Você está na página 1de 10

[ Imprópria.

Política e pensamento crítico, nº 4 - 2014 - ISSN 2182-3367 ]

Pensar a natureza na
época do Antropoceno
Davide Scarso

Um dos projectos mais ambiciosos do Turner que, no final, não sabemos muito bem o que
Endangered Species Fund1 liga-se à noção a natureza seja. Como dizia numa entrevista
de «recolonização pleistocénica», ou seja, a Neil Evernden, um dos mais sagazes autores
exploração da possibilidade de restabelecer na área dos environmental studies: «Natureza
em algumas zonas da América do Norte os é uma palavra perigosa. Nunca é exactamente
ecossistemas que ficaram comprometidos o que pensamos que seja»5.
com a colonização humana do continente2.
Em particular, considera-se que a chegada do Há provas cada vez mais sólidas de que as ac­
ser humano provocou a extinção dos animais tividades humanas, e de modo cada vez mais
acelerado desde o início da industrialização,
de grande porte (a megafauna: mamutes,
alteraram de maneira radical e provavelmen­
tigres-dente-de-sabre e preguiças gigantes,
te irreparável os ciclos físicos e químicos
por exemplo), e que seria portanto recomen­
mais determinantes para a conservação e o
dável, se pretendermos restaurar os antigos
desenvolvimento da vida biológica no nos­
níveis de biodiversidade, favorecer a recolo­
so planeta, a começar pelo clima6. Por esta
nização de espécies evolutivamente próximas razão, alguns defendem que, pelo menos a
(elefantes africanos e asiáticos, leões e chim­ partir do século XVIII, entrámos numa nova
panzés). Turner, segundo maior proprietário época geológica que deveríamos designar
de terras do país, entusiasmou-se com a ideia por «Antropoceno», a nova era do Homem7. A
e, por agora, reintroduziu a imponente tarta- intenção daqueles que sugeriram a adopção
ruga-de-bolson nos seus ranches do Novo Mé­ do termo era chamar a atenção da opinião
xico3. A recolonização pleistocénica originou pública para os riscos que a vida no planeta
um grande debate entre os biólogos da con­ está a correr. No entanto, de acordo com os
servação. Alguns consideram que nem mes­ adeptos do neo-ambientalismo8, não há ra­
mo a Fundação Turner estaria disposta a gas­ zões para desespero. Em várias intervenções
tar a quantidade de dinheiro necessária para públicas, Peter Kareiva - vice-presidente e
edificar quilómetros e quilómetros de cercas cientista-chefe de The Nature Conservancy,
à prova de elefante4. A questão é sem dúvida uma das mais influentes organizações inter­
complexa, mas é difícil fugir à sensação de nacionais de defesa do ambiente - tem vindo
nos últimos anos a promover uma redefinição para metabolizar e neutralizar definitivamen­
profunda do ambientalismo, para que esteja à te o ambientalismo14. Procurando contrastar
altura da época em que vivemos9. E verdade, as argumentações dos neo-ambientalistas, al­
já não resta nenhum canto da Terra em que guns fizeram o inventário das zonas do mun­
seja possível encontrar um ambiente natural do onde ainda é possível encontrar ecossiste-
incontaminado. A natureza parece ser toda­ mas intactos: afinal, algures ainda será possí­
via mais «resiliente» do que pensamos, basta vel encontra uma natureza «natural»15.
pensar que «[e]m volta do estabelecimento
nuclear de Chernobyl» - e, de facto, poucos A ideia de que a natureza possa ser o resulta­
territórios podem competir com Chernobyl do de uma construção social não é nova. Foi
quanto a degradação ambiental - «a vida a partir do fim dos anos 1980, com a difusão
selvagem abunda, não obstante os elevados daquela atmosfera intelectual que costuma­
níveis de radioactividade»10. Um ambientalis­ mos resumir muito grosseiramente sob a eti­
mo eficaz e up-to-date deverá portanto deixar queta de «pós-modernismo», que surgiu toda
cair os seus velhos mitos - a defesa da su­ uma literatura relativa ao carácter construído
posta fragilidade dos (igualmente supostos) de coisas que se pensava serem «naturais»
equilíbrios da natureza11, em primeiro lugar, (como por exemplo, e talvez em primeiro
mas também as amenidades reformistas do lugar, a identidade étnica e de género)16. O
desenvolvimento sustentável - e encarar a objectivo fundamental era tirar o tapete de­
dura realidade: «[n]ão é preciso ser-se um baixo dos pés do «essencialismo» e mostrar
pós-modernista para perceber que o concei­ que aquele plano sólido e imutável que tan­
to de Natureza, enquanto oposto aos proces­ tas vezes serve de quadro referencial a políti­
sos químicos e físicos dos sistemas naturais, cas conservadoras, quando não abertamente
sempre foi uma construção humana»12. Se discriminatórias, é na realidade uma textura
não há nenhuma natureza selvagem à qual opaca de contextos narrativos e relações de
regressar, é preferível então seguir em fren­ poder (e a história testemunha que quando
te, procurar uma parceria com o capitalismo a política procura uma fundação mais sólida
industrial e contribuir para o desenho de no­ invocando o «natural» contra o «inatural», ge­
vos sistemas em que humanos e não huma­ ralmente a coisa não corre nada bem).
nos possam colaborar de forma eficaz para
uma economia pujante: «A natureza poderia Quando se tratou de passar às questões am­
ser um jardim»13. bientais17, porém, tudo se complicou. Para
defender a natureza pode de facto tornar-
Perante esta «nova visão», o mundo ecologis­ -se útil saber-se primeiro o que ela seja. Se
ta dividiu-se, ou melhor, aprofundou as suas para a grande maioria de quem luta contra
divisões. Por um lado, exclamações de entu­ a discriminação étnica ou de género se trata
siasmo por uma tão esperada realoekologie. de um ponto de partida que nem vale a pena
Por outro, gritos horrorizados por parte do discutir, a questão da construção social (ou
ambientalismo mais «clássico» que considera cultural, histórica, política, etc.) da natureza
a ideia de uma natureza definitivamente an- dividiu profundamente os militantes ambien-
tropizada, no mínimo contraproducente - por­ talistas. Logo se estabeleceu uma acérrima
que vai fornecer novas armas às indústrias -, oposição entre «construtivistas», geralmen­
senão até uma autêntica estratégia neoliberal te oriundos das ciências sociais (sobretudo

53
geógrafos e historiadores do ambiente), e «Unabomber». Atendendo a como as coisas
«anticonstrutivistas», uma peculiar coliga­ correram até aqui, não é razão para grandes
ção de ecologistas «profundos» e biólogos da entusiasmos que a natureza se tenha tornado
conservação18. Um destes últimos, Michael um subsector da indústria humana; no entan­
E. Soulé, num texto particularmente contun­ to, o «niilismo activo» dos neo-ambientalistas
dente, afirmava que a natureza estava a ser pode parecer uma alternativa viável ao ecoter-
objecto de um duplo assédio19. Não só, claro, rorismo ou a uma angustiada desistência.
o progressivo avançar da exploração indus­
trial, da desflorestação e da poluição a nível Que tudo se reduza a ter que escolher entre
global, o ataque físico. Mas, menos visível e Ted Turner e Ted Kaczynski não é lá muito
mais insidioso, o «assédio social»: a redução animador. Talvez seja então melhor dar um
da própria ideia de natureza a processos so­ passo atrás ou, para sermos mais precisos,
ciais, políticos ou históricos por parte dos ao lado. Apesar do mito do «bom selvagem»
«pós-modernistas»20. já ter sido desmascarado há algum tempo,
a tentação de olhar para o que resta das co­
A novidade literalmente epocal que o termo munidades ameríndias em busca de outras
«Antropoceno» de certa forma anuncia é que maneiras, menos brutais e autodestrutivas,
assédio físico e assédio social (para não sair­ de se relacionar com o mundo natural é for­
mos da metáfora bélica de Soulé) se fundi­ te. Estou convencido que, de facto, a antro­
ram e a questão já não é apenas a construção pologia tem alguma coisa a dizer e que nos
social da noção de natureza mas sim a cons­ pode ajudar a sair da encruzilhada. Não por­
trução da natureza em si mesma, por assim que possa descobrir no coração da selva uma
dizer. A nível global, 50 por cento dos fluxos ideia extraordinária que permita encontrar
de água não salgada são captados para o uso uma nova conexão com a natureza mas, pelo
humano; entre 25 a 40 por cento do produto contrário, porque nos obriga a uma profunda
da fotossíntese (segundo os critérios de me­ revisão da nossa forma de pensar o mundo (e
dição) é apropriado pelos seres humanos; até da maneira de pensar a própria «imagem
em média, cerca de 40 por cento das prote­ do pensamento», para utilizar uma expressão
ínas presentes na nossa alimentação foram deleuziana).
obtidas graças ao uso de fertilizantes artifi­
ciais21. Quem está convencido que o futuro do O ponto de partida não é uma grande novida­
planeta depende da tutela da inviolabilidade de: existem grupos humanos - ou para utili­
da natureza não pode senão resvalar para o zar termos mais espinhosos, há «sociedades»
desespero. O escritor e jornalista Paul Kings- e «culturas» - que parecem não fazer uma
north22, até há poucos anos um dos militantes clara distinção entre mundo natural e a esfera
ecologistas mais activos do Reino Unido, viu- das relações sociais, entre natureza e cultu­
-se obrigado a admitir a falência da luta am- ra. Desde a sua fundação que a antropologia
bientalista e a inexorabilidade da progressiva se deparou com o que ficou tradicionalmen­
destruição da natureza. Num texto recente23, te conhecido como «animismo», uma certa
admite que o único ambientalismo adequado tendência presente em muitos povos para
para estes «tempos obscuros» poderá talvez atribuir animação e vontade «muito para além
buscar inspiração nas obras de Theodore J. dos limites modernos»25. Para os membros
Kaczynski24, que ficou mais conhecido como do grupo Ojibwa das florestas do Norte do

54
Canadá, por exemplo, é perfeitamente plausí­ Tratava-se no fundo de representações me­
vel (ou pelo menos assim era nos anos 1930, tafóricas que uma interpretação racional, a
quando foi registada) a conversa relatada partir de um profundo conhecimento do povo
pelo antropólogo americano Alfred I. Hallo- em questão, podia reconduzir ao seu sentido
well entre um homem e a mulher, sentados na «verdadeiro», remetendo, de acordo com a
sua tenda durante uma forte trovoada. Logo a orientação teórica do observador, a dimen­
seguir a um estrondo fragoroso e prolonga­ sões sociais, económicas, políticas, etc. De­
do, o homem vira-se de repente para a mu­ pois de ser considerado por algum tempo fora
lher e pergunta: «Ouviste o que ele disse?», de moda, o dossiê do animismo foi reaberto
referindo-se ao trovão que acabava de sacudir recentemente, em particular a partir de Bird-
o ar. Ao que ela responde «Não, estava dis­ -David29, e a questão foi colocada mais uma
traída»26. Para dar outro exemplo, segundo as vez: como levar a sério este esbatimento da
observações do antropólogo francês Philippe fronteira entre sociedade e mundo natural?30
Descola, os achuar da região amazónica na Como poderemos, ao mesmo tempo, enten­
fronteira entre Peru e Equador postulam (ou, der discursos que aparentemente reconhe­
mais uma vez, postulavam nos anos 1970) um cem como «agentes» tanto seres humanos
continuum entre os seres humanos e os seres como plantas, animais e entidades abstractas,
da natureza, sendo todos regidos por normas sem os considerar apenas uma capa ideológi­
de carácter social: «[o]s homens e a maioria ca cobrindo estados de coisas mais «concre­
das plantas, dos animais e dos fenómenos at­ tos» e inteligíveis? E não será por acaso que
mosféricos são pessoas (...) dotadas de uma a discussão em volta do animismo - por exce­
alma (...) e de uma vida autónoma»27. Para lência lugar da indiscernibilidade entre natu­
as mulheres da comunidade achuar é por­ reza e mundo social - retorne num momento
tanto perfeitamente normal tratar as plantas em que, perante as provas incontestáveis das
que cultivam como se fossem seus filhos, só profundas alterações provocadas pela indus­
que com um semblante diferente dos outros. trialização nos «equilíbrios ambientais», pare­
E não se trata apenas de força de expressão, ce que, como já referi, não conseguimos mui­
como quando dizemos que um adulto ociden- to bem dizer o que é a natureza.
talizado fala com as plantas do seu aparta­
mento, por exemplo. Os filhos imprevisíveis Questionando a própria distinção entre natu­
e «desnaturados» que são as plantas de man­ reza e cultura, a antropologia coloca-se numa
dioca tendem a entrar em competição com os posição de vanguarda malgré sor. não por pos­
seus irmãos duma maneira bastante literal e suir uma qualquer qualidade especial, mas
podem atentar à sua saúde sugando-lhe o san­ justamente por ser mais vulnerável enquanto
gue28. mais exposta à antinomia de mundo natural
e mundo humano. Ao discutir a definição de
A convicção que este tipo de raciocínios «ani- natureza, a antropologia está a ser puxada aos
mistas» fosse o vestígio de uma fase «primi­ seus mais extremos limites epistemológicos,
tiva» da mentalidade humana foi sendo pro­ que são também no fundo os limites de todas
gressivamente abandonada a partir do início as ciências sociais e humanas. Decerto, os
do século XX, e os antropólogos passaram termos «natureza» e «cultura» eludem qual­
então a considerá-los como a expressão sim­ quer redução a uma definição unívoca, mas
bólica de relações entre coisas mais «reais». nem por isso deixam de traçar uma certa ma-

55
rão não fazer esta distinção. Enfim: a cada
cultura a sua natureza. A questão é que nós,
P e n s a r de forma radical a ocidentais modernos31, não temos grandes
não universalidade da distinção problemas em conceder aos povos não oci­
dentais uma cultura própria, mas esta não é
entre mundo natural e mundo mais do que uma variação sobre um mesmo
social impõe uma profunda e único tema: «a natureza tal como nós a per­
reconceptualização que deverá cepcionamos»32. A cultura dos outros, dife­
rentemente do que acontece no nosso caso
colocar em causa a noção de com a oposição entre natureza e cultura, não
natureza, evidentemente, mas corresponde deste modo a um «sistema to­
também o que entendemos por tal de conceptualização»33. Reconhecemos a
cada povo o seu valor, a sua particularidade,
relações sociais, elaborações o seu direito a preservar as suas tradições, a
culturais e processos históricos sua língua e os seus rituais, mas ao mesmo
(e talvez questionar o próprio tempo consideramos que a sua vida cultural,
social e política é, tal como a nossa, uma ac­
pensamento como algo que tividade simbólica que se aplica a um mundo
acontece ttdentro da cabeça dos natural objectivo e universal que permanece,
na sua silenciosa solidez, igual para toda a
indivíduos»).
gente34.

Dizer que cada «cultura» possui a sua própria


triz de contrastes: dum lado, a esfera do que ideia de natureza é por consequência um ges­
é físico, objectivo, necessário e universal; e to elegante, mas insuficiente. Como é igual­
do outro, tudo o que pertence à dimensão so­ mente insuficiente reconhecer que a ideia
cial, subjectiva, contingente e eminentemente de natureza, enquanto oposta aos processos
pluralista. Como poderá então uma disciplina físicos e químicos «naturais», é uma cons­
como a antropologia, que de certa forma é o trução humana. Aqui, paralelamente ao que
resultado da distinção entre um plano natural acontece com a crise ambiental, não há volta
unívoco e um plano cultural multíplice, des­ atrás, não há realismo a bom mercado que
crever os modos de viver de grupos que não nos possa tirar da obscuridade. E necessário
recorrem a esta oposição? avançar e procurar pensar o impensável: que
a natureza, não apenas como ideia mas como
Há uma resposta que é hoje quase óbvia: a esfera dos processos físicos e químicos, como
tendência em pensar que a distinção entre plano objectivo universal, é o produto de uma
natureza e cultura anime também outros construção social e histórica. O aspecto mais
contextos culturais, e que até possa ser um interessante da impensabilidade desta ideia
binómio conceptual universal, depende in­ não reside porém, pace Alan Sokal, no facto
teiramente da nossa maneira, de adultos de que o plano da realidade física não parece
modernos ocidentais, de encarar o mundo, e particularmente interessado nas nossas lucu-
em particular o que chamamos de natureza. brações (e que, se estiver com fortes dores
Pessoas de outras tradições culturais pode­ de cabeça, também o mais radical dos rela-

56
tivistas toma um comprimido). A raiz desta Segundo um diagnóstico que já foi repetida­
impensabilidade reside no facto de que rea­ mente formulado, sem por isso deixar de ser
lidade objectiva e mundo social se definem actual, encontramo-nos numa situação em
reciprocamente, só existe um plano objectivo que o velho aparelho categorial se revelou
enquanto distinto de um plano subjectivo, só definitivamente inadequado, sem contudo ter
existe a esfera da natureza porque existe uma ainda alcançado unanimidade quanto às no­
esfera da cultura, e vice-versa. Pensar de for­ vas categorias. Até seria fácil demais tomar
ma radical a não universalidade da distinção por garantido o facto de podermos algum dia
entre mundo natural e mundo social impõe «ultrapassar» o antigo regime conceptual,
uma profunda reconceptualização que deverá revelando-se assim a questão da destituição
colocar em causa a noção de natureza, evi­ das categorias de natureza e cultura como
dentemente, mas também o que entendemos uma espécie de «superação da metafísica»
por relações sociais, elaborações culturais e para cientistas sociais. E ingénuo pensar que
processos históricos (e talvez questionar o este questionamento represente uma novida­
próprio pensamento como algo que acontece de absoluta e que os pensadores que mencio­
«dentro da cabeça dos indivíduos»35). namos trabalhem fora da atmosfera terrestre.
Contudo, devido à indistinção entre plano
A partir daqui, podem ser trilhados vários social e plano natural que distingue a nossa
percursos, diferentes e não raramente incom­ época, esta «velha» questão assume uma con­
patíveis. Pode-se tentar desfazer a oposição sistência e uma urgência sem precedentes.
entre natureza e sociedade procurando des­ Muitas vozes se levantaram para denunciar o
velar um terceiro plano em que aquela dis­ carácter antropocêntrico do «Antropoceno»44,
tinção deixe de fazer sentido, como fazem algo que a própria palavra não faz um grande
por exemplo Tim Ingold36 e Bruno Latour37, esforço para ocultar. Podemos de facto estar
porém segundo direcções divergentes38. Ou perante a irrevogável antropização do mundo,
pode-se então, pelo contrário, procurar esgo­ mas é difícil pensar que, ao fazer-se mundo, o
tar o dualismo «do interior», aprofundando anthropos continue igual a si próprio. E, para­
ao máximo o fosso entre natureza e mundo fraseando o filósofo italiano Roberto Esposi-
humano, como de certa forma fazem, e mais to45, conseguir-se vislumbrar - na sombra da
uma vez de maneiras distintas, Slavoj Zizek39 definitiva subjectivação do planeta e do seu
e Giorgio Agamben40. Por sua vez, a classifi­ extremo assujeitamento - a possibilidade si­
cação ontológica de Philippe Descola41 pro­ métrica e contrária de uma «mundanização
põe uma «relativa relativização» da oposição do sujeito» será talvez a tarefa mais premente
entre natureza e cultura, tornando-se apenas do nosso tempo46. •
uma das possíveis distribuições das entidades
que populam o mundo42. Eduardo Viveiros de
Castro43, ao explorar a pregnância conceptual Davide Scarso é licenciado em Filosofia pela Universi­
daquilo que designou como «perspectivismo dade de Verona (Itália) e pós-graduado em Antropologia
amazónico», põe em causa a distinção entre Cultural e Social na Universidade de Pádua (Itália). E
natureza e cultura não já demonstrando a sua doutor em Filosofia pela Universidade de Lisboa, com
relatividade mas, vice-versa, multiplicando-a a tese «Merleau-Ponty e Lévi-Strauss: reconstrução de
vertiginosamente. um diálogo entre filosofia e ciências humanas».

57
Notas: L ’événement anthropocène: La Terre, Vhistoire et nous,
Paris: Seuil e a Chansigaud, Valérie (2013), L'homme et
1 A Ted T urner Foundation, que financia o T urner En-
la nature: Une histoire mouvementée, Neuchatel-Paris:
dangered Species Fund, surgiu em 1990 pela vontade
Delachaux et Niestlé.
do homónimo magnata norte-americano de trabalhar
com os seus cinco filhos para «criar um mundo me­ 7 O termo «Anthropocene» foi cunhado pelo ecólogo
lhor». Desde então financiou projetos na área da tutela Eugene Stoermer e sucessivamente popularizado pelo
do ambiente por 350 milhões de dólares (a citação e as químico da atmosfera Paul J. Crutzen, prémio Nobel da
restantes informações foram retiradas de www.turnerfo Química pelos seus estudos sobre o «buraco do ozono»
undation.org/frequently-asked-questions/). (Crutzen, Paul J., Stoermer, Eugene (2000), «The "An­
thropocene"», Global Change Newsletter, 41, pp. 17-18)
2 Donlan, Josh; Greene, H arry W; Berger, Joel; Bock,
Porém, já em 1992 o escritor ambientalista Andrew Re-
Cari E.; Bock, Jane H.; Burney, David A.; Estes, James
vkin propunha o termo «Anthrocene» (Revkin, Andrew
A.; Foreman, Dave; Martin, Paul S.; Roemer, Gary W.;
C. (1992), Global warming: understanding the forecast,
Smith, Felisa A. e Soulé, Michael E. (2005), «Re-wilding Nova Iorque: Abbeville Press. Steffen, Will; Grinevald,
North America», Nature, 436(18), pp. 913-914. Martin, Jacques; Crutzen, Paul e McNeill, John (2011), «The
Paul S. (2007), Twilight ofthe Mammoths: Ice Age Extinc- Anthropocene: conceptual and historical perspec­
tions and the Rewilding o f America, Berkeley: University tives», Philosophical Transactions of the Royal Society
of Califórnia Press. A, 369(1938), pp. 842-867, disponível online em h ttp ://
3 Que é todavia uma espécie nativa da América do Nor­ dx.doi.org/10.1098/rsta.2010.0327).
te (Gopherus flavomarginatus) , o que faz com que a sua 8 A paternidade espiritual deste movimento é geral­
reintrodução pertença ao lado menos obscuro da ideia mente atribuída a Stewart Brand (Brand, Stewart (2005,
de recolonização pleistocénica. Maio), «Environmental Heresies», M IT Technology
4 Caro, Tim (2007), «The Pleistocene re-wilding gam- Review, publicação online, em www.technologyreview.
bit», Trends in Ecology and Evolution, 22(6), pp. 282-283. com /featuredstory/404000/environm ental-heresies.
Brand, Stewart (2009), Whole Earth Discipline: A n Eco-
5 Evernden, Neil (2004), entrevista a Neil Evernden em pragmatist Manifesto, Nova Iorque: Viking).
Jensen, Derrick, Listening to the Land: Conversations
about Nature, Culture, and Eros, White River Junction: 9 Kareiva, Peter (2011, Novembro), Failed Metaphors
and A New Environmentalism for the 21st Century, co­
Chelsea Green Publishing, pp. 112-121.
municação no âmbito do programa «Distinctive Voi-
6 Mas não só: profundas alterações antropogénicas, ou ces», da National Academy of Sciences, dos Estados
seja, de origem humana, tiveram lugar também nos ci­ Unidos, Beckman Center - Irvine (vídeo disponível no
clos hidrológicos e do nitrogénio (Vitousek, Peter M.; Youtube, em www.youtube.com/watch?feature=player_
Mooney, Harold A ; Lubchenco, Jane e Melillo, Jerry embedded&v=4BOEQkvCook). Kareiva, Peter; Mar-
M. (1997), «Human Domination of Earth's Ecosyste- vier, Michelle e Lalasz, Robert (2012), «Conservation
ms», Science, 277(5325), pp. 494-499, ao qual retorna­ in the Anthropocene: Beyond Solitude and Fragility»,
mos mais à frente). Quanto à definição da data de iní­ em Schellenger, Michael e Nordhaus, Ted (eds.), Love
cio do «Antropoceno», não se trata na verdade de um your Monsters: Postenvironmentalism and the Anthropo­
detalhe irrelevante: há quem considere que coincide cene, (n.p.): Breakthrough Institute, agora disponível
com o aparecimento do ser humano ou pelo menos no website de The Breakthrough Institute, em h ttp ://
com a invenção da agricultura e da criação de animais. thebreakthrough.org/index.php/journal/past-issues/
Sem podermos aqui aprofundar muito, reenviamos a issue-2/conservation-in-the-anthropocene/. Kareiva,
Bonneuil, Christophe e Fressoz, Jean-Baptiste (2013), Peter; Marvier, Michelle e Lalasz, Robert (2012), «An-

58
thropocene Revisited», disponível no website de The in the Anthropocene», Conservation Biology, 26 (1), pp.
Breakthrough Institute, em http://thebreakthrough. 185-188.
org/index.php/journal/debates/conservation-in-the-
16 Há um óbvio precursor em Berger, Peter L. e Luck-
anthropocene-a-breakthrough-debate/anthropocene-
man, Thomas ([1966] 1991), The Social Construction of
revisited/.
Reality: A Treatise in the Sociology of Knowledge, Nova
10 Kareiva, et al (2012), «Conservation in the Anthropo- Iorque: Doubleday and Co, mas são os anos 1990 o mo­
cene: Beyond Solitude and Fragility». mento de maior sucesso académico do construtivismo
social (a publicação de An Introduction to Social Cons-
11 Para uma critica recente da ideia de «equilíbrio da
tructionism (Burr, Vivien (1995)), pela editora Routled-
natureza», que não implica necessariamente a adopção
ge, talvez represente algo como uma «consagração ofi­
de uma visão neo-ambientalista, reenvio a Kricher, John
cial»). Para uma brilhante apreciação crítica, reenvio a
(2009), The balance ofnature. Ecology’s enduring myth,
Hacking, Ian (1999), The Social Construction ofWhat?,
Princeton, NJ: Princeton University Press.
Cambridge, Mass.: Harvard University Press. O facto
12 Kareiva, et al. (2012), «Conservation in the Anthro- de falarmos hoje mais facilmente de «etnia» do que
pocene: Beyond Solitude and Fragility». «raça» e de «género» em vez de «sexo» revela no fundo
13 Id., ibid.. Sobre a ideia da natureza como jardim, cf. como a ideia de construção social tem sido amplamente
Marris, Emma (2011), Rambunctious Garden: Saving incorporada pelo discurso comum.
Nature in a Post-Wild World, Nova Iorque: Bloomsbury 17 Para uma das primeiras formulações, cf. Bird, Eliza-
USA. Para uma resenha da literatura recente, cf. Proc­
beth Ann R. (1987), «The Social Construction of Nature:
ter, James D. (2013), «Saving nature in the Anthropo-
Theoretical Approaches to the History of Environmental
cene», Journal o f Environmental Studies and Sciences,
Problems», Environmental Review, 11(4), pp. 255-264.
3(1), pp. 83-92 (uma versão ligeiramente reduzida, com
o título «We have never been natural», está disponível 18 Fez história o debate em torno de duas recolhas de
em livre acesso no website de The Breakthrough Ins- textos de teor oposto: Soulé, Michael E. e Lease, Gary
titute, em http://thebreakthrough.org/index.php/pro- (eds.) (1995), Reinventing Nature? Responses to Post-
grams/conservation-and-development/we-have-never- modern Deconstruction, Washington, DC: Island Press
-been-natural/). e Cronon, Willliam (ed.) (1995), Uncommon Ground:
Rethinking the Human Place in Nature, Nova Iorque:
14 Kingsnorth, Paul (2013, Janeiro/Fevereiro), «Dark
W.W. Norton. A elaboração mais intrigante permanece
Ecology. Searching for truth in a post-green world»,
todavia, a meu ver, Evernden, Neil (1992), The Social
Orioá Magazine, publicação online, em www.orion-
Creation o f Nature, Baltimore: The Johns Hopkins Uni­
magazine.org/index.php/articles/article/7277. King­
versity Press.
snorth, Paul (2012, Agosto), «The new environmental-
ism: where men must act 'as gods1to save the planet», 19 Soulé, Michael E. (1995), «The social siege of na­
The Guardian, publicação online, em www.theguardian. ture», em Soulé, Michael E. e Lease, Gary (eds.) (1995),
com /com m entisfree/2012/aug/01/neogreens-science- Reinventing Nature?, pp. 137-160.
business-save-planet. Crist, Eileen (2013), «On the Pov- 20 O alvo crítico principal de Soulé é Haraway (Hara-
erty of Our Nomenclature», Environmental Humanities,
way, Donna J. (1991), Simians, Cyborgs, and Women:
3, publicação online, em www.environmentalhuman-
The Reinvention of Nature, Nova Iorque: Routledge),
ities.org/arch/vol3/3.7.pdf.
emblema de toda uma tendência de pensamento. No
15 Caro, Tim; Darwin, Jack; Forrester, Tavis; Ledoux- entanto, Haraway distingue entre a sua posição, que
Bloom, Cynthia e Wells, Caitlin (2011), «Conservation define como «saber situado», e o construtivismo social.

59
21 Vitousek, Peter M.; Ehrlich, Paul R; Ehrlich, Anne 31 Vamos fingir por um instante que a expressão «nós,
H.; Matson; Pamela A. (1986), «Human Appropriation ocidentais modernos» esteja livre de qualquer dificulda­
of the Products of Photosynthesis», BioScience, 36(6), de de definição. A literatura a considerar é infindável,
pp. 368-373. Vitousek, et al. (1997), «Human Domina- pelo que me limito a reenviar a Ingold (2000), The Per­
tion of Earth's Ecosystems». Galloway, James N., Cowl- ception of the Environment, pp. 6-7, 13ss, e, para uma
ing, Ellis B. (2002), «Reactive nitrogen and the world: análise mais extensa e ainda mais problemática, a Es-
200 years of change», AMBIO: A Journal ofthe Human posito, Roberto ([1993] 2011), «Occidente», em Dieci
Environment, 31(2), pp. 64-71. pensieri sulla politica, Turim: Einaudi, pp. 225-250.

22 Kingsworth, Paul (2010), «Confessions of a recover- 32 Strathern, Marilyn (1980), «No nature, no culture:
ing environmentalist», em Hine, Dougald e Kingsnorth, the Hagen case», em MacCormack, Carol e Strathern,
Paul (eds.), Dark Mountain 1, disponível online em Marilyn (eds.), Nature, culture andgender, Cambridge,
www.paulkingsnorth.net/journalism/confessions-of-a- Mass.: Cambridge University Press, pp. 174-222.
recovering-environmentalist/.
33 Wagner, Roy ([1975] 1981), The invention of culture,
23 Kingsnorth (2013, Janeiro/Fevereiro), «Dark Ecolo- Chicago: The University of Chicago Press.
gy. Searching for truth in a post-green world».
34 Chamaram a atenção para este aspecto profunda­
24 Kaczynski, Theodore J. (2010), Technological Slav- mente aporético Tim Ingold ([1996] 2000, «Hunting
ery: The Collected Writings o f Theodore J. Kaczynski, and gathering as ways of perceiving the environment»,
a.k.a. "The Unabomber", PortTownsend: Feral House. em The perception ofthe environment, pp. 40-60) e, mais
recentemente, Martin Holbraad (2012, Truth in motion:
25Tylor, Edward Burnett ([1871] 1920), Primitive cul-
The Recursive Anthropology of Cuban Divination, Chi­
ture, researches into the development ofmythology, philos-
ophy, religion, language, art, and custom, Nova Iorque: cago: The University of Chicago Press, pp. 35ss).
Brentano’s. 35 Não, não me refiro a fenómenos do género telepatia,
26 Apud Ingold, Tim (2000), «A circumpolar night’s mas a coisas como a cognição «embodied, embedded and
dream», em The perception ofthe environment, Londres extended» (para uma atenta apreciação, cf. Clark, Andy
e Nova Iorque: Routledge, pp. 89-110. (2012), «Embodied, embedded, and extended cogni-
/ tion», em Frankish, Keith e Ramsey, William (eds.), The
27 Descola, Philippe (1986), La nature domestique. Cambridge Handbook of Cognitive Science, Cambridge:
Symbolisme et praxis dans 1’écologie des Achuar, Paris: Cambridge University Press, 2012, pp. 275-291, mas tam­
Fondation Singer-Polignac - Editions de la Maison des bém Ingold, Tim (2010), «The Man in the Machine and
sciences de 1'homme. the Self-Builder», Interdisciplinary Science Reviews, 35(3-
28 Id., ibid. 4), pp. 353-364). A questão do «lugar do pensamento» foi
recentemente abordada, num âmbito mais estritamente
29 Bird-David, Nurit (1999), «'Animism’ Revisited: Per-
filosófico, emEsposito, Roberto (2013),Due.La macchina
sonhood, Environment, and Relational Epistemology»,
delia teologia politica e il posto del pensiero, Turim: Einaudi.
Current Anthropology, 40(S1), Special Issue: Culture—A
Second Chance?, pp. S67-S91. 36 Ingold (2000), The perception ofthe environment.

30 Sobre as implicações do «levar a sério» o pensa­ 37 Latour, Bruno (1991), Nous n'avons jamais été mo-
mento nativo, ver Castro, Eduardo Viveiros de (2002), dernes: Essai d’anthropologie symétrique, Paris: La Dé-
«O nativo relativo», Mana, 8(1), pp. 113-148, dispo­ couverte. Latour, Bruno (2005), Reassembling the Social
nível online em http://dx.doi.org/10.1590/S0104- - A n Introduction to Actor-Network-Theory, Oxford: Ox­
93132002000100005. ford University Press.

60
38 Em Ingold, Tim (2008), «When ANT meets SPIDER: os.pdf (trata-se de uma versão ampliada do oitavo capí­
Social theory for arthropods», em Malafouris, Lambros tulo de A inconstância da alma selvagem).
e Cari Knappett (eds.), Material Agency, Dordrecht:
44 Crist (2013), «On the Poverty of Our Nomenclature».
Springer, pp. 209-215, sublinha-se a diferença num tom
bastante entretido. 45 Esposito, Roberto (2010), Pensiero Vivente. Origini e
attualità delia filosofia italiana, Turim: Einaudi.
39 Zizek, Slavoj (2007, 3 de Outubro) Ecology wi-
thout Nature, comunicação na Panteion Universi- 46 Acerca da conexão de subjectivação e assujeitamen-
ty, disponível no Youtube, em www.youtube.com/ to, Esposito remete obviamente a Michel Foucault. A
watch?v=CGB7g2g9fLw. Zizek, Slavoj (2008), Nature perspectiva da «mundanização do sujeito» está estrita­
and its Discontents, Substance, Special Issue: The politi- mente ligada à noção de impessoal, tal como articulada
cal animal, 117,37(3), pp. 37-72. em Esposito, Roberto (2006), Terza persona. Politica
delia vita e filosofia dell’impersonale, Turim: Einaudi.
40 O interesse que O Aberto. O homem e o animal tem
suscitado entre pensadores «animalistas» não acontece
então apesar de, mas por causa da, relação de alterida-
de radical (uma não-relação) que Agamben procura
instituir entre homem e animal. A ideia de «esgotar»
a oposição de natureza e cultura «do interior» surgiu
a partir das minhas conversas com André Dias, entre
outras coisas autor do blogue de cinefilia política Ainda
não começámos a pensar (http://aindanaocomecamos.
blogspot.pt). Agamben, Giorgio ([2002] 2011), O Aber­
to. O homem e o animal, trad. André Dias e Ana Bigotte
Vieira, Lisboa: Edições 70.

41 Descola, Philippe (2005), Par-delà nature et culture,


Paris: Gallimard. E, numa abordagem mais ágil, Desco­
la, Philippe (2011), L'écologie des autres: Uanthropologie
et la question de la nature, Versailles: Quae éditions.

42 Questões de espaço impedem-nos aqui de aprofun­


dar a temática, pelo que nos limitamos a sublinhar que
a relativização é relativa (pretendendo assim evitar a
falácia construtivista que evidenciámos acima), porque
as ontologias possíveis não são em número indefinido,
mas sim quatro, segundo o antropólogo francês.

43 Castro, Eduardo Viveiros de (2002), A inconstância


da alma selvagem, São Paulo: Cosac & Naify. Castro,
Eduardo Viveiros de (2002), «O nativo relativo». Cas­
tro, Eduardo Viveiros de (2004), «Perspectivismo e
multinaturalismo na América indígena», O que nos faz
pensar, 18, publicação online, em www.oquenosfazpen-
sar.com /adm /uploads/artigo/perspectivism o_e_m ul
tipluralismo_na_america_indigena/n 18EduardoViveir

61

Você também pode gostar