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MOVIMENTO DE IDÉIAS/lDÊIAS EM MOVIMENTO
E
xpressão da mais recente guinada no solo da filosofia francesa, a
coletânea reúne autores cujo tipo emergente convém sublinhar, diante
das cortes filosóficas reinantes. Embora diferenciados por condutas
teóricas individuais, convergem no traçado de uma nova pOstura
comum, ascendendo do envolvimento adstringente com as idéias nietzscheanas -
para-dogmática suprema e sufocante nas últimas décadas - à explícita rejeição
crítica das mesmas. O próprio lema que adotam - "pensar com Nietzsche contra
Nietzsche" - antes cautela diplomática do que critério analítico, mas não apenas,
demarca as pontas do itinerário que viveram enquanto membros de uma geração
intelectual que começou a se formar nos anos 60, portanto sob as cangas e
derivações hipertróficas da "filosofia do martelo", lineamentos debaixo de cuja
perspectiva se perfilaram por muito tempo, mas aos quais, em graus diversos,
vêm denunciando agora como esgotados, insuficientes e errôneos, no mínimo
porque, tal como dizem Ferry e Renaut na Apresentação, "a filosofia não está
destinada ao exercício infinito da desconstrução" e de várias maneiras "retoma a
exigência ancestral de racionalidade".
De fato, para os autores deste livro, hoje, o combate estruturante é armado
pela demanda de racionalidade cont.ra a desrazão das filosofias da diferença. Por
essa linha se distribuem os textos. Do mero apelo à racionalização, ao "bom
uso" da obra de ietzsche, feito por Raynaud, que se diz amparado e estimula-
do pelo exemplo de Weber, mediando pela instrutiva reflexão de Descombes a
respeito do advento do "nietzscheanismo à francesa", cujas respostas aos proble-
mas ideológicos e culturais do tempo presente "devem ser rejeitadas, porque
filosoficamente incoerentes j..'; mal concebidas e em termos inutilmente
amaneirados ou desesperadamente confusos", que compõem "uma vaga orien-
tação geral expressa por fórmulas como o 'descentramento do sujeito', a leitura
'sintomal' da linguagem, a crítica da 'falsa consciência"'.
A exigência de racionalidade passa também pela contribuição de Legros, que
recusa energicamente a metafisica da vida de Nietzsche, cujas ambíguas criações
conceituais, partindo da "oposição entre o pensamento natural (o pensamento e
a ação como processo sem sujeito) e o pensamento consciente levam de Volta a
todas as distinções da metafisica" tradicional, sem a consistência e o valor
racional que a melhor parte desta sempre exibiu; o rumo das exposições é inte-
grado ainda pelo texto de Boyer, cujo imperativo - "é preciso parar de interpre-
tar Nietzsche e tomá-lo ao pé da letra" - é irrepreensível, se bem entendido
como a necessária anterioridade do compreender (análise imanente ou estrutural)
em relação à interpretação, a partir do qual interroga o "valor operatório ou
analítico, e não apenas profético, dos conceitos especificamente
nietzscheanos", pondo em evidência a "obsessão anti-igualitária" de
Nietzsche na sua contra posição à "vontade de saber", tomada enquanto pos-
sibilidade do nefasto.
Culmina o fluxo crítico da obra na opulência dos ensaios de Comte-
Sponville e Taguieff, os dois mais abrangentes e elaborados da coletânea. O
primeiro aborda e promove a demolição dos temas mais caros a Nietzsche:
noções como as de super-homern, eterno retorno, vontade de potência e
transmutação dos valores são cuidadosa e competentemente investigadas e "~ergunta era: por que você não é nietzscheano? / .../ n
refutadas, ao mesmo tempo em que seu autor confessa que "compartilhava que não confundimos o valor e a verdade (nós que
com Nietzsche o essencial de suas recusas", mas que lhe repugna totalmente
enu . mos a crer que seja verdadeiro tudo o que dese-
o "que existe.(no conteúdo) de mais propriamente nietzscheano" - "porque
diz não aos homens reais e especialmente não à moral, não à cultura, não à jamos, mas não esejar a verdadel), nós que amamos a verdade
história, não à humanidade do homem". Por sua vez, Taguieff, com destreza mais do que o bel , o real mais do que a arte e a arte mais do que os
e descortino, trafega pelas malhas do pensamento tradicionalista, desde Louis estetas, nós que acreditamos na ciência e na razão, nós os clássicos (a
de Bonald e Donoso Cortês, passando por Maurras, até o entroncamento arte a serviço da verdade, eis o nosso cultol), nós os racionalistas,
com Nietzsche, que aparece "como o fundador de uma segunda tradição do nós os continuadores de
pensamento tradicionalista radical, cuja herança intelectual e política só sur-
Sócrates e das Luzes - e
girá na primeira metade do século XX. Deste segundo tradicionalismo anti-
mais especialmente
moderno, os herdeiros parciais, nos dois sentidos, serão legião entre os filóso-
fos e os literatos: Spengler e Évola, Edouard Berth e Drieu Ia Rochelle, Leon nós, os discípulos de
Chestov, Cioran ... e Heidegger, evidentemente". Segundo tradicionalismo Epicuro e de
nutrido pelo "nacionalismo integral" e pelo voluntarismo b~licoso. Spinoza! -, nós que
Ambos, Cornte-Sponville e Taguicff, nos lineamentos mais vigorosos de preferimos o conhe-
seus argumentos, independentemente de diferenças de fundamento ~ pers- ento à interpre-
pectiva, fazem lembrar os melhores e mais pertinentes aspectos da ampla críti-
ção, a história à
ca de Lukács ao irracionalismo alemão em geral e a Nietzsche em particular,
realizada nos idos de 50. Sim, a recusa e o combate à herança nietzscheana gia (e a pergunta "o que é?" à
não está começando agora ... pergunta quem .. , nos que nunca nos ac h amos d ernasia-
" 7"1) / .
O conjunto crítico de POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS é do humanos / .. ./ nós que só suportamos o elitismo republicano, nós
sem dúvida um lenitivo, na enxurrada nietzscheano-hcideggeriana ainda em os democratas, nós os progressistas, nós que somos - que queremos
voga dominante; enquanto tal faz juz a acolhimento pelo contraste que pro- ser! - do partido dos fracos e dos escravos / .. ./ nós que não queremos -
porciona e pelo serviço que presta. Todavia, não sem que fique assinalado seu
sobretudo não! - ultrapassar o homem, nós que desconfiamos
próprio limite crítico, circunscrito pelo fundamento neo-racionalista, que
embriaguez e das paixões, nós os apolíneos, nós os civilizados, n
obriga e é obrigado a se acantonar no interior mesmo das estreitas fronteiras
do liberalismo social-democrata. que tentamos ser mais ou menos morais (sempre entre o bem
Limites que, porém, favorecidos pelas mazelas, aventuras e descaminhos, mall), nós os inimigos dos malvados e dos sofistas, nós os amigos
práticos e teóricos, de certos marxismos, vem permitindo que Marx seja incluí- sabedoria e da gente boa, nós que nos esforç
do no rol dos "mestres da suspeita" (Ricoeur), embotando com isso, por
longo tempo, a possibilidade de uma efetiva crítica ad hominem, no exato o
,
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~ por que seríamos nietzscheanos?"
momento em que a deformação e a mutilação dos homens atingem nível sem -o
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precedente, para o qual a sofistica nietzscheana - centrada no ceticismo mito- ""00
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maníaco do "não há fatos, só interpretações" - e sua correlata estética da
mentira são o canto dionisíaco de confirmação e justificativa.
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J. CHASIN MOVIMENTO DE IDÉIAS/IDÉIAS EM MOVIMENTO
ALAIN BOYER
ANDRÉ COMTE-SPONVILLE
VINCENT DESCOM BES
LUC FERRY
ROBERT LEGROS
PHILlPPE RAYNAUD
ALAIN RENAUT
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF

TRADUÇÃO
ROBERTO LEAL FERREIRA

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M aVIM ENTO DE IDÉIAS/lD ÉIAS EM M aVIM ENTO
TíTULO ORIGINAL ,
POURQUOI NOUS NE SOMMES PAS NIETZCHEENS
e ÉDITIONS BERNARD GRASSET & FASQUELLE/PARIS/l99l
e DA EDiÇÃO BRASILEIRA: EDITORA ENSAIO/SP/l994 íNDICE
PREFÁCIO 7
CAPA Luc Ferry e Alaln Renaut
GILBERTO SATO

HIERARQUIA E VERDADE 11
REVISÃO Alaln Boyer
LíVIA C. A. COTRIM (ORIGINAIS)
E A BESTA-FERA, O SOFISTA E O ESTETA:
EQUIPE ENSAIO "A ARTE A SERViÇO DA ILUSÃO" 37
André Comte-Sponville

DIAGRAMAÇÃO. COMPOSiÇÃO E FILMES


O MOMENTO FRANCÊS DE NIETZSCHE 97
ENSAIO - EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
Vlncent Descombes

"O QUE PRECISA SER DEMONSTRADO


IMPRESSÃO E ACABAMENTO
NÃO VALE GRANDE COISA" 127
GRÁFICA EDITORA HAMBURG
Luc Ferry e Alaln Renaut

A METAFíSICA NIETZSCHEANA DA VIDA 151


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Cãmara Brasileirado livro. SP. BrasiQ Roberl Legros

Por que não somos nietzscheanos I Alein Boyer. .. NIETZSCHE EDUCADOR 191
I et aLI; tradução Roberto leal Ferreira. - São Paulo:
Ensaio. 1993. Phllippe Raynaud

l. Nietzsche. FriedrichWilhelm. 1844-1900I. Bover, Alain. O PARADIGMA TRADICIONALISTA:


HORROR DA MODERNIDADE E ANTILlBERALlSMO
93-3603 CDD-193 NIETZSCHE NA RETÓRICA REACIONÁRIA 213
índices Para Catãlogo Sistemático Plerre-André Taguieff
1. Nietzsche: Rlosofia alemã 193

ISBN 85-85669-01-2

1994
TíTULO SELECIONADO PELA
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MOVIMENTO DE IDÉIAS/lDÉIAS EM MOVIMENTO
Rua Tupi, 784
01233-000 - São Paulo - SP
Telefones: (011) 66-4036/3168
PREFÁCIO
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POR QUE NAO SOMOS


-
NIETZSCHEANOS
ensar com Nietzsche contra Nietzsche: este po-
P deria ser o outro título desta coletânea, cuja
Idéia nosso amigo André Comte-Sponville nos veio
propor, um ano atrás. Para a maioria dos estudantes
da nossa geração - aquela que começou os estudos
nos anos 60 - o ideal do lIuminismo só podia ser uma
brincadeira de mau gosto, uma sombria mistificação.
Pelo menos é isso que nos ensinavam. Os gurus da
época chamavam-se Foucault, Deleuze, Derrida, AI-
thusser e Lacan. Merleau-Ponty, o humanista, fazia o
papel de figurão ultrapassado e Sartre já não era lido
pela maior parte de nós. Da École Normale Supérieu-
re ao College de France descobríamos os filósofos da
suspeita: Marx, Freud, Heidegger, sem dúvida, mas an-
tes de tudo Nietzsche, o inventor dessa "genealogia"
em nome da qual era preciso tratar os discursos co-
mo sintomas.
Ilusão retrospectiva ou astúcia da história? Os que
se queriam herdeiros dessa "filosofia do martelo" com
a qual Nietzsche pretendia quebrar os ídolos da me-
tafísica hoje ainda passam por serem os últimos cria-
dores de uma tradição filosófica em vias de esgota-
mento. Para a nossa geração, essa evidência teve vl-
da longa. Os ensaios aqui reunidos, em sua própria
diversidade - nenhum dogma comum os reúne =, são
testemunhas disso: a filosofia não está destinada ao
exercícío infinito da desconstrução. Sob múltiplas for-
mas, ela retoma a exigêncía ancestral de racionalida-
de a que o relativismo dos pensamentos da diferença
nos convidava muito comodamente a renuncíar. Sem
dúvida, as escamas caíram de nossos olhos: hoje nin-
guém mais acredita no Saber absoluto, no sentido da
história ou na transparência do sujeito. Eis aí exata-
mente por que é mesmo com Nietzsche que deve-
mos pensar contra Nietzsche.

L.F. e A.R.
..•~:~:~:~:1:~:j:~:f~:r~:~:~:~:~:~:~::::::::::::::::::::::::::;:;:;::::::;:;:;:;:;:::;:::
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HIERARQUIA E VERDADE
HIERARQUIA E VERDADE
ALAIN BOYER
"Que tenho eu a ver com refutações ..."
F. NIETZSCHE

m 1884 foram publicados em Breslau os Funda-


E mentos da Aritmética. Simultaneamente, em Ni-
ce, aquele que escreveu tão bons livros terminava a
quarta parte do Zaratustra. Frege e Nietzsche. Que é
então a filosofia, e mesmo a filosofia alemã, para que
essas duas obras possam ser consideradas como per-
tencentes à mesma "disciplina"? Nunca a cisão entre
o matemo e o poema, para falar como Alain Badiou,
se mostrou tão aberta. E, de fato, cada um desses
dois pensadores iria ser considerado, no século XX, o
Inventor de uma nova maneira de pensar. A revolu-
ção fregiana terá como posteridade Russell, Wittgens-
tein, Carnap, Quine ... O filósofo "a marteladas" fará o
papel de profeta aos olhos de Heidegger e do "pen-
samento francês" dos anos 60-70, mas não se deve
desdenhar sua influência sobre homens como Simmel
e Max Weber. (A posição de Husserl é singular: ele
parece ignorar Nietzsche, ao passo que a crítica feita
por Frege de seu primeiro livro em 1895 foi, ao que
parece, determinante, tanto quanto a de Brentano.)

O século XIX legou-nos pelo menos três grandes lo-


tes de problemas ao redor dos quais ainda gira a
maior parte de nossas inquietações: o econômico, o
político e o epistemológico. O mercado, a democra-
cia, a ciência (e a técnica) são os objetos que deve-
mos continuamente tentar pensar. Marx ou Walras,
T cqueville ou Pareto, Comte ou Claude Bernard, não
. Itaram os analistas à cabeceira da modernidade.
utores há até, como Cournot ou Mill, que procura-
ram compreender o todo. Quanto ao mercado e, de
um modo mais geral, à economia industrial, Nietzsche
não parece ter dado a ela tanta importância quan-
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS HIERARQUIA E VERDADE
ALAIN BOYER CONTRA A IGUALDADE. A HIERARQUIA

to seu contemporâneo Marx, que ele, aliás, não cita mos, em compensação, um eterno retorno da obses-
nunca. Mas no que diz respeito à democracia, é pa- o anti-igualitária, É preciso parar de interpretar
tente que Nietzsche não se cansa de pensar nela. NI tzsche e tomá-Io ao pé da letra. O cristianismo é
Não para fundamentá-Ia, e sim para condená-Ia. Não m primeiro lugar para ele a religião da revolta dos
há dúvida de que a leitura de Nietzsche continuará fracos, o pensamento plebeu, o igualitarismo integral.
ainda por muito tempo a exercer seus efeitos estimu- ua admiração pelo sistema indiano de castas (ver O
lantes sobre todos aqueles que não querem fazer da I\ntlcristo) aí está para nos convencer de que
filosofia uma atividade profissional "como as outras", e Nletzsche se coloca sem hesitar do lado dos partidá-
que nela vêem uma atividade vital. uma paixão. rios do Homo hierarchicus contra os defensores do Ho-
Obras como Humano. Demasiado Humano ou Aurora mo aequalis. Poder-se-ia retorquir que ele não se can-
contêm muitos textos otarmantee', que cumpre reler e a de fazer o elogio do Indivíduo contra a multidão,
meditar, mesmo quando passamos o melhor de nosso até mesmo da pessoa de Jesus. Mas em que sen-
tempo refletindo sobre a interpretação das teorias lido?
científicas ou sobre o sentido do teorema de G6del ...
Ler Nietzsche, sim, sem dúvida, mas a questão não é
essa, mas antes a seguinte: pode-se ser nietzscheano?

A obsessão central de Nietzsche é a hierarquia. Ele


o diz e o repete. "Dado que é sobre o problema da
hierarquia que temos o direito de falar, que ele é o
nosso problema, de nós outros, espíritos livres..."2 A hie- CONTRA A IGUALDADE,
rarquia, a saber, ao mesmo tempo o problema da
hierarquia dos valores e o elogio dos valores de; hie- A HIERARQUIA
rarquia. Pensar é Julgar, por certo, mas no sentido do
juizo de valofl. Situar-se "além do bem e do mal" não ietzsctre-Cóucles- não se insurge tanto contra o
significa em nenhum caso renunciar a julgar, classifi-
car, eliminar. Pelo contrário. Mas é querer situar-se pa-
N individualismo quanto contra o igualitarismo de-
mocrático: "A democracia é o cristianismo naturaliza-
ra além das avaliações tradicionais, a um só tempo do'". A modernidade é uma "desnaturação dos valo-
cristãs e igualitárias. Se o lIuminismo e a revolução en- res. Contrários introduzidos no lugar dos graus e ordens
frentavam a igreja, faziam-no em nome de valores naturais. Ódio à hterorqutc".
igualitários cujo fonte era cristã. Não interpretar Nietzsche, tomá-Io literalmente, sem
Mas, para além desse diagnóstico lúcido, podemos comentários:
encontrar em Nietzsche uma interessante crítica da
igualdade? Não estou convencido disso. Encontrare- A falta de clareza moderna

1. No bom e no mau sentido da palavra: alguns frios elogios da


Não vejo o que se quer fazer com o operário
guerra pela guerra (Humano. Demasiado Humano. § 477) têm algo
de propriamente "ignóbil". europeu. Ele se acha bem demais para não pas-
2. Humano. Demasiado Humano. Prefócio. § 7. sar de agora em diante a exigir cada vez mais,
3. Ver G. DELEUZE, Nietzsche et Ia philosophie. PUF, 1962. p. 1: "O
projeto mais geral de Nietzsche consiste no seguinte: introduzir na fi-
losofia os conceitos de sentido e de valor". Quanto ao sentido, se 4. Comparação rejeitada por J. GRANIER, Le probleme de Ia véri-
"à relação científica do efeito e da causa Nietzsche substitui a cor- té dons Ia philosophie de Nietzsche, Éd. du Seuil, 1966, p. 419, mas
relação do fenômeno e do sentido" (ib" p. 4), perguntamo-nos em ratiflcada por G. DELEUZE,p. 66.
que sentido da palavra "sentido" os fenômenos naturais têm "senti- 5. Fragments posthumes, 1887, Galllmard, 1976, p. 145.
do"; sobre a hierarquia. ib.. pp. 8, 67. 6. lb., p. 64.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS HIERARQUIA E VERDADE

ALAIN BOYER CONTRA A IGUALDADE A HIERARQUIA

de maneira cada vez menos modesta: finalmen- tante quanto ver no autor de Além do Bem e do
te ele tem a seu favor o número. Está absoluta- Mal o propagador de uma moral hedonista, libertá ria
mente ultrapassada a esperança de ver formar- e individualistalo. Dito isso, a partir do momento que
se aqui uma espécie de homem modesto que Nietzsche julga, seus juízos podem ser importantes pa-
se contente com pouco, uma escravidão no sen- ra nós, mesmo se os tomarmos a contrario. Em geral,
tido mais ameno da palavra, em suma, algum suas intuições são preciosas. Acrescentemos simples-
estado social imutável. Tornaram o operário apto mente que as avaliações que elas implicam são ape-
militarmente: reconheceram-lhe o direito de voto, nas, efetivamente, a inversão de "nossos" valores:
de associação: tudo se fez para perverter os ins- "Nessa Inversão de valores (em conseqüência da
tintos em que um chinesismo operário teria podi- qual "pobre" se tornou sinônimo de "sagrado" e de "a-
do basear-se: tanto e tão bem que o operário migo") consiste a importãncia do povo Judeu: com ele
hoje sente sua existência como um estado de começa na moral a revolta dos escrovos"!'.
miséria (moralmente falando, como uma injusti- "O cristianismo é uma insurreição do que rasteja
ça ...) e a fará sentir como tal ... Mas o que é contra o que tem elevação: o Evangelho dos "peque-
que se quer? perguntamo-nos mais uma vez. nos" torna baixo."l2
Quando se quer um objetivo, é preciso querer os Enquanto René Girard vê no judaísmo e depois no
meios: querem escravos - e precisam deles! - Evangelho a inversão progressiva da religião arcaica,
não devem educá-Ios como senhores. em outras palavras do mecanismo victimário, e nesse
processo uma libertação, Nietzsche, que no fundo fa-
Os operários reivindicam um "justo" salário, quando, zia o mesmo diagnóstico que ele, assinalava aí o ín-
em vez disso, deveriam procurar realizar do melhor dice da decadência suprema. Girard opõe o mito de
modo a sua finalidade: "Os operários deveriam adqui- Abel e de Caim, que toma o partido da vítima, ao
rir um amor-próprio de soldados. Honorários, un: orde- de Romulus e Remus, que santifica o matador.
nado, mas não um salário! Não há medida comum Nietzsche adoraria essa oposição, para melhor desva-
entre o salário pago e a produção efetuada. Mas si- lorizar a visão da Bíblia.
tuar o indivíduo de acordo com sua própria espécie Da mesma maneira, quando Popper, antes de Cas-
de tal modo que ele possa efetuar num grau .sapre- toriadis, acusa Platão de ter "traído" Sócrates e de ter
mo o que pertence ao seu cornpo'", esquecido sua sabedoria tolerante e democrática,
De um modo mais geral, a palavra de ordem é não faz mais do que retomar a oposição nietzschea-
clara: substituir o imperativo categórico pelo imperati- na, invertendo-a. Para o autor do "caso sócrotes">,
vo da naturezas. O problema de todo naturalismo é Platão tinha "boas" tendências aristocráticas, infelizmen-
que se faz a natureza dizer mais ou menos o que se te gangrenadas pelo "decadente" e "popular" Sócra-
quer. "Direito natural" e "volta à natureza" são expres- tes: "com a dialética, o povo consegue levar a me-
sões quase vazias, à espera de serem preenchidas. A lhor".
natureza de Nietzsche é feita de forças, relações de
forças, rosultcmtes" de forças, mas essas forças não 10. Ver l. FERRY,Homo oestheticus. L'invention du goüt à râge dé-
nocratique, Grasset, coleção "Le college de philosophie", 1990, p.
cessam de gerar avaliações. Se a moral consiste em 246. (A ser publicado em breve pela Editora Ensaio.)
avaliar, é um erro acreditar que Nietzsche se situe pa- 11. Além do Bem e do Mal, § 195; em O Anticristo é o termo in-
ra além de toda moral. Muito pelo contrário. Trata-se diano Tchandala (intocável) que é empregado. Democracia = cris-
tianismo = judaísmo = revolta dos excluídos.
evidentemente de um engano pelo menos tão Impor- 12. O Anticristo, § 43; ver a conclusão do panfleto "Lei contra o
cristianismo", onde Nietzsche propõe no fundo fazer do sacerdote o
novo bode expiatório: "O sacerdote é o nosso Tchandala, será mar-
7. Ib .. p. 27.
ginalizado, esfomeado, expulso numa espécie de deserto".
8. tts., p. 26.
9. Ver o belo Aforismo 119 de Aurora, "Experimentar e imaginar". 13. Em O Crepúsculo dos ídolos.
HIERARQUIA E VERDADE
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
CONTRA A IGUALDADE A HIERARQUIA
ALAIN BOYER

nlência (Herkunft) não é a busca do fundamento, da


Não que "nossos" valores liberais-democráticos não origem (Ursprung) no sentido da "identidade cuidado-
levem em conta tudo o que poderia parecer-se com samente dobrada sobre si mesma (da coisa)"l6. Rom-
a idéia de cultura, com a promoção das artes, em per com o essencialismo, de resto, é romper tanto
suma, com alguns dos valores "aristocráticos". Em con- com a Origem quanto com o Fim, e propor a idéia
trapartida, é claro que não estamos dispostos a fazer de emergência (Entstehung). Os críticos contemporâ-
dessas "perfeições" absolutos, em detrimento da Justiça neos de toda "filosofia da história" poderiam neste
ou da Iiberdadel4. p~nto. invocar Nietzsche. Apesar de tudo, a genealo-
gla ainda confia demais na origem. Tudo se passa
Dentre os conceitos especificamente nietzscheanos,
como se Nietzsche ainda concedesse ao desnuda-
quais podem ter um valor operatório ou analítico, e
mento das origens um valor de desvelamento, mas,
não apenas profético? Os conceitos de super-homem, desta vez, de rebaixamento: a origem "vulgar", como
de eterno retorno ou até de vontade de potência repete Foucault impassivelmente, de um conceito o
me parecem sinceramente bastante pobres. Em com- desvotorlzorto'".
pensação, o conceito de genealogia não deixa de .Podemos ter dúvidas acerca desse procedimento. A
ter sua sedução, no sentido de que pode dar lugar a origem pode ser "baixa" - se aceitarmos essa caracte-
um programa de pesquisa. Nenhum mistério, portanto, rizaçã~ tipicamente aristocrática - e a instituição ou o
no fato de que tenha podido marcar com seu selo a conceito mudar de sentido e "valer" por si mesmo. A
obra de Foucault. O programa foucaultiano não está moral humanista poderia ter sido inventada por razões
inscrito neste esboço de plano, datado do outono de que ela mesma não seria capaz de reconhecer co-
1987? mo suas e no entanto se apresentar a nós como
"Em lugar dos valores morais, toda sorte de valores
uma solução possível para os problemas da vida em
naturalistas. Naturalização da moral. comum. Julgar o valor de uma produção qualquer
"Em lugar da 'sociologia', uma doutrina das forma-
~olocando a pergunta "quem a quis?", ou antes "que
ções de soberania. tipo de vontade a produziu?", é desconhecer a trans-
"Em lugar da 'teoria do conhecimento', uma doutri-
c:ndência de toda obra relativamente a seu autor.
na das perspectivas dos afetos (de que faz parte
Nao que a investigação sobre a origem deva ser re-
uma hierarquia dos afetos). v jeitada, enquanto abordagem causal. histórica; mas é
"Em lugar da metafísica e da religião, a doutrina
~uito necessário distinguir cuidadosamente as ques-
do Eterno Retomo (enquanto meio de adestramento e toes de origem e as questões de valor, em particular
de seleção)." as questões de verdccíe ".
A genealogia coloca a questão da origem. Mas, O "perspectivismo" não poderia ser a última palavra
l5
como mostrou Foucault num belo artigo , ela não in- de Nietzsche: por trás da "perspectiva dos afetos" h'
vestiga a origem à maneira essencialista da metafísl-
a "hierarquia dos afetos". Nada menos nietzsche~nOa
c o. isto é, do platonismo. Ela não se baseia na idéia
neste sentido, do que a idéia (niilista) de que "todos
de que a origem seja depositária da essência em sua
pureza, ou de que a história seja apenas o desenro-
lar-se de uma verdade originária. A busca da prove- 16. Ib .. p. 148.
~7.,V~r. ,?or e~:mPlo. La naissance de Ia philosophie. Gallimard. col.
Idees,' p". ~3: O conceito do ser! como se a origem empírica mais
14. Ver J. RAWLS.Théorie de Ia justice, Ed. du Seuil. 1987. acerca rntseróvet )0 não aparecesse na etimologia da palavra! pois esse
do "perfeccionismo" de Nietzsche. . . Significa no fundo respirar'.
15. "Nietzsche. Ia généalogie. I'histoire". Hommage a Jean Hyppoll- 18. A verdade não é um valor no sentido de que a justiça é um
te. PUF. 1971; ver. na mesma coletânea. o artigo de G. CANGUI- v';llor. mas desempenha um papel similar na economia de nossos
LHEM."De Ia science et de Ia contre-science". p. 180: "Nietzsche )UIZOS. respectivamente quanto às teorias e quanto às tnstttulçõ .
1...1 não chega a dar à verdade uma significação positiva 1...I.Ele ver J. RAWLS.p. 29. es.
não chega a produzir uma teoria da ciência".
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
HIERARQUIA E VERDADE
ALAIN BOYER A CIÊNCIA E A '\ VERDADE
\

os valores se equivalem", que não poderiam ser com- 'progresso' não passa de um~1 'd"
parados, nem julgados: avaliar = hlerarquizar, Avaliar , " ela moderna ou se-
J , de uma Idélo falsa" (lt». § 4) ,
as avaliações: hierarquizar os sistemas de valores, O Na época
19
de Aurora e d%
",
H
umano,
O
emasiado
Igualitarlsmo é, por Instinto, gregário, vil e baixo, 11umano , a ctériclo e consid ••... '
' , - ,"" rad a a arma antlmora-
O que pode seduzir na condenqção obsessiva do IIsta, antlCrlsta, por excelencia M
cristianismo feita por Nletzsche, em seu combate pa- "" ' as o pecado mortal
da crencro reside no fato de qu I '
tético contra o "ideal ascético", é a denúncia feroz , , , , e e a e no fundo de
ssericro democratlca: "Falta tclbsolut d ' t'
da "mentira" da salvação "enquanto objetivo da vida", a e rns ínto por
par t e do sr. Renan, que con~'lder
ou dos (res)sentimentos como o ódio ao corpo, o me- " , a uma e a mesma
coisa a clencla e a nobreza A " , ,
do do pecado, certas formas de piedade etc. Mas , 'clencla e fundamen-
talmente democratica e antio Iigárqulca"20,
seria engano ver aí o motivo profundo da ira nietzs-
Apesar desses ataques viol~ntos co t 'd 'I
cheono. Numa palavra, não é tanto a virtude que é " n ra a I e a de
verdade universal, Nletzsche n"", d I
condenada, quanto a pretensão de fazer com que xro po er a ser entendi-
do como um relativista vulgar, Muit I ' ,
seu privilégio seja compartilhado por todos os homens: , , , I o pe o contrario, o
relotlvlsrno sem duvida seria p0. I
.. " ......•
ra e e apenas um ava-
"Devemos defender a virtude contra os pregadores de tar do nllllsrno. E natural proc: ucr d
virtude: são seus piores inimigos, Pois eles ensinam a "'4 respon er ao relatl-
vlsmo propondo a Idéia de V.•.... rdad e o Jet'Iva, E' ver-
bl
, c
virtude como um Ideal para todos: despojam a virtu- dadeiro ou falso que o hornerr, h' ,_
de do atrativo da raridade, do InimitáveL do excep- " , e o c Ipanze sao "pri-
mos que e voluir orn de rnocíc, dl'f t '
cional e do extremo - de seu encanto aristocrático", eren e a partir de
um ancestral comum; é verd<:::!de' f I
Na verdade, quase não há tese de Nietzsche que ' , IrO ou a so que as
órbltos dos planetas são circUlare" d '
não se possa reduzir, pelo menos parcialmente, à ob- s: e ver oclelro (ou
falso) que Napoleão era "baixo" e de Gauile, "alto"21
sessão hierárquica, e te. Deveria ser ciaro que o u"o d t I Id"
- _ "e a ela de Ver-
dade nao pressupoe que disP~nhamos de 'té ,
, um cn eno
que permita reconhecer o vertladelr O d" I
o, Ia ogo en-
tre o que pede e o que lhe Propo-e um 't"
d " K' cn eno pare-
ce, IZla ant, o dialogo de ~ois h d '
omens os quots
um pede alguma coisa para <:::>rdenh b d
' ar um o e e o
outro lhe da um coador .., Crer ti'
, " que a negativa con-
duza ao ceticismo e dar prov(\.s d '
A CIÊNCIA E A VERDADE , ,
cegueira diante _da situação ej::Jistemológica reaJ22,Um
" e uma especle de

segundo erro, nao menos grav~ c ' t

E'
,, ' onsís e em suspeitar
conhecida a ambivalência de Nletzsche diante que a ldéto de Verdade absoll,ta pr d t d
' , , , \J o uza o a sorte
da ciência: ora ela é louvada por ser um mara- de efeitos autofltarlos e liberticidas U _
, , , ' ma concepçao
vilhoso instrumento de crítica da religião e dos pre- pragmatlsta e reloflvísto convirja m 't ,.
UI o mais a nossa
conceitos da moral cristã, ora é acusada de também
19, Sem dúvida os textosmais sedutorfl;s '
ela basear-se em ilusões e mentiras "morais",
pora aqueles que a ênfasede Zaratusl d: Nletzs::he,pelo r:nenos
A ciência é grande por ser uma escola de ceticis- ra
escritosirritammais do que qualquer o a. vlolencla dos ultimas
mo, Ora, "as convicções são calabouços" (O Anticris- fócios de V. Descombese de P. Raynutro COISO. Ver os belospre-
20. Fragments posthumes. pp. 26-27. liud (Hachette, cai. "Pluriel").
to, § 56), Neste sentido, "o sacerdote conhece um
21. O fato de que um conceito seja VC] o _ . .
único grande perigo: a ciência - a sã noção de cau- as suasocorrênciassejam"vagas"e ql. g nao Implica que todas
quaisele é empregadosejamdesprovi~as "e todos
d as proposiç-
. _ oes nas
sa e efeito" (ib" § 45), Mas a ciência é também uma
de. É falso que Napoleão fosse"alto". e ccnorções de verda-
idéia moderna e participa da ilusão do progresso: "O
22. _VerK. POPPER. The Open Society, vol.
taçao d as Considerações tnterrvxesttv as 11. Addendum I, 11. a ct-
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época democrática, tolerante e pluralista23. Contra- posltlvlsmo, decerto, mas que não o define propria-
senso. Que a verdade seja propriamente inumana, no mente (atenção com o sofisma da negação do ante-
sentido de que não depende em nada nem dos de- cedente: o posltlvtsrno acarreta o dualismo dos fatos
sejos nem da vontade dos homens - assim como a das normas. Ora, o positivismo é falso. Portanto, o
existência do petróleo no subsolo saudita não depen- dualismo é falso ...). Jean Granler, resumindo as pala-
de dos desejos que ela provoca =, essa inumanidade vras de Nletzsche em A Vontade de Potência,
não tem em si nenhum efeito dogmático, muito pelo escreve25: "A vontade científica de conhecer, portan-
contrário. É ela que permite afirmar que alguém, eu, to, é apenas um disfarce sutil da antiga moral, a ex-
você, nós todos talvez, estamos erracioss", pois não pressão da necessidade que leva o homem a criar a
chegamos à verdade, que não depende de nossos fábula de um 'mundo Inteligível' de onde estariam
meios de conhecê-Ia. A verdade não é um conceito excluídas a mudança, a dor, a contradição, a luta e
epistemológico. O pragmatismo, pelo contrário, pode o devir".
levar à idéia de que várias idéias incompatíveis são A ciência levaria a "rebaixar a existência ao nível
verdadeiras, uma vez que são "eficazes" ou "bem con- da prova de cálculo, a fazer dela um lição de casa
firmadas". O predicado verdadeiro se torna histórico: o para rnoternóttcos=",
que é verdadeiro em TO pode tornar-se falso em T1. A matematização da física será um "rebaixamento"?
Devemos então usar de um outro termo para dizer Confesso sentir certo cansaço à idéia de ter de res-
que o que se acreditava X em TO se revelou não X ponder a esse tipo de objeção. A "bobagem" e a "In-
em Tl ... genuidade" não estão onde as querem situar. Os
grandes contemporâneos do autor da Gala Ciência,
Nietzsche "flerta" com as concepções pragmatistas, Boltzmann, Helmholtz, Maxwell ... bobões e simplórios?
ou até relativistas, da verdade, mas não seria capaz O capítulo "Dos Cientistas" do Zaratustra é edificante.
de se deter nelas. Por que, então, não tornaríamos a O desprezo do grande aristocrata pelo "coaxar de rã
encontrá-Io defendendo as posições dos "objetívistas"? (dos cientistas)" manifesta-se ali com uma violência
Porque a idéia de verdade objetiva, Independente, particular. Adoraríamos poder coaxar com rãs como
ainda é niilista demais para ele: não suficientemente Einstein ou Poincaré ...
hierarquizante, avaliativa. No fundo, Nietzsche não se A Idéia de que "a" ciência exclui a mudança é
satisfaz com a "neutralidade axiológica" da ciência uma "Idéia consagrada". É verdade que o determlnis-
moderna, baseada na impossibilidade lógica, posta mo laplaciano parece excluir a idéia de uma tempo-
em evidência por Hume, de se passar do is ao ought, ralidade criadora de coisas novas, mas não exclui a
de extrair conseqüências normativas de premissas pu- mudança enquanto tal. e sim procura explicá-Ia. A
ramente factuais. dor, "excluída" pela ciência? Bobagem. A ciência pro-
O valor não está na natureza. A ciência, dirá Poin- cura, muito pelo contrário, compreender a dor, e po-
caré, não se escreve no imperativo, e sim no indica- demos, aliás, nos servir desse conhecimento para dimi-
tivo. Seus imperativos só poderiam ser hipotéticos, or- nuir o sofrimento. A "contradição"? Questão delicada.
denados por um Fim aliás dado. Não sei por que tei- Como de hábito, filosofar "às marteladas" leva a con-
mam em ver neste fato lógico uma fraqueza da ciên- fundir os planos, a reduzir os matizes, a fixar antago-
cia moderna, ou mesmo um traço específico do pen- nismos dinâmicos. Que a lógica usual dos cientistas
samento positivista. Trata-se de uma conseqüência do respeite o princípio de contradição se deve ao fato
trivial de que uma contradição Implica qualquer
23. Ver as idéias de R. RORTY, Science et solidarité. Éd. L'éGlat,
1990.
24. Todo leitor de Piatão deveria saber que é possível prc;>curar mos- 25. J. GRANIER, p. 84.
trar. sem estar "de posse" da verdade. que o outro esta errado. 26. A Gaia Ciência, 1, V, § 373.
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cotsci". Se entendermos por "contradição" a Idéia de


forças em conflito dinâmico, a ciência enquanto tal
não tem porque afastar a prlorl uma tal possibilidade.
Excluir "a luta, o devir"? A teoria da evolução não é
científica? A caracterização nietzscheana da ciência
não se mantém. Jean Granier, talvez Influenciado
também por Heidegger, e antecipando Mlchel Henry,
escreve: "A matematlzação generalizada do real assi-
A VONTADE DE VERDADE
nala a redução do Ser à platitude" (op. cit.). Que di-
zer disso, senão que o velho Platão teria diagnostica-
do aqui um sintoma agudo de mlsologla? Reduzir a
ciência ao projeto de dominação dos fenômenos le-
C amo r.esistirao argumento - t~o velho quanto
os sofistas segundo o qual, jo que a lingua-
gem é "não natural", ou seja, que as palavras têm
va a conceder a pensadores como Nietzsche ou Hel- uma relação não necessária com seu referente, as
degger que "a ciência não pensa". O positivlsmo pre- frases são também convencionais e portanto não há
para a cama para a anticlêncla. Longe de mim a verdades "em si"? Nietzsche vai até mais longe do
Idéia de que a ciência possa dizer a "última palavra" que os antigos, quando, recusando-se a aceitar um
sobre o Ser, a Natureza, o Absoluto. Nunca haverá mito da linguagem ordinária, qualquer que seja ele, si-
"última palavra". Mas acreditar que a ciência se redu- tua na produção metafórica a origem de toda
za a um "cálculo mesquinho" é uma tolice. Quanto a linguagem3o• O homem não descobre uma verdade
criticar o "Ideal eplstemológlco da objetividade" argu- oculta ou, se o fizer, é porque se esquece de que
mentando com o fato de que as motivações dos ele mesmo a escondeu. "Quando dou a definição do
cientistas são muitas vezes da ordem do amor-próprio mamífero e declaro, depois de ter examinado um ca-
"com um ressaibo de honras e de pão de cada melo, 'eis aí um mamífero', com certeza uma verda-
dia"28, é desconhecer a real natureza da objetividade de foi descoberta, mas ela tem um valor limitado, ou
científica, que não se funda na objetividade dos cien- seja, é inteiramente antropomórfica e não contém ne-
tistas, seres de carne e osso, mas na possibilidade ins- nhum ponto que seja 'verdadeiro em si', real e válido
tituclonal do debate crítlc029. Uma vez mais, o questlo- universalmente, fazendo-se abstração do homem.
namento genealógico passa ao largo do problema In- Aquele que busca tais verdades, no fundo, só está
teressante, que não é o das motivações "humanas, buscando a metamorfose do mundo nos homens, as-
demasiado humanas" dos cientistas, e sim o das re- pira a uma compreensão do mundo enquanto coisa
gras Instltuclonals que tornam possível a objetivação humana e obtém, no melhor dos casos, o sentimento
dos fenômenos. de uma assimilação."
O exemplo é interessante sob vários aspectos, e
Nietzsche antecipa aqui brilhantemente muitas teses
mais tardias, como o convencionalismo radical de Le
Roy (e Bergson), ou até a tese da existência de "va-
riações de significação" que tornam as teorias "inco-
mensuráveis" (Kuhn, Feyerabend). Apesar da sedução
de uma tal linha de argumentação, é preciso reagir
aqui: não, o enunciado "o camelo é um mamífero"
27. Pelo menos nas lógicas "clássicas". Existem "lógicas para-consis-
tentes" em que esse teorema não vale. Não sei se Nietzsche teria
apreciado essa "Iogicização" da dialética. 30. Le livre du philosophe, 111,
pp. 180-183: "As verdades são ilusões
28. A Gaia Ciência, 1, 111,§ 123. das quais nos esquecemos que o são, metáforas desgostadas que
29. K. POPPER,11,capo XXIII. perderam sua força sensivel I ..';".
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não é menos "verdadeiro em si" do que o enunciado outros são falsos. Se o aspecto sob o qual os objetos
"F. Nietzsche escreveu O Nascimento da Tragédia". O ão comparados é especificado, então o enunciado
fato de que o conceito de "mamífero" seja o produ- pode ser verdadeiro ou falso, absolutamente falando
to de uma classificação 1) não quer dizer que esse (slmpliciter).
corte seja arbitrário, como uma classificação borgesia- Como Aristóteles teria ensinado, o fato de que os
na; 2) não implica que o enunciado que atribui tal Ignos sejam arbitrários não implica que a relação dos
qualidade a tal objeto seja por isso mesmo "antropo- juízos com seus referentes também o seja. O fato de
mórfico". Se o homem não tivesse existido, teria, po- não haver "sentido próprio", de que todo conceito
rém, podido ser verdade que o camelo seja, e a ser- conserva o vestígio de sua origem metafórica, não
pente não seja, um animal "portador de mamas" (en- Implica nem que esse vestígio perdure efetivamente
tre outras características que definem a classe dos no uso atual do conceito, nem que as relações enun-
mamíferos). Qual é exatamente o argumento de ciadas entre conceitos dependam, quanto a seu va-
Nietzsche contra isso? Em lugar de argumentos, en- lor de verdade, dessa origem (suposta).
contramos no mais das vezes apenas brilhantes metá- De resto, como se observou freqüentemente, todo
foras, infinitamente sedutoras, como era de se esperar, novo questionamento da idéia de verdade (absoluta)
mas de pequeno alcance racional. A idéia segundo se choca com o problema da auto-referência, Se to-
a qual toda frase é falsa, ou antes não verdadeira, da verdade é uma ilusão, que dizer do discurso que
porque não é sobre "coisas" idênticas, e de que a lin- enuncia essa "verdade"?
guagem, necessariamente abstrata e generalizadora, Pois se nos dtsserern-" que Nietzsche distingue dois
não pode captar o devir, é igualmente, a meu ver, tipos de verdade, a saber, a verdade-ilusão dos me-
falsamente protuncrc ". "Nada há de idêntico", diz tafísicos, que, sendo mulher, se mostra muito difícil de
Nietzsche. Sem dúvida, a identidade é uma relação seduzir, e a verdade "probidade filológica", a do ge-
que cada objeto só tem consigo mesmo. Mas 1) é nealogista, uma questão se coloca: sobre que se fun-
possível enunciar identidades não triviais entre 'os refe- damenta essa distinção salvadora, única que permite
rentes de designações diferentes: o fato de que "es- a Nietzsche não ter de submeter seu próprio dizer à
trela da manhã = estrela da tarde" não é evidente; suspeita geral? Por que o discurso da ciência, en-
ele foi descobertov: 2) é possível afirmar a identidade quanto paradigma moderno da "procura da verdade",
de dois objetos quanto a um aspecto determinado: não pertenceria à "probidade filológica"?34 Será por-
se dois "objetos" - recortados no fluxo do real por um l que a ciência, contaminada pelo vírus socrático, e
ponto de vista - têm o mesmo preço, ou o mesmo portanto "popular", seria da esfera do discutível, ao
peso, seus preços, ou seus pesos, são Idênticos. Sem passo que o "mestre de verdade" aristocrático põe e
dúvida, não há similitude absolutamente falando, mas Impõe suas verdades? Se era esse o caso, podería-
apenas semelhanças sob certos aspectos. Mas não é mos encontrar um terreno de entendimento com
absurdo pensar que alguns enunciados de identidade Nietzsche, com a diferença que, para nós, nada é
são verdadeiros - afirmam uma identidade real -, e mais precioso do que a idéia socrática segundo a
qual tudo pode ser submetido à discussão argumenta-
31. Humano. Demasiado Humano. § 10, "O número". Seria evidente- da, tudo pode ser questionado, incansavelmente, se
mente interessante comparar essas teses com as de Bergson; ver
também Opiniões e Sentenças Mescladas. § 4: "A 'lei da natureza',
33. J. GRANIER, p. 498; ver também p. 604 ss.
uma superstição". É provável que esse aforismo, assim como o 12 e
34. Assim, quando Nietzsche opõe sua própria concepção às de
o 17, visem em particular a Kant. Darwin. mal conseguimos ver onde se situaria a diferença de "regi-
32. FREGE, Études logiques et philosophiques, "Sens et dénotation", me de verdade" entre os dois discursos (ver J. GRANIER. p. 407). De
Éd. du Seuil. 1971. Não é preciso dizer que o problema da identi- resto, parece claro que Nietzsche não viu bem o alcance do me-
dade é extremamente complexo. Mas nada neste campo me canicismo darwiniano, quando. por exemplo, o reduz a "Lamarck e
parece dever levar a dizer sem mais que "nada há de idêntico". Hegel".
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estabelecermos a verdade e a validade dos argu- eve ser atribuído à tola vaidade humana, o que só
mentos como idéias reguladoras. A verdade absoluta, ode reforçar a própria tese.
sem dúvida, não se discute: já não se discute, diz
Aristóteles, para saber se a diagonal do quadrado é Suponhamos um nietzscheano que tivesse decidido
comensurável. Mas a partir do momento que não se e limitar à idéia de que "não há fatos, mas apenas
dispõe de nenhuma prova, toda tentativa de dizer a Interpretações", e afirmasse que o racionalista erra ao
verdade se oferece à crítica dos outros. Na realidade, pensar que sua posição é unlversalizável. Em outras
a genealogia não parece se situar exatamente na palavras, alguém que afirmasse que a racionalidade
perspectiva (dogmática) da verdade "indiscutível". é apenas uma atitude entre outras, um tanto fraca
Nietzsche, e aí reside o interesse de seus maiores tex- de vontade, ou até nefasta. Que responder a ele?
tos, oferece hipóteses ou esboços de programas de Em primeiro lugar, nada. Não há resposta argumenta-
pesquisa eventualmente discutíveis. (É, aliás, uma das da a dar a alguém que se permite não aceitar os
grandes qualidades do trabalho de Foucault o fato argumentos do outro, por não consentir deixar-se ar-
de se apresentar sob forma de hipóteses refutáveis, rastar pelas redes da lógica. ("Meu pobre amigo", res-
muitas vezes refutadas, aliás.) pondeu-me um dia um 'nietzscheano' a quem eu ou-
Conseqüentemente, a crítica nietzscheana da dialé- sava falar de coerência, "não apele para a metafísl-
tica socrática e, de um modo mais geral, da Idéia ca!") Mas, não nos esqueçamos disso, sempre há um
de procura da verdade objetiva graças ao debate terceiro: o público dos "jovens" atentos às disputas
'crítico se vê diante de um dilema: 1) ou Nietzsche é que sempre oporão Sócrates e Eutidemo. O raciona-
obrigado a evocar uma concepção pré-racional da lista sempre já perdeu antecipadamente, se não acei-
"mestria da verdade", e com isso corre o risco de se tar seduzir os que hesitam e estão prontos a se deixar
mostrar como um "dogmático"; 2) ou situa a Investiga- levar pelas sereias irracionalistas ... Deve-se tentar fun-
ção genealógica no quadro tradicional, enfim, da damentar a racionalidade, de maneira evidentemen-
procura da verdade e propõe hipóteses explicativas te última (até o fim dos tempos ...), tentando com isso
eventualmente contestáveis. mesmo demonstrar que o outro se contradiz? Este pro-
Com grande freqüência, muito a contragosto, jeto - o de Apel - impressiona, mas não convence.
Nietzsche argumenta e a maioria de seus "aforismos" Em primeiro lugar, existem excelentes argumentos que
não são puros apotegmas. Também seria preciso que mostram que a idéia de fundamentação última é
esses argumentos não fossem por princípio inacessíveis \ uma utopia. Ao impossível ... Além disso, não parece
à crítica. Ora, a genealogia pode ser utilizada como ~ evidente que uma tal estratégia possa abalar o irra-
uma "estratégia imunizante", a partir do momento que cionalista, que não é aquele que se recusa absoluta-
toda contestação da tese soberanamente posta por mente a argumentar, e sim aquele que se dá o direi-
Nietzsche é interpretada como a própria prova da di- to, quando lhe convém, de não prestar atenção a
ficuldade que existe em reconhecer a sua verdade: um argumento Incômodo. Alguém que decide, de
"O conhecimento mais forte (o da absoluta não-liber- qualquer forma, não obedecer ao Imperativo categó-
dade da vontade humana) é, no entanto, o que le- rico. O imoralista teórico não poderia ser convencido
va aos resultados mais pobres: pois sempre teve o por uma "típica do juízo prático em matéria de dis-
adversário mais forte: a vaidade humana"35. cussão racional" que o obrigaria a testar o caráter
Todo novo questionamento da tese necessitarista unlversalizável de sua máxima. Se ele aceitar, em
compensação, o principio de coerência, a lógica co-
mo "organon do debate crítico" (Popper), torna-se
35. Sed contra: "O que constitui a força de Nietzsche é afirmar coi-
sas que são imediatamente refutóveis, só que unicamente por ele possível mostrar-lhe que sua posição tem uma argu-
próprio". P. KLOSSOWSKI,
Nietzsche aujourd'hui?, cot. 10/18, 1973, I, p. mentação fraca e não está Isenta de inconseqüên-
121.
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cias. Mas a escolha crucial - Razão ou Violência - 1r1 pergunta se eu sei onde está escondido um ju-
permanece infundada36. I u ou um membro da Resistência, Como diria o pró-
Quando Nietzsche põe em questão a "vontade de J 110Kant, uma criança não teria dificuldade de dizer
verdade", coloca afinal um problema legítimo. É... ver- [ue é preciso mentir numa ocasião como essa, Que
dade que muitas crenças falsas são úteis, no sentido ~ mentira38 possa se tornar não excepcional é mais
de que conhecer a verdade pode ser nocivo. O des- ontestóvel, e sabemos a que miasmas leva a renún-
conhecimento e a falta de informações podem ser Ia à idéia de verdade histórica ("factual"): o Gulag
vantajosas. Mas sejamos razoáveis. Seria excessivo su- u as câmaras de gás não existiram etc.
por que a verdade seja "na maior parte do tempo", Mas por que querer a verdade? Não querer dizer a
como teria dito o Estaglrita, Inútil e nociva. Aliás, não v rdade, mas querer saber? Que esse querer não se
é isso que diz Nietzsche, que, pelo contrário, às vezes eva a um instinto (Trieb), a uma "pulsão epistemofíli-
se inclina a uma redução pragmatista da Idéia de a" talvez seja .., verdade, como sugere Ntetzsche ".
verdade à de utilidade: "Todos os nossos órgãos de ontra o enunciado Inaugural da Metofísico. Só seria
conhecimento só se desenvolveram tendo em consi- Instintiva a crença na verdade4o. Nós precisamos crer,
deração as condições de conservação e de cresci- diz Nietzsche. (E nisto somos ainda religiosos demaisl)
mento". Conhecemos ou deveríamos conhecer os limi- videntemente, como agir sem antecipar e antecipar
tes de toda concepção meramente pragmatista da em crer? O ceticismo radical não pode nem se me-
verdade. Mas também é preciso lembrar o que sabia xer, nem falar, nem comer... Mas crer diz-se em vários
Spinoza, a saber, que toda idéia é afirmativa e assim entidos e não é necessário crer de modo "duro co-
pretende ser verdadeira: a asserção a é logicamente mo ferro" para agir. E certas crenças, embora não
equivalente à asserção metalingüística '''a' é verdadei- demonstradas, falíveis, infundadas, são mais razoáveis
ra" (Tarski). Dizer, como Nietzsche, que "não há do que outras. Novamente, por que querer a verda-
verdade"37 é dizer: "É verdadeiro que nada é verda- de? Nietzsche sem dúvida tem razão, em parte: a
deiro", o que não é paradoxal, stricto sensú, mas ciência não é inata, tem condições históricas de pro-
equivalente à afirmação p: "Todas as frases são fal- dução. Mas o que diferencia a ciência das outras
sas", que não poderia ser verdadeira (se p é verda- práticas humanas não é a vontade de verdade, mui-
deira, é falsa). A "pretensão à verdade" não é uma to evidente no caso das religiões do Livro, por exem-
novidade inaudita, mas é consubstancial à própria lin- plo. É antes a atitude crítica, o debate inter-subjetivo,
guagem, por manifestar uma função descritiva, no as tentativas de refutação, a eterna insatisfação. E is-
sentido de Bühler e Jakobson. \. so sem dúvida não é "natural" e "instintivo". So what?
A democracia, a ajuda dada aos mais fracos, o al-
Podemos, aliás, aceitar o argumento de B. Cons- truísmo universal (não tribal), sem dúvida também não
tant, segundo o qual a veridicidade não constitui um são "naturais". (Ainda que não se deva cair no exa-
Imperativo absoluto, do ponto de vista moral: é moral,
evidentemente, mentir a um oficial da Gestapo que 38. Fragments posthumes, p. 29.
39. Inclusive o "sentir-se a si mesmo" (ver O Anticristo, § 55) ou a
36. Humano. Demasiado Humano, 11, Opiniões e Sentenças Mescla- "má-fé" sartreana, cujo própria possibilidade tem algo de perturba-
das, § 50. Vemos, aliás, mais uma vez porque a interpretação "li- .ror (mais do que a idéia de "desejo inconsciente"); ver também o
bertária" de Nietzsche não se sustenta. delicado problema dos "enunciados autocriadores" (A. BOYER, "Effets
37. Ver o capítulo xxv de The Open Society de POPPER (1945); pervers et effets Oedipe", Revue philosophique, 1989, nO 1).
mas também as teses de E. WEIL em Logique de Ia philosophie 40. Le livre du philosophe, 111, § 180, pp. 208-209: "Es gibt keinen
(1947) e de L. SEBAG, em Marxisme et structuralisme (Payot, 1962); Trieb nach Erkenntnis und Wahrheif. sondem nur einen Trieb nach
o popperiano BARTLEYdesenvolveu a idéia de que essa opção fun- Glauben an die Wahrheit; die reine Erkenntnis ist trieblos" (Não exis-
damental seria racional, no sentido de que permaneceria aberta à te nenhum instinto de conhecimento e de verdade, mas apenas
crítica: ver The Retreat to Commitement, Open Court. 1986 (10 ed. um instinto de crença na verdade; o conhecimento puro é caren-
1962). te de instinto).
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ALAIN BOYER A VONTADE DE VERDADE

gero oposto, antinaturalista, e pretender que o ho- v rdade do ser43e atribuindo à arte a função de tra-
mem não tem instintos, que tudo é aprendido etc., o I r da aparência enquanto aparência, considere que
que é evidentemente falso. Mas o homem ultrapassa, l ciência nos engana ao se apresentar como o que
contorna, utiliza, adestra, transcende seus "instintos"; '1 o é, ao passo que a arte "não quer enganar, é
seus "programas comportamentais", diferentemente dos v rdade"44. Que pensar de um tal argumento? O de-
programas dos (outros) animais, são "abertos".) Toda ate entre o realismo e o fenomenismo, sem falar do
evocação da natureza é duvidosa, em primeiro lugar I ealismo trcmscenctentot". ainda está aberto e seria
porque podemos fazê-Ia dizer não importa o quê, de- I 10 menos insolente caracterizar globalmente "a"
pois porque, mesmo supondo que a natureza favore- lência como inteiramente dedicada à "salvação dos
ça esta ou aquela dinâmica, sempre nos é dado f nômenos" (Osiander, Duhem) ou à "explicação do
opor-nos a ela. visível pelo invisível" (Jean Perrin, Karl Popper). Toda a
Dito isso, parece plausível afirmar, como muitos bió- uestão se resume em saber se as "leis" postuladas
logos, que o homem se caracteriza em parte por ara dar conta dos fenômenos estão submetidas ao
uma espécie de tendência inata à exploração de verdadeiro e ao falso, ou se são apenas instrumentos
seu ambiente, uma espécie de "instinto de curiosida- cômodos que servem para classificar e predizer as
de". Que essa tendência seja às vezes perigosa, não parências.
há dúvida, mas daí a deduzir, como Nietzsche, que a O instrumentalismo é uma posição mais forte do
vontade de saber poderia no fundo ser nefasta, há ue o realismo, pois suas exigências são mais fracas.
um salto difícil de efetuar sem realizar uma proeza. Mas ele de fato tende a conceder aos críticos da
Querendo desvelar, descobrir a bela natureza, o ho- ciência que ela não passa de um projeto de manipu-
mem assumiu riscos mortais, é verdade, e o conheci- lação, de calculabilidade pura, e que ela "não pen-
mento não é um valor absoluto. (Se fosse este o ca- a". O realismo afirma que o ideal de verdade é ab-
so, não teríamos nenhum escrúpulo em fazer experiên- olutamente regulador, que a ciência investiga o pro-
cias com seres humanos.) Mas essa aventura infinita fundo e não apenas a superfície "observável". Parado-
do conhecimento não deixa de ter suas seduções. Al- xalmente, como mostra a posição de Duhem, o anti-
guns valores "heróicos" podem até ver-se aí recupera- realismo é compatível com uma posição metafísica
dOS41. teísta. O realismo deveria ser mais inquietante para a
concepção religiosa do mundo, pois é menos facil-
Quanto à idéia de que a arte seria uma "mentira mente conjugável com a temática teológica do mis-
verdadeira", uma ilusão verídica, porque se reconhece l tério incompreensível do Ser.
como ilógica42, há aí um paradoxo interessante, mas Mas Nietzsche não pode aceitar o realismo, pOISIS-
cujo alcance não deveríamos exagerar. É claramente so o levaria a aceitar a idéia de que, para deixar de
impossível atribuir à arte um valor regulador tal como ser "pio", é preciso aceitar a busca infinita da verda-
o Verdadeiro ou o Belo. Mas enquanto certas artes de objetiva.
são manifestamente produtoras de mundos (arquitetu-
ra, música), outras (literatura, pintura, cinema) podem Como observa Heidegger, a doutrina nietzscheana
ter "efeitos de verdade": Antígona é tão Instrutiva ia verdade não deixa de ser ambígua46. Não pode-
quanto a guerra do Pe/oponeso. Mas por que opor a
arte à ciência? Por que querer escolher entre, diga- 3. Ib. 111,§ 187, pp. 214-215. "A verdade é incognoscível (unerkenn-
mos, Milton e Newton, Stendhal e Durkheim? Talvez bor). Tudo o que é cognoscível é aparência (Schein). Significação
da arte enquanto arte da oporêncío verossímil."
porque Nietzsche, recusando à ciência todo acesso à
44. Ib., § 184, pp. 212-213.
45. Ver Crítico do Razão Puro. o trecho que antecede a "Refuta-
41. Ver Aurora, V, § 450. çóo do idealismo", a respeito da limalha de ferro.
42. Ib .. § 177. 46. HEIDEGGER, Niefzsche, li, Gallimard. p. 149.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS HERARQUIA E VERDADE
ALAIN BOYER A VONTADE DE VERDADE

mos ao mesmo tempo falar e recusar toda concep- Il1ular esse enunciado de uma maneira que mostre
ção da verdade. Só podemos contestar determinada • I ramente a sua natureza normativa: "Não torturarás!"
concepção da verdade em nome de uma outra I 11 frase não poderia ser verificada nem refutada por
concepção. Sem dúvida. é isto não poder "sair da um contra-exemplo. Quando decidimos adotar uma
metafísica". (Seria mais coerente combater toda Idéia I roposição normativa. criamos a norma em questão .
moral. em nome de um amoralismo absoluto. Mas •0 passo que. quando decidimos - depois de um
não é este o caso de Nietzsche47.) A partir daí. não é xame racional das diversas possibilidades - adotar
fácil escapar às oposições habituais. nem "subvertê- umo proposição factual. não criamos o fato
Ias". Em particular. se não nos satisfizermos com a re- orrespondente ". Todo fato50 modificável pode ser jul-
dução da verdade à coerência - existe uma infinida- I do através de normas. Mas nenhuma norma é de-
de de teorias coerentes incompatíveis -. parece difícil lutível dos fatos. Assim sendo. não pretenderemos
não recorrer. mesmo que sub-repticiamente. a alguma [ue a moral universalista - que se diz em vários sen-
idéia de correspondência ou de adequação. Mas se Il os - é verdadeira e a moral do Super-homem é fal-
a verdade se caracteriza por ser uma relação da lin- . Não poderemos convencer um anti-igualitarista a
guagem com o ente. independente do conhecimen- icettor os "direitos humanos". Mas poderemos objetar
to que tivermos sobre ele. ocorre que essa relação é. ue sua ética não está em harmonia com certas po-
de direito. a mesma para todos: discutimos porque lções epistemológicas que ele pode de resto defen-
discordamos quanto ao verdadeiro. mas não pode- er. por exemplo uma forma de racionalismo crítico.
mos modificá-Io à vontade. A verdade é indominável. m outras palavras. a opção pela racionalidade é
indomável. transcendente. Esta transcendência da ver- uma opção ética.
dade. associada ao reconhecimento de nossa relativa Se nos sentimos tão distantes de Nietzsche. mesmo
incapacidade de demonstrar nossos pontos de vista. uando não gostamos disso. é porque não acredita-
leva a um igualitarismo de prlncíplo'". E é precisamen- mos mais que a "saída da religião" passe por uma "in-
te isso que Nietzsche não pode aceitar: o niVelamen- versão dos valores" ou por um novo questionamento
to. Mas há aí algum exagero. Se cada um pode. em da "vontade de verdade". Sabemos. ou acreditamos
princípio. procurar alcançar a verdade. porque ela aber. que os debates mais interessantes. as distinções
não depende da imposição. da vontade. isto não im- mais finas. as oposições mais fecundas se situam ago-
plica nenhuma espécie de igualitarismo das idéias. ra no interior do "transcendental" moderno. racionalis-
pelo contráriol As boas Idéias são raras e não deve- ta e universalista. Não que nos seja permitido não res-
mos cessar de as hierarquizar. de as medir no metro ponder àqueles que o põem radicalmente em ques-
de sua veracidade. (Operação. aliás. de modo algum tão. Esse novo questionamento tem até algo de fértil.
mecanizável.) Mas nossos debates internos. se ouso dizer. merecem
Quanto ao campo prático. o da liberdade. não pelo menos igual atenção. Fiquem tranqüilos. porém.
creio que seja necessário. para combater neste pon- os nietzscheanos: o questionamento da igualdade e
to ao mesmo tempo o relativismo e o "decisionismo". da verdade não terminou de retornar. pois "com efei-
procurar Introduzir no debate o próprio conceito de to. podemos muito bem afirmar: as mesmas opiniões
verdade. Sem dúvida. se eu disser "a tortura é um aparecem periodicamente entre os homens não
meio de investigação inaceitável". minha afirmação. uma vez. e sim um número infinito de vezes'?'.
enquanto tal. apresenta-se como uma declaração.
verdadeira ou falsa. Mas parece mais interessante for-
49. K. POPPER.The Open societv. vol. 11.Addendum I. § 13.
50. Foto sempre interpretado. com certeza. Não há fotos totalmen-
47. Sobre a importância em Nietzsche da Idéia de justiça. ib .. p. te não interpretados. o que não quer dizer que s6 existam interpre-
159. com o exemplo surpreendente de ... Mers el-Kébir. tações ...
48. K. POPPER.Conjectures et réfutations. Payot. Introdução. 51. Arist6teles. Las météor%glquas. 339b 27. trad. Tricot. Vrin. 1976.
A BESTA-FERA,
SOFISTA E O ESTETA:
liA ARTE A S!=RVIÇO
DA ILUSAO
II

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NOTA BIBLIOGRÁFICA
As referências às obras de Nietzsche são dadas na
Itl loria das vezes ao longo do texto. Elas remetem
11 medida do possível às divisões internas dos livros
(livros, partes, parágrafos ...) e, no que diz respeito às
( Ilações, às seguintes traduções francesas (aqui elos-
Iflcadas por ordem alfabética das abreviações utiliza-
ti s):

(A) Aurore [Aurora] (trad. de H. Albert)

(AC) L 'Antéchrist [O Anticristo] (trad. de H. Albert)

(CI) Le crépuscule des ido/es [O Crepúsculo dos


Idolos] (trad. de H. Albert; a paginação remete à ed.
Mercure de France, 1970)

(CW) Le cas Wagner [O Caso Wagner] (trad. de H.


Albert)

(EH) Ecce Homo (trad. de J.-C. Hémery)

(GM) La généalogie de Ia morale [A Genealogia


da Moral] (trad. de H.Albert)

(GS) Le gai savoir [A Gaia Ciência] (trad. de A.


Vlalatte)

(HTH) Humain, trop humain [Humano, Demasiado


/lumano] (trad. de A.-M. Desrousseaux ou R. Rovini)

(NCW) Nietzsche contre Wagner [Nietzsche contra


gner] (trad. de H. Albert)

(NP) La naissance de Ia philosophie à /'époque de


(J tragédie grecque [O Nascimento da Filosofia na
I poca da Tragédia Grega] (trad. de G. Bianquis).
NP-FD remete aos Fragments divers [Fragmentos Diver-
sos] reunidos no mesmo volume, Gallimard, 1938)
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
ANDRÉ COMTE-SPONVILLE
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(NT) La naissance de Ia tragédie [O Nascimento da


Tragédia] (trad de G. Bianquis ou C. Heim) NT-EA re-
n;ete ao Ensaio de Autocrítica acrescentado por
A BESTA-FERA 1

NIetzsche em 1886; NT-FD remete aos Fragments divers


reunidos por G. Bianquis no mesmo volume (Gaili-
SOFISTA E O ESTETA:
mard, 1940)
liA ARTE A S!=RVIÇO
e
(PDBM) Par-de/à le bien et le mal [Além do Bem
DA ILUSAO"
do Mal] (trad. de G.Bianquis)
- ANDRÉ COMTE-SPONVILLE
(VP) La volonté de puissance [A Vontade de Potên-
cia] (trad. de G. Bianquis, em dois volumes)

Em memória de Etty Hillesum.


(Z) Ainsi parlait Zarathoustra
[Assim Falava Zaratustra]
(trad. de G. Bianquis; a referência indica primeiro o li-
vro, depois, quer o título do capítulo, quer a página
na edição bilíngüe de G. Bianquis, reed. Aubier-Flam-
marion, 1969).
P ara qualquer filósofo de nosso tempo, o confron-
to com Nietzsche é uma tarefa necessária. Isto,
(tue marca a sua grandeza, também justifica, diga-se
t passagem, o presente livro. Defrontar-se com
Nletzsche é ser fiel a ele - e talvez mais do que to-
e Ios esses pequenos nietzscheanos que nos vão acusar
j mesquinhez e de ressentimento. Mas que importam
s nietzscheanos?
Pensar Nietzsche: com ele, contra ele. No fundo, é
mesma coisa. Sabe-se, todos os comentadores o
I ssaltaram, que ele praticou mais do que ninguém a
utocontradição, como dizia Jaspers, que podemos
"quase sempre, encontrar nele uma apreciação em
entido oposto", a ponto de parecer que "ele tenha

l obre todas as coisas duas optnlô es'". Isso, que em


outras épocas o teria prejudicado, antes redobra ho-
Je a sua glória. Eis aí um filósofo para todos os gostos,
e para todos os desgostos! E capaz - é muito cômo-
do - de cobrir antecipadamente as tuas contradições,
palinódias ou renegações ... Quem diz melhor do que
ele? E, Inversamente, o que há de mais aborrecido, o
ue há de mais suspeito do que uma filosofia coeren-
e? O que revela esse medo da contradição, das

1. K. JASPERS. Nietzsche, Irad. francesa, Gallimard. col, "Tel", p. 18;


ver lambém p. 418 ss. Mesma observação em Cioran: Nielzsche
"sabe variar seus desequilíbrios. Sobre lodas as coisas, ele defendeu
o pró e o conlra ..." (Sy/logiSlTle de /'amerfume, reed" Gallimard, cor,
"Idées", 1976, p. 45).
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mudanças, do contra-senso? Ele é o sintoma de quê? Nletzsche e depois os nietzscheanos quiseram ver ne-
De quem ele é a máscara? A interpretação e a ge- I s o começo de uma nova época, ou até de uma
nealogia poderão refestelar-se, considerar a lógica, nova humanidade. Marx, no seu tempo, teve a mes-
como fazia Nietzsche, uma marca de fraqueza2 e ma pretensão, e a história, depois de parecer estar
transformar em força o que há de manifestamente in- Isposta a lhe dar razão, também o desaprovou.
sensato - ilógico, passional, às vezes delirante - no Mas com Nietzsche, não teve tantos melindres: ela
pensamento de nosso autor. Em compensação, essa ontinuou como se nada tivesse acontecido, e o úni-
"proliferação de contradições"3, essa "duplicidade o movimento histórico que pôde reivindicar Nietzsche,
contradicente"4, se faz a alegria do comentador, tor- que de fato o reivindicou, teria sido para o nosso
na muito difícil toda tentativa de discussão séria. utor - se uma tal reivindicação merecesse ser levada
Qualquer que seja a tese que você quiser criticar, o sério - uma terrível, uma apocalíptica refutação.
primeiro nietzscheano que aparecer, e eles são legião, Temos de nos deter neste ponto, por um instante,
sempre poderá objetar-lhe que Nietzsche disse exata- para eliminar algumas falsas pistas e uma falsa saída.
mente o contrário - e o pior é que o nietzscheano Sabemos que os nazistas muitas vezes reivindicaram
terá razão, quase sempre, sem dúvida não porque Nletzsche e que Hitler, por exemplo, ofereceu a Mus-
você tenha atribuído a Nietzsche uma tese que ele olini uma edição luxuosa (que fizera imprimir em Ber-
não tivesse defendido, e sim porque sempre, ou qua- 11mem 1935) das Obras Completas do nosso filósofo ...
se sempre, ele defendeu a tese inversa, de modo Fatos como esse, e outros que poderíamos citar, pou-
que, "não deixando a ninguém o cuidado de contra- co provam. Que Hitler tenha lido Nietzsche, pelo me-
dizê-Io", como diz com graça François George5, nos que tenha lido dele mais do que algumas cita-
Nietzsche torna muito desconfortável a posição de ções, é duvidoso. E que Nietzsche não seja suspeito
quem quer que pretenda contradizê-Io em seu lugar de nazismo é uma evidência que a cronologia e a
ou depois dele!
leitura dos textos bastam para impor. Mas os discípu-
Mas será preciso renunciar ao debate e c'onslderar los vão um pouco rápido demais quando concluem
- por submissão ou cansaço, por fascínio ou rejeição que não há nenhum problema aí e que é realmente
- que Nletzsche torna impossível ou obsoleto o exame preciso estar de má-fé para ver entre Nietzsche e Hi-
das razões, que é precíso tomá-Io na base do tudo tler a menor relação. Sem ser, evidentemente, uma
ou nada e que sempre estamos errados em discutir causa do nazismo, nem mesmo uma de suas fontes
com os gênios ou com os sofistas (e com mais forte reais, Nietzsche não deixa de pertencer ao mesmo
r~zão com um sofista genial!)? Poder-se-ia pensar a~- mundo espiritual - do pensamento alemão antidemo-
Sim, se se tratasse apenas de Nietzsche, ou até se só crático, antijudeu e anti-racionalista - que também
se tratasse de filosofia. No fundo, todos esses livros produzirá o nazismo, e isso, sem absolutamente as au-
não têm toda essa importância - já que são somen- torizar, explica um pouco as pretensões nietzscheanas
te livros =, há algo de derrisório na maneira como deste ou daquele nazista, assim como os comporta-
mentos nazistas deste e daquele nietzscheano. "Uma
2. Ver, por exemplo, C/. "O Problema de Sócrates", GS. 348 e 370. doutrina", dizia Jankélévitch a respeito do nazismo,
e VP." I, 70-71 e 111-161. Ver também meu artigo "Nietzsche et Spi-
noza , a ser publicado nas Atas do colóquio Níetzsche et le
onde Heidegger imediatamente se reconheceu e que
judaisme, sob a direção de D. Bourel e J. Le Rider, Le Cert, 1991. traz tão visivelmente a marca de Nietzsche ..."6 Talvez
3 .. J. GRANIER, Le problàme de Ia véríté dons Ia phílosophíe de seja dizer demais - nos dois casos - atribuir apenas ao
Nietzsche, Ed. du Seuil. 1966, reed. 1969. p. 11.
4. J. DERRIDA. Otobíographíes. L'enseígnement de Nietzsche et Ia
acaso ou a mal-entendidos essa proximidade mons-
polítíque du nom propre, Galilée, 1984, p. 60. truosa que fez de Heidegger um nazista e que pare-
5. F. GEORGE. "D'un critare nouveau en philosophie", L'ôme et le
corps. obra coletiva sob a direção de M.-P. Haroche Plon 1990 p
187. ' , ,.
6. V. JANKÉLÉVITCH, L'ímprescriptíble. Ed. du Seuil. 1986. p. 52.
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ceu, mesmo erradamente, dar aos nazistas a chance- lução Francesa e o socialismol) (GM, L 16), reacen-
la de Nietzsche. I I r contra eles "o velho incêndio" (GM,· L 17), quebrar
"Os porcos vão chafurdar-se em minha doutrina", I I velhas tábuas, enfim, ultrapassar o homem (Z pas-
previa este último, e foi, de fato, o que aconteceu. IIn) - e é isso que se trata de impedir. É possível que
Mas por quê? Não conseguimos imaginar os nazistas u ponha nisso uma paixão excessiva; mas até isso é
reivindicando da mesma forma Kant ou Husserl, e po- 111 tzscheano - e não só nietzscheano.
deríamos dizer que toda doutrina tem os porcos que Nunca consegui falar de Nietzsche com calma. Isto
merece. "Haverá guerras como nunca houve na terra, tá ligado ao seu gênio, sem dúvida, ao que nele
anunciava igualmente Nietzsche, regozijando-se. Só a ti de excessivo. de explosivo - "não sou um ser hu-
partir de mim haverá na terra uma grande oolltlco.? , ano, dizia ele em Ecce Homo, sou dinamite" -,
É evidente que o derrisório predomina nessas fanfarro- quele talento de provocador e àquela contínua - e
nadas. Mas uma filosofia profetiza seus riscos e peri- rrlscada - proximidade do essencial e do insondável.
gos. De quem é a culpa se, terminada a história, só I le não pensava para passar o tempo. Ele vai aos
se hesite entre o ridículo e o odioso? O caso é que, xtremos, ao mais profundo, instala ali a sua bomba
de minha parte, lendo Nietzsche, Já que é nosso tra- ou o seu riso, e é também lá que devemos enfrentá-
balho, depois de Auschwitz nunca consegui fazer total 10. Mas há outra coisa. É que de Nletzsche, sob mui-
abstração daquela história, e sempre achei que os tos aspectos, não do homem, sem dúvida, mas do fi-
nletzscheanos vão muito rápido neste ponto. É verda- lósofo, e pondo de lado todo o gênio, eu me sinto
de que "tudo o que é bom é leve e tudo o que é tão próximo ... De todos os autores que participam
divino corre sobre pés delicados" (CW,l). Queridos desta coletânea, sou talvez o único que pode dizer:
dançarinos! Mas vão correr ligeiramente nas ruínas de meus pontos de concordância com Nietzsche, se pu-
Oradour, vão dançar divinamente em Auschwitz ou déssemos contentar-nos com uma abordagem mera-
em Mauthausen! Eu sou como todo o mundo: prefiro mente quantitativa, são muito mais numerosos do que
a leveza ao pesado. Mas gosto também da' gravida- meus pontos de divergência. Isto explica por que al-
de e da seriedade (Jankélévitch: "Não se trata de ser guns Jornalistas, quando foi publicado meu primeiro li-
sublime. basta ser fiel e sérlo'"). E mesmo que essa le- vro, me colocaram "na esfera de influência de
veza, como Nietzsche por vezes pretendeu. fosse es- Nletzsche:". e por que muitos leitores se espantaram
pecificamente grega, ou francesa, ou italiana - e de que eu falasse tão pouco (em Le mythe d'/care)
Deus sabe que, como Nietzsche, eu amo esses três ou tão duramente (em Vivre) de um autor de que eu
países e essas três culturasl - ela não nos fará esquET- parecia, de fato, tão próximo. Realmente, essas con-
cer a grande seriedade, a profunda gravidade, o irk cordâncias, esses encontros, essas convergências com
finito sofrimento e a insubstituível fidelidade do povo Nietzsche não me haviam escapado. Havia o ateís-
judeu. Dirão que eu misturo tudo. É que eu li muito mo. evidentemente, ou até o materialismo (ou o qua-
Nietzsche estes últimos meses, e essa não é nem uma se-materialismo, sobre o qual voltarei a falar), mas
escola de serena claridade, nem de ordem rigorosa. também a rejeição do niilismo e da falta de energia,
De resto, ele pretendeu expressamente inverter todos a reivindicação de uma filosofia que sirva para viver
os valores que "a Judéia", como diz ele, trouxe ao - não só para pensar =, a crítica da religião, do Idea-
mundo (e. para ele, a Judéia inclui a Reforma, a Re- lismo, do livre-arbítrio, a recusa que daí decorre de
toda moral que se pretenda absoluta, com, no entan-
to (ou por isso mesmo?). certa exaltação do querer,
7. EH. "Por que sou um destino", 1. As referências às obras de
Nietzsche serão de agora em diante dadas no corpo do texto. uti- da determinação do querer, que desemboca numa
lizando as abreviações reagrupadas acima. na Nota Bibliográfica.
Salvo indicação em contrário. os grifos são de Nietzsche.
B. V. JANKÉLÉVITCH. p. 55.
9. C. WIDMER. em Le journal de Geneve (março de 1984).
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ética "afirmativa", "criadora" e "ascendente", sem outro u Spinoza, Marx ou f::reud. Não é preciso ser nietzs-
mundo que não este, sem outra recompensa além heano para recusar 10 livre-arbítrio, o Idealismo ou a
dela mesma; depois havia a tentativa de pensar con- I IIglão! Em compensação, havia toda aquela grande
tra o sujeito, de desmascarar suas ilusões (a começar omédia do Zaratustlra, toda aquela quinquilharia
por ele mesmo I), enfim uma certa desconfiança para "I tzscheana - e tão kitschl e tão alemãl =, que só
com a especulação ou os sistemas, que me levava a ncontrava ali e deciqidamente não podia aceitar: o
preferir, cada vez mais, Montaigne a Kant, ou Pascal uper-homem, o eterno, retorno, a vontade de potên-
a Hegel. .. Sem falar que, como Nietzsche (em todo Ia, a transmutação t:le todos os valores ... Durante
caso, o do final), tenho horror de Wagner e dos wag- ulto tempo, eu como que pus tudo isso entre pa-
nerlanos, e não conheço nada de mais belo do que I nteses. Cheguei até a inventar para meu uso pes-
"o gênio alegre, entusiasta, terno e amoroso de Mo- oal um sistema de eC:Juivalências aproximativas mas
zart" (NCW, p. 63)... Para ficar na filosofia, e para sim- 6modas entre Nietzsche e Splnoza. O super-homem
plificar, digamos que eu compartilhava com Nletzsche ra como uma versão nietzscheana do sábio, o eter-
- embora tenha chegado ali por caminhos completa- no retorno podia passQr por uma metáfora da eterni-
mente diferentes: pelo marxismo e pela crítica ao ade, e a vontade dE! potência não deixava de ter
marxismo - o essencial de suas recusas: o antiplatonis- Ilações, julgava eu, com o conatus ... Quanto à
mo (contra o mundo inteligível), o anticartesianismo transmutação (ou inver~ão, ou reviravolta, como quise-
(contra o cogito), o antikantismo (contra a coisa em r m) de todos os valor'es, julgava ver ali um eco do
si e o caráter absoluto da lei moral), o anti-hegelianis- Imoralismo spinozista, E! sabe-se que, nessa trilha, eu
mo (contra a dialética) ... Para um filósofo, isso é mui- ra guiado por bons li\'ros1o
...
to; e se é verdade que Nietzsche, no fundo, me in- Arrisquemos uma anedota aqui. Quando eu era um
fluenciou muito pouco - eu só o li bastante tarde e Jovem professor de filo:Sofia, logo depois da agrega-
sempre com reserva =, eu não podia deixar de ficar ção, eu professava, cOmo todos os meus amigos, ou
impressionado com essa proximidade tão freqüente quase, e embora f6ssEemosmuito comportados, um
com ele, tanto mais, como disse, que leitores e críti- veemente imoralismo. E:ra o ar da época, e precisa-
cos teriam bastado para me advertir disso, se eu o ti- mos nos desiludir também da moral. Quanto aos
vesse ignorado ... Acontece que eu li Nietzsche, quan- meios - refiro-me aos meios teóricos -, eu não era
do o li, - e isso se estendeu por um período de quin- muito parcimonioso. Eu me apoiava em Epicuro, em
ze anos e essa leitura não terminou =, com um senti- plnoza, em Marx, em Freud... E em Nietzsche, é cla-
mento, ao contrário da fórmula freudiana, de inquie- ro, essencialmente no Nietzsche da Gaia Ciência e
tante familiaridade, como que do amigo mais perigo- da Genealogia da MOral. Mas precisava encontrar
so ou, cada vez mais, do inimigo mais próximo ... Não, xemplos. Com Spinoza e com Nietzsche, eu explica-
de forma alguma, que eu tenha tido medo, ao lê-Io. va que a humildade, o arrependimento e a vergonha
de ser menos original_{.Jão foi essa a minha intenção, ão erros nefastos (eu ainda não tinha descoberto,
e hoje menos do que nunca. Simplesmente, eu tam- mbora Spinoza o expliQasse com todas as letras, que
bém percebia em Nletzsche, e apesar de todos les são menos nefastos do que seus contrários, e
aqueles pontos de convergência, um fundo obscuro e só a virtude os dis~ensa ...). E como estava dian-
que me incomodou durante muito tempo e que, de adolescentes, aC::rescentava - com um senti-
quando acreditei discernir seu conteúdo, me repug- nento bem forte de mil)ha audácia libertadora - que
nou totalmente. De que se trata? Do que existe, sem ra preciso desclJlpabilizar a sexualidade, e que a
dúvida, de mais propriamente nietzscheano. Pois a
maior parte das convergências que acabo de evocar 10. Especialmente os (je G. DELEUZE: ver por exemplo Niefzsche et
eu as compartilhava, e em maior grau, com Epicuro Ia philosophie, PUF, 1962, e Sp/noza. Philosophle pratique, Ed. de Mi-
flult, 1981 (que retomo o pequeno Splnozo de 1970, PUF).
POR QUE NÃO SOMOS NIETlSCHEANOS
A BESTA-FERA, O SOFISTA E O ESTETA
ANDRÉ COMTE-SPONVILLE
A BESTA-FERA

masturbação, por exemplo, só era culpada para uma


I I lItude. O mais elegante seria passar por cima, co-
moral odiosa ... Tive de dizer aquilo, diante de classes 11\ fazem os nietzscheanos. Passal, mortais ... Mas a
diferentes, uma vez, duas vezes, três vezes... Nenhum 111 ral me importa mais do que a elegância: esta pla-
professor gosta de se repetir. Eu tentava variar meus
IlIude - a imoralidade do imoralismo nietzscheano - é
exemplos. A masturbação não é algo errado, e nem ... primeiro ponto sobre o qual gostaria de me deter
E nem o quê, na verdade? Eu poderia ter dito: e 11IY"I pouco. Não se trata de ser sublime ou original.
nem a homossexualidade, nem a felação, nem a so- II no-se de ser fiel e sério,
domia ... Sem dúvida, e continuo concordando com is-
so. Mas percebia também que isso era permanecer
no mesmo pequeno registro - aquele que se conven-
cionou chamar de "moral sexual" -, onde era fácil de-
mais, para alguém da minha geração, ter razão.
Quebrar ídolos, muito bem; mas para que investir con-
tra ruínas? Sobretudo, eu percebia muito bem que se
a masturbação ou a homossexualidade não eram fal- A BESTA-FERA
tas, o estupro o era, e uma falta bem clara, e que
este único exemplo bastava para destruir meu imora-
lismo. Se eu não tinha moral, como o pretendia enfa-
ticamente, em nome de que me proibir ou condenar E
sta é uma questão que um dia coloquei para
Clément Rosset e à qual. que eu saiba, ele
nunco respondeu: um canalha trágico, ou dionisíaco,
o estupro? Em nome de quê decidir o que era erra-
do ou não? Em nome de quê, por exemplo, comba- m que é menos canalha? Não, é claro, que eu du-
ter o racismo, a injustiça ou a barbárie? Em nome de vide por pouco que seja - se é que estou em condi-
quê, até, preferir a sinceridade à mentira ou a serenI- ões de fazê-lol - da evidente e tão calorosa bono-
dade à crueldade? Eu tentei durante algum' tempo mia do autor de La force majeure. É isto, aliás, que
responder: "em nome de uma ética". Mas esse tipo mpre me impressiona nos nietzscheanos, quando são
de solução, meramente verbal, só satisfaz por algum Impáticos: eles partem com tudo para cima da mo-
tempo. Restava pensar essa ética, e explicar este fa- ral, pretendem inverter todos os valores, esboçar uma
to muito estranho, de que uma ética pretensamente nova era da humanidade, viver para além do bem e
amora I corresponda tão bem, no mais das vezes, ao do mal etc., e ao final das contas se comportam co-
que qualquer homem de bem chama de moral. mo você e eu, mais ou menos honestamente, mais
Então tornei a pegar o meu Spinoza e o que vi foi ou menos virtuosamente, bons pais e bons maridos,
que não há imoralismo spinozista, ou um imoralismo quando o são, e em todo caso os melhores amigos
apenas t e órlo o! '. e que ... Mas é melhor voltar a do mundo ... Como Brassens, e como a maioria de
Nietzsche. Há um imoralismo nietzscheano, não somen- nós, eles poderiam dizer: "Nunca matei, nunca estuprei
te teórico como prático, e quanto mais o conhecia, também. Já faz algum tempo que não roubo mais ..."
mais o achava ... Mal ouso escrever a palavra, tão E mesmo que eles ainda roubassem ou só não o fi-
óbvia é ela, e de tanto que ela fará sorrir os nossos essem por prudência, qual deles não preferiria, mes-
belos espíritos. Esse Imoralismo, quanto mais o conhe- mo com lucros iguais, roubar um rico a um crápula?
cia, mais o achava Imoral. Bestamente, simplesmente, Qual deles consentiria em prejudicar o pobre ou o ór-
inadmissivelmente imoral. Peço desculpas por uma tal fão, em oprimir o fraco ou em enganar a confiança
de um amigo? E, inversamente, qual deles ficaria
1 1. Sobre o sentido dessa expressão, ver o meu Traité du désespoir chocado com a evidente moralidade - tão cristã, no
et de Ia béatitude. t. 11, Vivre (PUF, 1988). capo IV, pp. 93-101 (e es- fundo - da Chanson pour /'Auvergnat ou de La Jean-
pecialmente p. 97).
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ne? Mas então de que serve pretender inverter todos de má-fé em atacar a moral em nome da liberdade
os valores? por que dizer-se imoralista? E que pode xual num tempo, o nosso, em que a moral decidl-
querer dizer o "além do bem e do mal" deles? Che- amente deixou, muito felizmente, de se ocupar dela.
I so também é para nós uma lição do horror. Quem,
guei a pensar que eles deviam ser melhores do que
depois de Auschwitz, com exceção de alguns bispos,
eu, e que a sua moralidade espontânea ou a mansi-
ainda se preocupa com a pretensa imoralidade do
dão de seus instintos eram as únicas coisas que Ihes
preservativo ou da liberação sexual? Quem não vê -
permitiam dispensar a moral. Talvez. De minha parte,
no século de Auschwitz, de Hiroshima, das manipula-
eu que não tenho essa sorte, que trago comigo, co-
mo Sócrates, "todos os maus víclos"? (quisera não ter ções genéticas e da fome no mundo! - que a moral
mais do que a masturbação para me censurar!), eu tem realmente outros problemas para resolver, e mui-
que de bom grado mataria, que estupraria com ain- to mais terríveis, e muito mais urgentes, do que os pe-
da maior facilidade, eu preciso mesmo, como Sócra- quenos fantasmas de fulano ou de sicrano? Quem
tes, mais uma vez, dessa voz que diz náo13 - eu pre- não vê que não é a liberdade sexual que está em
ciso mesmo de uma moral! Jogo, e sim a liberdade sem mais, a recusa da bar-
Este paradoxo (a vida muito moral de muitos imora- bárle, da Infâmia, da degradação? Será que vamos
listas) já valia para Nietzsche, sem dúvida, e explica continuar por muito tempo confundindo ainda a mo-
em parte a sua agressividade. Só investimos de verda- ral com a ordem moral, os homens de bem com os
de contra os ídolos de que nâo conseguimos nos des- papais-pudibundos? E não será Isso cometer o mesmo
prender inteiramente ... Como bem viu Cioran, Nietzs- erro, caros anticristos. desses moralistas cristãos que vo-
cês tanto detestam? Os gregos mostravam-se a este
che "tira de si mesmo os inimigos, assim como os ví-
cios que denuncia. Ataca os fracos? Está exercitando respeito muito mais sensatos. Sabe-se que os cínicos,
a introspecção; e quando critica a decadência, está por exemplo, e até mesmo vários estóicos, justificavam
descrevendo seu estado. Todos os seus ódios se diri- a masturbação, a sodomia, o incesto ..., não vendo aí
gem Indiretamente contra ele próprio ... Ele se vingou nenhuma falta, sem dúvida não por imoralismo (não
nos outros do que ele era"14. Isso torna mais simpático há moral mais rigorosa que a de Diógenes ou de Crl-
(quase comovente, até, quando evoca a saúde ou a slpo!), e sim porque a moral Ihes parecia algo que
força), mais vivo, talvez mais fecundo. Mais plausível? tratasse de temas muito mais graves, e que ela proi-
Como homem, sem dúvida. Como filósofo, é preciso bisse não este ou aquele prazer moralmente indiferen-
ver. Pelo menos ele tinha a desculpa de combater te, e sim apenas aquele - crueldade, mentira, egoís-
uma moral de fato esmagadora - a mesma que mo, .. - que prejudique o homem nos outros ou em
Freud terá também de enfrentar -, e contra a qual nós mesmos. Sim, porque o egoísmo é nocivo tam-
fazia sentido dizer que condenava a vida, o corpo, a bém ao egoísta, e Epíteto sabia a este respeito mui-
sensualidade, em suma, uma moral ancorada em in- to mais do que Nietzsche. Mas voltemos ao canalha
trágico,
terdições sexuais e que parecia tirar daí o essencial
Que é o trágico? Nem o terror, nem a piedade,
de sua energia e, talvez, de seus motivos. Mas hoje?
Quem pode seriamente pensar que a moral visa a re- responde Nietzsche contra Aristóteles - tampouco,
gular os nossos probleminhas eróticos, ou que ela se acrescenta contra Schopenhauer, a resignação (VP,
preocupe, para as combater, com esta ou aquela de IV, 460). O trágico, pelo contrário, é a jubilosa aceita-
nossas preferências, ou até (desde que haja o livre ção do real, mesmo do pior, é o "sim a tudo que é
consentimento do outro) de nossas perversões? Usa-se problemático e terrível" (C/, 107), é a aprovação dlo-
nlsíaca "da vida em seu todo, da qual nada é rene-
12. Ver CI, "O problema de sócrotes", 3. gado, nada é retirado" (VP, IV, 464), em suma, é a
13. Sobre o demônio de Sócrales, ver por exemplo NT, 13. afirmação da "economia global do universo, aquela
14. Sy/logisme de /'amertume. p. 45.
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que justifica, e bem mais do que isso, as coisas temí- Não vamos depressa demais. Mais do que essas
veis, más, equívocas" (VP, IV, 462). É nisso que o trá- objeções teóricas, que dizem respeito à coerência ou
gico, segundo Nietzsche, se opõe à moral: toda mo- à decidibilidade da doutrina, foram reticências práti-
ral diz não a algo de vivo (e Isso é por certo incon- cas que primeiro me mantiveram afastado do nletzs-
testável!), toda moral condena a vida, nega-a, não cheanismo. Além do Bem e do Mal, esse "livro
se cansa de a empobrecer, de a sufocar ou de a opcrvorcmte?". desempenhou aqui um papel singular.
culpabilizar. Daí o Imoralismo: "Enquanto acreditamos Remeto a ele o leitor. Clément Rosset, em sua bela
na moral, condenamos a vida" (VP, I, 303); é preciso, tentativa de tornar Nietzsche aceitável - e sem dúvi-
portanto, desmascarar a moral para inocentar a vida. da aquele Nietzsche eu aceito plenamente! -, é obri-
"A moral é o instinto negador da vida. É preciso des- gado a deixar de lado, não apenas todos os textos
truir a moral para libertar a vida" (VP, I, 299). A moral reunidos em A Vontade de Potência e a quase tota-
é "o perigo por excelência" (GM, Prólogo, 6), "o peri- lidade do Zaratu stro, o que já é muito, mas também
go dos perigos" (NT-EA, 5). É a "Idlossincrasla dos de- todo o conteúdo propriamente imoral, ou imoralista,
cadentes, com a segunda intenção (coroada de su- de Além do Bem e do Mal ou da Genealogia da
cessol) de se vingar da vida" (EH, "Por que sou um tvtorat": De fato, se nos restringirmos à Gaia Ciência
destino", 7). O trágico é o contrário: a idiossincrasia dos ou a Aurora, ou se só retivermos dos textos posteriores
fortes, a afirmação amorosa e amoral da vida, que na- os trechos sobre a música ou sobre a alegria, obtere-
da condena, nada proíbe, que diz sim a tudo, mesmo mos um Nietzsche plenamente plausível e atraente -
ao pior, e que dança sobre o abismo... Assim o trágico, realista, racionalista, jubilosamente desmistificador -,
desde o começo, se volta "contra a moral" (NT-EA, 5): muito próximo, na verdade, de Spinoza ou, evidente-
trata-se de tornar o homem "mais forte, mais mau, mais mente, de Clément Rosset... Mas há o Zaratustra, A
profundo" (POBM, 295). Esta é a lição de Diôniso: viver Vontade de Potência, A Genealogia da Moral ... Mas
tragicamente é viver além do bem e do mal. há Além do Bem e do Mal. A própria Idéia de que
A coerência de um tal pensamento sempre me haja "morais de senhores e morais de escravos"
deixou perplexo. Se o ideal dlonisíaco consiste na "a- (POBM, 260) me parece suspeita, como era de se es-
firmação da vida em seu todo, de que nada se re- perar; mas mesmo que houvesse, como poderíamos
nega, nada se retira" (VP, IV, 464), por que querer re- conceder a Nietzsche que a moral dos escravos é
negar a moral, por que querer suprimir dois mil anos desprezível - ela que ensina "a piedade, a mão com-
de cultura, como diz Nietzsche, judaico-cristã? Em no- placente e sempre aberta, a bondade de coração, a
me do real? Em nome da vida? Em nome da afirma- paciência, a assiduidade, a humildade, a afabilida-
ção? Mas em que o "Crucificado" é menos real do de ..."(ib.) =, e que, pelo contrário, é preciso venerar a
que Diôniso? Em que a boa gente é menos viva que moral dos senhores, que "consiste na glorificação de si
os crápulas? Em que o respeito ao outro é menos mesmo" e impõe o preceito "segundo o qual só te-
afirmador que a violência e o desprezo? A verdadei- mos deveres para com nossos iguais, ao passo que
ra resposta nietzscheana é: em nome da potência e para com Inferiores e estranhos podemos agir como
da vontade de potência I Mas já que é sempre ne- quisermos ou 'como manda o coração', em todo ca-
cessário "defender os fortes contra os fracos" (VP, I, o além do bem e do mal"(ib.)? Será de se espantar
395), já que, na opinião do próprio Nietzsche (que nis- que os nazistas tenham gostado tanto desse livro? E
to se opõe a Darwin), os fortes são continuamente
vencidos - onde está a força, onde a fraqueza, e se-
15. Como dizia o próprio Nietzsche. numa carta a Peter Gast de 21
gundo que critérios decidir? Segundo a quantidade
de abril de 1886 (citada por G. Bianquis, em sua apresentação de
de alegria? Mas onde há mais alegria real? Na po- Além do Bem e do Mal).
tência ou no amor? Em Nietzsche ou em Spinoza? 16. Ver C. ROSSET, "Notes sur Nietzsche", La force majeure. Ed. de
Minuit, 1983, p. 31 ss.
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como, com uma moral dessas, combater hoje Le Pen ugenlsm03o, O roctsrno-' e a escrovtdôo'", que tenha
e que tais? bertamente recomendado ou celebrado a barbá-
Aqui seria preciso multiplicar as citações, o que lo- Ile33, o desprezo pela maioria34, a opressão dos
go se tornaria cansativo. Nietzsche é um dos raros fi- fracos35 e o extermínio dos doerites= - tudo isso um
lósofos, talvez o único (exceto se considerarmos Sade culo depois da Revolução Francesa. como se sabe,
um filósofo!), que tenha ao mesmo tempo, e quase tendo sobre as mulheres" e sobre a oernocroctc "
sistematicamente, tomado o partido da força contra opiniões que, por serem menos absolutamente excep-
o dlrelto!". da violência ou da crueldade contra a cionais, não deixam de ser aflitivas ... Seria preciso ci-
monsldôo!", da guerra contra a poz!", que tenha fei- tar tudo, e não podemos. Alguns exemplos, simples-
to a apologia do egoísm02o, que tenha colocado os mente. Apologia da virilidade guerreira: "O homem
instintos acima da roz óo?'. a embriaguez ou as pai- deve ser educado para a guerra, a mulher para o
xões acima da serenidade22, a dietética acima da fi- repouso do guerreiro: fora disso tudo é loucura ... Vais
losofia e a higiene acima da morof>, que tenha pre- às mulheres? Não esqueças o chicotel" (Z, I. "Das Mu-
ferido Pôncio Pilatos a Cristo ou a São Joã024, César lherzinhas Jovens e Velhas".) Desprezo (sempre viril, e
Borgia ("o homem de rapina", "uma espécie de sobre- racialmente puro!) pela maioria: "Os homens efemina-
humano"l) a Giordano Brun025 e Napoleão a dos, os filhos de escravos e sobretudo a populaça
Rousseciu>, que tenha pretendido que não haja "nem mestiça, tudo isso quer hoje ter nas mãos o destino
ações morais nem ações imorais"27(ao mesmo tempo humano - ó nojo, ó nojo, ó nojo!" (Z, IV, "Do Homem
que se declara "o amigo dos maus" e o adversário Superior".) Elitismo imbecil: "Que todos tenham o direi-
dos "bons"!)28, que tenha justificado as c ostos'". o to de aprender a ler, eis o que a longo prazo te
enoja não só de escrever, mas também de pensar"
17. Por exemplo, GS, 377. PDBM. 257 ss.• GM. 11.17... (Z, I. "Ler e Escrever"). Eugenismo: "Em muitos casos. o
18. Por exemplo GM. I. 13 e 11.6-7. ou VP. 11.152.
19. HTH. I. 444. AC. 2. CI. "Vadiagens Inatuais". 38. Z. I. "Da Guerra
dever da sociedade é impedir a procriação; para
e dos Guerreiros" e "Das Mulherzinhas Jovens e Velhas'. VP. I. 438 ... tanto. ela tem o direito, sem consideração de origem,
20. PDBM. 265. CI. "Vadiagens Inatuais". 35 e 37. EH. "Por que sou posição e das qualidades do espírito, de prescrever as
um destino". 7...
21. NT. 13. CI. "O Problema de sócrotes". EH. "Nascimento da Tragé-
medidas coercitivas mais rigorosas, entraves de toda
dia". 1. VP. I. 64 e 11.258 ... espécie à liberdade, a castração em certos casos ...
22. NT. passim. Gs. 370. PDBM. 198 ... Nem o doente nem o criminoso devem ser reconheci-
23. EH. "Por que sou tão sagaz". 1. e "Por que sou um destino". 8.
dos como aptos à procriação ... É preciso que os ca-
Ver também M. ONFRAY. Le ventre des philosophes. Grasset. 1989.
capo VI. samentos se tornem muito mais raros! Percorram as
24. AC. 46 (refiro-me aqui ao Cristo dos Evangelhos; Nietzsche às grandes cidades e perguntem-se se essa população
vezes sonha com um outro Cristo. que não teria nada a ver com
os Evangelhos nem com o cristianismo. e seria uma espécie de
deveria reproduzir-se! ...u (VP, IV, 252, 253, 258.) Extermí-
nietzscheano ante litteram ...) nio dos fracos: "Morram os fracos e os fracassados:
25. Comparar PDBM. 197. AC. 61 e CI. "Vadiagens Inatuais". 37 (a- primeiro princípio de nosso amor dos homens. E que
cerca de Cesar Borgia) com PDBM. 25 (acerca de Giordano Bru-
no).
26. CI. "Vadiagens Inatuais". 48. e VP. I. 436. Ver também. sobre Na- O. VP. IV. 250-260.
poleão ("o problema encarnado do ideal nobre por excelência. sín- 1. PDBM. 200. 208. 213. 264. GM. I. 5 e 11. CI. "Aqueles que que-
tese do inumano e do sobre-humano"). GM. I. 16. A 245. e PDBM. em tornar a humanidade melhor". 4 ...
199; e sobre Rousseau ("aborto postado no limiar dos novos tempos. 32. GS. 377. PDBM. 257 e 258.
idealista e canalha ...•.): CI. ib .• VP. I. 437. e 111.14. 38. 39 ... 33. GM. I. 11. HTH. I. 444 ...
27. VP. I. 318. 34. HTH. I. 438. PDBM. 202. Z. IV. "Do Homem Superior". VP. I. 306
28. EH. "Por que sou um desttnc''. 5 ss.. e Z. passim. Ver também (XI) ...
VP. 111.38. 35. PDBM. 258-259. GM. 111.14. VP. I. 435 ...
29. HTH. I. 439-440. CI. "Aqueles que querem tornar a humanidade 36. PDBM. 62. AC. 2...
melhor". 3. VP. IV. 305. 308 ... 37. PDBM. 232. 238. 239. Z. I. "Das Mulherzinhas Jovens e Velhas •....
38. PDBM. 202. 203. 242. 261. GM. I. 5 e 16...
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tlcrlstlanlsmo. Um único exemplo. Sabe-se que, em A


sejam ajudados a desaparecer!" (AC, 2.) Justificação
enealogia da Moral, Nietzsche afirmava que foram
da escravidão: "Toda elevação do tipo humano sem-
pre foi e sempre será obra de uma sociedade aristo- s judeus, "esse povo sacerdotal do ressentimento por
crática, de uma sociedade que crê em múltiplos mo- xcelência", os primeiros a inverter os valores aristocrá-
delos de hierarquia e de valores entre os homens e ticos, tomando assim, "com a raiva de um ódio sem
que, sob uma ou outra forma, requer a escravidão" limites (o ódio da Impotência)", uma "iniciativa mons-
(PDBM,257). Apologia da opressão: "Uma boa e verda- truosa e nefasta além de qualquer expressão" (GM, I,
deira aristocracia [deve aceitar] sacrificar de bom 7, 16). Assim, continuava Nletzsche, foi com os judeus
grado uma multidão de pessoas que deverão ser, no que "começou o levante dos escravos na moral" (GM,
Interesse dessa aristocracia, humilhadas e reduzidas à I, 7), levante esse que triunfa no cristianismo e ao
condição de seres mutilados, de escravos, de instru- qual devemos o que Nletzsche chama, em O Anticrls-
mentos" (PDBM, 258). E explica que os progressos - 10 (25), "a desnaturação de todos os valores naturais".
Com certeza, podemos falar neste caso de antijudaís-
sem dúvida lamentáveis - das idéias socialistas estão
mo e de anticrlstianlsmo; mas de anti-semitismo, Isso
ligados ao fato de que "as camadas inferiores são
pode ainda parecer duvidoso. Que pensar, em com-
tratadas humanamente demais" (VP, I, 435)... Desprezo
pensação, ainda em O Antlcrlsto, do Aforismo 46? "O
pela democracia, messianismo do chefe: "Nós que rei-
vindicamos uma outra fé, que consideramos a ten- que se segue daí? Fazemos bem em vestir luvas
qu:::mdo lemos o Novo Testamento. A proximidade de
dência democrática não só uma forma degenerada
da organização política, mas também uma forma de- tanta sujeira torna-o quase obrigatório. Freqüentaría-
cadente e diminuída da humanidade, que ela reduz mos os 'primeiros cristãos' tão pouco quanto os judeus
à mediocridade e cujo valor ela rebaixa, onde pore- polacos: não que tenhamos de Ihes censurar a míni-
mos nossa esperança? Em filósofos novos, não temos ma coisa ... Ambos cheiram mal." Como negar que
outra opção ... Para tanto, precisaremos um ,dia de neste caso o anticristianismo e o anti-semitismo se mis-
uma espécie nova de filósofos e de chefes, cuja ima- turam? E que dizer da conclusão do mesmo aforls-
gem fará empalidecer e se encarquilhar tudo o que mo? "Será ainda preciso que eu diga que em todo o
a terra já viu de espíritos secretos, temíveis e benévo- Novo Testamento só aparece uma única figura que
los. É a imagem desses chefes que nos obsedia, pos- se deva honrar? Pilatos, o governador romano. Ele
so dizê-Io em alta voz, ó livres espíritos?" (PDBM, 203.) não conseguia levar a sério uma briga de judeus. Um
Racismo, afinal, e mais demoradamente. Não me judeu a mais ou a menos - que importa? ..."
deterei nisso, porque já falei a respeito em outro
Evoco isso apenas de passagem, para lembrar que o
lugar39, sobre a questão do anti-semitismo, de que se
problema, apesar de tudo, existe e que não basta lem-
pretenderia que Nietzsche fosse isento, sob pretexto
de que detestava também os anti-semitas. Grande brar o ódio de Nietzsche para com seu cunhado, o
coisal Como se um homem como Nietzsche não pu- antl-semita Fórster,para anular essas frases ou outras do
desse detestar ao mesmo tempo os judeus e os ontl- mesmo gênero. Também não quero discutir os poucos
semitasl Todo o mundo fala de um Jüdischer Se/- textos elogiosos - eles mesmos quase sempre terrivel-
bsthass (um ódio judeu de si mesmo); por que não mente ambíguos - que Nietzsche consagrou aos judeus
haveria um antisemitischer Selbsthass (um ódio anti-se- (HTH, 475; A, 205; PDBM, 250-251; AC, 24-25...). Mais uma
mita de si mesmo)? Concordo, porém, que a posição vez, eu concordo que a posição de Nletzsche é ambl-
de Nietzsche a respeito dos judeus é ambivalente e valente e que o antijudaísmo e o antl-semitismo se mes-
sobretudo mal se distingue do antijudaísmo e do on- clam em Nietzsche a uma admiração sem dúvida sin-
cera. Mas pode esta anular aqueles? E entre aqueles,
pode o primeiro justificar o segundo?
39. "Nietzsche et Spinoza" (ver nota 2).
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Há algo ainda mais grave, e que ultrapassa os da- favlsmo - e que a raça dos conquistadores e dos
dos biográficos ou psicológicos. O pensamento de s nhores, a raça dos arianos, não esteja sucumbindo,
Nletzsche é racista em sua essência, pela conjunção até fisiologicamente? ..." (GM, I, 5.) E para calar a bo-
(encoberta pela hereditariedade) do elitismo e do ca: "São esses 'heróis' dos Instintos de rebaixamento e
biologlsmo. "Não somos filhos de nossos pais Impune- de ódio, herdeiros de tudo que na Europa ou alhures
mente", Já dizia Nietzsche em A Gaia Ciência (348). nascera para a escravidão, esses resíduos de elemen-
Mas em Além do Bem e do Mal (264), ele é mais tos pré-arlanos em particular - são eles que represen-
preciso: "É impossível que um homem, mesmo apesar tam o recuo da humanidade I Esses 'instrumentos da
das aparências, não tenha no corpo as qualidades e cultura' são a vergonha do homem, fazem suspeitar
os gostos de seus pais e de seus avôs. É o problema da própria 'cultura' e fornecem um argumento contra
da raça. O que sabemos dos pais permite tirar con- Ia" (GM, I, 11). E, pelo contrário, louva "a besta lou-
ciusões a respeito do filho". Para Nletzsche, toda ativi- ra que está no fundo de todas as raças aristocráti-
dade humana está subordinada neste ponto ao que cas", todos esses "monstros triunfantes, que talvez
ele chama de "linhagem", e a própria filosofia não es- saiam de uma ignóbil série de assassínios, de incên-
capa disso: "É o nascimento que dá acesso ao mun- dios, de estupros, de execuções com tanto orgulho e
do superior; em termos mais precisos, é preciso ter si- serenidade de alma quanto se se tratasse apenas de
do preparado para isso por uma longa seleção; nin- uma cabulada de estudantes, e convencidos de que
guém tem o direito de aceder à filosofia, no sentido deram aos poetas ampla matéria para cantar e cele-
amplo da palavra, senão em virtude de suas origens; brar" (ib.)1 E acrescenta, talvez Influenciado por Gobl-
mesmo aqui, são os antepassados, a 'linhagem' que neau, que admirava muito40: "No fundo de todas es-
decidem. É preciso que numerosas gerações tenham sas raças aristocráticas, é impossível não reconhecer a
trabalhado para produzir o filósofo; cada uma de fera, a soberba besta loura que ronda à procura de
suas virtudes deve ter sido adquirida Isoladamente, presas e de carnificinas ... A desconfiança profunda,
cultivada, transmitida por hereditariedade ..." '(PDBM, glacial. que o alemão inspira desde que chega ao
213.) A mesma luz, como era de se esperar, vale poder - e ele a inspira mais uma vez hoje em dia -
também para a história geral da humanidade. Em A é ainda um contragolpe desse horror insuperável que
Genealogla da Moral (I, 4, 5), depois de ter observa- durante séculos a Europa sentiu diante dos furores da
do que "o verdadeiro método a seguir" era de ordem loura besta-fera germãnica ..."41
etimológlca, Nietzsche escreve: "O latim malus (que Todos esses textos, e muitos outros que poderíamos
associo ao grego meIas, negro) poderia ter designado citar, justificam o meu título, ou pelo menos o primei-
o homem do povo por sua cor escura, e sobretudo ro qualificativo de que ele faz uso. Não, sem dúvida,
por seus cabelos negros (hic niger est), distinguindo-se
o autóctone pré-ariano do solo itálico mais ciaramen- 40. Ver S. GOYARD-FABRE. Niefzsche et 10 question politique. Sirey.
te por sua cor escura da raça dominante, da raça 1877. pp. 19-22.especialmente as notas 16 e 31: "Quando Nietzsche
teve conhecimento do Ensaio sobre o Desigualdade dos Roças Hu-
dos conquistadores arianos de cabelos loiros". E acres-
manos (a primeira parte publicada em 1853 e a segunda. em
centa esta frase (cujo estatuto, num livro de filosofia, 1855). ele se entusiasmou com as idéias de Gobineau ..." Ver tam-
dá o que pensar): "Os celtas, diga-se de passagem, bém p. 50. nota 62.
41. GM. I. 11. Depois de ter tido esperanças (em O Nascimento do
eram uma raça absolutamente loura ..." E acrescenta
Tragédia) de que o gênio alemão fosse "puro o bastante para eli-
gravemente: "Quem nos garante que a democracia minar violentamente os elementos estrangeiros que nele se enxerta-
moderna, o anarquismo ainda mais moderno e sobre- ram e que fosse capaz de tornar a se lembrar de sua própria
tudo essa tendência à Comuna, à forma social mais natureza" (NT, 23). Nletzsche veio a perder as esperanças nos ale-
mães modernos (que não tinham decididamente nada em comum
primitiva, hoje cara a todos os socialistas da Europa, com "os antigos germanos": GM. I. 11) e a não' mais esperar salva-
não sejam, em sua essência, um monstruoso efeito de ção além dos efeitos seletivos de seu próprio pensamento (VP. IV.
227-233) e do eugenismo (ib.. 250-260).
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que Nietzsche, como indivíduo, tenha sido uma besta- nganar-se totalmente sobre o estatuto nietzscheano
fera (pobrezinho, ele não tinha meios para tanto!); i metafíslca, que, longe de escapar à ordem vital
mas ele é o filósofo - e, que eu saiba, o único (pois ro corpo (e, portanto, ao blologlsmo), não passa de
Maqulavel. se legitima politicamente a Imoralidade, no uma sua expressão (um "sintoma") entre outras, que
entanto não condena a moral enquanto tal) - que o é nem a mais digna, nem a mais Importante de-
Justifica as bestas-feras e faz delas modelos, expressa- I s e que, sobretudo, permanece de fato e de direl-
mente. Dirão então - ou os nletzscheanos dirão - que 10 sob sua dependência, Isso é claramente expresso
esses textos devem ser tomados em segundo grau, m A Vontade de Potência: "Todas as nossas religiões
que só têm uma significação metafórica, que a "for- todas as nossas filosofias são sintomas de nosso es-
ça" que eles louvam é de ordem espiritual. enfim, lodo físico; se o cristianismo triunfou, foi em conse-
que não há em Nletzsche (como Heldegger pretensa- üêncla do mal-estar geral e da mistura de raças (ou
mente provou I) nenhum blologlsmo, e que conseqüen- [o. de uma desordem e de um antagonismo no in-
temente as "raças" a que se refere não são raças ... I rlor do organismo)" (VP, 111, 653). Assim, sempre se
Infelizmente, se metáfora há, é no sentido Inverso. deve "partir do corpo e da psicologia" (VP, 11,230),
Nietzsche explicou-se muitas vezes sobre Isto, que toca considerar que "todo o 'consciente' é de Importância
o coração de sua doutrina: longe de o corpo ser a ecundária" (VP, 11,232), revisar, conseqüentemente,
metáfora do espírito, é, pelo contrário, o espírito que "nossas crenças e nosso próprio princípio de avalia-
é a metáfora do corpo, seu sinal ou seu sintoma42, e ção" e só conservar o espiritual "como a linguagem
toda filosofia, quanto a Isso, é apenas "uma simples cifrada do corpo" (ib" ver também os § 260 e 261), É
exegese do corpo, um mero equívoco do corpo" (GS, aí que Nietzsche está mais perto do materialismo - e
Prólogo). Nietzsche acrescenta: "Por trás das mais altas conseqüentemente, é também aí que o materialista
evoluções éticas que guiaram até agora a história do deve estar mais atento. Se "o homem é matéria"
pensamento, se escondem mal-entendidos oriundos da (PDBM, 225), se a alma é apenas o sintoma do corpo
conformação física, quer de Indivíduos, quer de clas- e se essa sintomatologla é ela própria, como.
ses, quer enfim de raças Inteiras. As orgulhosas loucu- Nletzsche não se cansa de repetir, biologicamente de-
ras da metafíslca, as respostas que ela dá, especial- terminada, como não concluir de diferenças físicas
mente à questão do valor da vida, sempre podem (tais como elas decorrem da hereditariedade), diferen-
ser consideradas em primeiro lugar como sintomas de ças espirituais - e que é Isso além de racismo? Ao
certas constituições físicas" (ib.). Querer Inocentar que os materialistas mais radicais escapam, ou podem
Nietzsche de suas opiniões racistas ou bárbaras, com escapar, submetendo a vida a outra coisa que não
o pretexto de que nele (e ao contrário, explicam eles, ela mesma, tanto de um ponto de vista teórico (a
do que se vê no Mein Kampf ou nos teóricos do na- verdade não é um sintoma), quanto de um ponto de
cional-socialismo) se trata de metafíslca43, é, portanto, vista físico (a matéria não é nem racista nem racial),
ou prático (não é a moral que deve submeter-se à
42. Ver por exemplo Z, li, "Dos Poetas":"Desde que conheço melhor vida, é a vida, no homem, que deve submeter-se à
o corpo, dizia Zaratustra a um de seus dísclputos, o espírito para
moral: mesmo que a noção de raça fosse biologica-
mim não passa de uma metófora ..."
43. Assim é particularmente, na esteira de Heidegger, o espírito do ente pertinente, o racismo não deixaria de ser mo-
livro (aliós muito rico e útil) da sra. Goyard-Fabre: ver especialmen- ralmente condenável), Em suma, o racismo não pas-
te, oo. cit., Prólogo, pp. 30-35 e 156-168.Ver também, no inesgotó-
sa de uma hermenêutica da epiderme (este é o seu
vel livro de Heidegger, o trecho bastante decepclonante consa-
grado ao "pretenso blologismo de Nietzsche" (Nietzsche, Gallimard,
t. I, p. 402 e ss. da trad. francesa): "quando Nletzsche concebe o
aparentemente biológica do mundo..." (p. 409). É verdade que Hei-
ente em sua totalidade e previamente o ser enquanto 'vida', e de-
degger reconhece que essa Indicação "não apaga de modo
termina o homem em particular enquanto 'rapace', não pensa bio- algum a aparênCia de que Nietzsche pense, mesmo assim,exclusi-
logicamente, e sim fundamenta metofisicamente essa imagem va e firmemente num sentido biológico..." (/b.)
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erro teórico), que toma a hereditariedade por uma 111 r a vida como norma e como modelo é, então,
moral (é sua falta prática). Trata-se de um materialis- Ir em todas as armadilhas naturalistas (crítica da
mo superficial e bárbaro. ultura, rejeição da moral. apologia dos Instintos e da
Sobre tudo Isso, não posso estender-me como con- mlmalidade ...) e, conseqüentemente, - já que só há
viria. Mas Já se compreende que, rejeitando tanto o humanidade através da cultura - cessar de considerar
Idealismo (que é apenas um contra-senso sobre o l humanidade como um fato irredutível (anti-humanis-
corpo) quanto, para terminar, o próprio materialismo Ir10 teórico: "reintegrar o homem na noturezo'?") e, so-
()~ que, e~pllca ele, "não acredito na 'matéria'''44), I r tudo, como um valor (antl-humanlsmo prático: "o
Nletzsche so pode então cair no vltalismo (no sentido homem só existe para ser ultrapassado"48). Daí. e des-
amplo: ele tampouco acredita na existência de um f A Gaia Ciência, a justificação do pior: "O ser mais
prlncipío vital qualquer) ou, como quiserem, no biolo- Itansbordante de vida, o dionlsíaco, deus ou homem,
gismo. E isso que lhe serve de ontologia e o separa I ode se permitir não apenas encarar o enigmático e
do materialismo: "O 'ser' - não temos dele outra re- pavoroso, mas também cometer o pavoroso, e se
presentaç~o além do fato de 'viver'. - Como é que ntregar a qualquer luxo de destruição, de perturba-
o. que _est~ morto poderia 'ser'?"45 Ora, "a vida orgâ- ôo, de negação; considera que a maldade, a insa-
nica nao e o resultado de um devir" (VP, 11,99). Ela é nidade e a feiúra lhe são permitidas em virtude de
essencialmente vontade de potência, martela um excesso de forças criadoras que podem fazer do
~ietzsche, e a vontade de potência, como se sabe, róprio deserto um solo fértil" (GS, 370). Nietzsche, ou
e o fundo do real ... Nietzsche está aqui, como acon- filosofia da terra arrasada ...
tece com freqüência - talvez com a mediação de Segue-se de tudo isso que a força tão louvada por
Boscovitch? - mais perto de Leibniz do que de Epicu- Nletzsche é em primeiro lugar uma força física, e que
ro ou de Lucréclo, e seu monlsmo vitallsta permanece a besta-fera, longe de ser uma metáfora do aristocra-
prisioneiro da "perspectiva", como ele diz, do ser vivo, ta ou do herói do espírito, é ao mesmo tempo seu
ou seja (já que se deve também evitar o antrdpomor- modelo e sua origem. É o que Ilustra, entre outros, o
fismol) do animal46. Humano, demasiado humano ...To- Aforismo 257 de Além do Bem e do Mal: "A casta
aristocrática sempre foi na origem a casta dos bárba-
44. VP, li, 6. Ver também I, 159 e 205, e li, 8-11, assim como GM ros; seu predomínio baseia-se primeiro em sua força fí-
111, 16. Ser~a preciso matizar muito o que escreve Y. QUINIOU e~ sica, e não na força psíquica. Eram homens mais
~eus Problemes du matérialisme (Méridiens Klincksieck, 1987, capo VI:
Nletzsche Materialista"). completamente 'homens' do que os outros, o que sig-
45. VP, li, 8. O que chamo de vitalismo de Nietzsche se caracteri- nifica mais 'completas bestas-feras' sob todos os as-
za, ~.?rtan~o, pelo fato de que, como escreve Heidegger, t. li, p. pectos". É o que confirma A Vontade de Potência (IV,
213, Vida, segundo Nietzsche, é um termo equivalente ao de Ser".
Mostrei em .outro lugar que o materialismo, em sua tradição mais
318): "Não existe nobreza a não ser a do nascimento
radicaL erismo. pelo contrário, que o ser está do lado da morte.
ou: mais ex~tamente, que a vida não é a sua essência, e sim seu a proposição: Homo est brutum bestia/e. A expressão de Nietzsche:
aCidente (n~:1Oa regra, mas a exceção): ver meu artigo "Qu'est-ce a "besta loura" não é um exagero fortuito, mas a palavra que ca-
que le materialisme?", Une éducation philosophique, PUF, 1989, p, 86 racterizaum encadeamento no qual Nietzsche se situava conscien-
SS. temente sem contudo discernir suas relações de essência hlstorial".
46. Sobre Boscovich, ver VP, li, 6. Sobre a animalidade em 47. POBM, 230. Este projeto, que já era o de Spinoza e será o das
Nletzsche, ver as pertinentes observações de Heldegger, I. li, p. 160 _,ênclas humanas (encontramos a mesma expressão, ou expressões
SS. Int,,;,rpretando, como se sobe, a filosofia de Nietzsche "enquanto muito próximas, em Durkheim, em Freud, em Lévl-Strauss ...), parece-
metcrtsico da s~bjetividade", Heidegger nota que, "para Nietzsche, me evidentemente legítimo: mas trata-se de um projeto puramente
a subjetiVidade e absoluta enquanto subjetividade do corpo, ou se- teórico (só diz respeito à verdade), e conseqüentemente não se
ja, dos Impulsos e dos afetos, ou seja, da Vontade de potência", o poderia dele extrair nenhuma moral - nem um imoralismo.
que acarreta que "na metafísica de Nietzsche é a animalitas que 48. Z, I, Prólogo, 3 e passim. Sobre a noção de humanismo prático,
se torna o fio condutor". Heidegger acrescenta: "A essência incon- e sobre a oposição deste ponto de vista entre Nietzsche e Spino-
dicloncrdo da subjetividade assim se desenvolve necessariamente zo. ver o meu Traité du désespoir et de Ia béatitude, t. li, Vivre,
enquanto brutalitas da bestialitas. No fim da metafísica se inscreve capo IV, p. 135 ss.
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e do sangue. (Não estou me referindo aqui ao "de" lar - além do bem e do mal! - o advento de uma
no nome, nem ao Gotha: observação para os asnos.) nova era, prodigiosa e terrível ... E o que é, então, es-
Quando falamos da 'aristocracia Intelectual', geral- filosofia que nos apresentam, que reivindica uma in-
mente temos alguma coisa a esconder; sabe-se que v rsão que não inverte nada, um super-homem que
essa é uma das expressões favoritas de nossos ambI- não é um super-homem, uma vontade de potência
ciosos judeus. O espírito por si só não enobrece; mui- ue não quer a potência, um imoralismo que não é
to pelo contrário, temos necessidade de alguma coi- Imoral, enfim, e como se sabe, um eterno retorno on-
sa que enobreça o espírito. O que é preciso para is- de nada retorna? ... Será prestar serviço a Nietzsche, se-
so? O sangue". Finalmente, é isso que dá sentido ao r6 ser-lhe fiel transformar esse filósofo-dinamite num pe-
"Super-homem" e à "inversão de todos os valores". Tra- tardo qualquer, bom apenas - tanto barulho por nadal
ta-se, contra o "desnaturamento de todos os valores para alegrar por algum tempo uma festa parisiense?
naturais" de que os judeus se tornaram culpados (AC, Mas deixemos de lado as polêmicas e as querelas
25), de reencontrar a espontaneidade amoral do que e especialistas. O que quer que façamos para elimi-
é vivo. Assim, os mandamentos bíblicos: "Não rouba- nar os textos mais espetaculares ou mais inquietantes
rás, não matarás" são condenados em nome da vida: e Nietzsche, o que nele há de barbárie permanece
"Não implica toda vida o roubo e o assassínio? E se visível num ponto preciso, que é, o núcleo de seu
tais palavras foram declaradas sagradas, não foi a imoralismo. De que se trata? Nietzsche explicou-se a
verdade que se achou de repente - assassinada? Ou r speito mil vezes, e é o que deveria servir de subtítu-
não era pregar a morte declarar sagrado tudo o que lo para A Vontade de Potência: o nietzscheanismo in-
contradiz e desaconselha a vida? Ó meus irmãos, teiro pretende-se o ensaio de uma transmutação (ou
quebrai, peço-vos, quebrai as tábuas antigasl" (Z 111, de uma reviravolta, ou de uma inversão, ou de uma
p. 115). É o que Nietzsche chama de suas "Inovações Iransvaloração ...) de todos os valores. Um tal projeto
de princípio: Em vez dos 'valores morais', só valores supõe que se faça tábula rasa dos valores passados -
naturalistas. Naturalizar a moral" (VP, 111,
19). Esses"va- é isso que eu chamo de barbárle. "Nada é verda-
lores naturalistas" são com certeza de inspiração vita- de do que antigamente passou por verdade ... Toda
lista: "Todo naturalismo na moral, ou seja na sã moral, ssa velha moral não mais nos diz respeito; não con-
é dominado pelo Instinto de vida ... A moral antinatu- tém nenhuma idéia que ainda mereça respeito" (VP,
rol, ou seja, toda moral que até agora foi ensinada, I, 229). A barbárie é nisso o contrário da fidelidade49•
venerada e pregada, dirige-se, pelo contrário, precisa- Assim, reivindica de bom grado o futuro contra o pas-
mente contra os instintos vitais" (C/, "A moral enquan- sado ou o presente - a esperança contra a memória
to manifestação contra a natureza", 4). Por onde se ou o respeito. É sempre a lógica da vida ("impossível,
vê que Nietzsche tinha razão de se sentir singular: to- dizia Nietzsche na Segunda intempestiva, viver sem es-
dos os filósofos, ou quase, sempre afirmaram que a quecer"), e é somente a ela que Nietzsche quer per-
moral devia vencer os instintos ou pelo menos dominá- manecer fiel: fiel à vida infiel, à vida esquecida, à vi-
los; Nietzsche, por seu lado, ensina que os instintos de- da sangüinária, cheia de esperanças e de desrespei-
vem vencer a moral ... Spinoza diria: Uftiml barbarorum! to! E. sem dúvida, tratando-se da vida, Nietzsche não
De resto, se todos os textos que acabo de citar ou stá totalmente errado. Mas será exatamente ela que
de que dei as referências fossem apenas metáforas e deve tomar como modelo? Não seria, por fidelida-
discursos de segundo grau, não veríamos multo bem e à vida, trair o que devemos também de fidelida-
porque Nietzsche poderia orgulhar-se, como não se de ao homem, ou seja, à humanidade do homem, a
cansa de fazer, de ser "o primeiro imoralista", de pro- essa longa seqüência de combates e de recusas que
ceder a "uma perturbação radical dos valores", a
49. Sobre o que entendo por fidelidade. ver meu artigo em Autre-
uma "inversão de todos os valores", a ponto de anun-
ment. ("La fidelité"). Paris. 1990.
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chamamos sua história? Por que dizer sim à natureza mais insuportável; e eu não conseguiria viver se
mais do que à cultura? Que é um homem, de fato, I o fosse tão vidente sobre o que virá" (Z, li, 295). O
senão esse ser vivo que se revolta contra a própria vi- iue virá? O sentido: "O Sobre-humano é o sentido da
da, que se recusa a seguir até o fim sua Implacável Irra" (z'1. 59).
lógica? Que é um homem, a não ser, para falar co- A grandiloqüência, mostra Clément Rosset, multas
mo Vercors, esse animal desnaturado que só se cria, v zes trai "o ressentimento e o ódio, j .. ,f o desejo de
como humano, recusando a naturalidade dada do bllterar o próprio real. quando este se revela Insupor-
mundo e dos instintos? O espírito sempre nega. Não I velou indigesto"; trata-se de uma "denegação fun-
era este o sentido do demônio de Sócrates? E, antes amental do real", que Inclui "a acusação do outro"so.
de Sócrates, não é essa a contribuição essencial do Não se poderia dizer melhor. Mas o que há de mais
judaísmo, contra todos os paganismos, contra todos os randiloqüente, caro Clément Rosset, do que Zaratus-
naturalismos? "Naturalizar a moral" não é exatamente Ira? É por estar enojado dos homens, explica ele ("ó
o que ele nos desaprendeu a fazer? E não é o que nojo, nojo, nojol"), e até dos melhores (os "homens su-
nos permite humanizar a moral, esplritualizá-Ia? Enfim, eriores"!), que ele aspira a se "afastar para se encon-
não foi isso que retivemos, mesmo sem Deus (princi- Irar com o sobre-humano", que ele é "profeta e está
palmente sem Deusl), do cristianismo? repleto desse espírito profético que vaga sobre o alto
cimo de entre dois mares", que ele é "aquele que es-
Nietzsche concordaria com isso, sem dúvida, mas t6 destinado a acender a chama do futuro" e a voar
para deplorá-Io. Daí sua vontade de sempre - ele, o "para os distantes futuros" (Z,II, 307, 111. 173)... E canoni-
novo profeta e o inimigo dos antigos! - apostar no fu- zo até mesmo seu riso... (Z, "Do Homem Superior", 18
turo ao mesmo tempo contra o passado e contra o passim). Clément Rosset evoca alhures "o caráter
presente. Quanto a este ponto, ele pouco evolui. Ain- neurótico da esperança", que sempre trai "uma falta
da no Ecce Homo ele confessa não poder fazer me- de força, uma falha, uma tro quezo">'. Muito bem.
lhor do que citar "o final do livro quinto d'A Gaia Mas então o que há de mais neurótico do que Zara-
Ciência": "Nós que somos novos, sem nome, difíceis tustra, que ensina "a grande esperança", "a mais alta
de entender, nós os prematuros de um futuro ainda esperança", a do sobre-humano, e anuncia tranqüila-
não atestado, precisamos, para um fim novo, também mente: "Eu indenizarei todo o futuro - deste presente
de um meio novo, ou seja, de uma saúde nova, mais tal como é" (Z, IV, 275, I. 183, li, 263)? Nisso Nietzsche
forte, mais desenvolta, mais coriácea, mais ousada, permanece um filósofo do sentido, do outro, do alhu-
mais alegre do que foram até agora todas as res, mesmo que - através da ficção do eterno retor-
saúdes ... Como poderíamos, com tais perspectivas e no - esse outro permaneça compreendido no mesmo,
com uma tal fome de ciência e de consciência, sa- esse alhures neste aqui e esse sentido na imanência.
tisfazer-nos ainda com o homem do presente?" (EH, O super-homem deve "tornar-se o sentido da terra", e
"Assim Falava Zaratustra", e GS, 382.) A genealogia esse sentido ainda continua por conquistar: "Sobre toda
culmina num novo profetismo: "Sou um mensageiro da a humanidade reinou até hoje a insanidade, o sem-
boa nova como Igual nunca houve ... Só a partir de sentido. Sirvam vosso espírito e vossa virtude o sentido
mim há, de novo, esperanças" (EH, "Por que sou um a terra ..." (Z, I. 59, 179.) E aguardar ("Eu estou aí. à
destino"). Daí o tom altivo do Zaratustra, que condena spera", Z, 111. 103) "aquele que deve vir" (Z, 111. 27)...
o homem em nome do Sobre-humano, o presente Esse messlanismo se parece com todos os outros. Só
em nome do futuro e - como todo profeta que se ensina o desprezo. Para Marx, a história inteira era
preza - o real (e especialmente os homens reais!) em
nome do sentido. "O presente e o passado desta ter- 50. C. ROSSET. Le réel (Traité de /'idiotie). Ed. de Minuit. 1977. p. 81
ra - infelizmente, meus amigos, não conheço nada 55. (p. 99 para as expressões ciladas).
51. Lo force mojeure. p. 28.
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condenada a ser apenas a sombra de si mesma, ain- o não da moral, há sempre, senão uma contradl-
da não havia sequer começado, era só a "pré-hlstó- o (a sabedoria não é Imoral: vide Eplcuro, Montalg-
ria", dizia ele, do comunismo futur052 ••• Sabemos no t, , Spinoza ...), pelo menos uma tensão, talvez irredu-
que Isso deu. Para Nietzsche, é o homem que não tlvel (a moral, sem dúvida, nunca é sábia), e que só
passa de um "esboço" (Z, I, 179), que "só existe para ode ser superada, se o puder ser, do ponto de vls-
ser ultrapassado" (Z, I, 57 e passim), para ser, aos t do sim - ou seja, pois se trata do único sim verda-
olhos do super-homem, "apenas Irrisão ou vergonha i lro. do ponto de vista do amor, do puríssimo e res-
dolorosa" (Z, I, 59). Imaginamos no que Isso poderia Itosíssimo amor. Muito bem. Mas será que somos
ter dado... Dessa "boa nova", como sempre, é preci- apazes disso? E será que devemos esperar nos tor-
so pagar o preço: "Os mais preocupados hoje per- narmos capazes disso? Só precisamos de moral na fal-
guntam: Como fazer para conservar o homem? Mas Ia de amor, concordo, e Nletzsche talvez também54.
Zaratustra é o primeiro e o único que pergunta: Co- Mas - e é nisto que eu me separo de Nietzsche -
mo fazer para superar o homem? É o Sobre-humano oncluo daí que precisamos, portanto, terrivelmente
que me Interessa. É a minha primeira, a minha única e moral. Pois de amor, na verdade, somos tão pou-
preocupação, ele e não o homem, nem o próximo, co capazes!
nem o mais pobre, nem o mais sofredor, nem o me- Multo bem, admitamos que não seja este o caso,
lhor... O pior mal é indispensável ao bem do Sobre- dmitamos que somos Inteiramente sábios. Eis-nos do
humano" (Z, IV, 287, 289). Mas que importa o custo, já lado do sim sem reservas, do amor sem limites. Que
que "a montanha do porvir humano" (ib.) deve parir ... e segue daí? Precisamos aqui interrogar os mestres. O
um super-homem! que eles ensinam, tanto no oriente quanto no ociden-
Compreende-se, então, o que a posição de Nletzs- te, é que essa aceitação de tudo aceita também a
che - se comparada com a da maior parte dos filó- moral - que dizer sim a tudo é dizer sim também ao
sofos e, sobretudo, com a dos filósofos de que está homem, à humanidade do homem e, portanto, a
mais distante e que nos estão mais próximos (Epicuro, suas recusas: que dizer sim a tudo é também dizer
Montalgne, Spinoza ...) - tem de único, e em que, 1m ao não! Que o não acabe por desaparecer, por
principalmente, ela é inaceitável: não porque diz sim e dissolver, em outras palavras, que por fim a moral
ao real ou à vida, o que eles também fazem, e com deixe de ser necessária, é evidente, e o próprio cris-
outra doçura, e sim porque diz não aos homens reais tianismo nunca ensinou outra coisa. O amor basta, e
e especialmente não à moral, não à cultura, não à é nisto que a verdadeira moral zomba da moral. Este
história, não à humanidade do homem - inaceitável, é também o ensinamento dos sábios. Em Eplcuro, em
portanto, menos pelo que afirma do que pelo que Montaigne, em Spinoza (assim como, no oriente, em
nega! Nletzsche, ou o ressentimento contra a moral ... Buda ou, no século XX, em Svâmi Prajnânpad), todos
Pois que a sabedoria esteja do lado do sim, da podem ver como as sabedorias mais radicais, mais li-
afirmação, da aceitação jubilosa de tudo, estou evi- beradas de todo moralismo, as mais fiéis mesmo à
dentemente de acordo. Talvez até seja esta a princi- natureza (e ao homem na natureza) desembocam
pal objeção que se possa fazer à idéia de sabedoria numa vida que, longe de ser imoral no que quer que
(podemos, devemos aceitar tudo?). Expliquei-me a es- [o. realiza, pelo contrário - mas alegremente, sem
te respeito em outro lugar53• Entre o sim da sabedoria constrangimento nem ressentimento - as exigências
-nais rigorosas da moral tradicional. Ama e faz o que
quiseres ... Além do bem e do mal? Seria excessivo di-
52. No famoso Prefácio da Contribuição à Crítica da Economia Po-
lítica (1859). zer Isso, já que o amor é o próprio bem (que sentido
53. No Prefácio que escrevi para a correspondência de um sábio
indiano do século xx: S. PRAJNÂNPAD, Les yeux ouv erts, L'Originel, 54. Ver P.OBM, 153: "O que fazemos por amor sempre se realiza
1989. olém do bem e do mal".
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teria dizer que o bem está além do bem e do mal? outro de maneira biunívoca, mas com a condição
não seria ser excessivamente platônico?), já que não j cruzarmos os seus termos: o bom segundo o aristo-
há outro bem que não seja amar ... rato é o malvado segundo o escravo, e o bom se-
Sobre tudo Isso - sou obrigado a Ir multo depressa -, iurvdo o escravo é o mau segundo o aristocrata! Há,
quem melhor dá a fórmula é Spinoza, numa frase de- ortanto, e Nietzsche nunca pretendeu outra coisa,
cisiva onde se trata de Cristo (sim, pois Splnoza, mui- uma Inversão estrita dos valores, e até duas Inversões
to expressamente, se pretendeu o contrário de um ucessivas, tendo a moral judaico-cristã (moral reativa,
Anticrlsto!) e do que ele trouxe a seus discípulos mais moral de escravos) invertido a moral ariana (moral
esclarecidos: "Ele os libertou da servidão da lei e no 1tlrmativa, moral de senhores), e propondo-se Nietzs-
entanto a confirmou e a escreveu para sempre no he explicitamente a inverter a moral judaico-cristã
fundo dos coraçôee=. Libertar, confirmar. É o segundo ara dar uma nova oportunidade à moral aristocráti-
momento (que, na verdade, é o mesmo que o pri- a. Já que "é com os judeus que começa a revolta
meiro) que falta a Nietzsche, pelo que ele se opõe a dos escravos na moral", expressão "monstruosa e ne-
Spinoza no ponto exato em que este se sente herdei- r sta" do "ódio judaico" (GM, I. 7-8), já que "a Judéla"
ro de Cristo e amigo da boa gente. Assim, não en- Inda triunfa através do catolicismo, da Reforma e da
c ontrornos em Spinoza nenhuma inversão de valores Revolução Francesa (I, 16), cumpre reanimar contra
ou das hierarquias tradicionais. Pelo contrário, ele sem- Ia "o velho incêndio" (I, 17), inverter todos os seus va-
pre afirmou que, uma vez rejeitados os dogmas e as lores, para pôr novamente de pé as hierarquias natu-
superstições das Igrejas, a dupla exigência de justiça rais. Esta é a última palavra de O Anticristo ("Inversão
e de caridade - tanto para os sábios quanto para os de todos os valores!") e, por assim dizer, a última pa-
ignorantes - continuava a valer. Compare-se deste lavra de Nietzsche (ló que se trata das últimas linhas
ponto de vista o capítulo XIV do Tratado Teológico- de Ecce Homo): "Na noção de homem bom, toma-
Político com a primeira dissertação de A Genealogia mos o partido de tudo o que é fraco. doente, ma!
da Moral, e especialmente o décimo primeiro pará- vindo, desajeitado. de tudo o que está destinado a
grafo dessa dissertação. Nletzsche nela opõe, como morrer - é a lei da seleção contrariada, é um ideal
se sabe, dois pares de avaliações, uma aristocrática e descoberto no contrário do homem altivo e realizado.
afirmativa (bom-mau), a outra servil e reativa (malva- do homem que diz sim, que está votado a um futu-
do-bom). O conceito de "bom", mesmo sendo o pri- ro, que é promessa de um futuro e que é então
meiro em uma e o segundo na outra, parece co- chamado de malvado ... E, sob o nome de moral.
mum aos dois sistemas, mas na verdade não é: este acreditou-se em tudo isso! Esmaguem a infame! - En-
conceito, explica Nietzsche, é ele próprio duplo. "Para tenderam-me? - Diônlso contra o Crucificado ..."
nos convencermos disso, escreve ele, perguntemo-nos Sabemos que Spinoza, mesmo também rejeitando
antes o que é, na realidade, o 'malvado' no sentido todas as igrejas e todas as superstições, se pretendeu,
da moral do ressentimento. Eis a resposta rigorosamen- pelo contrário, fiel, é a palavra usada por ele, às Es-
te exata: esse malvado é precisamente o 'bom' da crituras ("de que toda a lei consiste neste único man-
outra moral, é o aristocrata, o poderoso, o dominador, damento: amar ao próxlrno=") e aos ensinamentos
mas difamado, visto e tomado às avessas pelo olhar morais tradicionais (que "permanecem soíutcres?"). As-
venenoso do ressentimento" (GM, I, 11; ver também sim, considerava que "aquele que tem a caridade
PDBM, 260). De sorte que nossos dois pares de opos- possui realmente o espírito de Deus" (mesmo que não
tos (bom-mau, malvado-bom) se correspondem um creia!), ao passo que, Inversamente. "é na realidade
Anticristão aquele que persegue os homens de vida
55. Spinoza. Tratado Teológico Político. capo IV (frad. francesa de
Appuhn. Garnier-Flammarion.p. 93). Ver também vtvre, p. 138 e no- 56. Tratado Teológico Político. capo XIV. trad. francesa. p. 241.
ta 1. 57. Spinoza. Carta 43 a J. Osten. p. 273.
POR QUE NÃO SOMOS NIETlSCHEANOS
A BESTA-FERA. O SOFISTA E O ESTETA
ANDRÉ COMTE-SPONVILLE
O SOFISTA

honesta e amigos da justiça porque sua opmroo se


da oposição Spinoza-Nietzsche (e não mais, como to-
afasta da deles"58... Spinoza tinha aqui em mente os
da uma parte de nossa modernidade, de seu parale-
dogmatismos religiosos. os Inquisidores. os fanáticos de
IIsmo!) um eixo estruturante do meu universo filosófico.
toda espécie. Mas a fórmula valeria também. e vale.
Bem sei que Nietzsche não é apenas um imoralista, e
contra as bestas louras que gostariam de inverter os
que há alguma injustiça em reagrupar assim, em de-
valores. "Pois. dizia também Splnoza. sabemos que
trimento de outros, seus textos mais brutais ou mais
a~ar a justiça e a caridade basta para que sejamos
Inadmissíveis. Podemos ler A Gaia Ciência quase Intei-
fléls. e perseguir os fiéis é ser Anticristão"59. Entende-
ram-me? - Splnoza contra o Antlcrlsto! ra sem nos chocarmos com nada, ou quase; e como
não ser seduzido. pelo contrário, por tanta clareza lú-
cida, tanta jubilosa profundidade. tanta alacridade fi-
losofante? Sim. Mas trata-se, repetimos, de explicar
porque não somos nietzscheanos, e não porque. ou
sob que condições, teríamos podido nos tornar nietzs-
cheanos. Ora, o imoralismo nietzscheano, é o que
quis explicar primeiro. desempenhou para tanto um

o SOFISTA papel decisivo: se eu não sou nletzscheano, se não


posso nem quero sê-to. é porque não quero viver
além do bem e do mal, nem Inverter todos os valo-

,
F 01 assim - e a vida me obrigou a isso mais do
que Splnozal - que tive de renunciar a viver
res. nem mesmo acabar com a moral judaico-cristã.
Isso, do ponto de vista de Nletzsche assim como do
alem do bem e do mal, assim como na política (mas meu, é um desacordo crucial. que teria bastado.
por razões também neste caso Indissoluvelmente prá- Mas logo houve outra coisa. Quanto mais eu pene-
ticas e teóricas) eu renunciava, segundo os termos da trava nessa obra transparente e difícil, cristalina e lo-
Inte~nacional. a "do passado" fazer "tábula rasa"... Es- biríntica (e quanto mais via seus efeitos em nossa mo-
~a e ,~utra .história, mas é significativo que elas convir- dernidade!). mais ficava incomodado por um outro
J~m. Ser nletzscheano, dizíamos na época entre nós. aspecto que, não sendo moralmente inocente, era so-
e ser n:arxis~a sem ousar sê-to inteiramente." É possível bretudo de ordem teórica: certa Indiferença à verda-
que seja o Inverso que se deva dizer. mas pouco im- de ou. mais exatamente, uma relação multo ocasio-
p~rta. Marx, durante muito tempo, me protegera de nal e frouxa com o verdadeiro, com a lógica (daí,
Nle.tzsche; ~ esforço que fiz para me libertar do prl- entre outras coisas, essas inúmeras contradições), com
rneiro me libertou também, e por assim dizer antecl- o que Spinoza chamaria de "a norma da idéia verda-
padam~nte, do segundo... Era de se esperar o papel deira dada". Vão objetar-me que de Idéia verdadeira
que Splnoza, nos dois casos, podia desempenhar. dada não poderia haver nenhum vestígio: Nietzsche é
Acon~ece. qU,e. as reticências morais (mas portanto um cético. e seu relativismo Integral - esta é sua for-
tambem fllosóücostj que ajudaram a me afastar de ça e sua coerência - proíbe submetê-I o a uma nor-
Nietzsche não pararam - ao mesmo tempo em razão ma (a verdade) que ele se empenhou totalmente em
de minha própria evolução e porque eu o conhecia criticar e destruir. Se "o conceito de 'verdade' é ab-
cada vez mais - de se acentuar, a ponto de fazer surdo" (VP, I, 207), se "não há verdade" (VP, I, 201).
nem tampouco "estado de fato" (VP, I, 197), como re-
58. Trotado capo XIV. trad. francesa. p. 242.
Teológico-Político. provar a um autor que tome liberdades com uma
59. Ib. Sobre o papel do modelo crístico em Spinoza, é preciso re-
meter meus uma vez ao magistral e desconcertante livro de A
verdade ... que não existe? Multo bem. Mas Nietzsche,
Matheron, Le Christ et le sotut des ignorants chez Spinoza AUbier~ então. não pode escapar à aporla do niilismo lógico:
Montalgne. 1971. •
se não há verdade, a proposição que diz que não
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há verdade não é verdadeira. É preciso, então con- mon, O que decorrerá daí é primeiro a afasia, depois
cluir daí ou que existe uma verdade (e neste coso a a otoroxtc's' ... No que Plrro, nada escrevendo e dan-
p,roposlção "não há verdade" é falsa, e Nietzsche es- do mostras da maior equanimldade, permanecia fiel
ta enganado), ou não podemos mais pensar de for- ao seu pensamento - se é que cabe a palavra nes-
ma alguma Qá que a proposição "não há verdade" é te caso - e coerente pelo menos consigo mesmo.
ao mesmo tempo verdadeira e falsa, o que viola o Mas e Nletzsche? Nem a afasia, nem a ataraxia são
princípio de não-contradição, ou nem verdadeira nem seu forte, é o mínimo que se pode dizer, e Isso Impe-
falsa, o ,que viola o princípio do terceiro exciuído). Em de que se faça dele, que aliás o evita expressamen-
suma, e preciso ou salvar a lógica e renunciar a te, um discípulo ou seguidor de Pirro. Este último, vis-
N.letzsche, ou então salvar Nletzsche e renunciar à ló- to por Nietzsche, e não sem verosslmiihança, é um nli-
gl~a ... Os genealogistas nos perguntarão: "Por que vo- lista, "um budista na Grécia", atraente, sem dúvida,
ce _se apega tanto à lógica?" É que temos as nossas mas que só exprime "o sábio cansaço" de "quem
razoes, sobre as quais voltarei a falar. Mas é preciso chegou tarde" e só constitui - como Epicuro! - uma
t:,mb~m devolver-Ihes a pergunta: e vocês, por que forma "da decadência grega" (VP, I, 76). De que ma-
tem tao pouco apego a ela?
neira queríamos que Nletzsche fosse pirrônlco? Mas
nesse caso ele devia ter como afirmar, ensInar, profe-
Nietzsche pretende que o apego à lógica é um si- tizar... E como, se nada é verdadeiro?
nal de fraqueza, denuncia uma origem plebéia ou [u- Quanto a Montaigne e a Hume, o problema é
di~ (VP, I, 70 e segs., GS, 348, 370...). Deve-se concluir completamente diferente. Sabemos que Nietzsche ad-
dai que todo ilogismo é um sinal de força aristocráti- mirava Montalgne e que, se se manteve afastado de
ca ou ariana? Ou será que essa conclusão mesma Hume por sua anglofobla Imbecil, não deixa de de-
seria demasiado lógica? Demasiado plebéia? Dema- fender, às vezes explicitamente e, com mais freqüên-
Si?do Judia? Ou então lógica e genealogia só sôo le- cia, sem o dizer ou sem se dar conta disso, posições
gitimas nos escritos dos nletzscheanos? muito próximas, sob muitos aspectos, das do autor do
Deixemos estar. Outra objeção, mais sólida, que se Tratado sobre a Natureza Humana. Não deixa, porém,
poderia fazer a mim é que essa aporla que acabo de ser verdade que Nietzsche sempre, ou quase sem-
de citar (a autocontradição do niilismo lógico) é a de pre, se recusou a se considerar um cético e, sobretu-
todo ceticismo radical, e que não cabe reprová-Ia do, que sua crítica da Idéia de verdade excede em
em Nietzsche mais do que em Pirro, Montaigne ou muito as críticas montaignianas e humianas, e com
Hume, que afirmo admirar.
boas razões: Montaigne e Hume jamais criticam a ver-
Quanto a Pirro, temos de admitir o fato. Mas isso, dade enquanto tal! O que eles põem novamente em
ao qu~ ?~rece, o levava a um niilismo absoluto (pa- causa - e criticam em nome da verdade! - é a per-
ra o prrronrco. explicava Enesidemo, "não há nem ver- tinência e a confiabilidade ontológlcas de nossos co-
dadeiro nem falso, nem provável nem improvável, nhecimentos: o ceticismo deles é negação, não do
nem ser nem não-ser... O pirrônico não determina na- conhecimento, e sim do dogmatismo, não da verda-
da, nem sequer que nada seja determinado''ÓQ...) que de, e sim da certeza! No fundo, ambos são emplrlstas
levav~ ~ muito ~ogicamente! - à Indiferença (já que que vêem bem demais os limites da experiência, pa-
t.~do e Igual e Igualmente indiferente) e ao silêncio ra erigirem em metafísica dogmática os inúmeros co-
(ja que todo discurso permanece prisioneiro das ilusões nhecimentos, sempre porém duvidosos e relativos, que
do ser e do verdadeiro). "Quanto àqueles que se en- ela permite. Amam demais a verdade para Identificá-
contram nessas disposições, explicava por seu lado Ti- Ia pura e simplesmente com o que cremos saber a

~o. Citado por M. CONCHE, Pyrrhon ou I'opporence Villers-sur-Mer,


Ed. de Mégare, 1973, p. 112. '
61. Citado por M. CONCHE, p. 31.
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seu respeito... Um tal ceticismo, mesmo sendo radical ade ou superioridade sobre os outros filósofos. Mas
(e sob certos aspectos mais radlcai do que o de esde que pretende - do alto dessa posição inexpug-
Nietzsche), permanece neste ponto, e ambos se orgu- nável porque Inexisten te: a verdade da não-verdade I
lhavam disso, um ceticismo moderado: não afirmam, refutar as afirmações dos outros e deter por si só a
como Nietzsche, que "nada é verdadeiro" (o que se- Justa interpretação do passado, do presente e do fu-
ria contraditório: se nada é verdadeiro, não seria ver- turo, não é de "carrasco de si mesmo" que devemos
dade que nada é verdadeiro) nem que "tudo é faiso" chornó-lo, e sim de sofista, simplesmente, e o adjetivo
(o que seria também contraditório: se tudo é faiso, se- em dúvida não lhe teria desagradado.
ria falso que tudo seja falso), mas, e isto é muito dife- Que é um sofista? Sabemos que a palavra designa
rente, que tudo é Incerto, o que não é contraditório uma escola filosófica da Antigüidade, a qual Nletzs-
(segue-se apenas, como viu Pascal ao ler Montaigne, che, contra Sócrates, gosta de reivindicar para si
que "não é certo que tudo seja incerto"62, mas isso, mesm065, e da qual se aproxima de fato peio pers-
longe de infirmar o ceticismo, confirma-o: "para glória pectivismo ou pelo relativismo. Mas a história da filoso-
do pirronismo"63)e conseqüentemente permite elaborar fia não é o que me Importa aqui. Podemos chamar
um discurso que continua sendo racional, e até roclo- sofístlco, de modo mais geral, todo pensamento que
nalista, pois copoz de dar conta de sua própria ver- submete a verdade a algo que não seja ela mesma.
dade (como verdade incerta) na própria medida que A sofística é um relatlvlsmo ióglco, cuja tentação po-
permanece submetido (e em Hume e Montaigne mais de nascer, para dlzê-lo numa só frase, a partir do se-
honestamente do que em ninguém i) ao que podería- guinte sllogismo: todo valor é relativo; ora, a v_erdade
mos chamar de norma da idéIa verdadeIra aparente é um valor; logo a verdade é relativa. Tentaçao essa
- e nisto os céticos são filósofos, e de alto bordo, e hoje muito forte, já que a maior faz parte (e desde
não sofistas ou retóricos. Montalgnel) das conquistas incontestáveis de nossa
Mas e Nietzsche? Eie não se resigna à indiferença modernldade; e tentação multo forte, já que a con-
ou ao silêncio, como Pirro; nem tampouco se conten- clusão ameaça energicamente dissolver até a Idéia
ta em pôr novamente em causa, como Montaigne de verdade (toda verdade é relativa - logo não há
ou Hume, nossos conhecimentos ou nossas certezas. verdadel). Sendo a maior e a conclusão Igualmente
Pelo contrá~iol Ele pretende ao mesmo tempo deter a incontestáveis, pelo menos do meu ponto de vista, só
verdade ("E a verdade que fala pela minha boca", podemos fugir a esse encadeamento recusando a
diz ele no Ecce Homo) e constatar a sua ausência menor. Que a verdade seja um valor, eis o que con-
("Não há verdade", VP, I, 201), criticar o conhecimen- testo. Não, sem dúvida, que ela não possa valer, pa-
to ("nada pode ser conhecido", VP, I, 172, 173) e o ra este ou aquele. Mas não é porque vale, que eia
reivindicar ("o conhecimento a serviço da vida supe- é verdadeira: o valor não define a sua essência, e
rior", VP, ill, 56064), em suma, destruir a verdade a sim a nossa relação subjetiva com ela (a verdade é
marteladas ... com o próprio martelo da verdadel Se- verdadeira, de direito, para todos; ela não vale, de
ria esse o seu nome, de fato, se ele só aplicasse suas fato, senão para quem a ama). É por Isso que propus
marteladas em si mesmo, como às vezes acontece, e em outro lugar chamar de sofístíca, num sentido mais
não se permitisse com isso nenhuma pretensão à ver- preciso, todo pensamento que assimila a verdade ao
valor sob o domínio do valor (em outras palavras, to-
62. PASCAL. Pensamentos, 521-387, ed. Lafuma. do pensamento para o qual o verdadeiro só é verda-
63.lb.
64. Ver também, poderíamos dizer, A Gaia Ciência inteira. Pois, co-
mo observa C. ROSSET,A Gaia Ciência "é um saber", e a "alegria 65. Ver por exemplo VP. I, 61-63. O elogio dos sofistas culmina nes-
nletzscheana" implica neste ponto "um conhecimento no sentido sa apreciação encantadora: "Os sofistas eram gregos", en~uanto
mais intelectual e teórico da palavra" (La force majeure. p. 67). que Sócrates e Platão, tomando o partido da virtude e da Justiça,
Mas como, se nada é verdadeiro e nada pode ser conhecido? "eram judeus ou não sei quê" (§ 63).
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delro, corno o justo é justo ou como o belo é belo: vordadelro e do falso (é o que Françols George cha-
subjetivamente, de certo ponto de vista ou relativa- ma de "pensamento sanitário"67!) e com isso rompe -
mente a certo Interesse), opondo-se nisto a sofística Nletzsche tinha consciência disso - com a quase to-
ao dogmatlsmo prático (que assimila o valor à verda- talidade da tradição filosófica. Um tal pensamento é,
de sob o domínio da verdade: o justo é justo, o be- 1m. sofístico. no sentido em que tomo a palavra: tra-
lo é belo etc., como o verdadeiro é verdadeiro, ab- ta-se de submeter a verdade ao valor, Isto é, à vida.
soluta ou objetivamente) assim como ao que chamei, O que Fink designava como "a equação fundamental
tendo em vista ao mesmo tempo Diógenes e Maqula- de Nietzsche", ou seja "ser = valor"68,está assim subor-
vel, o cinismo (que, pelo contrário, separa estas duas dinada - como o imoralismo - a seu vitalismo, e o
ordens: toda verdade é objetiva, todo valor é subjeti- confirma. Mas - e Flnk também aí o havia visto =, a
vo, o que supõe que nenhum valor é verdadeiro em sofística nietzscheana permanece nisso mesmo para-
si e que nenhuma verdade vale por si rnesmoj=. A doxalmente solidária ao dogmatismo platõnico ("à me-
palavra, nesta acepção, é de uso técnico, e não tafísica", diz Fink), exatamente porque, como ele, ela
tem nada a ver com a Injúria. Confesso no entanto "Interpreta o ser essencialmente como valor", permane-
que, tratando-se de Nietzsche, sou sensível também cendo prisioneira da equação acima mencionada,
ao que o termo, em seu uso corrente, comporta de cuja "origem se encontra igualmente em Platão"69 -
pejorativo, e não posso me Impedir de o empregar embora, acrescentaria eu, de maneira simétrica ou in-
também neste sentido, que não é nem histórico (os vertida. De fato, assim como Platão transforma os va-
sofistas da Antigüidade) nem técnico (a conjunção lores em verdades (o Bem em sl, o Justo em si...),
subjetivista, ou relativlsta, da verdade e do valor), e Nietzsche reduz a verdade ao valor e, portanto, a ne-
sim polêmico (sendo então o sofista aquele que é ga como verdade: "A verdade é uma espécie de er-
capaz de tudo - mesmo às custas da lógica ou da ro, sem a qual certa espécie de seres vivos não po-
verdade - para ganhar a discussão). De resto, estes deria viver. O que decide em última instãncia é seu
dois últimos sentidos não são muito separáveis: como valor para a vida" (VP, li, 308). Daí o perspectivismo:
facilmente mostraríamos (se toda verdade é subjetiva, "Existem diversos tipos de olhos. Também a esfinge
por que nos submetermos à verdade?), e, principal- tem olhos; existem, por conseguinte, diversos tipos de
mente, convêm ambos a Nletzsche. Como qualificar 'verdades'; logo, não existe verdade" (VP, I. 201). A
de outra maneira um filósofo que escreve (POBM, 4) razão não passa de uma "falsificação útil" (VP, I. 211).
tranqüilamente o seguinte: "Para mim, não é uma ob- o conhecimento não passa de uma avaliação interes-
jeção contra um juízo que ele seja falso"? Eis aí o sada (VP, 11.122: "Conhecer é compreender todas as
que é admirável e torna o nietzscheanismo de fato Ir- coisas da melhor maneira para os nossos Interesses"!).
refutável. Pois que objeções poderemos então lhe fa- Não deixa de ser verdade, porém, que, como em
zer? E por que as levaria em consideração? Platão, o ser e o valor estão do mesmo lado - que,
No mesmo aforismo, Nietzsche explicita seu ponto de acordo com Piatão, é o lado do ser e, segundo
de vista: "O que importa é saber em que medida es- Nietzsche, o lado do valor. O nietzscheanismo é, por-
se juízo é capaz de promover a vida, sustentá-Ia, tanto, "um platonlsmo invertido"7o, mas não só, como
conservar a espécie ou até melhorá-Ia". Quem co-
manda é sempre o vitalismo. Mas, então, o pensa- 67. L'óme et le corps. p. 185. Ora. observa F. GEORGE. "a razão de
mento de Nletzsche não só se coloca além do bem saúde não é a razão. assim como não o é a razão de estado" ...
68. E. FINK. La philosophie de Nietzsche. trad. francesa. Ed. de Mi-
e do mal, mas, como se disse muitas vezes, além do nuit. 1965. especialmente p. 17 ss. e 236-237.
69. Ib.• p. 236.
66. Ver minha exposição sobre "A vontade cínica". Atas do coló-
70. "Minha filosofia é um platonismo Invertido". dizia de fato
Nietzsche já nos anos 1870-1871. num fragmento citado por Heideg-
quio de Caen. L'éthique et le droit à róge démocratique. "Cahiers
de philosophie politique et juridique". 1991. gero T. I. p. 142.
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julgava Nletzsche, porque valoriza o que Platão desva- um argumento; pois o erro poderia achar-se entre
loriza (o mundo sensível) em detrimento do que, para s condições da vida" (GS, 121). As duas afirmações
Platão, era o essencial (o mundo inteligível). Se o t m certamente um núcieo comum (a solidariedade
nletzscheanlsmo é um platonismo Invertido, é também ntre a vida e o erro); mas ao passo que em A Gaia
- e de nosso ponto de vista é sobretudo - porque re- Ciência Nietzsche tirava daí um argumento contra a
toma a conjunção platônica do ser e do valor, sim- vida, em Além do Bem e do Mal tira um argumento
plesmente Invertendo os seus termos: ali onde Platão contra a verdade. Evolução? Talvez sim. Nletzsche, fi-
pensava que o valor é (constituindo esta conjunção, cando velho, parece amar a vida cada vez mais, e
para Platão, a própria essência da verdade), Nletzs- a verdade cada vez menos ... A Gaia Ciência era um
che afirma que o ser vale, em outras palavras, que ober. como diz Rosset, e um "saber da desilusão"72,
ele é apenas um valor, o que acarreta, de fato, que enquanto que os livros posteriores cantarão principal-
não há verdade ou, o que acaba sendo o mesmo, mente, e voltarei a falar sobre isto, a necessidade es-
que o valor de verdade, como dizem os lógicos, é tética e vital da Ilusão... Mas nada é tão simples, em
apenas um valor como os outros, submetido enquan- Nletzsche. Os dois temas são às vezes slmultãneos e
to tal à vida, ao desejo ou à vontade. Para Platão, não acabaríamos nunca de desembaraçar os fios.
avaliar é conhecer (Intelectuallsmo), e só se pode co- Resta que Nietzsche acaba por recusar a própria
nhecer o que é (dogmatismo). Para Nletzsche, conhe- Idéia de verdade ("não há verdade", "o conceito de
cer é avaliar (sofística), e só se pode avaliar em fun- 'verdade' é absurdo" etc., VP, I. 201, 207 e passim), a
ção dos desejos (perspectlvlsmo). Ambos se encon- própria possibilidade de todo conhecimento não só
tram no mesmo ponto em que se opõem, nesta con- absoluto mas relativo (VP, I. 112, 172), para considerar
junção do ser e do valor dominada pelo ser do Bem que "a vontade de conhecer o verdadeiro já é um
(Platão) ou pela criatividade avaliadora da Vontade sintoma de degenerescência" (VP, 111.557) e para
de potência (Nietzsche). Dogmatismo e sofístlca são apresentar, pelo contrário, como seu "ideal dionisíaco"
nisso tão inseparáveis quanto simétricos. É o qué expli- a ótica "de todas as funções orgânicas, de todos os
ca que se nutram sobretudo de suas críticas recípro- Instintos vitais vigorosos: a força que quer o erro, pre-
cas: caímos em Platão para fugir de Nletzsche, ou sente em tudo o que vive" (VP, li, 127). Daí o caráter
em Nietzsche para escapar de Platão ... Eu propus ou- absoluto, por assim dizer, do relatlvismo de Nletzsche,
tra coisa, mas este não é o lugar para discutirmos so- que se resume na famosa fórmula (que é o núcleo
bre tsto ". Em todo caso, com base numa crítica de de sua sofística, assim como a inversão dos valores é
fato radical (tão radical que se destrói a si mesmal) o núcieo do seu imoralismo): "não há fofos, só inter-
da verdade, a sofística nietzscheana vai poder desen- pretações" (VP, li, 133).
volver-se e produzir até hoje efeitos que o próprio
Nietzsche pretendia arrasadores ... Tal fórmula é evidentemente problemática (não ha-
Não tenho tempo para entrar em detalhes. O pro- ver fatos é um fato ou uma interpretação?), ou até
blema é ainda mais complicado porque Nietzsche, Impensável: que poderemos interpretar, se não há fa-
aqui como em outros lugares, não hesita em se con- tos? outras Interpretações? mas o que é uma Interpre-
tradizer. É assim que ele pode afirmar, como vimos, tação mais do que o fofo de interpretar? ... Sobre tu-
que a falsidade de um juízo "não é uma objeção do isto, Nietzsche pouco nos declara. Sem dúvida, ele
contra esse juízo", já que, explica ele, "o não-verda- vê muito bem que a sua própria afirmação só pode
deiro é a condição da vida" (POBM, 4), ao mesmo valer como uma interpretação, e é por isso que seu
tempo que escreve em outro lugar que "A vida não perspectivlsmo, como diz Jean Granier a respeito de

71. "A vontade cínica" (ver nota 66). 72. La force majeure, p. 69.
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um outro texto, "c::muína o fundamento do seu próprio nietzscheano se manifesta também nos textos
discurso"73. Como bom sofista, ele se safa com uma que lhe consagraram, por exemplo, Bataille, Blan-
pirueta: "E se istO é só uma interpretação - vocês chot. Derrida74...
vão, eVldenteme,.-,te, fazer-me esta objeção - multo
beml tanto melho ri" (POBM, 22.) Tanto melhor ou tan- Nietzsche parece valer mais do que essa filosofia
to pior, mas a ot:::=>jeçãocontinua de pé. Aliás, esta de tagarelas, mas como escapar dela? Se não há fa-
não é a mais grct ve delas. Pois que a afirmação "só tos, o próprio Nletzsche não é um fato, e cada um
há Interpretações" seja ela mesma uma interpretação, pode então substituí-Io vantajosamente pela Interpreta-
Isso sem dúvida relatlviza o seu valor, mas ainda não
ção que lhe der, a qual nunca será mais do que
a torna impensável. Em compensação, uma tal afir-
uma interpretação, e assim ao Infinito ... Se não há
mação é ela mesma um fato e sua própria existência verdade, não é verdade que Nietzsche tenha escrito
(como fato) refutei, portanto, seu conteúdo (como In- o que escreveu, nem que tenha escrito outra coisa,
terpretação). Ou então devemos considerar, como nem que não escreveu nada... Não podemos, portan-
certos comentadores, que o nietzscheanismo não pas- to, dizer nada, ou melhor, podemos dizer qualquer
sa de um pensam ento sem realidade nem conteúdo, coisa, o que é multo cõmodo: não é a afasla de Plr-
um puro jogo de simulacros, que só vale pelo que ro. é o blablablá Indefinido dos sofistas I A tortiort, é
destrói e permanece deliberadamente - como uma ilusório e antinletzscheano pretender saber o que
obra de arte, dizem elesl - à superfície de seu próprio Nietzsche verdadeiramente pensoul Isso o torna sem
discurso... C. Rosse 1. em suas "Notas sobre Nietzsche", dúvida irrefutável, e irrefutável também toda interpre-
flagrou maravilhosomente esse tipo de leitura que tação que lhe possamos dar. Mas para quê, já que
então não há mais nada a refutar ou a interpretar? E
consiste em pretender que Nietzsche, por assim o que é essa filosofia afirmativa que só leva à nega-
dizer, nunca pensou nem escreveu nada, mas
ção de tudo ("não há verdade, não há verdade, não
que nessa laCuna reside paradoxalmente' o es-
há verdade ..."), à recusa subjetivista do real ("não há
sencial de suei força e de sua finura, assim como
fatos, não há fatos, não há fatos ...")? Da Interpreta-
a razão de sua influência atual. Apreciação cu-
ção como denegação do real ... Não há fatos: só
riosa, mas atestada e persistente, que lembra os sentido! Não há verdades: só avallaçõesl É o que
juízos da senhorita Ana em matéria de literatura Nietzsche chama "a negação suprema" (VP,III, 109), e
e de arte modernas, em Le confort intel/ectuel o triunfo do niilismo: "A Idéia de que não existe ver-
de Mareei Ay(11é: "Suas preferências Iam, em lite- dade; de que não existe uma natureza absoluta das
ratura, para P icasso e, em pintura, para Jean coisas, a 'coisa em si'. Isso é apenas niIIismo, e o
Paulhan, que, não sendo pintor, o era, no entan- mais extremo" (VP, 111, 112). Nietzsche, ou a sofística a
to, e ainda mais". Da mesma forma, Nietzsche é serviço do niilismo ... Nada permanece, então, além
de bom gradO celebrado hoje como aquele da avaliação subjetiva (evidentemente sem sujeito!)
que, não sendO filósofo, o é "no entanto e ainda do criador de valor: esse nlilismo, prossegue Nietzsche,
mais": grande Intérprefe, pois que não Interpreta
"coloca o valor das coisas justamente no fato de que
precisamente nada, como dizia Foucault no coló-
não há nenhuma realidade que corresponda ou que
quio Nietzsche de Royaumont; grande pensador,
tenha alguma vez correspondido a esses valores, mas
pois que fracClssa justamente em pensar o que
que, pelo contrário, elas são um sintoma de força no
quer que seja, como o repetiu Klossowski em criador de valores, uma simplificação útil para a vida"
muitas ocasiõeS. Semelhante assepsia do projeto (VP, 111, 112). E é assim que, de afirmação em afirma-

73. Le probleme de Ia vérité (...), p. 606.


74. La force majeure. pp. 32-33.
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ção, cada qual só afirma ... a si mesmo! Heidegger depois de anunciar, lembremo-nos, que a falsidade
tem razão, pelo menos sobre este ponto: o nletzs- de um juízo não era para ele uma objeção contra
cheanismo é mesmo uma monadologia sem Deus75 e, esse juizo. já que a única coisa que contava era a
até, sem mônadas. Assim, é um subjetivismo sem sujei- utilidade vital. Nietzsche conclui: "Admitir que o nõo-
to nem objeto (ou, o que é o mesmo, um relativismo verdadeiro é a condição da vida, sem dúvida é resis-
absoluto) e por isso sem limites: "Nada é verdade, tu- tir perigosamente ao sentimento que costumamos ter
do é permitido" (VP, 111,
109). dos valores, e uma filosofia que se permite essa audá-
Donde podemos concluir que o nletzscheanlsmo cia já se coloca, com Isso, além do bem e do mal".
não é verdadeiro, e que, no entanto, é lícito ser Tudo está ligado, lógica e moral. Nietzsche nunca dis-
nletzscheano - e sem dúvida não contestaremos nem se outra coisa, e Isso é também - antes de ser fuzila-
uma nem outra dessas duas conclusões! do pelos nazistas - o que ensinava Cavailles76• Mas
Há algo mais grave. A fórmula em questão não só ele tirou daí as conclusões opostas, permanecendo fiel
é problemática, de um ponto de vista lógico ou filo- a ambas, até a morte, enquanto Nletzsche, até a
sófico, mas é sobretudo perigosa e, peço desculpas loucura, quis livrar-se ("Tudo é falsol Tudo é permitido!"
por insistir, moralmente perigosa. Se não existe verda- VP, 111, 108) tanto de uma quanto de outra ... Haveria
de, como resistir à mentira? Que sentido tem, por alguma falta de pudor em se pretender pertencer ao
exemplo, procurar saber se Dreyfus era verdadeira- partido de Ccivoltlês - os heróis não pertencem a nin-
mente culpado ou quais foram os verdadeiros incen- guém. Mas eu teria a sensação de injuriar sua memó-
diários do Reichstag? Se não há conhecimento, como ria se eu me pretendesse, supondo que fosse capaz
combater o obscurantismo ou a ignorância? Se não disso, pertencer ao partido de Nietzsche ...
há fatos, mas apenas Interpretações, que objetar aos
revlslonlstas que afirmam que as câmaras de gás não
são um fato, exatamente, e sim um simples ponto de
vista, uma simples hipótese, uma simples Interprétação
de certos historiadores ligados ao lobby judeu?... Dirão
que esse não era o ponto de vista de Nletzsche. Es-
ses não eram os seus exemplos, por certo. Quanto ao
seu ponto de vista, não sei. Em O Anticrlsto, depois o ESTETA
de ter elogiado a atitude de Pônclo Pilatos ("um ju-
deu a mais ou a menos, que Importa? ..."). Nietzsche
ostaria de Ir bastante rápido agora, já que,
acrescenta: "A nobre ironia de um romano diante de
quem se faz um impudente abuso da palavra 'verda-
G graças à raiva, me demorei um pouco no que

de' enriqueceu o Novo Testamento da única frase precede.


Que é um esteta? Alguém que ama a beleza? Se
que tem valor, que é a sua crítica, seu aniquilamen-
fosse só Isso, todos nós seríamos este tas, e a palavra
to mesmo: 'Que é a verdade? ...'" (AC, 46.) E todo juíz
pode dizer Isso, de fato, quando precisa condenar um perderia a utilidade. O esteta não é aquele que ama
Inocente... Mas podemos aceitar isso? Devemos acei- a beleza, e sim aquele que só ama a beleza, aque-
tá-Io? E como Impedi-Io, se não há nem fatos nem le, explica o Petit Roberf, que ostenta seu "ceticismo
verdades? No Aforismo 4 de Além do Bem e do Mal, diante dos outros valores". Ser esteta é amar ao belo

75. Nietzsche. t. I, p. 192. Ver a este respeito as belas análises de 76, Sobre Cavailles. ver a perturbadora plaqueta de G. CANGUI-
A. RENAUT.L'ére de /'individu, Gallimard, 1989, p. 210 ss. e de L. LHEM, Vie et mort de Jean c avotues. Les carnets de Baudasser,
FERRY,Homo aestheticus, Grasset. 1990, capo V. [Homo Aestheticus, 81430 Ambialet. 1984. Ver também o meu artigo "Jean Cavailles ou
Ed. Ensaio, SP, 1994] I'héro'isme de Ia raison", Une éducation philosophique, p. 287 ss.
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mais do que à verdade ou ao bem, e até em lugar , nsa "além do bom e do mau" (GM, I, 1 7), e que a
da verdade ou do bem. Esteta é aquele para quem vida, pelo menos tanto quanto a arte, lhe serve de
a estética ocupa o lugar da lógica e da moral! mlverso normativo de referência, que dá um conteú-
(Ideologia de artista? Não exatamente. Qual o cria- o - senão um fundamento - às suas avaliações. Sem
dor, pelo menos entre os grandes, que não se preo- úvlda. Mas isso não Infirma o estetismo. uma vez
cupe também com o bem e com a verdade? Pode- ue a própria vida só é justificada esteticamente. Es-
mos Imaginar Rembrandt ou Beethoven, Rodin ou t tlsmo e vitalismo vão de par, e é isso que temos de
Proust desinteressando-se da verdade do que têm a mostrar agora.
exprimir? Podemos acreditar que suas mensagens não Lembramo-nos da bela fórmula de Nietzsche, em O
sejam morais (mesmo se, e muito felizmente, não fo- repúsculo dos ídolos: "Sem música, a vida seria um
rem moralizadoras!) tanto quanto estéticas? Podemos rro" ("Máximas e tiradas", 33). É dizer o bastante que
imaginar que a arte sirva só para ser bonita? O este- vida não vale por si mesma, e seria trair Nietzsche
tismo não é uma Ideologia de artista; é uma Ideolo- fazer dele, contra o pessimismo schopenhaueriano, um
gia de amadores de arte - quando eles não sabem mero filósofo otimista a mais, partidário da alegria de
mais amar nada que não seja o belo, quando tudo viver e dos prazeres deste mundo. Nletzsche não é
o mais os apavora, os entedla ou os cansa. Não uma nem hedonlsta nem eudemonista: nem o prazer, nem
Ideologia de artista, portanto, e sim a arte - amputa- a felicidade são a meta. E, para ele, seu próprio vlta-
da de sua função ética e de seu conteúdo de co- IIsmo não poderia fazer as vezes de ética. Se a vida
nhecimento - como Ideologia!) é boa, não é por si mesma, nem para si mesma: ela
Que Nietzsche seja um esteta, neste sentido, não só é boa pela avaliação que dela fazemos, só é boa
há muita dúvida. "Para nós, só o juízo estético é lei", por ser bela! É uma ocorrência da afirmação trágica
escreve ele (VP, 111, 559). Não Insisto sobre o que isso ("Dizer que uma coisa é 'bela' é afirmá-Ia", VP, IV,
pode ter também de moral e politicamente p~rigoso. 462), e, na verdade, a única. Pois como afirmar de
Combatam o nazismo reprovando-o simplesmente por outra' forma? Celebrando o seu ser, a sua realidade,
sua falta de estética I Walter Benjamin via, pelo con- o seu presente? Impossível, para Nletzsche, já que o
trário, no nazismo o primeiro movimento político a ser ser é apenas uma ilusão (VP, I, 221), já que não há
expressamente vivido como estético, e isso sem dúvi- realidade, mas apenas Interpretações, já que "o ser
da não é completamente falso. Será que acreditam presente não existe" (VP, I, 47) ... Toda afirmação é,
que, para combater essa estética, bastaria uma outra sob este aspecto, inseparável de uma interpretação
estética? Não têm eles mais nada a censurar nos afirmativa, e essa interpretação é a arte. "A existência
campos da morte além de sua feiúra? e o universo só são eternamente justificados enquan-
Voltemos, porém, a Nietzsche. O estetismo é o seu to fenõmenos estéticos", dizia Nietzsche já em 1871
destino. Pensando não só além do bem e do mal, (NT, 5), e Isso é o que repetirá em 1886, antes de
mas também, como acabamos de ver, além do ver- acrescentar: "Existe um abismo entre, por um lado, a
dadeiro e do falso, só pode fugir à Indiferença nlilista Interpretação e a justificação puramente estéticas do
- essa noite do mundo onde todos os gatos são par- mundo que aparecem neste livro e, por outro lado, o
dosl - com a condição de não pensar também além nsinamento cristão, que é só, que pretende ser só
do belo e do feio. Por Isso ele cabe exatamente na moral e que, em razão desses principios absolutos -
nossa definição: afirma seu culto do belo ou da arte haja vista, por exemplo, seu Deus de verdade - repe-
ao mesmo tempo, como diria o Petít Robert, que seu le a arte, qualquer que seja ela, para o domínio da
"ceticismo diante dos outros valores". A que se pode- mentira" (NT-EA, 5). É preciso optar: moralismo ou este-
ria objetar que não é completamente verdade, já tismo. A verdade (uma vez que a verdade, para
que Nietzsche. se pensa além do bem e do mal, não Nietzsche, é apenas um valor moral!) ou a "bela men-
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tira", como dirá Mallarmé, do artista. Nietzsche, eviden- rraqueza, o fatalismo, - essa prosternação diante dos
temente, ficou com a mentira (é o que se chama in- f quenos fatos é Indigna de um artista completo"
verter os valores!), e é nisso que ele é esteta: prefere (Ib.). "Essa famosa 'objetividade' moderna, explicava
uma bela mentira à "verdade feia" (VP, 11,453). Ali on- le no mesmo livro, é Isso que é de mau gosto, que
de a ciência e o Ideal ascético se encontram "num arece de nobreza por excelência" (C/, "O que os
comum exagero do valor da verdade", Nietzsche es- lemães ...". 6). Só mesmo "os espíritos antl-artísticos"
colhe, pelo contrário, o artifício criador: "A arte que podem pretender "ver o que é" (C/, "Vadiagens Ina-
santifica exatamente a mentira e põe a vontade de tuals", 7); o artista, por seu lado, cria o que vale.
enganar do lado da boa consciência é, por princípio, A "justificação estética" do mundo, portanto, não é
bem mais contrária ao Ideal ascético do que a ciên- a sua contemplação como obra de arte, e sim a sua
cia" (GM, 111,25). E é sabido que ele preconizava fa- transmutação em obra de arte. O acaso só é artista
zer da vida uma obra de arte ... para os artistas, e através deles. "Nosso direito sobera-
Tudo isso é evidentemente solidário da celebração no de artistas poderia exultar diante da idéia de ter
da aparência, que achávamos tão lindamente expres- criado esse mundo", escreve Nietzsche (VP, 111, 621) -
sa no Prólogo de A Gaia Ciência, quando Nietzsche mas só os espíritos artísticos têm direito a Isso. Se o ar-
elogiava, nos gregos, "a resolução de permanecer tista "aprecia mais a aparência do que a realidade",
bravamente na superfície, de limitar-se à roupagem, à é porque "neste caso 'a aparência' significa a reali-
epiderme, de adorar a aparência e de crer na for- dade repetida, mais uma vez, mas sob uma forma
ma, nos sons, nas palavras, em todo o Olimpo da de seleção, de duplicação, de correção ..." (C/, "A 'ra-
aparência! Essesgregos eram superficiais ... por profun- zão' na filosofia", 6). O mundo não é uma obra de
didade!" E Nletzsche acrescentava: "Não somos nós, arte, mas torna-se uma obra de arte, através dos ar-
precísamente nisso / ...l , gregos? Adoradores da forma, tistas: a justificação estética do mundo não é diferen-
dos sons, das palavras? Artistas, portanto?" Mas há te, para Nietzsche, da própria arte. Não é o mundo
uma longa distãncla entre a aparência e a rnenttro _ que é uma obra de arte, é a arte que faz um mun-
tão longa quanto entre a natureza e a artel Pois não do!
se acredite que a justificação estética do mundo se Daí a extrema importância da arte, da qual se po-
contente em apreciar uma beleza objetiva, já real _ de dizer que não tem Igual, ao mesmo tempo em
mesmo que em superfície! - no mundo ou na nature- Nletzsche (para ele, nada é tão importante quanto a
za: pensar Isso seria esquecer-se de que toda avalia- arte) e na história da filosofia (nenhum filósofo lhe deu
ção é criação de valor (Z, I, 147: "Avaliar é criar va- tanta importância). Vão novamente me objetar que a
lores; sem essa avaliação, a existência seria uma noz vida, porém ... Não. A vida não vale por si mesma.
vazia") e de que nada é menos estético do que a Sem a arte, ela seria ou insípida ou atroz. Já citei o
natureza simplesmente observada. É isso que Nietzsche "Sem a música a vida seria um erro", e Isso diz muito
recorda cruamente aos realistas e naturalistas de to- sobre o homem Nietzsche. Para pensar assim, quanto
das as filiações: "A natureza, avaliada do ponto de sofrimento deve ter havido ... Mas Isso não foi apenas
vista' artístico, não é um modelo. Ela exagera, defor- uma confissão feita de passagem, pois Nietzsche não
ma, deixa buracos. A natureza é o acaso" (C/, "Va- e cansa de confirmá-Io: "Única vida possível: na arte.
diagens Inatuais", 7). E o que há de menos artístico De outra forma, afastamo-nos da vida" (NT-FO, 231). E
do que o acaso? O "deus artista" é apenas uma me- mais tarde: "A arte e nada mais do que a arte! É ela
táfora. Se o mundo fosse uma obra de arte, bastaria que nos permite viver, nos convence a viver, nos es-
Imitá-!o, e Isso justificaria o realismo. Pelo contrário, timula a viver" (VP, IV, 8). É que a bela mentira é a
prossegue Nietzsche, "o estudo 'de acordo com a na- única coisa que permite suportar a verdade: "Como
tureza' me parece um mau sinal: trai a submissão, a nasce a arte? Como um remédio para o conheci-
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mento. A vida só é possível graças a ilusões de arte" I os aí também o 1mora lismo: "Para um filósofo, é ver-
(NT-FD, 208). A arte é o antídoto contra a clêricto. onhoso dizer que 'o bem e o belo são idênticos'; e
que se torna ainda mais necessário porque ela se de- ele acrescentar 'o verdadeiro', deve levar uma sur-
senvolve e arruína seus próprios fundamentos: "Se não ra. A verdade é feia. A arte nos é dada para nos
tivéssemos aprovado as artes, se não tivéssemos Inven- Impedir de morrer da verdade" (VP, 11,453). A fórmu-
tado essa espécie de culto do erro, não poderíamos la vale contra Sócrates ("Querer exprimir a verdade a
suportar ver o que agora a ciência nos mostra: a uni- qualquer preço é algo socrátíco", VP, IV, 114), mas
versalidade do não-verdadeiro, da mentira, e que a vale também contra todos os realistas e até, a des-
loucura e o erro são condições do mundo intelectual. peito do próprio Nietzsche, contra todos os ciássicos
A lealdade teria por conseqüência o nojo e o suicí- (Bollecru: "Só a verdade é belo, só a verdade é amá-
dio. Mas opõe-se à nossa lealdade um contrapeso vel ..."). Mas deixemos isso de lado. Nós entramos, se-
que ajuda a evitar essas conseqüências: é a arte, en- gundo Nietzsche, na era da estética, que deve ven-
quanto boa vontade de ilusão... Enquanto fenômeno cer a ciência assim como a ciência venceu a reli-
estético, a existência continua sendo suportável para gião: "A história e as ciências naturais foram úteis pa-
nós, e a arte nos dá os olhos, as mãos, e principal- ra vencer a Idade Média; o saber contra a crença.
mente a boa consciência necessária para podermos Agora erguemos a arte contra o saber. Retorno à vi-
fazer dela esse fenômeno, usando nossos próprios re- da!" (NT-FD, 191.) Aqui tudo está ligado. A vida, para
cursos"(GS, 107). Nletzsche, está a favor do erro, da mentira, do artifí-
Estetismo e vitalismo vão de par, dizia eu, e agora cio. da ilusão ... E a moral, contra. Ele opta, portanto.
vemos como: a arte está a serviço da vida, está aí pela arte contra a lógica (contra a ciência, contra a
para justificá-Ia e a tornar suportável. Trata-se ainda razão, contra o conhecimento ...) e contra a moral.
de "transformar o mundo para poder tolerar viver ne- "Nossa religião, nossa moral, nossa filosofia são apenas
le" (VP, IV, 118). Mas é preciso acrescentar: estetismo formas de decadência da humanidade - o contra-
e vitalismo são neste ponto inseparáveis da so'fística. movimento: a arte"78. Diôniso contra Sócrates, a esté-
Se a arte "costuma ser o grande estimulante da vida" tica contra a razão e contra a moral: "A arte tem
(VP, IV, 460), é porque é esse grande poder de Ilusão mais valor do que a verdade" (VP, IV, 8).
que nos embriaga. Em Nietzsche, observa Gilles Deleu-
ze. "a arte é a mais alta potência do falso, ela mag- Como sempre em Nietzsche, a dificuldade está no
nifica 'o mundo enquanto erro', santifica a mentira, fato de que ele disse também o contrário, ou quase
faz da vontade de enganar um ideal superior"77... E é Isso, reprovando, por exempio, à música de Wagner o
esse mesmo, de fato, desde o começo, o pensamen- fato de não ser "nunca verdadeira" (CW, 8), elogian-
to de Nietzsche. "A relação entre a arte e a verdade, do a penetração psicológica de um Stendhal ou de
recorda-se ele em 1888, é a primeira sobre a qual re- um Dostoievskl, e louvando o mais que pode - contra
fletI. E ainda agora a Inimizade entre elas me enche as mentiras do romantismo! - a "lucidez" e a "lógica"
de um pavor sagrado. O meu primeiro livro foi consa- dos clássicos ... Por que não, já que "a verdade não
grado a esse fato; o Nascimento da Tragédia acredi- significa o contrário do erro, e sim a posição de cer-
ta na arte, tendo como pano de fundo esta outra tos erros relativamente a outros erros" (VP. 11,89)? Se a
crença, de que não podemos viver com a verdade; vida se alimenta de ilusões ("o erro, mãe do ser vivo",
de que a vontade de conhecer a verdade já é um VP, li, 121), se o erro está "presente em tudo o que
sintoma de degenerescência ..." (VP, lll. 557.) Encontra- vive" (VP, 11.127) e se a própria verdade não passa
de "uma espécie de erro" (VP, 1/,308), uma "verdade"
77. Nietzsche et Ia philosophie. p. 117. Mesma observação em J.
GRANIER:para Nietzsche. "a arte. com efeito. não é nada mais do
que a santificação da ilusão e da mentira". p. 521. 78. Fragmento 794. citado por HEIDEGGER.
t. I. p. 72.
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pode continuar sendo possível (mesmo se não passa Vão dizer que as duas fórmulas se encontram; mas
de mais um errol), pelo menos como adequação a Isso é apenas uma aparência. Para Nletzsche, a arte
esse fluxo de ilusões vitais, como fidelidade à grande a ilusão que protege contra a verdade; para os
mentira do ser vivo ... Talvez. Há um nó aqui, que é o clássicos, ela é esse pedacinho de verdade que leva
do conhecimento e da vida: "A vida é a condição à grande verdade - não o que protege contra a ver-
do conhecimento; o erro é a condição da vida, ou dade, mas o que a revela! O problema não é ape-
seja, o erro fundamental" (VP, 111.582). Por isso o erro nas estético, ou então essa estética Inclui a filosofia,
é condição do conhecimento e (já que uma verda- Se a filosofia é uma arte, como ensina Nietzsche e
de nunca é mais do que um erro em que se acredi- como também eu creio, seu destino se joga totalmen-
ta; VP, I, 121. li, 308) seu único conteúdo... Luc Ferry, te nessa opção entre a mentira e a verdade, entre a
no que diz respeito à estética, desfez razoavelmente o ilusão e o conhecimento. Os filósofos, se quiserem
emaranhado. Remeto a ele o leitor?". Todavia, não o continuar dignos do nome, só podem escolher a ver-
acompanharei quando fala, a respeito de Nletzsche, dade, E se a vida dependesse disso? Mesmo que fos-
de hlperclassicismo - mesmo se acrescenta que se se assim, a filosofia só é filosofia (e não sofístlcal) com
trata de um "hlperclassiclsmo da diferença". Esta é, a condição de manter sua exigência: mais vale uma
em parte, uma questão de palavras, mas eu gosto verdade que mata (com a condição, é preciso expli-
demais dos clássicos para transigir sobre esta palavra. car, de que só mate a mim) do que uma mentira
Que é o classicismo, a não ser o culto, na arte, da que faz viver! Mas a escolha, felizmente, nem sempre
razão, da verdade e da medida? E que é a estética se coloca nesses termos, nem mesmo com freqüência.
dionisíaca além de, pelo contrário, o culto da embria- O que a arte maravilhosamente nos faz lembrar, con-
guez, da ilusão e do desmedido? Em seu livro sobre tra a decepção, o pavor ou o cansaço, é que a
A Arte Clássica, François-Georges Pariset distingue verdade pode também fazer viver - e é Isso que os
"duas opções", uma comum ao barroco e ao roman- clássicos chamam de beleza,
tismo, e outra característica do classlcismo: "Por 'um la- Num fragmento que já cltet, depois de ter evocado
do, o elã vital. as forças Irracionais, o Instinto, o sub- a solidariedade entre a vida e o erro, Nletzsche lança
consciente, a Inquietação, a angústia, o júbilo, o êx- sua grande fórmula, que talvez pudesse servir de má-
tase ... Do lado oposto, o ctcsstctsmo'"". E Invoca, é xima a uma estética barroca, mas que um clássico
claro, e legitimamente, a distinção nletzscheana entre jamais poderia aceitar: "A arte a serviço da Ilusão -
"o fervor dionlsíaco" e "o equilíbrio apoiíneo"81... Que eis aí o nosso culto" (VP, 111,582), Está tudo aí. Os es-
Nietzsche tenha tido gostos não raro opostos - e ca- tetas são os sofistas do belo - e os filósofos, os artistas
da vez mais opostos! - à sua estética, é problema do verdadeiro I Nletzsche é um esteta,
dele; seu amor ao "grande estilo" não poderia, porém,
anular a sua reiterada celebração da arte como "cul- Uma palavra mais. Um nome.
to do erro" (GS, 107) e antídoto da verdade (VP, li, Este texto é dedicado à memória de Etty Hlllesum,
453). Eu já citei a terrível fórmula: "Temos a arte para que tinha tudo para desagradar a Nletzsche: mulher,
não morrermos da veraaae=«, Um clássico diria, evi- judia, democrata, sem dúvida um pouco socialista, e
dentemente, o Inverso: temos a arte para viver da para terminar quase cristã ... Ela, porém, para amar a
verdade! vida, para achá-Ia bela, não precisava da arte, nem
da mentira. Bastaram-lhe o amor e a verdade. Como
o conseguiu, ela conta em seu Diári083, pelo qual eu
79. Homo aestheticus. capo V.
80. F.-G. PARISET, L'arf c/asslque, PUF, 1965, p. 15.
81. Ib .• p. 16. 83. E. HILLESUM, Une vie bouleversée. Journal (1941-1943), trad. fran-
82. VP, 11,453 (que cito a partir da tradução de J. GRANIER, p. cesa, Ed. du Seuil. 1985. Já tive ocasião de dizer algumas palavras
527). sobre esse livro no Prefácio que escrevi para a correspondência de
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daria sem hesitar Ecce Horno, O Ant/crlsto e toda A 111 tzscheano - e não duvido que se possa sê-Io por
Vontade de Potência ... Ela escreveu esse Diário de I as razões. Cabe aos nietzscheanos, se quiserem, ex-
1941 a 1943, na Holanda ocupada, muito perto do I IIcar-se. Mas não acreditamos nem nos profetas, nem
horror e também do sublime, do único sublime, que é 110S super-homens, nós que não admiramos riem a
a coragem sem ódio e o amor sem esperança. Ela sar Borgla, nem a Napoleão (mas muito a Rous-
não Invertia nenhum valor, não vivia além do bem e oul). nós que odiamos os "homens de rapina", nós
do mal. não queria a potência ... Ela foi morta pela discípulos de Etty Hillesum e de Jean Covolllês, es-
potência, em Auschwitz, no dia 30 de novembro de s "resolutos sem otimismo", esses fortes sem dureza
1943. "Uma judia a mais ou a menos, diziam os nazis- ("aguerrir-se, dizia Etty, não endurecer-se ...''). nós os fiéis
. tas, que importa?" e para Isso, diga-se de passagem, completamente
E eu também poderia ter dedicado este texto à lIIo-semitas! -, nós que nada conhecemos de mais hu-
memória - se ela ainda precisasse ser defendida! - de mano do que Cristo (é justamente por Isso que somos
Jean Cavailles, esse "filósofo matemático recheado de teus: que viria fazer um Deus ali?), nada de mais es-
explosivos, esse lúcido temerário, esse resoluto sem timável do que a moral evangélica, nós que não so-
otlmismo"84... Como as divagações de Nletzsche acer- mos nem bárbaros, nem brutais (e se às vezes somos
ca da lógica plebéia e frouxa parecem derrlsórlas ao louros, não é culpa nossa), nós os mansos, nós os mi-
lado de um único herói de verdade, que sabia o rlcordiosos, nós os pacíficos (mas certamente não
que pensar quer dizer, e que não se brinca nem com não-violentos!), nós que amamos a mulher em nós
a lógica nem com a moral! Cada um escolhe seus mais do que o guerreiro, nós que não canonizamos o
mestres. Eu que não sou lógico, eu que não sou ju- nosso riso - e que com isso rimos ainda melhor! =, nós
deu, eu que não sou cristão (e eu que não sou um que só acreditamos no eterno sem retorno e sem
herói!), escolhi - contra Nietzsche, e mais ainda contra Igual (o devir), nós que não somos os prematuros de
as bestas-feras louras ou morenas - o patrocínio des- nenhum futuro e os filhos de todo passado, nós que
tes doces Intransigentes: a santa judia e o heról lógi- não confundimos o valor e a verdade (nós que re-
co! nunciamos a crer que seja verdadeiro tudo o que de-
Quanto a Nietzsche, será preciso voltar a ele? A sejamos, mas não a desejar a verdadel), nós que
pergunta era: por que você não é nietzscheano? Eis amamos a verdade mais do que o belo, o real mais
a resposta, mas precisava de todas essas páginas pa- do que a arte e a arte mais do que os este tas, nós
ra torná-Ia Inteligível: porque não gosto nem das bes- que acreditamos na ciência e na razão, nós os clás-
tas-feras, nem dos sofistas, nem dos estetas. E sem dú- sicos (a arte a serviço da verdade, eis o nosso cultol).
vida Nietzsche não é só Isso: ele é também filósofo, e nós os raclonalisfas, nós os continuadores de Sócrates
artista, e cheio de uma fina delicadeza ... Meu objeti- e das Luzes - e mais especialmente nós, os discípulos
vo não era esgotar o pensamento de Nletzsche - co- de Epicuro e de Splnoza! =, nós que preferimos o co-
mo todo grande pensamento, ele é Inesgotável =, nhecimento à Interpretação, a história à genealogia
nem invalidá-Io totalmente. Pelo contrário. Como já (e a pergunta "o que é?" à pergunta "quem?"!), nós
disse, tenho com ele múltiplos pontos de acordo, tal- que nunca nos achamos demasiado humanos, nós
vez mais numerosos (embora menos decisivos!) do que não queremos Inverter nenhum valor (e sobretudo
que nossas divergências, e não contesto nem seu gê- ão os valores judaico-cristãos!), nós que não viemos
nio, nem sua grandeza. Mas Isso basta? abolir, mas realizar, não destruir, mas continuar, nós
Quanto ao resto, toda filosofia é irrefutável, ainda que não filosofamos às marteladas (ou apenas contra
mais quando é sofística. Assim, quem quiser que seja aqueles que seguram o martelo I), nós que não quere-
mos a potência, e sim o amor, não a força, e sim a
S. PRAJNÂNPAD (ver nota 53), pp. 27-29.
justiça, nós os homens superiores, como ele diria, e
84. Como diz G. CANGUILHEM, p. 38.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
ANDRÉ COMTE-SPONVILLE

que não nos preocupamos com isso (nós a quem o


desespero não apavora I nós a quem o desprezo não
tranqüiliza I), nós que só suportamos o elitismo republi-
o MOMENTO FRANCÊS
cano, nós os democratas, nós os progressistas, nós DE NIETZSCHE
que somos - que queremos serl - do partido dos fra-
cos e dos escravos, nós que respeitamos os estrangei-
ros ainda mais do que os concldadãos, nós bons eu-
ropeus mas cidadãos do mundo, nós que não quere-
mos - sobretudo não I - ultrapassar o homem, nós que
desconfiamos da embriaguez e das paixões, nós os
apolíneos, nós os civilizados, nós que tentamos ser
mais ou menos morais (sempre entre o bem e o
mal!), nós os ínimlgos dos malvados e dos sofistas, nós
os amigos da sabedoria e da gente boa, nós que
nos esforçamos por sermos bons, justos e verídicos -
por que seríamos nietzscheanos?
o MOMENTO FRANCES
"

DE NIETZSCHE
VINCENT DESCOMBES

N IETZSCH E EM PA RIS

H ouve por três vezes um momento francês de


Nletzsche: entre os escritores no fim do século
passado, entre certos intelectuais "não conformistas"
do entre-guerras e, finalmente, entre filósofos, quando
do declínio das correntes que dominaram o pós-guer-
ra (como o existencialismo e o marxismo, depois o es-
truturalismo). Tomo aqui a palavra momento no senti-
do etimológico de uma potência de mover ou de
deslocar as coisas, e não no sentido de uma peque-
na parte do tempo. Isto significa que estou muito lon-
ge de reduzir a influência de Nletzsche na França a
um episódio limitado. Como nos ensina uma observa-
ção de Lachelier que André Lalande re procíuz '. a
confusão entre o sentido mecânico e o sentido tem-
poral da palavra momento provém do "contra-senso
que os parisienses cometeram, durante o inverno de
1870-71, com a expressão atribuída ao sr. de Bismarck:
momento psicológico do bombardeio (ou seja, o
bombardeio enquanto algo que devia agir sobre o
moral dos sitiados, levar à capitulação)". Ora, é esse,
creio eu, o emprego que se faz da obra de Nietzs-
che entre os escritores, os Intelectuais e os filósofos
franceses. Essa obra tantas vezes empenhada em tra-
tar dos problemas internos da cultura alemã possui,

1. No Vocobu/oire technique et critique de 10 philosophie, PUF, 1g


edição, 1926, no verbete "Moment".
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O MOMENTO FRANCÊS DE NIETZSCHE
VINCENT DESCOMBES NIETZSCHE EM PARIS

de fato, um momento francês. Quando nossos autores lar numa esfera completamente diferente, de uma
se referem a ela, fazem-no menos para citar análises pura liberdade de espírito sobre um fundo de comu-
ou hipóteses do que para produzirem efeitos sobre o nidade utópica. Podemos citar aqui o caso do grupo,
maral do leitor. O objetivo não é aqui, como no ca- hoje célebre, do Colégio de Sociologia. Quando esse
so do bombardeio de Paris pelo "sr. de Bismarck", grupo, numa declaração sobre os acordos de Muni-
aterrorizar os Indivíduos. Pelo contrário, trata-se de os que comunica que pretende ser um "núcleo de ener-
mobilizar e exaltar. Mais exatamente, poderíamos dizer gia'" e não apenas uma "sociedade de pensamento",
que o momento previsto de Nietzsche sobre o leitor não oferece nenhum ponto de aplicação às forças
francês deveria ser "sabotar o moral" dos corpos esta- que pretende mobilizar, a não ser a recusa de tudo.
belecidos (igrejas, Instituições) e das organizações de Essa declaração que se pretendia política termina
massa (partidos políticos) para melhor "levantar o mo- com um gesto surrealista de ruptura Inaugural. O Co-
ral" dos Indivíduos com isso mesmo libertados de qual- légio, lemos, "convida aqueles a quem a angústia .re-
quer submissão a leis ou autoridades transcendentes. velou como única saída a criação de uma laço vital
Já se pode pressentir o que será o limite Inevitável entre os homens, a se juntarem a ele, fora de qual-
desse momento do "nietzscheanlsmo" à maneira fran- quer outra determinação que não a tomad~ de
cesa. As intervenções públicas que nele se inspiram consciência da absoluta mentira das formas politlc.os
são próprias dos Intelectuais e mobilizam sobretudo o atuais e a necessidade de reconstituir desde o princí-
meio culto. Aparecem em revistas de vanguarda, de pio um modo de existência coletiva que não leve em
preferência confidenciais, ou em colóquios, não raro conta nenhuma limitação geográfica e social e que
esotéricos. Estamos evidentemente multo longe da permita ter um pouco de dignidade quando a morte
"grande política" e do "pensamento estratégico" em rondo:". Este apelo, como se vê, dirige-se a pessoas
escala planetária que nos haviam anunciado. reunidas unicamente pela perspectiva da morte, mas
Um retrato-robô do "nietzscheano" francês deveria não pela perspectiva do túmulo. É lançado por puros
comportar os seguintes traços: viva consciência do "existentes" a outros "existentes". Pois, conforme as dou-
fundo conflitual da época, viva consciência também trinas existencialistas, morremos sozinhos, ao passo que
dos perigos, de ordem moral e espiritual. Inerentes às seria preciso aceitar uma comunidade demasiado evi-
diferentes posições militantes entre as quais a época dentemente limitada em sua humanidade para poder
se divide, e finalmente os sinais exteriores de um en- repousar com os seus. A morte é, sim, a sorte co-
gajamento decidido no conflito em curso, mas de um mum, mas só afeta a seres singulares. A universalida-
engajamento que deve ser chamado de paradoxal, de abstrata do si, para ser radicalmente afirmada,
já que se mostra intransitivo ou Indecldível. Trata-se de exige que a morte seja despojada de. suas sign~fi~a-
uma postura militante (ou "guerreira"), mas à parte de ções humanas, mas particularizantes (rrtos fu~er.arros,
todos os campos Identificáveis. De fato, os sinais exte- culto dos mortos). O parti pris político do Coleglo de
riores de participações no combate que o nletzschea- Sociologia se reduz, neste caso, a uma espécie de
no francês multiplica são todos negativos quando se existenclalismo milenarista, cujo eco tornamos a en-
trata de política. Esses sinais só se tornam positivos contrar ainda, depois da guerra, em certos escritos de
quando é preciso pronunciar-se, não mais sobre uma Blanchot3.
linha de ação política, e sim sobre princípios de mo-
ralidade Individual. Assim, o intelectual afetado pelo
2. Texto em D. HOLLlER, Le col/age de soclologie, Gallimard, 1979,
momento de Nietzsche será contra os movimentos fas-
pp. 103-104. Os itálicos estão no texto. . .
cistas, mas sem no entanto aceitar ser a favor de um 3. Ver M. BLANCHOT,t.o communauté impossible, Ed. de MInU~t.
de seus adversários, a democracia liberal ou o movi- 1984, e J.-L. NANCY, t.o communouté désoeuvré,. Christi~n Bourgols,
, 986. O que chamo de existencialismo milenansta esta ~ert,~ do
mento comunista. A afirmação só chega a se decia-
que Nancy designa nesse livro como "um comunismo hterano.
O MOMENTO FRANCÊS DE NIETlSCHE
POR QUE NÃO SOMOS NIETlSCHEANOS
FILOSOFIA E RETÓRICA
VINCENT DESCOMBES

Os filósofos nietzscheanos, todavia, não propõem de


modo algum renunciar pura e simplesmente às ques-
16es filosóficas e passar a se consagrar apenas aos
studos históricos. Pretendem prosseguir a filosofia com
os meios da história. Em outras palavras, convidam-nos
traduzir as questões que tratem do sentido dos pen-
amentos humanos em questões acerca da origem e
FILOSOFIA E RETÓRICA do valor das asserções no Interior do combate vital.
Convém assinalar este ponto, pois não raro se apre-
o que se segue, só trataremos do momento enta essa passagem do filosófico ao "genealógico" e
N nietzscheano contemporâneo. Este momento dis- 00 "estratégico" como uma abertura que certos filóso-
fos fariam em fovor dos historiadores. Na realidade,
tingue-se dos anteriores pelo lugar ocupado pelos filó-
sofos. O ponto culminante do que podemos chamar há, sim, aqui um movimento dos filósofos em direção
de "nietzscheanismo" à francesa terá sido a década da história, que participa de um modo mais geral do
de Cerisy-Ia-Salle em 19724• Com esse nome em -lsrno. hlstoriclsmo moderno. Mas trata-se de um movimento
entre aspas, não designo nem o pensamento do pró- de conquista, e não de reconhecimento. Os filósofos
prio Nietzsche, que é mais rico e mais variado, nem a hlstoricistas não nos convidam a ler os trabalhos dos
elaboração particular de determinado intérprete, que historiadores (trabalhos provavelmente escritos por au-
multas vezes será mais articulada, e sim uma configu- tores Imbuídos do preconceito tradicional segundo o
ração geral de axiomas comuns e de temperamentos qual a historiografia não se confunde com a filosofia).
típicos que formam essa base, esse fundo, esse solo Eles nos anunciam que os livros de filosofia devem de
sobre os quais vão depois se opor as seitas filosóficas, agora em diante ser escritos como livros de história.
preocupadas em não serem confundidas umas com Erraríamos em ver nisso uma vulgar briga de frontei-
as outras. Não vou entrar nessas brigas, interióres ao ra entre corporações científicas. O ponto é efetiva-
"nietzscheanismo", entre nietzscheanos de tendência mente filosófico. Se uma distinção deve ser mantlda
heideggeriana, nietzscheanos oriundos do marxismo, entre a história das Idéias e a filosofia, é para poder
nletzscheanos românticos, nletzscheanos literatos, distinguir entre o êxito de um argumento e o seu con-
nietzscheanos metafísicos etc. teúdo. A distinção passa entre dois sentidos do que
O "nietzscheanismo" que aqui me ocupa é uma fi- chamamos a força de um argumento: 1) a potência
losofia que pretende valer como tal. Devemos, portan- que ele possui. em certas condições, de mobilizar as
to, ao que parece, se quisermos falar corretamente a forças mentais do público a que é apresentado (po-
seu respeito, deixar de lado a história intelectual (ou tência que é justamente o seu "momento psicológi-
história das idéias) e passar ao exame filosófico. Ora, co"); 2) a potência que ele tem de gerar logicamen-
é evidente que esse movimento da história para a fi- te diversas conseqüências (potência em que consiste
losofia é precisamente o que contestam os filósofos o seu "sentido", na acepção filosófica da palavra).
"nietzscheanos". Para eles, o método correto num exa- Ora, os filósofos "nietzscheanos" objetam que essa
me filosófico é justamente o método da história inte- distinção equivale a negar o fato da retórica. Pois, di-
lectual: quem disse Isso? Quem fala nesse texto, o au- zem eles, a retórica é um fato. Para todo discurso,
tor Individual ou a Instituição? Quem procura, dizendo existe um ethos e um pathos, um alvo polêmico e
Isso, afirmar-se? Contra quem? Quals são os sentimen- um momento psicológico. Que exista uma retórica de
tos que sustentam este ou aquele raciocinio? todo discurso, inclusive o filosófico, os filósofos "plat6nl-
cos" não podem negá-Io no plano dos fatos, mas
apenas no plano do valor. Eles decidem, por Idealiza-
4. As atas desse colóquio foram publicadas em dois volumes com
o título Nietzsche. coleção "10/18". 1978.
O MOMENTO fRANCÊS DE NIETZSCHE
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
VINCENT DESCOMBES UMA FALSA BOA IDÉIA

ção, que devemos fazer abstração disso, comportar- como argumento e a razão como Instrumento, entre
mo-nos como se a filosofia pudesse estar isenta de to- o sentido e o rnomenv- Assim, reencont~amh~st ,e~sa
dos os efeitos de sedução e de encenação. Entenda- necessidade de distin9uir entre a produçao ..I"Sanca
. ~o lógica das consequenclas.
se, Platão é o maior dos retórlcos e dos encenadores. dos efeitos e o geraç'"
Os "platônicos" apenas decidiram não querer saber Ora a recusa de tozet esta distinção leva a ~:,Iocar
disso. São, então, autênticos filósofos quanto ao tipo urno equivalência entre os efeitos e as consequenclas.
" I lê por certo nos dois sentidos.
psicológico (pois essa abstração, essa Idealização são I
Toda equlva enc a se ' , . .
eüêncrcs em termos de efeitos.
exatamente o que se espera encontrar entre os filóso- Vamos falar d Os canse.. "
fos). Contudo, ao mesmo tempo, eles são filósofos a lógica torna-se histórica, interrogada em sua ge-
Inautêntlcos ou filósofos divididos contra si mesmos: nealogla". Mas Inevitavelmente vamos também falar
.. " I de modo
pois o tipo psicológico do filósofo, caracterizado, se dos efeitos em termos de consequenc as: ,
que a histório
quisermos, pela "vontade de verdade", deve levá-Ios a se tornará lógica. Os f~IOSO~oSdo
. do que Inam Introdu-
aceitar que a verdade da filosofia esteja na retórica. "nietzscheanlsrno" haviam anuncia ".
ceito (programa da m-
Aparentemente, a objeção é forte. Quem gostaria ztr a força e o afeto na con . . .
ge negar que haja efetivamente uma retórica da filo- - d plc tonlsmo'I Não hcrvlcrrn dito que ISSO
versao o . ,· d s concel lt os na fisl-
sofia? Em outras palavras, que haja uma verdadeira equivaleria o introduzir a Ioçrco o
'cologia dos afetos. Como vere-
história das idéias filosóficas, portanto algo inteiramen- ca das forços e na pSI .
. dl t ",~o porém que vai acontecer.
te diferente de uma simples "manifestação temporal" mos mais a lan e, e 1:>-' " t- bem
,. co esteve ao
da articulação intemporal do Logos. No entanto, a A filosofia a priori da 11 Istono nun
objeção tira a sua força da Intensa disputa entre quanto no tempo do "nletzscheanismo".
"platônicos" e "nietzscheanos". Ambos os campos con-
sideram adquirida uma definição degradante, imoralis-
ta, da retórica. Se os argumentos têm algo de retórl-
co, então são máscaras da vontade de vencer: Ou a
razão fala (sem retórica), ou então é o reino da per-
suasão pela sedução, pela emoção e pelos precon-
ceitos disfarçados de "razões". Mas por que a razão
não falaria nas formas da retórica? Os Irmãos inimigos
do "platonlsmo" e do "nietzscheanlsmo" se esquecem UMA FAlSA BOA IDÉIA
disto: existe uma filosofia da retórica. Seu principio, co-
mo o vemos em Aristóteles, é examinar os discursos . o" aparece como a tentativa
"nietzsc h eomsm
de justificação do ponto de vista da raclonalidade (fi-
losoficamente, portanto). A arte retórica assim entendi- O de resoIver nas
formas da filosofia certos pro-
blemas do tempo presente, problemas .que _ re
di mos
,
da é muito diferente da aparência de arte que pre- ' hor sua dlmensao poli-
Ideológicos se quisern10S subl tn
tendem possuir os bem-falantes, que concebem a re- , It mais os valores e os
tica, e culturais, se ressa armos , ..,
tórica como a produção garantida de efeitos através - é necessario assumir a filosofia
fins em jogo. Ora, nao I
dos signos ("efeitos de sentido", "efeitos de verdade" do "nletzscheanismo" para julgar sérios esses .pro~ e,-
etc.) Simulacro de arte, autêntico não-saber prático, . spostas do "nietzscheanlsmo a
mas Creio que as re .
pois a eficiência dessas receitas é duvidosa. . _j'eitadas porque filosoficamente
francesa devem ser ro-' .
A filosofia da retórica restabelece a diferença entre - concluo daí que elas sejam res-
uma boa prova oratória e uma má prova oratória. Incoerentes. Mas nao _, stas mal conce-
postas a falsas questões. Sao so respo
De modo que vemos ressurgir, no terreno da própria . . 'tilmente amaneirados ou deses-
bldas, e em t ermos m•...•
retórica, a antítese acima mencionada entre a razão
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O MOMENTO FRANCÊS DE NIETZSCHE
VINCENT DESCOMBES UMA FALSA BOA IDÉIA

peradamente confusos. Cumpre reconhecer a presen- autores moralizantes (como Sartre), não é necessário
ça desses problemas por trás das fórmulas do "nietzs- que o agente esteja de má-fé para que esses moti-
cheanlsmo" francês.
vos interessados se disfarcem em puro espírito de jus-
. Como se sabe, essa corrente de IdéIas estreou ofi- tiça e de beneficência. Do ponto de vista dos escri-
c~almente no palco filosófIco quando o nome de tores moralístas, autores de "caracteres", de comédias
Nletzsche se juntou aos de Marx e de Freud para for- ou de romances, é maIs verossímel apresentar um
mar o corpus de referência dos filósofos opostos ao personagem convencido da nobreza de seus senti-
tirno se chamou de "filosofia da consciência". Este úl- mentos no mesmo momento em que é movido pelos
.,mo nome abarca, em seu uso, as doutrinas do idea- ciúmes, pela Inveja ou pela vaIdade. O charlatanismo
lismo tradicional e as das escolas mais recentes da fe- moral é psIcologicamente mais perfeito e mais verda-
nomenologla. São filósofos da consciência: Sartre e deiro quando é praticado, por assim dizer, de boa-fé.
Alaln, ~erleau-Ponty e Brunschvicg. A esses filósofos da Mas um sujeito moral a quem a consciência (moral)
cc:nsclencla foram opostos os filósofos da interpreta- nada reprova nem por Isso é o sujeito de uma cons-
çao, aqueles que Ricoeur chamou de "mestr d ciência cartesiana, de um cogito. Quando falamos
suspeit "- es a
_ a e que sao reunidos por uma vaga orienta- dos motivos conscientes de um agente, não queremos
çao geral expressa por fórmulas como o "d' t dizer que esses motivos estejam presentes em sua
. escen ra-
mento do sUJeIto",a leitura "slntomal" da " consciência de um modo cartesiano, como cogitatio-
crítl d "f I nguagem, a
ca a a sa consciência".
nes. Não se requer que o motivo seja um dado men-
Na, verdade, essa reunião dos três pensadores nu- tal, um acontecimento na vida psicológica do sujeito.
m~ so autoridade de três cabeças mostra-se como o Numa filosofia carteslana do espírito, eu não posso ter
proprlo exemplo da falsa boa idéia O d
d t'd . es e o ponto um motivo consciente de consciência sem que o sen-
e par I a, o pensamento é colocado numa pista fal- timento que me anima não esteja Imediatamente da-
sa, a de u.ma pretensa antítese entre o ponto de vis- do ao "olhar do espírito". Se ajo por cólera, é preciso
ta ~o cogIto e o da crítica da consciência. A' única que eu saiba a todo instante que estou encolerizado.
razao concebível de uma oposição dessas deve ser É preciso, até, em todo rigor, que minha cólera seja
pr~cu~ada na palavra consciência. Mas de que cons- o objeto de um saber mais certo do que a minha
c~encla se trata? Acontece que a língua francesa própria ação. Entre a minha ação e a minha cólera,
nao faz ?'st~nção, como o inglês ou o alemão, entre há, de fato, a diferença de que minha ação é, afinal
a Co~sc.'encla moral (Gew/ssen, consc/ence) e a cons- de contas, um movimento de meu corpo, ao passo
clen~'OSld?de (Bewusstseín, conscíousness)5. A suspeita que a minha -cólerc é uma cogitatio, um pensamen-
das filosofias da interpretação diz respeito aos motivos to.
dos comportamentos humanos, motivos que Nietzsche
c~ama d~, "sen~imentos"quando tenta descobrir-Ihes a É notável que haja, sim, no próprio Nietzsche, uma
ongem. Alias, Nletzscho não faz mais do qu t
como I e re amar, crítica da filosofia do ego cogito, mas ela não faz
e e mesmo disse, o tema dos moralistas (parti- parte do que Nietzsche chama de "psicologia". Ela é,
cUlarme~te. os franceses), hábeis em desmascarar o como devido, puramente filosófica e consiste numa
amor:prop~,o por trás dos sentimentos generosos. O discussão do preconceito segundo o qual o pensa-
que e duvidoso aqui e se torna objeto de suspeita é mento supõe -urn pensador, logo uma res cogftans. O
q~e o motivo oficial, aquele que o próprio agente que Descartes apresenta como uma noção primeira
afirma, seja o certo. Contrariamente ao que afirmam evidente, Nie-tzsche desqualiflca como simples fato
gramatical. Seja como for a respeito deste ponto de
5. Conscienciosité é o termo pelo . _
francês o inglês consciousness' v ~al Lerbnlz propoe traduzir em metafísica, no.aremos apenas que ele não evoca ne-
ment burnotn. li. XXVII. § 9. . er ouveoux essais sur /'entende- nhuma "suspelto" no sentido acima. Não se tra ta aqui
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O MOMENTO FRANCÊS DE NIETZSCHE
VINCENT DESCOMBES UMA FALSA BOA IDÉIA

de desmascarar os verdadeiros sentimentos de um mo peso histórico. Marx e, sob certos aspectos, Freud
agente, e sim de esclarecer uma questão de filosofia são fundadores de ordens. Seus escritos servem de re-
primeira. ferência e de apoio a movimentos coletivos. Em con-
Mas então toda a querela dos "filósofos da cons- trapartida, Nletzsche permaneceu sendo uma figura
ciência" e dos "filósofos da suspeita" repousaria num solitária. Se você se deciarar marxista, espera-se que
emprego equívoco da palavra consciência? Sem dú- tenha não só opiniões, mas também um partido polí-
vida, há outra coisa, a saber, o prosseguimento de tico. Da mesma forma, os psicanalistas assinalam, com
uma discussão ética e política como se ela se referis- razão, que têm uma prática, no quadro de associa-
se ao cogito de Descartes, ou seja, justamente à me- ções, e não só Idéias. Em compensação, a qualidade
tafíslca. É preciso levar aqui em consideração a pre- de "nietzscheano" permite ocupar uma posição na
sença em muitas mentes de uma combinação eclétl- cena contemporânea, marcada pelo que o próprio
ca de temas ciássicos da filosofia moderna (princípio Foucault chama de a "guerra das Interpretações". sem
do cogito, princípio da equivalência do ser e do sen- ter de tolerar a disciplina de um partido político ou
tido para a consciência) e de Ideais humanos que de uma corporação. Ao mesmo tempo, uma diferen-
Inspiram a filosofia progressista da história. Essa aliança ça maior vai separar a Interpretação à maneira nle-
não se baseia num elo lógico entre posições especu- tzscheana da que podemos praticar à maneira mar-
lativas e práticas, como se o enunciado do cogito xista ou à maneira freudlana. Nestes dois últimos casos.
devesse ser tido como o artigo primeiro de uma dou- existe Inevitavelmente uma interpretação canônica.
trina dos direitos do homem e da república universal. que determina a "linha" do partido ou ': "ortodoxia" da
Ela corresponde bem mais ao encontro, na cabeça técnica terapêutica. Em compensaçao, a maneira
dos filósofos franceses, das preferências que eles têm nietzscheana de interpretação radicaliza a Idéia herme-
como filósofos e dos valores que eles defendem co- nêutica. já que substitui a noção de interpretação cor-
mo cidadãos. reta. ou justa. pela de Interpretação dominante.
De onde vem, então, essa idéia de uma ·tríade: Resulta daí um segundo ponto notável. A reunião
Marx, Nletzsche e Freud? Para descobrl-Io, podemos dos três nomes num trlunvirato da suspeita não se faz
consultar as Atas do primeiro colóquio que reuniu os em condições de Igualdade. Se aceitarmos a Idéia
principais representantes do "nietzscheanismo": o coló- de uma guerra das Interpretações. exciuímos que se-
quio sobre Nietzsche de Royaumont. que ocorreu de ja possível ser tanto marxista quanto freudlano e
4 a 8 de julho de 19646. Nesse colóquio, Michel Fou- nietzscheano. Como observava justamente Jean Wahl
cault tratou justamente do assunto que lhe propuse- depois da exposição de Foucault: "Se Marx tem razão,
ram sobre Marx, Nietzsche e Freud. Por que os reunir? Nietzsche deve ser Interpretado como um fenômeno
Em sua exposição, Foucault descartava o topos de- da burguesia de determinada época. Se Freud tem
masiado fácil da consciência mistificada e preferia razão. é preciso conhecer o inconsciente de
apresentar Marx, Nletzsche e Freud como técnicos da Nietzsche. Assim. vejo uma espécie de guerra entre
interpretação. Antecipando o tema de As palavras e Nietzsche e os dois outros". Mas ao reduzirmos a ciên-
as Coisas, procurava descobrir no século XIX uma mu- cia marxista ou a ciência freudiana ao nível de inter-
tação da noção de signo, de que os três autores se- pretações. já favorecemos a Nietzsche. Nesse trio.
riam testemunhas. Marx e Freud aparecem como hermenêuticos pesa-
lendo a comunicação de Foucault e a discussão dões. Eles interpretam. como Nietzsche. mas ainda
que se seguiu a ela, observamos duas coisas. Por um acreditam que exista uma Interpretação verdadeira.
lado, os três nomes próprios sugeridos não têm o mes- como os positivistas. E quaisquer que sejam os esfor-

6. Publicado com o título Nietzsche, Ed. de Minuil. 1967. 7. Ib. p. 195.


POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
VINCENT DESCOMBES O MOMENTO FRANCÊS DE NIETZSCHE
UMA FALSA BOA IDÉIA

ços de Foucault para extrair de Marx e de Freud a


consciência do caráter Interminóvel da Interpretação, tratas de Foucault sobre o tema "Marx, Nletzsche e
ele não consegue realmente dissolver num jogo Inde- reud", acabamos ouvindo as palavras políticas dos
finido de signos as robustas realidades do sexo e da anos 1950: do gm a tlsm o, ortodoxia, direIto ao revisionls-
luta de classes. No máximo ele pode Indicar, em mo exclusão. Estranhamente, uma experiência política
Marx historiador e em Freud analista de seus próprios portlculor (a da guerra fria e da desestalinlzação das
sonhos, um pressentimento da tese que só desponta mentes) estabelece de uma vez por todas o sentido
como tal em Nietzsche. Esta tese central do "nietzs- da palavra verdade. Usar a palavra verdade seria
cheanismo" francês enuncia-se no texto de Foucault acabar no dogmatlsmo.
em três proposições8: 1) "A Interpretação tornou-se A radicalização da noção de interpretação permi-
uma tarefa Infinita." 2) "Se a interpretação não pode te assim tirar o marxista e o freudiano d e suas posi-
terminar, é simplesmente porque não há nada a inter- ções críticas. Os acusadores s~o .por sua vez acusa-
pretar." 3) "A interpretação acha-se na obrigação de dos. Como inquisidores ou p ollclols, transformaram os
se interpretar a si mesma ao infinito." sIgnos em IndícIos (para retomar a ~posiÇão feit,? por
Por que Foucault apresenta essa tese como algo Foucault entre os signos entregues a interpretaçao In-
que marca uma jubilosa libertação, a notícia de uma terminável e os indícios de uma realidade exterior ao
"vida da interpretação"? À primeira vista, estaríamos Jogo dos signos). Na verdade, a distinção entr.e uma
antes tentados a ver aí algumas notícias consternado- hermenêutica e uma semiologia parece adqulnr senti-
raso Que há de tão divertido em proclamar a impo- do no episódio de fato "dogmático" da vida intelec-
tência epistemológica das ciências do espírito diante tual francesa do pós-guerra. Mas à nossa frente, no
"nietzscheanismo", a resistência contra o alistamento
das ciências da natureza? Por que devemos sentir-nos
mais livres, só por termos sabido que o sentido procu- militar assume a forma grandiosa de uma teoria geral
rado não será encontrado nunca, e que aliás esse dos signos, com sua ontologia (não há na~a a_lém ~e
sentido não era o dos signos dados à Interpretação interpretações, nada a interpretar qu~ [ó ~ao s~Ja
(nada é dado), que ele não é mais do que uma vio- uma interpretação) e sua eptstemoloqlo (nao existe
lência feita a outras interpretações mais antigas, ou conhecimento, apenas discursos, ou arranjos de signos,
seja, a violências anteriores? O motivo da reação ju- que produzem "efeitos de verdade").
biJosa de Foucault deve ser procurado na oposição É viável essa concepção da linguagem? Se a =.
que ele estabelece, em seu vocabulário da época, sembaraçarmos dos enfeites sob os quais ela nos e
entre a hermenêutica e a semiologia. A hermenêuti- formulada, ela se reduz a uma decisão de homoge-
ca, pela qual ele entende a atividade de interpretar neizar a questão do sentido. Ela equivale a dizer que
ao infinito, representa a "vida da interpretação". A se- há uma e uma só passagem dos signos ao sentido: a
mlologia, que para ele consiste em Interromper o jogo interpretação. Perde-se aí uma distinçã? capital, ,a d~
Indefinido dos signos, é a sua morte. Segundo Fou- sentido diretamente acessível e do sentido que so o e
por inferência. É a diferença entre compreender e. in-
cault, a semiologia tem a culpa de fazer reinar o ter-
ror entre os signos, porque quer dar um estatuto de terpretar. O hermeneuta cuja filosofia Foucault expnn:e
autoridade ao que não passa de uma das Interpreta- não reconhece nenhuma diferença entre o ato de In-
ções. Assim, pois, o fim último de toda essa exposição terpretar, que é uma operação intelectual feita p_or
era encontrar um meio de fugir ao dogmatismo, ao um espírito ativo, e o fato de compreender, que nao
"terror" de verdades estabelecidas por órgãos habilita- é nem um ato, nem uma performance, mas a posse
dos para tanto. Por trás das variações um tanto abs- de uma capacidade. Esse hermeneuta toma a capa-
cidade por um ato e, exatamente como o fato de
tomar o Pireu por um homem, Isso é um erro de ca-
8. Ib., p. 189.
tegoria, portanto um erro metafísico. Ou ainda, diria
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VINCENT DESCOMBES UMA FALSA BOA IDÉIA

Wlttgensteln, um equívoco gramatical. Há de se notar, a compreensão não constitui um episódio mental que
aliás, que a distinção em questão falta Igualmente viria duplicar a leitura propriamente dita dos signos Im-
àqueles dentre os hermeneutas que se Inspiram, não pressos. Ela consiste no fato de que podemos, se nos
diretamente em Nietzsche, mas em Heidegger. Tam- pedirem. resumir o artigo. reagir ao seu conteúdo. co-
bém para eles compreender já é Interpretar. mentá-Io etc. Se essa capacidade vem a faltar. o lei-
Em compensação, a distinção em questão há de tor deve simultaneamente ler o texto e Interpretá-Io.
ser familiar a um leitor de Wittgensteln. Este último, Neste caso. Interpretar quer dizer. como era de se es-
aliás, verá nessa cegueira à diferença entre um ato e perar, formar uma hipótese explicativa a respeito de
uma capacidade do espírito o efeito de uma adesão sua organização. A Interpretação filológlca de um tex-
jamais questionada à filosofia cartesiana da cogitatio. to (assim como a sua Interpretação doutrinal ou her-
Pois é justamente na filosofia cartesiana do espírito menêutica. aquela que visa à aplicação) é uma ati-
que são apagadas as diferenças entre atos, estados vidade Intelectual complexa. que mobiliza Inúmeras
e capacidades, em proveito apenas da consctentto". competências. Nos casos particularmente difíceis, o In-
Será que uma pessoa que lê em seu jornal diário um térprete não hesitará em fazer uso de lápis. se preci-
artigo normalmente redigido em sua língua materna e so coloridos. para assinalar as construções possíveis de
destinado ao grande público realiza com Isso uma uma frase e se decidir a favor de uma delas. Seria ri-
atividade hermenêutica? Será que ela compreende dículo pretender que essas operações complexas es-
ou interpreta? Mas no caso normal, há nessa pessoa tão sempre presentes. mesmo ali onde elas não apa-
apenas uma só atividade, a de ler, no sentido ordiná- recem. nos atos comuns de conversação ou de leitu-
rio e banal da palavra. Não se produz nela um duplo ra.
processo: por um lado, uma atividade de tomar cons- Verificamos facilmente que a rejeição da distinção
ciência dos signos Impressos uns depois dos outros na entre Interpretar e compreender acarreta imediata-
página do jornal e, por outro lado, acompanhando mente o aparecimento desses paradoxos que são o
essa leitura, uma atividade mental de dar um sentido pão cotidiano do "nietzscheanismo". Por exemplo. se-
a esses signos através de uma interpretação. Em com- rá preciso dizer que o autor de um texto é antes o
pensação, esse duplo processo corresponde multo seu primeiro tradutor. e não realmente o seu autor. E
bem, pelo menos numa primeira aproximação, ao também que essa tradução se refere a um original
que se passa no caso da decifração de um texto nu- nunca disponível. sempre Já perdido. sempre já reco-
ma língua que o leitor não domina completamente. berto por novas palavras escritas por cima das outras.
Neste caso, o leitor deve traduzir palavra por palavra Essa filosofia da Interpretação onipresente tem mais
e construir o sentido. O hermeneuta assimila toda uma conseqüência. A mesma distinção que faltou
compreensão do que significa alguma coisa ao traba- quanto ao leitor e ao ouvinte desapareceu também
lho que a maioria de nós deve efetuar para traduzir no que se refere aos locutores. Quando as pessoas se
em nossa língua, por exemplo, alguns poemas escritos expressam sobre o sentido de seus fatos e gestos.
numa língua antiga, que, portanto, não podemos nun- comportam-se como intérpretes de um "texto" que
ca realmente praticar. Em suma, uma leitura pode ser aliás escrevem ao se comportarem como se compor-
feita de uma ou de outra destas seguintes maneiras: t m. Exatamente como os observadores exteriores. de-
quer compreendendo (no caso de um texto não her- cifram signos para Ihes darem soberanamente um
mético redigido numa língua que lemos correntemen- sentido. É. então. a própria noção de um conheci-
ta, como se diz, ou seja, sem parar a cada palavra), mento antropológico que se arruina. Com efeito. já
quer Interpretando. No caso em que compreendemos, não podemos distinguir nos propósitos das pessoas o
que está relacionado com uma compreensão das re-
9. Ver A. KENNY. The Metaphysics of Mind. Oxford University Press. gras (em outras palavras. com uma capacidade de
1989.
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VINCENT DESCOMBES UMA FALSA BOA IDÉIA

as executar corretamente) e o que manifesta de sua 6s-estruturalismo. por sua vez. desqualiflca ao mesmo
parte uma tentativa de Interpretação (referente aos t mpo as explicações indígenas (a "consciência") e as
aspectos de suas vidas que permanecem sendo para xplicações dos cientistas (o "conceito"). Na perspec-
elas obscuros ou estranhos). Se não podemos mais fa- tiva de· um estruturalismo posltlvlsta. os agentes fazem
zer essa distinção, tampouco podemos procurar deter- coisas que têm. efetivamente. sentido. mas eles não
minar o sentido de Instituições humanas. quer. aliás. se têm uma noção correta desse sentido. A significação
trate de nossas Instituições. quer se trate de instituições de seus costumes será achada no sistema reconstituí-
estranhas aos nossos costumes. O conhecimento antro- do pelo cientista. Evidentemente. a filosofia da Inter-
pológico é evidentemente Impossível se não houver pretação opõe-se a um tal positlvlsmo. Nada de fa-
num conjunto de Instituições algo que se compreen- tos. nada mais do que Interpretações. Não existe um
da. algo que possamos chamar o espírito das leis. entido ou um espírito das Instituições. mas há tantas
Descobrir esse espírito seria compreender os princípios significações quantas são as forças que se enfrentam
que governam as regras particulares observadas pelas num combate para se apropriarem do sistema e lhe
pessoas. Mas para que possamos nós mesmos tentar conferirem uma significação dominante. No entanto,
compreender esses princípios. é preciso supor que as tendo renunciado a opor o conceito à consciência. a
pessoas obedeçam a essas regras. e que portanto te- filosofia da Interpretação mantém a separação entre
nham sobre elas um saber compreensivo. Ora. a filo- o sujeito da ação e o sentido de sua ação. O senti-
sofia da Interpretação Interminável deve pôr tudo do do que as pessoas fazem não está mais em estru-
nAum mesr:'0 plano: a compreensão aparente que turas sociais Inacessíveis à consciência. e no entanto'
te~ os indigenas dos costumes Indígenas. a interpreta- essas pessoas continuam sem saber o que fazem e
çao que os teóricos Indígenas podem dar a esses por quê. Só dispõem de Interpretações. que aliás to-
costumes locais, e finalmente as interpretações ou mam por representações verídicas.
teorias que visitantes estrangeiros darão sobre elas en- O pós-estruturalismo prolonga o estruturalismo orto-
quanto não as tiverem compreendido. doxo pelo menos neste ponto: não cabe levar a sé-
Aqui, o "nietzscheanismo" contraiu nos anos 60 uma rio o que as pessoas têm a dizer sobre o que Ihes diz
aliança contrária à natureza com o estruturalismo or- respeito. O que equivale a Ihes retirar a palavra para
todoxo (aliança que devia produzir o que chamam dá-Ia aos especialistas. Ao mesmo tempo. as conse-
nos Estados Unidos de pós-estruturalismo). Uma e outra qüências da hermenêutica nietzscheana não se limi-
escola de pensamento se entendem para achar sus- tam à epistemologia. Elas vão até a política e é pre-
peito o ponto de vista dos sujeitos interessados. Lem- ciso confessar que são detestáveis. Ao falar de "guer-
bremo-n.0s de que o estruturalismo ortodoxo. o do pri- ra das Interpretações". o filósofo faz como se só exis-
meiro Levl-Strauss. desqualificava o ponto de vista In- tisse uma diferença de grau entre um conflito armado
dígena sobre as instituições. Um tal ponto de vista só e um debate público. Nos textos que sofrem a In-
expressava. segundo Lévl-Strauss. uma "incidêncía sub- fluência do "nletzscheanismo". observamos um empre-
jetiva" da estrutura soclol'P, Em termos filosóficos. o es- go abusivo das palavras de sentido carregado. como
truturalismo ortodoxo criticava a consciência em nome violência e terror. Longe de levar a uma maior vigilân-
do conceito. Os Indígenas. explicava ele. só têm teo- cia de nossa parte. o emprego generalizado dessas
rias sobre as suas Instituições. das quais só apreendem
fragmentos ou efeitos. Só o cientista tem acesso ao
todo do sistema e ao seu Iunctoriorne.nto u. Mas o tlcou a posição estruturalista"dura". Admite ter errado em procurar
uma "gênese inconsciente da troca matrimonial"; teria sido preciso
distinguir entre as práticas de troca. que pertencem à ordem do
10.. "Introduction à I'oeuvre de Marcel Mauss".in M. MAUSS.socso- fato. e as regras ideais. portanto conscientes. elaboradas pelo gru-
logle et onthropologie. PUF.1950. p. XXIII. po para controlar essaspráticas; ver La pensée sauvoge. Plon. 1962.
11. Cumpre registrar aqui que o próprio Lévi-Straussmais tarde crt- p. 333.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O MOMENTO FRANC~S DE NIETZSCHE
VINCENT DESCOMBES AS RELAÇÕES DE FORÇAS

noções a torto e a direito tem como efeito banalizá- Vem a seguir um movimento positivo com o objeti-
Ias. Dizem-nos, por exemplo, que toda leitura é inter- vo de tornar possível a decisão prática. Trata-se de
pretativa e, por conseguinte, "violenta". Mas essa ''vio- reencontrar, para além da relativização de toda asser-
lência" da leitura não vai além de uma impossibilida- ção a uma perspectiva, algumas razões de escolher.
de de justificar inteiramente e em todos os pontos Aqui, o "nietzscheanismo" evoca um princípio normati-
certa leitura contra a leitura diferente de um colega. vo - a soberania do Indivíduo - e espera fundamen-
Assim, dirão que o fllólogo que explica um fragmento tar neste princípio, não apenas uma moral pessoal,
de Heráclito faz um "gesto violento" porque terá deci- mas também uma linha de conduta política. No en-
dido que seu texto começava em tal palavra e de- tanto, parece que o "nietzscheanismo" não propõe
via ser lido de tal modo, o que equivale a excluir nada melhor, neste campo, do que as filosofias que
("violentamente") outras leituras possíveis. Com mais for- exprimem um individualismo francês mais clássico. A
te razão, estaremos propensos a descrever um deba- política do "nietzscheanismo" parece resumir-se a um
te público animado como uma guerra civil latente. programa de resistência aos poderes e às autoridades
Mas se há continuidade da controvérsia científica ao estabelecidas. Ora, como muitas vezes observou Ray-
debate público, e deste último à guerra propriamen- mond Aron, a posição alainiana do "cidadão contra
te dita, por que não reconhecer na guerra civil, não os poderes"12 é, enquanto tal, uma posição moral. Co-
a ruína do político, mas sim sua essência mesma e mo posição moral, tem sua dignidade própria, que
sua forma acabada?
não cabe contestar-lhe. Resta que ela é carente de
sentido político. Quero dizer com Isso que ela não
permite empreender a análise política de nenhuma si-
tuação dada. Devemos até dizer que ela representa
uma posição fundamentalmente apolítica e como tal
a única atitude honrosa possível numa situação em
que a vida política se tenha tornado impossível. Se
AS RELAÇÕES DE FORÇAS todos os poderes já estiverem corrompidos, por exem-
plo, depois de uma ocupação estrangeira do país ou
de uma fragmentação do corpo social. o verdadeiro

P odemos representar assim o argumento que de-


fine o "nietzscheanismo". Seu primeiro movimento
civismo consistirá, à falta de meihor, em abster-se de
participar.
é crítico. Generalizando (abusivamente) a noção de Vão objetar-me que os autores nietzscheanos colo-
interpretação, essa fiiosofia consegue arruinar a idéia cam no centro de suas análises as relações de força
admitida segundo a qual uma significação poderia al- ou de poder, ao passo que o idealismo tradicional só
cançar, para além da ortodoxia, a verdade. Conse- conhecia as reiações de saber. Mas desde quando o
qüentemente, o fato de ser o único a ter uma opi- terreno político poderia ser definido peia determina-
nião e o fato de não subscrever as doutrinas "autori- ção das relações de poder? Sem dúvida, o jornalismo
zadas" cessam de ser vividos como desgraças ou fal- político, que está envolvido com o acontecimento
tas. Mais ainda, são os ortodoxos e os partidários da do dia, passa a maior parte do tempo acompanhan-
linha oficial do momento que fazem má figura. De do as transferências de poder. Quem o exerce?
uma maneira geral, a uniformidade de idéias revela Quem o perde e quem o ganha? No entanto, a no-
uma servidão mental da parte das pessoas, mesmo ção de poder, enquanto tal, não é mais política do
se é também o resultado de uma política eficaz de que química ou mecânica. O que é político não é o
controle das mentes através de um "aparelho" ou "dis-
positivo" que administra a verdade.
12. ALAIN. Le citoyen contre les pouvoirs. Gollimord. 1926.
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VINCENT DESCOMBES O MOMENTO FRANCÊS DE NIETZSCHE
O INDIVíDUO SOBERANO

poder sem mais, mas sim a maneira como ele é con-


ferid~: exercido, controlado, legitimado etc. Com as
relaçoes de pod.eres, temos apenas com que construir
a estrutura política, mas ainda falta um princípio. Ou
ainda, para dizê-Io com os termos da escolástica o
pensamento político só encontra no poder seu Obj~to
material. Para termos seu objeto formal, convém expli-
citar o aspecto ou o modo pelo qual esse poder exis-
te, se exerce, é reconhecido ou contestado. Se a re-
o INDiVíDUO SOBERANO
lação de poderes pudesse definir sozinha o terreno
político, seria preciso descrever como política a rela-
ção, no Interior da população de Nova York. entre os
humanos e os ratos. Da mesma forma, a domestica-
U ma filosofia da história consiste numa determina-
ção de um sentido da história a partir de uma
análise conceitual. Em Nietzsche, o conceito que per-
ção do cavalo pelo homem seria um fato político Im- mite pensar a história universal como um processo te-
portante na história. De fato, os esquemas conceituais leológico é o de cultura, entendida como um proces-
aplicados nos textos do "nletzscheanlsmo" francês dão so de adestramento e de seleção que, tendo como
muitas vezes a Impressão de terem sido Inventados material o animal brutal e amoral da pré-hlstórla, mol-
par~ dar conta justamente desse gênero de relações da o Indivíduo soberano da pós-história. "Educar e dis-
e nao para o estudo da vida dos homens em socie- ciplinar um animal que possa fazer promessas, - não
dade. será esta a tarefa paradoxal que a natureza se pro-
A vontade de pensar o terreno político das ações pôs com relação ao homem?"13
human,as. fora de uma filosofia do direito ou da justi- É Instrutivo considerarmos o comentário a esse tex-
ça esta ligada, como se sabe, ao positivlsmo. Pois há to feito por Gilles Deleuze, em seu estudo sobre Nietzs-
positivismo em acreditar que o rigor científico exige, che!", estudo cujo papel determinante desempenhado
da ~arte do observador, uma atitude naturalista, que na gestação do "nietzscheanlsmo" francês é conheci-
consiste em tratar os fatos sociais como coisas despo- do. Um desvio cheio de sentido pode ser notado en-
jadas das significações (antropomórficas) que as pes- tre o texto de Nietzsche sobre a cultura e o partido
soas a eles atribuem enquanto agentes. Seria preciso, que Deleuze dele tira. Na Segunda Dissertação de
portan.to, segundo essa concepção positivista, separar sua Genealogia da Moral, Nletzsche escreve que a
? realidad: das coisas (as relações de poderes) das "moralidade dos costumes" pode ser compreendida
Interpretaçoes subjetivas fornecidas pelos interessados como um simples meio de disciplina, um meio desti-
(invocação das regras de justiça). Seria o "nietzschea- nado a desaparecer quando o fim for atingido. Esse
nismo", afinal de contas, uma inesperada versão do fim, esse "fruto da árvore", é o "indivíduo soberano, o
positivis~o? :or vezes eles se parecem, mas isso por- Indivíduo que só é semelhante a si mesmo, o indiví-
que a filosofia da justiça do "nietzscheanismo" não é duo liberto da moralidade dos costumes, o indivíduo
diretamente expressa. É preciso procurá-Ia onde é autônomo e supra-moral (pois "autônomo" e "moral" se
proposta, Indiretamente, como uma filosofia a prlorl excluem), em suma, o homem de vontade própria, In-
da história. dependente e persistente, o homem que pode
ororneter">. Nietzsche descreve a seguir o homem su-
perior - o homem elevado à perfeição de sua natu-
reza. Se esse homem está liberto da moral. é porque

13. A Genealogia da Moral, 11, 2.


14. Nietzsche et Ia philosophie, PUF, 1962. p. 157.
15. A Genealogia da Moral, 11, 2.
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não mais precisa dela para ter uma ''vontade própria, deveria fazer-nos assistir à autodestrulção da moralida-
independente e persistente". O fim da moralidade é, de. (É lícito achar que essa lógica da história tem um
portanto, forjar uma vontade firme, que não se do- ressaibo dialético, coisa estranha se nos lembrarmos
brará às circunstâncias. O indivíduo é suficientemente de que todo o livro de Deleuze visa a mostrar em
seguro de si, de seu valor e do sentido de sua pala- Nletzsche o antl-Hegel.) Deveria produzir-se uma disso-
vra para prometer, isto é, para responder por si mes- lução da moralidade da Lei em proveito de uma su-
mo. Em outra paiavras, Nietzsche define a superiorida- pra-moralidade da soberania. Se a história realizasse o
de do indivíduo soberano como a forma suprema da fim inerente ao processo de cultura, teríamos este re-
responsabilidade. Podemos ter plena confiança no ho- sultado: "A moralidade dos costumes produz o homem
mem superior quando ele deu sua palavra, pois o po- liberto da lei"17.De fato, prossegue Deleuze, as coisas
der de manter a paiavra nele se tornou uma segun- se passam de maneira diferente. O reativo vence o
da natureza, um instinto. ativo. As igrejas e os estados, que são os instrumentos
Ora, o comentário de Deleuze tira daí uma lição do adestramento, não aceitam morrer. O meio recu-
muito diferente. Para Deleuze, a oposição passa entre sa suprimir-se no final. A história que deveria produzir
o homem moral, logo responsável, e o Indivíduo supe- o indivíduo soberano culmina no homem submisso.
rior liberto da moral, logo irresponsável. A través de "Em vez do Indivíduo soberano como produto da cul-
uma antítese mais verbal do que conceitual, a res- tura, a história nos apresenta seu próprio produto, o
ponsabilidade de si é colocada na classe das coisas homem domesticado, no qual ela encontra o famoso
pesadas, dos fardos que são carregados, enquanto a sentido da hlstório"!".
soberania é posta junto ao leve, ao devlr inocente e, Este diagnóstico proposto por Deleuze é obscuro
portanto, à irresponsabilidade. Deleuze escreve: "O porque registra a limitação da Ideologia Individualista
produto da cultura não é o homem que obedece à na própria linguagem dessa Ideologia. Nota-se aqui
lei, e sim o indivíduo soberano e legisiador que se de- um desvio entre a norma e o fato, entre o Ideal de
fine pela potência sobre si mesmo, sobre o destíno. uma soberania Individual e a experiência incessante
sobre a lei: o livre, o leve, o irresponsável. Em Nietzs- da dependência. Deve-se dizer que a percepção
che, a noção de responsabilidade, mesmo sob sua desse desvio é o ponto mais forte dessa versão do
forma superior, tem o valor limitado de um mero "nietzscheanlsmo". No entanto, a articulação concei-
meio: o indivíduo autônomo não é mais responsável tua I não está à altura do sentimento, aqui expresso,
por suas forças reativas diante da justiça, ele é seu de um desacordo entre as promessas da cultura mo-
senhor, o soberano, o legislador, o autor e o ator. É derna e a experiência de cada um. O que foi pro-
ele que fala, não tem mais de resporvder'": metido é a autonomia do indivíduo. Mas o que se vê
Com base nessa oposição entre um homem sub- todos os dias é, sob muitos aspectos, o Inverso. Nun-
metido à obrigação de responder e um homem liber- ca os membros de uma sociedade foram, de fato,
to dessa obrigação, Deleuze construiu uma filosofia da tão dependentes uns dos outros. Como disse Dur-
história (de que o Anti-Édipo dará, em suma, a versão kheim, a solidariedade tornou-se "orgânica", paradoxal-
completa). A história universal obedece, ou antes de- mente, ao passo que era apenas "mecânica" nas so-
veria obedecer, à lógica do conceito de cultura. Pois ciedades tradicionais, cujos membros não tinham Idéia
o fim da cultura (entendida como disciplina) não po- de que eram Indivíduos. Ora, a dependência recípro-
deria estar na própria cultura. A cultura, que é um ca, longe de figurar entre os Ideais de nossa cultura,
meio, pressupõe que haja um fim. Se a história se de- é considerada um fato que devemos suportar, ou até
senvolvesse em conformidade com essa lógica, ela mesmo como algo de Indigno e de degradante. O

17. Ib .• p. 158.
16. G. DELEUZE. p. 157; os Itólicos estão no texto de Deleuze. 18. to., p. 159.
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indivíduo moderno está, portanto, inexoravelmente di- revlsível e não mais precise ser controlada de fora?
vidido contra si mesmo, já que vai sentir-se perpetua- O t1ue distingue a autonomia Individual de um condl-
mente decaído de seu estatuto humano, ou culpado lonamento perfeito? Sem dúvida, dirão que não era
de não estar ainda liberto. reciso definir a educação moral, ou mesmo a cultu-
A este respeito, a divergência entre o texto de ra, como um adestramento. O objetivo de uma edu-
Nletzsche e o comentário de Deleuze Indica bem o cação não poderia ser reduzido à produção de uma
ponto da dificuldade. Trata-se de saber como deve- conformidade ao código em vigor, nem mesmo des-
mos entender a autonomia humana. O conceito de a conformidade por respeito pela lei de que nos fa-
autonomia é complexo, já que visa a unir a sobera- lam os kantianos. Deleuze não está errado ao querer
nia e a sujeição. Entretanto, as relações do soberano restituir uma espontaneidade ou uma "leveza" ao indi-
e do súdito na autonomia permanecem Inteligíveis en- víduo autônomo. Para falar em termos diferentes (e
quanto estam os na ordem política, que é, evidente- que Deleuze sem dúvida não aceitaria), espera-se de
mente, a terra natal deste conceito. Entende-se que uma educação que ela forme não apenas seres pc::-
um país seja autônomo quando não está englobado liciados ou até súditos dignos de confiança, mas espr-
numa entidade política mais ampla de que receberia ritos capazes de dar provas de julgamento e de In-
as leis. E entende-se que numa democracia as mes- venção em situações moralmente complexas, onde a
mas pessoas sejam alternadamente membros do so- dificuldade não é fazer prevalecer o motivo moral so-
berano e súditos. As dificuldades começam com a bre o motivo imoral, e sim saber exatamente se exis-
noção, favorecida pela difusão do pensamento kan- te uma solução que seja moralmente satisfatória.
tia no, de uma autonomia Individual. Neste caso, onde Há, porém, outra coisa: a autonomia não poderia
estão o soberano e o súdito? Situando a autonomia ser pensada em termos puramente Individuais. Dele~-
na capacidade de responder por si mesmo, Nietzsche ze. ao que parece, quer evitar que a passagem a
procura, sem dúvida, preservar o equilíbrio do concei- supra-moralidade seja apenas a troca da lei exterior
to. Com efeito, não poderia haver soberania sem su- ou transcendente (que corresponde à "moralidade dos
jeição. É uma soberania de brincadeira aquela que costumes") a uma lei interior, imanente, que vigie de
não se exerce sobre ninguém. O indivíduo autônomo, dentro o indivíduo. Essa lei interior é parecida demais
segundo Nietzsche, aquele que mantém a palavra, é com a antiga lei divina para que possamos seriamen-
portanto o súdito de si mesmo, por assim dizer. Nietzs- te falar de autonomia. Se é esse o raciocínio de De-
che não faz então mais do que levar ao limite a ten- leuze sobre este ponto, é difícil não lhe dar razão. A
dência da filosofia alemã de Interíorízar as relações vontade de manter a palavra aconteça o que acon-
constitutivas do ser humano. É no próprio Indivíduo tecer pode ser tão firme quanto quisermos, mas não
que vamos encontrar o legislador e o súdito. A supra- será uma lei que o indivíduo promulgue para seu uso
moralidade não seria então mais do que a moralida- próprio. Aliás, não vemos bem o que é uma lel. se
de Inteiramente Interiorizada, sem obrigações nem não for uma fonte do direito. E a idéia de uma lei
sanções. Em outra linguagem, poderíamos dizer que a que estivesse em vigor sem que houvesse um juiz pa-
ética social (Síttlíchkeít) é Inteiramente absorvida pela ra zelar por sua aplicação e a quem as partes pu-
moralidade pessoal (Moraiitat). dessem apelar parece incoerente. No ..caso da pro-
Todavia, o comentário de Deleuze ressalta o lado messa, não vemos nem lei, nem árbitro, nem juiz. De
esquisito desse conceito de autonomia Individual uma maneira geral, o conceito de Indivíduo humano,
quando a definimos peia responsabilidade diante ape- mesmo "superior", não fornece essa articulação interna
nas de si mesmo. O que distinguirá um homem supe- que permitiria distinguir nele um soberano e ur;' SÚdi,-
rior responsável diante de si mesmo de uma criatura to. Se o mesmo não acontecia na ordem polrtlca, e
tão bem adestrada que se tenha tornado totalmente porque um terceiro termo entrava em jogo, o corpo
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político. Para falar como Rousseau, podemos dizer Iferentes dos do "projeto moderno", mas só uma ou-
que, numa democracia, cada qual é, como cidadão, Ira versão desses princípios. E toda vez que procura-
uma parte do soberano, mas, como Indivíduo com- mos dar a um dos temas nletzscheanos uma forma fi-
pleto, é um súdito submetido à leI. É por Isso que não losófica articulada - quer se trate da crítica da cons-
pOderíamos falar de autonomia no caso do sujeito ciência, da suspeita, da Interpretação Infinita ou da
moral sem sermos levados a dar, admitamos ou não, obre-humanidade -, ficamos desapontados ao reen-
um estatuto transcendente à fonte da leI. Se essa contrarmos esquemas familiares. A crítica da consciên-
fonte é a razão, ela não poderia ser a razão huma- cia não sal da filosofia carteslana do espírito. A tare-
na. ta Infinita da Interpretação não abala em nada a fi-
Por seu lado, a solução proposta por Deleuze não losofia emplrista da linguagem. O Indivíduo superior é
é mais satisfatória. Para eliminar toda sujeição do Indi- Inconcebível fora da filosofia Idealista da autonomia.
víduo superior, ele o alivia do peso de suas responsa- Na ordem filosófica, os nletzscheanos não Introduzem
bilidades. O Indivíduo autônomo é apenas soberano e nenhum princípio novo. Seu vigor é, se assim pode-
legislador. Inevitavelmente, vai colocar-se a questão mos dizer, ad homlnem, meramente dialétlco. Sabe-
d~ s~ber sobre quem reina esse soberano, já que mos, aliás, que o raciocínio ad homlnem é loglca-
nao e sobre si mesmo, e a quem dá leis. Mas já que mente válido, embora Incapaz de estabelecer uma
a interiorização da moralidade dos costumes, ou disci- conclusão. Tudo o que devemos pedir-lhe é que nos
plina coletiva, foi rejeitada, é preciso que essas rela- convide a procurar a premissa que assuma a respon-
ções constitutivas sejam encontradas no exterior. O In- sabilidade dos paradoxos, círculos viciosos e regressões
divíduo autônomo não poderia, portanto, dispensar os ao Infinito em que a crítica nos faz cair. Mas por
Indivíduos heterônomos. Seria soberano o indivíduo quais novos princípios substituir as premissas defeituo-
que conseguisse colocar-se como senhor de pessoas sas, eis aí algo que é preciso pedir a um exame da
dispostas a obedecê-Io. A filosofia que decide errten- coisa mesma, mais do que aos filósofos nietzscheanos.
der a autonomia no sentido da irresponsabllidade cul-
mina na apologia da tirania.

Deste último ponto, pode-se extrair uma conclusão


mais geral. Quando consideramos as expressões mais
filosóficas do "nietzscheanlsmo", encontramos uma In-
terrogação sobre os princípios da filosofia moderna
que nunca sal dos limites dessa filosofia. Alguns auto-
res, como Jürgen Habermas, atribuíram a Nietzsche (e
aos filósofos franceses que nele se Inspiram) o papel
de adversário do espírito dos tempos modernos dentro
do debate filosófico. Isso é confundir Nietzsche e Jo-
seph de Maistre. Sem dúvida, Nietzsche não se cansa
de denunciar a Inconsistência do que ele mesmo
chama de "idéias modernas" (as do seu tempo). Mas
sua crítica não se propõe de modo algum a restaurar
uma ordem tradicional. Querer definir Intelectualmen-
te um "projeto moderno" sem Incluir seu prolongamen-
to nletzscheano é ser Incompleto ou Inconseqüente. A
filosofia do "nietzscheanlsmo" não tem outros princípios
"0 QUE PRECISA SER
-
DEMONSTRADO NAO
VALE GRANDE COISA"
"0 QUE PRECISA SER
DEMONSTRADO
-
NAO
VALE GRANDE COISA"
LUC FERRY e ALAIN RENAUT

A essência das sociedades modernas, como ha-


viam percebido B. Constant e Tocqueville, está
ligada à maneira como o Indivíduo foi nelas progres-
Ivamente se emancipando da tutela das tradições.
Nas sociedades ditas justamente "tradicionais", o peso
as conquistas do passado predeterminava os com-
ortamentos Individuais, limitando por assim dizer a
f rlorl as áreas de livre escolha; pelo contrário, a mo-
dernidade se caracteriza pela decisão de conceber
no presente a definição das normas, através de sua
livre fundamentação pelas vontades Individuais: pelo
menos é assim que as sociedades modernas se repre-
sentam a origem de suas normas, mesmo se essa re-
presentação, com maior freqüência fictícia do que
real, demasiado facilmente desmontada pelas aborda-
gens soc loló qlc os", tem sobretudo, evidentemente,
uma função de legitimação. E a considerar assim
apenas as representações que as sociedades se dão
de si mesmas, como não sermos tentados a opor a
tradição à argumentação, designando de maneira
Ideal-típica, na primeira, a forma antiga e, na outra,
a forma moderna da determinação das normas?
Sem dúvida, ninguém nunca chegará a desenvolver
uma argumentação qualquer sem se inscrever a si
mesmo numa tradição e sem retomar por conta pró-
pria certos tópol, ou até certos valores: resta que o
próprio da modernidade está precisamente ligado à
maneira como o sujeito, mesmo, evidentemente, que
não disponha de uma liberdade absoluta de crIar
suas normas, se reconhece, porém, o direito soberano

1. Deste ponto de vista, antes até das genealogias sociológicas das


normas, as críticas endereça das ao lIuminisrno pelos românticos ale-
mães nem sempre eram. devemos convir, sem fundamento.
POR QUE NÃO SOMOS NIETlSCHEANOS
LUC FERRY e ALAIN RENAUT LUC FERRY e ALAIN RENAUT
"O QUE PRECISA SER DEMONSmADO NÃO VALE GRANDE COISA"

de as submeter a um livre exame e, nesse momento


do exame crítico, se põe e se pensa a si mesmo co- pectlva que diversas filosofias hoje tratam de tematl-
mo o fundamento último da argumentação pela qual lar: só a democracia pode corrigir e regular a d~mo-
as legitima ou as recusos. Na ausência de pontos de cracla - entenda-se: o que a dinâmica democr,atlca
referência tradicionais erodldos pela dinâmica demo- desfez, e para sempre, só a democracia esta em
crática, no Interior de sociedades que já não podem condições de reconstruir (esta é a sua gr~ndeza), Im-
ler o direito em nenhuma transcendência (nem a de perfeitamente e portanto ao Infinito (esta e a sua fra-
uma ordem do mundo, nem a de uma vontade divi- gilidade).
na, nem mesmo a do passado), de que modo real- Podemos, na verdade, ou ser atraídos por essa
mente conceber a fundamentação da norma, a não grandeza ou nos desesperarmos por essa fragilidade.
ser através de um processo de discussão, real ou su- Conform~ predominar uma ou outra dessas ~titudes
posto, entre as partes em questão, que procuram um com relação ao fato democrático, poder-se-ao con-
acordo entre si? Uma vez que, por definição, a nor- ceber duas tentativas filosóficas rigorosamente opostas:
ma vem impor um limite à individualidade, toda nor- por um lado, aprofundar, quanto a seus pre~~postos
matividade requer uma dimensão de exterioridade teóricos ou quanto a suas modalidades praticas, o
com relação às vontades particulares. Era essa exterio- modelo da deliberação argumentada; por outr~ lado,
ridade que os dispositivos culturais anteriores Iam pro- denunciar que nenhuma ética da argumentaçao po-
curar numa tradição cuja autoridade se arraigava em de superar o vazio criado pelo desmoronamento dos
sua suposta conformidade com a palavra divina ou pontos de referência tradicionais, e Inte,rrogar-se sobr~
com a ordem do mundo. Dado que essa figura da as oportunidades de fazer surgir, atraves d,e uma Cri-
exteriorldade foi, em conformidade com a lógica da tica da modernldade democrática, o analoge:> con-
modernidade, progressivamente se esboroando e que temporâneo de um universo tradicional. De. dlve~sas
a exterioridade já não pode ser encontrada em ne- maneiras, Habermas, Apel, Rawls ou outros ainda Ilus-
nhum passado Imemorial capaz de ainda regular as tram hoje a primeira atitude; Maclntyre e os "comunl-
nossas condutas, a norma só pode ser instaurada tarianos" retomaram por conta própria, na esteira de
através dessa superação de si, dessa saída para fora Strauss, a segunda atitude. . 3

de si, desse movimento de transcendência suposto O diante desses dois campos que se delineiam,
ro. ti
pelo fato de buscar por certo em si mesmo argumen- o caso de Nietzsche é de um Interesse todo par, ~u-
tos, "razões", para justificar um ponto de vista, mas "ra- lar para quem deseja se dedicar a_um exa.m~ Crltl~o
zões" suscetíveis de valer também para outrem. E, no da via neo-tradicionallsta. Duas razoes prlnclpols justifi-
fundo, é esso figura inédita da exterioridade, ou seja, cam essa apreciação: ..
de uma exterioridade Interna ou de uma transcendên- - por um lado, a obra de Nietzsc~~ articula explici-
cia na Imanêncla, que exprime, no plano jurídico-po- tamente, de maneira exemplar, a critica da modernl-
lítico, a idéia democrática - ou seja, que os limites dade e a denúncia da fundamentação argumentatl-
impostos aos indivíduos já só podem ser impostos em va das normas: neste sentido, melhor do que as ou-
razão de decisões públicas que tenham envolvido tras, permite apreender tudo o que acarreta, na_alter-
uma dlscussõo e uma argumentação elas próprias pú- nativa entre tradição e argumentação, a rejelçao do
blicas. Em suma, e reencontraremos aqui uma pers- segundo termo; .
- por outro lado e talvez principal~~n_te, .a manei-
ra como Nietzsche realizou essa rejerç oo Ilustra de
2. A este respeito, é com razão que K. O. Apel designa essa bus-
maneira particularmente significativa uma. das princi-
ca argumentativa de uma fundamentação última como Inevilóvel
para nós. mOdernos. mesmo se. mais do que ele o faz. convém pais dificuldades com que se choca esse típo de ten-
que nos interroguemos sobre o estatuto da fundamentação assim
buscada. .
3. Sobre a lógica de clivagem, ver A. RENAULT
e L. SOSOÉ,Philoso-
phie du droit. PUF.1991, Introdução geral.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
'0 QUE PRECISA SER DEMONSTRADO NÃO VALE GRANDE COISA"
LUC FERRY e ALAIN RENAUT
ARGUMENTAÇÃO E DEMOCRACIA

tativa: a rejeição neo-tradicionalista da modernidade


democrática impõe, de fato, procurar - devemos Insis-
tir nisto - o que poderia ser hoje o análogo a um uni-
verso tradicional - efetivamente: o análogo, pois
(Nletzsche o sabe melhor do que ninguém) está ex-
cluído, numa época em que "Deus morreu", que a
tradição possa funcionar de acordo com o mesmo
regime que nas culturas teológicas, onde o que torna ARGUMENTAÇÃO E DEMOCRACIA
"sagrado" o valor da tradição e lhe confere seu po-
der não deixa nunca de estar relacionado com seu
c:
enralzamento na vontade divina ou numa ordem do
mundo que supostamente exprime essa vontade. SI-
O trajeto mais curto para Isolar
crítica conjunta da argumentaçao
s princípios da
e da demo-
tuando a sua reflexão ao mesmo tempo depois da cracia - e portanto da raclonalidade democrática -
"morte de Deus" e depois da descoberta (que lhe é desenvolvida por Nietzsche, não pode deixar de to-
mar como ponto de partida uma fórmula chave, pre-
inseparável) de que o mundo, uma vez "desdlvlnlza-
do", parece desprovido de toda ordem e deve ser sente em O Crepúsculo dos kiotos ("O Caso Sócrates",
§ 5): "O que precisa ser demonstrado para ser acredi-
pensado como "caos" (A Gaia Ciência, § 109),
Nietzsche leva em conta esse fim do universo teológi- tado não vale grande colso'", .
Ao que, como sempre em Nletzsche, s~rla preciso
co e cosmológico, que define em geral o lugar Inte-
lectual e cultural dos Modernos: assim, estamos tratan- juntar uma série de Indicações que participam da
do aqui, por definição e, por assim dizer, em estado mesma convicção - por exemplo, em O Caso Wag-
de épura Oá que Nletzsche é, na filosofia, aquele ner (Epílogo), a sugestão de que tanto a "moral dos
mesmo que declara caducas as fundamentações do Senhores" quanto as "avaliações cristãs" têm sua n_e-
universo tradicional), de um misto muito singuldr de cessidade e constituem "maneira de ver que nao
antimodernlsmo e de mOdernldade, de tradição e de abordamos com argumentos e refutações": assim co-
novidade - e é por Isso que a expressão "neo-tradlclo- mo não se "refuta uma doença dos olhos", "não se
nalismo" parece aqui, até na tensão que nela se ex- refuta o cristianismo", mas simplesmente se combate
prime, perfeitamente apropriada, e evidentemente to- contra ele. Da mesma forma também, no Prefácio a

da a questão se resume em saber o que pode ser, Ecce Homo: "Não refuto os Ideais, contento-me em
ao mesmo tempo quanto à consistência e quanto pôr luvas quando me aproximo deles" - a que fa~
aos efeitos, uma tal "mistura". Porque, mais do que a eco, na terceira parte do mesmo livro, quando se ve
maioria dos representantes do conservadorlsmo mais evoca da a postura de Humano, Demasiado Humano:
corrente, Nletzsche não pode pensar em reatar Inge- "Eu não refuto o Ideal, eu o congelo". Em suma, de
maneira insistente: a recusa da argumentação, tanto
nuamente com a tradição, sua postura neo-conserva-
dora nos permite submeter a opção tradicionalista à em sua forma positiva (a demonstração, o uso_d~
Interrogação mais capaz de testar os seus limites e proves)" quanto em sua forma negativa (a refutaçao).
seus efeitos perversos - a saber: o que pode vir a ser
o análogo moderno da tradição? Deixemosclaro que, nessetipo de fórmula, Nietzsche nã? distingue
de modo algum, contrariamente ao uso atual, demonslraçao e argu-
menta ão mas engloba os dois termos num mesmo opróbno.
5 ver,Çp';r exemplo. Nietzsches Werke, ed. Króner, 2.g seção, t. X,!,
Der Wille zur Macht, § 431: "Colocar a demonstrabllldade (Bew9Is-
barkeit) como condição do valor peSSO'?,1 na virtude significa exata-
mente a dissolução dos Instintos gregos. ã
6. Com a exceção - mas que, exatan;ente, não é uma e;,xceç o :
de que a "feiúra de Sócrates" oonstttulo contra ele u~a Ob!,eçã~
e "quase uma refutação entre os gregos": "O Caso Socrates, § .
"O QUE PRECISA SER DEMONSTRADO NÃO VALE GRANDE COISA"
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
ARGUMENTAÇÃO E DEMOCRACIA
LUC FERRY e ALAIN RENAUT

da vida, as forças reativas (porque através delas a vi-


Com toda evidência, essa desconfiança com relação à da só chega a se afirmar ou, em todo caso, a se
argumentação não pode ser separada, em Nietzsche, conservar em detrimento de uma parte de si mesma)
~e seu questlonamento global da dialética e dos dialé- se inscrevem numa lógica de degenerescêncla.
tICOS.Lembraremos aqui apenas como Informação a Inútil Insistir mais nessa Investido nletzscheana contra
prln:lpal tese defendida em "O Caso Sócrates": "Com a a dialética socrática. No máximo podemos observar
dlaletlca, é ,a plebe que passa a levar a melhor" (§ 5). que ela repercute significativamente no lugar assinala-
Antes de Socrates, os "antigos helenos", no Interior de do aos sofistas: de uma maneira geral, Nietzsche res-
uma so~ledade aristocrática, recusavam os procedimen- salta o que distingue ainda os sofistas do que surge
tos dlaletlcos, na convicção de que o que é grande e com Sócrates, e considera que se a filosofia grega,
nobre se Impõe por si mesmo e não precisa ser argu-
desde Sócrates, é "um sintoma de decadência", onde
mentado: em compensação, o que vai produzir em Só-
"os instintos anti-helênicos assumem a predominância",
crates e seus "doentes" (§ 10) "a hipertrofia da faculda- o sofista, por sua vez, é "ainda Inteiramente helênlco"8;
de lógica" (§ 4) é o projeto, característico de um "oprl- no entanto, porque os sofistas "abordam a primeira
~Ido" marcado por um "ressentimento plebeu", de "se grande crítica da moral", porque "colocam lado a la-
vingar dos aristocratas" (§ 7) deslocando o confronto do a maioria das avaliações morais", "eles dão a en-
para o único terreno em que as diferenças se nlvela- tender que toda moral se justifica dialeticamente" - e,
v~m, aquele onde é preciso, não mais simplesmente nisso, devemos portanto Indicar que, se o sofista ain-
afirmar seu direito, mas demonstrá-Io. Assim, ao passo da é grego, pelo menos constitui "uma forma de tran-
que "em toda parte em que a autoridade ainda é de sição" (Übergangsform): a sofística de fato levanta pe-
bom tom, em toda parte onde não se raciocina, mas la primeira vez questões sobre o sentido da existência,
se comanda, o dialético é uma espécie de polichlnelo" e como tais "os sofistas já estão doentes". Assim se ve-
(§ 5), o "decadente" Sócrates, ao promover a dialétlca rifica que, do ponto de vista de Nietzsche, deveriam
em detrimento de "todos os Instintos dos antigos hele- ser reavaliadas como sintomas de decadência duas
nos", sacralizava o único Instrumento com que éra ca- determinações de nosso universo democrático que es-
paz de obter a vitória: onde se vê em ação, explica taríamos propensos, à primeira vista, a Identificar co-
amavelmente Nietzsche, uma "maldade de raquítico" (§
mo os Indícios de um progresso:
4), que apunhala com a "facada do siloglsmo" tudo o _ a maneira como, por um lado, a dissolução dos
que até então fora a grandeza da Grécla - a tal pon- pontos de referência herdados do passado faz surgir,
to que até deveríamos nos perguntar se Sócrates era para o indivíduo e para a sociedade, uma infinidade
realmente um grego (§ 3)'. de questôes cujas respostas eram óbvias num univer-
Em outras palavras, e utilizando uma distinção cen- so estruturado pelas tradições e que, de fato, nem
tral na obra nietzscheana: dos "antigos helenos" a Só-
mesmo se colocavam;
crotes. a mutação que se realizou reside na passa- _ a maneira como, por outro lado, uma vez aber-
gem das forças ativas, puramente afirmativas, capazes to esse campo de questionamento, se considera que
de Ir, até o fim de si mesmas sem mutilar outras for- toda legitimidade deve continuamente se demonstrar:
ças, as forças reatlvas, que só podem se pôr opondo- da autoridade à argumentação, o que estamos pro-
se a outras forças e tentando negá-Ias. Nos dois ca-
sos, trata-se de formas da "vida" (já que é a vida, co- 8. Ed. Króner. § 427. Igualmente § 428: "A cultura grega dos sofistas
mo vontade de potência, que é força), mas se as originara-se em todos os instintos gregos; ela pertence à cultura da
forças ativas correspondem a uma forma ascendente época de Périciestão necessariamente quanto Platão não lhe per-
tence: ela tem seus precursores em Heróclito. em Dem6crito, nos
tipos científicos da antiga filosofia; encontra sua expressão, por
7. É. preciso lembrar, para melhor sublinhar o que Nietzsche tem exemplo. na alta cultura de Tucídides" (ver também O Crepúsculo
oqut em mente, que o parágrafo 6 se fecha indicando que em to- dos ídolos. "O que Devo aos Antigos". § 2).
do caso "os judeus eram dialéticos".
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
LUC FERRY e ALAIN RENAUT "O QUE PRECISA SER DEMONSTRADO NÃO VALE GRANDE COISA"
ARGUMENTAÇÃO E DEMOCRACIA

pensos a considerar como um processo positivo de


autonomização que se Identifica com a dinâmica da ,
clados que terlorn. ao que par ece " podido
" ' desenco-
modernldade, Nietzsche o percebe como o sinal, atra- rajar um pouco da tentação de se dizer slmp~esmen-
vés da emergência socrátlca do Indivíduo, de um te- te nletzscheano", Crítica da ctêocto", em seguida, ao
mível declínio do Instinto de solidariedade que consti- mesmo tempo porque a ciência é no fundo a herdei-
tuía a coesão e a saúde dos "antigos helenos"9, ra da dlalétlca socrátlca (como questloname~to e
É escusado mostrar aqui em pormenor como, de- rnentoçõo)", que está Intimamente ligada a de-
pois de evidenciar tais sintomas, a denúncia desse ~~~rac/a: a verdade que a ciência planeja estabele-
declínlo leva Nletzsche a uma tripla crítica _ da de- cer pretende-se, com efeito, universal (ela pretende
mocracIa, da cIêncIa e finalmente da mOdernldade, valer para todos, em todos os tempos e I~gares,~' ~
CrítIca da democracia, sem dúvida, como "forma neste sentido exprime o ponto de vista da plebe, ja
degenerada da organização política" (Além do Bem que esse va Io r da verdade que ela reivindica pressu-
_ 14
e do Mal, § 203), onde, justamente porque o que - e recusemos a Infinidade das Interpretaçoes e
tem valor precisa ser demonstrado, a fundamentação poe qu s a essa negação da hermenêutica, neu-
que, graça , 'f ' das
argumentativa das normas implica "o nlvelamento da tralizemos a plural/dade das perspectivas di erencio ,
montanha e do vale erigido em moral" (O Crepúscu- através das quals se exprimem as diferenças ~5,as ~IS-
lo dos Idolos, "Vadiagens Inatuals", § 38), em suma: a tânclas entre os diversos tipos de humanldade,s , ~Ie;n
tirania da igualdade, Tema muito conhecido, mesmo disso, tanto quanto o ressentimento v~lga~, cujo trlun o
se os textos que um exame mais aprofundado dessa a democracia garante, a vontade ctentíüco de ver-
crítica da democracia permitiria redescobrlr nos dei-
xem hoje, por sua violência, um pouco sonhadores so- Nietzsche estabelece uma f'l'moçoo
- -, que
, aqui deixamos
reitos que , d ocracla e socialismo,
bre a maneira como eles não Impediram uma gera- de lado - entre c~l,stlanlsmo, em Nletzsche toda a sua amplitu-
em
ção de nossos filósofos - a dos anos 60 - de fazer 12, A crítica da clencla, assum:ríOdo de sua obra: sobre o período
profissão de nietzscheanismo: assim, ali onde Foucoult, de, como se sabe, no ultimo: mano Demasiado Humano), ver os
anterior (o de Aurora e de V u O ornbes às reediçóes das tradu-
numa célebre entrevista, remetia Sartre ao século XIX pretóctos de p, Raynaud e , esc"e cole ão "Pluriel",
e ao hegelianismo (por causa da referência contínua ções francesas de H, Albert, Hache,' ç T sato § 16: "Só
"ã er O Nascimento da troçie I ,
àdlalética) para reivindicar Nietzsche e sua denúncia 13, Sobre essa flllaç o, v , rnente da visão trágica, ou seja, da
vou falar do adversãrio, mais etml t' isto seu ancestral Sócrates à
desse "homem divinizado com que o século XIX não '" ue é essenctotrnen e o Iml , , d
crencio. q, t' de puissance, trod, francesa cita a,
cessara de sonhor'w, como não sentir hoje certo pra- frente"; ver tambem La VoIon e
d a g
e'nese da ciência é descrita em
53 (111 parte § 126), on e
zer maldoso em lembrar que Nietzsche é também li, p. , ênese da dialética: porque a seguran-
termos que repetem os da g ue "estam os tão longe quanto
aquele que denuncia "o veneno da doutrina dos di- ça do instinto desapareceu, porq do querer" nosso desejo
f ' - o do ser do fazer e ,
reitos iguais para todos" (O Anticristo, § 43) e procla- possível da per eiço d dê cia inaudita", se desenvolveu;
de saber, "sintoma de uma, , eca e~e uerem as raças fortes, as
ma que "um direito é sempre um privilégio", ou que
"a desigualdade dos direitos é a condição necessária
assim, aspiramos "ao contrano d~ ~ o irn de tudo ..," _ em suma:
naturezas vigorosas: ,compreen~e que hoje mostra, isto é a pro-
para que haja direitos" (íb, § 57) 11 - todos eles enun- "Se a ciência é possível sob a orma de defesa e de proteção
va de que todos os instintos elemen t ares

9, Ver La volonté de pUissance, trad, francesa de G, Bianquis, Gal- da vida cessaram de funcionar"'lamação contida no famoso pará-
limard, I, p, 50, Ver também
Aubier-Flammarion,
levou sua felicidade
Le livre du phi/osophe, ed, bilíngüe,
p, 49, § 31: a partir de Sócrates, "cada indivíduo
em consideração j .. .I, Antigamente, não se '0 mundo,
' C"
grafo 374 de Galaó
para n 5,
I::~~U
14, Deste ponto de vista, a proc
' ("Nosso novo
'Inflnlto")
,
segundo a qual
a se tornar Infinito, no sentido de, que
ossibilldade de se prestar a uma mfml-
tratava de indivíduos, e sim de helenos", nõodelhedeP?demOS neo?~~'
da mterpre t aç , aé Pdiretamente dirlgida contra o "precon-
1O, Ver Magazine littéraire, 1 de março de 1968, Igualmente, sem
dúvida, a entrevista de 29 de maio de 1984, em Les nouve/les litté- ceito científico", '" " da ciência, pelo qual ela prolonga
15 Sobre esse carater plebeu d M I § 206' "Que é
raires, 28 de junho - 5 de julho de 1984: "Sou simplesmente ' , I' er Além do Bem e o a , '
nietzscheano", " a dialética socra ico. v , dade plebéia da huma-
um cientista? Em primeiro lugar, uma ~aÇ~e plebéia nem autoritária,
l l , É sem dúvida ao redor dessa temática da igualização dos di- 'd d com as qualidades de uma r , , u

ru a dorntncrdoro.
nem e, , nem segura de sua própria opinião ..,
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
'0 QUE PRECISA SER DEMONSTRADO NÃO VALE GRANDE COISA"
LUC FERRY e ALAIN RENAUT
TRADIÇÃO E ARISTOCRACIA

dade é reatlva, pois rejeita as forças da mentira, da


menor sutileza: "Tudo o que é moderno , ,em
, " geral só
Ilusão e do erro, É sem dúvida nos parágrafos 348 e
poderá servir à posterid,ade como vom~:n~~ excessl-
349 da Gala CiêncIa que a maioria dos Ingredientes
dessa crítica da ciência como solidária às avaliações Apesar do qsued:alps
;~~r:':la;eio°~ae~os é preciso re-
democráticas, portanto à ética da argumentação, se vo e por veze " 'rito de
estruturam da maneira mais Impressionante: o cientis- conh'ecer a essas Inv~:i~:a~le~z~~:~n~~st~u~~uanto
ta, de fato, é descrito como preocupado com provas terem sido capazes dinamismo da cultura demo-
e demonstrações, portanto como "um representante ao fundo das normas, o to da autoridade para
da Idéia democrática", Já que "nada é mais demo- crática, ou seja, o deslocamen a necessidade da ar-
crático do que a lógica", que "não faz distinção de a argumen_tação, Paras;~;:;~; ~~e obrigados, citamos
pessoas e põe os narizes curvos no mesmo saco que gumentaçao a que , e ula de Hegel, tirada de seus
de bom grado a form d
os retos" - alusão de gosto medíocre que Nietzsche
PrincípIos da Filosofia do DIreito: "Od~rl~~~:o aC~it:uS:
não hesita, porém, em explicitar: "Os judeus, influen-
d oderno exige que o que ca
credos pelo tipo de negócios e pelo passado de sua o m I 'ti o" Deste ponto de vista, o
nação, esperam tudo, menos que acreditemos neles: lhe apresente como egl rno:'. bservé 10 é Igual-
N' t che cumpre o serva- r
examinem a este respeito os seus cientistas; todos eles diagnóstico de le zs , o se os sinais estão troca-
têm em alta conta a lógica, ou seja, a arte de forçar mente justo e preciso, mesm , I'dade democrá-
- d "o sobre a raciona I
a aprovação através de razões; sabem que fatalmen- dos: Inversao ~ JUIZ ito evidentemente, a se Interro-
te vencerão com ela, mesmo se esbarrarem em re-
pugnâncias étnicas ou sociais e se só a contragosto
tica que o obnga, n:
u
d de produzir uma alternatl-
gar ,SObi~~~~j~p~~t~~~~~ ;: Interpreta como um sinal
qUiserem acreditar neles",
~~ ~~~adêncla, Ora, ~obreo e~~: ::e~x~~d~ :o~~~o~e~
empreendimento nletzsc ean _
De Sócrates e Platão, pseudo-gregos "judalzaf')tes",
de levantar muitas interrogaçoes,
ao cientista Judeu moderno, trata-se, para Nietzsche,
de uma mesma doença que teria estendido seus es-
tragos, a ponto dessa denúncia da raclonalidade
científico-democrática poder terminar como uma críti-
ca da mOdernidade,
CrítIca da modernidade - este é, aliás, o título de
um dos últimos parágrafos do Crepúsculo dos ídolos
("Vadiagens inatuais", § 39), e sob esse título toda
uma parte da obra de Nietzsche se deixaria faci/men-
TRADiÇÃO E ARISTOCRACIA
te reunir, Porque a dialética Socrática lhe parece ter
atingido seu acabamento no culto moderno da ra-
zão, porque a preocupação "vulgar" de neutralizar as
distâncias, transmitida por Sócrates à modernidade por
Mesmo se,
a, primeira vista, a referência aos va-
lores da tradição pode se mostr~r ~~ ;o~a
irlto de uma obra atravessa a
I d pta-
a

intermédio do cristianismo, teria sido levada ao seu da ao espu a vontade de romper com uma dege-
cúmulo por Rousseau, pelas declarações dos direitos ponta por um rnllerior!" não ficaremos, po-
nerescêncla duas vezes d~scobrir em Nietzsche,
humanos, depois pelo socialismo, Nietzsche só podia
rérn, inteiramente ~:~:s~~ aUoniversotradicional: como
fazer profissão de um antimodernismo radical _ sobre
de fato, certa sau _ s normas
cujas ramificações não nos estenderemos, mas cUJa a crítica da dialetlzação da relaçao com a
veemência deve ser sublinhada, mesmo que só atra-
vés desta apreciação deliberadamente desprovida da -------. ,
16 É por isso, alias, .
repetimos, q ue Nietzsche é menos conservador
d~ que propriamente neo-conservador.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
'0 QUE PRECISA SER DEMONSTRADO NÃO VALE GRANDE COISA"
LUC FERRY e ALAIN RENAUT
TRADIÇÃO E ARISTOCRACIA

não Incitaria, de fato, a valorizar retrospectivamente


Crepúsculo dos {dolos ("Vadiagens Inatuais", § 47): "Tu-
ou até a Idealizar, essa tradição que a mania socrá~
do o que é bom é herança, o que não foi herdado
tlca da argumentação supostamente sabotou? Limite-
mo-nos a assinalar alguns Indícios dessa saudade. é Imperfeito, não passa de um começo ...", onde t:,r-
E notemos, em primeiro lugar, que Nietzsche se re-
namos a encontrar o primado concedido à Inscriçao
fere expressamente ao valor da tradição para desig- numa tradição ou numa filiação, isso contra a preten-
são Oá "moderna") de Sócrates a fundar ou Inaugurar
nar o que se perdeu com Sócrates: os filósofos gregos
(a partir de Sócrates) foram "os decadentes do hele- valores. Significaria Isso, porém, que N/etzsche esteja
nlsmo, o movimento de oposição contra o antigo gos- considerando realmente a recriação, se é que a pers-
to nobre - contra o Instinto agonal, contra a Polls, pectiva disso possa mesmo ser considerada, ~e um
universo tradicional onde as normas fossem assim pu-
contra o valor da raça, contra a autoridade da tradi-
ra e simplesmente "herdadas"? É neste ponto p~eciso
ção" (O Crepúsculo dos Idolos, "O que devo aos An-
tigOs", § 3) - expllcltação límplda dessa noção de "au- que a sua posição se torna mais sutil e m<:/s delicada
de se captar, tanto é verdade que ela nao se delx~
toridade" que "O Caso Sócrates" opõe à racloclnação
reduzir unilateralmente a um esforço por tornar a por
dialética. Da mesma forma, podemos ler em O Livro
em cena, contra a prática socrática da argumenta-
do Filósofo (§ 194): "O helenlsmo arcaico manifestou
ção, a submissão dos "antigos helenos" à herança de
suas forças na sérIe de seus filósofos. Com Sócrates se
Interrompe essa manifestação: ele procura produzIr-se uma tradição.
Ao lermos Humano, Demasiado Humano, encontra-
a sI mesmo e repudiar toda tradição (Tradffion, no ori-
ginal alemão)". mos de fato um aforismo desconcertante (I, 552): "C:
único direito do homem. - Quem se afasta da tradi-
Texto também ele Inequívoco, Imediatamente Corro-
borado pela Indicação (§ 196) de que Sócrates, des- ção é vítima da exceção: quem permanece na tradi-
truindo "a Ingenuidade do julgamento ético", "arrancou ção é seu escravo. Nos dois casos, caminhamos para
a nossa perda".
o indivíduo de seu liame histórico (historischen' Ver-
Enunciado curioso, difícil, como tantas vezes acon-
band)": a dialetização argumentativa da relação com
tece em Nletzsche, de Interpretar com certeza. P~'O
as normas acha-se assim Inscrita num processo global
menos, cumpre convir que ele nos convida a_ relottvl-
que visa à autoprodução ou à auto-afirmação do su-
zar uma valorização nletzscheana da tradlçao cuja
jeito, portanto à sua autonomização com relação a
realidade, porém, é confirmada pela prim.ei.ra v~rten-
toda inscrição numa tradição - percebendo perfeita-
mente Nietzsche, portanto, que estreita relação se es- te do aforismo; o que é mais, essa relatlvlz~çao s~
tabelece entre a irrupção dos valores da subjetivida- opera, ao que parece, em nome de uma Idel~ ~~ li-
de e a recusa da tradIção como pr/ncípl017. berdade como autonomia cujo aparecimento blstórlco
sabemos ser inscrito com Insistência por Nletzsche nu-
Para fechar este rápido mapeamento, acrescenta-
remos que, quando Nietzsche passa da mera narrati- ma lógica de decadência: como se essa crítica da

va da decadência a um propósito deliberadamente idéia de liberdade não excluísse que, uma vez surgld~
normativo, esta valorização da tradição está igual- a idéia, alguma coisa dela deva ser conservada,. ate
mente presente, como neste enunciado lapidar do nas tentativas de procurar uma alternativa ao umver-
o decadente de que ela é solidária (é por iss:, que
Nietzsche, de resto tão severo para com a noçao de
17. Simplesmente situa ele o surgimento da Idéia de sujeito e por-
tanto da filosofia da consciência antes da mOdernidade, já que "direitos humanos", se veria obrigado a consagrar co-
mesmo se atribui aos MOdernos,desde Descartes e a filosofia oo mo "único direito do homem" aquele que consiste,
cogito. a radicalização do processo, pelo menos é a Sócrates que
atnb~' .0 sua Inauguração: ver, principalmente, O Nascimento da
para o indivíduo, em não dissolver '~tegr~'~ente a
Trogédlo, § 13-14 (o aparecimento da consciência como condição sua liberdade na adesão mecânica Q trcidlç ôo).
da Virtude).
Evidentemente, está fora de questão fundamentar
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS "O QUE PRECISA SER DEMONSTRADO NÃO VALE GRANDE COISA"
LUC FERRY e ALAIN RENAUT TRADiÇÃO E ARISTOCRACIA

qualquer Interpretação num texto tão enigmático, pro- texto como este: "Como remato o fatalismo: 1) pelo
pício a favorecer, da parte do Intérprete, as proje- Eterno Retorno e a pré-exlstêncla; 2) pela eliminação
ções. De resto, essas linhas emanam do momento da do conceito do "querer"!".
trajetória nletzscheana em que (tanto em Humano, Para falar claramente: 1) a doutrina do Eterno Re-
Demasiado Humano como em Aurora) certa proximi- torno é efetivamente "a forma suprema do fatalis-
dade do espírito do lIumlnlsmo foi provisoriamente mo"!". já que implica que tudo o que ocorre já ocor-
reencontrada, e o que assim se exprime poderia, por- reu um número Infinito de vezes e ocorrerá de novo,
tanto, não abarcar as teses últimas de Nietzsche sobre exatamente Igual, uma infinidade de vezes: ela exclui,
a alternativa que nos preocupa: tradição ou argu- portanto, a possibilidade de um "começo" radicaFo; 2)
mentação? Seria, porém, Imprudente não Integrarmos neste sentido, ela Implica a "eliminação do conceito
em nossas análises a advertência constituída por esse de querer", já que a liberdade da vontade, Ing~edien-
aforismo e não extrairmos dele um convite a nos per- te da mitologia Inerente à idéia de "sujeito", so teria
guntarmos se a relação mantida por Nietzsche com o sentido como capacidade de inaugurar radicalmente
universo tradicional não é, para além da saudade uma série de acontecimentos - o que é proibido pe-
que esse universo lhe Inspira, ainda mais complexa do lo pensamento do Eterno Retorno. Ora, evidentemen-
que parece. te, numa tal perspectiva em que, como nos advertiu
Relação complexa, pois, de fato, Nietzsche exclui o demônio do parágrafo § 341 da Gaia Ciência, pre-
que a resposta à modernldade consista na vontade cisamos aprender a aceitar "recomeçar sem parar" o
de produzir um retorno puro e simples a uma fase mesmo percurso, "sem nada de novo", "na mesma or-
pré-moderna do destino da humanidade. Para nos dem, segundo a mesma Impledosa sucessão", o pro-
convencermos disso, basta reportarmo-nos, por exem- jeto voluntarista de anular qualquer uma das fases do
plo, ao texto do Crepúsculo dos lciotos ("Vadiagens devir seria carente de qualquer significação: se o que
inatuais", § 43) significativamente Intitulado: Para ser di- foi deve voltar, se a Grécia de antes de Sócrates,
to ao ouvido dos conservadores - pois, justamente, a porque pertence ao nosso passado, está destinada a
advertência de Nletzsche aos "conservadores" "é que se reinscrever em nosso futuro, não poderia ser em ra-
um regresso, uma volta para trás, quaisquer que se- zão de nossa vontade de regressar a ele; muito pelo
jam o sentido e o grau, não é absolutamente conce- contrário, é através do prosseguimento e da realiza-
bível": só podemos "avançar passo a passo na deca- ção do que surgiu (no caso, a raciona lida de d~~O-
dência", ou seja, deixar realizar-se o "progresso moder- crática dos Modernos) que aparecerão as condlçoes
no", eventualmente "atrapalhando essa evolução", mas de um "reinício". Por conseguinte, nem o "conservado-
estaria fora de questão "se transformar em carangue- rismo" stricto sensu, nem aquilo a que Nietzsche visa
jo" e praticar a "marcha à ré". Posição que, com re- sob esse nome, ou seja, de fato, o espírito de "rea-
lação ao advento da racionalidade democrática, ção", animado pela vontade, um de petrifi~ar, o ~evir,
evoca, mutatis mutandis, a de Tocquevllle: o que quer outro de anulá-Io andando de marcha a re, ainda
que pensemos do que ali se realiza (e Nietzsche é não entenderam o verdadeiro sentido do presente ou
ainda muito mais severo do que Tocqueville para do Instante - ou seja, que este presente "arrasta atrás
com o "progresso moderno"), resta que o processo é de si todas as coisas futuras"21.
Irreversível, que há como que certas "conquistas" da Com Isso deveria esclarecer-se quão complexa é a
modernidade, com as quais será preciso contar de
agora em diante. Toda uma análise poderia ser feita 18. La volonté de puissance, trad. francesa de G. Blanquis, IV par-
aqui para determinar o que leva Nietzsche a essa re- te, § 28.
presentação da história como destino - cuja chave, li- 19. Ib., 11parte, § 319.

mitemo-nos a indicar, se encontra sem dúvida num 20. Ib., 11parte, § 329.
21. Ib., IV parte, § 636.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS .0 QUE PRECISA SER DEMONSTRADO NÃO VALE GRANDE COISA"

LUC FERRY e ALAIN RENAUT TRADIÇÃO E ARISTOCRACIA

relação de Nletzsche com o universo tradicional: cado", sem tensões Internas - a ponto de, não hesita
- por certo, os valores que reivindica contra a ra- em sugerir O Livro do Filósofo (§ 199), "eles nos rego-
clonalidade democrática, contra a ética da argumen- ZiJarem como nos regozija a vida dos animais", Simples
tação, fazem lembrar singularmente as sociedades es- e sadios, e quase simplórios de tanto exprimirem a
truturadas pela tradição: Isto é verdade, particular- saúde e a ausência de dilaceramento, os antigos he-
mente, quanto a este componente essencial do uni- lenos só podiam representar um tipo de humanidade
verso tradicional que é o princípio, Intrinsecamente an- frágil. Incapazes de superarem. Integrando-as, as
tlmoderno, da hierarquia - do qual sabemos o lugar ameaças que as perguntas de Sócrates fariam pesar
que Nletzsche lhe concede na definição do Ideal aris- sobre sua simplicidade: porque praticavam a virtude
tocrático que opõe à democracia moderno=, e Isto "sem se perguntarem por quê'025.eles se condenavam
até a mais exagerada provoccrçôo=: a ser confundidos e, finalmente. varridos peio talento
- no entanto, descobriremos sem dificuldades, no do dlalétlco, para quem seria fácil "rir da falta de jei-
corpus nletzscheano, uma série de textos que introdu- to e da Incapacidade desses nobres atenlenses, ho-
zem francas reservas com relação aos "antigos hele- mens Instintivos como todos os aristocratas, e que nun-
nos", cujas virtudes são, porém, descritas como protó- ca sabiam explicar suficientemente os motivos de suas
tipos do universo que Sócrates arruinou: com certeza, ações" (Além do Bem e do Mal, § 191).
os grandes helenos são (por oposição ao plebeu Só- Nestas condições, uma vez que a Interrogação e a
crates) aristo.cratas, mas sua aristocracia puramente dúvida vieram substituir a autoridade, provocando o
"instintiva" é "nativa" (ou "natural"), ao mesmo tempo desmoronamento do universo aristocrático da tradição,
que "lngênua"24 - no sentido dessa "Ingenuidade do não caberia reencontrar a simplicidade Ingênua dos he-
julgamento ético" que Sócrates destruiu (O Livro do FI- lenos: a partir do momento que se abre o espaço da
lósofo, § 196). Em outras palavras: os helenos eram es- discussão e da argumentação, desaparece a esponta-
pontânea e totalmente nobres, de uma nobreza mo- neidade quase animal com que os aristocratas nativos
ral que, "por seu caráter de totalidade e de slrnplicl- aderiam a uma tradição que Ihes estava como que In-
dade", nos fornece uma Imagem do "homem simplifi- corporada, e se Instala a anarquia entre Instintos que já
não estão, por si mesmos, coordenados uns aos outros
22. A este respeito também, é singular que o "pensamento 68", numa bela e imediata totalidade. Assim. já não se po-
acreditando dever encontrar em Nietzsche uma de suas principais de, agora, voltar atrás para restabelecer, em sua forma
inspirações,nunca tenha parecido realmente embaraçado com de- arcaica, a autoridade absoluta de uma tradição que
clarações de Intenção como esta: "Neste século de sufrágio univer-
sal, onde cada qual se sente autorizado a julgar a todos e sobre doravante seria vivida como uma escravidão por um ti-
tudo, sinto-me obrigado a restaurar a hierarquia" (ib.. lil parte, § 632 po de humanidade em que se desenvolveu a faculda-
- ver também § 726-728 e IV parte, § 15); igualmente, Além do de de se Interrogar e de "se perguntar por quê". Por
Bem e do Mal, § 257-258.
23. Pensamos nos numerosos textos que, contra a idéia moderna
essa razão, dois caminhos, pelo menos retrospectiva-
da Igualdade dos direitos, defendem expressamente a escravidão: mente ou em oporêncto". se abriam.
ver, por exemplo, Além do Bem e do Mal, § 239 (a escravidão, O caminho socrático. o do ascetísmo. devia consls-
"condição de toda civilização superior'');A Vontade de Potência, IV,
§ 322: "Se é verdade que os gregos morreram pela escravidão, é
bem mais certo ainda que morreremos por não termos mais escra- 5. Ib .. I parte, § 71.
vidão; ela nunca escandalizou ou horrorizou os primeiros cristãos, 26. Pelo menos aparentemente - pois se refletirmos essa situação
nem os germanos. Que consolo para nós pensarmos no servo da o ponto de vista de um ''fatalismo extremo", nenhuma opção ver-
Idade Média, com as relações legais e morais tão vigorosas e tão dadeira era- de fato oferecida à ·vontade": o caminho onde vai
delicadas que o uniam a seu senhor, na estreitezatão rica de sen- abismor-se Sócrates,o da decadência, era ele mesmo um momen-
tido de sua existência limitadal Que consolo - e que repreensão!" to inevitável de nosso destino - o que Nietzsche não se cansa de
Igualmente, § 326: "Não se deve abolir a escravidão, ela é neces- sugerir, Insistindosobre a maneira como a decadên;:la. é um fe~ô-
sária. Devemos apenas zelar para que surjam homens poro os quais meno necessário à vida (como vontade de potencla, ou seja,
se trabalharó ..... como "essência mais íntima do ser"). Ver, por exemplo, A Vontade
24. A Vontade de Potência, IV, § 425. de Potência, 11 parte, § 26: "Em minha primeira parte, será preciso
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS "O QUE PRECISA SER DEMONSTRADO NÃO VALE GRANDE COISA"
LUC FERRY e ALAIN RENAUT TRADiÇÃO E ARISTOCRACIA

tlr, diante da anarquia das forças intelectuais em con- desejos violentos", em suma: um domínio de si que é
flito, em suprimir todos os Instintos, submetendo-os à sinônimo, ao mesmo tempo que de uma Intensifica-
razão e à tirania da verdade: gesto radical que rati- ção da vida, de seu "embelezamento". E de fato, é
fica a Invenção platônica do mundo Inteligível. mas nos princípIos de uma tal h/erarqulzação harmonIosa,
consiste em mutilar certas forças (as do sensível) em que Impõe aos Instintosque se estruturem numa nova
nome de outras forças (as do Inteligível). Neste sentl- totalidade bem ordenada, que deverIa esboçar-se,
~o, o caminho socrátlco da argumentação é reottvo, para uma nova arIstocracIa, menos espontãnea, mas
ja que certas forças são sacrlflcadas a outras, e, Impli- também menos anImal do que a dos "antigos hele-
cando uma diminuição do quantum global de força, nos", o análogo moderno (ou antes pós-moderno) de
Inaugura uma forma decadente da vida (uma forma uma tradição.
mórbida da vontade de potência), que transparece
na feiúra de Sócrates.
*
O outro caminho em que pensa Nletzsche e que
constitui seu verdadeiro Ideal consistiria, não em muti- A posiçoo nietzscheana, se for esse, tanto quanto
lar as forças, mas em saber hlerarquizá-Ias. Se a dla- podemos pretender apreender sua consistência, seu
lética socrátlca é o protótipo da reação que mutila conteúdo próprio no debate entre ética da argumen-
os Instintos, portanto do ascetlsmo, a feliz hlerarqulza- tação e ética da tradição, não pode deixar de pro-
ção dos instintos corresponde ao que Nletzsche cha- vocar hoje, ao menos, duas séries de Interrogações.
ma de "grande estilo" e define nestes termos: "Asse- 1) Como não nos espantarmos, em primeiro lugar,
nhorear-se do caos Interior, forçar seu próprio caos In- com o que tem de singularmente dialétlco, no sentido
terior a tomar forma; agir de maneira lógica, simples, hegellano do termo, a lógica da seqüência constituí-
categórica, matemática, fazer-se let27. da pelos "antigos helenos", a modernldade (tal como
Não analisaremos mais esse tema bem conhecido, ela surgiria em Sócrates), e depois a pós-modernidade
e tampouco voltaremos a tratar aqui do que aparen- do "grande estilo"? Como não ver, com efeito, na
ta o "grande estilo" e o classicism028: simplesmente é reação socrático-moderna o momento do negativo, e
claro que para Nietzsche só uma tal hierarquização na recomposição consciente e refletida de uma aris-
dos instintos, Integrando todas as forças da vida, inclu- tocracia a realização de uma Aufhebung que absor-
sive (uma vez surgldas) as da razão e da lógica, fa- ve a oposição entre os helenos e Sócrates (entre a
ria realmente escapar à atitude "reativa" Inaugurada ação e a reação) no advento de um terceiro termo
por Sócrates; pois se as forças reativas são aquelas que integra o momento da consciência e da racio-
que não podem afirmar-se sem negar outras forças, nalidade29, e portanto ultrapassa, ao mesmo tempo
uma crítica da dialétlca argumentatlva e, de um mo- que o ascetismo mutilante, a espontaneidade animal
do mais geral. da raclonalidade democrática, que da origem? Observação que levanta multas questões
consistisse em eliminar essa raclonalidade e a força internas à exegese nietzscheana: a questão histórica,
que ela representa, permaneceria cativa da atitude que diz respeito às relações complexas e paradoxais
reatlva, portanto debilitada e geradora de feiúra. Pe- entre Hegel e Nletzsche; mas sobretudo a questão de
lo contrário, a hlerarquização de todas as forças da aber como uma lógica dialética, que implica a idéia
vida supõe uma "vontade vitoriosa", uma "coordena-
ção mais Intensa", uma "harmonização de todos os 29. Como prova. se ainda fosse preciso. a maneira como O Cre-
púsculo dos íde/os ("A moral enquanto manifestação contra a natu-
reza". § 3) insisteno fato de que a verdadeira "esplritualização"que
ressaltar a decadência e sua necessidade". "vence o cristianismo"é a que "consiste em compreender profunda-
27. Ib .• IV parte. § 450.
mente o interesseque existe em ter inimigos":"A igreja sempre quis
28. Ver L. FERRY. Homo aestheticus. L'invention du gout à râge dé- a aniquilação de seus inimigos; nós outros. imoralistase anticristãos,
mocrattque, Grasset. col. "Le collage de philosophie". p. 246 SS. preferimos que a Igreja subsista..."
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS 'O QUE PRECISA SER DEMONSTRADO NÃO VALE GRANDE COISA"
LUC FERRY e ALAIN RENAUT TRADiÇÃO E ARISTOCRACIA

de progresso, pode Integrar-se num modelo que, como De Nletzsche, toda uma corrente de nossa vida In-
o do Eterno Retorno, nega por definição uma tal Idéia. telectual recente acreditou dever reter que não po-
2) Mesmo se aceitarmos deixar de lado essa primei- deríamos escapar às Insuficiências da modernldade
ra série de Interrogações, revela-se então que a prin- sem recusar essa lógica da argumentação racional
cipal dificuldade do tipo de posição elaborada por m que, rompendo com o universo tradicionaL a
Nletzsche está ligada à curiosa mistura de tradição e consciência moderna optara por se Inscrever: pude-
de modernldade que o caracteriza e de que com- mos assim acreditar que abrir caminho para uma pós-
preendemos melhor agora, senão a fórmula, pelo me- modernldade era antes de tudo subtrair as diferenças
nos as razões de ser. Se entendemos sem dificuldade e sua riqueza à tirania nlveladora da Identidade (e
que uma revalorlzação do que eram as sociedades do princípio de Identidade). Menos seduzlda pela éti-
tradicionais não possa mais colocar totalmente entre ca da convicção do que pela ética da responsabili-
parênteses, hoje, esses valores da consciência, da dade, nossa geração filosófica é sobretudo a que Já
maestria ou da reflexão (em suma, da outonornlos'') não pode se esquecer de que o ódio à argumenta-
que os Modernos desenvolveram plenamente, como ção tem de fato como principal significação o retor-
conciliar esse "momento" de modernldade com o no da autoridade: assim, talvez tenha chegado a
que, de resto, a denúncia da raclonalidade democrá- hora de perceber que, não querendo distinguir entre
tica Impõe retomar dos Antigos - ou seja, principal- o espaço público da argumentação e o espaço me-
mente, neste caso, o culto da hierarquia natural? In- diático da performance, denunciando o primeiro em
dependentemente até da questão de saber se uma nome do segundo, abrimos caminho a uma gestão
tal mistura de modernidade e de tradição, onde mui- dos conflitos que corre o risco de passar a só confiar
tos trabalhos contemporâneos vêem a fórmula Intelec- sua solução a uma única operação - aquela que
tual que define o tosclsmo", é verdadeiramente dese- consiste em alinhar divisões, de uma e de outra parte.
[óvel, é lícito nos perguntarmos se essa mistura é sim-
plesmente possível - mais exatamente: se a Integra-
ção do que a modernldade conquistou não obriga a
romper para sempre com a eventual herança dos
Antigos. Neste caso, o tradlclonallsmo se tornaria,' no
fundo, mais trágico do que propriamente reacionário
- enquanto a tradição seria nele percebida mais co-
mo um valor Irremediavelmente perdido do que como
um pólo para o qual se trataria de voltar, mesmo
parcialmente. Essa tonalidade trágica, que nem sem-
pre está ausente do propósito de Nietzsche, confere-
lhe uma Inegável grandeza: será lícito dizer que ela
sublinha também os seus limites - como talvez subli-
nhe, ainda mais cruelmente, os limites do que pôde
representar na filosofia, durante estas últimas décadas,
a opção nletzscheana?

30. Na definição do "grande estilo' que citamos. Nletzsche não con-


vida o futuro aristocrata a "se fazer leP'?
31. Ver principalmente L. DUMONT.Essais sur /'indivldua/isme. Ed. du
Seuli. 1983. p. 132 ss: "A doença totalitária. Individualismo e racismo
em Adolf Hitler".
,
A METAFISICA
NIETZSCHEANA DA VIDA
,
A METAFISICA
NIETZSCHEANA DA VIDA
ROBERT LEGROS

M ostrar o enralzamento terrestre dos Ideais apa-


rentemente mais celestes, mas também sugerir
a vacuidade da distinção entre o terrestre e o celes-
te; interpretar os valores como signos de forças subter-
râneas, mas também rejeitar toda Interpretação que
se pretenda única; revelar os Interesses ocultados pe-
las proclamações ediflcantes, mas também questionar
toda revelação que se pretenda última; desvelar as
causas dissimuladas por nossas certezas, mas também
recusar toda causa que se apresente como primeira.
Este é o duplo caminho que Nietzsche não se cansa
de seguir: por um lado, desmistiflcar e, para tanto,
mostrar, demonstrar, desmontar, explicar, revelar e, por
outro lado, mas Indissoclavelmente, tornar sensível a
uma ausência de fundamento, a uma Incompreensibl-
lidade prlncipial do mundo, ao abismo sobre o qual
repousa toda avaliação. Para expriml-Io à sua manei-
ra: fazer caírem os véus, mas à maneira do artista, is-
to é, dirigindo "um olhar maravilhado ao que ainda
permanece velado depois do desvelamento" (O Nas-
cimento do Tragédia, 15). O que equivale a dizer: tra-
zer à luz do dia, mas deixando vir o noite. Iluminar,
mas criando uma abertura que deixe entrever inson-
dáveis cavernas.
Se assim for, se Nietzsche é ao mesmo tempo um
desmlstificador (aquele que abate os ídolos) e um
"genealogista" (aquele que sabe que nunca se chega
a uma origem primeira), se associa o manejo do mar-
telo com a arte da "transmutação", a crítica com
uma interrogação infinita, então não há dúvida de
que seu procedimento ambíguo responde às exigên-
cias que estão no centro mesmo da filosofia - pelo
menos da filosofia que não se deixa invadir pela ati-
tude contemplativa, teórica, explicativa, ou seja, pela
"monstruosa Insuficiência de toda disposição mística"
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS ROBERT LEGROS
ROBERT LEGROS A METAFíSICA NIETZSCHEANA DA VIDA

(ib., 13). Não há dúvida, mais precisamente, de que ganlsmo, a vida) e o não-físico (as manifestações su-
ele radlcalize as exigências que estão no centro da fi- perficiais sob a forma do pensamento consciente). Por
losofia ou antes, para dizê-Io como ele, que estão no um lado, uma crítica radical da metafísica - do pen-
nascimento da filosofia: que vêm à luz quando o samento que trata de separar o que é da ordem da
pensador ainda é "flslologlsta" e "artista", quando ain- substância, o que permanece uno e Idêntico a si
da não sucumbiu à visão de um além-mundo erlgldo mesmo, e o que é da ordem do acidental, do deri-
em mundo-verdade. Hegel se divertia dizendo que to- vado, do múltiplo, do que não pára de diferir. Mas,
do filósofo é Inicialmente splnozlsta. Se fosse preciso por outro lado, um pensamento que trata de revelar
retomar a fórmula hoje - mais vale, porém, não recor- uma mesma origem terrestre, um mesmo fundamento
rer às fórmulas, a não ser à maneira de Hegel, por humano (demasiado humano), uma mesma base vi-
ironia - poderíamos afirmar que todo filósofo é inicial- tal, orgânica, pulsional que subsiste sob a diversidade
mente nietzscheano. Como um filósofo não seria dos Ideais e subjaz à multipllcidade das culturas. Por
nietzscheano quando toda a filosofia de Nietzsche se um lado, uma crítica radical da metafísica - do pen-
esforça por radicalizar as duas exigências que estão samento que trata de separar o autêntico do Inau-
no próprio nascimento da filosofia: criticar as evidên- têntlco, o puro do Impuro, o sujeito como eu autôno-
cias que recobrem o mundo e atiçar através da cria- mo, como consciência soberana, e o homem aliena-
ção o espanto diante do Irredutível enigma que ele do, perdido, disperso, ultrapassado, submisso. No en-
encerra? Como pretender-se filósofo sem se sentir tanto, por outro lado, um pensamento que exalta a
nietzscheano? autonomia e a soberania de um "eu" plenamente aflr-
mador. Por um lado, uma crítica radical da metafíslca
Por um lado, a figura do desmlstificador prosaico, _ do pensamento que visa a separar o natural, o evi-
por outro o jeito de um profeta que recitasse mitos dente, o Indubitável, o dado enquanto imediatamen-
vindos das profundezas da terra. Ora o livre espírito te dado, e o artificial, o duvidoso, o confuso, o late-
que derruba os ídolos, ora o gênio embriagado que' se ral, o oculto. E, por outro lado, um pensamento que
sente Investido de uma missão cósmica. Ora a análise acredita reencontrar na vida, na vontade de potên-
psicológica das crenças, ora a sugestão mística de um cia, no dionlsíaco, a pureza primitiva das forças natu-
inconcebível perder-se no indomável. Ora o tom pro- rais. Por um lado, uma crítica radical da metafísica
metéico do homem que conquista sua autonomia e como pensamento da separação, e por outro um
se torna senhor do seu destino, ora o tom desarticula- pensamento que se esforça por separar o Ideal (o su-
do e exaltado que declama uma perda do eu no per-homem) e o habitual (o homem), o verdadeiro (o
mundo. Ora um "flsiologista" materialista, ora o artista verdadeiro enquanto é ao mesmo tempo verdadeiro
sob a figura do mediador do Inexprimível: Nietzsche e falso, real e fictício) e o falso (a metafísica). Perma-
não seria, sem o saber, um Aufklórer romântico? neceria Nletzsche cativo da metafíslca que não se
cansa de combater?
Por um lado, uma crítica radical da metafíslca - do
pensamento que procura estabelecer ou que supõe Uma radlcalização das exigências que estão no
uma separação entre o físico e o não-físico, o sensível nascimento da filosofia: revelar as mistificações mas
e o não-sensível, o não-Inteligível e o Inteligível, e que também tornar sensível a um mistério mais original do
associa de saída a essa oposição uma distinção entre que toda manifestação misteriosa. Mas, no próprio co-
um ente menor e um ente verdadeiro, entre as apa- ração dessa radicalização, o surgimento das oposi-
rências e a verdade, entre a ficção e a realidade. ções evidenciadas pelo liuminlsmo (o homem liberto e
Por outro lado, um pensamento que se esforça por o homem alienado, a autonomia Individual e a hete-
separar o físico (o corpo, as pulsões, os instintos, o or- ronomla religiosa) e das oposições que se formaram
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS ROBERT LEGROS
ROBERT LEGROS A METAFíSICA NIETZSCHEANA DA VIDA

no Interior do romantismo (a vida primitiva e a cons-·


ciência de si, o Eu em harmonia com o Todo e o In-
divíduo que se torna conforme aos seus semelhantes,
a embriaguez da união com a vida e a servidão de
uma existência que se coloca sob o Universal. a ri-
celto, de se furtar às determinações, em suma, o que
não se reduz a nenhuma Identificação não é verda-
deiramente, ou é só aparência, ou só é um ente me-
nor. De acordo com a estrutura platônica da metafí-
slca: só a Idéia é verdadeira, pois só ela permanece
I
queza das singularidadese a pobreza dos casos Idên- constantemente una e Idêntica a si mesma. E o ente
ticos). A crítica nletzscheana da metafíslca - a radica- sensívelé um ente menor, na medida que não cessa
IIzação das exigências que estão no nascimento da fi- de diferir de si mesmo, de se diversificar em aparên-
losofia - não estará destinada a atolar nas oposições cias múltiplas. Assimuma cama, observa Platão, "pa-
- na metafíslca - que faz renascer? Não leva de vol- rece diferir mas não difere em nada" (República,
ta a uma metafísica nova (sem dúvida de um gêne- 5980): parece diferir, já que não é a mesma cama
ro singular e esquisito: uma metafíslca do lIumlnlsmo que vejo quando a olho deste ou daquele lado. Mas
misturada a uma metafíslca romântica) que renega as não difere, já que é a mesma cama que eu vejo. A
exigências mais antigas da filosofia? cama que permanece a mesma é a única cama
Todo filósofo é Inicialmente nletzscheano: deve, en- verdadeira, ao passo que a cama que não cessa de
quanto filósofo, reatar com o espírito nletzscheano de diferir é só a aparência de uma cama. A primeira é
uma crítica radical da metafísica. Mas não será ele, Inteligível. enquanto a segunda é sensível.A primeira
por Issomesmo, levado a renegar Nletzsche:a ques- é verdadeira enquanto permanece una e Idêntica a
tionar o retorno maciço das oposições a que Nietzs- si mesma; a segunda é falsa, pois não tem nenhuma
che não se cansa de se prender?* unidade ou Identidade. Por certo, na vida corrente,
quando vejo diversas aparências de uma cama, são
Comecemos por nos Interrogar sobre o sentido da as aparências de uma cama que eu vejo, mas as
crítica nletzscheana da metafísica. Que pode significar vejo assim na medida em que já participam de um
a Idéia de questionar a separação entre o sensível~ Inteligível, são já percebidas a partir da idéia de que
o não-sensível.entre a aparência e a realidade, entre são as aparências: em "si mesmas", elas não são se-
a diferença e a Identidade, entre o múltiplo e o uno? quer as aparências de uma cama, são apenas pura
Em que sentido denunciar a "crença no eu" como ilu- multlpllcidade caótica, um diverso onde nada apare-
sória - como tão ilusóriaquanto a "crença na lógica" ce senão para desaparecer. Esta é, segundo Nletzs-
- sem cair Imediatamente no sofisma do mentiroso che, a separação operada pela metafísica: por um
(no que hoje chamamos contradições performatlvas)? lado, o uno que é pura e simplesmente uno, por ou-
Em que sentido um pensamento pode renunciar à se- tro lado, uma multiplicldade que não tem nenhuma
paração entre a verdade e a ficção sem renegar a unidade Intrínseca.
si mesmo? Sabemos que o emplrismo realiza uma Inversão do
A metafísica, para Nietzsche, reside numa determi- platonismo: a experiência sensívelpode ser verdadei-
nação da essência da verdade: é verdadeiro o ente ra desde que não seja deformada por uma Interpre-
que se mostra sem se diferenciar e sem se diversificar, tação ou desfigurada por nossosconceitos. A estrutu-
que se apresenta sob a forma de um dado estável. ra metafíslca permanece, porém, Inalterada: o dado
que se oferece permanecendo constantemente uno e sensível (esta brancura, ou esta coisa Imediatamente
Idêntico a si mesmo. Em compensação, o que não percebida, ou este fato que se oferece a uma obser-
pára de se alterar, de escapar ao alcance do con- vação neutra e passiva) é verdadeiro uma vez que
em si mesmo é uno e Idêntico a si mesmo. Da mes-
* Nesta crítica de Nietzsche. Inspirei-me amplamente nos comentó- ma forma que a Idéia, o objeto empírlco (sensação,
rios e Interpretações de E. Hnk e M. Haar. Para mim. é um prazer coisa, estado de fato) é reconhecido como fonte do
sublinhar esta dívida.
ROBERT LEGROS
POR QUE NÃO SOMOS NIETlSCHEANOS
A METAFíSICA NIETZSCHEANA DA VIDA
ROBERT LEGROS

I conhecimento enquanto é em si mesmo o que é. A


brancura deste lírio dá-se numa evidência, segundo
locke - portanto, da mesma maneira que a Idéia
concebida ':'0 r Platão =, precisamente porque perma-
nece una e Idêntica a si mesma. Ela permanece una
tão), ou a uma unidade hipotética ou suposta (empl-
rismo).
A verdade reduzida à Identidade e à unidade é
uma verdade que se dá pura e simplesmente. Ela se
dá no sentido de que sua descoberta não supõe em
I
já que eu vejo uma brancura quando olho um lírio,e princípio nenhuma Invenção, nenhuma redação, ne-
essa brancura Intrinsecamenteuna permanece a mes- nhuma elaboração além do ato de desvelar e de di-
ma, pois a reconheço, segundo locke, quando a re- rigir o olhar para o que é desvelado. A verdade me-
vejo. Em compensação, a coisa concebida em Idéia tafísica - quer se trate da Idéia no sentido de Platão,
quer se trate do dado empírlco bruto no sentido do
é um ente menor do que essa brancura concreta e
emplrismo - é uma verdade nua, o que significa que
Imediata, segundo o emplrlsta, em razão de sua ge-
ela se dá numa evidência originária. Ora, a evidên-
neralidade: porque é abstrata (tirada de dados empí-
cia, mostra Nletzsche,sempre traz consigo uma ilusão:
ricos) e se aplica a um diverso (aos dados empírlcos
distintose diferentes de que é tirada), a generalidade ela requer uma cegueira. Com efeito, ela aparece
possuium menor conteúdo substancial, é de natureza como uma presença Imediata e originária, como um
hipotética, é artificial, suspeita. Quanto mais o concei- dado que se deixa descobrir; ora, ela supõe necessa-
to se universaliza,mais se esvazia. Assim como o di- riamente o ato da separação entre a Identidade e a
verso sensívelconcebido por Platão só pode aparecer diferença. A cama só pode dar-se numa evidência
para desaparecer numa confusão que toca o não- plena e Imediata na medida que a cama verdadei-
ser, pelo menos se estiver desligado de toda partici- ra é reduzida quer à Idéia da cama, considerada
pação no Inteligível,assimtambém o universaltal co- una e constantemente a mesma, quer a um dado
mo é compreendido pelo emplrlsmo se perde no va- sensívele distinto da cama, tido por sua vez como in-
zio desde que se desligue do sensível.Platão: ao se trinsecamente uno e idêntico a si mesmo: em ambos
prolongar, a particularização rumo a um sensíveldes- os casos, a evidência se conquista através de uma
ligado de toda participação no Inteligívelleva ao va- ação de dissoclar um do outro o que será encarado
zio da noite. Os empiristas:ao se prolongar, a genera- como uno e o que será tratado como dependente
lização rumo a um universal desligado de todo con- da alteridade, da diferença e do múltiplo. A evidên-
teúdo sensívelleva ao vazio do céu. Platão: entre a cia é conquistada através de uma dissoclação e de
unidade da Idéia e o diverso sensível,há uma multl- uma identificação, mas se oferece como simplesmen-
plicldade (por exemplo, uma coisa sensível)que não te dada e principalmente originária: ela esconde a
é carente de toda unidade em razão de uma parti- ação de separar e de Identificar que supõe. A evi-
cipação no Inteligível. Os emplrlstas:entre a unidade dência esconde que esconde: é neste sentido que
do dado empírico distinto e o universal abstrato, há ela é bem mais enganadora do que o confuso e o
uma multiplicldade (por exemplo, uma coisa sensível) obscuro.
que não é carente de unidade em razão de associa- Nada se apresenta como Idêntico a si mesmo sem
ções que se fundam no hábito. Em ambos os casos: um ato de separar, sem uma separação que é uma
a unidade estável e Identiflcável está numa das pon- Identificação. Ora, essa Identificação provoca uma ilu-
tas, o vazio na outra ponta, e há uma multlplicldade são não só porque está destinada a se esquecer co-
entre as duas extremidades. Em ambos os casos: fora mo Identificação, só deixar aparecer a Identidade co-
da unidade e do vazio, há uma multiplicldade que mo Identidade originária, meramente dada, mas além
conserva certa unidade, mas uma unidade que lhe é disso ela é profundamente redutora: ela constitui uma
exterior. A unidade que apresenta uma coisa sensível amputação precisamente na medida em que rejeita
não pertence ao sensível,mas ou ao Inteligível (Pla- tudo o que tem a ver com o múltiplo, com a mobl-
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ROBERT LEGROS A METAFíSICA NIETZSCHEANA DA VIDA

lidade. com a variação. em suma. tudo o que só se los sensualistas. ou o fato entendido por aqueles a
dá diferenciando-se. Ela nega a própria vida - não quem Nietzsche chama os "factuallstas") é suscetível
há vida sem uma diversificação e uma diferenciação de se dar pura e simplesmente. Independentemente
- e só retém uma Ilusão: uma forma plana (ela não de uma Infinita diferenciação ou de uma Irredutível
tem profundidade. pois nada oculta). Imóvel (perma- diversificação. Longe de se dissipar numa obscura
nece sempre a mesma) e temporal (permanece per- confusão. a aparência sensível.segundo o emplrlsmo.
petuamente presente). tem por natureza apresentar-se como a Idéia platôni-
A separação constitutlva da metafíslca - da com- ca: como um dado que é Imediatamente o que é.
preensão da verdade como identidade - é não ape- em si mesmo claro e distinto. e pode aparecer tal
nas a fonte de uma Ilusão mas também a origem de como é contanto que seja descoberto. ou seja. rece-
uma servidão. Pois a verdade-identidade (a redução bido sem ser deformado ou obscurecido por um Inter-
à identidade ou a identificação redutora) acarreta o mediário. A crítica nletzscheana da metafíslca com
conceito de verdade-adequação: é verdade o que certeza repousa num reconhecimento do sensível.mas
se submete à verdade-identidade. Não apenas a ver- de modo algum nessa reabilitação emplrista do sensí-
dade reduzida à Identidade torna possívela Idéia de vel: ela não concede a nenhuma aparência sensível
uma adequação à verdade (como haveria adequa- a possibilidade de poder se apresentar sem se dife-
ção a uma verdade compreendida como diferencia- renciar nem se diversificar.O sensívelé para Nietzsche
ção Infinita?). mas além disso ela a exige: se a Iden- o mundo de uma Infinita diferenciação. de uma Infi-
tidade é verdadeira (dá-se como uma forma eviden- nita diversificação; nunca podemos dele retirar um
te. sem se diferenciar). é mister conformar-se a ela. dado que possa se oferecer na evidência de sua sim-
Quer se trate do logos ou do fazer-obra ou da ação. plicidade e de sua Identidade. quer se trate de um
a metafísica Impõe de saída a exigência de uma dado sensorial.de um fato ou de uma coisa. Em ou-
submissãoà verdade-Identidade (a um dado aparen- tras palavras. em oposição ao empirlsmo. Nletzsche
temente prévio e Independente. que parece conter contesta a Interpretação platônica da verdade: o ver-
em si sua verdade e se oferecer em princípio como dadeiro não reside na Identidade. nem na Identidade
uma evidência originária): submissãodo logos a uma de uma Idéia. nem na Identidade de uma aparência
realidade Independente (a uma Idéia supra-sensível ou sensível. e sim numa Infinita diferenciação-diversifica-
a um fato empírico bruto). do fazer-obra a um mode- ção. Nada se mostra realmente a não ser diversifican-
lo (ideal ou empírico) e da ação a princípios norma- do-se em perspectivas múltiplas e irredutíveisumas às
tivos exteriorese dados. Dirigida contra o conceito de outras. quer se trate de uma Idéia. de um fato ou de
verdade-Identidade. a crítica nletzscheana da metafí- uma sensação. Como compreender esta concepção
sica é ao mesmo tempo dirigida contra o conceito tão radicalmente nova da essência da verdade?
de verdade-adequação: daí o questlonamento radical Dizer que a Idéia nunca se apresenta sem se diver-
da postura teórica ou contemplativa (do logos como sificar é dizer que ela é em si mesma uma diferencia-
submissãoa uma realidade dada). da arte como imi- ção de aparências sensíveis. que ela não é nada
tação (do fazer-obra como submissãoa um modelo) além de uma encarnação. Dizerque uma "coisa" sen-
e da moral como obediência (conformidade a princí- sível (sensação. coisa empírlca ou fato observável)
pios dados). nunca se mostra sem se diversificar é dizer que ela é
A Inversão empirista do platonlsmo conserva a es- em si mesma uma diversidade de Interpretações. de
trutura metafísica (a separação) e a compreensão perspectivas. que não é nada além das compreen-
platônica da verdade (a redução da verdade à sões diversas que a apreendem. em suma. que ela é
Identidade). mas supõe uma concepção nova do em si mesma animada por significações. A Idéia na-
sensível:o dado sensível(a sensação concebida pe- da é além de sua encarnação. e o sensívelem que
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ela toma corpo nada é além das significações


dos sentidos múltiplos que a animam: idéia encarnada
ou corpo animado, numa palavra, o real é vida.
O real é vida significa, na concepção
ou

nletzschea-
~:~:~~:'é at:~:I
~~:,~E~::~
:~r:f~p~~:
Inteligibilidade, de toda unidade, a cama não difere
na, que ele nunca está nu. A mais simples cor per- mais. Ou antes, não é mais uma cama que difere: a
manece Irredutlvelmente velada, pois só se oferece própria diferenciação se desvanece num puro diverso,
repleta de sentidos diversos e de significações que, que por sua vez desaparece como diverso. Nietzsche
porém, permanecem ocultas à consciência. A mais não pode querer referir-se ao sensível de Platão como
simples Idéia permanece Irredutivelmente velada, pois uma verdade, pois então perderia toda relação com
só se oferece sob manifestações sensíveis diversas que o sensível: o sensível de Platão não é mais sensível
escapam à unificação. O que equivale a dizer que quando subtraído a toda Inteliglbilidade, mas torna-se
nenhuma sensação é simples, que nenhuma idéia é não-ser - pelo menos é assim na lógica da metafísica.
simples, ou que cada sensação, assim como cada Em que sentido há um retorno de Nietzsche ao sensí-
vel. se por princípio o sensível que tende a reabilitar
Idéia, encerra um irredutível segredo, que nossas sen-
sações e nossas idéias nos falam e nos escapam, que não é o sensível de Platão?
as sensações não se deixam separar da Inteligência O sensível de que fala Nietzsche quando evoca a
que delas temos, nem as Idéias das percepções sen- pluralidade, a diferença, a diversidade e a alteridade
síveis pelas quals as apreendemos. O sensível é em si não é, evidentemente, o sensível dos emplristas, na
mesmo não-sensível. porque Impregnado de sentidos medida mesma em que estes pretendem reencontrar
múltiplos, ocultos e Irredutívels uns aos outros, e a no próprio coração da percepção sensível um dado
Idéia é em si mesma sensível. porque diversificada em que seria ciaro e distinto, pois simples e imediatamen-
si mesma, fragmentada em aparências múltiplas de te recebido: uma sensação nua ou um fato bruto. A
que nunca pode ser separada. Uma tal recusa da se- crítica nietzscheana da metafísica não pode se refe-
paração do sensível e do Inteligível obriga a conce- rir ao sensível dos empirlstas como a uma manifesta-
ber a Idéia de um corpo que pensa - que é em si ção da verdade, pois esse sensível não é sensível: en-
mesmo animado - e de uma alma encarnada: que é quanto dado ciaro e distinto, o dado sensível dos em-
em si mesma "mortal" e "múltipla" (Além do Bem e do piristas (sensação pura ou fato bruto) não conhece
Mal, § 12). Como compreender esta essência da ver- nenhuma diversificação que lhe seja inerente, nenhu-
dade como vida ou como união original do sensível ma diferenciação Interna, portanto não apresenta ne-
e do não-sensível. do inteligível e do não-Inteligível? nhum dos traços que caracterizam o sensível.
Podemos, sem dúvida, falar de uma Inversão Se realmente Nietzsche pretende que a verdade re-
nletzscheana da compreensão metafíslca (platônica e sida no sensível. cumpre compreender que o sensível
emplrista) da verdade: a verdade, pretende de fato "verdadeiro" não pode ser, segundo ele, nem o sensí-
Nietzsche, não reside na Identidade (a verdade-Iden- vel de Platão, nem o sensível dos empiristas, já que
tidade é em si mesma fonte de uma servidão), mas, nem um nem outro é sensível (diferenciação, diversifi-
pelo contrário, numa Infinita diferenciação, na diversi- cação). Cumpre compreender, em outras palavras,
ficação das aparências, das Interpretações e das que o sensível "verdadeiro" - "verdadeiro" no sentido
perspectivas. No entanto, é evidente que essa Inver- da compreensão nletzscheana da verdade, não no
são não é uma simples inversão: não é o sensível tal sentido metafísico de verdade-Identidade ou de ver-
como é interpretado por Platão que é para Nletzsche dade-adequação - não pode ser aquele que apare-
a manifestação da verdade: tal sensível não pode ser ce depois da separação. Se, com efeito, o sensível se
cortado de sua participação no inteligível sem desa- deixa compreender a partir da distinção entre o sen-
parecer na noite do não-ser. A cama que parece dl- sível e o não-sensível, ele desaparece como sensível:
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não é mais sensível,e sim "um" diverso que se ablsma


no não-ser (Platão) ou "um" diverso composto de uma
multipllcldade de dados empírlcos simples que faz
cessar a diversificação e a diferenciação (empirismo).
Por conseguinte, é preciso compreender, se buscamos
P,;~~~~:~~:~
~~!~
ligívels;abolimos a verdade-Identidade e a aparência-
diferença e Instauramosa aparência que é verdade
I
seguir a crítica nletzscheanada metafíslca, que o sen- e ficção, Identidade e diferença ou, o que é o mes-
sível só se deixa apreender como sensívelenquanto é mo, a verdade como diferenciação da Identidade,
mais origlllal do que o sensívelda metafíslca, mais ori- ou a Identidade como Identidade não fixada; aboli-
ginal do que a separação do sensívele do não-sen- mos a Identificação redutora, ou a redução à Identi-
sível, ou do Inteligível e do não-inteligível. A separa- dade, para Instaurarmos a Identidade diferenciada.
ção metafísica é mortífera, segundo Nletzsche, justa- Em que medida a abolição da verdade-identidade
mente porque nos separa da relação com o sensível: pode dar lugar à verdade como diferenciação (da
com o sensível anterior à separação, que é o único identidade)?
sensívelque seja sensível(enquanto é também não- A aparência que é verdade e ficção não é mais
sensível,ou antes ainda não separado do não-sensí- a aparência no sentido de Platão: a verdade que
vel). O que equivale a dizer que a separação nos pri- nela está não lhe é exterior, não tem outra natureza
va da relação com o inteligível, com a identidade e da qual participaria. Por isso mesmo que a verdade
com a unidade - ou seja, com o inteligível. com a está no coração das aparências - que ela mesma só
Identidade e com a unidade anteriores à separação, é verdade por essa encarnação na aparência sensí-
portanto com um inteligível que é "verdadeiramente" vel - as aparências não se perdem umas às outras
inteligível enquanto Intrinsecamentesensível.com uma para soçobrarem na noite do não-ser, mas remetem
identidade que é em si mesma diferenciação e não umas às outras, abrem-se umas às outras, sem nunca
o que Nietzsche chama de identidade fixada, conge- convergirem para uma aparência última que seja a
lada, imobilizada, que não é mais uma "verdadeira" única manifestação da verdade. Cada aparência re-
identidade. Resumindo: não é o inteligível enquanto mete a outra aparência, mas sem que nunca, tam-
tal que é para Nietzscheuma Ilusão, nem a Identida- bém, uma possa distinguir-seciaramente de todas as
de, nem a unidade, nem a verdade enquanto tais, e outras e apresentar-se,como a aparência sensívelse-
sim o inteligível separado do sensível,a identidade, a gundo o emplrlsmo, como uma entidade atômica,
unidade, a verdade separadas: congeladas, fixadas. clara e distinta em si mesma. Cada aparência reme-
Em que sentido há um sensívele um inteligível antes te a outras aparências precisamente porque cada
de sua separação? Em que sentido uma identidade uma compreende em si outras aparências e forma
que não seja fixada? Em que sentido uma união ori- com elas a unidade de uma diferenciação: unidade
ginal do uno e do múltiplo? Mais precisamente: em que escapa a toda fixação, a toda Identificação re-
que sentido a verdade "verdadeira" que é metafisica- dutora, pois é em si mesma Inerente à diferenciação.
mente falsa (ou seja, a verdade não separada da Cada aparência compreende em si outras aparên-
ficção) e a verdade "falsa" que é metafisicamente cias, mas cada uma é Irredutível às outras: é neste
verdadeira (ou seja, a verdade separada) não estão sentido que o sensívelé profusão infinita, superabun-
numa relação de oposição que, como tal, seria uma dância, transbordamento, mais "rico" do que todos os
relação metafísica? Numa palavra: em que sentido a conceitos. Aparências Irredutíveisumas às outras, que,
vida? porém, remetem sem fim a outras aparências, assimé
"Com o 'mundo-verdade', escreve Nietzsche, aboli- a vida, assim é também, segundo Nletzsche, o devlr,
mos o mundo das aparências." Entenda-se: com o pelo menos o devlr de antes da separação metafísl-
conceito de verdade-Identidade ou de verdade-ade- co. de antes da distinção da Imobilidade e da mobl-
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ROBERT LEGROS
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A METAFíSICA NIETZSCHEANA DA VIDA

lidade, do estável e do cambiante, da eternidade e


dora. A filosofia como crítica da metafíslca renega-se
do devlr.
a si mesma se não for uma arte de voltar a lingua-
gem contra si mesma, ou seja, de levar a linguagem
Com o "mundo-verdade", Nietzsche pretende ter que, como linguagem comum, é uma fabricação de
abolido o "mundo das aparências": das aparências falsas Identidades, a se subverter a si mesma, deixan-
como sombras que se desvanecem na confusão (pla- do surgirem Identidades aos pedaços, em fragmentos
tonlsmo) ou das aparências como entidades atômicas inconciliáveis, forjando conceitos que escapem à lógi-
que se dispersam na descontlnuldade (emplrlsmo). Es- ca do conceito. A filosofia, em outras palavras, rene-
ta abolição é para Nletzsche a condição de uma ga-se a si mesma se não for ao mesmo tempo filoso-
transfiguração da aparência: graças a ela, a aparên-
fia (crítica da metafísica) e não-filosofia (arte, criação,
cia pode se tornar verdade e ficção, identidade e di-
poesia). Ela não pode dizer a origem se não for cria-
ferença. A abolição do mundo-verdade é uma condi-
ção, se for Identificação, apresentação de um dado,
ção necessária da instauração da aparência transfigu-
descrição de um modelo: por isso mesmo que, co_m
rada, da aparência de antes da separação, mas não
efeito, a origem é mais original do que a separaçao
uma condição suficiente: não basta abolir a separa-
do original e das cópias, ela não pode ser convertida
ção para deixar acontecer a aparência sensível ante-
num original - um modelo, uma Identidade determina-
rior à separação, ou a Identidade anterior à separa-
da - sem logo desaparecer como origem.
ção. Em outras palavras: o niilismo "completo" (nada é
verdadeiro, nada é redutível a uma verdade-Identida-
*
de, nenhum valor tem sentido) ainda não é a afirma-
ção dlonisíaca, ou seja, a criação da unidade dos Assim resumida em suas grandes linhas, a crítica
contrários, da Identidade das diferenças. Não há re- nietzscheana da metafísica presta-se, evidentemente,
torno para o "original" - para o mundo anterior à se- a diversas interpretações. Ela estaria, aliás, em contra-
paração - que não seja uma criação: a verdade
dição consigo mesma se se pretendesse unívoca~ É
(como diferenciação) é Indissoclável da arte (como.
portanto legítimo perguntar quais são as interpretaçoes
criação), pois é somente no advento do novo que a
dessa crítica sugeridas pelo próprio Nietzsche. Em que
Identidade pode se impor como diferenciação. Em
sentido compreende Nietzsche a recusa do dualismo
que sentido é a criação advento da identidade co-
(da evidência da idéia e da evidênc,la sensív~l), _a
mo diferenciação: Instauração da verdade? O que união original do sensível e do nóo-sensivel (da _tíc çõo
equivale a perguntar: em que sentido a "vida" (como
e da verdade), e quais são suas Interpretaçoes da
diferenciação) é criação? exigência de fundir essa crítica da metafísica com
A filosofia não pode romper com a metafíslca, su- uma arte de deixar surgirem identidades fragmenta-
gere Nietzsche, e permanece tributária da separação das, diferenciadas? Tentemos apresentar algumas Inter-
se se limitar a abolir a separação através da crítica, pretações através das quais Nletzsche pretende con-
se se limitar a recusar a metafísica através da des- testar os principios da metafíslca.
construção, mesmo que a marteladas. Por certo, ela A crítica nletzscheana da metafíslca - da separa-
deve assumir essa tarefa crítica, revelar a Ilusão que ção do mundo-verdade e do mundo das aparências
está no coração de toda evidência, o erro que ani- _ Implica um questionamento do naturalismo (ou da
ma toda Interpretação que se quer ou se acredita Idéia de uma realidade em si) e do subjetlvlsmo (do
única, ou toda revelação que se pretende última,
homem concebido como um sujeito que se define
mas permanece ligada à metafísica - à verdade co-
pela consciência e pela vontade). Em outras palavras,
mo Identificação redutora - se seu questionamento
ela Implica uma recusa da oposição natureza-nomos
não for em si mesmo atravessado por uma força cria-
entendida como oposição de uma realidade (ou de
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ROBERT LEGROS A MET AFíSICA NIETZSCHEANA DA VIDA

uma norma) em si, que detém em si a sua verdade, Ao mesmo tempo que leva a questionar todas as
ou cujo fundamento é natural, e de uma realidade formas do naturalismo ou de realismo, a crítica
(ou de uma norma) saída do homem (de sua deci- nietzscheana da metafíslca (da separação do verda-
são, criação, elaboração, convenção, vontade). Ora, deiro e das aparências, da Idéia e do sensível) Impli-
é preciso observar que Nletzsche nunca dá seqüência ca uma rejeição do subjetivismo, ou de toda defini-
à sua crítica da metafísica sem voltar de certa ma- ção do homem como consciência ou vontade. O su-
neira à oposição natureza-convenção. Mesmo quando jeito humano definido pela consciência é metafísico
sua apreciação geral parece animada por uma sub- (fundamentado na separação metafísica) pois supos-
versão da metafíslca - da Idéia de verdade-Identida- tamente sabe plenamente o que pensa e por conse-
de, de verdade-adequação - todo seu procedimento guinte possui Idéias claras e distintas, logo Idéias sepa-
parece levar de volta à oposição da natureza e do radas do sensível. libertas de toda diferenciação inter-
nomos, do em si e da pura criação, do verdadeiro e na, e além disso é supostamente o sujeito de suas
do convencional. idéias, como se subsistissecomo sujeito uno e Idêntico
Sem dúvida, seu pensamento pode se deixar Inter- a si mesmo enquanto suas Idéias variassem. E o sujei-
pretar como uma tentativa de questionar a oposição to humano definido pela vontade é Igualmente meta-
(metafíslca) da physls e do nomos, acolhe a Idéia de físico, pelo menos enquanto a vontade é concebida
uma original união entre a natureza e o humano, en- como causa, pois ele supostamente é dono da situa-
tre o não-convencional e o convencional, e no en- ção (se a vontade é causa, então os efeitos são
tanto não cessa de reintroduzir no centro mesmo de queridos), logo está supostamente em relação com
suas análises ou o pressuposto de uma natureza pré- um sensível meramente sensível (que não seria secre-
via ao convencional ou a afirmação de uma conven- tamente animado por diferentes significações irredutí-
ção liberta do não-convencional. vels umas às outras) e com Idéias meramente Inteligí-
veis (que viriam ao pensamento quando o sujeito qui-
O questionamento nletzscheano da redução da sesse), e além disso porque é supostamente o sujeito
verdade à Identidade é Indlssoclável de uma crítica de suas ações, como se subsistisseuno e idêntico a si
do em si ou do que chamamos geralmente de realis- mesmo enquanto suas ações variassem. Na verdade,
mo: toda realidade concebida como realidade em si ressalta Nietzsche, o eu não é o sujeito de seus pen-
- quer se trate de uma Idéia, de uma realidade em- samentos: nunca sabe completamente o que pensa,
pírlca, de um Ideal ou de um valor - é, com efeito, nem o que significa pensar, nunca domina seus pen-
uma realidade reduzida à Identidade e considerada samentos ("os pensamentos me ocorrem quando 'eles'
como separada em si mesma das diversas interpreta- querem e não quando 'eu' quero"); e o eu tampou-
ções ou representações que pode suscitar, das per- co é o sujeito de suas ações; e além disso, esse "eu"
cepções parciais que pode oferecer, das diferentes que nunca é sujeito, que é ultrapassado pelo que
linguagens que podem expressá-Ia. Recusando a con- pensa, que não é o autor (o fundamento, a origem,
cepção de uma realidade em si, Nietzsche rejeita o a causa) nem de suas idéias nem de suas ações, es-
conceito clássico de natureza como realidade Inde- se "eu" não é nem uno nem Idêntico a si mesmo,
pendente - que é o que é Independentemente de mas pluralidade e diferenciação. A unidade Individual
nossas Interpretações, elaborações, linguagens, con- é fictícia, por um lado porque o eu não está por trás
venções, criações - e por conseguinte contesta toda de (separado de) uma multiplicidade, nada é fora de
Idéia de um fundamento natural de nossos princípios, uma diversidade de papéis, de potências, e, por ou-
valores, conceitos, ou de um modelo natural que nos- tro lado, porque essa multiplicldade que sem dúvida
sas criações, ações, linguagens ou convenções pode- é una (a multiplicldade verdadeira é aquela que é
riam Imitar. prévia à separação da multipllcidade e da unidade)
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não é porém uma totalidade que possa ser Isolada, mem se esqueceu que era o autor de seus prlnciptos,
mas constitui ela mesma um "fragmento": é enquanto de seus ideais, de seus projetos, de seu mundo, que
fragmento que o eu (diversificado e diferenciado) é ele, a partir daí, imaginou erradamente que o divino
sempre e Irredutivelmente superado, absorvido, disper- ou o sobre-humano estivesse fora dele mesmo e que,
sado, sem jamais, no entanto, dissolver-se e perder-se por conseguinte, o homem não pode se libert~r se
completamente (a diferenciação continua sendo dife- não reconhecer ser o que é, criador, se ele proprlo
renciação de um eu), e é também enquanto frag- não se tornar o que é, um criador senhor de si mes-
mento que o eu (superado e dispersado) é "cósmico". mo. Mesmo tema quando Nletzsche se Interroga sobre
Rejeitando a Idéia de um fundamento natural e de a origem das religiões: a religião nasce quando o ho-
um fundamento Individual, a crítica nietzscheana da mem sente "como uma revelação" (Offenbarung) o
metafísica convida a ultrapassar a oposição entre a que não é senão "sua própria opinião sobre as coi-
natureza (entendida como realidade em si) e o no- sas": "um belo dlo. ele conquista de repente seu no-
mos (entendido como lei querida pelos homens): o vo pensamento, e a felicidade provocada por uma
valor (o Ideal), mostra Nietzsche, não pode ser com- vasta hipótese pessoal que abarca o mundo e a exis-
preendido nem como natural nem como um produto tência Invade a sua consciência com tal violência
da subjetividade consciente. Como interpreta o pró- que ele não ousa acreditar-se a causa de tamanha
prio Nietzsche o caráter não natural e no entanto felicidade e atribui a causa a seu deus, e até a cau-
não convencional (no sentido estrito de que uma sa da causa desse novo pensamento: faz dela uma
convenção está ligada à consciência e à vontade) revelação desse deus" (Aurora, § 62). O homem é
dos valores, dos princípios, das normas, das idéias, das concebido como o fundamento de sua religião, mas
palavras e das coisas? também de todos os "predicados" atribuídos às coisas.
"Refletimos de forma madura e finalmente constata-
No momento mesmo em que é levado a recusar a mos que não há nada de bom, nada de belo, nada
oposição entre o natural e o convencional, ou entre de sublime, nada de mau em si, mas muitos estados
a natureza (como fundamento) e o Indivíduo (como. de alma nos quais recobrimos com palavras desse
fundamento), Nietzsche não deixa de criticar o natu- gênero as coisas que estão em nós e fora de nós.
ralismo referindo-se à autonomia Individual, ao homem Nós retomamos das coisas seus predicados, ou pelo
como fonte dos valores, e ao mesmo tempo não dei- menos nos lembramos de que os havíamos empresta-
xa de criticar o subjetivlsmo, evocando uma natureza do a elas: estejamos atentos para que essa constata-
meramente natural. Por um lado o homem é erigido - ção não nos faça perder a faculdade de emprestar,
explícita ou tacitamente - em sujeito soberano e inde- cuidemos de não nos tornarmos ao mesmo tempo
pendente, por outro é interpretado - explícita ou taci- mais ricos e mais avaros" (ib. § 210). Origem de sua
tamente - como um corpo "orgânico" cuja consciên- religião, fonte dos predicados que atribui às coisas, o
cia é o "instrumento", um corpo atravessado por pul- homem é criador de seu mundo: "E o que chamastes
sões e Instintos, e absorvido no fluxo de uma vida de mundo, é preciso que comecels por crló-lo. vossa
meramente natural. razão, vossa Imaginação, vossa vontade, vosso amor
Que o homem seja ''fundamentalmente'' ou "original- devem tornar-se esse mundo I" (Zaratustra, 11 parte.) E é
mente" ou "primitivamente" um Indivíduo autônomo, o o mesmo tema do homem criador e autônomo que
criador de seu próprio mundo, eis aí de fato um te- está no fundamento da oposição nietzscheana entre
ma que se delineia ao longo de toda a obra de senhores e escravos, já que ela se baseia numa distin-
Nletzsche. lembremo-nos das exaltações do "livre espí- ção entre a "soberania do indivíduo" e os "Instintos do
rito" tais como se desenvolvem na época da Gaia rebanho", entre o Indivíduo plenamente Independente
Ciência: elas sempre voltam a pressupor que o ho- (dos outros indivíduos), singular, irredutível ao geral, ou
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seja, o senhor ou a "grande Individualidade" (por ra a oposição do mesmo e do outro, da origem e


exemplo, os gregos anteriores a Sócrates), e, no lado do derivado, do uno e do múltiplo) a partir do mo-
oposto, o homem absorvido pela espécie, que se tor- mento em que reivindica a soberania do Indivíduo ou
nou "animal de rebanho" preso aos valores gregários. a autonomia de um ser humano que seria o sujeito
É ainda uma Idéia do homem como criador autôno- do pôr-se em forma e em sentido de seu mundo, o
mo, soberano, Independente, original. único que está senhor das coisas e do sentido. Referindo-se a um ho-
na base de uma concepção da filosofia como cria- mem que é o autor de suas criações, cuja autonomia
ção dos valores: "Mas os autênticos filósofos são aque- é radical, Nletzsche oblitera a Inscrição original do ho-
les que comandam e legislam. Eles dizem: 'Deve (sol/) mem dentro do que o ultrapassa (no Interior de um
ser asslml' São eles que determinam o sentido (das mundo em que toda Identidade aparente é a más-
Wohln?) e o por que (das Wozu?) do homem" (Além cara de uma Infinita diferenciação), restaura por Isso
do Bem e do Mal, § 211). mesmo a concepção de um homem naturalmente
A crítica da separação entre o verdadeiro e as humano (humano previamente a essa Inscrição em
aparências, entre o supra-sensível e o sensível. ou a um mundo), reintroduz, por conseguinte, a oposição
crítica da Identificação redutora Implica sem nenhuma entre o natural e o não-natural e afasta a Interpreta-
dúvida um questionamento da Idéia de revelação, de ção à qual, porém, leva seu próprio pensamento, a
realidade em si, e Indissoclavelmente o reconhecimen- Interpretação do "eu" como originalmente "cósmico".
to do mundo humano como criação humana, como Em que sentido um homem plenamente Independen-
criação que não se fundamenta em nenhuma nature- te, singular, único, Incomparável. um Indivíduo no sen-
za previamente dada, em nenhuma ordem sobrenatu- tido forte da palavra, se é verdade que o "eu" é
ral. Mas a crítica da metafíslca Implica igualmente um uma Ilusão, que a unidade Individual é fictícia, que o
questlonamento do homem como sujeito criador: ela Indivíduo (no sentido de Indlvlduum) "é um erro"?
obriga a conceber que a criação humana não .se]o
uma criação de que o homem é o sujeito soberano, Inclinando-se diante das significações, dos Ideais,
ou que o mundo é uma criação humana (não é da das normas como diante das realidades reveladas e
esfera da physis) mas não uma criação produzida pe- superiores, o homem de fato se prosterna diante de
lo homem (não é da esfera do nomos). Eriglr o Indiví- suas próprias criaturas. Em outras palavras: todo Ideal
duo em sujeito autônomo de suas criações é de fato (toda verdade-identidade) é um ídolo (uma represen-
supor que o homem é humano por si mesmo, é hu- tação adorada como se fosse a própria divindade)
mano previamente a que seu mundo ganhe forma e mas na realidade é só um fetiche (uma criação hu-
sentido (previamente à criação), portanto está "origi_ mana que não é mais reconhecida como tal. e sim
nalmente" não mergulhado na diferenciação (num vista como uma criação divina). Desta crítica do fetl-
mundo prévio à separação do sensível e do sensível) chismo, Nietzsche às vezes vem a concluir por uma
mas diante de um diverso meramente sensível. de sobre-humanidade no homem: não é humano o so-
uma multipllcidade Informe e Inlntellgível (as coisas bre-humano, uma vez que o homem é o verdadeiro
ainda estão sem os predicados que o homem Ihes criador do que aparece como sobre-humano? Daí o
vai emprestar, sem a significação que vai Ihes conce- tema da exaltação do espírito livre, da autonomia so-
der, sem o sentido que vai conferir-Ihes, sem a ordem berana, do Indivíduo senhor e criador do seu mundo:
dentro da qual vai hierarqulzá-Ias). Toda crítica da he- é tornando-se o criador que é, é reconhecendo-se o
teronomla (de uma realidade divina ou natural como criador de seu mundo, que o homem está a cami-
fundamento dos Ideais) constitui certamente um ques- nho do sobre-humano. Mas desta mesma crítica do
tlonamento da metafíslca (da Identificação redutora) fetichismo, Nletzsche conclui também pelo humano -
mas torna a cair no que ela própria denuncia (restau- demasiado humano - do sobre-humano: "Ali onde ve-
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ao "animal de rebanho" (portanto igualmente algo


des O Ideal, não vejo mais do que coisas humanas,
coisas Infelizmente demasiado humanasl" (Ecce Homo.) que já não é humano)? Não se deve, então, com-
Entenda-se: no fundamento de tudo o que parece preender que a animalidade - a vida - seja Igual-
celestlal, desinteressado, moral, sagrado, divino, só se mente, para Nletzsche, cindlda em dois tipos: por um
encontram desejos, Instintos, forças vitais, necessidades lado a vida plenamente afirmativa do "homem" tirado
orgânicas. Porque acredita na "oposição dos valores" do niilismo (de toda forma de negação da vida), ou
(an die Gegensótze der Werte) , o metafísico pergun- seja, a vida do super-homem, e por outro lado a hu-
ta: "Como uma coisa poderia nascer de seu oposto manidade gregarlzada, a vida reduzida à vida do re-
(aus selnem Gegensatz entstehen)? A verdade, por banho? De acordo com o segundo termo da alterna-
exemplo, do erro? Ou a vontade de verdade, da tiva, a humanidade está Igualmente cindida em dois
vontade de enganar? Ou a ação desinteressada, do tipos: por um lado, a vida que cresce numa consis-
egoísmo? Ou a pura e luminosa contemplação do tência ou numa Independência da verdade, do de-
sábio, da cupidez?" E só pode concluir: "Uma tal gê- sinteresse, do celeste, por outro lado a vida que não
nese é impossível" (Além do Bem e do Mal, § 2). Por- se Ilude de forma alguma sobre os seus motivos hu-
manos, terrestres, ou sobre o caráter efêmero e ilusó-
que questiona o principio fundamental da "oposição
dos valores", a crítica nietzscheana leva a perguntar: rio do mundo.
como verdade e erro chegam a se separar? Como a
vontade chega a se cindlr em duas vontades distin- O pensamento nletzscheano da vida presta-se com
tas, a vontade de verdade e a vontade de enganar? certeza a diversas interpretações. Arrastado por sua
Como o esquecimento de si mesmo e o egoísmo, ou crítica radical da metafísica (do dualismo), Nietzsche é
o olhar e o desejo vêm a se opor um ao outro? E levado a pensar a vida humana como vida que não
ela só pode concluir: os opostos nascem em virtude é desprovida dos traços geralmente reconhecidos ao
de um esquecimento ou de uma negação de urna espírito, e a conceber o corpo humano como corpo
"vida" que é mais original do que as oposições. Mas que não está separado da alma (de uma alma que
Nietzsche está longe de se limitar a essa conclusão: é em si mesma "mortal" e "múltipla"). O corpo que é
ele não afasta a idéia de que a verdade possa nas- o "fio condutor" do pensamento nietzscheano da arte
cer do erro, a vontade de verdade, da vontade de é Incontestavelmente um "corpo pensante". No entan-
enganar, a visão pura, do desejo: "Poderia ser, escre- to, não há dúvida de que Nletzsche também apre-
ve ele (sem dúvida no condicional), que devêssemos sente a vida não só como uma realidade biológica,
atribuir à aparência, à vontade de iludir, ao egoísmo como uma combinação de forças, de instintos e de
e à cobiça um valor superior e mais fundamental inclinações, mas além disso como um fundamento úl-
(grundsótzlicherer Wert) para toda vida" (Além do Bem timo e natural. Astúcia com vistas a derrubar as ilu-
e do Mal, § 2). sões de uma metafísica da consciência, ou Ingenuida-
Ora o homem que conquista sua soberania supe- de de uma compreensão cativa de ilusões naturalis-
rando o humano, ou que está a caminho de ultra- tas?
passar sua humanidade, ora o homem reduzido ao
egoísmo, ao interesse, à vontade de enganar, ao ter- Sabemos que para Nietzsche nossos juízos aparente-
restre. Segundo o primeiro termo da alternativa, a mente mais evidentes, nossas avaliações mais certas,
humanidade é cindida em dois tipos, ou compreende nossas crenças morais ,mais garantidas têm uma base
dois extremos que, no limite, não mais pertenceriam à "instintiva", baseando-se em "exigências fisiológicas",
humanidade: numa extremidade o super-homem ("al_ têm origem num desejo vital de conservação. Um juí-
go que já não é o homem", escreve Nietzsche), no zo de valor só tem sentido, afirma ele, na perspectiva
outro extremo o "último homem", o homem reduzido da conservação (de um Indivíduo, de uma cultura,
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de uma coletividade). Todavia, não podemos de saí- berta de toda visão naturalista ou biologista?
da concluir dessa explicação pelo instinto um bioiogis- Por mais atento que Nietzsche esteja a assinalar a
mo ou um naturalismo: Nietzsche, de fato, constante- origem histórica das inclinações que parecem naturais,
mente se esforça por ressaltar a origem cultural ou ou a origem cultural das "avaliações instintivas", não
histórica de nossos "Instintos", ou seja, de nossas Incli- renuncia, porém, a procurar por trás ou -por baixo
nações aparentemente mais espontâneas. desses "instintos" culturais, historicamente ocorridos, ins-
Sejam as avaliações metafísicas. "Por exemplo: o tintos que ele próprio entende como naturais: como
determinado tem mais valor do que o Indeterminado, prévios a toda inserção numa cultura ou nos costu-
ou a aparência tem menos valor do que a 'verda- mes, como mais originais do que suas diversas expres-
de'" (Além do Bem e do Mal, § 3). Quando essas sões culturais. Assim, ele chega a opor o instinto em si
avaliações se tornam evidentes, Nietzsche as chama a esse "mesmo" instinto recoberto por um sentido mo-
"instintivas". Elas respondem, com efeito, a uma "exi- ralou absorvido nos costumes, tendo se "tornado uma
gência fisiológica": permitem a conservação de uma segunda natureza". "O mesmo instinto (der selbe Trieb),
maneira de viver (dominada pela metafísica). E se ex- escreve ele, torna-se um sentimento penoso de covar-
primem com a espontaneidade que caracteriza o ins- dia sob a impressão da acusação que os costumes
tinto: com o automatismo provocado por todas as lhe dirigiram, ou então um sentimento agradável de
evidências. É óbvio, porém, que essas avaliações "ins- humildade, quando certos costumes (por exemplo, os
tintivas" não têm para Nietzsche nenhuma base instin- costumes cristãos) o aceitaram e o declararam bom.
tiva num sentido naturalista, sejam os instintos que sub- Isto significa que conforme o caso ele· acarreta a boa
jazem à moral altruísta ou aos preconceitos utilitaristas, ou a má consciência! Em si, como todo instinto, ele é
Isto é, o Instinto de piedade, os Instintos gregários, o estranho a tudo isso e não possui nenhum caráter
Instinto de renúncia. É Igualmente óbvio que para nem denominação moral, assim como não é acom-
Nietzsche esses "Instintos" são produtos da história ou panhado de uma sensação determinada de prazer
estão estritamente ligados a uma cultura, a saber, a ou de desprazer: ele só adquire tudo isso como uma
cultura européia moderna. Neste ponto, Nietzsche segunda natureza a partir do momento que o põem
une-se a Tocquevilie: o sentimento de piedade e o em relação com Instintos que Já receberam o batismo
desejo de igualdade, que estão originalmente ligados do bem ou do mal / .../" (Aurora, 38, sublinhado por
um ao outro, parecem imediatos, espontâneos, irrefle- Nietzsche). Como interpreta Nletzsche essa oposição
tidos, mas não estão de forma alguma inscritos numa entre um Instinto "em si", natural, e o "mesmo" instinto
natureza humana universal; longe de estarem funda- integrado nos costumes, dotado de um sentido moral,
mentados numa sensibilidade naturalmente humana, tornado cultura?
eles representam um "sintoma / .../ de nossa cultura Sem dúvida, essa oposição pode receber uma in-
européia" (A Genea/ogia da Moral, Prólogo, 5); longe terpretação fiel à crítica nietzscheana da metafísica.
de revelar uma inclinação natural do corpo biológico, Com efeito, ela pode ser compreendida como uma
são apenas os indícios de uma cultura. (Evidentemen- "oposição" cujos termos são inseparáveis um do outro,
te, Nietzsche opõe-se radicalmente a Tocquevilie em e não simplesmente opostos um ao outro. Nessa con-
sua apreciação do sentimento de piedade, já que re- cepção, o Instinto "em si" não seria encarado como
vela nele "o sintoma mais Inquietante de nossa cultu- uma entidade distinta, apreensível em si mesma, mas
ra européia", e vê nos "instintos" que lhe estão original- antes como uma unidade vazia, como uma identida-
mente ligados, nos Instintos altruístas e no desejo de de certamente pensável mas imperceptível fora de
igualdade "o grande escolho da humanidade", Ib.) sua diferenciação. Seria preciso reconhecer então, co-
Quer dizer que por trás do vocabulário naturalista ou mo o faz por exemplo Tocqueville, que nada se pode
vitalista de Nietzsche se exprime uma compreensão Ii- dizer, a não ser negativamente, de uma inclinação
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natural Inerente à sensibilidade humana (da inveja, do c1ui: entre os gregos, "a natureza tal como se mostra
medo, dos ciúmes, do amor, do ódio, do espanto, da nâo é renegada e sim integrada (nur elngeordnet)".
ira, do desejo de potência ...), que não se pode de Mas em que sentido a inveja - que é certamente um
modo algum conceber uma inclinação natural como sentimento "natural", se entendemos por isso que é
tal, como inscrita numa natureza humana (isso seria universal, que todos os seres humanos a cônhecem
conhecer uma "coisa em si"), que ela só pode ser assim como conhecem a astúcia, a vingança, a injú-
pensada em relação com suas diversas manifestações ria, o medo, a cólera ou os ciúmes =, em que senti-
históricas ou culturais, com as expressões que ela as- do a inveja poderia ser apreendida em sua unidade
sume no interior de humanidades distintas, e que es- natural, numa identidade distinta de suas expressões
sas diversas manifestações não podem ser apreendi- históricas múitiplas e diferentes, se é verdade, como
das como casos particulares de uma mesma identida- não se cansa de sublinhar Nietzsche, que a oposição
de, como acidentes de uma mesma substãncia, pre- entre o uno e o múitiplo é uma ilusão metafísica?
cisamente porque a mais essencial "substância" delas Como concebe Nietzsche o aquém natural da cultu-
não reside de modo algum no que eias têm em co- ra? Em que medida permaneceria no coração mes-
mum, e sim no que as diferencia, ou antes porque a mo de seu pensamento a oposição entre a natureza
"substância comum" delas não se deixa separar do e o nomos, entre o não-convencional e o cultural?
que as diferencia sem imediatamente se esvaziar ~e Mesmo quando se esforça por ressaltar a origem
todo conteúdo substancial. Essa é a interpretaçao histórica ou culturai dos "instintos" que se tornaram
nietzscheana da "oposição" (da não-separação origi- aparentemente naturais, ou das avaliações que se tor-
nal) entre o em-si e a manifestação, entre a nature- naram "instintivas" sob o efeito de uma dominação
za e a cultura, entre o universal e o histórico, porém dos preconceitos morais (da metafísica), Nietzsche ten-
não é essa a interpretação que o próprio Nietzsche ta igualmente distinguir entre a vida aparentemente
adota quando vem a distinguir um do outro, por ,um natural e uma vida efetivamente natural ou, se quiser-
lado o instinto que se apresenta ainda sem ter rece- mos, entre a vida que não é conforme à natureza
bldo a menor conotação cultural, a menor aprecia- da vida (o modo de vida regido por avaliações me-
ção moral e, por outro lado, o "mesmo" instinto tal tafísicas ou morais) e a vida que é conforme à natu-
como é sentido e interpretado no interior de uma hu- reza da vida (o modo de vida da antiga aristocracia
manidade particular. Assim, Nietzsche faia da inveja grega). Como compreender essa distinção?
como instinto natural carente de toda significação Quando Nietzsche é levado a distinguir o instinto
moral e a distingue da inveja tal como é sentida pe- natural de suas expressões históricas, ou o instinto co-
los gregos (a saber, como boa e salutar) e da inveja mo força neutra e o instinto que se tornou culturai,
tal como é sentida pela cultura cristã (ib.). Se louva a não há dúvida de que cede a uma compreensão
integração grega (a maneira como os ,costumes g~e- naturalista da vida e sucumbe ao conceito metafísico
gos integram em si a inveja naturai), e por ela nao de uma verdade-identidade. Ora, este último é inse-
renegar ou não deformar a natureza da inveja, por parável do conceito de verdade-adequação: crer
respeitar a inveja tal como ela é em si mesma c~mo que certos Instintos se deixam apreender em sua ver-
instinto natural. Num texto de 1875 (Nachtlass, prima- dade pré-cultural é erigir esses mesmos instintos em
vera-verão de 1875), Nietzsche escrevia no mesmo normas ou em modelos. Daí a inevitável distinção que
sentido: "O prazer da embriaguez, da astúcia, da vin- toda compreensão naturalista da vida destila: por um
gança, da inveja, da injúria, da obscenidade - tudo lado, a vida conforme à natureza da vida, por outro
isso foi reconhecido pelos gregos como humano, e lado, os modos de vida que não são conformes à
por conseguinte integrado (darauf hin eingeordnet) no natureza da vida, ou que são hostis às condições da
edifício da sociedade e dos costumes". Nietzsche con- vida. Essa é a distinção, como sabemos, que está no
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fundamento da distinção nietzscheana entre uma mo- dos os homens submetidos ao niillsmo). Forjando para
ral dos senhores e uma moral dos escravos. Em que si uma Identidade naturalista da natureza - a Idéia de
sentido uma vida conforme à vida, e uma vida que uma natureza pré-convenclonal - Nietzsche determina
renega a vida? Ou, para retomar as expressões de um critério natural da verdade (o conceito adequado
Nletzsche: uma vida ascendente e uma vida deca- à natureza), um critério natural da justiça (a atitude
dente? Ou ainda: uma vontade de potência que é fiei à natureza da vida) e um critério natural de bele-
forte ou afirmativa, e uma vontade de potência que za (a obra que provoca certo estado do corpo, ou
é fraca ou negativa? que deixa vir à luz uma physls mais antiga do que os
Cada cultura, cada humanidade particular tem sua gestos do artista). Como compreender essa natureza
maneira fundamental de avaliar, tem seus próprios mais original do que toda cultura, e suscetível de se
modos de pensar e seus próprios "instintos". Em cada mostrar tal como é, quer através do conceito (um
uma delas, mostra Nletzsche, as avaliações tornam-se conceito cujo sentido é "não simbólico"), quer através
"Instintivas", "naturais", ou seja, evidentes. No entanto, da ação (uma ação conforme à natureza da vida),
cada cultura é uma "Integração" da natureza, seja quer através da arte (uma obra que deixa fluir em si
uma maneira de Integrar a natureza sem a renegar mesma as forças da natureza que se Impuseram ao
(modo de vida dos gregos), seja uma maneira de artista)?
absorvê-Ia renegando-a. Nietzsche não hesita em afir-
mar que a natureza prévia à cultura seja suscetível Cada humanidade tem seus próprios "instintos". En-
de se mostrar, e de se mostrar tal como é, ou seja, tenda-se: as avaliações tornam-se "Instintivas", pois os
despojada de toda apreciação cultural, de toda ava- valores se tornam evidentes ("naturais"). Todavia, se é
liação metafíslca, de todo juízo moral, em suma, de verdade que Nletzsche às vezes afirma que as avalia-
toda dação forma e sentido ou, em outras palavras, ções que se tornaram "naturais" ("instintivas", evidentes)
que uma natureza "não simbólica" nos seja em princí- podem permanecer fiéis (por exemplo, a avaliação
pio acessível, sustentando que "todos os conceitos da da Inveja feita pelos Antigos) ou hostis (por exemplo,
humanidade primitiva começaram sendo compreendi- a avaliação cristã da inveja) à natureza (compreendi-
dos num grau que não podemos Imaginar, num sen- da num sentido naturalista), é verdade também que
tido grosseiro, pesado, superficial, estreito e sobretudo ele não se cansa de frisar que todos os valores - to-
e antes de tudo num sentido não simbólico" (A Ge- das as avaliações, todos os "sistemas de valores" - vie-
nea/ogia da Moral, Primeira Dissertação, 6). Em que ram de uma criação. Não de uma criação que fosse
sentido uma natureza que se mostra independente- coisa de um Indivíduo (de uma vontade entendida
mente de toda avaliação "instintiva", de toda aprecia- como causa), nem de uma criação que fosse a imi-
ção, numa palavra, de toda cultura? tação de uma natureza anterior (de uma natureza
Notemos que ao se referir a uma natureza "bruta", entendida num sentido naturalista), e sim de uma
a uma physls prévia ao nomos, Nietzsche renega sem criação da vida. Em que sentido a vida, se ela é
rodeios a sua crítica da metafísica, relntroduz em seu criação dos valores? E em que sentido valores, se são
pensamento todas as oposições metafíslcas, mas ao criados pela vida?
mesmo tempo se liberta de toda compreensão hlsto- A Interpretação nletzscheana da vida como cria-
rlclsta ou relatlvlsta. Assim como os gregos, mas em ção dos valores torna a pôr em questão o subjetlvls-
outro sentido, ele pode afirmar: é boa a maneira de mo metafísico a que cede Nietzsche quando exalta a
viver conforme à natureza (o modo de vida da aristo- soberania do indivíduo Independente, a "grande indi-
cracia antiga), e é má a maneira de viver que não vidualidade", o indivíduo singular e incomparável, o fi-
é conforme à natureza, ou que Integra a natureza re- lósofo como criador dos valores. Ou talvez: Interpre-
negando-a (o modo de vida dos cristãos, ou de to- tando a vida como criação dos valores, Nietzsche dá
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médium sem dúvida é sugerir que a arte só é verda-


uma Interpretação não metafíslca da "grande IndIvI-
deira quando deixa falar uma "natureza" mais original
dualidade", do filósofo criador, do artista Incompará-
do que a subjetividade. Ora, concebendo a vida co-
vel. Pois a idéia de que a criação é própria da vida
mo criação dos valores e o artista como a Individua-
significa para Nletzsche que o artista - o criador, a
lidade que se torna capaz de deixar afluir em si as
grande Individualidade, o senhor - é tanto mais origi-
forças de uma vida universal, Nletzsche decerto suge-
nal (único, Inovador) quanto menos revela o que lhe
re que uma natureza é mais original do que a cons-
pertence (como sujeito consciente ou como vontade
ciência ou a vontade Individual do artista, ou que
arbitrária), ou é tanto mais singular (irredutível ao ge-
uma origem natural é mais original do que o artista
ral, diferente dos Indivíduos socializados. gregarlzados.
como sujeito. mas essa Idéia de uma natureza mais
emancipado das cvcucções "Instintivas") quanto mais
inicial do que a subjetividade do artista se presta a
deixa afluir em si mesmo a vida universal (a vida co-
uma Interpretação que não só rejeita o subjetivlsmo
mo vontade de potência, como criação), tanto mais
mas além disso não cede a nenhuma representação
Individual (original, singular) quanto menos Individual é
naturalista. Ela ultrapassa a concepção subjetivista que
(se apaga como consciência ou vontade). Que a
subjaz ao carteslanismo ao romper com a Imagem do
criação nunca seja coisa de uma vontade conscien-
homem como senhor e possuidor da natureza; e está
te, e sim de uma força que se Impõe com necessi-
liberta da concepção subjetivista que está no funda-
dade ao artista. que essa força que comanda os
mento do empirismo moderno, uma vez que o artista
gestos C!O artista com uma necessidade que ele .não
através do qual se exprime uma "natureza" (assim co-
domina seja também o !>urglmento nele de uma liber-
mo o espectador que sente a beleza da obra) co-
dade (uma libertação com relação a avaliações "ins-
nhece uma "embriaguez" que não é redutível a um
tintivas"), ou que o Indomlnável seja para ele insepa-
gozo sensorial (ou seja. a sensações passivas, a uma
rável da maior mestria. eis aí. explica Nietzsche. o que
sensibilidade que encerraria o sujeito em sua constitui-
os artistas sabem multo bem: "Eles sabem até demais,
ção corporal. em sua subjetividade Individual ou hu-
escreve ele, que seu sentimento de liberdade. de fi-
mana). A embriaguez artística exaltada por Nietzsche
nura, de onipotência, de afirmação criadora. de com-
não prolonga o subjetivismo dos empiristas. uma vez
binação (Verfügung), seu sentimento das formas che-
que se deixa interpretar como o sentimento experi-
gou ao apogeu justamente quando não fazem mais
mentado pelo indivíduo que é transportado para
nada 'voluntariamente' (willkürllch) e fazem tudo ne-
além de si mesmo. arrebatado (levado) por forças
cessariamente - em suma. sabem que necessidade e
que o cativam (o capturam) e o libertam (de seus
'liberdade do querer' (as aspas são de Nietzsche) são
"instintos" culturais). subjugado por uma natureza que
neles, então, uma e a mesma coisa" (Além do Bem e
o transcende e quebra seu confinamento nas formas
do Mal. § 213).
ou nas evidências estabelecidas. E essa idéia de uma
natureza transcendente, original, libertadora não o le-
Dizer que a vida é criação é dizer, na perspectiva
va de volta a uma forma de naturalismo, uma vez
de Nietzsche, que o artista é mais um mediador ou
que pode ser Interpretada como a Idéia de uma for-
um médium do que a causa voluntária de sua obra.
ça Indomável e Inapreensível. como o reino das po-
Desde O Nascimento da Tragédia, ele escreve: "O su-
tências ocultas de onde saíram e foram criadas todas
jeito, o Indivíduo voluntário que persegue seus fins
as formas que vêm à luz (e tendem a se fixar e a se
egoístas só pode ser pensado como o adversário da
congelar numa ordem, e a se apresentar como origi-
arte e de modo algum como a origem da arte. Mas
nárias, como Ideais, modelos e verdades Imutáveis).
quando o sujeito é artista, ele já está liberto de seu
Não podemos contestar que a compreensão
querer Individual, tornou-se uma espécie de médium"
nietzscheana da vida como criação dos valores se
(cap. V). Reconhecer que o artista ou o criador é um
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
ROBERT LEGROS ROBERT lEGROS
A METAFíSICA NIETZSCHEANA DA VIDA

presta a uma Interpretação que se afasta ao mesmo


tempo do naturalismo e do subjetivismo. E podemos
por certo sustentar que Nletzsche sugere essa Interpre-
tação através do tema do artista como mediador, do
fazer-obra como ur.::::o da necessidade e da liberda-
de, da arte como força que surge no homem, o
:::t~~o I
:iEe~~?~~~~~'i~:
seja o sujeito da atividade de pensar. Com efeito, ali
onde há um processo natural, realização de formas
transporta para fora de sua subjetividade e o abre ou manutenção do processo vital, podemos sem dú-
para o que o ultrapassa, ou ainda através do tema vida falar, se fizermos questão disso, de um pensa-
de um aquém da cultura, da historlcldade, ou de mento em ação, mas haveria antropomorflsmo se
uma origem Inapreensível mas mais original do que imaginássemos "alguma coisa" que pensa, pois nada
que esteja fora do próprio processo pensa. Nietzsche
toda forma apreensível, do que toda identidade fixa
denuncia a Idéia do sujeito justamente enquanto to-
ou congelada, do que toda unidade separada. Mas
ma como modelo do pensamento o pensamento que
se podemos reconhecer que Nietzsche sugere essa In-
coincide com um processo; o homem forte, afirma
terpretação que rompe com a metafíslca naturalista e
com a metafíslca subjetlvlsta, cumpre, porém, observar el:, a~e c~mo o relâmpago brilha, o que significa:
que ele próprio não se cansa de renegar essa Inter- nao ha mais subjetividade, ou "substratum", por trás
pretação, retornando à Idéia de uma natureza bruta da ação ou da exibição da força que é o homem
e "simplesmente física" ou "simplesmente natural" e f~rte do que por trás da ação de brilhar que é o re-
conservando a Idéia de um criador plenamente sobe- Iam pago (A Genealogia da Moral, 13). Ora, uma tal
rano. De modo que sua concepção do artista como compreensão do pensamento leva a uma recusa me-
tafísica da subjetividade - cai na esfera da crítica
mediador oscila continuamente entre a afirmação de
nietzscheana da metafíslca - pois, sob o disfarce de
um naturalismo integral e a afirmação de um prome-
uma crítica do dualismo, de uma abertura à idéia de
teísmo sem limites. Como compreender essa estranha
um corpo pensante ou de um pensamento encarna-
aliança?
do, ela reintroduz de maneira maciça o dualismo car-
Sem dúvida, a crítica nietzscheana da subjetividade
tesiano: por uma lado o corporal (certamente como
(do sujeito concebido como consciência e vontade)
corpo pensante ou como organismo que, enquanto
pode parecer prefigurar uma compreensão não meta-
vida, é pensado em ação) e, por outro lado, o pen-
física (não encerrada no dualismo) da subjetividade.
samento que se pensa como pensamento de um su-
De fato, ela sugere que o sujeito humano não pode
jeito, de um eu, de uma consciência e que, indisso-
ser entendido nem como uma consciência, um eu
ciavelmente, "se produz em palavras". Ou, por um la-
que seria causa ou fundamento, nem como um cor-
do, o homem como criatura vivente: ele "pensa sem
po sem alma, mas antes como um "corpo pensante".
parar, mas Ignora-o" e, por outro lado, o homem co-
Contudo, Nietzsche não se cansa de explicitá-Io: há
mo "animal social" ou "gregárlo": o homem que se co-
pensamento Inerente ao corpo no sentido mesmo de
;nunlca pela linguagem com seus semelhantes e por
que há pensamento em ação na natureza. E o pen-
ISSO mesmo adquire uma consciência de si e um "sa-
samento é uma atividade natural, segundo Nletzsche,
ber" do que pensa (A Gala Ciência, § 354). Sem dú-
em primeiro lugar no sentido de que há um pensa-
vida, Nletzsche desarruma as oposições tradicionais: é
mento agindo no Interior da própria natureza inorgânl-
enquanto o senhor pensa como pensa a natureza e
ca: os cristais são um pensamento enquanto "realizam
age como um organismo, sem ser mais autor de seus
formas". Em seguida, no sentido de que a vida orgã-
~ensamentos e de sua ação do que o relâmpago o
nlca é pensante: define-se por uma capacidade de
e de seu brilho, é nessa medida que, afirma
se conservar e de crescer. O "corpo pensante" tal co-
Nietzsche, seu pensamento e sua ação são de um In-
mo é entendido por Nietzsche é concebido a partir
divíduo singular, Incomparável, Independente, sobera-
ROBERT lEGROS
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS A METAFíSICA N1ETZSCHEANA DA VIDA

I
ROBERT LEGROS

no, autônomo, "liberto da moralldade dos costumes"


(A Genealogla da Moral, Segunda Dissertação, 2), e
portanto está no extremo oposto do comportamento
de qualquer animal (pois as espécies animais, como
~U;!~~:;~~~~~~:~~~~I
no sentido de que um organismo pensa, à maneira
de um processo), mas é também para ele uma sen-
explica Nietzsche, "crêem num animal normal único, sibilidade singular, única, Incomparável. de modo que
num Ideal de sua espécie e assimilaram definitivamen- a emoção artística passa a ser concebível só como
te na carne e no sangue a moralidade dos costu- uma sensação ao mesmo tempo sensorial e pessoal:
mes", A Gala Ciência § 143). Inversamente, o escravo, ela não mais aprisiona na subjetividade humana, e
o homem socializado, mais particularmente o homem sim na subjetividade Individual. Enquanto o naturalismo
moderno ou o "último homem", tornou-se Inteiramente de Nietzsche - sua concepção de uma natureza pré-
semelhante ao membro de uma espécie animal - as- cultural capaz de se mostrar tal como é e ser "inte-
similou a "moralidade dos costumes", ou seja, adota grada" sem ser renegada - pode levar à Idéia de um
espontaneamente o comportamento de sua espécie critério natural da beleza, da verdade e da justiça,
(social) e avalia "Instintivamente" de acordo com as em compensação seu vitallsmo acarreta um radical
codificações de sua espécie (cultural) - na medida historiclsmo: o vivente pensa, Interpreta, escolhe, mas
mesma se que se torna consciência e linguagem. não só a sua atividade pensante, interpretativa e se-
Mas qualquer que seja a maneira de entender essas letiva segue um processo ordenado com vistas à au-
estranhas associações entre soberania e pensamento toconservação e ao autocrescimento, e enquanto tal
(e ação) como processo natural, ou entre escravidão continua circunscrita na perspectiva da vida, mas
e pensamento (e ação) como consciência e lingua- além disso a perspectiva em que se encerra, que é
gem, cumpre reconhecer que elas se baseiam numa a da vida, é uma perspectiva estritamente Individual.
oposição entre o pensamento natural (o pensamento e de modo nenhum a perspectiva de uma espécie
e a ação como processo sem sujeito) e o pensomen- viva. Esta é a razão por que Nietzsche chama "Ilusão"
to consciente, e que essa oposição leva de volta a (tomando o termo em seu sentido platônico) ao pon-
todas as distinções da metafísica. to de vista da vida.

A Idéia nletzscheana da vida como criação Implica Certamente, o próprio Nietzsche não se cansa de
a noção de um corpo pensante, entendido por interpretar a vida num sentido que torna a pôr em
Nietzsche ora num sentido que evoca uma superação questão suas afirmações vitalistas: que recusa sua
da metafísica, ora num sentido que supõe um dualis- concepção do belo em termos biológicos, sua com-
mo radical. O mesmo ocorre com a noção de em- preensão da vida como processo vital encerrado nu-
briaguez: Nietzsche certamente dá a entender que ma perspectiva Individual, sua definição da embria-
ela faz sair de si mesmo aquele que é sua presa, o guez como sentimento de um crescimento de forças
arranca de sua subjetividade, de sues sensações sen- físicas. Ele próprio contesta sua própria "fisiologia" da
soriais e de sua vontade Individual, mas dá a Isso arte quando vê a "grandeza" do artista em sua capa-
uma Interpretação que se refere finalmente à somato- cidade de maestrla, em sua faculdade de se asse-
logla. A embriaguez, explica ele, está estreitamente li- nhorear do próprio caos que ele é, em seu poder de
gada ao aumento real de uma força vital ou física. dar expressão às forças vitais que nele afluem, em
Daí uma Interpretação nletzscheana do belo em ter- sua aptidão para hierarqulzar estas últimas e para de-
mos biológicos: é belo o que permite um crescime_n- las tirar formas, para gerar formas a partir das potên-
to real da vida. Ora, não apenas essa compreensao cias no entanto Indomáveis e indisciplinadas que a vi-
reata com o subjetivlsmo dos emplristas, mas também da encerra. Como Interpreta Nletzsche esse domínio
o radicaliza. Pois a sensibilidade do artista (ou do es-
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS ROBERT LEGROS
ROBERT LEGROS A METAFíSICA NIETZSCHEANA DA VIDA

do Indomlnável, essa capacidade


a se tornar forma?
Esta compreensão certamente
de forçar um caos

pode prestar-se a
uma Interpretação que não cede nem ao naturalismo
- a arte é criação de formas que não correspondem
r
=~m~~:~o~~~~~I
de saber se o romantismo de Nietzsche (o que ele
chama de seu "classiclsmo") não Implica uma nova
a nenhum modelo natural prévio - nem ao subjetlvls- metafíslca (uma nova forma do naturalismo, que se
mo: a mestria de que o artista se torna capaz não confundiria com uma forma do historicismo), cumpre
é de modo algum a de um sujeito que se definiria reconhecer que Nietzsche não se cansa de Interpretar
pela consciência ou pela vontade, e sim de um "su- a mestria (de que o artista deve se tornar capaz) em
jeito" que se deixa permear por forças que são mais termos que reconduzem a uma metafíslca da subjeti-
Iniciais do que suas decisões conscientes e antecipam vidade, e as forças subterrâneas e Indomáveis (das
suas próprias iniciativas. Nesta perspectiva - que, con- quais o artista deve tirar e criar formas) como forças
trariamente ao que pensa Nietzsche, se delineia no In- físicas ou vitais, tornando com Isso a cair numa meta-
terior do romantismo =, o maior domínio de si mesmo física naturalista. Essa é, talvez, a estratégia mais hipó-
(a maior disciplina) é Inseparável do maior abandono crita de Nletzsche: forçar-nos a reconhecer que não
de si mesmo (o maior desvanecimento do sujeito co- podemos ser nletzscheanos (aplicados em subverter as
mo consciência e vontade, a maior reserva nas sen- Identificações redutoras e o princípio fundamental da
sações pessoais), e esse retiro do sujeito é ele próprio "oposição dos valores") sem nele descobrir, além de
Inseparável da expressão do mais "individual", do mais uma força Inesgotável de Inspiração, as razões
"original", do Incomparável, do único: o Intérprete per- (nietzscheanas?) para abandonar os caminhos que
de toda Iniciativa enquanto sujeito consciente ou Indi- ele mesmo seguiu.
víduo Isolado (as cadências estão escritas, os movi-
mentos estão estritamente determinados, todas os ma-
tizes estão em princípio indicados, os tempos' estão
marcados, toda Improvisação foi banida, já nenhum
"ornamento" pode ser acrescentado pelo intérprete),
mas esse desvanecimento de si supõe a maior mestria
(o maior virtuosismo) e torna possível o surgimento do
mais "individual", do excepcional, da originalidade.
Não podemos negar que Nietzsche reata sem o sa-
ber com essa compreensão romântica: reata com ela
no momento mesmo em que rejeita a concepção
que atribui aos românticos (uma concepção sentimen-
talista) e elogia a grande arte clássica, ou o classicls-
mo como encarnação da "grande arte". Reencontran-
do a Idéia romântica da criação como fusão (em-
briaguez) da liberdade e da natureza (da "mestria" e
das forças da vida), a concepção romântica da liber-
dade como poder mais original do que as faculdades
de um sujeito (definido pela consciência e pela von-
tade) e a compreensão romântica da natureza como
força pré-cultural, pré-convenclonal mas Irredutível a
um dado, Nietzsche sem dúvida se liberta do subjetl-
NIETZSCHE EDUCADOR
NIETZSCHE EDUCADOR
PHILlPPE RAYNAUD

"Mesmo se fôssemos loucos o bastante


para considerarmos verdadeiras todas as nos-
sas opiniões, não gostaríamos, porém, que
elas fossem as únicas a existir: ignoro por
que razão a hegemonia e a onipotência da
verdade seriam desejáveis; já me bastaria
que ela possuísseum grande poder. Mas ela
deve poder lutar e ter um adversário, deve-
mos poder descansar dela de tempos em
tempos na não-verdade - senão ela se tor-
nará tediosa para nós, sem força nem gosto,
e nos tornará assim também."

Aurora, § 507.

P ara os estudantes
de Nietzsche aparecia
a continuação
de minha geração,
ao mesmo tempo como
a obra

da "grande filosofia" e como o Instru-


mento privilegiado de uma emancipação do pensa-
mento com relação ao conjunto da tradição "metafí-
sica", e é nisso que ela parecia responder às duas
ambições que na época dominavam a filosofia fran-
cesa. Nletzsche certamente não era a única referên-
cia dos pensadores admirados pelos que então se
preparavam para entrar na École Normale Supérieure;
Freud e Marx mas também Splnoza e Mallarmé ha-
viam contribuído para preparar as "imensas revoluções
teóricas" (Althusser) a que éramos convidados a nos
juntar como militantes, mas Nietzsche gozava de um
duplo privilégio; muitas vezes desdenhado pela gera-
ção anterior, não estava comprometido nos debates
que a haviam apaixonado (como o diálogo entre a
fenomenologia e o marxismo "hegellano" ou "humanis-
ta"), e era o Inventor de uma forma Inédita de "escri-
ta filosófica", que parecia destinada a estabelecer no-
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
PHILlPPE RA YNAUD PHILlPPE RAYNAUD
NIETZSCHE EDUCADOR

vos laços entre o pensamento e a literatura. Parece


que, qualquer que seja a qualidade das obras de A primeira coisa que a revolução copernicana
Deleuze, de Foucault e de alguns outros que vêm nos ensina é que somos nós que comandamos.
sendo publicadas há doze anos, alguma coisa irreme- Há aí uma Inversão da concepção antiga da
diavelmente se perdeu: o público pode muito bem Sabedoria: o sábio definia-se de certa maneira
admirar seu virtuoslsmo (ou até sua profundidade), por sua própria submissão, de outra maneira por
mas o sentimento de que a filosofia francesa dos sua concordância "final" com a Natureza. Kant
opõe à sabedoria a Imagem crítica: nós, os legis-
anos 60 provocara uma reviravolta sem precedentes
no pensamento parece ter desaparecido. O prestígio ladores da Natureza'.
do "pensamento 68" foi duplamente atingido quando
os temas da "morte do homem" e do "fim do sujeito"
perderam sua legitimidade, mas também, e talvez so- Infelizmente, Kant parou a meio caminho da crítica
bretudo, quando se percebeu melhor tudo o que a "total e positiva", que nada deve poupar e só restrin-
crítica antl-humanlsta devia à obra de alguns grandes ge a potência de conhecer para "libertar outras po-
ancestrais, dos quals Heldegger é o de maior prestí- tências até então desdenhodos": ele só destrói as ilu-
gio, mas também o mais problemático, senão o mais sões da metafísica dogmátlca para as reintroduzlr sob
embaraçoso. Nestas condições, a questão de nossa uma nova forma, depurada, transformando-as em
relação com Nietzsche muda de significado: Nietzsche ideais, ou seja, explicitando o que sempre foi de fato
deixou de ser uma referência evidente no diálogo fi- seu verdadeiro sentldoê, A contribuição Insubstituível de
losófico contemporâneo, mas, em compensação, po- Nietzsche foi ultrapassar essa "crítica de juiz de paz"
demos distinguir melhor seu pensamento próprio de tu- para realizar uma crítica da verdadeira moral, da ver-
do o que há pouco tempo nos parecia ligado a ele. dadeira religião e do verdadeiro conhecimento:
Também é preciso acrescentar que Isso só é possível
às custas de uma compreensão do que então se es-
tava procurando, e de uma elucidação do que o É por Isso que Nletzsche / .../ pensa ter encontra-
projeto que animava os filósofos franceses pode signi- do o único princípio possível de uma crítica total
ficar para nós. Nenhum nietzscheano - ou melhor: ne- no que chama de seu "perspectivismo". Não há
nhum leitor de Nietzsche - ficará surpreso com i~to: a fato nem fenômeno moral, e sim uma interpreta-
interpretação de Nietzsche não pode consistir apenas ção moral dos fenômenos. Não há ilusões da
em revelar uma figura mergulhada nos estratos do consciência, e sim o próprio conhecimento é ilu-
comentário erudito ou culto, ela própria é tributária são: o conhecimento é um erro, ou pior, uma
de uma mudança das perspectivas e de uma nova falsificaçã04•
distribuição das "forças".
Por que éramos nietzscheanos? Acho que três res-
postas podem ser dadas a esta pergunta, que reme- Nlefzsche e a filosofia trazia, portanto, um programa
cuja realização podia proporcionar satisfações Indefini-
teriam respectivamente à obra de Gilles Deleuze, de
Michel Foucault e, talvez mais radicalmente, à expe- das, contanto que compreendêssemos o jogo que o
tornava possível. O moralismo kantiano era vigorosamen-
riência da literatura ou da arte contemporâneas.
Para Deleuze, Nletzsche é aquele que levou a bom te recusado, mas o alvo da crítica continuava sendo a
termo, depois de Kant mas principalmente contra ele,
1. G. DELEUZE, La phiosophie critique de Kcint, PUF, 3g ed .. 1971, p.
o projeto crítico. O sentido desse projeto resume-se 23.
numa fórmula simples: 2. G. DELEUZE, Niefzsche et 10 philosophie, PUF, ~ ed .• 1967, p. 102.
3. Ver A Geneologia do Moral, li, § 25; O Crepúsculo dos ídolos,
"Como, finalmente, o 'mundo verdadeiro' torna-se fábula".
4. G. DELEUZE, Niefzsche et 10 philosophie, p. 103.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS PHILlPPE RAYNAUD
PHIUPPE RA YNAUD NIETZSCHE EDUCADOR

emancipação da vontade ("somos nós que comanda-


mos..."). o que supunha uma retomada Irônica. ou até
paródlca. da problemática kantiana da autonomia. as-
sim como sua reviravolta contra tudo o que restava de
"naturalismo" clássico na filosofia de Kant. Essa atitude
I
~:;;ç~~~~:~:0i:e~::
lisrno'". Mas essa Inscrição da obra de Nletzsche no
debate filosófico da época não teria tido a repercus-
amblvalente com relação ao crlticlsmo era ela própria são que teve se não tivesse encontrado uma expe-
um elemento de uma estratégia mais geral de contor- riência cultural multo mais profunda e multo mais am-
nar a tradição raclonallsta: a encenação substituía a pla. A "morte do homem". o ''fIm do sujeito". a "perda
discussão. e a nova filosofia podia ao mesmo tempo de sentido" e o esgotamento das "grandes narrativas"
opor o "pluralismo" das forças à unidade do Sujeito e secretamente trazldas por uma "escatologla" Inicial-
apoiar-se na subjetividade (a autonomia) em seu com- mente se exprimiam em formas artísticas e sobretudo
bate contra a natureza ou a trodlçôo-. literárias que conquistaram na época um público Infi-
Ao mesmo tempo que defendia uma Interpretação nitamente mais amplo do que o das antigas "van-
da obra de Nietzsche multo próxima da de Deleuze. guardas". O renascer das paixões revolucionárias nos
Mlchel Foucault o situava no quadro mais geral de anos 70. aliás. paradoxalmente. só radlcallzou essas
uma história renovada da formação das "ciências hu- tendências: se Artaud e Batallle não deixaram na
manas". que pretendia Igualmente anunciar uma mu- época de ser referências legítimas. é porque Já não
tação global do saber e do pensamento. A constitui- se tratava tanto. para a nova geração de militantes.
ção das "ciências humanas" e a hesitação da filosofia de ultrapassar a alienação herdada da divisão em clas-
entre o "positivismo" e a "fenomenologla" eram a ex- ses. quanto de criar as condições de uma perturbação
pressão adequada da dupla dimensão. empírica e indefinida. ou de uma "transgressão" generalizada9•
transcendental. da figura do "homem". quando a re- Se Isso for verdade. a questão de nossa relação
constituição das obras da cultura em sua Infinita diver- com Nletzsche dificilmente se pode separar do balan-
sidade parecia ainda evocar a referência últimá ao ço que hoje podemos fazer do período em que sua
cogito. ainda que pré-reflexivo; a novidade radical do glória foi mais alta. Isso não significa. porém. que de-
pensamento de Nietzsche vinha do que. ligando a vamos simplesmente visar. através dele. aos seus ad-
"morte de Deus" ao aparecimento do "último homem". miradores ou comentadores franceses; acho mais fe-
abria caminho para uma nova época do pensamen- cundo. pelo contrário. partir de sua própria obra pa-
to. onde o "desenralzamento da Antropologia" devia ra recolocar. ou modificar. as próprias questões a que
permitir "reencontrar uma ontologla purificada e um há pouco tempo se supunha que ela respondesSe: a
pensamento radical do ser"6.ao mesmo tempo que li- questão do tipo de filosofia possível hoje. e também
bertava novas formas do saber (a lingüística estrutural.
a etnologia. a pslccmóüse)".
8. Sabemos que. de sua parte. M. Foucault sempre recusou a qua-
Vemos muito bem aqui o que permitia dar a
lidade de "estruturalista":"arqueólogo" do saber. ele se colocava
Nietzsche um lugar central na realização do "progra- fora das disciplinas que encarnavam sua mutação em curso; cabe
ma" dos filósofos franceses: antes mesmo de Heideg- ao leitor julgar a parte respectiva. nessa posição. da modéstia do
historiador e do orgulho do filósofo...
gero o autor da Gala Ciência já tornara possível a ro- 9. Como mostrou Deleuze. o próprio cinema "subversivo"dos anos
60-70 destruiu os mitos otimistas que outrora animavam a estética
5. Sobre estes aspectos do pensamento de Deleuze. ver V. DES- progressista ("falta o povo"): ver G. DELEUZE. Cinéma /I. L'image-
COMBES.Le même et rautre. Quarante-cinq ans de philosophie ternps (citado na nota 29). pp. 281-291. A mesma evolução ocor-
française (1933-1978). Ed. de Minuit. col. "Critique". pp. 178-195. reu na filosofia e na critica de "vanguarda". com o novo questiona-
6. M. FOUCAULT. Las mots et Ias choses. Une arche%gie das scien- mento do "humanismo' marxista; isso abriu duas possibilidades:uma
ces humaines. Gallimard. col. "Bibliotheque des sclences humaines". recomposição do discursoradical e crítico (de que é em si mesma
1966. p. 353. um bom exemplo a obra política de Deieuze) ou então. pelo con-
7. Ib .. pp. 385-398. trórío. uma posição conservadora.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS NIETZSCHE EDUCADOR
PHILlPPE RA YNAUD N1ETZSCHE E O ILUMINISMO

a questão do sentido da "modernidade" ou da "antro- que subjaz a essas formas (a "vida", a "vonta~e") e
pologia" para os contemporâneos. Para esclarecer es- essa "reprodução" só é possível pela "aniquilaçao do
tes pontos, eu gostaria de partir da relação altamen- indivíduo". Essa estética nova, dirigido contra a Inter-
te amblvalente que Nietzsche mantinha com o "lIuml- pretação tradicional da Antigüidade grega, era ela
nismo" e em seguida voltar ao que pode nos ensinar mesma a propedêutlca a uma crítica geral da cultu-
a sua crítica dos Ideais modernos. ra da época (Considerações Intempestivas) e supunha
uma ruptura profunda com a herança do raclonalls-
mo alemão. Com efeito, o que o jovem Nletzsche re-
cusa violentamente é a Idéia de uma harmonia pos-
sível entre a teoria e a prática, ou ainda de uma
continuidade entre o conhecimento e a ação: "O co-
nhecimento mata a ação, porque a ação exige que
nos encubramos na uusôo"!". Essa tese pode aliás indi-
NIETZSCHE E O ILUMINISMO ferentemente ser entendida como uma crítica das ilu-
sões da ação ou, pelo contrário. como uma denún-
cia dos efeitos mutilantes do conhecimento. O Nasci-
Sabemos que. entre Humano, Demasiado Huma-
no (1878-1879) e A Gala Ciência (1882), Nietzs-
mento da Tragédia privilegia o primeiro tema: "O ho-
mem dionisíaco é parente de Hamlet. Tanto um
che realiza uma reviravolta aparentemente completa
quanto outro, de fato, lançaram uma vez um verda-
no que diz respeito às teses defendidas em O Nasci-
deiro olhar ao fundo da essência das coisas, ambos
mento da Tragédia e nas Considerações Intempestl-
viram, e agora eles só sentem repulsa pela ação. Is-
vos: ao "Irraclonalismo" da juventude, Nietzsche substi-
so porque sua ação não pode mudar nada na es-
tui de repente uma ardente apologia do classiclsmo
sência Imutável das coisas, e eles acham ridículo ou
francês, do lIumlnlsmo e do "positlvismo", cujo ~ugar
aviltante que Ihes peçamos reordenar um mundo que
em sua filosofia continua a intrigar seus melhores intér-
saiu dos elxos"": na Segunda Consideração Intempes-
pretes. O que eu gostaria de mostrar aqui é que
tiva, pelo contrário. é o conhecimento, sob a figura
Nietzsche Inventou então uma "estratégia" exemplar e,
da ciência histórica, que é denunciado porque, ao
principalmente, que é possível e legítimo fazer dela o
debilitar a nossa capacidade de agir, põe em perigo
modelo de uma reapropriação de seu pensamento:
a "vida". Mas esses dois motivos aparentemente con-
se Nietzsche foi capaz de fazer da Aufklórung um Ins-
traditórios obedecem de fato à mesma intuição: am-
trumento de sua crítica da Razão, cabe a nós fazer
bos estão voltados contra os dois conceitos centrais
do seu "Irraclonallsmo" o meio de uma continuação
do idealismo alemão, a reflexividade e a esperança
da emancipação começado com o lIuminismo.
de uma reconciliação entre o sujeito e o mundo (ou
Em suas primeiras obras, que se situam sob o signo
entre o ideal e o real). Em O Nascimento da Tragé-
de Schopenhauer e de Wagner, Nietzsche tratava de
dia, o conhecimento que leva à "aniquilação do indi-
revelar, com o nome de "sabedoria dionisíaca", um
víduo" só pode vir de um acesso direto ao "horror da
mundo desconhecido de que a música era a expres-
verdade", que se distingue completamente do cálcu-
são mais perfeita e de que a metafísica de O Mundo
lo realizado pelo pensamento reflexivo; é exatamente
como Vontade e Representação fornecia a com-
o papel desempenhado peia reflexão na ciência his-
preensão mais profunda. As artes plásticas, dizia
tórica que Impede que se veja nela um verdadeiro
Nietzsche na época, orientam-se para a produção de
belas formas Individualizadas; a música e a tragédia
10. F. NIETZSCHE.o Nascimento da Tragédia, § 7. trad. francesa.
visam, pelo contrário, à apresentação Imediata do
Gallimard. Oeuvres philosophiques completes. T.I. 1977. p. 70.
11. tb., pp. 69-70.
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PHILlPPE RA YNAUD NIETlSCHE EDUCADOR
NJETZSCHE E O ILUMINISMO

conhecimento e que faz com que ela ameace afas-


tar-nos ao mesmo tempo da vida e da verdade. Nas riano"14 éque a Inflexão ocorrida nas teses de
primeiras obras de Nletzsche, o motivo schopenhaue- Nletzsche é Inseparável da permanência de seu esti-
rlano da superioridade do Instinto sobre a consciência lo filosófico e que ela tem sobretudo como efeito ex-
permite, portanto, ao mesmo tempo fazer compreen- plicltor o que dava sentido às primeiras polêmicas.
der a necessidade de sair do "querer-viver" e mostrar Duas Idéias comandam, com efeito, o "ciassiclsmo" e
a precedência da vida sobre a representação. Da o "posltivismo" de Humano, Demasiado Humano e de
mesma forma, outro tema tomado de empréstimo a Aurora. A primeira é a da dissoclação entre a ciência
S,chopenhauer permite relacionar o "ascetismo" dionl- e a metafíslca, que mostra o Ideal desta última como
srcico com a polêmica contra o mundo contemporã- um sucedâneo da religião: "A metafísica explica por
neo; a busca de uma reconciliação entre o Indivíduo assim dizer pneumaticamente o Livro da natureza, co-
e o mundo repousa, com efeito, na mesma ilusão mo a Igreja e seus doutores faziam outrora com a Bí-
que leva os "filisteus" a Identificarem o sucesso e a blia. É preciso multa Inteligência para aplicar à natu-
12 reza o mesmo gênero de Interpretação estrita que os
cultura : a emancipação do pensamento pressupõe
nos dois casos a recusa da tese hegeliana da Identi- fllólogos agora estabeleceram para todos os livros:
dade entre o real e o racional. com vistas a compreender simplesmente o que o tex-
= primeiras obras de Nletzsche, a crítica do Ideal to quer dizer, mas sem nele ver, nem mesmo nele su-
classlco ("apolíneo") e a análise da "utilidade e dos In- por um duplo sennao'": Mas essa crítica da "necessi-
convenientes da história para a vida" levam a recusar dade metafísica" é ela própria a propedêutlca ao
a dominação do "princípio de Indivlduação", a desva- que Nletzsche mais tarde vai chamar de sua "campa-
lorizar a reflexão e a contestar os méritos da cultura nha contra a moral". As categorias metafísicas, com
histórica. A partir de Humano, Demasiado Humano efeito, são apenas "noções auxiliares da moral", e o
pelo contrário, Nietzsche se mostra ao mesmo tempo privilégio dado à explicação causal, que permite rom-
um partidário do ciasslcismo contra o romantismo, um per com os sortilégios de uma história santificante, tem
d.ef~nsor do "positivismo" e um praticante da ciência portanto como fim real preparar a "Inversão de todos
hlstorlca. Um estudo atento dos textos mostra, porém, os valores": a importância dada à "questão por quê?
que, apesar dessas mudanças, há uma continuidade de que serve?" decorre da "convicção de que a hu-
profunda no pensamento de Nietzsche. O "classlclsmo" manidade não está por si mesma no bom caminho,
do segund~ período permanece fiel à idéia principal de que ela não é de modo algum governada por
de O Nasclrrierito da Tragédia, que é a do equilíbrio leis divinas, mas que, pelo contrário, dentre seus valo-
entre os dois Instintos "apolíneo" e "dionisíaco" e, para- res mais sagrados está Justamente o instinto sedutor
lelamente, o tipo de história que é evocado em Hu- da negação, da corrupção, da decadência que
mano, Demasiado Humano ou em Aurora se baseio sempre grassou"16. Ora, essa mesma orientação ge-
numa crítica generalizada dos diferentes formas do ra- nealógica acarreta um tipo particular de argumenta-
cionallsmo hlstórlc o+ê. ção e de escrita filosófica. As categorias e as posi-
De f:,to, o que me parece mais significativo na ções são menos "discutidas" do que "avaliadas" em
evoluçao que leva do período "schopenhaueriano" função de sua capacidade de aumentar ou de di-
de Nletzsche ao que os historiadores da filosofia às minuir as forças da vida e, por isso mesmo, as pró-
vezes chamam de seu período "positlvista" ou "volta 1-
14. Nietzsche dedicou a reedlçóo de Humano. Demasiado Humano
a Voltaire. em "homenagem pessoal a um dos maiores libertadores
12. Ver sobre este ponto a Primeira Consideraçóo Intempestiva. "Oa- do espírito".
vld Strausscrente e escritor". 15. Humano, Demasiado Humano, I parte. § 8. trad. francesa, Gal-
13. Permito-me sobre este ponto remeter a meu Prefácio de Auro- limard, Oeuvres philosophiques completes, T. 111,
reed. 1988, p. 36.
ra. trad. francesa. Hachette, col. "Pluriel". 1987. 16. NIETZSCHE, Ecce Homo, trad. francesa, Oeuvres philosophiques
completes, Gallimard. T.VIII,1974, pp. 302-304.
NIETZSCHE EDUCADOR
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS DE NIETZSCHE A WEBER: OS LIMITES DO PERSPECTlVISMO
PHILlPPE RA YNAUD

Nletzsche, Max Weber, cujo pensamento depende in-


prias figuras aparecem uma por uma como meios de timamente dos conceitos presentes nele (e não ape-
emancipação ou, pelo contrário, como entraves ao po- nas da Stimmung "fim de século" que reina em seus li-
der .cria~or "d~S,indivíduos, sem que nunca haja uma vros). Weber, com efeito, herda quatro temas
totahzaçao diolétlco" de sua sucessão. A apologia do nietzscheanos principais: o "perspectivismo", a recusa
lIuminismo e da história à qual se consagra Nietzsche de toda interpretação "providencia lista" da história, a
ao longo de seu período positivista não contradiz, por- dissociação entre o ideal da autonomia e o raciona-
tanto, realmente a Inspiração de O Nascimento da Tra- lismo moral kantiano, a impossibilidade, enfim, de uma
gédia ou das Considerações Intempestlvas: ela se con- fundamentação racional dos juízos éticos. Sobre cada
tenta em infletir alguns de seus temas para reforçar o um desses pontos, sem dúvida, Weber procede a
que, na cultura da época, é favorável às forças ativas. uma limitação da crítica nietzscheana, o que pressu-
põe certa fidelidade à herança raciona lista, mas tudo
É a partir daí, ao meu ver, que podemos com- se passa, porém, como se, decididamente, o trabalho
,:reender que "bom uso" da obra de Nietzsche é pos- de sabotagem realizado por Nietzsche não fosse sim-
sivel fazer quando o "nietzscheanismo" acabou por In- plesmente para ele um dado a levar em conta, mas
formar partes muito grandes da cultura e, simultanea- também, por assim dizer, a condição de sobrevivên-
mente, sua legitimidade propriamente filosófica se de- cia dos ideais lIuministas.
bi~itou pr?fundamente. Já disse que devemos procurar O perspectivismo de Nietzsche supõe uma ruptura
por a cntica nietzscheana a serviço da própria Razão com a idéia "positivista" da objetividade histórica, tal
como Nietzsche fora capaz de mobilizar o lIuminism~ como ela se exprime na célebre fórmula de Ranke (o
em seu combate contra a herança roctonottsto: mas historiador conta "o que efetivamente se passou"). A
isso só é possível se nós mesmos encontrarmos urn es- esse Ideal, Nietzsche opõe uma dupla objeção: o his-
tilo filosófico tão adaptado a essa tarefa quanto o de toriador não trata de "acontecimentos" reais, e sim de
Nietzsch~ o era para aquilo a que se havia proposto: uma cadeia contínua de interpretações de que faz
isto supoe que saibamos jogar, como o fazia o 'autor parte seu próprio discurso, e, aliás, os acontecimentos
~e ~~rora, com as possíveis reviravoltas das posições só têm eficácia causal enquanto são eles próprios re-
fllosóftc os. mas implica também um mínimo de re- tomados em reoresentações": mas o significado real
construção sistemática, o que só pode fazer passar do perspectivismo é sobretudo, como dirá Nietzsche
par? o segundo plano as formas literárias (o aforlsmo, em A Gala Ciérvckr", que ele abre para um "novo
a fabula etc.) em que se exprime de modo privilegia- 'Infinito"', que impede que se privilegie o ponto de
do a maneira de pensar de Nietzsche. vista humano sobre o mun do!". Em Max Weber, o
perspectlvismo tem Inicialmente um significado eplste-
mológíco: traduz a "heterogeneidade de príncíplo"20
entre as ciências da natureza, orientadas para a bus-
ca das "leis", e as ciências históricas, que se interes-
sam prioritariamente pelo que é "significativo". As ciên-

DE NIETZSCHE A WEBER: 17. Ver principalmente Aurora, § 307.


OS LIMITES DO PERSPECTIVISMO 18. A Gaia Ciência, § 346, 354, 374.
19. tb., § 374; o perspectivlsmo nietzscheano, portanto. dirige-se con-
tra o pensamento de Kant, que punha a pergunta "que é o

p ara Ilustrar o que poderia ser uma tal retomada


homem?" no centro da filosofia.
20. M. WEBER, "A Objetividade do Conhecimento nas Ciências e na
da herança nietzscheana, o melhor parece-me Política Sociais', trad. francesa em Essaissur Ia théorie de Ia scien-
ser partir da obra de um dos maiores leitores de ce, Plon, 1967. p. 160.
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r~!~i~~rrjrj!)

I
:;:::;::::: :::::::;:;:;

I clas históricas são, efetivamente, Inseparávels da "rela-


ção com os valores" que leva um cientista particular
a privilegiar um conjunto singular de problemas e que
também orienta, no próprio trabalho científico, a de-
não para o outro. O que varia é antes o grau de In-
teresse que eles tem por um e nao pe Io ou t ro22"
A -

Diremos talvez que se trata aí de uma Inconse-


qüência de Weber, que aliás se traduz por um sim-
.

terminação das questões a resolver e a seleção das ples desmembramento da questão nletzscheana da
Informações pertinentes; como Nletzsche, Weber Insis- verdade; Weber torna absolutas. efetivamente. as "nor-
te, portanto, na Idéia de que o "fato" científico é não mas de nosso pensamento" quando tenta mostrar que
apenas "construído" como dependente do ponto de há um elemento unlversallzável no conhecimento his-
vista do cientista, que ele próprio se Insere numa cor- tórico, mas reconhece Implicitamente o aspecto de
rente preexlstente de Interpretações. O aspecto decisão não racional apresentado pela crença na
nletzscheano do pensamento de Weber aparece prin- objetividade: "É verdade científica apenas aquela que
cipalmente na maneira como ele modifica a noção pretende valer para todos os que querem a
de "relação com os valores", que toma de Rlckert21. verdade"23. Acho. porém, que esse mesmo argumento
Para este último, a parte da singularidade na consti- pode ser invertido. na própria lógica do pensamento
tuição do discurso histórico continua, de fato, bastan- de Nietzsche. Se este último escolheu, em Humano,
te estreitamente circunscrita: a história só é Inteligível Demasiado Humano, "retomar a bandeira do
se for una, e esta unidade só é pensável no horizon- lIumlnlsmo''24,é porque, para poder levar a bom termo
te de uma síntese entre os diferentes sistemas de va- a crítica da "premêncla metafíslca" e da ilusão religio-
lores; para Weber, pelo contrário, a escolha dos "va- sa ou moral. era Imperiosamente preciso poder afirmar
lores" permanece afetada por uma Irraclonalldade a autonomia do "verdadeiro" relativamente ao "bom",
que não pode ser Inteiramente eliminada, o que Im- para em seguida dirigir a crítica genealógica contra a
pede ao mesmo tempo a retomada do ponto de vis- própria vontade de verdade; neste sentido, há sim, no
ta kantlano da "esperança" e a Ilusão de uma sínte- próprio Interior do pensamento de Nietzsche, a neces-
se final entre as diferentes perspectivas adotadas pe- sidade de uma distinção mlnlmal entre o perspectivis-
los cientistas. Neste sentido, podemos considerar que mo das questões e a objetividade dos resultados,
a eplstemologla weberlana se baseia numa Inflexão mesmo se esta úitima se relacione (segundo uma fór-
nletzscheana das teses neo-kantianas de seus anteces- mula que Weber não renega) com a "vontade" dos
sores. Há, porém, um ponto em que Weber recusa que procuram a verdade. Para além do estilo filosófi-
multo firmemente o radicalismo "perspectivlsta" de co de Nietzsche - fundamentado no desmembramen-
Nietzsche; preocupado em fundamentar a possibilida- to indefinido do conflito entre os pontos de vista e as
de de uma ciência social objetiva, Weber afirma que, forças que ali se exprimem =, o problema é saber se
apesar da heterogeneldade radical dos "valores" que a possibilidade da genealogia e da história é pensá-
orientam seus trabalhos, os cientistas podem chegar a vel sem um mínimo de fundamentação da objetivida-
um acordo no que diz respeito aos resultados de suas de. Sem poder discutir aqui o conjunto do pensamen-
pesquisas: "A ordem (das significações) varia historica- to de Nletzsche, creio possível dizer que o recurso ca-
mente com o caráter da civilização e do pensamen- da vez mais acentuado em suas últimas obras à idéia
to que domina os homens. Evidentemente, não se se- de uma base "científica" ou "objetiva" da inversão dos
gue daí que a pesoulsa no domínio das ciências da valores e do Eterno Retorno deve ser considerado um
cultura só possa dar em resultados que sejam 'subje- indício de uma dificuldade, que por ser quase trivial,
tivos' no sentido de que só seriam válidos para um e não deixa de ser muito importante: a recusa da refle-

22. M. WEBER. p. 171.


21. H. RICKERT. Grenzen der naturwissenschaftlichen Begriffsbildung. 23. Ib.
Berlim. 1896. 1902.
24. F. NIETZSCHE. Humano. Demasiado Humano. I. § 26.
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xão que subjaz à Interpretação cética do "perspectl-
vlsmo" parece contentar-se com a volta de um dog- da racionalização reconstituída em Economia e So-
matlsmo bastante flagrante (mesmo se os nletzschea- ciedade, são aqui estreitamente dependentes da
nos de hoje na maioria das vezes guardem silêncio a problemática nletzscheana, como o mostra principal-
este respeito). Se assim for, a posição aparentemente mente o papel desempenhado pelo "carlsma" ao
menos "radical" de Weber exprime de fato a volta de mesmo tempo na ruptura com a tradição e na pre-
um,: problemática reflexiva e criticlsta que a radlcall- servação das possibilidades de uma existência autên-
zaçao nletzscheana da crítica não pôde realmente tica sob a burocracia moderna. Resta, no entanto,
su,:,erar, já que, de certa maneira, ela topa com as que a Intenção de Weber é, em última análise, sal-
proprlas questôes que Kant tentara resolver. var a herança do lIumlnlsmo contra seu desenvolvi-
. A análise da transformação dos outros temas mento dlalétlco e não, como em Nletzsche, colocá-
nletzscheanos dentro do pensamento de Max Weber 10 a serviço de um projeto de superação ou de des-
leva a observações semelhantes. A polêmica de We- truiçõo do racionalismo. É essa intenção de reconstru-
ber contra a herança das filosofias da história do sé- ção de um raclonalismo mínimo que também trans-
culo XIX nas ciências sociais de seu tempo em vários parece, apesar das hesitações de Weber, em sua re-
pontos. vai ao encontro das reflexões de Nietzsche: flexão moral; contrariamente a uma Interpretação di-
nos .do~s casos, trata-se de dlssoclar o sentido histórico fundida demais, a "ética da responsabilidade" não é
da Ilusao especulativa de uma dedução da diversida- uma opção entre -outros: ela exprime melhor do que
de e, sobretudo, da perspectiva consoladora de uma qualquer moral "acósmlca" o trágico da condição
r~conciJjação final, para além das antinomias que de- humana, tal como o mostra a reflexão sobre as an-
finem a experiência do devir. Mas devemos também tinomlas permanentes da açã026.
assinalar que a obra de Weber permanece dominada O que dá valor à obra de Weber é, portanto, que
por uma problemática da racionalizaçõo que sem dú- ele tratou com a maior seriedade as objeções que
vida deve tanto à herança do Idealismo alemão Nietzsche opôs à modernldade, ao mesmo tempo
quanto à crítica nietzscheana. Paralelamente, observa- que sabia que essas críticas só adquiriam realmente
remos que, na maneira como coloca o problema das seu sentido no quadro de um prosseguimento do
condições da autonomia no mundo moderno, Weber projeto moderno. Não é Impossível, aliás, que essa In-
realiza um sutil desmembramento das teses de fidelidade aparente seja o produto de uma fidelida-
Nietzsche. Para este último, o lIuminlsmo devia com de mais secreta e mais profunda. É significativo, em
certeza ser reabilitado contra a crítica romântica, por- todo caso, que o único problema onde o "declsionls-
q_ue a despoetização do mundo provoca da pela difu- mo" weberiano não pode ser superado é o das rela-
sa~ da Interpretação determlnista da natureza contrl- ções entre a graça e a natureza: sabemos que, a
buíro para a emancipação da vontade; mas essa partir do momento que agimos no mundo, as formas
a~a~ente apologia da Razão se inseria numa proble- acósmlcas da "ética da convicção" são mentiras,
rncttco globalmente "irracionalista", onde a loucura mas nada pode garantir-nos que nossa salvação se
d:sempenhava um papel de primeira linha na destrul- dê neste mundo. Weber está aqui ao mesmo tempo
ç,?o = Jugo da tradlçã025 e onde, sobretudo, a ra- multo distante e multo próximo de Nietzsche: multo
zao so era valorizada enquanto rastro de uma criatlvl- distante, já que este último considera adquirida a
dade que, em seu fundo, permanece Irremediavel- possibilidade de uma forma de humanidade superior
mente Irracional. As tlpologias weberlanas das formas às mais altas encarnações do espírito cristão, mas
de atividade e de dominação, assim como a lógica também muito próximo, já que o problema de um

26. Sobre todos estes pontos. permito-me remeter o leitor ao meu li-
25. Ver sobre este ponto Aurora, § 14.
vro Max Weber et les dilernmes de 10 raison moderne. PUF.col. "Re-
cherches politiques", 1987.
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eventual rebaixamento da humanidade ao final da matizes kantianos. Paralelamente, a situação relativa


crítica da religião é central no pensamento de das "ciências humanas" e das formações discursivas
Nletzsche'". novas como a psicanálise não se deixa descrever
tão facilmente pela oposição entre o privilégio do
"homem" (o par "empírlco-transcendental") e o ad-
*
vento de uma figura Inédita que se tornou possível
A grandeza de Weber é ter pressentido que cami- com sua "morte"; é, pelo contrário, muito possível
nhos continuavam abertos numa situação Intelectual considerar que é por razões de fundo que as críticas
marcada, por um lado, pela constituição das "ciên- mais radicais do "humanismo" se formaram no Interior
cias humanas" e, por outro, pela crise do raclonalis- da eplstemologia das "ciências do espírito" ou das
mo moderno; Nietzsche exprimiu o que estava em jo- "ciências humanas", como o mostram ao mesmo
go nessa crise, do ponto de vista filosófico, antes tempo a dependência de Nietzsche relativamente ao
que a história política do século XX se encarregasse "historismo" pós-kantiano e a dívida de Heldegger pa-
de mostrar seu significado político. A divisão de sua ra com a obra de Dilthey. O que permanece vivo,
posteridade - do "declsionismo de Carl Schmitt ao ra- em compensação, é o sentimento tenaz de que al-
clonalismo renovado de Habermas" - mostra porém go se perdeu desde o lIuminismo e de que um pen-
que a questão da parte relativa que convém dar à samento como o de Nietzsche pode nos ajudar a fa-
herança do lIuminlsmo e a suas críticas mais radicais zer dessa perda uma nova' oportunidade.
permanece ainda aberta. Se assim for, nada nos ga- Se a obra de Nietzsche conserva um lugar de des-
rante que seja definitivo o atual descrédito do "irra- taque na filosofia contemporânea, é em primeiro lu-
cionalismo", e o eclipse por que hoje passa a glória gar porque encontra duas experiências dificilmente
de Nietzsche na França poderia muito bem ser pas- ultrapassáveis. A primeira é a da perda do "cosmos",
sageiro. Acho, porém, que mesmo que os nossos ou do desaparecimento da referência a uma nature-
contemporâneos devam no futuro voltar a ser de za ao mesmo tempo coerente e finalizada. É ela
uma ou de outra maneira "nietzscheanos", Isso acon- que comanda a evolução da consciência histórica:
tecerá de um modo muito diferente do dos anos 60 também aí, se a obra de Weber é exemplar, é por-
ou 70: a obra de Nietzsche hoje não aparece mais que liberta a preocupação com a Inteligibilidade da
como uma superação da modernidade, e sim como história da referência ao "centro de perspectiva" pri-
um elemento de uma discussão que com certeza es- vilegiado que em Kant ainda era o "desígnio da Na-
tá destinada a prosseguir indefinidamente. Acho cla- tureza" - e é realmente a crítica nietzscheana que
ro, em particular, que hoje não podemos mais reto- está no princípio dessa muto ôo". A explosão do
ç

mar as fórmulas tempos atrás tão sedutoras de De- "mundo" está também no coração da estética con-
leuze ou de Foucault. A radicalização da crítica kan- temporânea29, que também é uma das manifesta-
tiana ("somos nós que comandamos") expõe-se a ções mais claras dessa outra experiência, que tem-
uma dupla objeção: se seu objetivo é destruir a me- pos atrás chamávamos de "morte do sujeito", mas
tafísica da subjetividade, não vemos o que poderia que deve ser antes compreendida como o apareci-
protegê-Ia de uma crítica heideggeriana; se, pelo mento de uma nova figura da subjetividade. Sabe-
contrário, se trata de aprofundar a problemática da
autonomia, ela própria deve autolimitar-se e dar de 28. Ver sobre este ponto P. RAYNAUD,Max We~er et les dilemmes
de Ia ralson moderne. pp. 62-67.
novo um lugar mínimo a uma filosofia prática de 29. L. FERRY,Homo aestheticus. L'invention du goüt à J'óge demo-
cratlque, Paris. Grasse!. cor, "Le college de phllosophie". 1990; ver
27. Ver sobre este ponto a retomada da descriçOo nletzscheana também. em outra perspectiva. G. DELEUZE. Cinéma I. L'/mage-
do "último homem" no final de A Ética Protestante e o Espírito do mouvement. Cinéma 11.L·image-temps. Ed. de Minuil. col. "Crill-
Capitalismo. trad. francesa, Plon, 1964, pp. 249-253. que", 1983-1985.
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primeiro lugar que as Idéias e os esquemas que sub-


mos o lugar que teve a psicanálise nessa Interpreta- jazem ao grande movimento que vai dos anos 60 à
ção da extrema modernldade: o modelo do "sujeito atual "pós-modernidade" se formaram num contexto
quebrado" parecia Impor o abandono de qualquer (os anos 30) que é justamente o de uma crise políti-
Idéia de uma reaproprlação do sentido de suas ca do lIuminlsmo, no país "clássico" de sua realização
obras pelo sujeito, em que a cura só podia produzir "republlcana"34: o questlonamento da herança filosó-
uma nova disposição dos elementos do Inconsciente fica raciona lista e "progressista" estava ligado à cons-
"dlnâmlco"30; por outro lado, parece que a Idéia de ciência dessa crise. Ao final de um sinuoso percurso,
uma reconquista da "autonomia", para além da divi- dialétlco ou paradoxal. que Inclui diversos vaivéns en-
são do sujeito, também dificilmente pode ser elimina-
tre Paris e a Califórnla, as mesmas Idéias curiosamen-
da quando se trata de mostrar a slgnlficpção da
te acabaram fazendo parte Integrante da cultura
curo>'. Este debate me parece ilustrar bastante bem
dominante e sendo postas a serviço das paixões de-
o que está em jogo na relação que mantemos hoje
mocráticas. Esta evolução às vezes é deplorada por
com os críticos "irraclonalistas" da subjetividade, que
dois tipos opostos de razões: porque põe em perigo
não raro são também os herdeiros, conscientes ou
a democracia, promovendo princípios que lhe são
não, de Nletzsche. Estes últimos não apenas nos fize- hostis, mas também porque submete às forças reatlvas
ram lembrar que a plena transparência do sujeito a um pensamento que justamente devia contê-las35.
si mesmo é uma ilusão: eles mostraram que o desen- Acho mais fértil considerar que a tarefa do pensa-
volvimento do próprio "para-si" é sustentado por uma mento político democrático é a.náloga à que tentei
"criatividade" ou uma potência inconsciente que não definir para a filosofia: antídoto do espírito moderno, o
podemos desejar eliminar; por outro lado, porém, não
pensamento de Nletzsche deve ser tomado como um
podemos ter outro projeto subjetivamente Inteligível
meio privilegiado da autocrítica da modernldade. É
que não a "autonomia", que supõe nosso acesso à
nisso que, mais do que um mestre de verdade,
condição de "sujeito". É neste paradoxo que deve-
Nietzsche é um educador.
mos aprender a viver e a pensar32.
Há, finalmente, uma última razão que explica a "a-
tualidade" desse autor "Inatual" (ou "intempestlvo").
Desde o Início do século, a reflexão sobre Nletzsche
não deixou de ser reavlvada pelas discussões provo-
cadas pelas transformações da democracia moder-
na. Mesmo sem remontar aos adversários declarados
da democracia (que não eram necessariamente es-
píritos medíocres nem fanátlcos33), lembraremos em

30. Poderíamos mostrar que a origem distante desse modelo se


encontra na inversão "romântica" da problemática leibniziana do
Inconsciente. que permeia toda a história do idealismo alemão.
da teoria kantiana do "gênio" à reconstrução heideggeriana da
fenomenologia, e que encontrou uma de suas expressões mais 34. Este ponto foi bem ressaltado por V. DESCOMBES. Philosophie
poderosas em Nietzsche. par gros temps, Ed. de Minuit, col. "Critique". 1989, capo IV: "A Cri-
31. L. FERRYe A. RENAULT. O Pensamento 68. Ensaio sobre o An- se Francesa do lIuminismo".pp. 69-95.
ti-Humanlsmo Contemporâneo. S. Paulo, Ensaio. 1988; especial- 35. Às vezes acontece que as duas críticas coexistem. como é o
mente capo VI, "O Freudlsmo Francês (lacan)". pp. 217-240. caso na obra de A. BlOOM, em que se integram ambas a uma
32. Este problema está no centro da obra de C. Castoriadis. e interrogação "soorótíco" sobre o problema da educação e da cul-
principalmente de sua reflexão sobre a psicanálise. tura (L'âme désarmée. Essal sur le déclin de Ia culture générole,
33. Pense-se em Georges Sorel ou no Thomas Mann das Conside- trad. francesa Julliard, 1987).
raçóes de um Apolítico.
o PARADIGMA
TRADICIONALISTA:
HORROR DA MODERNIDADE
E ANTILlBERALlSMO.
, NIETZSCHE ,
NA RETORICA REACIONARIA
......:::::::::::::~ : ', ::::::::::::::::::::;:::~::;rrrfr::::::::~:~:~:~:~r::::::::::::.'
;:;:;:;:;:;:?f~:!···~:;,;.;.:.:.::;;::;:/~{{:~:r~:r;;:::::::::::::::;::::::::::::::::::::::::::::.:.:....
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PARADIGMA o
TRADICIONALISTA:
HORROR DA MODERNIDADE
E ANTILlBERALlSMO.
NIETZSCHE
NA RETÓRICA REACIONÁRIA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF
labirintos do discurso radicalmente antimoder-
N OS
no, não nos poderíamos aventurar sem um fio
de Arladne, que deve ser dotado de uma virtude su-
plementar, a de Indicar o caminho que contorne as
acumulações de cllchês e de banalidades sobre a
oposição entre Antigos e Modernos, ou entre tradição
e modernidade. Ora, existe um tema recorrente, e no
entanto Ignorado, nas diversas formas do tradlclonalis-
mo antimoderno: o tema da modernldade como era
da "discussão perpétua" (Donoso Cortés). Tema polê-
mico, que Intervém de um modo paradoxal: a retóri-
ca antimoderna radical define a atividade retórica
como o atributo essencial do fênomeno moderno. Co-
locando a discussão Infinita como Instrumento-rei, va-
lor em si e norma absoluta da modernidade, os pen-
sadores do tradiclonalismo antimoderno definem seu
inimigo absoluto: a democracia liberal, precisada sem
dúvida enquanto sistema político ou modo de gover-
no, mas também e sobretudo como forma de vida
ou modo de existência humana. A negociação co-
mercial, a especulação financeira (que supõe o recur-
so à abstração verbal) e o debate parlamentar: estas
são as atividades típicas da modernidade discutidora,
rejeitada como "demo-liberal". É a caça ao sintoma re-
tórico da decadência moderna que reúne pensadores
tão diferentes como Bonald ou Donoso Cortés,
Nietzsche, Spengler ou Julius Evola. Sem contar a mul-
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
1. A ARGUMENTAÇÃO ANTlMODERNA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF

tldão de polemistas reacionários, que podem ser rela-


cionados com esta ou com aquela corrente do tradi-
cionallsmo - contra-revolucionários e monarquistas, re-
volucionários conservadores e "fascistas".
Se o pensamento antlmoderno radical é um pensa-
tensamente recusado na modernidade
organização
é o modo de
política que a assinala e a estigmatiza
aos olhos dos antimodernos: esse misto de liberalismo
e de democracia, onde se enlaçam de modo proble-
mático o primado da liberdade e o princípio da so-
I
mento da modernidade como decadência, convém, berania do povo. Antes de tornar a situar o pensa-
para compreender o pensamento nietzscheano da mento de Nietzsche no espaço tradicionalista, convém
tradição, partir de um esboço da idéia de decadên- reconstruir a lógica da argumentação antlmoderna
cia, tal como a pressupõem todas as formas de tradi- que ele pressupõe, argumentação recorrente que se
fundamenta em quatro proposições de base:
cionallsmo intransigente. Só depois podemos mostrar
- O mundo moderno é em si mesmo um processo
como, com base no mesmo axioma antlliberal, o se-
gundo tradiclonalismo inaugurado pelo pensamento de decadência.
de Nietzsche derruba a hierarquia do político e do - A decadência é essencialmente perda dos valo-
teológico-político em proveito do político. Resulta daí res supremos, desaparecimento das normas absolutas,
que a salvação não depende mais só da Providência donde se segue que nenhuma autoridade pode ser
e que ao involuntarismo ultra-pesslmista do primeiro fundamentada e nenhuma hierarquia pode ser respei-
tradicionallsmo (Bonald, Donoso Cortés) devemos subs- tada. É assim, por exemplo, que em 1861 Antoine
tituir a forma de voluntarismo político mais mobllizado- Blanc de Saint-Bonnet diagnostica o "olvido dos princí-
ra de toda a modernidade, o nacionalismo. A doutri- pios" pelo qual a França "perece"l.
na da Action française, o "nacionalismo integral", ilus- - A decadência se manifesta e se acelera pelo
tra muito bem essa nova síntese de tradiclonalismo e progresso geral, em todos os campos, da discutib/llda-
de voluntarismo nacionalista, pela qual a posição ra- de dos princípios e das evidências: é esse, aos olhos
dicalmente antiliberal efetua a sua primeira passag,em do tradicionalista, o efeito mais visível da força conta-
ao político. A referência a Nietzsche, apesar de certas giosa das idéias "liberais", vistas como destruidoras de
toda ordem, de toda autoridade e de toda certeza.
aparências (a cortina de fumaça da germanofobia),
não é estranha a isso. - O processo decadenclal moderno é irreversível e,
por ser anormal, atípico ou patológico, tende neces-
sariamente para o seu próprio fim, acabamento de
um processo de erosão ou de decomposição. A lógi-
ca do tempo decadenclal é a da marcha rumo ao
esboroamento geral e final. Portanto, essa marcha ine-

1. A. Blanc de SAINT-BONNET, L'lnfaillibilité (1861), Paris. N.E.L.. 1956.


p. 31. O diagnóstico do jovem Arthur de GOBINEAUé do mesmo ti-
1. A ARGUM_ENTAÇÃO ANTI"MODERNA po: "Nossa pobre pótria estó como na decadência romana / .../.

E A VISAO DA DECADENCIA Não acredito mais em nada e não tenho mais opiniões / .../. O ou-
ro matou tudo / .../, e a própria religiãó, passando, se é eterna, em
sua forma atual, a um outro hemisfério, estó longe demais de nos-
sos espíritos e de nossa civilização para retiró-Ia do lamaçal onde
a. cada dia ela se afunda mais / .../. Adeus, tempos de crença,
A hipót~se diretriz da~ análises que apresentamos
aqui e que sob multes aspectos Nietzsche pode
dias de esperança, futuros gloriosos"(Carta a sua irmã de 20 de fe-
vereiro de 1839; in Ludwig SCHEMANN.Quellen und Untersuchungen
ser considerado um pensador tradicionalista. O pressu- zum Leben Goblneaus, t. I, Estrasburgo, 1914, pp. 299-300). O mal
posto primeiro do pensamento tradicionalista do sécu- mortal que atinge o monarquismo é um dos sinais anunciadores do
desvanecimento do sentimento religioso (cf. Alain NÉRY,"Gobineau
lo XIX é a denúncia global e a condenação total do
e a sucessão de Henrique V", Mémoire, revista trimestral. Paris,
mundo moderno. Mais precisamente, o que é mais in- 1985-11,pp. 68-69).
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O PARADIGMA TRADICIONALISTA
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xoróvel, que seria vão querer deter ou inverter, só po- nletzscheana do retorno do nllllsmo, conversão ou
de levar ao seu termo: a catástrofe. Mas a comoção transmutação dos valores, mostra a possibilidade de
•,i.:,i·::·,z:.·,.·.:,:.:·,lj/
. ::::::;:;:: total e final é suscetível de diversas Interpretações: o um segundo pensamento tradicionalista, onde a des-
fim de um mundo pode ser pensado como fim do truição produzida pela decadência chegada a seu
mundo, mas também como Instauração de um novo termo abre caminho a uma contra-modernidade
mundo. O arco das atitudes Interpretativas vai do pes- completamente diferente da dos contra-revolucionários
simismo radical ao otimismo mais sereno. À primeira (que une sumariamente a "reação contra" ao "retorno
vista, sem dúvida, tal concepção da decadência mo- a"). A reação antlmoderna pode ser pensada quer
derna parece Implicar um pessimismo catastrofista, ba- como uma parada do processo destruidor que permi-
seado na profecia do fim dos tempos. Bonald, por te um retorno salvador, quer como uma radicalização
exemplo, escreve a Joseph de Maistre em dezembro da decadência que torne possível uma auto-supera-
de 1817:
ção dela (a transmutação de todos os valores que
designam essa autotranscendêncla). Conforme ele In-
Existem para mim coisas absolutamente Inexplicá- tegre o mito da redenção por um retorno à boa ori-
vels e sair delas não me parece estar em poder gem ou à ordem natural de antes da queda, ou o
dos homens, enquanto agem por suas próprias da metamorfose ou da conversão dos valores por ou-
luzes e sob a Influência apenas de sua vontades; totranscendêncla do niillsmo, o tradiclonalismo se faz
e, na verdade, o que vejo de mais claro em tu- contra-revolucionário e sobrenaturalista, ou Intempestl-
do isso / .../ é o Apocalipse2• vo e sobre-humanlsta. A revolta absoluta contra o
mundo moderno pode ser feita quer em nome de
Mas o termo da decadência final, ponto de não Deus, quer em nome do super-homem. É por isso que
retorno, pode Igualmente ser Interpretado como novo se devem distinguir duas tradições do tradiclonalismo
começo, re-nasclmento, ruptura criadora: a doutrina no século XIX: a fundada por Bonald, Maistre e Dono-
so Cortés, e a que Instauram os últimos escritos de
2. Louis de BONALD. in Joseph de MAISTRE.Oeuvres completes,
Lyon, E. Vitte, 1884-1887,t. XIV (Correspondência, 1816-1821).Para Nietzsche (1885-1888).
um comentário, ver: Gérard GENGEMBRE, La Contre-Révolution ou Essa grande argumentação radicalmente antimoder-
r histoire désespérante, Paris, Éditions Imago, 1989, em particular p. na constituiu-se na primeira metade do século XIX, em
211 ss, 253 ss. Encontramosem Maistre e Bonald uma teoria da de-
cadência enquanto efeito de composição de múltiplos efeitos per- reação, evidentemente, ao acontecimento revolucio-
versos, atribuídos à "Providência" ("essa força secreta que zomba nário e à irrupção da burguesia como classe domi-
dos conselhos humanos", como a caracteriza Joseph de MAISTRE
nante ou dirigente, mas também à descida da irreli-
em Les Considérations sur Ia France (1797), (cap. IX, ed. Jean Tu-
lard. Paris, Garnier, 1980, p. 84). Albert O. Hirschman insistiu com gião rumo às classes populares - esse movimento de
razão na antropologia ultra-pessimista(que implica um anti-humanis- descristianlzação, amplamente superestimado em seus
mo radical) da explicação pela "Providência", que "faz ver o inícios, sendo visto como progresso da barbárie espe-
homem / .../ meio estúpido, meio criminoso", uma vez que "ao se
esforçar por algo, consegue o contrário do que declara procurar" cífica do mundo moderno ou regresso à barbárle pri-
(Deux siàc/es de rhétorique réactlonnaire, trad. francesa de P. An- mitiva. É nos últimos escritos de Juan Donoso Cortés
dler, Paris, Fayard, 1991, pp. 38-39; quanto à versão romântica que (1808-1853), escritos que se seguem à "conversão" do
supóe a visão [ublloso de uma "potência irresponsável e fantasista"
que dispóe dos homens, cf. Carl SCHMITT, Romantisme politique [1Q mestre espanhol do tradiclonalismo católico (verão de
ed. 1919, 2Q ed. aumentada, 1925), trad. francesa de P. Linn, Paris. 1847), que encontramos a expressão acabada dessa
Librairle Valois, 1928, p. 92). Mas, deste ponto de vista providencia-
visão antlmoderna radical: vamos chamá-Ia de para-
lista, tudo está definitivamente perdido, ou apenas assim parece
aos espíritos humanos infirmes? O problema foi finamente colocado digma tradicionalista. O quadro tradicionalista da mo-
por Stéphane Rials a respeito de J. de Maistre: "Como consegue dernidade, tal como o pinta Donoso Cortés, põe em
ele conciliar sua certeza da Providência com o sentimento mal
cena um pequeno número de notações críticas, de
contido de uma forma inexorável de decadência?" (Révo/ution et
Confre-Révolution au Xlxe siooe, Paris,Albatros e D.U.C., 1987, p.39). que deriva uma condenação total. Podemos expor
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brevemente os principais motivos. Na ordem moral, se-


gundo Donoso. o verdadeiro e o bem se tornaram In-
deflnívels. portanto Inacessíveis; na ordem política. na-
da mais escapa à "classe discutldora". à burguesia li-
beral que agora domina sozinha, o que aprofunda e
A desfaçatez do espírito moderno sob toda sorte
de disfarces morais. As palavras pomposas são:
tolerância (por "Incapacidade
sim"); largeur de sympathie*
para o não e o
(um terço de Indife-
rença, um terço de curiosidade, um terço de ex-
li
torna Irreversível a an-arqula Intelectual e moral. O cltabllldade mórbida); / .../6
mundo moderno. demo-liberal. é um mundo onde
não há mais. onde não podem mais surgir "negações Logocracla mole e morna. o mundo moderno é
absolutas" nem "afirmações soberonos'", Reina a mo- também o mundo dos negociadores e dos Interme-
deração. o vazio é preenchido pelas agitações do diários. dos comerciantes e dos parlamentares. o mun-
comércio, tanto de mercadorias quanto de palavras. do dos "representantes". Nietzsche avalia como outros
O mundo moderno vê o triunfo da "discussão perpé- tantos sintomas de decadência o duplo fato de que,
tua". É nisso que a expressão política da modernldade na modernldade. de acordo com Corl Schmitt, "a so-
é a ascensão e a Instalação do "liberalismo burguês", ciedade humana se metamorfosela num Imenso
a imposição exclusiva dessa concepção liberal da de- clube'? ao passo que o estado se torna "uma grande
mocracia que só pode ver o mundo como uma ernpreso'". Nietzsche estigmatiza expressamente a mo-
Imensa assembléia parlamentar. onde a dúvida só en- dernidade como mundo dos "intermediários" e dos "re-
frenta a dúvida, onde a Irresolução só encontra seu presentantes".
duplo. onde a Indecisão se batiza a si mesma como
"tolerância". onde a Ilegitimidade dos dirigentes faz A preeminência dos comerciantes e dos Interme-
eco à mediocridade de todos e revela a baixeza dos diários [Zwlschenpersonen J, até no campo Intelec-
Ideais correntes. Donoso Cortés, em 1851, proclama tual: o escritor, o "representante" [Vertreter). o his-
seu axioma fundamental e logo tira dele a principal toriador (como alguém que mistura o passado e
conseqüência: . o presente), o exótico e o cosmopolita, os Inter-
mediários entre as ciências naturais e a filosofia,
O homem nasceu para agir, e a discussão per- os sernt-teóloços".
pétua, Incompatível com a ação, é demasiado
contrária à natureza humoncr'. A modernidade erlge assim o meio-termo e o "nem
um nem outro", o neutro e o misturado, o habitante
A modernização da existência humana é um pro- de lugar nenhum e o habitante de toda parte, o nô-
cesso de desnaturação do homem. made e o cosmopolita. em tipo normativo. Nietzsche
Nietzsche, em particular nos fragmentos póstumos estigmatiza a modernldade política Justamente por ser
dos anos 1885-1888, reencontrará os principais motivos a organização dos "representantes" como oligarquia. A
dessa recusa tradicionalista da modernidade. A espiri- democracia liberal é o regime que favorece a ascen-
tua lida de degradada do mundo moderno é em pri-
meiro lugar a das grandes palavras, das etiquetas Króner. 1964. § 80. p. 61 (1Q ed. alemã. 1901).
6. Ib.• § 79. p. 60 (primavera-outono de 1887); * em francês no ori-
pomposas presas a pretensos "Ideais" e "sentimentos
ginal alemão.
elevodos'": 7. Carl SCHMITT.Thé%gie politlque. Quatre chapitres sur Ia théorie
de Ia souveraineté. trad. francesa J.-l, Schlegel. Paris. Gallimard.
1988. p. 71 (texto datado de 1922).
3. Expressõescaras a Donoso CORTÉS;ver por exemplo: Essaisur le 8. Ib.. p. 73.
catho/icisme. le Iibéralisme et le socialisme (1851). Paris. 1859. reed .. 9. F. NIETZSCHE. WzM. § 76. p. 59 (primavera-outono de 1887); ver F.
Bouàre. Eds. Dominique Martin Morin. 1986. p. 223. NIETZSCHE. La VoIonté de Puissance [VP). trad. francesa de H. AI-
4. Ib.. p. 223. bert. Paris. Mercure de France. lSQ ed .• 1923 (lQ ed. 1903). t.l, § 49.
5. Friedrich NIETZSCHE. Der Wille zur Macht [WzM). Stuttgart. Alfred p. 91 (tradução que modificamos).
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I
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF
gollr sem problemas digestivos a "fé" assim como
são social e seleciona o tipo do "representante", o espírito científico, o "amor cristão" assim como
aquele que não é nem aristocrata nem trabalhador: o antl-semltismo, a vontade de potência (o Impe-
rialismo do "Relch" alemão) como o "Évangíle des
Hoje, no tempo em que o estado tem uma bar- riumbtes" ... Ah, essa recusa de escolher entre os
riga desmedidamente grande, há em todos os contrárlosl Essa neutralidade, essa "abnegação"
campos e em todas as disciplinas, além dos tra- do estômago I Esse sentido da eqüidade do pala-
balhadores propriamente ditos, também os "repre- dar alemão, que concede direitos Iguais a tudo,
sentantes" [Verfreter): por exemplo, além dos Inte- que acha que tudo está a seu gosto ...ll
lectuais, há também os escrevinha dores, além
das camadas populares miseráveis há também Vemos aquI, contrariamente à lição dada por cer-
uns Incapazes fanfarrões, falastrões que "represen- ta vulgata nietzscheana, que a denúncia do Igualita-
tam" essa miséria, para não falar dos políticos rismo não se situa no centro da argumentação antl-
profissionais que passam muito bem e com seus moderna de Nletzsche. Para uma boa leitura da feno-
robustos pulmões "representam" diante de um menologla polêmica do espírito moderno nos últimos
parlamento os estados de miséria. Nossa vida escritos nletzscheanos, a modernldade determina-se
moderna custa extremamente caro por causa antes pela metáfora da mistura de todos os alimentos,
dessa massa de pessoas tnterrnecüórlos'P. dos mais grosseiros aos mais refinados, e por uma
monstruosa capacidade de assimilação dos contrários.
Assim, se a democracia parlamentar encarna a de- A modernldade mistura e come, ela ingurglta e digere
cadência moderna na ordem política, por não saber indiferentemente todas as coisas. O que a caracteriza
dizer nem sim nem não, a sombra da decadência se antes de tudo é a ausência de aptidão distintiva que
estende também sobre a música, onde Nietzsche dis- ela manifesta em todos os campos. Nela, a digestão
tingue analogicamente uma Impossibilidade ou uma onipotente expulsa a discriminação. O sentido das distin-
recusa de escolher e de afirmar. Mas essas mesmas ções lhe é estranho, e é por Isso que ela carece de
decadências parciais encontram seus análogos em to- distinção. Assim, o espírito Igualitário não passa de um
dos os domínios da existência moderna. Se o panfle- efeito, de um Indício de um funcionamento que os tex-
tárlo Nietzsche tanto fala da música de Wagner ou tos nietzscheanos descrevem com metáforas fisiológicas.
da cultura alemã, é porque as acusa de todas as A modernidade pode assim ser descrita como um
perdas, Impotências e morbldezas características da imenso sistema digestivo, ou como um metabolismo
modernldade: monstruoso que, transformando todas as substâncias em
elementos iguais, torna tudo medíocre.
Quando sofro pelo destino da música, que é, en- Portanto, é menos o espírito igualitário do que o es-
tão, que me faz sofrer? Ver que a música per- pírito Intermediário e assimilador que caracteriza a mo-
deu o poder de transfigurar o mundo, de dizer dernldade em sua essência negativa. Nletzsche acres-
sim ao mundo, que ela é uma música de deca- centa a essa característica essencial o esgotamento
dênc/a* / .../. [Este livro é) um ataque contra uma da vontade e a ruptura das tradições, motivos abun-
nação alemã cada vez mais perigosa, cada vez dantemente comentados nos Ensaios de Paul Bourget.
mais sem instinto para as. coisas do espírito, cada de que se dizia bom leitor:
vez mais honesta, que continua, com um apetite
Invejável, a se alimentar de contradições e a en- 11. F. NIETZSCHE,Ecce Hemo (1888) [EH], "O Caso Wagner", ~ 1.
Irad. francesa de J.-C. Hémery, in Oeuvres Philosophiques Completes
10. F. NIETZSCHE, WzM, § 75 (1885), p. 59; Irad. francesa de A. Kre- [OPhCl, Paris, Gallimard. I. VIII, 1974, pp. 326-327; *; em francês no
mer-Mariefti. in F. NIETZSCHE,
Le Nihilisme européen, Paris, coleção original alemão.
"10/18", 1976, pp. 239-240.
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1. A ARGUMENTAÇÃO ANT/MODERNA

Para uma caracterização da "Modernldade" [Mo-


"esse sentido para a tradição" - Slnn für Überflefe-
aernttati. - Desenvolvimento exagerado das for-
rung], Considera-se a tradição como uma fatali-
mas Intermediárias [Zwischengebl/de}; enfraquecI-
mento dos tipos; ruptura das tradIções, das esco- dade [Fatalltat]; ela é estudada, reconhe_clda
las; predomínIo dos Instintos (preparado filosofica- (enquanto "herança" [Erbllchkeit)), mas ~ao a
mente: o Inconsciente torna-se de um valor querem, A tensão de uma vontade atraves dos
séculos, a escolha dos estados e dos valores ~ue
maior), depois que se produziu o enfraquecImen-
permitem que se possa dispor do futuro por secu-
to da força de vontade, do querer de um fim e
de melos ...12 los Inteiros - Isto é justamente, no mais alto grau,
antlmoderno [antimodeme]. Disso se deve concluir
que são os princípios desorganlzadores que dão
Nletzsche, no entanto, em seus últimos esboços
seu caráter à nossa époco ".
fragmentários, determina a modernldade não simples-
mente como ruptura com o passado, mas como erra-
Trata-se de mostrar, sobretudo, contra a hlstorlogra-
dicação de todas as formas do elemento tradicional.
A modernidade não é simplesmente perda, esqueci- fia dominante, que Nietzsche, quebrador de ídolos,
mento ou desvanecimento, não é uma mera ausên- desconstrutor e contemptor dos Ideais ascéticos na re-
cia de tradição, mas é fundamentalmente antitradl- I· .- o , na moral e na ciência, Nletzsche portanto,_ con-
Igla

ção. Mais precisamente: contra-tradição destinada a siderado moderno, ou até ultramoderno, em razao d~
nunca ser mais do que uma pseudo-tradição nova. A suas perspectivas hipercríticas e desmistificadoras, e
essência negativa da modernldade é ser um proces- também e sobretudo um pensador antimoderno, o
so de autodestrulção. Potência de destruição das tra- pensador da modernidade como fenômeno de deca-
dições e princípio de desorganização onipotente, a dência final. É quando o pensamento de Nletzsche
modernidade produz como que um crepúsculo da evolui no sentido de uma radlcalidade antlmoderna
cultura, o que Nietzsche chama de "ensombrecer mo- crescente, a partir de 1883-1884, que ele refaz os ~a-
derno" [moderne Verdüsterung] 13, cuja htstórto quer mlnhos, sabendo-o ou não, da crítica tradicionalista
escrever!', Num fragmento escrito entre novembro de de origem contra-revolucionária. Isso a ponto de reen-
1887 e março de 1888, Nietzsche caracteriza a antíte- contrar seus motivos positivos principais: o valor-norma
se entre a tradição (qualquer que seja ela) e a mo- de ordem hierárquica, a visão do eterno retorno ond~
dernldade: ganha nova vida a teoria dos ciclos. A ruptura explí-
cita com a tradição cristã de modo algum faz d~
o que está hoje mais profundamente corroído é Nietzsche um pensador estranho à herança do trodl-
o Instinto e a vontade de tradição [Tradition]: to- cionalismo, assim como o diagnóstico da "morte de
das as Instituições que devam sua origem a esse Deus" não torna Nletzsche Inacessível aos esquemas
Instinto são contrárias ao gosto do espírito moder-
no ... Tudo o que se faz, em suma, tudo o que 15 F NIETZSCHE, WzM, § 65, p. 54; v». t. I, § 47, p. 90 (tradução
se pensa persegue o objetivo de arrancar com m~diiiCada); ver também: VP, trad. francesa de G. Bicmouis, Paris,
suas raízes esse sentido da tradição [literalmente: Gallimard, 1947-1948, [2 tomos], t. 11,Livro 111,§ 125, p. 52. Este frag-
mento é parcialmente citado por Michel Salomon em Paul BOU~-
GET e M. SALOMON, Bonold, Paris, Bloud, coleção ~·La.Pensée chre-
12. F. NIETZSCHE, WzM. § 74, p. 58 (primavera-outono de 1887); ver tienne", 1905, capo V ["Tradição"], p. 157; a referencla,. aparente-
F. NIETZSCHE, VP, t.l, § 48, p. 91 (tradução que mOdificamos). mente paradoxal num contexto expressamente trocítctonoüsto. é
13. F. NIETZSCHE, WzM, § 59, p, 51; Fragments posthumes. Automne assim introduzida: "Um de nossos contemporâneos, multo diferente
1885-outomne 1887, trad. francesa de J. Hervler, in OphC, 1. XII, do cristão Bonald, o filósofo de Além do Bem e do M~/, lamenta
1979, p, 137 (2[137]). ver a humanidade moderna sem a 'segurança de Instmto, conse-
14. "Para uma história do ensombrecer moderno" (WzM, § 59, p. qüência de uma longa atividade num mesmo sentido, ~ratlcad~
51).
por uma mesma espécie de homem'. Ele acrescenta: O que e
hoje ...•••.
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teológicos. Nietzsche aparece antes como o fundador extremo espírito de seriedade dos reacionários católi-
de uma segunda tradição do pensamento tradiciona- cos dogmáticos16•
lista radical, culo herança Intelectual e política só sur- Presente em todas as formas do tradiclonalismo, tal-
girá na primeira metade do século XX. Deste segundo vez a herança teológica mais profunda que reencon-
tradlclonalismo antlmoderno, os herdeiros parciais, nos tramos em Nletzsche e também em Spengler seja ex-
dois sentidos, serão legião entre os filósofos e os litera- pressa por este trecho da Escritura: Deus vomitará os
tos: Spengler e Évola, Édouard Berth e Drieu Ia Ro- mornos. Se o espírito moderno é o que não é, ou se-
chelle, Leon Chestov, Cloran ... e Heldegger, evidente- ja, nem quente nem frio, então a salvação só pode
mente. Ora, este segundo tradlclonalismo realizou sua estar na "dureza" e na opção pelos extremos!", Antes
passagem ao político, no século XX, quer através de a morte do que a "tepidez rnortol"!". A denúncia tra-
mobilizações "nacionalistas", quer pelos caminhos do dicionalista da decadência moderna começa pela
fascismo. Em todos os casos, o elemento antimoderno estigmatização dessa tepidez, que torna incapaz tan-
dominante terá sido o anti-demoliberalismo; ao passo to para a negação quanto para a afirmação. Em
que o socialismo terá sido designado e tratado menos seu estilo neo-tradicionalista, Nietzsche conserva da
como Inimigo absoluto do que assimilado em diversas herança dogmátlca a "dureza", mas por seu espírito
sínteses, depois de relnterpretações e de reformula- antiteológlco Insufla no tradiclonallsmo uma paixão
ções. É considerando tais fatos sociopolíticos que po- positiva que este não conhecia: torna o tradiclonalis-
demos conceber, por hipótese, o nacionalismo doutrl- mo alegre. Essa alegria, porém, é a alegria de des-
nal (o dos nacionalistas) como reinvenção do tradlclo- truir. E destruir, em literatura, é em primeiro lugar pra-
nalismo; e Isso não sem um paradoxo constitutivo: a ticar a escrita panfletária. O móbll seml-secreto da "In-
nação, Invenção propriamente moderna, uma vez tempestividade" nietzscheana é um irremediável des-
que ela é colocada como origem e fundamento, de- prezo pelo presente, levado à sua mais alta Intensida-
fine-se pelos próprios atributos da tradição (transmis- de por um ódio total à modernldade, ódio este cujo
são, princípio doador de sentido, referência fundado- alvo privilegiado é justamente a modernldade política,
ra, memória da origem comum etc.) O nacionalismo incansavelmente denunciada e desmascarada por
Integral da Actlon françalse, por exemplo e por exce-
lência, terá sido um tradlclo-naclonalismo, no qual o 16. Eugen FINK.por exemplo. desde a primeira página de seu livro
sobre o pensamento de Nietzsche. enuncia com firmeza: "Nietzsche
princípio de ordem era a Igreja católica (ou a "civili-
opõe. sem nenhum comedimento. uma recusa clara ao passado;
zação cristã"), encarnação da Tradição demonstrada rejeita toda tradição e chama a uma conversão radical" (Lo philo-
por suas próprias resistências às seduções satânicas da sophie de Nietzsche [19601.trad. francesa de H. Hildenbrand e A.
modernldade. Mas aqui a referência ao religioso, dife- Lindenberg. Paris. Eds. de Minuit. 1965. p. 9). Com base num tal
postulado. podemos fazer de Nietzsche. à vontade. um moderno
rentemente do uso constitutivo que dele fazia o pri- decidido. um ultra-moderno ou um hiper-moderno. ou finalmente
meiro tradiclonalismo, é funcional, ou até instrumental um pós-moderno.
17. Ver as observações do filósofo tradicionalista Gustave THIBONso-
("Política em primeiro lugar"!).
bre Nietzsche e São João da Cruz. enquanto "magos do extremo"
É certamente pelo fato de que o pensamento tra- (Nietzsche ou le déclin de /'Esprit. Lião. H. Lardanchet. 1948. pp.
dicionalista, no século XIX, se confundiu quase inteira- 278-279); e. como contraponto. as notações de Karl JASPERS sobre
"os extremos e a medida" (Nietzsche et le christionisme. trad. fran-
mente com a contra-revolução católica, ou até com
cesa de J. Hersch. Paris. Les Amis des Éditions de Minuit. 1949. pp.
as correntes de Inspiração teocrática, que o anticris-
105-106). . "
tianismo pateticamente declarado de Nietzsche impe- 18. Ver: Konrad LORENZ.Las huit péchés copitoux de notre civiltsa-
tion, trad. francesa de E. de Miribel. Paris.Flammarion. 1973. capo V
diu que os comenta dores percebessem em seus últi-
("Uma tepidez mortal"). pp. 61-76; quanto à exposição dos funda-
mos pensamentos o esboço de uma filosofia da tradi- mentos teóricos de uma tal concepção biologizante das "perturba-
ção, implicado por seu antimodernlsmo radical mas às ções patológicas da civilização". cf. K. LORENZ:L'homme dons le
fleuve du vivont (1978).trad. francesa de J. Etore. Pans.Flammanon.
vezes leve, despreocupado, irônico, nos antípodas do
1981. em particular p. 386 55. 397 55.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF
2. A DECADÊNCIA MODERNA E SEU SINTOMA: O LIBERALISMO

Nletzsche. A lição será ouvida, tanto pelas "massas" de Imprensa"2, a "classe dlscutidora" (c/asa díscutldora),
quanto por personagens a que Nietzsche recusaria na expressão de Donoso Cortês". Esta é talvez a prin-
dar a mão.
cipal lição da filosofia hlpercrítlca da modernldade
pensada e repensada por meta físicos da contra-revo-
lução no século XIX: Malstre, Bonald, Donoso Cortés,
sobretudo, E por polemlstas Inspirados que os segui-
ram: Louis Veuillot. carrasco da "ilusão llberol'". o jo-
vem Barbey d' Aurevllly, defensor das teses dos "profe-
tas do possodo'", Blanc de Saint-BonnefÓ. Suporemos,
com Carl Schmitt, mas numa perspectiva diferente da
2. A DECADÊNCIA MODERNA sua, que o liberalismo, ou mais precisamente: a meta-
E SEU SINTOMA: O LIBERALISMO física überot'. concede à discussão um valor essencial.
Na verdade, a metafíslca liberal erlge a discussão em
valor supremo, no Interior de uma constelação onde

P ressuporemos
"A decomposição,
o diagnóstico de Nletzsche:
logo a Incerteza, é o próprio
negociação e acordo (consensus) reinam conjunta-
mente sobre os valores e as normas subsidiárias, Expli-
desta época; em nenhum lugar há um fundamento
sólido nem uma fé garantlda"1.
2. Carl SCHMITT,Théologie po/itique, op. cit., 1988, p. 70.
Não é nova a evidência que atormenta o pensa- 3. lb., p. 67 e 71; Julius EVOLA, "Donoso Cortés", in Explorations.
mento ocidental há dois séculos: nós - os "Modernos" Hommes et problemes (1974). trad. francesa de Ph. Baillet, Puiseaux,
Pardes. 1989. p. 213.
- discutimos tudo, tanto os princípios que adotamos 4. Louis VEUILLOT, L'illusion libéra/e. Paris, 1866; reed .. Dion-Valmont
como os que recusamos. Estamos absolutamente con- [Bélgica], Dismas, 1989.
vencidos de que a verdade é filha da discussão, e 5. Jules Barbey d' AUREVILL v , Les Prootietes du passé, Paris, Alphon-
se Lemerre. 1851. Encontramos aqui a difícil questão do "romantismo
não da simpatia pelas heranças de palavras e de
político", não simplesmente como referência à escola alemã ou ao
idéias. Estranho paradoxo a existência de uma tal movimento propriamente alemão que leva esse nome, e sim como
convicção absoluta na época do declínlo dos absolu- categoria da história das Idéias políticas. Cf. estas observaçóes de
Carl SCHMITT:"Poderíamos até definir o romantismo político pela "fu-
tos. Pelo menos à primeira vista, pois ela é apenas a
ga para o passado", pela exaltação de estados sociais muito anti-
implicação lógica do relativismo radical. que professa gos, pelo retorno apaixonado à tradição. Somos então levados a
a nova verdade produzida pelo próprio movimento estabelecer outras generalizaçóes. Aquele. por exemplo. que não
acredita sem restriçóes que o tempo presente é melhor do que os
do mundo moderno: "Só há um absoluto: tudo é rela- tempos passados, que este tempo é mais liberal e dado ao pro-
tivo". A evidência melhor partilhada é que a verdade, gresso, é necessoriamente um romântico. Um tal homem é um 'Iau-
se for possível, não pode ser nem o dom de uma Re- dator temporis ocn', um 'profeta do passado'. De acordo com esta
definição, as idéias dos monarquistas franceses contemporâneos se-
velação, nem o fruto da autoridade da tradição. A riam o exemplo perfeito do romantismo político" (Romantisme po/I-
referência ao "eterno ontem" não tem mais valor fun- tique, op. ctt., prólogo, p. 19). Imaginamos a reação de um
damental: esta é a mensagem essencial, hoje trivial, Maurras, para quem a tríade "Reforma-Revolução-Romantismo" de-
signava as três principais figuras da anarquia Intelectual e política
da modernidade Ideológica. É nisso que somos, nós moderna ...
outros modernos, e enquanto tais, "liberais" - sejamos 6. Antolne Blanc de SAINT-BONNET, Restauration frança/se, Paris, 1851
ou não partidários do liberalismo ou adeptos desta ou (nova ed., Paris, Leipzig, Tournai, 1872); Id .• L'lnfaillibilité. op. cit.; /d .•
La /égitimité, Paris e Tournal, Lelpzig, Roma, 1873. Para um estudo
daquela forma do liberalismo. Liberais ou burgueses, de conjunto, ver principalmente: Mareei de Ia Bigne de VILLENEUVE,
se "a burguesia é a classe da liberdade de palavra e Un grand philosophe et soci%gue méconnu: Blanc de Saint-Bonnet,
Paris. Beauchesne. 1949 (um tanto hagiográfico); sobre a oposição
fundamental "Revolução/Restauração", cr. J. DROUIN, "A palavra
'Revolução' em Blanc de Saint-Bonnet", Cahiers de lexic%gie. vol.
1. F. NIETZSCHE,
WzM. § 57, p. 50; v». trad. francesa de G. Bianquis.
XV, 1969-2, pp. 27-34.
t. li, L. 111,
§ 96. p. 42.
7. C. SCHMITT,Théologie politique. op. c/t .• 1988, p. 70.
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PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 2. A DECADÊNCIA MODERNA E SEU SINTOMA: O LIBERALISMO

citemos essa colocação da modernidade discutidora do presente: como aquele que a realiza pertence ao
numa perspectiva crítica: as Instituições liberais abrem alvo de sua crítica, denuncia-se também a si mesmo.
o espaço propriamente moderno da "discussão perpé- Daí a versão modernizada de um argumento de tipo
tua" que, por um lado, abala o caráter absoluto dos pascallano ("embarcamos ..."), Pois ser discutível é ser
princípios e das evidências oriundas da tradição, e, dubitável: a modernidade define-se como a era da
por outro lado, afasta Indefinidamente o momento da dúvida Inevitável. Mais profundamente: o momento da
decisão soberana, da "decisão absoluta, / .../ pura, dúvida é ao mesmo tempo irreversível e normal. A In-
sem raciocínio nem discussão"8. A colocação em dis- certeza é o destino. Assim, devemos reconhecer-nos,
cutibllldade de todos os valores acaba com a possibi- nós que embarcamos no elemento moderno, como
lidade de pronunciar "negações radicais" e "afirma- os herdeiros da "classe discutidora" de que Donoso
ções soberanas". A metafísica liberal erige, pelo con- Cortés, em meados do século XIX, vira a ascensão
trário, a Incerteza radical e a Indecisão soberana em implacável e suas inevitáveis conseqüências. E do rei-
normas Indiscutíveis. É em razão desta análise do libe- nado da qual ele determinara o último acabamento,
ralismo que Carl Schmitt podia declarar-se antiliberal. esse fim de reinado da Incerteza soberana que ainda
Como o lembrava recentemente Julien Freund, "Carl não era chamada de nilllsmo:
Schmitt era / .../ antiliberal porque considerava que a
política liberal é a antipolítica, a política do sim e do "Quando, sob a pressão dos jornais, a discussão,
não ao mesmo ternpo'". fruto da civilização, chega a certo extremo, ela
Essa crítica da modernidade parece calcada na mata os livros e mergulha o entendimento no
crítica dogmátlca do ceticismo: efetivamente, ela re- abismo de uma dúvida bem mais terrível do que
toma dessa crítica o tema da auto-refutação das po- a Ignorâncla"lo.
sições céticas (a hesitação indefinida ou a oscilação
perpétua entre as teses Instaura um mundo regido Trata-se sim de uma dialética negativa da civiliza-
pelo falso, no qual o ceticismo não pode afirmar~se a ção, de um pensamento das conseqüências parado-
si mesmo sem paradoxos). Mas essa crítica da moder- xais cujo primeiro momento é o diagnóstico de um
nidade é pós-nietzscheana: ela recusa menos a dúvi- mal que anuncia o surgimento de uma barbárie no-
da cética em nome do dogma do que em nome da va, vinda da civilização moderna, essa Imitação per-
vontade como potência de decidir. Se o primeiro tra- versamente perfeita da civilização "onde o acúmulo
diclonalismo propunha a crítica dogmática, teológico- dos escritos e dos documentos acaba por tornar mais
política, do mundo moderno como ceticismo genera- difícil aprender a verdade do que cíesc obrl-lo"!'. Aqui
lizado, ele porém não menosprezava a crítica volunta- é preciso evocar certos axiomas do tradicionalista 00-
rista e decisionista que o segundo tradiclonalismo, de- noso, em que se exprime um dualismo maniqueísta
pois de Nietzsche e a partir dele, situará no primeiro que estrutura a sua teologia política da história mo-
plano.
derna:
Os pensadores tradicionalistas muitas vezes reconhe-
ceram que suas análises da lógica negativa do mun- Creio que a civilização católica contém o bem
do moderno desembocavam numa forma de fatalis- sem mistura de mal, e que a civilização filosófica
mo histórico: como o curso do mundo é regido pela contém o mal sem mistura de nenhum bem12•
lógica do mal ou do pior, que fazer senão aguardar
o fim condenando o real? Velho paradoxo da crítica
10. Donoso CORTÉS. "Pensamentos diversos', § V, !n Donoso CORTÉS,

8. Ib .. p, 74. Lettre au Cardinal Fornar! et textes annexes, trad. francesa de An-


dré Coyné, Lausanne, L'Âge d'Homme, 1989, p. 125.
9. Julien FREUND. L'Aventure du politique. Entretiens avec Charles
11.lb.
Blanchet. Paris, Critérion, 1991. p. 51.
12. Donoso CORTÉS, Carta a Montalembert de 26 de maio de 1849,
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PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 2. A DECADÊNCIA MODERNA E SEU SINTOMA: O LIBERALISMO

Em sua radlcalldade, a oposição é Imediatamente zão de sua potência corruptora:


normativa. Mas convém estar multo particularmente
atento ao estilo de pensamento, caracterizado pela Na atmosfera atual. o canto da sereia encontra
obsessão contra a mistura e pela rejeição do misto, perigosos ecos. Multas das máximas ditas liberais
no qual podemos ver uma manifestação da Idéia, são fala ciosas e mais do que embaraçantes pa-
própria à "filosofia católica do século XIX", "de que ra quem quer que não Ihes oponha uma contra-
uma grande alternativa se Impõe, que não deixa es- dição absoluta. Ora, só a fé fornece e~as ~on-
paço para nenhuma mediação"l3. A evidência abso- tradições absolutamente vitoriosas / .../. so. t:rglver-
luta da dlsjunção excludente ("ou ...ou então ...". sem sar com as palavras já é perigoso. A rrotçoo das
terceiro termo) expulsa toda forma de Ideal de recon- palavras finaliza a ruína dos prlncíp~os num espíri-
ciliação dialétlca. Os caminhos da síntese e da supe- to que secretamente sofre tentaçoes. / .../ Algu-
ração das contradições são pavimentados pelo con- mas expressões liberais aceitas, algumas expres-
tra-Ideal de "tolerãncla", que põe no mesmo plano o sões "Intolerantes" repudiadas, menos ainda, um
bem e o mal, o verdadeiro e o falso. Foi assim que hurra para este, um resmungo contra aq~ele e Is-
os Incansáveis ataques de Veuillot contra a "gnose so é todo o necessáriO; a Igreja liberal nao exige
Iiberal"14derivam da certeza primeira de que o "libera- outra profissão de fé. / .../ Havendo um hábil ad-
lismo católico" é uma contradição nos termos, uma vogado que saiba lançar um véu de belas ".u-
ficção absurda, do tipo "bode-cervo". Carl Schmitt ilus- sões sobre a nudez da consciência doravante In-
trava esse pensamento da alternativa Irremediável teressada em se enganar, a tese liberal triunfa. O
t 16
com uma fórmula muito explícita de Newman: "No verdadeiro se acha falso, e reclprocamen e .
medium between catho/iclfy and attietsrrr", Pensar es-
sa grande disjunção excludente é pensar a obrigação O mundo moderno normalizou o modo de exlst~n-
da escolha, é reabilitar contra o espírito negociador e elo e a forma de pensamento dos sofistas, falastroes
dialétlco o momento Incondicional da decisão: Mas, profissionais, mercenários das Ilusões verbais, mas q~e
para o pensamento tradicionalista, a decisão perma- agora trabalham por conta própria. O homem pohtl-
nece coordenada a um conhecimento certo da hie- co "liberal", essa flor venenosa da democra~l~ mod.er-
rarquia dos valores, mais exatamente: da oposição , seu tipo mesmo. É por isso que a uruco orltu-
na, e o . I'
absoluta entre os valores e os antivalores. É neste sen- de possível perante a modernidade demo-hber~ e o
tido que a decisão pode não ser arbitrária. Mesmo afastamento absoluto, a rejeição total. a negaçao em
na época em que os princípios de tolerância e de li- bloco. Donoso Cortés talvez tenha sido quem m~lhor
vre exame, aliados ao gosto pela "discussão perpé- sistematizou os argumentos dos contemptores tradICio-
tua", desembocaram na confusão entre o bem e o nalistas do mundo moderno.
mal, o verdadeiro e o falso, por igualização ou por In- A civilização moderna ou "filosófica" é, se:~undo Do-
versão. noso. a única civilização que gera a ba~~ane por ex-
cesso civllizaclonal. Uma barbárle especifica, carente
A confusão começa com o relaxamento liberal so- de espontaneidade fecundante, algo como uma. neo-
bre as palavras, Imagem da "liberdade Ilimitada" reco- barbárle, distinta da barbárle criadora, de que dl~ DO,-
mendada pela modernidade toleranclal, "liberdade de noso que "tem uma vantagem sobre a clvllizaçao: ~
perdição" denunciada por Veuillot inicialmente em ro- fecunda", ao passo que "a civilização, por seu lado, e
estéril"'7. A oposição, mais uma vez, é nítida: por um

In Oeuvres. Lião. Briday (ed. L. Veulllol). 1858-1859. vol. 11. p. 340.


13. C. SCHMITT, Théologie politique, op. cit., p. 62. 16. L. VEUILLOT, op. cit., pp. 22-23.
14. L. VEUILLOT. op. cit .• 1989. p. 27. 17. Donoso CORTÉS, "Pensamentos diversos". § I. in op. cit .• 1989. p.
15. C. SCHMITT. Théologie politique, oo. cit .. p. 62. 122.
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POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
2. A DECADÊNCIA MODERNA E SEU SINTOMA: O LIBERALISMO
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF

A harmonia perdida, ou mais exatamente doravan-


lado, u~a potência de regeneração, por outro lado,
te impossível, isso significa que a dissonâncla foge à
um tridiclo de degenerescêncla. Podemos ver nesse
lei do temperament020, que ela se torna não só uma
p~nsamento de Donoso um eco das concepções de
força independente mas, mais significativamente, uma
VICO, que afirmava que "todas as civilizações são mor-
potência desencadeada em expansão. Assim é vista
tais, todas vão da brutalidade da barbárle primitiva
a selvageria própria da neo-barbárie moderna, que o
aos refinamentos perversos da segunda barbárie gera-
fenômeno revolucionário Ilustra por excelência. Mas
da pelo excesso de reflexão"18. Nas descrições tradi-
não menos o estado doravante normal da desordem
cionalistas dessa neo-barbárle Infecunda, desvltallzada,
soctot assim descrito por Bonald:
por assim dizer, surgem as primeiras caracterizações
do que mais adiante no século será chamado de "nll-
Há Infinitamente mais desigualdades entre as sa-
lismo": inaptidão insuperável para aceder ao sentido tisfações e os meios de riqueza que as proporcio-
assim como para fundamentar alguma legitimidade'
nam: portanto, há mais desejos que não podem
desaparecimento de toda autoridade absoluta, fadig~ ser satisfeitos, mais cupidez, mais paixões, mais
parallsante na busca da verdade, que tende a se 21
crimes e a prova está diante de nossos 01hos .
dissolver no culto da opinião majoritária, da certeza
subjetiva ou da idéia útil. A morte de Deus, ou o de-
Portanto, o que resta depois das "perdas
clínlo dos absolutos, é Inseparável da valorização po-
irreparáveis"22 não é nada, e sim o movimento de ex-
sitiva das formas Inferiores de existência e de pensa-
pansão indefinida das forças de dissolução, é a po-
mento, idolatradas através do princípio relatlvista de
tência de contaminação ilimitada das paixões baixas
t.olerâncla, do valor de Igualdade e da exigência de
e a sedução crescente exerclda pelas formas corrom-
livre exame. O que conceitualiza minimamente o ter-
pidas de existência. Para retomar uma distinção Intro-
mo niilismo é justamente essa nova constatação de
duzida por Gérard Gengembre, se a "decadência
que não há nada além do que resta quando os va-
tranqüilizadora" é aquela que podemos integrar como
lores superiores, e o princípio supra-sensível de que
uma fase numa história providencial ou numa tempo-
eles derivam, ganham valor zero. O que resta são
ralidade cíclica (a decadência então serve de prelú-
perdas, sentidas como irremediáveis, e substitutos cor- dio a um renascimento, representa a transição para a
ruptores, a multiplicação indefinida das necessidades regeneração), a "decadência aterrorizante" é aqu:la
de ord~m inferior, a competição baseada na Inveja, que desconcerta as categorias explicativas, decaden-
o desejo de tudo reduzir ao mínimo denominador co- cia inintegrável e desintegradora, descritível em seus
mum. A desordem geral, ou a dissolução de toda or-
efeitos mas desconhecida, ou até incognoscível. em
dem hierárquica absolutamente legítima, tudo isso não
seu princípio, decadência que assinala a chegada do
passa de um efeito e como que a prova de uma
fim e equivale a um anúncio de morte. A última fra-
Queda. Joseph de Maistre o afirma:
se das Reflexões sobre a Revolução de Julho de 1830
lança de fato esta advertência inequívoca:
Tudo está mal, porque nada está em seu lugar.
Tendo abaixado a nota tônica do sistema de
Não me cansarei de repetir: a França república
nossa criação, todas as outras se abaixaram pro-
porcionalmente, de acordo com as regras da
p. 49.
horrnonlo'". 20. CI. Gérard GENGEM6RE, op. clt., p. 198.
21. Louis de BONALD, "Sobre a liberdade da Imprensa", In Oeuvres
completes [OC], Paris. tociere. 1847-1854, t. 7: Mélanges, p. 73; cI.
G. GENGEMBRE. op. cit., p. 274.
18. Ju!ien CHAIX-RUY, Donoso Cortés. Théologien de J'Histoire et 22. L. de BONALD, Pensées sur divers sujets (1617), tn OC, t. 3, p.
prophete. Paris, 6eauchesne, 1956, p. 170. 313; ct. G. GENGEMBRE, op. cit., p. 286.
19. Joseph de MAISTRE. Considérations sur 10 France (1797). op. cit.,
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
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3. ABORDAGENS DO NIILlSMO

seria o fim da Europa monárqulca, e a Europa


república seria o fim da civilização, da religião,
da política, o fim da sociedade, o fim de tud023.

Essespresságios e essas profecias são proclamadas


Como se a Queda original. depois de ter aberto o
tempo trágico da história, o fechasse definitivamente
como um parêntese, repetindo-se como eco na Que-
da final. Pois a monstruosidade que é em seu todo o
3. ABORDAGENS DO NIILlSMO
mundo moderno, pós-revolucionário, é a forma de vi-
da Instável por natureza, sem futuro. A sociedade des- orte dos Pais, morte de Deus, fim do mundo
socializada, a política desconstituída, os homens desu- M humano: o diagnóstico da deca~ê,ncla
abre caminho para a Interpretação da hlstórlo deca -
final
manizados: a modernldade é "uma dessoclalização
,,
que evolui para o caos"24. A decadência moderna é denclal como movida pelo n1'I11 srno. que nela_,'se rea -
Interpretada como a decadência final. em particular , A cronologia dos textos e das construçoes flloso-
por Bonald, que, em certos textos, abandona toda zono. _ os será de nenhum auxílio para pensar o
reinscrição da modernldade decadenclal numa meta- fl:,?S ~laoQ:e entender por nlilismo? Inicialmente, e for-
história que vá na direção do melhor através do pior. ~~:e~te, perdas, faltas, ausências relac~onadas ,C0r;,'
A absoluta novidade da monstruosidade moderna se o que se convenclonou chamar de "razoes de: v ver,
torna então o Indício de que a história chegou a seu Em seguida a impossibilidade de responder as p,~;-
último momento: a Inversão satânica realizou-se Intei- guntas fund~mentals acerca das orl~en~: dOSqf~r;:" ~~
ramente, a regressão para o caos da ante-Criação é da destlnação do homem e o por
ao mesmo tempo a produção de uma antl-Crlação. mos, ' Impossibilidade que destro'I as bases de toda
E é verdade que aos olhos desiludidos e desespera- q~e e, de toda moral e de toda religião, A ponto
dos do pensador tradicionalista, a aberração moderna clencla, I a evidência nlilista por excelência: as
de fazer surg r _" si
é "literalmente Inomlnável"25: uestóes consideradas fundamentais nao tem em
q nenhum sentido, são absurdos que reflet~m o
Creio que nunca se viu no mundo nada de pa- mesmas E l' rnovrnen-
absurdo Insuperável da existência, n irn, um I t
recido. / ..,f Uma nação tão nova por seu nome t de queda, um processo pelo qual. Inelutave men e,
quanto por sua origem, ou antes uma nação pa- oso "valores superiores " dec I'morn. desaparecem dê en-
I
ra a qual seria preciso Inventar um nome tão no- quanto tais perdem seu va Ior. C o mo a deca enca,
vo quanto ela mesma, uma raça de homens fo- ,
o niilismo pode dizer-se de um processo ou de um es- _
ra da humanidade e para quem seria Impossível d fi I Mas além disso, o niillsmo designa a expe
formar uma sociedade; uma nação que se pode ta o na, , I" . de um
rlência de um desvelamento, ,aI e~~:~ een~"~ma "ver-
dizer sem pais, sem deus e dentro em pouco desnudamento do nada essenc a ,
sem hornens>.

23. l. de BONALD. Réf/exions sur Ia Révolution de juillet 1830. ed. ã é neste caso. o melhor indica-
Jean Bastier. Paris. D.U.C./Albatros. 1988. p. 105. Ver: G. GENGEM- 1. O aparecimento da pa~~;~~ianl:XiC~I. ver principalmente: Charles
dor, Para um esboço de e'e 5g ed Paris Galllmard.
BRE. "Bonald: a doutrina pró e contra a história". Le Débat. nQ 39. . et sa pens ".
ANDLER. Nietzsche, sa vte HEIDEGGERNietzsche (1961). trad. fran-
março-maio de 1986. p, 99; ta., oo. cit., 1989, po, 253 e 285-286.
24. G. GENGEMBRE,oo. cit., 1989, p. 286. 1958. t. 111.
pp. 418 SS; Martln allimard: 1971. t. 11.pp. 31 ss: Jean
25. Ib .• p. 287. cesa de P. K'ossows~'. Pans. G érité dons Ia philosophle de
GRANIER. Le probleme de Ia v 235 SS' Angàle KREMER-MARIETTI.
26. L. de BONALD. "Sobre os últimos acontecimentos" (1822), In OC.
Nietzsche. Paris. Le.seull.?~966,FP~'ETZSCHE.Le Nihilisme européen.
t. 7, op. cit., pp. 362-363. Ver: G. GENGEMBRE,ort, clt., 1986. p, 100;
to., op, cit., 1989. p. 287. "Que significa o nllllsmo, • In '. r P Is U G E coleção "'0/18".
trod. francesa de A, Kremer-Manet I. ar. ' ..•
1976. p. 9 ss.
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3. ABORDAGENS DO N/lUSMO
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF

lavras pomposas" que ele recolhe e decodifica, num


dade" destruidora de toda verdade. A extraordinária
fragmento datado de 1887, é p~ecisamente "a t~I:-
difusão dos temas do pensamento de Nietzsche, ou
râncla (por 'Inaptidão para o nao e para o sim) .
antes do nletzscheanlsmo, tornou triviais, "clássicas", e
Nietzsche refaz aqui o diagnóstico de Donoso e privi-
por Isso mesmo Impensadas, as principais caracteriza-
legia o mesmo Indício de decadência: a Incapacida-
ções do nlilismo: desvalorização de todos os valores,
de dos Modernos, palradores perpétuos, de negar e
desaparecimento dos fins sublimes, desvanecimento
de afirmar. Esse sintoma da doença moderna é assi-
da transcendêncla, dissipação do sentido da existên-
nalado por Nletzsche nos mais diversos campos, pois
cia. Retomemos à difícil clareza dos textos do último
se perdeu o "caminho que leva a um sim e a um
Nietzsche: "Que significa o nlilismo? Que os valores su-
não"6. O homem moderno "está sentado entre duas
periores se desvalorizam. Falta o objetivo [Zie/]; falta a
cadeiras, e de um só fôlego diz sim e nôo:": vejam
r~sp~sta à pergunta 'por quê?"'2. Ora, a defecção da
Wagner ou Tolstol, e muitos outro~ esp~cI~ens (de
finalidade acarreta a do sentido: "Um objetivo [Zie/] é
que Rousseau é um dos primeiros típ os hlstorlcos) .• ES-
sempre um sentido [Sinn]"3.
sa "inocência na contradição'oS, "moderna por excelen-
Essa Identificação do nlilismo só pode surgir, e é es-
cto". exprime-se quer pela oscilação entre o sim e o
ta a nossa hipótese de historiador das Idéias, nos limi-
não, quer pela retirada numa posição neutra (~~m
tes de um pensamento teologicamente impregnado. É
sim nem não). A Incapacidade moderna para as ~e.-
por isso que, por trás das demasiado evidentes dife-
gações radicais" e para as "afirma?ões soberanas e
renças de vocabulário e de relação com o contexto,
por assim dizer refletida por uma formula que se tor-
o pensamento nletzscheano da história como deca-
nou lugar comum: "O otimista diz de ~m c~po q.u~
dência e do niillsmo como motor e verdade dessa
está meio cheio e o pessimista, que esta meio vazIo.
história decadenclal não é de modo algum estranha
O valor de evidência. para os espíritos modernos, de
à teologia ultra-pessimista da história do tradicionalis-
uma tal proposição, que relativiza as poslç~e~_ otim~s-
mo absoluto. Numa carta de 15 de abril de 1852, Do-
ta e pessimista para as reduzir a simples ~plnloes t~o
noso caracteriza a tese "liberal", manifestação exem-
subjetivas quanto inconsistentes, ilustra o, relna~o da In-
plar da gnose otimista do Progresso Indefinido, pela
certeza e da irresolução. Como se ate o otimismo e
convicção de que "a discussão está para a verdade
o pessimismo não pudessem se afirmar ~Iena e firme-
assim como o meio está para o ttm", Crença liberal,
mente. Em que sentido podemos conSiderar a tese
mas também evidência primeira do racionalismo, e
central da "gnose liberal", na perspectiva "católica" In-
principio constitutivo do parlamentarismo. Ora, o efei-
transigente de Donoso, como "a fonte de todos os er-
to perverso do dever propriamente moderno de discu-
ros possíveis e a origem de todas as extravagân~las
tir e de debater fora bem percebido por Donoso: o
imaglnáveis"9? A análise do pensador tradicionalista
resultado nem desejado nem previsto do imperativo
"discussionista" é a irresolução e a indecisão. E, mais
profundamente, a abertura da era das Incertezas Insu- 5. WzM. § 79. p. 60; VP. t. 11.L. 11I.§ 130. p. 53; Le Nihi/isme euro-

p~rávels. Nietzsche retomará à sua maneira o diag- péen. op. cit., p. 242.
nostico de heterotella dos Imperativos "modernos", 6 WzM. § 54. p. 41. d
7: F. NIETZSCHE. Le Cas Wagner (1888). epílogo. tra~. francesa e
quando denunciar "a desfaçatez do espírito moderno J.-C. Hémery(modificada). in OPhC. t. VIII.Pans.Gall~mard.1974. p.
sob todo tipo de disfarces morais": a primeira das "pa- 55; cf. GeorgesMOREL. Nietzsche. Paris.Aubler-Montalgne1. 971. t. 11.
p. 252. . t - § 19
8 F NIETZSCHE
A Genea/ogia da Mora/ (1887). 11I
disseraçao. .
tr·ad.francesa' de I. Hildenbrand e de J. Gratien. in" OPhC. t. VIII.
2. F. NIETZSCHE. WzM. § 2. p. 10 ("Warum": "por quê"); VP. t. 11. L. 11. pp 136-137' Le Cas Wagner. op. cn .• epílogo. p. 55 (Blologlcamen-
§ 100. p. 43 (1887); Le Nihilisme européen. op. cit .• p. 171. t . o nornerri moderno encarna uma contradição dos va/ores").
3. WzM. § 12. p. 13. 9~' DonosoCORTÉS. "Carta de 15 de abril de 1852" in oo. cit .• 1989.
4. DonosoCORTÉS. "Carta de 15 de abril de 1852 ao diretor do He-
ra/do". in ed. A. Coyné. op. cit .. 1989. p. 97. p. 98.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF
3. ABORDAGENS DO NIILlSMO

consiste em colocar e explicitar uma distinção funda-


da de. Mas essa crença moderna, como vimos, cho-
mental entre a "discussão católica" e a "discussão
ca-se com a lei eterna da geração e não poderia
filosófica"lo, Segue-se que as modernas "especulações"
escapar, por sua inconseqüência, da heterogênese
verbais, inauguralmente fustigadas por um Burkell, não dos fins: "A razão humana, ao fecundar a dúvida,
constituem o todo da discussão: existem discussões le- chegou à negação; e ao fecundar a obscuridade,
gítimas, que se situam nos antípodas da "discussão chegou às trevas polpóvels?". Como a razão humana
perpétua", De acordo com Donoso, o catolicismo pro- é Infirme, só pode alcançar a verdade com a condi-
cede da seguinte maneira:
ção de que "uma autoridade infalível e docente / .../
lha mestre?". Essa autoridade, única a poder apresen-
Pega um ralo que lhe vem do céu e o dá ao
tar a verdade à razão, é a igreja, É por Isso que,
homem para que o fecunde com sua razão 12,
"quando a razão se emancipa da Igreja, o erro e o
mal reinam sem obstáculos no murid o"!". Como a
Pois, para o filósofo espanhol, Imbuído de agostinls-
vontade humana não é menos infirme que a razão,
mo, é uma evidência absoluta que, "em sua falta de
Donoso se permite concluir:
firmeza, o entendimento humano não pode Inventar a
verdade, nem descobri-Ia; mas ele a vê quando lhe É claro que a liberdade de discussão leva neces-
é apresentada"13,
sariamente ao erro, assim como a liberdade de
Como, pelo contrário, procede o "filosoflsmo"? Ele ação leva necessariamente ao mal2o.
"começa ocultando artisticamente e sob um véu es-
pesso a verdade e a luz tais como elas nos vêm do Segue-se daí que os povos de "puros dtscutldores'?'.
céu; depois propõe à razão um problema Insolúvel, que se tornaram Ingovernávels, estão prontos para as
cujos termos são os seguintes: através da fecundação, piores tiranias (a começar pela da opinião). Pois a
tirar a verdade e a luz da dúvida e da obscuridade
constatação pode ser facilmente estabeleclda:
que são o que ele expõe à fecundação da rozõo
humana"14,
Um dos traços que caracterizam a época pre-
Nisso, o método filosófico se choca com uma lei
sente é que a legitimidade prima pela ausência,
eterna, que "exige que a fecundação só tenha poder
Aqueles que governam perderam a faculdade
para desenvolver o germe fecundado"15: "Assim, o
de governar e os povos deixaram de ser gover-
obscuro procede do obscuro, o luminoso do luminoso,
náveis22.
o semelhante do semelhante: Oeum de Oeo, lumen
de lumíne"16, Essa é a terrível ilusão da concepção "fi- o encadeamento das ilegltimações é o seguinte: a
losófica" da discussão: crer que pela fecundação ra- discutlbilldade do fundamental (verdades, princípios,
cional da dúvida e do obscuro possamos gerar a ver- valores absolutos e normas incondicionais) acarreta a
ausência de toda autoridade legítima, ou seja, abso-
10. /b .. p. 101.
luta, ausência esta que produz um estado de irresoiu-
11, Ver: G. GENGEMBRE,op. cit., 1989, pp. 270-271.
12. Donoso CORTÉS,"Carta de 15 de abril de 1852", /n oo. cit.,
1989, p. 101. 17. /b.
18. Donoso CORTÉS,"Carta de 26 de maio de 1849", in Oeuvres,
13. Donoso CORTÉS,"Carta de 26 de maio de 1849 a Montalem-
op. cit .. vol. 11,p. 342.
bert" Jn Oeuvres, op. cit., vot, 11,p. 342. Ver as observaçóes de Guy
19. /b.
AUGE, "Donoso Cortés, doutrinório espanhol da contra-revolução e
20. tb,
teólogo da História", Vu du baut, ng 3, 1984, pp. 21-22.
21. Donoso CORTÉS,"Carta de 30 de abril de 1852 ao diretor do
14. Donoso CORTÉS,"Carta de 15 de abril de 1852" in op. cit., '1989,
pp. 101-102. Hera/do' /n ed. A. Coyné, op. clt .. 1989, p, 106.
15. /b .. p. 102. 22. Donoso CORTÉS,"Pensamentos Diversos",In oo. cit., 1989, p. 121.
16. /b. Ver o comentário um pouco forçado de Carl SCHMITT,Théologle
pol/tique, op. cit., 1988, p. 74.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 3. ABORDAGENS DO NIILlSMO

ção permanente, que se manifesta pela "Incerteza, regulador de todas as consciências e princípio
pelo diletantismo, pelo ceticismo, pelo pessimismo, de todos os atos; mas perdemos até essa força
p<;>ressas formas atuais do 'mal do século">. O diag- de negação que foi o credo às avessas do sé-
nostico nletzscheano da "decomposição" e do esbo- culo XViiI. Todas as pessoas que, em maior ou
roamento das "certezas"24 fixará por muito tempo essa menor grau, se ligaram ao movimento de com-
visão do mundo moderno como "crise" continuada, bate dirigido por Voltalre tiveram ao menos uma
constitutlva e portanto sem saída. Não escaparam a certeza: acreditaram que combatiam o erro. To-
Nletzsche as afinidades profundas entre os Ideais libe- da uma fé Inconsciente estava envolvida nessa
rais, o espírito de tolerância e o sentimento de pieda- certeza. Acreditar que um sinal evidente separa
de; ele decifrava aí o triunfo dos "fracos" e dos "me- o que é razoável do que não o seja é afirmar
díocres", sob diversos pseudônimos Ideológicos: ao mesmo tempo que a razão é infalível. Já não
é essa a convicção da maior parte dos espíritos
O nome honroso da mediocridade é - como se cultos em nossa época de crítica. Multiplicamos
sabe - esta palavra: Iiberalism025. tanto os pontos de vista, refinamos tão habilmen-
te as Interpretaçôes, buscamos com tanta pa-
Este diagnóstico passará, nas últimas duas décadas ciência a gênese, portanto a legitimidade de to-
do século XIX, da filosofia da história ao político, pa- das as doutrinas, que fomos levados a pensar
ra constituir a primeira premissa da argumentação na- que uma alma de verdade se dissimula nas hipó-
cionalista. E, correlativamente, a crítica radical do par- teses mais contraditórias sobre a natureza do ho-
lamentarismo retomará Indefinidamente o motivo, Jus- mem e do universo. E como, por outro lado, não
tificando pela evidência Ideológica a desvalorização há hipótese suprema que concilie todas as outras
total do debate na ordem política: de um sintoma do e se Imponha à Inteligência em sua Integridade,
caos só pode sair o caos. É por Isso que os Iniçlado- uma anarquia de uma ordem única se elaborou
res do nacionalismo doutrinal na França, no final do no mundo intelectual. Daí se origina um ceticismo
século XIX (P. Bourget. J. Lemaí'tre, M. Borrês. E. Dru- sem par na história das Idéias / .../. Esta disposi-
mont, C. Maurras), vão refazer o caminho dessa mes- ção para duvidar até de sua dúvida traz consigo
ma "constatação" de uma "anarquia" generalizada, In- um cortejo de enfermidades que conhecemos
crlminando os mesmos indícios e fatores dela: o indi- até demais: vacilação da vontade, compromissos
vidualismo (sempre "dlssolvente"), o espírito de livre sofísticos da consciência, diletantismo sempre
exame, o liberalismo (e seu suposto rebento: o socia- meio desapegado e sempre indiferente27.
lismo) e a "crítica do século XIX"26.Assim, em seu estu-
do sobre "o sr. Talne", publicado em 1882, Paul Bour- Este extraordinário quadro das "perigosas fraquezas'028
get afirmava: do século XIX, cujo reverso é constituído por outras
tantas perdas Irreparáveis, Nletzsche, leitor do "sr.
Vivemos numa época de desmoronamento reli- Taine"29 e do "psicólogo" tão "curioso" quanto "delica-
gioso e metafísico onde inúmeras doutrinas se do" Paul Bourget30, certamente o meditou longamente
amontoam pelo chão. Não só não temos mais, e, em seus últimos escritos, repensou o essencial dele
como os homens do século XVii, um credo geral.
27. Paul BOURGET, Essais de psychologie contemporaine (1883 e
23. Georges GUY-GRAND. La Philosophie nationaliste. Paris, Bernard 1885), edição definitiva acrescida de apêndices, Paris, Plon, 1901, t.
Grasset, 1911, p. 18. I. pp. 215-216.
24. F. NIETZSCHE, WzM, § 57, p. 50; VP, t. 11,L. 111,§ 96, p. 42. Ver: 28. lb., p. 216.
G. MOREL op. cit., 1971, t. 11, p. 305. 29. Ver F. NIETZSCHE, EH, Irad. francesa de J.-C. Hémery, in OPhC,
25. WzM, § 864, p, 588; VP, t. 11, L. 111,§ 709, p. 211. t. VIII, pp. 264, 279 etc.
26. G. GUY-GRAND, op. cit., 1911, p. 17. 30. tb., p. 264.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 3. ABORDAGENS DO N/lLlSMO

sob a categoria do "nllllsmo europeu'?'. Sabe-se, aliás,


que Nletzsche tomou emprestado o termo "nlilismo" do
próprio Paul Bourgef32,que, no Prólogo de 1885 a seus
Ensaios de Psicologia Contemporânea, o Introduzia as-
sim:
centava Bourgef37, ao descrever os efeitos da "doen-
ça da vida moral chegada a seu período mais
agudo"38 para finalmente levantar a questão das cau-
sas "desse desaparecimento":
valentia
"Se a bela virtude da
deu lugar ao Inútil e melancólico 'de que
I1
serve?', se a consciência da raça parece perturbada,
o Be/-Aml do sr. de Maupassant, com ser tão nil- não cabe buscar a razão dessa perturbação visível?'039
lista quanto Obermann, apresenta seu nlillsmo de Os Ensaios de Psicologia Contemporânea apresentam-
outra maneira, e os extremos discípulos de Bau- se como uma tentativa de responder à pergunta40.
delalre celebram seu sentimento da decadência Mas as explicaçôes não estão ao nível do problema
em ritmos muito diferentes dos de Sainte-Beuve. proposto e quase só enumeram mais uma vez os sin-
Que Importa se palavras diferentes traduzem a tomas. É a descrição minuciosa da "doença
mesma Impressão de absoluto, de Irremlssível de- intelectual"41 que constituirá o ponto de partida da
sencorajamento? / .../ Para o psicólogo, o signifi- construção doutrinal de um Maurras. Do que, segundo
cativo é o fundo, e o fundo comum é, neste co- ele, produzira "a anarquia do século XIX", Maurras no-
mo naquele caso / ...I, um mortal cansaço de vi- tará, parafraseando Bourget: "Um de que serve? acer-
ver, uma melancólica percepção de todo esfor- tava a conta universal das pessoas e das coisas, das
ç033. substâncias e das Idéias. Era o próprio nada, sentido
e vlvido"42. Essa é a experiência do "niilismo" que, no
Encontramos assim em Bourget, entre 1882 e 1885, final do século XIX, se tornará comum, descendo dos
a tentativa de pensar conjuntamente o diagnóstico poetas e dos filósofos para os escritores e jornalistas,
de "degenerescêncla" como fenômeno de esgota- para finalmente, através de um fenômeno de moda,
mento, de envelhecimento ou até de agonia, e a ex- impor-se como a "sensibilidade fim de século"43, obje-
periência nova de um desaparecimento de' toda to de crítica ou de elogio. Resta entender em que o
transcendêncla como algo próprio do ocidente mo- nacionalismo Integral pode se definir indistintamente,
derno (encarnado pela França literária do século XIX). segundo suas próprias normas, como um antlniiiismo
Da mesma forma, no último pensamento de Nletzs- ou como um antiliberalismo. Pois, aos olhos do jovem
che, a "ruína da soberania do supra-sensível e dos 'I- Maurras, reivindicando contra Talne um retorno à or-
deais' que dele procedem"34 deixa a humanidade dem clássica, o pessimismo autocomplacente "fim de
"moderna" sem "objetivos", num mundo desertado pe- século" não passa de um avatar do romantismo, mis-
los "valores superiores" e portanto carente de "sentido". to de sentimentalismo e de tagarelice. E o romantismo
Onde fatalmente surge o tipo do "esgotado" que bus- em si mesmo não passa da vertente literária das "Nu-
ca a todo preço o repouso, movido por "uma extraor- vens", cuja vertente política é constituída pelo espírito
dinária astenia da vontade"35. O tipo do "homem revolucionário. Em 1922, triunfante, Maurras acreditava
atual"36. poder afirmar:
Desaparecimento da "velha alegria francesa", acres-

37. P. BOURGET, op. cit.. 1901. p. XXIII.


31. M. HEIDEGGER. Nietzsche, op. cit.• t. 11.pp. 32-33. 38. Ib.. p. XXII.
32. Ct. C. ANDLER. op. cit .. 1958. t. 111,p. 418; J. Granier, op. cit., 39. Ib., p. XXIII.
1966. p. 235. 40. Ib.: ver p. XXIV.
33. P. BOURGET, op. cit., 1901. prólogo de 1885, pp. XXI-XXII. 41. Ib.. p. XXVI.
34. M. HEIDEGGER, Nietzsche, op. cit., t. 11,p. 33. 42. Charles MAURRAS. citado por G. GUY-GRAND. In t.a phllosophle
35. F. NIETZSCHE,Le Gol sovo/r, § 347, trad. francesa de P. Klossows- nattononste. op. ctt., p. 20.
kl, In OPhC, t. V, Paris, Gallimard, 1967, p. 233. 43. Ct. Keith G. MILLWARD, Pierre Loti et /'esprit fin de siàc/e, Paris,
36. F. NIETZSCHE,Le Gol sovotr. op. cit., § 382, p. 279. Nizet, 1955.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 4. O VENENO DIALÉTlCO E SEU REMÉDIO

Amigos e adversários do Romantismo concordam


sobre sua Identidade profunda com a Revolução;
é um resultado da dtscussóo+'.

o regime republicano é o regime que se funda-


menta na discussão que não chega a nenhum lugar.
Da suposta afinidade entre a república e a discussão
Interminável, Maurras escrevia em 1912:
4. O VENENO DIALÉTICO E SEU REMÉDIO
A República é o regime da discussão pela dis- artamos do gesto crítico pelo qual se reconhece
cussão e da crítica pela crítica. Quem cessa de
discutir, quem pára de criticar, ofende as ima-
P o pensamento tradicionalista
designação
e antimoderno:
e a denúncia da abstração verbal que
a

gens da Liberdade. A República é o primado da funciona no vazio e Independentemente de qualquer


discussão, e da mais estéril delas45. Idealidade transcendente ou supra-sensível como sinto-
ma da decadência moderna e como acelerador de-
Dar resultado é próprio da vontade que julga com la. O sintoma é no mais das vezes tomado ao pé da
clareza, decide e escolhe com firmeza. Enquanto que, letra e relacionado com um fenômeno patológico.
numa ordem política "normal", a palavra está a servi- Mas a própria patologização é projetada quer sobre
ço da ação, que ela prepara ou explica, no regime um tempo longo, o da história da Europa ou do oci-
republicano ela se substitui à ação. Essa doença da dente (este é o próprio do pensamento nietzscheano),
linguagem é inseparável de uma debilitação da von- quer sobre o tempo curto da modernldade, ou até
tade. O "nacionalismo Integral" Inventa um tradlclona- da contemporaneidade (como em Bonald, Donoso,
lismo voluntarlsta. É por Isso que o nacionalismo dou- Bourget ou Nordau, por exemplo).
trlnal da Actlon française, em sua Intenção protunda, Num fragmento datado de 1884, Nietzsche esboça-
pode ser considerado a tentativa de repensar o tradi- va um programa de trabalho filosófico:
cionalismo contra-revolucionário fora dos limites Impos-
tos pelo fatalismo histórico, rompendo, pois, com o in- Descrever a decadência da alma moderna em
voluntarismo do primeiro pensamento reacionário. É todas as suas formas: em que medida a deca-
por Isso que Maurras terminava a sua Introdução, da- dência remonta a Sócrates ...1
tada de 1904-1905, de O Futuro da Inteligência com
esta máxima: "Em política, todo desespero é uma to- Quatro anos mais tarde, Nietzsche abre sua singular
lice absoluta"46. Isso era afirmar a adesão ou a con- e irônica auto-apresentação espiritual, meio biográfica,
versão do tradiclonalismo ao voluntarismo. E a nova meio bibliográfica, Ecce Homo, por esta evocação
aliança da autoridade e da decisão, contra a argu- em forma de alusão: "Meus leitores talvez saibam a
mentação. que ponto considero a dialétlca um símbolo de ciéco-
cience", por exemplo no caso mais famoso: o caso
44. C. MAURRAS, Romantisme et Révolution. edição definitiva. Paris.
Nouvelle Librairie natlonale. 1922, prefácio novo (1922). p. 2.
de Sóorcites'". Num curto ensaio de Interpretação, "O
45. C. MAURRAS. in L'Action française. 22 de novembro de 1912; re- problema de sócrotes'". Nietzsche caracterizara o "al-
tomado em: C. MAURRAS, Dictionnaire politique et critique (estabe- go de doente:", o desarranjo "fisiológico" do persona-
lecido por Pierre Chardon). Paris. A Ia Cité des Livres. 1932, fascículo
4. p. 367. (Daqui para a frente. remeteremos ao Dictionnaire pela
sigla DPC). 1. VP. t. 11.L. 111.§ 27, pp. 21-22.
46. C. MAURRAS. L'Avenir de /'inte/ligence (1905). in Romantisme et 2. EH. I, § 1. in OPhC. t. VIII. p. 246. *: em francês no texto.
Révolution, op. cit., prefácio (1904-1905). p. 35; cf. DPC. fasc. 4. p. 3. C/. "O problema de Sócrates" (§ 1-11). in OPhC, t. VIII. pp. 69-74.
358. 4. Ib .• § 1. p. 69.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 4. O VENENO DIALÉTlCO E SEU REMÉDIO

gem típico: "O que, em Sócrates, é Indício de deca-


dência não é apenas a desordem anárquica dos Ins-
tintos, que ele confessava, mas também a hlpertrofia
da faculdade lógica, e essa maldade
que o corocterlzc".
de raquítIco
Eis aí o essencial do diagnóstico:
se nasceu para tagarelar,
encontra-se
respeito
em cada
dos textos de
fabular e devanear,
livro seu veneno
Schopenhauer,
[dito a

Nletzsche e do próprio Spengler, autor do Declí-


nlo do Ocidente]. / .../ O que nossos contempla-
de I
a hlpertrofla da faculdade de argumentar, "tipo de tlvos e nossos Idealistas procuram é uma concep-
degenerescêncla" multo comum no declínlo da "anti- ção do mundo confortável, um sistema que só
ga Atenos'", essa doença do Instinto racional é a dla- comprometa as convicções, um pretexto moral
létlca. Ora, "só escolhemos a dialética quando não para sua fobia da ação. Eles tagarelam sentados
temos outros rnelos'", Spengler seguirá Nletzsche na nos cantos da vida, lugar que Ihes cabe de nas-
patologlzação do otimismo de sonhador que acredita cença: que ali perrnooeçorn".
encontrar na maioria dos filósofos:
A oposição entre declslonlsmo e deliberaclonismo,
Pela primeira vez, escreve ele em 1921, percebe- no pensamento de Spengler, exclui qualquer terceiro
mos como um fato que toda a literatura das termo: as meditações e as sínteses dialétlcas são não
verdades Ideais, todas essas Inspirações, esses só estranhas a uma visão da história fundamentada
projetos, essas soluções nobres, bem Intenciona- na diferença de natureza entre "fatos" e "verdades"
das, imbecis, todos esses livros, todos esses panfle- (expressão analóglca da diferença absoluta entre "vi-
tos e todos esses discursos são uma manifestação da" e "pensamentos")9, elas são designadas como ou-
Inútil / .../. Eu teria vergonha de me contentar tras tantas Ilusões patológicas, denunciadas como no-
com Idéias tão medíocres ["as palavras sonoras, civas alucinações por esse realista "relotlvlstcr'"? que é
nobres e abstratas que constituem o objetivo de Spengler. E atribuídas exclusivamente, de conformida-
nossa existência terrestre"] como vlático ao ,longo de com o gesto nietzscheano, a um tipo humano es-
da vida. Eles têm em si mesmos a covardia dos sencialmente definido por sua fraqueza, sua falta de
poltrões e dos sonhadores de nascença que não energia, sua covardia quase fisiológica: o tipo do es-
suportam olhar a realidade de frente e definir um gotado, aquele que as forças da vida desertaram.
objetivo real em algumas palavras frias. Sempre é Spengler só estava à espera de uma nova "dureza
preciso que sejam grandes generalidades cuja luz romana", desejava a vinda de um "César", único tipo
Ihes chegue de longe. O que ameniza a angús- de homem político conforme ao destino do século XX
tia dos que são corruptos demais para assumir os europeu: "A política, seja, mas feita por homens de
riscos, os empreendimentos, tudo o que exige estado, e não por reformadores do mundo tntelro"!'.
energia, Iniciativa, superioridade. / .../ Quando só Como se houvesse meditado as conclusões de um
Donoso e houvesse reconhecido que "o tempo da
monarquia tivesse acabado"12. Ora, "diante do mal ra-
5. Ib .• § 4, p. 71. No § 3, Nietzsche levanta seriamente a pergunta:
dical. há somente a dltoduro"!". Radicalizando a legl-
"Sócrates, aliás, era grego? Não raro a feiúra é a expressão da
mestiçagem, de um desenvolvimento contrariado pela mestiçagem"
(Ib., p. 70). Nietzsche, portanto, não evita esse lugar comum da se- 8. Oswald SPENGLER, "Pessimismo?"(1921), ín Écrits historiques et phl-
gunda metade do século XIX, que supõe a evidência de um elo Pensées. trad. francesa H. Plard, Paris, Copernic, 1980,
losophiques.
substancial entre mestiçagem e tagarelice, entre co-presença con- pp. 39-41.
vulsiva de "heranças contraditórias" e discussóo Interminável (alguns 9. Ib., pp. 33-36.
panfletos preferiram usar as expressões '1almudisrno" e "espírito tal- 10. Ib .• pp. 34-36.
múdlco"): ver P.-A. TAGUIEFF,"Doutrinas da raça e obsessê!loda 11. Ib .• p. 45.
mestiçagem. Fragmentos de uma história da misofobia douta", Nou- 12. C. SCHMITT,Théologie politique, op. cit., p. 74 (ver também p.
velle Revue d'Ethnopsychiatrie, nQ 17, 4Q trimestre de 1991. 60): J. EVOLA, Explorations, op. cit., p. 213.
6. CI, § 9, p. 73. 13. C. SCHMITT,io., p. 74. Julius Evola comentava assim a teoria
7. tb., § 6, p. 72. schmittiana da decisão absoluta: "Os 'poderes excepcionais' e a
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 4. O VENENO DIALÉTlCO E SEU REMÉDIO

tlmação malstrlana da autoridade política, Donoso cia"18) situa no ponto mais baixo da escala; seria des-
acabará por colocar a antítese radical: caos ou dita- valorizar radicalmente os valores ditos superiores e.
dura, que, como mostrou luminosamente Carl Sch- correlatlvamente. erlgir em valores supremos os valores
rnltt'", pressupõe a substituição do princípio de legitimi- rebaixados ou desqualificados pela axlologla deca-
dade pela "decísão absoluta". A ditadura impõe-se 10- dente. Os "valores novos" se determinariam, nesta
gicamente como o único conteúdo possível da Idéia perspectiva da Inversão. pela promoção dos antigos
contra-revolucionária a partir do momento em que o valores negativos a valores eminentemente positivos,
imperativo político Incondicional é opor-se sem o me- os "últimos" diante dos "pnmelros"!". Pode se reconhe-
nor compromisso à anarquia, oriunda da destruição cer o paradigma cristão voltado contra o cristianismo
total de todos os princípios de legitimidade. O que o histórico. Mas em outros textos, Nietzsche pensa "a In-
compromisso declslonlsta pressupõe é a Inseparabilida- versão dos valores" de uma maneira completamente
de das duas principais manifestações da decadência diferente. como transmutação segundo a analogia al-
moderna: a anarquia e a "discussão perpétua". Ora, a química. Ele sublinha a importância desta última numa
ditadura é o contrário da cíiscussóo"!", Daí a nova al- carta endereçada a Georg Brandes. de 23 de maio
ternativa: ditadura ou decadência final. de 1888:
A contra-revolução pode ser pensada quer como
um retorno, quer como uma conversão. Retorno, Inver- Utilizei estas semanas para "inverter os valores".
são, subversão, movimento contrário: outros tantos es- Compreende V. esta expressâo? O alquimista é.
quemas propriamente modernos da negação real. Ao no fundo, a espécie de homem mais meritória
passo que converter não é só revirar o "lixo" do que que existe: refiro-me àquele que transforma a es-
existe, mas transmutar, transformar e transubstanciar. cória, o dejeto, numa coisa preciosa. no próprio
Nietzsche topara com a dificuldade: como pensar "a ouro. Só ele enriquece: os outros contentam-se
inversão dos valores"16? Em alguns textos, a Inversão em fazer trocas. Minha tarefa é, desta vez, multo
axlológlca parece reduzir-se a uma mera reviravolta curiosa: perguntei-me o que, até então, fora mais
da hierarquia dos valores ou de seu "prlnclplo"!': supe- odiado, temido e deprezado pela humanidade: e
rar a decadência seria situar no cume da hierarquia foi justamente disso que fiz o meu "ouro"20.
dos valores aqueles que a moral decadente por ex-
18. NIETZSCHE. Carta a Georg Brandes de 20 de novembro de
celência ("os valores cristãos, os valores da decadên-
1888. in trerntere» iettres. op. cit., p. 97; cf. EH, "Por que sou um
destino", § 4. in OPhC, t. VIII. p. 335.
19. Sobre os "valores novos", ver por exemplo: EH, "Nascimento da
'ditadura' são os meios necessários. poderíamos dizer os 'meios im- Tragédia". § 2. in OPhC, t. VIII, p. 287; WzM, prefácio, § 4, p. 4 ("um
provlsocíos. que se impóem em tal conjuntura. quando o aguar- dia vamos precisar de valores novos ..."): "O niilismo europeu: (10 de
dado despertar do poder central do estado não se produz. Nessas junho de 1887), § 9 e 10, in Le Nihilisme eurooéeri. op. cit., pp.
condiçóes. a ditadura não é um fenômeno 'revolucionário'. Ela per- 158-159. A determinação dominante dos "valores novos" produzidos
manece na legitimidade" (Les Hommes ou milieu des ruines [1953, pela transmutação é que eles são "afirmativos"; ver principalmente:
1972J. trad. francesa [1972J revista, corrigida e completada por G. G. MOREL Nietzsctve. op. cit., 1971. t. 111. p. 17 ss: Paul VALADIER,
Boulanger. Paris. Guy Trédaniel/Ed. de Ia Maisnie, e Puiseaux, Éd. Nietzsche et /0 critique du christionisme, Paris, Les Éditions du Cerf,
Pardes, 1984, p.31). 1974. p. 558. Como essa afirmatividade oscila entre a platitude (o
14. C. SCHMITT, Thé%gie ooütique. op. cit., p. 74. "sim" contra o "não") e a profundidade Insondável portanto indefinf-
15. /b .• p. 71. vel, Nietzsche no mais das vezes recorreu ao símbolo dionisiano.
16. Ver: NIETZSCHE, Carta a Reinhart von Seydlitz de 12 de feverei- Essencialmente "afirmativos", os valores "novos" sóo determinados
ro de 1888: "/ .. .I em razão da luta implacável e subterrânea con- mais precisamente por duas categorias supostamente positivas: a di-
tra tudo o que os homens até agora honraram e amaram (minha ferença (que se opóe ao mesmo tempo à unidade. à unicidade e
fórmula para designar isso é 'a inversão de todos os valores') ... " à confusóo) e a hierarquia (que se opóe à Igualdade, ao níve!c-
(Dernieres tettres, trad. francesa de C. Perret, Paris. Petite Biblioth- mento e mais amplamente à inversão dos valores que a "moral dos
eque Rivages. 1989. p. 60). Cf. EH, in OPhC. t. VIII. p. 324 ("Crepús- escravos", a "moral gregária" funda).
culo dos ídolos", § 3). 20. NIETZSCHE, Carta a Georg Brandes de 23 de maio de 1888, in
17. WzM, 1006. p. 661; VP. t. 11, L. 111, § 503. p. 157. Dernieres /eftres, op. cit., p. 64.
POR QUE NÃO SOMOS NIETlSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 4. O VENENO DIALÉT/CO E SEU REMÉDIO

I A alternativa é aqui claramente colocada:

transmutação.
a Inver-
são dos valores pode ser entendida quer como "cãm-
blo" ou troca de valores, quer como conversão
O uso da metáfora alquímlca, a evo-
cação do mito enquanto modo de apresentação
ou

de
va ordem de vida"22. Um único caminho está absolu-
tamente excluído para o pensamento
nletzscheana: querer superar a decadência
de tradição
recorrendo
ao mito do Progresso; o que define a Ilusão moderna
por excelência, contradição nos termos e Inconseqüên-
um pensamento Irrepresentável na conceltualldade cia maior, constituindo as crenças progressistas uma
aceita pelo modernos (ciência ou filosofia), não dei- das manifestações típicas da decadência moderna.
xam de trazer eles próprios algumas conseqüências In- A filosofia da contra-revolução choca-se contra um
desejáveis: a transmutação dos valores quase que só dilema: a salvação só pode ser concebida através de
pode ser concebida enquanto purificação E; sublima- uma volta atrás, mas é altamente provável que ela
ção, o que traz de volta uma herança platônico-cris- não acontecerá no curso empírico da história. A sal-
tã que no entanto cumpria erradicar. vação entendida como possível tem, aliás, um índice
É que a grande dificuldade teórica encontrada pe- alto de Improbabllldade. Na verdade, a última pala-
los pensamentos da decadência, sua "cruz" especula- vra de Donoso é que "a grande catástrofe" denota o
tlva, surge quando eles têm de sair do diagnóstico, grande acontecimento mais provável. E aparece aqui
em que excelem, para Indicar "remédios", estipular e ali em seus textos a convicção de que não se evi-
métodos de salvação, esboçar orientações positivas. tará o pior neste mundo. O diagnóstico de decadên-
Através do pessimismo radical, o problema da supera- cia forma a primeira premissa dos raciocínios pessimis-
ção é evitado, a dificuldade é abollda em seu prin- tas de Donoso, e o prognóstico de decadência final
cípio. Mas, para os "médicos da civilização", persiste e é sua última conclusão. Pois a "reação religiosa", a
se Impõe a dupla Interrogação: que fazer? e que es- única que seria "salutar", mostra-se altamente imprová-
perar? Os Inesperantes e os desesperados, por seu la- vel, por não ter precedentes históricos:
do, fecham-se na expectativa e se aplicam em tra-
çar o quadro do que aguarda a humanidade, no to- Digo-o com a mais profunda tristeza. VI. conheci
do ou em parte, no horizonte do processo de deca- muitos Indivíduos que, depois de terem saído da
dência. Sob o pressuposto do pessimismo radical, ofe- fé, voltaram a ela. Nunca vl. em compensação,
recem-se dois caminhos especulativos e práticos, que nenhum povo que tenha voltado à fé, depois de
de forma nenhuma específicam a modernidade Ideo- tê-Ia perdid023•
lógica: a expectativa do pior (Gobineau) ou a submis-
E tudo se encadeia, Inclusive as perdas, do religio-
são ao destino (Spengler). A posição spengleriana, de-
so ao político: "voltar atrás", reencontrar o sentido ab-
vemos explicitar, difere tanto de um pessimismo que
soluto do que se perdeu (fé, legitimidade, verdade),
professe que o pior é inevitável quanto do otimismo
em suma, reencontrar o sentido perdido, eis o que
progressista instalado na certeza de que estamos a
parece agora não ser mais possível para as coletivi-
caminho do melhor. A conversão do acaso em desti-
dades, povos e sociedades. A excepcionalidade do
no, ligada ou não à "hipótese" do eterno retorno, de-
retornos tndlvlduols'", o milagre das conversões e das
lineia o caminho seguido pela maioria dos que pen-
sam a partir do último Nietzsche: depois da identifica-
da transvaloração experimentada) é essencialmente determinada
ção das figuras do niilismo, colocar o problema da pela Idéia-símbolo da "inocência" do "sim":cr. G. MOREL.Nietzsche.
"curo'?' e esforçar-se por "abrir caminho para uma no- op. cit., t. 111. p. 18 ss,
22. WzM. § 1055, p. 689; VP. t. 11. L. 111. § 228. p. 285.
23. Donoso CORTÉS,citado por A. Coyné. op. cit .• 1989. p. 35; ver
21. Sobre a importância do pensamento sobre a doença e da também J. CHAIX-RUY.op. cit .• 1956. p. 165.
preocupação com a cura em Nietzsche. ver: Karl JASPERS, 24. A começar pela própria re-conversão de Donoso. depois da
Nietzsche. Introduction à so philosophie (1936),trad. francesa [de H. morte de um de seus irmãos, em 1847; cf. J. CHAIX-RUY. op. cit.• p.
Niel]. Paris. Gallimard. 1950. p. 111 ss; a "cura" (enquanto metáfora 120. e G. AUGÉ, art. cit .• 1984, pp. 16 e 19.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 5. MEDIOCRIDADE MODERNA E DEGENERESC~NCIA CRISTÃ

re-conversões pessoais não poderia mudar nada na [Untergang] 1"1 As alternativas são colocadas como
evolução de conjunto, regido pela irremediabilidade pedras de toque, devem servir de critério: as escolhas
das perdas essenciais. Só resta a ditadura, quando fundamentais revelam, as opções claras discriminam,
"a Idéia legitimlsta da sucessão hereditária se trans- na óptlca do slntomatologlsta.
forma em / .../ algumas argúcias vazlas"25: se dora-
vante a restauração só pode ser uma ilusão, o futu- Nietzsche era multo preciso em seu diagnóstico: até
ro agora só pode pertencer ao caos ou à ditadura; na covardia, o homem moderno é mesquinho, pe-
mas esta última só retardará o momento do naufrá- queno, rntnúsculo-. E essa medíocre covardia é um
gio final. Assim, não se poderia esperar a salvação movimento, ela "cresce", ou seja, desce cada vez
da menos má das escolhas políticas. O mergulho mais baixo, piora, através de sua Instituição como nor-
nas trevas é o que há de mais certo no horizonte ma positiva, substituto moderno da antiga "prudência":
do declínio: "Sei que a luz da verdade vem desapa- "Debilidade da vontode'". "eliminação do sujeito que
recendo do horizonte de um mundo que logo esta- escolhe, Interpreta e julga"4, diagnostica ele. Ainda
rá totalmente mergulhado nas trevas. Sei que logo mais precisamente: "A covardia diante das conse-
vai erguer-se sobre as sociedades a triste noite que qüências - vício moderno'". Mas não há prática, po-
a Sabedoria Divina anuncla"26. lítica ou não, da covardia, na modernldade, sem ou-
tolegitlmação de tipo racional: é sempre em nome
da raclonalidade ou da razoabilidade que as defec-
ções se realizam, pois, para os modernos, "na presen-
ça da razão podemos nos entregar e nos reslgnar"6.
Aos olhos do sintomatologista, essa normalização da
covardia é apenas expressão de cansaço, que de
bom grado se disfarça de sentimentalismo humanitário
e de posturas moralizantes, pois "o animal gregário" se
5. MEDIOCRIDADE MODERNA pretende "virtuoso": "A reconciliação é cansaço?";
'''Compreender' não é um sinal de força, e sim sinal
E DEGENERESCÊNCIA CRISTÃ de um cansaço considerável; a própria moralização é
uma aecaaêncto",

tica
o s pensadores da decadência moderna colo-
cam alternativas estritas, operação caracterís-
do estilo maxlmalista, que pode ser determina-
O declínio moderno da coragem assinala-se princi-
palmente pela recusa impotente de escolher, pela fu-
ga diante do enfrentamento, por cansaço, pelo refú-
gio das classes dirigentes na negociação e no com-
do pela lógica da preferência que adota: o maxi-
promisso, pela submissão de todos às opiniões majori-
malismo consiste em preferir o contrário ao interme-
tárias ou dominantes. Essa in-decisão é ela própria um
diário, o Inimigo mais perigoso ao medíocre, o Injus-
sintoma do declínio de uma propriedade essencial da
to extremo ao justo meio - antes a morte do que a
"vida morna", antes a morte voluntária do que a 1. F. NIETZSCHE. WzM. § 1054, p. 689; VP. trad. francesa de G. Bian-
mediocridade. Nietzsche observa, por exemplo, num quis. t. 11, L. 111,§ 266. p. 90 (1885-1886).
2. Ver F. NIETZSCHE, Assim Falava Zoratustra, I parte (1883). Prólogo,
fragmento que data dos anos 1885-1886: "Evitar cair
§ 5 (sobre a figura do "último homem").
na mediocridade [Vermltte/móssigung]. Antes a ruína 3. WzM, § 29. p. 24; VP. t. 11. L. 111,§ 117, p. 50.
4. WzM, § 95. p. 71; VP, t. 11. L. 111.§ 40. p. 27 (1888).
5. VP, t. 11, L. 11I, § 133, p. 54 (1888).
6. WzM. § 95. p. 72; VP, t. 11. L. 111.§ 40. p. 27.
25. C. SCHMITT, Théologie oouttque, oo. cit., p.74. 7. VP, t. 11, L. 111.§ 52, p. 30.
26. Donoso CORTÉS, citado por J. CHAIX-RUY, op. cit .. p. 20. 8. Ib .• § 53. p. 31.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF O PARADIGMA TRADICIONALISTA
5. MEDIOCRIDADE MODERNA E DEGENERESCÊNCIA CRISTÃ
vida afirmativa:
mostrou Victor Goldschmidt, "está suspensa, formalmen-
A Incapacidade de lutar, eis aí a degenerescên- te, do texto sobre a 'História de um erro', entendida
elo". como a história da metafísica ocidental, que, por sua
vez, é a história do plctonlsrno"!'. Esse texto, "Como,
A "virtuosa" covardia das Instâncias dirigentes, na para terminar, o 'mundo verdadeiro' tornou-se fábula.
mOdernldade, é um dos sintomas da natureza desta História de um erro", Incluído no Crepúsculo dos
última. Nletzsche multas vezes justifica seu reconheci- kiotosw, é de fato capital, e sua Interpretação corre-
mento ou sua Identificação através da experiência ta propicia a compreensão de toda a última filosofia
dos precedentes históricos: de Nietzsche. Ora, para simplificar e alegorizar a ques-
tão, observaremos que Nietzsche, em seus últimos tex-
Foi a degenerescênc/a {Entartung] dos senhores e tos (inclusive cartas), nunca escreveu "Diôniso contra
das classes dirigentes que causou a maior desor- Platão (ou o platonismo)", e sim "Dlôniso contra o
dem da história. Sem os Césares romanos e a so- Cruclficado"13. Além disso, no "plano" do livro projeta-
ciedade romana, a loucura do cristianismo não do (A Vontade de PotêncIa. Ensaio de uma Transva-
teria triunfado. Quando os homens simples come- loração de Todos os Valores), apresentado como o
çam a duvidar de que haja homens superiores, o "evangelho do tuturo"!", esboço de plano Intitulado "O
perigo é grandel E acabamos descobrindo que Niilismo Europeu", Nietzsche explicita quais são os "va-
mesmo entre as pessoas medíocres, subalternas, lores" que, no e pelo niilismo, ao mesmo tempo se re-
pobres de espírito, existem virtudes, e que diante velam e "se desvalorizam"15: "É numa interpretação
de Deus todos os homens são Iguais; o que é o completamente determinada que reside o niilismo: na
non plus ultra da Imbecilidade na terra. Com interpretação cristã-moral [chrlstlich-moralischen] "16. A
efeito, os homens superiores acabaram por se desvalorização dos valores ditos superiores é a desva-
medirem a si mesmos no metro de virtude dos lorização dos valores da moral cristã, a morte de
escravos - eles se acharam "orgulhosos" etc., jul- Deus é a morte do "Deus crlstóo"!'. e não, como na
garam condenáveis todas as suas qualidades su- leitura heideggeriana, "ruína da soberania do supro-,
oerioresw. sensível e dos 'ideais' que dele proc e dern''!". Convém

Não repugna a Nietzsche recorrer ao conceito blo-


11. Victor GOLDSCHMIDT. Platonisme et pensée contemporaine. Pa-
médico de degenerescêncla (Entartung), típico das In- ris. Aubier/Éditions Montaigne. 1970. p. 199.
terpretações modernas da decadência, que a natura- 12. Ver C/. in OPhC. t. VIII. 1974. pp. 80-81.
13. Cf. V. GOLDSCHMIDT. op. cit .• p. 202. Ver por exemplo: C/. "O
lizam ou blologizam ao mesmo tempo que a patolo-
que devo aos Antigos". § 4 e 5. in OPhC. t. VIII. pp. 149-152; EH. in
glzam. Essa inconseqüência nletzscheana explica-se OPhC. t.VIII. p. 341; WzM. § 1052. pp. 687-688 (VP. t.lI. L.11I.§ 464. p.
pelo ardor maximalista próprio do gênero polêmico: 345). Sobre a figura falsamente simples de Diôniso. ver sobretudo: G.
MOREL. Nietzsche. op. cit .. t.lII. p. 280 ss; mais particularmente. sobre
quando o inimigo absoluto, "o cristianismo", é designa- seu aparecimento nas últimas cartas de Nietzsche (com e contra "o
do para ser estigmatizado, tudo é permitido. A recu- Crucificado"): Pierre KLOSSOWSKI. Nietzsche et le cercle vicieux, Pa-
sa da modernldade não é para Nletzsche senão uma ris. Mercure de France. 1969. p. 333 ss (embora essas glosas e varia-
çóes brilhantes sejam sobretudo capazes de interessar aos admira-
implicação da guerra total que ele declarou ao cris- dores incondicionais de Klossowski).
tianismo, "erro" nocivo paradlgmátlco, matriz de todos 14. WzM. prefácio. p. 4; o tema da "boa nova" (anti- e pós-cristã)
os "erros modernos". Sabe-se que a Interpretação hel- é comum nos últimos textos de Nietzsche: cf. por exemplo EH. "Cre-
púsculo dos ídolos". § 2. in OPhC. t. VIII. p. 324.
deggerlana do pensamento de Nietzsche, como o
15. WzM. § 2. p. 10; VP. t. 11.L.1I1.§ 100. p. 43.
16. WzM. "Zum Plan". § 1. p. 7.
9. tb., § 64. p. 34.
17. É feita menção ao "Deus cristão" ou ao "Deus moral". Ver: WzM.
10. WzM. § 874. pp, 595-596; VP. t. 11.L. 111.§ 34. p. 23. § 55. p. 44; VP. t.lI. L.111.§ 8. p. 13; VP. t.1I. L. 111.§ 483. p. 150. Cf.
V. GOLDSCHMIDT. op. cit .• p. 202.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 6. DEMAGOGIA DEMOCRACIA DECADtNCIA DA CULTURA

então seguir o bom fifóiogo que era V. Goidschmidt:

A "História de um erro" não é a história da meta-


físlc,a. Não é sequer, ~pesar das aparências,
hlstorla do platonlsmo. E a história do cristianismo
a
I
:~~~~:;:~~~::~,~::~
h;~E~:,~~:';::
nos do que os avatares neo e para-cristãos destes úl-
timos. É assim que as "Idéias modernas" são estigmati-
e da moral cristã. / .../ O cristianismo, na "História zadas como "Idéias frouxas e covardes", sendo relacio-
de um erro", não é uma seqüência do platonls- nadas com suas origens cristãs, Identiflcáveis sob suas
mo. Pelo contrário, é como primeiro cristão e co- máscaras e seus disfarces:
mo primeiro sintoma da decadência que Platão
é situado no Início da lista ["Essa fé cristã que "Formas mais escondidas do culto do Ideal moral
era também a fé de Plotóo"'"]. Platão é o "fana- do cristianismo" [título do fragmento]. A Idéia frou-
tismo moral"2o, e é por ser também Kant um "fa- xa e covarde da "natureza", tal como os adorado-
nático rnorol'?'. um "teólogo"22 e, "afinal de con- res da natureza a proclamaram / ...I, como se a
tas, um cristão tnstoloso">. que ele é citado a se- natureza fosse liberdade, bondade, Inocência, eqüi-
gUir24. dade, justiça, Idíllo - continua a ser, no fundo, o
culto da moral cristã. / .../ A Idéia trouxa e covar-
Depois deste esclarecimento necessário, estamos em de do "homem", à maneira de Com te e de Stuart
c~ndições de ler corretamente os textos em que Mil/, levada se possível até a fazer dele um objeto
Nletzsche ataca o cristianismo, ou mais precisamente de culto / .../. A concepção frouxa e covarde da
o fenômeno "cristão-moral", reduzindo-o a uma mani- "arte", simpatia por tudo o que é sofredor ou de-
festação de "degenerescência": serdado / .../. E finalmente todo o Ideal socialista,
grosseiro disfarce desse Ideal moral crlstôo>,
Considero o cristianismo a mais nefasta das sedu-
ções e das mentiras, a grande mentira e a 'blas-
fêmia por excelência; perseguirei sob todos os
seus outros disfarces a sua posteridade e as erup-
ções de seu ideal / .../. Tomar por norma das coi-
sas a moralldade da ralé é a degenerescêncla
[Entartung] mais repugnante que a civilização 6. DEMAGOGIA, DEMOCRACIA,
[Kultur] possa ostentor'".
DECADÊNCIA DA CULTURA
A genealogia do "Ideal moral do cristianismo" não
ompreende-se que o antl-socialismo de
18. M. HEIDEGGER, Nietzsche, op. cit .. 1.11.p. 33; ver também'
Chemins qui ne rnénent nul/e part [HoIzwegej. trad. francesa d~
Id
V./ C Nietzsche seja em primeiro lugar uma implica-
Brokmeier. Paris. Gallimard. 1962. pp. 214-215. . ção de seu antlcristlanlsmo. Mas é o antimodernlsmo
19. F. NIETZSCHE. A Gaia Ciência. Livro V. § 344. troo. francesa de nletzscheano Inteiro que não pode ser entendido se
P. KLOSSOWSKI. in OPhC. t, ~. p. 228 (retomado em A Genealogia
se supõe a Identificação da modernldade como pro-
da Moral [1887]. 111dissertaçuo. § 24. in OPhC. t.VII. 1971. p. 338),
20. WzM. § 438. p. 307. cesso de expansão e de realização, não necessaria-
21. Ib .• § 95. p. 71 (VP. t. 11. L.l1I. § 40. p,27); WzM. § 382. p. 260 mente cristão, ou até expressamente antlcristão, dos
(VP. t.1, L.I. § 285. p. 132).
valores cristãos. Assim, o Igualitarlsmo, o gregarlsmo e
22. Sobre o "instinto teológico" de Kant. ver: O Anficristo (1888). § 10
e 11. trad. francesa de J.-C. Hémery. in OPhC. t, VIII. pp 167-169 o verbalismo, que caracterizam as práticas e as orlen-
23. C/. "A 'razão na filosafia .••• § 6. in OPhC. t. VIII. p. 79.' ,
24. V. GOLDSCHMIDT. oo. cit .. pp, 200-201.
25, WzM. § 200. p. 142; VP. t.l. LI. § 433. pp. 195-196 (1887-1888), 26. WzM, § 340. p. 234; VP. t.i. L.I. § 432. p. 195.
POR QUE NÃO SOMOS NIETlSCHEANOS
O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF
6. DEMAGOGIA DEMOCRACIA DECADÊNCIA DA CULTURA

tações axlológlcas modernas, devem ser reconhecidos


A ação de Sócrates: / .../ ele fortaleceu a logo-
como heranças cristãs tanto mais ativas quanto não
maquia e o palavrório dialéticos.
trazem marca de origem:

A lenta promoção da dialética como método de


Sou hostil: 111 ao socialismo, porque sonha Inge- resolver os problemas fundamentais da existência hu-
nuamente "com o bem, com o verdadeiro e mana, inseparável da promulgação dos valores demo-
com o belo" e com os "direitos iguais" (o anar- cráticos como valores supremos através da vulgariza-
quismo também serve ao mesmo Ideal. mas mais ção laicizante do Igualitarlsmo cristão, teria atingido
brutalmente); 211 ao parlamentarismo e ao jornalis- seu ponto culminante na modernidade. A mediocrida-
mo, porque são os meios pelos quais o animal de moderna, Nletzsche a pensa em 1874 como deca-
gregárlo se torna senhor'.
dência da cultura, processo que deve ser entendido
como "destruição da cultura":
Esse fragmento de marcante perfume tradicionalista
está longe de ser uma singuiaridade na obra
A maré da religião está baixa e deixa atrás de si
nietzscheana. Quando o "solitário por lnstlrito'? se apli- pântanos e lagoas; as nações se opõem de no-
car, tardiamente, em redefinir o pensamento "intem- vo em vivas hostilidades e procuram dilacerar-se.
pestivo", tornará a encontrar as alternativas do estilo As ciências, cultivadas sem medida e com o
tradicionalista: degenerescência ("inépcia para a luta") mais cego laisser faire [em francês no original] es-
ou guerra, mediocridade ou despotismo. Como neste migalham e dissoivem tudo o que era objeto de
fragmento que data de 1884-1885:
uma crença firme; as classes cuitas e os estados
civilizados são varridos por uma corrente de ne-
Mesmo nas coisas do espírito, quero a guerra e gócios magniflcamente desdenhosos. Nunca o sé-
os conflitos e preferiria ainda o despotismo mais culo foi mais secular, mais pobre de amor e de
rigoroso (como escola da agilidade de espírito) à
bondade. Os meios intelectuais hoje são ápenas
atmosfera úmida e morna de uma era de "liber-
faróis ou refúgios no meio desse turbilhão de am-
dade de imprensa" na qual o espírito perde o
bições concretas. Dia após dia eles mesmos se
brilho, se embrutece e se distende. Neste ponto,
tornam mais instáveis, mais vazios de pensamen-
continuo como era, "intempestivo"3.
to e de amor. Tudo está a serviço da barbárie
que se aproxima, inclusive a arte e a ciência de
Há em Nietzsche, desde os textos da época de O
hoje. O homem culto se tornou por degeneres-
Nascimento da. Tragédia e das Considerações Intem- cêncla o pior inimigo da cultura, pois imagina
pestlvas (1871-1876), o esboço de uma genealogia da mentiras para negar a enfermidade geral, e inco-
mediocridade moderna. A irrupção do tipo socrático, moda os médicos. Eles se Irritam, esses pobres
"plebeu" e "tagarela", é seu primeiro sintoma:
diabos, quando falamos de sua fraqueza e
quando resistimos a seu nefasto espírito de men-
o mais democrata, o mais demagogo é Sócra- tlro>.
tes: ele decorre das seitas...4;

A idéia central é aquI que a destruição moderna


1. WzM. § 753. p. 504; VP. 1.11. L.111.
§ 255, p. 87.
2. WzM. prefácio. § 3, p. 3; VP. 1.1.1.I. § 22, p.35. da cultura é uma autodestruição: a vontade de cul-
3. VP. 1.11.L.l1I.§ 265. p. 90 (1884-1885).
4. "O filósofo. médico da civilização" [Der Philosoph ais Arzt der Kul-
5. v». I. li, L. 111.
§ 33, p. 23 (1875).
tur]. ~Ia~?s da primavera de 1873, in La Naissance de Ia philoso-
6. Unzeitgemosse Betrachtungen. 111 (1874), § 4. Irad. francesa (mo-
phle a I.epoque de Ia tragédie grecque. Irad. francesa de G. Bian-
qUIS, Porls, Gallimard. 1938, reed. 1969. p. 166. dificada) de G. Bianquls. Considérations intempestives. Paris, Aubier,
1954, pp. 65 e 67.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 6. DEMAGOGIA DEMOCRACIA, DECADÊNCIA DA CULTURA

tura Inverte-se em ódio à cultura, os representantes da


cultura em Inimigos da cultura, como se a barbárle fi-
zesse a cultura trabalhar a seu serviço e tivesse con-
seguido a façanha de Instrumentallzar seu contrário
por excelência, a cultura - "Cuttut", escreve Nletzsche
os únicos "grandes" sucessos são sucessos de
massa, e já nem sequer se compreende

sucesso: pois pu/chrum


que to-
do sucesso de massa só possa ser um pequeno
8
est paucorum homlnum •
I
nessa terceira das Considerações Intempestlvas, afran- A massiflcação da cultura, a "cultura para todos" é
cesando o termo alemão Kultur para distanciar-se da a Impostura para todos, o que supõe o surglmento e
concepção corrente da Kultur no Relch, que ele des- o "êxito" de uma nova classe de Impostores culturais,
prezava lntlnttornente". Esse é o quadro da "decadên- proflsslonallzados na e pela modernldade. DI~nte des-
cia da cultura", vista de cima, considerada pelo filóso- sa dominação regulamentada da neo-barbarle cultu-
fo a Igual distância do espírito jornalístico, fascinado ral, a primeira tarefa de um filósofo, de um pensador
pelo presente anedótlco (as misérias da "atualidade") Intempestlvo, consiste em assinalar "os sintomas da
e submisso à opinião pública, e do pensamento servil completa extirpação, da erradicação total da cultura'09.
dos professores, respeitosamente submissos ao estado. O que hoje se convenclonou chamar de "democra-
O diagnóstico de decadência é aqui formulado no tização da cultura", ação voluntária e sistemática de
elemento de um pessimismo hlpercrítlco, sarcástico, difusão vulgarlzadora dos cimos da "alta cultura", que
que deve muito a Schopenhauer, o "bom educador". se tornou Insuportável em sua "altura", é precisamente,
Os sintomas de decadência são Interpretados como observa Nletzsche em 1871, a via "bárbara" que leva
sinais que anunciam o pior: a "barbárle". Os dois es- ao comunismo:
quemas fundamentais da perda (a constatação do
"não ...mals") e da redução ao Inferior (a descrição do A difusão da cultura é apenas um estágio pre-
"já não ser senão ...") se Inscrevem na lógica do tor- paratório do comunismo. Dessa maneira, a cultu-
nar-se-plor (o destino de "ser cada vez mais" do ne- ra se debilita a ponto de não poder conferir
gativo). O pior é a cultura tornada processo atlvó de mais nenhum privilégio. A maior difusão da cultu-
barbarlzação. É preciso coragem para dlzê-Io, para o ra. ou seja. a barbárie, é justamente a condição
dizer a si mesmo, quando se é um "espírito culto" na preliminar do comunismo. De uma cultura adap-
época dos moedelros falsos da cultura. A coragem tada ao tempo presente se passa a este extre-
do pensamento Intempestivo, o qual começa por ela, mo. a cultura adaptada ao Instante presente, ou
é Inicialmente a coragem de "reconhecer", a cora- seja. uma maneira grosseira de se apoderar da
gem de não se negar a ver o estado de rebaixa- utilidade momentânea. Se acreditarmos que a
mento em que se encontra a cultura no exato mo- cultura tem uma utilidade. logo confundiremos o
mento em que se fala muito dela, na época em que que é útil com a cultura. A cultura generalizada
se propõe que ela seja compartilhada por todos. O se transformará em ódio à verdadeira cutturci'P.
espírito moderno-plebeu só encara a cultura enquan-
to "democracia cultural", cujo objetivo se reduz a pro- Dominação do discurso dialético. reinado do~ valo-
duzir grandes "sucessos" culturais de massa; eis aí o res Igualitários e generalização da "relvlndlcaçao =
que Nletzsche despreza: direitos Iguals"l1. utilitarismo. extensão dos Ideais grega-
rios. ódio e destruição da cultura submetida a uma
O orgulho que quer a solidão ou a estima de
8. WzM. § 783. p. 521; VP. 1.11.L.III. § 228. p. 80 (1885). No mesmo
poucos não é mais compreendido por ninguém; sentido: O Anticristo (1888). prólogo e § 57; WzM. § 864. pp. 586-587
(VP. 1.11.L.l1I. § 709. pp. 210-211). .
7. Ver a carta de Nletzsche a August Strlndberg de 18 de dezem- 9. Considerações intempestivas. 111. op. ctt.. p. 65.
bro de 1888: "A única cultura é a cultura francesa" (Derniêres ter- 10. VP. t.lI. L.l1I.§ 248. p. 65.
tres. op. cit .. 1989. p. 122). 11. WzM. § 783. p. 522: VP. 1.11.L.l1I.§ 228. p. 81 (1885).
O PARADIGMA TRADICIONALISTA
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
6. DEMAGOGIA DEMOCRACIA DECADtNC/A DA CULTURA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF

corrupção barbarlzante, estabelecimento


mo como consumação
res, sintomas e figuras de um único e mesmo proces-
so, complexo e "progressivo". Pois o que progride é a
barbárle, no caminho aberto pela decadência
do comunis-
da barbárie: são todos fato-

da
se realize dentro dos limites da democracia
Depois dela, só resta a evocação
de força" e o sonho de uma ditadura
moderna.
exaltada do "golpe
redentora.
essa terrível conclusão lógica que gerações de estetas
nietzschezantes e de pios exegetas se esforçaram por
É I
cultura. A partir daí. o que se convenclonou chamar não ver e esconder ou camuflar. Já é tempo de re-
de "cultura moderna", uma vez reduzido pelo método conhecer que o pluralismo de Nletzsche, seu perspec-
genealóglco, aparece como um processo de descul- tivlsmo hlper-relatlvlsta, longe de entrar em consonân-
turação. Esse tipo de desmascaramento da modernl- cia com o pluralismo ordenado que a democracia li-
dade como antlclvlllzação e substituição de todas as beral Implica, representa a sua total negação. O rela-
tivlsmo radical é em Nletzsche apenas uma arma des-
formas autênticas de cultura pelo "pseudo", os primei-
trutiva destinada a desqualificar absolutamente os sis-
ros tradicionalistas a praticaram, mas com o pressu-
temas de valores e de crenças do mundo moderno.
posto de que a verdadeira civilização e a alta cultu-
Nletzsche não exige ser instalado no conforto da dú-
ra só podiam ser cristãs. A Identificação da modernl-
vida cética, do relativismo cultural ou do pluralismo
dade como gigantesca contrafação será, depois de
dóxico. A "dureza" que seu pensamento exige, pelo
Nietzsche, o tema de multas variações literárias e po-
lítico-filosóficas, teorlzando um Inesgotável ressentimen- menos em sua maneira profética, é a que Implica a
to. Depois da onda européia de direitos contestatárlos afirmação das diferenças irredutíveis, ou de distâncias
de antes de 1914, a Alemanha dos anos 1919-1933, hierárquicas que são destinos. Será preciso Insistir na
com seus "pessimistas culturais" (da esfera de Influên- Incompatibilidade de uma tal absolutlzação da dife-
cia da "revolução conservadora"), e a França dos rença hierárquica com a exigência Igualitária funda-
anos 30, com seus "não-conformistas", verão aparecer dora do espaço democrático moderno? Para conven-
outra onda de rebeldes e de revoltados contra este cer-se disso, é preciso ainda ler Integralmente, sem fu-
gir da letra do texto nessa ou naquela reconstrução
ou aquele aspecto da modernldade, e todos éles
angélica, alguns fragmentos tão explícitos quanto es-
"nletzschezarão". A Influência dominante do pensamen-
to nietzscheano não terá sido doutrinal, mas estilística: te, que são abundantes:
a herança nletzscheana é em primeiro lugar a radlca-
Uma das tendências da evolução é necessaria-
IIdade das negações, o caráter absoluto das afirma-
mente a que nivela a humanidade / .../. A outra
ções, o tom desprezatlvo, a Incondicionalidade dos
tendência, a minha, tende pelo contrário a
compromissos, o extremismo "heróico" na ação. Isso
acentuar todas as diferenças, a cavar fossos, a
porque não se pode ser nletzscheano como se é
kantiano, hegeliano ou marxista. As teses e as análises suprimir a Igualdade, a criar monstros de potên-
Importam menos do que a maneira ou o estilo, regi- cla12•
do pela potência de destruição e pela faculdade de
afirmar absolutamente. A mira destrutiva se dirige pri- A afirmação absoluta da diferença, a negação to-
meiro para a democracia liberal/pluralista, objeto de tal da Igualdade, o culto das hierarquias fundadas
suprema abominação. Em seguida, para as utopias naturalmente, estes são os caminhos que levam à vi-
da heróica, que põem no bom caminho pensado pe-
socialistas que se propõem realizar plenamente as vlr-
tualidades da democracia Igualitária moderna. Depois lo "imoralista". Essa é a única via Indlcada pelas ne-
gações radicais e soberanas - o "não do sim" - pro-
da desmistificação devastadora realizada pelo pensa-
nunciadas contra o mundo moderno pelo filósofo da
mento de Nietzsche, a partir do momento que o se-
guimos em suas conseqüências últimas no terreno po-
lítico, não se oferece mais nenhuma esperança que 12. VP. t.I1, l.IV, § 194, p. 277 (1883).
O PARADIGMA TRADICIONALISTA
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS
7. NACIONALISMO INTEGRAL - ANTlLlBERALlSMO ABSOLUTO

I
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF

I Vontade de potência. Não é necessário acrescentar


mais nada ...
Seria fácil demais, e portanto pouco convincente
aos olhos dos nletzscheanos convictos, Ilustrar com tex-
tos que nletzschezam a todo transe, de autoria de
doutrinários nacional-socialistas (para só tomar esse
exemplo à mão), as hipóteses que apresentamos so-
bre a política Impllcada pelo pensamento de 7. O NACIONALISMO INTEGRAL
Nietzsche (e não aquela, ou aquelas, que podemos
Inferir dessa ou daquela opinião do escritor e polemls-
COMO ANTILlBERALlSMO ABSOLUTO
ta Nietzsche). Fazendo o rodeio pela argumentação
fundamental do nacionalismo da Actlon françalse, evi- crítica tradicionalista da política modern~ visa
taremos certamente o caminho mais fácil, mas não
sairemos de modo algum do assunto. Bastará ao lei-
A essencialmente, portanto, à democracia
caracterizada principalmente
liberal,
pelo direito Igual de to-
tor, para nos seguir, ter em mente a distinção simples dos os cidadãos à palavra argumentativa. o que Ins-
entre, por um lado, as opiniões um tanto desfavorá- tauraria. segundo Donoso Cortés, o rei~ado da "dis-
veis a Nletzsche enquanto representante da filosofia cussão perpétua". O demoliberalismo e denuncla~o
alemã (a filosofia do Inlmlgol), opiniões proclamadas por seus críticos tradicionalistas como o reglm~ da In-
publicamente por certos gurus violentamente germa- decisão e da Irresolução: se nele a palavra e sobe-
nófobos do "nacionalismo Integral" (Maurras à frente), rana, é porque perdeu qualquer verdadeira legitimi-
e, por outro lado, o encadeamento dos argumentos dade; a ausência de fundamento absoluto do poder
que visam à modernldade político-cultural. para des- destrói a autoridade que julga e decide soberana-
qualificá-Ia radicalmente e legitimar uma "reação.". mente. A crítica tradicionalista da democrac:la liberal
Além disso, ficaremos atentos ao fato de que alguns gira ao redor destes poucos motivos: Impot~ncla ~e
testemunhos de dirigentes nacionalistas sobre a influên- fundamentar, tendência a Igualizar, p~op~nsao a. mis-
cia, tão decisiva quanto ocultada, do pensamento turar ou mesclar o que difere, perslstencla na diSCUS-
nletzscheano, soam como confissões. O discurso são Indefinida.
antinietzscheano público da Action françalse revela-se Formulemos de outra maneira o axioma fundador
assim contestado por um contra-discurso "nletzschea- do tradicionalismo: a argumentação é marca de
no", ou até nletzscheófilo, discurso reservado, de uso uma Irremediável fraqueza. A abertura m.ode~na do
Interno, exaltando uma fonte de Inspiração quase ver- campo político como campo argumentatlvo e. Inter-
gonhosa e como que posta em segredo. Do Nletzs- pretada e avaliada como sintoma de decade~cla:
che legal da Actlon française, um Nietzsche quase Ora. um dos pressupostos de toda argumentaçao e
que não lido, e com má vontade, objeto de ataques que nenhuma tese deva ser rejelt.a~a sem exame,
convencionais, sé distingue então o Nletzsche real e ou seja, sem ser discutida. A cO,ndlçao tr~nscenden-
admlrativamente lido, o Nietzsche Insplrador - com Pé- tal negativa da argumentação e a, rejeiçao de toda
guy, Drumont e alguns outros - da revolta total contra rejeição a prlorl ou dogmática. Dai a n~rma de ex-
o mundo moderno, contra todas as suas orientações cluir toda exclusão de uma tese que nao se funda-
políticas (democracia Igualitária, pluralismo liberal, so- mente em argumentos. o que supõe o confronto dos
cialismos), revolta que constitui a dimensão propria- argumentos contrários e contradltório~." "
mente tradicionalista do "nacionalismo Integral". Caracterizaremos a atitude "demollberal pel? ex-
clusão de toda exclusão", para retomar uma formula
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS . O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 7. NACIONAUSMO INTEGRAL - ANTlUBERAUSMO ABSOLUTO

renontono'? Mas como entendê-Ia, aplicada à ordem apenas de mostrar em que a recusa maurraslana da
política? E sobretudo, como a entendem os Inimigos "anarquia" política moderna deriva da definição do
decididos da democracia liberal? "demollberallsmo" como Inimigo absoluto, e de sua In-
É preciso começar lembrando que a democracia li- terpretação como um fenômeno contra a natureza,
beral não é posta como o Inimigo absoluto pelas um desvio da ordem natural. Em L'Actlon Françalse
múltiplas variantes do socialismo, que a integram co- de 4 de janeiro de 1932, Maurras acreditava poder
mo uma etapa ou um estágio necessário numa evo- assim se regozijar de um retorno à norma: "A anoma-
lução progressiva, linear e universal. É na argumenta- lia democrática e liberal / ...l retira-se lentamente do
ção autofundadora do nacionalismo francês "fim de mundo moderno. Há trinta anos, prevíamos Isso: hoje
século", e por excelência na do "nacionalismo Integral" a previsão se confirma claramente numa época de
da Actlon françalse, que o "demoliberalismo" - não ditaduras régias, principescas, burguesas e populares
distinto da república - será Instituído como Inimigo ab- que não cessam de se erguer de todos os pontos
soluto, até ser satanlzado como no primeiro tradiclona- cardeais da Europa nova. / .../ Temos de convir que
Iismo. A principal razão disso é que esse nacionalismo as bases do fascismo, sociais, nacionais e não Indivi-
é Intelectualmente elaborado fora de toda referência dualistas, são sadias. Mas devemos acrescentar que
à concepção evoluclonlsta do progresso; segue-se daí as Instituições ergui das e desenvolvidas sobre essas
que a democracia liberal perde seu valor relativo e bases sãs comportam uma parte de liberdade, de es~
sua dignidade própria, de etapa necessária na dire- colha arbitrária e de determinações contingentes à
ção de uma sociopolítica superior, para se reduzir a qual é difícil e até Impossível reconhecer o caráter de
não ser mais do que um fenômeno anormal, Intrinse- Inviolabilidade, de Intangibllldade que suprimiria legiti-
camente patológico. Aos olhos do nacionalista, a de- mamente todo espírito de contradição, de discussão
mocracia liberal não é um tipo de regime "ultrapassa- e de exome:". O postulado sobre o qual se funda-
do" ou "condenado" pela marcha progressiva da his- menta uma tal avaliação positiva das ditaduras de ti-
tória, e sim um antl-reglme político, um regime ímpo- po fascista é realmente a alternativa Insuperável: "di-
lítlco ou pseudopolítlco: não um precedente respeitá- tadura ou discussão perpétua", E há de se notar que
vel em seu gênero, mas uma perversão condenável. a única restrição feita por Maurras a respeito desse
uma violação das leis naturais da organização políti- retorno à saúde política encarnada pelo fascismo vi-
ca. É neste sentido que podemos considerar que a sa precisamente à sua Incapacidade de suprimir total-
doutrina maurraslana, tal como aparece na primeira mente as sobrevivências de "demoliberallsmo": princípiO
edição da Enquete sobre a Monarquia (1900), ilustra de livre exame, discussão crítica, espírito de contradi-
ao mesmo tempo a formação de uma nova síntese ção, Nisso, o guru da Actlon françalse reencontra a
de tradicionalismo político-religioso e de nacionalismo lógica da crítica total da modernidade política, aque-
de autoconservação de Identidade (dever dos povos la que encontramos em Bonald ou Donoso Cortés, e
de permanecerem eles mesmos), e a primeira das mais secretamente em Nietzsche, Essa crítica total e
passagens oo político do que chamamos de segundo radical se baseia num naturalismo vitalista aplicado à
tradicionalismo. No esboço que se segue, trata-se
2. C. MAURRAS,in L'Action française, 4 de janeiro de 1932, artigo
retomado em DPC, fase. 12, art. "Nation", p. 158. Uma demonstra-
1. Ernest RENAN,L'Avenir de Ia Science [1848-1849;publicado em ção anóloga teria podido ser feita a partir do tradicionalismo, Int~-
1890], in Oeuvres complàtes, Paris, Calmann-Lévy, t.llI, 1949, p. 780. gral de Julius Évola, cuja genealogla política da decadencla
Retomamos a expressóo "demoliberalismo" da retórica panfletórla moderna é, sob certos aspectos, muito próxima da de MAURRAS:
das direitas radicais, uma vez que ela evidencia bem o amólgama "O início da desagregação das estruturaspolítico-sociais tradicionais
polêmico que estamos analisando. No corpus dos textos da Action / .../ coincidiu com o liberalismo. / .../ O liberalismo encontra-se assim
française, encontramos, por exemplo, a expressóo "antilibero-demo- na origem do encadeamento das diversas formas da subversão
cratismo" (Pierre CHARDON, in C. MAURRAS,DPC, fasc. 12, art. mundial / .../. A essência do liberalismo é o individualismo" (Les Hom-
"Nletzsehe", p. 185, nota). mes ou milieu des ruiries. op. cit., p. 45).
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
PIERRE-ANDRÉ TAGU/EFF 7. NACIONALISMO INTEGRAL - ANTILlBERALlSMO ABSOLUTO

I ordem política, de que deriva precisamente o Impera-


tivo de retorno à "saúde". Nesta perspectiva, o Inimigo
absoluto é absolutamente
decadência é então
doente: a velha Idéia de
carregada de Imagens
doença, Investlda pelas metáforas do patológico.
da
O
"anarqulsmo [que] é a forma lógica da democrocto'"
cujo ato típico é "desorganizar para Iguallzar"5, escre-
ve Maurras, e regime da discussão sem limites que
encarna o espírito de exame, a democracia liberal fa-
vorece, ou até privilegia, a Interlocução e a argumen-
I
critério último de toda avaliação torna-se: "saúde ou tação, que, ao reconhecer os desacordos fundamen-
doença". tais assim como a contingência e o caráter provisório
Em sua "Nova Carta ao sr. Strauss", de 15 de se- de todo acordo, fazem as certezas absolutas declina-
tembro de 1871, Ernest Renan caracterizava o espírito rem e as decisões absolutas rarefazerem-se. Maurras
"liberal" por seu antl-excluslvlsmo: comentava:

Cada um deve desconfiar do que existe de ex- Uma retórica funesta, portanto, tomaria o lugar
clusivo e de absoluto em sua mente. Não Imagi- de toda filosofia; a classe dirigente, ou que teria
nemos nunca ter tanta razão que nossos adver- devido dirigir, praticou ou sofreu em política ou
sários estejam completamente errcidos-. em sociologia uma espécie de anestesla obriga-
tória diante do Fals06•
O "liberalismo" como atitude Intelectual é de fato
multas vezes definido por seus defensores como um A democracia liberal é o regime dos retórlcos, dos
ceticismo moderado, esforço Incoativo para evitar su- perpétuos dlscutldores. Esse é o diagnóstico feito pelos
cumbir à tentação de uma Intransigência Ingênua ou médicos tradicionalistas da cultura política moderna.
dogmática. Ora, é precisamente essa moderação ar- Denunciando a "miséria lógica" dos franceses moder-
razoada e razoável que os Inimigos absolutos da de- nos submetidos às más Influências da democracia e
mocracia liberal vão denunciar com a maior violên- do romantismo, Maurras define seu Ideal lógico referin-
cia como revelando uma diminuição, um entroquecl- do-o à teologia católica:
mento, uma perda: Incerteza, Irresolução e Indecisão.
Mais profundamente, uma Incapacidade: daí o des- Ao contrário da teologia protestante, seu caráter
prezo que tantas vezes se soma ao ódio entre os Ini- é formar uma síntese onde tudo está ligado, or-
migos do "demoliberalismo". Sem dúvida, há numero- denado, coordenado há séculos, pelos mais sutis
sas variedades de maxlmalistas que recusam a de- e mais amplos espíritos humanos, de sorte que
mocracia liberal por não ser ela criada à sua ima- podemos dizer que ela encerra, define, distribui e
gem. Mas a rejeição é superlativa e a recusa total classifica tudo. Nada de discussões inúteis: tudo
entre aqueles que fundamentam sua posição antimo- chega ao seu resultado. As dúvidas resolvem-se
derna na sacralidade de uma tradição, ou da Tradi- em afirmações; as análises, por mais longe que
ção. A partir daí, o "demoliberalismo" é estigmatizado sejam levadas, resolvem-se em reconstituições bri-
não somente como tipo de regime político, mas tam- lhantes e completos".
bém como orientação global da existência humana.
O objeto do ódio somado ao desprezo é exatamen-
te constituído pela orientação antitradiclonal da exis- 4. C. MAURRAS. Mes idées politiques, Paris, Fayard. 1937. p. 151; cf.
tência "demollberal", com suas conseqüências princi- DPC, fase. 1. 1931. p. 75.

pais: destruidora das hierarquias, Instauradora do 5. C. MAURRAS, op. cit., 1937, prefácio, p. LVII; cf. DPC, fase. 4.
1932, p. 342.
6. C. MAURRAS, op. cit., 1937, p. LXXXVi.
7. C. MAURRAS, Treisidées pol/tiques: Chateaubriand. Michelet. Sain-
3. E. RENAN. "Nova carta ao
Sr. Strauss" (15 de setembro de 1871). te-Beuve, Paris, Champion, 1898; 2g ed. corrigida, 1912; retomado in
/n Oeuvres comp/àtes. op. cit., t. I, p. 459. Rornantisme et Révo/ution, ed. definitiva, Paris. Nouvelle Librairie na-
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA ~
PIERRE-ANDRÉ TAGUIEFF 7. NACIONALISMO INTEGRAL - ANTlLlBERALlSMO ABSOLUTO
:{{!?(tr

I A discussão teo-Iógica é o exato contrário da dls-


cussão perpétua denunciada por Donoso Cortés: a
boa lógica distingue, afirma, resolve e conclui - isto é,
berdade de se desprender do dado, de abandono
de herança, de ruptura das tradições, em suma, essa
liberdade lnquletcnte dos modernos só podia provocar
íi
fundamenta decisões. E eis aí precisamente o que é o endurecimento dos partidários das continuidades
imperdoável no "espírito da anarquia rnistlc o'" cultiva- protetoras e dos enraizamentos que garantem os equi-
do pelo demoliberalismo: nem os atos de pensamen- líbrios vitais. É por isso que a recusa do demoliberalis-
to nem os atos de vontade podem ainda derivar das mo é tão intensa e tão doutrinalmente elaborada nos
lições de uma infalível tradição e portanto se perdem textos da Action française, onde a obsessão tradicio-
na irresolução e na Indecisão. Com as heranças de nalista contra a ruptura das continuidades se junta à
palavras, de valores e de normas absolutas desvane- obsessão nacionalista contra a fragmentação da uni-
ce-se a segurança do herdeiro. Os franceses assim dade nacional. Escreve Maurras neste sentido:
deserdados são "os úitimos dos franceses". Quando rei-
na a "classe discutidora", qualquer ação se torna im- Organizar significa diferenciar. Diferenciar é o
possível: contrário de igualizar. Uma nação se compõe de
gente que nasceu aqui e não ali. Implica nasci-
Eis aí porque todos os mestres da ciência políti- mento, herança, história, passado. Constitui uma
ca, quer tenham pertencido à escoia teológica, primeira objeção ao sonho babélico da anar-
como Maistre e Bonald, quer à escola positivista, qulo!'.
como Comte e seus discípulos, circunscrevem a
discussão à ordem teórica, ao campo da elabo- Segue-se daí que o "liberalismo" anti-exclusionista de
ração, mas a proscrevem da ação. Não há Re- Renan ilustra, aos olhos do nacionalismo integral, a
ligião da discussão nem Moral da discussão, pois dupla atitude moderna, detestável por excelência: a
a partir do momento em que agimos moral e re- Indistinção entre o verdadeiro e o falso, a confusão
ligiosamente, não discutimos mais, mas deciditno- da liberdade com "a anarquia mística". Se o "liberalis-
nos, arriscamos. Num caso como esse, aguardar mo" encarna "a grande desordem do espírito", é por-
a "certeza" depois de um debate contraditório é que é a exaltação da posição cética, igualitária e
resignar-se a morrer. Não há Governo da discus- moderada que "mata a disciplina militar"12 e deixa a
são: governar também é confiar, orrlsc or". nação "sem direção"13. Segue-se daí que o pseudogo-
verno liberal, impossível "Governo da discussão", "es-
Um pensamento que sacraliza a tradição ou a quece ou desdenha a guerra, e / .../ nega as suas re-
continuidade nacional só pode conceber a liberdade percussões", como afirma Léon Daudet14. Ora, se o
dos "liberais" como revolta e anarquia: "sedição siste- patriotismo implica em primeiro lugar e sobretudo "a
mática do indivíduo contra a espécie" ou contra um
determinado grupo de pertença, para retomar uma cristianismo Independente que grassaram nos desertos ortantols e na
floresta germânica, ou seja, nas diversas encruzilhadas da borbóríe".
expressão de Auguste Com te cara a Mourrcs'P. Essa ll- 11. C. MAURRAS,Mes idées politiques. op. cit., p. 129.
12. tb., p. 115; cf. DPC. fasc. 5. 1932, p. 404.
tlonale, 1922, nota VI ("Miséria lógica"), p. 281. 13. C. MAURRAS.Mes idées po/itlques. op. cit., prefácio, p, LXXXVii;
8. Ib., nota X ("Encontro dos ateus e dos católicos"), p. 288. cf. DPC. fasc. 10, 1932, p. 442 (art. "Liberalisme"):"Anarquismo e li-
9. C. MAURRAS,Mes idées politiques. op. cit., p. 131; cf. DPC. fasc. beralismo: estas palavras são na verdade sinônimas" (Gazette de
4, 1932. p. 367 (L'Action française, 22 de março de 1913). France, 12 de abril de 1902);ib., p. 438: "Os liberais classicos e sua
10. C. MAURRAS,Romantisme et Révolution. op. cit., prefácio da descendência onórqutco ou democrática, crrçtnórto de 1789, profes-
ediçóo definitiva, p. 4: "Tendo definido o movimento da Reforma sam que um homem vale tanto quanto qualquer outro e. a partir
como 'uma sediçóo sistemática do Indivíduo contra a espécie', daí. justificam Igualmente a supressão das hierarquias sociais..."
Comte percebeu a verdadeira filiaçóo revolucionária. / .../ Os pais (L'Action française, 2 de junho de 1925).
da Revolução estóo em Genebra, em Wittenberg, mais antigamen- 14. Léon DAUDET,Mo/och et Minerve ou rapres-guerre, Pcms, Nouvel-
te em Jerusalém; derivam do espírito judaico e das variedades de le Librairie nationale, 1924, p. 123.
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defesa do território contra o estronçelro?". o naciona- base: a França não é em sua essência nem judia,
lismo "é a salvaguarda devida a todos esses tesouros nem protestante, nem maçônica, nem meteca. A
que podem ser ameaçados sem que um exército es- França é católica e monarquista.
trangeiro tenha passado a fronteira, sem que o territó-
rio seja fisicamente lnvodldo">. Esta definição ma urra- o "liberalismo" como espírito e como regime faz a
siana é capital para definir a especificidade do na- síntese de todos os elementos que, segundo Maurras,
cionalismo doutrinal "fim de século", o nacionalismo concorrem para destruir a identidade da França, pa-
dos "nacionalistas" (aqueles que se dizem tots)": o na- ra mudar sua natureza, para substituí-ia por um con-
cionalismo, acrescenta Maurras, "defende a nação junto de abstrações que camufla a onipotência real
contra o estrangeiro do lnterlor"!". Daí a redefinição das forças da "anti-França". O liberal doutrinário é um
distintiva do nacionalismo, que rompe expressamente habitante das "Nuvens" e encarna esse misto de mo-
com a idéia revolucionária do "princípio das naciona- derantismo corroído pela dúvida e de pacifismo
lidades": o nacionalismo é antes e acima de tudo amante da desordem que compõe o rosto da deca-
uma cruzada voltada para o interior. Cruzada parado- dência francesa. O antiliberalismo tematizado e dou-
xal, pois se propõe apenas a reconquistar os compo- trinalmente elaborado tem seu núcleo duro na teoria
nentes de uma identidade coletiva confiscada e dos quatro estados confederados. Mas é preciso con-
conspurcada pela dominação estrangeira. Não se tra- siderar também o antiliberaiismo nem tematizado nem
ta de uma dominação da França por um país estran- sistematizado que envolve a argumentação antimo-
geiro, e sim da subjugação da França pelo "estrangei- derna em geral do nacionalismo Integral. O argumen-
ro do interior", tanto mais poderoso quanto menos vi- to decisivo contra o demoliberalismo é então que ele
sível. Conhecemos a teorização feita pela Action fran- deslegitima as categorizações nítidas e fixas, derruba
çaise da ação oculta, dentro mesmo do corpo nacio- as barreiras outrora intransponíveis, não distingue, recu-
nal, das forças antinacionais da "anti-França": "Essas sa até distinguir e diferenciar, nega a desigualdade,
quatro oligarquias, por natureza profundamente infer- condição de toda ordem política. O caminho do de-
nacionais, onipotentes e reinantes, foram chamadas os moliberalismo é o que leva à morte por indiferencia-
quatro estados conteaeraaosv". Todo governo de tipo ção. Toda a crítica antimoderna de Maurras deriva
demoliberal é colocado "sob o domínio de seu vene- de uma alternativa estrita colocada em 1900, e da
no": os quatro estados confederados (ludolco. protes- qual ele tira todas as conseqüências:
tante, maçom, meteco)20 são os agentes desse desa-
possamento de si mesma de que sofre a França. Re- A desigualdade ou a decadência, a desigualda-
conquistar a identidade da França é em primeiro lu- de ou a anarquia, a desigualdade ou a morte.
gar reafirmar a sua definição a partir de distinções de Cabe aos povos escolher: se quiserem viver, a
escolha é uma só. / .../ A democracia é o mai.
A democracia é a rnorte-".
15. C. MAURRAS.Mas Idéas pdltiquas. op. c/t.• p. 264; cf. DPC. fase.
6. 1932. p. 13.
16. C. MAURRAS.Mas idéas pditiquas. op. c/t.• p. 264; cf. DPC. fase. Não é de espantar, portanto, que em 1937, quan-
12. 1932. p. 160. do aborda a questão da democracia, Maurras come-
17. Ver a distinção metodológica proposta por Jean Touchard e re-
tomada por Raoul Girardet em seus trabalhos sobre o nacionalismo
francês: "nacionalismo dos nacionalistas" versus "nacionalismo socle- 21. C. MAURRAS.Enquête sur Ia monarchie (1900. 1903. 1909). edi-
tal"; ou "nacionalismo de doutrina" versus "nacionalismo de sentimen- ção definitiva (Paris. Nouvelle Librairie nationale. 1924). reed .• Paris.
to"; cf. R. GIRARDET. Le Nationalisme français. 1871-1914. Paris. Fayard. 1937, p. 119 ("Resposta ao sr. Paul Bourget"); Id.• DPC. fase.
Armand Colin. 1966 (reed .• Paris. Le Seull. 1983). 4. 1932. p. 335 (arl. "Democratie"); Id.. OPC. fase. 5. 1932. p. 404
18. C. MAURRAS.Mes Idées politiques. op. cit., p. 264. (arl. "Égalité"); Id.. Mes idées pditiques. oo. c/t.• prefácio. p. LXIX.ve.,r
19. Ib.• p. 201. nota 1; cf. DPC. fase. 6. 1932. pp. 10-1 1. também nesta última obra. p. 97: "Uma sociedade pode tender a
20. C. MAURRAS.Mes idées politiques. op. cit.• p. 200. igualdade. mas. em biologia. a igualdade é apenas um cemitério".
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ça com um curto parágrafo


democracia: o liberalismo":
Intitulado "Nascimento

Os liberais clássicos e sua posteridade anárquica


e democrática, originária de 1789, professam que
da

I
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dêncla moderna. Segue-se daí que o dilema funda-
mental da política moderna, o dilema que o naciona-
um homem vale tanto quanto qualquer outro e, lismo Integral acredita superar através de uma escolha
a partir daí. justificam igualmente a supressão das decisiva, pode ser assim formulado: nacionalismo ou
hierarquias sociais, a supressão dos corpos de ofí- decadência, ou ainda: diferenciação ou democracia,
cio, o desaparecimento de toda variedade nos É por Isso que "cosmopolitlsmo", na retórica nacionalis-
estatutos das províncias, das cidades e dos lares. ta, designa menos o ponto de vista unlversallsta do
Onde o antigo regime via uma combinação de que o Ideal de Indiferenciação por mistura e redução
seres diferentes pelo valor, pelo papel, pela fun- Igualitária, Ideal atribuído ao regime moderno, de tipo
ção e que só se tornavam iguais no cemitério, o demo liberal. Daí a analogia de proporclonalidode que
regime moderno sonhou uma justaposição de a argumentação da Action françalse desenvolve: o
pessoas supostamente Iguais e Idênticas22. nacionalismo está para o cosmopolitismo como a di-
ferença está para a mistura, como a desigualdade
O ódio à diversidade e a incapacidade de distin- está para a democracia, como a vida está para a
guir ciaramente: é Isso que caracteriza essencialmen- morte, como a ordem está para a desordem. NUm
te o demoliberalismo, aos olhos da Action française. É texto datado de 1904, Maurras argumenta com base
contra a versão sublimada dessa mistura de ódio e nessas analogias:
de incapacidade que Léon Daudet, como de hábito,
saca a espada: A síntese do individualismo e do coletivismo é Im-
possível se nos colocarmos no terreno nacionalis-
Trata-se de mostrar o nada dos belos espíritos, ta, que SEMPREobriga a estabelecer diferenças
que imaginaram o subterfúgio cômodo: "Acima entre os Indivíduos, por exemplo, entre cidadãos
(ou à parte) da batalha". Esses belos espíritos e metecos, judeus e nacionais etc., o que SEM-
são, em suma, os herdeiros do liberalismo para os PRE comporta certo grau de aristocracia. A mes-
quais (em todas as questões de paz ou de guer- ma síntese é multo fácil no plano cosmopolita:
ra) ninguém tem toda a razão, nem está de to- ela se faz através da idéia de democrocto'",
do errado. Haveria assim, acima dos adversários,
uma posição arbitral e média, desempatando a Ora, à pergunta "De onde vêm as doutrinas Iguali-
votação entre carrascos e vítimas, incendiários e tárias?", Maurras respondia em 1900: "De Israel. pela
incendiados, degoladores e degolados. Em / .../ O difusão das idéias bíbllcas"25. E o guia espiritual da Ac-
Estúpido Século XIX, denunciei o liberalismo como tion française, r.eafirmando o ontlcrístlonlsmo tradiciona-
o flagelo do épooo>. lista bas.eado na distinção entre desordem judaico-cris-
tã e ordem europeu-católica, acrescentava este co-
mentário:
22. C. MAURRAS,Mes idées politiques, op. cit., p. 147. Ver também:
DPC, fase. 10, 1932, p. 438; ib., fase. 2. 1931, p. 175.
23. L. DAUDET,op. cit., 1924, p. 124. Lembremo-nos de uma tirada VRAIS,"Petite prose présidentiable", Présent, nO2373, 27 e 28 de ju-
~e L. Daudet cuja menção é ritualizada na retórica nacionalista de lho de 1991, p. 6).
Ilngua francesa, como o prova esta observação conclusiva extraída 24. C. MAURRAS,DPC, fase. 23, 1934, p. 220 (extraído de L'Action
de um artigo publicado no diário lepenista Présent: "Léon Daudet ti- française mensal, 1904).
nha ~azão, por seu lado, quando dava esta definição do liberal: 'É 25. C. MAUR.RAS, DPC, fase. 5, 1932, p, 405 (extraído da Gazette de
alguem que acredita que seu adversário tem rozó o" (Guy ROU- France, 23 de janeiro de 1900).
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Ao passo que o catolicismo organizou poderosa- ges Sorel começa citando Nietzsche: "Uma sociedade
mente essas Idéias e as moderou / ...l , um evan- que rejeita, definitivamente e por Instinto, a guerra e
gelho Inorgânlco e anárquico se difundiu do o espírito de conquista está em decadência: está
oriente para o ocidente e, paralelamente à madura para a democracia e para o regime dos
ação das Infiltrações góticas (sociedades bárba- merceelros"29. Este panfleto "nletzscheano" antiplutocrá-
ras onde o Igualitarlsmo também foi professado), tico e antiliberal pressupõe a antítese do Ouro e da
Introduziu o Individualismo nos espíritos e o man- Força (ou do Sangue), sendo a democracia liberal re-
teve ali até o fim da paz romana / .../. O mesmo duzida à fachada legal do poder real do Ouro:
fenômeno repete-se desde o século XVI na Euro-
pa setentrional e central. A Reforma, multiplican-
A França está tão plutocratizada e, conseqüente-
do as Bíblias e fazendo que todos a leiam, pro- mente, tão avançada no caminho da decompo-
pagou o misticismo Igualitário dos profetas. Rous- sição e da decadência, que os movimentos de
seau e Kant são, como a Revolução Francesa, que precisamente poderíamos esperar uma rea-
os beneficiá rios das idéias judaicas, assim popula- ção contra o regime do Ouro não tardam em
rtaodos>, atolar na trilha plutocrátlca: como esse movimen-
to sindicalista que, em vez de efetuar uma cisão
Não carece de significação o fato de que certos reparadora e regeneradora com a burguesia, se
antldemocratas radicais "de esquerda" tenham podido apressou em tomar emprestadas da decadência
se unir à crítica nacionalista do "regime moderno" por burguesa todas as suas Ideologias mais corrupto-
Intermédio de uma leitura literal de Nletzsche, e em ras, até e Inclusive o pacifismo humanitário mais
particular de A Vontade de Potência, traduzlda em rasteiro e mais Inepto. Esse pacifismo moderno -
1903 por Henrl Albert. A referência a Nletzsche vai se não há, porém, nenhuma dúvida possível sobre a
somar, por exemplo no pensarryento de Édouard Interpretação que se deve dar a ele, e faz um
Berth, às referências a Marx, a Proudhon e a Sorel,
tem pão que já se observou: 112 que a democra-
instituindo esse espaço sincrético onde surgirá a expe-
cia é o país das maravilhas dos financistas; 212
riência do Círculo Proudhon (dezembro de 1911-1913), que o socialismo de estado, termo natural. lógico
"confluência dos dois movimentos, nacionalista e sindi- e fatal da democracia, é um socialismo pelo
calista". Um texto de É. Berth vai permitir-nos estimar a qual os financistas sempre sentiram, sentem e
Influência nletzscheana nos meios revolucionários antl- sentirão eternamente uma ternura extrema / .../.
democratas do Início do século. "A potência da média, escreve Nletzsche (Volon-
O último fascículo dos Cahlers du Cercle Proudhon, té de Puissance, trad. francesa, T. 11, p. 198) ain-
publicado em julho de 191327, abre-se com um artigo da é mantida pelo comércio, sobretudo pelo co-
de Jean Darvllle (pseudônimo de Édouard Berth), "Sa- mércio de dinheiro: o Instinto dos grandes finan-
télites da Plutocracla", expressamente posto sob o pa- cistas dirige-se contra tudo o que é extremo; é
trocínio de Nletzsche. Denunciando o pacifismo "bur- por Isso que os judeus são, no momento, o po-
guês" da "Europa plutocratizada", apavorada diante der mais conservador de nossa Europa tão
da "Irrupção do fato guerreiro"28, o discípulo de Geor- ameaçada e tão incerta. Se eles quiseram ter
poder, se precisam de poder sobre o partido re-
26. Ib.
volucionário, Isto é apenas uma conseqüência do
27. Jean DARVILLE[Édouard BERTH]."Satellites de Ia Ploutocratie".
Cohiers du Cerc/e Proudhon, Quinto e Sexto Cohiers. julho de 1913, que acabo de Indicar, não é uma contradição".
pp. 177-213. (ReproduçOo em tac simile, Paris, Centre d'Études de O poder da média. ou seja, da mediocridade
I' Agora, 1976.)
28. Ib .. p. 177. Darville-Berth se refere aqui principalmente à "aud6- 29. F. NIETZSCHE. citado por J. DARVILLE.art. cit .. p. 177 (o trecho
cia da It6lia em empreender sua guerra de Tripoli". citado foi extraído de VP. t.II, § 344, p. 122).
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I democrática. burguesa e liberal (a palavra para


qualificar dignamente o que é medíocre é. co-
mo se sabe e como o mesmo Nletzsche disse. a
palavra "liberal"): compreende-se a Influência
enorme de Israel. tanto no mundo conservador
Berth leu. e leu bem. os textos de Nletzsche que.
por serem "Incômodos" demais. foram apagados. sal-
tados ou sobre-Interpretadoscom uma Intenção eufe-
mística por gerações de cornentocíores'". A probida-
de fllológlca está do seu lado. e não do lado dos fal-
quanto no mundo revolucionário / ...I , quando se sificadores que. não raro com as "melhores"Intenções.
entendeu bem essas tendências do mundo mo- Inventaram alguns Nletzschesaceitáveis ou desejáveis.
derno. entregue Inteiramente à estupidez judalco- conforme as modas literárias ou Ideológico-políticas
conservadora de uma burguesia que. sentada (puderam assimdescobrir Nletzschesdemocratas. libe-
mul confortavelmente à mesa do estado. sua de rais. socialistas.cristãos. esquerdistas.antl-raclstas e fllo-
medo e bate os dentes só de ver o espectro da semltas etc.). O mínimo que podemos dizer sobre a
Guerra ou da Revoluçã03o. questão. diante dos Nletzschesde sonho das belas al-
mas nletzscheanas (às vezes duplicadas por belos es-
Darvllle-Berthtermina seu artigo evocando sua defi- píritos). é que o pensamento político de Nietzsche.tal
nição do "Impériojudaico. ou seja. o reinado absolu- como o encontramos nos textos. se baseia numa rejei-
to e Incontestado da ptutocrcrcto'?'. antes de Invocar ção Incondicional tanto da exigência Igualitária quan-
os valores heróicos e os sentimentos guerreiros: to do princípio de liberdade Individual (sendo a liber-
dade reservada à "minoria"). É nisso que. quando se
É preciso / .../ que o duplo movimento nacionalis- acredita dever defender os Ideais democráticos e li-
ta e sindicalista.paralelo e sincrônico.conduza ao berais. não se pode. enquanto tal e sem Inconvenien-
desapossamento completo do regime do Ouro e tes. declarar "nietzscheano". Enquanto que todos os
ao triunfo dos valores heróicos sobre esse Ignóbil adversários decididos da democracia pluralista (o "pa-
materialismoburguês onde a Europa atual sufoca. lavrório parlamentar"I). do liberalismo político-jurídico e
Em outras palavras. é preciso que este despertar da social-democracia podem reivindicar multo legiti-
da Força e do Sangue contra o Ouro / .../ termine mamente. ainda que de diversasmaneiras. a herança
com a derrota definitiva da Plutocracla32. nletzscheana.

pp. 15. 19, 41, 55 etc. A axiologia dualista de Berth refere-se expres-
samente às anólises nletzscheanas. cujas antíteses são reinterpreta-
30. J. DARVILLE, art. clt., pp. 177-180.o trecho foi extraído de VP. § das de acordo com a teoria sorellana do ·sublime" e de suas
389, p. 198; o que corresponde a: WzM. § 864. pp. 587-588, e VP, degradaçóes (proletórias ou burguesas): a democracia e o "ideal
t. 11, L. 111, § 344, p. 122). humanitório, pacifista e racionalista" dos intelectuais encarnam os
31. J. DARVILLE,arl. clt.. p. 208. A "judaização" do inimigo é um valores da "degenerescência", perante os quoís se erguem os ''va-
procedimento corrente nos textos panfletórios de Berth: se a pluto- lores heróicos, religiosos,guerreiros e nacionais", os valores afirmati-
cracla tem uma dominante judaica. o Intelecfualismo ou o raciona- vos e positivos da "guerra" e do ''trabalho''. que simboliza a aliança
lismo, e de um modo mais geral o "alexandrinismo" moderno são anti-democrótica de Maurras-Apolo e de Sorel-Diôniso.Sobre a opo-
de essência judaica. É por isso que o intelectual-tipo é o intelectual sição entre "cultura alexandrina" ou ·socrótica" (cuja noção é
judeu: "Querem saber o que é um Intelectual moderno? Leiam a expressamente tomada de O Nascimento da Tragédia) e "culturo
Ordlnation do sr. Julien Benda, judeu de metafísica e representan- dos produtores" (noção soreliana por excelência), cf. op. cit., pp.
te eminente e dos mais distintos do gueto intelectual e perfumado: 217 ss. 288 ss.
terão a quintessência e o fino do fino do intelectualismo moderno" 33. Até Georges Morei, o mais fiel à letra dos textos nietzscheanos,
(E. BERTH. Las Méfaits das Intellectuels, Paris.Marcel Riviere, 1914.pp. o mais probo dos comentadores franceses recentes, quando cita o
37-38; obra prefaciada por Georges Sorel [pp. I-XXXVIII]e dedicada fragmento a que Berth se refere (WzM, § 864), pula o trecho acer-
por Berth "A meu mestre Georges Sorel..."). ca dos judeus: cf. G. MOREL, Nietzsche. op. ctt., 1.11,
p. 291 (os
32. J. DARVILLE, art. cít.. p. 209. Sobre a oposição. fundamental no "grandes financistas"e os "judeus" tornam-se: "essesnovos pseudo-se-
pensamento de Berth, entre valores da decadência e valores "he- nhores"). Seria um nunca acabar enumerar as maneiras sutis ou
róicos", cuja base de redução simbólica é a antítese do "homem grosseiras pelas quais os comentadores entusiastas se esforçaram
teórico" Sócrates, protótipo do intelectual moderno, e do par Apo- por "salvar" Nietzsche (supressão dos trechos inconvenientes, tradu-
lo-Diôniso, ver principalmente: Les Méfaits des Intellectuels. op. cit., çóes eufemísticas, sobre-interpretações etc.).
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P/ERRE-ANDRÉ TAGU/EFF 8. O N/ETZSCHE /NFRALEGAL DA ACTlON FRANÇA/SE

I o que de modo algum quer dizer que seja preciso


abandonar Nletzsche aos nletzscheanos devotos, mili-
tantes ou praticantes. Nem aos antl-nletzscheanos su-
perficiais e Ignorantes, aqueles que concluíram antes
de ter lido, e condenaram a obra antes de a ter per-
I)
corrido. Mas significa, sim, que uma leitura tanto polê-
mica quanto filologlcamente escrupulosa se Impõe, o
que, depois de certos rodeios, nos leva de volta a 8. O NIETZSCHE INFRALEGAL
uma das conclusões de Karl Jaspers: "Filosofar com DA ACTION FRANÇAISE:
Nletzsche significa afirmar-se continuamente contra
ele"34. Demasiados leitores entusiastas, eruditos ou não,
uM PROFESSOR DE ENERGIA
têm há mais de um século posto em prática a singu- E DE ANTILlBERALlSMO
lar receita hermenêutica de Glde: "Para compreender
bem Nletzsche, é preciso apaixonar-se por ele"35. Nós
diríamos antes que, para bem entendê-Io para além
do encanto de seu pensamento, é preciso deixar de
O Nletzsche da Actlon française não se confunde
com o representante da Alemanha eterna ou
do "espírito germânlco", odiado e estigmatizado tanto
estar apaixonado por ele. Diante da dureza das pro-
por Charles Maurras quanto por Henrl Massis ou Pierre
posições nletzscheanas, dureza esta que a sedução
Losserre'. Esse Nletzsche oficialmente denunciado pelos
do estilo faz esquecer ou perdoar, a empatia é o pior
dos métodos. A dificuldade vem de que a dureza da
1. Resta que a francofllia ostentada por Nietzsche em alguns textos
mensagem não exclui nem o espírito de finura nem a (depois da ruptura com Wagner e principalmente depois da leitu-
complexidade das construções conceltuais. ra dos Essaisde P. BOURGET. op. cit .• 1883 e 1885) causa embara-
ço aos doutrinórlos germanófobos da Action française e os leva a
um julgamento às vezes bastante matizado. pelo menos antes da
guerra de 1914-18. Mas. para dizê-Io numa fórmul~. Nietzsche não
é mais. para a Action française, do que a exceçao que confirma
a regra: a Alemanha é um centro de "barbórle". Numa not~ do
conto Les Serviteurs (1892). nota que data de 1895 (Le Chemm de
Paradis. Mythes et Fabliaux. Paris.Calmann-Lévy. 1895). MAURRASes-
creve: "...um estranho escritor de raça esiava chamado Nietzsche.
/ .../ EsseNietzsche é um sórmata engenhoso. eloqüente e bastan-
te sutil. Embora de espírito esquisito. não pôde ler sem proveito o
nosso Platão. No entanto. a pavorosa desordem de seu pensamen-
to acabou levando-o a um anarquismo orgulhoso. Seu nascimento
o destinava a isso. Fiel a esso barbórie, ele até enlouqueceu. Eu
tentei. pelo contrório. os triunfos da razão" (Cf. DPC. fasc. 12. pp.
183, nota 1). Num artigo publicado em 2 de março de 1900 na
Gazette de France. Maurras volta à questão da influência de
Nietzsche: "Não admito o título de dívida que às vezes me apresen-
tam em nome de Frederico Nietzsche, porque sei muito bem que
nada lhe devo de real: tudo o que esse filósofo germano-eslavo
34. Kort JASPERS,
Niefzsche. Introductlon à 50 philosophle, op. ctt., p.
461. pode parecer ter-nos ensinado sobre a autoridade, sobre a liberda-
de e sobre suas relações é, no fundo. ele que nos deve. pois o
35. André GIDE. citado por Pierre CHARDON,in C. MAURRAS.DPC.
deve a espíritos de nossa raça ou que estão em nossa herança.
fasc. 12, art. "Nietzsche".p. 185 (nota). Trata-se de uma observação
um Joseph de Maistre. um Voltaire, um Renan. um t.ucono. um Aris-
de Gide extraída de um artigo publicado no dia 10 de dezembro
tóteles ou um Tucídides' (Cf. DPC. ib .. p, 183). Em 1903. Maurras
de 1898 em L'Ermitage ("Carta a Angele. Sobre Nietzsche"). depois
voltava mais uma vez a tratar da espinhosa questão, por ocasião
retomada em Prétextes (Paris,1903. pp. 166-182). Sobre a recepção
de um estudo crítico sobre o livro de Pierre LASSERRE. La Morale de
gldeana da obra de Nietzsche, ver especialmente: Genevleve BIAN-
Niefzsche (Paris.Calmann-Lévy, 1902): "Por volta de 1890 e 1891 / ...I,
QUIS.Niefzsche en France. L'influence de Niefzsche sur Ia pensée
moralmente, politicamente, literariamente se delineava / .../ uma
française. Paris. F. Alcan. 1929, pp. 13, 62-66.
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8. O N/ETZSCHE /NFRALEGAL DA ACTlON FRANÇA/SE

doutrinários nacionalistas germanófobos não deve


Hugues Rebell2 ou por um Georges Valols. um
ocultar o Nletzsche positivamente recebido por um
Nietzsche professorde vontade. de energia. de revol-
ta contra o mundo moderno e de antiburgueslsmo.
doutrina da força e da disciplina natural que essa força deve rece-
ber para abundar em si mesma, multiplicar-se e brilhar. 1.. ,/ O Ca- de antl-demollberallsmo e de arlstocratlsmo "Intempes-
so Wagner foi traduzido em 1893. Sem simpatizar com Nletzsche, tlvo", Para caracterizar a figura desse mestre oculto
pudemos entrever que o bárbaro tinha coisas boas. 1.../ Velo o sr.
Plerre Lasserre.1.../ A prlorl, eu tinha tanta confiança no sr. Plerre da Actlon françalse. partiremos do testemunho de um
Lasserreque esperav~. dele a solução do grande problema que se jovem militante maurraslano que. em 1911. prestava
coloca em meu espmto ao simples nome de Frederico Nietzsche
[grifo meu: P.-A.T.).Tudo o que há de bom, de ordenado, de hie-
rórquico [em Nietzsche) nós o encontramos anteriormente, expressa sobre a Influência alemã na França (Mercure de France, t. XLIV,
em termos Infinitamente melhores, na série francesa, latina e grega: 1902), J. Bainvllle já dizia divertir-se "com os bons golpes que
nós o havfamos descoberto sem ele. 1..,/ O bom bárbaro que es- Nietzsche desferiu contra a detestável espécie dos moralistas, con-
tá em Nietzsche o faria por vezes enrubescer das altfssimaslições tra a Igreja humanitária e contra a gnose democrática" (cf. G.
que tomou de nós e que ele só entendeu em parte. 1..,/ Apesar BIANQUIS,op. cit., 1929, p. 82). Esseé um aspecto positivo da In-
dos exageros, das grosseriase dos pedantismos de moleque, esse fluência de Nietzsche que o próprio Luclen Moreau reconhece, ele
germano meio eslavo será benvindo ao recinto sagrado da antiga que era um dos mais virulentos anti-nietzscheanosda escola maur-
Escola francesa; mas, se quiserem apresentá-Io como doutor, con- rasiana: Nietzsche sem dúvida não passa de um "profeta da anar-
vém lembrar aos seus porta-vozes o justo sentimento do teu e do quia", mas "não se devem menosprezar os serviços que pode pres-
meu" ("O teu e o meu em Nietzsche", Gazeffe de France, janeiro tar um Frederico Nietzsche contra os raclonalistas democratas e hu-
eje 1~3; retom,?do (n Q(Jand les Françals ne s'aim.ent pas. Chro'li- manitários" (L. MOREAU,"Acerca do nietzscheanismo",L'Act/on fran-
qUe d unerenfl,ssance, 1895-1905 [1Q ed., 1916), nova edição, Ver- çaise, 7Q ano, t. XVIII.nQ 143, lQ de junho de 1905, pp. 366 ss e p.
salhes: Blbhotheque des Oeuvres Politiques, 1928, pp. 111-122; ver 372). Se Léon DAUDETousa confessar sua admiração pelo estilo do
tqmp.ern: DPC, fasc. 12, 1932, pp. 186-191). Em suma, a obra de polemista (Flammes, Paris, Grasse!. 1930, pp. 34-41), Henri MASSIS
Nietzsche é, nessestextos, julgada ou "inútil" ou "perigosa". Maurras manifestará uma hostilidade perfeita contra o pensamento de
voltará muitas vezes, em seguida, ao mesmo tema, com uma seve- Nietzsche. hostilidade não isenta de amálgamas polêmicos e de
ridade çrescente. Mas sempre formulando a mesma reserva quan- chavões, como o provam estas palavras tardias: "Niilista, esse
to ao que diz respeito ao papel positivo desempenhado por Nietzsche reivindicado pelo nazismo e que terá sido o 'profeta de
Nletzsche como desmistificador das ilusões revolucionárias liberais e um obscurecimento e de uma entrevação tais que o mundo nun-
democráticas: "Desde 1894, multiplicamos contra o autor do Zaratus- ca conheceu'. Não dizia ele de si mesmo, ao definir sua missão:
tra 9S acusações de barbárie e de anarquia. Um pouco mais tar- 'Eu sou um cataclisma'?" (Allemagne d'hier et d'apres-demain, Pa-
de, nós o chamamos 1..,/ de moleque. E se muitos de nossosami- ris, Éditions du Conquistador, 1949, pp. 20-21). Mas o mesmo Massis
gos e colaboradores tiveram por vezes ocasião de verificar que' o dizia também lembrar-se da leitura de "Nietzsche que, aos dezoito
erro nietz.scheano ajudou algun$ jovens franceses a se purificarem anos, provocara em nós um entusiasmotão forte", depois de ter es-
do erro revolucionário, o que é um fato Inegável, Lucien Moreau e clarecido: "Nós, aliás, só amávamos os extremos" (Évocations, vol. 1:
Pierre Lasserre nunca deixaram de acrescentar que esse erro úill Souvenirs, 1905-1911, Paris,Plon, 1931, pp. 160-161).
era uma droga que devia ser trqncada a sete chaves no armário 2. Ver: Hugues REBELL [pseudônimo literário de Georges GRASSAL.
de venenos" (CRITON[pseudônimo), jn L'Action Irançcúse, 12 de fe- 1867-1905), "Sobre uma tradução coletiva de Nietzsche",Mercure de
vereiro de 1909; DPC, fasc. 12, p, 186). Se, portanto, Nietzsche é um France, t. XIII, n 61, janeiro de 1895, pp. 98-102; ta., "O Nietzschea-
Q

"bárbaro" em razão de suas origens, pode, no entanto, ser classifi- nismo" (1902) , in Le Culte des Idoles (1929), reed.• Gouy, Al'Écart,
cado entre "os grandes Bárbaros",ao lado de Goethe por exemplo, 1980, pp. 79-94. Rebell encontra sobretudo na obra de Nietzschear-
por ter "sido o inimigo declarado da Germânia" (C. MAURRAS, gumentos contra o cristianismo, o humanitarismo sentimental e o
Quand les Français ne s'aiment oas. op. cit., p. 34). A avaliação "baixo socialismo que ameaça arruinar tudo o que amamos" (1895);
maurrasla,na ortodoxa do nietzscheanismo resume-se, portanto, a sua recusa da democracia igualitária e seu elogio da aristocracia
uma denuncia do fundo "bárbaro" e/ou "anárquico" do pensamen- futura confundem-se com uma busca da "grande saúde", já que a
to de Nietzscna, acompanhada de um reconhecimento dos "servi- civilização moderna "doente" só pode ser curada por "médicos da
ços" prestados pela leitwa de Nietzsche à causa nacionalista (con- civilização". Em 1894, Rebell publica a Union des trais aristocraties
cepção Instrumental posittvo da obra nietzscheana, por suas orien- (Paris, Biblitheque artistique et littéraire), que termina com uma im-
tações anil-alemãs e anll-demoliberais). Para uma exposição da precação anti-revolucionária: "Revolução, doença da humanidade!
germanofobia rqdi.cal e poürnorto do Mestre: C. MAURRAS,Devant Nós chamamos em altos brados o médico, mesmo brutal, que pu-
I'Ajlemagne éternelle, Paris,Éditions"A l'Étoile", 1937. A evolução d.e rificará o mundo de tuas sujeiras. Inimiga da Beleza e do Pensa-
P. Lasserreé um bom Indicador da nietzscheofobla crescente da mento, possam nossasmaldições ser logo ouvidas: A era dos me-
Action française: na primeira edição de La Morale de Nietzsche díocres acabou, que recomece uma era de nobrezal" (p. 48). Ver
(1902), ele se mostra um tanto favorável ao pensamento orístocró- também a "Carta do sr. Hugues Rebell" em: C. MAURRAS,Enquête
tico de Nietzsche,muito sensívelà sua crítica da decadência euro- sur Ia monarchie, oo. cit.. pp. 145-150. Sobre H. Rebell, ver principal-
péia assim com~ ao. elogio da hierarquia; ao passo que, no prefá- mente: AURIANT,"Portrait d'Hugues Rebell", La Nouvelle Revue Fran-
c~o, datado de Janeiro de 1917, da nova edição (Paris, Calmann- çaise, nQ 350. lQ de abril de 1943, pp. 630-640; Luc Tirenne [pseudô-
Levy, 1923) do mesmo livro, ele multiplica as críticas e as advertên- nimo de Michel LEROYj,"Hugues Rebell: poéte nietzschéen et pré-
cias (op. cn., pp. 1-37; ver também: P. LASSERRE, Le Germanisme et curseur du nationalisme français", Défense de 1'0ccident, nQ 121, ju-
I'esprit humain, Paris,E. Champion, 1915, pp. 23-24). Quanto ao uso nho de 1974, pp. 78-92; Id., "Hugues Rebell traductew et Interprete
anti-alemão dos textos nietzscheanos: Jacques BAINVILLE, Lectures, de Nietzsche", Défense de rOccident, nQ 125, janeiro de 1975, pp.
Paris, Fayard, 1937, pp. 129, 132, 306; em sua resposta à enquete 52-63.
POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
P/ERRE-ANDRÉ TAGU/EFF 8. O N/ETZSCHE /NFRALEGAL DA ACTlON FRANÇA/SE

homenagem ao "alemão genial", a despeito do an- É sob o duplo signo de uma revltallzação necessá-
tlgermanlsmo do país nacionalista legal. Trata-se de AI- ria e de um afastamento absoluto da mediocridade
bert Bertrand-Mlstral3, jovem monarquista que, num ar- ambiente que se produz o encontro com a obra de
tigo sobre "A Influência de Nletzsche" que publicou Nletzsche. A leitura de Nletzsche é o tão esperado
com a Idade de vinte e um anos, se propunha "mos- antídoto para superar a enfermidade de languidez
trar qual foi de fato a Influência que seus escritos [de "fim de século", para tornar a subir a ladeira que vai
Nletzsche] / .../ tiveram sobre a juventude francesa e do ceticismo ao pessimismo e deste ao nlilismo. É a
sobre os jovens católicos de hoje'", "A Influência de essa função Imediatamente curativa de Nletzsche que
Nletzsche" sobre o espírito francês, segundo o jovem o jovem A. Bertrand-Mlstral presta homenagem: para
discípulo de Maurras e admirador de Nietzsche, terá ele, "o primeiro efeito da leitura de Nletzsche é nos
sido no essencial "afastar os jovens franceses do ro- fortalecer", e "essa força que ele nos transmite é pri-
mantismo e da dernocrocto'", portanto, ao mesmo meiro uma confiança multo grande em nós mesmos,
tempo, do ceticismo, do desespero das "teorias nebu- que logo se transforma em esperança, a qual espe-
losas" e da filantropla debllitante. Nletzsche, mestre da rança sugere e promete a atividade. / .../ Essa altivez
afirmação da vida e das convicções fortes, professor Intelectual e moral é própria de uma boa higiene da
de realismo e de energia, em suma, Inimigo absoluto olmo'". E a testemunha Albert Bertrand cita outra tes-
da tepidez e das nuvens liberais: temunha, já prestigiosa, Georges Valols: "Eis aí o que
devemos a Nietzsche: no final do século XIX, ele foi o
Em meio à anarquia Intelectual que o romantis- libertador de nossa energia; disso nós lhe somos mui-
mo criara, enquanto os espíritos, Incapazes de se to gratos"8. Esse realismo da torço? parece, aos olhos
demorar e de se devotar completamente a um do nacionalista, Inseparável de uma crítica radical dos
Ideal, procuravam o meio de sair da horrenda ideais humanitários e Igualitários da democracia:
dúvida, era necessário que surgisse uma doutrina
que dissipasse as nuvens do ceticismo, lançasse' A filosofia do super-homem que expressa os resul-
um pouco de claridade e de confiança na vida tados da luta pela vida é, por seu realismo, aris-
e assim ajudasse os espíritos desorientados a tocrática. Graças a ela, multa gente se desligou
reencontrarem sua direção. / .../ Necessariamente, da democracia, como outros se haviam desliga-
uma volta à vida devia acontecer através de do do romantismo literário ou do romantismo mo-
um empurrão forte e de aparência fortuita; e es- rapo.
se empurrão, esse "acaso que tudo necessitava",
foi a Influência de um alemão genial. do grande
realista que foi Frederlco Nletzsches. 7. Ib .• p. 33.
8. Georges VALOIS. L'Homme qui vient. Philosophie de /'autorité. ed.
definitiva (3° ed.). Paris. Nouvelle Librairie nationale, 1923, introdução
da primeira edição (1906), p. 33 (citado por A. BERTRAND-MISTRAL,
3. Albert BERTRAND-MISmAL(1890-1917), cujo pseudônimo literário op. cit .• p. 34).
era Abel BRÉART.morreu em combate no dia 7 de junho de 1917. 9. Cf. Alfred FABRE-LUCE, Anthologie de 10 nouvelle Europe, Paris,
Ver: A. BERTRAND-MISTRAL, Le Signo/. prefácio de Pierre Lasserre. Plon. 1942. pretóclo. pp. XVI-XVIIIe capo li, p. 19 SS.
Avlgnon. Librairie Roumainville. 1922 (compilação. póstuma de textos 10. A. BERTRAND-MISTRAL. op. cit., p. 33. Respondendo a Gide que
do autor e homenagens). fazia de Nietzsehe um singular "protestante", o maurrasiano ultra-or-
4. A. BERTRAND-MISTRAL. "L'influence de Nietzsche", Lo Plume littéroi- todoxo Pierre Chardon escreve no mesmo sentido que Bertrand-Mis-
re et politique. fevereiro de 1911; retomado em Le Signo!. oo. cit., trai: "Isso não impede que haja tanto antiprotestantismo quanto
[pp. 32-36J. p. 32. O autor refere-se principalmente à enquete diri- antigermanismo ou anti-romanismo ou antilíbero-democratismo espa-
glda por Jean Viollis para a Grande Revue sobre "Nletzsehe e a lhado pelas páginas de Nietzsehe, e foi Isso que impressionou mui-
juventude de hoje". tos jovens franceses do final do século XIX, a ponto de os orientar
5. A. BERTRAND-MISTRAL. op. cit., p. 34. paro o nosso lodo [grifo meu. P.-A.T.]" (DPC. fase. 12, 1932, p. 185.
6. Ib .• p. 32. nota).
POR QUE NÃO SOMOS NIETISCHEANOS O PARADIGMA TRADICIONALISTA
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I Nletzsche é um guru, para a minoria monarquista


da direita radical. porque destrói a sedução exerclda
pelos místicospolíticos modernos, porque dissipa espe-
cialmente as ilusões Impostas pela mística democráti-
ca. Sua mensagem ''fortificante'' por excelência é que
"revoltados" à redescoberta da tradição, religiosa (ca-
tolicismo Intransigente)ou política (monarquia), que os
orientou para esta ou aquela variante da contra-revo-
lução na perspectiva de uma rejeição total do mun-
do moderno. Pelas lições loglcamente tiradas de seu
I
o humanlsmo proclamado pela democracia moderna, antimodernismo radical. Nietzschedesempenhou o pa-
pós-revolucionária, não passa de um fruto enganoso
pel de um paradoxal "profeta do passado", sem dúvi-
do ressentimento,misto de ódio e de Inveja acompa-
da involuntariamente; contribuiu para instaurar a se-
nhado de um sentimento de impotência irremediável. gunda grande reação tradicionalista na Europa do fim
Nietzsche é elogiado por ter despojado de seus en-
do século XIX, segundo tradicionalismo mais político
cantos a Clrce dos modernos, a democracia Igualitá- do que religioso,cuja primeira figura histórica foi o na-
ria e humanitária, expressão e máscara da fraqueza cionalismo Integral da Actlon françalse.
Invejosa e da Impotência repleta de ódio. É dessa A crítica radical ou Intempestiva do presente, em
mensagem "libertadora" que Georges Valois faz o elo- Nletzsche, pressupõe um diagnóstico do mesmo pre-
gio em 1906:
sente que Implica uma avaliação. O presente deve
ser decifrado e julgado, em todas as suas figuras,
Devo a Nietzsche minha libertação. Na época dentre as quais a democracia igualitária. Poisum pro-
em que chafurdávamos no pântano democrático blema se Impõe aos partidários do "realismo da for-
e humanitário, em que nos haviam mergulhado ça", sob a forma de uma objeção recorrente lembra-
nossosbons professoresda pequena ciência / ...I, da por Valols no final de sua Introdução de 1906 a
nessa época recebemos de Nletzsche uma chi-
L'Homme qui vlenf: "Já que vocês se submetem aos
cotada que nos levou a considerar com sinceri- fatos, por que não se submetem a esse fato contem-
dade as verdadeiras realidades. Nletzsche, com porâneo, a democracia?"; a essa objeção Ingenua-
certa brutalidade, Interrompeu nossosbalidos, des-' mente antl-nletzscheana,Valols não tinha multa dificul-
piu-nos de nossa ridícula roupa humanitária e nos dade para responder em conformidade com a orto-
obrigou a nos olharmos sem piedade: foi através doxia nietzscheana:
dele que vimos pela primeira vez o que é esse
amor à humanidade que nos haviam ensinado: É bem verdade que a democracia é um fato;
um falso amor, na verdade, - uma astúcia Inven- mas é um fofo de decomposição: eis aí por que
tada pelos Incapazes para desarmar os concor- nós que buscamos a vida e o crescimento não
rentes, tlrar-Ihestodo desejo de elevação e enfra- podemos nos submeter a ela12.
quecer sua concorrêncla11.
Em resumo, a democracia é a principal figura po-
Nietzscheé um "libertador"na exata medida que é lítica da decadência moderna: a democracia é um
um desmistificadordos ideais políticos modernos, Impli- fenômeno de "desorganização nacional", pois leva ao
cados pela democracia e pelo liberalismo político. É mesmo tempo à "anarquia política" e à "anarquia In-
o destruidor de todos os ídolos modernos que condu- telectual e moral" e portanto constitui "a própria ne-
ziu, s~undo esses testemunhos diretos, tantos jovens gação da nação"13.O regime democrático não satls-

12. G. VAlOIS, L'Homme qui vient, op. cit., pp. 43-44 (sublinhado
11. G. VAlOIS. op. cit., 1923, IntroduçOo de 1906, p. 32 (citado In-
pelo autor).
corretamente por A. BERTRAND-MISTRAL oo. ctt., pp. 33-34; restabe- 13. tb., capítulo XXXVIII:"Desorganização nacional: a democracia",
lecemos o texto citado). Para um testemunho mais matizado. ver:
pp. 211-223, que desenvolve três temas: "1. - A democracia leva à
G. VAlOIS. Dt un steote Ó {'outre. Chronlque d'une génération,
anarquia política. / ...t 2. - A democracia leva à anarquia Intelec-
1885-1920.Paris. Nouvelle librairie nationale. 1921. em particular pp.
134-135, 151-153, 155-156. tual e moral. / ...I 3. - A democracia é a negaçOo mesma da
nação".
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faz nem às exigências dos valores vitais de conserva-


ção, nem às exigências dos valores vitais de cresci-
mento: encarna o duplo movimento de dissolução e
de regressão para a mediocridade, para a igualdade,
ou seja, para a rn or te l+. É realmente a ontologla
ro lugar à "liberallzação" moderna do catolicismo, de-
nunciada como obra satânica. A tolerância, essa "I-
déia frouxa" (Nletzsche), a tolerância cara aos pseu-
do-católicos liberais não passa de covardia e fraque-
za, expressão de uma vida debilitada; é no entanto
I
nletzscheana da Vida como vontade de potência, ou ela que, na decadência moderna, pretende se esta-
como potência dotada de vontade de autoconserva- belecer em lugar da verdadeira caridade. A lição an-
ção e de autocresclmento, é essa ontologla vltallsta tlliberal de Nletzsche, quaisquer que tenham sido as
que, transposta ao n