém isto é, cria
,
,

coisa for utilizada como signo. É como se algo pudesse ser substituído por na mente dessa pessoa um signo equivalente ou talvez mais desenvolvido .

O representamen é uma regra que determina seu interpretante,


outro que com ele se assemelhe. Uma imagem de algo ou um diagrama como
palavras, frases, livros e signos convencionais que são símbolos O que
podem ser icônicos. Pelo ícone, uma ideia pode ser diretamente comu- .

escrevemos ou pronunciamos não passa de réplicas, pois a palavra em si


nicada. Observando-se um ícone, outras verdades podem ser descobertas
não tem existência ou melhor, seu ser consiste em que os falantes a ela
além das que determinam sua construção. A partir de duas fotografias,
,

se conformem Pelo hábito ou lei adquirida uma sucessão de sons como


.

pode-se desenhar um mapa. Quando há uma conexão física entre a pessoa


,

g-a-t-o faz com


que suas réplicas sejam interpretadas como significando
e sua fotografia, tem-se um ícone. Idem no caso de um desenho de uma " "

gato . Diz Peirce:


estátua, no caso de fórmulas algébricas, de construções arquitetônicas, de
Ao signo assim criado denomino interpretante do primeiro signo. O interpre-
peças de decoração etc.
tante do símbolo diz que no futuro aqueles sons devem obedecer à mesma
O SÍMBOLO é um signo que se refere ao objeto que denota devido descrição. O signo representa alguma coisa seu objeto, que também deve ,

a uma lei", a uma regra de leitura, a uma associação de ideias que leva
"

obedecer àquela descrição Representa esse objeto não em todos os seus


.

o símbolo a ser interpretado como referindo àquele objeto. O símbolo aspectos mas com referência a um tipo de ideia que eu chamei fundamento
,
,

se constitui como signo por ser usado e compreendido como tal, por do representamen (1977: 46) .

hábito ou convenção. Como vimos em Saussure, tem caráter arbitrário. Ideia aqui deve ser tomada no sentido em que dizemos que alguém
Não há símbolo sem interpretante, pois qualquer elocução de um discurso pensa ou relembra o que estava pensando. Assim o signo, ou represen- ,

SO 51
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

tamen, está ligado ao fundamento, ao objeto e ao interpretante. Quando de signo. Evidentemente há fenómenos externos porém, quando se pensa, ,

tamen usado de modo


se enfoca o que é verdadeiro quanto ao represen o próprio pensamento surge como signo .

a incorporar um signo, trata-se do terreno da gramática pura. Quando se Signo para algum pensamento que o interpreta. (...) signo para algum ob-
pergunta pelo que é necessário para que os signos possam aplicar-se a jeto que se lhe equivale nesse pensamento. (. ) signo sob algum aspecto ..

qualquer objeto, e possam ser verdadeiros, tem se a lógica. Na retórica,


-

ou qualidade que o liga a seu objeto (1980: 73) ,


'

p
estuda-se como um signo acarreta outro.
explica Peirce , acrescentando:

O signo relaciona-se com o objeto que, para Peirce, não deve ser pura O signo-pensamento representa o objeto na perspectiva sob a qual o pensa.
e simplesmente confundido com os objetos físicos, uma vez que também
Esta perspectiva é o que ele chama de objeto imediato da consciência
se pode tratar de algo imaginário. Para que um signo represente o objeto
ou o conjunto de objetos, deve haver uma explicação, isto é, um signo
no pensamento o pensamento pensado no pensamento seguinte ao qual
,
,

serve de signo
ampliado por uma explicação mais ampla, que será também outro signo.
.

O significado ou o objeto de um símbolo denota algo e significa uma 53


generalidade ao mesmo tempo. Daí a noção peirciana de semiose infinita,
. .
A semiótica como lógica dos signos
Para Peirce
quer dizer, os símbolos são constituídos pelo desenvolvimento de outros ,
a lógica é a ciência dos signos A lógica crítica estuda as
.

condições de referência portanto, as condições de verdade do símbolo e dos


signos, especialmente dos ícones ou dos signos que são icônicos e também ,

simbólicos. Segundo Peirce, outros signos com relação a seus objetos A lógica gramatical especulativa
.

é a doutrina dos símbolos e outros signos que têm caráter significante.


só pensamos com signos. Estes signos mentais são de natureza mista; denominam-
Finalmente a lógica transuacional estuda as condições gerais de referência
-
se conceitos suas partes símbolo. Se alguém cria um novo símbolo, ele o faz
dos símbolos e outros signos aos interpretantes que eles querem deter-
por meio de pensamentos que envolvem conceitos. Assim, é a partir de outros
minar. Como todo signo determina um interpretante, que é também um
símbolos que um novo símbolo pode surgir ... Uma vez existindo, espalha-
signo segue-se que um signo sempre remete a outro
se entre as pessoas. No uso e na prática, seu significado cresce (1977: 76).
,
.

Para Peirce, o Os signos podem ser: um termo que deixa seu objet o, e, portanto seu ,

interpretante ser aquilo que pode ser ou seja, o termo recebe uma certa
,

único pensamento que se pode conhecer é o pensamento em signo. Todo significação; uma proposição que é um signo indicador do objeto que denota
,

pensamento deve, portanto, necessariamente existir em signos (1980: 68). e deixa o interpretante livre ou seja, determina-se uma situação acerca da
,

"
Aristó-
Todo pensamento é um signo, dirige-se ao outro. Quem afirma qual se fala; um argumento é signo porque representa e determina o interpre-
teles é homem, portanto é falível pensou também que todos os homens
"

, tante, também chamado de conclusão ou seja, numa conversa, por exemplo


,
,

são falíveis. Todo pensamento vem de ter havido outro pensamento, o chega-se a uma certa conclusão e passa se -

a outro tema ou assunto .

momento passado requer uma série infinita de momentos e precisa ser


Há argumentos dedutivos pelos quais os fatos representados nas pre-
,

interpretado em outro pensamento, acontecendo em termos de signos. missas precisam ser apresentados na conclusão como as demonstrações ,

Toda cognição está em constante mudança. A consciência ou sensação de Euclides Os argumentos originários são as abduções em que os fatos
.

demanda uma imagem, uma concepção, ou outra representação servindo apresentados nas premissas precisam ser apresentados na conclusão e
£2 S3
DO SIGNO AO DISCURSO SIGNO E REALIDADE

podem ser verdadeiros sem que a conclusão o seja. Exemplo: "Todos os


"

com a experiência (1977: 45), constituem uma espécie de abstração junto


feijões deste saco são brancos; estes feijões são brancos; provavelmente com a observação. Depois de esboçado um quadro ou esquema, eles são em-
"

provêm deste saco .

pregados para compreender ou deduzir, ou ainda, abduzir, e tenta-se aplicá-lo


O fato afirmado na primeira premissa é o elemento codificado que aos signos. Como se vê ,
a habitual suposição de que o pensamento espelha
já se conhece. Entre ele e o dado experimental da segunda premissa, não a realidade e a traduz na linguagem relação de representação jpura e simples
,

entre enunciado e fato é inteiramente superada pela concepção de Peirce


há uma relação de contiguidade. A abdução toma como hipótese uma ,
.

conexão física anterior e uma relação de causa e efeito que não são pro- E difícil avaliar todas as consequências da contribuição de Peirce ao
vadas. Tudo se passa como se alguém estivesse examinando o fragmento problema da referência e da significação, mas algumas delas saltam à vista ,

de uma carta onde se lê "cane" e tivesse de decidir se está conectado ao


" "
e apontam numa direção que iremos explorar A relação entre signo e coisa
.

fragmento onde se lê "sugar" ou a outro onde se lê e gatto sendo que ,


não é a de uma adequação representativa direta nem é uma relação de ,

o primeiro contemplaria a hipótese da língua inglesa e o segundo, da pura exterioridade. Estabelecido o óbvio corte semiótico (o signo não é a
língua italiana. Pela abdução, tenta-se empregar um sistema de regras de coisa
nem está no lugar da coisa), resta o problema de como se estabelece
,

significação pelas quais um signo adquirirá seu próprio significado, explica a relação entre a significação linguística e aquilo que com ela se designa ,

Eco (1981: 118-121). Na abdução, os fatos constituem um ícone porque se nomeia se refere. Levando-se em conta que
,
para Peirce, o pensamento ,

têm semelhança com o que pretendem representar. Conhecer para Peirce interpreta o outro que lhe serve de signo pode-se supor que não é a
,

é relacionar e classificar por meio de signos, assim se entende por que chamada
" "
realidade em si que é representada
A mente do sujeito não .

os fatos na abdução podem constituir uma hipótese. Por exemplo, um é uma mente pensante de estilo cartesiano cujo conteúdo vem da ideia
,

cientista, ao lançar hipóteses explicativas, ousa supor semelhanças pelas que representa as coisas. Para Peirce, o próprio pensamento é sígnico e ,

quais explicará como se dão os fatos. o objeto é objeto para um signo-pensamento pois ele só faz sentido na ,

Já o argumento indutivo provém de uma abdução ou hipótese anterior medida em que serve de objeto para um signo que o interpreta.
e de predições dedutivas. Após a experimentação, confirma-se ou não a Como o signo não é algo que serve à mente/pensamento para repre-
verdade da hipótese, sempre sujeita a revisões futuras. E preciso analisar sentar a realidade/objeto não há para Peirce o sujeito com sua mente
,

se o caso em foco é resultado ou não da regra aplicada, esta pode ser o como se fosse uma substância plena de representações . Peirce critica a
quadro referencial de uma língua, os indícios circunstanciais ou contexto concepção ingénua de que o signo é a marca ou etiqueta de um objet o,

de fala. Eles conduzem à interpretação de uma regra de abdução. A abdu- e de que a linguagem funciona apenas nomeando designando, ou como ,

ção representa a tentativa ousada de um sistema de regras de significação


"
se diz "

captando o objeto através do puro pensamento Este, por sua


,
.

pelas quais o signo adquire seu significado. vez, é considerado como pura representação das coisas tais como elas são
na realidade
Essa lógica de que fala Peirce é, simplesmente, a semiótica, doutrina geral ao passo que a linguagem, através dos signos é apenas meio
,
,

dos signos. O pragmatismo de Peirce faz-se notar quando ele diz que as afir- (sofrível, diga-se de passagem) para significar o pensamento.
mações sobre o que devem ser os caracteres de todos os signos utilizados por
"

Ora, supor uma unidade transcendental do sujeito que se abre para o


isto é, por uma inteligência capaz de aprender
>

mundo ou pela qual o mundo se abre não passa, segundo Eco, de ficção.
*

uma inteligência científica , ,

54 SS
DO SIGNO AO DISCURSO

O sujeito não é o centro da atividade linguística. Pelo contrário, como


bem mostrou o estruturalismo e antes dele a concepção peirciana de sig-
no, é no signo, é na atividade linguística que há intersubjetividade. Se o
II. AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO ,

signo leva à interpretação, que é, por sua vez, outro signo, não há
mente funcionando como um receptáculo contendo pensamentos que
uma
VERDADIE MURCIA
f í
representam coisas ou estado de coisa. Há interlocutores situados. Usar /

signos implica interpretação, inferência, abdução. A linguagem não é um


simples código de informações de mensagens cifradas a serem decifradas
" "

pela relação denotativa signo/referente. A linguagem semiotiza a rea-


lidade, a linguagem é o lugar onde emergem as significações. E possível
inclusive afirmar com Peirce que a palavra usada pelo homem é o próprio
homem, que somos semiose em ato, sistemas de significação, processos
de comunicação, como diz Eco.
1 . Significar e nomear
Peirce mostra que não há pensamento sem linguagem, critica a noção f O estruturalismo de vertente saussuriana e também Chomsky consideram
de sujeito como cogito ou mente, evita o logocentrismo do estruturalismo '
que cabe ao filósofo resolver o problema da relação linguagem/realidade ,

(análise exclusiva dos signos verbais) ampliando a linguagem para além


uma vez que a linguística de veio estruturalista ocupa-se com designação
da linguagem verbal, mostra que gramática, lógica e retórica estão inter- | (combinações dos signos e das regras que permitem a emissão de todas
-

relacionadas em suas múltiplas funções. Linguagem/pensamento nada mais f e de qualquer sentença da língua) e não com denotação ou referência ou ,

é do que a ação humana constitutiva da realidade. A concepção metafísica | seja, com frases significativas que remetem a coisas ou estados de coisa .

de uma relação dual entre sujeito e objeto, interior e exterior, a concepção I A questão de se o signo, ou melhor, de se uma frase gramaticalmente
de uma subjetividade reinando solitariamente ou de uma razão soberana J bem construída refere ou não, e, como decorrência, se corresponde ou
í não à realidade ou situação denotada pertence ao âmbito da filosofia.
como queria Kant, a concepção de realidade objetiva em si, da tradição ,

empirista, todas elas são abaladas pela semiótica de Peirce.


I Assim pensam os linguistas que estamos chamando de "estruturalistas"
I por privilegiarem em sua análise apenas os elementos do sistema que são,
,

O pragmatismo de Peirce conduz ao patamar da pragmática, o que j justamente, estruturais. Esse procedimento é legítimo para efeitos de análise ,

mostra a atualidade de suas ideias. Sair dos limites impostos pela estrutura
| mas conduz a alguns impasses. Recorremos a Peirce para mostrar que os
da língua, vista como um sistema funcionando em si e por si, e dos limites signos não se limitam a uma inter-relação regrada pelo sistema da língua.
da relação do sujeito que conhece confrontando suas representações em
face do objeto conhecido leva a pensar, de acordo com Habermas, que Pela mão dos primeiros filósofos da linguagem ,
nomear ou referir a
entidades (a questão da relação entre significado e referência) torna-se
o mundo como síntese de possíveis fatos só se constitui para uma comuni- questão analítica.
dade de interpretação, cujos membros se emendem entre si sobre algo no
Portanto
é nas abordagens lógico-analíticas nas vertentes filosóficas cujo
mundo, no interior de um mundo da vida compartilhado intersubjetivamente ,
,

(1997: 31-32). foco é a linguagem centralizada nas sentenças com conteúdo proposicío-

KG
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA
,

nal que a relação entre a linguagem e a realidade torna-se problema a ser manda o componente semântico pois frases gramaticalmente estruturadas
,

resolvido, espinhosa tarefa que agora se põe como obrigatória e legítima. não bastam para haver sentido O sentido não decorre pura e simplesmente
.

Estamos no segundo patamar da linguagem, o da sentença proposicional. Como é de combinações de signos O que evidencia a necessidade de distender
.

possível que, com palavras organizadas na forma de sentenças, ocorra a nossa análise para além do signo indo até a sentença/proposição
,
, o se-

referência à realidade? Qual é a natureza da conexão que se estabelece entre gundo patamar da linguagem.
* <

palavras numa sentença e o correspondente estado de coisa? Platão foi o A semântica por condição de verdade ou semântica formal, opera no
,

primeiro filósofo a formular o problema ontológico, a provocante questão nível da sentença. De modo geral desde a Gramática de Port-Royal até o
,

" "

chamada por Occam de é possível falar com sentido


a barba de Platão :
atomismo lógico de Russell e de Wittgenstein no Tractatus logico-philosophicus
" "

acerca de seres que não existem ? Como é possível fazer afirmações com
(19 21), há dois pressupostos, o de que "as frases representam fatos ou estados
sentido, isto é, em condições de fornecer verdade às proposições, sem de coisa e, numa língua ideal estariam em correspondência estrutural com
,

pressupor a existência do ser sobre o qual algo é afirmado? Ou, em outras eles
"

(Lyons, 1984: 118), e o de que há numa afirmação, uma proposição


palavras, se as entidades não existirem, estar-se-ia falando acerca do não que pode ser verdadeira ou falsa. As proposições (p, q, r) são combinadas
ser, acerca de nada? Reza a tradição parmenídica e platónica que, acerca entre si mediante conectivos , possibilitando cálculos de seu valor de verdade.
de nada, nada pode ser afirmado com sentido. Em suma, trata-se da rela-
Para Tarski
é justamente a possibilidade de estabelecer condições de
,

ção entre significação, realidade e verdade, que envolve o velho problema


verdade que dá inteligibilidade às frases Toda proposição bem formada
ontológico, ou se quisermos, o problema do compromisso ontológico
.

diz algo é significativa se e somente se for possível estabelecer para ela


,

decorrente do uso de nomes, nomes próprios, descrições definidas, dêic-


sua condição de verdade; hoje se acrescentaria: em um mundo possível,
ticos, pronomes demonstrativos, proposições significativas cujo valor de
sob uma certa interpretação
verdade provém de serem afirmações acerca da realidade.
.

Cada descrição de estado completa e consistente descreverá um estado possível


No primeiro capítulo, abordamos a análise estrutural do signo e da frase
do universo; e nesta classe das descrições de estado haverá uma que descreve o
gramatical como limite máximo da abordagem do linguista que se atém ao estado real do universo
,
a saber aquele em que são verdadeiras todas as proposições
sistema da langue (I patamar). Neste capítulo, analisaremos as sentenças com
°

fundamentais (...). O conteúdo semântico de uma proposição pode ser definido


conteúdo proposicional. Frege, Wittgenstein e Russell são presença obrigatória como a classe das descrições de estado que ela elimina (Lyons, 1984: 135-136).
quando o problema é a linguagem, especialmente a semântica. São con-
Uma vez especificados os cálculos que estabelecem o valor de verdade
tribuições valiosas para a linguística e para a filosofia da linguagem, que
,

é possível formalizar as línguas naturais e assim sanar todos os "erros"


permitem uma melhor compreensão da distinção entre referente ou deno-
,

ambiguidades conotações, preparando a linguagem para a construção da


,

tatum, de um lado e designatum, de outro lado, e do problema da denotação.


ciência. Esse foi o sonho do positivismo lógico Para Carnap só há signi-
.

A pergunta é pela relação entre significação e denotação, ou seja: somente


" " ficado se a proposição for suscetível de verificação A verdade deverá ser .

a sentença acerca de um estado de coisa existente possui significação?


determinada intensional e extensionalmente A teoria dos modelos estabelece
.

Ela perde significação se não referir ou denotar o estado de coisa?


que a extensão reporta-se a um dado ponto de referência. Toda e qualquer
Se pensarmos que os signos são combinados entre si, formando todas frase de uma língua só poderá ser compreendida se soubermos em que
as sentenças possíveis de uma dada língua no nível sintático, esse nível de- condições em relação a que indivíduos etc. ela seria verdadeira ou seja,
,
,

S8 £9
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA
,

acerca de que mundo é verdadeira a proposição. Quanto à intensão, diz (1) O atual rei da França é calvo
respeito à descrição consistente de um estado de coisa. Neste exemplo o problema é como afirmar algo de um ser que não
,

"

A essa tradição lógico-semântica pertencem o Wittgenstein do Tractatus


"
existe ,
e de se, ainda assim, o enunciado mantém sua significação (ou não) .

e também, segundo Rorty, os semanticistas e filósofos que trabalham ins-


Resolver esse problema permite enunciar sentenças do tipo:
pirados pelo Wittgenstein do Tractatus como Davidson, Montague e Harman
(2) O rei do Brasil não existe. / i
(Rorty, 1988: 21). A semântica lógica é essencial para a filosofia dissolver
problemas como o do dualismo cartesiano mente/corpo, além de abor- Quer dizer, é possível afirmar com sentido enunciados negativos , afir-
dar de modo original problemas essenciais, como os do significado e da mar que certos seres não existem sem incorrer no absurdo de precisar
,

referência, como mostram os trabalhos de Frege, Russell e Quine. postular sua existência para, em seguida, negá-la.
É bastante polémica e controversa a questão da postura teórica de
"

O rei do Brasil"
sujeito da proposição, precisa reportar-se a um refe-
,

Wittgenstein quanto a haver uma distinção radical entre um primeiro rente que deve existir de alguma forma para que a sentença tenha sentido
Wittgenstein e um segundo Wittgenstein, particularmente o das Investigações e possa ter valor de verdade? Como se sabe pela informação histórica, ,

filosóficas. Nosso pressuposto é o de que eles diferem, de modo bastante que tal rei não há, a sentença será sem sentido, ou falsa, ou com sentido ,

significativo. Esta última obra produziu radicais mudanças de enfoque, tanto mas sem valor de verdade ,
ou, ainda, realizável num mundo possível?
na filosofia da linguagem como na semântica linguística. Um exemplo
Como já afirmamos o terreno a ser percorrido não é mais o da
,

notório dessa nova vertente foi a filosofia da linguagem ordinária.


linguística. Entramos no terreno das sentenças que têm o papel lógico/
Entre seus adeptos destaca-se a Escola de Oxford, com Ryle, Austin, ontológico de atribuir um predicado a um sujeito A fim de constatar se o .

Strawson e Searle.
sujeito possui ou não tal propriedade é preciso recorrer a estado de coisa.
,

Frege, Wittgenstein I, Russell e Kripke deram ao problema da re- Para a lógica tradicional bastava a relação atributiva. A partir da lógica
,

lação entre linguagem e realidade diferentes soluções, criticadas por moderna ,


a relação não é simplesmente binária, entre sujeito/predicado .
A

Wittgenstein II, por Austin e Strawson, para os quais a referência é relação entre sujeito e predicado da forma "A é B" esconde um problema:
" "

apenas um dos requisitos para os atos de fala, e também por Quine se A t "B", não pode ser ele mesmo ou seja, A " "

A alternativa é que , .

e Davidson, com suas teses da relatividade ontológica e da inescruta- a afirmação seja então, da forma A é A" porém esta é uma afirmação
"

,
,

bilidade da referência, encaminhando-se para a pragmática, na linha trivial


não leva a nada. Para evitar a trivialidade é preciso afirmar "A é B"
,
,

aberta por Peirce e Dewey. que é uma afirmação falsa. Desta forma, se uma afirmação é verdadeira ,

ela é trivial se não é trivial é falsa. Trata-se do paradoxo da identidade


Devemos ao Wittgenstein do Tractatus Logico-Philosophicus a teoria da ,
.

figuração, pela qual a estrutura do mundo e a da linguagem estão em Como veremos no próximo item Frege soluciona o paradoxo da ,

relação de paralelismo; a Frege, a crucial distinção entre significar e no- identidade. Russell contribui com uma nova análise da predicação, com as
mear; a Russell, a teoria das descrições definidas e a Kripke, a teoria da formas x R y' ("Pedro matou Paulo) em que há variáveis ( ) e ,
"

x
"

,
"

y
"

rigidez referencial. São diferentes abordagens da questão da relação entre uma relação entre elas Isso permite afirmar por exemplo, João é maior
.
,
"

significação e referência, apontada pelo exemplo paradigmático de Russell; "

que Maria No caso de "Pedro matou João com a faca de Paulo" temos
.

GO G1
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA
,

x mata y com a faca de z ou seja, R(x,y,z). No caso de uma sentença


"
"

,
2 . Referir difere de significar: Frege
singular, como Pedro é bom", o predicado contém apenas um elemento
"

"

F predicado de um "x", que é um indivíduo, uma variável. Daí: F(x)",


"
"

Com Frege houve um avanço considerável da lógica com repercussão ,

a cópula
"
é
"

desaparece no predicado. "F" é uma propriedade e


"

x
"

é na filosofia da linguagem. Suas pesquisas visam entre outras propostas,


,

um indivíduo. solucionar problemas filosóficos clarificando-os pela lógica Seus estudos .

repercutiram principalmente em Carnap Russell, Wittgenstein e Quine


,
.

A lógica não traduz mais sentenças da forma gramatical corrente como Sua distinção entre significado e referência influi até hoje na linguística
todo homem é mortal pela forma "Todo A é B", e sim numa forma
"
"

"
e mesmo na filosofia da mente .

Pensamentos diferem de representações ,

mais complexa: Para todo x, se x é homem, então x é mortal


"
.

pois estas pertencem a uma dada pessoa, são atribuíveis a alguém num
O problema da referência diz respeito tanto à questão do objeto a ser tempo e num espaço. Os pensamentos não são de alguém em particular,
referido (questão ontológica) como aos termos usados especificamente para permanecem em sua identidade, mesmo que indivíduos, épocas e luga-
referir, como nomes, dêicticos, expressões existenciais únicas ("o atual rei res variem. Sua estrutura é mais complexa do que a usada para referir
da França"), demonstrativos e pronomes. Na semântica formal, a relação a objetos através de nomes e dêicticos É que nas asserções os termos
.

linguagem/realidade e a questão de se a significação está ou não ligada à singulares que ocupam o lugar do sujeito funcionam como proposições
verdade é tratada nos limites da sentença. Isso estabiliza e fixa os meios relativas a dado estado de coisa Proposição verdadeira é aquela em que
.

linguísticos e lógicos para a referência. Fica descartado um outro modelo, o pensamento (e não a representação pessoal de objetos) refere se a um -

o dos esquemas conceptuais variáveis, que mostrariam a impossibilidade estado de coisa mediante um enunciado Habermas entende que Frege
.

de fixação da referência, esquema que dispensa correlacionar palavras e revoluciona as concepções de linguagem com sua noção de que
coisas para haver referência e significação. Encontramos esse modelo no
na representação são dados somente objetos; enquanto estado de coisa ou
Wittgenstein das Investigações filosóficas, tema do próximo capítulo. Neste ca- fatos são aprendidos em pensamentos Com essa crítica Frege dá o primei-
.
,

pítulo, percorremos as ideias principais de Frege, Wittgenstein I, Russell, ro passo rumo à guinada linguística A partir de agora não podemos mais
.
,

e, mais atualmente o essencialismo de Kripke. apreender simplesmente e sem mediação pensamentos e fatos no mundo dos
Mostraremos que falta algo essencial às diversas soluções apresentadas objetos representáveis; eles só são acessíveis enquanto representados, portanto
em estado de coisa expressos através de proposições (Habermas 1997: 28).
para o problema da referência ou da denotação, como preferem alguns, ,

que é levar em consideração o ato efetivo da fala. O problema da relação A mediação da proposição importa em outra consequência na consi-
linguagem/realidade e de como a linguagem fornece instrumentos lin- deração das sentenças: o significado das expressões sujeito e das próprias
guísticos para referir através de sentenças assertóricas só é simples e s ó sentenças difere da referência em ambos os casos .

recebe soluções satisfatórias se nos detivermos nas sentenças, isto é, no As descrições definidas são expressões do tipo "o tal e tal é ...
"

.
Para
nível da semântica formal, pois ela pressupõe a linguagem como cons- serem significativas essas expressões precisam receber conteúdo factual
,
,

tando unicamente de proposições que descrevem estado de coisa, e por precisam reportar-se à realidade para poder afirmar que algo é tal e tal
isso podem receber valor de verdade. Tudo estaria muito bem resolvido pelo preenchimento da função atributiva? Frege entende que as descrições
se nos comunicássemos por meio de proposições assertóricas. Evidente- definidas pertencem à categoria mais ampla dos nomes próprios, que
mente, não o fazemos. abarcam os nomes próprios propriamente ditos ("João" Curitiba"), as ,
"

G2 Q
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA
.

descrições definidas ("O atual rei da França..."), os demonstrativos ("isso", referência. Pode-se falar acerca de coisas já desaparecidas das quais nunca
" " "

aquele ), os predicados e as sentenças completas ( Sócrates é mortal"). se venha a ter conhecimento direto, como a Grécia de Péricles. Nunca será

No importante artigo Sobre o sentido e a referência, 1892 (Uber Sinn und Be- demais lembrar a importância dessa distinção. Até Frege sob o manto de ,

deutung), Frege mostra que referir a algo difere de falar significativamente*. um arraigado platonismo, pensava-se que o sentido (significação ou sig- ,

nificado) seria nulo se não estabelecesse uma relação do dito com a coisa
Já mencionamos a relação de igualdade e vimos o quanto é complexa.
referida, nomeada, designada. Como dissemos no início deste capítulo ,

Para Frege essa relação não se dá entre os nomes ou sinais dos objetos e supunha-se que acerca do não ser nada se poderia afirmar com sentido .

" "

nem entre os próprios objetos. Assim, quem afirma a = a diz algo dife-
" "
Frege "desontologiza" a linguagem. Há expressões com sentido mesmo que
rente de quando afirma a = b No primeiro caso, temos uma sentença
.

não tenham referência. Assim ,


" "

as palavras o corpo celeste mais distante da


analítica, verdadeira independentemente da experiência. No segundo caso, Terra" têm um sentido
" "
mas é muito duvidoso que tenham uma referência
,

acrescenta-se algo ainda não conhecido pela informação contida em a .

( ) Portanto, entender-se um sentido nunca assegura sua referência"


... .

Se a igualdade fosse determinada por aquilo a que os nomes "a" e "b" se enfatiza Frege (1978: 63).
" "

referem e se a sentença a = b for verdadeira, então "a = b" não poderia


" "
Se, à diferença entre sinais corresponde uma diferença no modo de
trazer mais nenhuma informação nova e seria equivalente a a = a Ora,
apresentação, no modo de designá-los o valor cognitivo de a = b será
.
" "

uma coisa é uma expressão ter a ver consigo mesma, e outra bem diversa
preenchido, ao passo que o valor cognitivo de a = a não o será. Frege
" "

é informar algum conteúdo cognitivo, isto é, algo mais acerca daquele "a",
" "
exemplifica como constando de diferentes conteúdos a designação do
como ocorre em a = b Se com esses sinais se pretende dizer que esses
ponto de interseção no triângulo retângulo, como ponto de interseção
.

nomes se referem à mesma coisa, estabelece-se uma relação entre esses


de "a" e "b" ou ponto de interseção de "b" e "c" Ambas as afirmações .

sinais. Por outro lado, essa relação só se manteria se eles nomeassem ou


contêm um conhecimento e um modo de apresentação diferentes mas ,

denotassem algo. Mas a relação entre nome e coisa nomeada é arbitrária, se referem ao mesmo e único ponto .

quer dizer, pode-se tomar qualquer evento arbitrariamente como sinal


Desse modo todo sinal contém não só aquilo a que ele refere ou
para qualquer coisa. Nesse caso, a expressão não referiria a nada e fica-se ,

apenas com o modo de designar, com a compreensão das expressões e significa (Bedeutung) mas também o sentido (Sinn), que é o modo de de-
,

não com a relação de referência. signação, o modo como algo é apresentado pela linguagem que passa a ,

ter aceitação comum , dadas as características públicas da linguagem.


Frege pretende mostrar que é perfeitamente possível designar, falar
acerca de algo sem que se precise necessariamente referir-se a esse algo, Frege afirma que "a referência de um nome próprio é o próprio
objeto que por seu intermédio (do nome) designamos (1978: 63). Há
"

ou seja, sem que esse algo precise de algum modo, "existir". Justamente
,

a linguagem é um meio de comunicação e de conhecimento (mais adian-


dois sentidos distintos nas expressões "Estrela da Manhã" e "Estrela da
Tarde" já a referência é uma só, o planeta Vénus. Pode-se conhecer ou
,

te mostraremos que sua função não é exclusivamente esta), pois enseja


" " compreender o sentido qual seja, o total de designações de um nome
transmissão e compreensão do sentido (Sinn), sem precisar recorrer à
,

próprio, mas a referência só pode ser conhecida mediatamente, pois di-


*
As traduções brasileiras para Sinn não variam, trata-se do sentido; já Bedeutung é traduzido ora
ficilmente um nome possui ou carrega toda a referência de que é capaz .

por referência, ora por significado. Usaremos referência. As sequências de sinais de uma língua deveriam ter sempre o mesmo
G4 GS
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO. VERDADE E REFERENCIA

sentido, se prevalecesse a hipótese pré-fregiana que não distinguia sentido um pensamento ou uma opinião verdadeiros e outro locutor pode estar
de referência. Porém, como bem viu Frege, o sentido varia conforme o sustentando um pensamento falso. A referência de uma sentença completa
contexto na mesma língua e também em línguas diferentes há expressões é o seu valor de verdade; pode acontecer que certas sentenças não tenham
diversas para o mesmo sentido. referência, caso de

Nessa perspectiva, Frege oferece uma teoria abstraía do sentido. O (4) Ulisses, profundamente adormecido, desembarcou em ítaca,
sentido funciona como um tipo de cálculo decifrador das expressões
mas possuam sentido, sejam compreensíveis, produzam um pensamento ,

linguísticas, como dissemos acima, o sentido tem a ver com o caráter


porém a questão de se têm ou não valor de verdade não se põe, uma vez
compartilhado da linguagem. Ele pode ser a propriedade de muitos sinais, "

que não há referência; o nome próprio Ulisses" que ocorre como sujeito
é o "tesouro comum dos pensamentos da humanidade", diz Frege (1978:
da sentença não possui referente de modo que não é possível atribuir a
,

65). A estabilidade da referência não assegura que o sentido da expressão


ele um predicado, explica Frege (1978).
permaneça o mesmo. Ao lado de sentido e referência, Frege introduz a
noção de representação, que, como vimos no início deste item, é subje- Em (4) basta o sentido da sentença o pensamento de que alguém
,

tiva, e inclui todas as associações ligadas ao sentido. As representações adormecido, personagem de uma narrativa desembarcou em ítaca, local
,

associadas a uma palavra costumam dificultar as traduções. Na poesia, na com tais e tais características. Mas há casos em que cabe preocupar-se com
literatura e na retórica, utilizam-se recursos relacionados às representações. o valor de verdade, sendo preciso ir além do sentido saber ou constatar
,

Apesar da variedade das representações, é possível transmitir mensagens se a sentença tem ou não valor de verdade se a sentença refere, portanto
,

que o leitor lerá de um modo o mais adequado e próximo da intenção se algo no universo possui ou não a propriedade ou atributo predicado
do poeta, escritor, retórico. do referente. Em caso de haver referência a sentença funciona como um
,

nome próprio e o valor de verdade é entendido por Frege como um


Os nomes próprios são sinais que exprimem um sentido e apontam ou ,

objeto algo suscetível de confirmação. Tanto que ao se substituir numa


denotam uma referência. O problema de saber se o nome próprio refere ,

passa a ser analisado por Frege como questão que diz respeito à capacidade sentença a ocorrência de um nome por outro com sentido diferente mas ,

com a mesma referência o valor de verdade da sentença não muda. Em


de representação dos pensamentos; são eles e não os nomes que podem ,

referir a estado de coisa através de proposições. Por isso é preciso analisar, (5) O governador do Paraná viajou a Brasília
além das expressões que formam as sentenças, as próprias sentenças. No (6) Jaime Lerner viajou a Brasília
caso das sentenças assertóricas (ou asserções) completas como
o valor de verdade global não variou O que permite conhecimento
.
, pro-
(3) A Estrela da Manhã é um corpo iluminado pelo sol, gresso, ciência, segundo Frege são as sentenças com pensamento (sentido
seu sentido é o pensamento. Observe-se que o pensamento não se liga a
-

Sinn) e com valor de verdade (referência - Bedeutung) Note-se que essa


.

uma consciência individual. Seu conteúdo permanece o mesmo, ainda que concepção de linguagem influenciou as teses verificacionistas de Carnap .

apreendido por indivíduos diferentes, em diferentes épocas. A substituição E possível no entanto, demonstrar que o valor de verdade muda.
,

da expressão "Estrela da Manhã" por "Estrela da Tarde" na sentença acima Russell mostrou , pelo paradoxo da denotação, que na substituição de
muda o pensamento, pois alguém que afirma (3) pode estar sustentando uma expressão por outra com a mesma referência, o valor de verdade
,

GG G7
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERÊNCIA
,

pode ser a falsidade, pode, portanto, mudar, como 110 caso de (7) que é Um problema provocado pela teoria abstrata do significado de Frege é
verdadeira e (8) que é falsa: postular um mundo platónico de conceitos. Outro problema é afirmar que
(7) George IV quis saber se Scott é o autor de Waverley a referência de uma sentença completa, direta (Bedeutung) seja o verdadeiro
,

(8) George IV quis saber se Scott é Scott ou o falso e que, quando não há referente, a asserção não tem valor de
verdade. Se essa solução traz vantagens para compreender a ficção ,
deixa a
Em (8) evidentemente George IV não estava interessado em saber a
desejar ao concluir que a referência de todas as sentenças verdadeiras deve
identidade de Scott e sim se ele havia escrito o poema Waverley.
ser a verdade e a de todas as sentenças falsas deve ser a falsidade (...) .
"

Russell soluciona este paradoxo com sua teoria das descrições defi- "

a circunstância de que 2+2=4' seja verdadeira não é a mesma pela qual ,

nidas, como veremos no próximo item. Já Frege responderia que com a '

pelo menos no sentido óbvio, Napoleão invadiu o Egito" é verdadeira" ,

" "

expressão autor de Waverley não é possível fazer referência no sentido afirma Simpson (1976: 143).
habitual, uma vez que se trata de sentenças subordinadas, caso em que
E sempre possível sustentar em resposta à questão acima, que o valor
,

se tem uma parte de um pensamento, portanto, não se põe a questão de


de verdade é apenas um objeto abstraio um postulado, como faz Frege.
,

sua referência direta, e sim de sua referência indireta.


Ainda assim permanece sem resposta o problema da ligação da relação ,

A concepção fregiana, que distingue sentido de referência, pode ser entre o sentido e a referência. O que assegura que aquilo a respeito de
usada, como bem viu Quine para desatar os nós do chamado problema
,
que se está falando seja reconhecível ou discriminável para ser objeto de
da barba de Platão, ou problema ontológico, sem precisar apelar para denotação com valor de verdade? As sentenças apenas afirmam verdade
entidades na cabeça dos homens e sem precisar apelar para mundos pos- ou falsidade? Frege responde que essas questões pertencem ao domínio
síveis apenas pela distinção entre significar (a expressão é significativa)
,
dos juízos. Eles é que são acerca de fatos do mundo No juízo há o .
,

e nomear (refere-se a algo, possui um referente). Pode-se falar a respeito reconhecimento de sua verdade , ao passo que nas sentenças há a
"

mera

de Pégaso, por exemplo, sem precisar supor que haja necessidade de um "

apreensão de um pensamento (Frege, 1978: 69). A sentença nada mais


referente, isto é, algum cavalo alado. faz do que analisar portanto, fornecer sentidos distintos e, se tiver uma
,

Assim, afirmar (1) assegura a compreensão de um sentido, mesmo referência, determinar ou denotar um valor de verdade .

que não tenha referência. A existência ou não de um rei atualmente A relação linguagem/realidade signo/objeto é um problema impe-
,

para a França é uma questão que concerne ao aspecto do significado ou


rioso para uma filosofia da linguagem que pretende explicar como pre-
referência (Bedeutung) e não diz respeito ao sentido (Sinn). Não há, pura encher uma sentença com valor de verdade Para a linguística de vertente
.

e simplesmente referência, portanto a questão do valor de verdade não estrutural


, para entender (1) basta a competência do falante. Mas sobra
precisa ser posta nem pressuposta.
a questão: acerca de que se está falando? Frege avança na solução desse
Assim, a dificuldade de afirmar sentenças de não ser, como (2), desapa- problema pela distinção entre sentido, referência e representação, mas
rece. As sentenças assertóricas que atribuem o predicado da não existência sua teoria abstrata do significado deixa aberto o problema pragmático .

não se tornam assignificativas, pois usar termos singulares não implica Pode-se argumentar que Frege não pode ser recriminado por ter anali-
" "

sado apenas as sentenças suscetíveis de carregar um pensamento e de


"

pressupor uma entidade nomeada pelo termo, ou como diz Quine, um


" " "

termo singular não precisa nomear para ser significante (1980: 222). poderem assumir um valor de verdade uma vez que sua abordagem é
,

G8 G9
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA
.

lógico-semântica. Epistemologicamente tem a vantagem de superar a tese problemas com a sua denotação. Essas expressões que parecem referir-se,
solipsista da representação da consciência, obra de um sujeito intencio- efetivamente não são usadas como nomes de algo , isto é, não servem para
nal, uma vez que a estrutura proposicional de Frege reporta-se a estados nomear. Elas contribuem para o sentido das sentenças sem que precisem
de coisa pensados e enunciados, portanto já no modelo linguístico, não denotar algo. Isto porque se trata de "símbolos incompletos" que devem
mais no limitado fruto de uma mente pensante. Em outras palavras, não desaparecer numa reformulação da sentença Sentenças como (1) não são
.

há pensamento sem linguagem. O valor cognitivo das expressões e das acerca de um tal e tal, pois não representam o sujeito lógico De modo .

sentenças não depende da referência, o que abre para a linguística e para que Russell distingue entre sujeito gramatical e sujeito lógico, com o que
REDUZ OS COMPROMISSOS ONTOLÓGICOS QUE SE DEVA TER POR RAZÕES SEMÂNTICAS Distin-
a filosofia da linguagem novas perspectivas para entender a relação entre .

significação, verdade e realidade. gue também entre expressões denotativas e os nomes próprios, pois, para
ser nome próprio, o significado deve ser o objeto que o nome próprio
denota, diversamente do que pensava Frege Russell reserva ao pronome
.

"

3 . A solução de Russell para o isto" o papel de legítimo nome próprio isto é, aquele cujo significado é
,

PROBLEMA DA DENOTAÇÃO o objeto que ele denota. Assim quando uma expressão é nome próprio,
,

denotar implica que há um indivíduo representado por "x" do qual se tem ,

No início deste capítulo, perguntávamos se é preciso que o nome o "

"
conhecimento direto. Há ainda uma terceira distinção entre expressões da ,

atual rei da França diga respeito a algo no mundo para não perder sua
forma ' o tal e tal" e seu predicado podendo as primeiras desaparecer na
,

cota de significado. Se tal rei não existe, de quem se está falando? Se não análise e ficar-se apenas com o predicado pois as afirmações existenciais
,

se está falando de nada ou de ninguém, não há significado? O ente precisa


não conduzem automaticamente à existência do objeto correspondente à
de algum modo ser ou existir para que haja referência? Sem referência descrição. Mas o que então, uma descrição definida descreve a fim de ter
,

não há significado? Conhecemos a resposta de Frege. sentido e ,


ao mesmo tempo, não precisar implicar a existência de algo?
A teoria das descrições definidas de Bertrand Russell é uma teoria rea- Descrições definidas fazem parte não do conhecimento de trato isto ,

lista. Ele propõe que o significado de um nome deve ser identificado ao é, do conhecimento direto do mundo objetivo mas do conhecimento ,

objeto que ele denota, o que pode ser interpretado como um retrocesso indireto, quer dizer conhecimento acerca de propriedades. A análise de
,

com relação à distinção sen tido/referência de Frege. O significado de (1) pertence a esta última categoria, que não afirma a existência ou não
uma expressão que ocupa o lugar de sujeito de uma sentença existencial do atual rei da França mas diz que:
,

precisa ser preenchido por um ente existente. Algo só pode ser referido
(a) Existe pelo menos um indivíduo que é rei da França
ou denotado se puder ser nomeado. Em seu influente artigo On Denoting
(b) Existe no máximo um indivíduo que é rei da França
(1905), onde estuda o problema da denotação e dá o exemplo (1), Rus-
(c) Se alguém é rei da França, então é calvo
sell sustenta que o significado É a denotação das expressões com sentido,
caracterizando uma teoria referencial do significado. Porém, as expressões As duas premissas iniciais (a) e (b), asseveram que entre os seres do
,

denotativas como "o atual rei da França" ou "o autor de Waverley", quan- universo existe um x tal que tem essas ou aquelas propriedades A sentença .

do ocupam a posição de sujeito em sentenças afirmativas completas, não (1) é verdadeira se, e somente se, existir um único indivíduo que é rei
se trata de sujeito lógico, mas sim de sujeito gramatical, que não implica da França e que recebe o atributo da calvície; se tal indivíduo não há , se

70 71
DO SIGNO AO DISCURSO
AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA
,

o universo não contém x algum com tal propriedade, a sentença é falsa


seja, se houver pelo menos um indivíduo com a característica mencionada
,

mas conserva toda a sua cota de inteligibilidade e significação, mesmo


"
| a sentença é verdadeira. No caso de o mundo não conter nada que seja
que não haja indivíduo algum que recaia sob o argumento ser rei da
I tal e tal (caso de "o atual rei da França"), a sentença é falsa. A questão
França". O sujeito gramatical desaparece, e a nova sentença contém só
"
f não é a existência ou não de "x", mas do sentido visado pela afirmação.
o predicado: é rei da França", que é uma afirmação existencial, porém
não leva à existência de um objeto correspondente à descrição. Proposi- Para Frege, a sentença (1) carece de denotação o valor de verdade ,

ções existenciais negativas como (2) permanecem com sua cota integral de sua referência não é preenchido, não cabe perguntar pela sua verdade
de significação. Afirmam "não é correto que existe um indivíduo , e so-
ou falsidade. Para Russell (1) é uma sentença falsa. Não há razões lógicas
'
"

mente um, que é rei do Brasil e não que tal rei não existe. Quer dizer, para a existência de tal entidade. '
ou entre os indivíduos do universo não há um que seja rei do Brasil ou ; Quanto ao caso de (7) e (8), não é mais preciso supor que a subs-
mais de um é rei do Brasil. Como a disjunção é verdadeira a sentença é
" "

, tituição de autor de Waverley por "Scott" altere o valor de verdade de


verdadeira. As expressões denotativas só têm significado na sentença. As (8) para falso, uma vez que as expressões "autor de Waverley" e "Scott"
descrições definidas são símbolos incompletos casos de função proposi-
,
são descrições definidas, símbolos incompletos e não nomes logicamente
" "
cional: x ser rei da França é uma função proposicional. Deverá haver
próprios, isto é, nomes de alguém. Portanto, não são empregadas para
um conjunto de objetos ou um objeto pelo menos que atribui valor de afirmar a existência de Scott nem do autor de Waverley Essas expressões .

verdade à variável x. Importa unicamente se x a variável, tem ou não


, apenas servem para descrever uma variável A sentença diz que "existe um
.

propriedade F. Como não há no mundo atual nenhuma variável a que se ; indivíduo e somente um, que é autor de Waverley, e George IV queria
possa atribuir a função, a sentença é falsa. A linguagem comum engana ao saber se esse indivíduo é Scott
"

fazer parecer necessário que haja o objeto denotado para que expressões
A relação obrigatória entre a linguagem e a realidade que ela denota ,

descritivas tenham significação. Quando se afirma "Sócrates é sábio" a ,

ou seja, o compromisso ontológico provocado pela linguagem dá-se apenas ,

leitura lógica da sentença é que "há um x tal que é sábio" tem-se uma
, "

pelo uso do pronome isto". O papel de nome próprio fica reservado por ,

função proposicional e não uma afirmação acerca de um ser de uma ,

Russell, aos empregos linguísticos de "isto" cujo uso implica nomeação e


,

substância com suas propriedades como pensa o senso comum.


é assegurado pela existência do objeto. Se não houver o objeto ou entidade
,

"

Em outras palavras a sentença Sócrates morreu envenenado por cicuta"


, denotada por meio de "isto" a sentença fica desprovida de significação.
,

é inteligível sem que se precise de um conhecimento direto do indivíduo


" "

Em suma, se x é nome próprio ,


x denota
significa que há um objeto
Sócrates. Como houve um x tal que foi um sábio grego, foi mestre de do qual se tem conhecimento direto representado por x .

Platão e morreu ingerindo cicuta etc. pode-se descrever este x de diversos


,

Wittgenstein discorda de Russell pois sustentar que o nome próprio


,

modos , sem que se esteja afirmando sua existência. Essas descrições são
precisa referir ao objeto para que a sentença denote faz a significação
do tipo "existe pelo menos um x tal que x é mestre de Platão e, todo
,

depender da existência de entidades ainda que restrita ao uso de nomes


,

objeto w que seja mestre de Platão é idêntico a x, e x morreu tomando


"
e não de descrições. Pensamos que expressões linguísticas em circuns-
veneno Afirma-se que há algo ou alguém com certas características. Se
tância alguma se tornam significativas ou perdem a significabilidade na
.

o mundo contém esse algo ou alguém se a extensão não for vazia, ou


dependência de uma relação com entes nomeados Também Strawson
,

.
,

72
73
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO. VERDADE E REFERÊNCIA

"

como adiante veremos, mas por outras razões, critica essa ligação. Segundo FATOS (g. m.) e não das coisas (1994: 135, § 1.1). Estas últimas sim são
Hacking (1999), Russell optou por uma teoria referencial do significado ,
atómicas. Por exemplo, uma mancha vermelha tem uma cor e à sua volta
sendo este privado. E a expressão significativa depende do conhecimento da o espaço das cores; o som tem uma altura; o objeto que se manipula tem
entidade representada. O que leva a um empirismo extremo. Wittgenstein uma dureza. O problema é como traduzir essa estrutura lógica do mundo
aponta em direções mais promissoras. em uma notação adequada. Só se pode fazê-lo quando se conhece a estru-
tura dos fatos. Daí que a sentença deve ter tantos dementeis quantos são
os elementos do fato que ela representa, ou seja para haver afirmação é
,

4 O PARALELISMO ENTRE LINGUAGEM E REALIDADE PARA


. preciso haver algo em comum entre a estrutura da sen.tcnça e a estrutura
Wittgenstein no Tractatus logicophilosophicus do fato. O objeto é simples, contém a possibilidade de todas as situações ,

é substância do mundo, forma fixa do mundo e por isso mesmo pode ser
,

No Tractatus, obra complexa e bastante controvertida - haja vista por ,

figurado como que num traçado. Cada objeto simples na realidade deve
exemplo, a leitura que dela fez Carnap, com sua tese da verificabilidade ,
ter um nome. Para falar sobre dois fatos são necessários dois nomes. Se
,

a leitura de Russell, e tantas outras -, Wittgenstein trata da essência da o fato é


"

A ser maior que B" há três elementos a serem representados,


,

linguagem e do mundo. A nós interessa a "teoria" da figuração que versa


, " "

e a forma lógica do fato será x R y .


Mas se os fatos estiverem combi-
sobre o paralelismo entre linguagem e mundo, um modo deveras peculiar nados sem os termos relacionais há apenas combinação de objetos, como
,

de abordar a referência e a significação.


o fato de um objeto estar por cima de outro; nesse caso basta a figura- ,

Os problemas filosóficos nascem do mau uso da linguagem declara,


ção da situação que exibe o fato dessa relação por elos. Se A e B forem
ele. Wittgenstein não se interessa por uma abordagem psicológica acerca entidades complexas cada uma com elementos formando um conjunto
,

da significação, nem por uma abordagem epistemológica da relação entre V (os elementos de A) e W (os elementos de B) a cada elemento de A ,

palavras ou sentenças e aquilo a que se referem ou significam, nem pelo uso corresponderá a um elemento de B. Os elementos do conjunto estão em
de sentenças para chegar às verdades da ciência. Seu problema é esclarecer correspondência um por um biunívoca.
,

" "

como um fato, do tipo sentença se relaciona com outro, de modo a ser


,

A linguagem é clarificada pelas notações lógicas que possibilitam a,

símbolo deste. A pergunta é sobre símbolos que têm sentido e suas condições
tradução de todas aquelas proposições que têm a estrutura do dizível do ,

de referência, isto é, sobre o significado desses símbolos. O significado de


afigurável do mundo que são os objetos em seu espaço lógico. Em outras
,

uma sentença provém do significado das palavras que a compõem.


palavras, o mundo é afigurado por um conjunto de fatos que se dão num
O mundo é o conjunto dos estados de coisa que é tudo o que ocor-
,
espaço lógico onde se combinam objetos simples formando a substância
re. O objeto só pode se dar em sua ligação com estado de coisa mas , do mundo fixando-o em colorido, espacial, temporal etc. Cada figuração
,

apenas se a coisa aparecer neste espaço dos estados do mundo. O mundo dos fatos no espaço lógico é um modelo de realidade como se fosse uma ,

compõe-se destes objetos, que sendo os constituintes simples do mundo,


,
escala aplicada à realidade. Os elementos são coordenados na figuração de
podem ser nomeados. modo a poderem ser ligados ao que é afigurado Desse modo os objetos
.
,

Os fatos do mundo não são atómicos como quer Russell eles são rela-
,
são representados de modo verdadeiro ou falso através da forma lógica ,

" "

cionais, possuem uma estrutura, quer dizer ,


"

o mundo é a totalidade dos que é a ponte entre o que é figurado e a afiguração. Esse é o sentido

n 7S
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA
,

" "

da proposição, que será verdadeira ou falsa conforme concorde ou não geral é tal e tal é o caso Tautologias são as proposições verdadeiras
.

"
com a realidade. Na concordância ou discordância de seu sentido com cujos argumentos sempre as verificam. Assim: os limites de verdade de q
" "

" " "


a realidade consiste sua verdade ou falsidade , afirma Wittgenstein, e em estão contidos nos de p Já "p a ~ p" é uma contradição. As contradi-
.

"

seguida completa: Para reconhecer se a figuração é verdadeira ou falsa, ções e as tautologias não possuem condições de verdade, não são a rigor
devemos compará-la com a realidade (...) Uma figuração verdadeira a proposições, não determinam nenhuma realidade, são vazias de sentido.
"

priori não existe (1994: 147, §§ 2.222; 2.223; 2.22S).


O mundo é essa totalidade dos estado de coisa que existem Os fatos .

As proposições limitam-se a descrever como a coisa é e não o que concatenam objetos simples os chamados estado de coisa, os que existem
,

ela é. Wittgenstein não deriva da lógica uma ontologia, como alguns o e os que não existem determinados pelos primeiros. A proposição com
,

interpretam. "Como as coisas são, a lógica pode dizê-lo: os limites de mi- sentido é aquela que representa estado de coisa que existem A afirmação .

"

nha linguagem significam os limites de meu mundo (1994: 24, § 5.6), só se dá se houver uma projeção que é o que ela tem em comum com
,

uma das mais famosas proposições do Tractatus, que completa esta outra: o fato. Os fatos são representados isto é, figurados no espaço lógico.
,

" "

(...) não seríamos capazes de dizer como pareceria um mundo ilógico," Figuram-se os fatos, e essa figuração é um modelo de realidade pois os ,

(1994: 147, § 3031). objetos da realidade correspondem aos elementos da figuração O fato é .

Assim, a análise da linguagem restringe-se às proposições que figuram


uma figuração, e o afigurado é o elemento da realidade entre eles o que ,

"

projetivamente os fatos" num espaço lógico, e o dizível limita-se às pro- há de comum é a forma de afigurar. No parágrafo 2 171 Wittgenstein .
,

posições com função de verdade. A linguagem que diz os fatos do mundo exemplifica: a figuração espacial afigura o que é espacial a colorida o que ,

precisa funcionar como um cálculo formal da essência do real. Os fatos é colorido. Há toda uma simbologia para figurar logicamente um fato O .

possuem uma estrutura relacional que Wittgenstein tenta traduzir através mundo é pensável porque pressupõe o espaço lógico a figuração repre- ,

de uma notação adequada como no exemplo acima, no fato A ser maior


,
"
senta uma situação possível no espaço lógico formado pela totalidade dos
,

"

que B há três elementos a serem representados, sua forma lógica é "x R


,
objetos, limite do mundo e da linguagem determinando reciprocamente
,

y
"

.
A proposição mostra exibe, em sua estrutura, a estrutura do mundo,
,
o que pode existir e o que se pode pensar. O mundo consta de objetos
" "

pensável ou representável pelo discurso. simples que requerem descrição em termos de proposições atómicas cuja ,

combinação é regrada por cálculos inferenciais Por exemplo se p se segue .


,

A proposição leva à realidade descreve-a, comunica um novo sentido,


,

de q, o significado de p está contido no de q Quando se aplica a nega- .

estando, portanto, essencialmente conectada com o estado de coisa, mas


ção sobre a proposição p, obtém-se não p. Através de tabelas de verdade,
só se ela for capaz de afigurá-lo.
evidenciam-se as condições de verdade de uma proposição cujo sentido ,

Os objetos são representados por signos cada signo nomeia algo e os


, depende de seus constituintes que precisam ser analisados, a fim de que
,

nomeados são conectados como uma pintura viva que apresenta o fato a própria proposição o seja. Obter-se uma proposição analisada significa
"
atómico. A possibilidade das proposições está baseada no princípio da que se chegou a seus elementos últimos, os nomes, que são nomes do
"

representação de objetos por signos (1994: 13, § 40 312). simples cujo sentido é determinável.
,

"

Proposições são por exemplo, f x" ; "V(x, y)". Se todas as proposi-


, A lógica "preenche" o mundo: os limites do mundo são também os
ções forem especificadas, o mundo terá uma descrição completa, sua forma limites da lógica o que não pode ser dito não pode ser pensado. Se dis-
,

7G 77
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA
,

"

isto é assim ou não no mundo estaria excluindo possibilidades,


"

sesse ,
ca Lopes dos Santos (1994: 66) Ou, nas palavras de Hottois como a .

,
"

quer dizer, estaria extrapolando os limites do mundo. Algo se dar ou proposição mantém essencialmente uma relação com a realidade, com os
não no mundo é contingente. Chover ou fazer sol amanhã em Curitiba fatos" (1976: 18), essa relação é o critério de verdade Primeiramente a .

é contingente. Já a proposição que projeta "chove no dia tal, no instante proposição é imagem, figuração, estrutura, e por isso, pode, em seguida,
"

tal, no lugar tal projeta um estado de coisa, que pode ser figurado no dizer algo possível da realidade Se esta contém esse algo .

,
isso torna a

espaço lógico. proposição verdadeira, do contrário, será falsa. A proposiçãb figura o que
ela representa diz e mostra as condições desse dizer podendo ser uma
A verdade ou falsidade das proposições não lógicas não pode ser
,
,

figuração lógica correta ou incorreta do real Não é mera sequência sonora


reconhecida nas proposições tomadas isoladamente, caso das ciências
.

devido à sua relação representativa pela qual um fato possível projeta-se


naturais. Já as proposições lógicas têm propriedades formais, estruturais, ,

num fato proposicional sendo essa projeção o pensamento ou sentido A


necessárias, reconhecíveis pela simples inspeção. Temos assim que a lógica
,
.

linguagem precisa funcionar como um cálculo formal da essência real da


dá a estrutura do mundo: tudo o que pode ser afigurado é fato lógico.
linguagem constituída pelas proposições, cujo sentido não depende da
,

Para haver identidade de estrutura entre uma sentença e um fato, verdade ou falsidade pois conhecer o sentido ainda não é conhecer as
,

ambos devem possuir o mesmo número de elementos, sem implicar o condições de verdade No caso de (1) a proposição é falsa, mas, justa-
.

valor de verdade da sentença, apenas mostrando a possibilidade de fazer mente, projeta algo no espaço lógico é "pensável", tem sentido. O mundo ,

o número e a posição de elementos da sentença corresponderem com o não contém os elementos que a proposição afigura porquanto afirmar a ,

número e a posição de objetos possíveis nos fatos. O sentido da sentença existência do atual rei da França numa proposição que figura o estado de
independe de ela ser verdadeira ou falsa, quer dizer, a própria figuração coisa é projetar um fato que não encontra correspondência na realidade .

figurando um sentido ainda não diz nada sobre a verdade ou falsidade,


sobre a discordância ou não com o estado de coisa, pois se pode primeiro
Não se deve entender a proposição como uma imagem do tipo cópia,
isto é, colada à realidade
puramente reflexiva, mas uma imagem de tipo
,

pensar um estado de coisa, figurá-lo, e só depois verificá-lo. Para Witt-


diagramático que arranja projetivamente, dispõe convencionalmente os
,

genstein, há elementos na realidade, nos fatos, que podem ser estruturados


elementos da proposição e do fato a ser nela projetado Há um traçado
para ser pensados e representados pelo discurso. Não é preciso sair da
.
,

uma forma de afiguração uma regra ou lei de projeção entre a proposição


,

relação figurativa para entender a possibilidade de referir. Ela está dada


e a realidade figurada. Portanto não se trata de um retrato ou representação
,

no paralelismo linguagem/mundo. A linguagem só pode falar de certas fiel da realidade ou com semelhança natural com ela. O sentido de uma
,

coisas, pois o dizível limita-se às proposições com função de verdade,


PROPOSIÇÃO NÃO É ADEQUAÇÃO ÀS COISAS MAS A POSSIBILIDADE DE TRAÇAR PROJETIVAMENTE
,

portanto, ao que é verdadeiro ou falso, conforme a adequação ou não aos


O QUE É ESSENCIAL AO MUNDO PARA QUE SE POSSA FALAR DELE COM SENTIDO Entre
fatos. O que dá sentido ao enunciado é ele poder representar a realidade,
.

a tradução e o traduzido ,
há uma equivalência lógica e não psicológica.
e seu valor de verdade depende de o nome que compõe a proposição
Portanto compreende-se mal Wittgenstein quando a ele se atribui
estar numa posição que signifique a posição do nome no fato possível ,

"

afigurado. Se essa possibilidade se realiza, a figuração é verdadeira; se ela a tese da correspondência especular e direta entre proposição e fatos A .

não se realiza, é falsa. Se ela não existe, não há nada para ser associado proposição precisa ter um sentido, se é verdadeira ou falsa é contingente.
por meio de uma interpretação e, portanto, não há interpretação expli-
"

,
Conforme explica Hottois ,

78 79
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS; SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA
,

) uma proposição deve essencialmente corresponder a uma combinação


"

( ... suscetível de teste. (...) um nome toma o lugar de uma coisa , um outro

possível de nomes e ser a imagem de um fato possível (ou de uma combinação o de outra coisa, estão ligados entre si e assim o todo representa, como
,

possível de objetos). Os fatos serem reais ou não é acessório, bem como o num quadro vivo, o estado de coisa
"

(1994: 13, § 4.0311). O que liga


reconhecimento das proposições como verdadeiras ou falsas. Em outras pala-
uma proposição à realidade não são os nomes pois a relação se dá entre,

vras, o único requisito não linguístico absolutamente necessário da essência


a proposição e a realidade ou estado de coisa figurado e não simplesmente
da linguagem (...) é o da possibilidade ontológica dos fatos (1976: 35).
entre nome e coisa nomeada. A linguagem espelha o muíido e a partir ,

Como Wittgenstein analisaria (1)? Diria que descreve uma possibilidade dela, os constituintes últimos da realidade podem ser inferidos .

"

ontológica dos fatos, um fato descritível", possível. Wittgenstein diria que


Há um paralelismo entre linguagem e realidade as coisas devem ser assim ,

a proposição (1) figura um fato, porém o estado de coisa projetado pela


no mundo e isso é a linguagem quem diz Os fatos só podem ser ditos se
.

proposição não encontra correspondente na realidade. Assim (1) confi-


puderem ser formulados de forma lógica, do contrário não são pensáveis.
gura um fato possível, por isso tem sentido, mas é uma proposição falsa.
Devido ao paralelismo entre linguagem e mundo a relação de referência é ,

Note-se que para Wittgenstein, no Tractatus, a relação entre significação ou


assegurada sempre que for o caso de haver um modo possível de afiguração
sentido, de um lado, e entre referência ou significado de outro (tal como
.

na distinção fregiana), pretende mostrar os limites do pensável, que são A relação entre nome e coisa nomeada não é direta .
O nome refere-

os limites rígidos das formas lógicas das proposições. -

se ao objeto o objeto porta um nome, mas só enquanto pertencente a


,

uma proposição ,
isto é, o nome só é nome como requisito da própria
A proposição figura logicamente o mundo pelo pensamento, coisa
estrutura, sua função está imbricada à função da relação O nome requer .

que a linguagem ordinária não logra fazer, pois suas proposições não são
" o objeto que precisa estar em uma relação com o que é nomeável desse
analisadas, isto é, suas proposições (se é que se podem chamar de propo-
" mesmo objeto quer dizer, deve ser localizável em meio a fatos, possibilitar
,

sições ) não projetam o fato. A linguagem proposicional afigura, estrutura


combinações estar sujeito a uma certa estabilidade.
,

o espaço que a linguagem representará, reproduzindo a forma do fato


que vem nela (proposição) projetado. A configuração dos objetos é, como Dada a totalidade dos objetos no espaço lógico a experiência dirá ,

dissemos encadeada no estado de coisa, cuja estrutura é o modo como


, quais possibilidades deste espaço se realizam. O pensamento projetado
eles se vinculam. O pensamento reconhece o paralelismo da estrutura do dá forma e sentido às proposições empíricas; estas diferentemente das ,

mundo com a sua estrutura enquanto pensamento do mundo através das proposições lógicas (que são ou tautologias ou contradições), têm sentido.
projeções figurativas. O pensamento se expressa na proposição cujos sinais Mas as proposições lógicas e matemáticas compõem a representação do
são usados para projetar uma situação possível. Os nomes que a compõem mundo, entram na elaboração das proposições empíricas A combinação .

substituem o objeto. Eles só têm significado na proposição. As proposições entre linguagem e realidade empírica torna o mundo pensável Já a fi- .

são modelos, figurações da realidade tal como pensamos que seja, afirma losofia, que se ocupa da estrutura essencial do mundo não pode dizer ,

Wittgenstein (§ 4.01) e pela projeção a proposição mostra como estão as isso , pois só a proposição em sua projeção figurativa diz os fatos: só o
coisas. Se ela for verdadeira diz que as coisas estão assim. A realidade con- que ocorre pode ser dito.
firma ou não as proposições, elas devem descrever inteiramente a realidade, Wittgenstein põe os valores éticos religiosos, estéticos num mundo
,

o estado de coisa, constituindo, assim, um mundo lógico, uma situação à parte não há proposições para falar da vida, do mistério de o mundo
,

80 81
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-
V
-

DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA


,

existir. Como não se pode figurá-los projetivamente, é melhor calar. Como um laço de necessidade com o referente. Mas sob outro ângulo ,
ele evita
os acontecimentos do mundo podem ou não ser, o mundo não contém o essencialismo, isto é, mesmo havendo uma rigidez referencial , isso não
valores, esses não podem ficar ao sabor das circunstâncias. De forma que significa que alguém esteja descrevendo ou dando a essência de algo ao
o sentido do mundo, isto é, que o mundo seja (e não como o mundo é, fazer a referência, ao nomear.
sua constituição), deve ser buscado fora do mundo. Como Wittgenstein
A questão para Kripke é por exemplo, a que está por detrás do seguin-
,

circunscreve a linguagem às proposições cuja função é figurar o mundo,


te problema: de que se está a falar quando se fala de genes ,
se o modo
os valores éticos, religiosos, estéticos não pertencem ao mundo figurável.
como o cientista ou o especialista entendem gene mudou? É preciso um
Essa intrigante perspectiva do Wittgenstein I foi explorada pelas teses designador rígido do tipo nome próprio, que permaneça designando tal
,

"

neoposi tivistas, que interpretaram o logicismo metafísico" de Wittgens- ser como


" "

gene em todos os mundos possíveis Já as descrições definidas


.

tein como critério para delimitar a ciência e a não ciência. Ciência, para servem a indivíduos diversos em diversos mundos possíveis .

Carnap, é o conjunto dos enunciados com sentido, porque suscetíveis de


Problemas acerca da essência e da necessidade (num momento em que
verificação devido a suas proposições assertóricas serem sobre o mundo
,

a filosofia da linguagem e a filosofia da mente ressaltam a pura contingên-


dos fatos. Tudo o que não pode ser formulável empiricamente não tem
cia da linguagem) são novamente focalizados por Kripke especialmente ,

sentido (metafísica, ética, religião etc.). Outro problema, detectado pelo


por sua proposta de um designador rígido, isto é, de uma expressão
próprio Wittgenstein em escritos posteriores ao Tractatus, foi o de pressupor
que conserva a referência mesmo sob a variação em mundos possíveis
que a linguagem limita-se às proposições que figuram fatos do mundo.
Acreditamos que o Wittgenstein II provocou uma mudança de paradigma,
que serviriam de parâmetro para avaliar sentenças modais. Assim é que
os nomes de espécies têm sua referência relacionada com o ambiente A
uma verdadeira revolução no sentido kuhniano, cujas repercussões não
.

referência não depende para Kripke, de crenças ou de capacidades do


se esgotaram, como veremos no próximo capítulo. O paradigma lógico- ,

"

usuário. Kripke acha que não se deve psicologizar a questão. O estado


"

proposicional dará vez ao paradigma linguístico-comportamental.


mental do indivíduo só é relevante quando for o caso de considerar sua
relação com a comunidade Pode ocorrer que toda a comunidade do fa-
.

5 Kripke e a rigidez referencial lante ignore a quem ou a que ele está se referindo ,
ainda assim o nome
.

não deixa de ter um referente definido .

Em Naming and Necessity Kripke apresenta uma perspectiva bastante sur-


,

A teoria causal da referência diz que os nomes próprios e os termos


preendente das atuais abordagens da linguagem, que são cada vez menos
de espécies naturais não são meras descrições definidas mas designadores
essencialistas, pois a questão de se a referência estabelece um laço da lin- ,

guagem com algo (objeto, ente em si, um ser no mundo) independente rígidos, cuja referência se mantém em todos os mundos possíveis .

daquele que o conhece cede lugar agora à discussão sobre a linguagem e Kripke nega o modelo descritivista e também a teoria causal pois ,

seus usuários. Sob alguns aspectos Kripke representa um retorno à me-


, o falante pode referir-se a um indivíduo asserindo algo de verdadeiro
tafísica pelo modo como entende a questão da referência a entes dos/ acerca dele sem poder fornecer uma descrição que caiba unicamente a
,

nos mundos, inclusive mundos possíveis, em que ser nome de algo não esse indivíduo. Para Kripke pode-se, por meio de intuições, avaliar as
,

se limita à função de uma cómoda etiqueta descritiva. Nomear implica propriedades necessárias de um referente. Explica Kripke:
82 83
DO SIGNO HO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA
.

Quando digo que um designador é rígido e designa a mesma coisa em todos


"

Jonas" são muito provavelmente falsas, e mesmo não se conhecendo muito


os mundos possíveis, quero dizer, tal como usado em nossa linguagem, que ele a respeito de Jonas ainda assim há a referência a um profeta determinado
,
.

está para a coisa, quando nós falamos, apoiado em situações contrafactuais. Não
Parece falso pensar que nos damos algumas propriedades que de algum modo
quero dizer, naturalmente, que não deva haver situações contrafactuais em que,
qualitativamente escolhem unicamente um objeto e assim determinamos a
em outros mundos possíveis, pessoas possam realmente falar uma linguagem
'
nossa referência.

(...) Pretendo apresentar um quadro melhor sem dar um


diferente. Não dizemos que ,dois mais dois são igual a quatro é contingente
'

porque as pessoas podem falar uma linguagem em que dois mais dois igual
conjunto de condições necessárias e suficientes para a referencia Tais condi- .

a quatro querem dizer que sete também é. (...) Usamos inglês com nossos
> ções seriam bem complicadas, mas o que é verdade é que é devido à nossa
conexão com outros falantes na comunidade recuando ao próprio referente
significados e nossas referências. Neste sentido é que falo de um designador ,

J
.
,

rígido como o que tem a mesma referência em todos os mundos possíveis. Não que nos referimos a certo homem (Kripke, 1991: 94).
significa implicar que a coisa designada exista em todos os mundos possíveis, Pode haver casos em que o nome caiba a um único referente que satisfaz
"

e sim que o nome refere-se rigidamente àquela coisa. Se você diz suponha certas propriedades identificadoras Mas a teoria das descrições definidas
.

que Hider nunca tenha nascido então Hitler' refere aqui, ainda rigidamente,
> '

que se aplica a casos em que se podem identificar propriedades do refe-


,

algo que nunca existiu na situação contrafactual (1993: 77-78).


rente, não dá conta do caso de se encontrar alguém ficar sabendo de seu ,

Para haver referência, um objeto ou indivíduo devem satisfazer certas "

nome e aplicar a ele a descrição o cara que acabei de conhecer "

, pois
propriedades, mas se não houver nenhum objeto satisfazendo tais proprie-
a referência depende não só do que pensamos mas de outras pessoas da ,

dades, ainda assim é possível ter falsas crenças que são verdadeiras acerca
comunidade, da história de como o nome adquiriu um referente ( ) É ...

de absolutamente nenhum objeto. Para especialistas na Bíblia, exemplifica


seguindo tal história que se chega à referência (1991: 95) .

Kripke, Jonas existiu, sem que eles precisem crer que uma pessoa tenha sido
engolida por uma baleia ou ido a Nínive pregar. Essas condições podem O significado de um nome provém de seu referente e não de um
conteúdo descritivo.
não ser satisfeitas, pode ser que isso não tenha ocorrido com ninguém,
o que não impede que o nome Jonas' realmente tenha um referente. O
'

As condições de referência para o nome de alguém famoso por exem- ,

falante não precisa crer a priori na existência daquilo que a expressão no- plo, diferem das condições para o nome de alguém comum. Por isso é
meia para saber que o objeto terá aquelas propriedades e, deste modo a complicado oferecer um quadro de condições necessárias e suficientes .

afirmação irá expressar uma verdade necessária. Segundo Burge, A mostração ou descrição de algo fornece pistas para "batizar" o objeto .

implícita no exemplo há uma avaliação positiva de como a referência dos A descrição não fornece sinónimos ela fixa a referência. Muitas vezes a
,

nomes é fixada. A referência parece depender de relações entre o falante e descrição da teoria das descrições como o preceptor de Alexandre para
,
"
"

seu ambiente social e físico, que são mais bem compreendidos não pela Aristóteles não é apta para a descrição comum
,
que depende de outros ,

investigação do repertório mental do falante, mas investigando a cadeia de tipos de relações com o nome pois a pessoa aprende a usar o nome com
,

circunstâncias que leva à aquisição ou apresenta o uso do nome pelo falante. a mesma referência daquele que o emprega Há assim um batismo inicial
.

Essas relações envolvem um misto de elementos causais e intencionais e in-


seguido de uma sequência de usos do nome nas quais presumivelmente
cluem a confiança dessa pessoa em outras, para fixar um referente (1992: 24).
os usuários conservam os referentes dos usos daqueles que ensinaram que
Kripke acredita que o quadro geral de discussão sobre a determinação da tal nome tem tal uso porque se refere a tal objeto mesmo que a cadeia ,

referência está errado em seus fundamentos. As descrições associadas ao nome de descrições sofra alterações .

81 8S
DO SIGNO AO DISCURSO
AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA
,

Com essas observações, Kripke pretende mostrar que a referência pode vou o conceito de referência de propriedades essenciais das coisas levan- ,,

ser introduzida de vários modos, como descrição, ostensão, explanações


do a crer que uma compreensão adequada do modo como a linguagem
mais ou menos apropriadas. As afirmações de identidade podem ser feitas funciona esteja em dependência de assumir algo acerca da natureza do
através de descrições, mas elas não se prestam para marcar necessariamente mundo sobre o qual fala a linguagem ou seja, pode-se indagar sobre as
,

um único indivíduo. A referência de um nome não é determinada por


essências das coisas independentemente de noções sobre regras semânticas
marcas identificadoras únicas, que nem precisam ser verdadeiras unica- que permitem a referência a coisas.
mente para o referente, pois podem ser aplicadas a outra referência ou
Ainda segundo Stalnaker há três questões envolvidas nessa matéria:
a nada. Por ser membro de uma comunidade, um falante usa o nome,
,

mesmo que suas noções sobre o seu referente sejam falsas. A referência a) uma teoria semântica que assinala valores às expressões que, ao
identificadora não dá um sinónimo, ela fixa uma referência através de interpretá-las assinalam intensão a nomes e predicados;
,

marcas contingentes do objeto. Afirma Kripke, b) o problema de um nome próprio numa comunidade linguística ter
dado valor semântico;
o nome que denota esse objeto é usado para referir-se àquele objeto, ainda
que se possa estar referindo a situações contrafactuais em que o objeto não c) como funcionam as coisas que estão no domínio da matéria ou
tenha as propriedades em questão (1991: 107). assunto de uma linguagem quer dizer, o que precisa ser verdadeiro
,

No caso de haver verdadeira identidade entre nomes, ela o será neces- nas coisas para que elas possam ser referentes de nomes próprios.

sariamente, mesmo que não se saiba disso a priori, mas somente a posteriori. Para Kripke o valor semântico de um nome não é um conceito ex-
,

Ainda que as propriedades identificadoras para ouro, por exemplo, possam presso por uma descrição definida, mas o referente mesmo. Ele discorda
ser contingentes, o ouro possui a propriedade de metal e número atómico da posição de Stalnaker (1999; 536) ,
para quem
79. Se fossem encontradas piritas de ferro que se confundem com ouro, "

(...) o valor semântico do nome - seu sentido ou conotação - determina


nem por isso o ouro deixará de ser reconhecido como tal, seu número um referente para o nome como sendo uma função dos fatos : o referente ,

atómico sendo necessário. A água ser HzO é uma descoberta. Antes ela se há um é o único indivíduo que satisfaz o conceito.
,

era identificada por sua aparência e talvez gosto. No caso de haver uma
Quanto à segunda questão, o referente é referente do nome devido
substância parecida com água, mas com outro número atómico, não se " "
a uma conexão causal de um tipo particular entre o uso do nome e o
vai dizer que há tuna água que não é de fato HzO.
referente que é o objeto ou indivíduo que cabe na explanação dele, porque
Ao propor que a identificação teorética envolve o conceito paradoxal é esse nome que está sendo usado nesse contexto e desse modo .
O falante
de necessário a posteriori, Kripke, entre outras consequências, está querendo sabe e pode descrever ou identificar dado indivíduo . Esse conhecimento
dizer que há uma relação entre nomear, que é linguística, e necessidade, provém de o usuário pertencer a uma comunidade de falantes.
que é um conceito metafísico.
Com relação ao modo como as coisas podem se tornar referentes ,

Mas não embaralha uma questão com a outra. Segundo Stalnaker, Kripke diz que elas estão dispostas de modo tal no mundo que, inde-
Kripke teve o mérito de separar as questões linguísticas das metafísicas, pendentemente da maneira de referir-se a elas, possuem características
discordando da maioria dos intérpretes de Kripke para os quais este deri-
potenciais acima ou abaixo daquilo que os filósofos geralmente supõem .

8G
87
AS SENTENÇAS: SIGNI1ICACA0 VERDADE E REFERENCIA
DO SIGNO AO DISCURSO ,

Pela concepção modal de Kripke, um indivíduo é conceptualmente sepa- mundos possíveis ajuda a propor alternativas metafísicas e a prevenir
rável de suas propriedades, mas não é simplesmente um particular vazio, contra a tentação de misturar os dois tipos de problemas Cada indivíduo .

pois pode ter propriedades diversas das que tem. Shakespeare realmente poderia ser diferente. Shakespeare não precisaria ter sido dramaturgo ,

nem ter escrito nada poderia ter morrido cedo e nem se ter chamado
escreveu peças, mas poderia não tê-las escrito, não é essencial a alguém ,

Shakespeare. Mas é impossível se existiu, que não tenha sido humano O


escrever peças de teatro.
,
.

interessante é que Kripke envereda por esse tipo de problemas sem propor
As questões sobre essência não dizem nada sobre o nome ou a refe- uma teoria para resolvê-los apenas usando o aparato metodológico dos
,

rência, conforme explica Stalnaker, "

mundos possíveis
"

'
,
que, para muitos filósofos, é um recurso ilegítimo.
mas colocando-as estou usando um nome próprio Shakespeare,, então o Mas, ao supor esses mundos ele não está afirmando sua existência
, .
A hi-
conteúdo do que digo sobre possibilidades contrafactuns deve ser visto como pótese do discurso modal tem se revelado produtiva nas discussões acerca
'

dependente da semântica dos nomes. Se Shakespeare' fosse uma abreviação da referência e da necessidade .

para uma descrição definida, como argumentou Russell, então a afirmação


Em suma o valor semântico dos nomes é seu referente Nomes são
de que Shakespeare poderia não ter escrito peças e sua paráfrase, de que , .

há um mundo possível em que Shakespeare pode não tê-las escrito, seriam empregados em expressões usadas em atos de fala que informam e dis-
ambíguas (1999: 550). criminam possibilidades Sem atribuir valores semânticos às partes da
.

"

não
sentença ,
isto é, saber como o mundo deve ser para que o que está sendo
A paráfrase para Shakespeare: o famoso dramaturgo elisabetano
"

dito na elocução seja verdadeiro não há compreensão do que foi dito.


,

pode ser paráfrase para o caso de Shakespeare poder não ter escrito peças.
Não basta descrever, mas se for o caso de nomear, é preciso pressupor Certas possibilidades (que são as condições de verdade) precisam ocorrer
para tornar uma afirmação verdadeira. As condições de verdade de uma
necessariamente tal objeto. Por isso nomear e a necessidade com relação
sentença dependem do valor semântico de seus constituintes Dar o valor
ao referente são codeterminantes.
.

semântico de um nome próprio é mostrar sua contribuição para as con-


Kripke acha que as teses sobre indivíduos e suas propriedades são dições de verdade das sentenças que o contêm .

independentes de teses sobre nome e referência, mas o modo como a


Mas, como veremos no próximo capítulo há quem discorde. Searle,
referência dos nomes é determinada pode ser reconciliado com sua teoria
,

por exemplo, diz que não há como determinar que dada expressão se
metafísica dos mundos possíveis, pois
refira a dado objeto sem ser particularizado de modo definitivo. A lin-
o conteúdo dos atos de fala e das atitudes mentais pode ser determinado
guagem que se fala tem uma semântica e é em função dela que algo é
como uma função de coisas particulares (e espécies) com as quais falantes dito ou comunicado na enunciação de uma expressão referencial, sujeita
e pensantes interagem. Quaisquer que sejam as pressuposições metafísicas
às capacidades dos falantes em explicar como e por que expressões usadas
de alguém, é ponto pacífico que o modo como o conteúdo e a referência
para referir têm aqueles determinados referentes. Ao lado do referente
são determinados por fatos será dependente de contexto e influenciada por ,

entram capacidades comportamentos, estados mentais, para que o nome


crenças gerais, propósitos e assunções (Stalnaker, 1999: 553).
,

tenha dado referente .

Stalnaker conclui que as questões metafísicas e semânticas não podem


ser mantidas inteiramente separadas, pois se juntas as teses são proble- A teoria causal da referência é inadequada por pressupor um indivíduo
como referente cujo papel precisa ser especificado por uma conexão causal
máticas, fica a dúvida sobre qual provoca problemas. Daí que a tese dos
,

QQ
DO SIGNO AO DISCURSO
AS SENTENÇAS: SICNIEICAÇAO VERDADE E REFERENCIA
,

necessária e suficiente. Como Kripke rejeita essa teoria, pode-se dizer que em conta, e não que o mundo as contenha pura e simplesmente ,
em si,
ele apresenta um quadro para a discussão e não uma regra rígida. Como a priori. Objetos não são um substrato por detrás de propriedades e qua-
o valor semântico depende dos fatos e de suas respectivas extensões, a lidades, nem um conjunto de qualidades. E fixar a referência não implica
relação entre o referente e o nome ou designador não é obrigatória, do um paralelismo palavra/objeto, inclusive porque a fixação para Kripke
tipo um por um. pode-se dar a posteriori, sendo possível a revisão e a reformulação em caso
Para Kripke, a referência não é um tipo de descrição. Há compromissos ,
de mudanças teóricas, culturais ou comportamentais. / '
é preciso levar em conta que a comunidade de falantes sabe do que está Mas Kripke tropeça na dificuldade de escolher o que exatamente no
a falar. E possível especificar um valor semântico sem saber que proposi- referente o prende a um designador: se é preciso um designador rígido
ção foi expressa, pois compreender o que uma proposição descreve não na relação nome/nomeado a fim de atribuir nome a um referente, e se
,

leva a conhecer o indivíduo referido. O que leva à pergunta, mas o que isso se dá através de uma cadeia causal não será algo como a essência
,

É conhecer aquilo a que se está referindo? Kripke, ao contrário de Frege, que é requerido? Pensamos que a própria categoria de ser referente de
considera a pergunta fundacional acerca da semântica, isto é, como o algo é uma escolha (não arbitrária) e só ocorre por um signo que o in-
nome tem o referente que tem, correlato ao conteúdo do pensamento ou terpreta como tal em função de certos propósitos e necessidades e não ,

intenção que aplica conceitos a indivíduos, como ligada à cadeia histórica a partir de uma relação fixa entre o nome e o nomeado ou pelo menos, ,

de determinações, ao "batismo" que mencionamos acima, e não aos esta- que fixe o referente.
dos mentais ou capacidades dos falantes. Kripke critica Frege, mostrando A referência só é problema e problema central para a linguística e para
,

"

que Estrela da Manhã" e "Estrela da Tarde" têm cada uma um referente ,


a filosofia da linguagem no quadro teórico pré-Wittgenstein II, em que
,

não são descrições. a referência é a pedra de toque das sentenças assertóricas cuja função é ,

Segundo Stalnaker, Kripke dá conta da capacidade de identificar, re- proposicional. E preciso alçar ao patamar seguinte, o da pragmática, em
ferir e ter intenção de referir, mesmo se não for possível descrever ou que a função proposicional é apenas uma entre as funções da linguagem,
rompendo com os modelos descritivistas cognitivistas e essencialistas.
identificar algo. ,

A teoria causal da referência diz que se pode pensar e falar diretamente


sobre coisas particulares devido à interação causal com elas. Há outros que 6 . Consequências do semantismo
preconizam haver conceitos entre os atos mentais e linguísticos, que nos
ligam às coisas. Tanto num caso como no outro a questão acaba sendo
,
Tomar a referência como problema central para a semântica e para a
a da essência das coisas, sua natureza. Justamente, a concepção modal de filosofia da linguagem como mostra Rorty em A filosofia e o espelho da natureza,
,

Kripke mostra que é possível haver designadores rígidos, independentemente implica uma tomada de posição relativamente à linguagem: poder dizer o
das questões essencialistas pois não se deve tirar conclusões ontológicas
,
que é o caso, isto é, formular proposições com significação e capacidade
referencial a fim de estipular seu valor de verdade. Implica igualmente
a partir de teses linguísticas.
,

tomar posição quanto à filosofia a de que sua tarefa mais nobre é resolver
,

Assim, ele procura mostrar a pertinência da referência, como se re- o problema epistemológico o do critério de verdade, pela busca de certeza
,

portando a propriedades essenciais do mundo, que precisam ser levadas e de objetividade obtidas pelo confronto das representações mentais com
90
91
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA ,

relação ao mundo representado. Não se trata de contestar a função da experiência. Foi Quine quem desmontou a necessidade dessa última dis-
lógica e da análise semântica da linguagem, cujas análises são pertinentes tinção, mostrando que é muito difícil e aliás, nem é desejável distinguir ,

e procedentes. O problema está em permanecer nesse patamar em que a entre os dois tipos de verdade pois não se pode delimitar com certeza
,

linguagem fica restrita à análise lógico-semântica, como se a linguagem quando é que se está lidando exclusivamente com a linguagem e quando
pudesse funcionar num mundo à parte, em que apenas as discussões re- é que se está lidando exclusivamente com a experiência com os fatos. ,

lativas à referência e ao significado fossem pertinentes. Para chegar a conhecimentos confiáveis basta poder jústificar através ,

As abordagens descritivistas e as essencialistas acabam por circuns- de práticas sociais tais como a conversação, a troca de experiências diz
,
,

crever a linguagem à descrição de estado de coisa, à designação, levando Rorty. A justificação não é uma questão de uma espçcial e privilegiada
ao logicismo e ao empirismo, como é o caso do neopositivismo, para relação entre ideias ou palavras e os objetos que a exatidão das repre-
o qual a única linguagem com sentido é a lógico/empírica, pois que a sentações demanda. Conhecimento e verdade não devem ser encarados
única suscetível de verificação. E isso Carnap deduz do Tractatus. O requisito como tendo ou precisando de um fundamento A própria necessidade de .

de verificação, hoje diríamos, de justificação, é válido nos contextos da fundamentar tudo deveria ser encarada segundo Rorty, como relativa a ,

prática científica normal, mas não pode ser tomado como modelo único um padrão cultural e não como um imperativo Verdade e conhecimento .

para a linguagem, porque a restringiria à análise das formas proposicionais devem ser julgados pelos padrões que uma época tem de inquirir: " nada . ..

assertóricas. Se pensarmos no caráter autorreferencial da linguagem (o conta como justificação a não ser por referência ao que já aceitamos não ,

"

conteúdo do que é dito num enunciado não vem solto, mas enquadrado
"

há maneira de sairmos fora de nossas crenças e de nossa linguagem para


encontrar algum teste que não seja o da coerência
"

pelo valor do dizer na enunciação), na dependência da linguagem com Adiante acrescenta ...

"

relação às situações da fala, no uso em contexto, em suma, se levarmos que a ânsia por uma matriz neutra permanente para toda a inquirição
"
e toda a história (1979: 178-179) provém da procura por um padrão
em conta que falar não é comunicar proposições que expressam um valor
" "

de verdade, ou cujos nomes fixam referentes, fica evidente a necessidade neutro a que algo deve corresponder .
Nem por isso a ciência deixa de
ser uma atividade confiável e ela o é, não pela correspondência especular
de dar mais um passo, dessa vez em direção à linguagem ordinária. É o ,

que faremos no próximo capítulo. entre a proposição e o fato mas porque a ciência é uma atividade autocor-
,

retiva, que pode pôr em xeque qualquer afirmação .


Não há conhecimento
Rorty argumenta que uma teoria da referência só faz sentido no qua-
imune à revisão. Conhecer não depende de uma experiência de tipo cau-
dro epistemológico que exige representações exatas espelhadas na mente,
sal, mas sim da capacidade de justificar pela construção de proposições
representações indispensáveis pois são as únicas capazes de chegar à exa-
,
que não pretendem atingir a essência o real
" "

o estado de coisa o
" " " "

, , ,

tidão: os fatos são representados pela mente, que apenas se deixa tomar "

fato atómico" (desde Kant sabemos que a coisa em si é incognoscível).


,

pelo objeto enquanto vai montando representações exatas das quais não se A linguagem nos torna membros de uma comunidade: pessoas interagem
pode duvidar. E decorrência de um modelo proposicional e representativo trocando justificações e asserções Pressupor que a linguagem se restringe
.

centrar a linguagem no problema da referência. Esse modelo levou Frege a juízos proposicionais que se referem ao mundo dos fatos é uma exi-
a distinguir entre pensamento e valor de verdade, produziu a teoria da gência epistemológica derivada de nossa ânsia por comensuração, certeza,
figuração de Wittgenstein I, a distinção de Russell entre verdades analíticas, verdade comprovada pelos métodos inaugurados pela tradição de Bacon
verdades que o são pelo significado, e verdades contingentes, advindas da e Descartes. O ideal platónico de um critério de juízo permanente e uni-
92 93
DO SIGNO AO DISCURSO
AS SENTENÇAS.- SIGNIFICAÇÃO, VERDADE E REFERÊNCIA

versai não foi abandonado pela filosofia da linguagem de Frege, Russell, por exemplo, o surgimento da espécie, o que já concerne a uma teoria
Wittgenstein I e Kripke. e ao próprio cientista. Pelo holismo de Rorty e também de certa forma
com as propostas de Davidson, é possível compreender o universo sem ,

Uma teoria causal da referência pressupõe:


precisar resolver o problema insolúvel da ligação entre o linguístico e o
" "

I°) que aquilo sobre o que se fala (referente), tem uma es-
existe
não linguístico, ou seja, a ligação entre palavras e coisas. Temos como diz,

sência a que se pretende chegar, e para traduzir um termo pelo Dewey, uma lida proveitosa (ou não) com o mundo. ' '
outro basta encontrar o referente;
Rorty critica a teoria causal da referência, que preconiza uma relação
2°) que se deve encontrar essa tradução e fazer colocações analíticas
de tipo representational entre linguagem e realidade pois verdade (signi-
,..

para determinar o significado de uma expressão referente, através ficado) e referência são relativos a nossos esquemas conceptuais podemos ,

de relatos em uma linguagem neutra de observação que confirma nos referir apenas ao conjunto de visões que compõem nossa cultura As .

ou não o referente; o sentido é articulado ao mundo através de


estruturas conceituais ensejam que afirmações possam ser feitas com garantia
uma referência objetiva, obtida por proposições que lançam âncora de confiança, basta o teste da coerência, diz Rorty. Descrições são feitas
na realidade, considerada como uma espécie de chão firme, estável dentro de esquemas conceituais e teóricos não há coisas a serem repre-
,

e permanente, garantia de que a referência se cumpriu. sentadas independentemente desses esquemas. Aliás, as teorias da referência
A linguagem seria determinada por essa realidade em sua função não podem garantir que os objetos permaneçam os mesmos que palavras ,

precípua de referir e nomear. A linguagem, nessa perspectiva, é relação sejam a exata tradução por meios linguísticos da exata representação do
termo a termo com a realidade, único modo de produzir sentenças sig- mundo. A fim de certificar-se dessa exata tradução do mundo pelos meios
nificativas, aquelas cujo conteúdo é um valor de verdade. E o significado linguísticos, seria necessário sair da história da cultura, avaliar o processo
permanecendo estável daria uma estrutura a priori e inteligível ao conhe- como um todo e garantir que finalmente, atingiu-se o cerne da questão.
,

cimento. Uma teoria da referência busca matrizes invariáveis, afirma que Mas essa é uma tarefa para deuses e não para homens. Poder referir-se a
os objetos são sempre os mesmos, que a realidade é o que é, apenas o algo, falar sobre algo depende de conversação e não de confronto para
estabelecer designadores ou descrever estado de coisa.
modo de descrição varia.
O uso de um termo, explica Rorty, não implica haver uma e uma só
De acordo com Rorty, se um cientista descreve hábitos de certos
entidade a que ele esteja conectado pela relação de referência. Pode-se
animais ou espécies, as características que ele descreve são causalmente
discutir sobre a existência ou não de entidades justamente por elas serem
independentes de sua descrição. Mas decorre da própria descrição, dos
,

" "

objeto de um discurso, e não por seu significado estar engatado às coisas.


moldes que se utiliza, do vocabulário, da episteme (mais detalhes no últi-

mo capítulo) que a descrição de algo exterior faça sentido. Ela não diz Quanto a (1), Russell, como vimos, diz que a sentença é falsa; para
exatamente o que exatamente está fora, isso nós não podemos saber. Ou Frege, é uma sentença sobre nada sem valor de verdade, o que faz pressupor
,

seja, a descrição ou a representação não fornecem características intrínse- existirem sentenças verdadeiras devido a serem sobre algo; Wittgenstein
cas, mas, como observa Ghiraldelli Jr. (2001), opera distinguindo entre diria que o estado do mundo que é afigurado pela proposição (1) ao ,

relações causais que têm certo propósito (descrever a estrutura óssea, por ser comparado com a realidade evidencia a falsidade da figuração; para
,

exemplo) e uma outra perspectiva, que é a da descrição tendo em vista, Kripke nomear demanda necessariamente um designador rígido , assim

9S
94
DO SIGNO AO DISCURSO AS SENTENÇAS: SIGNIFICAÇÃO VERDADE E REFERENCIA ,

(1) nomeia algo com certas características num mundo possível, não é A linguagem não se limita às asserções nem os fatos podem ser ,

apenas uma descrição. considerados como formados por átomos por objetos simples, únicos a
,

Rorty pensa que a referência é um fator que entra depois que já se poder ser transcritos pelas proposições.
decidiu por uma das análises acima mencionadas, quando então uma série O problema da relação linguagem/mundo não precisa e nem pode ser
de outros fatores entra em jogo. Falar sobre algo depende de inúmeros resolvido, pois esse problema requer a discriminação de referentes aquilo ,

fatores que vão da designação, passando pela significação, descrição, situação, que Wittgenstein chamara de simples
" "

Mas ele pode ser dissolvido como


.

intenção e que dependem, em última análise, do contexto do discurso; a Wittgenstein mostra nas Investigações filosóficas O modelo lógico-linguístico
.

discussão não pode ser simplificada por um apelo à busca semântica de ao pensar como imprescindíveis os dois termos da relação o significado e ,

" "

uma teoria sobre o que as pessoas estão realmente falando que não , a referência pressupõe um reino abstrato de pensamentos de um lado, e
,

leva a nada, pois é impossível chegar a saber sobre o que estão falando outro reino lógico-linguístico de proposições de outro, com a única função
,

de fato. Entram aí, como bem viu Davidson (conferir no capítulo IV), de dotar as sentenças de valor de verdade É possível com meios linguís-
.
,

fatores históricos, antropológicos, biológicos, psicológicos. Só sabemos ticos e/ou lógicos dizer o que há, estabelecer o que algo é, sem correr o
,

como a linguagem funciona nos limites da teoria presente. Pretender que risco de duplicá-lo num mundo de essências que seriam os significados? ,

uma teoria da referência possa elucidar a relação entre a linguagem e a


Há conceitos e pensamentos gerais sem os quais seria impossível a
,

realidade é pretender que haja uma espécie de conexão mágica entre pala-
comunicação pública. A simples leitura de um texto por exemplo, estaria ,

vras e coisas, entre a referência e o que está sendo referido. Procedimento


fadada a ser produto exclusivo de uma consciência individual especial- ,

que leva ao mesmo tipo de frustração que o de uma empreitada para


mente se precisássemos sustentar o ponto de vista do realismo ou seja, ,

chegar ao âmago das questões, à coisa mesma, na busca pela constituição dizer o que "há realmente" As abordagens de Frege Russell, Wittgens-
.
,

última, transcendental, do Ser. A correspondência com a realidade pode tein I ,


Kripke evidenciaram que todo pensamento completo liga-se a um
ocorrer e ser requisito para o entendimento apenas em certos casos nos
estado de coisa expresso em asserções Saussure, por sua vez disse que
.
,

quais praticamente não há controvérsia. Seria o caso de certos contextos


são os signos combinados por regras da langue que capacitam a linguagem
em que precisamos confirmar se há um gato no capacho, sem que isso
à designação. Eles não levaram em conta que o conteúdo expresso nas
leve a considerações sobre o que "há realmente". Para dar condições de
proposições não basta, que combinar signos não basta, pois é preciso con-
verdade às sentenças, as teorias sobre a estrutura última e verdadeira da
siderar os usuários em situação avaliar o próprio sentido da proposição,
,

realidade são inteiramente dispensáveis. Como diz Rorty, ao comentar as isto é


, se ela realiza aquilo a que se propõe, retratar um estado de coisa ,

considerações de Davidson sobre a correspondência:


o que a torna suscetível de avaliação quanto à sua verdade ou falsidade .

Ela pode ligar qualquer tipo de palavra a qualquer tipo de coisa... a natureza Quer dizer, além de ter um pensamento (concepção fregiana), há que
não tem modo preferido de ser representada... Nem pode a natureza ser haver o momento avaliador (verdade ou falsidade) Esse é novamente um .

correspondida para melhor ou pior, salvo no sentido simples de que podemos momento de idealidade , sujeitos pensantes e falantes se posicionam com
ter mais ou menos crenças verdadeiras (1979: 300).
um sim ou não como observa acertadamente Habermas. As significações
,

E, acrescentaríamos, sabemos o que fazer com essas crenças nas cir- são públicas (type) e não produto de uma mente No caso de uma afir- .

cunstâncias apropriadas. mação que constata o gato no capacho (10) tem-se não a representação ,

9G 97
DO SIGNO AO DISCURSO

individual de um gato no capacho, mas sim que há um estado de coisa


reconhecível, a circunstância de haver um gato sobre o capacho. Afirmar
esse estado de coisa não é o mesmo que referir com sua afirmação à exis-
III. A REV0IUCA0 WnTGENSIEIMANJl:
tência do felino. As proposições teriam de conter um ser ideal em si se
afirmam estado de coisa públicos. As proposições seriam idealizadas! O OS JOGOS DI LINGUAGEM
impasse está criado: como ligar como estabelecer a relação entre estados
,
r v

de coisa permanentes, idealizados e as coisas? Pela projeção figurativa? Esta


,

depende da estrutura lógica da proposição que também é uma idealidade.


,

Assim, as posições logicistas levam a incongruências pois afirmam:


,

a) Há o pensamento/type, que difere da representação por não depender


A noção de jogo de linguagem de Wittgenstein abala inteiramente o
de uma consciência individual e sim ser reconhecível em seu signi-
paradigma estrutural, bem como seu próprio paradigma lógico, calcado
ficado (comum a todos, público) ainda que expresso por diferentes
nas proposições, no qual ele assentara as bases de seu pensamento .

expressões linguísticas. Trata-se, portanto, de uma idealidade.


b) E verdade que afirmo (10); esse juízo veritativo, se for confundido Podemos afirmar que até Wittgenstein II, a filosofia da linguagem
,

com a existência do objeto a que faz referência, esse objeto men- baseava-se na proposição que retrata ou representa estado de coisa A re-
.

cionado fará parte de uma idealidade. ferência tem lugar central nessa perspectiva que reduz a linguagem à sua
,

capacidade unicamente assertórica Mas, na medida em que a referência


.

Ora, juízos veritativos não são juízos sobre a existência. Logo é im- ,

passa de questão central a questão periférica, a própria noção de linguagem


possível solucionar a relação linguagem/realidade pela suposição de um antes restrita ora às regras de um código ora às formulações revestidas de
,

engate, pois como ligar o atemporal (a proposição idealizada) ao temporal? valor de verdade , modifica-se, ampliando-se para os jogos de linguagem,
O que nos conduz a transpor os limites da linguagem vista exclusivamente com Wittgenstein e para os atos de fala com Austin, Strawson e Searle.
,

sob a ótica lógico-semântica em direção à pragmática. Há simplesmente o


,

discurso de usuários e uma condição aquela que Peirce já apontara: o inter-


,

pretante. Tudo o que é o caso, ao contrário do que preconiza Wittgenstein 1 . O Wittgenstein das Investigações filosóficas
no Tractatus, não ocorre pela relação entre dois supostos mundos (o ideal e O quadro teórico da filosofia da linguagem até então dominado pelas
,

o real, o do significado e o das coisas) mas neste nosso mundo. Hipostasiar propriedades significativas e denotativas das sentenças em proposições
os significados em objetos idealmente existentes resulta confrontar os mun- com valor de verdade reconfigura-se: referir passa a ser apenas uma en-
,

"

dos, provocando como observa Habermas,


, questões renitentes, com as tre as inúmeras facetas da linguagem No modelo anterior, centrado na
.

"

quais a semântica formal se ocupou em vão durante décadas (1997: 31). relação sentença/estado de coisa pressuposto pela semântica veritativa a ,

Se a proposição tem um caráter ideal não pode conter, ao mesmo tempo,


,
linguagem tem como função referir. Para realizar tal tarefa a contento ,

algo real. Há, é claro, uma generalidade do significado mas não uma ge-
,
a linguagem precisa ser adaptada depurada: os significados devem ser
,

neralidade veritativa, pois esta não depende de invariâncias do significado .

precisos, eliminam-se ambiguidades, a cada nome deve corresponder um


98 99
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: os jogos de linguagem

" "

ente nomeado. A linguagem analisada seria pura e "cristalina", livre dos do sentido, mediante um paralelismo linguagem/mundo que unisse ló- ,

obstáculos da linguagem comum, cotidiana. gica, matemática, epistemologia e, mais, apontando para uma distinção
O novo modelo propõe, no lugar de regras lógicas e semânticas para intransponível entre a vida ética, prática místico-religiosa, de um lado,
,

construir proposições, simplesmente o uso da linguagem ordinária, que, e tudo aquilo que pode ser dito com sentido isto é, as proposições que
,

tal como está, está em ordem. combinam nomes de objetos, de outro.


r <

Wittgenstein revoluciona com sua concepção de linguagem sem ful- Seu objetivo fora procurar a verdade a homogeneidade lógica, a forma
,

cro, sem tarefa representativa; a linguagem não serve apenas para nomear geral da proposição; a partir das publicações de meados dos anos 1930, seu
coisas ou descrever estado de coisa; ela não tem uma única gramática e objetivo é dissolver os problemas filosóficos mostrando que eles são uma
,

nem uma única estrutura. questão de uso linguístico. Essa posição inaugura uma linha pragmática,
crítica da metafísica como busca de essências , e do representacionismo,
Esse mesmo modelo da linguagem ordinária aparece nas produções
isto é, de que a mente espelha ou representa estados de coisa externos ,

da Escola de Oxford, com Ryle, Austin Strawson e Searle. A influência de


,

diretamente, sem precisar da linguagem. Não que possamos classificar Witt-


Wittgenstein se faz sentir no behaviorismo pragmatista de Quine e Da-
genstein como filósofo pragmatista. Diríamos, antes, que ele não deve e
vidson, no contextualismo radical de Rorty e no pragmatismo formal de
nem precisa ser encaixado numa ou noutra escola de pensamento O foco .

Habermas. O caminho para essa nova concepção de linguagem foi uma


de sua atenção é a diversidade da ação e do comportamento humanos ,

impiedosa autocrítica: mostrar que a função da linguagem não é falar


por isso alguns estudiosos afirmam que seu ponto de partida é ateórico,
ACERCA DO MUNDO, MAS AGIR COM A FALA NO MUNDO pOÍS ela é Um tipo de AÇÃO,
, "
no máximo trata-se de um behaviorismo distribucionalista estratégico "

uma atividade, um comportamento, uma forma de vida. Já havia algum


como pensa Hottois (1976: 205).
tempo que a linguagem não era mais considerada como meio de comu-
nicar pensamentos mais precisamente, desde a virada linguística com o
,
Podemos dizer que a filosofia depois de Wittgenstein II ou simplesmente ,

estruturalismo, a semiótica e a lógica. Ainda seria preciso no entanto, uma


,
Wittgenstein, não será mais a mesma tal como a filosofia após Kant não
,

outra virada, a virada pragmática realizada por Wittgenstein na Alemanha,


,
o foi mais. O papel da filosofia deixa de ser fundacionalista Em lugar de .

e um pouco antes dele por Dewey, nos Estados Unidos da América.


,
buscar a comensuração o fundamento, as verdades últimas, a essência, a
,

filosofia passa a ter função terapêutica: os problemas filosóficos derivam


E interessante notar que a repercussão deste último foi consideravelmente
do uso fora de seu emprego normal de termos como ser essência, for- ,

menor, talvez devido ao fato de a crítica de esquerda ter sido mais impiedosa
ma, substância. A gramática não precisa ser depurada pela análise lógica .

com William James e John Dewey classificados como utilitaristas, um sub-


,

Tal como ela está, está em ordem


" "
satisfaz às finalidades da compreensão
,

produto do american way of life Ao passo que Wittgenstein tinha a seu


.

linguística praticada por nossas formas de vida .

favor o ambiente intelectual europeu permeável e receptivo às novas ideias.


,

Na fase de transição para as Investigações filosóficas passam a valer propo-


,

sições num conjunto que lhes dá sentido sentido que não provém mais
,

1 1
. .
O paradigma pós-metafisico da projeção sobre a realidade mas de regras combinatórias que formam
,

Wittgenstein II põe termo a uma tradição filosófica à qual ele próprio o espaço de uma gramática como a gramática das cores, das medidas etc.
,

pertencera, a pressuposição de que uma teoria única pudesse dar conta A obra Gramática filosófica reúne escritos do período 1931-1933 e antecipa
100 101
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

quase todos os temas das Investigações filosóficas: a linguagem como ferramenta, prioridade é a linguagem e não a mente pensante habitada por formas
a crítica à linguagem privada, a crítica ao modelo agostiniano, a crítica à puras, a priori, centrada no sujeito que apreende por meio das ideias,
linguagem ideal, a noção de semelhança de família e de jogo de linguagem. conceitos mentais e operações transcendentais o Ser o Devir, a Essência, ,

a Existência. Tampouco faz sentido para o paradigma pós-metafisico for-


matar o pensamento em proposições com valor de verdade suscetíveis
Fim do primado da lógica e da metafísica
,

12 . .

de verificação empírica. O pensamento não é algo misterioso lugar da ,

A semântica por condição de verdade ou semântica formal, ou ainda, essência humana, pois a atividade linguística faz parte da história antropo-
semântica de modelos, restringe-se à possibilidade de indicar as condições lógica, tal como caçar, comer , brincar. É preciso uma injeção de gramática
de verdade para que uma sentença seja significativa. Essa é uma vertente para acabar com esses problemas e mal-entendidos. É preciso apenas ver
bastante influente tanto em termos de representantes e produção académica, como se usam as frases. Analisá-las para chegar ao que teriam de oculto
quanto em termos de seu alcance explicativo e teórico. Evidentemente, seu é pretender que a linguagem a proposição, o pensamento tenham uma
,

limite de análise é a frase produzida de acordo com as regras fonológicas, essência, atribuindo à proposição o estranho papel de produzir a miste-
sintáticas e semânticas. A produção de frases com significação depende de riosa ligação entre a linguagem e os fatos No lugar da análise lógica é
.
,

o componente semântico encontrar no mundo (qualquer que seja ele) um preciso ver apenas que todos esses conceitos filosóficos têm simplesmente
estado de coisa do qual a frase seja a descrição completa e apropriada, ou um emprego na linguagem cotidiana que produz frases vagas, ambíguas;
,

seja, suas condições de verdade. Mas essa teoria da semântica por con-
"

ideal de exatidão" não passa de um jogo no qual se pede certa aproxi-


dição de verdade deixa abertos inúmeros problemas, como o reconhece mação relativa a certa medida ou um grau de exatidão mais adequado
,

Davidson, quais sejam: a forma lógica das sentenças subjuntivas, as que à compreensão. Habituamo-nos ao ideal como se o víssemos através de
versam sobre probabilidades e relações causais, o problema do advérbio, óculos. "Nunca nos ocorre tirá-los" afirma Wittgenstein (2001: 39e, §
,

dos adjetivos atributivos, dos termos de massa, sentenças que envolvem 103). E é bem isto que deveríamos fazer libertar-nos do jugo de pensar
,

crenças. Conclui Davidson (1982: 175-176): que nossos meios para descrever a essência são pobres e que precisaría-
E finalmente, há todas as sentenças que parecem não ter absolutamente
,
mos da pureza cristalina da lógica para fazê-lo Sempre que se dispensa .

a linguagem, nascem os problemas filosóficos; eles nascem quando a


"

nenhum valor de verdade: as imperativas, as optativas, as interrogativas, e


muitas outras. Uma teoria do significado completa para uma língua natural linguagem entra em férias" por isso podem ser dissolvidos mostrando
,

deve resolver, com sucesso, cada um desses problemas. seu uso pela linguagem corriqueira.
Acaba o primado da lógica e de toda uma longa tradição filosófica A perplexidade e os dilemas filosóficos são produzidos quando nos dei-
preocupada com a construção de sistemas que revelam ou desvelam a xamos capturar por certas armadilhas de nossa linguagem Daí a proposta .

realidade em sua essência última. Wittgenstein dispensa a pureza cristalina de reconduzir palavras filosóficas como "saber" ser
" " " " " " "

objeto eu pro-
, , , ,

" " "

da linguagem moldada logicamente, a exatidão, a profundidade. Não há posição nome


, ao uso que têm nas línguas. A filosofia construiu castelos
" "

meio seguro de chegar ao que realmente são as coisas, quer dizer, como de areia com a linguagem. Há quem interprete Wittgenstein como um
podem ser afiguradas por meio de asserções completas, com sentido e nominalista como alguém que menosprezou as significações. Como se estas
,

com valor de verdade. A própria missão de chegar aos fundamentos perde fossem algo diferente à parte, como se estivessem num universo platónico,
,

sua razão de ser. Inaugura-se uma época de filosofia pós-metafísica cuja ,


ou depositadas na mente independentemente do emprego de palavras...
,

102 103
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

A filosofia não elucida nada, tudo fica aberto, a gramática não pode concordância podem ocorrer, mas o que importa é o método de aplicação .

fornecer uma função para todos os jogos de linguagem, apenas uma visão Pela perspectiva dos jogos de linguagem o que se vê são atividades, reações.
,

panorâmica deles. Desaparece a busca de uma generalidade, mas permanece Não há mais para Wittgenstein uma preocupação com a forma geral da pro-
o objetivo geral de fazer uma investigação que é gramatical, para mostrar posição, que teria, e ela somente, o papel de comandar a linguagem, como
os mal-entendidos causados pelo uso de inúmeras expressões e conceitos se fosse algo sustentando todos os usos linguísticos mediante o pensamento
filosóficos fora do contexto normal, ordinário. Tampouco a linguagem deve de que tudo é assim, ou seja em termos de valores de verdade. No higar
,
" "

ser vista como promessa de salvação isso é, um elemento essencial para


,

da unidade formal, Wittgenstein sugere que vejamos nas frases famílias de


a explanação da verdade ou da necessidade de Deus ou da estrutura da estruturas aparentadas entre si que podem ser descritas, mas não elucidadas.
,

realidade. Não se deve supô-la como ocupando o lugar outrora ocupado Não há o que e nem por que elucidar.
pela essência, ser ou causa fundamental.
Não há teorias nem um propósito único em Investigações filosóficas a não ,

Wittgenstein mostrou como deveríamos pensar para evitar os proble- ser talvez o propósito de mostrar que a linguagem deve ser vista como
mas decorrentes de se postular uma relação com o mundo estruturada de um comportamento, como uma forma de vida que falar é uma entre as
,
" "

tal forma que a filosofia pudesse elucidar. O problema da mente por ,

formas possíveis de agir sobre o meio.


exemplo, dissolve-se quando vemos como este termo é usado em diversos
contextos. O que não significa solucionar problemas pois isso requereria um
,
A linguagem tal como funciona normalmente, serve aos propósitos
,

confronto entre pensamento e realidade, em outras palavras, um retorno à do entendimento e da comunicação de modo que não faz mais sentido
,

tradição metafísica. Por isso para ele não há recomeços nem busca de ver- buscar a representação das possibilidades combinatórias dos fatos pois que ,

dades últimas. Wittgenstein é um dos pilares do paradigma pós-metafisico. a realidade não consta de objetos simples analisáveis pelo instrumento da
,

proposição. Se o objeto na realidade não é o simples, isto é, o elemento


Antes eu próprio falava de uma ,análise completa> e acreditava que a filo-
último analisável, então é preciso dispor de instrumentos múltiplos que
sofia tinha de fazer uma dissecação definitiva de proposições, de modo a
mostrem o que da realidade está sendo dito pela linguagem Portanto a .
,

estabelecer claramente todas suas conexões e remover toda possibilidade de


linguagem não pode restringir-se às proposições que figuram projetivamente
má compreensão,
os fatos no espaço lógico como ele afirmara no Tractatus (ver capítulo II).
,

afirma Wittgenstein, (1996 : 41) numa alusão à sua postura teórica presente
,

Não há mais a busca de uma "pureza lógica cristalina" pois a lingua-


,

no Tractatus logico-philosophicus. Observa que então, idealizara o uso da lingua-


,

gem ordinária, tal como está, está em ordem, diz a que veio.
gem. Se em certas situações cabe clarificar por definições as conexões entre
as expressões, entre a impressão visual e uma esfera por exemplo, o que se
,
Quando se nomeia o mesmo referente com diferentes significados, não
temos nomes de um mesmo referente ao contrário do que propusera Frege,
obtém com tal clarificação não é uma definição de esfera definição que seria
,
,

estéril, mas uma preparação para o uso. Importa ver quais são os diversos usos mas situações de uso que variam. A lógica não é o modelo ideal para a lin-
"
"

daquelas palavras, "esfera" impressão visual". Não se descarta o cálculo das


,
guagem cotidiana, como se fosse preciso um lógico para mostrar finalmente
"

proposições, o problema é como chegar às proposições elementares... Achava aos homens que aparência deve ter uma frase correta (2001: 33e, § 81).
"

que entre o pensamento e a realidade havia uma concordância de tipo pic- Em suma, as asserções completas para dizer que as coisas estão assim
"
tórico isto é, de forma. Agora entende que na construção da concordância ou de tal outra forma
,
isto é, os enunciados completos (com significado e
,

algo já está ocorrendo que é o como a aplicação é feita. Concordância ou não


,
valor de verdade) são substituídos pela descrição dos usos realizados pela
104 10S
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA.- os jogos de linguagem

linguagem cotidiana em situação normal de discurso. "Não pense, veja", único a amarrar os jogos ou os usos linguísticos todos Tal como numa .

enfatiza Wittgenstein. Seguindo esse propósito, devem-se reconduzir os corda, a trama é tecida com vários fios que garantem sua resistência Diz .

termos que dão tanto trabalho aos filósofos a seu uso normal. Um ideal Wittgenstein:
de exatidão existe num jogo de linguagem em que se pede, por exemplo ,
Aqui encontramos a grande questão que está por trás de todas essas consi-
pontualidade. Simplesmente é preciso saber o que alguém pretende com derações. Pois poderiam objetar-me: "Você simplifica tudo! Você fala de todas
" "
exatidão Assim também ocorre com os conceitos: proposição, linguagem
.
, as espécies de jogos de linguagem possíveis mas não dissé, em nenhum ,

pensamento, mundo. Basta apenas indicar seu uso numa dada situação. lugar, qual é a essência de um jogo de linguagem e portanto, da própria ,

Não há uma ordem a priori e simples de todas as possibilidades o que ,


linguagem, o que é comum a todas essas atividades e as torna linguagem
não significa tampouco buscar uma essência, desta vez, na linguagem. O ou partes da linguagem. Você se dispensa pois justamente de parte da inves-
" tigação que outrora lhe proporcionara as maiores dores de cabeça a saber,
emprego dos termos frase", "palavra", "verdade" é tão humilde quanto
,

o de mesa
" " " " " aquela concernente à forma geral da proposição e da linguagem (2001: 27e § 65). ,

porta lâmpada". Aquelas não são unidades formais,


, ,

"
mas uma família de estruturas mais ou menos aparentadas entre si". Essa auto-objeção recebe resposta apropriada nas Investigações pois o lugar ,

Os problemas não podem ser elucidados, mas sim descritos sem a ilusão único e privilegiado ocupado pela proposição cede vez à multiplicidade
dos jogos de linguagem tão diversos e numerosos que não há um
"

de que sejam algo de profundo. A pergunta deve ser: como tal palavra é ,

"

usada em tal língua. modo de classificar as funções e usos da linguagem (1976: 132), afirma
Hottois. Não há um conteúdo neutro algo pressuposto por detrás deles
,

O que nós fizemos foi reconduzir as palavras do seu emprego metafísico para
que seria objeto de afirmação, como uma idealidade, uma vez que não
seu emprego cotidiano... perguntar em que circunstâncias particulares essa
há um significado último e independente por detrás das várias formas a
frase é de fato empregada. É aí que ele faz sentido (2001: 41e, § § 116-117).
possibilitar a sinonímia e a tradução. Dar sinónimos e traduzir implica
A linguagem cria certas confusões que são próprias ao estilo humano certas dificuldades , uma vez que certo uso em dado contexto mostra
de viver. É possível, entretanto , evitar essas confusões descrevendo o uso, que se trata de determinado jogo, servindo ao que se quis dizer naque-
comparando esse uso com jogos de linguagem. Os mal-entendidos e as la ocasião. Note-se que essas observações não dizem respeito à habitual
armadilhas linguísticas são contornados por uma boa sinalização isto é, uma ,
distinção entre conotações e denotações pois a distinção só é pertinente
,

boa compreensão daquilo que se quis dizer naquele determinado contexto. para concepções que procuram matrizes, estruturas ou regras estabilizantes
"

e geradoras, ou ainda, o indefectível" sentido literal.


,

Além disso, como observa Hottois Wittgenstein não propõe uma teoria da
13
. .
Os jogos de linguagem ,

linguagem cujo modelo seja o do jogo .


Não se deve tomar essa nova atitude
A linguagem é uma ferramenta pública ordinária, do dia a dia, cujas
,
de Wittgenstein como uma teoria acabada como muitos entendem, a chamada
,

regras apontam numa direção obedecem a semelhanças de família, não


,
" "

teoria dos jogos de linguagem mas um projeto aberto a um grande número


,

havendo estrutura alguma privilegiada para mostrar que as coisas se de questões, nem sempre claramente formuladas e nem sempre respondidas
dispõem no espaço lógico da afiguração como Wittgenstein pensava no,
dentro da ortodoxia filosófica tradicional a começar pela forma com que são
,

Tractatus. Há uma multiplicidade de jogos de linguagem como prometer, , expostas , em parágrafos, sem um projeto teórico unificador, sem preocupação
ordenar, descrever contar histórias, sugerir, ironizar etc. Essa multiplicida-
, com sequência ou sistematização de ideias como não poderia deixar de ser,,

de corresponde a "formas de vida". Não há um núcleo comum um fio ,


haja vista sua já mencionada intenção terapêutica problematizadora. ,

10G 107
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WIITGENSTEINIANA- OS JOGOS DE LINGUAGEM
.

"

Cada vez que Wittgenstein menciona "jogo de linguagem poderia , na linguagem mas que há uma ordem no modo como ela se apresenta
,

" "

substituí-lo por uso da linguagem pois sua finalidade é tecer observa-


,
a cada uso e que assim está bem que ah com aquele jogo a linguagem
,

ções sobre a gramática, alimentada por uma crítica impiedosa ao Tractatus. diz a que veio sem precisar chegar a um estágio final, todas essas carac-
,

E preciso ver os usos particulares sem pretender que a noção de jogo de terísticas, em vez de produzirem perplexidade proporcionam serenidade.
,

linguagem seja uma espécie de rede percorrendo toda a linguagem, para Basta fazer ver o que ocorre e o que decorre dos jogos de linguagem ,

dar conta dela inteiramente. Justamente, a analogia do jogo é uma defesa pois eles são formas de vida, práxis entre outras práxis, em que importa
contra a busca de um sistema que responderia pela complexidade dos seu papel e não sua significação última Eles só fixam conceitos ou ideias
.

vários usos. Para Wittgenstein não há tal sistema, nem a complexidade se isso for pertinente necessário para a compreensão, pÿra o uso adequado.
,

de um todo mas descrição de semelhanças e diferenças entre os usos.


, O § 23 mostra como entender o jogo de linguagem ilustrado por casos
,

Afirma Hottois que há bastante sugestivos. Atente-se para o final da citação em que Wittgenstein
,

* ironiza a si próprio.
uma série ( família>) de usos de uma palavra ou de uma expressão, apre-
sentação que não podemos englobar ou abarcar facilmente, que não acusa O termo <jogo de linguagem, deve aqui salientar que o falar da linguagem é
nem a diversidade e nem a similitude do uso (ainda que as diferenças sejam parte de uma atividade ou de uma forma de vida.
acentuadas), que permite ver as conexões entre os usos presentes e que Imagine a multiplicidade dos jogos de linguagem por meio destes exemplos
será, se não houver imprevistos enriquecida pela invenção de usos inéditos
,
e outros:

destinados a chamar a atenção sobre os empregos intermediários e sobre as Dar ordens e a elas obredecer -

diferenças que temos a tendência de não ver (1976: 156). Descrever um objeto conforme a aparência ou dar suas medidas -
Construir um objeto segundo uma descrição (desenho) -
Mostrando esses usos , seus contextos e situações, a perplexidade Relatar um acontecimento -
filosófica tende a se dissolvercomo já dissemos. O problema é que os
,
Conjeturar sobre o acontecimento -
filósofos via de regra, não se satisfazem com essas apresentações, con-
,
Expor uma hipótese e testá-la -
sideram que a filosofia tem uma missão mais sublime. Mas o filósofo Apresentar os resultados de um experimento através de tabelas e diagramas -
"

não pode interferir no uso normal da linguagem, a filosofia deixa tudo Inventar uma história; ler essa história -
"

como tal diz Wittgenstein. Ela pode apenas descrever, tendo em vista Fazer teatro -

certos propósitos específicos que são terapêuticos, evitam o vício metafí-


,
Cantar uma cantiga de roda -
sico da fundamentação e do terreno comum e até mesmo uma visão de ,
Resolver enigmas -
conjunto. Basta fazer ver de um certo modo acentuando ora um aspecto,
, Fazer uma anedota; contá-la -
ora outro, sem pretensão de encerrar a questão, mesmo porque não se Resolver um exemplo de cálculo aplicado -
podem encerrar os vários aspectos da gramática em um só (sua análise Traduzir de uma língua para outra -
ou pesquisa gramatical não tem nenhuma pretensão de construir uma Pedir, agradecer maldizer, saudar, orar.
,

semântica científica como a maior parte dos linguistas propõe). Essa não
,
E interessante comparar a multiplicidade das ferramentas da linguagem e seus
é uma atitude cética o próprio ceticismo não passa de um aspecto, um
,
modos de emprego a multiplicidade das espécies de palavras e frases com
,

modo de ver, do contrário destruiria o seu próprio caráter cético. Não há aquilo que os lógicos disseram sobre a estrutura da linguagem (e também
um método em filosofia mas vários. Pensar que não há uma ordem geral
, o autor do Tractatus Logico-philosophicus) (2001: lOe § 23).
,

108 109
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

"

As regras são flexíveis e modificáveis. Observa Hottois: Pedir regras O significado não é o sentimento pessoal psicológico ou algo mental, ,

precisas é uma das fontes de perplexidade filosófica, um traço mórbido pois se assim fosse, cada um significaria o que bem entendesse, o que
por excelência estreitamente ligado, bem entendido, ao essencialismo teo- impediria a comunicação.
rético (1976: 172). Se o significado fosse uma imagem mental (como
"

Saber do significado envolve saber a que objeto alguém se refere numa


propusera Saussure), teríamos de compará-lo com o signo e depois usá-lo dada ocasião de uso se é gíria ou não, se é um segmento incompleto de
,

de acordo com aquela imagem. O uso não é coexistente com o signo, pois uma fala, se a prosodia importa ou não etc Saber disso e simplesmente .

saber como usar e geralmente, quem sabe usar, sabe do significado.


,

o signo (a sentença) toma sua significação do sistema de signos, da lingua-


gem à qual pertence. Em outras palavras: compreender uma sentença significa O uso depende de uma série de fatores tais como-meio, necessidades ,
,

compreender uma linguagem. Só como parte de um sistema de linguagem desejos, emoções capacidades sensórias, que sugerirão quais conceitos
,

a sentença tem vida, são mais adequados. O que uma pessoa expressa não depende só do que
ela diz, mas das circunstâncias que mostram qual jogo de linguagem está
explica Wittgenstein (1996: 61). Não há algo oculto, como um significado
sendo jogado, pois não há uma mente repleta de significados imagens ,

mental, acompanhando a sentença, e sim outros signos. Significar é uma


interiores e conceitos requerendo interpretação . Em nossa cultura temos ,

questão de poder relacionar duas expressões linguísticas e saber aplicá-las. formas de vida que sabem fazer regras e que sabem aplicá-las .
As regras
Dispomos de reservas a serem aplicadas, como se fossem ferramentas ou são compartilhadas e permitem saber o que é relevante em dada situação.
hipóteses guardadas para uso futuro. Exemplos: há uma regularidade no uso de "vermelho" que coincide com
" "
o conceito de vermelho Temos por hábito dizer "é uma e meia" e não
A compreensão da linguagem, como a de um jogo, parece como um pano "
.

"

de fundo contra o qual uma dada sentença adquire significado. Mas essa passa meia hora de uma hora .

Estas são regras que são seguidas .

compreensão, o conhecimento da linguagem, não é um estado de consciência Há linguagem como um tipo de comportamento guiado por regras , estas
que acompanha as sentenças da língua... é como uma habilidade para calcular, não têm núcleo comum ou profundo apenas apontam direções. Em suma,
,

diz Wittgenstein (1996: 65). Ninguém sabe jogar xadrez o tempo todo. quem compreende uma frase compreende uma linguagem, e quem com-
Quando se joga e enquanto se joga são requeridas certas habilidades. preende uma linguagem compreende um significado, domina uma técnica.

O significado de uma palavra é seu uso na linguagem (2001: 18e, § 43). Por isso para Wittgenstein não há linguagem privada (ver item 1 5), .

pois o jogo de linguagem é uma forma de vida decorrente das trocas do


Com isso Wittgenstein não está criando uma "teoria" sobre o signifi- organismo com o meio ambiente , que dotam os homens de uma capa-
cado, mas mostrando, fazendo ver o que ocorre. cidade plástica de reagir .

A multiplicidade das linguagens e dos significados não conduz à incom- A busca da pureza cristalina da linguagem dá lugar ao mostrar o uso
preensão, pois há regras que percorrem os usos mostrando sua semelhança dos signos uso inteiramente aprendido. Para falar da realidade para referir,
,
,

de família seu parentesco. Não há um significado último e independente


, não há necessidade de um aparato lógico não há uma unidade, mas sim a
,

por trás das diversas formas aparentadas para permitir a sinonímia e a diversidade dos usos e jogos de linguagem No exemplo sobre os usos de .

" "

tradução. Estas, apesar das dificuldades devidas a usos peculiares e ao azul , Wittgenstein mostra reações, comportamentos propósitos diversos, ,

contexto, são possíveis por causa da semelhança de família, do emprego, o que impede uma relação biunívoca entre o nome e seu significado de
da situação, do que se requer de determinado jogo. um lado, e o objeto que é indicado designado, referido, de outro lado.
,

110 111
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

Imagine vários casos diferentes. Passo a indicar alguns: Para dar um exemplo de que não há nada de fundamental ou essencial
'

Este azul é o mesmo que aquele lá? Vê uma diferença?


'

'
a percorrer toda a linguagem, Wittgenstein compara o que acontece com a
Você mistura as cores e diz: Este azul do céu é difícil de obter>.
'
linguagem com o que acontece com os jogos de diversos tipos: esportivos ,

O tempo esta melhorando, vê-se já o céu azul outra vez!


' > brincadeiras infantis, de tabuleiro, de cartas. Eles se assemelham em alguns
Veja os diferentes efeitos desses dois tons de azul!
* aspectos, como ganhar e perder uso de força, de tática, há em alguns o fator
,

Vê ali o livro azul? Traga-o aqui'.


'
sorte etc. Mas não têm nada que seja comum a todos um padrSo, uma tegra
Este sinal de luz azul significa ..." ,

Como se chama este azul? É índigo?, (2001: 14e, § 33).


'

geral e uniforme. A metáfora da corda, já mencionada, é oportuna: nela vêm


entrelaçados vários fios de comprimentos diversos mas não há nenhum fio
,

Impossível um procedimento uniforme para todos os casos de aplicação,


ora se dá atenção ao inusitado, ora à diversidade de tom, ora à identifi-
que a percorra do início ao fim. Sua resistência vem desse entrelaçamento.
cação de um objeto. Visar à forma não é possuir a forma antes na mente, Os jogos são guiados por regras que nunca dirão o que exatamente é o
" "

pois ter a forma em mente varia conforme a situação: o apontar para jogo, pois seus contornos são imprecisos e as regras não os exaurem, nem
a forma pode servir ao jogo do reconhecer, do desejar, do recordar-se, os determinam, apenas indicam direções não elucidam todos os casos a
,

distinguir. Como não se percebe nada em comum por detrás dos gestos, que se aplicam, podendo dar margem a dúvidas, o que não impede de se
supõe-se essa atividade como espiritual. mostrarem eficientes ao preencherem dada finalidade As regras indicam .

Contextualizar a fala, ver seus múltiplos empregos, é descartar as hipóteses direção na medida em que haja um uso constante um hábito: Compre-
"

de cunho estrutural para as quais a linguagem é um conjunto de regras que ender uma frase significa compreender uma linguagem Compreender uma .

possibilitam gerar todas e somente aquelas sentenças do sistema, da langue, da linguagem significa dominar uma técnica"(2001: 59e § 199). Se houvesse ,

competência. Mesmo porque, para Wittgenstein, não faz sentido algum separar um modelo comum, ele teria que ficar pairando como uma imagem na
código, sistema, langue, competência, forma enunciado, type, de um lado, e
,
cabeça dos homens imagem essa à qual os vários jogos e usos teriam que
,

fala, desempenho expressão, enunciação, token, de outro. Há diversos casos, situa-


,

ser confrontados e comparados para delimitar uma exatidão A própria exa- .

ções, exemplos em que se usa uma sentença que funcionará como ordem,
tidão é apenas algo que se pode pedir num determinado jogo para tentar
pedido, afirmação, denotação, alerta, esclarecimento, declaração etc. etc., sem
elucidar melhor seu emprego por alguém em dada situação. Não é uma
,

necessidade de uma estrutura matriz ou núcleo comum sem necessidade de regras


,

forma privilegiada, com teor metafísico. Esquemas gerais e modelos puros


internalizadas. Não há primeiro uma regra e depois sua aplicação, a língua
" "
não está na cabeça do sujeito falante. Há a ação de falar. Os jogos de lin-
são descartados. Explica Wittgenstein (2001: 30e § 74): ,

guagem mostram que há acordo na ação, e por isso faz sentido seguir regras. Claro que existe algo como ver desta ou desta outra maneira; há casos em que
aquele que vê um modelo assim geralmente o empregará desta maneira, e o
,

Assim ,
voltamos a ressaltar, não há uma forma essencial comum, a
que vê de outro modo, o empregará de outra maneira.
multiplicidade dos jogos de linguagem atende apenas a regras diversas ,

maleáveis, cujo papel não é determinante nem condicionante, pois só Para saber o que é um jogo dispensa-se uma definição exata e joga-se
,

"

apontam direções para o uso, em termos de semelhanças de famílias. Os de acordo com regras aprendidas cuja função não é dimensionar ou dirigir
,

jogos de linguagem não são *elementos> ou <aspectos, da 'linguagem', mas todos os usos, uma vez que as situações as intenções e as circunstâncias
,

"

simplesmente são linguagens diferentes , explica Hottois (1976: 119), o são específicas. Há entre os jogos semelhanças de família que funcionam ,

que desautoriza supô-los como caracterizando a linguagem. como modelos comparáveis uns com os outros. E isso basta.
112 113
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINMA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

1 4
. .
O problema da referência nome não perde significação se não houver referente Também Wittgenstein .

Levando-se em conta essas considerações, explosivas e certeiras, mas


afirmara que a significação das palavras é independente da existência da
coisa que ela designa. O portador do nome pode morrer e ainda assim
que às vezes soam até como óbvias (depois que foram formuladas, evi-
,

o nome mantém sua significação O significado vem de sua combinação


.

dentemente), pode-se avaliar o quanto qualquer tentativa de elucidação


com outros signos na proposição Mas ele dizia também no Tractatus que
.

nos conduz à perplexidade, no que tange ao problema da referência.


os nomes designam elementos da realidade que permanecem e que ter
Ocupamo-nos, ao longo deste trabalho, dessa questão, mostrando que significação é distinto de nomear referir. ,

os diversos enfoques que a problematizam sugerem concepções diversas Nas Investigações no entanto, Wittgenstein afirma que ter significação
,

acerca da linguagem e de sua relação com a realidade. As Investigações se depende do uso específico e que ter referência não implica a existência
iniciam com uma citação das Confissões de Agostinho, para quem a essência do elemento simples da realidade Ele supusera anteriormente que por
.

da linguagem é a denominação: palavras servem para denominar objetos, ser simples, é que algo é nomeável No entanto ao nomear nada ainda .
,

as frases unem essas denominações, a significação é algo acrescentado às se fez. Para nomear ,
é preciso antes ter certa disposição e certo tipo de
palavras e advém do objeto que a palavra substitui. Enfim, palavras servem contato com os objetos que nada têm de fixável a priori.
,

para designar objetos, o que para Wittgenstein não passa de um jogo de Frege Russell e Wittgenstein I entenderam a função denotativa como
,

linguagem um jogo primitivo.


,
presa ao suposto estado de coisa. Mas para Wittgenstein II, os nomes não
Por ser um jogo, a relação entre palavras e coisas tem um uso deter- podem ser substituídos por definições que os descrevem de modo rígido
ou unívoco como queria Russell. Em
"
Sócrates morreu idoso" Russell
minado, como no caso de empregar uma série de palavras e a cada série ,
,

fazer corresponder um uso referente a uma situação. O "isto" não é um diz que o nome Sócrates pode ser descrito por "Mestre de Platão ...
"

, ou

Aquele que afirmava nada saber


"

nome próprio no sentido pretendido por Russell. Trata-se de um dêictico,


Mas a significação nos diversos usos
... .

" " " "


do termo "Sócrates" variará
pois não temos uma linguagem que estabeleça
,
como ali , aquilo , aos quais não cabe a mesma explicação aplicada aos
" nomes, como a lógica. Esse tipo de linguagem pode ser construído mas ,

nomes; dizendo, por exemplo , isto é um livro", não é despropositado,


"
disso não decorre que se trate de uma linguagem ideal modelo para a ,

no caso de tratar isto" como nome, dizer "isto é isto". O fato de a sig-
linguagem cotidiana. A lógica é inteiramente dispensável para dizer como
nificação deste pronome depender de reportar ao ente/situação, não faz deve ficar uma frase correta , apropriada.
dele um nome , como pensara Russell. O problema da denominação vem
Quando se emprega um nome como em "Moisés não existiu", o nome
de se considerar, ao longo de toda uma tradição na filosofia, que o nome
designa o objeto localizável na realidade, algo simples.
não é uma descrição definida como pensava Russell nem há sentido em ,

demandar um designador rígido como quer Kripke. As descrições não são


,

O problema ontológico que abordamos no capítulo II decorre de que, "

aleatórias, e fornecer descrições (. ) não é o único modo de explicar


..

para falar com sentido sobre centauros, inclusive para negar sua existência, nomes - algo que pode ser feito também por meio da indicação ostensiva
é preciso afirmar com sentido "centauros não existem". Daí a conclusão ou da apresentação
"

observa Glock (1998: 261). O uso do nome


,
"

Moisés"
de que o sentido não garante a denotação. Portanto, só os nomes podem não tem um suporte uma significação rígida. Se alguém diz n está
,
"
morto
"

referir ou designar. E eles designam ou denotam o simples. O próprio pode estar querendo dizer que viu alguém e ele tinha essa aparência (de
Frege distinguiu designar/significar de nomear/denotar, concluindo que o morto) ou que fez isto ou aquilo em sua vida, ou alguém que tinha esse
,

1» 11S
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WinGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

"

Tudo depende do tipo de pergunta que se fizer. Portanto, "n não


,

nome V .

presa ao cabo? Não há a forma essencial de uma ordem, isto é, aquela que
é o homem a quem essas coisas correspondem, isto é, alguém substancial, corresponderia ao que diz uma proposição forma à qual todas as formas
,

suporte da nomeação. Com o que a tese kripkiana do batismo inicial fica linguísticas deveriam se reduzir. "Simples" e "composto" têm usos diversos
comprometida, bem como a separação rígida entre nomeação e descrição. em ocasiões diferentes. Quando se usa um termo ou uma expressão ,
não

A questão para Wittgenstein não é a da relação entre sentido e referência, ocorre apenas nomeação ou designação de algo fixando-o como quer Kripke, ,

ou seja, resolver o problema da denotação, mas o que fazer quando ao nome o que bloquearia o significado reduzindo-o a uma etiqueta das coisas uma
,
,

não corresponde uma referência. As reações, diz ele, podem ser diversas, desde linguagem agostiniana. E essa é apenas um jogo primitivo de linguagem; não
a perplexidade, até perguntar se em determinado jogo de linguagem ainda faz há o simples na realidade a ser designado de uma vez para sempre .

sentido usar tal nome ou se é preferível dar a ele outra significação. O proble- Pela denominação nada de misterioso ocorre. Denominar dá-se num
,

ma da denotação, recorde-se de (1), dissolve-se pela terapêutica aplicação do jogo de linguagem, pois o nome vem do jogo. Algo não tem um metro.
uso normal da linguagem. Quando se ensina um jogo, a regra pode ser uma O metro é algo com o que um objeto pode ser medido e terá um metro ,

ferramenta útil. O jogo pode ser também aprendido pela simples observação. nesse jogo particular de medir com o metro Alguém poderia objetar que .

Enfim, é sempre bom lembrar que "a significação de uma palavra é


só se pode nomear se a coisa É de alguma forma O que não é nem mais .

"

seu uso na linguagem (2001: 18e, § 43). Há casos em que o nome é nem menos do que dizer: é simplesmente preciso que haja essa coisa para
usado sem ter portador, sem ter referente e outros em que só pode ser podermos empregá-la no nosso jogo. O que deve haver é um modelo, um
usado se tiver referente. Compreender e significar nada tem de misterioso, paradigma, no nosso modo de apresentação, fornecido pela própria linguagem.
depende de circunstâncias que acompanham o processo de troca linguística. Quantas espécies de frases existem? Digamos afirmação, pergunta e ordem? - Há
inúmeras de tais espécies: inúmeras espécies diferentes de emprego daquilo
"

Uma simples indagação por parte do interlocutor, como o que você está " " "

que chamamos de símbolos


" "
"

querendo dizer com (1)? mostra outra perspectiva: justamente não pre-
,
palavras
, frases". E essa multiplicidade
,

cisar comprometer-se com a tarefa de solucionar o problema da referência não é fixa, novos tipos de linguagem novos jogos de linguagem, como
,

(aliás, supor ou precisar supor tal problema demanda um quadro teórico poderíamos dizer, nascem e outros se tornam obsoletos e são esquecidos...
(2001: lOe, § 23).
das representações subjetivas, como mostra Rorty), tem a pretensão mais
modesta de situar interlocutores dialogando, fazendo uso apropriado do Em uma árvore ,
pergunta o autor das Investigações, o que é o simples?
instrumento que é a linguagem. O tronco os galhos, a raiz? Ou a árvore é composta? Sem um jogo em
,

Como já observamos, no Tractatus, Wittgenstein supusera que o nome


que faça sentido denominar algo de simples ou composto, estes termos
não têm aplicação.
designasse o simples, isto é, os objetos analisados, os nomes designam o que
é elemento da realidade. Poder designar "objetos" decorria de se poder fixar No § 48 ,
Wittgenstein imagina uma linguagem em que as palavras se
o simples na realidade para dar a ele um nome. Hipótese absurda, é impos- combinassem em uma série que descreve elementos correspondentes simples .

sível detectar o que sejam os elementos constitutivos últimos da realidade. Se Imaginem-se quadrados nas cores branco vermelho, azul e preto. À combi-
,

" "

vermelho é elemento da realidade, x é vermelho tem significação. Mas a nação deles em frases corresponderia um complexo de elementos distintos
experiência não mostra como é ou onde está tal elemento simples. Quando na realidade. Mas o que é mesmo cada um desses elementos? Se for um
alguém pede para trazer a vassoura que está no canto, ilustra Wittgenstein, "

quadrado da cor azul, o termo azul corresponde a quê exatamente desta


"

" "
a forma analisada de vassoura qual é, o cabo? a escova? ou talvez a escova
figura representada pelo quadrado azul? Aos ângulos à forma, à pigmentação? ,

116 117
DO SIGNO AO DISCURSO
A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

A linguagem não se limita à ostensão ou mostração, pois os nomes A pergunta pelo significado parece sempre algo de misterioso algo como ,

não têm significados como posse sua. uma busca pela substância pois o significado parece pairar na cabeça ou na
,

Enfim, Wittgenstein critica a concepção de linguagem como ostensão, mente. E preciso reconduzi-lo do céu metafísico para a terra e perguntar o
como nomeação, pois designar, nomear ou referir depende exclusivamente que é explanar o significado. Essa explanação pode ser verbal ou ostensiva.
do uso linguístico habitual dos nomes, não havendo nesses processos nada O significado não vem acompanhado de complicados processos mentais que
de misterioso ou insondável. requerem interpretação e que são deslanchados a cada vez que alguém, ouve
uma sentença. Pior: considera-se que são esses processos que devem ser expli-
Portanto, linguagem não é nomeação, isto é, sua função não é fazer
cados. Como se entre o nome e a coisa nomeada houvesse algo psicológico,
corresponder a cada palavra algo no mundo. Achamos que aprender uma
a interpretação o pensamento, o significar algo como se para poder dizer
,

língua é dar nomes aos objetos, seres humanos, formas, cores, dores,
,

estados de ânimo, números etc. Achamos que nomeamos as coisas e a


que fulano de tal não está presente, fosse preciso a consciência cognitiva ou
ter na consciência um pensamento ou ainda, ter consciência de um pensa-
,

seguir podemos Mar delas, referir-nos a elas. Ocorre, diz Wittgenstein, mento, como algo mental, conteúdo da mente/cérebro É o que rliTia Frege .

que fazemos as mais variadas coisas com as sentenças:


,

segundo Wittgenstein: sem pensamento a proposição é algo trivial, morto


,
,

Água! ; Fora! ; Ai! ; Socorro! ; Óúmo! ; Não! (2001: lie, 20, § 27). que viveria somente à custa de algo imaterial, diferente dos meros signos.
É evidente que estas palavras não são nomes de objetos. Não que Wittgenstein não reconheça mais o papel das proposições.
Certamente elas têm usos por isso não faz sentido perguntar pela "es-
Pode-se definir ostensivamente o número dois apontando para duas ,

"
" sência da proposição ou dizer que ela
nozes. Mas a pessoa pode pensar que dois" significa este grupo de nozes! ,

O inverso também: quando se quer nomear este conjunto de nozes, a E algo notável Por um lado devido à enorme importância que se dá a ela
.

pessoa pode entender que se trata de um numeral! (E isso está correto). Por outro lado isto, juntamente com uma má compre-
"
ensão da lógica da linguagem nos convida a pensar que algo extraordinário
,
,

O mal-entendido não pode ser evitado chamando a dois" de "número"?


algo único deve ser alcançado pelas proposições - Um mal entendido faz com
.
-

Então, ter-se-á de definir "número". Mas não há nenhuma necessidade de


que a proposição nos pareça como fazendo algo estranho.[...] A tendência de
definir, a não ser para certo tipo de filosofia. Em situação normal de uso, supor um puro ser intermediário entre o signo proposicional e os fatos Ou .

define-se quando for apropriado definir. O termo "número" é empregado até mesmo tentar purificar sublimar os próprios signos. Pois nossas formas
,

quando é requerido numa definição que serve para alguém compreender o de expressão nos previnem de diversos modos de ver que não há nada além
que se quis dizer. Sempre tendo em vista certos propósitos e circunstâncias do ordinário aqui envolvido a ponto de termos de procurar quimeras [...]
, .

O pensamento a linguagem aparecem-nos como o único correlato a única


apropriadas. Apenas definir ou apontar para algo não dá o significado. Daí
,
,

imagem do mundo Os conceitos: proposição linguagem, pensamento, mundo,


.

a contingência da linguagem.
estão uns após os outros numa série cada um equivalendo ao outro. (Mas
,

Se, para dar o significado de uma cor, aponta-se para um quadrado para que são usadas essas palavras? Falta o jogo de linguagem no qual devem
daquela cor numa carteia de cores, há uma compreensão prévia das regras ser empregadas.) (2001: 37-38e § 93-96). ,

que comandam esse tipo de comportamento. Tanto que alguém num país Todo o problema da filosofia calcada na análise das proposições é o
estrangeiro, ao lhe serem apontadas situações para explicar o significado denominar. Wittgenstein mostra que o denominar não é um processo oculto.
de certos termos, muitas vezes faz a associação errada. Só é problema que tira o sono dos filósofos se não se considerar o uso
118
119
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

linguístico habitual dos nomes. A linguagem não se restringe à nomeação, A distinção que Wittgenstein faz entre razões e causas entra em choque com
uma concepção causal da mente em que os fenómenos mentais são vistos
à ostensão, pois os nomes não têm um significado, no sentido de uma ,

como causas internas do comportamento externo Essa visão liga-se em par-


marca ou posse, e os significados não são categorias distintas, objetos ideais.
.

te a uma concepção causal da ação intencional em que o comportamento ,

Quando se designa, a pessoa já tem que ser capaz de saber como operar
"
humano é explicado por referência a causas eficientes - atos ou eventos
a técnica de designar ou denotar. Definir e designar são algumas das
"

que têm lugar em um domínio mental privado (a alma) ou, o, que é mais
facetas ou funções da linguagem, não se deve compreender o significado plausível, no cérebro. Wittgenstein sustenta, em contrapartida/que o com-
como sendo um conceito mental, objeto sublime do pensamento, que portamento intencional explica-se teleologicamente, por referência às razões
daria vida à linguagem. Não é preciso postular ato mental algum entre a de um agente (crenças intenções, vontades) (Rorty, 1998: 72).
,

expressão e seu sentido para haver significação. Entre a imagem mental Pergunta-se como as palavras se referem a sensações como alguém ,

e a significação, não há uma relação de determinação, mas deslocamen- pode apreender o significado dos nomes de sensações, como por exem-
tos. Compreender, saber, dominar um jogo, aprendê-lo não está ligado a "

plo, dor". A sensação não é algo privado pois o saber de sua dor, como
,

" "

um processo anímico superior à mente pensante, mas a capacidades de


,
todo saber acerca de algo faz parte de um jogo. Mesmo quando alguém
,

compreender, de saber usar, de prosseguir no sentido aprendido. Como se afirma que ninguém pode ter esta sua dor os termos são da linguagem ,

trata de uma práxis, seguir a regra não depende de um suposto processo comum, pública um meio para se fazer entender. Se alguém com dores
,

mental, interior. Tanto podemos saber, como não saber seguir uma regra. inventasse uma palavra para expressá-la não seria compreendido (a menos
,

As reações que conduzem a comportamentos, a modos comuns de agir que esse uso se tornasse constante para certo número de usuários, em
"

são seguidas. As que atrapalham são evitadas. certas situações como chamar
,
dodói" ou algo parecido; de qualquer
modo , trata-se ainda de um jogo). O termo "sensação" é um termo da
Enfim, o próprio problema da referência e do significado dissolve-se nas
nossa linguagem. O erro está em achar que a mente serve a um único
análises de Wittgenstein. Denominar não é nada de sublime ou mental:
propósito, o de transmitir pensamentos sobre objetos, sensações, valores etc.
funciona como um jogo. A referência é um dentre os diversos e numerosos Recordar por exemplo, não é um processo espiritual, privado. Trata-se
,

jogos de linguagem, não tem papel central, nem unificador, nem caracteriza de uma prática aprendida um comportamento humano que depende do
,

definitivamente o falar. Não há os pressupostos de uma estrutura matriz modo como interagimos com as coisas .

sintática, ou de proposições afiguraávas ou atos mentais originários, doadores


de significação, funcionando como pontes entre a linguagem e o mundo. Achamos que o grito exprimir dor é análogo à frase expressar o pen-
samento. Dizemos que o pensamento pode vir como um raio mas , não é
uma vivência mental única pessoal, mais rápida do que as palavras
,
" "

, como
15
. .
Critica à linguagem privada se costuma dizer. Se as vivências são interiores como sabemos disso? A ,

Segundo Wittgenstein, descrever ou mostrar os usos do significado não partir de algum critério de comparação, de estabelecimento de identidade.
é fazer semântica científica, como a maioria dos linguistas propõe. A língua O pensamento não é algo que acompanha a linguagem quando se dizem
" "

não é um sistema de regras na cabeça de um falante. Há simplesmente a palavras pensando nelas. O ter em mente o significar, o querer dizer,

ação de falar como um modo de vida, não há uma mente organizando não é um desdobramento do pensamento como um inefável processo ,

regras e só depois a fala. A mente não contém conceitos, como se fosse anímico, como se houvesse uma ordem mental e só depois sua expressão
uma cuba.
"
Mente" é um termo usado em diversos contextos com dife- em palavras. Para Wittgenstein sempre se trata de processos como descrever ,

rentes propósitos, não há linguagem privada, pessoal. uma imagem sentir-se bem, ter intenção. São hábitos, comportamentos
,
,

120 121
DO SIGNO AO DISCURSO
A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA OS JOGOS DE LINGUAGEM
que dependem de situações, de instituições com suas regras, enfim, de um -

sucedida depende em grande parte, das relações dos usuários entre si


,
"

aprendizado. Desde que tenho antecipadamente a intenção de formar uma


numa comunidade linguística de seu modo de lidar com o mundo mundo
,

frase, isto só é possível pelo fato de eu poder falar a língua em questão"


,

,
das circunstâncias diversas dos fatos, dos acasos dos acontecimentos.
,
,

diz ele (2001: 92e, § 337). Podemos dizer algo porque aprendemos a
..

Quando Strawson critica Russell quando Austin mostra que as afirma-


dominar uma língua, ao querer falar, não se precisa falar, como ao querer ,

dançar, não se precisa dançar, compara Wittgenstein. ções são apenas um dentre os atos de fala quando Searle pfopõe que o
,

ato proposicional é parte integrante de um ato de fala o modelo é ò da


Enfim, o pensar não é um processo incorpóreo separável da lingua- ,

linguagem ordinária A revolução wittgensteiniana foi o marco desse modelo


.

gem, de seu uso, de um querer, de um saber fazer etc., que demanda .

um aprendizado. É preciso ver o que ocorre com a gramática do verbo


" "

pensar evitando a superstição filosófica do incorpóreo, do sem palavras,


2 A crítica de Strawson A
,

pois como podemos chegar a intenções sem o querer dizer, e um querer


dizer fora da linguagem, que, por sua vez é uma forma de comportamento? TEORIA DAS DESCRIÇÕES DE RUSSELL
As representações, de uma cor por exemplo, também não são privadas Strawson leva em conta a lin
,
guagem ordinária, mas não compartilha
tanto que são reconhecíveis em meio a outras, e delas se podem retirar com Wittgenstein a noção de que a filosofia tem função terapêutica de que ,

consequências, tais como comparar cores, usar uma e não outra cor, indicar ela deixa tudo como está As consequências céticas
.

bastante proveitosas ,
,

que se pode retirar de Wittgenstein não foram em geral, aceitas pelos


" "

uma cor. E a cada frase dita algo ocorre, pois nada está oculto (2001: ,

109e, § 435). Como nossa linguagem é característica de nosso modo de componentes da Escola de Oxford Mas suas ideias também frutificaram,
.

vida , na hipótese de um leão falante, evidentemente não o compreende- como a solução de Strawson para o problema da referência e a noção de
ríamos, segundo Wittgenstein. ilocucionaridade de Austin .

Essas concepções revolucionaram tanto a linguística especialmente


,
A tese de Russell permaneceu praticamente inabalável até 1950 quan- ,

a semântica que demanda considerar a pragmática como a filosofia da


, do foi publicado o famoso artigo de Strawson, On Referring. A importância
linguagem principalmente devido ao deslocamento do enfoque: a análise
,
da crítica é mostrar a insuficiência da abordagem exclusivamente ló
gica,
das proposições, especialmente as assertóricas cede lugar à multiplicidade
,
empiricista e descritivista para dar conta do problema das expressões e
dos usos por meio de regras que funcionam apenas apontando a direção ,
das sentenças cuja função é referir ou denotar
,

Strawson concorda que


.

aprendidas e praticadas em situação com certos comportamentos, em


,

Russell supera a falácia de que é impossível falar com sentido sobre alguém
formas de vida que estão em constante interação. Dispensa as soluções
que não existe, mas sua teoria das descrições parece insuficiente para dar
cognitivistas, essencialistas e descritivistas. Liberta a linguagem do jugo
conta da designação de expressões do tipo "
o tal e tal é B
"

Isso porque
metafísico e do que restava de cartesianismo na filosofia (noção de mente,
.

Russell pressupõe que há também sentenças da forma sujeito-predicado


de cogito). A função terapêutica da filosofia representa a dosagem adequada
,

em que a significação depende de haver algo referido pelo sujeito gra-


para evitar a assunção metafísica que o uso exclusivamente referencial da matical
que, neste caso, é também o sujeito lógico Para que um nome
,
.

linguagem implicava. A noção de referência não depende mais das amarras seja nome de algo isto é, que ele tenha significação é preciso que haja
,
,

lógico-semânticas da sentença das descrições definidas. A referência bem-


,

o objeto particular que o nome designa, pensa Russell. Strawson distingue


122
122
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA OS JOGOS DE LINGUAGEM
.

entre expressão sujeito de uma sentença e a sentença. Importa distinguir expressão está sendo utilizada naquelas circunstâncias, para fazer referência
,

dois níveis em ambas, o nível da significação e o da designação de uma a,


ou mencionar algo (1977: 18).
expressão; o nível da significação e o da referência de uma sentença. Se Referir não é o mesmo que significar significar depende da sentença ,

é uma condição necessária a conjunção das três proposições: ou da expressão cujas regras de construção fornecem diretivas para o uso;
(a) existe pelo menos um indivíduo que é rei da França referir é algo que alguém faz ao utilizar uma expressão Russell confundiu .

a expressão com seu uso. Porque há expressões empregadas pára referir ele
(b) existe no máximo um indivíduo que é rei da França ,

concluiu que sua significação deveria ser o objeto pelo qual as expressões
(c) se alguém é rei da França, então é sábio
são usadas para referir caso especialmente do pronome isto. Em si ele
,

para alguém proferir uma sentença verdadeira, segundo Russel, não é não refere, observa Strawson porém pode ser usado para referir. Verdade
,

condição suficiente para referir, pois referir depende de como se dá a e falsidade não são função do nível da sentença dependem inteiramente ,

utilização de (1). Strawson faz uma importante e decisiva distinção para do uso numa dada ocasião que é outro nível. Se tem uso genuíno ou
,

qualquer abordagem futura do problema da referência: tuna coisa é a não, se está sendo usada para referir ou não se pode ser corretamente ,

formulação de uma sentença significativa, outra coisa é o uso de uma utilizada para falar acerca de algo se é um exemplo de problema filosó-
,

sentença e outra, ainda, a elocução (utterance) da sentença. Afirma Strawson: fico são questões independentes da significação e dependentes do uso. A ,

significação é questão de hábitos e regras que preparam a sentença para ,

De modo geral, e para criticar Russell, eu diria o seguinte: a significação


ser utilizada para falar acerca de alguma coisa numa ocasião particular. ,

( ) é uma função da sentença ou da expressão; fazer menção a, referir-


...

Ser utilí?.ada para fazer uma asserção verdadeira ou falsa depende


se a, e igualmente a verdade ou falsidade, são funções do uso da sentença
ou da expressão. Dar a significação de uma expressão (no sentido em que de a pessoa que a utiliza falar de algo Se, ao enunciá-la a pessoa não estiver
.
,

falando de algo não importa o quê, então seu uso não é um uso autêntico
utilizo essa palavra) é dar as diretivas gerais sobre sua utilização para referir ,
,

mas um uso falsificado ou um pseudouso: ela não faz uma asserção nem
a, ou mencionar indivíduos ou objetos particulares; dar a significação de
,

verdadeira , nem falsa (Strawson, 1977: 20).


uma sentença é dar as diretivas gerais sobre sua utilização na elaboração de
asserções verdadeiras ou falsas. Não é falar de uma ocorrência qualquer Se alguém pronunciasse (1) hoje sua afirmação só seria verdadeira ,

particular do uso da sentença ou da expressão. Não se pode identificar a se de fato existisse um e apenas um rei da França e esse rei fosse calvo .

significação de uma expressão com o objeto ao qual nos referimos, com Mas isso não quer dizer que qualquer pessoa que a pronunciasse estaria
a ajuda desta expressão, numa ocasião determinada: a significação de uma fazendo uma asserção verdadeira ou falsa pois só ao fazer a asserção para ,

sentença não pode ser identificada com a asserção que se elabora, com a realmente falar acerca de alguém é que essa pessoa estaria utilizando essa
ajuda desta expressão, numa circunstância determinada. Pois falar da signi- sentença. Quer dizer o ,
"

valor
"

de uma asserção depende das circunstân-


f cação de uma expressão ou de uma sentença não é falar de sua utilização
i cias da enunciação Hoje (1) dita seriamente por alguém, seu uso seria
.
,

numa ocasião particular, mas das regras, hábitos, convenções que governam
considerado espúrio.
seu uso correto, em todas as ocasiões, para referir ou para asseverar. Assim,
a questão de saber se uma sentença ou uma expressão É significante ou não Diríamos que como se trata de um ato de fala, parte de um discurso
,
,

não tem absolutamente nada a ver com a questão de saber se a sentença, é por aí que faz sentido perguntar pela verdade ou falsidade .
Strawson

enunciada numa circunstância determinada, está sendo ou não utilizada para foi um dos que abriu caminho para situar a referência como questão dis -

fazer uma asserção verdadeira ou falsa, ou com a questão de saber se a cursiva , antes da teoria dos atos de fala de Austin e Searle. Para Strawson ,

124 12S
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: os jogos de linguagem

quem pronunciasse (1) seriamente receberia como resposta que a França contexto, através do qual foi executada uma referência que é sempre ,

não é uma monarquia. A referência fracassou, mas a sentença não perdeu função do enunciado portanto, de uso em situação.
,

sua cota de significação, simplesmente porque a significação é função de Como bem viu Strawson ,
a referência depende, para sua execução
regras, e referir é função de uso, emprego em situação. A sentença (1), bem-sucedida de certas condições , como
diz Strawson, foi supostamente empregada em determinada época na
que se tenha a intenção de fazer um referência individualiz antp, e, ao mes-
França. Uma só e única sentença foi enunciada em diferentes ocasiões,
.

mo tempo ,
que se saiba de qual referência individualizante se trata; isto é
e, em cada uma delas, pode-se constituir em uma asserção verdadeira ou
,

demanda-se algum elemento que exige que o ouvinte ou leitor possa iden-
falsa, assim é que duas pessoas diferentes enunciando a mesma sentença tificar aquilo de que se fala e que o torne capaz de fazêylo. Para assegurar
,

em reinados diferentes, fazem uso diferente. Fazem o mesmo uso se duas esse resultado
o contexto da enunciação é de uma importância tal que é
,

pessoas a enunciam no mesmo reinado, por exemplo, o de Luís XV. São, quase impossível avaliar. Por 'contexto' entendo, pelo menos o tempo, o ,

no entanto, enunciações diferentes, pois, de acordo com Strawson, o sim- lugar, a situação os temas que constituem o foco imediato de interesse e as
,

ples fato de alguém determinado enunciar uma sentença configura uma histórias pessoais tanto do locutor quanto daqueles a quem ele se endereça.
,

enunciação sua, particular *


.
Além do contexto existe é claro, a convenção linguística (. ) O requisito
, .. .

(...) para que uma expressão na sua utilização referencial seja corretamente
Desse modo, as expressões do tipo sintagma nominal definido não
aplicada (...) é de que a coisa se encontre em certa relação com o locutor
implicam, devido à unicidade de significação, que se está afirmando a
e com o contexto de elocução (1977: 29)
existência de algo, pois é preciso que sejam usadas em sentenças. É só desse
.

modo que se está fazendo uma referência. As descrições individualizantes O caso-limite é o dos dêicticos no outro extremo estão casos como
,

" "

podem ser usadas em vários contextos para fazer referência. Assim, uma o autor de Waverley .
Nenhum desses casos se encaixa na referência e
expressão do tipo
" "

o tal e tal é b numa sentença, não implica a existência nem na atribuição a partir tão somente de regras lógico-linguísticas.
de um e apenas um indivíduo, a menos que a sentença esteja sendo usada Nem as regras de Aristóteles e nem as de Russell fornecem a lógica
para mencionar o indivíduo como tal e tal. exata de uma expressão da língua ordinária qualquer que ela seja; com
efeito a língua ordinária não possui lógica exata (Strawson
A referência, de problema lógico-linguístico espinhoso e nuclear para ,
1977: 38). ,

a filosofia e para a semântica (é possível falar com sentido acerca de São importantes considerações que não tiveram toda a repercussão que
seres que não existem? é possível referir sem implicar a existência e a merecem. Sustentam nossa argumentação de que é preciso conduzir o pro-
unicidade do referente?), passa à questão de uso normal entre falantes. blema da referência para uma dimensão mais ampla que a proporcionada
Demonstrativos, sintagmas nominais, pronomes, nomes próprios podem pela consideração da linguagem apenas como função de sentenças regidas
ocorrer como expressões referenciais em sentenças ditas em determinado
por regras gramaticais e revestidas por significado lógico e empírico. Nesse
sentido Kripke representa um retorno ao logicismo e ao semanticismo
,
que ,

*
Cada autor tem uma nomenclatura para designar o que entende por frase, sentença, enun- Strawson evita. Sua contribuição para o problema da referência ou seja, ,

ciado, enunciação. De modo geral, temos empregado frase" para o nível gramatical, estrutural;
"

"

sentença
"

,
"

para a estrutura lógico-proposicional; enunciado para o ato de fala, discursivo;


"
a distinção por ele preconizada entre sentença seu uso e sua enunciação, ,

"

enunciação para o uso pessoal, a realização de uma ocorrência individual de um enunciado,


"

é caudatária da proposta revolucionária das Investigações filosóficas de que a ,

em inglês utterance Porém respeitaremos os termos que expressam conceitos típicos de


" "

construção gramatical a estrutura mesma das sentenças, enfim


.

cada autor abordado, procurando deixar claro o que eles entendem por cada termo no seu
,
, as regras
próprio contexto teórico. têm como única razão de ser o preparo para o uso .

12G 127
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

3 Austin e a noção de ato ilocucionário


.
para os atos explicitamente constativos, como veremos em seguida), mas
ao sucesso em atos de fala como os da descrição afirmação ou nomeação. ,

Como vimos, a Escola Analítica Inglesa (Strawson, Austin e Searle, este


Quer dizer, alguém deve poder, ao compreender tal ato de fala, localizar no
último nos EUA), tal como Wittgenstein, trabalha com o paradigma da
mundo os estado de coisa descritos ou os objetos nomeados/designados .

linguagem cotidiana, ordinária, que consta de enunciados ditos em situação


" "

normal de discurso, os speech acts os atos de discurso, ou atos de fala.


,

3 1
. -
Constativos e performutivos
Austin pretende com sua análise resolver ou pelo menos esclarecer os
problemas filosóficos. Ele afirma, em A Plea for Excuses, que a linguagem A taxionomia dos atos de fala que Austin elaborou calcava-se numa
ordinária não é a última palavra, mas é sem dúvida a primeira. Gilles visão da ação humana o que teve repercussão positiva paia a linguística e
,

Lane, na introdução à edição francesa de How to Do Things with Words, diz que para a filosofia da linguagem, atentas aos requisitos da pragmática. Austin
Austin pretende chegar a resultados que possam melhor colocar e talvez parte do exame das enunciações (utterances) e percebe que muitas delas não
resolver certos problemas filosóficos. Solucionar o problema do real envolve servem para relatar ou comunicar pura e simplesmente algo sobre os fatos ,

necessariamente a linguagem ordinária e não pressupõe enunciados incor- tendo caráter de verdadeiras ou falsas São as enunciações performattvas
.
.

rigíveis, isto é, enunciados de estilo proposicional, com função veritativa Elas não 'descrevem, nem 'relatam' ou constatam algo elas não são verda- ,
'

e verificacional; em outras palavras, pressupor tais enunciados implicaria deiras' ou 'falsas'; e a enunciação da sentença é a execução de uma ação ou ,

considerá-los como núcleo da linguagem. O que nos leva a situá-lo entre uma parte dessa execução que, novamente, não deveria ser descrita como,
,

os representantes do pensamento pós-metafisico. ou somente como, dizendo algo (Austin 197S: 5). ,

Do ponto de vista wittgensteiniano, resolver a questão do read pode Exemplos disso são o "sim" num casamento; "eu batizo "

... ;
"

aposto.
ser interpretado como uma esterilização da filosofia, pois ela perderia sua Nestes casos não basta pronunciar a sentença; é preciso que certas ações
,
,

função terapêutica. Há que dissolver os problemas filosóficos mostrando convenções circunstâncias e participantes envolvidos sejam adequados à
,

seus diversos e diferentes usos na linguagem, fazendo ver que não há es- situação e que, na situação de emprego sejam integrais. Do contrário, o
,

sências últimas e nem uma mente contendo pensamentos. Para Austin, há ato será nulo (void) não realizado, infeliz. Muitas vezes, dizer algo é fa-
,

"

uma realidade objetiva a ser referida e significada, não há ato rético como zer esse algo. Dizer Eu prometo..." sem engajar-se seriamente no/com
parte de um ato locucionário, como veremos na sequência, sem que ele o ato de prometer torna-o nulo, apesar de ter sido pronunciado. Austin
,

nomeie; para Wittgenstein, a relação linguagem/realidade, sob a forma da não valoriza o performativo como ato interior ético, pessoal. Tampouco ,

nomeação, não passa de uma entre as inúmeras formas de comportar-se a enunciação é falsa porque afirmando fazer, não o faz. Como o ato
,

pela linguagem. Austin quer classificar os diversos tipos de usos dos atos performativo efetivamente se deu, o que houve foi má-fé. Desse modo,
de fala. Wittgenstein não acredita nessa possibilidade. dizer algo não é como geralmente se pensa, denotar algo. Ao se dizer
,

Austin, em sua série de conferências How to Do Things with Words (1962), algo, está-se fazendo algo.
no entanto, oferece uma contribuição original, pois vê na afirmação não Ao lado da sentença performativa Austin distinguiu a sentença consta-
,

a forma privilegiada na qual as proposições se articulam com o mundo tiva. Esta sim pode ser verdadeira ou falsa, pois nela algo é informado,
,

"

pelos juízos de verdade, mas como um entre os atos de fala; descrever e constatado afirmado. Exemplo: O menino atravessou a rua"
,
em que se ,

nomear são atos de fala que não obedecem à condição de verdade (condição descreve uma ação cujo significado está na dependência de alguém do
128 129
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTCINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

sexo masculino, infantil, ter-se movimentado de um lado para o outro Podemos dizer também que é não realizada quer dizer, como se ,

de uma das vias que cortam as cidades. Se o fato ocorreu, além de ser pretende com uma afirmação desse tipo constatar, e esse efeito foi malo-
significativa, a frase é verdadeira. Se não ocorreu, é falsa. grado, a própria afirmação, como ato de discurso, é levada em conta, e
E justamente quanto às enunciações declarativas com conteúdo pro- não o conteúdo proposicional que leva à constatação pura e simples de
sua verdade ou falsidade.
posicional e formalizável, no caso do exemplo acima R (x, y) (x= o
menino; R= atravessar; y = rua), que cabe atribuir valor de verdade. Já Temos aqui uma das mais importantes contribuições para' a teoria do
que constatam fatos, devem ser contrastadas com fatos. E isso que toda a significado e para a filosofia da linguagem: as afirmações que Austin antes
classificara como constativas são como ele acaba reconhecendo ao longo
tradição filosófica costuma concluir. As constatações geralmente pressupõem ,

das conferências, atos de discurso


ou implicam outras constatações. .

Por outro lado é raro encontrar performativos puros ou explíci-


Quanto às enunciações contendo descrições, como (1) que também ,

tem provocado tantas discussões filosóficas, como fica seu estatuto? tos, como é o caso das promessas Há outros meios de agir pela fala
.

"

como o imperativo Feche a porta!" que, segundo o contexto, pode ,

Nesse caso, contradizendo a tradição, parece estar mais próxima das


ser entendido como ordem ou pedido As regras linguísticas não for- .

enunciações performativas, pois, sendo o pressuposto de existência nulo,


necem, por si sós um meio para obter performativos, quais sejam a
,

não obtém sucesso, é vazia e não uma afirmação falsa. O ato de fala não
primeira pessoa do singular, em verbos no tempo presente, na voz
perde significado, a questão não é sua referência, mas sim o que se passa
ativa, como antes Austin propusera .

na situação histórica atual que leve alguém a afirmar (absurdamente?) que


o atual rei da França é calvo.
32 . . Os atos de discurso
De fato, para Austin, a afirmação não é uma proposição assertórica com
Austin entende finalmente, que é difícil distinguir as enunciações
valor de verdade, mas ato de discurso, e os diversos atos de fala seriam ,

construções lógicas elaboradas a partir dos atos de discurso, e não o inverso. performativas das constativas. Quando é que dizer é fazer algo? O que
Austin conduz toda a discussão feita pela tradição filosófica em torno do ocorre quando se usa um ato de fala? Estas questões não devem ser en-
estatuto privilegiado e central das afirmações assertóricas, em torno de tendidas separadamente.
"

um novo eixo. Como neste exemplo: Os filhos de João são calvos". Se Na 8. conferência da série de doze que compõem How to Do Things with
João não tem filhos, a frase não deixa de ser significativa (recorde-se a Words , Austin amplia a distinção constativo/performativo numa teoria , a

distinção de Frege entre sentido, de um lado, e significado ou referência, teoria dos atos de fala ou atos de discurso Quando alguém os enuncia, .

de outro); mas não se trata de afirmação falsa como se costuma sustentar, executa três atos distintos mas simultâneos, coextensivos:
,

ou desprovida de valor de verdade, como diria Frege; se não tem referen- - Ato locucionário éo ato de dizer algo e para tal se requer elementos,

te do qual predicar a calvície no caso de (1) e a paternidade de João, é completos do discurso: sons (ato fonético) palavras de um vocabulário ,

porque há uma diferença entre valor de verdade e valor discursivo: empregadas conforme as regras gramaticais , entonação. Austin o chama
Costuma-se hoje dizer que não é falsa porque é desprovida de referência; a de "ato fático" , reprodutível por uma imitação. Além disso, o enunciado
referência é necessária tanto para a verdade como para a falsidade. (...) Neste possui certo sentido (diz a que veio) e certa significação que o capacitam
"
caso eu diria que a enunciação é nula (void) (1975: 50-51). a referir. Essas são características do ato rético Em atos assertivos que .

130 131
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

"

citam afirmações, como Ele disse que o gato estava no capacho", algo é E lícito pensar em situar a semântica no nível locucionário e a prag-
nomeado e algo é relatado. Se um enunciado não estiver de acordo com mática no nível ilocucionário e, com isso, evidenciar duas consequências
a gramática, não há significação. Se o enunciado falha em relatar ou no- importantes: a de que a significatividade é algo diverso dos efeitos advin-
mear, o discurso fica vago, obscuro. Num ato rético, importa o nomear, dos do dizer em situações concretas, o nível do discurso; porém em que ,

"

o reportar a algo: E claro que sentido e referência (nomear e referir) pese essa diferença, ao produzir-se um ato locucionário, ele precisa ser
"

são eles mesmos atos auxiliares executados na performance do ato rético enunciado, e, ao ser dito, produz-se simultaneamente um ato ilocucionário
(Austin, 1975: 97). Pode-se dizer, resumindo, que o falante expressa estado que toma efeito, vale como comportamento.
de coisa, através dos instrumentos básicos de uma língua.
O ato ilocucionário não é mera decorrência do ato locucionário .
E
- Ato iloctjcionário: dá-se sempre
que se pronuncia um ato locucionário este não é um simples composto de sons e significados A própria escolha
.

e com ele executa-se, pelo fato mesmo de dizê-lo, um ato ilocucionário. Por lexical depende de ambos, da significação e das convenções relacionadas à
meio de um ato ilocucionário, pergunta-se, responde-se, avisa-se, anuncia-se efetividade do dito em situação de discurso; daí a produção do principal
um veredicto, fazem-se apelos, descreve-se algo. Trata-se de enunciações que efeito pretendido por qualquer falante ser compreendido requerendo uma
,

"

têm valor convencional. A objeção pode ser: O que você está me dizendo resposta do auditório, dependente ou não do efeito perlocucionário Até sem .

não se justifica ou não tem consistência, se é que você está fazendo mesmo palavras é possível provocar efeitos ilocucionários e perlocucionários, como
"

uma afirmação! O discurso é usado de certo modo, certos "sentidos" são


o ovo atirado na cabeça do ministro (protesto) ou um cassetete girando
,

visados, acepções diversas podem ocorrer conforme a ocasião. Se valem como (ameaça). O mais frequente e culturalmente mais produtivo por levar a uma
,

sugestão ou ordem, como pergunta ou opinião, só se saberá ao dizer, que é resposta (provocar intersubjetividade) é usar a linguagem articulada para
,

quando terão incorporado determinado valor, o valor ejoojcionário, que Ducrot afirmar, informar argumentar, apreciar, supor, agredir, elogiar, protestar etc.
,

mais tarde explicaria como sendo um ato jurídico criado pela fala (cf. 1977).
Os atos ilocucionários e os atos perlocucionários não esgotam todos os
quando se produz um ato locucionário, produz-
- Ato perlocucionário :
empregos da linguagem segundo Austin. Pode-se usá-la para fazer brinca-
,

se também o ato ilocucionário dotado da força do dizer. Mas, além disso ,


deiras poesia, insinuações (não se pode dizer Eu insinuo que..." pois o
,
"

muitas vezes provoca-se um efeito no ouvinte, no auditório. A produção suposto valor ilocucionário destruiria a própria insinuação) Há efeitos pre-
.

de efeito, Austin chamou de ato perlocucionário. Uma advertência pode vistos pelo falante outros são produzidos sem que ele tivesse a intenção, ou
,

provocar temor no interlocutor. Dissuadir, importunar, reconduzir ao bom o inverso, o falante pretendia um efeito que não se produziu Se intencional .

senso são efeitos perlocucionários. Suas consequências não são previstas ,

ou não, é secundário. Os atos de discurso estão sujeitos às mesmas condições


pois ele não tem caráter convencional.
dos atos em geral. (Como veremos no último capítulo Habermas baseou-
,

Uma das maiores contribuições de Austin foi distinguir dois níveis , se nessas ideias de Austin para elaborar sua teoria da ação comunicativa ) .

o do enunciado (ato fático e ato rético) e o da força dos atos de fala,


advinda do fato de serem ditos por alguém em situação de discurso.
Gramaticalidade, sentido e referência ocorrem na elaboração de todo e
33. .
As afirmações
qualquer enunciado bem formado, com significação; ao ser enunciado As afirmações não têm um estatuto lógico privilegiado estão sujeitas ,

em determinadas circunstâncias o ato de fala concreto fica revestido de


, aos mesmos riscos de sucesso ou fracasso de qualquer ato ilocucionário .

um valor. Esse valor advém da fala, do fato de enunciar-se algo a alguém. Quando alguém diz: "Ele não fez isto", temos uma afirmação que funciona
132 133
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA OS JOGOS DE LINGUAGEM
.

no discurso do mesmo modo que um aviso, uma informação, podendo, Aliás, a característica de não visarem objetivos é responsável pela "pure-
"
"

portanto, fracassar, ser infeliz. Já fizemos ver o caso de uma afirmação za atribuída pela tradição filosófica às afirmações Mas, observa Austin .

putativa que pressupõe (como se diz) a existência daquilo a que se refe- as descrições também não operam perseguindo fins e no entanto, a elas ,

* '

re; se este referente não existe, a afirmação não trata de nada", explica não é reservado nenhum lugar especial As afirmações felizes são julgadas .

Austin (1975: 137). No caso de (1), Austin diz que é uma afirmação ou apreciadas de modo especial por serem constatações .

vazia e nula, tal como seria nulo o ato de vender algo que não pertence Admitindo que todos os elementos da situação apresentam-sé corretamente
ao vendedor. Temos aqui uma dimensão inerente à linguagem, a de sua para que se possa afirmar algo, ainda assim surge a questão, o que eu afirmei
efetividade, dimensão propriamente discursiva. é verdadeiro ou falso? E nós o percebemos isto equivale, falando na lingua- ,

Pode ocorrer também de não se ter o direito de fazer certas afirma- gem corrente, à questão de saber se uma afirmação 'corresponde aos fatos'.
ções, ou de não se ter meio de fazê-las, como no caso de não se poder Concordo com isto: se se pretende dizer que o emprego da expressão é ver- '

" dadeiro> equivale a uma sanção ou algo parecido não é por aí (1970: 144),
prever quantas pessoas há numa sala. Não se pode afirmar, então: Há
,

"
declara Austin pois outras afirmações performativas também demandam
cinquenta pessoas na sala pois a afirmação perde força ilocucionária.
,
,

apreciação objetiva
"

Assim, as afirmações estão sujeitas ao insucesso. Se alguém diz algo sem , como os atos veridictivos julgar", "avaliar", "declarar".
tê-lo pretendido, a discussão provavelmente girará em torno de seu as- Mesmo no caso de uma demonstração leva-se em conta o direito de fazê-la ,

pecto locucionário, ou seja, o problema é seu sentido e sua referência, e requer-se que seja bem-sucedida Conselhos
felicitações, admoestações,
.
,

pois a força ilocucionária provavelmente anulou-se. A referência de um idem. São julgados não só seu mérito mas também sua oportunidade. ,

nome próprio é determinada por um conjunto de descrições associadas


Os fatos entram em consideração nos atos executivos , como nomear,
ao nome por uma comunidade de falantes. Para valer como ato completo "

esclarecer, explicar. A objetividade da afirmação não é o único requisito


"

de discurso, precisa efetivar-se como ato de afirmação completo, compro-


missivo; além de sua significação e referência, é preciso levar em conta as
para efetivá-la, é preciso levar em consideração se é razoável, seu grau
de evidência , sua pertinácia. Os atos constativos são, em suma avaliados.
circunstâncias apropriadas ao caráter de ato ilocucionário. Só assim nomear ,

...
na vida cotidiana
em oposição às situações visadas na teoria lógica
,

algo ou alguém alcança sucesso. ,

"
nem sempre é possível dar uma resposta simples à questão de saber se
Para Austin, considerar que o objeto de estudo não é a sentença, mas "
um constativo é verdadeiro ou falso (Austin, 1975: 143). A afirmação "a
"

a produção de uma enunciação na situação de discurso (1975: 139) é França é hexagonal" é verdadeira ou melhor, serve para certas situações
,
" ,

uma nova e promissora perspectiva, pela qual dificilmente haverá uma


"
mas para um geógrafo seria inexata Trata-se de uma afirmação precária .
.

possibilidade de não ver que afirmar é executar (perform) um ato (1975:


139). E, tal como no caso de qualquer ato ilocucionário, é preciso as- Para as afirmações verdadeiras ou falsas, importam os fins visados e o
,

segurar-se de que tenha sido compreendido, engajando os interlocutores contexto da enunciação Nas generalizações com emprego de "todo(s)" ou
.

>

diante de outras afirmações possíveis que serão ou não pertinentes. Outras toda(s) ,
a referência limita-se ao conhecido, sendo complicado reportarem
afirmações podem contradizê-la ou não, refutá-la ou não. Há afirmações à completa extensão dos fatos abarcados Após a descoberta de cisnes ne- .

"

que sequer precisam de respostas. Apesar de não terem como objetivo gros, a afirmação todos os cisnes são brancos" não é nem refutada e nem
falseada necessariamente pois alguém pode argumentar que não estivera
provocar efeitos no auditório, eles podem eventualmente tomar efeito. ,

134 13S
DO SIGNO AO DISCURSO
A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

falando de absolutamente todos os cisnes, dos eventuais cisnes do planeta


ilocucionários são notórios e pesados a tarefa de dizer se é verdadeira
,

Marte, por exemplo, mas dos cisnes do jardim zoológico de sua cidade. ou falsa não é simples. Por isso mesmo Austin argumenta que a distinção
A verdade das afirmações relaciona-se com o que elas incluem ou entre ato locucionário e ilocucionário é uma abstração (mas necessária
excluem, se podem ou não induzir a erro, de modo que verdade ou para um filósofo da linguagem), o que conta é o ato de discurso, e este
falsidade (exceto na lógica) não são noções simples: compreende os dois elementos simultaneamente.

A verdade ou falsidade de uma afirmação não depende só da significação Muitas das propostas de Austin especialmente sua,
"

teoria
"

dos atos
das palavras, mas de qual ato se está executando em quais circunstâncias de fala, surgiram à medida que ele ia desenvolvendo suas ideias naque-
(Austin, 1975: 145).
las conferências. Fica difícil estabelecer com rigor os novos conceitos e
Como ocorreu de a afirmação assertórica ter sido o centro das discussões suas consequências. Austin ao que tudo indica, não teve contato com as
,

filosóficas? Isso pode ter sido decorrência de nosso arraigado platonismo, propostas que Wittgenstein apresentou em uma série de conferências em
de nosso desejo de base ou esteio para toda discussão, um dos perigos Cambridge, na década de 1930 ao contrário de Strawson. A distinção
,

da ilusão referencial. entre performativo/constativo a interpretação destes em termos da teoria


,

Quanto à distinção constativo/performativo, como parte da teoria mais mais ampla dos atos de discurso têm como meta esclarecer os proble-
mas da verdade, da mente da referência. E o meio para tal é a análise
geral dos atos de fala, tem-se que no caso do primeiro a atenção se volta ,

para os aspectos locucionários, deixando de lado a concepção simplista da linguagem ordinária em suas inumeráveis facetas de emprego Como .

observa Lane na introdução à edição francesa (Quand dire c est faire) (1970:
>

do acordo entre enunciação e fato, pois esta relação implica aspectos ilo-
cucionários. Dessa forma, o ato constativo fica sendo aproximadamente o 17), Austin considera que os diversos empregos da linguagem não são
que é justo e apropriado dizer em face das circunstâncias, independente- infinitos, daí ser possível fazer um levantamento completo de todas as
mente dos fins visados e da pessoa a quem se dirige. Quanto ao segundo situações em que certas expressões são empregadas não para revelar seu ,

aspecto, o do ato performativo, nele o valor ilocucionário da enunciação caráter lógico/empírico mas para encontrar meios de mostrar o que se
,

é o que conta, e deixa-se de lado a dimensão da "correspondência" com deu com o emprego de tal expressão. Tal como Wittgenstein Austin recusa ,

os fatos. Mas, como na prática essas distinções nem sempre são claras , admitir o modelo calcado no confronto entre realidade e estado de coisa
pode-se dizer que se trata de dois pólos, num dos extremos teríamos as ou fatos de um lado, e as enunciações expositivas ou assertóricas , como

enunciações da matemática por exemplo como tipicamente constativas, e,


, as afirmações, as descrições as explicações, as classificações, de outro
,

no outro extremo, o ato de promessa como tipicamente performativo. Há


,
lado. Critica Ayer, mostrando que a relação entre linguagem e dados dos
"

casos marginais, como Eu me desculpo" e "O gato está sobre o capacho", sentidos não é a responsável pela exatidão O ajuste entre palavras e coisas
.

que acabam forçando a pertinência da distinção performativo /constativo. é sempre questão de uso de palavras e de exigência que ocorre em certas
De qualquer forma, a condição mais provável de ocorrer é mesmo ser situações. Não é uma questão de conhecimento privilegiado do mundo
preciso distinguir, para efeitos de compreensão, entre atos locucionários como fornecendo dados aos sentidos.

e ilocucionários, sem perder de vista que a situação de discurso por- ,


Há um senão nisso apesar de Austin não pressupor um paralelismo
,

tanto, o valor ilocucionário, representa o que de fato se quer dizer com,


entre linguagem e realidade como fundamental ele não abre mão da ,

cada ato de fala. Como a afirmação é um ato de discurso cujos efeitos distinção entre os níveis locucionário e ilocucionário afirmando que a ,

136
137
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO WITTGENSTEINIANA; OS JOGOS DE LINGUAGEM

referência é ato rético. O que poderia reconduzir à distinção entre ele- para isso atinar que pela simples virtude dos elementos que compõem a
mentos semânticos e veritativos, de um lado, e elementos pragmáticos ,
significação (equivalente ao ato locucionário de Austin ou à sentença de
Strawson), não há produção de enunciação quer dizer, ainda não se disse"
"

de outro. O estatuto epistemológico dessa distinção permanece ambíguo. ,

De qualquer forma, Austin descarta uma teoria do conhecimento de estilo nada. O problema de uma semântica restrita à análise formal reside em
considerar que o último passo já está dado na e pela significação O valor
" " " "

metafísico, calcada na noção de que os objetos existem e que por isso .

podem ser conhecidos/percebidos, independentemente de uma linguagem. de verdade de uma sentença referencial não depende de fixai um estado
de coisa na realidade empírica como se este estado de coisa pudesse
Daí a grande repercussão de How to Do Things with Words sobre a semân-
,

tica contexto-situacional de um Ducrot, por exemplo, e a teoria da ação ser traduzido automaticamente pela sentença e tivesse sua significação
comunicativa de Habermas, só para citar dois casos notórios. A lingua- dependente de sua capacidade de estabelecer o que é o caso ou seja, o ,

gem, através dos atos de discurso, toma força no dizer. Dizer algo é, eo significado. Os referentes são negociados nas situações em que os falantes se
ipso, fazer algo com as enunciações pelo simples fato de serem ditas em encontram. No seguinte diálogo o referente da sentença não depende da
,

determinada situação. descrição de um estado de coisa na realidade e sim do uso do enunciado


,

(em que entram diversos fatores desde os mais pessoais, até aquilo que
,

Devemos nos recordar que, à época de Austin, década de 1950 e início


numa cultura deve ser entendido como cosmético e não medicamento):
dos anos 1960, a teoria do discurso e a pragmática começavam a dar seus
- Você já comprou o seu remédio?
primeiros passos. Austin foi um dos pioneiros nas críticas ao logicismo.
- Não é remédio é creme. ,

Segundo ele, os filósofos não perceberam a originalidade dos atos ilocu-


- Como , então, você compreendeu o que eu te perguntei?
cionários. Negligenciaram questões sumamente importantes como a da
- Porque para você é remédio.
força do discurso atendo-se unicamente aos problemas da significação,
,

do sentido e da referência todos eles problemas locucionários. Ao serem


,

pronunciadas num determinado contexto, as enunciações não se limitam


à função referencial senão que tomam valor enquanto atos de discurso,
4 A REFERÊNCIA COMO ATO DE FALA PARA SEARLE
.
,

e isto não como simples decorrência da significação (regras gramaticais , Para Searle, a referência é um ato de fala , geralmente iniciado por
mais a referência) de um ato locucionário e sim devido às circunstâncias
,
expressões definidas singulares como ,
"

o homem ...
"

(Note-se que em
e convenções da situação e do contexto. Diz ele (1975: 100): "

o homem é um ser racional


"

o uso não é referencial). Ele parte de


,

"

Desde já alguns anos, temos compreendido cada vez mais claramente que as dois axiomas , o da existência que afirma: Tudo o que é referido tem de
circunstâncias de enunciação de fato importam seriamente que as palavras
" "
existir ; e o da identidade:
Se um predicado é verdadeiro para um ob-
' '
usadas devem ser explicadas em grande parte pelo 'contexto> em que teriam
jeto, ele é verdadeiro para qualquer coisa idêntica a esse objeto" (Searle,
sido ditas ou realmente foram ditas numa troca linguística.
,
198: 103). Como resolver o problema das sentenças existenciais negativas ,

"

como: A montanha de ouro não existe"? Searle segue Russell mostrando


Levar em conta as ideias de Wittgenstein Strawson e de Austin evitaria
,
,

muita discussão estéril , como a que considera a semântica de modelos que a expressão definida na posição de sujeito gramatical não é sujeito
suficiente para dar conta da significação e que à análise pragmática, por
,
lógico não implica o referente, portanto o axioma da existência não se
,

tratar dos fenómenos contextuais ,


caberia acrescentar a
"

leitura". Basta aplica. Mas isso não significa ao contrário do que pensava Russell, que as
,

138 139
DO SIGNO AO DISCURSO A REVOLUÇÃO W1TTGENSTEINIANA: OS JOGOS DE LINGUAGEM

" "

expressões referenciais (do tipo expressões definidas ) não possam referir. conteúdo descritivo, sem uma proposição verdadeira, a referência fica
Quanto aos personagens de ficção, na fala normal não se pode referir a impossibilitada de comunicar um fato, portanto, não refere. Enquanto
"

eles. Compare-se Sherlock Holmes usava chapéu de caçador" e "Sherlock Strawson e Austin separam as funções proposicionais e semânticas das
Holmes virá jantar em minha casa". A primeira sentença é falsa no uso funções referenciais, o primeiro, e ilocucionais, o segundo, para Searle a
normal, mas verdadeira no uso ficcional; já a segunda é falsa sempre por comunicação, portanto, o nível da fala, da enunciação, demanda a propo-
se tratar da casa mencionada , que pertence ao falante. sição. O sentido, com os termos gerais descritivos, muitas vézes sozinho,
não basta para comunicar uma proposição. É a enunciação da expressão
"

Pelo axioma da identificação se um falante se refere a um objeto, é


,
"

num certo contexto [que] comunica uma proposição (Searle, 1981: 123).
porque pode identificar esse objeto para um interlocutor, se lhe for pedido,
Por isso a expressão "o homem" tem um só sentido nas várias ocasiões
excluindo todos os outros objetos. Toda descrição definida comunica um
em que é usada; uma proposição é comunicada, e será ela que irá in-
fato verdadeiro em relação a um e apenas um objeto Se essa enunciação
.

dicar de que referente exatamente se trata. Daí não se poder dizer que
não bastar, deve ser possível substituí-la por outra que fará a identificação .

um nome logicamente próprio tenha como significação o objeto a que


Quando um fato é comunicado, contém predicados verdadeiros do objeto,
refere, como na teoria das descrições, pois é preciso que a enunciação
a enunciação e o contexto fornecem uma apresentação ostensiva do objeto ,

de expressões desse tipo comunique algum conteúdo descritivo que faça


descrito por termos e dêicticos que permitem isolar e identificar aquele
a conexão entre elas e os objetos.
objeto do contrário não há referência.
,

Um ato proposicional de referência, portanto, é um ato de fala, parte


O ato proposicional de referência funciona num ato de fala ilocucio-
nário
da enunciação de uma frase ou segmento de um discurs», que realiza
, quer dizer, com força efetivadora. O locutor seleciona um objeto a
um ato ilocucionário que pode ou não ser bem-sucedido. Ikra ser bem-
respeito do qual dirá ou perguntará algo que o interlocutor possa reconhe-
,

sucedido, é preciso que o locutor tenha a intenção de realizar tal ato,


cer. O termo que descreve o objeto deve permitir que a intenção de uma
de modo que a enunciação não seja mera articulação de sens. E preciso
identificação ocorra e que o descritor seja verdadeiro desse determinado
que haja o objeto do qual é feita uma descrição identificaíbra suficiente
objeto. O artigo definido não tem função de implicação mas de indicar a
"

para que o ouvinte selecione aquele objeto entre outros, reconhecendo


intenção do falante de referir a um único objeto; e a função do descritor é
que a intenção do falante é essa. Outra característica impotente é que a
identificar , num certo contexto, para o ouvinte, o objeto ao qual o falante
referência só é enunciada corretamente por aquele segments do discurso
tem a intenção de se referir naquele contexto" afirma Searle (1981: 112).
,

em dada situação, se e somente se, as condições acima romeionadas fo-


Ao referir, o locutor satisfaz às perguntas sobre o que fala de quem , rem cumpridas. A referência é um ato de fala intencional, resume Searle.
fala, de qual objeto fala comprometendo-se a identificar um e apenas
,

Searle, seguindo a tradição pós-metafísica de Wittgenstein questiona a


um objeto, com exclusão de todos os outros dizendo o que é visado na
,

ontologia de objetos que os postula como independentes da linguagem.


referência isto é, mostrando, expressando, podendo fazer a apresentação
,

Para ele, não se devem "conceber os fatos que se dever» conhecer para
dêictica , sempre que lhe for solicitado.
referir como sendo relacionados com o objeto referido, pois isso sugere que
Há comunicação apenas porque indica os fatos que são conhecidos
"

sejam fatos sobre algum objeto identificado independerunnente (1981:


do emissor que mantém tuna certa relação com o objeto referido Sem .
124) das proposições existenciais, verdadeiras para aquele objeto. Searle,
140 ltí
DO SIGNO AO DISCURSO

com isto, quer evitar a postulação da noção de substância da metafísica


tradicional, que supõe um objeto estável em sua essência e determinável IV. â CONTROVÉRSIA
por suas propriedades intrínsecas. Os fatos não são, para Searle, combinação
de objetos nomeados. Sem fatos não há objetos, quer dizer, sem a descri-
ção através de proposições verdadeiras acerca de um objeto, este objeto HTERMSMOIHINEISMO
não pode ser referido. Por isso rejeita a simplificação dos quantificadores
existenciais que pressupõem que a variável ligada em (3 x) (f x) incide
sobre objetos já identificados. O predicado aplica-se a objetos, mas não
afirma que eles são algo ou o que são em si, critica Searle.
A referência passa a ser ato de discurso, o que traz enormes vanta-
Como vimos já com Peirce o signo não se limita à relação entre apenas
gens com relação à perspectiva lógico-linguística para a qual referir é ,

uma questão da capacidade que a sentença isoladamente possui. E bem dois elementos, o significante e o significado A noção de interpretante
.

verdade que tanto Frege como Russell desligaram o nomear do significar, dá ao signo um caráter mais maleável abrangente e funcional, como não
,

quer dizer a referência não decorre de a sentença ser significativa e ser poderia deixar de ser em se tratando de um filósofo pragmatista. Dadas
construída com expressões referenciais. Mas, no quadro pré-Wittgenstein essas características as regras de um suposto sistema estrutural jamais
,

I,a referência ainda depende de uma relação estabelecida no confronto esgotariam o signo. Mas a análise peirciana é lógico-gramatical atém- ,

com os fatos, o que nos leva a uma teoria da referência em cujo quadro -

se ao aspecto do signo-pensamento sua semiótica deixa ao campo da


,

epistemológico há a necessidade, inteiramente suplantada pelos autores filosofia da linguagem espaços a ser explorados Dewey (1859-1952) éo
.

que vimos neste capítulo, de confronto entre a linguagem e a realidade. filósofo que percorrerá de modo mais profundo e abrangente os espaços
A tradição wittgensteiniana enriqueceu o debate acerca dos proble- da análise da linguagem como fenómeno antropológico , cultural, social e

mas da referência, pois situa a linguagem como questão de atos, ações lógico/epistemológico Sua influência se faz notar sobre Quine
.
.
Por isso

linguísticas livres do padrão da proposição. Contudo, os atos de fala não mesmo, Rorty considera Quine um adepto do chamado "behaviorismo
"

têm um alcance crítico largo o suficiente para abarcar o discurso como epistemológico ao lado de Davidson e Sellars.
,

fenómeno com implicações sociais, políticas, epistemológicas. Antes, porém, Não poderíamos deixar de lado a tendência internalista especialmente ,

de entrarmos no terreno do discurso (capítulo V), há que complementar os originais e de certa forma, paradoxais argumentos de Chomsky que
,
,

a análise da linguagem como ação através da contribuição de uma outra mostram a referência intralinguística como uma propriedade da linguagem
vertente, também anglo-saxônica que é a do pragmatismo.
, internalizada ,
e a relação linguagem/mundo como fenómeno que escapa
inteiramente às regras especificamente linguísticas Interessante nesse debate
.

internalismo/externalismo é a posição de Putnam que se considera um ,

internalista mas é tratado por Chomsky como um extemalista. A contro-


,

vérsia de que trataremos neste capítulo está na ordem do dia tanto para ,

a linguística como para a filosofia da linguagem No marco teórico do .

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JSt
DO SIGNO AO DISCURSO A CONTROVÉRSIA EXTERNALÍSMO X INTERNAIISMO

pragmatismo e da virada pragmático/discursiva, uma teoria da referência modelares, deve descer à terra e transformar-se em projetos exequíveis .

só faz sentido para uma postura epistemológica que neutraliza artificial- E, por seu turno o real deve ser guiado por ações transformadoras in-
,
,

mente o fator discursivo. teligentes, submetidas ao crivo da experimentação e não aos sistemas de
verdade e de certeza absolutos Tal como Wittgenstein Dewey critica o
Dewey, Quine, Putnam e Davidson abrem um rico e sugestivo leque .

apelo à transcendência especialmente a de uma suposta mente cujos


" "

de questões que estão sendo retomadas e revitalizadas em diversas aborda- ,

gens linguísticas e filosóficas, convictos de que os fatores pragmáticos não significados teriam nela uma existência à parte psíquica, nãb redutível aos
,

" "

são apenas aqueles efeitos não desejados feito penduricalhos da árvore


,
chamados fenómenos físicos. Não há o fulcro o fundamento último, o
,

gramatical e logicamente estruturada da linguagem. Sistema, estrutura, critério comensurador nem para o conhecimento e nem para a linguagem .

forma lógica, regras sintático-semânticas representam um nível de análise Na obra Experiência e natureza (1925) Dewey afirma que a comunicação
,

em que a significabilidade de uma frase gramatical e também as relações permite que as coisas saiam de seu estado externo, estado provocador dos
entre o significado e a referência podem ser estabelecidos de modo claro estímulos para o plano em que se mostram como coisas úteis ou obstáculos
,

e seguro. As consequências dessa relação são dotar as proposições, cujo à ação. Apenas neste plano podem ser adaptadas para a comunicação isto
,

valor de verdade é atribuído em função da possibilidade de confronto com é, os eventos tornam-se objetos com significado meios para a ação. Disto
,

a realidade empírica. Fora desse quadro, levando-se em conta os fatores


pode resultar a referência a algo, mesmo que este algo não "exista". A
pragmáticos, ou seja, os fatores provenientes das situações dialógicas e dos
nomeação dota os eventos de um poder que não tinham seus significados ,

contextos de fala, levando-se também em conta os diversos propósitos da


podem ser arranjados, combinados, compostos pelo pensamento, que é
comunicação entre os membros de uma comunidade de falantes, veremos
uma experimentação interna (e não tuna mente subjetiva pensante) capaz
que a referência não é um fator primordial, e que ela pode se mostrar
"
de duplicar as coisas por meio de representantes signos, implicações, ,

inescrutável". E preciso, pois, não só analisar a linguagem em seus


todos eles aptos ao manejo e dotados de certa estabilidade suscetíveis de ,

componentes estruturais e como ato de fala tais como vistos por Austin
elaboração ideal ou lógica de produzir instruções, informações. Ao entrar
,

e Searle, mas inseri-la na própria ação humana. É dessa perspectiva que no discurso , tudo ganha importância e dignidade. Por isso
partem as análises do pragmatismo de Dewey, o behaviorismo epistemoló-
gico de Quine, as contribuições de Davidson para a relação entre verdade não é de surpreender à vista de tais incrementos e transformações, que os
,

e interpretação, e a noção de interação entre as categorias e a realidade, significados, sob o nome de formas e essências tenham sido frequentemente
,

de Putnam. Podemos dizer que são adeptos de uma postura externalista, saudados como modos do Ser além e acima da existência espacial e temporal ,

invulneráveis às vicissitudes; nem que o pensamento enquanto seu domínio,


com a qual contrasta a perspectiva internalista, cujo representante mais
,

tenha sido tratado como uma energia espiritual não natural desligada de ,

notório hoje é Chomsky.


tudo o que é empírico. Não obstante há uma ponte natural que redime a
,

separação entre existência e essência a saber, a comunicação, a linguagem, o


,

discurso. A falta do reconhecimento da presença e da operação da interação


1 Dewey: o significado como função do
.

natural sob a forma de comunicação cria o hiato entre existência e essência ,

COMPORTAMENTO COOPERATIVO e esse hiato é artificial e gratuito (Dewey 1980: 30).


,

Um dos pressupostos filosóficos de Dewey é que ideal e real preci- Como podemos notar essas considerações de Dewey são características
,

sam aproximar-se: o mundo ideal do platonismo, das ideias destacadas e de uma tendência pós-metafisica situam-se no âmbito da virada linguística
,

ltt 14S
DO SIGNO AO DISCURSO A CONTROVÉRSIA ECTERNALISMO X INTERNALISMO

e se adaptam à virada pragmática. Infelizmente, com exceção de Rorty e outro objeto da natureza com essências ideais completas e permanentes
,
,

Quine, que perceberam sua importância, a contribuição de Dewey tem suscetíveis de classificação e definição submetidas a uma ordem necessária
, .

sido pouco explorada. Seu antiplatonismo representa uma tendência crítica


Quando a filosofia moderna descobre a experiência interior a sub- ,

importante na filosofia contemporânea: no lugar da busca de essências


jetividade, libera a linguagem, mas reserva ao sujeito centrado em seu
permanentes, há o homem, e o que mais contribui para a sua condição de
"
ego o papel de protagonista principal e à linguagem é reservado o papel ,

homem é a comunicação, a linguagem, chamada por ele de instrumento


secundário de emissor do pensamento (inclusive a fenomenologia de
dos instrumentos". Os filósofos empiristas relegaram a linguagem a um Husserl , com sua proposta de um Eu transcendental fulcro de vivências ,

segundo plano, e os filósofos transcendentalistas alojaram-na na mente do intencionais ,


bem com o ser para si sartriano, prosseguem a tradição
sujeito, considerando-a como mera expressão do pensamento, desprezando cartesiana). Para Dewey , no entanto,
"

o papel da linguagem na criação da reflexão, da previsão, da recordação.


a linguagem é uma função natural da associação humana e suas consequências
Por conseguinte, a ocorrência de ideias torna-se uma misteriosa adição ,

interferem com outros eventos físicos e humanos, conferindo-lhes signifi-


,

paralela às ocorrências físicas (...) Pode-se afirmar seguramente que os


"
cado ou significação Os eventos, na medida em que são objetos ou coisas
.

eventos psíquicos (...) têm como uma de suas condições a linguagem significantes existem em um contexto no qual adquirem novos modos de
,

(Dewey, 1980: 31). As ideias privadas nada mais são do que solilóquio. operação e novas propriedades (...) A linguagem não é simples agência de
.

Mesmo este provém da comunicação social que permite conversar, trocar economia de energias na interação dos seres humanos É liberação e ampli- .

experiências, ouvir-se uns aos outros, representar papéis. Desta e de outras ficação das energias que constituem a mencionada interação e que confere ,

várias atividades correlatas, nasce a mente. No lugar do cogito cartesiano a elas a qualidade adicional do significado A qualidade do significado assim .

e das formas puras a priori kantianas, Dewey vê o homem com seu com- introduzida é estendida e transferida atual e potencialmente, dos sons, movi-
,

portamento, em grande medida, um comportamento linguístico. mentos e traços , para todas as outras coisas da natureza. Os eventos tornam-
se mensagens a serem gozadas e administradas (...) eles têm marcas; (...)
-

Os gregos pressentiram que se tratava do fator discursivo, no conhe- tornam-se possíveis a inferência e o raciocínio; estas operações são leituras
cer e na intelecção, porém hipostasiaram o discurso como formador das das mensagens das coisas que as coisas liberam porque estão envolvidas nas
,

coisas e de seu fluxo (assim, há objetos que se adaptam a nomes, outros associações humanas (Dewey 1980: 33-34). ,

a verbos, outros às relações que substâncias mantêm entre si), ignorando


A significação não reside no mecanismo dessas associações ,
mas é
que as essências lógicas e racionais são fruto da interação humana, produto
consequência dos diversos tipos de associação dos usos da linguagem na ,

cultural e social e não entes ideais.


ação. O significado não é decorrência de uma intenção ou desejo , mas

A teoria da correspondência entre coisas e significados dominou toda a dos sinais utilizados em contextos nos quais se dão os comportamentos
,

tradição da física e da metafísica. O pressuposto é o de que há substâncias cooperativos; de modo que o significado não tem uma existência psíquica,
com suas essências e acidentes (atributos) e o Ser é identificado com os não é um puro conceito mental (Saussure) ou abstrato (Frege). O signi-
" "

tempos do verbo ser, o que assegura ao Ser permanência, ele é Ora, .

ficado decorre do modo pelo qual atos e coisas são alçados ao patamar
A RELAÇÃO ENTRE MUNDO E LINGUAGEM NÃO PRECEDE O DISCURSO E A COMUNICAÇÃO, da inteligibilidade devido ao caráter de comunicabilidade potencial das
,

mas É consequência da interação. Inversamente, a metafísica pressupõe que coisas: há uma distância intransponível entre o que é um evento físico
uma afirmação é verdadeira quando algo da natureza está sempre ligado a e o que ele pode tornar-se o modo como se define, o modo como se
,

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DO SIGNO AO DISCURSO A CONTROVÉRSIA EXTERNALISMO X INTERNALISMO

conecta, suas consequências futuras. Assim, conferir a algo um significado instrumental e final da comunicação residem juntas na experiência, passam a
"

é mostrar-lhe sua propriedade, ou, se quisermos, sua essência. A lingua- existir uma inteligência que é o método e a recompensa da vida comum, e
,

gem é sempre uma forma de ação, e em seu uso instrumental é sempre uma sociedade digna de afeição admiração e lealdade (Dewey, 1980: 51-52)
,
.

"

um meio de ação organizada para um fim (Dewey, 1980: 39). Por isso A contribuição de Dewey teve pouco reconhecimento e muita crítica
ele critica o nominalismo, para o qual o significado é mental e indivi- e condenação especialmente de toda a filosofia predominant? nas décadas
,

dual, ao passo que para o pragmatismo uma palavra adquire significado de 1950 e 1960 "

que fez a leitura esquerdizante portanto, ideológica,


,
"

do pragmatismo como um utilitarismo e um relativismo Segundo essa


"

pela ação comunicativa entre indivíduos, compartilhando propósitos: Tal .

"

comunidade de participação é o significado afirma Dewey (1980: 40),