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O TEOREMA DA MAGIA

Por KHAINSÇATA TAIRIENN

Khainsçata Tairienn foi um mago-camponês do século XIV AD., era do clã Tyn-Tiha e
consta ter vivido na região do Vale do Tarim, mas não se sabe em qual aldeamento
sarmático nem se realmente vivia em um aldeamento, pois o texto desta lista leva a
pressupor um certo grau de nomadismo.
Traduzido para o português, por Ben-Sçuddarann.

  1.. A magia do andar


    1.. Sair por cima é necessário, como sair por baixo, ou por todos os lados. Mas o
que se move, está sempre no mesmo lugar. Não é quem se move, quem caminha, mas
sim o chão que sob seus pés atravessa.
    2.. O verdadeiro lugar de um ser é aquele onde ele sempre está. Não há, porém
lugar aonde um ser sempre esteja, tampouco há um lugar que verdadeiramente seja
sempre o mesmo lugar.
    3.. A areia é quente não porque é quente, mas porque o sol a faz assim, quando o
sol esfria e a noite atravessa sobre nossas cabeças, a areia se torna fria e não porque a
areia é fria, mas porque a noite a faz assim. Então não existe quente ou frio onde a
areia está sempre, pois sempre essa é apenas areia.
    4.. Quem vive por andar através do mundo de mundos, atravessa montanhas,
desertos, estepes, mares e rios, mas nunca chega a nenhum lugar que não seja em si
mesmo.
    5.. Caminhar pela linha é sempre estar com um cajado conduzindo-nos, não é,
porém o cajado que nos diz para onde vamos, mas sim nós quem fazemos desse o
nosso instrumento para caminhar. Ter um cajado mágico é ter algo que nos empurre
as terras de nossa existência e nos faça sempre ver para onde atravessarmos.
    6.. Ter o cajado, primeiro modo necessário. O cajado não está em uma madeira ou
um metal, antes de ser feito por nós ou por nós recebido, é necessário que já exista
em nosso íntimo. Nada há de útil em um algo que existe apenas como tal, se o ser não
sabe como fazê-lo ser o que esse é sempre.
    7.. O cajado une a mão que cria e molda, com o braço que apóia e defende, e sobre
as terras em que se planta o alimento sagrado, percorre como uma outra perna. O
significado sagrado do cajado é esse: a força criadora em nós mesmos, capaz de fazer
de nós a sua criação, movendo-nos contra nossos próprios riscos, para combater
nossos medos e cansaços, mas quem move aquilo que nos ajuda é nós mesmos, e o
cajado só aumenta aquilo que pequeno é em nós, para que se veja melhor tal como
em uma
luneta.

  2.. O templo que se transporta


    1.. O templo verdadeiro é aquele que é sempre em nós como nós sempre somos
nesse. Uma edificação pode ser um maravilhoso templo, mas essa só é tal quando tal
como tal nós estamos em seu interior. O templo que se transporta é sempre um
templo, tal como tal o burel que se veste, sagrado se torna mágico, e como um templo
que se transporta é sempre onde estamos.
    2.. Vestir o burel é sempre entrar no templo, e se entramos sempre quando o dia se
inicia e saímos quando o dia se termina, quando vamos desse ao banho, ou desse ao
sono, saímos de um templo para um ritual, pois que banho e sono são encontros com
o sagrado, e assim sempre estamos cheios de luz.
    3.. O burel não pode ser usado então por quem não tem luz, ou o templo que se
transporta se amaldiçoa na sujeira que esse ser transporta em si. Para tocar ao templo,
burel, somente quem mostra a luz já ou já dessa necessita.
    4.. O burel ou a roupa comum pode tanto ser como sempre templo que se
transporta, não é nunca o tipo da roupa que diz, mas sim se é sagrada ou não.
    5.. O que faz uma roupa, templo que se transporta, é pensar em primeiro nessa
como tal, em segundo momento, sagrá-la nos rituais da luz e em nome da luz, em
terceiro momento e enfim, usá-la com tal objetivo na eternidade do sagrado.
    6.. Muitos templos que se transporta juntos, e pessoas sagradas sempre se tem, a
luz enche um lugar e o faz sagrado, e por onde atravessam, levam luz e sabedoria. Um
só templo que se transporta, e a luz só é capaz de fora da multidão, entrar no ser que
a quiser conhecer, mas ainda assim, é luz sagrada e existente.
   7.. Símbolos sagrados, amuletos costurados, bordados que são luz, partes que
brilham e refletem claridade em cores que simbolizam conexões com a mente sagrada
do ser, o burel, ou roupa, que é sempre templo que se transporta, já sagrado e assim
feito, necessita ser sagrado para cada modo de cada sociedade, mas em sociedades
totais, se tem símbolo de outras crenças, só mais recebe magia que a perde, mas
necessita satisfazer sempre a quem o usa.

  3.. A espada que corta o mal e liberta a luz 


    1.. Símbolo do caminho, a espada sempre é a voz e os olhos do mago que é sempre
guerreiro. Rasga o desconhecido e desvenda sua sabedoria, vê e entende a luz liberta,
faz a luz liberta falar com emoção.

    2.. Há assim dito, dois caminhos na espada:


      1.. Usar a espada como apoio, para tal fato uma bengala apoiar o corpo, a alma e
o espírito em sua caminhada, o saber em si evitado, mas se usa o poder para saber, o
pensamento capaz de sustentar e carregar a qualquer idéia, contemplando a
descoberta não por essa em si, mas pela possibilidade de a compreender. A espada
assim dito é assim tal como tal símbolo de seu apoio, vestida em sua bainha, a lâmina
contra a bainha, a bainha contra a terra, é sempre, o aprender contra o saber, o saber
contra o mistério, a capacidade de teorizar e de deduzir.
      2.. Usar a espada como arma, para fora de sua bainha, cortar e abrir de fato ao
desconhecido, revelar a todos sua luz ou sua sombra, ou a mistura de ambos, a espada
assim dito tal como tal é sempre modo de obter o saber, usando o saber de busca para
buscar o saber do todo. A teoria se torna teste, o teste mostra pistas, as pistas se
tornam vestígios, os vestígios trazem dúvidas e a dúvida na necessidade de recriar do
desconhecido ao conhecido, faz sempre a nova teoria nascer.

    3.. Mostra a luz, desvenda o mal, corta as sombras, faz do ser de Abismo o ser que
vê ao próprio mal, e vendo a si mesmo, a si teme, e de si foge, para a luz, ou por ti
mesmo é morto, se tornando sombras, e defende a luz, como arma poderosa em
magia, criando o limite traçado na areia do tempo, barreira forte da qual só o inimigo
bravio passará, e se passar, combate é o que vai ter contra si.

  4.. A bolsa que transporta as curas


    1.. A cura que se transporta em si, não é a cura que cura aos outros, o remédio que
a uma ferida fecha, não curará a dor de cabeça de um outro, o remédio que cura é a
cura do outro em si.
    2.. A bolsa transporta a cura, a cura está no outro, não existe cura que não se
reduza a sua dor, não existe dor que não carregue em si a sua cura.
    3.. Estudar a dor é buscar a cura. Mas quem estuda a dor, a estuda em quem a
sente, e quem busca a cura, a busca porque esse alguém sente a dor.
    4.. A bolsa que transporta as curas não transporta os remédios que nós entendemos
úteis para curar as dores, pois o que nós entendemos é as nossas próprias dores.
    5.. A bolsa transporta, assim dito, os remédios que cada outro tem, como um
espelho que revela em sua essência a verdadeira realidade da dor.
    6.. Quem tem ódio não o tem porque o sente contra algo, mas sim porque tem o
ódio em si mesmo. A cura para o ódio está em si, pois todo caminho tem um mínimo
de dois caminhos, na sombra ou na escuridão, ódio ou fúria. Fúria e ódio são
diferentes, mas trilham um mesmo direcionamento, enquanto a fúria é uma virtude de
coragem e determinação, o ódio é uma dor de covardia e desistência.
    7.. Quem tem ignorância não tem  o tem porque o tem em um desconhecido, mas
sim porque tem a ignorância em si mesmo. É preciso ter o saber da buscar para buscar
ao saber, aquele que não sabe que precisa buscar, não buscará o que precisa saber.
    8.. A bolsa que transporta as curas carrega o espelho que alma e espírito revela,
como a revelação de uma viagem iniciática em si mesmo. A cura para todas as dores
reside apenas na busca em todos os outros. O ser é divino, e a divindade, poderosa,
nada existe que por essa não se cure.

  5.. A bolsa que transporta os amuletos


    1.. A bolsa que transporta os amuletos é aquela que protege contra as dores, que o
outro não nos contamine, e não gere em nós outra dor apenas nossa.
    2.. Ter em si o amuleto é fazer da alma o seu templo.
    3.. O amuleto é o elo entre aquilo que se deseja evitar e aquele que deseja evitar ao
algo.
    4.. O amuleto é um símbolo, sagrado e mágico, mas antes é uma palavra, e toda
palavra possui um significado, e todo significado, uma explicação, e toda explicação,
um saber ao qual se vincula como o amuleto cria elos.
    5.. O amuleto é uma ponte que não deixa passar, é um muro que não bloqueia
totalmente.

  6.. A bolsa que transporta riquezas


    1.. A riqueza é aquilo que permite comprar ou trocar.
    2.. Comprar ou trocar é preciso para ter algo que não se tem, pois não se busca.
    3.. Ter algo que não se busca é preciso quando não se busca para si, para sua dor,
mas para as dores de outros, como uma cura.
    4.. A bolsa que transporta riquezas não transporta ambição nem arrogância,
transporta altruísmo. A riqueza só tem valor quando vale além dos limites do si mesmo.

  7.. O escudo que protege as costas


    1.. Como uma carapaça, protege contra o que não se sabe vir.
    2.. Pego ao braço, é defesa que ataca, ataca com aquilo que contra esse se
arremessa. Preso às costas é defesa que defende, contra àquilo que se arremessa sem
que o mago assim o saiba.
    3.. Quem não tem olhos na nuca, de um escudo nas costas precisa.
    4.. É escudo tudo aquilo que evita, um modo, uma arma, um oráculo, uma
divindade, um título, um lugar, uma pessoa.
  8.. O elmo que protege a sabedoria e a alma
    1.. É aquilo que dá a forma ao todo, que faz o saber coeso e forte, aquilo que como
uma panela molda o bolo, que como um molde faz o tijolo.
    2.. O elmo protege não porque bloqueia, mas porque bloqueia por todos os lados, e
todos os lados é aquilo que faz algo que é coeso e forte.
    3.. O saber que tem um elmo tem em si a própria origem de si, nada que se
sustente em um outro ponto do todo possui em outro ponto a sua sustentação
existente. É preciso ou que o ponto se mova, ou que o elmo sempre esteja sobre esse.