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Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Reprodução
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assistida
par
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e relações de gênero na América Latina


são

organizadoras
Cecilia Straw, Eliane Vargas,
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Mariana Viera Cherro, Marlene Tamanini


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Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão
Cecilia Straw
Eliane Vargas
Mariana Viera Cherro
Marlene Tamanini

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(Organizadoras)

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Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

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REPRODUÇÃO ASSISTIDA
E RELAÇÕES DE GÊNERO
NA AMÉRICA LATINA
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EDITORA CRV
Curitiba - Brasil
2016
Copyright © da Editora CRV Ltda.
Editor-chefe: Railson Moura
Diagramação e Capa: Editora CRV
Revisão: As Autoras
Conselho Editorial:
Profª. Drª. Andréia da Silva Quintanilha Sousa (UNIR) Prof. Dr. João Adalberto Campato Junior (FAP - SP)

V
r
Prof. Dr. Antônio Pereira Gaio Júnior (UFRRJ) Prof. Dr. Jailson Alves dos Santos (UFRJ)

uto
Prof. Dr. Carlos Alberto Vilar Estêvâo Prof. Dr. Leonel Severo Rocha (URI)
- (Universidade do Minho, UMINHO, Portugal) Profª. Drª. Lourdes Helena da Silva (UFV)
Prof. Dr. Carlos Federico Dominguez Avila (UNIEURO - DF) Profª. Drª. Josania Portela (UFPI)
Profª. Drª. Carmen Tereza Velanga (UNIR) Profª. Drª. Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNICAMP)

R
Prof. Dr. Celso Conti (UFSCar) Profª. Drª. Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA)

a
Prof. Dr. Paulo Romualdo Hernandes (UNIFAL - MG)
Prof. Dr. Cesar Gerónimo Tello
Prof. Dr. Rodrigo Pratte-Santos (UFES)
- (Universidad Nacional de Três de Febrero - Argentina)
Profª. Drª. Maria Cristina dos Santos Bezerra (UFSCar)

do
Profª. Drª. Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL) Prof. Dr. Sérgio Nunes de Jesus (IFRO)
Prof. Dr. Élsio José Corá (Universidade Federal da Fronteira Sul, UFFS) Profª. Drª. Solange Helena Ximenes-Rocha (UFOPA)
aC
Profª. Drª. Gloria Fariñas León (Universidade de La Havana – Cuba) Profª. Drª. Sydione Santos (UEPG PR)
Prof. Dr. Francisco Carlos Duarte (PUC-PR)

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


Prof. Dr. Tadeu Oliver Gonçalves (UFPA)
Prof. Dr. Guillermo Arias Beatón (Universidade de La Havana – Cuba)
são Profª. Drª. Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA)

Este livro foi aprovado pelo conselho editorial.


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
i
R425
rev

Reprodução assistida e relações de gênero na América Latina/Cecilia Straw,


–Eliane Vargas, Mariana Viera Cherro e Marlene Tamanini (organizadoras)
sã tor

- Curitiba: CRV, 2016.


290 p.
ara

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-444-1225-1
i
op
d

1. Ciências sociais 2. Ciências humanas 3. Feminismo 4. Relações de


gênero I. Straw, Cecilia. org. II. Vargas, Eliane. org. III. Cherro, Mariana
Viera. org. IV. Tamanini, Marlene. org.
E

CDD 305.42
ver

2016
Foi feito o depósito legal conf. Lei 10.994 de 14/12/2004
Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV
Todos os direitos desta edição reservados pela:
Editora CRV
Tel.: (41) 3039-6418
www.editoracrv.com.br
E-mail: sac@editoracrv.com.br
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO............................................................................... 7

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Cecilia Straw

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Eliane Vargas
Mariana Viera Cherro
Marlene Tamanini

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PRESENTACIÓN.............................................................................. 19

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Cecilia Straw
Eliane Vargas
Mariana Viera Cherro
Marlene Tamanini
C
TECNOLOGIAS REPRODUTIVAS E MATERIAL GENÉTICO
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DE TERCEIROS: reflexões em torno de regulação, mercado


e iniquidades..................................................................................... 31
Rosana Machin
ra
GÊNERO, SUBJETIVIDADE E PSICOLOGIZAÇÃO
DA REPRODUÇÃO: marcos regulatórios e os diferentes
a re

sentidos do desejo de ter filhos no contexto da reprodução


medicamente assistida...................................................................... 55
Eliane Vargas
o

Luciane Moás
Cristiane Marques Seixas
par
ver dit

AS NOVAS TECNOLOGIAS DA REPRODUÇÃO HUMANA,


ASPECTOS DO CENÁRIO BRASILEIRO, NA VOZ E NAS
REDES DOS ESPECIALISTAS......................................................... 81
Marlene Tamanini
são

Maria Teresinha Tamanini Andrade


E

PARENTESCO, GENES E TECNOLOGIAS:


um inventário das representações na imprensa sobre
o desenvolvimento das novas tecnologias reprodutivas
– 1994-2002.....................................................................................113
Naara Luna

MEDICALIZAÇÃO DA REPRODUÇÃO NO NORDESTE DO BRASIL:


análises das articulações discursivas em torno da FIV................... 139
Sheila Bezerra
ÓVULOS, SÊMENS E CERTIDÕES: maternidades lésbicas
e tecnologias reprodutivas no Brasil............................................... 171
Anna Carolina Horstmann Amorim

LA LEGISLACIÓN SOBRE REPRODUCCIÓN HUMANA

V
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MÉDICAMENTE ASISTIDA EN LA ARGENTINA: disparidad,

uto
avances, limitaciones, vacíos y respuestas de la jurisprudencia......... 191
Cecilia Straw

R
LEGISLAR SOBRE LA VIDA. LOS SABERES AUTORIZADOS

a
Y LA REGULACIÓN DE LA GESTACIÓN POR SUSTITUCIÓN
EN ARGENTINA ..............................................................................211

do
Guadalupe Moreno
aC
MORALIDADES Y REPRODUCCIÓN ASISTIDA

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EN EL RIO DE LA PLATA................................................................ 239
são
Mariana Viera Cherro

PEREGRINAR: El ritual de la reproducción asistida....................... 265


Sandra P. González Santos
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ver d
APRESENTAÇÃO

A ideia do livro Reprodução assistida e relações de gênero na América

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Latina surgiu a partir do Grupo de Trabalho número 34, da última Reunião

uto
de Antropologia do Mercosul, realizada no Uruguai em 2015. Seu caráter,
contudo, não é memorial. A ocasião foi analítica reflexiva e nos impôs o
desafio de sistematizar um conjunto de questões que vêm se modificando

visã R
com as tecnologias conceptivas em reprodução assistida e com as tecnolo-

oa
gias de preservação da fertilidade, malgrado sua quase ausência reflexiva
nos espaços diversos da sociedade e, particularmente, na academia, que
sempre faz parecer ser este um tema menor. Em que pese a relevância
C
da reprodução assistida para as pessoas e sua expressividade manifesta
em teses e dissertações, artigos acadêmicos, publicações de especialistas
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em redes de coautorias, em muitas áreas disciplinares diferentes, o tema


parece caminhar à margem dos demais e não é considerado relevante no
meio acadêmico, pelo menos não o é no campo das ciências humanas. É
percebido e é entendido como se fosse linearmente e ontologicamente um
ra

tema colonizado, quer dizer, sem expressão e sem voz própria.


Igualmente, falar sobre reprodução humana, no seu entendimento de
a re

reproduzir-se por meio de filhos, parece ser assunto menor, do ponto de vista
público, e dificilmente alguém que ouve falar das práticas ou do tema, ainda
o

que busque a reprodução, o conecta aos desafios demográficos, sanitários,


de cuidado, de políticas públicas ou aos desafios e controvérsias legislativas.
par

Poucas são as conexões com os arranjos familiares necessários ao processo


ver dit

de tratamento, ou as discussões para o campo da sexualidade, da bioética,


da filiação, do parentesco, do direito, das políticas públicas e ou dos cam-
pos das próprias pesquisas dos profissionais das clínicas e dos pesquisadores
de diferentes áreas. Este tema do reproduzir-se parece configurar-se, ainda
são

hoje, como de foro privado, mesmo que já não o seja. E quando posto nas
E

relações com suas dimensões éticas, políticas, econômicas e socioculturais,


com frequência ignora-se sua relevância social. Ele vincula-se à discussão
sobre acessos pela classe social, pelo mercado e pelos ganhos econômicos de
especialistas e das clínicas, e esquece-se dos direitos das pessoas, de suas es-
colhas e de seus desejos. E isso ocorre, ainda quando reproduzir-se em labo-
ratório desperte enorme curiosidade a respeito do que se pratica nas clínicas,
ou sobre onde buscar gametas e úteros, aspecto este que pode ser observado
na amplitude midiática e na maximização destes conteúdos, imagens, depoi-
mentos e vídeos por meio da internet.
8

Evidentemente, as conotações mercadológicas existem e procedem,


particularmente, das relações com a indústria farmacêutica, da circulação
de gametas, úteros e embriões; além do mais, são estimuladas pelas possi-
bilidades tecnológicas e de especialistas e pelos desejos de casais homos-
sexuais e heterossexuais e das pessoas solteiras que querem ter filhos.

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Igualmente, existem outros ganhos que são resultado da venda dos

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produtos para a manutenção dos materiais reprodutivos, dos usos das com-
plexas tecnologias para diagnóstico e da preservação de materiais e dos
laboratórios de tecnologias de produtos e de medicamentos. Entretanto,

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para além de falas cotidianas a respeito desses aspectos, exige-se entender
as multifacetas de uma realidade de intervenção sobre corpos, gametas,

do
embriões e processos de solução para a infertilidade e para a infecundida-
de, que ora é de direito e ora é altamente biomédica e normativa, além de
aC
ser altamente gendrificada.

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Neste livro, demarca-se que estamos falando de realidades importan-
são
tes, como o lugar da reprodução, das biotecnologias, das legislações e sua
grande relevância para a vida das pessoas, para a ciência e para as possibi-
lidades que se oferecem frente aos problemas reprodutivos.
i
Essas também são respostas que fundamentam as intervenções em clíni-
rev

cas de reprodução assistida, em torno dos desafios éticos e de novas pressões


sobre o fazer reprodutivo, das pressões advindas das demandas por solução
or

frente às impossibilidades de tratamento ou frente à necessidade de dar respos-


tas a movimentos ou a discursos contrários ao uso destas tecnologias.
ara

Estes aspectos estão conectados a novos contextos, que são os da bus-


ca por experiências reprodutivas tanto para homens quanto especialmente
t

para mulheres que assim o desejam. Essas pessoas, em geral, podem pagar
por tais buscas e por práticas e experiências reprodutivas. Igualmente com-
i
op

partilham ideias a respeito da necessidade de investimento público e da


d

moralidade do uso de embriões e de úteros, ou de se fazer embriões tanto


para famílias heterossexuais quanto para a população LGBT.
Estas multidimensionalidades vêm se hibridizando por meio dos co-
E

nhecimentos em diversas áreas, e neles vem se formando uma dinâmica


altamente interdisciplinar, com o fim de proporcionar filhos e materiais
ver

genéticos de alta qualidade, ou com o fim de normatizar; e isso signifi-


ca que é preciso olhar o campo também em sua constituição axiológica
a respeito da vida. É desta reflexividade complexa que falam os textos
deste livro; eles estão focados nas intervenções sobre corpos, nas biotec-
nologias, nas questões interventivas e práticas, nas decisões a respeito de
desejos, filhos, famílias, políticas demográficas, formação de profissionais,
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 9

pesquisas, publicações, laboratórios, técnicas, produção, armazenagem e


criopreservação de materiais reprodutivos, mercados, doações e recepções
de materiais tais como gametas, mercado legal e ilegal e nas legislações.
Todas estas relações estruturam procedimentos, protocolos, intervenções,

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r
desejos e subjetividades, e já saíram das fronteiras circunscritas ao âm-

uto
bito de cada país. É de práticas globalizadas de um fazer cotidiano, que
é clínico, que é da ciência, das tecnologias, das pesquisas e das redes de
pesquisadores incorporados na disseminação destes saberes/poderes sobre

visã R
o fazer embriões e o fazer famílias com filhos que falamos. Além do mais,

oa
analisa-se o que estão a significar as práticas biomédicas, biotecnológicas,
legislativas e os processos vividos por sujeitos (mulheres e homens) em
reprodução assistida em nossos países, a partir dos seus depoimentos, em
contextos regionais ou nacionais.
C
Assim, convidamos os leitores e as leitoras a seguirem a complexa
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e atrativa relação construída em cada texto para conhecerem quadros da


expressão dos processos no Mercosul e México; esses quadros, porém, não
estão isolados nem nos países de onde provêm os textos, nem das demais
práticas e conhecimentos que são hoje globalizados. Sequencia-se, para
ra
leitura e seu usufruto, o resumo contendo algumas ideias a respeito do que
pode ser encontrado em cada capítulo.
a re

Rosana Machin intitula seu capítulo como “Tecnologias Reprodutivas


e material genético de terceiros: reflexões em torno de regulação, mercado
e iniquidades”. Nele, aborda o tema da expansão e do funcionamento do
ito

mercado das tecnologias reprodutivas que envolvem a utilização de material


par

genético de terceiros, a partir de uma perspectiva global. Também destaca,


criticamente, o estabelecimento de uma indústria global da fertilidade, que
analisa desde uma perspectiva sociopolítica e ética dos processos que en-
volvem e reatualizam velhas questões, como a institucionalização das desi-
d

gualdades de gênero, a estratificação e a exploração de grupos vulneráveis,


são

a realização de práticas que implicam riscos, como no caso das doadoras de


E

óvulos. Algumas mulheres são convertidas em fontes de mercadorias dispo-


níveis para outras mulheres que se tornam consumidoras destes corpos ou
de suas partes. O capítulo não só mostra as características do mercado estru-
ver

turado ao redor dos bancos de esperma e de óvulos, mas também demonstra


claramente suas vinculações atendendo às regulações.
Nesse contexto, importa observar os valores diferenciados pagos às
fornecedoras de óvulos ou aos fornecedores de sêmen, revelando a cons-
trução gendrificada desse mercado. Identifica-se a existência de critérios
de preferência para a seleção dos provedores de gametas,  que vão além
10

dos aspectos relativos a sua saúde, tais como a valorização de sêmen pro-
veniente de homens altos, magros, bonitos, bem educados e atléticos; ou
óvulos provenientes de mulheres brancas, com cabelos e olhos claros,
localizados em diferentes lugares do mundo. Estes aspectos colocam em
evidência a diferença em relação ao passado, quando as pessoas só se mo-

V
r
bilizavam na busca por tratamentos médicos nos países desenvolvidos. No

uto
presente, existem estímulos visando atrair estrangeiros também para os
países em desenvolvimento. Esta estratégia responde a uma nova relação
econômica, que é facilitada pelo crescimento das clínicas privadas, pela

R
a
comunicação global, ampliada pela internet e pela portabilidade dos pla-
nos de saúde. Estes aspectos são acompanhados pela superação das res-

do
trições legais a respeito das práticas reprodutivas nos países de origem.
Consequentemente, Machin coloca em foco a reflexão sobre um tema
aC
de relevância na atualidade, que é a compreensão e o funcionamento do

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mercado reprodutivo global, a partir da lógica das políticas neoliberais da
são
globalização; por meio de tal lógica, se estratifica a reprodução, a partir
de marcadores como nacionalidade, raça, economia e gênero. Ademais,
neste  contexto, as restrições legais dos países, no que tange ao controle
i
do material reprodutivo de terceiros no exterior, têm se tornado ineficaz,
rev

assim como as proibições nacionais. Portanto, todo este desenvolvimento


ocorre apesar das objeções relativas ao tráfico de órgãos, tecidos e células
or

estabelecidas pelas organizações internacionais da saúde (OMS, Council


of Europe and United Nations).  A realidade descrita apresenta a tensão en-
ara

tre a liberdade de escolha dos bens de consumo reprodutivos que algumas


pessoas exercem no mercado capitalista global, paralelamente ao respeito,
t

ou não, dos direitos humanos e dos princípios democráticos, com base nos
quais se organiza a maioria das nações em escala mundial.
i
op

Eliane Vargas, Luciane Moás e Cristiane Marques Seixas, no capí-


d

tulo intitulado “Gênero, subjetividade e psicologização da reprodução:


marcos regulatórios e os diferentes sentidos do desejo de ter filhos, no
contexto da reprodução medicamente assistida”, discutem como o dis-
E

curso médico aponta existirem ‘outros fatores’ não fisiológicos servindo


como justificativa e causa da infertilidade. A partir de dados de pesqui-
ver

sa etnográfica entre casais heterossexuais de camadas médias residentes


no Rio de Janeiro, observa-se neste processo o acionamento dos saberes
psicológicos pelos profissionais da medicina reprodutiva, nos casos de in-
definição diagnóstica face aos limites da biologia. As autoras destacam
os fatores psicológicos generalizados, ligados a ansiedade e a estresse,
que servem de referências no discurso médico e que estão subjacentes às
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 11

causas atribuídas à infertilidade mediante diagnósticos clínicos inconclu-


sivos. Tal ênfase nas causas psicológicas opera uma lógica de gênero em
que se observam injunções morais acerca da ausência de filhos no âmbito
conjugal, o que constitui o interesse do trabalho. O texto está organizado

od V
r
em duas partes. A primeira discute os limites para a realização do desejo

uto
de ter filhos, emoldurados pelo marco regulatório que orienta os usos de
tecnologias reprodutivas no Brasil, tendo como contraponto a realidade
sul-americana. Particularmente, são feitas considerações sobre o estado da

visã R
arte relacionado às atuais resoluções do Conselho Federal de Medicina

oa
(CFM). A segunda traz o questionamento relativo ao desejo de ter filhos
entre casais pertencentes a um universo cultural que valoriza a escolha
pessoal e a liberdade individual, nas questões de trato íntimo. Discute-se
de que modo os diagnósticos de infertilidade denotam as normas de gênero
C
que incidem sobre os casais inférteis, reiterando um modelo de família e
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de parentalidade, que tem por efeito a culpabilização da mulher na não


concepção (ou na infertilidade) pela via do questionamento de seu real
desejo de ter filhos. A intenção é a de assinalar como a decisão de ter filhos
implicada no uso de tecnologias reprodutivas, que se apresenta aos nossos
ra
olhos como absolutamente ‘subjetiva’, singular e circunscrita no âmbito
do indivíduo, nos revela seu aspecto relacional, as marcas do social e do
a re

pertencimento cultural e a impossibilidade correlata de desvinculá-las das


normas de gênero vigentes.
Marlene Tamanini e Maria Teresinha Tamanini Andrade dão a seu
ito

texto o título “As novas tecnologias da reprodução humana, aspectos do


par

cenário brasileiro, na voz e nas redes dos especialistas”. Nele, trata-se a


voz dos especialistas das clínicas brasileiras a partir da posição que eles
ocupam nas redes de coautoria, como possibilidade de visualização de sua
maior ou menor capacidade de construção do conhecimento científico no
d

campo. Visibiliza-se como se tem um importante processo de disseminação


são

do conhecimento a respeito das preocupações com a reprodução humana,


E

que irradia dos grandes centros urbanos para as clínicas e especialistas que
vivem em regiões com mais dificuldades, onde a informação e o conheci-
mento ainda exigem muito investimento individual do pesquisador. Foca-
ver

se nas centralidades dos especialistas e/ou do pesquisador, a partir das re-


des de coautoria, com o intuito de visibilizar quanto estes saberes circulam,
como ocupam posições de centralidade os que publicam juntos, onde se
encontram e quais são as regiões que têm maior concentração de clínicas e
de especialistas e/ou pesquisadores publicando. Estes pontos, além de tan-
genciarem as redes de interesse, hoje, a respeito das intervenções sobre a
12

vida, também tangenciam de que modo temas da intimidade se deslocaram


para o laboratório, para os processos de pesquisa e para os controles de
outras instâncias, que não são mais as dos sujeitos homens e mulheres na
busca por filhos. O segundo aspecto diz respeito à relação entre materiali-
dades, tecnologia, pioneirismos e desejos dos especialistas, a respeito dos

V
r
processos de tratamento da infertilidade, mas sobretudo de normatização

uto
das pessoas e famílias. Nele, discute-se a produção de sociomaterialidades,
termo utilizado para falar de corpos, embriões, gametas e de sua imbrica-
bilidade com os valores socioculturais, intersubjetivos e materiais. Mostra-

R
a
se como as clínicas, laboratórios e especialistas, que se propõem a intervir
na reprodução, tomam a tecnologia como vetor de materialização ou de

do
conservação de corpos, células, embriões e desejos. Este processo se faz
com argumentos e percepções a respeito da qualidade das células, dos cor-
aC
pos e das metáforas que se usam para contrapor dois corpos, um masculino

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e outro feminino, para contrapor a idade das células, a idade reprodutiva
são
e a qualidade dos gametas, bem como o sucesso dos ciclos reprodutivos.
Naara Luna intitula seu capítulo “Parentesco, genes e tecnologias: um
inventário das representações na imprensa sobre o desenvolvimento das
i
novas tecnologias reprodutivas – 1994-2002”.  Nele, a autora resgata as
rev

representações sobre o desenvolvimento das técnicas de RA na impren-


sa no Brasil, em período datado, nos apresentando aspectos significativos
or

sobre o tema. Questões mais recentes não constituem objeto de análise,


mas o material no qual a mesma se baseia nos fornece uma compreensão,
ara

em termos de processo histórico, das mudanças no campo das tecnologias


reprodutivas, no tocante a inovações técnicas e a suas ressignificações nas
t

representações de parentesco.
Foi realizado um inventário do seu desenvolvimento técnico recente,
i
op

a partir de um levantamento das representações dessas técnicas no material


d

de divulgação científica, na grande imprensa brasileira, entre os anos de


1994 e 2002, sendo consideradas as diversas formas.
A análise norteia-se pela hipótese de que, sendo a conexão bio-
E

genética a definição fundante da concepção nativa norte-americana de


parentesco, a descoberta de novos fatos sobre a relação biogenética
ver

pela ciência poderia acarretar a transformação das noções nativas oci-


dentais. As tecnologias de procriação foram recebidas com apreensão
por permitirem a reprodução de maneiras percebidas como não naturais
e por criarem parentesco “fictício” por intermédio da doação de ga-
metas. A autora argumenta que as tecnologias a princípio parecem ne-
gar a concepção nativa de parentesco ocidental, que assume a conexão
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 13

biogenética como sua base. No então, sugere que a pesquisa científi-


ca tem se empenhado na concretização do parentesco biogenético, em
graus crescentes de intervenção sobre corpos de homens e mulheres. 
Sheila Bezerra intitulou seu texto: “Medicalização da Reprodução no

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r
Nordeste do Brasil – Análises das articulações discursivas em torno da

uto
FIV”. Nele, trata da análise das disputas por hegemonia em torno do sig-
nificado das Tecnologias Reprodutivas, tendo por referencial empírico a
Fertilização in vitro (FIV). Os desdobramentos estiveram na identificação

visã R
das regularidades e dispersões discursivas em torno do significado do sa-

oa
crifício e do sofrimento como construtos de feminilidade e reprodução, no
contexto da medicalização da reprodução e, ainda, na análise de como a
articulação entre Estado, Ciência Médica e Mercado têm repercutido nos
discursos das mulheres.
C
A análise de documentos, a realização de entrevistas e o relato et-
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

nográfico levaram às especificidades dos discursos das mulheres “tentan-


tes” que fizeram a FIV nos serviços de Reprodução Assistida da cidade de
Recife (ou em clínicas particulares ou em serviço financiado pelo SUS),
bem como às especificidades dos discursos dos maridos das “tentantes”,
ra
do Estado, da ciência médica e da indústria médico-farmacêutica, a fim de
problematizar suas articulações, bem como aos discursos que as mulheres
a re

produzem acerca de si mesmas e de suas experiências pessoais, ao busca-


rem a FIV. A regularidade de uma ordem, a partir da qual o uso da técnica
de FIV é justificada, deu o norte da investigação das formações discursivas
ito

referentes à reprodução medicalizada.


par

A presença do sofrimento e do sacrifício é um elemento regular nos


discursos em torno das tecnologias da reprodução; contudo, a fixação dos
sentidos de tais elementos é algo com o qual não se pode contar; afinal, o
sofrimento nesse contexto pode significar tanto não ter uma criança gerada
d

em si (ou mesmo do seu sangue, ou com seus genes, ou do seu marido),


são

quanto pode dizer respeito a tudo aquilo, ou a toda a experiência física,


E

emocional e material que se vive em seu nome. Os fragmentos relatados


são recortes da realidade de mulheres que têm buscado a FIV para engra-
vidar e estão baseados nos testemunhos de dor, de invisibilidade, de in-
ver

ternações, perdas, solidão, enfim, das penas que, como desviantes, devem
cumprir. Dimensão bem demarcada é o fato de que as mulheres sejam
investidas, na pesquisa, dos elementos que as caracterizam como sujeitos
da reprodução; mas tal fato, segundo a autora, não deve ser entendido,
nem de longe, como um passo atrás no caráter relacional que os estudos de
gênero justamente sustentam. O caráter relacional dos estudos de gênero,
14

por sua vez, não deve fazer subsumir elementos ainda intricados nas redes
de sentido da construção dos gêneros que, em muitos aspectos, expõem
desigualdades nas relações entre homens e mulheres.
Anna Carolina Horstmann Amorim intitula assim seu texto:
“Óvulos, sêmens e certidões: Maternidades lésbicas e tecnologias re-

V
r
produtivas no Brasil”. Estimulada por um episódio etnográfico, analisa

uto
as estratégias que seguem os casais de mulheres lésbicas cissexuais
(pessoa cuja identidade de gênero corresponde ao sexo que lhe foi
atribuído ao nascer) que recorrem à reprodução assistida para assegurar

R
a
a participação da biologia mútua na filiação. A partir deste foco, apre-
senta as tramas de sentido que circundam estes procedimentos e os im-

do
pactos que eles têm sobre as pessoas, os corpos, as relações sociais e as
concepções de parentesco no Brasil. Foca-se nos modos com que estas
aC
mulheres utilizam-se das tecnologias reprodutivas para a realização de

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seus desejos de maternidade e filiação e como se inserem em uma bus-
são
ca por “filhos seus”. Analisa como as mulheres buscam um doador de
sêmen com fenótipo similar ao da mulher que não doa seu óvulo nem
gesta o futuro bebê do casal para garantir que se pareça com ela. Outro
i
modo é a técnica chamada ROPA (Recepção de Óvulo da Parceira), na
rev

qual uma parceira doa o óvulo que, após fertilizado, é transferido para
sua parceira. Ambas as estratégias enfatizam a relevância do vínculo
or

biológico para a filiação; e a ROPA dá conta, também, da importância


do duplo aporte biológico para a maternidade lésbica. Ao mesmo tem-
ara

po, Horstmann conclui que, assim procedendo, elas habilitam um modo


de parentalidade na qual a descendência se inscreve em um sistema
t

de filiação bilateral que, à diferença da tradicional, supõe duas linhas


de genealogia materna. O parentesco se vê reformulado pelas estraté-
i
op

gias biogenéticas, às quais recorrem as mulheres lésbicas, evidencian-


d

do deste modo também seu caráter político. Assim, elucida as tramas


que circundam este universo reprodutivo e os impactos que o recurso
a essas tecnologias e procedimentos têm sobre os corpos, pessoas, leis,
E

relações e concepções de parentesco no Brasil.


Cecilia Straw intitula assim seu capítulo: “A legislação sobre repro-
ver

dução humana medicamente assistida na Argentina: disparidades, avanços,


limitações, vazios e respostas da jurisprudência”. O capítulo analisa, de
uma forma completa, a legislação sobre a reprodução humana medicamen-
te assistida na Argentina e nele se reflete sobre as principais consequências
da legislação vigente, como a falta de efetividade no cumprimento da lei
nacional. Igualmente apresentam-se as múltiplas leis vigentes, os decretos
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 15

e as regulamentações de nível nacional e provincial, mostrando o pano-


rama díspar, no que tange aos aspectos legislativos nos quais sobressaem
os avanços da legislação nacional, as limitações legislativas em alguns
distritos provinciais, e a persistência de importantes vazios legais. Estes

od V
r
últimos revelam os perfis injustos no exercício dos direitos à saúde, à saú-

uto
de reprodutiva, para o gozo dos avanços científicos, uma vez que existem
aspectos que são de riscos para a saúde das mulheres, dos bebês nascidos
destas técnicas, como para as doadoras de gametas. Definitivamente, estes

visã R
aspectos seguem enfrentando dois pontos de vista jurídicos sobre as pro-

oa
blemáticas das tecnologias reprodutivas. Uma perspectiva progressiva ou
contemporânea e outra conservadora e restritiva. (HERRERA; LAMM,
2013). Esta mesma chave conservadora e restritiva permite avaliar o aciona-
mento dos governos provinciais, que não abordam esta matéria e as demoras
C
do Ministério da Saúde da Nação para atualizar as listas dos prestadores de
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serviços e as tecnologías disponíveis, bem como para ditar as normatizações


no que diz respeito as práticas médicas e a doação de gametas, dentre outras
questões importantes.
Além disso, existe o problema da ausência de numerosas regula-
ra
mentações, no que diz respeito às práticas médicas e às doações de ga-
metas, principalmente. Paralelamente, frente ao acionamento da Justiça,
a re

com critérios diversos, se reforça a ideia da relevância e da urgência


de se estabelecer parâmetros legislativos, mediante o sancionamento de
normas específicas.
ito

Guadalupe Moreno intitulou seu texto como: “Legislar sobre a


par

Vida. Os saberes autorizados e a regulação da gestação por substitui-


ção na Argentina”. Ela analisa as respostas legislativas que foram dadas
na Argentina ao desafio de regular as técnicas de reprodução assistida.
Em particular, põe-se o foco sobre a proposta contida no artigo 562 do
d

Projeto de Lei da Reforma, Atualização e Unificação dos Códigos Civis e


são

Comercial, para legislar sobre a gestação por substituição, apresentada ao


E

Congresso Nacional em 2012.


O trabalho sustenta que a definição da gestação por substituição, como
tema de interesse digno de atenção legislativa, não pode separar-se do mo-
ver

mento histórico no qual capta a atenção dos juristas. Assim, sua emergência
deve ser estendida ao contexto mais amplo dos avanços dos discursos sobre
os direitos reprodutivos e a igualdade de gênero, questões de grande impor-
tância na Argentina nos últimos anos.
A autora ressalta que, na Argentina, estas questões têm permaneci-
do, tradicionalmente, demarcadas no interior de uma retórica que alude
16

aos direitos humanos, em particular ao direito à saúde, o que trouxe como


consequência uma forte presença do paradigma biomédico no interior do
campo. Isto implica que as políticas públicas, em matéria de direitos hu-
manos, estejam fortemente atravessadas por noções como saúde, enfer-
midade e normalidade. Este capítulo analisa a proposta normativa com a

V
r
qual se tentou regular a gestação de substituição. Sinaliza que os distintos

uto
incisos contidos no artigo 562 do Projeto reproduziram usos e costumes da
prática médica, fixando como critério de acesso (i) que os casais tivessem
um diagnóstico comprovado de infertilidade e (ii) que o bebê por nascer

R
a
tivesse vínculo genético com seus futuros pais e não com a gestante. Ao
mesmo tempo, o capítulo coloca em destaque a relevância que tem assu-

do
mido a sanção da lei do matrimônio igualitário, para promover a regulação
da maternidade com útero de aluguel na Argentina.
aC
No plano teórico, o trabalho analisa a maneira como, ao tornar-se a

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reprodução humana um aspecto problemático e ao ser ela considerada uma
são
patologia, o Estado começa a normatizá-la, com a ajuda da medicina e do
saber jurídico. Isto se faz por meio da implementação de distintas políticas
reprodutivas, por cujo intermédio o Estado promove modelos de família,
i
que são defendidos com apelos a critérios científicos supostamente uni-
rev

versais e neutros. Estes cruzamentos do saber médico com os processos


políticos, a partir dos quais se deixa evidente a crescente influência da
or

medicina sobre os âmbitos da reprodução, estão cada vez mais distantes de


sua esfera de influência original, a infertilidade.
ara

Mariana Viera Cherro, em seu capítulo intitulado “Moralidades e reprodu-


ção assistida no Rio da Prata”, pergunta por que, em sua permanência, durante
t

um período de seu trabalho de campo, teria emergido um assunto de disputa


moral relativo à gestão da doação de material reprodutivo feminino (óvulos).
i
op

Este emergir revela-se no mínimo surpreendente, em um contexto no qual a


d

aplicação de tecnologias reprodutivas parecia estar isenta de conflitos morais.


Portanto, neste capítulo, a autora começa mostrando como se processam, por
parte dos especialistas em reprodução assistida de Buenos Aires e Uruguai,
E

alguns dos conflitos morais, que surgem do âmbito social e que interpelam o
fazer tecnológico reprodutivo. A situação que a autora elege como exemplo do
ver

que pode ser considerado conflito moral mais amplo é a intervenção tecnológi-
ca para a seleção de sexo de embriões. A partir da resposta que se dá pela me-
dicina reprodutiva a essa possibilidade tecnológica, Viera Cherro mostra como
a moral se coloca fora do proceder tecnológico. Na disputa moral que emerge
sobre os diferentes modos de processar o acesso a óvulos de doação (doação
pura e doação mista), a moralidade dos procedimentos se evidencia como um
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 17

assunto a ser resolvido, encarado. Esta disputa e seu caráter evidente, conclui
a autora, parece ser mais uma consequência de diferenças de posições entre os
próprios sujeitos que intervêm na área e de seus modos de proceder do que de
uma dimensão moral da gestão de gametas e da reprodução assistida, de modo

od V
r
mais amplo. Assim sucede, porque outros procederes, que também nos enfren-

uto
tam como sociedade com dilemas em torno dos modos de valorizar a vida, os
materiais biológicos, as pessoas implicadas nos procedimentos e as relações
que se configuram, permanecem moralmente sem serem questionadas.

visã R
Sandra González Santos, em seu capítulo intitulado “O ritual da repro-

oa
dução assistida”, parte da perspectiva dos sujeitos que recorrem à reprodução
assistida no México, para mostrar seu peregrinar em direção aos tratamentos,
ainda que a reprodução assistida seja hoje um assunto sobre o qual cada vez se
tem mais conhecimento e mais se tem tematizado em filmes, séries de televi-
C
são e em muitos meios virtuais. A perspectiva dos sujeitos homens e mulheres
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que peregrinam em busca de tratamentos tem sido pouco abordada.


Partindo deste ângulo e olhando desde uma etnografia multissituada,
cujo interesse se centra na abordagem das dimensões socioculturais da re-
produção assistida no México, a autora se interessa por analisar como elas
ra
são ritualizadas por aqueles que são seus destinatários. Isto significa visibili-
zar as trajetórias reprodutivas, considerando os múltiplos e variados aspectos
a re

que nelas se conjugam como: etiologias diversas, condições sociais e econô-


micas díspares da parte de quem recorre à medicina reprodutiva, assim como
razões diferentes para buscar uma descendência biológica. Além de consi-
ito

derar que, longe de transitar por tratamentos de modo acrítico, os sujeitos


par

(entenda-se mulheres) interpretam, incorporam, interpelam e transformam


as dimensões sociais fundamentais com as quais estas tecnologias dialogam:
reprodução e parentesco. Em seu trabalho, onde também revela um profundo
conhecimento do campo da reprodução no México, González Santos ilustra
d

as negociações que médicos e sujeitos assumem no marco deste peregrinar.


são

Demonstra como os conceitos técnicos utilizados podem dar lugar a inter-


E

pretações diversas por parte dos que buscam assistência à infertilidade, e de


como este peregrinar se realiza em um contexto de elementos dinâmicos,
contextuais e profundamente relacionados entre si.
ver

Cecilia Straw
Eliane Vargas
Mariana Viera Cherro
Marlene Tamanini
E d
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rev
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do
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r
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PRESENTACIÓN

La idea de realizar este libro Reprodución Asistida y relaciones de

od V
r
género en América Latina, surgió a fines de 2015, cuando en el marco de

uto
la XI Reunión de Antropología del Mercosur, un grupo de investigadoras
interesadas en la reproducción asistida como campo de investigación social
intercambiamos experiencias, inquietudes y hallazgos de investigación

visã R
en el marco del Grupo de Trabajo 34. Sin embargo, esta publicación

oa
avanza más allá de dar testimonio de lo que allí se debatió o expuso, y por
ello se propone sistematizar un conjunto de problemas vinculados a las
modificaciones que las tecnologías de la reproducción y las tecnologías de
C
la preservación de la fertilidad están imponiendo en nuestras sociedades.
Se trata de un esfuerzo orientado a contrarrestar la casi ausente
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reflexión de la sociedad sobre tales acontecimientos desde los contextos


de países de América latina sin perder la referencia al contexto global en
el cual estas tecnologías se encuentran insertas. Otro de los motivos para
emprender el objetivo compartido de publicar los resultados de nuestras
ra

investigaciones fue que en ese encuentro nos dimos cuenta de que, quienes
investigamos en estos temas, estamos generalmente bastante solas. Desde
a re

la academia, la reproducción en general y la reproducción asistida en


particular suelen considerarse temas menores. Es que, pese a la relevancia
o

de la reproducción asistida para las personas, expresada en la creciente


elaboración de tesis y disertaciones, artículos académicos, publicaciones
par

especializadas y redes de coautorías, el tema parece caminar desvinculado


ver dit

de los demás, y no se lo considera relevante en el medio académico, por lo


menos en el campo de las ciencias humanas.
En este sentido, emerge como un tema, inclusive en un sentido
ontológico, sin voz propia. También la reproducción humana, aquella en la
são

que no interviene la tecnología reproductiva, se presenta como un asunto


E

menor para la producción desde las ciencias sociales. Difícilmente se


consideran los desafíos reproductivos, sanitarios, de cuidado, de políticas
públicas, que la misma supone. La reproducción parece seguir siendo
considerada, aún hoy, un asunto privado cuando no lo es; incluso a la luz
de la reproducción asistida que evidencia el peso de los aspectos socio-
culturales que hacen a la reproducción.
Cuando se aborda la dimensión social de la reproducción laboratorial
se enfatiza el acceso de las personas a las intervenciones que garantizan la
materialización del deseo de filiación, en virtud de la pertenencia socio-
20

económica, del mercado o de las ganancias de los especialistas y las clínicas,


dejando a un costado las condiciones socio-culturales en el marco de las
cuales se demandan los derechos de acceso (a tratamientos), así como la
configuración de las posibilidades de optar por determinado tratamiento,
o por utilizar o no gametos de donantes, o simplemente optar por no

V
r
incursionar en la reproducción asistida, o la elaboración de los deseos de un

uto
nexo biológico para la filiación. Esto ocurre a pesar de que la reproducción
laboratorial, como fenómeno empírico, despierta gran curiosidad.
Por otra parte, las prácticas de las clínicas, las estrategias de acceso a

R
a
gametos de donación o a úteros para una gestación por sustitución, u otros
procedimientos pueden ser ampliamente conocidas a través de imágenes

do
o videos en internet. Evidentemente hay una dimensión mercantilista que
deriva de las relaciones con la industria farmacéutica, del mercado de
aC
gametos, úteros y embriones, y que es estimulada por las posibilidades

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que brinda la tecnología y los especialistas para alcanzar los deseos de las
são
parejas homosexuales y heterosexuales y de las personas que, en proyectos
monoparentales, quieren tener hijos. Otras fuentes de ganancias provienen
de la venta de los productos para el mantenimiento de los materiales
i
reproductivos, de las complejas tecnologías para el diagnóstico y la
rev

preservación de los mismos, y del costo de los laboratorios que producen


estas tecnologías y medicamentos.
or

En consecuencia, parece indudable que, más allá de las aproximaciones


consuetudinarias que tengamos sobre estos asuntos, resulta necesario
ara

comprender las diversas facetas de un saber-hacer que supone una intervención


sobre los cuerpos, los gametos, los embriones y los procedimientos de
t

resolución que este saber propone para la infertilidad o la infecundidad, o la


reproducción, procedimientos altamente biomédicos y generizados.
i
op

En los capítulos que conforman esta publicación trabajamos este


d

fenómeno complejo considerando el lugar que la reproducción, las


biotecnologías y las legislaciones tienen para las personas, para la ciencia
y para los y las especialistas. Estos ámbitos configuran respuestas que
E

fundamentan las intervenciones en las clínicas de reproducción asistida,


y en torno a los desafíos éticos y las nuevas presiones sobre el quehacer
ver

reproductivo. Presiones provenientes de las demandas por soluciones


frente a las imposibilidades de tratamiento, o de las necesidades de dar
respuesta a movimientos o a discursos contrarios al uso de las tecnologías
reproductivas. Estos temas están conectados en los nuevos contextos: las
experiencias reproductivas de hombres y mujeres que en general pueden
pagar por ellas; las demandas de quienes buscan que se reconozcan las
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 21

necesidades de inversión pública para democratizar el acceso a estas


tecnologías, las discusiones sobre la moralidad del uso de embriones
o de úteros, o la moralidad de producir embriones tanto para parejas
heterosexuales como para parejas LGTB.

od V
r
Esta multidimensionalidad se alimenta de conocimientos de diversas

uto
áreas, todo lo cual conforma una dinámica altamente interdisciplinar cuya
finalidad es proporcionar hijos, y materiales genéticos de alta calidad, o
con fines de regular ciertos rasgos genéticos en la población. Ello indica

visã R
que precisamos también investigar la constitución axiológica del campo

oa
en relación a la vida, no solo como materialidad. Es de esta reflexividad
compleja que hablan los textos de este libro. Se centran en las intervenciones
sobre los cuerpos, sistemas fisiológicos, endocrinológicos, reproductivos,
y se centran también en las decisiones, deseos, los modos de concebir
C
los hijos, las familias, las políticas demográficas que se vinculan a estos
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desarrollos, la formación de profesionales del campo, las investigaciones


que se desarrollan, los laboratorios implicados, las técnicas que se utilizan, la
producción, almacenamiento y criopreservación de materiales reproductivos,
la dimensión mercantil involucrada en estos procedimientos, las donaciones
ra
y recepciones de células reproductivas (gametos), los mercados legales e
ilegales para este tipo de transacciones u otras, así como las legislaciones que
a re

buscan acompasar y delimitar el desarrollo de estos procesos. Todas estas


relaciones estructuran procedimientos, protocolos, intervenciones, deseos y
subjetividades, que ya han traspasado los límites de los Estados naciones
ito

pero que, en muchas situaciones, dialogan con esos límites. Son prácticas
par

globalizadas que hacen parte de un hacer cotidiano que forma parte de la


clínica, de la ciencia, de la tecnología, de la investigación, y de las redes de
investigadores que se incorporan a las mismas como parte de la diseminación
de estos saberes y poderes sobre el hacer embriones y conformar familias.
d

Además se analiza qué significados poseen estas prácticas biomédicas,


são

biotecnológicas, legislativas sobre los procesos vividos por varones y


E

mujeres que ingresan a la reproducción asistida (puede ser como paciente,


como donantes de gametos, como subrogantes del útero) en contextos
nacionales, regionales, y también globales.
ver

Invitamos a los lectores y las lectoras a seguir esta trama compleja y


desafiante a partir de las propuestas de cada uno de los capítulos que, si
bien responden a realidades sociales específicas, también las trascienden.
Rosana Machin titula su capítulo Tecnologias Reprodutivas y material
genético de terceros: reflexiones en torno a la regulación, mercado e
iniquidades. En él aborda el tema de la expansión y el funcionamiento del
22

mercado de las tecnologías reproductivas que involucran la utilización de


material genético de terceros desde una perspectiva global. A la par se destaca
críticamente que el establecimiento de una industria global de la fertilidad
analizada desde una perspectiva sociopolítica y ética de los procesos que
involucra muestra viejas cuestiones como la institucionalización de las

V
r
desigualdades de género, la estratificación económica, la explotación de

uto
grupos vulnerables, la realización de prácticas que implican riesgos, como
en el caso de las “donantes” de óvulos. Algunas mujeres son convertidas en
fuente de “mercancías” disponibles para otras mujeres, que actúan como

R
a
consumidores de estos cuerpos y partes.
Por otra parte, en el capítulo no solo se describen las características

do
del mercado estructurado en torno de los bancos de esperma como del
mercado de óvulos sino que se muestran claramente sus vinculaciones
aC
atendiendo a las regulaciones legales vigentes en los diferentes países y

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regiones, los aspectos económicos -ya sean las sumas monetarias o las
são
contribuciones a los donantes del material genético (óvulos o semen) como
los precios que las muestras pueden alcanzar en el mercado actual-, a la
vez que se identifican la existencia de criterios de preferencias para la
i
selección de los proveedores de gametos más allá de los aspectos de salud
rev

- semen proveniente de varones “altos, magros, bonitos, bien educados


y atléticos”; óvulos provenientes de mujeres “blancas con cabellos y
or

ojos claros”- localizados en diferentes partes del mundo. Así, el mercado


no solo se caracteriza por movilizar billones de dólares, involucrar
ara

empresas trasnacionales, clínicas de fertilidad, bancos de semen o de


embriones, agencias operando en la intermediación de material genético
t

o de la gestación por sustitución sino que se destaca el establecimiento


de asociaciones entre diferentes proveedores de semen u óvulos, clínicas
i
op

y laboratorios en diferentes lugares del mundo. Esto pone en evidencia


d

a diferencia de lo que ocurría en el pasado donde las personas solo se


movilizaban por la búsqueda de tratamientos médicos especializados hacia
los países desarrollados, que ahora el estímulo para que los extranjeros
E

se trasladen en busca de tratamientos reproductivos hacia los países en


desarrollo responde a una nueva estrategia económica facilitada por el
ver

crecimiento de clínicas privadas, una comunicación global ampliada por


internet y la portabilidad de seguros de salud; acompañada en ambos
casos por la superación de las restricciones legales sobre las prácticas
reproductivas en los países de origen.
En consecuencia, Machin pone el foco de reflexión sobre un tema
de relevante actualidad como es la comprensión y el funcionamiento
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 23

del mercado reproductivo global a partir de la lógica de las políticas


neoliberales de la globalización por medio de las cuales se estratifica la
reproducción a partir de algunos marcadores como nacionalidad, raza,
economía y género. Además en este contexto, las restricciones legales

od V
r
de los países respecto del control del material reproductivo de terceros

uto
en el exterior resultan ineficaces como así también las prohibiciones
nacionales. Todo este desarrollo se da a pesar de las objeciones relativas
al tráfico de órganos, tejidos y células planteadas por las organizaciones

visã R
internacionales de la salud- OMS; Council of Europe and United Nations-.

oa
La realidad descripta presenta la tensión entre la libertad de elección de
algunas personas de bienes de consumo reproductivos en el mercado
capitalista global paralelamente al respeto (o no) de los derechos humanos
y los principios democráticos en base a los cuales se organizan la mayoría
C
de las naciones a escala mundial.
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Eliane Vargas, Luciane Moás e Cristiane Marques Seixas en su capítulo


titulado Género, subjetividad y psicologización de la reproducción: marcos
regulatorios y diferentes sentidos del deseo de tener hijos en el contexto de
la reproducción médicamente asistida, discuten cómo el discurso médico
ra
apunta a la existencia de “otros factores”, no fisiológicos, que pueden ser
causa de la infertilidad.
a re

A partir de datos surgidos de la investigación etnográfica entre parejas


heterosexuales de estratos sociales medios de Río de Janeiro observan este
proceso de incorporación de los argumentos psicológicos por parte de los
ito

profesionales de la medicina en los casos en los cuales no existe una causa


par

médicamente justificada para la imposibilidad de concebir por parte de la


pareja. Las autoras destacan los factores psicológicos que se mencionan,
ligados a la ansiedad y el estrés, como referencia en el discurso médico,
los que resultan subyacentes a las causas atribuidas a la infertilidad en los
d

diagnósticos clínicos no concluyentes. Tal énfasis en las causas psicológicas


são

opera con una lógica de género que remarca los mandatos morales acerca
E

de la ausencia de hijos en el ámbito conyugal de estas parejas.


El texto se organiza en dos partes. En la primera se discute los
límites de la realización del deseo de tener hijos, enmarcado en las
ver

regulaciones que orientan el uso de las tecnologías reproductivas


en Brasil, teniendo como contrapunto la realidad sudamericana. Se
considera particularmente el estado del arte vinculado a las actuales
resoluciones del Consejo Federal de Medicina.
En la segunda parte se realiza un cuestionamiento en relación al
deseo de tener hijos entre parejas pertenecientes a un universo cultural
24

que valora las elecciones individuales y la libertad personal en aquellos


aspectos que se considera que hacen a la intimidad. Se discuten las formas
en que los diagnósticos de infertilidad denotan las normas de género que
inciden sobre las parejas infértiles reiterando un modelo de familia y
parentalidad que tiene como efecto una culpabilización de la mujer en

V
r
la no concepción (o la infertilidad) por la vía de cuestionar su real deseo

uto
de tener hijos. La intención es señalar como la decisión de tener hijos,
implicada en el uso de las tecnologías reproductivas, que se presenta a
nuestros ojos como absolutamente “subjetiva”, singular y circunscripta

R
a
al ámbito privado, se revela como un ámbito relacional, atravesado por
aspectos sociales y de pertenencia cultural, imposible de desvincularse

do
de las normas de género vigentes.
Marlene Tamanini y María Teresinha Tamanini Andrade titulan su
aC
capítulo, Las nuevas tecnologías de la reproducción humana, aspectos

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del escenario brasileño en la voz de las redes de especialistas. En él
são
abordan la voz de los especialistas de las clínicas brasileñas, a partir de la
posición que éstos ocupan en las redes de coautoría para evaluar su mayor
o menor capacidad de incidencia en la construcción de conocimiento
i
científico en el campo. Las autoras visibilizan la existencia de un proceso
rev

de diseminación del conocimiento en relación a la reproducción humana


que irradia desde los centros urbanos hacia las clínicas y los especialistas
or

que viven en regiones donde la información y el conocimiento exigen


inversión personal del investigador.
ara

El capítulo focaliza en las redes de coautoría con el objetivo de advertir


cómo circulan los conocimientos, qué relación hay entre quienes publican y
t

el posicionamiento que alcanzan, dónde se encuentran los autores y cuáles


son las regiones que tienen mayor concentración de clínicas, especialistas
i
op

e investigadores publicando. Además de mapear las actuales redes de


d

intereses al respecto de las intervenciones sobre la vida, el análisis también


muestra cómo temas de la intimidad se desplazan hacia el laboratorio, la
investigación y para los controles de otras instancias que van más allá de
E

las mujeres y varones en busca de hijos/as. Así tales producciones hablan


respecto a la relación entre materialidades, tecnología, innovaciones y
ver

deseos de los especialistas en relación a los tratamientos para la infertilidad


pero sobre todo buscan normatizar a las personas y las familias. En ellos se
discute la producción de sociomaterialidades, término utilizado para hablar
de los cuerpos, embriones y gametos, en su imbricación con los valores
socioculturales, intersubjetivos y materiales. Se muestra como las clínicas,
laboratorios y especialistas que se proponen intervenir en la reproducción
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 25

toman a la tecnología como vector de materialización o de conservación de


cuerpos, células, embriones y deseos. Este proceso se realiza con argumentos
y percepciones respecto de la calidad de las células, de los cuerpos y de las
metáforas que se usan para contraponer dos cuerpos, uno masculino y otro

od V
r
femenino, para contraponer la edad de las células, la edad reproductiva y la

uto
calidad de los gametos, como de los éxitos de los ciclos reproductivos.
Naara Luna titula su capítulo Parentesco, genes y tecnología: un
inventario de las representaciones en la prensa sobre el desenvolvimiento

visã R
de las nuevas tecnologías reproductivas 1994-2002. En él analiza las

oa
representaciones existentes en la prensa brasileña sobre el desarrollo de las
técnicas de reproducción asistida entre los años 1994 y 2002. Este ejercicio
histórico-analítico permite comprender los cambios en el campo de las
tecnologías reproductivas en lo tocante a las innovaciones técnicas, y sus
C
artículos de divulgación científica. Luna considera las diversas formas en
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que se corporifica (embody) la reproducción por medio de las tecnologías


de procreación enfocándose en la hipótesis de que, considerando que la
conexión biogenética es la definición fundante del concepto norteamericano
del parentesco, el descubrimiento por parte de la ciencia de nuevos hechos
ra
en la relación biogenética podría generar cambios en las nociones nativas
de la parentalidad. Las tecnologías de procreación fueron recibidas con
a re

aprensión por permitir la reproducción de situaciones percibidas como no


naturales o por crear un parentesco “ficticio” por intermedio de la donación
de gametos. La autora argumenta que si bien las tecnologías parecen en
ito

principio negar la concepción nativa del parentesco occidental fundada


par

en la conexión biogenética, la investigación científica se ha empeñado


en materializar ese ideal del parentesco biogenético con intervenciones
crecientes sobre los cuerpos de hombres y mujeres.
Sheila Bezerra titula su capítulo Medicalización de la reproducción
d

en el Nordeste de Brasil: Análisis de las articulaciones discursivas en


são

torno a la FIV. En él analiza las disputas por la hegemonía en torno al


E

significado de las Tecnologías Reproductivas teniendo como referente


empírico la fertilización in vitro (FIV). Identifica las regularidades y
dispersiones discursivas en relación al sacrificio y el sufrimiento como
ver

eventos constitutivos de la feminidad y de la reproducción en el contexto


de su medicalización. Asimismo analiza cómo la articulación entre Estado,
ciencia médica y mercado repercute en los discursos de las mujeres que
pasan por intervenciones in vitro.
Analiza documentos, realiza entrevistas y produce material etnográfico
para llegar a las especificidades de los discursos de mujeres “tentantes”
26

que hicieron FIV en los servicios de reproducción asistida de la ciudad de


Recife tanto de clínicas particulares como del servicio financiado por el
Sistema Único de Salud (SUS). También aborda las especificidades de los
discursos de los maridos de estas mujeres, del Estado, la ciencia médica
y la industria médico-farmacéutica con el objetivo de problematizar sus

V
r
articulaciones, los discursos que las mujeres producen sobre sí mismas y

uto
sus experiencias con la FIV.
La presencia del sufrimiento y del sacrificio aparece como una constante
en estos discursos. Sin embargo, no se puede fijar sus sentidos, en tanto pueden

R
referir al significado de no tener un/a hijo/a (de su sangre, con sus genes o

a
con los genes de su marido) así como de la experiencia física, emocional y
material que se vive en nombre de la búsqueda de esa descendencia. Los

do
testimonios son un recorte de la realidad de mujeres que han recurrido a la
aC
FIV para lograr el embarazo y son testimonios de dolor, de invisibilidades, de

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internaciones, de pérdidas, de soledad, es decir de penas que, en tanto mujeres
são
que se han desviado del orden social por no poder lograr un embarazo, deben
cumplir. Esta dimensión queda especialmente marcada cuando se les pregunta
en la investigación sobre los elementos que las caracterizan como sujetos de
la reproducción. Tal hecho, advierte la autora, no debe ser entendido como
i
un paso atrás en la comprensión del género como una categoría relacional,
rev

porque permite subsumir elementos entrelazados en las redes de sentido que


or

constituyen a los géneros, y por tanto evidenciar los aspectos que muestran las
desigualdades en las relaciones entre hombres y mujeres.
Anna Carolina Horstmann Amorim titula su capítulo Óvulos, semen y
ara

certificados: Maternidades lésbicas y tecnologías reproductivas en Brasil.


A partir de un estudio etnográfico analiza las estrategias que siguen las
t

parejas de mujeres lésbicas (cuya identidad de género se corresponde


i

al sexo atribuido al nacer) que recurren a la reproducción asistida para


op

asegurarse la participación biológica mutua en la filiación.


d

Se focaliza en los dos modos de gestionar la participación biológica


de las mujeres de la pareja: la búsqueda de un donante de semen con
E

fenotipo similar a la mujer que no aporta su óvulo ni gesta a la futura


criatura de la pareja, o la técnica ROPA (recepción de óvulo de la pareja)
mediante la cual una de las mujeres de la pareja aporta el óvulo que luego
ver

será fecundado con semen donado y transferido al útero de la otra mujer.


Ambas estrategias enfatizan la relevancia del vínculo biológico para la
filiación y la ROPA da cuenta también de la importancia del doble aporte
biológico para la maternidad lésbica.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 27

Al mismo tiempo, Horstmann, concluye que procediendo así,


las mujeres habilitan un modo novedoso de parentalidad en el cual
la descendencia se inscribe en un sistema de filiación bilateral que, a
diferencia del tradicional, supone dos líneas de genealogía materna. Así, el

od V
r
parentesco se ve reformulado por las estrategias biogenéticas a las cuales

uto
recurren las parejas lésbicas evidenciando de este modo también su carácter
político. Desde allí dilucida las tramas de sentido que circundan dichos
procedimientos y los impactos que tienen sobre las personas, los cuerpos,

visã R
las relaciones sociales y las concepciones del parentesco en Brasil.

oa
Cecilia Straw titula su capítulo, La legislación sobre reproducción
humana médicamente asistida en la Argentina: disparidad, avances,
limitaciones, vacíos y respuestas de la jurisprudencia. En él describe de
forma completa la legislación sobre reproducción humana médicamente
C
asistida (TRHA) en la Argentina, y reflexiona sobre las principales
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consecuencias de la legislación vigente (falta de efectividad en el


cumplimiento de la ley nacional aportando datos de la jurisprudencia
reciente). Así presenta las múltiples leyes, decretos y reglamentaciones
a nivel nacional y provincial mostrando el panorama dispar respecto de
ra
los aspectos legislados en el que sobresalen los avances de la legislación
nacional, las limitaciones legislativas en algunos distritos provinciales, y la
a re

persistencia de importantes vacíos legales que revelan los perfiles injustos


en el ejercicio de los derechos a la salud, la salud reproductiva y a gozar de
los avances científicos, a la vez que potenciales aspectos riesgosos para la
ito

salud de las mujeres y los niños nacidos aplicando estas tecnologías como
par

para las donantes de gametos.


En definitiva, estos rasgos siguen enfrentando dos miradas jurídicas
sobre las problemáticas de las tecnologías reproductivas: una progresiva
o contemporánea y otra conservadora y restrictiva. (HERRERA; LAMM,
d

2013). Esta misma clave conservadora y restrictiva permite evaluar el


são

accionar de los gobiernos provinciales que no abordan esta materia, las


E

obras sociales y empresas de medicina prepaga que niegan la cobertura


integral y obligan a la judicialización de las demandas, y las demoras del
Ministerio de Salud de la Nación en actualizar el listado de prestaciones a
ver

las tecnologías disponibles como en dictar las reglamentaciones respecto


de las prácticas médicas y las donaciones de gametos, entre las cuestiones
principales . Paralelamente, frente al accionar de la Justicia con criterios
diversos se fortalece la idea sobre la relevancia y la urgencia de establecer
parámetros legislativos mediante la sanción de normas específicas.
28

Guadalupe Moreno titula su capítulo, Legislar sobre la Vida:


Los saberes autorizados y la regulación de la gestación por sustitución
en Argentina. En él analiza las respuestas legislativas que se dieron en
Argentina ante el desafío de regular las técnicas de reproducción asistida.
En particular, se focaliza sobre la propuesta contenida en el artículo 562 del

V
r
Proyecto de Ley de Reforma, Actualización y Unificación de los Códigos

uto
Civil y Comercial para legislar la gestación por sustitución, presentada en
el Congreso de la Nación en 2012.
Sostiene que la definición de la gestación por sustitución como

R
a
un tema de interés digno de atención legislativa no puede separarse del
momento histórico en el cual este tópico captó la atención de los juristas.

do
Así, su emergencia debe ser entendida en el contexto más amplio del
avance de los discursos sobre los derechos reproductivos y la igualdad
aC
de género, de gran importancia en Argentina durante los últimos años.

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


Se señala que en Argentina estos reclamos han estado tradicionalmente
são
enmarcados dentro de una retórica que alude a los derechos humanos, en
particular, al derecho a la salud, lo que trajo como consecuencia una fuerte
presencia del paradigma biomédico en este campo. Esto implica que las
i
políticas públicas en materia de derechos reproductivos estén fuertemente
rev

atravesadas por nociones como salud, enfermedad y normalidad.


El trabajo analiza la propuesta normativa con la que se intentó regular
or

la gestación por sustitución. Señala que los distintos incisos contenidos en


el artículo 562 del Proyecto reprodujeron usos y costumbres de la práctica
ara

médica, fijando como criterio de acceso (i) que las parejas contaran con un
criterio probado de infertilidad y (ii) que el niño por nacer tuviera vínculo
t

genético con sus futuros padres y no con la gestante. Al mismo tiempo el


trabajo pone de relieve la importancia que ha tenido la sanción de la ley
i
op

de matrimonio igualitario para promover la regulación de la maternidad


d

subrogada en Argentina.
En el plano teórico, el trabajo busca analizar la manera en que, el
volverse la reproducción un aspecto problemático y ser considerada
E

como un pathos, el Estado, con la ayuda de la medicina y el saber


jurídico, comienzan a “normalizarla”. A través de la implementación
ver

de distintas políticas reproductivas, el Estado promueve determinados


modelos de familia, que son defendidos apelando a criterios científicos
supuestamente universales y neutrales. Es en este cruce del saber médico
con los procesos políticos donde se hace evidente la injerencia creciente
de la medicina sobre ámbitos cada vez más alejados de su esfera de
influencia original de la infertilidad.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 29

Mariana Viera Cherro titula su capítulo, Moralidades y reproducción


asistida en el Río de la Plata. En él indaga las razones por las cuales emerge
como un asunto de disputa moral, el campo de la gestión de la donación
de material reproductivo femenino (óvulos). Este emergente resulta por lo

od V
r
menos sorpresivo en un contexto en el cual la aplicación de tecnologías

uto
reproductivas parece estar exenta de conflictos morales.
La autora comienza mostrando cómo se procesan, por parte de
especialistas en reproducción asistida de Buenos Aires (Argentina) y

visã R
Uruguay, algunos conflictos morales que surgen del ámbito social e

oa
interpelan el quehacer tecnológico reproductivo. La situación que la autora
elige como ejemplo de lo que pueden ser conflictos morales más amplios es
la intervención tecnológica para seleccionar el sexo del embrión. A partir
de la respuesta que se da desde la medicina reproductiva a esa posibilidad
C
tecnológica, Viera Cherro muestra cómo la moral se coloca por fuera del
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quehacer tecnológico.
Específicamente, en la disputa moral que emerge sobre los dos
diferentes modos de procesar el acceso a los óvulos donados (donación
pura y donación mixta) la moralidad de los procedimientos se evidencia
ra
como un asunto a comprender. Esta disputa, y su carácter evidente,
concluye la autora, parece ser más una consecuencia de diferencias entre
a re

los propios sujetos que intervienen en el área y sus modos de proceder que
de una visibilización de la dimensión moral de la gestión de gametos y
de la reproducción asistida de modo más amplio. Esto se sostiene porque
ito

otros procederes que también nos enfrentan como sociedad a dilemas


par

en torno a los modos de valorar la vida, los materiales biológicos, las


personas implicadas en los procedimientos y las relaciones sociales que se
configuran, permanecen moralmente incuestionados.
Sandra González Santos titula su capítulo, Peregrinar: El ritual de
d

la reproducción asistida. En él presenta la perspectiva de los sujetos que


são

recurren a la reproducción asistida en México. Sostiene que, si bien la


E

reproducción asistida es un asunto del que cada vez se tiene mayor


conocimiento, y sobre el que incluso han tematizado películas y series de
televisión, la perspectiva de los sujetos que peregrinan por los tratamientos
ver

ha sido en cambio poco abordada.


Partiendo desde este ángulo, y a partir de una etnografía multisituada
cuyo interés se centra en abordar las dimensiones socioculturales de la RA
en México, la autora se interesa por analizar como son ritualizadas por
quienes son destinatarios de las biotecnologías reproductivas. Esto significa
analizar las trayectorias reproductivas considerando los múltiples y
30

variados aspectos que en ellas se conjugan: etiologías diversas, condiciones


sociales-económicas dispares por parte de quienes recurren a la medicina
reproductiva así como razones diferentes para buscar una descendencia
biológica. También considera que, lejos de transitar por los tratamientos de
modo acrítico, los sujetos interpretan, incorporan, interpelan y transforman

V
r
las dimensiones sociales fundamentales con las cuales estas biotecnologías

uto
dialogan como son la reproducción y el parentesco.
En su trabajo, donde además se da cuenta de un profundo conocimiento
del campo de la RA en México, González Santos ilustra las negociaciones

R
a
que médicos, mujeres y varones entablan en el marco de este peregrinar,
demostrando cómo los conceptos técnicos utilizados pueden dar lugar a

do
interpretaciones diversas por parte de quienes las utilizan, y de cómo ese
peregrinar se realiza en un contexto de elementos dinámicos, contextuales
aC
y profundamente relacionados entre sí.

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


são Cecilia Straw
Eliane Vargas
Mariana Viera Cherro
Marlene Tamanini
i
rev
or
ara
di t op
E

ver
TECNOLOGIAS REPRODUTIVAS
E MATERIAL GENÉTICO DE TERCEIROS:
reflexões em torno de regulação,

od V
r
mercado e iniquidades

uto
Rosana Machin1

visã R
oa
Introdução C
O campo da reprodução assistida (RA) cresceu de forma significativa
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desde o registro do primeiro nascimento por meio de fertilização in vitro


(FIV), em 1978, no Reino Unido. Atualmente, configura um mercado que
movimenta bilhões de dólares2 envolvendo empresas transnacionais, clíni-
cas de fertilidade, bancos de sêmen, bancos de embriões, agências operan-
do na mediação de material genético de terceiros e de gestação substituta.
ra

Esse contexto ampliado passou a envolver não só múltiplos corpos como


a re

também localidades com regulações e práticas variadas, que se interco-


nectam visando suprir o desejo de constituir uma família, de ter um bebê.
Nesse sentido, as tecnologias reprodutivas (TR) fazem parte do mercado
o

contemporâneo global no qual o desenvolvimento técnico e contextos nor-


mativos específicos podem proporcionar o acesso à fertilidade de tercei-
par
ver dit

ros, numa perspectiva inserida cada vez mais numa lógica de consumo
de corpos e partes de corpos (biomaterial), envolvida por ideais de auto-
nomia, desejo, escolha e identidade. (MAMO, 2010; ALMELING, 2011;
COOPER; WALDBY, 2014).
são
E

1 Rosana Machin - Cientista Social, doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Tem pós-doutorado
pela University of London e University of Cambridge. Atualmente é docente da Faculdade de Medicina,
Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo. Têm experiência nas áreas de Sociologia
da Saúde e Saúde Coletiva, atuando principalmente nos seguintes temas: tecnologias reprodutivas, gênero,
corpo, saúde e trabalho. Publicações destacadas: MACHIN, Rosana. Anonimato e segredo na reprodução
humana com participação de doador: mudanças em perspectivas. Saúde e Sociedade. São Paulo, v. 25,
n.1, p. 83-95, 2016. MACHIN, Rosana. Sharing motherhood in lesbian reproductive practices. BioSocieties,
London, v. 9, n. 1, p. 42-59, 2014. E-mail: rmachin@usp.br
2 Nos Estados Unidos a indústria da fertilidade giraria em torno de quatro e meio bilhões de dólares ao
ano. (MAMO, 2010). Segundo dados do Centers for Disease Control and Prevention (2015) nasceram
em 2013, 67.996 crianças via 190.773 ciclos de reprodução assistida.
32

Uma das principais características da expansão do mercado em tec-


nologias reprodutivas voltadas à concepção é a ampliação do acesso à
fertilidade de outros (terceiros). Poder contar com a fertilidade de uma
terceira parte diz respeito ao acesso seja por meio de doação mediante
alguma ou nenhuma compensação3 ou mesmo comercialização de partes

V
r
essenciais nos ciclos reprodutivos biológicos como gametas (espermato-

uto
zoides, óvulos) ou gestação (útero substituto), para a ocorrência de uma
gravidez e nascimento de um bebê quando as pessoas envolvidas em trata-
mentos reprodutivos não podem contar com seu próprio corpo. (COOPER;

R
a
WALDBY, 2014). Essas práticas se tornaram biologicamente possíveis,
a partir do desenvolvimento das tecnologias reprodutivas com técnicas

do
como manipulação hormonal da ovulação, inseminação artificial (IA),
transferência de embriões, congelamento de sêmen e embriões.
aC
Assim, dependendo do problema de reprodução apresentado pode ser

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


necessário o uso de óvulos de terceiras devido à idade avançada da mulher,
são
falência ovariana prematura, má qualidade dos óvulos ou presença de doenças
hereditárias, entre outras situações. No caso da necessidade de sêmen de ter-
ceiros pode-se mencionar como razões o homem ser portador de uma doença
i
genética, de uma doença de transmissão sexual e que não seja possível elimi-
rev

nar o vírus do esperma, quando se detectam anomalias cromossômicas no es-


perma ou em caso de mulheres sem parceiro masculino. A gestação substituta
or

pode ser considerada para uma mulher que objetiva engravidar pela ausência
de útero (por nascimento ou realização de histerectomia), por condições em
ara

que a gestação é medicamente impossível ou envolve algum risco como no


caso de doenças cardíacas. (REDLARA, 2015a).
t

Casais heterossexuais têm sido os ‘legítimos’ usuários das tecnolo-


gias reprodutivas por serem reconhecidos pela medicina como aqueles
i
op

para os quais os tratamentos visam restaurar ou promover as característi-


d

cas tidas como inerentes à união heterossexual – a procriação. (MAMO,


2007; MACHIN, 2014). Casais homossexuais ou mesmo mulheres sol-
teiras eram percebidos como situações envoltas em questões éticas como
E

a literatura sociológica e antropológica que trata das TR já demonstrou.


(FRANKLIN; MCKINNON, 2001; THOMPSON, 2005; MAMO, 2007;
ver

LUCE, 2010). No entanto, o reconhecimento de mulheres solteiras e de


casais de mesmo sexo como usuários das TR tem crescido na última déca-
da em diversos países.

3 A compensação pode envolver reembolso de gastos realizados pelo doador como despesas de
transporte, alimentação, horas de trabalho perdidas ou ser de maiores somas dependendo de legislações
específicas de cada país relativas à doação de materiais biológicos.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 33

No Brasil essa possibilidade foi legalizada a partir de duas medidas: a


decisão do Supremo Tribunal Federal (2011) que, em maio de 2011, reconhe-
ceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo permitindo a esses casais
serem considerados uma unidade familiar como qualquer outra e do Conselho

od V
r
Federal de Medicina (2013), que com a Resolução no. 2013/2013 ampliou o

uto
acesso às técnicas para pessoas solteiras, casadas, com parceiro de sexo dife-
rente ou do mesmo sexo. Com essa mudança as técnicas deixam de estar volta-
das para um problema de saúde (infertilidade) e passam a ser disponibilizadas

visã R
para outras situações em que a reprodução não era possível.

oa
Sob a perspectiva da tecnologia podemos considerar como uma ino-
vação criada para responder a uma dada situação pode ter seu uso ampliado
ou mesmo deslocado para práticas não originalmente previstas. Esses des-
locamentos podem vir a alterar a nossa própria compreensão sobre o que
C
seja considerado normal. (FONSECA; SÁ, 2011). Se as normas e regula-
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

mentações legais e médicas guardam relação com as definições culturais e


contextos para as quais as técnicas se aplicam, a tecnologia não é estática
e novas percepções sociais tendem a tencionar e pressionar pela revisão de
suas práticas, forçando assim os limites de seu uso. (OLAVARRÍA, 2008).
ra
Nos processos de expansão do uso das tecnologias reprodutivas em
situações e territórios diversificados enfocamos o que vem sendo deno-
a re

minado de cross-border reproductive care ou fertility travel ou repro-


ductive tourism. (IKEMOTO, 2009; SPAR, 2005; CULLEY et al. 2009;
GOODWIN, 2010; SHENFIELD et al. 2010; INHORN; GÜRTIN, 2011;
ito

PFEFFER, 2011; KROLOKKE et al. 2012; COOPER; WALDBY, 2014).


par

Trata-se de um fenômeno de crescimento rápido na última década, que in-


terconecta medicina, legislação, atividade comercial e viagem. Ele ocorre
pelo movimento de pessoas visando o acesso às tecnologias reprodutivas
em países com regulação distinta daqueles no qual residem. Ligadas à ex-
d

pansão de mercados num contexto globalizado, viagens transnacionais de


são

pessoas, tecnologias e ideias têm se tornado cada vez mais usuais.


E

De acordo com Appadurai (1996), a moderna globalização envolveria


cinco paisagens globais: movimentos de pessoas, movimentos de tecnolo-
gias, movimentos de capital, movimento de mídia (imagens) e movimento
ver

de ideias. Todas essas paisagens são observáveis nos processos contempo-


râneos relativos à expansão das TRs.
Essa situação envolve um setor altamente rentável estabelecendo a
conexão entre países com dinâmicas econômico-sociais diferentes, com-
portando situações de iniquidades num contexto de distribuição diferencial
de tecnologia, direitos humanos, regulação, corpos (gestação substituta) e
34

material genético (células sexuais) para doação, compra/venda e uso (tra-


balho reprodutivo). (IKEMOTO, 2009; OMBELET, 2011; ALMELING,
2011; GURTIN; INHORN, 2011; COOPER; WALDBY, 2014; MAMO;
ALSTON-STEPNITZ, 2015).
Os termos utilizados tendem a designar situações bastante distintas.

V
r
Turismo reprodutivo (reproductive tourism ou fertility travel) é a meu ver

uto
a mais inadequada, pois confunde uma prática desconfortável e estressante
com lazer e tempo de relaxamento. Ademais, muitas pessoas certamen-
te prefeririam permanecer no seu país se houvessem circunstâncias favo-

R
a
ráveis. Cross-border reproductive care (CBRC) parece ser o termo mais
amplo permitindo abordar situações bastante distintas, que podem envol-

do
ver movimento efetivo de profissionais, de homens e mulheres em busca
de concepção, de ‘doadores’ de material genético (sêmen, óvulos) e de
aC
mulheres para gestação substituta, como igualmente a importação e ex-

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portação de gametas e embriões congelados. (GURTIN; INHORN, 2011).
são
Trata-se de termo proposto pela European Society of Human Reproduction
and Embriology (ESHRE).
Van Hoof e Pennings (2011) destacam um aspecto importante, que
i
distingue CBRC de uma busca por tratamento médico no exterior. A di-
rev

ferenciação está no aspecto legal, na medida em que uma das principais


razões para o interesse em tratamento além das fronteiras é burlar uma
or

restrição legal adotada por seu país de residência/cidadania. Nesse sentido,


eles observam que alguns países podem reagir punindo ou mesmo não
ara

reconhecendo o resultado dessas práticas quando não admitidas em seu


território como, por exemplo, no caso de uma criança nascida por gestação
t

substituta em outro país.


O crescimento desse mercado está relacionado à existência de regu-
i
op

lações distintas entre os países, que podem envolver proibição de acesso


d

para alguns perfis de usuários como casais não casados, lésbicas, gays,
mulheres e homens sem parceria (Japão, China, Turquia, Arábia Saudita),
existência de critérios quanto à cobertura das práticas em sistemas de saúde
E

nacionais (Reino Unido, Israel, França, Itália, Espanha), proibição da rea-


lização de algumas práticas como gestação substituta (Alemanha, Áustria,
ver

China, Dinamarca, França, Itália) e comercialização de sêmen e/ou óvulos


(França, Alemanha, Coreia, Brasil, Reino Unido). As normativas diferen-
ciadas têm levado pessoas a buscarem outros países onde a prática preten-
dida é liberada, por indicação de profissionais médicos existentes no seu
país de residência, por consulta a agências especializadas nessa prática ou
por envolver-se em procura direta na internet. (JONES et al., 2010).
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 35

Segundo Gurtin e Inhorn (2001), as principais razões identificadas para


essa busca poderiam ser agrupadas em quatro categorias: proibições legais ou
religiosas; considerações relacionadas aos custos envolvidos e não disponibili-
dade de TR no seu país; questões envolvendo a qualidade, segurança e resulta-

od V
r
do dos procedimentos e preferências pessoais (proximidade de apoio familiar).
Podemos mencionar ainda como elementos importantes para eleição

uto
de um país como destino a existência de boa estrutura de turismo e cri-
tério relacionado a visto de entrada, politicas governamentais de apoio a

visã R
tratamento médico para estrangeiros, disponibilidade de tradutores ou de

oa
atendimento em sua língua nativa. (WHITTAKER, 2011).
Esse mercado tem verificado disputas comerciais pelo aumento da
disponibilidade das TR em localidades que apresentam custos mais baixos
que os praticados na Europa Ocidental e América do Norte, particular-
C
mente, em países do Sudeste Asiático (para gestação substituta) e do Leste
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Europeu (para venda de óvulos) o que tem colaborado para o crescimento


de demanda em algumas áreas como se mostrará a seguir. (JONES et al.,
2010; COOPER; WALDBY, 2014).
No Brasil é vetada a comercialização do material genético de terceiros.
Contudo, têm crescido a importação de sêmen estrangeiro para as práticas re-
ra

alizadas no país. (MACHIN, 2014; MACHIN; COUTO, 2014). Em 2013, a


ANVISA autorizou a importação de 32 amostras, 205 em 2014 e, até junho
a re

de 2015, já ocorreram 135 importações. (NEUMAM, 2015). Significativo do


crescimento desse mercado foi a abertura de um escritório em São Paulo de
ito

um dos maiores bancos de sêmen dos Estados Unidos objetivando facilitar o


trabalho de importação desse material. Outro aspecto relativo a conexão do
par

país com esse mercado global é o acesso de brasileiras ao uso de gestação


substituta no exterior, como o caso reportado na imprensa de uma jornalista
que contratou uma mulher na Índia, em 2013, para conceber seus bebês e esta-
d

va lançando um livro relatando sua história. (MANIR, 2016).


O presente capítulo aborda o contexto de desenvolvimento das tecno-
são

logias reprodutivas pela ampliação e acesso à fertilidade de terceiros (sê-


E

men e óvulos) nas suas conexões com a questão do mercado reprodutivo,


da regulação e de iniquidades.
ver

Bancos de sêmen

A primeira das práticas associadas à reprodução assistida a se tornar


comercialmente disponível foi àquela relativa aos bancos de sêmen. Estes
passaram de uma atividade essencialmente médica no que diz respeito ao
recrutamento e escolha da amostra mais adequada para um determinado
36

casal, por volta de 1920 a 1960, para outra na qual após a seleção de doa-
dores pelos médicos o consumidor pode diretamente comprar e escolher a
amostra mais conveniente por meio de sites disponíveis na internet, a partir
dos anos 1960. (MAMO, 2010).
Data de 1950, o primeiro artigo publicado na Fertility and Sterility pro-

V
r
pondo a inseminação artificial com sêmen doado como tratamento voltado a

uto
infertilidade, mas ainda cercada de ideias relativas ao adultério e ilegitimidade
do filho concebido por meio dessa técnica. (ALMELING, 2011).
O uso da técnica ocorria, mas ainda cercado de questionamentos mo-

R
a
rais e segredos, na medida em que, sob o ponto de vista da igreja, o proces-
so realizado por meio do ato de masturbação feria os votos do casamento.

do
No entanto, mesmo cercada por algumas restrições a prática vai sendo ex-
pandida e, em 1938, foi criado um centro de doação de esperma vinculado
aC
a Georgetown University School of Medicine com material oriundo de es-

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tudantes de medicina. (DANIELS; GOLDEN, 2004).
são
Nesse período se dissemina a discussão quanto à correspondência ne-
cessária das características fenotípicas do provedor com as características do
receptor (o homem do casal) objetivando não levantar suspeitas quanto ao
i
vínculo da criança concebida com o casal. Nesse contexto surge também a
rev

preocupação com a escolha reprodutiva oferecer um potencial para produzir


bebês melhores, a partir de um processo de escolha cuidadosa do doador4 que
or

o banco de sêmen pode proporcionar. (DANIELS; GOLDEN, 2004).


O trabalho desenvolvido nesse contexto implicava uma importante
ara

vinculação dos médicos com seus pacientes na escolha das amostras mais
adequadas para os procedimentos. O desenvolvimento do congelamento
t

de material genético e o surgimento das tecnologias reprodutivas vão mo-


dificar esse quadro. Pode-se dizer que a chegada do congelamento cria efe-
i
op

tivamente as condições para a expansão dos bancos de sêmen. Em 1953,


d

houve o relato do nascimento dos primeiros bebês a partir de sêmen con-


gelado. (DANIELS; GOLDEN, 2004). Mas, é somente com o surgimento
da AIDS que as amostras utilizadas passam a serem todas congeladas. Sem
E

dúvida a facilidade de obtenção de sêmen (via ejaculação) em oposição


aquela que envolve a captação e transferência de óvulos (via procedimento
ver

cirúrgico) efetivamente promoveu sua inserção numa economia de escala


industrial. (COOPER; WALDBY, 2014).

4 O homem que contribui com seu sêmen tem sido tradicionalmente chamado de doador. Contudo, o
termo guarda imprecisões, particularmente, quando há pagamento monetário envolvido. Optou-se por
utilizar a expressão provedor. (DANIELS; HAIMES, 1998).
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 37

Dois dos maiores bancos de sêmen existentes atuando no mercado


global estão localizados na Dinamarca e nos Estados Unidos, sendo res-
ponsáveis pela maior exportação de sêmen humano. (IKEMOTO, 2009).
Na Dinamarca o Cryos Company foi criado no começo dos anos 1980 e,

od V
r
atualmente, exporta espermatozoides para cerca de quarenta (40) países

uto
incluindo Reino Unido e Estados Unidos. (COHEN, 2006). Nos Estados
Unidos existem mais de cem (100) bancos de sêmen e quatrocentas e ses-
senta e sete (467) clínicas de infertilidade segundo o Centers for Disease

visã R
Control and Prevention (2015).

oa
Os provedores, em regra, precisam atender a certos perfis médicos,
psicológicos e educacionais. Muitos fornecedores são rejeitados se con-
siderados muito jovens (menos de 21 anos) ou muito velhos (mais de 35
anos); se são muito baixos (menos de 1.76 cm) ou muito altos (mais de
C
1.88 cm); se são muito gordos ou magros; se são adotados ou tem pais
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adotivos (em razão de não poderem fornecer dados completos sobre gené-
tica). Outras razões que impedem a venda do material genético são homens
que fazem ou fizeram sexo com homens ou com mulheres que tenham
tido sexo com homens bissexuais ou com muitos parceiros. (MACHIN;
ra
COUTO, 2014). Passando nessa primeira seleção, devem informar sobre
histórico de saúde pessoal e de antecedentes (às vezes até cinco gerações),
a re

realizar testagem para uso de drogas ilícitas, sorologias (HIV, hepatites,


doenças sexualmente transmissíveis) e espermograma. Concluídos os tes-
tes, os provedores são numerados e categorizados por raça e origem étnica.
ito

Um dos maiores bancos de sêmen nos Estados Unidos o California


par

Cryobank enfatiza, que somente 1% daqueles que se candidatam são acei-


tos. A maior parte das recusas diz respeito ao candidato não apresentar
altas contagens de espermatozoides que são requeridas. A seleção implica
a aceitação tácita de participar do programa (relacionamento contratual
d

de doze a dezoito meses) correspondendo ao investimento feito no seu re-


são

crutamento o que envolve o fornecimento de amostras com regularidade e


E

adoção de cuidados de saúde visando à manutenção de altas contagens de


seu sêmen. (ALMELING, 2011; COOPER; WALDBY, 2014).
Assim, provedores de sêmen devem governar suas condutas visando
ver

não comprometer o valor do bem que objetivam fornecer conforme bem


observado por Rose (2007). Muitos dos provedores são recrutados junto
a universidades de prestígio havendo grande valorização por graduados
e pós-graduados. (DANIELS; GOLDEN, 2004). Um provedor costuma
receber por uma amostra de sêmen a quantia de setenta e cinco dólares
americanos. (ALMELING, 2011). No mercado uma amostra pode custar
38

cerca de mil e setecentos dólares valor este que pode ser maior a julgar pela
qualificação do provedor e do acréscimo de taxas extras que possibilitem
ter mais informações sobre seu perfil.
Provedores de sêmen devem corresponder a um perfil de corpos en-
volvidos em práticas saudáveis e ter alta escolaridade, pois são contratados

V
r
para produzir material genético ‘de qualidade’ e igualmente corporificar

uto
um ideal de masculinidade. (MACHIN; COUTO, 2014). De acordo com
Daniels (2006) a indústria de sêmen trabalha com um ideal de masculini-
dade ocidental no qual, a aprovação na seleção como provedor, diz respei-

R
a
to não unicamente a um perfil de saúde, mas à sua proximidade a valores:
alto, magro, bonito, bem-educado e atlético. Esse imaginário de masculini-

do
dade é captado pelos consumidores, que “se encantam” com a possibilida-
de de escolha oferecida pelos catálogos na promoção do papel da “semente
aC
masculina” na qualidade da reprodução. (DANIELS, 2006; SCHMIDT;

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MOORE, 1998). são
O crescimento dessa indústria nos Estados Unidos nas últimas duas
décadas revela o lugar atribuído ao desejo de obter material genético vi-
sando uma filiação com determinadas características e a prevalência de
i
hierarquias sociais específicas conforme apontado por Daniels (2006),
rev

Daniels e Golden (2004), Daniels e Haimes (1998) e Schmidt e Moore


(1998). Os bancos de sêmen trabalham com a demanda do consumidor e
or

valorizam seu “potencial” para agregar valor ao material que comerciali-


zam, criando todo um imaginário que articula as possibilidades da ciência
ara

em selecionar os provedores mais adequados para proporcionar o “melhor


bebê”. (DANIELS, 2006).
t

Importante destacar que um impulso significativo para o desenvolvi-


mento da indústria de sêmen está associado a mudança do perfil da clien-
i
op

tela com a presença significativa de mulheres solteiras e casais de lésbicas


d

envolvidas na construção de um projeto de filiação. (ALMELING, 2011).


Muitos países admitem o uso de sêmen de uma terceira parte nos pro-
cessos reprodutivos, contudo não permitem a comercialização do material
E

genético. Alguns preveem o reembolso de despesas (denominado compen-


sação), que os doadores possam ter tido com alimentação e transporte para
ver

realizar a doação, como no caso do Reino Unido. No Brasil, os doadores


não podem receber por lei nenhum valor para evitar que se caracterize uma
relação comercial. (CFM, 2013).
Existem no país somente dois bancos de sêmen, localizados na ci-
dade de São Paulo, responsáveis pelo fornecimento de amostras a diver-
sas clínicas e mesmo a outros países na América Latina. Como o sêmen
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 39

não pode ser comercializado bancos e clínicas de reprodução assistida


mencionam haver muita dificuldade na obtenção de provedores. A pouca
disponibilidade de sêmen tem levado as clínicas a importar amostras dos
Estados Unidos, especialmente, para procedimentos envolvendo lésbicas.

od V
r
(MACHIN; COUTO, 2014).

uto
Mercado de óvulos

visã R
Inicialmente, as práticas de fertilização envolviam o uso de óvulos das

oa
próprias mulheres submetidas aos procedimentos. A retirada do óvulo do
corpo feminino para processos exteriores a seu corpo, como a fecundação
e formação do embrião possibilitado pelo encontro com o espermatozoide,
C
para posterior implantação uterina nessa mulher era considerada prática
aceitável de intervenção na concepção. (IKEMOTO, 2010). Contudo, as
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técnicas reprodutivas foram abrindo outras possibilidades para mulheres,


que não podiam contar com seus próprios óvulos para conceber tornando,
inicialmente, as familiares as primeiras colaboradoras no fornecimento de
óvulos para aquelas que estavam em tratamento. Posteriormente, o acesso
ra

aos óvulos de terceiras foi se tornando uma prática usual.


No caso brasileiro identifiquei em pesquisa realizada em 1999
a re

(BARBOSA, 2003), o primeiro programa de doação compartilhada de


óvulos no país, que possibilitava a uma mulher em tratamento numa clí-
ito

nica privada e precisando de óvulos, pagar a medicação a uma mulher em


tratamento no serviço público, mas que não dispunha de recursos para a
par

medicação. Esta última produzia óvulos para seu próprio uso e doava me-
tade da produção para a mulher em atendimento na clínica privada. Esse
modelo é bastante usado no país, na medida em que a comercialização de
óvulos não é permitida, vigorando inclusive o anonimato entre as partes o
d

que impede o acesso a óvulos de familiares.


são

No mercado da fertilidade o comércio de óvulos tem sido crescente


E

a despeito de ser uma prática rejeitada por normativas de diversos países.


Para localizar possíveis doadores de óvulos muitos médicos, inicialmente,
ver

pediam para as mulheres em tratamento reprodutivo doarem seus óvulos


excedentes. A partir do final dos anos 1980, o comércio de óvulos passou a
ser uma prática acompanhada de gestação substituta, particularmente, nos
Estados Unidos5. (IKEMOTO, 2010; SPAR, 2010).

5 Importante destacar que nos Estados Unidos a legislação relativa às técnicas reprodutivas é estadual.
Cerca de metade dos estados restringem a venda de óvulos ou embriões. A chamada indústria da
fertilidade ocorre principalmente na Califórnia, onde práticas como gestação substituta, compra e venda
40

A obtenção de óvulos para procedimentos de fertilização in vitro


envolvem processos mais complexos e invasivos do que aqueles relati-
vos ao sêmen. É necessário que a mulher se submeta a uma estimulação
ovariana, para que possa haver a maturação de um número maior de
óvulos (mais que a produção singular mensal) independente do proce-

V
r
dimento ser para uso próprio ou de uma terceira parte. Esse processo

uto
envolve intensa intervenção medicamentosa e procedimento cirúrgico
com sedação para aspiração dos folículos. Há relativos riscos relacio-
nados ao processo no período de indução da ovulação como desconfor-

R
a
to, dor, inflamação abdominal e possibilidade de desenvolver síndrome
de hiperestimulação ovariana (entre 2 a 5% dos casos), como também

do
de ocorrer uma perfuração interna durante a punção para aspiração dos
folículos. (ALMELING, 2012; COOPER; WALDBY, 2014).
aC
Se a provisão de sêmen realizada a partir de um processo fisioló-

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gico masculino, numa atividade de baixo risco e passível de congela-
são
mento possibilitaram o estabelecimento de uma indústria, no caso de
óvulos o processo é realizado por meio de uma encomenda6 a partir do
estabelecimento de correspondências fenotípicas e similaridades gené-
i
ticas desejadas entre provedoras e receptoras. A busca por provedoras
rev

de óvulos é feita, em regra, pela publicação de anúncios mencionando


as características procuradas.
or

O estudo de Almeling (2012) revela com extrema riqueza o funcio-


namento do mercado americano envolvendo a compra e venda de células
ara

sexuais. Resultado de uma vasta pesquisa envolvendo bancos de sêmen,


agências de óvulos, mulheres e homens que comercializam suas células
t

sexuais, a autora mostra como este mercado é estruturado numa perspec-


tiva de gênero. Nele os provedores de sêmen têm os valores pagos pelas
i
op

suas amostras prefixados e comportando pouca variação entre os bancos de


d

sêmen. Já no caso dos óvulos eles são negociados comportando variações


no valor dependendo das qualificações da provedora. Uma mulher pode
receber por seus óvulos de $2,500 a $5,000 mil dólares por ciclo.
E

Bancos de sêmen e Agências de óvulos se referem de forma consistente


às mulheres e homens, que produzem óvulos e sêmen como doadores(as) a
ver

despeito do contexto de mercado envolvido. A atividade dos homens nesse


processo é tida pelas empresas como a realização de um trabalho (“job”)

de óvulos e sêmen são realizadas. A esse respeito, Goodwin (2010), Ertman (2010), Almeling (2011) e
Cooper; Waldby (2014).
6 O resultado das TRs com uso de óvulos previamente congelados continua sendo baixo. A esse respeito,
Goodwin (2010), Ertman (2010), Almeling (2011) e Cooper; Waldby (2014).
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 41

para obter recursos para financiar os estudos ou mesmo pagar despesas


pessoais. Já no caso das mulheres sua prática é considerada como de al-
guém que deseja doar (“gift”) para ajudar pessoas que não conseguem ter
filhos. Essa visão altruísta como motivação para a prática feminina é bas-

od V
r
tante valorizada pelas agências, de tal forma que mulheres que enfatizem

uto
maior interesse financeiro para ‘doar’ correm o risco de serem descartadas
pelos agenciadores. (ALMELING, 2011).
Nesse contexto óvulos são obtidos por meio de uma encomenda pac-

visã R
tuada através de um contrato reprodutivo celebrado entre as partes esta-

oa
belecendo em termos legais como se dará o processo. Nele a mulher se
compromete com a produção e entrega de um bem (seus óvulos) mediante
o recebimento de uma determinada quantia monetária.
Cooper e Waldby (2014) descrevem esse processo em termos da con-
C
formação de um contrato de trabalho em que partes do corpo são nego-
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ciadas como um bem que se possui e/ou produz. A esse respeito Cahn
(2010) observa que The George Washington University Medical Center,
nos Estados Unidos, paga pelos óvulos destacando que se trata de rendi-
mentos de trabalho e devendo a quantia ser declarada no imposto de renda.
ra
Essa situação contratual é particularmente observável quando há disputas
em que a Suprema Corte de Justiça tem reafirmado o lugar do contrato na
a re

perspectiva de uma atividade de trabalho.


Os óvulos captados nos Estados Unidos costumam ser utilizados em
procedimentos de reprodução assistida realizados no próprio país por de-
ito

mandantes locais ou por não residentes, que viajam em busca das práticas
par

disponíveis neste país. Mas, na perspectiva do cross-border reprodutive


care (CBRC) tem crescido a prática da movimentação de células e de em-
briões de forma global sem que os interessados precisem sair de seu país
de residência. Assim, há situações de formação de embriões com células
d

sexuais adquiridas no país por serviços de reprodução assistida e, poste-


são

riormente, congelados e enviados para outros países como, por exemplo,


E

Israel. (COOPER; WALDBY, 2014).


Segundo dados do Centers for Disease Control and Prevention,
Division of Reproductive Health (2015) dos Estados Unidos, em 2013 fo-
ver

ram realizados 190.773 ciclos reprodutivos em 467 clínicas americanas.


Destes 19.998 ciclos contaram com o uso de óvulos “doados”, ou seja,
10,5%. Mulheres acima de 40 anos de idade corresponderam as maiores
usuárias de óvulos de terceiras, nesta situação 88% das que realizaram o
procedimento tinham mais de 48 anos de idade.
42

No caso da Europa a maior parte das doadoras de óvulos vem de


países do Leste Europeu. São mulheres jovens, moradoras de ex-países
socialistas e se encontram numa economia retraída com restritas possibili-
dades de trabalho. São ucranianas, tchecas, romenas, búlgaras e polonesas,
que mostram a conexão existente entre vulnerabilidade econômica e venda

V
r
de óvulos. A normativa europeia não permite a venda de óvulos, mas a

uto
compensação financeira de quem está doando. Contudo, as práticas nesse
contexto revelam que é difícil separar a compensação de processos de mo-
netarização realizados.

R
a
Assim, na Espanha funciona uma concepção de compensação mais am-
pliada e os óvulos podem render de $900 a $1.200 euros para as provedoras.

do
Na República Tcheca os valores giram em torno de $600 euros. A postura
adotada pela compensação mais ampliada adotada pela Espanha pressionou o
aC
Reino Unido a rever sua normativa, na medida em que estava verificando uma

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diminuição de mulheres que se dispunham a fazer a doação. No Reino Unido a
são
compensação é mais restrita sendo admitido o reembolso de algumas despesas
mediante a apresentação de recibos. Atualmente, o valor fixado no país é de até
$750 libras esterlinas objetivando se aproximar do valor definido na Espanha.
i
(COOPER; WALDBY, 2014).
rev

É importante considerar que a preferência por óvulos de mulheres do


Leste Europeu ocorre num contexto em que estas mulheres personificam
or

características genéticas e fenotípicas valorizadas pelos principais deman-


dantes, como serem brancas, terem cabelos e olhos claros.
ara

Nesse sentido, as mulheres romenas são as principais fornecedoras de


óvulos para clínicas de RA de Israel, que atuam diretamente na Romênia.
t

(NAHMAN, 2008; 2011) por possuírem um perfil de brancas europeias.


Algumas mulheres chegam a configurar uma relativa “carreira” de forne-
i
op

cedoras realizando os procedimentos diversas vezes. Recebem por proce-


d

dimento (ciclo) cerca de $200 dólares.


O Estado de Israel possui uma política demográfica (pró-natalista) e
subsidia parte expressiva dos procedimentos. As mulheres romenas são
E

medicadas para produzirem óvulos em Bucareste e um médico e um em-


briologista viajam de Israel a Bucareste transportando os espermatozoides
ver

congelados, que serão utilizados. Eles extraem os óvulos da mulher rome-


na e os associam com os espermatozoides trazidos de Israel. Assim que os
embriões estão formados, são congelados e levados para Israel para serem
implantados no útero da mulher que os encomendou. (NAHMAN, 2011).
O mapa do mercado de óvulos da Europa envolve compradores
do Norte e Oeste em viagem para clínicas e serviços no Sul e Leste do
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 43

continente. Assim, países com maiores restrições à doação de óvulos ou


que proíbem sua compensação como Alemanha, França, Holanda e Suécia
costumam fornecer as demandantes para países como Espanha, República
Tcheca e Ucrânia por possuírem regulações menos restritas. (COOPER;

od V
r
WALDBY, 2014).

uto
Estudo realizado por Shenfield (et al., 2010) com 1.230 pacientes euro-
peias revelou, que um quarto destas estavam em busca de tratamento repro-
dutivo fora de seu país por necessitarem de óvulos. Enquanto alemãs indicam

visã R
uma preferência por óvulos de mulheres tchecas, outras nacionalidades como

oa
britânicas e italianas preferem se dirigir para a Espanha para obter óvulos ex-
traídos de universitárias espanholas e imigrantes latino americanas. Essas ‘pre-
ferências’ podem envolver uma articulação de aspectos amplos como menores
custos, proximidade geográfica, possibilidade de terem despesas com procedi-
C
mentos ressarcidas e perfil fenotípico desejado.
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Mercado reprodutivo e regulação

No contexto de um fenômeno amplo os movimentos em busca de TR


ra

envolvem fatores como legislação, normas sociais, ideais étnico-raciais


e diferenças relacionadas aos custos envolvidos. Distinções relativas às
a re

regulamentações existentes em TR em cada país tem configurado um ele-


mento importante no processo de busca de tratamento reprodutivo no exte-
ito

rior. Restrições legais de uso em alguns países podem figurar como incen-
tivo para o deslocamento em busca de tecnologia disponível em outro país.
par

Um ponto relevante a ser considerado no marco das diferentes regu-


lações é relativo ao principio do anonimato. O segredo e o anonimato que
sempre envolveu os doadores de gametas têm sido desafiados. Nos últimos
vinte anos, diversos países alteraram sua legislação adotando a identidade
d

aberta do doador de material genético. A abolição das práticas de anoni-


são

mato está baseada na consideração do bem-estar das crianças nascidas, ha-


E

vendo atualmente um intenso debate sobre as consequências negativas de


se omitirem as informações aos envolvidos. A possibilidade de conhecer
ver

e ter acesso a esta identidade (chegando à maioridade) ou mesmo a busca


por meios irmãos pode ser uma realidade em muitos países para crianças
nascidas por meio do acesso à tecnologia reprodutiva.
Nesse sentido, países como a Suécia (1985), Suíça (1985), Áustria
(1992), Nova Zelândia (1994), alguns estados da Austrália (1995), Holanda
(2004), Noruega (2005), Reino Unido (2005), Alemanha (2006) e Canadá
(2011, no estado de British Columbia) já aboliram práticas de anonimato
44

nas situações de doação de material genético (open-identity gamete dona-


tion). Islândia, Bélgica e Estados Unidos admitem práticas com anonimato
e sem anonimato. Em 2006, foi lançada a diretiva da União Europeia (The
European Tissue Directive) estipulando a manutenção dos registros sobre
as práticas realizadas com o uso de material genético por pelo menos trinta

V
r
anos. (FRITH, 2001; TURKMENDAG, 2012).

uto
A questão do anonimato figura como um elemento importante em muitas
situações de busca por sêmen ou óvulos. Estudos indicam que a remoção do
anonimato na Suécia trouxe um impacto negativo na demanda e recrutamento

R
a
dos doadores de gameta. (TURKMENDAG et al., 2008; COOK et al., 1995).
E muitas demandas por material genético de terceiros podem envolver busca

do
por localidades onde vigora o principio do anonimato.
Na Espanha, por exemplo, vigora o princípio do anonimato e, nos
aC
últimos anos, vêm se tornando um dos principais destinos europeus en-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


tre aquelas que buscam óvulos. Nesse contexto, residentes procedentes da
são
Suécia, Noruega e Alemanha onde o anonimato foi abolido diminuindo a
disponibilidade de sêmen procuram por este na Dinamarca, que atua me-
diante provedores anônimos. Nos Estados Unidos é possível se adquirir
i
sêmen com identidade aberta ou anônima o que têm possibilitado a venda
rev

desse material para vários países.


Considerando a perspectiva de expansão do mercado reprodutivo
or

Ikemoto (2009) chama a atenção para o fato de que alguns países figuram
como ponto de destino e outros como ponto de partida com relação às
ara

práticas buscadas. Se os pontos de partida estão relacionados a clientes


procedentes de países desenvolvidos com poder aquisitivo para pagar os
t

altos custos envolvidos nos procedimentos de RA, os pontos de destino


costumam serem países de economia menos desenvolvida.
i
op

O desenvolvimento de clínicas e serviços reprodutivos competiti-


d

vos na República Tcheca, aliado ao fato de agenciar a obtenção de óvulos


mediante anonimato, a colocou como um ponto de destino no continente.
Outros países figuram como ponto de partida e também de destino como
E

os Estados Unidos pelas práticas disponíveis e pela diversidade racial. A


Índia atua como um importante ponto de destino relacionado à prática de
ver

gestação substituta para casais da Austrália, Estados Unidos e Europa por


apresentar valores mais baixos que aqueles praticados nos Estados Unidos.
(COOPER; WALDBY, 2014).
A Itália foi durante muito tempo um local onde as práticas reproduti-
vas eram pouco reguladas, tendo se notabilizado por números significati-
vos de gravidezes de mulheres em período pós-menopausa atraindo várias
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 45

mulheres de outros países para suas clínicas. No entanto, em 2004, o país


adota uma legislação mais restritiva que entre outras ações só permite RA
em casais heterossexuais casados ou vivendo juntos, baniu o uso de sê-
men e óvulos de terceiras partes e mesmo a criopreservação de embriões.

od V
r
(COHEN, 2006). Isso acarretou sua mudança de ponto de destino para

uto
ponto de partida. (IKEMOTO, 2009).
É importante registrar que muitos serviços de reprodução assistida
têm se estabelecido como destinos turísticos médicos baseados na oferta

visã R
de subsídios estatais e taxações diferenciadas, particularmente, em países

oa
em desenvolvimento. (PFEFFER, 2011).
Segundo Whittaker (2011), em 2004, o governo da Tailândia estabe-
leceu estratégias para estimular viagens por razões médicas ao país, por
meio do estabelecimento de hospitais bem equipados, equipe médica bem
C
treinada e custos diferenciais. Nesse contexto o país passou a configurar
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

um destino para práticas reprodutivas na região recebendo interessadas


procedentes de outros países da Ásia, Estados Unidos e Europa. Singapura,
Malásia e Coreia do Sul também figuram como destinados para TR, espe-
cialmente, para pacientes regionais.
ra
Essa situação acaba por estabelecer uma nova perspectiva, já que a
mobilidade de pessoas em busca de tratamento médico esteve no passado
a re

associada à busca por cuidados especializados em saúde em países de-


senvolvidos. O estímulo para que estrangeiros se desloquem para países
em desenvolvimento tem se configurado numa nova estratégia econômica
ito

facilitada pelo crescimento de hospitais privados, comunicação global am-


par

pliada e portabilidade de seguros de saúde. (WHITAKKER, 2011).


Para países em desenvolvimento o estímulo a esse mercado de servi-
ços médicos para estrangeiros encoraja o estabelecimento de tecnologias
sofisticadas e de alto custo, que tendem, muitas vezes, a conviver com
d

recursos públicos em saúde insuficientes para responder as demandas da


são

maioria da população.
E

Destaca-se também na conformação do mercado em RA o estabe-


lecimento de associação entre diferentes provedores de sêmen e óvulos,
clínicas e laboratórios de diferentes localidades. Assim, Ikemoto (2009)
ver

menciona afiliação entre clínica dos Estados Unidos e da Romênia


usando doação de óvulos da Romênia, fertilizados em Bucareste, trans-
portados posteriormente para os Estados Unidos. Ou a existência de
clínicas transnacionais como Nordica IVF Clinics com atuação em di-
ferentes continentes. A clinica IVI da Espanha está presente no México,
Chile e inclusive no Brasil.
46

Ademais, surgem também empresas baseadas no agenciamento de


todo o processo relacionado à TR no exterior. Usualmente possuem liga-
ção com alguns serviços e se responsabilizam por providenciar desde o
pacote de viagem como voos, acomodação, translados, serviços clínicos
e contratos com mulheres para gestação substituta ou mesmo doadoras de

V
r
óvulos. (WHITTAKER, 2011).

uto
Em 2010, um estudo da European Society of Human Reproduction
and Embriology (ESHRE). Shenfield, (2010) indicou que aproximada-
mente 14.000 pacientes procuram tratamento reprodutivo fora de seu

R
a
país anualmente.
Segundo o International Commitee Monitoring Assisted Reprodutive

do
Technologies (ICMART), comitê que registra os dados relativos a vários re-
gistros nacionais e regionais, considerando os ciclos reprodutivos realizados
aC
por meio de FIV e ICSI, no ano de 2010, a Europa concentra a maior par-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


te dos ciclos realizados com 48%, seguida por Ásia com 27%, América do
são
Norte com 13%, Austrália e Nova Zelândia com 5%, América Latina e Oriente
Médico com 3% cada um e África com 1%. Para podermos ter uma melhor
dimensão numérica desse contexto verificamos entre os países que realizaram
i
mais de 40.000 ciclos reprodutivos em 2010: Japão – 241.089, Estados Unidos
rev

– 137.551, França – 80.919, Alemanha – 69.596, Reino Unido - 57.482, Itália


– 55.201, Austrália – 54.727 e Espanha – 53.717. (REDLARA, 2010).
or

Em 2008, esse mesmo comitê realizou um estudo sobre a prevalência


e as razões para busca de RA fora do território de residência dos interes-
ara

sados. (NYGREN et al. 2010). Quarenta e nove (49) países foram consul-
tados e indicaram que em 2006, um total de 5.090 ciclos reprodutivos foi
t

realizado no exterior. A maior parte deles ocorreu em razão de restrições


legais no país de origem em busca, principalmente, de ‘doação de óvu-
i
op

los’ anônima no exterior. Nesse estudo o Brasil aparece como destino de


d

interessados procedentes de alguns países da América Latina juntamente


com Argentina, Chile e Colômbia, para práticas como FIV e diagnóstico
genético pré-implantacional.
E

O estabelecimento dessa indústria global de fertilidade mostra como o


aporte tecnológico no campo reprodutivo com o apoio de novas facilidades
ver

de comunicação proporcionadas pela internet possibilita a superação de


restrições internas (locais) na busca da realização de valores como aspira-
ções conjugais, formação de uma família alternativa e laços de parentesco.
Mas, se esse mercado em expansão pode indicar as ‘novidades’ que a tec-
nologia vem permitindo construir, um olhar mais apurado na perspectiva
sociopolítica e ética dos processos envolvidos nos mostra velhas questões
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 47

como a institucionalização de iniquidades de gênero, estratificação eco-


nômica, exploração de grupos vulneráveis, realização de uma prática que
envolve riscos como no caso das ‘doadoras’ de óvulos. Nesse contexto
algumas mulheres se transformam em fonte de ‘bens’ disponíveis para ou-

od V
r
tras mulheres, que atuam como consumidoras destes corpos e suas partes.

uto
No mundo globalizado o consumo tem sido transformado cada vez
mais no caminho para a liberdade, a felicidade e o poder. Discursos basea-
dos na autonomia dos sujeitos para construir suas escolhas, especialmente,

visã R
em se tratando de liberdade para estabelecer contratos no mercado têm

oa
sido a tônica capitalista produzindo tensões em termos de direitos huma-
nos e princípios democráticos em escala ampla.
Nessa perspectiva reprodução se conecta com consumo fornecendo
um quadro que permite explorar necessidades, desejos, ideais culturais
C
a partir da aquisição de serviços e bens para viabilizar sua reprodução.
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(FLETCHER, 2006).
Segundo Pfeffer (2011), o comércio de óvulos e o mercado reprodutivo
global precisam ser compreendidos a partir das políticas neoliberais de globa-
lização, por meio das quais se estratifica a reprodução a partir de alguns mar-
ra
cadores como nacionalidade, raça, economia e gênero. Este processo ocorre
por meio do amparo reprodutivo de uma elite feminina e estabelecimento de
a re

outras mulheres, em regra, pobres de países em desenvolvimento, para atuar


como um grupo ‘biodisponível’ para a venda de óvulos em troca de relativos
ganhos monetários, numa prática que envolve riscos. (COHEN, 2005). Nesse
ito

sentido, a biodisponibilidade tal como formulada por Cohen (2005) indica a


par

ocorrência de uma seletiva desagregação de células ou tecidos para incorpora-


ção em outro corpo, num processo particular em que algumas são considera-
das mais biodisponíveis que outras, em razão de suas piores condições de vida.
Se as diferenças normativas existentes entre os países podem alimen-
d

tar práticas comerciais que levam a exploração de grupos sociais mais


são

vulneráveis, nenhum sistema legal pode conseguir eliminar ou controlar


E

a busca por reprodução ou material genético de terceiros no exterior, na


medida em que leis internacionais continuam a reconhecer o território e a
nacionalidade como princípios básicos do Estado para estabelecer compe-
ver

tência legislativa dentro de suas fronteiras. (STORROW, 2011).


Em 2010, a Turquia baniu a realização de TR no exterior envolvendo
terceira parte, alegando que isso torna obscuro para a criança nascida in-
formações sobre seus ancestrais, com punição de um a três anos de prisão.
No entanto, não é possível precisar o quanto esse tipo de legislação pode
de fato eliminar essas práticas. (GURTIN, 2010).
48

Interessante observar que o guia de princípios da Organização Mundial


da Saúde (World Health Organization, 2010) relativo a células humanas,
tecidos e transplante de órgãos, que estabelece sérias objeções no tocante
ao comércio de partes corporais humanas não incluiu gametas, ovários e
tecido testicular em suas reflexões. O mesmo comportamento foi observa-

V
r
do no documento europeu do Council of Europe and United Nations (2009

uto
p. 12) relativo ao trafico de órgãos tecidos e células. (PFEFFER, 2011).
Estes relatórios chegam a reconhecer que os corpos de mulheres são mais
vulneráveis do que os masculinos em contextos de mercado global. Porque

R
a
as práticas reprodutivas envolvendo obtenção de óvulos de terceiras não
teriam sido consideradas? Porque esse paradoxo?

do
Nesses contextos o estado e as políticas formais e informais atuam
numa dupla chave. Se por um lado legislam e combatem o trafico e o mer-
aC
cado de órgãos e tecidos humanos, no que diz respeito às TR tem deixado

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


o mercado decidir sobre os rumos de suas práticas. (NAHMAN, 2011).
são
Para finalizar consideramos difícil dimensionar com precisão o que
está em curso, porque há em alguns países e regiões um conjunto abun-
dante de dados e em muitos outros as informações são praticamente ine-
i
xistentes. No caso do mercado de material genético e das buscas de RA no
rev

exterior temos um fenômeno parcialmente visível, já que envolve muita


incerteza sobre a operação dos serviços, sobre as provedoras de óvulos e
or

os profissionais envolvidos. Destaca-se ainda o fato de ser um fenômeno


em movimento onde territórios e locais de prática podem estar atuando de
ara

maneira temporal.
Para fazer frente a esse campo novo e de rápida expansão envol-
t

vendo o crescente mercado de material genético de terceiros, seria im-


portante o desenvolvimento de mais estudos especialmente qualitativos
i
op

para identificar o que está ocorrendo fora do eixo Europa e Estados


d

Unidos. Destaca-se também a relevância de mais investigações lon-


gitudinais sobre as mulheres que doam óvulos, sobre os efeitos das
drogas envolvidas na estimulação ovariana e analises mais densas nas
E

situações em que ocorrem complicações.


ver
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 49

REFERÊNCIAS

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od V
r
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uto
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visã R
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Cambridge University Press, 2010, p.147-163.
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ver
GÊNERO, SUBJETIVIDADE E
PSICOLOGIZAÇÃO DA REPRODUÇÃO:
marcos regulatórios e os diferentes sentidos

od V
r
do desejo de ter filhos no contexto da

uto
reprodução medicamente assistida

visã R
Eliane Vargas7

oa
Luciane Moás8
Cristiane Marques Seixas9
C
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Introdução

No Brasil, estudos sobre Tecnologias Reprodutivas têm assinalado


que na sociedade contemporânea casais e indivíduos de diferentes orienta-
ra
ções sexuais que desejam filhos recorrem a tratamentos médicos mediante
o amplo avanço da ciência biomédica. Na solução dos atuais problemas
a re

decorrentes da não reprodução biológica estão disponíveis tecnologias


avançadas como têm apontado ao longo dos últimos 20 anos autoras nacio-
nais deste campo. (NOVAES; SALEM, 1995; SALEM, 1995; SCAVONE,
o

1998; CORRÊA, 2001; LUNA, 2001; DINIZ 2002; RAMÍREZ-GÁLVEZ,


par

2003; 2011; GROSSI et al., 2003; BARBOSA, 2003; TAMANINI, 2003;


ver dit

2009; 2013; MOÁS, 2006; MOÁS; VARGAS, 2012; VARGAS, 1999;


2006; SOUZA, 2006;). Apresenta-se como característico do processo re-
produtivo o seu agenciamento pelos indivíduos e casais tendo em vista a
são

7 Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social - IMS/UERJ, área de concentração
E

Ciências Humanas em Saúde (2006). Pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo
Cruz, Docente da Pós-Graduação em Ensino em Biociências e Saúde (IOC/FIOCRUZ), Brasil, atuando
em pesquisas principalmente nos seguintes temas: Corpo, Sexualidade, Reprodução, Tecnologias
Reprodutivas e Relações Familiares e de Gênero, Alimentação e Cultura. elianepvargas@gmail.com
8 Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social - IMS/UERJ, área de concentração Ciências
Humanas em Saúde (2006). Professora adjunta do curso de Direito - Departamento de Ciências Jurídicas
da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Brasil, na área de Direito Privado, atuando
em pesquisas principalmente nos seguintes temas: Criança e Adolescente, Tecnologias Reprodutivas e
Relações Familiares e de Gênero. lumoas@yahoo.com.br
9 Doutora em Teoria Psicanalítica pelo Instituto de Psicologia - IP/UFRJ (2013). Professora adjunta do
curso de Nutrição – Departamento de Nutrição Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ), Brasil, atuando em pesquisas principalmente nos seguintes temas: Feminilidade, Corpo,
Obesidade, Gênero e Alimentação. levemente@uol.com.br
56

reprodução por meio de tecnologias conceptivas que ganhou popularidade


ao longo do tempo e que permanecem muito popularizadas na cena social
contemporânea. Nos chama a atenção na sociedade brasileira, em meio às
mudanças observadas no âmbito das relações conjugais e familiares que
se associam às transformações das identidades sociais, uma persistente

V
r
demanda de realização do desejo de filhos. Considerando ocorrer certa

uto
heterogeneidade normativa nas diferentes esferas da vida social contem-
porânea, parece persistir determinada disposição quanto às posições dos
homens e mulheres nas questões da sexualidade, da parentalidade e da

R
a
família. O que pode ser observado pelo amplo mercado de consumo de
recursos médicos de tecnologias reprodutivas com esta finalidade.

do
A percepção contemporânea sobre o desejo de ter filhos se liga à ideia
de opção e apresenta-se associada a uma concepção naturalizada da repro-
aC
dução no contexto da conjugalidade heterossexual e homossexual. Este

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


desejo se delineia, portanto, como um ‘acontecimento’ previamente anun-
são
ciado e como consequência ‘natural’ da dinâmica conjugal e concretizado
pelas tecnologias reprodutivas. Há uma expectativa social de que os indiví-
duos, uma vez que se constituam como casais, reproduzam. A chegada do
i
filho no contexto conjugal pode até ser adiada, mas é socialmente esperada
rev

e tida como certa. Trata-se, portanto, de um evento social tido como ‘na-
tural’ a ser concretizado em algum momento da trajetória do casal, ainda
or

que atitudes contraceptivas, nos contextos em que sejam pertinentes, indi-


quem uma preocupação permanente presente no horizonte dos indivíduos.
ara

O inesperado, portanto, é a não concepção.


Considerando, portanto, o atual avanço científico e biotecnológico no
t

âmbito da reprodução humana, a concretização do desejo de ter filhos, em


diferentes contextos do exercício reprodutivo, permanece como tendên-
i
op

cia ao longo do tempo a ocorrer no âmbito da medicina reprodutiva, por


d

meio da Reprodução Assistida (RA). No entanto, trata-se de um processo


complexo onde se encontram presentes diferentes atores e perspectivas na
sua análise, o que inclui a presença de saberes não médicos atuantes neste
E

cenário tendo em vista o relevante impacto deste modo de reproduzir na


experiência subjetiva e na construção da subjetividade, sobretudo, median-
ver

te o desamparo legal vivido pelos casais no que tange aos projetos de lei. A
partilha de tarefas no processo reprodutivo envolve profissionais diversos,
indivíduos e casais. Além da atuação médica, e dos saberes biomédicos,
os psicólogos por meio dos saberes psicológicos são acionados (pelos pro-
fissionais da medicina reprodutiva) em face aos limites, em alguns casos,
da biologia para a definição dos diagnósticos médicos. Perelson (2013),
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 57

por exemplo, aponta três diferentes ordens de demanda dirigidas por mé-
dicos aos psicanalistas em sua atuação nos tratamentos de infertilidade
humana. Esta gradação foi descrita a partir da experiência da autora como
psicanalista colaboradora em Serviços de Reprodução (público e priva-

od V
r
do). Segundo a autora, a primeira se refere à abordagem da causalidade

uto
inconsciente da infertilidade sem causas orgânicas detectadas; a segunda
consiste no auxílio na construção da parentalidade quando se faz necessá-
rio o recurso a doadores de sêmen, óvulos ou embriões ou ainda a úteros de

visã R
substituição; o terceiro corresponde ao auxílio à equipe médica na tomada

oa
de decisões em situações complexas envolvendo questões éticas. Trata-se
de demandas que implicam a montagem de arranjos familiares que con-
tradizem a aceitação social ou viável naturalmente. Observa-se, portan-
to, estarem presentes nos discursos médicos sobre a infertilidade, quando
C
encontram seus limites na biologia, razões relacionadas à existência de
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

‘outros fatores’, distintos daqueles fisiológicos relativos às doenças, que


pretendemos apontar.
Os argumentos aqui reunidos apoiam-se em pesquisas realizadas no
Rio de Janeiro/Brasil sobre relações de gênero, discursos e práticas acerca
ra
da Reprodução Assistida em diferentes cenários10. As pesquisas de cunho
sociológico e antropológico incorporam-se às premissas do biodireito,
a re

dado a relevância das instâncias médicas e jurídicas neste cenário, visando


cotejar os diferentes aspectos reguladores das práticas reprodutivas entre
os grupos sociais. Quanto aos aspectos do acionamento dos saberes psi-
ito

cológicos no âmbito da medicina reprodutiva a análise se beneficia tam-


par

bém de reflexões teóricas oriundas da psicanálise originadas na observação


mais recente de casos clínicos de mulheres atendidas sob esse referencial
teórico clínico.
Destacamos como os fatores psicológicos generalizados, como a an-
d

siedade e o estresse, estão presentes de forma subjacente às causas de in-


são

fertilidade cuja explicação biomédica não se torna possível por meio de


E

diagnósticos clínicos conclusivos. Por outro lado, dados de pesquisa in-


dicam que estes ‘fatores psicológicos’ incluem-se na explicação biomé-
dica das causas de infertilidade a partir de diferenças relativas ao gênero.
ver

(VARGAS, 2006). A transposição no discurso médico de causas orgânicas

10 Os dados são provenientes de parceria institucional (Fiocruz/UFRRJ) no desenvolvimento de pesquisas


acerca do uso de tecnologias reprodutivas entre mulheres e homens unidos heterossexuais (RJ) e do
debate sobre demandas judiciais envolvendo a conjugalidade homossexual e da ampliação de direitos da
população LGBT incluindo o debate sobre a criminalização da homofobia. As análises conjugam a literatura
sociológica e antropológica e, sobretudo, assumem uma visão critica de documentos normativos a partir da
área do Direito. As pesquisas contaram com apoio financeiro do Apoio CNPq e Faperj.
58

para causas psicológicas sobre a ausência de filhos no âmbito conjugal


constitui o interesse do presente trabalho. Nossa intenção com estas re-
flexões é a de assinalar como a decisão de ter filhos implicada no uso de
tecnologias reprodutivas, que se apresenta aos nossos olhos como abso-
lutamente ‘subjetivo’, singular e circunscrita no âmbito do indivíduo nos

V
r
revela as marcas do social e do pertencimento cultural e a impossibilidade

uto
correlata de desvinculá-las das normas de gênero vigentes. Cabe consi-
derar nesta direção o ethos ‘psicanalisado’ característico do universo das
camadas médias, como é do universo de parte de nossa pesquisa, no qual

R
a
a reflexividade, ou certo modo de se ‘autoproblematizar’ como analisado
por Russo (2002), ligada ao exercício da autonomia encontra-se presente.

do
E ainda de acordo com Scavone (2001) a ‘escolha reflexiva’ acerca da
decisão reprodutiva encontra-se estreitamente relacionada à maior possibi-
aC
lidade de acesso à informação e ao conhecimento especializado.

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


Neste estudo trazemos algumas reflexões acerca das injunções mo-
são
rais que envolvem a afirmação do desejo de ter filhos no contexto da
conjugalidade heterossexual no universo de camadas médias no Rio
de Janeiro, Brasil (VARGAS, 2006) cotejando desenvolvimentos re-
i
gulatórios mais recentes com base na perspectiva do biodireito onde
rev

se vê como a atuação da psicologia emerge como ator relevante na


regulação da sexualidade sobretudo homossexual. Nele focalizamos,
or

portanto, especificamente a convocação dos saberes psicológicos para


a atuação na compreensão da ausência de filhos, entre indivíduos e
ara

casais, a partir do discurso e dos tratamentos médicos no âmbito da


medicina reprodutiva, tendo em vista que a concretização do desejo
t

de ter filhos tem sido balizada por regulações gestadas não somente no
âmbito dos saberes médicos, mas também jurídicos. Trata-se de indicar
i
op

o instigante acionamento do apoio psicológico quando os fracassos dos


d

tratamentos se impõem no itinerário dos casais. Nesta direção causou


interesse, a partir de dados das pesquisas mencionadas, analisar como
os saberes psicológicos têm sido acionados no âmbito dos tratamen-
E

tos. Considerando a complexidade deste processo que opera uma lógica


de gênero, observa-se também que este está relacionado às condições
ver

materiais de existência na medida em que as psicoterapias, por serem


tratamentos dispendiosos, nem sempre estão disponíveis aos grupos so-
ciais de menor poder aquisitivo.
Cabe ressaltar que os saberes médicos vigoram mediante a ausência
de legislação específica e a atuação profissional médica apresenta inter-
faces com áreas afins da saúde, como é o caso da psicologia. Na cena
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 59

contemporânea brasileira a atuação médica, via resoluções dos Conselhos


(Federais e Estaduais) de Medicina, regula e aprova os parâmetros nacio-
nais vigentes sobre a utilização das tecnologias reprodutivas, sendo que
tais resoluções prevalecem circunscritas às redes privadas de atenção à

od V
r
saúde. Isto porque o acesso a estes recursos estão disponíveis apenas de

uto
forma restrita no Sistema Único de Saúde (SUS). (VARGAS; MOÁS;
ROSSI, 2015). Estas instâncias reguladoras informam diretamente a expe-
riência sexual e reprodutiva dos casais e/ou indivíduos com impacto na di-

visã R
nâmica familiar tendo em vista que a concretização do desejo de ter filhos

oa
é balizada não só pelas regulações e diretrizes normatizadoras, mas pelos
processos subjetivos de todo modo sociais e culturais. Ademais, temos
como ponto de partida que o desejo e a decisão reprodutiva se ligam ao fe-
nômeno da individualização e ao processo de medicalização da reprodução
C
no que concerne às relações familiares, conjugais e de gênero na chamada
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

cultura ocidental moderna.


A referência ao ‘subjetivo’ é feita no intuito de enfatizar a prima-
zia da representação de uma ‘escolha’ pessoal e de valores ligados à
ideia de ‘liberdade’ individual prevalente na experiência reprodutiva
ra
contemporânea. Pretende-se, assim, discutir outro ângulo das conexões
entre corpo, gênero, sexualidade e reprodução, já problematizado em
a re

trabalhos anteriores, e que se refere à convocação médica de psicólogos


para atuarem junto aos consumidores das tecnologias reprodutivas, ten-
do nos chamado a atenção as variações nos sentidos produzidos acerca
ito

do desejo de reprodução nesta seara.


par

O texto está organizado em duas partes. A primeira discute os limites


à realização do desejo de ter filhos emoldurados pelo marco regulatório
que orienta os usos de tecnologias reprodutivas no Brasil. Nela fazemos
considerações sobre o estado da arte relacionado às atuais resoluções do
d

Conselho Federal de Medicina (CFM). A segunda traz o questionamento


são

relativo ao desejo de ter filhos entre casais heterossexuais de camadas mé-


E

dias residentes no Rio de Janeiro e pertencentes a um universo cultural que


valoriza a escolha pessoal e a liberdade individual nas questões de trato
íntimo. Discute-se de que modo os diagnósticos de infertilidade denotam
ver

as normas de gênero que incidem sobre os casais inférteis reiterando um


modelo de família e de parentalidade que tem por efeito uma culpabiliza-
ção da mulher na não concepção (ou na infertilidade) pela via de questio-
nar seu real desejo de ter filhos.
60

O plano dos direitos: os limites normativos


à realização do desejo

Faz-se necessário brevemente contextualizar o marco regulatório que

V
r
norteia as práticas relativas ao uso de tecnologias reprodutivas no Brasil.
No que tange aos aspectos regulatórios vigentes as alterações percebidas

uto
na comparação entre as mais recentes resoluções do Conselho Federal
de Medicina no Brasil (CFM), a de no 1.957/2010, e a anterior de nº

R
1.358/1992, faziam referência à Reprodução Humana Assistida (RA) no

a
tratamento de pessoas com esterilidade ou infertilidade, logo a partir de um
diagnóstico médico. (MOÁS; VARGAS, 2012). Já a Resolução posterior

do
de nº 2.013/2013 inova ao estabelecer que as técnicas tenham o papel au-
xiliar e facilitador na resolução do processo de procriação e abre a possibi-
aC
lidade de atuação dos médicos em outros casos além daqueles delimitados

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a partir de causas patológicas clínicas. Recentemente, o Conselho editou
são
nova resolução de nº 2.121/2015, autorizando o acesso às mulheres com
mais de 50 anos desde que obtenham autorização de seus médicos.
Em passado recente, a noção de escolha (autonomia) no campo da
i
reprodução assistida estava relacionada à seleção de embriões com a fi-
rev

nalidade de se evitar doença hereditária (finalidade terapêutica), já que


a liberdade de planejamento familiar, em tese, não encontra grandes
or

restrições na lei brasileira sendo necessário, no entanto, salvaguardar o


respeito aos princípios da parentalidade responsável e da dignidade da
ara

pessoa humana. Tais princípios merecem uma relativização a depender


do contexto em análise. (LENOIR, 2005). Este tema do planejamento
t

familiar está diretamente relacionado à noção de direitos reprodutivos,


direitos básicos ligados à liberdade sexual e reprodução humana com
i
op

os limites que lhes são inerentes. (GAMA, 2009).


d

Ressalta-se no contexto da RA que estas questões ganham destaque


em razão de eventuais riscos, (SCAVONE, 1998) ainda que relativizáveis,
E

(LUNA, 2007) considerados como situação de vulnerabilidade. Em tais


considerações sobre os riscos podem-se incluir os aspectos culturais mo-
deladores da subjetividade envolvendo os usos de recursos tecnológicos
ver

compreendidos aqui como preferência pessoal e uma possibilidade de am-


pliação da liberdade de escolha das famílias como já apontado na literatura.
(STRATHERN, 1992). No entanto, a construção de imagens ao lado so-
mente dos benefícios das técnicas pode ser questionado. Autores do campo
do feminismo e da bioética, com base em teorias críticas, apontam existir
uma perspectiva política implicada no conceito de vulnerabilidade. Estes
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 61

indicam ser necessário problematizar princípios universalistas de autonomia


e liberdade, sendo o uso e o acesso às tecnologias reprodutivas tidas como
um exemplo neste debate. Trata-se da demarcação de fronteira em situações
nas quais a autonomia se confunde com o exercício de um desejo construído

od V
r
culturalmente para as mulheres especialmente no contexto da conjugalidade

uto
onde a maternidade, como uma expectativa social, torna-se quase um impe-
rativo. (GUILHEM; DINIZ, 1999). Discussões mais recentes indicam uma
associação entre RA e adoção. Ramírez-Gálvez (2011) reitera a ideia de que

visã R
as opções tecnológicas são também políticas sendo que os desenvolvimentos

oa
tecnológicos não respondem tão somente a uma ordem estritamente técnica.
Isto nos parece particularmente significativo para a discussão sobre a natu-
ralização do desejo de filhos por esta oferecer, segundo a autora, justificativa
para o recurso às RA como etapa necessária (‘luto pelo filho biológico’) e
C
anterior ao projeto de adoção de crianças. A crítica à naturalização e aos efei-
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

tos simbólicos aos procedimentos considerados “naturais” de procriação em


sua relação com a biotecnologia podem também ser encontrados em outros
estudos. (STOLCKE, 1998; MANICA, 2011).
Considerando o cenário jurídico, o conceito de vulnerabilidade não é
ra
novo, tendo iniciado e por muito tempo sido apropriado pelos estudos na
área das relações de consumo (direitos patrimoniais e defesa do consumi-
a re

dor). Com o advento da Constituição Federal de 1988, e o consequente au-


mento da preocupação com os valores existenciais, em especial com a tutela
das crianças e adolescentes, associada à incorporação da doutrina da prote-
ito

ção especial, a referida noção ganhou novo colorido. Passou a exigir análise
par

mais aprofundada, pois visa proteger da melhor maneira possível todas as


pessoas e, de modo especial, aqueles que têm a vulnerabilidade potencializa-
da ou que já se encontram vulnerados. (BARBOZA, 2009, p. 109). A partir
da ampliação e consolidação desta nova noção de vulnerabilidade surgiram
d

importantes diplomas legais, como os Estatutos do Idoso e o das Crianças e


são

Adolescentes. E, nessa direção, ainda que de forma incipiente, está a tutela


E

da população LGBTT11, em especial os transexuais, vulnerados na sua situa-


ção psicofísica e social, pois o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e
Direitos Humanos de LGBTT é muito recente (maio de 2009).
ver

Quanto aos direitos reprodutivos, assegurados por meio de documentos


internacionais há mais de duas décadas, ainda há dissenso sobre a abrangên-
cia do planejamento familiar que, se considerado como um direito fundamen-
tal, deveria alcançar os indivíduos indistintamente uma vez que os direitos

11 Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros.


62

humanos são universais no que respeita a sua titularidade. Observa-se, no


entanto, em instância regulatória mais recente o alargamento do critério de
utilização das técnicas reprodutivas já que a Resolução de nº 2.013/2013
reconhece a reprodução também como processo de escolhas pessoais. Isto
vale em especial para os indivíduos que optam pela “produção independen-

V
r
te” (família monoparental), casais homoafetivos, bem como indivíduos

uto
transexuais. Para os casais de mesmo sexo, após a ampliação de direitos na
esfera civil (reconhecimento como entidade familiar pelo Supremo Tribunal
Federal) e toda a luta por maior igualdade, o projeto parental – o desejo

R
a
de filhos – vem se apresentando como importante passo na busca pela real
afirmação como família, ou seja, por uma “família de verdade”. Segundo

do
Barbosa (2016), o referido projeto demonstra também o exercício de certa
liberdade (autonomia) visando o melhor meio para a satisfação do desejo.
aC
(BARBOZA, 2012). Em que pese a existência de uma nova cultura sobre a

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


adoção, reforçada pelos profissionais da área jurídica em conjunto com os
são
grupos de apoio à adoção, reforçando os argumentos tendentes a sensibilizar
os casais, como por exemplo, o compromisso social com a infância desva-
lida por conta do número de crianças em abrigos, o recurso às tecnologias
i
reprodutivas tem sido cada vez maior, em especial, entre casais de mulheres
rev

que buscam um filho geneticamente aparentado.


Há possíveis interpretações para isso. Os casais gays tendem a optar pela
or

adoção por conta do receio de vínculos/contatos com a mãe biológica e de


eventual disputa futura pela criança junto ao Poder Judiciário. Além disso,
ara

não vivenciar a experiência de parte da primeira infância em toda a sua com-


plexidade tendo a possibilidade de realizar uma adoção tardia (crianças com
t

mais de 3 anos de idade) também tem se apresentado como alternativa positiva


para tais casais. (VITULE et al., 2015). Em oposição, para as lésbicas há a
i
op

facilidade da recepção de óvulos pela parceira, ficando a adoção em segundo


d

plano nos casos específicos nos quais há limitações financeiras, pois os custos
do tratamento inviabilizam a necessidade de várias tentativas, algo recorrente
para casais ou indivíduos que recorrem às técnicas; ou impedimentos físicos:
E

já não estão mais em idade reprodutiva ou há outros problemas de saúde que


podem ser potencializados com o tratamento em si que demanda a utiliza-
ver

ção de hormônios e /ou outros remédios e procedimentos muito invasivos.


(CONCEIÇÃO, 2002). Considerando o elevado custo do tratamento, a repro-
dução assistida no Brasil tem sido um serviço utilizado predominantemente
pelas camadas sociais mais favorecidas uma vez que sua implementação no
âmbito do SUS é muito restrita.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 63

No âmbito das políticas públicas brasileiras observa-se a alocação de


recursos pelo Ministério da Saúde, mas sem discussão aprofundada em
detrimento da expansão nas últimas décadas dos centros de RA como in-
formado por Ramirez-Gálvez (2011). Consta em documentos relacionados

od V
r
à Política Nacional de Saúde e portarias (Reprodução Humana Assistida,

uto
2005; Portaria 426/2005; Portaria 3.149/2012; Portaria 1.397/2013) desti-
nação de verbas visando a ampliação do número de serviços e procedimen-
tos de RHA no âmbito do SUS. No entanto, tais documentos apresentam

visã R
muitas lacunas quanto às condições de sua realização e controle.

oa
É importante ressaltar que a maioria dos países latino-americanos não
tem uma lei específica sobre reprodução assistida, apenas orientações éti-
cas elaboradas pelos Conselhos de Medicina, porém são inúmeros os pro-
jetos de lei que em tais países renovam e ampliam o debate especialmente
C
quanto à necessidade de atendimento na rede pública e também sobre os
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

requisitos para o acesso (elegibilidade). O Chile, por exemplo, apesar de


contar com grande número de centros, nem todos aceitam as mulheres sol-
teiras e/ou homossexuais. No Uruguai, a discussão foi retomada em virtu-
de do Projeto de lei nº 19.167 que autoriza o acesso a qualquer pessoa in-
ra
dependentemente do estado civil, desde que tenha havido o diagnóstico de
infertilidade. (COXIR, 2014). A Argentina já está um passo à frente, pois
a re

“Em um gesto universalista pouco frequente na América Latina e outras


partes do mundo, a lei Argentina de 2013 garante o acesso integral aos tra-
tamentos disponíveis a todas pessoas que deles necessitam sem nenhuma
ito

restrição.” (ARIZA, 2014).


par

Especificamente quanto à inserção do psicólogo no atendimento à de-


manda relativa à reprodução assistida, esta tem sido objeto de análise no
campo da psicologia e considerada um novo cenário da atuação profissional
junto aos casais de camadas médias, com condições materiais de custear
d

este tratamento adicional, sendo, sobretudo, direcionado preferencialmen-


são

te às mulheres. No contexto da Reprodução assistida no SUS, tal atua-


E

ção profissional está descrita no Guia sobre Saúde Mental em Reprodução


Humana em relação aos aspectos clínicos. (GUIA, 2006). Cabe considerar,
por outro lado, a presença de um determinado tipo de raciocínio redu-
ver

cionista expresso na equação pobreza/controle populacional que tende a


desvalorizar o desejo de filhos entre as mulheres pobres determinando que
o apoio psíquico aos procedimentos de reprodução medicamente assistida
estaria excluído como tema de relevância para este grupo. Este raciocínio
presente na sociedade brasileira baseia-se na percepção de uma exigência
de regulação da fertilidade entre grupos populares. (HEILBORN, 2004).
64

Tal problemática, que envolve a construção da subjetividade relacionada


ao desejo de filhos estaria, portanto, à margem das questões prioritárias
do SUS e das políticas de saúde no Brasil, ou tratadas de modo incipiente.
Nota-se, de outra parte, que o saber psi foi recentemente acionado
no que tange à conformação do desejo, neste caso em direção ao exercí-

V
r
cio da sexualidade, em razão da discussão em torno do Projeto de lei no

uto
234/2011, de autoria do Deputado João Campos (PSDB-GO), notabilizado
pelas mídias em geral como a proposta que visava a “cura gay”. Tratava-se
de tentativa de alterar a redação dos artigos 3º e 4º da Resolução n.01/1999

R
a
do Conselho Federal de Psicologia, que busca estabelecer normas para a
atuação dos psicólogos em relação à questão da orientação sexual:

do
Art. 3º: “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a
aC
patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para
são
tratamentos não solicitados”.
Parágrafo único: “Os psicólogos não colaborarão com eventos e
serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”.
i
Art. 4º - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de
rev

pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de


modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos
or

homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.”


ara

O autor da proposta alegava à época que o Conselho Federal


de Psicologia excedeu o seu poder de regulamentar, contrariando a
t

Constituição Federal de 1988 e, além disso, segundo ele, a proposta ser-


viria aos pacientes que estão em conflito com o próprio desejo sexual e
i
op

buscam ajuda por vontade própria de modo a receberem orientação dos


d

psicólogos visando à mudança da orientação sexual. A proposta dividiu a


opinião pública, o meio acadêmico e o próprio Congresso Nacional. Foi
inicialmente aprovado na Comissão de Direitos Humanos e defesa das
E

minorias. A parte contrária a esta proposta, afirmava tratar-se de política


pública que contemplava interesses das bancadas evangélicas, mas agredia
ver

fortemente a dignidade da pessoa humana, com o potencial de gerar mais


violência e exclusão social. O projeto foi arquivado em julho de 2013, mas
não é raro encontrarmos políticos, sobretudo próximo ao período eleitoral
lançando mão de propostas idênticas ou semelhantes que lamentavelmente
ainda têm forte apelo junto ao senso comum.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 65

Trata-se, neste caso, de uma nova tentativa de delegar ao campo da


psicologia a adequação dos indivíduos aos parâmetros tradicionais e so-
cialmente aceitos da sexualidade. A medicina moderna, a partir das aná-
lises de Foucault a respeito do dispositivo da sexualidade (1988), atua na

od V
r
regulação do comportamento sexual e reprodutivo reiterando uma deter-

uto
minada “moral familiar”. No que tange à Reprodução Humana, nesses me-
canismos reguladores velados por uma demanda de auxílio ao tratamento
médico, a fertilidade se inscreve em uma norma de gênero que incide sobre

visã R
o corpo feminino. Isto não que dizer que os homens estejam ausentes da

oa
cena reprodutiva; há invisibilidades neste sentido. A recusa ao controle na
atividade sexual das mulheres, mas também dos homens unidos, visando a
reprodução já foi observada como apontam dados etnográficos e expressa
uma expectativa de prazer sexual livre de constrangimentos sendo os trata-
C
mentos e orientações médicas considerados uma intromissão na intimida-
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de do casal. (VARGAS, et al., 2010).


Tal naturalização na montagem dos gêneros relativa ao exercício
reprodutivo pode ser também observada mediante a percepção dos ca-
sais acerca da não concepção biológica vista como um acontecimento
ra
inesperado e imprevisto. Tal percepção se confronta com a ideia so-
cialmente aceita de existir controle voluntário sobre a concepção e,
a re

por oposição complementar, a contracepção que efetivamente se realiza


pelo uso adequado de métodos contraceptivos. Prevaleceu, portanto,
entre casais que decidiram ter filhos, sobretudo em situações limite im-
ito

postas pela biologia, uma compreensão naturalizada do desejo/ausên-


par

cia de filhos sobretudo entre as mulheres.

“O problema está em mim, na minha cabeça”: (re)descrições do desejo


no contexto da conjugalidade heterossexual
d
são

Porque teve aquele momento que parece, acho que a mulher passa, tem
E

esse momento, a gente parece que está pronta para engravidar em todos
os sentidos. Parece que teu corpo pede para passar por toda aquela
ver

transformação, sua cabeça está ciente, você tem total noção e o desejo
em si. (Helena, 42 anos, nível superior).

No conjunto das diferentes abordagens que tematizam o uso de tecno-


logias reprodutivas ressaltaremos aqui as preocupações de cunho ‘psicológi-
co’ que emergem no âmbito dos tratamentos. No que concerne aos estudos
sobre o tema são apontados o impacto da infertilidade na qualidade de vida,
66

o desajuste conjugal e o desempenho sexual decorrentes da submissão a trata-


mentos. Grosso modo tais questões ancoram-se em explicações das causas or-
gânicas femininas de masculinas. Cwikel, Gidron e Sheiner (2004), por exem-
plo, assinalam a importância da conexão entre corpo, mente e infertilidade. Os
estudos neste campo apontam a existência de um relacionamento recíproco

V
r
entre infertilidade e fatores psicológicos, como a depressão e o estado de an-

uto
siedade, não contemplados nos tratamentos de infertilidade que em geral estão
centrados na monitoração médica e nos remédios hormonais. A ansiedade e o
estresse também têm tido destaque como responsáveis por situações de infer-

R
a
tilidade relacionadas ao uso de tecnologias reprodutivas. (SERGER-JACOB,
2000; FARINATI et al., 2006).

do
As causas da infertilidade não circunscritas somente aos problemas
relativos à fisiologia reprodutiva também são consideradas como ‘outros
aC
fatores’ influentes na sua determinação da não reprodução, tais como o es-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


tresse da vida cotidiana, a poluição, as DST’s, o uso de anticoncepcionais,
são
o uso de medicamentos e drogas. Até mesmo o adiamento da decisão de
ter filhos devido à inserção da mulher no mercado profissional, como uma
das características da vida moderna, encontra-se no rol das explicações
i
médicas aventadas para o crescimento do número de pessoas inférteis de
rev

um ponto de vista biológico.


De fato, em um contexto de liberdade de opção a maternidade con-
or

temporânea não mais constitui, como observa Ferrand (2004), a única


identidade das mulheres. A vida profissional pode ser gratificante para as
ara

mulheres e devido à contracepção moderna torna-se possível conciliar tra-


balho e vida familiar, ainda que a prioridade da maternidade sobre a ativi-
t

dade profissional nas representações das mulheres confirme a importância


da dimensão maternal na identidade social feminina de acordo com os da-
i
op

dos de nossa pesquisa. (VARGAS, et al., 2010). No entanto, cabe chamar


d

a atenção que o discurso biomédico, além de postular causas fisiológicas,


incorpora nas explicações das causas da infertilidade razões pertinentes às
relações sociais, sendo que estas razões tendem a envolver mais a mulher.
E

No caso dos homens as razões alegadas envolvem uma curiosa associação


entre ‘fatores externos’ e homens, tal como encontramos em matérias de
ver

divulgação do tema que informam a relação entre diminuição da fertili-


dade e uso de celulares, prática de mountainbike, consumo de café etc.,
evidenciando a infertilidade masculina como externa ao corpo (fisiologia)
reprodutivo. (VARGAS, 2008). Subjaz a estes modos explicativos uma
concepção naturalizada da reprodução com significativas diferenças rela-
tivas ao gênero.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 67

Cabe destacar que mesmo considerando os aspectos sociais envolvidos, o


discurso biomédico prescreve soluções passíveis de intervenção no âmbito da
biologia. Ou seja, alegar outras razões na descrição da infertilidade não altera
sua afirmação como um problema médico. A imprecisão sobre a causa da in-

od V
r
fertilidade, portanto, quando surge como obstáculo às avaliações e diagnósti-

uto
cos, contraria a exigência de delimitação dos parâmetros médicos explicativos
centrados na intervenção do corpo como um objeto primeiro da medicina, ul-
trapassando-o. Deste modo algumas questões podem ser apontadas a partir da

visã R
imprecisão de critérios acerca do diagnóstico de infertilidade. Uma delas é que

oa
a pouca exatidão na definição diagnóstica de situações de infertilidade pode
favorecer o surgimento de outras interpretações que extrapolam uma concep-
ção médica no sentido estrito contribuindo sobremaneira para o alargamento
da abordagem do tema no âmbito dos saberes psicológicos e psiquiátricos.
C
Neste sentido, o que nos parece mais problemático em casos nos quais não
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

é possível identificar alterações orgânicas Precisas para a não ocorrência de


gravidez são as interpretações deste fato como ‘ausência de desejo’ de filhos.
(CORRÊA, 1998).
Um dado relevante nessa direção foi o da dúvida levantada pelas
ra
mulheres entrevistadas com relação ao desejo de filhos e o sentimento
de “fracasso” expresso pelo fato de não conseguirem conceber, surgida
a re

a cada tentativa não efetivada de concepção. A presença desse tipo de in-


terpretação tida como ‘psicológica’ pode ser observada especialmente na
interpretação do desejo feminino de ter filhos. Cabe destacar no universo
ito

pesquisado a atitude de autorreflexão dos indivíduos como marca de um


par

ethos ‘psicanalisado’ e privado (VELHO, 1985) ainda que o recurso às


chamadas terapias ou à psicanálise não seja uma prática usual para todos
os informantes. No grupo de entrevistadas duas mulheres faziam análise e
duas eram psicólogas. Nenhum homem esteve ligado à prática da psicolo-
d

gia ou da psicanálise profissionalmente ou não.


são

Os depoimentos de Larissa (33 anos, nível superior, 1 filho) e Aline


E

(33 anos, nível superior, sem filho) são esclarecedores quanto às dúvidas
levantadas pelo fato de não conseguir conceber e das injunções morais
decorrentes. ‘Não conseguir conceber’ e ‘não poder ter filhos’ são toma-
ver

das aqui como independentes dos fatores relativos à reprodução biológica.


Na equação ‘não conseguir conceber’ versus ‘não poder’ está embutido o
‘querer’ e o ‘não querer’ que oscilam em meios às explicações das causas
da infertilidade. Por sua vez o questionamento sobre o ‘real’ desejo das
mulheres por parte dos médicos promoveu efeitos paradoxais naquelas que
afirmam querer tê-los. Ao explicarem porque não conseguem engravidar
68

ou ter filhos, as mulheres passam a se questionar em relação ao desejo


de fato de ‘querer ter filhos’. Mas, o que se observa é que a indagação
médica, apontada nas narrativas, quando levantada em um momento de
intensa afirmação do desejo de ter filhos, e envolvimento (emocional e fi-
nanceiro) e dedicação ao tratamento, produz conflitos e situações de extre-

V
r
ma complexidade para as mulheres entrevistadas. A explicação sobre a não

uto
concepção, até então justificadas pela medicina por razões fisiológicas no
corpo, amplia-se para os aspectos tidos como psicológicos que estariam na
base destas razões. O questionamento incorporado da existência do desejo

R
a
de ter filhos dirigido às mulheres que o enunciam promove um sentimento
de confusão e, na melhor das hipóteses, leva a uma responsabilização e

do
culpabilização pessoal:
aC
E é engraçado que até depois de ter feito terapia e tudo, eu cheguei a

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


questionar se queria mesmo ou não. Então veio até o choque com a
são
questão da adolescência porque num dado momento cheguei a ficar
perdida e confusa, até que ponto a gente não consegue porque não
quer, ou, não consegue porque realmente não pode. Acho que isso,
num dado momento, até me veio como uma questão. Então acho que
i
várias coisas me marcaram quando surgiu esse problema. (Larissa, 33
rev

anos, nível superior, 1 filho).


or

Será que é isso mesmo? Será que eu tenho que estar sofrendo? Será
que não vou conseguir engravidar? E aquela loucura. Eu fiquei
ara

nisso uns cinco meses, nessa tortura psicológica a cada semana e


tomando Clomide. E a outra tortura psicológica: meu médico sendo
t

incompetente no sentido de falar assim para mim, olha, eu não sou


especialista e eu não dou conta dessa situação e acreditando que era
i

uma coisa psicológica jogava para mim como se eu pudesse engravidar


op

com facilidade e que aquilo tudo não tivesse fazendo efeito porque de
d

fato tinha uma coisa minha. Quer dizer, eu recebo duas cargas, uma de
um médico careta e uma de uma médica alternativa, mais ou menos
E

com o mesmo discurso, que o problema estava em mim, não no meu


corpo, na minha cabeça. Aí você imagina, que peso é isso. Eu falava
assim, eu quero engravidar, estão dizendo que não engravido porque
ver

a minha cabeça não me deixa engravidar. Aí todo um processo e fora


aquela confusão paralela que eu disse, estar vivendo isto, isto fazer
parte de uma família, é ter familiares que estão ali cobrando,
que começam a perguntar (Grifos nossos). (Aline, 33 anos, nível
superior, sem filho).
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 69

Cabe destacar mediante a ausência de reprodução a importância da fa-


mília que tende a pressionar os casais em direção à concepção. A importância
das relações de parentesco foi evidenciada por Peixoto (2000). No estudo das
relações familiares a autora observou que a solidariedade familiar e a criação

od V
r
de laços afetivos não estão necessariamente determinadas pela proximidade

uto
geográfica. Isto significa que a distância espacial pode não corresponder a um
distanciamento afetivo entre os membros da família, o que em última instância
significa afirmar a relevância dos laços familiares ainda presente na sociedade

visã R
contemporânea. (DAUSTER, 1988). Assim, por mais que os casais tenham

oa
em parte se autonomizado da família, dela sofrem pressões. Os casais, mesmo
entre aqueles que concebem sua família como ‘light’ – no sentido de menos
invasivas e mais respeitosas com a intimidade do casal – observam pressões
familiares para conceber. A importância do parentesco, nesta mesma direção,
C
foi sinalizada por Salem (1987) com relação ao ‘casal grávido’ e Heilborn
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

(1996) no que diz respeito à afirmação da identidade homossexual.


No que tange às relações de gênero, como informou Consuelo (28
anos, nível superior, sem filho) no que concerne às cenas observadas em
sua família, seu primo casado ansiava por ter um filho. Diante da não con-
ra
cepção, Consuelo observa que “não houve por parte dele uma divisão de
papéis; ele não fez uma mea-culpa em relação à não concepção”. Na sua
a re

interpretação ele não se inclui diante do fato de não conseguirem conceber,


como ‘a gente não consegue’, ‘a gente não deu conta’’. Este depoimento
parece revelar a participação feminina na não concepção como mais evi-
ito

dente. Mostra, sobretudo, que os homens são menos propensos às avalia-


par

ções desta natureza. Os homens em geral não estão sujeitos a uma avalia-
ção psicológica e, em nenhuma circunstância no contexto das entrevistas
o desejo masculino de ter filhos, pouco explicitado pelos homens, foi pro-
blematizado. Não existe menção a questionamentos por parte dos médicos
d

ou de psicólogos sobre a interferência da “cabeça” masculina – uma de-


são

signação corporal para a localização das emoções que, por sua vez, agem
E

no plano físico na viabilização da concepção. Os homens pesquisados não


foram arguidos pelos especialistas sobre a autenticidade de seu desejo em
relação à paternidade. As mulheres, ao contrário, foram instadas a pensar
ver

sobre isso. Paradoxalmente, há uma crença popular, inclusive incentivada


pelos especialistas e dirigida principalmente às mulheres, de que o casal
deve ‘não pensar no assunto’ e ‘relaxar’, pois isto facilita a concepção.
Segundo esta crença, quanto mais envolvido e ansioso o casal estiver com
o assunto, torna-se mais difícil a concepção particularmente para a mulher.
Esta ideia muitas vezes apresenta-se associada à adoção.
70

Uma coisa que me irritava muito eram as pessoas falar: ah, quando
vocês relaxarem, vai acontecer. Isso era um clássico. Como se fosse
possível não pensar nisso, quando você está diante do problema.
(Larissa, 33 anos, nível superior, 1 filho).

V
r
Eu conheço uma história assim: uma mulher de um amigo meu tinha

uto
um caso muito parecido com o meu e do Nélio. Eles tentaram várias
vezes também, fizeram inseminações, não conseguiram e resolveram
adotar um menino. E quando ela pegou a criança já estava grávida de

R
dois meses. Está ótima, com dois filhos e tal. Mas eu não conseguia

a
deixar de pensar que ia adotar para relaxar. (Neide, 32 anos, nível
superior, 1 filha).

do
Observa-se como é significativa a centralidade do corpo como refe-
aC
rência dos entrevistados, tanto dos homens quanto das mulheres, nas des-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


crições das circunstâncias sociais relatadas e na interpretação dos diver-
são
sos temas tratados. Esta ênfase, deve-se não somente ao fato de que é no
corpo que se dá a concepção, mas sobretudo, porque é no corpo que os
discursos médico e social incidem. Trata-se de um pressuposto biomédico
i
a ser desnaturalizado como aponta Russo (1998). Trata-se de cena comum
rev

o não compartilhamento, ou compartilhamento parcial, de uma ‘cultura


somática’ entre pacientes e médico. Note-se, que tal ênfase não se dá da
or

mesma maneira em homens e mulheres, uma vez que é no corpo feminino


que a concepção se concretiza. Contudo, deve-se atentar para o fato que
ara

o corpo do homem passa a tomar lugar importante na concepção. Mesmo


quando não ocorre no interior do corpo feminino, mas sim por meio de
t

alguma tecnologia, sua continuidade fica atrelada ao universo corporal das


mulheres restando ao âmbito do desejo feminino de ter filhos o seu destino
i
op

e seu impasse. Para avançar no entendimento dessa complexa condição


d

que os diferentes usos das tecnologias reprodutivas colocam em evidência


é preciso interrogar o papel do homem na concepção, restituindo-lhe a
função igualmente importante no desejo de ter filhos. Para sustentar essa
E

interrogação é preciso confrontar as normas de gênero vigentes em nossa


sociedade que associam a infertilidade dos homens à uma perda da mascu-
ver

linidade viril e a fertilidade das mulheres à feminilidade.


Tendo em vista as reflexões apresentadas acredita-se que haja uma
confusão ou uma indistinção nos discursos correntes acerca da infertili-
dade entre ‘escolha’ pessoal e ‘desejo’. Se considerarmos a perspectiva
da psicanálise, enquanto a primeira é algo que pode ser dito e tomado
aparentemente como um aspecto racional e autônomo, o segundo opera
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 71

num nível inconsciente, dando lugar a outras conformações que escapam


ao entendimento racional. Escapam, outrossim, a uma lógica positivista na
qual não só as tecnologias médicas se inscrevem, mas também, as diversas
abordagens psicoterapêuticas a serem problematizadas. Perspectivas crí-

od V
r
ticas a partir do aporte da psicanálise vêm contribuindo para este debate.

uto
Autores como Tubert (1996) e Chatel (1995) discutem a medicalização do
corpo feminino. Chatel considera que a medicina responde de forma mui-
to imediata aos problemas de infertilidade, sem operar qualquer distinção

visã R
entre desejo e decisão de ter filhos. Tubert (1996), por sua vez, chama a

oa
atenção para os efeitos das intervenções tecnológicas nos corpos femini-
nos, mas ao mesmo tempo admite não ser possível a delimitação de um
controle unidirecional sobre as mulheres.
Portanto, a ideia de uma ‘escolha’ pessoal vinculada a uma ‘liberdade’
C
individual é sujeita a questionamentos tendo em vista que outras determina-
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ções, como vimos, entram em jogo quando um casal decide ter filhos. Segundo
Corrêa (2001), nem toda ausência involuntária de filhos corresponde à infer-
tilidade e é somente mediante o desejo de tê-los que a infertilidade passa a
ser denominada como tal. Os tais ‘fatores psicológicos’ alegados comumente
ra
pelos médicos quando as causas fisiológicas não são detectáveis remetem a
uma trama de sentidos e determinações que em sua complexidade retiram a
a re

concepção de sua naturalidade socialmente esperada. Ao convocar os sabe-


res psi para contribuir na efetivação das tecnologias da reprodução assistida,
espera-se que estes venham operar na adequação dos indivíduos envolvidos,
ito

prioritariamente as mulheres, a um dispositivo reprodutivo, retirando os aspec-


par

tos subjetivos inconscientes que figuram como erro ou falha.


Para a psicanálise o desejo é algo que se articula em uma demanda.
Ou seja, no contexto do estudo aqui empreendido, para pensar o desejo
de ter filhos não é possível separá-lo da demanda que é feita à medicina
d

reprodutiva para que esta realize a concepção, tarefa que muitas vezes não
são

se concretiza e não garante ao menos uma explicação lógica para tal fato.
E

Convocar os saberes psi como um campo capaz de identificar as causas


da infertilidade exclui a própria causalidade inconsciente, uma vez que
essa esta não se baseia numa dualidade mente/corpo, mas sim numa so-
ver

bredeterminação psíquica dos sintomas, expondo um entrelaçamento que


transborda a dualidade que impera na biomedicina. O desejo de ter filhos,
portanto, não deve ser procurado como algo que está lá ou não está, seja na
mulher ou mesmo no homem, mas como algo que pode vir a ser articulado
numa demanda e que essa articulação tem efeitos no corpo e nos sintomas.
De certa forma, pode-se considerar que a concepção quando alcança êxito
72

configura também um sintoma, cujo desejo supostamente correlato (ter fi-


lhos) pode ser devidamente observado e nomeado. Contudo, o fato de que
se dê a concepção, sabemos, não é o atestado de que é o desejo de ter filhos
que está operando. Pode, de acordo com Perelson (2013), por exemplo,
configurar a realização de desejos impensáveis (como a concretização de

V
r
uma relação incestuosa) que colocam os médicos em situações difíceis do

uto
ponto de vista Bioético.

R
À guisa de conclusão

a
Visando contribuir para o debate indicamos especificamente neste

do
texto as injunções morais presentes nos argumentos médicos que apon-
tam os ‘fatores psicológicos’ relacionados ao problema da infertilidade
aC
entre mulheres no contexto dos tratamentos. As mulheres heterossexuais

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de camadas médias da pesquisa apresentaram condições diferenciadas de
são
acesso às tecnologias reprodutivas devido às condições materiais de exis-
tência favoráveis que lhes permitiram arcar com os altos custos dos trata-
mentos médicos, mas também às relativas ao gênero. Menções a ‘fatores
i
psicológicos’ a serem solucionados no âmbito da psicologia clínica foram
rev

referidos no decorrer dos tratamentos quando o diagnóstico não encontrou


razões biológicas que justificassem a infertilidade e injunções morais ob-
or

servadas com significativas diferenças de gênero.


A literatura produzida sobre tecnologias reprodutivas no campo das
ara

ciências sociais ao longo dos anos no Brasil já permitiu identificar em pas-


sado recente a expansão no discurso médico da avaliação diagnóstica para
t

o casal, antes exclusivamente dirigida às mulheres. A emergência da ca-


tegoria ‘casal infértil’ no discurso médico foi destacada pelos autores do
i
op

campo como uma construção recente. (TAMANINI, 2003). Mais que isso,
d

indicam que o desenvolvimento tecnológico a serviço da reprodução e as


intervenções direcionadas para a solução da infertilidade não recaem de
E

forma simétrica no par conjugal, mas de forma singular no corpo das mu-
lheres. (RÁMIREZ-GÁLVEZ, 2003; TAMANINI, 2003). Para Tamanini
(2003), o corpo feminino continuou a ocupar um lugar central nas inter-
ver

venções médicas, ainda que a problematização da infertilidade tenha des-


locado a categoria mulher infértil para casal infértil.
A não concepção é percebida pelos casais, com suas variações, como
um acontecimento inesperado, que contesta uma ideia socialmente estabele-
cida de que é possível controlar voluntariamente a concepção na medida em
que, por sua oposição complementar, a contracepção pode ser efetivamente
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 73

realizada pelo uso adequado de métodos contraceptivos. Ao mesmo tem-


po revela, sobretudo em situações limite, uma compreensão naturalizada
da reprodução, uma vez que, na ausência de controle voluntário, a concep-
ção é um resultado esperado e dado como natural. No entanto, o impacto

od V
r
da não reprodução na vida dos casais é variável e não homogêneo como

uto
demonstram outros dados desta mesma pesquisa. (VARGAS, 2006). Mas
alguns efeitos parecem ser mais recorrentes. Nas narrativas das mulheres e
dos homens sobre a trajetória para a realização do desejo de filhos os casais

visã R
passam por um período de imersão reflexiva que coloca sob escrutínio os

oa
investimentos no tratamento, a busca pessoal e uma ponderação sobre qual
o melhor caminho a seguir para concretizar este desejo. Mais que isto, co-
loca em questão a própria decisão de ter filhos e isto implica significativas
diferenças de gênero. Este período comporta avaliações e validações das
C
decisões até então tomadas, por meio das quais os casais buscam compati-
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

bilizar e agenciar recursos relativos aos procedimentos médicos, às práticas


alternativas e ao trabalho profissional. É interessante observar, deste modo
que, na medida em que a ausência de filhos se estende além do imaginado
ou previsto, ela passa a ser concebida como uma circunstância que contraria
ra
a ordem natural e os acontecimentos regulares da vida, como apontaram as
informantes da pesquisa.
a re

Chama a atenção esta visão naturalizada da concepção, recorrente nas


narrativas masculinas e femininas, expressar-se em um contexto contempo-
râneo de grandes transformações das relações sociais em termos das iden-
ito

tidades sociais e fortemente marcado pela racionalidade médica. Os casais


par

buscam, antes de tudo, viabilizar uma concepção ‘natural’ em um contexto


altamente marcado pela intervenção tecnológica. Ademais, em meio a tais
intervenções a associação entre causas da infertilidade e ‘problemas psico-
lógicos’ se faz presente. No entanto, tal circunscrição não altera a afirmação
d

da infertilidade como um problema médico a ser solucionado no âmbito da


são

medicina reprodutiva com franco predomínio do saber biomédico.


E

É possível perceber nas concepções correntes entre os casais uma so-


breposição entre uma decisão racional de ter filho e uma expectativa de
concepção de reprodução ‘natural’ que se amplificam nas circunstâncias
ver

em que se deparam com algum grau de dificuldade para conceber. As ten-


tativas de explicação e a procura insistente por uma razão plausível para
o fato de não ‘conseguir engravidar’ e/ou ter filhos constituem a melhor
expressão de aporias dos modos ocidentais modernos de conceber a pro-
criação neste universo do estudo.
74

Diante deste cenário, pode-se afirmar que as tecnologias reprodutivas


revolucionaram a noção de parentesco com a qual o ordenamento jurídico
brasileiro vinha operando. Em virtude da ausência de regulamentação (lei
elaborada pelo Poder Legislativo) poderá fragilizar as bases do parentesco
socioafetivo? Explica-se: durante décadas o parentesco esteve assentado

V
r
em presunções, sendo as principais: I) - “a maternidade era considerada

uto
sempre certa por conta do estado gestacional”; II) - “a incerteza da pater-
nidade era resolvida pela segurança e aparência do casamento, pois presu-
mia-se que o filho da mulher casada era do marido”. Na década de 60,

R
a
a descoberta do exame de DNA passou a reforçar o vínculo biológico
(parentesco consanguíneo), já que o referido exame apontava a “certeza”

do
do parentesco em ordem bastante elevada. Posteriormente, ganhou es-
paço o valor socioafetivo da filiação, contando a partir de final dos anos
aC
2000, com maior apelo junto ao senso comum e aos Tribunais, em razão

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do enorme número de crianças e adolescentes aguardando uma família.
são
A tendência era /é a de ampliação do mesmo. Por outro lado, o modo
de entendimento sobre a infertilidade não acompanha essas mudanças.
Mantém-se referida a uma norma social que atribui às mulheres a falha
i
e a impossibilidade de levar a cabo um projeto parental. A naturalização
rev

dessa ideia tem como efeito uma desresponsabilização do homem e uma


super-responsabilização da mulher, reiterando um modelo familiar base-
or

ado na tríade mãe-filho-pai.


ara
di t op
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ver
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 75

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od V
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E NAS REDES DOS ESPECIALISTAS

uto
Marlene Tamanini12

visã R
Maria Teresinha Tamanini Andrade13

oa
Introdução
C
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

A reprodução assistida em laboratório se conecta contemporanea-


mente com muitas interfaces. Neste texto, nos interessam em particular as
conexões e as redes de saberes em publicações de coautorias, bem como
os valores e os argumentos interdependentes nas tomadas de decisões. O
rol de decisões envolve intervenções, tecnologias, fertilidade e preserva-
ra

ção de gametas e de embriões em contextos de mercado, de clínicas, de


laboratórios e no âmbito pessoal e familiar. Os saberes neste rol de interde-
a re

pendências se constituem a partir das trocas entre especialistas, no interior


das clínicas, de suas trajetórias, dos processos de tratamento das mulheres
o

e dos casais, nos seminários, nas redes de publicações e nas pesquisas,


visando responder aos desafios do campo. O foco bioclínico a partir dos
par
ver dit

interesses dos especialistas recai prioritariamente, sobre gametas, embri-


ões e pesquisa, conforme aparece nas publicações que temos analisado, e
estas biossociabilidades tem delineado valores éticos, estéticos, familiares
são

12 Dra em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisadora, professora e
E

coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero da UFPR/PR. Ministra disciplinas na área de sociologia,


epistemologia e metodologia da pesquisa. Pesquisa e ministra disciplinas com ênfase em gênero, família,
trabalho, sexualidade e corpo. Vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da
Universidade Federal do Paraná. É autora do livro: Reprodução Assistida: uma perspectiva de gênero: O
olhar das Ciências Humanas. E-mail: tamaniniufpr@gmail.com
13 Possui Doutorado em Difusão do Conhecimento pela Universidade Federal da Bahia (2013), Mestrado
em Redes de Computadores pela Universidade Salvador (2005), Especialização em Redes de
Computadores pela Universidade Salvador (2003) e Graduação em Ciências da Computação pela
Universidade Federal de Santa Catarina (1995). É professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia da Bahia. Tem experiência na área de Ciências da Computação, com ênfase em Tecnologias
Web, Educação e Tecnologias, Gestão do Conhecimento e Ontologias. No momento estuda análise de
redes sociais e redes complexas, colaboração e difusão do conhecimento em comunidades científicas.
E-mail:  leotere@uol.com.br
82

e comerciais de alcance global, conforme se apresenta em diversos capí-


tulos deste livro. Neste contexto, convive-se com uma complexidade de
relações, no que diz respeito à mediação intercultural, comercial e legisla-
tiva da circulação de biomateriais, de práticas de maternidades e de pater-
nidades e para os processos de filiação. Este é um campo de intervenções,

V
r
mas também, e, sobretudo, é um campo de produção de saberes e de po-

uto
deres expressos nos grupos de especialistas e das clínicas e nas narrativas
heroicas sobre a saga de se fazer filhos. O campo está conectado com as
tecnologias, os protocolos, os laboratórios, as pesquisas, o mercado, a in-

R
a
dústria farmacêutica, as redes de publicações, os desejos, os seminários e o
turismo reprodutivo. Estes todos são aspectos da mesma construção e que

do
são impulsionados pelos médicos e pelos especialistas de diversas áreas,
pelas empresas de produtos e de biomateriais, pelos casais, pelas mulheres,
aC
pela população LGBT, pelos que vendem gametas na rede de internet, pela

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gestação de substituição. Também, em alguns países, conectam-se com os
são
contratos de útero ou os aluguéis dos mesmos. Estes envolvem, frequente-
mente, mulheres em grande necessidade afetiva, emocional, social e eco-
nômica. Todas estas configurações são relações interdependentes de prá-
i
ticas biomédicas, clínicas e laboratoriais, que se constroem também com
rev

notícias, argumentos e nas pesquisas. A disseminação do conhecimento,


os congressos, as clínicas, os protocolos, as fronteiras éticas entre pessoas,
or

países e profissionais são relações a partir das quais, circulam diversos


valores a respeito das formas de se reproduzir, utilizar, controlar, legislar e
ara

vender materiais reprodutivos.


Estes valores se amparam nos desejos, nas novas subjetividades e nas
t

novas formas de organizar a experiência reprodutiva, que é determinada


por biossociabilidades e por sociomaterialidades complexas. As pessoas,
i
op

casais e médicos, biólogos, embriologistas, e uma rede interdisciplinar de


d

especialistas, relacionam-se por meio destes híbridos de tecnologias, pes-


quisas, intervenções, desejos, sentimentos sobre filhos, saberes, poderes
e crenças, bem como de ideias a respeito da missão de cada um. Atuam
E

para oferecer serviços e para atender a necessidade da ajuda tecnológica e


por vezes até apelam para ajuda divina. A respeito do último aspecto não é
ver

incomum encontrar nos depoimentos dos casais, que foram retirados dos
sites das clínicas que eles tenham rezado durante processos de transferên-
cia dos embriões.
Estes elementos acima descritos fazem uma rede complexa de pon-
tos considerados bons e necessários para o campo do tratamento da au-
sência de filhos e da infertilidade na família heterossexual, sobretudo das
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 83

mulheres, porque tange à sua normatização e ao filho pensado como re-


médio. No caso da população LGBT, embora exista uma busca que é de
direito, trata-se de infecundidade e não de doença de infertilidade e, logo,
a necessidade de normatização não se coloca como pressuposto da inter-

od V
r
venção. Pessoas da população LGBT estão submetidas ao acionamento

uto
de outros parâmetros que, por vezes, caem no ordenamento moral do não
fazer e, por vezes, atuam no reconhecimento da diversidade dos arranjos
de família e de filiação. O texto de Amorim, neste livro, traz importante et-

visã R
nografia para este contexto. Quando a demanda por filhos está transvestida

oa
da ideia de tratamento dirigido à infertilidade como doença ou como inca-
pacidade e, mais recentemente, também para reparar infecundidade e/ou
como reserva de material reprodutivo frente a outras doenças, os aspectos
que envolvem as práticas são construídos de maneiras diferentes, embora
C
todos necessitem de biomateriais e de sociomaterialidades que são parte
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de um conjunto de investimentos materiais, afetivos, psíquicos e biosso-


ciais, envolvidos com tecnologias, gametas, embriões, laboratório, corpo,
emoções e projetos sobre tipos de família. Consideradas estas questões,
podemos dizer que a reprodução humana, hoje, não é um ponto isolado;
ra
é, outrossim, uma rede complexa de relações e, portanto, não se trata de
denunciar que tenha uma razão tecnológica como única forma de razão
a re

válida, conforme a crítica feminista dos anos 70. Nesta biossociabilidade


contemporânea, se conectam desejos, sentimentos, processos de escolhas
sobre a vida fértil e sobre os filhos, as biotecnologias e os saberes e a busca
ito

das pessoas de solução para seus problemas. É dessa dinâmica comple-


par

xa e hibrida que os envolvidos (mulheres, casais, médicos, especialistas),


também extraem seus saberes, suas redes de coautorias, seus poderes e as
soluções para suas necessidades. Esse mundo biomédico envolve a pos-
sibilidade tecnológica com o desejo que a alimenta e com as condições
d

gendrificadas desta relação, já que, sem sombra de dúvida, os materiais


são

reprodutivos, a intervenção nos processos, a configuração dos saberes e a


E

articulação das estratégias de ação são gendrificadas. A tecnologia torna-se


um valor em conexão: Se é possível, faça-se! Assim, se organizam lógi-
cas novas, fundadas também em valores “antigos”, no que tange aos corpos
ver

diagnosticados como inférteis, ou infecundos. Fazem-se conteúdos híbridos


sobre embriões, expansões das fronteiras binárias da diferença dos corpos,
dos sexos, das células e dos órgãos, tanto quanto da ciência, da tecnologia e
da linguagem; para interagir com a construção da performance e da socio-
materialização da natureza fértil, da pesquisa, da circulação de gametas, de
embriões, de úteros e do trabalho reprodutivo das mulheres, que também
84

tornam-se importantes fontes de material e de envolvimento emocional e


afetivo necessário ao impulsionamento destas práticas, também incremen-
tadas por casais homoafetivos.
Este capítulo apresenta aspectos da configuração do cenário brasi-
leiro em reprodução assistida, a partir das conexões estabelecidas entre

V
r
os especialistas relativas às redes de coautorias em publicações. Tais as-

uto
pectos estão vinculados aos saberes, poderes, centralidades, hierarquias e
diferenças regionais; e, além disso, por onde circulam as ideias também se
faz a sociomaterialização da matéria e vice-versa. Também se apresentam

R
a
conteúdos vinculados às relações entre sociomaterialidades, tecnologia,
pioneirismos e desejos, como parte das dinâmicas nacionais de um campo.

do
Para as redes de coautoria em publicações, se buscou as clínicas
brasileiras filiadas à Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida
aC
(REDLARA). Foram identificadas 61 clínicas, no momento da coleta14;

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a partir delas fez-se uma listagem completa de todos os especialistas
são
pertencentes ao quadro de cada clínica. Sequencialmente, foram sepa-
radas as publicações de cada especialista, conforme as mesmas apa-
reciam nos seus currículos Lattes, para o período correspondente aos
i
anos de 2005 a 2015. As publicações são de artigos em periódicos,
rev

livros, capítulos de livros, trabalhos completos em anais de congresso e


textos em jornais e revistas. O material foi organizado em arquivos de
or

texto, sequencialmente; com o auxílio de softwares (UCInet e Pajek),


foram construídas as redes de coautoria.
ara

Os resultados da pesquisa serão apresentados sob a forma de uma


rede nacional e por região geográfica do Brasil (Sul, Sudeste, Centro-Oeste
t

e Nordeste). No período em que foi realizada a coleta de dados, não havia


clínicas na região Norte que estivessem filiadas à REDLARA; assim, não
i
op

serão apresentados resultados para essa região.


d

Para discutir e caracterizar as relações de coautoria foram utilizadas


três medidas de centralidade comumente aplicadas em estudos de Análise
de Redes Sociais: centralidade de grau, centralidade de proximidade e cen-
E

tralidade de intermediação. (WASSERMAN; FAUST, 1997).


A centralidade de grau foca a importância de um especialista/pesqui-
ver

sador nas simples conexões que este estabelece com os atores vizinhos,
e é quantificada pelo grau do vértice (no caso do especialista). Assim,
um especialista na figura 1 da Rede Nacional da Produção Bibliográfica
de coautoria e nas figuras das Redes Regionais figura 2, 3, 4, 5 é mais

14 Oliveira, bolsista de iniciação científica do Instituto Federal da Bahia, 2016.


REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 85

importante que o outro se ele estabelece um maior número de vínculos


com os vértices vizinhos. A centralidade de grau é definida pelo número de
laços adjacentes que um vértice (especialista) possui com outros em uma
rede. (WASSERMAN; FAUST, 1997).

od V
r
A centralidade de proximidade é função da maior ou menor distân-

uto
cia de um vértice em relação a todos os outros em uma rede. A ideia é
que um vértice central é aquele que possui maiores condições de inte-
ragir rapidamente com todos os outros. (SCOTT, 2002; HANNEMAN;

visã R
RIDDLE, 2005). A centralidade de proximidade de um ator é baseada

oa
na proximidade ou na distância em relação aos demais. Enquanto a
centralidade de grau é medida para os atores adjacentes a um determi-
nado ator, a centralidade de proximidade mostra o quanto um ator está
próximo de todos os outros da rede.
C
A centralidade de intermediação avalia a dependência de vértices não
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adjacentes de outros que atuam como uma espécie de ponte para a efeti-
vação da interação entre eles e está relacionada com o fluxo de informa-
ções na rede. Nesse caso, quanto maior o grau de centralidade, maior é o
controle potencial de um vértice sobre os outros que dele dependem para
ra
executar a interação. (FREEMAN, 1979).
Para as relações entre materialidades, tecnologia, pioneirismos e
a re

desejos, utilizaram-se conteúdos advindos de 61 vídeos, publicados


entre 2005 e 2014, e que foram assistidos e analisados em janeiro de
2015, em parte, para a produção do relatório de iniciação científica
ito

de Mariana Gonçalves Felipe, edital 2014/2015. Estes vídeos foram


par

escolhidos dentre os 123 identificados em 19 clínicas brasileiras das


61 filiadas à REDLARA. Os vídeos pertencem a diversos programas
nacionais e/ou a emissoras televisivas locais, foram escolhidos por re-
giões e atendem ao critério de que o profissional é atuante na clíni-
d

ca a partir da qual ele fala. Estão hospedados em ferramentas como o


são

Youtube, Vimeo, ou em canais criados pelas próprias clínicas em locais


E

onde elas centralizam suas entrevistas, comunicam suas pesquisas, suas


opiniões e/ou fazem esclarecimentos, com fins de facilitar o acesso à
informação para os casais, ou para homens e mulheres interessados em
ver

reprodução humana assistida, e/ou outros tipos de públicos, com dúvi-


das a respeito dos tratamentos, dos processos, dos preços e das opções
possíveis, frente aos quadros de infertilidade, ou frente à necessidade
de gametas e de embriões. Estes 61 vídeos foram assistidos num perío-
do de 11 dias, totalizando 22 horas de escuta, observação, anotações e
discussão a respeito da fala dos especialistas. O critério utilizado foi o
86

de assistir a 50% dos vídeos de cada clínica, utilizando para a escolha a


diversidade de profissionais, ou seja, levando-se em consideração uma
clínica com 10 vídeos, assistimos a metade. A escolha da metade, em
cada clínica, atendeu ao critério da diversidade de profissionais e con-
siderou-se a variedade dos programas, sempre evitando as repetições,

V
r
a fim de equacionar as disparidades de posições e de temas no material

uto
divulgado e tentando abranger o máximo de percepções compartilhadas
como forma de aproximação desta realidade.

R
a
Redes de coautorias na produção bibliográfica
brasileira: saberes, poderes e centralidades

do
aC
Quando pensamos em redes de coautoria faz-se necessário considerar
que estes coautores têm diferentes formações e diferentes possibilidades no

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são
exercício de práticas reprodutivas, possuem diferentes graus de participação
nas conexões que estabelecem entre si dentro do campo. Parte deles é consti-
tuída de pessoas formando-se no campo; logo, muitos dependem de clínicas
e pesquisadores estabelecidos para, inclusive, fazerem sua formação. Nem to-
i
dos estão nos grandes centros; vários circulam regionalmente e internacional-
rev

mente, outros circulam nacionalmente e internacionalmente, alguns circulam


menos em termos de redes, mas têm grande expressão local; existem poucos
or

que são autores isolados e também fazem reprodução assistida. Para publicar
em coautoria, existem condições de formação, de circulação das ideias, de pes-
ara

quisa, de reconhecimento da formação e de conhecimento da região de onde


vem o saber, depende do nome do especialista, ou do fato de que ele não é um
t

médico isolado, mas também é professor formador de alguém. Ou ele produz


i

conhecimentos e sabe usar as tecnologias.


op

Segundo especialistas embriologistas e biólogos entrevistados em 2010,


d

este campo não é um campo comum, exige pessoas preparadas: “Aquí nece-
sitas gente con mucho tiempo de formación, porque son técnicas que nece-
E

sitan personal que tenga mucho tiempo de formación”. Para o específico da


embriología diz um deles: “un embriólogo no puede dejar tocar embriones
hasta que al menos está 2 años formándose como mínimo, mínimo 2 años de
ver

formación para empezar a tocar algo, con lo cual mucho tiempo de formación,
personal duplicado”. (Embriólogo, Barcelona, 2010). Em sua maior parte, es-
tes conhecimentos são compartilhados por fortes dinâmicas nas redes, porque
advêm de pesquisas coletivas e porque circulam nos jornais, revistas, clínicas,
congressos e sites especializados. Estes conhecimentos fazem as tecnologias e
as intervenções e o fazem a partir de sua relação entre as áreas, que se juntam
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 87

para resolver problemas com hormônios, ovários, testículos, úteros, hipófises,


embriões, sêmen, endométrios, legislação, estresse, sofrimento, depressão e
narrativas de ausência de filhos. Todos estes são aspectos que podem estar
vinculados aos processos de confecção de embriões, de sua transferência para

od V
r
o útero, as condições para a sua nidação e a continuidade da gravidez. Estas

uto
intervenções e estas pesquisas têm produzido condições para o uso de tecnolo-
gias conceptivas, com fins de tratamento da infertilidade e para a preservação
de fertilidade por mais tempo e fazem a circulação de ideias e as redes de

visã R
publicações em coautoria.

oa
A Rede Nacional da Produção Bibliográfica brasileira em reprodução
assistida, segundo o critério de coautoria, pode ser observada na Figura 1.
Os vértices (pontos) correspondem aos especialistas e as arestas (linhas
que unem dois vértices) significam que unem dois autores que escreveram
C
juntos. Dois especialistas são coautores, se escreveram uma publicação
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juntos; logo, estão conectados por uma linha.

Figura 1: Rede Nacional da Produção Bibliográfica brasileira


em reprodução assistida, segundo o critério de coautoria
ra
a re
ito
par
d
são
E

FONTE: Plataforma Lattes.


ver

Oliveira, jul. 2016

A rede possui 5.235 vértices, ou seja, especialistas, e 48 componentes


(grupos), sendo que o componente (grupo) maior apresenta 4.905 vértices/pes-
quisadores. Trata-se de um grande componente, com 93% dos vértices, a partir
do qual se pode observar que existe uma dinâmica intensa entre pesquisadores/
88

especialistas, com circulação de informação e de conhecimentos a respeito de


pesquisa e das práticas no campo. Segundo Newman (2010), quando o com-
ponente maior da rede apresenta mais que 50% dos vértices, ele representa o
sistema, nesse caso, o campo da representação assistida em termos de coauto-
ria. Nas demais Figuras 2, 3, 4 e 5, visualizam-se as redes construídas para as

V
r
regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.

uto
A rede da Região Sul (Figura 2) possui 13 clínicas e é composta por
1.086 especialistas e 15 componentes, sendo que o componente maior apre-
senta 949 vértices, ou seja, 87% dos especialistas estabelecendo conexões

R
a
entre si. É uma rede importante no campo das publicações em coautoria
e, em relação aos 5.235 pesquisadores ou especialistas da figura I da Rede

do
Nacional, representa 20,74% dos especialistas que publicam em coautoria.
aC
Figura 2: Rede da Região Sul da Produção Bibliográfica brasileira

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em reprodução assistida, segundo o critério de coautoria
são i
rev
or
ara
di t op
E

FONTE: Plataforma Lattes.


OLIVEIRA, 2016.
ver

A rede da Região Sudeste (Figura 3) é composta por 33 clínicas e


apresenta a maior quantidade de vértices (2.922) e de componentes (23).
Assim como na rede nacional (Figura 1) e na rede da Região Sul (Figura
2), na rede da região Sudeste (Figura 3) é possível perceber a presença de
um componente maior, com 2.762 especialistas (87% dos vértices) e de
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 89

grupos menores periféricos. A quantidade maior de vértices deve-se ao


fato de haver um maior número de clínicas de reprodução assistida filiadas
à REDLARA localizadas na região Sudeste, principalmente nos estados de
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em relação aos 5.235 pesquisa-

od V
r
dores ou especialistas da figura 1 da rede Nacional, ela representa 55, 81%

uto
dos especialistas publicando em coautoria.

Figura 3: Rede da Região Sudeste da Produção Bibliográfica brasileira


em reprodução assistida, segundo o critério de coautoria

visã R
oa
C
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ra
a re
ito
par

FONTE: Plataforma Lattes.


OLIVEIRA, 2016.
d

A rede da Região Centro-Oeste, que possui 9 clínicas, apresenta 1.257


vértices e 16 componentes, como se pode observar na Figura 4. A confi-
são

guração dessa rede segue o mesmo padrão das redes anteriormente ana-
E

lisadas, com a presença de um componente maior com 1.129 (90% dos


vértices) especialistas e de grupos menores. Em relação aos 5.235 pes-
ver

quisadores ou especialistas da figura 1 da rede Nacional, ela representa


24,01% do número dos especialistas publicando em coautoria.
90

Figura 4: Rede da Região centro-oeste da Produção Bibliográfica brasileira em


reprodução assistida, segundo o critério de coautoria

V
r
uto
R
a
do
aC

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são
FONTE: Plataforma Lattes.
i
OLIVEIRA, 2016
rev

A rede da Região Nordeste (Figura 5), que possui a menor quanti-


or

dade de clínicas (6), apresenta a menor quantidade de vértices (329) e de


componentes (14 grupos). O componente maior possui 111 especialistas,
ara

ou seja, 33% dos vértices. É uma rede menos conectada, com especialistas
trabalhando em grupos menores e supõe-se que ainda esteja em processo
t

de formação como rede de colaboração. Em relação aos 5.235 pesquisado-


res ou especialistas da figura 1, da rede nacional, ela representa 6,28% dos
i
op

que publicam em coautoria.


E d

ver
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 91

Figura 5: Rede da Região nordeste da Produção Bibliográfica


brasileira em reprodução assistida, segundo o critério de coautoria

od V
r
uto
visã R
oa
C
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ra

FONTE: Plataforma Lattes.


OLIVEIRA, 2016.
a re

Os resultados das análises das redes de coautoria indicam que as redes


de Produção Bibliográfica das clínicas de reprodução assistida brasileiras
ito

filiadas a REDLARA no período analisado, caracterizam-se topologica-


mente como redes small-world. (WATTS; STROGATZ, 1998). Esta estru-
par

tura de rede retrata uma situação onde existe uma forte interlocução entre
os pesquisadores e sugere que o grupo de pesquisadores é ágil em relação
ao acesso e ao contato entre si.
d

Na rede com esta topologia small-world a maioria dos vértices se conecta


são

a outros vértices através de um número pequeno de arestas, ou seja, o caminho


E

percorrido para o repasse da informação partindo de um indivíduo qualquer


até o destinatário é mínimo. Essa topologia é evidenciada na rede total e nas
redes por regiões por ser uma rede que apresenta atores altamente agrupados
ver

que estão ao mesmo tempo conectados a atores fora de seus grupos por meio
de um pequeno número de vértices intermediários. Esse tipo de configuração
é menos suscetível a fragmentação, possibilitando maior estabilidade da estru-
tura da rede. Se um pesquisador sai da rede a estrutura de compartilhamento
de conhecimento não se rompe necessariamente, sendo, portanto, um grafo
propício para a manutenção dos vértices, ao mesmo tempo em que oportuna
92

à inserção de novos componentes. Neste sentido pode ocorrer a reprodução


e a ressignificação da própria lógica. É um tipo de rede que provê elementos
para a durabilidade das estruturas de relacionamento entre seus componentes,
o que é visível no campo da reprodução assistida. Como um sistema de repre-
sentação do conhecimento este tipo de rede indica que o acesso e o contato

V
r
entre estes pesquisadores e especialistas podem ser ágeis. Que o caminho do

uto
repasse e da circulação da informação possui grande mobilidade, portanto as
informações fluem rapidamente. Estes pesquisadores estão conectados entre
si pela produção e pela divulgação de conhecimentos, por meio da solução de

R
a
problemas, por meio das redes que eles estabelecem na área. Eles se conhecem
ou trabalham juntos, circulam em congressos, viajam, se informam tanto se

do
participam de grandes componentes ou de componentes menores.
Analisados pelas medidas de centralidade os especialistas que apre-
aC
sentam as maiores centralidades são considerados relevantes em termos

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de publicação: supõe-se que esses pesquisadores com maior interação, tra-
são
balham com grupos de pesquisas e têm grande número de colaboradores,
conseguindo assim manter seu nível de produção científica de um período
para o outro. (ANDRADE et al., 2014).
i
As melhores posições na rede podem representar também maior ca-
rev

pacidade de construção do conhecimento científico no campo. (ROSSONI;


GUARIDO-FILHO, 2007).
or

Desse modo, pareceu-nos pertinente relacionar os dez especialistas


que aparecem em destaque nas centralidades de grau, proximidade e inter-
ara

mediação na rede nacional das produções bibliográficas.


Considerando-se que a centralidade de grau foca na importância de um
t

ator, no caso pesquisador e ou especialista, nas conexões que este estabelece


com os atores vizinhos, o pesquisador (P6515) tem a maior centralidade de grau
i
op

a nível nacional e é da Região Centro-Oeste; o que é interessante porque esta


d

região também possui boa visibilidade na sua expressão coletiva, pelo cami-
nho das coautorias nacionais e representa 24,01% delas. O pesquisador P65
tem muitas coautorias significando que ele é um pesquisador influente, proe-
E

minente, se destaca nas centralidades de grau, proximidade e intermediação


porque tem também muitas redes de colaboração.
ver

Em segundo, terceiro e quarto lugares nacionais, aparecem pesqui-


sadores (P30, P31 e P32) da Região Sudeste; que em relação aos 5235
pesquisadores ou especialistas da figura 1, da rede nacional representa 55,
81% da produção em coautorias.

15 Os números que aparecem junto com o (P) de pesquisador, correspondem a classificação realizada pelo
programa UCInet ao classificar os nomes dos pesquisadores em ordem alfabética.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 93

Em quinto lugar um pesquisador (P63) também da Região Centro-


Oeste; em sexto e sétimo respectivamente (P33 e P34) da Região Sudeste;
em oitavo lugar um pesquisador (P1) da Região Sul; e em nono e décimo
lugares dois pesquisadores (P35 e P36) do Sudeste.

od V
r
A centralidade de proximidade como função da maior ou menor

uto
distância de um vértice (pesquisador e ou especialista) em relação a todos
os outros em uma rede é a que permite pensar as condições de interação
rápida ou não, baseada na proximidade ou na distância que este pesquisa-

visã R
dor e ou especialistas mantêm com seus colegas. Apresenta-se neste ponto

oa
o pesquisador (P63) como o que tem a maior centralidade de proximidade
a nível nacional. O mesmo é da Região Centro-Oeste; em segundo e ter-
ceiro aparecem pesquisadores (P30 e P48) da Região Sudeste; em quar-
to um pesquisador (P9) da Região Sul; em quinto lugar um pesquisador
C
(P33) também da Região Sudeste; em sexto o pesquisador (P65) da Região
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Centro-Oeste; em sétimo (P51) do Sudeste; em oitavo lugar um pesquisa-


dor (P66) da Região Centro-Oeste; e em nono e décimo dois pesquisadores
(P32 e P50) da Região Sudeste.
A centralidade de intermediação avalia a dependência de vértices (es-
ra
pecialistas) não adjacentes a outros que atuam como uma espécie de ponte
para a efetivação da interação entre eles e está relacionada com o fluxo de in-
a re

formações na rede. (FREEMAN, 1979). O vértice intermediário é aquele que


faz a conexão entre outros vértices que não possuem relações diretas entre si.
Na rede nacional o pesquisador P65 tem a maior centralidade de in-
ito

termediação e é da Região Centro-Oeste; seguido de um pesquisador (P30)


par

da Região Sudeste e do pesquisador (P63) da Região Centro-Oeste. Em


quarto e quinto lugares dois pesquisadores (P3, P9), da Região Sul; em
sexto, sétimo e oitavo lugares os pesquisadores P48, P32, P35) do Sudeste;
em nono um pesquisador (P66) do Centro-Oeste; e em décimo um pesqui-
d

sador (P33) do Sudeste.


são

A centralidade de intermediação pode ser um indicador de poder no


E

sentido de que pesquisadores considerados intermediários podem, de cer-


to modo, exercer algum grau de controle sobre as informações e ideias
disseminadas entre os pesquisadores que estão conectados por intermédio
ver

dele. Quanto maior a centralidade de intermediação, também será maior o


controle de um vértice sobre outros que dependem dele para interagir.
Quando se observa as centralidades dos vértices pode-se encontrar
pesquisadores/especialistas com grande centralidade de grau na rede na-
cional e com grande capacidade de intermediação, como por exemplo, o
pesquisador P65 (região Centro-Oeste) que fez coautorias com 436
94

especialistas, o P30 (região Sudeste) que fez coautorias com 350 espe-
cialistas, o P31 (região Sudeste) que fez coautorias com 257 pessoas, o
P32 (região Sudeste) que fez coautorias com 252 pessoas, o P63 (região
Centro-Oeste) que fez coautorias com 228 pessoas, o P33 (região Sudeste)
que fez coautorais com 224 pessoas, o P34 (região Sudeste) com 166,

V
r
o P1 que fez coautorias com 163 pessoas, o P35 (região Sudeste) que

uto
publicou com 160 pesquisadores/especialistas e o P36 (região Sudeste)
que publicou em coautoria com 157 pesquisadores/especialistas. Estes 10
vértices, apresentam as maiores centralidades de grau e de intermediação

R
a
na rede nacional. São na rede brasileira os vértices de maior importância
porque estabelecem a maior quantidade de vínculos com os vértices vizi-

do
nhos e, também, são os vértices que atuam como pontes, fazendo ligações
diretas e indiretas entre os demais atores.
aC
Comparando as centralidades da rede nacional com as centralidades

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das redes por regiões vemos que o vértice (P30) que apresenta os maio-
são
res valores para as centralidades de grau, proximidade e intermediação da
Rede da Região Sudeste, corresponde ao segundo maior vértice (pesqui-
sador) da rede nacional para as mesmas centralidades. Os pesquisadores
i
P31, P32, P33, P34, P35, P36, P48, P50 e P51 da Rede da Região Sudeste
rev

estão presentes também nas centralidades para os 10 pesquisadores mais


significativos na Rede Nacional da Produção Bibliográfica.
or

O pesquisador P65 apresenta os maiores valores para as centralidades


de grau, proximidade e intermediação na rede da Região Centro-Oeste,
ara

também apresenta os maiores valores para as centralidades de grau e de in-


termediação; e aparece em sexto lugar na centralidade de proximidade na
t

Rede Nacional da Produção Bibliográfica, revelando assim a importância


desse pesquisador no cenário nacional.
i
op

Os pesquisadores P1 e o P3 apresentam respectivamente maior centra-


d

lidade de grau e maior centralidade de proximidade e intermediação na rede


da Região Sul, também aparecem entre os 10 pesquisadores na rede nacional.
Analisando as centralidades da rede total da publicação bibliográfica
E

do Brasil, verificamos a ocorrência de 16 diferentes pesquisadores, den-


tre os quais 3 são da Região Sul, 3 são da Região Centro-Oeste e 10 são
ver

da Região Sudeste. A essa maior quantidade de pesquisadores relevantes


oriundos da Região Sudeste atribui-se o fato de que nesta região há uma
maior concentração de clínicas filiadas a REDLARA (33 clínicas), enquan-
to que na Região Sul há 13 clínicas, na Região Centro-Oeste há 9 clínicas
e, por último, na Região Nordeste, 6 clínicas.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 95

A partir do levantamento de dados foi possível ainda perceber que, dentre


os pesquisadores que apresentaram maiores resultados para os cálculos das
centralidades, mais de 70% são do sexo masculino. Aspecto que já havíamos
levantado para Brasil e demais países latino americanos a partir dos resumos

od V
r
das publicações dos especialistas que foi parte de outros textos.

uto
Relação entre sociomaterialidades:
tecnologia, pioneirismos e desejos

visã R
oa
O primeiro aspecto, que construímos a partir dos vídeos, trata da
relação entre as sociomaterialidades: tecnologia, pioneirismos e dese-
jos. Considera-se produção de sociomaterialidades as relações entre
C
materialidades e valores socioculturais, intersubjetivos, políticos, ma-
teriais humanos e não humanos. Fala-se, portanto, das relações que são
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

expressões dos valores e dos desejos. Ao focar a tecnologia, é preciso


tomá-la como vetor de materialização ou de conservação de corpos, cé-
lulas, embriões, mas também como intervenientes no campo dos dese-
jos e das representações culturais. (LEONARDI, 2012; ATLAN, 2006;
ra

LOWY; GARDEY, 2000; TAMANINI, 2016).


A sociomaterialidade é a perspectiva da materialidade do social; ou
a re

seja, não existe material que não seja social, da mesma forma que não exis-
te social que não seja material. “A materialidade não se resume às coisas
ito

[...]. A materialidade é impregnada de cultura, de linguagem, de imagi-


nação, de memória; ela não pode ser reduzida a simples objeto ou a pura
par

objetividade”. (DALE 2005, p.652). A perspectiva da sociomaterialidade


analisa a materialidade considerando que o significado de cada objeto se
constrói e se reconstrói por meio da dinâmica da vida social. Humanos e
d

não humanos, conforme perspectivas latourianas, se imbricam nela, por


meio de teias complexas.
são

A reprodução assistida, por esta perspectiva sociomaterial, envolve


E

aspectos ambientais, econômicos, sociais, culturais e familiares, que fa-


zem parte da complexa hibridez deste campo.
ver

Estas dinâmicas imbricam valores e subjetividades; logo, desta perspec-


tiva, a natureza não é sempre um ponto de partida, é uma rede complexa. Não
é fixa, situação que se apresenta em quase toda a racionalidade científica mo-
derna. (KNELLER, 1980). Ela própria está conectada com dinâmicas socio-
culturais e concepções de mundo que a fazem, que decidem sua forma e seu
jeito de atuar. Na boca dos especialistas, esta racionalidade materializa corpos
férteis e embriões por meio de medicamentos, protocolos, diagnósticos, mas,
96

sobretudo, pela crença a respeito dos processos reais que elas oportunizam. As
mais citadas são as técnicas de vitrificação, consideradas também as mais im-
portantes mudanças, porque permitem a criopreservação dos gametas, dos em-
briões e de células tronco. Segundo suas percepções, elas são revolucionárias,
embora seja necessário considerar as dificuldades à sua utilização, porque elas

V
r
não funcionam da mesma maneira, em se tratando de diferentes materiais. Este

uto
aspecto fez com que um dos especialistas se reportasse a Vitri-Ingá16 como
uma técnica desenvolvida no Brasil, especificamente no estado do Paraná17,
para a preservação do maior número de óvulos, já que o uso da vitrificação

R
a
nos mesmos protocolos utilizados para embriões não resultava em manuten-
ção segura do material genético, quando se tratava de óvulos. Outro aspecto

do
considerado em relação à vitrificação é uma certa preocupação sistemática em
justificar os altos valores. Segundo esta percepção, são técnicas muito especí-
aC
ficas e, portanto, faz-se necessário criar o mesmo ambiente existente no corpo

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


feminino, o que eles chamam de “microambiente para o óvulo”, criar a mesma
são
situação que o óvulo teria na trompa “O mesmo pH, a mesma substância de
nutrição, o mesmo CO², a mesma temperatura, a mesma umidade, tudo; então
você tem que simular tudo. Requer um aparato tecnológico muito avançado.
i
Então, infelizmente, ainda é uma técnica cara” 18.
rev

Independente das dificuldades, a vitrificação é considerada a técnica


mais importante para a manutenção e a preservação de material feminino.
or

Desde que ela foi possível para os gametas e embriões, é como substitui-
ção da criopreservação de óvulos que ela ganha relevância. Antes dela,
ara

os procedimentos de criopreservação de óvulos quase sempre resultavam


em perda de material, já que ao descongelar um óvulo, ele se destruía.
t

A vitrificação de óvulos permitiu intervenções mais seguras, em termos


de qualidade do material, e expandiu a possibilidade de guardar óvulos,
i
op

da qual faz parte hoje uma importante rede global de doadoras. A entra-
d

da das doadoras abriu um novo leque de possibilidades nas intervenções,


conforme os problemas e a faixa etária das mulheres, ao mesmo tempo
em que as doadoras podem doar óvulos para outras mulheres e usar para
E

si mesmas, como ocorre nas clínicas brasileiras. Elas acionam práticas de


estocagem e de venda de óvulos para os casais, ou mulheres e homens
ver

solteiros, também proporcionam material para os laboratórios, conforme

16 Disponível em: <http://pt.slideshare.net/materbaby/vitriing-um-novo-protocolo-de-vitrificao>. Acesso em:


jan. 2016.
17 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=GOD-ZEI7-bE>. Acesso em: jul. 2016.
18 Disponível em: <http://www.materbaby.com.br/videos/1/tecnica-inedita-de-vitrificacao-de-ovulos/25>.
Acesso em: ago. 2016.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 97

se estabeleçam as relações legislativas e de mercado. (TAMANINI, 2013;


2015). A vitrificação também vem sendo almejada por mulheres e utilizada
por especialistas, quando se deseja adiar a maternidade, frente a situações
de ausência de parceiros ou de priorização de aspectos profissionais e de

od V
r
estudo, e substituiu o rejuvenescimento de óvulos. Essa técnica foi aboli-

uto
da das práticas, por razões éticas e de custo/benefício, quando se tratava
da transferência do núcleo de um óvulo mais jovem para o núcleo de um
óvulo mais velho. Embora o tema não tenha aparecido nos vídeos, sabe-

visã R
mos que hoje volta-se a falar em rejuvenescimento de óvulos, mas pelo

oa
caminho da maturação de células precursoras de óvulos. Também se fala
de reativação do ovário, ou até mesmo da criação de óvulos, técnicas que
estão em desenvolvimento e que poderiam mudar todas estas práticas aqui
descritas, bem como as percepções sobre elas e seus usos.19
C
Nos vídeos brasileiros que analisamos, outro aspecto conectado a
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

este diz respeito ao desejo de incrementar e de expandir as técnicas de


vitrificação para óvulos. Alguns especialistas dizem que é necessário fazer
um consenso, para que as mulheres acima de 32 anos criopreservem seus
óvulos e os guardem para uso futuro. “Então tá ali pra quando eu quiser
ra
usar, se eu precisar usar e eu puder usar. [...] Me dá uma tranquilidade pra,
porque eu fiz a minha parte”20.
a re

Evidentemente, eles estão falando de uma nova forma de intervenção


clínica, que é mais do que isto, pois pretende gerar engajamento reproduti-
vo na vida. Isto é uma cultura a respeito de uma nova normatividade para
ito

os usos de material reprodutivo, já que, do ponto de vista da sociotécnica,


par

da cultura e das relações sociais, a falta de aceitação da ovodoação e da


recepção de espermatozoides foi em grande medida superada, o que faci-
lita o contexto bioclínico e das decisões a respeito das temporalidades da
reprodução. Neste aspecto, existe maior abertura para novas configurações
d

reprodutivas no interior das diversas relações familiares. A gravidez de


são

substituição também abriu diversas soluções como arranjo socioparental.


E

Entretanto, o mais estranho é que, quando se ouve os especialistas nos


vídeos, depreende-se que ainda existe grande circulação de óvulos pelo
mundo, e o texto de Tamanini (2015) e de Machin, neste livro, dá conta
ver

disso. Nas práticas das clínicas brasileiras, a rede de doadoras não é tão
visível e a negociação ocorre em grande parte a partir da intermediação
médica. Parece haver diferenças significativas com estes usos, a depender

19 Disponível em:<http://elblogdeprocrear.blogspot.com.br/2015/07/rejuvenecimiento-de-ovulos-facilita-la.
html>. Acesso em: 8 ago. 2016.
20 Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=tK_GPV3sZL8 > Acesso em: 13 jan. 2015.
98

da clínica e da região do país. Além do mais, há forte insistência na neces-


sidade de se fazerem alguns consensos na forma de orientar as mulheres
quanto à preservação de óvulos e de como gerenciar a criopreservação
dos próprios óvulos, a fim de utilizá-los no futuro, caso elas não queiram
ter filhos no presente. Este aspecto revela um problema prático para as

V
r
clínicas, que é o da obtenção deste material reprodutivo, tão necessário aos

uto
procedimentos, em especial quando se está em um país onde se tem um
perfil de mulheres que buscam filhos com idade cronológica mais avança-
da; e o Brasil, neste aspecto, não é diferente dos demais países. Estudo do

R
a
Ministério da Saúde mostra que mais brasileiras estão esperando chegar
até os 30 anos para ter o primeiro filho: o número de mães de primeira

do
viagem com mais de 30 anos passou de 22,5%, em 2000, para 30,2%, em
2012. Entre as mulheres com 12 anos de estudos ou mais, o nascimento do
aC
primeiro filho acontece com elevada frequência após a mãe completar 30

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


anos ou mais de idade (45,1%); embora, entre as com até sete anos de estu-
são
do, mais da metade foi mãe com menos de 20 anos, o índice de mães com
menos de 19 anos caiu de 23,5% para 19,2%, no mesmo período. Este as-
pecto é relevante, dado ao fato de que também no Brasil ocorre vertiginosa
i
queda da taxa de fecundidade21. Este também é um fato impulsionador da
rev

reprodução assistida.
Nas relações expressas a respeito da doação/recepção de óvulos, existe
or

forte tensão entre romper um marcador genético com a recepção de óvulos ou


fazer um embrião com os próprios óvulos criopreservados. No caso dos óvulos
ara

recebidos por ovodoação anônima, o genético fica nublado, embora compen-


sado pela barriga, pelas mitocôndrias e pelo anonimato. A pessoa não precisa
t

revelar que aquele bebê é filho de uma ovodoação e o útero que aparece grávi-
do invisibiliza a falta genética. No caso do óvulo criopreservado, ainda que ele
i
op

venha a ser utilizado no futuro, quando a mulher for mais velha, ele manterá a
d

idade de quando ele foi criopreservado, segundo publiciza-se, e manterá a car-


ga genética intocada; é claro que dependerá das condições desta preservação.
Por esta perspectiva, observa-se a presença de um valor explicitado nas falas
E

dos vídeos e de entrevistas, que é o do incentivo à busca de filhos, preferencial-


mente do próprio sangue, mesmo que as tecnologias permitam outros arranjos,
ver

já discutidos em outros textos.


As representações dos especialistas reforçam sempre a ideia de que
se uma mulher deixa para ter filhos mais tarde, ela necessita garantir que
terá reserva ovariana suficiente para tal feito em idade avançada. Diz-se:

21 Disponível em: <http://www.brasilpost.com.br/2014/10/29/natalidade-brasileiras-dados_n_6071020.


html>. Acesso em: 7 ago. 2016.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 99

“Sobre o hormônio antimulleriano, isso é uma ferramenta muito importan-


te para o planejamento de vida. Frequentemente, temos muitas mulheres
que pensam: “vou deixar para ter filhos depois dos 40 [...]”. Dizem: “Vou
viajar, vou trabalhar, estudar, montar meu apartamento e deixar pros 40”.

od V
r
Pondera o especialista: “Nós dosamos esse hormônio e opa; talvez a gente

uto
tenha que rever este planejamento e reverter a ordem de alguma etapa”22.
Nesta fala observa-se o aspecto biológico sendo colocado como determi-
nante das decisões da vida da mulher; sua autonomia, sua liberdade, seus

visã R
sonhos, suas expectativas estão condicionadas a quantos óvulos ela tem.

oa
Igualmente, o biológico é colocado como construtor de características
emocionais. Por exemplo, na frase: “Nem todos os estressados são infér-
teis, mas todos os inférteis são estressados [...]”. Segue dizendo: “Caminha
junto, porque existe uma carga emotiva muito grande. A menina quando
C
tem 2 ou 3 anos de idade, ela brinca de bebê, ela troca fralda da boneca e
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

isso daí vai ficar parado durante os 30”. Pondera: “e depois, quando ela for
tentar engravidar, ela vai trazer toda essa carga emocional para a vida dela.
Então, não é que o emocional cause infertilidade, mas aquelas pacientes
estão tentando engravidar e estão tendo dificuldades, elas vão ter algum
ra
grau de estresse importante”23.
O que vem nas falas dos vídeos revela claramente uma percepção sobre
a re

como deve ser organizada a vida, os arranjos reprodutivos, os casamentos e


os relacionamentos. Eles trabalham com um ideal, a idade mais jovem, e com
a diferença de idade entre homens e mulheres de até 10 anos, para garantir o
ito

ideal da média clínica. Ou seja, um homem deve ser pai entre os 40-45 anos
par

e a mulher deve ser mãe entre os 30-35 anos. Existe um reforço da juventude,
dos relacionamentos mais jovens para ter filhos. Se o homem é mais jovem do
que a mulher e se ela tem reserva ovariana, a qualidade dessa fertilização pode
ser potencializada. Porque uma célula compensa a outra.
d

A imagem da maternidade tardia está prevista pela resolução do Conselho


são

Federal de Medicina de número 2.013 do ano de 2013; porém, as representa-


E

ções a respeito de mulheres que receberam doação de óvulos e são mães aos
50 ou mais anos (neste último caso, fora da recomendação) chocam a repre-
sentação cultural sobre a maternidade na juventude, ou pelo menos até os 45
ver

anos, que parece ser uma categoria de idade assumida como a mais palatável
socialmente e para a atuação dos especialistas nas clínicas. Entretanto, estas
situações existem e a busca por um ponto de equilíbrio, não ser mãe cedo

22 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=nIqHVX1DI34>. Acesso em: 16 jan. 2015.


23 Disponível em: <http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/jornal-do-almoco/videos/t/porto-alegre/v/
especialista-fala-sobre-o-problema-da-infertilidade/2344396/>. Acesso em: 16 jan. 2015.
100

demais, ou seja, na adolescência, nem tarde demais, na menopausa, conforme


os especialistas expressam, está rompida pela própria resolução do Conselho
Federal de Medicina e pela dinâmica da vida.
É paradoxal um discurso desses, porque nele não se trata apenas da
noção de idade; trata-se de normatizar vidas e de perceber que as regras mu-

V
r
dam, quando é do interesse médico fazer tentativas e estender a idade; e, para

uto
tal, ele aciona o heroísmo da mulher, que faz de tudo para ser mãe, ficando
por vezes 15 ou 20 anos em tratamento. Ao mesmo tempo é paradoxal, por-
que, em caso de gravidez na adolescência, por exemplo, nem a cultura, nem

R
a
a medicina a recomendam. A gravidez na adolescência normalmente é toma-
da dentro de uma noção de irresponsabilidade; já a gravidez em uma mulher

do
adulta e mais velha não se configura como irresponsável na reprodução as-
sistida, ainda que ela seja uma gravidez de risco e tenha consequências para
aC
a configuração futura desta família. Aciona-se, nesta organização simbólica,

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


ou o desejo das mulheres e sua insistência em terem filhos mais tarde, ou a
são
falta do cumprimento da missão pelo feminino; e para tal justificam-se todas
as intervenções como desafios a serem superados, como dos direitos do in-
divíduo e como campos de atuação. Ambos, especialista e casal, sobretudo
i
a mulher, neste contexto, inserem-se na cultura, reiterando a necessidade de
rev

filhos e a alegria por tê-los, ainda que a idade esteja avançada e a busca tenha
consumido muitos anos da vida.
or

Contudo, o valor sanguíneo já não é a única realidade clínica. É muito


importante considerar que, ao doar óvulos, ao contrário de uma barriga de
ara

substituição, ou de aluguel, as/os doadoras/es transmitem 50% da carga


genética ao futuro bebê, e que, portanto, os requisitos, na hora da seleção
t

dos doadores, devem ser rigorosos para as clínicas e seus especialistas.


(TAMANINI, 2011, 2009).
i
op

No Brasil, os aspectos da discussão sobre a coparticipação, ou as funções


d

de diferentes doadores de material genético, no que respeita à identidade gené-


tica, ou à multiparentalidade social e familiar, segundo Thery, (2009), não vêm
acompanhados dos mesmos esforços feitos em relação aos esforços clínicos.
E

Os discursos dos profissionais brasileiros, nestes vídeos, estão calca-


dos no modelo familiar heteronormativo; mesmo que a reprodução assis-
ver

tida abra possibilidades para outros tipos de arranjos familiares, eles não
foram citados uma única vez durante as entrevistas dos vídeos; nem mes-
mo quando havia necessidade de incluir exemplos nas explicações. A falta
destas percepções frequentemente se reforçava nas perguntas tendenciosas
dos jornalistas e no modelo de família em cena. A mulher é tomada como
um problema para a sociedade e para a continuidade do mundo, se ela não
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 101

tem filhos, e é frequentemente julgada como um equívoco, quando seu


estilo de vida prioriza o trabalho ou o estudo. Na visão dos especialistas
médicos, isso é extremamente equivocado e preocupante. Para alguns de-
les, a mulher tem que ter em mente que a maternidade é algo pelo qual ela

od V
r
precisa passar para ser uma mulher de verdade e, se ela não pode fazer isso

uto
do jeito ‘tradicional’, ela pode recorrer a eles. Neste material, os homens
quase não são focados, como ocorre em diversas fontes. Os comentários
sobre gravidez tardia não ocupam um lugar explicativo, com fins de pro-

visã R
duzir esclarecimentos; são de ordem moral, e estão sempre voltados a uma

oa
obrigação que a mulher tem, que é a de colocar os filhos antes do trabalho
e antes do estudo.
Formulam-se tais percepções a partir da estruturação da representa-
ção a respeito da maternidade e é dela que os especialistas extraem as jus-
C
tificativas para as tecnologias. Assim se expressam: “A vida inteira, acho
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

que toda menina sonha em ser mãe, desde que brinca de boneca”24.
A respeito da relação entre materialidades, tecnologias e desejos, eles tam-
bém consideram que deverão ocorrer avanços na reprodução humana, como
a superação dos entraves na produção de células pluripotentes, para substituir
ra
óvulos, em casos de deficiência ovariana; novas práticas de avaliação de em-
briões, em termos de sua saúde (as atuais são consideradas em algumas falas
a re

como ainda grosseiras); a substituição de partes de um ovário saudável para


um ovário que apresenta problemas (como no caso de menopausa precoce),
afim de que a pessoa que tem ovário com problemas possa ovular. A técnica
ito

consiste em escolher parte do ovário onde tenha óvulos para que ele se regene-
par

re e passe a produzir óvulos na receptora. Obter êxito, sucesso é a meta central,


em todos os procedimentos; neste sentido, a posição dos especialistas é de que
a natureza humana reprodutiva é falha, não sendo então possível esperar que
um tratamento resulte em 100% de sucesso; resta, no entanto, uma possibi-
d

lidade de superação das taxas naturais, por meio da tecnologia. Ocorre com
são

frequência, no discurso deles, uma maximização da possibilidade tecnológica,


E

em relação ao ato sexual.


Com a evolução das técnicas, é possível manter as taxas de suces-
so, transferindo menos embriões, evitando-se assim perdas, necessidade
ver

de redução embrionária e/ou nascimentos prematuros. Ainda se apoiam


em ideias sobre a preservação da fertilidade, como meta e quase missão.
Afirmam que esta é uma das áreas em que a medicina reprodutiva tem
investido saberes, discursos, publicações. Também se constitui uma nova

24 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=wBRq_5ErgDw>. Acesso em: 22 dez. 2014.


102

terapia, a oncofertilidade, com o intuito de preservar a fertilidade em pa-


cientes submetidos a quimioterapia25. Com esta prática, objetiva-se dar
apoio tecnológico e emocional para pessoas, mulheres, homens ou casais
que tem câncer e que desejam ter um filho mais tarde, após o tratamento.
Este aspecto faz uma rede de relacionamentos entre o profissional da repro-

V
r
dução humana e o oncologista, que é relativamente nova, considerando-se

uto
o tempo em que o tratamento se fixava única e exclusivamente na inferti-
lidade imediata. Incide também sobre as decisões que devem ser tomadas,
quanto ao momento de coletar o espermatozoide e sobre o tipo de exames

R
a
a que ele será submetido, afim de que possa ser criopreservado de maneira
segura. As clínicas afirmam proceder de modo diferente, se a mulher é

do
casada e/ou tem um parceiro fixo, ou se ela é solteira. Se ela é solteira, são
criopreservados os óvulos, que também podem ser facilmente doados ou
aC
descartados, em caso de desistência ou de morte. Se ela é casada, são crio-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


preservados os embriões; neste caso, é muito mais difícil descartar, desistir
são
do material; ou coloca-se o problema da inseminação post mortem, se um
dos parceiros vier a falecer. Estes aspectos deveriam estar todos regrados,
antes da tomada dessas decisões sobre criopreservação, o que nem sempre
i
acontece. E quando ocorre que um dos parceiros morre e os embriões de
rev

ambos estão criopreservados, se coloca uma série de questões éticas.


A nova resolução, por sua vez, permite pensar mais o conceito de pes-
or

soa como sujeito de direito, abrindo possibilidades para homossexuais e


mulheres solteiras. Essa ideia de pessoa é distinta em relação ao casal fértil
ara

ou infértil e também não está na heteronormatividade. Em Curitiba, existe


um precedente legal, em que foi utilizado o sêmen do marido morto, por
t

força de uma liminar judicial, impetrada na clínica Androlab.


i
op

Metáforas, qualidade das células e dos corpos


d

O segundo aspecto que organizamos para as percepções dos especia-


E

listas, a partir dos vídeos, diz respeito à qualidade das células, dos corpos e
das metáforas utilizadas. Esses discursos são organizados por contraposi-
ção entre dois corpos, um masculino e outro feminino. Ou seja, ao mesmo
ver

tempo em que o discurso desmistifica a “eterna” capacidade reprodutiva


do homem e a coloca no campo das perdas da potencialidade dos esper-
matozoides, com o passar da idade, caracteriza em contraposição à finitu-
de do tempo feminino. Reforça para as mulheres uma noção matemática

25 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=exUbweskRVs>. Acesso em: 7 jul. 2016.


REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 103

sobre a quantidade de óvulos e o prazo que a mulher tem à sua utilização.


“Olha a contabilidade para as mulheres que estão deixando para depois”26.
A visão é de perda para a mulher, o que também ocorre no caso masculino;
entretanto, segundo dizem: “A menina nasce com uma quantidade grande

od V
r
de óvulos que ela herda da mãe e, na medida em que a idade passa, ela vai

uto
perdendo estes óvulos, independentemente de seu gasto. Se ela usa pílula,
não usa pílula, é inexorável o gasto; ela tem o máximo quando nasce; e
quando chega aos 41 ou 42 anos, eles estão terminando”27.

visã R
Contudo, o número não é, por si só ou sozinho, o aspecto mais significati-

oa
vo na decisão. A qualidade do óvulo é posta na relação com a idade cronológi-
ca da mulher, ou com a idade em que o óvulo foi criopreservado. A qualidade
e a quantidade são levadas em conta; porém, a qualidade tende a demarcar as
decisões. A quantidade de óvulos, segundo dizem, tem substituído o argumen-
C
to da idade, no caso da referência à ovulação, porque uma mulher com 20 anos
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

pode ter menos óvulos do que uma mulher com 40 anos. No entanto, não tem
substituído o entendimento clínico de que uma mulher de 40 anos pode ter
mais problemas clínicos, porque os óvulos estão envelhecidos, abrindo impor-
tante campo para a inserção de doadoras e de novas pesquisas. Considerando-
ra
se tanto a idade da mulher quanto a qualidade dos óvulos, os especialistas
chamam para si o poder de decisão a respeito do tratamento e da forma em que
a re

ele se dará. Observa-se aqui uma crítica sutil à resolução que estabeleceu 50
anos de idade como limite etário e como regra geral, o que tiraria dos especia-
listas as condições de decisão, por não fazer em certas circunstâncias. Eles re-
ito

conhecem que: “Ter filho não é doença. Ter filho é uma escolha afetiva a que a
par

mulher tem direito, a meu juízo, sempre que ela quiser”28, mas a legislação fere
sua autonomia frente a decisões que envolvem questões sobre as quais pensam
que só o médico pode decidir. Depois de quase vinte anos sem renovação, a
resolução publicada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) foi atualizada
d

no ano de 2010 e, em seguida, em 2013, tendo como principais contribuições


são

os tópicos do limite de idade da paciente candidata à gestação de reprodução


E

assistida, atualmente até 50 anos; assim como de idade limite para a doação de
espermatozoides, igualmente 50 anos; amplia-se o parentesco consanguíneo
para o útero de substituição em até o 4º grau; e a regulamentação do descarte
ver

de embriões criopreservados acima de cinco anos.

26 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Ets6IjH2DrU>. Acesso em: 06 ago. 2016.


27 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=yXum3H0r4gM>. Acesso em: jan. 2015.
28 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Ets6IjH2DrU>. Acesso em: 16 jan. 2015.
104

Neste ponto tem-se claramente uma tensão entre as posturas dos es-
pecialistas a respeito das legislações, também apontada neste livro por
Cecília, em relação à Argentina; embora existam as recomendações, isto
não faz com que elas sejam sempre adequadas. E como é uma recomenda-
ção, e não uma legislação, o fato permite não só a expressão da controvér-

V
r
sia, mas também um rol de ações diversas, frente aos quadros concretos”29.

uto
A qualidade do espermatozoide é demarcada com características de
velho e de novo. Pergunta-se: “Espermatozoide velho é igual a espermato-
zoide de homem novo?”. Não, a resposta médica é educativa, no sentido de

R
a
dizer que o potencial de fertilização do sêmen diminui com a idade. Essa
resposta é um saber que orienta e organiza novos discursos e que deses-

do
tabiliza os mitos sobre a potencialidade reprodutiva e a idade do homem
como eternamente fértil. “Acontece que se sabe hoje que ocorrem lesões
aC
no DNA destes espermatozoides ao longo da vida e cada vez mais, com a

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idade, o homem vai produzindo mais lesões nos espermatozoides.30”
são
Em relação ao homem, vimos um discurso voltado ao acolhimento,
sempre buscando desmistificar certas máximas, como a vinculação da in-
fertilidade à virilidade. Os profissionais sempre buscam falar a respeito da
i
infertilidade do casal; buscam, desta forma, incluir o homem e sua mascu-
rev

linidade em suas exposições na grande mídia.


Além da questão do casal infértil, também foi possível observar como
or

o especialista se enxerga neste campo. Sua visão de si mesmo é a de al-


guém que acolhe o homem na clínica, que ensina e explica, que apoia,
ara

muitas vezes psicologicamente e até economicamente, mas acima de tudo,


se vê como o possibilitador da concepção, o institucionalizador da mater-
t

nidade. É ele quem traz o filho, quando a natureza falha. Também é possí-
vel observar a responsabilidade destes médicos em diversas fases do tra-
i
op

tamento, desde a dinâmica de acolhimento do casal até a manipulação dos


d

gametas. Aqui também encontramos as dificuldades levantadas por eles, o


que pensam a respeito das legislações vigentes, os valores do tratamento,
o amparo aos indivíduos com menos condições financeiras, a questão do
E

Sistema Único de Saúde, dentre outros. Muitos dizem investir o próprio


dinheiro em pesquisa e expansão da clínica, pesquisa e laboratório. As clí-
ver

nicas não são apenas um emprego, elas são o meio onde eles se inserem
no campo, é parte da produção de saberes para as redes de coautoria e é
onde eles se constroem e se renovam como profissionais, como pessoas,
na missão de fazer bebês.

29 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Ets6IjH2DrU>. Acesso em: 16 jan. 2015.


30 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=nIqHVX1DI34>. Acesso em: 8 ago. 2016.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 105

Os especialistas que se reportaram ao tema da pesquisa, nas clínicas


brasileiras e, sobretudo, quando vindos de cidades menores, mais isoladas
geograficamente, se referiram às dificuldades para sua execução, reportam
poucos recursos e consideraram o investimento que a própria clínica ne-

od V
r
cessita fazer para desenvolver tal prática. Por exemplo, a frase: “Para você

uto
ser um pesquisador em uma cidade pequena, ou fora de uma universidade,
apesar de eu estar dentro de uma universidade, você tem que ter coragem
de gastar o que você ganha em pesquisa”. Em continuidade, diz: “E pes-

visã R
quisa se chama pesquisa, porque normalmente não dá certo; então, você

oa
faz 100, 200 tentativas e chega à conclusão de que aquele caminho está
totalmente incorreto”. E segue: “então você tem que começar tudo do zero,
novamente, e tendo a coragem de gastar seus próprios recursos. É por isso
que muito poucos médicos fazem pesquisa privada.” Este aspecto agrega
C
uma explicação importante à primeira parte deste texto, o que explica o
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

fato de que muitos coautores sejam exteriores às clínicas.


Nos vídeos, a concepção de infertilidade está ampliada pela inclu-
são das responsabilidades do Estado; frequentemente, eles se reportam à
necessidade de recursos para a pesquisa e expandem a definição de infer-
ra
tilidade, viz.: “a infertilidade não é só da mulher nem só do casal; a infer-
tilidade é de toda uma família; são os futuros avós maternos, futuros avós
a re

paternos que sofrem muito”. E segue: “E eu acho que chegou a hora do


Brasil reduzir custos pra saúde. Se não tem como produzir no Brasil (fala-
-se de materiais de laboratório importados e caros), então que se reduzam
ito

os impostos”31. Defendem a necessidade de intervenção do poder público,


par

para que ele se ocupe mais dos problemas de infertilidade. “Eu acho que
tá mais do que na hora, aliás, tá passando muito da hora do poder público
fazer alguma coisa pra esses casais que não engravidam”. E segue: “É mui-
to constrangedor, dói muito a gente ter uma formação boa, se especializar
d

corretamente, mas dar acesso a essa especialização apenas a pessoas mais


são

abastardas financeiramente”32.
E

Existe um apelo humanitário, que não é isolado, no qual se toma a


infertilidade como um problema, uma doença que precisa ser tratada pelo
Estado. Incentiva-se os casais a buscarem o poder público para proteger
ver

seu direito ao tratamento. “Eu até incentivo muito esses casais de baixa
renda, que não têm condições, a procurarem a defensoria pública, para
obrigarem o Estado a assumir a posição que tem que assumir”. E conti-
nua: “porque eu considero que o governo, ele estende o tapete vermelho,

31 Disponível em: <http://vimeo.com/108515263>. Acesso em: 12 jan. 2015.


32 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Z_mCYzPucE8>. Acesso em: 16 dez 2014.
106

oferece ajuda para o casal que não quer engravidar. Ele chega ao cúmulo
de pagar uma esterilização, um instrutor hospitalar, um anestesista, um
médico. Agora, para o casal que quer engravidar e não consegue, ele não tá
nem aí”33. A atenção aos casais que querem ter filhos e o apelo de que de-
vam ser tratados como uma questão de saúde pública é frisado por muitos.

V
r
Em alguns vídeos, sobretudo quando a contraposição é entre gineco-

uto
logista e urologista, a infertilidade em termos de sentimento é caracteriza-
da como diferente para mulheres e para homens. Por exemplo, enquanto
a ginecologista fala de grande sofrimento emocional e psíquico para as

R
a
mulheres, o médico urologista fala da associação entre problemas físicos e
sentir ansiedade e angústia por se considerar ‘menos homem’, menos viril.

do
Ele faz sua afirmação a partir de sua prática clínica e para homens em ge-
ral, não necessariamente aos casais. Eis uma frase, por exemplo, de fuga,
aC
citada por um especialista: “Sempre o homem diz que a mulher dele não

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engravida. Ele nunca pensa que é ele o fator da infertilidade”34.
são
De outro lado, é comum que os médicos digam que eles se tornam um
pouco psicólogos, porque os casais trazem o problema da infertilidade, suas
ansiedades e os entregam para o médico. O especialista pode resolver a situ-
i
ação, conforme dizem, quando afirmam que o casal delega o seu problema
rev

ao médico e que, às vezes, ao voltar para casa, engravida sem tratamento. E,


muitas vezes, o próprio diagnóstico médico acaba por agravar a ansiedade; e
or

isso é reconhecido por alguns dos especialistas, sobretudo quando o diagnós-


tico sugere pouca possibilidade interventiva. Este fato é apresentado como o
ara

distanciamento do sonho, da esperança, na vida do casal.


Além da dinâmica de intervenção no problema, há o entendimento de
t

que o médico é um educador em questões reprodutivas. Então, ele deve in-


formar sobre a perda ovariana, sobre questões implicadas no avanço da idade,
i
op

sobre práticas de estilo de vida que favorecem a saúde reprodutiva ou não.


d

Considerações Finais
E

A partir da voz dos especialistas, nas redes de coautorias, que fala


da relação entre sociomaterialidades, tecnologia, pioneirismos e desejos e
ver

das percepções a respeito da qualidade das células, pode-se demarcar que:


A) Circulam importantes conexões entre os especialistas e as práticas, em
termos das pesquisas e das publicações, bem como das entrevistas para

33 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Z_mCYzPucE8>. Acesso em: 16 dez. 2014.


34 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=sF1u6ZSifEM>. Acesso em: 16 jan. 2015.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 107

esclarecer, divulgar, ensinar, atrair, manter serviços e explicar constante-


mente o que se faz nestes processos. Este aspecto denota, de um lado, a
curiosidade das pessoas em geral sobre reprodução, embriões, tecnologias,
células reprodutivas, preços, clínicas, especialistas e lugares onde buscar

od V
r
solução para os seus problemas. De outro lado, denota o alto investimento

uto
que se faz nesta área, para torná-la conhecida, assim como ocorre em ou-
tras áreas relativamente novas. B) Considerando a relação existente entre
as redes de coautoria, os conteúdos dos vídeos e os outros materiais que

visã R
têm sido usados como fontes de pesquisa, como os próprios conteúdos

oa
dos resumos de publicações, pode-se dizer que o interesse neste campo
também migrou do tema da infertilidade para diagnósticos e soluções,
que visam a mais pesquisas com gametas e com embriões, que podem
ou não estar ligados ao tratamento de infertilidade ou infecundidade. C)
C
Têm-se um importante processo de disseminação do conhecimento, que
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

conecta redes de especialistas e se concentra nos grandes centros urbanos e


que tem, igualmente, muitas conexões com regiões geograficamente mais
distantes, com especialistas que vivem em regiões com mais dificuldade,
onde a informação e o conhecimento ainda exigem muito investimento in-
ra
dividual do pesquisador. Este aspecto pode ser percebido também em algu-
mas regiões do país em que existem pesquisadores de grande centralidade
a re

nas redes de circulação de publicações, de informações e na busca que as


pessoas fazem destes locais. Conhecemos este aspecto também pela análi-
se de depoimentos de casais e/ou mulheres encontrados nas clínicas e que
ito

não constituem objeto deste estudo. D) A constituição deste campo é emi-


par

nentemente interdisciplinar; enunciados são produzidos a respeito de prá-


ticas complexas, desenvolvidas em laboratórios, como guardar materiais
genéticos para o futuro nos bancos de tecidos, gerar provas para estudos
ou acessar material genético, além de fazer bebês, o que por si só já é bem
d

complexo, dadas as sociomaterialidades envolvidas nesse processo. E) Os


são

saberes interdisciplinares caminham em diversos setores da área, desde a


E

produção de medicamentos e hormônios, passando por manipulação de


material genético, aprimoramento de técnicas, pesquisas sobre doenças,
até orientações e segurança psicológica para o casal infértil. Estes sabe-
ver

res se encontram na diversidade de meios de difusão deste conhecimento,


como periódicos, simpósios ou congressos, livros, entrevistas, vídeos, que
são compartilhados nacional e internacionalmente entre os especialistas e
pesquisadores no campo, em sua maioria com a intenção de aperfeiçoar
técnicas e protocolos, diminuir a taxa de perdas de materiais, aperfeiçoar
as técnicas, produzir saberes a respeito dos aspectos que são desafios
108

ou para a solução de problemas com gametas, com embriões, com útero,


com a nidação, com a gravidez, ou com a preservação de materiais. F)
É interessante ressaltar que estas redes de publicações em coautorias, os
programas de TV, de rádio, sites, congressos e viagens auxiliam na expan-
são do campo e no fortalecimento do já consolidado mercado da reprodu-

V
r
ção assistida no Brasil; também a forma como são feitas depende destas

uto
complexas relações. G) Os valores e os interesses colaboram igualmente
com a expansão do campo, das clínicas, juntamente com a centralidade e
a relevância dos pesquisadores. H) A ciência e a tecnologia, nessa ordem

R
a
reprodutiva atinente à filiação, ocupam um lugar discursivo e produtivo
dominado por epistemologias subjacentes, referidas à família e à heteros-

do
sexualidade procriativa, que são comprometidas. O que passa a importar
parece ser a natureza sendo arquitetada e modelada como um recurso tec-
aC
nológico de intervenção e de normatização dos órgãos, das células, mais

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


do que o valor ou a importância dos corpos das mulheres, ou a superação
são
do estigma social da infertilidade, como consequência direta.
i
rev
or
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di t op
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REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 109

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ara
di t op
E

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PARENTESCO, GENES E
TECNOLOGIAS:
um inventário das representações na

od V
r
imprensa sobre o desenvolvimento das novas

uto
tecnologias reprodutivas – 1994-200235

visã R
Naara Luna36

oa
Novas tecnologias reprodutivas são procedimentos da medicina de re-
C
produção humana que permitem a concepção sem a relação sexual, sendo
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mais conhecidas a inseminação artificial (IA) e a fertilização in vitro (FIV).


As relações sexuais podem ser inférteis por motivos clínicos ou sociais
(mulheres sem parceiro, casais homossexuais). Nesse sentido, é possível
dizer que as técnicas substituem o ato sexual como evento da fecunda-
ra
ção, apresentando soluções paliativas, mas não uma reversão do quadro
que torne os usuários férteis sem o recurso a elas. (CORRÊA, 2001). O
a re

incremento das pesquisas com embriões na área reprodutiva ou de medi-


cina regenerativa (engenharia de tecidos para transplantes) fez surgir uma
opção inusitada que é a proposta de reprodução assexuada em mamíferos
o

por meio da clonagem embrionária ou da clonagem de animais adultos por


par

transferência nuclear.
ver dit

O presente artigo aborda mudanças no campo das tecnologias reproduti-


vas no tocante a inovações técnicas e suas ressignificações nas representações
de parentesco tendo como referencial teórico principal a análise de Strathern.
são

35 O artigo foi apresentado originalmente na 23ª Reunião Brasileira de Antropologia em Gramado, 2002,
E

com o título “Parentesco com ou sem gene: um inventário recente do desenvolvimento das novas
tecnologias reprodutivas”.
36 Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1997), graduação
em Teologia pela Escola Superior de Teologia da IECLB (1994), mestrado em Antropologia Social pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000) e doutorado em Antropologia pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro (2004), onde concluiu seu pós-doutorado (2010). Atualmente é professor adjunto
3 de antropologia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e docente do Programa de Pós-
Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da UFRRJ. Tem experiência na área de Antropologia, com
ênfase em Antropologia da Pessoa, Antropologia do Parentesco, Antropologia da Ciência e da Medicina
e Antropologia da Religião, pesquisando tópicos relacionados aos seguintes temas: células-tronco,
novas tecnologias reprodutivas, pessoa, o estatuto do embrião humano, aborto, parentesco, a relação
entre concepções de natureza e cultura, e a interface da religião com questões éticas. É autora d o livro:
“Provetas e clones: uma antropologia das novas tecnologias reprodutivas
114

(1992). O texto faz um inventário da cobertura na grande imprensa entre os


anos de 1994 e 2002. O levantamento teve três fontes básicas: 1) Agência JB
de notícias selecionando artigos no tópico “inseminação artificial” dos periódi-
cos, Folha de São Paulo, Isto É, Jornal do Brasil, O Dia, O Estado de São Paulo
e O Globo nos anos de 1994 a 1996; 2) O arquivo da Comissão de Cidadania

V
r
e Reprodução com clipagem de notícias no tópico “reprodução assistida” dos

uto
jornais Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo e O Globo
dos anos de 1996 a 2000; 3) Clipagem pessoal nos anos de 2000 a 2002 prin-
cipalmente em O Globo.

R
a
A pergunta quanto a esse inventário do desenvolvimento técnico é nor-
teada pela hipótese lançada por Schneider no livro American Kinship (1968,

do
p. 23) de que, sendo a conexão biogenética a definição fundante da concepção
nativa americana (EUA) de parentesco, a descoberta de novos fatos sobre a
aC
relação biogenética pela ciência pode acarretar a transformação das noções

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


nativas ocidentais. Recebidas com apreensão por permitirem a reprodução de
são
maneiras percebidas como não naturais, como a reprodução sem sexo e pela
capacidade de poder criar parentesco “fictício” por intermédio da doação de
gametas, as tecnologias de procriação a princípio parecem negar a concep-
i
ção nativa de parentesco ocidental que assume a conexão biogenética como
rev

sua base. Fazendo um levantamento do material de divulgação científica na


grande imprensa brasileira entre os anos de 1994 e 2002, quero argumentar
or

que, segundo essas representações na imprensa, a pesquisa científica tem se


empenhado na concretização do parentesco biogenético, em graus crescentes
ara

de intervenção sobre corpos de homens e mulheres. O estudo considerará as


diversas formas de a reprodução se corporificar (embody) por meio da aplica-
t

ção das tecnologias de procriação.


Uma característica da existência humana é ser incorporada, de modo
i
op

que qualquer ação envolve a corporalidade em maior ou menor grau, con-


d

forme nos indica o ensaio de Mauss (2003) sobre a aprendizagem das téc-
nicas. Mesmo os processos considerados mais naturais como o comer e o
reproduzir-se ocorrem em contextos sociais e se realizam enquanto sig-
E

nos culturais. Analisando as práticas sociais que envolvem em alto grau a


corporalidade, entre as quais é possível incluir diversas práticas médicas
ver

(vacinação, transplante de órgãos, gestação substituta), explicita-se a cons-


trução social do corpo também nos processos de medicalização. Le Breton
(1995) analisa como o desenvolvimento da medicina e do saber biomédico
cria um olhar e uma concepção sobre o corpo que divergem das noções
tradicionais. No caso da reprodução assistida, Le Breton destaca a associa-
ção de um projeto de domínio do corpo por parte da equipe especializada
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 115

em reprodução humana e do desejo de filhos por parte do casal. Esse autor


considera que a técnica médica encoraja “o desejo de um filho meu”, sendo
tal vontade uma expressão do individualismo moderno. Aqui estarão sob
foco as mudanças no campo das tecnologias reprodutivas no tocante a ino-

od V
r
vações técnicas e consequências sociais e físicas para a espécie humana.

uto
O campo de reprodução humana tem sido um dos mais dinâmicos da
biomedicina, além de certamente um dos que mais despertam interesse.
A temática frequenta a mídia assiduamente. Parafraseando a citação do

visã R
François Jacob, prêmio Nobel de medicina, as três etapas da intervenção

oa
da biomedicina na reprodução seriam primeiro, sexo sem reprodução na
contracepção; segundo, a reprodução sem sexo com as novas tecnologias
reprodutivas; e, por fim, reprodução sem sexo nem espermatozoide na clo-
nagem. (STOLCKE, 1998). Depois de grande investimento na pesquisa da
C
contracepção nas décadas de 50 e 60, nos anos 70 começa a tendência de se
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resolver a infertilidade. No final dos anos 90, esse investimento desemboca


na possibilidade de clonagem.
A justificativa para relevância do tema é epidemiológica: a infertili-
dade é construída como problema epidemiológico, as estatísticas varian-
ra
do de 8% até 20% das pessoas ou dos casais no mundo com dificuldade
para ter filhos, com tendência ao crescimento da taxa. (WORLD HEALTH
a re

ORGANIZATION,1992). As matérias de jornal apresentam estatísticas


variadas: 15% dos habitantes do planeta (ZÁGARI, O Globo, 1995), 13
a 15% da população mundial (CAETANO, Jornal do Brasil, 1997); ou
ito

20% dos casais. (REZENDE, Folha de S. Paulo, 1999). Pesquisas compa-


par

rando a fertilidade do esperma na década de 50 e da década de 90 apon-


tariam uma queda de poder fecundante de 25%. Fatores apontados são
mudanças climáticas, estresse, cigarro, poluição por pesticidas, ingestão
de alimentos contendo altas doses de hormônio. (INFERTILIDADE, O
d

Globo, 1997). Tais fatores são válidos também para a população feminina
são

que, no entanto, é afetada mais especificamente por mudanças no estilo


E

de vida. A opção de postergar a maternidade em casamentos mais tardios


e a ênfase na construção da carreira seriam fatores de queda da fertilidade
feminina. Quando as mulheres decidem ter filhos após os 30 anos, parti-
ver

cularmente após os 35, haveria grande perda de qualidade de seus óvulos


que envelhecem junto com elas. (CAETANO, Jornal do Brasil, 1997). Ao
fazer este levantamento, constatou-se que boa parte das pesquisas mais
recentes na medicina de reprodução humana, após o foco na esterilidade
masculina no início da década de 90, está voltada para os problemas das
mulheres na produção de óvulos. As estatísticas apontam para o aumento
116

da incidência de nascimentos múltiplos em decorrência do maior aces-


so a tratamentos de fertilidade. Se a incidência dos partos com mais de
um bebê é de apenas 1% na população em geral, entre os pacientes de
reprodução assistida chega a 27%. (SUECOS SUGEREM AVALIAÇÃO
DA FERTILIZAÇÃO IN VITRO, O Estado de S. Paulo, 1999). Nos EUA,

V
r
entre 1980 e 1996 o registro de nascimento de trigêmeos, quadrigêmeos e

uto
quíntuplos aumentou 344% conforme a matéria jornalística (ÍNDICE DE
GRAVIDEZ MÚLTIPLA CRESCE, Jornal do Brasil, 1998), em particu-
lar entre mulheres brancas e mais velhas e de maior poder aquisitivo que

R
a
são as principais usuárias das técnicas de reprodução assistida. (CIMONS,
Jornal do Brasil, 1997).

do
Uma análise diacrônica das representações sobre o desenvolvimento
dessas tecnologias a partir das notícias publicadas na grande imprensa de
aC
1994 até 2002 revela tendências de ocasião. Muitos tratamentos apresenta-

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dos como revolucionários em um momento são deixados de lado posterior-
são
mente. Tal parece ser o caso de variações da FIVETE (fertilização in vitro
e transferência de embrião para o útero) como a transferência dos embriões
diretamente para a trompa íntegra (ZIFT de zigote intra-falopian transfer)
i
e a transferência dos gametas para a trompa (GIFT gamete intra-falopian
rev

transfer) por ser este o lugar que ocorre a fecundação. (AS TÉCNICAS DE
FERTILIZAÇÃO, O Globo, 1995). Há também características próprias ao
or

campo da medicina da reprodução humana, em que certos especialistas


tomam a posição de defender o uso imediato dos métodos avançados para
ara

abreviar a espera do filho e, consequentemente, reduzir o sofrimento do


casal. (TÉCNICAS SÃO CONTROVERSAS, Folha de S. Paulo, 1998).
t

Se esse tipo de postura se tornasse dominante, métodos mais simples como


a inseminação cairiam em desuso. Outros profissionais, no entanto, defen-
i
op

dem que o recurso aos métodos comece sempre pelos menos invasivos, com
d

introdução de novos conforme o grau de complexidade. Inovações podem


também ser incorporadas aos procedimentos rotineiros, ocorrendo também
o aperfeiçoamento constante de técnicas já estabelecidas. É interessante
E

fazer aqui um paralelo com o conceito de rotinização do carisma segundo


Max Weber (1998). O caráter mágico da prática deixa de ser impressivo e
ver

extraordinário. Quando começo a analisar o material de imprensa de 1994,


vários procedimentos são eventos ordinários, mesmo que questionados
moralmente. Tal é o caso da doação de gametas, com existência de bancos
de sêmen. A ideia da chamada barriga de aluguel já havia se popularizado
através de uma telenovela de grande audiência em 1989, embora a prática
nunca tenha se disseminado pelos serviços médicos. (CORRÊA, 2001). As
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 117

grandes questões diziam respeito à doação de gametas, particularmente à


implantação do óvulo de uma mulher no útero de outra. A grande discussão
no momento era definir quem seriam os pais verdadeiros.
Um exemplo desse processo de definição dos pais está no caso da me-

od V
r
nina Jaycee, exibido no programa Globo Repórter em agosto 1999, caso já

uto
discutido pormenorizadamente em outra parte. (LUNA, 2000). Após uma
série de tratamentos infrutíferos de reprodução assistida, um casal contrata
uma mãe substituta para gestar uma criança concebida com óvulo e esper-

visã R
matozoides doados anonimamente. Pouco antes do nascimento do bebê,

oa
seus pais idealizadores da gravidez se separam. A mãe idealizadora fica
com Jaycee e requer pensão do ex-marido para a filha. O pedido é nega-
do, pois ela não é reconhecida como filha do pai idealizador. Começa um
processo para estabelecer de quem a menina é filha. A decisão em primeira
C
instância não consegue definir quem são os pais: os doadores anônimos de
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gametas, a mãe substituta, o casal que planejou a gestação. Em segunda


instância, a corte reconheceu que as pessoas que planejam a concepção de
uma criança com intenção de se tornarem pais dela devem ser assim con-
sideradas. Conta o aspecto intencional da parentalidade.
ra
O caso de Jaycee pode fazer crer que a principal consequência das novas
tecnologias reprodutivas é a perda de valor dos laços genéticos de parentesco
a re

(parentesco como comunhão de substância biogenética) e a ênfase nos laços


socialmente construídos (parentesco como código de conduta), com o lado
“natural” perdendo a vez para o aspecto intencional. Pais seriam aqueles que
ito

decidem sê-lo. (SCHNEIDER,1968). Expande-se o recurso à doação de ga-


par

metas, inclusive com grande crescimento comercial como setor de prestação


de serviços com bancos de sêmen, e agências para viabilizar contratos com
mães substitutas e ovodoação particularmente em estados mais liberais dos
EUA. Tudo parece ser mercado e escolha, havendo de bancos de sêmen de
d

ganhadores do prêmio Nobel (JOBIM, Jornal do Brasil, 1996) até leilão de


são

óvulos de modelos pela Internet (GASPAR, Folha de S. Paulo, 1999), além


E

de casais que oferecem US$ 50,000 por óvulos de universitária, alta, inteli-
gente e atlética. (KOLATA, O Globo, 1999). A despeito da formação desse
mercado de material reprodutivo, o desenvolvimento das pesquisas na área de
ver

medicina reprodutiva apontaria para o sentido oposto, com o foco voltando-se


para maneiras de possibilitar o vínculo genético entre pais e filhos. Surgem
novos tratamentos que alcançam casos cada vez mais específicos de infertili-
dade masculina e feminina, pelo menos para quem pode pagá-los. O recurso a
técnicas inovadoras torna-se mais caro que adquirir gametas, mesmo no caso
brasileiro em que a doação de gametas é obrigatoriamente anônima e gratuita.
118

Nos casos em que a produção de esperma insuficiente ou de má qua-


lidade não pode ser resolvida com uma simples administração de medica-
mentos hormonais, é feito tratamento no esperma em si. A gema de ovo
pode ser útil para manter a fertilidade do esperma manipulado. (GEMA, O
Globo, 1995). Também a água de coco foi descoberta em 1996 como um

V
r
meio de cultura que preservava e até melhorava sua capacidade fecundan-

uto
te. (TEICH, Jornal do Brasil, 1996). Coquetéis de substâncias químicas
adicionadas ao esperma ou ao meio em que se realiza a FIV são outras pos-
sibilidades. (MÉTODO DEIXA ESPERMATOZÓIDES MAIS FORTES,

R
a
O Globo, 2000). A inseminação artificial com tratamento do esperma pode
ser usada para homens portadores do HIV e sem problema de fertilidade a

do
fim de possibilitar a concepção de filhos sem a transmissão da doença. No
caso os espermatozoides são separados de células não espermáticas e do
aC
líquido seminal onde o vírus se encontra. (DOTI, O Globo, 1994).

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É flagrante o peso que tem a diferente corporificação das funções re-
são
produtivas no homem e na mulher. (STRATHERN, 1991). Embora geni-
tor e genitora sejam percebidos como contribuindo igualmente em termos
genéticos para a formação da criança (cada um contribui com um game-
i
ta que contém uma metade dos 23 pares de cromossomos humanos), a
rev

substância fertilizadora que é chamada de gameta destaca-se com muito


maior facilidade do corpo masculino do que do feminino. De uma simples
or

masturbação coleta-se esperma. Em contraste com os procedimentos de


estimulação hormonal (2 injeções diárias no abdômen por duas semanas)
ara

para produzir a hiperovulação, sendo os óvulos coletados a princípio por


laparoscopia (investigação ou intervenção no interior da cavidade abdomi-
t

nal com a introdução do aparelho chamado laparoscópio) e posteriormente


punção ovariana por sonda – tratamento este que teria inclusive custado
i
op

a perda do ovário de algumas mulheres segundo Corrêa (2001). O último


d

método de coleta faz uso de uma sonda que aspira os óvulos orientada por
ultra-sonografia transvaginal. Sedação ainda é necessária.
O sêmen pode ser manipulado com certa facilidade e congelado sem
E

dano. Também os embriões mantêm suas qualidades na criopreservação.


Os óvulos são o ponto frágil: difíceis de congelar sem arrebentar; perdem
ver

suas propriedades no processo. Está aí um dos pontos éticos centrais nas


polêmicas acerca das novas tecnologias reprodutivas. A Igreja Católica e
os grupos pró-vida consideram que desde a concepção um óvulo fertili-
zado tem o estatuto de pessoa, e todos os direitos inerentes à condição
humana. Não poderiam ser, portanto, manipulados, a não ser em benefício
próprio, e muito menos congelados. Caso fosse possível congelar óvulos,
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 119

em lugar de embriões prontos, um dos pontos de ataque às tecnologias


reprodutivas deixaria de existir. (LUNA, 2001b). A técnica de vitrificação
de óvulos, que permite seu armazenamento, foi o desenvolvimento mais
decisivo desde que este trabalho foi escrito inicialmente em 2002 e o mo-

od V
r
mento atual e será comentada adiante.

uto
O início dos anos 90 é marcado pela micromanipulação de gametas,
técnicas realizadas com microscópios equipados com micromanipulado-
res. Criou-se em Bruxelas o procedimento da injeção intracitoplasmática

visã R
de espermatozoide (ICSI) através da qual se introduzia um espermatozoide

oa
diretamente no núcleo do óvulo por meio de uma agulha. (ROAN, Jornal
do Brasil, 1994). O primeiro nascimento de bebê foi em 1992. Antes da
ICSI foi utilizada uma técnica semelhante e precursora, a SUZI (injeção
subzonal de esperma). Na SUZI, vários espermatozoides eram introdu-
C
zidos sob a zona pelúcida (camada externa de revestimento) do óvulo. O
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objetivo dessa técnica era propiciar que esperma de baixa qualidade (es-
permatozoides sem motilidade ou malformados) pudesse ser fecundante.
(COMO NASCEM OS BEBÊS DE PROVETA, Folha de S. Paulo, 1994).
A ênfase das matérias que cobriram o assunto era o fato de esses homens
ra
não mais necessitarem recorrer ao banco de sêmen, podendo ter um filho
com a própria carga genética. (TEICH, O Globo, 1995). Alguns homens
a re

produzem espermatozoides, mas não os ejaculam por falha anatômica ou


por vasectomia. É possível buscar espermatozoides para a ICSI, fazendo-
-se punção ou biópsia do testículo. (DECIA, Folha de S. Paulo, 1996).
ito

Outros homens produzem apenas a célula precursora do espermatozoide,


par

a chamada espermátide. As pesquisas voltam-se então para a maturação


in vitro dessa célula. (PESQUISADOR OBTÉM ESPERMATOZÓIDE
MADURO, Jornal do Brasil, 1994). Após o amadurecimento ela é injetada
diretamente no núcleo do óvulo à maneira da ICSI, em uma técnica chama-
d

da ROSI (Round Spermatid Injection: alusão ao formato da espermátide).


são

(NOVA TÉCNICA PARA HOMENS INFÉRTEIS, Jornal do Brasil, 2000).


E

Outra descoberta é o fato de ser possível o congelamento do testículo


ou da amostra de tecido da biópsia sem prejuízo de suas qualidades fe-
cundantes. (INFERTILIDADE GANHA NOVO TRATAMENTO, Jornal
ver

do Brasil, 1996). Assim, em caso de necessidade de repetir a coleta de


esperma era dispensável colher nova amostra, bastando usar a congelada.
Por causa do baixo índice de sucesso da fertilização (30%), homens foram
submetidos a repetidas biópsias, alguns sendo até obrigados a colocar pró-
tese no lugar da gônada, fato dispensável com a descoberta de que o conge-
lamento mantém as qualidades do esperma. (DOTI, O Globo, 1996). Uma
120

técnica de coleta mais recente (referida em 1998) é a aspiração percutânea


de espermatozoides (PESA). (PERIGOS VARIAM DE ACORDO COM
O MÉTODO, O Globo, 1998). Outro procedimento visando a selecionar
as partes do testículo que contenham mais espermatozoides ou espermá-
tides é a microdissecção de testículo: uma pequena cirurgia que vai ao

V
r
centro do órgão, enquanto a biópsia, punção e aspiração ficam na super-

uto
fície. (LEITE, Folha de S. Paulo, 1999). A transmissão das características
genéticas do pai é possibilitada na ICSI e no uso das células precursoras
que mesmo incompletas na estrutura externa contêm toda a carga genética

R
a
de um gameta. A evolução dessas técnicas se dá com a maturação de cé-
lulas em estágio inicial de formação, anterior ainda ao da espermátide, já

do
tendo obtido nascimento de gêmeos em novembro de 1998. (SGARIONI,
Folha de S. Paulo, 1999). Desde o início de sua aplicação, houve críticas
aC
a ICSI por impedir que o óvulo selecionasse e excluísse os espermatozoi-

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des defeituosos em sua incapacidade de se conectar e entrar pela mem-
são
brana externa. (MÉTODO PARA HOMEM ESTÉRIL PODE AFETAR
EMBRIÃO, Folha de S. Paulo, 1995). Alegava-se que defeitos genéticos
dessas células deficientes seriam transmitidos aos embriões e bebês gera-
i
dos. Em particular, a esterilidade que seria transmitida em falha no cro-
rev

mossomo Y. Estudos de 2001 mostram que bebês gerados por meio dessa
técnica estão mais sujeitos a anomalias ligadas aos cromossomos sexuais.
or

(TÉCNICA DE FEERTILIZAÇÃO PODE GERAR HERMAFRODITA, o


Globo, 2001). O desenvolvimento mais recente em 2002 alia fertilização
ara

assistida e terapia genética. Um defeito de origem genética nas células que


participam da produção de esperma pôde ser curado em ratos estéreis com
t

a introdução do gene saudável. Como a quantidade de espermatozoides


produzida é pequena, foi necessário o uso de fertilização assistida, gerando
i
op

assim os filhotes. (TERAPIA GENÉTICA COMBATE INFERTILIDADE


d

MASCULINA, O Globo, 2002).


Ter as gônadas extraídas e congeladas é visto como alternativa para
homens e mulheres que irão se submeter à rádio ou quimioterapia. Em
E

1998, chega-se a propor o transplante de testículo para inférteis, entre ho-


mens parentes de primeiro grau (irmãos ou pais e filhos) a fim de preservar
ver

a herança genética familiar. (JOBIM, Jornal do Brasil, 1998). Um exem-


plo desse esforço foi dado por uma britânica que viajou com o testículo
extirpado do marido, operado de emergência em razão de câncer naquele
órgão, a fim de que o esperma fosse coletado em clínica para posterior
fertilização. (MULHER USA UM TESTÍCULO EXTIRPADO EM FER-
TILIZAÇÃO, o Globo, 1998). Em 1996 publica-se o primeiro estudo de
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 121

transplante de tecido de testículo entre espécies (de rato para camundongo)


com resultados positivos. (KOLATA, O Globo, 1996). Propõe-se o cul-
tivo de tecido humano gerador de espermatozoide em camundongo. Tal
experimento levanta polêmica por romper as barreiras existentes entre as

od V
r
espécies, promovendo sua mistura, mas também por possibilitar que vírus

uto
da espécie hospedeira venham a contaminar seres humanos, e mesmo a ser
transmitidos às crianças assim geradas. A aversão a tal técnica poderia ser
explicada pelos conceitos de Mary Douglas (1976): a desordenação de um

visã R
sistema classificatório entre espécies seria um tipo de poluição, da mesma

oa
forma que o contágio por vírus. A poluição é ainda pior por envolver a
mistura da espécie humana com outras consideradas inferiores, o que im-
plicaria degradação. A despeito da polêmica, esperma humano foi cultiva-
do em camundongos no Japão e já há crianças nascidas do procedimento
C
(NASCEM BEBÊS DE ESPERMA CULTIVADO EM CAMUNDONGO,
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O Globo, 1999), proeza anunciada em 2000 por Antinori, um especialista


em reprodução humana que se tornou famoso por possibilitar a gravidez
de mulheres chegando aos sessenta anos e que, em 2001 viria a anunciar o
objetivo de usar a clonagem de pessoas adultas como meio de se reprodu-
ra
zirem. (TEICH, Veja, 2001).
A fertilização in vitro foi aplicada às mulheres como meio de resolver
a re

a esterilidade por fator tubário, caso daquelas que tinham trompas obstru-
ídas ou não as tinham simplesmente. Quando a técnica obteve o primeiro
nascimento com êxito em 1978, a taxa de eficácia era de 5%. O óvulo era
ito

recolhido em ciclo natural. Na década de 80, a produção dos gametas femi-


par

ninos para FIV é realizada com estimulação hormonal para hiperovulação.


Vários óvulos são coletados e fertilizados, implantando-se vários embriões
de uma só vez no útero para aumentar a chance de gravidez, o que muitas
vezes resultou no nascimento de múltiplos. (CORRÊA, 2001). Contornado
d

o fator tubário, o maior problema é a dificuldade de implantação de em-


são

briões no útero, investindo-se em pesquisa de técnicas para facilitá-la.


E

(CASTILHO, Jornal do Brasil, 1994). Identificou-se como um dos fatores


a falta de produção de certa proteína no cultivo de embriões in vitro, o
que dificultaria a fixação destes. (DOTI, O Globo, 1995). A intervenção
ver

também pode ser feita no próprio embrião com assisted hatching (ruptura
assistida), em que se retira quimicamente ou por laser um pequeno pedaço
do revestimento externo do embrião a fim de facilitar sua implantação no
útero. (TUFFANI, Folha de S. Paulo, 1998). Outra possibilidade é a trans-
ferência mais tardia dos embriões, no 5o dia (estágio de blastocisto) quan-
do costuma ocorrer naturalmente a nidação no útero, o que aumentaria as
122

chances de implantação e assim diminuiria o número de embriões neces-


sários. (NOVA TÉCNICA AUMENTA CHANCE DE GRAVIDEZ, O
Globo, 1998). A transferência do embrião no estágio de blastocisto pode
ser associada à remoção de seu revestimento externo (zona pelúcida) com
o mesmo propósito de fixá-lo (MOREIRA, O Estado de S. Paulo, 1998).

V
r
Drogas mais eficazes são produzidas para fazer o bloqueio da função natu-

uto
ral dos ovários, etapa anterior à hiperestimulação destes, exigindo a aplica-
ção de menos injeções. (COLLUCI, Estado de S. Paulo, 1999).
Os grandes desafios para a esterilidade feminina passam a ser a falta de

R
a
ovulação e a produção de óvulos de má qualidade. A qualidade dos óvulos
decresce com a idade, tendo uma queda acentuada a partir dos 35 anos. Como

do
foi dito acima, o óvulo é frágil e difícil de manipular. Há poucos casos de fer-
tilização de óvulos congelados com êxito, e menos casos ainda de nascimen-
aC
to de bebês. (NOVA TÉCNICA POSSIBILITA O CONGELAMENTO DE

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ÓVULOS, O Globo, 1995). Até 1997, dos cinco casos em que se conseguiu
são
gravidez a partir de óvulos congelados, apenas um havia resultado em nasci-
mento. (ÓVULO CONGELADO É USADO COM SUCESSO, O Estado de
S. Paulo, 1997). Então em agosto daquele ano, ocorreu o nascimento de gême-
i
os concebidos por meio do aperfeiçoamento dessa técnica associada a ICSI, o
rev

que desencadeou uma série de discussões sobre a possibilidade de mulheres


engravidarem após a menopausa usando os próprios óvulos em vez de doação.
or

(KOLATA, O Globo, 1997). Os métodos de congelamento são aperfeiçoa-


dos, preservando melhor as qualidades do gameta feminino. (TÉCNICA AJU-
ara

DA REPRODUÇÃO EM PROVETA, Folha de S. Paulo, 1999). Em 2000,


há o registro de apenas 30 nascimentos decorrentes do uso de óvulos conge-
t

lados. (NASCEM BEBÊS DE ÓVULO E ESPERMA CONGELADOS, O


Globo, 2000). Investe-se na técnica de maturação de óvulos isolados in vitro
i
op

sem o êxito obtido com os gametas masculinos. (MULHERES QUE NÃO


d

PRODUZEM ÓVULOS MADUROS REGULARMENTE TÊM MAIS


CHANCE DE ENGRAVIDAR, O Estado de S. Paulo, 1996). A alternativa
passa a ser o congelamento do ovário inteiro ou de fragmentos, particularmen-
E

te em casos de mulheres que se submetem à quimioterapia ou que sofrerão


cirurgia nos ovários. Daí tenta-se a maturação dos óvulos pelo cultivo in vitro
ver

do tecido. (SCHEINBERG, O Estado de S. Paulo, 1998). Em 1999 é convo-


cado ao Brasil um pesquisador chinês radicado nos EUA que já obtivera êxito
com a maturação de óvulos de coelho, camundongo, vaca e macacas, porém
não houve registro posterior na imprensa de seu êxito com mulheres aqui.
(CLÍNICA TESTA TÉCNICA PARA MATURAR ÓVULOS, O Estado de S.
Paulo, 1999).
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 123

A dificuldade de maturar óvulos no laboratório ou de usar os con-


gelados é grande, tanto que em 2000 cientistas recorreram a um procedi-
mento já tentado com os testículos: implantar pedaços de tecido ovariano
de mulheres no dorso de camundongos que, por sua vez, são tratados com

od V
r
os hormônios que induzem a ovulação humana. (ÓVULO HUMANO

uto
AMADURECE EM CAMUNDONGO, Folha de S. Paulo, 2000). Esse
recurso, indicado para pacientes jovens que vão se submeter à quimiotera-
pia ou radioterapia, ilustra mais uma vez a mistura de espécies já discutida

visã R
acima. O registro mais recente de 2001 é o implante de tecido de ovário

oa
no braço de mulheres que tiveram as gônadas extraídas e congeladas. A
vantagem do lugar do implante seria o acompanhamento médico mais fá-
cil do tecido. Uma delas teria tido ovulação espontaneamente e a outra
por estimulação hormonal. Tentou-se uma FIV sem sucesso. (MARCUS,
C
O Globo, 2001). A maturação de tecidos é uma técnica de que se espera
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

sucesso no futuro, com as vantagens de que a mulher poderia congelar o


tecido do ovário quando estivesse jovem para ter óvulos de boa qualidade
e se decidir ser mãe tardiamente (quando foi escrito o artigo em 2002,
só era possível com êxito provável congelar o embrião), evitando ter que
ra
passar pelo desgastante tratamento de hiperestimulação ovariana, pois o
tecido seria cultivado e estimulado in vitro. Respondendo à demanda de
a re

conservar os gametas femininos para uso posterior, foi criada uma técnica
de vitrificação que diz permitir a preservação dos óvulos, com casos bem-
-sucedidos de geração de crianças. (CASO, 2016). Esse processo é rápido,
ito

ao contrário da técnica anterior, e impede a formação de cristais que arre-


par

bentariam o óvulo no descongelamento. (BERTELLI, 2016).


Strathern (1992) adverte para a fragmentação do papel materno decorren-
te do uso de técnicas como a FIV. A maternidade na mulher, um processo que
parecia ser tão incorporado em seu ser passa a ser desincorporada desde então,
d

fato que se acentua no exemplo de implante de tecido ovariano no braço da pa-


são

ciente ou nas costas de um camundongo. Um exemplo patente dessa alienação


E

da maternidade está no caso em que uma mulher britânica congelou seus óvu-
los em função de tratamento contra o câncer, e posteriormente foi impedida
pela Justiça de usá-los. (JUSTIÇA IMPEDE BRITÂNICA DE USAR SEUS
ver

ÓVULOS, O Globo, 1999). Novaes e Salem (1995) discutem um exemplo se-


melhante em termos de como a medicalização da reprodução aumenta o poder
dos médicos sobre o embrião e diminui a autoridade da mulher sobre o embrião
que está situado agora fora de seu corpo. Pesquisas para criar um útero artifi-
cial, noticiadas desde 1996, usando-se fetos de cabras como cobaias, também
indicam a desincorporação da maternidade. (CIENTISTAS DESENVOLVEM
124

ÚTERO ARTIFICIAL, O Estado de S. Paulo, 1996). Partes de útero já foram


criadas em laboratório em 1999. (DOBSON, O Estado de S. Paulo, 1999). Em
2002, tentou-se sem êxito um transplante de útero. (GRADY, O Globo, 2002).
O próprio óvulo passa a sofrer intervenção. Um dos métodos que têm
gerado o nascimento de bebês desde 1998 é o rejuvenescimento dos óvu-

V
r
los por meio da transferência do citoplasma (uma porção de 10 a 15%) de

uto
óvulos de doadora jovem. (DEMÉTRIO WEBER, O Estado de S. Paulo,
1998a). Técnica semelhante é a transferência do núcleo do óvulo da mulher
que pretende ser mãe a um óvulo enucleado da doadora, um procedimento

R
a
já tentado em 1998 sem obter gestação. (PINHEIRO, MITCHEL, Jornal
do Brasil, 1998). Ambas as técnicas levantam problemas éticos devido à

do
existência de DNA mitocondrial no citoplasma, o que acarreta que algu-
mas crianças geradas tenham duas mães genéticas. (NASCEM OS PRI-
aC
MEIROS BEBÊS COM DNA ALTERADOS, O Globo, 2001). Essas

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crianças geneticamente alteradas foram rotuladas de “bebês transgênicos”
são
(sic). (WEISS, O Globo, 2001). A linha de ponta na pesquisa é a criação
de óvulos a partir de células somáticas, inserindo-se o núcleo de uma delas
no óvulo enucleado de uma doadora. O próprio óvulo reage à transferência
i
do núcleo com 23 pares de cromossomos, iniciando a primeira divisão ce-
rev

lular, momento em que uma metade do material genético é retirada pelos


especialistas. (SIMPÓSIO EM SÃO PAULO DISCUTE NOVAS TÉC-
or

NICAS DE REPRODUÇÃO, O Estado de S. Paulo, 2000). Essa técnica


desenvolvida no Brasil já obteve um embrião humano saudável em 2001,
ara

embora não implantado, esperando-se então o resultado do experimento


em vacas. (COSTA, O Globo, 2001). Notícia de 2002 revela que o procedi-
t

mento já produziu óvulos de ratos morfologicamente perfeitos. (JANSEN,


O Globo, 2002). Outra linha convergente é a criação de gametas masculi-
i
op

nos a partir de células somáticas (2n) dividas em haploides (n) na Austrália.


d

O gameta fabricado é introduzido no óvulo por procedimento semelhante


a ICSI com êxito obtido na criação de embriões de rato. Tal procedimento
poderia ser utilizado para formar embriões com material genético oriundo
E

apenas de mulheres, mas o obstáculo é o DNA imprinting ou impressão


de DNA que exige embriões gerados a partir de células provenientes do
ver

homem e da mulher. (HIGHFIELD, O Globo, 2001a). Também em virtude


dessa impressão de DNA é impossível gerar um embrião com dois pais
a partir de um óvulo cujo núcleo foi substituído pelo núcleo do esper-
matozoide de um dos pais e fecundado pelo gameta do outro. (CASAL
MASCULINO PODERIA GERAR FILHO, Folha de S. Paulo, 2000).
Foi malsucedida a produção de embriões quimera, fundindo dois embriões
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 125

criados com os óvulos de uma mesma mãe e com os espermatozoides de


um casal de homens homossexuais que desejava um filho geneticamente
de ambos. (PINHEIRO, MITCHELL, Jornal do Brasil, 1998).
A biópsia do embrião previamente à sua transferência para o útero já

od V
r
era tema de trabalhos científicos publicados em 1989 segundo nos infor-

uto
ma levantamento da Organização Mundial de Saúde. (WORLD HEALTH
ORGANIZATION, 1992). Era aplicada a grupos “de risco” de defeitos
no bebê como mulheres acima de 40, ou portadoras de alguma doença

visã R
genética ou de histórico familiar nesse sentido (fibrose cística, Down, he-

oa
mofilia, distrofia muscular, síndrome do X frágil), retirando-se para ava-
liação genética uma das células de um embrião na fase de oito células.
(MAGALHÃES-RUETHER, O Globo, 1996). A razão para a dificuldade
de implantação de embriões transferidos era atribuída a algum fator no
C
meio ou à falta de uma proteína mediadora do processo. Com o incremen-
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to nas técnicas de diagnóstico pré-implantação do embrião, esboça-se a


hipótese de que a formação de embriões com alterações cromossômicas
durante a FIV seria uma causa de a implantação não se efetivar. Há uma
proposta de que a biópsia embrionária se torne um procedimento de rotina
ra
para todos os embriões, pelo menos nas clínicas mais de ponta. Estas in-
clusive estariam transferindo embriões no 5o dia desde a concepção a fim
a re

de avaliar melhor os mais viáveis e testá-los geneticamente. (DEMÉTRIO


WEBER, O Estado de S. Paulo, 1998b). Com embriões de melhor quali-
dade não seria necessário implantar tantos a fim de se obter gravidez. Os
ito

médicos assumem a posição do Conselho Federal de Medicina (CFM), in-


par

sistindo que o único motivo válido para a seleção de sexo do embrião, fato
possível com a biópsia, seria médico em casos de doenças genéticas liga-
das aos cromossomos sexuais. (CASOS ESPECIAIS DEVEM SER DIS-
CUTIDOS, O Globo, 1999). Além da biópsia, pode ser feita a limpeza do
d

embrião, retirando fragmentos de células mortas. (DEMÉTRIO WEBER,


são

O Estado de S. Paulo, 1998c). A biópsia embrionária é constantemente


E

criticada com sendo uma prática eugênica, todavia foi noticiado um exem-
plo de uso altruísta: um casal cuja filha sofria de anemia de Fanconi pro-
jetou ter filhos por fertilização in vitro para selecionar embriões que não
ver

sofressem a doença e que fossem compatíveis com a irmã no intuito de


transplantar as células tronco do cordão umbilical. Após quatro tentativas
conseguiu-se a gravidez. (PASSOS, O Globo, 2000).
Embriões humanos são também utilizados em pesquisas visando à
fabricação de células-tronco cujo cultivo permitiria a produção de teci-
dos para transplante. Esse procedimento é mais conhecido como clonagem
126

terapêutica e é constantemente contraposto à clonagem reprodutiva como a


“boa clonagem” (sic) por seu potencial de aplicações futuras em contrapo-
sição à clonagem indesejável, como assim expressa um editorial do jornal
O Globo (A BOA CLONAGEM, O Globo, 2002). Uma pesquisa divulga-
da em 2001 relata a criação por cientistas chineses de embriões híbridos,

V
r
transferindo o núcleo de células somáticas humanas para óvulos de coelha.

uto
(HIGHFIELD, O Globo, 2001b). Não é a primeira vez que se criam em-
briões mistos de ser humano e outra espécie: a pesquisa da empresa ameri-
cana Advanced Cell Technology já havia usado óvulos de vacas em 1999.

R
a
(EMPRESAS DOS EUA CLONAM EMBRIÕES HUMANOS, O Globo,
1999). O motivo do recurso aos gametas femininos de outras espécies é a

do
carência de óvulos humanos para experimentação. O segundo experimen-
to vai no sentido contrário ao dos embriões híbridos e pode ser tomado
aC
como indício da importância que o debate sobre o estatuto de pessoa do

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


embrião humano alcançou nos EUA, fato que influencia inclusive o finan-
são
ciamento federal. Cientistas de Los Angeles e Massachusetts estão ten-
tando criar embriões humanos por partenogênese, usando somente óvulos
que, submetidos a estímulos químicos ou elétricos, começam a se dividir
i
(endomitose). (ZITNER, O Globo, 2001). Já houve êxito usando óvulos de
rev

camundongos que se desenvolvem por poucos dias e se autodestroem es-


pontaneamente. Esse curto período de desenvolvimento é o suficiente para
or

produzir as células tronco, alvo da pesquisa. Embriões criados desta forma


sem concepção não teriam condições de desenvolvimento que originasse
ara

um bebê, não tendo, portanto, o mesmo estatuto de pessoa atribuído a um


embrião humano.37
t

Embora a doação de gametas permita a criação de parentalidade sem


vínculos genéticos, a pesquisa da medicina de reprodução humana volta-se
i
op

para efetivar o parentesco genético. A proposta de clonagem reprodutiva


d

seria um acirramento deste objetivo, justificada pela existência de casos


que não seriam contemplados pelos tratamentos de reprodução assistida.
(STOLCKE, 1998). Surgem propostas de usar a técnica de clonagem por
E

transferência nuclear de material genético de pessoa humana completa-


mente formada a fim de propiciar filhos a casais estéreis. Em dezembro
ver

de 1997, o cientista americano Richard Seed já proclamava ter uma equi-


pe e voluntários entre casais inférteis para efetivar a clonagem humana.
Apesar de haver participado ativamente nas pesquisas na área de medicina
reprodutiva, em particular sobre a fertilização in vitro na década de 70,

37 Uma análise antropológica dos temas presentes nas representações da clonagem na imprensa,
incluindo o estatuto de pessoa do embrião, está em Luna, 2001a.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 127

no momento do anúncio de suas intenções o cientista estava fora de uma


universidade ou centro de pesquisa. Na época, o diretor de um instituto de
genética reprodutiva nos EUA comentou que qualquer um capaz de fazer a
ICSI seria capaz de realizar a clonagem. (WEISS, Jornal do Brasil, 1998).

od V
r
Esse comentário seria tachado de um equívoco se repetido em janeiro de

uto
2001, quando o especialista italiano Severino Antinori e seu colega grego
naturalizado americano Panos Zavos anunciaram um intuito semelhante.
(PRIMEIRO BEBÊ CLONADO PODERÁ NASCER EM 2003, O Globo,

visã R
2001). Desde então Ian Willmut, o criador de Dolly, vem frisando com

oa
grande cobertura da imprensa as dificuldades de obter o nascimento da
ovelha. Foi pouco mencionada a estatística de que dos 277 óvulos enuclea-
dos que receberam a transferência do núcleo da célula adulta teria nascido
apenas uma ovelha saudável. (CLONAGEM COMEÇA EM 30 DIAS, O
C
Globo, 2001). Houve pouca referência também ao fato de que algumas
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fêmeas gestantes morreram com ruptura do útero devido ao crescimento


disforme dos fetos assim gerados. A baixíssima eficácia contrasta com a
expectativa relatada acima de que capacitação de um especialista para a
ICSI seria suficiente para que a clonagem por transferência de nuclear de
ra
célula de adulto para um óvulo resulte em embriões viáveis com o nasci-
mento de bebês perfeitos.
a re

Segundo o projeto do especialista em reprodução humana Severino


Antinori, anunciado em janeiro de 2001, seriam clonados homens inférteis,
usando-se o óvulo da esposa destes, o que garantiria uma presença mínima
ito

no DNA materno do citoplasma do óvulo para a constituição do embrião.


par

O embrião assim criado seria transferido para o útero da esposa do homem


clonado. (TEICH, Veja, 2001). Nesse sentido, o objetivo de Antinori pare-
ce o de constituir a partir da clonagem uma família em sua representação
mais tradicional: um casal com um filho, em que o homem é o gerador e
d

a mulher é a gestadora, correspondendo assim a uma antiga representação


são

ocidental de parentesco monogenético. (STRATHERN, 1995a). Note bem


E

que em qualquer procedimento envolvendo a doação de um óvulo, mesmo


enucleado como no caso recente da fabricação desses gametas femininos,
ou em que o citoplasma do óvulo seja injetado no óvulo de outra pessoa,
ver

há possibilidade de transmissão do DNA mitocondrial da doadora do óvulo


existente no citoplasma. É curioso que, na discussão sobre a clonagem repro-
dutiva com ênfase na identidade entre o ser que deu a célula (o clonado) e o
que resultou do processo (o clone), negligencia-se a existência desse DNA
como sinal da impossibilidade de identidade genética completa. Porém, na
discussão acima sobre os “bebês transgênicos” (sic) que teriam duas mães
128

genéticas em função do DNA mitocondrial da doadora de citoplasma ou de


óvulo enucleado, a existência desse DNA residual é o ponto da polêmica.
Apenas Antinori na entrevista citada acima argumenta sobre isso a favor de
seu projeto de clonagem reprodutiva, afirmando que a esposa do marido clo-
nado que é a doadora do óvulo enucleado, também participa geneticamente

V
r
da formação da criança por meio da mitocôndria.

uto
Em dezenas de artigos sobre clonagem por transferência nuclear,
apenas um menciona que a única possibilidade de um clone de pessoa
já formada com a carga genética exatamente igual à da matriz, seria o de

R
a
uma mulher que fosse clonada usando os próprios óvulos para formar o
embrião. (PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE CLONAGEM HUMA-

do
NA, Folha de S. Paulo,1998).38 Faço essa observação para ressaltar que o
reconhecimento de algo construído como dado biológico varia conforme
aC
a discussão em que esse “dado” é invocado ou negligenciado para emba-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


sar certa posição. Nesses termos, analisando os argumentos invocados em
são
disputas jurídicas envolvendo a maternidade gestacional substituta (bar-
riga de aluguel), Strathern (1998, p. 195) alerta que “o que é biológico
na maternidade biológica tem que ser explicitado”. Cussins (1998) chega
i
a conclusões semelhantes em seu estudo comparativo entre maternidade
rev

gestacional substituta e doação de óvulos, dois procedimentos tecnicamen-


te idênticos (uma mulher recebe o óvulo fertilizado de outra) que formam
or

distintas configurações de parentesco, porque elementos diferentes são in-


vocados como relevantes para o parentesco em cada procedimento. Ao
ara

contrário do que ocorre com a doação de gametas, em que a intenciona-


lidade do parentesco parece ter mais peso, no estudo sobre a barriga de
t

aluguel, Strathern (1998) descreve casos em que a parentalidade biológica


ou real é equiparada à conexão genética. Segundo Franklin (1995), a repro-
i
op

dução está sendo redefinida culturalmente como resultado da convergência


d

da genética e da embriologia. Os processos genéticos seriam considera-


dos “fatos naturais” anteriores e hierarquicamente dominantes quanto aos
eventos da fertilização. A meu ver, essa mesma orientação é levada a cabo
E

pelos especialistas em reprodução humana em suas pesquisas de novas


técnicas para resolver, senão a infertilidade, pelo menos o desejo de “filhos
ver

biológicos” pelos pais. Marilena Corrêa (2001) destaca que a divulgação


de tecnologias portadoras dessa promessa é um dos fatores que incitam os
casais à busca do filho aparentado geneticamente.
Cabe por fim ressaltar que técnicas distintas correm em paralelo como

38 A outra possibilidade de clonagem é a que ocorre na produção de gêmeos idênticos com a fissão do embrião.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 129

o congelamento de óvulos, a maturação de óvulos in vitro e in vivo (na pró-


pria mulher ou em animal hospedeiro), podendo ser usadas de modo com-
plementar. Cada inovação técnica é anunciada como se fosse uma solução
definitiva para um grande segmento. O próprio desenvolvimento de proce-

od V
r
dimentos distintos por caminhos divergentes pode colocar esse caráter de

uto
solução definitiva em dúvida. Olhando novamente esse material depois de
catorze anos, percebe-se que poucas dessas inovações foram incorporadas
à prática clínica. Embora o investimento da pesquisa científica tenha se

visã R
voltado para propiciar a transmissão dos genes da pessoa em tratamento

oa
a seus futuros descendentes, outras opções não deixam de existir como
se evidencia pelo mercado crescente de material reprodutivo que inclui a
venda de sêmen, óvulos e embriões, constituindo laços de parentalidade
e filiação não genéticos. Os altos custos das tecnologias de ponta ainda
C
experimentais certamente são um dos elementos para que a doação de ga-
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metas não seja deixada de lado. Porém é possível perceber que a escolha
do doador ideal pode integrar o projeto parental de uma prole de melhor
qualidade, como no caso de bancos de sêmen de ganhadores do Prêmio
Nobel ou da busca da universitária alta, inteligente e atlética. A ênfase na
ra
transmissão genética não exclui que outras opções possam continuar exis-
tindo e até se expandindo como no mercado material reprodutivo.
a re

Outra característica do desenvolvimento das pesquisas é o aumento


da intervenção nos corpos não só das mulheres, campo principal dos tra-
tamentos, mas também dos homens em novos procedimentos de coleta
ito

de células germinativas como a microdissecção de testículo. A interven-


par

ção também desce para o nível microscópico com a micromanipulação do


material germinativo, percebida na ICSI, na biópsia e ruptura assistida de
embriões, e na fabricação de óvulos e espermatozoides. Após tantas des-
crições dos meios tecnológicos de se conceder o parentesco genético aos
d

pais, gostaria de concluir com uma observação de Sarah Franklin feita por
são

ocasião do debate na Inglaterra a respeito da legislação regulando a repro-


E

dução assistida e as pesquisas com embriões. Um dos efeitos paradoxais


daqueles debates sobre fatos ditos biológicos foi deslocar atributos paren-
tais e de socialidade das pessoas para embriões, óvulos e espermatozoides.
ver

(FRANKLIN, 1999). Quanto às matérias de imprensa aqui analisadas, eu


diria que os órgãos reprodutivos, o material germinativo e o DNA passam
a ser os personagens principais de um enredo em que a alta tecnologia da
medicina de reprodução humana concede aos pais os filhos que buscam.
130

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PESQUISADOR OBTÉM ESPERMATOZÓIDE MADURO. Jornal do
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do
PINHEIRO, Aura; MITCHELL, José. Nova técnica lembra clonagem.
aC
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Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


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30 jan, 2001, p. 31.
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1999, Suplemento Feminino, p. F10.


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Paulo, Mundo, 18 fev. 1999.

SIMPÓSIO EM SÃO PAULO DISCUTE NOVAS TÉCNICAS DE RE-


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PRODUÇÃO. O Estado de S. Paulo, 19 mai. 2000.


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SUECOS SUGEREM AVALIAÇÃO DA FERTILIZAÇÃO IN VITRO.


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TÉCNICA DE FERTILIZAÇÃO PODE GERAR HERMAFRODITA.


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TÉCNICAS SÃO CONTROVERSAS. Folha de S. Paulo, 24 jul 1998.

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24 dez. 1995, Jornal da Família, p. 1.

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Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

TERAPIA GENÉTICA COMBATE INFERTILIDADE MASCULI-


NA. O Globo, 29, jan. 2002, p. 31.
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WEBER, Demétrio. Embrião passa por uma ‘limpeza’ no laboratório. O


Estado de S. Paulo, 23 mai. 1998c, Ciência e Tecnologia, p. A-20.
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V
r
uto
R
a
do
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


são i
rev
or
ara
di t op
E

ver
MEDICALIZAÇÃO DA REPRODUÇÃO
NO NORDESTE DO BRASIL:
análises das articulações

od V
r
discursivas em torno da FIV

uto
Sheila Bezerra39

visã R
oa
Introdução C
Em 2009, ano da inauguração do serviço de Reprodução Assistida
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

(RA) do IMIP - Instituto de Medicina Integral Professor Fernando


Figueira (IMIP), através de um dos principais jornais de Pernambuco,
expôs-se o dado de que Recife, localizado no nordeste do Brasil, teria
se transformado na capital nordestina da FIV e estaria entre os cinco
maiores polos médicos do país, uma vez que os médicos locais reali-
ra

zariam uma média de 900 gestações ao ano e o número de reproduções


assistidas teria triplicado desde o ano de 2003.
a re

No período em que a pesquisa fora realizada existiam ou estavam


cadastradas, em toda região Norte, duas clínicas de Reprodução Assistida,
o

e era em Recife que se localizava o único serviço de RA financiado pelo


SUS no Norte-Nordeste. Por esse motivo a referida cidade mereceu des-
par
ver dit

taque como um dos principais polos de FIV do Brasil. Pela possibilidade


de um maior controle sobre a decisão da maternidade, as Tecnologias de
Reprodução Assistida (TRA) têm sido compreendidas por alguns segmen-
tos sociais, a exemplo da corrente feminista liberal, como recurso que am-
são

plia a esfera dos direitos reprodutivos das mulheres e, consequentemente,


como aliadas na reafirmação dos valores sociais defendidos pelo movi-
E

mento feminista, em que às mulheres estaria reservado o direito de deter-


minar sua identidade sexual e de controlar seu próprio corpo.
Em torno dessas e de outras questões, têm se erigido controvér-
sias apontadas eminentemente pela corrente feminista radical que
chama a atenção, no contexto da medicalização da reprodução, para:
39 Doutora em Sociologia pelo PPGS/UFPE. Graduada em Ciências Sociais pela UFPE, tem mestrado em
Antropologia pelo PPGA/UFPE e pós-graduação latu sensu em Bioética e Saúde pelo Departamento
de Filosofia da UFPE. Vinculada à Associação Brasileira de Antropologia - ABA. Ganhadora do prêmio
Naíde Teodósio de Estudos de Gênero - 2009. Tem centrado seus estudos na análise do corpo e política.
140

a hipervalorização da ciência e do poder médico; os padrões hetero-


normativos de reprodução nos quais se apoiam tais biotecnologias; a
recorrente redução das mulheres à condição de detentoras de corpos
naturalmente predispostos à maternidade; as TRA como importantes
frentes de expansão e acumulação do capitalismo e, por fim, o questio-

V
r
namento do uso das TRA como direito reprodutivo, uma vez que se tra-

uto
taria de um recurso de caráter experimental, extremamente dispendioso
e de conhecidos e desconhecidos riscos à saúde das mulheres. Diante
de tais posicionamentos, a tese que ora inspira o presente capítulo, se

R
a
debruçou na análise das forças que disputam a hegemonia em torno do
significado das TRA tendo por referencial empírico a Fertilização in

do
Vitro (FIV). Os desdobramentos estiveram na identificação das regu-
laridades e dispersões discursivas em torno do significado do sacrifí-
aC
cio e do sofrimento como construtos de feminilidade e reprodução no

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


contexto da medicalização da reprodução e, ainda, na análise de como
são
a articulação entre Estado, Ciência Médica e Mercado têm repercuti-
do nos discursos que as mulheres produzem acerca de si mesmas e de
suas experiências pessoais ao buscar a FIV. A análise de documentos,
i
a realização de entrevistas e o relato etnográfico levaram às especifi-
rev

cidades dos discursos das mulheres “tentantes” que fizeram a FIV nos
serviços de Reprodução Assistida da cidade de Recife (ou em clínicas
or

particulares ou em serviço financiado pelo SUS). Foram, ao todo, 13


mulheres entrevistadas. A fim de explorar os demais discursos, foram
ara

entrevistados 4 homens “tentantes” e um médico.


t

Recife – lócus de pesquisa


i
op

Recife possui 1.536.934 habitantes (2010) e é a capital do Estado


d

de Pernambuco (PE), localizado no centro leste da região Nordeste


(NE) do Brasil. De acordo com Pimentel Neto40, o polo médico de
E

Recife tem sido considerado um dos mais importantes do Nordeste e


do Brasil, formado por 417 hospitais e clínicas, oferecendo um total de
8,2 mil leitos e que, segundo o sindicado dos hospitais de PE, registrou
ver

em 2000 um faturamento de R$ 220 milhões.


Para o referido autor, um arranjo produtivo caracterizado por tecno-
logias de ponta, infraestrutura, investimentos e profissionais qualificados,

40 PIMENTEL NETO, José G. Polo Médico do Recife e a Globalização: A singularidade da localidade e


os efeitos da pós-modernidade. Disponível em: <http://www.ufpe.br/revistageografia/index.php/revista/
article/viewFile/69/29>. Acesso em: 28 jun. 2012.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 141

coloca o Estado de PE na segunda posição em excelência médica no país,


atrás apenas de São Paulo, tendo reconhecimento inclusive dos Estados
vizinhos como Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte, responsáveis por
15% da demanda do já referido polo médico.

od V
r
Em 2009, ano da inauguração do serviço de Reprodução Assistida

uto
(RA) do IMIP – Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira
– IMIP, através de um dos principais jornais de Pernambuco, expôs-se o
dado de que Recife teria se transformado na capital nordestina da FIV e

visã R
estaria entre os cinco maiores polos do país, uma vez que os médicos locais

oa
realizariam uma média de 900 gestações ao ano e o número de reproduções
assistidas teriam triplicado desde o ano de 2003. Na matéria referida não
havia números para comparação e assim, infelizmente, os dados expostos
não puderam ser confirmados ou desconfirmados (embora tenham sido re-
C
alizados esforços nesse sentido), o que denota no mínimo uma pressa ou
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

descuido que fatalmente levaria à (intencional ou não) “glamourização”


dos números (infundados) da TRA através da mídia.
De qualquer modo, no período em que a pesquisa que fundamenta o
presente capítulo fora realizada, em toda região Norte existiam, ou estavam
ra
cadastradas, duas clínicas de Reprodução Assistida, e era em Recife que se
localizava o único serviço de RA financiado pelo SUS no Norte-Nordeste.
a re

Por esse motivo Recife mereceu destaque como um dos principais locais
de realização de FIV do Brasil. Em maio do ano corrente foi anunciado o
encerramento das atividades do centro de reprodução assistida, segundo
ito

uma matéria jornalística, por ausência de verba. O valor recebido pela ins-
par

tituição responsável pelo governo federal, previsto pela portaria n. 3149,


de 28 de dezembro de 2012, era de R$ 1.000.000,00. De acordo com as
notícias acerca do encerramento dos serviços, desde a sua inauguração em
2009, o centro teria realizado “o sonho de ser mãe de mais de quinhentas
d

mulheres inférteis”.
são

Antes que maiores detalhes relativos aos serviços de RA (quando do pe-


E

ríodo da pesquisa) sejam apresentados, nos cabe por ora a contextualização


do funcionamento e cadastro dos serviços de RA no Brasil e América Latina
no momento da realização da pesquisa. A referida contextualização acon-
ver

teceu a partir do levantamento de dados junto à Rede Latino-Americana de


Reprodução Assistida – REDLARA, à qual se vincula a Sociedade Brasileira
de Reprodução Assistida – SBRA, que publica anualmente desde 1990, com
o apoio da Merck Serono y Merck Sharpe & Dohme (laboratórios que pro-
duzem os hormônios utilizados pelas mulheres durante a FIV) o registro dos
procedimentos de reprodução assistida informados por seus associados.
142

O registro de 2009, por exemplo, disponível no site da REDLARA,


cujas informações estarão disponíveis a seguir, reporta a 135 centros per-
tencentes a onze países e dizem respeito aos procedimentos de RA realiza-
dos durante o ano de 2009 e aos bebês nascidos até setembro de 2010. A
tabela a seguir apresenta a significativa informação de que o Brasil, embo-

V
r
ra sem legislação relativa às TRA, possuía no período em questão o maior

uto
número de Centros de RA da América Latina, sendo acompanhada pelo
México e pela Argentina, que não possuíam sequer a metade das clínicas
cadastradas no Brasil até 2009.

R
a
Tabela 1: Número de Centros e Ciclos de RA
na América Latina por País em 2009

do
Total de ciclos realizados
aC
País Número de centros
N %

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


Argentina
Bolívia
são
22
1
9 773
101
25,7
0,3
Brasil 54 15 812 41,6
Chile 7 1 917 5
i
Colômbia 10 1 525 4
rev

Equador 4 430 1,1


or

Guatemala 1 98 0,3
México 25 4 588 12,1
Peru 3 1 627 4,3
ara

Uruguai 2 416 1,1


Venezuela 6 1 733 4,6
t

Total 135 38 020 100


i

FONTE: Site da Red Latino Americana de Reprodução Assistida (REDLARA) - 2009


op

*NOTA: Dados recortados da fonte supracitada e organizados em nova tabela para


d

tese “Corpos Femininos entre a natureza e a cultura: uma análise das articulações
discursivas relativas à reprodução medicalizada” defendida em março de 2013.
E

Não fugindo à tendência da América Latina, de acordo com Luna


(2002, p. 32), no Brasil as TRA não estão entre as maiores prioridades
ver

quando comparadas às grandes questões de saúde pública, ainda penden-


tes. Ainda assim, segundo Arilha (1996, p. 201), em tempos de reivindica-
ção por acesso às tecnologias da reprodução, haveria a ausência de políti-
cas de prevenção da Infertilidade, quando se sabe que questões como o alto
índice de DSTs e abortos realizados em condições ilegais têm contribuído
para o problema da infertilidade.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 143

Estas duas questões: o problema da infertilidade (ou a percepção da


infertilidade como problema) e a ausência das políticas de prevenção da
infertilidade coexistem no Brasil desde 2005, quando foram lançadas duas
portarias (a de n° 426 de 22 de março de 2005 do gabinete do ministro e a

od V
r
de n° 388 de 06 de julho de 2005 da Secretaria de Saúde) que instituíam

uto
a “Política de Atenção Integral em Reprodução Humana Assistida”, crian-
do no âmbito dos estados e do Distrito Federal serviços de referência em
reprodução humana como base do direito constitucional ao planejamento

visã R
familiar. Ainda hoje os aspectos regulatórios no Brasil estão aquém do

oa
crescimento de clínicas e procedimentos.
Ainda em relação às referidas portarias, Nascimento (2009, p. 47)
considera o seguinte: “A forma detalhada como as portarias são apresen-
tadas gera uma primeira sensação (ao menos aos olhos leigos) de que a
C
efetivação das políticas não teria porque não acontecer. No entanto, desde
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

seu lançamento, nenhuma medida foi tomada para a sua implementação”.


Pelo menos duas considerações devem ser realizadas a partir da fala
de Nascimento. Uma primeira, que corrobora com a informação de que,
entre 2005 e 2008, eram apenas as promessas - em torno do fornecimento
ra
dos serviços de RA de forma gratuita - que davam a tônica das políticas de
RA; e uma segunda (que exploraremos a seguir), a qual problematiza que
a re

muitos seriam os porquês para a não efetivação das referidas políticas, ou


seja, implementar as portarias não seria algo tão simples e há, sim, fortes
razões que questionam sua efetivação. Quanto à primeira consideração,
ito

diz-nos Nascimento:
par

Em 11 de junho de 2008, o ministro José Gomes Temporão refez a


promessa de que o Sistema Único de Saúde passaria a fornecer serviços
de reprodução assistida gratuitamente na rede pública, de forma
d

universal como propugnam os princípios desse sistema. Nas palavras


do ministro: “O casal que não consegue ter filhos e quer fazer uma
são

inseminação artificial tem que pagar hoje um tratamento caríssimo, que


E

custa entre R$ 10 mil e R$ 20 mil. O SUS também passará a oferecer


esse atendimento”. (NASCIMENTO, 2009, p. 47).
ver

Parece-nos problemático ou, ao menos, “desencontrado”, o fato de que,


quase três anos após a inauguração do primeiro serviço de RA financiado
pelo SUS em Pernambuco e, mesmo depois de dispor de cinco serviços de
RA em todo Brasil (como pode ser verificado a seguir), que o Ministério da
Saúde tenha informado, não através do site oficial e não por meio da ouvidoria
(acessada mais de uma vez para esta pesquisa e de quem não obtive nenhuma
144

resposta), a notícia de que “montou um grupo de trabalho para discutir a inclu-


são da fertilização in vitro na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS) ainda
em 2012 - sete anos depois da primeira portaria que determinava o atendimen-
to para casais que precisassem do procedimento”41. A pergunta que não calou
foi: se apenas em 2012 se monta um grupo de trabalho para discutir a inclusão

V
r
da FIV na tabela do SUS, como estavam se sustentando os serviços já financia-

uto
dos pelo SUS? Dependendo da resposta, quais as consequências disso?
Essa questão nos remete ao fato de que, em que pesem as reivin-
dicações em torno do acesso às TRA, muitos têm sido os porquês que

R
a
problematizam seu acesso de modo universal (ou seja, acesso àqueles/as
que não dispõem dos recursos necessários), dentre os quais: o fato de que

do
se trata de recurso experimental, cujos resultados são incertos e os efeitos
em longo prazo desconhecidos; o fato de que a FIV seria um procedimen-
aC
to complexo, em que os óvulos são obtidos pela invasão dos corpos das

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


mulheres através de altas doses de vários hormônios, inclusive resultados
são
de engenharia genética42 segundo Reis (2006, p. 83); e, por último, por ser
uma técnica de alto custo financeiro para o Estado.
Em 28 de dezembro de 2012 foi lançada a portaria de n.3149 especifi-
i
cando a destinação dos recursos financeiros aos estabelecimentos de saúde
rev

que realizam procedimentos de atenção à Reprodução Humana Assistida,


no âmbito do SUS, incluindo fertilização in vitro e/ou injeção intracito-
or

plasmática de espermatozoides, no entanto do que tange à regulação dos


serviços de saúde, estes se limitam às questões de ordem sanitária, e às
ara

resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM).


De acordo com a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida
t

(SBRA), ou seja, de acordo com as clínicas cadastradas em tal instituição


(que não expressam a realidade da quantidade de clínicas existentes), em
i
op

2012 os números no Brasil por região seriam os seguintes apresentados na


d

tabela a seguir:
E

41 Informação disponível em <http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2012/03/apos-7-anos-saude-


estuda-incluir-fertilizacao-vitro-no-sus-em-2012.html>. Acesso em: 24 mar. 2012.
42 Outras informações a respeito: De acordo com Leopoldo de Oliveira Tso, pós-graduando do setor de
ver

Reprodução Humana do Departamento de Ginecologia da UNIFESP/EPM; Médico do Projeto BETA,


Medicina Reprodutiva com Responsabilidade Social, a grande demanda mundial pela gonadotrofina
altamente purificada dificultou sua disponibilidade. Cerca de 30 milhões de litros de urina por ano
eram necessários para atender a produção. Por isso, surgiu a tecnologia de DNA recombinante com
capacidade de produzir gonadotrofina de alta pureza, excelente eficácia e praticamente com o mesmo
custo da gonadotrofina urinária. O FSH recombinante (FSHr) e produzido a partir de cultura de células
de ovário de hamster e tem alta atividade específica e pureza (10000UI/mg). Apesar da gonadotrofina
como indutor da ovulação ter passado por grandes avanços, é o medicamento mais utilizado em todo o
mundo com essa finalidade.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 145

Tabela 2 - Número de Centros de RA no Brasil Cadastrados


na SBRA por Região e Estado - 2012
 
Regiões TOTAL
 

od V
r
NE MA PI CE RN PB PE AL SE BA  

uto
  2 1 3 0 1 3 2 2 2 16
N AC AM PA RO RR AP TO  

visã R
  0 1 1 0 0 0 0     2

oa
CO MT MS GO  
  3 1 3             7
S PR SC RS  
  13 3 6             22
SE MG
C RJ ES SP  
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

  12 7 0 33           52
FONTE: Site da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), 2012.
*NOTA: Dados recortados da fonte supracitada e organizados em nova tabela para
tese “Corpos Femininos entre a natureza e a cultura: uma análise das articulações
discursivas relativas à reprodução medicalizada”, defendida em março de 2013.
ra

Financiados pelo SUS, de acordo com o site do Ministério da Saúde,


a re

em 2011 estavam cadastrados os seguintes serviços especificados: O Centro


de Referência em Saúde da Mulher em SP - Hospital Pérola Byington; O
Hospital Universitário da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e
ito

o Hospital Universitário de Ribeirão Preto/USP/SP. No Distrito Federal e em


par

Pernambuco, constam, respectivamente, o Centro de Reprodução Humana


Assistida do Hospital Regional da Asa Sul e o serviço de RA do IMIP.
Retrospectivamente, sabe-se através da SBRA, que em 2003 a capital
pernambucana tinha pelo menos duas clínicas de RA e, em 2009, a partir
d

do cadastro de tal associação, somariam o total de quatro clínicas, den-


são

tre as quais: Clínica Nascer – Medicina Reprodutiva, e Clínica Armínio


E

Collier, Clínica Gerar, e IMIP. Em 2011, existiam pelo menos duas clíni-
cas associadas, e em 2016 foram identificadas três: Centro de Reprodução
Humana, La Donna, Nascer – Medicina Reprodutiva.
ver

A SBRH – Sociedade Brasileira de Reprodução Humana - membro


da International Federation of Fertility Societies – IFFS –, e somente as-
sociada à REDLARA a partir de 2012, é outra instituição que aglutina
serviços de reprodução medicalizada, dentre elas, em Recife, o Centro de
Reprodução Humana. De acordo com um dos integrantes da Diretoria da
referida instituição, a SBRH possui 3.000 sócios no Brasil, porém apenas
146

700 em dia (relativo à anuidade) e, em Pernambuco menos de 30, não


possuindo em 2012 nenhuma clínica cadastrada (em junho de 2016 não
foi possível verificar, a partir do site, se tinha ou não clínicas cadastradas).
Apesar da pesquisa nos sites da SBRA e da SBRH não foi possí-
vel identificar a totalidade das clínicas existentes em Recife, ficando a in-

V
r
formação parcial de que até 2012 funcionavam (cadastradas às redes de

uto
RA, ou não), pelo menos, cinco clínicas ou serviços de RA, dentre eles
a Clínica Nascer, a Clínica Armínio Collier, a Clínica Gerar, o Centro de
Reprodução Humana e o Serviço de Reprodução Humana do IMIP.

R
a
Vale salientar que, na contramão de um desenvolvimento tecnológico
e econômico que faz de Recife, hoje, o mais importante, ou um dos polos

do
médicos mais importantes do Norte/Nordeste, e lócus de “turismo de saú-
de”, o Fórum de Mulheres de Pernambuco - articulação feminista e antir-
aC
racista de âmbito estadual, fundado em 1988 e cuja sede está localizada

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


em Recife, continua mobilizado contra a realidade da violência doméstica
são
e sexista que tem feito de Pernambuco um dos Estados que mais registra
crimes contra mulheres no país.
Decerto que não é possível inferir uma afirmação conclusiva acerca da
i
relação entre a “hercúlea-quase-tarefa-missão” de ter um filho por meio das
rev

TRAs e a violência doméstica e sexista que acomete mulheres pernambuca-


nas e tantas outras mulheres Brasil afora. No entanto, chamar a atenção para
or

esse aspecto significa atentar também para um contexto ainda extremamente


mobilizado por não superadas desigualdades de gênero, e para valorização
ara

de padrões hegemônicos de feminilidade e masculinidade, que acabam por


reproduzir as marcas do sofrimento e dos sacrifícios socialmente aceitos e/ ou
t

“melhor adequados”, ou mesmo, que melhor condizem com tais padrões.


A questão é que, uma vez que essa técnica, por toda complexidade
i
op

que lhe é peculiar, evidencia as situações-limite de sofrimento e sacrifício


d

em busca da filiação biológica, chegamos às possíveis análises de como


os padrões de feminilidade e reprodução interagem com a vivência dos
sacrifícios e sofrimentos possíveis e as implicações disso tudo na vida das
E

mulheres que buscam a FIV.


Pela capacidade de concentrar em si diversos processos articulatórios
ver

próprios às negociações em torno das escolhas reprodutivas e por, conse-


quentemente, expor uma conjuntura que diz respeito ao que se acha que
pode/não pode, deve/não deve fazer em nome de uma gravidez ou de uma
criança, é que a FIV, encarada muitas vezes como a última cartada de um
“jogo” de acertos e erros, é tomada enquanto referente empírico a partir
do qual se analisam os discursos relativos à naturalização construída do
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 147

sofrimento e sacrifícios como alicerces dos discursos hegemônicos de ferti-


lidade e reprodução.
Uma vez que a FIV é a técnica mais complexa no meio da RA e, pelos
procedimentos que envolve, evidencie situações-limite de sofrimento e sacrifí-

od V
r
cios ‒ sejam eles físicos, financeiros ou emocionais - vivenciados, explicitados

uto
e assumidos pelos sujeitos que buscam a filiação biológica, uma das questões
norteadoras da pesquisa que ora subsidia o presente artigo foi: num contexto
de articulação crescente entre ciência médica, indústria farmacêutica, Estado e

visã R
Igreja, quais são as implicações das formações discursivas relativas à FIV nos

oa
discursos que as mulheres produzem acerca de si mesmas e de suas experiên-
cias pessoais ao buscar as biotecnologias da reprodução?
Com tal questão em mente, considerou-se inicialmente que as articulações
discursivas relativas à procriação medicalizada (re)produzem os discursos he-
C
gemônicos de feminilidade e reprodução pela naturalização dos discursos de
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

sofrimento e sacrifício institucionalizados, por um lado, pela medicina, assimi-


lados, por outro, pelas políticas de Estado e, ainda, mercantilizados através da
indústria médico-farmacêutica por meio de uma forte intervenção publicitária.
Partindo de tal pressuposição, o objetivo da pesquisa esteve focada na análise
ra
das forças que disputam a hegemonia em torno do significado das tecnologias
da reprodução, tendo por referencial empírico a fertilização in vitro.
a re

Para chegar às forças que disputam a hegemonia em torno do signi-


ficado destas tecnologias, um longo caminho foi trilhado, em princípio, a
partir dos conceitos de biopoder e patriarcado, seguindo as interpretações
ito

estruturalistas dos fenômenos sociais, os quais são relativos, de um lado,


par

ao poder do Estado, centralizado e institucionalizado pelo disciplinamento


dos corpos da população e, de outro, ao exercício do poder masculino, ins-
titucionalizado ou não, sobre a vida das mulheres e seus corpos. Durante
a caminhada, o curso dessa trilha foi modificado, não porque os referidos
d

conceitos estivessem ultrapassados, mas pela consideração de que, sozi-


são

nhos, não dariam conta de explicar a complexidade do fenômeno social


E

provocado pelas Técnicas de Reprodução Assistida (TRA).


Pela promessa dos estudos pós-estruturalistas quanto ao alcance das
negociações em torno dos sentidos políticos relativos à FIV, esse foi o ca-
ver

minho tomado e seguido. Um exemplo que ressalta o que acabo de dizer,


ou seja, relativo às negociações políticas dos sentidos da FIV, é que, ao
longo desta pesquisa, pude ter acesso a determinados espaços e informa-
ções que talvez não tivesse tido, caso não apresentasse um olhar feminista
declarado em relação ao tema. Isso quer dizer que, em muitas circunstân-
cias, ter um olhar feminista sobre as tecnologias reprodutivas sob muitos
148

aspectos tem sido encarado genericamente quase que como sinônimo de


ser incondicionalmente a favor do uso delas – pela promessa de autonomia
reprodutiva das mulheres.
Mais que explicitar um novo cenário no qual o quadro normativo tra-
dicional da reprodução - qual seja, gravidez por ato sexual e não interrupção

V
r
por escolha - é profundamente alterado segundo Engeli (2009, p. 203), a

uto
FIV também encerra em si outra relação, não menos importante do ponto de
vista político e analítico, caracterizada pela articulação mulheres - medici-
na - reprodução. Esse novo cenário provocado pelas TRA, segundo Abott

R
a
et al. (2005, p. 185), se caracteriza pela intervenção médica nos corpos das
mulheres para além das questões relativas a contracepção, gravidez e parto,

do
permitindo, por exemplo, que, entre outras coisas, o processo de reprodução
prescinda de relação (hetero)ssexual.
aC
Nessa nova configuração, diferentes fronteiras entre o que é natural/

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


biológico e o que é social na concepção, gravidez, parto, possibilitam não
são
só uma desestabilização nas categorias hegemônicas de parentesco segun-
do Cussins, (1998, p. 40), como também maior adequação da vida repro-
dutiva ao novo ritmo de vida das mulheres - quando estas, em alguns ca-
i
sos, têm adiado, mas não desistido do projeto da maternidade biológica.
rev

Pela possibilidade de um maior controle sobre a decisão da mater-


nidade, as TRA têm sido compreendidas por alguns segmentos sociais, a
or

exemplo da corrente feminista liberal, como recurso que amplia a esfera


dos direitos reprodutivos das mulheres e, consequentemente, como aliadas
ara

na reafirmação dos valores sociais afirmativos defendidos pelo movimento


feminista, em que às mulheres estaria reservado o direito de determinar sua
t

identidade sexual e de controlar seu próprio corpo. Em torno da possibili-


dade de desnaturalizar a idade reprodutiva pela técnica de FIV e do possí-
i
op

vel favorecimento à autonomia das mulheres ao permitir a priorização de


d

outros projetos de vida (como a carreira profissional, por exemplo), têm se


erigido algumas controvérsias.
Uma das controvérsias em torno da pretensa desnaturalização da idade
E

reprodutiva está em que as taxas de sucesso do procedimento da FIV ainda


se encontram atreladas a ela. O problema é que a gravidez em seus extre-
ver

mos, ou seja, menos de 15 anos e mais de 35 anos, apresenta-se como fator


que põe em risco a vida das mulheres e põe em xeque o uso das TRA em
mulheres com idade avançada, como tem comumente acontecido. Some-se
a isso o fato de que, com as TRA, existe a chance de uma gravidez múltipla
e esse tipo de gravidez por si só já seria fator de risco à saúde da mulher.
Tais considerações problematizam não só a promessa da desnaturalização
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 149

da idade reprodutiva por parte da técnica de FIV, como também as con-


cepções de responsabilidade profissional e autonomia do paciente diante
da relação risco-benefício. (BECK, 1992; 2009; GIDDENS, 1997; ROSE,
2007). Dessa forma, embora tais concepções de responsabilidade profis-

od V
r
sional e autonomia do paciente não difiram fundamentalmente daquelas

uto
que se colocam em uma situação terapêutica tradicional, ganham maior
proporção quando se leva em consideração que a “infertilidade não é uma
doença fatal, nem concepção assistida é o tratamento para a infertilidade”.

visã R
(BATEMAN, 2002, p. 325).

oa
A questão, entre outras questões, é que, hoje mais que nunca, as bio-
tecnologias têm feito parte da vida de mulheres e homens de todo o mundo
nos seus diversos segmentos. O seu avanço tem implicado em um entre-
laçamento cada vez maior entre as racionalidades tecnocientífica e econô-
C
mica, produzindo efeitos cada vez mais expressivos e complexos do ponto
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

de vista da análise das novas configurações sociais. As biotecnologias têm


o poder, por exemplo, de “afirmar ou renegar fronteiras de descendência
e ancestralidade, sangue e genes, nação e etnicidade” segundo Cussins
(1998, p. 40), e o maior exemplo para tanto são os casos das “barrigas
ra
de aluguel” ou úteros de substituição que pressupõem não só o sangue,
oxigênio e placenta de outra mulher, mas também a doação de óvulos e es-
a re

permatozoides de terceiros. No mais, ao mínimo contato que se tenha com


o tema das biotecnologias a serviço da reprodução, têm sido comuns, por
exemplo, notícias de bebês – entre eles gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos
ito

– resultados dos “milagres da ciência”; comunidades virtuais, blogs e ou-


par

tros recursos de comunicação utilizados por mulheres que não conseguem


engravidar; materiais de medicina especializada financiados por grandes
laboratórios; notícias oficiais do governo acerca dos serviços públicos de
Reprodução Assistida - RA e, por fim, a presença de setores da sociedade
d

civil, como o movimento feminista, que, como já foi dito, tem dividido
são

suas opiniões em torno do uso de tais biotecnologias.


E

Todo arcabouço supracitado, relativo ao tema das biotecnologias, nos


remete ao entrecruzamento de questões morais, políticas e econômicas
que, por sua vez, chamam a atenção para alguns aspectos muitas vezes e
ver

inexplicavelmente esquecidos ou pouco considerados como, por exemplo,


uma legislação específica relativa à Reprodução Assistida – RA e, mais
discutivelmente, sua ausência; o crescimento desenfreado de clínicas e
também de mulheres que têm feito uso de tais técnicas (e muitas vezes sob
condições não propriamente esclarecidas, apesar dos termos de consen-
timento livres e esclarecidos) e ausência de políticas de Estado voltadas
150

para a segurança biológica das mulheres, pois a discussão do controle de


tecnologias, a exemplo da Fertilização in vitro – FIV, tem se dado recorren-
temente e prioritariamente em torno da proteção do embrião.
A grande presença da indústria médico-farmacêutica no campo da
oferta de serviços em saúde está ainda entre tantos outros aspectos que

V
r
acabam por configurar uma grande rede de interesses, saberes e poderes

uto
que têm girado em torno da infertilidade, entendido aqui apenas como a
ponta de um imenso iceberg num contexto de angústias, sacrifícios e sofri-
mentos legitimados nos discursos da reprodução medicalizada, como pode

R
a
ser identificado nas falas dos profissionais e das mulheres entrevistadas.
Ao todo foram treze mulheres entrevistadas identificadas neste artigo pelos

do
números apresentados no quadro 1. Das treze, três foram acompanhadas
desde as primeiras injeções de hormônios até o teste de gravidez. A partir
aC
de suas falas foi possível constatar o sofrimento e sacrifícios corporais,

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


emocionais e materiais vividos por elas, senão a partir de alusões diretas -
são
como aconteceu na maior parte dos casos - através da identificação destes
pelas descrições realizadas durante as entrevistas.

[...] aí disse:‘você teve uma trombose’. Tava toda inchada, a perna toda
i
rev

preta, eu sentindo muita dor, não colocava o pé no chão [...] ‘você


tem que tomar uma medicação - agora, eu não me responsabilizo. Tem
or

umas que perdem o bebê e tem outras que seguram’. – ‘pois eu não
quero tomar não. pois morre eu e ele. Eu vou tomar uma medicação
sabendo que vou perder o meu filho que eu tanto lutei, que eu tanto...
ara

não!’- ‘Não, mas você tem que tomar, senão você vai chegar a óbito’,
ele falou para mim. ‘Vai chegar a óbito com o bebê’. Aí eu: ‘não tem
t

problema não’. Aí eu assinei um termo e ele disse: ‘então eu não me


responsabilizo por você’. Ele ficou brabo lá. (Entrevistada 12).
i
op
d

Na mesma linha segue a fala do médico entrevistado:

A gente nota uma angústia muito grande. A maternidade é uma coisa


E

extremamente diferencial nas mulheres, muito mais do que eu podia


imaginar, então elas são capazes de fazer qualquer tipo de sacrifício
ver

para ter esse filho. Inclusive, muitas vezes é até financeiro, às vezes
você vê que a paciente não tem condições absolutamente nenhuma
de sustentar um filho, mas essa vontade de gestar, essa vontade de
ser mãe... elas fazem alguns ‘absurdos’, entre aspas, para conseguir
esse resultado. (Médico).
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 151

É possível encontrar um ‘denominador comum’ entre as falas explici-


tadas acima? Decerto que encontramos algum, certamente até mais de um: a
angústia das mulheres, os sofrimentos, os sacrifícios, presentes tanto na fala do
médico, quanto na fala de Mercedes (nome fictício) foram os elementos a par-

od V
r
tir dos quais estiveram fundados os problemas de investigação e subsequente

uto
análise relativa aos discursos em torno das TRA. Nesses discursos, dois temas
se sobressaíram e expuseram a regularidade de uma ordem a partir da qual a
FIV se legitima: a maternidade e o sacrifício, temas tradicionais de nossa cul-

visã R
tura e caros ao estudo proposto, afinal, à Eva – que permanece como arquétipo

oa
do sexo feminino - lhe foi dito por Deus: “multiplicarei sobremodo os sofri-
mentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será
para o teu marido, e ele te governará”.
A regularidade de uma ordem, a partir da qual o uso da técnica de
C
FIV é justificada, deu o norte da investigação das formações discursivas
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

relativas à reprodução medicalizada. Se a presença do sofrimento e do sa-


crifício é um elemento regular nos discursos em torno das tecnologias da
reprodução, a fixação dos sentidos de tais elementos é algo com o qual não
se pode contar, afinal, o sofrimento nesse contexto pode significar tanto
ra
não ter uma criança gerada em si, (ou mesmo do seu sangue, ou com seus
genes, ou do seu marido), quanto pode dizer respeito a tudo aquilo, ou a
a re

toda experiência física, emocional e material, que se vive em seu nome.


Da mesma forma, o sacrifício pode ser entendido tanto como algo va-
loroso ou digno de honras (principalmente se se trata de um fim valorizado
ito

socialmente, ou um fim moral), quanto pode significar a completa ausên-


par

cia de sentido diante do vivido ou do real (ou uma espécie de loucura à la


Medéia) diante de uma situação considerada absurda. Não poder ter uma
criança, ou não tê-la diante de tantos meios técnicos disponíveis seria uma
situação absurda, inclusive porque, neste último caso, a sacrificada seria a
d

criança pela “falta de empenho” da “mãe” (em potencial).


são

Considerando que “o caminho da tragédia é essencialmente amo-


E

ral e, portanto, singular” conforme Diniz (2001, p. 88), a questão ex-


plorada aqui se traduz na tentativa de apreensão do que faz do absurdo
vivido pelas tentantes o elemento central da tragédia a ser assumido
ver

por elas. Nesse sentido, e em que pese todo potencial desestabilizador


da ordem social pelas tecnologias (em geral), e das reprodutivas, em
específico, a hipótese que deu origem à pesquisa cujos resultados são
apresentados aqui, foi que a FIV (enquanto TRA) ou, mais detidamen-
te, as diversas estratégias políticas em torno do seu uso, fortalecem os
discursos de sofrimento e sacrifício como elementos fundantes daquilo
152

que, hegemonicamente, se compreendem como construtos de feminili-


dade e maternidade.
Em outras palavras, se já existe um imperativo social que atrela a fe-
minilidade e a reprodução ao sofrimento e ao sacrifício – tais como podem
ser observados a partir do caso dos abortos de fetos anencéfalos, das altas

V
r
taxas de mortalidade materna por causas evitáveis e a partir do estímulo

uto
ao uso das TRA - os discursos em torno da FIV têm corroborado tal impe-
rativo, ainda que discursos de autonomia, realização pessoal, felicidade,
esperança, igualmente se evidenciem. Se de um lado o sofrimento/sacrifí-

R
a
cio que se legitimava estaria na impossibilidade de algumas mulheres in-
terromperem sua gestação, de outro lado seria pela possibilidade de gestar

do
que esses se justificariam.
Estas duas questões, ou “problemas morais” ou “dilemas bioéticos” – o
aC
aborto de fetos anencéfalos e uso das TRA – foram pensados como instrumen-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


tos de sócio análise ou “arqueologias objetivas do nosso inconsciente” (termo
são
tomado de empréstimo de Bourdieu (1999, p. 9) ao propiciar, na leitura das li-
nhas e entrelinhas, um duplo, uma economia do sacrifício relativa à construção
do Outro, singular e apenas parcialmente acessível em sua alteridade.
i
No caso da gravidez de fetos anencéfalos, por exemplo, mesmo quan-
rev

do da certeza de um diagnóstico de má formação incompatível com a vida


extrauterina (gravidez de fetos inviáveis, com diferentes patologias, sín-
or

dromes ou más formações), a mulher deve expor seu problema ao mundo


público e é neste espaço que a decisão em manter em seu corpo um feto por
ara

nove meses e que não sobreviverá ao nascer será tomada.


“O sofrimento em si não é alguma coisa que degrade a dignidade
t

humana” - esta frase foi proferida por Cezar Peluzo, um dos ministros do
Supremo Tribunal Federal, ao tentar argumentar contra uma das assertivas
i
op

do advogado da causa das mulheres grávidas de fetos anencéfalos. Por


d

ora, utilizo sua fala para abrir espaço para uma das questões centrais nas
negociações políticas em torno daquilo que pode ser considerado natural
ou cultural na oposição natureza-cultura/natural-construído: o sofrimento,
E

ou seja, pelo quê as mulheres podem/devem ou não podem/devem sofrer


ou ter a coragem de sofrer. (THOMAS, 1991, p. 94).
ver

O sofrimento, o sacrifício (consequência do sofrimento ou gerador dele)


é tomado aqui como pano de fundo ou caminho para chegar à identificação
de valores que têm justificado a mulher como o Outro ao Outro que já é, em
sua normalidade, incompleto. É o Outro julgado a partir de valores construí-
dos, alimentados e aceitos de forma natural e tão imperceptivelmente, quan-
to tão imperceptivelmente vai se construindo e se perpetuando a legitimação
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 153

em torno da existência de “corpos não civilizados” expressão de Ferrreira e


Hamlin, (2010) passíveis de exploração, investigação, dissecação.
As experiências, em alguns contextos, passaram a ser fonte de muita
alegria e felicidade, e é importante que se diga que as mulheres que con-

od V
r
seguiram engravidar por meio da FIV se encontravam muito satisfeitas

uto
ou, pelo menos, se apresentavam satisfeitas. No entanto, nenhuma delas,
mesmo aquela mais realizada, deixou de lado o relato de esforços, sacrifí-
cios (sociais, físicos, econômicos) e, mesmo, sofrimento emocional, como

visã R
demonstrado a seguir:

oa
Para mim, fisicamente, foi um esgotamento muito grande. É tanto que
eu estou começando a voltar ao meu corpo agora, quase dois anos
depois do encerramento da última medicação. E é um processo em que
C
você se sente muito invadida. Por quê? Porque você tem um estranho
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

para lhe catucar, porque você está sempre no ginecologista, você está
sempre fazendo ultrassom, você está sempre sendo monitorada, você
está sempre tomando injeção de hormônio, então você se sente muito
exposta, mas em momento nenhum passou pela minha cabeça que não
valesse a pena. (Entrevistada 3).
ra

A pena, a sanção, a penitência, o castigo. Fala-se tranquilamente, qua-


a re

se que displicentemente, da pena. Mas qual seria o desvio? Os fragmentos


relatados aqui, recortes da realidade de mulheres que têm buscado a FIV
para engravidar, estão baseados nos testemunhos de dor, de invisibilidade,
ito

de internações, perdas, solidão, enfim, das penas que, como desviantes,


par

devem cumprir. Como essas mulheres legitimam esse sofrimento ‘inevi-


tável’ e, de certa forma, desejado? Qual sua culpa, ou seu “crime” e, por
vezes, até seu pecado? Não fazer jus a uma expectativa social sobre o seu
corpo, corpo este faltante (ou mais faltante que o normal), em relação a um
d

projeto identitário hegemônico e que passa pela maternidade.


são

Essas mulheres compartem o protagonismo em um campo de forma-


E

ções discursivas em torno da feminilidade e da reprodução que, em articu-


lação com os discursos da ciência médica, da indústria médico-farmacêu-
tica e do Estado, constituem-nas em sujeitos da fertilidade.
ver

Pela consideração de tudo exposto até o momento é que a FIV (tanto a


convencional, quanto com Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoide
- ICSI) foi tomada enquanto referente empírico por, do ponto de vista
dos sofrimentos e sacrifícios, primeiro, conter em si práticas legitimadas
e controversas no tocante à profunda mobilização de corpos femininos
com o fim último da (re)produção de um filho biológico; segundo, por
154

esta mobilização acontecer mediante ampla intervenção de um campo es-


pecífico do saber protagonizado pela ciência médica [e por um aparato
econômico institucional que compreende: clínicas de fertilização, indús-
tria farmacêutica, órgãos estatais de regulamentação da prática médica];
terceiro, por estar condicionada às medicações de alto custo produzidas

V
r
e tornadas públicas por poderosos segmentos da indústria médico-farma-

uto
cêutica e cujos efeitos nos corpos das mulheres ainda não são plenamente
conhecidos e, finalmente, e consequentemente, por mobilizar campos da
(bio)política através do campo religioso e do movimento feminista.

R
a
Quando se fala de uma profunda mobilização dos corpos femininos,
diz-se dos processos aos quais são submetidos esses corpos antes, durante

do
e depois da FIV propriamente dita, ou seja, dos exames, cirurgias, expo-
sições hormonais, punções, procedimentos da transferência embrionária –
aC
que acontecem em etapas (descritas resumidamente a seguir) que poderão

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


se suceder a depender das respostas de seus organismos (e este é um ponto
são
digno de registro).
Apesar de toda abordagem técnica relativa ao procedimento da FIV,
faz-se necessário considerar que a primeira etapa representada pela esti-
i
mulação é um momento de muita apreensão por parte das mulheres – prin-
rev

cipalmente aquelas que são atendidas no serviço financiado pelo SUS –,


pois é somente a partir da resposta de seu organismo, nessa primeira etapa,
or

que as outras poderão se suceder.


Cada uma ao seu jeito expôs sua própria trajetória, fosse esta relativa
ara

ao acesso aos serviços de RA ou na lida com os/as profissionais, fosse


relativa ao enfrentamento de diagnósticos e procedimentos, e/ou outros
t

processos mais complexos como o luto, consequência tanto de resultado


negativo de gravidez, quanto de resultado positivo inesperado, tal como
i
op

gravidez quadrigêmea, por exemplo, e prováveis sequelas de nascimentos


d

prematuros. Mesmo considerando a peculiaridade das entrevistadas e de


suas histórias que, como já falou uma delas: “Faça a fertilização em dez
mulheres e você vai ver, vai ser tudo diferente, porque tudo é diferente,
E

porque cada uma tem um jeito, uma forma de vida, e reage de uma forma
diferente” (Entrevistada 4), um aspecto as unifica para além do sofrimento
ver

e dos sacrifícios, ou circunstancialmente torna essas mulheres “tentantes”


(termo identificado a partir de grupos de discussão na rede social Orkut)
como uma categoria passível de análise: a busca pela satisfação de um
desejo, a busca pela maternidade biológica através da FIV.
Pode-se dizer que o fato de que corpos femininos estão impregna-
dos da função procriadora antes mesmo de serem corpos adultos, mais
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 155

que isso, considerados e tratados como doentes ou defeituosos - portanto


passíveis de intervenção médica, medicalização e, enfim, de “cura” – se
constituiu em uma das principais forças motrizes do processo de pesquisa.
Lentes através das quais o campo de estudos foi iniciado e desenvolvido.

od V
r
Mediante tal análise, ou seja, das formações discursivas, aquilo que, em

uto
princípio, parecia fluido ou fragmentado, deu-se lugar às interpretações
possíveis dos muitos significados identificados nos discursos em torno das
Técnicas de Reprodução Assistida – TRA -, mais especificamente da téc-

visã R
nica de Fertilização in vitro – FIV – e ao que esta mobilizaria política,

oa
econômica e socialmente.
A fim de chegar às formações discursivas, entendidas aqui enquanto re-
gularidade na dispersão conforme Laclau e Mouffe (1985, p. 143), e responder
como manifestam e potencializam discursos hegemônicos de feminilidade e
C
reprodução, a investigação aconteceu na medida em que se desejou buscar as
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

práticas de poder e os jogos de verdade relativos à constituição do sujeito ou


das diferentes formas de sujeito no contexto das TRA.
O sujeito do qual se fala (e aqui entramos, por exemplo, na alçada dos
diferentes posicionamentos encontrados no movimento feminista relativo
ra
ao uso das TRA) possui uma identidade “sempre contingente e precária,
temporariamente fixa na intersecção dessas posições de sujeito e depen-
a re

dente de formas específicas de identificação”. (MOUFFE, 1996, p. 105).


Esse sujeito seria o ponto de convergência de poderes, formações discursi-
vas, dispositivos de produção e de controle – ainda que contingentes.
ito

teremos que abordá-lo como uma pluralidade, dependente das várias


par

posições do sujeito através das quais se constitui em várias formações


discursivas, e de reconhecer que não existe qualquer relação prévia
e necessária entre os discursos que constituem as diferentes posições
d

do sujeito. No entanto, pelas razões anteriormente apontadas, esta


pluralidade não envolve a coexistência de uma pluralidade de posições
são

de sujeito, mas antes a constante subversão e sobredeterminação de uma


E

pelas outras, que tornam possível a criação de “efeitos totalizadores”


num campo caracterizado por fronteiras abertas e indeterminadas.
(MOUFFE, 1996, p. 105).
ver

Por mais que este sujeito não pudesse ser compreendido a partir de uma
identidade universal (morto em termos pós-estruturalistas), ainda assim seria
aquele que, sob a égide de “efeitos totalizantes”, identificar-se-ia através de pa-
drões de feminilidade e reprodução naturalizados ou essencializados, pela le-
gitimação do sacríficio, da dor, e do sofrimento como elementos constituintes
156

desse feminino. Trata-se, do sujeito que, nos discursos hegemônicos encontra-


-se atrelado à fertilidade e se constitui a partir de uma correlação estreita e
determinante entre ser mulher e ser mãe; segundo, é o sujeito cuja renúncia e
sacrifício são constituintes do que seria sua natureza original e cujo anseio pela
maternidade biológica seria naturalizado ou, mais propriamente, mitificado.

V
r
Ou seja, assim como em Laclau e Mouffe (1985, p. 156), “sempre que neste

uto
texto utilizemos a categoria de ‘sujeito’, o faremos no sentido de ‘posições do
sujeito’ no interior de uma estrutura discursiva”.
Nosso sujeito concretizado e hiperbolizado, portanto, nas situações-

R
a
-limite ou nas fronteiras entre corpo biológico versus corpo socialmente
construído que o contexto de uso das tecnologias com fins de reprodução

do
tem propiciado, está localizado, no contexto das TRA, num modelo de
reprodução dominado por uma estrutura de saber-poder que, por um lado,
aC
corrobora um modelo de reprodução calcado em padrões convencionais de

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


parentesco atrelados à consanguinidade e a padrões tradicionais de família,
são
e, por outro lado, propicia um maior controle do sujeito sobre si no que
tange ao conhecimento mais acurado de sua fisiologia, e no que o torna
potencialmente autônomo em suas escolhas.
i
Há que se perguntar, no entanto, a partir de tudo dito até aqui: sen-
rev

do a reprodução possível irremediavelmente (até o momento) pela pre-


sença de materiais biológicos masculinos e femininos, é possível falar
or

de um sujeito da reprodução identificado no outro do sexo, ou melhor,


no Outro do outro, mais detidamente à figura das mulheres “anormais”
ara

e a partir de seus corpos?


Para responder a tal questão, deve-se considerar que as biotecnologias
t

da reprodução (representadas aqui pelo avanço dos medicamentos), ape-


sar do grande potencial de transgressão das ordens corporal e socialmente
i
op

difundidas, têm subsidiado as ausências ou as “deficiências” de determina-


d

das funções que, em tese, estariam atreladas ao que seriam consideradas as


funções naturais dos corpos – femininos e masculinos. Assim, se para os
homens geralmente é a “função” sexual que é otimizada através do “trata-
E

mento” da disfunção erétil, nas mulheres a indústria médico-farmacêutica


tem aperfeiçoado a “função” procriadora de seus corpos.
ver

Nesse sentido é possível dizer que, embora a técnica de FIV não


prescinda da participação do corpo masculino, que também esses cor-
pos sofram intervenções na medida em que são diagnosticados “de-
feitos”, e, ainda, que igualmente sofram psicologicamente a ausência
de um/a filho/a e, em casos mais raros, sofram intervenções cirúrgicas
e/ou tomem medicamentos para estimular a produção espermática, a
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 157

responsabilidade sobre a infertilidade ainda tem recaído sobre o cor-


po feminino.
Como nos fala Tamanini (2003, p. 125):

od V
r
Esses casais submeteram-se durante anos a um rigoroso controle,
tanto sobre sua vida sexual quanto sobre a produção de gametas e

uto
hormônios. Foram submetidos ao rigor do uso das medicações e do
sexo procriativo. Alguns exames exigiram abstinência sexual total
ou cronometrada por meio de horários e calendários específicos. As

visã R
mulheres, em particular, submeteram-se ao controle laboratorial, ao

oa
controle da ovulação e menstruação, às medições de temperatura diária.

Essa pressão sobre as mulheres nos diz muito acerca de, em nome de
C
quê estas podem/devem ou não podem/devem sofrer e, consequentemente,
dos discursos hegemônicos em torno da feminilidade e da maternidade.
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

O fato de que as mulheres sejam investidas, na pesquisa que orien-


ta o presente artigo, dos elementos que as caracterizam como sujeito da
reprodução, não deve ser entendido, nem de longe, como um passo atrás
no caráter relacional que os estudos de gênero justamente sustentam. No
ra

entanto, e agora respondo às críticas que recebi ao longo do processo de


maturação da pesquisa (pelo fato de ter enfatizado propositadamente a voz
a re

das mulheres num processo em que, salvo raras exceções, os homens são
“quase” tão mobilizados quanto as mulheres), o caráter relacional dos es-
ito

tudos de gênero não deve fazer subsumir elementos ainda intricados nas
redes de sentido da construção dos gêneros, que, em muitos aspectos, ex-
par

põem desigualdades nas relações entre homens e mulheres.


Considerar os processos de dominação masculina (criticados por
tabela quando da crítica ao patriarcado como conceito fixador) não é o
d

mesmo que limitar qualquer análise a ela (no caso, à dominação mas-
culina) sem a consideração de uma “ontologia relacional”. (SAFFIOTI,
são

2004, p. 21), ou seja, sem levar em conta que as relações sócias simbóli-
E

cas são construídas e transformáveis.


Dessa forma, seguir o conselho em privilegiar uma pretensa ontolo-
ver

gia relacional desconsiderando os pontos nodais das correlações de força


(identificadas ou não a partir de conceitos como patriarcado) parece-me ser
uma estratégia política com pouca pretensão de efetiva transformação nas
relações de poder entre homens e mulheres, e essa perspectiva esteve bem
longe das ambições do exercício investigativo que ora se realizou. Nesse
sentido, para que o caráter relacional fosse efetivamente contemplado fo-
ram analisadas as vozes dos maridos, principalmente aqueles que estavam
158

acompanhando suas esposas enquanto o registro etnográfico era realizado.

A pesquisa constou de, pelo menos, três segmentos que denomino ‘bra-
ços’ da pesquisa para além da revisão sistemática da literatura: 1) um relativo
à análise documental (documentos médicos e do Estado); 2) outro que constou

V
r
de entrevistas semiestruturadas realizadas com as mulheres que fizeram FIV

uto
(que conseguiram ou não engravidar), também com alguns dos seus maridos
e um médico, por fim, 3) a realização de relato etnográfico a partir do serviço
público de RA sediada no IMIP. O quadro a seguir resume em detalhes o perfil

R
a
das mulheres e homens entrevistados/as:

do
Quadro 1 - Perfil das/os Entrevistadas/os
aC

Investimento aproximado****
Nº de embriões transferidos
Nº de embriões produzidos
Idade na primeira tentativa

Nº de folículos produzidos
Tentante (por número)

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


Gravidez gemelar
N° de gravidezes
N° de tentativas
Tipo de serviço

são
Escolaridade
Estado civil

Profissão

Religião
Idade

i
rev
Assistente social-desempregada

Não tem. Simpatiza com a


or Superior completo

23.000,00
Casada
Privado

espírita

não

1 40 35 1 NS 7 3* 1
ara
i t
Divorciada/casada a

Funcionária pública
Superior completo

op

80.000,00
d
Privado

5**
não***
época

2 44 40 ? 7 15-20 ? 2
E
sã Funcionária pública

Espírita kardecista
Superior completo
divorciada/casada

90.000,00
a época
Privado

ver

NSA

3 34 32 3 6 ? ? 0

continua...
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

9
8
7
6
5
4

10
Tentante (por número)
continuação

Público Público Privado Privado Privado e público Privado Tipo de serviço Privado

27
43
43
33
34
43
34
Idade

27
43
40
32
32
37
32

Idade na primeira tentativa


E
Casada Casada Casada Casada Casada Casada Estado civil Casada
ver d
Ensino médio
Ensino médio Superior completo Mestrado Ensino médio Doutorado Escolaridade Superior completo
completo
ito são
Professora Auxiliar de nutrição Funcionária pública Professora Autônoma/comércio Professora Profissão Professora
par ra
Adventista sétimo Católica/
Católica Ecumênica Espírita kardecista Católica Religião Católica
dia
a re C espírita

1
1
1
2
1
2

1 N° de tentativas
visã R

8
?
?

32
17

17 Nº de folículos produzidos
17-20
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA

od V

3
?
?
3
6

10
11 Nº de embriões produzidos
oa

3
4
2
2
3
3

2 Nº de embriões transferidos

0
1
1
1
0
0

uto
0 N° de gravidezes
r
NSA NSA sim-4 sim -2 não NSA Gravidez gemelar NSA

8.000,00 - particular c/ Investimento


NS 500,00 (exames) 10.000.00 20.000,00 18.000,00 14.000,00

continua...
159

auxílio Programa Acesso. aproximado****


160

17
16
15
14
13
12
11
Tentante (por número)
- Público Público Público Público e privado Público Tipo de serviço Público continuação

35
31
43
27
39
33
36
Idade

34
31
43
27
38
33
Idade na primeira tentativa 35

Casado Casado Casado Casado Casada Casada Estado civil Casada


E Segundo grau Segundo grau Superior Segundo grau Segundo grau
Superior completo Segundo grau completo Escolaridade
ver di t completo completo completo completo completo

Técnico enfermagem Comerciante/


Comerciante Técnico Músico Comerciária Profissão Funcionária pública
sã or op desemp. agricultora

Católico Católico Advetista sétimo dia Católica Católica Católica Religião Católica
ara
2 1 1 1 2 1 N° de tentativas 2
aC
rev
NSA NSA NSA NSA
i 5-6 18 Nº de folículos produzidos 6

NSA NSA NSA NSA


são R 1
V 10 Nº de embriões produzidos 4

NSA NSA NSA NSA 1 2 Nº de embriões transferidos 3


do
NSA NSA NSA NSA não 1 N° de gravidezes NSA
a
NSA NSA NSA NSA não não Gravidez gemelar não
uto
r
- - - - 24.000,00 ? Investimento aproximado**** 300,00

continua...
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REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 161
continuação

*O médico induziu a transferência de quatro embriões e a entrevistada não concordou com seu posicionamento.
**Cinco embriões foram transferidos na última tentativa. A entrevistada sabia que não era permitido que transferissem essa
quantidade, mas concordou com o médico que queria “apelar” para tudo.
***Na última tentativa, que estamos considerando, não houve gravidez gemelar. No entanto, a primeira gravidez foi de trigêmea.
****No caso daqueles/as que tentaram pelo SUS, os gastos diziam respeito à alimentação, transporte, alojamento ou algum

od V
r
exame extra ou algum medicamento não oferecido pelo IMIP, em geral não ultrapassou a cifra dos R$300,00.

uto
FONTE: BEZERRA (2013).
NOTA: Dados sistematizados pela autora para tese “Corpos Femininos
entre a natureza e a cultura: uma análise das articulações discursivas
relativas à reprodução medicalizada”, defendida em março de 2013.

visã R
A seguir algumas das especificidades identificadas tantos nos serviços

oa
privados quanto no serviço financiado pelo SUS:

Quadro 2 - Comparação entre Serviço de RA da Rede Pública e Privada


C
Clínicas particulares de RA Rede Pública – SUS – Recife
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

1. - Investimento individual - Investimento público

- Possui lista de espera e pode durar de seis a


2. - Não possui lista de espera
sete anos;
ra

- Não há restrições quanto à idade, orientação - Há restrições quanto à idade (35 anos ou
sexual e outros arranjos, tais como utilização menos), orientação sexual e outros arranjos;
a re

3.
de útero de substituição; trabalham com não trabalham com doação de óvulos ou
doação de óvulos ou sêmen; sêmen;
ito

- Sem limites quanto à quantidade de


- A mulher pode se submeter a apenas dois
tentativas ou submissão aos ciclos de
4. ciclos de estimulação ovariana a partir do uso
estimulação ovariana por meio de uso de
par

de medicamentos;
medicamentos

- Identificação de transgressões relativas às - Não identificação de transgressões relativas


recomendações do CFM quanto à quantidade às recomendações do CFM quanto à
d

5.
de embriões a serem transferidos por quantidade de embriões a serem transferidos
tentativa. por tentativa.
são
E

- Confirmação de hiperestímulo em um caso


- Suspeita de hiperestímulo a partir das
6. e suspeita de outro caso durante o período de
entrevistas
registro etnográfico.
ver

- Possui serviço de triagem relativo com casais


- Não possui serviços de acompanhamento acompanhamento por psicólogas/os em casos
7.
por psicólogas/os considerados graves a partir de terapia de
grupo.
continua...
162
continuação

- Há clínicas particulares que admitem


- Há limites quanto ao tempo de congelamento
o congelamento de embriões por tempo
dos embriões – o casal deve decidir o que fazer
8. indeterminado, enquanto outras descartam
com os embriões excedentes até um ano após
definitivamente os embriões após os
a primeira tentativa.
procedimentos.

V
r
uto
- Passível de maior fiscalização por parte do
Estado, embora não tenha sido identificada
9. - Pouco ou nada fiscalizado pelo Estado.
nenhuma ação nesse sentido durante o
período de registro etnográfico.

R
a
FONTE: BEZERRA (2013).
NOTA: Dados sistematizados pela autora para tese “Corpos Femininos entre
a natureza e a cultura: uma análise das articulações discursivas relativas
à reprodução medicalizada”, defendida em março de 2013.

do
aC
Início do fim, início de outro início

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


são
[...] quando eu estava saindo desse processo, tinha uma amiga minha que
estava grávida nessa época e teve nenê, e eu fui, e eu disse: “eu tenho
que encarar essas coisas” e fui visitá-la. A gente chorou quando a gente
se encontrou, e, quando vi a filha dela, eu disse para mim: “eu posso
i
ser mãe”...vou fechar, eu vou viver o luto do filho biológico, e vou me
rev

encaminhar para adoção. Então ai foi outro processo. (Entrevistada 5).


or

A análise das forças que disputam a hegemonia em torno do signifi-


cado das tecnologias da reprodução por meio da FIV, aconteceu na medida
ara

em que, primeiro, foram identificadas regularidades e dispersões discursivas


em torno do sacrifício e do sofrimento como construtos de feminilidade e
t

de reprodução no contexto da FIV; e, segundo, quando a repercussão das


articulações discursivas entre Estado, ciência médica e mercado foi analisa-
i
op

da em relação aos discursos produzidos pelas próprias mulheres acerca de


d

si mesmas e de suas experiências pessoais ao buscar a FIV. A partir de tal


encaminhamento, algumas das regularidades e dispersões foram identifica-
E

das, em princípio, a partir dos discursos que as correntes feministas liberal e


radical têm produzido acerca das TRA e, ainda, a partir de sua différance43.
ver

43 O conceito de Differánce, tal qual utilizado neste artigo, está presente no livro “A farmácia de platão”
de Jacques Derrida. Nele, Différance é traduzido por diferência e, para explicá-lo, o autor lança mão
do conceito de Phármakon: “Se o phámakon é “ambivalente”, é, pois, por constituir o meio no qual se
opõem os opostos, o movimento e o jogo os relaciona mutuamente, os reverte e os faz passar um no
outro (alma/corpo, bem/mal, dentro/fora, memória/esquecimento, fala/escritura etc). É a partir desse
jogo ou desse movimento que os opostos ou os diferentes são detidos por Platão. O phármakon é
o movimento, o lugar e o jogo (a produção de) a diferença. Ele é a diferência da diferença”. Uma vez
citada, a expressão “diferência” ganha na versão da editora Iluminurasa seguinte nota: “Différance, no
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 163

O deslocamento da lógica oposicional que caracteriza a différance pode ser


identificada, no contexto da FIV, na (e inclusive por causa da) diversidade
de opiniões políticas das mulheres e percepções acerca da maternidade, que
reverberou, por exemplo, na reivindicação das TRA no âmbito da liberdade

od V
r
sexual e reprodutiva a partir da plataforma política feminista, documento

uto
elaborado no ano de 2002 como resultado de uma base de mobilização de
mais de 5 mil ativistas de movimentos de mulheres.
As regularidades, em geral, podem ser traduzidas no forte discurso

visã R
em torno da autonomia adquirida pelas mulheres, primeiro, no que tange

oa
às escolhas reprodutivas e isso tem a ver tanto com não conceber, quanto
com conceber e em que condições (quando, como, e com quem conceber);
segundo, no que tange ao avanço da idade e das diferentes prioridades
diante da vida, como trabalhar, estudar etc.; e, por fim, no que diz respeito
C
à possibilidade de autodeterminação diante dos riscos que devem ser assu-
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midos tão logo sejam plenamente conhecidos e calculado em relação aos


benefícios desejados.
Os discursos das liberais têm sido facilmente apropriados pelos/as
especialistas em RA e, ainda, pela indústria médico-farmacêutica, isso por-
ra
que muitos são os pontos nodais entre os discursos de autonomia reprodu-
tiva e satisfação dos desejos/necessidades individuais e as promessas das
a re

tecnologias reprodutivas.
Outros pontos nodais podem ser identificados, por exemplo, quando
o Estado brasileiro não só autoriza a técnica em seu território, como subsi-
ito

dia seu uso enquanto direito constitucionalmente garantido diante das de-
par

mandas sociais de acessibilidade universal a tais tecnologias, assumindo o


discurso liberal e legitimando as intervenções médicas em nome do direito
de constituir família. Ainda corroboram as regularidades dos discursos em
torno do uso da técnica a ênfase nas altas taxas de sucesso da FIV difundi-
d

das pela mídia e, inclusive, pelos próprios serviços de RA.


são

Diante de todas essas articulações e a partir dos pontos nodais refe-


E

renciados, há que se considerar as fissuras ou as dispersões dos discursos


regulares que, em que pese o fato de que disputam o significado das tecno-
logias da reprodução, não têm ameaçado o discurso hegemônico –, e essa
ver

é, certamente, a principal inferência a ser realizada nessas considerações


finais. Tal conclusão acontece na medida em que, por mais que as tentantes

original. Termo criado por Derrida no artigo “La différance”, em Théorie d´ensembled. Du Seuil, 1968.
A tradução por diferência segue a tradução de Maria Beatriz M. N. da Silva, na sua tradução de A
Escritura/Diferença. Ed. Perspectiva, 1971 (p. 72), também adotada por M. Schnaiderman e R. Janini
em Gramatologia”. (DERRIDA, 1997, p. 74).
164

levem em consideração que há, de fato, uma forte relação entre as TRA e
o mercado, e por mais até que cheguem a criticar tal relação, ainda assim
fazem a escolha pela biologia e pelas promessas das biotecnologias. Por
mais, ainda, que as tentantes pensem que poderiam optar pela adoção, ain-
da assim têm priorizado as tecnologias da reprodução. Por fim, ainda que

V
r
tenham consciência dos sofrimentos e sacrifícios pelos quais passarão a

uto
cada ciclo de estimulação hormonal (e mesmo antes, nos exames e pro-
cedimentos operatórios) ainda assim, e talvez porque achem que devem
vivenciá-los, não deixam de considerar as TRA como alternativa e, mes-

R
a
mo, única alternativa a ser acessada na busca por um filho.
Sobre esse último ponto há que se falar da regularidade nos discur-

do
sos em torno dos sacrifícios e sofrimentos como construtos de feminili-
dade e reprodução, difundidos e reproduzidos pelos discursos em torno
aC
da reprodução medicalizada. A questão estaria em que a concepção de

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


feminilidade a qual se articulam os discursos da FIV têm a ver com uma
são
relação positiva direta entre ser mulher e ser mãe, mas não qualquer
mulher e, também, não qualquer mãe.
Quando a entrevistada 3 adentra o consultório de um dos especialistas
i
mais renomados em RA de Recife e, segundo ela, ele lhe diz: “Sim, mas
rev

você está fazendo o quê aqui, se você ainda não é casada?”, a mulher dos
discursos hegemônicos em torno da FIV não pode ser solteira. Ela não é
or

em si mesma, enfim, ela não é autônoma. Quando o setor de RA financiado


pelo SUS em Recife não realizava, até o fim da pesquisa, a FIV em homos-
ara

sexuais, é o discurso da heteronormatividade aquele que está difundido em


torno da FIV e a mulher “hegemônica”, ela também não é em si mesma,
t

mas sim em relação à sua condição sexual e estado civil.


Se a mulher, a partir da concepção hegemônica, é ao mesmo tempo
i
op

mãe, ela é aquela que tudo faz e que todos os riscos (conhecidos e desco-
d

nhecidos) assume em nome do filho. Ela é, enfim, aquela que já é mesmo


antes de sê-lo. Ela é a memória, em si mesma, daquilo que deve ser es-
quecido. Ela é o arquivo da différance que as tecnologias da reprodução
E

não deixam esquecer: Ela é a meia mulher completa a quem a entrevistada


número 1 se refere quando fala de si mesma:
ver

[...] a questão da sociedade: mulher só é completa quando é mãe,


quando pare...então assim, na minha cabeça eu sou uma meia mulher
completa, porque estou conseguindo gerar, mas não estou conseguindo
manter. (Entrevistada 1).
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 165

A busca pela reprodução medicalizada é a própria busca por não ser


uma meia mulher completa. Trata-se, portanto, da fuga do caráter incerto
ou absurdo da existência, em seu sentido Nietzschiano, diante da esperan-
ça difundida pelas TRA. Assim, e pela compreensão de que a différance

od V
r
age pela negação da lógica oposicional, não há como considerar apenas as

uto
opiniões liberais ou radicais, ou apenas uma leitura positiva ou negativa
em cada uma dessas posições em torno das promessas das tecnologias.
No entanto, e considerando que a probabilidade negativa é o discurso das

visã R
radicais, ou o discurso de crítica à leitura meramente positivada em tor-

oa
no das taxas de sucesso em torno da FIV, o deslocamento da différance
aconteceria na medida em que as tentantes assumiriam a dispersão dos dis-
cursos difundidos pela visão feminista radical relativa à medicalização da
reprodução. Assumir a impossibilidade da gravidez, ou do filho biológico,
C
seria tomar para si a instabilidade do presente e avocar a desesperança no
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

futuro, ou a não certeza, e assim assumir a possibilidade de ressignificação


do mito da maternidade biológica e, inclusive, das promessas das tecno-
logias, renegociando os sentidos do luto pelo filho que não nascerá, mas,
mais que isso, dando novo significado à presença do filho biológico até
ra
então condição de sua completude.
A negociação dos sentidos do luto pelo filho biológico num contexto
a re

em que levar adiante “uma gravidez de risco (como gravidez multifetal)


ou vencer os riscos e o sofrimento advindo das tentativas de engravidar
por meio de reprodução assistida adquirem um sentido heróico”, segun-
ito

do Menegon e Spink (2006, p. 181), seria pôr em xeque o próprio ato he-
par

roico pela ressignificação do sofrimento e do sacrifício como construtos


de feminilidade e reprodução. Significaria, ainda, atentar que a ambigui-
dade em tais conceitos abre precedente para outros sentidos menos con-
vencionais em que sofrer para não ter que sofrer mais poderia ser mais
d

que ultrapassar os obstáculos da reprodução assistida ao “encarar essas


são

coisas”. A busca de outros sentidos seria uma atitude em favor de uma


E

efetiva autodeterminação na medida em que o sofrimento e o sacrifício


poderiam ser assumidos em nome de si (e aqui certamente a ênfase está
nas mulheres, elas que na FIV experienciam na carne a memória do filho
ver

que não nasceu) e não em nome do filho ou dos valores culturalmente


instituídos para o que seria de sua natureza.
Considerando tudo dito até aqui, uma vez que as tecnologias estão
marcadas pelo “potencial de transformações radicais, tanto da natureza
como das relações humanas” conforme Menegon e Spink (2006, p. 183),
qual o sentido político atribuído à tais transformações radicais em meio
166

às articulações discursivas em torno da FIV? Na disputa pelos sentidos


hegemônicos em torno de qualquer que seja a questão política e num con-
texto de liberdades democráticas, não cabe, certamente, a possibilidade do
fechamento dos ciclos, nem mesmo quando levamos em consideração o
exato momento da decisão individual tomada em relação ao próprio corpo.

V
r
Se toda decisão leva à aporia e, portanto, à abertura possível de sig-

uto
nificados, Amy (única entre treze que decidiu por “fechar” (seu ciclo))
contribuiu para abertura dos significados possíveis em torno da feminili-
dade e da maternidade. Falar de discursos em torno da FIV é falar de uma

R
a
regularidade nos discursos, mas é considerar também a dispersão que a
questiona, colocando suas bases em xeque.

do
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


são i
rev
or
ara
di t op
E

ver
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 167

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são
E
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sã tor op
ara aC
rev
i são R V
do
a uto
r
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ÓVULOS, SÊMENS E CERTIDÕES:
maternidades lésbicas e tecnologias
reprodutivas no Brasil
Anna Carolina Horstmann Amorim44

Introdução

Neste capitulo estabeleço uma reflexão sobre o artesanato fino das re-
lações de parentesco de mulheres lésbicas que recorrem ao uso de tecnolo-
gias de reprodução assistida no Brasil. Foco-me nos modos que estes casais
se utilizam das tecnologias reprodutivas para realização de seus desejos de
maternidade e filiação e inserem-se em uma busca por “filhos seus”. Ou seja,
filhos concebidos a rigor de uma noção biologizada de pertencimento e pa-
rentesco onde se asseguram os laços através da participação biogenética na
reprodução. Assim, debruço-me sobre as estratégias encontradas pelos casais
formados por mulheres para a garantia desta dupla participação na filiação.
Destaco, ao longo do texto, a existência de dois caminhos mais habituais para
a construção deste ideal: o primeiro marcado pela centralidade da escolha do
doador de sêmen no processo de construir futuras maternidades e outro dado
pela centralidade da troca de óvulos entre as parceiras do casal na construção
de uma dupla participação biogenética na fabricação de filhos em laboratório.
Assim, elucido algumas das tramas que circundam este universo repro-
dutivo e os impactos que o recurso a estas tecnologias e procedimentos tem
sobre os corpos, pessoas, leis, relações e concepções de parentesco no Brasil.

Entre sêmens e maternidades: primeiras questões

Maio de 2015 estou em um congresso sobre gênero, sexualidades


e famílias na cidade de Salvador no Brasil. Olhos atentos esperando a
mesa sobre novidades e permanências nos arranjos familiares. Logo

44 Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná. Mestra em Antropologia Social
pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente é doutoranda em Antropologia Social
pela Universidade Federal de Santa Catarina, sob orientação da professora Drª Miriam Pillar Grossi.
Desenvolve pesquisas na área de gênero, feminismos, novas tecnologias reprodutivas, parentesco,
famílias, conjugalidades, homoparentalidades e lesbianidades.
172

começam as apresentações, fala-se sobre relacionamentos não monogâ-


micos, sobre casamento igualitário no direito brasileiro, sobre famílias
de camadas médias e sobre homoparentalidade. Esta última fala con-
versa com meus interesses e para minha surpresa o tema em debate toca
justamente meu tema de pesquisa, a lesboparentalidade propiciada por

V
r
tecnologias reprodutivas. Eu acompanho detidamente e a plateia parece

uto
interessada, como de costume quando se toca nestes assuntos que tra-
zem como pano de fundo uma boa balançada em noções arraigadas de
família, filiação e reprodução. Faço anotações e correlações com meu

R
a
próprio trabalho e pesquisa. A mesa está interessante e logo se aborda
o tema da escolha do doador de sêmen entre os casais de mulheres lés-

do
bicas. A discussão segue para a série de requisitos e de elementos con-
siderados importantes na hora de escolher o doador de sêmen: altura,
aC
cor dos cabelos, da pele, hobby, profissão, escolaridade dentre outros.

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Constata-se, então, que há aí algo estranho e talvez contraditório no
são
que é chamado, pela palestrante, de busca na genética do que não é
da genética. Emergem interrogações sobre os porquês da busca destas
mulheres e se defende que uma confusão se apresenta já que alguns dos
i
elementos importantes na escolha do doador de sêmen, tais como es-
rev

colaridade e hobby, não são do campo da genética e sim do social. Por


que, se pergunta na mesa, essas mulheres estariam buscando atributos
or

comportamentais, morais e por si sociais na genética? Afinal não sabe-


mos que hobby e gosto por música e arte são sociais e não inscritos em
ara

genes? Fico curiosa, mas a discussão não continua. Sem dar resposta
aos seus apontamentos a palestrante passa para outras discussões, en-
t

quanto todos ali parecem concentrados no inusitado destas demandas.


Sua colocação me provoca e eu discordo quase momentaneamente da
i
op

sua inquietação e das suas perguntas. A mesa acaba e eu sigo com minhas
d

oposições. O debate parece se formar na minha cabeça e retomo vários


exemplos de como em nossas concepções sobre genética e biologia, ou
melhor dizendo, sobre como se fazem pessoas e tecem relações de paren-
E

tesco, diferentes elementos se enredam e acabam por mesclar os domínios


do que afinal é natural e cultural.
ver

Longe de ver esgotada a reflexão acima, volto para minha pesquisa


de campo realizada entre 2012 e 2013 com casais de mulheres lésbicas
que recorrem à reprodução assistida no Brasil para pensar as tramas que
envolvem maternidades lésbicas, doações de sêmen, filiação e parentesco
em tempos de genética e reprodução em laboratório.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 173

Famílias e maternidade lésbica

Nos últimos quarenta anos as sociedades ocidentais têm acompanha-


do importantes transformações na esfera familiar. Divórcios, novos casa-

od V
r
mentos, gestações de substituição, recurso à tecnologias reprodutivas e

uto
adoções trazem a tona novas formas de se fazer família e traçar laços entre
as pessoas atualmente (famílias recompostas após separação, monoparen-
tais, homoparentais, adotivas). Dentre esses novos modelos as famílias les-

visã R
boparentais despontam como uma forma possível.

oa
É certo que por algum tempo foi tomado como evidente a ideia de que
à pessoas homossexuais e à casais formados por pessoas do mesmo sexo
estaria excluída a reprodução. Tal ideário tomava estes indivíduos como
cercados por uma infertilidade voluntária que tornava antagônica a relação
C
entre lesbianidade e maternidade. (UZIEL, 2007). Segundo Lewis (1994,
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apud IMAZ, 2015, p. 300), a maternidade lésbica chegava a ser uma con-
tradição entre termos em dois sentidos, primeiro porque duas mulheres
não tendo relações sexuais com homens não poderiam ter filhos e segundo
porque maternidade e lesbianidade compreendiam duas identidades opos-
ra
tas, a primeira altruísta, responsável comprometida e a segunda hedonista,
egocêntrica e com uma sexualidade entendida como desviante.
a re

No entanto, e principalmente através do uso de tecnologias reprodu-


tivas, o que acompanhamos hoje é um acelerado crescimento de famílias
que se formam sob o julgo da conjugação de lesbianidade e maternidade
ito

formando um campo de estudos que nos últimos anos tem vivenciado um


par

florescimento das pesquisas acadêmicas e debates: as conjugalidades entre


pessoas do mesmo sexo e as homoparentalidades45.
A literatura a respeito do tema da parentalidade lésbica, gay e trans
entende que há alguns diferentes modos de um casal homossexual exercer
d

a parentalidade. (AUERBACH; SILVERSTEIN, 1999; CARDOZO, 2007;


são

MEDEIROS, 2006; SARAIVA, 2007; TARNOWKI, 2002, 2012; UZIEL


E

2006; SOUZA, 2015). Uma primeira maneira apontada é a concepção de


filhas/os em relações heterossexuais anteriores e que são posteriormente in-
seridos no bojo de novas relações homoconjugais de suas mães ou pais. A
ver

segunda maneira possível é através da adoção46, seja ela por apenas um indi-
víduo do casal, seja pelo casal enquanto unidade. Importante lembrar que o
cenário das homoparentalidades possíveis através da adoção tem enfrentado

45 Termo cunhado pelo APGL (Association des Parents et Futurs Parents Gays e Lesbiens, situada em Paris) no
ano de 1997 referente a uma configuração familiar na qual o pai ou mãe define-se como homossexual.
46 Para este tema, ver os trabalhos de Anna Paula Uziel.
174

mudanças radicais a partir da resolução do Supremo Tribunal Federal que


regulariza a união estável de casais formados por pessoas do mesmo sexo e
da recente possibilidade de casamento civil entre pessoas do mesmo sexo no
Brasil.47 Outro modo encontrado por casais formados por pessoas do mesmo
sexo exercerem a parentalidade é através da relação sexual com fins repro-

V
r
dutivos entre alguém do casal e uma/um amiga/o/conhecida/o do outro sexo.

uto
Tem-se ainda, a possibilidade de dois casais homossexuais optarem por ter
um filho a quatro conforme estudos de Herbrand (2012) e Tarnovski (2012).
Os demais modos de realizar a parentalidade lésbica, gay ou trans48 são deri-

R
a
vados do recurso às tecnologias reprodutivas e são elas: inseminação caseira
com doador conhecido, inseminação em clínica com doador anônimo ou

do
conhecido e gestação de substituição. (VALE DE ALMEIDA, 2008). O foco
deste artigo recai sobre os casos de reprodução assistida de mulheres lés-
aC
bicas realizadas em clínicas de reprodução assistida e pautados em doação

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anônima de sêmen e no procedimento conhecido como ROPA (recepção de
são
óvulo da parceira). Este procedimento é similar as técnicas empregadas nos
casos de doação de óvulos e de doação de sêmen. Consiste, na verdade, em
uma fertilização in vitro utilizando sêmen de um doador e um óvulo doado
i
por uma das mulheres do casal seguida da transferência embrionária para o
rev

útero da mulher que não doou o óvulo para ser inseminado.


É em 1984 que nasce em nosso país o primeiro bebe de proveta e
or

que as investidas neste campo das tecnologias reprodutivas se consolidam.


As primeiras técnicas de reprodução assistida consistiam em procedimen-
ara

tos simples como o sexo cronometrado apontado em estudo de Tamanini


(2003) realizado, ainda, em um espaço de intimidade do casal. Entretanto,
t

com o desenvolvimento das novas tecnologias reprodutivas a intimidade


do casal é levada para dentro do laboratório, onde a técnica e a interven-
i
op

ção médico/científica especializada e capacitada é dirigida à manipulação


d

de gametas, de órgãos e de embriões confeccionados de forma exterior ao


corpo, demarcando de maneira sensível a separação entre sexo e reprodução.
Vemos consolidar-se um campo de atendimento bio/médico reprodutivo que
E

emerge com vistas a contornar a infertilidade no seio de casais heterossexu-


ais. Pautadas em um discurso de “ajuda” a natureza reprodutiva de casais
ver

hetero as clínicas ganham destaque por fazerem aquilo que poderia ter
acontecido naturalmente e, deste modo, por assegurarem a possibilidade

47 Vários foram os momentos, em minha pesquisa, em que se retomavam com pesar as duras disputas
pela adoção de crianças por casais homossexuais, fazendo referência a situações próprias e também
recordando histórias de casais amigos e conhecidas.
48 Para este tema, ver os trabalhos recentes de Laurence Hérault. 
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 175

de filhos biológicos à casais heterossexuais. Ainda assim, e a revelia de


seus propósitos iniciais, os avanços técnicos disponíveis nas clínicas de re-
produção abrem brechas para que outras pessoas possam dar cabo de seus
projetos parentais através do recurso a doações de gametas ou embriões,

od V
r
ou ainda a gravidezes de substituição. Entretanto, não há no Brasil legis-

uto
lação específica, que regule as intervenções médico/técnicas no campo da
reprodução humana. O que há como baliza são manuais de conduta como
as Resoluções do Conselho Federal de Medicina que intentam nortear as

visã R
práticas dos profissionais da área de reprodução assistida, em especial ao

oa
definirem as normas éticas para a aplicação destas tecnologias. A primei-
ra resolução, datada de 1992, era bastante restritiva no que se referia aos
pacientes das tecnologias reprodutivas49. Neste documento havia menção
a doação gratuita e temporária de útero levando em consideração uma re-
C
lação de até duas gerações entre futuros pais e doadora temporária de úte-
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ro. Atualizada em 2010, a Resolução do CFM ainda deixava uma grande


lacuna sobre quem poderia ou não ser atendido pela técnica.50 Apesar de
já não trazer a mulher com sujeito único destas tecnologias e de retirar a
necessidade de consentimento do marido para realização do procedimen-
ra
to, ainda deixava uma brecha sobre quem poderia ou não recorrer a estas
técnicas, fator que possibilitava a livre interpretação dos profissionais da
a re

área sobre quem deveria/poderia ser atendido. Tal fato fornecia amparo à
rejeições por parte de clínicas e médicos ao atendimento de pessoas sol-
teiras e casais homossexuais. (AMORIM, 2010). O Conselho Federal de
ito

Medicina ao atualizar novamente as regras para a reprodução assistida no


par

país em 2013 mostrou avanço e acompanhamento das demandas sociais.


Dentre as novidades realço a abertura definitiva do caminho para que ca-
sais homossexuais possam ter filhos por meio da reprodução em labora-
tório.51 Nesta resolução, estabeleceu-se a idade máxima de 50 anos para
d
são

49 Segundo resolução do CFM nº 1.358/1992, em seu artigo II - USUÁRIOS DAS TÉCNICAS DE RA: 1
E

- Toda mulher, capaz nos termos da lei, que tenha solicitado e cuja indicação não se afaste dos limites
desta Resolução, pode ser receptora das técnicas de RA, desde que tenha concordado de maneira livre
e consciente em documento de consentimento informado. 2 - Estando casada ou em união estável, será
necessária a aprovação do cônjuge ou do companheiro, após processo semelhante de consentimento
ver

informado. Disponível em: <http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/CFM/1992/1358_1992.htm>.


Acesso em: 19 jul. 2016.
50 Segundo resolução do CFM nº 1.957/2010, em seu artigo II - PACIENTES DAS TÉCNICAS DE RA: 1 - Todas
as pessoas capazes, que tenham solicitado o procedimento e cuja indicação não se afaste dos limites desta
resolução, podem ser receptoras das técnicas de RA desde que os participantes estejam de inteiro acordo e
devidamente esclarecidos sobre o mesmo, de acordo com a legislação vigente. Disponível em: <http://www.
portalmedico.org.br/resolucoes/CFM/2010/1957_2010.htm>. Acesso em: 19 jul. 2016.
51 Segundo resolução do CFM Nº 2.013/2013, em seu artigo II - PACIENTES DAS TÉCNICAS DE RA:
1 - Todas as pessoas capazes, que tenham solicitado o procedimento e cuja indicação não se afaste dos
176

pacientes de reprodução assistida, aumentou-se a possibilidade de recorrer


a útero de substituição para parentes de até quatro graus. Em 2015 novas
atualizações apareceram e entre as mais importantes destaco o fim da idade
máxima de 50 anos para mulheres recorrerem a estas tecnologias, idade li-
mite estipulada na resolução de 2013. Esta resolução abriu definitivamente

V
r
a possibilidade de recorrer a técnica conhecida como ROPA (recepção de

uto
óvulo da parceira)52 para casais formados por mulheres. Tal prática não era
proibida, mas o texto da resolução anterior não era claro e gerava dúvidas
quanto a sua aplicação.

R
a
Ainda assim, sem peso de lei, essas normas continuam passíveis das
interpretações dos médicos, que seguem portando a palavra final quando o

do
assunto é o acesso de casais homossexuais a estas práticas.
Observa-se que a abertura do acesso de casais formados por pessoas
aC
do mesmo sexo à clínicas de reprodução assistida, presente nestas resolu-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


ções, marca um importante momento no reconhecimento da possibilidade
são
parental destes casais. Atualmente a procura por clínicas de reprodução
assistida entre casais de pessoas do mesmo sexo dá-se de modo acelerado e
é justamente a possibilidade de dissociar sexo e reprodução oferecida pelas
i
clínicas o mote das investidas desta parcela da população nos procedimen-
rev

tos reprodutivos assistidos, como fica claro na fala de Mara, jovem de 32


anos que me contava sobre seu desejo de maternidade:
or

Eu achava que por ser lésbica nunca seria mãe, até que me toquei que
eu tinha um útero e pronto! Sêmen pode ser doado. (Mara, 32 anos).
ara

Como bem evidencia a fala acima, a filiação passa de consequên-


t

cia natural de uma relação à um projeto construído. Destaco que no seio


i
op

destas famílias lesboparentais a escolha emerge como fundante de uma


d

maior mobilidade no tecer e desfazer laços familiares. Outrossim, para a

limites desta resolução, podem ser receptoras das técnicas de RA desde que os participantes estejam
E

de inteiro acordo e devidamente esclarecidos sobre a mesma, de acordo com a legislação vigente.
2 - É permitido o uso das técnicas de RA para relacionamentos homoafetivos e pessoas solteiras,
respeitado o direito da objeção de consciência do médico. Disponível em: <http://www.portalmedico.org.
ver

br/resolucoes/CFM/2013/2013_2013.pdf>. Acesso em: 19 jul. 2016.


52 Segundo Resolução do CFM nº 2.121/2015 em seu artigo II - PACIENTES DAS TÉCNICAS DE RA: 1
- Todas as pessoas capazes, que tenham solicitado o procedimento e cuja indicação não se afaste dos
limites desta resolução, podem ser receptoras das técnicas de RA desde que os participantes estejam
de inteiro acordo e devidamente esclarecidos, conforme legislação vigente. 2 - É permitido o uso das
técnicas de RA para relacionamentos homoafetivos e pessoas solteiras, respeitado o direito a objeção
de consciência por parte do médico. 3 - É permitida a gestação compartilhada em união homoafetiva
feminina em que não exista infertilidade. Disponível em: <http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/
CFM/2015/2121_2015.pdf>. Acesso em: 19 jul. 2016.
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 177

confecção de uma família lesboparental é preciso disponibilidade, pesqui-


sa e investimentos dos sujeitos em um projeto comum. Aqui me sirvo da
noção de projeto proposta por Gilberto Velho (1999) para pensar a mater-
nidade como um projeto partilhado pelo casal lésbico e que sem dúvida

od V
r
insere-se de modo coerente e inteligível em um universo simbólico com-

uto
partido pelo grupo de indivíduos que as cercam.
Assim, as maternidades lésbicas em foco aqui se distinguem de outros
processos de filiação vivenciados por lésbicas, por basearem-se na ideia de

visã R
projeto comum de um casal que pensa, reflete e escolhe a hora e a maneira

oa
de ter filhos. Se entre os casais heterossexuais é presumido que tenham
filhos, a opção permite que não os tenham. Já para os homossexuais, o
sentido dessa presunção é que não tenham filhos, fazendo com que a op-
ção implique numa ação positiva e consciente. (TARNOVSKI, 2004). A
C
opção surge como um valor presente em contextos igualitários deixando
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rastros também sobre a reprodução, desenhada então como uma questão


de escolha. É neste sentido que Kath Weston (1991) em seu já clássico
livro Families we choose: lesbians, gays, kinship aponta para as relações
homossexuais como partilhando um paradigma de parentesco outro onde
ra
filiação não figura como central. De modo que os laços e vínculos fami-
liares LGBT do final dos anos 80 nos EUA compunham-se de relações de
a re

amizade e amor embasadas em escolhas individuais e não em laços de pa-


rentesco biológico. Entretanto, é na contramão do que propõe a autora, que
as mulheres desta pesquisa constroem e significam o que é ser família, já
ito

que as suas experiências apontam a centralidade da filiação na caracteriza-


par

ção da unidade familiar. Se no contexto americano estudado por Weston os


amigos constituem a “família que escolhemos”, entre as mulheres lésbicas
brasileiras estudadas é o filho que dá sentindo à família que construímos
e que as inserem de modo definitivo no universo familiar. É o que revela,
d

por exemplo, uma fala que ouvi durante uma conversa informal sobre a
são

construção da família e a relação com os pais de uma mulher que planejava


E

a gravidez de sua companheira:

Nós já somos uma família, só faltam os filhos! (Gabriela, 28 anos).


ver

De fato, essa fala revela muito mais que apenas a centralidade da filiação
na composição das famílias lesboparentais. Ela postula o lugar do projeto de
maternidade para consolidação do próprio casal lésbico enquanto uma unida-
de, dando à conjugalidade lésbica visibilidade e legitimidade enquanto família.
178

Do casal à criança: construindo a família

É corrente que a revelação da homossexualidade das filhas não produza


contentamento no seio da família de origem. Muitas são as narrativas sobre

V
desentendimentos, brigas e sobre a quase inevitável compreensão da les-

r
bianidade enquanto um problema. Em minha pesquisa a procura da família

uto
por uma solução ou “cura” para o problema da homossexualidade, quando
revelada durante a adolescência da filha, me foi narrada diversas vezes e se
construía através da insistência da família em mandar suas filhas a psicólo-

R
a
gos, psiquiatras ou conselheiros. Tais posturas acabavam e acabam, muitas
vezes, por gerar um significativo distanciamento entre filhas lésbicas e seus

do
pais e demais parentes, distanciamento que por vezes perdura por longos
períodos. Em outros casos a descoberta da lesbianidade por parte da família
aC
de origem acorreu após a saída da filha de casa, ou ainda somente em função

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da consolidação da filha em uma relação homoconjugal estável acarretando
são
consequências um pouco menos drásticas que as vividas por aquelas que re-
velaram ou tiveram revelada sua homossexualidade enquanto ainda viviam
sob o julgo de seus pais. Todavia, qual seja o momento da descoberta, raros
i
são os casos em que tudo se passa tranquilamente.
rev

Ainda assim, assumir-se perante a família de origem aparece enquan-


to elemento central na experiência destas mulheres, mas esta decisão não é
or

vivida sem dores. Segundo Sedgwick (2007), assumir-se, ou sair do armá-


rio em uma sociedade homofóbica, particularmente no que toca os familia-
ara

res traz sempre certo temor do prejuízo às relações que tal revelação pode
causar. A lesbianidade continua apontando para um estranhamento que es-
t

tas mulheres recebem dos pares, da família de origem, dos aparatos sociais
e não são raros os casos de exclusão, expulsão de casa e distanciamentos
i
op

que implicam em cortes mais ou menos profundos nas relações familiares.


d

Entretanto, observei durante minha pesquisa, que a vida em conjuga-


lidade parece atenuar os impactos da homossexualidade sobre o entorno
social. É como se o estar em casal pudesse normalizar uma sexualidade
E

desviante ou pudesse retirar, ao menos um pouco, toda a aura de perigo


que a lesbianidade carrega. Neste sentido a conjugalidade aparece quase
ver

sempre como um momento importante na publicização da homossexuali-


dade e um passo no caminho para a aceitação da lesbianidade no seio da
família extensa.
Neste sentido, compreende-se o que significa a afirmação Nós já so-
mos uma família, referida aos anos de vida conjunta do casal, a existência
de uma moradia fixa e, sobretudo a manutenção do amor e da monogamia
REPRODUÇÃO ASSISTIDA E RELAÇÕES DE GÊNERO NA AMÉRICA LATINA 179

entre as parelhas, sinônimos aqui de família. Ligado quase sempre a uma


ideia de amadurecimento, tranquilidade e seriedade, o amor, o respeito e a
estabilidade opõem-se à ideia de promiscuidade, utilizada como um valor
negativo, que vai além de simples mensuração quantitativa de parceiras

od V
r
sexuais e enreda toda uma variável de associações que remetem ao risco e

uto
ao perigo, segundo Tarnowski, (2002) consolidando-se como um fantasma
que assola os imaginários sobre a homossexualidade, como podemos ver
na fala abaixo, de Marilena mulher lésbica de 41 anos vivendo com sua

visã R
companheira há cerca de 3 anos:

oa
Ainda tratam os homossexuais como promíscuos, como estereotipados,
é lógico que tem, como tem os heterossexuais que são também, mas
o que a gente vivencia são famílias estruturadas que querem ter seu
C
lugar. (Marilena, 41 anos).
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Ainda que o casal pareça ser a folha de rosto das relações familiares,
como bem destaca o nós já somos família acima citado, parece que ele
não é o denominador de maior visibilidade das relações afetivas/sexuais/
amorosas entre mulheres. O casal não impera simplesmente enquanto es-
ra

tandarte supremo do dar a ver, ou como queiram, da saída do armário.


O casamento parece acenar como ponto de partida para a consecução da
a re

família, que necessita para se completar, vale dizer, para se estabelecer e


para ser definitivamente sentida como tal, dos filhos.
ito

Se a conjugalidade não é, sozinha, a estampa da visibilidade das rela-


ções homoeróticas entre mulheres, a filiação, com certeza soma-se, muitas
par

vezes, de modo decisivo no processo de publicização destas relações e no


aumento das discussões e aceite da lesbianidade e da família homoparental.
Observamos este entrelaçado entre conjugalidade e parentalidade na
d

construção e valorização do casal e de sua inserção em um universo social


e simbólico que pode não reconhecer como família a homoconjugalidade,
são

mas que se arrefece frente à legitimidade social e relacional do casal com


E