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Conselhos para a direção do

espírito
I - Silêncio e trabalho matutino
ESTES conselhos não se dirigem a todo mundo: um
número muito pequeno de espíritos, no atual estado
do mundo, são ou desejam ser capazes de segui-los.
Dirigem-se àquele homem de vinte anos, espírito
raro e privilegiado, coração ainda mais
privilegiado, que, no momento em que seus colegas
de estudo chegaram ao final de sua trajetória,
compreende que sua educação está apenas
começando; que, na idade em que o amor pelo
prazer e pela liberdade, pelo mundo, por suas
honras e riquezas arrasta e precipita a multidão,
detém-se, ergue os olhos e busca, no
imenso horizonte da vida, no céu e na terra, o
objeto de um outro amor. Suponho que me dirijo a
esse homem. É para ele que falo aqui. A posse da
sabedoria, digo antes de qualquer outra coisa,
tem rigorosas condições; nunca se esqueça disso.
Essas condições, é verdade, são mais severas em
aparência do que na realidade. Mas, enfim, a
iniciação exige austeras provas. Você é corajoso?
Aceita o silêncio e a solidão? Aceita, no seio da sua
liberdade, um trabalho mais profundo, e também
mais regular que o trabalho exigido pela escola,
esse trabalho que os homens impõem às crianças
mas não a si mesmos? Aceita, nesse rude caminho,
ver seus semelhantes, por um caminho fácil,
ultrapassarem-lhe na corrida e ocuparem seu lugar
no mundo? Pode sacrificar tudo, sem exceção, à
justiça e à verdade? Então ouça bem.

Se você tomou essa extraordinária decisão, e soube


vencer as inumeráveis oposições, razoáveis e
disparatadas, que pretendem detê-lo, saiba que a
partir de agora terá um mestre: o próprio
Deus. Chegou o tempo em que deve praticar este
conselho do Cristo: “Não vos façais chamar rabi,
porque um só é o vosso Mestre, e vós sois todos
irmãos”.1

Sim, é necessário agora que você tenha a Deus por


mestre.
E o que lhe vou explicar, oferecendo-lhe meios
práticos para realizar as lições do Mestre divino.

Santo Agostinho escreveu um livro intitulado De


Magistro, onde ele mostra que só há um mestre, um
único mestre, que é interior. Leia esse livro.2
Malebranche escreveu muito sobre esse ponto,
páginas admiráveis, muito pouco conhecidas, e
sobretudo muito pouco praticadas. Você as
encontrará com facilidade. Leia-as com atenção e
recolhimento.

De resto, você já ouviu muitas vezes, e


provavelmente também repetiu, que Deus é a luz
universal que ilumina todo homem que vem a este
mundo. Crê nisso?

Se crê, tire disso as consequências.

Se crê que possui em si mesmo um mestre que lhe


quer ensinar a sabedoria eterna, diga a esse mestre,
tão resolutamente, tão precisamente quanto diria a
um homem que estivesse à sua frente: “Mestre,
fala-me. Eu escuto”.
Mas, depois de ter dito “eu escuto”, é preciso
escutar. Esta é uma asserção muito simples, mas
capital.

Para escutar, é preciso fazer silêncio. Ora, eu lhe


pergunto: dentre os homens, e sobretudo dentre os
pensadores, quem é capaz de fazer silêncio?

A maioria dos homens, sobretudo dos homens de


estudo, não têm meia hora de silêncio por dia. E
quando o livro do Apocalipse diz em certo lugar:
“Fez-se silêncio no céu, quase por meia hora”,3
creio que o texto sagrado assinala um
acontecimento que é muito raro no céu das almas.

Durante o dia inteiro, o homem de estudos escuta


homens que falam, ou ele mesmo fala, e quando
pensamos que ele está só e silencioso, faz os livros
falarem com a extraordinária volúpia do olhar, e
devora em poucos instantes longos discursos. Sua
solidáo é povoada, ocupada, abarrotada, não
somente pelos amigos de sua inteligência e pelos
escritores cujas palavras acumula, mas também por
uma multidão de desconhecidos, de falastrões
inúteis, e de livros que são obstáculos. Além disso,
esse homem, que acredita pensar e ter alcançado a
luz, permite que a perturbadora de todo silêncio, a
profanadora de todas as solidões, a imprensa
cotidiana, venha a cada manhã tomar-lhe o seu
mais puro tempo, uma hora ou mais, hora roubada à
vida pela retalhadora cotidiana, hora durante a qual
a paixão, a cegueira, a tagarelice e a mentira, a
poeira dos fatos inúteis, a ilusão dos temores vãos e
das esperanças impossíveis tomam conta desse
espírito feito para a ciência e a sabedoria, talvez
para ocupá-lo e possuí-lo durante o resto do dia.4

Acredite em mim quando afirmo que um espírito


que trabalha assim não aprenderá nada, ou
aprenderá pouca coisa, precisamente porque só há
um mestre; que esse mestre habita em nós, que é
preciso escutá-lo para entendê-lo, e fazer silêncio
para escutá-lo.

Se, portanto, quiser estabelecer um pouco de


silêncio ao seu redor, leia moderadamente, e
expulse de sua casa os profanos. Afaste-se, de todas
as formas possíveis, das palavras inúteis: daremos
conta delas, diz o Evangelho. E darão conta delas
tanto seus autores quanto seus cúmplices.

II

Portanto, é preciso escutar a Deus. É preciso fazer


silêncio para escutá-lo. Mas basta o silêncio?

Sim, podemos dizer que basta o silêncio, pois, diz


Santo Agostinho, a Sabedoria eterna náo cessa de
falar à criatura racional, e a razão náo cessa de
fermentar em nós. Mas náo é fácil chegar ao
silêncio.

Faça os homens calarem, faça os livros calarem,


fique completamente só; você alcança assim o
silêncio? O que dizer dessa loquacidade interior dos
pensamentos vãos, dos desejos irrequietos, das
paixões, dos preconceitos mais perigosos do século
que o conduzem e inspiram sem que você perceba?
Antes de chegar ao silêncio sagrado do santuário,
há grandes vitórias a alcançar. São necessárias
essas sobrenaturais vitórias das quais diz o espírito
de Deus: “Àquele que vencer, eu lhe darei poder
sobre as nações” (Qui vicerit, dabo ei potestatem
super gentes).5

E preciso deixar de ser escravo de si mesmo e


escravo de seu século. Não digo que a luta já deve
ter terminado; digo que ela deve ter começado. A
paixão, em você, já deve ter experimentado o poder
da razão. E preciso ter rompido com o século e ter
dito à torrente do dia: não me carregarás. E preciso
ter escapado a esse aspecto falso do espírito do
século, a essa correnteza cega e perversa pela qual
cada época tenta escapar ao verdadeiro plano da
história universal, retardando sua realização.
“Corrumpere et corrumpi sseculum vocabitur”,6
dizia Tácito. Em relação a esse século, a esse
corruptor com seus preconceitos, suas
doutrinas, sua filosofia (se ele a tiver), é preciso
manter-se bem alto, acima dele, para julgá-lo;
julgá-lo para vencê-lo e conduzi-lo em nome
de Deus. E esse o sentido da frase acima citada:
“Àquele que vencer, eu lhe darei poder sobre as
nações”.

Não insistirei mais sobre esse ponto capital, nem


sobre a extrema dificuldade dessa vitória, nem
sobre a espécie de terror profundo

que experimenta uma alma que vivia ingenuamente


a vida de seu século e que entra agora em luta e em
contradição com essa imensa vida e seus poderosos
movimentos, e começa a sentir sua fraqueza, sua
pequenez, seu isolamento, diante dessas grandes
ondas. De tudo isso nos ocuparemos mais adiante.
Indico aqui somente em que condições a alma
obtém o silêncio para escutar a Deus.

III

Pitágoras dividia a jornada dos discípulos da


filosofia em três partes: a primeira parte para Deus,
na oração; a segunda para Deus, no estudo; a
terceira para os homens e os deveres.

Assim, toda a primeira metade do dia era dedicada


a Deus.

É, com efeito, de manhã, antes de qualquer


distração e de qualquer comércio humano, que
devemos escutar a Deus.

Mas precisemos isso melhor. “O que é, com efeito,


escutar a Deus?”, você perguntará. Na prática, devo
escutar a Deus do amanhecer até o meio-dia como
o fazem os contemplativos da índia? Ficarei com a
fronte inclinada e a cabeça apoiada na mão, ou
com os olhos fixos no céu? Que devo fazer?

A resposta é: você escreverá.

Você já deve ter se perguntado algumas vezes: qual


o meio, há um meio de aprender a escrever? Esse
meio de aprender a escrever e de desenvolver,
nesse sentido, suas faculdades em toda a sua
extensão, é o que lhe ofereço aqui. Esta será a
vantagem secundária do uso das suas manhãs.

Falemos primeiro, sob esse segundo ponto de vista,


de seu trabalho matinal. Isto não será supérfluo,
nem mesmo uma digressão, pois veremos que esse
exercício secundário o conduzirá diretamente ao
objetivo principal.
Santo Agostinho começa assim seu livro dos
Solilóquios:

Andando por muito tempo ocupado em muitos e


diversos problemas, e procurando com diligência,
por muitos dias, conhecer a mim mesmo e o que é o
meu bem, e o mal que deveria evitar, de repente
uma voz me falou, não sei se de mim mesmo ou de
outro, se de fora ou de dentro — e é isso mesmo
que mais desejo saber. Disse-me ela então:

RAZÃO: Supõe que tenhas descoberto alguma coisa;


onde a guardarás a fim de seguir adiante?

AGOSTINHO: Certamente na memória.

R AZÃO : Mas ela é segura o bastante para reter


fielmente tuas reflexões?

AGOSTINHO: E DIFÍCIL; OU MELHOR: NÃO PODE.

RAZÃO: Então, deves escrever. Mas o que acontece?


É por causa da tua saúde que te recusas a escrever?
Essas coisas não devem ser ditadas, pois exigem
uma completa solidão.
AGOSTINHO: Dizes a verdade. Por isso, não sei o que
fazer.

RAZÃO: Pede força e auxílio para alcançares o que


desejas, e põe isso mesmo por escrito, para que
assim te sintas mais animado. Depois, resume o que
fores descobrindo em breves conclusões. E não te
preocupes com a possível multidão de teus leitores;
bastará que te leiam alguns dos teus poucos
conterrâneos.7

Agora eu lhe pergunto: pensa que essas coisas


aconteciam somente para Santo Agostinho? Se
aconteciam somente a ele e não nos acontecem, é
porque nossa lamentável incredulidade o impede.
Você crê em Deus? Deus é mudo? Não é certo que
Deus fala incessantemente, como o Sol ilumina
sempre? Eu lhe digo aqui, com Thomassin:8
“Quem espantar-se dessas coisas e achar que
são inacreditáveis, inesperadas, desconhecidas, este
não sabe ou não refletiu que a descida de Deus, real
e substancial, na natureza inteligente, é um fato
contínuo e cotidiano”.9
Mas náo insistamos neste momento sobre esse
aspecto da questão. O próprio Santo Agostinho,
falando de seu inspirador, não declarava “não sei se
de mim mesmo ou de outro, se de fora ou
de dentro”? Digo-lhe aqui somente que se você
seguir meu conselho, se consagrar as melhores
horas do seu dia a escrever, nada lhe dará tantas
oportunidades para compreender ou para ver a
verdade, e nada poderia lhe dar melhor formação
para escrever. E aí que estão as fontes do gênio e
do talento.

Tratemos disso com algum detalhe; este é o lugar


adequado — o livro correspondente da Lógica de
Aristóteles trata bastante da retórica.

Como você sabe, somente as obras bem escritas


subsistem e deixam suas marcas. As outras, mesmo
que cheias de sabedoria, são apenas uma matéria.
São como criações inferiores destinadas a
ser assimiladas por algum espírito mais vigoroso
que nutre-se delas, amadurece-as, e acrescenta-as à
vida do espírito humano. Se, portanto, você
pretende propagar a verdade, tem que saber
escrever. Eu diria que terá que criar um estilo, se
essa palavra não tivesse dois sentidos, um dos
quais, o mais vulgar, é lamentável. Nesse
último sentido, seria melhor dizer: “Nada de
estilo!”, como quem diz “nada de fingimentos!”. O
melhor estilo, nesse sentido, é não ter nenhum. Esse
estilo, vemos com muita freqüência, serve para
velar o pensamento, ou sua ausência: vestimenta
sempre meio de mau gosto, que, em todo caso, pelo
simples fato de ser uma vestimenta, impede-nos de
chegar à sublime e surpreendente nudez da
verdade.

Mas se você entender o estilo no sentido desta bela


expressão: “O estilo é o homem”, o estilo, então, é
também a eloqüência, como foi definida outrora
por um habilidoso mestre: “A eloqüência é
simplesmente a alma exteriorizada”.10

Isto posto, encontro tudo que é preciso, como regra


prática da arte de escrever, no fragmento de Santo
Agostinho que transcreví.

O estilo, a eloqüência, a fala, no sentido mais


elevado da palavra, é o homem, é a alma trazida à
luz. O que significa que você deve aprender a evitar
não somente toda expressão sem pensamento, mas
também todo pensamento sem alma.

“O estilo”, dizia Dussaulx, “é um hábito da mente”.


— “Felizes aqueles”, disse Joubert, “em que ele é
um hábito da alma”. E Joubert acrescentava: “O
hábito da mente é artifício: o hábito da alma é
excelência ou perfeição”.

Portanto, para escrever, é preciso não apenas


presença de espírito, é preciso também presença de
alma; é preciso coração, é preciso o homem inteiro:
é preciso estar presente para si mesmo. Santo
Agostinho começa portanto com perfeição, quando
diz “procurava conhecer a mim mesmo”.

Mas é preciso ainda mais. Não somente é preciso


aprender a evitar toda expressão sem pensamento e
todo pensamento sem alma, mas também evitar,
acrescento eu, para escrever bem, todo estado de
alma sem Deus. Pois, sem dúvida, o que a
eloqüência procura expressar não é a alma em sua
fealdade, mas a alma em sua beleza. Ora, sua
beleza, indubitavelmente, é sua semelhança com
Deus. Pois, como ainda diz excelentemente
Joubert: “Quanto mais uma expressão assemelhe-se
a um pensamento, um pensamento a uma alma,
uma alma a Deus, mais tudo será belo”.

É necessário portanto, como Santo Agostinho,


procurar a própria alma, procurar a si mesmo, “a si
e a seu bem”, sua alma e sua beleza (quarenti mihi
memetipsum ac bonum meum). Você
precisa, portanto, para escrever bem, a presença da
sua alma e a presença de Deus; o que significa que
é preciso que toda sua alma, se for possível, seja
despertada, e que o esplendor de Deus esteja sobre
ela.

E isso, eu lhe digo, que é preciso procurar. Mas,


quem procura, acha. Se você procurar no silêncio e
na solidão, com constância e perseverança (volventi
mihi diu, ac per muitos dies sedulo quarenti), será
muitas vezes como que despertado e sentirá que
não está sozinho. Entretanto, o hóspede interior e
invisível é tão oculto e tão íntimo à alma que você
duvidará. Fui eu mesmo ou outro que falou? Onde
ele está? Ele se faz ouvir de muito longe ou fala
nesse fundo de mim mesmo tão distante da
superfície habitual de meus pensamentos?

Não se demore nessa dúvida. Na prática, pouco


importa. Trate apenas de náo deixar que se perca o
que escutar e compreender nesse momento. Não se
fie em sua memória. A memória só é fiel e
completa na presença dos objetos. A memória é
uma faculdade que esquece. Quando a luz celeste
das idéias brilha sobre ela, ela crê que essa luz não
lhe será tirada e que verá sempre o mesmo
espetáculo. Não acredite nisso. Quando a luz for
retirada a memória empalidecerá, como a natureza
quando o Sol se põe, pois aqui a ausência é o
esquecimento.

É preciso portanto escrever imediatamente (ergo


scribendum esi). É preciso esforçar-se para
descrever o vasto conjunto, os delicados detalhes
do espetáculo interior que você vislumbrou; é
preciso escutar e traduzir as inspirações secretas do
murmúrio sagrado (venas divini susurri); é preciso
seguir e captar as mais delicadas emoções dessa
vida despertada.

Mas eu não consigo, responde Santo Agostinho;


minha saúde impede que o faça (valetudo scribendi
laborem recusai). E aqui devemos reconhecer que
todos têm naturalmente esse tipo de saúde que não
permite escrever. Esse estado quase sempre
grosseiro, perturbado, excitado, pesado, sonolento
de meu corpo não me impede de escrever, ou seja,
de seguir e fixar essas belezas interiores que
mal percebo, e essas delicadas emoções,
atravessadas, desfeitas, sufocadas pelas rudes e
petulantes emoções dos meus sentidos?

Que fazer, então? (;néscio quid agarri). É


necessário aplicar um remédio a esse estado de seu
corpo (ora salutem et auxiliuni). É necessário sair
desse estado tenebroso do corpo que impede
de escrever. É necessário pedir a Deus essa espécie
de saúde preciosa e bendita que torna o corpo
simples e luminoso, da qual fala o Evangelho
quando diz: “Se o teu corpo for todo
lúcido, iluminar-te-á como uma lâmpada
resplandecente”.11

Sim, é preciso que o seu corpo seja arrebatado e


entre na via do seu espírito e da sua alma. “Tudo
que pensamos”, diz justamente Joubert, “tem que
ser pensado com todo o homem, espírito, alma e
corpo”. Sim, o corpo tem sua parte, e Santo
Agostinho sentia isso.

É necessário que o espírito, a alma e o corpo, em


harmonia, tornem-se juntos como que um só
instrumento, dócil à inspiração interior: inspiração
que quase nunca falta, mas que raramente encontra
um instrumento preparado.

O delicado e profundo escritor que gosto de citar


observou muito bem, ao tratar desse assunto:
“Quando a alma consegue agir assim”, diz ele,

sentimos que suas fibras despertam e colocam-se


todas de acordo umas com as outras. Ressoam por
si mesmas, e independentemente do autor, cujo
trabalho consiste então em escutar, em esticar a
corda que está um pouco abaixo do tom, e afrouxar
a que produz um tom mais alto, como fazem
aqueles que têm um ouvido delicado quando tocam
uma harpa.

Todos que já produziram alguma obra desse gênero


me entenderão muito bem, e concordarão que, para
escrever ou compor assim, é preciso fazer de si
mesmo, primeiro, ou tornar-se a cada trabalho,
um instrumento afinado.12

Não é isso o que quer dizer o profeta quando


exclama: “Levanta-te, minha glória! Levanta-te,
saltério e citara!”? (Exsurge, gloria mea; exsurge,
psalterium et cithara).13

Mas previno-o de que, se for esperar para escrever


o momento em que sua alma e seu corpo se tenham
tornado esse instrumento sonoro e delicado, jamais
escreverá. Que diz, com efeito, Santo Agostinho?
“Pede força e auxílio para alcançares o que desejas,
e põe isso mesmo por escrito, para que assim te
sintas mais animado (ut prole tua fias animosior)”.

Assim, comece a escrever e produzir, mesmo tendo


que sacrificar os primogênitos. Mas, em todo caso,
os primeiros frutos vivos de seu espírito irão
animá-lo; suas fibras despertarão, e se
harmonizarão umas com as outras.

Sabe por que muitos espíritos, aliás bem


preparados, com fre-qüência ficam improdutivos e
jamais escrevem? Porque nunca começam, e
esperam um entusiasmo que só vem com o
trabalho. Ignoram esta incontestável verdade: para
escrever é preciso pegar a caneta, e enquanto não a
pegamos, não escrevemos.

E eles nunca pegam a caneta, pois são paralisados


por não sei que circunspecção; pensam no leitor,
tremem perante toda essa multidão de críticos que
imaginam e perante suas mil pretensões.

Sobre isso, o que diz Santo Agostinho? “Não te


preocupes com a possível multidão de teus leitores;
bastará que te leiam alguns dos teus poucos
conterrâneos” (nec modo cures invitationem turba
legentiurn).
O respeito humano é um flagelo em todo tipo de
coisa. Pense em Deus e na verdade, e não tema os
homens: regra fundamental para escrever bem,
assim como para falar bem.

Não use portanto de estratagemas para atrair os


homens. Nada de estilo, dissemos, mas a severa
nudez da verdade! Escreva somente as conclusões,
em poucas palavras (paucis
conclusiunculis breviter collige); elimine tudo que
é apenas vestimenta, ornamento, aparência, efeito,
precaução, transição. Transição! Flagelo do estilo e
da palavra! Quantos espíritos as transições
impedem de avançar, e não permitem jamais que
cheguem ao que pretendiam dizer! Só escreva
aquilo que vir, aquilo que perceber. O que você não
vir, o que não perceber, não escreva; cale. Esse
silêncio terá seu valor, e tornará sonoro o restante.

Que dignidade, que gravidade, que verdade na voz


de quem não espera nada dos homens, que não
busca nenhuma glória, e que busca a verdade; que
teme somente a Deus e espera tudo de Deus! O
Cristo, falando àqueles que buscam a glória que
vem dos homens, e não a que vem de Deus, não
disse “não tendes permanente em vós a sua
palavra” (verbum eius non habetis in vobis
manens) 14 Busque portanto a glória que vem de
Deus; então o Verbo de Deus permanecerá em
você.

“Toque para as Musas e para mim”, dizia um


célebre ateniense a um grande músico
desconhecido. Escreva para Deus e para você.
Escreva para melhor escutar o Verbo em você, e
para conservar suas palavras. Suponha sempre que
nenhum homem verá o que lhe foi assim ditado.

Quanto mais um livro for escrito longe do leitor,


mais forte ele será. Os pensamentos de Pascal, os
escritos de Bossuet para o delfim, a Suma de São
Tomás de Aquino sobretudo, escrita para os
principiantes, são provas disso. Uma prova
das mais singulares, nesse gênero, encontramos nos
dois estilos de Massillon: o da Pequena Quaresma,
e o dos Discursos sino-dais; o primeiro, praparado
para a corte, em que o autor abusa verdadeiramente
da ductilidade de seu pensamento, em que
o descosido da trama esgota a paciência da vista; o
outro quase improvisado para alguns párocos de
Auvergne, breves páginas vivas, enérgicas, em que
encontramos um outro Massillon, tão superior ao
primeiro quanto um belo rosto é superior a um belo
véu.

Eis ainda uma outra precaução a tomar.

A mente é prosaica, a alma poética é musical.


Symphonialis est anima• assim falava um santo da
Idade Média. O livro da Imitação também o afirma.
Quando a alma se recolhe e ouve alguma coisa de
Deus, e a paz e a alegria inundam-na, acontece o
que diz Gerson: “Si das pacem, si gaudium sanctum
infundis, erit anima servi tui plena modulatione”.
Joubert também compreendeu isso:
“Naturalmente”, diz ele, “a alma canta para si
mesma tudo aquilo que há de belo”. Mas, quando o
estilo é um hábito da alma, há também um perigo a
evitar: o canto. O excesso de harmonia no estilo, e
a introdução involuntária, quase contínua, do ritmo
e do verso na prosa: penso que é um verdadeiro
defeito, mesmo em uma prosa perfeita, que
toda sílaba seja contada, e mesmo pesada. Mas é
preciso romper com esse canto muito explícito não
por um cálculo detalhista, mas por uma moderação
geral e um profundo pudor da alma, que, não
ousando cantar, modera o ritmo das palavras, torna-
o quase insensível, da mesma forma que ela contém
em si mesma, com pudor, o entusiasmo de seu
pensamento, e mantém-no íntimo, oculto,
reservado, quase insensível, e por isso mesmo mais
irresistível e penetrante.

NOTAS

1 Mt 23,8.

2 Cf. De Magistro, trad. de Felipe Denardi.


Campinas, Edições Kírion, 2017-NE.

3 Ap 8, I-NT.

4 Ficará claro mais adiante se pretendemos isolar


da vida contemporânea o homem que deseja servir
a Deus; mas erguemo-nos com todas as forças
contra o uso ordinário que se faz dos jornais.

5 Ap 2, 26-NT.

6 “Corromper e ser corrompido é o que chamamos


de século” — NT.

7 Santo Agostinho, Solilóquios, livro 1, cap. I, 1.

8 Luís de Thomassin (1619-1695), teólogo francês,


sacerdote do Oratório — NT.

9 Dogmatum Theologicorum prior prodit de Verbi


Dei Incarnatione, livro 1, cap. 21. Leia, em nossa
Lógica, o livro intitulado “Das virtudes
intelectuais inspiradas” [Alphonse Gratry, Logique.
Charles Douniol e J. Lecoffre & Cie., Paris, 1855,
v. 11, pp. 199 e ss. — NT].

10 “L’éloquence nest que l’âme mise au dehors” —


NT.

11 Lc ii, 36: “Totum corpus tuum lucidum erit, et


sicut lucerna fulgoris illuminabit te”.
12. Pensées de Joseph Joubert. Didier et Cie.,
Paris, 1866, t. n, p. 302. 13. SI 56, 9-NT.

13. Sl 56, 9 ------ NT.

14 Jo 5, 38 -NT.
II - A idéia inspiradora
CONTINUO a dar-lhe estes conselhos, a você, que crê
na presença de Deus, e que está resolvido a assumir
a austera disciplina de sua divina escola. Espero
fazer-me compreender e conduzi-lo à prática
mesma!

Seguirei seus conselhos, você dirá. Conseguirei


suportar a solidão e o silêncio. Escreverei. Mas o
quê?

A resposta está contida no que precede; e está bem


distante do conselho de Boileau: “Escolha um
assunto...”.

Estranha asserção! Um homem sério deverá


escolher um assunto? Se ele não o tem, não
escreve. Jamais o escolhe.

Em primeiro lugar, no fundo, só há um assunto:


Deus, o homem e a natureza em suas mútuas
relações; nessas relações encontramos o bem, o
mal, a verdade, a beleza, a vida, a morte, a história,
o futuro. De sorte que o único assunto da meditação
da alma é, de fato, aquele que indica Santo
Agostinho: “Procurando com diligência, por muitos
dias, conhecer a mim mesmo e o que é o meu bem,
e o mal que deveria evitar” (volventi mihi et per
muitos dies qutzrenti sedulo memetipsum et bonum
meum, et malum quod esset vitanduni).

Certo! Mas por onde abordar esse assunto, que é o


assunto universal? Respondo: é preciso abordá-lo
como ele se apresentar.

Os músicos já não observaram que, quando a alma


é verdadeiramente tocada, há um tom, um único,
com exclusão dos outros, que lhe corresponde? E se
observarmos com mais cuidado, não somente o
tom, mas a medida, o fundo da harmonia geral,
talvez mesmo os detalhes da melodia já são dados,
ordenados pela emoção que nos toma.

Pois bem, se você estiver em silêncio, se estiver


desperto, emocionado — e comumente o
verdadeiro silêncio desperta e dá a emoção
verdadeira —, então essas harmonias e melodias
interiores, embora voce talvez não saiba muito bem
ainda como escutá-las, estão em você, e a essas
harmonias correspondem certas visões, certas faces
das idéias eternas, certas inspirações
particulares e atuais de Deus. Pensa que, quando
estiver recolhido, estará diante dos atributos de
Deus tais como os professores de filosofia os
expõem? Certamente não. Você vai se encontrar, na
verdade, diante daquilo que anuncia o Evangelho,
do Verbo feito carne. Ê por isso que o Evangelho
não diz “um só é o vosso mestre, Deus”; diz, de
uma forma bem mais precisa: “Um só é o vosso
Mestre, o Cristo”.1 Deus não é para nós somente o
eterno, o imóvel, o absoluto, o invisível: ele é
também o Deus vivo, presente, amando e sofrendo
na humanidade. E aquele de quem lhe chegam, se
você for verdadeiramente seu discípulo, as mais
particulares, as mais precisas, as mais atuais
inspirações.

Ora, o que você quer que o Verbo feito carne para a


salvação do mundo inspire a seus discípulos, senão
o que é necessário atualmente para a salvação do
século em que eles vivem, e sobretudo para sua
própria salvação? Sua salvação, a salvação do
século em que vivem, eis a obra e a idéia universal,
idêntica para todos os servos de Deus numa mesma
época, mas diversa para cada um deles segundo o
povo a que pertence, segundo o papel que ele pode
e deve ter na batalha.

Assim, a idéia verdadeiramente inspiradora para


você, como para todos, é a salvação do século em
que você vive, e é a sua própria salvação,
relacionada à sua obra, e que é preciso realizar
a cada momento por um trabalho e uma obediência
próprios a esse momento. Sua idéia, sua luz, sua
fonte de vida, é o Deus vivo e feito homem, que
busca sua salvação e a do século, trabalha
nelas, por sua providência atual, e conta com o seu
auxílio, mostrando-lhe o aspecto preciso da verdade
que o mundo, no momento atual, e você mesmo,
nesse momento, devem compreender, desenvolver
e praticar para náo escapar ao plano providencial,
ou para voltar a ele caso lhe tenha escapado.

Detalhemos mais. Vejamos mais particularmente o


que é inspirado à alma que tenha alcançado o
silêncio.

Já disse que você deve impor silêncio à algazarra


do mundo; que, para isso, deve romper com ele.
Mas você acha que deve romper com a humanidade
para escutar unicamente a Deus? Longe disso.
Romper com o século é ótimo. Mas não se deve
romper com a humanidade. O século não é a
humanidade. A tendência do século e a tendência
do gênero humano são coisas distintas. A última é a
lei, a outra a perturbação da lei. Assim como o
movimento total da Terra, em seu curso em volta
do Sol, implica dois movimentos, o que lhe faz
percorrer seu curso regular, e o que lhe provoca
alguns desvios em oscilações acidentais, assim a
humanidade, em cada ponto de seu caminho, tem
dois movimentos: seu movimento providencial e
regular e um movimento caprichoso e perverso que
denominamos século. A qual dos movimentos
você quer pertencer? A qual dos dois deseja
consagrar suas forças? E preciso vencer esse
movimento falso que se chama de século, o mau
século, que é a resultante de todos os egoísmos, de
todas as sensualidades, de todas as cegueiras e de
todos os orgulhos do tempo: movimento
pecaminoso, que dificulta e retarda o verdadeiro
movimento do gênero humano.

Portanto, romper com o século não é romper com a


humanidade, é unir-se à humanidade e, ao mesmo
tempo, a Deus. E, de fato, a primeira coisa que
encontra a alma que se retira para estar com Deus é
o amor pela humanidade. Mas quando o sentido
divino revela-se em nós através do silêncio, o
sentido humano, o sentido do outro, o sentido
fraternal vem junto. A comunhão com a imensa
humanidade começa quando abjuramos o espírito
sempre sectário do século. Entramos então em
união, em simpatia real, inspiradora, com o
conjunto dos homens de todos os séculos e de todas
as partes da Terra, vivos e mortos, que estáo unidos
entre si e com Deus. Essa parte sã e essencial do
gênero humano, que tem unidade, no tempo e no
espaço, porque a recebe de Deus, essa assembléia
universal, esSa igreja católica no mais amplo
sentido da palavra, essa comunhão dos homens em
Deus, recupera-nos, resgata-nos, reanima-nos com
sua poderosa seiva e com suas divinas inspirações.
Os temores comuns, as esperanças comuns,
as vontades, os pensamentos, os esforços desse
grande feixe de almas para a salvação e o progresso
do mundo, carregam-nos, penetram--nos,
multiplicam-nos. Vemos o globo como Jesus Cristo
o via, com lágrimas; e, vendo os homens
mergulhados nas trevas e nas sombras da morte,
oprimidos e pisoteados pelo mal, vemos com Jesus
Cristo que a messe é grande e que são poucos os
operários. Sabemos então o que nos cabe fazer.
Sabemos em que pensar e em que trabalhar.
Encontramos o assunto de todas as nossas obras.

NOTAS

1 Mt 23, 10-NT.
III - A noite e o repouso
NEM tudo foi dito sobre essas horas da manhã que
lhe devem dar, como fruto secundário, o dom de
escrever; elas abrem as fontes da alma e do
pensamento original; fazem a razão trabalhar em
nós mais do que anos de leitura; põem em
movimento o homem inteiro; clareiam o espírito e
mesmo o corpo. Eu não expus ainda todos os meios
de dar a essas horas plena fecundidade, nem os de
fazê-lo chegar ao grande objetivo, você, discípulo
da justiça e da verdade, que deseja ter a Deus por
mestre.

Já deve ter compreendido que esse trabalho de


escrever é em grande parte uma oração. Falarei,
com efeito, logo mais, da oração propriamente dita,
que é o grande meio de dar a essas horas e à vida
inteira toda sua fecundidade. Mas, antes disso, eis
um meio que lhe recomendo para duplicar o seu
tempo.

Quer duplicar seu tempo? Faça o seu sono


trabalhar. — Explico-me.

Em um sentido bem mais profundo do que se


pensa, a noite é uma conselheira.

Coloque-se questões à noite; com freqüência


encontrará sua solução ao despertar.

Quando uma semente é colocada no espírito e no


coração, essa semente cresce não somente com
nossos trabalhos, pensamentos, esforços, mas por
uma espécie de fermentação surda, que
acontece em nós, sem nós. É o que o Evangelho dá
a entender quando diz: “Quando um homem lança a
semente à terra, ele dorme e se levanta noite e dia, e
a semente brota e cresce; a terra por si mesma
produz...” (terra enim ultro fructifica) 1 — Assim é
com nossa alma; ela frutifica por si mesma.

O que fazem os estudantes para aprender bem suas


lições? Lêem-nas à noite, antes de dormir, e sabem-
nas ao despertar pela manhã.

Que fazem os religiosos para bem meditar pela


manhã? Preparam sua meditação na véspera, depois
da oração da noite, e ao despertar encontram-na
vivida em seu espírito e em seu coração. Isso é bem
conhecido.

Laplace, o ilustre matemático, conta-nos, em uma


de suas obras, que frequentemente levantava, à
noite, problemas para seu trabalho e sua meditação,
e que pela manhã, ao despertar, encon-trava-os
resolvidos.

Qual o trabalhador que não observou esses fatos?


Quem não sabe a que ponto o sono desenvolve as
questões colocadas, faz frutificar as sementes em
nosso espírito? Quantas vezes, ao despertar, a
verdade que tínhamos procurado em vão brilha na
alma envolta em uma claridade penetrante? Dir-se-
ia que os frutos do trabalho concentram-se no
repouso, e que a idéia deposita-se em nossa alma
como um cristal, como um diamante, quando a
água-mãe, por muito tempo agitada, adormece.

E um fato. O sono trabalha. Devemos então fazê-lo


trabalhar preparando à noite o seu trabalho.
A utilização da noite! O respeito pela noite! É uma
grave questão prática!

Falamos há pouco do que podemos chamar de


consagração da manhã. Falemos da consagração da
noite.

E aqui, mais que em qualquer outro lugar, que é


preciso romper com nossos hábitos atuais. E
impossível que os espíritos possam crescer com a
organização que fazem hoje das horas noturnas.

Quando o dia inteiro termina pelo prazer, saiba que


o dia inteiro resulta vazio. Não falo daqueles que,
toda noite, malbaratam toda sua força e dignidade
humana em orgias. Falo daqueles que, como quase
todos hoje em dia, abstém-se de toda vida séria
num determinado momento, interrompendo-a
durante pelo menos doze ou quatorze horas. O que
fazem com esse tempo? Para que servem nossas
conversas noturnas, nossas reuniões, jogos,
visitas, espetáculos? Há nisso tudo como que a
amputação de quatorze horas de verdadeira vida. É
um descanso, dirão. Discordo. O que dissipa não
produz descanso. O corpo, o espírito, o coração,
esgotados, dissipados para fora de si mesmos,
precipitam-se, depois de uma noite vazia, em um
sono pesado e estéril, que não traz repouso algum,
porque a vida excessivamente dispersa não
tem nem o tempo nem a força para renovar suas
fontes. Em que estado se sai de semelhante sono?

O repouso é irmão do silêncio. Temos tão pouco


repouso quanto silêncio.

Somos estéreis mais por falta de repouso do que


por falta de trabalho.

O repouso é algo tão grande que a Sagrada


Escritura chega ao ponto de dizer: “O sábio adquire
a sabedoria no tempo de seu repouso”. 2 E em outro
lugar, a grande censura que um profeta faz ao povo
judeu é esta: “Disseste: não repousarei” (Et dixisti:
Non quiescam) 3

O que é então o repouso? O repouso é a vida que se


recolhe e renova-se em suas fontes.
O repouso para o corpo é o sono: todos sabem o
resultado de sua falta. O repouso para o espírito e
para a alma é a oração. A oração é a vida da alma, a
vida do intelecto e do coração, que se recolhem e
renovam em sua fonte, que é Deus.

A vida deveria ser feita de trabalho e de repouso,


como o tempo nesta Terra compõe-se de dias e de
noites.

Nós, hoje em dia, ainda trabalhamos um pouco,


mas não repousamos mais. Depois da agitação do
trabalho, vem a agitação do prazer, e depois delas,
a prostração e o abatimento.

Onde está para nós o repouso da noite, o repouso


sagrado do domingo, o das festas, e esses repousos
mais longos que ordenava a lei de Moisés?

O repouso, moral e intelectual, é um tempo de


comunhão com Deus e com as almas, e de alegria
nessa comunhão. Ora, é bem visível que só
conservamos do repouso figuras vazias, em
nossos costumes e prazeres noturnos.
Conheço um único meio de verdadeiro repouso
cujo uso, ou melhor, abuso, conservamos mais ou
menos ao ocuparmos nossas noites: a música. Nada
oferece tão poderosamente um verdadeiro repouso
como a verdadeira música. O ritmo musical
regulariza em nós o movimento, e opera, para o
espírito e o coração, e mesmo para o corpo, o que
opera para o corpo o sono, que restabelece, em sua
plenitude e sua calma, o ritmo dos batimentos do
coração, da circulação do sangue e dos movimentos
do tórax. A verdadeira música é irmã tanto da
oração quanto da poesia. Sua influência recolhe,
conduz à fonte, traz para a alma a seiva dos
sentimentos, das luzes, dos ímpetos. Como a oração
e a poesia, com as quais ela se confunde, conduz ao
Céu, lugar de repouso. Nós, porém, encontramos
um jeito de quase sempre tirar da música seu
caráter sagrado, seu sentido para o coração e para o
intelecto, e fazer dela um exercício de virtuosismo,
um prodígio de velocidade e uma brilhante
algaravia que não repousa nem mesmo os nervos,
e muito menos repousa a alma.

Você, portanto, que deseja fazer o silêncio falar e o


sono trabalhar, faça útil também o seu repouso.
Faça-o de tal forma que a interrupção do trabalho
seja verdadeiramente um repouso. Consagre o
tempo noturno. Torne reais as vãs e vazias
figuras que nossos hábitos conservaram. Que o
repouso da noite seja um comércio do espírito e da
alma, um esforço comum em direção à verdade por
meio de um leve estudo das ciências, em direção à
beleza por meio das artes, em direção ao amor de
Deus e dos homens por meio da oração; coloque
sementes de luz e de santas emoções no sono que
virá, onde Deus mesmo as cultivará na alma de seu
filho adormecido.

Uma vida bem ordenada consagraria assim a noite.


Consagraria também o final de cada período de sete
dias, com um repouso sagrado, e com um dia de
comunhão das almas em Deus. Uma vida bem
ordenada consagraria assim o final de cada ano
com um repouso reparador que multiplicaria a seiva
e a fecundidade do trabalho do próximo ano.

Revitalizar-se com o espetáculo da natureza, com a


luz das artes, com o diálogo com os grandes
espíritos, com peregrinações a amigos distantes,
com amizades santas, com associações dedicadas
ao bem, e por fim com alguns dias de severa
solidão, unicamente diante de Deus, finalidade
última do repouso do ano — o que, visto de longe,
parece austero, mas, de perto, é muito doce —, não
seria isso o repouso? Uma vida bem ordenada,
enfim, consagraria todo seu outono, todo o outono
da vida, principalmente a Deus, ao puro amor que
vem de Deus, à caridade para com os homens, ao
aspecto substancial da ciência, às claras esperanças
do Céu, ao verdadeiro recolhimento em Deus, ou
seja, a esse único trabalho que o oráculo impôs a
Sócrates em sua prisão, durante os dias que o
separavam da morte, quando lhe disse esta frase
que não saberiamos traduzir: “Faça unicamente
música”; frase que parece significar que ele deveria
terminar sua vida numa harmonia sagrada.

Mas essas belezas do entardecer da vida não


passam de ilusões para a maioria dos homens; para
quase todos, a realidade é bem outra. A vida inteira
não pode terminar numa harmonia sagrada, num
santo e fecundo repouso, cheia de sementes que a
morte deve fazer germinar no mundo celestial, a
não ser que cada um de nossos anos e cada um de
nossos dias tenham terminado por um repouso
sagrado: pois o outono da vida colhe apenas o que
cada dia semeou!

NOTAS

1 Mc 4, 27-28-NT.

2 Eclo 38, 25 — NT.

3 Is 57, 10 -NT.
IV - A oração
Ouso esperar que você não achará esses conselhos
inúteis para o progresso da Lógica viva, ou seja,
para o desenvolvimento do Verbo em você. Penso
que eles são mais úteis, em lógica propriamente
dita, que o estudo das formas do silogismo,
estudo que não desprezo, como você sabe.1 Dou-
lhe os meios práticos de desenvolver em você
mesmo a verdadeira luz da razão. Se empregá-los,
se preparar os seus dias pela consagração da noite,
até mesmo o seu sono trabalhará. Despertará cheio
de seiva, cheio de idéias implícitas, de harmonias
inauditas. Se, para escutar essa fermentação interior
da vida, essa voz do Verbo no fundo da
alma, souber estabelecer em si mesmo o silêncio, o
verdadeiro silêncio, exterior e interior; se, para não
se limitar a vagas audições desses murmúrios
distantes, que cessariam imediatamente com
a mínima preguiça, corresponder a eles pelo
trabalho; se procurar fixar-lhes com precisão e em
seus detalhes pelo pensamento articulado e
encarnado na escrita, esteja certo de que depois de
alguns poucos dias de um tal esforço verá os seus
frutos. E quando, depois do trabalho, tomar um dia
de repouso, e, depois de uma jornada, algumas
semanas — se for um verdadeiro repouso, e não o
seu oposto —, verá que o repouso continuará seu
trabalho, e que poderá dizer de seu espírito o que se
diz da terra: “Nec nulla interea est inaratae gratia
terra;”.2

Sua vida inteira será como aquele campo,


trabalhado e semeado, em que a semente cresce e
se desenvolve, seja quando o homem está acordado,
seja quando dorme: terra enim ultro fructificat.

Entretanto, eu não disse tudo, e resta-me dar-lhe o


mais importante dos conselhos. Citei a oração, mas
não falei dela ainda diretamente, embora
indiretamente tenha falado dela o tempo todo.

Pergunto-lhe: você reza? Se você não reza, você é o


quê? É um ateu ou um panteísta? Então não é para
você que falo neste momento. Falo para o homem
que, tendo reconhecido, desde seus primeiros
passos neste mundo, o lado vão da vida, busca seu
lado verdadeiro, a saber: o amor da justiça e a
contemplação da verdade. Este homem crê em
Deus. E por pouco que este homem conheça o valor
das palavras, ele sabe que Deus é o amor infinito, a
sabedoria, a vida infinita, livre, inteligente, pessoal,
no qual existimos, no qual nos movemos, no qual
respiramos.

Ora, a oração é a respiração da alma em Deus. A


alma reza por muito tempo sem perceber. A alma
das crianças, em seus anos puros, reza e contempla,
sem refletir, com a força e a grandeza
da simplicidade. Mas, depois desses anos passivos,
vêm os anos ativos e livres. A oração livre, com
consciência de si mesma, formará o homem em
você e desenvolverá, à imagem de Deus, a
personalidade que estava implícita e latente na
criança.

Não provarei aqui mais amplamente que se deve


rezar. Nem mesmo o exortarei a rezar. O que farei é
dar-lhe os meios para fazê-lo.
Chama-se vulgarmente de oração da manhã e da
noite a recitação de um certo texto, excelente em si
mesmo, usado pelos cristãos, recitação que dura em
torno de cinco a dez minutos; e chama-se de
meditação a reflexão livre sobre alguma grande
verdade, moral ou dogmática, exercício que as
pessoas costumam fazer pela manhã durante cerca
de meia hora. Mas o grande obstáculo a essas
práticas é que, na meditação, dorme-se, ou divaga-
se, e que, na oração, articula-se as palavras, já bem
conhecidas, sem reflexão nem sentimento. Essas
duas fraquezas, que quase ninguém consegue
vencer, desgostam e afastam continuamente da
oração e da meditação um número muito grande de
almas: pois para que serve, dizem elas, essas
orações nulas, essas meditações vazias?

Ora, para evitar as distrações na meditação, eis o


conselho que foi dado recentemente a uma
assembléia do clero de uma diocese ca França:

"Meditem escrevendo".

Escreva lentamente, fale com Deus, que você sabe


que está presente; escreva o que lhe diz; rogue-lhe
que o inspire, que lhe dite suas vontades, que o
mova com esses movimentos interiores, puros,
delicados e simples que são sua voz, e que são
infalíveis. Com efeito, se ele lhe diz: “Meu filho, sê
bom”, isto pode ser enganoso? Se lhe diz: “Ama-
me acima de tudo: sê puro, sê generoso; ama
os homens como a ti mesmo; pensa na morte, que é
certa, que está próxima; sacrifica o que passará;
consagra tua vida à justiça e à verdade, que não
morrem”, poderá afirmar que essas revelações não
são infalíveis? E se, ao mesmo tempo, o amor
enérgico dessas verdades manifestas lhe é como
que inspirado no coração por não sei que toque
divino que impressiona e permanece, dirá que a
origem dessas forças ardentes e luminosas não é
Deus? E se, não acrescentando nada de arbitrário e
inútil a essas impressões fortes e a essas luzes
simples, escrevê-las com o fervor que contêm,
acha que não será duplamente impressionado, e que
a distração e o sono poderão intervir nessa
meditação? Alguém dizia — era uma mulher —:
“Ah, não quero mais meditar assim: comove-me
demais”.
Experimente; espero que mais de uma vez deixará
de escrever para cair de joelhos e para derramar
lágrimas.

Mais de uma vez, sob o toque de Deus — você


sabe que é verdadeiro dizer: Deus nos toca —, mais
de uma vez sua alma, recolhida pela grande e
divina impressão desse raro e poderoso contato, sua
alma operará por si mesma esse ato prodigioso
que Bossuet denomina o maior ato da vida, e que
eu devo dar-lhe a conhecer.

E, a esse propósito, aconselho-o a ler e reler com a


mais profunda atenção os opúsculos de Bossuet
intitulados: Maneira curta e fácil de fazer oração, e
Discursos sobre o ato de abandono.

É o resumo mais puro e mais substancial do


ascetismo e do misticismo ortodoxo.

Eis portanto o ato mais profundo, o mais sublime e


o mais importante que a alma humana pode fazer, e
do qual Bossuet, de acordo com a Igreja Católica e
a mais sapiente teologia, fala-lhe assim:

É preciso encontrar um ato que contenha tudo em


sua unidade.

Fazei-me encontrar esse ato, ó meu Deus! Esse ato


táo amplo, tão simples, que vos entregue tudo
aquilo que sou, que me una a tudo aquilo que sois.

Tu já o compreendes, alma cristã: Jesus te diz, no


coração, que esse ato é o ato de abandono, pois esse
ato entrega todo o homem a Deus: seu corpo em
geral e, em particular, todos os seus pensamentos,
todos os seus sentimentos, todos os seus desejos;
todos os seus membros, todas as suas veias com
todo o sangue que elas contêm; todos os seus
nervos, até suas menores fibras; todos os seus
ossos, até o seu interior e até sua medula; todas as
suas entranhas; tudo o que está dentro e tudo o que
está fora.

O, Deus! Unidade perfeita que não posso igualar


nem compreender através da multiplicidade,
qualquer que ela seja, de meus pensamentos, e, ao
contrário, da qual me distancio tanto mais quanto
mais multiplico meus pensamentos, peço-vos uma
única coisa, se a quiserdes dar, na qual eu reúna,
tanto quanto permite minha fraqueza, todas as
vossas infinitas perfeições, ou antes essa perfeição
única e infinita, que faz com que sejais Deus, em
quem tudo existe.

Com esse ato, seja você quem for, não se preocupe


com mais nada. Devo dizê-lo? Sim, eu direi: não se
preocupe nem mesmo com seus pecados, porque
esse ato, se for bem feito, apaga-os todos.

Esse ato, o mais perfeito e o mais simples de todos


os atos, coloca-nos, por assim dizer, inteiramente
nas mãos de Deus. É um completo abandono a esse
espírito de novidade que não cessa de reformá-lo
interiormente e exteriormente, enchendo todo o seu
interior de pudor, de modéstia, de doçura e de paz.

O que é esse ato senão esse amor perfeito que


expulsa todo temor? Tudo desaparece perante esse
ato que contém toda a virtude do sacramento da
Penitência.
Como vê, a partir da lógica chegamos à teologia
mística; é que tudo interliga. A Lógica viva, que é o
desenvolvimento do Verbo em você, ou seja, do
seu espírito, ou verbo humano, em união com o
Espírito e com o Verbo de Deus, a Lógica real e
viva, tem certamente sua principal fonte na oração,
na oração substancial tal como Bossuet acaba de
descrever.

Acrescentemos uma palavra sobre a outra oração,


aquela que desgosta a alguns porque contém, dizem
eles, sempre as mesmas palavras, e o hábito acaba
por nos impedir de ver e compreender.

O fundo dessa oração cotidiana é a oração


dominical: “Pai Nosso que estais nos Céus” e o que
se segue. Essa oração que nossa mãe, em nossa
primeira infância, fez-nos dizer de joelhos e
unindo as mãos, é a mesma que foi ditada, palavra
por palavra, por Cristo, o mestre dos homens. Essa
oração, mesmo que me fosse ininteligível, quero
sempre, e você deve também querer, repeti-la,
todos os dias de minha vida, de manhã e à noite, até
a morte. Ademais, quando o seu espírito
desabrochou e olhou para o mundo e sua história,
você deve ter compreendido o sentido visivelmente
divino dessas palavras. Elas são a oração essencial
da humanidade sobre a face da Terra: “Pai Nosso
— venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa
vontade, assim na Terra como no Céu”.
Evidentemente, essa é a própria substância da
oração, tal como Deus deve necessariamente ditar a
todo coração que Ele inspira.

Mas você deseja acrescentar algo a essa curta


oração ditada por Deus, a esse fundo de toda oração
já escrita? Você é desses abençoados e flexíveis
espíritos que sabem ler, ou seja, abandonar, quando
o desejam, seu próprio pensamento para entrar no
pensamento de outro e improvisar em si mesmos
tudo o que as palavras vindas de fora comportam de
sentido? Se você tem esse dom, felicito-lhe
grandemente e eis o que lhe aconselho. Existem
admiráveis palavras, plenas de uma poesia toda
divina e da mais vigorosa e sublime simplicidade.
Leia-as como oração da manhã e da noite. Trata-se
dos Salmos, a santa poesia do povo que foi o
coração do mundo antigo e o pai do Messias. A
Igreja Católica compôs orações com eles, que põe
na boca de seus sacerdotes. Essas orações, feitas
para as diversas horas do dia, são compostas cada
uma de uma parte fixa e de uma parte variável: a
parte variável difere para cada hora do dia e para
cada dia da semana. Tome, cada dia, duas dessas
orações, uma da oração da manhã e outra da oração
da noite. Leia-as com uma profunda atenção, e
tome a parte variável como uma revelação especial
que Deus lhe dirige, a você, para esse dia. Verá se
essas vastas palavras não têm uma singular
virtude para ajudar-nos a sair de nossos mesquinhos
pensamentos.

NOTAS

1 Ver o terceiro livro da Logique — o capítulo i, n.


i, e todo o capítulo iv.

2 Virgílio, Geórgicas, I, 83 — NE.


V - A leitura
I

JÁ disse alguma coisa sobre a leitura. É preciso


falar dela com mais extensão. Depois da oração e
de tudo aquilo que se relaciona com ela, depois da
meditação pessoal, vem a leitura, como fonte de
luz.

Como usar da leitura para o progresso da Lógica


viva, para o desenvolvimento do Verbo em você?

Há um livro que se chama, dentre todos os outros, o


livro propriamente dito, a Bíblia. Leia esse livro.

Em primeiro lugar: você acredita que pode haver,


sobre a face da Terra, a palavra de Deus escrita?

Há pensadores que sustentam que todos os livros


são sagrados, que todo pensamento é inspirado, que
toda palavra é palavra de Deus. Pois, dizem eles, se
é verdade, como acreditam os cristãos, que o
homem é racional, que ele pensa e fala por uma
participação atual na luz de Deus, ou antes, se,
como nós sustentamos, dizem, o homem é o
próprio Deus pensando, como se explica que o
homem possa falar alguma coisa que não seja
palavra de Deus?

Espero que você não abrace todo esse panteísmo.


Entretanto, se lhe for ensinado que há, na memória
dos homens e na tradição, palavras puras e
verdadeiramente inspiradas por Deus, estou
certo de que não tem nenhuma razão sólida para
negá-lo.

Eis que, há mais de três mil anos, uma grande parte


do gênero humano, a mais viva, a parte civilizadora
do mundo, que forma a corrente principal da
história universal, e que anima a Igreja Católica,
eis, digo eu, que essa porção luminosa da
humanidade, por motivos consideráveis, que lhe é
fácil conhecer, considera como puro, como
certamente santo e divinamente inspirado esse texto
escrito que se chama de Bíblia. Por que não crer
nisso, se você crê em Deus? Por que não crer por
princípio que a bondade do Pai soube, várias vezes,
inspirar seus filhos?

Você lerá, então, a Bíblia.

De resto, como compreender que um homem, seja


ele quem for, crente ou não, deixe de meditar, antes
de qualquer outra coisa, sobre as palavras de
Cristo? Como compreender que o Evangelho não
seja sempre, para todo homem de coração e para
todo homem que pensa, o primeiro dos livros?

Você, portanto, que deseja ser discípulo de Deus e


que tem em si o sentido divino, você lerá o
Evangelho todos os dias. E quando tiver feito isso
por um certo tempo e tiver lido isto: “Se
permanecerdes na minha palavra, conhecereis a
verdade e a verdade vos tornará livres”;1 quando
tiver, com efeito, entrevisto a insondável luz que
sua prática lhe traz, verá claramente que, além da
prática mesma do Evangelho e da oração, a
meditação sobre as palavras de Cristo deve ser a
grande fonte filosófica, o alimento principal do
desenvolvimento do Verbo em você.
Quando começar a compreender, e a pressentir
enfim esse Evangelho eterno, encarnado no
Evangelho histórico que tem nas mãos, dirá com
Orígenes: “Trata-se agora de traduzir o
Evangelho sensível em Evangelho inteligível e
espiritual”. E acrescentará, com Thomassin: “Sim,
é necessário traduzir o Evangelho temporal e
sensível em Evangelho inteligível e eterno, se
quisermos finalmente abandonar a infância e
chegar à puberdade do espírito”. 2

Eis como lerá.

Leia o original ou a Vulgata. De ordinário, dedique


uma hora para ler um ou dois capítulos. De vez em
quando, uma leitura corrida de um dos quatro
Evangelhos traz muitos frutos. Neste caso, é bom
ler ora numa língua, ora em outra, francês, alemão,
inglês, etc. Em todos os casos, esforce-se para
aplicar a si mesmo tudo o que ler. Peça
ardentemente a Deus que o faça penetrar fundo
no sentido do texto. Procure, e isto é muito
importante, encontrar nos discursos de Cristo, que
de ordinário parecem passar bruscamente de um
assunto para outro, a poderosa e viva unidade que
os caracteriza. A meus olhos, uma das mais fortes
provas intrínsecas da divindade desses discursos é
sua impressionante unidade conjugada a uma
espantosa variedade. Quando chegamos ao
fundo de seu sentido, percebemos uma espécie de
luz eterna, imensa e simples, na qual vivem e
entrelaçam-se todos os objetos da criação, os mais
diversos, os mais distantes, como se dá no próprio
Deus. Se lhe for dado, por uma só vez, ver as
palavras evangélicas, que o próprio Jesus Cristo
compara a grãos de trigo, se lhe for dado ver essas
sementes germinarem e abrirem-se, desenvolver
seus ramos, sua beleza, seus perfumes, seus
tesouros, jamais esquecerá esse espetáculo. E
quando for nutrido com sua substância, que é ao
mesmo tempo vinha e fermento, e mais ainda, ou
antes, que tem não sei que substância universal que
tudo contém, compreenderá como, tendo Cristo
pronunciado sobre o mundo essas poucas palavras
que podemos recolher em dez páginas, essas
poucas palavras produziram na história, não digo a
maior, digo a única revolução moral, religiosa e
intelectual vista pelo gênero humano.
Quanto mais você tiver coração, espírito, ciência,
boa vontade, coragem, penetração, experiência, e
sobretudo amor pelos homens, mais verá o texto
evangélico abrir-se para você. Mas saiba que
não terá compreendido o sentido último das
palavras de Cristo senão quando perceber sua
incomparável unidade, e quando puder dizer de
cada uma delas: Patuit Deus.

II

Veja, você que deseja ter Deus por mestre, que


estou sempre dizendo uma só coisa: escute a Deus
no silêncio, na meditação, na oração, no trabalho da
oração escrita, na leitura. Quanto à leitura, só lhei
falei até agora de um único livro, do Evangelho.
Mas a leitura do livro divino exclui a de livros
humanos? Queimaremos todos por causa do
Evangelho, como já queimaram muitos por causa
do Corão? Não; o livro divino não exclui os livros
humanos, como o amor de Deus não exclui o amor
dos homens. O amor de Deus gera o amor pelos
homens; assim também extraímos do Evangelho a
compreensão dos pensamentos dos homens:
extraímos dele o mais profundo espírito filosófico e
científico; e devemos dizer com São Tomás: “A
ciência de Cristo não destrói a ciência humana, mas
a ilumina”. Um espírito ampliado pelo
Evangelho vê nos livros humanos extensões,
profundezas que o autor fre-qüentemente não
colocou neles, mas encontrou e depositou em sua
obra apesar de si mesmo. De ordinário, nosso
pensamento estreito só vê, no livro ou no
pensamento de outro, aquilo que as palavras e o
estilo exprimem com precisão. Em vez de dar aos
outros, nós lhes suprimimos. Fazemos sempre para
eles, com nosso entendimento parcimonioso e
inospitaleiro, um leito de Procusto. Mas o espírito
dilatado pelo Espírito de Cristo tem um
incomparável dom de línguas, que compreende as
diversas linguagens das diferentes naturezas de
espírito. Tem essa benevolência intelectual que
transfigura os acidentes da palavra; vai da palavra a
seu sentido no espírito, e desse sentido mesmo, tal
como se dá no espírito de nossos irmãos, à idéia
eterna que está em Deus, e que carrega e inspira
esse sentido. De maneira que, às vezes, essa
clarividente caridade do espírito vê as coisas
mesmo através de um pensamento mal concebido e
ainda mais mal expresso, e serve-se desses esboços
para reconstruir a verdade, como a ciência
reconstrói um ser que já foi vivo com fragmentos
de seus ossos.

Sabemos que não havia livro tão detestável de que


Leibniz não tirasse algum fruto.

Faça o mesmo, ou antes, faça melhor. Pois já que


lhe é permitido escolher, só leia os livros
excelentes. Devemos ler, dizia Malebranche.
Devemos ler um único livro, dizia um outro,
querendo dar a entender assim o poder sempre
considerável da unidade. Mas como seria se você
conseguisse encontrar a unidade dos espíritos de
primeira ordem, e se pudesse freqüentar como
uma única sociedade, através de uma contínua
comparação, Platão e Aristóteles, Santo Agostinho
e São Tomás de Aquino, Descartes, Bossuet e
Fénelon, Malebranche e Leibniz? São esses, creio
eu, os principais gênios de primeira ordem. Que
você possa chegar a compreender em que sentido
geral e comum Deus inspira os grandes homens, e o
que ele quer do espírito humano! Que
possa compreender claramente, em Aristóteles e em
Platão, a grandeza do espírito do homem e seus
limites, e nos outros a imensidão que acrescenta à
razão humana a luz revelada de Deus!

NOTAS

1 Jo 8, 31-32 — NT.

2 “Et enim nunc nobis propositum est”, diz


Orígenes, “ut Evangelium sen-sibile transmutemus
in intelligibile et spirituale”. E Thomassin
acrescenta: “Ubi perspicue duplex discriminat
Evangelium, et sensibile in intelligibile,
temporale in asternum traduci debere demonstrat, si
modo pueritia aliquando excuti et ado-lescere
intelligentia debet”. Thomassin, De Incarnatione
Verbi, livro 1, cap. 10.
VI - Fé - Ciência comparada
I

MA S , dizíamos, o que quer Deus do espírito


humano? É uma grande questão, que não abordo
aqui amplamente. Proponho-me a dar conselhos
práticos. É verdade que eles nos levam a considerar
um aspecto, muito importante para nós,
dessa questão.

Eu lhe disse que, quando um homem se dá


verdadeiramente a Deus e torna-se seu discípulo,
Deus o conduz a uma obra: a salvação do século
em que ele vive. Deus mostra-lhe o mundo
enfermo, mergulhado nas trevas e no sofrimento;
dá-lhe o olhar de Cristo para que sonde as suas
doenças, e algo do coração de Cristo para senti-
las. Depois lhe diz, no fundo do coração: “Há
poucos operários”.

Quando o homem ouve e decide-se a ser um


operário, um desses operários de que fala o profeta,
“que trabalham entre as nações”,1 que fortificam
seus irmãos, e que Deus às vezes suscita para
salvar um século ou um povo, então Deus o inspira,
através da compaixão e do amor, a compreensão,
ou instintiva ou desenvolvida, da obra a ser
realizada.

Ora, qual é hoje a enfermidade e qual a obra a ser


feita?

Não é preciso ser profeta para sabê-lo; Jesus Cristo


disse aos homens no Evangelho: “Hipócritas, sabeis
distinguir os aspectos da terra e do céu; como, pois,
náo sabeis reconhecer o rempo presente?”.2

Portanto, você, que deseja tornar-se um operário


entre os homens, esteja atento aos sinais do tempo
presente.

Mas, primeiramente, o que espera da marcha da


humanidade sobre a Terra? A que futuro dirige-se o
mundo? Como ele acabará?

Quanto a mim, creio que o mundo é livre e acabará


como desejar. O mundo acabará como um santo,
como um sábio, ou como um malfeitor; talvez
como uma dessas almas insignificantes e inúteis
que só Deus pode julgar. Tudo é possível. A
humanidade é livre. A única coisa que Cristo disse
sobre isso, se é que eu compreendo bem suas
palavras, é uma questão que ele colocou sem
respondê-la. “Quando vier o Filho do Homem,
julgais que encontrará fé sobre a Terra?”.3 Parece
que, sobre esse assunto, a dúvida é a única resposta.

Ora, não sei se você sente isso como eu o sinto,


mas essa dúvida eletriza-me. A dúvida
ordinariamente enerva; aqui ela vivifica, arrebata.
Sim, é possível que sobre a face desta Terra, como
fruto de tantas lágrimas e lutas, o bem vença,
afinal; que o Reino de Deus venha, e que sua
vontade seja feita na Terra, como no Céu. Pode ser
que a história acabe em uma messe. E pode ser
também que tudo acabe na esterilidade, como a
vida da figueira maldita; que, como vemos homens
morrerem antes do tempo, esgotados pelos excessos
e extraviados pela loucura, também o mundo venha
a morrer antes do tempo, esgotado pelos excessos e
extraviado pela loucura. Pode ser que a justiça e a
verdade sejam vencidas, e retornem ao seio de
Deus maldizendo a terra que se terá recusado a
dar seus frutos. Ora, você sabe muito bem que há
hoje, entre nós, muitos espíritos desencorajados que
sustentam que será assim. Outros, estranhamente
confiantes, declaram que será, sem nenhuma
dúvida, de outra maneira, e que o bem deve triunfar
sobre a Terra. Eu o ignoro, e só sei uma única
coisa, que a humanidade é livre e que o homem
acabará como escolher. Sei que você, eu, cada
um de nós, podemos acrescentar nossos
movimentos e nosso peso ao movimento de
decadência que leva ao abismo, ou então, em
nome de Deus, e em união com Cristo, trabalhar
para salvar o mundo, e reorientar, neste momento
mesmo, a direção do século e da história, se ela
estiver errada.

Mas, pergunto-lhe agora, e isto é a enfermidade do


século, o que nos fálta para pôr mãos à obra?

Falta-nos fé.
Se tivésseis fé como um grão de mostarda, disse
Cristo, transportarieis montanhas, e nada vos seria
impossível. Ora, quem crê hoje em dia que nada é
impossível? Quem crê que se pode transportar
montanhas, que se pode curar os povos, fazer
predominar a justiça no mundo, e, no espírito
humano, a verdade? Onde estão esses crentes?

A fé falta àqueles que é preciso salvar, e não


conseguimos cativá--los; e falta a fé nos que
querem, ou crêem querer salvar os outros, e não
encontram a força para mover aqueles que desejam
cativar.

Quando o Filho do Homem vier, julgais vós que


encontrará fé sobre a Terra?

Vejo que estamos sob o signo dessa questão. Eis a


enfermidade.

“Senhor, aumenta-nos a fé”. É essa portanto a


oração que devemos fazer, e a obra a que nos
devemos dedicar.
Mas como?

II

Há duas maneiras. Uma, mais alta que a filosofia,


não nos interessa aqui; entretanto, indicarei qual é.
A outra é precisamente a obra da filosofia, e
responde à questão colocada acima: o que
Deus quer do espírito humano?

O mais poderoso meio de reencontrar a fé é o que


empregou São Vicente de Paulo. Lemos, na vida
desse homem heróico, um fato muito pouco
conhecido. Um dia, movido de compaixão
pelo estado de um infeliz sacerdote, doutor em
teologia, que perdia sua fé porque tinha deixado de
estudar a grande ciência, São Vicente de Paulo
pediu a Deus que lhe restituísse a ardor da fé,
oferecendo-se para carregar ele mesmo, se preciso
fosse, o fardo que esse pobre irmão não conseguia
suportar. Foi ouvido na mesma hora, e esse grande
santo permaneceu, durante quatro anos, privado
dessa fé que entretanto era sua própria vida. Sabe
como ele saiu dessa provação? Saiu dela tornando-
se São Vicente de Paulo, ou seja, tudo o que
significa esse nome. Foi essa provação,
aparentemente inexplicável, que fez São Vicente de
Paulo, ou seja, o espírito de fé, de amor, de
compaixão encarnado em uma vida inteira. Foi
doando-se à compaixão sem reservas que esse
grande coração retomou a pacífica posse de sua fé.
“Depois de três ou quatro anos passados nesse rude
exercício”, diz seu historiador,

gemendo sempre diante de Deus, ele decide um dia


tomar a resolução firme e inviolável de entregar
toda sua vida, por amor de Deus, ao serviço dos
pobres. Mal tomou essa resolução em seu espírito,
os sofrimentos desapareceram, seu coração
encontrou-se em uma grande liberdade; e ele
confessou mais tarde, em diversas ocasiões, que
lhe parecia ver as verdades da fé mergulhadas na
luz.4

Eis o exemplo. Que nosso século faça o mesmo, e


se dê, por amor a Deus, ao serviço dos pobres.
Logo não haverá mais luta contra a fé.
Esse é o grande e primeiro meio de espalhar a fé
sobre a Terra a fim de salvá-la. Eis o segundo.

O primeiro é o que Deus quer do coração humano.


O segundo é o que Deus quer do espírito humano.
Isto concerne à Lógica. Ouça com toda a atenção.

III

Qual foi, nos últimos três séculos, na França, e


mais ou menos em toda a Europa, e por
conseguinte no mundo inteiro, a marcha do espirito
humano sob o ponto de vista da fé? Vejo um
grande século de té, o xvii; vejo um século de
incredulidade, o xviii; e vejo um século de luta
entre a fé e a incredulidade, o nosso.5 Quem a
vencerá? É isso, digo eu, o que depende de nós.

O que foi o século XVII ? Um doutor em teologia,


primeiro; e além disso, do ponto de vista
intelectual, o ponto mais luminoso da história. O
século X V I I , sozinho, é o pai das ciências, o
criador dessa grande ciência moderna da qual
somos hoje tão orgulhosos. Tudo foi, depois,
aperfeiçoado, desviado e aplicado; mas ele
tudo criou, e, se não for ousado falar assim, tudo,
na ordem científica, foi feito por ele, e nada do que
se fez até o presente foi feito sem ele. Houve nele
como que uma inspiração do Verbo para o
surgimento das ciências. Esse século, de resto, era o
mais preciso, o mais completo dos séculos
teológicos; o maior dos séculos filosóficos,
sem comparação, e o maior dos séculos literários.

Mas depois desse imenso impulso, o espírito


humano, semelhante àquele doutor que tinha
deixado de estudar, deixou de trabalhar, não a
física, não as matemáticas, mas a teologia e a
filosofia, a ciência de Deus e a ciência do homem.

E então perdeu-se a fé.

O que afirmo é que se deixou de trabalhar a


teologia e a filosofia. Quanto à teologia, é evidente;
e a obra do século xviii consistiu precisamente em
expulsar a teologia de todos os caminhos do
espírito humano. Foi expulsa em nome da filosofia.
Proclamou-se o reinado da filosofia, e, durante esse
período, negou-se a filosofia a um tal ponto que
não conheço nenhum século que a tenha cultivado
menos. E o que em outro lugar demonstrei
claramente com uma citação de Voltaire, seguida
de uma citação de Condillac. Afirmo portanto que,
depois da imensa luminosidade do
século precedente, a ignorância filosófica do século
xviii é um prodígio que não poderia ser explicado
senão pela depravação geral dos costumes, pela
preguiça e a degenerescência que resultaram dela.
Não conheço um único fenômeno análogo: é a
história, no mais tão freqüente, desse pobre jovem,
inicialmente brilhante e admirável nos estudos,
enquanto é puro e piedoso; mas o vício e a
impiedade fazem-no decair, de um ano para outro,
cada vez mais baixo.

Deixou-se portanto de se ocupar de teologia e de


filosofia, e perdeu-se a fé, ou antes, tudo aconteceu
conjuntamente; há nisso uma causa e um efeito
misturados, que se produzem reciprocamente:
imoralidade, incredulidade e preguiça formam um
círculo. Pode-se colocar o começo em qualquer
lugar.
Acrescento apenas algumas palavras sobre o século
xviii. Sua defesa perante Deus — e foi por isso,
talvez, que ele não rompeu absolutamente com o
curso providencial da história — é que falou de
justiça e de amor aos homens, às vezes
sinceramente, e que, enquanto no geral estava se
perdendo, havia, no fundo do século, não sei que
movimento do coração universal dos bons,
que buscava, através de uma adoração mais
profunda, tornar-se mais semelhante ao sagrado
coração de Cristo; e o século, superficial em si
mesmo, através de seus excessos e suas loucuras,
abençoava São Vicente de Paulo, tomando-o por
seu padroeiro.

Mas retornemos. A questão hoje é saber qual desses


dois movimentos será o nosso. A quem nos
queremos assemelhar, a nossos pais ou a nossos
antepassados? E claro que esses dois
movimentos, entre nós, lutam ainda, e que nós
hesitamos. Deixaremos continuar a decadência, que
ainda continua, ou nos voltaremos para a luz?

Repito: isso depende de nós.


Você viu a decadência simultânea da filosofia e da
fé. Reerga uma e outra ao mesmo tempo, e uma
pela outra. Será que não compreende que sua
filosofia estéril, exaurida, e da qual ocupa-
se apenas a linhagem dos professores, só é assim
porque está vazia de fé? E não vê com os próprios
olhos que a fé foi expulsa do espírito de todos os
semi-sábios, e mesmo dos ignorantes, pelo
preconceito secular de que a filosofia e a razão são
contrárias à fé?

Trabalhe então para reuni-las, e trabalhará pela


salvação do século.

IV

Mas não vou me demorar em generalidades; quero


ir aos detalhes. Eis, para chegar a esse grande
objetivo — que é precisamente o que Deus quer do
espírito humano —, eis, se você não deixou de me
acompanhar, um conselho prático que, de resto, é
indispensável ao desenvolvimento de suas
faculdades e ao progresso da luz em seu espírito.
Eis o conselho: Trabalhe a ciência comparada. Isto
exige uma explicação.

Trabalhar a ciência comparada é tomar por divisa,


em seus estudos, esta frase de Leibniz: “Há
harmonia, metafísica, geometria e moral em todas
as coisas”. É acrescentar ainda a essa imensa e
profunda frase duas palavras que Leibniz não
desaprovaria, e dizer: “Há harmonia, metafísica,
teologia, física, geometria e moral em todas as
coisas”. É acrescentar ainda uma outra frase que
citamos constantemente e que gostaríamos de poder
escrever em todos os lugares em letras de ouro, que
é esta: “Deve-se saber que há três tipos de ciências:
a primeira é puramente humana; a segunda,
simplesmente divina; a terceira é humana e divina
ao mesmo tempo; esta é propriamente a verdadeira
ciência dos cristãos”.6

Se você quiser trabalhar utilmente hoje, contribuir


para o retorno do século em direção à luz, ao
reconhecimento da fé, à restauração da razão
pública, é nesse sentido que deverá trabalhar.
Recorde-se das palavras do grande Joseph de
Maistre, esse semiprofeta:

Aguardem que a afinidade natural da religião e da


ciência as reúna na cabeça de um só homem de
gênio: o surgimento desse homem não pode ser
retardado, e talvez mesmo ele já exista. Ele ficará
famoso e porá fim ao século xvm, que ainda
perdura.7

Note porém que, se o homem de gênio tivesse


nascido antes de 1810, ou mesmo antes de 1820,
provavelmente já teria dado sinal de vida.
Considere também que a obra a realizar é tão
imensa que um Aristóteles ou um Leibniz não
bastaria. Aristóteles tem muito pouco entusiasmo;
Leibniz tem muitas singularidades. Talvez São
Tomás de Aquino poderia empreender a Suma do
século xix: gênio de um entusiasmo prodigioso,
sem nenhuma singularidade, sublime e rigoroso,
tão extenso, ao menos, quanto Aristóteles e
Leibniz, não se pode ousar estabelecer-lhe limites
nem dizer o que ele não poderia fazer.
Mas onde está São Tomás de Aquino? Onde está a
mais alta santidade unida ao mais alto gênio? Onde
está a absoluta castidade de uma vida inteira, unida
à riqueza de uma natureza meridional? Onde estão
a solidão, o silêncio, o claustro, e esses doze irmãos
escreventes, que decifram, copiam, pesquisam para
São Tomás, e estão dispostos noite e dia para
escrever aqueles ditados que Deus inspira?

Que fazer, então? E preciso, enquanto aguardamos


que algum golpe de gênio nos desperte e conduza o
espírito europeu nessa fecunda e magnífica carreira,
é preciso que você, que entrevê essas verdades,
doe-se primeiro e por inteiro. Quem sabe se não se
fará, pelo número e pela união, o que Joseph de
Maistre espera da unidade e da solidão do gênio?

Talvez, com efeito, tenha chegado o tempo em que


não haverá mais escolas, em que não se dará mais a
nenhum homem o nome de mestre, em que se
praticará em um certo elevado sentido
este conselho do Cristo: “Não vos façais chamar
rabi, porque um só é o vosso Mestre, e vós sois
todos irmãos”.8 Talvez vários humildes discípulos
de Cristo unam suas inteligências na humildade
fraterna e mereçam, na ordem da ciência, esta
bênção do verdadeiro mestre: “Onde se acham dois
ou três congregados em meu nome, aí estou eu no
meio deles”;9 talvez, digo eu, vários humildes
irmãos, unidos em Deus, farão mais do que um
grande homem.

Talvez vários bons operários, decididos, corajosos,


laboriosos, e conduzidos por um arquiteto divino,
construirão o edifício, como as abelhas controem
uma colméia.

Mas eu estou sozinho, você me dirá. Então seja


pelo menos tão corajoso quanto Bacon, porém mais
modesto. Não diga como ele: “Viam aut inveniam
aut fadam”; entretanto trabalhe, e se
for perseverante e estiver convencido de que talvez,
com mais sorte que Bacon, o qual buscava romper
uma porta que já fora aberta por outros mais fortes
que ele, talvez lhe seja dado abrir modestamente,
para outros mais fortes que você, que saberão
conquistar a fortaleza, uma porta que eles ainda não
tenham encontrado.
NOTAS

1 Zc i, 20-21: “Et ostendit mihi Dominus quatuor


fabros [...] ut dejiciant cornua gentium”.

2 Lc 12,56.

3 Lc 18, 8 — NT.

4 Louis Abelly, Vie de Saint Vincent de Paul.


Librairie Ve. Poussielgue et Fils, Paris, 1865, t. II,
p. 359.

5 Este livro foi publicado em 1862 — NT.

6 Vie de M. Olier, t. n, p. 277.

7 Soirées de Saint-Pétersbourg, xi conversação.

8 Mt 23, 8 — NT.

9 Mt 18, 20-NT.
VII - Ciência comparada
I

ISTO posto, eis como trabalhará, se quiser alcançar a


ciência comparada. Suponho que você já saiu do
colégio, com bons estudos literários, e algum
princípio de filosofia.

Precisa agora da teologia e das ciências. Você bem


sabe que os homens do século XVII eram ao mesmo
tempo matemáticos, físicos, astrônomos,
naturalistas, historiadores, teólogos, filósofos,
escritores. Cite um que não tenha sido filósofo! De
Kepler a Newton, todos são teólogos. Eis os seus
modelos.

Então, relegue um pouco, e mesmo muito, as letras


e a filosofia, e dê lugar à teologia e às ciências.

De resto, é muito bom que você tome esse


caminho, pois, se tem gosto pelas letras e pela
filosofia, a primeira precaução a tomar é não
encerrar-se nelas. “Homem literato, perigoso e
vão!”, disse alguém.

Compreende este texto da Sagrada Escritura:


“Porque não sou um literato, entrarei nas potências
do Senhor”? (Quoniam non cognovi litteraturam,
introibo in potentias Domini) 1 Você
nunca observou a diferença, o contraste, eu diria
mesmo a oposição que existem entre a poderosa
profundidade das divinas idéias, e sobretudo dos
divinos sentimentos, e sua expressão literária?
Nunca observou essas duas naturezas do espírito,
tão bem descritas por Fénelon, uma das quais
exprime, mais ou menos sem ver nem sentir; e a
outra sente e vê, mas não exprime, ou ao menos
não exprime ainda?

Desconfie dessa primeira espécie de espíritos, e


trate de não ser um deles. Se você já adquiriu
alguma arte de exprimir o que deseja, procure agora
as coisas a exprimir; pois precisa saber primeiro:

Scribendi recte sapere est etprincipium et fons. 2


Deixe por enquanto o espírito literário adormecer
em você, e busque o espírito científico. Seu espírito
não somente ficará mais rico, mas também mais
forte e maior.

Felizes aqueles que submetem seu espírito ao


conselho que Virgílio dava aos trabalhadores:

Et qui, proscisso quat suscitat aquore terga,

Rursus in obliquum verso perrumpit aratro,

Exercetque frequens tellurem, atque imperat


arvis. 3

Faça o mesmo. Cruze sua literatura com a ciência, a


ciência com a teologia. Rompa seus primeiros
hábitos de espírito, suas primeiras formas de
pensar. Sobretudo, se adquiriu no colégio uma
primeira predileção por um sistema particular de
filosofia, apresse-se em tomar a charrua e dirigir os
sulcos em um sentido completamente diverso:

Rursus in obliquum verso perrumpit aratro.


Nesse segundo trabalho, nada de bom será perdido;
mas quantos preconceitos, quantos erros, quantas
incoerências desaparecerão! Que estreita cultura é a
da primeira educação! Sobreponha a essa
educação uma outra educação, e depois uma outra,
ainda. Rompa e governe seu espírito trabalhando-o
mais de uma vez em vários sentidos:

Exercetque frequens tellurem, atque imperat arvis.

Não tema mudar várias vezes de cultura. Nada


favorece mais a terra, diz aliás o poeta. A mudança
de cultura traz repouso:

Sic quoque mutatis requiescunt fetibus arva. 4

Além disso, esta ou aquela plantação queima ou


resseca a terra, se é continuada. Mas as messes
sucendem-se sem assemelhar-se, e a terra as recebe
alegremente.

Urít enim lini campum seges, urit avena

Urunt Letbteo perfusa papavera somno:


Sed tamen alternis facilis labor. 5

É assim, por exemplo, que a matemática isolada


queima e resseca o espírito; a filosofia infla-o; a
física obstrui-o; a literatura extenua-o, coloca-o
todo na superfície; e a teologia às
vezes estupidifica-o. Cruze essas influências;
superponha essas diversas culturas; nada de bom se
perde com isso, e muito mal é evitado.

II

O espírito é uma estranha capacidade, uma


substância de uma natureza surpreendente. Eu lhe
exorto à ciência comparada; peço-lhe, portanto, que
estude tudo: teologia, filosofia, geometria, física,
fisio-logia, história. Muito bem; creio que assim
sobrecarrego-lhe menos o espírito do que se lhe
dissesse para trabalhar com todas as suas forças,
durante a vida inteira, somente na física, ou só
na geometria, na filosofia ou na teologia. Acontece
com o espírito o que a ciência constatou que
acontece com a capacidade de absorção da água.
Sature a água de certa substância: isto não
lhe impede em nada de saturá-la também com uma
outra substância, como se a primeira não estivesse
nela, e com uma terceira, com uma quarta e assim
sucessivamente. Ao contrário, e isto é que é
prodigioso, a capacidade de um líquido para a
primeira substância aumenta quando você lhe
acrescenta uma segunda, e assim por diante, até um
certo ponto. Portanto, acrescente à sua filosofia
todas as ciências e a teologia, e aumentará sua
capacidade filosófica: sua filosofia, por sua vez,
aumenta bastante sua capacidade científica,
teológica; e assim por diante, até um certo ponto
que depende da natureza finita do espírito humano
e do temperamento particular de cada espírito. Não
se deve esquecer sobretudo que essas capacidades
da água dependem principalmente de sua
temperatura. Esfrie-a: a capacidade diminui; e
ela aumenta se for aquecida. Assim também, nada
aumenta tanto a verdadeira capacidade do espírito
do que um coração ardente. O espírito cresce
quando faz calor na alma. Os pensamentos são
grandes quando o coração os dilata. Há espíritos em
que há muita claridade; e há aqueles em que faz
muito calor, dizia excelentemente Joubert. Sim, às
vezes o calor e a claridade separam-se, mas o calor
e a grandeza, jamais. Os maiores espíritos são
sempre aqueles onde há calor.

Portanto, não tema o trabalho da ciência


comparada; a ciência comparada, ao contrário, é
um método para trabalhar enormemente, sem muita
fadiga; é o meio de desenvolver todos os
seus recursos e todas as suas faculdades, e
sobretudo de aprofundar cada ciência mais do que o
poderia ser se estudada isolodamente.

O futuro mostrará a verdade dessa observação para


quem entrar corajosamente no caminho da ciência
comparada.

Que grande fecundidade a da álgebra aplicada à


geometria; e a fecundidade dessa ciência redobra,
se aplicada por sua vez à física e à astronomia! E o
que dizer quando se for mais longe, e se aplicar as
ciências morais às ciências fisiológicas, e mesmo às
físicas, e o todo à teologia?

III
Sob esse aspecto, os alemães dão-nos exemplo.
Com a restrição de que o panteísmo extravia um
grande número deles. O falso princípio dos
hegelianos opera, no domínio das ciências, a
paródia do que expomos aqui. Pretendem que só
haja uma ciência, pois que tudo é absolutamente
um; que não se deve fragmentar a ciência em
lógica, moral, física, metafísica, teologia: tudo isso,
dizem eles, é rigorosamente um e idêntico, porque
todos os objetos são idênticos, tudo sendo Deus.

Essa é a confusão. Falamos, de nossa parte, em


comparação. É uma outra coisa. Comparação
supõe, ao contrário, distinção.

Sabemos os resultados risíveis, e às vezes odiosos,


que provêm desse princípio de confusão
panteística, seja em lógica, seja em moral, seja em
física. Mas o que poucos sabem é que esse caminho
de abordagem, essa tentativa impossível de
identificar todas as linhas do espírito humano,
levou, entretanto, à comparação, e produziu em
alguns espíritos eminentes, muitos inclusive livres
de qualquer panteísmo, grandes resultados. Basta
citar Ritter, o grande geógrafo, Burdach, o grande
fisiologista, Gõrres, Humboldt, o filó-logo, e
sobretudo Schubert.

Podemos aliás esperar dessa gente grandes


contribuições para a ciência comparada. Essas
almas profundas, místicas, harmoniosas, vão
diretamente ao centro das idéias, naquele ponto em
que as raízes das verdades encontram-se. A
monstruosa filosofia, absolutamente absurda, da
qual são hoje vítimas, não é um motivo para a
reprovação intelectual de toda a Alemanha. Eles
foram os primeiros a levar até seus limites a razão
humana isolada e separada de Deus; assim que a
razão desse povo recuperar sua raiz em
Deus, veremos o que pode produzir a potência
harmoniosa de suas almas.

Mas, mesmo agora, é verdadeiro dizer que seus


trabalhos, apesar da confusão panteísta que
encontramos neles, prepararam muitos materiais
para a ciência comparada. Quando a verdadeira
ciência comparada surgir, tratará esses monstruosos
produtos como a Escritura Sagrada relata-nos que
Tobias, inspirado pelo anjo, tratou aquele
monstruoso peixe que inicialmente o apavorou.
“Senhor, ele lança-se a mim”, gritou o
jovem, 6 como dizemos nós do panteísmo que nos
ataca por todos os lados. “Não temas esse
monstro”, diz-lhe o anjo; “pega-o pelas guelras e
puxa-o para ti: tu te alimentarás de sua carne”.
Quando tivermos concebido alguma coisa da idéia
e do plano dessa nova ciência, que será a do
próximo século, trataremos assim o panteísmo, que
atualmente nos repugna.

IV

Assim, não tema nem a massa, nem o número, nem


a diversidade das ciências. Tudo isso será
simplificado, reduzido e fecundado pela
comparação.

Mas precisamos, em todo caso, com toda a


necessidade, de um conhecimento suficiente da
geometria e das matemáticas em geral;
da astronomia, da física e da química, da psicologia
comparada, da geologia e da história, sem falar da
teologia, da qual trataremos adiante.

E não esqueça também que não deve jamais


consagrar a essas coisas todo o seu tempo. Ao
contrário, deve reservar sua maior parte para Deus
e para escrever.

A tarefa talvez pareça-lhe impossível. Não o é. Mas


sob estas duas condições: que você saiba estudar e
que escolha os seus professores.

Não tomará da ciência como antigamente se tomou


a quin-quina com a casca; o doente, então, ingeria
pouco suco e muita madeira. Tomará a ciência,
tanto quanto possível, como se toma hoje a quinina,
sem casca e sem madeira. Portanto, você terá
professores que não ensinarão com essa excessiva
lentidão que exige a fraqueza dos jovens no
colégio, e sobretudo não se alonguem à maneira
desses vários professores que jamais apresentam
um conjunto de idéias ao seu auditório, mas
somente parcelas indefinidamente estendidas, de tal
maneira que o curso jamais termina, mas prolonga-
se sempre, seja qual for o número de anos que
dure. Buscará professores que saibam apresentar-
lhe rapidamente as conclusões e as totalidades.

Isto posto, comece por consagrar, digamos, dois


anos à matemática, à física e à química, e à
teologia.

Faça uma hora e meia de aula por dia, no início da


tarde. Duas aulas de matemática por semana; duas
aulas de física e de química, duas aulas de teologia.
Estude cada lição duas horas, imediatamente depois
das aulas. Eis como vai usar a tarde.

Dedique em seguida dois anos a estes três cursos:


geologia, geografia, história, filologia, teologia.

Não esqueça que estou falando para um homem


decidido a trabalhar por toda a sua vida; que pensa
que o estudo, depois da oração, é a felicidade; que
quer aprofundar e comparar cada coisa para nela
encontrar a verdade, ou seja, Deus. De resto, tenha
por certo que grandes dificuldades aguardam a
todos que entram por esse caminho.
Mas quanto sofrimento pode ser poupado se você
souber unir-se a outros, e ajudarem-se mutuamente!
Se, em número de seis ou sete, tendo o mesmo
pensamento, ensinando-se uns aos
outros, tornando-se reciprocamente e
alternativamente alunos e professores; se até, por
não sei que concurso de felizes
circunstâncias, puderem viver juntos! Se, além dos
cursos da tarde e dos estudos sobre esses cursos,
conversarem à noite, à mesa mesmo, sobre todas
essas belas coisas, de maneira a aprender mais,
através das conversações e como que por
infiltração, do que nos próprios cursos. Se, em uma
palavra, pudessem formar em algum lugar
uma espécie de Port-Royal, menos o cisma e o
orgulho!

Seja como for, suponho que poderá encontrar


professores capazes de apresentar-lhe rapidamente
o conjunto de cada ciência e seu resultado útil; e
também que saberá tomar, de cada ciência, o
suco, negligenciando a casca.

Mas é nisso mesmo que está a dificuldade. Se


nossas ciências fossem feitas assim, e nossos
professores preparados para ensinar assim, os
admiráveis resultados de nossas grandes ciências
deixariam logo de ser um mistério reservado às
escolas e às academias. Mas, já que não é assim,
tentarei dar-lhe, sobre a maneira de estudar ou de
ensinar as ciências, alguns conselhos muito
incompletos, os quais, espero, saberá
complementar.

NOTAS

1 SI 70, i5b-i6a — nt.

2 “O saber é o princípio e a fonte do bem


escrever”. Horácio, Ars Poética, 309 — NE.

3 “O que dizer daquele que, depois de ter aberto o


solo e revolvido a terra, volta com a charrua, cruza
e rompe os primeiros sulcos, exercitando assim
a terra e a governando!” (Geórgicas, 1, 97-99).
4 “É assim que a terra repousa com a mudança de
cultura” (Geórgicas, I, 82).

5 “O linho queima o campo em que cresce; a aveia


também e a papoula carregada do sono da morte.
Mas a terra não sofrerá, se um suceder ao
outro” ('Geórgicas, 1, 77-79).

6 Tb 6,3 — NT.
VIII - Matemática
I

Falemos primeiro da matemática.

Dizem que Platão escreveu, no portal de sua escola


de filosofia estas palavras: Não entre quem não
souber geometria. Esta frase foi recentemente
comentada por Bordaz-Desmoulin, um dos
raros espíritos entre nós que procuraram seguir o
caminho da ciência comparada, e que escreveu na
primeira página de seu livro esta epígrafe: “Sem a
matemática, não se penetra fundo na filosofia; sem
a filosofia, não se penetra fundo na matemática;
sem as duas, tão se penetra fundo em nada”.

Quando Descartes, um dos quatro grandes


matemáticos, ana-:ematiza a matemática nestes
termos: “Esse estudo nos torna impróprios para a
filosofia, desacostuma-nos pouco a pouco ao uso da
razão, e impede-nos de seguir a rota que sua luz nos
aponta”, Descartes, com essas palavras, não
contradiz Platão, nem seus comentadores; fala do
uso exclusivo da matemática isolada. Assim como
uma terra é esgotada pela plantação anual de um
único produto, mas suporta-o se o alternarmos com
outros, o mesmo acontece com nosso espírito. A
matemática isolada arruina o espírito: isso está
abundantemente comprovado. Quanto ao que pode
fazer a união da filosofia com a matemática, o
próprio Descartes é uma prova, e Leibniz mais
ainda que Platão.

Kepler, talvez o maior dos matemáticos, dizia: “A


geometria, anterior ao mundo, é coeterna a Deus, e
o próprio Deus deu suas formas a toda a criação, e
colocou-a no homem junto com a imagem de
Deus...”. De acordo com ele, a geometria está em
Deus e está na alma. Não se conhece Deus e a
alma, sob certos aspectos, senão pelas idéias
geométricas.

Kepler não somente foi o primeiro a mostrar que a


geometria, não aproximativamente, mas em todo
rigor, como disse Laplace, está no céu visível; ele a
via, e essa visão é a visão das grandes leis que
regem todas as formas e movimentos astronômicos.
Não somente se conseguiu depois introduzir a
matemática em todos os ramos da física; não
somente se descobriu que a luz e as cores
são números, linhas e esferas; que o som é também
número e esfera; que a música, em sua forma
sensível, é geometria e proporções numéricas; mas
eis que a própria fisiologia começa a aplicar
a geometria, como nos trabalhos de Carus e outros,
por exemplo neste belo teorema de Burdach: “Na
mais perfeita forma, o centro e a periferia são
duplos”. Mas ainda se irá mais longe. A
matemática será introduzida na psicologia para
ordená-la e para perceber o seu fundamento; esses
vagos pressentimentos de Platão, de Pitágoras, de
Santo Agostinho e de tantos outros: “A alma é um
número, a alma é uma esfera; a alma é uma
harmonia” receberão precisões científicas.
Tentamos mostrar alguma coisa disso em nosso
Conhecimento da alma 1 Descobriremos o que
disse Leibniz: “Há geometria em todas as coisas”;
descobriremos que ela existe até na moral.

Mas como estudar e ensinar essa vasta ciência?


Como cultivar todas as suas partes: aritmética,
geometria, álgebra, aplicação da álgebra à
geometria, cálculo infinitesimal, diferencial e
integral; como abarcar todas essas ciências?

Eis o que lhe aconselho.

II

Coloque a seu professor uma primeira questão: o


que é tudo isso? Peça-lhe uma primeira aula, de
uma hora e meia, sobre o assunto.

Quando ele lhe tiver dito e feito compreender que


não há nisso tudo senão dois objetos, os números e
as formas, aritmética e geometria; depois que há
uma maneira de representá-los, de calculá-los,
de compará-los: aritmética e aplicação da álgebra
à geometria-, depois, ema maneira mais profunda
de analisá-los, o cálculo infinitesimal, co qual o
cálculo diferencial e o cálculo integral são partes;
então você pedirá a seu professor uma aula sobre
cada um desses ramos.
Há uma regra geral do ensino que é quase sempre
invertida hoje em dia: é que se deve começar, em
todo ensino, pela raiz e pelo tronco, passar daí aos
principais galhos, depois aos galhos secundários,
depois aos ramos, depois às folhas e aos frutos,
depois ao germe e à semente, e mostrar afinal, em
cada germe e em cada semente, a raiz e o todo.
Hoje, em primeiro lugar, jamais falamos do todo,
nem no começo, nem no final; ademais,
começamos arbitrariamente por este ou aquele
ramo, e quando descrevemos mais ou menos todos
os ramos, sem aprofundá-los e nem mesmo
mostrar sua unidade, pensamos que a tarefa está
terminada. Os professores são com freqüência,
como o poeta de que fala Horácio, bastante hábeis
em certos detalhes mas incapazes de produzir um
todo:

Infelix operis summa quia ponere totum

Nesciet. 2

Depois dessa lição geral sobre cada ramo,


recomece, tomando cinco ou seis lições sobre cada
um, depois retome ainda o todo, com mais detalhe.

Pode-se ensinar dessa maneira; deve-se fazê-lo, ao


menos para certos espíritos; é necessário fazê-lo, e
mais adiante voltaremos a isso.

III

Quero indicar-lhe aqui uma simplificação


fundamental que deve vivificar e acelerar, em uma
proporção incalculável, o ensinamento da
matemática. Tenho a felicidade de poder apoiar-
me, nesse ponto, na autoridade de dois matemáticos
eminentes: Poisson, cujas obras estão em todas as
mãos, e Coriolis, antigo diretor de estudos da
Escola Politécnica, homem de tanta experiência
quanta penetração. Poisson, durante os últimos
anos de sua vida, trabalhou em renovar na França o
ensino da matemática, pelo método que vou expor,
e que está para os antigos métodos como
nosso novo meio de locomoção está para os
antigos. Mas os esforços do ilustre e perito
geômetra fracassaram contra a força de inércia e
o direito de posse dos velhos métodos. Tudo o que
ele pôde obter como conselheiro da universidade
foi uma prescrição decretando a mudança de
método. A prescrição foi feita, mas não teve efeito.

Ê necessário retomá-la. Poisson dizia que as partes


da matemática deviam ser ensinadas através do
método infinitesimal. Algumas pessoas ainda se
lembram de que um dia, presidindo um concurso de
agregação, Poisson, esquecendo por um instante o
candidato que deveria avaliar, tomou a palavra e
desenvolveu este raciocínio: “Há em geometria
quatro métodos: método de superposição, método
de redução ao absurdo, método dos limites, método
infinitesimal. A superposição”, disse ele,

só é aplicável em alguns poucos casos; a redução


ao absurdo supõe uma verdade conhecida, e prova
então que não pode ser de outra maneira, mas sem
mostrar por quê. O método dos limites, isolado da
idéia dos infinitamente pequenos, 3 esse método,
mais geralmente aplicável que os outros dois, supõe
também a verdade conhecida, e também não é, por
conseguinte, um método de investigação; esses três
métodos de demonstração são todos aplicáveis, em
certos casos, a verdades já conhecidas. Ao
contrário, o método dos infinitamente pequenos é a
um só tempo um método geral e sempre aplicável,
tanto para uma demonstração quanto para uma
investigação.

É verdade que, enquanto Poisson falava assim, um


outro ilustre matemático, que estava a seu lado,
procurou interrompê-lo, perguntando: o que são os
infinitamente pequenos? Não sei o que Poisson
respondeu. Mas, quanto ao método, que importa a
resposta? Basta que com essa simples noção dos
infinitamente pequenos, que Deus sabe o que são,
tanto quanto o ponto, a linha, a superfície, o sólido
e o resto, basta, digo eu, que a introdução dessa
noção seja o caminho, sem comparação o mais fácil
e o mais curto, para encontrar e mostrar a verdade
matemática.

É ela portanto que utilizaremos.

Sem demorar-me nas objeções dos que dizem que


não se sabe o que ela é, que ela não é rigorosa,
emprego-a porque conduz ao objetivo. Aliás, já
respondemos, parece, a essas dificuldades no
quarto livro de nossa Lógica, e sobretudo em nossa
introdução à Lógica.

Há, nessa desconfiança quanto à racionalidade dos


infinitamente pequenos, o que já dizia Fontenelle,
quando os tristes espíritos da Academia de Ciências
queriam sufocar em seu germe a descoberta de
Leibniz, há um santo horror do infinito-, há esse
racionalismo pedante que se esforça para
demonstrar rigorosamente o postulatum
de Euclides, o que é desnessário; há esse
pedantismo que se jacta, como nos dizia um
espiritual matemático, de encontrar dificuldades
onde ninguém viu nenhuma; há aqueles de que fala
Bordaz-Desmoulin, que disse muito a propósito: “O
infinito que mal se deixa ver na ciência assombra-
os”; há essa disposição que levou Lagrange a
escrever sua Teoria das funções analíticas,
independente de qualquer consideração dos
infinitamente pequenos, etc.; há enfim essa estranha
cegueira dos espíritos de certa natureza, que não
aceitam idéias maiores que nós, e ignoram que,
como disse Bossuet, “jamais estamos à altura das
nossas idéias, tanto Deus quis assinalar nelas sua
infinitude”.

Citaremos outro matemático competente, Coriolis,


o qual, pouco tempo antes de sua morte, confessou-
nos que gostaria de consagrar o resto de suas forças
à reforma, nesse sentido, do ensino da matemática.
Relacionar tudo ao método infinitesimal era, dizia
ele, a idéia de toda sua vida, como professor e
como diretor de estudos. A seus olhos, o ensino da
matemática hoje, na França, é o mais pesado, o
mais pedante, o mais cansativo que pode haver,
tanto para os alunos quanto para os professores, e
apresenta o mais estranho exemplo de rotina que
um ensino já ofereceu ao longo de todos os tempos.
“Quando se fala, como é freqüente, da rotina dos
seminários no ensino teológico, náo se tem idéia de
que o ensino matemático é vítima de uma rotina
incomparavelmente mais pesada e mais bárbara”.

Diante dessas autoridades, dessas razões, e de


muitas outras, náo penso que seria temerário
afirmar que um só ano de estudos pelo método
infinitesimal, convenientemente aplicado e
apresentado, daria, não mais aquisições nem
detalhes, porém mais resultados úteis, mais intuição
geométrica, e sobretudo mais desenvolvimentos da
faculdade matemática que o próprio curso da
Escola Politécnica, que é de dois anos, e que supõe
de ordinário três anos de estudos preparatórios.

Por essa via, que é verdadeiramente, como dizia


Poisson, a única via para a invenção, não fica claro
que em pouco tempo se ensinaria ao aluno
geômetra a fazer pequenas descobertas, e
a compreender por si mesmo, em vez de aprender
de cor sem compreender? Ele desenvolvería suas
faculdades, adquirindo a ciência, e a cada esforço
aceleraria sua velocidade.

Concluo, sobre este ponto, repetindo minha


asserção: o método infinitesimal aplicado em tudo
na matemática é a luz sobre o conjunto, é a
velocidade substituindo a lentidão. Também não
duvido um só instante que a solução do problema
do ensino reside sobretudo nesse ponto. Podemos
dobrar, mais que dobrar, a velocidade, a clareza, a
fecundidade do ensino matemático pela
firme introdução do método infinitesimal. Pode-se
então sobrepor as duas educações necessárias ao
espírito, fazer a ciência penetrar nas letras,
excessivamente vazias e banais sem esse vigoroso
alimento, e por outro lado, dar à ciência o calor
luminoso, o fogo, que transfigura o seu conjunto e
o transmuta em diamante. Aquele que, na França,
instituir sobre uma base durável, através do
caminho que indicamos, essa penetração mútua das
letras e das ciências na primeira educação, esse
multiplicará as luzes da geração seguinte, e será
talvez o Richelieu de um grande século.

IV

Resta ainda um ponto, com o qual ninguém se


preocupara.

Estudamos hoje a matemática ou para passar num


exame, ou para habilitar outros a passarem, mas
não para saber, para possuir a ciência. Por
conseguinte, quando sabemos demonstrar um
teorema, isso é tudo. Mas o que se faz com esse
teorema demonstrado? Que faz nosso espírito dessa
verdade desvelada? Quando ele medita sobre ela,
contempla-a em si mesma, e nutre-se dela? Qual o
sentido dessa geometria e dessas formas? Essas
formas são caracteres que aprendemos a distinguir,
a designar, a reproduzir, a comparar. Mas o
que significam esses caracteres? Se é verdade que
os caracteres matemáticos são verdades absolutas,
eternas, estas estão em Deus, são as leis de todas as
coisas. Começamos a compreender isso quanto à
natureza inanimada: mas o que são elas na ordem
dos seres vivos? Que são elas na alma? Que são
elas em Deus? E qual é a filosofia dessas formas?
Questões estranhas para os matemáticos puros, e
também para os filósofos puros, mas questões que
deverão ser colocadas, e talvez resolvidas um dia,
quando a matemática for utilizada no conjunto das
ciências comparadas.

Ademais, se você leu e compreendeu o quarto livro


da nossa Lógica, intitulado A indução, ou
procedimento infinitesimal, viu um exemplo de
comparação da filosofia e da matemática, exemplo
que creio lançar uma viva luz sobre o ponto capital
da lógica, o qual, tendo permanecido obscuro até o
presente, embora vagamente entrevisto em
outros tempos, era uma verdadeira pedra de tropeço
para a filosofia.

Ninguém é bom juiz de sua própria causa. Ouso


entretanto exortar nossos jovens leitores a trabalhar,
com mais atençáo do que se fez até agora, esse
capítulo da lógica, tal como o escrevi. Já faz oito
anos que publiquei a teoria do procedimento de
transcendência. Depois, essa teoria foi publicada
na Alemanha por um autor que, por suas vias,
chegou ao mesmo resultado. Nenhuma objeção
séria nos foi feita, e aliás eu demonstrei meu
pensamento outra vez em uma introdução 4 que,
parece-me, não pode ser refutada, ao menos em sua
tese principal. Esta é a tese: A razão tem dois
procedimentos, dedução e indução, procedimento
de CONTINUIDADE eprocedimento de TRANSCENDÊNCIA.
Esses dois procedimentos necessários, de dedução
e de transcendência, são os dois procedimentos
lógicos fundamentais da geometria, como também
de qualquer outra ciência. Em geometria, como em
tudo mais, o procedimento de transcendência, ou a
indução, é o procedimento de invenção por
excelência.

Ora, se eu tenho razão nisso, segue-se que o


capítulo principal da lógica, a lógica de invenção,
como dizia Leibniz, esse capítulo, esquecido pela
filosofia contemporânea, é novamente
iluminado. Segue-se ainda, segundo o que digo,
que o segredo, a fórmula geral desses julgamentos
instantâneos, rápidos e seguros que faz o senso
comum, fórmula que buscava ou desejava
Jouffroy 5 e que ele acreditava possível determinar,
encontra-se agora efetivamente determinado. Os
obstáculos lógicos, erguidos contra o instinto das
almas e o movimento espontâneo dos espíritos, são
cientificamente removidos.

Isso merece ser verificado.

Pascal disse: “O coração tem razões que a razão


desconhece”. Muito bem. Alegra-me muito ter
escrito esses volumes de lógica que demonstram,
entre outras coisas, que as razões do coração são
boas.

Mas deixemos este assunto, senão ele nos levará


longe demais.

Passemos à pricipal aplicação da matemática, a


astronomia.

NOTAS

1 Livro IV, cap. 3. Veja também o livro v, cap. 2,


com o título: “O lugar da imortalidade”. [De la
Connaissance de 1’Ame. Charles Dounjo, Paris,
1857 —- NT].

2 Horácio, An Poética, 34 — NT.

3 Digo “isolado da idéia dos infinitamente


pequenos” porque estamos plenamente na verdade
quando, com Duhamel, tomamos “a noção dos
infinitamente pequenos, e a concepção fundamental
dos limites, como intimamente unidas uma à outra,
e como sendo as duas idéias gerais mais fecundas
em ciências matemáticas” (Prefácio de Elementos
de cálculo infinitesimal).

4 Lógica, Introdução. Essa introdução não se


encontra na primeira edição, mas nas seguintes.

5 Nouveaux mélangesphilosophiques, p. 94.


IX - Astronomia
A ignorância das pessoas sobre astronomia é
verdadeiramente uma coisa estranha.

Conheci homens muito instruídos que sustentaram


em diálogos comigo, vivamente, qualificando-me
de empirista, que o velho sistema astronômico,
mais filosófico que o novo, diziam, era
o verdadeiro; que o Sol gira em torno da Terra, não
a Terra em torno do Sol.

Assim, essa ciência simples, fácil, regular,


luminosa, majestosa ; religiosa, essa ciência ampla,
do maior interesse em seus detalhes, essa ciência,
modelo das ciências e obra-prima do
espírito humano, não somente não se tornou ainda
popular, mas é mesmo absolutamente desconhecida
da maioria daqueles que receberam ana educação
liberal completa.

É verdade que isso se deve em grande parte à


maneira como ela é ensinada.
Primeiro, a ciência é cheia de instrumentos,
recoberta de álgebra, desfigurada por um bom
número de palavras assustadoras, envolvida por
círculos, dos quais a imaginação não consegue
escapar, e sobretudo revestida por incríveis figuras
de animais, deuses e serpentes. Nada assusta mais o
espírito que essas figuras. De maneira que é preciso
lutar contra as tentações de desencorajamento, e
romper uma grossa casca para chegar ao núcleo, ao
resultado útil, ao fato. Ademais, a astronomia é
exposta ordinariamente de uma forma estranha.
Começa-se descrevendo ao aluno, longa
e minuciosamente, as aparências, as quais se
ensinará em seguida que são falsas. Por que não
dizer logo de saída e francamente o que de fato é?

Recordo-me de um homem muito inteligente que,


lendo o primeiro volume de um de nossos mais
notáveis tratados de astronomia, vendo o autor falar
sempre dos movimentos do Sol, dos círculos que
ele percorre, das revoluções diurnas, dos
movimentos anuais, diretos, estacionários,
retrógrados, acreditava, depois dessa exposição,
que a Academia de Ciências tinha voltado ao
sistema de Ptolomeu.

Acho que só é necessário proceder assim quando


não se tem tempo a perder.

Comece, como para qualquer outra ciência, por


uma única aula de conjunto; depois uma aula sobre
o sistema solar, outra sobre o sistema estelar, uma
terceira sobre as nebulosas. Retome o sistema solar
em dez ou doze aulas, o sistema estelar em três ou
quatro, as nebulosas mais brevemente ainda.
Nessas aulas, não fale das aparências que povoam a
imaginação, só afirme aquilo que existe, chegue a
resultados, resultados certos; deixe de lado o que é
contestável com respeito às estrelas e às nebulosas.
Fale inicialmente muito pouco sobre instrumentos e
métodos, que são construções do momento; mostre
o monumento em si mesmo — ele o merece.
Depois recomece ainda mais amplamente e,
multiplicando os detalhes precisos, chegue à
unidade da ciência; mostre a causa única de todas
as formas e de todos os movimentos, a atração
e sua lei. Veja sair daí, por via de conseqüência, a
curva de segundo grau, o círculo e sua família, para
reinarem sobre todos os astros; e não rejeite
depressa demais o que dizia Kepler, competente
nessas coisas, pois foi ele que as descobriu: que o
círculo é um símbolo da alma e da Trindade de
Deus, de forma que a alma e Deus são como que
desenhados por todo o céu e são sua lei. Inclua aqui
a mecânica celestre, e a aplicação surpreendente de
precisão e delicadeza do cálculo infinitesimal à
análise de todas essas formas e de todos esses
movimentos. Mostre esse poder do cálculo que rege
sobre os astros, e que anuncia seus movimentos
com vários anos de antecipação, não em minutos,
nem em segundos, mas em décimos de segundo;
que sobre o imperceptível estremecimento de um
astro, afirma, como fez Le Verrier, que há um astro
invisível, a um milhar de léguas, que perturba
aquele visível; que, por fim, calculando o sentido e
amplitude desse estremecimento, denuncia o lugar
e a hora em que se vislumbrará o astro
desconhecido.

Ao longo do desenvolvimento dessas aulas, a


descrição dos instrumentos, dos métodos e dos
procedimentos, e a história da ciência. encontram
aqui e ali o seu lugar, como digressões, com um
interesse bem maior; sobretudo a admirável história
de Kepler, que é a gênese da astronomia.

Mas, quando você conhecer todo o material da


ciência, os fatos e suas leis, quando sua imaginação
representar-se, até certo ponto, D conjunto das
formas e dos movimentos — falo aqui do
sistema solar, que é a parte acabada dessa ciência
—, quando souber as distâncias dos planetas ao
Sol, sua grandeza relativa, sua densidade, o tempo
de suas rotações e revoluções; quando vir toda essa
onda de mundos vogar em harmonia e avançar no
mesmo sentido; e nossa Terra flutuando como um
navio em torno dessa ilha de luz que é .tosso Sol:
quando vir os extraordinários decréscimos de luz,
de calor e de movimento para os mundos afastados
do centro; e depois a incrível excentricidade e a
espécie de loucura dos cometas, que parecem
debater-se sob a lei que os domina tanto quanto
domina os mundos habitáveis; e depois sua
espantosa mobilidade de formas, suas combustões
furiosas, tanto no calor quanto no frio; quando vir
toda essa geometria em ação, toda essa física viva,
todo esse maravilhoso mecanismo da natureza,
conservado sempre pela presença de Deus, e
manifestamente regrado por sua sabedoria, sob leis
que são sua imagem; quando vir a vida e a morte no
céu: um mundo esfacelado cujos vestígios orbitam
perto de nós, o céu carregando consigo seus
cadáveres em sua viagem pelo tempo, como a terra
carrega os seus; quando vir estrelas
desaparecerem, enquanto outras nascem, crescem e
aumentam; quando perceber essas nebulosas —
sejam elas grupos de sóis ou grupos de
átomos, sejam algumas sóis e outras átomos, poeira
de átomos ou poeira de sóis, que importa? E
quando vir grupos da mesma raça, mas
de diferentes eras, que chegam a nossos olhos com
diferentes graus de formações, e deixando ver a
marcha de seu desenvolvimento, como vemos em
uma floresta de carvalhos o desenvolvimento
das árvores em todas as suas idades; depois, quando
vir sobre todos esses mundos as alternâncias de
noite e dia, as vicissitudes das estações, em
harmonia com a vida da natureza, eu diria
mesmo com a vida de nossos pensamentos e de
nossas almas: vicissitudes, oscilações, sempre
inevitáveis, exceto nesse mundo central onde reina
um pleno verão, um pleno meio-dia; então, se não
entrar em sua astronomia nem poesia, nem
filosofia, nem religião, nem moral, nem esperanças,
nem conjecturas de vida eterna e do estado
imutável do mundo futuro; se não compreender
nada desta sublime frase de Ritter: “A Terra, em
suas revoluções perpétuas, busca talvez o lugar de
seu eterno repouso”; se não compreender estas
palavras de São Tomás de Aquino: “Nada se move
apenas por se mover, mas para chegar a algo: todos
esses movimentos cessarão”; se não compreender
estas palavras de Herder: “A dispersão dos mundos
não subsistirá; Deus a conduzirá à unidade, e
reunirá em um mesmo jardim as mais belas flores
de todos os mundos”; se não acreditar nesta
profecia de São Pedro: “Haverá novos céus e uma
nova Terra”, 1 e neste oráculo de Cristo: “Haverá
um só rebanho”; 2 se, em face desses caracteres tão
grandiosos, e desses fatos fundamentais da obra
visível de Deus, você olhar sem ver e
sem compreender, sem adivinhar a possibilidade de
sentido — então, ah!, então merecerá a mais
profunda comiseração!

NOTAS

1 2Pe 13, 3 NE.

2 Jo 10, l6 NE.
X - Física
O que é a física? Chamamos de física a ciência da
natureza inorgânica, e de fisiologia a ciência da
natureza organizada. Essas palavras entendem-se
por si mesmas.

Na natureza inorgânica, distinguimos duas coisas: a


matéria e a força. Sem discutir se o que chamamos
de matéria não é puramente um efeito da força (o
que não pensamos, ao menos no sentido ordinário
dos dinamistas), continuaremos a colocar, com o
povo, a distinção de matéria e força.

O que é a matéria? A física não o diz. E uma


questão fundamental da metafísica, na qual
certamente é permitido ao físico meditar e procurar
compreender: mas, de fato, no estágio atual
da ciência, a física só fala um pouco, ou não fala
nada, da matéria, e só trata das forças.

A física é, portanto, a teoria das forças da natureza


inorgânica. Há somente uma única força? Há três?
Quatro? O fato é que a ciência tende a reduzi-las
todas a uma só, a eletricidade, que produz três
efeitos ou forças derivadas: a atração, a luz, o calor.

Isso inclui portanto toda a física.

Tenha uma primeira aula de conjunto sobre esse


assunto, ou seja, a eletricidade, notando embora
que a física trata também do som, que é uma
imitação e uma imagem grosseira da luz, e
está submetido à mesma teoria.

Virão em seguida três aulas sobre a atração, sobre a


luz, sobre o calor, considerados em seus efeitos
gerais, e como produtos da eletricidade. — Depois
uma aula especial sobre acústica.

Em seguida será preciso retomar em detalhe os


grandes capítulos da física, desenvolvendo, em
cada um desses capítulos, a teoria das ondas, que é
o fundo e a unidade da ciência.

É nesse ponto que a física encontra a geometria, e


que entramos na física e geometria comparadas. A
teoria das ondas desenvolve e abarca toda a física.
E que são as ondas? Esferas que se desenvolvem
em uma velocidade incalculável, sucedendo-se em
intervalos quantificáveis. São movimentos, formas,
números. Aqui confirmamos que a matemática e a
geometria estão em todos os campos. A Bíblia já
tinha afirmado com todas as letras: “Tudo é
contado, pesado e medido”. Omnia in numero,
pondere et mensura 1 Descartes tinha razão ao
dizer: “Tudo é feito por formas e movimentos”;
tinha razão ao afirmar que se conseguiría
estabeler no detalhe dos fenômenos as leis precisas
dessas formas e desses movimentos, esperança que
o próprio Pascal não ousou conceber, e que hoje se
realiza, em grande parte, ao menos.

No restante, a ciência avança cada dia mais nesse


caminho. Tudo se calcula, tudo é contado, pesado e
medido. Provavelmente se chegará a submeter à
análise matemática até os fenômenos químicos.
Não temos já os espantosos trabalhos de um ilustre
matemático 2 sobre o átomo, não somente os
átomos dos corpos, mas os átomos da luz: trabalhos
em que o gênio atinge, pelo cálculo, as formas dos
átomos, e suas variações, e sua polaridade, de
onde resulta o jogo variável das forças na matéria e
as variações de calor, de cor, de repulsão e de
atração? E aí que se dará provavelmente a próxima
grande descoberta nas ciências: precisamos dos
Kepler e dos Newton do infinitamente pequeno.
Aguardamos os legisladores do átomo, como temos
os legisladores dos astros.

Nada me pareceria mais útil, em física, do que


meditar sobre essas questões; mas você deve
limitar-se a colocá-las.

Seja como for, uma vez relacionadas à geometria e


ao cálculo, a física e a química devem ser
relacionadas a regiões ainda mais altas.

Não tenho nenhum medo de afirmar, conforme


minha tese geral sobre a ciência comparada, que é
preciso elevar-se, pela física e pela química, através
da matemática, até a filosofia, e até a teologia: a
filosofia e a teologia, ademais, são certamente
comparáveis e mutuamente penetráveis.
Se cremos, como afirma um destacado espírito que
entra por esse caminho,3 que “toda ciência que se
isola condena-se à esterilidade”; que “essa filosofia
que é a continuadora das grandes tradições [...] de
Descartes, de Leibniz, é capaz de ultrapassar
a tronteira, e entrar no terreno da física”; cremos
mesmo que também a física é hoje capaz de subir
mais alto, e que essa tentativa da física e da
filosofia comparadas é, como diz ainda o mesmo
autor, 'uma tentativa que, mais dia, menos dia, deve
triunfar”.4

E preciso chegar a compreender o que existe sob


essa nova teoria das ondas, sob essas formas
esferoidais que se encontram em todos os lugares,
sob essa lei geral da razão inversa do quadrado
das distâncias, o que existe, enfim, em toda força. É
preciso saber se é verdadeiro e visível em física,
como é visível em psicologia, que Deus está
operando em tudo aquilo que opera; que a atração,
a luz, o calor são efeitos da presença de Deus,
produzidos por ele como causa primeira, e
radicalmente impossíveis sem sua ação perpétua. E
preciso descobrir se essa verdade teológica não
está implicada nessa estranha propriedade do
movimento e da propagação das forças, sua
persistência indefinida, sem fadiga nem alteração,
de sorte que a expansão de uma força qualquer
conserva-se sempre inteiramente a qualquer
distância do centro a que a onda possa chegar. É
preciso saber se não se pode dizer que Deus,
assim, tenha decidido mostrar sua infinitude na
força, como decidiu, segundo Bossuet, mostrar sua
infinitude em nossas idéias; se não se pode portanto
perceber a dimensão da força que há em Deus,
como se percebe, em psicologia, a dimensão da
razão e das idéias que há em Deus; como, afinal,
chegaremos a distinguir, em tudo aquilo que é
criado, o finito, que é o criado em si mesmo, e a
indispensável presença do incomunicável infinito,
que conduz e sustenta o finito.

Vou mais longe ainda; creio, com o autor já citado,


que mostrou parte disso, “no acordo que há entre as
conclusões legítimas do método racional em
filosofia e nas ciências naturais com os
ensinamentos cristãos sobre a natureza de Deus,
sobre a providência e sobre a criação”.5

E para dizer-lhe o fundo de meu pensamento, que,


num primeiro momento, poderá chocar muitos
espíritos, estou convencido de que é possível
empreender de uma maneira verdadeiramente
científica o que já foi feito vagamente várias vezes,
ou seja, aplicar a toda a física e a todas as ciências a
idéia que inspirou Kepler em sua maravilhosa
descoberta do mundo astronômico, e que ele indica
em seu capítulo: “Do reflexo da Trindade na
esfera” (De adumbratione Trinitatis in spboerico).
Se a esfera e seus derivados estão em todas as
coisas, se essa forma contém, com efeito, algum
vestígio, alguma sombra do grande mistério, segue-
se daí que há em todas as coisas um vestígio da
Trindade, como afirmava Kepler, de acordo com a
teologia católica.

E, no que se refere à fisica em particular, eu não


diria com os alemães, nem com Lamennais em sua
Esquisse d’une philosophie, que “toda força,
qualquer que seja, é um desdobramento do Pai, um
dom que Ele faz de si mesmo; que toda
inteligência, toda forma, qualquer que ela seja
(notadamente a luz) é um desdobramento do Filho,
um dom que Ele faz de si mesmo; que toda
vida (notadamente a calórica) é um desdobramento
do Espírito, um dom que Ele faz de si mesmo”, 6 e
que, por conseguinte, as três forças da natureza são
as pessoas divinas. Afirmamos que todo esse
panteísmo é absurdo; ele inclui entretanto uma
verdade, que desfigura, a saber: a universal
presença de Deus e sua ação universal, e a
assinatura em todas as coisas de sua indivisível
Trindade, o que São Paulo indicava ao dizer: “Nele
vivemos, nos movemos e somos”. In ipso vivimus,
movemur et sumus. 7

NOTAS

1 Sb ii, 21. O texto na Vulgata diz: “Omnia


mensura et numero et pondere disposuisti”-NT.

2 Cauchy.
3 Henri Martin, Philosophie spiritualiste de la
nature. Dezobry et E. Magdeleine, Paris, 1849.

4 Ibid., Prefácio, v. 1, p. 22.

5 Ibid., p. 20.

6 Lamennais, Esquisse d'unephilosophie. Pagnerre,


Paris, 1840, t. 1, p. 338.

7 At 17, 28 — NT.
XI - Fisiologia
SE HÁ UMA CIÊNCIA ESTERILIZADA POR SEU ISOLAMENTO,
E QUE SERIA VIVIFICADA, OU ANTES TRANSFIGURADA, POR
SUA UNIÃO À FILOSOFIA, E ATRAVÉS DESTA À TEOLOGIA, É
A FISIOLOGIA. 1

Assinalo aqui a situação atual dessa ciência.


Encontra-se em tal estado hoje na França que um
decano de uma faculdade de medicina, em seu
curso de 1850, citava para seus alunos
Helvétius, Cabanis e Condillac como autores a
serem consultados sobre as relações entre a física e
a moral.

Por outro lado, entretanto, a fisiologia de Burdach,


por muito tempo ignorada, começa a ser apreciada
pelos espíritos filosóficos. Colocando em seu
devido lugar os traços de panteísmo que
essa grande obra encerra, pode-se muito bem
explorar suas fecundas intuiçóes.

Burdach tinha escrito um primeiro tratado de


fisiologia (Blick ins Leben) em que procurou
mostrar no conjunto e nos detalhes dessa ciência
uma única idéia, a da Trindade. Mas esse
trabalho, tendo sido tachado de “concepção
fisiológica apriori" (uma grande injúria aos olhos
dos fisiólogos), o autor escreveu, conservando
o plano invisível de sua idéia, seu tratado de
fisiologia experimental.

Um espírito no mínimo tão profundo quanto


Burdach, porém mais exata e inteiramente cristão, é
Schubert (de Munique). E preciso conhecer
sobretudo seu livro intitulado História da alma. 2

Você encontrará nele grandes visões sobre teologia,


filosofia e fi-siologia comparadas, sem panteísmo.

Outro homem, Gõrres, menos especial que os


precedentes, não é nada menos que o primeiro autor
de uma descoberta fundamental, vulgarmente
atribuída a outros. Gõrres foi o primeiro a distinguir
na medula espinal os nervos do sentimento dos
nervos do movimento. Ora, esse vigoroso espírito
fez, em sua mística e em outros lugares, bem-
sucedidos esforços de fisiologia e psicologia
comparadas.

O estudo da fisiologia terá para você, entre outras


vantagens, o resultado prático de fazer-lhe ver
muito bem a profunda decadência da filosofia
médica entre nós, de mostrar claramente a
possibilidade de uma magnífica reforma e de
inspirar-lhe talvez o grande pensamento de
empreendê-la.

Quanto a nós, falamos desse assunto no tratado Do


conhecimento da alma, no qual acreditamos ter
assentado as bases para a psicologia e a fisiologia
comparadas. 3 Esforce-se para compreender e
julgar por si mesmo as teses que tentei estabelecer
sobre esse ponto. Elas são o fruto de um grande
trabalho realizado ao longo de pelo menos um
quarto de século. Não foram refutadas. Do ponto de
vista fisiológico, eminentes espíritos julgaram-
nas sólidas.
NOTAS

1 Alphonse Gratry, De la Connaissance de


l’Ame. Charles Dounjo, Paris, 1857, livro 1, cap. 3,
e livro III, cap. 3.

2 Gotthilf Heinrich von Schubert (1780-1860),


autor de Die Geschichte der Seele (1850) — NE.

3 Alphonse Gratry, De la Connaissance de l'Ame.


Charles Dounjo, Paris, 1857, livro I, cap. 3.
XII - Geologia, geografia,
história
I

O que falta no ensino, quase sempre, é uma visão


de conjunto. Mas em nenhuma outra matéria esse
defeito é mais sensível e sobretudo mais funesto do
que em história.

O defeito de conjunto em história equivale ao erro.


Sem o conjunto, perde-se de vista a
proporcionalidade dos fatos; então, toda a ciência
do passado torna-se informe aos nossos olhos.
Falseia-a a história quando se tira dos fatos a sua
medida. Não se mente, não se mutila nem se
acrescenta nada, mas agrupa-se os objetos e se
dirige para esta ou aquela região a luz que os
ilumina. Há duas maneiras inversas de ver, uma
que aumenta, outra que diminui, o que destrói toda
a verdade do espetáculo; vê-se, como o animal
da fábula, sucessivamente com as lentes opostas
dessa luneta.

Vê-se de perto tudo que encanta,

Vê-se de longe tudo que desgosta.

Assim, pode-se estabelecer através da história as


mais terríveis mentiras e os mais perniciosos erros.
Por isso Joseph de Maistre pôde dizer: “A história,
há trezentos anos, é uma conspiração permanente
contra a verdade”.

Eu gostaria que, para essa segunda educação que


começa por amor à verdade, você retome os seus
estudos históricos começando pela história
universal, vista primeiro no mais breve conjunto.

A partir desse primeiro olhar lançado sobre toda a


história, gostaria que incluísse nela toda a ciência
comparada que comporta a história, a astronomia, a
geologia, a geografia, a filologia, a filosofia e a
teologia. Evidentemente, o espírito moderno
trabalha com a filosofia da história, e a vaidade de
um grande número de infelizes tentativas sobre esse
ponto não impede essa tendência de ser
profundamente útil e verdadeira.

E já que citei a teologia, gostaria, com efeito, que a


história fosse para você um estudo sagrado, e que
pudesse dizer com Ritter: “Essa ciência é para mim
uma religião”. Gostaria que, com Santo
Agostinho e Bossuet, você pudesse contemplar em
seu conjunto a marcha do gênero humano,
buscando nela esses traços de Deus de que falou
um profeta: “Senhor, que nos seja dado conhecer
teu caminho sobre a Terra, e teu plano providencial
para a salvação de todos os povos”. 1 Seria o
progresso da história outra coisa que o progresso da
religião? Não poderiamos dar da religião e da
história esta única e mesma definição: “O progresso
da união dos homens entre si e com Deus”?

Depois é preciso estudar, primeiro o teatro em que


se passa a cena da história — este planeta que nos é
dado —, e meditar sobre o que nos é dado saber de
sua natureza, de sua origem e de seus destinos.

É preciso vê-lo primeiro vagando como um navio a


navegar sobre a eclíptica, girando sobre o seu eixo,
e deslocando-se em torno desse centro glorioso de
que lhe vêm a luz e a vida. É preciso ver sua
pequenez relativa, conhecer sua juventude, e
saber que ela morrerá. Temos entre nossos planetas
um planeta morto; os outros morrerão também.
Vemos entre as estrelas os sóis apagarem-se; o
nosso também apagará. E preciso concluir disso
primeiro que somos passageiros em um navio.
Depois, vendo esse navio deslocar-se, com sua
infatigável velocidade e a surpreende precisão de
seu caminho, perguntarmo-nos: por que ele
caminha, e para onde vai? E respondamos com o
príncipe dos geógrafos:

“A Terra, em suas revoluções perpétuas, busca


talvez o lugar de seu eterno repouso”.2

Quando soubermos através da astronomia e da


geologia que tivemos um começo — pois se nossa
Terra não foi primeiro uma nuvem, o que entretanto
é bem provável, pelo menos é certo que esteve toda
mergulhada no fogo, e depois toda coberta de
água; quando soubermos que tivemos um começo,
que somos jovens e que devemos acabar, teremos
os dois limites da história, nossa origem e nosso
fim, e não poderemos olhar para ambos senão
em uma humilde e religiosa contemplação. A visão
desse mundo que nasceu, que deve morrer, que está
a caminho, que está sempre metade nas trevas e
metade na luz, que é fecundo em certos lugares
e por intermitências, vai nos fazer compreender
estas poéticas asserções de Herder: “Nossa
humanidade está apenas num estado de preparação
e é o botão de uma flor que vai desabrochar. O
estado presente do homem é o laço que une dois
mundos”.

Depois, olhando em si mesma essa morada do


gênero humano; examinando seu plano geográfico,
tão visivelmente traçado com inteligência quanto o
plano de uma casa; contemplando também o
prodígio de sua vida metereológica e de suas
irrigações: essas inundações de luz, de calor, de
eletricidade, de água fecunda, que têm um objetivo
tão visível, tão premeditado quanto o trabalho
de um jardineiro; não esquecendo de observar
também a riqueza de seu seio, cheio de recursos, de
instrumentos, de tesouros — você concluirá ainda,
com Ritter, que “nosso globo é
manifestamente uma habitação preparada por um
bondosa inteligência para a educação de uma raça
de homens”.

E quando, por fim, sobre esse teatro, contemplar a


sucessão das criaturas irracionais e mudas, até
chegar um ser inteligente e livre, que fala, que
conhece e quer; quando vir, como com os
próprios olhos, o próprio Deus colocar sobre a
Terra o homem, que um momento antes ainda não
existia, e quando tiver compreendido com clareza
que há uma data precisa, um lugar preciso em que o
homem foi subitamente suscitado no mundo por um
pai do gênero humano, creio que esse espetáculo,
se souber contemplá--lo, livrando-se por um
instante da pesada cegueira e da
inquieta incredulidade que nos roubam todo raio de
luz, creio que esse espetáculo porá em você o
germe da história, e o espírito da história para
desenvolver esse germe.

Verá bem que esse homem, que é inteligente e


livre, tem uma finalidade ideal que ele pode
conhecer, e que sua liberdade deve atingir. O
caminho para o objetivo é a história, e como o
homem caminha para o objetivo livremente, pela
via que escolhe, e desvia--se dele quando o quer,
compreenderá que ele é o rei do mundo e dirige,
sob o olhar de Deus, o seu destino.

E então dividirá a história em três questões:

Primeira: Onde estamos, em relação ao objetivo?

Segunda: Que rota devemos seguir?

Terceira: Que caminho resta-nos percorrer? O que


nos ensina o passado sobre o curso do futuro?

II

Observe que o ensino ordinário da história jamais


trata da primeira questão. Muitas vezes perguntei-
me por que não há em lugar algum um curso de
história sobre este assunto: estado presente do
globo. É por aí que você deve começar sua segunda
educação. Parece ademais que um homem
religioso, que ama a Deus e a seus irmãos, deveria
sempre ter a imagem total do globo presente em seu
pensamento. Rezamos diante do crucifixo. É
justamente o que deve ser feito. Mas a verdadeira
cruz não está isolada da Terra: a verdadeira cruz
está plantada na terra; o crucifixo real está sobre
o globo: a base, o pé do crucifixo, é um globo
irrigado pelo sangue de Jesus Cristo. Faça sempre
dessas duas coisas uma única imagem. Essa é a
verdadeira, a bela, a completa imagem da
piedade. Olhe, contemple essa Terra, templo de
Deus, essa morada comum de nossos irmãos e de
nossas irmãs que Deus deu a seus filhos; e diga
para si mesmo: onde estão eles? Em que se
tornaram? Qual é o seu passado? Onde estão suas
esperanças? Reze então por eles, e recorde esta
parte de uma oração católica: “O Pai, que deste a
teus filhos este globo para que o cultivem, faze que
eles sejam um só coração e uma só alma, assim
como têm uma só morada”.

Aqui ainda, poderá receber o espírito da história e o


amor de seu plano providencial.
Olhe então e compare, sobre toda a Terra, o estado
presente dos homens, os limites naturais no plano
da Terra habitável, as raças, as línguas, as religiões,
seu estado intelectual e moral, seu estado social e
político. Faça entrarem aqui os grandes resultados
da fisiologia, da filologia e da simbólica
comparadas.

Não tardará a descobrir uma raça central e


civilizadora, envolvida pelo restante do gênero
humano, como o miolo por sua casca, raça branca,
geograficamente rodeada por homens de todas as
cores, depositária do culto de um só Deus, rodeada
por idólatras ou mesmo por adoradores explícitos
do mal; nessa única raça, a família, ou seja, o
elemento social, constituído pela unidade da
aliança; nessa raça única, alguns traços de
castidade, ou seja, de espiritualidade, temperam a
fermentação enfermiça da geração carnal,
e permitem a alguns homens, em alguma coisa,
tornarem-se luz e amor livre, a fim de dirigir o
mundo pelos caminhos da justiça, da verdade, da
liberdade, da união; em todos os outros lugares, a
humanidade descoroada, degradada pela
sensualidade exacerbada, pela intemperança sem
freio; em todos os outros lugares, a humanidade
paralisada, sufocada por uma de suas partes, por
um dos dois sexos; mas sempre a justiça, a
inteligência, a ciência, a força, a dignidade, a
liberdade, ou sua ausência, proporcionais, em
cada parte do gênero humano, à maior ou menor
participação de cada povo na luz e na religião do
miolo central e civilizador.

Mas mesmo entre os povos mais próximos do


modelo, que distância em relação ao ideal!
Desconsiderando alguns heróis, onde estão os
melhores homens e os povos mais esclarecidos? O
que eles sabem e como vivem? Em quais Deus
reina? De que povo pode Deus servir-se hoje para
fazer caminhar a história, e conduzir o mundo à
finalidade de sua santa vontade?

Eis algumas observações quanto à primeira


questão: onde estamos?

III
Vá então para a segunda e, sem nunca perder de
vista todo esse primeiro quadro, retome, sempre
através do sincronismo, e da história geral
comparada, a história distinta das raças e das
nações; sempre rapidamente, percorrendo, na maior
velocidade possível, cada linhagem, desde sua
origem perceptível até nossos dias. Somente os
exames das totalidades podem ser
instrutivos. Somente assim compreenderá o que
retarda ou faz progredir cada nação e o conjunto da
humanidade. Assim verá claramente onde está a
corrente principal da história, onde estão as águas
paradas. Verá em que época específica a
humanidade deixou de repousar como um lago,
lago exposto a se corromper completamente;
em que época específica correu enfim desse lago
um rio de água viva e vivificante, que talvez
transportará tudo.

Seguirá facilmente em seguida o caminho


percorrido por esse rio.

IV
Quanto à terceira das questões históricas, “qual o
curso do futuro?”, creio que lhe será útil colocá-la e
procurar respondê-la. Não se trata mais, pode-se
dizer, de filosofia da história. Que seja. E
precisamente a ciência comparada que buscamos.

Nessa questão, é necessário partir deste princípio; o


homem é livre e o gênero humano acabará como
bem quiser. Deve-se admitr, com a Escritura
Sagrada, que “Deus criou o homem e deixou
em sua mão o seu próprio conselho; que a vida e a
morte estão diante de nós; que nos será dado aquilo
a que estendermos nossa mão”. 3 De acordo com
isso, Herder teve razão em dizer: “Tudo que
uma nação ou uma parte da humanidade quiser
sinceramente para seu bem, lhe será dado”. O que
se apóia ainda sobre as palavras de Cristo: “Se
tiverdes fé, nada vos será impossível”. 4

Isto posto, devemos crer que é possível atingir a


finalidade, e que se a Igreja Católica diz: “O Pai,
que deste a teus filhos este globo para que o
cultivem, faze que eles sejam um só coração e uma
só alma, assim como têm uma só morada”; se esse
sublime pedido é manifestamente a finalidade,
podemos esperar atingi-la, ou pelo menos
aproximarmo-nos dela, na medida em que o
homem pode sobre a Terra aproximar-se da
perfeição. “Se os povos ouvissem”, disse Santo
Agostinho, “e ao mesmo tempo pusessem em
prática os seus preceitos [...], a república não
somente ornaria com sua felicidade os páramos da
vida presente, mas subiria até o cume mesmo da
vida eterna e ali reinaria”. 5

Eis a finalidade, o ideal, o possível. Somos livres


para aí chegar. Mas chegaremos, e por qual
caminho? E qual seria, neste caso, o plano da
história futura? Essa é a questão.

E que questão é maior e mais urgente? E o homem


viajante sobre a Terra que se pergunta: onde está
minha rota? Onde está esse caminho de Deus
“sobre a Terra” 6 que é preciso conhecer, e
que conduz à finalidade?

Você deve compreender que essa questão é digna


das mais sérias meditações de uma vida inteira.
NOTAS

1 SI 66, 3: “Ut cognoscamus in terra viam tuam in


omnibus gentibus sa-lutare tuum”.

2 Ver, em De la Connaissance de l’Ame, o livro


intitulado “O lugar da imortalidade”.

3 Cf. Eclo 15, 14.18.17-NT.

4 Cf. Mt 17, 20-NT.

5 “Cuius prsecepta de justis probisque moribus si


simul audirent atque curarent [...] et terras vit:e
prsesentis ornaret sua felicitate respublica, et vitæ
æternæ culmen beatissime regnatura
conscenderet” (Civitate Dei, 11, cap. 19).

6 “Ut cognoscamus in terra viam tuam”.


XIII - A moral
PODEMOS dizer que a história é a moral em ação.
Mas é preciso acrescentar algumas palavras sobre a
moral como ciência. Acabo de ler com satisfação
um livro intutilado Conscience et Science du devoir
[Consciência e ciência do dever]. 1 Esse livro é um
sinal dos tempos.

Sim, estamos no século da ciência comparada, e


também nessa época do mundo que corresponde ao
estado de espírito de Leibniz, quando dizia: “Só
passei pela metafísica e pelas ciências para chegar à
moral”.

E é esse o estado de espírito em que eu mesmo me


encontro há muitos anos. Hoje, sou obrigado a
confessar que tenho horror à metafísica abstrata, e a
toda ciência que não se relaciona com a moral, com
Deus, com o bem dos homens. E vejo, com uma
profunda alegria, meu século chegar a esse mesmo
ponto.
A civilização cristã, há trezentos anos, criou essas
ciências maravilhosas por que passou Leibniz, e
que transformam hoje o aspecto do mundo
material; e agora, através da história e da ciência
social, desenvolvidas sobretudo em nosso século, o
espírito humano chega à moral, digo à moral
considerada como ciência, como ciência
extremamente ampla, fecunda e desconhecida:
ciência destinada a acabar com a crise em que a
Europa debate-se há um século; ciência destinada a
conduzir-nos a essa nova ordem da qual
Chateaubriand afirmou: “E certamente sobre a base
do cristianismo — quer dizer, da moral universal
— que se deve reconstituir, depois de um ou dois
séculos, a velha sociedade que atualmente está se
decompondo”.

Esse é o tempo em que vivemos. E é um sinal dos


tempos a existência de vários livros, tais como esse
cujo título acabei de citar, e de um ensino público
tão amplo e tão elevado quanto o que se ministra
em várias cadeiras da Faculdade de Direito de
Paris. E uma grande alegria, para os que conhecem
a curva que segue nosso século, ouvir esses
discursos, dos quais tiramos esta conclusão:

A jurisprudência está colocada no ponto de


intersecção em que os dados de todas as outras
ciências vêm convergir, para que a ciência do dever
os coordene. O que pode o direito, que deve dirigir
as nações, sem os ensinamentos da religião e da
economia política? Não é uma expressão
ambiciosa, mas uma verdade certíssima esta antiga
definição: a ciência do dever é a ciência do
conjunto das coisas divinas e das coisas
humanas. 2

Compreende-se portanto, enfim, que o direito, seja


natural, seja positivo, legislação, ciência
governamental, política, economia política, ciência
social e o restante, são capítulos distintos de
uma ciência única e superior, que não é outra senão
a moral, ou ciência do dever, e que essa ciência não
pode ser separada da religião. E também protesta-se
em alto e bom som contra a mutilação que resulta
da pretensão de ver diferentes ciências nos diversos
aspectos de uma ciência única. 3
Sim, mutilação! Daí os julgamentos tão opostos
que fazem, sobre o valor e a tendência de várias
dessas ciências, espíritos que deveríam entender-se.
Asseguram-me, por exemplo, que a economia
política é um flagelo. Eu respondo: é a salvação das
sociedades. E um flagelo, penso eu, para aqueles
que falam de economia política separada, mutilada;
mas eu, que creio dever sempre, de acordo com o
conselho dos sábios, considerar as coisas e falar
delas segundo sua verdade, e não segundo sua
vaidade, vejo, ou ao menos pretendo ver, os seres e
as idéias não em sua essência isolada, mas em suas
relações viventes e necessárias. Quando eu digo
folha de árvore, não penso numa folha caída, mas
na folha presente na árvore. E quando falo de
economia política, falo da ciência social, e da
ciência social relacionada com a moral, e da moral
relacionada com a religião. Eis o que hoje se
começa a compreender. E com-preende-se também,
portanto, que a ciência do dever é tão ampla, tão
rica, tão capaz de progresso, quanto a consciência
do dever é simples, universal, primitiva, anterior a
tudo.
Ciência é consciência esclarecida, consciência que
quer e sabe, que, querendo a justiça, conhece o
ponto de aplicação a que se deve dirigir a força
para fazer brilhar a justiça triunfante, e atingir a
finalidade, a salvação dos homens, dos povos e do
gênero humano.

O esforço para conduzir o mundo à sua finalidade,


eis nosso dever. A luz que esclarece esse esforço,
eis a ciência do dever.

Aqui, meus jovens, está o ponto central: conhecer o


próprio dever! Saber o que, neste século mesmo,
vocês devem à sua pátria e a todo o gênero
humano; não apenas ter no coração a
entrega, talvez o heroísmo; mas saber como a boa
vontade deve ser aplicada ao dever, saber julgar as
ilusões de finalidade, os efeitos dos quilômetros,
das distâncias; conhecer os falsos movimentos das
boas vontades ignorantes, os falsos impulsos dos
heroísmos subversivos que matam para libertar, que
destroem para salvar. É preciso que, quando damos
nossa alma, nossa vida, nosso
entusiasmo, saibamos ao menos levar à sua
finalidade essas formas magníficas com a precisão
mesma da ciência que leva o manejo do fogo à
sua finalidade, que dirige através de rotas
determinadas a intangível luminosidade.

Querer e saber são poder; não somente querer.

Ah, unamo-nos para conhecer o detalhe do dever,


seus caminhos úteis e verdadeiros em cada tempo,
para cada alma, e sobretudo para o tempo em que
vivemos. “Que nos seja dado conhecer o caminho
de Deus sobre a Terra, e seu plano de salvação
para todos os povos”. Ut cognoscamus in terra
viam tuam, in omnibus gentibus salutare tuum.

Não acrescentaria mais nada sobre a moral, pois


trabalho de todo coração para oferecer-lhes logo
meu fraco ensaio sobre esse coroamento da
filosofia.

Quanto às relações entre a ciência do dever, de toda


ciência social e da teologia, diria apenas esta última
coisa: o grande progresso da ciência moral, da
ciência social que pressinto, é a aurora desse
retorno à teologia — bem compreendida, afinal —
que aguardo e anuncio.

NOTAS

1 De J. Oudot, professor na Faculdade de Direito de


Paris.

2 Oudot, t. ii, p. 244.

3 Conscience et Science du devoir, 1.1, p. 352.


XIV - A teologia
DIZIA-SE OUTRORA QUE A TEOLOGIA É A RAINHA DAS
CIÊNCIAS, E QUE A FILOSOFIA É SUA SERVA.

Eis, penso eu, a verdade sobre esse assunto. Há,


disse Pascal, três mundos: o mundo dos corpos, o
mundo dos espíritos, e um terceiro mundo, que é
Deus, que é sobrenatural em relação aos dois
primeiros. Ora, a filosofia pertence ao segundo
mundo; deve reinar sobre o primeiro, e deve
submeter-se ao terceiro, não para aniquilar-se, mas
para subir mais alto.

Em outros termos, a filosofia é a própria ciência


que sustenta e possui o espírito humano; é o
espírito humano desenvolvido. O espírito humano
desenvolvido deve penetrar o mundo dos corpos,
conhecendo suas leis. Mas deve, ao mesmo tempo,
submeter-se a Deus, não somente com essa
submissão necessária a seu próprio
desenvolvimento, mas com essa outra submissão
mais profunda que desenvolve nele a luz do próprio
Deus, que, à própria raiz e à própria substância do
homem, acrescenta os frutos cuja raiz e substância
é Deus.

Ora, o espírito humano é capaz do desenvolvimento


que vem de Deus, como uma árvore é capaz de
enxerto,

E pode dar frutos que não são naturalmente os


seus.

Esses novos frutos destroem a velha árvore? Eles


honram-na e glorificam-na. Roubam a sua seiva?
Não; mas dão a essa seiva, que do contrário seria
estéril, um destino glorioso. E assim que a ciência
divina não destrói a ciência humana, mas a ilumina.

Ora, a teologia é a filosofia enxertada. E esse


enxerto é o espírito de Deus mesmo incrustado no
espírito humano. E essa nova realidade é, e deve
ser, sobrenatural, ou seja, de uma outra
natureza que a do espírito humano, infinita, em
presença dele, que é finito, embora possa crescer
indefinidamente.
Não explico aqui o mistério do enxerto, nem no
mundo dos corpos, nem no mundo dos espíritos.
Nem pretendo, além disso, provar aqui essas
asserções; quero somente dar-lhe conselhos
para estudar a teologia e exortá-lo a fazê-lo.

Observe primeiro que a teologia católica,


independentemente de tudo o que ensina a fé
católica, é manifestamente, e não podería ser de
outro modo, o maior monumento, sem nenhuma
comparação, já construído pelo espírito humano.
Digo que, além da luz divina, sobrenatural, da qual,
afirmamos nós, a teologia está repleta, essa teologia
é, e não pode deixar de ser, o maior facho de luz
humana que os homens jamais criaram.

Vejam os fatos. Quais são os grandes teólogos? —


Nem falo de São Paulo. — Os nossos dois maiores
teólogos são Santo Agostinho e São Tomás de
Aquino. O terceiro já é difícil de nomear. Há
vinte verdadeiramente grandes e profundos, dos
quais o mais glorioso não é, como teólogo, o maior.
Mas enfim, para os homens de letras, citemos
Bossuet. Tomemos portanto Santo Agostinho, São
Tomás e Bossuet. Ora, pergunto-lhe: não vê que
Santo Agostinho inclui Platão, mas um Platão mais
preciso e engrandecido? Diga-me se São Tomás
não contém todo Aristóteles, mas um Aristóteles
alçado da terra, luminoso, e não mais tenebroso?
Dirá que Leibniz não se harmoniza com Bossuet?
Pretenderá que todo Descartes não alimentou
Bossuet, e não tenha influenciado o seu gênio?
Eis então, em nossos três grandes teólogos, um
facho de luz composto pelos principais e mais altos
gênios!

A autoridade de um homem de primeira ordem é


uma grande garantia. Mas o que dizer da autoridade
dos maiores homens de primeira ordem, digo mais,
da autoridade de todos os homens de primeira
ordem, falando em uníssono? Ora, Santo
Agostinho, São Tomás de Aquino e Bossuet falam
em uníssono; aqueles que estão implicados no seu
pensamento também; tudo o que em Platão,
em Aristóteles, em Leibniz e Descartes, não se
encontra nesse uníssono que formam os outros três,
que são teólogos, corre o risco do erro, do
acidental, e não deve ser levado em conta. São
faltas que os maiores homens cometem.

Mas é essa toda a autoridade humana da teologia?


Só falei até agora da sua menor parte. A teologia,
sempre considerada apenas em seu aspecto
humano, é a única ciência — e isto é capital — que
o gênero humano trabalhou em conjunto. Tudo
aquilo que o pai dos homens, saído das mãos de
Deus, e seus primeiros filhos confiaram à memória
do gênero humano e à tradição universal; tudo
aquilo que os profetas e os verdadeiros filhos de
Deus, em todos os tempos, puderam ver e receber
de Deus; tudo aquilo que os apóstolos de Cristo, os
mártires e os Padres compreenderam; tudo aquilo
que as meditações dos solitários, que só amavam a
verdade, misteriosamente incutiram no espírito
humano; tudo aquilo que as grandes ordens
religiosas, trabalhando em comum, comparando,
debatendo incessantemente seus trabalhos,
desenvolveram e determinaram; tudo aquilo que os
concílios gerais, as primeiras assembléias
universais que o mundo viu, definiram; tudo
aquilo que os erros, expostos à luz do dia,
reconhecidos e julgados por seus frutos, na
importante história das seitas, livraram-nos de
incertezas; tudo aquilo que os santos e as santas,
essas fontes vivas de pura luz, inspiraram, sem
escrever nem dizer; tudo isso reunido, eis a teologia
católica. Você deve compreender agora por que ela
é a única ciência que o espírito humano gerou em
conjunto. As grandes obras filosóficas são obras de
uma grandeza isolada; a obra teológica é um
movimento de totalidade do vasto coração e do
imenso espírito humano. Ademais, se é verdade,
como não se pode duvidar, que ali onde os espíritos
se unem está Deus, segue--se que a teologia
católica é a obra universal e a voz unânime
de homens que viveram unidos entre si e com
Deus. Por isso repito, já que o provei, que a
teologia católica é e não pode deixar de ser outra
coisa senão o maior monumento já construído pelo
espírito humano, e o maior facho de luz que existe
neste mundo.

E agora, como se poderá explicar que um homem


que busca a verdade não faça seu primeiro estudo
dessa ciência?
Eis porque, se você compreendeu o que precede, e
se quer trabalhar para elevar o espírito humano em
direção à luz, estudará a teologia católica, sempre.

Eis como deverá proceder.

Começará aprendendo de cor, e palavra por


palavra, o todo, como a criança aprende suas
orações.

Esse monumento incomparável da teologia tem um


plano simples e fácil de conhecer. Esse imenso
facho de luz reduz-se a um pequeno número de
verdades, talvez a três, e a uma só. Mas,
sem elevar-nos tão alto em direção à unidade divina
dessa luz, o fato é que toda a teologia católica é
formulada em um pequeno número de proposições
dogmáticas que chamamos de artigos da fé, às
quais os teólogos acrescentaram algumas outras
que, sem serem artigos de fé, são tidas por certas,
como derivando rigorosamente dos artigos de fé.

Todas essas proposições podem ser, e de fato o


foram, impressas em oito páginas.
Pergunto-me como é possível que todo homem
instruído não os saiba de cor, literalmente. 1

Se você é cristão, essa é a síntese de sua fé; se não


é cristão, essa é a grande crença cristã, a única que
tem chance de ser verdadeira, e que você precisa
conhecer, para saber se deve aderir-lhe. Se você é
um inimigo, decidido a combater o cristianismo,
dê-se ao trabalho de conhecê-la, ao menos em seus
enunciados. Errará menos os seus golpes.

Você tomará portanto uma teologia elementar


qualquer, vulgar, ensinada nos seminários.
Recomendo-lhe a de Perrone, que é recente,
bastante difundida, que nos vem de Roma. Abrirá o
índice, que foi impresso em oito páginas, e que é
exatamente a seqüência dos teoremas teológicos,
artigos de fé e outros. Aprenderá de cor esses
teoremas, e conhecerá o enunciado completo,
autêntico, oficial do dogma católico.

Também deverá ter à mão um Bossuet, um


Thomassin, um São Tomás e um Santo Agostinho;
e, além disso, o Dicionário de teologia de Bergier,
em um volume.

Estudará São Tomás de Aquino antes de qualquer


outro. Não esqueça que no último concilio geral,
em Trento, estava sobre a mesa da assembléia, à
direita do crucifixo, a Bíblia, e à esquerda a Suma
de São Tomás de Aquino.

Quanto à Bíblia, é claro que a lerá todos os dias;


leia e pratique o Evangelho, fonte viva e principal
de toda luz.

Mas, para voltar a São Tomás de Aquino, ele é


verdadeiramente o anjo da escola e o príncipe dos
teólogos. Igual, pelo menos, a Aristóteles, como
metafísico e lógico; de maneira alguma contrário a
Platão, o que seria um defeito capital; pleno do
espírito de Santo Agostinho, implicando nisso,
aliás, o que Platão disse de verdadeiro; além disso,
não tendo tanto as idéias mesmas, mas as forças
desses gênios, São Tomás de Aquino, na Suma,
capta, resume, penetra, ordena, compara, explica,
prova e defende, através da razão, através da
tradição, através de toda ciência possível, adquirida
ou pressentida, os artigos da fé católica em seus
últimos detalhes, com uma precisão, uma luz, uma
felicidade, uma força, que elevam em quase todas
as questões o verdadeiro até o nível do sublime.
Sente-se de fato por toda a obra, se posso exprimir-
me assim, o germe do sublime vibrar sob suas
breves e poderosas fórmulas, em que o gênio,
inspirado por Deus, fixa a verdade.

São Tomás de Aquino é desconhecido entre nós


porque é grande demais. Seu livro, como disse
Homero, é uma dessas rochas que dez homens de
nossos dias não conseguiríam levantar. Como nosso
espírito, habituado aos diluídos estilos
contemporâneos, poderia enfrentar a densidade
metálica do estilo de São Tomás de Aquino?

A própria ignorância da linguagem, da tipografia e


da forma exterior na distribuição das matérias
detêm-nos à soleira da Suma de São Tomás de
Aquino. Conheço um homem instruído que, tendo
aberto um dia a Suma, não demorou a fechar o
livro, com desgosto. E por quê? Porque tomara por
enunciado das teses de São Tomás o enunciado dos
erros que ele refuta. Esse homem viveu um ano
inteiro com esse proconceito.

Leia o Index tertius2 da Suma a fim de conhecer


com um lance de olhos os enunciados do grande
Doutor sobre cada questão. Devemos consultar esse
Index acerca de toda questão; devemos reter,
palavra por palavra, muitas de suas fórmulas.

Quanto a Thomassin, ele é um gênio muito


diferente; gênio também, não da mesma ordem, e
não menos desconhecido. Thomassin,
contemporâneo de Bossuet, escreveu em latim
seus Dogmas teológicos, que poderiamos chamar
de Medulla Patrum. Um terço ao menos desses três
in-fólios consiste em citações dos Padres, gregos e
latinos, freqüentemente também de filósofos,
estando o todo ligado e cimentado pelo gênio que
penetra e possui o que apreende, amplia o que toca,
multiplica o valor do que toma emprestado,
agrupando sob uma única luz os preciosos
fragmentos que recolhe: tudo isso em um latim
cheio de verve, de originalidade, de exuberante
riqueza.
Nada tenho a dizer de Bossuet nem de Santo
Agostinho. Estude muito bem o índice de temas do
segundo, maravilhoso trabalho dos beneditinos.

Quanto a Bergier, é um dicionário adequado,


judicioso, e possui muita autoridade.

Porém, esses livros não bastam. Você precisa de


um ensinamento teológico oral, por um teólogo de
profissão, que ensine em seminários. Nada substitui
o ensinamento oral da teologia. Dez anos de
estudos solitários deixariam em você traços
notáveis de ignorância.

Ora, creio poder assegurar-lhe que, quando tiver


começado a compreender a teologia católica, ficará
profundamente espantado com a ignorância e a
cegueira do nosso século sobre essa fonte de luz, à
qual nenhuma luz deste mundo poderia ser
comparada. Terá a impressão de que há cento e
cinqüenta anos a Europa está em uma noite polar, e
que o Sol dos espíritos está oculto abaixo do nosso
horizonte excessivamente afastado de Deus, e por
trás das montanhas de gelo das nossas frias
ciências.

Compreenderá que a aliança de que se fala entre a


filosofia e a teologia, aliança que os filósofos puros
não compreendem e não podem realizar, pelo
simples fato de que não passam de puros filósofos,
está singularmente desenvolvida pelos teólogos, os
quais, sendo ao mesmo tempo teólogos e filósofos,
são sempre filósofos mais completos, mais exatos,
mais profundos, mais elevados que os filósofos
puros, e têm a missão e a capacidade para
empreender e concluir a aliança.

Verá também que a teologia católica, inspirada por


Cristo, que é Deus, contém em si realmente todas
as ciências. Não que se possa deduzi-las dela, bem
o sei, e sei também que a pretensão de tudo deduzir
do dogma foi uma fonte de erros. Mas, à medida
que as ciências se formam por seus próprios
métodos e seus próprios princípios, têm
concordâncias e consonâncias maravilhosas com
a ciência de Deus. Compreenderá que, como disse
Pascal, a “religião deve ser de tal maneira o objeto
e o centro a que todas as coisas tendem, que aquele
que souber seus princípios poderá dar a razão de
toda a natureza do homem em particular e de toda a
conduta do mundo em geral”.3

Talvez verá também que a teologia católica


inspirou diretamente todo o grande movimento
científico moderno, criado pelo século XVII.
Compartilhará da minha surpresa e da minha
alegria quando vir verificar-se historicamente o
que, a priori, deve ser, ou seja: que os santos
produzem, ou são eles mesmos, os grandes teólogos
místicos; que os grande teólogos místicos
produzem

as dogmáticas profundas e as verdadeiras filosofias;


que todos juntos produzem os cientistas criadores,
mesmo na física e na matemática, como, por
exemplo, quando vemos os grandes santos e
teólogos místicos do começo do século xvn
escavarem mais profundamente do que nunca a
relação do mistério de Deus com o homem,
levarem-na ao pensamento filosófico sob a forma
da relação metafísica do finito e do infinito,
distribuirem numa multidão de escritos ascéticos
surpreendentes fórmulas sobre o infinito, o finito, o
nada,4 suscitarem em Kepler, em Pascal5 e em
muitos outros, os princípios implícitos, e com
freqüência mesmo bastante explícitos, do cálculo
infinitesimal, inspirarem enfim a Leibniz seu livro
Scientia infiniti, do qual o cálculo infinitesimal, que
é a alavanca universal das ciências, é um capítulo
— capítulo que, relacionado e comparado à
filosofia de que provém, acabará por organizar essa
rainha das ciências.

NOTAS

1 Reunimos esses textos, ou pelos menos as


proposições de fé, em latim e em francês, num
apêndice ao final de nosso Traité de la
Connaissance de Dieu [Tratado do conhecimento
de Deus],

2 Sumário dos assuntos e doutrinas memoráveis


contidos na Suma e no Suplemento que designa os
locais onde eles sáo amplamente explicados — NE.
3 Pensées, em CEvres completes, t. 1, p. 216.

4 Por exemplo, os escritos de Olier; a Vie du P. de


Condren, do Pe. Amelote.

5 Pensées, parte 1, art. 1.


Conclusão
CONCLUAMOS este livro.

Este livro dirige-se apenas aos raros espíritos que


amam e buscam a sabedoria, e aos corajosos que
sacrificam tudo à justiça e à verdade.

Fazer silêncio em sua alma para escutar em seu


interior a Deus, que fala a todos os homens,
sobretudo àqueles que amam a verdade; desapegar-
se de suas paixões e manter-se acima de seu século
para estar mais perto de Deus e do coração da
humanidade; fugir da meditação ociosa e da ilusão
das contemplações preguiçosas, fixando com a
caneta as verdades que florescem na alma, sob o
sopro de Deus, quando ela é pura e está em
repouso; disciplinar seu corpo, penetrá-lo e
relacioná-lo, como um instrumento, a seu espírito e
a sua alma, para que o homem inteiro esteja unido
em sua obra; consagrar à verdade todo seu
tempo, bem como o homem todo, alma e corpo;
consagrar o dia inteiro, e não desprezar a noite nem
o sono; consagrar o despertar consagrando a noite;
preparar no sono sua tarefa, e fazê-lo
trabalhar; fugir da dissipação que interrompe o
espírito e o dissipa para encontrar o repouso que o
recolhe e fecunda; praticar, na continuidade da
adoração interior, o que praticam os germes, que se
desenvolvem e crescem, estejamos dormindo ou
acordados; alcançar a verdadeira oração, onde a
voz infalível de Deus se faz ouvir, onde o contato
com Deus nos é dado, e onde se realiza o mistério
da relação substancial e viva da alma com Deus;
haurir nessa união com Deus a inspiração real, quer
dizer, a resolução de se tornar um operário na
messe de Deus; receber, nessa inspiração e nessa
resolução, o conhecimento das chagas da própria
alma e dos sofrimentos do mundo, a compaixão por
esses sofrimentos e por essas chagas, a força, a
vontade de trabalhar para curá-los; ver e julgar, sob
essa luz, a crise do presente século, que é a
pergunta do Senhor: julgais que o Filho do Flomem
encontrará fé sobre a Terra? Compreender o que
Deus quer do coração humano e do espírito
humano, e o que ele exige para dar-lhe
ou sustentar-lhe a fé; entrar pelo caminho,
manifestamente reto, do último grande século, que
ia a Deus pela santidade e pela ciência, e unia,
fecundava, ou, para melhor dizer, criava as
ciências sob a luz de Deus; retomar o feixe, por
muito tempo quebrado, das grandes linhas do
espírito humano; criar assim essa
ciência comparada que será a do próximo grande
século; retornar através de cada linha da ciência ao
centro da comparação; encontrar Deus, e sua luz
viva e regeneradora, em todas as coisas; fazer jorrar
essa luz em todos os canais da ciência, em todas as
fibras do espírito; libertar, aquecer os corações
através desse influxo novo; e erguer enfim, por uma
educação mais luminosa, as futuras gerações: esse é
o conjunto de conselhos necessários, e a
finalidade que deve ser proposta àquele que quer
hoje ser discípulo de Deus.

Você deve compreender agora a unidade teórica e o


sentido propriamente científico de tudo isso.

Demonstramos em outro lugar que o soberano


procedimento da razão, o que proporciona a
ciência, é um procedimento que leva, a partir de
todas as coisas, ao infinito, a Deus; e que
esse procedimento leva à ciência precisamente na
medida em que leva a Deus e às idéias eternas que
são Deus. Você já compreendeu que estas não são
apenas asserções poéticas, mas verdades
lógicas precisas e cientificamente estabelecidas.

E esse procedimento leva a Deus, nós também o


demonstramos, porque ele parte de Deus, ou seja,
do sentido divino em nós, e de algum grau de fé no
objeto infinito desse sentido; e leva a Ele servindo-
se das coisas finitas, da alma e da natureza, como
signos e como imagens, para explicar esse sentido
obscuro do infinito que Deus nos dá através de seu
contato.

Portanto, o método prático para chegar à ciência


consistirá primeiro em desenvolver em si mesmo o
sentido divino; em segundo lugar, em conhecer a
própria alma, conhecer a natureza e suas leis — o
que inclui todas as ciências particulares —, e
depois em elevar-se sempre, a partir da própria
alma, a partir de todo estado de alma e de toda
ciência parcial, e de toda impressão, até as idéias de
Deus e até o coração de Deus.

E este o método prático para chegar à luz: despertar


o espírito para si mesmo; unir seu espírito a seu
coração, e seu coração a Deus; e tudo conduzir,
sem nada confundir, a essa unidade interior que há
entre nossa alma e Deus.

E o homem que aí chega conhece a vida. Sente e vê


que amar a Deus sobre todas as coisas, amar a
todos os homens como a si mesmo, dar seu
coração, sua alma, seu espírito e suas forças
para tornar os homens melhores e mais felizes, é a
vida, é a lei, é a beatitude, a justiça e a verdade.

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