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As crianças são fáceis de intimidar e elas sofrem muito com o medo porque elas são

animais pequenos e a estimativa delas diz: “Olha, se vier um adulto, você tá ferrado. Se
encolhe”. Ela sente exatamente como o filhote de lobo na alcateia, que tem que se encolher
diante do lobo adulto. Se você não apenas pensar no assunto, mas observar as crianças, você
vai tomar posse das informações estimativas que você vê em você e nos outros. É muito
importante que você tome posse dessas informações porque sem isso você não pode explicar
as diferenças existentes entre homens e mulheres. E sem que você entenda as diferenças
entre homens e mulheres, você não pode resolver os problemas que existem hoje entre eles.

Agora vamos pensar o seguinte: a criança não permanece criança. Ela chega à
puberdade e depois à idade adulta. E a puberdade é uma experiência muito diferente para o
macho da espécie humana em relação à fêmea da espécie humana. Não vamos pensar em
termos de homem e mulher, ou fulano e fulana. Vamos pensar em termos de bichos. O macho
e a fêmea da espécie humana. Nós vamos pensar neles apenas em termos sensitivos e
estimativos. Vamos fazer de conta que eles não têm pensamento nem linguagem, que são que
nem o cachorro ou o lobo. Eu sei que é uma brincadeira. Eles têm linguagem, eles têm
inteligência. Mas vamos fazer de conta? Porque essas outras coisas estão operando lá embaixo
da linguagem.

O que acontece com o macho da espécie humana quando ele chega à puberdade?
Simples: Todo dia, quando criança, você acordava, sentava à mesa do café da manhã e o
animalzinho dentro de você media estimativamente papai e mamãe e pensava: “Ah, droga!
Tenho que comer mingau se não papai e mamãe vão ficar brabos.” O corpo dizia pra você:
“Não confronte esses bichos!”. A sua mente não dizia que eles eram maus. Você gostava muito
dos seus pais, amava eles. Quando você tinha uma ameaça de perigo, era pra eles que você
corria. Mas você sabia o seguinte: “Eles também são um perigo, se eles quiserem”. Seis meses
se passaram e agora você passou pela puberdade. Você está cheio de testosterona e sua força
física aumentou de duas a três vezes. Você está novamente na mesa do café da manhã para
comer o seu mingau. Você olha para o papai e a mamãe e o bichinho dentro de você pensa:
“É... O que eles podem fazer?”.

Eu sou uma pessoa de tamanho pequeno: Um metro e setenta e dois, nunca passei de
sessenta e cinco quilos. Eu lembro claramente de perder o medo físico dos meus pais. “Se eu
quiser eu faço. Você vai fazer o quê?”. A maior parte dos rapazes tem exatamente essa
experiência. Geralmente eles têm essa experiência de manhã e de noite eles já estão fazendo
besteira. De noite eles vão sair com os amigos para fazer arruaça. Agora nenhum outro animal
da alcateia representa um grande perigo. No máximo é tão perigoso quanto você. Se ele não
gostar do que você está fazendo, o que ele pode fazer? Não precisa ter muita sabedoria para
saber que rapazes adolescentes têm excessiva autoconfiança (ou pelo menos tinham no tempo
em que eles comiam bife, e não soja).

Eu lembro exatamente que tinha um tempo em que me convidavam para fazer alguma
coisa e eu pensava “O que a mãe vai pensar? O que o pai vai fazer?” E, de repente eu pensava:
“Não, eu não levo em consideração eles, exceto por generosidade da minha parte. Porque eu
gosto deles e não quero que eles sofram, pô”. Provavelmente a maioria dos rapazes aqui
lembra disso. Pode ter sido logo após a puberdade, assim como pode ter demorado dez anos.
Mas em algum momento vocês perceberam isso. Fisicamente. “O que eles podem fazer além
de me chatear, me encher o saco? Eles só podem me encher o saco! Você vai me bater de
vassoura? Pfff! Eu aguento! A vara só servia quando eu tinha 12. Agora com 14? Bate, não tem
problema, amanhã eu vou fazer a mesma coisa! Eu só não vou reagir porque eu sou uma
pessoa decente e recebi uma educação muito boa de vocês! Mas eu não vou deixar de fazer o
que eu quero por estar com medo de vocês”. O rapaz chega aos 16 anos, vira pros pais na
mesa do café da manhã e diz: “É, esse fim de semana eu vou passar na praia com os meus
amigos, numa barraca. Eu to só informando”. Sabe o que pais sábios fazem? Eles dizem assim:
“Claro, filho. Leva o telefone e, se tiver algum problema, liga pra gente”. Pais sábios têm
estimativa também. Eles olham o filho e pensam: “Se eu falar não, acontece o seguinte: essa
noite ele pula a janela com a mochila e ele vai do mesmo jeito. E a hora que der alguma coisa
errada lá ele não vai ligar pra mim porque eu proibi ele de ir. Ele já tá me desobedecendo.”

Agora, se a menina de 16 anos quer fazer a mesma coisa, os pais falam “De jeito
nenhum! Nem sonhando que você vai fazer isso!” E por que muitos pais reagem assim quando
ela fizer a mesma proposta? É por avaliação estimativa! Ela vai se encolher diante dessa
resposta. Olha eu, pequenininho. Você não pode dizer que eu sou um cara grandão. Eu tenho
estimativa e eu tive treinamento de arte marcial, então a minha estimativa foi aperfeiçoada. E
eu tenho sol em Áries também, que é um pouquinho ruinzinho. É o seguinte: com essas mãos
aqui dá pra matar outro ser humano. Num conflito com qualquer pessoa que está aqui existe
uma chance de eu matar você, e você não vai fazer nada. É verdade que, com alguns aqui,
existe uma chance de “caramba, ele vai me matar e eu vou me ferrar”. Agora, se eu olhar as
mulheres aqui, nenhuma de vocês tem a menor chance. Se eu decidir esganar vocês, já era. O
animal dentro de mim diz isso, porque o crescimento em força nos membros superiores é
suficiente para que o macho da espécie deixe de ser presa para a própria espécie. O mesmo
acontece com os leões, ou com os lobos, ou com os bois... O mesmo não acontece com as
hienas. Entre as hienas são as fêmeas que adquirem força o suficiente para que o macho seja
presa dela. E as hienas têm, de todos os hábitos conjugais, os mais diferentes dos seres
humanos. Os mais bizarros.

A outra coisa que aconteceu com o rapaz e com a moça, e essa é medida
cientificamente, é um grande crescimento de QI na puberdade. Você começou a enxergar o
mundo de maneira mais ampla do que quando você era criança. Isso é necessário pra você,
porque agora o ser humano vai ter que criar uma narrativa real pra sua vida, quando antes ele
só precisava de uma fictícia. Então ele precisa ser um pouquinho mais esperto, captar melhor a
realidade. Com a moça a mudança mais significativa em termos quantitativos na puberdade é
a mudança em QI, não a mudança da força. Uma menina pós-púbere de 13 anos não é muito
mais forte que uma menina pré-púbere de 12. Agora, o rapaz de 14 que passou pela
puberdade e o menino de 13 que não passou: não existe a menor comparação entre eles em
termos de força física.

O quê acontece com a moça? Ela passou pela puberdade, é que nem o rapaz. A
primeira coisa que ela pensa é: “O que eu quero fazer de legal da vida? Eu quero dançar! O
que os meus pais vão pensar”. Imediatamente o animal dentro dela pensa em como os pais
vão reagir. “Ah, eu quero andar com as moças góticas e usar batom preto! O que meus pais
vão pensar?” E isso gera um conflito interno, deixa ela insegura. “Faço ou não faço?”. O rapaz
já é o seguinte: “Não, eu quero andar com os metaleiros e deixar meu cabelo crescer!”. E o
corpo dele diz: “É cara, isso que é legal. Vai lá e faz!”. É isso que acontece com a gente. E não é
isso que acontece com vocês, moças. O que acontece com vocês é “Ah, sei lá. Eu quero fazer
um negócio diferente. Eu quero colocar, sei lá, um piercing... O que os meus pais vão pensar?
Eu quero estudar tal outra coisa, mas o que os meus pais vão pensar? Eu quero andar com
essas amigas aqui, mas o que meus pais vão pensar? O que as minhas amigas vão pensar dos
meus pais? O que os meus pais vão pensar das minhas amigas? O que os meus professores vão
pensar dos dois grupos?” O animal dentro dela, por mais que ela esteja pensando no que ela
quer – e ela está, porque ela cresceu em QI – reage como presa.

O leão acorda todo dia e pensa: “O que eu quero fazer hoje? Quero ficar coçando o
saco. Então vou ficar coçando o saco. Quero uma leoa. Então vou catar uma leoa. Quero uma
gazela. Então vou catar uma gazela”. É assim que um predador pensa e sente a vida. Agora, o
coelho acorda todo dia, que nem o leão, e pensa: “O que eu quero da vida hoje? Uma cenoura.
É, mas tem uma cobra no caminho. Onde tá a cobra? Onde tá o gavião?”. Então ele não pode
sair da toca dele e seguir um caminho linear de acordo com o seu desejo sensitivo. Ele tem que
pensar “Eu tenho que seguir um caminho indireto, cheio de curvas, pra fazer a raposa, o gavião
e a cobra pensarem que eu to indo num outro lugar. E aí eu cheguei na cenoura e eles não me
viram!”. Ele tem que navegar. E essa é a vida psicológica instintiva de uma moça. Ela tem que
navegar.

Aluno: Se a moça não tem a figura paterna, ela pode começar a ter um
comportamento mais de predador?

Não, olha só: 20% das mulheres vão ser as mais fortes, seja fisicamente, seja
psicologicamente. 20% vai ter personalidade guerreira, mesmo que ela seja fraquinha. E ela vai
ser diferente, ela vai enfrentar. Ela vai virar Primeira Ministra, se ela quiser. Mas a maior parte
das mulheres pode dizer “Eu queria virar Primeira Ministra”. Mas você não vai, porque o
primeiro cara que fizer uma fofoca pra detonar a sua carreira, você vai ficar toda em conflito,
em dúvida. Quando você ver os perigos que você tem que confrontar pra alcançar isso aí, você
não vai querer. Você vai achar que é muito risco para pouca chance de resultado. É isso que vai
acontecer com você.

A experiência da puberdade significa uma coisa para o macho da espécie humana, e


outra coisa para a fêmea da espécie. A prioridade número um do macho da espécie é: “Beleza,
o que eu quero do mundo? Agora eu vejo o mundo com outros olhos. O que eu quero do
mundo?” Aí ele olha: “Mulher! Tem uma coisa que eu quero do mundo: Mulher. Ser sábio?
Não sei. Ficar famoso? Não sei. Ganhar dinheiro? Tocar violão... tudo isso é legal. Jogar bola,
contentar meus pais... Mas o que eu quero do mundo? Mulher. Mulher é gostoso”. Ele tem
uma identificação sensorial imediata: o objeto que ele quer. Quando ele pergunta pro animal
dentro dele: “O que você quer?”. “Eu quero beijar aqueles bichos ali”. “E depois?”. “Depois é
outro problema. Vamos começar beijando.”. Essa é a resposta imediata dele. Essa é a pressão
instintiva ou animal mais forte no rapaz depois da puberdade. Primeiro porque ele está cheio
de testosterona. As mulheres não sabem o que é ter vinte vezes mais testosterona do que elas.
Vocês não sabem. Vocês pensam assim: “Ai, porque homem é tudo tarado”. Não, é porque nós
estamos afogados em testosterona. É simples assim. E se você tem dúvida – eu tenho uma
amiga que teve e eu disse assim: “Você vai lá na farmácia, pega um adesivo de testosterona,
põe no braço e no outro dia vai trabalhar, e aí vamos ver”. Ela falou o seguinte: “Cada macho
da espécie que passava do lado dava um efeito, cara”. Pois é, essa é a nossa vida dos 15 aos
75. Por 60 anos, todos os dias da nossa vida é assim: a gente tá sentado lá, pensando em
filosofia, Aristóteles, sabedora, Deus, não sei o quê, e aí passa uma fêmea da espécie e,
caramba, dá um negócio. É um fato. Você não está cheia de testosterona, então você não tem
essa pressão fisiológica imediata.

A mulher tem uma pressão mais forte do que o homem na direção de achar um
homem. A inclinação de uma mulher para procurar um macho da espécie é mais forte do que
a do homem para procurar a fêmea. Mas ela não é da mesma natureza. O cara é o seguinte:
“Não, eu queria jogar um futebol hoje, mas eu tenho que arrumar uma namorada. Eu queria
estudar para a prova, mas eu tenho que arrumar uma namorada.” Se você me disser que,
entre os 15 e os 25 anos, esse não era um dos mais sérios dilemas da sua vida, eu não acredito
em você. “Eu quero uma mulher pra beijar, abraçar e dormir com ela. E acabou. Depois eu
penso em outra coisa. Resolvo, tiro A na prova, arrumo um trabalho, ajudo os pais, me torno
uma pessoa santa, rezo, sou piedoso, ajoelho. Eu faço qualquer coisa! Eu aceito qualquer
preço desde que eu obtenha esse resultado!”. O sujeito pode ser psicologicamente
desinteressado para o sexo. Pessoas que receberam uma boa educação não ficam pensando
em sexo o tempo inteiro. Elas pensam em outras coisas da vida. Mas passou um bicho por ele,
ele pensa “Caramba, tem um cheiro diferente”. Vem imediatamente por causa do dado
sensorial.

A experiência primordial do macho da espécie humana é sensorial porque é uma


experiência que interfere com os objetivos. “Só tem uma coisa que me impede de ficar sábio:
Eu preciso beijar uma mulher. Se eu não beijo mulher eu fico muito deprimido e não dá pra ter
sabedoria, meu Deus!”. Se não existisse mulher no mundo, ele nunca sofreria, porque ele
nunca teria visto. Mas ele tá vendo. É um dos fundamentos pelos quais existe mosteiro: O que
os olhos não veem, o coração não sente – em parte. Mesmo o homem maduro – eu vou dizer
pra vocês, eu tenho 48 anos. Todo o dia, em algum momento do dia, isso interfere com o que
você tá fazendo. Você pode estar lendo o evangelho. No meio do versículo você pede uma
pausa e pensa “Se tivesse uma mulher aqui ia ser tão gostoso, cara. Será que a mulher agora tá
com paciência?”. Não é planejado, não é calculado: simplesmente veio. E como essa
necessidade sensorial se baseia no impulso, que é basicamente neuroquímico - você tá cheio
de testosterona, cheio de hormônio – a insatisfação com ela é um grande sofrimento.

Outra coisa que as mulheres têm que entender sobre os homens é o seguinte: quando
o cara não tem sexo é a mesma coisa que não comer, ou não dormir, ou não fazer xixi quando
você precisa. É que nem passar fome. É que nem estar morrendo de sono e você ter que
terminar o trabalho. Dói fisicamente. É um negócio puramente físico. Não precisa ter
intimidade nenhuma. Se eu for lá e for só gostoso, tá bom. Tanto é um fato que o macho da
espécie humana não precisa de muita intimidade, que tem muito mais prostituta do que
prostituto. Você não precisa de nenhuma intimidade com prostituta. Você vai lá procurando
intimidade? Você é bocó? “Não, eu quero que você me compreenda...” Você não tá com falta
de mulher, tá com falta de mãe.
Com a moça o que acontece não é isso. A moça tem lá seus objetivos. Ela não olha o
mundo e diz “A coisa que eu mais quero? Mais legal do mundo? Homem”. Não, não é a coisa
mais legal do mundo. A coisa mais legal do mundo é fazer alguma coisa. Ou ser médica, ou ser
professora, ou ter amigas, ou dançar. Fazer alguma coisa. Mas logo ela pensa: “Como a tribo
vai reagir?” Ela acha que a tribo vai falar: “Mas essa vadia que fica aí dançando, que fica se
vestindo desse jeito...”. O bicho dentro dela pergunta: “O que vai acontecer comigo se toda a
tribo me detestar ou for indiferente?”. Eu, sendo um exemplo bem típico de macho da
espécie, digo o que o animal dentro de mim responde diante da possibilidade de toda tribo se
voltar contra mim. Ele diz assim: Eu não vou morrer sozinho! Eu vou matar mais do que um! E
eles vão se foder!”. Essa é a reação normal de um macho da espécie. A da mulher é a seguinte:
“Se a tribo inteira se voltar contra mim, eu morri. Acabou. Fim. The End”.

A possibilidade, ainda que distante e remota, do ostracismo é o maior fantasma da


vida feminina. “Nós não queremos você no grupo. Você não”. “Por quê?” “Sei lá, por causa do
seu cabelo, porque você é filha do fulano, porque você,sei lá, gosta de Beatles... não queremos
você aqui. Você está fora da turma”. Isso é a coisa que mais interfere com os objetivos da
mulher, com o que ela quer fazer da vida. Se para o homem é falta de beijar mulher, é o “eu
quero que os meus sentidos se encham de feminilidade” a coisa que mais interfere, que mais
impede ele de fazer o que realmente quer, pra mulher não é isso, porque ela não está cheia de
testosterona. Para a mulher é o seguinte: por que você não está cheia de testosterona, você é
fraquinha, você é presa da espécie. Você tem medo de toda a espécie te detestar. E se toda
espécie te detestar, você morre.

Já para o macho, quanto mais macho você é, menor a possibilidade da tribo te


detestar. Porque a tribo tem medo de te detestar. Se a tribo te excluir, você volta como
criminoso, você volta como inimigo. Se você exclui um macho ele vira criminoso, ele não fica
choramingando num canto. Ele volta com droga, ele volta com fuzil, ele volta pra te atrapalhar.
Então a tribo como um todo diz: “O cara é chato? Tolera ele, porque se você excluir...”. E a
mulher? Se a gente excluir o que ela pode fazer de volta? Chorar. E se eu não ligar pra ela? Se
eu não me importar com ela? As pessoas não se importarem com a mulher é algo que intimida
o animal dela. Recriminarem, julgarem, falarem “Você não! Você não vale!” é a coisa que mais
atrapalha a mulher. Todos os dias acontece alguma coisa que leva a mulher a confrontar esse
estado. “Puts grila, o meu marido pediu pra eu fazer a maionese pra quando tiver o churrasco,
mas a mãe dele vai criticar a maionese, porque eu não faço a maionese boa”. Só com o olhar
ela vai dizer “sua maionese não acrescenta nada à tribo, nós não queremos você aqui. A minha
maionese é muito melhor. Era muito melhor que meu filho comesse a minha maionese que a
sua. Eu só te tolero porque eu sou uma pessoa superior”. Ela vai fazer isso com o olhar, o tom
de voz, a postura física e talvez ela use uma ou duas palavras, mas geralmente ela não precisa
de nenhuma palavra pra fazer isso. E isso vai ser uma faca no coração da esposa do cara. Uma
razão de profundo sofrimento. Ela sabe que ele gosta da maionese dela. Ela pensa “eu quero
fazer a maionese pra você, mas eu não quero fazer ela para a sua mãe”.

A maior parte do tempo, 90% das vezes, essas questões não aparecem na cabeça da
mulher como pensamentos explícitos. A mulher não tem uma máquina dialética para explicar
tudo o que ela sente. Aparecem como sentimentos confusos. “Por que você não quer ir no
churrasco da minha família?” pergunta o marido. A esposa responde: “Eu não quero ir e
pronto. Porque eu não quero”. “Você não gosta deles?” “Não é isso, é que AHHHHHHH!” e
então ela fica sofrendo. Ela não quer ir e não quer deixar de ir. Ela pensa: “Se eu não vou, eu
estou falando que eu não gosto deles, daí eles não vão gostar de mim. Se eu vou aí
AHHHHHH!”. O animal dentro dela está dizendo isso: “Você não pode hostilizar a tribo como
um todo”. Ela é que nem o padeiro que mora entre a delegacia e a quadrilha de traficantes.
“Eu só queria sair, fazer meu pão, ganhar meu dinheirinho e assistir TV quando eu voltasse,
mas dependendo de como eu falar bom dia para o criminoso, ele vai achar que eu to do lado
dos policiais, que eu sou informante. Dependendo de como eu falar com o policial, ele vai
pensar que eu sou criminoso, que eu também to traficando droga e escondendo nos pães”.

Então quando o homem está sob perigo de morte imediato e evidentemente maior do
que as suas forças, ele se vê na mesma situação que a mulher se vê todos os dias da vida dela.
Você está vivendo a vida que todas as mulheres, mesmo as que nasceram em berço de ouro,
estão vivendo todos os dias. O processo interno que está acontecendo nelas é esse aí. Elas
vivem em sofrimento. As mulheres sofrem mais que os homens. E isso pode ser muito nobre,
muito bonito. As mulheres podem falar: “É, realmente vocês têm que cuidar da gente”. Por
outro lado, a vida é melhor para nós do que para vocês. É melhor estar na minha condição do
que na sua. Sem maldade. Eu adoro vocês. Melhor coisa do mundo beijar vocês, abraçar vocês,
dormir com vocês, mas a natureza me beneficiou.

Desde a puberdade, todo dia eu me pergunto o que eu quero e o meu corpo fala para
mim: “vai lá e faz”. Só de vez em quando ele fala: “Cara, acho que isso aí é um pouco
perigoso”. Eu já apanhei de 20 caras porque era um pouco perigoso. Eu não deveria ter
provocado aqueles punks quando a gente estava em 3 e eles estavam em 20. De vez em
quando acontece. A minha estimativa falha porque eu sou ariano, eu sou muito audaz. Mas de
maneira geral, desde a puberdade, o homem sente mais liberdade para fazer o que ele quer
em relação à tribo e aos membros da tribo.

Tá na hora de tirar o lixo para fora. Por que são os homens que botam o lixo para fora?
Porque quando você for botar o lixo para fora, você será visto pelos vizinhos. O motivo é
apenas esse. Não é porque o lixo é pesado. Vocês acham que as mulheres gostam que você
tire o lixo porque o lixo é pesado? Não, elas gostam que você tire o lixo porque quando ela
tirar o lixo os vizinhos vão ver ela. E eles vão apontar ou para o lixo dela, ou para a roupa dela,
ou para o cabelo dela, ou para o jardim dela, ou para a grama dela, ou para a cerca dela... e
vão acusá-la. E você é o seguinte: “Eu to de cueca porque tá muito quente. Eu vou tirar o lixo
de cueca e se os vizinhos ficarem escandalizados, problema deles. Não estou nem aí. Danem-
se vocês. Hehe!”.

Isso é uma coisa que ao mesmo tempo fascina e irrita as mulheres em relação aos
homens. Elas olham e pensam: “Hoje ele foi lá e tirou o lixo de cueca, haha! Que legal! Eu até
gostei! Mas como é que você faz isso? Agora eu vou ser julgada e... Mas que legal poder fazer
isso!”. É algo fascinante e irritante ao mesmo tempo para elas. Você tem que entender que a
masculinidade é simultaneamente fascinante e irritante para a mulher. E tem que ser as duas
coisas. Se não for as duas coisas, você está diminuindo a sua masculinidade diante dela. Você
não está a diminuindo objetivamente, mas como apresentação no palco. Eu tenho ascendente
em leão, sei o que é ficar no palco. Você está diminuindo diante dela.
Quando a mulher olha isso no macho da espécie, ela vê o seguinte: “É, alguns desses
caras a tribo nunca vai expulsar”. O animal dentro dela diz: “Tá vendo aquele cara ali?
Briguento. Aquele cara meio malandrão. A tribo nunca vai expulsar. Porque ele faz um monte
de coisa que desagrada a tribo e olha, todo mundo fica quietinho”. Quais são os tipos humanos
masculinos pelos quais a mulher sente atração? Bandido, cara grosso, cara forte, cara rico, cara
poderoso. De todos esses caras você pode falar o seguinte: dificilmente a sociedade vai
expulsar. Se o cara é bonzinho e fraquinho, ela vai falar: “Não, se eles decidirem te expulsar
você tá no mato sem cachorro que nem eu. Eles expulsam nós dois sem pensar”. Então ela não
vai sentir atração por esse.

Do que é que ela precisa? O cara, pra fazer o que ele quer da vida, precisa de uma
coisa gostosa feminina para ele beijar e abraçar. Só. “Você não precisa me ajudar em nada.
Não precisa trabalhar pra mim, não precisa me sustentar, não precisa sofrer os meus
sofrimentos. Olha, eu já tive mamãe. Cansei. Mamãe encheu o saco. Não quero mamãe”. Não
faça da sua esposa uma mamãe. Não vá lá choramingar os seus problemas para ela. Ela vai se
sentir maravilhosa se você fizer isso. E ela vai perder toda a tara pro você. Porque agora você é
o filhote e ela é a mamãe. E dormir com seus próprios filhotes é meio estranho, ela sente uma
certa aversão se ela é uma boa mulher. Pode ser que coincida: você dê sorte de você ter a tara
de contar seus problemas para a mulher e a sua mulher ter a tara de dormir com os filhotes. Aí
beleza, tudo se resolveu: justiça cósmica. A compensação dos desequilíbrios é o equilíbrio
total.

O que você precisa é isso: uma coisa gostosa que alivie esse problema. O que a mulher
precisa não é isso. O que ela precisa é o seguinte: um aliado que a tribo não vai expulsar. E que
se a mulher disser: “Eu e o Fernando decidimos isso. Nós gostamos disso”. O que a tribo vai
fazer? “Vai lá e reclama com o Fernando”. Aí o Fernando tá lá coçando o saco, ouvindo essa
explicação. Você não vai se queixar do Fernando, não vai acontecer. No es posible. Você vai
pensar: “Essa relação deles não oferece perigo de vida para mim. Então eu não quero saber,
eles vão fazer o que eles quiserem da vida”.

Os dois dizem assim: “Olha, tem uma coisa dentro de mim que me incomoda, que me
impede de ser livre”. No caso do homem é puramente sensorial. “Olha, não dá para ficar me
concentrando no trabalho agora porque agora eu quero dormir com a minha mulher. Se passar
um tempo aí tudo bem, eu aguento e volto para o trabalho. Porque eu também esqueço fácil”.
A mulher é o seguinte: “Pode ser que a tribo me odeie e aí eu não posso fazer nada do que eu
quero. Porque sozinha eu não posso fazer nada. Se não tiver uma tribo, eu não posso fazer
nada do que eu quero. Eu não posso ser professora, eu não posso ser médica, eu não posso ser
dançarina, eu não posso ser mãe, eu não posso ser nada”. Ela não pode fazer nada sem a tribo,
e ela não pode fazer nada com a tribo, então ela precisa de um forte aliado dentro da tribo.

A coisa mais banal do mundo é você perguntar: “Mulher, pra que existe casamento?
Pra que você procura um homem? Pra que os homens procuram mulheres? Pra que os seres
humanos se casam?”. “Ah, é o companheirismo, é o apoio, é o suporte, é a intimidade...”.
Então, é tudo mentira. Isso aí é verdade para vocês. Quem está com medo precisa de aliado,
precisa de suporte, de apoio. Porque o bicho dentro de você não está desagradado
sensorialmente da vida. Ele está intimidado pela sociedade. O que você precisa? Apoio. Você
precisa de um amigo com quem você pode contar. Alguém vai te amparar da crítica da
sociedade, e ele mesmo não será um autor de crítica.

A coisa mais comum do mundo é o cara perceber, pela estimativa, que tem alguma
coisa incomodando a mulher dele. Aí ele pergunta: “Mulher, o que é que tá te incomodando?”.
A mulher sempre tem duas respostas. A primeira é “nada” (olhando para baixo, triste e
tímida); a segunda é “nada!” (incomodada com a pergunta). Com o segundo “nada” ela quer
dizer: “você deveria saber e deveria ter me protegido já. Tinha alguma coisa me oprimindo.
Alguém me incomodou porque eu tava usando esse vestido e você deveria saber disso e
deveria ter me protegido disso, pô! Que droga!”. É isso o que ela sente. Ela não pensa isso
conscientemente. A mulher responde “nada”, ou num tom para evocar sua compaixão
(primeiro “nada”), ou para evocar sua culpa, brava, como quem diz: “você é culpado, você já
deveria ter resolvido isso”. Dos dois jeitos ela está tentando, antes de dizer qual o problema,
angariar o seu apoio. Essas duas reações são um juízo moral sobre a sua reação futura. Diante
do primeiro “nada”, se você não apoiar a mulher, é porque você é um insensível e não a ama.
Por isso você está errado. Por que ela responde “nada” naquele tom? Simples. Porque ela tem
medo da sua reação crítica. Se ela olha para você e vê o macho da espécie, ela tem medo da
sua crítica.

Não é que ela não quer dizer qual o problema dela. Primeiro, o problema dela é
articulado. Não é um problema simples. Não é como se ela dissesse: “eu não queria vir aqui e
você me fez vir aqui”. É mais para “eu tinha que vir aqui, porque se eu não viesse aqui o
pessoal ia achar estranho. Mas, ao mesmo tempo, eu queria ficar só lendo um livro em casa.
Fazendo uma outra coisa. Estudando filosofia, rezando, pensando em Deus... mas eu tenho
que vir aqui!”. É um conflito interno entre várias pulsões, várias direções. E o que ela queria
mesmo é que você tivesse visto esse conflito antes de chegar a hora de ir, e pensasse: “cara,
isso aqui vai dar muito conflito pra ela. Eu vou inventar uma desculpa. ‘ó gente, eu não vou no
churrasco porque eu não to afim. Porque eu adotei o seguinte: todo domingo eu sou nudista,
então se eu for eu vou pelado. Vocês querem? Não? Então eu vou ficar em casa pelado. Não
me enche o saco. Eu adotei o nudismo uma vez na semana. Eu decidi. Agora é meu princípio
religioso. Não quero saber. Quem são vocês pra questionar?’”.

O cara pode inventar uma desculpa dele. E a mulher não vai estar 100% contente.
Porque ela queria a oportunidade de angariar a simpatia da tribo e talvez ela tenha perdido.
Mas ela vai te admirar por isso. Ela vai sentir um pouco de tara por você porque você fez isso.
“Cara, esse bicho é macho”. Não é que ela vai gostar. Mulher nunca gosta de nada. Lembra
daquela coisa que a gente falou de que todo mundo é crítico? Mulher é dez vezes mais. É
muito raro mulher ficar contente. O importante não é você fazer coisas para contentar a sua
mulher. O importante é que você faça coisas para sua mulher querer ficar com você. Olhar
para você e falar “caramba, esse bicho é macho. Esse bicho é garantido”. O animal dentro dela
deve sentir-se amparado até o ponto de, com alguns anos de relacionamento, ela olhar e dizer:
“se a sociedade inteira nos odiar, mas eu tiver você ao meu lado, valeu! A gente vence!”. Ela
tem que sentir isso. É isso o que ela quer de um cara. Um cara que a faça sentir isso.

É por isso que é tão fácil para uma mulher sentir atração por um cara que tem poder
político, ou poder econômico, ou riqueza, ou força física, ou é bruto e não respeita nenhuma
convenção. Porque tudo isso são indicadores externos de que talvez seja fácil para esse cara
ser independente da tribo e a tribo ficar quietinha diante dele.

Aluno: O homem não deve evitar tentar contentar ela sempre?

Não, você não pode tentar contentar. É impossível contentar a sua mulher sempre. Se
você tentar contentar a sua mulher sempre, o relacionamento acabou. Nunca mais você vai
dormir com ela. Você pode contentar a sua mulher ou dormir com ela. Você tem que escolher.
É mortalmente sério. Você tem que apoiar a sua mulher naquilo que você vê que são os
desejos legítimos dela. As ânsias legítimas dela. Quais são as coisas que ela quer fazer que você
fala: “cara, isso não é imoral. Deus não vai odiar a gente se você tiver liberdade para fazer isso.
Mas a sociedade vai criticar a gente. Ou a mãe dela, ou a minha mãe, ou o seu pai, ou a sua
vizinha. Então deixa eu ver como eu vou fazer pra ela poder fazer isso e eu dou um pé na
bunda desses caras”. Isso você tem que fazer pela sua mulher. Todo dia você tem que tentar
entender qual foi o labirinto que ela navegou hoje, quem é o dragão que aprisionou ela hoje. A
mulher sempre tá presa numa torre com um dragão. E o dragão é a vizinha, é sua mãe, a mãe
dela, é a revista Cosmopolitan, a revista Nova. O dragão é qualquer ente humano com o qual
ela entrou em contato. E você é quem tem que matar o dragão. Porque para você é só um
cara, é só a fulana, é só a sua mãe. Você pode arriscar conflito com a tribo muito mais que ela.

O homem pensa “Eu tenho que contentar a mulher”. Não. Primeiro que é impossível.
Você não pode contentar um bicho que tá com medo. O que ele quer é um mundo que não
tenha medo. Um mundo que não tenha perigos. Eu quero a utopia. Eu quero o céu. O único
jeito de contentar a mulher é no céu. Na terra não dá, porque o problema da mulher é
diferente do seu. O seu é o seguinte: a vida às vezes é sensorialmente insatisfatória. As coisas
poderiam ser mais gostosas e elas não são tão gostosas. Tá bom. Aí você trabalha mais e aí
você ganha mais dinheiro e a vida fica mais gostosa. Pronto. Resolveu. A maior parte do tempo
na vida do homem o problema não é que você está intimidado pelas outras pessoas. Se você
quer pedir um aumento de salário, claro que é uma situação difícil para todo mundo. Mas com
mais frequência um homem vai chegar e “quer saber, eu vou ficar um mês enrolando aqui para
enganar o chefe e aí eu vou pedir aumento de salário. Se não eu to saindo fora”. Uma parcela
significativa dos homens vai fazer isso. Uma parcela insignificante das mulheres vai fazer isso.
Ela vai, por vários meios indiretos, tentar mostrar que ela é merecedora de um aumento. E o
chefe não vai ver nenhuma dessas mensagens indiretas. Porque ele não depende de
interpretar mensagens indiretas para sobreviver na tessitura social. Ele é macho da espécie.
“Se ela quisesse um aumento, ela pedia. Tá com medo do que? Não vou bater nela se ela pedir
um aumento”. Ela quer o apoio geral.

Essa é a razão pela qual eu acredito mais na piedade masculina do que na feminina.
Piedade religiosa. A religião para a mulher muitas vezes é usada apenas como uma garantia de
que “não tem cabimento você fazer isso! Olha, não sou eu quem estou exigindo isso do meu
marido. É todo o direito, é tudo que é certo, são os mandamentos de Deus que exigem que
você não faça assim!”. A mulher é ótima para atacar em grupo. Mulher só ataca em bando. E o
bando pode ser moral. Raramente a mulher vai chegar para você e vai dizer: “não faça isso que
me incomoda”. Não. Ou ela vai chorar e dizer que você é mau e insensível por fazer aquilo. Ou
ela vai dizer que “Não tem cabimento! Onde já se viu tratar uma mulher assim!”. Não é que
nem você. Você diz o seguinte: “Mulher, não faça isso que isso me chateia. Isso me irrita. Não
gosto”. Aí a mulher ouve isso e pensa “ah, isso não é problema. Coisas que eu não gosto eu
tenho que tolerar o tempo todo”. Porque se você é bicho presa você tem que tolerar coisas
que você não gosta o tempo todo.

Então a queixa do marido não parece importante. Ela diminui dos ouvidos da mulher.
A mulher pensa assim: “ah, meu marido não fala...”. Não, o seu marido fala tudo o que ele
quer de você. Mas ele não fala nesses termos. Ele não faz toda uma história. Não tem uma
narrativa complexa com personagens, articulações e “que não tem cabimento. Eu estou
sofrendo tanto, me ajude...”. Não, para ele é o seguinte: “tem isso aqui que eu não gosto em
você”. Se a mulher disser: “opa, tá bom. Eu não vou mais fazer isso”, ele ganhou muitos pontos
no coração dela. Porque ele não está intimidado pela tribo. A única coisa que o oprime é o
desejo de que a mulher seja mais gostosa como mulher. É a única coisa que o oprime
realmente, todos os dias. Ele quer ter uma mulher que seja uma fonte de satisfação para ele.

Entenda a primeira grande diferença entre o homem e a mulher no caminho do


matrimônio: a mulher entende o matrimônio e qualquer relacionamento amoroso como uma
troca de apoio mútuo para aliviar os sofrimentos, para que aguentemos a vida. Porque a vida é
melhor quando nós partilhamos os nossos sofrimentos e podemos contar um com o outro nas
dificuldades. É conforto no sentido de alívio. Para o homem é o seguinte: se o homem espera
isso de você, ele não é um bom homem. Coitado. Ele já está viciado. Já está deformado. Como
o homem encara o relacionamento amoroso? Relacionamento amoroso é troca de prazeres. A
gente se relaciona com as outras pessoas para que? Para a vida ficar mais gostosa.

Todo ser humano é burro (todos os seres são burros, exceto Deus), mas todo mundo é
bonzinho. Nisso eu acredito. As pessoas falam “nossa, os seres humanos são maus, a fera mais
bruta...”. Não, todo mundo é bonzinho, todo mundo é legal. A maior parte das pessoas é legal.
Quer ver uma prova? A mulher arruma um noivo. O que ela quer dele é apoio. E o que ela
oferece em troca? Apoio! Aquilo que é valioso para ela, ela oferece para ele. “Me conta os
seus problemas que eu vou te amparar, eu vou te confortar, eu vou te dar confiança. Eu quero
te apoiar também!”. O cara arruma a noiva e pergunta: “o que eu quero? Prazeres!”. E ele
oferece prazeres também. Ele é legal com ela.

Então todo mundo paga na mesma moeda. Todo mundo é bom. Só que todo mundo é
bom e idiota. Porque essa moeda que você tem aí não vale nada naquele país ali. Quando seu
marido olha para você e ele olha a sua disposição de apoio, ele pensa “ah, que bonitinho. O
bichinho me apoiando... hehe, valeu a intenção”. Se tem alguma coisa que perturba o seu
marido, que o deixa realmente inseguro em relação à vida, é incalculavelmente mais provável
que ele vá contar para um amigo do que para você. Porque ele não precisa de mamãe. Ele
precisa de um cara que é naquele ponto mais forte do que ele. Já viu que mulher tem ciúme de
amigo? Alguém aqui já notou esse fato? Mulheres têm ciúmes do seus amigos. Por que elas
têm ciúmes dos seus amigos? Porque você conta mais com o apoio deles do que com o apoio
dela. Porque quando você tem problemas é pra eles que você conta. Ela é a última a saber. E
isso deixa ela insegura. “Se você não conta comigo”, pensa a mulher, “quer dizer que você não
precisa de mim. Se você não precisa de mim, você pode me largar a qualquer momento”. Isso
deixa o animal dentro dela inseguro.
Aprendam o seguinte: isso é um instinto errôneo. Isso é o mau instinto. Tem o bom
instinto: procura o cara que vai te dar apoio. Tem o mau instinto: tentar pagar esse apoio com
apoio. Porque ele olha para você e pensa: “Olha esses ombrinhos aí. Você vai me deixar
seguro? Mas nem que a vaca tussa! O que me deixa inseguro é achar que a gente vai morrer.
Se eu contar com a minha mulher a gente vai arrancar os cabelos, vai multiplicar o problema
por dez!”. “Puts, arrumei uma dívida aqui que eu acho que não vou poder pagar”. Você vai
contar pra sua mulher? Não! Você vai contar para o seu melhor amigo que é sábio em coisas
financeiras. É pra ele que você vai contar. Ele pode te oferecer o apoio necessário. Ela não
pode te oferecer apoio nenhum. Ela só pode oferecer conforto psicológico. Mas quem precisa
de conforto psicológico é bebê. Entendeu? Eu não sou bebê. Se eu precisasse de conforto
psicológico a vida toda eu continua morando com a mamãe.

Não seja mamãe do seu marido. O marido chegou? Estavam os dois trabalhando e aí
vocês se encontraram? Não pergunta como é que foi o dia dele. Não pergunte! Cala a boca!
“Ah amor, como foi seu dia?”. Não! Cala a boca! Fecha a boca. Pega esses lábios aí e vai lá dar
um beijo nele. “Como é bom encontrar você de volta”. Expressa sensorialmente “como é
gostoso que você está aqui de volta”. O cara vai ficar “caramba, eu sou o melhor. A minha vida
é maravilhosa! Eu tenho tudo o que eu quero!”. Porque se você perguntar como foi o dia dele,
ele vai falar: “ah, foi bom. Ah, foi ruim. Ah, sei lá, teve um cara chato. Me dá uma cerveja aí.
Passou”.

Ele tá cheio de testosterona. Ele tem o dobro da massa muscular e da massa óssea que
você. Ele tem o dobro da capacidade respiratória. Embora o mundo tenha incomodado ele e
ele possa estar pensando “cara, pode ser que eu perca o emprego, pode ser que eu perca
dinheiro, que todo mundo me odeie... É, pode ser, mas meu corpo não tá muito perturbado
com isso”. Não é profundo, entendeu? Não chega nas raízes do meu ser. Não afeta a minha
carne. Afeta apenas o meu espírito. Não me dói na carne. Eu não preciso de costura. Não me
feriu a carne. Sabe o que me feriu a carne? “Olha, eu passei o dia todo encontrando homens
que eu não queria encontrar porque homem é fedido e chato e sempre tem que ficar medindo
pra ele não abusar de mim, tem que mostrar pra ele que eu sou o macho alfa do território,
então tem um elemento de conflito, e as mulheres, quando passavam perto de mim e eu
sentia vontade de beijar, abraçar e dormir com elas, eu não podia fazer isso. Então isso foi o
que me atrapalhou o dia todo”. Você quer saber o que foi o dia do seu marido? Foi isso.

Ele tá com o dia inteiro acumulado de “chega de macho que eu tenho que confrontar e
chega de fêmea que eu não posso abraçar”. Ele tá por aqui disso daí. Se você chegar e disser
“oi, meu amorzinho” e abraçar ele, você vê o sentido da vida do animal dentro dele. O que dá
sentido pra vida dele é se ele tá buscando sabedoria, riqueza... aquele negócio lá. Mas o que
dá sentido para o animal dentro dele é ele chegar em casa e ter uma mulher que é toda
docinha pra ele e se oferece sensorialmente para ele. E ele pensa “caramba, que gostoso”.

A mulher não faz isso por dois motivos: um, ela não acha que isso é precioso. Ela pensa
“cara que quer me beijar tá cheio por aí. Cara que quer me apoiar quando eu tenho
problema...”. Entendeu? Carinho físico é barato no mercado feminino. Vocês sabem disso. Se
você sair na rua procurando alguém pra te beijar, é mais fácil para uma mulher ou para um
homem? Não precisa muito raciocínio. Então isso é barato nesse mercado. Então o cara vai te
beijar, e quando você for contar seus problemas e precisar de apoio ele vai dizer: “ó, te vejo aí.
Foi muito bom, tá? To partindo pra próxima”. Então o apoio vale muito nesse mercado, porque
é raro. Carinho? Vale pouco, porque é abundante.

No nosso mercado é o contrário. A coisa mais fácil do mundo é eu fazer um leque de


amigo e apontar: “esse aqui me ajuda com dinheiro, esse aqui me ajuda com saúde, esse aqui
me ajuda com sabedoria, esse aqui me ajuda com piedade... cada um me ajuda com uma
coisa”. É a coisa mais fácil do mundo. Todos os problemas que a vida pode oferecer tem algum
amigo que é legal e pode me ajudar se eu não aguentar o problema sozinho. A maior parte dos
problemas eu aguento sozinho. E aqueles que eu não aguentar, eu tenho algum amigo que
pode me ajudar. E sabe o que ele vai me pedir em troca? Sei lá, sair com ele e uma cerveja. É
só falar que tem umas mulheres bonitas ali na rua.

E você, mulher, até pode oferecer algum apoio. Só que o preço vai ser muito alto.
Porque aí vai inflacionar esse negócio. A sua mente tá assim: “legal, esse cara tá confiando em
mim”. Mas o animal dentro de você diz “ih, esse animal aí é só um filhotinho”. Então você vai
ser minha terapeuta, minha mamãe. Toda mulher quer ser mamãe, terapeuta e enfermeira.
Elas adoram isso aí, e elas querem ser isso do marido. Agora, você pode aceitar isso, só que ela
não vai dormir com você. Vai chegar no dia seguinte, você vai querer e ela vai dizer: “não, não
to afim. Não tô no clima”. Então você não pode pedir apoio. Você tem que dizer “não, eu não
preciso do seu apoio. Você não tem apoio pra me oferecer. Eu sou magnânimo, e eu te apoio”.
Essa é a verdade sobre a vida.

Pensa bem: que problema a vida pode jogar nos ombros do seu marido que vai
melhorar a vida dele ter o seu apoio? Se ele tem problema financeiro, ter mulher ajuda ele?
Desde quando ter mulher ajuda um cara que tem problema financeiro? Só atrapalha! Se o
problema for “eu trabalho demais e eu quero trabalhar menos, ganhar menos dinheiro e
estudar mais e procurar mais a sabedoria”, ter mulher ajuda ele? Se o problema é que ele tem
que trabalhar mais pra ganhar mais dinheiro, ter mulher não ajuda ele. Se o problema é que
ele tem que trabalhar menos porque ele precisa de mais folga, ter mulher não ajuda ele. Se o
problema dele é que ele gosta de jogar futebol, ou assistir jogo de futebol, e ele tem mulher,
ter mulher não ajuda ele. Não tem nenhum problema que a vida pode jogar nos meus ombros
que ter uma mulher vá me ajudar. A única vantagem objetiva é que a vida com mulher é mais
gostosa que a vida sem mulher. Porque quando ela sorri para você, quando você abraça ela e
ela abraça de volta, essa é a sensação de que você conquistou o objetivo da vida. Se você me
liberta da minha carne, eu sou espírito. E o espírito é livre.

O que fala na bíblia? “E então marido e mulher serão um só espírito”. Não. O santo e
Deus serão um só espírito. Marido e mulher serão uma só carne. Sua tarefa como marido é
curar a carne da sua mulher para que ela seja livre para buscar Deus. E a tarefa da mulher é
curar a carne do seu marido para que ele seja livre para buscar Deus. Só que a deficiência da
carne dele não é a deficiência da sua carne. E deficiência da carne dele é que ele é forte e é
cheio de testosterona. A força é uma desvantagem aqui. Ela tem um efeito colateral. Ela te
deixa tarado. Ela te deixa tarado e cansado.

[Dirigindo-se a um aluno] Você é engenheiro, certo? Suponha que eu vou contratar um


engenheiro eletrônico. Mas eu não te conheço. E alguém fala: “Olha, tem o fulano, você pode
ir lá tentar falar com ele”. “Você conhece bem ele?”. “Conheço bem”. Opa, melhorou. Então
eu vou lá fazer uma proposta para você, mas o animal dentro de mim diz o seguinte: “esse
cara é um sacana e ele vai tentar me enganar”. E eu tenho que, no curso da nossa negociação,
mostrar o seguinte: “se você tentar me sacanear eu vou cortar as suas bolas”. E você tem que
fazer a mesma coisa comigo. Toda interação masculina tem, no fundo, uma ameaça de cortar
as bolas. Lá, bem no fundo. Porque essa é a melhor garantia de que o cara não vai me
sacanear. E isso é exaustivo.

Aí você tá voltando do trabalho, depois de lidar com os caras pra não te sacanearem.
Aí você senta no ponto de ônibus e tem uma mocinha ali na sua frente e você pensa:
“caramba, eu não preciso ameaçar cortar as bolas. Ela não tem. E ela não pode cortar as
minhas, porque eu seguro ela e acabou”. Só esse alívio já é gostoso. Qualquer pessoa que
tenha alguma sensibilidade, fala: “cara, eu adoro que tenha mulheres no ambiente. É muito
gostoso que tenha mulheres no ambiente. Só que elas têm que ficar quietas. Elas podem
cantar. Mas falar? Moderadamente”. Isso já dá um alívio. Agora, se tem homens e mulheres e
é todo mundo solteiro, puts grila! É a coisa mais chata do mundo.

Por que arrumar namorada é a pior coisa do mundo? Porque eu tenho que ir lá, aí eu
tenho que estufar o peito, aí eu tenho que impressionar as meninas, aí tem os caras que eu
não posse deixar eles me humilharem, e aí eu tenho que competir com eles... puts grila! Que
coisa chata! Como era bom no tempo das cavernas que a gente ia lá na família dos caras e via
“ó, o pai dela já tá velhinho”, você vai lá com uma clava, bate em todo mundo, pega ela pelo
cabelo e leva. “Vem aqui se você tem problema!”. Como era fácil. Como era bom! Bons
tempos! Jamais nós retornaremos a esse ideal!

Estar na presença física de mulher é gostoso. Estar na presença física de homem é


chato. Fisicamente. A presença física dos seus amigos é legal porque ela não é uma presença
física, mas uma presença moral.

Aluno: Professor, no caso da mulher, ela poderia viver assexuadamente o romance.


Em que parte a pornografia compensaria isso [para o homem]?

Nenhuma! Só na parte visual. Perdão, visualmente compensa. Para o sentido da visão


isso aí é a mesma coisa. Mas quando as minhas mãos querem agarrar... “puts grila, isso aqui é
só uma tela! Não dá. Não é aquele negocinho gostoso, redondinho, cheiroso”. Sei lá. O dia que
eles inventarem a pornografia de cinco sentidos, aí tá todo mundo ferrado. A humanidade vai
se extinguir. A espécie vai se extinguir. Opa, agora terminou. Desliga. Off. Essa é a garantia da
nossa extinção. Não é inteligência artificial. Robôs. Não, é pornografia em 5D.

Aluno: Talvez, em certo sentido, a pornografia aumente essa insatisfação...

A pornografia aumenta essa insatisfação. Claro que aumenta. Porque você não é
exposto. Se você anda na rua e todas as mulheres parecem monginhas que você tem que
respeitar, é mais fácil você ficar “olha, pensa bem. Tenha dignidade humana. Aquilo lá não é
um pedaço de bife pra você ficar desejando”. Se você vai num mosteiro e tem lá as monjas
beneditinas, você vai ficar olhando “nossa, aquela monja é bem jeitosinha”? Não, você não faz
isso. Pelo menos você tenta não fazer isso. Normalmente você não tem esse pensamento.
Então a ausência da pornografia certamente ajuda em termos de pensamento. Ou, se não dá
pra ter ausência de pornografia, eu sou a favor do seguinte: nudismo total de todo mundo. Se
você ver um suficiente número de tetas feias, você vai ter mais autodomínio quando você ver
as tetas bonitas. É um fato. Porque estatisticamente você vai falar “isso aqui é um pouco
melhor do que não ter”. A impressão que ficou no seu subconsciente, a impressão imaginal é
que teta não é um negócio maravilhoso. É um negócio ligeiramente melhor do que a ausência
de tetas. Agora, se você só vê teta de atriz pornô, você tá ferrado. A sua inclinação natural é
querer tetas, e você só vê exemplares esculpidos artificialmente, criados pela arte, não pela
natureza... olha meu filho, não sei é muito favorável. Então o nudismo total, todo mundo
pelado, todo mundo índio, eu acho que neutraliza em parte. Embora tenha o seguinte: metade
da tribo que todo mundo anda pelado, todo mundo dorme com todo mundo. É sério. É pura
orgia. A outra metade pensa: “não, dá pra resistir a isso aí. Um dia ela vai ficar daquele jeito.
Hoje ela é assim, amanhã...”. Vai ficar moderado.

O principal problema que eu vejo na pornografia não é a exposição. É a gratificação


muito fácil. Muito rápida. Porque, cara, dormir com uma mulher dá trabalho. Físico. É mais
cansativo. Tem que pegar ela, ajeitar ela, abraçar ela, olhar ela, ver o que ela tá sentindo...
puts, cara. Dá um trabalho danado. Vocês sabem disso. É gostoso. A melhor coisa. A melhor
atividade física que existe. Eu acredito que não somente é a melhor sensorialmente, como
acredito que é a mais saudável que existe, pessoalmente. Mas, cara, é exaustivo. Mas agora o
cara vai se masturbar para uma pornografia... não dá trabalho nenhum!

Então, a primeira coisa que a mulher tem que entender é o seguinte. Presta atenção.
Para com essa queixa de “ai, mas assim eu me sinto um objeto”. Para com essa bobagem.
Deixa eu te explicar como é que funciona. Você só pode oferecer brincadeiras para o homem.
A notável exceção é assim: agora eu sou um cara com uma doença cardíaca e você é a melhor
cirurgiã cardíaca do mundo. Você não é uma mulher, você é uma cirurgiã. Esse é o único
momento em que eu vou olhar e vou concluir: “você tem mais para oferecer e eu preciso do
seu apoio. Tá aqui o seu dinheiro. Você merece o seu dinheiro”. Aí é quando o seu sexo está
neutralizado pela urgência da necessidade de uma cirurgia. Se o problema é que tem um cara
que me sabotou no trabalho, eu não preciso de apoio pra lidar com isso. Um cara fez fofoca
contra mim? Você acha mesmo que isso me incomoda? Hahaha. Cara, é ridículo!

A coisa mais engraçada é quando você está num grupo de amigos e amigas, aí você sai
do grupo e as mulheres começas a comentar todos os ataques e indiretas que as pessoas
fizeram. Aí depois elas perguntam: “você viu?”. “Pff, não vi nada! Isso não são ataques. Pra ser
uma ataque tem que doer, tem que fazer você sofrer, tem que fazer você não conseguir andar.
Ataque é o seguinte: você dá um soco no saco do cara e ele não consegue levantar. Isso é um
ataque. Indiretas sociais... porque não gostou da camisa... porque o outro é pobre... Pfff!” O
cara que começar a ligar muito para isso, cara você tá se feminilizando. Vai praticar um boxe e
arruma umas brigas. Você tem que ficar menos sensível.

Então você tem que entender isso. O homem não precisa, de modo geral, do apoio da
fêmea da espécie como fêmea. Claro que você não é apenas uma fêmea da espécie. Você é
uma pessoa. Um indivíduo humano que tem certas virtudes, certos conhecimentos. Existe uma
dimensão interna pessoal em você, e um outro ser humano pode precisar dessa dimensão
interna e do apoio dessa dimensão, dessa personalidade. Dos atributos pessoais, suas virtudes,
seus sentimentos, seus conhecimentos, suas crenças. Mas ele não vai precisar disso porque ele
é seu marido. Isso não vai deixar ele próximo de você como marido. Depois de uns dez ou
quinze anos de casamento, existe uma amizade entre o homem e a mulher nesse plano
pessoal, humano. Eles conversam sobre coisas humanas em abstração do fato deles serem
macho e fêmea. Se a questão de macho e fêmea está resolvida. Se a questão de macho e
fêmea não está resolvida, eles sentem uma barreira intransponível entre eles dois. “Eu amo
essa pessoa, mas é impossível entrar em contato com ela. É impossível me comunicar com ela,
me fazer entender, ou entendê-la”. Isso não é porque um desprezou os atributos pessoais do
outro. É porque você não cuidou da carne do outro, e vocês não se tornaram uma só carne.
Vocês tão fazendo um tremendo esforço para se tornar um só espírito e isso nunca vai
acontecer. Você pode, na melhor das hipóteses, se tornar um só espírito com Deus, lá no céu.
Com a sua mulher ou com seu marido não vai acontecer. Vocês podem ser espíritos muito
próximos um do outro, espíritos irmãos. Feitos um para o outro. Mas não um só. O que vai unir
vocês é curar a carne um do outro. É, depois de cinco, dez anos, o cara saber o seguinte: a
minha vida foi livre de sofrimento porque a minha mulher sorriu pra mim todos os dias, me
beijou todos os dias e dormiu comigo toda a vez que eu quis.

Aí quando o cara já tá assim, ele tá com uns quarenta e poucos anos e vem uma de
vinte se oferecer pra ele, porque ela vê a confiança que ele tem na vida. “Esse cara aí tá
resolvidão”. Ele vai olhar e ver que ela é até mais jeitosinha que a mulher dele, que também já
está lá com uns quarenta. Ele vai olhar e vai pensar: “vai que é uma louca que vai dormir
comigo três vezes e vai começar a fazer loucura. E aquela outra que sempre me ofereceu isso...
como eu posso machucar ela?”. A sua carne não quer ferir ela. Porque a sua carne está muito
contente com ela.

Agora, tem o seguinte. Você ofereceu apoio. Todo o apoio. Apoio psicológico,
conversar, lavar a roupa, lavar a louça, cozinhar, cuidar dos filhos, ler historinha para os filhos.
Você fazia todo o apoio logístico da vida do cara. E você não dormia com ele quando ele
precisava. Ele pensa o seguinte: “eu não tenho esposa. Eu tenho uma boa empregada, eu
tenho uma boa cozinheira, eu tenho uma boa mãe, mas eu não tenho esposa”. A primeira mais
jeitosinha que se oferecer para ele, eu digo: vai lá cara. Você merece.

Do mesmo jeito o homem. Ele pode ser carinhoso, afetuoso, e elogiar, e falar “você é a
coisa mais linda do mundo, você é maravilhosa, uma coisa divina. Eu te beijo, eu beijo o chão
em que você pisa...”. Nada disso vai te ajudar. É melhor você ser um grosseirão com a sua
esposa e ficar atento às narrativas, às articulações entre ela e as outras pessoas que estão
oprimindo ela. E libertar ela dessas opressões. Descobrir o que ela realmente quer, e ajudá-la.

Uma mulher pode passar uma semana profundamente infeliz porque tinha um dia em
que ela não queria cozinhar. Porque na terça-feira ela não queria cozinhar. Ela não tava a fim
de cozinhar. Mas ela cozinhou, ou porque o bicho dentro dela falou: “mas daí o seu marido vai
ficar chateado”. Ou: “mas aí o seu marido vai comentar com a mãe dele”. “Não, a gente pediu
pizza na terça porque a Mariana não cozinhou...”. “A Mariana não serve para nada”. Só o que
ela queria era o seguinte: “eu não estou a fim de cozinhar, eu estou a fim de pedir uma pizza
porque eu estou a fim de ler um livro, ou de assistir um filme, ou de dormir, ou de dançar, ou
de dançar, ou de não fazer nada!”. Mas ela não consegue, ela não conseguiu. E você tem que
saber isso, porque você é um idiota que vai comentar com a sua mãe, ou com a mãe dela, ou
com a vizinha, ou com as amigas, que ela não cozinhou. Quando você não quer cozinhar, você
diz o seguinte: “eu não vou cozinhar, eu vou pedir um hambúrguer”. “Ah, mas é a sétima vez
que você vai comer hambúrguer”. “E daí? Dane-se. Vou morrer de comer hambúrguer. Vou ser
soterrado em hambúrguer! Dane-se o resto do mundo!”. Ninguém critica o cara. Você chega
na casa do cara e só tem hambúrguer e miojo. Ninguém vai acusar o cara. E daí, cara? Faz na
sua casa o que você quiser. “Eu só frito ovo quando eu quiser. Se não eu compro ovo já frito. E
eu escondo a sujeira quando eu vou receber uma mocinha. Porque esse lugar aqui só serve pra
duas coisas: dormir e dormir com mocinhas”.

Você pode dar todo o apoio que você quiser. Não vale nada. Todas as mulheres viram
para mim e falam: “não, mas com o meu marido a gente tem uma relação diferente, porque a
gente tem essa conversa franca e a gente dá esse apoio”. Seguinte, presta atenção: seu marido
ou vai te trair, ou ele será infeliz. Ele morrerá infeliz com a esposa. Presta atenção: ou ele vai
morrer frustrado com a esposa, porque ele não tinha esposa, ou ele vai te trair. Não tem uma
terceira alternativa. Não tem! Não existe. No ecziste. Você está na terra. Não é o céu.

E a sua mulher é a mesma coisa, cara. Você pode ser carinhoso, você pode dar
presente para ela, pode comprar coisa para ela, falar que ela é maravilhosa, falar que você
ama ela, planejar férias com ela, do jeito que ela quer, comprar cortina do jeito que ela quer,
gastar todo o seu dinheiro do jeito que ela quer. Você pode fazer tudo. Se você não ajudou ela
a navegar o labirinto social, a ser livre de críticas, você não fez nada por ela. Você não
melhorou a vida dela em nada. É mais difícil ela te trair. Por que é mais difícil ela te trair?
Porque a mulher é moralmente superior? Não. Porque ela tá com medo do mundo. Vou
dormir com outro cara agora que vai fazer pior do que esse? Agora, se um cara perceber isso aí
nela e for ombro amigo, entender os dilemas dela, se ele quiser dormir com ela ele dorme com
ela. Pode ser sua mulher há vinte anos. Se ele der o apoio que você deveria ter dado e ele
quiser dormir com ela, ele vai dormir com ela. Porque ela está só. Ela se sente só. Se ela tem
carinho, tem dinheiro, tem uma cortina que você comprou, o seu trabalho... ela ainda assim
está só.

E do seu marido, saiba o seguinte. Você pode falar: “eu tenho confiança total em você,
nós temos uma partilha, uma vida, e o que a gente vai fazer esse ano...”. Você pode partilhar
tudo. Seu marido está só. Não! Ele não está só! Sabe porque ele não está só? Porque ele tem
muitos bons amigos. Ao contrário de vocês, que têm poucas boas amigas. Porque as amigas de
vocês são apenas para conforto mútuo. “Ah, a vida é dura e é ruim, e ninguém deixa a gente
fazer o que a gente quer, e ninguém deixa você fazer o que você quer também e, puxa vida,
que bom que eu posso confiar que você não vai contar as coisas que eu contei para você para
os outros. Você não é uma traidora”. A melhor amiga da mulher é uma outra mulher que
simplesmente não é uma traidora, não é uma víbora. Isso qualifica uma mulher para ser
melhor amiga.

Isso jamais qualifica um cara para ser um bom amigo. Não, cara. Você tem que ser
legal em alguma coisa. Não ser traidor? O quê? Isso é pra você ser cidadão. Pra eu não chutar o
seu saco. Se você quer ser meu amigo você tem que ser legal em alguma coisa, tem que fazer
positivo. A gente gosta do mesmo time, ou dos mesmos autores, ou das mesmas músicas, ou
do mesmo tipo de mulher. Tem que ter alguma coisa legal acontecendo quando a gente senta
para conversar. Positivo. Entendeu?

A amizade da mulher não. Primeiro é menos. A maior parte das amigas dela é assim:
“ai, querida...”. E pelas costas: “aquela vadia...”. A maior parte dos caras é o seguinte: “e aí
vagabundo”. E pelas costas: “pô, aquele cara é meu chapa”. Essa é a diferença. Amizade é fácil
para nós. Amizade é fácil por quê? Só tem um motivo. É o seguinte: “olha, eu posso brigar com
a tribo, mas eu não quero. Eu gosto da tribo. Então eu não quero que a tribo brigue comigo. Eu
posso, mas eu não quero. E esse cara aqui é chapa. Se a tribo vier brigar comigo, ele vai ficar
do meu lado”. O amigo aumenta o grau de resistência à hostilidade do mundo.

Uma amiga? Pfff. Não oferece nada. Ela oferece choro. Oferece abraço pra confortar. A
gente chora junta. A amizade do homem para a mulher tem um grande valor. Se ele é capaz de
criar um relacionamento em que ele vai conseguir extrair dela os problemas, fazer ela falar
como foi o dia dela... o cara sim deve perguntar! Você recebeu os seus beijinhos, os seus
abraços... agora vai lá e pergunta: “e aí, amor. Como é que foi o dia? Conta aí”. E presta
atenção. Ela vai contar uma história que envolve a vizinha da amiga da empregada da
funcionária da médica dia tia da fulana. Na minha imaginação isso é mais ou menos o mesmo
que um verme insignificante. Essa pessoa não existe. E ela vai contar uma história articulando
tudo isso aí. Quando chegar na segunda pessoa que você não sabe quem é, você vai perder
todo o interesse. Mas você tem que entender o seguinte: ela tá contando essa história porque,
no meio dessa turma toda, alguém, de algum modo, impediu ela de fazer o que ela queria, ou
fez ela se sentir constrangida de fazer o que ela queria. Você não tem que entender a história.
Você tem que entender isso. Você tem que descobrir isso e pensar: “hm, beleza. Deixa eu ver
se tem alguma coisa que eu posso resolver com baixo custo”. Quer dizer, você não vai dar um
tiro na mãe dela porque a mãe dela incomodou ela, nem na sua mãe. Então tem que ser algo
de baixo custo. Posso fazer algo com baixo custo? Não. Mas eu posso responder: “poxa vida,
foi isso que aconteceu, assim, assim, e você se sentiu mal...”. E ela vai dizer: “caramba, você
entendeu!”. Se você falar: “pô, mulher, não quer fazer maionese, não faz...”, ela vai dizer:
“não é por causa da maionese! Você não entendeu nada! Você não me entende!”. Não pensa
na maionese. Pensa em todo o cenário humano que oprimiu ela, entende esse cenário, vê se
tem alguma coisa que você pode fazer, como: “agora é o seguinte: o fulano eu não convido
mais. Porque eu não gosto. Porque você é feio. Porque você é careca. Sei lá. Porque você é
comunista. Porque você é meio gnóstico”. Inventa qualquer desculpa. Se tem alguma coisa que
você pode fazer que tenha um baixo custo, faz. Se não tem nada que você possa fazer, você
pode mostrar que você entendeu o problema e confortar ela. E falar: “cara, isso não vai acabar
com a gente. Isso não vai matar a gente. Na próxima vez a gente dá um jeito”. E ela vai sentir:
“é, eu acho que vai dar pra gente dar um jeito”. O animal dentro dela vai falar: “a gente não vai
morrer por causa disso. Agora eu tenho certeza que a gente não vai morrer por causa disso”.

Cara, você faz isso para a mulher e ela acha que você é um deus. Você é uma
divindade. “Ah não, é difícil entender as mulheres”. Não, não. É a coisa mais fácil do mundo
entender as mulheres. Você tem que entender mentalidade de presa. O que oprime o bicho.
Você não tem que entender o que ela quer. Você tem que descobrir quais foram os fatores
que a impediram de fazer. Oitenta por cento do tempo a mulher está disposta a desistir do que
ela quer, desde que parem de incomodá-la. Desde que parem de encher o saco. E a mulher
deixa de fazer o que ela quer muitas vezes para que ninguém encha o saco dela. Só que isso é
muito frustrante na vida. Então o cara existe para alargar esse espaço social dela. Para que
com menos frequência ela tenha que deixar de fazer o que ela quer fazer.

Mulher é igreja. Não esqueça do que São Paulo fala: mulher é igreja. É uma assembleia
de pessoas. Não é uma só pessoa. Tem uma assembleia: tem ela, a sua mãe, a vizinha, a amiga,
a tia da prima da médica, da empregada da sobrinha-neta de não sei quem. Todo mundo tá lá
dentro oprimindo. Se você casou com uma boa mulher, uma mulher decente, lá dentro dessa
cabecinha, nessa igreja, tem uma princesa. Mas a princesa tá oprimida por toda essa tessitura
social. E ela só queria fazer coisas boas e próprias de princesa. Coisas boas da vida.

Aluno: Tudo isso faz completo sentido. Eu me pergunto quanto que a nossa cultura...
eu tenho a sensação de que a cultura na qual eu cresci, tudo o que me falaram desde
pequeno, vai justamente ao contrário, no sentido oposto. Eu to me sentindo parecido com
uma mulher agora...

Ninguém te ensina isso. Isso deveria ser matéria no colegial. Matéria obrigatória. Você
vai casar. E sua mulher precisa disso. Seu marido precisa daquilo. Faz isso e serás feliz. Não
faça isso e serás infeliz. Ponto. Não tem discussão. “Ah, mas eu posso fazer tal coisa?” Não. As
coisas que você quer fazer para a sua mulher, não faça. Reprima, porque elas vão te
entorpecer, elas vão fazer você achar que você tá fazendo alguma coisa por ela. As coisas que
você quer fazer para o seu marido, não faça. Porque vai te entorpecer. Dê prioridade para o
que é prioritário. Agora, sobrou energia? Eu ainda estou disposto a fazer alguma coisa pra esse
outro aqui? Então agora faz o que é da sua telha. Mas é com o que sobrou de energia. A
energia vital tem que ser usada para fazer um negócio que vá fazer diferença.

Se você passar dez anos interpretando a sua mulher e lendo ela, e quando você puder
corrigir algo do mundo para facilitar a vida dela, você faz, e quando você não puder, você a
conforta, depois de dez anos a mulher beija o chão que você pisa. Se você falar para ela: “na
verdade eu não sou um ser humano, eu sou um ser semidivino. Eu sou filho de Zeus”, ela
acredita. Claro, você precisa ter um pouco de retórica. Mas ela acredita. Do mesmo jeito, se a
mulher é toda carinho, doçura, beijo, abraço e sexo pro cara todo o dia e ela falar pro cara:
“olha, eu não sou filha da fulana, eu sou filha de Vênus, eu sou um ser semidivino”. O cara vai
falar: “eu acredito. Eu sempre soube disso”. Por quê? Porque cura a carne. E a carne é aquilo
que nos fere. Aquilo que nos separa de nós mesmos.

O que São Paulo fala? Dentro de mim tem uma lei do espírito, mas tem uma outra da
carne que me separa disso. E o marido e a mulher eles podem amparar isso aí que separa o
sujeito dos seus objetivos mais nobres. Mas você não pode fazer isso aí seguindo os seus
instintos de ser aquilo que você quer. Porque o que vai acontecer é que o cara vai falar: “eu fiz
tudo e não recebi nada”. E o cara é a mesma coisa. Ele vai oferecer carinho, elogio e dinheiro
para a mulher e ela vai falar: “olha, eu fiz tudo por esse relacionamento e não recebi nada”.
Isso é o que frustra os casamentos.

Nós temos que entender o seguinte: o que o outro precisa como animal é
contraintuitivo para mim. E eu faço por uma escolha moral. A mulher tem que saber o
seguinte: “mas e eu não tenho o direito de só dormir com ele quando eu to afim?”. Olha, para
com esse negócio de direito. Você é um bicho. Bicho não tem direito. Bicho, ou faz coisa que
funciona, ou se fode. É assim que funciona o mundo dos bichos. Presta atenção: você quer que
seu marido fique contente? Você fez uma promessa: eu vou amá-lo e respeitá-lo. Amar e
respeitar um homem é o seguinte: eu vou oferecer carinho e sexo pra ele alegremente. Como
uma brincadeira. Não espere disso um momento de intimidade dele. Não, isso aí só tá
ajudando ele a viver. A mesma coisa com o cara. Como eu falei: quando chega o segundo
personagem da história, você acha que o seu marido está todo a fim? “Me conte essa história
muito intrigante, muito interessante!” Não. Na verdade ele pensa “que saco, eu nunca ouvi
falar dessa beltrana. Vontade de pegar e dar um tiro. Quem é essa aí? Bum! Pronto, resolveu”.
O cara não está a fim. Ele não está no clima para ouvir dilemas humanos que não existem para
ele. Ele nunca estará no clima para isso. Mas se ele falou: “eu prometo te amar e te
respeitar”... Respeitar é isso. É ter em concentração uma necessidade da sua natureza que eu
escolho, todos os dias, satisfazer. E você vai dormir um pouco mais em paz.

Dormir com o marido é a mesma coisa. “Não, eu vou dormir com meu marido quando
eu estiver a fim”. Então tá bom. Ele vai dormir com outra quando você não estiver a fim. E você
merece. Do mesmo jeito que o cara que é corno porque não apoiou a mulher dele, não
entendeu e não aprendeu a interpretar. Você merece ser corno. É justiça cósmica. Não é
justiça divina porque Deus deu os mandamentos. Mas é justiça cósmica. Você merece. Porque
você não está dando o que o outro precisa. E mais: vocês fizeram uma promessa de
exclusividade. Vocês obrigaram o outro a não ir procurar isso no outro. Contando que você vai
trazer isso pra ele ou pra ela. Quando o seu marido ouviu você falar: “sim, aceito, padre”, sabe
o que ele ouviu? “Cara, ela vai aliviar a minha dor sensitiva todos os dias da minha vida. Ela vai
me beijar, vai me abraçar, vai sorrir pra mim, ela não vai me confrontar e eu vou dormir com
ela. E isso é muito bom. E é claro que, porque ela tá me oferecendo isso, eu não vou procurar
isso de ninguém mais. Muito justo”. Aí o que acontece? Casou, é assim: três meses, seis
meses... “ai, não to a fim. Ai, você vem com isso agora? Eu to cheia de problema”. O cara
chega, ele vai dar um beijo na mulher e ela: “hm. Sua mãe ligou”. “Dane-se. Minha mãe pode
ligar cem vezes por dia, eu não me incomodo. Eu não to nem aí. Entra por um ouvido e sai pelo
outro. Não quero saber”.

Ela já sabe o seguinte: “se o cara vier me beijar, pode acontecer um efeito colateral. E
eu não estou afim porque o meu dia me deixou por aqui de problemas!”. Ela não tá a fim.
Porque pra ela estar a fim precisa do seguinte: “não, pega umas velas. Foi um dia
maravilhoso... e o nosso quarto... e nós fazendo declarações de amor... e uma intimidade... e
uma relação...”. Olha, para com isso porque isso aí é muito difícil. Isso dá muito trabalho.
Ninguém vai fazer isso para você todos os dias. Sabe por quê? O homem não vai fazer isso não
por que dá muito trabalho. É porque estatisticamente isso dá errado. Se você fizer isso todos
os dias, noventa por cento dos dias ela vai ficar enjoada disso. Ela não vai gostar do mesmo
jeito. Ela não vai estar a fim do mesmo jeito. Porque a mulher não sabe do que ela está a fim
nesse sentido. É tudo psicológico. Negócio de sexo é tudo psicológico, então ela nunca sabe do
que ela tá afim. Não é testosterona. Ela não tem um negócio empurrando ela, dizendo: “olha
cara, eu preciso! Tem um formigamento aqui!”. Duas vezes por mês, quando ela tá fértil, pode
dar um formigamento nela. Mas o cara é todo dia. Então você tem que entender: isso aqui é
uma necessidade e é isso que você prometeu amar e respeitar. Amar e respeitar um homem é
satisfazer essa necessidade dele.

Amar e respeitar uma mulher é satisfazer essa necessidade dela. O que é que a oprime
na vida cotidiana dela? O que a oprime na vida cotidiana dela não é a necessidade de sexo, de
beijo, de abraço. É a necessidade de se ver livre das críticas da tribo para que ela seja livre para
fazer o que ela quer. Você tem que descobrir e entender o que ela quer. Entender o que tá
impedindo, e fazer o que você pode para libertá-la, ou pelo menos para confortá-la. Porque se
você conforta, ela vê: “você entendeu e não me rejeitou”. Isso é muito importante para a
mulher. “Puts, você entendeu a mensagem. Você entendeu do que é que eu não to gostando,
e você não me odeia”. Pra ela isso é uma tremenda prova de que ela pode contar com você.
Porque ela tem sempre um medo de que “não, se o meu marido entender eu acho que ele não
vai gostar de mim, ele pode me largar”. Ela tem esse medo até com o marido, é normal. Então
o cara tem que fazer isso aí.

Noventa e oito por cento das vezes a sua mulher não se queixa daquilo que realmente
a incomoda. Não é que ela não quer fazer maionese. Não é que ela não quer pôr esse vestido.
Não é que ela não quer ir no jantar. Não é que ela quer ir na festa de aniversário do outro. Não
é nada disso. O problema dela não é nenhum desse aí. Se ela chegar pra você e falar: “não, a
gente tem que ir na festa da fulaninha hoje”, e você pensar: “então a gente vai na festa da
fulaninha e ela vai ficar feliz”, você é um idiota. Você tem que pensar o seguinte: “tem algum
motivo que tá obrigando ela a ir na festa da fulaninha. Ela não gosta de ir na festa da
fulaninha. Eu sei. Conheço a minha mulher. Eu sei quais são as festas que ela gosta e que ela
não gosta”. O homem conhece a sua mulher, a mulher não conhece o seu marido. O homem
pensa que a mulher é um mistério? Não, o homem é um mistério. O homem conhece a sua
mulher fácil. “Não, ela não gosta de ir na festa dessa fulana. Ela nem gosta tanto dessa fulana”.
Então eu tenho que entender. Que crítica, que juízo que opressão vai acontecer se ela não for
na festa? E eu tenho que começar a lembrar os personagens. “Ah, é mesmo. Não, claro,
vamos. Não se preocupa que nós vamos”. Não é que você vai. Você pode estar com toda a
intenção de “não, cara, eu quero descobrir um jeito da gente não ter que ir”, como você vai
estar em 99,9% das vezes. Você pode estar com essa intenção. Mas você só vai poder não ir se
você descobrir o dragão e libertar ela do dragão. Se não você vai ter que ir. Porque o dragão
vai estar lá e você vai ter que proteger ela do dragão. Então você vai ter que identificar o
dragão, entendeu?

Aluno: As duas possibilidades estão sempre juntas.

Estão sempre juntas. Exatamente.

Aluno: Professor, identificando esse dragão, você tem que tentar convencê-la a não
ir? Mostrar pra ela o perigo que ela corre?

Não. Você tem que tentar o seguinte: remover o obstáculo. A pessoa que ir pra lá. Tem
uma pedra. O que eu faço? Retiro a pedra do caminho. A pedra é muito pesada e eu não
consigo tirar? “Não amor, vem aqui, vamos pelo lado. A gente aguenta”. Você vê o seguinte: o
que tá levando ela a ir pra festa é um dragão e, cara, eu não tenho como remover. Não vai dar.
Se eu não tenho como remover, a gente tem que ir. Mas quando eu for, eu vou ficar olhando
com toda a atenção. Com olhos de água. Eu vou criar oportunidades para afastar o dragão
dela. Eu vou intimidar. Eu vou fazer naziface para o dragão. Eu vou dizer o seguinte: “você é
um verme insignificante para mim. O que você pensa de nós não me interessa”. Cara, é muito
fácil você intimidar outras pessoas. Você vê uma mulher que vai fazer um comentário ferindo a
sua mulher, se você fizer aquele olhar assim: “é? Como o seu marido te tolera? Deve dormir
com um monte de prostituta... não vale nada”, acabou. A sua mulher vai sentir: “cara, to
protegida. Esse bicho aqui não vai conseguir, não vai conquistar”. Você tem que navegar e
ajudar como você pode.

Aluno: E sendo esse dragão a mãe, por exemplo?

Mesma coisa. “Ah, eu tenho que jantar no domingo na casa da mãe”. De vez em
quando você tem que jantar na sua mãe, de vez em quando na mãe dela. Mas a regra tem que
ser a seguinte: um domingo por mês na casa da minha mãe, um domingo por mês na casa da
sua mãe e dois na nossa casa. Só nós. E você tem dizer o seguinte: “dois domingos por mês eu
vou jantar pelado com a minha esposa. Nós vamos fazer tantra yoga. Nós vamos admirar o
corpo um do outro sexualmente enquanto a gente come. E a gente vai fazer isso! Quer que eu
faça na sua casa? Se quiser eu faço na sua casa”. E é o seguinte: mate a cobra e, literalmente,
mestre o pau. Nunca faça uma ameaça que você não vá cumprir. Nunca. Cumpra.

Aluno: É aquele negócio: eu não estou ameaçando, eu estou falando o que eu vou
fazer.

O que eu vou fazer. Exatamente. “Eu estou apenas informando. Isso é apenas uma
informação. Não gostou? Come pouco”. Aí sabe o que vai acontecer? A sua mãe e a mãe dela
vão começar a ligar pra ela. Você não vai querer atender porque você não tá nem aí. Mas uma
hora ela vai atender e você vai dizer: “mãe, para de encher o saco da Mariana? Se não a gente
não vai aí nenhuma vez por mês”. Com a mãe dela a mesma coisa. É sério. A sua mulher vai se
sentir mal com isso que você fez. Como eu falei: a mulher tem uma satisfação com a solução
ideal. Mas a solução ideal não existe. A solução que você oferece é real e eficaz. Então ela vai
amar a posteriori a sua solução. Ela não vai amar a priori. A priori ela tá procurando a solução
ideal. Ela tá procurando a solução utópica. A perfeita harmonia social em que as trombetas
tocam uma melodia alegre e a gente vai lá dançando com as cestinhas de flores na primavera...
ela tá procurando isso aí. Não vai acontecer. Então se você propõe a solução, ela não vai
aceitar. Ela vai odiar a sua solução tanto quanto o problema. Porque a sua solução é um
problema. A sua solução é “não, pera aí. Eu vou resolver a desordem social com mais
desordem social”. É o seguinte, deixa eu explicar a minha solução: violência cura violência.
Essa é a minha teoria, e ela é verdadeira. A solução da mulher é “ai, violência gera violência”.

Então se você propõe a sua solução... não, não proponha a sua solução! Você vai ter
que explicar... vai argumentar com a mulher? Você não pode argumentar com quem tá em
perigo. A pessoa que tá com medo, tá intimidada, tá em perigo, ela é imune a argumentos. A
razão sempre se alinha com a estimativa. Fato. Tá lá em São Tomás, Suma Teológica. Sempre.
Sempre, sem exceção. Porque a razão é a parte mais inteligente de você e ela diz o seguinte:
“se existe um perigo de morrer então é melhor não fazer”. Ela sempre se alinha. Então você vai
argumentar com a sua mulher e a razão dela vai ser imune a todos os seus argumentos. Todos.
E ela vai apresentar argumentos melhores que os seus. Porque a razão dela tá afiada para
defender ela. Para que ela sobreviva. Tá a todo vapor. E aí você vai perder. Ou porque você
não vai ter argumentos. Ou porque você tá cansado. E aí, se você tá cansado, você não tem
força. Se você gastou a sua força discutindo com a sua mulher, você não tem força para aplicar
uma solução de violência contra o mundo. Para responder à sua mãe: “mãe, para de encher o
saco da Mariana, se não a gente não vai mais aí”. E aí, na próxima vez que for a vez dela, você
não vai. “Ah, decidi ir no parque. O zoológico é mais legal”.

Você tem que criar um território para a sua esposa. Ela não pode criar um território
para você. Ela vai criar um ninho para os seus filhotes. Com cortina, almofadinha, coisinhas
orientais... ela pode fazer um ninho legal para os seus filhotes. Mas ela não pode conquistar
um território para você. Você tem que conquistar um território para ela. É um fato. É isso que
você tem que fazer. É o nosso dever. Cara, não tem erro. Pensa, o que a sua mãe vai fazer? Vai
te bater? Vai pegar o chinelo? Não, ela vai fazer um escândalo com a família toda. E a família
toda vai dizer que você não tem consideração com a mãe. “Não tenho. Olhando aqui
sinceramente no meu coração? Não, não tenho não”. Você sabe se você tem consideração
pela sua mãe ou não. Quando a sua mãe estiver morrendo, estiver com problema, você vai
ajudar ela? Claro que você vai ajudar ela! Agora, ela quer que você vai jantar na casa dela...
Sabe por que ela quer que você vá jantar na casa dela? Sabe por quê? Quer saber por que a
sua mãe quer que você vá jantar na casa dela? Por que o marido dela tá velhinho e ela tá com
medo de ficar sem proteção e ela tá contando com a sua. Ela tá competindo com a sua mulher
pela sua capacidade de conquistar território. Não é porque ela gosta de você. É porque ela tá
com medo do mundo. Entendeu?

O homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa. Eu não to falando que sua mãe
é má. A sua mãe pode ser a pessoa mais piedosa do mundo. A minha mãe é uma pessoa
piedosíssima. Mas ela é uma mulher. É uma fêmea da espécie, cara. Ela vai competir pela
necessidade de proteção. Porque ela tá com medo do mundo. E ela sabe que eu amo ela, e
sabe que eu vou defender ela de qualquer perigo. A mãe sabe disso. A não ser que você esteja
defendendo a sua mulher. “Mãe, agora não dá. Agora eu to cuidando dela”. É por isso que
sogra não gosta de nora.

Aluno: E quando é a mãe dela?

Mesma coisa.

Aluno: Rola uma competição entre mãe e filho, ou coisa assim?

Não, a mãe dela acha que você não é suficiente para proteger a filha. Pura e
simplesmente assim: “esse cara não é um bom homem. Não defende o território. Meu
bichinho vai morrer com esse vagabundo aí. Não faz dinheiro. Esse perdedor aí”. “Eu posso ser
perdedor, mas eu mijo na sua cara se você vier me incomodar”. Você tem que ganhar seu
território, entendeu? E território você marca com mijo. Você não marca com substâncias
nobres. O templo você marca com substâncias nobres. Ouro, incenso e tal... Território você
marca com urina.

Aluno: Eu fiz uma dessas aí. Ao invés de competir com o dragão eu arrumei mais
cinco.
Briga com todos eles. Faça isso. Faça constantemente. A sua mulher vai ficar
desagradada, mas ela vai crescer em amor e apego a você. Não tenta agradar a mulher. Tenta
trazer para ela aquilo que ela precisa. “Ah, tem cinco? Se vocês multiplicarem em cinquenta,
ainda assim vocês não são nada contra mim”. Claro que você vai ter sempre que avaliar as
circunstâncias. Não vá arrumar briga com todo mundo. “Não, o custo vai ser muito alto. Deixa
eu só confortar a minha esposa. Não, a gente aguenta. Ela já tá velhinha, tá meio caduca. Tem
que tolerar”. Às vezes dá pra você fazer isso. Isso você também pode fazer. Mas você não pode
dizer assim: “puts grila, me fala logo o que você quer! Chega ao ponto!”. Não, isso não. Ela não
tem como chegar ao ponto. Se ela tivesse chagado a um ponto favorável pra ela e que ela
achasse esse ponto bom, ela estaria fazendo a coisa, falando que a gente tem que fazer a coisa
e ela estaria feliz. A mulher, quando chega num ponto, geralmente é um ponto de conflito. E aí
ela diz: “temos que ir na festa da fulana”. Você vira e diz: “você está profundamente infeliz de
ir na festa da fulana. Estou vendo que esse não é o ponto real. Esse é o consenso social que
você conseguiu obter. E eu tenho que tentar melhorar ele.

Esclareceu um pouco o mecanismo dos matrimônios? Entendeu por que uma pessoa,
um homem adulto, uma mulher adulta, pode virar e falar: “eu amo essa mulher, mas tem
alguma coisa dentro de mim que quer ferir ela. Que quer se vingar dela”. É, sim. Você
precisava de sexo, beijo, abraço todo dia. Ela fez você fazer uma promessa que você não iria
procurar em outras e ela negou para você. Ela te fraudou! A promessa matrimonial de uma
mulher que nega carinho e sexo ao marido é uma fraude. Do mesmo jeito, a promessa
matrimonial do homem que não procura libertar ela, ampliar o espaço de ação social dela é
uma fraude.

A parte de respeitar significa isso. Ter em consideração a natureza do outro ser. E


agora eu digo: se você tem esse respeito, se você trata o outro de acordo com a sua natureza,
todos os dias, o amor vem como consequência natural. Aquela pessoa passa a te amar mais, e
mais, e mais, e mais. É só você olhar: o que a sua mulher fez na sua vida que faz você amar ela?
Ela beijou você, ela sorriu para você, ela não confrontou você, ela dormiu com você. É isso. Ela
é agradável. “Eu não preciso brigar com você, eu não preciso hostilizar, eu não preciso garantir
o meu território. E ter você é muito gostoso”. Então é isso que plantou amor no coração do
homem. E o que planta amor no coração da mulher é o seguinte: você pode ser gostoso e o
cacete. Você pode ser o picolé. Todo mundo adora chupar. Não ajuda a sua mulher em nada. O
que ajuda é “deixa eu ajudar ela a navegar nesse labirinto. Deixa eu deslabirintizar esse
labirinto. Alargar cada vez mais o território dela.

Aluno: Professor, hoje existe um fenômeno... bastante divórcio em todas as


sociedades ocidentais de uma forma geral. Porque também tem uma ideia em circulação que
é assim: essas coisas que fazem parte da natureza do homem e da mulher podem ser
manipuladas pela cultura e pela educação. Então as pessoas tentam mudar pela educação
uma coisa que faz parte da natureza do homem e da mulher.

Sim. Porque, olha só: a questão de o que é da natureza é mal colocada hoje. O que
quer dizer a natureza? Quer dizer o seu DNA? O seu código genético? O que significa o código
genético? Ninguém sabe o que significa o código genético em termos de conteúdo
comportamental real. Ninguém sabe. Nenhum biólogo sabe. Eles vão falar o seguinte: “a gente
esperava, mapeando o código genético da espécie, entender todos os problemas dela”. Não
entenderam nenhum. Foi um fracasso. Ainda não sabemos porcaria nenhuma disso aí. Então,
quer dizer, a natureza é isso. Então se, olhando o código genético, você não é capaz de explicar
por que o macho da espécie humana age de um jeito e a fêmea de outro, então não é parte da
natureza isso aí. É parte do que? Só pode ser da cultura. Porque só existem duas coisas. É
dualismo cartesiano: pensamento e matéria. Tem parte da matéria, a genética, e tem a parte
do pensamento humano. Evidentemente que, colocado nesses termos, a natureza de um ente
biológico reduzida ao seu código genético é impossível determinar se um comportamento é
realmente próprio do macho da espécie, ou próprio da fêmea, ou se é só uma invenção da
cabeça deles. É impossível.

Então você tem que partir de um conceito de natureza mais profundo. Um animal é
um ente dotado de percepção. Eu sei lá qual é o código genético do coelho. Mas eu sei que o
coelho percebe o mundo. E quais são os modos que essa percepção afeta ele? Existe o
agradável e o desagradável. Existe o útil e o hostil. Existem os sentidos e a estimativa. E ele
navega com esses dois e, em relação com os outros animais em torno dele, ele geralmente é
muito fraquinho então ele é presa. Ele tem psicologia de presa. O juízo da estimativa
predomina sistematicamente sobre o juízo dos sentidos. Menos do que acuado pela tristeza, o
coelho vive acuado pelo medo.

O homem, quando a vida dele é terrivelmente ruim, ele fica tão triste que ele se mata.
Porque o que ferra a vida do homem é o seguinte: “cara, eu nunca vou ter mulher, eu nunca
vou ter dinheiro, eu nunca vou ter sucesso, ninguém nunca vai gostar de mim... eu sou feio,
pobre, brasileiro e torto... burro e, sei lá...”. Aí ele vai ficando triste. Tristeza é ausência de
satisfação sensorial. De agrado dos sentidos. E a tristeza leva ao suicídio. A mulher, o que
oprime ela não é fundamentalmente a tristeza. É o medo. É a timidez. É a insegurança. É
angústia. E a angústia, o medo, leva à resignação e não à desistência. Nesse sentido a mulher é
mais resistente ao sofrimento. A mulher reclama mais do sofrimento, sofre mais com ele, mas
é o seguinte: ela pode ser uma vida dez vezes mais infeliz que a sua, mas ela aguenta. O cara se
mata. Porque a infelicidade dela não vem da tristeza. Ausência do gosto sensitivo. Vem de
timidez. Vem do medo da morte. Como você vai resolver o medo da morte se matando? Não
dá. Não funciona.

Então o homem se suicida com mais frequência do que a mulher, obviamente. É


conhecido de todos os tempos que a tristeza, que é um movimento do apetite concupiscível
gerado pelos sentidos, pode conduzir ao suicídio. E o medo não. O medo pode conduzir ao
homicídio. Isso pode. Um homem, quando ele tem medo, ele vira homicida. Ele não vira
suicida. Ele parte para a violência primeiro. A melhor defesa é o ataque. A mulher raramente.
Por quê? Porque, bom, isso é aceitar ser desaprovada por toda a tribo.

Por que é uma história fascinante quando você conta a história de uma mulher que é o
seguinte: “ela sofreu a vida toda na mão de um marido horrível, aí ela matou ele. E aí teve o
julgamento...”? Por que isso é uma história humana interessante? Ela interessante porque
você diz o seguinte: “cara, é errado matar o outro. Mas como é que você pode apertar tanto,
oprimir tanto um bichinho tão dócil a ponto de ele querer te matar? De ele não conseguir...”.
São dramas interessantes.
Aluno: Medeia.

Sim, exatamente. Agora, você conta a história de um cara que matou o vizinho. Por
que? “Ah, porque ele olhou para a mulher do cara”. “Ah. Pff... banal. Você disse que era uma
história interessante. Não é interessante porcaria nenhuma essa história”. Pra você tornar a
história de um crime masculino interessante, você tem que encher ela de outras dimensões.
Mas a história de um crime feminino é sempre cativante. Porque, cara, é difícil mover esse
bicho aí. Porque um crime faz com que toda a tribo desaprove ela, e expulse ela. E isso é o que
ela mais tem medo. Se ela, de maneira torta, e errada, e imoral enfrentou o maior medo da
existência dela, deve ter algo muito trágico e profundo acontecendo. Essa é a impressão que a
gente tem. Então são histórias que são interessantes.

Aluno: A Anna Karienina ela resolve se matando no final...

De vezes em quando mulher se mata também. Todo mundo é gente. As diferenças são
nuances. É evidente que tem vinte por cento das mulheres que são, por definição, as mulheres
mais viris. Vinte por cento dos caras são, por definição, os mais efeminados. Tende a uma
diferença polar, mas não é absoluta.

Aluno: O senhor acha que isso é determinado pela cultura ou a pessoa já nasce?

Eu acho que é determinado pela cultura, pela biologia e pelas escolhas. Eu acho que é
determinado por tudo. As minhas escolhas são determinadas por tudo. Acreditem nos seus
próprios olhos. As minhas escolhas são assim: umas coisas são “não, eu sinto isso desde que eu
nasci mesmo. Desde que eu me lembro que eu era criança eu sinto assim e eu prefiro assim”.
Outras coisas são “eu pensei, eu refleti, as pessoas falaram que eu não deveria fazer, é contra
os meus instintos, mas eu acho que é melhor. Então eu decidi”. E outras coisas são o seguinte:
“eu fui na onda. Todo mundo falou, eu vou fazer. Beleza, saí ganhando”. Então todos esses
fatores entram nas minhas decisões. Todos eles. Não são alternativas. Não, são todos fatores
que entram. A ação deliberada e decidida, essa você pode escolher fazer ou não. Eu acho que,
em última análise, você é livre. Mas existem muitas ações que são meras reações. Como a
gente falou: quando marido e mulher se provocam publicamente tentando humilhar um ao
outro diante dos outros você vê que não são decisões deliberadas. Não é que elas não sejam
erradas. Mas não, isso aí é um animal que tem raiva do outro animal porque se sente
profundamente frustrado por esse outro animal. “Ah, eu queria amparo, proteção e apoio e eu
prometi não procurar em nenhum outro homem e você não me dá”.

Pensa bem. Se você tem um cachorro. Você era um cara solteiro e você tinha um
cachorro. E seu cachorro era seu melhor amigo. E ele te adorava. Aí você arrumou uma
namorada super jeitosinha, super legal, toda santinha. “Cara, beleza. Essa é pra casar”. Só que
ela não gosta do seu cachorro. E daí você todo dia brincava com ele, deixava ele subir no sofá,
ele lambia o saco dele no seu sofá e você não tava nem aí. Aí você saia com ele, ficava jogando
graveto, brincando... Aí a sua mulher diz o seguinte: “Ai. O seu cachorro sentou aí, né?”. Aí
você pensa: “puts grila, cara. Mas ela é tão legal, né? Ela é tão perfeita... fica quietinho aí, Rex.
Fica quietinho Totó. Depois eu brinco com você. Não pode subir no sofá, Totó! É feio! É
errado!”. Aí é o seguinte. Você começa a negar para o seu cachorro tudo o que você dava para
ele que era legal na vida dele. Você acha que seu cachorro vai te odiar? Não. Ele vai odiar ela.
Ele sabe, pela estimativa, de onde tá vindo essa atitude. O bicho é esperto. Você nunca viu
filhote de gente diante da segunda mulher ou do segundo marido? Caramba! “A minha mãe tá
triste. Por quê? Por causa dessa aí”. A sua raiva não vai para o seu pai ou para a sua mãe. Vai
para o outro. Então o Rex, o Totó, vai morder ela. Cedo ou tarde o Totó vai morder ela. Porque
ela é tudo que impede ele de ter a felicidade que você, com seus atos, com seu histórico,
prometeu para ele.

A mulher e o homem é a mesma coisa. A mulher é assim: “você prometeu uma coisa
pra mim. Pro meu bicho aqui dentro. Uma coisa que eu aceitei pegar de você”. Tem outros
caras no mundo. Ela pode ter casado com outros caras, sabia? “Não, eu não podia porque...”.
Olha, para com esse negócio de Romeu e Julieta, cara. Ela podia casar com outros caras se ela
quisesse. Ela podia não ter casado com você e ter casado com outros caras. Assim como você
podia ter casado com outra mulher e não ter casado com ela. “Não, isso é só uma possibilidade
metafísica...”. Não sei. Me parece uma possibilidade real. E aí ela diz o seguinte: “eu não vou
procurar em outros caras”. O animal dentro dela tava vendo o comportamento dela. Ela tava
procurando um homem. E aí o animal dentro dela tava todo feliz. Ele dizia: “cara, a gente vai
conseguir. A gente vai arrumar um bem legal e a gente vai ter o que a gente quer!”. E daí ela
arruma um. E ela casa com ele. E aí ele não oferece aquilo pra ela. Ele só quer beijar e abraçar
ela. E ela: “ai que saco”. Ele só quer beijar, abraçar e dormir com ela. E aí o animal dela diz:
“pô, mas pra que serve esses beijos? Esses beijos aí não servem pra nada, cara. Esses beijos aí
só vão botar um filhote na gente e a vida vai ficar mais difícil”. É isso o que o animal dentro
dela tá sentindo. “Enquanto não tiver um ninho bem seguro e um cara bem macho, eu não
quero filhote”. É isso. É um fato. O animal dentro dela tá falando isso. Daí o cara não dá. Aí o
animal dentro dela começa a falar: “vai procurar em outros caras”. E ela: “não! Fica quieto aí
Totó!”. Totó não, Fifi. Ela não vai ter um Totó dentro dela porque se não fica meio perverso...
“Fifi, cala a boca! Quieta, Fifi! Vai deitar! Vai pro quintal!”. A Fifi vai olhar no começo e... ela na
vai sentir raiva de você. Ela vai olhar o que tá impedindo aquele benefício que tava vindo pra
ela. Ela vai olhar... “É o marido!”. Ela como esposa tá tentando amar o cara. Ela como pessoa
humana tá tentando amar o cara. Mas a Fifi dentro dela tá tentando morder o cara. Tá
morrendo de raiva do cara. E o Totó interior que você tem, a mesma coisa. Você tá querendo
amar a sua esposa, mas o Totó tá querendo morder ela. Estraçalhar ela. Se livrar dela para
você arrumar outra. Agora, você vai fazer isso? Isso aí não é matrimônio. Isso aí não é se tornar
uma só carne. Isso aí é criar o máximo conflito entre duas carnes, pô.

Você tem que lidar com a Fifi, não com a sua mulher. Se você lidar com a Fifi, você vai
encontrar a sua mulher ocasionalmente. E eu digo: se você lidou bem com a Fifi, a sua mulher
muito provavelmente vai ser uma pessoa muito legal quando você encontrar ela uma vez por
mês, uma vez por semana. Você acha que só por que você mora com aquele outro ser
humano, você encontra ele todos os dias? Você encontra ele, talvez, uma vez a cada dois
meses. Que você o vê como espírito vivente. Entendeu? Então você vai encontrar ele muito
ocasionalmente. E é por isso que a verdadeira amizade entre marido e mulher demanda anos
de matrimônio. Aí agora você conhece bem aquela pessoa. Aquele espírito. E aquele espírito é
amável. Mas você só consegue reencontrar esse espírito se você contentar a Fifi. E ela só
consegue encontrar o seu espírito se ela contentar o Totó. Se eles não se contentarem, toda
vez que vocês se encontrarem esses bichos vão se morder. Toda a vez que você tentar amar
ela, o Totó vai vir e morder ela. Toda vez que ela tentar te amar, a Fifi vai vir e vai te morder.
Vocês nunca viram isso acontecer com vocês mesmos? Você vai na direção na sua esposa pra
interagir com ela, pensando: cara eu vou falar “não, amor...” e aí você nhac! Vem alguma coisa
e morde. Isso nunca aconteceu com vocês? Caramba, vocês são tudo santo. Porque comigo é
assim: “hmm... quem está fazendo isso? Totó, você está muito mal educado. Por que você está
mal educado? Por que você é um bicho burro e tudo o que você quer é sexo. Só que você é
parte intrínseca do meu ser. Eu não vou te negar sexo quando me foi prometido sexo”. Eu vou
chegar para a minha esposa e falar: “olha, presta atenção. Você quer ser feliz no matrimônio?
Totó precisa de cuidado, entendeu? Totó precisa de carinho. Rex precisa de carinho”.

A sua mulher como pessoa humana precisa de você uma vez a cada três meses. Assim
como você, como ser humano, precisa daquele ser humano uma vez a cada três meses, no
máximo. Mas a Fifi precisa de você todo o dia e o Totó precisa dela todo dia. É verdade isso,
gente. Não é complicado. É difícil. É difícil pelo seguinte: cara, eu não quero ouvir a história da
minha mulher. Porque todos esses problemas não doem em mim. Se todas as vizinhas
acharem que eu sou maluco, tarado, perverso, gnóstico, satanista, cara, é o seguinte, eu
coloco um boné vermelho com dois chifres. Pff. Eu confirmo pra vocês. Eu desenho um
pentagrama aqui. Aqui é pentagrama! Eu não to nem aí. Muito menos o seguinte: “ela olha
como eu cuido da grama? Você come a minha grama? Você é vaca pra comer a minha grama?
Então não enche o saco”.

Eu sei que o cara quer também fazer um pouquinho de jogo social. Ele quer se
promover também. Mas não faça muito isso porque você estará prejudicando a sua esposa.
Entenda uma coisa. Embora você não precise de uma parceira nesse sentido da interação do
jogo social, você vive em parceria. Isso é uma parceria. E quando você quer jogar o seu jogo
social, quem paga o preço é a sua mulher. Quando você quer jogar o seu jogo de impressionar
os vizinhos, impressionar os colegas de trabalho, impressionar os familiares, saiba que quem
está pagando o preço é a sua mulher, não é você.

Aluno: Em que situação isso acontece?

O cara quer fazer uma tal viagem, e aí, quando encontrar com os amigos, ele vai lá e
fala da viagem que ele e a esposa fizeram pra dizer que “olha, eu viajo mais longe, com um
avião melhor, com malas de couro da marca tal...”, essas bobagens que as pessoas falam. “Ah,
você comprou uma televisão de 30 polegadas? Eu comprei uma de 820. A minha é maior que o
estádio do Maracanã. Dá pra ver do espaço. Tem duas coisas que você consegue ver do
espaço: a Muralha da China e a minha TV”.

Todo mundo gosta de ser o gostosão. Mostrar o seu carro, a sua roupa... até a sua
mulher. Mostrar que ela é mais gostosa que a mulher do outro. Mas saiba que o fardo, o preço
das relações sociais é principalmente pago pela mulher. Muito pouco pelo homem. Então você
não pode ser assim. Você tem que ser o John Wayne. Você tem que ser como os personagens
do John Wayne. E daquele outro... Como é o nome? Gary Coopper! Esses caras estão, tipo,
nem aí para o que as outras pessoas pensam. “Agora eu vou sentar na frente de todas essas
pessoas aí e vou coçar o meu saco. Só pra lembrar eles do seguinte: se todos vocês me
detestarem, eu não to nem aí”. Você tem que sinalizar isso aí. A sua mulher vai dizer: “Ai, não
faz isso, amor”. Mas, cara, quando ela fala “não faz isso, amor”, você já sente um sub-tom de
tara aí. De “cara, mais um pouquinho, se eu baixar sua calcinha, você aceita aqui no banheiro
da vizinha mesmo”. É um fato isso. Um fato da vida. E se você começa a fazer muito jogo
social e muita competição no jogo social, quem paga o preço é a sua mulher. A sua mulher vai
ficar exausta. Ela não vai reclamar com você, porque ela quer vencer nesse jogo. Ela tem a
impressão de que se a gente vencer nesse jogo, ela vai ser livre pra fazer o que ela quiser.
Então ela não vai reclamar com você. Mas ela vai fechar as pernas. Acabou. Fim. The End. Ela
vai pensar: “beleza! Casamento é parceria para ganhar o jogo social!”. Não, pera aí. Eu to aqui
pra te ajudar a ganhar. Da minha parte, eu vou te ajudar a ganhar o jogo social. Beleza. Da sua
parte, não. Então eu tenho que mostrar que esse jogo não é tão importante para mim.

Eu lembro de uma conversa uma vez... A gente foi na casa de um parente mais
afastado e uma hora esse parente falou assim para o meu pai: “Porque o senhor sabe... o meu
genro quer ter o segundo filho... e eu acho que não é muito recomendável”. “Ah é? Por quê?”.
“Bom, o senhor sabe... existem dois tipos de pessoas. Os ricos e os pobres. Os que tem
mentalidade de rico e os que tem mentalidade de pobre. E se você parar pra pensar isso aí é
mentalidade de pobre, porque ele tá investindo num negócio que ele não pode...”. Meu pai
falou: “Interessante. É um jeito de classificar os seres humanos. É um jeito binário. Eu tenho
outro: tem os sábios e os tolos. Aqueles que estão buscando a sabedoria e os tolos. Tem vários
jeitos de classificar...”. Ao invés de tentar ganhar o jogo social dizendo “não, porque eu ganho
dinheiro, eu tenho mentalidade de rico, olha aqui o meu carro...”, “não, tem um outro jeito. A
sua teoria é muito interessante. Muito legal. Pessoas que são assim tem direito de viver,
também. Mas eu tenho aqui um outro princípio: você é um velho, tolo e babão segundo o meu
princípio. Você nunca buscou a sabedoria. E você tem aí o seu dinheirinho bocó. Daqui a pouco
você vai morrer e seus filhos vão desperdiçar”.

Tem muitas maneiras de jogar o jogo social. É um jogo que você está jogando. Mas se
você aceitar aquelas regras ali... Você tem que entender o seguinte: o jogo social não é um
jogo como os esportes. Mulher não gosta de esporte. Homem gosta de esporte. Por que
homem gosta de esporte? Porque as regras nunca mudam. As regras são sempre as mesmas.
No jogo social as regras mudam o tempo todo. Se você tentar jogar nas regras das pessoas,
você se fode. Você destrói a sua vida. A sua vida vira, agora, um epifenômeno das preferências
delas. Você tem que virar a regra o tempo todo, ou, de vez em quando, simplesmente cuspir
no jogo. “Você não tem vergonha de ficar falando mal do outro aí por causa da TV? Puts grila,
dá licença”. E sai. De vez em quando você tem que fazer isso. A sua mulher, nessa hora, vai
sentir medo. Então ela não vai gostar. O que ela gosta é da sinfonia pastoral do Beethoven, na
forma de sociedade. Sem a tempestade. Só o primeiro movimento: florzinhas e passarinhos.
Branca de Neve! Ela canta e os passarinhos vêm, dançam junto. E os esquilinhos... Ela quer o
mundo da Branca de Neve, só que esse mundo não existe e você nem a sociedade podem
oferecer isso para ela.

Mas você pode oferecer a coisa mais parecida. Um mundo que é o seguinte: “nesse
círculo aqui a maior parte das coisas ruins não podem vir porque elas olham para mim e
sentem medo”. Essa é a segunda melhor coisa. Você até pode dizer: “vamos fazer a sociedade
de santos. Todo mundo é São Francisco. Ninguém tem propriedade, porque ninguém quer”.
Olha, não dá pra fazer. Qual o melhor possível? “Vamos fazer um mundo que tem leis e se
roubarem a nossa propriedade a gente bate neles”. Esse dá! Intimidar os outros pra que eles
não roubem a sua propriedade, isso dá. Então isso é o que você pode fazer.
Então não tenta jogar muito aquele jogo e tentar vencer, porque: 1) Ele não tem fim.
2) Ele não tem sentido. 3) Ele não tem valor real para você. Se ele tem valor real para você, o
que você está fazendo assistindo à minha aula? Você pode sentir que é um pouco o seu dever
fazer isso. Com a gente falou, é o seu dever ajudar a sua esposa a não ser oprimida pelo
mundo social. Isso é o seu dever. Jogar o jogo não. Só quando isso for vantajoso para a sua
esposa. Nunca quando for vantajoso para você. Nunca. Sempre esconda quem você é. Deixa
que sempre subestimem você. Isso é indispensável. E não hesite em atacar. “Agora eu vou
esbofetear mesmo, não quero saber. Vocês são tudo um bando de víbora. Eu odeio todos
vocês. Nunca mais venho nessa festa”. E não vai mesmo. Os anos vão passar e as pessoas que
são as melhores daquele grupo vão vir e vão se curvar ao seu lado e dizer “você estava certo,
você melhorou a gente. A gente não presta, mas aprendeu com a vida”. E os que são ruins vão
piorar, porque eles já iam pioro sozinhos.

Toda manifestação de força, é um juízo que revela o bem e o mal que estão ocultos.
E,na parceria homem e mulher, eu que tenho que ser a manifestação de força. Se eu não for,
ninguém será. Eu sei que é muito tentador chamar o pessoal na sua casa pra mostrar a sua TV,
o seu carro, ir visitar o pessoal para mostrar que você fez uma viagem melhor... conversar
sobre esses assuntos. Isso é legal. Quem não gosta de pensar: “eu sou o gostosão e você não
é”? Todo mundo gosta disso. Mas quem paga o preço é a sua mulher. Você está gerando
tensões que, caramba, agora ela tem que manter esse nível. Ela vai pensar “puts grila, isso é
importante para ele, então a gente não pode perder nessa área”. Você tem que ser o cara que
não está nem aí.

Agora, se tem um jeito de ela sair ganhando e custa pouco para mim, então tá bom,
vamos jogar esse joguinho aí. Porque essa é sua brincadeira, mulher. Você precisa brincar
disso. A minha brincadeira se chama sexo. Você vem sorrindo para mim, me beijando e eu vou
apreciar o seu corpo de todas as maneiras que eu puder. Essa é a brincadeira que eu preciso. A
brincadeira que você precisa é liberdade no jogo social. Tudo isso é uma brincadeira insólita,
porque a gente morre e essas duas coisas acabam. Mas enquanto a gente tá aqui... “Ah, é só
uma brincadeira...”. É mesmo? Proíbe uma criança de brincar para você ver o que você faz com
ela.

Por incrível que pareça, é fundamentalmente só isso que precisa para um matrimônio
ser feliz. Porque o resto todo, se você passa uns anos cuidando do bicho que tem dentro do
outro e ensinando o outro a cuidar do bicho que tem dentro de você... e sendo claro: para de
reclamar daquilo que não é o ponto. Não reclama com a mulher porque a roupa tá mal
passada ou porque você não sabe onde estão as suas camisas. Quer saber onde estão as suas
camisas, vai lá, lave, passe e guarde onde você acha melhor. Faça o seu quartel. Tem o
sargento e tem onde você cuida. Não faça isso porque ele pode se curvar para você nisso aí,
mas você acha que ela quer lavar e passar roupa toda vez que ela lava e passa roupa? Que ela
acorda e fala “cara, nada melhor do que passar uma camisa hoje! E aí dobrar e guardar
exatamente no lugar que o maridinho gosta!”. Tem umas tardas que gostam. Mas é tarada,
entendeu? Não é normal. De vez em quando a mulher gosta, porque de vez em quando ela tá
brincando de casinha e brincar de casinha é legal. Aí ela tá fazendo o que ela queria. Só que de
vez em quando ela não gosta. Ninguém tá religiosamente a fim de passar roupa, lavar roupa,
cozinhar, de se vestir para os outros, de sorrir para todo mundo socialmente... a maior parte
do tempo as pessoas não estão com saco. Então você tem que ajudar a sua mulher a lidar com
isso aí. Não cobre dela isso. Nada disso pode fazer você odiar a sua mulher. Se a mulher chegar
para você e falar: “a partir de agora eu tenho uma nova religião: ‘Não passarás roupa. Não
lavarás louça’”, o cara se adapta a essa religião. Mas se for o seguinte: “não abrirei as pernas”,
acabou. É o fim. É o apocalipse. Então ensine para ela o que é fundamental e deixe ela te
ensinar o que é fundamental para ela.

Aluno: Tem aquela peça do Aristófanes em que está tendo uma guerra, e as
mulheres gregas se reúnem todas [e decidem pela greve de sexo para reestabelecer a paz]

Exatamente! Se elas virassem e falassem: “Não vamos cozinhar!”, os caras iam dizer:
“pff! A gente gosta de churrasco. A gente caça aqui no campo de batalha, mulher. Vocês
acham que a gente gosta desse negócio aí? Olha, as comidas que vocês preparam dão um
trabalho desgraçado. Tem que ir comprar ingrediente no mercado, e não sei o que, e a sua
mãe não gosta... O negócio é o seguinte, eu vou lá e pesco uns peixes no rio com os
camaradas, arranco as escamas, passo um sal ali, ponho um foguinho e é a melhor coisa do
mundo. Se você não cozinhar, a minha vida não piorou”. Então tenta fazer greve de cozinha...
Pff! Não vai funcionar. Agora, faz greve de sexo. Aí funciona. Eu garanto.

O cara é a mesma coisa. Você quer convencer a sua mulher? Você tá brigado de vez
com ela, ela não quer resolver, você tem que dizer o seguinte: “Não quero falar com você. Não
fale comigo. Eu entro nessa casa aqui, você não está aqui. Não venha falar comigo”. Ela é
espeta. Mulher é esperta. Ela vai chorar, vai falar que não tem cabimento, vai falar “eu vou pra
minha mãe”, vai tentar te seduzir! “Hahaha! Pode deixar, eu durmo no sofá. Não quero saber
de você. Não quero saber. Tenho nojo de você. Eu gosto do sofá”. Não fala com ela e não
dorme com ela. Você vai ver. Noventa e nove por cento de qualquer coisa que ela discorde de
você, ela vai falar: “tá bom, pera aí, vamos negociar”. Agora, se você argumentar com ela, você
tá fodido. Você tá ferrado. Porque você não tem uma justificativa teorética ou estimativa do
que você quer. “Eu acho que é legal assim”. Então você vai perder para o raciocínio. “Caramba,
esse cara não fala comigo. Ele não quer saber dos meus problemas, ele não tá nem aí se eu
tenho problemas, ele não dorme comigo, ele não precisa de mim. Ele começou não falando
comigo, agora ele não tá dormindo comigo. O próximo passo dele é ir embora”. Só que tem
mulher que é teimosa. Ela não resolveu concordar? Tá bom então. Vá dormir uns três dias
fora, sem avisar. Passa uns três dias sem falar pra ela onde você está. Ela vai fazer um
escândalo. Toda a família vai falar: “como você faz isso? Não tem cabimento!”. É o seguinte:
“não me encha o saco. Eu não faço o que tem cabimento. Eu faço o que eu quero. Foda-se
você. Você é um piedoso, bonzinho, corno, que só faz o que tem cabimento e a sua vida é uma
merda.

Todos os seus familiares vão vir com moral pra cima de você, pra te ensinar o que é ser
um bom marido e nenhum deles tem a menor ideia do que é ser um bom marido. Eles não
sabem nada. Você sabe como é... todo mundo gosta de apedrejar. “Opa! Tem adúltera aqui!
Tem adúltero! Opa! Vamos apedrejar! Êee! “ Junta toda a rapa. Todo mundo adora apedrejar.
“Não, João, você não pode fazer isso. Ela é uma mulher”. “Não me encha o saco. Você está
falando com o meu saco, e o meu saco não está gostando. Eu raciocínio com o saco. Eu tomo
decisões com base no saco, não nos seus argumentos. Seu cérebro não vale nada para mim.
Meu saco vale mais do que o seu cérebro para mim”. É um fato. Um dado objetivo da
realidade. Não deixe ninguém fazer isso.

Se vocês chegaram a uma questão irreconciliável, você tem que mostrar que você está
disposto a negar para ela aquilo que ela mais precisa. Sabe por quê? A mulher é o bicho mais
esperto do mundo. A mulher sabe que você não sabe do que ela precisa. Toda a mulher
esnoba em cima de homem. Ele se pergunta: “por que mulher se junta com homem? Um bicho
barbudo, suado, fedido, que tem saco... eu não consigo entender”. O cara tá tentando avaliar
em termos sensitivos. A conclusão da maior parte dos homens é: “a mulher tem mau gosto. É
um bicho burro que tem mau gosto. Se elas soubessem o que é bom, elas casavam com
mulher também. A gente ia ter que roubar todas elas”. O cara não sabe. E aí o cara pensa que
ela quer dinheiro. Porque ele vê que ela se engraça toda para os caras que são poderosos, os
caras que são ricos, os caras que são criminosos, e aí ele pensa que ela quer dinheiro. E a
mulher sabe que ele não sabe exatamente o alvo. Você até se aproxima, mas ela sabe que
você não sabe. Eu vou dizer a verdade para vocês – e isso dá testemunho contra as mulheres:
todas as mulheres sabem o que os homens querem delas. Elas sabem. Elas que não gostam de
fazer. Mas se você perguntar o que o cara quer, a maior parte delas sabe: “ele quer dormir
comigo. Ele quer que eu beije ele, que eu sorria pra ele e ele quer dormir comigo”. Ela sabe
disso. Então ela sabe o que negar para negociar. E o cara não sabe o que negar para ela. E ele
começa a maltratar ela. Maltrato verbal, cara? A mulher é destratada pelo universo. Até os
bichos olham para ela e falam “olha que bicho fraquinho é você”, e ela “ai que medo, cobra!
Aranha!”. Então não adianta nada. Não tem efeito. Mas se ela suspeitar de que você esteja
pensando: “eu não vou te apoiar nessas questões. Eu nem quero saber quais são elas. E olha,
eu não preciso dormir com você também. A gente casou e eu não tranquei a porta. Você pode
sair que eu arrumo outra. Eu não vou choramingar. Eu vou dormir no sofá e não quero saber.
Com você eu não quero”. Ela não cedeu ainda? Então passa uns três dias fora. Vai virar um
escândalo familiar. A família dela e a sua vão dizer “mas não tem cabimento esse homem...”.
Vai ser uma tempestade social. Crie uma tempestade social e diga o seguinte: “Não estou nem
aí”.

Aí o animal dentro da sua mulher, a Fifi, vai olhar e falar: “olha, tem todo esse pessoal
aí fazendo uma tempestade... todo esse pessoal fazendo essa tempestade não consegue
mover esse cara aqui. Do que me adiante o apoio de todo esse pessoal aí se eles não
conseguem mover esse cara aqui?”.

Aluno: Logo, ele é forte.

Logo é melhor eu fazer uma negociação com ele, e não com a tribo. Você entendeu?
Pelo amor de Deus! As pessoas se sentem muito mal de você falar desses subterrâneos
animais delas. Todos os animais, e os seres humanos mais do que a maioria deles, amam a sua
própria perfeição e se envergonham de precisar de alguém. Se envergonham de ser
dependentes. Você já foi amarrar o sapato de uma criança? “Não. Eu já sei amarrar. Eu já
tenho cinco anos”. E aí ela vai, faz um esforço e amarra.

Aluno: O meu filho adora que amarrem pra ele...


Tem o cara que “não, pera aí, eu gosto de ser servido”. Cara, vai por mim. Ele não está
sentindo uma relação de dependência. Ele está sentindo uma relação de ser servido. Começa a
falar o seguinte: “cara, eu não vou amarrar e você vai tropeçar”. De vez em quando você tem
que olhar. Você tem que educar o bichinho também.

O ser humano não gosta de ser dependente. A criança, cada ato de independência que
ela conquista é um motivo de tremendo orgulho pra ela. Que ela fala imediatamente para
você. A primeira coisa que ela fala é “eu já sei escrever meu nome! Eu já sei amarrar o sapato!
Eu fiz cocô sozinho!”. Qualquer coisa que mostre independência. Isso é um fato para todos os
seres humanos e até para os animais em geral. Nós amamos a nossa própria perfeição. E aí,
quando você fica adulto, você pensa: “hm, comida dá pra conseguir sozinho. Casa dá pra
conseguir sozinho. Trabalho dá pra conseguir sozinho...”. E aí o homem olha e fala o seguinte:
“tem uma coisa que não dá pra você fazer sozinho, cara: mulher”. A vida ficar gostosa, sozinho,
não dá. Vai ser difícil. Você depende de um outro. É a única necessidade natural interna que
em que você tem uma dependência intrínseca de um outro para te satisfazer. E é
tremendamente embaraçosa essa necessidade.

A mulher, a mesma coisa. Tudo ela pode resolver. Só o que ela não pode resolver é a
insegurança e a timidez em relação à tribo. Você precisa de um outro para resolver. Para se
sentir bem com isso. Você pode até resolver na prática, óbvio, porque as pessoas não são
incompetentes. Mas você não pode resolver de maneira satisfatória, interiormente, sem um
outro. Você depende de um outro. E é a única coisa que você continua dependente a vida
toda. As outras dependências que você tinha - alguém te dava mamadeira, alguém limpava o
seu traseiro, alguém te levava para um lugar para você dormir – todas essas necessidades você
aprendeu a resolver. A única que sobrou é essa. Então essa é a única que te envergonha.
Envergonha aos homens precisar de mulheres e envergonha as mulheres precisar de homens.
Então ninguém quer confessar um para o outro isso aí. Essa é uma das razões, eu creio, pelas
quais Deus inventou o matrimônio, e o inventou como uma relação privada. Ninguém precisa
saber que você precisa de mulher, só ela. E ninguém precisa saber que ela precisa de homem,
só você. Então você não mostra essa dependência mútua.

Daí a outra maneira que maridos e mulheres usam para agredir um ao outro: mostrar
o quanto o outro precisa de mim e eu não preciso dele. É uma maneira bastante frequente de
ferir um ao outro.

Aluno: O senhor falou numa aula do simbolismo dos pés limpos. Tem alguma
semelhança com o casamento, pela tradição do noivo lavar os pés da noiva e vice-versa?

É bom. Dos pés brotam sementes do futuro. A pequena minoria que passa por um
apocalipse, por exemplo, Noé e a sua família. Porque os pés são a parte que está mais embaixo
do seu corpo e confronta a parte menos nobre do mundo. Anda sobre a terra, sobre os
vermes, sobre a sujeira. A que tá lá embaixo. Mas o pé é a raiz de todos os movimentos que
você pode fazer. Tudo o que você pode fazer. A gente tinha um professor de Tai Chi que dizia:
“em relação ao movimento, pé é pai e mão é mãe”. São os pés que transmitem um tipo de
movimento para as mãos, que dão uma forma final para ele. Mas ele tem que sair lá de baixo.
O movimento marcial tem que sair lá de baixo. O símbolo dos pés está associado ao símbolo
dos peixes. Os peixes, a mesma coisa. O que é o mar? O mar é onde as cosias afundam e
morrem. É o lugar onde desce toda a podridão e tudo se dissolve. E os peixes estão lá embaixo
e eles estão vivos, e são a vida que desceu até o fundo e que pode te permitir subir de volta.
Por isso também foi um símbolo do Cristo. Então quando você lava os pés, você está
justamente tentando indicar isso: vamos tentar fazer com que as primícias das nossas
intenções nesse ato sejam limpas. Que a gente, muito sinceramente, saiba que é muito
humilhante ser esse ser. Ser um pé não é muito valioso. Eu sei que tem uns tarados por pé,
mas, de maneira geral, a cabeça é mais nobre. A cabeça é mais interessante e, principalmente
no caso das mulheres, o que está no meio do caminho entre a cabeça e os pés é mais gostoso.
Pode não ser tão nobre quanto a cabeça, mas é igualmente interessante. Dos pés você só
lembra quando o outro pede para fazer massagem. A gente tem que lembrar: naquela época
não existia produto que impedia o mau cheiro dos pés, trocar de sapato toda hora, trocar de
meia todo dia... A meia era uma faixa que se enrolava nos pés. As pessoas ficavam meses com
a mesma meia. Pé era muito sujo. Então você tentar limpá-lo é falar: olha, é com isso aqui que
eu tenho que lidar.

A minha promessa de amor matrimonial para a minha esposa não é “eu estou casando
com as suas nobres virtudes, com o seu espírito... eu estou casando com a Fifi, e a Fifi é uma
cadela. Mas é dela que eu tenho que cuidar. As suas nobres virtudes e a sua personalidade não
me foram permitidas por Deus. Eu não tenho nenhuma garantia de tê-las. Para que eu
participe das suas virtudes eu dependo das minhas virtudes”. Como você pode participar das
virtudes se você não as tem ao menos virtualmente? Isso seria Santa Mônica e o marido dela.
A mulher era cheia de virtudes e o marido não tirou nenhum benefício das virtudes dela. Então
as virtudes do seu cônjuge não são posse sua e não é o que você está prometendo. Você não
está prometendo cuidar da virtude e do espírito. Deixa que Deus cuide do espírito. Você está
prometendo cuidar dos pés. Daqueles movimentos da animalidade que mordem a pessoa e
que mordem tanto ela, que ela tem vontade de morder os outros. E isso não é legal.

Resumindo: Entregar-se ao seu marido amorosamente, carinhosamente, com sorriso,


sexo todos os dias, toda a vez que ele precisar é que nem lavar os pés de alguém. Não é
gostoso. De vez em quando, mas muito de vez em quando, porque mulher é um bicho tarado,
vocês vão estar a fim. Mas normalmente vocês não vão. E o homem, a mesma coisa. Cuidar da
sua mulher, amar a sua mulher é ir lá e lavar pés sujos. Não é dormir com ela, não é fazer
carinho para ela. Você não estará cuidando dela com isso. É você entender os mecanismos que
a aprisionam. Os mecanismos sociais e psicológicos que a aprisionam e ser o principal agente
de libertação.

É nesse sentido que se fala que o homem é uma força ativa e a mulher uma força
passiva. Olha, presta atenção: para você fazer isso, para você ser um bom marido para a sua
mulher é preciso sangue, suor e lágrimas. É um tremendo esforço ativo. Para ser uma boa
esposa para o marido é uma entrega passiva. É muito pouco esforço real. A mulher tem muita
pouca vontade de fazer, mas é muito pouco esforço. Não precisa de um esforço interpretativo,
não precisa entender do que ele gosta na cama, do que ele gosta e você... Não. Basta sorrir,
beijar, abraçar e corresponder a ele e falar “como é bom que você está aqui e faz isso comigo”.
É você tratar aquilo como uma brincadeira que o alegra. Que o entretém. Para o cara, não.
Entender o mecanismo interno de problemas, de articulações sociais e psicológicas que você
não tem dentro da sua cabeça é algo profundamente complicado. Você entender os
problemas da mulher exige um esforço ativo. Para mulher basta uma entrega passiva. Precisa
muito pouco de esforço ativo. Todo o esforço que você está pondo no ato é um esforço que
você quer: “deixa eu tomar um banho, deixa eu esquecer os problemas, colocar um óleo, umas
velas com uma essência pra criar um clima místico...”. Presta atenção: não precisa de nada
disso. Às vezes o que o cara quer é “eu vou baixar a sua calcinha aqui na cozinha e vai ser
agora mesmo. Não se preocupa que, desta vez, em três minutos eu faço a tarefa”. De vez em
quando ele pode também querer fazer um negócio elaborado e tal. Mas normalmente não é
tudo isso. Normalmente é muito pouco de entrega passiva. É desistir do seu estado psicológico
presente de “não estou a fim” e falar “eu vou fazer isso aqui porque você vai ficar sorrindo
quando eu terminar. É só isso que eu quero, que você termine sorrindo”. É só isso que você
precisa fazer. E, geralmente, isso demanda muito pouco. Agora, a mulher não. Às vezes tem
um negócio que tá entristecendo ela hoje e você vai ter que perguntar. Daqui duas semanas
você vai ter que refletir. Às vezes tem uma articulação de semanas ou meses no problema. O
seu problema é simples: “eu não quero fazer maionese. Eu não vou fazer maionese”. O dela
não é esse. Sempre envolve uma complexa articulação e você tem que entender o seguinte:
quando você esteve num contexto social, você geralmente não ficou prestando atenção na
articulação que estava acontecendo na vida dela. Então você não sabe a raiz do problema.

Perguntaram para Confúcio o que o marido e a esposa devem fazer. Confúcio fala: “o
marido deve ser bom”. Bom no sentido de generoso. Ele tem que fazer força para o bem
chegar até ela. Porque o marido pensa “ela é boa para mim. Eu gosto dela. Ela é bonita e eu
elogio”. Não, me desculpa. Você tem que ser bom para ela. E você não é gostoso. Pensa bem:
você nunca dormiria com você mesmo. Eu não casaria comigo mesmo. De jeito nenhum. Eu
conversaria comigo mesmo. Aliás, eu converso comigo mesmo todos os dias e tenho umas
conversas bastante interessantes. De vez em quando até ganho a discussão. Mas eu não
casaria comigo de jeito nenhum. Então ela casou com você e ela é boa para você porque ela é
gostosa para você. É gostoso cheirar ela, é gostoso abraçar ela, é gostoso beijar ela. Agora, o
que é ser bom para ela? Você tem que parar e pensar. Você tem que articular isso. Você é o
Cristo. O Cristo é um libertador, um redentor. O Cristo não é um cara que chegou para a
humanidade e falou: “ó, raça de anjos. Vocês são tão maravilhosos. Eu quero todos vocês.
Vocês estão todos no céu já, garantidos”. Não, ele falou: “ó raça de víboras. Por vocês mesmos
vocês vão se foder todos. Eu é que tenho que resolver as paradas aqui porque se depender de
vocês vai todo mundo pro inferno”. Entendeu o que é ser bom? Você vai dizer que o Cristo não
foi bom para a humanidade? Ele foi incalculavelmente bom. Mas esse “bom” é o seguinte: ele
foi e resolveu o problema. Então você tem que perguntar quais são os problemas que estão
oprimindo a sua mulher e se ela não tá conseguindo resolver, você tem que resolver.

Então ele falou que o homem tem que ser bom. Ativamente bom. Porque o homem é
bom para os seus amigos. Mas ele não é bom para a sua mulher. E ele não é bom para a sua
mulher porque dá preguiça. Ele não sabe o que a mulher quer. Os amigos ele sabe o que
querem. Mulher exige esforço interpretativo para você entender o que é bom para ela. Então
ele não quer fazer porque ele é preguiçoso. Vagabundo. O homem bom não é vagabundo. E a
esposa? “Esposa, escute o seu marido”. Porque, como ele falou, cada um dos homens aqui que
é casado vai dar testemunho para você: “eu falei para a minha esposa o que me incomodava. E
ela, invés de simplesmente parar de fazer o que me incomodava e começar a fazer o contrário,
ela tentou interpretar aquilo em termos de articulação e fazer uma outra coisa que não tem
nada a ver com o que eu queria”. Presta atenção: seu marido é uma escritura de sentido
literal. Aprendam isso sobre os seus maridos. Ele fala pouco, mas as coisas que ele fala são
exatamente o que ele quer. Só o que você precisa fazer é isso. Porque uma hora o cara vai
falar: “cara, eu tenho uma amiga”. E vocês eram parceiros modernos, e estavam dividindo
tudo. Mas aí vocês tiveram um filho, e ela não aguentava mais trabalhar. Sim, porque cuidar de
bebê, não dá. Cuidar do bebê e trabalhar em tempo integral? Não é fácil. Aí ela falou: “Pô, eu
não aguento mais trabalhar, mas o meu marido falou que ele não vai manter as contas todas
sozinho, porque a gente criou o padrão de vida seguindo as nossas carreiras, em conjunto,
parceria”. Aí eu falei: “é mesmo? Foi só isso que ele falou? Faz o seguinte: não fala pra ele que
você vai parar de trabalhar. Começa a receber ele com sorriso, com beijinho e dorme com ele
todos os dias”. Ela disse: “ah, mas será que vai funcionar?”. Eu falei: “vai. Eu te garanto”. “Ah,
eu não sei”. Passou uma semana, ela falou: “É, mas sabe, tá funcionando. E sabe de uma coisa?
Ele tinha me falado ‘se você dormir comigo todos os dias, eu trabalho e sustento essa porra
toda’”. É lógico! O cara tá sangrando energia vital, porque ele é um cara legal e não quer trair
ela, e quer competir e lutar pelo mundo. Só que tem o seguinte: pra lutar pelo mundo você
precisa estimular a sua testosterona. Você quer que o cara lute por você, pra conquistar o seu
mundo, você quer que ele fique cheio de testosterona. Só que o preço dele ficar cheio de
testosterona, dele enfrentar a competição do mundo, dele enfrentar o mundo para libertar
você do que te oprime é ele ficar tarado, pô.

Aluna: Não é a toa que o falo é o maior expoente na arte, né?

Sim, é lógico. É óbvio. Agora, você tem que entender isso de uma vez por todas. Todo
mundo aqui é ser humano, tem uma alma imortal, inteligência racional, inteligência abstrata.
Todo mundo é um bicho também que tem vergonha das suas necessidades. Tem vergonha de
precisar de um outro. Precisar de um ser humano que não é você. É muito humilhante. Não
tem coisa mais humilhante do que precisar pedir comida, precisar pedir dinheiro. Até seguir as
instruções do médico é humilhante, porque você não queria seguir aquela porcaria de dieta.
Então isso aí é humilhante, embaraçoso. Você precisar de um outro, seja por sexo, seja por
amparo e apoio no sentido social é humilhante. Mas confessem isso um para o outro como
casais e prometam de novo um para o outro: eu vou fazer isso. E porque eu vou fazer isso,
você vai se livrar desse problema. Eu vou te libertar.

Agora isso aí é um casamento dentro do normal. Os dois sabem disso e é isso que eles
tentam conquistar um para o outro todos os dias. Você não precisa o dia todo ficar sorrindo
para o seu marido e fazendo carinho pra ele. Manda ele embora para trabalhar. Pelo amor de
Deus. Mas quando ele acorda, faça isso. Quando ele volta, quando acabou o trabalho e ele
volta para você, mostra para ele que “eu estou aqui para ser todos os prazeres que te faltaram
no dia do mundo. Toda a satisfação que te faltou. Você não precisa procurar no mundo,
porque está aqui. Sou eu”. Não é as comidas que você faz, não é a cortina que você pôs. “Ah,
mas ele gosta disso”. Presta atenção: isso é uma mentira política. Ele gosta disso que nem
político gosta de beijar as criancinhas dos outros, criança de pobre. É uma mentira política. “Eu
não estou nem aí para as cortinas! Mas eu estou aí para você. Eu gosto de você. Você é legal. O
que você acha dessa aqui? É melhor, ou aquela?”. Você tem que tentar descobrir qual é a
opinião que ela quer ouvir. Às vezes a escolha de uma cortina está envolvendo um dilema. Não
é apenas uma questão estética. Às vezes ela está envolvendo um dilema social. E, se você
ajudar ela a resolver esse problema e falar “não, nem essa e nem essa. Aquela ali é melhor”.
Ela vai falar “nossa, você é uma entidade sobrenatural”. “É, eu sei. Zeus me disse”.

Muitas vezes tem isso. Aquela casa em que ela está fazendo as modificações, ela está
tentando criar um escudo que a ampara e aí você pode ajudá-la nessas decisões. E aí, nesse
sentido, tomar essas decisões é precioso para você, se você aprender a olhá-la e ajudá-la nesse
caminho. Mas a verdade é que, intimamente, se não tiver cortina, eu uso aquele tapa-olho de
avião. Pronto. Porque cortina só serve pra isso. O impacto para o macho da espécie é sensorial.
“Tá certo, não ter cortina é uma droga porque o sol vem aqui quando a gente tá querendo
dormir no sábado. Então cortina é importante”. Homem só pensa nesse fator. “E roxo não! Eu
detesto roxo”. Esse é o máximo que pode acontecer com o homem. Pro cara é o seguinte:
“olha, você escolhe e eu abençoo”. Ele tem indiferença papal. Mas aí você tem que olhar. E se
a decisão envolve um sistema de amparo? Se envolve isso, tenta achar uma solução melhor do
que a que ela achou. Você estará melhorando objetivamente a vida dela.