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Dançar pela chuvinha

É hoje recorrente a idéia de que a ação do homem e a poluição


atmosférica têm afetado a regularidade do clima e das estações do
ano, cada vez mais alteradas. Mas não é de hoje que o homem se
mostra insatisfeito com aquilo que os céus lhe trazem.

Relatos de secas e dilúvios são comuns em antigas escrituras e há


milhares de anos que o homem tenta prever o tempo que aí vem – e até O ritual da dança da chuva é
mesmo controlá-lo – através de rituais mágicos. Os mais conhecidos comum a tribos indígenas de todo
são as danças da chuva. o continente americano

Danças cerimoniais foram interpretadas em muitas culturas para


invocar a chuva, assegurando com isso o sucesso das colheitas. Os
testemunhos mais antigos desta prática estão gravados em túmulos
egípcios, em pequenos desenhos que datam de 2700 antes de Cristo
(a.C.). Por todo o Mundo são conhecidos rituais semelhantes, desde os
ensaiados por tribos guerreiras da África Austral até às danças com
máscaras na Coréia em rituais suplicando por chuva.

Mas quando se fala em dança da chuva, há um estereótipo que vem


logo à mente: os índios norte-americanos. As populações indígenas da
América do Norte – embora haja exemplos de rituais semelhantes por
todo o continente americano – celebrizaram os ritmos dançantes criados
para pedir aos céus um pouco de água. Dos Hopi, do Noroeste do
Arizona, que usavam cobras nas suas cerimônias pluviosas, aos Sioux,
que dançavam à volta de um jarro com água, numerosas eram as tribos
que acreditavam que com um passinho de dança era possível fazer
chover.

Na América do Sul, é conhecida uma dança da chuva dos índios


Guarani, chamada cotiru, que marca o início de uma espécie de festa
do milho. Através da dança, os Guarani agradecem aos deuses a última
colheita daquele cereal, base da sua alimentação. Ainda hoje, há quem
acredite na eficácia do ritual indígena. Em 1998, o estado brasileiro de
Roraima teve quase um quarto do seu território devastado pelos
incêndios florestais, devido a uma seca que já durava há três meses. As
autoridades decidiram então recorrer a dois índios da tribo Caiapó.
Kucrit e Mantii foram levados do estado do Mato Grosso para executar a
dança da chuva. Os dois pajés dançaram durante 40 minutos, às
margens do rio Curupira, rogando ao deus Coroti. Coincidência ou não
– é de notar que estava a chegar o Inverno – a chuva veio mesmo e
apagou a maior parte dos focos de incêndio.

‘STONEHENGENHARIA' DO TEMPO

Utilizado há mais de cinco mil anos, o misterioso santuário de


Stonehenge é sem dúvida dos mais emblemáticos ícones nacionais da
Grã-Bretanha. As medições com carbono situam os primórdios do
santuário em 3100 a.C., embora o ‘design’ inicial se tenha limitado a um
mero banco de terra circular simples, com uma vala à volta. Cerca de
500 anos depois, uma estrutura de madeira foi erguida e, em 2150 a.C.,
aproximadamente, um poderoso líder neolítico terá sido convencido por
sacerdotes a mandar erguer um templo monumental, formado por dois círculos concêntricos de
pedras gigantescas, dando origem ao mundialmente famoso cromeleque de Stonehenge.

Os círculos estão alinhados com o nascer do sol no Verão e o pôr do sol no Inverno, além de terem
alguns evidentes posicionamentos coincidentes com determinadas fases da Lua. Mas o seu
alinhamento astronômico terá provavelmente mais a ver com o agendamento de rituais pagãos
coincidentes com a altura do plantio e das colheitas. Embora não seja sabido com precisão que
tipo de ritos ali se realizavam, é provável que tivessem a ver com a fertilidade, as chuvas e as
condições meteorológicas propícias para a agricultura. E é muito possível que alguns fossem
executados sob a forma de dança.

Rodrigo de Matos