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br / janeiro de 2020 / ano 01 / nº 01

Revista
BUDA
2020
2 • revista buda • janeiro de 2020 •3

Carta da
Editora
Foi pensando nos nossos associados e leitores mais cuidadosos
que a estrutura dessa edição foi esculpida ao longo de oito meses. O
corpo editorial decidiu abraçar o desafio de proporcionar uma revis-
ta cheia de conteúdo e informação, com leitura leve e instigante.
Nosso objetivo nessa edição de 2020 foi trazer para você, as-
sociado e leitor, não apenas eventos importantes, mas matérias com
temas apurados, marcantes e que pudesse ao mesmo tempo tirar o
seu fôlego e fazê-lo recuperá-lo logo em seguida.
A revista é estruturada em três sessões, cada uma com uma
abordagem característica. Na primeira sessão você terá contato com
tudo o que foi realizado dentro da Associação BUDA, como o signi-
ficado do novo nome da associação, projetos sociais e as novas pu-
blicações da nossa editora. Na segunda sessão, você encontrará arti-
gos sobre os estudos que alunos e alunas já formados na graduação
livre em Budologia estão realizando no mestrado e doutorado em
Monja Loyane em meio a jovens monges depois da aula, no monastério de Sera Jey na Índia, em 2012.
Ciências da Religião, na Universidade Metodista de São Paulo. Você
encontrará ainda diversas discussões acadêmicas trazidas ao ITBC

Editorial
por muitos professores e palestrantes, em temas que abriram novas
discussões e um novo mundo de pesquisa.
Em seguida, a sessão que considero uma particularidade cati-
vante dessa revista: a do Monastério. Nesse momento, recuperamos
EDITORA CHEFE: o fôlego e entramos em contato com uma realidade diferente de po-
Cibele Furlan der viver a vida, em uma renúncia que resulta na paz, estruturada
pelo Buda histórico e expressamente registrada em três corpos de
EDITORA ASSISTENTE:
ensinamentos: ética, meditação e teoria da realidade. Esses são os
Tattiane Yu Borges Marques três treinos que estruturam os textos do Tripitaka, e que dão suporte
REVISÃO E ADAPTAÇÃO: para que monges e monjas, leigos e leigas possam ter uma vida mais
repleta de significado.
Tattiane Yu Borges Marques
Ethel Panitsa Beluzzi E para quem, além de uma boa leitura, gosta de prestigiar foto-
grafias que trazem a arte, a cultura e a vida local, isso também é pos-
DIRETORA DE ARTE sível nessa primeira edição. A sessão chamada Momento tem como
E DIAGRAMAÇÃO: proposta apresentar uma foto tirada por nossos associados, e você
monja Estela Piccin leitor pode participar da próxima edição mandando seu conteúdo.
(Lobsang Lhamo) Assim, promovemos um diálogo mais próximo com as experiências
uns dos outros, seja em outro lugar do mundo, seja aqui do lado, e
ampliamos nosso conhecimento e interação.
Esperamos que goste dessa abordagem.

CIBELE P. B. FURLAN
4 • revista buda • janeiro de 2020

Momento
Índice
06 बद ु ध

ASSOCIAÇÃO

Buda Darma
धरम ्
08
Jiu é Vida
20
Livros da
Editora ATG
22
Asherah e Buda Tare:
uma associação
possível?
28
ITBC

Participação em
Congressos

34
Ciências da Religião
no ITBC
38
ENTREVISTA:
20 anos de Ordenação
50
MONASTÉRIO

Encontro WBSC 2019


62 em Macau, China

What is the difference


between Aspiring and
Engaging Bodhicitta? 64
Celebrando 600 anos de Monastério de Drepung  
tradição Geluk: a história
74 de Je Tsongkhapa
Tripitaka: processos Foto clicada por Isabella Leia mais sobre os mo- Deseja enviar fotos para o
de tradução e Graballos: monastério de nastérios fundados por Je Momento da próxima edi-
diferenças
82 Drepung em Lhasa, funda-
do em 1416.
Tsongkhapa e seus alunos
na página 62.
ção? Envie um e-mail para:
contato@buda.org.br
INFOGRÁFICO:
Aconteceu em 2019
बुद्धधर्म
6 • revista buda • janeiro de 2020 Associação • 7

Buda Darma ...de modo geral, podemos entender que o Darma


Ethel Panitsa Beluzzi é o conjunto de ensinamentos de Buda, aquilo que
buscamos estudar e colocar em prática.
Uma das principais mudanças em 2019 foi a mudança
do nome da Associação, que passou de Associação Tatha-
Em termos conceituais, podemos dizer que O primeiro deles é a ideia de Buda. De um
gata Garbha (ATG) para Associação Buda Darma (BUDA).
esse conceito diz respeito ao potencial de cada ser ponto de vista etimológico, Buddha (बुद्ध) signi-
Mas quais foram os motivos da mudança? O que significa- senciente de realizar o estado de um Buddha, isto fica “aquele que despertou” (Monier Williams).
va o nome anterior, e o que significa o novo nome? é, um estado de superação completa de quaisquer Assim, o estado de Buddha é um estado que pode
sofrimentos e insatisfações e de um entendimento ser construído através do treino. E o professor que
preciso e completo da natureza da realidade.  ensinou os métodos de treinamento para construir
O principal motivo da mudança foi faci- aqueles que não conhecem muito sobre o budismo.
o despertar é o Buda histórico, Buda Shakyamuni,
litar a pronúncia e a escrita do nome da associa- A sigla BUDA, do mesmo modo, faz essa indicação Embora ainda estejamos dentro do ciclo de que viveu há cerca de 2600 anos na Índia.
ção. Para nós, que somos brasileiros, o nome Buda de maneira muito clara. sofrimentos, saṃsāra, temos o potencial de, através
Darma é muito mais fácil do que a palavra Tatha- do treino, desconstruir as três raízes do sofrimento O segundo é a ideia de Darma: os ensina-
gata Garbha. Isso facilita, também, a procura pela Mas, afinal, o que significa Tathagata Garbha? 
- a ignorância distorciva, o ódio-ressentimento e mentos dados por Buda Shakyamuni. Na verdade,
nossa plataforma, nosso site e redes sociais. Além Tathagata Garbha veio do sânscrito tathā- o apego aflitivo - e construir em nós mesmos esse a palavra dharma (धर्म) pode ter muitos significa-
disso, ainda que o conceito de Tathagata Garbha gata-garbha (तथागत-गर्भ), e significa o potencial estado de um Buddha. E esse potencial, de acordo dos: dependendo do contexto, pode significar “fe-
esteja profundamente relacionado com a filosofia para realizar o completo despertar. Isso pode ser com o budismo Mahāyāna, não existe apenas em nômenos”, “virtude”, “lei” e muitos outros. Assim,
budista, o nome Buda Darma indica de maneira entendido em vários campos diferentes. alguns seres como deuses ou humanos, mas em to- ela é em si mesma um amplo objeto de estudo e
mais fácil qual é o foco da Associação mesmo para dos os seres sencientes. análise. Mas, de modo geral, podemos entender
que o Darma é o conjunto de ensinamentos do
O conceito de Tathagata Garbha, assim, es- Buda, aquilo que buscamos estudar e colocar em
Mas, afinal, o que significa Tathagata Garbha?  tava já profundamente ligado aos objetivos da as-
sociação. Entretanto, como é uma palavra distante
prática.
do nosso vocabulário comum, sua pronúncia pode Assim, o novo nome de nossa Associação
Em termos de etimologia, tathāgata significa das tradições. Uma das traduções possíveis é aque- ser difícil para muitas pessoas - e quem dirá, então, busca trazer dois pontos fundamentais de estudo
literalmente  “assim ido” (de acordo com o dicio- le que foi até o completo despertar. Garbha, por sua a dificuldade de escrever? E essa dificuldade se tor- da tradição budista de maneira que se aproxime do
nário Buddhist Hybrid Sanskrit de Franklin Edger- vez, significa “útero” (Monier Williams), junto com nava muito comum, tanto para entrar na platafor- público e facilite a pronúncia, a leitura e a escrita.
ton) e “ser em tal estado ou condição” (de acordo dezenas de outros significados, no sentido daquilo ma de aulas, quanto para encontrar o site e as redes
com o dicionário Monier Williams). Entretanto, que é capaz de gerar algo.  sociais e etc.
esse é apenas o sentido literal: uma vez que Ta- Assim, ocorreu a mudança para Buda Dar-
thagata é também um epíteto para o Buddha, ele Dessa maneira, através da análise da palavra,
entendemos que Tathagata Garbha é o potencial ma. Ambas as palavras foram escritas de acordo
ganha diversos significados ao longo dos séculos e com uma grafia mais próxima ao português, e con-
para realizar o estado de completo despertar.
tém dois conceitos principais para o budismo. 
8 • revista buda • janeiro de 2020

Plínio Tsai, idealizador do


projeto e professor de jiu jitsu,
conversando com as crianças em
um final de treino.

Ao final dos treinos, após o registro com a “foto séria”, as crianças “O que vocês,
eram livres para fazer as poses que quisessem. crianças, precisam
é querer aprender
O objetivo traçado foi dar acesso à prática esportiva do muito bem as
Jiu-Jitsu Brasileiro, com caráter formativo educacional, através técnicas. Mas
de atividades voltadas a crianças e adolescentes em situação de precisam ir além
risco social, promovendo dessa forma a inclusão social, a pre- disso. Precisam
servação de valores morais, a saúde e o desenvolvimento psi- aprender a ter um
comotor, a conscientização de princípios socioeducativos (tais bom coração. A
como coeducação, cooperação, emancipação, entre outros), a disciplina faz parte
aquisição de valores de direitos e deveres, a solidariedade e a
disso. Por isso, vocês
melhora do condicionamento físico.
precisam ter boas
Assim, o Projeto “Jiu é Vida” nasceu e foi aprovado ofi- notas na escola. Mas
cialmente em maio de 2019 pela Secretaria Municipal do Es- mais do que isso.
porte e Lazer de Valinhos com uma proposta solicitada pelo Vocês precisam ser
edital de 10 meses de vigência. alunos que dão o
Os treinos com os alunos do projeto ocorriam tanto aos bom exemplo para
finais de semana, sob a responsabilidade do professor e idea- os demais, para
lizador Plínio M. Tsai, – faixa preta 3º grau reconhecido pela aqueles que não
Federação de Jiu Jitsu do Rio de Janeiro, Escola Fadda (trata-se treinam ainda. O
da primeira federação de Jiu-Jitsu, que foi fundada pela famí- objetivo de vocês
lia Gracie) – , como durante a semana com os instrutores res-
não deve ser de
ponsáveis monge Jonathan (Lobsang Chogni) e Maximiliano
Sawaya, ambos faixa roxa de Jiu Jitsu. ganhar medalhas.
Ganhar medalhas é
Tattiane Y. B. Marques e Cibele P. B. Furlan Com a finalidade de desenvolver os objetivos do projeto, legal, mas o objetivo
muitas atividades foram programadas para as crianças. Dentre maior é aprender
Artes Marciais são muito mais do que apenas um elas, o processo de aprendizagem sobre as regras das artes mar-
para proteger vocês
ciais, ética e moral com as crianças, que agora eram alunos. Nas
exercício: elas são, também, um modo de ensinar disci- palavras do professor Plínio e idealizador do projeto: “O que
mesmos e seus
plina, esforço e concentração. Desde o início os treinos de vocês, crianças, precisam é querer aprender muito bem as técnicas. amigos. Se possível,
artes marciais até os dias presentes, o professor Plínio Mar- Mas precisam ir além disso. Precisam aprender a ter um bom co- nesse processo,
cos Tsai sempre desenvolveu muitas atividades de ensino e ração. A disciplina faz parte disso. Por isso, vocês precisam ter boas não machuquem
treinamento, levando essas disciplinas para muitas pessoas: notas na escola. Mas mais do que isso. Vocês precisam ser alunos ninguém. O objetivo
que dão o bom exemplo para os demais, para aqueles que não trei- é sempre ajudar a se
crianças, jovens e adultos. O projeto “Jiu é Vida” nasceu nam ainda. O objetivo de vocês não deve ser de ganhar medalhas. proteger. É preciso
dessa iniciativa de trazer também projetos sociais para o Ganhar medalhas é legal, mas o objetivo maior é aprender para ter cuidado com o
município de Valinhos em prol de beneficiar ainda mais proteger vocês mesmos e seus amigos. Se possível, nesse processo,
seu amigo de treino.”
crianças. não machuquem ninguém. O objetivo é sempre ajudar a se prote-
ger. É preciso ter cuidado com o seu amigo de treino.”
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Maximiliano Sawaya instrutor


faixa roxa de Jiu Jitsu e voluntário
Familiares das crianças assistidas comemorando a troca de faixa. que acompanhou as crianças
durante os treinos no dojô.

O intuito sempre foi trazer o entendimento para as crian-


ças de uma comunicação não violenta, com raiz em uma in-
tenção virtuosa, que gera resultados de efeito imediato, como “O que mais
o respeito e a confiança entre professor e aluno. “O que mais vi amadurecer
vi amadurecer nas crianças e adolescentes do projeto Jiu é Vida nas crianças e
foi o respeito pelos outros. Com respeito estou querendo dizer adolescentes do
que diminuíram as birras e tentativas de atrapalhar os outros projeto Jiu é Vida
por problemas pessoais, diminuíram as posturas inadequadas foi o respeito
durante os treinos, como se não estivessem ligando para o que pelos outros. Com
estava sendo ensinado; muitos até mesmo não só diminuíram respeito estou
essas faltas de respeito e atenção como desenvolveram atitudes querendo dizer que
proativas de tentar ajudar uns aos outros, de não deixar sujeira e diminuíram as birras
bagunças, e até de chamar a atenção do colega que estava sendo e tentativas de
desrespeitoso e assim por diante.” afirma Maximiliano Sawaya atrapalhar os outros
instrutor faixa roxa de Jiu Jitsu e voluntário que acompanhou por problemas
as crianças durante os treinos no dojô. pessoais, diminuíram
Para conquistar esse resultado com as crianças muitas as posturas
atividades e reuniões entre professor, instrutores e voluntários inadequadas durante
foram realizadas para ajustar os treinos, falas e dinâmicas de os treinos, como
ensino-aprendizagem dentro e fora do dojô. se não estivessem
ligando para o
Também vale ressaltar a importância dos pais e familiares que estava sendo
no aprendizado das crianças, por isso durante todo o decorrer ensinado; muitos
do projeto recebemos alguns pais e familiares nas atividades na até mesmo não só
sede da BUDA, inclusive houve a possibilidade permanente de diminuíram essas
Os treinos
mesclam exercícios
alguns dos pais participarem dos treinos junto com seus filhos. faltas de respeito
tradicionais de jiu
O Projeto “Jiu é Vida” atendeu 15 crianças e adolescentes e atenção como
jitsu e atividades
em sua primeira fase em 2019. A Associação segue agora para desenvolveram
lúdicas para o
desenvolvimento de uma nova fase do projeto, com os mesmos objetivos, mas com atitudes proativas
diversas habilidades
a visão de aumentar o número de crianças atendidas e contará de tentar ajudar
necessárias para a
com a participação de seus associados mais uma vez. uns aos outros, de
prática do esporte,
e também aspectos
não deixar sujeira e
básicos para o “Ter visto o envolvimento voluntário de nossos associados bagunças, e até de
desenvolvimento e a mudança real de comportamento das crianças assistidas foi chamar a atenção do
da criança, como
psicomotricidade,
realmente impactante. Toda a missão, visão e valores da Associa- colega que estava
lateralidade, ção BUDA são em prol de um benefício maior, que busca uma sendo desrespeitoso
sociabilidade, renúncia ao egoísmo e desenvolve uma vontade real que se dire- e assim por diante.”
cooperação, e assim
ciona para um bem-estar social. Nem sempre isso é fácil, mas ter
por diante.
visto essa possibilidade acontecer em nosso projeto foi incrível!”
comemora a presidente da Associação BUDA, Cibele Furlan.
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Confira algumas das


atividades do projeto
“Jiu é Vida”:

Alimentação e convivência
Durante o projeto o pro-
fessor Plínio M. Tsai ocasional-
mente cozinhava comida chine-
sa para os alunos. Ensinando a
importância da boa alimentação
(verduras, arroz, carnes, frutas) e
a comer com o palitinho (hashi,
em japonês). Durante os jantares
as crianças se sentavam para ver
desenho e/ou um filme de artes
marciais, conversavam e comiam
na mesa junto com o professor,
instrutores e amigos. Após o jan-
tar as crianças lavavam e seca-
vam seus potes e copos

Alguns registros dos jantares onde todos conviviam e partilhavam experiências.


À esquerda, crianças lavam e secam seus utensílios após o jantar. Acima o professor Plínio
cozinha e ensina a cozinhar; instrutores e associados voluntários trabalham na limpeza
e constróem um armário para a melhoria do ambiente de treino para o projeto.
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Atividades lúdicas
Enquanto aguardavam o
horário do início dos treinos, as
crianças que chegavam antes do
horário permaneciam na sala de
aula do ITBC durante as grava-
ções. Enquanto ouviam as aulas
elas produziam desenhos com
papéis e lápis coloridos. Ao fi-
nal da aula o professor Plínio M.
Tsai apreciava os desenhos e ou-
via suas histórias, e em seguida
as crianças desciam para a área
de treino.

Atividades complementares
Após os treinos desenvol-
vidos durante a semana, alguns
voluntários e alunos da Escola
Fadda de Jiu-Jitsu também cola-
boravam as atividades comple-
mentares programadas para as
crianças. Eles contavam histórias
para os alunos sobre clássicos do
Kung Fu, como a história do Rei
Macaco, ou ajudavam e supervi-
sionavam algumas das crianças
na leitura voltada para a moral e
o bom comportamento no dojô.
Normalmente, após a leitura as
crianças faziam desenhos sobre
Acima: aulas,
as histórias ou sobre o que leram.
desenhos,
leituras e
Na atividade com monja contação de
Nirvana França, que tem forma- histórias.
ção em engenharia química, as
Ao lado,
crianças aprenderam sobre rea- experimentos
ções químicas, por meio de um científicos:
experimento que utilizou confei- difusão de
confeitos
tos coloridos de chocolate, para coloridos; “lava
estudar o princípio químico da efervescente”
difusão. Em outra atividade, no sobre densidade
e reações
Dia das Crianças, os voluntários químicas, e
e associados doaram brinquedos brincando com
e foi organizado um evento com um microscópio.

distribuição de cachorro quente


para comemorar a data.
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Atividade externa
Fora das dependências
da Associação foi igualmente
possível realizar uma atividade Monge Jonathan (Lobsang
complementar com as crianças Chogni), instrutor no projeto,
do projeto. Uma visita guiada faixa roxa de Jiu Jitsu, e um dos
voluntários que acompanhou as
ao “T-Rex Park”, no Shopping crianças no parque de diversões.
Parque Dom Pedro, foi propor-
cionada pelos associados André
Araújo e Sandra Araújo, que con- “Foi encorajador ver
seguiram 10 ingressos para o par- algumas melhorias
que, doados pela empresa 3M. Os graduais na disciplina
monges e voluntários associados e no entusiasmo para
da BUDA participaram juntos treinar. A disciplina
dessa atividade como monitores inclui provocar menos
das crianças. “Foi encorajador ver um ao outro, prestando
algumas melhorias graduais na mais atenção quando
disciplina e no entusiasmo para o professor está
treinar. A disciplina inclui provo- demonstrando
car menos um ao outro, prestando movimentos e
mais atenção quando o professor demonstrando uma
está demonstrando movimentos vontade de ajudar
e demonstrando uma vontade de outros alunos a
ajudar outros alunos a aprender. aprender. Também
Também houve melhorias na lim- houve melhorias
peza após as refeições e no caráter na limpeza após as
geral, como mostrar respeito ao refeições e no caráter
entrar no tatame e usar o Kimo- geral, como mostrar
no corretamente. Este ano tivemos Na página respeito ao entrar
ao lado:
a sorte de participar de um dia momentos de
no tatame e usar o
no T-Rex Park Campinas com as confraternização Kimono corretamente.
crianças do projeto. Quero agrade- em um Este ano tivemos a
dos muitos
cer sinceramente a Sandra e André aniversários
sorte de participar
por nos convidarem a participar e das crianças de um dia no T-Rex
à 3M por patrocinar o evento. As comemorados Park Campinas com as
após os treinos,
crianças se divertiram muito e, e o dia das
crianças do projeto.
às vezes, demonstraram carinho crianças com Quero agradecer
umas pelas outras trabalhando doação de sinceramente a Sandra
brinquedos e
com o “buddy system”, uma cui- e André por nos
cachorro quente
dando da outra.” Afirma o mon- por parte de convidarem a participar
ge Jonathan (Lobsang Chogni), associados e e à 3M por patrocinar o
instrutor no projeto, faixa roxa de voluntários. evento. As crianças se
Jiu Jitsu e voluntário que acom- Nesta página: divertiram muito e, às
panhou as crianças no parque de momentos de vezes, demonstraram
diversão no
diversões. “T-Rex Park”.
carinho umas pelas
outras trabalhando com
o “buddy system”, uma
cuidando da outra.”
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A presidente da Associação
BUDA, Cibele Furlan

“Ter visto o
envolvimento
voluntário de nossos
associados e a
Da esquerda para a direita, Alexandre Paiva, Hélio Fadda e Plínio Tsai.
mudança real de
comportamento das
crianças assistidas
foi realmente
O mestre Hélio Fadda impactante. Toda
1. O professor deve criar instrumentos para agregar a 7. O professor tem de garantir que o dojô, acima
e o professor faixa-preta 6º a missão, visão e
família dos alunos, como eventos de graduação, com- de tudo, seja um ambiente de educação;
grau Alexandre Paiva Car- valores da Associação
petições internas e com outras equipes, aniversários,
doso vieram do Rio de Janei- 8. No Jiu Jitsu aprendemos que o incômodo é BUDA são em prol
“aulão” de pais e filhos, confraternizações rotineiras
ro para conhecer o projeto uma benção. Ele faz o adversário sair do ponto de um benefício
etc.;
social e estreitar as relações onde está em busca de uma condição melhor. maior, que busca uma
de modo a contribuir com a 2. A equipe deve estar imbuída do sentimento de aco- Diferentemente da provocação, que é uma prá- renúncia ao egoísmo
Equipe Hélio Fadda de Vali- lhimento aos novos alunos de forma indiscriminada; tica típica de pessoas imaturas; e desenvolve uma
nhos. vontade real que se
3. O compartilhamento generoso do conhecimento 9. O professor deve ser um estudioso atento da direciona para um
Desde a fundação da deve ser uma prática diária entre professores e tam- natureza humana. Deve entender e respeitar as bem-estar social.
academia Fadda de Valinhos bém entre os alunos; paixões que movem seus alunos com mais in- Nem sempre isso é
os preceitos a seguir já estão tensidade, para norteá-los como modelos de fácil, mas ter visto
4. O professor deve garantir que não ocorra, em hipó- virtude.
servindo como base do nos- tese alguma, relações abusivas no dojô. Cuidado com essa possibilidade
so Jiu Jitsu Brasileiro: práticas que parecem inofensivas, mas que podem 10. O aluno deve perceber que toda luta deve acontecer em nosso
conter algum resquício de uma cultura de opressão e ser em prol de uma causa maior, de interesse projeto foi incrível!”
covardia, como apelidos depreciativos, linchamentos coletivo.
com faixas, preconceito etc.;
11. O mérito deve estar sempre no esforço e não
5. O lema durante o treino deve ser: “Se o adversário na vitória. O sucesso ou fracasso do outro não
está tendo facilidade demais, dificulte. Se está tendo deve ser referência quando se trata de ensino
dificuldades demais, facilite.”; e educação. Cada aluno tem seu próprio tem-
po de aprendizado, seus anos de tatame e seus
6. A equipe deve apoiar o movimento de superação das próprios objetivos.
limitações pessoais de cada membro dela;
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Livros da Editora ATG

TRATADO DAS DEZ QUESTÕES NÉCTAR DA IMORTALIDADE: SERMÃO DO GRANDE FUNDAMENTO


DA TERRA PURA, DE ǑUYÌZHÌXÙ A DHYANA DE AMITAYUS 822 PÁGINAS, 2019 / ISBN: 978-85-68091-83-8
121 PÁGINAS, 2019 / ISBN: 978-85-68091-85-2 463 PÁGINAS, 2019 / ISBN: 978-85-68091-84-5
A obra Sermão do Grande Fundamento con- d.C., e foi revisado pelo mestre do Dharma, Xuán-
Traduzido por Plinio Marcos Tsai, esse livro Do autor e tradutor Plínio Marcos Tsai. templa a tradução e comentário de Plínio Marcos zàng, o mestre Tripiṭaka, e sua equipe de traduto-
é uma introdução ao estudo dos fundamentos da Esse livro traz uma parte da tradição de desen- Tsai a um dos trinta e três Sermões que compõem o res e revisores. É o primeiro da coleção Taisho dos
escola de budismo Terra Pura, escola central para volvimento de concentração meditativa, cujas conjunto dos sermões longos do Buda histórico, de sutras do Buda histórico, a coleção mais estudada
a compreensão de todo o oriente chinês e japonês. origens retornam até o século terceiro antes do acordo com a Escola Dharmagupta da Ásia Cen- dos sermões e dos tratados budistas da China e Ja-
Ele conta com uma tradução bilíngue da obra, em início da era cristã, o Método de Amitayus. tral, que nasceu do diálogo entre o conhecimento pão. Esse livro conta com uma tradução bilíngue
mandarim e português. É um livro inédito em lín- da Filosofia Grega Clássica e o conhecimento da da obra, com referências cruzadas entre os termos
gua portuguesa. Filosofia Budista Indiana Sarvāstivāda. A versão em sânscrito e em chinês antigo, junto com a ro-
em chinês desse texto possui um registro no séc. V manização moderna.
22 • revista buda • janeiro de 2020 ITBC - Instituto de Estudos das Tradições Budista e Cristã • 23

ITBC Deusa. No entanto, as investigações da Arqueolo-


gia Bíblica apresentam evidências que podem criar
novos paradigmas no campo da literatura e religião
outros deuses de Ugarit) e do deus Baal (deus da
tempestade e da fertilidade), mas também das di-
vindades femininas, como de Asherah (conforme
no universo bíblico: acontece que recentes escava- pode-se verificar em Os 14,9). Ao atribuir carac-
ções arqueológicas se tornaram uma grande fonte terísticas que eram próprias de Asherah a Javé, o
para compreender o cotidiano dos ancestrais do culto a Asherah, de certa forma, continuou vivo no
povo israelita e compreender que Israel, nos seus imaginário da população. De maneira que práticas
primórdios, prestava culto a diversas divindades, do culto a Asherah passam a ser percebidas até pe-
advindas do panteão ugarítico. ríodos bem tardios na história de Judá (Ct 8,5b).
Há algumas pesquisas que tratam do culto Particularmente, após a descoberta das ins-
às deusas no Antigo Israel, com especial atenção a crições do sítio arqueológico de Kuntillet ‘Ajrud,
uma deusa conhecida como Asherah, que é geral- na península do Sinai, houve uma mudança radical
mente associada ao culto da fertilidade. Com base no conceito de culto que se tinha em Israel e Judá
nos registros bíblicos, pode-se inferir que, a partir até então. Essa nova abordagem reconhece a di-

Asherah e Buda Tare: das reformas estabelecidas pelo rei Josias (confor-
me 2Rs 22-23), o culto às representações femininas
foi sendo abolido e suas características foram assi-
versidade de divindades presente em toda Canaã,
um fator que influenciou diretamente as práticas
religiosas do povo de Israel e Judá. Pela grande

uma associação possível? miladas pelo culto à Javé. Ou seja, o javismo não só
se apropriou de elementos característicos do deus
El (deus da criação, com traços solares, e pai dos
quantidade de imagens femininas encontradas nas
escavações arqueológicas, é provável que o culto às
divindades femininas em Canaã fosse muito maior
A partir de monografia de mesmo título,
de autoria de Patricia Guernelli Palazzo Tsai.
Adaptação: Michel Pena
Ao atribuir características que eram próprias de Asherah
A tradição judaica é marcada fundamentalmente pela presen-
ça de um monoteísmo patriarcal. De acordo com o dogma religio-
a Javé, o culto a Asherah, de certa forma, continuou vivo
so convencional, existe apenas um Deus, e tendemos a supor que
nossos antepassados devotadamente acreditavam no mesmo. Mas a
no imaginário da população.
verdade é que a Bíblia também mostra, repetidas vezes, que esse não
era o sistema de crença predominante entre os antigos israelitas. Na que o culto às divindades masculinas. Esta supre- afirmar que ambas possuem fortes características
verdade, o povo de Israel nem sempre foi monoteísta. Afinal, essa macia parece estar ligada ao atributo da fertilidade.ligadas à fertilidade e à maternidade. Além disso,
crença em um único Deus originou-se a partir de uma construção Uma destas divindades femininas fortemente pre- ambas têm em comum a iconografia da árvore,
cultural-religiosa que ocorreu entre os séculos IX e V a.C. Ou seja, sente em Canaã é Asherah. com possível associação à Árvore da Vida (Ashe-
rah: terebinto, carvalho e tamareira; Tare: asoka e
houve muitas fases de expressão do panteão religioso israelita até Curiosamente, as representações da deusa bodhi). Ambas também seguram flores de lótus
que ele chegasse à síntese teológico-cultural mais propagada. Asherah possuem muitas semelhanças com uma em suas mãos, que simboliza o poder da criação
deidade do budismo conhecida como Tare (Tārā). (de gerar vida) e da pertença à linhagem divina. Da
Mas afinal, será possível a correlação de imagens mesma forma são representadas de pé e sozinhas,
que não pertencem ao mesmo espaço geográfico e desacompanhadas de representação masculina. E
Acontece que o Antigo Testamento da Bí- mas que os hebreus não deviam adorar nenhuma contexto histórico, mas que, contudo, apresentam por último, mas não menos importante: ambas fo-
blia está repleto de referências a outras divindades dessas outras divindades, apenas Javé (que é o que grandes similitudes? É o caso da imagem de duas ram perseguidas e colocadas à margem por religio-
além de Javé: os profetas não negaram a existên- os estudiosos chamam de monolatria). Isto é ex- divindades femininas, Asherah e Buda Tare , que sidades patriarcais.
cia desses deuses, eles simplesmente não achavam plicitamente declarado no Segundo Mandamento: apresentam características surpreendentemente
que os judeus deveriam adorá-los. Os diferentes “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo análogas. É possível afirmar que, por força de relações
escribas que escreveram a maior parte do cânone 20:3). políticas e comerciais entre povos, mesmo de regi-
bíblico acreditavam que o mundo incorpóreo era Em termos de seus atributos físicos e de sua ões distantes, seria possível que houvesse troca ou
povoado por uma multidão de deuses e deusas, A consolidação do monoteísmo patriarcal identificação com elementos da natureza, pode-se intercâmbio de símbolos e seus significados, vindo
judaico suplantou representações femininas de
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Baal. Ademais, nos textos ugaríticos Athirat é rela- imagens que a representam como uma Deusa de
cionada ao mar, enquanto no AT não aparece esta trajes masculinos, em pé, sobre uma cesta e tam-
relação. bém segurando flores de lótus nas mãos. Em outras
figuras, Asherah encontra-se em pé, com suas for-
O nome de Asherah no AT, quando é referi- mas arredondadas e partes íntimas bem demarca-
do na forma singular, provavelmente diz respeito à das, segurando flores de lótus em ambas as mãos.
imagem de uma mulher; quando o nome é referi- É muito significativo esse particular das flores de
do na forma plural, então a tendência é se referir a lótus nas mãos da Deusa. A flor de lótus é uma
uma árvore, ou a um tronco de madeira. Trata-se planta aquática da família das ninfeáceas e muito
de outra forma de culto à Asherah, principalmente comum no Egito, onde faz parte da mitologia do
quando relacionado à fertilidade da terra. povo desse país.
Há indícios arqueológicos de que Asherah A flor de lótus também está presente nas
não é associada somente a Baal, mas também é representações da Buda Tare. Essa semelhança é
mencionada ao lado de Javé. Ela aparece ao lado de muito instigante, a despeito de contextos tão dife-
Javé nos escritos de Kuntillet ‘Ajrud e no templo ja- rentes. Há autores que afirmam que a imagem da
vista de Arad. Além disso, no Livro de Reis (2:23), flor de lótus, enquanto símbolo de poder criador,
por exemplo, a Asherá se encontra no templo de atravessou vários territórios, de modo que essa mi-
Jerusalém, possivelmente ao lado de Javé. gração teria acontecido por volta do século VIII
Em algumas representações, Asherah é re- a.C. É provável que a associação da flor de lótus
presentada como uma Deusa de pé sobre um cava- com Asherah se deva à relação do atributo da Deu-
lo e segurando flores de lótus nas mãos. Há outras sa mãe, enquanto geradora de vida, com o útero.

Deusa Asherah com flores de lótus no Museu de Israel (Foto: Escultura de Tārā em pedra, painel na lateral da caverna de
José Ademar Kaefer, acervo pessoal). n° 6 do complexo de Ellora.

No caso de Asherah, ela é a Deusa progenitora dos


a influenciar ou a servir de inspiração para incor-
porar tais elementos na criação de novos arquéti-
ceiro milênio a.C. Pesquisadores afirmam que a
primeira referência escrita à Asherah ocorre na deuses, os filhos de El. No caso da Buda Tare, ela é vista
como “a mãe de todos os Budas”.
pos. Por exemplo, pode-se afirmar que, graças às Mesopotâmia, no tempo de Hamurabi, séc. XVIII
invasões de Alexandre o Grande em território in- a.C. Nos textos ugaríticos do segundo milênio a.C.
diano, houve trocas entre cultura indiana e grega, o a menção à Asherah ocorre com maior frequência.
que deu origem ao greco-budismo, no séc. IV a.C., Ali, em especial no ciclo de devoção a Baal, Ashe-
e sob, essa efervescência de novidades, surgiram as rah é mencionada como a consorte de El, como a Além das flores de lótus, é evidente o aspec- nografia de Tare trata-se de um lótus azul, utpala
primeiras representações antropomórficas do Bu- Deusa mãe dos deuses do panteão e como aquela to da fertilidade, da criação, da vida e nutrição nas (Nymphaea caerulea). Temos aqui várias seme-
ddha histórico. Contudo, é provável que já antes que amamenta seus filhos deuses. representações de Asherah. Por isso, as representa- lhanças com as imagens de Asherah: Assim, como
de Alexandre Magno houvesse contato comercial e ções da Deusa ilustram uma figura feminina com Asherah, Tare está de pé, corpo desnudo, órgãos
cultural entre a Mesopotâmia, o Levante e as regi- Nos textos ugaríticos, a consorte de El era
Athirat (’Atirat), a Deusa mãe. No antigo Testa- seios muito fartos, quadris largos e partes íntimas genitais expostos e avolumados e com flores de ló-
ões asiáticas. Com a domesticação do camelo, por expostas. Todas essas características e atributos es- tus nas mãos.
volta do século X-IX a.C., que foi o meio de trans- mento o nome Athirat, consorte de El, aparece
como Asherah. Apesar de esta visão ser quase um tão representados em igual forma em Buda Tare.
porte que tornou possível o intercâmbio comercial Pode-se afirmar que há outra aproximação
entre os dois mundos, iniciam-se aos poucos as consenso entre os/as pesquisadores/as, ela não é As referências à Buda Tare em textos budis- de significado de Buda Tare com a Deusa Asherah:
rotas comerciais de seda, especiarias e outros pro- unânime. Alguns pesquisadores afirmam o seguin- tas são encontradas desde o séc. V d.C., entretanto, em ambas as imagens há correlação do lótus com
dutos. É possível que elementos característicos de te: um dos argumentos mais insistentes é de que a as datas atribuídas não são consenso entre pesqui- o aspecto da criação. No caso de Asherah, ela é a
Asherah pudessem ter sido assimilados na icono- característica de Athirat, como consorte de El, é a sadores/as. Pode-se notar que as imagens de Buda Deusa progenitora dos deuses, os filhos de El. No
grafia budista, juntamente com outras interações maternidade, o que a tornaria a mãe dos deuses. Tare encontradas em sítios arqueológicos impor- caso da Buda Tare, ela é vista como “a mãe de todos
culturais. A característica de Asherah do Antigo Testamento tantes possuem a seguinte descrição: ela está em os Budas”.
(AT), por sua vez, seria a fertilidade. Além disso, pé, com seu corpo inteiramente desnudo, com as
O culto a Asherah é atestado em tempos nos textos ugaríticos, Athirat se encontra ao lado partes íntimas expostas, quadril e seios acentua- Alguns autores afirmam que Tare possuiria
muito remotos, que adentra possivelmente ao ter- de El, enquanto no AT a Asherah é associada a dos. A mão esquerda segura um lótus, que na ico- o papel de destaque dentro do budismo Mahayana
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por seu aspecto maternal, como uma Deusa Mãe Diante do exposto, podemos afirmar que há Convém mencionar ainda as representações Todas estas características das Deusas Ashe-
que resgata do perigo, arquétipo também conheci- ainda uma relação mais forte referente ao aspec- das imagens em pé e sozinhas, sem outra represen- rah e Tare proporcionaram grande força às mu-
do no continente europeu, das associações com as to da compreensão do feminino através da vida e tação ao seu lado. A postura em pé parece indicar lheres na luta pela sobrevivência. Mas, o culto
divindades Artemis, Ísis e até mesmo com a Virgem a geração da vida, como chave de compreensão, a disposição para agir com rapidez em auxílio das a elas também foi vítima de muita perseguição e
Maria. Há ainda outro significado importante que tanto de Tare quanto de Asherah. Maya é o nome pessoas que suplicam por proteção e cuidado. O marginalização. Asherah foi excluída do templo
o feminino representa para o budismo Mahayana. da personagem que trouxe o Buda Shakyamuni fato de elas serem representadas sozinhas e desa- de Jerusalém e demonizada pela literatura deute-
Além disso, Buda Tare é considerada como um ser ao mundo em que habitamos, e Tare é a mãe que companhadas de uma representação masculina é ronomista. O culto à Tārā foi perseguido, imagens
desperto que escolheu a forma feminina por esco- faz nascer e surgir todos os Budas, os completos instigante, uma vez que as sociedades que gera- foram destruídas e grande parte de sua literatura
lha própria, a fim de mostrar que o corpo de uma despertos. Ambas assumem o papel da materni- ram essas representações não serem conhecidas se perdeu.
mulher é pelo menos tão bom quanto o de um dade. Acontece que o aspecto feminino é tratado historicamente pela igualdade de tratamento en-
homem para beneficiar os seres e alcançar o esta- no Tantrayana tibetano como a sabedoria do va- tre homens e mulheres. Ou seja, entendemos esta Então, é possível concluir que de alguma for-
do da iluminação. Por esse motivo, Tare pode ser zio de existência inerente e enquanto que o aspecto representação como uma atitude insubmissa das ma o simbolismo das características do feminino
considerada uma das primeiras figuras do comple- masculino representa o método/compaixão, então, Deusas e das/dos que as cultuam a uma divindade retratado em Asherah tenha sido levado até outras
to despertar feminino e feminista junto à tradição somente através da combinação entre aspectos fe- masculina e a exigência de um tratamento em pé regiões, chegando à longínqua Índia e regiões ad-
budista Mahayana, por força de seu exemplo, ao se minino e masculino é que pode surgir um Buda. É de igualdade. jacentes e, séculos mais tarde, influenciado a ico-
dedicar para provar que o corpo feminino é igual um sistema interdependente necessariamente e, se nografia de Tare.
ao masculino, e não inferior. Podemos afirmar que assim não o fosse, não seria possível o resultado e
este fator, provavelmente, foi determinante na per- objetivo final, o do completo despertar ou ilumi-
seguição ao culto de Tare, assim como com relação nação.
ao culto de Asherah.
Bibliografia:

Tare pode ser considerada uma das primeiras figuras do


ACKERMAN, Susan. Under São Leopoldo: Cebi, 2011. Paulo: Paulus, 2015.
every green tree: popular
religion in the sixth-century CROATTO, Severino. A deusa MCDONALD, John Andrew.

completo despertar feminino e feminista. Judah. Atlanta: Scholars Press, Aserá no antigo Israel. A Influences of Egyptian Lotus
1992. contribuição epigráfica da Symbolism and Ritualistic
arqueologia. Revista de Practices on Sacral Tree
BAUTZE-PICRON, Claudine. Interpretação Bíblica Latino- Worship in the Fertile Crescent
The Lady under the tree: A Americana (RIBLA), 38. from 1500 BCE to 200 CE. In:
visual pattern from Maya to Petrópolis: Vozes, 2002, p. Religions, vol. 9, 2018.
Finalmente, com relação à flor de lótus, ela a representação em alguns tipos de árvores é mais the Tārā and Avalokiteśvara. 32-44.
In: The Birth of The Buddha. RÖMER, Thomas. A Origem de
possui muitos significados na cultura budista: re- comum, como o terebinto (Elah, que hebraico é Lumbini: Lumbini Research NA’AMAN, Nadav; LISSOVSKY, Javé - O Deus de Israel e seu
presenta o Caminho Óctuplo do Buda, e também o feminino de El), o carvalho, a tamareira e até a Institute, 2010. Nurit. Kuntillet ‘Ajrud, Sacred nome. São Paulo: Paulus, 2017.
representa o Bodhisattva Avalokiteśvara, pelo fato macieira. Em geral, esta associação está ligada à Trees and the Asherah. Journal
BINGER, Tilde. Asherah: of the Institute of Archaeology SHIN, Jae-Eun. Transformation
de segurar em sua mão uma flor de lótus. Ainda, a fertilidade, ao gerar vida e à nutrição. Em Tare a Goddesses in Ugarit, Israel and of Tel Aviv University. Tel Aviv: of the Goddess Tārā with
flor de lótus representa a saída do samsāra, do ciclo associação com alguns tipos de plantas e árvores the Old Testament. Sheffield: Tel Aviv Univesity, 2008, p. 186- Special Reference to the
Sheffiel Academic Press, 1997. 208, 2008. Iconographical Features.
de sofrimentos aprisionador. também acontece, como é o caso da asoka (Saraca In: INDO-KOKO-KENKYU,
asoca), considerada sagrada no oriente, e da bodhi DE MATOS, Sue’Hellen OTTERMANN, Monika. A Studies in South Asian Art and
Pode-se afirmar que há uma estreita relação (Ficus religiosa), a árvore do completo despertar ou Monteiro. As sagradas de Deusa Inana-Ištar – uma rival Archaeology Vol. 31, 2010.
entre as representações femininas de Asherah e da iluminação. Asherah: Culto à Deus no de YHWH? Considerações
Tārā. Ambas possuem fortes aspectos ligados ao Antigo Israel. Caminhos, v. 17, feministas em torno das TAYLOR, Joanne E. The
n. 1. Goiânia: PUC-GO, 2019, p. Deusas-Árvore e do Deus Asherah, the Menorah and the
culto da fertilidade, com formas arredondadas, en- No que diz respeito à flor de lótus, que ambas 352-370. único da Bíblia Hebraica. Sacred Tree. In: Journal for the
fatizando exterioridades da fase pós-gestacional, as imagens seguram em suas mãos, também não é In: REIMER, Haroldo; Study of the Old Testament,
do parto e nutrição da vida que surge. Demons- possível negar uma correlação entre as duas Deu- DEVER, William. Did God have SILVA, Valmor da (org.). 1995.
a Wife? Archeology and Folk Hermenêuticas Bíblicas.
tram a abundância. Tudo se resume no intuito de sas. Como visto, a flor de lótus simboliza o útero, Religion in Ancient Israel. WILLSON, Martin. In Praise of
Contribuições ao I Congresso
revelar o caráter sagrado da maternidade, de ne- a pertença à linhagem divina e o poder da criação, Cambridge: William B. Eerdman Brasileiro de Pesquisa Bíblica. Tārā – Songs to the Saviouress.
S. Publishing Company, 2005. Boston: Wisdom Publications,
nhuma forma um papel subalterno ou secundário. do gerar vida. A própria Tare, conforme afirma a Goiânia: Editora UCG e ABIB,
1992.
Outro aspecto bastante em comum em ambas as tradição, teria surgido do lótus, o qual teria nas- 2006, p. 136-147.
CORDEIRO, Ana Luísa Alves.
Deusas é a figura da árvore, cujo provável imaginá- cido de lágrimas de Avalokiteśvara, o bodhisattva Onde estão as Deusas? KAEFER, José Ademar. A
rio está associado à Árvore da Vida. Em Asherah que representa a compaixão. Asherah, a Deusa proibida, nas Bíblia, a arqueologia e a
linhas e entrelinhas da Bíblia. história de Israel e Judá. São
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À esquerda: debate na mesa-redonda Acima: os presentes colocam suas


sobre teorias decoloniais. Da esquerda dúvidas aos componentes da mesa-
para a direita os expositores: Lauri redonda sobre religião e diretos
Wirth, Adriel Moreira Barbosa e Loyane econômico-sociais. Da esquerda para a
Ferreira. Em primeiro plano, parte do direita: Jung Mo Sung, Priscila A. G. da
público presente: Patricia Palazzo, Silva, João Luiz Moura Sá e Patricia G.
Tattiane Marques e Lucas Andrade. Palazzo Tsai.

Participações
em Congressos Convidadas em Mesas-redondas
MESA-REDONDA: “TEORIAS DECOLONIAIS MESA-REDONDA: “RELIGIÃO E DIREITOS
E ESTUDOS DE RELIGIÃO: QUESTÕES ME- ECONÔMICO-SOCIAIS DOS SUBALTER-
TODOLÓGICAS E DEBATES SOBRE O ESTA- NOS”, COORDENADA PELO PROF. DR.
DO ATUAL DA QUESTÃO”, COORDENADA JUNG MO SUNG
PELO PROF. DR. LAURI WIRTH

Congresso Metodista 2019


CONVIDADA: PATRICIA GUERNELLI PALA-
CONVIDADA: LOYANE FERREIRA (LOB- ZZO TSAI
SANG DROLMA)
A mesa propôs um diálogo entre diversas
A mesa tratou de teorias decoloniais em re- perspectivas teóricas e religiosas sobre a defesa dos
Alunos do ITBC que estão cursando a pós-graduação lação aos loci hermenêuticos, ou seja, os lugares direitos humanos frente à negação de tais direitos
em Ciências da Religião da UMESP participaram do XXI de enunciado, abordando as implicações para os aos “subalternos” no neo-liberalismo. Na comu-
Congresso de Iniciação e Produção Científica da Univer- estudos da religião. Tais teorias discutem a perma- nicação “Avidya, Idolatria e Busca da Felicidade”,
sidade Metodista de São Paulo. Em 2019, o tema foi “Ci- nência de formas de dominação vindas de centros a mestranda Patricia trouxe elementos para uma
ência para a paz e para o desenvolvimento sustentável”, e o coloniais. A participação da monja Loyane, dou- possível comparação entre os conceitos de avidya
toranda, comentou o conceito de representação (a ignorância distorciva ou fundamental), confor-
congresso ocorreu nos dias 22 e 23 de outubro no campus
de Roger Chartier para analisar como o budismo me Je Tsongkhapa e Dalai Lama, com a idolatria,
de São Bernardo do Campo. Eles participaram em mesas- é abordado por Max Müller, considerado pai da sob a perspectiva de Francisco Varela. Ainda, con-
-redondas de debate e apresentaram comunicações orais. História das Religiões Comparadas. Indicou-se tribuiu com uma reflexão acerca da ideia de bus-
Confira a participação de nossos pós-graduandos. que há uma relação entre o autor e a política colo- ca da felicidade, como apresentada por Hannah
nial inglesa sobre a Índia do século XIX, contexto Arendt, e sua ligação com os conceitos de avidya
de surgimento de academias e centros de pesquisa e idolatria.
que organizaram publicações de textos das religi-
Sobre o congresso metodista, acesse: ões asiáticas. Foi apontado, com bibliografia afim,
que nestas escolas nascem noções que colaboram
http://portal.metodista.br/congresso-metodista/2019
para falar sobre o Budismo de forma descontextu-
alizada e anedótica.
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Congresso Metodista 2019 - Comunicações Orais Congresso Metodista 2019 - Comunicações Orais

COLONIALISMO A RELEVÂNCIA DOS AS AÇÕES QUE LEVAM REFLEXÕES SOBRE A CULTURA VISUAL BUDISTA: O MISTÉRIO DA AUSÊNCIA
ANALISANDO O ESTUDOS SOBRE PARA O DESENVOLVIMENTO MORTE NA PERSPECTIVA AS MUDANÇAS DA DO MOTIVO DA RODA DO
BUDISMO – CONTEXTOS MULHERES E RELIGIÃO DA COMPAIXÃO, BUDISTA SINO-TIBETANA ICONOGRAFIA DE YAMA SAMSARA DA CULTURA
DE MAX MÜLLER E NIRVANA FRANÇA UMA EXPOSIÇÃO DA FELIPE DONADON E SEUS SIGNIFICADOS VISUAL BUDISTA DE
REPRESENTAÇÕES DO (LOBSANG PADMA) VISÃO BUDISTA DE JE MAXIMILIANO SAWAYA GANDHARA DOS SÉCULOS
BUDISMO LOYANE A. P. TSONGKHAPA A condição da morte é algo que III A VII ESTELA PICCIN
FERREIRA (LOBSANG A monja Nirvana explicou que TATTIANE YU BORGES para nós ocidentais passa muitas A comunicação do mestrando (LOBSANG LHAMO) E
DROLMA) dentro do budismo a reconstru- MARQUES vezes despercebido ou que nos Max foi sobre o estudo compa- HELMUT RENDERS
ção do papel da mulher na histó- chega a causar extremo descon- rativo das representações da di-
Nesta comunicação oral, a mon- ria está sendo realizada por meio Nesta comunicação oral a mes- forto. O mestrando Felipe falou vindade originalmente védica A monja Estela apresentou o
ja Loyane apresentou aspectos da hagiografia das mulheres no tranda Tattiane trouxe alguns sobre como a morte é um tema Yama nas culturas visuais budis- resultado do artigo escrito em
de seu projeto de doutorado so- Therigāta e no Theri-apadāna. conceitos sobre compaixão no central dentro do budismo e, di- tas indiana, chinesa, japonesa, ti- conjunto com seu orientador de
bre Max Müller, considerado pai Esses textos retratam as conquis- budismo Mahayana e fez uma ferente de como estamos acostu- betana e do sudeste asiático, para mestrado, que discute a ausência
da História das Religiões Com- tas delas, seu reconhecimento exposição do autor Je Tsongkha- mados no ocidente, como o bu- depois estabelecer um diálogo de representações da “Roda do
paradas, um dos autores que como professoras, e outros feitos pa sobre os métodos de ações dismo tenta trazer para perto a com textos budistas considera- Samsara” na cultura visual bu-
pesquisaram as religiões orien- notáveis dentro da história do que levam para o desenvolvi- reflexão sobre a nossa condição dos canônicos e não canônicos e dista indo-grega de Gandhara
tais na Europa do século XIX. budismo primitivo. Outra forma mento do caminho do Bodhisat- existencial de mortalidade. Isso é com estudos de budólogos como entre os séculos III e VII. Essa
Ela indicou, com bibliografia de obscurecimento da presença tva, que tem como ação motiva- feito com o uso das práticas me- Siklós, Teiser, Zhiru NG e Fré- representação visual é muito
afim, que aquelas pesquisas se feminina é a utilização do gênero dora a compaixão para benefício ditativas, para que nós possamos déric. O objetivo é demonstrar popular em outras regiões para
relacionaram com a motivação masculino como forma de nor- de todos os seres. O objetivo foi não só ter um processo de morte como o budismo pela cultura explicar ensinamentos budistas
política de conhecer as religiões matização linguística. Alice Col- mostrar os mecanismos de trei- mais tranquilo quando isto vier visual articulou a transformação fundamentais como as Quatro
asiáticas em comparação às cris- lett e Bhikkho Anālayo (2014), no da mente para melhorar as a ocorrer, mas também para que de uma divindade védica cul- Verdades Superiores. O objetivo
tãs para afirmar a superioridade demonstram a questão do uso virtudes do homem a partir da as nossas ações enquanto vivos tuada em épocas anteriores ao é entender e explicar esse silên-
dos europeus sobre as socieda- do masculino como normativo compreensão, análise e reflexão venham a propiciar o maior tipo sistema desenvolvido por Bud- cio visual diante do fato de que
des colonizadas, fundamentan- por parte dos tradutores budis- na bondade para assim conduzir, de benefício possível para nós e dha Shakyamuni em uma repre- as narrativas textuais que expli-
do o domínio colonial europeu tas, e como nos fragmentos e cada vez mais, a determinação para aqueles com quem convi- sentação adaptada em culturas cam a confecção e os significa-
também pelo campo religioso. textos antigos, escritos na língua de trabalhar para as causas e fei- vemos. Nisso refletimos sobre distintas às necessidades de seus dos da “Roda do Samsara” não
Os trabalhos de Müller recebe- Pāli, era diferente. O Buda em tos para o bem dos outros, não a preciosidade da vida humana, sistemas de conhecimento da re- somente eram conhecidas na re-
ram financiamentos da Compa- seus Sermões utilizava um gê- só o desejo que eles sejam felizes, bem como a urgência do nosso alidade (abhidharma). gião geográfica, mas foram origi-
nhia das Índias Ocidentais, e ele nero neutro, e nessas traduções mas que eles sejam livres dos so- treinamento para combatermos nalmente escritas nela.
atuava próximo de participantes se utilizam, no lugar do vocativo frimentos. as aflições, com práticas como
políticos de relevo em seu tem- neutro, o masculino. Isso levou a “Meditação das 9 Rodadas no
po. Suas traduções são ainda posteriormente a interpretações Cemitério”, dentre outras que
abordadas e suas atividades im- de que, por exemplo, a plateia de fazem parte do sistema budista
pactaram diversos trabalhos de ouvintes do Sermão era compos- sino-tibetano.
História das Religiões tanto no ta exclusivamente por homens,
período quanto posteriormente. ou que o discurso era voltado
apenas à instrução dos homens.
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V Jornada de Filosofia Oriental e Intercultural Na mesa “Como fazer fi-


losofia”, Ethel Beluzzi fez a apre-
da USP e I Congresso Internacional de Filosofia sentação entitulada “Tradução e
Tradição: O impacto da tradução
Intercultural da ALAFI na filosofia”: muito mais do que
mecanicamente analisar estru-
turas gramaticais e sintáticas e
escolher correspondentes nos
O evento ocorreu no Departamento de Filosofia da dicionários, traduzir – e espe-
FFLCH/USP, de 29 de outubro a 01 de novembro de 2019. cialmente traduzir filosofia – é
O tema foi “Interculturalidade e o futuro da filosofia”, com reconstruir o sistema filosófico
o objetivo de incentivar o estudo e o fazer filosófico com originário na língua de chega-
concepção mais pluralista e inclusiva, dialogando com da, de maneira que ele possa ser
tradições filosóficas não-europeias e diferentes corren- compreendido em suas próprias
bases mesmo em uma língua e
tes filosóficas. O foco também foi o debate sobre como tal cultura que não as compartilhe.
abordagem pode contribuir com problemas da atualizada, Essa consideração, por sua vez,
construindo uma filosofia plural, descolonizada e com for- desconstrói qualquer esperança
te participação feminina. de uma tradução que seja úni-
ca e fiel – isto é, uma versão do se contexto, foi levantar questões Ethel Beluzzi, explicando sobre
texto original onde cada pala- de tradução que acabam por im- o impacto das traduções na
interpretação das filosofias.
vra reflete exatamente todos os pactar diretamente nos estudos
Sobre a ALAFI, Associação Latino-ameri- Sobre a Jornada de Filosofia Oriental da
sentidos pretendidos pelo autor, das tradições interpretativas da
cana de Filosofia Intercultural, acesse: USP, busque a página no Facebook:
em uma forma acabada e única. filosofia, utilizando como exem-
alafi.org @jornadaforientalusp O objetivo da apresentação, nes- plo a tradução da filosofia indiana.

Durante o primeiro dia do evento, na mesa


sobre Política, ocorreu a comunicação da aluna
Patricia Guernelli Palazzo Tsai intitulada “Tathāga-
tagarbha como possível fundamento para os direitos

VII Congresso da Associação Nacional


humanos”. A apresentação discorreu sobre as bases
dos direitos humanos a partir do desenvolvimento
do cristianismo no ocidente e se seria possível fun-
damentar os direitos humanos sob a perspectiva da
tradição budista, a partir da contribuição da escola
de Pós-Graduação e Pesquisa em
Yogacara, com o conceito de tathāgatagarbha (po-
tencial para o completo despertar, presente em to-
Teologia e Ciências da Religião
dos os seres sencientes), bem como as diferenças
entre as perspectivas fundamentais. A monja Nirvana França, da Associação BUDA, participou do
VII Congresso da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa
em Teologia e Ciências da Religião. O evento foi realizado na Pon-
tifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro com o tema:
Religião e crise socioambiental, entre 17 e 20 de setembro de 2019. A
monja Nirvana é mestranda em Ciência da Religião na Universidade
Metodista de São Paulo (UMESP). O tema trabalhado foi Monasti-
Patricia Palazzo, cismo budista: reavivamento das comunidades femininas, dentro do
falando sobre Grupo de Trabalho 04 - Gênero e Religião.
direitos humanos
e o potencial
para o completo
despertar.
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Ciências da Religião
no ITBC
Em 2019 o ITBC teve o privilégio de receber três pro-
fessores das Ciências da Religião da UMESP que concede-
ram palestras sobre suas especialidades. As palestras foram
gravadas e estão disponíveis na plataforma de ensino para Ouvintes durante a palestra
de José Ademar Kaefer sobre Asherah;
os alunos do ITBC.

JOSÉ ADEMAR KAEFER


“ASHERAH: A ESPOSA DE JAVÉ?”
José Ademar Kaefer possui
Pós-doutorado pelo Departa-
A intrigante personagem bíblica é o tema da O palestrante apresentou os indícios sobre Asherah mento de Arqueologia da Uni-
palestra “Asherah, a esposa de Javé?”, ministrada em trechos da Bíblia, em inscrições descobertas no versidade de Tel Aviv, doutorado
pelo Prof. Dr. José Ademar Kaefer, professor da sítio arqueológico de Kuntillet Ajrud, e em mui- em Teologia Bíblica pela Univer-
Universidade Metodista, que também é padre da tas fotografias de exemplares da cultura material sidade de Münster, Alemanha e
ordem Verbo Divino. Essa palestra trouxe um co- do antigo Israel, que incluem inúmeras estatuetas mestrado em Ciências da Reli-
nhecimento de ponta baseado em décadas de pes- femininas, muitas dessas fotos sendo parte de seu gião pela Universidade Metodis-
quisa do professor Kaefer na área de arqueologia acervo pessoal resultante das viagens para estudos ta de São Paulo (UMESP). Desde
bíblica. Nela, ele explicou sobre Asherah, uma im- nas escavações. A palestra foi essencial para am- 2012 é professor titular perma- O professor
Ademar mostra
portante divindade feminina da antiguidade, que pliar o entendimento político e social do contexto nente do Programa de Pós-gra- estatuetas de
- assim como Javé - era parte do panteão ugarítico, bíblico por parte dos alunos do ITBC. Para saber duação em Ciências da Religião Asherah que
atualmente estão
consta no antigo testamento, mas no entanto foi um pouco mais sobre Asherah, leia a reportagem na Universidade Metodista de no Museu de
gradativamente suprimida na época da reforma de na página 22. São Paulo (UMESP). Israel.

Josias, por volta do sétimo século antes de Cristo.


36 • revista buda • janeiro de 2020 ITBC - Instituto de Estudos das Tradições Budista e Cristã • 37

VITOR CHAVES DE SOUZA PAULO AUGUSTO DE SOUZA NOGUEIRA


“INTRODUÇÃO À “OS EVANGELHOS APÓCRIFOS
FILOSOFIA DA RELIGIÃO” NA FORMAÇÃO CRISTÔ

O Prof. Dr. Vitor Chaves de Souza, da que antecede a razão, que nos coloca no mundo e Em 14 de dezembro de 2019, o Prof. Dr. Pau- sobre a importância de estudar os apócrifos para a
UMESP, ministrou a palestra “Introdução à Filo- nos devolve ao mundo. Além disso, nos alerta que lo Nogueira veio à sede da associação para dar ao compreensão de como viviam as primeiras comu-
sofia da Religião”, na qual nos apresentou conceitos as narrativas religiosas sobre a origem do univer- ITBC uma palestra sobre os “Os Evangelhos Apó- nidades cristãs, o que atualmente é possível com
fundamentais dessa disciplina que estuda a dimen- so não deveriam ser lidas com a pretensão cientí- crifos na Formação Cristã”. Explicou que os apócri- as recentes traduções e publicações dos apócrifos,
são espiritual do homem a partir de uma perspec- fica do racionalismo positivista e empirista, nem fos eram os textos das cristãs e cristãos comuns. O inclusive em língua portuguesa, e nos incentiva
cristianismo veio de classes baixas, e uma parcela a isso: “Falar que texto apócrifo é ‘alternativo’ dá
tiva filosófica, sem se pautar pelo reconhecimento tampouco com uma postura fundamentalista: “Fé muito pequena dessas pessoas eram letradas, no ideia de ‘história oculta’, mas as histórias estão aí, a
explícito de uma realidade divina. Tema pertinente e razão [na dinâmica da religião] não se excluem entanto escreviam muito, e a leitura não era indi- gente não estuda porque tem um contexto que nos
na atualidade do fenômeno religioso: a busca de na medida em que os mitos são interpretados – e vidualizada, mas comunitária. No entanto, devido diz para não estudar.”
um sentido existencial diante da morte e da im- reconhecidos – por sua originalidade na abertura a muitos aspectos políticos, culturais, dogmáticos
permanência que é própria da condição humana, de um tempo habitável. Ambas pertencem à esfera ou aleatórios na formação do cânone oficial da Paulo Augusto de Souza Nogueira é doutor
da qual surge uma pluralidade de interpretações. humana.” igreja no quarto século, muitos textos da literatu- em Teologia pela Universidade de Heidelberg. É
ra de um cristianismo considerado marginal não especialista em História e Literatura do Cristianis-
O palestrante apresentou resumidamente a traje-
Vitor Chaves de Souza é Pós-Doutorando em entraram na Bíblia. Ainda assim, o cristianismo mo Primitivo, com pesquisa em religiões abraâmi-
tória de desenvolvimento do pensamento religio- cas, mitologia e folclore e religiões comparadas, na
so: a questão da existência de Deus que se torna Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia litúrgico até hoje usa muito mais fontes apócrifas
e doutor em Ciências da Religião pela Universida- do que imaginamos: por exemplo, o nome dos três área de pesquisa “Linguagens da Religião”. Atuou
mais forte na Idade Média; as reflexões amparadas como docente e pesquisador na Pós-graduação em
de Metodista de São Paulo. Atualmente é docente reis magos e detalhes da infância de Maria vêm da
pelo cientificismo no século XIX, que invertem tradição dos apócrifos. Abordou o conteúdo de di- Ciências da Religião e na Faculdade de Teologia da
a relação entre a fé a razão; a filosofia como um permanente na Pós-Graduação em Ciências da Re- UMESP, em São Bernardo do Campo, e atualmente
ligião e professor colaborador na Pós-Graduação versos apócrifos, os diferentes aspectos dos evan-
modo de reformular a questão da essência divina. gelhos e proto-evangelhos, tanto sinóticos quanto está na Pontifícia Universidade Católica de Campi-
Em seguida, apresenta um pouco da contribuição em Educação da Universidade Metodista de São nas (PUC-Campinas) - Centro de Ciências Huma-
apócrifos, a influência da literatura romana sobre o
filosófica de Friedrich Nietzsche, que se opunha à Paulo. Tem experiência na área de Hermenêutica, estilo de escrita, e assim por diante. Também falou nas e Sociais Aplicadas.
razão enquanto instituição de autoridade: o origi- com ênfase em Filosofia da Religião, Educação e
nal de seu pensamento é reconhecer um impulso Ciências Humanas.
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Monastério

ENTREVISTA

20 anos de Ordenação Lobsang Chogni junto a Geshe Jampa Gyatso em 1999.

Entrevista feita pela monja Estela Piccin (Lobsang Lhamo) com Depois fiz um curso de seis semanas na FPMT Se teve um momento específico? Sim, quando
perguntas enviadas de forma anônima pelos associados da BUDA. (Foundation for the Preservation of the Mahayana fui para a Itália, eu já tinha um ano de estudos com o
Tradition) para estudar o Lamrim (Caminho Gradu- Geshe Kelsang Wangdu, e depois com Lama Zopa, já
O monge Jonathan Raichart (cujo nome de ordenação é Lobsang al ao Completo Despertar) com o Lharampa Geshe tinha experiência com monges professores. Quando
Chogni), tem 48 anos, e em 2019 completou 20 anos de ordenação. Kelsang Wangdu, de Sera Jey. Pratiquei meditação, comecei minha prática orientada pelo Geshe Jampa
Nasceu em Berea, no estado de Kentucky, e cresceu no Colorado, Es- estudei e trabalhei para o centro. Gostei tanto que Gyatso, depois de alguns meses houve um período
decidi fazer outro curso intensivo de 12 horas por de ordenação e muitos de meus amigos decidiram se
tados Unidos. Quando jovem, voltou seus estudos acadêmicos para dia durante um mês com Lama Zopa Rinpoche. Tive tornar monges. Naturalmente estávamos no proces-
a Ecologia. Abaixo conhecemos um pouco mais da sua história e de muito interesse em continuar e neste período tam- so de gerar mais e mais respeito e interesse, uma vez
como ele conheceu o budismo. bém estavam anunciando o programa de mestrado que nosso professor, que nos inspirava, era monge,
e doutorado no Istituto Lama Tzong Khapa (ILTK), naturalmente havia essa curiosidade: “ser monge é
COMO VOCÊ DESCOBRIU O BUDISMO? Da mesma forma, esse tipo de frustração eu na Itália, com duração de oito anos, e fui inspirado a parte do treino que quero fazer?”. Um dia tive um
também vi em um curso de nove meses viajando o começar esse curso. Comecei o curso na Itália em ja- sonho com Lama Zopa, e nesse sonho ele estava do
Eu sempre tive muita vontade de resolver os mundo para estudar questões ambientais. Vi alguns neiro de 1998, com o Lharampa Geshe Jampa Gyatso, outro lado da mesa conversando com outra pessoa
problemas ambientais, estava me formando nessa área ativistas perdendo o entusiasmo e esforço de conti- e nunca mais parei de estudar. que tomava os votos, quando olhou pra mim e disse:
e trabalhava com Frank Joyce, que tinha muito sucesso nuar o trabalho, usando álcool para aguentar a frus- “ouvi dizer que você quer tomar votos”. Eu respondi
no trabalho de conservação ambiental na Costa Rica. tração. Foi neste período que comecei a estudar al- COMO E EM QUE MOMENTO DA SUA VIDA que ainda não estava pronto, e tentava me esconder
Ele tinha um modo de vida que eu via como ideal para guns livros de budismo, me interessei muito rápido VOCÊ DECIDIU QUE GOSTARIA DE SE debaixo da mesa. Então ele disse para eu esperar por
ser um ativista na área, era como um mentor pra mim. e quis procurar onde poderia estudar de forma mais TORNAR MONGE? HOUVE ALGUM EVEN- um ano. Contei esse sonho para o Geshe Jampa Gyat-
Na época eu ainda estava tentando decidir se séria, e assim decidi voltar para os Estados Unidos. TO ESPECÍFICO QUE TE FEZ QUERER O so, e a orientação foi que eu esperasse um tempo e
continuava nessa área, observava muito o Frank, ele MONASTICISMO COMO MODO DE VIDA? tentasse manter os votos, então treinei por um ano
Participei de um curso de cinco dias com tentando manter os votos, e exatamente um ano de-
trabalhava como professor na faculdade da Califórnia o XIV Dalai Lama, e durante as aulas senti nele as O motivo ideal para se tornar monge é a re-
ensinando ecologia e parte do ano trabalhava como pois, em 02 de março de 1999, Geshe Jampa Gyatso
qualidades de compaixão e sabedoria, coisa que até núncia, que surge através da percepção de que aquilo me convidou a tomar os votos.
voluntário para instituições de conservação ambiental o momento eu não havia visto com professores na que eu acho que está produzindo felicidade para mim
na Costa Rica, ele tinha sucesso na conservação das faculdade: alguns tinham compaixão, outros sabe- agora, na verdade é só sofrimento da mudança, é in- Acho que a ideia geral é começar a não acre-
florestas lá. Mas trabalhando com ele eu vi que, mes- doria, mas o Dalai Lama possuía as duas. Também satisfatório. Quando volto a analisar o que me levou a ditar tanto na felicidade aflita. Quando estava qua-
mo sendo uma pessoa muito boa – o tipo de profes- vi nele muito entusiasmo para ajudar outros, mesmo estudar dharma (os ensinamentos budistas) vejo que se pronto para tomar os votos lembro de ter feito a
sor que ficava acordado a noite inteira com os alunos tendo uma longa vida de trabalho incansável pelos no início foi esse mesmo problema de insatisfação, de pergunta: “o que vai ser melhor para ajudar todos os
quando eles precisavam completar um projeto, coisa outros, tendo ajudado tantas pessoas em sofrimento inquietude, um desejo de lidar com o problema que seres sencientes?”, porque eu estava muito empolga-
que eu nunca havia visto antes na faculdade – ainda tão terrível. Isso me impressionou, e quis saber se ele é tão óbvio como o problema do meio ambiente, mas do com o tema da bodhicitta* convencional (o desejo
assim ele era bastante frustrado com o trabalho, no nasceu assim ou se ele se tornou assim por esforço hoje em dia eu iria acrescentar outras coisas como, pelo completo despertar, ler matéria na página 62),
mesmo período em que ele conseguia salvar uma pe- próprio, e aprendi que ele se tornou assim. por exemplo, justiça social e econômica, para todas porque eu tive aulas extensas com o Dalai Lama so-
quena parte do desmatamento, a maior parte havia as pessoas terem uma boa vida. bre como gerar o desejo de alcançar o completo des-
sido desmatada. pertar para o benefício de todos os seres sencientes, e
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Meu professor Geshe Jampa Gyatso falava que A comunidade é o que dá suporte e ajuda a lu-
o verdadeiro treino de Dharma é nesse momento tar contra o primeiro obstáculo, o da preguiça que
quando nós tentamos treinar mesmo muito aflitos, não quer treinar, que não quer começar, que quer
por exemplo, com muita raiva – e a raiva vai criticar o fazer outras coisas, esse é o primeiro dos cinco obs-
próprio treino – mas ainda assim tentamos combater táculos à meditação, ensinados no Lamrim Chenmo
a raiva, e ela começa a diminuir por alguns segundos, (texto de autoria de Lama Tsongkhapa, ver matéria
momentos, instantes, mesmo que a maior parte do sobre ele na página 64).
tempo ainda fiquemos com raiva. Isso é muito difí-
cil, pois há a fruição da ação negativa do momento Outro ponto importante é que eu sempre tomei
da raiva, mas se está transformando isso e gerando essas decisões, como a de tomar os votos, de maneira
Com Choden Rinpoche em sua ordenação como Bhikshu em 2008. ações positivas, você transforma uma fruição negati- bem pensada junto ao conselheiro meditativo, que foi
va do sofrimento, gerando causas de felicidade. Geshe Jampa Gyatso por muitos anos, e nos últimos
quatorze anos é o Professor Plínio Tsai. Esse tipo de
comecei a concentrar meu treinamento em bodhicit- de tentar melhorar minha comunicação, de ensinar,
É fácil treinar quando a gente se sente bem, decisão precisa ser bem pensada, e não precisa “rein-
ta. Durante a cerimônia de votos, é importante tam- passar adiante aquilo que aprendi. Comecei a pensar
porque é resultado de uma virtude passada, mas nor- ventar a roda”, não precisa fazer sozinho, pode andar
bém gerar renúncia, e isso é algo que desenvolvemos também que ser monge é um método para ajudar ou-
malmente geramos orgulho pensando que somos junto com uma pessoa que tem bastante experiência
ao longo de anos de treinamento em manter os votos. tras pessoas a terem interesse no dharma.
grandes meditadores, então poluimos o resultado da em dharma. O segundo nível de votos eu tomei sob
Antes de começar a treinar para me tornar um Quando comecei a treinar o budismo, tinha virtude passada ao gerar a aflição do orgulho, que é o conselho de Geshe Jampa Gaytso. Depois tomei
monge, tive a ideia de ter uma parceira para treinar ouvido falar de monges ocidentais que para ser mon- uma causa de sofrimento futuro. Quando nos senti- o terceiro nível de votos, os votos de bhikshu, sob o
juntos, mas comecei a gerar a convicção de que isso ge era importante cultivar boa meditação, por isso eu mos mal e tentamos lutar contra nossa própria afli- conselho do Professor Plinio Tsai. Os dois primeiros
era algo completamente desnecessário, pois já tinha coloquei mais energia nessa direção. Com o tempo ção interna, esse é o verdadeiro treino de Dharma. níveis de ordenação foram com Geshe Jampa Gyatso
tido experiências anteriores que me trouxeram a percebi que quanto mais estudava, melhor ficava a na Itália, e o terceiro nível com Choden Rinpoche na
convicção de que a mente produz felicidade, mas as meditação, e comecei a acreditar e desenvolver mais Universidade Monástica de Sera Jey, na Índia.
causas de felicidade estão dentro de nós e não fora. e mais entusiasmo pelos estudos. Por outro lado, ouvi
Portanto, não há necessidade da idéia romântica er- de pessoas não-ocidentais que para ser monge é im-

Quando nos sentimos mal e tentamos lutar contra nossa


rada de que a parceira ou o parceiro é a fonte de feli- portante viver em comunidade, e aqui posso falar so-
cidade, principalmente quando analisamos e vemos bre a nossa comunidade específica. É como quando
que nossos agregados são da natureza do sofrimento, se faz retiro de meditação: às vezes não temos base
produzimos sofrimento o tempo todo, e isso significa
que a outra pessoa também é da natureza do sofri-
de estudos e análise o suficiente, não temos a convic-
ção de que meditar é a coisa mais útil a fazer, então
própria aflição interna, esse é o verdadeiro treino de Dharma.
mento. Como é possível unir sofrimento com sofri- começamos o retiro com muito entusiasmo e depois
mento e produzir felicidade? Não faz sentido. Paz e de um tempo geramos náuseas ao ver a almofada
felicidade vêm de dentro de nós mesmos. O foco de de meditação. Mas quando se faz em grupo, mesmo APÓS TER TOMADO OS VOTOS MONÁS- nível de um bodhisattva, alguém que está treinando
ser monge é ter mais paz e felicidade, aprendendo a quando se sente mal, há uma certa obrigação de ir TICOS, AINDA HÁ ALGUMA DIFICULDADE para se tornar um Buda), então é possível que leigos
controlar as causas da paz e da felicidade que tam- à sessão de meditação e fazer o que todos estão fa- EM SE MANTER COMO MONGE? É ALGO cheguem a esse nível elevado de bodhisattva, e essa
bém estão dentro do nosso próprio contínuo mental. zendo, ou quando se vive num mesmo quarto com QUE REQUER UM EMPENHO ATIVO? POR pessoa não precisaria dos votos porque já vive os vo-
outros monges, simplesmente segue-se o fluxo. E ao EXEMPLO, NO CASO DO CELIBATO, ISSO tos em função de já ter as verdadeiras cessações e os
Em nossa tradição há os votos pratimoksha, bo- começar a prática, começamos a nos sentir melhor, JÁ É ALGO JÁ RESOLVIDO E SUPERADO? verdadeiros caminhos em seu contínuo mental. Ou
dhisattva e vajrayana, e leigos também tomam os vo- pois a prática é feita para isso, para treinar a mente, o seja, quem possui essa realização não tem mais essa
tos de não matar, não roubar, não ter conduta sexual Excelente pergunta. A questão da sexualidade frustração, essa inquietude envolvida com o sexo.
que resulta em mais paz.
aflitiva, não mentir sobre as realizações e não usar é realmente um problema que precisamos confrontar
intoxicantes; e a principal diferença entre praticantes A grande vantagem de viver em comunidade o tempo todo; sendo homem ou mulher, tendo ou Em geral, para nós que vivemos no reino do
leigos e monásticos está no celibato. Também está na é não ter o risco de distrações comuns, de alguém te não um relacionamento, sentimos um certo estres- desejo, constantemente o desejo sexual surgirá, não
responsabilidade de manter um certo ordenamento convidar para ir a festas ou beber. Nossa mente sem- se, ansiedade e inquietude em relação ao sexo. Sem é uma coisa que vai embora. É uma questão de trei-
externo que mantém a confiança na sangha (comu- pre oscila: se sente melhor, neutra e pior. A prática é dúvida há dificuldades, se não houvesse não preci- nar a nós mesmos para reconhecer o sentimento de
nidade de praticantes budistas), de ter uma vida bas- para tentar diminuir essas oscilações e ganhar a capa- saria ter o voto. Por definição, esses votos são guias desejo quando ele surge em níveis cada vez mais su-
tante dedicada ao Dharma. Mas com o tempo, com a cidade de controle. Por exemplo, se a gente acorda e no caminho para que possamos obter um objetivo tis e aplicar o antídoto correto, reduzindo e, eventu-
maturação dos votos e os vários níveis de votos, co- não se sente bem, como faz para ajustar a mente para bem idealista, que nesse caso é o Completo Desper- almente, eliminando seu poder sobre a mente. Isso
mecei a ver as vantagens de ser monge, na capacida- se sentir bem? E para desenvolver essa capacidade tar. Como o exemplo clássico de Milarepa, que era surgirá com o tempo, treinando nesse sentido o pro-
de de comunicação com outras pessoas: quando vesti precisamos treinar muito, e o treinamento funciona, leigo, mas é dito que ele já tinha a perfeição de ética, blema vai diminuindo aos poucos. Naturalmente vai
as roupas de monge, de repente comecei a receber e pode funcionar ainda melhor justamente quando que normalmente só vem no segundo bhumi (quan- enfraquecendo dia a dia, durante o mês, dependendo
muitas perguntas, então passei a ver a importância não sentimos vontade de treinar. do atinge a prática superadora da ética, o segundo do estímulo durante o dia, e assim por diante. Como
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começa a entrar no hábito de imaginar “como seria


se eu ficasse com essa mulher?”, e depois dos votos
a mente começa a lutar contra esse tipo de aflição,
impedindo a mente de segui-la.
É um processo de vidas e vidas até a gente de-
senvolver essa perfeição de moralidade como Mila-
repa desenvolveu, que não tem mais o desejo sexual
grosseiro, tem realização real do vazio de existência
inerente que cortou tal desejo aflitivo e então não se
sofre mais disso. Até chegarmos nesse ponto, que cla-
ramente eu não cheguei, precisamos da maior ajuda
possível, e todos os tipos de votos são para ajudar
nossa mente a treinar e ser menos dominado por afli-
ções mentais, e por consequência sofrer menos. Com
o tempo a mente fica mais forte, e sente menos sofri-
mento por causa desses problemas, e ao mesmo tem-
po começa a purificar as camadas mais profundas da
mente, então, vai enfrentar maiores problemas, mas a
mente estará mais e mais preparada para confrontá-
-los. Assim, não serão tão grandes os problemas por- Na Universidade Monástica de Sera Jey em Karnataka, Índia, 2008.
que a mente estará mais preparada.
É impossível o problema do celibato ser magi- pior, sentir certas doenças até, e nesse caso é aconse- o sofrimento, e esse é um processo que se faz durante
camente resolvido quando se toma os votos. O ritual lhável que eles tomem outros votos, de leigos, e não a vida inteira.
de tomar os votos é o início, depois é uma luta para de monges.
Na Itália em 2001. Conhecimento que realiza a vacuidade de exis-
o resto da vida para tentar resolver a questão de in-
APÓS 20 ANOS DE ORDENAÇÃO O QUE tência inerente do eu e dos fenômenos, é desenvolvi-
quietude e insatisfação sexual, mas se a pessoa tem as
podem perceber, requer um envolvimento ativo, VOCÊ ACHA QUE MUDOU NO SEU MODO do gradualmente baseado em estudo extensivo, con-
causas e condições, estuda bastante e é acompanhada
todo o treinamento em Buddhadharma requer esse DE VIDA, NA MANEIRA DE OBSERVAR A templação e meditação. Através desse conhecimento,
de professores qualificados e tem o suporte da comu-
envolvimento, e tomar os votos é algo que acelera REALIDADE, QUE POSSIVELMENTE SE- a pessoa é capaz de cortar as aflições pela raiz, de tal
nidade, sem dúvida poderá desenvolver muito mais
esse processo, então, requer ainda mais. RIA DIFERENTE CASO NÃO HOUVESSE modo que elas não retornam mais, obtendo assim a
paz. Se não temos desejo no reino do desejo, isso
TOMADO OS VOTOS? libertação do sofrimento. É interessante que a bo-
Quando tomei os votos, imediatamente senti quer dizer que a gente já obteve o estado de arhat, um
dhicitta convencional e o conhecimento que realiza
mais suporte para minha mente do que antes. Assim realizado, nirvana, a paz definitiva, ou de um Buda,
O que mudou em 20 anos é um aprofunda- a vacuidade possuem uma relação de suporte mútuo
como é explicado nas escolas mais baixas – como no mas se não é o caso, precisamos ser realistas e aceitar
mento pessoal de meu entendimento, ao menos em de tal modo que conforme aprofundamos o nosso
Abhidharmakosha que o Professor Plínio ensina na que neste reino teremos desejo. Desejo sexual resulta
um nível intelectual, dos três principais aspectos do entendimento em uma delas, a outra é automatica-
disciplina de Ontologia no curso de Budologia no em tristeza, sentimento de solidão, depressão, suicí-
caminho. mente aprofundada.
ITBC – os votos pratimoksha, de libertação indivi- dio, inveja, ciúmes, raiva e tantas coisas que vêm do
dual, são forma sutil, porque a corrente de aflições é desejo que consideramos nosso melhor amigo, então Os votos, especificamente o treino de dharma Alguns dos benefícios de manter os votos nos
constante como a água de um rio, e água sendo física precisamos reavaliar e ver que na verdade é um tipo da tradição de Lama Tsongkhapa é focado nesses três últimos 20 anos é que eu tive mais energia, tem-
precisa de uma barreira física para parar a água, da de sofrimento de mudança e uma coisa a ser aban- principais aspectos do caminho: na renúncia, bodhi- po, foco e menos distrações para treinar nesses três
mesma maneira que se diz que os votos pratimoksha donada. Se começamos a lutar contra, em alguns citta e conhecimento que realiza a vacuidade de exis- principais aspectos do caminho. E isso também me
são uma forma física sutil que age como uma barreira momentos será mais difícil, em outros será menos tência inerente (ou, para simplificar, conhecimento proporcionou mais e mais proximidade de grandes
para parar as aflições, ao passo que os votos bodhisa- difícil, mas os votos dão mais suporte para o treino, que realiza a vacuidade). A motivação correta para professores, e inclusive receber ensinamentos em
ttva e de tantra são mentais. Eu não sei se foi isso ou e ajudam a gerar mais paz. Vai depender do dia e da tomar os votos é a renúncia. Ainda assim, cultivamos monastérios de professores como Choden Rinpoche
não, mas no meu caso eu senti um certo benefício na pessoa, mas se a pessoa gerou causas e condições junto com a bodhicitta, o desejo de realizar o comple- e o Dalai Lama, aos quais eu não teria um fácil aces-
hora que tomei os votos, que minha mente chegou a para ser monge, com muito esforço vai sentir mais to despertar para o benefício de todos os seres sen- so enquanto leigo (ainda que houvesse possibilidade,
um certo ponto de parar de seguir o fluxo de apego. capacidade de lutar contra as aflições dentro de sua cientes. E a base da bodhicitta é a grande compaixão, seria com grande esforço) e acho que isso me ajudou,
Antes eu seguia a fantasia, a mente não tinha limi- própria mente para equilibrá-la – o que resulta em o desejo que todos os seres sejam livres do sofrimen- me deu bastante inspiração.
tes. Tomando os votos, na hora minha mente parou: mais paz – do que seria capaz sem os votos. Pode ser to e das causas do sofrimento. Renúncia é querer que
que outras pessoas que tomaram os votos, mas não nós mesmos sejamos livres dos sofrimentos e suas Tomar os votos monásticos é uma questão de
“essa não é uma possibilidade”. Antes, treinando para
geraram as causas e condições, comecem a se sentir causas, mas para isso precisamos reconhecer o que é aumentar a velocidade de nosso treino. Se eu não ti-
se tornar um monge, ao surgir a vontade, a mente
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vesse tomado votos eu teria ficado distraído com ou- pela importância de estudar nossa própria cultura oci- mente, maneiras de tratar as aflições diretamente, plo, a pessoa vem e fala “será que eu preciso me di-
tras coisas, como relacionamentos, que gastam muito dental e suas influências sobre nós, como uma base como Buda Shakyamuni fez na época dele, é preciso vorciar?”. Normalmente não se dá uma resposta de
tempo, e nosso foco como monge não é ajudar uma para aplicar e adaptar o Budismo e a Budologia à men- entender no que nós acreditamos, ver nossas predis- “sim” ou “não” para essa pergunta. Precisa ter um ní-
pessoa só ou apenas nossos familiares próximos, mas te ocidental. posições, quais as religiões e filosofias que estamos vel bastante desenvolvido no entendimento de como
ter energia para ajudar muitas outras pessoas tam- praticando e que, quando praticadas corretamente, a própria mente funciona e, baseado nisso, ser mais
bém. Então, tentamos primeiro desenvolver essa ca- Eu lembro quando eu estava saindo de Sera talvez aumentem virtudes ou causas de felicidade, fácil de entender como a mente do outro poderia
pacidade, mas no processo do caminho do bodhisat- Jey para vir para o Brasil para continuar ajudando o mas que, quando incompreendidas, podem levar à funcionar; e também precisa ter bastante treino em
tva se tenta ajudar já, mesmo errando bastante, logo, Professor Plínio em seu grande projeto de estabelecer geração de mais aflições. E depois é preciso aprender fazer a outra pessoa chegar à capacidade de tomar as
como leigo, eu teria muito menos tempo para treinar, uma Universidade Budista no Brasil que tem uma di- mais ferramentas para poder eliminar essas aflições. próprias decisões.
para fazer retiro e para os estudos, e teria muito mais visão religiosa e uma divisão acadêmica a serem apro-
distrações. vadas na sociedade secular e contribuir para manter O escopo aqui é bastante grande: apresentar É uma grande responsabilidade tentar ajudar
os ensinamentos do Buda relevantes e disponíveis, técnicas de treinamento mental para a mente oci- as pessoas, mas como Geshe Jampa Gyatso dizia, ele
Em segundo lugar, após ter estudado com mon- particularmente ter ensinamentos que uma pessoa dental e mais especificamente um dharma brasileiro, sempre escutava bastante as pessoas, então eu tento
ges tibetanos em Sera Jey, com monges ocidentais e que cresceu no ocidente possa se aproximar de ma- tentar entender o que influencia a mente ocidental escutar bastante e oferecer isso para a pessoa, por-
estudantes leigos, bem como professores tibetanos neira mais relevante, mais eficiente, que fala mais com e como ensinar os mesmos ensinamentos do Buda, que todo mundo em algum momento na vida precisa
adaptando o Dharma para estudantes ocidentais, e fi- a própria predisposição ocidental. Porque quando eu mas contrapor com visões errôneas que poderiam desabafar, e isso já ajuda, pois a pessoa sente que al-
nalmente aqui no Brasil com professores e estudantes comecei a estudar budismo era algo um pouco exó- surgir de mal-entendidos da nossa parte enquan- guém ouviu o que estava passando, sem dizer coisas
ocidentais, eu desenvolvi uma profunda apreciação tico; na tradição tibetana, se estuda o que é chamado to estudantes nascidos no ocidente. Esse trabalho é diretas como “é melhor que você saia desse trabalho
enorme. Então, o segundo maior ponto no qual eu e vá para outro”, é mais dar dicas gerais sobre como
observo que a mudança é relativa é a minha aprecia- lidar com aflições, e a pessoa toma suas próprias de-
ção pela imensa importância de estudar e compreen- cisões. Assim espero, porque a ideia no budismo é a
der a cultura ocidental e as influências que temos de pessoa chegar ao ponto de tomar melhores e melho-

Os votos, especificamente o treino de dharma da modo a aplicar os ensinamentos do Buda em nossas


mentes do modo mais efetivo possível, de maneira a
res decisões sozinha.
Sendo monge ou sendo leigo, o mais importan-
tradição de Lama Tsongkhapa é focado nos três eliminar o sofrimento.
te é trabalhar para se tornar qualificado para dar con-
selhos meditativos, conselhos pessoais. Ser monge
principais aspectos do caminho: na renúncia, bodhicitta
ENQUANTO MONGE, AS PESSOAS ACA-
BAM TE PEDINDO POR AUXÍLIO E CON- traria a vantagem de ajudar um certo tipo de pessoa
SELHOS PESSOAIS? SE SIM, COMO É ISSO que confia mais em monges por causa das predispo-
e conhecimento que realiza a vacuidade. PRA VOCÊ? VOCÊ ACHA QUE O FATO DE
SER MONGE TE AUXILIA A AJUDAR ES-
sições delas, mas com o tempo a gente tenta descons-
truir essas predisposições, e elas verão as qualidades
SAS PESSOAS? da pessoa acima dela ter votos ou não. Então, inicial-
mente se certas pessoas confiam mais em padres ou
Eu tive essa experiência mais na Itália porque madres, e outros confiam mais no psicólogo, é uma
de alguma maneira o Dharma religioso tibetano era coisa bastante pessoal, assim para algum grupo de
de os Grandes Textos escritos pelos grandes mestres filosofia de maneira errada, e isso vai gerar novas
bem mais desenvolvido lá, então imediatamente ti- pessoas pode ser que ajuda sim, a um nível mais su-
das antigas universidades indianas de Nalanda, Vikra- aflições mentais e aumentar ainda as que já temos.
nha pessoas me perguntando dúvidas, e de vez em perficial, mas ao desenvolver mais o relacionamento,
mashila e Odantapuri, e a discussão lá é o debate com O Dalai Lama sempre fala que é melhor não criticar
quando começavam a se abrir um pouco e pedir con- é possível ver as qualidades da pessoa que detém os
outras escolas filosóficas da Índia, como os jainistas, a religião ou filosofia original. No entanto, é preciso
selhos. Sim, é inevitável que como monge isso vai votos, e então confia-se na própria pessoa, não so-
os samkhyas, os charvakas, etc. reconhecer que os seres humanos que estão tentando
acontecer, mas para ser um conselheiro meditativo é mente se eles têm certos votos ou não, ou se eles têm
praticar religiões ou filosofias podem ter aflições, e
A questão que me inquietava era: quando eu preciso um treino bem específico, que pode ser feito certos títulos ou não.
portanto pode haver erros. Os erros que eu desen-
vou debater com minhas aflições pessoais, como eu como leigo ou como monge, mas precisamos reco-
volvo – que não são uma falta da tradição em si, mas
vou personalizar isso e entender as visões errôneas nhecer nosso nível e entender quando a gente chega APÓS VOCÊ TER TOMADO OS VOTOS, O
da minha interpretação – preciso entender e elimi-
que eu desenvolvi nessa minha vida, crescendo no oci- a esse ponto de ser qualificado para dar conselhos ou QUE VOCÊ SE LEMBRA TER SIDO MAIS
nar, e o treino de buddhadharma é para ajudar a en-
dente? O que eu penso no ocidente e quais pensamen- não, senão é charlatanismo; é como fingir ser psicó- DIFÍCIL PARA ADAPTAR-SE NA ÉPOCA
tendê-los. Esse treino não é sectário, e talvez ajude
tos estão causando mais problemas do que benefício? logo antes de terminar a formação em psicologia ou EM QUE INICIOU, MAS QUE AGORA PODE
a aprofundar a religião ou a filosofia que alguém já
praticar medicina sem ter qualificação de ser médico (OU NÃO) ESTAR MAIS FÁCIL DE LIDAR?
Não se trata de todos terem uma única religião mantinha anteriormente.
segundo a lei, a mesma coisa acontece com o con-
(o Dalai Lama sempre fala que precisamos de plura- selheiro meditativo, que precisa ter essa qualificação. O voto mais difícil é o celibato, e sem dúvida é
A pessoa que não estuda corretamente pode
lidade de religiões e filosofias no mundo, incluindo mais fácil para lidar hoje do que há 20 anos atrás, por-
também gerar muitas visões errôneas com o budis-
o ateísmo), mas em qualquer religião, quando temos É como dar uma aula geral, assim como o Da- que a ideia é que em anos de estudos se prepara mais
mo. A idéia aqui é literalmente tentar passar os en-
aflições mentais, podemos interpretar a religião ou lai Lama faz em eventos para dez mil pessoas, não e mais ferramentas para lidar com a aflição quando
sinamentos do Buda, as técnicas de treinamento da
tem como entrar em detalhes específicos. Por exem- ela surge, e se a pessoa não tirou essa aflição por com-
46 • revista buda • janeiro de 2020 Monastério • 47

pleto da mente, gerando uma cessação dessa aflição, No bodhisattvayana não se vive sempre isolado
ela ainda vai surgir, o que é o meu caso. Mas tendo no monastério, e se vê mulheres o tempo todo, na
muito mais ferramentas, muito mais armas para lu- publicidade e etc., mas mesmo assim, com os votos
tar contra, é bem mais fácil para lidar, então, a coisa e as técnicas disponíveis no budismo, é possível ter
não tem tanta força. Posso falar que entre a idade de uma mente muito mais pacificada nesse aspecto. Pa-
40 e 50 anos em geral para homens há o aumento de rou o sofrimento? Não. Estou lutando. Mas pra mim
testosterona e essa é uma hipótese de por quê muitos é difícil imaginar a vida não monástica, sem essas
homens passam por uma crise de meia-vida quando técnicas, difícil imaginar como eu sofreria. Com as
saem do casamento, compram um “camaro amarelo”, técnicas eu tenho bastante ferramentas para usar,
correm atrás de uma menina com menos idade, e tal- para lutar. O Dalai Lama falou que monges que apa-
vez mudam de trabalho. Isso acontece bastante. De rentemente estão pacificados, significa que dentro de
alguma maneira é impossível ignorar o aumento de sua mente estão lutando e estão conseguindo, mas é
testosterona nesse período, e isso também aconteceu uma luta constante para produzir o aspecto pacifi-
para mim. Tenho 48 anos agora, mas com a ajuda de cado – reconhecendo aflições, aplicando antídotos e
um conselheiro meditativo bem qualificado e com baixando as aflições, até chegar ao nível de realizar o
bastante base de treino e ferramentas, mesmo tendo vazio, tirar a raiz das aflições, a ignorância, e cortar as
esse influxo de testosterona que causaria a crise de aflições todas de uma vez, e acho que isso é cem por
meia-vida eu acho que eu não a tive, talvez eu tenha cento certo.
tido uma crise antes de ser monge, mas a de meia-
-idade não passei e tive bastante estabilidade nesse COMO É A SUA ROTINA DIÁRIA? E, NES-
aspecto. Mas o que me supreende um pouco é a per- SA ROTINA, QUANTAS HORAS DEDICA A
sistência do desejo baseada em hormônios, então ESTUDOS E MEDITAÇÃO?
acho que a melhor resposta é gerar muita compaixão
pelas pessoas, porque é real que as pessoas sentem O falecido Geshe Jampa Gyatso, que foi um
bastante sofrimento por causa de desejo, não é nada monge que eu respeitei bastante, acordava mais ou
fácil de lidar. menos às 6h e fazia as práticas meditativas, também
tomava café da manhã, banho e etc., caminhava, fa-
Minha mente com os votos é muito mais paci- zia exercícios, tudo até 10h da manhã, depois dava Com o Professor Plínio Tsai em Campinas, 2007.
ficada do que antes, eu lembro bem como era antes. aula por uma hora e meia ou duas horas, almoçava,
Eu era viciado em relacionamentos, tentei ser bom só depois tinha um pouco de tempo livre onde ele
e respeitar a outra pessoa, e tive relacionamentos de praticava, descansava, repousava um pouco. Depois as pessoas tinham urgências que precisavam falar na no Monastério ABD precisamos trabalhar, de 20 até
longa duração, tentei fazer tudo certinho, e minha dava conselhos até a hora da aula na parte da tarde, hora, então ele priorizava ajudar as pessoas direta- 48 horas por semana, e todos os monges aqui estão
mente sofreu bastante de inquietude, de ficar ente- mais uma hora e meia ou duas. O jantar dependia da mente. Mas, de alguma forma, ele terminava suas trabalhando, e a gente também tem a responsabilida-
diado, ficar frustrado: ao começar a diminuir o apego, programação, algumas vezes era cedo, 17h ou 18h, práticas pessoais. Esse é um exemplo de rotina de de de estudar, porque no budismo a ideia não é só es-
começam as brigas mais e mais, surge inveja e ciúmes dependia se a segunda aula seria antes ou depois do monge que me inspirou bastante. tudar filosofia budista, mas também as cinco ciências
e é sem fim a coisa... isso sendo um relacionamento jantar. Em seguida dava conselhos o resto do dia, fa- clássicas da Índia (linguagem, lógica, medicina, artes
Hoje aqui no Brasil temos a necessidade de tra- e religião), então a gente precisa estudar outras áreas
“saudável”. Sem um relacionamento, a mente precisa zia uma caminhada para cuidar de sua saúde, falava
balhar, por isso trabalhamos com coisas relacionadas para entender como nossa mente funciona e como a
lidar com outras coisas como procurar por um re- com muitas pessoas pessoalmente dando conselhos,
ao modo de vida correto, por exemplo, uma das me- mente de outras pessoas funcionam, para conseguir
lacionamento o tempo todo, a mente sempre vai na e etc. Também fazia várias práticas à noite e então
lhores formas é ensinar algo útil para as pessoas, e ajudar melhor os outros. Em nosso caso tem muitos
direção do flerte, o que resulta em um sofrimento dormia. Parte do treino dele era recitação de textos
acredito muito no valor da educação, ajudar as pes- monges estudando teologia, e também muitas pes-
enorme, conflito, agressão e frustração. Então, para também, para não esquecer o que ele decorou en-
soas a terem mais chances de ter felicidade na vida. soas se esforçando no mestrado e no doutorado em
colocar limites nessas coisas simplesmente a mente quanto era estudante. Ele também viajava a cada fim
E ao ensinar sempre tem a possibilidade de praticar Ciências da Religião para serem qualificados para
não vai a esse extremo. Não chega a esse ponto de co- de semana para ensinar.
a generosidade de escutar, e dedicar: “Hoje estou en- ajudar nos projetos da ABD e do ITBC. Isso envolve
meçar a procurar e a planejar como vai ser ficar junto
Ainda, em cima de todos esses horários, as sinando matemática, inglês, arte, história, etc., mas certa quantidade de tempo para cada monja e monge
com a pessoa, como vai separar a pessoa do cônju-
pessoas também chegavam para pedir conselhos o no futuro eu vou ensinar também os ensinamentos – me incluo nisso, estou estudando Teologia –, então
ge para ficar com ela... não vai a esse extremo. Por
dia inteiro, então ele ficava dando conselhos pessoal- do Buda para essa pessoa, como Lamrim, Abhidhar- isso faz parte de nossa rotina cotidiana também.
isso a mente começa a conseguir controlar no início
mente ou por telefone (não tinha celular nem what- makosha e Tantra, até o completo despertar.” É im-
da aflição: a aflição começa a surgir, reconhecemos,
sapp na época), o tempo todo. E, por isso, algumas portante gerar essa intenção cada vez quando se dá Geshe Jampa Gyatso era um Lharampa Geshe
batemos contra e ela diminui. Assim é muito menos
vezes eu fui vê-lo e ele indicou que era tarde e ele esse tipo de aula, pois está criando conexão com a de Sera Jey, o nível mais alto dos quatro níveis de
sofrimento, sendo monge não se entra nas camadas
ainda não terminara a sadhana – que era grande – pessoa e o fluxo do contínuo mental vai continuar e Geshe. Ele concluiu grande parte de seus estudos no
de sofrimento que os outros passam o tempo todo.
porque ele estava dando conselhos a manhã inteira: essa conexão vai continuar. Em nossa vida cotidiana Tibete, terminando seus estudos no recém-fundado
48 • revista buda • janeiro de 2020 Monastério • 49

monastério de Sera Jey na Índia. Ele também con- aluno para dar aula de inglês eu tento escutar algo que as direta ou indiretamente. Basicamente as atividades de Dharma, não fica ignorando a pessoa e fazendo
seguiu um diploma de Acharya em sânscrito pela estou estudando, até aulas de Teologia eu escuto di- são essas, elas não são fixas todos os dias nos mesmos suas práticas. Então a gente sempre precisa se adap-
Universidade de Sânscrito de Sampurnanand, em rigindo, ou textos de Dharma, transcrições de textos horários, eu entendo que é preciso ter muita flexibili- tar, e eu tento fazer isso, não tem jeito (risos).
Varanasi, bem como um Ph.D pela Universidade que estudei no passado, escuto até minhas próprias dade nesse aspecto, porque até meus horários de tra-
Central de Estudos Tibetanos em Sarnath, Varana- anotações, porque temos essa tecnologia fenomenal balho não são fixos, algumas vezes começo a dar aula COMO VOCÊ VEIO PARAR NO BRASIL E
si. Ele também estudou no Lower Tantric College, em que pode transpôr palavras escritas em áudio e pode- às 7h e termino às 22h, em outras começo às 11h, em NA ASSOCIAÇÃO BUDA DARMA?
Gyu Me, recebendo um diploma de Geshe Ngarampa mos escutar diretamente, só precisa pausar para con- outros dias termino 16h, então, tudo tem flexibilida-
Originalmente fui solicitado para dar aulas no
ou Geshe Tântrico, e mais tarde foi capaz de servir templar um pouco, mas eu tento usar os momentos de, no trabalho, nas aulas de dharma. Por isso, tento
Rio de Janeiro, como parte de restituir a bolsa de es-
como professor e disciplinário em Gyu Me. E o que livres para ter a contínua acumulação de estudos, do encaixar o resto da rotina dentro disso. Além disso,
tudos do mestrado e doutorado na Itália. Entrei em
Geshe Jampa Gyatso me falou, que achei muito útil, lado do método e também do conhecimento. sempre acontece que alguém precisa de alguma coisa
retiro achando que iria para a Califórnia ou Malásia,
foi que ele conseguiu fazer tudo isso na vida porque e é necessário adaptar todo o sistema para ajudar a
Se você vem aqui e tem a possibilidade de ver mas quando saí do retiro depois de 9 meses o pedido
até quando ele estava cozinhando ele ficava decoran- pessoa. Para colocar o Dharma em prática, a gente
a rotina do monastério, verá que depende muito de era para que eu fosse ao Rio de Janeiro, o que acon-
do os textos. Quando cozinho, se tenho a possibili- precisa ter bastante flexibilidade.
quando temos aula, se temos treino à noite, quando teceu em 2006. Foi aí que tive a oportunidade de ter
dade de conversar com alguém faço com prazer – dá Era impressionante como Geshe Jampa Gyatso
vamos terminar, e eu sempre tento participar das au- mais contato com o professor Plínio Tsai pessoal-
para ouvir e ajudar a pessoa e também aprender por- manteve essa rotina. Dalai Lama segue esse aspecto
las e dos treinos, porque esse tempo com meu pro- mente e aprofundar o relacionamento com ele, pois
tuguês, é bom –, mas outras vezes eu uso esse tempo também, mas ele também é muito dedicado e insiste
fessor Plínio é limitado (morrerei logo, nós todos antes eu trabalhava com ele a maior parte à distância.
para estudar. Tento revisar o que estamos estudan- em dormir muito cedo para conseguir acordar muito
iremos), então tento aproveitar e seguir a rotina que Em 2007 fui até Campinas para conhecer seus pro-
do no momento, por exemplo o Abhidharmakosha, cedo para fazer sua rotina antes de precisar entrar em
os outros estão seguindo, em adição à minha prática jetos pessoalmente, e fiquei mais inspirado. Depois
ou algum tópico de Lamrim, ou até escutar aulas do todas as responsabilidades que tem durante o dia.
e estudos pessoais, mas tudo depende um pouco da falei com Geshe Jampa Gyatso e ele recomendou que
professor Plínio para revisar a aula. A mente está um
rotina da comunidade, que horas podemos dormir No nosso caso precisamos algumas vezes ficar eu ajudasse com os projetos do professor Plínio, e fa-
pouco menos focada quando estou cozinhando, mas
por exemplo e, como reflexo disso, que horas pode- acordados até muito tarde para tentar participar de lou muito bem sobre as qualidades dele, como sendo
me ajuda a refletir e tentar tomar vantagem de cada
mos acordar. alguma atividade ou ajudar alguém com algum pro- uma pessoa muito confiável como professor de filo-
minuto. Quando eu viajo entre aqui e a casa de algum
jeto, e etc., então, a gente precisa se adaptar. Estamos sofia budista e budologia, e isso influenciou bastante
numa fase inicial ainda e basicamente precisamos a minha decisão. Afinal, é muito difícil viver em ou-
criar condições melhores para as gerações futuras es- tra cultura, começar do zero, aprender outra língua,
tudarem, praticarem e realizarem o Dharma, por isso com a dificuldade de ser entendido, por exemplo, não

Estamos numa fase inicial ainda e basicamente é essencial termos um lugar próprio para a sede e para
uma universidade, seguindo o exemplo da antiga Na-
tem muitas chances de ter algum senso de humor em
outro idioma porque certas coisas não batem, e etc.

precisamos criar condições melhores para as gerações landa, ou Nalendra, com estudos de várias tradições
dentro do mesmo local, também com dormitórios,
Então, foi uma séria decisão ficar aqui para uma lon-
ga permanência. Ainda assim foi uma oportunidade

futuras estudarem, praticarem e realizarem o Dharma. lugares para as pessoas viverem, com monastério muito afortunada.
masculino e feminino. É bastante importante treinar O Brasil é um lugar ótimo, com gente boa, tem
junto, uma pessoa sempre encoraja a outra no pro- poucas chances de ter guerra aqui, tem muita água
cesso de treino, de modo a desenvolver concentração limpa, é o celeiro do mundo, não tem desastres na-
meditativa e entendimento correto. turais e o clima é muito bom. Nos Estados Unidos é
Todo dia tento fazer minha prática pessoal outra pessoa sempre pode-se treinar atenção, pode- necessário sair do lugar frio e ir para um lugar quen-
O que estou vendo aqui neste tempo atual é
meditativa, e bastante estudos. Tento fazer medita- -se treinar em gerar compaixão, amor universal pela te, e aqui o clima está sempre bom, não precisa nem
que o treino mental é algo que dá pra adaptar bastan-
ção na parte da manhã e meditação muito mais curta pessoa e tentar entender a pessoa e como está pensan- mudar. É um excelente lugar para estudar e praticar o
te, a gente precisa ser um pouco criativo para sempre
na parte da noite, antes de dormir. Também quando do. Tento me desafiar para tentar entender o que as treino da mente da tradição budista.
adaptar ou aproveitar o máximo possível. Ouvi um
acordo, na cama mesmo, já tem certas práticas que se pessoas estão passando e também desenvolver algum
exemplo uma vez sobre uma pessoa insistindo em fa-
pode fazer, e eu tento fazer o melhor possível. Antes método para dar a elas uma dica sobre como treinar a
zer as práticas todos os dias: “Essa é minha hora para
de dormir é possível fazer outras práticas, tem prá- mente algum dia quando elas tiverem abertura. Exis-
fazer as práticas”, e uma pessoa chega do lado de fora
ticas que podemos incorporar quando nos vestimos tem várias maneiras para viver uma vida onde se tra-
da porta chorando com um problema, e ao invés de
ou tomamos banho, ou comemos, e etc. Todas as ati- balha o dia inteiro e depois estuda dharma, e depois
lidar com o problema e aplicar o treinamento mental,
vidades cotidianas podemos tentar transformar em também faz suas práticas pessoais, e depois, ainda,
a pessoa fala “Esse é o meu tempo”, e deixa a outra
prática de dharma, de treinar a mente, e isso inclui o estuda outras matérias.
pessoa chorando. Esse foi um exemplo que eu ouvi
trabalho. Treinar o corpo é superimportante, tentar fazer que não é Mahayana. Mahayana é: quando surge o
No meu trabalho como professor de inglês um pouco de exercício físico todo dia. Eu gosto bas- problema, vai e tenta ajudar. Se tem um pouco de ca-
tenho essa possibilidade de ficar escutando mais do tante do treino que fazemos aqui, de jiu jitsu brasilei- pacidade é preciso tentar ajudar a pessoa e usar isso,
que qualquer coisa, então quando se está escutando ro. E quando tenho possibilidade tento ajudar pesso- transformar a tentativa de ajudar o outro em prática
50 • revista buda • janeiro de 2020 Monastério • 51

Todos os monges presentes reunidos para a foto oficial do evento.

A primeira conferência
geral ocorreu no Sri Lanka, em

Encontro WBSC 2019 1966, e atualmente o conselho


conta com membros de 25 paí-
ses dos cinco continentes: Ale-

em Macau, China manha, Austrália, Bangladesh,


Brasil, Canadá, China, Coreia,
Estados Unidos, Filipinas, Fran-
ça, Holanda, Índia, Indonésia,
Monja Estela Piccin (Lobsang Lhamo) Malásia, Mongólia, Nepal, Nova
Zelândia, Reino Unido, Singapu-
ra, Sri Lanka, Suécia, Tailândia,
O monge Jonathan (Lobsang Chogni) e a monja Es- Taiwan, Uganda, Vietnam.
tela (Lobsang Lhamo), participaram do 1º Encontro do Atualmente a Associação
10º Comitê Executivo da WBSC – World Buddhist Sangha BUDA é a única representante
Council (Conselho da Comunidade Budista Mundial) em da América Latina, sendo mem-
bro desde 2014. Em 2018, na 10ª
Macau, na China, que aconteceu nos dias 29 de outubro a 2
conferência geral, que ocorreu
de novembro de 2019. na Malásia, o monge Jonathan e
A WBSC é uma organização budista internacional a monja Loyane participaram e o
monge Jonathan foi eleito como
que ajuda no desenvolvimento das organizações e de inter- membro de um dos Comitês
câmbios das comunidades budistas (sangha) ao redor do Executivos.
mundo, para que possam continuamente manter os ensina- Acima: Monja Loyane e Monge

mentos budistas (Dharma) aprimorando assim a harmonia Jonathan na Malásia em 2018.


Abaixo: O monge Jonathan
e o relacionamento entre diferentes tradições budistas. participando de um dos encontros
dos comitês executivos.
52 • revista buda • janeiro de 2020 Monastério • 53

Em sentido
horário: Monjas
vietnamitas da
Austrália, do
Nas reuniões do comitê os membros apresen- templo de Phuoc
taram relatórios sobre o funcionamento de suas res- Hue; Monjas de
pectivas instituições, o andamento de projetos, desa- Taiwan; Com
a abadessa do
fios e progressos, e muitos também fazem propostas monastério de Hù
de novos projetos, como, por exemplo, a possibilida- Guó Miào Chóng
de de um intercâmbio entre estudantes de diferentes (護國妙崇), de
Taiwan; Monja de
tradições para o aprendizado de línguas instrumen- Hong Kong.
tais, como o chinês e o sânscrito.
O evento foi uma grande oportunidade para
os monges da BUDA conhecerem representantes de
outras comunidades (sanghas), como por exemplo
as sanghas femininas da Indonésia, Estados Unidos,
Macau, Hong Kong, Taiwan e Austrália.
54 • revista buda • janeiro de 2020 Monastério • 55

Tivemos a oportunidade
de conhecer o atual vice-pre-
sidente da WBSC e o tradutor
oficial do evento, que fazia as
traduções do mandarim para o
inglês e vice-versa, que é tradu-
tor e escritor profícuo. Ambos
foram presenteados com o livro
A Teoria da Realidade dos Novos
Absolutistas Budistas de autoria
do professor Plínio Tsai.

Acima: Monge Jonathan com


abade-chefe do monastério
de Dashichoiling, da tradição
Geluk da Mongólia.

Abaixo, da esquerda para a


direita: o monge Jonathan,
que foi eleito membro do
Comitê Executivo da WBSC,
recebe do vice-presidente
da WBSC o certificado de
reconhecimento internacional
da sangha da Associação
BUDA; em seguida, Jonathan
presenteia o vice-presidente
com o livro de Teoria da
Realidade do Prof. Plinio Tsai;
na terceira foto, Jonathan
presenteia o tradutor do
evento com o livro.
56 • revista buda • janeiro de 2020 Monastério • 57

Em sentido horário:
Grupo de leigos
chineses da tradição
Geluk, mesma
Havia muitas leigas e muitos leigos prestigiando tradição dos monges
da BUDA; monja
o evento, por vezes acompanhando os monges de suas Estela com uma
comunidades, igualmente interagindo e trocando ex- das voluntárias da
periências. Nas fotos, a monja Estela com o grupo das organização do
evento; nas duas
ilhas de Sumatra e Celebe da Indonésia.
últimas fotos, junto
aos indonesianos
Também havia muitos voluntários de diferentes que participavam no
países participando da organização do evento, ajudan- evento.
do os participantes na estadia.
58 • revista buda • janeiro de 2020 Monastério • 59

O principal desafio foi a


comunicação entre as comuni-
dades de tantos países diferen-
tes. No evento, o Mandarim foi
a língua principal, seguida pelo
Inglês. No entanto, a dificuldade
linguística não impediu o diálo-
go entre as diferentes tradições,
e os membros puderam trocar
experiências e informações, bem
como celebrar a atuação das co-
munidades em tantas partes do
mundo.
O monge Jonathan ao lado de monges A nossa participação no
de outras tradições. evento foi uma grande oportu-
nidade de crescimento e apren-
dizado sobre funcionamento,
estudos e práticas de diferentes
instituições. Além de promover
o intercâmbio de ideias sobre
como se apresentam os ensina-
mentos budistas em diferentes
países.
60 • revista buda • janeiro de 2020 Monastério • 61

Sobre Macau, a terra do lótus


Macau foi colonizada por Portugal durante 400 anos.
Foi a última colônia europeia na Ásia, e ao ser devolvida
Acima:
à China em 1999, tornou-se uma Região Administrativa
Especial. Ruínas da Igreja da Mãe
de Deus, que pertencia
A ocupação no século XVI deixou como herança a ao monastério de São
Paulo;
língua portuguesa, presente em todas as placas e sinaliza-
ções, porém atualmente falada por menos de três por cento Foto da monja Estela
da população, além do patuá macaense, língua crioula em da Fachada do Fórum
de Macau integrando
vias de extinção que mistura o português, o mandarim e elementos portugueses
outras línguas asiáticas. e chineses;

A colonização também trouxe missionários católi- Foto do monge


Jonathan de uma das
cos, cuja passagem pode ser vista nas ruínas da Igreja da muitas placas bilíngues
Madre de Deus, do monastério de São Paulo, construída encontradas em Macau;
no séc. XVII. O catolicismo ainda é praticado por cerca de
Ao lado:
cinco por cento da população, dentre outras religiões como
o protestantismo e o taoísmo, e o budismo, que atualmente Foto do monge
Jonathan no momento
é predominante. da visita dos monges da
WBSC na Universidade
Macau é um interessante ponto de encontro entre de Macau.
oriente e ocidente, intercâmbio e tolerância religiosa.
62 • revista buda • janeiro de 2020 Monastério • 63

What is the Difference between


Aspiring and Engaging Bodhicitta?
Monge Jonathan Raichart (Lobsang Chogni)

The general definition of Bodhicitta as taught in the Ornament for Clear Realizations (Abhisa-
mayalamkara) is the desire for perfectly complete enlightenment for the welfare of others (Dkon-mcho-
g-yan-lag & Brunnhölzl 371).
When teaching on the Middle Lam-Rim by Lama Tsongkhapa, Geshe Jampa Gyatso says that Bo-
dhicitta depends on the presence of two aspirations. The causal aspiration is the wish to benefit all sen-
tient beings, which is similar to great compassion. The accompanying aspiration is the wish to attain
complete enlightenment for the benefit of all sentient beings. The primary mind that is concomitant with
these two aspirations is Bodhicitta (Gyatso 459-60).
Shantideva’s Engaging in the Deeds of a Bodhisattva, following the Gandavyuha Sutra (Tsongkhapa


145), says in verses 15-16 of the first chapter that:

ch is conjoined with the practice perfections through taking the


In brief, you should understand the mind of enlightenment of the six perfections, whereas Bodhisattva vows and so forth in
Bibliography:

Dkon-mchog-yan-lag, Źwa-dmar,
to be of two types; the mind that wishes enlightenment and this is not the case for aspiring order to attain complete enligh- and Brunnhölzl, Karl. Gone beyond:
Bodhicitta. Thus, aspiring Bo- tenment for the benefit of others. the Prajñāpāramitā sūtras, the
the mind that engages enlightenment. As is understood by dhicitta is to generate Bodhicitta Thus when one engages in the
“Ornament of Clear Realization, and


Its Commentaries in the Tibetan Kagyü
the instances of desiring to go and going, so the wise should but to not engage in the practice practice of a Bodhisattva one’s Tradition. Snow Lion Publ., 2010.
of the perfection of generosity Bodhichitta becomes engaging
understand respectively the distinction between these two. by giving material things, pro- Bodhicitta (Loden 508-509).
Gyatso, Geshe Jampa (Lobsang
Sherab). Middle Length Lam-Rim
tection, and the Dharma; in the by Lama Tzong Khapa, With oral
(Shantideva 2-3) practice of morality; in the prac- Kamalashila’s Stages of
Meditation also says that the
commentary by Geshe Jampa Gyatso.
Pomaia: ILTK (unpublished transcript),
tice of patience; in the practice of 2005.
joyous effort; in the practice of thought, ‘May I attain complete
Lama Tsongkhapa com- Geshe Jampa Gyatso then enlightenment for the welfare of Kamalaśīla , and Parmananda
ments on this passage saying, if clarified that Bodhicitta is divi- developing single-pointed con-
centration; and in the practice sentient beings, is aspiring Bo- Sharma. Bhāvanākrama Of Kamalaśila.
there appear to be many incon- ded into two from the point of dhicitta, whereas, having taken
Pradeep Kumar Goel for Aditya

sistencies here, there is also the view of nature: aspiring Bodhi- of developing wisdom. On the Prakashan, 1997.

other hand, when Bodhicitta is the vow, it becomes engaging Bo-


point made in the First Stages of citta and engaging Bodhicitta . dhicitta (Kamalashila 18). Geshe Loden, Thubten. Path to Enlightenment
Meditation by Kamalashila that Aspiring Bodhicitta is likened conjoined with these practices, in Tibetan Buddhism. Tushita Publ.,
it is engaging Bodhicitta. Hence, Jampa Gyatso continues that in 1993.
the mind that thinks: ‘May I be- to the wish to go to Italy without this case the vow is the promise
come fully enlightened for the actually putting the thought into in the case of aspiring Bodhicit- Shantideva. Engaging in the Deeds of
ta it is not accompanied by en- to take care of sentient beings. In a Bodhisattva. Translated by Toh Sze
benefit of all sentient beings’ is action, whereas engaging Bo- other words, one takes the Bo- Gee. Fpmtabc.org, 15 Nov. 2019, www.
aspiring Bodhicitta and that, ha- dhicitta is likened to actually gagement in the six perfections
(Gyatso 459). dhisattva vows, whereupon one fpmtabc.org/download/teaching/
ving taken the vow, that mind is engaging in traveling to Italy by makes a promise to take care of
geshe-chonyi/bp/BodhisattvaDeeds1/
BD_RootText_Shantideva_
engaging Bodhicitta (Tsongkha- airplane, taxi and so forth. Thus, Geshe Loden concurs each and every sentient being translTohSzeGee2014.pdf
pa 145). engaging Bodhicitta is that whi- saying that when Bodhicitta is without any exception whatsoe- Tsongkhapa, Lama. Middle Length
newly generated one has the ver. Having taken the Bodhisatt- Lam-Rim.Translated by Philip Quarcoo.
wish to attain complete enligh- va vows and generated Bodhicit- Jangchuplamrim 15 Nov. 2019, www.
jangchuplamrim.org/wp-content/
tenment for the benefit of all sen- ta, Bodhicitta becomes engaging
uploads/Archive-Texts/JCLR-ENGLISH-
tient beings. Then one goes on to Bodhicitta (Gyatso 460). 03-20120710-MiddleLengthLamRim-
engage in the practice of the six PhilipQuarcoo-FinalDraft.pdf
64 • revista buda • janeiro de 2020

Celebrando 600 anos


de tradição Geluk:
A história de Je Tsongkhapa
Monja Loyane A. P. Ferreira (Lobsang Drolma)

A Geluk International Foundation declarou 2019 como o ano


de Lama Je Tsongkhapa Lobsang Dragpa (1357-1419), o fundador da
tradição Geluk do budismo tibetano. Como efeito desta declaração,
monastérios Geluk no mundo inteiro voltaram-se para a memória
e história de Je Tsongkhapa, criador de uma tradição que perdurou
por 600 anos.

A palavra Geluk (ou como alguns escrevem, Essa história inicia-se no Tibete que tem
Gelug), advém do nome do monastério de Gan- uma relação histórica com o Budismo. O Budismo
den. Quando se adiciona -pa, criando a palavra adentrou no Tibete aproximadamente em 650 d.C.
Gelukpa, o termo significa “praticante ou perten- (veja a cronologia nas páginas seguintes), pelas
cente à tradição Geluk”, ou ao sistema de Ganden. mãos de mestres que introduziram os ensinamen-
Como marca de valorização da disciplina, os mon- tos de Buda naquela região, e pelo investimento de
ges da tradição Geluk utilizam, desde o tempo de um rei. Assim, essa história também tem um cará-
Je Tsongkhapa, chapéus amarelos, distinguindo-os ter político, pois tanto os ensinamentos quanto os
dos monges das outras tradições que usavam cha- monastérios se relacionaram com a administração
péus vermelhos, pretos e brancos. A utilização des- e organização política de uma sociedade que era
tes chapéus remontava à memória do período das dividida entre atividades pastoris, nômades e se-
universidades budistas indianas, como Nalendra. mi-nômades. Essa também é uma história de es-
A cor amarela representa a valorização da discipli- forço para fazer o Buddhadharma ser estabelecido
na e da virtude monástica. e permanecer naquela região – em uma relação que
atrela a História do Tibete, a História da China e
Conhecer a História de uma tradição de seis da Mongólia. Personalidades históricas como Son-
séculos é um desafio monumental, portanto come- gzen Gampo, a princesa chinesa da dinastia Tang
çar a estudá-la é necessário. O entendimento de sua Wénchéng Gōngzhǔ, a princesa nepalesa Trisong
biografia e de seu contexto colabora para uma re- Detsen, e mestres indianos tais como Padmasam-
flexão sobre ela, bem como sobre nossos próprios bhava, Santaraksita e Dipamkara Sri-Jnana Atisha
estudos e práticas, e principalmente para valorizar são responsáveis pelas ações de desenvolvimento
os conteúdos desta tradição. dos ensinamentos lá.

Je Tsongkhapa Lobsang Dragpa. Imagem: Himalayan Art Resources


Monastério • 67

Breve Cronologia da História Tibetana


Songtsen ENTRE 575-650: ENTRADA DO BUDISMO NO TIBETE Dipamkara ENTRE 978 E 1204: RETORNO DO DHARMA – SEGUNDO
Gampo Srijnana -
FLORESCIMENTO DO DHARMA
Unificou
Traços de História Escrita no Tibete. Unificação em estrutura Atisha

o Tibete, política única. Período de atuação de Songtsen Gampo, con- Unificou Surgimento do monasticismo tibetano e retorno dos mes-
construiu os siderado o grande imperador que unificou e criou o Tibete, e o Tibete, tres. A sobrevivência dos ensinamentos ocorreu porque
primeiros construiu os
templos suas esposas Wencheng e Bhrikuti que trouxeram as primei- primeiros
monges continuaram existindo nas províncias orientais de
budistas. ras imagens de Buda para Lhasa, Tibete. Songzen construiu templos Kham e Amdo, tendo desaparecido da região central. Tam-
os primeiros templos do Budismo, Ramoche e Jokhang. Pe- budistas. bém foi possível porque monges saíram no período de Lang
ríodo de criação do alfabeto, por Thonmi-sambhota, que foi para a Índia, e então retornaram. O modelo monástico india-
para a Índia, e desenvolveu o alfabeto tibetano a partir do no é inspiração para o tibetano. Desta forma são fundadas
sânscrito. as escolas tibetanas: Nyingma, Sakya, Kagyu e Kadam. O
WenCheng Tibete se fecha em um Estado religioso e é palco de confli-
e Bhrikuti tos religiosos: formas domésticas e populares do budismo
Trouxeram entram em choque com os ensinamentos dos monges que
as primeiras voltavam da Índia. Há uma reação forte do Vinaya contra
imagens
budistas.
os excessos das práticas do Vajrayana, presentes dentre o
povo. Surgiram e desapareceram muitas escolas no período
Thonmi
Sambhota
e as quatro linhagens permaneceram. É também o período
de atuação de Dipamkara Sri-Jnana – Atisha.
Criou o
alfabeto
tibetano a
partir do
sânscrito.
Sakya ENTRE 1207-1368: PERÍODO DE DOMÍNIO MONGOL
Pandita

Influenciou
Período de atuação de Sakya Pandita nas relações com
Santaraksita ENTRE 650-820: PERÍODO DO DESENVOLVIMENTO DO o governo este domínio com Godan, neto de Genghis Khan. Estrutu-
Primeiras BUDISMO NO TIBETE mongol de ra-se a partir de então uma relação denominada cho-yon
Godan Khan.
ordenações (religioso-governante) – na qual o religioso era apontado
monásticas. Contexto do imperador tibetano Trisong Detsen, que convi- como vice-rei. Essa estrutura se manteve, e de 1249 a 1368
dou para ensinar na região dois grandes mestres indianos: era Sakyapa. A tradição começou com Sakya Pandita, e seu
Padmasambhava e Santaraksita. Ambos foram centrais para Godan Khan sobrinho Phagpa. Posteriormente, essa relação se estabe-
propagar o budismo no Tibete. Padmasambhava relaciona- leceria com a tradição Geluk: em 1578, Altan Khan, descen-
Neto de
-se com o lado das explicações do Vajrayana. Santaraksita Gengis Khan dente de Genghis Khan, se tornou aluno de Sonam Gyatso
Padmasambhava relaciona-se com o lado das ordenações monásticas, acon- que apontou
e o chamou Dalai Lama Dorje Chang, dando origem à tra-
selhamento, ensino e explicação de textos do lado filosófi- Sakya Pandita
Explicações como vice-rei. dição dos Dalai Lamas.
do vajrayana. co. Antes de Santaraksita não havia ordenação monástica
no Tibete, assim, ocorre a fundação do primeiro monastério Altan Khan
em Samye, entrada dos primeiros tibetanos que se tornam Aluno de
monges. Sonam Gyatso
que traduziu
seu nome
para o mongol
Dalai Lama
(Oceano de
Sabedoria).

Sonam
Langdarma ENTRE 797 A 977: DECLÍNIO DO DHARMA DEVIDO A PER- Gyatso
Perseguição SERGUIÇÕES DE LANGDARMA O primeiro a
e declinio do ser chamado
Dharma. Questões sucessórias e conflitos com a religião local envol- de Dalai Lama
vem a ameaça de continuidade do Dharma no território, a e o terceiro na
linhagem.
retirada do investimento estatal, a perseguição de pratican-
tes, bem como destruição de textos.
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E para a história da tradição Geluk, Atisha grande erudito. Aos vinte anos tornou-se professor
(quadro ao lado) tem um papel especial porque de Abhidharma, período em que também come-
sua reforma no século XI foi referência para Je çou a escrever e a fazer retiros extensos.
Tsongkhapa, cuja história comenta-se aqui.
Desde que começou a escrever os textos que
Je Tsongkhapa nasceu em 1357, na região dariam fundamento à tradição Geluk, buscou es-
chamada Tsonkha, na província de Amdo, desde tabelecer revisões e correções naquilo que estava
criança foi ensinado e treinado dentro da tradição sendo ensinado no período e criticava traduções
budista diretamente por monges que eram profes- no processo. Isso se tornou uma marca de seu
sores e foram hospedados em sua casa, quando era pensamento e trabalhos escritos: a refutação de
ainda pequeno. Sua instrução iniciou-se aos três interpretações incorretas nos textos e nas práticas,
anos, idade com a qual recebeu votos pratimoksa especialmente afirmando a disciplina monástica e
pela primeira vez. Também o lama Chojey Don- o celibato como centrais e corrigindo os erros liga-
drub-rinchen, da tradição Kadam, foi seu profes- dos a interpretações literais do Tantrayana. Dessa
sor principal no período, e a ele concedeu diversas maneira Je Tsongkhapa não criava algo novo ao fa-
explicações, entre elas os sistemas meditativos de zer tais correções, tampouco cometia alguma ofen-
Chakrasamvara, Hevajra, Yamantaka e Vajrapani. sa ao questionar como os temas eram ensinados e
os textos escritos, mas sim buscava o fundamento
Com sete anos deixou sua casa e adentrou da originalidade das palavras do Buda histórico.
Atisha os estudos da vida monástica, ainda em sua terra
natal, Amdo, onde permaneceu até os dezesseis
Para ele, o máximo de detalhamento era funda- Alguns textos e datas
mental ao entendimento dos alunos, e o destaque
Um dos professores indianos
convidados para ir ao Tibete,
anos. Seu nome de nascimento era Kunga Nying- a ser dado ao Vinaya era fundamental. Tudo isso da vida de
po, a partir do momento em que tomou os votos
chamado Dipamkara Sri-Jna-
na, Atisha. É de sua respon-
de noviço, recebeu o nome de Lobsang-Drapga,
estabeleceria uma reforma que iria resgatar a pure-
za das explicações e estrutura vindas do Buda his-
Je Tsongkhapa
com o qual é até hoje lembrado. Entre quinze e de- tórico no Tibete.
sabilidade a fundação da Es-
zesseis anos viajou para a região central do Tibete
cola Kadam, que revitalizou
os ensinamentos do Buda no onde entrou em contato com diversos professores A narrativa de sua vida também é marca- 1389, aos 32 anos, escre-
de vários mosteiros de todas as escolas do Budis- dapor extensivos retiros tais como o seu primei- veu o texto Ornamento das
Tibete, articulando a disci-
Claras Realizações, um co-
plina monástica à prática da mo tibetano existentes até então – isto é, a Nying- ro principal retiro tântrico, sobre Chakrasamvara.
mentário sobre a categoria
meditação, bem como à cen- ma, Kagyu, Kadam e Sakya. Lá, primeiro estudou Com Lama Umapa, da tradição Kagyu, versado no dos Ensinamentos da Praj-
tralidade dos estudos com a no mosteiro da tradição Kagyu, onde aprendeu de Madhyamaka de acordo com a tradição Sakya, fez naparamita;
manutenção do celibato e os acordo com uma tradição que incluía o estudo de um extenso retiro sobre as explicações sobre sunya-
estudos do Vajrayana atrela-
dos aos princípios filosóficos
medicina além dos temas budistas, como bodhicit-
ta. Formou-se nos tópicos principais do treinamen-
ta, utilizando o arquétipo ligado ao conhecimento
que realiza a vacuidade de existência inerente, de-
1402 , aos 46 anos, quan-
estudados. O rei Lha Lama do estava no Monastério de
to de um doutor em temas da tradição budista do nominado Manjushri. Também fez um longo re- Reting, iniciou a composição
Yeshe Od envia uma comi-
Tripitaka, isto é, os Sermões do Buda (Sutra), ética tiro juntamente com oito discípulos em 1392, no do Lamrim ChenMo;
tiva para estudar Budismo e
sânscrito na Índia, e o nome normativa (Vinaya) e teoria ou ciência da realidade qual executaram 3 milhões e 500 mil prostrações
deste professor chega até (Abhidharma). Estudou também em sistemas filo- em conexão com a prática do Sutra dos Três Mon- 1405, compôs o Ngakrim
ele, que faz questão que seja sóficos indianos, participando de debates, provas tes Superiores Triskandhadharmasutra; além de Chenmo explicando as qua-
levado ao território tibetano, e avaliações orais, bem como estudos da tradição dezoito conjuntos de 100.000 oferendas de manda- tro classes de Tantra;
e doa a própria vida em tro- Lamrim, Lamdré, e outros ensinamentos ligados ao la (1 milhão e 800 mil oferendas de mandala). Esse
co da possibilidade de que o Vajrayana. Teve acesso a composição poética em retiro durou quatro anos, e foi permeado também 1407-1408 , escreveu
mestre fosse ensinar em sua sânscrito e construções de mandala. Fez diversas de estudos do tantra, do sutra, bem como das prá- o Comentário ao Mūlama-
terra natal. Para conhecer viagens com o objetivo de entrar em contato com ticas dos bodhisattvas. dhyamakakārikā, Oceano de
mais sobre sua história, pro- outros mosteiros e com inúmeros professores. A Razões e Essência da Eloqu-
cure os estudos da disciplina
cada nova viagem, buscava por explicações sobre Um dos seus professores, Rendawa (1349- ência;
Análise dos Tratados Clássi- 1412) era um mestre Sakya. Para ele, Je Tsongkhapa
os textos clássicos, muitas vezes de textos que já ha-
cos Tibetanos no curso de
Budologia do ITBC. via estudado anteriormente. escreveu o elogio chamado de Migtsema. Rendawa 1415, compôs o Lamrim
retornou a prece, adaptada, afirmando que ela se Dringpa.
Como parte dos treinamentos e estudos como aplicava melhor àquele que a tinha escrito. Essa
monge participou de diversos debates. A cada de- prece de elogio se tornou parte da tradição Geluk,
bate, ganhava notoriedade por seu conhecimento e um verso no qual se medita e que se repete em ho-
com dezenove anos de idade era reconhecido como menagem a Je Tsongkhapa, juntamente às práticas
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da tradição Geluk. Seu reconhecimento como um explicações e tal conexão com os textos e ensina-
grande professor também circulou pela Ásia e o mentos de Buda Shakyamuni, bem como dos prin-
primeiro imperador da dinastia chinesa Ming, que cípios da tradição do Mestre Atisha, que isso é co-
em 1368 estava sendo fundada, o convidou para nhecido como seu segundo grande feito.
ensinar na China duas vezes. Je Tsongkhapa recu- 3) Em 1409, estabeleceu um festival que re-
sou, mas enviou um aluno em seu lugar. O aluno úne em torno da celebração do ano novo tibetano
enviado era um dos oito que havia permanecido uma série de práticas religiosas. Esse festival é de-
em retiro, e com isso a Tradição Geluk chegou até nominado Monlan Chenmo, e ocorreu no Templo
a China. de Jokhang em Lhasa. Nesta mesma ocasião, foram
feitas revitalizações, alterações e ornamentações
Em suas biografias muitas vezes é menciona- em uma grande estátua de Buda Shakyamuni do
do que Je Tsongkhapa executou Quatro Grandes templo, que trouxeram uma perspectiva pedagó-
Ações, importantes para a tradição budista e tam- gica nova, unindo nesta iconografia as explicações
bém para a cultura tibetana budista: do sutrayana e do vajrayana, simbolizando a união
e perenidade dos ensinamentos.
1) Restauração da estátua de Maitreya, 1398,
no contexto de composição de um texto de Home- 4) No mesmo ano, ocorre a Fundação do
nagem à Originação Dependente, relacionando Monastério de Ganden, o primeiro Gelukpa. Esse
esta ação à memória e presença viva dos mestres é o maior do monastério Geluk. Na sequência, seus
indianos Prāsaṅgika. Essa restauração ocorreu logo alunos também fundaram monastérios, seguindo
após o longo retiro de quatro anos que foi feito em o modelo de Ganden. O Monastério de Drepung,
companhia dos oito alunos. Além disso, deste ponto em 1416, foi fundado por Jamyang Choje Tasho
em diante Lobsang Dragpa se volta completamen- Pelden. Mais tarde também Gendundrup, con-
te no sentido de composição de textos, escrevendo siderado retroativamente o I Dalai Lama, fun-
muitas de suas obras principais. Tais textos foram dou Tashilunpo em 1445. O Monastério de Sera
basilares para a formação da tradição, ele os ensi- foi fundado entre 1414-1419, por Jamchen Choje
naria intensivamente aos alunos, tendo também Shakya Yeshe, que também ficou conhecido por
feito extensivas viagens e retiros para aprofundar ter sido o aluno de Lama Je Tsongkhapa enviado
seu entendimento sobre cada um dos temas. Cen- para a China no lugar de seu professor, e que ter-
travam-se no núcleo dos ensinamentos, e a sua se- minaria sendo o professor do imperador chinês.
gunda ação diz respeito a uma das três categorias, os Quando retornou de lá, muito conhecido nos dois
votos da libertação individual para monges – ou seja, territórios, funda o monastério de Sera, que se de-
o código monástico, conforme pode ser lido a seguir. senvolveu em três divisões: Sera Mey, Sera Jey e a
divisão tântrica chamada de Gyü, ou Ngakpa, que
2) Em 1402, escreveu um comentário deta- por sua vez desenvolveu dois outros níveis – o mais
lhado ao Vinaya em Namtsedeng. Enquanto en- alto (tö) e o mais baixo (më), originando as sessões
sinava o Vinaya desenvolveu tal clareza em suas Gyütö e Gyümé.

O monastério
de Tashilhunpo
em Shigatse.
Foto: acervo
pessoal
de Isabella
Graballos.

Monastério de Sera Jey em Lhasa, Região Autônoma do Tibete, China. Foto: acervo pessoal de Isabella Graballos.
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Em 2019 completaram-se 600 anos de sua morte, aos 62 anos,


no mosteiro de Ganden. Antes do seu falecimento, Je Tsongkhapa,
que liderava a organização do mosteiro, transferiu a responsabili-
dade ao seu aluno Gyeltsabjey (1364-1432), que foi o ocupante da
cátedra de Ganden por doze anos que se seguiram. Até hoje existe a
tradição de que o professor (Lama) que ocupa a Catedra de Ganden
é o líder da ordem Geluk.
Dentre as preocupações de Je Tsongkhapa estavam a manuten-
ção e pureza do código monástico, denominado Vinaya, e a valori-
zação dos espaços dos monastérios como lugar de foco nas práticas
Monges indo para a aula no
e nos estudos. A marca da tradição iniciada por ele também envolve monastério de Sera Jey, Índia,
uma centralidade dos estudos articulada com a prática, a importân- em 2012. Foto: acervo pessoal de
cia da lógica e dos estudos filosóficos. Seus textos trazem explicações Estela Piccin.
de diferentes escolas budistas, mas principalmente mostram uma
pesquisa cuidadosa dos textos budistas indianos, objetivando a sua
retomada.
Portanto, Je Tsongkhapa essas características acompanham os Bibliografia: TUTTLE. SCHAEFFER. The Tibetan Atisha Dipamkara Srijnana
History Reader. New York: Columbia https://www.himalayanart.org/
600 anos da Tradição Geluk, e são norte para todos os monastérios KUNSANG, Lama. PEMO, Lama. University Press, 2013. items/57077
gelukpa; para quem segue o monasticismo ou são leigos, e que são AUBELE, Marie. History of the
Karmapas: The Odyssey of the Tibetan Créditos das Imagens Sakya Pandita
beneficiados pelos estudos budistas iniciados por ele. Masters with the Black Crown. New https://commons.wikimedia.org/wiki/
(na ordem em que aparecem):
York: Shambhala Publications, 2012. File:Sakya_Pandita_Kunga_Gyaltsen_
Tsongkhapa and_Drogon_Chogyal_Phagpa.jpg
LAIRD, Thomas. The Story of Tibet: https://www.himalayanart.org/items/38
conversations with his Holiness the Godan Khan
Dalai Lama. New York: Grove, 2006. Songtsen Gampo https://alchetron.com/Godan-Khan
https://himalayanbuddhistart.
NGULPHU, Sonam Tsering. “Dondrub Altan Khan
wordpress.com/2018/01/16/tibet-king-
Rinchen”. In: Treasury of lives. https://en.wikipedia.org/wiki/Altan_
songtsen-gampo-3/bm-073/#main
Disponível em: http://treasuryoflives. Khan#/media/File:Altan_Khan.jpg
org/biographies/view/Dondrub- WenCheng e Bhrikuti
Rinchen/2854 Acesso em 21 dez 2019. Sonam Gyatso
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https://www.himalayanart.org/
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NOSS. GRANGAARD. A History of items/327
the World’s Religions. New York: Thonmi Sambhota
Routledge, 2016. Atisha
https://en.wikipedia.org/wiki/Thonmi_
https://pt.wikipedia.org/wiki/Atisha#/
Sambhota#/media/File:Thomni-
SANDERS, Alan. Historical Dictionary media/Ficheiro:Atisha.jpg
sambhota-thangka-72-for-web-1.jpg
of Mongolia. Volume 1. New York:
Rowman & Littlefield, 2017 Tsongkhapa (detalhe)
Santaraksita
https://www.himalayanart.org/items/90
https://upload.wikimedia.org/
SOPA, Geshe Lhundub. Like a waking wikipedia/commons/c/c6/
dream: the autobiography of Geshe Sera Je College
Shantirakshita_-_Google_Art_Project.
Lhundub Sopa. Somerville: Wisdom, Acervo pessoal de Isabella Graballos.
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2012.
Monastério de Tashi Lhumpo
Padmasambhava
THURMAN, R. Life and Teachings of Acervo pessoal de Isabella Graballos.
http://chulamani2013.blogspot.
Tsongkhapa. New Delhi: LTWA, 2006. com/2013/03/blog-post_9.html Monges em Sera Jey
TSAI, P. M. “Biografia de Je Acervo pessoal de Estela Piccin.
Langdarma
Tsongkhapa”. In: TSONGKHAPA, https://info-buddhism.com/Tibetan_ Chapéu de pandita
Lobsang Dragpa. LamRim ChenMo. Buddhism_Compassioate_Killing_ Ilustração por Estela Piccin.
Grande Tratado dos Estágios do King_Langdarma-Jens_Schlieter.html
Caminho: Escopo inicial. Tomo I.
Tradução de Plínio Marcos Tsai.
Valinhos: ATG, 2012
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Uma das primeiras catalo-


gações extensas produzidas com
o objetivo de criar um corpo es-
critural ortodoxo foi organizada
pelo abade Shi Sengyou, em 515,
em um contexto no qual o Impe-
rador chinês Wu desejava tornar
o budismo uma questão de Es-
tado, por meio de patrocínios e
influências diretas nas questões
budistas, mesmo as escriturais.

Tripitaka: processos de Porém, o catálogo adotado como


oficial do império foi escrito por

tradução e diferenças
um aluno de Sengyou, Baochang,
o Catálogo das Escrituras da Di-
nastia Liang, concluído em 521.
Pode-se dizer que Sengyu e Bao-
Monja Loyane A. P. Ferreira e Geovana Moretto
chang foram os primeiros estru-
turadores, modelos para os se-
A palavra em sânscrito Tripitaka significa literalmente guintes. As duas obras possuíam
“três cestos”. As fontes mais antigas da história da Índia e da uma característica em comum:
China tradicionalmente situam a criação do cânone budista no cada qual à sua maneira, fizeram
uma reorganização dos textos,
período do chamado Primeiro Concílio, ocorrido em Rajagrha.
inclusive adicionando categorias
próprias à realidade chinesa que
Nesta ocasião, estando presentes centenas de texto Mahaprajnaparamita-shastra, conjuntamente extrapolavam os três cestos in-
alunos do Buda, já falecido, seus ensinamentos te- com a história da morte do Buda. Existem algumas dianos originais.
riam sido categorizados em três temas: a disciplina interpretações que afirmam que foi neste momento
Por volta do século X, o
monástica, o cesto do Vinaya; o Sutra, envolvendo que os textos surgiram, dando origem ao cânone,
modelo de catalogação foi aban-
ensinamentos sobre meditação, articulados com enquanto visões mais aceitas afirmam que ao longo
donado, conforme foi ganhando
histórias e outros temas; e o cesto do Abhidharma, do período em que Buda ensinou já existiam for-
maior espaço o trabalho de im-
com explicações e comentários a respeito do en- mas escritas e que no Concílio ocorreu a estrutura-
pressão dos textos, existente des-
tendimento das Quatro Verdades Superiores e in- ção em três partes.
de séculos antes, e que remonta à
terdependência. A história deste Concílio está no
dinastia Tang. Mas a sistematiza-
ção de grandes bibliotecas canô-
As mais antigas traduções dos textos budistas foram feitas para a China. nicas continuou existindo, com
coleções monumentais ao longo
dos séculos seguintes. Outros au-
As mais antigas traduções dos textos budistasa cultura da catalogação bibliográfica era antiga, e tores ao longo dos séculos contri-
foram feitas para a China. Lá surgiram novos sis- remontava ao tempo da dinastia Han (206 a.C-22a buiriam de diferentes maneiras
temas de organização canônica. Existem catálogos d.C), que possuía coleções e taxonomias de textos para o estabelecimento do Tripi-
que descreviam e classificavam manuscritos desde o clássicos, históricos e filosóficos. Desta forma, a taka, incluindo ou excluindo tex-
século II d.C, demonstrando, de acordo com a au- autora afirma que existiu igualmente uma neces- tos no catálogo, por analisar por
tora Tania Storch, que os ensinamentos mais antigossidade de competir cultural e politicamente com o exemplo a autenticidade de ma-
do Buda foram trazidos desde então, atravessando confucionismo. Isso deu origem aos conjuntos de nuscritos, dado que se formou
pelos caminhos conhecidos como Rota da Seda. textos clássicos budistas, e a necessidade de cata- inclusive, na Rota da Seda, um
logá-los e de organizá-los. Storch comenta que até comércio de manuscritos. Assim,
Os ensinamentos budistas encontram na mesmo o termo em chinês para Tripitaka se tornou
China uma “cultura livresca”, conforme Storch, que dazangjing, que significaria “grande biblioteca”, mudanças cruciais ocorrem ao
era dominante e se originava na tradição confucio- uma referência aos termos usados nas categorias longo dos séculos desta história,
nista, bem antes da chegada do Budismo. Também confucionistas. na China e em outras sistemati-
zações do Tripitaka, como a tibe-
tana, por motivos diferentes.
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O Tripitaka tibetano con-


siste nas traduções feitas dos câ-
nones budistas ao longo dos sé-
culos e dos comentários feitos e/
ou compilados no Tibete, desde
o século VII. Foi composto entre
os séculos XIII e XIV, consistindo
em duas partes, o Kangyur, que
sistematiza sutras e textos clássi-
cos do Sutrayana e do Vajrayana
e o Tengyur, que traz comentários
a respeito dos clássicos. A versão
mais antiga foi feita no Monasté-
rio de Narthang. No século XIV,
uma impressão foi feita, na Chi-
na, devido ao contato entre chi-
neses e tibetanos na região onde
hoje fica Beijing, que era um polo
de circulação cultural, comercial
e política. Assim, uma primei-
ra parte do Tripitaka tibetano, o
Kangyur, foi impresso lá, entre
1410-1411. A técnica utilizada
era o entalhamento em blocos
de madeira, que serve como tipo
para a impressão em papel.
Tripitaka Tibetano Existem na tradição tibe-
tana pelo menos sete conjuntos
do Tripitaka, denominados de
acordo com a região do monas-
tério que sediou sua impressão:
o Tripitaka de Derge, o Co-ne,
o de Lhasa (iniciado no final do
século XIX), o do Monastério de
Narthang (mais antigo), o Tri-
pitaka vermelho de Beijing (do
século XIV), o de Kumbum, e o
de Yung-lo. Cada um deles tem
sua história de organização, do
entalhamento dos blocos e de sua
impressão. Diversas universida-
des, centros de estudos e museus
no mundo, fora dos mosteiros
tibetanos, possuem versões de-
les: a Universidade de Harvard,
por exemplo, possui as versões de
Narthang, Lhasa e Beijing. Em
Londres, Oslo, Kyoto e Berlin
também podem ser encontrados
conjuntos. E no Brasil, a Associa-
ção Buda Darma possui uma co-
leção, desde 2012.
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Gravura interna do Qianlong representando o Buda, Bodhisattvas, Arhats e outras figuras típicas da cultura visual do budismo chinês.

O cânone também é conhecido como Tri- Para Fang Guangchang, professor da Univer-
pitaka Manchu, uma vez que a dinastia Qing teve sidade de Shanghai, as categorizações dos tripitakas
seu início quando os manchus invadiram o norte refletem uma capacidade de descrever todos os está-
da China em 1644 e derrotaram a dinastia Ming. gios de desenvolvimento dos assuntos. Por essa ra-
Assim, as mediações e trocas entre manchus, tibe- zão o autor também menciona que a divisão dos câ-
Capa do Qianlong: Desde a antiguidade na China, o dragão simboliza o poder criativo e está ligado à água. No tanos e mongóis tornaram possível a realização das nones pela mudança dinástica não é suficiente para
contexto budista foi relacionado à figura mitológica indiana dos Nagas, serpentes que remetem à sabedoria. traduções do cânone budista tibetano em mongol seu estudo e compreensão, uma vez que os cânones
e em manchu clássico. Desta forma, a organização têm sua própria história, assim, determina seus pe-
da coleção pode ser considerada mais completa do ríodos, que refletem os períodos do budismo chinês,
que organizações anteriores, uma vez que conseguiu pela lógica inerente ao seu desenvolvimento.
Tripitaka Qianlong reunir textos budistas das escolas tibetanas e chine-
sas, feito que não havia se realizado até o momento. Embora o cânone tenha sido constituído em
blocos de impressão, situa-se ao mesmo tempo no
O cânone é dividido em duas partes, a parte estágio de “Acumulação de Mérito,” um dos perío-
A foto acima mostra a capa dos 168 volumes O desenvolvimento do Tripitaka Qianlong principal é composta pelo mesmo conteúdo que o dos da escrita à mão definido por Fang, que vai do
do Tripitaka Qianlong - (Qiánlóng dàzàng jīng 乾 começou no ano de 1733, em blocos de impressão, Tripitaka Norte de Yongle (Yongle beizang 永樂北 início do século XII ao início do século XX, perdu-
隆大藏经) em uma edição moderna. Os volumes no período do reinado de Yongzheng (1722 – 1735), 藏) com 485 conjuntos. A segunda parte, denomi- rando concomitantemente com outras formas de
chamam atenção pela beleza e pelas cores amarela e da dinastia Qing, última dinastia imperial da China. nada “Sequência” possui 239 conjuntos e se diferen- impressão. Na dinastia Qing, tem-se a informação
dourada, remetendo ao período histórico em que o O trabalho foi atribuído aos príncipes Yonlu e Hun- cia por uma categorização própria. O índice possui de que as edições manuscritas ainda não haviam de-
cânone foi constituído. gshu e em 1738, no reinado do imperador Qianlong uma divisão em 17 grandes temas, assim, reflete saparecido, até este período as pessoas ainda fabrica-
(1735 – 1796), foi finalizado com 79.036 blocos de uma sistematização que vai além da classificação das vam cânones com letras de ouro ou prata.
impressão. Três Cestas (Sutra, Vinaya e Abhidharma).
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A suástica presente
na lombada dos livros
simboliza as quatro verdades
superiores e o caminho em oito
partes para superar o sofrimento.
A suástica é um símbolo muito
antigo, já presente na cultura védica,
que remetia ao sol e a bons auspícios.
Sua distorção e mal uso pelo nazismo
durante a segunda guerra mundial não
influenciou seu significado nos países
orientais. Até hoje na China a suástica
nos mapas de metrô sinaliza a
presença de monastérios budistas,
e aparece em embalagens de
alimentos para indicar que
são vegetarianos.

Bibliografia e Referências: KEOWN, Damien. PREBISH, In: Journal of Chinese Buddhist

Tripitaka Manji
Charles. Encyclopedia of Studies. New Taipei, 2015.
CH’EN, Kenneth. “The Tibetan Buddhism. New York: Routledge,
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www.jstor.org/stable/2717929. Chinese Buddhist Bibliography: index.php?option=com_conten
O cânone “Sequência do Manji Tripitaka”, (Wàn xù zàng jīng), Acesso em 22 Fev. 2020. Censorship and Transformation of t&view=article&id=1548:catalog
também chamado de Xù Zàng, foi produzido de 1905 a 1912, pela the Tripitaka. New York: Cambria, ue-of-the-manji-tripitaka-sequel-
CHENYAN, Wang. “History of 2014. &catid=148&Itemid=209
Japan Tripitaka Publishing House, depois da produção do Manji Tri- Tibetan Tripitaka”. In: China Tibet Acesso em 29 mar 2020.
pitaka, compilado e impresso de 1902 a 1905, e inclui toda esta úl- Online, 07/02/2003. Disponível CHINESE BUDDHIST CANON
em http://www.vtibet.com/en/ (verbete). In Encyclopedia of CATALOGUE OF THE QIANLONG
tima coleção, somando a ela as exposições não agrupadas de textos calture/moretoread/201310/ Buddhism. Disponível em https:// TRIPITAKA (QIANLONGZANG)
perdidos de seis dinastias, entre 222 e 589 d.C, e das dinastias Tang, t20131024_141704.html encyclopediaofbuddhism.org/wiki/ http://culture.teldap.tw/culture/
Acesso em 22 fev 2020 Chinese_Buddhist_Canon index.php?option=com_content&v
Song e Qing. No Brasil, a Associação Buda Darma possui uma coleção Acesso em 25 fev 2020. iew=article&id=1550:catalogue-of-
do Tripitaka Manji que foi doada em 2017 pela Biblioteca Teiiti Suzuki GOSLING, Asian Treasures: Gems the-qianlong-tripitaka-qianlong-
of the Written Word. Australia: FANG, Guanchang. “Defining zang-&catid=148&Itemid=209
do Centro de Estudos Japoneses da USP. Canberra, 2011 the Chinese Buddhist Canon: Its Acesso em 29 mar 2020.
Origin, Periodization, and Future.”
VII Congresso
da ANPTECRE,
Encontros sobre 16 Dias de
PUC-RJ. A monja
a Vida do Buda Ativismo pelo Congresso
Nirvana falou de
histórico e Tai Chi Fim da Violência Metodista 2019.
monasticismo
com a professora Contra a Mulher. Participação de
3° ano na Mostra feminino. Veja na
Projeto Sede Própria Regina Harumi alunos do ITBC.
Cultural na EMEF página 33.
Para a continuidade Sakuma, na Veja na página 28.
Raul Pila, em
dos trabalhos. Hoje Biblioteca Pública
Campinas. Felipe
temos local definido Narval Fontes, São
Donadon palestrou
e planta estruturada. Paulo.
para o EJA: Dia da Mulher na EMEF
“Esclarecendo a Raul Pila, em Campinas.
Psicologia”. • Palestra sobre a Lei
Maria da Penha e direito
Projeto Jiu é Vida
de família com Patricia
Jiu-jitsu Brasileiro,
Palazzo;
com caráter formativo
• Oficina sobre moda e
educacional, voltado a
empoderamento feminino VIII Colóquio Internacional
crianças e adolescentes
com Tattiane Marques. de Filosofia Oriental no IFCH,
em situação de risco
social. Veja na página 08. Unicamp. O Ms. Plínio Marcos
Tsai foi tradutor simultâneo
12° Semana trilíngue de chinês, inglês e

ACONTECEU da Mulher, em
março de 2019,
Município de
português. Após o Colóquio
recebemos a visita da Profa.
Dra. Robin Wang, especialista

EM 2019 Valinhos, com


promoção de
palestras para os
em Filosofia Taoísta da
Loyola University, nos EUA,
e consultora para a indústria
A Associação Buda Darma (BUDA) é voltada ao ensino munícipes. cultural.
de caráter religioso, filosófico, educativo e de auxílio
humanitário, sem fins lucrativos, mantenedora do Instituto
de Estudos das Tradições Budista e Cristã (ITBC) e de Colégio de Vinhedo
Participação na Asserutil, utilidade pública pelo município de Valinhos. na sede da BUDA.
que há 20 anos trabalha Alunos do ensino
com as entidades de Veja nossa Missão, Visão e Valores em: médio da profª
assistência e utilidade Lisandra, em
comunitária em Valinhos. buda.org.br/a-associacao/ trabalho de campo
para conhecer Grupo de
mais sobre Meditação como I Congresso
Veja nossos reconhecimentos nacionais diversas religiões prática integrativa Internacional de
Encontro Ecumênico e internacionais em: Filosofia Intercultural
e promover o na UBS e no PSF
para a Celebração da da ALAFI e V Jornada
respeito e diálogo. de Indaiatuba, com
Páscoa e Reabertura
do Centro do buda.org.br/reconhecimentos/ a monja Loyane de Filosofia Oriental
Ferreira. da USP, com Ethel
Idoso em Valinhos. Beluzzi e Patricia
Participação de Palazzo. Veja na
Cibele Furlan. página 33.

Meditação: Grupo WhatsApp.


Transmissão da leitura sobre
a vida do Buda histórico.
Participação voluntária
dos alunos formados com
“Meditações: A Vida do
Buddha”, e dos monges
Encontros de Meditação com “Coleção dos Versos
com os Monges da BUDA, Indicativos: Udanavarga, de
USF: Oração pela Paz. sobre o texto Lamrim Dharmatrata”. Palestras na Sede
Representantes de Chenmo, de Tsongkhapa. Roda do Samsara
diferentes religiões O evento “Prosa Eventos da vida do com monja Estela;
em prol de um Filosófica” é organizado Monge Jonathan: Espaço Buda Shakyamuni Buddha em leitura
diálogo pela paz. periodicamente pela Vajrakilaya, Barão Geraldo, sob a perspectiva Medieval e História
2ª Marcha Mundial da Paz Etec de Piedade/ Campinas. socioeconômica, da Tradição Geluk
O monge Marcos
e da Não-Violência no CLT. SP. A monja Estela política e social. Com com monja Loyane;
nos representou em
Organizada pelo professor palestrou sobre a Monja Nirvana: Grupo Rosa e Cibele Furlan, Tattiane Direitos Humanos
Bragança Paulista.
de Judô e monge budista Roda do Samsara, uma Amor, Valinhos. Marques, Regina com Patrícia.
da BUDA, Marcos, que é Em novembro de 2019 imagem tradicional, que Harumi Sakuma,
também responsável por participamos da 1ª representa fundamentos Monja Estela: Espaço Centra, Maximiliano Sawaya e
promover atividade física, Encontro do 10º Comitê do budismo. Valinhos. Patricia Palazzo.
saúde e bem-estar aos Produção literária
da WBSC em Macau,
munícipes. China. Veja na página 50. Veja na página 20.

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